Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O FEITIÇO AZUL / Richelle Mead
O FEITIÇO AZUL / Richelle Mead

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT 

 

 

Series & Trilogias Literarias

 

 

 

 

 

 

Não era a primeira vez que me arrancavam da cama para uma missão importantíssima. Mas era a primeira que me faziam uma pergunta tão pessoal.
- Você é virgem?
- Hein? - Esfreguei os olhos sonolentos para me certificar de que não era um sonho bizarro. Um telefonema urgente havia me tirado da cama cinco minutos antes e estava difícil permanecer acordada.
Minha professora de história, a sra. Terwilliger, se aproximou e repetiu num sussurro dramático:
- Perguntei se você é virgem.
- Hum, sim...
Agora eu já estava completamente desperta e olhava de um lado para o outro no saguão do alojamento, para garantir que ninguém estava perto o bastante para presenciar aquela conversa maluca. Não tinha por que me preocupar. Tirando a recepcionista com ar entediado do outro lado do saguão, não havia mais ninguém, provavelmente porque nenhuma pessoa em sã consciência estaria acordada àquela hora da madrugada. Quando a sra. Terwilliger me acordou, tinha exigido que eu a encontrasse ali, pois era
um assunto “de vida ou morte”. Ser interrogada sobre minha vida pessoal não era exatamente o que eu estava esperando.
Ela deu um passo para trás e suspirou, aliviada.
- Sim, claro. Claro que você é virgem.
Estreitei os olhos, sem saber se devia me sentir ofendida ou não.
- Claro? O que a senhora quer dizer com isso? O que está acontecendo?
Ela imediatamente voltou a ficar atenta e arrumou os óculos, que viviam deslizando pelo nariz.
- Não temos tempo para explicações. Precisamos ir. - Ela segurou meu braço, mas resisti e continuei onde estava.
- São três da manhã! - E então, para que ela entendesse a gravidade da situação: - No meio da semana!
- Não importa. - Ela se voltou para a recepcionista, do outro lado da sala. - Estou levando Sydney Melrose. A sra. Weathers pode brigar comigo sobre o toque de recolher amanhã.

 


 


A recepcionista pareceu assustada, mas não passava de uma estudante universitária contratada para ficar ali sentada durante a noite. Ela não era nada perto da formidável
sra. Terwilliger, com seu porte alto e desengonçado e sua cara de passarinho. Quem realmente tinha autoridade para manter as garotas no alojamento era o segurança
que ficava do lado de fora. Ele, porém, deu apenas um aceno simpático quando a sra. Terwilliger passou me arrastando. Isso me fez considerar quantas garotas ela
já havia raptado no meio da noite.
- Estou de pijama - falei para ela. Foi a última queixa que consegui apresentar enquanto nos aproximávamos do carro dela, estacionado em local proibido. Ela dirigia
um Beetle vermelho, com flores pintadas nos lados. Não sei por que isso não me surpreendeu.
- Não tem importância - ela disse, tirando as chaves de sua enorme bolsa de veludo.
Ao nosso redor, a noite desértica estava fria e silenciosa. Palmeiras altas pareciam enormes aranhas escuras contra o céu ao fundo. Acima das palmeiras, a lua cheia
e um punhado de estrelas brilhavam. Cruzei os braços para me aquecer, tocando o tecido macio do meu roupão de microfibra. Debaixo dele, eu usava um pijama listrado
de manga comprida e pantufas felpudas bege. O conjunto funcionava bem no aconchego do meu quarto, mas não era exatamente prático para uma noite em Palm Springs.
Na verdade, sair de pijama não era exatamente prático em lugar nenhum.
Ela destravou o carro e entrei com cautela, desviando de copos de café usados e revistas antigas. Meu senso de organização se contorcia diante de uma bagunça daquelas,
mas àquela altura esse era o menor dos meus problemas.
- Sra. Terwilliger - eu disse quando começamos a rodar pelas ruas. - O que está acontecendo? - Agora que tínhamos saído do alojamento, eu tinha esperança de que
ela começasse a falar coisa com coisa. Eu não tinha me esquecido do comentário de que era uma questão “de vida ou morte” e estava começando a ficar nervosa.
Seus olhos estavam concentrados na estrada à frente e rugas de preocupação marcavam seu rosto magro.
- Preciso que você lance um feitiço.
Congelei enquanto tentava processar essas palavras. Não muito tempo antes, essa frase teria me causado repulsa e me feito protestar. Não que eu me sentisse à vontade
agora. Magia ainda me dava arrepios. De dia, a sra. Terwilliger dava aulas no colégio particular onde eu estudava - a Escola Preparatória Amberwood -, e de noite,
era uma bruxa. Ela dizia que eu também tinha uma afinidade natural para a magia e dera um jeito de me ensinar alguns feitiços, apesar dos meus esforços para resistir.
Na verdade, eu tinha uma série de motivos para querer evitar tudo o que fosse mágico. Além de crenças enraizadas de que usar magia era errado, simplesmente não queria
me envolver com outras questões sobrenaturais. Já passava meus dias trabalhando para uma sociedade secreta que mantinha os vampiros escondidos do mundo humano. Somado
às tarefas da escola, era mais do que o suficiente para me manter ocupada.
No entanto, o treinamento mágico que recebi da sra. Terwilliger havia me tirado de algumas enrascadas um tempo antes, então eu já não o descartava tão rápido. Então
a sugestão dela de que eu usasse magia não era a coisa mais estranha que estava acontecendo ali.
- Por que a senhora precisa que eu lance o feitiço? - perguntei. Havia pouco movimento na rua, mas de vez em quando faróis de carros lançavam uma luz fantasmagórica
sobre nós. - A senhora é mil vezes mais poderosa do que eu. Não consigo fazer um décimo do que a senhora consegue.
- Poder é importante - ela admitiu. - Mas desta vez existem outros fatores e limitações em jogo. Não posso lançar esse feitiço em particular.
Cruzei os braços e me recostei no assento. Se continuasse me concentrando nos aspectos práticos, poderia ignorar o medo que crescia cada vez mais.
- E não podia esperar até amanhã?
- Não - ela respondeu, séria. - Não podia.
Alguma coisa em seu tom de voz me deu arrepios, e fiquei em silêncio pelo resto do trajeto. Estávamos deixando a cidade e os subúrbios, entrando nas áreas mais remotas
do deserto. Quanto mais nos distanciávamos da civilização, mais escuro ficava. Depois que saímos da autoestrada, não havia postes ou casas à vista. Arbustos espinhosos
ao longo do caminho criavam formas escuras que lembravam animais peçonhentos prestes a dar o bote. Não tem ninguém aqui, pensei. E ninguém em Amberwood sabe que
estou aqui.
