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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O BEIJO DA MEIA NOITE / Lara Adrian
O BEIJO DA MEIA NOITE / Lara Adrian

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

Ele a observa através da multidão dançando no clube, um sensual estranho de cabelos escuros que mexe com as mais profundas fantasias de Gabrielle Maxwell. Mas nada nessa noite – ou nesse homem – é o que parece. Porque quando Gabrielle testemunha um assassinato na saída do clube a realidade se transforma em algo escuro e mortal. Naquele momento crucial ela é lançada em um reino que nunca pensou existir – um reino onde vampiros andam nas sombras e uma sangrenta guerra está para começar.

      Lucan Thorne despreza a violência cometida pelos seus irmãos sem leis. Ele mesmo é um vampiro, Lucan é um guerreiro da Raça (Breed), que jurou proteger seu povo – e os humanos, que nem têm consciência da ameaça dos Rebeldes(Rogues). Lucan não pode se arriscar a se unir a uma mortal, mas quando Gabrielle se torna alvo de seus inimigos, ele não tem escolha a não ser trazê-la para o escuro submundo que comanda. Aqui, nos braços do formidável líder da Raça, Gabrielle se confrontará com um extraordinário destino de perigo, sedução e desejos...

Gabrielle Maxwell, uma reconhecida artista de Boston, celebra o êxito de sua última exposição exclusiva após o expediente da cidade. Entre a acalorada multidão, sente a presença de um sensual desconhecido que desperta nela as fantasias mais profundas. Mas nada relacionado com essa noite nem com esse homem resulta ser o que parece. À saída, Gabrielle presencia um assassinato e, apartir desse momento, a realidade se converte em algo escuro e mortífero, entrando em um submundo que nunca soube que existia, habitado por vampiros urbanos.

Lucan Thorne é um vampiro, um guerreiro da Raça, que nasceu para proteger aos seus, assim como aos humanos existente em uma vida paralela à dele, da crescente ameaça dos vampiros renegados. Lucan não pode arriscar-se a unir-se a uma humana, mas quando Gabrielle se converte no alvo de seus inimigos, não tem mais opção que levar-lhe a esse outro mundo que ele lidera, no qual serão devorados por um desejo selvagem e insaciável.

 

 

 

 

Vinte e sete anos atrás

Sua menina não deixava de chorar. Tinha começado a mostrar-se inquieta na última estação, quando o ônibus do Grayhound a Bangor se deteve no Portland para recolher a mais passageiros. Agora, um pouco depois da uma da madrugada, quase tinham chegado à estação de Boston e essas duas horas que levava tentando tranqüilizar a sua garotinha a estavam, tal e como diriam seus amigos da escola, tirando de suas casinhas.

   O homem que se encontrava no assento do lado provavelmente tampouco estava muito contente.

   —Sinto muito —lhe disse ela, dirigindo-se para lhe falar pela primeira vez desde que tinham subido ao ônibus.

— Normalmente não tem tão mau humor. É a primeira viagem que fazemos juntas. Suponho que tem vontades de chegar ao seu destino.

   O homem fechou os olhos e os abriu lentamente, em um gesto de assentimento, e sorriu sem mostrar os dentes.

—Aonde se dirigem?

   —A Nova Iorque.

   —Ah. A Grande Maçã —murmurou ele. Sua voz soava seca, quase afogada.

— Tem você família ali ou algo?

   Ela negou com a cabeça. A única família que tinha se encontrava em um povo provinciano perto do Rangeley, e lhe tinham deixado claro que tinha que arrumar-se por si mesma.

   —Vou por trabalho. Quero dizer, que espero encontrar trabalho. Desejo ser bailarina. Possivelmente na Broadway, ou ser uma das Rockette.

   —Bom, certamente você é muito bonita.

   O homem a olhava fixamente agora. O ônibus estava escuro, mas lhe pareceu que havia algo estranho em seus olhos. Outra vez o mesmo sorriso tenso.

   —Com um corpo como o que tem, teria que ser você uma grande estrela.

   Ela se ruborizou e baixou o olhar até o bebê que chorava em seus braços. Seu namorado do Maine também tinha por costume lhe dizer coisas como essa. Ele estava acostumado a dizer muitas coisas para levar-lhe ao assento traseiro do carro. E já não era seu namorado, tampouco. Não do último ano do instituto, quando ela começou a engordar por causa da gravidez.

   Se não o tivesse deixado para ter à menina, teria se graduado no verão.

   —Comeu algo hoje? —perguntou-lhe o homem enquanto o ônibus reduzia a velocidade e entrava na estação de Boston.

—A verdade é que não.

   Apesar de que não servia de nada, ela balançava à menina entre os braços. O bebê tinha o rosto avermelhado, os pequenos punhos apertados e chorava como se acabasse o mundo.

   —Que coincidência —disse o desconhecido.

   — Eu tampouco não comi nada. Iria bem tomar algo. Anima-se a me acompanhar?

—Não. Estou bem. Tenho umas bolachas salgadas na bolsa. E de todas maneiras, acredito que este é o último ônibus para Nova Iorque esta noite, assim não vou ter tempo de fazer grande coisa mais que trocar a menina e descansar. Obrigado, de toda forma.

   Ele não disse nada mais. Simplesmente a observou enquanto ela recolhia suas coisas agora que o ônibus já tinha parado em sua plataforma. Logo se apartou para deixá-la passar e dirigir-se para a estação.

   Quando saiu dos lavabos, o homem a estava esperando.

   Ela sentiu certa intranqüilidade ao lhe ver ali em pé. Não lhe tinha parecido tão alto enquanto estava sentado ao seu lado. Agora que lhe via outra vez, deu-se conta de que definitivamente havia algo muito estranho em seus olhos. Estaria um pouco colocado?

   —O que acontece?

Ele soltou uma risada afogada.

—Já o disse. Preciso me alimentar.

   Essa era uma forma muito estranha de dizê-lo.

   Ela se deu conta de que havia muito poucas pessoas na estação A essa hora tardia. Tinha começado a chover ligeiramente, o chão estava molhado e os últimos atrasados se puseram ao coberto. O ônibus estava esperando na plataforma enquanto carregava aos novos passageiros com suas bagagens. Mas para chegar até ele, tinha que passar primeiro por seu lado.

   Encolheu-se de ombros, muito cansada e ansiosa para ter que encontrar-se com essa tolice.

   —Bom, pois se tiver fome, vá dizer-o no MacDonald'S. Chego tarde ao ônibus.

—Olhe, puta...

   Moveu-se com tanta rapidez que ela não soube com o que a tinha golpeado. Estava em pé a um metro dela e ao cabo de um segundo lhe tinha posto a mão no pescoço e lhe cortava a respiração. Empurrou-a até as sombras do edifício da estação, para um ponto onde ninguém se daria conta se ia ataca-la. Ou a lhe fazer algo pior. Aproximou-lhe tanto a boca que ela notava o fedor de seu fôlego. Ele fez uma careta, ameaçou em um sussurro terrorífico e ela viu uns dentes afiados.

   —Se disser uma palavra mais ou move um só músculo, comerei seu suculento coraçãozinho de menina mimada.

   Sua garotinha estava gemendo entre seus braços, mas ela não disse nenhuma palavra.

   Nem sequer se atrevia a pensar em mover-se.

   Quão único importava era sua menina. Protegê-la. Por isso não se atreveu a fazer nada nem sequer quando esses dentes se aproximaram dela e lhe cravaram no pescoço.

   Ficou em pé gelada pelo terror, apertando com força ao bebê enquanto seu atacante penetrava com força na ferida sangrenta que lhe tinha feito no pescoço. Sujeitava-lhe a cabeça e o ombro com dedos fortes, suas unhas lhe cravavam como as garras de um demônio. Ele grunhia sem deixar de fincar cada vez com mais força os afiados dentes. Apesar de que tinha os olhos abertos pelo terror, sua visão começava a obscurecer-se e as idéias começavam a resultar confusas, como se rompessem em pedaços. Tudo ao seu redor começava a nublar-se.

 

   Estava-a matando. O monstro a estava matando. E logo ia matar a sua menina, também.

   —Não. —Tentou inalar, mas somente tragou sangue.

   — Maldito seja... Não!

   Com um desesperado esforço de vontade, deu um cabeçada contra o rosto de seu atacante. Ele soltou um grunhido, apartou-se, surpreso, e ela conseguiu soltar-se. separou-se dele, cambaleando, esteve a ponto de cair sobre suas pernas mas conseguiu endireitar-se. Com um braço sujeitava a sua menina e com o outro se cobriu a ferida úmida e quente da garganta enquanto se afastava devagar dessa criatura, que levantava a cabeça e a olhava, zombador, com os olhos amarelados e brilhantes e os lábios manchados de sangue.

   —OH, Deus —gemeu, enjoada ante essa visão.

   Deu outro passo para trás. Deu a volta e se dispôs a correr, embora fora inútil.

   E então foi quando viu o outro.

   Um ferozes olhos de cor âmbar a atravessaram, e por entre umas grandes e brilhantes presas soou um assobio que anunciava a morte. Ela pensou que ia correr contra ela e terminar o que o outro havia começado, mas não o fez. Cuspiram uns sons guturais entre eles, e logo o recém-chegado passou por seu lado com uma comprida faca na mão.

«Agarra á menina e vai.»

   A ordem pareceu surgir de um nada e atravessar a neblina de sua mente. Voltou a ouvi-la, esta vez mais urgente, empurrando-a à ação. Correu.

   Cega de pânico, atordoada pelo medo e a confusão, afastou-se Correndo da estação atravessando uma das ruas mais próximas. Pe­netrou na cidade desconhecida, na noite. A histeria a possuía e cada ruído, inclusive o de seus pés contra o chão, parecia-lhe monstruoso e mortífero.

   E sua menina não deixava de chorar.

   As iam descobrir se não conseguia que sua menina se tranqüilizasse. Tinha que colocá-la na cama, tinha que pô-la no berço cálida e a­colhedora. Então sua menina estaria contente. Então estariam a salvo. Sim, isso era o que tinha que fazer. Pôr à menina na cama, onde os monstros não poderiam encontrá-la.

   Estava cansada, mas não podia descansar. Muito perigoso. Tinha que chegar a casa antes de que sua mãe se desse conta de que outra vez tinha saído tão tarde. Estava confusa, desorientada, mas tinha que co­rrer. E isso fez. Correu até que caiu, exausta e incapaz de dar um passo mais.

   Ao despertar, ao cabo de um momento, sentiu que sua mente se partia como alguém quebrasse um ovo. A prudência a estava abandonando, a realidade se deformava e se convertia em um pouco cada vez mais escuro e escorregadio, afastava-se cada vez mais de seu alcance.

   Ouviu um choro afogado que procedia de algum lugar, na distância. Um som tão insignificante. Levou-se as mãos aos ouvidos e os cobriu, mas continuava ouvindo esse pequeno uivo de desvalia.

   «Shhh —murmurou, a ninguém em especial, balançando-se para frente e para trás.

— Te cale agora, a menina está dormindo. Te cale, te cale, te cale...»

   Mas o choro continuava. Não cessava, não cessava. Rompia-lhe o coração, ali, sentada na imunda rua enquanto olhava, sem ver nada, a luz do amanhecer.

 

Na atualidade

—«Impressionante. Note no uso da luz e das sombras...

   —Vê como esta imagem sugere a tristeza do lugar e como, apesar disso, consegue oferecer uma promessa de esperança?

   —... uma das fotógrafas mais jovens que vão incluir na nova coleção de arte moderna do museu.

   Gabrielle Maxwell estava separada do grupo de assistentes da expo­sição e sorvia uma taça de champanha quente enquanto outro grupo de personagens importantes de rostos anônimos se mostrava entusiasmado pelas duas dúzias de fotografias em preto e branco que penduravam das paredes da galeria. Jogou uma olhada às fotografias do outro extremo da habitação, divertida em certa maneira. Eram boas foto­grafias, um pouco inquietantes dado que o tema eram moinhos abandonados e desolados estaleiros dos subúrbios de Boston, mas não conseguia ver o que todo mundo via nelas.

   Mas nunca o via. Gabrielle, simplesmente, fazia as fotografias, e deixava sua interpretação e, ao fim, sua valoração aos outros. Introvertida por natureza, o fato de receber tantos elogios e tanta atenção a in­comodava... mas lhe permitia pagar as faturas. E muito bem, de fato. Essa noite também pagava as faturas de seu amigo Jamie, o proprietário da moderna e pequena galeria de arte do Newbury Street que, agora que faltavam dez minutos para a hora de fechamento, ainda estava repleta de possíveis compradores.

   Atordoada depois de todo o processo de dar a bem-vinda e de saudar e de sorrir educadamente a toda essa gente que, desde as enriquecidas esposas do Back Bay até os góticos tatuados e carregados de piercings, tratava de impressionar mutuamente —a ela— com as análise de seu trabalho, Gabrielle não podia esperar a que a inauguração terminasse. Tinha estado escondida entre as sombras durante a última hora, pensando em escorrer-se até a comodidade da ducha quente e da amaciado travesseiro de seu apartamento ao leste da cidade.

   Mas lhes tinha prometido a uns quantos amigos —Jamie, Kendra e Megan— que iria com eles para jantar e a tomar uma taça depois da inauguração. Quando o último casal de visitantes teve feito sua compra e partiu, Gabrielle se encontrou com que a arrastavam fora e a metiam em um táxi antes de ter tido a oportunidade de pensar em uma desculpa.

   —Que noite tão incrível! —O cabelo loiro do andrógino do Jamie lhe caiu sobre o rosto quando se inclinou por diante das duas mulheres para tomar a mão de Gabrielle.

— Nunca houve tanto tráfico na galeria em um fim de semana... e as vendas desta noite foram impressionantes ! Agradeço-te muito que me tenha permitido te exibir.

   Gabrielle sorriu ante a excitação de seu amigo.

   —É obvio. Não faz falta que me dê obrigado.

   —Não foi tão mal, verdade?

   —Como poderia havê-lo passado mau, se a metade de Boston está aos seus pés? —disse Kendra antes de que Gabrielle pudesse responder.

— Era o governador com quem te vi falar enquanto tomava uns canapés?

Gabrielle assentiu com a cabeça.

   —Ofereceu-se a encarregar alguns originais para sua casa de campo do Vineyard.

—Que amável!

   —Sim —repôs Gabrielle sem muito entusiasmo. Tinha um montão de cartões de visita no bolso, o qual representava pelo menos um ano de trabalho constante, se o queria. Então, por que sentia a tentação de abrir a janela do táxi e lançar ao vento?

   Deixou vagar o olhar para a noite, fora do carro, e observou com estranha indiferença as luzes e quão vistas este deixava atrás. As ruas estavam repletas de gente: casais que caminhavam de mão, grupos de amigos que riam e conversavam, todos eles passavam um bom momento. Acenavam nas mesas de fora dos restaurantes de moda e se detinham a contemplar as vitrines das lojas. Lá onde olhasse, a cidade pulsava com toda sua cor e sua vida. Gabrielle absorvia tudo com olhos de artista e, apesar disso, não sentia nada. Essa explosão de vida, também da sua, parecia continuar rapidamente para frente sem ela. Ultimamente, e cada vez mais, tinha a sensação de estar apanhada em uma roda que não deixava de fazê-la girar em um ciclo interminável de tempo que passava sem um propósito claro.

   —Passa algo, Gab? —perguntou-lhe Megan, ao seu lado, no assento traseiro do táxi.

     — Está muito calada.

Gabrielle se encolheu de ombros.

   —Sinto muito. Só... não sei. Estou cansada, suponho.

   —Que alguém convide a esta mulher a uma taça... imediatamente!

   — brincou Kendra, a enfermeira de cabelo escuro.

   —Não —replicou Jamie, matreiro e felino.

— O que nossa Gab necessita de verdade é um homem. É muito séria, carinho. Não é bom que deixe que o trabalho te consuma desta maneira. Te divirta um pouco! Quando te deitou com alguém pela última vez?

   Fazia muito tempo, mas Gabrielle não levava a conta. Nunca lhe tinham faltado os encontros quando as tinha desejado, e o sexo —nessas estranhas ocasiões em que o tinha— não era uma coisa que a obcecasse como a alguns de seus amigos. Por falta de prática que tivesse nesses momentos nessa área, não acreditava que um orgasmo fosse a curar para aquilo que, fosse o que fosse, provocava-lhe esse estado de inquietação.

   —Jamie tem razão, já sabe —estava dizendo Kendra.

   — Tem que te soltar, fazer alguma loucura.

   —Não há momento melhor que o presente —acrescentou Jamie.

—OH, não acredito —disse Gabrielle, negando com a cabeça.

— A verdade é que não tenho vontades de alargar muito a noite, meninos. As inau­gurações sempre me tiram muita energia e...

   —Chefe. —Sem lhe fazer caso, Jamie se colocou no bordo do assento e deu uns golpezinhos no vidro que separava ao taxista dos passa­geiros.

— Mudança de planos. Decidimos que temos vontades de ir de celebração, assim cancelamos o restaurante. Queremos ir aonde vai a gente interessante e moderna.

   —Se gostarem das salas de baile, têm aberto uma nova no extremo norte da cidade —disse o taxista, sem deixar de mascar o chiclete enquanto falava.

   — Estive levando passageiros ali toda a semana. A verdade é que levei a duas esta mesma noite... um moderno após o expediente chamado A Notte.

   —OH, OH, «a notte» —brincou Jamie, olhando divertido por cima do ombro e arqueando as elegantes retrocede.

— Sonha maravilhosamente vi­cioso, garotas. Vamos!

   A discoteca, A Notte, encontrava-se em um edifício vitoriano que se conhecia fazia muito tempo como a igreja do Saint John's Trinity Parish e que devido aos recentes escândalos sexuais que salpicavam a alguns sacerdotes, a arquidiocese de Boston conseguiu que fosse fechado, como que outros muitos lugares similares em toda a cidade. A ­hora, enquanto Gabrielle e seus amigos se abriam passo pela sala abarro­tada, essas vigas albergavam a música transe e tecno que soava, estri­dente, pelos alto-falantes enormes que rodeavam a cabine do dj, no balcão que se encontrava sobre o altar. Umas luzes estroboscópicas, brilhos contra as três vidraças com forma de arco. Os raios de luz atravessavam a densa nuvem de fumaça que pendia no ar, e piscavam ao ritmo de um tema que parecia interminável. Na pista de baile, e quase em cada um dos metros quadrados do piso principal de A Notte e da galeria que o rodeava, as pessoas se apertavam e se retorciam com uma sensualidade inconsciente.

   —A Santa festa! —gritou Kendra para fazer-se ouvir por cima da música enquanto levantava os braços e avançava dançando por entre a densa multidão.

   Não tinham acabado de cruzar por onde se encontrava o primeiro grupo de gente quando um menino magro abordou à valente morena e se in­clinou para lhe dizer algo ao ouvido. Kendra soltou uma profunda gargalhada e asentiu com a cabeça com gesto entusiasmado.

   —O menino quer dançar—-riu, dando a bolsa a Gabrielle.

   — Quem sou eu para me negar!

   —Por aqui —disse Jamie, assinalando uma pequena mesa próxima a ba­rra, enquanto sua amiga se afastava com seu acompanhante.

   Os três se sentaram e Jamie pediu uma rodada. Gabrielle escrutinou a pista de baile em busca da Kendra, mas a nuvem de gente a tinha engolido. Apesar de que a sala estava abarrotada de gente, Gabrielle não podia acalmar-se de cima uma repentina sensação de que estavam sentados no centro de atenção. Como se estivessem de algum jeito de baixo de uma estreita vigilância pelo simples feito de encontrar-se na sala. Era absurdo pensar isso. Possivelmente tinha estado trabalhando muito, ou tinha passado de­masiado tempo só em casa, já que encontrar-se em um lugar público a fazia sentir tão consciente de si mesmo. Tão paranóica.

   —Pela Gab! —exclamou Jamie, fazendo-se ouvir pesar do estrondo da música enquanto levantava o copo de Martini em um gesto de brinde.

Megan também levantou o seu e brindou com Gabrielle.

—Felicidades pela grande inauguração desta noite.

—Obrigado, meninos.

   Enquanto sorvia a mescla de uma cor amarela néon, a sensação de ser observada voltou. Ou, melhor dizendo, aumentou. Sentiu que a olhavam do outro extremo da escuridão. Levantou a vista por cima do bordo do copo do Martini e percebeu o brilho das luzes estroboscópicas em uns escuros óculos de sol.

   Uns óculos que escondiam um olhar que, sem dúvida, encontrava-se fixo nela do outro extremo da multidão.

   Os rápidos pulsos das luzes mostraram uns rasgos afiados entre as escuras sombras, mas o olho de Gabrielle o captou ao segundo. O Ca­belo lhe caía, solto, em mechas bicudas por cima de uma frente ampla e inteligente e sobre uns maçãs do rosto angulosas. Uma mandíbula forte e de risco severo. E sua boca... sua boca era generosa e sensual, in­cluso apesar de que desenhava um sorriso cínico, quase cruel.

   Gabrielle apartou a vista, nervosa, e sentiu uma onda de calor nas per­nas. Seu rosto ficou como gravado a fogo na mente durante um instante, como uma imagem se grava em um filme. Deixou a taça em cima da mesa e se atreveu a olhar outra vez para onde se encontrava ele. Mas já não estava.

   Ao outro extremo da barra se ouviu um forte estrondo e Gabrielle girou a cabeça para olhar por cima do ombro. Em uma das povoadas me­sas, o álcool se precipitava ao chão de um montão de cristais quebrados que cobriam a superfície laqueada de negro. Cinco tipos vestidos com couro negro tinham uma discussão com outro tipo que levava uma camiseta sem mangas dos Dead Kennedys e um jeans gasto e rasgados. Um dos caras que vestia de couro negro tinha um braço sobre os ombros de uma loira platinada que estava bêbada e que parecia conhecer punki. Seu namorado, ao parecer. Ele quis tomar à garota pelo braço, mas lhe apartou com um golpe e inclinou a cabeça a um lado para permitir que um dos caras detrás a beijasse no pescoço. Ela olhava desafiante a seu namorado, furioso, sem deixar de brincar com o cabelo castanho do tipo que parecia pego a sua garganta.

   —Isto se atou —disse Megan, voltando-se no momento em que a situação parecia complicar-se mais.

   —Parece que sim —acrescentou Jamie enquanto terminava o Martini e fazia um gesto a um garçom para que lhes trouxesse outra rodada.

— É óbvio que a mamãe dessa idiota esqueceu de lhe dizer que não convém partir sem o menino com quem veio.

   Gabrielle observou a situação um momento mais, o tempo suficiente para ver que outro cara de couro se aproximava da garota e a beijava nos lábios, que lhe oferecia. Ela aceitou a ambos ao mesmo tempo, enquanto acariciava o cabelo escuro do tipo que a beijava no pescoço e o cabelo claro do tipo que lhe chupava os lábios como se fosse a comer-lhe viva. O namorado punki lhe gritou uns insultos à garota, deu-se meia volta e se abriu passo a empurrões por entre a multidão.

—Este lugar me está enervando—confessou Gabrielle que, justo nesse momento, acabava de ver alguns clientes da sala preparando-se sem dissimulação umas raias de coca em um extremo da larga barra de mármore.

   Seus amigos pareceram não ouvi-la por causa do constante estrondo da música. Tampouco pareciam compartilhar o desconforto de Gabrielle. Havia alguma coisa que não ia bem ali dentro, e Gabrielle não podia tirar-se de cima a sensação de que, ao final, a noite ia ficar feia. Jamie e Megan começaram a conversar de grupos de música locais e deixaram a Gabrielle sozinha, sorvendo o copo de Martini e esperando, ao outro extremo da mesa, encontrar a oportunidade de dar uma desculpa e partir.

   Sentindo-se basicamente sozinha, Gabrielle deixou vagar o olhar pela massa de cabeças oscilantes e corpos ondulantes, procurando dissimula­damente esses olhos depois dos óculos de sol que a tinham observado antes. Estaria ele com esses tipos... seria um dos motoqueiros que estavam provo­cando todo essa baderna? Ele ia vestido como eles, e tinha o mesmo aspec­to perigoso que tinham eles.

Fora quem fosse, Gabrielle não via nem rastro dele nesse momen­to .

   Recostou-se no respaldo da cadeira e, de repente, deu um coice ao sentir que umas mãos se posavam sobre seus ombros de detrás.

   —Aqui estão! Meninos, estive-lhes procurando por toda parte! — exclamou Kendra, quase sem fôlego mas animada ao mesmo tempo, enquanto se inclinava sobre a mesa.

— Vamos. consegui uma mesa para todos ao outro extremo da sala. Brent e alguns de seus amigos querem vir de festa conosco.

 

—Bom !

Jamie já se pôs em pé, preparado para ir. Megan agarrou o novo copo do Martini com uma mão e com a outra, a mão da Kendra. Ao ver que Gabrielle não se movia para lhes seguir, Megan se deteve

   —Vem?

   —Não. —Gabrielle ficou em pé e se pendurou a bolsa do ombro.

— Vão vocês e divirtam-se. Eu estou esgotada. Acredito que vou procurar um táxi e vou direto para casa.

   Kendra a olhou fazendo uma cara infantil.

—Gab, não pode ir!

   —Quer que te acompanhe a casa? —ofereceu-se Megan, Apesar de que Gabrielle se dava conta de que desejava ficar com outros.

   —Estou bem. Desfrutem, mas vão com cuidado, de acordo?

   —Seguro que não te quer ficar? Outra taça, somente?

   —Não. De verdade que preciso sair e tomar um pouco de ar.

   —Você mesma, então —lhe disse Kendra, fingindo brigá-la. aproximou-se e lhe deu um rápido beijo na bochecha. Quando se apartou, Gabrielle notou um ligeiro aroma de vodca e, por debaixo deste, um aroma de alguma coisa menos evidente. Alguma coisa almiscarada, e estranhamente metálica.

— É uma desmancha-prazeres, Gab, mas te quero.

   Kendra lhe piscou um olho e passou os braços pelos ombros do Jamie e Megan. Com ar brincalhão atirou de ambos em direção à massa de gente que bulia na sala.

   —Me chame amanhã —lhe disse Jamie por cima do ombro enquanto o trio era engolido pela massa.

   Gabrielle iniciou imediatamente o caminho para a porta de saída, an­siosa por sair dali. Quanto mais tempo passava ali dentro, mais parecia subir o volume da música. Sentia-a retumbar na cabeça e o fazia difícil pensar com claridade. Custava-lhe fixar-se no que havia ao seu re­dor. As pessoas a empurravam desde todos os lados enquanto ela ten­tava abrir-se passo, apertando-se contra a parede de corpos que se expremia e giravam sem deixar de dançar. Empurraram-na e a apertaram, tocaram-na e a manusearam mãos invisíveis na escuridão, até que, fi­nalmente, chegou ao vestíbulo, diante da entrada da sala e conseguiu sair atravessando a pesada porta dupla.

   A noite era fria e escura. Inalou com força, tentando limpar a cabeça de todo o ruído e a fumaça e o inquietante ambiente de La Notte. A música ainda se ouvia aí fora, e as luzes estroboscópicas ainda cintilavam do outro lado das vidraças de cores, mas Gabrielle se relaxou um pouco agora, ao sentir-se livre.

   Ninguém lhe prestou atenção enquanto se apressava para a esquina e esperava encontrar um táxi. Só havia umas quantas pessoas fora, algumas delas caminhavam pela outra calçada e outras subiam em fila pelos degraus de cimento que conduziam ao salão de baile. Detectou um táxi amarelo que se dirigia para ali e levantou a mão para chamá-lo.

—Táxi!

Enquanto o táxi vazio atravessava o tráfico noturno e se aproximava para ela, as portas da discoteca se abriram com a força de um furacão.

   —Né, cara! Que merda faz! —Nas escadas, detrás de Gabrielle, a voz de um homem soava atemorizada.

   — Se voltar a me tocar, vou a...

   —Vai a que? —repreendeu outra voz em tom provocador, grave e a­meaçadora, acompanhada de um coro de risadas.

   —Sim, venha, punki de merda. O que vais fazer?

   Gabrielle, que já tinha a mão no atirador da porta do táxi, girou a cabeça meio alarmada e atemorizada pelo que ia ver. Tratava-se da turma do clube, os motoristas ou o que fossem, vestidos com couro negro e óculos de sol. Os seis rodeavam ao namorado punki como se fossem uma manada de lobos e lhe davam empurrões por turnos, jogando com ele como se fosse sua presa.

   O menino tentou lhe dar um murro a um deles e falhou, e a situação piorou em um abrir e fechar de olhos.

   De repente, a briga se aproximou aonde estava Gabrielle. A turma de idiotas empurrou ao punki contra o capô do táxi e começaram a dar lhe murros no rosto. Do nariz e a boca do menino saíram disparadas gotas de sangue e algumas delas mancharam a Gabrielle. E­la deu um passo para trás, aniquilada e horrorizada. O menino se debatia para escapar, mas seus atacantes lhe sujeitavam e lhe golpeavam com uma furia que a Gabrielle resultava difícil de compreender.

   —Fora do fodido carro! —gritou o taxista pelo guichê aberto.

— Deus santo! Vai a outra parte! Ouvem-me?

   Um dos assaltantes girou a cabeça para o taxista, dirigiu-lhe uma horrivel sorriso e propinó um forte murro no pára-brisa, que se rompeu em mil pedaços. Gabrielle viu que o taxista se benzia e que mur­murava umas palavras inaudíveis, dentro do carro. Ouviu-se a mudança de marchas e logo o chiado agudo das rodas no mesmo momento em que o táxi fez marcha atrás para tirar-se de cima a carga do ca­pó.

   —Espere! —gritou Gabrielle, mas era muito tarde.

   O transporte a casa e a possibilidade de fugir dessa cena brutal hávia desaparecido. Com o medo lhe apertando a garganta, observou ao taxi que se afastava a toda velocidade pela rua e cujas luzes desapare­ceram na noite.

   Na esquina, os seis motoristas não mostravam nenhuma compaixão por sua vítima: estavam tão concentrados em deixar inconsciente ao punki a ba­se de golpes que não prestaram atenção a Gabrielle.

   Ela se deu a volta e subiu correndo as escadas até a entrada de La Notte enquanto rebuscava o celular no bolso. Encontrou o magro aparelho e o abriu. Enquanto abria as portas da sala e entrava correndo no vestíbulo, marcou o 911, atendida pelo pânico. Por cima do estrondo da música, das vozes, além do zumbido som de seu próprio coração, Gabrielle somente ouviu o som de espera do outro lado do fio telefônico. Apartou-se o telefone do ouvido...

«Não há sinal.»

   —Merda!

   Voltou a marcar o 911, sem sorte.

   Correu para a zona principal da sala, gritando, desesperada-se, no meio do ruído.

   —Por favor, que alguém me ajude! Necessito ajuda!

   Ninguém parecia ouvi-la. Golpeou às pessoas nos ombros, atirou das mangás e esteve a ponto de lhe sacudir o braço a um tipo tatuado com pinta de militar, mas ninguém lhe prestou atenção. Nem sequer a olharam. Simplesmente continuaram dançando e conversando como se ela nem sequer se encontrasse ali.

Era um sonho? tratava-se de alguma perverso pesadelo na qual ela era quão única tinha visto os atos de violência que aconteciam ali fora?

   Gabrielle desistiu de tentar chamar a atenção dos desconhecidos e decidiu procurar a seus amigos. Enquanto se abria passo através da escura sala, continuava marcando a tecla de rechamada, rezando para conseguir cobertura. Não conseguiu chamar e logo se deu conta de que tampouco ia encontrar a Jamie e aos outros em meio dessa massa de gente.

   Frustrada e confundida, correu de volta à entrada do clube.

Possivelmente pudesse deter um motorista, encontrar a um policial, algo!

   O ar gelado da noite a golpeou assim que abriu as pesadas portas e saiu fora de novo. Baixou correndo o primeiro lance de escadas, resfolegando, insegura de com o que ia se encontrar: uma mulher só contra seis membros de uma turma que possivelmente estivessem drogados. Mas não lhes viu.

     Foram-se.

     Um grupo de clientes da sala subiam as escadas animadamente. Um deles fazia como que tocava um violão e seus amigos falavam de ir a alguma outra festa rave mais tarde.

     —Né —chamou Gabrielle, quase esperando que aconteceriam comprido. Mas se detiveram e lhe sorriram Apesar de que, seus vinte e oito anos, era quase uma década mais velha que eles.

     O menino que partia à frente do grupo a saudou com um gesto de cabeça.

-Sim?

     —Algum de vocês...? —duvidou um momento, sem saber se deveria sentir-se aliviada ao dar-se conta de que, depois de tudo, não se tratava de um sonho.

— Algum de vocês viu a briga que havia aqui faz uns minutos?

   —Havia uma briga? Impressionante! —disse o líder do grupo.

   —Não, tia —repôs outro—. Acabamos de chegar. Não vimos nada.

   Passaram por seu lado e subiram o resto de escadas enquanto Gabrielle se perguntava se estava começando a perder a cabeça. Caminhou até a esquina. Havia sangue no chão, mas o punki e seus agressores há­víam desaparecido.

   Gabrielle ficou em pé debaixo de uma luz e se esfregou os braços para tirar o frio do corpo. Deu-se a volta e olhou a ambos os lados da rua, procurando alguma sinal da violência da que tinha sido testemunha uns minutos antes.

Nada.

   Mas então... ouviu-o.

   O som provinha de um estreito beco A sua direita. Flanqueado por um muro de cimento que chegava à altura do ombro de uma pessoa e que atuava como tela acústica, uns grunhidos quase imper­ceptiveis chegavam até a rua do beco quase completamente escuro. Gabrielle não pôde identificar esses sons desagradáveis que lhe gelaram o sangue nas veias, despertaram seu alarme mais instintivo e profundo e lhe puseram em tensão todos os nervos do corpo.

   Suas pernas continuaram movendo-se. Não o faziam em direção con­traria à fonte desses inquietantes sons, a não ser em direção a eles. O telefone na mão lhe pesava como se fosse um tijolo. Caminhava prendendo a respiração. Não se deu conta de que não estava respirando até que tinha penetrado um par de passos no beco e seu olhar se posou em um grupo de figuras que se encontrava mais adiante.

   Os valentões vestidos de couro negro e com óculos de sol.

   Estavam agachados, sobre os joelhos e as mãos, manuseando algo, atirando de algo. A tênue luz que chegava da rua, Gabrielle dis­tinguiu um farrapo de tecido no chão, ao lado do açougue. Era a cami­seta do punki, destroçada e manchada.

O dedo que Gabrielle ainda tinha sobre o teclado do celular se moveu sigilosamente para a tecla de rechamada. Ouviu-se um calado zumbido ao outro extremo da linha e logo a voz do telefonista da polícia ré­tumbou na noite como a salva de canhão.

   —Novecentos e onze. Qual é sua emergência?

   Um dos motoristas girou a cabeça ao notar a repentina interrupção. Uns olhos ferozes e cheios de ódio se cravaram em Gabrielle como adagas. Tinha o rosto completamente ensangüentado. E seus dentes! Eram afiados como os de um animal: não eram dentes, a não ser presas que apontaram para ela no momento no qual ele abriu a boca e vaiou uma palavra de som terrível em um idioma estranho.

   —Novecentos e onze —voltou a dizer o telefonista.

— Por favor, relatório de sua emergência.

Gabrielle não era capaz de falar. Estava tão aturdida que quase não conseguiu nem respirar. Aproximou-se o celular ao lábios, mas não conseguiu pró­nunciar nenhuma palavra.

   A chamada de socorro tinha sido inútil.

   Dando-se conta disso, e aterrorizada até os ossos, Gabrielle fez a única coisa lógica que lhe ocorreu. Com a mão tremente, dirigiu o aparelho para a turma de motoristas sádicos e apertou o botão de «cap­turar imagem». Um pequeno brilho de luz iluminou o beco.

   OH, Deus. Possivelmente ainda tivesse a oportunidade de escapar dessa noite infernal. Gabrielle apertou o botão outra vez, e outra, e outra, enquanto se retirava para trás pelo beco em direção À rua. Ouviu o mur­murio de umas vozes, ouviu uns insultos, o som de pés no beco, mas não se atreveu a olhar para trás. Nem sequer o fez para ouvir um agudo chiado de aço a suas costas, seguido por uns chiados de agonia e de raiva que não eram deste mundo.

   Gabrielle correu na noite impulsionada pela adrenalina e o medo e não se deteve até que encontrou um táxi na Commercial Street. Subiu a ele e fechou a porta com um forte golpe. Resfolegava, deslocada de medo.

—Me leve a delegacia de polícia mais próxima!

   O taxista apoiou um braço no respaldo do assento do co-piloto e se voltou para ela. Olhou-a com o cenho franzido.

   —Está bem, senhorita?

   —Sim —repôs ela automaticamente. Depois acrescentou:

   — Não. Preciso informar de...

   Jesus. Do que tinha intenção de informar? Do frenesi canibal de uma turma de motoristas raivosos? Ou da outra explicação possível, a qual nem sequer era muito mais acreditável?

Gabrielle olhou ao taxista espectador aos olhos.

   —Por favor, depressa. Acabo de presenciar um assassinato.

 

Vampiros.

A noite estava infestada deles. Tinha contado mais de uma dúzia na discoteca, a maioria deles rondavam às mulheres meio desnuda que rebolavam dançando na pista de baile, e selecionavam entre elas, seduzindo as mulheres que apagariam sua sede essa noite. Essa era uma relação simbiótica que tinha sido de utilidade a sua raça desde fazia mais de dois mil anos, uma convivência pacífica que dependia da habilidade do vampiro em apagar as lembranças dos humanos de quem se alimentava. Antes de que saísse o sol se teria derramado uma boa quantidade de sangue, mas todos os de sua raça se esconderiam no inte­rior de seus escuros refúgios dos arredores da cidade, e os huma­nos de quem tinha desfrutado dessa noite não recordariam nada.

   Mas esse não era o caso do que aconteceu no beco ao lado da sala de festas.

   Para os seis depredadores que se abarrotaram de sangue, essa morte ilícita seria a última. Não eram cuidadosos dirigindo seu apetite, não se tinham dado conta de que lhes tinham visto. Não se tinham dado conta de que ele lhes tinha estado observando na discoteca, nem de que lhes viu sair fora da janela do segundo piso da igreja recon­vertida em um clube noturno de moda.

   Estavam cegados pelo animado desejo de sangue, esse vício que uma vez tinha sido como uma epidemia para essa raça e que havia provo­cado que tantos deles se voltassem uns renegados. Igual a esses, que se alimentavam aberta e indiscriminadamente de quão humanos viviam entre eles.

   Lucan Thorne não sentia uma simpatia especial pela raça humana, mas o que sentia por esses vampiros renegados era pior ainda. Ver um ou a dois vampiros assassinos em uma só noite rastreando uma cidade do tamanho de Boston não era algo pouco freqüente. Encontrar a vários deles trabalhando em equipe, alimentando-se a céu descoberto como haviam feito esses, era mais que um pequeno problema. O número de assassinos au­mentavam outra vez e se faziam cada vez mais fortes.

 

   Terei que fazer algo a respeito.

   Para Lucan, igual que para muitos outros de sua raça, cada noite re­presentava a obrigação de realizar uma expedição de caça com a lente de aniquilar aqueles que punham em perigo o que a raça de vampiros lhes havia lutado tanto conseguir. Essa noite, Lucan perseguia a suas presas sozinho, sem lhe importar que lhe superassem em número. Havia esperado que a oportunidade de atacar fosse ótima: quando os renega­dos tivessem satisfeito esse vício que dirigia suas mentes.

   Bêbados depois de ter tomado uma quantidade de sangue muito su­perior a que podiam ingerir sem riscos, tinham contínuado destroçando e golpeando o corpo desse homem jovem da discoteca, grunhindo e mordendo como se fossem uma manada de cães selvagens. Lucan se tinha preparado para executar uma justiça rápida, e o teria feito a não ser pela repentina aparição dessa mulher ruiva no escuro beco. Em um instante, ela tinha arruinado todo seus propósitos dessa noite ao se­guir aos renegados até o beco e ter desviado a atenção de sua presa.

   Enquanto o feixe luminoso de seu telefone celular cintilava na escuridão a rede, Lucan baixou do batente da janela oculto em sombras e aterrissou no chão sem fazer nem um som. Ao igual que os renegados, os sensíveis olhos de Lucan se encontraram parcialmente cegados por esse repentino brilho de luz na escuridão. A mulher tinha disparado uma se­rie de vezes enquanto fugia do açougue e esses brilhos fruto do pá­nico foram quão único a salvaram da ira de seus selvagens parentes.

   Mas enquanto que os sentidos dos outros vampiros se encontravam aturdidos e intumescidos por causa da sede de sangue, os de Lucan esta­vam completamente acordados. Tirou sua arma debaixo do casaco —uma dupla folha de aço de fio de titânio que sobressaía de uma única empu­nhadura e agitou reclamando a cabeça do valentão que se encontrava mais perto dele.

   A esta seguiram dois mais. Os corpos dos mortos se retorceram ao começar a rápida decomposição celular que convertia a massa azeda que supurava de seus corpos em cinzas. Uns chiados selvagens encheram o beco; Lucan cortou a cabeça de outro deles e, dando-a volta, empalou a outro dos renegados pelo torso. Este soltou um assobio atra­vés dos dentes e presas que gotejavam sangue. Uns pálidos olhos de cor áurea se cravaram em Lucan com expressão de desdém: as íris in­chadas pela fome se tragavam umas pupilas que se esgotaram até converter-se em duas estreitas ranhuras. A criatura sofreu um espas­mo, alargou os braços para ele com os lábios apertados desenhando um ho­rrendo sorriso que não era deste mundo: o aço forjado de forma especifica envenenou seu sangue assassino e reduziu ao vampiro a uma mancha no chão da rua.

 

   Só ficava um. Lucan se voltou para enfrentar-se ao alto macho com as duas folhas levantadas e preparadas para atirar o golpe.

   Mas o vampiro se foi: escapou-se em meio da noite antes de que pudesse lhe dar morte.

«Merda.»

   Nunca antes tinha permitido que nenhum desses bastardo esca­passem a sua justiça. Não deveria havê-lo feito agora. Pensou em perseguir o valentão, mas isso tivesse significado abandonar a cena do ataque exposta, e esse era um risco maior ali: permitir que os humanos conhece a dimensão exata do perigo no qual viviam.

   Por causa da ferocidade dos renegados, a raça de Lucan tinha sido perseguida pelos seres humanos durante a velha era; os de sua raça não poderiam sobreviver a outra era de castigo agora que os humanos tinham a tecnologia do seu lado.

   Até que os renegados fossem sufocados melhor ainda: eliminados por completo a humanidade não deveria saber que existiam vampiros que viviam entre eles.

   Enquanto se dispunha a limpar a zona de todo rastro da matança, os pensamentos de Lucan não deixaram de dirigir-se para a mulher do cabelo aceso e dessa doce beleza de alabastro.

 

   Como era possível que ela tivesse encontrado aos renegados no beco?

Apesar de que era uma crença geral entre os humanos, os vampiros podiam desaparecer a vontade, a realidade era muito menos impactante. Tinham o dom de possuir uma grande agilidade e uma grande velocidade e simplesmente se moviam com uma rapidez maior que a que podia captar o olho humano. Essa habilidade, além disso, via-se aumentada pelo grande poder hipnótico que tinham sobre as mentes dos seres inferiores. Mas, de forma estranha, essa mulher parecia imune a ambas as coisas.

   Lucan a tinha visto mover-se pela discoteca, e se deu conta disso nesse momento. Seu olhar se desviou de sua presa atraída por um par de comovedores olhos e por um espírito que parecia tão perdido co­mo o seu. Também lhe tinha visto e lhe tinha olhado de onde se encontrava sentada com seus amigos. Apesar da multidão de gente e do aroma de rançoso que enchia a sala, Lucan tinha detectado o aroma do per­fume de sua pele: algo exótico e estranho.

Nesses momentos também o cheirava. Era uma delicada nota aromática que pendia da noite, que incitava seus sentidos e que despertava algo muito primitivo nele. As gengivas lhe doeram A causa do repentino alongamento das presas: uma reação física ante a necessidade de tipo carnal ou de qualquer outro tipo que ele não conseguia controlar. Cheirava-a e a desejava, e não de uma forma mais elevada que a de seus irmãos renegados.

   Lucan jogou a cabeça para trás e inalou com força o aroma da mulher para seguir seu rastro cheiroso pela cidade. Ao ser a única testemunha do ataque dos renegados, não era inteligente permitir que ela con­servasse a lembrança do que tinha visto. Lucan encontraria a essa mulher e tomaria as medidas que fossem necessárias para assegurar o amparo de sua raça.

   E, desde algum recôndito lugar de sua mente, uma antiga consciência lhe sussurrava que, fora ela quem fosse, já lhe pertencia.

   —Eu estou dizendo. Vi-o tudo. Havia seis, e estavam destroçando a esse menino com as mãos e os dentes... como animais. Mataram-lhe!

 

   —Senhorita Maxwell, passamos por isso muitas vezes já esta noite. Agora estamos todos cansados, e a noite se está fazendo muito larga.

Gabrielle levava na delegacia de polícia mais de três horas tentando explicar o horror de que tinha sido testemunha na rua próxima A Notte. Os dois agentes com quem tinha falado se mostraram céticos ao princípio, mas agora já se estavam impacientando e quase tinham uma atitude acusatória para ela. Ao cabo de muito pouco tempo de que ela havia chegado à delegacia de polícia, tinham enviado um carro patrulha à zona da discoteca para comprovar qual era a situação e para recuperar o corpo que Gabrielle havia dito ver. Mas haviam retornado com as mãos vazias. Não havia nenhuma notícia de nenhuma briga com nenhum grupo e não encontraram provas de nenhuma classe de que alguém tivesse sofrido algum ato delitivo. Era como se tudo isso não tivesse acontecido nunca, ou como se os rastros tivessem sido apagados de forma milagrosa.

   —Se me escutassem... se queriam olhar as fotos que tenho feito...

   —Vimo-las, senhorita Maxwell. Várias vezes, já. Francamente, tudo do que nos contou esta noite se comprovou... sua decla­ração, essas fotos imprecisas e escuras de seu telefone celular.

   —Sinto muito que lhes falte qualidade —replicou Gabrielle em tom ácido.

— A próxima vez que me encontre com uma turma de psicopatas que le­vão a cabo uma matança sangrenta, tentarei recordar que devo ir buscar minha Leica e um par de lentes extra.

   —Possivelmente você queira refazer sua declaração —sugeriu o mais velho dos dois oficiais cujo acento bostoniano estava tingido com o deixe ir­landés que lhe tinha dado a juventude no Southie. Levou-se uma mão gorda as sobrancelhas e as esfregou , ato seguido, passou- o celular a Gabrielle por cima da mesa.

— Você deve saber que assinar uma decla­ração falsa é um delito, senhorita Maxwell.

   —Esta não é uma declaração falsa —insistiu ela, frustrada e não pouco zangada de que a tratassem como a uma criminosa.

   — Mantenho tudo o que hei dito esta noite. Por que teria que haver inventado isso?

   —Isso somente o pode saber você, senhorita Maxwell.

 

   —Isto é incrível. Têm minha chamada ao 911.

   —Sim—assentiu o agente.

   — Você realizou, efetivamente, uma chamada a Emergências. Desgraçadamente, quão único temos gravado é o so­ninho de interferências. Você não disse nada, e não respondeu a petição que a telefonista lhe fez de que informasse do que aconteceu.

   —Sim, bom, é difícil encontrar as palavras para descrever como lhe estão cortando o pescoço de alguém.

   Ele a olhou outra vez com expressão dúbia.

   —Essa discoteca... A Notte, é um lugar desenfreado, pelo que sei. Muito popular entre os góticos, os raveros...

—O que quer dizer?

O policial se encolheu de ombros.

   —Muitos meninos se metem em confusões estranhas hoje em dia. Possivelmente o único que você viu foi como uma festa ia um pouco das mãos.

Gabrielle soltou uma maldição e alargou a mão até o telefone celular.

   —Parece-lhe com você que isto é uma festa que vai um pouco das mãos ?

   Apertou a tecla de «mostrar imagem» e voltou a observar as imagens que tinha capturado. Apesar de que as fotos instantâneas eram imprecisas e de que o brilho de luz tinha esfumado a cena, ainda se via clara­mente a um grupo de homens que rodeava a outro no chão. Apertou o botão para passar a outra imagem e viu o brilho de vários olhos que olhavam a câmara, e uns rostos cujos vagos rasgos faciais se deformavam e adotavam uma expressão de fúria selvagem.

   Por que os agentes não viam o que via ela?

 

   —Senhorita Maxwell —interrompeu o agente de polícia mais jovem. Caminhou até o outro lado do escritório e se sentou na esquina do mesmo, diante dela. Tinha sido o que, dos dois, tinha permanecido mais tempo em silêncio, que tinha estado escutando com atenção enquanto seu companheiro comunicava dúvidas e suspeitas.

— É evidente que você crê ter presenciado algo terrível esta noite, nessa discoteca. O agente Carrigan e eu queremos ajudá-la, mas para que possamos fazer-lo, temos que nos assegurar de que estamos falando do mesmo.

Ela assentiu com a cabeça.

   —De acordo.

   —Agora temos sua declaração e vimos suas fotos. Você me dá a sensação de ser uma pessoa sensata. Antes de que aprofundemos mais nisto, preciso saber se estaria você disposta a submeter-se a uma análise de controle de drogas.

   —Uma análise de drogas. —Gabrielle se levantou. repentinamente da cadeira. Agora estava mais que zangada

— Isto é ridículo. Eu não sou uma cabeça oca colocada, e me desgosta que me tratem como se o fosse. Estou tentando informar de um assassinato!

—Gab? Gabby!

   Desde algum ponto, a suas costas, na delegacia de polícia, Gabrielle ouviu a voz de Jamie. Tinha chamado a seu amigo ao cabo de muito pouco tempo de ter chegado ali porque necessitava o apoio de ter um rosto familiar por perto depois de tudo o que tinha presenciado.

—Gabrielle! —Jamie correu para ela e lhe deu um quente abraço.

— Sinto não ter podido chegar antes, mas já estava em casa quando recebi sua mensagem no celular. Que horror, carinho! Está bem?

Gabrielle assentiu com a cabeça.

   —Acredito que sim. Obrigado por vir.

 

   —Senhorita Maxwell, por que não deixa que seu amigo a leve a casa? —disse-lhe o agente—. Podemos continuar com isto em algum outro momento. Possivelmente poderá pensar com maior claridade depois de ter dormido um pouco.

   Os dois policiais se levantaram e fizeram um gesto à Gabrielle para que fizesse o mesmo. Ela não discutiu. Estava cansada, esgotada por com­pleto, e não acreditava que embora ficasse na delegacia de polícia toda a noite conseguisse convencer aos polis do que tinha presenciado fora de La Notte. Um pouco atordoada, deixou que Jamie e que os dois agentes a acompanhasse fora da delegacia de polícia. Já se encontrava a metade das escadas em direção ao estacionamento quando o mais jovem dos dois a chamou

por seu nome.

   —Senhorita Maxwell.

   Ela se deteve e olhou para trás por cima do ombro, em direção aonde se encontravam os dois policiais em pé, sob a luz que saía da delegacia de polícia.

   —Se isso a ajuda a descansar com maior tranqüilidade, enviaremos a alguém para que vigie sua casa, e que possivelmente possa falar com você um pouco mais quando tiver tido tempo de pensar um pouco em sua de­claração.

   A Gabrielle não gostou do tom de mímico com que o disse, mas tampouco encontrou as forças necessárias para rechaçar essa oferta. Depois do que tinha presenciado essa noite, Gabrielle aceitaria a segurança que lhe oferecia o ter a um policial perto, inclusive embora fosse um policial prepotente. Assentiu com a cabeça e seguiu a Jamie até o carro.

Em um escritório de um tranqüilo rincão da delegacia de polícia, um arquivista apertou o botão de impressão do computador. Uma impressora laser zumbiu e ficou em funcionamento a suas costas, e tirou um relatório de uma só página. O arquivista se tragou o último sorvo de café frio que ficava em sua xícara descascada do Rede Sox e se levantou da desvencilhada cadeira para recolher, com gesto indiferente, o documento que acabava de sair da impressora.

 

   A Central se encontrava em silêncio, vazia, depois da mudança de volta de meia-noite. Mas inclusive embora tivesse estado bulindo de atividade, ninguém tivesse emprestado nenhuma atenção ao reservado e extra­nho interno em práticas que se mostrava tão fechado em si mesmo.

Essa era a beleza de seu papel.

   Por isso o tinham eleito.

   Ele não era o único membro do corpo a quem podiam recrutar. Sabia que havia outros, embora suas identidades se mantinham em segredo. Dessa forma era mais seguro, mais limpo. Por sua parte, não recordava quanto tempo fazia que tinha conhecido a seu Professor. Somente sabia que ago­ra vivia para servir.

   Com o relatório firmemente sujeito em uma mão, o arquivista caminhou devagar pelo corredor procurando um lugar tranqüilo e privado. A habi­tação de descanso, que nunca se encontrava vazia fosse a hora do dia que fosse, encontrava-se ocupada nesses momentos por um casal de secretárias e pelo Carrigan, um policial gordo e bocudo que se retirava a final de semana. Estava fanfarroneando a respeito de um fantástico negócio que tinha feito com algum apartamento de Flórida enquanto as mulheres, basicamente, ignoravam-lhe e se dedicavam a desfrutar de um bolo amarelo feito no dia anterior e acompanha-lo com uma Coca-cola de baixa calorias.

   O arquivista se passou os dedos por entre o cabelo de uma cor casta­nho claro e atravessou as portas abertas em direção aos serviços, que se encontravam ao final do corredor. Deteve-se fora do serviço de cavalheiro com a mão em cima do pomo de metal e jogou uma olhada a suas costas. Ao dar-se conta de que ninguém lhe via, dirigiu-se a habitação do lado, ao quarto de fornecimentos de zeladoria. Supunha-se que devia manter-se sempre fechado, mas poucas vezes o estava. De todas formas, não havia grande coisa que valesse a pena roubar ali dentro, a não ser que a gente tivesse debilidade pelo papel higiênico industrial, a amônia ou as toalhas de papel marrom.

   Girou o bracelete da porta e empurrou o velho painel de aço para dentro. Quando se encontrou no interior do escuro quarto, pressionou o fechamento de dentro e tirou o telefone celular do bolso da calça. A­pertou o botão de marcação rápida e chamou o único número que tinha ar­mazenado nessa unidade indetectavel e descartável. O tom de chamada soou duas vezes e logo se impôs um silêncio ameaçador, a inconfun­divel presença de seu Professor espreitava do outro extremo da linha.

 

   —Senhor —disse o arquivista em um sussurro reverente.

— Tenho infor­mações para você.

   Falou depressa e em voz baixa, lhe contando todos os detalhes a respeito da mulher chamada Maxwell que tinha ido a delegacia de polícia e da decla­ração que tinha realizado a respeito de um assassinato por parte de um grupo no centro da cidade. O arquivista ouviu um grunhido e o suave vaio da respiração do outro extremo da linha. Seu professor escutava a informação em silêncio. Notou a fúria contida nessas lentas e compassadas respirações, e lhe gelou todo o sangue.

   —Reuni toda a informação pessoal para você, senhor, toda —lhe disse, e, servindo do suave resplendor da janela do celular, leu a direção de Gabrielle, seu telefone privado e demais detalhe. O servil subordinado estava ansioso por agradar a seu temível e poderoso senhor.

 

Tinham passado dois dias inteiros.

   Gabrielle tentou tirar-se da cabeça todo o horror do que tinha visto no beco de La Notte. Que importância tinha, de todas as manei­ras? Ninguém a tinha acreditado. Não a tinha acreditado a polícia, que ainda não tinha mandado a ninguém para vê-la tal e como tinham prometido, e tampouco a tinham acreditado seus amigos.

   Jamie e Megan, que tinham visto os valentões de jaqueta de couro repreendendo ao punki dentro da sala, disseram que o grupo se havia mar­chado sem ter provocado nenhum outro incidente em nenhum momento da noite. Kendra tinha estado muito absorta com o Ken —o menino a quem tinha conhecido na pista de baile da sala— e não se deu conta de que tinha havido uma briga na sala. Segundo os policiais que se encontravam na delegacia de polícia na sábado de noite, todo mundo a quem o carro patrulha tinha interrogado em La Notte tinha dado a mesma história: uma breve escaramuça no bar, mas não havia nenhuma testemunha que tivesse presenciado sinais de violência nem dentro nem fora da sala.

   Ninguém tinha visto o ataque do que ela tinha informado. Não havia nenhuma admissão em nenhum hospital nem em nenhum depósito de cadá­veres. Nem sequer havia uma denúncia de danos do taxista que se encontrou na esquina.

Nada.

   Como era possível? Estaria realmente delirando?

   Era como se os olhos de Gabrielle fossem os únicos que se houvessem en­contrado abertos essa noite. Ou ela era a única havia presen­ciado algo inexplicável ou estava perdendo a cabeça.

   Possivelmente um pouco de ambas as coisas.

 

   Gabrielle não podia enfrentar-se ao que essa idéia implicava, assim procurou consolo no único que lhe oferecia um pouco de alegria. Depois da porta fechada de seu quarto escuro construído a medida, no porão da casa, Gabrielle inundou uma folha de papel fotográfico em uma bandeja com líquido de revelação. Da pálida nada, uma imagem começou a cobrar forma debaixo da superfície do líquido. Observou-a cobrar vida: a iro­nica beleza de uns tentáculos de marfim que se expandiam por cima de um antigo e abandonado hospital psiquiátrico de tijolos velhos e cimento, de estilo gótico, que fazia pouco que tinha descoberto nos subúrbios da cidade. Saiu melhor do que esperava, e tentou a sua imaginação de ar­tista com a possibilidade de realizar uma série inteira dedicada a esse lugar desolado e inquietante. Deixou a um lado e revelou outra foto, esta de um primeiro plano de um pinheiro jovem que crescia de uma greta aberta no p­avimento de um pátio traseiro durante muito tempo abandonado.

   Essas imagens a fizeram sorrir enquanto as tirava do líquido e as pendurava na corda de secagem. Tinha quase doze mais como essas acima, sobre sua mesa de trabalho, crú testemunhos da obstinação da natu­reza e da loucura da cobiça e a arrogância do homem.

Gabrielle sempre se havia sentido um pouco como uma estrangeira, como uma silenciosa observadora, desde que era uma menina. Ela o atribuía ao feito de que não tinha pais; não tinha família absolutamente, exceto o casal que a tinha adotado quando ela era uma problemática menina de doze anos que passou a vida de orfanato em orfanato. Os Maxwell, um casal de classe média alta que não tinha filhos próprios, compadeceram-se bondosamente dela, mas inclusive sua aceitação tinha sido distante. Gabrielle foi mandada imediatamente ao inter­nato , a acampamentos de verão e, finalmente, a uma universidade fora do estado. Seus pais, os que tinham exercido como tais, morreram jun­tos em um acidente de carro enquanto ela estava longe na universidade.

   Gabrielle não assistiu ao funeral, mas a primeira fotografia de verdade que fez era de duas lápides que se encontravam sob a sombra de um arce no cemitério da cidade, no Mount Auburn. Após, não tinha deixado de fazer fotos.

   A Gabrielle não gostava de lamentar-se por seu passado, assim apagou a luz da habitação escura e se dirigiu para cima para pensar no que fazer para o jantar. Não levava nem dois minutos na cozinha quando soou o timbre da porta.

 

   Jamie se tinha ficado, generosamente, com ela as duas últimas noites para assegurar-se de que Gabrielle estava bem. Ele estava preocupado por ela e se mostrava protetor como o irmão que não tinha tido. Essa manhã, ao partir, ofereceu-se para voltar outra vez, mas Gabrielle lhe tinha insistido em que podia ficar sozinha. A verdade era que necessitava um pouco de solidão e, agora que o timbre da porta voltava a soar, notou certa irritação ante a possibilidade de que não pudesse ficar só tampouco essa noite.

   —Vou em seguida —disse em voz alta do vestíbulo do apartamento.

   Olhou, por puro costume, pela mira da porta mas em vez de encontrar-se com a ondulado arbusto de cabelo loiro do Jamie, Gabrielle viu uma escura cabeça com rasgos impactantes que pertenciam a um homem desconhecido que esperava na entrada. No patamar em frente, justo diante de sua escada de entrada, havia uma luz que reproduzia um an­tigo abajur de gás e seu suave brilho alaranjado envolvia ao homem como com uma capa dourada, como se envolvesse a mesma noite. Esse homem tinha algo que resultava de mau agouro e ao mesmo tempo ca­tivador em seus pálidos olhos cinzas, que agora olhavam diretamente ao círculo de cristal, como se pudesse ver a ela ao outro lado da mira.

   Gabrielle abriu a porta, mas pensou que era melhor não tirar a correia de segurança. O homem se aproximou da abertura e observou a tirante correia que se esticava entre ambos. Quando a olhou aos olhos de novo, sorriu-lhe um pouco, como se lhe parecesse divertido que ela acreditasse poder im­pedir o passo com tanta facilidade no caso de que ele quizesse entrar de verdade.

