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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CONCÍLIO DE PEDRA / Jean Christophe Grangé
O CONCÍLIO DE PEDRA / Jean Christophe Grangé

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                   

 

 

Biblio VT

  

 

 

 

Ao todo, Diane Thiberge dispunha apenas de quarenta e oito horas. Partindo do aeroporto de Banguecoque, devia chegar a Phuket através de um voo interno e depois meter-se à estrada em direcção ao norte para alcançar Takua-Pa, na costa do mar de Andamão. Aqui, devia passar uma breve noite no hotel e pôr-se de novo a caminho às cinco horas da manhã, mantendo o trajecto que definira. Ao meio-dia, estaria em Ra-Nong, na fronteira birmanesa, onde se embrenharia no mangai para recolher o objecto da sua viagem. Feito isto, bastar-lhe-ia percorrer o mesmo trajecto, em sentido inverso, e apanhar o voo internacional com destino a Paris, no dia seguinte à noite. A diferença horária jogaria a seu favor ganharia cinco horas pela hora de Paris. Poderia apresentar-se ao serviço na segunda-feira de manhã, 6 de Setembro de 1999. Como uma flor. Mas eis que o avião para Phuket nunca mais chegava. Eis que nada se passava conforme o previsto. Diane sentiu um nó no estômago e correu para os lavabos. Invadiu-a uma náusea e pensou: ”É a diferença horária. Não tem nada a ver com o projecto”. Logo a seguir, vomitou até as entranhas lhe subirem à garganta. O sangue latejava nas artérias, a testa estava gelada, o coração palpitava algures, em toda a parte, no seu torso. Olhou-se ao espelho. Empalidecera. As madeixas claras e onduladas pareciam-lhe mais incongruentes do que nunca naquele país de moreninhas de cabelo liso, e a sua Altura essa altura imensa que a enchia de complexos desde a adolescência ainda mais disparatada.

 Diane humedeceu a cara, limpou a argola de ouro que lhe furava a narina direita, depois ajustou os seus pequenos óculos de hippie. Regressou à sala de trânsito, flutuando como um fantasma dentro da t-shirt. O ar condicionado pareceu-lhe gelado.

 Tornou a esquadrinhar o ecrã dos voos de partida. Nenhum anúncio para Phuket. Descreveu uns quantos passos. O seu olhar deteve-se nos painéis de aviso afixados por toda a sala, redigidos em tai e em inglês: qualquer pessoa que fosse surpreendida na posse de drogas duras no território da Tailândia seria condenada à morte por enforcamento. Nesse instante passaram dois chuis atrás dela. Fardas de caqui. Revólveres de coronha quadriculada. Mordeu os lábios: tudo se lhe afigurava hostil naquele aeroporto sinistro.

 Sentou-se e tentou dominar os tremores. Pela milésima vez nessa manhã, reviu todo o périplo em pormenor. Tinha de ser bem sucedida. Era a sua escolha. A sua vida. Não podia voltar a Paris de mãos vazias.

 Por fim, às catorze horas, o avião para Phuket descolou. Diane perdera cinco horas e meia.

 À chegada é que encontrou realmente os trópicos. Foi um alívio. Nuvens azuladas estiravam-se ao longe, focos de prata irradiavam no céu. À beira da pista oscilavam árvores lívidas enquanto a poeira turbilhonava em espirais de inquietude. Acima de tudo, havia o cheiro. O cheiro da monção, ardente, sufocante, saturado de frutos, de chuva, de putrefacção. A embriaguez da vida quando ultrapassa o seu próprio limiar e se decompõe. Diane fechou os olhos de deslumbramento e por pouco não se estatelou na escada acoplada ao avião.

 

 

 

 

 

 Deu uma corrida até à agência de aluguer de automóveis, arrancou as chaves das mãos da recepcionista e meteu-se no veículo. Já na estrada, a chuva começou a cair. Primeiro umas gotas, em seguida autênticas trombas de água. O seu estrondo no tejadilho produzia um ruído ensurdecedor. Os limpa-párabrisas não eram suficientemente altos para aquela lama avermelhada. Diane guiava com o rosto colado ao pára-brisas, os dedos aferrados ao volante.

 

 Dezoito horas. Mesmo ao anoitecer, a bátega amainou. Ao crepúsculo, a paisagem tornou-se cintilante. Arrozais reluzentes, casas castanhas, erguidas sobre estacaria, búfalos de ouro e cornos afilados. Por vezes, também, templos cinzelados, de telhados arregaçados... E, sem cessar, o céu estriado de relâmpagos, matizado de negro, que se desdobrava agora, à direita, numa vermelhidão languescente.

 

 Ela alcançou Takua-Pa às vinte horas. Só então se descontraiu. Apesar do atraso, apesar do pânico, ainda ia a tempo.

 

 Encontrou um hotel no centro da cidade, perto de um alto reservatório de água, e jantou sob um alpendre. Sentia-se muito melhor. A chuva, que tinha recomeçado, revestia todo o seu ser de um halo de frescura benfazeja.

 

 Foi então que elas chegaram. Umas rapariguinhas demasiado maquilhadas, apertadas em mini-saias de skai, ataviadas de coletes de malha minúsculos. Diana observou-as. Dez-doze anos, não mais. Assemelhavam-se a ultrajes de salto alto. No outro extremo da sala, uns colossos louros já se acotovelavam uns aos outros. Alemães ou australianos, possantes como peças de carne. De repente, Diane apercebeu-se de uma espécie de hostilidade a seu respeito, como se a presença dela prejudicasse as manobras que ligavam todo aquele pequeno mundo.

 

 Sentiu a bílis queimar-lhe a garganta. Ainda hoje, com quase trinta anos, não podia encarar a simples ideia do sexo sem ficar sufocada por um mal-estar, uma náusea radical. Fugiu para o seu quarto, sem olhar para trás, sem sentir a mínima compaixão por estas miúdas entregues à avidez dos machos.

 

 Deitada sob o mosquiteiro, pensou uma vez mais no seu objectivo. Pouco antes de adormecer, tornou a ver o painel ameaçador do aeroporto, as fardas dos chuis, as coronhas das suas armas. Parecia-lhe ouvir tinidos de ferrolhos longínquos, zoadas de helicóptero ainda mais longínquas...

 

Às cinco horas da manhã estava já a pé. A sua perturbação sumira-se. O sol brilhava. A janela transbordava de exuberância, como a vigia de um navio aberta para uma tempestade vegetal. Diane sentia-se disposta a regressar à selva se fosse preciso.

 

 Retomou o caminho e chegou a Ra-Nong ao fim da manhã. Exactamente como previra. Descobriu o mar: era mais uma longa hesitação de pântanos insinuando-se no meio de entrelaçamentos de árvores à superfície da água. Algures, ao fundo deste labirinto aquático, perdia-se a fronteira birmanesa. Um pescador, sem uma palavra, aceitou levá-la. Deslizaram logo sobre as ondas negras. O calor, a luz, as muralhas verdes que desfilavam: Diane absorvia todas as sensações, estóica, com a garganta seca, a pele arrepiada ao máximo.

 

 Uma hora mais tarde, atingiram uma língua de areia sobre a qual se erguiam uns edifícios de cimento. Ela pousou o pé na areia e saboreou a sensação de triunfo como se fosse uma criança: já ali estava. Em sítio algum do planeta existia um lugar que ela não pudesse alcançar...

 

 À frente do dispensário algumas crianças armavam zaragata, indiferentes à fornalha do meio-dia. Diane observou as suas guedelhas negras, os seus olhos escuros sob o traço leve das pestanas. Penetrou no edifício principal e perguntou por Teresa Maxwell. Estava encharcada em suor. Parecia-lhe que transpunha um espelho. Um espelho gasto por si de tanto o sonhar.

 

 Surgiu uma mulher idosa envergando uma camisola azul-marinha donde sobressaía uma larga gola branca. Um modelo às três pancadas. Sob o cabelo curto e grisalho, o rosto, largo e bonacheirão, dir-se-ia fixado numa constante expressão de desconfiança. Diane apresentou-se. Mme Maxwell conduziu-a à extremidade de uma galeria rasgada por janelas, até um escritório, que à excepção de uma mesa cambada e duas cadeiras estava desprovido de mobiliário.

 

 Diane sacou da sua pasta, reduzida ao essencial. Teresa perguntou, num tom de suspeição:

 

 Não veio com o seu marido?

 

Não sou casada.

 

 O rosto crispou-se. A mulher observava a argola de ouro na narina.

 

 Que idade tem?

 

 Vou fazer trinta anos.

 

 É estéril?

 

 Não creio.

 

 Teresa folheou os documentos. Resmungou: ”Não sei o que eles andam a fazer em Paris...” Depois disse mais alto, cravando o olhar no de Diane:

 

 Não tem nada o perfil adequado, menina. É jovem, bela, solteira. O que a trouxe aqui?

 

 Diane empertigou-se, eléctrica. Tinha a voz enrouquecida, não falara nos últimos dois dias:

 

 Minha senhora, para chegar até si, levei quase dois anos. Tive que preencher uma data de papelada, sujeitar-me a interrogatórios. Espiolharam o meu passado, os meus rendimentos, a minha vida íntima. Tive que me submeter a exames médicos, a testes psicológicos. Tive que fazer seguros novos, vir previamente duas vezes a Banguecoque, gastar fortunas. Hoje, a minha documentação está o mais possível em ordem, perfeitamente legal. Acabo de percorrer quinze mil quilómetros e retomo o meu trabalho depois de amanhã. Sendo assim, se não se importa, é melhor passar ao essencial...

 

 Instalou-se um silêncio tenso no compartimento de cimento em bruto. De súbito, um breve sorriso apagou as rugas da velhota:

 

 Siga-me.

 

 Atravessaram uma sala de cujo tecto pendiam ventoinhas. Ao longo das janelas ondulavam cortinados e um cheiro a fenol pairava por ali como que transportado por ondas de febre. Entre as filas de camas de armação metálica havia crianças de todas as idades a gritar, a brincar, a correr, enquanto algumas vigilantes tentavam dominar a situação. A energia da infância parecia lutar contra uma atmosfera adocicada de convalescença. Não tardaram a surgir pormenores assustadores.

 

Enfermidades. Atrofias. Cicatrizes. O olhar de Diane deu com um bebé sem pés nem mãos. Teresa Maxwell comentou:

 

 Veio da índia do Sul, do outro lado do Andamão. Uns fanáticos hindus mutilaram-no depois de terem morto os pais, que eram muçulmanos.

 

 Diane sentia voltar a náusea. Ao mesmo tempo atravessou-a um pensamento absurdo: como é que esta mulher podia suportar um pulôver com tamanho calor? Teresa recomeçou a andar. Entraram numa segunda sala. Mais camas. E também balões coloridos que atravessavam o espaço. A mulher apontou para um grupo de raparigas, prostradas numa única cama:

 

 São karens. Os pais foram queimados vivos, num campo de refugiados, o ano passado. Eles...

 

 Diane apertou-lhe o braço, a ponto de lhe magoar a articulação.

 

 Minha senhora, ciciou ela, quero vê-lo. Agora. A directora sorriu, sem nenhuma alegria:

 

 Olhe, está ali.

 

 Diane virou a cabeça e descobriu, num recanto da sala, o combate da sua vida: um rapazinho isolado que brincava com fitas de papel crespão. Reconheceu-o imediatamente, tinham-lhe enviado polaróides. Os ombros dele eram tão franzinos que parecia que o vento o ajudava a aguentar a t-shirt. O rosto, muito mais pálido que o dos outros, exprimia uma concentração intensa, hirta, quase demasiado nervosa.

 

 Teresa Maxwell cruzou os braços.

 

 Deve ter uns seis ou sete anos. Como saber? Ignoramos tudo acerca dele: a sua origem, a sua história. É, sem dúvida, sobrevivente de um campo. Ou talvez o rebento de alguma prostituta. Encontraram-no em Ra-Nong, no meio da horda comum dos mendigos. Balbucia uma algaraviada que ninguém aqui compreende. Acabámos por apanhar duas sílabas, sempre as mesmas, ”Lu” e ”Sian”. Pusemos-lhe o nome de ”Lu-Sian”.

 

 Diane tentou sorrir, mas os seus lábios ficaram petrificados. Esquecera-se do calor, das ventoinhas, das náuseas. Arredou os balões que ainda esvoaçavam, ajoelhou-se ao pé da criança e quedou-se ali, a admirá-la. Murmurou:

 

 Lu-Sian, hem? Então chamar-se-á Lucien.

 

Diane Thiberge fora uma rapariguinha como as outras. Uma criança apaixonada que em tudo se aplicava, se concentrava, se empenhava cheia de fervor. Quando brincava, inclinando a fronte, era sempre com um tal ar de gravidade que os adultos hesitavam em importuná-la. Quando via televisão, era com uma tal concentração que se diria que ela procurava enfiar as imagens no fundo dos olhos. Até mesmo o seu sono se assemelhava a um acto de vontade, a um compromisso de toda a sua pessoa, como se tivesse jurado a si própria sair de manhã, das dobras do seu edredão, mais viva e resplandecente do que nunca.

 

 Diane crescia cheia de confiança. Deixava-se embalar pelas histórias que se sussurram às crianças quando a noite cai. Contemplava o seu futuro através dos filtros, coloridos e enganadores, dos desenhos animados, dos livros de estampas, dos teatros de marionetas. O seu coração estava cheio de plumas e os seus pensamentos cristalizavam-se, à maneira de uma neve de Abril, em torno de certezas felizes. Sabia que haveria sempre um príncipe para a levar, uma madrinha para a revestir de luz quando soasse a hora do baile. Estava tudo escrito algures. Bastava esperar.

 

 Por conseguinte, Diane esperou.

 

 Mas foram outras as forças que vieram arrebatá-la.

 

Aos doze anos, sentiu que uns desejos estranhos cresciam dentro de si. Experimentava a impressão de que o seu corpo se dilatava, se enchia de confusão. Já não tinha aspirações ligeiras, mas pulsões sombrias, angustiantes, que retalhavam no seu peito uma dor misteriosa. Falou nisto às amigas. As raparigas escarneceram, encolheram os ombros, mas Diane compreendeu que elas experimentavam exactamente as mesmas sensações. Simplesmente, haviam optado por esconder-se atrás de incertas tentativas de maquilhagem ou do fumo dos seus primeiros cigarros. Semelhantes estratégias não convinham a Diane. A adolescente queria fitar a realidade de frente, qualquer que ela fosse.

 

 Aliás, acometia-a uma lucidez implacável. Sentia-se agora capaz de desmascarar, instantaneamente, as mentiras, os compromissos das pessoas que a rodeavam. O universo dos adultos caía do seu pedestal. Os homens e as mulheres que lhe tinham sido sempre apontados como modelos revelavam-se simples criaturas de compromisso, pusilânimes, hipócritas, insidiosas.

 

 A começar pela mãe.

 

 Uma manhã, Diane decretou que a mulher com quem vivia sozinha desde que nascera não a amava, nunca a amara. Por mais que Sybille Thiberge dissesse ou fizesse, a adolescente já não acreditava nos seus enredos de mãe modelo. Pelo contrário: desconfiava cada vez mais. Demasiado loura. Demasiado bela. Demasiado sensual. Diane revia os pequenos pormenores que constituíam aos olhos dela os indícios da natureza artificial da mãe, totalmente voltada para si mesma e para os seus poderes de sedução. Aquela maneira de se requebrar assim que um homem a adulava um pouco mais de perto. Aquele modo de rir, extravagante, quando um homem rondava pelas cercanias. Na sua mãe, tudo era postiço, calculado, afectado. Não passava de um chorrilho de mentiras, e a sua vida comum era uma impostura.

 

 Teve a prova disto ao ocorrer o acidente, em Junho de 1983, quando Diane voltava sozinha do casamento de Isabelle Ybert, a sua madrinha. Sybille preferira não a acompanhar e ficar nos braços de um novo amante. ”O acidente”. O termo não convinha, mas era assim que Diane designava mentalmente o que lhe acontecera nas ruelas de Nogent-sur-Marne. Ainda hoje se recusava a relembrá-lo. Era apenas um instante em que brilhavam folhagens de salgueiros, luzes distantes, e em que se ouvia, muito próximo, o arquejo de um encarapuçado... E quando acabava por duvidar da própria realidade do acontecimento, bastava-lhe palpar as finas cicatrizes que lhe marcavam a pele sob os pêlos púbicos.

 

 A adolescente ignorava como um tal pesadelo pudera tornar-se real. Mas estava persuadida de uma verdade: tudo sucedera por causa da mãe. Por causa do seu egoísmo, da sua indiferença radical a propósito de tudo o que não fossem as suas nádegas bem musculadas e o sedento desejo dos seus amantes, o que constituía à volta dela uma espécie de círculo maléfico. Pois não é verdade que a deixara regressar sozinha por esta única razão, esquecendo-a pura e simplesmente? A agressão sofrida era o seu elemento de prova. O seu testemunho definitivo.

 

 Diane tinha catorze anos. Nada contou a Sybille. A sua vingança parecia-lhe mais perfeita, mais consumada, se deixasse a mãe na ignorância do drama. Tratou-se, sozinha, e selou a sua mágoa com este segredo. Em contrapartida, exigiu, mal o novo ano lectivo começou, o ingresso no internato. Sybille discutiu um pouco, por uma questão de pró-forma, mas anuiu ao seu pedido, muito contente, sem dúvida, por se desembaraçar daquela grande magricela taciturna, que principiava a fazer-lhe sombra no plano da sedução.

 

 Taciturna, é bem certo que Diane o era. E isso devia-se ao facto de reflectir, de tirar lições da sua experiência. O mundo, o autêntico, não era afinal senão violência, traição, malefício. A existência baseava-se nesta força irreprimível, neste núcleo duro de ódio, sempre pronto para se inflamar à mínima ocasião, no interior de cada ser humano. Diane decidiu estudar uma tal força. Apreender a violência estrutural do mundo, observá-la, analisá-la.

 

 Tomou duas resoluções.

 

 A primeira: consagrar-se, depois do liceu, à Biologia e à Etologia a ciência do comportamento animal. Já escolhera o seu domínio de especialização: os predadores. E, mais particularmente, as técnicas de caça e de combate que permitiam que as feras, os répteis, e até os insectos, reinassem no seu território e sobrevivessem graças à destruição. Era uma forma de ela mergulhar na própria essência da violência. Uma violência natural, alijada de toda a consciência, de toda a motivação exterior à simples lógica da vida. Era também, quiçá, um modo de legitimar o seu acidente pessoal, de lhe atenuar o horror, inserindo-o numa lógica mais vasta, mais universal.

 

 Eis no tocante à cabeça.

 

 Quanto ao corpo, Diane escolheu o wing-chun.

 

 Literalmente: a ”Primavera eterna”. O wing-chun era a mais rápida, a mais eficaz das escolas de artes marciais shaolin. Uma técnica que privilegiava o combate próximo e que, segundo se dizia, fora iniciada por uma monja budista. Ao reabrirem as aulas no ano escolar de 1983, Diane inscreveu-se num curso especializado, perto do seu internato, na região de Fontainebleau. Em apenas um ano, manifestou aptidões fora do vulgar. Nesta altura, já media mais de um metro e setenta e cinco e pesava uns escassos cinquenta quilos. Apesar da sua silhueta de ave pernalta, dava provas de uma agilidade de acrobata e de uma força muscular excepcional.

 

 Atentando no fenómeno, os instrutores ofereceram-se para lhe proporcionar uma formação mais aprofundada, incluindo uma iniciação no wou-te (a virtude, a disciplina marcial). Diane recusou. Não queria ouvir falar de filosofia nem de energia cósmica. Queria simplesmente forjar o seu corpo como uma arma, a fim de já não ser, nunca mais, a rapariga a quem se podia surpreender.

 

 Os mestres sábios e rígidos asiáticos ficaram desconcertados ao ouvir tais respostas agressivas. Mas sabiam que tinham ali uma campeã, e, com filosofia ou sem ela, ocasiões destas eram demasiado raras.

 

 O treino intensificou-se. As competições sucederam-se. Em 1986, a aluna Thiberge ganhou o campeonato de França na categoria júnior. Em 87, obteve o cinturão de prata nos campeonatos da Europa e depois, em 88, o cinturão de ouro. As suas vitórias eram fulgurantes. Os árbitros ficavam embasbacados, e o público ligeiramente decepcionado. Sempre próxima, sempre inclinada, Diane, com o olhar pregado nas mãos das adversárias, não as largava. Ainda as raparigas estavam à procura de uma abertura e já se viam derrubadas, de ombros colados ao chão.

 

 Nada parecia poder parar a ascensão da jovem atleta. No entanto, em 1989, Diane renunciou à competição. Tinha dezanove anos e, devido a uma espécie de milagre, o seu rosto nunca fora tocado nem o seu corpo atingido gravemente. Mais cedo ou mais tarde, esta sorte acabaria por mudar e, de resto, ela já alcançara o seu objectivo.

 

 Tornara-se aquilo em que resolvera tornar-se.

 

 Uma jovem perigosa sob todos os aspectos e que era preferível passar a evitar.

 

  Diane Thiberge escutava então Frankie goes to Hollywoonum walkman minúsculo, saturado de baixos. Adorava este grupo porque ele estava no cruzamento de várias tendências, aparentemente contraditórias, e todavia conjugadas aqui numa magia única.

 

 Em primeiro lugar, Frankie era um grupo de duros, de malandrins, vindos directamente de Liverpool. Era também um grupo pós-disco, que amadurecera um sentido de ritmo, o groove, capaz de enfeitiçar qualquer frequentador de pistas de dança. Enfim, Frankie era um grupo gay. E era o mais louco: essa deflagração de urros, de pulsações bárbaras, de slogans veementes, emanava de uma banda de malucas que pareciam acabadas de sair da Corte de Luís XIII. Semelhante característica dava a estes músicos uma ligeireza, uma mobilidade, uma destreza alucinantes. Assim, o quinto membro do grupo não tocava nenhum instrumento. Mal se poderia dizer que cantava... Dançava simplesmente, era ”o homem em movimento”, ao fundo do palco, rebolando as clavículas no seu blusão de cabedal. Diane até se arrepiava: sim, a sério, Frankie era um grupo encantado.

 

 O frenesim das suas noites de estudante limitava-se ao seu walkman. Não saía, não dançava, não se dava com ninguém. Concentrava-se nos livros de etologia, revendo em cada serão as obras de Lorenz ou de Von Uexkúll e consumindo hambúrgueres do MacDonalds uns atrás dos outros, no seu estúdio do bairro de Cardinal-Lemoine.

 

 No entanto, nessa noite, Diane decidira lançar-se.

 

 Nathalie a pequena peste dos trabalhos práticos de Biologia que sabia atrair às suas garras tudo o que a UER contava de mais apetitoso organizava uma festa e ela resolvera ir até lá.

 

 O momento de agir era agora ou nunca.

 

 O momento de saber.

 

 Mais tarde, Diane recordaria frequentemente esta noite crucial. A chegada ao prédio de pedra de cantaria, no boulevarSaint-Michel, o silêncio da vasta escadaria, atapetada de veludo. Em seguida a pulsação profunda, como que perseguida pelos graves, que descia dos andares superiores. Ela tentava reprimir os batimentos do seu coração, que percutiam o ritmo a contratempo, e cerrava os dedos sobre a garrafa gelada de champanhe, comprada de propósito. Atrás da grande porta de madeira envernizada, as batidas eram tão violentas que pareciam fazê-la saltar dos gonzos. ”Não é possível que me ouçam”, disse ela para si, carregando na campainha.

 

 Quase imediatamente, a porta abriu-se deixando passar torrentes de música. Reconheceu logo a voz de Holly Johnson, o cantor dos Frankie, que berrava: ”RELAX! DON’T DO IT!”. Era um bom presságio: o seu grupo fetiche acompanhava-a nesta prova. Uma morena de feições ossudas, reluzentes de uma maquilhagem exagerada, bamboleava-se no limiar da porta. Nathalie a Górgona, em pessoa:

 

 Diane? gritou ela. Estou super-contente por teres vindo...

 

 Sorriu da mentira enquanto a rapariga a mirava dos pés à cabeça. Diane trazia um casaco de malha preto com botões de nácar e umas calças justas e compridas de moletão escuro esta matéria reinava então em absoluto sobre o corpo das raparigas. Quanto ao resto, estava envolvida numa imensa capa acolchoada, também preta.

 

Vieste com o teu pijama e o teu edredão? escarneceu Nathalie.

 

 Diane beliscou entre dois dedos o vestido de tafetá preto da rapariga.

 

 Estás bem mascarada esta noite, não é?

 

 Nathalie deu uma gargalhada. Tirou-lhe das mãos a garrafa de champanhe e berrou:

 

 Entra. Põe as tuas coisas na sala ao fundo.

 

 Lá dentro, a festa estava no auge. Depois de se ter desembaraçado da capa, Diane postou-se junto ao buffet, ponto de encontro dos que não conheciam ninguém. Jurara a si mesma não tocar numa gota de álcool a fim de conservar maior lucidez em todas as circunstâncias. Todavia, após uma hora de aborrecimento, já ia na terceira taça. Bebia em pequenos goles, deitando breves olhadelas à pista de dança.

 

 Começara a contagem decrescente.

 

 Embora não possuísse uma grande experiência de convívios nocturnos, Diane conhecia de algum modo os seus rituais. À meia-noite começavam os preliminares. As raparigas dançavam, rodopiavam, exibiam, acentuando os efeitos dos movimentos do cabelo e do corpo, enquanto os machos, pelo contrário, se retraíam: olhares à socapa, sorrisos breves, gracejos de aproximação...

 

 Às duas horas da madrugada, abria-se um período de efervescência. A música subia de tom. O álcool varria as inibições. Todas as esperanças eram permitidas. Os rapazes passavam aos actos, vociferando por cima da barafunda, arremetendo para as suas presas. Foram de novo os Frankie que propulsaram a assistência até ao delírio. Two Tribes. Um canto de revolta contra a guerra, sustentado por uma rítmica selvagem, do qual Diane conhecia as mínimas notas, os mínimos riffs.

 

 Desta vez, abandonou-se à música. Lançou-se no meio dos outros, sendo as suas patas de gafanhoto a garantia do melhor que ela podia. Notou alguns olhares na sua direcção. Diane mal acreditava nisto. Tímida entre todas, sabia que intimidava ainda mais. A maior parte das vezes, a sua beleza, a cabeleira ondulada e a altura desmedida mantinham os pretendentes a boa distância. Mas naquela noite não havia dúvida: alguns temerários dirigiam-lhe a palavra.

 

 Sentia agora o seu corpo a desdobrar-se em espirais ligeiras, a pairar acima do ritmo, a circular entre os outros. Foi então que um tipo lhe pegou na mão para dançar um rock. Em todas as pistas do mundo, há sempre um gajo que se obstina em multiplicar os passes complicados seja qual for a batida da música. Diane recuou logo. O parceiro insistiu. Ela ergueu as duas palmas, ameaçadora. Não. Não dançava o rock. Não. Não lhe pegavam na mão. Ninguém lhe pegava em coisa alguma. O jovem desatou a rir e sumiu-se na multidão.

 

 Ela ficou petrificada por uns instantes, fitando a mão como se acabasse de ser queimada pelo contacto. Cambaleou, recuou, depois deixou-se escorregar ao longo da parede. Às apalpadelas, encontrou uma taça meio vazia pousada no chão. Bebeu-a de um trago e agarrou-a bem sem sair mais dali. A tristeza invadia-a. Esta cena acabava de lhe lembrar a cruel verdade: não suportava o mais pequeno afloramento de pele. Nem a mínima carícia, o mínimo toque. Sofria de uma fobia da carne.

 

 Às três horas da madrugada, a música adquiriu um cunho mais esotérico: O Superman, de Laurie Andersen. Uma estranha canção de embalar, entremeada de suspiros encantatórios. Era a hora da derradeira oportunidade. Na penumbra, já só restavam alguns fantasmas isolados, que se afundavam ao ritmo da melopeia. Caçadores teimosos. E umas pobres raparigas esfalfadas, que recusavam confessar-se vencidas.

 

 Diane escrutava os rostos esmaecidos, as silhuetas vacilantes. Tinha a impressão de contemplar um campo de batalha, coberto de feridos e de moribundos. Foi buscar a capa, depois ladeou discretamente a mesa do buffet juncada de garrafas vazias. O seu espírito já estava lá fora. Imaginava o ar gelado que a desembriagaria e lhe permitiria encarar plenamente o seu fracasso.

 

 Neste mesmo instante sentiu umas mãos a cingir-lhe a cintura.

 

 Rodou, apoiada à mesa, tensa como um arco.

 

Cercavam-na três tipos com o hálito carregado de álcool.

 

Eh! rapazes: a festa ainda não rendeu tudo o que tem a render.

 

 Um dos agressores estendia novamente as mãos. Diane esquivou-se ao gesto com um meneio e voltou-se para a mesa. Largou a capa, encontrou outra taça e fez menção de beber. Durante uns momentos, pensou que eles se tinham ido embora, mas um sopro alcoolizado rasou-lhe a nuca. A taça estalou entre os seus dedos. Um caco ostentava marcas de baton. Ela passou-lhe a palma da mão por cima e sentiu o vidro cortar-lhe a carne.

 

 Deixem-me em paz, murmurou. Nas suas costas, os tipos alardeavam:

 

 Oh, oh, oh! está a fazer-se cara...

 

 Lágrimas ardentes transpuseram as fronteiras da armação de tartaruga dos seus óculos. Distintamente, pensou: ”Não o faças”. Mas um dos bebedolas produzia agora ruídos de sucção mesmo ao pé do seu ouvido, tartamelando histórias de ratas, de grelos, de bimbas. ”Não o faças”, repetiu ela para si mesma. No entanto, acabava de tirar os óculos e já atava a madeixa caída num carrapito. Enquanto terminava o gesto, um dos fulanos introduzira as mãos sob o seu casaco de malha. Ela sentiu o calor dos dedos a roçar-lhe os seios ao mesmo tempo que a voz segredava por entre risos:

 

 Não me tentes, minha linda, tu...

 

 O estrondo feito pelo maxilar sobrepôs-se à música dos Art Of Noise.

 

 O rapaz foi catapultado contra a lareira, rasgando o rosto numa aresta de mármore. Diane desferira um ataque de cotovelo Jang tow. Pensou uma vez mais: ”NÃO”, mas a sua mão partiu num golpe contra as costelas do segundo adversário, esmagando-as num único estalido. Ele foi estatelar-se na mesa do buffet que vergou em mil tinidos e pregas de toalha.

 

 Diane já não se mexia. O wing-chun baseia-se na economia absoluta do gesto e da respiração. O último patife desaparecera. Só então ela tomou consciência dos rostos apavorados, dos murmúrios acabrunhados que a rodeavam. Pôs os óculos. Estava espantada não pela violência da cena nem pelo escândalo. Pela sua calma no meio daquilo tudo. À direita, a voz de Nathalie esbravejou:

 

 Tu... mas tu... estás doente ou quê?

 

 Diane virou-se devagar para a morena e declarou:

 

 Lamento muito.

 

 Atravessou a sala, depois ainda gritou de novo, por cima do ombro:

 

 Lamento muito!

 

 O boulevarSaint-Michel estava exactamente como ela esperara.

 

 Deserto. Gelado. Luminoso.

 

 Diane caminhava através das suas lágrimas, simultaneamente mortificada e liberta. Obtivera a prova que aguardara. A prova de que a sua existência decorreria sempre assim: fora do círculo, fora dos outros. E pensou uma vez mais no acontecimento inicial. Aquela cena atroz que rompera nela a pulsão mais natural e erguera em torno do seu corpo uma prisão transparente, incompreensível, e inviolável.

 

 Reviu os salgueiros, as luzes.

 

 Sentiu as ervas na boca, o hálito do encarapuçado.

 

 Viu surgir também, num reflexo de ódio, o rosto da mãe. Um sorriso de cansaço bailou-lhe nos lábios: nessa noite, já não tinha força suficiente para detestar ninguém. Chegou à Place Edmond-Rostancuja fonte resplandecia de luzes, tendo à esquerda as frondescências benevolentes do Jardim do Luxemburgo. Num impulso, deu uma corrida e tocou com os dedos nas folhas das árvores que assomavam do gradeamento negro e dourado.

 

 Sentia-se tão leve que lhe pareceu que nunca mais iria abrandar.

 

 Tudo isto se passava no sábado, 18 de Novembro de 1989. Diane Thiberge ainda não tinha vinte anos, mas já o sabia: acabava de enterrar para sempre a sua vida de rapariga.

 

 Não precisa, de nada? Não, obrigada. Tem a certeza?

 

 Diane ergueu os olhos. A hospedeira de bordo, de farda azul e sorriso púrpura, envolvia-a num olhar compadecido. Um olhar que acabou por a arreliar. Esfalfava-se a cortar os fritos da ”ementa júnior” que tinham sugerido ao garotito pouco depois da descolagem de Banguecoque. Sentia os talheres de plástico a torcerem-se sob os seus dedos, a comida a esmagar-se sob os seus gestos demasiado bruscos. Parecia-lhe que toda a gente a observava, reparava na sua falta de jeito, no seu nervosismo.

 

 A hospedeira eclipsou-se. Diane ofereceu mais um bocado à criança, que se recusava a abrir a boca. Ficou muito corada, inteiramente desamparada. Pensou novamente no espectáculo que estava a dar com o rosto afogueado, as madeixas em desalinho e o seu garoto de olhos negros. Quantas vezes teriam as hospedeiras contemplado esta mesma cena? Ocidentais desorientadas, trémulas, trazendo o seu destino na bagagem?

 

 A silhueta azul voltou à carga. ”Talvez uns bombons...”Diane esforçou-se por sorrir: ”Não, de verdade, está tudo bem.” Tentou mais uma ou duas colheradas; em vão. Os olhos da criança estavam pregados ao ecrã que difundia desenhos animados.

 

Ela convenceu-se de que uma refeição falhada não era um assunto de Estado. Afastou o prato, colocou os auscultadores nos ouvidos de Lucien e depois hesitou. Devia ligá-los ao inglês? Ao francês? Ou simplesmente à música? Cada pormenor a mergulhava na incerteza. Optou pelo menu musical e regulou o volume com precaução.

 

 A atmosfera apaziguou-se dentro do avião. Levaram os tabuleiros da refeição, as luzes baixaram. Lucien já dormitava. Diane deitou-o nos dois assentos livres, à sua direita, e instalou-se por sua vez, enfiando-se sob a manta regulamentar. Em geral, durante os voos de longa distância, era a hora que ela preferia: a cabina imersa na obscuridade, o ecrã luminoso a brilhar ao longe, os passageiros imóveis, encolhidos como casulos sob os cobertores e os auscultadores... Tudo parecia flutuar, pairar entre sono e altitude, algures acima das nuvens.

 

 Diane apoiou a cabeça no encosto e procurou permanecer imóvel. Aos poucos, os seus músculos descontraíram-se, os seus ombros descaíram. Sentiu a calma afluir outra vez às veias. De olhos fechados, deixou desfilar, sob a tela preta das pálpebras, as diferentes etapas que a haviam trazido até aqui a esta viragem capital da sua existência.

 

 Os seus êxitos desportivos e as suas proezas mundanas estavam longe. Diane obtivera o doutoramento em Etologia com distinção, em 1992: As estratégias de caça e a organização das áreas de predação entre os grandes carnívoros do Parque Nacional Masai Mara, no Quénia. Trabalhara logo a seguir para várias fundações privadas, que consagravam avultados fundos ao estudo e à protecção da natureza. Diane viajara pela África subsariana, pela Ásia do Sudeste e a índia, em especial por Bengala, no quadro de um programa de salvaguarda do tigre do Sundarband. Distinguira-se igualmente por um estudo de um ano sobre os costumes dos lobos canadianos, os quais seguira e observara, sozinha, até aos confins dos Territórios do Noroeste, parte mais setentrional do país.

 

 Levava por essa altura uma existência de estudo e viagens, ao mesmo tempo nómada e solitária, o mais perto possível da natureza, e, ao fim e ao cabo, em conformidade com as suas esperanças de criança. Contra tudo e todos, apesar dos seus traumas, apesar das suas taras secretas, Diane construíra uma espécie de felicidade bem sua, e erigira-se em força de independência.

 

 Contudo, no ano de 1997, via surgir uma nova etapa.

 

 Faria trinta anos em breve.

 

 Isto nada significava em si mesmo. Sobretudo numa mulher como Diane: o seu físico de grande pau-de-virar-tripas e a sua vida ao ar livre preservavam-na melhor que a qualquer outra das corrupções do tempo. Do ponto de vista biológico, porém, o número 3 assinalava uma barreira. Enquanto especialista em ciências da vida, ela sabia que era nesta idade que a matriz feminina começava, imperceptivelmente, a degenerar. Em boa verdade, mau grado os costumes em voga nos países industrializados, os órgãos genitais da mulher eram concebidos para funcionar muito cedo à maneira dessas pequenas mamãs africanas cuja idade andava por uns escassos quinze anos e com quem Diane tantas vezes se cruzara. Esta passagem à casa dos trinta lembrava-lhe, simbolicamente, uma das suas mais profundas verdades: nunca teria filhos. Pela simples e óbvia razão de que nunca teria um amante.

 

 Não estava pronta para esta nova renúncia. Pôs-se à procura de soluções. Comprou livros especializados e mergulhou, com um nó na garganta, em plena noite vermelha das técnicas de procriação assistida. Havia, primeiro, a inseminação artificial. No seu caso, deveria ponderar a fórmula ICI (inseminação com doador). As palhetas de esperma viriam de um banco especializado e seriam injectadas quer ao nível do orifício interno do colo, quer na cavidade uterina, durante o período do ciclo menstrual mais favorável à fecundação. Os médicos iriam então penetrar nela com os seus instrumentos pontiagudos, aduncos, gelados. A substância de um desconhecido iria insinuar-se no seu ventre, fundir-se no seio dos seus mecanismos fisiológicos. Imaginava os seus órgãos cavidade uterina, trompa de Falópio, ovários... a reagir, a activar-se em contacto com o outro”. Não. Nunca. A seus olhos, seria uma espécie de violação clínica.

 

 Inteirou-se da segunda técnica: a fecundação in vitro. Tratava-se, desta vez, de colher os óvulos por meio de uma punção e de os fecundar artificialmente em laboratório. A ideia desta operação à distância, nas brumas geladas de uma sala estéril, seduzia-a. Prosseguiu a leitura: recolocava-se então um ou vários embriões no útero da mulher, por via vaginal. Diane deteve-se e compreendeu, uma vez mais, a sua estupidez. O que imaginara ela: que a sua gravidez se desenrolaria numa proveta, atrás de um vidro embaciado de geada? Que veria o embrião formar-se a pouco e pouco, numa mutação desencarnada?

 

 As suas fobias tenazes erguiam um muro, uma parede indestrutível entre ela e qualquer projecto de parto. O seu corpo, o seu útero permaneceriam sempre estranhos a estes desígnios, a estes desenvolvimentos maravilhosos. Diane entrou num período de profunda depressão. Passou algum tempo numa clínica de repouso, em seguida refugiou-se na vivenda pertencente a Charles Helikian, o marido da sua mãe, na encosta do Mont-Ventoux, no Lubéron. Aqui, nesta doce estufa de sol e grilos, é que ela tomou uma nova resolução. Já que excluía qualquer tentativa orgânica, mais valia escolher uma nova via: a da adopção. Em definitivo, Diane preferia uma tal orientação, que era um autêntico”compromisso moral e já não uma tentativa distorcida de imitar a natureza. Na sua situação, era a decisão mais coerente e sincera. Perante si mesma. Perante a criança que partilharia da sua vida.

 

 No Outono de 1997, efectuou as primeiras diligências. Procuraram, a princípio, dissuadi-la por todos os meios. Em teoria, a adopção estava aberta aos solteiros. Na prática, era muito difícil obter o aval da DDASS em semelhante situação, que podia sugerir hábitos homossexuais. Diane recusou desanimar e redigiu o processo de pedido de deferimento. Começaram então longos meses de entrevistas, de requerimentos, de exames e pareciam rodar em circuito fechado e nunca mais chegar a bom termo.

 

 Perto de ano e meio após o seu primeiro requerimento, ainda nada se esclarecera. O padrasto ofereceu-se para intervir em favor dela. Podia, segundo dizia, dar um empurrão ao processo. Diane rejeitou sem rodeios. Esta intervenção constituiria uma ingerência, mesmo indirecta, da sua mãe no seu próprio destino. Depois mudou de ideias. As suas obsessões e cóleras não deviam interferir num projecto tão importante. Nunca chegou a saber o que Charles Helikian fez, mas, um mês mais tarde, recebia o assentimento da DDASS.

 

 Restava encontrar o orfanato que lhe proporia a criança. Diane sempre imaginara que se trataria de um rapazinho e que ele viria de um país longínquo. Consultou múltiplas organizações que apadrinhavam lugares de acolhimento nos quatro cantos do mundo, e sentiu-se de novo perdida. Uma vez mais, Charles serviu de intercessor. Sendo mecenas nas horas vagas, atribuía todos os anos alguns fundos substanciais à Fundação Boria-Mundi, que financiava vários orfanatos na Ásia do Sudeste. Se Diane aceitasse orientar-se para esta fundação, as últimas diligências poderiam decorrer bastante depressa.

 

 Três meses mais tarde, ia já a caminho do orfanato de Ra-Nong, após duas viagens sucessivas a Banguecoque para acertar os procedimentos administrativos. Charles supervisionara a escolha do pupilo e tivera em conta que, ao contrário da maior parte das mães adoptivas, Diane desejava recolher uma criança com mais de cinco anos. Habitualmente, as mulheres optavam por um recém-nascido porque supunham que a adaptação dele seria mais fácil. Esta tendência desagradava a Diane, até a revoltava: a ideia de que certos órfãos, privados de tudo, tinham ainda por cima a pouca sorte de crescerem demasiado ou de serem abandonados tarde de mais levava-a naturalmente a interessar-se por estes enjeitados...

 

 De repente, o garotito estremeceu ao lado dela. Diane abriu os olhos, descobrindo a cabina do avião ensolarada. Compreendeu que estavam prestes a aterrar. Cheia de pânico, apertou contra si o seu menino e sentiu o contacto dos trens de aterragem sobre a pista. Não eram os pneus que queimavam a pista, eram os seus próprios sonhos, os dela, que desafiavam agora a realidade.

 

 Entre muitas outras resoluções, Diane decidira respeitar, desde o primeiro dia, os seus horários de trabalho. Queria habituar Lucien, o mais depressa possível, ao ritmo da vida quotidiana que ambos levariam. Ora, naquele momento, estava enfronhada na redacção de um relatório sobre o ”ritmo circadiano dos grandes carnívoros, no Parque Nacional de Hwange, no Zimbabwe”. Devia acabar urgentemente o documento a fim de requerer novos fundos junto do WWF International, que já co-financiara a missão na África Austral. Eis porque se dirigia todas as manhãs ao laboratório de etologia da faculdade de Orsay, onde lhe tinham atribuído um pequeno gabinete ao pé da biblioteca para lhe ser possível verificar cada uma das suas referências científicas.

 

 Para tomar conta da criança, Diane contratara uma jovem tailandesa, estudante na Sorbonne, que falava um francês impecável e parecia talhada em doçura e ternura. Na primeira semana, cumpriu a sua promessa. Saía de casa às nove horas da manhã e voltava às seis da tarde. Todavia, na segunda-feira seguinte começou a falhar. Partia um pouco mais tarde todas as manhãs. Voltava um pouco mais cedo todas as tardes. Não cessava, apesar da sua resolução, de prolongar a sua presença em casa tal qual uma estação de amor que aumentasse as suas horas de luz.

 

Era uma felicidade absoluta.

 

 As suas angústias de mãe adoptiva recuavam à medida que os sorrisos do rapaz se multiplicavam, que a sua vivacidade infantil prevalecia sobre os receios iniciais por ela experimentados. À custa de gestos expressivos, de risos, de caretas, o miúdo conseguia fazer-se compreender e parecia insinuar-se sem dificuldade na sua nova pele de citadino. Diane aquiescia, respondia-lhe em francês e tentava, o melhor que podia, dissimular o seu próprio espanto.

 

 Imaginara tantas vezes este pequeno ser que acabara por o forjar segundo os seus próprios sonhos. Hoje, porém, a criança estava ali, e tudo era diferente. Tratava-se de um rapaz real, de rosto real, de temperamento real. Via cada uma das suas suposições voar em estilhaços frente a esta presença. Tudo se passava como se Lucien se arrancasse sem esforço ao invólucro fantasioso que ela esculpira e lhe oferecesse em troca toda a amplidão, toda a diversidade do seu ser, inesperado, surpreendente, e sempre infinitamente justo porque infinitamente verdadeiro.

 

 A hora do banho era um encantamento. Diane não se cansava de observar aquele torso tão pequenino, aquelas costas tão alvas, aquela ossatura de ave tensa de energia e delicadeza. Admirava aquela pele de leite, próxima da perfeição, tão diferente das outras crianças com quem se cruzara no orfanato, sob a qual palpitavam vénulas azuis e órgãos subtis. Lembrava-lhe um pintainho cuja silhueta fervente de vida aflorasse a sua ténue casca.

 

 Um outro momento de pura contemplação era a hora de deitar, quando Diane contava uma história na penumbra do quarto. Lucien nunca tardava a adormecer e era então a vez de ela se deixar embalar pelas delicadas sensações que fluiam sob os seus dedos. Aquele calor mimoso da pele. Aquela oscilação imperceptível da respiração. E aqueles cabelos tão finos, tão soltos que pareciam requerer uma atenção especial por parte dos dedos uma aptidão secreta do tacto. Donde podiam provir tais cabelos? De que floresta de genes? Algures. Era sempre esta palavra que lhe acudia aos lábios na obscuridade.

 

Algures. Cada traço, cada pormenor desse corpo lhe recordava as longínquas origens do rapazinho e parecia, não obstante, aproximá-lo dela, uni-lo à sua solidão parisiense.