Fiquei apreensiva ao me lembrar da pergunta sobre minha virgindade. Será que eu seria sacrificada em algum ritual profano? Desejei que tivesse levado o celular.
Não que eu pudesse contar aos alquimistas, a organização da qual eu fazia parte, que estava passando tanto tempo com uma usuária de magia - a qual, ainda por cima,
estava me ensinando a usá-la também. Melhor correr o risco de ser sacrificada do que enfrentar a fúria dos alquimistas.
Vinte minutos depois, a sra. Terwilliger finalmente estacionou no acostamento de uma estradinha de mão única que parecia levar diretamente a lugar nenhum. Ela saiu
do carro e fez sinal para que eu fizesse o mesmo. Ali estava mais frio do que em Amberwood. Ao levantar os olhos para o céu, perdi o fôlego. Longe das luzes da cidade,
as estrelas estavam em pleno brilho. Dava para ver a Via Láctea e uma dezena de constelações normalmente invisíveis a olho nu.
- Depois você olha para as estrelas - ela disse, seca. - Precisamos ser rápidas, antes que a lua avance mais.
Um ritual sob o luar, num deserto estéril, com sacrifício de uma virgem... onde eu tinha me metido? A maneira como a sra. Terwilliger me impelia para a magia sempre
tinha me irritado, mas nunca pensei que ela representasse uma ameaça. Agora eu me repreendia por ter sido tão ingênua.
Ela colocou uma sacola de lona no ombro e seguiu para um trecho desolado de terra, pontilhado de rochas e vegetação irregular. Mesmo com aquele espetáculo celestial,
não havia muita luz ali; no entanto, ela caminhava resoluta, como se soubesse exatamente aonde estava indo. Resignada, fui atrás, estremecendo enquanto atravessava
o terreno rochoso. Minhas pantufas não tinham sido feitas para aquele tipo de solo.
- Aqui - ela disse quando chegamos a uma pequena clareira. Com cuidado, pôs a sacola no chão e se ajoelhou para remexer dentro. - Vai ter que servir.
O deserto, tão implacavelmente quente de dia, ficava frio à noite. Ainda assim, eu estava suando, mais por nervosismo do que pela temperatura ou pelo pijama quente.
Amarrei o roupão mais firme, fazendo um nó perfeito. Achava esse tipo de detalhe rotineiro reconfortante.
A sra. Terwilliger tirou da bolsa um grande espelho oval com uma moldura de prata ornamentada, colocou-o no meio da clareira, olhou para o céu e então mudou um pouco
a posição do objeto.
- Venha aqui, srta. Melbourne. - Ela apontou para um ponto à frente dela, do outro lado do espelho. - Sente-se e fique numa posição confortável.
Em Amberwood, eu era conhecida pelo nome de Sydney Melrose, em vez de Sydney Sage, meu nome verdadeiro. A sra. Terwilliger tinha entendido errado no primeiro dia
de aula e, infelizmente, o sobrenome pegou. Segui as instruções dela, por mais que não conseguisse ficar muito confortável ali. Estava quase certa de que tinha ouvido
algum animal grande se mexendo atrás dos arbustos e acrescentei coiotes à minha lista mental de perigos que estava enfrentando, logo abaixo de “uso de magia” e “falta
de café”.
- Bom, então vamos começar. - A sra. Terwilliger me examinou com olhos que pareciam sombrios e assustadores na noite deserta. - Você está usando alguma coisa de
metal? Precisa tirar.
- Não, eu... Ah. Espera.
Coloquei as mãos em torno do pescoço e desatei uma corrente de ouro delicada com uma pequena cruz. Fazia anos que eu tinha aquele colar, mas recentemente o havia
dado a outra pessoa, para reconfortá-lo. Ele me devolvera pouco tempo antes, por meio de nossa amiga em comum, Jill Mastrano Dragomir. Ainda conseguia me lembrar
do olhar furioso no rosto dela quando veio até mim na escola e enfiou a cruz na minha mão sem dizer uma palavra.
Fiquei olhando para a cruz, que brilhava sob o luar. Senti um frio na barriga ao pensar em Adrian, o garoto para quem eu havia entregado o colar. Acontecera antes
de ele declarar seu amor por mim, o que me pegara completamente desprevenida algumas semanas antes. Mas talvez eu não devesse ter ficado tão surpresa. Quanto mais
recordava o passado, coisa que fazia o tempo todo, mais começava a encontrar indícios que deveriam ter me alertado sobre os sentimentos dele. Eu simplesmente estivera
cega demais para perceber na época.
Claro, não teria importado mesmo que eu tivesse percebido. Adrian não servia nem um pouco para mim, e isso não tinha nada a ver com seus muitos vícios ou seu potencial
para a loucura. Ele era um vampiro. Tudo bem, era um Moroi - um dos vampiros vivos e benignos -, mas não fazia diferença. Humanos e vampiros não podiam ficar juntos.
Esse era um ponto em que os Moroi e os alquimistas concordavam plenamente. Eu ainda estava espantada por Adrian ter declarado aqueles sentimentos. Estava espantada
não só por ele ter aqueles sentimentos, mas também por ter reunido coragem para me beijar, por mais que o beijo tivesse me deixado tonta e sem fôlego.
Tive que rejeitar o Adrian, claro. Meu treinamento não me permitiria fazer outra coisa. Nossa situação em Palm Springs nos obrigava a conviver constantemente em
ocasiões sociais, o que estava sendo difícil desde a declaração. O problema, para mim, não era só o mal-estar que se estabelecera entre nós. Eu... Bem, eu sentia
falta dele. Antes daquele desastre, éramos amigos e passávamos muito tempo juntos. Tinha me acostumado com o sorriso sarcástico dele e com as piadas que sempre fazíamos
um com o outro. Antes de essas coisas desaparecerem, não tinha noção do quanto me importava com elas. Do quanto precisava delas. Eu me sentia vazia por dentro...
o que era ridículo, claro. Por que eu estava dando tanta importância para um vampiro?
Às vezes isso me deixava furiosa. Por que ele havia destruído uma coisa tão boa entre nós? Por que me fazia sentir tanta falta dele? E o que ele esperava que eu
fizesse? Ele devia saber que era impossível ficarmos juntos. Eu não podia sentir nada por ele. Não podia. Se vivêssemos entre os Conservadores - um grupo de vampiros,
humanos e dampiros incivilizados - talvez pudéssemos... não. Mesmo que eu sentisse alguma coisa por ele - e vivia repetindo a mim mesma que não sentia -, era errado
até que a gente cogitasse um relacionamento.
Agora Adrian falava comigo o mínimo possível. E sempre, sempre me observava com tormento em seus olhos verdes, o que me causava uma dor no coração e...
- Ah! O que é isso?