—A senhorita Maxwell?

   Sua voz resultou uma carícia para todos seus sentidos, como se fora de um rico veludo negro.

-Sim?

 

     —Meu nome é Lucan Thorne. —Essas palavras saíram por entre seus labios com um timbre suave e moderado que, por um momento, acalmou parte da ansiedade que ela sentia. Ao dar-se conta de que ela não dizia nada, ele continuou:

— Soube que você teve algumas dificuldades faz um par de noites na delegacia de polícia. Somente queria passar por aqui para me assegurar de que estava bem.

     Ela assentiu com a cabeça.

     Era evidente que a polícia não a tinha descartado por completo, depois de tudo. Como já fazia dois dias que não tinha notícias deles, Gabrielle não esperava ver ninguém do departamento, apesar da promessa de lhe mandar a alguém para que vigiasse. Tampouco podia estar segura de que esse tipo, de um escuro cabelo liso e brilhante e de facções marcadas, fosse um policial.

   Mas tinha um aspecto bastante sério para ser um policial, pensou, e a parte desse aspecto escuro e perigoso, não parecia ter intenção de lhe fazer nenhum dano. Mas, depois de tudo pelo que tinha passado, Gabrielle pensou que seria inteligente exceder-se em cautela.

—Você tem alguma identificação?

   —É obvio.

   Com um gesto deliberado e quase sensual, ele desdobrou uma fina carteira de pele e a levantou ante a abertura da porta. Fora estava quase com­pletamente escuro e provavelmente foi por isso que Gabrielle necessitou uns segundos para enfocar a vista na brilhante placa de polícia e na foto identificativa que se encontrava a seu lado e que mostrava seu nome.

   —De acordo. Entre, detetive.

   Soltou a correia da porta e logo abriu a porta e lhe deixou entrar. Os ombros dele quase abrangiam a totalidade da entrada. De fato, sua presença pareceu encher todo o saguão. Era um homem grande, alto e de corpo forte, envolto em um comprido abrigo negro; a roupa escura e o cabelo negro e sedoso absorviam a suave luz do abajur que pendurava do teto. Tinha um porte seguro, quase real, e uma expressão grave, como se estivesse mais dotado para dirigir a uma legião de cavalheiros armados que para arrastar-se até o Beacon Hill para dar consolo a uma mulher que sofria alucinações.

 

   —Não acreditei que viesse ninguém. Depois do recebimento que me ofereceram na delegacia de polícia este fim de semana, acreditei que a inteligência de Boston me teria catalogado como a um caso perdido.

   Ele nem o reconheceu nem o negou, simplesmente entrou com passo seguro e tranqüilo na sala de estar e, em silêncio, passeou o olhar por todo o espaço. Deteve-se ante a mesa de trabalho, onde se encontravam as últimas imagens que ela tinha colocado em fileiras. Gabrielle atravessou a habitação detrás dele e observou a reação dele ante seu trabalho. Ele tinha levantado uma sobrancelha escura enquanto estudava as fotografias.

   — São suas ? —lhe perguntou, dirigindo seus pálidos e agudos olhos para ela.

   —Sim —respondeu Gabrielle—. Formam parte de uma série que vou a intitular a Renovação urbana.

   —Interessante.

   Ele voltou a olhar as fotos e Gabrielle se sentiu súbitamente incômoda ante essa resposta indiferente e medida.

   —Somente estou trabalhando com isto agora mesmo... não é nada que possa ser mostrado ainda.

   Ele soltou um grunhido de assentimento sem deixar de observar as fotogra­fias em silêncio.

Gabrielle se aproximou, em um intento de captar melhor a reação dele ou sua ausência de reação.

 

   —Faço muito trabalho por encarrgo na cidade. De fato, é provável que faça umas fotos da casa do governador no Vineyard no fim de mês.

   «te cale», disse a si mesmo. Por que estava tentando impressionar a esse tipo?

   O detetive Thorne não parecia muito impressionado. Sem dizer nada, alargou uma mão e, com dedos muito elegantes para sua profissão, com gesto elegante recolocou duas das imagens em cima da mesa. Inexplicavelmente, Gabrielle imaginou esses compridos e hábeis dedos so­bre sua pele nua, enredados entre seu cabelo, seguindo a forma de sua nuca... Obrigando-a a jogar a cabeça para trás até que esta descansa-se sobre o forte braço dele e esses frios olhos cinzas a tragassem.

   —Bom —disse ela, voltando para a realidade.

   — Suponho que preferirá você ver as fotos que fiz fora do clube na sábado de noite.

   Sem esperar nenhuma resposta, foi até a cozinha e tomou o celular que se encontrava em cima do mármore. Ativou-o, abriu uma das fotos em tela e ofereceu o aparelho ao detetive Thorne.

   —Esta é a primeira foto instantânea que fiz. Tremiam-me as mãos, por isso está um pouco tremida. E a luz do flash esfumou muito os detalhes. Mas se a observa com atenção, verá que há seis figuras escuras aga­chadas no chão. São eles, os assassinos.

Sua vítima é esse vulto que estão maltratando, diante deles.

Estavam-lhe... mordendo. Como animais.

   Os olhos de Thorne se mantiveram fixos na imagem; sua expressão continuou mostrando-se séria, imperturbável. Gabrielle abriu a seguinte fotografia.

   —O flash lhes sobressaltou. Não sei, acredito que deveu lhes cegar ou algo. Quando fiz as seguintes fotos instantâneas, alguns deles se detiveram e me olharam. Não posso distinguir os rasgos de tudo, mas este é o rosto de um deles. Essas estranhas raias de luz são o reflexo de seus olhos. — estremeceu-se ao recordar o brilho amarelado desses olhos malignos e desumanos.

— Me estavam olhando diretamente.

 

   Mais silencio por parte do detetive. Tomou o celular dos dedos de Gabrielle e abriu as seguintes imagens.

   —O que pensa você? —perguntou ela, esperando obter uma com­firmação.

— Você também pode vê-lo, verdade?

—Vejo... algo, sim.

   —Graças a Deus. Seus colegas de delegacia de polícia tentaram me fazer acreditar que estava louca, ou que eu era uma espécie de perdedora drogada que não sabia do que estava falando. Nem sequer meus amigos me acreditaram quando lhes contei o que tinha visto essa noite.

   —Seus amigos —disse ele, com uma expressão deliberadamente meditati­va.

— Quer dizer alguém além do homem com quem você estava na delegacia de polícia... Seu amante?

   —Meu amante? —riu ao ouvi-lo.

— Jamie não é meu amante.

   Thorne levantou a cabeça e apartou o olhar da tela do telefone celular para olhá-la aos olhos.

   —Passou as duas últimas noites com você a sós, aqui, neste a­partamento.

   Como sabia? Gabrielle sentiu uma pontada de irritação ante a idéia de que estava sendo espiada por alguém, embora fosse a polícia, e que provavelmente o tivessem feito mais por suspeitar dela que com in­tenção de protegê-la. Mas ali, em pé ao lado do detetive Lucan Thor­ne, na sala de estar, parte dessa irritação desapareceu e se viu substituído por um sentimento de tranqüila aceitação, de uma sutil e lânguida coo­peração. Estranho, pensou, mas se sentia bastante indiferente ante essa í­deia.

 

   —Jamie ficou comigo um par de noites porque estava preo­cupado por mim depois do que aconteceu este fim de semana. É meu amigo, isso é tudo.

   «Bem.»

   Os lábios de Thorne não se moveram, mas Gabrielle estava segura de ter ouvido sua resposta. Sua voz inaudível, sua complacência ao saber que não se tratava de seu amante, parecia ressonar em algum lugar dentro dela. Possivelmente era seu desejo, pensou. Fazia muito tempo que não tinha nada pare­cido a um namorado, e somente estar ao lado de Lucan Thorne lhe provocava coisas estranhas na mente. Ou, melhor dizendo, em seu corpo.

   Ele a olhava, e Gabrielle sentiu um agradável foco de calor no ventre. Seu olhar a penetrou como penetra o calor, de forma tangível e íntima. De repente, uma imagem se formou em sua mente: ela e ele, nus e em­bolados a rede um com o outro sob a luz da lua, em seu dormitório. Uma foto instantânea quebra de onda de calor a encheu. Sentia os músculos duros dele na ponta dos dedos, o firme corpo dele movendo-se em cima do dela... seu grosso pênis enchendo-a, abrindo-a, explorando dentro dela.

   OH, sim, pensou, quase retorcendo-se sem mover-se de lugar. Jamie tinha ra­zão. Verdadeiramente levava muito tempo de celibato.

   Thorne piscou lentamente; as densas e negras pestanas ocultaram uns tormentosos olhos chapeados. Como a brisa fria acaricia a pele dele, Gabrielle sentiu que parte da tensão de suas pernas se dissipava. O coração lhe pulsava com força; a habitação parecia extranhamente cálida.

   Ele apartou o olhar e girou a cabeça e os olhos de Gabrielle se encon­traram com sua nuca, no ponto em que esta se encontrava com o pescoço de sua camisa de alfaiate. Tinha uma tatuagem no pescoço, ou, pelo menos, parecia-lhe que era uma tatuagem. Uns redemoinhos intrincados e uns símbolos que pareciam geométricos, feitos com tinta em um tom só ligeiramente mais escuro que o de sua pele, desapareciam por debaixo do denso arbusto de cabelo. Ela se perguntou como seria o resto da tatuagem e se esse bonito desenho tinha algum significado especial.

   Sentiu quase uma urgência irrefreável por continuar essas interessantes linhas com os dedos. Possivelmente com a língua.

 

   —Me conte o que disse aos seus amigos sobre o ataque que viu você nessa sala.

   Ela tragou saliva e sentiu que a garganta lhe secava. Maneou a cabeça para voltar a concentrar-se na conversação.

—Sim, de acordo.

   Deus, o que lhe estava passando? Gabrielle ignorou o estranho ritmo que tinha cobrado seu pulso e se concentrou nos sucessos da outra noite. Voltou a contar a história para o detetive, igual ao tinha feito para os dois agentes e, logo, para seus amigos. Contou-lhe todos os detalhes horríveis e ele escutou atentamente, permitindo que ela o contasse tudo sem ser interrompida. Ante a fria aceitação que encontrou em seus olhos, a lembrança que Gabrielle tinha do assassinato, parecia fazer-se mais preciso, como se a lente de sua memória se ajustou e tivesse aumentado os detalhes.

   Ao terminar, viu que Thorne estava voltando a abrir as fotos de seu telefone celular. A expressão de sua boca tinha passado de ser séria a grave.

   —O que você crê que mostram estas imagens exatamente, senhorita Maxwell?

   Ela levantou a vista e se encontrou com o olhar dele, com esses inteli­gente e penetrantes olhos que se cravavam nos seus. Em um instante uma palavra se formou na mente de Gabrielle: uma palavra incrível, ridícula e terroríficamente clara.

   «Vampiros.»

   —Não sei —disse com pouca convicção, levantando a voz por cima do sussurro que sentia em sua própria cabeça.

— Quero dizer, não estou segura do que pensar.

 

   Se o detetive ainda não tinha acreditado que estava louca, acreditaria se pronunciava o nome que não ia da mente e a deixava gelada de terror. Essa era a única explicação que podia encontrar para essa horripi­lante matança que tinha presenciado a outra noite.

«Vampiros?»

   Jesus. Tornou-se louca de verdade.

   —Tenho que levar este aparelho, senhorita Maxwell.

   —Gabrielle —lhe disse ela. Sorriu-lhe e se sentiu estranha ao fazer.

— Você crê que os forenses, ou quem faça este tipo de coisas, serão capazes de limpar as imagens?

   Ele fez uma ligeira inclinação com a cabeça, sem chegar a assentir, e logo se meteu o celular dela no bolso.

   —O devolverei amanhã ao final da tarde. Estará você em casa?

   —Claro.

   Como era possível que ele fora capaz de fazer que uma simples per­gunta parecesse uma ordem?

   —Agradeço-lhe que tenha vindo, detetive Thorne. Foram dias difíceis.

   —Lucan —disse ele, observando o rosto dela um momento.

   — Me chame Lucan.

   Parecia que o calor que emanava de seus olhos chegavam até ela, ao mesmo tempo que via neles uma estóica compreensão, como se esse homem tivesse visto horrores maiores dos que ela poderia comprender nunca. Não podia encontrar uma palavra para definir a emoção que a embargava nesse momento, mas lhe tinha acelerado o pulso e sentiu que a habitação se esvaziou de todo ar. Ele continuava olhando, esperando, como se esperava que ela satisfizesse imediatamen­te sua petição de que pronunciasse seu nome.

 

   —De acordo..., Lucan.

   —Gabrielle —respondeu ele, e ouvir o som de seu nome nos lábios dele a fez tremer e sentir uma aguda consciência de si mesmo.

   Algo que havia na parede, detrás dela, chamou a atenção dele e dava­gar a vista para o ponto onde uma das fotografias mais celebradas de Gabrielle estava pendurada. Apertou os lábios ligeiramente em um gesto sensual que delatava diversão e possivelmente certa surpresa. Gabrielle se deu a volta para olhar a imagem de um parque do interior da cidade que estava gelado e se via desolado, cobeto por uma grosa capa de neve típica do mês de dezembro.

   —Não gosta de meu trabalho —disse ela.

   Ele meneou um pouco a cabeça.

   —Encontro-o... intrigante.

Ela sentiu curiosidade agora.

   —Por que?

   —Porque você encontra beleza nos lugares mais insólitos —disse ao cabo de um comprido momento, com a atenção agora dirigida para ela.

   — Suas fotos estão cheias de paixão.

   —Mas?

   Para sua perplexidade, ele alargou a mão e lhe passou um dedo pela linha da mandíbula.

   —Não há pessoas nelas, Gabrielle.

 

   —É obvio que...

   Ela tinha começado a negá-lo, mas antes de que as palavras lhe saissem dos lábios, deu-se conta de que ele tinha razão. Dirigiu o olhar a cada uma das fotos que tinha emolduradas em seu apartamento e repa­sou mentalmente todas as que se encontravam penduradas em galerias de arte, museus e coleções privadas de toda a cidade.

   Ele tinha razão. As imagens, fosse qual fosse o tema, sempre eram lugares vazios, lugares solitários.

   Nenhuma delas continha nem um só rosto, nem sequer a sombra de vida humana.

   —OH, Meu deus —sussurrou, aniquilada ao dar-se conta disso.

Em uns poucos instantes, esse homem tinha definido seu trabalho como nunca ninguém o tinha feito antes. Nem sequer ela se deu conta da verdade tão evidente de sua arte, mas Lucan Thorne, de forma inex­plicavel, tinha-lhe aberto os olhos. Era como se tivesse olhado direta­mente em sua alma.

—Tenho que ir agora —disse ele, dirigindo-se já para a porta.

Gabrielle lhe seguiu, desejando que ficasse mais tempo. Possivelmente voltasse mais tarde. Esteve a ponto de lhe pedir que o fizesse, mas se obrigou a si mesmo a manter um mínimo de compostura. Thorne já quase tinha cruzado a porta quando, de repente, deteve-se no pequeno espaço do saguão. Seu corpo grande se encontrava muito perto do dela, mas a Gabrielle não importou. Nem sequer se atreveu a respirar.

—Acontece algo?

   As magras fossas nasais dele se alargaram quase imperceptivelmente.

   —Que tipo de perfume leva você?

 

   Essa pergunta a pôs nervosa. Tinha sido tão inesperada, tão íntima. Notou que lhe ruborizavam as bochechas, apesar de que não tinha nem idéia de por que.

   —Não levo perfume. Não posso fazê-lo. Sou alérgica.

   —De verdade?

Os lábios dele desenharam um sorriso forçado, como se seus dentes se incharam muito dentro de sua boca. Inclinou-se para ela, lentamente, e inclinou a cabeça até que ficou muito perto do pescoço dela. Gabrielle ouviu o áspero som da respiração dele —e notou a carícia desta sobre sua pele, fria primeiro e quente logo— enquanto ele se enchia os pulmões com seu aroma e o soltava pelos lábios. Sentiu o pescoço muito quente e tivesse jurado que notava o rápido roce de seus lábios sobre a veia de seu pescoço, que se alargava em um descompassado pulso sob a influência dessa cabeça que se aproximava tão íntima­mente a ela. Ouviu um grunhido muito baixo perto de seu ouvido e algo que parecia uma maldição.

   Thorne se afastou imediatamente, sem olhá-la aos olhos. Tampouco ofereceu nenhuma desculpa nem nenhuma desculpa pelo estranho comportamento.

—Você cheira como o jasmim —foi o único que lhe disse.

   E logo, sem olhá-la, atravessou a porta e penetrou na escuridão da rua.

   Era um engano procurar a essa mulher.

   Lucan sabia, sabia inclusive enquanto esperava nos degraus do apartamento de Gabrielle Maxwell essa mesma tarde e lhe mostrava uma placa de detetive e a foto do cartão de identificação. Não era dele. A verdade era que se tratava somente de uma manipulação hipnótica que obrigou a acreditar nessa mente humana que ele era quem dizia ser.

   Era um truque muito singelo para os mais velhos de sua raça, como ele, era um truque que poucas vezes se rebaixava a utilizar.

 

   E Apesar disso, ali estava ele outra vez, um pouco mais tarde que meia­ noite, comprometendo seu código de honra um pouco mais enquanto inten­tava abrir a correia de segurança da porta de entrada. Encontrou que não estava posta. Sabia que não o estaria: ele a tinha sugestionado quando falava com ela essa tarde, ao lhe demonstrar o que desejava fazer com ela e ao encontrar-se com sua resposta de surpresa, embora receptiva, em seus lânguidos olhos marrons.

Tivesse podido tomá-la nesse momento. Lhe teria acolhido de bom grau, estava seguro disso, e o fato de estar seguro do intenso prazer que tivessem compartilhado nesse processo quase tinha sido sua perdição. Mas a obrigação de Lucan se devia, em primeiro lugar, a sua raça e aos guerreiros que se uniram a ele para combater o crescente problema dos renegados.

   Era uma pena que Gabrielle tivesse presenciado a matança da dis­coteca e tivesse informado isso a polícia e a seus amigos antes de que tivesse podido apagar sua memória, mas além disso tinha conseguido tomar umas fotografias. Eram umas fotografias com grão e quase ilegíveis, mas resultavam igual a ervas daninhas. Tinha que proteger essas imagens antes de que ela pudesse mostra-las a alguém mais. Ele o tinha feito bem nesse aspecto, pelo menos. De fato, teria que encontrar-se no laboratório com o Gideon para identificar ao valentão que tinha escapado,

ou teria que estar registrando a cidade, armado, com Dante, Rio, Conlan e outros, À caça de outros irmãos de raça doentes. E isso era o que estaria fazendo quando tivesse terminado com a última parte do assunto relacionado com a encantada Gabrielle Maxwell.

   Lucan penetrou no interior do velho edifício de tijolo no Willow Street e fechou a porta detrás dele. O incitante aroma de Gabrielle lhe alagava o olfato e lhe atraía para ela igual ao tinha feito essa noite fora da discoteca e na delegacia de polícia , no centro da cidade. Percorreu seu apartamento em silêncio, atravessou o piso principal e subiu as escadas até a habitação do piso de acima. As clarabóias que havia no teto abovedado deixavam entrar a pálida luz da lua que caía com suavidade sobre as elegantes curva do corpo de Gabrielle. Dormia nua, como se esperasse sua chegada. Tinha as largas pernas enredadas nos lençóis e o cabelo lhe pulverizava, ao redor da cabeça, por cima do travesseiro e formava umas luxuriosas ondas de bronze.

 

   Seu aroma lhe envolveu, doce e sedutor, lhe provocando dor nos dentes.

   Jasmim, pensou, com expressão sardônica: uma flor exótica que abre suas fragrantes pétalas somente sob a influência da noite.

   «te abra para mim agora, Gabrielle.»

   Mas decidiu que não ia seduzi-la, não o faria dessa maneira. Essa noite somente queria provar um bocado, o justo para satisfazer sua curiosidade. Isso era quão único ia permitir se. Quando houvesse termi­nado, Gabrielle não recordaria lhe haver conhecido, tampouco recordaria o horror que tinha presenciado no beco fazia umas noites.

   Seu próprio desejo tinha que esperar.

   Lucan se aproximou dela e deixou descansar o quadril no colchão, ao seu lado. Acariciou a suavidade acesa do cabelo dela. Passou os dedos pela esbelta linha de um de seus braços.

   Ela se moveu, gemeu com doçura, reagindo ao seu ligeiro contato.

   —Lucan —murmurou, dormitada, não de tudo acordada, mas incons­cientemente segura de que ele se encontrava na habitação com ela.

   —É só um sonho —sussurrou ele, assombrado por ouvir seu nome nos lábios dela apesar de que não tinha utilizado nenhuma artimanha vampiírica para fazer que o pronunciasse.

   Ela suspirou profundamente e se apertou contra ele.

   —Sabia que voltaria.

   —Sabia?

 

   —Sim. —Foi somente um ronrono que lhe saiu da garganta, rouco e erótico. Mantinha os olhos fechados e sua mente ainda estava apanhada no labirinto dos sonhos.

— Queria que voltasse.

     Lucan sorriu por ouvir isso e lhe acariciou uma sobrancelha com a ponta dos dedos.

—Não me tem medo, preciosa?

     Ela fez um rápido movimento negativo com a cabeça e apertou a face contra a palma da mão dele. Tinha os lábios ligeiramente entre­abertos e os pequenos dentes alvos brilhavam sob a luz que caía enviesada do teto. Seu pescoço era elegante, de linha orgulhosa, como uma coluna real de alabastro que se levantasse dos frágeis ossos dos ombros. Que sabor tão doce devia ter, que suave tinha que ser sob sua língua.

   E seus peitos... Lucan não pôde resistir a esse escuro mamilo , que aparecia desde debaixo do lençol que lhe envolvia o torso de forma caprichosa. Jogou um pouco com o pequeno casulo entre os dêdos, atirou dele brandamente e quase grunhiu de desejo ao notar que se endu­reciam sob seu tato.

Ele também se havia posto duro. Lambeu-se os lábios, sentindo um de­sejo crescente, ansioso por possuí-la.

   Gabrielle se retorceu com um gesto lânguido, enredada entre as cobertas. Lucan apartou com suavidade o lençol de algodão e a deixou completa­mente nua ante ele. Era deliciosa, tal e como sabia que seria. Peque­na, mas forte, seu corpo era ágil e jovem, flexível e formoso. Uns fir­mes músculos davam forma a suas elegantes pernas; suas mãos de artista eram largas e expressivas, e se moveram com um gesto inconsciente momentos atrás Lucan lhe passou um dedo por cima do esterno para a cavidade do ventre. Ali sua pele era como o veludo e estava cálida, muito tentadora para resistir.

Lucan se colocou em cima dela na cama, e lhe passou as mãos por debaixo do corpo. Levantou-a, fazendo que se arqueasse para ele em cima do colchão. Beijou a suave curva de seu quadril e logo jogou com a língua por cima do pequeno vale de sua entre pernas. Ela agüentou a respira­ção e ele penetrou nessa pequena concavidade: a fragrância do desejo lhe alagou os sentidos.

 

   —Jasmim —disse ele com voz rouca contra a pele cálida dela. A aca­riciou com os dentes e descendeu um pouco mais.

   O gemido de prazer que ela deixou escapar quando a boca dele invadiu seu sexo despertou uma violenta corrente de luxúria por todo o corpo. Já estava duro e ereto; o pênis lhe pulsava contra a barreira de suas roupas. Notava a umidade dela em seus lábios e sua fenda lhe envolvia e lhe queimava a língua. Lucan a sorveu igual a tivesse sorvido um néctar, até que o corpo dela se convulsionou com a chegada do orgasmo. E continuou lambendo-a e voltou a conduzi-la até o climax, e logo outra vez.

   Ela ficou inerte em seus braços, relaxada e tremente. Lucan também tremia, igual as suas mãos enquanto voltava a depositá-la com sua­vidade em cima do colchão. Nunca tinha desejado tanto a uma mulher. Deu-se conta de que queria algo mais ao notar, divertido, que lhe surgia o impul­sou de protegê-la. Gabrielle respirava agitadamente e com suavidade momentos ­depois do último orgasmo remetia, e se enroscou tombada sobre um flanco, inocente como uma criança.

   Lucan baixou o olhar para ela e a observou com fúria silenciosa, lu­tando contra a força de seu desejo. A dor surda das presas a­largando-se das gengivas o fazia apertar os lábios. Tinha a língua seca e o desejo formava um nó em seu ventre. A lascívia de sangue e o desejo do encher-se agonizou a vista e lhe envolveu como uns tentáculos sedutores. As pupilas lhe dilataram como as de um gato em seus pálidos olhos.

   «Toma-a», incitou-lhe essa parte dele que era desumana, de outro mundo.

«É tua. Toma-a.»

   Somente a provaria: isso era o que se prometeu. Não lhe faria mal, somente aumentaria o prazer dela e se daria um pouco a si mes­mo. Ela nem sequer recordaria esse momento quando chegasse o amanhecer. Como sua anfitriã de sangue, lhe ofereceria um substancioso gole de vida e quando despertasse, mais tarde, sonolenta e saciada, faria-o felizmente ignorante da causa.

 

   Esse era um pequeno ato de misericórdia, disse a si mesmo, apesar de que todo seu corpo se esticava pelo desejo de alimentar-se.

   Lucan se inclinou em cima do corpo lânguido de Gabrielle e com ternura lhe apartou as ondas de cabelo que lhe cobriam o pescoço. Sentia seu próprio coração que pulsava com força no peito e que lhe urgia a satisfazer a sede que lhe queimava. Somente a provaria, nada mais. Só por prazer. Aproximou-se com a boca aberta, os sentidos alagados pelo penetrante aroma de fêmea. Pressionou os lábios contra a calidez dela, colocou a língua no ponto no qual seu delicado pulso pulsava. Suas presas arranharam a suavidade de veludo do pescoço dela e também lhe pulsavam, como outra parte exigente de sua anatomia.

   E no instante mesmo em que suas presas afiadas foram penetrar a frágil pele dela, sua aguda vista reparou em uma pequena marca de nasci­mento que tinha justo detrás da orelha.

   Quase invisível, a diminuta marca de uma lágrima caindo na concha de uma lua crescente fez que Lucan se apartasse surpreso. Esse símbolo, tão estranho entre as mulheres humanas, somente significava uma coisa...

   Companheira de raça.

   Separou-se da cama como tocado por um raio e emitiu uma sibilante maldição na escuridão. O desejo pela Gabrielle ainda pulsava dentro dele apesar de que tentava resolver as conseqüências do que ha­via estado fazendo podia provocar em ambos.

   Gabrielle Maxwell era uma companheira de raça, uma humana que tinha umas características de sangue e de DNA únicas e complementares com os de sua raça. Ela e as poucas que havia como ela eram as rainhas entre as fêmeas humanas. Para a raça de Lucan, uma raça formada somente por homens, esta mulher era adorada como uma deusa, como uma doadora de vida, destinada a vincular-se por sangue e a levar a semente de uma nova geração de vampiros.

 

   E em sua imparavel luxúria por saboreá-la, Lucan tinha estado a ponto de tomá-la para si.

 

Gabrielle podia contar com uma só mão os sonhos erótico que tinha tido durante toda sua vida, mas nunca tinha experiente nada tão quente —por não dizer real— como a fantasia de orgia sexual que tinha desfrutado da noite anterior, cortesia de um Lucan Thorne virtual. Seu fôlego tinha sido a brisa noturna que penetrava pela janela aberta de seu dormitório do piso de acima. Seu cabelo era a escuridão de obsidiana que enchia as clarabóias, sobre sua cama. Seus olhos chapeados, o brilho pálido da lua. Suas mãos eram as ligaduras de seda de sua colcha, que enredavam seus pulsos e tornozelos, abriam seu corpo debaixo do dele e a sujeitavam com força.

   Sua boca era puro fogo que lhe queimava cada centímetro da pele e a consumia como uma chama invisível. «Jasmim», tinha-a chamado ele, e o suave som dessa palavra vibrava contra a umidade de sua pele, o quente fôlego dele formava redemoinhos os suaves cachos de pêlo de sua entre perna.

   Ela se tinha retorcido e tinha gemido dominada pela habilidade da língua dele, que a tinha submetido a uma tortura que ela desejava que fosse infinito. Mas tinha terminado, e muito logo. Gabrielle se tinha despertado em sua cama, só na escuridão, pronunciando quase sem fôlego o nome de Lucan, com o corpo esgotado e inerte, dolorido pelo desejo.

   Ainda lhe doía o desejo e o que mais lhe preocupava era o fato de que o misterioso detetive Thorne lhe tivesse dado plantão.

   Não era que seu oferecimento de passar por seu apartamento essa noite fosse nada que se parecesse com um encontro, mas ela tinha estado esperando voltar a lhe ver. Tinha interesse em saber mais a respeito dele dado que se havia mostrado tão inclinado a decifrá-la com um simples olhar. Além de conseguir algumas respostas mais sobre o que tinha presenciado essa noite fora da discoteca, Gabrielle tinha desejado conversar de algo mais com Lucan, possivelmente tomar um pouco de vinho e algo para jantar. O fato de que se depilou as pernas duas vezes e de que se pôs uma roupa interior negra e atrativa sob a camisa de seda de manga larga e dos escuros jeans era puramente acidental.

 

     Gabrielle lhe tinha esperado até bem passadas as nove e então abandonou a idéia e chamou Jamie para ver se ele queria jantar com ela no centro da cidade.

     Agora, sentado diante dela, ao outro lado da mesa, nessa sala cheia de janelas do bistro Ciao Bela, Jamie deixou na mesa a taça de pinot noire e olhou o prato de frutos do mar que ela quase não havia tocado.

     —Estiveste enjoando a mesma parte da comida pelo prato durante os últimos dez minutos, carinho. Você não gosta?

     —Sim, é genial. A comida sempre é incrível aqui.

     —Então, é a companhia o que te desagrada?

     Ela levantou o olhar para ele e negou com a cabeça.

   —Absolutamente. Você é meu melhor amigo, já sabe.

   —Certo —assentiu ele.

— Mas não me posso comparar com seu sonho erótico.

   Gabrielle se ruborizou ao dar-se conta de que um dos clientes que se encontrava na mesa do lado olhava para eles.

   —Às vezes é horrível, sabe? —disse a Jamie em um sussurro.

   — Não deveria haver lhe contado isso.

   —OH, carinho. Não se sinta incômoda. Se me tivessem dado uma moeda cada vez que me despertei excitado, chiando o nome de algum cara sexy...

   —Eu não chiei seu nome. —Não, tinha-o pronunciado com o folego entrecortado e em um gemido, tão enquanto estava na cama como enquanto estava na ducha ao cabo de pouco tempo, ainda incapaz de tirar do corpo a sensação de Lucan Thorne.

   — Era como se ele estivesse ali, Jamie. Justo ali, em minha cama, tão real que eu podia lhe tocar.

   Jamie suspirou.

   —Algumas garotas têm toda a sorte do mundo. A próxima vez que te encontre com seu amante em sonhos, seja generosa e me manda isso quando tenha terminado.

   Gabrielle sorriu, sabendo que seu amigo não andava escasso no apar­tado romântico. Durante os últimos quatro anos tinha tido uma feliz relação monógama com o David, um vendedor de antiguidades que se encontrava nesses momentos fora da cidade por motivos de trabalho.

   —Quer saber o que é o mais estranho disso tudo , Jamie? Aos levantar, esta manhã, a porta de entrada não estava fechada com chave.

   — E?

   —E você me conhece, nunca a deixo aberta.

   As cuidadas e depiladas sobrancelhas do Jamie se juntaram, franzindo o c­enho.

   —O que quer dizer, que cre que esse cara forçou a porta de sua casa enquanto dormia?

   —Parece uma loucura, sei. Um detetive da polícia que vem a minha casa a meia-noite para me seduzir. Devo estar perdendo a cabeça.

   Disse-o com tom despreocupado, mas não era a primeira vez que se questionava em silêncio sua própria prudência. Não era a primeira vez nem muito menos. Com gesto ausente, brincou um momento com a manga da blusa enquanto Jamie a observava. Ele se sentia preocupado nesse mo­mento, o qual somente aumentava a inquietação que Gabrielle sentia sobre o tema de sua possível instabilidade mental.

 

—Olhe, carinho. Passaste muita tensão do fim de semana. Isso pode provocar coisas estranhas na cabeça. Estiveste preocupada e confundida. Possivelmente se esqueceu de fechar a porta.

—E o sonho?

   —Somente isso... Um sonho. Somente se trata de sua mente curvada que tenta tranqüilizar-se, relaxar-se.

   Gabrielle baixou a cabeça em um gesto automático de afirmação.

   —Exato. Estou segura de que só é isso.

   Se pudesse aceitar que a explicação de tudo era tão simples como seu amigo fazia que parecesse... Mas uma sensação na boca do estômago rechaçava a idéia de que ela tivesse esquecido de fechar a porta. Ela nunca faria uma coisa assim, simplesmente, por estressada e confundida que estivesse.

     —Né. —Jamie alargou o braço por cima da mesa para tomar a mão.

— Vais estar bem, Gab. Já sabe que pode me chamar a qual­quer hora, verdade? Estarei contigo, sempre o estarei.

   —Obrigado.

     Lhe soltou a mão, tomou o garfo e fez um gesto em direção a seu fruto do mar.

     —Bom, vais comer um pouco mais ou posso começar a limpar seu prato agora?

     Gabrielle trocou seu prato meio cheio pelo dele, completamente vaziu.

—Tudo para ti.

 

   Enquanto Jamie se concentrava na comida fria, Gabrielle apoiou o queixo em uma mão e tomou um comprido gole de sua taça de vinho. Enquanto bebia, brincou com os dedos em cima das ligeiras marcas que descobriu no pescoço essa mesma manhã depois de tomar banho. A porta aberta não era o mais estranho que se encontrou essa manhã: as duas marca idênticas que se viu debaixo da orelha se levaram o prêmio, sem dúvida nenhuma.

   Essas pequenas perfurações não tinham sido o bastante profundas p­ara lhe transpassar a pele, mas aí estavam. Havia duas, a uma distância equita­tiva, no ponto onde o pulso lhe pulsava com mais força quando o apal­pava com os dedos. Ao princípio se disse que possivelmente havia se arranado a si mesmo enquanto dormia, possivelmente a causa do sonho estranho que tinha tido.

   Mas, entretanto, essas marcas não pareciam arranhões. Pareciam... outra coisa.

   Como se alguém, ou algo, tivesse estado a ponto de lhe morder a caró­tida.

   Uma loucura.

   Isso era, e tinha que deixar de pensar dessa maneira antes de fazer-se mais mal a si mesmo. Viu-se obrigada a centrar-se e a deixar de recrear-se em fantasias delirantes sobre visitantes a meia-noite e monstros de filme de terror que não era possível que existissem na vida real. Se não tomava cuidado, acabaria como sua mãe biológica.

   —OH, Meu deus, me dê uma bofetada agora mesmo porque sou um com­pleto e profundo imbecil —exclamou Jamie de repente, interrompendo seus pensamentos.

   — Continuo esquecendo-me de lhe dizer isso ontem recebi uma chamada na galeria sobre suas fotografias. Um peixe gordo do centro da cidade está interessado em uma amostra privada.

   —Sério? De quem se trata?

Ele se encolheu de ombros.

 

   —Não sei, carinho. A verdade é que não falei com o possível compra­dor, mas a partir da atitude estirada do ajudante do tipo, diria que seja quem é seu admirador, ele ou ela— nada na abundância do dinheiro. Tenho uma entrevista em um dos edifícios do distrito financeiro amanhã de noite. Falo-te de um escritório em uma cobertura, querida.

   —OH, Meu deus —exclamou ela com incredulidade.

—Acredita. Super bom, amiga. Muito em breve será muito para um p­equeno vendedor de arte como eu —brincou ele,   compartilhando a excitação com ela.

   Era difícil não sentir-se intrigada, especialmente depois de tudo o que lhe tinha passado durante os últimos dias. Gabrielle tinha conseguido uns fiéis e respeitáveis admiradores e ganhou uns quantos bons elogios por seu novo trabalho, mas uma amostra privada para um compra­dor desconhecido era o máximo.

—Que peças te pediu que levasse?

   Jamie levantou a taça de vinho e brindou com a dela com um gesto bur­lesco de saudação.

   —Todas, senhorita Importante. Cada uma das peças da coleção.

   No telhado do um velho edifício de tijolos do ocupado distrito dos teatros da cidade, a lua se refletia na risada letal de um vampiro embelezado de negro. Agachado em sua posição perto da beirada, o gue­rreiro da raça girou a escura cabeça e levantou uma mão para fazer um sinal.

     «Quatro renegados. Uma presa humana se dirige diretamente para eles.»

     Lucan lhe dirigiu um gesto afirmativo com a cabeça a Dante e se afastou da saída de emergência do quinto piso, que tinha sido sua posição de vigilância durante a última meia hora. Baixou até a rua de abaixo com um ágil movimento, aterrissando em silêncio, como um gato. Levava uma dupla folha de combate nas costas que lhe sobressaía pelos ombros como os ossos das asas de um demônio. Lucan desencapou a arma de titânio quase sem emitir nenhum som e penetrou nas sombras da estreita rua lateral para esperar os acontecimentos dessa noite.

 

   Eram ao redor das onze, várias mais tarde que a hora em que deveria ter passado pelo apartamento de Gabrielle Maxwell para lhe devolver o telefone celular, tal e como lhe disse que o faria. O aparelho ainda estava em posse de Gideon, no laboratório técnico, que estava processando as imagens para as contrastar com a Base de dados de Identifica­ção Internacional da Raça.

   Quanto a Lucan, não tinha nenhuma intenção de devolver o tele­fone celular a Gabrielle, nem em pessoa nem de nenhuma outra maneira. As imagens do ataque dos renegados não tinham que estar em mãos de nenhum ser humano, e depois da decepção que se levou no dormi­tório dela, quanto mais longe estivesse dessa mulher, melhor.

   «Uma maldita companheira de raça.»

   Deveria havê-lo sabido. Agora que o pensava, ela tinha certas carac­terísticas que deveriam lhe haver dado a pista disso desde o começo. Como sua habilidade de ver através do véu do controle mental vampírico que enchia essa noite a sala de baile da discoteca. Ela tinha visto os renegados —ávidos de sangue no beco, e nas imagens in­decifráveis do telefone celular— quando outros seres humanos não os havia podido ver. Logo, em seu apartamento, tinha demonstrado que tinha resistência ante a sugestão mental de Lucan para dirigir seus pensa­mentos, e ele suspeitava que se tinha sucumbido, tinha-o feito mais por causa de um desejo consciente do prazer que ele supunha para ela que por nenhuma outra coisa.

   Não era nenhum secredo que as fêmeas humanas com o código genético único de companheiras de raça possuíam uma inteligência aguda e uma saúde perfeita. Muitas delas tinham uns assombrosos talento paranormal que aumentariam quando a companheira de raça se unisse por sangue com um macho vampiro.

   Quanto a Gabrielle Maxwell, parecia possuir o dom de ter uma vista especial que lhe permitia ver o que o resto de seres humanos não podia ver, mas até onde chegava essa capacidade de visão era algo que ele não podia adivinhar. Lucan queria sabê-lo. Seu instinto de guerreiro exigia chegar ao fundo do assunto sem nenhuma demora.

 

   Mas envolver-se com essa mulher, da forma que fosse, era o último que ele necessitava.

   Então, por que não podia tirar-se de cima seu doce aroma, a sua­vidade de sua pele... sua provocadora sensualidade? Odiava o fato de que essa mulher tivesse despertado nele tal fragilidade, e seu estado de ânimo atual dificilmente melhorava pelo fato de que todo seu corpo doía pela necessidade de alimentar-se.

   O único ponto claro essa noite era o constante ritmo dos saltos das botas dos renegados no pavimento, em algum lugar perto da entrada da rua lateral, que se dirigiam para ele.

   O ser humano girou a esquina: encontrava-se a vários passos a frente deles, e era um homem. Jovem, saudável, vestia uma calça negra e alvo e uma túnica branca manchada que cheirava a cozinha de restaurante e a um suor repentino de ansiedade. O cozinheiro olhou por cima do ombro e viu que os quatro vampiros foram ganhando terreno. Um palavrão pronunciado em tom nervoso e atravessou a escuridão.

O humano voltou a girar a cabeça e caminhou mais depressa, com os punhos apertados e ambos grudado no corpo e os olhos muito abertos e cravados na estreita greta do asfalto que havia sob seus pés.

     —Não faz falta que corra, homenzinho —lhe provocou um dos Rene­gados em um tom rouco como o som da areia fina contra o chão.

     Outro deles emitiu um chiado agudo e se colocou a cabeça de seus três companheiros.

     —Sim, não te escape agora. Tampouco é que vás chegar muito longe.

 

     As risadas dos renegados ressonaram nos edifícios que flanqueavam a estreita rua.

   —Merda —sussurrou o ser humano quase sem respiração. Não se voltou somente continuou para frente a passo rápido, a ponto quase de lançar-se a uma frenética, mas inútil, carreira.

   À medida que o aterrorizado ser humano lhe aproximava, Lucan saiu da escuridão dando um passo e ficou em pé com as pernas abertas com os braços abertos a ambos os lados de seu corpo, bloqueou a rua com seu corpo ameaçador e suas espadas as gema. Dirigiu um frio sorriso aos renegados com as presas ameaçadoras, antecipando a luta que se morava.

—Boa tarde, senhoritas.

   —OH, Jesus! —exclamou o ser humano. Deteve-se de forma brusca e olhou a Lucan o rosto com expressão de horror. Os joelhos cederam e caiu no chão,

   — Merda!

   —Te levante. —Lucan lhe dirigiu um breve olhar enquanto o jovem se esforçava por ficar em pé.

— Vai daqui.

   Esfregou uma das afiadas folhas contra a outra diante dele e encheu a rua em sombras com o áspero som metálico do aço endurecido e letal. Detrás dos quatro renegados, Dante caiu ao asfalto e se agachou antes de levantar seu metro noventa e oito de altura. Não levava nenhuma espada, mas ao redor da cintura levava um cinturão de pele no qual levava sujeitas uma série de armas de mão letais, entre elas um par de folhas curvadas e afiadas como folhas de barbear que se convertiam em uma extensão infernal de suas mãos, incrivelmente rápidas. Malebranche ou prolongações diabólicas as chamava, e efetivamente eram umas garras do diabo. Dante as teve colocadas nas mãos em um momento: era um vampiro que sempre estava a ponto para entrar em um combate corpo a corpo.

   —OH, Meu deus —gritou o ser humano com voz trêmula ao dar-se conta do perigo que lhe rodeava. Olhou a Lucan com a boca aberta e, com mãos trementes, rebuscou entre suas roupas tirou uma carteira do bolso traseiro da calça e a atirou ao chão.

— Toma-a, cara! Pode ficar mas não me mate, suplico-lhe isso!

 

   Lucan manteve os olhos fixos nos quatro renegados, que nesses mo­mentos estavam tomando posições e preparavam as armas.

   —Te largue daqui. Agora.

   —É nosso —vaiou um dos renegados. Uns olhos amarelos se cravaram fixamente em Lucan com puro ódio, as pupilas se reduziram a duas famintas ranhuras verticais. De suas largas presas lhe gotejava a saliva, outra prova do grande vício do vampiro pelo sangue.

   Ao igual que os seres humanos podiam acabar dependendo de um poderoso narcótico, a sede de sangue também era destrutivo para a raça. A fronteira entre a necessidade de satisfazer a fome e a constante overdose de sangue se cruzava com facilidade. Alguns vampiros entra­vam nesse abismo de forma voluntária, enquanto que outros sucumbiam a essa enfermidade por inexperiência ou por falta de disciplina pessoal. Se chegava muito longe, e durante muito tempo, um vampiro se convertia na categoria de renegado, igual a esses ferozes monstros que grunhiam frente a Lucan nesses momentos.

   Ansioso por convertê-los em cinzas, Lucan juntou com um golpe seco as duas folhas e cheirou a faísca de fogo que se criou quando os dois aços se encontraram.

   O ser humano ainda se encontrava ali, atordoado pelo medo, diri­gindo primeiro a cabeça para os renegados, que avançavam para ele, e agora para Lucan, que lhes esperava com atitude inquebrável. Esse mo­mento de dúvida ia custar lhe a vida, mas Lucan apartou esse pensamento com frieza. O ser humano não era assunto dele. Quão único importava era eliminar a esses chupadores aditivos de sangue e ao resto dos doentes de sua raça.

   Um dos renegados se passou uma mão suja por cima dos lábios babantes.

—Te aparte, idiota. Deixa que nos alimentemos.

 

   —Esta noite não —grunhiu Lucan.

   — Não em minha cidade.

   —Sua cidade? —O resto deles se burlou e o renegado que ia em cabeça cuspiu no chão, Aos pés de Lucan.

— Esta cidade nos per­tenece . Dentro de muito pouco, possuiremo-la por completo.

   —Exato —acrescentou outro dos quatro.

— Assim parece que é você quem entrou em um território alheio.

   Finalmente, o ser humano recuperou certa inteligência e começou a reti­rar-se, mas não chegou muito longe. Com uma velocidade incrível, um dos renegados alargou uma mão e agarrou ao homem pela garganta. Ele levantou do chão e lhe segurou no ar: as botas altas do homem ficaram a dois centímetros do chão. O ser humano grunhiu e suplicou, lu­tando com ferocidade enquanto o renegado lhe apertava o pescoço com mais força, lhe estrangulando lentamente com a mão nua. Lucan o ob­servou, imperturbável, inclusive quando o vampiro deixou cair sua retorcida presa e lhe fez um buraco no pescoço com os dentes.

   Pela extremidade do olho, Lucan viu que Dante se aproximava sigilosamente aos renegados por detrás. Com as presas estendidas, o guerreiro se lambeu os lábios, ansioso por entrar na tarefa. Não ia sentir se defrau­dado. Lucan atacou primeiro, e logo a rua explodiu com um estrondo de metal e de ossos quebrados.

   Enquanto Dante lutava como um demônio saído do inferno —com as diabólicas folhas extensíveis cintilando a cada movimento, soltando gritos de guerra que rasgavam a noite—, Lucan manteve um frio controle e uma precisão letal. Um a um, os quatro renegados sucumbiram sob os golpes de castigo dos guerreiros. O beijo das folhas de titânio se expandia como um veneno a toda velocidade pelo corrompido sistema sangüíneo dos renegados, acelerando sua morte e provocando as rá­pidas mudanças nos estados de decomposição característicos da morte dos renegados.

   Quando tiveram terminado com seus inimigos, quando seus corpos se reduziram de carne a osso e de osso a cinza fumegante, Lucan e Dante foram ver os restos do outro açougue da rua.

   O ser humano estava imovel e sangrava profundamente por uma ferida que tinha na garganta.

   Dante se agachou ao lado do homem e cheirou seu destroçado corpo.

—Está morto. Ou o vai estar dentro de um minuto.

   O aroma do sangue derramado encheu as fossas nasais de Lucan com a força de um murro no ventre. Suas presas, estendidas já por causa da ira, agora pulsavam pelo desejo de alimentar-se. Baixou a vista e observou com desgosto ao humano moribundo. Apesar de que tomar o sangue era necessário para ele, Lucan desprezava a idéia de aceitar os refugos dos renegados, tivessem a forma que tivessem. Preferia conseguir o seu s­ustento dos serviçais anfitriões que ele mesmo elegia ali onde podia, apesar de que esses escassos bocados somente conseguiam despertar uma fome mais profunda.

   Antes ou depois, todo vampiro tinha que matar.

   Lucan não tentava negar sua natureza, mas nas ocasiões em que matava, o fazia seguindo sua própria eleição, seguindo sua próprias re­gras. Quando procurava uma presa, elegia principalmente criminosos, tra­ficantes de droga, assassinos e outra gente de má vida. Era judicioso e eficiente e nunca matava pelo prazer de fazê-lo. Todos os da raça se­guiam um código de honra similar; isso era o que lhes distinguia de seus irmãos os renegados, que se tinha separado deles ao rebe­lar-se a essa lei.

   Sentiu que lhe esticava o ventre: o aroma do sangue voltou a fazer-se presente em suas fossas nasais. A saliva lhe começou a gotejar da boca ressecada.

   Quando se tinha alimentado pela última vez?

   Não podia recordá-lo: fazia bastante tempo. Vários dias, pelo menos, e não o suficiente para que lhe durasse. Tinha pensado acalmar parte da fome —tão carnal como de sangue— com a Gabrielle Maxwell a outra noite, mas essa idéia tinha tomado um giro repentino. Agora tremia por causa da necessidade de alimento, e essa necessidade era muito forte para pensar em algo exceto em cobrir as necessidades básicas de seu corpo.

 

—Lucan. — Dante apertou os dedos no pescoço do homem, procurando o pulso. As presas do vampiro estavam estendidos, afiados depois da batalha e por causa da reação fisiológica ante o forte aroma desse líquido escarlate que emanava do homem.

— Se esperarmos muito mais, o sangue terá morrido também.

   E não lhes serviria de nada, posto que somente o sangue fresco que emanava das veias dos seres humanos podia saciar a fome de um vampiro. Dante esperou, inclusive apesar de que era óbvio que quão único desejava era baixar a cabeça e tomar sua parte desse homem, que tinha sido muito idiota para escapar quando tinha tido a oportunidade de fazê-lo.

   Mas Dante esperaria, inclusive embora tivesse que deixar esbanjar esse sangue, dado que era um protocolo não escrito que as gerações mais jovens de vampiros não se alimentavam na presença dos mais velhos, especialmente se esse vampiro mais velho pertencia a categoria de «primeira geração» da raça e estava faminto.

   A diferencia de Dante, o pai de Lucan era um dos Antigos, um dos oito guerreiros extraterrestres que tinham chegado de um planeta escuro e distante e se estrelaram milhares de anos atrás contra a superfície inóspita e implacável do planeta Terra. Para sobrevi­ver, alimentaram-se do sangue dos seres humanos e tinham dizimado populações inteiras por causa de sua fome e de sua bestialidade. Em alguns estranhos casos, esses conquistadores estrangeiros se haviam ­emparelhado com êxito com fêmeas humanas, as primeiras companheiras de raça, que tinham gerado uma nova geração da raça dos vampi­ros.

   Esses selvagens antepassados de outro mundo tinham desaparecido por completo, mas sua origem ainda continuava vivendo, como Lucan e uns quantos mais disseminados pelo mundo. Representavam o estádo mais próximo a realeza na sociedade dos vampiros: eram respeita­dos e não pouco temidos. A grande maioria dos da raça eram jovens, nascidos de uma segunda, terceira e, alguns, de uma décima geração.

   A fome era mais urgente nos de «primeira geração». Também o era a propensão a ceder ante a sede de sangue e a converter-se em um renegado. A raça tinha aprendido a viver com esse perigo. A maioria deles tinha aprendido a dirigi-lo: tomavam sangue somente quando o necessitavam e nas mínimas quantidades necessárias para a sustentação. Tinham que fazê-lo assim, porque uma vez apanhados pela sede de sangue, não havia maneira de voltar atrás.

 

   Os olhos afiados de Lucan caíram sobre a retorcida figura humana que ainda respirava ligeiramente, tombada no pavimento do chão. Ouviu um grunhido animal que provinha de sua própria garganta. Quando Lucan se aproximou com compridos passados em direção ao aroma do sangue vivo ver­tido no chão, Dante fez uma ligeira saudação com a cabeça e se apartou para permitir a seu superior que se alimentasse.

 

Ele nem sequer se preocupou de chamá-la e lhe deixar uma mensagem a ou­tra noite.

Típico.

   Provavelmente tinha um encontro muito importante com seu mando à distancia e seu programa de poderes paranormais. Ou possivelmente, quando se houve mar­chado de seu apartamento a outra tarde, tinha conhecido a alguém mais e tinha recebido uma oferta mais interessante que devolver o telefone celular a Gabrielle no Beacon Hill.

Diabos, inclusive era possível que estivesse casado, ou que tivesse alguma relação com alguém. Não o tinha perguntado, e se o houvesse pre­guntado, isso não tivesse garantido que lhe houvesse dito a verdade. Lucan Throne, certamente, não era distinto a nenhum homem. Exceto pelo fato de que era... diferente.

   Pareceu-lhe que era muito diferente a qualquer a quem houvesse conhecido até esse momento. Um homem muito reservado, quase fechado, que dava uma sensação extranhamente perigosa. Ela não podia imaginar sentado em uma poltrona diante do televisor, igual que tampouco lhe podia imaginar junto em uma relação séria de namoro, por não falar de uma esposa e uma família. O qual voltava a recordar a idéia de que se­guramente ele teria recebido uma oferta mais interessante e tinha decidido desprezar a ela. E essa idéia lhe doía muito mais do que deveria.

   «te esqueça dele», repreendeu-se Gabrielle quase sem fôlego enquanto aproximava o Cooper Mini negro à uma lateral da tranqüila rua local e desligava o motor. A bolsa com sua câmara e seu equipamento fo­tográfico se encontrava no assento do co-piloto. Agarrou-a, e tomou tam­bem uma pequena lanterna do porta-luvas, guardou as chaves na ja­queta e saiu do carro.

 

   Fechou a porta sem fazer ruído e jogou uma rápida olhada ao seu redor. Não havia nem uma alma a vista, o qual não era surpreendente dado que eram quase as seis da manhã e que o edifício, no qual estava a ponto de entrar de forma ilegal e de fotografar, fazia vinte anos que estava fechado. Andou seguindo o caminho de pavimento gretado e girou a direita, cruzou uma sarjeta e subiu até um terreno cheio de carvalhos que for­mavam como uma densa cortina ao redor do velho hospital psiquiátrico.

   O amanhecer começava a elevar-se pelo horizonte. A luz era fantas­magórica e etérea, como uma neblina úmida rosada e azulada que amor­talhava essa estrutura gótica com um brilho de outro mundo. Apesar de estar pintado em tons claros, esse lugar tinha um ar ameaçador.

   O contraste era o que a tinha atraído até essa localização essa manhã. Tomar as imagens ao anoitecer tivesse sido a eleição mais na­tural para concentrar-se na qualidade ameaçadora dessa estrutura a­bandonada. Mas era a justaposição da cálida luz do amanhecer com o tema frio e sinistro o que atraía a Gabrielle enquanto se detinha para tirar a câmara da bolsa que tinha pendurada do ombro. Tirou umas seis fotos e logo voltou a pôr a tampa a lente para continuar a caminhada em direção ao fantasmagórico edifício.

   Uma alta cerca de arame apareceu diante dela, impedindo que os exploradores curiosos como ela entrassem na propriedade. Mas Gabrielle sabia que tinha um ponto débil escondido. Tinha-o descoberto a primeira vez que tinha vindo ao lugar para tirar umas fotos de exterior. Se apre­ssou seguindo a linha da cerca até que chegou ao extremo sudoeste da mesma, onde se agachou até o chão. Ali, alguém tinha talhado dis­cretamente o arame e tinha formado uma abertura o bastante grande para que um adolescente curioso pudesse abrir-se passo, ou para que uma fo­tógrafa decidida, e que tinha tendência a interpretar os sinais de «Não passar» e «Só pessoal autorizado» como sugestões amistosas em lugar de leis inquebráveis, penetrasse por ela.

     Gabrielle abriu a parte de arame talhado, lançou o equipamento para o outro lado e se arrastou como uma aranha, sobre o ventre, Através da baixa abertura. Quando ficou em pé, ao outro lado da cerca, sentiu que as pernas lhe tremiam por causa de uma repentina apreensão. Deveria estar acostumada a este tipo de operações encobertas, de explora­ções em solitário: muito freqüentemente, sua arte dependia de sua coragem para encontrar lugares desolados, que alguns qualificariam de perigosos. Esse arrepiante psiquiátrico podia, certamente, qualificar-se como perigoso,

pensou enquanto deixava vagar o olhar por um grafite pintado com ae­rosol ao lado da porta de entrada que dizia más vibrações.

   —Já pode dizê-lo —sussurrou em voz muito baixa. Enquanto se sacudia as agulhas de pinheiro e a terra da roupa, com gesto automático levou uma mão até o bolso dianteiro de seu jeans em busca do celular. Não estava ali, é obvio, já que ainda estava em poder do detetive Thorne. Outra razão para sentir-se aborrecida com ele por havê-la feito esperar a outra noite.

   Possivelmente não deveria ser tão dura com o menino, pensou, repentinamente desejosa de concentrar-se em algo distinto ao mau pressentimento que a atendia agora que se encontrava dentro do terreno do psiquiátrico. Possivelmente Thorne não se apresentou porque algo lhe tinha acontecido no trabalho.

   E se tinha sido ferido em cumprimento do dever e não acudiu tal e como tinha prometido porque se encontrava de alguma forma encapacitado de ­chamar ? Possivelmente não tinha chamado para desculpar-se nem para explicar sua ausência porque não podia fazê-lo fisicamente.

   Exato. E possivelmente ela tinha comprovado seu próprio cérebro com as bra-gás do mesmo segundo em que tinha posto os olhos nesse homem.

Burlando-se de si mesmo, Gabrielle recolheu suas coisas e caminhou em direção a imponente arquitetura do edifício principal. Uma pálida pe­dra calcária se elevava para o céu em uma levantada torre central, re­mota em uns picos e agulhas dignos da melhor catedral gótica. Ao seu redor havia um extenso recinto de paredes de tijolo vermelho, cujo teto estava composto por telhas ordenadas em um desenho como de asas de morcego, comunicado entre eles por passarelas e arcos que for­mavam um claustro coberto.

   Mas por impressionante que fosse essa estrutura, não havia forma de tirar-se de cima a sensação de uma ameaça latente, como se mil p­ecados e mil segredos se apertassem detrás dessas descascadas paredes e janelas com parte de cristais quebrados. Gabrielle caminhou até o ponto onde a luz era melhor e tomou umas quantas fotos. Não havia nenhuma maneira de entrar por aí: a porta principal estava fechada com ferrolho e com travessas de madeira. Se queria entrar para realizar algu­mas fotos do interior —e, definitivamente, sim queria—, tinha que dar a volta até a parte traseira e provar sorte com alguma janela que estivesse a pé de rua ou com alguma porta do porão.

   Baixou deslizando-se por um aterro em pendente para a parte poste­rior do edifício e encontrou o que estava procurando: umas portinhas de madeira ocultavam três janelas que era muito provável que se abrissem a uma zona de serviço ou a um armazém. Os ferrolhos estavam oxidados, mas não estavam fechados e se abriram com facilidade quando se serve de ajuda de uma pedra que encontrou ali ao lado. Atirou da coberta de made­ra das janelas, levantou o pesado painel de cristal e o escorou, a­berto, com os ferrolhos.

   Fez uma varredura geral iluminando-se com a lanterna para assegurar-se de que o lugar estava vazio e de que não ia desabar sobre sua cabeça imediatamente, e penetrou através da abertura. Ao saltar do marco da janela, o solado de suas botas pisaram em cristais quebrados e pó e lixo acumulados durante anos. Esse porão de blocos de concreto tinha uns três metros e meio de comprimento e desaparecia na escura zona que ficava sem iluminar. Gabrielle dirigiu o magro feixe de luz de sua lanterna para as sombras do outro extremo do espaço. Percorreu com ele a parede e o deteve sobre uma velha porta de serviço em cuja superfície se podia ler o seguinte pôster: acesso restringido.

   —O que te aposta? —sussurrou enquanto se aproximava da porta. E­fetivamente, não estava fechada com chave.

Abriu-a e projetou a luz para o outro lado da porta, onde se abria um comprido corredor parecido a um túnel. Uns suportes de fluorescente quebrados penduravam do teto; alguns dos painéis que os haviam coberto tinham caido sobre o chão de qualidade industrial, onde jaziam quebrados e cobertos de pó. Gabrielle entrou nesse espaço escuro, insegura do que estava procurando e com certo temor do que poderia encontrar nas desertas tripas desse psiquiátrico.

   Passou por diante de uma porta aberta do corredor e a luz do flash i­luminóu uma cadeira de dentista de vinil vermelho, um pouco gasta, que se encontrava colocada no centro da habitação, como se esperasse ao próximo paciente. Gabrielle tirou a câmara de sua capa e tomou um par de rápidas fotos. Logo continuou para diante e passou ante uma série de habitações de revisão e de tratamento. Devia encontrar-se na ala médica do edifício.

 

Encontrou uma escada e subiu dois lances até que chegou, para sua com­placencia, a torre central onde umas grandes janelas deixavam entrar a luz da manhã em generosas quantidades.

   Através da lente da câmara olhou por cima de amplos terrenos e pátios flanqueados por elegantes edifícios de tijolo e de pedra calcária. Realizou umas quantas fotos do lugar, apreciando tanto sua arquitetura como o quente jogo que a luz do sol fazia contra tantas sombras fan­tasmagóricas. Resultava estranho olhar para fora do confinamento de um edifício que antigamente tinha albergado a tantas almas pertur­badas. Nesse inquietante silêncio, Gabrielle quase podia ouvir as vozes dos pacientes, de gente que, simplesmente, não tinha a possibilidade de mar­char-se caminhando dali como ela faria então.