 

A personalidade de Lucien erguia-se à maneira de um edifício de vidro que revelava ao longo dos dias a sua arquitectura, os seus meandros, o seu cume. Ela sempre imaginara que Lucien seria um ser turbulento, agitado, imprevisível. Era, pelo contrário, de uma doçura, de uma graça, desnorteantes. Apesar dos seus modos de selvagem comia com os dedos, resistia a lavar-se, ia esconder-se logo que surgia alguma visita, dava sempre provas, em profundidade, de uma sensibilidade, de uma intuição, que deslumbravam a jovem. Porquê negá-lo? Lucien assemelhava-se, sem tirar nem pôr, ao rapaz que ela teria gostado de dar à luz.

 

Diane encontrava todos os motivos de admiração numa actividade em particular, que solicitava tantas vezes quanto possível: as sessões de dança e canto de Lucien. O seu filho adoptivo, por gosto, por jogo, por dom natural, exprimia-se assim à mínima oportunidade. Ao descobrir esta paixão, ela comprara-lhe um leitor-gravador de cassetes vermelho-vivo, ligado a um microfone de plástico amarelo cor de limão. A criança gravava-se sempre a si mesma, batendo nestes momentos em tambores improvisados. A apoteose do desempenho era um bailado original. De súbito, uma perna erguia-se em ângulo recto, os dedos tacteavam sobre um véu imaginário, depois toda a silhueta rodopiava a fim de melhor recomeçar noutro registo. Encolhido, arqueado, fincado, o pequeno corpo abria-se como as asas de um escaravelho, para ondular logo a seguir ao sabor do ritmo.

 

Foi durante um destes números desenfreados que Diane ousou felicitar-se. Jamais lhe passara pela cabeça uma mais completa felicidade. Em três semanas, alcançara uma serenidade, um equilíbrio, que ela planificara no decurso de anos. Pela primeira vez na sua existência, estava a ser bem sucedida num assunto que dizia exclusivamente respeito à sua vida pessoal.

 

Nesse instante, atentou nos algarismos vermelhos da data assinalada no seu despertador de quartzo.

 

 Segunda-feira, 20 de Setembro.

 

 Talvez tudo corresse agora às mil maravilhas, mas tornava-se impossível adiar o terrível acontecimento.

 

 O jantar em casa da mãe.

 

 A porta blindada abriu-se para a silhueta

grácil. As luzes do vestíbulo desenhavam em volta do seu carrapito um halo avermelhado, mesmo por cima da nuca. Diante dela, Diane permanecia no limiar, hirta como um círio. Tinha Lucien, adormecido, nos braços. Sybille Thiberge bichanou:

 

 Está a dormir? Entra. Quero vê-lo.

 

 Diane ia dar um passo em direcção ao interior, mas estacou logo.

 

 Acabava de distinguir rumores de vozes no salão.

 

 Não estás sozinha com o Charles?

 

 A mãe assumiu uma expressão confusa:

 

 O Charles combinara um jantar importante para esta noite e...

 

 Diane deu meia volta a caminho das escadas. Sybille agarrou-a pelo braço, com essa mescla de autoridade e doçura que a caracterizava.

 

 Que fazes? Endoideceste?

 

 Disseste-me que era um jantar íntimo.

 

 Há obrigações que não podemos adiar. Não te armes em parva, entra.

 

 Apesar da penumbra, Diane enxergava a silhueta da mãe com precisão. Cinquenta e cinco anos, e sempre aquelas feições de boneca eslava, aquelas sobrancelhas louras, aqueles cabelos de ouro a esvoaçar como num cartaz de propaganda soviética! Trazia um vestido chinês pássaros furta-cores sobre fundo negro que favorecia a sua cintura fina e redonda. Um decote abria-se para uns seios irrepreensíveis. Não retocados: Diana sabia-o. Cinquenta e cinco anos, e a criatura não cedia uma polegada no território da sensualidade. Diane teve de repente a impressão de ser mais magra, mais desengonçada que nunca. De ombros abatidos, deixou-se guiar, mas murmurou apontando para Lucien: Se falares dele à mesa, dou cabo de ti. A mãe anuiu, não rebatendo sequer a violência de linguagem da filha. Diane seguiu-a através de um corredor muito comprido. Atravessou, sem neles reparar, os vastos compartimentos que conhecia de cor. Os móveis exóticos que projectavam as suas sombras sobre as tapeçarias  kilims, desdobradas como vertentes de céu. As telas contemporâneas, zebrando com as suas audácias coloridas as paredes perfeitamente brancas. E, espalhados pelas cantoneiras e as mesas baixas, os pequenos candeeiros mortiços e discretos que se assemelhavam a puras sentinelas de luxo.

 

 Sybille preparara uma cama de madeira pintada num quarto claro, cheio de seda e de tule. Diane receou de súbito que a mãe se apegasse ao seu papel de avó. No entanto, optou por uma trégua. Felicitou-a pela decoração e depôs Lucien com precaução sobre a cama. Por breves instantes, as duas mulheres uniram-se na contemplação do menino.

 

 No corredor, Sybille encetou logo as suas tagarelices habituais: mundanidades e advertências relativas ao jantar. Diane não escutava. No limiar do salão, a mulherzinha loura voltou-se e observou as roupas da filha dos pés à cabeça. O seu rosto exprimia consternação.

 

 O que foi? perguntou Diane.

 

 Vestia uma camisola muito curta, umas calças de pano imensas, pousadas em equilíbrio sobre as ancas, e um blusão de penas sintéticas pretas.

 

 O que foi? repetiu. O que se passa?

 

Nada. Lembrei-me simplesmente de que te coloquei à frente de um ministro em funções.

 

 Diane encolheu os ombros:

 

 Estou-me nas tintas para a política.

 

 Sybille condescendeu num sorriso ao abrir a porta do salão:

 

 Podes ser provocante, engraçada ou estúpida. Sê o que

 

 te apetecer. Mas não faças escândalo.

 

 Os convidados beberricavam um líquido com reflexos de um ocre pardacento, sentados em poltronas da mesma cor. Os homens eram grisalhos, idosos, barulhentos. Mais atrás, as respectivas mulheres entregavam-se a uma silenciosa contenda, avaliando as suas diferenças de idade como se estas fossem fossos cheios de crocodilos. Diane suspirou: aquilo anunciava-se mortal.

 

 Todavia, também reencontrava as pequenas manias, mais ou menos divertidas da mãe. Assim, a música dos LeZeppelin ronronava em surdina. Algures a mãe, desde a sua juventude doidivanas, só escutava harrock e free jazz. Avistava igualmente, sobre a mesa posta, os estranhos talheres em fibra de vidro. Sybille era alérgica ao metal. Quanto à ementa, sabia que seria essencialmente composta de um prato agridoce com mel, substância de que a mãe se servia para condimentar todos os pratos.

 

 Minha pequenina! Vem dar-me um beijo!

 

 Ela avançou, de sorriso nos lábios, para o seu padrasto que lhe estendia as mãos. Baixote, espadaúdo, Charles Helikian parecia um rei persa. Tinha a tez mate e usava barba em colar. O cabelo crespo aureolava-lhe o crânio e assemelhava-se a nuvens de trovoada com as quais os olhos escuros se harmonizavam de uma maneira estranha. ”Minha pequenina”: o homem teimava em chamá-la assim. Porquê ”pequenina”, quando afinal Diane já ia nos trinta anos? E porquê dele, se Charles a conhecera numa altura em que ela era uma adolescente de catorze anos? Mistério. Renunciou a decifrar estes requebros de ”linguagem e dirigiu-lhe um sinal amistoso com a mão, sem se debruçar. O homem não insistiu: sabia que a enteada não apreciava as efusões.

 

 O jantar foi servido. Como sempre, Charles conduzia a conversa com eloquência. Diane adorara logo à primeira este enésimo companheiro da mãe, que pouco tempo depois se tornava o seu padrasto oficial. Na vida profissional, o homem era uma eminência. Começara por abrir consultórios de psicologia de empresa e em seguida orientara-se para missões de aconselhamento, muito mais discretas, junto de grandes patrões e de personalidades políticas. Que conselhos dava? De que missões se tratava? Diane nunca entendera patavina desta actividade. Ignorava se Charles se limitava a escolher a cor dos fatos dos clientes ou se geria as suas empresas no lugar deles.

 

 Na verdade, Diane marimbava-se para o ofício e o êxito de Charles. Admirava-o mais pelas suas qualidades humanas: a sua generosidade, as suas convicções humanistas. Sendo um antigo esquerdista, jogava com as suas próprias contradições, ligadas à fortuna e à posição social. Vivendo embora naquele apartamento espaventoso, continuava a fazer discursos altruístas, a defender o poder do povo e a igualdade social. Não receava continuar a glorificar uma ”sociedade sem classes” ou a ”ditadura do proletariado”, as quais tinham no entanto provocado a maior parte dos genocídios e das opressões do século xx. Quando Charles Helikian usava estas palavras abominadas, elas recobravam todo o seu poder. Sem dúvida porque o homem tinha estilo e argúcia e conservava, no fundo do coração, uma fé, uma sinceridade, uma aurora, ainda intactas.

 

 Diane sentia uma secreta nostalgia destes ideais que não conhecera e que tinham feito vibrar a geração de sua mãe. Fazia lembrar alguém que nunca tocou num cigarro, mas aprecia o perfume refinado do tabaco. Apesar dos massacres, das opressões, das injustiças, ela nunca conseguira abdicar de um estranho fascínio pela utopia revolucionária. E quando Charles comparava o socialismo vermelho à Inquisição, quando lhe explicava que os homens se haviam apoderado da mais bela das esperanças e a tinham transformado num culto do pavor, ela escutava-o abrindo os olhos, igual à menina tão séria que fora noutro tempo.

 

Nessa noite, a conversa girava em torno das perspectivas imensas, luminosas, infinitas do sistema de comunicação Internet. Charles não concordava: via, sob a quinquilharia da tecnologia, um novo modo de alienação destinado a incitar toda a gente a consumir mais, a perder um pouco mais o contacto com a realidade e os valores humanos.

 

À roda da mesa, os convivas anuíam. Diane observava-os: estes patrões e estas figuras políticas, tal como Charles, riam-se certamente da Internet e do seu eventual poder de alienação. Estavam ali pelo simples prazer de escutarem opiniões insólitas declamadas com fervor, ou de se deixarem seduzir por aquele fumador de charutos que lhes recordava a sua juventude e as iras que eles ainda fingiam sentir.

 

De repente, o ministro dirigiu-se directamente a ela:

 

A sua mãe disse-me que é etóloga.

 

O homem tinha um sorriso de esguelha, um nariz aquilino, olhos móveis como algas japonesas. Ela sibilou:

 

Sim, é isso mesmo.

 

O político sorriu aos outros convivas, como se quisesse suscitar a indulgência deles.

 

Devo confessar que não sei de que se trata, disse ele. Diane baixou as pálpebras. Sentia-se corar. O seu braço

 

estava estendido em oblíquo, contra o canto de mesa. Explicou num tom neutro.

 

A etologia é a ciência do comportamento dos animais.

 

Que animais estuda?

 

As feras. Os répteis. As aves de rapina. Os predadores, essencialmente.

 

Não é um universo lá muito... feminino.

 

Ela ergueu os olhos. Todos os olhares estavam pousados na sua pessoa.

 

Depende. Entre os leões, só a fêmea caça. O macho fica ao pé das crias para as proteger dos ataques dos outros clãs. A leoa é, sem dúvida alguma, a criatura mais mortífera da selva.

 

Tudo isso é bastante lúgubre...

 

Diane bebeu uma golada de champanhe.

 

Pelo contrário. Trata-se de uma das vertentes da vida. O ministro riu para dentro:

 

O sempre iterno chavão da vida que se alimenta da morte.

 

Um chavão como os outros: que só espera uma ocasião para se confirmar.

 

Seguiu-se um silêncio. Em pânico, Sybille soltou uma gargalhada:

 

Que tal não vos impeça de saborear a minha sobremesa! Diane deitou-lhe um olhar trocista e descortinou um tique nervoso no rosto da mãe. Distribuíram-se os pratos, as colherzinhas. Mas o político levantou a mão:

 

Só mais uma pergunta.

 

Instantaneamente, os comensais imobilizaram-se. Diane compreendeu que o homem nunca cessara, durante o jantar, de ser para os outros um ministro. Ele prosseguiu, fixando-a com intensidade.

 

Para que é a argola de ouro na narina?

 

Diane abriu as mãos em sinal de evidência. As chamas das velas faiscavam nos seus anéis de prata lavrada.

 

É para me fundir nas massas, suponho.

 

A mulher do ministro, à sua direita, inclinou-se entre dois castiçais para dizer:

 

Não devemos pertencer à mesma massa!

 

Diane esvaziou a taça. Só então percebeu que bebera em demasia. Proferiu, virando-se para o político:

 

De todas as espécies de zebras, só algumas estão ainda bem presentes na natureza. Sabe quais?

 

É claro que não.

 

As zebras cujo corpo se acha inteiramente revestido de listras. As outras desapareceram: a sua camuflagem não era suficiente para provocar um efeito estroboscópico quando corriam no meio das ervas.

 

O ministro manifestou o seu espanto:

 

Qual é a relação com a argola que usa? Onde pretende chegar?

 

Quero dizer que, para as coisas funcionarem, uma camuflagem deve ser completa.

 

 Pôs-se de pé, mostrando o umbigo, também ele furado por uma haste de ouro lateral onde estava suspensa uma argola cintilante. O homem sorriu agitando-se na cadeira. A mulher dele recuou para a sombra, muito carrancuda. Um sussurro embaraçado derramou-se pela mesa.

 

 Diane encontrava-se agora no vestíbulo. Lucien ainda dormia nos seus braços, enrolado num cobertor de lã grossa.

 

 És louca. Pura e simplesmente louca.

 

 A mãe falava em voz baixa. Diane abriu a porta.

 

 O que disse de mal?

 

 São pessoas importantes. Toleram-te à mesa deles e...

 

 Estás enganada, mamã. Eu é que os tolerei. Tinhas-me prometido um jantar íntimo, lembras-te?

 

 Sybille abanava a cabeça, consternada. Diane volveu:

 

 Seja como for, pergunto a mim mesma o que diríamos uma à outra...

 

 A mãe remexia nas suas madeixas louras.

 

 Precisamos de falar, temos de almoçar juntas.

 

 Tens razão. Um dia destes almoçamos. Adeus.

 

 No patamar, apoiou-se contra a parede e ficou uns segundos em plena obscuridade. Finalmente respirava. Sentia o corpo morno do seu menino e este simples contacto tranquilizava-a. Tomou uma nova resolução. Devia absolutamente manter Lucien à distância daquele universo artificial. E, mais ainda, das suas próprias cóleras, ainda mais absurdas que os jantares mundanos.

 

 Posso vê-lo?

 

 Charles estava no vão iluminado da porta. Aproximou-se para ver o rosto adormecido.

 

 É muito bonito.

 

 Ela sentia o cheiro do homem mistura de perfume requintado e de eflúvios de charuto. O mal-estar começava a infiltrar-se dentro de si.

 

Charles passou a mão pelo cabelo de Lucien.

 

 Acabará por se parecer contigo. Ela meteu pela escada resmoneando:

 

 Bem. Vou a pé. Não suporto elevadores.

 

 Espera.

 

 Charles segurou-a bruscamente pelo braço e puxou-lhe o rosto ao encontro da sua boca. Diane recuou, mas demasiado tarde: os lábios do homem haviam roçado os dela. Num ápice, invadiu-a uma incoercível repulsa.

 

 Desceu alguns degraus às arrecuas, de olhos esbugalhados. No patamar, Charles mantinha-se imóvel. A sua voz já não era mais do que um sopro:

 

 Desejo-te boa sorte, minha pequenina.

 

 Diane fugiu pelas escadas abaixo, mais ligeira que uma aranha.

 

As luzes do túnel desfilavam à velocidade de uma cascata. Diane pensava em filmes de ficção científica. Perseguições em subterrâneos luminescentes. Armas que lançam feixes ofuscantes. Na faixa mais à esquerda do boulevarpériphérique, carregava a fundo no acelerador. Os vapores do álcool ainda lhe baralhavam os pensamentos.

 

 O seu único laço com a realidade parecia-lhe ser aquele volante nas suas mãos. Conduzia um Toyota Landcruiser. Um 4x4 todo-o-terreno, enorme, que ela recuperara quando terminara uma missão africana. Uma velha caranguejola, encimada por corta-ventos engradados, que não ia além dos cento e vinte quilómetros por hora, mas à qual Diane se afeiçoara.

 

 Saiu do túnel e reencontrou a chuva que batia num rumorejo metálico. Maquinalmente, deitou um olhar a Lucien através do retrovisor regulara o espelho pelo eixo dele. A criança dormia sem se mexer, na concavidade do seu banco sobrelevado.

 

 Concentrou-se no trajecto. Como de costume, apanhara o périphérique na Porte d’Auteuil e dirigia-se agora para a Porte Maillot. Este itinerário constituía um desvio, mas Diane evitava sempre o dédalo do décimo sexto bairro. Já milhentas vezes o Padrasto tentara explicar-lhe o caminho exacto. Milhentas vezes ela renunciara a compreender estas circunvoluções. Charles desistia então com uma gargalhada tonitruante.

 

 Charles.

 

 Que história fora aquela do beijo? Enxotou a recordação como quem cospe e debruçou-se para ver melhor o boulevarlacerado de chuva. Porque lhe fizera ele uma coisa assim? Seria mais uma das suas atitudes excêntricas? Uma das suas poses estudadas? Não: esse beijo não pertencia a um dos seus habituais maneirismos. O gesto possuía outro significado. De resto, era a primeira vez que ele a enlaçava daquela maneira.

 

 As vagas do aguaceiro açoitavam violentamente o pára-brisas. A visibilidade era quase nula. Diane tentou aumentar o rendimento dos limpa-pára-brisas. Em vão. Lançou uma olhadela ao retrovisor. Lucien ainda dormia. Os clarões alaranjados das lâmpadas de sódio estriavam-lhe o rosto. Esta imagem tranquilizou-a. O rapazinho selava o destino dela. Conferia-lhe uma força insuspeita. Nada mais contava de ora avante na sua vida.

 

 Quando o seu olhar voltou a fixar-se na estrada, ficou transida de pavor.

 

 Uma viatura pesada transpunha as cortinas imensas do aguaceiro, resvalando através das quatro faixas, como que entregue a si mesmo.

 

 Diane travou. O camião embateu contra o separador central, arrancou as lâminas de metal e, ao raspar, produziu um som agudo. A cabina saltou com violência, enquanto o reboque se estatelava nas outras faixas. A cabeça do engenho rodou a três quartos até bater nas barras laterais, desta vez com o flanco direito. Rangidos metálicos elevaram-se sob a chuva, misturados com girândolas de faíscas, ao mesmo tempo que os faróis do monstro varriam a tormenta.

 

 Ela quis gritar, mas o grito embargou-se na garganta. Travou ainda mais, mas o abrandamento transformou-se brutalmente numa aceleração descomedida. Diane estava paralisada. O seu carro deslizava a grande velocidade, de rodas bloqueadas por ter perdido qualquer espécie de aderência ao pavimento. O pesado derrapava num gigantesco pião.

 

O Toyota já só estava a uns metros do monstro. Ela travou outra vez. Tentando anular, a golpes breves de travão, o fenómeno de derrapagem na água. Nada a fazer: a velocidade continuava a aumentar. No entanto, este fragmento de instante parecia nunca mais ter fim.

 

 Viu-se de repente a chocar com o muro de ferralha. Viu-se, por assim dizer, a transpor o embate. A atravessar o metal e a encastrar-se nas estruturas do camião. Viu-se morta, esmagada, despedaçada numa lama de sangue, de carne e de ferro.

 

 Jorrou finalmente um urro da sua garganta. Deu uma guinada brutal de volante para a esquerda.

 

 O carro espetou-se nos separadores espatifados. O impacto cortou-lhe a respiração. A cabeça embateu no retrovisor. Tudo se velou de negro, enquanto no mesmo instante explodia um clarão no interior de si mesma. Mais uma pausa. Uma suspensão, sem contorno nem seguimento. Diane tossiu, soluçou, cuspiu mucos ensanguentados. Confusa, compreendeu, o seu corpo compreendeu: ainda estava viva.

 

 Abriu as pálpebras. A forma transparente que avançava para ela não era mais do que o seu pára-brisas comprimido pela distorção do habitáculo. Tentou mexer a cabeça e desencadeou um derramamento de vidro. A nuca estava entalada pelo tampo da bagageira que, arrancado, aterrara nos seus ombros à maneira de uma canga. Por entre a dor, Diane sentia subir dentro de si uma nova angústia. Algo não encaixava: o pára-brisas não se estilhaçara. Donde vinham as lascas de vidro?

 

 O seu primeiro pensamento consciente foi para Lucien. Voltou-se e ficou aturdida: o banco sobrelevado estava vazio.

 

 No lugar dele, milhares de partículas translúcidas e manchas de sangue maculavam o assento. O aguaceiro engolfava-se pelo vidro partido e encharcava o tecido do banco estampado com ursinhos. Às apalpadelas, as mãos feridas de Diane encontraram os seus óculos. Estavam rachados pelas colisões, mas confirmaram-lhe o horror: a criança já não se achava no carro. O choque catapultara-a através do vidro da retaguarda.

 

Diane conseguiu soltar-se do cinto. Empurrou a porta com o ombro e veio cá para fora. Caiu logo numa poça, rasgando o blusão contra a aresta dos separadores laterais. Apesar do atordoamento, captou a sensação da relva húmida, os odores a sebo queimado. Levantou-se e foi a coxear até à beira da estrada. Faróis rasgavam a noite. As buzinas elevavam-se num clamor vociferante. Ela não via nada de preciso. Exceptuando as poças de gasolina, no asfalto, que se irisavam sob os candeeiros como fragmentos de arco-íris.

 

 Tornou a cambalear, distinguindo aqui e além uns pormenores de apocalipse. A viatura pesada, disposta em V invertido a toda a largura da estrada. O logotipo berrante da companhia, a cobertura de lona a estralejar no meio da bátega. O motorista a saltar da sua cabina, com a cabeça entre as mãos, os braços a escorrer sangue. Mas ela não descortinava Lucien. Nem o mais pequeno vestígio do corpo.

 

 Aproximou-se mais do semi-reboque. Subitamente estacou. Acabava de descobrir um dos sapatos da criança, um ténis vermelho, depois, poucos metros mais adiante, a sombra fatídica. Estava ali. Na charneira da composição, apresado sob o sistema de sustentação do reboque, afundado nos cabos arrancados e nos jactos de vapor. Ela discernia agora cada um dos pormenores. O pequeno crânio assente num charco escuro, o corpo enterrado até meio do torso sob a ferragem, o blusão de malha grossa impregnado de gasolina e de chuva... Diane reuniu as suas últimas forças e avançou.

 

 Não vá lá... Uma mão retinha-a.

 

 Não vá. É melhor não ver aquilo.

 

 Diane fitava o homem, sem compreender. Uma outra voz ecoou à sua esquerda:

 

 Nada mais pode fazer, minha senhora...

 

 Cada timbre se diluía na zoada do aguaceiro. Ela não apreendia o significado das palavras. Uma voz:

 

 Vi tudo... Céus!... É inacreditável que esteja ilesa... O seu cinto é que a deve ter salvo...

 

 Desta feita, Diane entendeu o sentido implícito de tais palavras. Libertou-se das mãos que a retinham e voltou para junto do seu carro. Contornou o veículo, apoiando-se na carroçaria escaldante, em seguida alcançou a porta de trás do lado direito do Toyota. Conseguiu abri-la puxando com todas as suas forças. Observou cheia de atenção o banco sobrelevado, todo salpicado de vidro partido.

 

 A correia de policarbono repousava, intacta, ao lado do banco.

 

 Diane não pusera o cinto a Lucien.

 

 Por inadvertência, matara o filho.

 

 Sobreveio um rebentamento de trovoada no seu ventre. Relâmpagos. Um sorvedouro de electricidade.

 

 O solo alteou-se: era ela que caía de joelhos.

 

 Já não tinha pensamentos, nem consciência, nem nada. Só sentia o martelamento dos seus anéis, amalgamados em sangue e em chuva, à medida que batia no rosto com os dois punhos cerrados.

 

 O quarto de reanimação era constituído por três paredes envidraçadas que abriam para o corredor, ele próprio estriado pelas divisórias translúcidas dos outros quartos. Diane estava sentada no meio da obscuridade. Envergando uma bata e equipada com uma touca e uma máscara de papel, postava-se absolutamente imóvel diante da cama cromada. Parecia dominada por ela. Dominada por aquele bojo de metal repleto de cabos e de aparelhagens, ao fundo do qual repousava Lucien.

 

 Uma sonda de intubação, ligada a um respirador artificial, penetrava na boca da criança. Ao longo da sua mão direita, o tubo de uma perfusão conduzia a seringas eléctricas que permitiam, segundo lhe haviam explicado, injectar um tratamento doseado com uma precisão que ia até ao mililitro e ao minuto, durante as vinte e quatro horas do dia. No braço esquerdo, um cateter captava a tensão arterial, enquanto uma pinça, fulgindo na obscuridade como um rubi, apertava um dos seus dedos e avaliava a resposta de Lucien à ”saturação de oxigénio”.

 

 Diane sabia que também havia eléctrodos, algures sob os lençóis, que vigiavam o batimento do coração. Não via, tão-pouco e era preferível, os dois drenos cravados sob o enorme penso do crânio. Os olhos dela pousaram, como por reflexo, no ecrã suspenso à esquerda da cama. Sobressaíam ali umas ondas e uns algarismos, em verde luminescente, que não cessavam de assinalar a actividade fisiológica da criança em coma.

 

 Ao contemplá-los, Diane pensava sempre numa capela. Um lugar de recolhimento e de fervor, onde brilhassem tenuemente iluminuras de ícones, cibórios, círios... As curvas cintilantes, os algarismos de quartzo eram os círios dela. Lampejos votivos em que depositara as suas esperanças, as suas preces.

 

 Vivia quase permanentemente neste quarto do serviço de neurocirurgia pediátrica do hospital Necker. Desde o acidente ainda não dormira nem comera praticamente nada. Assim como não ingerira o mínimo calmante. Contentava-se em remoer sem descanso a mais pequena das suas recordações cada minuto, cada pormenor que se seguira à colisão.

 

 A chegada do primeiro veículo de socorro interrompeu a sua crise de desespero.

 

 Só nesse instante parou de se agredir e observou o carro que transpunha, de sirenes a uivar, o caos das viaturas imobilizadas. Vermelho. Cromado. Flanqueado por instrumentos de ferragem. Os bombeiros saíram de lá em uniforme à prova de fogo, enquanto surgia já um veículo marcado com as insígnias da polícia urbana, ao longo da via de urgência. Os agentes concentraram-se na circulação. Vestidos com oleados cor-de-laranja fluorescente, balizaram a estrada e canalizaram o fluxo dos automóveis para a fila mais à direita a única que o reboque não bloqueava.

 

 Diane pusera-se de pé, junto ao Toyota. Os bombeiros afastaram-na sem cerimónia e regaram logo o seu carro com espuma carbónica. Esgazeada, ela sentia-se rodeada de um número crescente de automobilistas, de murmúrios, de rumorejos de chuva. Mas nada mais ouvia senão as suas próprias palavras, que lhe martelavam a consciência: ”Matei o meu filho. Matei o meu filho...”

 

 Encaminhou-se para o camião e reparou, entre as silhuetas encarapuçadas que se recortavam contra a luz frouxa do túnel, num homem vestido de cabedal que se escapava da zona exacta onde o filho estava encarcerado. O instinto fê-la ir na sua direcção. O bombeiro meteu-se no carro de socorro e pegou num emissor de rádio. Quando Diane chegou a poucos metros dele, pôde ouvi-lo gritar de VHF em punho:

 

 O AVP do interior, aqui, Porte de Passy... Onde é que anda a unidade médica?

 

 Ela transpôs as finas agulhas de chuva. O homem berrava:

 

 Há uma vítima. Um miúdo. Sim... Respira, mas...

 

 O bombeiro não terminou a frase. Atirou o rádio e correu para o furgão que acabava de surgir sob as colunas de água. Diane discerniu as letras que brilhavam na carroçaria: SAMU de Paris, SMUR, Necker 01. Todos os circuitos do seu ser se inverteram. Uns momentos antes, ela flutuava, petrificada, esvaziada, como morta. Seguia agora cada pormenor com o coração a bater, vendo os homens do SAMU a acorrer, munidos de grandes mochilas. Uma esperança. Havia uma esperança.

 

 Indo no encalço deles, logrou contornar a linha dos chuis. Anichou-se o mais perto possível da cabina do pesado. Espalhara-se sobre o asfalto uma larga camada de óleo e de gasolina que recusava misturar-se com a água da chuva. Os vapores alaranjados dos candeeiros raiavam a sua superfície. Os homens estavam todos debruçados sobre a mesma zona. Diane já não via o filho.

 

 Abeirou-se e esforçou-se por observar melhor. O corpo tremia-lhe, mas havia um vigor a controlá-la, a obrigá-la a continuar a olhar. Finalmente enxergou a silhueta frágil. As suas pernas cederam quando atentou no crânio ferido, banhado numa poça negra. Por entre os cabelos arrancados, distinguiu uma crescente de pele vermelha, nua, em carne viva. Tombou sobre um joelho e surpreendeu, já no solo, um homem agachado sob o chassis do camião, perto de Lucien. Vociferava numa VHF:

 

  1. Tenho uma contusão cerebral. Sem dúvida bilateral.

 

Sim. Preciso de um pediatra com a maior urgência. Repito, com a maior urgência. Tomaram nota?

 

Diane cerrava os lábios. As palavras imprimiam-se na sua carne. O médico saiu do antro de aço. Vestia uma parca por baixo da qual aparecia uma bata branca.

 

Coma, sim... Score de Glasgow...

 

Com uma rapidez fulminante, abriu os olhos da criança, tacteou-lhe o pescoço, apalpou-lhe os pulsos: Entreabriu novamente os olhos da criança.

 

Confirmo: scorede Glasgow a quatro. Já saiu, o pediatra? Acrescentou, examinando apressadamente o braço direito de Lucien:

 

Tenho também uma fractura exposta no cotovelo direito. (Manipulou os cabelos ensanguentados.) Uma ferida no couro cabeludo. Sem gravidade. Continuação do balanço dentro de dez minutos.

 

A seu lado, um enfermeiro abria os velcros de uma mochila, enquanto outro enfiava cobertores dobrados entre a criança e as chapas retorcidas. Uns bombeiros estendiam toldos de plástico para os protegerem da chuva. Ninguém parecia reparar em Diane.

 

O médico friccionava agora os maxilares de Lucien, ao mesmo tempo que lhe desnudava o pescoço com extrema precaução. Um dos enfermeiros introduziu-lhe uma minerva debaixo da nuca. O clínico ajustou-a num só gesto.

 

  1. Entuba-se.

 

Na sua mão materializou-se um tubo translúcido que ele enfiou logo na boca entreaberta. Já o segundo enfermeiro implantava um cateter na mão esquerda de Lucien. Estes homens pareciam governados pelos reflexos condicionados da urgência e da experiência.

 

O que está aí a fazer?

 

Diane ergueu os olhos. O médico não lhe deu tempo de responder, como se adivinhasse, através da chuva, a resposta no seu olhar, lesse a sua aflição nas limalhas de ouro das suas íris.

 

 Que idade tem ele? perguntou.

 

 Ela balbuciou uma frase ininteligível, depois repetiu mais alto cobrindo o martelamento da chuva sobre o toldo:

 

 Seis ou sete anos.

 

 Seis ou sete anos? berrou o médico. Está a brincar comigo?

 

 É uma criança adoptada... Eu... acabo de o adoptar. Há poucas semanas.

 

 O homem tornou a abrir a boca, hesitou, depois absteve-se de retorquir. Desapertou o blusão de Lucien e soergueu-lhe a camisola. Diane ficou arrepiada. O torso estava negro. Ela levou alguns segundos a compreender que não era sangue: apenas óleo. Servindo-se de uma compressa, o clínico limpou o tórax. Sem erguer o olhar, perguntou:

 

 Tem antecedentes?

 

 O quê?

 

 Ele colocava pastilhas adesivas no peito nu. Resmungou:

 

 Doenças? Problemas de saúde?

 

 Não.

 

 Premiu as pastilhas com eléctrodos.

 

 Vacinou-o contra o tétano?

 

 Sim. Há duas semanas.

 

 Estendeu os fios ao segundo enfermeiro, que os ligou imediatamente à parte posterior de uma caixa revestida de pano negro. O médico já encerrava o bíceps do rapazinho na braçadeira de um tensímetro. Ressoou um bip. O homem deu novos cabos ao enfermeiro, que os conectou a um outro bloco.

 

 Surgiu um bombeiro sob o toldo. Trazia umas enormes luvas de pano e uma parca de capuz. Atrás dele aproximava-se lentamente um camião em marcha atrás. No seu flanco estava inscrito: DESENCARCERAMENTO. Avançavam mais silhuetas segurando instrumentos bárbaros ligados a cabos pneumáticos, empurrando macacos hidráulicos sobre carrinhos, enquanto outros, com equipamentos de fogo, se posicionavam em círculo, lanças e extintores na mão. Preparava-se um ataque organizado.

 

 Vamos?

 

 O médico, com as feições sulcadas pelo suor, não respondeu. Ouviram-se novos rasgamentos de velcro.

Apareceu um ecrã empunhado por um enfermeiro. Jorraram luzes verdes: sinuosidades, algarismos. Para Diane, foi como se o impossível acontecesse. A linguagem da vida oscilava neste monitor.

A vida de Lucien.

 

 O bombeiro bradou:

 

 Vamos ou não, merda?

 

 O clínico ergueu o olhar para o bombeiro enchumaçado:

 

 Não, ainda não. Estamos à espera do pediatra.

 

 Impossível (Apontou para o solo reluzente de gasolina.) Daqui a um minuto vai tudo...

 

 Já cheguei.

 

 Uma nova personagem acabava de se introduzir sob o toldo. Hirsuto, lívido, ainda mais mal amanhado do que o primeiro médico. Os dois clínicos trocaram umas palavras abstrusas onde abundavam as abreviaturas e as iniciais. O pediatra inclinou-se para Lucien e entreabriu-lhe as pálpebras:

 

 Bolas!

 

 O quê?

 

 A midríase. A pupila está dilatada.

 

 Impôs-se um breve silêncio entre os homens. O bombeiro virou costas. Os engenhos mecânicos aproximavam-se inexoravelmente.

 

 OK, pronunciou por fim o médico recém-chegado. Sedação geral. Um PentoCelo. Onde está a VHF?

 

 Enquanto o primeiro médico e os enfermeiros se afadigavam, apoderou-se do

emissor e entrou por seu turno nas vociferações de rádio.

 

 Novo balanço sobre o AVP. Preparem o bloco de neurocirurgia. Temos uma forte suspeição de hematoma extradural. Repito: um HEI num dos dois hemisférios! (Uma pausa.) Temos uma lesão neurocirúrgica e uma contusão cerebral...

 

(Outra pausa.) Mas eu cá não sei nada! A midríase já está presente, é tudo. Porra! trata-se de um garoto. Ainda não tem sete anos. Daguerre. Precisamos de Daguerre no bloco! Ninguém mais!

 

 O bombeiro reapareceu. O médico das urgências endereçou-lhe um breve sinal de assentimento. Em poucos segundos, instalou-se uma nova organização. Os enfermeiros envolveram a criança em cobertores de feltro e almofadas de lona. Mais adiante, as lâminas dos macacos deslizavam sob o chassis do camião.

 

É melhor sair daí, ciciou o primeiro médico a Diane.

 

 Ela olhou para o homem, de espírito vazio, depois aquiesceu, aturdida. A última visão que teve de Lucien foi a de uma silhueta rodeada de tábuas e de cobertores, provida de óculos de tecido acolchoado sobre os olhos.

 

 Um silvo agudo ressoou no quarto. Diane sobressaltou-se. Quase a seguir, surgiu uma enfermeira. Sem sequer olhar para a jovem, suspendeu uma nova bolsa de cloreto de sódio no suporte metálico e fixou-a à perfusão.

 

 Que horas são?

 

 A enfermeira virou-se. Diane repetiu:

 

 Que horas são?

 

 Vinte e uma horas. Julgava que se tinha ido embora, senhora Thiberge.

 

 Ela respondeu com um vago meneio de cabeça, depois fechou os olhos. Logo as pálpebras lhe arderam, como se lhe estivesse interdito o mínimo descanso. Quando os reabriu, a mulher sumira-se.

 

 Mais uma vez as suas recordações a arrancaram ao presente.

 

 Tem a certeza de que não quer ir para o meu gabinete? Diane fitava o Dr. Eric Daguerre, em pé junto à superfície do negatoscópio. No painel de luz desdobravam-se as radiografias e os scanners do crânio de Lucien. As imagens reflectiam-se no rosto do cirurgião.

 

 Ela disse que não com a cabeça e proferiu numa voz sem timbre:

 

 Como é que correu?

 

 A intervenção durara três horas. O médico enfiou as mãos nas algibeiras da bata.

 

 Fizemos o que pudemos.

 

 Por favor, doutor. Dê-me uma resposta clara.

 

 Daguerre não tirava os olhos dela. Toda a gente a elucidara: era o melhor neurocirurgião do hospital Necker. Um virtuoso que já trouxera dezenas de crianças das margens sem retorno do coma. Ele explicou:

 

 O seu filho sofria de um hematoma extradural. Uma bolsa de sangue situada no hemisfério direito. (Indicava a zona numa das radiografias.) Abrimos a têmpora a fim de ter acesso ao hematoma. Aspirámos o sangue empastado e coagulámos toda essa região. É o que se designa por hemóstase. Tornámos a fechar, deixando um dreno pelo qual irão evacuar-se os resíduos de sangue. Deste ponto de vista, tudo correu perfeitamente.

 

 Deste ponto de vista?

 

 Daguerre aproximou-se do vidro iluminado. Era impossível dar-lhe uma idade precisa entre trinta e cinco e quarenta anos. As suas feições aceradas eram de uma extrema palidez, mas esta tez não evocava a doença. Pelo contrário: era uma espécie de luz. Uma claridade decisiva, que irradiava de todo o rosto. Deu uma pancadinha com o indicador em cortes do cérebro.

 

 Lucien padece de outro traumatismo. Uma contusão bilateral, contra a qual não podemos grande coisa.

 

 Alguma zona do cérebro ficou lesionada? O cirurgião esboçou um gesto vago.

 

 É impossível dizer. Por ora, o nosso problema é de outra ordem. O cérebro, como qualquer outra parte do corpo, tende a inchar sob o efeito de um choque. Como sabe, a caixa craniana é fechada: não permite a mínima dilatação. Se o órgão se comprimir com demasiada força contra as paredes ósseas, já não poderá desempenhar o seu papel vital. Dar-se-á uma morte cerebral.

 

 Diane apoiou-se na secretária. Os reflexos azulados das chapas vacilavam sobre os traços do médico. O calor da sala, acentuado pelas emanações dos néones, era insuportável.

 

 Não... não pode fazer mais nada?

 

 Implantámos sob o crânio um segundo dreno, que nos permite sondar em permanência a pressão do cérebro. Se ela continuar a aumentar, abriremos o conduto e evacuaremos uns mililitros de líquido cefalorraquidiano. É a única maneira de aliviar o órgão.

 

 Mas o cérebro não vai dilatar-se indefinidamente, pois não?

 

 Não. As crises irão atenuar-se, depois desaparecer. Compete-nos a nós geri-las, até as coisas retomarem o seu curso normal.

 

 Doutor, seja franco: Lucien... enfim... pode salvar-se? Recuperar a consciência?

 

 Novo gesto vago.

 

 Se a pressão intracraniana diminuir rapidamente, seremos bem sucedidos. Mas se as dilatações se repetirem demasiadas vezes, nada mais poderemos fazer. A morte cerebral ocorrerá inevitavelmente.

 

 Houve um silêncio. Daguerre concluiu:

 

 É preciso esperar.

 

 Há nove dias que Diane esperava. Há nove dias que ela acabava, todas as noites, por regressar a casa, trocando uma solidão por outra, no seu apartamento da rue Valette, próximo da place du Panthéon, cuja desarrumação já só lhe reenviava a imagem do seu próprio abandono.

 

 Atravessou o pátio principal do hospital. O campus formava uma autêntica cidade, com os seus edifícios, as suas lojas, a sua capela. Durante o dia reinava nestes lugares uma agitação! enganosa, que por pouco não fazia esquecer a razão de ser das construções, os tratamentos, a doença, a luta contra a morte. De noite, porém, quando o espaço se entregava ao silêncio e à solidão, as edificações recobravam o seu recato fúnebre e pareciam assediadas de muito perto pela inquietude, as doenças, o aniquilamento. Ela meteu pela última álea que conduzia ao portão principal.

 

 Diane!

 

 Estacou e franziu os olhos.

 

 Sobre os globos de luz do relvado, destacava-se a sombra da sua mãe.

 

Como está ele? perguntou Sybille

Thiberge. Posso ir vê-lo? Faz como quiseres. A pequena silhueta, sempre aureolada pelo seu carrapito demasiado alvo, volveu baixinho: O que foi? Cheguei atrasada? Esperavas por mim mais cedo?

 

 Diane fixava um ponto vago, muito longe, para além de Sybille. Acabou por dizer, olhando a interlocutora do alto da sua estatura, excedia-a uns bons vinte centímetros: Sei o que pensas. O que é que eu penso? Imperceptivelmente, a voz de Sybille subira um tom. Diane declarou: Pensas que eu não devia ter adoptado a criança. Eu é que te aconselhei essa solução! Não, foi o Charles.

 

 Tínhamos falado um com o outro. Pouco importa. Pensas que eu não

só teria sido incapaz de o educar, de o tornar feliz, mas ainda por cima o matei pura e simplesmente. Não fales assim.

 

 Diane desatou subitamente a berrar:

 

Então não é a verdade? Não fui eu que me esqueci de lhe pôr o cinto de segurança? E que me espetei contra a barra lateral?

 

O motorista do camião adormeceu. Ele próprio o admitiu. Não tiveste culpa nenhuma.

 

E o álcool? Se Charles não se mexesse para abafar os resultados do teste de alcoolemia, talvez estivesse agora no chilindró!

 

Meu Deus! Fala mais baixo.

 

Diane inclinou a cabeça e apalpou os pensos que lhe barravam a testa e as têmporas. Sentia-se desfalecer. A fome, a fadiga rompiam as bases do seu equilíbrio. Tomava a direcção do portão principal sem sequer se despedir da mãe quando, bruscamente, voltou atrás e disse:

 

Quero que saibas uma coisa.

 

O quê?

 

Passaram duas enfermeiras a empurrar uma cama. Distinguia-se vagamente um corpo, sob uma manta, ligado a uma perfusão.

 

Quero que saibas que a culpa de tudo isto é tua. Sybille cruzou os braços, pronta para o confronto.

 

É fácil falares assim.

 

Diane elevou novamente a voz:

 

Nunca perguntaste a ti mesma porque motivo eu andava neste estado? Porque é que a minha vida era um naufrágio tão grande?

 

Sybille adoptou um jeito irónico:

 

Decerto que não. Vejo a minha filha soçobrar desde os quinze anos, mas estou-me completamente nas tintas. Levo-a a todos os psicólogos de Paris, mas é só para salvar as aparências. Esforço-me por lhe falar, por arrancá-la ao seu mutismo, mas é apenas para ficar de consciência tranquila. (Agora gritava.) Há anos que tento saber o que se passa contigo! Como podes dizer isso?

 

Diane escarneceu:

 

E a história do

argueiro no olho do vizinho.

 

Que dizes?

 

É no teu olho que se encontra a tranca.

 

 Houve um novo silêncio. As folhagens restolhavam na obscuridade. Sybille não cessava de remexer no carrapito, sinal evidente da sua perturbação.

 

 Já falaste de mais, minha querida, atalhou ela. Agora tens de ir até ao fim.

 

 Diane foi acometida de uma vertigem. O passado ia finalmente brotar à luz do dia.

 

 Estou em semelhante estado por tua causa, balbuciou ela. Por causa do teu egoísmo, do teu desprezo radical por tudo o que não seja a tua pessoa...

 

 Como podes atirar-me isso à cara? Criei-te sozinha e...

 

 Falo-te da tua verdade profunda. Não do papel que representas à superfície.

 

 O que conheces da minha verdade profunda?

 

 Diane tinha a impressão de seguir um fio abrasante, mas continuou:

 

 Tenho a prova do que afirmo...

 

 Uma pausa. Uns instantes de rebate. A voz de Sybille fremiu:

 

 A... prova? Que prova?

 

 Diane procurou falar devagar: queria que todas as sílabas acertassem no alvo.

 

 O casamento de Nathalie Ybert, em Junho de 1983. Foi aí que tudo se decidiu.

 

 Não percebo nada. De que estás a falar?

 

 Não te lembras? Não me admiro. Preparámo-nos durante um mês, não falávamos senão disso. E depois, ainda mal tínhamos chegado, meteste-te não sei onde. Largaste-me ali, com o meu vestido, os meus sapatinhos, as minhas ilusões de rapariga...

 

 Sybille parecia incrédula: Já quase não me recordo dessa história... Algo se quebrou dentro do corpo de Diane. Sentiu subir aos olhos umas lágrimas que refreou imediatamente.

 

 Deixaste-me sozinha, mamã. Saíste já não sei com quem...

 

 Com o Charles. Conheci-o nessa tarde. (A voz subiu de novo.) Achas então que eu devia sacrificar-te sempre a minha vida pessoal?

 

Diane repetia, obstinadamente:

 

Deixaste-me sozinha. Ali, sozinha sem mais nem menos! Sybille pareceu hesitar, depois aproximou-se abrindo os braços.

 

Escuta, disse mudando de tom. Se essa história te feriu, peço-te desculpa. Eu...

 

Diane deu um salto para trás:

 

Não me toques. Ninguém me toca.

 

No mesmo instante, ela compreendeu que não lhe contaria o acidente. Esta verdade não transporia a fronteira dos seus lábios. Ordenou:

 

Esquece tudo o que te disse.

