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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


NÃO OLHES PARA TRÁS / Amanda Quick
NÃO OLHES PARA TRÁS / Amanda Quick

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Nesta enredada história de mistério de Amanda Quick, os amantes e associados detectives particulares Lavínia Lake e Tobias March, têm as suas excitantes relações, com a deliciosa miscelânia de profissão arriscada, paixão intensa e, agora, assassínio.

Como se a queda para o negócio e a tendência de se meter em sarilhos não bastassem para diferenciar a ferozmente independente Lavínia Lake, ela também versada na prática de mesmerismo, um dom fora do comum e que vai muito além de mero charme e da mera atracção física. Sabe-o melhor do que ninguém o nosso conhecido Tobias March que, embora um homem de cabeça fria, parece ter caído irremediavelmente sob o encanto de Lavínia.

Felizmente para todos, Lavínia utiliza os seus poderes para o lado do bem e, além disso, depois de uma tragédia que envolveu uma das suas clientes, Lavínia abandonou-os para se dedicar exclusivamente a "Lake y March", uma empresa que presta serviços de "discretas investigações de carácter particular", a clientes de qualidade.

Celeste Hudson, a linda jovem mulher de um velho amigo da família Lake e confrade mesmerista, contar-se-ia decerto entre esses clientes, fora ela viva. A mitológica Medusa transformava os homens em pedra, mas a adorável Celeste estava mais habituada a transformá-los em gelatina; na verdade, facto que Howard, o marido ignorava. A ambiciosa Celeste planeava utilizar os talentos que possuía para forjar um futuro na alta sociedade londrina, um futuro que não o incluía a ele. Por má fortuna, o seu assassínio pôs fim aos seus planos. Como única pista ficou apenas um plastrão de cavalheiro em redor do seu lindo pescoço, fraca compensação para a valiosa e estranha pulseira que lhe fora, decerto, arrancada do pulso, enquanto exalava o último suspiro.

Como resultado, Lake e March vêem-se encarregados por Howard Hudson de descobrir o assassino. Tobias, porém, está convencido de que o enérgico viúvo está mais interessado em encontrar a valiosa relíquia e, se assim for, Howard não é o único. Um certo número de gente implacável pretende apoderar-se da mesma antiguidade, cujo centro é um invulgar camafeu azul de valor incalculável e, supostamente, com poderes lendários, poderes de incomensurável valor para quem pratica a arte de Howard.

Juntos, Lake e March lançam-se numa aliciante investigação que os leva, dos mais brilhantes salões de baile da alta sociedade londrina, às mais decadentes tabernas de Londres, a um mesmerista cujas terapias incluem o tratamento de senhoras que sofrem de histeria, com um método muito pouco convencional e, por fim, mas não de somenos, às regiões mais negras das mentes humanas.

Entretanto Não Olhes para Trás vai-se tornando uma leitura completamente mesmerizadora, à medida que os irreprimíveis Lavínia e Tobias vão misturando trabalho com prazer...

 

 

 

 

O BIBLIOTECÁRIO POUSOU A VELA e abriu o velho volume, encadernado a couro, passando cuidadosamente as vetustas páginas até encontrar a passagem que procurava.

Diz-se que se encontram em segredo, nas profundezas da noite, para realizarem as suas estranhas cerimónias. Há quem diga que os iniciados idolatram a Górgone com cabelos de serpente. Outros afirmam que eles se reúnem em obediência ao seu mestre, o qual comanda o poder da Medusa de transformar os homens em pedra.

Dizem que o talento do mestre é uma estranha e terrível espécie de magia. Depois de induzir as vítimas em transe profundo, incute-Lhes ordens e, quando as liberta do feitiço, elas executam as ordens sem hesitação.

O grande mistério é que aqueles sobre os quais se praticou a arte não recordam nada das instruções que lhes foram dadas quando em transe.

Acredita-se que o poder do mestre é muito reforçado pelos poderes da estranha pedra que ele usa.

Na pedra está esculpida a terrível imagem da Medusa. Por baixo do pescoço cortado da criatura, está esculpida uma varinha de condão. Dizem que esta varinha representa a vara mágica que o mestre utiliza para pôr as pessoas em transe.

A pedra esculpida é semelhante ao ónix, mas os seus alternantes matizes de cor são raros e muito estranhos cambiantes de azul, em vez de preto e de branco. A escura camada de fora é de um azul tão forte que quase parece preto, cercando a imagem da Medusa, a qual está esculpida na camada mais clara da pedra. Esta segunda camada é de um matiz de azul que faz lembrar as finas e pálidas safiras.

A pulseira de ouro em que a pedra se encontra encastoada foi trabalhada de forma a parecer um entrançado de serpentes.

O mestre é muito temido nesta região. Durante as cerimónias, a sua identidade fica sempre oculta por uma capa com capuz. Ninguém sabe o seu nome, mas a pedra lavrada com a cabeça da Górgone e a varinha é a sua insígnia e o seu brasão. E crê-se que seja, também, a origem do seu poder. Dizem-me que a pedra é conhecida como a Medusa. Azul.

 

Tobias observou Lavinia a subir os degraus da entrada do n o 7 de Claremont Lane e apercebeu-se de imediato de que alguma coisa corria mal. Sob a larga orla do chapéu de estilo, a cara de Lavinia, sempre de grande fascínio para Tobias, apresentava sinais de uma estranha e meditabunda tensão.

Segundo a experiência dele, que tinha de admitir ser limitada, Lavinia raramente se punha a matutar em problemas ou em arrelias, sendo mais inclinada à acção imediata. Demasiado inclinada, na opinião dele. Irrequieta e arrebatada, eram as palavras que Lhe vinham à mente.

Observava-a da janela da agradável salinha de visitas, cada músculo do corpo a contrair-se intensamente. Não acreditava em premonições e outras tolices metafísicas, mas confiava nos seus palpites, especialmente quando se tratava de questões relacionadas com a sua nova sócia e amante. Lavinia parecia ter sido abanada e ele sabia muito bem que não era fácil ela perder a compostura.

- Mrs. Lake está a chegar - disse ele, olhando para a governanta por cima do ombro.

- Já era tempo. - Mrs. Chilton pousou o tabuleiro do chá com um ar de grande alívio e correu para a porta. - Parecia que nunca mais cá chegava. Vou ajudá-la com o casaco e as luvas. Ela vai querer servir o chá às suas visitas e, decerto, tomar uma chávena ela própria.

Pelo que havia podido ver da cara dela na sombra do chapéu, Tobias tinha a impressão de que Lavinia mais precisava era de uma boa dose do xerez que tinha no estúdio. A dose medicinal do vinho espirituoso, porém, teria de esperar. Havia, primeiro, que atender às visitas que a aguardavam na saleta.

Lavinia parou à porta de entrada, procurando a chave de casa na bolsa. Tobias distinguiu, agora claramente, os sinais de preocupação em redor dos belos olhos dela.

Que raio teria acontecido?

Ao longo do caso das figuras de cera, com os contínuos assassinatos, umas semanas atrás, Tobias pensava que ficara a conhecer Lavinia bastante bem. Não era pessoa que se atrapalhasse, que desanimasse ou que se assustasse facilmente. Em boa verdade, no decurso da sua ocasionalmente perigosa carreira de investigador, topara com muito pouca gente, de qualquer dos sexos, com o sangue-frio de Lavinia Lake perante circunstâncias ameaçadoras.

Algo de muito dramático teria acontecido para imprimir aquela expressão preocupada nos olhos de Lavinia. A sensação de mal-estar que o invadiu produziu-Lhe um efeito arrepiante na paciência e no temperamento, os quais, na altura, já não se encontravam nas melhores condições. Tinha de averiguar a situação logo que se visse sozinho com Lavinia.

Infelizmente, isso ia levar tempo. As visitas pareciam dispostas a conversar demoradamente.

Tobias não tinha nada a ver com as visitas.

O alto, magro e elegantemente vestido cavalheiro, dr. Howard Hudson, apresentara-se como um velho amigo da família Lake.

A mulher dele, Celeste, era uma daquelas mulheres extremamente atraentes, cientes do efeito que produzem no elemento masculino da espécie e que não hesitam em utilizar os seus dotes para manipular os homens. Tinha o brilhante cabelo louro preso ao alto na cabeça e os olhos eram da cor de um céu de estio. Trazia um vestido de musselina fina como tule, estampado com pequenas rosas pálidas, orlado de fitas verdes e rosa. Tinha um pequeno leque preso à bolsa. Tobias considerava que o decote do vestido era demasiado amplo para aquele dia fresco de início da Primavera, mas tinha quase a certeza de que a generosidade do decote era uma decisão cuidadosamente calculada por Celeste.

Nos vinte minutos que tinha passado com o par, Tobias chegara a duas conclusões inabaláveis. A primeira, que o dr. Howard Hudson era um charlatão. A segunda, que Celeste era decididamente uma aventureira. Desconfiava, porém, que era melhor guardar estas opiniões para si próprio, pois duvidava que Lavinia gostasse de as ouvir.

- Estou encantado por ir rever Lavinia - disse Hudson, da cadeira em que se encontrava reclinado com lânguido à- vontade. - Há anos que não a vejo e estou ansioso por lhe apresentar a minha querida Celeste.

Hudson possuía a voz cheia, ressoante de um actor experiente. Tinha a profunda e vibrante qualidade que associamos aos instrumentos bem afinados. O som irritava os nervos de Tobias, mas tinha de admitir que a voz do homem concitava a atenção de maneira quase inevitável.

Hudson tinha uma figura vincadamente elegante, com um casaco azul-escuro de belo corte, colete às riscas e calças de dobra. O plastrão estava enlaçado de forma elaborada e original que, pensou Tobias, o seu cunhado, Anthony, muito teria apreciado. Aos vinte e um anos, Anthony estava na idade em que os jovens prestam aturada atenção a esse género de coisas. E, decerto, apreciaria, também, os invulgares brasões dourados que decoravam o relógio de Hudson.

Tobias calculou, mentalmente, que o médico andaria pelos seus quarenta e cinco anos. Hudson era dotado com as distintas e bem modeladas feições de um homem que, decerto, atrairia os olhares das mulheres, independentemente da idade. O abundante cabelo escuro tinha atraentes estrias de prata e ele envergava a roupa com uma autoridade e um aprumo dignos de Brummell, nos tempos em que ele reinava na vida social.

- Howard! - A preocupação desapareceu dos olhos verdes de Lavinia mal entrou na saleta, estendendo os braços num gesto claro e entusiástico de boas-vindas. - Perdoe-me por chegar atrasada. Fui fazer compras em Pall Mall e avaliei mal o tempo e o trânsito.

Tobias estava fascinado com a mudança que se processara nela no espaço de alguns minutos. Se não lhe tivesse visto aquela expressão na cara, quando ela subia os degraus da entrada, nunca poderia adivinhar que Lavinia passara por uma grande perturbação. Ficou aborrecido por o mero encontro com Howard Hudson ter tido um efeito tão salutar na disposição dela.

- Minha querida Lavinia - exclamou Howard, erguendo-se e pegando nas mãos de Lavinia com os dedos bem tratados, apertando-as ligeira mente. - Não há palavras que possam exprimir como estou encantado por a tornar a ver, depois de tanto tempo.

Nova onda de perturbador e inexplicável mal-estar percorreu Tobias.

Para além da voz aliciante, Hudson tinha nos olhos outro dos seus traços arrebatadores, voz e olhar que eram, certamente, muito úteis na sua profissão, pensou Tobias, pois o dr. Howard Hudson era um praticante da chamada ciência do mesmerismo.

- Fiquei muito contente quando ontem recebi a sua nota - disse Lavi nia. - Não fazia ideia nenhuma de que estivesse aqui em Londres.

Hudson sorriu.

- E fiquei deliciado quando descobri que a Lavinia vivia cá. Ima gine a minha surpresa, minha amiga, pois ouvira dizer que tinha ido para Itália com a sua sobrinha, como damas de companhia de uma senhora chamada Mrs. Underwood.

- Os nossos planos mudaram inesperadamente - disse Lavinia mansamente. - Vimo-nos obrigadas a regressar a Inglaterra mais cedo do que o previsto.

Tobias ergueu o sobrolho perante a meia- verdade, mas ficou avisadamente calado.

- Bom, isso, para mim, representa um feliz acaso - Howard apertou-lhe de novo, familiarmente, as mãos e largou-as. - Deixe-me apresentar-lhe a minha mulher, Celeste.

- Como está, Mrs. Lake - disse Celeste em tom ameno. - Howard tem-me falado muito de si.

Tobias, por momentos, achou graça aos modos dela. A quase teatral inclinação graciosa de cabeça de Celeste não toldou a expressão fria dos lindos olhos dela. Tobias apercebeu-se como ela media, pesava e julgava Lavinia. Era óbvio que descartou de imediato Lavinia como ameaça ou perigo.

Pela primeira vez, sentiu-se divertido naquela tarde: descartar Lavinia era sempre um erro.

- Tenho muito prazer em conhecê-la - disse Lavinia, sentando-se no sofá e agarrando o bule. - Não sabia que Howard tinha casado, mas folgo muito com isso, pois viveu sozinho demasiado tempo.

- Não tive alternativa - afirmou Howard. - Um olhar para a minha encantadora Celeste e a minha sorte ficou traçada. Para além de ser uma adorável esposa e companheira, tem provado ser muito apta na gestão das minhas contas e na minha escrita. Na verdade, nem sei como me governaria agora sem ela.

- Lisonjeias-me, caro amigo - disse Celeste, baixando as pálpebras e sorrindo para Lavinia. - Howard tem tentado ensinar-me algumas práticas de mesmerismo, mas devo confessar que não tenho grande talento para a ciência - acrescentou Celeste, aceitando a chávena de chá que Lavinia lhe estendia. - Creio que o meu marido era um bom amigo dos seus pais?

- Era, sim - disse Lavinia com uma expressão saudosa perpassando-lhe na cara. - Ele era visita frequente da nossa casa, nos velhos tempos. Os meus pais não só gostavam muito dele, como se contavam entre os seus maiores admiradores. O meu pai disse-me, muitas vezes, que considerava Howard o mais completo praticante de mesmerismo que conhecera.

- Tomo isso como um grande cumprimento - disse Howard modestamente. - Mas os seus pais eram, eles próprios, extremamente dotados na arte do mesmerismo. Eu ficava fascinado a vê-los trabalhar. Cada um com o seu próprio estilo, mas ambos obtinham resultados surpreendentes.

- O meu marido disse-me que os seus pais naufragaram no mar há cerca de dez anos - interveio Celeste -, e que perdeu o seu marido no mesmo ano. Deve ter sido um período terrível para si.

- Assim foi - disse Lavinia, servindo mais duas chávenas de chá - mas a minha sobrinha, Emeline, veio viver comigo há seis anos e damo-nos as duas muito bem. Tenho pena que ela não esteja cá esta tarde, mas foi assistir a uma conferência sobre os monumentos e fontes de Roma.

Celeste compôs uma expressão de polida simpatia.

- A senhora e a sua sobrinha estão sozinhas no mundo?

- Eu não considero que estejamos sozinhas - disse Lavinia vivamente. - Bem vê, temo-nos uma à outra.

- Contudo, são apenas as duas. Duas mulheres sós no mundo. - Celeste lançou a Tobias um olhar velado. - Segundo a minha experiência, viver sozinha sem o conselho e a força de um homem em que apoiar-nos é sempre uma situação difícil e infeliz para uma mulher.

Tobias quase deixou cair a chávena e o pires que Lavinia lhe tinha metido nas mãos. E não foi o juízo completamente desajustado de Celeste acerca dos recursos e capacidades de Lavinia e de Emeline que o sobressaltou, mas sim o facto de, por um momento, poder jurar que a mulher estava deliberadamente a atirar-se a ele.

- Obrigada pela sua preocupação, mas eu e Emeline governamo-nos bastante bem - disse Lavinia, com uma inesperada aspereza nas palavras. - Tenha cuidado, Tobias, ou ainda entorna o seu chá.

Tobias fixou-lhe o olhar e compreendeu que, sob as boas maneiras de sala de visitas, ela estava irritada e perguntou-se o que teria ele feito desta vez. A relação deles parecia oscilar entre a irritação e a paixão intensa, com fortes guinadas e sem meios termos, considerava ele. Nenhum dos dois se sentia ainda à vontade com a escaldante ligação que irrompera entre ambos. Uma coisa, porém, ele podia afirmar acerca dessa ligação: nunca era enfadonha. Infelizmente, segundo ele, pois havia alturas em que muito lhe apetecia uns momentos pacatos com Lavinia. Talvez isso lhe desse a oportunidade de recuperar o fôlego.

- Vai desculpar-me, Lavinia - disse Howard com o ar de quem se prepara para abordar um assunto delicado -, mas não posso deixar de notar que já não pratica a sua profissão. Abandonou a ciência do mesmerismo porque não encontra clientes aqui em Londres? Eu sei que não é fácil atrair uma clientela de qualidade quando não dispomos de boas relações sociais.

Para surpresa de Tobias, a pergunta pareceu apanhar Lavinia desprevenida: ela teve um ligeiro sobressalto que lhe fez tremer a chávena que tinha na mão, mas recuperou instantaneamente.

- Houve uma série de razões que me levaram a mudar de profissão - disse ela vivamente. - Embora a procura da terapia por mesmerismo se mantenha tão forte como antes, a concorrência é muito feroz nesse sector e, como acaba de salientar, não é fácil atrair uma clientela de qualidade, a menos que se disponha de relações e de referências na alta sociedade.

- Compreendo - disse Howard, abanando a cabeça com ar sombrio.

- Isso quer dizer que Celeste e eu vamos ter dificuldade em arranjar clientes. Não vai ser coisa fácil estabelecer-me aqui.

- Onde é que praticou a sua arte até agora? - perguntou Tobias.

- Passei vários anos na América, viajando e dando cursos de mesmerismo. Há cerca de um ano, contudo, fiquei cheio de saudades e regressei a Inglaterra.

Celeste irradiou o olhar para ele.

- Eu conheci Howard o ano passado, em Bath. Ele estabelecera ali um consultório florescente, mas achou que era altura de vir para Londres.

- Eu tenho esperança de encontrar uma maior variedade de casos interessantes e invulgares, aqui na capital - explicou Howard em tom sério. - A grande maioria dos meus clientes em Bath, como na América, procuravam tratamento para tormentos muito comuns: reumatismo, histeria feminina, insónias, esse género de coisas. Bastante preocupantes para os pacientes, claro, mas muito enfadonhos para mim.

- Howard pretende dedicar-se à pesquisa e realizar experiências no campo do mesmerismo - disse Celeste, dirigindo ao marido um olhar amoroso. - Na verdade, quer dedicar-se a descobrir todos os usos e aplicações possíveis da ciência. E quer escrever um livro acerca do assunto.

- E, para ser bem sucedido nisso, preciso de examinar clientes com distúrbios nervosos mais incomuns dos que, em geral, encontramos na província - concluiu Howard.

Os olhos de Lavinia brilharam de entusiasmo.

- Isso é um objectivo admirável e excitante. É chegada a altura de colocar a ciência de mesmerismo no devido lugar - exclamou ela, com um olhar explícito para Tobias. - Acho que ainda há muita gente, mal informada, que persiste em pensar que os mesmeristas são todos curandeiros e charlatães da pior espécie.

Tobias ignorou a farpa e bebeu um gole de chá.

Hudson expirou longamente e abanou a cabeça com ar grave.

- Infelizmente, tenho de admitir que há demasiados praticantes fraudulentos na nossa profissão.

- Há que realizar francos avanços na ciência, única forma de desen corajar essa espécie de gente - declarou Lavinia. - Pesquisa e experimentação é, justamente, o que é necessário.

Celeste dirigiu a Lavinia um olhar interrogativo.

- Tenho curiosidade em saber, Mrs. Lake, a natureza da sua nova profissão. Há tão poucas profissões adequadas a uma senhora...

- Eu exerço a profissão de investigadora particular, prestando serviço a pessoas dispostas a pagar-me para proceder a averiguações discretas - explicou Lavinia, pousando a chávena no pires. - Acho que tenho por aqui alguns dos meus cartões - acrescentou ela, estendendo o braço e abrindo a gaveta de uma mesinha junto do sofá. - Ah, cá estão eles!

Retirou dois cartões brancos da gaveta e estendeu um a Howard e outro a Celeste.

Tobias sabia exactamente o que estava gravado nos pequenos rectân gulos brancos:

INVESTIGAÇÕES PARTICULARES

MÁXIMA DISCRIÇÃO

- Muito estranho - disse Celeste, com uma expressão de espanto.

- Fascinante - disse Howard, metendo o cartão no bolso, a testa franzida de evidente preocupação. - Devo dizer, porém, que lamento saber que desistiu da sua arte. A Lavinia era muito dotada para o mesmerismo e a sua decisão de mudar de carreira é uma perda para a profissão.

Celeste olhou para Lavinia com uma expressão ponderada.

- Foi apenas o receio da concorrência que a fez abandonar a ciência?

- Tive um... desagradável incidente envolvendo uma cliente - disse Lavinia em tom neutro. - E a receita deixava muito a desejar. É muito difícil cobrar honorários elevados na província, como deve saber. Além disso, tinha de ter em conta o futuro de Emeline. Ela acabara a escola e eu achei que era altura de ela se polir. E, como sempre pensei, não há nada como viajar pelo estrangeiro para se adquirir elegância e refina mento. Por isso, juntando uma coisa à outra, quando surgiu a oferta de Mrs. Underwood de uma temporada em Roma, considerei que devia aceitar.

- Estou a compreender - Howard não tirava os olhos da cara ligeiramente fechada de Lavinia. - Devo confessar que ouvi uns boatos acerca desse desagradável incidente numa aldeia do Norte. Espero que não se tenha deixado afectar demasiado por isso.

- Não, não, claro que não - disse Lavinia, um pouco demasiado depressa. - Simplesmente, quando voltámos de Itália, senti-me inspirada a tentar esta nova carreira e, agora, sinto-me muito bem nela.

- É, na verdade, uma estranha ocupação para uma senhora - disse Celeste, lançando um olhar especulativo para Tobias. - Presumo, caro senhor, que não desaprova a nova profissão de Mrs. Lake?

- Devo afirmar - disse Tobias ironicamente - que tenho momentos de dúvida extrema e de profunda incerteza. Para não mencionar as noites em que não consigo dormir.

- Mr. March está a brincar - disse Lavinia, lançando a Tobias um olhar reprovador. - Ele não está em posição de desaprovar. De facto, ocasionalmente, ele actua como meu assistente.

- Como seu assistente! - exclamou Celeste, os olhos muito abertos, genuinamente chocada. - Está a querer dizer que é o patrão dele?

- Não propriamente - disse Tobias em tom calmo. - Eu sou mais um parceiro do que outra coisa.

Nem Celeste, nem Howard pareceram ter ouvido a subtil correcção: olhavam ambos para Tobias, atónitos.

Howard pestanejou.

- Assistente, diz o senhor?

- Parceiro - acentuou Tobias.

- Eu recorro aos serviços de Mr. March - esclareceu Lavinia, uma das mãos num gesto airoso - de quando em vez, nos casos mais singulares, sempre que necessito da sua experiência pessoal. - Lavinia sorriu docemente para Tobias. - E acredito que ele aprecia bastante o complemento de honorários. Não é assim, caro Mr. March?

Tobias estava a ficar farto da conversa. Era altura de recordar a Lavinia que também sabia morder.

- Não é o dinheiro o que mais me atrai na nossa parceria - declarou ele. - Devo confessar que descobri nela várias vantagens complementares extremamente agradáveis.

Lavinia fez-lhe o favor de corar, mas, como era de esperar, não desistiu do prélio, virando-se para os visitantes com um sorriso gracioso.

- A nossa parceria oferece a Mr. March a oportunidade de pôr à prova os seus dotes de raciocínio lógico e dedutivo. Ele acha a posição de meu assistente muito estimulante. Não é assim, Mr. March?

- Em boa verdade - disse Tobias - acho que posso afirmar, Mrs. Lake, que a nossa parceria me proporcionou algumas das mais estimulantes experiências por que passei nos últimos anos.

Lavinia semicerrou os olhos num aviso silencioso. Tobias sorriu satisfeito, e pôs-se a comer um dos minúsculos biscoitos de xarope de groselha que Mrs. Chilton trouxera com o chá. Mrs. Chilton fazia maravilhas com o xarope de groselha, pensou Tobias.

- Isso é fascinante - disse Celeste, observando Tobias por cima da borda da chávena de chá. - E qual é, exactamente, o género de perícia pessoal de que é dotado, Mr. March?

- Mr. March é particularmente hábil em vasculhar informações em fontes a que eu não tenho acesso - disse Lavinia, antes que Tobias pudesse responder. - Um cavalheiro tem acesso a certos locais inacessí veis a uma senhora, se entende o que quero dizer.

Uma expressão de compreensão iluminou o rosto de Howard.

- Que extraordinária parceria! Presumo, Lavinia, que essa nova profissão se evidenciou mais lucrativa do que a anterior?

- Pode ser bastante rendosa - disse Lavinia, fazendo, depois, uma pausa. - Por vezes. Tenho, porém, de reconhecer que, em termos de remu neração pecuniária, é um pouco imprevisível.

- Estou a perceber - disse Howard, de novo com ar preocupado.

- Mas basta de falar de mim - disse Lavinia vivamente. - Diga-me lá, Howard, quando tenciona começar a dar consultas aqui em Londres?

- Ainda vai levar um mês, ou mais, para instalar todo o equipamento - disse ele. - E tenho de dar a saber, nos locais apropriados, que aceito clientes, estando, porém, interessado apenas nos mais invulgares distúrbios nervosos. Se não tiver cuidado, posso ver-me assediado por senhoras em busca de tratamento para a sua histeria e, como já referi, não estou disposto a perder o meu tempo a tratar de distúrbio tão mundano.

- Compreendo - disse Lavinia, fixando-o com uma expressão de profundo interesse. - Tenciona colocar anúncios nos jornais? Eu própria tenho pensado fazê-lo.

Tobias parou a meio de uma dentada e baixou o biscoito que tinha na mão.

- Que raio de história é essa? Nunca me falou nisso.

- Isso, agora, não interessa - disse Lavinia varrendo a pergunta dele com um gesto da mão. - Explico-lhe mais tarde os pormenores. É apenas uma ideia que baila ultimamente na minha cabeça.

- Era melhor que lhe bailasse outra coisa qualquer - comentou ele, metendo na boca o último pedaço do biscoito.

Lavinia dardejou-o com um olhar reprovador. Ele fingiu não notar.

Howard pigarreou.

- Na verdade, eu, provavelmente, não vou pôr anúncios nos jornais, pois receio atrair a habitual série de vulgares clientes com vulgares problemas nervosos.

- Sim, acho que se corre esse risco - disse Lavinia, com ar pensativo. - Contudo, negócio é negócio.

A conversa derivou para os mistérios e para os aspectos altamente técnicos do mesmerismo. Tobias voltou para junto da janela, ficando a ouvir a acalorada conversa, mas sem tomar parte nela.

Ele tinha sérias dúvidas acerca da questão do mesmerismo. A verdade é que, até conhecer Lavinia, estava convencido de que os resultados dos estudos franceses acerca do assunto eram correctos. A investigação fora orientada por cientistas de renome, como eram o dr. Franklin e o dr. Lavoisier. As conclusões eram simples e claras: não existia semelhante coisa chamada magnetismo animal e, portanto, o mesmerismo não tinha fundamentação científica. A sua prática não passava de uma fraude.

Tobias aceitara de imediato a afirmação de que a perícia para induzir um transe profundo era uma charlatanice, própria para lograr os néscios. Quando muito, podia aceitar a ideia de que um mesmerista talentoso era capaz de exercer uma certa influência nos fracos de espírito, mas isso apenas tornava essa prática ainda mais suspeita aos seus olhos.

Contudo, não se podia negar que o interesse do público pelo mesmerismo era grande e não mostrava sinais de se desvanecer, mau grado a opinião de muitos médicos e cientistas sérios. Por vezes, sentia uma certa incomodidade por Lavinia ter sido instruída nessa arte.

Os Hudson saíram meia hora mais tarde. Lavinia acompanhou-os à porta para se despedir deles. Tobias ficou no seu posto, à janela, observando Howard a estender a mão à mulher, para a ajudar a subir para um trem de aluguer.

Lavinia esperou até ver a carruagem partir, antes de fechar a porta. Quando, momentos depois, entrou na sala de visitas, parecia bastante mais bem disposta do que quando chegara a casa. A visita do velho amigo da família fizera, nitidamente, desaparecer alguma da tensão. Tobias não sabia muito bem o que pensar acerca do poder de Howard para melhorar a disposição dela. Tobias? - perguntou Lavinia, tornando a sentar-se no sofá e pegando no bule. - Quer mais uma chávena de chá? Eu vou beber um pouco mais.

- Não, obrigado - disse ele, cruzando as mãos atrás das costas e olhando para ela. - Que raio é que lhe aconteceu esta tarde, enquanto andou às compras?

Lavinia vacilou perante a pergunta, entornando chá sobre a mesa.

- Santo Deus, veja o que me fez fazer! - Lavinia pegou num guardanapo e pôs-se a limpar a mesa. - O que é que o leva a pensar que me aconteceu alguma coisa?

- Sabia que tinha visitas à sua espera, pois tinha-as convidado.

Lavinia concentrou-se deliberadamente em limpar as gotas de chá.

- Eu já disse que perdi a noção do tempo e que o trânsito estava terrível.

- Lavinia, eu não sou um idiota, sabe bem.

- Basta, caro senhor - disse ela, pondo o guardanapo de lado e olhando para ele com ar irado. - Eu não estou com disposição para suportar um dos seus interrogatórios. O senhor não tem o direito de me pressionar acerca da minha vida privada. Na verdade, ultimamente tem vindo a portar-se muito como um marido.

Seguiu-se um silêncio pungente. A palavra marido pairou no ar entre eles, escrita a letras de fogo.

- Quando, de facto - disse Tobias por fim, em tom calmo -, eu não passo de seu sócio ocasional e, por vezes, amante. O que é que quis dizer, minha senhora?

Um rubor rosado coloriu as faces de Lavinia.

- Desculpe-me, eu não sei o que me passou pela cabeça. Fui despropositada. A minha única desculpa é que me sinto um pouco vexada, neste momento.

- Isso nota-se. Falando como um sócio ocasional, mas preocupado, posso perguntar-lhe porquê?

A boca dela semicerrou-se.

- Ela estava a meter-se consigo.

- Como?

- Celeste. Estava a meter-se consigo. Não o negue. Eu bem vi. Ela nem sequer foi particularmente subtil.

Tobias estava tão atónito que levou algum tempo a compreender o que ela queria dizer.

- Celeste Hudson? - repetiu ele. As implicações da acusação repercutiam-lhe na cabeça. - Bem, sim, eu, de facto, notei que ela fez umas tentativas nesse sentido, mas...

Lavinia estava sentada muito direita, as costas rígidas.

- Foi revoltante.

Estaria Lavinia realmente com ciúmes? A espantosa possibilidade fez Tobias ser invadido por uma agradável euforia.

Arriscou um pequeno sorriso.

- Provinha de uma pessoa com muita prática e, por isso, muito pouco lisonjeiro, mas eu não diria revoltante.

- Pois eu digo. Ela é uma mulher casada, não tinha nada que se pôr a bater as pálpebras para si da forma como o fez.

- A minha experiência diz-me que as mulheres que têm a mania de catrapiscar os homens fazem-no quer sejam casadas, quer não. É uma espécie de compulsão inata, acho eu.

- Mas é injusto para o pobre e querido Howard. Se ela se comporta assim com cada homem que encontra, ele deve sentir-se humilhado e infeliz a todo o momento.

- Duvido muito.

- Que quer dizer com isso?

- Desconfio que o pobre e querido Howard acha a inclinação da mulher para catrapiscar muito útil. - Tobias aproximou-se do tabuleiro do chá e serviu-se de outro biscoito. - Na verdade, não ficava admirado se viesse a saber que ele havia casado com ela precisamente por causa do talento dela nessa matéria.

- Tobias!

- Estou a falar a sério. Não tenho dúvidas de que ela lhe terá angariado muitos clientes em Bath.

Lavinia pareceu ficar siderada com esta observação.

- Não tinha pensado nessa possibilidade. Acha que ela estava apenas a tentar interessá-lo numa série de tratamentos terapêuticos?

- O que eu acho é que podemos afirmar que o bater de pálpebras de Mrs. Hudson nada mais é do que uma forma de angariar clientes para Hudson.

- Hum...

- Agora que já arrumámos este assunto - prosseguiu ele - vamos voltar ao meu pequeno interrogatório. Que raio é que aconteceu hoje, quando foi às compras?

Lavinia hesitou e, depois, soltou um pequeno suspiro.

- Nada de importante. Pensei ter visto na rua uma pessoa que conheci em tempos - disse ela, fazendo uma pausa para beber um gole de chá. - Alguém que eu não esperava ver aqui em Londres.

- Quem é essa pessoa? Lavinia franziu o nariz.

- Acho que nunca conheci ninguém tão capaz de voltar tão repetida mente a um assunto que uma pessoa tornou bem claro não desejar discutir.

- É um dos meus talentos. E é, sem dúvida, uma das razões por que continua a empregar-me como seu assistente nos casos mais difíceis.

Lavinia permaneceu calada. Não por rebeldia ou teimosia, pensou ele. Ela devia estar inquieta e talvez sem saber por onde começar a sua história.

Tobias ergueu-se.

- Venha, minha querida. Vamos buscar as nossas capas e as nossas luvas e vamos dar uma volta no parque.

 

- Então Howard? - Celeste olhou para ele através do pequeno espaço que os separava no trem. - Disseste que tinhas curiosidade em saber como é que a tua velha amiga se desvencilhava na vida. Ficaste satisfeito?

Ele contemplava a paisagem da rua, o elegante perfil um pouco de lado.

- Acho que sim. Mas confesso que me parece espantoso que Lavinia tenha abandonado uma carreira no mesmerismo por uma profissão tão estranha.

- Talvez Mr. March seja a razão que a induziu a seguir esta nova carreira. É óbvio que são amantes.

- Talvez - Howard fez uma pausa. - Mas é difícil acreditar que ela tenha abandonado a prática seja qual for a razão, incluindo um amante. Ela tinha realmente um grande talento para a arte. Eu, por vezes, achava mesmo que ela iria ser muito melhor do que qualquer dos pais. E eles possuíam ambos grande perícia.

- A paixão é uma força poderosa - disse ela, dirigindo-lhe um olhar cúmplice. - Pode levar uma mulher a alterar o curso da sua vida. Considera a nossa relação e como a minha vida mudou por isso.

A expressão de Howard adoçou-se. Estendeu a mão e afagou a mão enluvada de Celeste com os longos dedos elegantes.

- Foste tu que alteraste a minha vida, minha querida - disse ele na sua voz profunda e aveludada. - Vou para sempre ficar-te grato por teres decidido juntar a tua sorte à minha.

Estavam ambos a mentir com os dentes todos, pensou ela, mas faziam-no ambos muito bem.

- O que é que pensas de Mr. March, o sócio de Mrs. Lake - perguntou Howard, tornando a observar a rua.

Celeste outorgou-se algum tempo para ponderar o assunto Tobias

March. Considerava-se uma autoridade no que a homens dizia respeito, pois, na maior parte da sua vida, a sua sorte dependera do rigor com que avaliara os homens e da destreza que aplicara à tarefa de os manipular.

Sempre possuíra aptidão nesse campo, mas considerava que o estudo a sério do assunto começara com o primeiro marido, tinha ela dezasseis anos. Esse marido era um lojista viúvo, na casa dos setenta anos, o qual morrera convenientemente no meio de uma mal sucedida tentativa de cumprir as suas obrigações maritais. Celeste herdara a loja, mas não tendo intenção nenhuma de passar a vida atrás de um balcão, logo a vendera por uma interessante quantia.

O dinheiro da venda da lojeca permitira-lhe comprar os vestidos e as bugigangas necessárias para subir uns degraus na escala social. A conquista seguinte de Celeste foi um filho néscio de um membro da aristocracia local que lhe pagou a renda da casa durante quatro meses, antes da família descobrir a aventura e lhe cortar a mesada. Houve outros homens depois desse, incluindo um membro do clero, o qual insistia em que ela envergasse a sotaina dele enquanto fazia amor com ela em cima do altar.

O caso terminara quando foram descobertos por uma velha beata da congregação, a qual sucumbiu a um desmaio ao ver o que acontecia no altar. Nem tudo se perdera, recordava Celeste. Enquanto o amante dava vinagre a cheirar à ovelha siderada do seu rebanho, ela escapara por uma porta lateral, levando com ela um rico par de candelabros cuja falta, tinha a certeza, nunca seria notada na enorme colecção de pratas da igreja.

Os candelabros haviam-na provido financeiramente até vir a conhecer Howard, que ela considerava ser o seu maior triunfo até então. Mal o conhecera, apercebera-se logo de que ele comportava grandes potencialidades. O facto de ele não só se sentir pessoalmente atraído por ela, mas apreciar também a sua natureza esperta, simplificara as coisas. Tudo dito e feito, devia-lhe muito. Com ele, aprendera imensas coisas.

Pôs-se, então, a pensar na impressão que lhe causara Tobias March: A primeira observação era que, embora dotado de ombros largos e de um belo físico, parecia ligar muito pouco à moda. O casaco e as calças que vestia tinham um corte que proporcionava comodidade e facilitava os movimentos, mas não tinham estilo. O nó do plastrão era simples e severo, não elaborado, como era de moda.

Ela, porém, considerava-se uma observadora astuta dos homens, uma observadora habituada a ir mais além desses elementos superficiais. Apercebera-se de imediato de que March era muito diferente dos outros cavalheiros que conhecera na vida. Para ela, era óbvio que ele possuía um núcleo de aço no seu âmago, o qual não tinha nada a ver com capacidades físicas. Discernira isso nas profundezas veladas do olhar frio e enigmático dele.

- Apesar da afirmação de Mrs. Lake, não acredito que ele seja um mero assistente dela - disse Celeste finalmente. - Duvido muito que Mr. March se disponha a receber ordens de alguém, homem ou mulher, a menos que isso sirva os seus interesses.

- Sinto-me inclinado a concordar - disse Howard. - Quando ele disse que era um parceiro ocasional de Lavinia, fê-lo com o à-vontade de um homem que se degladia com o adversário por simples divertimento.

- Sim, sim. Ele não estava, de modo nenhum, zangado, nem humilhado, pela declaração de Mrs. Lake de que ele era seu empregado. Na verdade, fiquei com a nítida impressão de que a questão de saber qual deles é que manda constitui uma espécie de jogo entre eles.

O que, por outro lado, sugere uma relação muito íntima entre Tobias e Lavinia, pensou ela. Tentara pôr à prova essa relação com um pouco de sedução, mas os resultados haviam sido inconclusivos. March olhara para ela com aqueles inescrutáveis olhos frios e não correspondera.

Em suma, Tobias March era um homem muito interessante e, sem sombra de dúvida, muito perigoso. Podia ser que lhe viesse a ser útil no futuro que planeava. Primeiro, teria de o afastar de Lavinia Lake, claro, mas isso era um desafio fácil para os seus invulgares talentos. Mrs. Lake constituía fraca concorrência, pelo que pudera avaliar.

Celeste pôs-se a brincar com o pequeno leque suspenso da bolsa, com um ligeiro sorriso nos lábios: ao longo da sua vida, nunca conhecera um homem que não conseguisse dominar.

- O que é que te intriga tanto em Mrs. Lake? - perguntou Celeste. - Confesso que, se continuas assim, vou começar a ter ciúmes.

- Nem pensar, minha querida - disse ele, voltando a cabeça e fixando-a com toda a intensidade do seu espantoso olhar. A voz dele ficou ainda mais profunda. - Garanto-te que dominas todas as minhas paixões.

Celeste sentiu o ar preso na garganta. Não era uma ânsia ou uma excitação, sabia-o bem. Era antes o medo que lhe sustera subitamente o ar. Conseguiu, porém, esconder a insólita reacção com um sorriso e um bater de pálpebras.

- Fico descansada ao ouvir isso - disse ela suave.

Celeste tinha a certeza de que a sua voz soava normalmente, mas a pulsação continuava acelerada. Com grande esforço da vontade conteve-se a torcer as mãos enluvadas.

Howard fixou-a com o fascinante olhar durante mais uns momentos. Depois sorriu e desviou o olhar.

- Basta de Lavinia e de Mr. March. Eles formam, de facto, um par invulgar, mas nós não temos nada a ver com a sua estranha profissão.

Quando a atenção dele voltou ao cenário da rua, Celeste inspirou profundamente. Era como se se tivesse libertado de uma armadilha invisível. Recuperou os pensamentos dispersos e dominou- se.

Apesar da atitude aparentemente casual de Howard, Celeste não acreditava muito no despreocupado ponto final que ele colocara na curiosidade que o levara a informar Lavinia da sua presença na capital.

Howard andava decididamente intrigado com Mrs. Lake. Celeste disse a si própria que lhe convinha a distracção. Se por mais não fosse, o interesse dele no velho conhecimento desviar-lhe- ia a atenção, naquela fase crucial dos seus planos. Sem embargo, tinha a desagradável impressão de que estava a esquecer-se de qualquer coisa.

Celeste observou Howard atentamente, examinando a distante e contemplativa expressão da cara dele. Aquilo preocupava-a. Os estranhos períodos de ausência e de silêncio tornavam- se ultimamente mais frequentes. Tinham começado quando ele fora dominado pelo desejo de ir mais além da mera prática do mesmerismo e mergulhara em intensa pesquisa da matéria.

E, de repente, a sua aguda e intuitiva compreensão do sexo masculino topou com a verdade. Viu tudo com espantosa clareza.

- Aceitaste o convite de Mrs. Lake para o chá porque querias saber se ela se tornara tão perita como tu na prática do mesmerismo - disse ela calmamente. - É isso o que se passa, não é? Tinhas de saber se, passados todos estes anos, ela representava um desafio para os teus grandes talentos ou se, acaso, sabia mais do que aquilo que tinhas descoberto.

Howard contraiu-se muito ligeiramente. A ligeira reacção física confirmava as conclusões dela. Ele voltou-se para ela com extraordinária rapidez e ela viu-se a mergulhar nas insondáveis profundezas dos olhos dele.

Howard não disse nada, mas Celeste sentiu- se como um bloco de pedra no assento do trem, incapaz de se mexer mesmo que a carruagem pegasse fogo. O pânico submergiu-a. Não era possível que ele tivesse conhecimento dos seus planos, pensou ela desvairadamente. Não havia maneira de ele ter descoberto o esquema dela, pois tinha tido muito cuidado, mesmo muito cuidado.

Howard sorriu, quebrando o pequeno encantamento. A intensidade mesmérica do seu olhar desvaneceu-se.

- Felicito-te, minha querida - disse ele. - Como sempre, foste ao fundo da questão. Se queres saber, eu próprio não tinha compreendido por completo a minha curiosidade acerca de Lavinia, antes de a ter visto hoje de novo após todos estes anos. Só então é que me apercebi de que o que me movera era descobrir se ela tinha ou não desenvolvido todas as suas potencialidades como mesmerista. Bem vês, ela era dotada de uma incrível inclinação natural para a arte. Inclinação que eu discerni nela há muitos anos, era ela muito jovem. Tinha, então, a certeza de que tudo o que ela precisava era de tempo e de prática para aperfeiçoar os seus dotes.

Celeste inspirou profundamente e recuperou a coragem.

- Desconfiaste, talvez, que ela tivesse ultrapassado os teus? Howard hesitou.

- Talvez.

- Isso era impossível - disse ela com absoluta e genuína convic ção. - Não há ninguém mais apto do que tu. O próprio Mesmer ficaria espantado com os teus talentos.

Howard riu-se.

- Agradeço-te o cumprimento, minha querida, mas, dadas as circunstâncias, receio que seja muito improvável que venhamos a descobrir o grau de admiração de Mr. Mesmer pelos meus talentos.

- Infelizmente ele morreu há alguns anos e não teve ocasião de ver o teu trabalho, mas garanto-te que teria ficado muito impressionado. Mais, teria, decerto, ficado cheio de inveja de ti. E, quanto a Mrs. Lake, não tens de te preocupar com ela, pois ela não representa nenhuma espécie de perigo para ti, tendo, obviamente, decidido ignorar fosse qual fosse a aptidão natural que possuía, optando por outra profissão.

- É o que parece - disse ele, tocando-lhe a mão enluvada. - Nunca deixas de animar-me, minha querida. Confesso que não sei o que seria de mim sem ti.

Celeste sorriu e permitiu-se relaxar um pouco, não ousando, porém, baixar a guarda por completo. A tarefa que tinha pela frente era demasiado importante, não admitindo imprudências. Já tinha corrido muitos riscos, mas o que planeava era de longe o esquema mais perigoso em que alguma vez se envolvera.

E valia bem a pena, garantia a ela própria. Se tudo corresse conforme o planeado, os proveitos da aventura iam-lhe permitir alterar o destino uma vez mais. Ia ficar em posição de se introduzir na alta sociedade e obter, finalmente, tudo por que ansiava há tanto tempo.

O único obstáculo no seu caminho era Howard. Não podia subestimá- lo, considerou ela.

Este era certamente o meu dia para me encontrar cara a cara com gente do meu passado - disse Lavinia. - Primeiro, o encontro que tive em Pall Mall e, depois, a visita de Howard Hudson. Devo dizer-lhe desde já que os dois homens ocupam posições completamente diferentes na minha estima.

Estavam os dois sentados no banco de pedra da artística e artificial ruína gótica que Tobias descobrira havia uns anos. O arquitecto pretendera, sem dúvida, que a graciosa estrutura, com os seus elegantes pilares e as encantadoramente arruinadas paredes, fosse utilizada como um lugar de queda meditação. Cometera, porém, o erro de a colocar num local ao fundo remoto do enorme parque e, como resultado, o público nunca se interessara muito por ela. O mundo elegante, no fim de contas, ia ao parque para ver e ser visto, não em busca de privacidade e solidão.

Tobias topara com a ruína no decurso de um longo passeio e adoptara-a como seu abrigo pessoal. Lavinia sabia que era a única pessoa que ele levara até lá para o partilhar com ele.

Tinham feito amor ali. A recordação assolou-lhe o corpo, remexendo uma volátil ebulição de emoções que nunca sonhara poder experimentar antes de conhecer Tobias. Nada da sua associação com ele era simples ou linear, pensou ela. Por um lado, ele era o homem mais irascível que conhecia, por outro, era, também, o mais encantador cavalheiro das suas relações. O simples facto de estar ali sentada tão perto dele lançava-lhe através do corpo pequenos alertas de intensa prevenção.

Não sabia ainda o que fazer com aquela estranha ligação, com aquela complicada miscelânea de negócio e de paixão. Sabia, porém, muito bem, que a sua vida nunca mais seria a mesma, agora que estabelecera uma ligação com Tobias March.

- Quem era ele? - perguntou Tobias.

Ela remexeu, por momentos, na saia do vestido, em busca de tempo para arrumar o pensamento.

- É uma longa história - disse ela por fim.

- Eu não estou com pressa.

Não havia ponta fácil por onde pegar e ela conhecia de Tobias o suficiente para saber que ele não ia desistir enquanto não obtivesse uma resposta. Para além de ser o homem mais irascível e o mais encantador que jamais conhecera, era também o mais decidido, persistente e obstinado.

E não havia especial razão para não lhe explicar o caso. Era, talvez, a única forma de regressarem a casa antes do cair da noite.

- Lembra-se de eu lhe ter mencionado um incidente infeliz no Norte?

- Lembro-me, sim.

- O cavalheiro que eu vi esta manhã de relance em Pall Mall está relacionado com esse incidente. Chama-se Oscar Pelling. A razão por que cheguei atrasada é que fiquei tão perturbada ao ver aquele homem horrível que tive de entrar numa casa de chá, para me dominar e retemperar os nervos.

- Fale-me desse Oscar Pelling.

- Em poucas palavras, ele acusou-me de ser responsável pela morte da mulher. - Lavinia fez uma pausa. - E talvez tivesse razão.

Houve um pequeno silêncio, enquanto Tobias ponderava aquela abrupta declaração. Inclinou-se para a frente, pousou os antebraços nas coxas e cruzou as mãos entre os joelhos, pondo- se a observar as altas ervas que formavam um ecrã em redor da ruína.

- Ele lançou a culpa aos seus tratamentos de mesmerismo? - perguntou por fim.

- Sim.

- Ah!

Ela entesou-se.

- O que é que essa exclamação quer dizer?

- Significa que me explica a razão por que desistiu da profissão há dois anos e se voltou para toda uma série de outras profissões para se manter a si e a Emeline. Receou que tivesse provocado algum malefício com a sua arte.

Houve outro silêncio. Maior, desta vez. Por fim, Lavinia soltou um longo suspiro.

- Não admira que se tenha dedicado à profissão de investigador, pois possui um notável talento de lógica dedutiva.

- Conte-me a história toda - disse ele.

- A mulher de Oscar Pelling, Jessica, foi minha cliente durante um curto período. Veio ter comigo em busca de tratamento para os nervos...

- Lavinia hesitou. - Jessica era uma mulher muito agradável. Bonita. Mais alta do que a média. Elegante. As senhoras ricas e refinadas, como ela, possuem frequentemente nervos muito sensíveis, ficando sujeitas a depressões e a pequenos acessos de histeria feminina.

Tobias aquiesceu com a cabeça.

- Tenho ouvido falar nisso.

- Mas apercebi-me de imediato de que o estado de Jessica era muito pior do que eu poderia suspeitar. Foi, contudo, muito relutante em permitir que a pusesse em transe.

- Por que é que a procurou se não desejava ficar em transe?

- Talvez porque sentisse que não tinha mais ninguém a quem recorrer. Veio ter comigo apenas três vezes, sempre extremamente agitada. No decurso das duas primeiras visitas quis saber tudo acerca da natureza precisa do transe mesmérico.

- Receava ficar sob o domínio de outra pessoa?

- Não propriamente. Mrs. Pelling parecia mais preocupada com a possibilidade de revelar segredos pessoais no decorrer do transe e de não se recordar, depois, o que havia revelado. Eu garanti-lhe que lhe repetiria, palavra por palavra, tudo o que ela dissesse durante o transe mas acho que não se sentia inteiramente confiante na minha discrição.

- Era natural, ela não a conhecia bem.

Lavinia teve um breve sorriso.

- Muito obrigada pelo cumprimento, Tobias.

Ele encolheu os ombros.

- É a pura da verdade. Eu confiar-lhe-ia os meus mais profundos segredos. Aliás, fi-lo já mais de uma vez.

- E eu confiar-lhe-ia os meus, meu caro senhor. - Lavinia observou- lhe os ombros largos. Tobias podia ser arrogante e teimoso para além do imaginável, mas uma pessoa podia confiar-lhe a vida. - E acho que estou a prová-lo agora mesmo.

Tobias aquiesceu.

- Continue.

- Bem, como dizia, eu tinha a impressão de que Jessica Pelling, embora extremamente relutante em submeter-se à experiência, sentia que não tinha outra opção.

- Uma mulher em desespero.

- Sim... - Lavinia fez uma pausa, recordando os acontecimentos da última sessão. - Mas não, diria eu, uma mulher desesperada.

Tobias olhou para ela, a surpresa a brilhar nos olhos inteligentes.

- Quer dizer, então, que não sofria de melancolia?

- Na altura, eu pensava que não. Como lhe disse, durante as duas primeiras visitas falámos da natureza terapêutica do mesmerismo. Eu descrevi-lhe tudo o mais precisamente possível, enquanto ela caminhava de um lado para o outro em frente da minha secretária.

Tobias soltou as mãos, endireitou-se e pôs-se a massajar a coxa esquerda com ar ausente.

- Afigura-se-me que Mrs. Pelling estava seriamente interessada na cura do seu desarranjo nervoso, mas desconfiava, sem dúvida, da história do mesmerismo. Eu compreendo o dilema dela.

- Eu estou perfeitamente ciente de que a ciência do mesmerismo não lhe interessa para nada. Acha que todos aqueles que a praticam são curandeiros charlatães, não é isso?

- Isso não é inteiramente verdade - disse ele calmamente. - Acredito que algumas pessoas, de espírito fraco, são susceptíveis de cair em transe mesmérico, mas não acredito que um praticante dessa arte seja capaz de impor a sua vontade a um homem da minha natureza.

Lavinia observou-o a massajar a perna e pensou na bala que lhe haviam metido na perna meses atrás. Ele recusara então, com toda a firmeza, a oferta dela de o colocar em transe mesmérico, a fim de lhe aliviar a dor que frequentemente o atormentava.

- Conversa fiada - disse ela vivamente. - A verdade é que a ideia de eu o colocar em transe enerva-o de tal modo que prefere suportar a incomodidade do seu ferimento do que submeter-se à experiência. Admita-o, meu caro senhor.         

- Quando estou junto de si, minha cara, sinto-me sempre como se estivesse em transe.

- Bah. Não tente impingir-me argumento tão pouco inspirado.

- Pouco inspirado? - Tobias cessou bruscamente de esfregar a coxa. - Eu estou transido, minha senhora, e pensei que, dadas as circunstâncias, era uma réplica encantadora. De qualquer modo, a minha ferida sarou lindamente sem o auxílio do mesmerismo.

- Mas dói-lhe frequentemente, em especial quando o tempo fica húmido. Está a doer-lhe agora, enquanto conversamos, não está?

- A experiência diz-me que um cálice ou dois de brandy fazem maravilhas - disse ele. - Vou beber algum logo que chegue a casa. Mas basta de falar de mim. Continue a sua história, por favor.

Lavinia desviou a atenção para a relva não aparada em frente dela.

- Quando Jessica Pelling veio a minha casa na terceira e última vez, verifiquei que ela estava desfeita. Não fez mais perguntas e, muito simplesmente, disse-me que a colocasse directamente em transe terapêutico.   

Não tive dificuldade em fazê-lo. Em boa verdade, ela era uma excelente paciente. Comecei a questioná-la, para tentar descobrir a causa da sua ansiedade. Para minha grande surpresa e grande choque, revelou-me que tinha um medo mortal do marido.

- De Oscar Pelling?

- Sim - disse Lavinia, estremecendo. - Estavam casados havia apenas um ano, mas ela descreveu uma vida de pesadelo.

Lavinia resumiu os pormenores da última sessão de Jessica Pelling:

Oscar zangou-se de novo esta noite. Jessica falava com a voz anormalmente calma das pessoas em transe. Diz que escolhi mal os pratos do jantar. Afirma que o fiz deliberadamente para pôr em causa a sua autoridade de dono da casa. Diz que eu sou provocadora e que tem de me castigar outra vez... "

Lavinia sentiu um frio no estômago.

Ele magoou-a ontem à noite, Jessica? "

Sim. Ele magoa-me sempre, quando me castiga. Diz que a culpa é minha, que eu é que o obrigo a castigar-me. "

Como é que isso se passa, Jessica?

Ele manda os criados recolherem aos quartos. Depois, agarra-me pelo braço, arrasta-me para o nosso quarto e... magoa-me. Bate-me, bate-me e bate-me.

Lavinia examinòu a bonita cara de Jessica. Não havia marcas nem sinais de nódoas negras.

Onde é que ele lhe bate, Jessica? "

No peito. Na barriga. Em todo o lado menos na cara. Tem sempre muito cuidado com a minha cara. Diz que não quer que ninguém tenha pena de mim. Eu sou tão má esposa que iria, certamente, aproveitar-me de um olho negro ou de um lábiofendido para concitar a simpatia daqueles        que ignoram que eu mereço ser castigada. "

Lavinia olhou para ela, horrorizada.

Ele bate-lhe muitas vezes? "

As raivas são cada vez mais frecuentes. É como se estivesse prestes a perder por completo o autodominio. É óbvio que ele casou comigo apenas pela minha herança. Acho que, em breve, me vai matar. "

Lavinia afastou a recordação da horrível sessão.

- Confesso que não consegui ouvir mais daquela triste história - disse Lavinia. - Pus rapidamente fim ao transe e relatei-lhe o que ela me tinha dito.

- Como é que ela reagiu?

- Ficou humilhada. Primeiro negou tudo, mas eu apercebi-me, pela maneira como ela se comportava, de que sofria bastante, tanto psíquica como fisicamente. Quando a confrontei com esta minha observação, perdeu o domínio, desfazendo-se em lágrimas.

Que posso eu fazer? ", disse Jessica por entre as lágrimas. Que pode fazer? " Lavinia ficou espantada com a pergunta. Só há uma coisa afazer: tem de deixá-lo imediatamente. "

Eu tenho pensado nisso, disse Jessica enxugando os olhos ao lenço que Lavinia lhe dera. Ele, porém, controla a minhafortuna e eu não tenho familia chegada a quem possa pedir ajuda. Não posso, sequer, comprar um bilhete para a carruagem de Londres. E que ia eufazer, se conseguisse fugir? Não tenho maneira de ganhar a vida e ia acabar nas ruas.

E tenho a certeza que Oscar iria perseguir-me. Ele não ia suportar uma mulher desafiadora e ia punir-me terrivelmente, quando me encontrasse. Podia até matar-me.

Tinha de se esconder. Adoptava outro nome, dizia que era viúva. " Sem dinheiro, nada disso posso fazer. " Jessica apertava a bolsa com toda aforça. Estou acossada. "

Lavinia olhou para o anel que Jessica usava no dedo.         Talvez haja uma maneira... "

- Não me admira nada que se tenha envolvido no caso - disse Tobias em tom irónico. - O que é que fez?

- Jessica usava um anel muito invulgar. Era um anel de oiro, engastado com coloridas pedras preciosas e pequenos e cintilantes diamantes em forma de flor. Interroguei-a acerca do anel. Disse-me que era uma jóia de família e que o usava desde que saíra da escola. O anel parecia bastante valioso.

Tobias abanou a cabeça em sinal de compreensão.

- E aconselhou Jessica a utilizar o anel para financiar uma nova vida.

Lavinia encolheu os ombros.

- Era a saída óbvia. A única outra solução que eu enxergava era ela dispor- se a envenenar Oscar Pelling. Algo me dizia, porém, que ela não aceitaria a ideia de matar o marido.

A boca de Tobias ergueu-se um pouco a um dos cantos.

- Ao contrário de si?

- Só em último recurso - afiançou ela. - De qualquer modo, achei que a solução do anel era a melhor. Eu sabia que, se ela conseguisse chegar a Londres com o anel, ia poder vendê-lo por uma boa maquia. Não daria para ela viver com grandes luxos, nem por muito tempo, mas seria o suficiente para se manter até encontrar uma situação.

- Minha cara Lavinia, já se reinventou tantas vezes que receio que se esqueça que nem toda a gente dispõe da sua capacidade e da sua determinação.

Lavinia soltou um suspiro.

- É capaz de ter razão. Devo dizer, contudo, que, na altura, achei que o meu plano era esplêndido. Jessica ficou espantada, quando lho descrevi, parecendo apavorada perante a ideia de adoptar uma nova identidade e de encontrar um meio de se manter a si própria. Bem vê, sempre tivera dinheiro e a ideia de viver sem a sua fortuna aterrorizava-a.

- Um caso diabólico - observou Tobias. - Ainda por cima, o dinheiro era dela.

- Sim, sim, claro, eu compreendia isso, mas, na minha opinião, ou ela abandonava a fortuna e assumia outro nome, ou tinha de se entregar à bela arte de preparar veneno. Como lhe disse, eu não acreditava que ela se entusiasmasse com a última solução.

- Por vezes, Lavinia, consegue causar-me calafrios.

- Deixe-se disso. Tenha a certeza de que, se estivesse no meu lugar, tinha-lhe dado o mesmo conselho.

Ele encolheu os ombros e não disse nada.

Lavinia franziu a testa, repensando a sua afirmação.

- Retiro o que disse. Você não a teria aconselhado a mudar de identidade. Teria, sim, arranjado maneira de Pelling sofrer um acidente fatal.

- Como não estive no seu lugar, não vale a pena especularmos.

- Por vezes, meu caro senhor, consegue causar-me calafrios. Ele sorriu, perante o eco das suas palavras, sem dúvida considerando que ela estava a brincar. Mas ela não estava a brincar, pensou ela. Por vezes ele provocava-lhe um pequeno arrepio. Havia pontos sombrios no íntimo de Tobias e, em certas ocasiões, ela via-se forçosamente confrontada com o facto de haver muita coisa a respeito dele que desconhecia.

- Que aconteceu a Jessica Pelling? - perguntou ele.

- Eu nunca mais a vi - murmurou Lavinia. - Ela suicidou-se no dia seguinte.

- Como? Uma dose excessiva de láudano? Bebeu demasiado suco de papoila?

- Não. Escolheu uma forma mais dramática. Foi montar a cavalo no meio de um violento temporal e lançou-se ao rio caudaloso. O cavalo voltou sem ela. Mais tarde, uma criada encontrou uma nota no quarto de Mrs. Pelling indicando a sua intenção de se afogar.

- Huum...

Houve um curto silêncio.

- O corpo nunca apareceu.

- Huum...

- Isso acontecia de vez em quando. - Lavinia apertou as mãos estreitamente no colo. As recordações daquele dia horrível eram, agora, tão nítidas e tão vívidas que ela teve de se esforçar para levar ar aos pulmões. O rio era muito fundo e traiçoeiro em certos sítios. Não era raro ouvir-se que um desafortunado caíra ao rio e nunca mais aparecera.

- E Oscar Pelling culpou-a a si pela morte da mulher?

- Sim. Confrontou-me na rua, logo após os que procuravam o corpo terem perdido todas as esperanças. Estava num estado tal de raiva que eu... eu temi pela minha segurança.

Tobias ficou com uma expressão de extrema dureza.

- Ele tocou-lhe? Pôs-lhe as mãos em cima? Magoou-a de algum modo?

A expressão implacável que aparecera nos olhos dele quase cortara a respiração a Lavinia. Engoliu em seco e apressou-se a continuar a sua história.

- Não - disse ela rapidamente. - De facto, não. Dificilmente ele ousaria atacar-me diante de tantas testemunhas. Mas acusou-me de levar jessica ao suicídio com os meus tratamentos de mesmerismo.

- Estou a ver.

- Fez tudo o que podia para que os boatos acerca da minha incompetência se espalhassem pela região. Em pouco tempo, Oscar Pelling destruiu por completo a minha reputação. Perdi todos os meus clientes.

- Lavinia hesitou um pouco. - Em boa verdade, eu já não estava muito certa de querer continuar na profissão.

- Porque receava que Pelling tivesse razão, que a sua terapia tivesse tido algum papel no suicídio de jessica?

- Sim.