Tomei um susto quando a sra. Terwilliger despejou uma tigela cheia de folhas e flores secas na minha cabeça. Eu estava tão concentrada na cruz e nas lembranças que
fui pega de surpresa.
- Alecrim - ela respondeu prontamente. - Hissopo. Erva-doce. Não faça isso. - Eu tinha levantado a mão para tirar algumas folhas do cabelo. - Você vai precisar para
o feitiço.
- Certo - falei, voltando a me concentrar. Com cuidado, coloquei a cruz no chão, tentando tirar aqueles olhos muito verdes da cabeça. - O feitiço que só eu posso
fazer. Por que mesmo?
- Porque precisa ser feito por uma virgem - ela explicou. Tentei não fazer uma careta. As palavras da sra. Terwilliger implicavam que ela não era mais virgem e,
mesmo fazendo sentido para uma mulher de quarenta e poucos anos, não era uma ideia sobre a qual eu gostaria de pensar muito. - Além disso, a pessoa que estamos procurando
se protegeu contra mim. Mas por você ela não está esperando.
Olhei para o espelho reluzente e entendi.
- É um feitiço de clarividência. Por que não fazemos o que eu já fiz?
Não que eu estivesse morrendo de vontade de repetir aquele feitiço. Meu objetivo tinha sido encontrar uma pessoa, o que me obrigara a ficar horas olhando fixamente
para uma travessa com água. No entanto, agora que sabia como usá-lo, tinha certeza de que poderia fazer de novo. Além do mais, não gostava nem um pouco da ideia
de tentar um feitiço sobre o qual não sabia nada. Palavras e ervas eram uma coisa, mas o que mais ela poderia exigir de mim? Que eu vendesse minha alma? Desse meu
sangue?
- Aquele feitiço só funciona para encontrar alguém que você conhece - ela esclareceu. - Este permite encontrar alguém que você nunca viu na vida.
Franzi a testa. Por mais que não gostasse de magia, gostava muito de resolver problemas, e os desafios que a magia apresentava viviam me intrigando.
- Como vou saber por quem procurar, então?
A sra. Terwilliger me mostrou uma foto. Meus olhos já haviam se acostumado à escuridão, e observei o rosto de uma bela jovem. As semelhanças entre ela e minha professora
eram impressionantes, apesar de não ser tão óbvias inicialmente. Diferente do cabelo castanho e sem brilho da sra. Terwilliger, o daquela mulher era escuro, quase
preto. Ela também estava muito mais glamorosa, com um vestido de cetim preto completamente diferente das roupas hippies que a sra. Terwilliger costumava usar. Apesar
dessas diferenças, as duas tinham as maçãs do rosto altas e os mesmos olhos aquilinos.
Levantei os olhos.
- Ela é sua parente.
- Minha irmã mais velha - a sra. Terwilliger confirmou, com a voz surpreendentemente inexpressiva. Mais velha? Eu chutaria que aquela mulher era pelo menos uns dez
anos mais nova.
- Ela está desaparecida? - perguntei. Quando usei o feitiço de clarividência pela primeira vez, foi para encontrar uma amiga que havia sido sequestrada.
Os lábios da sra. Terwilliger se retorceram.
- Não do jeito que você está pensando. - De sua sacola de lona que parecia não ter fundo, ela tirou um pequeno livro de couro e o abriu em uma página marcada. Olhando
para onde ela apontou, consegui identificar palavras em latim escritas à mão que descreviam o espelho e a mistura de ervas que ela havia jogado em cima de mim. Na
sequência, estavam as instruções de como fazer o feitiço. Sem derramamento de sangue, felizmente.
- Parece simples demais - comentei, desconfiada. Eu tinha aprendido que feitiços com poucos passos e componentes normalmente exigiam muita energia mental. O outro
feitiço de clarividência tinha me feito desmaiar.
Ela assentiu, adivinhando meus pensamentos.
- Exige muita concentração, mais do que o último. Mas, apesar de você não querer ouvir isso, sua força cresceu tanto que imagino que vá achar este mais fácil do
que o outro.
Franzi a testa. Ela estava certa. Eu realmente não queria ouvir aquilo.
Ou queria?
Parte de mim sabia que eu deveria me recusar a participar daquela loucura. Outra parte estava com medo de que ela me abandonasse no deserto se eu não a ajudasse.
E outra parte ainda estava morrendo de curiosidade de ver como aquilo tudo funcionaria.
Depois de respirar fundo, recitei o encantamento do livro e então coloquei a foto no centro do espelho. Repeti o encantamento e tirei a foto. Em seguida, me debrucei
sobre ele e fiquei olhando para a superfície translúcida, tentando clarear a mente e entrar em sintonia com o luar e a escuridão. Uma onda de energia atravessou
meu corpo, muito mais rápido do que eu esperava. No entanto, nada mudou no espelho de imediato. Somente meu reflexo me encarava de volta, com a luz tênue desbotando
meu cabelo loiro, que estava terrível por eu ter dormido em cima dele e pelo monte de ervas secas emaranhadas.
Aquela energia continuou a se acumular dentro de mim, tornando-se surpreendentemente quente e alegre. Fechei os olhos e mergulhei dentro dela. Foi como se estivesse
flutuando sob o luar, como se eu fosse o luar. Poderia ficar ali para sempre.
- Está vendo alguma coisa?
A voz da sra. Terwilliger era uma interrupção indesejável àquele estado de euforia, mas, resignada, abri os olhos e me voltei para o espelho. Meu reflexo havia desaparecido.
Uma névoa prateada pairava em frente a uma casa, mas eu sabia que ela não era física. Era produzida magicamente, uma barreira mental para impedir que eu visse o
que havia atrás dela. Fortalecendo o meu desejo, fiz com que minha mente atravessasse a barreira e, depois de alguns instantes, a névoa se desfez.
- Vejo uma casa. - Minha voz ecoou insólita na noite. - Uma casa vitoriana. Vermelho-escura, com uma varanda coberta e arbustos de hortênsia na frente. Uma placa
também, mas não consigo ler.
- Consegue me dizer onde fica a casa? - A voz da professora parecia muito distante. - Olhe ao redor.
Tentei me afastar para estender a visão além da casa. Demorou alguns segundos, mas, aos poucos, a imagem se abriu como se eu estivesse assistindo a um filme, revelando
as casas vizinhas, todas parecidas: vitorianas com grandes varandas e plantas trepadeiras. Era um belo e perfeito fragmento de história no mundo moderno.
- Nada exato - eu disse a ela. - Só uma rua residencial antiga.
- Vá mais para trás. Veja o panorama geral.