   Gente como sua mãe biológica, uma mulher a quem Gabrielle não tinha conhecido nunca e da qual não sabia nada mais que o que tinha ouvido de menina nas conversações apagadas que os trabalhadores sociais e as famílias de acolhida mantiveram e que ao final, uma por uma, devolveram ao sistema como se fosse um animal doméstico que houvesse demonstra­do ser mais problemático do que se podia suportar. Tinha perdido a conta do número de lugares aonde a tinham enviado a viver, mas as queixa contra ela quando a devolviam sempre eram as mesmas: inquieta e introvertida, fechada e desconfiada, socialmente disfuncional com ten­dência a atitudes autodestrutivas. Tinha ouvido os mesmos qualificativos dirigidos para sua mãe, aos quais acrescentavam as categorias de paranóica e delirante.

   Quando os Maxwell apareceram em sua vida, Gabrielle tinha passado dezenove dias em uma casa de acolhida sob a supervisão de um psi­cólogo designado pelo Estado. Não tinha nenhuma expectativa e ainda menos esperanças de que fora capaz de conseguir que outra situação de acolhida funcionasse. Francamente, já não lhe importava. Mas seus tutores tinham sido pacientes e bondosos. Acreditando que possivelmente a ajudasse a dirigir a confusão emocional, tinham-na ajudado a conseguir um punhado de documentos judiciais que tinham que ver com sua mãe.

   Essa mulher tinha sido uma adolescente anônima, acreditava-se que era uma sem teto, que não tinha identificação, não lhe conhecia família nem conhecidos exceto pela menina recém-nascida que tinha abandonado, chorando e an­gustiada, em um contêiner de lixo da cidade em uma noite de agos­to. A mãe de Gabrielle tinha sido maltratada, e sangrava por umas profundas feridas no pescoço que ela mesma se piorou rasgando-a, vítima da histeria e do pânico.

 

   Em lugar de persegui-la pelo crime de haver abandonado seu bebê, o tribunal a tinha considerado incapacitada e a tinham enviado a umas instalações que certamente não eram muito diferentes a esta em que se encontrava ela agora. Quando ainda não levava nem um mês no centro institucional, pendurou-se com um lençol deixando detrás dela inumeráveis pergunta que nunca teriam resposta.

   Gabrielle tentou tirar-se de cima o peso dessas velhas feridas, mas enquanto estava ali em pé e olhava através dos brumosos cris­tais das janelas, todo seu passado apareceu em primeiro plano em sua mente. Não queria pensar em sua mãe, nem na desgraçada circunstância de seu nascimento, nem nos escuros e solitários anos que lhe seguiram. Precisava concentrar-se em seu trabalho. Isso era o que lhe tinha permitido continuar para diante, depois de tudo. Era o único constante em sua vida, e as vezes tinha sido quão único de verdade tinha neste mundo.

   E era suficiente.

   Durante a maior parte do tempo, era suficiente.

   «Toma umas quantas fotos e te largue daqui», disse a si mesmo, como brigando-se.

   Levantou a câmara e tomou um par de fotos mais através do delicado trabalho de metal que se entrelaçava entre as duas janelas de cristal.

Pensou em partir pelo mesmo caminho por onde tinha entrado, mas se perguntou se possivelmente poderia encontrar outra saída em algum ponto do piso de abaixo do edifício central. Voltar a baixar ao escuro porão não lhe resultava especialmente atrativo.

Estava inquietando a si mesmo pensando em coisas sobre a loucura de sua mãe, e quanto mais momento se entretivera nesse velho psiquiátrico, mais lhe foram pôr os cabelos de ponta. Abriu a porta da escada e se sentiu um pouco melhor ao ver a tênue luz que se filtrava para dentro pelas janelas em algumas das habitações e nos corredores adja­centes.

 

   Era óbvio que o artista do grafite de más vibrações tinha chegado até ali também. Em cada uma das quatro janelas havia uns extra­nhos símbolos realizados com pintura negra. Provavelmente eram os marcos de alguma turma, ou as assinaturas estilizadas dos meninos que tinham estado ali antes que ela. Em uma esquina havia uma lata de aerosol atirada, ao lado de umas bitucas de cigarros, de umas garrafas de cerveja quebrada e outros restos.

   Gabrielle tomou a câmara e procurou um ângulo adequado para a fotografia que tinha em mente. A luz não era muito boa, mas com um lente dife­rente possivelmente resultasse interessante. Rebuscou na bolsa à procura das lentes e nesse momento ficou gelada ao ouvir um zumbido distante que procedia de algum ponto por debaixo de seus pés. Era muito frouxo, mas soava como o de um elevador, o qual era impossível. Gabrielle voltou a introduzir o equipamento na bolsa sem deixar de prestar atenção aos vagos sons que sentia ao seu redor. Todos os nervos de seu corpo se ha­viam esticado com uma gelada sensação de apreensão.

   Não se encontrava sozinha ali dentro.

   Agora que o pensava, notou que uns olhos a olhavam desde algum ponto próximo. Essa inquietante tira de consciência lhe pôs os cabelos de ponta na nuca e nos braços. Devagar, girou a cabeça e olhou para trás. Foi então quando o viu: uma pequena câmara de vídeo de circuito fechado montada em uma sombria esquina elevada do corredor, e que vigiava a porta da escada que ela tinha atravessado fazia somente uns minutos.

Possivelmente não estivesse em funcionamento e fosse somente algo que tinha ficado ali dos dias em que o psiquiátrico estava ainda em fun­cionamento. Essa teria sido uma idéia consoladora se a câmara não tivesse um aspecto tão cuidado e compacto, tão de tecnologia de vanguarda em segurança. Para comprová-lo, Gabrielle se aproximou dela e se colocou quase diretamente diante da câmara. Sem fazer nenhum ruído, a base da câmara girou e colocou a lente no ângulo adequado até que ficou enfocado no rosto de Gabrielle.

 

   «Merda — disse, olhando esse olhos negro que não piscava.

—Pega.»

   Das profundidades do edifício vazio, ouviu um rangido metálico e o estrondo de uma porta pesada. Era evidente que esse psiquiátrico aban­donado não estava tão abandonado depois de tudo. Pelo menos tinham sistema de segurança, e a polícia de Boston poderia aprender algo dessa lição sobre o rápido tempo de reação dessa gente.

   Soaram uns passos a um ritmo compassado: alguém que se encontrava vigiando tinha começado a dirigir-se para ela. Gabrielle se dirigiu para a escada e saiu disparada escada abaixo enquanto a bolsa a golpeava no quadril. À medida que baixava, a luz diminuía. Tomou a lanterna com a mão, mas não queria utilizá-la por medo de que funcionasse como um aviso de onde estava e o segurança pudesse segui-la. Chegou ao fi­nal da escada, empurrou a porta de metal e se precipitou para a escuridão do corredor do piso inferior.

   Ouviu que a porta monitorada da escada se abria com um rangido e que seu perseguidor se precipitava para baixo, detrás dela, correndo com rapidez e ganhando terreno rapidamente.

   Finalmente, chegou a porta de serviço do final do corredor. Lançou-se contra o aço frio e correu pelo escuro porão até a pequena janela que se encontrava aberta em uma das laterais. A corrente de ar frio lhe deu força: apoiou as mãos no marco da janela e se elevou. Deixou-se cair ao outro lado da janela, aterrissando fora na te­rra cheia de pedras.

     Agora não podia ouvir seu perseguidor. Possivelmente lhe tinha avoado nos escuros de labirínticos corredores. Deus, isso esperava.

Gabrielle ficou em pé ao momento e correu em direção a aber­tura da cerca de arame. Encontrou-a rapidamente. colocou-se engatinhando e se introduziu pela fenda no arame com o coração desbocado e a adrenalina lhe correndo pelas veias.

 

Tinha muito pânico: em sua precipitação por escapar, arranhou-se um lado do rosto com um arame afiado da cerca. O corte lhe queimava na bochecha e sentiu o rastro quente de sangue que lhe baixava ao lado da orelha. Mas não fez caso da abrasadora ardência nem do golpe que se deu com a bolsa da equipamento fotográfica enquanto se inclinava sobre seu ventre para sair, através da cerca, para a liberdade.

   Quando a teve atravessado, Gabrielle ficou em pé e correu enlou­quecida pelo largo e escarpado terreno dos subúrbios. Somente se permitiu jogar uma rápida olhada para trás: o suficiente para ver que o enorme guarda de segurança ainda estava ali. Teria saído por algum lugar do piso principal e agora corria detrás dela como uma besta recém saída do inferno. Gabrielle tragou saliva de puro pânico ao lhe ver. O tipo parecia um tanque, facilmente pesava cento e dez quilogramas de puro músculo, e tinha uma cabeça grande e quadrada com o cabelo talhado ao estilo militar. Esse tipo enorme correu até a alta cerca e se deteve ao chegar a ela: golpeou-a com os punhos enquanto Gabrielle entrava corren­do pela densa cortina de árvores que separava a propriedade da estrada.

   O carro se encontrava a um lado do tranqüilo asfalto, justo onde o tinha deixado. Com mãos trementes, Gabrielle se esforçou por abrir a porta. sentia-se petrificada de pensar que esse tipo carregado de este­roides pudesse apanhá-la. Seu medo parecia irracional, mas isso não impe­dia que a adrenalina lhe corresse por todo o corpo. Afundou-se no acento de pele do Mini, pôs a chave no contato e ligou o motor. Com o coração acelerado, pôs em marcha o pequeno carro, apertou a fundo o pedal de aceleração e se precipitou para a estrada, esca­pando com um chiado de pneumáticos sobre o asfalto e o conseguinte aroma de queimado dos mesmos.

 

A metade da semana, em plena temporada turística, os parques e avenidas de Boston estavam coalhados de humanidade. Os trens traziam as pessoas a toda velocidade dos subúrbios, a seus lugares de trabalho ou aos mu­seus, ou aos inumeráveis pontos históricos que se encontravam por toda a cidade. Olheiros carregados com câmeras subiam aos ônibus que lhes levavam de excursão ou se colocavam em fila para subir as Ferris sobrecarregados que lhes levariam mais à frente do cabo.

   Não muito longe da agitação do dia, oculto a uns nove metros sob uma mansão dos subúrbios da cidade, Lucan Thorne se inclinou sobre um monitor de tela plaina, no edifício dos guerreiros da raça, e pronunciou uma maldição. Os registros de identificação dos vampiros apareciam em tela a velocidade vertiginosa enquanto o programa de computador realizava uma busca na enorme base de dados interna­cional procurando coincidências com as fotos que Gabrielle Maxwell tinha tomado.

   —Ainda nada? —perguntou, olhando de soslaio e com expressão im­paciente a Gideon, o operador informático.

   —Nada até o momento. Mas ainda se está realizando a busca. A Base de dados de Identificação Internacional tem uns quantos milhões de registros para comprovar. —Os agudos olhos azuis do Gideon cintilaram por cima da arreios dos elegantes óculos de sol— Lhes jogarei o laço a esses burros, não se preocupe.

   —Não me preocupo nunca —repôs Lucan, e o disse de verdade. Gideon tinha um coeficiente intelectual que rompia todas as estatísticas e ao que se acrescentava uma tenacidade enorme. Esse vampiro era tanto um caçador in­cansavel como um gênio e Lucan se alegrava de lhe ter ao seu lado.

_Se você não for capaz de tirá-los a luz, Gideon, ninguém pode fazê-lo.

   O gurú informático da raça, com sua coroa de cabelo curto e encres­pado, dirigiu-lhe um sorriso fanfarrão e confiado.

—É por isso que levo os verdes grandes.

 

   —Sim, um pouco parecido —disse Lucan enquanto se separava da tela, onde os dados não deixavam de aparecer sem parar.

   Nenhum dos guerreiros da raça que se comprometeram a proteger a estirpe frente ao açoite dos renegados o fazia por nenhuma compensação. Nunca a tinham tido, desde que se organizaram pela primeira vez nessa aliança durante o que para os humanos foi a idade medieval. Cada um dos guerreiros tinha seus próprios motivos para ter eleito esse perigoso modo de vida, e alguns deles eram, tinha-se que admitir, mais nobres que outros. Como Gideon, que tinha trabalhado nesse campo de forma independente até que seus dois irmãos, que eram pouco mais que uns meninos, foram assassinados pelos renegados aos subúrbios do Refúgio Escuro de Londres. Então Gideon procurou a Lucan. Disso fazia três séculos, umas décadas mais ou menos. Incluso então a habilidade do Gideon com a espada somente encontrava rival na afiada estocada de sua mente. Tinha matado a muitos renegados em seus tempos, mas mais tarde, a devoção e a promessa íntima que fez a sua companheira de raça, Savannah, tinham-lhe feito abandonar o combate e empunhar a arma da tecnologia ao serviço da raça.

   Cada um dos seis guerreiros que lutavam ao lado de Lucan tinha seu talento pessoal. Também tinham seus demônios pessoais, mas nenhum deles era do tipo muito sensível que permitiria que um louco lhes colocasse uma lanterna pelo traseiro. Algumas costumes estavam melhor se deixavam na escuridão e, provavelmente, o único que estava mais convencido disso que o próprio Lucan era um guerreiro da raça conhecido como Dante.

   Lucan saudou o jovem vampiro quando este entrou no laboratório téc­nico de uma das numerosas habitações do edifício. Dante, ata­viado com sua habitual vestimenta negra, levava umas calças de ci­clista e uma camiseta ajustada que mostrava tanto as tatuagens a tinta como suas intrincadas marcas de pertençer a raça. Seus avultados bí­ceps mostravam uns sinais afiligranados que a olhos de qualquer humano pareciam símbolos e desenhos geométricos realizados em profundas tonali­dades terra. Mas os olhos de um vampiro distinguiam esses símbolos cla­ramente: eram dermoglifos, umas marcas naturais herdadas dos an­tepasados da raça, cuja pele sem cabelo se havia recoberto de uma pig­mentação cambiante e de camuflagem.

 

   Normalmente, esses glifos eram motivo de orgulho para a raça e eram seus únicos sinais de linhagem e de fila social. Os membros da pri­mera geração, como Lucan, luziam essas marca em maior número e seus tons eram mais saturados. Os dermoglifos de Lucan lhe cobriam o torso, por diante e por detrás, descendiam até suas coxas e se exten­díam pela parte superior dos braços, além de subir pela nuca e lhe cobrir o crânio. Como tatuagens viventes, os glifos trocavam de tom segundo o estado emocional de um vampiro.

   Os glifos de Dante, nesse momento, tinham um tom bronze, avermelhado, que indicava que se alimentou recentemente e que se sentia saciado. Sem dúvida, depois de que ele e Lucan se separaram ao cabo de ter dado caça aos renegados a noite anterior, Dante tinha ido em busca da cama e da amadurecida e suculenta veia da nádega de uma fêmea anfitriã.

   —Que tal vai? —perguntou enquanto se deixava cair em cima de uma cadeira e colocava um pé embainhado em uma bota em cima do escritório, diante dele.

   —Acreditei que já teria caçado e classificado a esses bastardos, Gid.

   O acento de Dante tinha restos da musicalidade de seus ancestrais Italia­nos ate do século XVIII, mas essa noite, o educado tom de voz de Dante delatava um timbre afiado que indicava que o vampiro se sentia inquieto e ansioso por entrar em ação. Para sublinhar esse fato, tirou uma de suas típicas facas de folha curvada da cilha que levava no quadril e começou a jogar com o gentil aço.

   Chamava a essas folhas curvadas Malebranche ou prolongações diabó­licas, em referência Aos demônios que habitam um dos nove níveis do inferno, embora as vezes Dante adotava esse nome como pseu­dónimo para si mesmo quando se encontrava entre os humanos. Essa era quase toda a poesia que esse vampiro tinha em sua alma. Em todo o resto era impenitente, frio e escuramente ameaçador.

 Lucan admirava isso dele, e tinha que admitir que observar a Dante durante o combate, com essas folhas inclementes, era algo belo, o bas­tante formoso para deixar em ridículo a qualquer artista.

 

   —Bom trabalho o da noite passada —disse Lucan, consciente de que uma adulação emitida por ele era algo estranho, inclusive embora estivesse mere­cendo.

   — Me salvou o pescoço aí.

Não falava da confrontação que tinham tido com os renegados, mas sim do que tinha acontecido depois disso. Lucan tinha passado dema­siado tempo sem alimentar-se e a fome era quase tão perigosa para os seus como o vício que açoitava aos renegados. O olhar de Dante denotava que compreendia o que lhe estava dizendo, mas deixou acontecer o tema com sua habitual e fria elegância.

   —Merda —repôs, com uma sonora e profunda gargalhada.

—.Depois de todas as vezes que você me há coberto as costas? Esquece-o, cara. Só te devolvia um favor.

   Nesse momento, as portas de cristal da entrada do laboratório se abriram com um zumbido surdo e dois mais dos irmãos de Lucan en­traram. Eram um bom par. Nikolai, alto e atlético, de cabelo loiro como a areia, uns rasgos angulares e impactantes e uns olhos penetrantes e azuis como o gelo, que só eram um tom mais frios que o céu de sua Siberia natal. O mais jovem do grupo e com diferença, Niko, havia-se feito homem durante o que os humanos chamavam a Guerra Fria. Do berço tinha sido imparavel e agora se converteu em um buscador de sensações de alta voltagem e se encontrava em primeira fila da raça no que tinha que ver com armas, aparelhos, e tudo o que ficava no meio.

   Conlan, pelo contrário, falava com suavidade e era sério: era um perito em tática. Ao lado da excessiva fanfarronice do Niko, resul­tava elegante como um gato grande. Seu corpo era como um muro de músculos, e o cabelo loiro, de cor areia, brilhava por debaixo do triangulo de seda negra com que se envolvia a cabeça. Esse vampiro pertencia a uma das últimas gerações da raça, era um jovem segundo o critério de Lucan, e sua mãe era uma humana filha de um capitão escocês. O guerreiro se movia com um porte quase de realeza.

   Inclusive sua amada companheira de raça, Danika, dirigia-se a esse habitante das terras altas afetuosamente lhe chamando, com freqüência, «meu se­nhor» e essa fêmea não era precisamente servil.

 

   —Rio está de caminho —anunciou Nikolai com um amplo sorriso que lhe formava duas covinhas nas bochechas. Olhou a Lucan e assentiu com a cabe­ça.

— Eva me há dito que te diga que poderemos dispor de seu homem somente quando ela tenha terminado com ele.

—Se é que fica algo —disse Dê, arrastando as palavras enquanto levantava uma mão para saudar outros com um suave roce das palmas prévio a um choque de nódulos.

   Lucan saudou Niko e a Conlan da mesma maneira, mas se sentiu algo molesto pelo atraso de Rio. Não invejava a nenhum dos vam­piros pela companheira de raça que tinham eleito, mas, pessoalmente, Lucan não encontrava nenhum sentido atar-se as demandas e respon­sabilidades de um vínculo de sangue com uma fêmea. Esperava-se que, em geral, a população da raça aceitasse a uma mulher para aparear-se e dar nascimento a seguinte geração, mas para a classe dos gue­rreros —para esses escassos machos que, de forma voluntária, haviam a­bandonado o santuário dos Refúgios Escuros para levar uma vida de luta processo de vincular-se por sangue era, para Lucan, uma frescura no melhor dos casos.

   E no pior, era um convite ao desastre quando um guerreiro sentia a tentação de antepor os sentimentos para sua companheira por cima de seu dever para a raça.

   —Onde está Tegan? —perguntou, ao dirigir seus pensamentos de for­ma natural para o último deles que faltava no edifício.

—Ainda não retornou —respondeu Conlan.

 —Chamou de onde se encontra?

   Conlan e Niko intercambiaram um olhar, e Conlan negou rapidamente com a cabeça:

   —Nenhuma palavra.

 

—Esta é a vez que esteve mais tempo desaparecido em ação — assinalou Dê sem dirigir-se a ninguém em especial enquanto passava o dedo polegar pelo fio da folha curvada de sua faca.

—Quanto faz? Três, quatro dias?

Quatro dias, quase cinco.

     Quem deles levava a conta?

     Resposta: todos eles a levavam, mas ninguém pronunciou em voz alta a preocupação que se estendeu ultimamente em suas filas. Tal como estava o tema, Lucan tinha que esforçar-se para controlar a raiva que despertava nele cada vez que pensava no membro mais introvertido dos membros de seu quadro.

   Tegan sempre preferia caçar em solitário, mas seu caráter afastado começava a resultar uma carga para outros. Era como um curinga, adquiria um valor diferente em função de cada ação e, ultimamente, cada vez mais. E Lucan, tinha que ser franco, encontrava difícil confiar nesse menino, embora a desconfiança não fosse nada novo no que concernia a Tegan. Havia uma má relação entre ambos, sem dúvida, mas essa era uma história antiga.

Tinha que ser assim. A guerra em que ambos se comprometeram desde fazia tanto tempo era mais importante que qualquer aversão que pudesse sentir um para o outro.

   Apesar disso, o vampiro levava a cabo uma vigilância estreita. Lucan conhecia as debilidades de Tegan melhor que nenhum de outros e não duvidaria em responder se esse macho punha embora fosse o dedo gor­do do pé no outro extremo da linha.

   Por fim, as portas do laboratório se abriram e Rio entrou na há­bitação enquanto se colocava as abas de sua elegante camisa branca de desenho dentro da calça negra feita a medida. Faltavam alguns botões na camisa de seda, mas Rio levava a má compostura depois do sexo com a mesma elegância desenvolvida com que se movia em todas as demais circunstâncias. Sob a densa franja de cabelo escuro que lhe pendurava por cima das sobrancelhas, os olhos de cor topázio do espanhol parecia que dançavam. Quando sorria, brilhavam-lhe as pontas das presas que, nesses momentos, ainda não se haviam retratados depois de que a paixão por sua dama os tivesse desdobrado.

 

   —Espero que me tenham guardado alguns renegados, meus amigos. — esfregou-se as mãos:—Me sinto bem e tenho vontades de festa.

   — Sente-se disse Lucan— e tenta não manchar de sangue os computadores do Gideon.

   Gideon se levou os largos dedos da mão até a marca vermelha que E­va tinha feito na garganta, evidentemente ao lhe morder com seus dentes romos de humana para lhe chupar a veia. Apesar de que era uma companheira de raça, continuava sendo geneticamente Homo sapiens. Embora fazia muitos anos que ela e outras como ela mantinham vínculos de sangue com seus companheiros, nenhuma delas teria presas nem ad­quiriría as demais características dos machos vampiro. Era uma práti­ca ampliamente aceita que um vampiro alimentasse a sua companheira através de uma ferida que ele mesmo se infligia no pulso ou no ante­braço, mas as paixões eram selvagens nas filas dos guerreiros da raça. E também o eram com as mulheres que escolhiam. O sexo e o sangue era uma combinação muito potente: Às vezes, muito potente.

   Com um sorriso impenitente, Rio se moveu na cadeira giratória com ges­to alegre e desenvolvido e se recostou no respaldo para colocar os pés nus em cima do console . Ele e os outros guerreiros começa­ram a recordar os fatos da noite anterior e riram sem deixar de mostrar-se superiores uns com os outros enquanto discutiam as téc­nicas de sua profissão.

   Caçar a seus inimigos era motivo de prazer para alguns membros da raça, mas a motivação íntima de Lucan era o ódio, puro e simples. Não tentava ocultá-lo. Desprezava tudo aquilo que os renegados repre­sentavam e tinha jurado, fazia muito tempo, que os aniquilaria ou que morreria no intento. Havia dias nos que não lhe importava qual das duas coisas pudesse acontecer.

   —Aí está —disse Gideon por fim ao ver que os registros que apareciam em tela se detinham.

— Parece que encontramos um filão.

 

   —O que obtiveste?

   Lucan e outros dirigiram a atenção para a tela plaina extra grande que se encontrava em cima da mesa dos microprocessadores do laboratório. Os rostos dos quatro renegados a quem Lucan matou apareceram ao lado dos das fotos do celular de Gabrielle: eram os mesmos indivíduos.

   —Os registros da Base de dados de Identificação Internacional os têm qualificados como desaparecidos. Dois desapareceram do Refúgio Escuro de Connecticut o mês passado, e outro do Fall River, e este último é daqui. Todos são da geração atual, e o mais jovem nem sequer tem trinta anos.

   —Merda —exclamou Rio antes de assobiar com suavidade.

— Meninos estú­pidos.

   Lucan não disse nada, não sentia nada, pela perda dessas vidas jove­ns ao converter-se em renegados. Não eram os primeiros, e seguro que não seriam os últimos. Viver nos Refúgios Escuros podia resultar bastante aborrecido para um macho imaturo que tivesse alguma coisa que demos­trar. O atrativo do sangue e da conquista se encontrava profunda-mente enraizado inclusive entre as últimas gerações, que eram as que se encontravam mais distantes de seus selvagens antepassados. Se um vampiro ia em busca de problemas, especialmente em uma cidade do tamanho da de Boston, normalmente os encontrava em abundância.

   Gideon introduziu uma rápida série de ordens através do teclado do computador e abriu mais fotos procedentes da base de dados.

   —Aqui estão os últimos dois registros. Este primeiro indivíduo é um re­negado conhecido, um agressor reincidente em Boston, apesar de que pare­ce que se manteve um tanto à margem durante os últimos três me­ses. Quer dizer, tem-no feito até que Lucan o reduziu a cinzas no beco este fim de semana.

   —E o que sabemos deste? —perguntou Lucan, olhando a última imagem que ficava, a do único renegado que tinha conseguido escapar depois do ataque fora da discoteca. Sua foto no registro era uma imagem toma­da de um fotograma de um vídeo que, presumivelmente, fez-se durante uma espécie de sessão de interrogatório conforme se deduzia pelas atadu­ras e os eletrodos que levava em cima.

 

   —Quanto tempo tem esta imagem?

   —Uns seis meses —respondeu Gideon, abrindo a data da imagem— Sai de uma das operações na Costa Oeste.

   —Los Angeles?

   —Seattle. Mas segundo o relatório, em Los Angeles tem uma ordem de a­rresto também.

   —Ordens de arresto —disse Dê em tom zombador.

— Uma fodida perda de tempo.

   Lucan não podia não estar de acordo com ele. Para quase toda a nação de vampiros nos Estados Unidos e no estrangeiro, o cumprimento da lei e a detenção dos indivíduos que se converteram em renegados se governavam por umas regras e procedimentos específicos. Redigiam-se ordens de arresto, realizavam-se as detenções, realizavam-se os enterro­gatorios e se transmitiam as condenações. Tudo era muito civilizado e estranha­mente resultava efetivo.

   Enquanto que a raça e a população dos Refúgios Escuros estavam organizados, motivados e envoltos por capas de burocracia, seus ini­migos eram imprevisíveis e impetuosos. E, a não ser que a intuição de Lucan fora errônea, os renegados, depois de séculos de anarquia e de caos geral, estavam começando a organizar-se.

   Se é que não levavam já meses nesse processo.

   Lucan observou a imagem que tinha aparecido em tela. Na ima­gen de vídeo, o renegado a quem tinham capturado se encontrava preso em uma prancha de metal colocada em vertical, nu e com a cabeça barbeada por completo, provavelmente para que as descargas elétricas que lhe enviavam lhe chegassem com maior facilidade enquanto lhe interrogavam. Lucan não sentia nenhuma compaixão pela tortura que o renegado tinha suportado. Freqüentemente era necessário realizar interrogatórios desse tipo, e igual que acontece com um ser humano enganchado a heroína, um vampiro que sofria de sede de sangue podia suportar dez vezes mais e sem fraquejar a dor que outro de seus irmãos de raça podia agüentar.

 

   Esse renegado era grande, com umas sobrancelhas densas e uns rasgos fortes e primitivos. Nessa imagem lhe via rir com ironia. Os largos dentes brilhavam e tinha uma expressão selvagem nos olhos da cor do ám­bar e de pupilas alargadas e verticais. Encontrava-se envolto por cabos da cabeça enorme até o musculoso peito e os braços firmes como martelos.

—Dando por entendido que ser feio não é um crime, por que motivo lhe pilharam em Seattle?

—Vamos ver o que temos. —Gideon voltou a colocar-se ante os computadores e abriu um registro em outra das telas.

—Lhe hão arres­tado por tráfico: armas, explosivos, substâncias químicas. Vá, este tipo é um encanto. Colocou-se em uma merda verdadeiramente feia.

   —Alguma idéia sobre de quem eram as armas que levava?

   —Aqui não diz nada. Não conseguiram grande coisa com ele, é evidente. O registro informa que escapou justo depois de que tomassem estas ima­gens. Matou a dois dos guardas durante a fuga.

   E agora havia tornado a escapar, pensou Lucan, desalentado e desejando ferventemente ter decapitado ao filho de puta quando o tinha diante. Não suportava o fracasso com facilidade, e muito menos quando se tratava do seu próprio.

   Lucan olhou a Niko.

   —Cruzaste-te alguma vez com este tipo?

   —Não —repôs o russo—, mas consultarei com meus contatos, a ver o que posso averiguar.

 

   —Ponha nisso.

Nikolai assentiu com a cabeça com gesto rápido e se dirigiu para a saida do laboratório técnico enquanto já marcava o número de telefone de alguém no celular.

   —Estas fotos são uma merda —disse Conlan, olhando por cima do ombro do Gideon em direção as fotos que Gabrielle tinha tomado durante o assassinato, fora da discoteca. O guerreiro pronunciou uma maldição.

— Já é bastante mau que os humanos tenham presenciado alguns dos assassinatos dos renegados durante os últimos anos, mas agora se dedicam a deter-se e a tomar fotos?

   Dante deixou cair os pés ao chão com um ruído surdo, ficou em pé e começou a caminhar pela habitação, como se começasse a sentir-se cada vez mais inquieto pela falta de atividade nessa reunião.

   —Todo mundo acredita que são uns fodidos paparazzi.

   —O tipo que fez essas fotos deveu cagar-se de medo ao encontrar-se com noventa quilogramas de guerreiro salivando por ele —acrescentou Rio. E, olhou a Lucan—. Lhe apagou primeiro a memória, ou simplesmente o eli­minou ali mesmo?

   —O humano que presenciou o ataque essa noite era uma mulher. —Lu­can olhou fixamente os rostos de seus irmãos sem mostrar o que sentia em relação a informação que estava a ponto de lhes dar.

— Resulta que é uma companheira de raça.

   —Mãe de Deus —exclamou Rio, passando a mão pelo cabelo—. Uma companheira de raça. Está seguro?

   —Leva o sinal. Vi-a com meus próprios olhos.

—O que fez com ela? Transou, não...?

 

   —Não —repôs com secura Lucan, inquieto pelo que o espanhol havia insinuado com o tom de voz.

—Não fiz nenhum mal a essa mulher. E­xiste uma linha que nunca vou cruzar.

   Tampouco tinha reclamado a Gabrielle para si, embora tinha estado muito perto de fazê-lo essa noite no apartamento dela. Lucan apertou a mandíbula: uma onda de escuro desejo lhe invadiu ao pensar em quão tentadora Gabrielle estava, enroscada e dormida na cama. No malditamen­te doce que era seu sabor em sua língua...

   —O que vais fazer com ela, Lucan? —Esta vez, a expressão de preo­cupação proveio de onde se encontrava Gideon.

— Não podemos deixar que os renegados a encontrem. Seguro que ela chamou a atenção deles quando realizou essas fotos.

   —E se os renegados se dão conta de que é uma companheira de raça... —acrescentou Dê, interrompendo-se A metade da frase. Outros assentiram com a cabeça.

   —Ela estará mais segura aqui —disse Gideon—, sob o amparo da raça. Melhor ainda: deveria ser oficialmente admitida em um dos Refúgios Escuros.

   —Conheço o protocolo —repôs Lucan, pronunciando cada palavra com lentidão. Sentia muita raiva ao pensar em que Gabrielle pudesse aca­bar nas mãos dos renegados, ou nas de outro membro da raça se fazia o que era devido e a mandava a um dos Refúgios Escuros da nação. Nenhuma das duas opções lhe parecia aceitável nesse momen­to a causa do sentimento possessivo que lhe bulia nas veias, irreprimivel embora não desejado.

   Olhou a seus irmãos guerreiros com frieza.

—Essa mulher é responsabilidade minha a partir de agora mesmo. Decidirei qual é a melhor atuação neste tema.

   Nenhum dos guerreiros lhe contradisse. Lucan não esperava que o fizessem. Em qualidade de membro de primeira geração, ele era mais antigo; em qualidade de guerreiro fundador dos de sua classe na raça, era quem mais coisas tinha demonstrado, com sangue e também com o aço. Sua p­alavra era lei, e todos os que se encontravam nessa habitação o respe­itavam.

 

     Dante ficou em pé, brincou com a Malebranche entre seus compridos e hábeis dedos e a embainhou com um ágil gesto.

—Faltam quatro horas para que caia o sol. Vou. —Olhou de soslaio a Rio e a Conlan.

— Alguém tem vontades de treinar antes de que as coisas fiquem interessantes?

   Os dois machos se levantaram rapidamente, animados pela idéia, e detrás dirigir uma respeitosa saudação a Lucan, os três grandes guerreiros sairam do laboratório técnico e percorreram o corredor em direção a zona de treinamento do edifício.

   —Tem algo mais sobre esse renegado de Seattle? —perguntou- Lu­can a Gideon enquanto as portas de cristal se fechavam, quando ambos ficaram sozinhos no laboratório.

— Agora mesmo estou realizando uma comparação cruzada de todas as bases de registros. Só demorará um minuto em dar algum resultado. — Teclou umas ordens no computador.

— Bingo. Tenho uma coincidência procedente de uma informação GPS da Costa Oeste. Parece infor­mação reunida anteriormente ao arresto. Joga uma olhada.

   A tela do monitor se encheu com uma série de imagens noturnas por satélite de uma embarcação de pesca comercial aos subúrbios de Puget Sound. A imagem se centrava em um Sedan comprido e negro que se en­contrava detrás de um maltratado edifício situado ao final do dique. Apo­iado contra a porta posterior se encontrava o renegado que tinha conseguido escapar de Lucan fazia uns dias. Gideon passou rapidamente uma série de imagens que lhe mostravam conversando longamente, ou isso parecia, com alguém que se encontrava oculto detrás dos cristais negros dos guichês. À medida que as imagens avançavam, viram que a porta traseira do carro se abria e o renegado entrava no carro.

   —Detenha —disse Lucan, fixando o olhar na mão do passageiro ocul­to.

— Pode deter   todo este fotograma? Aumenta a zona da porta aberta do carro.

 

   —Vou tentar .

   A imagem aumentou de tamanho, mas Lucan quase não necessitava um au­mento da imagem para confirmar o que via. Quase não se distinguia, mas aí estava. Na parte de pele exposta entre a grande mão do p­assageiro e o punho francês da camisa de manga larga se viam uns im­pressionantes dermoglifos que lhe delatavam como um membro de primeira geração.

   Gideon também os tinha visto nesse momento.

   —Maldição, olhe isso —disse, cravando a vista no monitor—. Nosso im­bécil de Seattle desfrutava de uma companhia interessante.

   —Possivelmente ainda o está fazendo —repôs Lucan.

   Não havia nada pior que um renegado que tivesse sangue de primeira geração nas veias. Os membros de primeira geração caíam vitima da sede de sangue com maior rapidez que as últimas geração da raça, e eram uns temíveis inimigos. Se algum deles tinha intenção de liderar aos renegados e lhes conduzir a um levantamento, isso significaria o princípio de uma guerra infernal. Lucan já havia luta­do em uma batalha assim uma vez, fazia muito tempo. Não desejava voltar a fazê-lo.

   —Imprime tudo o que conseguiste, incluídos as ampliações de e­roglifos.

—Já estão.

   —Qualquer outra coisa que encontre sobre esses dois indivíduos, passa-me diretamente. Encarregarei-me disto pessoalmente.

   Gideon assentiu com a cabeça, mas o olhar que lhe dirigiu por cima da arreios dos óculos expressava dúvida.

 

   —Não pode pretender te encarregar de tudo isto você sozinho, já sabe.

Lucan lhe cravou um olhar escuro.

   —Quem o diz?

   Sem dúvida, o vampiro tinha em sua cabeça de gênio todo um discurso a­berto da probabilidade e da lei da estatística, mas Lucan não se sentia de humor para lhe escutar. A noite se aproximava, e com ela se aproximava outra oportunidade de caçar a seus inimigos. Precisava empregar as horas que ficavam para esclarecer a cabeça, preparar as armas e decidir onde era melhor atacar. O depredador que havia nele se sentia impaciente e faminto, mas não por causa da batalha contra os Rene­gados.

   Em lugar disso, Lucan se deu conta de que seus pensamentos se desviavam para um tranqüilo apartamento do Beacon Hill, para uma visita que nunca deveria ter realizado. Ao igual que o aroma de jasmim, o recordava da suavidade e a calidez da pele de Gabrielle, enredava-se com seus sentidos. Ficou tenso e seu sexo ficou em ereção somente pensando nela.

Foder.

   Essa era a razão pela qual não a tinha posto sob o amparo da raça, aqui, no edifício. A certa distancia, ela era uma distração. Mas se encontrava em uma habitação próxima, seria um maldito desastre.

   —Está bem? —perguntou-lhe Gideon, dando-a volta com a cadeira e ficando de cara a Lucan.

— É uma fúria muito grande a que tem em ­topo, amigo.

   Lucan se arrancou da cabeça esses escuros pensamentos e se deu conta de que as presas lhe tinham alargado e que a visão lhe havia agudizado com o fechamento das pupilas. Mas não era a fúria o que lhe transformava. Era a luxúria, e tinha que saciá-la, antes ou depois. Com essa idéia lhe pulsando nas têmporas, Lucan tomou o telefone celular de Gabrielle, que se encontrava em cima de uma das mesas, e saiu do laboratório.

 

—Dê uns minutos mais e o céu —disse Gabrielle, olhando dentro do forno da cozinha e permitindo que o rico aroma dos manicotti Ca­lhes se pulverizasse pelo apartamento.

   Fechou a porta do forno, voltou a programar o relógio digital, serviu-se outra taça de vinho tinto e a levou a sala de estar. No sistema de áudio soava com suavidade um velho cd da Sara McLahlan. Passavam uns minutos das sete da tarde, e Gabrielle tinha começado, por fim, a relaxar-se depois da pequena aventura da manhã no asilo a­bandonado. Tinha conseguido um par de fotos decentes que possivelmente dessem para algo, mas o melhor de tudo era que tinha conseguido escapar do sistema de segurança do edifício.

   Somente isso já era digno de celebração.

   Gabrielle se acomodou em um fofo rincão do sofá, quente dentro das calças cinzas de ioga e da camiseta rosa de manga larga. Acabava-se de dar um banho e ainda tinha o cabelo úmido; umas mechas lhe desprendiam da pregadeira em que se recolheu o cabelo despreo­cupadamente, na nuca. Agora se sentia limpa e começava a relaxar-se por fim, e se sentia mais que contente de ficar em casa para passar a noite desfrutando de sua solidão.

   Por isso, quando soou o timbre da porta ao cabo de um minuto, soltou uma maldição em voz baixa e pensou em fazer caso omisso dessa interrup­ção indesejada. O timbre soou pela segunda vez, insistente, seguido por uns rápidos golpes na porta jogo de dados com força e que não soavam como que foram aceitar um não por resposta.

   —Gabrielle.

   Gabrielle já se pôs em pé e se dirigia cautelosamente para a porta, quando reconheceu essa voz imediatamente. Não deveria havê-la reco­nhecido com tanta certeza, mas assim era. A profunda voz de barítono de Lucan Thorne atravessou a porta e lhe meteu no corpo como se fosse um som que tivesse ouvido milhares de vezes antes e que a tranqui­lizava tanto como lhe disparava o pulso, enchendo a de expectativas.

   Surpreendida e mais agradada do que queria admitir, Gabrielle abriu os múltiplos ferrolhos e lhe abriu a porta.

—Olá.

—Olá, Gabrielle.

   Ele a saudou com uma inquietante familiaridade: seus olhos eram intensos baixo essas escuras sobrancelhas de linha decidida. Esse penetrante olhar percorreu lentamente o corpo de Gabrielle, desde sua cabeça despenteada, passando pelo sinal da paz costurado em seda na camiseta que cobria o peito sem sutiens, até os dedos dos pés que apareciam nus por debaixo das pernas das calças boca de sino.

   —Não esperava a visita de ninguém. —Disse-o como desculpa por seu aspec­to, mas não pareceu que a Thorne importasse. Em realidade, quando ele voltou a dirigir sua atenção ao rosto dela, Gabrielle sentiu que se rubo­risava repentinamente por causa da forma em que a estava olhando.

   Como se queria devorá-la ali mesmo.

   —OH, trouxe-me o telefone celular —disse ela, sem poder evitar dizer uma obviosidade, ao ver o brilho metálico na mão dele.

O alargou a mão, oferecendo-lhe,

—Mais tarde que o que deveria. Peço-lhe desculpas.

   Tinha sido sua imaginação, ou os dedos dele tinham roçado os seus de forma deliberada quando ela tomava o celular de sua mão?

   —Obrigado por devolver-me disse isso ela, ainda apanhada no olhar dele—. pôde... isto... pôde fazer algo com as imagens?

—Sim. Foram de grande ajuda.

 

   Ela suspirou, aliviada de que a polícia estivesse, por fim, de sua parte nesse assunto.

   —você crê que poderá apanhar aos tipos das fotos?

   —Estou seguro disso.

   O tom da voz dele tinha sido tão ameaçador que Gabrielle não o duvidou nem um instante. A verdade era que começava a ter a sensação de que o detetive Thorne era um menino travesso no pior de seus pesadelos.

   —Bom, essa é uma notícia fantástica. Tenho que admitir que todo esse assunto me deixou um pouco intranqüila. Suponho que presenciar um assassinato brutal tem esse efeito em uma pessoa, verdade?

   Ele se limitou a responder com um direto assentimento de cabeça. Era um homem de poucas palavras, isso era evidente, mas quem necessitava palavras quando se tinham uns olhos como esses que eram capazes de desnudar a alma?

   Nesse momento, a suas costas, o alarme do forno da cozinha começou a soar. Gabrielle se sentiu aborrecida e aliviada ao mesmo tempo.

   —Merda. Isso... isto... é meu jantar. Será melhor que o apague antes de que se dispare o alarme contra incêndios. Espere aqui um segundo... quero dizer, quer...? —Respirou fundo para tranqüilizar-se; não estava acostumada a sentir-se tão insegura com ninguém.

   — Entre, por favor. Volto em seguida.

   Sem duvidar nem um momento, Lucan Thorne entrou no apartamento atrás dela, Gabrielle se dava a volta para deixar o telefone celular e dirigir-se a cozinha para tirar os manicotti do forno.

   —Interrompi algo?

 

   Gabrielle se surpreendeu para ouvir que lhe falava desde dentro da cozinha, como se a tivesse seguido imediatamente e em silencio do mesmo instante em que lhe tinha convidado a entrar. Gabrielle tirou a bandeja com a massa fumegante do forno e a deixou em cima da mesa para que se esfriasse. Tirou-se as luvas de cozinha, quentes, e se deu a volta para lhe dedicar ao detetive um sorriso orgulhoso.

—Estou de celebração.

   Ele inclinou a cabeça e jogou uma olhada ao silencioso ambiente que lhes rodeava.

   —Sozinha?

Ela se encolheu de ombros.

   —A não ser que você queira me acompanhar.

   O leve gesto de cabeça que ele fez parecia mostrar reticência, mas imediatamente se tirou o casaco escuro e o deixou, dobrado, em cima do respaldo de um dos tamboretes que havia na cozinha. Sua presença era peculiar e lhe impedia de concentrar-se, especialmente nesses momentos em que ele se encontrava dentro da pequena cozinha: esse homem desconhecido e musculoso de olhar cativante e de um atrativo ligeiramente sinistro.

Ele se apoiou no mármore da cozinha e a observou enquanto ela se ocu­pava da bandeja de massa.

   —O que celebramos, Gabrielle?

   —Que hoje vendi algumas fotografias, em uma amostra privada, em um escritório brega do centro da cidade. Meu amigo Jamie me chamou faz uma hora aproximadamente e me deu a notícia.

   Thorne sorriu levemente.

 

   —Felicidades.

   —Obrigado. —Ela tirou outra taça do armário da cozinha e levantou a garrafa aberta do Chianti.

— Quer um pouco?

O negou lentamente com a cabeça.

   —Infelizmente, não posso.

   —OH, sinto-o —repôs ela, recordando qual era sua profissão.

— De serviço, verdade?

   Ele apertou a mandíbula.

—Sempre.

   Gabrielle sorriu, levou-se uma mão até uma mecha que lhe tinha desprendido da cauda e o colocou detrás da orelha. Thorne seguiu com o olhar o movimento de sua mão, e seus olhos se detiveram no arranhão que Gabrielle tinha na bochecha.

   —O que lhe aconteceu?

   —OH, nada —respondeu ela, pensando que não era uma boa idéia contar a um policial que se passou parte da manhã dentro de um velho psiquiátrico no qual tinha entrado de maneira ilegal.

— Ésomente um arranhão: ossos do ofício, de vez em quando. Estou segura de que sabe do que lhe falo.

   Gabrielle riu, um pouco nervosa, porque de repente ele se estava acercando a ela com uma expressão muito séria no rosto. Com apenas uns quantos passos se colocou justo diante dela. Seu tamanho, sua força —que resultava evidente—, era entristecedora. A essa curta distância, Gabrielle pôde ver os músculos bem desenhados que se marcavam e se moviam de­sde sua camisa negra. Essa malha de qualidade lhe caía nos ombros, no peito e nos braços como se o tivessem feito a medida para que lhe sentasse perfeitamente.

 

   E seu aroma era incrível. Não notou que levasse colônia, somente notou um ligeiro aroma a memora e a pele, e a um pouco mais denso, como uma especiaria e­xótica que não conhecia. Fossr o que fosse, esse aroma invadiu todos seus sentidos como algo elementar e primitivo e fez que se aproximasse ainda mais a ele em um momento no qual o que deveria ter feito era apar­tar-se.

   Ele alargou a mão e Gabrielle agüentou a respiração ao notar que a acariciava a linha da mandíbula com a ponta dos dedos. A nudez desse contato irradiou calor sobre sua pele, que se estendeu para seu pescoço enquanto lhe acariciava com a mão a sensível pele debaixo da orelha e da nuca. Acariciou-lhe o arranhão da bochecha com o dedo polegar. A ferida lhe tinha ardido antes, quando a tinha limpo, mas nesse momento, essa tenra e inesperada carícia não a incomodou absolutamente.

Não sentia nada mais que uma cálida frouxidão e uma lenta dor que lhe formava redemoinhos no mais profundo de seu corpo.

   Para sua surpresa, ele se inclinou para diante e lhe deu um beijo no arranhão. Os lábios dele se entretiveram nesse ponto um instante, o tempo suficiente para que ela compreendesse que esse gesto era um prelúdio a algo mais. Gabrielle fechou os olhos: sentia o coração acelerado. Não se moveu e quase nem respirou enquanto notava o contato dos lábios de Lucan que se dirigiam para os seus. Os beijou com intensidade, e notou a chicotada do desejo apesar da suavidade e a calidez dos lábios dele. Gabrielle abriu os olhos e viu que ele a estava olhando. Os olhos dele tinham uma expressão selvagem e animal que lhe provocou uma corrente de ansiedade que lhe percorreu todas as costas.

   Quando finalmente foi capaz de falar, a voz lhe saiu débil e quase sem fôlego.

   —Tem que fazer isto?

   Esse olhar penetrante permaneceu cravado em seus olhos.

—OH, sim.

 

   Ele se inclinou para ela outra vez e lhe acariciou as bochechas, o queixo e o pescoço com os lábios. Ela suspirou e ele apanhou esse ar com um profundo beijo, lhe penetrando a boca com a língua. Gabrielle lhe recebeu, vagamente consciente de que as mãos dele se encontravam sobre suas costas agora e que se deslizavam por debaixo da camiseta. E lhe acariciou, percorrendo a coluna com as pontas dos dedos. Essa carícia se deslocou com um movimento preguiçoso para baixo, e continuou por cima da malha da calça. Essas mãos fortes se acoplaram a curva de suas nádegas e as apertaram ligeiramente. Ela não resistiu. Ele voltou a beijá-la, mais profundamente, e a atraiu devagar para si até que a pélvis dela entrou em contato com o duro músculo de sua entre perna.

   Que diabos estava fazendo? Estava utilizando a cabeça?

   —Não —disse ela, tentando recuperar o sentido comum.

— Não, um momento. Pare. —Deus, detestou como tinha divulgado essa palavra, agora que a sensação dos lábios dele sobre os sua era tão agradável.

— Está... Lucan... está com alguém?

   —Olhe a seu redor, Gabrielle. —Passou-lhe os lábios por cima dos dela enquanto o dizia e ela se sentiu enjoada de desejo.

— Estamos somente você e eu.

   —Tem namorada —gaguejou ela entre beijo e beijo. Possivelmente já era um pouco tarde para perguntá-lo, mas tinha que sabê-lo, inclusive apesar de que não estava segura de como reagiria ante uma resposta que não fosse a que queria ouvir.

— Tem casal? Está casado? Por favor, não me diga que está casado...

   —Não há ninguém mais.

   «Somente você.»

   Ela estava bastante segura de que ele não tinha pronunciado essas duas últimas palavras, mas Gabrielle as ouvia em sua cabeça, ouvia seu eco quente e provocador, vencendo todas suas resistências.

 

   «OH, ele resulta muito agradável.» Ou possivelmente era que ela estava tão deses­perada por ele, que esse simples e único sinal que lhe oferecia era sufi­ciente. Essa e a que combinava essas mãos suaves e esses quentes e famintos lábios. Apesar de tudo, lhe acreditou sem sombra de dúvida. Sentiu como se todos e cada um dos sentidos dele estivessem sozinho concentrados nela.

Como se somente existisse ela, somente ele, e essa coisa quente que havia entre eles.

   E que, inegavelmente, tinha existido entre eles do mesmo mo­mento em que ele tinha subido as escadas de sua casa pela primeira vez.

   —OH —exclamou ela enquanto exalava todo o ar dos pulmões com um comprido suspiro. Ela se apertou contra ele desfrutando da sensação de notar essas mãos sobre sua pele, lhe acariciando a garganta, o ombro, o arco das costas.

— O que estamos fazendo, Lucan?

Ele emitiu um grunhido divertido que ela sentiu no ouvido, grave e pró­fundo como a noite.

   —Acredito que já sabe.

   —Eu não sei nada, nada quando faz isso. OH... Deus.

   Ele deixou de beijá-la um instante e a olhou aos olhos com intensidade enquanto se apertava contra ela com um gesto lento e deliberado. O sexo dele se apertou, rígido, contra o estômago dela. Ela notava a solidez e a dimensão de seu membro, sentia a pura força e tamanho de seu pênis, in­clusive através da barreira da roupa. Sentiu a umidade entre as per­nas no mesmo instante em que a idéia de lhe receber dentro de si passou pela cabeça.

   —É por isso que vim esta noite. —A voz de Lucan soou rouca contra seu ouvido.

—O compreende, Gabrielle? Desejo-te.

   Esse sentimento era mais que mútuo. Gabrielle gemeu e esfregou seu corpo contra o dele com um desejo que não podia, nem queria, controlar.

 

   Isso não estava acontecendo. Não estava acontecendo, realmente. Tinha que tratar-se de outro sonho louco, como o que tinha tido depois da pri­mera vez que lhe tinha visto. Ela não estava em pé na cozinha com Lucan Thorne, nem estava permitindo que esse homem ao que quase não conhecia a seduzisse. Estava sonhando, tinha que estar sonhando, e ao cabo de pouco tempo despertaria no sofá, sozinha, como sempre, com a taça de vinho atirada no tapete e seu jantar no forno, queimado.

   Mas ainda não.

   OH, Deus, por favor, ainda não.

Sentir como lhe acariciava a pele, como bulia de desejo sua língua, e­ra melhor que qualquer sonho, inclusive melhor que esse delicioso sonho que tinha tido antes, se é que isso era possível.

   —Gabrielle —sussurrou ele.

   — Me diga que você também quer isto.

   —Sim.

   Gabrielle notou que ele introduzia uma mão entre os corpos de ambos, urgente, e sentiu o fôlego quente dele em sua garganta.

   —Me sinta, Gabrielle. Date conta de até que ponto te necessito.

Ela sentiu os dedos dele ligeiros ao entrar em contato com os seus. Conduziu-lhe a mão até a tensa ereção, liberada agora de seu confi­namento. Gabrielle lhe rodeou o pênis com a mão e acariciou sua pele aveludada lentamente, lhe medindo. Essa parte de seu corpo era tão grande como o resto, e tinha uma força brutal apesar de que era muito suave. Sentir o peso do sexo dele na mão a transtornou como se tivesse tomado uma droga. Apertou a mão ao redor do pênis e atirou para cima, acariciando com a ponta dos dedos o grosso glande.

   Enquanto Gabrielle subia e baixava com a mão ao longo de seu mem­bro, Lucan se retorcia. Notou que as mãos dele tremiam enquanto se deslocavam dos quadris dela até a parte dianteira da pantalona para desabotoar-lhe, atirou do nó do cordão e soltou um juramen­to em algum idioma estranho com os lábios quentes contra seu cabelo. Gabrielle sentiu uma corrente de ar frio sobre o ventre e, imediatamente, o calor repentino da mão de Lucan, que acabava de introduzir-lhe dentro da calça.

 

   Ela estava úmida por ele, tinha perdido a cabeça e sentia que o de­sejo lhe queimava.

   Ele introduziu os dedos com facilidade por entre os cachos de sua entre per­na e em seu sexo empapado, provocando-a com a brincadeira de sua mão contra sua carne. Ela gritou ao sentir que o desejo a invadia em uma quebra de onda que a deixou tremendo.

   —Necessito-te —lhe confessou em um fio de voz, nua pelo desejo. Por resposta, lhe introduziu um comprido dedo dentro da vagina e logo outro. Gabrielle se retorceu ao sentir essa carícia tentadora que ainda não a enchia.

   —Mais —disse, quase sem fôlego—. Lucan, por favor... necessito... mais.

   Um escuro grunhido de paixão soou na garganta dele enquanto voltava a atacar seus lábios com outro beijo faminto. A calça dela se escorregou até o chão. Detrás, seguiram-lhe as calcinhas, a fina malha se rompeu com a força e a impaciência da mão de Lucan. Gabrielle sentiu que o ar frio lhe acariciava a pele, mas então Lucan ficou de joelhos diante dela e ela se acendeu antes de ter tempo de vol­tar a respirar. Ele a beijou e a lambeu, lhe sujeitando com força a parte inte­rior das coxas com as mãos e lhe fazendo abrir as pernas para satisfazer seu desejo carnal. Sentiu a língua dele que a penetrava, sentiu que os lábios dele a chupavam com força, e não pôde evitar sentir que as pernas lhe fraquejavam.

   Gozou rapidamente, com mais força da que teria imaginado. Lu­can a sujeitava com firmeza com as mãos, apertando seu úmido sexo contra ele, sem lhe dar trégua Apesar de que o corpo dela tremia e se retorcia e que seu fôlego era agitado e entrecortado enquanto ele a conduzia para o orgasmo outra vez. Gabrielle fechou os olhos e jogou a cabeça para trás, rendendo-se a ele, e a loucura desse inesperado encontro. Cravou-lhe as unhas nos ombros para sujeitar-se, porque sentia que as pernas lhe falhavam.

 

   Sentiu, de novo, o alívio do orgasmo em todo o corpo. Primeiro a possuiu com uma força férrea, arrastando-a a um país de uma sensualidade de sonho, e logo a soltou e ela se sentiu cair e cair...

   Não, estava-a levantando, pensou, aturdida por essa neblina sexual. Os braços de Lucan a sujeitavam com ternura por debaixo das costas e dos joelhos. Agora ele estava nu, e ela também, Apesar de que não podia recordar quando se tirou a camiseta. Lhe rodeou o pescoço com os braços e ele a tirou da cozinha para a sala de estar, onde soava pelos alto-falantes a voz do Sarah McLahlan em um tema que falava de abraçar a alguém e de lhe beijar até lhe deixar sem respiração.

   A suavidade do sofá a recebeu assim que Lucan a teve depositado no sofá para colocar-se em cima dela. Não foi até esse momento que ela pôde lhe ver por completo, e o que viu era magnífico. Um metro noventa e oito de sólida musculatura e de pura força masculina que a apanhava por cima, e esses sólidos braços a cada lado de seu corpo.

   Como se a pura beleza do corpo dele não fosse suficiente, a impre­ssionante pele de Lucan mostrava umas intrincadas tatuagens que a deixaram boquiaberta. O complicado desenho de linhas curvas e formas entrecru­zadas se desdobrava por cima de seus peitorais e de seu forte abdo­men, subia-lhe pelos largos ombros e lhe rodeava os grossos bíceps. A cor era confusa, variava de um verde mar, a um siena, um vermelho bordo que parecia tomar um tom mais intenso quando ela o olhava.

   Ele baixou a cabeça para concentrar-se em seus peitos, e Gabrielle viu que a tatuagem lhe cobria as costas e desaparecia sob o cabelo da nuca. A primeira vez que lhe viu, sentiu o desejo de percorrer com os dedo essa marca. Agora sucumbiu a ele, abandonando-se, deixando que suas mãos percorressem todo o corpo dele, maravilhada tanto por esse homem mis­terioso como por essa estranha arte que sua pele mostrava.

   —Me beije —lhe suplicou, lhe sujeitando os ombros tatuados com ambas as mãos.

   Ele começou a levantar a cabeça e Gabrielle arqueou as costas debaixo dele, sentindo-se enfebrecida pelo desejo, precisando lhe sentir dentro de seu corpo. Sua ereção era dura como o aço e quente contra suas coxas. Gabrielle deslizou as mãos para baixo e lhe acariciou enquanto levantava os quadris para lhe receber.

 

   —Tome —sussurrou ela—. Me encha, Lucan. Agora. Por favor.

Ele não o negou.

   O grosso glande de seu membro pulsava, duro e sensível, na entrada de sua vagina. Ele estava tremendo e ela se deu conta de uma forma um tanto confusa. Esses impressionantes ombros tremiam sob o contato de suas mãos, como se ele se esteve contendo todo esse tempo e estivesse a ponto de explodir. Ela queria que ele gozasse com a mesma força com que o tinha feito ela. Precisava lhe ter dentro dela ou ia morrer. Ele emitiu um grunhido afogado, os lábios lhe roçando a sensibilidade da pele do pescoço.

   —Sim —lhe animou ela, movendo-se debaixo dele para que seu pênis se cra­va-se até o centro de seu corpo.

— Não seja suave. Não vou romper.

   Ele levantou a cabeça finalmente e, por um instante, olhou-a aos olhos. Gabrielle lhe olhou, com as pálpebras pesadas, assustada pelo fogo indó­mito que viu nele: seus olhos brilhavam com umas chamas gêmeas de uma cor prateado pálido que lhe alagava as pupilas e penetrava nos olhos dela com um calor sobrenatural. Os rasgos do rosto dele pareciam mais afiados, sua pele parecia estirar-se sobre suas maçãs do rosto e suas fortes mandíbulas.

     Era verdadeiramente peculiar como a tênue luz da habitação jogava sobre esses rasgos.

   Esse pensamento ainda não lhe tinha terminado de formar por completo quando as luzes da sala de estar se apagaram de uma vez. Tivesse-lhe parecido estranho se Lucan, nesse momento, quando a escuridão caiu sobre eles, não a tivesse penetrado com uma forte e profunda investida. Gabrielle não pôde reprimir um gemido de prazer ao notar que ele a enchia, abria-a, empalava-a até o centro de seu corpo.

 

   —OH, Meu deus —exclamou ela quase em um soluço, aceitando toda a dureza e dimensão dele.

   — É tão prazeiroso.

   Ele baixou a cabeça até o ombro dela e soltou um grunhido enquanto saía de sua vagina. Logo investiu com mais força que antes. Gabrielle se sujeitou as costas dele, lhe atraindo para si, enquanto levantava as ca­deiras para receber suas fortes investidas. Ele soltou um juramento, quase sem respiração, que pareceu um som escuro e animal. Seu pênis se des­lizava dentro dela e parecia inchar-se mais a cada movimento de seus quadris.

   —Necessito foderte, Gabrielle. Precisava estar dentro de ti do primeiro momento em que te vi.

   A franqueza dessas palavras, o fato de que admitisse que a tinha desejado tanto como lhe tinha desejado a ele somente serviu para que ela se inflamasse mais. Enredou os dedos no cabelo dele, e gritou, sem respiração, à medida que o ritmo dele se incrementava. Agora ele entra­va e saía, incansável, entre suas pernas. Gabrielle sentiu a corrente do orgasmo no mais profundo de seu ventre.