Aí estava, pensou ela: acabava de revelar a Tobias o seu segredo mais obscuro. E, de repente, compreendeu que fora essa a razão por que se sentira tão abalada ao ver Oscar Pelling. A intuição dissera-lhe que, de algum modo, aquele encontro a ia conduzir àquele momento terrível em que Tobias ia descobrir que estivera envolvida na morte de uma mulher inocente. Sabia muito bem como ele desconfiava da ciência do mesmerismo e o que ele pensava dos que praticavam essa arte. Receava a reacção dele, embora uma parte dela se perguntasse quando e quanto a opinião dele acerca do seu carácter se tornara importante para ela. Por que é que haveria de se preocupar tanto com a opinião dele?

- Preste bem atenção ao que lhe vou dizer, Lavinia - disse Tobias, estendendo um braço e cobrindo-lhe os dedos esbeltos com a sua enorme e poderosa mão. - Não teve culpa nenhuma do que aconteceu. Apenas tentou ajudá-la. Era uma situação desesperada e exigia medidas desesperadas. O seu plano para jessica utilizar o anel para tentar uma nova vida, adoptando outro nome, era uma excelente ideia. Não é culpa sua se a ela lhe faltou a coragem e a vontade de levar a cabo o esquema.

A princípio pensou que não o ouvira bem. Tobias não a culpava. O mundo pareceu ficar mais claro, o ar mais límpido e mais fragrante. Permitiu-se respirar fundo de novo.

- Mas, ao encorajá-la a correr semelhante risco, talvez a tenha forçado a confrontar-se com a sua fraqueza e a tenha lançado nas profun dezas do desespero. - Lavinia torceu as mãos. - Talvez a tenha feito sentir que não havia esperança nenhuma e que a única saída era o suicídio.

- Apontou-lhe um meio de fuga: cabia a Jessica tomar a decisão de o utilizar. - Tobias puxou-a carinhosamente para junto dele e envolveu-lhe os ombros com o braço. - Você fez o que podia.

Era estranho como lhe era agradável aninhar-se contra ele, pensou Lavinia. Tobias era um homem extremamente difícil, mas, em certas ocasiões, a sua força, sólida e inabalável, tinha, decisivamente, um efeito relaxante nos nervos dela. E ele não a culpava pelo que acontecera.

- Eu não devia ter permitido que o breve relance de Pelling me abalasse tanto - disse ela pouco depois. - É perfeitamente natural que um cavalheiro rico e de posição venha à capital fazer compras e, possivel mente, tratar de negócios.

- Sem dúvida.

- E tão-pouco é estranho que o tenha visto em Pall Mall. Afinal de contas, Londres é, em muitos aspectos, uma aldeia, especialmente quando se trata de compras.

- Não foi a surpresa de ver uma cara conhecida que a abalou - disse Tobias: - Foi o facto de que, ao avistar Pelling, lhe veio à memória o incidente que pôs fim à sua carreira de mesmerista.

- Em parte. - Mas foi, principalmente, acrescentou Lavinia mentalmente, porque senti que lhe tinha de contar tudo. Foi por isso que tive de parar para tomar uma chávena de chá. Foi por isso que cheguei tarde. Eu não queria confrontá-lo com esta história.

Mas estava feito. A verdade viera ao de cima e Tobias não a culpava. Na verdade, ele pintava-a como a heroína do drama. Espantoso.

- Agora tem uma nova profissão, Lavinia - disse ele animosamente. O que lhe aconteceu no passado já não interessa.

Ela descontraiu-se um pouco mais, saboreando o calor do corpo dele. Pouco depois, ele apoiou a cabeça dela no côncavo do braço e aproximou a boca da dela.

- Está um bocado frio aqui, para esse género de coisas - ciciou ela contra os lábios dele.

- Eu aqueço-a - prometeu ele.

 

O pequeno grupo de jovens galanteadores ansiosos que rodearam Emeline nas escadarias do instituto indispuseram Anthony. Todos eles declaravam o seu grande interesse em comentarem a palestra a que acabavam de assistir, mas Anthony suspeitava que a maioria deles eram movidos por outros motivos. Emeline, todavia, parecia alheia a essa possibilidade, pois estava toda entregue a expor a sua opinião sobre o assunto.

- Duvido que Mr. Lexington tenha estado muito tempo em Itália - afirmava ela -, pois fez-nos uma fraca descrição das fontes e dos monumentos romanos. Acontece que eu tive a oportunidade de passar algum tempo com a minha tia em Roma, recentemente, e...

- Isso explica, sem dúvida, o seu apurado bom gosto - declarou ferventemente um dos jovens cavalheiros. - Acho esse seu vestido de um belo e invulgar tom de âmbar. Da cor do céu ao Sol-pôr. Apenas ultrapassada, Miss Emeline, pelo brilho irradiante dos seus olhos.

Houve murmúrios de concordância.

Emeline não se emocionou.

- Obrigada, caro senhor. Ora, como dizia, eu e a minha tia tivemos a oportunidade de permanecer em Roma alguns meses e, posso afiançar-vos, Mr. Lexington não faz jus ao tema da sua palestra, falhando redondamente em transmitir uma noção correcta da verdadeira elegância dos monumentos ali erguidos. Acontece que, enquanto estive em Itália, fiz alguns esboços e alguns desenhos...

- Gostava muito de ver os seus esboços, Miss Emeline - disse uma voz no meio do grupo.

- Eu também, Miss Emeline.

- Nenhum monumento, por mais espectacular que seja, se pode comparar à sua elegância, Miss Emeline - disse outra voz.

Já bastava, pensou Anthony. Fez um gesto notório de retirar o relógio do bolso.

- Lamento ter de a interromper, Miss Emeline, mas está a ficar tarde. Prometi à sua tia que a levaria de volta a casa antes das cinco. Temos de nos apressar.

- Sim, sim - disse Emeline, dirigindo um sorriso encantador ao pequeno grupo. - Mr. Sinclair tem toda a razão, temos de nos ir embora. Mas gostei muito da nossa conversa.

- Fascinado, Miss Emeline - disse-lhe, com uma vénia, um jovem envergando um casaco de corte tão apertado que Anthony se perguntou como é que ele moveria os braços. - Garanto-lhe que fiquei absolutamente encantado com o tema e com os seus comentários.

- Trespassado - afirmou outro.

Isto deu origem a uma acalorada competição, em que cada um dos jovens tentava convencer Emeline de que os seus interesses intelectuais eram mais refinados do que os de qualquer outro do grupo.

Era tudo o que Anthony podia fazer para evitar ranger os dentes: agarrou no braço de Emeline e levou-a escadaria abaixo. Um coro de despedidas seguiu-os.

- Não me apercebi de que tínhamos tão pouco tempo - murmurou

Emeline.

- Não se preocupe - disse Anthony. - Chegaremos a sua casa antes da sua tia começar a ferver.

- O que é que achou da palestra de Mr. Lexington? - perguntou ela. Anthony hesitou e, depois, encolheu os ombros.

- Para ser sincero, achei-a muito maçadora.

Emeline soltou a sua alegre risada.

- Quanto a isso, estamos de acordo. Sem embargo, diverti-me bastante esta tarde.

- Também eu.

E ter-se-ia divertido muito mais, pensou Anthony, se não tivesse

tido que romper por um bando de janotas na sala da palestra. Tinha certeza de que não era o interesse pelas fontes e pelos monumentos romanos o que os levara ali. Era Emeline. Ela transformara-se, ultimamente, numa espécie de jovem na moda, depois de uma série de bem sucedidas presenças nos mais brilhantes salões de baile da capital.      

Anthony estava bem ciente de que o facto de Emeline não dispor de uma herança, nem provir de uma grande família, não lhe ia permitir manter-se nos círculos da alta sociedade por muito tempo, apesar dos esquemas de Lavinia. Além disso, as prudentes mamãs em busca de noivas convenientes, tudo fariam para que os filhos não olhassem demasiado a sério para os lados de Emeline.

Infelizmente, isso não evitava que muitos dos rebentos da alta sociedade não se sentissem atraídos por um adorável e invulgar exemplar. Nem que isso impedisse os libertinos e os debochados de tentarem seduzi-la, como uma forma de desporto pervertido.

Anthony nomeara-se a si próprio guardião de Emeline e considerava seu dever protegê-la de atenções indesejáveis. Porém, o que o mais preocupava ultimamente era que ela decidisse ligar a alguma dessas atenções.

Tudo seria muito mais simples se se encontrasse em posição de lhe declarar o seu afecto e de lhe propor casamento. Mas o problema era que ele não se encontrava em condições de lhe proporcionar o estilo de vida que ela merecia alcançar.

Tinha, ultimamente, dedicado muito tempo a ponderar os seus pro blemas e a encarar várias soluções possíveis. Tudo ia dar ao mesmo ponto: tinha da arranjar maneira de ganhar a vida, a um nível decente, e tinha de o fazer rapidamente, antes que um dos jovens que assediavam Emeline desafiasse os pais e a convencesse a fugir com ele.

A caminhada de regresso à pequena casa de Claremont Lane foi rápida, não só porque a tarde estava a chegar ao fim, mas também porque ameaçava chover.

- O que é que se passa? - perguntou Emeline, quando chegaram ao pequeno parque e dobraram a esquina. - Sente-se doente?

A pergunta sobressaltou-o, interrompendo-lhe a cogitação. Irritava-o que ela pensasse que estava doente.

- Não, não estou doente. Estava a pensar.

- Ah, bom. Pela sua cara cheguei a pensar que o sorvete que comemos lhe caíra mal.

- Garanto-lhe, Emeline, que estou de excelente saúde.

- Estava apenas preocupada.

- Emeline, a sua tia quer que goze outra temporada antes de pensar em aceitar uma oferta de casamento...

- O que é que o casamento tem a ver com isto?

Anthony censurou-se a si próprio.

- É muito possível que um daqueles... daqueles cavalheiros que a rodearam hoje, depois da palestra, se disponha a pedir-lhe a mão.

- Oh, duvido disso. Nenhuma das suas mamãs, ou papás, aprovaria isso. Todos eles podem olhar para muito mais alto no que respeita a esposas e, estou certa, é isso precisamente o que farão, quando chegar a altura.

- É frequente ouvir-se falar de jovens estouvados que... que fogem com as amadas que os pais não consideravam convenientes - disse Anthony sombriamente.

- Como fazem os cavalheiros nos livros de poesia que a minha tia Lavinia gosta tanto de ler? - perguntou Emeline a rir. - Isso é muito romântico, mas eu duvido muito que seja do género capaz de inspirar um casamento secreto.

- Antes pelo contrário, é precisamente desse género, Emeline. Anthony deteve-se de repente e voltou-se para a encarar. - Deve ter muito cuidado, Emeline. Nunca se sabe se não lhe vai aparecer um libertino a bater-lhe à janela do quarto, no meio da noite, a implorar-lhe a meter-se com ele na carruagem que os aguarda na rua.

Exactamente como, pensou ele, já tinha imaginado ele próprio fazer em dias de fantasias mais exaltadas.

- Um casamento em Gretna Green? - exclamou Emeline, os olhos muito abertos. - Isso é absurdo. Não consigo imaginar nenhum daqueles cavalheiros com a coragem de fazer algo tão emocionante.

Anthony sentiu o estômago contrair-se.

- Não me diga que era capaz de achar excitante fugir com um daqueles janotas de cabeça oca?

- Era, sim.

O sangue de Anthony ficou gelado. Depois, Emeline acrescentou,

com um sorriso:

- Coisa absolutamente impossível de acontecer, claro.

- Impossível - repetiu Anthony, agarrando-se à palavra impossível.

- Sim, sim.

Contudo, não era coisa impossível e ele bem o sabia. Que ele soubesse, tinha acontecido pelo menos uma vez na última temporada e ia, sem dúvida, acontecer na presente temporada. Mais cedo ou mais tarde, um par de jovens, a quem impediam de casar, ia fugir para Gretna Green no meio da noite. Se os furiosos papás não os agarrassem antes de realizado o acto, o par de jovens regressava como um casal de recém-casados. Os pais eram obrigados a aceitarem o facto consumado. E a alta sociedade tinha mais um tema de saborosa tagarelice à hora do chá.

Se tivesse uns gramas de bom senso ficaria calado, pensou Anthony mas, em vez disso, aclarou a voz e perguntou, com todo o cuidado:

- Por que é que diz que é impossivel que fuja para casar secretamente com um daqueles jovens cavalheiros?

- Obviamente, porque não estou apaixonada por nenhum deles - disse ela, olhando para o pequeno relógio pregado na peliça. - Vamos embora, Anthony, temos de nos apressar, se não queremos apanhar chuva. A tia Lavinia ia ter um ataque, se eu apanhasse uma molha com este vestido.

Ela não estava apaixonada por nenhum deles.

Isso não queria dizer, pensou, que o amasse a ele, mas, ao menos, não tinha uma terna afeição por mais ninguém.

Anthony recuperou miraculosamente a confiança.

- Tenha calma, Emeline - disse ele, sorrindo. - Uma senhora, capaz de aceitar Tobias como sócio, dificilmente vai desmaiar perante um vestido estragado.

Emeline riu-se.

- Eu não sei quanto dinheiro a minha tia Lavinia coloca nos vesti dos de Madame Francesca, mas sei que os considera um investimento.

Infelizmente, ele sabia bem por que é que Lavinia investia tanto nos vestidos da modista mais exclusiva e mais refinada da capital, pen sou Anthony. Era porque sonhava casar Emeline na alta sociedade.

A meio caminho de Claremont Lane, Anthony viu Tobias e Lavinia a subirem as escadas da frente do número 7.

- Parece que, hoje, não somos os únicos a chegar tarde a casa - disse Emeline em tom bem-humorado. - A tia Lavinia e Mr. March devem ter ido fazer um pouco de exercício.

Anthony observou Tobias, encostado ao gradeamento, enquanto esperava que Lavinia retirasse a chave da bolsa. Mesmo àquela distância, conseguia distinguir o ar de profunda satisfação do cunhado. Tobias parecia uma grande fera, a descansar depois de uma caçada bem sucedida.

- Um exercício bem puxado, diria eu - murmurou Anthony.

- O que é que disse? - perguntou Emeline com ar curioso. Afortunadamente para ele, não teve de explicar o comentário, pois, naquele momento, Tobias voltou a cabeça e viu-os a encaminharem-se para a casa.

- Boa-tarde, Miss Emeline - disse Tobias, baixando a cabeça. - Que tal foi a palestra?

- Não tão interessante como era de esperar, mas eu e Anthony passámos uma tarde muito agradável - disse Emeline, com à-vontade.

Mrs. Chilton abriu a porta justamente quando Lavinia encontrou a chave.

- Não quer entrar e tomar um chá? - perguntou Lavinia a Anthony.

- Não, muito obrigado - agradeceu Anthony, olhando depois para Tobias. - Quero falar contigo, se não te importas.

Tobias ergueu um sobrolho e afastou-se do gradeamento, endireitando-se.

- Isso não pode esperar?

- Receio bem que não, trata-se de um assunto muito importante.

- Muito bem. Nesse caso, podemos discutir isso a caminho do meu clube. - Tobias voltou-se para Lavinia. - Desejo- lhe muito boa tarde, minha senhora.

- Boa-tarde, caro senhor.

Anthony ficou em certa medida surpreendido pelo tom brando e incaracterístico da despedida dela, mas Tobias não mostrou nenhuma estranheza.

Tobias e Anthony esperaram que as senhoras entrassem em casa, dirigindo-se, depois, para a esquina, em busca de um trem. Conseguiram arranjar um sem dificuldade e para ele subiram. Tobias sentou-se num dos assentos e dirigiu a Anthony um olhar perscrutador.

- Há algum problema? Estás com o ar de alguém que tivesse engolido um remédio muito desagradável.

Era a segunda vez na última hora que alguém assumia que ele estava doente, recordou Anthony. Era irritante.  

- Preciso de arranjar uma fortuna - anunciou ele.

- Não é aquilo de que todos precisamos? - disse Tobias, estendendo a perna esquerda. - Se encontrares alguma, avisa-me. Terei muito gosto em partilhá-la contigo.

- Estou a falar a sério. Tenho de arranjar uma soma de dinheiro que me permita manter uma esposa num estilo de vida adequado.

- Rasparta! - exclamou Tobias, os olhos postos nos dele. - Estás apaixonado por Miss Emeline, não estás?

- Sim.

- Raio de azar. Era o que eu temia. Já te declaraste a ela? - Claro que não. Não me encontro em condições de fazê-lo, já que não a posso pedir em casamento.          

Tobias baixou a cabeça em resignada compreensão.

- Porque não tens fortuna.

Anthony tamborilava com os dedos no caixilho da janela.    

- Tenho andado a pensar muito no assunto.        

- Deus nos livre dos jovens que pensam demais.         

- E estou muito determinado a este respeito.        

- Sim, estou a ver. Calculo que já imaginaste um plano para adquirires essa fortuna de que dizes precisar.    

- Eu tenho boa cabeça para as cartas. Com um bocado de prática.       

- Não.

- Concedo que nunca joguei a dinheiro, porque tu sempre te opuseste a isso, mas acredito que me aguento bem a uma mesa de jogo a valer.

- Não.

- Escuta bem - Anthony inclinou-se para a frente, todo entregue a frisar as suas razões. - A grande maioria dos jogadores não encara o jogo de uma maneira racional. Na verdade, geralmente eles sentam- se a uma mesa de jogo depois de bem bebidos, por isso não admira que muitos cavalheiros tenham perdas pesadas. Eu, porém, tenciono encarar o jogo como se de um problema de matemática se tratasse.

- A tua irmã voltaria a este mundo para me assombrar, se eu permitisse que tu entrasses numa casa de jogo. Tu sabes, tão bem como eu, que o grande medo dela era que te tornasses um jogador.

- Eu sei que Ann tinha medo que eu acabasse arruinado, como o nosso pai. Mas garanto-te, isso não iria acontecer.

- Raios do demónio, não era o facto de o teu pai ter perdido tudo o que possuía, por ser viciado no jogo, que preocupava tanto a tua irmã. Era o facto de ele ter sido morto numa discussão à mesa do jogo, quando tentava recuperar as perdas: É um modo de vida em que se perde sempre.

- Eu não sou o meu pai.

- Eu sei isso.

Anthony retesou-se. Ele bem receava aquele conflito, pois desde o momento em que delineara o seu esquema que lhe surgia diante dos olhos. A estratégia era complicada, mas disse para si próprio que tinha de a manter.

- Eu não quero discutir contigo a este respeito - disse Anthony. Sabemos ambos que tu não me podes impedir. Eu já não sou nenhuma criança. Sou eu que tenho de decídir o rumo da minha vida.

Os olhos de Tobias ensombraram-se, ficaram da cor de uma tempestade no mar. Durante os anos em que vivera com aquele homem, que tinha sido para ele mais como um pai do que o próprio pai dele, pensou Anthony, raramente lhe tinha visto no olhar aquela fria e implacável ameaça. Um frio gelado percorreu-lhe o corpo.

- Que isto fique bem claro - disse Tobias no seu mais brando e mais ameaçador tom de voz -, se insistires em tornar-te um jogador, vais ver que eu me torno um demónio. Tu julgas que eu não te posso impedir, mas podes ficar com a certeza de que me vais encontrar sempre no teu caminho. Eu tenho uma obrigação para com a memória de Ann. Não penses que me vou esquecer da promessa que lhe fiz.

Sabia que aquilo ia ser difícil, recordou Anthony, inspirando fundo e endireitando os ombros.

- Eu não quero, de modo nenhum, entrar em conflito contigo por causa disto - disse ele. - Sabes perfeitamente como eu te respeito e como respeito a tua lealdade à promessa que fizeste à minha irmã. Só que me sinto desesperado e não vejo muitas opções para o meu problema.

Em vez de se lançar noutra prelecção, Tobias desviou a atenção para a rua a escurecer, caído num profundo silêncio meditabundo.

Anthony aguentou enquanto pôde, ensaiando, depois, uma tentativa de aliviar o pesado ambiente no interior do trem.

- Tobias? Estás a pensar em deixares de me falar? - disse ele, forçando um sorriso. - Isso não parece teu. Esperava algo mais convincente. Algo como cortares-me a mesada, por exemplo.

- Eu disse-te há pouco que não és o único a desejar possuir uma fortuna.

Anthony regozijou-se com a súbita mudança de direcção da conversa.

- Pensei que estavas a brincar.

- Garanto-te que não estava a brincar.

A compreensão abalou Anthony, escaldante como sol de Verão.

- Santo Deus, isso é por causa de Mrs. Lake, não é? Estás a pensar pedi-la em casamento?

Tobias voltou a cabeça muito lentamente.

- Eu não estou em melhor posição de pedi-la em casamento do que tu estás de pedir a mão de Miss Emeline.

Não ia dispor de outra oportunidade tão boa, pensou Anthony. Era altura de mudar para a segunda fase do seu bem elaborado plano.

- Não concordo - disse ele mansamente. - Tu não te encontras numa situação desesperada como eu. Em boa verdade, eu invejo-te, pois não estás totalmente desprovido de recursos como eu. Tu recebes, de tempos a tempos, chorudos honorários dos teus clientes, pela actividade que desenvolves como investigador.

- A minha profissão é uma muito precária e imprevisível maneira de ganhar a vida e tu sabe-lo bem.

- Mrs. Dove pagou-te, certamente, uma interessante quantia, pelas investigações que fizeste para ela no caso dos assassínios das figuras de cera. Ganhaste o suficiente para investir num dos barcos de Crackenburne, não foi assim?

- Consegui, apenas, investir numa pequena quota desse empreendimento. Até que o navio regresse, não tenho maneira de saber se vale ou não a pena, nem em que medida. E isso só vai acontecer daqui a alguns meses.

- E, entretanto, tens de te aguentar e esperar que Mrs. Lake não perca a cabeça por algum cavalheiro que lhe possa assegurar um cómodo futuro como esposa - disse Anthony.

- Como vês, compreendo muito bem a tua situação. Anthony teve um ligeiro encolher de ombros.

- Se te serve de consolo, duvido muito que Mrs. Lake seja capaz de se casar por dinheiro.

Tobias ficou calado, voltando a olhar pela janela.

- Emeline auscultou a tia, para saber como é que ela encarava um casamento comigo - disse Anthony.

A informação despertou a atenção de Tobias.

- E o que é que Miss Emeline te contou?

- Ela tem quase a certeza de que, embora dê sempre muita importância ao dinheiro, Mrs. Lake possui um temperamento profundamente romântico.

- Lavinia? Romântica? Onde diabo foi Miss Emeline buscar essa ideia?

- Acho que foi o gosto de Mrs. Lake por poesia que lhe sugeriu a ideia.

Tobias reflectiu naquilo por momentos. Depois, abanou a cabeça.

- Não há dúvida nenhuma que Lavinia gosta muito de poesia, mas é por demais pragmática para permitir que isso a influencie nas decisões pessoais.

Anthony suspirou para dentro, pensando que o cunhado, embora possuindo um bom número de excelentes qualidades, não tinha paciência nenhuma para atitudes românticas ou sentimentais, nem nunca se preocupara em praticar a refinada arte de encantar as damas.

- Emeline tem a absoluta certeza de que, dado o seu temperamento romântico, Mrs. Lake nunca seria capaz de se casar sem amor - disse Anthony pacientemente - por mais financeiramente seguro que o casamento se apresentasse.

- Huum!

O ar melancólico de Tobias seria quase divertido noutras circunstâncias, pensou Anthony. Na verdade, porém, sentia muita pena do cunhado.

Tobias tinha tido algumas aventuras no passado, reflectiu Anthony, mas, desde que haviam perdido Ann e o bebé, há anos atrás, nunca dera pelo cunhado se interessar por uma mulher ao ponto de se ver naquele género de beco sem saída. O caso com Mrs. Lake era sério. Tobias precisava de uns conselhos seus.

Anthony aclarou a garganta.

- Vem-me à ideia que tu devias ter uma atitude um pouco mais romântica para com Mrs. Lake. Não posso deixar de notar que, por vezes, és demasiado brusco com ela.

- Isso é porque ela insiste em estar sempre a discutir comigo. Não conheço nenhuma mulher tão teimosa como ela.

- Eu acho que isso é porque ela não suporta ouvir-te dar ordens. A expressão de Tobias endureceu.

- Rasparta! Não esperes que eu me transforme numa imitação de Byron e seus epígonos. Por um lado, sou demasiado velho para me armar em poeta romântico e, por outro, não sou capaz de compor um verso.

- Eu não estou a sugerir que te tornes poeta, mas apenas que dês um jeito poético às tuas frases.

Tobias semicerrou os olhos.

- Como?

- Por exemplo, quando a cumprimentasses pela manhã, podias compará-la a uma deusa.

- A uma deusa? Tu estás doido?

- É apenas uma sugestão.

Tobias começou a massajar a perna esquerda, permanecendo em silêncio.

- Que deusa? - perguntou por fim.

- Bom, bate sempre certo comparar uma senhora a Vénus.

- Vénus? Isso é uma perfeita tolice. Lavinia ia rir-se de mim.

- Acho que não - disse Anthony mansamente. - Acho que nenhuma mulher se ri ao ver-se comparada a Vénus.        

Por ora tinha feito o que podia, pensou Anthony. Era altura de mudar o tema da conversa para um tópico mais premente.     - Se eu conseguisse arranjar a quantia necessária, talvez Crackenburne me cedesse, também, uma quota num dos seus empreendimentos marítimos.

- Não é a jogar às cartas nesses clubes de má fama em que há louca procura ganhar fortunas que vais arranjar o dinheiro para isso - disse Tobias. - Por alguma razão lhes chamam infernos.

As sombras alongavam-se no interior do trem. Tobias continuou a prelecção que iniciara.     

- Disse-te já, várias vezes, que podias fazer uma excelente carreira como contabilista. Tens uma boa cabeça para os números e Crackenburn teria muito gosto em recomendar-te a um dos seus amigos.        

- Não gosto dessa profissão.      

Fez-se um silêncio.

- Tenho outra sugestão - disse Anthony. Tinha que ter toda a cautela, agora que se aproximava do seu verdadeiro objectivo.

Tobias estava atento.

- Qual é?

- Podias empregar-me como teu assistente.

- Tu já cumpres essa missão ocasionalmente.

- Mas de um modo muito informal. - Anthony estava junto da sua finalidade, uma ideia que lhe fervilhara no espírito toda a tarde. - Eu refiro-me a assumir uma posição de assistente oficial. Uma espécie de homem para todo o seu serviço. Entretanto, tu vais-me ensinando as técnicas subtis de colher informações e de conduzir investigações.

- E o que é que esperas ganhar com isso?

- Um estipêndio.

- Em vez de uma mesada, queres tu dizer? - perguntou Tobias secamente.

- Exactamente. E gratificações adicionais viriam sempre a calhar.

- Claro. Uma gratificação vem sempre a calhar, é o que eu digo. Anthony inspirou fundo.

- Vais, ao menos, dignar-te pensar na minha proposta? Tobias mirou-o nos olhos.

- Estás a falar a sério, não estás?

- Muito a sério. Eu acho, até, que tenho faro para a profissão.

- Eu não estou muito certo de que exista tal coisa como faro" neste tipo de trabalho - disse Tobias. - Segundo a minha experiência, as pessoas metem-se nesta profissão quando outras alternativas mais res peitáveis não produzem um rendimento suficiente para as afastar do asilo. É quase o mesmo que ser meretriz.

 

Emeline olhou para Lavinia, do outro lado da mesa do pequeno- almoço.

- Tem a certeza de que essa história de ver Oscar Pelling ontem não a perturbou demasiado?

- Admito que fiquei um pouco sobressaltada ao vê-lo - disse Lavinia, abrindo o jornal - mas recuperei muito bem, obrigada.

Obrigada pelo facto de já não ter de esconder de Tobias o seu som brio segredo, acrescentou mentalmente.

- É o que faz sempre.

- Faço sempre o quê?

Emeline sorriu.

- Recuperar muito bem. Na verdade, a tia tem um grande talento para se manter de pé.

- Bem, talvez, mas uma pessoa não tem outra alternativa, não é? - La vinia bebeu um gole de café. - E, como te disse, era provável que, mais cedo ou mais tarde, eu viesse a encontrar Pelling aqui em Londres. Mesmo os cavalheiros que preferem viver nas suas propriedades, como Pelling, têm de vir à capital de vez em quando, para tratar de negócios. Ao menos, ele parece não ter dado por mim.

- Espero bem que sim - disse Emeline com uma careta. - Que homem horrível! Faço votos para que ele regresse rapidamente às suas propriedades.

- Tenho a certeza que sim. Ele não era muito dado aos prazeres da sociedade, pelo que me lembro - disse Lavinia, voltando uma página do jornal. E, de qualquer modo, quem é que ia preocupar-se com Pelling, agora que Tobias sabia a verdade e não lhe deitava culpas? A vida parecia realmente muito mais clara e brilhante, naquela manhã.

Emeline serviu-se de um pouco de compota, de um frasco colocado no meio da mesa.

- Eu queria falar consigo, se estivesse disposta a ouvir- me. - Tu estás a falar comigo.

- Sim, mas quero falar consigo de uma coisa importante. Eu tenho andado a pensar na minha carreira.

- Qual carreira? Tu não tens nenhuma carreira.

Lavinia não ergueu os olhos do jornal. Ela tinha uma folha de papel e um lápis ao lado da chávena de café. Depois de muito matutar, chegara à conclusão de que, antes de redigir um anúncio para os jornais, era melhor estudar bem o assunto. Para isso, decidira fazer uma lista das palavras e frases particularmente eficazes dos anúncios mais atractivos. A ideia era elaborar um vocabulário apelativo, para utilizar nas notícias que eventualmente redigisse para publicitar os seus serviços como investigadora.         

os anúncios do jornal, naquele dia, eram de muito variada índole.         

A maioria eram pouco interessantes, na opinião de Lavinia. Havia anúncios de quartos para alugar, com uma agradável vista do parque, e outro avisando os cavalheiros de bom-tom da chegada de superior tecido de algodão para confeccionar camisas que evitam a transpiração abundante.

Mas, de todos, o anúncio mais interessante era o de um tal dr. G. A. Darfield, o qual oferecia tratamentos para viúvas e senhoras casadas que sofram de nervos delicados e histeria feminina, prometendo remédios singularmente eficazes e particularmente adequados à constituição feminina.    

- É precisamente esse o meu problema - disse Emeline. - Não tenho uma carreira.

- Claro que não. - Lavinia atentou no anúncio que oferecia tratamento da histeria feminina. - O que é que achas da frase remédios singularmente eficazes?

- Parece-me demasiado medicinal. Tia Lavinia, não está a ouvir

nada do que lhe digo. Eu estou a querer falar do meu futuro. - Qual é o problema com o teu futuro? - disse Lavinia, pegando no lápis e anotando as palavras singularmente e eficazes. - Eu pensava que estava tudo a correr bastante bem. Graças a Joan Dove, recebemos convites para dois dos mais importantes eventos sociais da temporada, o baile Stillwater e o que a própria Joan está a organizar. O que me traz à lembrança que temos provas marcadas para os teus vestidos com Madame Francesca.

- Sim, eu sei. Mas eu não quero falar de vestidos e de modas. - Emeline fez uma pausa. - Pretendo exercer uma profissão.   

- Tolice - Lavinia atentou num anúncio de chapéus de senhora. Uma excelente selecção para senhoras distintas que se interessam apenas pelos chapéus de grande estilo. - Nenhum cavalheiro deseja uma mulher que exerça uma profissão. Achas que eu posso dizer que os meus serviços são de grande estilo?

- Não vejo bem como se possa considerar de grande estilo a prestação de serviços de investigações confidenciais.

- Pelo contrário. É óbvio que, se uma pessoa quiser atrair uma boa clientela, tem de apresentar os seus serviços como de grande estilo, sejam quais forem os serviços que ofereça. Nenhum membro da alta sociedade suporta a ideia de ser servido senão em grande estilo.

- Tia Lavinia, eu não tenciono casar com nenhum cavalheiro da alta sociedade. Na verdade, não consigo imaginar destino mais atroz.

Lavinia tomou nota das palavras grande estilo.

- Não pretendes, certamente, casar com um lavrador. Segundo me lembro, nenhuma de nós gosta muito da ruralidade.

- Também não tenho nenhuma intenção de me casar com um lavrador. Decidi que gostava de ser sua associada.

- O que é que queres dizer com isso? Tu já és minha associada. Na verdade, associamo-nos quotidianamente. O que é que achas da frase dispositivos eficazes para cavalheiros dedicados à sedução, fornecidos confidencial e discretamente. Isto soa a coisas interessantes, não achas?

- Sim - concordou Emeline delicadamente. - Mas não faço ideia nenhuma do que se trata.

- Nem eu - Lavinia franziu os lábios. - Isso coloca-nos um pequeno problema, não há dúvida. Talvez se eu alterasse ligeiramente... - O som abafado da porta da frente a abrir-se interrompeu-a. - Parece que temos uma visita matinal. Como é muito cedo para uma visita de cortesia, talvez seja um novo cliente.

- O mais provável é que seja Mr. March - disse Emeline, servindo-se de outra torrada. - Tenho notado que ele já não se preocupa muito com formalidades, quando deseja falar consigo.

- Ele nunca se preocupou muito com isso - disse Lavinia, baixando o tom de voz. - Se te recordas, quando o conhecemos estava ele a esca queirar afanosamente as estatuetas da nossa loja, em Roma. E, em minha opinião, as suas maneiras não melhoraram muito, desde esse primeiro encontro.

Emeline sorriu e deu uma pequena dentada na torrada. Lavinia escutou atentamente o som dos passos no hall.

- Esta é a segunda vez esta semana que ele nos visita ao pequeno- almoço.

Os olhos de Emeline iluminaram-se.

- Talvez Anthony venha com ele.

- Não se incomode muito, Mrs. Chilton - soou a voz de Tobias, através da porta da salinha do pequeno-almoço. - Alguns ovos e as suas excelentes batatas fritas bastam perfeitamente.

Apesar da sua irritação, Lavinia pôs-se a atentar, como sempre fazia, no ligeiro arrastar do andar dele, ao aproximar-se. Uma parte dela descontraiu-se, ao notar que ele não parecia estar a forçar demasiado a perna esquerda, naquela manhã. Aquilo devia-se, sem dúvida, ao facto da manhã se apresentar clara. Lavinia sabia que a ferida lhe doía mais quando chovia, ou quando uma névoa húmida cobria a cidade.

Tobias apareceu à porta e parou.

- Muito bom dia, minhas senhoras.

- Mr. March - disse Emeline, rejubilante. - É um prazer vê-lo. Mr. Sinclair veio consigo?

- Não, Miss Emeline. Ele queria vir comigo, mas encarreguei-o de uma missão - respondeu Tobias, olhando para Lavinia, um brilho de determinação no olhar. - Devo dizer-lhe, minha senhora, que a acho amorosa, esta manhã. Uma verdadeira incarnação de Vénus a sair das águas do mar. Na verdade, a sua imagem, brilhando na claridade da manhã, anima o meu espírito, clarifica o meu pensamento e induz-me à contemplação metafísica.

- Incarnação de Vénus? - Lavinia fez uma pausa, a chávena a meio caminho da boca, a testa franzida de preocupação. - Não estará doente, Tobias? Hoje não soa a si próprio.

- Eu estou de perfeita saúde, muito obrigado. Ainda há café? - perguntou ele, olhando, com um olhar expectante, para a cafeteira.

Emeline apressou-se a responder, antes que Lavinia se pusesse a implicar mais com a insólita saudação dele.

- Claro que há, Mr. March - disse Emeline, pegando na cafeteira. Terei muito prazer em servi-lo. Talvez Mr. Sinclair nos apareça, depois de cumprir a missão de que o encarregou?

- Duvido muito. Ele vai ficar ocupado a maior parte do dia - disse Tobias sem mais explicações, sentando-se e servindo-se da última torrada.   

Emeline serviu-lhe o café.  

- Mr. Sinclair não me disse que tinha planos para hoje.

- Possivelmente porque não sabia que ia ter que fazer, até lhe vir à ideia trabalhar como meu assistente.

Emeline ergueu o olhar num repente e pousou a cafeteira compequeno baque.

- Seu assistente?

Tobias encolheu os ombros e estendeu o braço para a manteiga e para o frasco da compota.

- Ele disse-me que quer seguir a carreira de investigador. E quer que eu o ensine.

Emeline estava atónita.

- Mas isso é espantoso!

- Pessoalmente, acho que é muito frustrante - disse Tobias, acabando de cobrir a torrada com manteiga e compota e dando-lhe uma boa dentada. - Como sabem, eu tenho insistido com ele para seguir uma profissão mais estável. Eu queria que ele viesse a ser um bom contabilista, mas, segundo Anthony, a única outra profissão que lhe interessa é ser jogador profissional.

- Que coincidência! - exclamou Emeline.

Tobias olhou para ela com fria desconfiança.

- Espero, Miss Emeline, que não me vá dizer que também está inclinada nessa direcção.

- Eu não tenho interesse nenhum, claro, em ser uma jogadora disse Emeline, lançando um olhar rápido a Lavinia e limpando, delicadamente, a garganta - mas eu estava, justamente, a dizer à minha tia que estava decidida a seguir uma carreira e que gostava de começar, imediatamente, a preparar-me para a minha profissão.

- E eu estava, justamente, a dizer-lhe que não deve, sequer, pen sar nisso - disse Lavinia, dobrando o jornal. - O calendário social dela está cheio. Ela não tem tempo para se dedicar ao estudo de uma profissão.

- Isso não é verdade - disse Emeline. - Eu tenciono seguir os seus passos, tia Lavinia.

Houve um pequeno, mas extremamente pesado silêncio. Por fim, Lavinia apercebeu-se de que ficara de boca aberta, de uma maneira nada atraente, e apressou-se a fechá-la.

- Isso é ridículo - disse ela.

- Eu quero ser sua assistente, como Anthony é de Mr. March. Lavinia olhou para ela, hirta na cadeira, pelo verdadeiro horror do que ouvira.

- Ridículo - disse ela outra vez. - Os teus pais ficariam chocados, perante a simples ideia da sua querida filha ingressar numa profissão.

- Os meus pais morreram, tia Lavinia. Os seus sentimentos a respeito da matéria não são para aqui chamados.

- Mas tu sabes perfeitamente o que eles pensariam. Quando tomei conta de ti, eu assumi a responsabilidade de te estabelecer no mundo como eles desejariam. Uma senhora não se mete neste género de profissão.

Emeline sorriu.

- A tia está nessa profissão e eu considero-a uma senhora - e, voltando-se para Tobias: - Não considera a minha tia uma senhora, meu caro senhor?

- Absolutamente - disse Tobias de imediato. - Desafio qualquer um que diga o contrário.

Lavinia voltou-se para ele.

- Isto é tudo culpa sua, caro senhor. Foi o senhor que meteu esta ideia louca na cabeça de Emeline, como na de Anthony.

- Receio bem que não possa culpar Mr. March a este respeito - disse Emeline.

Tobias engoliu o resto da torrada e estendeu as mãos, palmas para cima.

- Afianço-lhe que não dei a nenhum deles nenhum género de encorajamento.

Emeline sorriu por cima da borda da chávena de café.

- Se quer culpar alguém, culpe-se a si própria, tia Lavinia. A tia tem sido a minha principal fonte de inspiração desde que vim viver consigo.

- Eu... - Lavinia ficou, pela segunda vez, momentaneamente sem voz, perguntando-se se não iria desmaiar. Nunca sofrera, na realidade, um desmaio, mas aquela sensação de medo sufocante era, certamente, o prelúdio de uma síncope.  

- De facto - continuou Emeline firmemente -, sempre me impressionou a sua surpreendente capacidade para recuperar dos mais devastadores revezes da fortuna, revezes que esmagariam muita gente, homem ou mulher. Como, do mesmo modo, admiro a sua extraordinária persistência e inteligência.

- Para não falar - acrescentou Tobias - do seu engenho para angariar convites para alguns dos mais importantes e exclusivos eventos sociais da temporada. Não conheço mais ninguém, Lavinia, capaz de combinar uma investigação de assassínio com uma bem sucedida apresentação de um jovem na alta sociedade, como conseguiu levar a cabo há umas semanas atrás, minha cara senhora. Foi um feito verdadeiramente espantoso.

Lavinia apoiou os cotovelos na mesa e enterrou a cara nas mãos.

- Isto é um desastre.

- Emeline tem razão ao considerá-la um padrão e um modelo de comportamento feminino - disse Tobias, pegando na sua chávena de café. - De fácto, acho que ela não podia encontrar melhor exemplo para se inspirar.

Lavinia ergueu a cabeça e olhou para ele.  

- Por favor, deixe de implicar comigo, caro senhor, pois não estou com disposição para isso.

Antes que Tobias pudesse ripostar, Mrs. Chilton entrou na sala do pequeno-almoço, trazendo um prato bem servido.

- Aqui tem, meu senhor. Ovos e batatas fritas.

- Muito obrigado, Mrs. Chilton. Os seus talentos culinários são na verdade notáveis. Se alguma vez lhe passar pela cabeça deixar a sua actual patroa, espero que se disponha a aceitar uma situação em minha casa.

Mrs. Chilton pôs-se a rir.

- Duvido que isso venha a acontecer, caro senhor, mas agradeço- lhe a oferta. Deseja mais alguma coisa?

Tobias inclinou o frasco da compota para examinar o interior.

- Acho que estamos a acabar com a sua excelente compota de groselha, Mrs. Chilton. Afirmo que é de longe a melhor que alguma vez provei.

- Eu vou buscar mais.

Mrs. Chilton desapareceu pela porta que dava para a cozinha. Lavinia lançou a Tobias um olhar reprovador, mas ele não deu indi cação de ter notado, pois estava todo ocupado com os ovos e as batatas fritas.

- Agradeço-lhe que não se ponha a tentar roubar-me o pessoal disse ela.

Emeline soltou uma curta e dramática pequena exclamação e fingiu olhar alarmada para o relógio pregado no corpete.

- Oh, meu Deus, têm de me desculpar - disse ela, dobrando o guardanapo e erguendo-se ligeira. - Tenho de me ir vestir. Priscila e a mãe devem estar a chegar. Eu prometi acompanhá-las às compras, esta manhã.

- Emeline, espera - exclamou Lavinia rapidamente. - A respeito dessa ideia de uma carreira...

- Discutimos isso mais tarde - disse Emeline da porta, com um gracioso acenar da mão. - Tenho de me apressar. Não quero fazer esperar Lady Wortham.

E desapareceu pelo hall, antes de Lavinia poder ripostar. O silêncio pairou na salinha do pequeno-almoço.

Sem mais nenhum alvo, Lavinia voltou-se para Tobias, afastando o prato e cruzando os braços em cima da mesa.

- Essa história de Anthony querer seguir as suas pisadas meteu macaquinhos na cabeça de Emeline.

Tobias pousou a faca e o garfo e olhou para ela. A bonomia desaparecera-lhe dos olhos, notou Lavinia. Fora substituída por uma expressão muito mais séria, embora não desprovida de simpatia e de compreensão.

- Acredite ou não, eu compreendo as suas apreensões mais profundamente do que pode imaginar. Eu não estou mais interessado em que Anthony prossiga uma carreira de investigador do que a Lavinia está em relação a Emeline.

- O que é que vamos fazer para os dissuadir?

- Não faço a mínima ideia - disse Tobias, bebendo um pouco de café. - E estou a chegar rapidamente à conclusão de que, de qualquer modo, a questão não está nas nossas mãos. Nós podemos guiá-los, mas não podemos controlá-los.

- Isto é horrível. Absolutamente horrível. Ela vai estragar a vida toda, se não tiver cuidado.

- Vamos lá, Lavinia, não exagere. A situação pode não lhe agradar, mas não há razão para atitudes teatrais. Não é nenhuma tragédia.

- Na sua opinião talvez não, mas na minha é. Sempre sonhei em ver Emeline em segurança, numa casa dela, com um marido que a acarinhasse e que a pudesse manter num estilo de vida adequado. Nenhum cavalheiro da alta sociedade poderá jamais sequer pensar em casar com uma jovem que trabalhe nesta nossa actividade.         

Tobias observou-a com olhos enigmáticos.          

- Sonha com um casamento semelhante para si própria, minha senhora?

Lavinia ficou completamente estupefacta com aquela pergunta inesperada. Por momentos, ficou sem saber o que dizer.

- Claro que não - disse por fim, bruscamente. - Eu não tenho interesse nenhum em tornar a casar.

- É porque amou profundamente o seu marido que não consegue pensar na hipótese de um segundo casamento?

Um pânico estranho assaltou-a. Aquele era um assunto de conversa muito perigoso. Ela não queria sequer abordá-lo, pensou, pois, inevitavelmente, isso conduziria a dolorosas especulações acerca da profundidade

do amor de Tobias pela mulher que perdera ao dar à luz. Duvidava muito que alguma vez fosse capaz de competir com a recordação da linda e gentil Ann. Anthony descrevera a irmã como um anjo.

Seja eu o que for, pensou Lavinia, incluindo o chamado padrão do género de mulher que consegue viver pelos seus próprios recursos, não sou nenhum anjo.

- Na realidade, meu caro senhor - disse ela vivamente -, não estamos a falar das minhas opiniões acerca do casamento, mas do futuro de Emeline.

- E também do de Anthony. E Lavinia soltou um suspiro.

- Eu sei. Eles têm carinho um pelo outro, não é.

- Sim.

- Mas Emeline é tão jovem!

- Anthony também.

- Receio que nenhum deles saiba ver o que lhes vai no coração com a tenra idade que têm.

- Não devia ser mais velha do que Emeline, quando se casou. Sabia ver o que lhe ia no coração?

Lavinia endireitou-se na cadeira.

- Claro que sabia. Não teria casado com John se tivesse a mínima dúvida acerca dos meus sentimentos.

Ela sabia que, na altura, estava segura de si, mas, olhando para trás, sentia que os sentimentos que nutrira por John tinham sido os doces e pálidos sentimentos de uma jovem inocente e imbuída de romantismo. Se John não tivesse morrido, decerto o amor deles teria amadurecido e ter-se-ia tornado em algo mais forte, mais profundo e mais substancial. Perante o que se passara, porém, as recordações do seu gentil marido eram simples fragmentos, breves momentos que ela guardava numa caixinha cor-de-rosa, algures junto do coração.

A boca de Tobias arqueou-se num sorriso torcido.

- Está sempre segura das suas opiniões, seja qual for o assunto, não é assim, Lavinia?

- Eu tenho uma personalidade forte e decidida, caro senhor. Talvez isso se deva ao meu treino precoce como mesmerista.

- Mais provavelmente já nasceu com essa grande força de vontade. Lavinia semicerrou os olhos.

- Eu penso que o mesmo se pode dizer de si.

- Não é interessante descobrirmos o quanto temos em comum? - disse ele, prazenteiro.

 

Na tarde seguinte, Tobias saiu do clube e tirou o relógio do bolso para ver as horas. Eram apenas duas horas, não tinha pressa e estava um belo dia para passear.

Ignorou um trem que passou por ele e, com o à-vontade de uma longa familiaridade, meteu-se num emaranhado de ruas e travessas. O seu destino era a livraria onde combinara encontrar-se com Lavinia. Tencionava convidá-la para uma taça de sorvete e, se tivesse sorte, convencê-la a irem até às rúínas do parque, para uma tarde de amor ao sol primaveril.

Com este pensamento no espírito, lançou um olhar atento ao céu. O sol brilhava de facto, mas havia uma ligeira neblina no ar e ele previu nuvens a formarem-se à distância. Só esperava que a chuva se aguentasse sem cair, até ele ter terminado o interlúdio no parque com Lavinia. Duas semanas atrás, tinham sido interrompidos, no momento crucial, por um duche frio vindo do céu, o qual, de modo nenhum, melhorou a ambiência romântica.

A questão de encontrar um local apropriado para os encontros amorosos com Lavinia estava a tornar-se um grande transtorno, reflectiu Tobias. Um homem da sua idade não devia ter de andar a esconder-se num recanto remoto de um parque, ou de afadigar-se no interior de uma carruagem, para usufruir do prazer do afecto de uma senhora. Devia poder usufruir desse afecto numa cama adequada.

As camas, porém, eram muito difíceis de encontrar, quando uma pessoa se metia numa aventura amorosa.

Estava ele a um quarteirão da livraria, acarinhando a ideia de levar Lavinia, um dia ou dois, para uma estalagem no campo, quando uma figura, vestida de cor-de-rosa, saiu de uma loja de chapéus e quase colidiu com ele.

- Mr. March! - Celeste Hudson sorria alegremente para ele, por debaixo de uma encantadora confecção de chapéu de palha, em rosa pálido e intricadas fitas enlaçadas. - É um grande prazer tornar a vê-lo tão depressa.

- O prazer é meu, Mrs. Hudson - disse Tobias, agarrando-a pelo ombro, para a segurar. - O seu marido está por aqui?

- Claro que não, meu Deus. Howard não tem paciência para as compras.     

O riso dela era ligeiro, quase balbuciado. Quase o murmurar de um riacho, pensou Tobias. Soava, porém, a quebradiço, a falso, de tal modo que o fez pensar nas coloridas flores artificiais e nos espelhos das feiras que reflectem imagens distorcidas das pessoas. Sentiu-se profundamente grato por Lavinia nunca rir assim.     

- Também não posso dizer que seja um dos meus desportos favoritos - disse Tobias.

Celeste abriu o seu pequeno leque e olhou para Tobias por cima da borda do leque, de um modo sedutor que ele considerou ser produto de muita prática. Tobias notou que o leque estava pintado de uma forma estranha e surpreendente. Havia uma série de continhas brilhantes pregadas ao leque, as quais estavam dispostas num padrão intrigante que reflectia a luz e lhe atraía o olhar. O objecto parecia mais apropriado para um salão de baile do que para a rua, pensou ele. Mas ele não era, de modo nenhum, um perito em matéria de elegância feminina.

- Onde está Mrs. Lake? - perguntou Celeste em tom de voz gutural. - Ou está sozinho?

- Acontece que vou, justamente, encontrar-me com Mrs. Lake. - Tobias estava incomodado com a maneira como Celeste manipulava o leque.   

- Ela foi comprar um livro de poesia a uma livraria aqui perto.        

- De poesia? Interessante. Eu própria gosto muito desse género de literatura. - Celeste fez girar o leque num hábil movimento que fez incidir a luz do sol nos ornamentos brilhantes. - E tencionava, também, ir a uma livraria. Importa-se que eu o acompanhe, Mr. March.

- De modo nenhum.

Celeste enfiou os dedos enluvados por baixo do braço dele, com uma grácil perícia que Tobias não pôde deixar de admirar, e continuou a fazer dançar a luz no leque.

- Está um belo dia, não está? - murmurou ela.

- Mas não vai durar muito tempo.        

- Não seja pessimista, Mr. March.        

- Não se trata de pessimismo. - Era-lhe difícil evitar o raio do leque, descobriu ele, pois Celeste manejava-o de tal forma que não deixava de lhe atingir o olhar. Sentiu uma vontade enorme de arrancá-lo da mão dela e de o atirar para a sarjeta. - Trata-se da verificação de um facto.

Celeste inclinou a cabeça de tal jeito que o chapéu de palha rosa pálido lhe emoldurava de excelente maneira as bonitas feições.

- Concluo que o senhor é um homem que prefere olhar de frente as duras realidades da vida. Não é homem que se permita ter fantasias e sonhos.

- Fantasias e sonhos são para quem gosta de se iludir a si próprio.

- Eu discordo, meu caro senhor. - Celeste olhou para ele de novo por sobre a borda do leque, os olhos brilhantes e intrigantes como as con tinhas fulgurantes. - Há fantasias e sonhos que se tornam realidade. Mas só para quem se disponha a pagar um certo preço.

- Eu acho que o mais provável é que, depois de pagar o preço requerido, uma pessoa se veja com uma mão-cheia de bolhas brilhantes prontas a rebentarem e a desaparecerem.

Bolhas brilhantes muito parecidas com as contas brilhantes do leque, pensou ele.

Celeste sorriu para ele e, com um gesto rápido da mão, baixou o leque.

- Talvez o problema resida no facto de nunca ter tido a sorte de encontrar uma fantasia ou um sonho. Mas o meu conselho é que não julgue o valor dos produtos antes de ter a oportunidade de prová-los.

- Como não é provável que me ofereçam amostras grátis, duvido muito que venha a ter a oportunidade de formar algum juízo acerca dos produtos.

- Ah, mas aí é que está redondamente enganado. - Celeste riu-se e apertou ligeiramente o braço de Tobias, em tom íntimo. - Posso garantir- lhe que há muitas amostras grátis para receber, é preciso é escolher o lugar certo para fazer as compras.

- Como já lhe disse, não sou particularmente dado a compras.

O leque adejou na mão dela. As continhas relampejaram.

- Eu posso indicar-lhe onde pode encontrar excelentes amostras grátis, Mr. March - disse ela docemente. - E mais, posso garantir-lhe que, depois de provar os produtos, ficará completamente satisfeito.

Tobias fixou-lhe os olhos brilhantes.

- Importa-se de guardar esse raio desse leque, Mrs. Hudson? Acho-o irritante.

Ela pestanejou, nitidamente espantada. O leque ficou subitamente parado na mão dela. O convite e a garantia esvaneceram-se-lhe dos olhos.

- Com certeza, Mr. March - disse ela fechando o leque. - Desculpe, mas eu não fazia ideia que o leque o incomodava.

- Mrs. Hudson - exclamou Lavinia em alta voz, a meio do quarteirão. - Que grande surpresa! Imagine-se, vir encontrá-la aqui com Mr. March, no meio da rua.

Tobias sorriu, ao ouvir a voz dela. Era um verdadeiro e estimulante tónico, um antídoto potente perante a doçura enjoativa de Celeste.

Observou Lavinia a encaminhar-se para eles, um pequeno embrulho numa das mãos, sem dúvida o recentemente adquirido volume de poesia,na outra um petulante chapéu de sol, às riscas verdes e brancas. Envergava um vestido verde esmeralda e uma capa de riscas verdes.

Outra das criações de Madame Francesca, pensou ele. Os tons de pedra preciosa faziam realçar o cabelo ruivo de Lavinia, o qual se encontrava preso no alto da cabeça, sob um elegante chapelinho verde.

Lavinia parou em frente dele e dirigiu- lhe um olhar de aço.

- Chegou atrasado - disse ela.

Lavinia não estava de bom humor, reconheceu Tobias. Por trás do véu vaporoso, os olhos dela brilhavam com um perigoso fulgor.

- A culpa é minha, acho eu - murmurou Celeste, mantendo a mão no braço de Tobias. - Nós embatemos um no outro aqui na rua e pusemo-nos a tagarelar. Espero que me perdoe por ter distraído o seu Mr. March um minuto ou dois.

- Pelo que sei, Mr. March raramente se deixa distrair, a menos que deseje ser distraído - disse Lavinia, lançando a Tobias outro sorriso gelado. - Presumo, daí, que o assunto da conversa devia ser fascinante.

- Devo dizer-lhe que falávamos do prazer de ir às compras - disse Tobias, libertando o braço da elegante mãozinha de Celeste, com gesto brando, mas decidido.

- Ir às compras? - exclamou Lavinia, erguendo as sobrancelhas. Se bem me lembro, não é nenhuma das suas predilecções. - E, depois, voltando-se para Celeste: - Por falar em compras, Mrs. Hudson, eu reparei no seu leque, quando o tinha aberto. É um leque muito invulgar. Quer dizer-me onde é que o comprou? Gostava de comprar um semelhante.

- Receio bem que seja impossível - disse Celeste, metendo o leque na bolsa -, pois este fui eu que o fiz.

- Não me diga! - exclamou Lavinia, os olhos muito abertos de admiração. - Estou impressionada. Infelizmente, eu não tenho nenhuma veia artística.

- Tenho a certeza de que possui outros talentos, Mrs. Lake.

Havia, agora, um nítido tom mordaz na voz de Celeste, notou Tobias. O efeito de murmúrio de riacho desaparecera por completo.

- Eu gosto de pensar que tenho um ou outro discreto dote - disse Lavinia com evidente falsa modéstia. - Fazer compras, por exemplo. Considero que tenho um sentido apurado para, num relance, distinguir os produtos que não valem nada.

- Ah, sim? - Celeste ficou hirta, mas o sorriso condescendente manteve-se. - Eu, pela minha parte, sempre tive um certo faro para distinguir trapaceiros e charlatães. Acho, até, que gente desse género deve pulular na sua nova profissão, não é assim?

- O que é que quer dizer com isso?

Celeste ergueu um dos ombros, num delicado encolher.

- É evidente que qualquer pessoa se pode estabelecer como investigador e afirmar uma perícia que não pode ser confirmada.

- Não a estou a entender.

- Como é que um potencial cliente pode saber se está a tratar com alguém realmente qualificado para proceder a investigações privadas? - perguntou Celeste com um ar inocente.

- Se for uma pessoa avisada, selecciona um investigador do mesmo modo como se escolhe um praticante de mesmerismo - ripostou Lavinia calmamente. - Deve valer-se de referências.

- Pode fornecer referências, Mrs. Lake? Muito me admiraria. Era altura de intervir, decidiu Tobias. Não lhe agradava a ideia de se intrometer naquela escaramuça, mas o seu dever na qualidade de sócio ocasional de Lavinia era claro. Não podia ficar ali a vê-la arrastada para uma embaraçosa discussão em altos brados, no meio da rua. Lavinia nunca lhe perdoaria por permitir que ela se humilhasse a si própria em público.

- Falando de questões profissionais, Mrs. Hudson - disse ele, quando Lavinia abria já a boca para ripostar à última ferroada de Celeste -, presumo que a senhora e Mr. Hudson dispõem de excelentes referências da vossa estadia em Bath.

- Claro que dispomos - disse Celeste, os olhos postos em Lavinia. Howard prestava tratamentos terapêuticos a uma clientela muito selec cionada. Eu tudo fazia para garantir isso.

- Duvido que a vossa clientela fosse mais selecta do que a nossa ripostou Lavinia.

- Duvida? - Celeste dirigiu-lhe um olhar piedoso. - Eu acho pouco provável que possa contar entre os seus clientes com cavalheiros tão distintos como Lorde Gunning e Lorde Northampton.

Lavinia abriu a boca para retaliar, mas Tobias agarrou-lhe o braço firmemente e apertou-o com a força suficiente para lhe atrair a atenção. Lavinia lançou-lhe um olhar desapontado, mas ficou calada.

- Isso é impressionante - disse ele rapidamente. - Infelizmente, Mrs. Lake ainda não tem nenhum cliente titulado, mas talvez tenha a sorte de lhe aparecer algum brevemente. Entretanto, vai ter de nos desculpar, pois temos um compromisso.

- Ora essa, que eu saiba não temos nenhum compromisso - disse Lavinia.

- Temos, sim - disse Tobias. - Obviamente, esqueceu- se. - E, sorrindo para Celeste: - Bom dia, minha senhora.

Celeste derivou a atenção para ele. O olhar brilhante voltou-lhe aos olhos e a voz tornou-se outra vez cálida e rouca.

- Bom-dia, Mr. March. Foi um prazer encontrá-lo. Espero que voltemos a tropeçar um no outro muito em breve. Gostaria muito de continuar a nossa conversa acerca de como obter amostras grátis de certos produtos muito especiais.

- Muito bem - disse Tobias.

Voltando-se, arrastou Lavinia com ele e afastou-se rapidamente. Houve um curto silêncio entre eles. Tobias sentia no braço como Lavinia vibrava de irritação.

- Porventura apercebeu-se - disse Lavinia - de que ela tentava pô-lo em transe com aquele estúpido leque.

- Isso ocorreu-me, realmente. Foi uma experiência interessante. Especialmente pelo facto de ela ter sublinhado, no outro dia, que não possuía nenhum talento para a arte do mesmerismo.

Lavinia fungou com indisfarçado desdém.

- Duvido que ela seja verdadeiramente dotada, mas há um ano que trabalha com Howard e, portanto, é possível que tenha aprendido algum rudimentos.

- E escolheu-me a min para os pôr em prática? Pergunto- me por que se daria a esse trabalho.

- Não seja ridículo. A resposta é óbvia, se quer saber. Ela pretende seduzi-lo e pensou em utilizar a sua pobre técnica de mesmerismo para consegui-lo.

Tobias sorriu.

- Acha, realmente, que era esse o objectivo dela?

- Tenho a certeza absoluta. É, para mim, óbvio que ela o acha fascinante, intrigante e como que um desafio.

- Isso seria lisonjeiro, não fora a circunstância de eu ter a impressão de que Celeste divide os homens em duas categorias: os úteis e os não úteis. E tenho a incómoda suspeita de que ela decidiu que pertenço à primeira categoria.

Lavinia inclinou o pára-sol para o ver melhor.

- Acha que ela pensa que o pode, de algum modo, usar?

- É um duro golpe no meu orgulho, é claro. Sem embargo, sou forçado a concluir que é a explicação mais plausível para o interesse dela por mim.

- E como é que acha que ela o podia utilizar?

- Juro que não sei - admitiu ele.

- Conversa fiada - disse Lavinia, a mão apertando-se no braço dele. - Eu penso que ela se sente loucamente atraída por si e acha que seria divertido entregar-se a uma aventura.

Tobias sorriu.

- Como eu não sou do género de ser colocado em transe por um qual quer mesmerista que me apareça, é pouco provável que venhamos a descobrir quais são as verdadeiras intenções dela.

- Eu espero vir a descobrir.

- Não estará, acaso, com ciúmes, Lavinia?

- Dos muito limitados dotes de mesmerista dela? Claro que não.

- Não dos talentos de mesmerista de Celeste - disse Tobias, baixando, depois, o tom de voz: - Mas do interesse-dela por mim.

Lavinia olhou deliberadamente em frente.

- Existe alguma razão para que eu sinta a aguilhoada do ciúme?

- Não.

- Então, a questão não se põe.

- A questão pôs-se, está é a evitá-la.

- Com franqueza, Tobias! Você é um homem honesto. A sua palavra é sagrada, para si. Portanto, eu acredito em si.

- Não era essa a questão.

- A tolice das amostras gratuitas - disse Lavinia, dirigindo-lhe um olhar suspeitoso. - Ela estava a oferecer-se a ela própria, ou não estava?

- Conhece-me bem, minha cara Lavinia, e sabe que eu não tenho talento nenhum para o namoro e para a insinuação, por isso não posso ter a certeza do que ela pretendia com toda aquela conversa.

- Um raio que o parta - disse Lavinia, parando e encarando-o. - Era isso, precisamente, o que ela estava a fazer. Aquela leviana estava a oferecer-lhe uma amostra grátis do produto sem valor que ela vende. Que descaramento!

- Você está com ciúmes.

Por qualquer razão, Tobias regozijou-se.