 

Sentia-se mais dura que o aço, rodeada de partículas de força. Era o único benefício da sua provação de outrora: uma mágoa, uma angústia que se tinham a pouco e pouco transmudado em cólera fria, em domínio de si. Com um aceno de cabeça, apontou para o bloco de cirurgia infantil, as janelas debilmente alumiadas do serviço de reanimação.

 

Se ainda tens lágrimas, guarda-as para ele.

 

Quando desandou, afigurou-se-lhe que o sussurro das árvores a envolvia num manto maléfico.

 

Houve ainda outros dias, outras noites. Diane já não os contava. Só os alertas do quarto de reanimação pautavam o seu quotidiano. Desde a última zanga com a mãe, tinham aparecido quatro novas midríases. Quatro vezes as pupilas da criança se tinham fixado, assinalando a iminência do fim. A cada crise, os médicos haviam eliminado, graças aos drenos, alguns mililitros do líquido cefalorraquidiano e aliviado o órgão. Só assim conseguiram evitar o pior.

 

Ela vivia suspensa dos lábios dos clínicos. Interpretava a mínima das suas palavras, a mínima das suas inflexões de voz e desgostava-se amargamente de uma tal dependência. Só estas interrogações habitavam o seu espírito e vinham a todo o momento importuná-lo, à maneira de uma tortura lancinante. Dormia intermitentemente, inconsciente a ponto de por vezes já não saber se vivia ou sonhava. A sua saúde estava em queda livre e ela recusava-se sempre a tomar qualquer medicamento. Na realidade, esta mortificação acabava por alvoroçá-la, aturdi-la, como um transe religioso, e permitia-lhe não encarar a verdade de frente. Já não havia esperança. A vida de Lucien só assentava num monte de máquinas e numa tecnologia insensível.

 

Para pôr termo a tudo, bastaria carregar no interruptor eléctrico.

 

Nesse dia, por volta das quinze horas, foi o seu corpo que cedeu. Diane perdeu os sentidos nas escadas da unidade pediátrica e desceu um andar aos trambolhões. Eric Daguerre injectou-lhe uma dose de glicose por via intravenosa e ordenou-lhe que fosse para casa dormir. Sem discussão possível.

 

À noite, porém, cerca das vinte e duas horas, já Diane empurrava a porta da unidade médica, obstinada, enraivecida, doente mas presente. Invadia-a um obscuro pressentimento; tinham soado as derradeiras horas. Parecia-lhe que cada pormenor lhe confirmava esta verdade. A atmosfera sufocante no seio do edifício. Os néones mortiços do rés-do-chão. O olhar distante de um enfermeiro com quem ela se cruzou, achando-o ambíguo. Outros tantos sinais, outros tantos presságios: a morte andava ali, muito perto, a seu lado.

 

Quando entrou no átrio do segundo andar, avistou Daguerre e compreendeu que a sua intuição estava certa. O médico avançou. Diane parou.

 

O que sucedeu?

 

Sem responder, o cirurgião pegou-lhe no braço e levou-a até uma fileira de cadeiras pregadas à parede.

 

Sente-se.

 

Ela deixou-se cair, ciciando por entre os lábios:

 

O que sucedeu? Não... não é o fim, pois não? Eric Daguerre acocorou-se a fim de ficar à sua altura.

 

Acalme-se.

 

Diane conservava os olhos abertos, mas não o via. Não via nada, excepto o vazio. Não era sequer uma visão, era a ausência de qualquer visão, de qualquer perspectiva. Pela primeira vez na sua vida, Diane já não conseguia projectar-se até ao instante seguinte, conceber o segundo que viria depois do anterior. Já pertencia, por defeito, à morte.

 

Diane, olhe para mim.

 

Ela concentrou-se no rosto ossudo do cirurgião. Ainda não via nada. A sua consciência já não analisava as imagens captadas pelas retinas. O médico agarrou-lhe nos pulsos. Ela abandonou-lhos; já não tinha a força das suas fobias. O homem murmurou:

 

Esta tarde, durante a sua ausência, Lucien sofreu mais duas midríases. Em menos de quatro horas.

 

Diane ficou petrificada. Os seus membros estavam amarrados, tolhidos pelo pavor. O cirurgião acrescentou, após um minuto de silêncio:

 

Tenho muita pena.

 

Desta vez, ela cravou o olhar no clínico e encarou-o através da sua ira.

 

Ainda não morreu, pois não?

 

Veja se compreende. Já por seis vezes, Lucien apresentou os sintomas de uma morte cerebral. Não pode regressar a um estado de consciência. E ainda que admitíssemos um milagre e ele manifestasse sinais de despertar, as sequelas seriam demasiado graves. O seu cérebro está fatalmente danificado, percebe? Não podemos desejar uma coisa assim: não passaria de um ser vegetativo.

 

Diane fitou Daguerre durante uns segundos. A beleza do médico impressionou-a de repente. A sua voz estrondeou de raiva:

 

Quer que ele morra, é isso, não é? O cirurgião endireitou-se. Tremia.

 

Não tem o direito de me falar assim, Diane. A mim, não. Luto todos os dias, todas as noites para os tirar daqui. Pertenço à vida. (Apontou para o corredor de vidro, atrás da porta envidraçada.) Pertencemos à vida, todos nós! Não peça à morte que exista no meio de nós.

 

Ela atirou a cabeça para trás e fechou os olhos. O crânio bateu na parede. Uma vez, duas vezes, três vezes. O calor sufocava-a. A brancura dos tubos fluorescentes queimava-lhe as íris através das pálpebras. Sentia o seu corpo desabar, abrir-se num buraco negro, aspirar a sua consciência neste esvaimento.

 

Todavia, num último esforço, conseguiu levantar-se. Sem uma palavra, pegou na carteira e caminhou até ao serviço de reanimação.

 

O serviço dos pequenos corpos imóveis.

 

Para lá da porta, estava tudo deserto.

 

Diane meteu-se no quarto de Lucien, tirou os óculos e tombou de joelhos. Com a cabeça pousada nos lençóis, à beira da cama, debulhou-se em lágrimas. Em inesperada violência. Era a primeira vez, desde o acidente, que o corpo lhe concedia esta libertação. Os músculos desenlearam-se, os nervos descontraíram-se. Os soluços sufocavam-na, a mágoa asfixiava-a, mas ela também sentia abrir-se dentro de si um alívio, uma surda fruição, como uma flor nefasta que anunciava o último apaziguamento.

 

Sabia que não sobreviveria à morte de Lucien. Esta criança fora a sua derradeira oportunidade. Se desaparecesse, Diane renunciaria a perdurar. Ou então a sua razão voaria em estilhaços. De uma ou de outra maneira, descarrilaria.

 

De repente, apercebeu-se de uma presença. Ergueu o olhar corroído pelo sal das lágrimas. Sem óculos, nada via, mas tinha a certeza: havia alguém por entre a escuridão.

 

Então, docemente, misteriosamente, uma voz elevou-se:

 

Posso fazer algo por si.

 

Diane limpou os olhos a uma manga e pegou nos óculos. Estava um homem de pé, a poucos metros. Compreendeu que ele já se encontrava no compartimento quando ela entrara. Tentou acalmar-se.

 

O homem aproximou-se. Era um verdadeiro colosso, com perto de dois metros de altura, envergando uma bata branca. O pescoço enorme era rematado por uma cabeça não menos larga, coroada de uma trunfa branca. A ténue luz do corredor iluminou momentaneamente o seu rosto. Tinha a pele avermelhada, os traços vagos de um tronco desgastado. Uma certa docilidade emanava da sua face. Diane reparou nas pestanas compridas e levantadas. Ele repetiu:

 

Posso fazer algo por si. (Virou-se para o menino.) Por ele.

 

A voz era calma, em harmonia com as feições, e possuía um ligeiro sotaque. Mais uns segundos e já Diane dominava a sua surpresa. Olhou de relance para o crachá dele, preso na bata.

 

É... é aqui do serviço? interrogou.

 

Ele avançou um passo. Apesar da corpulência, os seus movimentos não provocavam qualquer ruído.

 

Chamo-me Rolf van Kaen. Sou anestesista-chefe. Venho de Berlim. Hospital pediátrico Die Charité. Desenvolvemos um programa franco-alemão com o Dr. Daguerre.

 

O seu francês era fluente, polido como um seixo que ele tivesse guardado durante muito tempo na algibeira. Diane levantou-se e puxou a única cadeira visível. Instalou-se desajeitadamente. Nenhuma enfermeira passava no corredor. Ela volveu:

 

O que é... o que é que faz aqui? Quero dizer: neste quarto?

 

O médico pareceu reflectir, pesar a mínima das suas palavras.

 

Informaram-na esta noite da evolução do estado de saúde do seu filho. Eu próprio li os resultados. (Deteve-se e depois:) Julgo que a preveniram. Do ponto de vista da medicina ocidental, já não há esperança.

 

Do ponto de vista da medicina ocidental?

 

Diane arrependeu-se logo da pergunta feita. Lançara-se sobre a opinião do homem com demasiada presteza. O alemão prosseguiu:

 

Podemos tentar outra técnica.

 

Que técnica?

 

A acupunctura.

 

Diane sibilou por entre os lábios.

 

Pisgue-se daqui para fora. Não sou assim tão crédula. Irra! Suma-se antes que eu corra consigo.

 

O anestesista permanecia imóvel. A largura dos seus ombros recortava-se contra os reflexos de vidro. Murmurou:

 

A minha posição é difícil, minha senhora. Não disponho de tempo para a convencer. Mas o seu filho ainda tem menos tempo...

 

Diane surpreendeu na entoação uma inflexão natural, espontânea, que a sensibilizou. Era a primeira vez que uma voz referia sem embaraço nem condescendência a sua relação mãe-filho com Lucien. O médico continuou:

 

Sabe do que sofre o seu menino, não sabe? Ela baixou a cabeça e balbuciou:

 

Afluxos de sangue que...

 

Vão asfixiar o seu cérebro, sim, é isso mesmo. Mas sabe donde provêm tais afluxos?

 

Foi o embate. O choque do acidente. O hematoma provoca este fenómeno e...

 

 Sem dúvida. Mas mais profundamente? Sabe o que motiva a corrente de sangue? Qual é a força que propulsa a hemoglobina em direcção ao cérebro?

 

 Ela mantinha-se em silêncio. O médico debruçou-se.

 

 E se eu lhe disser que posso agir sobre esse mesmo movimento? Que posso abrandar a impulsão?

 

 Diane fez o possível por se exprimir com calma, mas era apenas no intuito de pôr cobro à conversa:

 

 Ouça. Acredito que esteja cheio de boas intenções, mas o meu filho foi aqui tratado pelos melhores médicos. Não vejo o que...

 

 Eric Daguerre trabalha sobre os fenómenos mecânicos da vida. Por mim, posso agir sobre a outra vertente, sobre a energia que activa estes mecanismos. Posso atenuar a força que drena o sangue do seu filho e o vai matando gradualmente.

 

 Ora, deixe-se de tretas.

 

 Escute!

 

 Diane sobressaltou-se. O médico quase gritara. Ela deitou um olhar ao corredor: ninguém. O andar nunca lhe parecera tão deserto, tão silencioso. Começava a experimentar um medo confuso. O alemão voltou à carga, mais baixo.

 

 Quando olha para um rio, vê a água, a espuma, as ervas que se agitam entre as ondas, mas não vê o principal: a corrente, o movimento, a vida do curso de água... Quem ousaria sustentar que o corpo humano não funciona do mesmo modo? Quem ousaria dizer que, sob a complexidade da circulação sanguínea, das pulsações cardíacas, das secreções químicas, não existe uma simples corrente que anima tudo isto: a energia vital?

 

 Ela ainda negava com a cabeça. O homem já só estava a escassos centímetros. O diálogo entre os dois adquiria uma ressonância confessional:

 

 Os rios têm a sua nascente, as suas redes subterrâneas, invisíveis ao olhar. A vida humana também possui as suas origens secretas, os seus lençóis freáticos. Toda uma geografia profunda que escapa à ciência moderna, mas se organiza no interior do nosso corpo.

 

Diane quedava-se imóvel, com o rosto mergulhado na sombra. O que o homem ignorava é que ela conhecia este discurso: quantas vezes ouvira os seus mestres de wing-chun discorrer sobre o chi, a energia vital, o yin e o yang e todas essas coisas! Mas não era adepta. Pelo contrário, o seu triunfo, nos tatamis, demonstrava a seus olhos a vacuidade de semelhantes teses: era possível ser-se uma campeã de artes marciais shaolin e estar completamente nas tintas para tais valores. No entanto, a voz instilava-se na sua consciência:

 

A acupunctura pertence à medicina tradicional chinesa. Uma medicina várias vezes milenar, que não assenta em crenças, mas em resultados. E, por certo, a medicina mais empírica de todas, pois ninguém pôde alguma vez explicar o porquê da sua eficácia. A acupunctura actua directamente sobre as redes da nossa fonte vital, aquilo a que chamamos os meridianos. Minha senhora, peço-lhe que confie em mim: posso travar o processo de contusão no seu filho. Posso limitar o corrimento de sangue que está a matá-lo!

 

Diane olhou para o corpo de Lucien. Minúscula silhueta estreitada entre ligaduras, gesso e cabos, dir-se-ia agora esmagado, controlado por uma maquinaria hostil, já inumado num sarcófago complexo e futurista. Van Kaen ainda cochichava:

 

O tempo urge! Se não confiar em mim, confie ao menos no corpo humano. (Empertigou-se e voltou-se para Lucien.) Dê-lhe tudo o que é possível. Quem sabe como ele reagirá.

 

Diane arrepanhou as madeixas, estavam encharcadas em suor. As suas referências, as suas convicções estalavam sob o crânio como taças de cristal sob o efeito de uma onda insidiosa.

 

Elevou-se na sala um arquejo surdo. Diane levou um décimo de segundo para entender que se tratava da sua própria voz:

 

Com mil diabos, pronto! Experimente o seu sistema. Faça-o voltar à vida!

 

Ao primeiro toque do telefone, Diane compreendeu que estava a sonhar. Via o médico alemão a afastar os lençóis e depois a desenrolar os pensos de Lucien. Tirava os fios, os eléctrodos, extirpava o braço do molde de gesso. A criança estava agora nua. Só o penso na cabeça e a perfusão a ligavam ainda à medicina ocidental. Ao segundo toque, acordou.

 

 No silêncio que se seguiu ao trinado electrónico, inundou-a um rasgo de lucidez. O seu sonho não era um sonho. Ou, pelo menos, alimentava-se de um facto real. Revia distintamente a silhueta de Rolf van Kaen, que palpava, friccionava, alisava cada um dos membros de Lucien. O seu rosto estava inclinado, atento. Diane, nesse instante, experimentara a seguinte sensação: o acupunctor ”o corpo maneirinho e pálido. Decifrava-o, como se conhecesse um código ignorado pelas outras medicinas. Instaurava-se um diálogo silencioso entre o gigante de cabelos brancos e o rapazinho inconsciente, quase morto, mas que ainda parecia poder murmurar alguns segredos a um iniciado.

 

 Van Kaen sacara das suas agulhas e disseminara-as na epiderme de Lucien. À medida que as espetava no torso, nos braços, nas pernas da criança, estas pontas pareciam acender-se, imbuir-se da luminosidade verde do ecrã de vigilância, que sobranceava a cena. Na extremidade da cama, Diane mostrava-se subjugada. Aquele corpo tão franzino, claro como o giz, eriçado de agulhas que brilhavam tal qual pirilampos numa escuridão de vidro...

 

 Terceiro toque.

 

 Na penumbra, Diane vislumbrou as reproduções de quadros que decoravam o seu quarto: quadrados a pastel de Paul Klee, simetrias mais vivas de Piet Mondrian. Baixou o olhar para a mesinha-de-cabeceira. O despertador marcava 03.44. A sua certeza voltou em força. Cinco horas antes, um misterioso médico praticara uma sessão de acupunctura no seu filho. Antes de desaparecer, dissera simplesmente: ”É uma primeira etapa. Hei-de voltar. A criança tem de viver, compreende?”

 

 Quarto toque.

 

 Diane encontrou o auscultador e levantou-o.

 

Está!

 

 É a senhora Thiberge?

 

 Reconheceu a voz de uma das enfermeiras, Mme Ferrer:

 

 O professor Daguerre pediu-me para a avisar.

 

 O tom era de uma neutralidade absoluta, mas Diane percebia a hesitação da enfermeira. Gemeu:

 

 Acabou-se tudo, é isso?

 

 Houve um breve silêncio e depois:

 

 Pelo contrário, minha senhora. Temos um sinal de melhoras.

 

 Diane sentiu afluir dentro de si a indizível força do amor.

 

 Um sinal de despertar, continuou a enfermeira.

 

 Quando?

 

 Há cerca de três horas. Fui eu que notei que os dedos dele mexiam. Chamei os internos de serviço a fim de verificarem por eles mesmos. São categóricos: Lucien apresenta sinais de regresso à consciência. Chamámos o professor Daguerre. Este autorizou-me a preveni-la.

 

 Diane perguntou:

 

 Informou o Dr. van Kaen?

 

 Quem?

 

Rolf van Kaen. O médico alemão que trabalha com Daguerre.

 

 Não sei de quem está a falar.

 

 Não faz mal. Vou já para aí.

 

 No quarto de Lucien, a atmosfera fazia lembrar uma vigília fúnebre, mas de certo modo às avessas. Em torno do corpo falava-se em voz baixa; no entanto, os sussurros eram joviais. E se a penumbra ainda reinava, já por outro lado um verdadeiro fervor animava os rostos. Havia ali cinco médicos e três enfermeiras. Ninguém usava máscara e, sob a influência da febrilidade do instante, os internos quase se tinham esquecido de vestir a bata.

 

 Apesar de tudo, Diane estava desiludida. O filho continuava na mesma posição, inerte, enfiado na concavidade da cama. Na sua excitação, ela chegara a ter esperança de o ver sentado, de olhos abertos. Mas os médicos sossegaram-na. Perante os sinais já observados, entusiasmavam-se, incapazes de refrear as suas próprias expectativas.

 

 Ela contemplava o filho e pensava no misterioso colosso. Notou que as ligaduras estavam de novo postas, bem como o gesso, os eléctrodos e os captadores. Ninguém poderia suspeitar que o alemão se entregara ao desnudamento e ao diálogo interior com o pequeno corpo. Diane voltou a ver as pontas verdes que oscilavam ao sabor da respiração de Lucien, os dedos pujantes que faziam rodar as agulhas na carne.

 

 Preciso de o ver, disse ela.

 

 Quem?

 

 O anestesista de Berlim que trabalha convosco. Houve olhares embasbacados, um silêncio embaraçado entre os médicos. Um deles aproximou-se e murmurou-lhe com um sorriso nos lábios:

 

 Daguerre é que gostaria de a ver a si.

 

Lembre-se do que eu lhe disse, Diane. Nada de falsas esperanças. Lucien pode sair completamente de coma, mas ter sofrido danos cerebrais irreversíveis...

 

 O gabinete do cirurgião era uniformemente branco, como que irradiado de luz. Até mesmo as sombras pareciam mais claras, mais leves que em qualquer outro sítio. Sentada em frente do médico, Diane retorquiu:

 

 É um milagre. Um incrível milagre.

 

 Daguerre não cessava de brincar com um lápis, num movimento que parecia canalizar todo o seu nervosismo. Prosseguiu:

 

 Diane, estou muito feliz por causa do seu filho. Assistimos a algo de realmente... extraordinário, é bem certo. Mas, uma vez mais, não devemos regozijar-nos demasiado depressa. O retorno à consciência também pode revelar graves traumatismos. E este retorno não é uma certeza.

 

 Um milagre. Van Kaen salvou Lucien. Daguerre suspirou:

 

 Fale-me desse homem. O que lhe disse ele exactamente?

 

 Que vinha de Berlim e trabalhava consigo, aqui.

 

 Nunca ouvi falar dele. (Enervava-se.) Como é que as enfermeiras puderam deixar entrar um tal energúmeno no serviço de reanimação?

 

 Não estavam lá enfermeiras.

 

 O cirurgião dava mostras de uma agitação cada vez maior. O tamborilar da borracha ressoava com regularidade.

 

 E afinal o que fez ele a Lucien? Uma sessão clássica de acupunctura?

 

 Não posso dizer-lhe: era a primeira vez que eu presenciava este género de manipulação. Tirou-lhe as ligaduras e espetou agulhas em diferentes partes do corpo.

 

 Mesmo a contragosto, o cirurgião deixou escapar uma risada. Diane cravou o olhar nele:

 

 Faz mal em rir. Repito-lhe: esse homem salvou o meu filho.

 

 O ar de escárnio eclipsou-se. O médico atacou num tom meio calmo, meio admoestador, o que se utiliza para chamar à razão uma criança:

 

 Diane, sabe quem eu sou. Conheço o cérebro humano, numa perspectiva neurobiológica, como só mais uma dezena de especialistas em todo o mundo o conhecem.

 

 Não ponho em causa a sua experiência.

 

 Ouça: o sistema cerebral é de uma inacreditável complexidade. Sabe quantas células nervosas ele abriga?

 

 Continuou, sem aguardar resposta:

 

 Cem mil milhões, ligadas entre si por miríades de conexões. Se uma tal máquina se pôs de novo em movimento, pode crer, é porque devia funcionar outra vez. Foi o organismo do seu filho que decidiu por si mesmo, compreende?

 

 Agora, é fácil dizê-lo.

 

 Não se esqueça que o operei.

 

 Desculpe.

 

 Diane acrescentou, mais amenamente:

 

 Por favor, doutor, perdoe-me. Mas estou convencida de que esse médico desempenhou um papel nas melhoras de Lucien.

 

 Daguerre largou finalmente o lápis para juntar as mãos. Ajustou a voz pelo tom da sua interlocutora:

 

 Escute. Não sou um médico obtuso. Até exerci no Vietname.

 

 Bailou-lhe nos lábios uma espécie de sorriso voltado para o interior, para o seu passado, os seus sonhos antigos.

 

 Depois do internato, dediquei-me um pouco ao humanitarismo. Estudei acupunctura por lá. Sabe em que consiste esta técnica? Em que consistem os famosos pontos solicitáveis?

 

 O homem falou-me dos meridianos...

 

 Sabe a que correspondem esses meridianos, fisicamente?

 

 Diane calou-se. Procurava recordar-se das palavras do alemão. Daguerre respondeu por ela:

 

 A nada. Fisiologicamente, os meridianos não existem. Ensaiaram-se análises, radiografias, scanners. Nunca saiu qualquer resultado destes trabalhos. Os pontos de acupunctura  não correspondem sequer a zonas específicas da epiderme, ao contrário do que se alega. Do ponto de vista da fisiologia moderna, o acupunctor pica onde lhe apetece. São lérias sem a mínima consistência.

 

 O discurso de van Kaen acudia-lhe de novo ao espírito. Ela interveio:

 

 O médico falou-me da energia vital que circula no nosso corpo e...

 

 E essa energia seria acessível assim sem mais (fez estalar os dedos) à superfície da pele? E só a medicina chinesa teria achado a geografia desta rede? É ridículo!

 

 Bateram à porta do gabinete. Mme. Ferrer entrou e declarou, ligeiramente esbaforida:

 

 Doutor, encontrámos o homem que penetrou na unidade.

 

 O rosto de Diane resplandeceu. Ela virou-se toda com um cotovelo apoiado no espaldar da cadeira:

 

 Contaram-lhe do Lucien? O que disse ele?

 

 Mme. Ferrer ignorou a pergunta e dirigiu-se novamente ao médico.

 

 Há um problema, doutor.

 

 O cirurgião pegou outra vez no lápis e fê-lo girar em torno do indicador, à maneira de uma varinha de majorette. Tentou gracejar:

 

 Um só: tem a certeza?

 

 A enfermeira nem sequer esboçou um sorriso.

 

 Doutor, o homem está morto.

 

 Diane esperava agora no segundo andar do edifício Lavoisier. De acordo com as indicações dos painéis informativos, estava nos corredores do serviço de investigação genética. Porque a tinham trazido para aqui? Porquê a genética? Mistério. Mantinha-se de pé contra a parede, apoiada sobre as mãos cruzadas, e não cessava de oscilar entre acessos de alegria, relacionados com as melhoras do filho, e abismos de estupor, provocados pela morte de van Kaen. Eram cinco horas e trinta da manhã e ainda ninguém lhe dissera nada. Nem a mais pequena informação sobre as circunstâncias do falecimento dele. Nem a mais pequena palavra sobre a maneira como o corpo havia sido descoberto.

 

 Diane Thiberge?

 

 Voltou-se para a voz. O homem que se aproximava excedia sem custo o metro e oitenta e cinco. Ela pensou no gigante alemão. No fundo, era bastante agradável estar rodeada de gente da sua altura. O recém-chegado anunciou logo:

 

 Patrick Langlois, tenente da polícia.

 

 Devia andar pelos quarenta anos. Um rosto seco, escalavrado, com a barba por fazer. Inteiramente vestido de preto: sobretudo, casaco, camisola rente ao pescoço, e jeans. O cabelo e a barba que despontava eram de um grisalho crespo, autêntica palha d’aço. Se acrescentássemos as orlas vermelhas dos olhos, obteríamos uma espécie de quadro de cores gélidas. Um Mondrian preto-cinzento-vermelho, articulado numa simples silhueta esgalgada e num sorriso de malícia.

 

 Disse ainda: ”Brigada criminal.” Diane estremeceu. O chui ergueu uma mão em sinal de apaziguamento.

 

 Nada de pânico. Estou aqui por engano.

 

 Diane teria preferido guardar silêncio, demonstrar que controlava a situação, mas perguntou, contra a sua própria vontade:

 

 A que chama ”por engano”?

 

 Ouça. (Uniu as duas palmas uma contra a outra, como quem reza.) Vamos proceder de acordo com as normas, combinado? Antes de mais, explique-me o que se passou exactamente esta noite.

 

 Em poucas frases, Diane resumiu as últimas horas que acabava de viver. O chui anotava as respostas dela num pequeno bloco de folhas ligadas por uma espiral, deitando levemente a língua de fora e para o lado. A expressão parecia tão incongruente neste rosto agreste que ela julgou tratar-se de uma mímica voluntária, de um esgar paródico. Mas a língua sumiu-se assim que ele acabou de escrever.

 

É curioso, opinou.

 

 Sem largar o bloco, pôs-se a imitar com as mãos os dois pratos de uma balança imaginária e adoptou uma voz de comando:

 

 De um lado, a vida que volta, do outro, a morte que se abate e...

 

 Diane lançou-lhe um olhar estupefacto. O polícia sorriu de um modo ostensivo, como se o júbilo só estivesse à espera de uma oportunidade para alastrar sob os seus traços.

 

 Talvez eu devesse deixar-me de grandes frases...

 

 Pelo menos, ao pé de mim.

 

 Langlois moveu os ombros dentro do sobretudo.

 

 Muito bem. Digamos então, simplesmente, que estou muito contente pelo seu filho.

 

 Pode explicar-me como descobriram van Kaen?

 

 Ele pareceu hesitar. Revolveu os cabelos eriçados, olhou para os dois lados do corredor, depois ordenou enquanto se encaminhava para o elevador:

 

Venha comigo.

 

Saíram para a frescura do alvorecer, contornaram o edifício e dirigiram-se para o bloco seguinte. A pequena cidade de Necker começava a animar-se. Diane viu uns grandes camiões, estacionados na álea central, que despejavam imensos carrinhos onde se empilhavam centenas de tabuleiros-refeição cobertos de inox. Nunca lhe passara pela cabeça que o hospital encomendasse as refeições no exterior.

 

O tenente avançava para um outro edifício. Só as janelas do subsolo estavam iluminadas. Entraram pela porta principal e cruzaram-se com vários polícias fardados. Os habituais eflúvios químicos eram aqui substituídos por um cheiro a comida. Langlois comentou:

 

As cozinhas do hospital.

 

Apontou para uma porta entreaberta e meteu por ali. Diane foi atrás dele. Desceram uma escada estreita e atingiram uma vasta sala na cave, com as paredes pintadas de azul. Fileiras de embalagens desdobravam-se de ambos os lados do espaço deserto. Sem parar de andar o polícia proferiu então:

 

Por ora, eis o que podemos imaginar. Cerca das vinte e três horas e trinta, o homem que diz chamar-se van Kaen acompanha-a ao limiar do edifício de neurocirurgia. Em seguida, dá a volta, atravessa o pátio e mete-se aqui, nas cozinhas. A essa hora, não há muita gente. Ninguém repara nele.

 

Langlois continuava a caminhar. Com um gesto largo, arredou um cortinado de tiras de plástico.

 

Atravessa esta sala...

 

As paredes de cimento eram agora cor-de-laranja. Uns fornos imponentes, rematados por descomunais panos de chaminé, desferiam reverberações de prata. O homem removeu outro cortinado.

 

...e chega às salas frigoríficas.

 

Abriu-se um corredor de cor verde, ladeado de portas cromadas. O frio intensificava-se. No tecto, os néones assemelhavam-se a estalactites horizontais. A atmosfera nua e colorida do lugar evocava um jogo de cubos que tivesse dimensões de bunker.

 

 O investigador estacou diante de uma das faces, montada sobre uma calha de ferro lateral. Por cima, à direita, estava inscrita a menção: 4a GAMA. Dois chuis, envergando as parcas regulamentares, guardavam o local. Frisos de cristais remordiam as bordas dos seus bonés. A confusão de Diane não cessava de aumentar. Com um gesto, Langlois mandou arrancar a fita amarela que barrava a porta de metal.

 

 Tirou uma chave do bolso e introduziu-a num ferrolho colocado bastante alto.

 

 Van Kaen escolheu este compartimento frigorífico.

 

 Ele... tinha uma chave?

 

 Possuía uma igual a esta. Roubara-a sem dúvida no escritório do chefe de serviço.

 

 Diane estava aterrada. E ainda não fizera a pergunta essencial: como é que o homem morrera? O chui fez girar a estrutura de aço. No momento de abrir a porta, voltou-se para ela e encostou-se à superfície de inox.

 

 Devo preveni-la: é deveras impressionante. Mas não é sangue.

 

 O que é então?

 

 O tenente deitou a mão ao puxador, segurou-se firmemente e fez deslizar a porta sobre a calha. Saltou-lhes à cara uma aragem fria. Ele repetiu:

 

 Lembre-se do que lhe digo: não é sangue.

 

 Fez um aceno, convidando-a a segui-lo. Diane deu um passo em frente e parou de chofre. Defronte de recipientes de plástico cinzentos, uma parede de cimento branco estava vaporizada de vermelho. Crostas purpurinas aglutinavam-se, estrias escarlates riscavam a superfície e salpicos castanhos espalhavam-se sobre o solo em bruto, até ao limiar da sala. Este compartimento de cinco metros por cinco, repleto de caixas plastificadas, parecia ter sido palco de um verdadeiro massacre. Mas o mais espantoso e o mais enjoativo era o activo cheiro a fruta que pairava no frio.

 

 Patrick Langlois apanhou, no alto de uma pilha de caixas, um pacote envolvido numa película transparente e estendeu em seguida o objecto a Diane.

 

 Mirtilos. (Fez menção de ler o rótulo da embalagem.) Frutos vermelhos. Importados da Turquia. Após a sua intervenção, van Kaen veio aqui para se regalar com uma orgia de bagas.

 

 Diane avançou no compartimento, persuadindo-se de que os seus tremores provinham do frio.

 

 O que... o que significa isto?

 

 O chui sorriu com um ar desolado.

 

 Apenas o que acabo de dizer. A prioridade de Rolf van Kaen, depois da curta sessão de acupunctura, não consistiu em desaparecer, mas em vir aqui morfar pacotes inteiros de mirtilos. (Deitou um olhar em redor.) Consumidas de um modo selvagem.

 

 Ela balbuciou:

 

 Mas... de que morreu?

 

 Langlois atirou a caixa plastificada para cima de um dos empilhamentos.

 

 De indigestão, suponho eu.

 

 Lançou uma olhadela à sua interlocutora e continuou:

 

 Desculpe: não tem graça nenhuma. Ao fim e ao cabo, ainda não se conhece a causa do óbito. Mas tratou-se, sem dúvida alguma, de uma morte natural. Aquilo a que eu chamo ”natural”. Segundo as nossas primeiras observações, o corpo não apresenta qualquer vestígio de ferimento. Van Kaen talvez tenha sucumbido a uma crise cardíaca, a uma ruptura de aneurisma ou a uma doença, sei lá que mais...

 

 Langlois indicou a porta entreaberta. Reinava um silêncio opressivo.

 

 Isto explica-lhe o facto de as cozinhas terem sido postas de quarentena. Imagine o efeito de um cadáver, porventura doente, no meio destas instalações. Bem vistas as coisas, as refeições das crianças são preparadas aqui mesmo. Vindo morrer nesta sala, o nosso alemão pôs o Necker em polvorosa.

 

 Diane apoiou-se num dos recipientes. O cheiro dos frutos e do açúcar subia-lhe à cabeça.

 

Vamo-nos embora, murmurou. Não aguento mais aqui... pode crer...

 

 O vento da aurora revigorou-a um pouco, mas precisou de vários minutos para retomar a palavra. Por fim, inquiriu:

 

 Porque me conta tudo isto?

 

 Langlois ergueu as sobrancelhas em sinal de surpresa.

 

 Porque está no cerne da história! Na falta de assassínio, resta-nos o exercício ilegal da medicina, a intrusão no hospital, sem dúvida uma usurpação de identidade... (esticou o indicador). A partir daqui, é a nossa queixosa.

 

 Diane sentia-se agora mais calma. Arranjou a força necessária para declarar:

 

 Não entendeu nada, tenente. Esse homem, seja qual for a sua identidade e quaisquer que tenham sido as suas motivações, salvou a vida do meu filho. Indirectamente, também salvou a minha. Sendo assim, pouco me importa o método utilizado. A minha única tristeza, neste momento, é não poder agradecer-lhe, está a perceber? E não creio que o seu inquérito possa ajudar muito neste aspecto.

 

 Langlois teve um gesto de enfado.

 

 Sabe perfeitamente onde eu quero chegar. Há mais de um mistério neste caso. Na minha opinião, a história ainda só agora começou. De resto, eu...

 

 A estridência de uma série de bips ecoou então. O tenente soltou do cinto um minúsculo mostrador e leu aí uma mensagem. Estendeu o objecto a Diane e segredou:

 

 O que lhe dizia eu?

 

Diane sabia que se tratava de acontecimentos reais, mas recebia-os com uma incredulidade que lhe permitia mantê-los à distância, não assumir totalmente a demência deles. Mais tarde, poria ordem em tudo isto. Mais tarde, tentaria encontrar aqui uma lógica. Por ora, captava cada facto, cada informação, com o recuo e a impotência de uma pessoa que sonha.

 

 Langlois levou-a de novo para o edifício Lavoisier. Ficaram desta vez no rés-do-chão. Diane reconheceu imediatamente a sala para onde se encaminhavam: a sala da TAG, a mesma onde Lucien se submetera aos primeiros exames.

 

 Já no limiar, Diane hesitou em entrar, parecia-lhe que, uma vez lá dentro, seria assaltada por recordações lancinantes. Mas o polícia empurrou-a sem rodeios e fechou a porta atrás deles. Os terrores que ela temia não aconteceram, pela simples razão de que a sala mudara completamente de atmosfera.

 

 Reinava aqui uma agitação singular. Diante da consola dominada por monitores e negatoscópios, dois homens, de blusão, tamborilavam sobre teclados de computador e materializavam nos ecrãs umas formas coloridas. Do outro lado do vidro, sob uma luz coada, iam e vinham silhuetas em torno da roda imponente do scanner e manipulando engenhos cromados. Outras desligavam cabos no solo, apagavam monitores suspensos, reajustavam tubos e ópticas bizarras. Era evidente que suprimiam os traços da sua passagem.

 

 Nenhuma destas pessoas usava bata branca.

 

 Diane reparou noutras anomalias. Os homens pareciam ter todos menos de trinta anos e a maior parte deles ostentavam à cintura uma pistola automática, metida num coldre com fecho de velcro.

 

 Chuis.

 

 Ela compreendeu por que a tinham feito esperar no segundo andar deste edifício: os polícias haviam instalado aqui o seu quartel-general, apoderando-se por algumas horas do material de imagiologia médica. Langlois perguntou-lhe de repente:

 

 Sabe o que é a paleopatologia?

 

 Diane voltou-se para o investigador. Respondeu numa voz cansada:

 

É uma técnica que se utiliza em arqueologia, a qual consiste em colocar uma múmia ou outros vestígios orgânicos num scanner, num instrumento IRM ou num qualquer aparelho de imagiologia, a fim de analisar as suas componentes internas sem as deteriorar. Tornou-se possível autopsiar, de modo virtual, alguns mortos finados há milénios.

 

 Langlois sorriu:

 

 Excelente, não se poderia descrever melhor.

 

 Sou cientista. Leio as revistas especializadas. Mas não vejo...

 

 No nosso serviço médico-legal, temos um craque neste domínio. Um pequeno génio que é capaz de sondar uma múmia sem desenrolar a mais pequena faixa.

 

 Diane deitou uma mirada assustada ao outro lado do vidro. Discernia uma forma alongada sob um lençol, no interior da máquina. Balbuciou, de olhos pregados no lençol:

 

 Quer dizer que aplicaram o scanner ao corpo de...

 

 Tínhamos o material à mão. (O polícia sorriu outra vez.) Eis o interesse de descobrir um morto num hospital...

 

 É louco!

 

 Diga antes apressado. Graças a este engenho, pudemos praticar uma autópsia virtual ao van Kaen. Vamos agora entregá-lo à administração médico-legal. Nem visto, nem achado.

 

 Afinal que género de chui é você?

 

 Langlois ia responder quando a porta que separava as duas cabinas se abriu.

 

 Metemos água.

 

 O tenente rodopiou na direcção do jovem que acabava de entrar. Cabelo louro encaracolado, pele acinzentada, olhar ardente: assemelhava-se a um charuto consumido. Repetiu:

 

 Metemos água, Langlois.

 

 O quê?

 

É um assassínio. Um assassínio assombroso.

 

 O polícia lançou uma olhadela a Diane. Ela julgou ler nos seus pensamentos e articulou:

 

 Optou por me arrastar consigo para todo o lado. Assuma então os seus métodos. Não abandonarei esta sala.

 

 Pela primeira vez, as feições do chui contraíram-se, para se desanuviarem logo a seguir. Passou as duas mãos pelo rosto, como para aí repor a sua máscara de malícia.

 

 Tem razão. (Dirigiu-se novamente ao médico legista.) Explica-te lá.

 

 Quando iniciámos os cortes tomográficos do torso, esperávamos descobrir sinais de necrose nesta região. Uma superabundância de enzimas cardíacas ou outros indícios de um enfarte...

 

 Chega de palavrório. O que encontraste?

 

 O perito médico-legal pareceu desconcertar-se. Ao mesmo tempo, havia nele algo de coriáceo, de incorruptível. As suas pálpebras pestanejaram rapidamente, depois largou a bomba:

 

 Este tipo tem o coração rebentado. O sangue concentrou-se no órgão, a ponto de lhe fazer estourar os tecidos.

 

 Langlois rugiu, revelando desta vez a sua verdadeira natureza de caçador:

 

 Porra! Disseste-me que ele não tinha nenhum ferimento! O legista baixou a cabeça. A sombra de um sorriso perpassou sob os seus caracóis louros.

 

 E não tem. Tudo aconteceu no interior. No interior do corpo. (Apontou para o computador.) Gostava que visses as imagens.

 

 O tenente ordenou aos outros chuis, sem sequer os fitar:

 

 Ponham-se a milhas. TODOS!

 

 A cabina esvaziou-se. O legista disparou o programa do computador, depois ofereceu uns óculos de plástico fumado a Diane e a Langlois.

 

 É melhor que ponham isto; o software é a três dimensões. Imitando os dois homens, Diane colocou a armação sobre as suas próprias lentes e descobriu o sinistro espectáculo que se exibia no ecrã principal.

 

 A imagem em relevo de Rolf van Kaen, torso nu desprovido de pilosidade, seccionado à altura do umbigo. Sentando-se em frente do monitor, o médico iniciou a sua exposição:

 

 Eis a reconstituição em 3da vítima.

 

 O busto rodava sobre si mesmo, depois voltava logo à posição inicial, como no âmbito de uma demonstração de infografia.

 

 Como já disse, repetiu o cientista, abordámos em primeiro lugar o órgão cardíaco. Quarenta segundos de digitação tomográfica bastaram-nos para recriar o relevo de...

 

 OK, OK. Anda lá!

 

 O médico tamborilou no teclado.

 

 Eis o que descobrimos...

 

 A partir dos ombros, a carne digitalizada desapareceu aos sacões. Antes de mais surgiram as artérias, em seguida um troço inteiro de órgãos e de fibras, massas avermelhadas e arabescos azuis entrelaçados. Tudo isto continuava a girar, numa espécie de carrossel abjecto. Diane estava agoniada, e simultaneamente fascinada.

 

 Num ápice, ela percebeu o que o médico pretendia mostrar: o coração já não era mais que uma explosão fixa de sangue e tecidos. Uma mancha negra derramada entre os meandros das veias e dos alvéolos pulmonares. O homem disse:

 

 Posso isolá-lo.

 

 Bateu numa nova tecla e apagou de uma só vez tudo o que não era os vestígios do órgão. O coração rebentado apareceu, perfeitamente circunscrito, no ecrã. Assemelhava-se a um recife de coral, com os seus braços acastanhados e as suas ramificações petrificadas. Um arbusto de pura violência. Numa voz rouca, Langlois perguntou:

 

 Como foi possível fazerem-lhe isto?

 

 A voz do médico legista mudou, como se viesse de mais longe, do fundo de uma análise fria:

 

 Fisiologicamente, é bastante simples. Basta dobrar a aorta, a fim de impedir o sangue de se ejectar do coração, como uma mangueira, se quiseres. A partir daqui, o líquido vital, afluindo das veias cavas e das veias pulmonares, obstrui-se até saturar o órgão cardíaco.

 

 Manejou de novo os comandos do teclado. Os outros órgãos e as redes sanguíneas reapareceram no ecrã.

 

 Vê-se aqui nitidamente a torção. (Clicou no seu cursor). aqui também. (Novo clique.)

 

 Langlois parecia incrédulo:

 

 Como é que se pode ter acesso a esta artéria, no interior do torso?

 

 O homem parou e virou-se para ele, cruzando os braços como se quisesse barrar o caminho à náusea e ao medo que o ameaçavam.

 

É o mais estapafúrdio de tudo: o assassino mergulhou a mão nas vísceras da vítima até alcançar a aorta.

 

 O médico rodou outra vez na direcção do monitor e accionou uma nova função. O torso de van Kaen reconstituiu-se, afundando-se as entranhas sob a carne cinzenta e brilhante. A imagem focalizou-se no eixo do esterno, acima da cavidade abdominal. Surgiu uma fina incisão.

 

 Eis o ferimento, prosseguiu a voz. É tão afilado que o não tínhamos assinalado, entre a pilosidade, por ocasião do exame externo.

 

 Foi por aqui que o assassino enfiou a mão?

 

 Sem sombra de dúvida. O golpe não ultrapassa os dez centímetros de largura. Se atendermos à elasticidade da pele, é amplamente suficiente para introduzir um braço. Desde que se trate de um homem de pequena estatura. Eu diria um metro e sessenta, mais ou menos.

 

 Van Kaen era um colosso!

 

 Então foi atacado por vários. Ou a vítima estava drogada. Não sei.

 

 Debruçado sobre o ecrã, Patrick Langlois tornou a perguntar:

 

 E durante a eventração, o sujeito ainda se encontrava VIVO?

 

 Vivo e consciente, sim. A explosão do órgão assim o comprova. Enquanto o patife escarafunchava nas vísceras, o coração desvairou-se e precipitou o seu mecanismo de bombeamento. A saturação de sangue deve ter sido breve e muito violenta.

 

 O tenente murmurou:

 

 Esperava um problema, mas não um quebra-cabeças deste calibre...

 

 No mesmo instante, os dois homens deram a impressão de se lembrar da jovem. Voltaram-se num único movimento. Langlois pronunciou:

 

 Diane, peço muita desculpa. Pode crer, nós... Diane? Sente-se bem?

 

 Por detrás dos seus óculos escuros, ela mantinha-se petrificada, com os dois olhos presos ao monitor. Disse numa voz sumida:

 

 O meu filho. Quero ver o meu filho.

 

 Conhecia estes jardins tão bem como aos seus próprios sonhos. Em criança, passara todas as tardes junto daquela fonte, rodeada pelas alamedas verdejantes. No entanto, não sentia qualquer nostalgia particular a propósito dos Jardins do Luxemburgo. Parecia-lhe que este parque lhe proporcionava apenas uma certa paz.

 

 Havia mais de quarenta e oito horas que o milagre se produzira. E os sinais de melhoria de Lucien persistiam. Ontem, a criança mexera repetidas vezes o indicador e o dedo médio da mão direita. Diane iria mesmo jurar que, na sua presença, o punho direito se soerguera. Os exames médicos haviam demonstrado que os sinais de contusão do cérebro recuavam. E as funções fisiológicas retomavam o seu curso normal. Até mesmo o doutor Daguerre parecia admitir que a criança estava agora no caminho de um autêntico despertar. Já aventava a possibilidade de tirar os drenos nos próximos dias.

 

 Diane, em princípio, deveria estar cheia de felicidade. Mas houve aquele assassínio, aquela violência insondável, aquelas imagens no ecrã do scanner que a tinham arrasado. Como fora possível uma tal atrocidade? Porque motivo o homem que salvara o seu filho viera a morrer nestas condições, exactamente algumas horas após a intervenção? Posso sentar-me?

 

 Diane ergueu os olhos. O tenente Langlois estava diante dela, tal qual o encontrara na antevéspera. Sobretudo preto, jeans pretos, t-shirt preta. Adivinhava que o homem possuía esta panóplia em vários exemplares, como outros tantos cadáveres num armário. Aliás, ele não cheirava a eau de toilette, mas a um curioso odor a engomado. À laia de resposta, Diane levantou-se:

 

 E se andássemos um bocadinho, hem?