   —Poderia estar fazendo isto toda a noite —disse ele com voz rouca, seu fôlego quente contra o pescoço dela.

— Acredito que não posso parar.

   —Não o faça, Lucan. OH, Deus... não o faça.

   Gabrielle se agarrou a ele enquanto ele bombeava dentro de seu corpo. Era o único que pôde fazer enquanto um grito lhe rompia a garganta e gozava e gozava e gozava uma vez detrás de outra, imparavel.

   Lucan saiu do apartamento de Gabrielle e percorreu a escura e silen­ciosa rua a pé. Tinha-a deixado dormindo no dormitório de seu apar­tamento, com a respiração compassada e tranqüila, o delicioso corpo esgotado depois de três horas de paixão sem parar. Nunca havia transado com tanta fúria, durante tanto tempo, nem tão completamente com ninguém.

   E ainda desejava mais.

 

   Mais dela.

   O fato de que tivesse conseguido lhe ocultar o alongamento das presas e o brilho de selvagem desejo de seus olhos era um milagre.

   O fato de que não tivesse cedido à necessidade invencível e urgente de lhe cravar as afiadas presas na garganta e beber até ficar embriagado era ainda mais impressionante.

   Mas não confiava em si mesmo o suficiente para ficar perto dela enquanto cada uma das enfebrecidas células de seu corpo lhe doía pelo desejo de fazê-lo.

   Provavelmente, a ter ido ver essa noite tinha sido um monstruoso engano. Tinha pensado que ter sexo com ela apagaria o fogo que lhe acendia, mas nunca se equivocou tanto. Ter tomado a Gabrielle, ter estado dentro dela, somente tinha servido para pôr em evidência a debilidade que sentia por ela. Tinha-a desejado com uma necessidade animal e a tinha açoitado como o depredador que era. Não estava seguro de ter sido capaz de aceitar um não como resposta. Não acreditava que tivesse sido capaz de controlar o desejo que sentia por ela.

Mas não lhe tinha rechaçado.

   Não o tinha feito, não.

   Em retrospectiva, tivesse sido um ato de misericórdia que ela o ouvesse feito, mas em lugar disso, Gabrielle tinha aceito por completo sua fúria sexual e tinha exigido que não lhe desse nada inferior a isso .

   Se nesse mesmo momento, desse meia volta e voltasse para seu apar­tamento para despertá-la, poderia passar umas quantas horas mais entre suas impressionantes e acolhedoras coxas. Isso, pelo menos, satisfaria parte de sua necessidade. E se não podia saciar a outra parte, esse tortura que crescia cada vez mais em seu interior, podia esperar a que se levantasse o sol e deixar que seus mortais raios o abrasassem até a destruição.

 

   Se o dever que tinha para a raça não lhe tivesse tão comprometido, consideraria essa opção como uma possibilidade atrativa.

   Lucan pronunciou um juramento em voz baixa. Saiu do bairro de Gabrielle e se internou na paisagem noturna da cidade. Tremiam-lhe as mãos. Lhe havia agudizado a vista, e seus pensamentos começavam a ser selvagens. O corpo lhe picava; sentia-se ansioso. Soltou um grunhido de frustração: conhecia esses sintomas muito bem.

Precisava voltar a alimentar-se.

   Fazia muito pouco tempo que tinha tomado a quantidade suficiente de sangue para manter-se durante uma semana, possivelmente mais. Isso havia sido umas quantas noites atrás e, apesar disso, lhe retorcia o estôma­go como se estivesse desfalecido de fome. Fazia muito tempo que sua necessidade de alimentar-se tinha piorado e já quase resultava insuportavel quando tentava reprimir-lhe.

   Isso era o que lhe tinha permitido chegar tão longe.

   Em um momento ou outro ia chegar ao final da corda. E então o que?

   De verdade acreditava que era tão distinto de seu pai?

   Seus irmãos não tinham sido distintos de seu pai, e eles eram maiores e mais fortes que ele. A sede de sangue os tinha levado aos dois: um deles se tirou a vida quando o vício foi dema­síado forte; o outro foi mais à frente ainda, converteu-se em um renegado e perdeu a cabeça sob a folha mortal de um guerreiro da raça.

   Ter nascido na primeira geração lhe tinha dado a Lucan uma grande força e um grande poder —e lhe tinha permitido gozar de um imediato respeito que ele sabia que não merecia—, mas isso era tanto um dom como uma maldição. Perguntava-se quanto tempo mais poderia continuar lutan­do contra a escuridão de sua própria natureza selvagem. Algumas noites se sentia muito cansado de ter que fazê-lo.

 

   Enquanto caminhava entre a gente que povoava as ruas noturnas Lu­can deixou vagar o olhar. Embora estava preparado para entrar em batalha se tinha que fazê-lo, alegrou-se de que não houvesse nenhum renegado a vista. Somente viu uns quantos vampiros da última geração que pertenciam ao Refúgio Escuro dessa zona: um grupo de jovens machos que se mesclaram com um animado grupo de seres humanos que tinham saído de festa e que procuravam dissimuladamente, igual a ele, um anfitrião de sangue. Enquanto se dirigia para eles por essa parte da calçada, viu que os jovens se davam cotoveladas uns aos outros e lhes ouviu sussurrar as palavras «guerreiro» e «primeira geração». A admi­ração que mostravam abertamente e sua curiosidade resultavam aborrecida, embora não era algo pouco habitual. Os vampiros que nasciam e cresciam nos Refúgios Escuros raramente tinham a oportunidade de ver um mem­bro da classe dos guerreiros, por não falar do fundador da antiga e orgulhosa e agora já antiquada Ordem.

   A maioria deles conheciam as histórias que contavam que fazia varios séculos, oito dos mais ferozes e letais machos da raça se uniram em um grupo para assassinar aos últimos antigos selvagens e ao exér­cito de renegados que lhes serviam. Esses guerreiros se converteram lenda e desde esse momento, a Ordem tinha sofrido muitas mudanças, ha­via crescido em número e suas localizações tinham aumentado nos pe­ríodos em que tinha havido conflito com os renegados e tinham detido sua atividade durante os largos períodos de paz.

   Agora, a classe dos vampiros estava formada somente por um punhado de indivíduos em todo o planeta que operava de forma encoberta e muitas vezes independente e com não pouco desprezo da sociedade. Nesta época ilustrada de trato justo e de processos legais em que se encontrava a nação dos vampiros, as táticas dos guerreiros se con­sideravam renegadas e quase do outro lado da lei.

   Como se Lucan, ou a qualquer dos guerreiros que se encontravam em primeira fila da luta com ele, importassem-lhes o mais mínimo as rela­ções públicas.

   Lucan grunhiu em direção aos jovens boquiabertos e dirigiu uma convite mental as fêmeas humanas com quem os vampiros tinham estado conversando na rua. Todos os olhos femininos ficaram cravados no puro poder que ele —e ele sabia— emanava em todas as direções. Duas das garotas —uma loira de peito abundante e uma ruiva de cabelo somente um pouco mais claro que o do Gabrielle— se separa­ram imediatamente do grupo e se aproximaram dele, esquecendo a seus ami­gos e aos outros machos imediatamente.

 

   Mas Lucan somente necessitava a uma, e a eleição era fácil. Rechaçou a loira com um gesto de cabeça. Sua companheira se colocou sob o braço dele e começou alhe manusear enquanto ele a conduzia para um dis­creto e escuro rincão de um edifício próximo.

   Se pos a tarefa sem duvidar nem um momento.

   Apartou o cabelo da garota, impregnado do aroma de tabaco e a cerveja, de seu pescoço, lambeu-se os lábios e lhe cravou as presas estendidas na garganta. Ela sofreu um espasmo ao notar a dentada e levantou as mãos em um gesto instintivo no momento no qual ele começou a chupar com força o sangue de suas veias. Chupou durante um bom momento, não queria desperdiçar nada. A fêmea gemeu, não por causa do alarme nem da dor, a não ser a causa do prazer único que produzia sentir sair o sangue sob o domínio de um vampiro.

O sangue encheu a boca de Lucan, quente e denso.

   Contra sua vontade, em sua mente se formou a imagem de Gabrielle em seus braços, e Lucan imaginou, por um muito breve instante, que era de seu pescoço de que chupava nesses momentos.

   Que era o sangue dela a que lhe descia pela garganta e lhe entrava no corpo.

   Deus, o que era pensar como seria chupar a veia de Gabrielle enquanto seu pênis se cravava no quente e úmido centro de seu corpo.

Que prazer só pensá-lo.

   Apartou essa fantasia de sua mente com um grunhido feroz.

 

   «Isso não vai acontecer nunca», disse a si mesmo, com dureza. A realidade era outra coisa, e era melhor que não a perdesse de vista.

   A verdade era que não se tratava de Gabrielle, mas sim de uma estranha sem nome, justo tal e como ele o preferia. O sangue que tomava nesse momento não tinha a doçura de jasmim que ele tanto desejava, a não ser uma acidez amarga viciada por algum suave narcótico que sua anfitriã tinha ingerido recentemente.

   Não lhe importava o sabor que tivesse. Quão único precisava era apaziguar a urgência da sede, e para isso servia qualquer. Continuou chupando e tragando com ansiedade, de forma expedita, como o fazia sempre quando se alimentava.

   Quando teve terminado, passou a língua pelos dois orifícios para fecha-los. A jovem estava respirando agitadamente, tinha os lábios entre abertos e seu corpo estava lânguido como se tivesse acabado de ter um orgasmo.

Lucan pôs a palma da mão sobre a frente dela e a desceu para seu rosto para lhe fechar os olhos, vazios de expressão e sonolentos. Esse contato apagava qualquer lembrança do que acabava de acontecer entre eles.

   —Seus amigos lhe estão procurando — disse a garota enquanto apartava a mão de seu rosto e lhe olhava, confundida, piscando.

— Deve­ria ir a casa. A noite está cheia de depredadores.

   —De acordo —disse ela, assentindo com a cabeça.

   Lucan esperou entre as sombras enquanto ela dava a volta a esquina do edifício e se dirigia para seus companheiros. Ele inalou com força através dos dentes e das presas: sentia todos os músculos do corpo tensos, duros e vivos. O coração lhe pulsava com força no peito. Somente pensar no sabor que devia ter o sangue de Gabrielle lhe tinha provocado uma ereção.

 

   Seu apetite físico deveria haver-se apaziguado agora que já se havia alimentado, mas não se sentia satisfeito.

Ainda... desejava-a.

   Emitiu um grunhido baixo e voltou a sair de caça a rua, mais mal humo­rado que nunca. Pôs o olhar na parte mais conflitiva da cidade com a esperança de encontrasse com um ou dois renegados antes de que começasse a sair o sol. De repente, precisava meter-se em uma briga desesperadamente. Precisava fazer mal a alguém, inclusive embora esse alguém acabasse sendo ele mesmo.

   Tinha que fazer o que fosse necessário para manter-se afastado de Gabrielle Maxwell.

 

Ao princípio, Gabrielle pensou que se tratou somente de outro sonho erótico. Mas a manhã seguinte, ao despertar, tarde, nua na cama, com o corpo esgotado e dolorido nos lugares adequados, soube que, definitivamente, Lucan Thorne tinha estado ali, em carne e osso. E Deus, que carne tão impressionante. Tinha perdido a conta de quantas vezes a tinha levado até o climax. Se somava todos os orgasmos que tinha tido durante os últimos dois anos, provavelmente nem se aproximaria do que tinha experiente com ele a passada noite.

   E apesar disso, no momento em que abriu os olhos e se deu conta, decepcionada, de que Lucan não se ficou ali, ainda desejava ter outro orgasmo mais. A cama estava vazia, o apartamento se encontrava em silêncio. Era evidente que ele se partiu em algum momento durante a noite.

   Gabrielle estava tão esgotada que tivesse podido dormir o dia inteiro, mas tinha uma entrevista para com o Jamie e com as garotas, assim saiu da casa e se dirigiu por volta do centro da cidade vinte minutos depois do meio-dia. Quando entrou no restaurante de Chinatown se deu conta de que umas quantas cabeças se giravam a seu passo: notou as olhadas apreciativas de um grupo de tipos que pareciam modelos de publicidade e que se encontravam ante a barra de sushi e as de meia dúzia de executivos trajados que a seguiram enquanto ela se dirigia para a mesa de seus amigos, ao fundo do restaurante.

   Sentia-se sexy e segura de si mesmo, vestida com seu suéter de pescoço de pico de cor vermelha escuro e sua saia negra, e não lhe importava que fora evidente para todo mundo que se encontrava ali que tinha desfrutado da noite de sexo mais incrível de toda sua vida.

   —Finalmente, honra-nos com sua presença! —exclamou Jamie assim que Gabrielle chegou a mesa e saudou seus amigos com uns abraços.

   Megan lhe acariciou uma bochecha.

   —Tem um aspecto fantástico.

   Jamie assentiu com a cabeça.

   —Sim, é verdade, carinho. Eu adoro o que tem posto. É novo? —Não esperou a que lhe respondesse. Voltou a sentar-se imediatamente ante a mesa e se meteu na boca um rollito frito.

— Morria de fome, assim já pedimos um aperitivo. Mas onde estiveste? Estava a ponto de mandar a um esquadrão para te buscar.

   —Sinto muito. Hoje dormi um pouco.

—Sorriu e se sentou ao lado do Jamie, no banco de vinil de cor verde.

— Kendra não vem?

   —Desaparecida em combate outra vez. —Megan tomou um sorvo de chá e se encolheu de ombros.

— Não importa. Ultimamente, somente fala de seu novo namorado, já sabe, esse menino que encontrou em La Notte o passado fim de semana.

   —Brent —disse Gabrielle, controlando a pontada de desconforto que sentiu pela menção dessa terrível noite.

—Sim, ele. Ela inclusive conseguiu trocar seu turno pelo de dia no hospital para passar todas as noites com ele. Parece que ele tem que viajar muito para ir ao trabalho ou o que seja e normalmente não está dispo­nivel durante o dia. Não me posso acreditar que Kendra permita que alguém lhe dirija a vida desta maneira. Ray e eu levamos três meses saindo, eu ainda tenho tempo para meus amigos.

   Gabrielle arqueou as sobrancelhas. Dos quatro, Kendra era a mais livre de espírito, inclusive de forma impenitente. Preferia manter uns quantos amantes e tinha intenção de permanecer solteira pelo menos até que cumprisse os trinta.

   —Crê que se apaixonou?

   —Lascívia, carinho. —Jamie colheu com os palitos o último sushi.

— Às vezes te faz fazer coisas piores que o amor. Me acredite, passou-me.

 

   Enquanto mastigava, Jamie cravou os olhos nos do Gabrielle durante um comprido momento. Logo se fixou no cabelo desordenado e em que ela, de repente, ruborizou-se. Gabrielle tentou sorrir com expressão despreocupada, mas não pôde evitar que seu segredo a traísse no brilho de felicidade de seus olhos. Jamie deixou os palitos no prato, inclinou a cabeça para ela e o cabelo loiro lhe caiu sobre a bochecha.

   —OH, Meu deus. —Sorriu—. O tem feito.

   —Fiz o que? —Mas lhe escapou uma suave gargalhada.

   —Tem-no feito. Deitaste-te com alguém, verdade?

   A gargalhada de Gabrielle se reduziu a uma tímida risadinha.

   —OH, carinho. Pois te sinta bem, devo dizer. —Jamie lhe deu umas pal­madinhas na mão e Riu com ela.

— A ver se o adivinho: é o escuro e sexy detetive do Departamento de Polícia de Boston.

   Ela levantou os olhos ao céu para ouvir como lhe tinha qualificado, mas assentiu com a cabeça.

   —Quando foi?

   —Esta noite. Virtualmente toda a noite.

   A expressão de entusiasmo do Jamie atraiu a atenção de algumas me­sas próximas. Ele se acalmou um pouco, mas sorria a Gabrielle como uma orgulhosa mamãe ganso.

—Ele é bom, né?

—Incrível.

     —De acordo. E como é possível que eu não saiba nada deste homem misterioso? —interrompeu Megan nesses momentos—. E é um policial? Possivelmente Ray lhe conheça. Posso-lhe perguntar...

 

   —Não. —Gabrielle negou com a cabeça—. Por favor, não digam nada disto aninguém, meninos. Não estou saindo com Lucan. Veio ontem pela noite para me devolver o telefone celular e as coisas ficaram... bom... fora de controle. Nem sequer sei se vou voltar a lhe ver.

   A verdade era que não tinha nem idéia disso mas, Deus, desejava que assim fosse.

   Uma parte dela sabia que o que tinha ocorrido entre eles era algo insensato, uma loucura. Era-o. A verdade é que não podia negá-lo. Era de loucos. Ela sempre se teve por uma pessoa sensata, prudente: a pessoa que acautelava a seus amigos dos impulsos imprudentes como o que se permitiu a noite passada.

   Tola, tola, tola.

   E não somente por ter permitido que esse momento a apanhasse por completo até o ponto de ter esquecido tomar nenhum amparo. Ter relação íntimas com alguém que é virtualmente um desconhecido raramente era uma boa idéia, mas Gabrielle tinha a terrível sensação de que resultaria muito fácil perder o coração por um homem como Lucan Thorne.

   Mas como, estava segura, não era menos que de idiotas.

   Apesar de tudo, o sexo como o que tinha tido com ele não se dava freqüentemente. Pelo menos, não para ela. Somente pensar em Lucan Thorne fazia que tudo dentro de seu corpo se retorcesse de desejo. Se ele entrasse no restaurante justo nesse momento, provavelmente saltaria por sobre as mesas e se tornaria em cima dele.

   —Ontem passamos juntos uma noite incrível, mas agora mesmo, isso é quão único há. Não quero tirar nenhuma conclusão disso.

   —Ok! —Jamie apoiou um cotovelo na mesa e se apoiou nele com expre­ssão conspiradora.

— Então, por que está a todo o momento?

 

   —Onde diabos estiveste?

   Lucan cheirou a Tegan antes de ver o vampiro dar a volta à esquina do corredor da zona de residência do complexo. O macho tinha estado caçando fazia pouco. Ainda arrastava o aroma metálico e adocicado do sangue, tanto de humano como de algum renegado.

   Quando viu que Lucan lhe estava esperando fora de um dos apar­tamentos se deteve, com as mãos apertadas em punhos dentro dos bolsos da calça texana de cintura baixa. A camiseta cinza que levava posta estava desfiada em alguns pontos e suja de pó e de sangue. Tinha as pálpebras cansadas sobre os pálidos olhos verdes e se viam umas escuras olheiras. O cabelo, avermelhado, descuidado e comprido, caía-lhe sobre o rosto.

   —Tem um aspecto de merda, Tegan.

   Ele levantou os olhos por debaixo da franja de seu cabelo e se mostrou bur­lón, como sempre.

   Seus fortes bíceps e antebraços estavam cobertos de dermoglifos. E­ssas elegantes e afiligranadas marca tinham somente um tom mais escu­ro que o de sua pele dourada e sua cor não desvelava o estado de ânimo do vampiro. Lucan não sabia se era por pura vontade que esse macho se encerrava em uma atitude permanente de apatia ou se era a escuridão de seu passado que verdadeiramente tinha apagado qualquer sentimento que pudesse ter.

   Deus era testemunha de que tinha passado por algo que tivesse podido ven­cer a uma equipe inteira de guerreiros.

   Mas os demônios pessoais que Tegan tivesse eram coisa dele. O único que lhe importava a Lucan era assegurar-se de que a Ordem se man­tinha forte e a ponto. Não havia lugar para que essa correia tivesse enganos débeis.

   —Faz cinco dias que estiveste fora de contato, Tegan. Lhe vou perguntar isso outra vez: onde merda estiveste?

 

   O sorriu, zombador.

   —Foda-se, cara. Não é minha mãe.

   Começou a afastar-se, mas Lucan lhe fechou o passo com uma velocidade a­ssombrosa. Levantou Tegan pelo pescoço e o empurrou contra a parede do corredor para captar sua atenção.

   A fúria de Lucan estava em seu ponto máximo: em parte pela descon­sideração que, em geral, Tegan mostrava por volta de outros na Ordem durante os últimos tempos, mas ainda o estava mais pela falta de sensatez que lhe tinha feito pensar que poderia passar uma noite com a Gabrielle Maxwell e tirar-lhe logo depois da cabeça.

   Nem o sangue nem a extrema violência que tinha exercido com dois Rene­gados durante as horas prévias ao amanhecer tinham sido suficientes para apagar a lascívia pelo Gabrielle que ainda lhe pulsava por todo o corpo. Lucan tinha percorrido a cidade como um espectro durante toda a noite e tinha voltado para o complexo com um humor furioso e negro.

   Esse sentimento persistia nele enquanto apertava os dedos ao redor da garganta de seu irmão. Necessitava uma desculpa para tirar a agre­sividade, e Tegan, com esse aspecto animal e com seu secretismo, era um candidato mais que bom para fazer esse papel.

   —Estou cansado de suas tolices, Tegan. Precisa te controlar, ou eu o farei em seu lugar. —Apertou a laringe do vampiro com mais força, mas Tegan nem sequer se alterou pela dor.

— Agora me diga onde estiveste durante todo este tempo ou você e eu vamos ter sérios problemas.

   Os dois machos tinham mais ou menos o mesmo tamanho e estavam mais que igualados em questão de força. Tegan pôde ter apresentado bata­lha, mas não o fez. Não demonstrou nem a mais mínima emoção, simplesmente olhou A Lucan com olhos frios e indiferentes.

   Não sentia nada, e inclusive isso tirava de gonzo a Lucan.

 

   Lucan, com um grunhido, tirou a mão da garganta do guerreiro e tentou controlar a raiva. Não era próprio dele comportar-se dessa maneira. Isso estava por debaixo dele.

Merda.

   E era ele quem dizia a Tegan que tinha que controlar-se?

Bom conselho. Possivelmente tinha que aplicar-lhe a si mesmo.

   O olhar inexpressivo do Tegan dizia mais ou menos o mesmo, embora o vampiro manteve, de forma inteligente, a boca fechada.

   Enquanto os dois difíceis aliados se olhavam um ao outro em meio de um escuro silêncio, detrás deles e a certa distancia no corredor, uma porta de cristal se abriu com um zumbido. Ouviu-se o chiado das sapa­tilhas esportivas do Gideon no gentil chão enquanto este saía de seus aposentos privados e percorria o corredor.

   —Né, Tegan, bom trabalho de reconhecimento, cara. Vigiei um pouco depois do que falamos o outro dia. Esse pressentimento que teve de que devíamos manter vigiados Aos renegados no Green Line p­arece bom.

   Lucan nem sequer piscou. Tegan lhe agüentou o olhar, sem fazer caso às felicitações de Gideon. Tampouco tentou defender-se dessas suspeitas infundadas. Simplesmente ficou ali durante um comprido minuto sem dizer nada. Logo passou ao lado de Lucan e continuou seu caminho pelo corredor do complexo.

   —Acredito que quererá comprovar isto, Lucan —disse Gideon enquanto se dirigia para o laboratório.

— Parece que algo está a ponto de ficar feio.

 

Com a taça quente entre as mãos, Gabrielle tomou um sorvo do suave chá enquanto Jamie comia o resto de seu prato. Também ia comer seu biscoitinho da sorte de sobremesa, como fazia sempre, mas não importava. Era agradável estar, simplesmente, com os amigos, e sentir que a vida voltava a adquirir certo ar de normalidade depois do que lhe tinha acontecido o fim de semana passado.

   —Tenho uma coisa para ti —disse Jamie, interrompendo os pensamen­tos de Gabrielle. Rebuscou um momento na bolsa que levava de cor nata que estava no banco em meio de ambos e tirou um envelope alvo.

— Procede da amostra privada.

   Gabrielle o abriu e tirou um cheque da galeria. Era mais do que há­via esperado. Uns par de notas grandes demais.

—Vai.

—Surpresa —cantarolou Jamie com um amplo sorriso—. Subi o preço. Pensei que diabos e eles o aceitaram sem regatear em nenhum mo­mento. Crê que deveria ter pedido mais?

   —Não —repôs Gabrielle—. Não, isto é... isto... uuuff. Obrigado.

   —Não é nada. —Assinalou a barra de chocolate.

—Vais comer?

   Ela empurrou o prato por cima da mesa para ele.

   —Bom, e quem é o comprador?

   —Ah, isso continua sendo um grande mistério —disse ele, enquanto rompia a bolacha dentro de seu pacote de plástico.

— Pagaram em dinheiro, assim é evidente que são sérios sobre o caráter anônimo da venda. E mandaram um táxi para me buscar para levar a coleção.

 

   —Do que estão falando, meninos? —perguntou Megan. Olhou aos dois com o cenho franzido e uma expressão de confusão.

— Lhes juro que sou a última que se inteira de tudo.

   —Nossa pequena e talentosa artista tem um admirador secreto — informou Jamie, dramaticamente. Tirou a nota da sorte do biscoitinho, leu-a, levantou os olhos ao céu e atirou o trocito de papel no prato vazio.

— Onde ficaram os dias em que este tipo de coisas significavam algo? Bom, faz umas quantas noites me pediram que apresentasse a coleção completa de fotografias da Gabby ante um comprador anônimo do centro da cidade. Compraram-nas todas: até a última.

   Megan olhou a Gabrielle com os olhos muito abertos.

   —Isso é maravilhoso! Me alegro tanto por ti, carinho!

   —Seja quem é quem as comprou, a verdade é que tem uma seria mania com o secretismo.

   Gabrielle olhou a seu amigo enquanto se guardava o cheque na bolsa.

   —O que quer dizer?

   Jamie terminou de mastigar o último pedaço de biscoitinho da sorte e se limpou os dedos dos miolos.

   —Bom, quando cheguei a direção que me deram, em um desses luxuosos edifícios de escritórios com vários inquilinos, recebeu-me uma espécie de guarda-costas no vestíbulo. Não me disse nada, somente murmurou algo a um microfone sem fio e logo me acompanhou até um elevador que nos levou a piso mais alto do edifício.

   Megan arqueou as sobrancelhas.

—Ao apartamento de cobertura?

 

   —Sim. E aí está a coisa. O lugar estava vazio. Todas as luzes estavam acesas, mas não havia ninguém dentro. Não havia móveis, não havia nenhuma equipe, nada. Somente paredes e janelas que davam a cidade.

   —Isso é muito estranho. Não te parece, Gabby?

   Ela assentiu com a cabeça e uma sensação de intranqüilidade foi inva­dindo enquanto Jamie continuava.

   —Então o guarda-costas me disse que tirasse a primeira fotografia da pasta e que caminhasse com ela e me dirigisse para as janelas da parede norte. Ao outro lado estava escuro, e eu lhe estava dando as costas a ele, mas ele me disse que devia sujeitar cada uma das fotos ante essa janela até que me desse instruções das deixar a um lado e tomar outra.

   Megan riu.

   —De costas a ele? Por que queria que fizesse isso?

   —Porque o comprador estava observando desde outro lugar —respondeu Gabrielle em voz baixa.

— Em algum lugar de onde via as janelas do apartamento de cobertura.

   Jamie assentiu com a cabeça.

   —Isso parece. Não consegui ouvir nada, mas estou seguro de que o guarda-costas, ou o que fora, estava recebendo instruções pelos auriculares. Para te dizer a verdade, estava-me pondo um pouco nervoso com tudo isso, mas foi bem. Ao final não passou nada mau. Quão único queriam eram suas fotografias. Somente tinha chegado a quarta quando disseram que pedisse um preço para todas elas. Assim, que tal e como te hei dito, pus alto e o aceitaram.

   —Estranho —comentou Megan—. Né, Gab, possivelmente chamaste a atenção de um milionário mortalmente atrativo mas retraído. Possivelmente o ano que vem, por estas datas, estaremos dançando em suas luxuosas bodas no Miko­nos.

 

   —Uf, por favor —exclamou Jamie sem fôlego—. Mikonos é do ano passado. A gente bonita está na Marbella, querida.

Gabrielle tentou tirar-se de cima a estranha sensação de inquietação que lhe estava produzindo a estranha história do Jamie. Tal e como ele havia dito, tudo tinha ido bem e ela tinha um cheque por uma importância muito alta na bolsa. Possivelmente podia convidar para jantar a Lucan, dado que a comida que tinha preparado a outra noite para a celebração ficou no balcão da cozinha.

   Embora não sentia nem o mais mínimo remorso pela perda de seus manicotti.

   Sim, uma romântica saída para jantar com Lucan soava fantástico. Com um pouco de sorte, possivelmente tomassem as sobremesas em... e o café da manhã tam­bém .

Gabrielle ficou de bom humor imediatamente e riu com seus a­migos enquanto estes continuavam intercambiando idéias extravagantes a respeito de quem podia ser esse misterioso colecionador e o que podia signi­ficar para seu futuro e, por extensão, para o de todos eles. Ainda estavam falando do mesmo quando a mesafoi retirada e a conta paga, e os três saíram a rua ensolarada.

   —Tenho que ir correndo —disse Megan, dando um rápido abraço a Gabrielle e a Jamie.

— Nos veremos logo, meninos?

   —Sim —responderam os dois ao uníssono e a saudaram com a mão, atrás da Megan caminhava rua acima, para o edifício de escritórios onde tra­balhava.

   Jamie levantou uma mão para chamar um táxi.

—Vai diretamente a casa, Gabby?

 

   —Não, ainda não. —Deu uns golpezinhos a câmera que levava sobre o ombro.

— Pensava dar um passeio até o parque e possivelmente gastar um pouco de filme. E você?

   —David vai chegar de Atlanta dentro de uma hora —lhe disse .

— Vou tirar o resto do dia. Possivelmente amanhã também.

Gabrielle riu.

   —Dê- lhe lembranças de minha parte.

   —Farei-o. —aproximou-se dela e lhe deu um beijo na bochecha.

   — Eu gosto de verte sorrir outra vez. Estava realmente preocupado por ti depois do último fim de semana. Nunca te tinha visto tão afetada. Está bem, verdade?

   —Sim, estou bem, de verdade.

   —E agora tem ao escuro e sexy detetive para te cuidar, o qual não está nada mal.

   —Não, não está nada mal —admitiu ela, e notou uma sensação de calidez pelo só feito de pensar nele.

Jamie lhe deu um abraço afetuoso.

   —Bom, céu, se necessitar algo que ele não te possa dar, o qual duvido muito, me chame, de acordo? Quero-te, carinho.

   —Eu também te quero. —Um táxi se deteve na esquina e se saudaram.

— Te divirta com o David. —E levantou a mão para lhe dizer adeus enquanto Jamie entrava no táxi e este se internava no matizado tráfico da hora de comer.

   Somente se demorava uns quantos minutos em percorrer as quadras que separavam Chinatown do parque Boston Common. Gabrielle passeou pelos amplos espaços e tirou umas quantas fotografias. Logo se de­teve para observar a uns meninos que jogavam a galinha cega na grama da zona de recreio. Observou a uma menina que se encontrava no centro do grupo com os olhos tampados com uma atadura e que girava a um lado e a outro com os braços estendidos tentando apanharar seus esquivos amigos.

 

   Gabrielle levantou a câmera e enfocou aos meninos, que não paravam de correr e de rir. Aproximou a imagem com o zoom e seguiu a menina de cabelo loiro e olhos enfaixados com a lente enquanto as risadas e os gritos dos meninos enchiam o parque. Não fez nenhuma fotografia, simplesmente olhou esse despreocupado jogo desde detrás da câmera e tentou re­cordar uma época em que ela se houvesse sentido assim contente e segura.

   Deus, havia-se sentido assim alguma vez?

   Um de quão adultos estava vigiando aos meninos de perto lhes chamou para que fossem comer, interrompendo seu estridente jogo. Os meninos correram até o lençol estendido no chão para comer e Gabrielle percorreu o parque ao seu redor com a lente da câmera. Na imagem desfocada a causa do movimento, percebeu a figura de alguém que a olhava desde debaixo da sombra de uma árvore grande.

   Gabrielle apartou a câmera de seu rosto e olhou nessa direção: havia um homem jovem em pé, parcialmente escondido pelo tronco de um velho carvalho.

   Sua presença era quase imperceptível nesse parque cheio de atividade, mas lhe resultava vagamente familiar. Gabrielle viu que tinha o cabelo a­bundante e de uma cor castanha cinzenta, que levava uma camisa solta e uma calça cáqui. Era a classe de pessoa que desaparecia com facili­dade entre a multidão, mas estava segura de que lhe tinha visto em algum lugar fazia pouco tempo.

   Não lhe tinha visto na delegacia de polícia de polícia a semana passada quando foi fazer a declaração?

   Fosse quem fosse, deveu dar-se conta de que lhe tinha visto, porque imediatamente retrocedeu, escondeu-se atrás do tronco da ár­vore e começou a afastar-se dali em direção a Charles Street. Enquanto caminhava a passo rápido em direção a essa rua, tirou-se um telefone celular do bolso da calça e jogou uma rápida olhada para trás por cima do ombro, em direção a Gabrielle.

 

   Gabrielle sentiu que lhe arrepiavam os cabelos da nuca com uma repen­tina sensação de suspeita e de alarme.

   Ele a tinha estado observando, mas por que?

   Que diabos estava acontecendo? Algo acontecia, definitivamente, e ela não tinha intenção de tratar de adivinhá-lo por mais tempo.

   Com o olhar cravado no menino da calça cáqui, Gabrielle começou a caminhar detrás dele enquanto se guardava a câmera na capa e se ajustava a tira da bolsa protetora no ombro. Quando saiu do am­plo terreno do parque e entrou no Charles Street, o menino lhe levava uma quadra de vantagem.

—Né! —chamou ela, começando a correr.

   O,menino que continuava falando por telefone, girou a cabeça e a olhou. Disse algo ao aparelho com gesto apressado, apagou o aparelho e o conservou na mão. Apartou o olhar dela e começou a correr.

   —Para! —gritou Gabrielle. Chamou a atenção das pessoas na rua, o menino continuou sem lhe fazer caso.

— Te hei dito que te detenha, merda! Quem é? Por que me está espiando?

   Ele subiu a toda velocidade pelo Charles Street mergulhando-se na maré de pedestres. Gabrielle lhe seguiu, esquivando a turistas e empregados de escritório que saíam durante o descanso para a comida, sem apartar a vista da mochila delgada que o menino levava nas costas. Ele torceu por uma rua, logo por outra, internando-se cada vez mais na cidade, afastando-se das lojas e os escritórios do Charles Street e voltando para a matizada zona de Chi­natown.

   Sem saber quanto tempo levava perseguindo a esse menino nem onde havia chegado exatamente, Gabrielle se deu conta de repente de que lhe tinha perdido.

 

   Girou por uma esquina cheia de gente e se sentiu profundamente sozinha: esse ambiente pouco familiar se fechou ao redor dela. Os lojistas a observavam desde debaixo dos toldos e desde detrás das portas abertas para deixar entrar o ar do verão. Os pedestres a olhavam, aborrecidos, porque se tinha detido de repente em meio da calçada e interrompia o passo.

   Foi nesse momento quando sentiu uma presença ameaçadora detrás dela, na rua.

   Gabrielle olhou por cima do ombro e viu um Sedam negro de vidros escuro que se deslocava devagar entre outros carros. Movia-se com elegância, deliberadamente, como um tubarão que atravessasse um banco de peixes pequenos em busca de uma presa melhor.

Estava-se dirigindo para ela?

   Talvez o menino que a tinha estado espiando se encontrava dentro do carro. Possivelmente sua aparição, e a do carro de aspecto ameaçador, tinham algo que ver com quem tinha comprado suas fotografias.

   Ou possivelmente se tratasse de algo pior.

Possivelmente um pouco relacionado com o espantoso ataque que tinha presenciado na semana anterior e tendo informado disso a polícia. Possível­mente se tropeçou com uma rixa entre bandas, depois de tudo. Possivelmente essas criaturas malignas —já que não podia acabar de convencer-se de que eram homens— tinham decidido que ela era seu próximo alvo.

   O veículo se aproximou por um sulco lateral até a calçada onde ela se encontrava em pé e Gabrielle sentiu que um medo gelado a atravessa­.

Começou a caminhar. Acelerou o ritmo para avançar mais depressa.

   A suas costas ouviu o som do carro que acelerava.

   OH, Deus.

 

Ia por ela!

   Gabrielle não esperou para ouvir o som dos pneumáticos das rodas no pavimento a suas costas. Gritou e saiu disparada em uma carreira , movendo as pernas tão depressa como era capaz.

   Havia muita gente ao seu redor. Muitos obstáculos para tomar um caminho reto. Esquivou aos pedestres, muito nervosa para oferecer nenhuma desculpa antes seus estalos de língua e exclamações de irritação.

   Não lhe importava: estava segura de que era um assunto de vida ou morte.

   Olhar para trás seria um grave engano. Ainda ouvia o ruído do motor do carro no meio do tráfico, que a seguia de perto. Gabrielle baixou a cabeça e se esforçou em correr mais rápido enquanto rezava por ser capaz de sair dessa rua antes de que o carro a apanhasse.

   De repente, nessa enlouquecida carreira, falhou-lhe um tornozelo.

   Cambaleou-se e perdeu o equilíbrio. O chão pareceu elevar-se para ela e caiu com força contra o duro pavimento. Parou o golpe forte da queda com os joelhos e as palmas das mãos, destroçando-lhe a dor da carne rasgada, lhe fez saltar as lágrimas, mas não fez conta. Gabrielle voltou a ficar em pé. Quase ainda não tinha recuperado o equilíbrio quando notou a mão de um estranho que a sujeitava com força pelo cotovelo.

   Gabrielle reprimiu um grito. Tinha os olhos enlouquecidos de pânico.

   —Encontra-se bem, senhorita? —O rosto cinza de um trabalhador mu­nicipal apareceu em seu ângulo de visão e seus olhos azuis rodeados de rugas se fixaram nas feridas.

—Uf, vá, olhe isso, está sangrando.

—Solte-me!

 

   —É que não viu esses reservatórios de água daí? —Assinalou com o polegar por cima do ombro, a suas costas, para os cones de cor laranja com os quais Gabrielle tinha se chocado ao passar—Esta parte da calçada está levantada.

   —Por favor, não passa nada. Estou bem.

Apanhada pela mão dele, que tentava ajudá-la mas que a desafiava, Gabrielle levantou o olhar bem a tempo para ver que o Sedam es­curo aparecia na esquina por onde ela tinha passado fazia um instante. O carro se deteve abruptamente, a porta do condutor se abriu e um homem enorme e muito alto saiu à rua.

   —OH, Deus. Me solte! —Gabrielle deu uma sacudida com o braço para soltar do homem que tentava ajudá-la sem apartar o olhar desse monstruoso carro negro e no perigo que supunha—. É que não com­prende que me estão perseguindo?

   —Quem? —O tom de voz do trabalhador municipal foi de incredualidade. Levou a vista em direção aonde ela estava olhando e soltou uma gargalhada.

— Se refere a esse tipo? Senhora, é o maldito prefeito do Bos­tom.

-O que...?

   Era verdade. Olhou enlouquecida toda a atividade que se desenvolvia nessa esquina e o compreendeu. O Sedam negro não a perseguia, depois de tudo. Tinha estacionado na esquina e o condutor, agora, estava espe­rando com a porta traseira aberta. O prefeito em pessoa saiu de um restaurante acompanhado por dois guarda-costas e os três subiram ao assento traseiro do veículo.

   Gabrielle fechou os olhos. As palmas das mãos lhe queimavam de dor. Os joelhos, também. Tinha o pulso acelerado, mas parecia que o sangue lhe tinha descido da cabeça.

   Sentiu-se como uma completa idiota.

—Acreditei... —murmurou, enquanto o condutor fechava a porta, e se colocava no assento dianteiro e arrancava o carro em direção ao tráfico da rua.

 

   O trabalhador lhe soltou o braço. Afastou-se dela para voltar a ocupar-se da bolsa com sua comida e seu café enquanto meneava a cabeça.

   —O que lhe acontece? É que se tornou louca ou algo?

Merda.

   Supunha-se que ela não tinha que lhe haver visto. Tinha ordens de ob­servar a mulher Maxwell, de tomar nota de suas atividades, de estabelecer quais eram seus costumes. Tinha que informar de tudo isso a seu Professor. Por cima de tudo, tinha que evitar ser visto. O subordinado soltou outra maldição do mesmo lugar onde estava escondido, as costas pega contra uma anódina porta de um edifício, um desses tantos lugares que se apinhavam entre os restaurantes e mercados do Chinatown. Com cuidado, abriu a porta e tirou a cabeça para ver se podia detectar a mulher em algum lugar da rua.

   Ali estava, justo ao outro lado da rua abarrotada de gente.

   E se alegrou de ver que ela estava abandonando a zona. Quão último perdeu de vista foi seu cabelo acobreado por entre a multidão da calçada, a cabeça encurvada e o passo acelerado.

Esperou ali, observou-a até que teve desaparecido de sua vista por completo. Então voltou a sair a rua e se dirigiu em direção con­traria. Tinha passado mais de uma hora de seu descanso para comer. Era melhor que voltasse para a delegacia de polícia antes de que lhe sentissem falta.

 

Gabrielle pôs outra toalha de papel sob o jorro de água fria na pia da cozinha. Havia várias toalhas mais atiradas já, empapadas de água e manchadas de sangue, além de sujas do pó da rua que se limpou das palmas das mãos e dos joelhos. Em pé, de sutiens e calcinhas, jogou um pouco de sabão líquido na toalha de papel empapada de água e se esfregou com energia as feridas das palmas das mãos.

   —Ai! —exclamou, e franziu o cenho. Encontrou-se uma pequena e afiada lasca cravada na ferida. A tirou e a atirou à pia ao lado de todo o cascalho que se limpou das feridas.

   Deus, parecia um desastre.

   A saia nova estava rota e destroçada. A prega do suéter se danificou ao cair contra o áspero pavimento. E parecia que as mãos e os joelhos pertencessem a uma menina selvagem e torpe.

E além de tudo isso, mostrou-se como uma completa estúpida em público.

   Que demônios lhe estava acontecendo para ficar histérica dessa maneira?

   O prefeito, pelo amor de Deus. E ela tinha fugido desse carro como se temesse que se tratasse de...

Do que? De alguma espécie de monstro?

«Vampiro.»

As mãos do Gabrielle ficaram imóveis.

 

 

Ouviu a palavra mentalmente, apesar de que se negou a pronunciá-la em voz alta. Essa era a palavra que tinha na soleira da consciência do momento em que foi testemunha desse assassinato. Era uma palavra que não queria reconhecer, nem sequer quando se encontrava sozinha no se­lêncio de seu apartamento vazio.

   Os vampiros eram a obsessão da louca de sua mãe biológica, não a sua.

   Essa adolescente anônima se encontrava em um estado completamente delirante quando a polícia a tirou das ruas, fazia tantos anos. Dizia que a tinham açoitado uns demônios que queriam beber seu sangue, que, de fato, tinham-no tentado, e essa tinha sido a explicação que tinha dado pelas estranhas feridas que tinha na garganta. Os docu­mentos judiciais que lhe tinham dado estavam salpicados de loucas refe­rencias a espectros sedentos de sangue que percorriam a cidade em com­pleta liberdade.

   Impossível.

   Isso era uma loucura, e Gabrielle sabia.

   Estava permitindo que sua imaginação e que o medo que tinha de converter-se em uma perturbada como sua mãe algum dia acabassem com ela. Mas ela era muito inteligente para permiti-lo. Era mais sã, pelo menos...

   Deus, tinha que sê-lo.

   Ter visto esse menino da delegacia de polícia esse mesmo dia —para somar-se a tudo pelo que tinha passado durante os últimos dias— lhe ha­via disparado seus medos. Apesar de tudo, agora que o pensava, nem se­quer estava segura de que esse tipo a quem tinha visto no parque fora de verdade o administrativo que tinha visto na delegacia de polícia.

   Mas e o que se o era? Possivelmente se encontrava no parque para tomar sua comida e para desfrutar do tempo igual ao estava fazendo ela. Isso não era nenhum crime. Possivelmente, a estava olhando era porque também lhe tinha parecido que lhe resultava familiar. Possivelmente ele se aproximou para saudá-la se ela não tivesse carregado contra ele como uma psicopata paranoica, lhe acusando de estar espiando-a.

 

OH, e não seria perfeito que ele fosse a delegacia de polícia e contasse a todos que lhe tinha açoitado por várias quadras no Chinatown?

   Se Lucan se inteirava disso, ela ia morrer da humilhação.

   Gabrielle terminou de limpar as feridas das palmas das mãos e tentou apartar tudo o que tinha ocorrido esse dia de sua cabeça. Ainda tinha a ansiedade no ponto máximo e o coração lhe pulsava com força. Limpou-se os golpes do rosto e observou um magro rastro de sangue que lhe descia pelo pulso.

   Ver seu sangue sempre a tranqüilizava, por alguma estranha razão. Sempre tinha sido assim.

   Quando era mais jovem e as emoções e as pressões internas eram tão fortes que já não sabia o que fazer com elas, quão único tinha que fazer para se acalmar era fazer um pequeno corte.

   O primeiro tinha sido por acidente. Gabrielle se encontrava cortando uma maçã em um de seus lares de acolhida quando a faca resvalou e lhe fez um corte na base do dedo polegar. Doeu-lhe um pouco, mas Gabrielle não sentiu nem medo nem pânico ao observar como o sangue saía e desenhava um reluzente redemoinho escarlate.

   Havia-se sentido fascinada.

   Havia sentido uma incrível espécie de... paz.

   Ao cabo de uns quantos meses desse surpreendente descobrimento, Gabrielle voltou a cortar-se. Fê-lo de forma deliberada e em segredo, sem intenção de fazer-se mal de verdade. À medida que o tempo transcorreu, fê-lo mais freqüentemente, sempre que precisava sentir essa profunda sensação de calma.

 

   E agora o necessitava porque estava ansiosa e nervosa como um gato atento a qualquer pequeno ruído que ouvisse no apartamento ou fora dele. Doía-lhe a cabeça. Tinha a respiração agitada e apertava as mandíbulas.

Seus pensamentos saltavam do brilho do flash ante a cena da noite fora da discoteca ao inquietante psiquiátrico onde tinha estado fazendo fotos a manhã anterior e ao medo irracional, profundo e perturbador que havia sentido essa tarde.

   Necessitava um pouco de paz depois de tudo isso.

   Só embora fossem uns quantos minutos de calma.

   Gabrielle dirigiu o olhar para o contêiner de facas de madeira que se encontrava, ali perto, sobre o mármore. Alargou a mão e tomou um deles. Fazia anos que não o fazia. esforçou-se tanto em controlar essa compulsão estranha e vergonhoza.

   Mas a tinha feito desaparecer de verdade?

   Os psicólogos que a administração lhe tinha posto e os trabalhadores sociais, ao final, convenceram-se de que assim era. Também os Maxwell.

   Agora, enquanto se aproximava a faca à pele do braço e sentia co­mo uma escura emoção despertava dentro dela, Gabrielle o duvidou. A­perto a ponta da folha contra a pele do antebraço, embora ainda sem a força suficiente para cortar-se.

   Esse era seu demônio privado, e era uma coisa que nunca havia comprar­tilhado abertamente com ninguém, nem sequer com o Jamie, seu amigo mais querido.

Ninguém o compreenderia.

Quase nem ela mesma o compreendia.

 

   Gabrielle jogou a cabeça para trás e respirou profundamente. Enquanto voltava a baixar a cabeça e exalava lentamente, viu seu próprio reflexo no cristal da janela de cima da pia. O rosto que lhe devolveu o olhar tinha uma expressão esgotada e triste, seus olhos estavam apagados e angustiados.

   —Quem é? —sussurrou a essa imagem fantasmal que via no cristal. Teve que reprimir um soluço.

— O que é que vai mal contigo?

   Abatida consigo mesma, atirou a faca na pia e se apartou dali enquanto o som do aço ressonava na cozinha.

   O constante som dos sinais de multiplicação de um helicóptero atravessava o céu da noite no velho psiquiátrico. Da camuflagem de uma nuvem, um Colibri EC120 negro descendeu e se posou com suavidade em uma zona plaina do telhado.

   —Desliga o motor —ordenou o líder dos renegados a seu subordinado piloto quando o aparelho se posou no improvisado heliporto.

— Espere-me aqui até que volte.

   Saltou fora da cabine e recebeu a imediata saudação de seu tenente, um indivíduo bastante desagradável a quem tinha recrutado na Costa Oes­te.

   —Tudo está em ordem, senhor.

   As espessas sobrancelhas marrons do renegado se afundaram em cima de seus ferozes olhos amarelos. Na enorme cabeça calva ainda se viam as cicatrizes das queimaduras de eletricidade que lhe tinham infligido os da raça durante um interrogatório pelo que tinha passado fazia meio ano. Mas, entre o resto dos repugnantes rasgos de seu rosto, essas numerosas marcas de queimaduras eram somente um detalhe. O renegado sorriu, deixando ver umas enormes presas.

   —Seus presentes foram muito bem recebidos esta noite, senhor. Todo o mundo espera com ânsia sua chegada.

 

   O líder dos renegados, com os olhos escondidos detrás de uns óculos de sol, assentiu com a cabeça brevemente e, com passo depravado, deixou-se conduzir até o piso de acima do edifício e logo até um elevador que lhe levaria ao coração das instalações. Afundaram-se por debaixo do nível do piso do chão, saíram do elevador e se internaram por uma rede de túneis que rodeavam uma parte da fortaleza da guarida dos renegados.

   Quanto ao líder, este tinha estado instalado em seu quartel privado em algum ponto de Boston durante o último mês, fiscalizando em privado algumas operações, determinando obstáculos e estabelecendo as prin­cipais vantagens que tinham no novo território que queriam controlar. Esta era sua primeira aparição em público: era todo um evento, e essa era exatamente sua intenção.

   Não era algo freqüente que ele se aventurasse a sair em meio da por­queira da população geral; os vampiros que se convertiam em re­negados eram uma gente arruda, indiscriminada, e ele tinha aprendido ­apreciar coisas melhores durante seus muitos anos de existência. Tinha que lhes recordar a essas bestas quem era e a quem serviam e por isso lhes tinha devotado uma amostra do bota de cano longo que lhes esperava ao final de sua última missão. Não todos eles sobreviveriam, é obvio. As vítimas acostum­avam a acumular-se em meio de uma guerra.

   E uma guerra era o que ia vender aí essa noite.

   Já não haveria mais conflitos insignificantes no terreno. Não haveria mais luta internas entre os renegados, nem mais atos absurdos de vingança individual. Foram unir-se e passar a página de uma forma que ainda ninguém tinha imaginado nessa antiga batalha que tinha dividido para sempre a nação dos vampiros em dois. A raça tinha mandado du­rante muito tempo e tinha chegado a um acordo não falado com os humano inferiores ao tempo que ansiavam eliminar a seus irmãos os renegados.

   As duas facções da estirpe dos vampiros não eram tão diferentes uma da outra, somente lhes separava uma questão de grau. Quão único diferenciava a um vampiro da raça que saciava sua fome de vida e a um vampiro constantemente sedento de sangue e viciado era uma questão de litros. As linhas sangüíneas da estirpe se apagaram com o tempo da época dos antigos e os novos vampiros se convertiam em adultos e se apareavam com as companheiras de raça huma­nas.

 

   Mas não havia forma de que a contaminação de gens humanos destruisse por completo os gens dos vampiros, mais fortes. A sede de sangue era um espectro que perseguiria a raça para sempre.

   Do ponto de vista do líder dessa guerra que se aproximava, a gente tanto podia lutar contra o impulso inato próprio de sua estirpe ou utili­za-lo para benefício próprio.

   Nesse momento, ele e seu tenente tinham chegado ao final do corredor e a vibração de uma música estridente reverberava nas paredes e no chão, sob seus pés. Estava-se levando a cabo uma festa detrás de uma dupla porta de aço amassada e maltratada. Ante ela, um vampiro Rene­gado que se encontrava de guarda se fincou de joelhos pesadamente assim que suas rasgadas pupilas registraram quem estava esperando diante dele.

   —Senhor. —O tom de sua áspera voz foi reverente e mostrou deferencia ao não levantar a vista para encontrar-se com os olhos que se ocultavam detrás desses óculos escuros.

— Meu senhor, sua presença nos honra.

   De fato, sim lhes honrava. O líder fez um rápido movimento afirmativo com a cabeça assim que o vigilante ficou em pé de novo. Com uma mão imunda, que estava de guarda empurrou as portas para permi­tir a entrada a seu superior a estridente reunião que se levava a cabo ao outro lado das mesmas. O líder se despediu de seu acompanhante e ficou livre para observar em privado o lugar.

   Tratava-se de uma orgia de sangue, sexo e música. Em todos os rincões onde olhasse via machos renegados que manuseavam, perseguiam e se alimentavam de um variado sortido de seres humanos, tanto homens como mulheres. Sentiam pouca dor, tanto se encontravam nesse evento de forma voluntária como se não. A maioria tinham sofrido, pelo menos, uma dentada, e lhes tinham extraído tanto sangue que se sentiam como em uma nuvem de sensualidade e ligeireza. Alguns deles fazia muito momento que se foram, e seus corpos se encontravam inertes como os de uns bonitos bonecos de roupa em cima do regaço de seus depredadores

 

Olhos selvagens, que não cessavam de alimentar-se até que não ficava nada mais que devorar.

   Mas isso era o que alguém devia esperar se lançava uns tenros cordeiros a um poço cheio de bestas vorazes.

   Enquanto se dirigia para a parte mais matizada dessa reunião, começaram-lhe a suar as mãos. O pênis lhe endureceu baixo a cuidada queda da calça confeccionada a medida. As gengivas começaram a lhe doer e a lhe pulsar, e teve que morder a língua para evitar que as presas lhe alargassem de fome, ao igual que tinha feito seu sexo, em resposta a chuva de estímulos eróticos e sensoriais que lhe golpeia­van desde todos os ângulos.

   A mescla do aroma de sexo e sangue derramada lhe chamava como o canto de uma sereia. Esse era um canto que ele conhecia bem, embora isso tinha sido em seu passado, agora muito distante. OH, ainda desfrutava com um bom sexo e com uma suculenta veia aberta, mas essas necessidades já não lhe governavam. Tinha tido que percorrer um caminho muito difícil do ponto em que se encontrava antigamente, mas, ao final, tinha vencido.

   Agora era senhor de si mesmo e logo o seria de muito, muito mais.

   Uma nova guerra ia começar e ele estava preparado para oferecer a última batalha. Estava educando a seu exército, aperfeiçoando seus méto­dos, recrutando aliados que mais tarde seriam sacrificados sem duvidá-lo nem um momento no altar de seu capricho pessoal. Ia infligir uma sangrenta vingança a nação dos vampiros e ao mundo de quão humanos somente existia para servir aos seus.

   Quando a grande batalha tivesse terminado e as cinzas e o pó houvessem sido finalmente varridos, não haveria ninguém que pudesse interpo­r em seu caminho.

   Ele seria um maldito rei. Esse era seu direito de nascimento.

   —Mmmm... né, bonito... vêem aqui e joga comigo.

Esse convite realizado em voz rouca lhe alcançou por cima do barulho da sala. De um montículo de corpos retorcidos, nus e úmidos tinha aparecido a mão de uma mulher que lhe sujeitou pela coxa no momento em que ele passava por seu lado. Ele se deteve, baixou o olhar até ela com uma clara expressão de impaciência. Percebeu uma beleza oculta sob a escura e destroçado maquiagem, mas ela tinha a mente completamente perdida nesse profundo delírio da orgia.

 

Um par de rastro de sangue lhe desciam pelo bonito pescoço e chegavam até as pontas de seus peitos perfeitamente formados. Tinha outras mordidas em outros pontos do corpo: no ombro, no ventre, e na parte interior de uma das coxas, justo debaixo da estreita banda de pêlo que lhe ocultava o sexo.

   —Te una lhe suplicou ela, levantando-se de entre a selva enredada de braços e pernas dos vampiros renegados em zelo. A essa mulher quase tinham extraído todo o sangue, somente ficavam uns litros antes de morrer. Tinha os olhos frágeis, perdidos. Seus movimentos eram lânguidos, como se seus ossos se tornaram de borracha.

— Tenho o que desejas. Sangrarei para ti, também. Vêem, me prove.

   Ele não disse nada; simplesmente apartou os pálidos dedos manchados de sangue que atiravam da fina malha de suas caras calças de seda.

Verdadeiramente, não estava de humor.

   E, ao igual que todo líder com êxito, nunca tocava sua própria mercadoria.

   Pôs-lhe a mão plaina em cima do peito e a empurrou. Ela chiou: um dos renegados a tinha apanhado sem contem­plação e, com rudeza, deu-lhe a volta em cima de seu braço, colocou-a debaixo dele e a penetrou por detrás. Ela gemeu assim que ele a atravessou, mas ficou em silencio ao cabo de um instante enquanto o vampiro sedento de sangue lhe cravava as enormes presas no pescoço e lhe chupava a última gota de vida de seu corpo consumido.

   —Desfrutem destes restos —disse o que ia ser rei com uma voz profunda que se elevava em tom magnânimo por cima dos rugidos animais e o estrondo ensurdecedor da música.

— A noite se está levantando e logo conhecerão as recompensas que tenho a lhes oferece­r.

 

Lucan bateu na porta do apartamento de Gabrielle outra vez.

   Ainda, nenhuma resposta.

   Fazia cinco minutos que se encontrava em pé na entrada, na escuridaão, esperando a que ou ela abrisse a porta e convidasse a entrar, ou lhe amaldiçoar e lhe chamasse bastardo do outro lado dos numerosos ferrolhos de segurança e lhe dissesse que se perdesse.

   Depois do comportamento pornográfico que tinha tido com ela a noite anterior, não estava seguro de qual era a reação que se merecia encontrar. Provavelmente, uma irada despedida.

   Golpeou a porta com os nódulos outra vez com tanta força que era provável que os vizinhos lhe tivessem ouvido, mas não se ouviu nenhum movi­mento dentro do apartamento de Gabrielle. Somente silencio. Havia muita quietude ao outro lado da porta.

   Mas ela estava ali dentro. Notava-a ao outro lado das capas de madeira e tijolo que lhes separavam. E cheirava a sangue, também. Não muito sangue, mas certa quantidade em algum ponto próximo a porta.

Filho da puta.

Ela estava dentro, e estava ferida.

—Gabrielle!

A preocupação lhe corria pelas veias como se fosse um ácido. Tentou se tranquiliza o suficiente para poder concentrar seus poderes mentais no ferrolho de correia e nas duas fechaduras que estavam colocadas ao outro lado da porta. Com um esforço, abriu um ferrolho e logo o outro. A correia se soltou e caiu contra o gonzo da porta com um som metálico.

 

   Lucan abriu a porta com um empurrão e suas botas soaram com força sobre o chão de ladrilhos do vestíbulo. A bolsa das câmeras de Gabrielle se encontrava justo em seu caminho, provavelmente onde ela a tinha deixado cair com a pressa. O doce aroma ajazminado de seu sangue lhe encheu as fossas nasais justo um instante antes de que sua vista tropeçasse com um caminho de pequenas manchas de cor carmesim.

   O ambiente do apartamento tinha certo ar amargo de medo cujo aroma, que já tinha umas horas, apagou-se mas permanecia como uma neblina.

   Atravessou a sala de estar com intenção de entrar na cozinha, para onde se dirigiam as gotas de sangue. Enquanto cruzava a sala, tropeçou com um montão de fotografias que havia na mesa do sofá.

   Eram umas tomadas rápidas, uma estranha variedade de imagens. Reconheceu algumas delas, que formavam parte do trabalho que Gabrielle estava levando a cabo e que titulava Renovação urbana. Mas havia umas quão­ imagens que não tinha visto antes. Ou possivelmente não tinha emprestado a atenção suficiente para dar-se conta.

   Agora sim que se deu conta.

   Merda, vá que sim.

   Um velho armazém perto do dique. Um velho moinho papeleiro abando­nado justo aos subúrbios da cidade. Várias estruturas diferentes que proibiam a entrada onde nenhum humano —por não falar de uma mulher confiada como Gabrielle— devia aproximar-se de nenhuma forma.

Guaridas de renegados.

Algumas delas já tinham sido erradicadas, estavam-no graças a Lu­can e a seus guerreiros, mas umas quantas mais ainda eram células a­tivas. Viu umas quantas que se encontravam nesses momentos vigiadas pelo Gideon. Enquanto passava rapidamente as fotos, perguntou-se quantas localizações de guaridas de renegados teria Gabrielle fotografadas e o que ainda não se encontravam no radar da raça.

 

   —Merda —sussurrou, tenso, olhando um par de imagens mais.

   Inclusive tinha algumas fotos exteriores de uns Refúgios Escuros da cidade, umas entradas escuras e umas sinalizações dissimuladas cuja função era evitar que esses santuários dos vampiros fossem facilmente localizados tanto pelos curiosos seres humanos como por seus inimi­gos os renegados.

   E Apesar de tudo, Gabrielle tinha encontrado esses lugares. Como?

   É obvio, não podia ter sido por acaso. O extraordinário sentido visual de Gabrielle devia havê-la conduzido até esses lugar de gado. Ela já tinha demonstrado que era completamente imune aos truques habituais dos vampiros: ilusões hipnóticas, controle mental... E agora isto.