- Digamos que eu confio tanto naquela mulher como sou incapaz de deitar ao chão aquele trem.

- Nesse ponto, estamos completamente de acordo - disse Tobias, olhando, por cima do ombro, para o sítio onde Celeste estivera, minutos antes. - Os produtos podem ser baratos, mas duvido muito que alguma coisa do que Mrs. Hudson oferece, incluindo amostras, venha a resultar realmente grátis.

 

A visão do armazém obscuro, junto ao rio, destacando-se na escuridão, provocou-lhe um momento de pavor nervoso. Pela primeira vez na maquinação em que se lançara, experimentava medo. Começara nas palmas das mãos, uma sensação de picada gelada que lhe subira pelos braços e se espalhara pelo peito. De repente, sentiu dificuldade em respirar.

O que é que se passava com ela? Estava quase a chegar ao fim. Tinha ido demasiado longe para perder a coragem naquela altura.

Inspirou fundo e a sensação perturbadora passou. Dominava de novo os seus nervos. Tinha à frente dela um futuro brilhante. Tudo o que tinha a fazer era completar a tarefa daquela noite e estaria, então, em condições de, por fim, abrir caminho para os brilhantes bailes e elegantes salões da alta sociedade.

Erguendo a lanterna, dirigiu-se à porta do armazém e abriu-a com todo o cuidado. Os gonzos ferrugentos gemeram em protesto.

Entrando, parou no limiar da porta e pôs-se a observar o interior cavernoso do edifício. A luz da lanterna espalhou alongadas sombras pela confusão de caixas engradadas e barris de navios. Por um momento terrível, pareceram-lhe jazigos e pedras tumulares espalhados num cemitério abandonado.

É demasiado tarde para recuares. Já chegaste muito longe, desde aquela horrivel loja. Em breve estarás entre a alta sociedade.

Um rápido som de deslizar emanou de um canto, por entre dois grandes engradados. Ela vacilou.

Ratos, pensou ela. Apenas ratos a fugir da claridade. Ouviu passos atrás dela e uma nova onda gelada de medo invadiu-a. Estava tudo bem, afiançou a si própria. Ele recebera a mensagem e viera encontrar-se com ela, exactamente como ela lhe dissera. Iam tratar do negócio.

E era o ponto final. Uma vez tudo terminado ficava em condições de seguir o seu futuro dourado.

- Minha querida Celeste - disse o assassino em voz baixa e meiga como a de um amante. -Tenho estado à tua espera.

Apercebeu-se, então, de que algo correra terrivelmente mal. Outro relâmpago de horror gelado se apossou dela. Começou a voltar-se, agitando freneticamente o pequeno leque. Abriu a boca para falar, para negociar pela sua vida. Fora por recear aquilo que não trouxera o bracelete com ela.

O plano dela implicava uma margem de risco, por isso deixara a Medusa Azul bem guardada, como garantia da sua vida, enquanto negociava o novo preço.

Era, porém, demasiado tarde para negociar. Ele já tinha a gravata em redor do pescoço dela, silenciando-a, para que ela não utilizasse os seus dotes para salvar a vida. Naqueles momentos finais em que uma escuridão vermelha lhe enevoou o cérebro, apercebeu-se, com horrenda clareza, de que cometera um erro fatal. Ela sabia que ele era capaz de ser violento,       sabia que era obcecado, mas só agora lhe reconhecia a loucura.

Quando terminou, olhou para baixo, para o resultado do seu trabalho manual e deu-se por amplamente satisfeito. Aquela criatura nunca mais o enganaria, nem mais nenhum homem.

Apanhou a bolsa dela, abriu-a e despejou-a. Continha a habitual para fernália das bolsas das senhoras. Havia um lenço e umas moedas para trem que ela não iria ocupar. O que ele procurava, porém, não estava.

Agitaram-no os primeiros sinais de alarme. Voltou junto do corpo e, ajoelhando-se, procurou nos bolsos e nas dobras da capa.

Também ali nada encontrou.

Apossou-se dele uma impressão incomodamente semelhante a pânico. Ignorou-a e, rapidamente, apalpou a roupa da mulher, de cima abaixo. Também nada.

Levantou-lhe as saias, para ver se ela não a teria escondido entre as coxas.

Não havia, porém, sinal dela.

Já desesperado, ergueu a lanterna, para examinar o chão em redor do corpo. Talvez ela a tivesse deixado cair, ao debater-se antes de morrer.

Poucos minutos depois, porém, ele viu-se forçado a confrontar-se com a terrível verdade. A Medusa Azul desaparecera. E ele acabava de matar a única pessoa que lhe poderia dizer onde estava escondida.

 

- Tem mais destes ovos mexidos, Mrs. Chilton? - perguntou Tobias, voltando a página do jornal da manhã que trouxera consigo. - São excelentes.

- Eu trago-lhe mais, senhor - disse-lhe Mrs. Chilton, rindo-se e dirigindo-se para a porta que dava para a cozinha.

- E outra bolacha de groselha, que vai tão bem com os ovos - acrescentou Tobias. - Tem, de facto, muito boa mão para bolachas, Mrs. Chilton.

- Eu fiz bastantes - assegurou ela. - Palpitou-me que o senhor iria cá aparecer hoje.

A porta fechou-se atrás de Mrs. Chilton.

- Em boa verdade - disse Lavinia, erguendo os olhos do seu jornal e fixando-os em Tobias, do outro lado da mesa -, hoje é a terceira vez esta semana em que nos aparece ao pequeno-almoço. Os seus hábitos commeçam a ser previsíveis. De tal modo que eu acho que já podemos acertar o relógio pela hora da sua chegada.

- Eu cheguei a uma idade em que um homem deve cuidar do seu físico. Segundo dizem, hábitos regulares e um bem confeccionado pequeno-almoço são essenciais para uma boa saúde.

- Portanto, decidiu combinar ambos os princípios e vir comer aqui todas as manhãs, é isso?

- Esta rotina obriga-me a uma caminhada matinal, um exercicio extremamente saudável.

- Hoje não veio a pé, veio de trem. Eu vi-o chegar.

- Estava à minha espera, era isso? - Tobias baixou o jornal, uma expressão de agrado na cara. - Meti-me num trem porque choveu ontem à noite e o ar está ainda muito húmido.

- Oh, meu Deus! - disse Lavinia mordendo o lábio, a preocupação sobrepondo-se temporariamente à irritação. - Está-lhe a doer muito a perna, hoje?

- Nada que um bom pequeno-almoço não possa remediar - disse ele, bebendo um gole de café, com o ar de um homem disposto a saborear a primeira refeição do dia com imenso prazer. - A propósito, ainda não lhe disse que hoje parece uma ninfa dos mares do Sul, brincando nas ondas, com a luz do sol a brilhar-lhe no cabelo.

Lavinia lançou-lhe um olhar gelado.

- É demasiado cedo para esse género de ironia.

A porta que dava para a cozinha tornou a abrir-se, surgindo Mrs. Chilton, com um prato de ovos mexidos e duas bolachas de groselha.

- Aqui tem, caro senhor. Coma à vontade.

- Ah, Mrs. Chilton, a sua comida é o que há de melhor para robustecer um homem e predispô-lo a encarar o dia.

O pesado batente da porta da rua soou à distância.     

Lavinia franziu o sobrolho.

        - Provavelmente é um dos amigos de Emeline. Mrs. Chilton, por favor informe quem for que ela foi passear com Mrs. Sinclair.

- Sim, minha senhora.

Mrs. Chilton desapareceu pela porta do hall. Porém, um momento depois, quando a porta da frente se abriu, não foi a voz de um dos muitos conhecimentos de Emeline que Lavinia ouviu. Foi a voz grave, rica de tonalidades, de Howard Hudson que ecoou no corredor.      

- Hudson? - Tobias não parecia muito satisfeito. - Que raio virá ele fazer aqui a uma hora tão imprópria?   

- Recordo-lhe, meu caro senhor, que apareceu a uma hora ainda mais imprópria - disse Lavinia, amarrotando o guardanapo e levantando-se. - Queira desculpar, mas vou ver o que ele quer.

- Eu vou consigo.       

- Isso não será necessário.

Tobias ignorou o comentário e já estava de pé. Pelo olhar dele, Lavínia apercebeu-se de que ele não ia permitir ficar abandonado à mesa do pequeno-almoço, enquanto ela recebia Howard.        

- Corrija-me se estou enganada - disse ela, ao dirigir-se para a porta -, mas tenho a impressão de que não aprecia muito o dr. Hud.

- O homem é um praticante de mesmerismo e eu não confio nos membros dessa profissão.

- Eu sou uma mesmerista.

- Umá ex-mesmerista - disse ele, seguindo atrás dela. - E já tem outra profissão, se bem se recorda.

- Sim, isso é verdade. Mas também me recordo que tão-pouco aprecia particularmente a minha nova profissão.

- Isso é uma questão muito diferente.

Lavinia chegava à porta da sala de visitas naquele momento e isso inibiu-a de responder ao comentário de Tobias.

Howard caminhava de um lado para o outro em frente da janela, os ombros contraídos e inclinados, em grande tensão. Tinha o vestuário amarrotado. Nem se tinha dado ao trabalho de dar um nó no plastrão. As botas estavam sujas.

Embora tivesse a cara voltada, de tal modo que Lavinia não lhe podia ver a expressão, apercebeu-se imediatamente de que algo tinha acontecido.

- Howard! - exclamou Lavinia, avançando rápida, consciente de que Tobias vinha atrás dela. - O que foi? Que aconteceu?

Howard voltou-se e fixou nela o olhar impenetrável. Por instantes, pareceu a Lavinia que tinha sido transportada para um estranho plano metafísico. O ambiente em redor dela ficou de súbito muito quedo. O matraquear de uma carruagem na rua soou bruscamente em surdina, como se o som viesse de muito longe.

Com um pequeno e decidido esforço, afastou mentalmente a estranha sensação. Os ruídos normais voltaram é a perturbante impressão passou. O olhar de Howard também parecia agora normal.   

Lavinia lançou um rápido olhar a Tobias e viu que ele observava átentamente Howard, mas não parecia ter notado a curta e mui curiosa alteração do ambiente. Talvez tivesse sido apenas produto da imaginação dela, pensou Lavinia.

- Celeste morreu - disse Howard pesadamente. - Foi assassinada anteontem à noite por um assaltante. Ou, pelo menos, é o que eles me dizem. - Howard levou os dedos às têmporas. - Mas eu ainda não consigo acreditar. Se não tivesse visto o corpo dela ontem de manhã, quando as autoridades me vieram informar, acho que...

- Meu Deus - disse Lavinia, avançando rapidamente para ele. - Tem de sentar-se, Howard. Vou pedir a Mrs. Chilton que traga chá.

- Não, não - disse ele, deixando-se cair na borda do sofá, parecendo estupidificado. - Não se incomode com isso, pois, possivelmente, não conseguiria beber o chá.

Lavinia sentou-se ao lado dele.

- Eu tenho xerez. É uma bebida excelente para superar os efeitos de um choque.

- Não vale a pena, obrigado - murmurou ele. - Tem de ajudar-me, Lavinia. Estou completamente desesperado, como vê.

Tobias foi para junto da janela, voltando-se, de forma que o sol da manhã lhe batia nas costas. Era um hábito com o qual Lavinia estava familiarizada. Sabia que ele escolhia aquela posição porque assim a cara dele ficava na sombra e permitia-lhe observar melhor Howard.

- Conte-nos o que aconteceu - disse Tobias em tom neutro. - Desde o princípio.

- Sim, sim, claro. - Howard pôs-se a massajar as têmporas com as pontas dos dedos, como se tentasse pôr em ordem o espírito perturbado. Horror e desespero ensombraram-lhe o olhar. - É tudo ainda muito confuso. Foi um choque após outro. Acho que ainda estou cambaleante. Primeiro, a notícia da morte dela e, agora, esta outra informação.

Lavinia, tocou-lhe na manga.

- Acalme-se, Howard. E faça como Tobias disse, comece pelo princípio da história.

- O princípio. - Howard baixou as mãos e pôs os olhos no tapete. - Foi há cerca de duas semanas que eu compreendi que Celeste tinha uma aventura.

- Oh, Howard! - exclamou Lavinia baixinho.

Depois, olhou para Tobias. Ele observava Howard com a desapaixonada atenção que, como ela já sabia, queria dizer que avaliava a situação e pesava a informação com frio cálculo. A capacidade dele para chegar ao fundo remoto das questões intrigava-a, simultaneamente a irritando. Quando se encontrava naquele estado, Tobias ficava imune à emoção e aos ditames dos sentimentos naturalmente inerentes à situação.

- Ela é... era tão jovem e tão linda - disse Howard depois de pausa. - Eu dificilmente acreditei na minha boa sorte, quando ela aceitou casar-se comigo, em Bath. Acho que uma parte de mim sempre soube que havia o risco de eu um dia a perder. Era apenas uma questão de tempo, acho eu. Mas estava apaixonado. Que podia eu fazer?

- Tem a certeza de que ela estava envolvida numa aventura? perguntou Tobias, sempre em tom neutro.

Howard aquiesceu com a cabeça, uma expressão desolada na cara.

- Eu não sei há quanto tempo durava, mas, quando esbarrei com a verdade, não houve nada que a pudesse negar. E acreditem que bem tentei.

- Confrontou-a com a verdade? - perguntou Tobias. Lavinia pestanejou, perante a persistência com que Tobias pressionava Howard. Tentou enviar-lhe um sinal silencioso para ele adoptar outra atitude, mas aparentemente, ele não notou.

Howard abanou a cabeça.

- Não consegui fazê-lo. Disse para mim próprio que ela era jovem, que a ligação não passava de uma breve aventura. Esperava que eventualmente, ela se aborrecesse do outro homem.

Tobias não tirava os olhos dele.

- Conhecia a identidade do amante dela?

- Não.

- Mas deve ter tido essa curiosidade? - insistiu Tobias. A própria simplicidade das palavras fez Lavinia ficar tensa. Apesar do tom de voz dele ser perfeitamente uniforme e sem inflexões, o gelo nos olhos dele fê-la suster a respiração. E, de súbito, compreendeu. Se, alguma vez, Tobias se encontrasse na posição de Howard, moveria céus e terra para conhecer a identidade do amante. E Lavinia nem queria pensar no que ele faria depois disso.

- Eu suspeito que ela se foi encontrar com ele anteontem à noite murmurou Howard. - Eu aprendera a conhecer-lhe os hábitos e as atitudes. Eu pressentia a sua excitação e ansiedade, nas ocasiões em que pla neava escapar para se encontrar com ele. Nós devíamos assistir a uma demonstração de magnetismo animal, levada a efeito por um tal senhor Cosgrove, o qual proclama obter curas espantosas com a sua perícia em mesmerismo. No último momento, porém, ela fingiu-se indisposta e declarou que ficaria em casa, insistindo para que eu fosse. Ela sabia bem como eu ansiava ver Cosgrove a trabalhar.

- Portanto, foi assistir à demonstração sozinho? - perguntou Lavinia em tom suave e gentil, numa tentativa de amenizar os efeitos do interrogatório de Tobias.

- Fui, sim. O homem mostrou ser um completo charlatão e eu fiquei extremamente decepcionado. Quando voltei para casa, verifiquei que Celeste tinha saído. Sabia que ela fora ter com ele, fosse ele quem fosse. Fiquei toda a noite acordado, à espera que ela regressasse, mas ela não voltou para casa. Na manhã seguinte, as autoridades informaram- me de que o corpo dela tinha sido encontrado num armazém junto ao rio. Passei o último dia e meio numa confusão de espírito, a tratar do funeral.

- Foi apunhalada, ou levou um tiro? - perguntou Tobias, quase casualmente.

- Foi estrangulada, segundo eles dizem - Howard olhou para a parede com um ar desolado. - Disseram-me que o plastrão do meliante ainda estava no pescoço dela, quando a encontraram.

- Meu Deus! - exclamou Lavinia, levando inconscientemente uma mão à garganta e engolindo em seco.

- Há alguma testemunha? - perguntou Tobias.

- Que eu saiba, não - murmurou Howard. - Ainda ninguém apareceu e não tenho esperança nenhuma que alguém venha a aparecer. Como lhes disse, as autoridades acreditam que ela foi vítima de um ladrão.

- Muito poucos ladrões usam um plastrão para matar - disse Tobias. - De modo geral, eles nem sequer os usam. Os assaltantes não se interessam muito pela moda, segundo a minha experiência.

- Eles disseram-me que suspeitavam de que o plastrão teria sido roubado a algum cavalheiro que o assassino tivesse assaltado antes, naquela noite - explicou Howard.

- É um bocado forçado - comentou Tobias.

Ele é completamente insensível, pensou Lavinia.

- Já chega, meu caro senhor.

Houve uma curta pausa, durante a qual os olhos de Howard e Tobias se cruzaram por um momento. Lavinia reconheceu que se tratava de uma daquelas trocas de olhares entre homens, silenciosas, extremamente irritantes e que excluíam por completo as mulheres.

- Quem é que encontrou o corpo? - perguntou Tobias.

        Howard abanou a cabeça.

- Isso interessa?        

- Pode interessar - disse Tobias.        

Howard esfregou as têmporas de novo, concentrando-se.

- Acho que o homem que me veio informar da morte de Celeste mencionou que um vagabundo, dos que dormem nos edifícios abandonados, junto ao rio, foi quem lá conduziu as autoridades. Mas há mais. Aconteceu       uma coisa que eu tenho de vos contar, Lavinia. Uma coisa muito estranha.

Lavinia tocou-lhe no ombro.

- O que foi?       

- Eu tive uma visita, ontem à noite, já muito tarde - Howard lançou a Lavinia um olhar rígido, por entre o leque de dedos abertos. - Na verdade, era quase de manhã, quando ele chegou. Eu tinha mandado embora a governanta, porque não suportava ninguém junto de mim, queria estar sozinho com o meu desgosto. O desconhecido bateu à porta até eu acordar e me levantar para a ir abrir.         

- Quem era ele? - perguntou Lavinia.

- Um homenzinho de aspecto desagradável que não se aproximou

da luz, de modo que não o consegui ver bem. - Howard baixou lentamente as mãos para as coxas. - Disse chamar-se Mr. Nighingale e exercia a profissão de intermediário de transacções.

- Que género de transacções? - perguntou Tobias.

- Disse-me que funcionava como uma espécie de agente de pessoas que desejam vender ou comprar antiguidades, numa base a que ele chamava de extrema discrição. Pelo que afirmava, garantia o anonimato a ambas as partes, comprador e vendedor.

- Por outras palavras, as transacções nem sempre eram de natureza legal - disse Tobias.

- Foi a impressão com que fiquei - disse Howard, suspirando pro fundamente. - Pois esse homem, Mr. Nightingale, disse-me que tinha ouvido uns rumores de que uma antiguidade de grande valor tinha sido recentemente roubada e de que Celeste estava envolvida nesse roubo.

Lavinia ficou aturdida.

- Celeste roubou uma relíquia?

- Eu de modo nenhum acredito nisso - disse Howard, afastando a possibilidade com um movimento impaciente de uma das mãos de longos dedos. - A minha Celeste não era nenhuma ladra. Não obstante, Nigh tingale afirmava que, no mundo do crime, corria o rumor de que ela fora assassinada por causa do raio da antiguidade.

- Que género de antiguidade era essa? - perguntou Tobias, pela primeira vez dando a impressão de se interessar pela história.

As sobrancelhas de Howard juntaram-se numa linha por cima do seu nariz patrício.

- Nightingale descreveu-a como um bracelete romano muito antigo. Foi, originalmente, encontrado aqui em Inglaterra, numas ruínas dos tempos em que o país constituía uma província do Império Romano. Tem montado um camafeu, com a imagem de Medusa nele esculpida.

- O que é que Mr. Nightingale queria de si? - perguntou Lavinia.

- Aparentemente a pulseira é uma antiguidade invulgar, a que cer tos coleccionadores atribuem grande valor.

- E, pelos vistos, Nightingale ganha a vida com coleccionadores invulgares que apreciam antiguidades estranhas - concluiu Tobias.

- É o que ele diz - Howard não olhava para Tobias, focando a sua atenção inteiramente em Lavinia. - Nightingale presume que eu saiba alguma coisa a respeito do paradeiro do camafeu desaparecido e, muito claramente, disse-me que conseguia arranjar maneira de o vender por uma fortuna. E ofereceu-se para mo comprar, se eu lho quisesse vender.

- E o que é que lhe disse? - perguntou Tobias.

- O que é que eu lhe podia dizer? - disse Howard, estendendo as mãos. - Expliquei-lhe que não sabia nada a respeito da Medusa. Acho que ele não me acreditou, mas avisou-me de que eu corria um grande perigo, fosse ou não verdade o que eu lhe dizia.

- Por que é que ele acha que corre perigo? - perguntou Lavinia.

- Nightingale diz que, agora que se sabe no mundo do crime que o camafeu foi roubado um certo número de coleccionadores vai pôr-se em busca dele. E alguns, diz ele, são homens muito perigosos que não hesitam em lançar mão de todos os meios para obterem o que desejam. Nightingale comparou-os a tubarões a circular em redor de um navio afundado e diz que eu me encontro na posição de único sobrevivente, agarrado a um destroço.

- Ele quis amedrontá-lo - afirmou Lavinia.

- E consegui-o, devo dizer-lhe. - Howard pareceu reflectir. - Nightingale declarou-me que a única atitude segura era entregar-lhe a pulseira imediatamente, prometendo que eu muito ganharia com isso. Mas eu não o posso fazer, já que a não tenho.

Houve um curto silêncio, enquanto todos ponderavam aquelas notícias.

Tobias mudou um pouco de posição, encostando um ombro ao pilar da janela e cruzando os braços.

- O que é que sabe mais a respeito dessa antiguidade?       

Howard não olhou para ele. Continuou a concentrar o olhar em Lavinia, a qual fazia o possível por se mostrar encorajadora e simpática.       

- Eu nunca vi o raio da pulseira - disse Howard. - Só vos posso dizer o que Nightingale me disse. Ele referiu-se a ela como a Medusa Azul:

O nome deve-se, sem dúvida, à peculiar cor da pedra.         

Medusa - repetiu Tobias pensativamente. - Uma mulher linda, com um cabelo maravilhoso, que caiu no erro de ofender a deusa Atena e se viu transformada num monstro hediondo. Era uma das três Górgones.  

- Era aquela cujo olhar transformava os homens em pedra - disse Lavinia.

- Nenhum homem a podia matar, porque olhar para ela significava morrer. Foi, por fim, morta por Perseu que, muito inteligentemente, ficou de costas para ela, enquanto ela dormia, usando o escudo como espelho para lhe reflectir a imagem. Desse modo, não teve de olhar directamente para ela, enquanto lhe cortava a cabeça.

- Uma imagem que não podemos considerar particularmente encantadora para uma jóia elegante - murmurou Howard.       

- Contudo, a Medusa era um tema muito comum na joalharia antiga - disse Lavinia. - Eu vi inúmeros anéis e brincos com cabeças de Medusa, quando estive em Itália. Dizia-se que a sua imagem afastava o perigo. - Transformar o inimigo ou a fonte de uma ameaça em pedra - disse Tobias, com um encolher de ombros. - Há uma certa lógica nisso.

Howard aclarou a garganta.        

- Mr. Nightingale disse-me que o camafeu desta pulseira é

versão única da cabeça de Medusa. E diz-se que é a insígnia de um antigo e obscuro culto secreto que floresceu em tempos em Inglaterra. Para além da familiar figura da cabeça de uma mulher de olhos muito abertos, com serpentes retorcendo-se, tal cabelo revolto, há ainda uma varinha Esculpida na pedra, por baixo da cabeça cortada.

- Mr. Nightingale disse-lhe mais alguma coisa a respeito da relí quia? - perguntou Lavinia.

Howard franziu a testa, recordando.

- Acho que ele me disse que a pulseira é de ouro muito puro e de elevado quilate, com inúmeros furinhos e trabalhado de forma a parecer um entrançado de serpentes.

- Trabalho em filigrana - disse Lavinia baixinho.

Tobias olhou para ela.

- já viu antiguidades dessas?

- Sim. Vi uma vez, em Itália, um par de braceletes em filigrana, com pedras de várias cores encastoadas. Tinham sido encontrados num túmulo, juntamente com umas moedas do século iv. Incrivelmente bonitos, devo dizer. O conjunto era um entrelaçado de folhinhas muito finas e delicadas.

Howard continuava a olhar para Lavinia, como se ela fosse a sua única esperança.

- Nada mais lhe posso dizer a respeito da Medusa Azul. Nightingale diz que Celeste foi assassinada por causa dela, mas eu não acredito. Pelo menos, não completamente.

- O que é que acha que aconteceu? - perguntou Tobias.

- Eu passei horas a ponderar as circunstâncias da morte dela - admitiu Howard tristemente. - E cheguei à relutante conclusão de que, embora a minha Celeste não fosse, por natureza, nenhuma ladra, era, porém, jovem e impulsiva e pode ter sido arrastada pelo amante.

Lavinia ficou hirta.

- Está a dizer que acha que o amante a persuadiu a roubar a pulseira para ele e que, depois, a matou?

- Para mim, é a única explicação com algum sentido - disse Howard, fechando uma das mãos em punho e apoiando-a na coxa. - Acho que o malandro combinou encontrar-se com Celeste na noite de anteontem, dizen do-lhe para levar a pulseira. A minha doce e inocente Celeste foi encon trar-se com ele a meio da noite e o monstro estrangulou-a com o plastrão e roubou-lhe a pulseira.

Lavinia olhou para Tobias, para ver a reacção dele àquela teoria. Tobias parecia perdido em conjecturas. Ou talvez fosse enfado o que ela lhe via na cara, pois, com ele, nunca se tinha a certeza de nada, reflectiu Lhavinia, voltando-se, depois, para Howard.

- Lamento tanto a sua perda!

- Lavinia, tem de me ajudar - Howard estendeu os braços de repente e pegou nas mãos de Lavinia. - Não conheço mais ninguém aqui a quem recorrer. Disse-me que se dedica a investigações particulares. Pois bem, desejo encarregá-la de descobrir quem matou a minha Celeste.

- Howard.

- Por favor, minha querida amiga. Nightingale avisou-me do perigo que corro, mas a mim, neste caso, não me interessa nada a minha segurança. Eu quero é justiça para a minha querida mulher. Não me pode negar isso. Peço-lhe que me ajude a encontrar o assassino.

- Sim, claro, eu vou ajudá-lo, meu amigo - disse Lavinia. A expressão de Tobias endureceu sem aviso prévio. Deixou cair os braços, endireitando-se e afastando-se do pilar da janela.

- Lavinia, antes de aceitar o encargo, temos de discutir o assunto.

- Nada disso - respondeu Lavinia. - Eu já decidi aceitar. Pode juntar-se a mim como sócio ou pode declinar o encargo. A opção é sua, claro.

- Rasparta! - exclamou Tobias.

- Muito obrigado, querida amiga - disse Howard, erguendo as mãos de Lavinia e beijando-as. - As palavras não conseguem exprimir a minha gratidão.

Tobias observava Howard, tal falcão a espiar um rato.

- A propósito de gratidão, Hudson, temos a pequena questão dos honorários.

- O dinheiro não é obstáculo - assegurou Howard.

- É sempre muito agradável ouvir dizer isso - disse Tobias.

- Não gosto deste caso, Lavinia.

- Sim, eu sei que não aprova. Aliás, já exprimiu a sua opinião acerca do assunto em termos perfeitamente claros. Você foi muito rude com Howard.

Lavinia mergulhou no pequeno estúdio, dirigindo-se directamente para a secretária e sentando-se. Por uma qualquer estranha razão, que ela ainda não descortinara, era-lhe sempre mais fácil discutir temas desagradáveis com Tobias quando punha entre os dois aquele bloco de mogno. Recusava-se a admitir a ela própria que ele, por vezes, a intimidava, mas não podia ignorar o facto de que ele evidenciava uma formidável força de vontade e uma firmeza de espírito que recomendavam cuidado a qualquer pessoa prudente. Ali, no seu estúdio, sentada no trono que era a sua enorme secretária, era ela que comandava, dizia para si própria. A maior parte das vezes.

- Eu seja cego - disse Tobias, agarrando-se à borda do dintel para se agachar em frente da lareira -, mas não confio no Hudson.

Lavinia observou-o a acender a lareira, sabendo que ele fazia por poupar a perna esquerda, mesmo nos dias bons, sempre que procedia àquela tarefa. Lavinia abriu a boca para lhe perguntar como estava a perna ferida, mas conseguiu engolir as palavras antes que escapassem. Ele não lhe ia agradecer a gentileza, especialmente enquanto estivesse com aquela disposição.

Lavinia cruzou as mãos em cima da secretária.

- Você permitiu que os seus sentimentos em relação ao mesmerismo em geral influenciassem a sua opinião acerca de Howard. Isso evidencia estreiteza de espírito da sua parte.

Tobias concentrou o olhar nas chamas que acabara de atear.

- Hudson não nos disse toda a verdade.

Lavinia ergueu os olhos para o tecto, em silenciosa súplica, mas não obteve nenhuma ajuda lá de cima.

- Sim, sim - disse ela, não se preocupando em disfarçar a sua impaciência. - Eu sei perfeitamente que, na sua opinião profissional, os clientes mentem sempre, mas não vejo por que tem de aplicar a Howard essa sua teoria mesquinha e, decerto, errónea. Ele é, obviamente, um homem desesperado e destroçado que apenas deseja encontrar o assassino da mulher.

- Eu acho que não devemos assumir tão depressa que ele queira que encontremos o assassino.

Ela ficou de olhos abertos, chocada.

- O Que é que quer dizer com isso? É evidente que ele quer que descubramos o meliante.

- Eu acho que é muito mais provável que Hudson queira é a pulseira desaparecida.

Lavinia começou por pensar que não o tinha ouvido bem.

- Como? Está a dizer que não acredita que Howard queira encontrar o assassino da mulher?

- Eu não tenho dúvidas de que o que ele realmente quer é encontrar o amante dela. - Tobias fez mais força no dintel e ergueu-se de pé. - que acredita que é o amante quem tem a pulseira.

- Tobias essa sua conversa não faz sentido: o amante é, também, o assassino.

- Não necessariamente - disse ele, dirigindo-se para a janela e pondo-se a olhar para o minúsculo jardim nas traseiras da casa. - Na        opinião profissional, acho muito provável que tenha sido o dr. Hudson quem matou Celeste.

Ela ficou estupefacta com a convicção das palavras dele, levando alguns segundos a recuperar a voz.

- Você está doido? - conseguiu ela, por fim, murmurar.

- Eu sei que o considera um velho amigo da família, mas ponha de lado os seus sentimentos pessoais e encare a possibilidade de outra versão dos acontecimentos.

- Que versão é essa?

- A minha - respondeu Tobias sem se voltar. - E é assim. Hudson descobre que a sua mui jovem e extremamente atraente esposa tem um caso com outro homem. Não descansa enquanto não descobre a identidade do amante. Uma noite diz que vai assistir a uma demonstração concorrente, mas sai logo depois. Volta a casa e segue a mulher. Encontra-a sozinha, à espera, talvez, do amante, e, num acesso de raiva, confronta-a. Há uma discussão terrível e ele estrangula-a com o plastrão.

Lavinia inspirou fundo.

- E o amante?

Tobias encolheu os ombros.

- Se calhar chegou no meio da discussão, compreendeu que havia ali algo que não batia certo e desapareceu antes de Hudson o ver. Ou talvez nem tenha chegado a aparecer.

- Mas por que é que Hudson iria matar Celeste? Ele amava-a.

- Sabemos ambos que o amor se pode transformar em ódio, num cadinho aquecido ao lume da traição e da cólera.

Lavinia ia contestar a questão, mas recordou-se do que vira no decurso do último caso deles e hesitou.

O alto relógio soou no silêncio.

- Eu compreendo as suas reservas - disse ela, por fim. - Não acredito, nem por momentos, que Howard tenha matado Celeste, mas admito que um investigador profissional que não o conheça pessoalmente possa considerar essa possibilidade.

- E eu consigo compreender a sua vontade em acreditar que Hudson é honesto e sincero. Sei o que significa para si ter reatado as relações de amizade com ele. Ele é, afinal, alguém que os seus pais consideravam um amigo e conserva, consigo, algumas das recordações de dias mais felizes. Ele recorda-lhe uma época em que não se encontrava tão sozinha no mundo.

Relutantemente, Lavinia admitiu que ele tinha razão. Tinha sido agradável tornar a ver aquele velho amigo da familia, designadamente por que Howard representava um elo com o passado. A presença dele trazia-lhe à memória longínquos ecos da cálida e calma segurança da aconchegada vida familiar que ela fruíra, quando os pais eram vivos. O mundo parecia muito mais simples naqueles tempos. O futuro parecia, então, rosado e brilhante, sem nuvens negras.

- Foi-me realmente muito agradável tornar a ver Howard - disse ela vivamente -, mas isso não quer dizer que o prazer de reatar o conheci mento com ele me cegue para a realidade. Eu conheço Howard melhor do que você, Tobias. Ele nunca foi um homem de acessos de raiva ou de paixões extremas. Na verdade, ele era um modelo de autodomínio. Ele tem uma natureza didáctica. Nunca lhe discerni a mínima tendência para a violência.

- Você conheceu-o como visita da casa dos seus pais. Segundo a minha experiência, nessas circunstâncias as pessoas, geralmente, comportam-se da melhor maneira - retorquiu Tobias, sempre a olhar para o pequeno jardim. - Não pode conhecer-lhe os pensamentos íntimos. Não pode conhecê-lo como uma esposa o terá conhecido.

Lavinia ponderou o que ele dizia.

- Isso tem lógica.

Tobias olhou para trás, por sobre o ombro, uma sobrancelha erguida de irónica surpresa.

- Estou espantado. Não estava nada à espera que aceitasse o meu ponto de vista tão prontamente.

- Eu não disse que o aceitava. Em boa verdade, eu não concordo nada com ele, porém, compreendo por que é que tem essa opinião. Mas vamos ao fundo da questão: prefere abster-se de me ajudar a resolver este caso?

- Rasparta!

Tobias voltou-se tão subitamente que Lavinia se encostou bruscamente na cadeira da secretária.

- A única maneira de eu abandonar essa investigação - disse ele - era eu convencê-la a desistir dela, mas, pelo que vejo, isso é muito improvável.

- É impossível, na realidade.       

Tobias percorreu o pequeno espaço em menos do que um par de batidas do coração, inclinou-se sobre a secretária e colocou as mãos em cima dos papéis que cobriam o tampo.      

- Vamos, desde já, esclarecer uma coisa entre nós, Lavinia. Eu não vou permitir que faça investigações por sua conta num caso que envolve assassinato.

- Não lhe cabe a si determinar o género de casos que eu decido investigar.  

- Um raio, se pensa que a vou deixar arriscar a pele...

- Basta, Tobias - disse ela, pondo-se de pé. - Você teve sempre a irritante tendência de dar ordens, mas ficou, decididamente, pior depois do caso dos assassínios das figuras de cera. Na verdade, tem-se tornado ultimamente, muito arrogante e, devo dizer-lhe, isso não é uma qualidade muito atractiva num homem.

- Eu não sou arrogante - disse ele por entre os dentes.

- É, sim, é arrogante. Aliás, é uma condição tão natural em si que nem sequer nota quando cai nela.

- Eu estou apenas a tentar instilar algum bom senso na situação.

- Não, está é a tentar dar-me ordens e eu não gosto disso. Ouça bem, Tobias - disse ela, inclinando-se para a frente e aproximando a cara da dele. - Nós somos sócios neste caso ou eu vou resolvê-lo sozinha! Você é que decide.

- Você é, sem sombra de dúvida, a mulher mais irritante, obstinada e voluntariosa que alguma vez conheci.

- E você é o homem mais arrogante e mais prepotente que eu conheço.

Ficaram a olhar um para o outro um longo momento.

- Rasparta - disse, por fim Tobias, endireitando-se, uma expressão furiosa no olhar. - Não me deixa alternativa, não a posso deixar tomar conta deste caso sozinha.

Lavinia disfarçou um suspiro de alívio. A verdade é que a sua experiência era muito limitada na investigação de assassinatos. Apenas um caso, o que era manifestamente insuficiente para a tornar uma autoridade na matéria. Tinha ainda muito que aprender acerca da sua nova profissão e Tobias era a única pessoa que a podia instruir na matéria.

- Está, então, decidido - disse ela. - Estamos de acordo em que seremos sócios neste caso.

- Sim.

- Óptimo - disse ela, tornando a sentar-se. - Parece-me que o pri meiro passo é definir um plano, não acha? Se bem me lembro, gosta muito de fazer planos.

- Gosto, sim. E quem me dera, Lavinia, arranjar um plano para tratar consigo mais eficazmente.

Lavinia dirigiu-lhe um sorriso frio.

- Oh, oh! E, ainda não há muito tempo, você me apontava como um modelo de comportamento feminino que Emeline devia seguir.

- Não consigo perceber o que me levou a dizer isso. Devo ter perdido o senso momentaneamente - disse ele, passando uma mão pelo cabelo.

- Verifico que isso me acontece com frequência, quando estou perto de si. Lavinia preferiu ignorar o comentário.

- A propósito do nosso plano, acho que devemos encarar o problema de diversos ângulos.

Tobias passou a mão pelo queixo, pensando.

- Tem razão. Por um lado, temos a antiguidade. Há que tentar descobrir a identidade do dono, a pessoa a quem foi roubada.

- Eu tenho alguma experiência do negócio de antiguidades e conheço muita gente que a ele se dedica. Os rumores acerca de uma peça tão rara como a Medusa Azul devem já andar muito espalhados. Por que não começar por aí?

- De acordo. Você visita as lojas e os negociantes legais e eu trato com os de outro género - disse Tobias, pondo-se a andar de um lado para o outro. - Smiling Jack tem muitos contactos no mundo do crime e, muito provavelmente, conhece esse misterioso personagem que dá pelo nome de Nightingale. Vou pedir-lhe para me combinar um encontro com ele.

Aquela era, decidiu Lavinia, a ocasião propícia para trazer à baila uma questão que há dias a importunava. Aclarou a garganta delicadamente.

- Já que fala nas suas relações com pessoas ligadas ao mundo do crime - murmurou ela - devo dizer-lhe que acho que seria muito útil para mim se me apresentasse o seu amigo Smiling Jack.

- Isso está absolutamente fora de questão. Ninguém leva uma senhora ao Grifo.

Lavinia tinha previsto a resistência dele.

- Eu posso ir disfarçada, como você faz.

- E como é que tenciona disfarçar-se? - disse Tobias, um sorriso irónico ao canto dos lábios. - De prostituta?

- Por que não?

- De modo nenhum -Tobias deixou de sorrir e dirigiu-lhe o olhar semicerrado. - Eu não vou, de modo nenhum, apresentá-la a Smiling Jack!

- Mas eu própria posso vir a precisar desse contacto. Considere como seria mais eficaz se pudéssemos ambos estabelecer contacto com ele. Não seria necessário estar a incomodá-lo a si sempre que surgisse a necessidade de o contactar.

- Poupe o fôlego, Lavinia, que eu não vou apresentá-la. - Tobias deve ter notado que ela ia abrir a boca para continuar a discutir, pois ergueu imediatamente a mão a exigir silêncio. - Sugiro que voltemos ao trabalho. Se queremos assumir este caso, não temos tempo para mais uma das nossas discussões apaixonadas.      

- Está a tentar mudar de assunto.        

- Não estou a tentar, estou a mudar de assunto.  

Por mais que lhe desagradasse admiti-lo, ele tinha razão. Por momentos, nenhum dos dois falou, mas Lavinia tinha a certeza de que sabia precisamente, o que ele estava a pensar: o profundo sentido da responsabilidade que ambos haviam assumido em relação aos jovens que tinham ficado a cargo deles era algo que tinham em comum - pensou ela.

Lavinia sorriu amargamente.

- Você está tão interessado em ensinar a sua profissão a Antony como eu em relação a Emeline, não é?

Tobias soltou um profundo suspiro.

- Não seria esta a profissão que Ann escolheria para ele.

- Mas não foi Ann a tomar a decisão, não é verdade? - disse Lavínia gentilmente. - Foi Anthony.

- O mesmo se aplica a si e a Emeline, a decisão pertence-lhe a ela.

- Eu sei isso. Simplesmente, eu tinha a esperança de lhe proporcionar o género de vida que os pais desejariam para ela. Eles quereriam, muito naturalmente, vê-la casada e em segurança. - Lavinia franziu o sobrolho. - Embora deva admitir que, ao ver Oscar Pelling no outro dia, me veio à ideia que o casamento nem sempre é uma instituição segura.

Tobias fixou-a com o seu olhar firme, mas não disse nada. O olhar fixo dele incomodou-a, por qualquer razão.

- Bem, isso agora não interessa - disse ela, sentando-se mais para a frente e afastando a folha de papel onde tomara notas para o anúncio que pretendia redigir. Depois, pegou numa pena e noutra folha de papel e disse para Tobias: - Sente-se. É conveniente delinearmos o nosso plano, não acha?

- Talvez - disse ele, sentando-se em frente dela. - Para além de determinarmos a identidade do dono da pulseira, temos de saber mais a respeito de Celeste Hudson.

- Podemos perguntar a Howard - disse Lavinia, molhando a ponta da pena no tinteiro.

- Sem ofensa, Lavinia, mas eu não acho que possamos confiar muito nas respostas de Hudson.

- Está a inferir que ele nos pode mentir acerca dela? Por que havia ele de fazer isso?

- Se não for ele o assassino, como você insiste, então, o mínimo que se pode dizer dele é que era cego a respeito do verdadeiro carácter da mulher.

- É capaz de ter razão em relação a isso - disse ela -, mas ele não será o único, pois não?

- Não - admitiu Tobias. - De facto, duvido que algum homem da sociedade conheça melhor a respectiva esposa, e vice-versa.

- Então, como é que se propõe saber mais coisas acerca de Celeste? Tobias esboçou um ligeiro sorriso.

- Farei exactamente o que você sugeriu que se deve fazer para esco lher um mesmerista competente, ou um investigador. Vou consultar as referências dela.

- Que referências? - Lavinia, porém, lembrou-se, subitamente, da conversa no meio da rua, dois dias antes. - Ah, refere-se às que ela mencionou, de Bath? Lorde Gunning e Lorde Northampton?

Precisamente. E conhece-os?

- Eu não, mas Crackenburme conhece-os, certamente. E, se não os conhecer, conhece certamente alguém que os conheça.

- Isso recorda-me que se refere a Lorde Crackénburme com frequência. Parece ser-lhe muito útil.

- Ele conhece praticamente todos os cavalheiros da alta sociedade e um sem- número dos que orbitam nas cercanias.

- Eu gostava de o conhecer - disse Lavinia com o seu mais doce sorriso. - Certamente, não coloca objecções em apresentar-me a Lorde Crackenburne: como tem salientado, trata-se de um cavalheiro.

- Eu não coloco objecções - disse Tobias -, mas é pouco provável que venha a acontecer.

Lavinia deixou de sorrir.

- Porquê?

- Porque, desde a morte da mulher, Crakenburne raramente deixa

o seu clube. E essa é uma das razões por que se torna tão útil: ouve os rumores e os mexericos antes de toda a gente.

Lavinia ficou espantada.

- Ele deve ir a casa de vez em quando.       

- Que eu tenha notado, não.

- Realmente, Tobias, um homem não pode viver no seu clube!

- Pode, sim, se o desejar. O clube é o lar de um cavalheiro, longe do lar.       

- Mas...     

Tobias olhou deliberadamente para o relógio de parede.

- Acho que não temos tempo para mais digressões, não acha?     Lavinia sentiu o queixo a contrair-se, mas sabia que ele tinha razão. Relutantemente, incidiu de novo a atenção na folha de papel em frente dela.    .

- Muito bem, caro senhor - disse ela. - Já que insiste em ser rude.

- Claro que insisto em ser rude. Eu tenho um especial talento para isso - disse ele, chegando-se para a frente e olhando com ar ausente uma das folhas de papel que Lavinia afastara para o lado. Os olhos semicerraram-se numa expressão ligeiramente intrigada. - O que é

- disse ele, lendo em voz alta - Serviços exclusivos e de alta qualidade, prestados a cavalheiros de alto nivel que desejem investigações privadas?

- Hum? Ah, sim. Acho que já lhe disse que tenciono colocar anúncio da minha actividade profissional nos jornais. E estou a fazer a lista das palavras e das frases mais interessantes que aparecem nos anúncios - disse ela, pegando na folha de papel que ele examinava. - recorda-me que encontrei umas frases particularmente eficazes no jornal desta manhã. É melhor tomar nota delas antes que me esqueça.

Tobias franziu o sobrolho ao que ela tinha escrito na folha de papel.

- Eu pensava que tinha sido perfeitamente claro ao dizer-lhe que não aprovo anúncios nos jornais, pois corre-se o risco de atrair má espécie de gente. Na nossa profissão é melhor atermo-nos às recomen dações dos clientes.

- Você é livre de orientar o seu negócio à moda antiga, se quiser, mas eu estou decidida a experimentar um meio mais moderno para arranjar clientes. Há que fazer alguma coisa para atrairmos a atenção.

Tobias inclinou a cabeça para ler outra linha.

- Dispositivos eficazes para cavalheiros dedicados à intriga, fornecidos confidencial e discretamente?

Lavinia examinou as palavras com ar de grande satisfação.

- Eu acho que a frase tem um timbre atractivo. Gosto especialmente da frase cavalheiros dedicados à intriga. É muito... bem, é intrigante, não acha?

- Muito intrigante, na verdade.

- Como é natural, eu não quero dar a entender que presto serviços só a cavalheiros dedicados à intriga.

- Naturalmente que não.

- Eu quero atingir as senhoras, também. Penso substituir a frase por pessoas dedicadas à intriga - Lavinia fez uma pausa, ao surgir-lhe outra ideia. Como é que lhe soa Serviços privados e confidenciais prestados a senhoras e cavalheiros de intriga?

Houve um profundo silêncio do outro lado da secretária. Lavinia olhou para cima, curiosa. Tobias tinha a boca torcida. Lavinia conhecia aquele esgar e não confiava nele.

- Então? - desafiou-o ela. - O que é que pensa da frase?

- Eu posso garantir-lhe que um anúncio que tenha como modelo o que hoje foi publicado, e dirigido a cavalheiros de intriga, lhe vai trazer à porta um extremamente curioso sortido de clientes - disse Tobias.

- Você viu o anúncio?

- Vi, sim. Até lhe prestei alguma atenção.

- O que só prova que as palavras captam a atenção. - Lavinia hesitou um momento. - Embora tenha de admitir que, apesar da frase ser imteressante, é difícil determinar a natureza precisa dos dispositivos que a firma vende, não acha?

- É um anúncio de preservativos, minha cara.

 

Lavinia entrou na loja de antiguidades pouco depois das duas horas daquela tarde. Emeline seguia-a, radiante de entusiasmo pela tarefa que iam desempenhar.

Edmund Tredlow, um homenzinho todo amarrotado, com umas calças cheias de rugas e um plastrão mal enlaçado num colarinho sem goma, interrompeu o gesto de limpar o pó a um Pã de aspecto lasávo e espiou-as através das lentes dos óculos.

- Mrs. Lake, Miss Emeline, é um prazer vê-las por cá - disse ele, pondo de lado o espanador e correndo para se inclinar perante a mão enluvada de Lavinia. Quando olhou para cima, com um ligeiro estrabismo, tinha um brilho familiar no olhar. Lavinia sabia que a expressão não significava admiração por ela, ou sequer luxúria grosseira, mas que era a possibilidade de uma acalorada discussão de negócio o que excitava Tredlow.

- Muito bom dia, Mr. Tredlow - disse Lavinia, recolhendo a mão. Nós viemos cá porque queríamos falar um pouco consigo, se dispuser de algum tempo.

- Tem mais antiguidades para vender, não é? Devo confessar que, apesar da minha prodigalidade, consegui obter um belo preço pelo Apolo que me trouxe há semanas atrás. O coleccionador que eu consegui que se interessasse pela estátua ficou extremamente agradado com a qualidade da peça.

- Felizmente, eu não preciso, por ora, de vender mais nenhuma das excelentes peças que trouxemos de Itália - disse Lavinia mansamente. - mas ficar-lhe-ia reconhecida se se dispusesse a ajudar-me com a sua considerável experiência profissional.

Tredlow colocou-se de imediato à defesa.

- Que é, precisamente, o que deseja saber?

Emeline dirigiu-lhe um sorriso espantosamente radiante.

- A minha tia não se cansa de repetir que não conhece mais nenhum negociante de antiguidades em Londres com o conhecimento do mercado que o senhor tem.

Tredlow ficou com um estranho tom arroxeado. A primeira ideia que surgiu no espírito horrorizado de Lavinia foi que ele sofrera um ataque de apoplexia. Depois, compreendeu que ele estava todo ruborizado. E ficou de olhos abertos de espanto, incapaz de afastar os olhos da figura do homenzinho.

- Eu estou neste negócio há muitos anos - gaguejou Tredlow. - E gosto de pensar que aprendi meia dúzia de coisas a respeito de antiguidades.

- Isso é óbvio - disse Lavinia, passeando os olhos em redor, com um brilho de admiração no olhar. - As esplêndidas peças que aqui tem, Mr. Tredlow! Devo dizer-lhe que nunca vi nada tão belo como aquela colecção de vasos gregos, em qualquer outra loja da capital.

- Só tenho aqui o que há de melhor - disse Tredlow com um sorriso de satisfação. - Eu tenho uma reputação a manter, se quer saber.

Ele estava com o ar de alguém que tivesse acabado de receber

a visita de uma sereia, pensou Lavinia. Tredlow estava em transe.

Emeline pestanejou para ele.

- Quem me dera ter tempo para dar hoje uma volta completa à colecção, Mr. Tredlow. Tenho a certeza de que me ia ensinar muita coisa acerca de antiguidades.

- Quando quiser, Miss Emeline - disse ele, esfregando as mãos. - Posso garantir-lhe que será para mim um privilégio instruí-la acerca do assunto. A propósito de vasos gregos, devo dizer que tenho um vaso especialmente interessante no quarto das traseiras. O tema principal

dos desenhos é muito invulgar. Só os vendo a conhecedores. Não quer marcar um dia para os ver?

A conversa já fora longe demais, pensou Lavinia. Ela já vira alguns dos vasos gregos que Tredlow tinha no vasto e atafulhado armazém das traseiras da loja. O tema principal dos desenhos não era nada próprio para jovens meninas solteiras.

Lavinia aclarou a garganta forçadamente.

- A respeito das minhas perguntas, Mr. Tredlow?

Ele ignorou-a, obviamente incapaz de afastar os olhos de

Emeline, que sorriu para ele.

- A minha tia precisa realmente da sua experiência profissional. Agradecia-lhe muito que a ajudasse.

- Como? Ah, sim - exclamou Tredlow e, desviando com esforço o olhar do de Emeline, voltou-se relutantemente para Lavínia. - Que posso fazer por si, Mrs. Lake?

- Como já deve ter ouvido falar, eu procedo a investigações discretas, por conta de certas pessoas de qualidade.

Os últimos traços de transe desapareceram da expressão de Tredlow. Reprovação absoluta substituiu a cálida lascívia que ali estivera momentos antes.

- Acho que já me tinha dito que tencionava ganhar a vida dessa maneira.

- A minha tia aceitou-me como sua assistente - confidenciou Emelin -, e vai-me ensinar a profissão.

Tredlow pareceu profundamente consternado.

- Não é uma profissão decente para uma jovem senhora, se quer saber a minha opinião.

- É bastante mais decente do que a sua proposta de lhe mostrar a sua colecção particular de vasos gregos - atirou-lhe Lavinia. - E agora, vamos conversar, Mr. Tredlow?

As bastas suíças tremeram de modo agitado.

- Presumo que, como está aqui em negócio, esteja preparada para pagar o meu conselho e a minha perícia?

- Claro - disse Lavinia, fazendo uma pausa deliberada. - Se se pro varem úteis.

Tredlow balançou nos calcanhares.

- Claro, claro. Muito bem, o que é que deseja saber?

- Temos razões para acreditar que, nos últimos dias, foi roubada uma pulseira romana muito antiga. A antiguidade foi descoberta, aparentemente, aqui em Inglaterra, não em Itália. Dizem que é uma relíquia de filigrana em ouro, encastoada com uma pedra talhada em cabeça de Medusa, com uma varinha por baixo. já ouviu falar desse roubo?

As abastadas suíças de Tredlow tornaram a agitar-se, quando ele uniu os lábios num franzir de agudo interesse.

- Refere-se à Medusa Azul? - perguntou ele num repente.

- Sim. Já alguma vez a viu?

- Não, mas já ouvi falar dela - disse ele, um brilho astuto nos olhos. - Não sabia, porém, que tinha sido roubada. Tem a certeza disso?

- Parece que é o que aconteceu, sim.

- A Medusa Azul - repetiu Tredlow baixinho, como que falando para ele próprio. - Roubada. Interessante. Isso vai espalhar-se rapidamente.

Lavinia não estava nada interessada no novo tom da voz dele, como tão-pouco estivera com o tom que ele empregara com Emeline.

- Mr. Tredlow, nós queríamos saber a identidade do dono da pulseira. Tredlow olhou de lado para Lavinia através dos óculos.

- Como, obviamente, não sabe quem é, presumo que não está a proceder a esta investigação por conta dele.

- Não. Eu e o meu sócio fomos contratados por outra parte interessada.

- Estou a perceber. Pois bem, se ela foi roubada, podemos assumir que o ladrão andará, muito provavelmente, à procura de um perito em antiguidades. E terá de consultar um que seja capaz de avaliar adequadamente a relíquia e que possa, talvez, assisti-lo numa venda discreta.

Um súbito alarme invadiu Lavinia. Trocou um olhar com Emeline e viu que, também ela, se apercebera da natureza do novo problema.            

Lavinia dirigiu-se de novo a Tredlow.

- Devo avisá-lo firmemente que não deve pensar, um momento

sequer, em envolver-se com o ladrão. Ele já cometeu um assassínio e duvido muito que hesitasse em matar outra vez. - Assassinato! - exclamou Tredlow, os olhos muito abertos. Depois, estendeu uma mão e deu um passo atrás. - Tem a certeza que não é engano?          

- Ele matou uma mulher, aparentemente para a calar.

- O meu Deus, oh, meu Deus! Isso é horrível. - Tredlow hesitou com uma esperança. - Não lhe parece que possa ter sido um acidente ou coisa assim, não?                    

- Dificilmente. Ele estrangulou-a com o plastrão.

- Estou a ver - disse Tredlow, soltando um profundo suspiro. - Infelicidade! Esse género de coisas não é nada bom para o negócio.

- A não ser no caso da minha profissão - disse Lavinia. - Masao nome do dono da pulseira. Ia dizer- mo, creio.                

- Não antes de me dizer quanto ganho com isso.                  

Lavinia recordou as palavras angustiadas de Howard: Dinheiro não é problema.            

- Quanto é que quer, Mr. Tredlow, por uma pequena informação que eu posso obter noutro lado qualquer sem muito trabalho? Tredlow caiu no regateio com o habitual entusiasmo. Esse era, com o de coleccionar vasos gregos eróticos, o seu desporto favorito. Felizmente, pensou Lavinia, ela própria tinha adquirido alguma experiência naquele campo. A estada forçada em Roma, meses atrás, tinha sido instrutiva em diversos aspectos.

- O dono da Medusa é Lorde Banks, creio eu - disse Tredlow, e o regateio terminou. - Eu sei isso porque a relíquia apareceu na Prendergast, há cerca de ano e meio. Prendergast, muito sensato, consultou-me, antes de fixar o preço. Ele é muito fraco no que respeita a antiguidades romanas, se quer saber.

- Compreendo - disse Lavinia em tom neutro. Ela conhecia bem a velha rivalidade entre Prendergast e Tredlow.

- Eu encontrei Prendergast mais tarde e perguntei-lhe o que era feito da pulseira. E ele disse-me que a tinha vendido a Bankcs. Fiquei bastante       surpreendido, pois, em tempos, Banks era um coleccionador apaixonado de antiguidades, mas desfizera-se da maior parte das suas melhores peças uns anos atrás, depois da morte da mulher. Não percebo por que é que ele quis a Medusa, mas é tudo quanto sei.

- Admira-me que Lorde Banks não tenha espalhado a notícia do roubo - disse Emeline com ar intrigado.

Tredlow fungou.

- Lorde Banks tem uma idade muito avançada, se quer saber. Está com os pés para a cova, como se costuma dizer. Ouvi dizer que sofre do coração e que a sua mente está uma peneira. Provavelmente, não consegue lembrár-se do que comeu ao pequeno-almoço e muito menos se possui ou não a Medusa Azul. Duvido que ele saiba, sequer, que foi roubado.

- Isso explica, certamente, por que é que não tornou público o roubo - disse Lavinia, batendo na biqueira da meia-bota e considerando a informação. - Que melhor vítima do que aquela que nem sequer dá pela perda?

- Mas há, com certeza, alguém em casa dele que deu pela falta da pulseira - disse Emeline.

Tredlow encolheu os ombros.

- Tanto quanto sei, a única parente é uma sobrinha. Uma Mrs. Rushton, acho eu. Ela foi viver com ele há uns meses atrás, quando soube que ele estava a morrer. Possivelmente, não esperava que ele durasse tanto tempo.

Lavinia foi tomada de excitação. Tobias dissera-lhe que um herdeiro impaciente é sempre um belo suspeito.

- Essa Mrs. Rushton é herdeira da fortuna de Banks?

- É o que se diz.

- E é uma coleccionadora? - perguntou Lavinia, tentando não mostrar a crescente expectativa.

Tredlow resmungou.

- Se a senhora tivesse um genuíno interesse em antiguidades, eu já a teria visto entrar na minha loja. Como não a conheço, penso que posso afiançar que não é uma coleccionadora e que não fará ideia nenhuma do valor de uma peça como a Medusa Azul. - Tredlow franziu a testa, pensativo. - E não me surpreenderia que ignorasse o facto da pulseira ter sido roubada.

- Contudo, os rumores já correm no mundo do crime – observou Emeline.

Tredlow menosprezou a observação com um encolher de ombros.

- Provavelmente iniciados pelo ladrão, na esperança de atrair um potencial comprador para a relíquia.

- Sabe, por acaso, a morada de Lorde Banks? - perguntou Lavinia, rápida.

- Sua senhoria vive numa velha mansão a cair, em Edgemere Square, acho eu.

- Muito obrigada, Mr. Tredlow - disse Lavinia, reenlaçando as fitas do chapéu. - Foi uma conversa muito útil. - E, voltando-se e encaminhando-se para a porta - Vamos, Emeline, temos de nos ir embora.

Tredlow correu atrás delas e, polidamente, abriu-lhes a porta. Fez uma grande vénia e, depois, fixou Lavinia com um olhar sombrio.

- Quando é que recebo os meus honorários, Mrs. Lake?

- Não se preocupe - disse Lavinia, erguendo a mão enluvada en sinal airoso de adeus - recebê-los-á logo que o meu cliente me pague.

- Mas, oiça...

Lavinia transpôs rapidamente a porta, colocando ponto final na conversa. Emeline dirigiu um sorriso a Tredlow e seguiu-a. A porta fechou-se atrás delas.

Cá fora, na rua, em frente da loja, Emeline encarou Lavinia.

- Eu vi um certo brilho astuto nos seus olhos, quando Tredlow mencionou a sobrinha de Banks, Mrs. Rushton. Eu já conheço essa sua expressão: o que é que estava a pensar? Oconeu-me como herdeira de Banks, Mrs. Rushton há- de ser envolvida no caso, de uma forma ou de outra. Ou tomou parte no roubo...

- O que me parece improvável, se quer saber a minha opinião.

Afinal, ela estava em condições de herdar a pulseira, bem como toda a fortuna de Banks.

- Ou é tanto vítima quanto Banks. Como muito bem acentuaste ela ia herdar tudo, portanto, a perda dele é perda dela.   

- O que significa que...

- Significa que ela é um cliente potencial de Lake & March.

Emeline olhou para ela com regozijada admiração.      

- Tia Lavinia, isso é decididamente brilhante. É capaz de ter descoberto um segundo cliente para este caso.       

- Talvez, quem sabe?

Lavinia tentava moderar-se. Dois clientes significava honorários a dobrar, mas não era coisa fácil de conseguir.

- Mr. March vai ficar todo contente - disse Emeline.

- Vai ser interessante verificar se ele aprecia devidamente a minha iniciativa - disse Lavinia, franzindo a testa. - Ultimamente começou a assumir uma atitude de patrão em relação a mim.

- De patrão?

- Sim - disse Lavinia, parando no meio da rua, para deixar passar uma carroça de agricultor. - Diria mesmo uma atitude ditatorial. Está sempre a dizer-me o que eu devo e o que eu não devo fazer. Chegou a dizer-me que eu não tinha nada que colocar um anúncio nos jornais.

- Oh!

- Como se tivesse alguma coisa que ver quanto ao meio que eu escolho para anunciar os meus serviços.

- Tenho a certeza de que a intenção dele é boa.

- Conversa fiada. O que ele quer é desencorajar-me de prosseguir na carreira de investigadora. Se queres saber, acho que não lhe agrada o facto de que, quando não estamos a trabalhar juntos num determinado caso, como sócios, eu sou, na verdade, uma concorrente dele.

- Ora, ora, tia Lavinia. É muito natural que ele sinta a obrigação de a aconselhar em coisas que dizem respeito à sua profissão. Afinal de contas, ele tem muito mais experiência do que a tia.

- Ele está a fazer tudo para manter a minha experiência limitada.

- Por que é que diz isso?

- Olha um bom exemplo: ele recusa-se a apresentar-me às pessoas que conhece no mundo do crime. Ainda esta manhã, eu sugeri que ele me apresentasse ao taberneiro a quem ele chama Smiling jack e ele recusou.

- Estou a perceber - disse Emeline. - Penso que Mr. March acha que não é lá muito conveniente a tia pôr-se a consultar um taberneiro.

- Segundo a minha experiência, Mr. March nunca se preocupou muito com essas questões de conveniência - declarou Lavinia. - Não acredito, nem por um momento, que ele esteja a tentar proteger-me de ligações inconvenientes. Ele quer é guardar Smiling Jack só para ele.

- Pensa realmente isso, minha tia?

- Penso, sim. E, para confirmar isso, digo-te que também arranjou uma desculpa para não me apresentar a Lorde Crackenburne.

- Hum!

- Qualquer coisa a respeito de Crackenburne nunca sair do clube.

- Bem, isso parece um pouco estranho.

- Para além de me dar conselhos, mesmo que eu não lhos peça, e de se recusar a apresentar-me aos seus conhecidos, já terás notado que Mr. March se habituou a aparecer regularmente ao pequeno-almoço.