 

 O chui anuiu. Ela tomou a direcção dos canteiros de árvores superiores. Três áleas de relvado que subiam em declive suave. Ele comentou num tom jovial:

 

 É uma boa ideia, esta vinda aqui.

 

 Gosto muito. Moro ao lado.

 

 Treparam os degraus de pedra. Sob o dia encoberto, as veredas estavam quase desertas. As árvores pareciam acolher o vento fresco na sua folhagem com afectação, do mesmo modo que uma mulher segura a saia por cima de uma grelha de metropolitano. O polícia inspirou profundamente e declarou:

 

 Julguei que isto nunca me aconteceria.

 

 O quê?

 

 Abordar uma jovem bonita num destes bancos.

 

 Ora, ora..., ciciou Diane, assumindo um ar meio divertido, meio melindrado.

 

 Toda a angústia e toda a ameaça pareciam ter desaparecido dos seus dois corações. Ela pensou, com alguma repulsa, no irredutível egoísmo dos vivos perante os mortos. Agora, as folhas lustrosas, a frescura do vento, os gritos longínquos das crianças constituíam o único presente de ambos e a recordação de van Kaen não pesava muito face a esta realidade. O tenente contou:

 

 Quando estava no internato da escola de inspectores, escapulia-me todos os fins-de-semana para assistir às aulas de Filosofia na Sorbonne. À tardinha, vinha aqui, ao Luxemburgo. Nessa época, tinha a impressão de haver escapado a uma catástrofe natural: o desemprego. Mas já me via confrontado com outra catástrofe, ainda pior.

 

 Qual?

 

Ele abriu as mãos, em jeito de evidência!

 

 A indiferença das parisienses. Passeava por aqui e observava-as pelo canto do olho, sentadas nas cadeiras de ferro, a ler, a guindarem-se a alturas inexpugnáveis. E dizia com os meus botões: ”O que poderei contar-lhes? Como poderei abordá-las?”.

 

 Diane sorriu. Uma linha ténue nos seus lábios, cúmplice da brisa.

 

 E então?

 

 Nunca encontrei a resposta.

 

 Ela inclinou a cabeça e adoptou um tom de confidência.

 

 Agora, pode sempre sacar do seu cartão tricolor.

 

 Sim, isso mesmo. Ou vir com uma brigada para filar toda a gente.

 

 Diane desatou a rir. Caminhavam para o portão da rue Auguste-Comte. Em frente, avistavam-se outros jardins, mais estreitos, mais escondidos. Langlois perguntou:

 

 Como vai o Lucien?

 

 Continua a melhorar. Verificaram-se impulsões nos quatro membros.

 

 De facto, é fantástico. Ela interrompeu-o:

 

 A vida. A morte. Já me falou nisto.

 

 Langlois esboçou um sorrizinho. O malicioso ar conferia-lhe um encanto infantil. Prosseguiu numa voz grave:

 

 Queria dar-lhe notícias. Identificámos o misterioso doutor. Van Kaen era o seu nome autêntico.

 

 Diane esforçou-se por dissimular a impaciência:

 

 Quem era ele afinal?

 

 Contou-lhe a verdade: chefiava o departamento de anestesia do serviço de cirurgia pediátrica do hospital Die Charité. Uma coisa enorme, no género do Necker. Também possuía uma cátedra de Neurobiologia na Universidade Livre de Berlim. Van Kaen organizava colóquios sobre a neuroestimulação e os seus laços com a acupunctura. Uma verdadeira vedeta, ao que parece.

 

 Diane tornou a ver o colosso de cabelo branco em pé no meio da penumbra do quarto, as suas mãos que faziam rodar as agulhas na carne da criança. Inquiriu:

 

 Onde aprendera ele a técnica da acupunctura?

 

 Não sei ao certo. Mas passou uns dez anos no Vietname, durante a década de oitenta.

 

 Ao caminhar, o tenente tirara da algibeira uma pequena pasta de cartão que consultava de vez em quando.

 

 Van Kaen era um alemão do Leste. Vinha de Leipzig. Foi por isso que pôde residir no Vietname, que era um país absolutamente fechado.

 

 Quer dizer que pôde ali viver na qualidade de comunista?

 

 Exactamente. Nessa época, era muito mais fácil a um alemão do Leste instalar-se na Cidade de Ho Chi Minh do que ir fazer compras a Berlim Oeste.

 

 Patrick Langlois folheou mais umas páginas:

 

 Por enquanto, há apenas uma zona de sombra na sua carreira: entre 1969 e 1972. Ninguém sabe onde esteve durante este período. Após a queda do Muro, voltou à Alemanha e instalou-se em Berlim Oeste. Não levou muito tempo a demonstrar as suas competências e a ser acolhido pela inteligentsia da antiga RFA.

 

 Diane regressou ao presente.

 

 Não tem nenhuma pista para o homicídio?

 

 Pelo menos, ainda não há móbil. Toda a gente admirava o indivíduo. Excepto que tinha uma atitude algo excêntrica.

 

 Excêntrica em que sentido?

 

 Era muito galanteador. Em cada Primavera, seduzia as suas enfermeiras da mais estranha das formas.

 

 Como?

 

 Cantando Árias de ópera. Este canto enfeitiçava todo o pessoal feminino do hospital, segundo parece. Um autêntico Casanova. Mas não acredito no móbil do ciúme...

 

 Acredita em quê?

 

Num ajuste de contas. Tipos do Ocidente vingando as suas famílias que ficaram no Leste, este género de história...

 

Neste caso específico, van Kaen já saíra de tal engrenagem, visto que vivia no Vietname. E nada prova que se tenha dado com o poder comunista. Mas ando à procura neste filão.

 

 Transpuseram o alto gradeamento da rue Auguste-Comte, depois penetraram nos jardins do Observatório. Constrangido pelos prédios, abrigado pelas folhagens, este parque parecia encolhido na sombra e no frio.

 

 Em boa verdade, disse o chui ao cabo de alguns instantes, há uma questão que me interessa tanto quanto o próprio homicídio, é o motivo por que este homem veio tratar o seu filho.

 

 Diane estremeceu.

 

 Quer estabelecer um laço entre o assassínio e Lucien?

 

 Ena! Não exageremos. A intervenção dele faz parte do enigma... E pode ajudar-nos a definir melhor a personagem.

 

 Não vejo como.

 

 Langlois usou de um tom persuasivo:

 

 Eis um médico reputado, uma referência no seu país, que larga bruscamente o serviço, corre para o aeroporto de Berlim a fim de apanhar o primeiro voo com destino a Paris; pudemos reconstituir precisamente cada etapa da sua viagem. Chegado a Roissy, precipita-se a caminho do hospital Necker, forja um crachá, surripia chaves, tem a esperteza de chamar as enfermeiras ao andar do Dr. Daguerre para melhor se insinuar na unidade de reanimação...

 

 Ela recordava-se da atmosfera silenciosa do corredor: van Kaen tomara por conseguinte todas as precauções. O tenente continuava:

 

 Tudo isto para quê? Para aplicar a sua misteriosa técnica em Lucien, com a maior das urgências. É a história de um salvamento, Diane. E este salvamento estava inteiramente centrado no seu rapazinho.

 

 Ela escutava em silêncio. As perguntas de Langlois vinham ao encontro das suas próprias interrogações. O que levara o alemão a interessar-se por Lucien? Quem o prevenira do estado crítico da criança? Alguém o ajudara dentro do hospital?

 

 O tenente indagou, como se acompanhasse mentalmente os pensamentos de Diane:

 

 Não terá sido alguma pessoa das suas relações que entrou em contacto com ele?

 

 Diane negou sem demora abanando a cabeça. O polícia envolveu-a num olhar de aprovação. Ela supôs que Langlois já verificara por si mesmo. Este acrescentou, abrindo a porta do terceiro jardim:

 

 Estamos a interrogar o pessoal do Necker. Os médicos, as enfermeiras. Talvez alguém o conhecesse. Pessoalmente, ou apenas por reputação. Por seu lado, os chuis alemães analisam todos os seus telefonemas, todas as suas mensagens. Uma coisa é certa: foi prevenido logo após a última crise de Lucien, quando os clínicos franceses baixaram os braços.

 

 Prosseguiam o passeio debaixo da sombra impassível das árvores. O leve rangido do cascalho sob os sapatos marcava a cadência dos passos. Diane perguntou:

 

 E sobre a técnica do crime, tem alguma novidade?

 

 Não. A autópsia, a verdadeira, confirmou os dados do nosso mergulho virtual. A violência do homicídio é espantosa. Dir-se-ia um acto... sacrificial, uma coisa assim. Averiguámos se existiam antecedentes em França. Nenhum, já se vê. Quanto ao resto, nem um indício, nem um rasto, nada. O único elemento novo que a autópsia revelou foi a circunstância de van Kaen padecer de um mal singular.

 

 Qual?

 

 Uma atrofia do estômago, que o obrigava a ruminar os alimentos antes de os engolir completamente. É assim que se explicam as manchas nas paredes da sala frigorífica. Quando foi agredido, van Kaen expectorou todos os frutos vermelhos que tinha no esófago.

 

 Parecia a Diane que as palavras de Langlois penetravam directamente dentro de si, sob a sua carne, como ínfimos cristais de medo. Uma realidade oculta insinuava-se no seu ser, adquirindo a pouco e pouco a forma de um puro pesadelo.

 

 Acabavam de atingir a fonte do Observatório: oito cavalos de pedra empinavam-se sob as cascatas impetuosas. Todas as vezes que aqui chegava, quando as árvores se abriam ao vento e o ar se carregava de gotículas de água, Diane experimentava a mesma tristeza e o mesmo vazio. Hoje, porém, a sensação tinha uma intensidade particular.

 

 Langlois abeirou-se dela para cobrir o rumorejo da fonte:

 

 Diane, só mais uma pergunta: o seu filho adoptivo poderá ser de origem vietnamita?

 

 Ela voltou-se lentamente para ele e entreviu-o, como de muito longe, através do véu das suas lágrimas. Não estava decepcionada, nem sequer sentida. Descobria simplesmente a razão deste passeio matinal. Não, respondeu logo. Langlois pareceu irritar-se contra tal silêncio e, quiçá, contra a sua própria pergunta. Pronunciou então num tom mais forte:

 

 Van Kaen passou dez anos no Vietname. Não posso afastar esta possibilidade! Lucien talvez pertença a uma família que ele conheceu, sei lá...

 

 Diane parecia agora de gelo. O polícia repetiu numa voz autoritária:

 

 Responda, Diane. Lucien poderá ser de origem vietnamita?

 

 Ela contemplou de novo os cavalos reluzentes de água. As gotas borrifavam-lhe o rosto, o fino chuvisco pespegava-se nos seus óculos.

 

 Não sei nada. Tudo é possível.

 

 A voz do polícia tornou-se menos veemente:

 

É capaz de se informar? De interrogar as pessoas do orfanato?

 

 Diane olhou para longe. Mais além do boulevarPort-Royal, o céu tormentoso desdobrava os seus cortejos monótonos. Deu consigo cheia de saudades das nuvens da monção que descarregavam na sua memória autênticas chamas de mercúrio.

 

 Vou telefonar, disse por fim. Vou procurar. Ajudá-lo-ei.

 

 No caminho de regresso, Diane entregou-se às mais fantasiosas suposições. No boulevarPort-Royal, convenceu-se de que Lucien era realmente de origem vietnamita. Na rue Barbusse, decretou que ele não era uma criança anónima. Rolf van Kaen conhecera a sua família. De uma forma misteriosa, o menino fora abandonado e, de um modo ainda mais misterioso, o médico alemão tinha sido avisado da sua presença em França. Na rue Saint-Jacques, imaginou que a criança era o filho secreto de uma personalidade importante, a qual contactara o acupunctor com toda a urgência. O código do seu prédio fê-la interromper de chofre tais delírios.

 

 Recuperou a calma dentro do apartamento. As sensações familiares, destiladas pelas suas pequenas três divisões, contribuíram para a apaziguar. Observou demoradamente as paredes brancas, o parque de acaju, as compridas cortinas imaculadas que pareciam guardar na memória o sol, os dias de chuva. Respirou longamente o cheiro da cera e os odores a lixívia que pairavam aqui desde que ela arrumara a fundo a sua casa. De facto, no dia a seguir à noite miraculosa, Diane limpara tudo, apagando o mínimo traço que pudesse lembrar-lhe a mágoa e a desolação das duas últimas semanas. Este odor a limpeza serenou-a e fortaleceu-a na sua resolução.

 

Consultou o relógio e calculou o desfasamento horário com a Tailândia. Meio-dia em Paris. Dezassete horas em Ra-Nong. Foi buscar o seu portefólio ”e depois instalou-se no quarto, sentada no chão, encostada à cama. Para lutar contra a emoção, centrou a respiração o mais baixo pôssível no seu corpo, poucos centímetros acima do umbigo uma técnica clássica de descontracção, utilizada no wing-chun. Quando o ar se dissolveu no seu sangue e convergiu para este ponto misterioso, quando a calma a encheu como um grande vazio apaziguador, ela soube que estava pronta.

 

 Levantou o auscultador e marcou o número do orfanato da fundação Boria-Mundi. Após uns toques tremelicantes, respondeu-lhe uma voz fanhosa. Diane pediu para falar com Teresa Maxwell. Esperou uns bons dois minutos e depois ouviu um ”está lá!” que estalou como uma porta a entalar dedos. Diane perguntou, mais alto do que desejaria:

 

 Mme. Maxwell?

 

 Sim, sou eu. Quem fala?

 

 A ligação estava má. A voz da directora ainda era pior.

 

 Daqui é Diane Thiberge, começou ela. Vimo-nos há cerca de um mês. Fui ao seu centro no dia 4 de Setembro. Sou a

 

 pessoa que...

 

 A argola de ouro? Isso mesmo.

 

 O que pretende? Há algum problema?

 

 Diane lembrava-se do rosto bonacheirão e dos olhos inquiridores. Mentiu sem hesitar:

 

 Não, de modo nenhum.

 

 Como vai a criança?

 

 Muito bem.

 

 Telefona-me para dar notícias?

 

 Sim... Enfim, não exactamente. Gostaria de lhe fazer umas perguntas.

 

 Só as interferências ressoavam do outro lado da linha. Ela continuou:

 

 Quando nos encontrámos, disse-me que não sabia donde vinha a criança.

 

Tem razão.

 

 Não conhece a sua família?

 

 Não.

 

 Nunca viu sequer a mãe dele?

 

 Não.

 

 E não faz a mais pequena ideia da sua etnia de origem? Ou da razão de ter sido abandonado?

 

 Após cada interrogação, Teresa Maxwell intercalava um breve silêncio, carregado de hostilidade. Indagou por seu turno:

 

 Porquê tantas perguntas?

 

 Ora... sou a mãe adoptiva. Tenho o direito de saber, para compreender melhor o meu filho.

 

 Há aí um problema. Não me está a dizer tudo.

 

 Diane tornou a ver a pequenina criatura coberta de pensos, pejada de máquinas e de tubos de perfusão. Com um nó na garganta, ainda encontrou forças para dizer:

 

 Não lhe escondo nada! Só quero saber um pouco mais sobre o meu menino e...

 

 Teresa Maxwell suspirou e volveu, ligeiramente menos agressiva:

 

 Disse-lhe tudo durante o nosso primeiro encontro. Há garotos que erram pelas ruas de Ra-Nong, sem pais, sem cuidados. Quando deparamos com um deles em estado lastimoso, recolhemo-lo, é tudo! Lu-Sian era um destes.

 

 O que tinha ele?

 

 Sofria de desidratação. E de má nutrição.

 

 No momento em que fui buscá-lo, desde há quanto tempo o mantinham no orfanato?

 

 Mais ou menos dois meses.

 

 E não descobriram mais nada acerca dele?

 

 Não efectuamos inquéritos.

 

 Ele nunca recebeu visitas?

 

 As interferências voltaram em força. Diane teve a impressão de que a arrancavam à sua interlocutora, de que lhe retiravam qualquer possibilidade de obter informações. Mas a voz guinchou de novo:

 

 Acautele-se, Diane.

 

Esta sobressaltou-se. A voz parecia de repente mais próxima. Balbuciou:

 

 Com... com quê?

 

 Consigo mesma, segredou a directora. Tenha cautela com esse desejo de saber mais, com essa tentação de indagar sobre Lu-Sian. O garoto é agora seu filho. Você é a única origem dele. Não tente ir mais atrás.

 

 Mas... porquê?

 

 Isso não a conduzirá a sítio algum. É uma verdadeira doença que ataca os pais adoptivos. Há sempre um momento em que desejam saber, em que procuram, espiolham. Como se quisessem apanhar esse tempo misterioso que não lhes pertenceu. Mas tais crianças têm um passado, não podem impedi-lo. É a parte de sombra delas.

 

 Diane nada mais podia acrescentar. Sentia a garganta demasiado seca. Teresa continuou:

 

 Sabe o que é um palimpsesto?

 

Hum... sim... julgo que sim. Apesar de tudo, Teresa explicou:

 

 São pergaminhos da Antiguidade que os monges da Idade Média raspavam para aí inscrever outros textos. Estes documentos eram recobertos por novos escritos, mas conservavam, na sua espessura, a mensagem antiga. Uma criança adoptada reproduz a mesma situação. Há-de educá-lo, ensinar-lhe uma data de coisas, inculcar-lhe a sua cultura, a sua personalidade... Por baixo, no entanto, haverá sempre outro manuscrito. A criança possuirá sempre as suas próprias origens. A herança genética dos pais, do seu país. Os poucos anos vividos no seu meio de origem... Deve aprender a viver com este mistério. Respeite-o. É o único modo de amar verdadeiramente o seu filho.

 

 A voz ríspida de Teresa tingira-se de doçura. Diane imaginava o orfanato. Sentia os seus perfumes, o seu calor, a sua atmosfera de convalescença. A directora dizia a verdade. Mas ignorava tudo do verdadeiro contexto. Diane devia obter respostas precisas às suas perguntas:

 

 Diga-me só uma coisa, concluiu. No seu entender, Lucien... enfim, Lu-Sian, poderá ser vietnamita?

 

Vietnamita? Santo Deus! Porquê vietnamita?

 

 Bem... O Vietname não é assim tão longe e...

 

 Não. É impossível. Aliás, falo essa língua. O dialecto de Lu-Sian não tinha nenhuma semelhança.

 

 Diane murmurou:

 

 Obrigada. Eu... depois telefono outra vez... Desligou e deixou ecoar dentro de si, como numa nave gelada, as palavras da directora.

 

 Foi então que uma recordação longínqua lhe atravessou o espírito.

 

 Era em Espanha, por ocasião de uma missão de levantamento, nas Astúrias. Numa das suas horas vagas, Diane visitara um mosteiro. Uma construção gigantesca e pardacenta, que ainda vivia no tempo das meditações e dos sussurros de pedra. Na biblioteca, desencantara um objecto que a fascinara. Atrás de uma vitrina, um pergaminho estava suspenso por filamentos de aço. O seu aspecto rugoso e rosado conferia-lhe um cunho orgânico, quase vivo. A escrita gótica desfilava ali em linhas cerradas, aplicadas, concedendo às vezes um espaço para uma delicada iluminura.

 

 Mas o facto cativante estava algures.

 

 A intervalos regulares, um néon de luz ultravioleta iluminava o pergaminho obliquamente, fazendo aparecer, sob as letras negras, uma outra escrita, fluida e sanguínea. Os traços de um texto anterior, datado da Antiguidade. Como uma marca deixada na própria carne do pergaminho.

 

 Diane, agora, compreendia: se o seu filho era um palimpsesto, se o passado dele era uma espécie de texto meio apagado, então ela dispunha de alguns fragmentos antecedentes. Lucian. E as poucas outras palavras que ele não cessara de repetir durante as três semanas em que vivera junto de si, em Paris. Essas palavras que Teresa Maxwell não entendia.

 

Uma das dependências do Instituto Nacional das Línguas e Civilizações Orientais situava-se na rue de Lille, mesmo por detrás do museu de Orsay. Era um vasto edifício, sombrio e autoritário, marcado por essa majestade que caracterizava, aos olhos de Diane, os belos prédios do sétimo bairro.

 

 Atravessou o átrio de mármore, depois esgueirou-se entre o dédalo de escadas e de salas de aula. No primeiro andar, encontrou o departamento das línguas do Sudeste Asiático. Explicou sumariamente a uma secretária que era jornalista e preparava uma reportagem sobre as etnias do Triângulo de Ouro. Seria possível falar com Isabelle Condroyer? Descobrira este nome no volume da Plêiade consagrado à etnologia: a cientista devia ser a melhor especialista dos povos dessas regiões.

 

 A secretária respondeu-lhe com um sorriso. Diane tinha sorte: Mme. Condroyer acabava justamente uma aula magistral, ali mesmo. Bastava aguardá-la na sala 138, no rés-do-chão: iriam prevenir a professora.

 

 Diane desceu logo até à sala. Era um compartimento minúsculo, situado na sobreloja, cujos respiradouros de vidro folheado se abriam rente à terra, num pátio interior. As pequenas mesas encostadas umas às outras, o quadro preto, o cheiro a madeira envernizada relembraram a Diane o tempo dos seus estudos. Sentou-se ao fundo da sala, movida por um antigo reflexo de aluna solitária, depois absorveu-se, quase contra vontade, nas recordações de faculdade.

 

 Quando evocava este período da sua vida, não pensava nas horas passadas nas aulas, mas já nas missões que haviam pautado os seus últimos anos de doutoramento. Nunca fora uma aluna estudiosa. Nem tão-pouco um espírito sequioso de análise e teoria. Diane apaixonava-se exclusivamente pelo trabalho de terreno. Morfologia funcional. Auto-ecologia. Topografia dos espaços vitais. Dinâmica das populações... Estes termos e estas disciplinas só tinham desempenhado para ela o papel de pretextos a fim de partir de espreitar, de observar, de apreender a vida selvagem.

 

 Desde a sua primeira viagem, Diane conduzia uma única busca: compreender a barbárie da caça, a violência dos predadores. Vivia na obsessão deste enigma, que se resumia ao estalar de uma mandíbula sobre carne viva. Mas talvez não houvesse nada para compreender somente para experimentar. Quando observava as grandes feras de atalaia, ocultas pelo matagal, imóveis a ponto de se fundirem com a vegetação, a ponto de escavarem, de se embutirem na própria textura do instante, Diane experimentava uma certeza: um dia, de tanto se concentrar, ela mesma se tornaria nesta fera, nesta emboscada, neste instante. Já não se tratava de compreender o instinto animal. Era preciso insinuar-se no seu cerne. Transformar-se nessa pulsão cega, nesse movimento de destruição que não conhecia outra lógica senão a sua...

 

 A porta abriu-se de repente. Isabelle Condroyer tinha as maçãs do rosto bem altas, ao jeito de quem anda de saltos altos. Sob uns cabelos castanhos cortados curto, os seus olhos eram levemente em bico, mas as íris eram de um verde cor de chá. Autênticas amêndoas, ainda muito frescas sob a folhagem. Uma gota de elixir asiático diluíra-se no sangue desta mulher para lhe dar não um encanto de boneca exótica, mas antes uma dureza de montanha, uma rugosidade de altitude. Diane levantou-se. A cientista declarou imediatamente:

 

 A minha secretária disse-me que era repórter. De que jornal?

 

Diane notou que a etnóloga usava um camiseiro vermelho demasiado estreito. O tecido abria-se em pequenas frestas indiscretas. Procurou sorrir:

 

 Quer dizer... Foi só um pretexto para falar consigo...

 

 Como?

 

 Preciso de uma informação. Uma informação muito urgente...

 

 Está a brincar? Julga que não tenho mais nada que fazer?

 

 Por breves instantes, Diane teve vontade de lhe responder no mesmo tom, mas reconsiderou. Uma técnica de combate consistia em utilizar o ímpeto do adversário contra ele mesmo. Optou por tentar amainar a agressividade da mulher tocando numa corda sensível.

 

 Acabo de adoptar uma criança, explicou. Na Tailândia, próximo de Ra-Nong. Conhece, sem dúvida, esta região. A criança tem seis ou sete anos.

 

 E então?

 

 Pronuncia algumas frases soltas. Gostaria de saber a língua que ela fala, qual é o seu dialecto de origem.

 

 A etnóloga pousou a pasta sobre a secretária que ficava em frente das carteiras dos alunos. Cruzou os braços. As aberturas do seu camiseiro alargaram-se mais nitidamente sobre o brilho do soutien. Diane continuou, imperturbável:

 

 Tivemos há pouco um acidente de automóvel. A criança esteve quase a morrer. Permanece inconsciente, mas os médicos pensam que irá despertar.

 

 A mulher observava Diane com uma nova expressão. Parecia perguntar a si mesma se estava na presença de uma louca ou se, pelo contrário, uma tal história fazia sentido. A mentira, clara e precisa, tomava forma no espírito de Diane:

 

 Eis o que se passa. Os médicos acham que será bom, quando o menino recuperar a consciência, que alguém lhe fale a sua língua natal. Só está em Paris há poucas semanas, compreende?

 

 Isto parecia tão legítimo que ela perguntou de súbito a si mesma se não estaria a pronunciar uma verdade, algo que se deveria realmente ter em conta. O tom da professora atenuou-se:

 

 A sua história é... Enfim... Em que estado se encontra ele?

 

 Há poucos dias, parecia condenado. Hoje, porém, os médicos estão optimistas. Vários sinais tendem a demonstrar que irá sair do coma. Resta o problema das sequelas.

 

 Isabelle Condroyer sentou-se. O seu rosto mantinha-se duro, mas já não era hostil. Era grave. Articulou:

 

 Mas se ele não fala, como quer que eu...

 

 Repetia sempre as mesmas palavras. Duas sílabas, principalmente. Lu-Sian...

 

 Não dispõe de nenhuma outra informação sobre a sua origem étnica?

 

 Nenhuma. Apenas estas sílabas.

 

 A etnóloga fitou demoradamente a interlocutora. Diane trazia um casaco a três quartos, cintado, de cor crua, blocos de quartzo à laia de colar, uma agulha de prata a suster a sua guedelha num carrapito. A professora disse finalmente, de novo num jeito douto e frio:

 

 Sabe quantas línguas e dialectos falados existem na região das ilhas do Andamão?

 

 Ao certo, não.

 

 Mais de doze.

 

 Estou a falar-lhe de uma região muito reduzida. Um ponto no mapa. O orfanato é em Ra-Nong e...

 

 Com os movimentos nascidos dos conflitos birmaneses, das guerras da droga, as migrações vindas do Triângulo de Ouro e das índias, o número dos idiomas eleva-se a uns vinte. Talvez mesmo a trinta.

 

 Volto a dizer-lhe que só possuo estas duas sílabas. Mas deve certamente conhecer especialistas para cada dialecto. Posso...

 

 O tom da cientista tingiu-se de exasperação:

 

 De nada nos servem uns escassos vocábulos! Sobretudo se forem pronunciados por si. Só na língua tai, a mesma palavra pode ter vários significados diferentes, consoante a tónica é colocada nesta ou naquela sílaba e conforme a própria palavra se situa no começo ou no fim da frase.

 

 Lá fora o crepúsculo alastrava. A janela de vidro folheado refulgia de um vermelho ardente. A cólera da mulher parecia ter irradiado o vidro. Concluiu de uma maneira abrupta:

 

 Lamento muito. Sem a pronúncia, a sua diligência é absurda. Não posso ajudá-la em nada.

 

 Diane exibiu um largo sorriso.

 

 Tinha a certeza de que iria dizer isso mesmo.

 

 Tirou da carteira um gravador de um vermelho-vivo. O instrumento de karaoke no qual Lucien gravava as suas próprias canções. Diane sabia que era impossível identificar um dialecto sem lhe ouvir a tónica e a pronúncia. Recordara-se então da voz conservada naquela cassete.

 

 Diane carregou na tecla Play. De repente, o timbre nasalado de Lucien elevou-se na sala. As suas sílabas entrecortadas, ligeiramente guturais, destacaram-se como bolhas de infância no silêncio da tarde. Isabelle Condroyer parecia siderada.

 

 Diane ganhara. Mas não saboreava a vitória. A voz da criança também a surpreendia a ela. Não tornara a escutar a cassete desde o acidente. A modulação que ali vogava, ocupando de súbito o espaço, atapetando-o com a presença de Lucien, do seu rosto, dos seus gestos aéreos, trespassara-a como uma lâmina. Num ápice, a mágoa soltou-se, libertou uma pulsão abrasadora em direcção aos seus olhos.

 

 Baixou a cabeça, escondeu a fronte com a mão. Não queria chorar. Encolheu-se, enquanto a voz não cessava de se derramar na sala banhada de púrpura.

 

 Sobreveio então um silêncio repentino.

 

 Diane ergueu os olhos. A etnóloga acabava de parar o aparelho, compreendendo o que se estava a passar. Diane entreabriu os lábios, mas a professora já se levantara, pousando-lhe a mão no ombro. A sua voz, tão dura, tão desabrida ainda poucos segundos antes, sussurrou:

 

 Deixe ficar a cassete. Vou ver o que posso fazer.

 

 As mãos coladas. Era a técnica do wing-chun em que Diane era a mais hábil, a mais rápida. Uma técnica onde a proximidade com o adversário era de tal ordem que se devia desferir ou esquivar os ataques permanecendo em contacto com ele. Socos. Cotoveladas. Golpes com a mão de través. A chuva de violência abatia-se sem que nunca se pudesse fintar nem recuar continuava-se sempre colado ao inimigo.

 

 Diane devia sentir-se nauseada com estes múltiplos toques, mas tratava-se agora de combate, e o sinal da sua fobia não se desencadeava em semelhante contexto. Pelo contrário: o contacto provocava nela uma fruição surda. Como se saboreasse interiormente a inversão deste gesto a carícia convertida em pancada.

 

 Por outro lado, Diane possuía um segredo. Se primava neste confronto de proximidade, era por ser míope e porque a sua melhor probabilidade de vencer consistia em permanecer sempre num campo muito chegado, no qual distinguia o mínimo pormenor. Transformara a sua desvantagem em força, aprendera a lutar o mais perto possível, apostando tudo na velocidade, correndo riscos cuja intensidade desorientava os adversários.

 

Nessa mesma noite, a sessão de treino, no dojo de Maubert-Mutualité, constituía o escape ideal para as emoções do dia. Depois do telefonema a Teresa e do encontro com a etnóloga, Diane fora directamente para o hospital. Lucien sujeitava-se a exames e tinham-na proibido de o ver. Primeiro, enfurecera-se, mas em seguida percebera que o Dr. Daguerre tencionava retirar os drenos já na manhã seguinte.

 

 No entanto, ao regressar a casa, Diane não conseguira alegrar-se completamente. O homicídio de van Kaen prevalecia sobre tudo o resto até mesmo sobre a cura do filho. Ela não cessava de pensar nessa atrocidade. Na mão que torcera as vísceras. Nos mirtilos aglutinados nas paredes. No ecrã cintilante que pusera a nu as entranhas profanadas do acupunctor. Tudo se confundia no seu espírito. Já não conseguia dissociar mentalmente o assassínio e as melhoras do seu filho.

 

 De resto, o edifício pediátrico estava agora vigiado por polícias fardados. Quando interrogara Mme. Ferrer sobre tal presença, a mulher respondera-lhe simplesmente ”segurança”. Que segurança? Face a que perigo? Continuaria um assassino a rondar pelos corredores do Necker? Em vez de se esgotar em torno destas interrogações, preferira reatar com o cheiro a suor e os golpes do dojo. As mãos coladas. Uma maneira como qualquer outra de exsudar as suas angústias...

 

 Em casa, Diane tomou um duche muito quente, depois escutou o atendedor. Sempre as mesmas chamadas a sempre eterna lista dos amigos ou conhecidos que pediam notícias e repetiam as palavras de conforto. Havia igualmente as mensagens da mãe. Todavia, sempre que reconhecia a voz detestada, Diane carregava na tecla Next.

 

 Passou à cozinha. De cabelo ainda a escorrer e faces afogueadas, preparou um Darjeeling bem escuro e dispôs sobre um tabuleiro a chaleira, uma tigelinha de palmitos e iogurtes alimentava-se quase exclusivamente de biscoitos e lacticínios. Depois instalou-se no seu quarto com os livros que comprara durante a tarde.

 

Restava-lhe explorar uma pista. Uma pista vaga, indirecta, mas que a preocupava profundamente: a acupunctura. Queria compreender o modo como van Kaen agira sobre o corpo de Lucien. De uma forma confusa, adivinhava que esta técnica tinha uma ligação com os outros elementos da noite fatídica.

 

 Bastou-lhe uma hora de leitura para confirmar vários factos.

 

 Em primeiro lugar, Eric Daguerre tinha razão. Fisiologicamente, o acupunctor não picava nenhum ponto particular. Nem nervos, nem músculos, nem sequer zonas cutâneas mais sensíveis pelo menos, nem sempre. Nunca fora possível pôr em realce, de um modo físico, a existência dos meridianos no interior do corpo. Alguns estudos só haviam demonstrado que a agulha libertava por vezes endorfinas hormonas possuidoras de efeitos analgésicos. Outras pesquisas tinham posto em evidência as propriedades eléctricas de certos pontos. Mas nenhuma destas ilações podia ser generalizada, e elas só constituíam epifenómenos em comparação com os prodigiosos resultados alcançados por Rolf van Kaen.

 

 O médico alemão também falara verdade: a acupunctura, segundo a medicina chinesa, abarcava uma entidade misteriosa, que os praticantes designavam por ”energia vital” e que o anestesista equiparara a uma espécie de impulso originário uma fonte primeva. Porque não, bem vistas as coisas? Apesar do seu sólido racionalismo, apesar da sua formação de bióloga, Diane estava disposta a admitir tudo perante a evolução de Lucien. Era evidente que o acupunctor influenciara os seus mecanismos fisiológicos a um nível que as medicações e os instrumentos da medicina ocidental não haviam sabido atingir.

 

 Diane prosseguiu a leitura. O que a interessava agora era a geografia destas forças misteriosas. O alemão referira-se a ”lençóis freáticos”e deixara entender que a dita energia vital possuía, no seio do corpo humano, os seus ”riachos”: meridianos que seguiam uma topografia subterrânea. Horas a fio, Diane estudou estes fluxos complexos e os seus jogos de correspondências.

 

 O mais espantoso era que tal energia parecia situar-se simultaneamente no interior do corpo e no exterior. Não se tratava apenas de reaquecer, de apaziguar, de solicitar um determinado meridiano, mas sobretudo de equilibrar esta corrente com as forças de fora. Em suma, as agulhas funcionavam como minúsculos relês apontados ao universo, que iriam servir para ”o organismo com uma hipotética potência cósmica. Diane interrompeu a leitura: estes conceitos e este vocabulário incomodavam-na; tudo lhe fazia recordar a gíria dos espiritualistas e os discursos destinados a almas perdidas com a mania dos gurus. Contudo, ela lembrava-se das agulhas, verdes e vivas, que haviam juncado a epiderme do seu filho. Ela própria, nesse momento, pensara em passadiços, em relês voltados para forças misteriosas e indizíveis.

 

 Diane apagou a luz e reflectiu. Estes livros sobre a medicina chinesa não lhe tinham proporcionado nada, exceptuando a seguinte ideia: talvez a criança, em virtude da sua herança cultural, fosse mais sensível do que qualquer outra à acupunctura. Talvez existisse uma espécie de aquisição genética que permitira que o seu corpo reagisse melhor a essa técnica. Mas afinal o que sabia ela das leis dos atavismos? Não seria uma suposição gratuita? A qual, ao fim e ao cabo, não facultava nenhuma informação precisa sobre o nascimento de Lucien.

 

 Tornou a ver mentalmente a sessão de van Kaen nos mais ínfimos pormenores. Acudiu-lhe à memória uma frase. Uma frase a que não prestara atenção na tormenta da noite, mas que adquiria agora uma ressonância singular. Antes de a deixar, o médico dissera: ”A criança tem de viver, compreende?” Esta reflexão, na altura, parecia exprimir unicamente a determinação do acupunctor. Mas também podia significar que Lucien, por uma razão que ela desconhecia, devia sobreviver a todo o custo.

 

 O alemão falara como um homem detentor de um segredo uma realidade a propósito da criança. Talvez uma origem excepcional, conforme Diane se deliciara a imaginar durante a tarde. Ou uma particularidade fisiológica. Ou então uma missão, uma obra que Lucien teria de realizar quando fosse mais velho...

 

A doença das teorias absurdas estava a apoderar-se novamente dela. Ao mesmo tempo, ainda ouvia, como um eco, a entoação do médico. Sentia a extrema tensão, a angústia velada que ele se esforçara por esconder ao longo da sessão. Este clínico sabia alguma coisa. Lucien não era uma criança como as outras. E Langlois, com o seu faro de chui, já o percebera. Eis porque se interessava tanto por Lucien e pela origem dele.

 

 Loucura por loucura, Diane imaginou outra possibilidade.

 

 Um motivo tão imperioso para salvar uma criança podia, de igual modo, constituir um motivo para a destruir... E se van Kaen tivesse sido assassinado por, justamente, ter despertado o rapazinho?

 

 Se uma ameaça pairasse sobre Lucien?

 

 Deteve aqui as interrogações. Uma última hipótese acabava de lhe cortar a respiração.

 

 E se esta ameaça já tivesse sido exercida?

 

 Se o acidente do boulevarpériphérique fosse mais do que uma simples casualidade?

 

Segunda-feira, 11 de Outubro. Diane circulava pelos contrafortes do monte Valérien, em Suresnes.

 

 Atravessara o cemitério americano, estriado de cruzes brancas, depois percorrera os outeiros verdejantes que sobranceavam o Bosque de Bolonha. Não era o seu caminho, mas devia ter-se enganado algures, nas imediações da ponte de Saint-Cloud. A bordo do carro alugado, descia agora a rue dês Bas-Rogers, retomando o negrume da cidade. Debaixo de chuva, reencontrou o tédio monótono dos arrabaldes, as suas avenidas tristonhas, as suas ruelas desengraçadas. Um tédio que custava a suportar.

 

 Diane lançara-se a fundo no inquérito. Aproveitara o fim-de-semana para levar a cabo umas investigações, mas era agora que ia penetrar no cerne das suas interrogações. Passou por baixo de um aqueduto de granito, contornou uma rotunda que anunciava altivamente a entrada do bairro do Belvedere, depois descortinou, à direita, a rue Gambetta. Dominada pela via-férrea, a artéria apresentava uma fileira de moradias apertadas umas contra as outras, que davam a impressão de ir perdurar assim através dos tempos.

 

 O número 58 era uma casa de dois andares, suja e danificada, revestida de tijolos e flanqueada por varandas de ferro preto. Diane estacionou sem dificuldade e penetrou no interior. Descobriu uma entrada vetusta, caixas do correio sebentas, uma escada toldada de sombra. Até mesmo o cheiro a mofo dos caixotes do lixo condiziam com o quadro era uma espécie de azedume, rezingão e violento, acaçapado sob o vão da escada, que parecia resumir toda a história do prédio.

 

 Ela accionou o interruptor e verificou que a luz não vinha que não viria nunca. Acercou-se de um painel de cartão bafiento onde se podia ler a lista dos inquilinos, e encontrou, graças à claridade do exterior, o nome que procurava o nome que conseguira extorquir a Patrick Langlois, ao telefonar para casa dele na véspera à noite.

 

 Degraus rangentes, corrimão pegajoso: as aguardadas sensações prosseguiam. Diane envergava um impermeável comprido de um azul cor de petróleo, que chiava a cada um dos seus passos. Os ombros iam perlados de gotinhas de chuva e a presença destas migalhas líquidas tranquilizava-a. Alcançou o segundo andar e bateu à porta da esquerda.

 

 Nenhuma resposta.

 

 Voltou a tocar.

 

 Passou mais um minuto. Diane preparava-se para arrepiar caminho quando se ouviu o ruído de um autoclismo.

 

 A porta abriu-se finalmente.

 

 Um homem postava-se no limiar. Vestia um fato de treino com capuz, sem forma nem cor. Diane não distinguia o seu rosto por entre as sombras. Só podia notar que a personagem era mais jovem que na lembrança dela. Uns trinta anos, quando muito. Também mais magro. O que lhe chamou sobretudo a atenção foi o cheiro a cânhamo que saía pela fisga da porta entreaberta. O jovem estava em plena curtição de erva. Daí o ruído de água na casa de banho. Ela perguntou:

 

 O seu nome é Marc Vulovic, não é?

 

 O rosto sombrio não se mexeu. Depois elevou-se uma voz roufenha: O que pretende?

 

 Diane ajeitou melhor os óculos. Este timbre cavo confirmava o pior o homem não devia drogar-se apenas com liamba.

 

Chamo-me Diane Thiberge. Silêncio do homem. Ela acrescentou:

 

 Sabe quem sou, não sabe?

 

 Não.

 

 Sou a condutora do 4x4 da noite do acidente.

 

 Vulovic ficou calado. Passou um minuto. Ou tão-somente

 

 alguns segundos. No seu estado de nervosismo, Diane não tinha a certeza de nada. Ele ordenou:

 

 Entre.

 

 Diane atravessou um vestíbulo exíguo, pejado de CD’s e de cassetes vídeo, depois deparou com uma cozinha, à direita, revestida de linóleo e de fórmica. Com um gesto, o homem convidou-a a sentar-se. A luminosidade descorada difundia-se através dos cortinados cor de cinza. Um lava-loiça, um esquentador: duas manchas lívidas submersas sob a loiça suja. E o cheiro a droga que saturava a atmosfera. Diane descobriu uma cadeira no eixo da janela entreaberta. Sentou-se rapidamente, desencadeando um novo torvelinho de reflexos no seu impermeável.

 

 O homem imitou-a, escolhendo um banquinho, do outro lado da mesa. Tinha um rosto comprido e seco, que brotava do seu capuz descido como um tubérculo amarelado. Cabelo louro, cortado em rabo de pato, e uma barbicha encrespada que se assemelhava a fibras de milho. Já não trazia pensos. Só algumas crostas castanhas, na testa e nas arcadas. Resmungou, cabisbaixo:

 

 Queria ir ao hospital, mas...

 

 Deteve-se e ergueu a cara. Os olhos verdes assemelhavam-se a pequenas vigias abertas para um mar gelado. Perguntou:

 

 Ele está... Enfim, o menino... está...

 

 Diane compreendeu que ninguém lhe dera notícias. Titubeou:

 

 Está melhor. Ninguém esperava, mas apresenta melhoras. Vamos então falar de outra coisa, concorda?

 

 Vulovic meneou vagamente a cabeça, observando a interlocutora com indecisão. Tinha o corpo torcido, os ombros alçados. Um toxicodependente prisioneiro do seu mal íntimo. Perguntou:

 

 Porque veio aqui?

 

 Quero voltar consigo às circunstâncias do acidente. Saber o que lhe aconteceu ao volante.

 

 O motorista fez cara torta. Um clarão de desconfiança perpassou-lhe nas pupilas. Diane não lhe deu tempo para falar:

 

 Disse que, naquela noite, vinha do parque de estacionamento da avenue de La Porte d’Auteuil. O que fazia ali? Descansava?

 

 O homem sorriu a contragosto. Um lampejo lascivo recortou-se nas suas íris.

 

 Nunca foi lá? Quero eu dizer: à noite?

 

 Diane imaginou uma avenida anónima, entalada entre o boulevarpériphérique e o estádio de Roland-Garros, que conduzia directamente ao Bosque de Bolonha. De súbito, visualizou este mesmo quadro, à noite, e compreendeu o que as suas próprias obsessões lhe haviam escondido até ao momento: as putas. Este homem tinha simplesmente ido às putas.

 

 Ele acenou com a cabeça, dando a entender que adivinhara as deduções de Diane.

 

 É um hábito muito frequente antes de uma partida. Devia ir à Holanda. Hilversum. Ida e volta. Vinte e quatro horas de estrada.

 

 Diane atalhou:

 

 Pois sim. Mas li estatísticas sobre a hipovigilância. Oitenta por cento dos acidentes de viaturas pesadas ligados ao adormecimento acontecem entre as vinte e três horas e a uma hora da madrugada. Segundo os mesmos números, este tipo de acidentes nunca acontece no boulevarpériphérique. Por natureza, a proximidade da capital ”os motoristas... Se saía do...

 

 Anda a fazer um inquérito? interrompeu subitamente o tipo, num tom agressivo.

 

 Só quero compreender. Compreender como pôde adormecer, à meia-noite, quando acabava de visitar uma prostituta e se preparava para iniciar vinte e quatro horas de estrada.

 

Vulovic contraiu-se. As suas mãos vibravam em cima da mesa. Diane refreou o seu próprio nervosismo e mudou brutalmente de direcção:

 

 O que toma para se manter acordado?

 

 Café. Levamos termos.

 

 As narinas de Diane estremeceram alusão muda ao odor que reinava nessa cozinha pútrida.

 

 Também fuma, não é?

 

 Como toda a gente.

 

 Refiro-me ao haxixe.

 

 O homem não respondeu. Ela continuou:

 

 Nunca pensou que isso podia derreá-lo completamente? Adormecê-lo?

 

 Vulovic esticou o pescoço. Latejava-lhe sob a pele uma rede de veias.

 

 Todos os motoristas precisam de uma pedrada para aguentar. Cada qual tem os seus planos. Entendido?

 

 Diane debruçou-se por cima da mesa. Estes ares de rufia não a impressionavam. Passou ao tratamento por tu:

 

 Não tomas mais nada?

 

 O camionista fechou-se no silêncio. Diane insistiu:

 

 Anfetaminas, coca, heroína?

 

 Ele olhou de soslaio na sua direcção. Dois globos de ferro, luzidios como balas, sob umas pálpebras veladas. Um sorriso lerdo veio bailar-lhe nos lábios.

 

 Já percebi. Quer causar-me chatices. Despediram-me. Tiraram-me a carta de condução. Estou sujeito a ir de cana, mas a si não lhe basta. Quer ver-me já na prisa. Por muitos anos.

 

 Diane travou-o com um gesto.