   Lucan soltou uma maldição e se meteu umas quantas fotografias no bolso da jaqueta de couro. Deixou o resto das imagens em cima da mesa.

—Gabrielle?

   Dirigiu-se até a cozinha, onde algo ainda mais inquietante lhe estava esperando.

   O aroma de Gabrielle era mais forte ali, e lhe conduziu até a pia. Ficou imovel diante dele e sentiu uma sensação gelada no teto assim que fixou o olhar no mesmo.

   Parecia que alguém tivesse tentado limpar uma cena do crime, e que o tivesse feito muito mal. Na pia havia um montão de toa­lhas de papel empapadas de água e manchadas de sangue, ao lado de uma faca que tinham tirado do estojo de madeira que se encontrava no mármore da cozinha.

   Tomou a afiada faca e o inspecionou rapidamente. Não tinha sido u­tilizada, mas todo o sangue que havia na pia e que tinha caído ao chão do vestíbulo até a cozinha pertencia unicamente a Gabrielle.

E a parte de roupa que se encontrava atirado no chão ao lado de seus pés também tinha seu aroma.

   Deus, se alguém lhe tinha posto a mão em cima...

Se lhe tivesse acontecido algo...

—Gabrielle!

Lucan seguiu seus instintos, que lhe levaram até o porão do aparta­mento. Não se incomodou em acender as luzes: sua visão era mais aguda na escuridão. Baixou as escadas e gritou seu nome em meio desse silen­cio .

   Em um rincão, ao outro extremo do porão, o aroma de Gabrielle se fazia mais forte. Lucan se encontrou em pé diante de outra porta fechada, uma porta rodeada de uns vedadores para que não penetrasse a luz exterior. Tentou abri-la pelo pomo, mas estava fechada e sacudiu a porta com força.

   —Gabrielle. Ouve-me? Menina, abre a porta.

   Não esperou a receber resposta. Não tinha a paciência para isso, nem a concentração mental para abrir o ferrolho que fechava a porta do outro lado. Soltou um grunhido de fúria, golpeou a porta com o ombro e entrou.

   Imediatamente, seus olhos, na escuridão dessa sala, deram com ela. Seu corpo se encontrava enroscado no chão da desordenada habitação escura e estava nua exceto por um sutiens e umas calcinhas de traje de banho. Ela despertou imediatamente com o repentino estrondo da porta.

   Levantou a cabeça rapidamente. Tinha as pálpebras pesadas e inchadas por ter chorado fazia pouco. Tinha estado ali soluçando, e Lucan houvesse dito que o tinha feito durante bastante momento. Seu corpo parecía exalar quebras de onda de cansaço: a via tão pequena, tão vulnerável.

 

   —OH, não, Gabrielle —sussurrou ele, deixando cair no chão ao lado dela.

— Que demônios está fazendo aqui dentro? Alguém te tem feito mal?

Ela negou com a cabeça, mas não respondeu imediatamente. Com um gesto hesitante, levou-se as mãos até o rosto e se apartou o cabelo do rosto, tentando lhe ver em meio dessa escuridão.

   —Só... cansada. Necessitava silêncio... paz.

   —E por isso te encerraste aqui embaixo? —Ele deixou escapar um forte suspiro de alívio, mas no corpo dela viu umas feridas que tinham deixado de sangrar fazia muito pouco tempo.

— De verdade que está bem?

   Ela assentiu com a cabeça e se aproximou para ele na escuridão.

   Lucan franziu o cenho e alargou a mão até ela. Acariciou-lhe a cabeça e ela pareceu entender esse contato como um convite. Colocou-se en­tre seus braços como uma menina que necessitasse consolo e calor. Não era bom o natural que lhe pareceu abraçá-la, quão forte sentiu a necessidade de tranqüilizá-la para que se sentisse segura com ele. Para que sentisse que ele a protegeria como se fosse dele.

Dele.

   «Impossível», disse a si mesmo. Mais que impossível: era ridículo.

   Baixou a vista e em silêncio observou a suavidade e o calor do corpo dessa mulher que se enredava com o seu em sua deliciosa e quase completa nudez. Ela não tinha nem idéia do perigoso mundo no qual se colocou, e muito menos de que era um mortífero macho vampiro quem a estava abraçando nesses momentos.

   Ele era o último que podia oferecer amparo contra o perigo a uma companheira de raça. No caso de Gabrielle, somente notar a mais ligeira fragrância dela elevava sua sede de sangue até a zona de perigo. Acariciou-lhe o pescoço e o ombro e tentou ignorar o constante ritmo do pulso de suas veias sob as pontas dos dedos. Tinha que lutar de maneira infernal para não fazer caso da lembrança da última vez que tinha estado com ela, tanto que precisava tê-la outra vez.

 

   —Mmmm, seu tato é muito agradável —murmurou ela, sonolenta, contra seu peito. Sua voz foi como um ronrono escuro e dormitado que lhe provocou uma descarga de calor na coluna vertebral é outro sonho?

   Lucan gemeu, incapaz de responder. Não era um sonho, e ele, pessoalmente, não se sentia bem absolutamente. A maneira em que ela se enredava entre seus braços, com uma tenra confiança e inocência, o fazia sentir dentro dele a besta, antiga e gasta.

   Procurando uma distração, encontrou-a muito logo. Jogou um vis­ta para cima, por cima das cabeças de ambos, e todos os mús­culos de seu corpo se endureceram por causa de outro tipo de tensão.

   Fixou os olhos em umas fotografias que Gabrielle tinha pendurado para que secassem na habitação escura. Pendurando, sobre outras imagens sem importância, havia umas imagens de umas quantas localizações mais de vampiros.

   Por Deus, inclusive tinha fotografado o complexo de edifícios dos guerreiros. Essa foto de dia tinha sido tomada da estrada, ao outro lado da cerca. Não havia maneira de confundir a enorme porta de ferro cheia de inscrições que fechava o comprido caminho e a mansão de alta segurança que se encontrava ao final do mesmo, oculta perfeitamente dos olhos curiosos.

   Gabrielle deveu haver ficado justo ao subúrbios da propriedade para ter tomado essa fotografia. Pela folhagem de verão das árvores que rodeavam a cena, a imagem não podia ter mais de três semanas. Ela tinha estado ali, somente A umas centenas de metros de onde ele vivia.

 

   Ele nunca tinha tido tendência a acreditar na idéia do destino, mas p­arecia bastante claro que, de uma ou outra forma, essa mulher estava destinada a cruzar-se em seu caminho.

   OH, sim. A cruzar-se como um gato negro.

   Era muito próprio de sua sorte que, depois de séculos de esquivar balas cósmicas e confusões emocionais, retorcidas irmãs do destino e a realidade tivessem decidido lhe incluir em suas listas de merda ao mesmo tempo.

   —Está bem —disse a Gabrielle, embora as coisas estavam tomando uma má direção rapidamente.

— Vou subir te à habitação para que se vista e logo falaremos. —antes de que a visão continuada de seu corpo envolto nessas finas capas de roupa interior acabassem com ele.

   Lucan a tomou nos braços, tirou-a da habitação escura e a subiu pelas escadas até o piso principal. Agora que a sujeitava perto dele, seus agudos sentidos perceberam os detalhes das diversas feridas que tinha: uns grandes arranhões nas mãos e nos joelhos, prova de uma queda bastante má.

   Ela tinha tentado escapar de algo —ou de alguém— presa do terror e caido. A Lucan lhe bulia o sangue de desejos de saber quem lhe tinha provocado esse dano, mas já haveria tempo para isso logo. A acomodação e o bem-estar de Gabrielle eram sua preocupação principal nesse momento.

   Lucan atravessou com ela em braços a sala de estar e subiu as escadas até o piso de acima, onde se encontrava a habitação. Sua intenção era ajudá-la a colocar um pouco de roupa, mas quando passou por diante do banho que se encontrava ao lado do dormitório, pensou na água. Os dois   precisavam falar, verdadeiramente, mas tendo em conta a situação provavelmente se relaxassem com maior facilidade depois de que ela houvesse tomado um banho quente.

   Com Gabrielle lhe abraçando por cima dos ombros, Lucan entrou no banheiro. Um pequeno abajur de noite oferecia uma tênue iluminação de ambiente, o justo para que se sentisse a gosto. Levou a sua lânguida carga até a banheira e se sentou no bordo da mesma, com a Gabrielle no regaço.

 

   Desabotoou o fechamento da parte da frente da pequena peça de cetim e despiu seus peitos ante seus olhos, repentinamente enfebrecidos. Doíam-lhe as mãos de desejo de tocá-la, assim que o fez, e acariciou as g­enerosas curva com as pontas dos dedos enquanto passava o polegar pelos mamilos rosados.

   Que Deus lhe ajudasse. O suave ronrono que ouviu na garganta dela endureceu o pênis até que lhe doeu.

   Passou-lhe a mão pelo torso, até a parte de tecido que lhe cobria o sexo. Suas mãos eram muito grandes e torpes para o suave e fino cetim, mas de algum jeito conseguiu lhe tirar as calcinhas e acariciar a parte interna das largas pernas de Gabrielle.

   Ante a visão dessa bela mulher, nua outra vez diante dele, o sangue lhe corria pelas veias como a lava.

   Possivelmente deveria sentir-se culpado por encontrá-la tão incrivelmente de­sejavel incluso em seu atual estado de vulnerabilidade, mas ele não tinha mais tendência a aceitar a culpa da que tinha a fazer a cuidar. E já se demonstrou a si mesmo que tentar ter o mínimo controle ao lado dessa mulher em particular era uma batalha que nunca ia ganhar.

   Ao lado da banheira havia uma garrafa de sabão líquido. Lucan jogou uma generosa quantidade sob o jorro de água que caía na banheira. Enquanto a espuma se formava, depositou a Gabrielle com cuidado na água quente. Ela gemeu, claramente de gosto, ao entrar na água espumosa. Suas pernas se relaxaram de forma evidente e apoiou os ombros na toalha que Lucan tinha colocado rapidamente para lhe oferecer uma almofada e para que não tivesse que apoiar as costas contra a frieza dos ladrilhos e a porcelana.

   O pequeno lavabo estava alagado pelo vapor e pelo ligeiro aroma de jasmim de Gabrielle.

 

   —Cômoda? —perguntou-lhe ele, enquanto se tirava a jaqueta e a tira­va ao chão.

   —Sim —murmurou ela.

   Ele não pôde evitar lhe pôr as mãos em cima. Acariciou-lhe o ombro com suavidade e lhe disse:

   —Te deslize para diante e te molhe o cabelo. Eu lhe lavarei isso.

   Ela obedeceu, permitindo que lhe conduzisse a cabeça sob a água e logo para fora outra vez. As largas mechas se obscureceram e ad­quiriram um tom escuro e brilhante. Ela ficou em silencio durante um comprido momento. Logo, levantou lentamente as pálpebras e lhe sorriu como se acabasse de recuperar a consciência e se surpreendesse de lhe encontrar ali.

—Olá.

—Olá.

   —Que horas são? —perguntou-lhe ela com um comprido e amplo bocejo.

   Lucan se encolheu de ombros.

   —As oito, mais ou menos, suponho.

   Gabrielle se afundou na banheira e fechou os olhos com um gemido.

—Um mau dia?

   —Não um dos melhores.

   —Isso imaginei. Suas mãos e seus joelhos se vêem um pouco maltratadas.

—Lucan alargou uma mão e fechou a água. Tomou uma garrafa de xampu do lado e colocou um pouco nas mãos.

—Quer me contar o que te passou?

 

   —Prefiro não fazê-lo. —Entre suas finas sobrancelhas se formou uma ruga.

   — Esta tarde fiz uma coisa muito tola. Já se inteirará bastante logo, estou segura.

   —Mas como? —perguntou Lucan, esfregando-as mãos com o xampu.

   Enquanto lhe massageava a cabeça com a densa nata do xampu, Gabrielle abriu um olho e lhe dirigiu um olhar de receio.

   —O menino de delegacia de polícia não lhe há dito nada a ninguém?

   —Que menino?

—que se encarrega dos arquivos na delegacia de polícia. Alto, desajeitado, de um aspecto normal. Não sei como se chama, mas estou bastante segura de que se encontrava ali a noite em que fiz minha declaração sobre o assassinato. Hoje lhe vi no parque. Acreditei que me estava espiando, a verdade, e eu... —interrompeu-se e meneou a cabeça.

— Corri detrás dele como uma louca, lhe acusando de estar me espiando.

   As mãos de Lucan ficaram imóveis sobre sua cabeça. Seu instin­to de guerreiro se alertou completamente.

   —Que fez o que?

   —Já sei —disse ela, evidentemente interpretando mal sua reação. A­partou um montão de borbulhas com uma mão.

— Já te disse que tinha sido idiota. Bom, pois persegui o pobre menino até Chinatown.

   Embora não o disse, Lucan sabia que o instinto inicial de Gabrielle tinha sido acertado sobre o desconhecido que a observava no parque. Dado que o incidente tinha acontecido a plena luz do dia, não podia tratar-se dos renegados —uma pequena sorte—, mas os humanos que lhes ser­viam podiam ser igual de perigosos. Os renegados utilizavam subordi­nados em todos os lugares do mundo, humanos escravizados por uma potente dentada infligida por um vampiro poderoso que lhes desprovia de consciência e livre-arbítrio, e lhes deixava em um estado de obediência completa quando despertavam.

   Lucan não tinha nenhuma dúvida de que o homem que havia estado observando a Gabrielle o fazia como serviço ao renegado que o tinha ordenado.

   —Essa pessoa te fez mal? Foi assim como te fez estas feridas?

   —Não, não. Isso foi minha coisa. Pus-me nervosa por nada.

Depois de ter perdido a pista do menino no Chinatown, perdi-me. Acreditei que um carro vinha por mim, mas não era assim.

   —Como sabe?

   Lhe olhou com exasperação para si mesmo.

   —Porque se tratava do prefeito, Lucan. Acreditei que seu carro, conduzido por sua chofer, estava-me perseguindo e comecei a correr. Para culminar um dia perfeitamente horroroso, caí-me de focinhos em meio de uma calçada repleta de gente e logo tive que ir coxeando até casa com os joelhos e as mãos cheias de sangue.

Lucan soltou uma maldição em voz baixa ao dar-se conta de até que ponto ela tinha estado perto do perigo. Pelo amor de Deus, ela mesma em pessoa tinha açoitado a um servente dos renegados. Essa idéia deixou gelado a Lucan, mais assustado do que queria admitir.

   —Tem que me prometer que terá mais cuidado —lhe disse ele, dando-se conta de que a estava arreganhando, mas sem ânimo de incomodar-se a comportar-se com educação ao saber que esse mesmo dia a houvessem podi­do matar.

— Se voltar a acontecer algo assim, tem que me dizer isso imedia­tamente.

   —Isso não vai acontecer outra vez, porque foi meu equívoco. E não ia chamar te, nem a ti nem a ninguém da delegacia de polícia, para isto. Não se diver­tiríam muito se eu chamasse para lhes dizer que um de seus administrativos me estava perseguindo sem nenhuma razão aparente?

 

   Merda. A mentira que lhe tinha contado de que era um policial lhe estava resultando um maldito estorvo agora. Inclusive pior, isso a tivesse posto em perigo em caso de que ela tivesse chamado a delegacia de polícia perguntando pelo detetive Thorne, porque, ao fazê-lo, tivesse chamado a atenção de um subordinado infiltrado.

   —Vou te dar o número de meu celular. Encontrará-me aí sempre. Quero que o utilize a qualquer hora, compreendido?

   Ela assentiu com a cabeça enquanto ele voltava a abrir o grifo da água, lavava-se as mãos e lhe enxaguava o cabelo sedoso e ondulado.

   Frustrado consigo mesmo, Lucan alcançou uma esponja que se encontra­va em uma prateleira superior e a lançou à água.

   —Agora, me deixe que lhe jogue uma olhada ao joelho.

   Ela levantou a perna desde debaixo da capa de borbulhas. Lucan lhe sujeitou o pé com a palma da mão e lhe lavou com cuidado o feio ras­go. Era somente um arranhão, mas estava sangrando outra vez por causa de que a água quente tinha abrandado a ferida. Lucan apertou a mandíbula com força: os fragrantes fios de sangue escarlate tinham um delicado caminho por sua pele e se introduziam na antiga espuma do banho.

   Terminou de lhe limpar os dois joelhos feridos e logo lhe fez um sinal para que lhe permitisse limpar as palmas das mãos. Não se atrevia a falar agora que o corpo nu de Gabrielle se combinava com o odor de seu sangue fresco. A sensação era como se acabassem de lhe dar um golpe no crânio com um martelo.

   Concentrando-se em não desviar sua atenção, dedicou-se a lhe limpar as feridas das palmas das mãos, sabendo perfeitamente que seus profundos e escuros olhos seguiam cada um de seus movimentos e notando dolorosamente o pulso nas veias das mãos, rápido, sob a pressão das pontas de seus dedos.

 

Lhe desejava, também.

   Lucan se dispôs a soltá-la e, justo quando começava a dobrar o braço para retirá-lo, viu algo que lhe inquietou. Seus olhos tropeçaram com uma série de marcas tênues que manchavam a impecável pele aveludada. Essas marcas eram cicatrizes, uns magros cortes na parte interior dos antebraços. E tinha mais nas coxas.

Cortes de folhas de barbear.

   Como se tivesse suportado uma tortura infernal de forma repetida quando não era mais que uma menina.

   —Deus Santo. —Levantou a cabeça para olhá-la, com expressão de fúria, aos olhos.

   — Quem te fez isto?

   —Não é o que crê.

   Agora ele estava aceso de ira, e não pensava deixá-lo passar.

   —Conta-me .

   —Não é nada, de verdade. Esquece-o...

   —Me dê um nome, porra, e te juro que matarei a esse filho da puta com minhas próprias mãos.

   —Eu o fiz —lhe interrompeu repentinamente ela em voz baixa.

— Fui eu. Ninguém me fez isso, eu mesma me fiz isso.

   —O que? —Enquanto lhe apertava o frágil pulso com uma mão, voltou a lhe dar a volta ao braço para poder observar a tênue rede de cicatrizes de cor púrpura que se entrelaçava em seu braço.

   — Você te fez isto? Por que?

 

Ela se soltou de sua mão e introduziu os dois braços sob a água, como se queria ocultar os de seu olhar.

   Lucan soltou um juramento em voz baixa e em um idioma que já não falava mais que muito raramente.

   —Quantas vezes, Gabrielle?

   —Não sei. —Ela se encolheu de ombros, evitando seu olhar.

   — Não o fiz durante muito tempo. Superei-o.

   —É por isso que há uma faca na pia, lá em baixo?

   O olhar que lhe dirigiu expressava dor e uma atitude defensiva. Não gostava que ele se intrometesse, tanto como não lhe tivesse gostado dele, mas Lucan queria compreendê-lo. Não era capaz de imaginar o que podia havê-la levado a cravar uma faca na própria carne.

   Uma e outra e outra vez.

   Ela franziu o cenho com o olhar cravado na espuma que começava a dissolver-se a seu redor.

   —Ouça, não podemos deixar o tema? De verdade que não quero falar de...

   —Possivelmente deveria falar disso.

   —OH, claro. —ela riu em um tom que delatava um fio de ironia—. Agora chega a parte em que me aconselha que vá ver um psiquiatra, detetive Thorne? Possivelmente que vá a algum lugar onde me possam deixar em um estado de estupor pelos medicamentos e onde um doutor possa me vigiar por meu próprio bem?

   —Isso te aconteceu?

 

   —As pessoas não me compreendem. Nunca o tem feito. Às vezes nem eu me compreendo.

   —O que é o que não compreende? Que precisa machucar a si mesma?

   —Não. Não é isso. Não é esse o motivo pelo que o fiz.

   —Então, por que? Deus santo, Gabrielle, deve haver mais de cem cicatrizes...

   —Não o fiz porque queria sentir dor. Não me resultava doloroso fazê-lo. —Inalou com força e soltou o ar devagar por entre os lábios. Demorou um segundo em falar, e quando o fez Lucan ficou olhando-a em um silêncio pasmado.

— Nunca tive a intensão de provocar dano a na­da. Não estava tentando enterrar umas lembranças traumáticas nem inten­tava escapar de nenhum tipo de mau trato, apesar das opiniões de quem se define como peritos e que me foram atribuídos pela ad­ministração. Cortei-me porque... tranqüilizava-me. Sangrar me acalmava.

Quando sangrava, tudo aquilo que estava desconjurado e era estranho em mim, de repente me parecia... normal.

   Ela manteve o olhar sem titubear, em uma expressão nova como de desafio, como se uma porta se abrisse em algum ponto dentro dela e acabasse de soltar uma pesada carga. De alguma forma imprecisa, Lu­can se deu conta de que isso era o que ele tinha visto. Só que a ela to­davia faltava uma peça de informação crucial, que faria que as coisas encaixassem em seu lugar para ela.

   Ela não sabia que era uma companheira de raça.

   Ela não podia saber que, um dia, um membro de sua estirpe tomaria em qualidade de eterna amada e lhe mostraria um mundo muito distinto ao que ela tivesse podido sonhar nunca. Ela abriria os olhos a um prazer que somente existia entre casais que tinham um vínculo de sangue.

   Lucan se deu conta de que já odiava a esse macho desconhecido que teria a honra de amá-la.

 

   —Não estou louca, se é isso o que está pensando.

   Lucan negou com a cabeça devagar.

   —Não estou pensando isso absolutamente.

   —Desgosta-me que me tenham pena.

   —A mim também —disse, percebendo a advertência que encerravam essas palavras.

_Você não necessita compaixão, Gabrielle. E eu não necessito-me­dicina nem doutores, tampouco.

Ela se tinha retraído no momento em que ele tinha descoberto as cicatrizes, mas agora Lucan se deu conta de que ela duvidava, de que uma dúbia confiança voltava a aparecer lentamente.

   —Você não pertence a este mundo —disse ele, em um tom nada senti­mental, a não ser constatando os fatos. Alargou a mão e tomou o queixo com a palma.

— Você é muito extraordinária para a vida que estiveste vivendo, Gabrielle. Acredito que o soubeste sempre. Um dia, tudo cobrará sentido para ti, prometo-lhe isso. Então o compreenderá, e encontrarás seu verdadeiro destino. Possivelmente eu possa te ajudar a encontrá-lo.

O tivesse querido acabar de ajudá-la a banhar-se, mas a atenção com que lhe olhava lhe obrigou a manter as mãos quietas. Ela, por toda resposta, sorriu, e a calidez de seu sorriso lhe provocou uma pontada de dor no peito. Apanhado no tenro olhar dela, sentiu que a gar­ganta lhe fechava de uma forma estranha.

   —O que acontece?

Ela negou com a cabeça brevemente.

   —Estou surpreendida, só é isso. Não esperava que um policial duro como você falasse de forma tão romântica sobre a vida e o destino.

 

   O recordar que ele se aproximou dela, e continuava fazendo-o, sob uma aparência falsa, permitiu-lhe recuperar parte do sentido comum. Voltou a afundar a esponja na água ensaboada e a deixou flutuar em meio da espuma.

   —Possivelmente tudo isto são tolices.

   —Não acredito.

   —Não me tenha tão em conta —lhe disse ele, forçando um tom de despreocupação.

   — Não me conhece, Gabrielle. Não de verdade.

   —Eu gostaria de te conhecer. De verdade. —Ela se sentou dentro da banheira. As mornas pequenas ondas da água lhe lambiam o corpo nu igual a Lucan lhe tivesse gostado de fazê-lo com a língua. As pontas dos peitos ficavam justo por cima da superfície da água, os mamilos rosados duros como pétalas fechadas e rodeados por uma densa espuma branca.

— Me Diga, Lucan. De onde é?

   —De nenhuma parte. —A resposta soou entre seus lábios como um gru­nhido, e era uma confissão que se aproximava mais a verdade do que gostava de admitir. Ao igual que ela, desgostava-lhe a compaixão assim que se sentiu aliviado de que lhe olhasse mais com curiosidade que com pena. Com o dedo, acariciou-lhe o nariz arrebitado e salpicado de sardas.

   —Eu sou o inadaptado original. Nunca pertenci verdadeiramente a nenhum lugar.

   —Isso não é certo.

   Gabrielle lhe rodeou os ombros com os braços. Seus quentes olhos enormes lhe olharam com ternura e expressavam o mesmo cuidado que lhe havia devotado ao tira-la da habitação escura e trazê-la até o quente banho. Gabrielle lhe beijou e, ao notar a língua dela entre seus lábios, os sentidos de Lucan se alagaram do embriagador perfume de seu desejo e de seu doce e feminino afeto.

 

   —Cuidaste-me tanto esta noite. Me deixe que te cuide agora, Lucan.

   —Lhe beijou outra vez. O beijo foi tão profundo que a pequena e úmida língua lhe arrancou um grunhido de puro prazer masculino do mais fundo dele. Quando ela finalmente interrompeu o contato, respirava com agitação e seus olhos estavam acesos de desejo carnal.

   —Leva muita roupa em cima. Tire-lhe isso quero que esteja aqui dentro, nu, comigo.

   Lucan obedeceu e atirou as botas, as meias três-quartos, a calça e a camisa ao chão. Não levava nada mais e ficou em pé diante de Gabrielle com­pletamente nu.

   Completamente ereto e desejoso dela.

   Lucan tomou cuidado de manter os olhos separados dos dela, porque agora as pupilas lhe tinham esgotado a causa do desejo, e era consciente da pressão e a pulsação de suas presas, que se haviam alargadas detrás dos lábios. Se não tivesse sido porque a luz que chegava do abajur de noite que se encontrava ao lado da pia era muito tênue, sem dúvida lhe teria visto em toda sua voraz gloria.

   E isso tivesse estragado esse momento prometedor.

   Lucan se concentrou e emitiu uma ordem mental que rompeu a pequena lâmpada dentro do biombo de plástico do abajur de noite. Gabrielle se sobressaltou ao ouvir o repentino estalo, mas ao notar-se ro­deada pela escuridão, suspirou, feliz. Movia-se dentro da água e esse movimento de seu corpo ao deslizar-se dentro da água emitia uns sons deliciosos.

   —Acende outra luz, se quiser.

   —Encontrarei-te sem luz —lhe prometeu ele. Falar era um pequeno truque agora, quando a lascívia lhe dominava por completo.

   —Então vêem —lhe pediu sua sereia da calidez do banho.

   Ele se introduziu na banheira e se colocou diante dela, Às escuras. Somente desejava atrai-la até si, arrastá-la até seu regaço para a­fundar-se até o punho com uma larga investida. Mas pelo mo­mento pensava deixar que fosse ela quem marcasse o ritmo.

 

   A noite passada, ele tinha vindo faminto e tomou o que desejava. Esta noite ia ser ele quem oferecesse.

   Apesar de que o ter que refrear-se o matasse.

   Gabrielle se deslizou para ele entre as magras nuvens de espuma. Passou-lhe os pés por ambos os lados dos quadris e os juntou agradavelmente em seu traseiro. Inclinou-se para frente e seus dedos encontraram os mus­culos dele por debaixo da superfície da água. Acariciou e apertou seus fortes músculos, massageou-os e passou as mãos ao longo de suas coxas em uma carícia que era um tortura lenta e deliciosa.

   —Tem que saber que não me comporto assim normalmente.

   Ele emitiu um grunhido que pretendia mostrar interesse mas que soou for­çado.

   —Quer dizer que normalmente não está tão quente como para fazer que um homem se derreta a seus pés?

Ela soltou uma gargalhada.

   —É isso o que te estou fazendo?

   Ele lhe conduziu as mãos até a dureza de seu pênis.

   —A você o que te parece?

   —Acredito que é incrível. —Ele lhe soltou as mãos mas ela não as apartou. Acariciou-lhe o membro e os testículos e, com gesto preguiçoso, acariciou-lhe com os dedos a ponta torcida que se sobressaía por cima da superfície da água da banheira.

 

   —Não te parece com ninguém que tenha conhecido nunca. E o que queria dizer era que habitualmente não sou tão... quero dizer, agressiva. Não tenho muitos encontros.

   —Não traz para um montão de homens a sua cama?

   Inclusive na escuridão, Lucan se deu conta de que ela se havia ruborizado .

   —Não. Faz muito tempo.

   Nesse momento, ele não desejava que ela levasse a nenhum outro macho, nem humano nem vampiro, a sua cama.

   Não queria que ela transasse com ninguém nunca mais.

   E, que Deus lhe ajudasse, mas ia perseguir e estripar ao bastardo servente de quão renegados tinha podido matá-la hoje.

   Essa idéia lhe surgiu em um repentino ataque de posse. Lhe acaricia­va o sexo e a ponta lhe umedeceu. Seus dedos, seus lábios, sua língua, seu fôlego contra seu abdômen nu enquanto tomava até o fundo de sua cálida boca: tudo isso lhe estava conduzindo ao limite de uma extraordinária loucura. Não conseguia ter o bastante. Quando lhe soltou, ele pronunciou um juramento de frustração por perder a doçura dessa sucção.

   —Necessito-te dentro de mim —disse ela, com a respiração agitada.

   —Sim —assentiu ele—, claro que sim.

   —Mas...

   Vê-la duvidar lhe confundiu. Zangou a essa parte dele que se parecia mais a um renegado selvagem que a um amante considerado.

   — O que acontece ? —Soou mais parecido a uma ordem do que tivesse querido.

 

   —Não teríamos... ? A outra noite, as coisas nos foram das mãos antes de que lhe pudesse dizer isso mas não deveríamos, já sabe, utilizar algo esta vez? —O desconforto dela lhe cravou como o fio de uma faca. Ficou imovel, e ela se separou dele como se fosse sair da banheira.

   — Tenho camisinhas na outra habitação.

   Ele a sujeitou pela cintura com ambas as mãos antes de que ela tivesse tempo de levantar-se.

   —Não posso te deixar grávida. —Por que lhe soava isso tão duro nesse momento? Era a pura verdade. Somente os casais que tinham um vínculo..., as companheiras de raça e os machos vampiros que intercam­biavam o sangue de suas veias, podiam ter descendência com êxito.

   — E quanto ao resto, não tem que preocupar-se por te proteger. Estou são, e nada do que nos façamos pode fazer mal a nenhum dos dois.

   —OH, eu também. E espero que não ache que sou uma dissimulada por dize-lo..

   Ele a atraiu para si e silenciou sua expressão de desconforto com um beijo. Quando seus lábios se separaram, disse-lhe:

   —O que acredito, Gabrielle Maxwell, é que é uma mulher inteligente que respeita seu corpo e a si mesmo. Eu te respeito por ter o valor de tomar cuidado.

Ela sorriu com os lábios junto aos dele.

   —Não quero tomar cuidado quando estou perto de ti. Volta-me louca. Faz-me desejar gritar.

   Pô-lhe as mãos plainas sobre o peito e lhe empurrou até que ele caiu apoiado de costas contra a parede da banheira. Então ela se levantou por cima de seu pesado pênis e passou seu sexo úmido por toda sua longitude, deslizando-se para cima e para baixo.

—Mas, transar, não de tudo— lhe embainhando com seu calor.

 

—Quero te fazer gemer —lhe sussurrou ela ao ouvido.

   Lucan grunhiu de pura agonia provocada por essa dança sensual. Apertou as mãos em punhos a ambos lado de seu corpo, por debaixo da água, para não agarrá-la e empalá-la com sua ereção que estava a ponto de explodir. Ela continuou com esse perverso jogo até que ele sentiu seu or­gasmo contra seu pênis. Ele estava a ponto de derramar-se, e ela continuava lhe provocando sem piedade.

—Foda —exclamou ele com os dentes e as presas apertadas, jogando a cabeça para trás.

— Por Deus, Gabrielle, está-me matando.

—Isso é o que quero ouvir —lhe animou ela.

   E então, Lucan sentiu que o suculento sexo dela rodeava centímetro a centímetro a cabeça de seu pênis.

   Devagar.

   Tão vertiginosamente devagar.

   Sua semente se derramou e ele tremeu enquanto o quente líquido penetra­va no corpo dela. Gemeu, e nunca tinha estado tão perto de per­der-se como nesse momento. E a turgidez do sexo de Gabrielle o en­volveu ainda mais. Sentiu que os pequenos músculos lhe aperta­vam enquanto se cravava mais em seu pênis.

   Já quase não podia suportá-lo mais.

   O aroma de Gabrielle lhe rodeava, mesclava-se com o vapor do banho e se sentia embargado pela mescla do perfume de seus corpos unidos. Os peitos dela flutuavam perto de seus lábios como uns frutos amadurecidos a ponto de ser tomados, mas ele não se atreveu a tocá-los nesse momento em que estava a ponto de perder o controle. Desejava sentir esses maravilhosos peitos na boca, mas as presas lhe pulsavam da necessidade de chupar sangue. Essa necessidade se via incrementada no momento do climax sexual.

 

Girou a cabeça e deixou escapar um uivo de angústia; sentia-se desga­rrado em muitos impulsos tentadores, e o menor deles não era a tensão por gozar dentro de Gabrielle, de enchê-la com cada uma das gotas de sua paixão. Soltou um juramento em voz alta e então gritou de verdade, pronunciou um profundo juramento que se fez mais forte quando ela se cravou com major força em seu pênis ansiosa e obrigou a derra­mar-se antes de que seu próprio orgasmo seguisse ao dele.

   Quando a cabeça lhe deixou de dar voltas e sentiu que suas pernas vol­tavam a ter a força necessária para lhe aguentar, Lucan rodeou a Gabrielle com os braços e começou a levantar-se com ela, evitando que Gabrielle se separasse de seu pênis que voltava a entrar em ereção.

—O que está fazendo?

—Você se divertiu já. Agora te levo a cama.

   O agudo timbre do telefone celular arrancou de um sobressalto a Lucan de seu pesado sono. Encontrava-se na cama com Gabrielle, os dois estavam esgotados. Ela estava enroscada a seu lado, o corpo nu dela rodeava maravilhosamente suas pernas e seu torso.

   —Merda, quanto tempo levava fora? Possivelmente tivessem acontecido umas quantas horas já, o qual era incrível, tendo em conta seu habi­tual estado de insônia.

   O telefone voltou a soar e ele ficou em pé e se dirigiu ao lavabo, onde tinha deixado sua jaqueta. Tirou o telefone de um dos bolsos e respondeu.

   —Sim.

   —Né. Era Gideon, e sua voz tinha um tom estranho.

   — Lucan, com quanta rapidez pode vir ao complexo?

   Ele olhou por cima do ombro para o dormitório adjacente. Gabrielle estava sentada nesse momento, sonolenta. Seus quadris nus estavam envoltos nos lençóis e seu cabelo era uma confusão selvagem em sua cabeça. Ele nunca tinha visto nada tão terrivelmente tentador. Possivelmente fosse melhor que partisse logo, enquanto ainda tinha a oportunidade de afastar-se antes de que o sol se levantasse.

 

   Apartou os olhos da excitante visão de Gabrielle e Lucan respondeu a pergunta com um grunhido.

   —Não estou longe. O que acontece?

   Fez-se um comprido silencio ao outro lado do telefone.

   —Passou uma coisa, Lucan. É má. —Mais silêncio. Então, a tranqüilidade habitual do Gideon se quebrou:

— Ah, merda, não há forma boa de dizê-lo. Esta noite perdemos a um, Lucan. Um dos guerreiros está morto.

 

Os lamentos do luto das fêmeas chegaram até os ouvidos de Lucan assim que este saiu do elevador que lhe tinha conduzido até as próofundidades subterrâneas do complexo. Eram uns prantos de angústia que rompiam o coração. Os gemidos de uma das companheiras de raça expressavam uma dor crua e evidente. Era o único que se ouvia no si­lêncio que invadia o comprido corredor.

   O contundente peso da perda lhe cravou no coração.

   Ainda não sabia qual dos guerreiros da raça era o que havia falecido essa noite. Não tinha intenção de esforçar-se em adivinhá-lo. Cami­nhava a passo rápido, quase corria para as habitações da enfermaria de onde Gideon lhe tinha chamado fazia uns minutos. Girou pela esquina do corredor bem a tempo de encontrar-se com Savannah que conduzia a Danika, destroçada pela dor e soluçando, fora de uma das habitações.

   Uma nova comoção lhe golpeou.

   Assim era Conlan quem se partiu. O grandalhão escocês de risada fácil e com esse profundo e inquebrável sentido de honra... estava morto agora. Logo se teria convertido em cinzas.

   Jesus, quase não podia compreender o alcance dessa dura verdade.

 Lucan se deteve e saudou com uma respeitosa inclinação de cabeça a viúva quando esta passava por seu lado. Danika se apoiava pesadamente em Savannah. Os fortes braços de cor café desta última pareciam ser quão único impedia que a alta e loira companheira de raça do Conlan se derrubasse pela dor.

   Savannah saudou Lucan, dado que a chorosa mulher a quem acompa­nhava era incapaz de fazê-lo.

 

   —Estão-lhe esperando dentro —lhe disse em tom amável. Seus profundos olhos marrons estavam úmidos pelas lágrimas.

— Vão necessitar sua força e seu guia.

   Lucan respondeu a mulher do Gideon com um sério assentimento de cabeça e logo deu os poucos passos que lhe faltavam para entrar na enfermaria.

   Entrou em silêncio, pois não queria perturbar a solenidade desse fugaz tempo de que dispunham, ele e seus irmãos, para estar com o Conlan. O guerreiro tinha suportado de uma forma surpreendente várias feridas; in­cluso do outro extremo da habitação Lucan percebia o aroma de uma terrível perda de sangue. As fossas nasais lhe encheram com a nauseabunda mescla do aroma da pólvora, a eletricidade, e a carne queimada.

   Tinha havido uma explosão, e Conlan ficou apanhado em meio dela.

   Os restos do Conlan se encontravam em uma maca de exame aberta de retalhos de tecido. Seu corpo estava nu exceto pela larga parte de seda bordada que cobria sua entreperna. Durante o pouco tempo desde que tinha voltado para o complexo, a pele do Conlan tinha sido limpa e lubrificada com um fragrante azeite, em preparação dos ritos funerários que foram ter lugar a próxima saída do sol, para a qual faltavam poucas horas.

   Outros se reuniram ao redor da maca onde se encon­trava Conlan: Dante, rígido e observando estoicamente a morte; Rio, com a cabeça encurvada, sujeitava entre os dedos um rosário enquanto movia os lábios pronunciando em silêncio as palavras da religião de sua mãe humana; Gideon, com um tecido na mão, limpava com cuidado uma das selvagens feridas que tinham esmigalhado quase por completo a pele do Conlan; Nikolai, que tinha estado patrulhando com o Conlan essa noite, tinha o rosto mais pálido do que Lucan tinha visto nunca: seus olhos frios tinham uma expressão austera e sua pele estava coberta de fuligem, cinzas e pequenas feridas que ainda sangravam.

 

   Inclusive Tegan se encontrava ali para mostrar seu respeito, embora o vampiro se encontrava em pé justo fora do círculo que formavam outros e mantinha os olhos ocultos, fundo em sua solidão.

   Lucan caminhou até a maca para ocupar seu lugar entre seus irmãos. Fechou os olhos e rezou pelo Conlan em um comprido silencio. Ao cabo de um momento, Nikolai rompeu o silêncio da habitação.

   —Salvou-me a vida aí fora esta noite. Acabávamos de terminar com um par de idiotas fora da estação Green Line e nos dirigíamos de volta para aqui no momento em que vimos esse tipo subir ao trem. Não sei o que me incitou a lhe olhar, mas ele nos dirigiu um amplo e provoca­dor sorriso que nos fez lhe seguir. Estava-se colocando um pouco parecido a pólvora ao redor do corpo. Fedia isso a alguma outra merda que não tive tempo de identificar.

   —TATP —disse Lucan, que cheirava a acidez do explosivo nas roupas do Niko incluso nesse momento.

   —Resultou que o bastardo levava um cinturão de explosivos ao redor de seu corpo. Saltou do trem justo antes de que nós começássemos a nos pôr em marcha e começou a correr ao longo de uma das velhas vias. Perseguimo-lhe e Conlan lhe abandonou. Então foi quando vimos as bombas. Estavam conectadas a um temporizador de sessenta segundos, e a conta já era menor de dez. Ouvi que Conlan me gritava que voltasse atrás, e então se atirou em cima do tipo.

   —Merda —exclamou   Dê, passando uma mão pelo cabelo escuro.

   —Um servente tem feito isto? —perguntou Lucan, pensando que era uma hipótese acertada. Os renegados não tinham escrúpulos em utilizar vidas humanas para levar a cabo suas mesquinhas guerras internas ou para resolver assuntos de vinganças pessoais. Durante muito tempo, os fanáticos religiosos não tinham sido os únicos em utilizar aos fracos de mente como trocas e descartáveis, embora altamente efetivas, ferra­mentas de terror.

   Mas isso não fazia que a horrível verdade do que lhe tinha acontecido a Conlan fosse mais fácil de aceitar.

 

—Não era um servente —respondeu Niko, negando com a cabeça.

—Era um renegado, e estava conectado a uma quantidade do TATP suficiente para voar meia quadra da cidade, a julgar pelo aspecto e o aroma que despedia.

Lucan não foi o único nessa habitação que pronunciou um selvagem ju­ramento para ouvir essas preocupantes notícias.

   —Assim, que já não estão satisfeitos sacrificando somente seus escravizados súditos? —comentou Rio—. Agora os renegados estão mo­vendo peças mais importantes no tabuleiro?

   —Continuam sendo peões —disse Gideon.

   Lucan olhou ao inteligente vampiro e compreendeu a que se referia.

   —As peças não trocaram. Mas as regras sim o têm feito. Este é um tipo de guerra nova, já não se trata do pequeno fogo cruzado com que nos enfrentamos no passado. Alguém de entre as filas dos renegados está gerando um grau novo de ordem nessa anarquia. Estamos sendo assediados.

   Ele voltou a dirigir a atenção a Conlan, a primeira vítima do que começava a temer que ia ser uma nova era escura. Sentia, em seus velhos ossos, a violência de um tempo muito longínquo que voltava a apare­cer para repetir-se. A guerra se estava gerando de novo, e se os Rene­gados se estavam movendo para organizar-se, para iniciar uma ofensiva, então a nação inteira dos vampiros se encontraria no fronte. E os humanos também.

   —Podemos discutir isto mais longamente, mas não agora. Este momento é do Conlan. Vamos honrar lhe.

   —Eu já me despedi —murmurou Tegan—. Conlan sabe que eu lhe respeitei em vida, igual a na morte. Nada vai trocar para nesse aspec­to.

   Uma densa ansiedade alagou a habitação, dado que todo mundo esperava a que Lucan reagisse ante a abrupta partida do Tegan. Mas Lucan não pensava lhe dar a satisfação ao vampiro de pensar que lhe tinha zangado, embora sim que o tinha feito. Esperou a que o som das botas do Tegan se apagasse ao fundo do corredor e dirigiu um assenti­mento de cabeça aos outros para que continuassem com o ritual.

 

   Um por um, Lucan e cada um dos quatro guerreiros ficaram de joelhos no chão para oferecer seus respeitos. Recitaram uma única oração e logo se levantaram juntos para retirar-se e esperar a cerimônia final com a que deixariam descansar a seu companheiro defunto.

   —Eu serei quem o leve —anunciou Lucan aos vampiros, quando estes partiam.

   Lucan percebeu o intercâmbio de olhares que se deu entre eles e soube o que significavam. Aos Antigos da estirpe dos vampiros —e espe­cialmente aos da primeira geração— nunca lhes pedia que trans­levassem o peso dos mortos. Essa obrigação recaía na última gene­ração da raça, que estava mais afastada dos Antigos e que, por tan­to, podiam suportar melhor os perigosos raios do sol quando começava a amanhecer durante o tempo necessário para oferecer o descanso adequado ao corpo de um vampiro.

Para um membro da primeira geração como Luzem, o rito funera­rio representava uma tortuosa exposição ao sol de oito minutos.

   Lucan observou o corpo sem vida que se encontrava em cima da maca, sem poder apartar a vista do dano que lhe tinham causado.

   Um dano que lhe tinham infligido em lugar dele, pensou Lucan, que se sentiu doente ao pensar que poderia ter sido ele quem patrulhasse com o Niko, e não Conlan. Se não tivesse enviado ao escocês em seu lugar no último minuto, Lucan se encontraria agora tendido nessa fria maca com as pernas, o rosto e o torso queimado pelo fogo e o ventre aberto pela metralhadora.

   A necessidade que Lucan tinha de ver Gabrielle essa noite havia pre­ponderado por cima de seu dever com a raça, e agora Conlan —seu triste companheiro— tinha pago o preço.

 

   —Vou levar lhe acima —repetiu em tom severo. Olhou a Gideon com o cenho franzido e uma expressão funesta.

_ Me chame quando os prepara­tivos estejam preparados.

   O vampiro inclinou a cabeça em um gesto que mostrava um respeito a Lucan maior de que era devido nesse momento.

   —É obvio. Não demoraremos muito.

   Lucan passou as duas horas seguintes em suas habitações, sozinho, ajoelhado no centro do espaço, com a cabeça encurvada, rezando e reflexio­nando com um porte sombrio no rosto. Gideon se apresentou na porta e, com um assentimento de cabeça, indicou-lhe que tinha chegado o momento de tirar Conlan do complexo e de oferecê-lo aos mortos.

   —Está grávida —disse Gideon com expressão sombria assim que Lucan se levantou.

— Danika está de três meses. Savannah acaba de­ me dizer. Conlan estava tentando reunir o valor suficiente para te dizer que ia abandonar a Ordem quando o menino tivesse nascido. Ele e Danika planejavam retirar-se a um dos Refúgios Escuros para formar sua família.

   —Merda! —exclamou Lucan em um vaio. Sentiu-se ainda pior ao conhecer o futuro feliz que lhes tinha sido roubado a Conlan e a Danika, e ao pensar nesse filho que alguma vez conheceria o homem de valor e de honra que tinha sido seu pai.

   — Está tudo preparado para o ritual?

   Gideon assentiu com a cabeça.

   —Então, vamos fazer- o.

Lucan caminhou encabeçando a cerimônia. Seus pés e sua cabeça estavam nus, igual ao estava seu corpo debaixo da larga túnica negra. Gideon também levava uma túnica, mas a levava com o cinturão das cerimônias da Ordem, igual a outros vampiros que lhes esperavam na câmara colocados a um lado, como faziam em todos os rituais da raça, desde matrimônios e nascimentos até funerais como este. As três fêmeas do complexo se encontravam presente também: Savannah e Eva vestiam as túnicas cerimoniosas com capuz, e Danika ia vestida da mesma forma mas levava a profunda cor vermelha escarlate que indicava o sagrado vínculo de sangue que lhe unia com o defunto.

 

   À frente de todos eles, o corpo do Conlan estava convexo sobre um altar decorado e agasalhado em um grosso tecido de seda.

   —Comecemos —anunciou Gideon, simplesmente.

   Lucan sentiu um grande pesar no coração enquanto escutava o servi­ços e os símbolos de infinitude de todos os rituais.

   Oito medidas de azeite perfumado para lubrificar a pele.

Oito capas de seda branca para envolver o corpo dos mortos.

   Oito minutos de atenção silenciosa à alvorada por parte de um membro da raça, antes de que o guerreiro morto fosse exposto aos raios do sol para que estes lhe incinerassem. Deixado ali sozinho, seu corpo e sua alma se pulverizariam Aos quatro ventos em forma de cinzas e formaria parte dos elementos para sempre.

   A voz do Gideon se apagou com suavidade e Danika deu um passo à frente.

   Olhou aos congregados e, levantando a cabeça, falou em voz grave mas orgulhosa.

   —Este macho era meu, e eu era dele. Seu sangue me sustentava. Sua força me protegia. Seu amor me enchia em todos os sentidos. Ele era meu amado, meu único amado, e ele permanecerá em meu coração durante toda a eterni­dade.

   —Honra-lhe bem —lhe responderam ao uníssono em voz baixa Lucan e outros.

   Então Danika se deu a volta para ficar de cara a Gideon, com as mãos estendidas e as palmas dirigidas para cima. O desencapou uma magra adaga de ouro e a depositou sobre suas mãos. Danika baixou a cabeça coberta com o capuz em um gesto de aceitação e logo se deu a volta para colocar-se diante do corpo envolto do Conlan. Murmurou umas palavras em voz baixa dirigidas somente a eles dois. Levou-se ambas as mãos até o rosto. Lucan sabia que agora a viúva da raça se reali­zava um corte no lábio inferior com o fio da adaga para que sangrasse e para dar um último beijo a Conlan por cima da mortalha.

   Danika se inclinou sobre seu amante e ficou assim durante um comprido momento. Todo seu corpo tremia por causa da potência da dor que sentia. Logo se separou dele, soluçando, com a mão sobre a boca. O beijo escarlate brilhava ferozmente, à altura de seus lábios, em meio da brancura que cobria a Conlan. Savannah e Eva a receberam e a abra­çaram, apartando-a do altar para que Lucan pudesse continuar com a tarefa que ainda ficava por realizar.

Aproximou-se de Gideon, à frente dos congregados, e se comprometeu a ver Conlan partir com toda a honra que lhe era devido, igual que fazia o resto de membros da raça que caminhavam pelo mesmo caminho que Lucan aguardava nesse momento.

   Gideon se apartou a um lado para permitir que Lucan se aproximasse do corpo. Lucan tomou ao enorme guerreiro entre os braços e se voltou para encarar aos outros, tal e como se requeria.

   —Honra-lhe bem —murmurou em voz baixa um coro de vozes.

   Lucan avançou com solenidade e com lentidão pela câmara cerimoniosa até a escada que conduzia acima e ao exterior do recinto. Cada um dos lances da escada, cada um das centenas de degraus que subiu com o peso de seu irmão cansado, infligiu-lhe uma dor que ele aceitou sem nenhuma queixa.

   Essa era a parte mais fácil da tarefa, depois de tudo.

   Se tinha que desfalecer, faria-o ao cabo de uns quantos minutos, ao outro lado da porta exterior que se levantava diante dele a uns quantos passos.

   Lucan abriu com um empurrão do ombro o painel de aço e inalou o ar fresco da manhã enquanto se dirigia até o lugar onde ia deixar o corpo de seu companheiro. Ficou de joelhos em cima da grama e baixou os braços lentamente para depositar o corpo do Conlan em terra firme diante dele. Sussurrou as orações do rito funerário, umas palavras que somente tinha ouvido umas quantas vezes durante os séculos que tinham acontecido mas que sabia de cor.

 

   Enquanto as pronunciava, o céu começou a iluminar-se com a chegada do amanhecer.

   Suportou essa luz com um silêncio reverente e concentrou todos seus pen­samentos no Conlan e na honra que tinha sido característica de sua larga vida. O sol continuava levantando-se no horizonte, e ainda não tinha chegado na metade do ritual. Lucan baixou a cabeça e absorveu a dor ao igual que tivesse feito Conlan por qualquer membro da raça que tivesse lutado a seu lado. Um calor lacerante banhou a Lucan enquanto o amanhecer se levantava, cada vez com mais força.

   Tinha os ouvidos cheios com as antigas palavras das velhas orações e, ao cabo de pouco tempo, também com o suave vaio e rangido de sua própria carne ao queimar-se.

 

«A polícia e os agentes do transporte ainda não estão seguros do que provocou a explosão da passada noite. De todas formas, depois da conversação mantida com um representante da ferrovia faz uns mo­mentos, assegurou-nos que o incidente se produziu de forma isolada em uma das velhas vias mortas e que não teve feridos. Continuem escutando o canal cinco para conhecer mais notícias sobre esta histo­ria...»

   O poeirento e velho modelo de televisor que se encontrava montado sobre uma prateleira de parede se apagou repentinamente, silenciado abrupta­mente enquanto o forte rugido cheio de irritação do vampiro sacudia a sala. detrás dele, ao outro lado da sombria e destroçada habitação que uma vez fora a cafeteria, no porão do psiquiátrico, dois dos tenentes renegados permaneciam em pé, inquietos e grunhindo, enquanto esperavam suas seguintes ordens.

   Esse par tinha pouca paciência; os renegados, por sua natureza aditiva, tinham uma débil capacidade de atenção dado que tinham abandonado o intelecto a favor de satisfazer os caprichos mais imediatos de sua sede de sangue. Eram meninos grandes e necessitavam castigos regulares e pre­mios escassos para que continuassem sendo obedientes. E para que re­cordassem a quem se encontravam servindo nesse momento.

   —Não teve feridos —se burlou um dos renegados.

   —Possivelmente não humanos —acrescentou o outro—, mas a raça se levou um bom golpe. Ouvi dizer que não ficou grande coisa do morto para que o sol se encarregasse dele.

   Mais risadas do primeiro dos idiotas, às que seguiu uma explosão de fôlego e sangue ao imitar a detonação de quão explosivos tinham sido colocados no túnel pelo renegado a quem tinham atribuído para essa tarefa.

   —É uma pena que o outro guerreiro que estava com ele se pudesse marchar por seu próprio pé. —Os renegados ficaram em silencio no mo­memoro em que seu líder se deu a volta, finalmente, para encarar-se com eles.

— A próxima vez lhes porei a vocês dois nessa tarefa, dado que o fracasso lhes parece tão divertido.

 

   Eles franziram o cenho e grunhiram, como bestas que eram, com uma expressão selvagem nas pupilas rasgadas e afundadas no mar amarelo e dourado de sua íris impávidas. Baixaram a vista quando ele começou a caminar em direção a eles com passos lentos e medidos. A ira que sentia estava só parcialmente aplacada pelo fato de que a raça, pelo menos, tinha sofrido uma perda importante.

   Esse guerreiro que tinha caido por causa da bomba não tinha sido o alvo real da missão da passada noite; Apesar disso, a morte de qualquer membro da Ordem era uma boa notícia para sua causa. Já haveria tempo de eliminar ao que chamavam Lucan. Possivelmente o fizesse ele mes­mo, rosto a rosto, vampiro contra vampiro, sem a vantagem das armas.

   Sim, pensou, resultaria mais que um prazer acabar com esse em concreto.

   Podia-se chamar justiça poética.

   —Me mostrem o que me trouxestes —ordenou aos renegados que se encontravam frente a ele.

   Ambos saíram ao mesmo tempo. Empurraram uma porta para entrar os vultos que tinham deixado no corredor de fora. Voltaram ao cabo de um instante arrastando atrás deles a uns quantos humanos entorpecidos e quase sem sangue. Esses homens e mulheres, seis em total, estavam atados pelos pulso e ligeiramente sujeitos pelos tornozelos, embora nenhum deles parecia o bastante forte para nem sequer pensar em tentar fugir.

   Os olhos, em estado catatônico, lhes cravavam em um nada. Os lábios, inertes, incapazes de pronunciar nem de emitir nenhum som, estavam em­treabertos em meio de seus rostos pálidos. Em suas gargantas se viam os sinais das dentadas que seus captores lhes tinham feito para subjugá-los.

   —Para você, senhor. Uns serventes novos para a causa.

 

   Fizeram entrar os seis seres humanos como se fossem gado, dado que isso era o que eram: ferramentas de carne e osso cujo destino ia trabalhar, ou morrer, o que fosse mais útil segundo seu critério.

   Ele jogou uma olhada a caça dessa noite sem mostrar grande interesse, cal­culando rapidamente o potencial que esses dois homens e quatro mulheres tinham para resultar de utilidade. Sentiu-se impaciente enquanto se aproxima­va a eles e observava que algumas de quão feridas tinham no pescoço ainda supuravam uns lentos fios de sangue fresco.

   Estava faminto, decidiu enquanto cravava seu olhar calculador em uma pequena fêmea morena de lábios cheios e peitos cheios e amadurecidos que empurravam uma insípida bata verde de hospital que parecia um saco e que lhe sentava muito mal. A cabeça lhe caía para frente, como se pe­sasse muito para mantê-la erguida apesar de que era evidente que estava lutando contra o torpor que já tinha vencido aos outros. As mordidas que tinha eram incontáveis e se perdiam para o crânio, e apesar disso ela lutava contra a catatonia, piscando com expressão sonolenta em um esforço por manter-se consciente.

   Tinha que reconhecer que seu valor era admirável.

   —K. Delaney, R.N —disse para si, lendo a etiqueta de plástico que lhe pendurava por cima do redondo peito esquerdo.

   Tomou o queixo dela entre o dedo polegar e o índice e lhe fez le­vantar a cabeça para lhe observar o rosto. Era bonita, jovem e sua pele, cheia de sardas, tinha um aroma doce. A boca lhe encheu de saliva, de glo­tonería, e os olhos lhe esgotaram, ocultos depois dos óculos escuros.

   —Esta fica. Levem o resto abaixo, as jaulas.

   Ao princípio, Lucan pensou que a dolorosa vibração que sentia formava parte da agonia pela que tinha passado durante as últimas horas. Sentia todo o corpo abrasado, esfolado, sem vida. Em algum momento a cabeça tinha deixado de martelar e agora lhe acossava com um comprido zum­bido doloroso.

 

   Encontrava-se em suas habitações privadas do complexo, em sua cama; isso sabia. Recordava haver-se arrastado até ali com suas últimas forças, depois de ter estado ao lado do corpo do Conlan os oito minutos que se requeriam.

   Ficou-se inclusive um pouco mais de oito minutos, havia aguentado uns agudos minutos mais até que os raios do amanhecer houve­sem aceso a mortalha do guerreiro morto e a tinham feito explodir em umas incríveis chama e luzes. Só então ficou ele ao coberto dos muros subterrâneos do recinto.

   Esse tempo extra de exposição tinha significado sua desculpa pessoal a Conlan. A dor que estava suportando nesses momentos era para que não esquecesse nunca o que de verdade importava: seu dever para a raça e para a Ordem de honoráveis machos que tinham jurado igual a ele realizar esse serviço. Não cabia nada mais.

A outra noite tinha permitido saltar-se esse juramento, e agora um de seus melhores guerreiros se foi.

   Outro agudo timbre explorou em algum lugar da habitação e tomou por surpresa, em algum lugar muito perto de onde se encontrava descansando. Esse som de algo que se rompia, que se rasgava, lhe cravou na cabeça.

   Com uma maldição que quase resultou inaudível e que quase não pôde a­rrancar da dolorida garganta, Lucan abriu os olhos com dificuldade e ob­servou a escuridão de seu dormitório privado. Viu que uma pequena luz­ piscava do interior do bolso de sua jaqueta de pele e nesse momento o telefone celular voltou a soar.

   Cambaleando-se, sem o habitual controle e coordenação de atleta que tinha nas pernas, deixou-se cair na cama e se dirigiu com estupidez até o molesto aparelho. Somente teve que realizar três intentos para conseguir dar com a tecla para silenciar o timbre. Furioso pelo es­forço que esses pequenos movimentos lhe estavam custando, Lucan le­vantou a tela iluminada ante seus olhos e se esforçou por ler o número da tela.

   Era um número de Boston... O telefone celular de Gabrielle.

 

   Fantástico.

   Justo o que necessitava.

   Enquanto subia o corpo do Conlan por essas centenas de degraus até o exterior, tinha decidido que, fora o que fosse o que estava fazendo com Gabrielle Maxwell, isso tinha que terminar. De todas formas, não esta­va de todo seguro do que era o que tinha estado fazendo com ela, aparte de aproveitar toda oportunidade que lhe pôs diante de pô-la de costas e debaixo dele.

   Sim, tinha sido brilhante nessa tática.

   Era no resto de seus objetivos que estava começando a falhar, sempre que Gabrielle entrava em cena.

   Tinha-o planejado tudo mentalmente, tinha pensado como ia en­frentar a situação. Faria que Gideon fosse ao apartamento dela essa noite e que lhe contasse, de forma lógica e compreensível, tudo a respeito da raça e sobre o destino dela, de onde procedia verdadeira­mente, dentro da nação dos vampiros. Gideon tinha muita expe­riencia no trato com mulheres e era um diplomático consumado. Ele se mostraria amável, e seguro que sabia dirigir as palavras melhor que Lucan. Ele conseguiria fazer que tudo cobrasse sentido para ela, inclusive a necessidade de que ela procurasse acolhida —e, depois, a um macho adequado— em um dos Refúgios Escuros.

   Quanto a si mesmo, faria todo o necessário para que seu corpo sara-se. Depois de umas quantas horas mais de descanso e de um alimento que necessitava muitíssimo —assim que fosse capaz de ficar em pé o tempo suficiente para caçar— Voltaria mais forte e seria um guerreiro melhor.

Ia esquecer para sempre que tinha conhecido a Gabrielle Maxwell. Por seu bem, e pelo bem conjunto da raça.

Exceto...

   Exceto a noite passada lhe havia dito que podia lhe localizar em seu número de celular em qualquer momento que lhe necessitasse. Havia-lhe próometido que sempre responderia sua chamada.

   E se resultava que ela estava tentando contatar com ele porque os renegados, ou os mortos andantes de seus serventes, estavam ro­deando a seu redor, pensou.

   Escancarado no chão em posição supina, apertou o botão res­ponder a chamada.

   —Olá.