Emeline aquiesceu com a cabeça.

- De facto, temos andado a vê-lo muito pela manhã.

- Sai muito caro alimentar, regularmente, um homem do tamanho dele e com aquele apetite.

- Mr. March aprecia bastante a sua comida, isso é verdade.

- Mas não é a comida dele, Emeline - precisou Lavinia -, é a nossa comida.

- Acho que estou a perceber o que se passa: - disse Emeline gentilmente - sente que Mr. March se está a tornar impositivo.

- Mas não é só isso. Não lhe basta ser impositivo comigo. Ele quer é atropelar-me e deixar-me espalmada na estrada.

- Tia Lavinia, eu não posso acreditar que...

- Isso quer dizer que se torna imperativo eu mostrar-lhe que sou perfeitamente capaz de tratar das minhas coisas, sem a constante supervisão dele, e que posso descobrir pistas e suspeitos sem a ajuda dele, o que nos leva de volta a Mrs. Rushton.

Emeline parecia intrigada.

- O que é que quer dizer com isso?     

- Edgemere Square não fica longe daqui e nós vamos fazer-lhe uma visita, no caminho para casa.         

- Óptimo. Vou aproveitar para observar a sua técnica de interrogatório.

- Por falarmos em técnicas... - disse Lavinia.

- Sim?

- Devo dizer-te que fiquei impressionada com a maneira como marcaste o teu axaropado sorriso e a tua descarada lisonja em Mr. Tredlow. O teu tratamento tornou-o bastante cooperador. Foi um trabalho muito eficiente.

- Obrigada - Emeline estava toda satisfeita. - O meu método particular de conduzir interrogatórios pode ser diferente do seu, mas sinto que é eficaz.

- Com efeito, e especialmente se interrogamos um cavalheiro. É uma técnica difícil de dominar?

        - Para mim, é-me perfeitamente natural.

 

Tobias estendeu as pernas, esticou os dedos e olhou para Crakenburne. O clube estava calmo àquela hora. Os únicos sons eram o das chamas na lareira, o tinir de chávenas de café e o estalar dos dedos, chamando os empregados.

- Outro caso? - perguntou Crackenburne, sem tirar os olhos do jornal.

- Eu e Mrs. Lake estamos a conduzir um inquérito por encargo de un velho amigo dela, o dr. Howard Hudson.

- Ah, já sei, o mesmerista cuja mulher apareceu estrangulada.

- Nunca deixa de me surpreender com a sua notável capacidade de estar sempre a par das últimas novidades - disse Tobias, pondo-se a olhar para as chamas na lareira. - Aparentemente, Mrs. Hudson foi assassinada pelo amante, por causa de uma pulseira muito antiga que ela teria roubado.

- Parece dubitativo.

- Celeste Hudson era muito bonita, muito mais nova do que o marido, sedutora e pode-se ter envolvido num caso de amor ilícito.

- Estou a perceber. Por outras palavras, suspeita que o marido a tenha matado.

- Sim, acho isso muito provável. Na verdade, eu não duvido da história toda. É muito possível que Celeste Hudson tivesse um amante e que o par tivesse planeado o roubo da antiguidade. Lavinia, porém, está convencida de que Hudson está inocente, do assassinato e do roubo, e que só lhe interessa é fazer justiça à mulher. Eu, pelo contrário, acho que o que realmente lhe interessa é recuperar a antiguidade que desapareceu naquela noite.

Crackenburne roncou.

- Eu não quero desencorajá-lo, mas deixe-me apontar-lhe uma des vantagem potencial nesse seu caso.

- Poupe as suas palavras. Eu já me apercebi: se se provar que eu tenho razão e que Hudson matou a mulher, eu e Lavinia dificilmente receberemos os nossos honorários.

- Sim, é isso - disse Crackenburne, dobrando o jornal e mirando Tobias por cima dos óculos. - Em que é que o posso ajudar?

- O que é que me pode dizer a respeito de Lorde Gunning e de Lorde Northampton? Tudo o que sei é que residem em Bath, ou lá perto e que talvez tenham sido clientes de Hudson.

Crackenburne pensou um bocado e, depois, teve um encolher de ombros.

- Receio que não lhe possa dizer muita coisa. Se se trata dos cavalheiros em que estou a pensar, são ambos muito velhos, são ambos doentes e são ambos ricos. Eles são sócios deste clube, mas não os vejo por cá há anos.

- E é tudo?

- Receio bem que sim. Mas posso tentar obter mais informações, se quiser.

- Ficar-lhe-ia muito grato - disse Tobias.

- Devo dizer que acho essa sua profissão muito interessante - disse Crackenburme, pegando na chávena de café. - Quase tão interessante como nos velhos tempos, durante a guerra, em que você conduzia as suas averiguações por encargo da Coroa.

- Ainda bem que isso o diverte - disse Tobias. - Eu, pessoalmente, cheguei à conclusão de que a minha actuação como espião me proporcionava uma vida muito mais simples e mais descansada do que a minha presente ocupação como sócio ocasional de Mrs. Lake.

 

A mansão de Banks era um enorme e tristonho amontoado de pedra, em estilo gótico. Situada num bairro remoto, erguia-se vários andares acima do alto muro de um vasto jardim. As janelas estreitas dos andares superiores estavam tapadas com cortinados escuros. Na opinião de Lavinia, o edifício seria um bom cenário para um romance de espectros e de esqueletos estranhos.

- Mesmo que não soubéssemos que o dono da casa está a morrer lá dentro, podíamos adivinhá-lo a partir da rua - disse Emeline.

- É um local deprimente, não é? - disse Lavinia, batendo com a argola de bronze. - Mas acho que outra coisa não seria de esperar, dadas as cir cunstâncias. Afinal de contas, sua senhoria está a finar-se. E a levar algum tempo nisso.

A governanta abriu a porta e espreitou para fora, pestanejando, como se a luz do sol fosse inesperada e nada bem-vinda.

- Desejamos falar com Mrs. Rushton - disse Lavinia, colocando um cartão na mão engelhada da mulher. - Por favor, entregue-lhe este cartão e diga-lhe que é muito importante.

A governanta ficou de olhos abertos para o cartão, como que admirada com o que lá estava impresso e, depois, disse, com ar carrancudo:

- Mrs. Rushton não está em casa. Foi fazer um dos seus tratamentos.

- Tratamentos? - repetiu Lavinia. - Que género de tratamentos?

- Ela tem os nervos fracos e começou a ir a um desses mesmeristas, há umas semanas atrás. Faz maravilhas, segundo ela diz. Eu não vejo diferença nenhuma, se quer saber, mas o resultado é que hoje não está em casa - concluiu a governanta, fechando a porta na cara de Lavínia.

Os olhos de Emeline brilhavam de excitação.

- Mrs. Rushton vai a um mesmerista?

- De facto, é interessante - disse Lavinia, descendo os degraus da entrada, à frente de Emeline. - É, realmente, uma notícia interessante, não é?

- Mas o que é que isso implica?

- Eu não sei onde é que isto nos vai levar, mas não podemos igno rar o facto de que deve haver uma qualquer ligação.

Emeline correu atrás dela.

- Quando é que vai contar a Mr. March os últimos desenvolvimentos?

Lavinia ponderou a pergunta por uns momentos.

- Esta noite, no baile Stillwater. Ele era muito capaz de assumir a informação como dele e eu quero que ele saiba que eu cheguei cá primeiro. Não estou disposta a ouvi-lo atribuir-se o mérito. Isso é intolerável.

- Encontrei Oscar Pelling. - A voz de Anthony era tensa, no esforço de esconder o orgulho e a excitação. - Mas não foi fácil. Tive de averiguar num grande número de hospedarias, antes de descobrir que se encontra alojado na Cabeça do Urso, em Shuttle Lane.

- Belo trabalho - disse Tobias, afastando a cortina da carruagem e observando a rua envolta na noite. Passava pouco das nove. O incon fundível cheiro do rio dizia-lhe que estavam a chegar ao destino. - Sou beste alguma coisa do que anda a fazer na capital?

- Eu falei com um dos moços de estábulo da estalagem. Tobias olhou para ele, ligeiramente carrancudo.

- Espero que não te tenhas denunciado. Não quero que Pelling saiba que estamos a averiguá-lo.

- Claro que tive o cuidado de agir naturalmente - disse Anthony com ar ofendido. - Apenas um pouco de conversa a respeito de cavalos e das horas de partida das carruagens e do género de cavalheiros de fora que preferiam aquele estabelecimento quando vinham a Londres. Esse género de coisas.

- E então? O que é que descobriste?

- Nada de alarmante. Como Mrs. Lake imaginava, Pelling veio cá pelas razões do costume. Ele é, no fim de contas, um homem de um certo peso. Veio falar com os seus banqueiros e o rapaz do estábulo ouviu-o dizer que ia ao alfaiate e ao botoeiro. A rotina do costume de um cavalheiro abastado que não vem a Londres com frequência.

- Hum - Tobias considerou a informação. - O rapaz do estábulo não sabia nada dos negócios de Pelling, presumo eu?

- Claro que não, ele é um mero moço de estábulo - disse Anthony fazendo uma pausa. - Em termos de informação pessoal, a única coisa que ele adiantou é que Pelling se entretinha, à noite, com uma das prostitutas que funcionavam nas redondezas da estalagem.

- Procura essa mulher - disse Tobias.

Anthony engoliu em seco e corou.

- Oh...

- Alguma coisa mal?

- Não, não - apressou-se Anthony a dizer. - Vou... seguir essa linha imediatamente. - Depois, tossiu e limpou a garganta. - Eu preferia que não referisses esse aspecto da investigação a Mrs. Lake, nem a Miss Emeline, se não te importas.

Tobias compreendeu que Anthony ficaria mortificado se Emeline

viesse a saber que ele andava a falar com prostitutas.          

- Não há razão nenhuma para te preocupares a esse respeito - disse Tobias. - Eu não disse a nenhuma delas que andávamos a investigar as actividades de Pelling, pois não quero alarmá-las.        

- Mrs. Lake não te vai agradecer por não lhe teres falado nisto - avirmou Anthony.         

- Se não descobrirmos nada que nos possa preocupar, ela não precisa de saber destas averiguações. De qualquer modo, quando localizares a mulher que anda a dormir com Pelling, diz-me e vou eu falar com ela.

Anthony pareceu ficar consideravelmente aliviado.

- Se achas que sim.  

- Acho, sim - disse Tobias, olhando pela janela. - Chegámos - acrescentou ele, batendo no tecto do trem, para o cocheiro parar.

O veículo parou com um rangido. Tobias abriu a porta, segurou-se à borda do trem e desceu para o pavimento. Já não chovia e a perna estava em melhor forma do que na véspera, mas, mesmo nos dias bons, já não tinha a agilidade para subir e descer de carruagens que tivera outrora.

Dizia a si próprio que era efeito da ferida que sofrera em Itália, e não o facto de se aproximar perigosamente dos quarenta, o que o obrigava a descer dos veículos com muito mais dignidade do que a que patenteava nos tempos de juventude.

- Não te esqueças de dizer ao cocheiro para esperar por nós Anthony. - Não nos interessa nada vermo-nos sem transporte neste ermo, sobretudo a esta hora da noite - acrescentou, saltando da carruagem com uma facilidade descuidada que fez Tobias suspirar interiormente.

- Nós demoramos apenas uns minutos - disse Tobias, entregando umas moedas ao cocheiro. - Faça o favor de esperar por nós.

- Sim, meu senhor - respondeu o cocheiro, guardando as moedas e puxando pela garrafa de gin. - Aqui estarei quando voltarem.

Tobias encaminhou-se para o brilho amarelo das janelas da taverna, pressentindo a expectativa de Anthony.

- Não te esqueças, não digas nada até estarmos no escritório de Snúling jack - disse Tobias. - A tua maneira de falar denunciava-te imediatamente, no meio daquela multidão. Estamos entendidos?

Anthony fez uma careta.

- Garanto-te que as tuas instruções acerca da nobre arte do disfarce foram tão directas e claras como das outras dez vezes que as já repetiste esta noite.

- Se tenho a tendência de me repetir, é porque tenho boas razões para isso. A última coisa de que precisamos esta noite é de uma briga com um dos malandrins que ali estão.

- Prometo-te que não direi uma palavra.

Tobias olhou para o diabólico brilho âmbar das janelas da taverna e abanou a cabeça.

- Não vais acreditar, mas Lavinia pediu-me que a trouxesse aqui, para eu a apresentar a Smiling Jack. Tencionava vir disfarçada de prostituta.

Anthony ficou espantado.

- Meu Deus! Presumo que te recusaste a fazê-lo?

Tobias sorriu amargamente.

- Uma pessoa não traz uma senhora para este género de estabeleci mentos. Mas acho que ela ficou irritada comigo. Penso que julga que eu tento impedi-la de falar com os meus contactos.

- O que é, precisamente, o caso, não é?

- Sim, mas é para bem dela. Eu não a posso deixar deambular por esta parte da cidade. Ela já é por demais inclinada a comportamentos imprudentes e eu não quero, de modo nenhum, encorajá-la nessa tendência.

Tobias parou em frente da porta de O Grifo e deu uma última olha dela ao aspecto do companheiro. Anthony estava vestido com a rude imdumentária de um trabalhador das docas. Com as suas pesadas botas e calças e casaco largueirões, parecia ter acabado de passar um longo dia a descarregar um dos navios atracados a um dos molhes próximos. O chapéu deformado, todo enterrado na cabeça, ocultava o elegante corte de cabelo e protegia-lhe as feições de olhares indiscretos.

Tobias vestira indumentária semelhante para a excursão nocturna. Para além do vestuário de trabalhador, o ligeiro coxear acrescentava-lhe autenticidade à aparência. Os clientes de O Grifo ganhavam a vida numa variedade de perigosas ocupações, umas legais, outras bastante ilegais. Pernas de madeira, falta de dedos, palas nos olhos e cicatrizes eram coisas muito vulgares entre eles.

- Não estás nada mal - disse Tobias, empurrando a porta da taverna cheia de fumo -, mas não olhes ninguém directamente nos olhos, pois isso pode ser considerado um insulto.

- Acho que já me recomendaste isso também diversas vezes, hoje - disse Anthony, um fugaz sorriso aparecendo e desaparecendo por debaixo da sombra do chapéu. - Mas tem calma, eu não te vou deixar ficar mal.

- O que me preocupa é a possibilidade de eu te deixar ficar mal - disse Tobias calmamente.

Anthony voltou-se para ele num repente.

- Não deves pensar nisso dessa forma. A escolha foi minha.        

- Basta! - disse Tobias. - Vamos tratar do nosso assunto.     

Abriu por completo a porta e entrou na apinhada taverna, deliberadamente acentuando o coxear. Anthony seguiu- o.   

O lume crepitante na enorme lareira difundia pela sala apinhada uma luz infernal que condizia com o ambiente. Nos bancos de madeira amontoavam-se homens que tinham ido ali para beber, para jogarem às cartas e para se entreterem com as avantajadas criadas que serviam às mesas.

Tobias abriu caminho por entre a multidão e, a certa altura, olhou para trás, para ter a certeza de que Anthony o acompanhava, e viu que o companheiro tinha os olhos fixos numa das criadas mamalhudas. Os enormes seios, todos suados, ameaçaram soltar-se do corpete, quando ela se inclinou para servir três canecas de cerveja.    

- São todas do tamanho de estátuas - murmurou Tobias. - Jack gosta delas assim.

Anthony sorriu.

Seguiram pelo corredor e pararam diante da porta do escritório

de Smiling Jack, que estava entreaberta. Tobias bateu uma vez e abriu-a.

- Boa- noite, Jack.      

Tobias não se preocupou em endurecer a voz: ali, não havia necessidade disso. Tobias e Jack eram velhos conhecidos, dos tempos em que eram ambos espiões. Na sua anterior profissão de contrabandista, Jack encontrara-se muitas vezes em condições de fornecer preciosas informações úteis à Coroa. Jack adoptara a profissão de taverneiro recentemente, mas o seu talento para bisbilhotar e ouvir tagarelices e rumores úteis mantinha-se intacto. Funcionava no mundo do crime como Crackenburme no mundo que um clube de cavalheiros constituía.        

Jack ergueu os olhos do gesto de se servir de brandy, sorrindo lentamente ao ver Tobias e Anthony à porta. A expressão torceu-lhe a grande cicatriz que lhe ia da boca ao ouvido num horrível esgar de esperteza.

- Pontual como sempre, March - disse Jack, mirando Anthony com interesse. - Quem é esse que trazes contigo?

- É o meu cunhado, Anthony Sinclair - disse Tobias, fechando a porta. - Já te tenho falado nele. Estou a ensinar-lhe a profissão.

- Prazer em conhecê-lo, finalmente, jovem Sinclair - disse Jack, rindo. - Vai seguir a carreira, é isso?

- Sim senhor - disse Anthony, todo orgulhoso.

Jack anuiu com a cabeça.

- Gosto de ver um negócio manter-se na família. E não podia encon trar melhor instrutor na arte da investigação de que o nosso March. Nunca conheci ninguém melhor a desvendar os segredos das pessoas. O facto de ninguém lhe ter cortado o pescoço ao fim destes anos todos demonstra o seu grande talento para a profissão, digo-lho eu.

- Obrigado pelas excelentes referências - murmurou Tobias. - Mas, se não te importas, queria falar-te de um assunto mais urgente. Eu recebi a tua mensagem desta tarde: o que é que tens para me dizer a respeito de Nightingale.

- Já te conto tudo, mas, primeiro, sentem-se e bebam um brandy comigo.

Tobias pegou numa das incómodas cadeiras de costas direitas, junto da lareira, voltou-a e sentou-se ao contrário. Anthony observou-o e, de imediato, seguiu a mesma rotina com a outra cadeira. Dobrou os braços sobre o espaldar da cadeira, como Tobias fizera, e agarrou no cálice de brandy que Smiling Jack lhe estendia.

- Devo confessar que não tenho tido muito contacto com Mr. Nightingale - disse Smiling Jack, dirigindo-se para a sua grande secretária e sentando a pesada massa do corpo na enorme cadeira. - Ele negoceia em antiguidades, jóias e pinturas roubadas: Tudo mercadoria do melhor e da mais cara. E com uma clientela muito exclusiva, segundo dizem. Um negócio de alto nível, muito diferente do meu, receio bem.

- Lérias - disse Tobias, bebendo um gole de brandy. - Na minha opinião não há grande diferença entre o negócio de contrabando e de taverneiro e o negócio de antiguidades e pinturas roubadas. E eu aposto em ti, contra Nightingale, no que respeita a clientela exclusiva.

Smiling Jack riu-se.

- Agradeço o teu comentário, caro amigo. Mas, voltando a Nightingale, ele é especialista em transacções entre clientes que preferem não se encontrarem cara a cara, por razões diversas. E ele organiza leilões e vendas por conta dessas pessoas.

Anthony franziu a testa.

- Como é que funcionam esses leilões clandestinos? Smiling Jack recostou- se na cadeira e assumiu um ar professoral.

- Nightingale funciona como mensageiro entre os clientes. Ele dá notícia às partes interessadas que está em acção e que aguarda lances, garantindo anonimato a todas as partes. Recebe uma choruda comissão e leva uma bela vida, aparentemente honesta.

Tobias tamborilava com os dedos no espaldar de madeira da cadeira, pensando.

- Ele costuma patrocinar roubos?

Jack pousou uma das mãos na farta barriga e considerou a pergunta.

- Não posso afirmá-lo, mas não acredito que deixasse fugir uma oportunidade para isso, se ela se lhe apresentasse e lhe pudesse render muita massa.

- Referiste-te à sua clientela exclusiva - disse Tobias. - Sabes o nom de alguém que tenha feito negócio com ele?

- Não, não sei. Como te disse, parte do que eles pagam é para garantir absoluta discrição. O capital dele no mercado é, no fim de contas, a sua reputação. E ele tem todo o cuidado em preservá-la.

Tobias recordou as palavras que Lavinia mandara imprimir nos cartões: Máxima Discrição.

- Parece que a minha sócia, Mrs. Lake, não é a única que tenta atrair uma clientela de qualidade com a promessa de discrição.

Jack encolheu acentuadamente os volumosos ombros.

- O dono de um negócio deve fazer tudo o que puder para conseguir lucro. Entretanto, para voltarmos ao assunto, fiz o que me pediste: fiz saber ao Nightingale que desejavas falar com ele. E ele respondeu tão depressa que penso poder afirmar que ele anseia discutir a história da antiguidade desaparecida tanto como tu.

- Quando e onde é que nos podemos encontrar?

- Receio que isso dependa apenas de Nightingale, mas não vale a pena preocupares-te em encontrá-lo, ele irá ter contigo.

- Eu não tenho muito tempo a perder.

Jack sorriu.

- Eu tenho a impressão de que o vais ver em breve, muito em breve mesmo.

Tobias bebeu outro gole de brandy e baixou o cálice.

- O que é que me podes dizer mais acerca de Nightingale? Podes descrevê-lo?

- Vimo-nos uma ou duas vezes, mas, para te dizer a verdade, não reconheceria na rua, se ele se dirigisse a mim para me cumprimentar.

Nightingale faz questão de não se mostrar à luz do dia, nem aos clientes nem a nenhuma das partes envolvidas nos negócios.

Anthony parecia intrigado.

- Como é que ele faz a. os seus arranjos.

- Só trabalha de noite e tem todo o cuidado em permanecer na sombra, utilizando uma série de rapazitos da rua para lhe levar as mensagens aos destinatários - disse Jack, rolando o seu cálice de brandy entre as palmas das mãos enormes. - Pelo pouco que vi dele, posso dizer-vos que é um homem baixo. A julgar pelo som da voz, diria que não é novo, mas tão-pouco é velho e trôpego. Vi-o uma vez de relance a caminhar numa travessa, obscurecida pelo nevoeiro: tem uma maneira esquisita de andar.

- Esquisita como? - perguntou Tobias.

- É uma espécie de andar torcido e deslizante, não sei se percebes o que quero dizer. Ia apostar que sofreu em tempos um acidente e os ossos nunca se soldaram convenientemente.

- Um acidente desse género não é de admirar, dado o seu tipo de trabalho - disse Tobias. - Provavelmente, aconteceu ao fugir de algum cliente insatisfeito.

- Sim, provavelmente.

Anthony olhou para Tobias, como que a pedir licença para exprimir a opinião dele.

- O que é? - perguntou Tobias.

- Ocorreu-me que talvez Mr. Nightingale finja que é coxo, como parte do seu disfarce.

Tobias riu-se.

- É uma boa ideia. Há, na verdade, essa possibilidade. Jack dirigiu a Tobias uma piscadela de olho.

- Diria que o teu jovem assistente tem queda para o ofício.

- É disso que eu tenho medo - disse Tobias.

Anthony sorriu visivelmente satisfeito consigo próprio. jack tornou a dirigir-se a Tobias.

- Quer dizer que tens mais um caso com a tua sócia ocasional, é isso?

- O nosso cliente afirma que a mulher dele foi assassinada por alguém que a convencera a roubar a peça de antiguidade - disse Tobias em tom neutro.

- Ah, sim, a mulher do mesmerista.

Anthony endireitou-se.

- já ouviu falar no caso?

- Sim, já - disse Jack, bebendo uma golada de brandy. - Esse é o género de notícias que, mais cedo ou mais tarde, geralmente se encaminha para O Grifo. - Jack observou Tobias. - Andas outra vez à procura de um assassino, caro amigo?

- Assim parece.

Anthony olhou para Tobias, surpreendido.

- O que é que queres dizer com isso? Não há dúvida nenhuma de que Mrs. Hudson foi assassinada.

- A senhora morreu; não há dúvida - disse Tobias. - Mas eu não tenho a certeza de que não conheçamos o assassino.

- Não compreendo - disse Anthony.

- A senhora tinha combinado um encontro com o amante na noite em que morreu - disse Tobias, cheio de paciência. - O marido tinha conhecimento do caso e admite que sabia do encontro. Assistiu a uma demonstração de mesmerismo nessa noite e a senhora foi encontrada estrangulada mais tarde. Estes são os únicos factos reais, até este momento.

Anthony estava ainda confundido, mas jack aquiesceu com a cabeça; uma expressão de completa compreensão nas feições cicatrizadas.

- Achas que Hudson a seguiu e a matou num acesso de ciúme, não é? - perguntou ele.

Tobias encolheu os ombros.

- Sim, acho que essa é a explicação mais plausível para o sucedido.

- E, depois, descobriu demasiado tarde que ela tinha saído com uma antiguidade valiosa que, entretanto, desaparecera. - Jack emitiu um ronco. - Podemos falar de justiça, hem!

- Esperem lá - disse Anthony de repente, virando-se para Tobias.

- Estás a querer dizer que acreditas que Hudson te encarregou e a Mrs. Lake de encontrarem o amante de Mrs. Hudson, não porque queira levar o assassino perante a justiça, mas porque quer reaver pulseira?

- Numa palavra, sim - disse Tobias.

- Mas, se achas que o teu cliente está a mentir, por que é que concordaste em aceitar o caso? - perguntou Anthony.

- Não tinha outra hipótese - disse Tobias, bebendo o resto do brandy. A minha sócia tornou claro que estava decidida a procurar o amante da pulseira com ou sem mim.

- E não podias deixá-la encarregar-se sozinha de um caso tão perigoso - concluiu Anthony.

- Isso resume muito precisamente a situação - disse Tobias, voltando-se, depois, para Jack. - Tens mais alguma coisa para nos dizer?

- Apenas que vos aconselho alguma prudência - disse Jack. - O facto de Mr. Nightingale estar envolvido no caso é um pouco preocupante.

Sabe-se que alguns dos clientes dele não só são muito ricos, como impla cáveis, quando se dispõem a adquirir peças para as suas colecções.

- Estranhamente, eu já tinha chegado a essa conclusão - disse Tobias levantando-se e pousando o cálice de brandy vazio. - Vamos, Anthony. Temos de nos pôr a caminho, se queremos chegar ao baile Stillwater antes da meia-noite. Só espero que Nightingale não nos faça esperar muito tempo.

- Duvido que o faça - disse Jack. - Mas uma coisa te posso quase garantir, é que o encontro, quando se der, vai ser à noite.

 

Pouco depois da meia-noite, Lavinia e Tobias, em pé, num recanto do elegantemente proporcionado salão de baile de Lady Stillwater, observavam Anthony a conduzir Emeline para o turbilhão das voltas de uma valsa. Uma sensação de inevitabilidade invadiu-a.

- Eles fazem um belo par, não fazem? - disse ela.

- Fazem, sim, fazem. - Não havia inflexão nenhuma nas palavras de Tobias. - Eu sei que tinha a intenção de casar Emeline com um homem rico, mas, às vezes, o amor intromete-se no meio de um esquema a todos os títulos meritório.

Lavinia mantinha o olhar fixo nos dançarinos.

- Pode ser que seja uma paixoneta passageira.

- Não tem o ar disso. Receio o pior.

Lavinia pestanejou.

- O pior é estarem apaixonados?

- É o que você pensa, não é? - disse ele no mesmo tom de voz, por demais neutro.

Por qualquer razão, o modo casual como ele admitiu que apaixonar-se, era, na verdade, a pior saída amargurou-a. Pôs-se a pensar, morbidamente, se Tobias consideraria igualmente terrível a possibilidade de ele próprio se apaixonar.

- Infelizmente, devo informá-la de que Anthony tem talento para a investigação - acrescentou Tobias. - Agora que lhe tomou o gosto, duvido muito que consiga persuadi-lo a seguir uma carreira mais estável.

Lavinia apercebeu-se da amarga resignação na voz dele e compreendeu-o. Ele tinha feito tudo o que podia para substituir o pai do jovem cunhado, tanto como ela própria se esforçara para garantir um futuro seguro a Emeline.

- Acha que falhámos ambos em relação a eles? - perguntou Lavinia calmamente.

- Não sei - disse Tobias - mas diria que, quando os vemos tão felizes juntos, é difícil achar que estamos a permitir que arruinem as suas vidas.

Lavinia regozijou-se um pouco com estas palavras.

- Há algo a dizer a respeito do amor, não há?

- Sim, há algo a dizer. Mas precisamente o quê é que não sei.

Lavinia não soube o que entender destas palavras, por isso decidiu mudar de assunto.

- Devo dizer-lhe que Anthony não é o único a demonstrar queda para a investigação. Emeline patenteou, esta tarde, uma perícia notável em técnicas de interrogatório.

- As duas fizeram hoje um belo trabalho, ao obterem, tão rapidamente, bastas informações quanto à ligação de Lorde Banks com a pulseira.

- Obrigada - Lavinia fora momentaneamente distraída pelo elogio, mas queria voltar ao assunto. - O facto é que Tredlow, praticamente, desfez-se em papa quando Emeline sorriu para ele e o elogiou pela reputação que tinha no negócio de antiguidades. Garanto-lhe que ela teria obtido a informação da parte dele, mesmo que eu ali não estivesse, prometendo pagar-lhe pelo serviço prestado.

- O encanto é sempre um talento muito útil e Miss Emeline tem um enorme encanto.

Lavinia fez que sim com a cabeça.

- Eu sempre a achei muito graciosa, mas tenho de confessar que até hoje, nunca me passara pela cabeça que a capacidade de encantar homens pudesse ser tão útil nesta profissão.

- Hum!

- Em boa verdade, ao observar esta tarde o excelente desempenho de Emeline, veio-me à mente uma ideia.

Houve uma pausa curta, mas atenta.

- Que género de ideia? - perguntou Tobias, cautelosamente.        

- Estou a pensar em pedir a Emeline que me ensine a técnica de utilizar o encanto para obter informações dos cavalheiros.

Tobias engasgou-se com o champanhe que se preparava para engolir, espirrando e começando a tossir.  

- Santo Deus, caro amigo, sente-se mal? - Alarmada, Lavinia procurou na bolsinha que Madame Francesca insistira que ela comprasse, para condizer com o vestido, tirando dela um lencinho que estendeu a Tobias.

- Tome lá.

- Obrigado - murmurou ele para o quadrado de linho delicadamente bordado. - Acho, porém, que o que preciso é de um bom copo de clarete - acrescentou ele, agarrando noutra taça de champanhe dum tabuleiro que passava. - Mas suponho que tenho de me governar com isto, por ora.

Lavinia franziu o sobrolho, ao vê-lo engolir metade do conteúdo da taça.

- A perna está a incomodá-lo?

- Não é a perna que me incomoda.

Ela não ligou ao brilho que surgiu nos olhos dele.

- O que é, então?

- A minha cara amiga é perita em muita coisa e possui uma varie dade de talentos, mas, como seu leal, embora ocasional sócio, devo dizer-lhe que, na minha abalizada opinião, qualquer tentativa da sua parte para se dedicar à arte de encantar cavalheiros, ao ponto de eles lhe confiarem os segredos, é uma pura perda de tempo.

O facto de ele encarar o encanto como um talento fora do alcance dela chocou-a profundamente.

- Está a insinuar - disse ela friamente - que eu não tenho capaci dade para desfazer um homem em papa?

- Nada disso. - Os dentes dele brilharam num relâmpago de um sorriso. - Pelo contrário. Em mim tem tido, por vezes, um efeito dissolvente.

Lavinia foi ao rubro.

- Você acha a minha ideia de estudar as técnicas do encanto muito divertida, não acha?

- Lamento ter de dizer-lhe que não acredito que qualquer de nós tenha aptidão para o encanto. E falo com conhecimento de causa, pois acontece que Anthony tem tentado ensinar-me alguns aspectos essenciais dessa arte.

Lavinia ficou espantada.

- Ah, sim?

- É verdade. Eu fiz algumas experiências consigo recentemente, mas acho que não produziram nenhum efeito.

- Você tentou encantar-me?

- Garanto-lhe que sim. Como é óbvio, nem sequer deu pelos meus esforços.

- Quando é que alguma vez utilizou encanto. - Lavinia calou-se de repente, recordando recentes comentários dele ao pequeno-almoço.

- Ah, sim, agora recordo aquela de eu parecer uma encarnação de Vénus.

- E houve aquela muito bonita de a comparar a uma ninfa, que eu repeti todo o caminho entre a minha casa e a sua, esta manhã.

- Lá porque você não tem o dom do encanto, não quer dizer que eu não possa aprender-lhe o jeito.

- Poupe o seu tempo, minha cara. Cheguei à conclusão de que o encanto é um atributo inato. Uma pessoa ou o possui naturalmente, desde o berço, como Miss Emeline e Anthony, ou ele lhe falta completamente e não há maneira nenhuma de o adquirir.

- Conversa fiada.

- Eu não compreendo porque é que está tão preocupada em aprender como encantar os homens - disse Tobias -, já que consegue forçá-los bastante bem, mesmo sem esse dom.

- Acho que isso é um insulto, meu caro senhor.

- Não era essa a intenção.

Lavinia semicerrou os olhos.

- Talvez eu gostasse de encantar certos cavalheiros.

- A mim, por exemplo? - disse Tobias, sorrindo, prazenteiro. - É um belo pensamento, mas não é necessário, minha querida. Estou bastante contente consigo, exactamente como é.

- Isso é verdade, Tobias?

- Absolutamente. Parece-me a mim que você e eu temos uma compreensão do carácter um do outro que está para além das expressões sinceras e dos cumprimentos sem sentido.

- É capaz de ter razão. Contudo, considero-a uma técnica de inquirição extremamente útil e estou francamente inclinada a levar algumas experiências a cabo, antes de abandonar a ideia por completo.

- Espero que tenha muito cuidado, minha senhora. Não tenho certeza de que os meus nervos sejam suficientemente fortes para aguentarem o choque de uma potente dose de encanto aplicada por si.

Lavinia estava farta da ironia dele.

- Não se preocupe com isso, meu caro senhor, pois eu não tenciono aplicar em si uma técnica tão difícil de aprender. De qualquer modo, acho que você deve ser impermeável ao encanto.

- Não tenha dúvida. - A voz dele baixou para um tom que disse a Lavinia que ele já não estava a ironizar. - Todavia, se decidir fazer experiências com o encanto, devo insistir em que me utilize como única fonte.

Lavinia viu de relance algo nos olhos dele que era, ao mesmo tempo, perigoso e excitante, mas que não soube como definir. Havia ali um laivo de ironia, pensou ela. Aquela era, justamente, o género de situação em que a capacidade de encantar um homem lhe seria muito útil.

- Por que é que eu haveria de limitar as minhas experiências a si? - perguntou ela docemente.

- Porque não posso, em consciência, permitir que coloque em perigo qualquer outro cavalheiro inocente.

- Mas você não é um inocente.

- Era uma figura de retórica. - O olhar dele ultrapassou o ombro dela. - Para falar em alguém que conhece bem o valor do encanto, aí vem Mrs. Dove.

Lavinia ficou bastante desapontada por Joan ter escolhido aquele preciso momento para a encontrar no apinhado salão de baile. Aquelas vivas trocas verbais com Tobias estimulavam-lhe os sentidos e difundiam nela um certo prazer cálido.

Sem embargo, o dever chamava-a. Lavinia compôs-se e voltou-se para cumprimentar a deslumbrante mulher que se encaminhava para eles.

joan Dove andava pelo meio dos quarenta anos, mas o cabelo louro- pálido escondia bem os indiscretos fios de prata. Com as suas bonitas feições clássicas e o seu soberbo sentido de estilo, era muitas vezes tomada por muito mais jovem. Só quando uma pessoa se aproximava bastante dela e lhe notava as linhas aos cantos dos olhos e a mundana vivência no olhar é que se apercebia da verdadeira idade dela.

Embora tivesse enviuvado havia mais de um ano, Joan, em memória do marido, continuava a vestir-se apenas de preto e de cinzento. E, embora os vestidos não variassem muito de cor e de tom, eram, inevitavelmente, de última moda. Madame Francesca velava por isso.

Naquela noite, estava serenamente elegante num vestido de cetim prateado, divinamente orlado de pequenas rosas pretas. O decote era amplo, a realçar-lhe os bem torneados ombros e seios. A saia caía em pregas perfeitas até aos tornozelos.

- Ah, eis-vos aqui, Lavinia e Tobias - exclamou Joan, sorrindo para ambos. - É um prazer vê-los aqui esta noite. Já vi que Emeline e Anthony andam entregues às delícias do baile.

- Assim é - disse Lavinia, sorrindo com satisfação. - Este baile é mais um grande evento para eles e eu não sei como agradecer-lhe o grande favor de nos ter arranjado convites.

- Isso não tem importância nenhuma. Eu, agora que começo a sair um pouco mais, tenho todo o interesse em assegurar-me de que vou encontrar pessoas com quem possa conversar. E considero-vos, a si e a Tobias, não só bons amigos, como colegas meus.

Lavinia fixou o olhar de Tobias. Eles trocavam olhares de mútua compreensão que não precisavam de palavras. Na verdade, pensar em Joan como uma colega era uma ideia incómoda.

Fora Joan quem sugerira que eles a consultassem nos casos difíceis em que as invulgares relações dela pudessem ser úteis. E andava entusiasmada com o que considerava ser o seu novo entretém.

Embora Joan tivesse sido o primeiro cliente importante deles e Lavinia lhe estivesse muito reconhecida, não só por isso, mas também por a ter apresentado a Madame Francesca, havia boas razões para pôr algumas reservas à ideia de a utilizar como consultora. O aspecto positivo, porém, é que ela oferecia os seus serviços graciosamente.

Joan era uma mulher misteriosa com um passado obscuro. Uma das poucas coisas que Lavinia sabia de certeza certa a respeito dela era que o marido, Fielding Dove, antes da morte inesperada, controlara uma poderosa organização criminal, denominada o Clube Azul. No seu apogeu, a organização dominara uma vasta rede de negócios legais e ilegais que cobria a Inglaterra e se estendia ao Continente.

Depois da morte de Dove, cerca de um ano atrás, o Clube ter-se-ia, supostamente, desintegrado e desmembrado. Tobias, porém, ouvira, em certos meios do mundo do crime, rumores de que muitas das empresas do Clube não haviam, de modo nenhum, derrocado. Simplesmente, tinham nova gerência.

E o mais que provável novo proprietário, na óptica de Lavinia e de Tobias, era Joan Dove. Algumas perguntas, pensava Lavinia, era melhor não as formular.

- Tenho o prazer de vos informar de que tenho andado, esta noite, muito ocupada com as minhas averiguações por conta de Lake & March - disse Joan com ar prazenteiro.

O entusiasmo na voz dela despertou a atenção de Lavinia e fê-la olhar para a amiga mais atentamente. Aquela leveza de espírito era uma nofidade. Talvez Joan estivesse, finalmente, a emergir do luto.

- Lake & March - repetiu Lavinia, com um ar pensativo. - Gosto disso.

- Eu, francamente, não gosto muito - disse Tobias. - Se deseja dar à nossa ocasional associação uma designação formal, então, Joan, pode referir-se à firma como March & Lake.

- Conversa fiada - ripostou Lavinia. - Lake & March é muito mais apropriado.

- E eu discordo - disse Tobias. - O sócio sénior vem sempre primeiro.

- Há sempre que tomar a idade em consideração, claro, embora eu não fosse tão rude ao ponto de chamar a atenção para a sua. Contudo...

- Eu referia-me ao facto de ser o sénior em termos de experiência na profissão - disse Tobias num resmungo - não em termos de idade.

Lavinia sorriu docemente e, voltando-se para Joan com uma expressão inquisitiva, perguntou:

- Dizia, minha senhora?

- Quer dizer, antes de ter sido bruscamente interrompida pela vossa guerrazinha acerca da designação adequada à vossa associação? - O olhar de Joan tinha um brilho de inusitada ironia. - Pois bem, eu ia referir- vos uns rumores que circulam entre os membros da alta sociedade que se interessam muito por antiguidades.

Tobias pousou a taça de champanhe e olhou para Joan com interesse acentuado.

- Tem toda a minha atenção, minha senhora. - disse ele.

- Eu já sabia - exclamou Lavinia, fremente de excitação. - A notícia do desaparecimento da Medusa começou a circular no seu meio, não é isso? Por isso é que a contactei hoje de manhã e pedi a sua ajuda, Joan. Com as suas relações sociais, encontra-se numa posição ideal para obter este tipo de informações.

- Regozijo-me por poder ser útil neste caso. - Joan mantinha os olhos na multidão e baixou a voz para um tom confidencial. - O que descobri é que as notícias acerca da Medusa Azul despertaram o interesse de certo coleccionador, um cavalheiro muito rico e muito poderoso, o qual tem a reputação de conseguir tudo o que deseja possuir.

- Como é que sabe que ele quer a pulseira da Medusa? - perguntou Lavinia.

- Porque ele raramente se digna aparecer nos eventos sociais, embora se encontre na lista de convidados de toda a gente. O simples facto de ter vindo a este baile é prova cabal de que anda atrás da pulseira. Não consigo imaginar mais nada que o pudesse trazer aqui.

Lavinia seguiu o olhar de Joan e viu um homem, em pé, num grupo junto de umas palmeiras. Estava bem vestido e tinha a postura de fria arrogância e inegável segurança que a alta classe e a fortuna imprimem. Nesse aspecto, tinha muito em comum com a maior parte dos homens ali presentes. Era, em princípio, indiferençável dos que o rodeavam. Porém, distinguia-se na multidão de gente por algo indefinível, embora, obvia mente, nada fizesse para isso. Pelo contrário, dada a sua aparência calma e elegante, talvez fizesse antes por parecer fazer parte da paisagem.

Contudo, pensou Lavinia, o olhar dela dirigira-se directamente para ele. E apercebera-se, de imediato, de que era a ele que Joan observava. Num oceano de peixinhos coloridos, ele era um tubarão mal disfarçado. Exactamente como Tobias, pensou ela, incómoda. A noção levou-a a beber um gole de champanhe.

Fisicamente, porém, os dois homens tinham pouco em comum. Por um lado, o estranho era mais velho, perto dos cinquenta, talvez. Por outro, o cabelo reduzira-se-lhe de forma drástica, pondo em destaque uma alta fronte e um acentuado perfil. Era também mais alto e mais elegantemente magro do que Tobias.

- Quem é ele? - perguntou Lavinia.

- Lorde Vale - disse Joan baixinho.

Havia algo na voz de Joan que fez Lavinia olhar rapidamente para ela, ficando espantada ao ver uma expressão de interesse no rosto da amiga. Ocorreu-lhe que nunca vira Joan olhar para um homem daquela maneira. Queria dizer que Joan achava Vale um homem interessante.

- Não me diga - murmurou Tobias -, que Vale se encontra envolvido neste caso?

- Assim parece - disse Joan. - E, mais, desconfio que ele sabe que você e Lavinia o estão a investigar. Não pode haver outra razão para ele estar aqui esta noite.

- Rasparta! - exclamou Tobias, bebendo o champanhe que restava na taça. - Eu passava muito bem sem esta complicação.

Lavinia olhou para ele.

- Por que é que está tão preocupado com Vale?

Tobias não desviou a atenção do homem do outro lado da sala.

- Como Joan disse, Vale é um coleccionador com um gosto muito exigente e dispõe dos recursos financeiros para satisfazer esse gosto. E diz-se que, se o dinheiro não basta para ele obter o que decide adquirir, não se inibe de empregar outros meios e outros métodos.

- Ele é o fundador de um clube muito exclusivo - disse Joan. - Os membros do clube apelidam-se a si próprios de Coleccionadores. Apenas são admitidos os que coleccionam as mais exóticas e mais raras antiguidades. E raramente há vagas. Quando acontecem, o candidato a membro só para que seja tomada em consideração a sua admissão, tem de oferecer uma relíquia para a colecção do clube. - Joan fez uma pausa. - por acaso, acontece que existe actualmente uma vaga.  

Tobias olhou pensativamente para Joan.

- Como sabe disso?  

- Porque é a vaga deixada pela morte do meu marido, há cerca de um ano. Ele foi membro dos Coleccionadores durante muitos anos.    

- Admira-me que Vale ainda não tenha preenchido a vaga existente no clube - disse Tobias.     

- Talvez não tenha surgido nenhum candidato apropriado - disse Joan. - Não se esqueça de que o pretendente tem de apresentar um artefacto que seja não só muito belo, como possa ser considerado invulgar e extremamente raro. E não é fácil encontrar uma relíquia assim.

Lavinia susteve a respiração.

- A pulseira da Medusa seria, certamente, classificada como um artefacto aceitável para a admissão.

- Sem dúvida. O museu do clube constitui uma colecção muito privada, que nunca abre ao público. E duvido que Vale, ou qualquer outro membro do clube, se ponha a questionar a proveniência da peça, desde que seja reconhecidamente exótica e rara. - Joan fixou o olhar em Vale.          Dada a presença de sua senhoria aqui, esta noite, penso que devemos assumir que ele não tem a intenção de ficar de braços cruzados, à espera que outro qualquer coleccionador encontre a Medusa Azul e a ofereça ao clube. Vale pretende adquiri-la ele próprio.

- Conhece-o bem, Joan? - perguntou Tobias.

Joan hesitou um momento.

- Ele era nosso convidado, esporadicamente, quando o meu marido era vivo. Fielding gostava dele. E respeitavam-se mutuamente. Mas não posso dizer que o conheça bem e acho que ninguém o pode afirmar.

- Sim - concordou Tobias - provavelmente não.

- E você, conhece-o? - perguntou Joan.

- Sim, Crackenburne apresentou-nos. Mas, como acontece consigo, não posso afirmar que o conheça bem. Aliás, não nos movemos nos mesmos meios.

- Reparem, ele afasta-se do grupo - disse Lavinia. - E dirige-se para nós.

- Pois é - disse Tobias calmamente. A senhora tem razão, Joan. Ele sabe de nós.

Ficaram-se a observar Vale a avançar calmamente no limite da pista de dança, com uma inclinação de cabeça para aqui e para acolá, parando uma vez ou duas para cumprimentar alguém. Porém, embora parecesse caminhar ao acaso, era perfeitamente claro para Lavinia que ele se encaminhava para o vão da janela onde eles se encontravam.

- Ele pretende, sem dúvida, falar convosco - avisou-os Joan. - Vai fazê-lo muito educadamente, claro, mas é um homem muito inteligente. Tenham cuidado com o que disserem, se quiserem manter os vossos segredos.

Vale emergiu da multidão naquele momento e parou em frente deles. Lavinía examinou-o discretamente e verificou que havia outro traço em que ele diferia de Tobias em termos de aparência física: Vale tinha os olhos assombrados de um artista romântico.

- Joan - disse ele, inclinando-se gracilmente para a mão enluvada dela -, é um prazer verificar que tornou a frequentar a sociedade. Há muito tempo que a não via.

- Boa-noite, Vale - disse Joan, retirando a mão com um suave movimento. - Conhece os meus amigos? Mrs. Lake e Mr. March.

- March - disse Vale, inclinando um pouco a cabeça na direcção de Tobias, voltando-se, depois, para Lavinia: - Muito prazer, Mrs. Lake:

Quando pegou na mão de Lavinia, esta notou o estranho anel que ele usava. Era um anel com a forma de uma chavinha.

Lavinia tentou compor um sorriso encantador e acrescentou-lhe uma ligeira vénia:

- Lorde Vale.

Ele não pareceu particularmente deslumbrado, notou Lavinia. Limitou-se a uma breve vénia para a mão dela e voltou-se, de novo, para Joan.

- Quer dar-me a honra de uma dança, minha senhora? - disse ele.

Joan teve uma ligeira contracção. A breve hesitação foi quase indetectável. Se Lavinia não estivesse a olhar para ela, não teria notado nada.

- Sem dúvida - disse Joan, rapidamente recomposta, lançando um olhar espantado a Lavinia, quando Vale a levou.

Lavinia observou o par a dirigir-se para a pista de dança.

- Bem, a tanto se resumiu a conversa - disse Lavinia. - Segundo parece, tudo o que Vale pretendia era dançar.

- Não fique muito convencida. Como Joan disse, Vale é subtil - disse Tobias, pegando-lhe num braço. - Venha, não há nada a fazer aqui por ora, e eu estou a precisar de um pouco de ar fresco.

- Está um bocado quente aqui, de facto.      

Lavinia deixou-se conduzir para as janelas francesas que davam para o terraço e entraram os dois na frescura da noite primaveril.

Tobias não parou no muro de pedra, continuando a andar, levando-a pelos degraus que conduziam ao jardim iluminado com lanternas. Caminhando por uma vereda, dirigiram-se para a estufa erguida nas traseiras da mansão. As janelas da estufa brilhavam à claridade do luar.

Lavinia pôs-se a pensar na surpresa e na incerteza que enxergara no olhar de Joan, quando Vale a conduzia para a pista de dança. Havia muito poucas coisas capazes de perturbarem o espírito de Joan, o convite de Vale para dançar estivera perto de o conseguir.

- Pergunto-me se você e Joan não estarão enganados quanto ao motivo da presença de Vale aqui esta noite - disse Lavinia.

- O que é que a leva a pensar que estejamos enganados?

- Simplesmente porque fiquei com a nítida impressão de que o objectivo de Vale era apenas dançar com Joan, e não descobrir como andava a nossa investigação.

- Vale é perito em ocultar os seus objectivos. E Joan também, se quer saber.

Lavinia pestanejou ao aperceber-se do laivo de irritação na voz dele.

- Está irritado?

- Não, não estou.

- Está sim, está. Sinto-o claramente. Você está de mau humor. Mas porquê? Está irritado porque Vale não tentou interrogar-nos?

- Não, de modo nenhum.

- Tobias, você está a ficar impossível!

Tobias parou junto da estufa e abriu a porta envidraçada. Lavinia hesitou, quando percebeu que ele pretendia entrar.

- Acha que podemos entrar?

- Se o dono quisesse que ninguém entrasse teria mandado fechar a porta à chave.

- Bem, suponho.

Ele puxou-a gentilmente para o ambiente húmido e fechou a porta. Os cheiros pesados a terra adubada e a plantas feriu-lhe os sentidos. Havia luz do luar, penetrando através da miríade de janelinhas, suficiente para revelar as filas de palmeiras, de fetos e de outras plantas geometricamente dispostas. Lavinia sorriu quando a agradável calidez a envolveu.

- Isto é espectacular! - exclamou ela, observando a densa folhagem ao caminhar numa álea, parando aqui e além para cheirar a fragrância de uma flor. - Imagino que isto é o que se sente quando se caminha numa selva. Espero que não topemos com serpentes nem animais selvagens.

Tobias parou, ao lado dela.

- Se fosse a si, não confiaria muito nisso.

- A sua disposição não está a melhorar - disse Lavinia, apalpando uma folha larga e lustrosa.

- Não se aproxime muito dessa planta - disse Tobias, puxando-a para trás. - Eu não conheço bem a espécie e não há que correr riscos.

Lavinia voltou-se para ele, exasperada.

- Já me basta da sua amarga disposição. Diga-me o que é que tem, Tobias!

Ele olhou para ela, o olhar sombrio e toldado à luz do luar.

- Se quer mesmo saber, quando vi Vale levar Joan para a pista de dança, fui subitamente tomado de uma tremenda vontade de a convidar para dançar.

Ela não poderia ter ficado mais atónita se ele de repente lhe tivesse declarado que era capaz de voar.

- Você queria dançar comigo?

- Eu não sei o que é que me deu!

- Estou a compreender.

- Nunca liguei muito à dança - continuou ele - e, agora, com esta minha perna, esse género de exercício está absolutamente fora de questão. Faria uma perfeita figura de parvo na pista de dança.

Lavinia conseguia ouvir, ao longe, os sons abafados da valsa que emanavam do salão de baile. Percorreu-a uma deliciosa sensação de regozijo. Sorriu para ele nas sombras.

- Não há aqui ninguém que o veja fazer figura de parvo - disse ela docemente.

- Excepto você!

- Ah, mas eu sei muito bem que você não é parvo e não há nada que você possa dizer ou fazer que o faça passar por parvo aos meus olhos.

Ele olhou para ela um longo momento. Depoís, muito decididamente estendeu os braços e envolveu-a. E, pela primeira vez desde que tumultuosamente se conheciam, dançaram juntos. Os passos dele eram desajeitados e cautelosos, como se receasse pisá-la ou fazê-la cair ao chão. Isso, porém, não tinha importância, pensou Lavinia. O que interessava era que se ouvia música ao longe e o luar lhe brilhava no cabelo escuro. O que interessava era que o ar em redor deles ressumava de exóticas fragrâncias de flores que tinham vindo de climas distantes. O que interessava era que ela estava nos braços dele e o tempo parara por uma eternidade preciosa.

Era uma cena de encantamento metafísico, uma cena que podia ter vindo directamente das páginas de um dos seus belos livros de poesia. Tobias movia-se com ela num lento e bem medido rodar, ao longo da álea, no meio das plantas tropicais. Lavinia tinha a cabeça encostada ao largo ombro dele. A valsa era música feérica. O luar era prata liquefeita. A luxuriante folhagem que os rodeava era um jardim mágico.

Quando chegaram ao caramanchão, ao fundo da estufa, Tobias apertou-a contra si, beijando-lhe a curva do ombro nu.

- Tobias!

Invadiu-a uma deliciosa premência. Abraçou-o pelo pescoço e estendeu a boca em busca da dele.

O beijo dele deixou-a sem fôlego.

Ele soltou-lhe as alças do vestido, fazendo-as deslizar-lhe pelos ombros e descendo-lhe o corpete para a cintura. As poderosas e competentes dele aninharam-lhe os seios com espantosa ternura. Ela sentiu-lhe os polegares nos mamilos e toda ela tremeu.

Tobias estendeu-se no banco almofadado do caramanchão e baichou-a nas suas coxas. As mãos dele escorregaram pelas suas formas perfeitas.

Sob o emaranhado de pregas de cetim do vestido. Quando ele cobriu gentilmente a vagina com a palma da mão, a cabeça dela caiu a trás.

Ele deslizou um dedo ao longo da fenda, encostando-o à apertada e pequena protuberância no topo. Ela respirou profundamente e moveu-se contra a mão dele.

Ele desapertou as calças. Ela estendeu a mão e encerrou-lhe o pénis nos dedos, o polegar dela deslizando na ponta grossa e tesa.

Ele gemeu de violento prazer.

- Nestas alturas - murmurou ele para o pescoço dela -, não duvido dos seus poderes de mesmerista. Você põe-me sempre em transe.

- Eu posso ser uma mesmerista experimentada, mas você, meu caro, é um verdadeiro feiticeiro.

O luar e a magia envolveram-nos.

 

Era a primeira vez que dançava, depois da morte de Fielding. Joan sentia-se estranhamente perturbada, enquanto Vale a conduzia no estonteante rodopiar.

Nunca pensara em tornar a dançar com outro homem, nunca sonhara, sequer, que pudesse tornar a gostar de ouvir música e os graciosos compassos com outra pessoa que não o seu bem-amado Fielding. Contudo, ali estava ela, nos braços de um dos mais perigosos amigos do marido, e estava excitada.

- O seu vestido é lindo, minha senhora - disse Vale -, mas não deixo de notar que ainda usa as cores do luto, embora Fielding nos tenha deixado há mais de um ano.

- Eu tenho saudades dele - disse joan mansamente.

- Eu compreendo. E também tenho saudades dele, pois éramos amigos. Mas devo dizer-lhe que não creio que ele desejasse que a senhora passasse o resto da vida a vestir de cinzento e de preto.

Joan não soube o que responder. A verdade é que, até muito recen temente, nem sequer tinha pensado em pôr fim ao período de luto. Nem desejava terminar com ele. Aliás, sabia que uma parte dela previa usar tons escuros para sempre.

Sem embargo, a certeza de que estava votada a viver o resto dos seus dias num estado de permanente melancolia começara a esbater-se nas últimas semanas. Lavinia e Tobias haviam quebrado o transe sombrio em que mergulhara. Haviam encontrado respostas aos enigmas que envoliam a morte de Fielding, enigmas que a tinham assombrado durante meses. Ao fazê-lo, tinham-na ajudado a libertar-se de uma tristeza que parecera insuperável.

- Vamos ver - disse ela. Vale sorriu e, obviamente satisfeito, por então, com a resposta dela, lançou-a noutro deslizante e alongado rodopio.

Ele era, pensou ela, um excelente dançarino. Descontraiu-se e entregou- se ao glorioso rodopio da valsa e à força segura dos braços dele.

- Tem uns novos amigos bastante interessantes - disse Vale, pouco depois.

O comentário trouxe-a, com franco sobressalto, de volta à realidade do momento. Aquilo não era nenhum sonho. Vale nada fazia sem uma razão. Tinha de ter muito cuidado.

- Refere-se a Mrs. Lake e Mr. March, creio - disse ela calmamente. São, na verdade, algo fora do comum, mas eu aprecio muito a companhia deles.

Vale riu-se.                 

- Isso é, sem dúvida, porque a senhora também é muito fora do comum - disse ele, fazendo uma pausa para executar outra volta. - Eu não sei nada a respeito de Mrs. Lake, mas ouve-se muita coisa acerca de Mr. March.           

- Surpreende-me, pois nunca o imaginaria a dar ouvidos a rumores.     

- Sabe perfeitamente que eu presto muita atenção a certo tipo de rumores, como fazia Fielding.

- O que é que os rumores dizem a respeito de Mr. March? -  perguntou ela.

- Entre outras coisas, dizem que ele serviu como espião durante a guerra e que continua a ganhar a vida da uma maneira muito pouco ortodoxa - disse Vale, olhando para Joan com ar astuto. - Acho que se encarrega de investigações particulares por conta de pessoas que querem evitar Bow Street.                   

- Um género de trabalho bastante incomum, na verdade.               

- Sim, sim.                   

- Mas é, decerto, uma ocupação interessante.              

Vale ergueu o sobrolho.

- Dizem que ele e, presumivelmente, a sua boa amiga, Mrs.

Andam presentemente em busca de uma certa antiguidade.

- Ah!          

Vale pareceu divertido.

- O que é que isso significa, minha senhora?                

- O simples facto de mencionar essa relíquia quer dizer que anda à procura dela, meu caro.                   

Ele fingiu suspirar.

- A subtileza não resulta consigo, minha senhora. Conhece-me demais.

- Pelo contrário, conheço-o muito mal, mas, no que diz respeito antiguidades, conheço bem os seus gostos.

- Pois claro. Ouviu-me falar muitas vezes com Fielding nos prazeres de coleccionar peças de arte, não foi? - disse ele, fazendo-a rodar outra volta. - E acho que é também uma autoridade na matéria.

- Não me arrogo ser uma grande perita, mas posso afirmar que aprendi muitas coisas, ao ouvi-los falar e a compararem as vossas aquisições - disse ela.

- E, é claro, herdou a extraordinária colecção Dove. Diga-me, minha senhora, tencióna aumentá-la?

Há que mantê-lo na dúvida, pensou ela. Não lhe posso revelar nada.

- Se isso é uma forma subtil de me perguntar se tenciono ou não adquirir a Medusa Azul - disse ela - não lhe posso, por enquanto, responder. Ainda não decidi nada.

- Estou a perceber - disse ele, parando com ela no limite da pista de dança e não lhe largando o braço, nitidamente encaminhando-a para a privacidade de um vão de janela. - Mas eu não desejo competir directamente consigo.

- Esse seu desejo não o vai impedir de fazê-lo, se for caso disso, pois não?

Ele sorriu e ígnorou a pergunta.

- Há outro aspecto da questão que me alarma, minha senhora.

- Fico espantada, meu caro. Nunca pensaria que houvesse alguma coisa que o alarmasse.

- Mas há. joan é a viúva de um dos poucos homens de quem me considerei amigo e negligenciaria a minha responsabilidade em relação à memória de Fielding se não tentasse evitar que se expusesse a riscos indevidos.

- Posso garantir-lhe que não corro risco nenhum.

- Estou preocupado com o seu papel neste caso, Joan.

- Não se preocupe comigo, meu caro - disse ela, com um sorriso. Garanto-lhe que sei perfeitamente tomar conta de mim. O meu marido era um excelente mestre em diversas matérias, não apenas em antiguidades.

- Sim, claro. - Vale não estava nada satisfeito com a resposta dela, mas inclinou a cabeça muito delicadamente. - Peço desculpa, se, acaso, me intrometi na sua vida particular.

- Não tem de me pedir desculpa por isso. Tenho, até, muito prazer em dizer-lhe que estou a ajudar Mrs. Lake e Mr. March nas suas investigações.

Vale ficou hirto. Se Joan não tivesse visto a expressão de espanto na cara dele, nunca acreditaria que ele pudesse ficar tão atónito. Percorreu-a uma pequena vibração de triunfo.

- Está a ajudá-los? - repetiu ele, estupefacto. - Com os diabos, Joan, que raio está para aí a dizer?

Joan riu-se.

- Acalme-se, meu caro. Para mim, é apenas um passatempo. - Estava estranhamente regozijada por tê-lo desconcertado a tal ponto. - Mas é um passatempo divertido, acho eu.

Não compreendo nada.

- É muito simples. Eu tenho relações em certos meios que eles não frequentam. Quando esse tipo de relações podem ser úteis, entro eu em acção.

A boca dele torceu-se num esgar amargo.

- Eu sou uma dessas relações, não sou? Aceitou o meu convite para dançar apenas para prosseguir as suas investigações por conta de March e de Mrs. Lake?

- Não foi nada disso, meu caro amigo. Aceitei o seu convite porque me convidou e porque me dava prazer dançar consigo.

A irritação relampejou nos olhos dele, mas inclinou-se educadamente para a mão dela.

- Espero que tenha apreciado, minha senhora.

- Sim, sim, gostei muito, embora saiba perfeitamente que o que o trouxe aqui esta noite foi tentar descobrir o meu papel e o papel dos meus amigos na história da pulseira em cuja aquisição se encontra empenhado. Espero que esteja satisfeito com os resultados do seu inquérito.

Vale endireitou-se, mas não largou logo a mão dela.

- Devo avisá-la, Joan, de que o caso da Medusa Azul é um assunto

perigoso.

- Não me esquecerei desse aviso, meu caro.

Ele não parecia nada satisfeito com tudo aquilo, mas ambos sabiam que ele nada podia fazer quanto ao envolvimento dela na situação.

- Desejo-lhe muito boa-noite, minha senhora - disse ele.

- Muito boa-noite - disse Joan, com uma pequena mesura. - Sinto-me honrada por ter decidido renovar o nosso conhecimento esta noite, embora saiba que tinha outras motivações.

Vale travou o acto de se retirar.

- A honra foi minha e permita-me que lhe diga que se engana acerca de uma questão: eu não a convidei apenas porque queria saber a informação a respeito da pulseira.

- Ah, não?

- Não, eu convidei-a - disse ele deliberadamente - porque queria muito dançar consigo.

E desapareceu por entre a multidão, antes que ela pudesse pensar numa resposta.

Joan ficou onde estava por algum tempo, a pensar como tinha gostado de estar nos braços de Vale.