Obedeci. Era como se eu estivesse flutuando em direção ao céu, observando aquele quarteirão de cima como um pássaro. As casas se estendiam a outros quarteirões que,
por fim, davam lugar a áreas industriais e comerciais. Continuei me afastando. Essas áreas foram se tornando cada vez mais densas. Mais e mais ruas se cruzavam dentro
delas. Os prédios foram ficando cada vez mais altos até que, por fim, se materializaram num horizonte conhecido.
- Los Angeles - eu disse. - A casa fica nos arredores de Los Angeles.
Ouvi uma tomada de fôlego súbita, seguida por:
- Obrigada, srta. Melbourne. Isso é tudo.
De repente, uma mão cruzou meu campo de visão, desfazendo a imagem da cidade. Também desfez o estado de euforia em que eu me encontrava. Não estava mais flutuando,
tampouco era feita de luz. Caí com tudo na realidade, de volta para a paisagem desértica e rochosa e meu pijama abafado. Estava exausta e trêmula, prestes a desmaiar.
A sra. Terwilliger me entregou uma garrafa térmica com suco de laranja, que bebi com vontade. Assim que os nutrientes chegaram ao meu organismo e me fortaleceram,
comecei a me sentir um pouco melhor. O uso intenso de magia esgotava o açúcar no sangue.
- Foi útil? - perguntei, depois de beber toda a garrafa. Uma voz importuna na minha cabeça começou a me repreender por causa das calorias no suco, mas a ignorei.
- Era isso que a senhora queria saber?
A sra. Terwilliger abriu um sorriso triste.
- Foi útil, sim. Agora, se era isso que eu queria saber... - Ela voltou o olhar para o horizonte. - Não, não exatamente. Minha esperança era que você visse outra
cidade. Uma muito, muito longe.
Peguei minha cruz e voltei a prendê-la no pescoço. Aquele objeto familiar me trouxe uma sensação de normalidade depois do que eu havia feito. Também fez com que
me sentisse culpada, ao me lembrar da euforia que a magia tinha me proporcionado. Os humanos não deveriam usar magia, muito menos gostar de usá-la. Ao passar os
dedos pela cruz, me peguei pensando em Adrian outra vez. Será que ele tinha chegado a usá-la? Ou só a tinha guardado para ter sorte? Será que seus dedos tinham traçado
a forma da cruz como os meus viviam fazendo?
A sra. Terwilliger começou a juntar suas coisas. Quando se levantou, fiz o mesmo.
- O que isso quer dizer exatamente? - perguntei. - O fato de eu ter visto Los Angeles?
Eu a segui até o carro e ela não respondeu de imediato. Quando respondeu, sua voz soou estranhamente sinistra.
- Quer dizer que ela está mais perto de mim do que eu gostaria. Quer dizer também que, querendo ou não, você vai ter que aperfeiçoar suas habilidades mágicas muito,
muito rápido.
Parei, sentindo uma raiva súbita. Aquilo já era demais. Eu estava exausta e com dor no corpo todo. Ela havia me arrastado até ali, no meio da noite, e agora tinha
a presunção de me falar uma coisa dessas, sabendo como eu me sentia em relação à magia? O pior era que as palavras dela me assustavam. O que eu tinha a ver com tudo
aquilo? Aquele feitiço era dela, do interesse dela. No entanto, ela tinha me dado aquela ordem com tanta força e firmeza que pareceu que eu era o motivo de termos
ido parar no meio do nada.
- Mas... - comecei.
A sra. Terwilliger deu meia-volta e se aproximou até ficar a apenas alguns centímetros de mim. Engoli em seco todas as palavras indignadas que estava prestes a soltar.
Ela não estava exatamente assustadora, mas com uma intensidade no olhar, muito diferente da professora distraída com quem eu estava acostumada. Ela também parecia...
amedrontada. Vida ou morte.
- Sydney - ela disse, usando meu primeiro nome, o que era raro. - Garanto que não é nenhum truque da minha parte. Você vai aperfeiçoar suas habilidades, querendo
ou não. E não é porque sou malvada, nem porque estou tentando realizar algum desejo egoísta. Nem mesmo porque odeio ver você desperdiçar seu potencial.
- Então por quê? - perguntei baixinho. - Por que preciso aprender mais?
O vento soprava ao nosso redor, fazendo voar algumas folhas e flores secas do meu cabelo. As sombras que projetávamos assumiram uma aparência sinistra, e a luz do
luar e das estrelas, antes com um aspecto tão sublime, parecia agora fria e inóspita.
- Porque - a sra. Terwilliger disse - é para sua própria proteção.
2
A sra. Terwilliger se recusou a dizer qualquer outra coisa depois disso. Ela me levou de volta a Amberwood quase sem notar que eu estava ao seu lado. Só ficou murmurando
sozinha coisas sem sentido, como “Não temos tempo suficiente” e “Preciso de mais provas”. Quando finalmente me deixou no alojamento, tentei pressioná-la para ver
se conseguia mais informações.
- Por que a senhora disse que preciso me proteger? - perguntei. - Me proteger do quê?
Ela estacionou em local proibido de novo e ainda estava com a cabeça em outro lugar.
- Depois explico. Amanhã, na nossa sessão.
- Não posso - eu a lembrei. - Vou sair logo depois das aulas normais, lembra? Preciso pegar um voo. Falei para a senhora na semana passada. E ontem. E hoje.
Isso chamou a atenção dela.
- Falou? Nesse caso, faremos o que for possível. Verei o que posso adiantar para você de manhã.
Voltei para a cama, mas não consegui dormir muito. Quando cheguei à aula de história da sra. Terwilliger na manhã seguinte, ela cumpriu sua palavra. Antes que o
sinal tocasse, foi até a minha carteira e me entregou um livro antigo com uma capa rachada de couro vermelho. O título estava em latim e a tradução seria Elementos
de batalha, o que me deu um calafrio. Feitiços para criar luz e invisibilidade eram uma coisa. Eles tinham uma natureza prática que eu quase conseguia aceitar. Mas
feitiços de batalha? Alguma coisa me dizia que eu teria ressalvas quanto a isso.
- Leitura para viagem - ela disse, com sua voz usual de professora atrapalhada. Porém, dava para ver em seus olhos uma centelha da apreensão da noite anterior. -
Concentre-se apenas na primeira seção. Tenho certeza de que fará o trabalho minucioso de sempre... e um pouco mais.
Nenhum dos alunos que estavam chegando prestou atenção à nossa conversa. Minha última aula do dia era uma sessão de estudo independente sobre história da Antiguidade
tardia, e a sra. Terwilliger era minha orientadora. Na maioria das vezes, ela usava a sessão como uma maneira indireta de me ensinar magia; por isso, me dar livros
como aquele não era algo fora do comum.
- E - ela acrescentou -, se conseguir descobrir onde fica aquele quarteirão, seria muito útil.
Fiquei sem palavras por alguns segundos. Encontrar um quarteirão na área metropolitana de Los Angeles?