   Jesus, tinha um tom de voz de merda, como se tivesse os pulmões feitos mingau e seu fôlego expulsasse cinzas. Tossiu e sentiu como se a cabeça lhe estalasse.

   No outro lado da linha houve um silêncio de uns segundos e logo, a voz de Gabrielle, dúbia e ansiosa:

   —Lucan? É você?

   —Sim. —esforçou-se em emitir o som apesar da secura que ­tinha na garganta—. O que acontece? Está bem?

   —Sim, estou bem. Espero que não te incomode que tenha chamado. Só... Bom, depois de que te partisse dessa maneira a noite passada , estive um pouco preocupada. Suponho que somente precisava saber que não te tinha ocorrido nada mau.

   Ele não tinha energia suficiente para falar, assim que ficou convexo, fechou os olhos e, simplesmente, escutou o som de sua voz. Seu tom de voz, claro e sonoro, parecia-lhe um bálsamo. A preocupação que ela de­mostrava era como um elixir, como algo que ele nunca tinha provado antes: saber que alguém se preocupava com ele. Esse afeto lhe resultava pouco familiar e quente.

   Tranqüilizava-lhe, apesar de sua raivosa necessidade de negá-lo.

 

   —O que...? —disse com voz rouca, mas o tentou de novo — Que horas são?

   —Ainda não é meio-dia. Queria te chamar assim que me levantei esta manhã, mas como normalmente trabalha durante o turno de noite, esperei tudo o que pude. Parece cansado. Despertei-te?

   —Não.

   Tentou rodar sobre um flanco do corpo. Sentia-se mais forte depois desses poucos minutos ao telefone falando com ela. Além disso, necessitava tirar o traseiro da cama e voltar para a rua essa mesma noite. O assassinato do Conlan tinha que ser vingado, e tinha intenção de ser ele quem fizesse justiça.

Quanto mais brutal fosse essa justiça, melhor.

—Bom —estava dizendo ela nesses momentos—, então tudo está bem?

—Sim, bem.

     —Bem. Alivia-me sabê-lo, verdade. —Sua voz adquiriu um tom mais li­gero e um tanto provocador.

— Te escapou de meu apartamento tão depressa a noite passada que acreditei que teria deixado marca no chão.

   —Surgiu um imprevisto e tive que partir.

   —Certo —disse ela depois de um silêncio que indicou que ele não tinha nen­huma intenção de entrar em detalhes—. Um assunto secreto de detetives?

   —Pode-se dizer que sim.

   Esforçou-se por ficar em pé e franziu o cenho, tanto pela dor que lhe atravessou todo o corpo como pelo fato de não poder contar a Gabrielle o porquê tinha tido que sair tão rapidamente de sua cama. A guerra que esperava a ele e ao resto dos seus era uma crua realidade que logo ela também teria em seu prato. De fato, seria essa mesma noite, assim que Gideon fosse visitá-la.

 

   —Escuta, esta noite tenho uma aula de ioga com um amigo meu que termina por volta das nove. Se não estiver de serviço, por que não passa por aqui? Posso preparar algo para jantar. Toma-o como uma compen­sação pelos manicotti que não pôde comer o outro dia. Possivelmente esta vez consigamos jantar.

   O divertido flerte de Gabrielle lhe arrancou um sorriso que lhe fez sentir dor em todos os músculos do rosto. A indireta a respeito da p­aixão que tinham compartilhado despertava algo em seu interior também, e a ereção que notou em meio de todas as demais sensações físicas de agonia não foi tão dolorosa como tivesse desejado.

   —Não posso ir verte, Gabrielle. Tenho... que fazer umas coisas.

   A principal de todas elas era meter-se algo de sangue no corpo e isso significava que tinha que manter-se afastado dela tanto como fosse possível. Não era boa coisa que lhe tentasse com a promessa de seu corpo; no estado em que se encontrava nesse momento, ele era um perigo para qualquer ser humano que fosse o suficientemente tolo co­mo para aproximar-se dele.

   —Não sabe o que dizem a respeito de trabalhar muito e não jogar nada? —perguntou-lhe, em um ronrono de convite.

   —Sou uma espécie de ave noturna, assim se terminar logo de trabalhar e decide que quer um pouco de companhia...

   —Sinto muito. Possivelmente em outro momento —lhe disse ele, sabendo perfeitamente que não haveria nenhum outro momento. Nesses instantes se encontrava em pé e começava a dar uns passos torpes e pouco fluídos em direção a porta. Gideon devia estar no laboratório, e o laboratório se encontrava ao final do corredor. Era infernal tentar fazer esse percurso em suas condições, mas Lucan estava completamente decidido fazê-lo.

   —Vou mandar a alguém a ver-te esta noite. É um... meu sócio.

—Para que?

 

   Tinha que expulsar o fôlego com dificuldade e pela boca, mas estava caminhando. Alargou a mão e apanhou a maçaneta da porta.

   —As coisas se puseram muito perigosas —disse ele de forma precipitada e com esforço—. Depois do que te aconteceu ontem no centro da cidade...

   —Deus, não podemos esquecê-lo? Estou segura de que exagerei.

   —Não —a interrompeu ele—. Me sentirei melhor se souber que não está sozinha... que há alguém que te protege.

—Lucan, de verdade, não é necessário. Sou uma garota adulta. Estou bem.

   Ele não fez caso de seus protestos.

   —Chama-se Gideon. Te agradará. Os dois poderão... falar. Ele lhe aju­dará, Gabrielle. Melhor do que o posso fazer eu.

   —Me ajudar? O que quer dizer? Passou algo com respeito ao caso? E quem é esse Gideon? É um detetive, também?

   —Ele lhe explicará isso tudo. —Lucan saiu ao corredor, onde uma tênue luz iluminava as polidos ladrilhos e os brilhantes acabados de cromo e cristal. Do outro lado de uma das portas de um apartamento pri­vado se ouvia ressonar com força a música metal de Dante. Desde um dos muitos corredores que foram dar a esse corredor principal chegava certo aroma de azeite e a disparos de arma recentes, das instalações de treinamento.

   Lucan se cambaleou sobre os pés, inseguro em meio dessa mescla de estímulos sensoriais.

   —Estará a salvo, Gabrielle, juro-lhe isso. Agora tenho que te deixar.

 

   —Lucan, espera um momento! Não desligue. O que é o que não me está dizendo?

   —Vais estar bem, prometo-lhe isso. Adeus, Gabrielle.

 

A chamada que tinha feito a Lucan, e seu estranho comportamento ao outro extremo do telefone, tinham-na estado preocupando todo o dia. To­davia o estava enquanto saía com Megan da classe de ioga essa tarde.

   —Parecia tão estranho ao telefone. Não sei se estava em um estado de extrema dor física ou se estava tentando encontrar a maneira de me dizer que não queria voltar para ver-me.

   Megan suspirou e fez um gesto de negação com a mão.

   —Provavelmente está tirando muitas conclusões. Se de verdade quer sabê-lo, por que não vai a delegacia de polícia e sacas a cabeça para ver­-lhe?

   —Acredito que não. Quero dizer, o que lhe diria?

   —Diria-lhe: «Olá, bonito. Parecia tão desanimado esta tarde que pensei que iria bem que passasse te recolher, assim aqui estou». Possivelmente possa lhe levar um café e um pão-doce no caso de.

   —Não sei...

   —Gabby, você mesma há dito que esse menino sempre foi doce e cuidadoso quando esteve contigo. Pelo que me contaste a respeito da conversação que tivestes hoje por telefone, ele parece muito preocupado por ti. Tanto que vai mandar a um de seus colegas para que te vigie enquanto ele está de serviço e não pode estar ali em pessoa.

   —Ele fez insistência no perigoso que se estava pondo acima... e o que acha que significa «acima» ? Não parece jargão de polícia, verdade? O que é, algum tipo de terminologia militar?

—Negou com a cabeça—. Não sei. Há muitas coisas de Lucan Thorne que não sei.

 

   —Pois pergunta. Venha, Gabrielle. Pelo menos lhe dê ao menino o benefício da dúvida.

   Gabrielle observou as calças de ioga negras e a jaqueta com cremalheira que levava. Logo se levou a mão ao cabelo para comprovar até que ponto lhe tinha desfeito a rabo-de-cavalo durante esses quarenta e cinco minutos de exercícios.

   —Teria que ir primeiro a casa, me dar pelo menos uma ducha, trocar de roupa.

   —Né! Quero dizer, de verdade, mas o que te passa? —Megan abriu mu­ito os olhos, que lhe brilhavam, divertida.

— Tem medo de ir, verdade? OH, quer ir, mas já tem certamente um milhão de desculpas passando para explicar por que não pode fazê-lo. Admito-o, este menino você gosta de verdade.

   Gabrielle não podia negá-lo, não teria podido inclusive embora o imediato sorriso que lhe desenhou no rosto não a tivesse delatado. Gabrielle lhe devolveu o olhar a sua amiga e se encolheu de ombros.

   —Sim, é verdade. Eu gosto. Muito.

   —Então, o que está esperando? A delegacia de polícia está a três quadras, e tem um aspecto fantástico, como sempre. Além disso, não é que ele não te tenha visto suar um pouco antes de agora. É possível que prefira ver-te assim.

   Gabrielle riu com Megan, mas sentia retorcer o estômago. A verdade era que sim desejava ver Lucan, de fato não queria esperar nem um minuto mais, mas e se ele tinha estado tentando deixá-la enquanto fala­vam por telefone essa tarde? Que ridícula pareceria então, se entrava na delegacia de polícia sentindo-se como se fosse sua noiva. Sentiria-se como uma idiota.

   Não mais do que se sentiria se recebia a notícia de segunda mão, pela boca de seu amigo Gideon, a quem ele teria enviado nessa compassiva missão.

 

   —De acordo. Vou fazê - lo.

   —Bom pra ti! —Megan se ajustou a bolsa do colchonete de ioga no ombro e sorriu ampliamente.

— Esta noite verei Ray em meu aparta­memoro depois de que ele termine seu turno, mas me chame à primeira hora da manhã e me conte como foi. De acordo?

   —De acordo. Uma saudação para o Ray

   Enquanto Megan se afastava apressadamente para pegar o trem das nove e quinze, Gabrielle se dirigiu para a delegacia de polícia . Durante o caminho recordou o conselho de Megan e se deteve um momento para comprar um pão-doce e um café: puro e carregado, posto que não acreditava que Lucan fosse o tipo de homem que toma com leite, com açúcar nem descafeinado.

   Com ambas as coisas nas mãos, chegou a porta da delegacia de polícia, respi­rou com força para reunir coragem, atravessou a porta de entrada e entrou com atitude desenvolvida.

   As queimaduras piores tinham começado a curar-se ao cair da noite. A pele nova lhe cresceu, sã, por debaixo das bolhas da pele velha e as feridas começaram a fechar-se. Embora ainda tinha os olhos muito sensíveis inclusive a luz artificial, não sentia dor na fria escuridão da rua. O qual era bom, porque precisava estar por aí para saciar a sede de seu corpo convalescente.

   Dante lhe olhou. Os dois saíam ao exterior do recinto e se preparavam para compartilhar essa noite de reconhecimento e de vingança contra os renegados.

   —Não tem muito bom aspecto, cara. Se quiser, sairei a caçar para ti e te trarei algo jovem e forte. Necessita-o, isso está claro. E ninguém tem por que saber que não te procuraste o sustento você mesmo.

 

   Lucan olhou de soslaio e com expressão séria ao macho e lhe mostrou os dentes em um sorriso de brincadeira.

   —Que lhe fodam.

   Dante-se riu

   —Tinha a suspeita de que me diria isso. Quer que leve as armas por ti, pelo menos?

   O gesto de negar devagar com a cabeça lhe provocou uma navalhada de dor na cabeça.

   —Estou bem. Estarei melhor quando me tiver alimentado.

   —Sem dúvida. —O vampiro ficou em silêncio durante um comprido mo­mento e lhe olhou, simplesmente. Sabe o que é que foi extraordina­riamente impressionante do que fez hoje pelo Conlan? Eu não tivesse podido nem imaginá-lo em toda sua vida, mas, porra, eu gostaria que tivesse sabido que seria você quem subiria esses últimos degraus com ele. Foi uma grande maneira de lhe honrar, cara. De verdade.

   Lucan recebeu a adulação sem deixar que lhe impregnasse. Ele tinha tido seus próprios motivos para levar a cabo esse rito funerário, e ganhar a admiração do resto dos guerreiros não formava parte deles.

   —Dê-me uma hora para caçar algo e logo nos encontraremos aqui outra vez para provocar algumas baixas entre as filas de nossos inimigos, esta noite. Pela memória do Conlan.

   Dante assentiu com a cabeça e chocou os nódulos contra o punho fecha­do de Lucan.

   —De acordo.

   Lucan esperou enquanto Dante desaparecia na escuridão. Suas passadas largas e fortes delatavam a vontade com que esperava as batalhas que ia encontrar nas ruas. Tirou as armas gêmeas das capas e elevou as Malebranches curvadas por cima de sua cabeça. O brilho dessas folhas de aço gentil e de titânio, assassinas de renegados, cintilou a débil luz da lua no céu. O vampiro emitiu um grito de guerra calado e desapareceu nas sombras da noite.

 

   Lucan lhe seguiu não muito depois, seguindo um caminho não muito distinto que entrava nas escuras artérias da cidade. Seu gesto furtivo era menos fanfarrão, mas mais decidido, menos arrogante e ansioso, mais determinado e frio. Sua sede era pior do que nunca tinha sido, e o rugido que elevou até a abóbada de estrelas no céu estava cheio de uma ira feroz.

   —Pode soletrar o sobrenome outra vez, por favor?

   —T-h-ou-r-n-e —repetiu Gabrielle a recepcionista de delegacia de polícia, que não tinha conseguido nenhum resultado no diretório—. Detetive Lucan Thorne. Não sei em que departamento trabalha. Veio a minha casa depois de que eu estivesse aqui para denunciar uma agressão que presenciei a se­mana passada... um assassinato.

   —Ah. Então, você quer falar com os de Homicídios? —As unhas largas e pintadas da jovem repicavam em cima do teclado com rapidez—. Certo... Não. Sinto muito. Tampouco aparece nesse departamento.

   —Isso não é possível. Pode voltar a comprová-lo, por favor? É que este sistema não lhe permite procurar somente um nome?

   —Sim o permite, mas não aparece nenhum detetive que se chame Lucan Thorne. Está segura de que trabalha neste edifício?

—Estou segura, sim. A informação de seu computador não deve estar atualizada...

   —Né, um momento! Aí há uma pessoa que pode ajudar, a interrompeu a recepcionista enquanto fazia um gesto em direção à porta de entrada da Central.

—Agente Carrigan! Você tem um segundo?

 

   O agente Carrigan, recordou Gabrielle, desolada. O velho poli que lhe tinha feito passar um momento tão desagradável a semana passada, chamando-a mentirosa e cabeça oca sem querer acreditar a declaração de Gabrielle acerca do assassinato da discoteca. Pelo menos, agora que Lucan tinha contrastado as fotos de seu celular no laboratório da polícia, sentia o consolo de saber que, fosse qual fosse a opinião desse homem, o ca­so seguia adiante de algum jeito.

   Gabrielle teve que reprimir um grunhido de fúria ao ver que o homem se tomava um tempo antes de aproximar-se dela. Quando ele a viu ali em pé, a expressão de arrogância que parecia tão natural nesse rosto carnudo adotou um gesto decididamente depreciativo.

   —OH, Por Deus. Outra vez você? Justo o que necessito em meu último dia de trabalho. Retiro-me dentro de umas quantas horas, querida. Esta vez vai ter que contar-lhe a outra pessoa.

Gabrielle franziu o cenho.

   —Perdão?

   —Esta jovem está procurando um de nossos detetives           —disse a recepcionista enquanto intercambiava um olhar de cumplicidade com Gabrielle, como resposta ao comportamento displicente do agente. Não lhe encontro no diretório, mas ela acredita que é um dos nossos.

Conhece você ao detetive Thorne?

   —Nunca ouvi falar dele. —O agente Carrigan começou a afastar-se.

   —Lucan Thorne —disse Gabrielle com decisão enquanto deixava o café de Lucan e a bolsa com a massa em cima da mesa de recepção. Auto­maticamente deu um passo em direção ao policial e esteve a ponto de sujeita-lo pelo braço ao ver que ele ia deixa-la ali plantada.

— O detetive Lucan Thorne, você deve conhecer. Vocês enviaram ao meu apartamento no início desta semana para ver se conseguia alguma informação adicional a minha declaração. Levou meu telefone celular ao laboratório para que analisassem...

 

   Carrigan começou a rir agora; deteve-se e a olhava enquanto lhe oferecia os detalhes a respeito da chegada de Lucan a sua casa. Gabrielle não tinha paciência para dirigir a agressividade desse agente. E menos agora que o pêlo da nuca começava a arrepiar-se o a causa do repentino pressentimento de que as coisas começavam a ser estranhas.

   —Está-me dizendo que o detetive Thorne não lhe contou nada disto?

   —Senhorita. Estou-lhe dizendo que não tenho nem remota idéia do que está você falando. Trabalhei nesta delegacia de polícia durante trinta e cinco anos, e nunca ouvi falar de nenhum detetive Lucan Thorne, por não falar de que não mandei a sua casa.

   Gabrielle sentiu que lhe formava um nó no estômago, frio e apertado, mas se negou a aceitar o medo que começava a cobrar forma detrás de toda essa confusão.

   —Isso não é possível. Ele sabia do assassinato que eu havia presenciado. Sabia que eu tinha estado aqui, na delegacia de polícia, fazendo uma declara­ção a respeito disso. Vi sua placa de identificação quando chegou à casa. A­cabo de falar com ele hoje, e me disse que esta noite trabalhava. Tenho seu número de celular...

   —Bom, vou dizer- lhe uma coisa. Se isso for fazer que me deixe em paz , vamos fazer uma chamada a seu detetive Thorne —disse Carrigan.Isso esclarecerá as coisas, verdade?

   —Sim. Vou chamar- lhe agora.

   A Gabrielle tremiam um pouco os dedos enquanto tirava o teléefone celular do bolso e marcava o número de Lucan. O telefone chamou, mas ninguém respondeu. Gabrielle voltou a tentá-lo e esperou durante a agonia de uma eternidade enquanto o timbre soava e soava e soava e enquanto a expressão do agente Carrigan se mudava de uma impa­ciência questionável a uma compaixão que ela tinha percebido nos ros­tros dos trabalhadores sociais quando era uma menina.

 

   —Não responde —murmurou ela, apartando o telefone do ouvido. Sentia-se torpe e confusa, e a expressão atenta no rosto do Carrigan o piorava tudo—. Estou convencida de que está ocupado com algo. Vou voltar a tentá-lo dentro de um minuto.

   —Senhorita Maxwell. Podemos chamar a alguém mais? A algum familiar, possivelmente? A alguém que possa nos ajudar a encontrar sentido a tudo o que lhe está passando?

   —Não me está acontecendo nada.

   —Me parece que sim. Acredito que você está confusa. Sabe? Às vezes a gente inventa coisas para que lhes ajudem a suportar outros pro­blemas.

Gabrielle se burlou.

   —Eu não estou confundida. Lucan Thorne não é um produto de minha imaginação. É real. Essas coisas que me aconteceram são reais. O assassinato que presenciei o fim de semana passado, esses... homens... com seus rostos ensangüentados e seus afiados dentes, inclusive esse menino que me esteve vigiando o outro dia no parque... ele trabalha aqui na Cen­tral. O que é o que têm feito vocês? Enviaram-lhe para que me olha-se?

   —De acordo, senhorita Maxwell. Vamos ver se conseguimos resolver isto juntos. —Era óbvio que o agente Carrigan tinha encontrado finalmente um resto de diplomacia sob a armadura de seu caráter grosseiro. Apesar de tudo, a forma em que pegou pelo braço para tentar conduzi-la até um dos bancos do vestíbulo para que se sentasse mostrava uma grande condescendência—. Vamos ver se respirarmos profundamente. Podemos procurar a alguém para que a ajude.

     Deu uma sacudida no braço para soltar-se.

   —Você acredita que estou louca. Eu sei o que vi... tudo! Não me estou inventando isto, e não necessito ajuda. Somente preciso saber a verdade.

 

   —Sheryl, querida — disse Carrigan a recepcionista, que olhava ambos com apreensão—. Pode me fazer o favor de chamar em um mo­memoro à Rudy Duncan? Diga que lhe necessito aqui embaixo.

   —Um médico? —perguntou Gabrielle, que já havia tornado a colocar o telefone entre a orelha e o ombro.

   —Não —repôs Carrigan, devolvendo o olhar a Gabrielle—. Não terá que alarmar-se ainda. Peça que baixe ao vestíbulo, tranqüilamente, e que converse um momento com a senhorita Maxwell e comigo.

   —Esqueça-o —respondeu Gabrielle, levantando do banco.

   —Olhe, seja o que seja o que lhe esteja passando, há pessoas que podem ajudá-la.

   Ela não esperou que terminasse de falar, limitou-se a recompor-se com dignidade, a caminhar até a mesa de recepção para recuperar a taça e a bolsa, a atirá-los ao lixo e dirigir-se a porta de saída.

   Sentiu o ar da noite fresco nas bochechas, acesas, o qual a tranqüilizou de algum jeito. Mas a cabeça ainda lhe estava dando voltas. O coração lhe pulsava com força por causa da confusão e de que não podia acreditar o que lhe tinha acontecido.

   É que todo mundo ao seu redor se estava voltando louco? Que diabos estava acontecendo? Lucan lhe tinha mentido a respeito de que era um policial, isso era bastante evidente. Mas que parte do que lhe tinha contado, que parte do que tinham feito juntos, formava parte desse engano?

   E por que?

   Gabrielle se deteve no final dos degraus de cimento que se afastavam da delegacia de polícia e respirou profundamente várias vezes. Deixou sair o ar devagar. Logo baixou a vista e viu que ainda tinha o telefone celular na mão.

 

—Merda.

   Tinha que averiguá-lo.

   Essa estranha história em que se colocou tinha que acabar nesse momento.

   O botão de rechamada voltou a marcar o número de Lucan. Ela esperou,

   Insegura do que ia dizer lhe.

   O telefone soou seis vezes.

   Sete.

     Oito...

 

Lucan tirou o celular do bolso de sua jaqueta de couro enquanto pro­nunciava uma forte maldição.

Gabrielle... outra vez.

Tinha-lhe chamado antes também, mas ele não tinha querido responder a chamada. Estava perseguindo um traficante de drogas ao que tinha visto vender crack a um adolescente que passava pela rua, fora de um sórdido botequim. Tinha estado conduzindo mentalmente a sua presa para um beco escuro e estava justo a ponto de lançar-se ao ataque quando a primeira chamada de Gabrielle tinha divulgado como um alarme de carro desde seu bolso. Tinha posto o aparelho no modo de silêncio, amaldiçoando-se a si mesmo pelo estúpido costume de levar o maldito traste quando saía a caçar.

   A sede e as feridas lhe tinham feito comportar-se descuidadamente. Mas esse repentino estrondo na rua escura tinha resultado a seu favor ao final.

   Ele tinha as forças debilitadas, e o cauteloso traficante tinha cheirado o perigo no ambiente, inclusive apesar de que Lucan se manteve escondido entre as sombras enquanto lhe perseguia. Tinha tirado uma arma a metade do beco e apesar de que raramente as feridas de bala resul­tavam fatais para a estirpe de Lucan —a não ser que se tratasse de um ti­ro na cabeça a queima roupa—, não estava seguro de que seu corpo convalescente pudesse resistir um impacto como esse nesses momentos.

   Por não mencionar o fato de que isso lhe tiraria de gonzo, e já estava com um humor de cão.

   Assim, quando a segunda chamada do celular fez que o traficante se voltasse freneticamente para um lado e a outro em busca da origem do ruído que ouvia detrás dele, Lucan lhe saltou em cima. Derrubou ao tipo rápidamen­te, e lhe cravou as presas na veia do pescoço, torcida pelo terror um momento antes de que o homem reunisse a força suficiente para arrancar um grito dos pulmões.

 

   O sangue lhe alagou a boca, desagradável pelo sabor a droga e a enfermidade. Lucan a tragou com dificuldade, uma vez atrás de outra, enquanto agarrava sem piedade a sua convulsa presa. Ia matar- lhe, e não podia impor­tar menos. Isso apagava a dor de seu corpo dolorido.

   Lucan se alimentou depressa, bebeu tudo o que pôde.

   Mais do que pôde.

   Quase lhe tirou todo o sangue ao traficante e ainda se sentia faminto. Mas tivesse sido abusar muito se alimentava mais essa noite. Era melhor esperar a que o sangue lhe nutrisse e lhe tranquilizasse em lugar de arriscar-se a ser ansioso e a tomar um caminho rápido para a sede insa­ciavel de sangue.

   Lucan olhou com ironia o telefone que soava na palma de sua mão e sabia que quão único tinha que fazer era não responder.

   Mas continuou soando, com insistência, e justo no último instante, respondeu. Não disse nada ao princípio, simplesmente escutou o som­ do suspiro de Gabrielle ao outro lado. Notou que tinha a respiração tremente, mas sua voz soou forte, apesar de que era evidente que e­stava bastante desgostada.

   —Mentiste-me — disse, a modo de saudação—. Durante quanto tempo, Lucan? Quantas mentiras? Tudo foi uma mentira?

   Lucan observou o corpo sem vida de sua presa com expressão satisfeita. Agachou-se e realizou um rápido registro desse miserável e gordurento tipo. Encontrou um maço de bilhetes sujeitos por uma borracha, que ia deixar ali para que os abutres guias de ruas o disputassem. A mercadoria do trafi­cante —crack e heroína por valor de um par de bilhetes grandes— Iriam parar em um dos esgotos da cidade.

 

—Onde está? —perguntou-lhe quase em um latido, sem pensar em outra coisa que não fosse no depredador que acabava de eliminar.

— Onde está Gideon?

—Nem sequer vais tentar negá-lo? Por que faz isto?

—Passe-me isso Gabrielle.

   Ela ignorou essa petição.

   —Há outra coisa que eu gostaria de saber: como entrou em meu aparta­memoro a outra noite? Eu tinha fechado todos os fechos e tinha posto a correia. O que fez? Abriu-os? Roubou-me as chaves enquanto eu não olhava e te fez uma cópia?

   —Podemos falar disso mais tarde, quando estiver a salvo no recinto.

   —De que recinto fala? —A repentina gargalhada lhe pegou por surpresa.

— E pode abandonar essa pose protetora e benevolente. Não é um policial. Quão único quero é um pouco de sinceridade. É isso te pedir muito, Lucan? Deus. É esse pelo menos seu verdadeiro nome? Algo do que me tenha contado se parece, pelo menos re­motamente, a verdade?

   De repente Lucan soube que essa raiva, essa dor, não era o resultado de que Gabrielle tivesse conhecido pelo Gideon a verdade a respeito da raça e do papel que ela tinha destinado na mesma. Um papel que não ia   in­cluir a Lucan.

   Não, ela não sabia nada disso ainda. Tratava-se de outra coisa. Não era medo dos fatos. Era medo ao desconhecido.

   —Onde está, Gabrielle?

   —O que te importa?

   —Me... importa —admitiu, embora com relutância.

   —Porra , não tenho a cabeça para isto agora mesmo. Olhe, sei que não está em seu apartamento, assim que onde está? Gabrielle, tem que me dizer onde está.

   —Estou na delegacia de polícia. Vim para ver-te esta noite e, sabe o que? Ninguém ouviu seu nome aqui.

   —OH, Deus. Perguntaste por mim aí?

   —É obvio que o tenho feito. Como tivesse podido me inteirar de que tomava por uma idiota, se não? —Outra vez o tom de brincadeira e irritação.

   — Incluso havia te trazido café e uma massa.

   —Gabrielle, estarei aí em uns minutos... menos que isso. Não te mova. Fique onde está. Fique em algum ponto onde haja gente, em algum lugar interior. Vou para te buscar.

—Esquece-o. Me deixe em paz.

   Essa breve ordem lhe fez levantar-se imediatamente do chão. Ao cabo de um instante suas botas ressonavam na rua a um ritmo acelerado.

   —Não vou ficar por aqui te esperando, Lucan. De fato, sabe o que? Não te ocorra te aproximar de mim.

   —Muito tarde —lhe respondeu.

   Já tinha chegado à penúltima esquina que lhe separava da rua onde se encontrava a delegacia de polícia. Avançou por entre a multidão de pedestres como um fantasma. Notava que o sangue que acabava de in­gerir lhe penetrava nas células, lhe aderia nos músculos e nos ossos e lhe fortalecia até que se converteu somente em uma rajada fria nas costas dos que passavam ao seu lado.

   Mas Gabrielle, com sua extraordinária percepção de companheira de ra­ça, viu-lhe em seguida.

 

   Lucan ouviu pelo telefone que Gabrielle agüentava a respiração. Como em câmera lenta, ela se apartou o aparelho do ouvido e lhe olhou com os olhos muito abertos e com incredulidade enquanto ele lhe aproximava rapidamente.

   —Meu Deus —sussurrou, e essas palavras chegaram aos ouvidos de Lucan sozinhas em um segundo antes de que se plantasse diante dela e alargasse a mão para sujeitá-la pelo braço.

   —Solte-me!

   —Temos que falar, Gabrielle. Mas não aqui. Levarei-te a um lugar...

   —É uma merda! —Deu um puxão, soltou-se da mão dele e se afastou pela calçada.

   — Não vou a nenhuma parte contigo.

   —Já não está segura aqui fora, Gabrielle. Viu muitas coisas. Agora forma parte disso, tanto se quiser como se não.

   —Parte do quê?

   —Desta guerra.

   —Guerra —repetiu ela, com um tom de dúvida.

   —Exato. É uma guerra. Antes ou depois vais ter que escolher um lado, Gabrielle. —Pronunciou uma maldição—. Não. A merda. Eu vou escolher seu lado agora mesmo.

   —É uma espécie de piada? Quem é você, um desses militares ina­daptados que vai por aí representando suas fantasias de autoridade. Possivelmente seja pior que isso.

   —Isto não é uma piada. Não é um fodido jogo. Estive em muitos combates e presenciei muitas mortes em minha vida, Gabrielle. Nem se­quer pode imaginar o que vi, nem tudo o que tenho feito. Não vou ficar quieto para ver que fica apanhada em um fogo cruzado. —Ofereceu-lhe uma mão.

— Vais vir comigo. Agora.

Lhe esquivou. Seus olhos escuros revelavam uma mescla de medo e de raiva.

   —Se voltar a me tocar, juro-te que chamo a polícia. Já sabe, aos de verdade que estão na delegacia de polícia. Esses levam placas de verdade. E ar­mas de verdade.

   O humor de Lucan, que já estava quente, começou a piorar.

   —Não me ameace, Gabrielle. E não creia que a polícia te pode o­fecer algum tipo de amparo. E, é obvio, não ante o que te está ameaçando. Pelo que sabemos, a metade da delegacia de polícia poderia estar cheia de servidores.

Ela meneou a cabeça e adotou uma atitude mais tranqüila.

   —De acordo. Esta conversação está deixando de ser realmente extranha e começa a ser profundamente inquietante. Terminei com isto, compreendido? —Falava-lhe devagar e em voz baixa, como se estivesse tentando tranqüilizar a um cão raivoso que estivesse ante ela agachado e a ponto de atacar.

— Agora vou, Lucan. Por favor... não me siga.

   Quando ela deu o primeiro passo para afastar-se dele, a pouca capacidade de controle que ficava a Lucan se quebrou. Cravou-lhe os olhos nos dela com dureza e lhe enviou uma feroz ordem mental para que deixasse de re­sistir a ele.

   «Me dê a mão.»

   «Agora.»

   Por um segundo, as pernas ficaram imóveis, pa­ralizadas. Os dedos das mãos se moveram, como intranqüilos, a um doslados do corpo. Logo, devagar, seu braço começou a levantar-se para ele.

   E, de repente, o controle que ele tinha sobre ela se rompeu.

   Ele sentiu que lhe expulsava de sua mente, desconectava dele. O corredor de sua vontade era como uma porta de ferro que se fechava entre ambos, uma porta que lhe houvesse custado muito penetrar embora se encontrasse em condições ótimas.

   —Que diabos? —exclamou ela em voz baixa, reconhecendo perfeita­mente qual era o truque—. Te ouvi, agora, em minha cabeça. Meu Deus. Tem-me feito isto antes, verdade?

   —Não me está deixando muitas escolhas, Gabrielle.

   Ele tentou outra vez. E sentiu que lhe empurrava fora, esta vez com maior desespero. Com mais medo.

   Ela se levou o dorso da mão até a boca, mas não pôde afogar de todo o grito quebrado que lhe saía pela garganta.

   Retrocedeu cambaleando-se pela esquina.

   E logo se deu a volta na escuridão da rua para escapar dele.

   —Você, menino. Agarra a porta em meu lugar, de acordo?

   O servente demorou um segundo em dar-se conta de que lhe estavam falando a ele, de tão distraído como estava olhando a mulher Maxwell em meio da rua, diante da delegacia de polícia. Inclusive agora, enquanto sujeitava a porta aberta para que um mensageiro entrasse com quatro caixas de pizza fumegantes, sua atenção permanecia cravada na mulher enquanto esta se afastava da esquina e corria rua abaixo.

   Como se tentasse deixar a alguém detrás.

   O servente olhou a uma enorme figura vestida de negro que estava em pé e que observava como ela escapava. Esse macho era imenso, facil­mente media dois metros de altura, os ombros, sob a jaqueta de pele, eram largos como os de um defesa. Dele emanava um ar de ameaça que se percebia do outro lado da rua onde agora se encontrava o servente, em pé, estupefato, sujeitando ainda a porta da delegacia apesar de que as pizzas se encontravam amontoadas já em cima do balcão de recepção.

 

Embora ele nunca tinha visto nenhum dos vampiros a quem seu senhor desprezava tão abertamente, o servente soube sem dúvida nenhuma que nesse momento estava vendo um deles.

   Seguro que essa era uma oportunidade de ganhar a apreciação se avisasse a seu senhor da presença tanto da mulher como do vampiro a quem ela parecia conhecer, além de temer.

   O servente voltou a entrar na delegacia de polícia. Tinha as mãos úmidas de suor por causa da excitação ante a glória que lhe esperava. Com a cabeça abaixada, seguro de sua habilidade de mover-se por toda parte e de passar desapercebido, começou a cruzar o vestíbulo a um passo apressado.

   Nem sequer viu que o menino da pizza se cruzava em seu caminho até que se chocou com ele, com a cabeça. Uma caixa de cartão foi cho­car-se contra o peito, da qual emanou um aroma de queijo quente, e a caixa caiu no sujo linóleo do chão pulverizando o conteúdo aos pés do servente.

   —Né, cara. Está pisando em minha seguinte entrega. É que não olha por onde vai?

Ele não se desculpou, nem se deteve para tirar o gordurento queijo e o pepperoni do sapato. Introduziu a mão no bolso da calça e foi procurar um lugar tranqüilo de onde fazer sua importante chamada.

   —Espera um segundo, amigo.

   Era o velho e calvo agente, em pé no vestíbulo, quem gritava agora. Embutido em sua uniforme durante suas últimas horas de trabalho, Ca­rrigan tinha estado perdendo o tempo incomodando a recepcionista do vestíbulo.

 

   O servente não fez caso da voz ensurdecedora do policial que lhe chama­va a suas costas e continuou caminhando, com a cabeça agachada, em linha reta em direção a porta da escada que estava perto do lava­bo, justo fora do vestíbulo.

   Carrigan soltou um bufido com todas suas forças e ficou boquiabier­to, com expressão de evidente incredulidade ao ver que sua autoridade era completamente ignorada.

   —Né, chupatintas! Estou falando contigo. Hei-te dito que volte e que limpe esta porcaria. E quero dizer que o faça agora, cabeça oca!

   —Limpa-o você mesmo, porco arrogante —disse em voz baixa e quase sem a­lento. Logo abriu a porta de metal que dava as escadas e começou a baixar a passo rápido.

Nesse momento e por cima dele, ouviu que a porta se abria com um estrondo ao golpear o outro lado da parede e que os degraus vi­bravam como sob o efeito de uma explosão sônica.

     —O que é o que acaba de dizer? Que merda acaba de me chamar,idiota?

     —Já me ouviste. E agora me deixe em paz, Carrigan. Tenho coisas mais importantes que fazer.

     O servente tirou o telefone celular para tentar contatar o único que de verdade lhe podia dar ordens. Mas antes de que tivesse tempo de apertar o botão de marcação rápida para ficar em comunicação com seu senhor, o corpulento polícia já se lançou escada abaixo. Uma mão enorme deu um golpe ao servente na cabeça. Os ouvidos apitaram, a vista lhe nublou a causa do impacto, o celular saiu despedido da mão e caiu ao chão com um som seco, vários degraus mais a­baixo.

   —Obrigado por me oferecer uma anedota de risada para meu último dia de trabalho —lhe disse em tom provocador. Passou-se um gordinho dedo pelo pescoço da camisa, muito apertada, e logo, com gesto despreocupado, levantou uma mão para voltar a colocar a última me­cha de cabelo que tinha em seu lugar.

— E agora, te leve esse rabo esquelé­tico escada acima antes de que lhe dê uma boa patada. Ouviste-me?

 

   Houve um tempo, antes de que conhecesse quem chamava seu Professor, em que um desafio como esse, e em especial por parte de um fanfarrão co­mo Carrigan, não tivesse passado como nada.

   Mas esse policial suarento e salivoso que agora lhe olhava de acima das escadas lhe resultava insignificante à luz dos deveres que lhes eram confiados aos escolhidos como ele. O servente se limitou a piscar umas quantas vezes e logo se deu a volta para recolher o telefone mó­vel e continuar a tarefa que tinha entre mãos.

   Somente conseguiu baixar dois degraus antes de que Carrigan caísse sobre ele outra vez. Notou que uns dedos fortes lhe sujeitavam pelos om­bros e lhe obrigavam a dar a volta. Os olhos do servente caíram sou­bre uma elegante caneta que Carrigan levava no bolso do uniforme. Reconheceu o emblema comemorativo dos serviços emprestados mas imediatamente recebeu outro golpe seco no crânio.

   —O que te passa, é que está surdo e mudo? Te aparte de minha vista ou vou a...

   Nesse momento, o policial se engasgou e soltou o ar de repente e o servente recuperou a consciência. Viu a si mesmo com a caneta do agente na mão cravando-lhe profundamente pela segunda vez, com uma investida brutal, na carne do pescoço do Carrigan.

   O servente lhe cravou uma e outra vez a arma improvisada até que o policial se desabou no chão e ficou ali tendido como um vulto destroçado e sem vida.

   Ele abriu a mão e a caneta caiu no atoleiro de sangue que se havia formado nas escadas. Imediatamente e esquecendo-o tudo, se aga­chou e voltou a tomar o telefone celular. Tinha intenção de fazer essa cru­cial chamada imediatamente, mas não podia deixar de olhar o desastre que acabava de provocar, um desastre que não ia ser tão fácil de limpar como os restos de pizza no vestíbulo.

 

Isso tinha sido um engano, e qualquer aprovação que pudesse receber ao informar ao seu senhor sobre o paradeiro da mulher Maxwell lhe seria re­tirada quando contasse que se comportou de maneira tão impulsiva na delegacia de polícia. Matar sem autorização invalidava qualquer outra coisa.

   Mas possivelmente houvesse um caminho ainda mais seguro para conseguir o favor de seu senhor, e esse caminho consistia em capturar e entregar essa mu­lher a seu senhor em pessoa.

«Sim —pensou o servente.

— Esse era um prêmio para impressionar.»

   Colocou o telefone celular no bolso e voltou até o corpo de Carrigan para lhe tirar a arma do arnês. Logo passou por cima do corpo e se apressou para uma entrada traseira que comunicava com o estaciona­minto.

 

   Tinha que deixá-la partir.

   Havia fodido as coisas tanto que não acreditava que houvesse maneira de fazer entrar em razão a Gabrielle essa noite. Possivelmente nunca.

   Da esquina de frente a observou enquanto ela percorria o outro lado da rua com passos largos, dirigindo-se para Deus sabia onde. A via pálida e aniquilada, como se acabassem de lhe dar um golpe no peito.

   Que era exatamente o que lhe tinha acontecido, admitiu ele com tristeza.

   Possivelmente fosse o melhor que ela partisse lhe acreditando um mentiroso e um lunático perigoso. Essa hipótese tampouco se afastava tanto da realidade, depois de tudo. Mas a opinião que ela tivesse dele tampouco era o importante, de todas formas. Conseguir pôr a salvo a uma companheira de raça sim o era.

   Podia deixá-la voltar para casa, lhe dar uns quantos dias para que se tran­quilizasse e para que começasse a aceitar que a tinham enganado. Logo podia enviar a Gideon para que suavizasse as coisas e para que a pusesse sob o amparo da raça, que era onde ela devia estar. Gabrielle podia escolher uma vida nova em qualquer dos Refúgios Escuros que havia ocultos por todo mundo. Podia viver feliz e segura e encontrar a um macho que fosse um verdadeiro companheiro para ela.

   Nem sequer teria que voltar a lhe ver nunca mais.

   Sim, pensou ele, esse era o melhor curso que podia tomar a ação a partir desse momento.

   Mas, sem ter em conta nada disso, deu-se conta de que se estava afastando da esquina e que caminhava pela rua seguindo a Gabrielle, incapaz de permitir que ela se afastasse agora inclusive apesar de que isso era o que ela mais necessitava.

 

   Atravessou uns sulcos com pouco tráfico noturno e um chiado de pneu­máticos lhe chamou a atenção. Um velho e oxidado carro apareceu desde um dos becos próximos a delegacia de polícia a toda velocidade em meio da rua. O motor rugiu, acelerado, e os pneumáticos chi­aram no asfalto enquanto o carro se dirigia como uma besta para sua frente que se encontrava ao final da rua.

Gabrielle.

Maldito desgraçado.

     Lucan se precipitou em uma amalucada carreira. Seus pés comiam o pa­vimento, movendo-se com toda a velocidade que podia lhes dar.

   O carro se deteve na esquina, a uns metros diante de Gabrielle, lhe fechando o passo. Ela se deteve em seco. Do guichê aberto do carro lhe dirigiram uma ordem em voz baixa. Ela negou com a cabeça violentamente e logo gritou; seu rosto adquiriu uma expressão severa assim que a porta do carro se abriu e um macho humano saiu dele.

   —Por Deus, Gabrielle! —gritou Lucan, tentando deter mentalmente ao assaltante sem conseguir outra coisa que um vazio de desconexão imper­turbavel.

   Um servente, deu-se conta com um sentimento de desdém. Somente seu senhor, o renegado que possuísse a esse humano, era capaz de dirigir sua mente. E o esforço mental que Lucan tinha realizado para tentá-lo tinha feito avançar mais devagar. Somente eram uns poucos segundos os que tinha perdido, mas eram muitos.

Gabrielle girou rapidamente para a esquerda e entrou correndo em um parque infantil com seu perseguidor lhe pisando nos calcanhares.

     Lucan a ouviu gritar com força, viu que o ser humano que a perse­guia alargava uma mão e a sujeitava pela rabo-de-cavalo em que se recolheu o cabelo.

 

     O bastardo a atirou ao chão e tirou uma pistola da parte de atrás do cinturão da calça.

     Colocou o canhão da pistola no rosto do Gabrielle.

     —Não! —rugiu Lucan no momento em que lhes dava alcance. De uma forte patada apartou ao ser humano de cima de Gabrielle.

     Enquanto o tipo rodava pelo chão, a arma se disparou e uma bala a­travessou as árvores. Lucan cheirou sangue. Esse aroma metálico provinha tanto de Gabrielle como de seu atacante. Não era dela, determinou imediata­mente e com alívio assim que se deu conta de que não tinha o caracterís­tico aroma de jasmim de Gabrielle.

   O sangue era fresco e empapava o peito da camisa do servente. Esse aroma despertou a parte mortífera de Lucan que sempre se sentia faminta e que desejava saciar-se. Sentiu que as gengivas lhe vibravam em resposta a esse instinto, mas maior que todo isso era a raiva que sentia ao pensar na possibilidade de que essa escória tivesse podido fazer mal a Gabrielle. Com um olhar mortífero cravado no servente, Lucan ofereceu a mão a Gabrielle para ajudá-la a levantar do chão.

—Tem-te feito mal?

Ela negou com a cabeça, mas teve que reprimir um soluço, quase um g­emido de histeria, que ficou apanhado na garganta.

—É ele, Lucan, é o que me estava vigiando no parque o outro dia.

—É um servente —lhe disse Lucan, pronunciando essa palavra com as mandíbulas apertadas. Não lhe importava quem fora esse ser humano. Ao cabo de uns minutos, já formaria parte da história de toda mane­ira.

— Gabrielle, tem que partir daqui, querida.

—O que? Refere-te a que te deixe aqui com ele? Lucan, tem uma arma.

—Vai agora, menina. Volta por onde vieste e vai a casa. Me assegurarei de que esteja a salvo ali.

 

   O servente estava no chão, dobrado sobre si mesmo, ainda com a arma na mão, e tossia enquanto se esforçava por recuperar o fôlego depois da patada de Lucan. Cuspiu sangue e o olhar de Lucan se cravou na mancha escarlate que ficou no chão. As gengivas lhe doíam: as presas lhe estavam alargando.

—Lucan...

—Merda, Gabrielle! Vai!

   Pronunciou essa ordem com um grunhido de fúria, mas não podia fazer nada para dominar a besta que tinha dentro. Ia matar outra vez, sua raiva estava tão fora de controle que precisava fazê-lo, e não queria deixar que ela o visse.

—Corre, Gabrielle. Vai agora!

Ela correu.

   A cabeça lhe dava voltas e o coração parecia a ponto de lhe estalar. Gabrielle saiu correndo a ordem que Lucan lhe tinha gritado.

   Mas não estava disposta a ir a casa tal e como lhe havia dito e a deixar a ele ali sozinho. Saiu da zona do parque infantil e rezou para que a rua e a delegacia de polícia, que estava cheia de policiais armados, não estivessem longe. Por uma parte odiava ter que deixar a Lucan sozinho, mas por outro lado, desesperada por fazer tudo o que pudesse para lhe ajudar, a fazia voar rua acima.

   Apesar de zangada que estava por sua mentira, e apesar do medo que tinha por tudo aquilo que não conseguia compreender a respeito dele, ne­cesitava que ele estivesse bem.

   Se lhe acontecia algo...

   Essas idéias desapareceram de sua cabeça de repente para ouvir um estrondo de disparos detrás dela, na escuridão.

 

Ficou imovel, os pulmões vazios de ar.   Ouviu um rugido estranho, como de um animal.

   Soaram outros dois disparos em uma rápida seqüência e logo... nada.

   Somente um silêncio pesado e dilacerador.

   OH, Deus.

   —Lucan? —gemeu. Sentiu que o pânico lhe atendia a garganta—. Lucan!

   Voltou a correr, agora de volta de onde vinha. De volta aonde o coração lhe estalaria em mil pedaços se não encontrava ali a Lucan, em pé, são e salvo, quando chegasse.

   Teve uma vaga sensação de preocupação se por acaso o menino da delegacia —o servente, dessa maneira estranha lhe tinha chamado Lucan— pudesse estar esperando-a, ou se por acaso se lançou em sua perseguição para terminar com ela também. Mas a preocupação por si mesma ficou a um lado assim que chegou a esquina iluminada pela luz da lua.

   Quão único precisava era saber que Lucan estava bem.

   Por cima de qualquer outra coisa, nesse momento precisava estar com ele.

   Viu a silhueta de uma figura negra sobre a grama: Lucan, em pé, com as pernas abertas e os braços a ambos os lados do corpo em um gesto ameaçador. Encontrava-se em pé diante de seu agressor quem, era evi­dente, tinha caido ao chão de costas em frente dele e tentava por -se fora do alcance de Lucan.

   —Graças A Deus —sussurrou Gabrielle quase sem fôlego, sentindo-se ali­viada imediatamente.

 

   Lucan estava bem, e agora as autoridades poderiam encarregar do ocorrido que tinha estado a ponto de matar a ambos.

Gabrielle se aproximou um pouco mais.

—Lucan —chamou, mas ele não pareceu ouvi-la.

   Em pé ante o homem que se encontrava convexo a seus pés, dobrou-se pela cintura e alargou uma mão para lhe sujeitar. Os ouvidos de Gabrielle registraram um estranho som estrangulado, e se deu conta, comocio­nada, de que Lucan estava sujeitando ao homem pela garganta.

   De que lhe estava levantando do chão com uma só mão.

   Diminuiu o passo, mas não pôde se deter enquanto se esforçava por fazer uma idéia do que era o que estava passando.

   Observou com estranho distanciamento a Lucan levantar o homem mais acima enquanto este se retorcia e lutava contra a mão que lhe segurava e que lhe deixava lentamente sem ar. Um rugido terrífico lhe encheu os ouvidos, foi crescendo lentamente até que todo o resto se desvaneciou, à luz da lua viu a boca de Lucan. Tinha-a aberta e mostrava os dentes. Era sua boca o que emitia esse som terrível e de outro mun­dou.

   —Detenha —murmurou, com os olhos cravados nele agora, sentindo-se repentinamente doente de medo—. Por favor, Lucan, detenha.

   E então, o agudo uivo se apagou e foi substituído pelo horror da visão de Lucan levantando esse corpo percorrido por espasmos e lhe cravando os dentes na carne de debaixo da mandíbula. Da ferida emanou um jorro de sangue cuja cor escarlate se fez negro na escura rede da noite em que se envolvia essa terrível cena. Lucan per­maneceu imovel, com a ferida aberta contra a boca.

   Alimentava-se da ferida.

 

   —OH, Meu deus —gemeu Gabrielle, levando-as mãos trementes até a boca para apagar um grito—. Não, não, não... OH, Lucan... não.

   Ele levantou a cabeça abruptamente, como se tivesse percebido o silen­cioso sofrimento dela. Ou possivelmente tinha notado sua presença de repente, nem sequer a cem metros dele, selvagem e terrorífico como nada que ela tivesse visto antes.

   «Não pode ser verdade», disse-lhe sua mente, contradizendo o que via.

   Ela tinha presenciado essa brutalidade outra vez, anteriormente, e se o sentido comum lhe tinha impedido de lhe dar um nome nesses momentos, esse nome lhe fez claro como um vento frio e funesto.

   —Um vampiro —sussurrou, observando o rosto de Lucan manchado de sangue e seus olhos brilhantes e ferozes.

 

O aroma de sangue lhe envolvia, metálico e penetrante. O olfato invadido com essa acidez adocicada e como de cobre. Uma parte dela provinha dele, deu-se conta com certa curiosidade surda. Baixou o olhar e viu a marca da bala no ombro esquerdo.

   Não sentia nenhuma dor, somente notava a energia que lhe invadia sempre depois de haver-se alimentado.

   Mas queria mais.

   Necessitava mais, respondeu o grito da besta que havia dentro dele.

   Essa voz soava mais forte. Era exigente. Empurrava-lhe para o limite.

   Mas não tinha estado ele precipitando-se por volta desse limite durante muito tempo, de todas formas?

   Lucan apertou as mandíbulas com tanta força que quase se rompeu os dentes. Tinha que controlar-se, tinha que partir dali e voltar para o recinto, onde poderia recuperar-se de toda essa merda.

   Tinha estado caminhando pelas ruas escuras durante duas horas e to­davia sentia o pulso lhe pulsando nas têmporas com força. Ainda notava a fome e a raiva que lhe dominavam a mente quase por completo. Nessa condição, ele era um perigo para todo mundo, mas não podia domi­nar a inquietação que sentia no corpo.

   Caminhou pela cidade como um espectro à espreita, movendo-se sem ter consciencia de que seus pés lhe encaminhavam em linha reta para a Gabrielle.

   Ela não para casa. Lucan não esteve seguro de aonde se escapou ela, até que o fio invisível de aroma e de percepção que os unia lhe conduziu até a fachada de um edifício de apartamentos no extremo norte da cidade. Um amigo dela, sem dúvida.

   Em uma das janelas superiores havia uma luz acesa. Essa parte de cristal e de tijolo era o único que lhe separava dela.

   Mas não tinha intenção de tentar encontrar-se com ela, e não somente por causa do Mustang vermelho que se encontrava estacionado diante do edi­ficio com a luz da polícia acesa no parabrisa. Lucan não nece­ssitava olhar-se no cristal do pára-brisa para saber que ainda tinha as pupilas esgotadas em meio da amplitude da íris, nem que as presas lhe marcavam detrás da rigidez dos lábios.

Tinha o aspecto exato do monstro que era.

   O monstro que Gabrielle tinha visto em direto essa noite.

   Lucan soltou um grunhido ao recordar a expressão de horror de Gabrielle desde que ele tinha matado ao servente.

   Ainda tinha a imagem dela na cabeça, quando ela tinha dado um passo para trás com os olhos muito abertos a causa do terror e o asco. Lhe tinha visto tal e como ele era de verdade: inclusive tinha pronunciado essa palavra como uma acusação um instante antes de sair fugindo.

Ele não tinha tentado detê-la, nem com palavras nem com a força.

   Quão único contava nesses momentos era a fúria mais pura quando lhe tirava todo o sangue de sua presa. Logo tinha deixado cair o corpo como lixo, como o lixo que era, e sentiu outro ataque de fúria ao pensar no que teria podido acontecer a Gabrielle se tivesse caido em mãos dos renegados. Lucan tinha desejado rasgar o corpo desse ser humano e tinha estado a ponto de fazê-lo, reconheceu nesse mo­mento ao recordar vividamente o ato selvagem que tinha cometido.

Ele, o tipo frio, tão controlado.

Vá uma piada.

 

   Essa máscara que levava sempre tinha começado a desaparecer no momento em que tinha conhecido a Gabrielle Maxwell. Fazia que mostrasse suas faltas.

   Fazia que ele desejasse coisas que não poderia ter nunca.

   Olhou para essa janela do segundo piso. Respirava agitadamente enquanto lutava contra a urgência de subir ali acima, entrar pela força e levar a Gabrielle a algum lugar onde pudesse tê-la somente para ele.

   Permitir que lhe temesse. Permitir que lhe desprezasse pelo que era, sempre e quando ele pudesse sentir a calidez de seu corpo debaixo do dele, sentir como lhe acalmava a dor de uma forma que somente ela podia fazê-lo.

   Sim, grunhiu a besta dentro dele, conhecendo somente desejo e nece­ssidade.

Antes de que o impulso de possui-la ganhasse, Lucan fechou a mão em um punho e deu um forte golpe contra o capô do carro da polícia. O alarme do veículo se disparou, e enquanto detrás de todas as venda­nas as cortinas se abriam por causa dessa súbita moléstia, Lucan desapa­receu pela esquina e penetrou nas sombras pálidas da noite.

 —Tudo está bem —disse o noivo da Megan ao voltar para o apartamento, depois de que tivesse saído a investigar por que se disparou o alarme de seu carro de repente.

— Essa maldita coisa sempre se há dispa­rado por nada. Sinto muito. Não é que necessitemos precisamente tensão acrescentada esta noite, verdade?

   —Certamente foram uns meninos que andam por aí incomodando — acrescentou Megan, que se encontrava ao lado do Gabrielle no sofá.

Gabrielle assentiu com a cabeça com gesto ausente, respondendo ao esforço que seus amigos realizavam para tranqüilizá-la, mas não acreditou nem por um segundo.

 

Tinha sido Lucan.

   Tinha-lhe percebido ali fora com algum sentido interno que nem sequer podia começar a descrever. Não era medo nem temor, simplesmente uma profunda certeza de que ele se encontrava perto.

   De que ele a necessitava.

   Desejava-a.

   Que Deus a ajudasse, mas a verdade era que tinha desejado que ele se dirigisse até a porta e que a tirasse dali, que a ajudasse a encon­trar um sentido a esse horror que acabava de presenciar fazia uns mo­mentos.

   Mas ele se partiu. Notava sua ausência com tanta força como tinha notado que ele a tinha seguido até o apartamento de Megan.

   —Tem frio, Gabby? Quer um pouco mais de chá?

   —Não, obrigado.

   Gabrielle agüentava a taça morna de camomila com as duas mãos. Sen­tia um frio interno que nem as mantas nem a água quente podiam lhe fazer passar. O coração ainda lhe pulsava acelerado, e a cabeça ainda lhe dava voltas por causa da confusão e a absoluta incredulidade.

   Lucan tinha aberto o pescoço a esse tipo.

   Com os dentes.

   Tinha colocado os lábios sobre a ferida e tinha bebido o sangue que emanava dela e que lhe tinha manchado o rosto.

   Era um monstro, parecia saído de um pesadelo. Igual a esses espectros que tinham atacado e assassinado ao punki fora do salão. Parecia que tinha passado tanto tempo desde que aconteceu isso que agora quase não podia acreditá-lo.

 

   Mas tinha acontecido, igual a sim tinha ocorrido o assassinato dessa noite, e esta vez tinha sido Lucan o que tinha estado no centro do mesmo.

   Gabrielle tinha ido casa de Megan por puro desespero porque precisava estar em algum lugar que lhe resultasse acolhedor e familiar. To­davia tinha muito medo de ir a seu próprio apartamento se por acaso o amigo de Lucan a estava esperando ali. Tinha-lhes contado a Megan e a seu noivo que o psicopata da delegacia de polícia a tinha atacado na rua. Contou-lhes que ele a tinha estado espiando fazia uns quantos dias e que esta noite, quando a tinha atacado, tinha-o feito com uma arma na mão.

   Não estava segura de por que tinha deixado a Lucan fora da história, apesar do importante que sua presença tinha sido em tudo isso. Soube­ que se devia a que, sem ter em conta seus métodos, ele tinha matado essa noite para protegê-la, e ela sentia a necessidade de lhe oferecer parte dessa mesma consideração a ele.

   Inclusive embora ele fosse um vampiro.

   Deus, resultava ridículo incluso pensá-lo.

   —Gab, querida. Tem que denunciar o que aconteceu. Esse tipo p­arece seriamente transtornado. A polícia tem que inteirar-se disto, tem que lhe apartar da rua. Ray e eu podemos te levar. Iremos ao cen­tro da cidade e encontraremos a seu amigo o detetive.

   —Não. —Gabrielle negou com a cabeça e depositou a taça de chá na me­sita de diante do sofá com uma mão ligeiramente tremente.

—Esta noite não quero ir a nenhuma parte. Por favor, Megan. Somente nece­ssito descansar um momento. Estou tão cansada.

   Megan tomou a Gabrielle da mão e a apertou com suavidade.

   —De acordo. Vou para te buscar um travesseiro e outra manta. Não tem por que ir a nenhuma parte até que se sinta com forças, querida. Estou contente de que te encontre bem.

 

   —Teve sorte de escapar —interveio Ray enquanto Megan se levava a taça de Gabrielle à cozinha antes de ir ao armário que tinha ao outro lado da sala. Possivelmente outra pessoa não tenha tanta sorte. Agora estou livre e você é a amiga do Meg, assim não vou forçar o tema, mas tem a responsabilidade de não permitir que esse tipo saia ileso depois do que te tem feito esta noite.

   —Não vai fazer mal a ninguém mais —sussurrou Gabrielle. E apesar de que estavam falando do tipo que a tinha apontado com uma pistola, não pôde evitar pensar que tivessem podido estar dizendo o mesmo do Lu­can.

   Lucan não podia recordar como tinha chegado ao recinto, nem quanto tempo ocorreu levava ali. Mas tendo em conta a quantidade de suor que tinha deixado na habitação de treinamento, supôs que devia fazer umas quantas horas que tinha chegado.

   Lucan não se incomodou em acender as luzes. Os olhos já lhe doiam bastante apesar de que estava as escuras. O que precisava era sentir a dor dos músculos enquanto os obrigava a trabalhar para recuperar o controle de seu corpo depois dessa noite em que tão perto tinha estado de cair presa da sede de sangue.

   Lucan alargou uma mão até uma das adagas que se encontravam em uma mesa que tinha ao seu lado. Passou os dedos pelo fio para comprovar quão afiado estava e logo se voltou em direção ao corredor da práctica de tiro. Notava, mais que via, o alvo ao final do mesmo, e quando lançou a faca na escuridão, soube que tinha dado no mesmo.

   —Diabos, sim —murmurou com a voz ainda rouca. As presas ainda não tinham voltado para seu tamanho normal.

   Tinha melhorado muito a pontaria. As últimas vezes que o haviam in­tentado seu tiro sempre tinha sido mortal. Não pensava ir-se dali até que se tirou de cima todos os efeitos da ingestão de sangue. Isso ainda demoraria certo tempo: ainda se sentia doente depois da overdose de sangue que tinha ingerido.

 

   Lucan percorreu a longitude da zona de práticas para tirar a arma do alvo. Extraiu a adaga e observou com satisfação a profundidade da ferida que teria infligido se o alvo tivesse sido um renegado ou um de seu serventes e não um boneco de práticas.