 

Tobias abriu os olhos e observou o brilho da luz prateada numa folha próxima. Estava deitado de costas no banco almofadado, um dos pés no chão. Lavinia estava em cima dele, a saia do vestido a envolver-lhe as coxas, os seios apertados contra o peito dele. Tobias olhou para a noite do outro lado da estufa através das janelas e desejou não ter de se mexer, perguntando-se se Lavinia acharia tão incómoda como ele achava aquela forma de orientar uma aventura de amor. O que ele não daria por uma cama quente!

Lavinia mexeu-se, começou a compor-se e, de repente, aprumou-se.

- Santo Deus, é muito tarde! - Apoiou as palmas das mãos no peito dele e ergueu-se para a posição de sentada. - Temos de voltar para o salão de baile. Nesta altura, Joan, ou Anthony, ou Emeline, já notaram, certamente, que nós desaparecemos. Seria muito embaraçoso se viesse alguém à nossa procura e nos visse neste preparo.

Tobias ergueu-se lentamente, observando a posição da Lua através do telhado de vidro da estufa.

- Não há assim tanto tempo que aqui estamos. Duvido que alguém tenha dado pela nossa falta.

- Talvez, mas não podemos demorarmo-nos mais aqui - disse ela, atarefada com o corpete do vestido. - O meu cabelo está muito desgrenhado?

Tobias observou-a a alisar o cabelo.

- O seu cabelo parece-me bem.

- Graças a Deus - disse ela, passando as alças do vestido pelos ombros, pondo-se de pé e sacudindo a saia. - Não consigo imaginar nada mais embaraçoso do que voltar ao elegante salão de baile de Lady Stillwater parecendo como se.

- Como se tivéssemos estado a fazer amor? - completou ele, pondo-se de pé e enfiando a fralda da camisa nas calças. - Não sei porquê, mas acho que não ficaria muita gente surpreendida.

- Como? - explodiu ela, voltando-se para ele, a voz estridente, os olhos muito abertos. - Está a dizer que toda a gente sabe que somos. - interrompeu-se bruscamente, com um gesto de impotência das mãos.

- Que somos amantes? - disse ele, sorrindo perante a expressão de horror dela. - Suspeito que sim.

- Mas como pode ser isso? Eu nunca falei disso a ninguém! - exclamou ela, fixando-o. - Tobias, se você falou com alguém a respeito dos pormenores da nossa relação pessoal, garanto-lhe que o estrangulo.

- Sinto-me muito ofendido com isso, minha senhora - disse ele, erguendo as mãos, as palmas para cima. - Eu sou um cavalheiro, nunca me passaria pela cabeça contar esses pormenores íntimos fosse a quem fosse. Mas devo dizer-lhe que os nossos amigos e os nossos parentes teriam de ser muito estúpidos para não concluírem que estamos envolvidos numa aventura de amor.      

- Oh, meu Deus! - Lavinia estava toda confundida. - Acha que sim?      

- Tenha calma, Lavinia. Nós não somos nenhuns jovens inexperientes, com uma reputação a manter. Nós andamos no mundo há algum tempo e adquirimos uma certa imunidade. Desde que sejamos discretos, não acredito que alguém se preocupe com o que fazemos na intimidade.     

- E quanto a Emeline e a Anthony? Nós devíamos constituir um bom exemplo para eles, não acha?         

- Não - disse ele prontamente. - Não há razão para sermos um bom exemplo para eles. As regras são muito diferentes para as pessoas da nossa idade e da nossa vivência. Emeline e Anthony sabem isso tão bem como nós.      

Lavinia hesitou.                   

- Bem, é capaz de ter razão. Contudo, devemos ser discretos e, de futuro, temos de ter mais cuidado com este género de coisas.

- Concordo que as suas preocupações quanto a discrição têm a sua razão de ser, mas isto de nos escondermos tem muitas desvantagens, pois temos de andar sempre à procura de privacidade. Locais abrigados são difíceis de encontrar e, quando não estão à mão, vemo-nos obrigados a ter em atenção o estado do tempo.

- Isso é verdade, mas eu tenho pensado nisso ultimamente e cheguei à conclusão de que tem alguns aspectos positivos.

Uma vaga de espanto percorreu Tobias.

- Tais como?     

- Eu preocupo-me por podermos ser descobertos e tenho um sobressalto de horror sempre que estamos perto disso. E há, também, a questão da discrição. Porém, tenho de admitir que, por vezes, é bastante excitante.

- Excitante - repetiu ele em tom calmo.

- Sim, e devo dizer que a frequente mudança de local impõe à história um inegável aspecto de novidade.

- Um aspecto de novidade.

Santo Deus, ela acabava por gostar dos aspectos clandestinos e incó modos. Era tudo culpa sua, pensou ele. Tal como o dr. Frankenstein, no novo romance de que ouvira falar, criara um monstro.

- Quantas outras pessoas acha que já terão feito amor numa estufa? -, perguntou ela, num tom que soava a genuíno interesse científico.

- Não faço ideia nenhuma - disse Tobias, abrindo a porta da estufa - nem tão-pouco me interessa conhecer a resposta a essa pergunta.

- Sabe uma coisa - continuou ela, toda animada - alguns dos nossos encontros mais ousados fazem-me lembrar cenas de certos poemas. Vêm-me à memória especialmente os escritos de Byron.

- Rasparta - exclamou ele, parando e encarando-a. - Não sei o que se passa consigo, mas eu não tenho intenção nenhuma de passar o resto da minha vida a alugar carruagens nojentas, ou à procura de locais isolados dos parques, sempre que desejo.

O raspar de uma bota a deslizar na gravilha fê-lo parar bruscamente. Voltou-se num repente e colocou Lavinia atrás dele.

- Quem está aí? - exclamou Tobias. - Mostre-se.

Houve movimento no outro lado da sebe. Uma figura baixa e tosca surgiu em redor da verdura aparada e parou no limite de uma mancha de luar. O homem vestia um capote de muitas abas que o cobria da cabeça aos pés. Um chapéu deformado e puxado para baixo escondia-lhe a cara. Estava inclinado e curvado, uma bengala numa das mãos.

- Desculpem-me por interrompê-los - disse o estranho em voz rou fenha. - Presumo que já tenham terminado a vossa conversa na estufa.

Lavinia espreitou o estranho homenzinho por cima do ombro de Tobias.

- Quem é o senhor?

- Mr. Nightingale, presumo eu. - Tobias não tirava os olhos do recém-chegado. - Bem me disseram que prefere conversar sob a protecção da escuridão.

- Assim é, meu caro senhor. A escuridão proporciona uma capa de privacidade difícil de obter de outro modo - disse Mr. Nightingale, esboçando uma pequena vénia. - É um prazer conhecê-lo.

- Como é que conseguiu introduzir-se no jardim? - perguntou Lavinia. - Lady Stillwater tem um pequeno exército de criados, não consigo perceber como é que conseguiu passar por eles.

- Numa noite como esta, com tanta gente a entrar e a sair, é coisa fácil passar pelo porteiro. Mas fique descansada, eu não tenciono ficar muito tempo - disse ele, rindo roucamente, perante alguma graça pessoal. - Eu não me interesso muito pela dança.

- O que é que pretende de nós? - perguntou-lhe Tobias.

- Corre por aí que andam à procura de um certo artefacto.

- Mais precisamente, andamos à procura da pessoa que matou uma mulher para lhe roubar esse artefacto - disse Lavinia.

Mr. Nightingale fez um movimento anguloso que pretendia ser, sem dúvida, um encolher de ombros.

- De qualquer modo, andam em busca da Medusa Azul, não andam? - Sim, é isso - concordou Lavinia. - Se a descobrirmos, ficaremos, decerto, a conhecer a identidade do assassino. Acha que pode ajudar- nos?          

- A mim não me interessam nada os assassinos, embora vos deseje boa sorte na caçada - disse Mr. Nightingale. - De modo geral, as mortes são más para o negócio. Bem, tenho de admitir que, por vezes, lhe acrescentam um certo sabor e fazem subir o preço da mercadoria. Mas, infelizmente, a maior parte das vezes obrigam-me a baixá-los, pois há um cem número de clientes que ficam nervosos, quando há mortes no caso.        

- Qual é o seu interesse na pulseira? - perguntou Tobias.     

- Já ouviu falar num pequeno e mui restrito clube chamado os Coleccionadores? - perguntou Nightingale baixinho.

Lavinia teve uma inspiração rápida, de espanto, mas ficou calada.        

- Já, sim - disse Tobias. - Mas o que é que ele tem a ver com este caso?

- O número de membros é muito limitado e raramente há admissões. Só acontecem quando um dos membros morre, ou desiste, ou é expulso do clube. E a concorrência para entrar no clube é feroz.       

- Continue - disse Tobias.

- O caso é que - continuou Mr. Nightingale calmamente - houve uma vaga há cerca de um ano e, agora, começou a correr que vai, novamente, ser preenchida e que os Coleccionadores aceitam inscrições.

- Os candidatos a membros têm de oferecer um artefacto ao museu particular do clube, creio eu - disse Tobias. - E a pessoa cuja peça for considerada a mais adequada será a admitida no clube.

- Está muito bem informado, Mr. March - disse Mr. Nightngal, baixando a cabeça em jeito de confirmação. - É o conservador do nuseu do clube quem tem a última palavra e o prazo para apresentação de candidaturas é inferior a uma quinzena.

- Acha que a Medusa Azul pode seduzir o conservador, é isso? - perguntou Tobias.

- Sabe-se que o conservador tem uma acentuada preferência por antiguidades anglo-romanas. Dizem, mesmo, que tem uma paixão por elas - disse Mr. Nightingale, abanando a cabeça. - Coisa que eu próprio não entendo. A maior parte dos coleccionadores exigentes preferem relíquias de ruínas antigas do estrangeiro. Se quer saber a minha opinião, é difícil comparar um camafeu encontrado numa quinta em Inglaterra com uma bela estátua descoberta em Pompeia. Mas aí tem: cada um com a sua mania.

- Dada a preferência pessoal do conservador por artefactos achados em Inglaterra - disse Lavinia - a Medusa Azul constituiria uma oferta satisfatória para uma candidatura à admissão no clube.

- Sem dúvida, minha senhora. - Os olhos de Mr. Nightingale brilharam um rápido instante na sombra do chapéu deformado. - Acho mesmo que podemos afirmar que, quem quer que a apresente ao conservador, tem a admissão garantida nos Coleccionadores.

- E qual é, precisamente, o seu interesse na pulseira? - perguntou Tobias. - Está a pensar concorrer à admissão?

- Eu? - Mr. Nightingale soltou de novo a sua risada grosseira, como se Tobias tivesse dito uma coisa muito divertida. - Eu não tenho desejo nenhum de entrar num clube fino. A mim interessa-me é o dinheiro que possa ganhar no processo. Tenciono montar um leilão muito secreto e muito restrito, para o qual só vou convidar um certo género de pessoas.

- Pessoas ansiosas por serem membros dos Coleccionadores e dispostas a pagar seja o que for pela relíquia que garante a admissão, é isso?

- Precisamente - disse Mr. Nightingale.

- Se, acaso, encontrarmos a pulseira - disse Tobias - por que raio lha iríamos entregar?

- O senhor é um homem pragmático, Mr. March, e eu estou a fazer-lhe uma proposta de negócio. Se o senhor e a senhora sua associada acharem a pulseira, estou disposto a pagar uma bela soma por ela.

- Receio que seja impossível entregar-lhe a pulseira - disse Lavinia vivamente.

Tobias limpou a garganta:

- Lavinia!

- Se, acaso, a descobríssemos - continuou ela - ver-nos-íamos obrigados a devolvê-la ao legítimo dono.

- Que em breve estará morto, segundo oiço dizer - disse Mr. Nightingale num resmungo. - E, para onde ele vai, duvido que lhe faça alguma falta.

- Isso não significa que tenha o direito de roubar o que é dele - lançou-lhe Lavinia.

Tobias tentou de novo.

- Lavinia, acho que já disse bastante.

- Eu não estou a falar de roubar o raio da pulseira - rosnou Mr. Nightingale. - Estou a fazer uma proposta de negócio.

Lavinia ergueu o queixo e olhou de alto para Nightingale. O homenzinho era, pensou Tobias, uma das poucas pessoas no mundo para as quais ela podia olhar de alto, dada a sua também pequena estatura.

- Eu e o meu associado não nos envolvemos em negócios ilícitos do género do que nos propõe - disse ela friamente. - Não é assim, Mr. March?

- Talvez seja possível cumprirmos o nosso compromisso e aceitar um negócio legal, proveitoso para todas as partes - disse Tobias prudentemente.

Lavinia e Mr. Nightingale fixaram ambos o olhar em Tobias.

- E como é que tenciona fazer isso? - perguntou Lavinia.

- Ainda não sei bem - admitiu ele. - Porém, dado o montante envolvido neste caso, espero que me surja inspiração para descortinar alguma maneira de o fazer.         

Mr. Nightingale gargalhou.

- O senhor é um homem da minha laia. Não gosta de deixar fugir uma oportunidade dourada, não é?

- Não, se o puder evitar - disse Tobias. - Mas, dado que pediu a nossa ajuda, tenho que fazer-lhe algumas perguntas?

- Que género de perguntas?       

- O que é que ouviu dizer a respeito da mulher do mesmerista?

- A senhora que foi estrangulada? - disse Mr. Nightingale, abanando a cabeça. - Dizem que ela conspirou com o amante para roubar a pulseira e que, consumado o facto, ele a estrangulou e levou a pulseira. Outros dizem que o marido a seguiu ao encontro naquela noite e a matou. De qualquer

modo, a antiguidade desapareceu. É tudo o que sei.   

Tobias observava-o atentamente.       

- Mas a Medusa não apareceu à venda no mercado pois, se tivesse aparecido, não precisaria da nossa ajuda.

- Tem muita razão, meu caro senhor - disse Mr. Nightingale. Não ouvi nada a respeito de estar à venda. Absolutamente nada.

- Não acha isso estranho? - perguntou Tobias.    

Mr. Nightingale semicerrou os olhos na sombra.

- Estranho?

Lavinia olhou para Tobias.

- Por que é que acha isso estranho?  

- Considerando o valor da Medusa em certos meios, eu esperava que o assassino contactasse alguém no negócio de antiguidades, um profissional como Mr. Nightingale, por exemplo, o mais depressa possível.

Tudo levaria a crer que o vilão estaria ansioso por obter uma compen sação imediatamente.

- Talvez o ladrão esteja à espera que a agitação do homicídio se esva neça - sugeriu Lavinia.

- Mas o simples facto de conservar a pulseira submete-o a um grande risco - disse Tobias. - É um perigo conservá-la na sua posse, pois trata-se da prova de um crime que o pode levar à forca.

Lavinia ponderou uns momentos naquilo.

- Tem razão. Além disso, o assassino já sabe, certamente, que andamos à procura dele. Tudo levaria a pensar, na verdade, que ele desejaria ver-se livre da Medusa tão depressa quanto possível.

Mr. Nightingale examinava Tobias por debaixo do chapéu descambado.

- O assassínio é convosco. Como lhes disse, não estou interessado nisso. Sou um simples homem de negócios e a minha única preocupação no caso é quanto ao que poderei ganhar, se as coisas forem bem orientadas. Pois bem, meu caro senhor, temos negócio?

- Mrs. Lake tem razão - disse Tobias pausadamente. - Se recuperarmos a pulseira, teremos de a devolver ao dono.

- Essa agora - começou Mr. Nightingale acaloradamente - acabou de dizer que.

Tobias ergueu uma mão, interrompendo-o.

- Todavia, como salientou, o estado de saúde do dono não é dos melhores e a senhora que se encontra em condições de herdar parece não se interessar muito por antiguidades. Mediante uma comissão, estou disposto a apresentar à senhora uma proposta sua. Não posso garantir que ela se disponha a negociar consigo, mas é uma hipótese de conseguir a Medusa.

- Hum - Nightingale matutou naquilo longamente. - O lucro não será tão grande, se eu tiver de comprar a Medusa à herdeira de Banks. Ver-me- ei, sem dúvida, obrigado a propor-lhe um elevado montante pelo raio da relíquia e, depois, haverá, ainda, que acrescentar a sua comissão, March.

- Algo me diz que não se sairá mal da combinação - disse Tobias com grande à-vontade. - A sua clientela não é do género de regatear os seus preços elevados. Tudo o que lhes interessa é adquirir a Medusa.

- E pense nas vantagens da situação - interveio Lavinia mansamente. - Negociar com a herdeira de Banks torna tudo legal e sem riscos.

Mr. Nightingale abanou uma mão, de dedo espetado, em sinal de negação.

- Se quer saber, isso retira o gozo todo à manobra.

- De qualquer modo - disse Tobias - é tudo o que Lhe podemos propor. É pegar ou largar.

- Com os diabos, March, não percebe que podemos todos tirar maior proveito disto se pusermos a herdeira de parte?

- Infelizmente, temos de ter em consideração a nossa reputação profissional - disse Tobias. - Não podemos permitir que corra por aí que March & Lake têm o hábito de vigarizar herdeiros. Isso seria muito mau para o nosso negócio.

- Huum - fez Mr. Nightingale, batendo várias vezes com a bengala no chão. - Muito bem, se essa é a vossa única proposta, eu aceito-a. Mas fiquem sabendo, se a Medusa me vier parar às mãos de outro modo, o nosso acordo cessa. E eu não vos fico a dever nem um penny, como tão-pouco à herdeira de Banks.

Voltou-se e afastou-se sem mais palavras, seguindo sempre pelas sombras, um pé a arrastar-se pesadamente.

- Compreendo - disse Tobias baixinho, nas costas dele. - Mas se isso acontecer, não fique surpreendido se a herdeira nos contratar para reavermos a pulseira roubada e, nesse caso, saberíamos exactamente onde procurá-la.

Mr. Nightingale parou e olhou para trás, por sobre o ombro corcunda.

- Isso é uma ameaça, March?

- Considere o que eu disse mais como um conselho disse Tobias calmamente.

- Bah. Deixe-me, então, dar-lhe um conselho em troca. Se você e essa senhora desejam ganhar a vida no campo da investigação, é melhor adoptarem uma atitude mais prática em relação às questões de natureza financeira. - Nightingale desapareceu por trás da sebe, sem esperar resposta.

Houve um curto silêncio. Quando se certificou de que de novo, sós, Tobias pegou no braço de Lavinia e encaminhou-se para as luzes brilhantes do salão de baile.

- Há uma coisa que eu lhe queria dizer - disse Lavinia baixinho.

- Percorre-me um arrepio de pavor sempre que me diz isso, cara senhora.

- É a respeito de Mrs. Rushton, a herdeira de Banks.

- O que é que se passa com ela?

- Desconfio que ela possa estar de alguma maneira envolvida nisto. Tobias parou e voltou-se, de modo a poder examinar a máscara de luz que atravessava as janelas do salão de baile.

- De que raio é que está a falar?

- Talvez me tenha esquecido de mencionar que, esta tarde, depois de termos conseguido que Tredlow nos dissesse o nome de Banks, eu e Emeline fomos bater à porta da mansão de Banks.

- Sim, de facto esqueceu-se de mencionar esse pequeno pormenor - disse ele, muito calmo. - Porquê?

Ela fez uma careta.

- Se quer saber, queria fazer-lhe uma surpresa.

- Permita-me que lhe diga, Lavinia - disse ele, ciente de uma contrac ção dolorosa no queixo -, que não há nada que eu mais deteste do que uma surpresa no decurso de uma investigação.

- Sim, bem, mas era apenas uma pequena surpresa - murmurou ela. Suponho que queria impressioná-lo. Ou, simplesmente, marcar pontos.

- Mas que raio de ideia é essa?

A irritação assomou aos olhos de Lavinia.

- A minha ideia é que você está sempre a assumir o papel de instrutor e de perito na nossa associação. Passa a vida a ir ter com os seus conhecimentos, para os consultar. Conhecimentos a quem, devo acrescentar, se recusa apresentar-me.

- Rasparta, Lavinia.

- E eu queria mostrar-lhe que sou perfeitamente capaz de conduzir a parte que me cabe na investigação.

Tobias ficou calado.

- Não precisa de olhar para mim desse modo, Tobias. Nós somos iguais nesta associação e eu tenho todo o direito de proceder às averiguações que entender, sempre que se apresente a oportunidade.

- Rasparta!

- Bater à porta de Banks era uma coisa lógica, pois Mrs. Rushton podia ser uma suspeita.

- Uma suspeita? Mrs. Rushton?

- Estou farta de o ouvir dizer que os herdeiros, por vezes, se tornam impacientes - disse Lavinia, com uma expressão de triunfo no olhar.

- Por outro lado, se não for uma suspeita, pode muito bem ser uma poten cial cliente. Afinal de contas, foi vítima de roubo, por isso tem todo o interesse em recuperar a Medusa. Podemos muito bem convencê-lo a pagar-nos para que a encontremos.

Nada havia a contrapor à lógica dela, pensou Tobias, mas isso não ajudou nada a melhorar-lhe a disposição.

- Chegou a falar com Mrs. Rushton? - perguntou ele.

- Não. Ela tinha saído.

- Ah! - exclamou ele, descontraindo- se um pouco.

- Tinha ido ao seu tratamento semanal de mesmerismo - acrescentou Lavinia deliberadamente. - Parece que a senhora tem uns nervos muito delicados.

Tobias via perfeitamente que Lavinia estava toda satisfeita consigo própria.

- A informação de que Mrs. Rushton se submete a tratamentos de mesmerismo é a sua grande surpresa, não é?

O regozijo dela esvaneceu-se numa expressão de desapontamento.

- Tem de admitir que se trata de uma ligação surpreendente.

- Lavinia, meia Londres submete-se a tratamentos de mesmerismo por causa dos nervos ou do reumatismo.

- Qual meia Londres! - exclamou Lavinia. - Tem de admitir que há aqui algo mais do que uma mera coincidência. O nosso caso envolve uma mulher assassinada que estava intimamente ligada à prática de mesmerismo e, agora, temos uma possível suspeita que recebe tratamento de mesmerismo. Eu tenciono, pois, investigar Mrs. Rushton mais pormenorizadamente.

- Quando?

- Amanhã de manhã.

Tobias agarrou-se à balaustrada do terraço, ponderando as possibilidades.

- Eu vou acompanhá-la - disse ele por fim.

- Muito obrigada, mas não é necessário - disse Lavinia, com uma inspiração desdenhosa. - Eu sei tratar do caso sozinha.

- Não tenho dúvida disso, minha senhora - disse ele, com um sorriso frio. - Mas eu não quero perder a oportunidade de a ver a trabalhar. Talvez tenha razão e eu tenha andado a subavaliar o seu contributo para a nossa associação. É chegada a altura de lhe prestar mais atenção e ver se posso aprender alguma coisa consigo.

Na tarde do dia seguinte, pouco depois das duas, Lavinia e Tobias foram introduzidos na silenciosa e pesadamente atapetada sala de estar de Lorde Banks.

O interior da mansão era ainda mais deprimente do que o exterior, pensou Lavinia. As cores eram gastas e escuras, o mobiliário era grande, pesado, fora de moda.

Uma mulher de ar severo e de idade indeterminada estava sentada junto a uma janela, a ler um livro. Envergava um vestido castanho de bombazina. Um elegante e decorativo porta-chaves, com várias chaves, pendia-lhe de um cordão à cintura. O cabelo estava penteado para trás, num nó apertado.

- Boas-tardes - disse Mrs. Rushton, em tom pouco convidativo, pousando o livro e olhando primeiro para Lavinia com indiferença. Porém, quando desviou a atenção para Tobias, a expressão animou-se-lhe de imediato.

Um pouco como um gato ao descobrir um pássaro no jardim, pensou Lavinia.

- Muito obrigada por nos receber - disse Lavinia, mais friamente do que desejaria. - Faremos por não lhe tomar muito tempo, mas estou certa de que lhe vai interessar o que temos para lhe dizer.

- Sentem-se, por favor - disse Mrs. Rushton sorrindo calorosamente para Tobias, indicando aos visitantes o sofá castanho.

Lavinia sentou-se, mas Tobias foi para a sua posição favorita, perto da janela mais próxima, colocando a pouca luz que penetrava no com partimento por trás dele, como era seu hábito.

- Vou directamente ao assunto - disse Lavinia. - Eu e o meu associado, Mr. March, dedicamo-nos a proceder a investigações particulares.

A informação conseguiu fazer desviar a atenção de Mrs. Rushton de Tobias, a qual pestanejou várias vezes para Lavinia.

- Não percebo, pois julgava que os detectives de Bow Street é que se dedicavam a isso.

- Nós trabalhamos com uma clientela de mais elevado nível do que eles - disse Lavinia.

- Ah! - exclamou Mrs. Rushton, parecendo confundida.

- As pessoas de qualidade que exigem absoluta discrição preferem trabalhar connosco - acrescentou Lavinia, à guisa de esclarecimento.

Pelo canto do olho, Lavinia viu a boca de Tobias torcer-se da maneira irritante que a fazia cerrar os dentes, mas não ligou. Era importante incutir a melhor impressão a um potencial cliente. Ela dava importância a essas coisas, embora ele não.

- Ah, sim - disse Mrs. Rushton, voltando de novo a atenção para Tobias. - Isso é interessante.

- Neste momento - disse Lavinia, em tom gélido - andamos em busca de um assassino.

- Santo Deus! - disse Mrs. Rushton levando uma mão ao peito com os olhos muito abertos. - Que coisa estranha. Nunca tinha ouvido falar de senhoras com semelhante profissão.

- É, na verdade, muito invulgar - concordou Lavinia - mas isso agora, não interessa. Permita-me que lhe explique o que nos trouxe aqui. Eu e Mr. March temos razões para acreditar que uma mulher, recentemente assassinada, roubou algo de elevado valor desta casa, pouco antes de morrer.

- Peço desculpa - disse Mrs. Rushton - mas isso é impossível. Posso garantir-lhe que ninguém se introduziu nesta casa. - Mrs. Rushton olhou rapidamente em volta. - Como pode ver, as pratas estão ali todas. Não falta nada.

- O objecto em questão é uma pulseira muito antiga - disse Tobias.

- Isso é absurdo - disse Mrs. Rushton, com grande autoridade: Eu teria certamente notado a falta de uma pulseira na minha caixa de jóias.

- Esta é uma peça de joalharia extremamente antiga, conhecida pelos coleccionadores como a Medusa Azul - disse Lavinia. - Já alguma vez a viu?

- Se se refere à pulseira antiga que o meu tio tem guardada àlgures num cofre, no quarto dele, claro que já a vi. É uma peça sem graça nenhuma e nznguém diria que se trata de uma antiguidade interessante. Foi encontrada aqui em Inglaterra, creio eu, não se trata, propriamente, de uma jóia encontrada nas ruínas clássicas da Grécia ou de Roma.

- Tem alguma ideia por que é que Lorde Banks adquiriu essa jóia em especial, depois de se ter desfeito da sua colecção de antiguitades?

Mrs. Rushton soltou um pequeno suspiro.

- Já que me pergunta, acho que um comerciante pouco escrupuloso se aproveitou da circunstância de o meu tio ter começado a ficar bastante confuso há cerca de ano meio, depois de uma série de ataques de apoplexia.

- Há quem considere a Medusa Azul muito valiosa - avançou Lavinia, cautelosamente.- Admito que o ouro parece ser de excelente qualidade e que está muito bem trabalhado - disse Mrs. Rushton - mas a pedra não tem graça nenhuma. Eu nunca a usaria. Tenciono vendê-la, quando o meu tio morrer. Se quer saber, o médico acha que ele não sobrevive mais de um mês.

- Nós ouvimos falar na doença de sua senhoria - disse Lavinia gentilmente. - Queira aceitar as nossas condolências.

- Ele tem estado pior ultimamente. É uma bênção, quando finalmente passar para o outro mundo.

Uma bênção para quem, perguntou-se Lavinia.

- Sabemos que se mudou para cá para tomar conta dele - disse Tobias em tom neutro.

- Uma pessoa tem de cumprir o seu dever - disse Mrs. Rushton no tom decidido de um mártir. - Não havia mais ninguém senão eu, compreende. Eu sou a última descendente. Tenho feito o melhor que posso, mas devo dizer que não tem sido tarefa fácil. E tem-me dado cabo dos nervos, os quais, devo confessar, nunca foram muito bons. - Compreendo - murmurou Lavinia em tom encorajador.

- Quando eu era criança, a minha mãe avisou-me para nunca expor os meus nervos delicados a grandes tensões. E tinha razão. Depois do choque com a morte do meu querido marido, há três anos, descobri que sofria de histeria feminina, um mal desesperante, o qual, segundo o meu médico exige um tratamento regular e continuado.

- Voltando ao assunto da Medusa, se não se importa - disse Tobias antes que Lavinia continuasse naquela linha de inquirição - quando foi a última vez que verificou que ela estava no cofre de Lorde Banks?

- Como? Ah, sim, a relíquia. - Mrs. Rushton abandonou o tema dos nervos com nítida relutância. - Há já algum tempo que não abro o cofre mas tenho a certeza de que está tudo em ordem.

- Acho que era boa ideia confirmar se a Medusa ainda lá está Tobias: - disse Lavínia. - Não vejo razão para.

- Isso ia tranquilizar-me, Mrs. Rushton - disse Tobias. - E ia serenar os meus nervos, que são, também, um pouco delicados, como os seus. Sabe bem como uma pessoa fica quando está ansiosa.

- Sim, claro que sei. - Mrs. Rushton ergueu-se e foi junto de Tobias, sorrindo-lhe e tocando-lhe num braço. - Não fazia ideia nenhuma de que também sofria dos nervos, meu caro senhor. Compreendo isso muito bem. Na verdade, só alguém que sofra do mesmo mal é que pode compreender. Tem a minha mais profunda e sincera simpatia.

- Muito obrigado, minha senhora - disse Tobias. - E quanto à pulseira.

Mrs. Rushton pestanejou para ele.

- Se me desculparem, eu vou num instante lá acima ver, para o tranquilizar.

Dizendo isto saiu rapidamente da sala.

Lavinia olhou para Tobias.

- Com que então, nervos delicados? - disse ela, erguendo o sobrolho. - Você?

- Ia apostar que nunca desconfiou que eu sofria desse mal.

- Eu nunca sonharia uma coisa dessas. Bom, pelo menos não é provável que sofra de histeria feminina.

- Coisa que agradeço todos os dias aos céus. Não sei é se não haverá uma versão masculina.

Lavinia franziu a testa.

- Vai ser um bocado embaraçoso se a pulseira estiver no cofre.

- Duvido muito que isso aconteça. Mr. Nightingale não me parece do género de correr atrás de falsos boatos.

Mrs. Rushton voltou à sala pouco depois, alarme e espanto estampados na cara.

- Santo Deus, a pulseira desapareceu, como diziam - exclamou, parando no centro do enorme tapete, agarrada às chaves. - Não posso compreender. Como vos disse, não há sinal de que algum ladrão se tenha introduzido nesta casa. Não há janelas, nem fechos partidos. A governanta é muito atenta a tudo e ter-me-ia informado, se visse que faltava alguma coisa de valor.

Tobias olhou para a argola de chaves na mão dela.

- O cofre estava fechado quando agora o abriu?

- Estava, sim - disse Mrs. Rushton, olhando para as chavs que tinha nas mãos. - Como deveria estar.

- Existe mais alguma outra chave do cofre? - perguntou tobias.

- Não, apenas esta. Eu tomei posse de todas as chaves no dia em que mudei para aqui.

- Pois bem, Mrs. Rushton, aí tem - disse Lavinia - a pulseira foi roubada. E, embora a senhora não goste muito dela, posso garantir-lhe apenas que, para certas pessoas, ela vale muito dinheiro. Presumo que a quer reaver.

- Claro que sim.

Lavinia concitou o seu melhor sorriso profissional.

- Nesse caso, eu e Mr. March teremos muito prazer em assumirmos o encargu de a encontrar.

Mrs. Rushton hesitou, o sobrolho franzido.

- Encargo?

- Sim, de proceder a averiguações a respeito da pulseira - esclareceu Tobias. - Por sua conta.

- Querem que eu lhes pague para encontrarem a pulseira, é isso?

- É, de facto, assim que isso funciona - disse Lavinia.

- Estou a compreender, mas não tenho a certeza, é tudo tão confuso. Acho que os meus nervos já estão a reagir à tensão criada pela situação.

Tobias cruzou os braços.

- Nós entendemos que a pulseira faz parte da sua herança. Devo, porém, dizer-lhe que, para alguém que não esteja familiarizado com o mercado de antiguidades, se torna muito difícil conseguir fazer um bom negócio com um comerciante. Há muita fraude e muita charlatanice nesse meio, para não falar dos criminosos que não hesitam perante nada.

- Sim, eu tenho ouvido falar nisso. - Mrs. Rushton parecia agora mais serena. - O meu tio dizia-me sempre que era preciso ter muito cuidado com essas transacções.

- E tinha razão - disse Tobias. - Acontece, contudo, que nós temos bons conhecimentos nesse meio. Se conseguirmos recuperar a Medusa, teremos muito gosto em arranjar maneira de a vender a um preço justo.

- Por uma pequena comissão, claro - acrescentou Lavinia de imediato.

Um brilho astuto surgiu nos olhos de Mrs. Rushton, sentando-se calmamente numa cadeira.

- Mas, naturalmente, não teria de vos pagar essa comissão enquanto não recebesse o dinheiro da venda da pulseira?

- Naturalmente - corroborou Tobias. - E então, deseja que nos encarreguemos do caso?

Mrs. Rushton dedicou apenas dois ou três segundos a considerar a pergunta, antes de baixar a cabeça decididamente.

- Sim, pagar-vos-ei honorários, desde que não tenha de vos pagar nem um penny, no caso de não conseguirem encontrar a pulseira.

- Isso fica entendido - disse Lavinia. - Agora, que já estabelecemos um acordo, gostava de lhe fazer algumas perguntas, se não se importasse.

- O que é que deseja saber?

- Disse-nos que sofre de nervos delicados e que está sujeita a ataques de histeria feminina.

- Sim.

- Ontem à tarde, quando aqui estive, a sua governanta disse-me que se submete a tratamentos de mesmerismo.

- Assim é - disse Mrs. Rushton, um brilho de entusiasmo no olhar. - Com o dr. G. A. Darfield. Ele é excelente, devo dizer.

Lavinia lembrou-se de um dos anúncios que havia estudado.

- Eu vi no jornal uma nota acerca dos serviços que ele presta. Segundo afirma, é perito no alívio dos sintomas da histeria feminina, nas mulheres casadas e nas viúvas.

- Garanto-lhe que, ao longo dos anos, consultei inúmeros médicos e me submeti a todo o tipo de tratamentos, mas nunca tive resultados tão surpreendentes como os que obtive com as terapias do dr. Darfield. Não sou capaz de Lhe descrever a maravilhosa sensação de alívio e de bem-estar que se apossa de mim, depois de cada sessão com ele.

- Nunca, acaso, consultou um certo dr. Howard Hudson? - perguntou Lavinia.

- Hudson? - As sobrancelhas de Mrs. Rushton juntaram-se-lhe por cima do avantajado nariz. - Hudson? Não. Nunca ouvi falar dele. E trata de casos como o meu?

Raio de azar, pensou Lavinia, pois estava convencida de que iria descobrir uma ligação entre Mrs. Rushton e Celeste Hudson.

- A mulher do dr. Hudson foi a senhora que apareceu morta - disse Tobias. - E nós temos razões para acreditar que ela esteve envolvida no roubo da pulseira.

- Santo Deus! - exclamou Mrs. Rushton; levando de novo a mão ao peito. - Este caso está a ficar cada vez mais estranho - disse ela, dirigindo a Tobias um olhar todo derretido. - Sinto- me aliviada por ser um cavalheiro com o seu óbvio vigor físico a investigá-lo, Mr. March.

Lavinia aclarou a garganta.

- Eu também estou a investigá-lo e, posso garantir-lhe, sou tão vigorosa como Mr. March.

Logo que entrou no estúdio, Lavinia dirigiu-se directamente ao armário onde guardava o xerez. Encheu dois cálices, estendeu um a Tobias e deixou-se cair na sua poltrona favorita. Apoiou os calcanhares na banqueta e ficou a observar Tobias a acender a lareira. Ele parecia mexer-se sem incomodidade notória, certamente porque estava um dia de sol.

- Raio de azar - disse ela. - Tinha quase a certeza de que havia uma ligação entre Mrs. Rushton e Celeste Hudson.

- Isso facilitava muito as coisas - disse Tobias, erguendo-se, agarrado ao dintel, e bebendo, depois, um gole de xerez. - Este caso não é nada simples, mas pense no lado positivo: conseguimos mais um cliente.

- Graças a mim.

- Isso é verdade - disse ele, erguendo o cálice, numa pretensa con gratulação. - Actuou muito bem.

- Huum - fez ela, bebericando o xerez. - Infelizmente, sou forçada a reconhecer que, embora a ideia de contactar Mrs. Rushton fosse minha, foi o seu óbvio vigor fisico que nos assegurou o contrato.

- Regozijo-me por ver que pude contribuir um pouco para o êxito da diligência.

- Não foi apenas um pouco - murmurou ela para o cálice.

- Como?

- Acho que Mrs. Rushton se deixou persuadir a empregar-nos porque chegou à conclusão de que o seufisico obviamente vigoroso a interessava muito, não apenas um pouco.

Tobias sorriu.

- Está com ciúmes.

- A mulher é uma versão feminina de um libertino lascivo. Faz-me lembrar a minha antiga patroa, Mrs. Underwood.

- Postas de lado as tendências sexuais da senhora, o facto de nos ter contratado para encontrarmos a Medusa resolve a questão de sabermos se ela estava ou não envolvida no roubo.

- Assim parece.

- Vamos lá, Lavinia, viu bem como estava a cara dela, quando voltou de verificar o cofre. Era óbvio que, até àquele momento, ela não fazia ideia nenhuma de que a pulseira tinha desaparecido.

- É muito possível que ela seja uma boa actriz - disse Lavinia, recostando-se na poltrona - mas sinto-me inclinada a concordar consigo. A minha intuição diz-me que ela não estava a fingir e que ficara realmente estupefacta com a perda da pulseira.

- Sim, também acho - disse Tobias, dirigindo-se para a janela e pondo-se a olhar para o pequeno jardim. - Bem, agora, o que temos a fazer é encontrarmos o raio da Medusa e o assassino, para podermos cobrar os nossos honorários a uma série de clientes diferentes. Tenho de confessar que, de início, não estava nada entusiasmado com este caso, mas, agora, comèça a revelar-se potencialmente muito lucrativo.

- O que é que acha que devemos fazer a seguir?

- Mrs. Rushton acredita que detem a única chave do cofre que Banks tem no quarto, mas ela só mora ali há poucos meses. É muito possível que os criados saibam muito mais do que o que ela pensa. Alguns deles

terão tido acesso àquelas chaves durante anos.

- Acha que é boa ideia interrogá-los?

- Mal não fará. Mas o pessoal da mansão é numeroso, levaríamos horas a interrogá-los todos. Acho que vou encarregar Anthony dessa tarefa. É um belo treino para ele.

- E Emeline pode acompanhá-lo. Como lhe disse, ela tem um certo talento para arrancar respostas às pessoas.

- Também Anthony. Acho que farão uma excelente equipa. Quanto mais não seja, como a tarefa é excessivamente maçadora, talvez isso os desencoraje de prosseguirem uma carreira nesta actividade.

Lavinia soltou um suspiro.

- Não se fie muito nisso, meu caro amigo.

Tobias voltou-se lentamente, um sorriso amargo nos lábios.

- Tem razão. Uma manhã inteira de perguntas repetitivas não é suficiente para abalar nenhum deles, não é isso?

- De modo nenhum. Entretanto, o que é que eu digo a Howard? Para ser franca, estou muito preocupada com o estado de espirito dele, Tobias! Ele está destroçado.

- Porque é que não lhe aconselha um tratamento para os nervos?

- Isso não tem graça nenhuma.

- Nem pretendia ter.

Lavinia olhou para ele fixamente.

- Você não gosta mesmo nada dele, pois não?

- Eu acho que o homem matou a mulher num acesso de ciúme - disse Tobias - e, por isso, não posso dizer que simpatizo com ele.

- Recordo-lhe que tem toda a liberdade de abandonar o caso.

- Sabe perfeitamente que isso é impossível - disse ele, nos braços da poltrona e inclinando-se de tal modo que ficou com a cara junto da dela. - Eu não posso afastar-me do caso enquanto você insistir em continuar com ele.

A fria e inflexível determinação nos olhos dele provocou um indescritível arrepio em Lavinia.

- Por que é que desconfia tanto de Howard? Não há nada que indicie que ele matou Celeste.

- Posso não ter provas nenhumas, mas estou convencido de que o seu velho amigo de família tem motivos ocultos neste caso. Tenho a certeza de que ele não está nada interessado em vingar a morte da mulher. Ele está a utilizar-nos para o ajudarmos a encontrar o raio da pulseira.

- Tretas. Você detestou-o sempre, muito antes da morte de Celeste. Admita isso.

- Pois bem, admito isso. Eu detesto o homem muito antes da morte da mulher e, agora, desconfio muito mais dele.

- Eu sabia, eu sabia. Eu vi isso nos seus olhos, logo no primeiro dia, quando entrei na sala de visitas e estavam lá os dois. Mas não consigo compreender, de modo nenhum, essa antipatia imediata da sua parte. O que é que o dispôs tão firmemente contra ele, logo desde o princípio?

Por um momento, Lavinia pensou que ele não iria responder. Estava ciente da força com que as poderosas mãos dele apertavam os braços da poltrona. Os feros planos e ângulos da cara dele pareciam talhados em pedra. Havia um implacável, imóvel e inalterado carácter em todo ele que, noutro homem qualquer, teria provocado um choque de pavor em Lavinia.

Mas aquele homem era Tobias. Ela sabia que ele podia ser perigoso, mas nunca com ela. A única ameaça que ele representava para ela era-lhe dirigida ao coração.

- Hudson deseja-a - disse Tobias. Lavinia olhou para ele incrédula.

- Como?

- Ele deseja-a.

- Você está doido? Santo Deus, o homem é um velho amigo da famí lia. Eu cresci a pensar nele como. como uma espécie de tio. Tenho a certeza de que ele pensa em mim como uma sobrinha.

- Nada disso altera o facto de que ele a deseja.

- Mas ele nunca. eu nunca. quero dizer, nunca houve nada.

Lavinia calou-se, confundida, e fez um esforço para se dominar. - Garanto-lhe que Howard nunca me deu indicação nenhuma de que se interessava por mim desse modo. Aliás, assistiu ao meu casamento e desejou-me felicidades. E não tenho razão nenhuma para duvidar de que estava a ser simcero.

- Talvez o fosse na altura. Talvez alguma coisa tenha mudado quando tornou a vê-la.

- Tobias.

- Entre homens, há coisas que não necessitam de explicação ou de interpretação. Hudson deseja-a.

- Realmente, meu caro amigo!

- Sim, realmente. - Tobias retirou as mãos dos braços da poltrona e endireitou-se, dirigindo-se de novo para a janela e voltando a olhar para o jardim. - Ele deseja-a intensamente.

Agora que ele não estava inclinado para ela, Lavinia conseguiu finalmente recuperar o fôlego, mas a absoluta certeza com que ele afirmava a sua ideia aturdira-a.

- Você diz que entre homens há coisas que não precisam de explicação, nem de interpretação - disse ela com firmeza - mas o mesmo acontece entre homens e mulheres.

- Que raio quer dizer com isso?

Lavinia pôs-se a tamborilar com os dedos nos braços da poltrona, tentando encontrar as palavras certas.

- Uma mulher, geralmente, sabe quando um homem se sente atraído por ela. A mulher pode não saber o que vai no coração do homem, se ele está apaixonado ou não, mas apercebe-se quando ele sente uma atracção física por ela. Isso não é fácil de esconder.

- E qual é a sua ideia?

- Se Howard me deseja, não é porque esteja possuído de uma avassaladora paixão romântica por mim - disse ela secamente. - Eu dar-me-ia conta disso, se fosse esse o caso.

Tobias voltou-se para a encarar, um sorriso zombeteiro nos lábios.

- Tem a certeza disso?

- A certeza absoluta.

- Eu não compartilho dessa certeza. Mas digamos que tem razão. Isso coloca-nos uma questão interessante.

- Que questão?

- Se ele não a deseja na cama, para que é que a deseja?

- Tobias, você é o homem mais incrivelmente teimoso que alguma vez conheci.

Ele ignorou o comentário. - Porque, garanto-lhe, minha senhora, Hudson deseja-a, definitivamente.

 

Tobias dirigiu-se para a alegre salinha do pequeno-almoço, com o que, ultimamente, se tornara uma familiar sensação de prazer e de expectativa. Lá fora, caía uma chuvinha enovoada, mas ali era tudo quente e agradável. Os inebriantes aromas do café, dos ovos e dos muffins acabados de fazer enchiam o ar.

Emeline dirigiu-lhe o seu grácil e caloroso sorriso.

- Bom-dia, caro senhor, é um prazer vê-lo por aqui.

- Bom-dia, Miss Emeline.

O sorriso dela esvaneceu-se um pouco, quando olhou, por trás dele, para o hall vazio.

- Oh, vejo que Mr. Sinclair não o acompanhou.

- Ele virá buscá-la dentro de uma hora, para começarem os dois com os interrogatórios na mansão de Lorde Banks - disse Tobias, voltando-se, depois, para Lavinia. - Bom-dia, minha senhora.

Lavinia ergueu os olhos do matutino, uma expressão decididamente gelada no olhar vivo. Envergava um belo vestido vermelho-púrpura que lhe emoldurava o elegante pescoço num fino franzido. O cabelo ruivo estava apanhado num lindo nó, atrás da cabeça bem moldada e coberta com um chapeuzinho de laços. Tobias pensou na cena de amor na estufa dos Stillwaters e no que sentira quando ela se lhe entregara nos braços. A recordação aqueceu-lhe o sangue, perguntando-se se alguma vez se iria habituar aos efeitos que ela lhe causava.

- Acho que hoje os seus olhos me fazem lembrar um mar esmeralda à luz do sol - disse ele, com um sorriso.

- Hoje está a chover, se ainda não deu por isso. Emeline lançou a Lavinia um olhar consternado.

- Tia Lavinia, não tem razão nenhuma para ser rude. Mr. March dirigiu- lhe um belo cumprimento.

- Não dirigiu, não - disse Lavinia, dobrando a página do jornal. O comentário acerca dos meus olhos faz parte de uma diabólica experiência que ele tenta levar a efeito em mim.

Emeline ficou nitidamente perplexa.

- Uma experiência?

- Mr. March pretende utilizar o encanto numa tentativa de me influenciar no sentido de eu aceitar os seus conselhos e as suas ordens em relação aos meus assuntos pessoais.

Emeline desviou o olhar perplexo para Tobias, silenciosamente pedindo esclarecimentos.

Tobias puxou uma cadeira e piscou o olho para Emeline.

- Como pôde verificar pelos modos gentis como a sua tia me recebeu, não há dúvida de que o meu plano resulta em cheio. A sua tia é barro macio nas minhas mãos - disse ele estendendo o braço para a cafeteira.

Lavinia dobrou o jornal num gesto vivo.

- Nós, geralmente, não esperamos visitas ao pequeno-almoço, se quer saber.

- Admira-me muito que me diga isso - disse ele, barrando um mufn com manteiga. - Eu tenho-lhes feito companhia ao pequeno- almoço com uma certa frequência, ultimamente, e pensava que já se tivesse habituado a ver-me à sua mesa a esta hora. Mrs. Clinton já se habituou, decerto, pois verifico que já começou a reforçar o serviço.

- Isso é verdade. E eu verifico que esse reforço custa dinheiro. Já começou a fazer um rombo nos suprimentos da casa.

- A despensa está a ficar vazia? - disse ele, servindo-se de uma generosa colherada de compota. - Não se preocupe. Vou dizer a Whitby para Lhe mandar alguns mantimentos.

- Não é essa a questão - disse Lavinia. Tobias deu uma boa dentada no muffin.

- Então, para quê falar nisso, se não é essa a questão?

- A minha tia não está lá muito bem disposta, esta manhã. Não leve a mal.

- Obrigado, por me alertar para a má disposição da sua tia - disse Tobias, engolindo a dentada de Muffin. - Eu não daria por nada, se não me chamasse a atenção para isso.

Lavinia baixou os olhos, voltando à leitura do jornal.

- Isso não tem importância - disse Emeline. - Fale-me antes, por favor, dos interrogatórios a que eu e Anthony vamos proceder hoje.

- Mrs. Rushton concordou em que vocês os dois interroguem o pessoal da casa - disse ele. - Nós queremos saber se algum dos membros desse pessoal teve, alguma vez, acesso à chave do cofre que Lorde Banks tem no quarto.

- Estou a perceber. Acham que algum deles pode ter estado envolvido no roubo da pulseira, não é?

- É uma possibilidade que tem de ser averiguada. Mas têm de ser subtis nos vossos interrogatórios, pois nenhum dos criados se vai pôr, deliberadamente, a dizer que sabe alguma coisa a respeito do assunto.

- Claro que não - disse Emeline, o entusiasmo pela tarefa a vibrar- lhe na voz. - Nós vamos ser muito circunspectos.

- Não se esqueçam de tomar notas, mesmo se o que ouvirem não lhes pareça ter importância. Às vezes, um pequeno pormenor torna-se crucial para a solução do problema.

- Eu vou tomar nota de tudo - afirmou Emeline.

Tobias voltou-se para Lavinia.

- Quais são os seus planos para hoje, minha senhora?

- Eu tenho uma série de coisas em mente, para esta tarde - disse Lavinia em tom vago, continuando a ler o jornal. - Uma delas é visitar Mrs. Dove, para saber se ela descobriu alguma coisa de novo. E o senhor?

- Tenciono auscultar Crackenburme e Smiling Jack de novo - disse Tobias.

Também sabia ser vago, pensou ele.

Lavinia aquiesceu com a cabeça, sem tirar os olhos do jornal.

- Boa ideia.

Não havia dúvida nenhuma, pensou ele: Lavinia tinha magicado um esquema qualquer para aquele dia. Ele conhecia-lhe bem os indícios.

A grande dificuldade em levar a efeito uma investigação com Lavinia é que se via obrigado a perder quase tanto tempo a mantê-la debaixo de olho, como a procurar a solução do problema.

 

A porta, de um verde-escuro, abriu-se quando Lavinia começava a subir os degraus da entrada. Uma mulher emergiu do hall da frente da casa do dr. Darfield. Tinha as faces coradas do brilho rosa das pessoas saudáveis e uma expressão prazenteira nos olhos vivos.

- Bom-dia - disse a mulher para Lavinia, com um sorriso amistoso, ao passar por ela. - Está um belo dia, não está?

- Muito bonito - murmurou Lavinia.

A senhora afastou-se numa passada enérgica, um testemunho vivo da competência do dr. Darfield. Lavinia observou-a por momentos, pensando no entusiasmo de Mrs. Rushton pelos tratamentos que lhe aplicava o mesmerista. Obviamente, o médico inspirava uma reacção positiva nos pacientes.

Lavinia continuou a subir os degraus da entrada e bateu à porta da casa, ainda não muito certa do impulso que a levara a contactar o mesmerista de Mrs. Rushton naquele dia. Talvez tivesse a ver com o seu grande desapontamento da véspera. Estivera tão segura de que o interesse de Mrs. Rushton por tratamentos de mesmerismo constituía um elo de ligação com Celeste que lhe era difícil abandonar a ideia de que existia ali uma pista.

A porta abriu-se quase imediatamente, aparecendo um homem novo e bonito a sorrir para ela. Estava elegantemente vestido, com um casaco de veludo castanho, colete amarelo, calças com dobra e, ao pescoço, um plastrão num intrincado laço. O cabelo loiro fora duramente sujeito ao ferro de ondular. Caíam-lhe sobre os olhos caracóis artisticamente dispostos num aparente desalinho que requerera, decerto, muito tempo passado ao espelho.

- Muito bom-dia, meu caro senhor. Eu desejava consultar o dr. Darfield.

- Tem consulta marcada, minha senhora?

- Não, na verdade não tenho - disse Lavinia, entrando rapidamente para o hall e voltando-se para ele com um sorriso, antes que ele pudesse pensar na maneira de, educadamente, lhe fechar a porta na cara. - O meu caso de nervos surgiu-me muito repentinamente esta manhã e acho que não posso ficar muito tempo à espera de uma consulta. Temo que, se não conseguir assistência, venha a sofrer um ataque de histeria. Tinha esperança que me conseguisse introduzir na agenda do dr. Darfield.

O jovem pareceu ficar embaraçado.

- Peço imensa desculpa, minha senhora, mas o dr. Darfield está muito ocupado hoje. Talvez lhe possa arranjar uma vaga para amanhã.

- Receio bem que tenha de o consultar hoje. Os meus nervos estão num estado deplorável. São, na verdade, muito delicados.

- Eu compreendo, minha senhora, mas...

Lavinia lembrou-se dos pormenores do anúncio do dr. Darfield,como punha a ênfase nas viúvas e nas mulheres casadas.

- Eu sou viúva há já algum tempo e receio que a tensão de me encomtrar sozinha neste mundo esteja a cobrar o seu preço - disse Lavinia, batendo na bolsa. - Eu estou disposta, já se vê, a pagar uma quantia extra pelo incómodo que vou causar ao dr. Darfield.

- Estou a ver - disse o jovem, olhando significativamente para a bolsa dela. - Antes da consulta, se ela for possível?

- Sim, claro.

O jovem dirigiu-lhe um sorriso ufano.

- Sente-se, por favor, na sala de espera, enquanto eu dou uma vista de olhos à agenda do dr. Darfield. Talvez seja possível arranjar-lhe uma vaga para esta tarde.

- Nem sei como agradecer-lhe a sua gentileza.

O secretário conduziu-a a uma sala do outro lado do hall e desapareceu. Lavinia sentou-se, tirou o chapéu e pôs-se a observar as redondezas com interesse profissional.

Lavinia estava habituada aos ambientes neutros e calmos que os mesmeristas adoptavam para os pacientes nas salas de espera, mas o decorador do dr. Darfield escolhera um tema mais ousado.

As paredes estavam cobertas com grandes murais com cenas de banhos romanos. Colunas clássicas admiravelmente pintadas emolduravam quadros de voluptuosas damas romanas escassamente vestidas, espanejando-se na água.

Havia um certo número de estátuas dispostas aos cantos da sala. Lavinia reconheceu algumas como reproduções, mas eram todas bem modeladas figuras de deuses gregos e romanos nus. Um exame mais próximo mostrava que eram todos deuses extremamente bem dotados. Semelhantes a algumas das estátuas que ela própria vendera bem vendidas, durante a estada em Itália, pensou Lavinia.

Cenas de amantes enlaçados em variadas poses gráficas decoravam os vasos gregos que flanqueavam as janelas.

Segundo parecia, houvera sempre uma inexaurível procura de deuses gregos e romanos nus no negócio de antiguidades, mas Lavinia estava admirada de ver aquelas figuras ali, na sala de espera de um mesmerista.

Uma voz baixa, masculina, chamou-lhe a atenção para um pequeno grupo de pessoas a um dos cantos da sala. Três senhoras, possivelmente pacientes, rodeavam um homem jovem, se possível ainda mais bonito que o secretário. Ele lia para as senhoras, de um livro encadernado a coiro.

Lavinia reconheceu as frases. Era um dos sonetos mais sensuais de Shakespeare. Agradada com a perspectiva de ouvir um pouco de boa poesia, segurou na saia do vestido, preparando-se para se erguer e mudar-se para outra cadeira, mais perto do rapaz que lia. Nesse momento, a porta da sala de espera abriu-se e apareceu o secretário, que se dirigiu a Lavinia.

- O dr. Darfield vai recebê-la - disse ele em voz baixa. - óptimo.

Já de pé, Lavinia mudou de direcção e dirigiu-se para o hall.

O secretário fechou a porta mansamente e inclinou a cabeça na direcção da escada.

- As salas de tratamento do dr. Darfild são no andar de cima - disse ele. - Queira fazer o favor de me seguir.

- Muito obrigada.

O secretário dirigiu a Lavinia um sorriso encantador.

- Queira desculpar, minha senhora, mas tem de pagar-me os honorários agora.

- Claro, claro - disse Lavinia, abrindo a bolsa.

Os pormenores da transacção foram levados a efeito com espantosa eficiência. Uma vez concluídos, o secretário conduziu Lavinia escadas acima e, depois, por um corredor. Abriu uma porta e, com uma vénia, fê-la entrar numa sala.

- Sente-se, por favor, na cadeira dos tratamentos. O dr. Darfield vem já ter consigo.

Lavinia entrou e viu-se numa sala mal iluminada. Pesados reposteiros tapavam a janela. Numa mesa, uma única vela. O ar rescendia a fragrante incenso. A porta fechou-se silenciosamente atrás dela. Quando os olhos se habituaram á luz débil, Lavinia viu, no meio da sala, uma grande poltrona, com grandes braços e um invulgar apoio de pés, articulado. Num pequeno carrinho de rodas, via-se um estranho aparelho mecânico, com uma manivela manual. Lavinia pousou o chapéu e foi sentar-se na poltrona almofadada. Era bastante confortável, mesmo com o apoio de pés em baixo. A porta abriu-se justamente quando ela se inclinava para ver como funcionava.

- Mrs. Lake? Eu sou o dr. Darfield.

- Oh - exclamou Lavinia sentando-se rapidamente, ao ouvir o som da voz profunda e ressoante. À porta estava um homem alto, de ombros largos, vestido com robe azul de padrão exótico. A vestimenta e todo o ambiente assinalava-o como um verdadeiro seguidor de Mesmer, pensou Lavinia. Ela tinho lido relatos de pessoas que tinham tido o privilégio de observar o grande mestre a trabalhar. Segundo esses relatos, Mesmer gostava de robes destes, de luz débil e de música de fundo, tocada por jovens bonitos. Alguns desses observadores tinham mesmo tomado nota do grande número de mulheres que acorriam às salas de Mesmer para tratamentos, recordou que o cabelo castanho de Darfield estava cortado à moderna, de tal modo que lhe salientava o olhar profundo e penetrante, pondo, ainda, em destaque o excelente perfil. Ele não era, de modo nenhum, tão bonito como os assistentes, decidiu Lavinia, mas era muito mais interessante, possivelmente porque não era tão jovem como eles. Lavinia considerou que ele estava na idade em que um homem, com algumas rugas aos cantos dos olhos e alguma experiência do mundo na cara, é muito mais atraente do que um jovem de feições lindas.

Lavinia dirigiu-lhe o que ela esperava que fosse um adequado sorriso de agradecimento, o género de sorriso que uma senhora à beira de um ataque de histeria dirigiria ao seu médico.

- Foi muito gentil em se dignar receber-me tão depressa - disse ela. O dr. Darfielde entrou na sala e fechou a porta.

- O meu secretário disse-me que os seus nervos estavam num estado deplorável. Uma espécie de emergência, disse-me ele.

- Sim, sim. Na realidade eu tenho andado sujeita a uma grande tensão ultimamente e receio que os meus nervos não a tenham suportado muito bem. Espero que possa aliviar-me alguma da minha tensão e da minha ansiedade.

- Terei muito gosto em fazer o que possa - disse Darfield, pegando na única vela e levando-a para junto dela. - Quer dizer-me como teve notícia da existência da minha clínica?

- Eu vi o seu anúncio num jornal - disse Lavinia, não querendo mencionar o nome de Mrs. Rushton.

- Ah, foi isso. - Darfield sentou-se ao lado dela, os joelhos muito próximos de Lavinia. Olhou para ela através da luz da vela. Na sombra, os olhos dele eram ainda mais penetrantes. - Portanto, não foi nenhum dos meus clientes que me recomendou?

- Não.

- Muito bem. Nesse caso, é melhor eu explicar-lhe um pouco o que é a minha terapia. É preciso que se descontraia e que fixe o olhar na vela.

Lavinia não tinha intenção nenhuma de permitir que ele a hipnoti zasse. Em boa verdade, não era muito propensa a isso, segundo os pais, que o haviam tentado várias vezes. No entanto, fora, em tempos, uma perita nessa prática e sabia perfeitamente como ficava uma pessoa em transe.

Um transe simulado proporcionar-lhe-ia uma oportunidade de observar o trabalho do dr. Darfield. Mesmo que isso nada adiantasse à investigação, era sempre interessante observar outro profissional da mesma actividade.

- Os nervos de uma senhora são demasiado delicados para suportarem as gentis e refinadas sensibilidades com que a natureza a dotou.

- A voz do dr. Darfield era cava e profunda, com uma toada melodiosa que o teria levado longe numa carreira teatral. - Isso é particularmente verdade com as viúvas como a senhora, que se vêem privadas da normal atenção dos maridos.

Lavinia aquiesceu educadamente com a cabeça, tentando esconder a sua impaciência. A noção de que os distúrbios dos nervos nas mulheres, juntamente com uma miríade de outros vagos sintomas designados com o labéu de histeria feminina, se deviam à falta de regulares e energéticas relações sexuais era, então, muito comum entre os membros da classe médica. Era uma opinião, sabia-o bem Lavinia, muito antiga e muito bem documentada.

- Os sintomas de ansiedade, de agitação, de melancolia e de outros distúrbios nervosos das senhoras são expelidos do corpo, quando a paciente sofre uma crise no decurso do tratamento - explicou Darfield.

- Uma crise?

- Sim, em terminologia médica designa-se por paroxismo histérico.

- Eu já tinha ouvido esse termo - disse Lavinia.    

Era, de facto, verdade, mas, pela primeira vez, pôs-se a pensar se a ideia de fingir um estado de transe não teria efeitos perniciosos. Ela nunca tinha, realmente, observado alguém que estivesse sujeito a um paroxismo      histérico e, portanto, não sabia bem como simular uma crise dessas.

O problema é que se verificavam grandes diferenças entre os praticantes de mesmerismo no que dizia respeito a estilos e métodos. Ela aprendera as técnicas com os pais, que nunca se haviam dedicado muito a provocar paroxismos. O pai afirmava que o resultado, embora surpreendente, constituía, a maior parte das vezes, uma cura apenas passageira.  

- O paroxismo histérico reduz o caudal da corrente de ondas dos naturais fluidos magnéticos do corpo - continuou o dr. Darfield na sua voz profunda. - Não há razão para alarme, pois o paroxismo provoca o

que as minhas pacientes afirmam ser uma agradável convulsão, seguida de um efeito extremamente tranquilizador dos sentidos. Mesmer e muitos outros conceituados médicos consideram a crise altamente eficiente.

- Compreendo.