 

 Procuro a verdade, é tudo. Vulovic berrou:

 

 A verdade está escrita tim-tim por tim-tim no relatório da bófia! Submeti-me ao teste de alcoolemia. Fiz exames no hospital. Não encontraram nada. Chiça! eu estava limpo. Juro que estava limpo na altura do acidente!

 

 Dizia a verdade. Já haviam mencionado estas análises à sua frente.

 

OK, volveu Diane num tom menos alto. Então porque adormeceste naquela noite?

 

 Não sei. Não me recordo de nada. Ela empertigou-se.

 

 Como é possível?

 

 O homem hesitou. Suava por todos os poros. Murmurou: Juro-lhe. Por mais que puxe pela cabeça, a partir da Porte d’Auteuil não me lembro de mais nada... Nem mesmo sei se dei uma pirocada. Devia estar moído de cansaço. Não sei. Não tenho qualquer recordação até ao choque...

 

 Diane via desenhar-se uma verdade subterrânea. Uma realidade assustadora de que ela suspeitara e que tomava forma sob o seu olhar. Indagou:

 

 Alguém tocou no teu café?

 

 Está a delirar ou quê? Porque me pergunta uma coisa dessas?

 

 Falaste com alguém no parque de estacionamento? Ele negou com a cabeça. O capuz ia ficando empapado de transpiração.

 

 Não saímos da cepa torta. Não me lembro de nada. Merda! Foi um acidente. Não vale a pena matutar mais, embora eu ache tudo muito estranho.

 

 Diane puxou a cadeira e aproximou-se. Apesar dos cabelos húmidos, apesar da chuva sobre a nuca, a pele ardia-lhe.

 

 Não entendes como tudo isto é grave para mim? Tenta lembrar-te.

 

 Vulovic abriu a gaveta da mesa de cozinha. Sacou de lá um estojo de fazer charros: cigarro, papel OCB, barra de haxixe envolvida em papel de alumínio. Declarou, começando por pegar em duas folhas de enrolar:

 

 A porta é atrás de si.

 

 Diane atirou os objectos ao chão varrendo-os com as costas de uma mão. O homem levantou-se de um pulo, agitando o punho. Olha que levas, garina!

 

 Diane encostou-o à parede. Era mais alta que ele. E mil vezes mais perigosa. Esboçou uma espécie de sorriso interior. No fundo, preferia assim. Preferia que este gajo fosse capaz de a esbofetear, de lhe bater. Preferia que tivessem utilizado um biltre na tentativa de matar o seu filho. Articulou:

 

 Ouve-me bem, imbecil. Durante nove dias, o cérebro do meu filho não cessou de se dilatar, de se asfixiar no seu próprio sangue. Durante nove dias, acompanhei estas palpitações de morte. Hoje, ainda não sei em que estado ele vai recuperar os sentidos. Talvez fique normal. Ou porventura mais lento que os outros. Ou, quem sabe, simplesmente um vegetal. Imagina um pouco a vida que iremos ter os dois, ele e eu.

 

 O motorista baixou a cabeça. Liquefazia-se nas mãos de Diane. Ela deixou-o esparramar-se no banquinho. Inclinou-se, falando sempre numa voz calma:

 

 Sendo assim, se achas que houve algo de suspeito antes do acidente, se, lá no teu íntimo, tens a mais pequena suspeição, irra! é agora a altura de falares.

 

 De rosto descaído, a escorrer suor e lágrimas, o homem tartamelou:

 

 Não sei... Não sei... Tenho a impressão de que me fizeram uma coisa...

 

 Que coisa?

 

 Não sei bem. Adormeci de repente... Como se...

 

 Como se o quê?

 

 Como se alguém comandasse... Foi a sensação que tive...

 

 Diane reteve a respiração. Era um abismo de sombra, e ao mesmo tempo uma luz. A ideia jorrou dentro dela, clara e difusa: de uma ou de outra maneira, o tipo havia sido influenciado. Pensou na hipnose. Não sabia se era viável uma manipulação de tamanha envergadura, mas, em caso afirmativo, teria sido necessário que um sinal desencadeasse a atitude programada.

 

 Estavas a ouvir rádio?

 

 Não.

 

 Tens um walkman?

 

 Não!

 

 Viste alguma coisa na berma da estrada?

 

Absolutamente nada!

 

 Diane recuou um bocadinho. Retroceder a fim de recomeçar em força.

 

 Falaste nisso aos chuis?

 

 Não. Não tenho a certeza de nada. Porque me fariam aquilo? Porque iriam organizar uma coisa assim?

 

 Vulovic não dizia tudo. Um núcleo de pavor, algures dentro dele, pulsava febrilmente. Por fim, balbuciou:

 

 Quando penso em tudo aquilo, só tenho uma sensação.

 

 O que é?

 

 Verde.

 

 A cor?

 

 Verde caqui. Como... como o pano militar.

 

 Diane meditou. Não sabia de que modo utilizar este indício, mas sentia que ele constituía o embrião de uma verdade. O homem soluçava, de mãos a apertar as têmporas.

 

 Meu Deus... O seu garotinho... penso nele todas as noites... Peço-lhe perdão. Oh! peço-lhe perdão!

 

 Imóvel, Diane disse unicamente:

 

 Nada tenho a perdoar-te.

 

 Sou ortodoxo, continuava o tipo. Rezo a São Sava por ele, eu...

 

 Repito que nada tenho a perdoar-te. A culpa não foi certamente tua.

 

 O camionista ergueu os olhos. As lágrimas nublavam-lhe o olhar.

 

 O quê... o que é que disse? Diane sussurrou:

 

 Não sei o que digo. Ainda não sei.

 

 A meio da manhã, o parque de estacionamento da avenue de La Porte d’Auteuil nada oferecia de particular. As construções do estádio Roland-Garros assemelhavam-se às muralhas de uma cidadela interdita. Quanto ao boulevarpériphérique, zunia mais abaixo sem que se pudesse avistá-lo do parapeito. Todavia, no momento em que Diane ali estacionou ao fim da manhã, pôde imaginar logo a atmosfera dúbia de que o local se revestia ao anoitecer. As carnes iluminadas pelos faróis, os carros em plena caçada, os habitáculos dos veículos parados em lugar retirado, sombrios e encasulados sobre os instintos libertados. Ela arrepiou-se. Parecia-lhe sentir esses desejos nocturnos, vê-los adejar, entrelaçar-se ao longo do asfalto, quais bichos crispados e ameaçadores...

 

 Tirou o relógio, prendeu-o ao volante, pôs em marcha a função ”cronómetro”, depois arrancou. Subiu a avenida e

 

 virou à direita. Ladeou o Jardim dos Poetas e seguidamente os jardins das estufas de Auteuil antes de alcançar a Porte Molitor. Ia a uma velocidade razoável: a cadência de um veículo

 

 pesado em plena noite. Por fim, entrou na estrada circular e tomou a direcção Porte Maillot/Auto-Estrada de Ruão.

 

 Tinham decorrido dois minutos e vinte.

 

 Diane acelerou, mantendo-se na fila da direita. Por sorte, a circulação era fluida tão fluida como naquela noite. Noventa quilómetros à hora. Era a primeira vez que Diane rodava de novo no périphérique. As suas mãos grudaram-se ao volante: não queria ceder à perturbação.

 

 Porte de Passy. Três minutos e dez. Tornou a acelerar. Cem quilómetros à hora. O camião de Marc Vulovic não podia exceder esta velocidade. Quatro minutos e vinte. Meteu por baixo do túnel da Porte de Muette.

 

 Recordava-se das cataratas de luzes, dos seus pensamentos enevoados pelo champanhe.

 

 Voltou novamente ao ar livre.

 

 Setecentos metros mais adiante, transpôs outro túnel.

 

 Cinco minutos e dez.

 

 Quando Diane viu surgir o último túnel antes da Porte Dauphine, soube que estava em vias de franquiar uma outra realidade. E que a sua própria culpabilidade talvez tivesse um segredo para lhe murmurar...

 

 A cem metros do antro de betão, fechou os olhos e guinou violentamente para a extrema-esquerda. Ouviu rangidos de pneus, buzinadelas. Reabriu os olhos in extremis, para travar ao longo das barras de metal que separavam os dois eixos do périphérique.

 

 Com um gesto, parou o cronómetro.

 

 Cinco minutos e trinta e sete segundos.

 

 Encontrava-se exactamente no local do acidente. Os separadores de segurança acabavam de ser mudados e as fissuras na pedra, à entrada do túnel, provocadas pelo reboque do camião, ainda eram visíveis.

 

 Cinco minutos e trinta e sete segundos.

 

 Tal era a primeira parte da verdade.

 

 Integrou-se novamente no tráfego e esperou pela Porte Maillot a fim de meter pela saída, atravessar a praça a toda a pressa e seguir na direcção oposta. Chegou assim à Porte Molitor. Deixou outra vez a artéria e enveredou pelo boulevarSuchet. Abrandou junto ao número 72 a morada da mãe. Receava um novo mal-estar, um novo fluxo de recordações. Nada veio. Procurou lembrar-se do sítio onde estacionara naquela noite. O pormenor reavivou-se na sua memória: avenue du Marechal-Franchet-d’Esperey, ao longo do hipódromo de Auteuil.

 

 Encaminhou-se para a avenida, parou nas imediações da zona de que se lembrava e em seguida pôs o cronómetro a funcionar. Meteu logo pela artéria arborizada até virar, um quilómetro mais adiante, à direita, na praça da Porte de Passy. Exactamente como fizera na noite fatídica. Seguiu então pelo boulevarpériphérique.

 

 Olhadela ao relógio: dois minutos e trinta e três. Diane adoptou voluntariamente a velocidade média do Toyota Landcruiser. Cento e vinte quilómetros à hora. Porte de La Muette. Quatro minutos.

 

 Viu, acima dos contrafortes da circular, os edifícios longilíneos da embaixada da Federação Russa. Quatro minutos e cinquenta. As construções da Universidade de Paris IX. Cinco minutos e dez...

 

 Enfim, a entrada do túnel fatal. Desta vez, Diane imobilizou-se à direita, na faixa de paragem de emergência, depois de ter acendido as luzes de emergência. Sem espalhafato nem travagens a fundo. No entanto, quando pegou no mostrador do relógio, a sua mão tremia: cinco minutos e trinta e cinco.

 

 Não poderia imaginar uma sincronia mais pura. Quer do parque de estacionamento da avenue de La Porte d’Auteuil, quer da avenue du Marechal-Franchet-d’Esperey, eram precisos cinco minutos e trinta e cinco para atingir o ponto exacto do acidente. Bastava, pois, que Marc Vulovic, ”de uma qualquer maneira, arrancasse no momento em que Diane e o filho se metiam no seu próprio carro, para que os dois veículos se encontrassem à entrada do último túnel antes da Porte Dauphine.

 

 Diane admitiu seriamente a hipótese de uma armadilha. Uma armadilha à base de sono, de chuva e de chaço lançado a toda a velocidade. Uma tal cilada pressupunha uma sentinela ao pé do prédio do boulevarSuchet, espreitando a sua partida, enquanto outro homem, pela hipnose ou por uma outra técnica a esclarecer, (desencadeava) no mesmo instante Marc Vulovic. Bastava que os dois homens estivessem ligados por uma comunicação VHF ou simplesmente por telemóvel. Até aqui, nada de impossível.

 

 Havia em seguida o problema do adormecimento, que devia acontecer no preciso momento em que o 4x4 se cruzava com a trajectória do camião. E era aqui, justamente, que a ratoeira parecia concebível: se ela tivesse razão, os algozes puderam calcular o ponto de cruzamento e preparar, nessa zona, um sinal que provocaria o sono do motorista...

 

 Diane fechou os olhos. Ouvia o rasto vertiginoso dos carros que seguiam pelo périphérique. Talvez cedesse ao pleno delírio, talvez perdesse totalmente o seu tempo, mas sabia agora que, nos confins extremos da razão, uma tal emboscada era admissível.

 

 Restava um pormenor sem o qual nada teria sido possível. Um pormenor que, desde o início, não encaixava. Diane accionou o pisca-pisca e insinuou-se novamente no trânsito.

 

 Meteu rapidamente as velocidades e tomou a direcção da Porte de Champerret.

 

 Se quiser chatear alguém, minha menina, é melhor esperar pelo chefe. Do outro lado do vidro, Diane podia observar a oficina de mecânica. As paredes estavam tão negras que pareciam absorver as luzes que vinham das lâmpadas do tecto. Instrumentos de ferro martelavam ao longe. Macacos de automóveis engordurados chiavam algures, como pulmões torturados. Ela sempre sentira uma obscura aversão a oficinas. A essas correntes de ar que enregelavam os ossos. A esses fedores a gordura que atacavam as narinas. A essas mãos sujas que manipulavam objectos cortantes e frios. Lugares tão duros, tão sombrios, que já ali se não lavavam as mãos em água, mas em areia.

 

 Por trás do balcão, o tipo gordo em fato de ganga repetiu o seu estribilho:

 

 As autorizações não são da minha conta. É melhor falar com o chefe.

 

 Quando é que ele volta?

 

 Foi almoçar. Estará aqui dentro de uma hora.

 

 Diane simulou uma intensa contrariedade. No fundo, aguardara cuidadosamente o período do meio-dia para ir ali, na esperança de dar com um empregado subalterno no género daquele a quem se dirigia. Era a única hipótese de se aproximar do seu próprio carro, cuja contraperitagem ainda não fora efectuada. Suspirou:

 

 Ouça. O meu filho está no hospital. Gravemente ferido. Tenho que ir vê-lo sem demora, mas, antes disso, preciso de um certificado técnico que está no meu carro!

 

 O mecânico batia com os pés de irritação. Parecia não saber como desenvencilhar-se da situação.

 

 Lamento muito. Enquanto o perito não vier, ninguém pode entrar na carripana. É um problema de seguros.

 

 É precisamente a minha companhia de seguros que me pede esse documento!

 

 O homem tornou a hesitar. Um camião, que rebocava um automóvel sinistrado, desceu rapidamente a rampa, num estrondo de gás, a poucos metros do serviço. Diane sentia o seu mal-estar amplificar-se. O sujeito acabou por segredar:

 

 Tem as chaves?

 

 Ela fê-las tilintar no bolso. Ele bichanou:

 

 Número 58. Segundo subsolo. O parque do fundo. Despache-se. Se ainda lá estiver quando o meu patrão chegar, nem sabe...

 

 Diane esgueirou-se por entre os carros e depois atravessou a oficina. Ladeou as paredes de betão escuro, evitou as poças de óleo, passou por pontes elevatórias. Nesta penumbra, a luz dos néones parecia encerrar um significado secreto, esotérico nos antípodas da claridade do dia.

 

 Desceu um declive suave e alcançou um novo parque de estacionamento. Os carros assemelhavam-se a monstros frios, dormindo um sono de metal. Diane sentia-se cada vez menos à vontade. Tinha as solas besuntadas de gordura. Um cheiro a carburante queimado infiltrava-se na sua garganta. Via desfilar os números meio apagados no solo. A simples ideia de enfrentar o seu Toyota destroçado apertava-lhe o estômago. Mas tinha de verificar um pormenor.

 

 O pormenor do cinto de segurança.

 

 O menino fora projectado do banco porque o cinto não estava apertado. Os assassinos, se existiam, contavam então com uma eficácia máxima neste ponto. Como podiam ter a certeza de que Diane não prenderia a criança, não efectuaria tal gesto de protecção?

 

 O Toyota Landcruiser surgiu, a poucos metros. Diane discernia o capô metido para dentro, o pára-brisas comprimido, o lado esquerdo amolgado em vergões brutais. Teve de se apoiar numa coluna. Dobrou-se toda e julgou vomitar, mas, gradualmente, o sangue concentrou-se sob a sua testa inclinada e conferiu-lhe uma espécie de equilíbrio, de inesperada estabilidade. Reunindo forças, abeirou-se do carro e atingiu a porta direita da retaguarda.

 

 Tirou da carteira uma lanterna de halogéneo, acendeu-a, depois abriu a porta. Uma vez mais, o abalo. O sangue negro e seco nas bordas do banco de criança. As pequenas pérolas de vidro espalhadas sobre ele.

 

 Duas imagens contraditórias sobrepuseram-se no seu espírito.

 

 Via a correia de tecido e a fivela de metal jazendo ao lado do banco de Lucien. Um cinto que, pelo que parecia, não fora fechado. Mas via-se também a si mesma, a afivelar este sistema depois de ter instalado a criança na cadeira. Não era uma novidade. Ao longo dos dias, a sua convicção arreigara-se com nitidez, apesar das provas em contrário: ia jurar que fechara o cinto. Agora, perante o interior do carro, já não havia qualquer dúvida.

 

 Como é que estas duas verdades podiam coabitar? Segurou a lanterna com os dentes e penetrou no carro. Observou atentamente o sistema de fixação. Pensava agora numa sabotagem: uma correia cortada, um rebite serrado... Mas não: estava tudo intacto. Deslizou ao longo do banco de trás. Amontoavam-se ali pastas de cartão que guardavam estudos fotocopiados, caixas de plástico que continham clips de marcação, uma coberta de penas caqui desdobrada até ao solo. Todos estes objectos se tinham esmagado contra as costas do banco no momento da colisão. Ela observou-os, soergueu-os, arredou-os. Nada encontrou.

 

 Prosseguiu a busca. Com um joelho sobre o estofo, passou o torso por cima do encosto na direcção da bagageira. A potência da colisão arrancara o tampo da mala. Diane recordava-se de ter levado com este painel de compósito na nuca. Debruçada sobre o espaço, passeou o seu pincel de luz: mais pastas de cartão, um velho saco de pano, sapatos de marcha, uma parca embebida em gasolina. Nada de estranho, nem de suspeito.

 

 Todavia, lentamente, um pensamento formava-se na sua consciência. Uma hipótese impossível, mas que ela não conseguia remover. Apagou a lanterna e chegou-se ao banco da frente. Para verificar esta suposição, devia interrogar a única testemunha da cena.

 

 Ela própria.

 

 Tinha de reavivar as suas recordações pessoais a fim de decidir se estava ou não a perder o juízo, ou se este caso ultrapassava os limites do possível.

 

 Ora só existia uma técnica para empreender semelhante mergulho dentro de si mesma.

 

 E um único homem para a ajudar.

 

 A seguir a um vestíbulo de mármore, o restaurante abria para uma grande sala forrada de veludo escuro decorada por colunas brancas. Algumas mesas encontravam-se em nichos construídos em arco. A laca de um piano brilhava na meia-luz, quadros crepusculares lançavam os seus reflexos castanho-avermelhados e, através dos longos vãos envidraçados, os jardins dos Campos Elísios respondiam ao luxo do local por um contraponto delicado de folhagens e de fachadas claras. Hoje, o céu de trovoada difundia uma luz lisa, nacarada, que se harmonizava às mil maravilhas com a amenidade da sala, atravessada por clarores atenuados. A esta parcimónia de tons e de luzes acrescentava-se um tipo específico de silêncio: um sussurro modelado por tinidos de cristal, tinidos de prata, risos compassados.

 

 Diane seguiu o chefe de mesa. Sentiu alguns breves olhares à sua passagem. A maioria dos convivas eram homens vestidos com fatos escuros e sorrisos baços. Ela não se iludia: por detrás desta branda atmosfera e destes rostos plácidos batia o coração secreto do poder. O restaurante era um dos lugares de prestígio onde à hora do almoço se jogava o destino político e económico do país.

 

 O chefe de mesa fez uma vénia e largou-a em frente do último nicho, o mais perto possível das janelas amplas. Charles Helikian estava ali. Não lia o jornal. Não conversava com um outro homem de negócios sentado a uma mesa vizinha. Esperava por ela, o que parecia bastar-lhe amplamente. Diane ficou-lhe grata por este testemunho implícito de respeito.

 

 Ao sair da oficina, ligara para o telemóvel do padrasto uma dezena de pessoas, quando muito, deviam possuir este número em Paris. Pedira-lhe para a receber logo que pudesse. Charles respondera com uma gargalhada, tal qual se cede ao capricho de uma criança, e sugeriu um encontro no sítio onde deveria almoçar com um dos seus clientes. Diane só tivera tempo de ir a casa para apagar os cheiros a haxixe e a óleo queimado no seu cabelo, e surgir ali envolvida, como convinha, em indolência e descontracção.

 

 Charles levantou-se e instalou-a no banco arredondado. Diane despiu o impermeável. Trazia agora um vestido de stretch preto, sem mangas, tão simples que parecia não possuir qualquer costura. Só um colar de pérolas rutilantes lhe constelava as clavículas, correspondendo como gotas de água aos brincos da mesma natureza. Um perfil altíssimo, à maneira de Diane.

 

 Estás... Soberba?

 

 Charles sorriu. Diane propôs:

 

 Magnífica?

 

 O sorriso alargou-se. Os seus dentes perfeitos ressaltaram do rosto moreno. Ela sugeriu ainda:

 

 Fascinante? Sexy? Encantadora?

 

 Tudo isso ao mesmo tempo.

 

 Diane suspirou e entrelaçou os seus compridos dedos por baixo do queixo.

 

 Então porque hei-de ser eu a única a considerar-me uma grande magricela desengonçada?

 

 Charles Helikian tirou um charuto do bolso.

 

 Em todo o caso, a culpa não é da tua mãe.

 

 Ouviste-me dizer isso?

 

 Ele fez estalar as folhas castanhas entre os dedos.

 

 A Sybille falou-me da vossa pequena... conversa.

 

Fez mal.

 

 Não temos segredos entre nós. Desde o acidente, ela telefona-te, deixa-te mensagens e...

 

 Não quero falar-lhe.

 

 Ele lançou-lhe um olhar grave.

 

 A tua atitude é absurda. Primeiro, recusaste toda a compaixão da sua parte. Agora que Lucien está melhor, ainda te afundas mais no teu mutismo e...

 

 Pára lá com isso, importas-te? Não vim para falar dela.

 

 Charles ergueu a palma da mão aberta, como uma bandeira branca. Depois chamou um empregado e encomendou. Café para ele. Chá para ela. Inquiriu na sua voz áspera:

 

 Querias ver-me, e parecia ser coisa inadiável. O que desejas?

 

 Diane olhou-o de esguelha. A recordação do beijo voltou-lhe ao coração. Sentiu uma perturbação afluir dentro de si, uma incandescência afoguear-lhe as faces. Concentrou-se no seu discurso para recalcar o mal-estar:

 

 Um dia, na minha presença, falaste de hipnose. Contaste-me que recorrias por vezes a esta técnica para tratar os teus clientes.

 

É verdade. Para problemas de nervosismo, de elocução. Porquê?

 

 Disseste que a hipnose possuía poderes quase ilimitados para vasculhar a memória.

 

 Charles adoptou um tom irónico:

 

 Às vezes, armo-me em especialista.

 

 Lembro-me perfeitamente. Explicaste que, graças à hipnose, se podia utilizar a própria memória como uma câmara orientada para as recordações. Acrescentaste que, sem o saber, guardávamos no nosso inconsciente os mínimos pormenores das cenas que vivíamos. Pormenores que nunca afloravam a nossa consciência, mas permaneciam aqui (bateu com um indicador na têmpora), inscritos na nossa cabeça.

 

 Eu estava inspirado.

 

 Não brinques. Na tua opinião, a hipnose pode permitir reviver cenas passadas e parar num determinado instante, focar este ou aquele pormenor. Utilizar o próprio espírito à maneira de um magnetoscópio. Proceder a paragens, a zooms em certos recantos da imagem...

 

 Charles cessou de sorrir e perguntou:

 

 Onde pretendes chegar? Diane ignorou a pergunta.

 

 Falaste igualmente num psiquiatra, prosseguiu. O melhor hipnólogo de Paris, em teu entender. Um especialista deste tipo de sessões.

 

 Ele repetiu, numa voz mais forte:

 

 Não percebo onde queres chegar.

 

 Gostava que me desses o endereço dele.

 

 O empregado depôs uma pesada bandeja de prata sobre a mesa. Brilho negro do café. Doçura suave do Earl Grey. As cores harmonizavam-se com finura, ao passo que os perfumes envolviam o delicado ritual do serviço. O homem vestido de branco eclipsou-se. Charles quis logo saber:

 

 Para quê?

 

 Diane proferiu numa voz calma:

 

 Quero reviver a cena do acidente sob hipnose.

 

 Estás doida!

 

 A minha mãe contagia-te. É essa a sua fórmula preferida a meu respeito.

 

 O que procuras?

 

 Ela pensou no olhar perdido de Marc Vulovic e na operação de cronometragem. Encarou novamente a sua hipótese: uma tentativa de assassínio disfarçada de acidente, organizada por vários homens. Disse simplesmente:

 

 Há factos que não se encaixam uns nos outros neste acidente.

 

 Que factos? Ela articulou:

 

 O cinto de segurança. Tenho a certeza de que o fechei. Charles pareceu quase aliviado. Respondeu numa voz tranquilizadora:

 

 Escuta. Compreendo que essa história te apoquente, mas...

 

Não. Tu é que tens de me escutar.

 

 Diane colocou os dois cotovelos na mesa e debruçou-se.

 

 A sério, achas mesmo que sou chanfrada?

 

 Nem por sombras.

 

 Sabes que me submeti várias vezes a tratamento devido a este género de problemas. Tu próprio me ajudaste a camuflar os internamentos clínicos no meu processo de pedido de adopção. Por isso mesmo, quero saber como me achas actualmente. Na tua opinião, estou curada a valer?

 

 Sim.

 

 O tom da resposta traía uma reticência.

 

 Mas...

 

 Continuaste... original.

 

 Espero de ti uma resposta clara. Julgas que conservei sequelas dos meus distúrbios? Ou, pelo contrário, recuperei verdadeiramente o equilíbrio?

 

 Charles demorou-se a soprar o fumo do charuto.

 

 Sim, volveu finalmente, estás perfeitamente curada. Perfeitamente equilibrada. És o oposto de uma excêntrica, de uma lunática. És terra-a-terra. Pragmática. Até mesmo maníaca, no teu gosto pelas coisas que devem seguir bem a direito. Uma autêntica cientista.

 

 Diane sorriu pela primeira vez. Sabia que ele falava com toda a sinceridade. Perguntou então:

 

 Sendo assim, como explicas que me tenha esquecido de fechar o cinto do garoto?

 

 Bebemos muito, era tarde, nós...

 

 Diane bateu com o punho na mesa. As chávenas retiniram. Os últimos convivas olharam na direcção deles.

 

 Lucien é a resolução de toda a minha vida, gritou Diane. A melhor coisa que fiz desde que cheguei à idade de tomar decisões. E por causa de algumas taças de champanhe, iria esquecer-me do mais elementar gesto de prudência? Iria depô-lo na retaguarda do meu carro como uma vulgar mochila?

 

 Charles apertou o charuto entre os dedos.

 

 Fazes mal em repisar tudo isso. Deves virar a página.

 

 Tu...

 

Diane pegou no impermeável.

 

  1. Julgava poder contar contigo, enganei-me. Não há-de ser difícil encontrar na lista telefónica um...

 

 Chama-se Paul Sacher.

 

 Charles sacou de uma avantajada caneta com tampa de marfim e escreveu o endereço nas costas de um dos seus cartões-de-visita.

 

 Tem uma grande clientela, mas se lhe telefonares da minha parte, receber-te-á imediatamente. Tem cautela: é um sedutor. Quando ensinava, apropriava-se sempre da rapariga mais bonita da aula. Os outros alunos só tinham o direito de calar o bico. Um verdadeiro chefe de matilha.

 

 Diane meteu o cartão na algibeira. Não agradeceu. Não esboçou o mínimo sorriso. Em vez disto, declarou:

 

 Há outra coisa que pode ter-me perturbado naquela noite.

 

 O quê?

 

 O facto de me teres beijado, já na escada.

 

 As sobrancelhas arredondaram-se em sinal de indecisão. Charles Helikian cofiou o colar de barba.

 

 Oh, isso..., murmurou. Diane não largava o olhar dele.

 

 Porque me beijaste?

 

 O homem de negócios agitou-se no seu luxuoso fato.

 

 Não sei. Foi... espontâneo.

 

 Charles Helikian, o grande consultor em psicologia. Tenta arranjar algo de melhor.

 

 Ele parecia cada vez mais embaraçado.

 

 Não, a sério, o gesto resultou do instante. Havia aquela criança adormecida. Tu, muito aprumada na penumbra, sempre estóica. E o serão em que tinhas sido tão diferente. Tão... livre. Queria desejar-te boa sorte, nada mais.

 

 Diane pegou na carteira e levantou-se.

 

 Nesse caso, fizeste bem, concluiu. Porque sinto que vou precisar muito dela.

 

 Virou costas e abandonou o rei persa no seu nicho. Atravessou a sala em poucas passadas. O restaurante estava agora deserto. Só os quadros dourados e as vidraças açoitadas pela chuva brilhavam no claro-escuro.

 

 Diane!

 

 Já ela alcançara o átrio de mármore. Deu meia volta. Charles acorria.

 

 Valha-me Deus! De que andas à procura? Não me disseste tudo.

 

 Diane aguardou que ele estivesse junto de si para repetir:

 

 Procuro simplesmente saber. Resolver este problema do cinto.

 

 Não, retorquiu ele. Procuras reviver o acidente porque pensas que não se tratou de um acidente.

 

 Diane sentiu uma súbita admiração pelo psicólogo. Ele lera na sua alma como se ela envergasse um vestido de papel vegetal. Mesmo para além do racional, seguira os seus pensamentos. Confirmou:

 

É verdade. Penso que a colisão apresenta uma relação com o homicídio de van Kaen. Qualquer pessoa o pensaria. Não pode ser um acaso. Estou convicta de que Lucien se situa no cerne de um caso ainda incompreensível.

 

 Charles ciciou:

 

 Céus!...

 

 E não me digas que estou doida.

 

 O homem do cabelo encarapinhado perdera a sua tez tisnada.

 

 O acidente seria... uma tentativa de assassinato?

 

 Não, reuni todos os indícios.

 

 Que indícios?

 

 Não sejas impaciente.

 

 Diane desandou. Ele agarrou-a pelo braço. As suas pálpebras pestanejavam como asas de borboleta.

 

 Ouve-me bem. Conhecemo-nos há dezasseis anos, tu e eu. Nunca interferi na tua educação. Nunca intervim nas tuas relações com a tua mãe. Desta vez, porém, não te deixarei fazer disparates. Há limites!

 

 Ela teve um sorriso insolente, um sorriso de miúda ladina.

 

Se tudo isto existe apenas dentro da minha cabeça, não tens nada a recear.

 

 Tolinha! Talvez estejas a brincar com o fogo e nem sequer te apercebes!

 

 Falara aos berros. À sua esquerda, Diane sentiu o olhar dos empregados, ali especados: era sem dúvida a primeira vez que viam Charles Helikian em tal estado.

 

 És inconsciente, continuou ele num tom mais baixo. Admitindo... friso bem: admitindo que tenhas razão, não podes implicar-te no assunto. Isso compete à polícia.

 

 Perguntou depois, sem lhe dar tempo de retorquir:

 

 E o cinto? De que modo pode ser um indício de outra coisa? Não, estava fechado: o relatório do perito é categórico a tal propósito. Sendo assim, o que é...

 

 Tenho a certeza de que o fechei.

 

 Uma vaga sombria enevoou o rosto de Charles.

 

 Então o quê? Foi Lucien que...?

 

 Lucien dormia a sono solto. Eu observava-o pelo retrovisor.

 

 O que presumes? Ter-se-á aberto sozinho?

 

 Diane aproximou-se. Charles não lhe chegava senão aos ombros. Ela cochichou, em tom de confidência:

 

 Deves conhecer a fórmula: depois de se esgotarem todos os possíveis, o que resta? O impossível.

 

 Charles fitava-a, com a testa luzidia, o olhar carregado.

 

 Que impossível?

 

 Diane inclinou-se mais. Voltou a ver o interior do carro: o sangue, o vidro, as zonas de sombra, a coberta de penas amarrotada. A sua voz era suave, langorosa, e ao mesmo tempo velada de pavor:

 

 O impossível é que eu não estava sozinha com o menino dentro do carro.

 

 Cá fora, os jardins dos Campos Elísios teciam um bailado de chuva e luz. O aguaceiro acentuava os raios de sol que furavam aqui e além. As folhagens estalejavam ao vento, respondendo às cordas de chuva mediante finos arabescos verdejantes. Diane pôs os óculos escuros e hesitou um pouco no patamar que dava para a rua.

 

 Estava transtornada por ter revelado a sua hipótese em voz alta. A de um homem escondido dentro do carro, decerto sob a coberta de penas ou na bagageira, e que desapertara o cinto de Lucien durante o trajecto. Uma espécie de homem-suicida, pronto a morrer no receptáculo de metal para simplesmente se assegurar de que o rapazinho não beneficiaria de qualquer protecção.

 

 É claro que isto não tinha ponta por onde se lhe pegasse. Quem se exporia a um tal risco? Porque havia de se sacrificar encerrando-se no âmago de uma armadilha? De resto, após o acidente, não se encontrara o mais pequeno rasto de outro passageiro. No entanto, Diane não abdicava desta convicção. O porteiro apareceu e disse, precipitadamente:

 

 O seu carro vem já, minha senhora.

 

 O tom da voz e o semblante exprimiam exactamente o contrário. Diane perguntou:

 

 Que se passa?

 

O homem de uniforme deitou um olhar desesperado ao parque de estacionamento.

 

 Foi o seu amigo. Disse que se encarregava de tudo...

 

 Que amigo?

 

 Um senhor alto que estava à sua espera. Disse que ia manobrar até aqui, mas... (deitava olhadelas desesperadas para todos os lados) eu... não o vejo...

 

 Diane avistou o carro a trinta metros, sob a copa de uma tília. Atravessou o terreiro de cascalho a toda a pressa. Nos reflexos ondulados do pára-brisas, distinguiu a silhueta de Patrick Langlois que batalhava com a chave de ignição. Bateu no vidro. O chui sobressaltou-se e depois sorriu enleado. Abriu a porta.

 

 Esqueci-me de que estes chaços de aluguer têm um código. Desculpe. Queria fazer-lhe uma surpresa...

 

 Diane não sabia bem se estava furiosa.

 

 Chegue-se para lá, disse.

 

 O gigante passou com dificuldade para o banco do lado. Ela meteu-se lá dentro e perguntou:

 

 Que raio veio fazer aqui? Anda a seguir-me? O polícia tomou uma expressão melindrada.

 

 Mandei um dos meus rapazes buscá-la para almoçar comigo. Quando ele chegou ia você a sair. Não resistiu. Veio atrás de si até aqui e telefonou-me.

 

 Porque não entrou no restaurante? Ele apontou para a gola rente ao pescoço.

 

 A gravata. Não previ que fizesse falta.

 

 Diane sorriu; não estava evidentemente furiosa. O polícia acrescentou logo:

 

 Eu sei: devia ter sacado do meu cartão e tentado a passagem à força.

 

 Ela desatou a rir. Em contacto com este homem e a sua aparente despreocupação, sentia-se mais leve, mais límpida, como que lavada das angústias. Todavia, Langlois inquiriu, indicando o restaurante:

 

 Entende-se bem com o seu padrasto? O tom da pergunta desagradou a Diane.

 

O que está para aí a imaginar?

 

 O homem tamborilou no vidro com a ponta das unhas, lançando uma mirada distraída aos jardins.

 

 Não estou a imaginar nada. Vejo muita coisa, é tudo. (Os seus olhos sorriam.) No meu trabalho, quero eu dizer.

 

 Diane dirigiu por seu turno o olhar para os jardins. A chuvada enxotara os transeuntes, as mães que passeavam os filhos, os vendedores de selos. Só restava uma paisagem cintilante, animada de reflexos. Poças imóveis. Ondas de verde. Fachadas de pedra envernizadas de chuva. Pensou numa praia durante a baixa-mar. Experimentou de súbito um desejo de doçura, de convalescença, de guloseimas e de rebuçados de mentol. Interrogou:

 

 Porque pretendia ver-me?

 

 O chui exibiu uma mancheia de papéis entre as mãos.

 

 Queria dar-lhe notícias. Comunicar-lhe as minhas hipóteses.

 

 Rebuscou no meio das fichas. Langlois parecia pertencer a essa nova escola, snobe e desfasada, que recusava o ascendente da tecnologia sobre a vida quotidiana. O género de tipo que podia lançar-se na apologia do caderno de folhas ligadas por espiral ou negar-se a possuir um telemóvel. Principiou:

 

 Neste caso, as aberrações não têm fim. Há a selvajaria do homicídio. A força aparente do assassino. Ao mesmo tempo, a sua suposta altura: não mais de um metro e sessenta. Mas ainda subsiste outro mistério. Puramente anatómico.

 

 Langlois deteve-se. A chuva tamborilava sobre o tejadilho uma sarabanda ligeira. Com um aceno, Diane incitou-o a prosseguir.

 

 Ignoro como o homicida pôde encontrar a aorta, às apalpadelas, no seio das vísceras. Segundo os nossos legistas, nem mesmo um cirurgião experimentado o conseguiria... (Inspirou fundo e depois:) São impossibilidades a mais. De modo que optei por outra perspectiva. Perguntei a mim próprio se não se trataria de um rito, de uma técnica de sacrifício praticada, por exemplo, no Vietname.

 

 O que descobriu?

 

A princípio, nada de tangível. Pelo menos, na Ásia do Sudeste. Mas um etnólogo do museu do Homem orientou-me para a Ásia Central: Sibéria, Mongólia, Tibete, noroeste da China... Falei com outros especialistas. Um deles informou-me de que uma técnica desses países pode muito bem coincidir com o método do homicídio.

 

 A que se refere? A um modo de sacrifício?

 

 Não. Uma prática bastante mais prosaica. É assim que se mata o gado. Efectua-se uma incisão sob a caixa torácica, enfia-se o braço no interior do animal e torce-se a aorta só com a mão.

 

 Algo acudiu então ao espírito de Diane. Isto evocava-lhe de repente umas recordações vagas. Langlois prosseguia:

 

 Segundo o etnólogo, trata-se de uma técnica muito usada na Mongólia. É a melhor maneira de matar um carneiro ou uma rena sem derramar uma gota de sangue. Nesses países frios, economiza-se a mais ínfima parcela de energia do animal. Parece que há também, subjacente, um temor do sangue. Um tabu.

 

 Diane perguntou num tom céptico:

 

 O assassino veio então da Ásia Central?

 

 Talvez. Ou pode ter residido lá e conhecer estes costumes. O médico legista explicou-me que a nossa anatomia não é assim tão diferente da de um carneiro.

 

 Acho isso muito impreciso, desabafou ela.

 

 Eu também, exceptuando um elemento.

 

 Diane voltou-se para o chui. Ele estendeu-lhe a fotocópia de um formulário em papel timbrado de uma agência de viagens, redigido em alemão.

 

 Rolf van Kaen preparava-se para partir para a Mongólia.

 

 Como?

 

 O BBK está a investigar na Alemanha. Verificaram todas as chamadas telefónicas do acupunctor. Van Kaen pedira informações sobre os voos para Ulan Bator, capital da...

República Popular da Mongólia.

 

 O polícia deitou um olhar surpreendido a Diane.

 

 Conhece?

 

Só de nome.

 

 Van Kaen também se informou sobre os voos internos com destino a uma pequena cidade do extremo norte... (leu nas suas notas) Tsagaan-Nuur. Visivelmente, a única coisa que ainda não decidira era a data da partida. Em resumo, se pensarmos na técnica utilizada, isto pode constituir uma ligação. Fraco, mas apesar de tudo uma ligação...

 

 Langlois calou-se e depois perguntou com muito cuidado:

 

 E quanto a si, tem alguma novidade?

 

 Ela encolheu os ombros, novamente virada para os jardins. A chuva abatia-se sobre o pára-brisas em vagas tremeluzentes.

 

 Não. Telefonei ao orfanato. Não sabem de nada.

 

 Só isso?

 

 Dei a uns especialistas uma cassete onde Lucien canta na sua língua de origem. É provável que reconheçam o dialecto.

 

 Bem visto. Nada mais?

 

 Diane pensou na sua hipótese de acidente criminoso, na sua ideia de assassino kamikaze que se teria insinuado dentro do carro.

 

 Não, nada mais, respondeu. Langlois quis saber:

 

 Por que motivo me pediu a morada do camionista? Ela estremeceu, mas esforçou-se por não deixar transparecer nada.

 

 Queria apenas falar-lhe. Dar-lhe notícias de Lucien.

 

 O homem suspirou. A chuva entremeava o silêncio de longos frémitos metálicos.

 

 As pessoas desprezam sempre a nossa experiência. Diane virou-se, atarantada.

 

 Porque diz isso?

 

 Vou dizer-lhe o que penso: anda a fazer a sua investigação pessoal.

 

 Foi você que mo pediu, não foi?

 

 Não se arme em idiota. Estou a falar-lhe de uma investigação sobre o assassinato de van Kaen.

 

 Porque havia eu de o fazer?

 

Começo a conhecê-la um bocadinho, Diane, e, francamente, o que mais pergunto a mim mesmo é por que o não faria...

 

 Ela ficou silenciosa. O tom do chui tingiu-se de gravidade:

 

 Acautele-se. Não conhecemos nem sequer a décima parte deste caso. Pode rebentar-nos na cara de um momento para o outro. E de uma maneira que estamos longe de imaginar. Por conseguinte, não brinque às Alices detectives.

 

 Diane aquiesceu com ar de criança resignada. Langlois abriu a porta. Uma rajada de chuva engolfou-se no interior do carro. O polícia concluiu:

 

 Da próxima vez, sou eu que a convido para almoçar. Apeou-se e acrescentou:

 

 Os chuis conhecem os melhores fast-foods de Paris. Os milk-shakes não têm todos o mesmo gosto, sabia? Uma verdadeira escola do cambiante.

 

 Diane compôs uma expressão de alegria:

 

 Tentarei estar à altura.

 

 Langlois debruçou-se mais, enquanto as gotas lhe batiam nas costas.

 

 E lembre-se: nada de imprudências, nem de heroísmos de menininha. À mais pequena coisa duvidosa, telefone-me. Entendido?

 

 Diane anuiu com um último sorriso, mas quando a porta se fechou, pareceu-lhe ouvir como que a tampa de um caixão.

 

 Olhava-o como uma fonte de luz, mas através das suas próprias trevas. O penso dele estava modificado. Mais apertado, menos espesso: rodeava-lhe o crânio como uma simples película de gaze. Os drenos tinham sido tirados, sem dúvida nessa mesma manhã. Era um passo decisivo: Lucien já não sofria a ameaça de uma hemorragia.

 

 Aproximou mais a cadeira e, com a ponta do indicador, acariciou a testa da criança, os contornos do nariz, a fímbria dos lábios. Recordava-se dos primeiros serões de ambos, quando ela lhe contava histórias em voz baixa e a sua mão aflorava na obscuridade as feições que se distendiam, os relevos daquele corpo enlanguescido, docemente soerguido pelas vagas da respiração. Sentia-se novamente pronta para esta viagem ao longo dos cimos minúsculos, dos valezinhos misteriosos... Adivinhava cheia de delícia a vida a palpitar, a precisar-se, a afirmar-se através do corpo sob o penso.

 

 Mas uma dor podia esconder outra. Agora que o perigo mortal estava afastado, Diane via despontar dentro de si novos tormentos. Do mesmo modo que os sofrimentos despertam num corpo quando se esbate a contusão principal, assim descobria ela graus suplementares na sua mágoa. Ressentia cada ferimento, cada hematoma do filho na sua própria carne, cheia de raiva e impotência. Diane estreava um novo desespero o da dor por procuração.

 

 Acima de tudo, não podia remover de si mesma esta certeza do espírito: algures, ao redor deles, pairava uma ameaça. Uma tal convicção ia-se convertendo em obsessão. Jamais poderia enfrentar o futuro se não contribuísse para resolver estes enigmas. Eis porque a sua determinação se reforçara ainda mais. Eis porque acabava de marcar uma consulta com o hipnólogo Paul Sacher para essa mesma tarde, às dezoito horas.

 

 Reparou subitamente no painel, suspenso da armação da cama, que indicava as doses de medicamentos administradas em cada dia e a temperatura de Lucien. Arrancou a folha de papel milimétrico. A linha desenhada indicava três picos de febre entre a véspera, às vinte e três horas, e essa mesma manhã às dez horas. Não eram uns picos quaisquer: todos os três ultrapassavam os quarenta graus.

 

 Diane levantou o auscultador do telefone mural e marcou o número de Eric Daguerre. O cirurgião estava no bloco operatório. Ela chamou então Mme. Ferrer. Um minuto mais tarde, os cabelos grisalhos apareceram por detrás dos vidros do corredor. Ainda antes de poder abrir os lábios, a enfermeira avisou-a:

 

 O Dr. Daguerre pediu-me para não lhe falar do assunto. Achou que era inútil inquietá-la.

 

 Diane insurgia-se:

 

 Não acredito!

 

 As subidas, só duraram alguns minutos. Foi uma reacção benigna.

 

 Brandiu o diagrama.

 

 Benigna? Quarenta e um graus?

 

 O Dr. Daguerre considera que as subidas de febre não passaram de repercussões dos choques da criança. O sinal indirecto de que o seu metabolismo está a retomar um funcionamento normal.

 

 Num gesto de puro nervosismo, Diane inclinou-se e aconchegou os cobertores da cama.

 

 Aconselho-a a prevenir-me se acontecer a mais pequena coisa. Entendido?

 

 Com certeza. Repito-lhe, porém, que isto não tem qualquer gravidade.

 

 Diane alisava os lençóis, ajustava a bata de papel. De repente, desatou num riso agressivo, à beira das lágrimas:

 

 Não tem gravidade, hem! Mesmo assim, suponho que o Dr. Daguerre deseja falar comigo...

 

 Logo que saia da sala de operações.

 

  Está tudo a correr bem, Diane. Faço questão de lhe dizer isto antes de mais nada. Era o preâmbulo mais desastrado que ela alguma vez ouvira.

 

 E os acessos de febre? replicou.

 

 Eric Daguerre afastou a alusão com um gesto despreocupado. Estava de pé, na sua bata branca, atrás da secretária.

 

 Não têm importância. O estado de Lucien não cessa de melhorar. Todos os sinais nos confirmam a cura dele. Tirámos os drenos hoje de manhã. Vamos, em breve, mudá-lo de serviço.