   Ao dá-se a volta para começar outra ronda, ouviu um suave clique em algum lugar de diante dele da zona de práticas e, imediatamente, uma violenta luz alagou as instalações em toda sua longitude e amplitude.

   Lucan retrocedeu e a cabeça lhe explorou a causa do violento ataque. Piscou várias vezes para tentar dissipar o atordoamento que sentia e entrecerrou os olhos ante o feixe de luz que se refletia nos espelhos de parede que se alinhavam na área de treinamento de defesa e de ar­mas, adjacente a zona de práticas. Foi ali onde viu a enorme for­ma de outro vampiro que apoiava um largo ombro contra a parede.

   Um dos guerreiros lhe tinha estado observando das sombras.

Tegan.

   Merda. Quanto tempo levava ali em pé?

   —Encontra-te bem? —perguntou-lhe com sua atitude indiferente de sempre, vestido com sua camiseta escura e seu vaqueiro folgado—. Se a luz é excessiva para ti...

   —Está bem —grunhiu Lucan. Umas estrelas lhe cegaram enquanto ten­tava acostumar-se a crua luz. Levantou a cabeça e obrigou a si mesmo a olhar aos olhos de Tegan, ao outro lado da habitação.

— De to­da forma, estava a ponto de partir.

   Os olhos de Tegan permaneceram cravados nele e sua expressão, enquanto Lucan, era de muita cumplicidade. As fossas nasais do Tegan se dilataram levemente e o gesto seco de seus lábios adotou um ar de surpresa.

   —Estiveste caçando esta noite. E está sangrando.

   -E?

   —Porque não é próprio de ti aceitar um golpe. É muito rápido para isso, normalmente.

   Lucan pronunciou um juramento.

   —Importaria-te não farejar ao meu redor agora mesmo? Não estou de humor para ter companhia.

   —Vê-se. Estamos um pouco tensos, né? —Tegan avançou com passo a­rrogante para examinar umas armas que se encontravam alinhadas para o treinamento. Nesse momento não estava olhando a Lucan, mas viu sua tortura como se este se encontrasse exposto diante dele, em cima da mesa, ao lado da coleção de adagas, facas e outras armas brancas.

— Tem muita agressividade que precisa tirar? Suponho que resulta ­difícil concentrar-se com esse zumbido na cabeça. O sangue corre tão depressa que é quão único pode ouvir. No único em que pode pensar é na sede. A que te dá conta, dominou-te.

   Lucan calculou o peso de outra arma com a mão enquanto tentava calcular o equilíbrio dessa adaga feita a mão. Não podia manter os olhos fixos mais de um segundo. Os dedos lhe doíam pelo desejo de utilizar essa arma para outra coisa que não fosse um alvo de práticas. Com um grunhido, baixou o braço e lançou a adaga voando até o outro extremo da zona de tiro. Esta se cravou com força no boneco, justo no peito, atravessam­do o coração.

   —Te largue daqui, Tegan. Não necessito os comentários. Nem o público.

   —Não, não quer que ninguém te veja desde muito perto. Começo a compreender por que.

   —Não tem nem idéia.

   —Não? —Tegan lhe olhou um comprido momento, logo negou devagar com a cabeça e pronunciou uma maldição em voz baixa—. Tome cuidado, Lucan.

 

   —O que acontece? —exclamou Lucan com dureza, voltando-se para o vam­piro com uma raiva negra.

   — É que me está dando conselhos, T?

   —Dá igual. —O macho se encolheu de ombros com um gesto de indife­rencia—. Possivelmente é uma advertência.

   —Uma advertência. —A gargalhada de Lucan ressonou no espaço cavernoso é fodidamente gracioso, vindo de ti.

   —Está ao limite, cara. Lhe vejo nos olhos. —Meneou a cabeça e o cabelo avermelhado lhe caiu no rosto.

— O poço é profundo, Lucan. E odeio ver-te cair nele.

—Te economize a preocupação. Você é a última pessoa de quem espero recebê-lo.

—Claro, tem tudo controlado, verdade?

—Exato.

   —Pois continua te dizendo isso, Lucan. Possivelmente lhe acreditará isso. Porque eu, que te estou vendo agora, asseguro-te que não acredito.

   Essa acusação disparou a fúria de Lucan. Em um ataque de precipitação e de raiva, equilibrou-se sobre o outro vampiro com as presas nuas e soltando um assobio viperino. Nem sequer se deu conta de que tinha a faca na mão até que viu o fio prateado que apertava a gargan­ta do Tegan.

—Te tire de diante de mim. Entende-me com claridade agora?

—Quer me rachar, Lucan? Precisa me fazer sangrar? Faz-o. Faz- o de uma puta vez, cara. Importa-me uma merda.

   Lucan atirou a adaga ao chão e rugiu enquanto sujeitava a Tegan pela camisa. Com as armas era muito fácil. Precisava sentir a carne e os ossos nas mãos, sentir como se rasgava a carne e como rangiam os ossos, para satisfazer a besta que tão perto estava de lhe reger a mente.

   —Merda. —Tegan se engasgou; tinha os olhos fixos na desenfreada fúria que brilhava nos de Lucan.

   — Já tem um pé no fossa, vê?

   —Que lhe fodam—lhe disse Lucan com um grunhido ao vampiro que, muito tempo atrás, tinha sido um amigo de confiança.

— Deveria te matar. De­veria te haver matado então.

   Tegan nem se alterou ante essa ameaça.

   —Está procurando um inimigo, Lucan? Então te olhe ao espelho. Esse é o único bode que te vai sacudir sempre.

   Lucan arrastou a Tegan para um lado e lhe estampou contra a parede do outro lado da habitação de treinamento. O espelho se rompeu a causa do impacto e os fragmentos estalaram ao redor dos ombros e o torso do Tegan como um halo de estrelas.

   Apesar de seus esforços para negar a verdade do que acabava de ouvir, Lucan viu seu próprio reflexo selvagem repetido cem vezes na rede de fragmentos quebrados. Viu suas pupilas esgotadas, sua íris brilhantes —os olhos de um renegado— que lhe devolviam o olhar. Suas enormes presas se desdobraram detrás dos lábios abertos e seu rosto contraído se converteu em uma máscara horrorosa.

   Viu todo aquilo que odiava, tudo o que tinha sido uma praga de­struidora em sua vida, tal e como Tegan lhe acabava de dizer.

   Nesse momento, refletidos na multidão de espelhos que lhe tinham mostrado sua própria transfiguração, viu que Nikolai e Dante entravam pelas portas que se encontravam detrás dele com uma expressão cautelosa nos rostos.

 

   —Ninguém nos há dito que havia uma festa —disse Dê, arrastando as sílabas, apesar de que o olhar que dirigiu aos dois combatentes não era absolutamente despreocupado.

— O que acontece? Tudo vai bem por aqui?

   Um comprido e tenso silêncio encheu a habitação.

   Lucan soltou a Tegan e se apartou lentamente dele. Baixou o olhar em um intento por ocultar sua selvageria ante os outros guerreiros. A vergonha que sentia era nova para ele. Não gostou do sabor amargo que tinha; não podia nem pensar por causa da bílis que lhe amontoava na garganta.

   Finalmente, Tegan rompeu o silêncio.

   —Sim —disse, sem apartar o olhar do rosto de Lucan—. Tudo bem.

   Lucan se separou do Tegan e de outros. Enquanto se dirigia para a saída deu um murro contra a mesa das armas e esta tremeu com violência.

   —Foder, esta noite está de subida —murmurou Niko—. Cheira a mulher recente, além disso.

   Lucan, enquanto atravessava as portas da zona de treinamento e saía ao vestíbulo exterior, ouviu a resposta de Dante.

   —Não, cara. Cheira a overdose.

 

—«Mais —gemeu a mulher humana que, sentada sobre seu regaço, rodeava com o corpo e lhe oferecia o pescoço sob seus lábios. Atirou dele com gesto ansioso e baixou os olhos como se estivesse drogada.

— Por favor, beba mais de mim. Quero que a bebes toda!

   —Possivelmente —lhe prometeu ele com expressão despreocupada. Já se estava cansando desse bonito brinquedo.

  1. Delaney, R.N, tinha-lhe proporcionado um jogo bastante entretido durante as primeiras horas que fazia que a tinha levado a seus aposen­tosse privados, mas ao igual que todos os seres humanos apanhados pelo poder do beijo do vampiro, ao final tinha deixado de lutar e agora ansiava pôr fim a sua tortura. Nua, retorcia-se contra ele como um feli­não em zelo, esfregava sua pele nua contra seus lábios e choramingou assim que ele se negou a lhe oferecer as presas.

   —Por favor —repetiu ela, agora em um tom queichoso que começava a lhe ser incomodo.

   Não podia negar o prazer que tinha recebido dela, tanto de seu corpo ofegante como da plenitude deliciosa e profunda que seu sangue lhe tinha proporcionado enquanto lhe oferecia sua garganta, doce e suculenta. Mas agora já tinha terminado com isso. Tinha terminado com ela a não ser que tivesse intenção de sorver o resto da humanidade dessa mu­lher para convertê-la em uma de seus serventes.

   Ainda não. Possivelmente decidisse jogar outra vez.

   Mas se não se afastava dessa sujeição ansiosa dela, possivelmente se sentisse tentado a beber da enfermeira K. Delaney até além desse ponto crucial que conduzia diretamente a morte.

 

   Jogou-a e a empurrando de seu regaço sem contemplações e ficou em pé.

   —Não —se queixou ela—. Não vá.

   Ele já estava cruzando a habitação. As suntuosas dobras da bata de seda se deslizavam entre seus tornozelos enquanto caminhava fora do dormitório e se dirigia a seu estudo, ao outro lado do vestíbulo. Essa habi­tação, seu santuário secreto, estava cheio de todos os luxos que desejava: móveis deliciosos, peças de arte e antiguidades muito valiosos, almofadas tecidas por mãos persas durante as cruzadas religiosas do mundo. Todas as lembranças de seu próprio passado, objetos colecionados durante inumeráveis épocas pelo puro prazer que lhe ofereciam e que tinham sido gastos até aqui recentemente, à sede de seu exército na Nova In­glaterra.

   Mas havia outra recente aquisição artística, também.

   Esta —uma série de fotografias contemporâneas— não lhe agradava absolutamente. Observou as imagens em branco e negro de vários renegados da cidade e não pôde conter uma careta de fúria.

—Né... estes não são...?

   Dirigiu um olhar de irritação para onde nesse momento se en­contrava a fêmea sentada. Arrastou-se atrás dele da outra habitação. Deixou-se cair em cima de uma das palacianas almofadas e seu rosto se contraía formando uma careta infantil. Quase não podia manter erguida a cabeça e piscava com insistência como se fosse incapaz de enfocar a vista, mas estava observando a coleção de fo­tografias.

   —OH? —exclamou ele, não muito interessado em jogar a nenhum jogo, mas bastante curioso por saber o que era o que, dessas imagens, havia p­netrado em sua cabeça aturdida.

— A quem crê que pertencem?

—Minha amiga... são delas.

 

   Ele arqueou as sobrancelhas como resposta a essa inocente revelação.

   —Conhece a artista, verdade?

   A jovem mulher assentiu com a cabeça lentamente.

—Minha amiga... Gabby.

   —Gabrielle Maxwell —disse ele, voltando-se, com a atenção verdadeira­mente desviada dela agora.

— Me fale de seu amiga. Que interesse tem em fotografar estes lugares?

   Esteve-se fazendo essa pergunta mentalmente do primeiro momento em que soube que Gabrielle como testemunha indesejada de uma matança perpetrada de forma descuidada por uns novos recrutas. Havia-se sentido irritado, embora não alarmado, ao saber que a mulher Max­well tinha estado na delegacia de polícia. Ver seu rosto inquisitivo na tela do circuito fechado de segurança das instalações tampo­uco lhe tinha agradado, exatamente. Mas o que despertava um escu­ro interesse nela era a intenção que ela parecia ter por documentar localizações de vampiros.

   Ele, até esse momento, tinha estado ocupado com outro tipo de coisas que requeriam sua atenção. Tinha estado concentrado em outro ponto, e se tinha contentado jogando um olho de vez em quando ao tema de Gabrielle Maxwell. Mas possivelmente o interesse que ela mostrava e suas atividades me­recieram uma observação mais atenta. De fato, possivelmente merecessem um du­ro interrogatório. A tortura, ele gostava.

—Falemos de sua amiga.

   Sua pesada companheira de jogos jogou a cabeça para trás e se atirou de costas no tapete com os braços levantados, como um menino mimado a quem lhe nega algo que deseja.

   —Não, não quero falar dela —murmurou, levantando os quadris do chão.

— Vêem aqui... me beije primeiro... fala de mim... de nós.

 

   Ele deu um passo em direção a fêmea, mas sua intenção não era satis­fazer-la. O extreitamento das pupilas tivesse podido lhe dar a entender a ela que a desejava, mas se tratava da raiva que lhe invadia o corpo. Com um gesto de desdém, agarrou-a com força, levantou-a e a pôs em pé diante dele.

   —Sim —suspirou ela, já disposta a submeter-se a suas ordens.

   Com a palma da mão, lhe empurrou a cabeça a um lado para deixar ao descoberto a palidez do pescoço que ainda estava ferido e sangrava do último bocado que lhe tinha dado. Lambeu a ferida sem contemplações e as presas lhe desdobraram pela ira.

   —Vais dizer-me tudo o que desejo saber —lhe sussurrou, com um domínio letal e olhando-a aos olhos.

— À partir deste momento, você, enfermeira K. Delaney, vais fazer tudo o que eu te ordene.

   Descobriu as presas e os cravou com a ferocidade de uma vespa. Extraiu-lhe até a última gota de consciência e a desapropriou de seu fraco eu humano com uma única e selvagem dentada.

   Gabrielle realizou um registro por todo seu apartamento, verificando que todos os ferrolhos das portas e das janelas estivessem fechados. Partiu-se de casa de Megan pela manhã, depois de que seu amiga foi trabalhar, e tinha chegado a casa na metade da tar­de. Meg a tinha convidado a ficar todo o tempo que quisesse, mas Gabrielle não podia estar escondida para sempre, e não gostava da idéia de que possivelmente estivesse envolvendo a sua amiga em uma situação que se estava fazendo mais terrorífica e inexplicável a cada minuto.

   Ao princípio não tinha querido ir ao seu apartamento e tinha estado dan­do voltas pela cidade em um atordoamento paranóico, quase cedendo a um estado de histeria. Seu instinto lhe advertia de que se preparasse para a luta.

   Uma luta que, estava segura, apresentaria-se em um momento ou outro.

   Tinha medo de encontrar-se com Lucan, ou a um de seus amigos chupa-sangue, ou a alguém inclusive pior, esperando-a ao chegar em casa. P­or ser de dia, voltou ao fim, ao seu apartamento. Encontrou-o vazio e não havia nada fora de seu lugar.

 

   Agora, enquanto a escuridão caía na rua, sua ansiedade voltou multi­plicada por dez.

Envolta como um casulo em um suéter enorme e branco, voltou para a cozinha porque a secretária eletrônica estava dando o sinal de que havia duas mensagens novas. Os dois eram de Megan. Tinha-a chamado durante a última hora, desde que escutou a primeira mensagem sobre o corpo que tinham encontrado na área de jogos onde Gabrielle tinha sido agredida a noite anterior.

   Megan estava frenética enquanto contava a Gabrielle o que Ray lhe tinha contado da polícia. Disse-lhe que o atacante parecia que havia sido destroçado por uns animais não muito tempo depois de que inten­tara ferir Gabrielle. Mas havia mais. Um agente da polícia tinha sido assassinado na delegacia de polícia; e foi sua arma a que se encontrou no corpo destroçado que encontraram no parque infantil.

   «Gabby, por favor, me chame assim que ouça isto. Sei que está assusta­da, querida, mas a polícia necessita sua declaração. Ray está a ponto de sair de serviço. Diz que, se o preferir, pode ir para te buscar...»

Gabrielle apertou o botão de apagar.

   E sentiu que lhe arrepiava o pêlo da nuca.

   Já não estava sozinha na cozinha.

   Com o coração galopando a carreira se voltou para encarar-se com o intruso: não se surpreendeu absolutamente ao ver que se tratava de Lucan. Es­te estava em pé na porta que dava ao vestíbulo e a olhava em uma atitude pensativa e em silêncio.

Ou possivelmente somente estava apreciando o prato que ia comer.

 

   Curiosamente, Gabrielle se deu conta de que não tinha tanto medo dele, mas bem estava zangada. Inclusive nesses momentos, ele parecia tão normal, coberto com um casaco escuro, umas calças negras confec­cionadas à medida, uma camisa que parecia rosto e de uma cor que era um tom mais escuro que seus impressionantes olhos azuis.

   Não havia rastro do monstro que tinha visto a noite anterior. Era somente um homem. O escuro amante que acreditava conhecer.

   Gabrielle se deu conta de que desejava que ele tivesse aparecido com as presas ao descoberto e com um olhar de fúria nesses olhos que se transformavam de forma tão estranha, que tivesse aparecido como o monstro em que se delatou ser a outra noite. Isso teria sido mais honesto que esse aspecto de normalidade que lhe provocava o desejo de fingir que tudo estava bem. Que ele era realmente o detetive Lucan Thorne da Polícia de Boston, um homem que se comprometeu a proteger aos inocentes e a fazer cumprir a lei.

   Um homem de quem ela tivesse podido apaixonar-se, de quem possivelmente já se apaixonou.

   Mas todo o referente a ele tinha que ser uma mentira.

   —Disse-me mesmo que não ia vir esta noite.

Gabrielle tragou saliva com dificuldade.

   —Sabia que viria. Sei que me seguiu a outra noite, depois de que eu fugi de você.

   Seu olhar penetrante delatou um brilho; seus olhos a olhavam com dema­siada intensidade. De uma forma que se parecia muito a uma carícia.

   —Não te teria feito mal. Não quero te fazer mal, agora.

 

   —Então, vai.

   Ele negou com a cabeça e deu um passo para frente.

 

   —Não até que tenhamos falado.

   —Quer dizer até que te tenha assegurado de que eu não vou falar —repôs ela, tentando não deixar-se arrastar pela complacência, pelo mero feito de que ele tinha o aspecto do homem em quem confiava.

   Ou pelo mero feito de que seu corpo, e inclusive seu idiota coração, reagiam ao lhe ver.

—Há umas coisas que tem que saber, Gabrielle.

—OH, já sei —disse ela, assombrada de que sua voz não soasse temoerosa. Levou-se uma mão até o pescoço procurando o pendente com a cruz que não se tornou a pôr desde a primeira comunhão. Esse delicado talismã parecia uma fina e ridicula armadura agora que se encontrava frente a Lucan e que não havia nada que lhes separasse se ele decidia dar ou não os poucos passos com suas pernas largas e musculosas.

— Não tem que me explicar nada. Demorei bastante tempo, seguro, mas acredito que por fim o compreendo tudo.

   —Não. Não o compreende. —aproximou-se dela e se deteve ao ver uns bulbos alvos que penduravam por cima de sua cabeça na porta da cozinha.

— Certo —disse ele, e soltou uma risada divertida.

   Gabrielle retrocedeu um passo, apartando-se dele. Suas sapatilhas de borracha chiaram sobre os ladrilhos do chão.

—Já te hei dito que te esperava.

   E tinha realizado outros preparativos antes de que ele chegasse. Se olhava ao seu redor, daria-se conta de que todas as habitações do aparta­memoro, incluída a porta de entrada, tinham a mesma decoração em cada uma de suas portas. Mas não parecia que lhe importasse.

   Os múltiplos ferrolhos não lhe tinham detido e tampouco lhe haviam detido esse intento de medida de segurança. Passou por debaixo do repelente de vampiros que Gabrielle tinha preparado com seus olhos escuros cravados nela com intensidade.

   Ele se aproximou um pouco mais e ela deu outro passo para trás até que se tropeçou com o mármore da cozinha. Em cima dele havia uma garrafa de enxágüe bocal que já não tinha o líquido original a não ser outra coisa que ela tinha conseguido de caminho a casa essa manhã, ao deter-se na igreja de Saint Mary para confessar-se. Gabrielle tomou a garrafa de plástico de cima do mármore e a aproximou do coração.

   —Água benta? —perguntou Lucan, olhando-a aos olhos com frieza.

— O que vais fazer com isso, me vais jogar i em cima?

—Se tiver que fazê-lo, sim.

   Ele se moveu tão depressa que ela somente viu uma mancha imprecisa que apareceu diante dela. Lhe tirou a garrafa e a esvaziou sobre as mãos. Logo se passou as mãos empapadas pelo rosto e pelo brilhante cabelo negro.

   Não aconteceu nada.

   Atirou a garrafa vazia ao chão e deu outro passo para ela.

   —Não sou o que crê, Gabrielle.

   Disse-o em um tom tão sensato que ela esteve a ponto de lhe acreditar.

   —Vi o que tem feito. Assassinaste a um homem, Lucan.

   Ele negou com a cabeça com calma.

   —Matei a um ser humano que já não era um homem, que quase nem era hu­mano, de fato. O que dele tinha sido uma vez humano foi roubado pelo vampiro que lhe converteu em um escravo servente. Já quase estava morto. Eu simplesmente terminei o trabalho. Sinto que tivesse que ver­, mas não posso me desculpar. E não o vou fazer. Mas mataria a qual­quer, humano ou não, que queria te fazer mal.

 

   —O qual converte seu amparo em algo perigoso, por não dizer que é um psicopata. E não falamos que rasgou a garganta desse menino com os dentes e bebeu seu sangue.

   Ela esperou ouvir outra resposta calculada. Alguma explicação racional que lhe fizesse pensar que uma coisa tão incrível como o vampirismo podia ter sentido —que podia ter sentido— no mundo real.

   Mas Lucan não lhe ofereceu esse tipo de resposta.

   —Não era assim como eu queria que fossem as coisas entre nós, Gabrielle. Deus sabe que você merece algo melhor.

—Disse algo mais em voz muito baixa e em um idioma que ela não pôde compreender.

— Você merece que te introduza nisto com suavidade, e que o faça um macho adequado que saiba pronunciar as palavras adequadas e fazer as coisas bem. É por isso que eu queria mandar a Gideon. —passou-se as mãos pelo cabelo em um gesto de frustração.

— Eu não sou porta-voz de minha raça. Sou um guerreiro. Às vezes, um ignorante. Eu trato com a morte, Gabrielle, e não estou acostumado a oferecer desculpas em nenhum de meus atos.

   —Não te estou pedindo desculpas.

   —O que, então, a verdade? —Dirigiu-lhe um olhar irônico.

— Es­teve ante a verdade a outra noite enquanto eu matava a esse servente e lhe extraía o sangue. Essa é a verdade, Gabrielle. Esse sou eu.

   »Segundo as superstições humanas, sim. Segundo essas histórias, um luta contra os de minha classe com alho ou com água benta: todo isso é falso, Co­mo viu com seus próprios olhos. De fato, nossas raças se encontra intimamente ligadas. Não somos tão distintos um do outro.

   —De verdade? —burlou-se ela. A histeria a invadiu assim que ele deu um passo para diante, obrigando-a a apartar-se outra vez.

   — A última vez que o olhei, o canibalismo não se encontrava em minha lista de deveres. Mas então tampouco estava incomodando aos não mortos, mas parece que ultimamente o estive fazendo com bastante regularidade.

   Ele riu sem vontades.

 

   —Asseguro-lhe isso, eu não sou um não morto.Sou uma pessoa igual a você. Sangro igual a você. Podem-me matar, embora não é fácil, e faz muito, muito tempo que estou vivo, Gabrielle. —aproximou-se dela, percorrendo a pouca distância que lhes separava na cozinha.

— Estou vivo como está você.

   Como se queria demonstrá-lo, entrelaçou seus quentes dedos com os dela. Levantou as mãos dela entre os corpos de ambos e as apertou contra seu próprio peito. Sob o suave tecido da camisa, Gabrielle notou que o coração lhe pulsava com força e a ritmo regular. Notou que o ar lhe entrava e lhe saía dos pulmões, sentiu o calor de seu corpo na ponta dos dedos e foi como se um bálsamo lhe suavizasse seus esgotados sentidos.

   —Sou real, e estou em pé aqui... igual a me viu a outra noite.

   —Então, demonstre-me isso mostre a esse outro você em lugar deste de agora. Quero saber com o que me enfrento de verdade. É o justo.

   Ele franziu o cenho, como se a desconfiança lhe doesse.

—Essa mudança não se pode forçar. É uma mudança psicológica que se dá com a sede, ou em momentos de emoção intensa.

   —Então, com que vantagem posso contar quando você ditas me abrir a jugular? Um par de minutos? Uns segundos?

   Os olhos dele cintilaram ante essa provocação, mas seu tom de voz continuou sendo tranqüilo.

   —Não te vou fazer mal, Gabrielle.

   —Então, por que está aqui? Para transamos outra vez, antes de que me converta em alguém horrível como você?

   —Porra, Gabrielle —pronunciou com voz rouca—. Não é isso o que...

 

   —Ou é que vais converter-me em seu vampira esposa pessoal, como o que matou a outra noite?

   —Gabrielle. —Lucan apertou a mandíbula, com tanta força como se se fosse partir o aço—. Vim para te proteger,porra! Porque preciso saber que está bem. Possivelmente estou aqui porque cometi e­rros contigo, e quero arrumá-lo de algum jeito.

   Ela permaneceu imovel, absorvendo essa inesperada sinceridade e ob­servando como suas emoções brigavam na expressão de seu rosto. Raiva, frustração, desejo, incerteza... viu tudo isso em seu olhar p­enetrante. Que Deus a ajudasse, mas ela também sentia tudo isso como uma tempestade em seu interior.

   —Quero que parta, Lucan.

   —Não, não quer.

   —Não quero voltar a ver-te nunca mais! —gritou ela, desesperada para que ele acreditasse. Levantou uma mão para lhe esbofetear, mas ele a im­pediu com facilidade antes de que pudesse fazê-lo.

— Por favor. Vai daqui agora mesmo!

   Ignorando-a por completo, Lucan se levou a mão com que ela tinha querido lhe esbofetear até os lábios. Entreabriu-os e apertou a palma de sua mão contra eles para beijar-lhe com sensualidade. Ela não sentiu o ro­ce das presas, somente o fôlego quente de sua boca e a úmida carícia da língua dele que brincava, provocadora, entre seus dedos.

   A cabeça lhe dava voltas ao sentir o delicioso contato dos lábios dele sobre sua pele.

   Sentiu que lhe falhavam as pernas, que sua resistência cedia e que cimeçava a desfazer-se do mesmo centro de seu ser.

   —Não — exclamou ela contra ele, apartando a mão e lhe empurrando.

   — Não, não posso deixar que me faça isto, não agora.

 

   -Entre nós tudo trocou! Agora tudo é distinto.

 

   —O único distinto, Gabrielle, é que agora me vê com os olhos aber­tos.

   —Sim. —obrigou-se a si mesmo a lhe olhar.

   — E o que vejo eu não gosto.

 

Lhe sorriu sem nenhuma piedade.

   —Mas desejaria poder dizer o mesmo a respeito de como te faço sentir.

 

   Ela não estava segura de como o fez, de como era possível que ele se movesse com tanta rapidez, mas nesse mesmo instante sentiu o fôlego de Lucan detrás da orelha e sua profunda voz vibrou contra a pele de seu cabelo enquanto ele apertava seu corpo contra o dela.

   Era muito para assumi-lo de repente: essa apavorante e nova realidade, as perguntas que nem sequer sabia como formular. E logo estava a desorientação que lhe provocava o delicioso tato de Lucan, sua voz, seus lábios lhe roçando com suavidade a pele.

   —Detenha! —Tentou lhe empurrar, mas ele era como um muro de músculo e de determinação escura e decidida. Ele resistiu sua raiva, e os inúteis golpes que lhe deu contra o enorme peito não pareceram lhe fazer absolutamente nada. Sua expressão tranqüila não trocou, igual a seu corpo permaneceu imovel.

Ela se separou dele com expressão frustrada e angustiada.

   —Deus, o que está tentando demonstrar, Lucan?

   —Só que não sou o monstro que você quer acreditar que sou. Seu corpo me conhece. Seus sentidos lhe dizem que está a salvo comigo. Somente tem que escutá-los, Gabrielle. E escutar a mim quando digo que não vim para te assustar.

 

Nunca te vou fazer mal, tampouco vou beber seu sangue. Por minha ho­nra, nunca te farei mal.

   Ela soltou uma gargalhada afogada ante a idéia de que um vampiro pudesse ter nada parecido à honra, por não dizer que o estava prome­tendo a ela nesses momentos. Mas Lucan não duvidava, permanecia em atitude solene. Possivelmente estivesse louca, porque quanto mais olhava esses olhos chapeados, mais fraca era a dúvida sobre ele a que se queria aga­rrar.

   —Não sou seu inimigo, Gabrielle. Durante séculos,os meus e os teus se necessitaram mutuamente para sobreviver.

   —Se alimentam de nós —sussurrou ela com voz rota—, como parasitas.

   O rosto lhe escureceu um momento, mas não reagiu ante o desprezo que havia nessa acusação.

   —Também temos que lhes proteger. Alguns de meus inclusive cuidaram os seus, levaram uma vida juntos como casais com vínculos de sangue. É a única forma em que a estirpe de vampiros po­de continuar. Sem as fêmeas humanas que dão a luz aos jovens, ao fi­nal nos extinguiríamos. Assim é como eu nasci, e como todos os que são como eu nasceram também.

   —Não o compreendo. Por que não podem... lhes mesclar com fêmeas de sua própria espécie?

   —Porque não existem. Por causa de um engano genético, a prole da raça somente pode ser masculina, desde o primeiro da estirpe, disso faz centenas de gerações.

   Esta última revelação, somada a todo o resto que acabava de ouvir, obrigou-a a fazer uma pausa.

   —Então, isso significa que sua mãe é humana?

Lucan assentiu levemente com a cabeça.

   —Era-o.

   —E seu pai? Ele era...

   Antes de que pudesse pronunciar a palavra «vampiro», Lucan respon­deu.

   —Meu pai, e os sete outros Antigos como ele, não eram deste mundo. Foram os primeiros de minha estirpe, seres de outro lugar, muito distinto a este planeta.

   Ela demorou um segundo em assimilar o que acabava de ouvir, acrescentado a todo o resto que estava começando a compreender nesse momento.

   —O que está dizendo... que eram extraterrestres?

   —Eram exploradores. Uns conquistadores,guerreiros e selvagens de fato, que caíram aqui faz muitíssimo tempo.

Gabrielle ficou olhando um momento.

   —Seu pai não era somente um vampiro a não ser um extraterrestre, ademais? Tem idéia do louco que isto sonha?

   —É a verdade. Os que eram como meu pai não se chamavam a sim mes­mos vampiros mas, segundo a definição dos humanos, isso é o que eram. Seu sistema digestivo estava muito avançado para a proteína crua da Terra. Não podiam processar nem as plantas nem animais como faziam os seres humanos, assim aprenderam a tirar o alimento do sangue. Alimentaram-se sem freio e acabaram com populações inteiras nesse processo. Sem dúvida ouviste falar de alguns deles: a Atlántida. O reino dos maias. E outras incontáveis civilizações desconhecidas que se desvaneceram na noite dos tempos. Muitas das mortes maciças que historicamente se atribuíram as infestações e a fome não foram isso absolutamente.

   Deus santo.

 

   —Aceitando que tudo isto se possa tomar a sério, está falando de milhares de anos de açougue. —Ao ver que ele não o negava, um ca­lafrío lhe percorreu as pernas.

— Eles... você... Deus, não me posso acreditar que esteja dizendo isto. Os vampiros se alimentam de algo vivo, como uns dos outros possivelmente, ou são os humanos a única fonte de alimento?

   A expressão de Lucan era séria.

   —Somente o sangue humano contém a combinação de nutrientes específica que necessitamos para sobreviver.

   —Com que freqüência?

   —Temos que nos alimentar uma vez cada três ou quatro dias, algumas se­manas às vezes. Necessitamos mais se estamos feridos e necessitamos mais força para sanar as feridas.

   —E vocês... matam quando lhes alimentam?

   —Não sempre. De fato, poucas vezes. A maioria da raça se alimen­ta de humanos voluntários, anfitriões.

   —De verdade que a gente se oferece voluntária para que lhes torturem? —perguntou ela, incrédula.

   —Não há nenhuma tortura nisso, a não ser que o desejemos. Quando um ser humano está depravado, a dentada de um vampiro pode ser muito prazeirosa. Quando terminou, o anfitrião não recorda nada porque não lhe deixamos nenhum lembrança.

   —Mas as vezes matam —disse ela, e lhe fez difícil não fazê-lo em um tom acusatório.

   —Às vezes é necessário levar uma vida. A raça fez o juramento de não depredar nunca aos inocentes ou aos fracos.

Ela se burlou:

—Que nobres são.

—É nobre, Gabrielle. Se quiséssemos, se cedêssemos a essa parte que há em nós que continua sendo como esses conquistadores guerre­iros que eram nossos antepassados, poderíamos escravizar a toda a raça humana. Seríamos reis e todos os seres humanos existiriam somente para nos servir de alimento e de diversão. Essa idéia é o motivo de uma antiga guerra de morte entre meus e nossos irmãos inimigos, os renegados. Você lhes viu com seus próprios olhos, essa noite fora da discoteca.

   —Você estava ali?

   Assim que o houve dito, deu-se conta de que ele estava ali. Recordou esse rosto lhe impactante e os olhos ocultos atrás dos óculos escuros que a tinham estado observando entre a multidão. Inclusive então ela havia sentido uma conexão com ele, nesse breve olhar que pareceu tocá-la A pesar da fumaça e da escuridão da sala.

   —Eu tinha estado perseguindo a esse grupo de renegados durante uma hora —disse Lucan—, esperando a oportunidade de saltar e acabar com e­les.

   —Eram seis —recordou ela vividamente, que ainda via mentalmente essas seis caras terríveis, esses olhos ferozes e brilhantes e essas presas.

   — Foste enfrentar a eles você sozinho?

   Ele se encolheu de ombros como indicando que não era algo pouco fre­quente que ele se enfrentasse sozinho com muitos.

   —Essa noite tive um pouco de ajuda: você e a câmera de seu telefone mó­vel. O flash lhes surpreendeu e me deu a oportunidade de atacar.

—Matou-lhes?

   —A todos menos a um. Mas lhe apanharei, também.

   Ao ver a ferocidade de sua expressão, Gabrielle não ficou nenhuma dúvida de que o faria.

   —A polícia mandou um carro patrulha Aos subúrbios da sala de festas quando lhes informei do assassinato. Não encontraram nada. Nenhuma prova.

   —Assegurei-me de que não o fizessem.

   —Fez-me ficar como uma idiota. A polícia insistia em que eu estava inventando isso tudo.

   —Melhor assim, lhes dar pistas sobre as batalhas reais que tiveram lugar nas ruas dos seres humanos durante séculos. Pode imagi­nar o pânico a grande escala que haveria pelo mundo se começassem a haver notícias de ataques de vampiros?

   —É isso o que está acontecendo? Este tipo de assassinatos estão suce­dendo todo o momento em todas partes?

   —Ultimamente cada vez mais. Os renegados são um grupo de viciados que somente se preocupam da próxima dose. Pelo menos, essa foi sua maneira de atuar até recentemente. Mas agora está acontecendo algo. Estão-se preparando. Estão-se organizando. Nunca foram tão p­erigosos como agora.

   —E graças as fotos que fiz fora da discoteca, esses vampiros renegados me estão perseguindo.

   —O incidente que presenciou atraiu sua atenção para ti, sem dúvida, e qualquer ser humano significa uma boa diversão para eles. Mas o mais provável é que sejam as outras fotos que tem feito as que lhe puseram em maior perigo.

   — Que outras fotos?

   —Essa, por exemplo.

   Assinalou uma fotografia emoldurada que estava pendurada na parede da sala de estar. Era uma tomada exterior de um velho armazém de uma das zonas mais desoladas da cidade.

   —O que te levou a fazer a fotografia desse edifício?

   —Não sei, exatamente —disse ela, que nem sequer estava segura de por que tinha emoldurado essa foto. Somente olhando-a nesses mo­mentos o fazia sentir um calafrio nas costas.

— Nunca tinha ido a essa parte da cidade, mas me lembro que essa noite fui por um lugar equivocado e acabei me perdendo. Algo atraiu minha atenção para esse armazem, mas não posso explicá-lo realmente. Estava terrivelmente ner­vosa de estar ali, mas não podia ir sem fazer umas quantas fotos desse lugar.

   O tom de voz de Lucan foi de uma extrema gravidade.

   —Eu, junto com vários guerreiros da raça que trabalham comigo, es­tivemos nesse lugar faz um mês e meio. Era uma guarida dos Rene­gados que albergava a quinze de nossos inimigos.

Gabrielle ficou olhando boquiaberta.

—Há vampiros vivendo nesse edifício?

—Agora já não. —Ele passou por seu lado e foi até a mesa da cozinha, onde havia umas quantas fotos mais e entre as quais se encontravam algumas das que tinha feito no psiquiátrico abandonado, fazia tão somente um par de dias. Levantou uma das fotos e a mostrou.

   — Estivemos vigiando esta localização durante semanas. Temos motivos para acreditar que se trata de uma das colônias de renegados maiores de Nova a Inglaterra.

   —OH, Meu Deus. —Gabrielle olhou a foto do psiquiátrico e quando a voltou a deixar em cima da mesa, os dedos lhe tremiam um pouco.

— Quando fiz essas fotografias, a outra manhã, um homem me encontrou alí. Perseguiu-me até que saí da propriedade. Não acreditará que era...?

   Lucan negou com a cabeça.

   —Um servente, não um vampiro, se lhe viu depois da saída de sol. A luz do sol é um veneno para nós. Essa parte da superstição é verdade. A pele nos queima rapidamente, como a tua se a expuser debaixo de um poderoso cristal de aumento ao meio-dia.

   —E por isso sempre te vi de noite —murmurou ela, pensando nas visitas que lhe tinha feito Lucan desde a primeira, quando ele tinha começado a lhe mentir.

— Como pude estar tão cega quando tinha todas as pistas diante de mim?

   —Possivelmente não queria as ver, mas sabia, Gabrielle. Suspeitava que a matança que tinha presenciado era algo que estava além do que podia explicar a partir de sua experiência como ser humano. Esteve a ponto de me dizer isso a primeira vez que nos encontramos. Em algum nível de sua consciência, sabia que se tratava de um ataque de vampiros.

   Ela sabia, inclusive então. Mas não tinha suspeitado que Lucan formava parte disso. Uma parte dela ainda queria negar essa idéia.

   —Como é possível que isto seja real? —gemeu ela, deixando cair na cadeira que tinha mais perto. Olhou as fotos que estavam espalhadas na mesa que tinha diante e logo olhou o rosto sério de Lucan. Estava a ponto de começar a chorar, sentia que os olhos lhe ardiam e que no pescoço lhe formava um nó, como se queria negar desesperadamente tudo isso.

— Isto não pode ser real. Deus, por favor, me diga que isto não está acontecendo de verdade.

 

Ele tinha dado muita informação essa noite para que a digerisse. Não toda, mas mais que suficiente para uma noite.

   Lucan tinha que confiar em Gabrielle. A parte dessa pequena amostra de irracionalidade com o alho e a água benta, ela tinha mantido uma incrível serenidade durante uma conversação que era, sem lugar a duvida, bastante difícil de assimilar.

Vampiros, a chegada de extraterrestres, a guerra iminente com os renegados que, por certo, estavam perseguindo a ela também.

   Ela tinha escutado tudo com uma fortaleza que muitos homens humanos não tinham.

   Lucan a observou enquanto ela se esforçava em processar a informa­ções, sentada na mesa e com a cabeça apoiada nas mãos. Uma lagrimas tinham começado a deslizar-se por suas bochechas. Ele desejou que houvesse uma maneira de lhe fazer esse caminho mais fácil. Mas não havia. E as coisas iam piorar para ela quando conhecesse toda a verdade do que lhe esperava.

   Por sua própria segurança, e pela segurança da raça, ela ia ter que abandonar seu apartamento, a seus amigos, sua carreira. Teria que deixar atrás tudo o que tinha sido parte de sua vida até esse momento.

   E teria que fazê-lo essa noite.

   —Se tiver outras fotografias como estas, Gabrielle, tenho que as ver.

   Ela levantou a cabeça e assentiu.

   —Tenho-o tudo no computador —disse, apartando o cabelo do rosto.

 

   —E o que me diz das que tem na habitação escura?

   —Estão no computador também, igual a todas as imagens que vendi através da galeria.

   —Bem. —O fato de que ela tivesse mencionado essas vendas lhe dê­pertou um alarme.

   — Quando estive aqui faz umas quantas noites, men­cionaste que tinha vendido uma coleção inteira a alguém. Quem era?

   —Não sei. Era um comprador anônimo. O comprador contratou uma amostra privada em um apartamento de cobertura alugado do centro da cidade. Viram umas quantas imagens e logo pagaram em dinheiro por todas elas.

   Ele soltou um juramento, e a expressão tensa de Gabrielle se transformou em uma de terror.

   —OH, Meu deus. Acredita que foram os renegados quem as compra­ram?

   O que Lucan estava pensando era que se fosse ele quem se encontrasse à frente da direção atual dos renegados, estaria extremamente in­teresado em adquirir uma arma que pudesse dar com as localizações de seus oponentes. Por não dizer que tentaria frustrar a capacidade de seus inimigos de utilizar essa arma em seu próprio benefício.

   Ter a Gabrielle seria um bem extraordinário para os renegados, por muitas razões. E quando a tivessem em sua posse, não demorariam mu­ito tempo em descobrir sua marca de companheira de raça. Abusariam dela como se fosse uma vulgar égua de cria, obrigariam-na a ingerir seu sangue e a levar sua semente até que seu corpo sucumbisse e morre-se. Isso demoraria anos, décadas, séculos.

   —Lucan, meu melhor amigo levou as fotos a mostra essa noite, ele sozinho. Tivesse-me morrido se lhe tivesse passado algo. Jamie se meteu ali sem sa­ber nada sobre o perigo com que se enfrentava.

   —Te alegre disso, porque essa é, provavelmente, a razão pela que saiu com vida.

 

   Ela retrocedeu como se lhe tivesse dado um bofetão.

 

   —Não quero que meus amigos sofram nenhum dano por causa do que me está acontecendo .

   —Você está em um perigo maior que ninguém, agora mesmo. E temos que nos mover. Vamos tirar essas fotos de seu computador. Quero as levar todas ao laboratório do recinto.

   Gabrielle lhe levou até uma ordenada mesa que tinha em uma esquina da sala de estar. Ligou o computador de mesa e enquanto este se carregava, Gabrielle tirou um par de cartões de cor e colocou uma delas na entrada da USB.

   —Sabe? Disseram que estava louca. Chamaram-na delirante, esquizofré­nica paranóica. Encerraram-na por acreditar que tinha sido atacada por alguns vampiros.

—Gabrielle riu em voz baixa, mas foi uma risada triste e vazia.

— Possivelmente não estava louca, depois de tudo.

   A suas costas, Lucan se aproximou.

—De quem falas?

—De minha mãe. —depois de iniciar o processo de cópia, Gabrielle se girou na cadeira para olhar a Lucan.

— A encontraram uma noite em Boston, ferida, ensangüentada e desorientada. Não tinha nem o moedeiro nem a bolsa, nem levava nenhum tipo de documentação em cima, e durante os breves períodos de tempo em que estava lúcida, não foi capaz de dizer a ninguém quem era, assim que a ficharam como anônima. Era só uma adoles­cente.

—Diz que estava sangrando?

—Várias feridas no pescoço: aparentemente se havia autolesionado, conforme os informe oficiais. O tribunal a julgou incapaz de agüentar um julgamento e a encerraram em uma instituição mental quando saiu do hospital.

 

—Porra, merda.

   Ela negou com a cabeça, devagar.

—Mas e se tudo o que disse foi verdade? E se não estava louca em abso­luto? OH, Deus, Lucan... todos estes anos a estive culpando. Acredito que inclusive a odiei, e agora não posso evitar pensar...

—Há dito que a polícia e o tribunal a julgaram. Refere-te a que cometeu algum tipo de crime?

O computador apitou indicando que o cartão de cor estava cheio. Gabrielle se voltou para continuar com a função de copiado, e ficou nessa posição, lhe dando as costas. Lucan lhe pôs as mãos nos ombros com suavidade e lhe fez voltar a dá-la volta com a cadeira.

   —Do que acusaram a sua mãe?

   Por um comprido momento, Gabrielle não disse nada. Lucan viu que tragava saliva. Seus olhos expressavam uma grande dor.

   —Acusaram-na de abandonar a um bebê.

   —Quantos anos tinha você?

   Ela se encolheu de ombros e logo negou com a cabeça.

   —Nada. Um bebê. Meteu-me em um cesto de papéis, fora do edifício de seu apartamento. Era só a uma quadra de onde a polícia a deteve. Por sorte para mim, um dos policiais decidiu registrar os arredores. Ouviu-me chorar, suponho, e me tirou dali.

   Deus Santo.

   Enquanto ela falava, na mente de Lucan cintilou uma lembrança. Viu uma rua escura, o pavimento úmido que brilhava sob a luz da lua, uma mulher com os olhos muito abertos e o rosto transfigurado pelo ho­rror, em pé, enquanto um vampiro renegado lhe chupava o pescoço. Ouviu o tênue pranto de um bebê que a mulher levava nos braços.

   —E isso quando aconteceu?

   —Faz muito tempo. Vinte e sete anos, este verão, para ser exatos.

   Para alguém da idade de Lucan, vinte e sete anos era um suspiro. Re­cordava claramente ter interrompido esse ataque na estação de ônibus . Recordava haver-se interposto entre o renegado e sua presa, havia jogado dali a mulher com uma potente ordem mental. Ela sangrava profusamente, e parte do sangue tinha caido em cima do bebê.

   Depois de ter dado morte ao renegado e de ter limpo a estação, tinha ido em busca da mulher com o bebê. Não lhes havia encon­trado. Muitas vezes se perguntou o que lhes teria passado aos dois, e se tinha amaldiçoado a si mesmo por não ter sido capaz de ter apagado essas terríveis lembranças da memória da vítima.

   —Ela se suicidou na instituição mental não muito tempo depois — disse Gabrielle.

— Já me tinha adotado a administração.

   Ele não pôde evitar tocá-la. Apartou-lhe o comprido cabelo do rosto com suavidade, acariciou-lhe a delicada linha que formava a mandíbula e a or­gullosa forma do queixo. Tinha os olhos úmidos, mas não as derrubou. Era uma mulher dura, de acordo. Dura e bonita e incrivelmente especial.

   Nesse momento, ele não queria outra coisa que não fosse tomá-la entre os braços e dizer-lhe    

   —Sinto-o —lhe disse, com absoluta sinceridade. E com tristeza, algo que não estava acostumado a sentir. Mas, desde que a conhecia, Gabrielle o fazia sentir muitas coisas que eram completamente novas para ele.

— Eu sinto pelas duas.

O computador voltou a apitar.

 

   —Já estão todas —disse ela, levantando a mão como se fosse acaricia-lo; mas não foi capaz de fazê-lo, ainda.

   Ele deixou que se tornasse atrás e sentiu uma ligeira espetada de remorso quando ela se apartou em silêncio.

   Se apartando dele como o estranho que agora era para ela.

   Observou-a enquanto ela tirava o último cartão de cor e a co­locava ao lado da outra. Quando começou a fechar o programa, Lucan disse:

   —Ainda não. Tem que apagar os arquivos de imagens do computador e das cópias de segurança que tenha. As cópias que nos leve­mos daqui têm que ser quão únicas fiquem.

   —E o que fazemos com as cópia impressas? As que há aqui em cima da mesa, as que tenho abaixo, na sala escura.

   —Você fique aqui. Eu vou procurar as impressões.

   —De acordo.

   Ela ficou a trabalhar imediatamente e Lucan fez uma rápida ins­peção no resto do apartamento. Reuniu todas as fotos soltas que encontrou, incluídas as fotos emolduradas também: não queria deixar nada que pudesse ser de utilidade para os renegados. Encontrou uma bolsa grande no armário do dormitório de Gabrielle e a baixou para enchê-la.

   Enquanto terminava de colocar as fotos e fechava a bolsa, ouviu o grave rugido de um carro potente que estacionava fora da casa. Abriram-se duas portas, logo se fecharam com um golpe, e uns passos potentes se acercaram ao apartamento.

   —Há alguém —disse Gabrielle, olhando com seriedade a Lucan enquanto desligava o computador.

 

   Lucan já tinha introduzido a mão debaixo do casaco e havia a leva­do a suas costas, onde tinha uma Beretta de nove milímetros metida no cinturão da calça. A arma estava carregada com a munição mais po­tente que podia disparar, umas balas de titânio especiais para aniquilar aos renegados, uma das últimas inovações do Niko. Se ao outro lado da porta havia um deles, esse filho da puta sedento de sangue iam sofrer um grande dano.

   Mas imediatamente se deu conta de que não se tratava dos Rene­gados. Nem sequer dos serventes, o qual teria dado certa satisfação a Lucan.

   Eram humanos os que se encontravam na entrada. Um homem e uma mulher.

   —Gabrielle? —O timbre da porta soou várias vezes em uma rápida sucessão—. Olá? Gabby? Está aí?

—OH, não. É minha amiga Megan.

—A da casa onde esteve a noite passada.

—Sim. Esteve-me chamando durante todo o dia, e me deixou recados. Está preocupada comigo.

   —O que lhe contaste?

—Sabe o da agressão no parque. Disse-lhe que me atacaram, mas não lhe disse nada de ti... pelo que fez.

   —Por que não?

Gabrielle se encolheu de ombros.

   —Não queria colocá-la nisto. Não quero que se meta em nenhum perigo por minha culpa. Por culpa de tudo isto. —Suspirou e meneou a cabeça.

—Possivelmente não queria dizer nada de ti até que não tivesse eu mesma algumas respostas.

   O timbre da porta soou outra vez.

   —Gabby, abre! Ray e eu temos que falar contigo. Precisamos sa­ber se estiver bem.

   —Seu noivo é policial —disse Gabrielle em voz baixa—. Querem que faça uma declaração sobre o que aconteceu a outra noite.

—Há uma saída traseira do apartamento.

   Ela assentiu com a cabeça, mas logo pareceu trocar de idéia e fez um gesto negativo.

   Dá a um pátio compartilhado, mas há uma cerca muito alta...

   —Não há tempo —disse Lucan, descartando essa opção.

   — Vá a porta. Deixa entrar seus amigos.

   —O que vais fazer? —Viu que ele acabava de tirar a mão do casaco e que escondia a arma a suas costas. A expressão de Gabrielle se encheu de pânico.

—Tem uma arma aí detrás? Lucan, não lhe vão fazer nada. E me assegurarei de que não contem nada.

   —Não vou utilizar a arma com eles.

   —Então, o que vais fazer? —depois de ter evitado de forma tão deliberada lhe tocar, por fim o fez. Sujeitou-lhe o braço com as p­equenas mãos.

— Deus, por favor, me diga que não lhes vais fazer mal.

   —Abre a porta, Gabrielle.

   Suas pernas se moviam com lentidão em direção a porta de entrada.

Abriu o ferrolho e ouviu a voz de Megan ao outro lado da porta.

 

   —Está aí dentro, Ray. Está na porta. Gabby, abre, querida. Está bem?

   Gabrielle soltou a correia sem dizer nada. Sem saber se devia tranqüilizar a sua amiga lhe dizendo que estava bem ou se devia gritar a Megan e a Ray que partissem correndo dali.

   Olhou para trás, a Lucan, mas isso não lhe deu nenhuma pista. Seus rasgos agudos não mostravam nenhuma emoção nem se moveram. Tinha os olhos chapeados fixos na porta, frios, sem piscar. Suas mãos, poderosas, estavam vazias e as tinha baixado a ambos os lados do corpo, mas Gabrielle sabia que podiam entrar em movimento sem nenhum tipo de aviso.

   Se ele queria matar a seus amigos, inclusive a ela, por certo, faria-o antes de que nenhum deles se desse conta.

   —Deixe-lhes entrar —lhe disse com um grunhido grave.

   Gabrielle girou o trinco devagar.

   Somente tinha aberto a porta um pouco quando Megan a empurrou e a abriu por completo para entrar com seu noivo, vestido de uniforme, detrás.

   —Por todos os Santos, Gabrielle! Tem idéia de quão preocupada estive? Por que não me há devolvido as chamadas? —Deu-lhe um forte abraço e logo a soltou e a olhou com o cenho franzido, como uma mãe zangada—. Parece cansada. Estiveste chorando? Onde há... ?

   Megan se interrompeu repentinamente; seus olhos, e os do Ray, perceberam de repente a imagem de Lucan em meio da sala de estar, de­trás do Gabrielle.

   —OH, não me tinha dado conta de que estava com alguém...

   —Tudo está bem aqui? —perguntou Ray, dando um passo além das duas mulheres enquanto levava uma mão sobre a arma embainhada.

 

   —Bem. Tudo está bem —repôs rapidamente Gabrielle. Levantou uma mão para assinalar à Lucan— É, isto... um amigo.

   —Vai a alguma parte? —O noivo de Megan deu um passo para diante e fez um gesto em direção à bolsa que se encontrava no chão aos pés de Lucan.

   —Isto, sim —interveio Gabrielle enquanto se colocava rapidamente entre o Ray e Lucan—. Estava um pouco nervosa esta noite. Pensei em ir a um hotel e me tranqüilizar um pouco. Lucan veio para me levar.

   —Certo. —Ray tentava olhar para detrás de Gabrielle, em direção a Lucan, que permanecia com uma arruda atitude silenciosa. A cáustica a­titude de Lucan indicava que já se formou uma opinião desse jovem policial e de que lhe desprezava.

   —Oxalá não tivessem vindo, meninos —disse Gabrielle. E era verdade.

   — De verdade, não têm por que ficar.

   Megan avançou e tomou a mão de Gabrielle entre as suas com um ges­to protetor.

   —Ray e eu estávamos pensando que possivelmente o tivesse reconsiderado e queria vir a delegacia de polícia, querida. É importante. Estou segura de que seu amigo está de acordo conosco. Você é o de­tetive de quem Gabby me falou, verdade? Sou Meg.

   Lucan deu um passo. Com esse pequeno movimento se colocou justo diante de Megan e do Ray. Foi uma flexão tão rápida dos músculos que o tempo pareceu deter-se ao seu redor. Gabrielle lhe viu dar uma série de passos seguidos, mas seus amigos ficaram assombrados ao encon­trar a Lucan justo diante deles, imponente em sua altura e com um ar ameaçador que vibrava ao seu redor.

   Sem advertência prévia, levantou a mão direita e sujeitou a Megan pela frente.

—Lucan, não!

 

   Meg gritou, um som que se afogou em sua garganta imediatamente assim que olhou a Lucan aos olhos. Com uma velocidade inverossímil, Lucan le­vantou a mão esquerda e sujeitou à Ray da mesma maneira. O agente se debateu um segundo, mas imediatamente caiu em um estupor como de transe. Os fortes dedos de Lucan pareciam ser o único que os man­tinha em pé a ambos.

—Lucan, por favor! Suplico-lhe isso!

—Recolhe os cartões de cor e a bolsa —lhe disse com calma. Era uma ordem fria.

— Tenho um carro esperando fora. Entra e me espere aí. Saio em seguida.

   —Não vou deixar te aqui para que chupe o sangue de meus amigos.

   —Se essa tivesse sido minha intenção, agora já estariam atirados no chão e mortos.

Tinha razão. Deus, mas não tinha nenhuma dúvida de que este homem, este ser obscuro a quem já tinha aceito em sua vida, era o bastante perigoso para fazê-lo.

   Mas não o tinha feito. E não o ia fazer; nisso confiava nele.

   —As fotos, Gabrielle. Agora.

   Ela ficou em movimento. Recolheu a avultada bolsa, a pendurou do ombro e se meteu os dois cartões de cor no bolso de diante da calça. Ao sair se deteve um momento para olhar o rosto pálido de Megan. Agora tinha os olhos fechados, igual a Ray. Lucan lhes estava dizendo algo em um murmúrio que ela não pôde ouvir.

   O tom de sua voz não parecia ameaçador, a não ser extranhamente tranquili­zador, persuasivo. Quase como uma canção de ninar.

 

Gabrielle jogou uma última olhada a estranha cena que tinha lugar na sala de estar e saiu pela porta à rua. Na esquina havia um elegante Sedam, estacionado em paralelo diante do Mustang vermelho do Ray. E­ra um veículo caro, incrivelmente caro pelo aspecto que tinha, e o ú­nico outro carro que havia ali.

   Enquanto se aproximava dele, a porta do copiloto se abriu como se a tivessem acionado automaticamente. Como se a tivesse acionado a força mental de Lucan. Soube, e se perguntou até que ponto chegavam esses poderes paranormais.

   Acomodou-se no amplo assento de pele e fechou a porta. Ainda não tinham acontecido dois segundos quando Megan e Ray apareceram na en­trada. Baixaram tranqüilamente os degraus e passaram por seu lado com o olhar fixo para diante. Nenhum dos dois disse nenhuma palavra.

   Lucan estava justo detrás deles. Fechou a porta do apartamento e se dirigiu até o carro, onde lhe estava esperando Gabrielle. Subiu, introduziu a chave no contato e ligou o motor.

   —Não era uma boa idéia lhes deixar ali—lhe disse enquanto deixava cair a bolsa dela e a câmara em seu regaço.

Gabrielle lhe olhou.

   —Exerceste alguma classe de controle sobre eles, igual a tentou fazê-lo comigo antes.

   —Sugestionei-lhes para que acreditem que não estiveram em seu aparta­memoro esta noite.

—Apagaste-lhes a memória?

Inclinou a cabeça em um vago gesto de assentimento.

—Não recordarão nada desta noite, nem de que foi ao apartamento de Megan a outra noite depois de que o servente te agredisse. Suas men­tes já não recordarão nada disso.

 

   —Sabe? Justo agora isto sonha muito bem. O que me diz, Lucan? Eu vou ser a seguinte? Poderia apagar minha mente a partir do momento em que decidi ir aquela discoteca, faz um par de semanas.

   Ele a olhou nos olhos, mas a Gabrielle não pareceu que tentasse in­troduzir-se em sua mente.

   —Você não é como esses humanos, Gabrielle. Embora queria fazê-lo, não poderia trocar nada do que te aconteceu. Sua mente é mais forte que a da maioria das pessoas. Em muitos aspectos, você é diferente da maioria.

   —Vá, sinto-me muito afortunada.

   —O melhor lugar para ti agora é onde os da raça lhe possam pro­teger como a um dos seus. Temos um recinto oculto na cidade. Pode ficar aí, para começar.

Ela franziu o cenho.

   —O que? Está-me oferecendo o equivalente vampírico ao Programa de Amparo de Testemunhas?

—É um pouco mais que isso. —Ele girou a cabeça e olhou através do p­rabrisas.

— E é a única maneira.

   Lucan apertou o acelerador e o elegante carro negro se precipitou pela estreita estrada com um rugido grave e suave. Gabrielle se sujeitou com ambas as mãos no assento de pele e observou a escuridão que len­tamente se tragava seu edifício do Willow Street.

   Ao afastar-se, viu as vagas silhuetas de Megan e do Ray que entravam no Mustang para afastar-se de seu apartamento, sem recordar o que tinha passado. Gabrielle sentiu um repentino pânico e desejou saltar do carro e correr para eles, de volta a sua vida anterior.

 

Muito tarde.

   Sabia.

   Esta realidade nova a tinha apanhado, e não acreditava que houvesse maneira de voltar atrás. Somente ficava continuar para frente. Apartou o olhar do cristal traseiro e se afundou na suavidade do assento de pele com o olhar cravado para diante enquanto Lucan girava uma esquina e conduzia no meio da noite.

 

Gabrielle não sabia quanto fazia que estavam viajando, nem sequer em que direção. Ainda se encontravam na cidade, isso sabia, mas os múltiplos giros que tinham dado e os muitos becos que haviam entrado tinham formado um labirinto na mente de Gabrielle. Olhou fora do cristal preto do Sedam, vagamente consciente de que por fim se es­tavam detendo, agora que se aproximavam do que parecia ser um amplo terreno de um velho imovel.

   Lucan se deteve diante de um muito alto portão de ferro negro. Dois facho de luz caíram sobre eles desde dois pequenos aparelhos que se encontravam pendurados A ambos os lados da cerca de alta segurança. Gabrielle piscou, deslumbrada pela súbita luz que lhe caía no rosto, e logo viu que as pesadas portas começavam a abrir-se.

   —Isto é teu? —perguntou-lhe, girando a cabeça para Lucan pela pri­mera vez desde que se foram do apartamento.

— Estive aqui antes. Fiz fotos desta porta.

   Atravessaram as portas e avançaram por um caminho sinuoso flanqueado por árvores A ambas as lados.

   —Esta propriedade forma parte do complexo. Pertence À raça.