- Bem, mas, para obtermos o melhor efeito do processo, tem de estar o mais cómoda possível.Darfield inclinou-se para ela e agarrou numa pequena alavanca que ela não tinha notado, num dos lados da poltrona. Quando ele a puxou, o apoio dos pés prontamente se elevou. Ainda ela se maravilhava com         

este prático resultado, quando verificou que o dr. Darfield se tinha erguido e já se encontrava atrás dela.

Ouviu o movimento de outra alavanca e, simultaneamente, as costas da poltrona baixaram vários graus. Lavinia ficou, de repente, numa posição parcialmente reclinada. Era um pouco desconcertante, pensou ela, mas de todo em todo cómoda. Alterou-lhe, também, o ângulo de visão, mostrando-lhe o tecto. Pela primeira vez, notou que estava decorado com um céu de crepúsculo, com nuvens cor de púrpura e esparsas estrelas.

- Uma poltrona muito invulgar - disse ela.    

- Fui eu que a desenhei.    

O dr Darfield pôs-se ao lado dela, sussurrando-lhe agradavelmente ao ouvido, continuando a falar da delicada natureza da constituição feminina e quão era prejudicial a uma senhora adulta não poder manter saudáveis e revigorantes relações maritais numa base regular. Explicou- lhe que muitas mulheres casadas também sofriam de sintomas semelhantes, porque os maridos não lhes prestavam a atenção adequada. Lavinia reconheceu o tom tranquilo e autoritário utilizado para induzir um ligeiro transe e tentou compor uma expressão apropriada.   

- Por favor, fixe agora a chama da vela - disse ele numa voz doce, mas muito firme, erguendo a vela por forma que ela a pudesse ver e começando a descrever com ela um lento círculo no ar.

- Pense na região mais delicada e macia do corpo feminino - murmurou Darfield. - É aí que se encontra o caudal que provoca os distúrbios nas senhoras. Tenho de reduzir esse congestionamento, por forma a encontrar alívio.

Lavinia sabia que a pequena chama se destinava a concentrar-lhe a atenção. Educadamente, seguiu-a com os olhos.

Darfield movia a vela lenta, mas regularmente. Por detrás do brilho da chama, observava Lavinia com fixa intensidade.

- Vai entregar-se ao meu toque curativo, Mrs. Lake.     

A voz dele, sempre melíflua, era cada vez mais autoritária. Inclinou-se sobre a poltrona, as pregas do robe roçando nos braços dela.

- Vou pôr a vela de lado. - Darfield não tirou os olhos dela, ao pousar a palmatória num apoio próximo. - Vai fechar os olhos e deixar-se guiar pela minha voz e pelo meu toque.         

Obedientemente, baixou as pálpebras, mas não resistiu a espreitar.

- Não pense em mais nada a não ser no congestionamento na parte delicada e extremamente sensível do seu corpo - disse Garfield, estendendo o braço e puxando o carrinho com o aparelho mecânico para junto da poltrona de Lavinia. - Sinta o bloqueamento e a consequente tensão que aí se acumula. Mas não o reprima. Permita que se desenvolva e se expanda.

Bem depressa a vou libertar da escaldante sensação de aperto que lhe enfraquece os nervos.     

Por entre as pálpebras, viu-o pegar num frasquinho de unguento e tirar-lhe a tampa. Uma fragrância deliciosa espalhou-se no ar. Óleo perfumado de alguma planta, considerou Lavinia.

- Eu inventei um engenhoso aparelho que me permite melhorar muito as técnicas tradicionais da terapia mesmérica no tratamento da histeria feminina - disse Darfield. - É um meio complementar de tratamento altamente eficaz e extremamente eficiente no alívio do congestionamento da parte inferior do corpo, como irá verificar.       

Tenho um mau pressentimento a respeito disto, pensou Lavinia. Darfield inclinou-se e accionou uma outra alavanca da poltrona.

O apoio de pés imediatamente se dividiu em duas partes que se separaram. Lavinia gelou quando se apercebeu de que o dispositivo lhe afastara as pernas diversas polegadas entre si. Era como se estivesse escachada num cavalo.      

Ficou alarmada. Sabia que as pernas estavam ainda pudicamente cobertas até aos tornozelos pela saia do vestido, mas a posição fazia-a sentir-se descomposta.

Ele é um praticante experiente, reflectiu ela. Um profissional que presta tratamentos a senhoras regularmente. As clientes até têm muita consideração por ele.       

Pela primeira vez, Lavinia perguntou-se até onde iria levar o seu papel de paciente.         

O dr. Darfield fez rolar o carrinho e colocou-o entre os pés dela. Através do véu das pálpebras, Lavinia viu que havia uma pequena escova de aspecto macio, montada na extremidade de um longo braço metálico que se estendia a partir do aparelho mecânico. Darfield rodou a manivela várias vezes, aparentemente para se certificar que se movia facilmente.    O longo braço metálico e a pequena escova rodaram rapidamente       quando ele accionou a manivela.       

- Vou, agora, utilizar a minha invenção para controlar as ondas de magnetismo animal do seu corpo - disse Darfield. - Pense nessas ondas magnéticas como quedas de águas impetuosas que emergem de uma barragem, antes de caírem na calma tranquilidade de um tanque. Pense no aparelho como a ferramenta que vai libertar o caudal interior. Entregue-se à terapia, minha senhora. Está nas mãos de um médico.         

Ele pegou na orla da saia dela com uma das mãos e puxou-a para cima, para os joelhos dela. Com a outra mão, empurrou o carrinho com o aparelho mecânico para o meio das pernas dela. Lavinia compreendeu então onde ele pretendia aplicar a escova rodopiante, para aliviar o que ele chamava o congestionamento.

- Páre, dr. Darfield! - gritou ela, de um salto sentando-se, unindo as pernas e saindo da poltrona. - Já chega!

Lavinia voltou-se para o encarar e viu-o a olhar para ela com uma expressão de profunda consternação.

- Acalme-se, minha senhora. Os seus nervos estão, na verdade, extremamente afectados.

- Vão ter, contudo, de permanecer assim. Não me interessam nada os seus métodos e não vou permitir que me trate com esse estranho aparelho mecânico.

- Minha senhora, asseguro-lhe que os meus métodos se fundamentam na conceituada ciência moderna e em séculos de prática médica. Todos os célebres praticantes de medicina, desde o grande Galeno de Pérgamo ao próprio Culpeper, têm aconselhado a massagem vigorosa dessa região da anatomia feminina para o alívio da histeria e dos distúrbios nervosos.

- Um género de massagem demasiado intima, em minha opinião. Ele estava nitidamente ofendido.

- Devo afirmar-lhe que não há absolutamente nada de controverso nas minhas terapias. A única coisa que eu fiz foi melhorar as ultrapassadas técnicas manuais que os médicos utilizam há muito tempo. Este moderno aparelho mecânico proporciona às minhas pacientes uma forma muito mais eficiente de tratamento.

- A eficiência não tem nada a ver com isto.

- Tem tudo a ver, minha senhora, se se quiser ter uma vida decente com esta actividade - Darfield cerrou os dentes. - Digo-lhe que, antes de eu aperfeiçoar o meu aparelho, algumas das minhas pacientes levavam quase o raio de uma hora para atingirem o paroxismo. Tem alguma noção do trabalho manual que isso requeria da minha parte? Esse tipo de coisas é um trabalho muito duro, minha senhora.

- Trabalho? - Lavinia estendeu uma mão para indicar a poltrona articulada e a maquineta. - Chama a isto trabalho?

- Sim, tenho de lhe chamar trabalho. Pensa que é fácil induzir um paroxismo, uma e outra vez, numa fila sem fim de pacientes femininas? Digo-lhe, minha senhora, que houve dias em que o meu braço e a minha mão estavam tão fatigados pelo esforço que, à noite, me via obrigado a aplicar-lhes uma cataplasma.

- Não espere que lhe exprima a minha simpatia - disse Lavinia, pegando no chapéu e dirigindo-se para a porta. - Segundo parece, está a ter muito êxito com os seus tratamentos terapêuticos.

- Eu tenho uma vida decente, mas estou longe de fazer uma fortuna nesta actividade. Infelizmente, até agora não tenho conseguido atrair a atenção das elegantes senhoras da alta sociedade. É com elas que se pode ganhar bom dinheiro, se quer saber.

- Eu sei isso muito bem. - Lavinia fez uma pausa, curiosa, contra vontade. - Quer dizer que o seu excelente anúncio nos jornais não lhe atraiu uma clientela mais refinada?

- A gente da alta exige sempre referências dos que frequentam os mesmos meios - murmurou ele.

Lavinia não conseguiu evitar uma certa simpatia por ele.

- E as referências são sempre um problema, não é assim? - São, sim - corroborou ele, fazendo uma pausa. - E se voltássemos à questão dos seus nervos, minha senhora. Garanto-lhe que, se me permitir aplicar-lhe o meu aparelho...

- Não, muito obrigada. - Lavinia encolheu os ombros e abriu a porta - Acho que os meus nervos delicados não suportariam um tratamento com o seu aparelho. Bom-dia, dr. Darfield.

Passou pela porta e correu para a escada. Na pressa de escapar, quase colidiu em baixo com o secretário louro, o qual se refez e lhe abriu a porta da frente. Lavinia tentou parecer displicente e à vontade ao descer os degraus de entrada para a rua, conseguindo, até, sorrir delicadamente para a mulher que passou por ela a caminho da porta verde. A pose, porém, não foi fácil de manter.

Teve de admitir que a decisão de investigar o mesmerista de Mrs. Rushton não tinha sido uma ideia brilhante. Ainda bem que não referira a Tobias, ao pequeno- almoço, o que tencionava fazer. Via-se, pelo menos, eximida da necessidade de lhe fazer um relato das suas averiguações.

Lavinia afastou-se rapidamente da porta escura, encaminhando-se para uma viela, não notando um homem que se mantinha na sombra até ele se mexer. Lavinia deu um salto quando ele se colocou ao lado dela.

- Tobias!

- Está um belo dia para passear, não está? - perguntou Tobias:

- Essa mania de se pôr a espiar nos locais escuros. Quase me provocou um ataque de coração. O que é que anda aqui a fazer?

- Não conseguiu resistir a uma visita ao bom do doutor, pois não? - disse Tobias, não se preocupando em esconder o sorriso mordaz. - Deixou o dr. Darfield pô-la em transe?

- Não. Acontece que não sou pessoa propensa a transes.

- Isso não me surpreende. Não lhe seria fácil entregar-se nas mãos de outrém.

- Não mais do que você - retorquiu ela. - Lembre-se da sua teimosia sempre que eu me ofereço para ver se consigo aliviá-lo um pouco da dor que a sua ferida lhe provoca.

- Tem-me proporcionado, já por diversas vezes, um agradável alívio de outro género, minha senhora. E estou muito satisfeito com a sua terapêutica.

- Isso tem muito menos graça do que você imagina - murmurou ela. - Mas o que é que está aqui a fazer? Santo Deus, seguiu-me, não foi?

- Admito que estava, de facto, com uma certa curiosidade. Soube de alguma coisa útil?

- O nosso cliente inicial é um mesmerista e a vítima fatal possuía alguns conhecimentos dessa ciência - disse ela rigidamente. - Reconheço que o facto de outro dos nossos clientes, Mrs. Rushton, consultar um mesmerista me perturbou. Foi você que me avisou para estar atenta às coincidências.

- Dado o grande número de pessoas que consulta mesmeristas por causa dos nervos, seria surpreendente que descobríssemos que Mrs. Rushton não procurara esse tipo de terapia - disse ele secamente.

- Mas diga-me, está satisfeita com as suas averiguações nesse terreno? Lavinia aclarou a garganta.

- Estou muito satisfeita.

- Ficou convencida de que a prática do dr. Darfield é legal?

- Fiquei, sim.

Tobias olhou pensativamente, por cima do ombro, para a porta verde.

- A julgar pelas pessoas que eu vi dirigirem-se ao consultório dele, enquanto esperava por si, ele parece ter-se especializado no tratamento de senhoras.

- Sim, sim, é, de facto, ao que ele se dedica. É um perito no tratamento da histeria feminina.

- Mas que raio é, afinal, a histeria feminina?

- É um pouco difícil de explicar a um leigo - disse ela friamente. Basta que lhe diga que é um mal muito proveitoso para os médicos e mesmeristas que se dedicam a tratá-lo, pois os pacientes nunca morrem, nem se curam da doença. O tratamento repete-se, portanto, indefi nidamente.

- Como no caso de Mrs. Rushton?

- Sim.

- É uma profissão que vale a pena, de facto - disse ele pegando no braço de Lavinia, para atravessar a rua. - Como é que o dr. Darfield trata a histeria feminina?

- Por que é que, de repente, está tão interessado por um tema médico tão vetusto?

- É que não pude deixar de notar que as senhoras que se dirigiam ao consultório dele subiam aqueles degraus da entrada com grande entusiasmo. E lembro-me que Mrs. Rushton falava dos seus tratamentos com uma expressão de regozijo. Presumo que a terapia de Darfield é não só eficaz, mas indolor.

- Assim é, de facto.

Tobias fê-la parar e pôs-se a olhar para a porta verde do outro lado da rua. Lavinia não reparou na perigosa expressão pensativa no olhar dele.

- Também não pude deixar de notar que você, há pouco, quase voava por aqueles degraus abaixo. Parecia bastante ansiosa por sair dali.

- Eu estou cheia de pressa. Tenho uma série de coisas que quero fazer hoje.

- Lavinia, aconteceu alguma coisa no consultório de Darfield?

- Nada que tenha importância - disse ela em tom vago. - Como você afirmava, as visitas de Mrs. Rushton ao consultório dele são absolutamente irrelevantes e não têm nenhuma ligação com o nosso caso.

- Tem a certeza de que não há nada de que eu deva tomar conhecimento?

- Tobias, tenho de lhe dizer que, às vezes, parece um cão à volta de um osso - disse Lavinia, fazendo o gesto notório de ver as horas no pequeno relógio pregado à bolsa. - Como o tempo passa! E eu que queria fazer umas compras a caminho de casa.

- A propósito das técnicas terapêuticas de Darfield.

- Não lhe dizem respeito, meu caro senhor. Afianço-lhe que o método de tratamento dos distúrbios nervosos do dr. Darfield estão den tro dos preceitos da prática médica e mesmérica mais tradicional e institucionalizada.

 

Emeline observava atentamente o jardineiro, enquanto Anthony o interrogava, sentindo bastante simpatia pelo pobre homem. Ele estava de pé, no meio da cozinha, torcendo nervosamente o boné, e dava respostas breves e sem interesse. Estava claramente pouco à vontade, embora Anthony se tivesse esforçado ao máximo por ser delicado e agradável com ele, como tinha sido com os outros criados.

- Viu alguma vez alguém entrar no quarto de sua senhoria a uma hora estranha? Noite dentro, talvez? - perguntava Anthony.

- Eu nunca vi, sequer, o quarto de sua senhoria. De facto, nunca vi o quarto dele. Nunca estive lá em cima - respondeu o jardineiro, olhando para o tecto como que a espreitar para um invisível reino metafísico. - Trabalho aqui há dezassete anos e a cozinha é o único compartimento da casa que eu já vi.

- Claro que é o único - disse Mrs. Rushton, sentada ao topo da mesa, falando com convicção. - Os jardineiros não devem passar da cozinha.

A expressão de Anthony contraiu-se. Emeline sentiu a impaciência dele. Não era a primeira vez que Mrs. Rushton se intrometia.

Aquela investigação matutina, que tanto ela como Anthony haviam iniciado com entusiasmo, não correra bem. Nenhum dos membros do pessoal se abrira. Tinham estado todos pouco à vontade e Emeline tinha a certeza de que sabia porquê. Não era um sentimento de culpa que punha as criadas, os jardineiros e a governanta tão nervosos, mas sim o facto de Mrs. Rushton ter insistido em estar presente durante os interrogatórios.

Anthony agradeceu ao jardineiro, o qual estava ansioso por desaparecer dali. Depois, Anthony apanhou o olhar de Emeline e abanou a cabeça ligeiramente. Emeline fechou o livro de notas com um suspiro.

- Pois bem - disse Mrs. Rushton -, este é o último. - Descobriu alguma coisa útil, Mr. Sinclair?

Anthony dirigiu-lhe um sorriso simpático que, na opinião de Emeline, nada fazia para disfarçar a irritação nos olhos dele. Mrs. Rushton, porém, nada pareceu notar. Estava claramente apanhada por Anthony. Ela não tinha, de facto, prestado atenção nenhuma a Emeline, praticamente desde o momento em que fora apresentada a Anthony. E havia uma peculiar expressão nos olhos dela sempre que olhava para ele, coisa que fazia com frequência.

Emeline pensou que, se visse aquela expressão num cavalheiro a olhar para uma dama, consideraria o homem um libertino e um debochado da pior espécie.

- Não sabemos a resposta a essa pergunta enquanto não mostrarmos as notas a Mr. March e a Mrs. Lake - disse Anthony. - Muito obrigado, Mrs. Rushton, pelo tempo que lhe tomámos esta manhã.

- Não tem nada que me agradecer - disse Mrs. Rushton, erguendo-se da cadeira, mantendo o olhar em Anthony. - Far-me-ão o favor de me contactar se vierem a saber alguma coisa a respeito da pulseira, não é assim?

- Claro, Mrs. Rushton.

- Eu preferiria um relatório pessoal da sua parte, Mr. Sinclair - disse Mrs. Rushton, baixando a voz para um tom íntimo. - Sinto que posso falar à vontade com o senhor. Na verdade, acho que é muito tranquilizador saber que um cavalheiro com um físico tão obviamente vigoroso está a ajudar nas investigações.

- Muito obrigado por ter confiança em mim, minha senhora - disse Anthony, lançando a Emeline um olhar de emergência e encaminhando- se para a porta da cozinha. - Vamos mantê-la informada do desenrolar do processo, num sentido ou noutro.

- Não querem uma chávena de chá antes de saírem? - disse Mrs. Rushton à pressa.

Anthony abriu a boca para responder. Emeline sabia que ele ia recusar, por isso levantou-se rapidamente, freneticamente procurando captar-lhe o olhar, para o travar.         

Ele hesitou, captou a mensagem silenciosa dela e, com relutância, acedeu.

Emeline voltou-se, rápida, para Mrs. Rushton.

- Minha senhora, poderia eu, antes de partirmos, roubar-lhe o jardineiro para uma volta rápida ao jardim? Não pude deixar de notar que é bastante extenso e eu sou uma apaixonada pela jardinagem.     

Mrs. Rushton hesitou.        

- Mr. Sinclair poderia acompanhá-la a tomar chá, enquanto eu observo as suas plantas e arbustos - disse Emeline numa voz mansa.

Mrs. Rushton sorriu.

- Sim, sim, pois claro. É uma excelente ideia. Que aprecie o seu passeio.

- Obrigada. - Emeline guardou o bloco-notas e o lápis na bolsa e correu para a porta. - Eu não me demoro.

Anthony lançou-lhe um olhar de socorro quando ela ia a sair. Emeline fez de conta que não notou.

Vinte minutos depois, saíram, finalmente, da lúgubre mansão. Anthony tinha uma expressão decididamente irritada.

Era evidente para Emeline que a má disposição dele só em parte se devia ao falhanço dos interrogatórios.

- Quero acreditar que tinha uma boa razão para me deixar tanto tempo sozinho com aquela mulher medonha - resmungou ele.

- Medonha? Como pode dizer uma coisa dessas? Mrs. Rushton ficou absolutamente encantada consigo. Ela não me ligou nenhuma, se quer saber, mas tenho a impressão de que gostaria de escrever um soneto ou uma ode ao seu físico obviamente vigoroso.

- Não estou com disposição para as suas gracinhas - disse Anthony, pegando-lhe no braço de modo inesperadamente forçoso e encaminhando-a para o parque.

Ocorreu ao espírito de Emeline que aquela era a primeira vez que via Anthony irritado. Era uma nova e intrigante faceta dele.

- Santo Deus, meu amigo - murmurou ela - está, realmente, fora de si, não está?

- Para que foi essa ideia de dar uma volta pelo jardim? - perguntou ele, abrindo o portão de ferro e entrando no pequeno parque. - Sabe perfeitamente que não viemos aqui para ver plantas e flores.

- Eu sei perfeitamente o que viemos fazer. - Anthony estava a andar com ela tão depressa que o chapeuzinho dela começou a inclinar-se e a descair de maneira precária. Emeline ergueu uma mão e endireitou-o. - E também sei que falhámos por completo.

- Por causa daquela mulher - Anthony escolheu uma passagem que atravessava o parque em diagonal. - Nenhum dos criados se dispôs a falar diante dela. Eles sabem bem que, com Banks no leito da morte, ela é a verdadeira patroa. Podia despedir qualquer deles, sem aviso prévio nem referências.

- Isso é verdade - Emeline teve de correr um poúco, para o acompanhar. - E foi por isso que eu fui dar aquela volta repentina ao jardim, com o pobre e aterrorizado jardineiro.

Anthony poupou-a um momento. Emeline sabia que ele ainda estava em brasa e ele, pelo seu lado, conhecia-a o bastante para saber que ela não agira apenas por capricho.

- Do que é que falou com o pobre e aterrorizado jardineiro? - perguntou ele.

Emeline sorriu, mais do que apenas satisfeita consigo própria.

- Falámos de finanças.

- Raio! - exclamou ele, mas abrandou um pouco o passo ao reflectir naquilo. - Ofereceu-lhe um suborno?

- Um pagamento - corrigiu ela: - Inspirei-me na minha tia. Segundo parece, ela e Mr. March consideram as informações uma mercadoria como outra qualquer e, por isso, dispõem-se muitas vezes a pagá-las.

- Isso é bem verdade. - Anthony parou para abrir o portão na extremidade do jardim. - Tobias resmunga a respeito dessa prática, mas não há dúvida de que é eficaz. E o jardineiro, foi receptivo à sua oferta?

- Fiquei sem saber.

- Quer dizer que ele não lhe disse nada? - Anthony fê-la passar pela abertura e voltou-se para fechar o portão. - Espero que não lhe tenha dado dinheiro em troca de coisa nenhuma.

- Ele estava demasiado nervoso para falar comigo abertamente. Tinha consciência de que Mrs. Rushton estava por perto. Mas eu pressenti que ele sabia mais do que o que nos disse e afirmei-lhe que a oferta se mantinha durante vinte e quatro horas.

- Estou a perceber.

Anthony pegou-lhe de novo no braço, mas não disse nada, até terem dobrado para uma rua estreita ao fundo da praça.

- Não é mau esquema - concedeu ele finalmente, num resmungo.

- Obrigada. Eu achei que era bastante astuto.

- Mas acha que era absolutamente necessário sacrificar-me a Mrs Rushton, apenas para subornar o jardineiro?

- Já lhe disse que era um pagamento, não um suborno. E quanto a sacrificá-lo, acho que não tinha opção. Recordo-lhe que eu tinha de agir rapidamente.

- Isso soa a uma desculpa.

- Deixe-se disso - disse ela. - Tomar chá com Mrs. Rushton também não foi assim tão mau, pois não?

- Foram os piores vinte minutos da minha vida. A mulher tentou convencer-me a voltar mais tarde. Sozinho, se quer saber. - Anthony teve um visível arrepio. - Uma visita à noite, vejam lá!

- Deve ter sido uma experiência angustiante. Acho que nunca o vi tremer tanto, meu caro amigo.

- Quando pedi a Tobias para me tomar como seu assistente, ele esqueceu-se de mencionar que existem clientes como Mrs. Rushton.

- Mas tem de admitir que é uma carreira aliciante. Ele animou um pouco, perante o comentário dela.

- Sim, bastante. Tobias ainda não está muito satisfeito com a mi nha decisão, mas acho que já a aceitou.

- A minha tia Lavinia tem o mesmo tipo de reserva a meu respeito, mas acho que acaba por aceitar.

Anthony franziu um pouco a testa.

- A propósito de Tobias e da sua tia, há uma coisa que eu gostava de discutir consigo.

- Está preocupado com a relação pessoal deles, não é?

- Sim, e acho que tem o mesmo género de preocupação.

- Tenho andado um pouco preocupada com eles ultimamente, isso é verdade - admitiu ela.

- É evidente que eles se tornaram bastante, hum, chegados. E não apenas no aspecto profissional, se percebe onde quero chegar.

Emeline fixou o olhar no fundo da rua.

- O que você quer dizer é que acha que eles se tornaram íntimos.

- Sim, é isso. Tem de me desculpar, eu tenho consciência de que este é um tema que, geralmente, não se deve discutir com uma senhora da sua idade e da sua condição, mas eu sinto que devo falar-lhe nisto.

- Não se preocupe com as conveniências - disse ela gentilmente. Você e eu não tivemos uma educação tradicional e conservadora. Temos decerto, muito mais experiência do mundo do que a maior parte das pessoas da nossa idade. Pode falar comigo abertamente.

- Já que assim quer, digo-lhe que ando preocupado porque observo que Tobias e Mrs. Lake parecem andar, ultimamente, cada vez mais irri tados um com o outro.

- Sim, eu percebo o que quer dizer. A natureza da associação deles parece ser exasperante, para dizer o mínimo.

- Eu pensava que, após o êxito da investigação deles no caso dos assassinatos das máscaras de cera, iriam navegar em águas mais tranquilas. Na verdade, eu teria afirmado que estavam a apaixonar-se. Se não mais, era óbvio que tinham desenvolvido uma paixão um pelo outro.

Emeline recordou as faces rosadas e os olhos brilhantes de Lavinia, sempre que ela regressava de um longo passeio no parque com Tobias.

- Perfeitamente óbvio.

- Eu não tenho dúvida nenhuma de que o problema reside na singular falta de interesse de Tobias por questões românticas. Ele, muito simplesmente, não sabe como cortejar uma senhora. Eu tentei dar-lhe alguns conselhos, mas receio bem que ele não os tenha aproveitado.

- Eu penso que não seja essa a dificuldade - disse Emeline pensativamente. - É bem verdade que a minha tia adora poesia romântica, mas não acredito que ela espere que Mr. March se comporte como um dos heróis de Byron.

- Apraz-me muito ouvir isso, porque eu receio que a ele lhe falte esse género de polidez e não tenha intenção nenhuma de a adquirir. Mas, se não é esse o problema, o que é que se passa com aqueles dois?

- Algo que a minha tia me disse recentemente leva-me a crer que ela pensa que Mr. March tenta limitar a concorrência.

Anthony ficou de sobrolho franzido.

- Por que raio iria ela pensar isso?

- Em parte, porque Mr. March se recusa a apresentá-la a alguns dos seus conhecimentos.

- Sim, eu sei isso, mas ele acha que tem uma boa razão para se escusar a fazê-lo. Alguns dos seus conhecimentos estão ligados ao mundo do crime. Ele considera que não seria apropriado apresentar Mrs. Lake a esse tipo de gente. E eu devo dizer que compreendo o ponto de vista dele.

- Mas não é só o facto de Mr. March não a apresentar a alguns dos seus mais úteis colaboradores - acrescentou Emeline. - Acho que ele, ultimamente, se pôs a dar instruções e conselhos indesejados a toda a hora. Ela acha-o insuportável. A minha tia não está habituada a receber ordens de ninguém, como sabe.

Anthony reflectiu naquilo por momentos.

- É evidente que estamos a tratar com duas pessoas excepcionalmente independentes e de espírito forte. E, ainda por cima, ambos extremamente arreigados à sua maneira de ser, não é assim? Pergunto-me o que.

Uma voz de criança interrompeu-lhe o pensamento. A voz vinha detrás deles.

- Meu senhor, minha senhora, esperem, por favor. O meu pai deu-me um recado para os senhores.

- O que é isto? - disse Anthony parando e voltando-se. Emeline parou também, olhou para trás e viu um rapazinho, de oito ou nove anos, vestido de roupa remendada e com um boné, acenando-lhes da entrada da estreita rua. Ficou toda excitada.

- É o filho do jardineiro - disse ela para Anthony. - Eu vi-o, no decurso da minha volta. Ele ajuda o pai no jardim.

- O que é que ele quererá de nós?

- Aposto que o pai o mandou atrás de nós com novidades. Deseja por certo cobrar o pagamento que lhe prometi. Eu sabia que o meu esquema ia resultar.

O rapazinho apercebeu-se de que lhes tinha despertado a atenção e encaminhou-se para eles.

Um súbito matraquear de rodas de carruagem e de cascos de cavalos troou atrás do rapazinho. Emeline olhou para além do garoto e viu um trem a entrar na rua. A parelha de cavalos movia-se a trote largo. Logo que o veículo entrou na rua, o cocheiro fez estalar o chicote sobre as garupas dos cavalos. Os animais atiraram-se para a frente a pleno galope.

O filho do jardineiro encontrava-se directamente no caminho deles.

Emeline apercebeu-se de que o rapazinho corria o perigo de ser derrubado e ser esmagado pelos cascos e pelas rodas.       

- Cuidado - gritou ela.         

Ela ficou sem saber se o garoto a ouviu, mas, naquele momento, ele pareceu tomar consciência do barulho atrás dele, parando e voltando-se.

Por um instante, pareceu ficar paralisado perante a visão da alucinante carruagem.

O rapazinho apercebeu-se da horrível situação em que se encontrava e, com um movimento súbito e convulsivo, correu em busca de refúgio, o vento arrancando-lhe o boné e lançando-o para o caminho dos cavalos.

- O meu boné!

O rapazinho voltou-se e correu de volta para o meio da rua, obvia mente determinado a recuperar o boné.

- Não - gritou-lhe Emeline -, não voltes para trás.

Mas o garoto não lhe prestou atenção.

A carruagem não abrandava. Obviamente, o cocheiro não vira o rapazinho voltar para trás. Emeline foi assolada por um angustiante, incon trolável terror. Ela nunca conseguiria alcançá-lo a tempo.

- Meta-se numa porta - gritou-lhe Anthony por sobre o ombro, vários passos à frente dela.

Emeline refugiou-se na entrada mais próxima e pôs-se a observar, incapaz de respirar, Anthony e a carruagem a correrem para o garoto, de sentidos opostos.

Incrivelmente, Anthony alcançou o rapazinho segundos antes dos cascos voadores. Estendeu um braço, pegou no rapazinho e continuou para o outro lado da rua.

Um momento depois, a carruagem ribombou ao passar por Emeline. Pelo canto de um olho viu o cocheiro atirar-lhe um objecto, o qual embateu na parede ao lado dela, antes de cair no chão. Emeline ignorou o objecto, a atenção concentrada em enxergar Anthony e o garoto.

O veículo continuou a alta velocidade, abanando perigosamente. Torneou a esquina ao fundo da rua e desapareceu.

Emeline correu para o par, estendidos ambos no empedrado, junto a um pequeno lanço de degraus. O rapaz aterrara por cima de Anthony. O boné verde estava no chão, ao lado do ombro de Anthony. Este mexeu-se, ergueu a cabeça e começou a levantar- se. Emeline verificou que ele estava tonto, mas ileso.

- Anthony! - exclamou ela, ajoelhando-se no pavimento ao lado dele. - Anthony, por amor de Deus, responda-me.

Por uma eternidade de estupidificante, paralisante terror ela temeu o pior. O elegante nó do plastrão de Anthony desfizera-se, desnudando-lhe o pescoço. Retirando a luva, Emeline tocou-lhe a pele, procurando a pulsação.

Anthony abriu um olho e dirigiu-lhe um sorriso divertido.

- Devo estar morto. Estou obviamente nos braços de um anjo. Emeline retirou o dedo.

- Está ferido, meu caro amigo? Tem alguma coisa partida?

- Não, acho que não - respondeu Anthony, sentando-se e olhando para o rapazinho.

- E tu, jovem? Estás bem?

- Estou, sim, meu senhor. - O rapazinho agarrou no boné com as duas mãos, examinando-o atentamente. Depois olhou para cima, com um sorriso de alívio. - Muito obrigado por ter recuperado o meu boné. Foi a minha mãe que mo deu na semana passada, quando fiz anos. Ela ia ficar zangada comigo, se eu o perdesse.

- É um belo boné - disse Anthony pondo-se de pé, distraidamente, sacudindo o pó das calças e, só depois, estendendo uma mão a Emelin e levantando-a gentilmente do chão.

Emeline voltou-se para o rapazinho.

- O que é que nos querias dizer?

A expressão do garoto ficou séria, concentrando-se.

- O meu pai manda dizer que tem de falar com o criado de quarto.

- O criado do teu patrão? - disse Anthony. - Ele hoje não apareceu. Eu notei a sua ausência. Onde é que ele está?

- Mrs. Rushton mandou-o embora há uns tempos. Despediu Mr. Fitch sem lhe pagar e sem referências, disse o meu pai. Mr. Fitch ficou muito, muito zangado.

Emeline trocou um olhar com Anthony.

- Isso é muito interessante - disse ela baixinho.

Anthony olhou para baixo, para o rapazinho.

- Continua.

- O meu pai disse para lhes dizer que Nan, uma das criadas, con tou que viu Mr. Fitch agir de maneira muito estranha no dia em que foi despedido. Ela estava a arrumar o armário da roupa de cama nessa tarde. Fitch não a viu, mas ela viu-o sair do quarto do patrão com um pequeno objecto embrulhado num cachecol. Meteu-o numa das malas, pensando que ninguém o estava a ver, e saiu da casa com o objecto.

- Porque é que Nan não nos contou isso? - perguntou Anthony. O rapazinho encolheu os ombros.

- Todos sabíamos que Fitch tinha sido despedido sem referências nem um pagamento extra, para viver até encontrar outro lugar. Acho que Nan pensou que ele tinha direito a levar qualquer coisa como se fosse uma pequena pensão de reforma.

- Fitch tinha acesso às chaves de Mrs. Rushton? - perguntou Eme line. - Ou terá feito um duplicado?

O garoto pensou naquilo e, depois, encolheu os ombros.

- Não vejo por que não. Ele tinha todas as oportunidades para usar um pouco de cera e fazer uma cópia.

- O que é que queres dizer com isso de ter muitas oportunidades? - perguntou Anthony.

O rapazinho pareceu ficar surpreendido com a pergunta.

- Durante um dos encontros deles, à tarde.

Emeline franziu a testa.

- Que encontros à tarde?

O rapaz olhou para ela.

- Pouco depois de chegar, Mrs. Rushton disse a Fitch que tinha de lhe fazer relatórios a respeito do estado físico e mental do patrão. Por isso, costumavam reunir-se duas ou três vezes por semana, à tarde, num dos quartos do andar de cima.

Emeline sentiu-se corar, não ousando encontrar o olhar de Anthony.

- Estou a ver.

O rapaz franziu o sobrolho, um pouco confuso.

- Eu, uma vez, ouvi Fitch dizer ao meu pai que Mrs. Rushton era in... in... insávil.

Anthony olhou para ele.

- Insávil?

- Acho que não era bem essa a palavra. Era em qualquer coisa, disso tenho a certeza.

- Insaciável? - sugeriu Anthony em tom neutro.

- Sim, meu senhor - disse o garoto, todo animado. - Era essa a palavra. Fitch disse que Mrs. Rushton era insaciável. Dá cabo de um homem, isso é que é.

- O teu pai deu-te a morada de Fitch? - perguntou Emeline.

- O meu pai disse que ele tem uma casinha na White Street. - O garoto pareceu, pela primeira vez, ansioso. - Vai pagar-me agora, meu senhor? O meu pai disse-me para não me esquecer de pedir o pagamento prometido.

- Não tenhas receio - disse Emeline, com um sorriso brilhante para Anthony. - Mr. Sinclair vai ter o prazer de te pagar.    

Anthony lançou-lhe um olhar de esguelha, mas, cavalheirescamente, puxou de algum dinheiro e entregou-o ao garoto.          

O rapazinho agarrou no seu pagamento, sorriu todo contente e foi-se embora a correr. Anthony olhou para ele, até o ver desaparecer ao dobrar      a esquina da rua.       

- Recordo-me de Tobias referir que, sempre que Mrs. Lake oferece um pagamento por informações, quem acaba por pagá-las é ele - dissse Anthony, erguendo o sobrolho. - Segundo parece, é hábito de família.  

- Tome nota das despesas, meu caro amigo. Eu vou pagar-lhe quando concluirmos o caso e os nossos clientes nos pagarem.

Emeline pôs-se a calçar a luva que descalçara minutos antes, para sentir a pulsação de Anthony. Parou ao verificar que os dedos lhe tremiam.    

Anthony estivera prestes a ser esmagado. E ela tremia ainda do alívio. Teve de se esforçar para conseguir calçar a luva.          

- Emeline, está tudo bem?

Aquilo era demasiado. Ele agia como se nada tivesse acontecido. Emeline insurgiu-se com ele.

- Você podia ter morrido! - berrou ela.

As palavras pareceram ecoar nas paredes sombrias que enquadravam a rua.

- Eu estou bem - disse Anthony.

- Sim, eu sei. Você salvou a vida daquele garoto, mas podia ter morrido.

- Emeline, eu não acho que.

- O que é que eu ia fazer se você tivesse sido esmagado por aquela maldita carruagem? - A voz dela ameaçava tornar-se um grito. - Eu consigo pensar nisso, está a perceber?

- Eu acho é que a podem ouvir a duas ruas de distância - disse Anthony.

- Oh, Anthony, fiquei tão aterrorizada!

Com um pequeno grito, atirou-se para ele, envolvendo-lhe o pescoço com os braços.

Percorreu-o um pequeno choque de surpresa, mas Anthony logo se refez, apertando-a tanto contra si que ela quase não conseguia respirar.

- Emeline. - A voz dele era baixa e rouca. - Emeline! Anthony desfez o laço do chapéu com uma das mãos e afastou o empecilho para trás. Depois, ergueu-lhe a cara e beijou-a com uma paixão selvagem, arrebatadora, que atordoou os sentidos de Emeline.

O que restava da sua zanga evaporou-se num surto de calor excitante. Ela sonhava com aquele momento havia semanas, tentando imaginar o que sentiria quando Anthony finalmente a beijasse, mas a experiência era muito diferente de tudo o que imaginara.

A boca de Anthony era imperiosa, quente, exigente. Quando ele a abriu contra a dela, Emeline sentiu a ponta da língua dele, toda ela tremendo de todo atónita pela intensa intimidade. Os braços dele estreitavam-na, moldando-a ao corpo dele, de tal modo íntimo que ela sentia cada contorno da forte estrutura dele.

Anthony moveu-se ligeiramente, uma das mãos deslizando ao longo da coluna de Emeline, curvando em redor da nádega. Ela sentia-o a premir-se contra a coxa dela.

Dois anos antes, Emeline convencera Lavinia a prestar-lhe informação específica quanto à natureza da paixão física entre um homem e uma mulher. E prestara, também, bastante atenção às decorações eróticas dos vasos gregos e romanos que vira em Itália. Nada, porém, do que aprendera a tinha preparado para aquela raivosa excitação, para não falar do tamanho da rijo inchaço por dentro das calças de Anthony.

Ele afastou a boca da dela, inclinou-lhe a cabeça e beijou-lhe o pescoço. Emeline toda tremia agora, completamente atordoada. O próprio pavimento onde tinha os pés ameaçava dissolver-se.

- Anthony!

- Meu Deus! - Anthony interrompeu o beijo bruscamente e ergueu a cabeça. Respirava sofregamente. - Desculpe-me, Emeline. Não sei o que me deu. Só sei dizer que.

- Não - disse Emeline, pondo-lhe uma mão na boca, para o silenciar. - Se vai dizer que lamenta, meu amigo, nunca lhe perdoarei.

Ele observou-a sobre as pontas dos dedos dela. Depois, um brilho quente surgiu nos olhos dele. Emeline sentiu a boca dela curvar-se num sorriso sob a palma dela. Cautelosamente, retirou a mão.

Por momentos, ficaram ali em pé no meio da rua, a olharem um para o outro.

- Anthony?

Emeline apercebeu-se de que estava com dificuldade em respirar adequadamente.

- Vamos - disse Anthony, pondo-lhe uma mão no ombro e empurrando-a para o fim da rua. - Temos de nos apressar e ir contar a Mrs. Lake e a Tobias a história de Fitch.

- Sim, claro.

Emeline pôs-se a pensar se todos os homens seriam assim tão prontos a mudar de disposição em momentos de grande paixão.

Mas talvez Anthony não tivesse sentido a mesma intensidade de emoção que ela experimentara nos braços dele. Aquela fora, afinal de contas, a primeira vez que tinha sido abraçada de uma maneira a que podia chamar séria. Era verdade que, em Roma, acedera a um ou outro beijo roubado, num jardim ou num terraço, mas ela considerara sempre esses pequenos incidentes mais ou menos como meras experiências. Os resultados tinham sido interessantes, mas não particularmente excitantes, na opinião dela:         

De modo nenhum lhe haviam inflamado os sentidos como aquele beijo acabara de fazer.

Anthony, por outro lado, era mais velho dois anos do que ela e tinha experiência do mundo. Tinha, com certeza, beijado já um sem número de mulheres daquela ardente maneira.

Era um pensamento perturbador.        

Pusera-se a matutar na obscura imagem de outra mulher nos braços de Anthony, quando enxergou o objecto que o cocheiro lhe atirara.

- Já me ia esquecendo - disse ela, parando. - Ele atirou-me qualquer coisa, ao passar por mim.   

- Quem? O raio do cocheiro? - Anthony seguiu o olhar dela. A expressão endureceu-lhe. - Parece uma pedra. O maldito cocheiro podia tê-la magoado.

- Há qualquer coisa atada à pedra.     

Emeline correu para a pedra. Havia um fio atado à volta dela e, presa ao fio, uma folha de papel.  

- É uma mensagem - disse ela, retirando o papel e desdobrando-a.

Anthony colocou-se ao lado de Emeline e leu em voz alta, por cima do ombro dela:

Abandonem este caso. Quando há uma morte,

pode, muito bem, haver outra.

 

- Pensámos que o cocheiro tentava atropelar o filho do jardineiro, para evitar que ele falasse connosco - disse Anthony, olhando para as pessoas reunidas no pequeno estúdio de Lavinia.

- Mas, afinal, parece que o homem, possivelmente, nem reparou no garoto. Ele queria era entregar a mensagem. Deve ter-nos seguido, viu uma oportunidade e aproveitou-a.

- Uma ameaça - Tobias estava junto da secretária e observava a nota que se encontrava sobre o tampo polido. - A qual pode ter sido enviada por qualquer um dos envolvidos neste caso.

- Sim, mas não vai, decerto, impedir-nos de prosseguirmos a nossa investigação - disse Lavinia, sentada no seu lugar à secretária.

- De modo nenhum - corroborou Emeline, com idêntica firmeza.

- Concordo plenamente - disse Joan Dove, distraidamente ajeitando as pregas do elegante vestido cinzento. - Na verdade, apenas aguça o nosso desejo de resolver o caso, se querem saber a minha opinião.

- Isso é bem verdade - disse Lavinia, retirando da estante um volume encadernado em couro, abrindo-o e pegando numa pena. - Eu comecei a escrever um diário dos acontecimentos directamente relacionados com este caso, por forma a registarmos todas as informações e todas as observações que cheguem ao nosso conhecimento. Emeline, diz-me tudo o que notaste a respeito da carruagem e do condutor.

Emeline lançou-se numa descrição pormenorizada. Lavinia escrevia rapidamente. Joan levantou-se e foi postar-se junto da secretária, ouvindo atentamente e exprimindo eventuais comentários.

Tobias olhou para Anthony, o qual observava Emeline com expressão séria. O incidente na rua junto da mansão de Banks deixara marcas, pensou Tobias. Aquilo já não era uma mera aventura excitante, no que ao seu novo assistente dizia respeito.

Era perfeitamente natural que Anthony se alarmasse com o perigo eminente em que Emeline se encontrara. Pressentia, porém, que algo mais se passara entre os dois jovens, algo para além da natural preocupação de um cavalheiro pela segurança de uma dama. Parecia-lhe discernir nuvens de tempestade a acumularem-se na relação até aí ensolarada de Emeline e de Anthony. Que raio é que se passaria ali? Decidiu discutir o assunto mais tarde com Lavinia: ela era bastante mais perceptiva naquele género de coisas.

- Pelo que nos disseram - disse Lavinia, rabiscando como loucaparece que, até recentemente, Mrs. Rushton mantinha uma aventura com o criado de quarto de Banks. E, por qualquer razão, decidiu mandá-lo embora.

- Uma disputa de amantes? - sugeriu Mrs. Dove. - Discutiram e ela despediu-o sem indemnização e sem referências.

Lavinia semicerrou os lábios.

- Fossem quais fossem os motivos, Fitch ficou furioso e ficou com um pretexto para roubar, pois foi visto a esgueirar-se do quarto do patrão, com um pequeno objecto embrulhado num plastrão.

Tobias cruzou as mãos atrás das costas.

- Se Fitch preferiu roubar a Medusa Azul, em vez de qualquer outro objecto de valor, fácil de vender a um receptador ou numa casa de penhores, é porque tinha em mente um comprador em especial. Alguém que ele tinha a certeza que lhe pagaria bastante pelo camafeu.

Lavinia procurou o olhar dele.

- Celeste Hudson.

Um silêncio pesado encheu o pequeno estúdio.

- Obviamente, temos de falar com Fitch o mais depressa possível - disse Tobias, passado um momento. - Anthony, vais ter de procurá-lo. Ele não deve ser difícil de encontrar. Quando descobrires por onde anda, avisa-me de imediato. Eu encarrego-me de falar com ele.

Lavinia pousou a pena.

- Devíamos saber mais alguma coisa a respeito da Medusa.

Talvez nos ajudasse a identificar mais gente particularmente interessada nela.

Joan sorriu ligeiramente.

- Eu conheço alguém que pode responder a muitas das suas perguntas a respeito da Medusa, assim se disponha a fazê- lo.

 

Lavinia, Joan e Tobias foram introduzidos na impressionante biblioteca de Lorde Vale, na manhã seguinte.

A peça era ampla e comprida e estava atulhada de livros. Era ilumi nada por janelas altas e classicamente proporcionadas. Uma escada de caracol conduzia à galeria superior, onde se viam mais estantes cheias de tomos encadernados a couro. Havia um ambiente de elegância académica que levava as pessoas a falar em voz baixa.

Incapaz de se sentar no meio daquele esplendor, Lavinia pôs-se a deambular pela sala, examinando alguns livros, com admiração e fascínio.

Lorde Vale esperou que a governanta servisse o chá e saísse. Depois, reclinou-se na sua poltrona e observou os hóspedes com polida expectativa.

- Mrs. Dove disse-me que desejavam falar comigo de um assunto que envolve assassínio - disse ele.

- Espero que não se ofenda - disse Lavinia, erguendo os olhos de um grosso volume que se encontrava em cima de uma mesa. Estava um pouco preocupada com isso. Um cavalheiro da condição de Vale tinha todo o direito de se irritar perante a perspectiva de se ver arrastado para uma situação que envolvia algo tão desagradável como um assassinato.

- De modo nenhum. - Um brilho de aguçado interesse adejou nos olhos de Vale. - Tanto quanto aprecio as minhas investigações a respeito de antiguidades, tenho de admitir que, por vezes, sinto-me inclinado a ocupar-me com outros estimulantes entretenimentos.

- Um entretenimento estimulante - repetiu Tobias em tom neutro, do seu posto junto de uma janela. - É, decerto, uma forma de descrever a investigação de um assassinato.

Vale arqueou uma elegante sobrancelha.

- Eu lido, a maior parte do dia, com artefactos de mortos antigos. Uma morte contemporânea representa uma agradável mudança.

- Foi muito gentil em receber-nos - disse Lavinia.

Vale olhou para Joan.

- Mrs. Dove é minha amiga. Tenho muito prazer em obsequiá-la, sempre que possa. - Voltou-se, então, para Lavinia. - Notei que se interessou pelo meu exemplar de Reliquiae Britannico-Romanae, de Mr. Lysons.

- Esta foi a primeira oportunidade que tive para o examinar. O volume é muito caro, como sabe.

Vale sorriu.

- Sim, eu sei.

Lavinia sentiu-se corar. Um homem com a fortuna dele não ligava, decerto, ao preço de um bom livro.

- O invulgar interesse de Mr. Lysons por antiguidades britânico- romanas é idêntico ao meu - continuou Vale. - Pode folhear o livro à sua vontade, Mrs. Lake.

Lavinia examinou a página ilustrada que tinha diante dela. Mostrava vários desenhos reproduzindo meticulosamente antiguidades britânico-romanas que Samuel Lysons descobrira na sua exploração de velhas ruínas, no seu Gloucestershire nativo. Havia uma curiosa lâmina de ferro em forma de U e pedaços de uma peneira de barro. Pequenas e pormenorizadas obras de arte em si próprios, os desenhos tinham sido coloridos com ligeiras e translúcidas aguadas.

Lysons era invulgar não só pelo seu profundo interesse em antiguidades britânicas, pensou Lavinia, mas também porque prestava muita atenção às estranhamente fascinantes, embora algo mundanas, relíquias da vida quotidiana. Lavinia voltou a página para outra de ilustrações coloridas e sorriu perante os cuidadosamente reproduzidos desenhos de uma série de potes de barro, elegantemente moldados.

Tobias dirigiu-se a Vale.

- Estou certo de que o senhor já sabe que procuramos o assassino de Celeste Hudson. Nós acreditamos que ela roubou a Medusa Azul pouco antes da sua morte.

- Portanto, estão, de facto, à procura da Medusa, na convicção de que é o assassino que a tem agora - concluiu Vale.

- Temos a esperança de que a pulseira nos conduza ao assassino - explicou Lavinia. - Trata-se de uma relíquia estranha, sob muitos aspectos. E pensámos que seria útil se soubéssemos mais a respeito dela.

- E, também, a respeito daqueles que podem estar interessados em obtê-la - acrescentou Tobias. - Mr. Nightingale sugeriu que há alguns coleccionadores dispostos a pagá-la bem cara, para a oferecerem na sua candidatura à admissão no Clube dos Coleccionadores.

- Ah, sim, Nightingale. Um sujeito muito empreendedor. - Vale bebeu do seu chá e baixou a chávena lentamente. - Os coleccionadores a sério interessados em serem admitidos no clube, sabem que, como fundador e conservador do museu, tenho uma preferência especial por antiguidades descobertas em solo inglês. Na verdade, eu estaria fortemente inclinado a olhar aprovadoramente para quem oferecesse semelhante objecto ao museu particular do clube.

Lavinia afastou-se do belo volume.

- O que é que nos pode dizer sobre a Medusa, caro senhor?

Vale pousou o pires e a chávena e pôs- se de pé.

- Antes de falarmos da Medusa Azul, acho que lhes vou mostrar o museu particular do clube.

Ergueram-se todos e seguiram-no até uma parede apainelada do outro lado da biblioteca. Vale abriu aí uma porta, revelando umas escadas que subiu, guiando o grupo. No patamar, abriu outra porta e fê-los entrar numa comprida galeria.

Lavinia de imediato se apercebeu de que a sala sombria se estendia ao longo da casa toda. A galeria estava guarnecida de expositores de vidro, altos armários de madeira e maciços conjuntos de gavetas.

Havia estátuas por todos os cantos. Vasos antigos, urnas, pedaços partidos de colunas espalhavam-se pelo chão. Meia dúzia de sarcófagos de pedra estavam empilhados contra uma parede.

- Isto é uma maravilha! - exclamou Lavinia, junto do primeiro expositor, examinando fila após fila de moedas de prata e de ouro, com os retratos de antigos imperadores romanos, esmeradamente vestidos com vestes escuras.

Joan postou-se junto de outro expositor e examinou um refinadamente trabalhado colar de ouro com esmeraldas.

- Este colar é uma nova aquisição, não é, Vale? Não me recordo de o ter visto, da última vez que aqui estive.

- Não me visita desde a morte de Fielding - disse Vale mansamente. - Em boa verdade, eu estive fora grande parte do tempo, este último ano. Passei vários meses a explorar as ruínas de uma antiga vila romana, perto de Bath. Os mosaicos eram surpreendentes. Fiz alguns desenhos coloridos.

Joan voltou-se para Vale.

- Gostaria de os ver. Vale sorriu.

- E eu terei muito prazer em mostrá-los.

Lavinia viu o convite silencioso nos olhos dele e, pela pressa com que Joan se moveu para outro expositor, percebeu que Joan também o notara.

Tobias pareceu não notar a troca de olhares. Examinava um vaso com interesse casual e, depois, olhou para Vale.

- Isto é o museu particular do clube, presumo eu?

- Sim - confirmou Vale, passando a mão carinhosamente por uma pedra esculpida de um altar antigo. - A maior parte do que vê nesta sala foi encontrada mesmo cá, em Inglaterra. Está na moda mandar a gente jovem no Grand Tour, para visitarem as gloriosas ruínas da antiga Roma e da antiga Grécia, mas, como Mr. Lysons demonstrou, nós temos a nossa própria rica história clássica para explorar, ou não temos? Os Coleccionadores dedicam-se à preservação das antiguidades britânicas.

- A Inglaterra foi uma província romana durante vários séculos - disse Joan. - É muito natural pensarmos que os antigos nos deixaram aqui muitas interessantes relíquias.

- Assim é. Os romanos deixaram-nos uma boa herança, sob a forma de restos de vilas magníficas, de banhos públicos e de templos - disse Vale, indicando o expositor de objectos brilhantes junto de Joan. - E quem sabe quantos outros tesouros de joalharia antiga e de moedas ainda estão por descobrir, enterrados no chão.

- Poucos desses tesouros irão ser declarados pelos seus achadores, dada a lei dos achados - disse Tobias secamente. - É pedir demasiado, esperar que um pobre agricultor entregue de mão beijada à Coroa uma quantidade de valiosos objectos de ouro e de prata sem nada em troca, quando esses objectos podem ser facilmente fundidos.

- Isso é verdade - disse Vale, rindo-se. - Mas pode ter a certeza de que muitos dos achados são feitos numa base regular e de que as pessoas se preocupam em manter um comércio animado de antiguidades, para gáudio de Mr. Nightingale e de outros negociantes.

Lavinia examinava uma série de broches de bronze esmaltado, torcido de maneira caprichosa, fazendo-lhe lembrar drages. Depois, avançou para observar uns anéis montados com pedras esculpidas.

O primeiro tinha uma cornalina vermelha decorada com a figura minúscula de uma mulher de túnica. A pequena cornucópia e o leme identificavam-na como a Fortuna, a deusa da sorte. A pedra de jaspe vermelho do anel seguinte representava outra deusa de túnica, esta com asas e com um pequeno chicote. Lavinia identificou-a como Nemésis, a deusa encarregada de manter o equilibrio entre o bem e o mal nos assuntos humanos e com a tarefa de exercer vingança.

Tobias estacou diante de um sarcófago esculpido e olhou para Vale.

- Isto é uma colecção muito interessante, mas o senhor ia falar-nos da Medusa Azul.

Vale fez que sim com a cabeça e pôs-se a percorrer lentamente a galeria.    

- Diz-se que a pulseira é um exemplo refinado do antigo artesanato do ouro. Porém, de muito maior interesse é o camafeu nele montado.

- É o que temos ouvido dizer - disse Tobias.

- Pelo que consegui determinar, a antiguidade foi encontrada no início do século passado. Foi transmitida numa família que se foi reduzindo, até que, a certa altura, restavam apenas uma tia solteira e o sobrinho dela, um rapaz de quinze anos. Uma manhã, há muitos anos, uma criada descobriu o corpo da tia, com a faca da cozinha que tinha servido para a matar ainda espetada nas costas.

- Santo Deus! - murmurou Lavinia

- Não havia sinais do sobrinho e um grande número de objectos de valor tinham desaparecido, incluindo a Medusa Azul - continuou Vale. -

Segundo parece, foi vendida e tornada a vender um certo número de vezes, até Banks eventualmente a ter descoberto numa pequena loja de anti guidades aqui em Londres, há cerca de ano e meio.

- E que foi feito do sobrinho? - perguntou Tobias.

- Tanto quanto sei, desapareceu para sempre. Talvez tenha mudado de nome. Talvez tenha morrido. Talvez tenha ido para a América, ou para o Continente. Duvido que alguém tenha perdido tempo a procurá-lo.

- Embora ele fosse o maior suspeito do assassínio da tia? - perguntou joan.

Vale fez um gesto linear com a mão, a palma para cima.

- O rapaz era detestado. Os vizinhos tinham medo dele. Uma série de acidentes com animais que apareceram mortos e alguns pequenos fogos, atribuídos ao rapaz, contribuíram para isso. De qualquer modo, não houve ninguém a preocupar-se muito a respeito de justiça para a tia.

- Temos ouvido dizer que o camafeu é uma invulgar figuração da Górgone - disse Tobias.

- Não é, de facto, uma representação comum da Medusa - disse Vale, parando no fim da fila das pedras tumulares e olhando da sombra para Tobias. - Há tempos, topei com um livro antigo que fazia referência a um culto peculiar que florescera durante algum tempo aqui em Inglaterra, no século quarto. Sociedades ocultas e templos secretos eram muito vulgares no Império Romano, especialmente nas províncias mais remotas, como a Inglaterra. Os meus estudos indicam-me que existiu aqui um bom número delas. Esta, porém, era particularmente invulgar.

- Sob que aspecto? - perguntou Lavinia.

- O camafeu inclui, além da figura da Medusa, uma varinha, ou um bastão. Segundo parece, era o emblema, ou o selo, do mestre do culto, o qual era simultaneamente temido e venerado.

- Porquê? - perguntou joan, curiosa.

Vale hesitou e, depois, encolheu os ombros.

- Não vai acreditar, mas o velho livro indicava que o mestre prati cava uma forma antiga de mesmerismo.

Lavinia parou quando se encaminhava para outro expositor e voltou-se para Vale.

- Mesmerismo? Nos tempos antigos? Mas trata-se de uma ciência moderna!

Vale pareceu divertido.

- Se o magnetismo animal é, de facto, uma força real do corpo humano, como é que se pode admirar que as técnicas para o controlar tenham sido descobertas, e perdidas, e redescobertas muitas vezes, ao longo dos séculos? Acredita, realmente, que nós, que vivemos nesta época iluminada, sejamos os únicos a topar com verdades antigas? Acha que temos de ser mais inteligentes, mais observadores, ou mais intuitivos do que os que nos precederam?

Lavinia pestanejou.

- Compreendo o seu ponto de vista, mas tem de admitir que é estranho considerar que um antigo culto pagão, aqui em Inglaterra, tenha praticado uma ciência tão avançada como o mesmerismo.

Vale riu mansamente e ripostou a Lavinia.

- Estranho e profundamente fascinante. E, neste caso, mais do que um pouco perturbador.

- Por que é que diz isso? - perguntou Joan vivamente. Vale retomou o seu giro pelas relíquias do passado.

- De acordo com o livro, o mestre utilizava os poderes mesméricos; que se dizia derivarem directamente da própria pedra, de modo obscuro: Pelo que consegui apreender, o culto baseava-se no medo, no segredo rodeava-se de grande mistério.

- A Medusa era uma escolha óbvia como símbolo de tão estranho culto - observou Joan. - No fim de contas, segundo a lenda, ela transformava os homens em pedra com o olhar.

- Era mais do que um símbolo. - Vale fez uma pausa significativa. Como eu disse, o camafeu da pulseira era considerado a verdadeira força do poder do sacerdote. Os membros da seita acreditavam que a pessoa que conseguia controlar esse poder era a pessoa dotada com talento natural para retirar a energia da pedra.

Um silêncio solene encheu a galeria.

Tobias quebrou a incómoda quietude com um sorriso divertido.

- Espero, Lorde Vale, que o seu interesse pela Medusa Azul seja puramente académico. Não quero a creditar que um homem com a sua educação e experiência do mundo possa dar crédito a supostos poderes místicos de um camafeu antigo.

Lavinia viu Joan franzir a testa e olhar para o anfitrião. Vale, porém, parecia bem disposto.

- Garanto-lhe, March que não me interessa nada a metafísica, especialmente a de um culto por demais desagradável e há muito desaparecido. Mas não cessa de me causar grande espanto como, frequentemente, gente do mesmo modo inteligente e educada se deixa tomar pelo fascínio de velhas lendas e estranhas crenças.

- E a Medusa Azul exerce esse fascínio? - perguntou Tobias.

- Sim, sobre alguns. - Vale dirigiu-se a um armário próximo e, retirando o anel de ferro da mão esquerda, introduziu a pequena cllave na fechadura e abriu a porta. - Observe esta peça de antigo vidro romano, por exemplo. Diz-se que morreu muita gente por causa dela.

Vale meteu a mão no armário e retirou um intrincadamente esculpido vaso de vidro. O objecto agarrou a luz e brilhou numa dúzia de cambiantes de chamejante âmbar, nos dedos dele. Lavinia ficou fascinada aproximando-se para ver melhor.

- É incrível! - disse ela. - Isso também foi encontrado aqui em Inglaterra?

- Não. Acho que foi trazido de Itália, há muitos anos. Joan veio colocar-se ao lado de Lavinia.

- É uma beleza!

Lavinia olhou mais atentamente para a grande taça. Em redor dela havia figuras gravadas, de tal forma que se salientavam da superfície, como se tentassem escapar aos elos da delicada rede que as prendiam.

Lavinia reconheceu a cena que o artista tinha fixado no vidro.

- É Perséfone a fugir de Hades - murmurou ela. - E o senhor do mundo subterrâneo a persegui-la.

O desespero na cara da mulher e a angústia e a perdição gravadas nas feições do Deus fizeram um arrepio percorrer Lavinia.

- Chamam-lhe a Taça de Hades e há quem diga que é perigoso possuí-la - disse Vale com um sorriso amargo. - Não é que acredite em semelhante absurdo, contudo, afirmo que não possuo, realmente, o objecto e que apenas o guardo em segurança, aqui no museu do clube.

Vale fechou a porta do armário com a chavinha do anel.

- Acho que apreendemos o seu ponto de vista - disse Tobias. - As len das desenvolvem uma força própria e os coleccionadores são gente es tranha.

- Assim é - disse Vale, sorrindo. - Não há nada de que gostem mais do que de uma boa história ligada a uma antiguidade. Alguns seriam capazes de matar, para possuírem um objecto raro com uma interessante lenda ligada a ele.

Lavinia ergueu os braços, as mãos abertas.

- Bonito! Mais um motivo de assassínio. Por este andar, dentro em pouco metade de Londres vai parar à nossa lista de suspeitos.

 

Tobias deixou-se cair na poltrona em frente de Crackenburne e lançou a mão à garrafa de brandy que estava em cima da mesa, entre os dois.

- A perna hoje incomoda-o? - perguntou Crackenburne, sem levantar os olhos do jornal.

- Não é tanto a perna, é mais uma conversa que acabei de ter com um possível suspeito - disse Tobias, desrolhando a garrafa e servindo-se. O tinir de vidro contra vidro trouxe-lhe à mente uma repentina imagem da Taça de Hades. - O que é que me pode dizer a respeito de Vale?