 

 Algo soava a falso neste regozijo. Diane fixou as pupilas que brilhavam no fundo das órbitas. Os anarquistas em Ana Karenina, os que atiravam bombas à passagem dos príncipes, deviam ter uns olhos assim. Ela interrogou, ao acaso:

 

 Que mais tem a dizer-me?

 

 O médico meteu as mãos nos bolsos e deu uns passos. De dia como de noite, o seu gabinete estava iluminado com a mesma intensidade.

 

 Gostava de lhe apresentar Didier Romans, disse finalmente. É antropólogo.

 

 Diane dignou-se virar a cabeça para a terceira pessoa presente na sala e que ela ignorara até então. Era um homem mais jovem que Daguerre. Moreno, delgado, hirto como uma vara, usava óculos laçados de cor preta sobre um rosto absolutamente fechado. Ao vê-lo, pensava-se numa equação ou numa fórmula abstracta.

 

 O médico continuava:

 

 Didier é antropólogo no sentido moderno do termo. Um especialista da biometria e da genética das populações.

 

 O homem de traços herméticos meneou a cabeça. Um sorriso tímido procurou insinuar-se no seu rosto, mas recuou quase imediatamente. Daguerre perguntou a Diane:

 

 Sabe o que é?

 

 Sim, mais ou menos.

 

 Daguerre deitou um sorriso ao cientista.

 

 Não lhe disse? Ela é formidável!

 

 O tom jovial parecia cada vez mais fictício. O cirurgião prosseguiu:

 

 Falei do Lucien a Didier. Pedi-lhe que efectuasse algumas análises.

 

 Diane exaltou-se.

 

 Análises? Espero que...

 

É claro que não se trata de exames clínicos. Limitámo-nos a comparar alguns traços fisiológicos do seu filho com outros critérios, digamos, mais gerais.

 

 Não entendo.

 

 O antropólogo interveio:

 

 A minha especialidade é o polimorfismo, minha senhora. Trabalho sobre a caracterização das diferentes populações mundiais. Em cada povo, cada etnia, certos traços ocorrem mais frequentemente que outros. Ainda que nem todos os membros da comunidade lhes correspondam, existem sempre médias que nos permitem traçar um retrato geral da família étnica.

 

 O médico sentou-se e pegou-lhe na palavra:

 

 Pareceu-nos interessante comparar os caracteres fisiológicos de Lucien com as médias das populações que habitam as regiões donde ele vem. Talvez este método possa elucidar-nos sobre a sua origem... exacta.

 

A cólera de Diane aumentou uns graus, mas era uma cólera virada contra si mesma. Devia, ela própria, ter pensado nisto mais cedo! Contactara o orfanato. Submetera a uma especialista as palavras que Lucien pronunciava. Tentara compreender melhor a técnica que o salvara. Mas não se lembrara de estudar outro sinal evidente: o seu corpo. Esse corpo que talvez comportasse traços fisiológicos, mesmo ínfimos, susceptíveis de caracterizar a etnia donde ele era originário.

 

 Voltou-se para Romans e perguntou de um modo mais calmo:

 

 O que encontrou?

 

 O antropólogo tirou um maço de folhas de dentro da pasta.

 

 Comecemos pela estatura, se não se importa. Aquando da hospitalização, a senhora indicou que Lucien tinha seis ou sete anos de idade. Ora, se observarmos a sua dentição, verificaremos que ele ainda possui todos os dentes de leite. O que significa que deve ter, isso sim, cinco anos.

 

 Passou a outro documento. Diane reconheceu a folha de admissão que preenchera na noite do acidente.

 

 Anotou aqui, vejamos, que Lucien pertence às etnias do litoral do mar de Andamão.

 

 Ela abriu as mãos num gesto vago.

 

 Não sei bem... Segundo a directora do orfanato, as poucas palavras que ele pronunciava não pertenciam ao tai, nem ao birmanês, nem a um dialecto conhecido nessa região.

 

 Romans lançou uma breve olhadela por cima dos óculos e depois volveu:

 

 Mas acha que ele é oriundo dessa parte do mundo compreendida, digamos, entre a Birmânia, a Tailândia, o Laos, o Vietname e a Malásia?

 

 Diane hesitou:

 

 Eu... decerto, sim. Não tenho razões para pensar de outra maneira.

 

 Os olhos do antropólogo desceram como um cutelo.

 

 Se nos centrarmos nas regiões à beira do mar de Andamão, disse ele, e até mesmo se estendermos a nossa zona de pesquisa ao golfo da Tailândia e ao mar da China, só encontraremos etnias tropicais e florestais. Novo olhar-disparo a Diane.

 

 O Eric disse-me que é etóloga. Sabe, pois, que o meio natural exerce uma forte influência sobre a estatura dos seus habitantes. Na floresta, homens e animais são muito mais pequenos que num outro ambiente, por exemplo nas planícies.

 

 Ela retribuiu-lhe o olhar. Óculos contra óculos. Romans

 

 concentrou-se nas suas notas.

 

 A estatura dos habitantes das florestas intertropicais da Ásia do Sudeste cabe actualmente num intervalo entre os cento e quarenta e dois e os cento e sessenta e cinco centímetros. Podemos então deduzir que, aos cinco anos de idade, os filhos destas famílias medem cerca de setenta centímetros.

 

 Nova mirada por cima das lentes.

 

 Sabe quanto mede o seu filho, minha senhora?

 

 Mais de um metro, creio eu.

 

 Um metro e doze, mais precisamente. Quer dizer, quarenta e dois centímetros acima da média.

 

 Continue.

 

 Romans fez estalar uma nova folha.

 

 Passemos à pigmentação cutânea. Têm sido efectuados numerosos estudos sobre a cor de pele das populações, se bem que tal critério seja espinhoso de definir e arriscado de utilizar, não preciso de adiantar mais. Em geral, medimos esta luminosidade graças a uma técnica específica: a reflectometria. Projectamos um raio luminoso sobre a epiderme do sujeito e medimos os fotões reflectidos pela superfície. Quanto mais clara é a pele, mais elevada é a quantidade de luz reenviada.

 

 Diane reprimia a irritação. Começava a ver onde Romans queria chegar.

 

 Praticámos este teste em Lucien, prosseguiu ele. Obtemos um resultado oscilante entre setenta e setenta e cinco por cento de luz reflectida. A epiderme do seu filho reenvia quase completamente o raio. A pele dele é de uma brancura deslumbrante. Muito afastada das tezes escuras intertropicais.

 

A título de exemplo, a média da zona das ilhas Andamão é de cinquenta e cinco por cento.

 

 Diane tornou a ver a extrema palidez do rapazinho, aquele corpo diáfano sob o qual serpeavam finas vénulas, quando lhe dava banho. Como é que estes motivos de maravilhamento podiam tornar-se agora fontes de angústia? O homem continuava, virando as páginas:

 

 Eis outro estudo. Sobre os mecanismos fisiológicos de Lucien. Tensão arterial. Ritmo cardíaco. Taxa de glicemia. Capacidade respiratória...

 

 Diane interrompeu-o:

 

 Possui estatísticas para cada um desses critérios?

 

 O antropólogo deixou escapar um sorriso de orgulho.

 

 E para muitos mais outros.

 

 Comparou-as com as do meu filho? Ele confirmou:

 

 Lucien apresenta um resultado surpreendente num destes domínios. Apesar do seu estado de convalescença, pudemos medir a sua capacidade respiratória. E devemos dizer que ele tem uma peitaça estupenda. Ora, como por certo sabe, a amplitude pulmonar de um homem está directamente ligada à altitude do lugar onde vive. As populações das montanhas possuem um volume respiratório superior, assim como uma concentração de hemoglobina mais forte que as populações dos vales, por exemplo. Estes traços constituem uma adaptação ao seu meio de origem.

 

 Por favor, passemos aos factos! O cientista abanou a cabeça.

 

 Em todos estes domínios, Lucien atinge taxas que evocam a vida em elevada altitude. Não tem nada a ver com os números das populações do litoral e da floresta.

 

 O silêncio pulsava sob as têmporas de Diane. Um silêncio fechado, que não podia traduzir-se em palavras nem em suposições. Didier Romans continuava na sua voz monocórdica:

 

 Se adicionarmos os três resultados respeitantes à estatura, à pigmentação e às capacidades fisiológicas, obteremos uma equação que associa as planícies, o frio e a altitude...

 

Diane murmurou numa voz surda:

 

 É tudo?

 

 O homem soergueu o conjunto das folhas.

 

 Isto continua assim por mais de cinquenta páginas. Estudámos tudo: grupo sanguíneo, grupos teciduais, cromossomas. Nem um resultado, friso bem: nem um só, corresponde às médias das regiões do mar de Andamão.

 

 Diane balbuciou:

 

 E suponho que os seus resultados delineiam outra origem...

 

 Turco-mongol, minha senhora. A criança possui todos os traços dominantes das populações siberianas extremo-orientais. Lucien não é um menino dos trópicos: é um rapazinho da taiga. Nasceu, sem dúvida, a vários milhares de quilómetros do sítio onde o adoptou.

 

 Diane demorou mais de vinte minutos a procurar o carro. Atravessou a rue de Sèvres e chegou à rue du Général-Bertrand. Meteu pela rue Duroc, aventurou-se na rue Masseran e depois na avenue Duquesne. Estava sem fôlego, o coração batia-lhe descompassadamente. Tentava reflectir. Em vão. Demasiadas perguntas e nenhuma resposta. Como é que uma criança turco-mongol pudera ir parar à poeira abrasada de Ra-Nong, na fronteira birmanesa? Como é que um homem como Rolf van Kaen pudera ser informado da agonia desta criança quando ele próprio, segundo tudo levava a crer, se preparava para partir para aquela região do mundo? E como é que um garoto de cinco anos, donde quer que viesse, podia suscitar tais acções, as maléficas maquinações de que Diane suspeitava?

 

 Avistou finalmente o carro junto da place de Breteuil. Enfiou-se lá dentro como num refúgio. Os pensamentos caracolavam na sua cabeça. Baques surdos que não conduziam a nada.

 

 No entanto, sob estas palpitações, distinguia uma luzinha.

 

 Vislumbrava de repente o meio de avançar em direcção à verdade. A recordação do mosteiro espanhol acudiu-lhe de novo à memória o feixe de ultravioletas que desvelava aos poucos a escrita secreta do palimpsesto. Também ela possuía o seu próprio feixe para discernir a face oculta de Lucien. Pegou no telemóvel e marcou o número de Isabelle Condroyer, a etnóloga a quem pedira para identificar o dialecto do filho. A cientista reconheceu-a logo:

 

 Diane? Ainda é muito cedo para lhe dar notícias. Entrei em contacto com vários investigadores do Sudeste Asiático. Vamos organizar uma reunião em volta da cassete e...

 

 Tenho elementos novos.

 

 Novos?

 

 Levaria demasiado tempo a explicar-lhe, mas há fortes probabilidades de Lucien não ser oriundo da zona tropical onde o adoptei.

 

 Que história é essa?

 

 O menino provém, sem dúvida, da Ásia Central. Algures na Sibéria ou na Mongólia.

 

 A etnóloga resmungou:

 

 Isso muda tudo...Não é, nem de longe, a minha especialidade ou a dos meus colaboradores...

 

 Talvez conheça linguistas que trabalhem nas regiões que lhe mencionei...

 

 O laboratório deles situa-se na Faculdade de Nanterre e...

 

 Pode falar-lhes?

 

 Sim. Conheço um, em particular.

 

 Faça-me esse favor. Conto absolutamente consigo.

 

 Diane desligou. O ritmo dos seus pensamentos ia-se temperando suavemente. Olhou para o relógio. Dezassete horas e trinta. Chegara o momento.

 

 O momento de mergulhar no interior de si mesma. De reviver, plenamente e em pormenor, o acidente no périphérique.

 

 Paul Sacher devia andar pelos sessenta anos. Era alto, descarnado, e vestia com uma elegância rebuscada, quase espalhafatosa. Envergava um fato cinzento em gradações furta-cores, reluzente como o gume de um machado. Por baixo, entrevia-se o brilho às avessas de uma camisa preta e as linhas cambiantes de uma gravata de seda. O rosto não destoava: traços verticais, acentuados por rugas, mas exibindo toda a indolência, toda a pretensão de um sangue raro. Sob as sobrancelhas eriçadas, os olhos eram vivos, verdes, orlados de negro e como que cheios de transparência. O mais espantoso eram as suíças: o homem tinha ao longo das faces uns prolongamentos encaracolados, provindos directamente do século XIX, realçados nas têmporas por madeixas aneladas. Este pormenor conferia-lhe algo de animal, de selvícola, que agravava a perturbação e o assombro provocados pela sua presença.

 

 Diane sentia subir dentro de si um riso perdido. O homem que estava postado no limiar da porta assemelhava-se a um hipnotizador tal qual o imaginamos nos filmes de terror. Só lhe faltavam a capa e a bengala com castão de prata. Era impossível que um fabiano destes fosse um clínico sério, um psiquiatra a quem Charles enviava os seus clientes mais importantes. Estava tão surpreendida que não ouviu a primeira frase dele. Como? gaguejou.

 

O homem sorriu. Os ornamentos de barba solevaram-se.

 

 Só a convidei a entrar.

 

 Para coroar tudo isto, Sacher alardeava um sotaque eslavo. Carregava nos r à maneira de um velho fiacre, nas brumas da noite de Walpurgis. Desta vez, Diane recuou um passo.

 

 Não, disse ela. Obrigada. Vendo bem, não me sinto com a disposição mais...

 

 Paul Sacher agarrou-lhe no braço. A doçura da voz atenuou ligeiramente a brutalidade do gesto.

 

 Venha, peço-lhe. Já que fez a viagem até aqui...

 

 A viagem: Diane não empregaria este termo para designar os quatrocentos metros que percorrera desde casa para chegar ao consultório situado na rue de Pontoise, perto do boulevarSaint-Germain. Esforçou-se por compor um ar sério: receava agora vexar este homem que aceitara recebê-la no próprio dia em que lhe telefonara.

 

 Penetrou no apartamento e sentiu um leve alívio. Nada de cortinados negros. Nem de objectos exóticos ou de estatuetas lúgubres. Nem de odores a incenso ou a pó. Paredes estritas, cor de tabaco, lambris brancos, um mobiliário sucinto e moderno. Seguiu a personagem por um corredor, atravessou uma sala de espera e depois entrou no consultório.

 

 O compartimento estava banhado pela luz do fim de tarde. Pontificavam ali uma secretária de vidro e uma estante perfeitamente ordenada. Desta feita, Diane podia imaginar políticos ou chefes de empresa ali instalados, impacientes por resolverem os seus problemas de stress.

 

 O hipnólogo sentou-se e dirigiu-lhe um segundo sorriso. Diane começava a habituar-se ao vestuário prateado e aos olhos de guru. Já não tinha vontade de rir. Agora até sentia uma pontinha de angústia só de pensar nos poderes de Paul Sacher. Poderia ele ajudá-la realmente a vasculhar na memória? Iria ela abandonar-lhe verdadeiramente o seu espírito? O médico proferiu umas sílabas:

 

 Tenho a impressão de que a divirto, minha senhora. Diane engoliu em seco.

 

 Bem... Eu não esperava...

 

Alguém assim tão pitoresco?

 

 Sabe... (Acabou por sorrir, confusa.) Peço muita desculpa. Tive um dia difícil e...

 

 A sua voz sumiu-se por si mesma. O médico pegou num pisa-papéis de resina preta e pôs-se a manipulá-lo.

 

 O meu aspecto de velho mago só me desfavorece. Contudo, sou um racionalista. E nada é mais racional do que a técnica da hipnose.

 

 Pareceu a Diane que a entoação gutural diminuía um pouco ou então era ela que se ia habituando. O encanto da personagem agia como círculos na água, em ondas concêntricas. Diane reparava agora nas molduras alinhadas nas paredes: fotografias de grupo, onde Sacher se salientava no papel de docente soberano. Em todas, sem excepção, a mais formosa das alunas surgia ao lado dele, envolvendo-o num olhar de adoração. Charles dissera: ”Um verdadeiro chefe de matilha.”

 

 Em que posso ser-lhe útil? perguntou, largando o pisa-papéis com todo o vagar. Charles preveniu-me quanto ao seu telefonema.

 

 Diane endireitou-se.

 

 Que lhe disse ele?

 

 Nada. A não ser que se tratava de uma pessoa por quem tem muito afecto. Uma pessoa que requer... todos os desvelos. Repito a minha pergunta: em que posso ser-lhe útil?

 

 Gostaria, em primeiro lugar, de lhe colocar uma questão bastante precisa sobre a hipnose.

 

 Diga.

 

 É possível condicionar alguém a fim de o levar a efectuar um acto contra a sua vontade?

 

 O psiquiatra pousou os antebraços nos apoios cromados da cadeira. Os seus dedos ostentavam vários anéis: turquesa, ametista, rubi.

 

 Não, replicou ele. A hipnose nunca é uma violação da consciência. Todas essas histórias de assassinos condicionados, de mulheres abusadas são balelas. O paciente pode sempre resistir. A sua vontade fica intacta.

 

 Mas... adormecer alguém? Pode adormecer uma pessoa por meio desta técnica?

 

Sacher estendeu o lábio inferior, as patilhas acompanharam o movimento.

 

 O adormecimento é um problema diferente. Constitui um estado de abandono, muito próximo do transe hipnótico. Isto, sim: podemos provocá-lo.

 

 E à distância? Seria capaz de adormecer alguém à distância?

 

 O que entende por ”à distância”?

 

 Ser-lhe-ia possível programar um sujeito para ele adormecer algum tempo após a sessão de sugestão, mesmo não estando já presente?

 

 O homem admitiu:

 

 Sim. É possível. Bastaria repetir o sinal combinado durante a sessão.

 

 Diane interrogou:

 

 Que género de sinal?

 

 Minha senhora, não compreendo lá muito bem as suas perguntas.

 

 Que género de sinal?

 

 Pois bem, pode ser uma palavra-chave, por exemplo. Por ocasião de uma sessão, depomos esta palavra no fundo do inconsciente do sujeito e associamo-la ao estado de adormecimento. Mais tarde, basta pronunciar a mesma palavra para reactivar o condicionamento.

 

 Ela lembrava-se do que lhe dissera Vulovic: ”Quando penso em tudo aquilo, só tenho uma sensação... Verde... Como o pano militar...” Perguntou então:

 

 O sinal poderia ser visual?

 

 Certamente.

 

 Uma cor?

 

 Sem dúvida nenhuma. Uma cor, um objecto, um gesto, seja o que for.

 

 E em seguida, de que se recordaria o sujeito?

 

 Depende do grau de profundidade do trabalho hipnótico, durante a sessão.

 

 Poderia esquecer-se de tudo?

 

 Em caso de hipnose muito profunda, sim. Mas está a conduzir-me ao extremo limite da nossa actividade. A nossa deontologia é rigorosa e...

 

 Diane já não o escutava. Sentia, nas fibras da sua carne, que se aproximava da verdade. Era possível que um homem tivesse hipnotizado Marc Vulovic no parque de estacionamento da avenue de la Porte d’Auteuil e que um sinal viesse a provocar, mais tarde, o adormecimento. Também pensou em Rolf van Kaen, colosso na força da idade, que deixara que lhe abrissem o ventre sem opor resistência. Porque não sob hipnose? O homem declarou:

 

 Charles disse-me que a sua intenção era antes submeter-se a uma sessão de...

 

 Sim, é verdade. Quero entrar em estado de sugestão.

 

 Em que contexto? As suas perguntas são um tanto estranhas. Em geral, os meus pacientes têm um problema com o cigarro ou uma alergia e...

 

 Quero reviver um episódio da minha vida.

 

 Sacher sorriu. Retomava pé num terreno que conhecia bem. Recostou-se no assento, inclinou a cabeça de lado um pintor que escruta o seu modelo, e perguntou:

 

 De que se trata? De uma recordação muito antiga?

 

 Não. O acontecimento data de há pouco mais de duas semanas. Julgo, porém, que o meu inconsciente oculta determinados pormenores. Charles afirmou-me que pode ajudar-me a lembrar-me destes factos.

 

 Não há qualquer problema. Descreva-me, primeiro, o ambiente geral e...

 

 Espere.

 

 Diane compreendeu que estava aterrada com a ideia de abrir o espírito a este homem. Disse, pois, a fim de retardar o início da operação:

 

 Antes de tudo, explique-me... Como vai recuar na minha memória?

 

 Nada receie, será um trabalho de equipa.

 

 Um trabalho de equipa deve assentar na confiança. Diga-me precisamente como irá entrar na minha cabeça.

 

Sacher rezingou:

 

 Temo não poder explicar-lhe.

 

 Porquê?

 

 Quanto mais souber acerca do método utilizado, mais resistência manifestará.

 

 Vim aqui de livre vontade.

 

 Refiro-me ao seu inconsciente. A esse inconsciente que se recusa a fornecer-lhe certas informações. Se lhe der armas para ele se defender, creia que há-de servir-se delas.

 

 Não posso... oferecer-lhe assim o meu cérebro...

 

 O psiquiatra guardou silêncio. Parecia medir a amplidão do que estava em jogo para Diane. Pegou novamente no pisa-papéis, pousou-o e depois murmurou:

 

 A hipnose é apenas uma forma de concentração muito intensa. Vamos evocar juntos algumas sensações físicas: a sua circulação sanguínea, por exemplo, que irão progressivamente captar as suas faculdades de atenção. Vai esquecer-se de tudo, salvo destas mesmas sensações. Já não terá senão uma percepção muito longínqua do seu meio ambiente. E um tipo de ”que sobrevêm às vezes na vida quotidiana. Por exemplo, se estuda intensamente um assunto, todo o seu espírito é captado por esse trabalho. Um insecto pica-a: nem sequer o sente. Está em estado de hipnose, de transe. É o que se passa por ocasião das cerimónias religiosas onde se atravessam provações físicas. O cérebro já não recebe ”a mensagem do sofrimento.

 

É graças a semelhante estado que o senhor pode anular as barreiras do inconsciente?

 

 Sim: porque não é ele que ergue defesas, mas a própria consciência. Ora, chegados a um certo estado de concentração, já não passamos pela esfera da razão. É uma questão privada entre o hipnólogo e o inconsciente do sujeito.

 

 Diane pensou no acidente da sua adolescência. Consagrara uma parte da existência a apagar esta recordação, a transformar, justamente, a sua memória em cofre-forte. Indagou:

 

 Até onde se pode recuar assim?

 

Não há limite. Ficaria admirada com o número de pacientes que reinvestem, nessa poltrona, a sua identidade de bebé. Põem-se a pairar. O seu olhar é dessincronizado, como o do lactente poucos dias após o nascimento. Pode-se mesmo ir ainda mais além.

 

 Além?

 

 Até à memória que conservamos em nós. A memória das nossas vidas anteriores.

 

 Diane tentou rir.

 

 Tenho muita pena. Não acredito na reencarnação.

 

 Não me refiro a recordações de existências precisas. Estou a falar-lhe dessa memória natural de que somos os receptáculos. De uma certa forma, a genética não é mais do que uma memória. A da nossa evolução, incrustada na nossa carne.

 

 É apenas uma maneira de falar. O que nos interessa aqui são recordações concretas...

 

 Pode tratar-se de recordações muito concretas! Veja o exemplo dos bebés-nadadores. Os lactentes, quando são mergulhados na água, têm o reflexo imediato de fechar as cordas vocais. Donde lhes vem tal reflexo?

 

 Do seu instinto de sobrevivência.

 

 Ao fim de escassos dias?

 

 Diane pestanejou. O hipnólogo prosseguiu:

 

 Este reflexo vem-lhes de tempos imemoriais em que o homem ainda não era homem, mas uma criatura anfíbia. Em contacto com a água, a criança lembra-se dessa época. Mais exactamente: é o seu corpo que se recorda, aquém da consciência. Quem sabe se a hipnose não poderá trazer este tipo de recordações, mais precisamente ainda, até à nossa consciência?

 

 Diane sentia-se invadida por uma perturbação. Já não tinha a mínima certeza de querer ficar, de efectuar ali o grande salto. Um pormenor acabava de a alarmar: o dia findara e o gabinete enchera-se de sombra. Ora, os olhos do hipnólogo nunca haviam brilhado tão intensamente. Parecia-lhe mesmo que as suas pupilas desencadeavam esse reflexo peculiar de certosanimais nocturnos, como os lobos, que possuem plaquetas prateadas, situadas entre a retina e a esclerótica, as quais lhes permitem acentuar a luz. Sacher tinha este mesmo olhar de prata... Ela decidiu-se quando ele propôs:

 

 E se agora me falasse da cena que deseja reviver? Diane resignou-se. Voltou a ver-se a si mesma no quarto de hospital, poucas horas antes, a tomar a resolução. Aninhou-se na poltrona e pronunciou numa voz calma:

 

 Na quarta-feira, 22 de Setembro, por volta da meia-noite, tive um acidente de viação com o meu filho adoptivo no boulevarpériphérique, junto à Porte Dauphine. Escapei indemne, mas o menino ficou entre a vida e a morte durante quinze dias. Julgo que se encontra agora livre de perigo, mas...

 

 Diane hesitou.

 

 Quero rememorar os minutos que precederam o acidente, acrescentou por fim. Preciso de reviver cada gesto, cada pormenor. Quero ter a certeza de que não cometi nenhum erro.

 

 Um erro de condução?

 

 Não. O acidente foi provocado por um camião que se atravessou na estrada. Não tive culpa. Mas... bebera um pouco. E gostava de me certificar de que fechei realmente o cinto de segurança da criança.

 

 Nova hesitação; em seguida:

 

 Devo esclarecer que, no momento da colisão, o cinto já não estava preso.

 

 Sacher cruzou as mãos sobre a superfície cintilante da secretária e inclinou-se para Diane. As suas íris brilhavam em reflexos simétricos.

 

 Se não estava apertado, quer dizer que não o fechou, não acha?

 

 Sei que o fechei. E pretendo verificá-lo aqui, sob hipnose.

 

 O médico parecia reflectir. Experimentava, sem dúvida alguma, o mesmo espanto que Charles Helikian.

 

 Admitamos que tomou essa precaução, disse ele. Como explicar então que o cinto estivesse aberto aquando do acidente?

 

Penso que o desapertaram durante a viagem.

 

 O seu filho?

 

 Diane tinha que o dizer. Tinha que revelar a sua hipótese. Articulou em voz baixa:

 

 Suspeito de que ia lá dentro um homem. Um passageiro clandestino que se meteu no carro. Desconfio que o acidente foi preparado, organizado, realizado nos mais pequenos pormenores.

 

 Está a brincar?

 

 Faça como se fosse uma brincadeira e hipnotize-me.

 

É absurdo. Porque havia alguém de tramar tudo isso?

 

 Hipnotize-me.

 

 Julga que um homem iria correr o risco de estar consigo, dentro do carro, no momento do acidente?

 

 Diane compreendeu que nada obteria do psiquiatra. Pegou nas suas coisas e levantou-se.

 

 Espere, ordenou ele.

 

 Paul Sacher esboçou um gesto cortês na direcção da poltrona. Sorria com afabilidade, mas Diane apercebeu-se de que ele tremia.

 

 Sente-se, disse. Vamos começar.

 

 A primeira sensação foi a da água. O seu espírito flutuava num meio líquido. Pensou num fardo esquecido no porão inundado de um cargueiro. No caroço de um fruto numa polpa demasiado fluida. Balouçava agora no interior do seu próprio crânio. A segunda sensação foi a de que era duas. Ou dupla.

 

 Como se a sua consciência se tivesse separado em duas entidades distintas, uma das quais podia observar a outra. Sonhava e podia contemplar-se a sonhar. Concentrava-se e podia observar-se, à distância, no próprio acto de concentração.

 

 Diane, está a ouvir-me?

 

 Estou.

 

 O mergulho no estado hipnótico fora imediato. Paul Sacher começara por lhe pedir que se concentrasse numa linha vermelha, pintada na parede, e depois que sentisse o peso dos seus membros. Diane caíra num estado de intensa consciência. Experimentara a inércia das mãos, dos pés. A massa dos seus membros parecia tornar-se mais pesada a cada instante, enquanto o seu espírito, pelo contrário, levantava voo, libertando-se.

 

 Vamos evocar a recordação do acidente.

 

De costas bem direitas, mãos pousadas nos braços da poltrona, Diane aquiesceu movendo a cabeça.

 

 Sai do prédio da sua mãe. Que horas são?

 

 Aproximadamente meia-noite.

 

 Onde está, ao certo, Diane?

 

 Estou no átrio do número 72, boulevarSuchet.

 

 Ruído de chuva. Linhas translúcidas. Milhares de incisuras na superfície negra da calçada. Fachadas altas de pedra refulgente. Candeeiros azulados, resfolegando brumas como bocas impacientes.

 

 Que tal se sente?

 

 De olhos fechados, ela sorri sem responder.

 

 Champanhe nas veias, como rios subterrâneos que se riem do aguaceiro, lá fora. Diane ouve as gotas, ligeiras e densas, sussurrar sobre a sua nuca. Sente-se bem. Sente-se solta. Esqueceu a cólera do jantar. O beijo de Charles. Está somente aconchegada no instante.

 

 Diane, como se sente neste minuto?

 

 Perfeitamente bem.

 

 Está sozinha?

 

 Entre os seus braços, o calor da criança cristaliza-se. A nuca tépida, a fluidez do corpo. A quietude do sono que a chuva não consegue perturbar.

 

 Estou com o Lucien, o meu filho adoptivo.

 

 O que faz agora?

 

 Atravesso o boulevard.

 

 O que acha do trânsito?

 

 O boulevarestá deserto.

 

 O seu carro: onde ficou estacionado? Junto ao hipódromo de Auteuil.

 

 Lembra-se do local preciso?

 

Avenue du Marechal-Franchet-d’Esperey.

 

 Dê-me outros pormenores. Qual é a marca do seu carro?

 

 É um veículo todo-o-terreno. Um modelo antigo. Um Toyota Landcruiser datado dos anos oitenta.

 

 Está a vê-lo agora?

 

 Sim.

 

 A poucos metros dali, o carro desenha-se sob a chuvada. Diane é agora agitada por um pressentimento. Aflige-a um remorso, uma dor. Lamenta ter bebido. Ter cedido a este ritual que ela abomina. Gostaria de regressar, acto contínuo, a uma perfeita lucidez, de assumir plenamente cada segundo.

 

 A voz de Sacher ressoou no compartimento, a um tempo longínqua e próxima:

 

 O que faz agora?

 

 Abro a porta.

 

 Que porta?

 

 A porta direita de trás. A de Lucien.

 

 E em seguida?

 

 Ainda antes de precisar o seu pensamento, o corpo facultou-lhe as respostas, sensações muito nítidas, quase demasiado agudas.

 

 A chuva a fustigar-lhe as costas. O calor a exalar-se da abertura do blusão. O seu corpo a dobrar-se com Lucien para o interior do carro.

 

 A voz do hipnólogo tornou-se mais forte:

 

O que está a fazer, Diane?

 

 Instalo Lucien no banco de criança...

 

 Esse instante é muito importante, Diane. Descreva exactamente cada um dos seus gestos.

 

 Entre os dedos, ouviu-se um breve ruído. O ”do cinto. Ela experimenta logo esse júbilo ténue, secreto, egoísta, que remata cada um dos seus actos, inclusive os mais ínfimos, quando se destinam a proteger o filho.

 

 Mais alguns segundos. A voz de Diane elevou-se finalmente:

 

 Apertei... apertei o cinto de segurança.

 

 Tem a certeza?

 

 Absoluta!

 

 O timbre grave de Sacher insinuou-se nela:

 

 Detenha-se agora nessa recordação. Observe o interior do carro com atenção.

 

 A parte consciente de Diane compreendeu que a sua câmara mental estava a desbloquear-se. Passeava agora o olhar pelo cerne da imagem memorizada.

 

 O espaço escuro do habitáculo. Os bancos puídos, juncados de objectos diversos. A coberta de penas cor de caqui amarrotada e desdobrada no chão. O tampo que sustém velhas revistas. As portas de chapa, sem revestimento nem tecido...

 

 Podia, literalmente, percorrer a sua recordação, palmilhá-la, sulcá-la. Podia perscrutar estes pormenores que não observara na altura, mas que a sua memória retivera sem ela saber.

 

 O que vê, Diane?

 

 Nada. Nada de especial.

 

 O silêncio de Paul Sacher era tenso. Confusamente, Diane sentia que o psiquiatra estava à espreita. Perguntou:

 

 Continuamos?

 

 Continuamos.

 

 O tom retomou a sua neutralidade:

 

 Segue agora pelo boulevarpériphérique? Ela aquiesceu com um aceno de cabeça.

 

 Responda em voz alta, peço-lhe.

 

 Sigo pelo boulevarpériphérique.

 

 O que vê?

 

 Luzes. Séries de luzes.

 

 Seja mais explícita. O que vê precisamente?

 

De ambos os lados das têmporas, as luminárias desfilam sob o seu escudo de vidro. Diane pode quase distinguir a textura das vidrarias folheadas, abrasadas pela incandescência do sódio.

 

 As enfiadas dos néones, murmurou ela. Encandeiam-me.

 

 Onde está agora?

 

 Vou a ultrapassar a Porte de la Muette.

 

 Há outros veículos no périphérique?

 

 Muito poucos.

 

 Em que fila segue?

 

 Na quarta, à extrema-esquerda.

 

 A que velocidade vai?

 

 Não sei.

 

 O tomilho da voz estreitou-se:

 

 Olhe para o painel.

 

 Diane observou o conta-quilómetros no interior da sua recordação.

 

 A cento e vinte quilómetros à hora.

 

 Muito bem. Vê algo de singular na estrada, à sua volta?

 

 Não.

 

 Nunca olha para trás, na direcção do seu filho?

 

 Olho. Até regulei o meu retrovisor interno pelo eixo dele.

 

 Lucien está a dormir?

 

 Silhueta opaca e leve no banco de criança. Intensidade e profundidade do sono. Cabelos pretos misturados com as trevas. Desalinho de cabelos formando um berço de quietude.

 

 Dorme profundamente.

 

 Não se mexe?

 

 Não.

 

 Não há nenhum movimento na retaguarda? Diane varreu o campo de visão do retrovisor.

 

Não, nenhum.

 

 Volte para a estrada. Onde está?

 

 A chegar à Porte Dauphine. Já vê o camião?

 

 Um prelúdio de pavor sob a pele.

 

 Sim. Eu...

 

 Que aconteceu?

 

 Por entre o furor da chuvada, as paralelas da estrada baralham-se. Não: não são as paralelas. É o camião. O camião acaba de sair da sua faixa parece arrastar atrás de si a estrada inteira. Não tem pisca-pisca ligado. Nenhum sinal. Atravessa obliquamente às linhas de chuva e de luz...

 

 Diane ergueu-se na poltrona. A voz de Sacher soa mais alto:

 

 Que aconteceu?

 

 O camião... está... está a desviar-se para a esquerda.

 

 E depois? perguntou o hipnólogo.

 

 Entra na quarta fila...

 

 O que faz você?

 

 Travo!

 

 Que se passa então?

 

 As minhas rodas bloqueiam-se por cima das poças. Deslizo, eu...

 

 Diane berrou. A força da recordação estava a dilacerá-la.

 

 O camião bate nos separadores de protecção. Gira num fragor de ferros. A cabina vira, esfrangalhando os faróis contra o pára-brisas de Diane.

 

 O que vê?

 

 Nada, já não vejo nada! As brumas de água rodeiam-me. Eu... travo. Travo!

 

 O pesado vacila sobre as suas estruturas. Suspiros obstinados de vapor. Estridulação dos travões. Retalhos de ferro irrompendo do caos...

 

Diane sentiu uma mão apertar-lhe o ombro. A voz de Sacher, muito próxima:

 

 E Lucien, Diane? Não deita um olhar a Lucien?

 

 Claro que sim!

 

 A sua recordação voltou com uma pureza de cristal. Mesmo antes do choque, mesmo antes de embater brutalmente contra a barra de segurança, Diane virara-se na direcção do filho.

 

 O rosto frágil, adormecido. E de repente as pálpebras que se abrem. Meu Deus! Ele desperta. Vai ver o que se passa...

 

 Diga-me o que vê!

 

 Ele... ele desperta. Despertou! Agora, Sacher gritava:

 

 Vê o cinto? Ainda está preso?

 

 O rosto da mãe amedrontada... os olhos arregalados... as pupilas dilatadas pelo terror...

 

 Diane, olhe para o cinto! Lucien está a abri-lo?

 

 NÃO POSSO!

 

 Diane já não podia tirar os olhos de Lucien. A voz de Sacher, em ressaca de terror!

 

 Olhe para a estrada, Diane! Volte para a estrada! Num gesto reflexo, ela rodopiou sobre si mesma. Um urro

 

 jorrou da sua garganta. Um grito cuja força a propulsou da poltrona:

 

 NÃO!

 

 Esbarrou contra os estores da janela. Sacher precipitou-se sobre ela.

 

 O que vê, Diane? Ela gritou outra vez:

 

 NÃO!

 

 O QUE VÊ?

 

Diane não podia responder. A voz do psiquiatra mudou de registo. Mais calma, mais totalmente dominada, ordenou:

 

 Acorde.

 

 Ela estremeceu, agitada por espasmos, encolhida ao pé dos estores.

 

 ACORDE! Sou Eu QUE lho ORDENO!

 

 Diane entrou em plena consciência. As suas pálpebras bateram. Uma fasquia de estore deve tê-la ferido: corria-lhe sangue no rosto, misturando-se com as lágrimas em doces riachos. Sacher debruçava-se sobre ela.

 

 Acalme-se, Diane. Agora está aqui, ao pé de mim. Corre tudo bem.

 

 Ela tentou falar, mas as cordas vocais recusavam-se a funcionar.

 

 O que viu? perguntou o médico.

 

 Os lábios fremiram-lhe: nenhum som saiu. Ele insistiu, num tom benevolente:

 

 Havia um homem no seu carro? Diane negou, abanando a cabeça:

 

 Não, dentro do carro, não.

 

 As feições do psiquiatra exprimiram o estupor. Diane tentou continuar, mas as palavras ficaram embargadas na garganta.

 

 A sua última visão voltou então para lhe fustigar a memória.

 

 No exacto momento em que se virara para a estrada, vira-o: à direita, a cem metros dali, entre as moitas do périphérique, um homem surgia sob a chuva. Vestido com um comprido capote de cor caqui, capuz apertado sobre o rosto ossudo, estendia o indicador para a viatura pesada, como se desencadeasse por meio deste simples gesto a fúria do acidente.

 

 Diane estava segura, reconhecera o seu casacão verde: uma parca anti-radioactiva do exército russo.

 

 Assim? O informático acrescentou umas maçãs do rosto salientes ao retrato-robô. Diane anuiu. Era meia-noite. Havia duas horas que trabalhava com um técnico fisionomista do Quai dês Orfèvres a fim de estabelecer o retrato da personagem do périphérique. Após a sessão de hipnose, apesar das perguntas instantes de Paul Sacher, Diane abandonara-o e dirigira-se logo para a brigada criminal.

 

 E a boca?

 

 No ecrã do computador, Diane viu desfilar as diferentes formas de lábios. Auréolas carnudas. Oval curta. Comissuras alçadas. Ela seleccionou uns lábios finos, rectilíneos, de contornos acentuados.

 

 E os olhos?

 

 Houve um novo desfile no monitor. Diane escolheu uns losangos de pálpebras baixas, para os quais optou por íris escuras e azuladas uns olhos iguais a berlindes coloridos e pesados, como os que tilintam nos bolsos das crianças. Era absurdo definir com tanta precisão um rosto que ela avistara a mais de cem metros de distância. Todavia, quase iria jurar: os olhos do matador, tal como os outros pormenores que seleccionara, eram desta natureza.

 

 E as orelhas?

 

Diane respondeu:

 

 Ele trazia um capuz.

 

 Que género de capuz?

 

 Um capuz contra as intempéries. Apertado em torno do rosto.

 

 O técnico traçou em volta da cara uma sombra pregueada que simulava perfeitamente o invólucro de pano. Diane recuou ligeiramente, franziu os olhos: o rosto tomava forma. Uma testa alta, desguarnecida de cabelo. Umas maçãs do rosto semelhantes a sílex, cercadas de rugas. Uns olhos azul-escuros que possuíam, sob a preguiça das pálpebras, um brilho de ágata. Diane gostaria de surpreender neste rosto uma monstruosidade, uma marca de crueldade mas tinha de inclinar-se perante a beleza dos traços.

 

 Patrick Langlois apareceu. Deitou uma olhadela ao ecrã e depois encarou Diane. Um vinco de inquietude barrava-lhe a testa.

 

 Está parecido? perguntou.

 

 Diane assentiu. O tenente observava o retrato sem convicção. Aceitara, às dez horas da noite, regressar ao seu gabinete e convocar um fisionomista para construir este rosto. Sentou-se num canto da secretária, mantendo estreitada contra si a sua pasta de cartão.

 

 E diz que ele envergava uma parca militar?

 

 Sim. Um casacão soviético. Uma fibra anti-radioactiva.

 

 Como pode estar tão certa?

 

 Há cinco anos, efectuei uma missão no Kamtchatka, na Sibéria extremo-oriental. Estávamos num acampamento militar e assisti, por acaso, a uma manobra de alerta nuclear. Pude ver de perto estes casacos. Atam-se de viés e a gola fixa-se...

 

 O tenente interrompeu-a com um gesto. Pediu ao informático que imprimisse o retrato-robô e depois levantou-se, dirigindo-se a Diane:

 

 Siga-me.

 

Caminharam ao longo de corredores para onde davam portas entreabertas e lucarnas sombrias. Ela vislumbrava gabinetes soturnos, nichos em desalinho onde alguns chuis ainda trabalhavam.

 

 Langlois abriu uma porta forrada de veludo. Penetrou lá dentro e acendeu uma lâmpada halogénea. O gabinete fazia lembrar um antro de oficial de diligências, a abarrotar de velhas papeladas e de peças de couro usadas. Apontou para uma cadeira e depois sentou-se do outro lado da mesa. Tamborilou uns momentos sobre a superfície de madeira antes de erguer o olhar.

 

 Devia ter-me prevenido, Diane.

 

 Queria ter a certeza.

 

 No entanto, eu avisara-a: nada de Alices detectives.

 

 Foi você mesmo que me encarregou de investigar sobre Lucien.

 

 Com um meneio de ombro, o polícia ajeitou o casaco e declarou:

 

 Resumamos. No seu entender, o acidente teria sido, na realidade, uma tentativa de homicídio, é o que pensa?

 

 Sim.

 

 O motorista do camião teria sido adormecido por uma ordem dada, por uma força exterior, ou sei lá que mais...

 

 Por hipnose.

 

 Por hipnose, admitamos. Como é que se poderia provocar a colisão naquele sítio exacto, no momento em que você chegava à fila esquerda?

 

 Calculei os itinerários. O camião vinha de um parque de estacionamento da avenue de la Porte d’Auteuil, nas imediações do Bosque de Bolonha. Bastava que se pusesse a caminho pouco antes de eu própria arrancar. Atendendo às nossas velocidades respectivas, o nosso ponto de encontro era fácil de calcular.

 

 E o adormecimento do motorista: como é que foi provocado precisamente nesse instante?

 

É possível condicionar uma pessoa para que ela adormeça de repente, ao surgir um sinal.

 

 Que sinal, no caso que nos interessa agora? Diane passou a mão pela testa.

 

O motorista lembra-se de uma cor verde. Talvez se trate da parca militar. O homem do capote estava à entrada do túnel.

 

 O tenente continuava a fitar Diane. Os seus olhos negros brilhavam sob a franja cinzenta.

 

 Acha então que os assassinos trabalhavam em equipa, volveu ele.

 

 Julgo que sim.

 

 À maneira de uma operação militar? Uma operação militar. Justamente.

 

 E toda esta operação teria sido organizada com a única finalidade de eliminar o seu filho adoptivo?

 

 Diane aquiesceu, mas avaliava todo o absurdo da sua versão dos factos. Langlois inclinou-se para ela e olhou-a bem no fundo da alma.

 

 Na sua opinião, o que os levaria a quererem matá-lo? Ela afastou as madeixas e murmurou:

 

 Não sei.

 

 Langlois refastelou-se novamente na cadeira e atacou noutro tom, como se quisesse abrir outro capítulo:

 

 E diz-me igualmente que Lucien não é originário da Tailândia? Que se trata afinal de uma criança vinda da Sibéria ou da Mongólia? Como foi parar ao litoral das ilhas do Andamão?

 

 Não sei.

 

 Após uns momentos, Langlois declarou numa voz incomodada:

 

 Diane, como hei-de dizer-lhe...

 

 Ela ergueu os olhos acima da curva dos óculos.

 

 Pensa que sou louca?

 

 Não dispõe da mínima prova do que afirma. Nenhum indício, nem nada. Tudo isto pode não existir senão na sua cabeça.

 

 E o motorista? Ele não percebe como pôde deixar-se adormecer e...

 

 Como havia de dizer o contrário?

 

 E o homem? O homem da parca: não posso tê-lo inventado, pois não?

 

 O polícia preferiu seguir outro rumo.

 

Se eu aceitar a sua história, concluirei que estes mesmos homens é que mataram Rolf van Kaen...

 

 Ela hesitou novamente.

 

 Julgo que sim; de certo modo, os assassinos castigaram o alemão por este ter salvo o Lucien.

 

 E quem preveniu o acupunctor quanto ao acidente?

 

 Não sei.

 

 Os polícias do BBK ainda não encontraram o mais pequeno rasto de um telefonema ou de uma mensagem a propósito do seu filho. Van Kaen parece ter sido chamado pelo Espírito Santo.

 

 O que poderia ela acrescentar? Langlois começou por respeitar o seu silêncio; em seguida declarou em voz baixa:

 

 Informei-me acerca de si.

 

 Em que aspecto?

 

 Telefonei aos seus colegas, aos seus pais, aos médicos que a trataram.

 

 Diane explodiu:

 

 Como é que pôde...?