- É... uma área bem grande - eu disse finalmente, escolhendo as palavras com cuidado agora que havia pessoas ao redor.
Ela assentiu e ajeitou os óculos em cima do nariz.
- Eu sei. A maioria das pessoas não conseguiria. - E, com esse elogio distorcido, ela voltou para sua mesa na frente da sala.
- Que quarteirão? - outra voz perguntou.
Eddie Castile havia acabado de chegar e se acomodava numa carteira perto da minha. Eddie era um dampiro, o que significava que possuía um DNA misto de humano e vampiro,
passado adiante desde os tempos em que as duas raças se misturavam. No entanto, para todos os efeitos, ele era indistinguível de qualquer humano normal. Com cabelo
e olhos castanho-claros, era também muito parecido comigo, o que ajudava a sustentar a história de que éramos gêmeos. Na verdade, Eddie estava em Amberwood como
guarda-costas de Jill. Ela estava sendo perseguida por dissidentes dos Moroi, a raça dela. Por mais que não tivéssemos visto nenhum sinal deles desde que chegáramos
a Palm Springs, Eddie estava sempre alerta e pronto para entrar em ação.
Guardei discretamente o livro de couro vermelho na bolsa.
- Nem queira saber. Mais uma das tarefas malucas dela. - Nenhum dos meus amigos, exceto Adrian, sabia que eu estava envolvida com magia sob instrução da sra. Terwilliger.
Quer dizer, Jill também sabia, indiretamente. Todos os Moroi possuíam algum tipo de magia elemental. A magia de Adrian era de um tipo raro e poderoso chamado espírito,
que conseguia realizar milagres de cura. Ele tinha usado essa magia para trazer Jill de volta à vida quando ela foi morta por mercenários. Assim, ela foi “beijada
pelas sombras”, o que criou um laço psíquico entre os dois que permitia que Jill sentisse as emoções dele e, às vezes, enxergasse através dos olhos dele também.
Por isso, Jill sabia mais sobre o que acontecia entre mim e Adrian do que eu gostaria.
Tirei as chaves do carro da bolsa e, relutante, entreguei-as para Eddie. Ele era a única pessoa em quem eu confiava para dirigir meu carro, por isso sempre lhe emprestava
o Pingado quando saía da cidade, para o caso de ele precisar fazer alguma coisa pelo grupo.
- Toma. É bom ele estar inteiro quando eu voltar. Não deixe a Angeline nem chegar perto do banco do motorista.
Ele abriu um sorriso.
- Pode deixar, eu dou valor à minha vida. Mas acho que nem vou precisar dele. Tem certeza de que não quer uma carona até o aeroporto mais tarde?
- Você teria que perder aula - eu disse. A única coisa que me permitia sair da escola mais cedo era o caráter peculiar do meu estudo independente.
- Acredite, eu não ligo. Tenho prova de ciências. - Ele fechou a cara e abaixou a voz. - Já tinha odiado física da primeira vez, sabia?
Não consegui evitar um sorriso. Eu e Eddie tínhamos dezoito anos e havíamos terminado o ensino médio, eu estudando em casa e ele, numa academia de elite para os
Moroi e os dampiros. No entanto, não dava para fingir que éramos alunos sem assistir às aulas. Embora eu não me importasse com o trabalho extra, Eddie não era tão
apaixonado por conhecimento quanto eu.
- Não, obrigada - eu disse. - Pego um táxi.
O sinal tocou e Eddie se aprumou na carteira. Enquanto a sra. Terwilliger pedia ordem na sala, ele murmurou para mim:
- Jill está bem triste por não poder ir.
- Eu sei - respondi aos sussurros. - Mas sabemos que ela não pode ir.
- Pois é - ele concordou. - O que não sei é por que ela está tão brava com você.
Voltei a atenção para a sra. Terwilliger e o ignorei descaradamente. Jill era a única pessoa que sabia sobre a declaração de amor de Adrian, graças ao laço entre
eles. Era uma das coisas que eu preferia que não fossem compartilhadas, mas Adrian não tinha como evitar. Embora Jill soubesse que romances entre vampiros e humanos
eram errados, ela não conseguia me perdoar por ter magoado Adrian. Para piorar, provavelmente estava sentindo parte do sofrimento dele na pele.
Apesar de os nossos amigos não saberem o que tinha acontecido, estava claro que havia alguma coisa errada entre mim e Jill. Eddie havia percebido de cara e logo
começou a me interrogar. Eu dera uma desculpa vaga, dizendo que Jill não tinha gostado de algumas regras que eu havia imposto para ela na escola. Eddie não se convenceu,
mas Jill também ficara muda sobre a questão, deixando-o frustrado e sem saber o que estava acontecendo.
O dia letivo passou rápido e logo eu estava no táxi a caminho do aeroporto. Eu levava poucas coisas - só tinha uma pequena mala de mão e minha bolsa a tiracolo,
ambas fáceis de carregar. Pelo que pareceu a centésima vez, tirei um pacotinho branco e prateado da bolsa e examinei seu conteúdo. Dentro, havia um enfeite caro
de cristal reluzente, feito para ser pendurado na sacada ou na janela e refletir a luz. Era entalhado com duas pombas voando, voltadas uma para a outra. Depois de
embrulhá-lo no papel de seda mais uma vez, voltei a guardá-lo na bolsa, torcendo para que fosse um bom presente para o evento ao qual me dirigia.
Eu estava indo para um casamento de vampiros.
Nunca tinha ido a um casamento de vampiros antes. Acho que nenhum alquimista tinha. Embora trabalhássemos com os Moroi para proteger sua existência, os alquimistas
deixavam claro que não queriam nada além de um contato meramente profissional. Depois dos últimos acontecimentos, porém, os dois grupos decidiram que seria bom melhorar
nossas relações. Como aquele era um casamento importante, eu e mais alguns alquimistas havíamos sido convidados.
Eu conhecia o casal e, em tese, estava animada para assistir ao casamento. Era o resto do evento que me deixava nervosa: uma reunião social gigantesca com vários
Moroi e dampiros. Mesmo com outros alquimistas lá, estaríamos em grande desvantagem. Minha temporada em Palm Springs com Eddie, Jill e os outros havia suavizado
muito meus sentimentos em relação à raça deles. Eu me dava bem com aquele grupo e, agora, os considerava meus amigos. No entanto, por mais liberal que eu fosse nesse
sentido, ainda compartilhava muito da inquietação que os alquimistas sentiam dentro do mundo dos vampiros. Os Moroi e os dampiros podiam não ser as criaturas maléficas
que eu imaginava antes, mas definitivamente não eram humanos.