Crackenburne hesitou e, depois, baixou lentamente o jornal, apenas o bastante para espreitar Tobias por cima dele.

- Muito rico. Viúvo. Reservado. É o mentor de um pequeno e muito restrito clube de coleccionadores. Escreve artigos académicos nos jornais. Tem o hábito de desaparecer durante semanas, para proceder a escavações em antigas ruínas romanas, na província.

- Isso já eu sabia. Sei também que era um amigo íntimo de Fielding Dove - disse Tobias, bebendo um gole de brandy e enterrando-se na poltrona. - O que quer dizer que, muito provavelmente, sabia que ele era o chefe do Clube Azul. Acha que Vale pode ter estado envolvido nas acti vidades desse grupo?

- Nunca ouvi dizer nada que o apontasse como envolvido nessa organização criminosa - disse Crackenburne, dobrando o jornal e pondo-o de lado - o que, claro, não significa que não estivesse. A seu modo, Vale é tão astuto e tão perigoso como era o próprio Dove, no seu tempo. Mas penso que os seus interesses se orientam para outro lado.

- Para as antiguidades?

- Sim.

- Acha-o capaz de cometer um homicídio para obter um artefacto romano muito especial, associado a um antigo culto praticado aqui, em Inglaterra.

Crackenburne ficou pensativo.

- Nada posso afirmar com uma certeza certa, embora tenha ouvido dizer que ele é um bocado obsessivo em relação a relíquias britânico-romanas. Mas vou dar-lhe a minha opinião, pelo que ela vale.

- E qual é a sua opinião?

- Se Vale cometesse um assassínio por causa disso, duvido muito que você alguma vez conseguisse descobrir pistas que o levassem até ele. Ele não é parvo nenhum e encobriria o crime muito bem.

Tobias rodou o cálice de brandy nas palmas das mãos.

- O assassino que procuramos deixou atrás de si algo pessoal: um plastrão.

Crackenburne bufou de menosprezo.

- Não consigo imaginar Vale a ser tão descuidado.

- A não ser, claro, que ele soubesse que o plastrão nos conduziria a um beco sem saída. No fim de contas, nada nos diz, excepto que Celeste Hudson foi, provavelmente, morta por um cavalheiro e não por um mero ladrão mal vestido.

Crackenburne abanou a cabeça com grave autoridade.

- Se Vale se tivesse dado ao trabalho de deixar uma falsa pista, pod ter a certeza de que essa pista o conduziria a quem ele queria que você pen sasse ser o assassino. Como diz, o plastrão não o conduziu a ninguém particular.

- Não me conduziu a lado nenhum e, por isso, temos de assegurar que Vale não é, provavelmente, o assassino - disse Tobias, sorrindo vagamente. - A lógica fica um pouco prejudicada, para dizer o mínimo, mas estou inclinado a concordar consigo. Na verdade, eu nunca tive muita esperança de que sua senhoria fosse culpado. Tudo neste caso é por demais tenebroso para uma explicação tão conveniente.

- Não é, de modo nenhum, o estilo de Vale - disse Crackenburn, pegando na garrafa de brandy e enchendo o seu cálice. - Há, porém, outra razão que me leva a pensar que o pode excluir.

- Que razão?

Crackenburne beberricou o brandy com um ar meditativo.

- Não vejo Vale a matar uma mulher a sangue-frio. O homem não é nenhum santo, isso é verdade. Eu diria que podemos afirmar que, em certas circunstâncias, ele pode ser muito perigoso. Não é diferente de outro qualquer, para ser franco. Mas não acredito que ele estrangulasse uma mulher até à morte. Não por uma antiguidade.

Tobias recordou o ar reverente com que Vale segurava a Taça de hádes nas mãos.

- Nem mesmo se ele considerasse a peça de muito elevado valor?

- Ele é um jogador astuto e inteligente que, no fim, obtém sempre o que quer. Mas, nesse género de situação, tenho a certeza de que ele empregaria outros meios para chegar aos seus fins. - Crackenburne sorriu ligeiramente, antes de beber mais um gole de brandy. - Exactamente como você faria em semelhantes circunstâncias.

Tobias observou as chamas na lareira uns momentos, considerando o que Crackenburme dissera.

- Tem mais alguma notícia para mim? - perguntou ele, passado um bocado.

- Surgiram uns rumores interessantes a respeito de Gunning e de Northhampton.

Tobias ergueu um sobrolho.

- Ah, sim?

Crackenburne fez uma pausa, para produzir um certo efeito, nitida mente apreciando o momento.

- Corre por aí que as casas de ambos os cavalheiros podem ter sido assaltadas, a certa altura nos últimos meses.

Tobias pousou o cálice com tanta força que parecia ter-se partido contra o tampo da mesa.

- Podem ter sido assaltadas?

- Parece que não havia vestígios de arrombamento. Não havia janelas nem fechaduras partidas. Nem há maneira de se saber com precisão quando é que os objectos desapareceram. Há quem ache que os donos, ambos senis, podem muito simplesmente terem mudado o sítio aos artigos em questão.

- De que género de artigos estamos a falar?

- No caso de Lorde Gunning, um par de brincos de diamantes que pertencia à mulher. Em casa de Northhampton falta um precioso colar de pérolas e de esmeraldas que ele se dispunha a dar à filha.

- Raio! A dama era, na verdade, uma ladra de jóias. E eu ia apostar que o recentemente marido viúvo lhe segue o exemplo.

- Entre, Howard, e sente-se - Lavinia pousou a pena com que tomava notas no diário e indicou uma cadeira ao visitante. - Acho que ainda há chá no bule. Deixe-me servir-lhe uma chávena.

- Obrigado, minha amiga - Howard fechou a porta do estúdio atrás dele, mas não se sentou. Em vez disso, foi postar-se em frente da secretária, olhando para ela. - Estava a sentir-me bastante inquieto, esta tarde, e decidi dar um passeio. Quando dei por mim, estava em frente da sua porta - explicou ele, de mãos estendidas.

- Eu compreendo - disse Lavinia gentilmente. - Você está ansioso por saber se eu e Mr. March fizemos alguns progressos nas nossas averiguações.

- Tenho de admitir que a questão não me sai do espírito, estes últimos dias - disse ele, retirando o relógio do bolso e pondo-se a brincar com ele distraidamente. Os elos da corrente de ouro balançavam e dançavam.

- Diga-me a verdade, Lavinia: acha, realmente, que conseguem descobrir quem foi o patife que matou a minha Celeste?

Tobias dizia-lhe que era importante sossegar o cliente, tantas vezes quanto necessário, recordou Lavinia.

- Nós estamos a fazer progressos - disse ela firmemente. - Eu e Mr. March temos a certeza de que encontraremos o assassino.

- Minha cara Lavinia! - Os elos da corrente balançavam a um ritmo constante. - O que seria de mim sem si? - A voz de Howard ficou mais cava e mais pesada. - Minha querida, querida amiga. Nós temos tanta coisa em comum. Temos tanta coisa para falar. Tanta coisa que podemos explorar juntos, minha querida amiga.

A intensidade do olhar dele e as argolinhas de ouro perturbavam-na. De certeza que ele não estava a tentar pô- la em transe mesmérico daquela maneira tão dissimulada. Aquele era o seu caro amigo Howard, afinal de contas. Ele não iria abusar dela com a sua perícia. O firme e constante movimento da corrente era simples coincidência, não era deliberado. Ele era o seu querido velho amigo da família.

- Um amigo tão querido.

De repente, ela soube que tinha de desviar o olhar. O desejo era intenso mas, quando tentou desviar o olhar da corrente de ouro, verificou que era surpreendentemente difícil. Levou os dedos ao pendente de prata que usava ao pescoço e a desagradável sensação desapareceu.

Aliviada, examinou a página do diário aberta em frente dela.

- Ainda bem que você apareceu esta tarde, Howard. Eu estive a tomar umas notas e verifiquei que preciso de lhe perguntar mais coisas.

- E eu dir-lhe-ei, claro, tudo o que saiba, minha querida, querida amiga. - A voz dele ressoava como um grande sino. - O que é que quer saber?

- Desculpe-me por lhe fazer uma pergunta de carácter tão pessoal, mas como é que se inteirou de que Celeste tinha uma aventura?

- Como é que um homem se apercebe dessas coisas? Acho que foi a questão de pequenos indícios muitos dos quais eu ao princípio, preferi ignorar. Ela começou a ir às compras mais frequentemente e a voltar mais tarde, às vezes sem compras nenhumas que justificassem a demora. Havia dias em que parecia muito alegre, ou muito excitada, ou impaciente, sem razão aparente. Que posso eu dizer? Portava-se como uma jovem apaixonada.

Lavinia ergueu os olhos do diário e viu-se a fixar a corrente balançante do relógio. O esforço para desviar o olhar fê-la, desta vez, sentir-se sem fôlego.

- Isto responde à sua pergunta, minha querida, querida amiga?

Estava a imaginar coisas, pensou ela. Howard não estava a tentar induzi-la em transe. Estava, talvez, a ser vítima dos nervos.       

Voltando a atenção para as notas, forçou-se com determinação. Havia outra questão que desejava pôr-lhe. Tinha de se esforçar bastante para se lembrar dela.

- A antiguidade que Celeste roubou pertencia a Lorde Banks - disse Lavinia. - Conhecia-o?

- Não, minha querida amiga.       

A corrente de ouro balançava lentamente.  

- Acha que Celeste pode ter arranjado maneira de o conhecer?

- Não vejo como isso tenha sido possível - disse Howard, franzindo o sobrolho. - A menos que o conhecesse antes de me conhecer a mim.

- Não tinha pensado nessa possibilidade - disse Lavinia, batendo com a pena, uma série de vezes, na borda do tinteiro. - Talvez tenha sido assim que ela tomou conhecimento da existência da pulseira.     

Tep... tep... tep...        

- A isso não sei responder, minha querida, querida amiga.

Lavinia apercebeu-se, de repente, que a ponta da pena batia no tinteiro a um ritmo idêntico ao do movimento da corrente do relógio. Parou, largando a pena.

- Está a tentar determinar como é que Celeste soube da antiguidade, não é? - disse Howard.

- Sim.

Lavinia fechou o diário. Desta vez, quando ergueu os olhos, evitou-lhe o olhar, atentando numa gravura pendurada na parede do outro lado do estúdio. Tentou não parecer mal educada, antes pensativa.

Houve uma pequena pausa. Depois, com um quase inaudível suspiro, Howard guardou o relógio no bolso, pondo-se a caminhar no estúdio.

- Acho que o mais provável é ter sido o amante a falar-lhe da existência da pulseira e do seu elevado valor - disse ele.

- Nesse caso, porém, por que é que não a roubou ele próprio? Um roubo é um acto perigoso, porquê mandá-la a ela a praticá-lo?

- Eu digo-lhe porquê. O grande malandro era demasiado cobarde para correr o risco de se introduzir na mansão. - A voz de Howard tremia de feroz emoção, uma das mãos fechada em punho. - Preferiu forçar a minha Celeste a enfrentar os riscos. Usou-a e, depois, matou-a.

- Eu lamento muito, Howard. Sei como isto é doloroso para si.

- Desculpe-me. Eu sei que está a querer ajudar-me, mas, quando penso no monstro que a estrangulou, não contenho a minha raiva.

- Compreendo.

- Por favor, dê-me tempo para me dominar.

Howard voltou-se bruscamente e pôs-se a olhar para as lombadas dos livros, numa estante próxima dele.

Passados uns segundos, sorriu animosamente.

- Vejo que não perdeu o gosto pela poesia. Foi sempre foi uma apaixonada por ela, segundo me lembro.

Era um grande alívio não ter de lhe evitar o olhar, pensou Lavínia.

- Emeline diz que é sinal de que sou uma grande romântica.

- Mas não tem tido muitas oportunidades de romance na sua vida, pois não, minha amiga?

A voz dele era grave, carregada de compreensão e de profunda simpatia.

- Eu não diria tanto assim. - Lavinia tentou manter uma voz carinhosa. O meu marido era um poeta, se se recorda. E eu achava-o muito romântico.

- Eu lembro-me de o ter conhecido no seu casamento - disse Howard, voltando-se inesperadamente e agarrando-lhe o olhar. Nessa altura, não pensei que ele fosse o homem indicado para si, mas não cabia a mim falar disso. E a Lavinia parecia, então, tão feliz!

- E foi feliz. Por uns tempos. Instintivamente, Lavinia levou, de novo, a mão ao pendente de prata. A sensação de encurralada desapareceu mais uma vez.

- Lamento a morte prematura dele. Imagino como terá sido para si, tão pouco tempo depois da morte dos seus pais.

- Howard, acho que seria melhor voltarmos a falar do assassinato de Celeste. Na verdade, não temos tempo para recordações.

- Sente saudades da sua carreira de mesmerista, minha amiga? - perguntou ele num tom estranhamente gentil. - Tinha já tanta qualificação com a ciência, ainda andava na escola! Era, na realidade, surpreendente. Não posso deixar de considerar que os seus talentos se terão desenvolvido ao longo dos anos. Posso perguntar-lhe o que é que a levou a abandonar a profissão?

- Não me parece que seja a altura para.

Lavinia interrompeu-se, ao ouvir o som de passos familiares no hall. Pouco depois, abriu-se bruscamente a porta do estúdio. Tobias relanceou o olhar por ela, desviando imediatamente a atenção para Howard.

- Lamento muito, se interrompo uma conversa privada - disse ele. O tom da voz dele tornava bastante claro que não lamentava coisa nenhuma, pensou Lavinia. De facto, a menos que estivesse muito enganada, ele estava furioso.

- De modo nenhum - disse Howard mansamente. - Estávamos a falar da investigação.

- Estou a ver - Tobias olhou para Lavinia. - Lembro-lhe que temos um encontro.

- Ah, sim? Não me lembro bem. - Algo na expressão dele fê-la engolir o resto da frase, compondo, então, o que ela esperava ser um sorriso profissional. Nunca era boa ideia dar a entender a um cliente que podia haver algum atrito entre eles. - Claro que temos um encontro. Esqueci-me por completo, caro senhor. Howard, tem de desculpar-nos, mas eu e Mr. March temos de tratar de assuntos importantes que envolvem o seu caso.

Howard hesitou, o olhar dele indo de Tobias a Lavinia e voltando a Tobias. Por um momento, Lavinia pensou que ele se ia mostrar casmurro. Por fim, porém, inclinou a cabeça de maneira elegante.

- Claro, claro. - Lançou a Tobias um olhar ilegível, ao dirigir-se para a porta. - Espero que me informem de resultados positivos o mais breve possível.

Tobias não disse palavra até a porta da rua se abrir e se fechar. Só então se voltou para Lavinia. Atravessou o estúdio, plantou as mãos no tampo da secretária e olhou para ela com uma expressão que lhe arrepiou os ossos.

- Quero a sua palavra de honra - disse Tobias, numa voz tão gelada como a expressão dele - em como nunca mais se deixa encerrar sozinha com Hudson.

- Como? Por que raio. - A voz dela tornou-se um sôfrego resfolegar, quando ele rodeou a secretária e a arrancou da cadeira. - Como se atreve! Ponha-me no chão imediatamente!

- A sua palavra de honra, Lavinia.

- A que propósito iria eu fazer semelhante promessa? - disse ela. Sabe perfeitamente que Howard é um velho amigo meu. Um velho e querido amigo.

- Eu não confio nele, sozinho consigo.

- Garanto-lhe que ele é um cavalheiro.

- Ele pode ser um assassino.

- Eu não acredito nisso, nem um bocadinho.

- Mesmo que não tenha matado a mulher dele, não gosto do modo como olha para si.

Lavinia abriu a boca para continuar a defender Howard, mas a recordação de como se sentira tão estranhamente incomodada, minutos atrás, quando Howard a tinha prendido com o olhar de fantasma, travou-lhe as palavras na garganta. Em boa verdade, pensou ela, não estava nada interessada em ver-se, de novo, sozinha com Howard, embora não soubesse lá muito bem porquê.

- Prometa-me, Lavinia.

- Pronto, está bem - murmurou ela rudemente. - Se isso o leva a pôr-me no chão e a acabar com esse seu comportamento ridículo, tem a minha palavra de honra. Qualquer ulterior conversa com Howard terá a presença de mais alguém. Está satisfeito?

- Não por completo. A única coisa que me satisfazia era você largar este caso e nunca mais ter contacto nenhum com Hudson. Porém, como sei que isso não vai acontecer, por ora contento-me com a sua palavra de que nunca mais ficará sozinha com ele.

- Sim, sim, tem a minha palavra.

Tobias depositou-a no chão.

- Era tempo de acabar com esta tolice - disse Lavinia, ajeitando a saia e passando a mão pelo cabelo. - Temos muito que fazer.

Tobias olhou para ela com uma expressão sombria e pensativa.

- Eu soube umas coisas interessantes esta tarde, com Crackenburm - disse ele. - Segundo parece, aqueles dois cavalheiros de Bath que Cel nos apontou como referências deram por falta de várias jóias de grand valor.

- Antiguidades? - perguntou Lavinia.

- Não. Pelo menos não há indicação de que sejam antigas. Apenas caras. Um par de brincos de diamantes e um colar de pedras preciosas.

- Santo Deus! - exclamou Lavinia, sentando-se de novo à secretária. - Celeste roubava, realmente, jóias. Por qualquer razão, foi seduzida pela ideia de roubar antiguidades. Gostava de saber porquê.

- Uma questão muito pertinente, pois, segundo a minha experiência, os ladrões mais profissionais tendem a especializar-se em determinados artigos de grande valor. Mas isso, agora, não interessa. O que é importante é que a informação nos proporciona outro modo de encararmos a questão.

- O que é que quer dizer com isso?

- É que suspeito que Hudson e a mulher trabalhavam como sócios no negócio familiar.

Lavinia ficou fora de si.

- Está a acusar Howard de ser um ladrão de jóias?

- Acho que é muito provável que o seja.

- Primeiro, diz que ele é um assassino e, depois, chama-lhe ladrão. É absolutamente ultrajante. Permita-me que lhe diga, meu caro senhor, que está a permitir que os seus sentimentos pessoais influenciem o seu juízo.

- Mas, se eu tiver razão - disse ele mansamente -, se Celeste e Howard Hudson foram sócios no roubo, temos mais um motivo para o assassinato.

- Uma disputa entre ladrões? Você acha que Howard a matou, não por ela o atraiçoar com outro homem, mas porque ela queria apossar-se da antiguidade? Tolice. - Lavinia teve um ligeiro fungar, à senhora. - Recuso-me a considerar a possibilidade de Howard ter matado a mulher.

Tobias ficou calado. Apenas se pôs a olhar para ela.

Lavinia franziu o sobrolho.

- O que é que se passa?

- Não posso deixar de notar que não se apressa a defender Howard da acusação de roubo.

Lavinia suspirou e enterrou-se mais na cadeira.

- Tem a certeza a respeito das jóias roubadas em Bath?

- Tanta certeza quanta a que posso ter sem provas. As informações de Crackenburne, porém, são quase sempre seguras.

Lavinia pegou na pena e pôs-se, distraidamente, a bater com ela, enquanto se forçava a encarar os factos com distância desapaixonada.

- Admito que, se Celeste era uma ladra tão activa, é altamente improvável que Howard, não suspeitasse, pelo menos, de alguma coisa.

- E eu acho que o mais provável era ele estar envolvido nos roubos.

- Se assim fosse, para que correria ele o risco de nos contratar?

- Ele não nos queria contratar a nós. Ele queria contratá-la a si. E fê-lo porque a pulseira da Medusa desapareceu e ele quer encontrá-la. - Tobias franziu a testa. - Em todo o caso, ele pode ter julgado que não corria grande risco.

- Porquê?

- Pense um bocado, Lavinia. Ele não se dirigiu a Bow Street para encontrar um detective, pois não? Dirigiu-se a si, um velho conhecimento que se recordava dele com admiração, uma querida amiga do passado que, nem por um momento, iria encarar a possibilidade de ele ser um assassino, nem um ladrão.

Lavinia pestanejou e colocou a pena muito precisamente sobre o mata-borrão.

- Ainda não estou convencida. É perfeitamente possível que haja outras explicações para o assassinato e para o roubo. Coitado do Howard!

- Coitado do Howard, de facto. - Tobias parecia divertido. - O grande azar dele foi que, ao contratá-la, meteu- me também a mim ao barulho.

 

A má disposição de Tobias não se dissipou quando, pouco depois, entrou na sua própria casa e encontrou Anthony no estúdio, refastelado numa poltrona. Numa mesinha, ao lado do cunhado, estavam três quartos de uma tarte fria de salmão e batata, a qual desaparecia rapidamente na boca de Anthony.

- Presumo que estejas aqui porque tens informações úteis para mim. - Tobias deu a volta à sua secretária e sentou-se na cadeira. - Já encontraste o criado de quarto?

- Ainda não - disse Anthony, engolindo um bom pedaço da tarte e pondo de lado o prato e o talher. Depois, pôs-se a olhar para as biqueiras brilhantes das botas. - Um dos vizinhos de Fitch diz que ele passa muito tempo nas casas de jogo, desde que perdeu o seu lugar. Vou tentar    de novo amanhã de manhã.

- O tempo é essencial, neste caso, não sei se já deste por isso - disse Tobias, tamborilando com um dedo no mata-borrão. - Tens de encontrá-lo o mais depressa possível.

- Não é assim tão fácil. Ele parece nunca estar em casa e eu nem sequer sei como é que o homem é.

- Usa um pouco de iniciativa. Pede a um dos conhecidos dele uma descrição do homem. Pergunta aos miúdos da rua. Descobre que casas de jogo ele frequenta. Com os diabos, foste tu que pediste para ser ajudante de detective. Sugiro que te apliques na prática da tua nova profissão.

- Sabes bem que tenho andado muito ocupado, a falar com as pros titutas que trabalham nas redondezas da estalagem onde Oscar Pelling se encontra alojado.

Tobias franziu a testa.

- Alguma novidade, desse lado?

- Não.

- Por outras palavras, não avançaste nada em nenhuma das frentes, pois não? Sugiro que voltes às tuas averiguações. Isso é, sem dúvida, mais produtivo do que banqueteares-te com o conteúdo da copa de Whitby.

- Eu passei por aqui apenas para um lanehe rápido - disse Anthony, olhando morosamente para Tobias das profundezas da poltrona. - O que é que raio se passa contigo? Foi mais uma das tuas acaloradas discussões com Mrs. Lake?

- O meu relacionamento com Lavinia não é da tua conta.

- Claro que não. Nem sei o que é que me deu.

Tobias deu um murro no mata-borrão.

- Entrei no estúdio dela há bocado e encontrei-a sozinha com Hudson.

- O que é que isso quer dizer?

- Nada de especial. Apenas que, agora, já compreendo por que está tão irritado - disse Anthony, erguendo o sobrolho.

não tens grande consideração por esse cliente, pois não?

- Eu não confio no homem. Ele é um praticante de mesmerismo que pode muito bem ter matado a mulher. E estou certo de que está a engendrar um esquema obscuro envolvendo Lavinia. E ela recusa-se a ver o perigo.

- Queres um conselho?

- Não, muito obrigado. O teu conselho de encantar uma senhora com elogios provou ser um verdadeiro falhanço.

Anthony aclarou a garganta.

- Está bem. Que tal, então, dares-me tu um conselho?

- Do que é que estás para aí a falar?

- Eu vim aqui esta tarde para pedir conselho a um homem velho e mais avisado, com bastante experiência do mundo e que me pode ajudar a resolver um problema particularmente bicudo, com o qual me confronto actualmente.

- Maldição! Tu deste-me a tua palavra de que não entrarias numa casa de jogo. Se te meteste em sarilhos, tens de resolver os teus problemas financeiros sozinho.

- Calma, calma, eu não ando a perder dinheiro ao jogo. Se ainda não deste por isso, tenho andado demasiado ocupado em averiguações por conta do meu novo patrão para dispor de tempo para as cartas ou os dados.

Tobias apercebeu-se de que nunca antes tinha ouvido aquele tom de voz de Anthony.

- Então o que é? - perguntou Tobias calmamente.

- Trata-se de Emeline.

- Raios, era isso que eu receava. - Tobias recostou-se na cadeira, colocou os calcanhares das botas no canto da secretária e enlaçou os dedos. - Alguma coisa se passou ontem, quando saíram da casa de Banks, não foi?

- Claro que se passou uma coisa horrível. Eu já te contei o que acon teceu - Anthony levantou-se e pôs-se a percorrer a sala. - Emeline ia sendo derrubada pela carruagem. Podia ter ficado seriamente ferida.

- Eu fiquei com a impressão de que ela achava que tu e o miúdo é que tinham corrido perigo.

- Ela também correu grande perigo, mas parece ter-se esquecido disso.

Tobias olhou para os dedos.

- Acho que concordámos que a intenção do cocheiro era entregar uma mensagem e não matar alguém.

- Como raio é que podemos ter a certeza de alguma coisa, quanto mais das intenções do cocheiro? - A queixada de Anthony estava tão rígida que mais parecia forjada em aço. - Digo-te, Tobias, que dava uma fortuna para ter nas mãos aquele patife, nem que fosse cinco minutos.

- Compreendo.

- Devo confessar que só quando me deitei, ontem à noite, é que todas as implicações do incidente me vieram ao espírito. As possibilidades mantiveram-me acordado até de madrugada. Olhava para o tecto e não parava de pensar no que poderia ter acontecido. - Anthony ondeava uma mão. - E se o cocheiro tivesse perdido o domínio dos cavalos? E se Emeline tivesse entrado em pânico, como aconteceu ao garoto? E se ela tivesse ficado ali, hirta, no caminho do veículo? Teria, decerto, sido atropelada.

- Felizmente, Miss Emeline parece possuir a tendência da tia de não entrar em pânico em situações complicadas.

- Quando, ontem à noite, consegui finalmente adormecer, tive um pesadelo - murmurou Anthony. - O sonho envolvia cenas em que eu não conseguia chegar a Emeline a tempo de a afastar do caminho de uma carruagem a toda a brida.

Tobias pensou nos ocasionais pesadelos que experimentava, depois que conhecia Lavinia.

- Eu próprio já tenho tido sonhos desagradáveis desse género.

- Esta manhã, enquanto tu, Mrs. Lake e Mrs. Dove foram consultar Vale, tive uma conversa com Emeline e disse-lhe que achava que ela devia desistir da ideia de seguir as pisadas da tia.

- Ah, sim? - Tobias retirou as pernas do canto da secretária e pôs-se em pé, dirigindo-se à mesinha, para inspeccionar o resto da tarte de salmão e batata. - Acho que consigo adivinhar o teor da resposta dela à tua sugestão.

- Ficou muito zangada comigo. Recusou-se a considerar, sequer, o meu conselho, dizendo-me que eu não tinha nada que tomar decisões por ela, ou que interferir na vida dela.

- Não me digas? - Tobias pegou na faca e cortou uma boa fatia da tarte. - Bem, isso é que é uma grande surpresa.

Anthony parou na sua caminhada e olhou com ar sombrio para

Tobias, quando este dava uma dentada na saborosa iguaria.

- Estás a gozar comigo?

- Garanto-te que tens toda a minha simpatia - disse Tobias, por entre a tarte que lhe enchia a boca.

- Rasparta! - Anthony passou a mão pelo cabelo. - Achas a minha situação divertida, não é? Não duvido que seja uma adequada compensação para as vezes em que te aconselhei a não teres uma atitude ditatorial e excessiva para com Mrs. Lake.

Tobias não replicou, dando outra dentada no pedaço de tarte. Whitby era um excelente cozinheiro. Bem, mas Whitby era bom em quase tudo.

O homem que o servia numa combinação de mordomo, cozinheiro, criado e, ocasionalmente, médico, conseguia parecer mais elegante do que certos cavalheiros, incluindo ele próprio, reflectiu Tobias.

- Se isso te serve de consolação - acrescentou Anthony – confesso que, agora, tenho mais clara consciência da tua profunda preocupação no que respeita à tendência de Mrs. Lake para correr riscos.

- É sempre agradável vermos que as nossas sensibilidades são compreendidas e apreciadas.       

- Não sei se tens algum conselho útil para me dar?      

- Certamente que tenho um conselho para ti - disse Tobias, estendendo-lhe a travessa. - Come mais um pouco da tarte de salmão de Whitby. O alho-porro dá-lhe um belo gosto, acho eu. Quando acabares, podes voltar à tarefa de procurar o criado de Banks e de conversar com os vizinhos dele.

Anthony pegou na travessa relutantemente, olhando para a mesma como se fosse uma amálgama de alquimista.

- Estou condenado a que Emeline me ponha louco, não é?

- Muito provavelmente, mas tenho a certeza de que acharás tranquilizador o facto de não seres o único candidato à loucura da vizinhança. Eu pareço condenado ao mesmo destino, graças a Mrs. Lake.

- Passa-se alguma coisa, Emeline? - Lavinia pousou a pena e observou a expressão sombria da sobrinha. - Confesso que estamos a avançar muito pouco. E tu tens estado muito em baixo desde ontem. É por causa do incidente com a carruagem?

Emeline pôs de lado o papel em que registava as suas impressões, quanto às respostas dos criados que ela e Anthony haviam interrogado, na mansão de Banks, e lançou a Lavinia um olhar inquieto.

- Sim, em certa medida - admitiu ela.

- Eu já sabia. Tu não dormiste bem, pois não? Eu notei, ao pequeno- almoço, que parecias um pouco pálida.

A boca de Emeline curvou-se numa expressão de pesar.

- Isso é uma maneira educada de dizer que não estou com bom aspecto?

- Foi culpa minha. Eu devia ter insistido em que tomasses um gole ou dois de xerez, antes de ires para a cama.

- Anthony veio cá hoje, quando a tia, Mrs. Dove e Mr. March foram a casa de Lorde Vale.

Lavinia franziu o sobrolho.

Anthony esteve aqui? E entrou? Espero que Mrs. Chilton estivesse presente?

- Sim, Mrs. Chilton estava em casa. Mas Anthony não entrou: convidou- me para dar um passeio no parque.

Lavinia ficou alarmada. Imagens do que acontecia quando Tobias a levava a passear no parque fizeram-na empalidecer.

- Como é que esse jovem se atreveu a sugerir semelhante coisa? O que é que ele pensa que anda a fazer? É isso que te perturba hoje? Vou pedir a Tobias que tenha uma conversa firme com ele.

Emeline fez uma careta.

- Escusa de ficar preocupada com as conveniências. Ele levou-me apenas a dar um pequeno passeio, na zona mais frequentada do parque. Nós não desaparecemos, de modo nenhum, por uma hora ou duas, como a tia costuma fazer com Mr. March quando vão dar os vossos pequenos passeios no parque.

Lavinia sentiu-se, agora, ficar escarlate, mas ripostou, aclarando a voz:

- Eu e Mr. March descobrimos que os longos passeios são muito revigorantes para pessoas da nossa idade.

- Pois sim.

Lavinia semicerrou os olhos.

- Que conversa foi essa com Anthony que tanto te perturbou?

- Ele está a tornar-se muito parecido com Mr. March, se quer saber.

- Como? De que maneira?

- Disse-me que, na opinião dele, eu devia reconsiderar a minha decisão de seguir a carreira de investigadora privada.

- Estou a compreender. - Lavinia ponderou a informação. - O que é que o terá levado a dizer-te isso, fazes alguma ideia? Parece um jovem tão sensível e de espírito tão aberto!

- Eu julgo que ele ficou um bocado perturbado com o incidente da carruagem.

- Isso é curioso. Eu nunca imaginaria que ele tivesse uns nervos tão delicados. A julgar pela compostura dele, ontem à tarde, quando vocês voltaram, diria que Anthony dava toda a impressão de ser tão frio numa situação crítica como Tobias.

- Não foi o perigo que ele próprio correu que o perturbou, embora me tenha provocado a mim um grande abalo - disse Emeline. - Obviamente, ele, ontem à noite, permitiu que a imaginação lhe levasse a melhor sobre o bom senso. Conseguiu convencer- se de que eu tinha estado em grande perigo e que só por sorte é que não fiquei ferida.

- Estou a perceber.

- O caso perturbou-lhe os nervos e ele chegou à conclusão de que eu devia enveredar por outra carreira.

- Estou a perceber - disse Lavinia de novo, em tom neutro, desta vez:

- Fui obrigada a ouvir o maçador sermão de que devo evitar colocar a minha pessoa em situações de risco. Houve, também, um pedaço irritante de conversa fiada a respeito das profissões adequadas às senhoras. Por fim, perdi a paciência e disse-lhe o que pensava a respeito do comportamento arrogante dele. Disse-lhe a boa-tarde e deixei-o ali plantado no meio do parque.

- Estou a ver. - Lavinia colocou as mãos em cima da secretária e pôs-se de pé. - E se tomássemos um gole de xerez?

Emeline franziu a testa.

- Esperava algo de mais inspirado, da parte de uma dama tão inteligente e tão cheia de recursos. A tia é uma mulher do mundo, afinal de contas, e tem alguma experiência dos homens. É isso o melhor que me pode oferecer? Um gole de xerez?

- Se o que pretendes é inspiração, deves ler Shakespeare, Wollst craft, ou um folheto religioso. Receio bem que, quando toca a conselhos a respeito de cavalheiros como Mr. March e Mr. Sinclair, um gole de xerez seja o melhor que eu possa oferecer.

- Oh!

Lavinia foi abrir o armário do xerez. Retirou, depois, o frasco, serviu duas pequenas doses e estendeu um dos cálices a Emeline.

- Eles são bem-intencionados, se queres saber.

- Sim - Emeline bebeu um golinho de xerez e assumiu, de imediato, um ar mais filosófico: - Sim, suponho que sim.

Lavinia degustou o conteúdo do seu cálice e tentou organizar os seus pensamentos acerca dos homens.

- Segundo a minha experiência - disse ela lentamente - os homens têm uma tendência para ficarem tensos e, eventualmente, destroçados, quando sentem que não dominam por completo determinada situação. Isto aplica-se em especial a situações envolvendo senhoras pelas quais eles assumem uma certa responsabilidade.

- Compreendo.

- Eles compensam estes ataques dos nervos com sermões severos, dando ordens e, de modo geral, assumindo posições ridículas.

Emeline tomou um pouco de xerez e aquiesceu sabiamente.

- É uma mania muito irritante.

- Sim, de facto é, mas receio que seja da natureza do animal. Talvez compreendas, agora; por que é que acho, por vezes, a conversa de Mr. March tão exasperante.

- Confesso que abri os olhos - Emeline abanou a cabeça. - Não admira que tenha discussões tão frequentes com ele. E adivinho já no horizonte uma série de atritos com Anthony.

Lavinia ergueu o cálice.

- Uma saúde.

- A quem?

- Aos homens exasperadores. Tens de admitir que, pelo menos, são muito estimulantes.

 

O sol fraco dissolveu-se rapidamente no nevoeiro que caiu sobre a cidade na tarde seguinte. A chuvinha miudinha que caía punha um fim sombrio ao dia agradável, na altura em que Lavinia chegava à loja de antiguidades de Mr. Tredlow. Parou em frente da porta e espreitou pelos vidros, admirada de não ver nenhuma lâmpada acesa. O interior estava imerso em densa obscuridade.

Deu uns passos atrás e examinou as janelas por cima da loja. Um rápido olhar bastou-lhe para ver que os reposteiros estavam corridos. Nenhuma luz atravessava as cortinas espessas.

Experimentou a porta. Estava aberta. Lavinia entrou no estranho silêncio da loja.

- Mr. Tredlow? - A voz dela ecoou cavamente nas filas escuras de estátuas e estantes. - Recebi a sua mensagem e vim logo que pude.

A breve nota cifrada de Tredlow chegara à porta da cozinha havia menos de uma hora: Tenho noticias a respeito de uma antiguidade que interessa a ambos.

Na altura, Lavinia não perdera tempo. Agarrara na capa e no chapéu e saíra de imediato. Havia poucos trens àquela hora, mas ela conseguira agarrar um. Infelizmente, havia muito trânsito. Pareceu-lhe uma eterni dade o tempo que levou a chegar à rua de Tredlow. Lavinia esperava que ele não tivesse desistido de a esperar, fechando a loja para ir a uma sala de café próxima.

- Mr. Tredlow? Está por aqui?

A placidez do local era desconcertante. Tredlow teria, certamente fechado a porta à chave, se tivesse saído ou se se tivesse retirado para a sobreloja.

Edmund Tredlow não era um homem novo, pensou ela, preocupada. E, quanto sabia, vivia sozinho. Embora ele parecesse estar de boa saúde a última vez que o vira, havia uma série de acidentes infelizes que podiam acontecer a pessoas da idade dele. Lavinia teve uma súbita visão do comerciante estendido no chão, atingido por um ataque de apoplexia. Outalvez tivesse caído pelas escadas abaixo. Ou talvez o coração lhe tivesse falhado.

Um calafrio de horror percorreu-lhe a espinha. Havia algo ali que estava errado. Lavinia sentia-o, agora, em cada fibra do seu ser.

O primeiro local onde procurar era o cavernoso armazém das traseiras da loja. Era três vezes mais amplo do que o espaço da loja e era lá que estava o cofre onde Tredlow guardava os seus artigos mais valiosos.

Lavinia encaminhou-se para o balcão ao fundo da loja, rodeou-o e agarrou no reposteiro escuro que ocultava a entrada da sala das traseiras.

Abrindo o reposteiro, viu-se a olhar para a profunda escuridão da zona do armazém. Uma única estreita janela, ao alto da parede, proporcionava uma débil iluminação que mal dava para revelar o amontoado de estátuas, de artísticas colunas partidas e as linhas de um ou outro sarcófago de pedra.

- Mr. Tredlow?

Não houve resposta. Lavinia olhou em redor, à procura de uma vela, viu uma numa palmatória de metal em cima do balcão e apressou-se a acendê-la.

Pegando na palmatória, de braço estendido à sua frente, entrou no armazém. Uns dedos gelados tocaram-lhe num ponto sensível entre os ombros e Lavinia sentiu um arrepio.

Um poço de profundas trevas, logo por detrás do reposteiro, marcava as íngremes escadas que conduziam à sobreloja. Investigaria essa parte da casa depois de se certificar de que Tredlow não se encontrava ali em baixo.

Diante dela, enfrentava-a uma aparentemente impenetrável parede de caixas, de caixotes e de pedaços de monumentos de pedra. Forçou-se a avançar para as trevas, estranhamente atenta aos olhares imóveis e humanos dos deuses e deusas que a rodeavam. Algumas pesadas pedras tumulares, quebradas, bloquearam-lhe a passagem. Teve de se afastar para o lado, para as evitar, e viu-se frente a frente com uma figura de Afrodite, de joelhos e sem braços.

Passou por um par de grandes estátuas de imperadores romanos; as caras idosas e feias deles incongruentemente voltadas para os corpos harmoniosos e elegantemente moldados de jovens atletas gregos, e o caminho barrado por um maciço friso de pedra. A luz da vela incidia num amontoado de guerreiros a cavalo, encerrados para sempre em cena de sangrento e selvagem morticínio. O desespero e a ferocidade das caras dos homens condiziam com os corpos torcidos e os afiados cascos dos cavalos que montavam.

Lavinia afastou-se do friso e abriu caminho por entre um amontoado de urnas e de vasos decorados com cenas de orgias. Logo por trás, jazia languidamente um Hermafrodito adormecido. A esquerda, empinava-se na sombra um enorme Centauro.

Lavinia viu de relance uma porta aberta e respirou fundo. Tredlow, numa das voltas que dera com ela ao estabelecimento, apontara-lhe aquela sala, que funcionava como caixa-forte. Era uma sala de pedra, especial mente fortificada, que fizera parte do edifício medieval que, em tempos, se erguia no local.

Tredlow ficara todo excitado quando a descobrira, ao mudar-se para ali, recordou Lavinia. E transformara a sala num amplo cofre, utilizando-o para guardar os artefactos mais pequenos e que ele considerava mais preciosos. Presumivelmente, dado que havia um fecho do lado de dentro a sala era, originariamente, a entrada de um túnel secreto, para permitir ao proprietário escapar aos seus inimigos. A passagem subterrânea, porém, fora tapada com blocos de pedra havia muito tempo.

Tredlow instalara um pesado cadeado de ferro do lado de cá da porta e trazia a chave sempre consigo.

A caixa-forte deveria estar fechada, pensou Lavinia. Tredlow nunca a deixaria aberta. Certamente, não de livre vontade.

Lavinia encaminhou-se para a caixa-forte. O pé dela colidiu com um dos três pés de bronze de um braseiro romano com omatos esculpidos.

Engolindo uma expressão de dor, Lavinia olhou para baixo. A luz incidiu numas manchas escuras no chão. O ligeiro brilho das manchas indicava que ainda estavam húmidas.

Água, disse para si própria. Ou talvez chá ou cerveja que Tredlow tivesse entornado recentemente. Mas, ao inclinar-se para ver melhor, ela sabia que não era água, nem chá, o que manchava o chão. Lavinia estava a olhar para pingos de sangue meio secos.

As pequenas gotas desenhavam um trilho tenebroso que terminava junto de um sarcófago de pedra. A tampa do caixão estava no seu lugar mantendo fechado o interior e fosse o que fosse que contivesse.

Baixou-se, incomodada, para tocar numa mancha com a ponta do dedo enluvado. Nesse instante, ouviu o inconfundível ranger das pranchas de madeira que formavam o tecto por cima dela.

Um medo lancinante como um choque eléctrico chamuscou-lhe os sentidos. Ergueu-se tão depressa, tão desajeitadamente, que perdeu o equilíbrio. Freneticamente, estendeu os braços para se agarrar ao objecto mais próximo, uma estátua em tamanho natural de uma figura masculina. A estátua tinha numa das mãos uma espada e a outra segurava um objecto repelente. Era Perseu, com a cabeça da Medusa.

Por um instante aterrador, não conseguiu mover-se. Era como se tivesse ficado pregada ao chão pelo olhar da Górgone. O olhar fixo da criatura era verdadeiramente mesmérico na sua intensidade. O cabelo de serpentes que se contorciam em redor da cara de pedra da criatura parecia horrivelmente realista à luz bruxuleante da vela.

A madeira tornou a ranger na terrível quietude. Eram passos. Directamente por cima dela. Estava alguém lá em cima, dirigindo-se para as escadas que desciam para o nível dela. Não era Edmund Tredlow, tinha a certeza disso.

Mais rangidos.

O intruso movia-se agora mais decidido, os passos eram mais rápidos. A pessoa lá em cima sabia da presença dela. Ouvira, certamente, ela chamar por Tredlow.

Um novo choque eléctrico libertou-a do olhar da Medusa de pedra. Tinha de sair dali rapidamente. O intruso ia chegar às escadas e levaria apenas uns segundos para chegar ao armazém. Possivelmente, não conseguiria alcançar a entrada do reposteiro que a separava da loja, para escapar pela porta da frente.

Isso deixava-lhe apenas a hipótese da porta das traseiras, utilizada por Tredlow para receber os fornecimentos de artefactos e de antiguidades. Voltou-se, a vela bem ao alto, examinando as trevas. Por entre a floresta de bronzes a brilharem, das figuras de pedra e dos montes de caixas e de caixotes empilhados até ao tecto, entreviu a parede do fundo.

Meteu por uma estreita álea formada por impressionantes pedras tumulares. A meio caminho do seu objectivo, olhou para trás, por sobre o ombro, e viu o brilho da luz de uma vela a bailar no tecto, junto às escadas. O desespero tomou-a. O intruso já estava naquele compartimento: Se ela conseguia ver a chama da vela dele, ele via, decerto, a dela.

Não ia conseguir chegar à porta das traseiras.

A sua única esperança era a caixa- forte. Se conseguisse meter-se lá dentro e correr o fecho da pesada porta estava salva.

Lavinia correu para o pequeno compartimento, não se preocupando com o ruído dos seus movimentos. Parou à entrada da salinha de pedra, a coragem quase a abandonando, quando se apercebeu de quão pequeno era ali o espaço.

Ela não gostava de locais confinados, apertados. Em boa verdade, detestava-os mesmo.

O som de passos de botas, insistentemente caminhando para ela, foi incentivo bastante para a decidir. Olhou mais uma vez para trás. A figura do perseguidor estava oculta pelos amontoados de estátuas e de caixotes, mas o brilho da vela continuava a ser bem visível, bailando e brilhando nas caras dos monstros e dos deuses, ao aproximar-se dela.

Lavinia respirou fundo, entrou na atulhada caixa-forte, agarrou na pega de ferro da porta e empurrou-a com toda a sua força.

Pareceu-lhe uma eternidade o tempo que levou o painel de madeira a fechar-se. Por um momento aterrador, pensou que a porta estava presa e que tudo estava perdido.

Por fin, com um lamento de fantasma, a porta fechou-se. A luz da vela bailou freneticamente uma última vez, reflectida brevemente nas filas de objectos antigos de metal e de vidro, e, depois, apagou-se da existência.

Lavinia mergulhou instantaneamente numa escuridão espessa e pesada como a de uma tumba. Com as mãos a tremer, conseguiu, tacteando, empurrar o antigo fecho de ferro para o seu encaixe. O fecho encaixou-se com um ominoso clangor.

Lavinia fechou os olhos e encostou o ouvido à maciça porta de madeira, tentando ouvir. O melhor que ela podia esperar era que o intruso se apercebesse de que não a podia agarrar e preferisse abandonar a casa o mais depressa possível. Então, poderia ela própria sair daquele aterrador quartito.

Lavinia ouviu o som abafado de ferro a raspar em ferro. Levou alguns segundos a compreender o horror do que acabava de acontecer. Com uma terrível sensação de angústia, compreendeu que o intruso acabara de rodar a chave de Tredlow no cadeado.

Ele nem sequer ia tentar retirá-la do seu esconderijo, pensou Lavi nia. Em vez disso, tinha-a encerrado, eficazmente, naquele pequeno e escuro espaço, não muito maior do que um antigo sarcófago romano.

 

Os dois homens surgiram do nevoeiro caminhando para ele, os longos capotes abertos, de tal forma que as bordas do pesado vestuário lhes varriam as botas brilhantes. As caras dos homens estavam obscurecidas pelas palas dos chapéus e pelas sombras que rapidamente se acentuavam.

- Temos estado à sua espera, Ir. Fiteh - disse o mais velho, mansamente, movendo-se com um ligeiro coxear no andar. Por qualquer razão porém, a evidência de uma antiga mazela apenas o fazia parecer mais ameaçador.

O outro homem não falou. Ficou um pouco atrás e de lado, abertamente a observar os acontecimentos, aguardando instruções. A Fitch fez lembrar um leopardo a aprender com um caçador mais experiente.

O homem mais velho é que havia a temer.

O criado foi invadido por uma onda de temor. Parou de repente e olhou em volta, em busca de uma saída para escapar. Não viu nenhuma. As luzes do salão de café donde saíra havia uns minutos, ficavam ao fundo da travessa, demasiado longe para oferecerem um refúgio. Não havia mais nada senão portas escuras e fechadas, a ambos os lados do pavimento.

- O que é que querem de mim?

Fitch tentou parecer firme e decidido. Tinha alguma experiência a esse respeito, recordou a si próprio. De um bom criado esperava-se sempre que tivesse um certo ar de verdadeira autoridade.

Verdadeira talvez não fosse a palavra correcta ali.

- Nós queremos falar consigo - disse o homem mais perigoso. Fitch engoliu em seco. Eles estavam demasiado bem vestidos para serem assaltantes, disse para si próprio, mas, de qualquer modo, essa dedução não o aquietou. A expressão dos olhos do homem mais velho fizeram-no pensar em fugir, mas sabia que não iria longe. Mesmo que conseguisse bater o caçador, nunca conseguiria escapar ao jovem leopardo.

- Quem são vocês? - perguntou ele, mas, ao ouvir a ansiedade da sua voz, encolheu-se todo.

- Eu chamo-me March. E é tudo o que precisa saber. Como lhe disse, eu e o meu companheiro desejamos fazer-lhe umas perguntas.

- Que género de perguntas?

- Você foi criado de quarto de Lorde Banks até muito recentemente. Segundo sabemos, foi despedido sem aviso.

Assolou-o um pavor real. Eles sabiam o que ele fizera. A Criatura descobrira o furto e mandara aqueles dois atrás dele.

A boca de Fitch ficou seca. Tinha andado tão seguro de que ninguém iria dar pelo desaparecimento do raio da peça, mas, afinal, tinham descoberto. Visões de calamidades encheram-no de calafrios. Podia ir parar às galés, por causa daquilo.

- Nós queríamos saber se se apropriou de um certo valor, antes de deixar a casa - disse March.

Estava perdido, pensou Fitch. E não havia esperança nenhuma. Não adiantava nada negar a culpa. March era do tipo de não largar o homem até ao fim do mundo. A ameaça lia-se nos olhos do filho da mãe!

A única esperança era invocar a misericórdia do leopardo e esperar que ele o deixasse escapar do desastre.

- Ela despediu-me sem sequer me pagar o último trimestre. E nem me deu referências - disse Fitch, encostando-se a um gradeamento. - Depois de todo o trabalho que me deu. Eu fiz o que pude, mas digo-lhe que não era fácil satisfazer a Criatura.

- Refere-se a Mrs. Rushton? - perguntou Tobias.

- Sim, sim. Duas vezes por semana, às vezes mais, quando ela se sentia particularmente desejosa. Quase durante três longos meses - Fitch endireitou-se um pouco, ao recordar os seus esforços heróicos. - A Cria tura foi o patrão mais exigente que eu tive. E, no fim, despediu-me sem aviso, sem referências e sem pensão. Onde é que está a justiça disto, pergunto-lhe eu?

O homem mais novo falou pela primeira vez.

- Por que é que Mrs. Rushton o mandou embora.

- Ela começou a fazer tratamentos terapêuticos com um mesmerista - disse Fitch com um sorriso mordaz. - E disse-me que ele lhe fazia melhor aos nervos do que eu. Voltou um dia de uma consulta e, casual mente, disse-me que já não precisava dos meus serviços.

- Portanto, ela despediu-o e você achou que merecia qualquer coisa a título de compensação, foi isso? - perguntou March.

Fitch abriu uma mão, de palma para cima, silenciosamente implorando a compreensão do caçador.

- Não era justo, digo-lhe eu. Foi por isso que peguei no raio da caixa de rapé. Nunca pensei que dessem pela falta dela, para lhe dizer a verdade. Banks há cerca de um ano que não aspirava rapé e não era provável que tornasse a aspirá-lo outra vez.

Os olhos de March semicerraram-se.

- Você furtou uma caiza de rapé?

- A caixa andava ali numa gaveta, lá atrás, no quarto de vestir de sua senhoria, há mais tempo do que me consigo lembrar. Quem é que ia pensar que ela sabia da existência da caixa, quanto mais que ia preocupar-se com isso, se desse pela falta dela?

March cobriu a distância que os separava.

- Você roubou uma caixa de rapé?

- Eu pensava que toda a gente da casa já se tinha esquecido dela há muito tempo. - Fitch olhou infantilmente para o chão, a pensar na crueldade do destino. - Não consigo perceber como é que a Criatura deu pela falta dela.

- E a pulseira? - disse March.

- Pulseira? - Fitch ergueu a cabeça, agora surpreendido. - De que pulseira é que está a falar?

- De uma pulseira antiga que Banks guardava no cofre - disse March. - Uma com um camafeu invulgar montado.

- A coisa antiga? - Fitz teve um resmungo de desprezo. - Para que raio ia eu roubá-la? Para ganhar alguma coisa que se veja com uma relíquia dessas, um homem tem de conhecer alguém no comércio de antiguidades. Durante os anos em que trabalhei para Banks, aprendi o bastante para saber que não me interessa nada envolver-me com essa gente. Eles são uma espécie estranha, garanto-lhe.

March trocou um olhar imperscrutável com o companheiro e, depois, voltou-se para Fiteh.

- O que é que fez com a caixa de rapé?

Fiteh encolheu os ombros morosamente.

- Vendi-a a um receptador de Field Lane. Suponho que ele se dispõe a dizer-lhe quem a comprou, mas...

March estendeu os braços e agarrou nas lapelas do casaco de Fiteh.

- Sabe o que é que aconteceu à pulseira da Medusa?

- Não, não sei. - Um raio de esperança animou Fiteh. O caçador

não parecia estar nada interessado na caixa de rapé. Tudo o que lhe interessava era a antiguidade. - O raio da coisa desapareceu, foi isso?

- Sim - March não o largou. - Eu e este meu amigo andamos à procura dela.

Fiteh limpou a voz.

- Posso acreditar que, se lhe disser o pouco que sei a respeito deste assunto, não me maça mais?

- Sim, isso seria uma conjectura legítima da sua parte.

- Eu não sei onde ela está, mas vou dizer-lhe o que sei. Duvido que alguém da casa a furtasse, pelas mesmas razões que ela a mim não interessava.

- Era muito difícil de vender?

- Precisamente. Ninguém do pessoal faria ideia nenhuma como ganhar algum dinheiro com semelhante relíquia.

- E tem alguma ideia de quem a tenha podido furtar?

- Não...

March deu-lhe um pequeno abanão.

-... mas vou dizer-lhe o que penso - disse Fiteh rapidamente. No dia em que a Criatura se mudou para a mansão, ela tomou conta das chaves todas, incluindo a do cofre de sua senhoria. A menos que um inportuno se introduzisse na casa, subisse as escadas até aos aposentos de Sua Senhoria e encontrasse o quarto de vestir, localizasse o cofre escondido, pegasse nela e, depois, conseguisse sair sem ninguém o detectar, o que me parece um bocado improvável, eu diria que só existe uma pessoa no mundo que podia apossar-se do artefacto.

- Mrs. Rushton? Para que iria ela furtar um valor que irá herdar dentro em pouco? Na realidade, um valor que ela podia retirar em qual quer altura, sem dar contas a ninguém, se o decidisse fazer?

- Não tenho resposta para isso, Mr. March. Mas vou dar-lhe um conselho. Não subestime a Criatura, nem seja tolo ao ponto de julgar que age de acordo com a lógica.

O caçador manteve-o nas garras por mais uns momentos, como se ponderasse o que fazer com o cativo. Fitch apercebeu-se de que estava a conter a respiração.

Depois, subitamente, March libertou-o. Fitch perdeu o equilíbrio, cambaleando para trás, embatendo no gradeamento.

March inclinou a cabeça, numa imitação de cumprimento formal.

- O meu companheiro e eu estamos muito reconhecidos pela sua ajuda, caro senhor.

Depois voltou-se e afastou-se sem olhar para trás. O jovem leopardo lançou a Fitch um olhar gelado e depois seguiu o mentor.

Fitch deixou-se ficar muito quieto, até o par desaparecer na névoa. Quando ficou seguro de que se encontrava de novo sozinho na rua, arriscou uma inspiração profunda.

Escapara dos dentes do caçador por mero acaso da sorte. Não desejava nada estar na pele da verdadeira peça de caça de March.

 

Não ia entregar-se à loucura que espreitava à beira da sua sanidade. Lutou com toda a sua força de vontade, invocando as reminiscências do treino de mesmerismo, que os pais lhe haviam proporcionado, para se bater contra a escuridão que ameaçava submergir- lhe os sentidos.

Perguntou-se se seria aquele o verdadeiro sintoma da histeria feminina.

O tempo ia passando e ela não tinha nenhuma maneira de o medir. Talvez fosse melhor assim. Contar os segundos, os minutos e as horas só ia tornar tudo pior.

Sentou-se no chão frio de pedra do quartito que mais parecia um caixão, agarrando no pendente de prata com as duas mãos, e concentrou- se. Num esforço doloroso, construiu uma frágil fortaleza de calma, na camada mais profunda do espírito, um local de paz e tranquilidade. Quando ficou pronta, entrou lá para dentro, levando os nervos sitiados com ela. E, depois, fechou a porta metafísica contra o peso da esmagadora e sufocante noite que a rodeava.

rendeu-se à única certeza que servira de fundação para a constru ção do seu refúgio interior: o facto seguro que era saber que, mais cedo ou mais tarde, Tobias apareceria a salvá-la.

 

- Rasparta, onde é que ela terá ido? - Tobias percorreu o corredor que conduzia ao pequeno estúdio de Lavinia, abriu a porta e varreu a salinha com o olhar. - Não tinha nada que desaparecer desta maneira.

Anthony parou junto dele.

-Talvez tenha ido às compras e se tenha atrasado.

Tobias olhou para Mrs. Chilton, especada no corredor.

- Mrs. Lake foi às compras, esta tarde?

- Eu não sei, meu senhor - disse Mrs. Chilton com um suspiro. - Tudo o que lhe posso dizer é que, quando voltei da peixaria, ela já cá não estava. Tobias dirigiu-se à secretária e examinou o tampo todo atafulhado:

- A partir de agora vai haver novas regras. Quando estivermos no meio de uma investigação, Mrs. Lake não vai a lado nenhum, sem, primeiro, informar alguém do seu destino e da hora precisa em que espera regressar a casa.

- Oh, meu Deus! - Mrs. Chilton olhava pesarosamente para Tobias que, metodicamente, examinava os objectos e papéis espalhados em cina da secretária. - Tem de me desculpar, meu senhor, mas não me parece que Mrs. Lake vá aceitar lá muito bem a ideia de mais regras. Ela já está um pouco fora de si com as instruções e ordens que, ultimamente, parecem flutuar por aqui!

- Um pouco fora de si não é nada comparado com a raiva que sinto neste momento. - Tobias relanceou o olhar pelas notas numa folha de papel. - O que raio é isto? Confidencialidade garantida a todos os clientes preocupados com questões de privacidade e de secretisrno.

- Acho que Mrs. Lake continua a trabalhar na notícia que pretemde colocar nos jornais - disse Mrs. Chilton.

- Ela tenciona anunciar os seus serviços nos jornais? - A expressão de Anthony iluminou-se de curiosidade. - Devo dizer que é uma excelente ideia. Devíamos ter pensado nisso, Tobias. Uma visão bem moderna da profissão, não é?

- Disse-lhe para abandonar a ideia, mas ela é demasiado teimosa para ouvir o meu bom conselho. - Com um abanar da mão, Tobias atirou a folha de papel para o pequeno cesto de madeira ao lado da secretária. - Avisei-a do género de clientes que iria atrair desse modo. Ela faria melhor se. - Tobias interrompeu-se ao ver um pedaço de papel amarrotado no cesto de papéis. - Hum?

Baixou-se, agarrou o papel amarrotado e alisou-o com todo o cuidado em cima da secretária.

- O que é isso? - perguntou Anthony, aproximando-se da secretária.

- O que nós, nesta profissão, chamamos uma pista - murmurou Tobias. Mrs. Chilton ficou agradavelmente impressionada.

- Já sabe onde Mrs. Lake foi esta tarde?

- Julgo que ela foi à loja de Edmund Tredlow, a pedido dele. obviamente, não teve a atitude cortês de deixar uma nota, indicando onde ia. - Tobias amarrotou a folha de papel na mão. Lavinia, afinal, estava bem; não havia mal nenhum. Eram os nervos dele a atraiçoá-lo. - Uma atitude das mais insensatas, mais imprudentes e mais incorrectas que se podem ter. Tenho de ter uma conversa com ela, a respeito de tal comportamento.

Mrs. Chilton lançou-lhe um olhar inquieto.

- Sinto, meu senhor, que devo lembrar-lhe que Mrs. Lake está habituada, há muito tempo, a entrar e a sair a seu bel-prazer. Na verdade, é ela quem manda aqui e é ela que estabelece as regras nesta casa. Não o aconselho a continuar a dar instruções e ordens a torto e a direito, como tem vindo a fazer ultimamente.

- Discordo, Mrs. Chilton - disse Tobias, dirigindo-se para a porta. Novas e estritas regras é precisamente o que falta aqui. É altura de alguém se encarregar do governo desta casa.

Mrs. Chilton afastou-se do caminho dele.

- Onde é que o senhor vai?

- Vou à procura de Mrs. Lake para a informar das novas regras.

Porém, quando, pouco depois, Tobias abriu a porta de loja de Tredlow, pôs de lado qualquer ideia de sermão severo que pensasse fazer. O receio que lhe minara o espírito na última hora não era, afinal, um mero ataque de nervos.

- Lavinia! - Tobias ergueu a pequena lanterna que trouxera com ele e observou o facho de luz a incidir nas estátuas de pedra e de bronze. - Onde raio é que você está?

Não surgiu resposta nenhuma das trevas profundas. Anthony parou no meio da loja atulhada, olhando em redor com uma expressão confundida.

- Já é de noite, Tredlow já devia ter fechado a loja. É estranho que se tenha esquecido de a trancar. Não consigo imaginar um comerciante a esquecer-se dessa tão simples precaução.

- Nem eu - disse Tobias em tom grave.

- Talvez ela tenha partido antes de chegarmos - disse Anthony. Podemos ter passado por ela sem darmos por isso, no caminho para cá.

- Não!

Tobias não sabia como é que podia estar certo disso, mas a verdade é que tinha a certeza. O senso de algo errado, ali na loja de Tredlow, era agora palpável.

Tobias rodeou o balcão, tencionando subir as escadas para o andar de cima. Parou, porém, quando viu o pesado reposteiro que dividia a parte da frente da loja da parte de trás.

Afastou a pesada tapeçaria e levantou a lanterna bem alto, iluminando o amontoado de caixas, caixotes, estantes e estátuas.

- Lavinia!

Seguiu-se um silêncio terrível e, depois, um bater abafado soou de algures ao fundo do atulhado compartimento. O ruído ecoava na sala de tal modo que era difícil dizer donde provinha.

- Rasparta! - Tobias avançou, procurando caminho por entre as antiguidades que lhe surgiam à frente. - Ela está algures aqui. Há aí umas velas nessa mesa. Agarra numa e procura desse lado. Eu vou por este.

Anthony descobriu uma palmatória, acendeu a vela e abriu caminho por entre as pilhas de caixotes.

As pesadas batidas ressoaram de novo através do armazém.

- Eu estou aqui, Lavinia. - Tobias abria caminho por entre um rebanho de centauros. - Continue a bater, não pare.

Tobias passou por uma horrenda estátua de Perseu, com a cabeça cortada da Medusa, e viu uma porta antiga de carvalho, chapeada a ferro. Um pequeno armazém, pensou ele.

Nova série de batidas soou através da pesada porta de madeira.

- Já dei com ela - gritou ele para Anthony.

Tobias colocou a lanterna numa pedra de altar partida, no meio de um monte de potes quebrados e examinou o cadeado de ferro da porta.

- Tire-me daqui - gritou Lavinia através da madeira.

- Tem alguma ideia onde está a chave? - gritou ele de volta.

- Não.