   Era evidente que ser um vampiro era uma atividade lucrativa. Inclusive apesar da escuridão, Gabrielle percebia a qualidade enriquecida desse terreno cuidado e da fachada ornamentada da mansão a que se estavam aproximando. Duas rotas flanqueavam as portas negras laqueadas e o impressionante pórtico da entrada principal, em cima do qual se levantavam quatro elegantes pisos.

   Em algumas das janelas se via uma luz de ambiente no interior, mas Gabrielle tinha dúvidas em qualificar esse ambiente de acolhedor. A mansão se levantava ameaçadora como um sentinela em meio da noite, estóico e sério, com todas essas gárgulas que lhes olhavam do telhado e os balcões que davam ao caminho.

 

   Lucan passou por diante da porta de entrada e se dirigiu a uma garagem detrás. Abriu-se uma porta e ele conduziu o carro para dentro e desligou o motor. Quando os dois saíram do carro, duas filas de luzes se acenderam automaticamente e iluminaram uma frota de veículos de última geração.

   Gabrielle ficou boquiaberta. Entre o Sedam, que custava quase tanto como seu modesto apartamento no Beacon Hill, e a coleção do carros e motocicletas, devia encontrar-se ante um conjunto de carros de um valor de milhões de dólares. Muitos milhões.

   —Por aqui —lhe disse Lucan. Levava a bolsa com as fotos em uma mão e a conduziu por diante da impressionante coleção de carros até uma porta que se encontrava ao fundo da garagem.

   —Quanto dinheiro tem sua gente? —perguntou ela, lhe seguindo com a­ssombro.

   Lucan lhe fez um gesto para que entrasse assim que a porta se abriu. Logo entrou no elevador detrás dela e apertou um botão.

   —Alguns membros da nação dos vampiros estão aqui a muito tempo. Aprendemos umas quantas coisas a respeito de co­mo manter o dinheiro de forma inteligente.

   —Certo —disse ela, sentindo que perdia um pouco o equilíbrio enquanto o elevador iniciava uma suave mas rápida descida, para baixo, abaixo, abaixo—. Como mantêm isto oculto ao público? O que acontece a admi­nistração e os impostos? Ou suas operações são em negro?

   —A gente não pode atravessar nosso sistema de segurança, nem se­ queira embora o tentem. Todo o perímetro da propriedade está cercado e eletrizado. Quem for tão estúpido para aproximar-se dela receberia uma descarga de quatorze mil volts. Pagamos os impostos atra­ves de empresas coberta, é obvio. Nossas propriedades por todo mundo são propriedade de fundações privadas. Tudo o que a raça faz é legal e o faz de forma aberta.

 

   —Legal e transparente, exato. —Ela riu, um pouco nervosa.

— Sem ter em conta a ingestão de sangue e a linhagem extraterrestre.

   Lucan a olhou com expressão séria, mas Gabrielle sentiu certo alívio ao ver que uma comissura dos lábios lhe levantava e desenhava algo pa­recido a um sorriso.

   —Agora eu levarei as cópias —lhe disse. Seus penetrantes olhos cinzas claros a observaram enquanto ela se tirava os cartões de cor da calça e as depositava na mão.

   Ele fechou a mão ao redor da dela um segundo. Gabrielle sentiu o calor desse contato, mas não quis reconhecê-lo. Não queria admitir que o mais ligeiro contato com sua pele lhe provocava, nem sequer agora.

   Especialmente agora.

   Finalmente, o elevador se deteve e suas comporta se abriram ante uma antiga habitação construída com paredes de cristal reforçadas com bri­llantes marcos metálicos. O estou acostumado a era de mármore branco, com uma série de símbolos geométricos e de desenhos que se entrelaçavam esculpidos nele. Gabrielle viu que alguns deles eram parecidos com os que Lucan tinha em seu corpo: essas estranhas e bonitas tatuagens que lhe cobriam as costas e o torso.

   Não, não eram tatuagens, pensou nesse momento, a não ser outra coisa...

Marcas de vampiro.

   Em sua pele, e ali, nesse buraco sob o chão onde vivia.

   Mais à frente do elevador, um corredor se afastava e serpenteava durante umas quantas centenas de metros. Lucan avançou um pouco e fez uma pausa para olhar a Gabrielle, ao dar-se conta de que ela duvidava em lhe seguir.

   —Está segura aqui —disse ele.

 

Que Deus a ajudasse, mas lhe acreditou.

   Ela avançou pelo mármore níveo com Lucan, e agüentou a respiração enquanto ele colocava a palma da mão sobre um leitor e as portas de cristal diante dele se abriam. Um ar frio banhou a Gabrielle, e ouviu um rugido apagado de vozes masculinas que provinham de algum ponto ao final da sala. Lucan a conduziu em direção a conversação com passos largos e decididos.

   Deteve-se um momento diante de outra porta de cristal e, enquanto chegava ao seu lado, Gabrielle viu o que parecia ser uma espécie de sala de controle. Havia computadores e monitores alinhados em cima de um console em forma de «Ou», e uns leitores digitais emitiam uma série de coorde­nada desde outro dispositivo cheio de equipamentos. No centro de tudo isso, sentado em uma cadeira giratória como um diretor de orquestra, se encon­trava um jovem de aspecto estranho e de um cabelo loiro mal talhado e de­sordenado. Levantou o olhar e seus brilhantes olhos azuis expressaram uma surpreendida bem-vinda assim que a porta se abriu e Lucan entrou na sala com Gabrielle ao lado.

   —Gideon —disse Lucan, inclinando a cabeça em sinal de saudação.

Assim que este era o sócio de quem lhe tinha falado, pensou Gabrielle, apreciando o sorriso fácil e o comportamento amigável do outro hom­em. Levantou-se da cadeira e saudou Lucan com um gesto da cabeça e, logo, a Gabrielle.

   Gideon era alto e magro, com um atrativo juvenil e um encanto evi­dente. Não se parecia com Lucan absolutamente. Não se parecia como ela i­maginava que seria um vampiro, embora não tinha muita experiência nessa área.

   —Ele é…?

   —Sim —respondeu Lucan, antes de que ela pudesse lhe sussurrar o resto da pergunta. Deixou a bolsa em cima da mesa.

—Gideon também é da raça. Igual a outros.

   Nesse momento Gabrielle se deu conta de que a conversação que tinha ouvido na outra habitação enquanto se aproximavam tinha cessado.

 

   Sentiu outros olhos que a olhavam desde algum ponto de detrás dela, e ao voltar-se para ver de onde provinha essa sensação, pareceu que os pulmões lhe esvaziaram por completo. Três homens enormes ocupavam o espaço que havia a suas costas: a gente levava umas calças confec­cionadas sob medida, uma folgada camisa de seda e se encontrava elegantemente acomodado em uma poltrona de pele; o outro ia vestido dos pés a cabeça em   couro negro, tinha os largos braços cruzados sobre o peito, e estava apoiado contra a parede traseira; o último, que levava jeans e uma camiseta branca, encontrava-se ante uma mesa na qual havia estado limpando as partes de uma espécie de complicada arma de mão.

   Todos eles a estavam olhando.

   — Dante —disse Lucan, dirigindo-se ao tipo todo vestido de couro, quem lhe dirigiu uma ligeira inclinação de cabeça a modo de saudação, ou possivelmente foi mas bem a modo de reconhecimento de macho, a julgar pela maneira em que arqueou as sobrancelhas ao voltar a olhar a Lucan.

   »O irmão que está ali é Nikolai. —Assim que Lucan lhe houve presen­tado, o macho de cabelo loiro dirigiu a Gabrielle um rápido sorriso. Tinha uns rasgos severos, umas maçãs do rosto incríveis e uma mandíbula decidida e forte. Inclusive enquanto a olhava, seus dedos trabalham impecavelmente com a arma, como se conhecesse os componentes da peça de forma instintiva.

   »E este é Rio —disse Lucan, dirigindo a atenção para o macho se­dutor e atrativo que mostrava um imaculado sentido de estilo. Da poltrona em que se encontrava despreocupadamente instalado, dirigiu- um deslumbrante sorriso a Gabrielle que mostrava um atrativo inato e um perigo inequívoco oculto atrás desses olhos da cor do topázio.

   Essa ameaça emanava de todos eles: a constituição musculosa e as armas a vista advertiam de forma inequívoca de que, apesar de seu ás­pecto depravado, esses homens estavam acostumados a batalhar. Possivelmente inclusive desfrutavam com isso.

   Lucan colocou uma mão na base das costas de Gabrielle e ela se sobressaltou com esse contato. Atraiu-a mais perto de si ante esses três machos. Ela não estava totalmente segura de se confiava nele, ainda, mas tal e como estavam as coisas, ele era o único aliado que tinha nessa habitação cheia de vampiros armados.

 

   —Apresento-lhes a Gabrielle Maxwell. A partir de agora vai ficar no complexo.

   Deixou essa afirmação no ar sem oferecer nenhuma explicação adicional, como se desafiasse a que algum desses homens de aspecto letal o ques­tiona-se. Nenhum o fez. Gabrielle olhou a Lucan e, ao ver seu poder de mando em meio desse escuro poder e dessa força, Gabrielle se deu conta de que ele não era, meramente, um dos guerreiros.

   ele era seu líder.

   Gideon foi o primeiro em falar. Aproximou-se da zona de computadores e monitores e ofereceu a mão a Gabrielle.

   —Me alegro de te conhecer —disse, com uma voz que tinha um ligeiro acen­to inglês.

— Foi uma reação rápida, a de tomar essas fotos durante o a­taque que presenciou. Ajudaram-nos muito.

—Ok, nenhum problema.

   Lhe deu a mão brevemente e se surpreendeu de que ele resultasse tão afável, tão normal.

   Mas também Lucan lhe tinha parecido relativamente normal ao princi­pio, e logo tudo isso tinha trocado. Pelo menos, não lhe havia men­tido ao lhe dizer que se levou as fotos ao laboratório para que as analisassem. Somente tinha esquecido lhe dizer que se tratava de um laboratório de vampiros, e não o da polícia de Boston.

   Um assobio agudo soou na mesa de computadores que havia ali ao lado e Gideon voltou correndo ante os monitores.

   —Sim! São um maravilhoso ramo de parafusos —gritou, sentando-se na cadeira e girando sobre ela—. Meninos, devem ver isto.

 

Especialmente você, Niko.

Lucan e outros se reuniram ao redor do monitor que banhava o rosto do Gideon com um brilho azul pálido. Gabrielle, que se sentiu um tan­to incômoda em pé, sozinha, em meio da habitação, também se aproximou, devagar.

   —Consegui entrar e ver o material das câmeras de segurança da estação —disse Gideon—. Agora vamos ver se podemos conseguir imagens da outra noite, e possivelmente averiguar no que andava de verdade o bastardo que se levou a Conlan.

   Gabrielle observava em silencio da periferia enquanto várias telas de computadores se encheram de imagens de circuito fechado de plataformas de trem da cidade. As imagens passavam uma atrás da outra a grande velocidade. Gideon arrastou a cadeira ao longo da linha de computadoes , detendo-se ante cada um deles para teclar alguma instrução antes de continuar até o seguinte e logo o seguinte. Finalmen­te, todo esse frenético desdobramento de energia cessou.

   —De acordo, aí está. Green Line em tela. —separou-se do monitor que tinha diante dele para permitir que outros tivessem uma visão clara.

— Estas imagens da plataforma começam três minutos antes da confrontação.

Lucan e outros se aproximaram enquanto as imagens mostravam um fluxo de gente entrando e saindo de um trem. Gabrielle, que observava entre as enormes costas, viu o rosto agora familiar do Nikolai na tela do monitor: ele e seu companheiro, um enorme e ameaçador macho vestido com couro negro, entravam em um trem. Justo acabavam de sentar-se quando um dos passageiros atraiu a atenção do companheiro do Nikolai. Os dois guerreiros ficaram em pé, e justo antes de que as comporta se fechassem para arrancar, o menino a quem tinham estado olhando saltou do trem. Nikolai e o outro homem ficaram em pé, mas a atenção do Gabrielle estava centrada na pessoa a quem queriam seguir.

   —OH, Meu deus —exclamou—. Conheço este tipo.

 

   Cinco pares de olhos de macho a olharam com expressão interrogadora.

   —Quero dizer, não lhe conheço pessoalmente, mas lhe vi antes. Sei como se chama. Brent, pelo menos isso é o que disse a minha amiga Kendra. Conheceu-lhe na discoteca a mesma noite em que eu presenciei o assassinato. Após, viram-se cada noite, bastante a sério, de fato.

   —Está segura? —perguntou-lhe Lucan.

   —Sim. É ele. Estou segura.

   O guerreiro que se chamava Dê soltou um violento juramento.

   —É um renegado —disse Lucan—. Ou melhor, era-o. Faz um par de noites, entrou no trem do Green Line com um cinturão de explosivos. Fez-os estalar antes de que pudéssemos lhe tirar dali. Um de nossos melhores guerreiros morreu com ele.

   —OH, Deus. Refere a essa explosão da que falaram nas notícias ? —Olhou a Nikolai, que tinha a mandíbula apertada com força.

   — Eu sinto muito.

   —Se não fosse porque Conlan se jogou em cima desse chupão covarde, eu não estaria aqui. Isso seguro.

Gabrielle se sentia realmente entristecida pela perda que Lucan e seus homens tinham sofrido, mas um novo temor tinha aninhado em seu peito ao saber o perto que sua amiga tinha estado do perigo do Brent.

   E se Kendra estava ferida? E se lhe tinha feito algo e ela necessi­tava ajuda?

   —Tenho que chamá-la. —Gabrielle começou a rebuscar em sua bolsa in­tentando encontrar o telefone celular.

— Tenho que chamar Kendra agora mesmo e me assegurar de que está bem.

 

   Lucan lhe sujeitou o pulso com firmeza, embora sua atitude foi de súpli­ca:

   —Sinto muito, Gabrielle. Não posso deixar que o faça.

   —Ela é minha amiga, Lucan. E o sinto, mas não pode me deter.

   Gabrielle abriu a tampa do telefone, mais decidida que nunca a fazer essa chamada. Mas antes de que pudesse marcar o número da Kendra, o aparelho saiu voando das mãos e apareceu na mão de Lucan. Ele fechou a mão ao redor dele e o guardou no bolso da jaqueta.

—Gideon —disse em tom de abrir conversação, apesar de que conti­nuava olhando fixamente a Gabrielle.

— Diga a Savannah que venha e que acompanhe a Gabrielle a uns aposentos mais cômodos enquanto nós terminamos aqui. Que lhe traga algo para comer.

—Devolva-me isso disse Gabrielle, sem fazer caso da surpresa dos outros ao ver que ela desafiava o intento de Lucan de controlá-la.

— Preciso saber que se encontra bem, Lucan.

   Ele se aproximou dela e, por um segundo, ela teve medo do que pudesse lhe fazer ao ver que ele alargava a mão para lhe tocar o rosto. Diante de outros, acariciou-lhe a bochecha com ternura e com gesto possessivo. Falou com suavidade.

   —O bem-estar de seu amiga está fora de seu controle. Se esse renegado não lhe extraiu antes o sangue, e me acredite, é o mais provável, agora ele já não representa nenhum perigo para ela.

   —Mas e se lhe fez algo? E se a converteu em um desses ser­ventes?

   Lucan negou com a cabeça.

   —Somente os mais capitalistas de nossa estirpe podem criar um servente. Esse merda que se voou a si mesmo é incapaz de fazer algo assim. Somente era um peão.

 

   Gabrielle se separou de sua carícia apesar do consolo que seu contato lhe proporcionava.

   —E se ele viu Kendra da mesma maneira? E se a entregou a alguém que tem mais poder que ele?

   A expressão de Lucan era grave, mas não mostrava nenhuma dúvida. Seu tom foi mais amável do que nunca o tinha sido com ela, o qual só fazia que suas palavras resultassem mais difíceis de aceitar.

   —Então tem que te esquecer dela por completo, porque é como se estivesse morta.

 

   — Espero que o chá não esteja muito forte. Se quiser um pouco de leite, pode ir procurar na cozinha.

   Gabrielle sorriu, sentindo-se verdadeiramente acolhida pela hospita­lidade da companheira do Gideon.

   —O chá está perfeito. Obrigado.

   Surpreendeu-se ao saber que havia outras mulheres no complexo e sentiu imediatamente que entre a bonita Savannah e ela se estabelecia uma espécie de cumplicidade. Do mesmo momento em que Savannah tinha ido, seguindo as ordens de Lucan, a procurar Gabrielle, tomou-se muito aborrecida para assegurar-se de que ela se sentisse cômoda e relaxada.

   Tão relaxada como era possível, em qualquer caso, ao estar rodeada de vampiros armados em um buraco de alta segurança a várias centenas de metros clandestinamente. Apesar de que nesse momento não o parecesse, sentada ali com a Savannah em uma larga mesa de cerejeira, de uma elegante sala de estar, enquanto tomava um chá especiado e exótico servido em uma deli­cada taça de porcelana e uma suave música soava de fundo.

   Essa habitação, ao igual que as espaçosas suítes residenciais que a rodeavam, pertenciam a Gideon e a Savannah. Pelo que parecia, viviam como um casal normal dentro do complexo, em uns aposentos muito cômodos, rodeados por um suntuoso mobiliário, uma quantidade inumerável de livros e de bonitos objetos de arte. Tudo era da melhor qualidade e tudo estava impecavelmente cuidado, absolutamente distinto ao que alguém poderia encontrar em uma das caras mansões do Back Bay. Se não fora pela ausência de janelas, tivesse sido quase perfeito. Mas inclusive essa falta estava compensada por uma impressionante coleção de pinturas e fotografias que adornavam quase todas as paredes.

   —Não tem fome?

 

   Savannah indicou com um gesto uma bandeja de prata repleta de massas e de bolachas que se encontrava em cima da mesa, entre ambas. Ao lado da mesma havia outra brilhante bandeja cheia de deliciosos canapés e molhos aromáticos. Tudo tinha um aspecto e um aroma maravilhoso, mas Gabrielle tinha perdido o apetite quase por completo da noite an­terior, quando tinha visto Lucan abrir a garganta desse servente com os dentes e, logo, beber seu sangue.

   —Não, obrigado —repôs—. Isto é mais que suficiente agora mesmo.

   Surpreendia-lhe ser capaz de tragar-se inclusive o chá, mas este estava quente e era relaxante, e esse calor lhe sentava bem tão por dentro como por fora.

   Savannah a observou beber em silencio do outro lado da mesa. Seus olhos escuros tinham uma expressão amistosa, e franzia o cenho com gesto cúmplice. Tinha o cabelo encaracolado, negro e curto e lhe cobria o bem formado crânio com um efeito mas bem sofisticado por causa de seus im­presionantes rasgos e de suas bonitas e femininas curvas. Mostrava a mesma atitude aberta e fácil que Gideon, e esse era um rasgo que Gabrielle apreciava muito depois de ter estado ante a atitude dominante de Lucan durante as últimas horas.

   —Bom, possivelmente você sim seja capaz de resistir as tentações —disse Seja­vannah, alargando a mão para tomar uma torrada—, mas eu não posso.

   Lubrificou uma colherada de comestíveis de nata em cima da torrada, rompeu um pedaço e o meteu na boca com um gemido de felicidade. Gabrielle se deu conta de que a tinha ficado olhando, mas não pôde evitá-lo.

   —Come comida de verdade —disse, mais em tom de interrogação que de afirmação.

Savannah assentiu com a cabeça e se limpou as comissuras dos lábios com o guardanapo.

   —Sim, é obvio. Uma garota deve comer.

 

   —Mas eu pensei... Se você e Gideon... Você não é como ele?   Savannah franziu o cenho e negou com a cabeça.   —Sou humana, igual a você. É que Lucan não te explicou nada? —Algo. —Gabrielle se encolheu de ombros—. O suficiente como para que a cabeça me dê voltas, mas ainda tenho muitas perguntas.  

—É obvio que as tem. Todo mundo as tem quando conhecem pela primeira vez este mundo novo. —Alargou a mão e apertou a do Gabrielle com simpatia.

— Pode me perguntar algo. Sou uma das fêmeas mais novas. Essa oferta fez que Gabrielle se incorporasse no assento com renova­do interesse.    

—Quanto faz que está aqui?   Savannah olhou para diante um momento, como se contasse.  

—Abandonei minha antiga vida em 1974. Foi quando conheci Gideon e apaixonamo-nos loucamente.

   —Faz mais de trinta anos —disse Gabrielle, maravilhada, observando os rasgos juvenis, a pele escura e radiante e os olhos brilhantes da mulher do Gideon.

— Nem sequer me parece que tenha vinte anos.   Savannah sorriu ampliamente.  

—Tinha dezoito anos quando Gideon me trouxe aqui como companheira.

Ele me salvou a vida, na verdade. Tirou-me de uma situação difícil, e enquanto estejamos unidos eu ficarei igual a estou. De verdade te pareço tão jovem?

   —Sim. É muito bonita.

 

   Savannah soltou uma risadinha suave e deu outra dentada a torrada.

   —Como...? —perguntou Gabrielle, esperando que não resultasse de má educação o insistir, mas se sentia tão curiosa e estava tão assombrada que não podia evitar fazer perguntas.

— Se você é humana e eles não pode nos converter em... o que eles são... então, como é possível? Como é que não envelheceste?

   —Sou uma companheira de raça —repôs Savannah, como se isso o explicasse tudo. Ao ver que Gabrielle franzia o cenho, confundida, Savannah continuou.

— Gideon e eu temos um vínculo, emparelhamo-nos. Seu sangue me mantém jovem, mas ainda sou humana aos cem por cem. Isso nunca troca, nem sequer quando nos unimos com um deles como companheira. Não nos saem presas e não ansiamos o sangue da maneira em que eles o fazem para sobreviver.

   —Mas você o deixou tudo para estar com ele, assim?

   —O que deixei? Passo minha vida com um homem a quem adoro com­pletamente, e que me quer da mesma forma. Os dois estamos sãs, somos felizes e estamos rodeados de outros que são como nós, que são nossa família. Além da ameaça dos renegados, não temos nenhuma preocupação aqui. Se tiver sacrificado alguma coisa, isso não é nada comparado com o que tenho com o Gideon.

   —E o que me diz da luz do sol? Não a sente falta ao viver a­qui?

   —Nenhuma de nós está obrigada a permanecer no complexo du­rante todo o tempo. Eu passo muito tempo nos jardins da pro­piedade durante o dia, sempre que quero. O terreno é muito seguro, ao igual que a mansão, que é enorme. Quando cheguei aqui, ao princípio, passei-me três semanas explorando-o.

   Pela breve olhada que Gabrielle tinha jogado a esse lugar, se imagi­nava que demoraria bastante tempo em familiarizar-se contudo.

 

   —Quanto a ir à cidade durante o dia, fazemo-lo as vezes, embora não muito freqüentemente. Tudo o que necessitamos o podemos pedir pela Inter­net e o entregam a domicílio.

—Sorriu e se encolheu de ombros—. Não me interprete mal, eu adoro ir aos cafés e de compras tanto como a qualquer, mas aventurar-se fora do complexo sem nossos companheiros sempre implica certo risco. E eles se preocupam quando estamos em algum lugar onde não podem nos proteger. Suponho que as fêmeas que vivem nos Refúgios Escuros tem um pouco mais de liberdade durante o dia que as que estamos vinculadas com os membros desta classe guerrei­ra. Embora não ouvirá nos queixar.

   —Há mais companheiras de raça vivendo aqui?

   —Há duas mais, além de mim. Eva está vinculada a Rio. As duas lhe cairão bem... são a alma das festas. E Danika é uma das pessoas mais doces que conheci nunca. Era a companheira de raça do Conlan. Ele foi assassinado recentemente, em um enfrentamento com um renegado.

   Gabrielle assentiu com gesto sério.

   —Sim, inteirei-me disso justo antes de que viesse para me trazer aqui. Sinto muito.

   —Tudo é distinto sem ele, mais silencioso. Não sei como Danika vai levar , se te for sincera. Estiveram juntos durante muitos, muitos anos. Conlan era um bom guerreiro, mas era inclusive um melhor companheiro. Também era um dos membros mais antigos deste complexo.

   —Até que idade chegam?

   —OH, não sei. Muito avançada, para nós. Conlan nasceu da filha de um capitão escocês da época do Colombo. Seu pai era um vampiro da raça daquela geração, de faz quinhentos anos.

   —Quer dizer que Conlan tinha quinhentos anos de idade?

   Savannah se encolheu de ombros.

 

   —Mais ou menos, sim. Há alguns muito mais jovens, como Rio e Nikolai, que nasceram neste século, mas nenhum deles viveu tanto tempo como Lucan. Ele pertence à primeira geração, filho dos Antigos, dos originários e da primeira linha de companheiras de raça que receberam suas sementes extraterrestres e deram a luz. Pelo que sei, esses primeiros filhos da raça nasceram muito tempo depois de que os Antigos chegassem aqui, ao cabo de vários séculos, segundo a história. Os membros da primeira geração foram concebidos sem desejo e com­pletamente por sorte, cada vez que as violações dos vampiros se faziam em fêmeas humanas cujo sangue tinha umas características úni­cas e cujo DNA era o bastante forte para levar a cabo uma gravidez híbrida.

   Gabrielle imaginou por um instante a brutalidade e a maldade que deveu ter tido lugar nesses tempos.

—Parece que eram animais, os Antigos.

—Eram selvagens. Os renegados operam da mesma maneira e com a mesma falta de consideração pela vida. Se não fosse por guerreiros como Lucan, Gideon e uns quantos mais da Ordem que lhes dão caça por todo mundo, nossas vidas, as vidas de todos os seres humanos, estariam em perigo.

   —E o que me diz de Lucan? —perguntou Gabrielle com voz débil—. Quão velho é ele?

   —Ah, ele é uma raridade, embora só seja por sua linhagem. Ficam muito poucos de sua geração.

   —A expressão de Savannah mostrava certa admi­ração e mais que respeito.

   — Lucan terá uns novecentos anos, posi­velmente mais.

   —OH, Meu deus. —Gabrielle se recostou na cadeira. Riu ante essa idéia, mas ao mesmo tempo se deu conta de que tinha sentido—. Sabe? A primeira vez que lhe vi, pensei que tinha todo o aspecto de montar a cavalo brandindo uma espada e dirigindo a um exército de cavalheiros a batalha. Tem esse tipo de porte. Como se fosse o proprietário do mundo, e como se tivesse visto tantas coisas que nada pode lhe surpreender. Agora sei por que.

 

   Savannah a olhou com expressão sábia e inclinou a cabeça.

   —Acredito que você foste uma surpresa para ele.

   —Eu? O que quer dizer?

   —Trouxe-te aqui, ao complexo. Nunca tem feito algo assim, não em todo o tempo que faz que lhe conheço, nem tampouco antes pelo que me disse Gideon.

   —Lucan diz que me trouxe aqui para me proteger, porque agora os renegados vão detrás de mim. Deus, eu não queria lhe acreditar, não queria acreditar nada de tudo isto, mas é verdade, não?

   O sorriso do Savannah era cálida e pormenorizada.

   —É.

   —Vi-lhe matar a alguém a outra noite, a um servente. Fez-o para proteger-me, sei, mas foi tão violento. Foi horrível.   —Sentiu que um ca­lafrio lhe percorria as pernas ao recordar a terrível cena que teve lugar no parque dos meninos.

— Lucan mordeu a garganta do homem e se alimentou dele como uma espécie de...

   —Vampiro —repôs Savannah em voz baixa, sem rastro de acusação nem de condenação na voz é o que são, Gabrielle, desde que nasceram. Não é nenhuma maldição nem um desastre. É somente sua forma de viver, uma forma diferente de consumir ao que os humanos têm aprendido que é normal. E os vampiros não sempre matam para alimentar-se. De fato, isso não é habitual, pelo menos entre a população geral da raça, incluída a classe dos guerreiros. E é algo completamente desco­nhecido entre os vampiros que têm vínculos de sangue, como Gideon ou Rio, dado que seu alimento provém regularmente de suas companheiras de raça.

   —Diz-o de uma forma que faz que pareça normal —disse Gabrielle, franzindo o cenho enquanto passava um dedo pelo bordo da taça. Sabia que o que Savannah lhe estava dizendo tinha certa lógica, apesar de que era surrealista, mas aceitava que não ia ser fácil.

— Me aterroriza pensar no que ele é, em como vive. Deveria lhe desprezar por isso.

 

—Mas não lhe despreza.

—Não —confessou ela em voz baixa.

—Se preocupa por ele, verdade?

   Gabrielle assentiu com a cabeça, resistindo a afirmá-lo de palavra.

—E tem uma relação íntima com ele.

—Sim. —Gabrielle suspirou e meneou a cabeça—. E de verdade, não é estúpido? Não sei o que tem que me faz lhe desejar desta maneira. Quero dizer, mentiu-me e enganou a tantos níveis que não posso nem enumerá-los e, apesar de tudo isso, pensar nele faz que me tremam as pernas. Nunca senti este tipo de necessidade com nenhum outro homem.

   Savannah sorria desde detrás da taça de chá.

   —São mais que homens, nossos guerreiros.

   Gabrielle deu um sorvo de chá, pensando que possivelmente não era sensato pen­sar em Lucan como nada dela, a não ser que tivesse intenção de pôr seu coração sob as botas dele e ver como o pisoteava e o fazia pó.

   —Estes machos são apaixonados por tudo o que fazem   —acrescentou Sa­vannah.

   — E não há nada que possa comparar-se dando e recebendo quando há um vínculo de sangue, especialmente enquanto se faz o amor.

Gabrielle se encolheu de ombros.

   —Bom, o sexo é incrível, não vou tentar negá-lo. Mas não tive esse tipo de vínculo de sangue com Lucan.

 

   O sorriso do Savannah fraquejou um momento.

   —Não te mordeu?

   —Não. Deus, não. —Negou com a cabeça, perguntando-se se podia sentir-se pior do que se sentia.

   — Nem sequer tentou provar meu sangue, pelo que sei. Esta mesma noite me jurou que nunca o fará.

   —OH. —Savannah deixou com cuidado a taça de chá na mesa.

   —Por que? Acha que o fará?

   A companheira do Gideon pareceu pensá-lo um momento e logo negou lentamente com a cabeça.

—Lucan nunca faz uma promessa a ligeira, e não o faria com algo como isto. Estou segura de que tem intenção de fazer exatamente o que te há dito.

   Gabrielle assentiu com a cabeça, aliviada, Apesar de que a afirmação de Savannah lhe soou quase como se acabasse de lhe dar os pêsames.

   —Vêem —lhe disse, levantando-se da mesa e fazendo um sinal a Gabrielle para que a seguisse.

— Vou mostrar-lhe o resto do complexo.

   —Algo novo a respeito desses glifos que vimos em nosso sujeito da Costa Oeste? —perguntou Lucan enquanto atirava a jaqueta de pele nas cadeiras que se encontravam perto do Gideon.

Nesse momento estavam os dois sós no laboratório: outros guerreiros se tinham ido relaxar umas quantas horas antes de que Lucan desse as ordens para iniciar a limpeza noturna da cidade. Sentia-se contente de ter essa relativa intimidade. A cabeça começava a lhe pulsar, ameaçando com outra terrível dor de cabeça.

 

   —Não consegui nada, sinto dizer. Não apareceu nada na comprovação dos antecedentes criminais, nem na busca no censo. Parece que nosso menino não está registrado, mas isso não é pouco usual. Os registros da Base de dados de Identificação Internacional são enormes, mas estão longe de ser perfeitos, especialmente no que tem que ver com vocês, os membros da primeira geração. Só ficam uns quantos como você por aí e, por diferentes raciocinio, nunca se ofereceram a ser processados nem catalogados, incluído você.

   —Merda —exclamou Lucan, apertando a ponte do nariz sem sentir nenhum alívio da pressão que cada vez sentia com mais força na cabeça.

   —Encontra-te bem, cara?

   —Não é nada. —Não olhou a Gideon, mas notava que o vampiro o olhava com preocupação.

—O superarei.

   —Eu, isto... Inteirei-me que o que aconteceu com você e Tegan a outra noite. Os meninos disseram que você acabava de voltar de uma caçada e que tinha mau aspecto. Seu corpo ainda se está recuperando das que­imaduras do sol, já sabe. Tem que tomar as coisas com calma, te curar...

   —Hei-te dito que estou bem —lhe cortou Lucan, notando que lhe ardiam os olhos de irritação e que seus lábios desenhavam uma careta e mostravam os dentes.

   Entre a presa que tinha caçado na rua e o servente a quem tinha chupado o sangue no parque, tinha ingerido sangue suficiente para todo o tempo de recuperação. A verdade era que, apesar de que física­mente estava satisfeito, ainda desejava mais.

   Encontrava-se em um terreno muito escorregadio, e sabia.

   A sede de sangue era, somente, permitir a queda.

   Controlar essa debilidade estava sendo cada vez mais difícil.

 

   —Tenho um presente para ti —disse Lucan, ansioso por trocar de tema. De um tapa, deixou os dois cartões de cor em cima da mesa.

—As carregue.

—De verdade? Um presente para mim? Querido, não tinha que fazê-lo — disse Gideon, voltando para sua habitual atitude jovial. Já estava introduzin­dou uma delas na porta USB do disco portátil da máquina que tinha mais perto. Na tela se abriu uma pasta que mostrou uma larga lista de nomes no monitor. Gideon se deu a volta e olhou a Lucan com atitude pensativa.

— São arquivos de imagem. Um montão.

   Lucan assentiu com a cabeça. Agora estava dando voltas pela habita­ção, cada vez mais irritado e acalorado pelas brilhantes luz da ha­bitação.

   —Necessito que observe cada uma delas e as compare com todas as localizações de quão renegados conhecemos da cidade, do p­assado, do presente assim como as suspeitas.

   Gideon abriu uma imagem aleatoriamente e soltou um suave assobio.

   —Esta é a guarida de renegados que tomamos o mês passado. —Abriu duas imagens mais e as colocou uma ao lado da outra na tela do cimputador—. E o armazém que estivemos vigiando durante duas se­mana... Jesus, é isto uma imagem do edifício que está em frente do Refúgio Obscuro Quincy?

—Há mais.

—Filho da puta. A maioria destas imagens são de localizações de vampiros, tanto de renegados como da raça. —Gideon passou uma dúzia de fotos mais.

— Ela as tem feito todas?

   —Sim. —Lucan fez uma pausa para olhar a tela. Assinalou uma série de arquivos datados da semana em curso.

— Abre este grupo.

   Gideon abriu as fotos com uns rápidos movimentos do mouse.

 

   —Deve estar tomando o cabelo. Ela também esteve nos arredores do psiquiátrico? Nesse lugar deve haver centenas de chupões.

   Lucan sentiu um aperto no estômago ante essa idéia: o medo era como um ácido na boca do estômago. Sentia as vísceras revoltas, retorcidas por causa da necessidade de alimentar-se. Mentalmente controlou a sede, mas lhe tremiam as mãos e o suor começava a lhe aparecer na frente.

   —Um servente a encontrou e a perseguiu até que ela saiu da pró­piedade —disse com a voz rouca, como se tivesse terra na garganta, e não somente porque tinha o corpo completamente decomposto.

   — Teve muita sorte de poder escapar.

   —Pois sim. Como encontrou esse lugar? Quer dizer, como pôde encontrar todos estes lugares?

   —Diz que não sabe por que se sentiu atraída para eles. É uma espe­cie de instinto especial. Forma parte da habilidade que tem uma com­panheira de raça de resistir ao controle mental de um vampiro e que lhe permite ver nossos movimentos apesar de que o resto de seres hu­mãos não pode.

   —Chame-o como o chama, este tipo de habilidade nos pode resultar de grande ajuda.

   —Esquece-o. Não vamos envolver a Gabrielle mais do que já se envolveu. Ela não forma parte disto, e não a vou expor a mais perigos. De todas formas, não vai ficar aqui muito tempo.

   —Não crê que podemos protegê-la?

   —Não vou permitir que fique em primeira linha de fogo quando uma guerra se está gerando frente a nossas portas. Que tipo de vida seria esta?

 

   Gideon se encolheu de ombros.

   —Pois parece que a Savannah e Eva não vai mau.

   —Sim, e também foi uma festa para a Danika, ultimamente. —Lucan negou com a cabeça—. Não quero que Gabrielle esteja perto desta violência . Vai partir a um dos Refúgios Escuros logo que seja possível. A algum lugar remoto que esteja o mais longe possível, onde os renegados não possam encontrá-la nunca.

   E onde também estivesse a salvo dele. A salvo da besta que se retorcia dentro dele inclusive nesses momentos. Se a sede de sangue fi­nalmente lhe vencia —e ultimamente lhe parecia que era somente uma questão de tempo—, queria que Gabrielle estivesse tão longe como fosse possível.

Gideon, muito quieto, olhava a Lucan.

—Se preocupa por ela.

   Lucan lhe devolveu o olhar e sentiu desejos de golpear algo, de destruir algo.

   —Não seja ridículo.

   —Refiro-me a que é bonita, e é evidente que é valente e criativa, assim não é difícil compreender que qualquer possa sentir-se atraído por ela. Mas... porra. Você se preocupa por ela de verdade, não? —Era e­vidente que esse vampiro não sabia quando devia calar-se.

— Nunca pensei que chegaria o dia em que uma fêmea te colocasse sob a pele desta maneira.

   —É que tenho pinta de querer me unir ao mesmo patético clube do coração e flores ao que você e Rio pertencem? Ou Conlan, com seu cachorrinho em caminho que alguma vez conhecerá seu pai? De verdade, não tenho nenhuma intenção de me vincular com esta mulher nem com nenhuma outra. —Pronunciou um violento juramento—. Sou um guerreiro. Meu primeiro e único dever sem­pre é para a raça. Nunca houve espaço para nada mais. Assim que encontre um lugar seguro para ela em um dos Refúgios, Gabrielle Maxwell se irá. Esquecida. Fim da história.

 

   Gideon ficou em silêncio um comprido momento, lhe observando dar voltas pela habitação, frenético e mal-humorado, com uma falta de controle que não era própria dele.

   O qual somente conseguia enervar o mau humor de Lucan até um nível perigoso.

   —Tem algo mais que acrescentar ou podemos deixar este tema por agora?

   Os inteligentes olhos azuis do vampiro continuaram lhe olhando de for­ma enloquecedora.

   —Simplesmente pergunto a quem precisa convencer: A mim ou a você mesmo?

 

A visita de Gabrielle pelo labiríntico complexo dos guerreiros lhe mostrou dependências de residência privadas, zonas comuns, uma sala de treinamento equipada com um incrível sortido de armas e de equipamentos de combate, uma sala para banquetes, uma espécie de capelas e inumeraveis habitações escondidas para várias funções que se mesclavam em sua mente.

   Também conheceu Eva, que era exatamente como Savannah lhe havia dito que era. Vivaz, encantadora e bonita como uma supermodelo. A companheira de raça de Rio tinha insistido em sabê-lo tudo a respeito de Gabrielle e de sua vida. Eva era espanhola e falava de voltar ali algum dia com Rio, onde ambos poderiam criar uma família com o tempo. Foi uma agradável apresentação que somente se viu interrompida pela chegada de Rio. Quando ele chegou, Eva se dedicou por inteiro a seu companheiro e Sa­vannah levou a Gabrielle a outras zonas do complexo.

   Era impressionante o imensas e eficientes que eram as instalações. Qualquer idéia que ela pudesse ter a respeito de que os vampiros viviam em velhas, cavernosas e úmidas cavernas lhe tinha desaparecido da mente assim que ela e Savannah tiveram concluído esse informal passeio.

   Esses guerreiros e suas companheiras viviam com um estilo de alta tecnolo­gía e tinham literalmente todos os luxos que pudessem desejar, embora nenhum atraiu tanto a Gabrielle como a habitação em que se encontravam ela e Savannah nesse momento. Umas estanterías de polida madeira escura que foram do chão ao teto enchiam as altas paredes da há­bitação e continham milhares de volúmes. Sem dúvida, a maioria eram extranhos, dado a quantidade de quão mesmos estavam encadernados em pele e cujos lombos gravados com ouro brilhavam a suave luz da biblio­teca.

   —Puxa —exclamou Gabrielle enquanto se dirigia ao centro da habitação e se dava a volta para admirar a impressionante coleção do Li­vros.

 

   —Você gosta? —perguntou-lhe Savannah, apoiando-se na porta aberta.

   Gabrielle assentiu, muito ocupada em olhá-lo tudo para responder. Ao dá-la volta viu uma luxuosa tapeçaria que cobria a parede traseira. Era uma imagem noturna que representava a um enorme cavalheiro vestido do Nnegro e com uma malha de prata, sentado em cima de um escuro cavalo . O cavalheiro levava a cabeça descoberta e seu comprido cabelo de ébano voava ao vento igual aos penachos que ondeavam da ponta de sua lança ensangüentada e no parapeito de um castelo que havia no topo de uma colina, ao fundo.

   O bordado era tão intrincado e preciso que Gabrielle pôde distinguir os penetrantes olhos de um cinza pálido desse homem e seus angulosos e marcados maçãs do rosto. Em seu sorriso cínico e quase depreciativo havia algo que lhe resultava familiar.

—OH, Meu Deus. supõe-se que é...? —murmurou Gabrielle.

   Savannah respondeu com um encolhimento de ombros e uma risita diver­tída.

   —Quer ficar aqui um momento? Tenho que ir ver Danika, mas eu vou não significa que tenha que ir, se preferir...

   —Claro. Sim. eu adorarei ficar um momento por aqui. Por favor, tome o tempo que necessite e não se preocupe por mim.

   Savannah sorriu.

   —Voltarei logo e nos ocuparemos de te preparar uma habitação.

—Obrigado —repôs Gabrielle, que não tinha nenhuma pressa em que a levassem desse paraíso inesperado.

   Assim que a outra mulher teve saído, Gabrielle se deu conta de que não sabia por onde começar A olhar: se pelo tesouro da literatura ou a pintura medieval que representava A Lucan Thorne, que parecia ser de ao redor do século XIV.

 

   Decidiu fazer ambas as coisas. Tirou um incrível volume de poesia fran­cessa, presumivelmente uma primeira edição, de uma das prateleiras e o levou a uma poltrona de leitura colocado ante a tapeçaria. Deixou o livro em cima de uma delicada mesa antiga e, durante um minuto, quão único foi xa­paz de fazer foi olhar a imagem de Lucan bordada de forma tão perita com fio de seda. Levantou uma mão, mas não se atreveu a tocar essa peça de museu.

   «Meu Deus», pensou, impressionada, ao captar a incrível realidade desse outro mundo.

   Durante todo esse tempo, eles tinham existido ao mesmo tempo que os seres humanos.

«Incrível.»

   E que pequeno lhe parecia seu próprio mundo à luz desse novo conhecimento. Todo aquilo que acreditava saber sobre a vida tinha sido eclipsado em questão de horas pela larga história de Lucan e do resto dos seus­eus.

   De repente, o ar pareceu mover-se ao seu redor e Gabrielle sentiu um súbito alarme. Voltou-se rapidamente e se sobressaltou ao encontrar-se com o Lucan real, em carne e osso, em pé, detrás dela, na entrada da habitação, apoiado com um de seus enormes ombros contra o gonzo da porta. Levava o cabelo mais curto que o cavalheiro, seus olhos tinham possivelmente uma expressão de maior obsessão e não se viam tão ansiosos como os que tinha representado o artista.

   Lucan era muito mais atrativo em pessoa: inclusive quando estava quieto irradiava um poder inato. Inclusive quando a olhava com o cenho franzido e em silêncio, como nesse momento.

   O coração de Gabrielle se acelerou com uma mescla de medo e expec­tativa assim que viu que ele se separava do gonzo da porta e entrava na habitação. Olhou-lhe, olhou-lhe de verdade, e lhe viu tal e como era: uma força que não tinha idade, uma beleza selvagem, um poder incomensurável.

   Um enigma escuro, que resultava tão sedutor como perigoso.

 

   —O que está fazendo aqui? —Em sua voz havia uma nota acusatória.

   —Nada —respondeu ela rapidamente—. Bom, se te for sincera, não pude evitar admirar algumas destas coisas tão formosas. Savannah me esteve mostrando o complexo.

   Ele grunhiu e se apertou a ponte do nariz sem deixar de franzir o cenho.

   —tomamos o chá juntas e estivemos conversando um pouco —disse Gabrielle.

— Eva esteve conosco também. As duas são muito agradáveis. E este lugar é realmente impressionante. Quanto faz que você e outros guerreiros vivem aqui?

   Ela se dava conta de que ele tinha pouco interesse em entrar em conversa­ção, mas respondeu, levantando um ombro em um encolhimento despreo­cupado.

—Gideon e eu fundamos este lugar em 1898 como quartel geral para dar caça aos renegados que se transladaram A esta região. daqui recrutamos a um grupo dos melhores guerreiros para que lutassem conosco. Dante e Conlan foram os primeiros. Nikolai e Rio se unie­rum a nós mais tarde. E Tegan.

   Este último nome lhe era completamente desconhecido a Gabrielle.

   —Tegan? —perguntou—. Savannah não lhe mencionou. Ele não estava quando apresentou A outros.

   —Não, não estava.

Ao ver que ele não dava mais explicações, a curiosidade a apanhou.

   —É um a quem perdestes, como Conlan?

   —Não. Não é isso. —Lucan falou com voz entrecortada ao referir-se a este último membro do grupo, como se o tema fora um tema doloroso que preferisse não tocar.

 

   Ele continuava olhando-a intensamente e estava tão perto que ela per­cebía o movimento de seu peito ao respirar, os músculos que se expan­dían sob a camisa negra de impecável queda, o calor que seu corpo p­recía irradiar para ela.

   Detrás dele, na parede, seu semelhante olhava da tapeçaria com uma expressão de fervente determinação: o jovem cavalheiro decidido e gra­vê, seguro de conquistar todo prêmio que encontrasse em seu caminho. Gabrielle distinguia uma sombra mais escura dessa mesma determinação em Lucan agora, enquanto o olhar dele percorria todo seu corpo, de pés a cabeça.

   —Esta tapeçaria é incrível.

   —É muito velho —disse ele, olhando-a enquanto se aproximava dela.

   — Mas suponho que isso já sabe agora.

   —É precioso. E te vê tão feroz, como se estivesse a ponto de conquistar o mundo.

   —Estava-o. —Olhou a tapeçaria da parede com uma ligeira expressão de brincadeira.

— Eu mandei fazer uns meses depois da morte de meus pais. Esse castelo que se queima, ao fundo, pertencia ao meu pai. Fiz-o c­nizas depois de lhe cortei a cabeça por ter matado a minha mãe em um ataque de sede de sangue.

   Gabrielle ficou sem fala. Não tinha esperado nada como isso.

—Meu Deus. Lucan...

   —Encontrei-a em um atoleiro de sangue em nosso vestíbulo. Tinha a garganta destroçada. Ele nem sequer tentou defender-se. Sabia o que há­via feito. Amava-a, tanto como podiam amar os de sua classe, mas sua sede era mais forte. Não podia negar sua natureza. —Lucan se encolheu de ombros.

— Lhe fiz um favor ao terminar com sua existência.

Gabrielle observou a expressão fria dele e se sentiu tão impressiona­dá pelo que acabava de ouvir como pelo tom displicente com que o disse. Todo o romântico atrativo que tinha projetado nessa tapeçaria fazia tão somente um minuto, desapareceu sob o peso da tragédia que verdade­ramente representava.

 

   — por que quis ter uma lembrança tão bonita de uma coisa tão Terrivel?

   —Terrível? —Ele negou com a cabeça—. Minha vida começou essa noite. Eu nunca tive nenhum lente até que me ergui sobre meus pés, sobre o sangue de minha família e me dava conta de que tinha que trocar as coisas: para mim mesmo e para o resto de minha estirpe. Essa noite declarei a guerra a quão antigos ficavam dos da classe de meu pai, e a todos os membros da raça que lhes tinham servido como renegados.

   —Isso significa que estiveste lutando durante muito tempo.

   —Teria que ter começado muitíssimo antes. —Cravou-lhe uma olha­dá de ferro e lhe dirigiu um sorriso arrepiante.

— Não vou me dete­r nunca. É por isso pelo que vivo: manejo a morte.

   —Algum dia ganhará, Lucan. Então toda a violência terminará por fim.

   —Você crie? —disse ele, arrastando as palavras com certa brincadeira no tom de voz.

— E sabe com segurança, te apoiando no que? Em seus poucos vinte e sete anos de vida?

   —Apóio-o na esperança, para começar. Na fé. Tenho que acreditar que o bem sempre prevalecerá. Você não? Não é por isso que você e os de­mais fazem o que fazem? Porque têm a esperança de que podem me­lhorar as coisas?

   Ele rio. Na verdade, olhou-a diretamente e rio.

   —Mato aos renegados porque o desfruto. Sou retorcidamente bom nisso. Não vou falar dos motivos de outros.

 

   —O que passa contigo, Lucan? Parece... cheio o saco? Desafiador? um pouco psicótico? Está atuando de forma diferente aqui de como atuou antes comigo.

   Lhe cravou um olhar mordaz.

   —Se por acaso não te deste conta, carinho, agora está em meus domínios. As coisas são diferentes aqui.

A crueldade que via nele nesses momentos a desconcertou, mas foi seu estranho olhar ardente o que de verdade a enervou. Seus olhos eram muito brilhantes, pareciam duros como o cristal. Sua pele havia enre­jecido e se via tensa em suas bochechas. E agora que lhe olhava de perto, viu que tinha a frente perlada de suor.

   Uma raiva pura e fria emanava dele em feitas ondas. Como se desejasse destruir algo com suas próprias mãos.

   E resultava que quão único tinha diante era a ela.

Ele avançou e passou por seu lado em silêncio, dirigindo-se para uma porta fechada que se encontrava perto de uma das altas estanterías. A porta se abriu sem que ele a tocasse. Ao outro lado todo estava tão escuro que Gabrielle pensou que era um armário. Mas ele entrou nesse espaço te­nebroso e ela ouviu suas pegadas afastando-se sobre um chão de madeira do que devia ser um passadiço escondido do complexo.

   Gabrielle ficou ali em pé, como se acabasse de livrar-se de que uma brutal tormenta a apanhasse. Exalou com força, aliviada. Possivelmente devia deixa-lo partir. Se ter por afortunada por estar longe de seu caminho em esse momento. Estava claro que ele não parecia desejar sua companhia, e ela não estava segura de querer a dele se estava dessa maneira.

   Mas algo lhe acontecia, algo estava realmente mal, e tinha que saber o que era.

   tragou-se o medo e lhe seguiu.

 

   —Lucan? —No espaço de além da porta não havia nenhuma luz. Somente havia escuridão, e se ouvia o som constante do barulho das botas de Lucan.

— Deus, está muito escuro aqui. Lucan, espera um segundo. me diga algo.

   O ritmo de seus passos não se alterou. Parecia mais que ansioso de livrar-se dela. Como se estivesse desesperado por afastar-se dela.

   Gabrielle avançou pelo corredor escuro que tinha diante da melhor maneira que pôde, com os braços alargados para diante para ajudar-se A seguir as curvas do passadiço.

—Aonde vai?

—Fora.

—Para que?

—Já lhe hei isso dito. —ouviu-se um ferrolho no mesmo ponto de onde provinha sua voz.

—Tenho que fazer um trabalho. Ultimamente estive muito depravado.

Por causa dela.

   Não o disse, mas não havia maneira de interpretar mal o que queria dizer.

   —Tenho que sair daqui —lhe disse, cortante—. É hora de que acrescente uns quantos chupões a minha lista.

   —A noite já quase passou. Possivelmente teria que descansar um pouco, em lugar disso. Não me parece que esteja bem, Lucan.

—Preciso lutar.

   Gabrielle ouviu que seus passos se detinham, ouviu o sussurro do tecido em algum ponto por diante dela, na escuridão, como se ele se deteve e se estivesse tirando a roupa. Gabrielle continuou avançando em direção a esses sons com as mãos para diante, tentando segurar nesse poço escuro interminável. Agora se encontravam em outro espaço; havia uma parede a direita. Utilizou-a como guia, avançando ao longo dela com passos cuidadosos.

 

   —Na outra habitação parecia ruborizado. E sua voz soa... estranha.

   —Preciso me alimentar. —Sua voz soou grave e letal, como uma amena­ça inequívoca.

     Deu-se conta ele de que ela se deteve para lhe ouvir? Devia haver-se dado conta, porque se rio com um humor amargo, como se a intranqüilidade lhe divertisse.

   —Mas já te alimentaste —lhe recordou ela—. Justo a outra noite, de fato. É que não tomou suficiente sangue quando matou a esse servente? Acreditei que disse que somente precisava te alimentar uma vez durante vários dias.

   —Já é uma perita no tema, verdade? Estou impressionado.

   As botas caíram ao chão com um descuidado golpe, primeiro uma e logo a outra.

   —Podemos acender algumas luz aqui? Não posso verte...

   —Sem luzes —a cortou ele—. Eu vejo perfeitamente. Cheiro seu medo.

   Ela tinha medo, nem tanto por ela mas sim por ele. Ele estava mais que ener­vado. O ar que lhe rodeava parecia pulsar de pura fúria. Chegava até ela através da escuridão, como uma força invisível que a empurrava para trás.

   —Fiz algo mal, Lucan? Não deveria estar aqui no complexo? Porque se tiver trocado de opinião a respeito, tenho que te dizer que não estou muito segura de que fora uma boa idéia que eu viesse aqui.

 

   —Agora não há nenhum outro lugar para ti.

   —Quero voltar para meu apartamento.

   Gabrielle sentiu uma quebra de onda de calor que lhe subia pelos braços, como se ele se deu a volta e a fulminasse com o olhar.

—vieste aqui. E não pode voltar ali. Ficará até que eu dita o contrário.

—Isto se parece muito a uma ordem.

   —é.

   De acordo, agora ele não era o único que sentia raiva.

   —Quero meu telefone celular, Lucan. Tenho que chamar a meus amigos e Aasegurar-me de que estão bem. Logo chamarei um táxi e irei casa, onde tentarei lhe encontrar algum sentido a esta confusão em que se há conver­tido minha vida.

   —Nem pensar. —Gabrielle ouviu um clique metálico de uma arma, e o roce de uma gaveta que se abria.

— Agora está em meu mundo, Gabrielle. Aqui sou eu quem dita as leis. E você está sob meu amparo até que eu conside­ré que é seguro te soltar.

   Ela se tragou a maldição que tinha na ponta da língua. Quase.

   —Olhe, esta atitude benevolente de chefe te pode ter funcionado no passado, mas não imagine que a pode utilizar comigo.

   O raivoso grunhido que saiu dele foi como uma chicotada que lhe arrepiou os cabelos da nuca.

   —Não sobreviveria uma noite aí fora sem mim, compreende-o? Se não tivesse sido por mim, não teria sobrevivido a seu primeiro maldito ano de vida.

 

   Em pé, ali, na escuridão, Gabrielle ficou totalmente icelular.

 

   —O que há dito?

   Só obteve um comprido silencio como resposta.

—O que quer dizer com que não tivesse sobrevivido?

Ele soltou um juramento entre os dentes apertados.

   —Eu estava ali, Gabrielle. Faz vinte e sete anos, quando uma indefesa mãe jovem foi atacada por um vampiro renegado na estação de ônibus de Boston, eu estava ali.

—Minha mãe —murmurou ela com o coração quase detido. Alargou a mão para trás em busca da parede e se apoiou nela.

   —Já a tinha mordido. Estava-lhe chupando o sangue quando o cheirei e lhes encontrei fora da estação. Ele a tivesse matado. Tivesse-te matado também .

   Gabrielle quase não podia acreditar o que estava ouvindo.

   —Você nos salvou?

   —Dava a sua mãe a oportunidade de afastar-se. Mas estava muito mau por causa da mordida. Nada podia salvá-la. Mas ela queria sal­varte a você. Escapou contigo em braços.

   —Não. Ela não se preocupava comigo. Abandonou-me. Pô-me em um cubo de lixo —sussurrou Gabrielle, com a garganta atendida ao sentir a velha ferida do abandono.

 

   —A mordida a deixou em um estado de comoção. É provável que estivesse desorientada, e que acreditasse que te estava deixando em um lugar seguro. Que te estivesse ocultando do perigo.

   Deus, durante quanto tempo se esteve interrogando a respeito da jovem mulher que havia a trazido para o mundo? Quantos cenários havia in­ventado para explicar, explicar-se a si mesmo pelo menos, o que devia ter acontecido essa noite em que a encontraram na rua, quando era um bebê? Mas nunca tinha imaginado isto.

—Como se chamava?

   —Não sei. Não me interessava. Ela era somente outra vítima dos renegados. Eu não tinha pensado em nada disso até que você mencionou a sua mãe em seu apartamento.

   —E eu? —perguntou ela, tentando pô-lo tudo em ordem—. Quando veio para ver-me pela primeira vez depois do assassinato, sabia que eu era o bebê a quem tinha salvado?

Ele emitiu uma gargalhada seca.

   —Não tinha nem idéia. Vim até ti porque notei seu aroma de jasmim fora da discoteca e te desejava. Precisava saber se seu sangue seria tão doce como o resto.

   Ouvir essas palavras lhe fez recordar todo o prazer que Lucan lhe tinha dado com seu corpo. Agora se perguntava como seria que lhe chupasse do pescoço enquanto a penetrava. Para sua surpresa, deu-se conta que era muito mais que curiosidade o que sentia.

   —Mas não o fez. Você não...

   —E não o farei —respondeu ele, com voz entrecortada. Gabrielle ouviu outra maldição onde se encontrava ele, esta vez de dor.

— Nunca te haveria tocadosse tivesse sabido...

   —Se tivesse sabido o que?

 

   —Nada, esquece-o. Só que... Deus, a cabeça me dói muito para falar. Vai daqui. Me deixe só agora.

   Gabrielle ficou justo onde estava. Ouviu-lhe mover-se outra vez, foi um surdo roce dos pés. E outro grunhido grave e animalesco.

—Lucan? Está bem?

   —Estou bem —grunhiu, o qual parecia algo menos que estu­visse bem—. Necessito né...porra. —Agora respirava com maior dificul­dade, quase ofegava.

— Vai daqui, Gabrielle. Preciso estar... sozinho.

   Um pouco pesado caiu no tapete do chão com um golpe surdo. Ele ina­ló com força.

   —Não acredito que precise ficar só agora mesmo, absolutamente. Acredito que necessita ajuda. E não posso continuar falando contigo na escuro desta maneira. —Gabrielle passou a mão pela parede procurando atenta a luz.

— Não encontro nenhum...

   Seus dedos tropeçaram com um interruptor e o acendeu.

   —OH, Meu deus.

   Lucan estava dobrado sobre si mesmo no chão, ao lado de uma cama grande. Tirou-se a camisa e as botas e se retorcia como presa de uma dor extrema.As marca do torso e das costas tinham um cor lívido. Intrincada-las curvas e arcos trocavam do púrpura profun­dou ao vermelho e ao negro a cada espasmo enquanto ele se sujeitava o abdo­men.

   Gabrielle correu ao seu lado e se ajoelhou. O corpo dele se contraiu grosseiramente e lhe fez encolher-se em uma tensa bola.

   —Lucan! O que está acontecendo?

 

—Vai —lhe grunhiu ele quando ela tentou lhe tocar ao tempo que se apar­taba como um animal ferido.

   —Vai! Não é... coisa tua.

—E uma merda não é!

   —Vai... aaah! —Seu corpo voltou a sofrer uma convulsão, pior que a anterior—. Te aparte de mim.

   lhe ver com tanto dor fez que o pânico se apoderasse dela.

   —O que te está acontecendo? me diga o que tenho que fazer!

   Ele se tombou de costas como se umas mãos invisíveis houvessem lhe feito dá-la volta. Os tendões do pescoço lhe viam tensos como cabos. As veias e as artérias lhe sobressaíam nos bíceps e os antebra­ços. Tinha uma careta nos lábios que deixava ao descoberta os afiados presas brancas.

—Gabrielle, te largue daqui!

   Ela se apartou para lhe ceder espaço, mas não estava disposta a lhe deixar sofrendo dessa maneira.

   —vou procurar a alguém? Posso dizer-lhe A Gideon.

   —Não! Não... não o pode dizer. Não... A ninguém. —Ele levantou os olhos para ela e Gabrielle viu que se esgotaram em duas magras raias negras rodeadas por uma brilhante cor âmbar. Esse olhar fera lhe atendeu a garganta e lhe fez acelerar o pulso. Lucan se estremeceu e apertou os olhos com força.

—Passará. Sempre passa... ao final.

   Para demonstrá-lo, depois de um comprido momento, começou a a­rrastrar-se para ficar em pé. Resultou-lhe difícil; seus movimentos eram torpes, mas o grunhido que lhe dirigiu quando ela tentou lhe ajudar a comnvénceu para lhe deixar que o fizesse sozinho. Por pura força de vontade, levantou-se e se apoiou com o estômago contra a cama. Continuava ofegando e ainda tinha o corpo tenso e pesado.

 

—Posso fazer alguma coisa?

—Vai. —Pronunciou essa palavra com angústia—. Só... mantem longe.

   Ela permaneceu justo onde estava e se atreveu a lhe tocar ligeiramente o om