Parte de mim queria que meus amigos de Palm Springs me acompanhassem, mas isso estava fora de questão. O grande motivo para estarmos na Califórnia era manter Jill
escondida e protegida daqueles que tentavam matá-la. Tanto os Moroi como os Strigoi costumavam evitar regiões desérticas e ensolaradas. Se ela aparecesse de repente
numa grande festa Moroi, destruiria todo o objetivo da missão. Eddie e Angeline - outra dampira que a protegia em Amberwood - precisavam se manter afastados também.
Só eu e Adrian havíamos sido convidados para o casamento e, felizmente, íamos em voos separados. Se alguém notasse que estávamos viajando juntos, atrairia atenção
para Palm Springs, o que por sua vez poderia expor Jill. O voo de Adrian nem mesmo sairia de Palm Springs. Ele partiria direto de Los Angeles, a duas horas de viagem
de Amberwood, para garantir que ninguém suspeitasse de uma ligação entre nós.
Meu voo faria escala em Los Angeles, o que me lembrou da tarefa da sra. Terwilliger. Encontrar um quarteirão no meio da área metropolitana de Los Angeles. Claro,
sem problema. A única coisa a meu favor era o fato de aquelas casas vitorianas serem inconfundíveis. Se eu conseguisse encontrar alguma sociedade histórica, havia
uma boa chance de que pudessem me indicar áreas que correspondessem àquela descrição, o que afunilaria muito minha busca.
Cheguei ao portão de embarque do Aeroporto Internacional de Los Angeles uma hora antes do voo. Tinha acabado de encontrar uma posição confortável com o livro da
sra. Terwilliger quando uma voz anunciou:
- Atenção, passageira Melrose. Por favor, compareça ao balcão de atendimento.
Senti um frio na barriga. Juntei minhas coisas e me dirigi ao balcão, onde fui atendida por uma alegre representante da companhia aérea.
- Sinto muito, mas seu voo sofreu overbooking - ela disse. Considerando sua voz animada e o grande sorriso em seu rosto, ela não parecia sentir tanto assim.
- O que isso quer dizer, exatamente? - perguntei, com um pavor crescente. - Tenho um lugar confirmado. - Eu lidava com burocracias o tempo todo, mas voos com overbooking
eram uma coisa que nunca havia entendido. Como isso podia acontecer? Eles sabiam muito bem o número de lugares.
- Significa que a senhorita não entrará mais neste voo - ela explicou. - A senhorita e alguns outros voluntários cederam seus lugares para acomodar aquela família.
Senão eles teriam que viajar separados.
- Voluntários? - repeti, olhando para onde ela apontou. Na sala de espera, uma família com sete crianças sorriu na minha direção. As crianças eram lindas e adoráveis,
com olhos grandes e aquele tipo de fofura que vemos em musicais sobre órfãos que encontram novos lares. Furiosa, me voltei para a funcionária. - Como vocês podem
fazer isso? Eu fiz o check-in com antecedência! Estou indo para um casamento, não posso perder esse voo!
A mulher tirou outro bilhete de passagem do balcão.
- Não se preocupe. Reservamos um lugar para a senhorita em outro voo para a Filadélfia, que vai sair antes. E a senhorita vai de primeira classe para compensar o
transtorno.
- Pelo menos isso - eu disse. Ainda estava irritada com aquilo, por princípio. Gostava de ordem e de seguir os procedimentos. Qualquer mudança virava meu mundo de
cabeça para baixo. Dei uma olhada na passagem e tomei um susto. - Está saindo agora!
Ela assentiu.
- Como eu disse, vai sair antes. Eu me apressaria se fosse a senhorita.
Naquele exato momento, ouvi o anúncio da última chamada para o meu voo, dizendo que todos os passageiros deveriam estar a bordo imediatamente, pois logo fechariam
as portas da cabine. Eu não costumava falar palavrões, mas quase soltei um naquela hora, ainda mais porque meu novo portão de embarque era do outro lado do aeroporto.
Sem dizer outra palavra, peguei as minhas coisas e desatei a correr o mais rápido possível, fazendo uma nota mental de enviar uma carta de reclamação à companhia
aérea. Como que por milagre, cheguei um segundo antes de o avião fechar as portas para os passageiros, e a funcionária que trabalhava no portão me disse com ar severo
que, da próxima vez, eu deveria me organizar para chegar mais cedo.
Ignorei o comentário e entrei no avião, onde fui recebida por uma aeromoça muito mais simpática - ainda mais quando viu minha passagem de primeira classe.
- Srta. Melrose, seu lugar é logo ali - ela disse, apontando para a terceira fila da cabine. - É um prazer tê-la conosco.
Ela me ajudou a colocar a mala de mão no compartimento superior, o que se provou uma tarefa difícil, pois os passageiros que chegaram cedo tinham tomado a maior
parte do espaço. Exigiu muita criatividade para rearranjar o espaço e, quando finalmente conseguimos, quase desmaiei no assento, exausta pela onda inesperada de
adrenalina. Lá se fora minha viagem relaxante. Mal tive tempo de prender o cinto e o avião já começou a se preparar para a decolagem. Um pouco mais calma, tirei
o folheto de segurança do saquinho para poder acompanhar a apresentação da aeromoça. Por mais que viajasse com frequência, sempre achava importante ficar a par dos
procedimentos de segurança. Estava observando a aeromoça prendendo uma máscara de oxigênio quando senti um cheiro inebriante e familiar ao meu lado. Em meio a todo
o caos para chegar ao voo, não tinha me dado ao trabalho de examinar quem estava no assento ao lado do meu.
Adrian.
Fiquei olhando para ele, sem conseguir acreditar. Ele me observava, se divertindo, e sem dúvida estivera esperando para ver quanto tempo eu levaria para notar sua
presença. Nem me dei ao trabalho de perguntar o que estava fazendo ali. Sabia que ia embarcar no Aeroporto Internacional de Los Angeles e, por uma reviravolta maluca
do acaso, eu tinha ido parar justamente no voo dele.
- É impossível - exclamei. Meu lado cientista estava embasbacado demais para que eu percebesse a situação constrangedora em que havia me metido. - Uma coisa é ser
transferida para outro voo... Mas ir parar logo do seu lado? Sabe quais são as chances de isso acontecer? É inacreditável.
- Alguns diriam que foi o destino - ele disse. - Ou talvez não existam tantos voos para a Filadélfia assim. - Ele ergueu uma taça cheia de um líquido transparente
para mim. Como eu nunca tinha visto Adrian beber água, tive que supor que era vodca. - Bom ver você, aliás.
- Ah, você também.
Os motores ganharam vida, e o barulho me poupou da conversa por alguns momentos. Comecei a cair na realidade. Eu estava presa num voo de cinco horas com Adrian Ivashkov.