Anthony correu por entre umas filas de potes e parou junto da porta.

- Está fechado?

- Claro - Tobias meteu a mão no bolso do capote e tirou o conjunto de estiletes que trazia sempre consigo, quando investigava um caso. Ela não estaria presa lá dentro se o cadeado não estivesse fechado, poisAnthony ergueu o sobrolho perante a brusca resposta, mas manteve o tom calmo, quase meigo.

- Gostava de saber como é que ela foi parar lá dentro?

- Boa pergunta - Tobias pôs-se a experimentar os estiletes. O bocade de ferro era grande em tamanho, mas era um modelo antigo e nada a plicado. Tobias forçava a tranqueta com todo o cuidado. - Uma pergunta que tenciono fazer-lhe na primeira oportunidade.

Pouco depois, o cadeado cedeu. A pesada porta abriu-se com um lamento rouco que parecia provir de uma tumba.

- Tobias!

Lavinia explodiu vinda das trevas. Tobias ergueu-a nos braços e ani nhou-a contra o peito. Ela premiu a cara contra o tecido do capote. Ele sentiu-a tremer-lhe nos braços.

- Você está bem? Lavinia, responda-me. Está bem?

- Sim. - A palavra saiu abafada contra o capote. - Eu sabia que você viria. Eu sabia.

Anthony espreitou para dentro do pequeno quarto com um ar sério.

- Aquilo ali dentro deve ter sido apavorante para si, Mrs. Lake. Lavinia permaneceu calada. Tobias sentia arrepio, atrás de arrepio, a percorrer o corpo dela. Esfregou-lhe a coluna com a palma da mão e olhou para dentro do quartito. Fez-lhe lembrar um caixão ao alto. A raiva acutilou-o.

- O que é que aconteceu? - perguntou ele. - Quem é que a aprisionou ali dentro?

- Alguém que estava cá quando eu cheguei. A fazer uma busca na sobreloja. Eu escondi-me ali dentro, quando ele desceu as escadas. Ele viu-me e fechou o cadeado. - Lavinia, de repente, endireitou-se, respirou fundo e afastou-se ligeiramente de Tobias. - Santo Deus, Mr. Tredlow!

- O que é que lhe aconteceu?

Estreitando os ombros, Lavinia voltou-se um pouco nos braços de Tobias, perscrutando a obscuridade com expressão ansiosa.

- Descobri manchas de sangue no chão, além. Penso que o intruso o matou e meteu o corpo num dos sarcófagos. Coitado de Mr. Tredlow. E tudo por minha culpa, Tobias. Nunca lhe devia ter pedido para nos ajudar na investigação. Não suporto olhar.

- Caluda! - Tobias pousou-a lentamente no chão. - Vamos ver exactamente o que se passa, antes de nos preocuparmos com responsabilidades e recriminações - disse ele, pegando na lanterna. - Mostre-me as manchas de sangue.

Lavinia dirigiu-se para a estátua de Perseu com a cabeça da Medusa e apontou para o chão.

- Ali. Está a ver? Vão dar directamente ao caixão.

Tobias aproximou-se do sarcófago.

- Felizmente não é do tipo dos mais ornamentados, daqueles com uma pesada tampa de pedra toda decorada. Não devemos ter dificuldade para mover a tampa. Claramente, quem meteu Tredlow lá dentro conseguiu movê- la com facilidade.

- Eu ajudo-te - disse Anthony.

Juntos, meteram-se à tarefa. A pesada pedra moveu-se rapidamente sob a força combinada de ambos. Um homem podia, na verdade, tê-la movido sozinho, pensou Tobias, desde que a tampa estivesse, original mente, colocada em cruz em cima da caixa.

A pedra raspou na pedra, com um guinchar de protesto que lhe fez ranger os dentes. Pelo canto do olho, Tobias viu Lavinia encolher-se perante o som. Mas não se afastou do que ia ser revelado. Ele tão-pouco esperaria que ela o fizesse. Desde que a conhecia, nunca a vira recuar perante nada, por mais desagradável que fosse. Alguns diriam que a ela lhe faltava o género de sensibilidade delicada que a sociedade considerava apropriado a uma senhora. Mas ele sabia a verdade. Ela era um bocado como ele, no que dizia respeito a lidar com problemas e desafios: enfrentava-os cara a cara.

A tampa de pedra rangeu ocamente outra vez e, finalmente, moveu-sa o bastante para revelar uma parte do escuro interior.

O corpo de um homem apareceu na abertura, de cara para baixo todo embrulhado, numa horrível posição de desleixo. Parecia que alguém o tinha, muito simplesmente, atirado para dentro do sarcófago.

A luz da lanterna iluminou o cabelo cinzento desgrenhado, de mistura com sangue. Havia, também, sangue no casaco de Tredlow. Uma pequena poça de sangue tinha-se formado no fundo do sarcófago.

Tobias meteu uma mão lá dentro, para ver se havia pulsação.

- Coitado de Mr. Tredlow - disse Lavinia, aproximando-se. - Sabe Deus, era o que eu temia. O intruso matou-o. E tudo porque eu lhe pedi para me manter informada.

Anthony observava Tobias a procurar sinais de vida e inspirou profundamente.

- Deve tê-lo atingido por trás, na cabeça, e depois atirou-o para aqui para esconder o corpo.

- O assassino queria, obviamente, ocultar o crime e quase o conseguiu - murmurou Lavinia. - Podiam passar-se semanas, ou mesmo meses, até o corpo ser encontrado. Na verdade, se não tivesse recebido a mensagem de Mr. Tredlow, esta tarde, nunca me passaria pela cabeça ir à procura dele no armazém. E se eu tivesse chegado mais cedo, quem sabe?

- Basta! - gritou Tobias, retirando os dedos do pescoço da vítima. Para bem, ou para mal, você recebeu a mensagem. - Agarrou na porta do sarcófago outra vez e empurrou com toda a força, para abrir mais a abertura. - Do ponto de vista de Tredlow, ainda bem que chegou quando chegou.

- Por que é que estás a dizer isso? - perguntou Anthony.

- Porque ele ainda está vivo.

 

Nessa noite, Tobias entrou na sala levando com ele o cheiro do nevoeiro e da noite. Parou junto do sofá e observou Lavinia com expressão preocupada.

Lavinia estava estendida num monte de almofadas de franjas, coberta dos pés à cabeça por uma pilha de quentes cobertores que Emeline aconchegara. O grande bule de forte chá a ferver que Mrs. Chilton tinha preparado encontrava-se em cima da mesinha, ao lado dela.

Lavinia dirigiu a Tobias um sorriso pálido.

Ele dirigiu-se directamente a Emeline.

- Como é que ela está?

Emeline tirou os olhos da chávena de chá que acabara de encher.

- Um bocadinho melhor, acho eu. Os nervos ainda estão bastante abalados, claro. A tia Lavinia nunca se sentiu bem em espaços pequenos e fechados, se quer saber. Fica sempre muito ansiosa. E ficou naquele pavoroso quartito durante muito tempo.

- Sim, eu sei - disse Tobias, desviando a atenção outra vez para Lavinia. - Mas ela vai recuperar rapidamente, não vai?

- Oh, sim, claro - assegurou Emeline. - Do que ela precisa agora, é de tranquilidade e de descansar. Não está, de modo nenhum, em condições de suportar, por ora, mais choques duros.

- Como está Mr. Tredlow? - perguntou Lavinia mansamente.

- Whitby está a tomar conta dele - disse Tobias. - E vai ficar esta noite junto dele. Ele diz que Tredlow vai sem dúvida recuperar, mas que os golpes na cabeça são sempre imprevisíveis. Tredlow pode não se lembrar de nada do que aconteceu antes do encontro com o intruso.

- Estou a ver - disse Lavinia, fechando os olhos. - Por outras palavras, podemos não vir a saber nada de útil da parte dele, quando conseguirmos falar com ele.

- Podemos apenas esperar que ele se lembre, ao menos, por que motivo lhe enviou a mensagem - disse Tobias.

- Sim - Lavinia ergueu as pálpebras muito lentamente. - Bom, vamos preocupar-nos com isso amanhã. Por hoje, mais nada podemos fazer. Resta-me apenas dizer-lhe que não sei como agradecer-lhe por me ter salvo daquele quarto horrível.

- Tem a certeza de que se encontra bem, Lavinia? - perguntou ele.

- Estou bem, sim - disse Lavinia, fechando de novo os olhos e reclinando-se debilmente nas almofadas. - Mas devo admitir que estou mais cansada e abalada do que julguei ao princípio. Talvez peça a Mrs. Chilton para preparar uma vinagreta.

- Eu vou aparecer ao pequeno-almoço, para ver como vai indo - disse Tobias.

Ela aquiesceu com a cabeça, sem abrir os olhos.

Ele hesitou um longo momento, mantendo- se junto do sofá. Ela sentia a presença dele ali e sabia que ele estava relutante em ir-se embora.

- Veja lá se ela dorme um bom bocado esta noite - disse ele para Emeline.

- Sim, eu vou velar por isso - prometeu Emeline.

- Muito bem. - Ele continuava junto do sofá. - Então, desejo muito boa-noite às duas.

- Boa-noite - disse Emeline.

- Boa-noite - murmurou Lavinia, os olhos sempre fechados. Lavinia ouviu-o voltar-se e afastar-se em direcção à porta da sala. Tobias parou no hall e falou para Mrs. Chilton, em voz baixa e abafada. A porta da frente abriu-se e fechou-se.

Lavinia soltou um suspiro de alívio. Abriu os olhos, afastou os cobertores, sentou-se e pôs os pés no chão.

- Estava a ver que ele nunca mais se ia embora - disse ela. - Onde é que está o xerez que eu estava a beber antes dele chegar?

- Está já aqui.

Emeline dirigiu-se ao lintel da lareira, ergueu a tampa da decorativa urna colocada numa das extremidades e, metendo a mão lá dentro, tirou o cálice de xerez que Lavinia, momentos antes, lhe dissera para esconder, quando reconhecera os passos de Tobias a subir os degraus da entrada.

- Obrigada - Lavinia pegou no cálice e engoliu uma boa parte do conteúdo. Depois, esperou que o calor do álcool a aquecessse. então, respirou fundo. - Acho que desempenhei bem o meu papel, não achas?

- O seu desempenho foi o de uma verdadeira profissional respondeu -Emeline.

- Sim, foi o que eu pensei. Devo afirmar que estou muito grata a Mr. March. Ele é excelente em situações críticas e eu fiquei extremamente feliz ao vê-lo, quando ele abriu a porta daquele pavoroso quartito.

Emeline estremeceu.

- Não tenho dúvidas disso.

- Infelizmente, ele não resiste à ânsia de expender sermões enfastiantes, passados os momentos dramáticos - Lavinia fez uma careta. - Eu sabia, quando o ouvi subir os degraus da entrada, que ele tinha voltado para ver se eu me encontrava em condições de ouvir um sermão. - Desconfio que tinha razão. Felizmente, conseguiu aparentar que estava demasiado débil para se lançar numa das suas acaloradas discussões com ele.

- Não ficava nada admirada que ele tivesse matutado numa nova lista de regras para mim.

- Como é que adivinhou, minha senhora? - perguntou Tobias da porta da saleta.

- Tobias!

Lavinia engasgou-se, quase entornando o resto do xerez no cálice e voltou num repente para o sofá.

Ele permanecia à entrada, de braços cruzados, um ombro encostado à ombreira, e olhava para ela com um olhar frio.

- Acontece que até me dei ao trabalho de elaborar essa lista - disse ele. - Acho que a vai achar muito conveniente. Estou encantado por ver que teve uma recuperação tão rápida. Não precisamos de esperar por amanhã de manhã. Podemos discutir o assunto já esta noite.

- Raio! - exclamou Lavinia, consolando-se com o resto do xerez. Emeline dirigiu-se bruscamente para a porta.

- Queiram desculpar-me, mas acho que me vou deitar. Estou verdadeiramente exausta, com toda a excitação de hoje.

- Eu compreendo - disse Tobias. - É a sensibilidade delicada da vossa família - Tobias endireitou-se, afastou-se para o lado e, quando Emeline passou por ele, inclinou galantemente a cabeça, dizendo: - Mais uma vez boa-noite, Miss Emeline.

- Boa-noite, Mr. March.

Lavinia observou atentamente Tobias a fechar a porta, depois de Emeline ter saído.

- O que é que o fez voltar? - perguntou ela.

- Acho que foi a frase acerca de pedir a Mrs. Chilton para preparar uma vinagreta.

- Eu pensei que dava um toque de verdade.

- Pelo contrário - disse ele. - Era um pouco exagerado.

 

Tobias ainda estava nublado na manhã seguinte, quando ele e Lavinia entraram na acanhada salinha da sobreloja de Edmund Tredlow, mas estava tão satisfeito, por ver que a sua associada recuperara do atentado, que decidiu não a maçar com mais sermões.

Consolava-se com o facto de ter conseguido obter dela, na noite anterior, uma concessão vital: ela prometera, relutantemente embora, manter a governanta informada do seu paradeiro, sempre que saísse.bastava-lhe, por ora, pensou ele. Com Lavinia, uma pessoa tinha de contentar-se com pequenas vitórias.

Whitby levantou os olhos da panela de sopa que preparava. Mes, mesmo com um avental e com um guardanapo ao ombro, ele conseguia estar todo garboso, pensou Tobias com uma pontinha de inveja.

Whitby fez uma vénia a Lavinia que teria orgulhado qualquer dandy.

- Bom-dia, minha senhora - depois endireitou-se e inclinou a cabeça para Tobias. - Senhor.

- Whitby, como é que está o teu paciente hoje? - perguntou Tobias.

- Penso que o vai encontrar bem, a caminho da recuperação, embora ele, de vez em quando, sinta dores de cabeça - Whitby pôs de lado a panela, limpou as mãos a um pano seco e dirigiu os visitantes para o quarto de cama. - Mas devo avisá-lo de que ele não se lembra de coisa alguma do que aconteceu. Receio que isso fosse de esperar, depois de tamanha pancada na cabeça.

Lavinia e Tobias seguiram-no até ao quarto do inválido e foram encontrar Tredlow sentado na cama, vestido com uma camisa velha e amarelecida. Uma ligadura branca, larga, cobria- lhe grande parte da cabeça. Tredlow pousou a chávena de chocolate que estivera a beber e olhou para Lavinia através dos óculos.

- Como se sente, Mrs. Lake? Whitby contou-me a sua horrível experiência às mãos do intruso.

- O senhor sofreu muito mais do que eu - disse Lavinia, colocando-se ao lado da cama. - Como vai a sua cabeça?

- Dorida, mas dizem-me que vou recuperar - Tredlow olhou

Tobias. - Foi muito gentil, meu caro senhor, em emprestar-me este homem, Whitby, esta noite. Obrigado.

- De nada - disse Tobias da entrada do quarto. - Ele diz-me que não se lembra de grande coisa do que aconteceu. Isso quer dizer que não consegue fazer uma descrição do intruso?

- Eu não me lembro sequer se cheguei a vê-lo - disse Tredlow. Recordo-me que, depois de enviar uma nota a Mrs. Lake, fechei a porta e saí para ir comer qualquer coisa, esperando voltar antes dela chegar. E posso não ter trancado a loja.

- O intruso deve ter pensado que ia demorar bastante tempo - disse Tobias. - Entrou na loja quando o viu sair e ainda lá estava quando voltou.

- Eu acho que ouvi ruído nas traseiras - disse Tredlow - e devo ter ido lá investigar. Depois, tudo o que sei é que acordei aqui na minha cama, com o senhor e Whitby debruçados para mim.

Lavinia apertou os lábios.

- Ainda bem que continuou inconsciente enquanto esteve no sarcófago. Não consigo imaginar nada mais horrendo do que acordar dentro de um caixão.

- Não é uma ideia agradável, não - concordou Tredlow sombriamente.

- Lembra-se por que é que me enviou uma mensagem a dizer que queria falar comigo? - perguntou Lavinia.

Tredlow fez uma careta.

- Queria informá-la de que dois colegas meus tinham sido assaltados nos dois últimos dias. Dizia-se que era alguém que andava em busca da Medusa Azul.

Lavinia trocou um olhar com Tobias e, depois, voltou-se de novo para Tredlow.

- Alguém viu ou ouviu alguma coisa que pudesse ajudar a identificar o intruso?

- Que eu saiba, não - disse Tredlow.

 

O mesmerista abriu ele próprio a porta e não pareceu nada agradado ao ver Tobias à entrada.

- March! Isto é uma surpresa. O que é que o traz por cá? - Hudson examinava atentamente a cara de Tobias. - Tem notícias do assassino?

- Quero falar consigo - disse Tobias, avançando e não dando alternativa a Hudson senão recuar para o hall. - Importa-se que eu entre?

Hudson carregou o sobrolho.

- Você já entrou, não entrou? Venha comigo.

Hudson fechou a porta e voltou-se para indicar o caminho, por um pequeno corredor.

Tobias seguiu atrás dele, em direcção a uma sala ao fundo do hall observando o interior da casa, enquanto caminhava. A porta da sala estava aberta. Tobias notou que estava escuro lá dentro. Todos os reposteiros estavam fechados. Parecia haver muito pouca mobília. Tobias descortinou apenas uma poltrona e uma mesa. Os Hudson não se tinham preocupado em mobilar a casa arrendada. Ou Celeste tinha sido assassinada antes de escolher tecidos e comprado mobília, ou os Hudson nunca tencionaram ficar ali muito tempo.

Hudson introduziu Tobias num estúdio.

- Sente-se, se faz favor. Eu oferecia-lhe um chá, mas a minha governanta tirou o dia, hoje.

Tobias ignorou o convite para se sentar. Optou por ficar de pé, junto da janela, as costas para o céu enevoado. Fez um inventário rápido do compartimento. Havia apenas uma mancheia de livros nas estantes, um dos quais parecia ser muito velho. A capa de couro estava gasta e enrugada. Não havia artigos pessoais em cima da secretária.

- Posso assumir que planeavam uma curta estada na capital? - perguntou Tobias.

Se Hudson ficou admirado com a pergunta, não o deu a entender, indo colocar-se atrás da sua secretária. Por acaso, ou por opção, escolheu o único local daquela sala onde a luz da janela não chegava. Olhou para Tobias envolto em sombras, os olhos como poços fundos e escuros.

- Refere-se à falta de mobília na casa - Com um gesto casual da mão, tirou o relógio do bolso. As argolinhas de ouro puseram-se a bailar. - A casa é arrendada. Celeste e eu não tivemos tempo de desfazer as embalagens todas, para não falar em escolher sofás e mesas e tecidos. Depois, Celeste foi assassinada e eu, naturalmente, perdi todo o interesse nesse género de coisas.

- Naturalmente.

- Posso saber o que o trouxe aqui, March? - A voz de Hudson assumiu uma qualidade sonora e cheia. A corrente do relógio balançava mansamente. - Decerto não veio aqui para discutir decoração de interiores.

- Tem toda a razão. Eu vim aqui para falarmos a respeito de Gunning e de Northampton.

As argolinhas tiniram um pouco, mas as feições de Hudson não deram sinal de outra reacção, para além da polida confusão. Os olhos não vacilaram.

- O que é que há a respeito deles?

A corrente do relógio voltou ao balançar constante e rítmico.

- Eles eram seus clientes em Bath, acho eu.

- Sim. Gunning consultou-me durante uns tempos porque tinha dificuldade em dormir. O problema de Northampton centrava-se na sua incapacidade para manter uma erecção. - A voz de Hudson estava a ficar mais ressoante. As argolinhas continuavam a balançar. - São queixas vulgares em homens da idade deles. Não consigo perceber o que é q estes dois casos têm a ver com a minha situação.

O movimento da corrente do relógio estava a tornar-se irritante, pensou Tobias.

- Ambos os cavalheiros foram vítimas de um roubo de jóias, pouco depois de começarem a ser tratados por si - disse Tobias.

- Não estou a compreender. Certamente não está a inferir que; a minha Celeste teve alguma coisa a ver com esses roubos? Como se atreve?

- A voz de Hudson não endureceu de raiva, ao defender a reputação da mulher. Se alguma diferença houve, apenas ressoou mais fortemente e mais profundamente. - Eu já lhe disse que ela era uma mulher linda e impulsiva, mas não era nenhuma ladra.

- Talvez sim e talvez não. Mas isso agora não interessa, pois está morta.

- Uma mulher linda e impulsiva - repetiu Hudson gentilmente. As argolinhas balançavam como um pêndulo. - Não era nenhuma ladra. Olhos brilhantes como ouro. Tão dourados à luz como estas argolinhas da corrente do meu relógio, March. Douradas e brilhantes e amorosas à luz. É muito fácil olhar para elas. É muito difícil afastar os olhos delas.

- Poupe o seu latim, Hudson - disse Tobias, com um sorriso nos lábios. - Não estou na disposição de entrar em transe.

- Não percebo do que está a falar.

- Os talentos criminosos de Celeste não me interessam. O que me interessa, Hudson, é o facto de ser muito provável que você seja também um ladrão.

- Eu? - A voz de Hudson endureceu bruscamente. A corrente do relógio deixou de balançar. - Como é que se atreve a acusar-me de roubo?

- É certo que o não posso provar.

- Claro que não pode prová-lo.

- Mas eis o que eu penso que aconteceu. - Tobias cruzou as mãos atrás das costas e pôs-se a caminhar no estúdio. - Você trabalhou sozinho durante anos, Hudson. Sem embargo, desconfio que teve um ou dois atritos com a justiça e, a certa altura, achou que talvez fosse melhor desaparecer por uns tempos. E foi, então, para a América. A vida correu- lhe bastante bem lá e foi-se deixando ficar. Eventualmente, porém, decidiu voltar para Inglaterra. Voltou e estabeleceu-se em Bath.

- Isso é uma rematada conjectura da sua parte.

- Na verdade, sou um perito em rematadas conjecturas. Como eu dizia, estabeleceu-se em Bath. E, aí, conheceu Celeste, uma senhora cujos princípios eram idênticos aos seus.

- O que é que isso quer dizer?

- Quer dizer apenas que nenhum dos dois tinha qualquer dificuldade perante a ideia de levar uma vida de crime.

- Eu podia desafiá-lo por causa disso, caro senhor.

- Podia sim, mas não o fará - disse Tobias, parando numa das extremidades da sala e olhando para Hudson. - Porque você sabe que, muito provavelmente, eu sou melhor atirador e, de qualquer modo, a mexeriquice daria cabo do seu negócio.

- Como se atreve!

- Como estava a dizer, você e Celeste formaram uma equipa. Você escolhia as vítimas, preferindo os cavalheiros ricos e idosos, bem entrados na senilidade, particularmente vulneráveis aos encantos de Celeste. Ela utilizava os seus ardis para os convencer a consultá-lo. Uma vez na sua sala de tratamentos, você utilizava a sua perícia mesmérica para os levar a entregar-lhe alguma peça valiosa das suas colecções. Posterior mente, eles não se recordavam nada da experiência, graças às instruções que lhes transmitira, enquanto se encontravam em transe.

Hudson recompôs-se, mantendo-se em pé, quedo, junto à secretária, fixando Tobias com um olhar que faria inveja à Medusa.

- Você não pode provar nada disso - disse ele.

- O que é que correu mal desta vez?

- Deve estar louco, meu caro. Talvez precise de cuidados médicos.

- O negócio do artefacto era diferente, desde início - disse Tobias. A decisão de roubar a relíquia a Banks era uma mudança de hábitos para si e, à primeira vista, não fazia sentido. A sua especialidade eram jóias, não antiguidades. Artefactos como a pulseira da Medusa têm um mercado muito restrito. Não era, certamente, tão fácil desfazerem-se dela como de um par de brincos de diamantes ou de um colar de pérolas e esmeraldas.

Hudson ficou calado. Mantinha-se apenas ali em pé, na sombra, uma serpente enraivecida à espera de uma oportunidade para atacar.

Tobias, casualmente, pegou no velho livro com capa de couro que lhe chamara, anteriormente, a atenção.

- Só vejo duas razões possíveis para você optar por roubar a pulseira da Medusa - continuou ele. - A primeira é que tinha a certeza de apoder vender a um determinado coleccionador, alguém que você tinha boas razões para acreditar que lhe pagaria bastante por ela.

- Você perde-se nas suas próprias fantasias, March.

Tobias abriu a capa de couro do livro que tirara da prateleira e leu o frontispício.

DISCURSO SOBRE CERTOS RITOS SECRETOS E PRÁTICAS DA ÉPOCA BRITÂNICO-ROMANA

- Mas há uma segunda possibilidade - disse Tobias, fechando o livro e tornando a colocá-lo na prateleira. - E, embora admita que lhe falte o mérito da lógica, em certa medida parece-me ainda mais provável que a hipótese de um roubo encomendado.

A boca de Hudson torceu-se num esgar de desdém.

- Qual é, afinal, a segunda possibilidade?

- É que você é que está louco - disse Tobias mansamente. - A segunda possibilidade é que você acreditou na lenda da pulseira da Medusa. Foi por isso que se decidiu a roubar o raio da relíquia? Porque se convenceu que o camafeu da cabeça de Medusa podia aumentar os seus poderes mesméricos?

Hudson nem sequer moveu uma pálpebra.

- Não faço ideia nenhuma do que está para aí a falar. Tobias aproximou-se da estante onde estava o livro antigo.

- Você topou com uma referência à Medusa Azul e aos seus supostos poderes, talvez neste livro. De qualquer modo, ficou obcecado pelo raio do objecto. Disse a Celeste que a pulseira seria a próxima aquisição e vieram, então, para Londres e elaboraram um plano para o obter.

- Você é um parvo, March.

- Mas Celeste era uma mulher do mundo que já há muito aprendera a zelar pelos seus interesses. Apercebeu-se, decerto, que esse roubo que você planeava comportava grande risco e nenhum proveito. Ou talvez receasse que você estivesse a ficar louco.

- Mantenha Celeste fora disto.

- Infelizmente, não posso fazê-lo. O que é que aconteceu realmente entre os dois, Hudson, na noite em que ela morreu? De início assumi que você a tinha matado porque ela o atraiçoava com outro homem. Depois, pus-me a pensar se o assassínio não seria, simplesmente, o resultado de uma disputa entre ladrões. Agora, porém, penso que a matou porque ela acreditava que você já não estava no seu perfeito juízo e queria acabar com a associação.

Hudson agarrou nas costas da cadeira da secretária com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

- Raios o partam, March. Eu não matei Celeste.

Tobias encolheu os ombros.

- Tenho de admitir que ainda me faltam algumas respostas. Ainda não descobri, por exemplo, o que aconteceu à pulseira. Obviamente, você também não sabe por onde ela anda. Foi por isso que contratou Lavinia, não foi? Não para ela descobrir o assassino, mas porque você queria que ela encontrasse a pulseira.

- Você espanta-me, March. - A gargalhada de Hudson era áspera, sem nenhum dos anteriores tons melífluos. - Pensei que já tinha as respostas todas.

- Por ora, só algumas - Tobias encaminhou-se para a porta. - Mas fique tranquilo, em breve terei as restantes.

- Espere um pouco, caramba. Lavinia tem conhecimento das suas raivosas especulações?

- Não de todas - disse Tobias, abrindo a porta do estúdio. - Ainda não.

- Você devia pô-la ao corrente dessas ideias loucas. Ela não ia acreditar. Ela conhece-me há mais tempo do que o conhece a si, March.

Eu sou um velho amigo da família. Se você a forçar a escolher entre os dois, ela coloca- se do meu lado. Pode ter a certeza disso.

- A propósito de Lavinia - disse Tobias -, esta é uma ocasião tão conveniente como outra qualquer para lhe dar um conselho.

- Eu não quero nenhum dos seus malditos conselhos.

- Então, considere isto um aviso. Nem lhe passe pela cabeça que eu vou permitir que você utilize Lavinia para substituir Celeste.

- Acredita que ela esteja tão enamorada por si que nunca o ponha de lado a meu favor?

- Não - disse Tobias. Mas sei isto: se você conseguisse levar Lavinia consigo pode ter a certeza de que não viveria o bastante para saborear a sua vitória.

Tobias saiu e fechou a porta, decidida, mas mansamente.

Não parou para pensar no seu destino. Havia apenas um sítio onde queria estar, naquele momento. Fez sinal a um trem que passava e ordenou ao cocheiro para o levar a Claremont Lane.

A perna deu-lhe umas picadas de protesto quando desceu, mas ele ignorou-as e subiu os degraus de entrada para bater na porta com a argola de cobre.

Não houve resposta.

Ele não estava lá muito bem-disposto e o silêncio nada fez para o animar. Quando saíra, depois do pequeno-almoço, dissera a Mrs. Chilton que ia voltar à tarde, por volta das três.

Ocorreu-lhe que, ultimamente, andava a encarar a casa de Lavinia como a sua segunda casa. Como o clube. Começara, até, a dar instruções a Mrs. Chilton, como fazia com Whitby.

Sabia bem que não tinha o direito de se irritar, quando essas ins truções não eram cumpridas. Sem embargo, Mrs. Chilton tinha-lhe dado a entender que Lavinia estaria em casa nessa tarde e, contudo, ninguém lhe abria a porta.

Desceu os degraus da entrada, para a rua, e examinou as janelas de cima. Os reposteiros estavam fechados. Segundo a sua experiência, Lavi nia conservava sempre os reposteiros abertos durante o dia, pois gostava de luz.

Uma impressão de mal-estar apossou-se dele. Não lhe parecia natural que a casa estivesse completamente vazia àquela hora. Talvez Lavinia e Emeline tivessem ido às compras, mas onde estaria Mrs. Chilton?

Aquilo parecia-lhe mais do que estranho. Ele passava tanto tempo naquela casa ultimamente que conhecia as andanças de Mrs. Chilton tão bem como as de Whitby. Não era aquele o dia da folga que ela aproveitava para ir ver a irmã.

A impressão de mal-estar acentuou-se. Experimentou o fecho da porta da frente, esperando que estivesse fechada. Mas a maçaneta rodou facilmente na mão dele.

Veio-lhe à mente como a porta da loja de Tredlow se abrira assim tão mansamente, na véspera.

Silenciosamente, entrou para o hall e fechou a porta, parando um momento, a avaliar a qualidade do silêncio. Não ouviu nada.

Inclinou-se até à bota e encontrou a navalha que conservava na bainha oculta. Agarrou nela com a mão direita e caminhou até à porta da saleta. Estava vazia.

Continuou até ao estúdio de Lavinia.

Também este estava vazio. Bem como a cozinha.

Dominou o medo que ameaçava agarrá-lo pelas entranhas e começou, a subir as escadas, com todo o cuidado para não fazer barulho ao andar:

No cimo das escadas parou, apercebendo-se de que era a primeira vez que estava ali em cima.

Examinou as portas que davam para o patamar e recordou que Lavínia, uma vez, referira que o quarto dela tinha janelas para a rua.

Aproximou-se dele cautelosamente, relanceando o olhar para os outros quartos por onde passava. Não havia nenhum sinal de desordem, notou ele com alívio, não havia nada que indicasse que estivera ali algum intruso.

Um leve ruído soou no quarto que ele concluira pertencer a Lavínia. Encaminhou-se para a parede do quarto e encostou-se a ela, escutando atentamente.

O ligeiro ruído soou de novo. Alguém se movia naquele quarto. Sub-repticiamente, aproximou-se da porta e espreitou para dentro do quarto. Um elegante biombo, com painéis decorados com cenas de jardim romano, tapava-lhe a visão, ocultando o que se encontrava do lado, mas ele conseguiu distinguir o manso crepitar do lume na penumbra e um ligeiro chapinhar.

Um elegantemente arqueado pé nu apareceu por baixo de um dos painéis do biombo, apoiando-se numa toalha estendida no chão. Houve um segundo pequeno chapinhar e apareceu mais um pé.

A fria tensão que o invadira desvaneceu-se imediatamente, substituída por outro género de expectativa. Inclinou-se ligeiramente para embainhar a navalha, endireitou-se e entrou pela porta parcialmente aberta.

- Terei muito prazer em ajudá-la, minha senhora. Houve um ligeiro ofego do outro lado do biombo.

- Tobias! - exclamou Lavinia, espreitando a um dos lados dos painéis, uma espessa toalha agarrada aos seios, os olhos muito abertos, ao vê-lo ali, no meio do seu quarto.

- Santo Deus, o que é que faz aqui?

Tobias olhou para ela e sentiu o sangue a aquecer. O cabelo dela estava preso no alto da cabeça, com um nó, com tufos a escorrerem-lhe pelo pescoço. A cara dela estava corada e rosada, sob a combinação da água quente e das chamas da lareira. As volumosas pregas da toalha que ela segurava cobriam-na gracilmente até aos pequenos tornozelos.

- Tenho a certeza de que existe algo de poético e de romântico que eu devia dizer neste momento - murmurou ele. - Mas raios me partam se eu sei o quê.

Deixou a entrada e atravessou o quarto, para junto dela, ao lado do biombo. Ela sorriu, os olhos brilhantes como as chamas na lareira.

- Eu estou toda molhada - avisou Lavinia, quando ele estendeu os braços para ela.

- Isso é um feliz acaso para ambos - disse ele, pegando nela e encaminhando-se para a cama - dado que estou desejoso de mergulhar em si.

A franca gargalhada dela foi a música mais sedutora que ele jamais ouvira.

Tobias deitou-a na cama e agarrou na toalha que lhe cobria o corpo. Gentilmente, puxou por ela e atirou-a para o chão. Ele julgava que estava completamente excitado, mas a pesada excitação que sentia tornou-se quase dolorosa ao ver-lhe o arredondado harmonioso dos seios e o triângulo de pêlos encaracolados na união das coxas.

Baixou-se e pousou a mão na curva da anca dela. Lavinia estremeceu ao toque dele e ficou com a boca seca. Aquela era, apercebeu-se ele, a primeira vez que experimentava a luxúria de a ver completamente nua.

A própria natureza da relação deles limitava semelhantes oportunidades.

Todos os anteriores actos de amor deles tinham sido breves encontros em locais pouco adequados a uma plena entrega.

Tobias apercebeu-se, pela maneira como ela o observava a despir a camisa, a tirar as calças e a descalçar as botas, de que ela estava a pensar o mesmo que ele.

- Já pensou - segredou ele roucamente, ao estender-se em cima dela - que esta é a primeira vez que nos deitamos na mesma cama?

- Sim, estava a pensar nisso.

- Espero que não ache a experiência despida de graça e aborrecida. Eu sei como gosta de locais exóticos e de um sabor a novidade, quando chegamos a este ponto.

Lavinia sorriu e enlaçou-o pelo pescoço.

- Tenho de admitir que dispor de uma cama comporta certas vantagens. É muito mais confortável do que um banco de pedra, ou o assento de uma carruagem, ou o tampo da minha secretária.

- O conforto não é a minha principal preocupação quando estou consigo - segredou-lhe ele para o pescoço -, mas há que concordar que não é nada mau.

Tobias ergueu a cabeça, encontrou a boca dela e beijou-a avidamente. Lavinia retribuiu-lhe o beijo com uma doce avidez que alvoroçou os sentidos dele. A consciência de que ela o desejava tanto como ele a desejava a ela era a droga mais intoxicante que podia imaginar. O desejo apoderou-se dele, uma ânsia arrebatadora, muito mais intensa do que a mera paixão. A poção escaldante escorria-lhe pelas veias e contraía-lhe cada músculo!

Nunca a largaria, jurou ele silenciosamente, nem para Hudson, nem para ninguém.

Tobias afagou-lhe o corpo, dos seios nus às coxas nuas. A pele dela era macia, lisa e receptiva ao afago. Lavinia arqueava-se debaixo dele. Ele introduziu os dedos no forno dela.

- Você está muito húmida - disse-lhe ele para a boca. - Óptimo! Ela soltou um queixume e torceu-se contra ele, apertando as coxas em redor dele. Ele sentia a intumescência do pequeno botão no topo da racha dela. Esfregou nele o dedo levemente, até sentir-lhe as unhas cravadas nas costas.

Não podia esperar mais.

Introduziu-se devagar, decididamente, na apertada e quente passagem e gemeu alto, perante a rude satisfação.

Sentiu os dentes dela na pele do ombro. Ela agarrou-se a ele tão agitadamente que ele pensou que iam ficar ligados para sempre.

 

Anthony sentiu de novo o pequeno choque eléctrico na nuca. Não havia dúvida nenhuma, a vendedora de flores estava a segui-lo. num relance de olhos, a já familiar forma maciça do chapéu cinzento, a qual desapareceu rapidamente por detrás de uma carroça de agriões, mas ele tinha a certeza de que era a mesma vendedora de flores que minutos antes, na praça.

Percorreu-o um formigueiro de expectativa e apercebeu-se do agudizar de todos os sentidos. De repente, sentiu-se mais alerta. Os edifícios e as pessoas em redor dele apareciam-lhe mais bem nítidos.

Pôs-se a pensar se aquela estranha excitação era uma das seduções que levavam Tobias a dedicar-se a investigações privadas. As sensações eram, na verdade, muito mais estimulantes do que fazer uma aposta ou assistir a um combate de boxe, considerou Anthony.

Não havia, porém, tempo para estar a pensar na filosofia da sua nova profissão. O objectivo, agora, era identificar a pessoa que o andava a espiar.

- Obrigado pela sua ajuda - disse ele, estendendo à rapariga umas quantas moedas. Ela era a mulher mais nova com quem falara naquele dia. Pensava que não teria mais de quinze ou dezasseis anos. - Pelo seu incómodo.

- Não foi incómodo nenhum, meu senhor - disse ela com uma risada e fazendo desaparecer o dinheiro num bolso do vestido coçado. - Muito gosto em ajudá-lo.

A risada dela incomodou-o. Por um momento, ela parecera uma inocente miúda, que devia estar na escola, à espera de ser lançada na sociedade, não uma prostituta acabada, sem esperança, sem futuro. Perguntou-se que triste destino a teria levado ali, àquela esquina.

Anthony levou a mão à aba do chapéu, num polido adeus. A rapariga foi sacudida por nova série de risadas. Era evidente que a ideia de um homem lhe dirigir um pequeno gesto de galanteria se lhe afigurava extremamente divertida.

Anthony afastou as deprimentes lucubrações que a entrevista lhe trouxera e centrou a atenção na forma de observar melhor a vendedora de flores. Aquilo poderia ser uma questão fulcral do caso, pensou ele. Se lidasse bem com a situação, podia, talvez, desenterrar uma pepita de informações úteis.

O desejo de provar que possuía um real talento para a profissão era um incentivo acrescido. Se descobrisse uma pista, Tobias podia deixar de sugerir-lhe que seguisse uma carreira noutra profissão.

Movimentara-se rapidamente pelo labirinto de travessas e passagens entrelaçadas. A tarefa de falar com as prostitutas levara-o até àquele perigoso bairro uma hora atrás. Era um local onde os principais negócios eram casas de jogo, tavemas sombrias e estabelecimentos de receptadores de objectos roubados.

Dobrou uma esquina e viu a entrada sombria de uma viela. O cheiro - uma mistura de urina, de lixo e de restos podres de animais - atingiu- o com a força de um estalo. Conteve a respiração e entrou na estreita ruela.

Dois rapazes estavam especados à entrada, absorvidos numa conversa a respeito da melhor maneira de roubar empadas quentes de um camnho do outro lado da rua. Atrás deles, um homem velho, pesadamente apoiado numa bengala.

Quando estava para desistir, a vendedora de flores apareceu-lhe lentamente à vista. O enorme chapéu cinzento escondia-lhe a cara. Uma capa remendada envolvia-a em grandes pregas, escondendo-lhe a figura. O cesto das flores descaía-lhe no braço.

Os ombros da mulher estavam curvados, mas algo na maneira como caminhava dizia a Anthony que ela não era tão velha como o vestuário e o trejeito indicavam.

A vendedora de flores parou à entrada da viela, claramente admirada com o súbito desaparecimento da sua peça de caça. Pôs-se a rodar lentamente em círculo, examinando as redondezas.

Anthony avançou, envolveu-lhe a cintura com um braço e arrastou-a vivamente para a viela, encostando-a a uma parede de tijolo.

- Rasparta! Eu já devia saber - disse ele.

Houve um arquejar abafado. O chapéu desmedido ergueu-se bruscamente, atingindo Anthony por baixo do queixo. Ele inclinou-se para trás e, depois, olhou carrancudo para Emeline.

- Que raio é que você pensa que anda a fazer? - perguntou ele. O coração batia-lhe ainda fortemente, apercebeu-se ele. Respirava pesadamente, apesar dos cheiros desagradáveis da viela. A única coisa em que conseguia pensar era no beijo que lhe dera. Com todo o cuidado, soltou-a.

- Eu andava a segui-lo, claro - Emeline endireitou-se e sacudiu a capa. - O que é que você pensava que eu andava a fazer?

- Você é louca? Isto é um bairro extremamente perigoso.

- Você foi muito reservado esta manhã, quando lhe perguntei quais eram os seus planos - disse ela, endireitando o chapéu. - Eu sabia que você ia fazer qualquer coisa.

- E, por isso, pôs-se a seguir-me? De todas as parvoíces e idiotices que tem feito, esta é a mais rematada.

- Por que é que estava a falar com aquela rapariga, ali à esquina?

E aquela mulher que estava à porta daquela taverna, na extremidade da rua, por que é que esteva a falar com ela?

- Eu vou explicar-lhe - disse ele, pegando-lhe num braço e saindo com ela da viela. - Mas, primeiro, temos de sair daqui. As senhoras não devem andar nesta zona da cidade.

Ela olhou para a prostituta com quem ele acabara de falar.

- Algumas andam - disse ela calmamente. - Mas não por vontade delas, acho eu.

- Não, não é por vontade delas.

Anthony levou-a rua abaixo, até uma pequena praça. Ouviu o ruído de cascos de cavalo e voltou-se, vendo um trem a dirigir-se para eles. Percorreu-o uma sensação de alívio e ergueu uma mão a fazer sinal ao cocheiro.

- Anthony, exijo que me diga o que andava a fazer. Acho que tenho esse direito.

O trem guinchou ao parar. Anthony abriu a porta e quase que atirou Emeline lá para dentro. Ela desequilibrou-se um pouco, ao cair no assento. Anthony parou para dar a morada de Claremont Lane ao cocheiro e depois, alçou-se para a carruagem.

- Você deve-me uma explicação - anunciou Emeline.

- Tobias pediu-me para fazer umas averiguações - disse ele, sentando- se e fechando a porta.

- Aquela rapariga ali à esquina, era uma prostituta, não era?

- Sim.

- E a mulher à porta da taverna também - disse Emeline, a voz contraída.

- Sim.

- Espero que não me venha com uma história da carochinha, afirmando que as entrevistas estão ligadas ao caso da pulseira da Medusa.

- Não.

- E então? - Emeline tirou o chapéu da cabeça e colocou-o com todo o cuidado no assento, ao lado dela. Quando olhou para ele, o olhar dela era sombrio e agastado. - Por que é que você anda a falar com prostitu tas, Anthony? É um velho hábito seu?

Anthony resmungou baixinho e recostou-se no canto do assento considerando o que lhe poderia dizer. Tratava-se, porém, de Emeline e não podia mentir-lhe.

- Eu digo-lhe a verdade, se me prometer que não conta nada à sua tia.

- Por que é que hei-de prometer? - perguntou ela.

- Porque Tobias não quer que ela saiba como anda preocupado com a presença de Oscar Pelling na cidade, é só por isso.

Emeline ficou de olhos abertos e, depois, a compreensão, misturada com algo que poderia ser alívio, surgiu-lhe no olhar.

- Oh! - disse ela. - Estou a perceber. Mr. March tem esse homem horrível debaixo de olho, é isso?

- Sim, e eu tenho-o ajudado nisso.

- Vigiar Pelling é uma óptima ideia - disse Emeline lentamente. - Não é homem em que se possa confiar. Mas o que é que aquelas prostitutas têm a ver com ele?

- Pelling está alojado numa estalagem aqui perto e, segundo um dos criados do estábulo, tem andado com uma das prostitutas locais. Tobias quer que eu a encontre, para poder falar com ela.

- Não percebo. O que é que uma prostituta de rua pode saber a respeito de Pelling.

Anthony aclarou a voz e fixou o olhar na rua.

- Tobias diz que, segundo a sua experiência, descobriu que essas mulheres se encontram em condições de saberem coisas a respeito de um homem que mais ninguém sabe.

- Ah, sim?

Anthony tornou a olhar para ela.

- Não me devia ter seguido. Foi uma conduta muito perigosa.

- Se me tivesse dito o que ia fazer, não teria sentido a necessidade de o espiar.

- Caramba, Emeline, onde é que está escrito que tenho de avisá-la de tudo o que faço?

Emeline retraiu-se.

- Peço desculpa, caro amigo. Não sei o que pensei. Claro que não tem de me dar explicações. Tem toda a liberdade de tratar dos seus assuntos. Nem sequer somos casados.

Estabeleceu-se um silêncio de espanto. Anthony esforçou-se por se dominar.

- Não, nem sequer somos. casados.

E ficaram-se a olhar um para o outro pelo que parecia uma eternidade. Uma sensação de peso assentou em Anthony.

Emeline moveu-se bruscamente, inclinando- se para a frente num gesto impulsivo, para agarrar a mão dele.

- Santo Deus, o que é que está a acontecer-nos, Anthony? Toda esta discussão, e zanga e não sei que mais. Nós não somos assim. Acho que já parecemos a minha tia Lavinia e Mr. March, não acha?

Anthony voltou a palma da mão para cima e apertou-lhe os dedos com força.

- Acho que sim. E você tem toda a razão, nós não somos aqueles dois.

- Acho que a natureza deles é fazerem as coisas da maneira difícil - disse ela, com um sorriso hesitante. - Mas nós podemos, realmente, seguir a nossa maneira de ser.

Ele apertou ainda mais a mão dela.

- Podemos, sim.

Anthony puxou-a meigamente para o colo. Ela deixou-se ir sem resistência, já com o sorriso radiante. Ele beijou-a, devagar, profundamente. Ela desfez-se contra ele.

Quando ergueu a cabeça, Anthony inspirou fundo. O olhar dela era mortiço e convidativo.

Foi necessária toda a sua força de vontade para ele a sentar de novo no banco dela.

Fizeram o resto da viagem até Claremont Lane de mãos dadas, ambos calados, até o trem guinchar ao parar. Com um último afago na mão dela, Anthony largou-lhe os dedos e abriu a porta da carruagem.

Emeline estacou à saída.

- Olha, Mrs. Chilton vem aí. Anthony olhou e viu a governanta no meio da rua, a correr para eles. Mrs. Chilton acenava loucamente, para lhes chamar a atenção. Mesmo à distância, via-se que ela estava toda corada e ofegante do esforço.

Emeline desceu da carruagem, com uma expressão preocupada.

- O que é que correu mal, Mrs. Chilton?

- Nada, nada. Simplesmente, não devem entrar ainda em casa. Mrs. Chilton parou, ofegando. - Pensei que já tivessem acabado, mas eles estão a demorar muito tempo. Nada mais podemos fazer do que esperar. Venham comigo, há ali um banco, no parque, ao fundo da travessa.

- Esperar pelo quê? - perguntou Emeline. - Não estou a compreender.

- Já lhe disse, Miss Emeline, estão lá os dois, juntos. Emeline olhou para a porta, confundida.

- Quem é que lá está, juntos?

- Mrs. Lake e Mr. March. Pensei que já tivessem terminado, quando voltei - Mrs. Chilton abanou a cabeça e encaminhou-se para o fundo da travessa. - Só Deus sabe por que demoram tanto. Não que a coisa demore assim tanto, se querem saber. Pelo menos, não demorava tanto, nos meus tempos.

- Que coisa é que não demora tanto?

Eneline parecia, agora, exasperada.

Mr, Chilton lançou a Anthony um olhar de explicação silenciosa. Anthony compreendeu.

- Mrs. Chilton tem razão - disse ele, agarrando no braço de Emeline e arrastando-a atrás da governanta. - Está um belo dia para nos sentarmos no parque.

- Mas para que é isto? - Emeline deixou-se ir, mas não parecia lá muito satisfeita. - O que é que se passa, Mrs. Chilton?

- Acho que a culpa é minha. Tive pena deles. Sempre a terem de se governar nos parques e nos jardins e nas carruagens e assim. Ainda por cima com aquela perna dele e tudo, e o tempo que é sempre imprevisível nesta época do ano.

- O que é que o tempo tem a ver com isto? - perguntou Emeline.

- Mr. March disse-me esta manhã que voltava por volta das três. E eu vi uma oportunidade para proporcionar aos dois alguns minutos sozinhos, numa casa aquecida e com uma boa cama - disse Mrs. Chilton melindrada.

- Foi um acto de caridade. Como é que eu ia adivinhar que eles iam demorar muito mais do que apenas alguns minutos.

Anthony teve de dominar o riso.

- Uma cama? Mr. March e a tia Lavinia? - A compreensão surgiu nos olhos de Emeline. Corou, ficando toda escarlate, e evitou olhar para Anthony. Depois, começou a rir. - Mrs. Chilton, isso foi abusivo. A minha tia sabia das suas intenções?

- Não, não sabia. Quando ela entrou na banheira, disse-lhe que tinha de sair para comprar groselha, para fazer compota. Eu sabia que Mr. March devia estar a chegar, por isso não fechei a porta à chave. Vi-o chegar há cerca de uma hora e pensei que já se tivesse ido embora.

- Talvez tenha preparado as coisas demasiado confortáveis para eles - disse Anthony secamente.

- Talvez - Mrs. Chilton pôs-se a observar o céu do fim de tarde. - Felizmente, não está de chuva.

- Sim, mas está um pouco de frio, não está? - disse Emeline, apertando as pregas da capa remendada em volta dela. - Ainda bem que trago esta capa.

Mrs. Chilton notou, então, pela primeira vez a indumentária dela e franziu a testa.

- Onde é que foi arranjar esse farrapo?

Emeline sentou-se no banco.

- É uma longa história.

Mrs. Chilton sentou-se ao lado dela e olhou morosamente para a porta fechada da pequena casa.

- É melhor contá-la. Parece que vai ter muito tempo para o fazer.

Tobias encostou-se ao travesseiro, um braço debaixo da cabeça, e aninhou Lavinia contra si. Ele sabia que já era tarde, mas a última coisa que lhe apetecia fazer era deixar aquela cama desfeita e a mulher que tivera nos braços. Assim é que devia ser sempre, pensou ele.

- Eu fui falar com Hudson, esta tarde - disse ele. Por uns momentos, Lavinia não disse nada. Depois, ergueu-se num cotovelo e olhou para ele. A modorrenta sensualidade desapareceu-lhe dos olhos, substituída por preocupação.

- Não me tinha dito que tencionava falar com Howard hoje - disse ela. - De que é que falaram.

- De si.

- De mim? - Lavinia sentou-se na cama, abrigando os seios com o lençol. As sobrancelhas dela uniram-se. - E de mim, o quê?

Tobias tocou-lhe no pendente de prata que ela tinha ao pescoço.

- Eu disse-lhe que ele a desejava - disse ele. - Que a queria para substituir Celeste.

- E eu disse-lhe que isso é ultrajante.

- Confie em mim a respeito disto.

- Isso é humilhante. Não quero acreditar que me tenha embaraçado a tal ponto - resmungou ela ferozmente. - O que é que precisamente lhe disse?

Tobias puxou-a para baixo, para o travesseiro e rolou para cima dela. Metendo uma perna entre as macias e quentes coxas dela, aninhou-lhe a cara nas mãos e baixou-se para a beijar.

- Disse-lhe que não a podia ter a si - disse ele.

Vinte minutos depois, Lavinia vestiu um roupão, para o acompanhar à porta, beijando-o uma última vez na obscuridade do hall.

- Depressa - disse ela. - Mrs. Chilton deve estar a chegar. Tivemos sorte por nem ela, nem Emeline, terem ainda voltado. E nem percebo por que tardam tanto.

Tobias sorriu para si próprio. Ele estava convencido de que a porta aberta e a ausência da governanta queriam dizer outra coisa, mas pensou que era melhor não forçar a sorte.

- Até logo à noite - disse ele. - Está tudo preparado para o grande evento?

- Sim. Devem vir entregar os vestidos dentro de uma hora. E Joan mandou-me recado, esta manhã, a avisar-me que o cabeleireiro dela estará cá às cinco e que deu ordens para a carruagem dela nos vir buscar às oito.

Tobias baixou a cabeça.

- Anthony vai lá estar pontualmente às nove. E eu vou aparecer por volta das dez. Está bem assim?

- Perfeitamente - Lavinia quase o empurrou escadas abaixo. - Agora, fora daqui - exclamou ela, fechando-lhe a porta na cara.

Relutantemente, Tobias desceu os degraus da entrada e encaminhou-se para o fundo da travessa, à procura de um trem.

Enxergou o grupo de caras familiares quando estava a meio caminho. Emeline, Anthony e Mrs. Chilton caminhavam para ele com estudada naturalidade. Anthony fez o gesto teatral de tirar o relógio do bolso e de ver as horas.

Tobias ignorou-o e cumprimentou Emeline e Mrs. Chilton.

- Mr. March - Emeline dirigiu-lhe um sorriso gracioso. - É um prazer vê-lo. Que surpresa inesperada!

- Muito prazer, Miss Emeline - disse Tobias, parando e inclinando a cabeça. - Boa-tarde, Mrs. Chilton. já sei que foi comprar groselhas.

- Eu sei como gosta de compota de groselha - disse ela.

- Eu adoro a sua - concordou Tobias. - Na verdade, é muita bondade da sua parte ter saído esta tarde só para comprar groselhas para fazer uma nova tachada de compota para mim. Só espero que, em breve, sinta necessidade de fazer mais compota.

- Isso vai depender do tempo.

- Do tempo?

Mrs. Chilton lançou-lhe um olhar reprovador.

- Não se devem comprar groselhas quando está frio ou quando chove. Seria bom que tivesse isso em mente.

- Não me vou esquecer disso.

 

Às nove da noite desse dia, Crackenburne baixou lentamente o seu jornal e olhou para Tobias.

- As coisas não estão a correr lá muito bem com o seu último caso, pelo que parece?

Tobias estava apoiado ao dintel da lareira do clube e observava as chamas.

- Eu mandava o raio do caso à fava, não fora Lavinia querer resolvê-lo a todo o custo.

- O que é que você tenciona fazer?

- Não há mais nada a fazer do que resolver o caso, provar que Hudson é o assassino e fazê-la ver o que ele realmente é.

- Ela pode não apreciar muito o facto de você provar que o velho amigo da família é um vilão.

Tobias viu Vale encaminhar-se para eles, atravessando o repleto salão do clube.

- Provavelmente, não.

- Como é que está a situação com Pelling? - perguntou Crackenburne.

- Também desse lado não há nada de novo. Anthony continua a tentar encontrar a prostituta com quem Pelling anda a deitar-se, mas ela parece ter desaparecido da circulação. Contudo, pelo que podemos avaliar, pela conversa do rapaz dos estábulos, Pelling encontra-se na capital apenas para tratar de negócios.

- Você, porém, continua preocupado com a presença dele aqui? Tobias não tirava os olhos de Vale.

- Considero uma coincidência perturbadora o facto de dois homens, do passado de Lavinia, terem escolhido o mesmo mês para virem a Londres.

- Todas as coincidências o perturbam - disse Crackenburne secamente. - Embora deva declarar que esse homem causa má impressão.

Encaremos, porém, os factos com uma certa lógica. Pelling já fez, ou já disse, alguma coisa que dê indicação de que está interessado em Lavinia?

Tobias fechou a mão na saliência do dintel.

- Não.

- Nem a contactou?

- Não.

- Ela nunca mais o viu desde o encontro casual em Pall Mall?

- Não.

- Então, a estada dele em Londres não tem nada de estranho - concluiu Crackenburne com um sorriso. - Talvez tenha vindo fazer compras para a segunda mulher.

Tobias franziu a testa.

- Não tinha pensado nessa possibilidade.

Vale parou do outro lado da lareira. Inclinou a cabeça para Crackenburne e dirigiu a Tobias um olhar de polida interrogação.

- Vou sair para o baile de Mrs. Dove. Posso oferecer-lhe uma boleia na minha carruagem?

Tobias conseguiu disfarçar a sua surpresa.

- Obrigado - disse ele, retirando o braço do dintel. - E tenho muito prazer em aceitar. Estava com receio de não encontrar um trem, com o nevoeiro que aí está.

- Divirtam-se - disse Crackenburne, ajustando os óculos. - E transmitam, por favor, os meus cumprimentos às vossas damas.

- Não tenho nenhuma dama neste momento - murmurou Vale.

- E não me parece que conheça Lavinia - disse Tobias.

- Isso não importa - disse Crackenburne. - Pelo que você me disse, Mrs. Dove e Mrs. Lake são ambas senhoras bastante interessantes.

- Interessante é uma estranha maneira de descrever uma senhora disse Vale, um sorriso divertido nos lábios.

- Na minha idade, as senhoras interessantes são as mais atractivas disse Crackenburme, abanando o jornal. - Boa-noite, meus senhores.

Tobias seguiu Vale para a noite enevoada, onde uma lustrosa carruagem com uma elegante equipagem os aguardava.

- Crackenburne parece saber sempre os últimos rumores antes de toda a gente - disse Vale, entrando no veículo e sentando-se. - É, na verdade, surpreendente. Ele deve ser para si uma bela fonte de informações.

Tobias agarrou-se à ilharga da porta e alçou-se para a carruagem, ignorando dolorosamente as picadas na coxa. Recostou-se nos confortáveis estofos com uma sensação de alívio e imaginou a agradável fantasia de possuir a sua própria carruagem e a sua própria equipagem. Poderia, então, dar grandes passeios no campo com Lavinia, correndo as cortinas e fazendo amor, durante horas, sobre estofos macios.

- Crackenburne, é, por vezes, muito útil - reconheceu ele. A carruagem arrancou para o nevoeiro.

Vale reclinou-se nos almofadões de veludo castanho.

- Aquele homem é um ponto. Muita coisa há a dizer de uma senhora interessante!

- Concordo consigo. Mas, segundo a minha experiência, interessante em geral, significa teimosa, decidida e imprevisível.

Vale inclinou a cabeça com um ar amistoso.

- Também muita coisa há a dizer acerca dessas qualidades. Tobias observou-o à luz da lanterna da carruagem.

- Não me interprete mal, caro senhor, eu agradeço-lhe imenso, de facto, a boleia na sua carruagem. A curiosidade, porém, compele-me a perguntar-lhe se foi a Medusa Azul, ou Mrs. Dove, que o persuadiu a assistir ao baile desta noite.

- Eu sou um homem paciente, March - disse Vale, olhando pela janela, para a noite envolta em nevoeiro. - Esperei um ano. Acho que é bastante. Você não acha?

- Depende daquilo por que espera - disse Tobias.

Vinte minutos depois, Tobias parou, com Vale, no cimo das grandes escadas, olhando para baixo, para a multidão de convidados elegantemente vestidos, à procura do cabelo ruivo de Lavinia. Não era tarefa fácil encontrá-la naquele aglomerado de gente, mas estivesse ela onde estivesse, ali em baixo, pensou ele, estaria, sem dúvida, a sentir-se muito satisfeita com ela própria. Aquele baile era mais um dos seus grandes êxitos sociais.

O salão de baile de Joan resplendia à luz de três enormes candelabros. Os trajes das senhoras espalhavam-se no meio da multidão como tantas outras jóias brilhantes. Músicos colocados na galeria que circundava o salão debitavam música para a cena.

Tobias descortinou Emeline na pista de dança, nos braços de um jovem que não reconheceu. Anthony não devia estar nada satisfeito.

Esta observação fê-lo pensar onde estaria Anthony naquele momento. Em busca de limonada, certamente.

- A nossa anfitriã está à nossa espera - disse Vale, a olhar para o fundo das escadas, onde joan aguardava os convidados. - Vamos descer?

Tobias olhou para Joan. Apercebeu-se de que havia algo de diferente nela, naquela noite. Antes de poder decidir o que era, ouviu o nome dele, pronunciado em voz baixa atrás de si.

- Tobias.

Voltou-se e viu Anthony a dirigir-se para ele, ao longo da galeria. Vale ergueu uma sobrancelha interrogativa.

- Vá andando - disse-lhe Tobias. - Joan está à sua espera. Eu desço já Vale aquiesceu com a cabeça e desceu lentamente as escadas, sem olhar para Joan.

Anthony chegou junto de Tobias. Estava convenientemente vestido para o baile, mas vinha com um ar esbaforido. O cabelo estava molhado do nevoeiro. A excitação brilhava-lhe nos olhos.

- Só agora é que chegas? - perguntou Tobias, o cenho carregado: Pensava que tinhas decidido chegar mais cedo, para desencorajares o maior número possível de admiradores de Emeline.

- Encontrei-a - disse Anthony, a excitação e o triunfo a transparecerem-lhe nas palavras.

- Eu também acabo de vê-la. Ela está na pista de dança. Anthony, notas alguma coisa de estranho em Mrs. Dove, esta noite.

Anthony parecia desatento.

- Em que sentido?

- Não sei bem. Por qualquer razão, ela parece-me diferente.

Anthony olhou para o fundo das escadas.

- Ela tem um vestido azul.

- Sim, isso vejo eu. O que é que isso tem a ver com a minha pergunta?

Anthony sorriu.

- Hoje é a primeira vez que ela não aparece de luto.

- Ah, pois claro. E Vale parece muito satisfeito com isso, não parece? - Tobias, então, voltou-se. - O que é que estavas a dizer-me?

- A prostituta. Encontrei-a. A que tem andado com Pelling.

- Por que é que não disseste logo? - Tobias sentiu todos os sentidos despertos. - Falaste com ela?

- Não. Quando eu saía do meu clube para vir para aqui, estava um miúdo na rua à minha espera. Tinha um recado de uma das prostitutas com quem eu falara. Cheguei tarde porque tive um trabalhão para a encontrar.

- Numa noite como a de hoje, as mulheres não gostam de rua, a menos que a isso se vejam obrigadas.

- Encontrámo-nos numa taverna. Ela disse-me que o nome da mulher que procuramos é Maggie e deu-me a morada dela - disse ele, sorrindo - mediante um pagamento, claro.

- Onde é que essa Maggie mora?

- Tem um quarto em Cutt Lane. Sabes onde é?

- Sei, sim - Tobias sentia o velho e familiar sentido da certeza a percorrer-lhe o corpo, um impulso de energia logo por baixo da pele. Deu uma palmada nas costas de Anthony. - Bom trabalho. Diverte-te com Miss Emeline. Eu vou sair.

Algum do entusiasmo de Anthony desvaneceu-se.

- Vais falar agora com ela?

- Sim.

- Isso não pode ficar para mais tarde? - Anthony parecia estar pouco &agr