 

É o meu trabalho. Neste caso, você constitui a minha testemunha principal.

 

 Patife!

 

 Porque não me disse que se submeteu a várias psicoterapias, hospitalizações, curas de sono?

 

 Devia então trazer um letreiro pendurado ao pescoço? Já podia ter-lhe feito a pergunta antes, mas... o que a levou a adoptar o Lucien?

 

 Não são contas do seu rosário.

 

 Ainda é tão jovem...

 

 O rosto dele franziu-se num sorriso embaraçado. As suas rugas desmultiplicaram a expressão de confusão.

 

 OK, tão bela. Era o que eu queria dizer. (Agitou os dedos no ar.) É uma coisa que não me entra na cabeça. Diane: porque optou por este procedimento de adopção? Porque não tentou antes... enfim, bem sabe: arranjar um marido, formar um lar, a via clássica, em suma?

 

 Diane cruzou os braços sem responder. Langlois curvou-se e juntou as mãos em forma de prece, como da primeira vez, lá no hospital.

 

 Segundo a sua mãe, você tem dificuldade em... ligar-se. Deixou a frase em suspenso, aguardou uns instantes, depois prosseguiu:

 

 Ela diz que nunca lhe conheceu um noivo.

 

 Isto é uma terapia ou quê?

 

 A sua mãe...

 

 A minha mãe não me liga nenhuma e eu pago-lhe na mesma moeda.

 

 O tenente encostou-se à parede, entalou o pé contra o cesto e sorriu.

 

 Foi o que eu julguei compreender, sim... E o seu pai?

 

 Do que anda à procura?

 

 Langlois abandonou a sua posição e recolheu-se novamente em si mesmo.

 

 Tem razão. Não são assuntos da minha conta. Diane contou de uma assentada:

 

 Não cheguei a conhecer o meu pai. Nos anos setenta, a minha mãe vivia em comunidade. Escolheu um tipo no grupo e fez-se fecundar. Tinham combinado os dois. Ele nunca procurou ver-me. Nem sequer sei o seu nome. A minha mãe queria educar um filho sozinha. Evitar o espartilho do casamento, a sujeição machista... Tinha as ideias da época. Era uma feminista convicta.

 

 Acrescentou:

 

 Há os filhos do circo. Eu sou uma filha dos hippies.

 

 Perpassou um sorriso no rosto do chui, esse frémito de ironia de que Diane tanto gostava. A sua expressão rasgou-lhe o coração porque ela sabia estar a contemplar uma paisagem proibida. Sentiu-se de súbito prisioneira de um glaciar, emparedada numa prisão de geada. O tenente deve ter percebido esta tristeza: estendeu a mão, mas ela evitou-a.

 

 Ele imobilizou-se, deixou correr alguns segundos, depois disparou o que trazia engatilhado:

 

 Diane, o termo ”diz-lhe alguma coisa?

 

Ela não procurou esconder a surpresa:

 

 Não. O que é?

 

 É uma abreviatura. Significa: câmara magnética de corrente. No fundo, é russo.

 

 Russo? Porque... me fala disso?

 

 Langlois abriu a pasta: havia um fax colocado em evidência. Diane entrevia caracteres cirílicos e uma vaga fotografia de identidade, desfocada pela impressão da telecópia.

 

 Talvez se lembre de que existe uma espécie de buraco negro no destino de van Kaen...

 

 ”Sim, de 1969a 1972.

 

 Os chuis do BBK abriram hoje um cofre que o médico possuía no Berliner Bank. O cofre só continha estes documentos.

 

 Brandiu a fotocópia.

 

 Papéis de identidade soviéticos, que demonstram que o alemão trabalhou num Tokamak durante esse período.

 

 Mas... de que se trata?

 

 É um sítio de pesquisa revolucionária. Um laboratório de fusão nuclear.

 

 Diane pensou na parca anti-radioactiva do matador.

 

 Não será antes fissão nuclear? rectificou ela. O tenente esboçou um gesto de admiração.

 

 É realmente espantosa, Diane. Tem razão, eu informei-me: a actividade tradicional das centrais baseia-se na fissão dos átomos; aqui, porém, trata-se justamente de uma outra técnica, fundada na fusão. Uma técnica inspirada directamente na actividade do Sol, inventada pelos Soviéticos nos anos sessenta. Um projecto desmedido, que os obrigava a construir fornos que atingiam até duzentos milhões de graus. É inútil dizer-lhe que tudo isto ultrapassa as minhas competências.

 

 Diane quis saber:

 

 Qual é a relação com os acontecimentos de hoje?

 

Ele virou a fotocópia na sua direcção e tomou uma expressão de evidência.

 

O Tokamak em que van Kaen trabalhou, o TK 17, era o mais importante que os russos alguma vez construíram. Era um sítio absolutamente secreto. E adivinhe onde estava implantado... No extremo setentrional da República Popular da Mongólia, na fronteira da Sibéria. Em Tsagaan-Nuur, ali mesmo onde o médico parecia decidido a ir.

 

 Ela estudava o documento escurecido, distinguindo na fotografia de identidade enegrecida as feições de um van Kaen jovem, de olhar fechado. Langlois interrogou-se em voz alta:

 

 Porque desejaria ele voltar lá? Não tenho a mais pequena ideia, mas tudo isto forma um todo. É óbvio.

 

 O informático entrou no gabinete depois de bater à porta. Sem uma palavra, depôs vários exemplares impressos do retrato-robô e eclipsou-se. O tenente observou a fácies e concluiu:

 

 Vamos ver se os nossos ficheiros reconhecem o seu fulano. Não acredito muito nesta possibilidade, mas nunca se sabe. Paralelamente, vamos orientar as nossas investigações para as comunidades turco-mongóis de Paris. Verificar os vistos de entrada e tudo o mais. É a única boa notícia, porque não devem ser muitos.

 

 Levantou-se e viu as horas:

 

 Vá dormir, Diane. Já passa da uma hora da manhã. Vamos reforçar a guarda do quarto de Lucien: nada receie.

 

 Acompanhou-a à porta. Apoiando-se no alizar, acrescentou:

 

 Francamente, não sei se é louca, Diane, mas, de qualquer modo, esta história é-o muito mais do que você.

 

 Compartimentos brancos. Quadros a pastel. Sinal vermelho do atendedor. Diane atravessou o seu apartamento sem acender a luz. Penetrou no quarto e deixou-se cair sobre a cama. O claror rubro do atendedor, ao pé dela, tomava proporções de farol acima de um mar de sombra. Recordava-se de ter desligado o telemóvel antes da sessão de hipnose. Talvez alguém tivesse procurado falar consigo durante a noite...

 

 Carregou na tecla de escuta e só ouviu a última mensagem: ”Sou a Isabelle Condroyer. O meu relógio marca vinte e uma horas. Diane: é fantástico. Identificámos o dialecto de Lucien! Telefone-me.”

 

 A cientista dava os elementos para ela a contactar em casa ou através do telemóvel. Na obscuridade, Diane memorizou o primeiro número e marcou-o. Ressoaram vários toques deviam ser duas horas da manhã, depois elevou-se uma voz estremunhada:

 

 Está sim?

 

 Boa-noite. Daqui fala Diane Thiberge.

 

 Diane, ah! sim... (parecia arrancar-se aos seus sonhos). Já viu as horas que são?

 

 Ela não tinha forças nem vontade de se desculpar.

 

Só agora cheguei a casa, disse simplesmente. Estava demasiado impaciente.

 

 Com certeza... (A voz recuperava alguma clareza.) Apurámos o dialecto do seu filho.

 

 Isabelle deteve-se para ordenar ideias, em seguida explicou:

 

 O menino fala um idioma de origem samoieda, usado exclusivamente na região do lago Tsagaan-Nuur, no extremo setentrional da República Popular da Mongólia.

 

 Lucien provinha exactamente da região do laboratório nuclear. O que significava isto? Diane não conseguia ordenar os seus pensamentos. Isabelle Condroyer perguntou:

 

 Diane, está a ouvir-me?

 

 Estou, sim.

 

 A etnóloga retomou o fio do discurso, a excitação transparecia na sua voz:

 

 É incrível. Segundo o especialista que consultei, trata-se de um dialecto muito raro, falado por uma etnia extremamente reduzida, os tsevens.

 

 Diane quedava-se tão muda como um túmulo. A cientista indagou outra vez:

 

 Está a ouvir-me, Diane? Julgava que ia ficar entusiasmada ao...

 

 Estou a ouvi-la.

 

 Há também as tais duas sílabas, Lu e Sian, que o seu rapazinho não cessa de repetir na cassete. O meu colega é categórico: estes dois fonemas formam uma palavra muito importante para a cultura tsevena. Significam: o ”Vigia”. A ”Sentinela”.

 

 O... Vigia?

 

 É um termo sagrado. Designa uma criança eleita. Uma criança que desempenha o papel de mediador entre o seu povo e os espíritos, sobretudo durante a estação da caça.

 

 Diane repetiu num tom vago:

 

 A estação da caça.

 

 Sim. Durante este período, a criança torna-se o guia do seu povo. Ela é simultaneamente quem atrai os favores dos espíritos e quem decifra as suas mensagens, na floresta. É capaz, por exemplo, de determinar as áreas propícias à captura dos animais. A criança parte na dianteira, e os caçadores do grupo seguem-na a boa distância. É um batedor, um batedor espiritual.

 

 Diane estendeu-se sobre a cama. Discernia, alinhados na parede, os quadrados a pastel de Paul Klee, longe, muito longe, do lado da vida normal e sem perigo. A etnóloga parecia intrigada pelo seu silêncio. Ao cabo de alguns segundos, disse:

 

 Sinto que há um problema.

 

 Diane, com a nuca afogada nos cabelos esparsos, respondeu:

 

 Julguei adoptar uma criança natural da Tailândia. Fundar um lar com um rapazinho que não tivera sorte à nascença. Vejo-me agora com um xamã turco-mongol que espreita os espíritos silvestres. Acha que não é um problema?

 

 Isabelle Condroyer suspirou. Parecia desiludida. Todos os seus efeitos estavam reduzidos a nada. Voltou a um tom doutoral:

 

 O seu filho deve ter permanecido durante bastante tempo na terra natal para poder memorizar este papel. Ou, pelo menos, o nome deste papel. É uma história extraordinária. O etnólogo que decifrou a cassete gostaria de falar consigo. Quando poderá vê-la?

 

 Não sei. Telefonar-lhe-ei a si amanhã de manhã. Para o seu telemóvel.

 

 Diane despediu-se bruscamente da mulher e desligou. Virou-se para a parede e encolheu-se toda, em posição fetal. Apoderou-se dela uma obscura alucinação. Sentia-se rodeada de sombras. Visualizava silhuetas vestidas de parcas anti-radioactivas que a seguiam, a observavam sob a chuva. Quem eram? Porque pretendiam eliminar Lucien, o pequeno ”Vigia”? Qual podia ser o laço entre uma criança xamã e uma paisagem nuclear?

 

 A fim de contrariar esta visão confusa, procurou recordar-se dos homens que eram seus aliados. Chamou a imagem de Patrick Langlois, mas nada viu. Tentou relembrar-se do doutor Eric Daguerre, mas nenhum rosto apareceu. Pronunciou o nome de Charles Helikian, mas nenhum eco se repercutiu no seu espírito. Sentia-se sozinha, desesperadamente sozinha. Contudo, no momento em que ia mergulhar no sono, assaltou-a uma verdade: não podia estar assim tão isolada, numa tormenta de tamanha amplidão.

 

 Alguém, algures, devia partilhar do seu pesadelo.

 

 Alguns anos atrás, ela inscrevera-se num curso de teatro a fim de tentar vencer a timidez e dar-se com os outros. Sem resultado. Conservara, porém, uma estranha nostalgia no tocante a esta actividade. Recordava-se dos cenários, que cheiravam a serradura e a poeira. Da atmosfera vagamente inquietante da sala mergulhada em sombra onde, num palco iluminado, uns aprendizes de actores declamavam textos de Sófocles ou de Feydeau, praticamente no mesmo tom. Recordava-se da compaixão atenta dos outros alunos, que seguiam em silêncio os esforços dos condiscípulos. Havia algo de oculto, de ritual em semelhante disciplina. Como se os ensaios se destinassem a invocar forças misteriosas, deuses ignotos que só podiam ser solicitados por estas falas desafinadas e por estes gestos canhestros.

 

 No rés-do-chão do bloco A do edifício da Faculdade de Letras de Paris X-Nanterre, Diane entrou na sala 103 e compreendeu que acabava de franquear o limiar de um desses templos arcaicos. Era um compartimento de vinte metros de lado, sem janela, quase vazio, à excepção das filas de cadeiras dobradas, encostadas à parede da direita. Ao fundo elevava-se um palco de tonalidades foscas, emoldurado por cortinados negros, onde uns rudimentos de cenário se recortavam numa claridade salpicada de partículas. Uma mesa, uma cadeira, formas imprecisas, talhadas em polistireno escuro, sugerindo uma árvore, um rochedo, uma colina.

 

 Eram dez horas da manhã.

 

 Isabelle Condroyer dera-lhe este único endereço para se encontrar com Claude Andreas, o etnólogo especialista em dialectos turco-mongóis.

 

 Interrogou uns actores que conversavam junto ao palco. Entre eles, estava o homem que Diane procurava. Alto e magro, envergava uma camisola leve de gola e umas calças justas de cor preta. Ela pensou num pergaminho finamente enrolado um pergaminho que abrigasse alguns segredos de alquimia sumamente opacos. Apresentou-se em poucas palavras. Ele desculpou-se com um sorriso:

 

 Desculpe este traje de combate. Estamos a ensaiar À Espera de Godot.

 

 Andreas indicou uma mesa à direita:

 

 Venha. Quero mostrar-lhe um mapa dessa região. A sua história é deveras... incrível.

 

 Diane anuiu, por simples pró-forma. Nesta manhã, anuiria a tudo. Apesar das horas que dormira ainda não recobrara as suas forças profundas: a mescla de agressividade e de nervosismo que constituía a sua mais segura maneira de existir.

 

 Café? ofereceu o homem brandindo um termos. Diane recusou com um gesto. Andreas estendeu-lhe uma cadeira, serviu-se de uma chávena de café e sentou-se do outro lado da mesa assente em dois cavaletes. Ela observava-o. O seu rosto assemelhava-se a um desenho colorido de criança: olhos de cor turquesa muito afastados, um nariz arrebitado, uma boca fina, delineada de um só traço tudo isto rodeado de uma abundante guedelha sal e pimenta, que se assemelhava a um capacete de personagem Play-Mobil.

 

 Pousou a chávena e desdobrou um mapa. Todos os nomes estavam escritos em caracteres cirílicos. Mostrou com o indicador uma região no alto do documento, perto de uma linha fronteiriça.

 

 Penso que o dialecto do seu filho pertence a esta região, no extremo setentrional da Mongólia Exterior.

 

Isabelle falou-me de uma etnia, os tsevens...

 

 Em boa verdade, é difícil ser tão categórico. São regiões de acesso muito difícil, que ficaram sob a influência soviética durante cerca de um século. Mas eu diria que sim; atendendo à pronúncia e à utilização de certas palavras, estamos perante o dialecto tseven. Uma população de origem samoieda. Criadores de renas, em vias de extinção. Até me espanta que ainda subsistam alguns. Onde é que foi adoptar uma criança assim?

è...

 

 Fale-me dessa história do Vigia e da caça.

 

 Andreas sorriu por causa do tom abrupto. Parecia compreender que hoje não seria ele a fazer as perguntas. Esboçou um gesto de desculpa pela sua indiscrição. Tinha a untuosidade de uma sombra chinesa.

 

 Uma vez por ano, no Outono, os tsevens organizam uma grande caçada. Esta caçada obedece a regras muito estritas. Os homens do grupo devem seguir um jovem batedor. A criança jejua na noite anterior e depois parte sozinha, ao alvorecer, em direcção à floresta. Só então os caçadores se põem em marcha e seguem o ”Vigia”. O ”Lú-Si-An”, no dialecto tseven.

 

 As palavras do etnólogo perdiam-se no espírito de Diane. Ela olhava fixamente o mapa. Verde. Imensidades de verde, rasgadas aqui e além pelas pequenas manchas azuis dos lagos. Eram estas planícies de ervas curtas, estas florestas infinitas de abetos, estes lagos límpidos que corriam no sangue de Lucien. Recordava-se dos momentos de intimidade em que a criança adormecia no arco da sua axila e em que ressoava no seu espírito a palavra mágica ”algures”. Como um marulhar longínquo, as explicações de Andreas chegaram de novo aos seus tímpanos.

 

 Se o seu filho adoptivo é realmente um Vigia, se foi designado pelo seu povo, isso significa que possui dons de vidência. Uma das faculdades agrupadas sob a sigla inglesa ESP, que quer dizer extrasensory perception, percepção extra-sensorial.

 

 Espere.

 

 Diane observava o seu interlocutor com um olhar frio.

 

Devo concluir que as pessoas dessa etnia julgam que tais crianças possuem dons paranormais?

 

 O homem da gola alta sorriu. Teve um gesto de paciência que a irritou.

 

 Não, murmurou ele. Não foi isso que eu quis dizer. Nem por sombras. Penso que os Vigias possuem, realmente, esses poderes. De acordo com testemunhos muito sérios, são capazes de captar fenómenos absolutamente inacessíveis aos cinco sentidos humanos.

 

 Mas que sorte a sua: calhara-lhe um pírulas. Um homem que permanecera demasiado tempo junto de etnias supersticiosas. Fez o possível por se acalmar:

 

 A que fenómenos se refere?

 

 Os Lúú-Si-An, por exemplo, podem prever o itinerário da migração dos alces. Também pressentem outros factos mais espectaculares, como o aparecimento de estrelas cadentes ou cometas. Ou ainda o advento de certas mudanças climáticas. São videntes, não há a mínima dúvida. E os seus dons anunciam-se desde a mais tenra idade...

 

 Diane interrompeu-o:

 

 Tem a noção do que está a dizer?

 

 Apoiando um cotovelo sobre a mesa, enquanto a outra mão rodava devagar a colher na chávena de café, o cientista limitou-se a responder:

 

 Existem dois tipos de etnólogos, minha senhora. Os que analisam as manifestações espirituais de uma etnia de um ponto de vista estritamente psíquico. Para eles, os poderes xamânicos, as experiências de possessão só correspondem a simples desvios mentais: histeria, esquizofrenia. Para a segunda categoria de etnólogos, na qual me insiro, estas experiências representam as manifestações das forças cujo nome ostentam, ou seja, dos espíritos.

 

 Como pode aderir a tais crenças? Sorriso. Círculo no café.

 

 Se soubesse o que já me foi dado ver ao longo da minha carreira... Considerar as manifestações xamânicas como simples doenças mentais é algo que se me afigura excessivamente redutor. Faz lembrar um musicólogo que apenas se preocupa com o volume sonoro de uma orquestra, sem cuidar da música em si mesma. Há os materiais, os instrumentos. Há, em seguida, a magia que deles emana. Recuso-me a rebaixar as crenças religiosas de um povo à categoria de meras superstições. Recuso-me a considerar os poderes dos feiticeiros como puras ilusões colectivas.

 

 Diane calava-se. O seu espírito era agitado por recordações. Também ela assistira a cerimónias estranhas, designadamente em África. Nunca aprofundara o seu próprio sentimento na presença de tais factos. Mas adquirira uma certeza: nesses momentos, estava em jogo uma força. Uma força que lhe parecia situar-se ao mesmo tempo no interior e no exterior do homem, e sobretudo, curiosamente, na sua orla. Como se estivesse diante de um contacto sagrado, de um limiar indizível que era transposto.

 

 Claude Andreas pareceu aperceber-se da sua perturbação. Disse baixinho:

 

 Vejamos as coisas de outra perspectiva, se não se importa.

 

 Deixemos o lado religioso dos fenómenos paranormais e interroguemo-nos sobre a sua veracidade concreta, física.

 

 Não faz sentido, interrompeu Diane. Isso não existe. A voz do etnólogo tornou-se mais grave:

 

 Nunca teve sonhos premonitórios?

 

 Como toda a gente. Umas impressões vagas.

 

 Nunca recebeu uma chamada telefónica de uma pessoa em quem acabava de pensar?

 

 Os acasos da vida. Escute: sou cientista. Não posso deixar-me embalar por tal género de coincidências e...

 

 Muito bem, é cientista: sabe então que existe um limiar onde os acasos se transformam em probabilidades. E ainda outro limiar onde estas probabilidades se tornam axiomas. Há muito tempo que me interesso por tais questões. Existem hoje em dia laboratórios científicos na Europa, nos Estados Unidos, no Japão, onde estes limites são regularmente transpostos, onde as experiências de telepatia, de vidência, de precognição se repetem com êxito. Tenho a certeza de que já ouviu falar de tudo isto.

 

 Diane não demorou a retorquir:

 

 É verdade. No entanto, se bem que os protocolos dos testes sejam rigorosos, a análise dos seus resultados dá sempre lugar a discussão.

 

 Sim, é o que dizem a maior parte dos cientistas. Porque as implicações destes resultados seriam demasiado importantes. Admitir a validade de tais anomalias equivaleria a pôr em causa a física moderna e o estado actual dos conhecimentos.

 

 Oh! está a fantasiar completamente...

 

 Sabe bem que não. Falamos de competências subterrâneas do homem. Falamos de aptidões que talvez se achem exacerbadas no seu filho. Aptidões que desafiam as leis ordinárias do universo sensível.

 

 Diane não precisava de mergulhar em novas vertigens. No entanto, uma força retinha-a. Um murmúrio segredava-lhe que estas faculdades talvez fossem o objecto de todo o caso... Andreas continuou, sempre num tom inalterável:

 

 Vejamos as coisas ainda de outra forma. É etóloga, não é? Trabalha sobre os modos de percepção dos animais.

 

 E então?

 

 Muitas destas percepções apresentaram-se-nos durante bastante tempo como misteriosas, incompreensíveis, porque não conhecíamos a sua fonte morfológica. O voo dos morcegos na escuridão era um mistério. Até ao dia em que descobrimos os ultra-sons, graças aos quais estes voláteis nocturnos se guiam. Cada uma das percepções possui a sua explicação física. Não há nada de sobrenatural.

 

 Está a falar do meu trabalho. Não vejo a relação com as pretensas faculdades psíquicas do homem e...

 

 Quem lhe diz que demos a volta inteira aos nossos aparelhos de percepção?

 

 Diane zombou:

 

 O famoso sexto sentido... (Levantou-se.) Lamento muito, senhor Andreas: julgo que estamos os dois a perder o nosso tempo.

 

O etnólogo também se levantou e barrou-lhe, muito brandamente, a passagem.

 

 Quem lhe diz que as crianças de quem falamos não possuem um trunfo que nós já não possuímos?

 

 Que trunfo?

 

 Acendeu-se um sorriso no rosto dele, uma vírgula no seu rosto de papel.

 

 A inocência.

 

 Diane tentou dar uma gargalhada, mas sentiu um nó na garganta. Claude Andreas insistiu:

 

 Nos laboratórios de que lhe falei, ficou demonstrado que os melhores resultados são sempre alcançados por ocasião dos primeiros testes, e em especial pelas crianças. Por causa da sua espontaneidade.

 

 Onde pretende chegar?

 

 Os nossos preconceitos constituem a principal barreira à emergência das faculdades psíquicas. O cepticismo, o materialismo, a indiferença podem ser considerados autênticas poluições, escórias que obstruem o espírito, o impedem de exercer o seu poder. Um desportista que não esteja convicto da sua força parte já vencido. A nossa consciência funciona exactamente da mesma maneira. Um céptico não tem acesso às suas próprias competências mentais.

 

 Diane contornou a longa silhueta. Invadia-a uma dúvida lancinante. Ele perguntou:

 

 Não tem filhos, pois não?

 

 Tenho o Lucien.

 

 Quero eu dizer: nunca deu à luz, pois não?

 

 Ela desviou a cabeça a fim de o não deixar ler a expressão do seu rosto.

 

 Porque mo pergunta?

 

 Todas as mães de família lhe dirão: elas comunicam com O filho durante a gravidez. O feto experimenta os sentimentos da mulher que o traz na barriga. Ora, já se trata de duas identidades distintas. A gravidez é o próprio berço da telepatia.

 

 Diane sentia-se mais à vontade neste terreno fisiológico. É falso, respondeu. Aquilo que qualifica de transmissão paranormal assenta em suportes físicos efectivos. Se uma mulher grávida recebe uma notícia que a transtorna, as hormonas específicas, como a adrenalina, libertam-se imediatamente no seu sangue e são assimiladas pelo embrião. Em tal estádio, não podemos considerar a mãe e o filho como dissociados. Estão, pelo contrário, em permanente contacto físico.

 

 De acordo. Mas depois do parto? A comunicação prossegue, minha senhora. É um facto confirmado. A mãe ainda percepciona as necessidades do filho no preciso instante em que ele as sente. O laço não é rompido. Que nome dá a isto? Instinto materno? Intuição feminina? Certamente. Mas onde acaba a intuição? Onde começa a vidência? Esta relação não será igualmente uma pura comunicação parapsicológica, que não assenta em qualquer outro suporte a não ser o amor?

 

 Diane esboroava-se como pólen. As alusões à relação mãe-bebé aniquilavam-na. Ao mesmo tempo, estas palavras enchiam-na de uma serenidade estranha. Ela mesma o sentira: alguma vez comunicara melhor com Lucien do que nesses momentos encantados, banhados de silêncio, em que o menino dormia nos seus braços?

 

 Fala bem, senhor Andreas, mas não creio ter avançado tanto quanto desejaria sobre a identidade do meu filho adoptivo.

 

 Avançará quando Lucien recuperar a consciência. Se é verdadeiramente um Vigia, saberá persuadi-la destas realidades.

 

 Diane despediu-se do homem e encaminhou-se para a porta. Sentia um nó de tristeza a dilatar-se no fundo da garganta. O etnólogo chamou-a:

 

 Espere.

 

 Acrescentou, avançando na direcção dela:

 

 Lembrei-me de repente de alguém. Um homem que poderá esclarecê-la melhor sobre as particularidades psíquicas de Lucien. Foi uma estupidez não ter pensado nele mais cedo. Viajou por aquelas regiões. Mais ninguém o fez, bem vistas as coisas. Devo confessar que também nunca lá fui. Só trabalhei com as fitas gravadas pelos políticos deportados na época, os cientistas do gulag.

 

 Andreas já procurava na sua agenda os elementos sobre a pérola rara. Anotou o nome e a morada no verso de uma pequena folha quadriculada.

 

 Chama-se François Bruner. Conhece os tsevens. E conhece a questão da parapsicologia.

 

 Ela pegou na página e leu.

 

 Vive num museu? perguntou.

 

 É o conservador da sua própria fundação, sim, em Saint-Germain-en-Laye. Possui uma fortuna colossal. Vá visitá-lo. É uma personagem fascinante. Gastará escassas horas na viagem. E essas horas talvez elucidem o resto da sua vida.

 

 Correu tudo muito depressa. Ela foi primeiro ao hospital a fim de descobrir o novo quarto de Lucien; em seguida, telefonou para o homem da fundação. O acolhimento revelou-se caloroso: François Bruner parecia intrigado pela presença de um Vigia em França. Dava igualmente a impressão de estar impaciente por expor as suas recordações e os seus conhecimentos a propósito de uma região que ele fora um dos raros europeus a palmilhar. Marcaram encontro para esse mesmo dia, às dezanove horas.

 

 Diane calculou que precisaria de aproximadamente uma hora para chegar a Saint-Germain-en-Laye, nos subúrbios a ocidente de Paris, e pôs-se a caminho, por precaução, logo às dezassete horas e trinta. Depois de atravessar Neuilly, contornou o Bairro da Defense pelo boulevarpériphérique e meteu pela Nacional 13, interminável linha recta que devia conduzi-la ao destino.

 

 No caminho, cessou de se interrogar sobre a sua investigação. O espírito dela estava inteiramente absorvido pelas palavras de Claude Andreas e pelas concepções gerais que implicavam. Diane Thiberge, etóloga diplomada, era um espírito racional. Apesar de ter ficado perturbada com a misteriosa eficácia da intervenção de Rolf van Kaen, apesar de as suas leituras sobre a acupunctura terem inflamado a sua imaginação, nunca acreditara, em profundidade, numa verdade que pudesse subverter a sua própria concepção da realidade.

 

 Como a maioria dos biólogos, Diane pensava que o mundo, na sua extrema complexidade, se resumia a uma sequência de mecanismos, físicos e químicos, implicando elementos concretos e identificados, desdobrando-se numa escala desde o infinitamente pequeno até ao infinitamente grande. É claro que ela não negava a existência do espírito humano, mas concebia-o como uma entidade à parte, cuja função consistia em perceber e compreender. Uma espécie de espectador espiritual, sentado nos camarotes do universo.

 

 Diane sabia-o: era uma visão redutora e ultrapassada dos mecanismos do cosmos. Uma visão, herdada dos pragmatistas do século xix, que excluía implicitamente a consciência humana da lógica do real. Ora, cada vez mais cientistas pressentiam que o espírito, por mais invisível e impalpável que fosse, pertencia tanto à realidade quanto uma molécula ou uma estrela de neutrões. Que a consciência se inseria, de um modo ainda inexplicado, no seio da grande cadeia do vivo, da mesma maneira que qualquer elemento tangível. Alguns pensavam mesmo que esta consciência não era uma entidade passiva, antes influenciava directamente, para lá dos actos que podia suscitar, o mundo objectivo, enquanto força pura.

 

 Diane concentrou-se no trajecto. Atravessava Nanterre, onde renques de plátanos desempenhavam o papel de tapa-misérias, dissimulando o habitual bricabraque dos arrabaldes mistura baça e desgraciosa de prédios velhos, de moradias desaprazíveis, de construções demasiado modernas, rutilantes e geladas.

 

 Em Rueil-Malmaison, a paisagem modificou-se. Os choupos substituíram os plátanos, compridas hastes buliçosas de folhinhas que pareciam trazer em si promessas de água e de verdura. Na avenue Bonaparte, nas cercanias da Malmaison, ergueram-se vedações, as pedras cobriram-se de vinha-virgem, os portões coroaram-se de delicados alpendres. As altas mansões pareciam remirar o fluxo dos carros, lá de cima das suas cercas, com ares de grão-duques, como se o orgulho do castelo Malmaison tivesse contaminado todas as vivendas e solares em redor.

 

 O trânsito era fluido. Diane rodava sem constrangimento. Os seus pensamentos fixaram-se novamente na investigação. Lucien seria um Vigia? Os seus supostos poderes existiriam deveras? Abarcariam uma dimensão insuspeitada da realidade? Rolf van Kaen dissera: ”Esta criança deve viver”. Não havia dúvida de que conhecia a verdade em torno de Lucien e de que esta verdade explicava a sua própria intervenção. O que esperaria dele? Diane não possuía qualquer resposta, mas estava persuadida de avançar na direcção certa. Devia concentrar-se nessas faculdades psíquicas ainda que não lhes desse crédito, ainda que, para ela, tais histórias não passassem de quimeras. O que contava, agora, não eram as suas convicções, mas as dos assassinos do périphérique e de Rolf van Kaen.

 

 Em Bougival, atingiu as margens do Sena, enxergando ao longe umas compridas ilhas arborizadas que se reflectiam nas águas do rio. Uma ponte de pedra mostrava a inscrição ”eclusas de Bougival”. Diane entreteve-se a observar as barcas, as péniches, as ondulações rasas de quietude. Tudo parecia aqui respirar vilegiatura, almoços sobre a erva, tréguas roubadas ao tumulto parisiense.

 

 Rodou mais vinte minutos e chegou à Grande Place do castelo de Saint-Germain-en-Laye. Soavam dezoito horas e quarenta e cinco no relógio da igreja. Percorreu largas avenidas que pareciam patentear ainda a marca dos coches e dos desfiles régios, depois tomou, conforme Bruner lhe recomendara, a direcção da floresta propriamente dita. Embrenhou-se em estradas estreitas, bordejadas por muros com fulgores de gipso e gretas de hera. O dia declinava acima das sebes, as árvores pareciam agitar-se de impaciência, como que exaltadas pela aproximação das trevas. Diane renunciou a acender os faróis a fim de captar melhor a luz do exterior, a qual dava a impressão de se tornar mais intensa, mais precisa, à medida que a noite descia.

 

 Por fim, parou em frente de um portão de grades altas e negras. Ao sair do carro, admirou-se da frescura do ar: um invólucro invisível que lhe despertava os sentidos e lhes conferia uma nova acuidade. Eram dezanove horas e a escuridão ia chegando em enormes rolos de sombra. Diane pensou uma vez mais no seu rapazinho. De súbito, a sua convicção adquiriu uma ressonância definitiva: dentro de poucas horas, possuiria uma parte do segredo.

 

 Carregou no interfone encimado por uma câmara. Nenhuma resposta. Fez uma nova tentativa. Em vão. Sem reflectir, empurrou o portão de ferro, que girou vagarosamente. Abotoou o seu casaco de camurça, cuja gola formava uma fina escova de lã, e enveredou pela álea de saibro. Caminhou assim durante vários minutos, ladeando vastos relvados. Estava tudo deserto. Não distinguia senão as pequenas casquinadas dos regadores automáticos, invisíveis na escuridão. Finalmente, do outro lado de um cômoro de relva, avistou o bloco sombrio do museu.

 

 O edifício devia datar do início do século. Todo ele em linhas de força e ângulos brutos, e parecia ter sido fundido nos mais pesados materiais. Verdete dos bronzes. Ocre castanho dos cobres. Negro mate do aço. Diane abeirou-se. A dupla porta principal estava fechada. As janelas da fachada, emolduradas por metal, não deixavam transparecer qualquer luz. Recordou-se de que François Bruner a aconselhara a contornar o edifício a fim de alcançar a porta das traseiras, que abria directamente para os seus aposentos privados.

 

 O parque estava cercado por árvores e trevas. As copas, sacudidas pela ventania, produziam uma sinfonia amarfanhada de folhas. Ao chegar à fachada oposta, bateu a uma porta, mas não obteve resposta alguma. O professor tê-la-ia esquecido?

 

Arrepiou caminho, retomou a direcção do portão exterior, mas mudou de ideias. Dirigiu-se de novo para a entrada principal, subiu os poucos degraus da soleira e tentou puxar para si a pesada porta.

 

 Contra todas as expectativas, esta abriu-se.

 

 Diane penetrou num vestíbulo nimbado de sombra, depois descobriu a primeira sala. Jamais imaginaria que um tal compartimento pertencesse ao bunker ameaçador lá de fora. As paredes, o chão e o tecto eram brancos. Refractavam com intensidade a claridade da lua, que se coava pelas janelas. Só por si, estas superfícies nuas constituíam uma carícia para o olhar. Mas, acima de tudo, havia os quadros. Lucarnas de cores variadas, flamejantes, que se assemelhavam a aberturas para um outro mundo. Diane avançou e compreendeu que a fundação consagrava uma exposição à obra de Piet Mondrian.

 

 Não era realmente uma especialista da arte pictórica, mas admirava particularmente este artista neerlandês de quem possuía numerosas reproduções. Ao longo das paredes, identificou logo as obras do primeiro período do pintor: moinhos desgrenhados, de asas fantasmagóricas, que se recortavam nos céus abrasados e pareciam anunciar uma iminente combustão do mundo.

 

 Na segunda sala, Diane encontrou outras telas do mesmo período. Árvores, desta vez árvores de Inverno, lôbregas, hieráticas, polvilhadas de cintilâncias, abrigando nos interstícios da sua casca os mais loucos dos tons. Havia também árvores primaveris pretas e vermelhas, como que injectadas de fogo, parecendo prestes a fundir-se numa explosão pastoril. Diane sempre pensara que esta seiva ardente, estes céus de fornalha traziam dentro de si uma promessa. Que eles já encerravam a profunda mutação da arte de Mondrian.

 

 Sabia que, na terceira sala, se abriria uma tal mutação.

 

 Transpôs o limiar e sorriu ao contemplar as telas da maturidade. A partir dos anos vinte, as árvores de Mondrian haviam-se estirado, alinhado, depurado, os seus céus tinham-se ordenado, alisado, e a verdadeira Primavera do pintor eclodira. Não em flores ou em frutos, mas em quadrados, rectângulos, formas geométricas de uma absoluta pureza. A partir deste momento, Mondrian nunca mais pintara senão composições ascéticas, reunindo figuras estritas e cores monocromas. Costumava-se falar de ruptura na sua obra, mas Diane não concordava. Aos olhos dela, era, pelo contrário, uma alquimia natural. Ao cabo do lirismo incandescente dos primeiros anos, no fundo das suas paisagens de terra e fogo, o artista encontrara a quinta-essência da sua própria pintura. A geometria perfeita dos eixos e das cores.

 

 Deslumbrada, Diane avançava sem medir o absurdo da situação. Estava, sozinha, num museu privado onde devia encontrar-se com o especialista de uma etnia turco-mongol. Deambulava, sem vigilância, sem constrangimento, no meio de telas que valiam certamente várias dezenas de milhões de francos cada uma. Passou a uma nova sala, contando já contemplar os famosos Boogi-Woogie, as derradeiras obras do artista, realizadas em Nova Iorque e...

 

 Um ruído fê-la virar a cabeça.

 

 Duas silhuetas erguiam-se na sala anterior. Ela pensou que fossem guardas, mas reconsiderou logo a seguir. Os dois homens, vestidos de negro, traziam amplificadores de luz e empunhavam cada qual uma espingarda de assalto encimada por uma mira laser. Jorrou uma certeza no seu espírito: os cúmplices do périphérique. Haviam-na seguido até aqui e iam assassiná-la, no interior desta sala de exposição.

 

 Deitou um olhar para trás de si. Nenhuma porta, nenhuma saída. Os homens avançavam com lentidão. Diane recuou. As armas deles desferiam um feixe vermelho. De uma maneira absurda, Diane sentiu-se impressionada pela beleza da cena: as telas que reflectiam a claridade azulada da lua, os dois atacantes de olhar de escaravelho, o ponto rubro das suas espingardas que brilhava naquelas trevas de cré.

 

 Diane não sentia medo nenhum. Já outro pensamento se formava no seu espírito: este confronto, de uma maneira obscura, aguardara-o durante quinze anos. Era a sua hora de verdade. A hora de demonstrar que já não era a rapariga vulnerável de Nogent-sur-Marne. Tornou a ver os salgueiros, as luzes vítreas. Sentiu a terra fria contra as ancas. As duas sombras continuavam a aproximar-se. Já só estavam a poucos metros.

 

 Mais um passo.

 

 Viu uma das mãos enluvadas carregar no gatilho.

 

 Era tarde de mais.

 

 Para eles.

 

 Diane saltou e bateu com a mão de lado são fut shu. O primeiro homem foi atingido em cheio na garganta e baqueou. O segundo apontou a espingarda, mas já ela rodopiava, distendendo a perna num pontapé revirado. O matador foi propulsado para trás. Diane ouviu o ”da arma munida de um silenciador que arrancava a pedra de uma parede. Logo a seguir, sobreveio o silêncio. Mais nada mexia. A tremer dos pés à cabeça, ela acercou-se dos dois corpos inertes.

 

 Um golpe metálico derrubou-a. Uma onda de sofrimento inundou-a. Procurou levantar-se apoiada num joelho, mas um novo choque acertou-lhe no rosto. Os seus óculos voaram. A boca verteu sangue. Ela desmoronou-se, deduzindo com um tempo de atraso que havia um terceiro homem, escondido no ângulo morto da sala. As pancadas começaram a chover. Punhos fechados, martelamentos de botas, esquinas de coronha. Os dois outros homens tinham-se posto de pé e juntado à execução. Com as mãos a proteger a cabeça, Diane só pensava numa coisa: ”A minha argola. Vão arrancar a minha argola.”À laia de resposta, sentiu um fluxo morno a escorrer dos lábios. Encolheu-se e apalpou o nariz, para sentir a pele fendida e o septo nasal em carne viva. Esta simples ideia desbaratou as suas últimas forças: dobrou-se ainda mais, já nem sequer estremecendo sob os golpes que a bombardeavam.

 

 Houve uma breve pausa. Ela rastejou, estendeu a mão para se agarrar à parede. Não pôde concluir o gesto. Um sapato ferrado bateu-lhe em pleno torso, cortando-lhe de chofre a respiração. A asfixia violentou todo o seu ser. Deu-se uma suspensão, um puro nada de tempo e espaço, depois Diane soçobrou, sentindo-se vomitar em espasmos. Um punho enluvado apanhou-a pelos cabelos e virou-a, assentando-lhe os ombros sobre o cimento. O homem desembainhou uma faca de dentro de um estojo atado à perna. A lâmina denteada aproximou-se, reluzindo ao luar. O último pensamento de Diane foi para Lucien. Pediu-lhe perdão. Perdão por não ter sabido defendê-lo. Por não ter compreendido o seu segredo. Por não ter sabido manter-se viva para lhe prodigar todo o amor que...

 

 A detonação ecoou.

 

 Surda, abafada, profunda.

 

 Sob o amplificador de luz, a expressão do algoz mudou.

 

 As suas feições pareceram cair, inteiriçar-se.

 

 De novo, a detonação rasgou o silêncio.

 

 O assassino vergou-se, com os lábios arredondados num esgar de estupor.

 

 Diane levou um segundo a entender que era ela que disparava. Enquanto pronunciava mentalmente a prece, o seu corpo, ainda lutando para viver, procurara uma outra via. As suas mãos haviam tacteado, perseguido, encontrado a automática do matador, deslizado no seu cinto. Com o polegar, levantara o fecho do coldre que retinha a arma. Com os outros dedos, arrancara a pistola, orientara o cano e premira o gatilho.

 

 Disparou outra vez.

 

 O corpo vibrou pesadamente. Desabou sobre Diane quando ela já se posicionava, de braço esticado, para visar os dois outros adversários. Haviam desaparecido. Só teve tempo de enxergar as estrias das miras laser que passavam na sala das Composições. Empurrou o cadáver, apanhou a espingarda de assalto e atravessou o espaço em diagonal. Postou-se num ângulo morto, de espingarda apertada contra o torso. Apesar do estado de choque, apesar do sangue que lhe empapava as roupas, sentiu o seu corpo apontar um único caminho: venderia cara a vida. De qualquer modo, desse lá por onde desse, livrar-se-ia de apuros.

 

 Deitou uma olhadela à entrada e teve então uma ideia.

 

 Os quadros.

 

 Os quadros iam salvar-lhe a vida.

 

Já utilizara amplificadores de luz para observar o comportamento nocturno das feras na selva africana. Sabia que o campo de visão destes aparelhos era banhado por uma luminosidade verde e só oferecia uma débil distinção entre as cores. Lembrou-se das miras laser essas miras vermelhas que os algozes tinham de fixar para disparar e que deviam ser menos precisas no halo esverdeado. Se conseguisse perturbar a nitidez de tais pontos passando exclusivamente diante das telas vermelhas, obteria alguns segundos de folga, os quais talvez lhe bastassem para atravessar a sala.

 

 Lançou-se sem reflectir mais. Viu logo os dois sulcos convergir para ela e ultrapassá-la os dois assaltantes estavam escondidos, conforme previra, de ambos os lados do vão. Apontou sem demora para a Composição número 12, onde se apresentava um quadrado vermelho, depois arremeteu na direcção de uma Composição com Vermelho, Amarelo e Cinzento. Via revolutear os dois pontos escarlates, tal qual umas moscas cruéis. Correu mais. A sua técnica funcionava. Os matadores nada viam. Seguiu ao longo dos carmins do quadro mais próximo e descortinou o limiar da sala seguinte. Ganhara!

 

 Nesse instante, resvalou. A sua cabeça bateu no cimento. Explodiram-lhe estrelas sob o crânio. Uma dor atravessou-lhe o tornozelo. Voltou-se prontamente: os assassinos estavam quase em cima dela. Fincou-se no flanco direito, carregou no gatilho da espingarda de assalto entalada na dobra do seu braço. A potência do recuo projectou-a contra a parede, mas viu, no clarão azulado do silenciador, uma sombra a estremecer em arquejos de morte.

 

 O segundo agressor parou. Ela tornou a disparar. O milagre não se repetiu; a espingarda estava encravada. Largou a arma, desembainhou com a mão direita a automática que enfiara no cinto e apontou ao homem que já só estava a um metro. De novo, um clique atroz substituiu a esperada detonação. Diane ficou estupefacta. Acabara tudo para si. O matador visou-a. Ela entreviu as suas grevas, lembrou-se da lâmina de comando, lançou-se sobre o estojo. Arrancou a faca, arremessou-se de um salto e enterrou-lhe a lâmina na garganta. Urrou para não ouvir o metal a ranger nas carnes abertas.

 

 Afastou-se num só movimento, abandonando a faca na laringe lacerada. Esgazeada, coberta de sangue, recuou, pousando o pé esquerdo no solo e sentindo, acto contínuo, um sofrimento agudo. Saltitou sem sair do mesmo lugar, semelhante a uma grande garça-real a patinhar numa poça pardacenta, em seguida avistou uma porta, à direita, que se materializava como por milagre. Orientou-se nesta direcção, ao pé-coxinho, caiu outra vez, ergueu-se sobre um joelho e empurrou a porta. Compreendeu, num caos de pensamentos convulsivos, que acabava de entrar no apartamento de François Bruner.

 

 Não distinguia o mínimo ruído, o mínimo frémito. Já não se mexia, de espinha contra a madeira, cravada sobre o cóccix. Os homens de olhos de insecto teriam assassinado François Bruner? Ou ele conseguira fugir?

 

 Diane tentou levantar-se. Este movimento simples provocou-lhe horríveis sofrimentos. O seu corpo arrefecia. Daí a poucos minutos, as pancadas que ela apanhara aprofundar-se-iam e formariam coágulos de dor. A partir de então, já não poderia efectuar o mínimo gesto. Devia, pois, actuar depressa, descobrir uma saída para fugir.