Cinco horas. Cinco horas sentada a poucos centímetros dele, sentindo o aroma daquela colônia cara e encarando aqueles olhos que diziam muito. O que eu podia fazer?
Nada, claro. Não havia para onde ir, nenhuma rota de fuga, já que mesmo os passageiros de primeira classe não tinham permissão para usar os paraquedas. Meu coração
começou a bater mais rápido enquanto buscava alguma coisa para dizer. Ele estava me observando em silêncio, ainda com aquele sorrisinho sarcástico, esperando que
eu iniciasse a conversa.
- Então - eu disse enfim, olhando fixamente para as mãos. - Como vai, ahn, o seu carro?
- Deixei na rua. Imaginei que ficaria bem enquanto eu estivesse fora.
Levantei a cabeça rapidamente, boquiaberta.
- Deixou na rua? Vão chamar o guincho se o carro ficar lá a noite toda!
Adrian estava rindo antes que eu terminasse de falar.
- Então é assim que se faz para despertar uma reação calorosa em você, hein? - Ele meneou a cabeça. - Não se preocupe, Sage. Eu estava brincando. Está guardadinho
em segurança no estacionamento do prédio.
Senti meu rosto ficar quente. Odiava ter caído na piada dele e estava até um pouco envergonhada por ter surtado por causa de um carro. Claro, não era um carro qualquer.
Era um lindo Mustang clássico que Adrian havia comprado pouco tempo antes. Na verdade, ele tinha feito isso para me impressionar, e fingiu que não sabia dirigir
com câmbio manual para passar mais tempo comigo enquanto eu ensinava para ele. Eu achava o carro incrível, mas ainda não acreditava que ele tinha se dado tanto trabalho
só para ficar comigo.
Chegamos à altitude de voo e a aeromoça voltou com outra bebida para Adrian.
- Alguma coisa para a senhorita? - ela perguntou.
- Uma Coca Diet - respondi automaticamente.
Adrian me repreendeu depois que ela saiu:
- Você podia ter pegado uma de graça na classe econômica.
Revirei os olhos.
- Vou passar as próximas cinco horas sendo infernizada? Nesse caso, vou para a classe econômica e deixo algum passageiro sortudo tomar o meu lugar.
Adrian ergueu as mãos num gesto apaziguante.
- Não, não. Fique à vontade. Vou me distrair sozinho.
Por “se distrair sozinho”, ele queria dizer fazer as palavras cruzadas de uma das revistas de bordo. Peguei o livro da sra. Terwilliger e tentei ler, mas estava
difícil me concentrar com Adrian ao lado. Eu ficava olhando de soslaio para ele, em parte para ver se ele estava olhando para mim e em parte só para examinar seu
rosto. Era o mesmo Adrian de sempre, com aquela beleza irritante, aquele cabelo castanho desgrenhado e aquele rosto belamente esculpido. Jurei que não voltaria a
falar com ele, mas, quando percebi que ele não estava escrevendo fazia um tempo e batia ruidosamente com a caneta na mesinha, não consegui me conter.
- Que foi? - perguntei.
- “Inventor da máquina descaroçadora de algodão”, sete letras.
- Whitney - respondi.
Ele se debruçou e escreveu a resposta.
- “Domina a escala de Mohs”, oito letras.
- Diamante.
Cinco palavras depois, percebi o que estava acontecendo.
- Ei - eu disse. - Não vou cair nessa.
Ele me olhou com cara de inocente.
- Cair no quê?
- Você sabe o quê. Você está me enrolando. Sabe muito bem que não consigo resistir a...
- ... mim? - sugeriu.
Apontei para a revista.
- Conhecimentos gerais. - Me virei de costas para ele e abri o livro com um gesto dramático. - Tenho trabalho a fazer.
Senti Adrian olhando por sobre meu ombro e tentei ignorar aquela proximidade.
- Pelo visto Jackie ainda está fazendo você se esforçar para a aula dela. - Adrian conhecera a sra. Terwilliger havia pouco tempo e eu não sabia como tinha aberto
o caminho para tamanha intimidade.
- Isso está mais para uma atividade extracurricular - expliquei.
- Sério? Pensei que fosse contra seus princípios mexer com essas coisas mais do que o necessário.
Fechei o livro, frustrada.
- E é! Mas então ela disse... - Engoli as palavras, lembrando que não deveria conversar com Adrian mais do que o estritamente necessário. Era muito fácil cair em
velhos hábitos amigáveis com ele. Parecia certo, mas, obviamente, não era.
- Ela disse o quê? - ele instigou, gentilmente.
Levantei os olhos para ele e não vi sinal de presunção ou sarcasmo. Não vi nem mesmo aquela mágoa devastadora que vinha me atormentando nas últimas semanas. Ele
parecia sinceramente preocupado, o que, por um momento, me distraiu da tarefa da sra. Terwilliger. Aquela atitude fazia um contraste drástico com o que havia acontecido
logo depois do nosso beijo. Eu estava tão nervosa com a ideia de viajar ao lado de Adrian, mas ali estava ele, pronto para me apoiar. Por que a mudança?
Hesitei, sem saber o que fazer. Desde a noite anterior, vinha repetindo sem parar as palavras da sra. Terwilliger e aquela visão na minha cabeça, tentando descobrir
o sentido delas. Adrian era a única pessoa que sabia do meu envolvimento com ela e com a magia - com a exceção de Jill - e, até aquele momento, eu não tinha percebido
o quanto queria conversar sobre aquilo com alguém. Então cedi e contei a ele toda a história da minha aventura no deserto.
Quando terminei, fiquei surpresa com a seriedade em seu rosto.
- Uma coisa é ela tentar ensinar meia dúzia de feitiços pra você. Mas arrastá-la para o meio de uma situação perigosa é outra coisa completamente diferente.
A intensidade de sua preocupação me surpreendeu um pouco, mas talvez não devesse.
- Pelo jeito que ela disse, não parece ser culpa dela. Ela parecia bastante preocupada com... bem, o que quer que isso tudo signifique.
Adrian apontou para o livro.
- E isso pode ajudar de algum modo?
- Acho que sim. - Passei os dedos sobre a capa e sobre as palavras em latim. - Tem feitiços de proteção e ataque, coisas um pouco mais pesadas do que já fiz. Já
não estou gostando nem um pouco, e olha que nem são os mais avançados. Ela me falou para pulá-los.
- Você não gosta de magia, ponto final - ele me lembrou. - Mas, se os feitiços puderem proteger você, talvez seja melhor não ignorar o que ela disse.
Eu odiava admitir que ele tinha razão, pois só o incentivava a continuar.
- Sim, mas apenas queria saber do que estou tentando me proteger... Não. Não podemos fazer isso.
Sem perceber, eu tinha voltado a agir como antigamente, falando com Adrian daquele jeito tranquilo e sossegado de antes. Não só isso: estava tratando Adrian como
um confidente. Ele pareceu assustado.