 

 A manquejar, embrenhou-se na escuridão, mantendo a mão sobre o nariz que sangrava abundantemente. Sem óculos, evoluía num mundo de formas incertas e blocos indistintos. Só umas ténues lâmpadas, lá no alto, a guiavam nos seus tacteios. Ao fundo do corredor, deparou-se-lhe uma sala rectangular, onde se rasgava um tanque sem profundidade. Para transpor este obstáculo, era necessário seguir por um passadiço de ferro, mesmo por cima das águas, e depois subir alguns degraus até aos compartimentos seguintes. Diane encetou a prova sem se deter na singularidade da arquitectura. Atravessou a ponte de placas de metal, notando que lá em baixo flutuavam copetos de óleo, encimados por um pavio aceso. Autênticos nenúfares de fogo.

 

Atingiu um novo compartimento, um quadrado perfeito. O seguinte era um rectângulo, de paredes brancas e parqué negro. Os raios de luar, infiltrando-se por uma comprida abertura envidraçada, iluminavam esboços alinhados ritos de sacrifício desenhados a tinta-da-china, cujo papel parecia ter sido torturado pela caneta.

 

 Noutras circunstâncias, Diane espantar-se-ia do rigor e da beleza do lugar. Naquele instante, porém, chorava e esforçava-se por não derramar demasiadas gotas vermelhas que se esmagavam no chão tão pesadamente como cera quente. Começava a desesperar de encontrar uma saída qualquer, quando viu, ao fundo de um corredor, uma porta entreaberta para um raio de luz. Reverberações e rumorejo de pingos de água esclareceram-na: uma casa de banho. Era uma solução intermédia: parar a fim de enxaguar o rosto, para partir mais enérgica.

 

 O compartimento estava concebido sob o signo do jade e do bronze. Blocos e placas, talhados nestes materiais, desdobravam-se através do espaço. Pesados vidros coloridos erguiam-se ao longo das paredes, como anteparos de água do mar. Via-se uma banheira escavada numa pedra polida e esverdeada. Sobre barras pretas, umas toalhas emitiam cambiantes de algas escuras. E por toda a parte, ao longo das janelas, ao longo das vidraças, na vertical dos sanitários e das faianças brancas, hastes de bronze, dobradas em paralelas, pululavam até se perderem no jogo infinito dos espelhos.

 

 Diane descobriu o lavatório e abriu a torneira. O jorro de frescura fez-lhe bem. A hemorragia atenuou-se, as dores esbateram-se. Reparou então que a água, no fundo da bacia, continha fibras transparentes membranas minúsculas. Levantou a cabeça e enxergou, à esquerda, na banheira enxuta, estas mesmas películas a enrolar-se, a espiralar-se em fiapos diáfanos. Pensou num filme plástico, mas, ao pegar num dos fragmentos, compreendeu que a textura era orgânica.

 

 Pele.

 

 Pele humana.

 

 Voltou-se e procurou instintivamente a origem desta nova aberração. Aquilo que observou arrancou-lhe um grito. No centro do compartimento, destacava-se uma mesa de massagem de mármore preto. Sobre o tampo, via-se um corpo estendido, recoberto por um cortinado de duche de cor esmeralda. Através das pregas transparentes, podia discernir a forma de um homem muito magro. François Bruner? Com uma mão trémula, puxou o cortinado que caiu no chão. O corpo surgiu de repente, em toda a sua nudez.

 

 O homem estava deitado, de braços cruzados sobre o torso. Tinha a posição das estátuas de cavaleiros que jazem nas capelas edificadas durante a Idade Média. A comparação ia mais longe: este corpo envelhecido, descarnado, cujos ossos ressaltavam sob a pele, parecia manter um laço, uma conivência estética com a decoração simétrica da casa de banho, tal como os cavaleiros esculpidos partilham com a arquitectura gótica um ar de inalterável solenidade.

 

 O cadáver aparentava pelar-se, literalmente. Peles muito finas pendiam de ambos os lados dos seus membros, ou amarfanhavam-se sobre o torso, revelando por baixo uma pele absolutamente nova rosada. Diane esforçou-se por não perder os poucos resquícios de sangue-frio que ainda possuía e avançou. Sofreu um novo abalo. Agora que já só estava a um metro do corpo, podia distinguir muito nitidamente o seu abdómen e a fina incisão que lhe traçava a carne, mesmo por baixo do esterno.

 

 François Bruner fora morto do mesmo modo que Rolf van Kaen.

 

 O que significava isto? Quem se encarregara de tal execução? Os três pulhas das espingardas de assalto? Diane não o julgava: não era o estilo deles. E porque teriam colocado em seguida a vítima sobre o bloco de mármore?

 

 Ia a recuar quando notou o que devia ter notado desde o início e que redistribuía todos os elementos: o rosto do velho. A testa desguarnecida de cabelo. As maçãs do rosto em sílex. As pálpebras pesadas.

 

 Era o homem da parca anti-radioactiva.

 

 O homem que tentara matá-los, ela e o filho, três semanas antes.

 

 Exceptuando a cama, o seu quarto de hospital não continha qualquer mobiliário. O compartimento estava mergulhado na obscuridade. Deitada com um braço dobrado sobre o rosto, Diane Thiberge só podia vislumbrar, sob o recorte iluminado da porta, os pés do chui que montava guarda. Viu as horas. Seis da manhã. Dormira então toda a noite. Fechou novamente as pálpebras e pôs as ideias em ordem. Na sala de jade e bronze, no preciso momento em que reconhecera o homem com pele de serpente, luzes giratórias tinham brotado ao fundo do parque. A polícia. Nesse instante, Diane sentira um estranho alívio: era o primeiro elemento racional de toda a aventura. Queria dizer que havia um sistema de alarme no museu. Os quadros estavam protegidos era bom que estivessem. O confronto provocara um alerta, uma chamada para a esquadra de Saint-Germain-en-Laye. Ela lembrara-se então dos corpos, das suas próprias impressões digitais nas armas abandonadas. Quem acreditaria que uma jovem conseguira eliminar três matadores equipados de espingardas de assalto? Podia evitar confessar os seus crimes. Afinal de contas, só utilizara as automáticas deles...

 

 Muito a custo, regressara à sala das Composições e dispusera as armas e os corpos respeitando a trajectória das balas que disparara. Também encontrara os óculos. Intactos. Esta descoberta contribuíra para lhe aclarar as ideias. Descalçara as luvas aos homens e colocara as suas respectivas impressões digitais sobre cada uma das coronhas. Quando os chuis entraram no museu, só viram uma mulher prostrada, rodeada de cadáveres e de quadros de Mondrian.

 

 O seguimento fora ainda mais fácil de representar. Dentro do carro, bastara-lhe entregar-se ao seu efectivo abatimento. Os investigadores tinham formulado tantas respostas quantas as perguntas, deduzindo eles próprios que os três homens se tinham morto uns aos outros depois de a terem agredido. Curiosamente, pareciam persuadidos de que ela não fora o motivo do confronto. Diane não insistira, mas pressentia que os chuis já tinham identificado os algozes.

 

 Na clínica do Vésinet-Le Pecq, o médico de serviço mostrara-se tranquilizador. Ela só padecia de hematomas. Quanto às dores no tornozelo esquerdo, tratava-se apenas de uma ligeira entorse. Os seus únicos verdadeiros ferimentos estavam ligados aos adornos: a argola de ouro rasgara a asa direita do nariz até às cartilagens. Quanto ao rebite incrustado no umbigo, fora necessário uma meia hora de cirurgia sob anestesia local para o recuperar.

 

 Depois de lhe administrarem sedativos, haviam-na instalado naquele quarto fechado. Adormecera imediatamente, mas agora, entorpecida pelos analgésicos, sentia-se pairar no espaço sem sentir a mais pequena dor. Só uma lucidez intensa, quase irreal de tanta clareza, passara a habitá-la. Podia, assim, estabelecer uma lista das suas convicções.

 

 No dia 22 de Setembro de 1999, François Bruner, conservador da Fundação Bruner, grande viajante, especialista dos Tsevens e da parapsicologia, tentara assassinar Lucien, organizando, com os seus cúmplices, um acidente no boulevarpériphérique parisiense.

 

 No dia 5 de Outubro de 1999, Rolf van Kaen, anestesistachefe do serviço de cirurgia pediátrica do hospital Die Charité, praticara uma intervenção clandestina na criança, esperando salvá-la graças à técnica da acupunctura.

 

Estes dois homens conheciam uma verdade em torno de Lucien que Diane ignorava - talvez a verdadeira natureza do seu poder, a qual exigia de um que o destruísse e intimava o outro, pelo contrário, a salvá-lo.

 

Que poder seria este? Diane deixou a pergunta sem resposta a fim de se concentrar na sua última convicção. Talvez a mais terrível.

 

Existia outro assassino em acção.

 

o homem que triturara o coração de Rolf van Kaen nas cozinhas do hospital Necker, durante a noite de 5 de Outubro de 1999. o homem que efectuara a mesma operação, no dia 12 de Outubro de 1999, no interior do corpo de François Bruner, sem dúvida poucas horas antes da chegada de Diane ao museu.

 

o tinido da fechadura ressoou. Dois polícias fardados entraram no quarto, aureolados pela luz do dia. Atrás deles surgiu uma silhueta alta. Diane pôs os óculos. Reconheceu a camisola preta, o cabelo de palha-d’aço. Patrick Langlois parecia ainda mais agreste do que habitualmente.

 

Ao ver o rosto tumefacto de Diane, soltou um assobio de admiração e depois ameaçou:

 

- Talvez seja tempo de pôr cobro aos disparates, não acha?

 

 Dentro do carro, o primeiro reflexo de Diane foi o de baixar a pala para se proteger do sol e contemplar o seu rosto no espelho. Um hematoma azulado partia da têmpora esquerda e descia até ao queixo. Do mesmo lado, a face já inchava, sem no entanto chegar a deformar as suas feições angulosas. O branco do olho esquerdo, velado de sangue, dava-lhe um curioso olhar bicolor. Quanto ao ferimento do nariz, os fios e as crostas castanhas eram camuflados por um penso hemostático. Esperara pior.

 

 Sem uma palavra, Langlois arrancou e meteu-se no fluxo do trânsito matinal. Não se esquecera, no átrio da clínica, de lhe dar uma ensaboadela a propósito da sua imprudência e da sua atitude solitária. Diane confiava que ele não repetisse a dose a sua enxaqueca não o toleraria. Ao primeiro sinal vermelho, no entanto, Langlois sacou da pasta de kraft um maço de folhas e depô-lo nos seus joelhos.

 

 Leia isto.

 

 Diane nem sequer baixou o olhar. Ao cabo de uns minutos, sem deixar de se conservar atento ao tráfego, o tenente indagou:

 

 Que mais temos agora?

 

 Ela continuava a fixar a estrada.

 

 Não posso ler em andamento. Fico agoniada.

 

Langlois resmungou. Parecia farto dos caprichos de Diane.

 

 OK, suspirou, vou explicar-lhe. Essa documentação é a do seu retrato-robô.

 

 François Bruner?

 

 Chamava-se, na realidade, Philippe Thomas. Bruner era um nome falso. É uma coisa bastante corrente entre os espiões.

 

 Espiões?

 

 Ele pigarreou, de olhar posto na estrada.

 

 Quando submetemos este rosto ao nosso trombinoscópio, obtivemos imediatamente algo, no sector da DST, a Direcção de Vigilância do Território. François Bruner/Philippe Thomas estava fichado desde 1968. Nessa época, o homem era professor de Psicologia na Faculdade de Nanterre. Um prodígio, com escassos trinta anos de idade. Um especialista em Cari Gustavjung. Devia ter-me lembrado do seu nome. (Esboçou um sorriso de desculpa.) Eu próprio tive o meu período Jung. Em suma, em 1968, Thomas, que é inicialmente filho de boas famílias, torna-se um dos principais agitadores comunistas das barricadas.

 

 Diane revia o homem do capote verde a espetar o indicador. O seu rosto açoitado pela chuva no meio dos arbustos do périphérique. Langlois prosseguia:

 

 Em 1969, o cavalheiro desaparece. De facto, desiludido pelo fracasso da revolução, Thomas decidira passar-se para o Leste.

 

 O quê?

 

 O intelectual transpôs a Cortina de Ferro. Instalou-se no sítio onde a causa do povo triunfava: a URSS. Imagino muito bem a cara do pai, um dos maiores advogados de negócios da França gaulista, ao ser informado da notícia.

 

 E depois?

 

 Sabe-se pouco do que ele fez por lá. Mas é seguro que viaja pelas regiões que nos interessam, em especial a República Popular da Mongólia.

 

 O carro percorria a Nacional 13 na faixa da esquerda. O sol banhava os cimos das árvores avermelhados, que pareciam destilar no ar uma névoa purpurina. Diane olhava distraidamente os gradeamentos dos parques, os vastos solares, os prédios claros, submersos sob as folhagens. Já não encontrava a realidade e a precisão do seu périplo da véspera. O tenente da polícia continuava:

 

 Em 1974, é o grande regresso. Thomas bate à porta da Embaixada de França, em Moscovo. O sistema soviético aniquilou-o. Implora ao governo francês que o acolha de novo. Nessa época, tudo é possível. Assim, o trânsfuga que passara para o Leste cinco anos antes pede agora asilo político... ao seu próprio país!

 

 Langlois brandiu os documentos em jeito de elemento de prova, ao mesmo tempo que segurava o volante com a outra mão.

 

 Juro-lhe que tudo isto é verídico.

 

 E... depois?

 

 Tudo se torna ainda mais dúbio. Reencontramos Thomas em 1977, é capaz de adivinhar onde? no seio do exército francês, na qualidade de conselheiro civil.

 

 Em que domínio? Langlois sorriu.

 

 Trabalha, como psicólogo, num instituto de saúde do exército, especializado em medicina aeronáutica. Em boa verdade, este instituto é uma fachada que encobre o acolhimento e o interrogatório dos dissidentes comunistas que pediram asilo político à França.

 

 Diane começava a entender a reviravolta da situação.

 

 Quer dizer que é ele que interroga então os trânsfugas soviéticos?

 

 Exactamente. Fala russo. Conhece a URSS. É psicólogo. Quem, melhor do que ele, poderia avaliar o grau de franqueza e de credibilidade dos refugiados? De resto, julgo que não tem outra escolha. Paga, assim, a sua dívida ao governo francês.

 

 Langlois calou-se durante uns segundos, retomando o fôlego, e depois concluiu a narrativa:

 

 Nos anos oitenta, a atmosfera começa a desanuviar-se entre o Leste e o Oeste. É o tempo da glasnost, da perestroika. As autoridades militares dão rédea larga a Thomas, que recupera a sua liberdade. Ainda não tem sequer cinquenta anos. Acaba de herdar uma colossal fortuna familiar. Não volta ao ensino. Prefere investir em quadros de mestres e criar a sua própria fundação, que também acolhe exposições temporárias, como a de Mondrian nesta altura. Thomas já não esconde o seu passado de trânsfuga. Pelo contrário, faz conferências sobre as regiões da Sibéria que visitou e sobre os seus povos, pois é um dos raros europeus que os conhece, em especial os tsevens, a etnia do seu filho.

 

 Diane reflectiu. Estas informações volteavam-lhe na cabeça. Os nomes. Os factos. Os papéis. Cada elemento se integrava e dava consistência a uma verdadeira lógica. Ela acabou por perguntar:

 

 O que pensa de tudo isto? Langlois encolheu os ombros.

 

 Volto à minha primeira teoria. Uma história que data da guerra fria. Um ajuste de contas. Ou um caso de espionagem científica. Acredito cada vez mais nisso à medida que estudava o laboratório nuclear, onde...

 

 O Tokamak?

 

 Sim. Segundo compreendi, a fusão nuclear ainda não é uma tecnologia afinada, mas já promete muito. É uma técnica que representa, inclusivamente, o futuro da energia nuclear.

 

 Porquê?

 

 Porque as centrais actuais consomem urânio e porque se trata de um material limitado no nosso planeta. Em contrapartida, a fusão controlada consome produtos vindos da... água do mar. Por outras palavras, dispõe-se de um combustível ilimitado.

 

 E então?

 

 Então, estamos a falar de apostas enormes, de interesses mundiais. Em meu entender, neste caso, tudo gira em torno dos segredos do Tokamak. Van Kaen trabalhou lá. Thomas deve ter passado por lá, é quase certo, quando viajava pela Mongólia. E acabo de saber que o chefe do TK 17, Eugen Talikh, também se asilou no Ocidente, em 1978. Instalou-se em França, com a bênção de Thomas!

 

 Isso está a tornar-se um bocado complicado para mim.

 

 É complicado para toda a gente. Mas de uma coisa tenho a certeza: eles andam todos por aqui.

 

 Eles, quem?

 

 Os antigos membros da unidade nuclear. Em França ou na Europa. Lancei uma investigação sobre Eugen Talikh. Trabalhou nos primeiros centros de fusão controlada que se construíram em França, nos anos oitenta. Está hoje aposentado. Convém desencantá-lo o mais depressa possível. Caso contrário, não ficarei admirado se descobrirem o seu cadáver algures, com o coração em fanicos.

 

 Mas... porque assassinam estes homens? E da maneira que o fazem?

 

 Ignoro completamente. Só uma coisa é segura: o passado está a vir à tona. Um passado que provoca não só homicídios, mas obriga os antigos cientistas a regressar.

 

 Diane manifestou surpresa. Langlois agitou uma nova folha fotocopiada.

 

 Encontrámos estas notas em casa de Thomas: horários de voos com destino a Moscovo e à República Popular da Mongólia. Ele também se aprestava a partir para a RPM. Como van Kaen.

 

 Diane sentia redobrar os efeitos dos analgésicos. Voltando às suas inquietudes, interrogou:

 

 E o meu filho adoptivo? O que tem ele a ver com tudo isto?

 

 Mais uma vez, não faço a mínima ideia. Averiguei, um pouco ao acaso, as actividades da fundação graças à qual adoptou Lucien...

 

 Diane sobressaltou-se:

 

 O que concluiu?

 

Nada. Têm a transparência dos cristais. Na minha opinião, foi tudo organizado sem eles saberem. Julgo que se deixou simplesmente a criança nas proximidades do estabelecimento a fim de ser recolhida ali.

 

Langlois virou de repente à esquerda e enveredou por uma via rápida. Meteu outra velocidade e entrou, a fundo, num largo túnel apetrechado de fileiras suspensas de hélices. Diane já não tinha a certeza das suas hipóteses. Talvez estivessem todas erradas. Talvez este caso não se relacionasse em nada com os pretensos poderes de Lucien, mas convergisse antes para as pesquisas nucleares. No entanto, Langlois acrescentou, como se quisesse reatar com a pista da parapsicologia:

 

 Há um último facto, acerca de Philippe Thomas, que me preocupa... Parece que o intelectual era dotado de poderes psíquicos.

 

 Diane susteve a respiração.

 

 Em que sentido?

 

 Segundo vários testemunhos, ele era capaz de deslocar objectos à distância, de torcer o metal. Coisas à maneira de Uri Geller. Os especialistas chamam a isto a psicocinese. Estou em crer que Thomas era sobretudo um gajo hábil, uma espécie de manipulador, e...

 

 Espere. Quer dizer que ele podia influenciar a matéria pelo pensamento?

 

 O chui deitou uma mirada divertida a Diane.

 

 Pensava que esta ideia a faria rir. Na qualidade de cientista, você...

 

 Responda à minha pergunta: ele podia influenciar a matéria?

 

 É o que diz aqui na papelada, sim. Teriam sido ensaiadas várias experiências segundo um protocolo muito rigoroso com objectos sob pírex selado, por exemplo, e...

 

 Diane disfarçou o alvoroço. Este momento marcava uma viragem decisiva nas suas próprias investigações: ou recusava a vertente paranormal do caso e abandonava a investigação, ou então mergulhava naquela realidade obscura e dava um passo de gigante.

 

 Com efeito, se admitisse o poder de Philippe Thomas, o último mistério do acidente tinha finalmente explicação. Graças ao poder do seu espírito, o homem do capote pudera abrir, à distância, o fecho do cinto de segurança de Lucien.

 

Um fecho de metal.

 

 Diane sentia-se aterrada. Não podia acreditar em tal prodígio, e, ao mesmo tempo, admitir que esta realidade conferia uma nova coerência aos acontecimentos. Assim, como não supor que um homem capaz de semelhante milagre estava, em compensação, convicto dos poderes da criança Vigia? Como não supor, de novo, que o móbil da tentativa de assassinato se achava ligado a uma eventual faculdade psíquica de Lucien?

 

 Diane, não me ouve?

 

 Ela emergiu das suas reflexões:

 

 Ouço, sim.

 

 Os chuis de Saint-Germain identificaram os três homens que se mataram uns aos outros no museu.

 

 -Já?

 

 Conheciam-nos. No final do mês de Agosto, Thomas mandou vir da Federação Russa três antigos militares de elite spetsnaz reconvertidos para tarefas de vigilância. Oficialmente, contratou-os para reforçar a segurança da sua fundação durante a exposição de Mondrian. Todavia, de acordo com averiguações efectuadas, estes tipos já trabalharam para diferentes mafias russas. A história não diz como Thomas os arranjou, mas, em meu entender, ele mantivera ligações a Moscovo.

 

 Diane tornou a ver a violência da última noite: as botas ferradas a encarniçar-se contra o seu rosto, as silhuetas a estertorar sob as suas balas. Como pudera ela sobreviver a tudo isto? Langlois prosseguia:

 

 É evidente que Thomas os escolheu, antes de mais, para organizar o ”do périphérique. Mas também julgo que ele temia algo. Ou alguém. Como o assassino que conseguiu infiltrar-se no museu ontem à tarde...

 

 Voltou-se para ela e frisou bem a continuação da frase:

 

 O ”assassino, Diane. O que eliminou Rolf van kaen. A partir daqui, os acontecimentos da noite passada são fáceis de reconstituir: ao entardecer, os três russos descobriram o corpo e colocaram-no na casa de banho. Em seguida discutiram, decerto por questões de dinheiro: deviam sentir-se tentados a levar um ou dois quadros com eles. Nisto, você chega e ainda deita mais lenha na fogueira. Eles matam-se então com as suas próprias armas. Foi isto que contou aos chuis, não foi?

 

 Sem tirar nem pôr.

 

 Acho que bate mais ou menos certo.

 

 Porque diz ”mais ou menos”?

 

 Falta reconstituir a cena, verificar as posições dos corpos, a trajectória das balas. Desejo-lhe que tudo coincida.

 

 A voz de Langlois estava carregada de incredulidade, mas Diane fingiu não se aperceber. Os seus pensamentos iam-se tornando cada vez mais confusos. Nestas águas turvas sobrenadava uma nova recordação: o cadáver de Philippe Thomas, róseo e abjecto, amarfanhado de finas peles mortas. Ela perguntou:

 

 O que sabe da doença de Thomas? Langlois espantou-se:

 

 Viu o corpo?

 

 Diane metera o pé na argola. Era demasiado tarde para recuar.

 

 Depois da carnificina, sim, disse ela. Entrei no apartamento e...

 

 E regressou em seguida ao museu?

 

 Sim.

 

 Declarou isso aos chuis de Saint-Germain?

 

 Não.

 

 Anda a brincar com o fogo, Diane. É absurdo.

 

 Thomas tinha uma doença, não é verdade? O tenente suspirou:

 

 Chama-se uma eritrodermia descamativa. Um género de eczema muito intenso, que provoca autênticas peladas. Se bem entendi, Thomas mudava regularmente de pele.

 

 Diane cogitou de repente que talvez o homem vestisse o capote a fim de proteger o corpo em plena muda. Mas os seus pensamentos desvaneciam-se. Sentia-se vencida pelo sono. Percebeu que estavam a chegar à Porte Maillot. A circulação ia-se tornando muito mais densa e Langlois, sem hesitar, aplicou um farol giratório magnético no tejadilho do carro. Subiu assim a avenue de la Grande-Armée, com as sirenes a uivar. Ela aninhou-se no fundo do assento e abandonou-se ao seu próprio torpor.

 

 Quando acordou, o carro atravessava a place du Panthéon. Sem saber porquê, agradava-lhe a ideia de ter dormido enquanto o polícia sulcava a capital a toda a velocidade. Patrick Langlois parou à entrada da rue Valette e tirou um jornal dobrado da algibeira do seu casaco.

 

 O mais bonito ficou para o fim, Diane: o Le Monde de ontem à tarde.

 

 Ela viu logo o artigo que ele lhe mostrava, na página da direita. O vespertino relatava em pormenor o homicídio de Rolf van Kaen, na noite de terça-feira, 5 de Outubro. O jornalista evocava igualmente a cura milagrosa de Lucien e o acidente de Diane Thiberge, enteada de Charles Helikian, ”importante personalidade do mundo dos negócios e da política. Langlois comentou:

 

 O seu padrasto está furioso. Até telefonou ao Prefeito. Diane ergueu o olhar.

 

 Donde provém a fuga?

 

 Não faço ideia. Talvez do hospital. Ou então dos nossos serviços. Francamente: estou-me nas tintas. Nem sei mesmo se isto não irá ajudar-nos. Pelo menos, há-de suscitar reacções.

 

 Langlois arrumou a documentação. Diane reparou que ele também possuía um estojo de cabedal, contendo uns Stabilo e lápis de cor. Numa voz sumida, perguntou:

 

 Não é lá muito dado à tecnologia, pois não? O polícia levantou uma sobrancelha.

 

 Está enganada. Simplesmente, para cada técnica, o seu domínio. Nos meus inquéritos, prefiro os antigos métodos. Papel, caneta, Stabilo. Guardo o computador para o resto.

 

 O resto?

 

 A vida quotidiana, os lazeres, os sentimentos.

 

 Os sentimentos?

 

No dia em que tiver alguma confidência para lhe fazer, Diane, enviá-la-ei por e-mail.

 

Ela saiu do carro. Patrick Langlois imitou-a. Lá no alto, a imensa cúpula do Panteão assemelhava-se a uma concha monstruosa. O polícia abeirou-se.

 

 Diane, se eu lhe disser: Heckler & Koch, MP 5, isto lembra-lhe alguma coisa?

 

 Não.

 

 E Clock 17, calibre 45?

 

 São armas, não são?

 

 Aquelas com que os russos se mataram uns aos outros, sim. Lá na selva, durante as suas viagens de estudo, nunca utilizou armas automáticas?

 

 Estudo as feras. Não faço tiro ao alvo.

 

 Sob a franja argêntea, o rosto iluminou-se num sorriso.

 

  1. Perfeito. Queria ter a certeza.

 

 Certeza de quê?

 

 De que nada tem a ver com aquele massacre. Vá dormir. Telefono-lhe logo à noite.

 

 O primeiro pormenor em que ela reparou ao entrar no seu apartamento, foi a luz vermelha do atendedor que ainda piscava no quarto. Não sabia bem se queria escutá-lo. Da última vez que tomara conhecimento das mensagens, desencadeara-se uma reacção em cadeia que a propulsara até à fundação Bruner e à violência subsequente. Atravessou a sala, chegou ao quarto, depois sentou-se na cama, exactamente como na véspera, observando o sinal luminoso que pulsava como um coração. Já ouvia, mentalmente, as mensagens da mãe, tão breves como disparos. Ou as chamadas dos seus confrades cientistas, alertados casualmente pelo artigo do Le Monde. Esta última ideia veio recordar-lhe que não punha os pés no serviço desde... é verdade, desde há quanto tempo?

 

 O telefone tocou. Diane deu um salto sobre a colcha. Sem reflectir, levantou o auscultador.

 

Miss. Thiberge? ouviu do outro lado do fio. Era uma voz desconhecida.

 

 Quem fala?

 

Chamo-me Irene Pandove. Telefono-lhe a propósito do artigo publicado ontem à tarde no Le Monde, sobre a morte de M. Rolf van Kaen.

 

 Co... como obteve o meu número?

 

Vem na lista.

 

 Diane pensou, bastante nesciamente: ”Está bem, venho na lista.”A mulher acrescentou, num tom grave e calmo:

 

 Não se acautela o suficiente, e faz muito mal. Um formigueiro arrepiou-lhe a nuca.

 

 O que deseja? perguntou cheia de hostilidade.

 

 Gostava de a ver. Possuo informações que podem interessar-lhe.

 

 Conhecia Rolf van Kaen?

 

 Só indirectamente. Mas não é dele que pretendo falar-lhe.

 

 Diane manteve o silêncio. Pensou: ”Talvez seja uma tarada, que quer dar-me cabo dos nervos. Ou apenas extorquir-me dinheiro”. Interrogou:

 

 Então de quem é?

 

 Quero falar-lhe do rapazinho que adoptei, há cinco semanas.

 

 O frio entranhou-se-lhe na pele. Sentiu que as suas veias eram nervuras atulhadas de seiva gelada.

 

 Onde... onde o adoptou?

 

 No Vietname. No orfanato Huai.

 

 Através da Associação Boria-Mundi?

 

 Não. Pupilos do Mundo. Mas isto não é o mais importante.

 

 O que é então?

 

 Irene Pandove ignorou a pergunta e continuou no mesmo tom plácido:

 

 É melhor vir cá. Não posso deslocar-me. O meu filho não tem passado bem nos últimos dias.

 

 Nas artérias de Diane, a seiva desceu ao zero absoluto.

 

 Que tem ele? Sofreu um acidente? inquiriu.

 

 É febre. Torrentes de febre.

 

 Lembrou-se de Lucien. Dos picos de temperatura que tinham sobrevindo, de Daguerre que lhe garantia que o fenómeno não apresentava qualquer gravidade. Acudiu-lhe de súbito o pressentimento que a acometera duas noites antes, quando adormecia: alguém, algures, devia partilhar do seu pesadelo... Irene Pandove prosseguiu:

 

 Venha visitar-me. O mais cedo possível.

 

 Onde está? Qual é a morada?

 

 A mulher habitava a uns mil quilómetros de Paris, na região de Nice, em Daluis. Diane tomou nota da morada e das indicações dela. Já começava a reflectir. Primeiro voo da manhã. Carro de aluguer. Nenhum problema. Assegurou:

 

 Estarei aí amanhã, a meio do dia.

 

 Espero por si.

 

 A voz transbordava de uma doçura inquietante. De repente, Diane teve uma iluminação e perguntou:

 

 Que nome deu ao seu menino?

 

 A doçura, o sorriso, mais do que nunca presentes:

 

 Se me faz essa pergunta, é porque não compreendeu o que está a acontecer.

 

 Diane murmurou por entre os lábios, como quem sopra uma vela, renunciando a toda a esperança:

 

 Lucien...

 

 Diane aterrou em Nice às oito horas e trinta. Meia hora mais tarde, rodava em direcção ao interior sem sequer ter avistado o Mediterrâneo. Ao longo da Nacional 202, fileiras de casas, de centros comerciais, de sítios industriais sucediam-se ao sabor dos valezinhos e dos outeiros. Nas cercanias de Saint-Martin-du-Var, a paisagem modificou-se, as construções espaçaram-se, o verde-escuro e a penedia ganharam terreno, até que por fim irromperam as montanhas.

 

 Navegou então numa pura paisagem de altitude: pinheiros cerrados contra vertentes abruptas, cúpulas negras unidas ao céu, trilhos sombrios e profundos dos rios escorridos... O firmamento estava coberto. Já não reinavam a amenidade, o ar marinho, nem sequer a vegetação provençal. Eram a pedra e o frio que dominavam agora os lugares. Diane continuava a rodar pela nacional, acima do leito enxuto do Var.

 

 Ao cabo de uma hora de caminho, depois de ter andado por intermináveis estradas em ziguezague, descobriu finalmente a paisagem que aguardava: um lago no sopé de um vale, que se assemelhava a um espelho reflectindo a luz da trovoada. A superfície oscilava entre o cinzento e o azul. Eriçavam-se aí pequenas ondas parecidas com lâminas de aço. Ao redor espraiava-se um rendilhado de esmeralda. As coníferas, ergui”das como facas, davam a impressão de ferir as nuvens. Diane estremeceu. Podia sentir a crueldade de cada cume, de cada reflexo, de cada pormenor, aguçado pelo sol febril que rasgava o negrume do céu.

 

 Depois de uma curva, avistou uma clareira. Casas em toros de madeira formavam uma aldeola a poucos metros da margem. Irene Pandove dissera: ”Um rancho em forma de U, à beira do lago.”Diane meteu pela estrada que serpeava até ao vale.

 

 Apareceu uma tabuleta com o nome de ”Centro de Arejamento do Ceklo”, a assinalar uma vereda de saibro mais abaixo. A cada curva, Diane via precisarem-se as casas de madeira. Era um vasto conjunto de construções de cor acastanhada, rodeadas por uma cerca. À esquerda, estendiam-se pastagens que acolhiam certamente cavalos durante o Verão. À direita, pórticos coloridos marcavam as áreas de jogos.

 

 Estacionou o carro sob os abetos. Inalou a frescura do ar a plenos pulmões, os perfumes de resina, os eflúvios de erva cortada. O silêncio imperava como senhor absoluto. Nem o mais leve pio de ave, nem um zumbido de insecto. Seria a trovoada? Diane avançou para o edifício principal, esforçando-se por esconjurar as suas apreensões.

 

 Transpôs a porta de toros e atravessou um alpendre revestido de madeira, munido à direita de uma fiada de pequenos cabides. Através dos vãos envidraçados, à esquerda, ela enxergava um pátio grande, enquadrado pelas duas áleas do rancho, que se prolongava até a um morro fechado por um troço de floresta. Mais além, adivinhavam-se as águas lisas do lago. O silêncio e o vazio pareciam aqui mais graves, mais pesados, nestes espaços concebidos para a barafunda infantil.

 

 Diane descobriu um corredor que abria para vários compartimentos. Introduziu-se por aí em passos prudentes. Nas Paredes de madeira estavam penduradas, em jeito de quadros, umas mantas tecidas com desenhos ingénuos. Ela também entrevia, pelas portas abertas, uns tamboretes redondos, papéis pintados todos cor-de-rosa ou violeta, lustres em papel de arroz. O conjunto lembrava os ambientes dos anos setenta. O local agradaria à sua mãe.

 

Avançou mais. Surgiram-lhe salas de jogos, ocupadas pOr mesas de pingue-pongue, matraquilhos. Uma outra divisão onde pontificava uma televisão, com o chão coberto de coxins. Ao fundo do corredor, tropeçou numa pequena gaiola, cujos grãos e serradura se espalhavam pelo solo. Diane parou uns instantes junto ao objecto; o seu ocupante porquinho-da-índia ou hamster também já desandara dali.

 

 Chegou finalmente a um gabinete amplo; o coração administrativo do rancho. O seu receio transmudou-se então em certeza. Uma vez mais, vinha demasiado tarde. O compartimento fora revolvido de alto a baixo. Uma mesa de carvalho havia sido derrubada, as cadeiras estavam espalhadas, os armários esventrados, os arquivos arrancados, os ficheiros caídos por terra.

 

 Diane pensou em Irene Pandove e não ousou ir mais longe nos seus pensamentos. Nesse momento, reparou numas molduras fixadas na parede que tinham escapado à tormenta. Os retratos representavam sempre as duas mesmas personagens: uma mulher loura, com uns cinquenta anos, e um homem de tipo asiático, muito pequeno, de cara enrugada e sorriso malicioso. Nalgumas fotografias, o homem e a mulher estavam abraçados. Noutras, davam as mãos. Estas imagens irradiavam uma estranha alegria de viver. E uma ligeira impressão cómica a mulher excedia em quinze centímetros o homem que vestia, em todas as imagens, uma parca de astracã com as duas abas erguidas. Sem poder explicar o seu gesto, Diane apoderou-se de uma moldura, quebrou o vidro num canto da mesa e meteu uma das fotografias no bolso.

 

 Ao levantar os olhos, atentou num artigo encaixilhado sob vidro. O texto, publicado na revista Science, grande referência em matéria de publicações científicas, era assinado pelo Dr. Eugen Talikh. Diane arrepiou-se: era o nome pronunciado por Langlois. O nome do chefe do TK 17 que se passara para o Ocidente em 1978. Desprendeu o caixilho e percorreu em diagonal os parágrafos redigidos em inglês. Não percebia nada falava-se de física nuclear e de isótopos de hidrogénio, mas não ficou surpreendida quando olhou para o retrato do autor: era o baixote de olhos em bico das fotografias. Encontrava-se em casa do físico trânsfuga.

 

Esta descoberta abriu outras pistas no seu espírito. Primeiro, compreendeu que Eugen Talikh não era um russo caucasiano, como se poderia supor, mas um asiático, por certo de origem siberiana. Também depreendeu, sem deduzir todas as implicações, que este homem acabava de adoptar, juntamente com a mulher, um rapazínho vindo das terras do Tokamak. Porquê? o que esperava da criança? Diane voltou a partir o caixilho de vidro e guardou o artigo no bolso.

 

Continuando a vasculhar, achou fotocópias de horários de voos para Ulan Bator, com escala em Moscovo, mas nenhum vestígio de reserva de lugares bem definida. Tal como Rolf van Kaen ou Philippe Thomas, Eugen Talikh aprestava-se a regressar à República Popular da Mongólia, mas parecia indeciso sobre a data de partida.

 

Nesse instante, ouviu um gemido.

 

Diane rodopiou. Alguém se mexia atrás da secretária derrubada. Aproximou-se do tampo de madeira, depois, devagarinho, arriscou um olhar. Uma mulher, estendida no chão, repousava numa imensa poça negra, sob um dilúvio de papelada. Diane não se recordava de alguma vez ter visto tanto sangue

- mesmo na Fundação Bruner. o corpo estava perfeitamente imóvel, voltado para o tabique. Diane lembrou-se de um antigo costume judaico, que consistia em orientar o rosto do moribundo para a parede, a fim de não poder ver os traços da Morte.

 

Contornou a mesa e amparou suavemente o ombro da vítima a fim de a virar para si. Reconheceu-a acto contínuo: era a mulher dos retratos. o seu abdómen abria-se em dois beiços de carne. A ferida começava no umbigo e subia até aos seios. As roupas e as carnes amalgamavam-se numa salgalhada imunda. Diane chamou a compaixão com todas as forças, mas nenhum sentimento conseguia superar o seu próprio medo. Pensou no assassino de van Kaen e de Thomas. Aquela ferida não correspondia ao estilo dele. Teria falhado o golpe? Ou fora Irène que se debatera?

 

Aquilo que se lhe deparou fê-la submergir-se num terror ainda mais profundo.

 

 Irene Pandove empunhava uma faca com lâmina dentada enegrecida de sangue, na sua mão direita.

 

 De repente, soergueu-se sobre um cotovelo e sussurrou:

 

 Ele veio... Eu não podia... Não podia contar-lhe. Completamente aturdida, Diane compreendeu que Irene

 

 golpeara o seu ventre sob o olhar do agressor. Matara-se para não falar, para não revelar as informações que o intruso lhe arrancaria sem sombra de dúvida. Apesar da desordem dos seus pensamentos, Diane reparou na beleza do rosto, sob o carrapito em desalinho e as madeixas ensopadas em sangue. Irene repetiu:

 

 Não podia falar-lhe.

 

 A quem? Quem é que veio aqui?

 

 Os olhos... Eu não conseguiria resistir-lhes... Não podia dizer-lhe... onde está Eugen...

 

 ”Os olhos”: quem seria assim designado? O violador de entranhas? Outros homens de mão, enviados por Thomas? Ou ainda mais alguém? Havia, porém, outra urgência. Diane debruçou-se e perguntou a Irene:

 

 Lucien... Onde está Lucien?

 

 A moribunda fez um sorriso que mais parecia uma careta. Apesar de tudo, dir-se-ia feliz por ver Diane, por ouvi-la pronunciar este nome inocente. Moveu os lábios. A boca encheu-se de sangue. Diane limpou-o com a manga. O gorgolejo formou-se numa única palavra:

 

 A península.

 

 O quê?

 

 Filamentos negros voltaram a correr. Os lábios ciciaram:

 

 No lago. A península. É para ali que vai sempre... Reprimindo os soluços, Diane tentou sossegá-la:

 

 Vou telefonar para o hospital. Há-de salvar-se.

 

 Irene agarrou o pulso de Diane. Esta sentiu o sangue esguichar entre os seus dedos estreitados. Fechou as pálpebrasQuando as reabriu, já tudo acabara: as íris de Irene tinham-se fixado num pasmo eterno.

 

 Diane contornou a álea direita do rancho, transpôs a cerca e subiu a vereda que serpenteava até ao outeiro de abetos. A chuvada rebentara. Diane avistava a intervalos a superfície brilhante da água sob os relâmpagos. Desceu depressa a encosta da colina e depois alcançou a margem. Uma comprida sebe de árvores e de canas interpunha-se entre o carreiro e o lago. Impossível passar. Instintivamente, Diane seguiu pela direita e pôs-se a correr.

 

 Não tardou que a terra perdesse em firmeza. Os odores dos vegetais tornaram-se mais pesados e, simultaneamente, mais intensos, mais agudos. As águas do lago pareciam ter-se insinuado entre as ervas para transformar a margem num longo pântano. Ao correr, Diane ia-se impregnando desta metamorfose. A claridade verdejante do matagal, a indolência da flora, lasciva, solta, que emitia cada vez mais amiúde, entre duas pregas de ervas ou de folhas, uns resplendores de transparência. Ela disse consigo que a água era aqui o perfume da terra. Um dedo sobre uma nuca de húmus, enfiado por baixo de uma cabeleira de ervas daninhas... E agradeceu mentalmente à paisagem a sua força, a sua omnipresença: impedia-a de pensar em qualquer outra coisa.

 

 À esquerda, rasgou-se uma fenda entre as moitas: uma vereda. Diane meteu por aí, internou-se sob a abóbada vegetal.

 

Já não sentia a chuva, antes captava as milhentas carícias dos juncos, dos caniços, dos raminhos. Só então atingiu o areal e descobriu a superfície do lago. Do seu ponto de observação era mais um mar. Uma imensidade cinzenta e furta-cores, que crepitava sob a chuva, sem riba nem orla.

 

 Divisou então a península.

 

 À direita, a uma centena de metros, uma língua de terra arenosa destacava-se da margem, prolongando-se em seguida à superfície da água até uma pequena floresta rumorejante. Uma península de água doce, nem sequer assente em sal, tão-somente sobre transparência. Seria possível que o menino estivesse escondido sob aquelas árvores?

 

 Diane guardou os óculos e descalçou os sapatos. Atou os atacadores um ao outro e pendurou-os ao pescoço. Retomou o caminho. À sua frente, tudo era fluido, verdejante, fantasmal. Ela chafurdava agora nas ondas do lago, misturadas com as ervas e a terra. Enterrava os joelhos na mordedura fria das profundezas, contrastando com a tepidez da chuvada. Impregnava-se, escorria, gotejava. Sentia-se ao mesmo tempo aspirada pelo lago e esmagada pela chuva. Era, literalmente, a mulher entre duas águas.

 

 Finalmente, alcançou as moitas da península. Embrenhou-se sob os salgueiros, fendeu as ervas, curvada, esbaforida, solidária com cada interstício, cúmplice de cada folha. Onde estava Lucien? Avançou mais. Bocas de água, com os seus lábios sôfregos e verdes, abriam-se e retinham-na. Ela imergia-se até às ancas, balouçando os braços de trás para diante. Á sua volta, já avistava as escamas furtivas de peixes transviados no meio destes labirintos ervosos. De repente, sentiu a terra consolidar-se sob os seus pés. Chegara ao extremo da península sem nada ter visto nem... Estacou de chofre.

 

 O menino estava ali.

 

 Viu-o sentado, de costas, a vinte metros dela, no limite da terra, face ao céu.

 

 Mal o distinguia, mas a sua primeira sensação foi de alívio. A silhueta dele não se assemelhava à de Lucien o seu. Sem o confessar a si mesma, imaginara obscuras possibilidades de gemeidade, de clonagem, de um produto monstruoso dos trabalhos secretos soviéticos que tivessem decorrido no Tokamak.

 

 Ora as duas crianças eram completamente diferentes. Esta devia ter, pelo menos, mais dois anos de idade. Diane recobrou o fôlego e esboçou um novo passo. Ele continuava imóvel, sentado com as pernas cruzadas. Diane contornou-o e discerniu os seus olhos congestionados, o seu rosto escarlate: estava em transe. Os seus membros pareciam mais rígidos que barras de metal. Tremia, mas era uma fremência imperceptível, eléctrica. Como uma onda prisioneira do seu corpo.

 

 Diane estendeu a mão para a testa dele e sentiu um calor de forno. Nunca supusera que um ser humano pudesse atingir uma tal temperatura.

 

 Aproximou-se ainda mais, depois parou. Diante da criança dispunha-se um santuário: um círculo de pedras brancas em cujo centro se erguia uma urdidura de galhos em pirâmide, sobre os quais estavam atadas fitas minúsculas. No topo dos ramos equilibrava-se um pequeno crânio. O crânio de um hamster ou de um porquinho-da-índia, recentemente esfolado. Diane lembrou-se da gaiola vazia no rancho e compreendeu: o menino sacrificara o animal no decurso de um rito xamânico.

 

 Verificámos uma excitabilidade neuromuscular muito elevada, traduzida em acessos de contracturas e espasmos musculares... De novo, o hospital. De novo, o discurso de um médico.

 

 Em poucos minutos, Diane regressara a casa de Irene Pandove, envolvera o menino numa das mantas murais e, em seguida, agasalhara-se num velho impermeável. Dirigira-se depois a toda a pressa para Nice e procurara o serviço de urgência do hospital Saint-Roch. Eram apenas catorze horas, mas tinha a impressão de ter envelhecido vários anos. O clínico continuava:

 

 Há também a febre excepcional. A criança atingiu quase os quarenta e um graus. Por enquanto, não identificámos as causas patogénicas destes fenómenos. O exame externo não acusou nada. A colheita de sangue não revela qualquer vestígio de infecção. Convém aguardar os resultados das outras análises. Também podemos considerar a via crónica. Mas os sintomas não são os da epilepsia e...

 

 Está em perigo?

 

 De pé junto à sua secretária, o homem parecia ter dormido com a bata, de tão amarrotada que esta se apresentava. Ele adoptou uma expressão de dúvida:

 

 Em princípio, não. Tem uma idade em que não são de tomar em conta os riscos de convulsões. E a febre já está a descer. Quanto ao estado cataléptico, parece recuar igualmente.