- Fazer o quê? Parei de pedir ajuda nas palavras cruzadas, não parei?
Respirei fundo, juntando forças. Sabia que aquele momento iria chegar, por mais que quisesse adiá-lo. Só não esperava que chegasse durante uma viagem de avião.
- Adrian, precisamos conversar sobre o que aconteceu - declarei. - Entre nós.
Ele pensou sobre minhas palavras por alguns momentos.
- Então... pelo que parece, nada aconteceu entre nós.
Criei coragem para olhar para ele.
- Exatamente. Desculpe pelo que aconteceu... pelo que eu disse, mas era tudo verdade. Precisamos superar aquilo e seguir em frente. É pelo bem do nosso grupo em
Palm Springs.
- Engraçado, porque eu superei - ele disse. - É você quem está trazendo esse assunto à tona agora.
Voltei a ficar vermelha.
- Mas é culpa sua! Você passou as últimas semanas todo temperamental e chateado, mal falando comigo. E quando falava, era sempre para soltar alguma indireta. - Num
jantar algum tempo antes na mansão de Clarence Donahue, uma das aranhas mais assustadoras que já vi na vida entrou na sala. Reunindo toda a minha coragem, peguei
aquele bichinho abominável e o joguei no jardim. O comentário de Adrian sobre meu ato de bravura foi: “Nossa, não sabia que você enfrentava as coisas que a assustam.
Pensei que normalmente saísse correndo e gritando, e depois fingisse que elas não existem”.
- Você está certa sobre minha atitude - ele disse agora, assentindo. Mais uma vez, parecia extraordinariamente sério. - Me desculpe.
- Sério? - Eu não conseguia formar frases direito. - Então... você deixou de lado todas aquelas... coisas? Deixou de, hum, sentir aquilo? - Eu não conseguia dizer
com todas as letras. Deixou de estar apaixonado por mim?
- Ah, não - ele disse, sorridente. - De jeito nenhum.
- Mas você acabou de falar...
- Deixei de ficar magoado - ele disse. - Deixei de ser temperamental... Quer dizer, sempre sou meio temperamental. É isso que define Adrian Ivashkov. Mas parei com
os excessos. Eles nunca me levaram a lugar nenhum com Rose. Não vão me levar a lugar nenhum com você.
- Nada vai levar você a lugar nenhum comigo! - exclamei.
- Disso não tenho tanta certeza. - Ele assumiu um ar introspectivo que foi ao mesmo tempo inesperado e intrigante. - Você não é uma causa tão perdida quanto ela.
Quer dizer, com Rose eu tinha que superar o amor profundo e épico entre ela e um deus da guerra russo. Nós dois só temos que superar algumas centenas de anos de
tabus e preconceitos arraigados entre as nossas raças. Tranquilo.
- Adrian! - Eu estava começando a perder a cabeça. - Isso não é uma piada.
- Eu sei. Pra mim não é mesmo. E é por isso que não vou dificultar as coisas pra você. - Ele fez uma pausa dramática. - Simplesmente vou amar você, quer você queira
ou não.
A aeromoça voltou com toalhas quentes, interrompendo nossa conversa, deixando aquelas palavras um tanto perturbadoras pairando entre nós. Eu estava confusa demais
para conceber uma resposta antes de ela finalmente voltar para recolher as toalhas.
- Queira ou não? O que isso quer dizer?
Adrian fez uma careta.
- Desculpe. Soou mais assustador do que eu pretendia. Só quis dizer que não me importo se você disser que não vamos ficar juntos. Não me importo se achar que eu
sou uma das criaturas mais perversas e abomináveis que caminham sobre a terra.
Por uma fração de segundo, as palavras dele me levaram de volta no tempo, para o momento em que ele havia dito que eu era a criatura mais linda que já tinha caminhado
sobre a terra. Aquelas palavras continuavam me perturbando tanto quanto da primeira vez. Pensei em nós dois sentados naquela sala escura, sob a luz de velas, e ele
me olhando de um jeito que ninguém nunca tinha...
Chega, Sydney. Foco.
- Você pode achar o que quiser, fazer o que quiser - Adrian continuou, sem desconfiar dos pensamentos que me traíam. Havia uma calma extraordinária em sua voz. -
Simplesmente continuarei amando você, mesmo sendo um caso perdido.
Não sei por que aquilo me escandalizou tanto. Dei uma olhada ao redor para ter certeza de que ninguém tinha ouvido.
- Eu... Como assim? Não. Você não pode!
Ele inclinou a cabeça enquanto me observava com atenção.
- Por que não? Não a machuca nem nada. Já falei que não vou incomodá-la se não me quiser. E se quiser... Bem, seria incrível. Então qual é o problema de eu amar
você de longe?
Eu não sabia exatamente.
- Você... você não pode!
- Por que não?
- Você... você precisa superar isso - consegui dizer. Sim, parecia um bom motivo. - Precisa encontrar outra pessoa. Sabe que eu não... que eu não posso. Enfim, você
sabe. Está perdendo seu tempo comigo.
Ele se manteve firme.
- O tempo é meu. Faço o que quiser com ele.
- Mas isso é loucura! Por que você faria uma coisa dessas?
- Porque não consigo evitar - ele respondeu, encolhendo os ombros. - E, ei, se eu continuar amando você, talvez um dia consiga fazer você me amar também. Na verdade,
tenho quase certeza de que já está meio apaixonada por mim.
- Não estou! E tudo o que você disse é ridículo. Não faz o menor sentido.
Adrian voltou para suas palavras cruzadas.
- Bom, pense o que quiser. Mas saiba que, por mais que as coisas pareçam normais entre a gente, eu ainda estarei aqui, apaixonado por você, e vou me importar mais
com você do que qualquer outro cara, seja ele maligno ou não.
- Não acho que você seja perverso.
- Viu? As coisas já parecem um pouco mais promissoras. - Ele bateu a caneta na revista de novo. - “Poeta vitoriana romântica”, oito letras.
Não respondi. Adrian tinha me deixado sem palavras. Ele não voltou a mencionar esse assunto perigoso durante o resto do voo. Na maior parte do tempo, ficou na dele
e, quando falava, era sobre assuntos perfeitamente seguros, como nosso jantar ou o casamento. Qualquer pessoa que sentasse ao nosso lado nunca saberia que havia
algo estranho entre nós.
Mas eu sabia.
Aquilo me consumia. Era avassalador. E, conforme o voo continuava e, mais tarde, aterrissava, eu não conseguia mais olhar para Adrian da mesma forma. Sempre que
fazíamos contato visual, eu me lembrava das palavras dele: eu ainda estarei aqui, apaixonado por você, e vou me importar mais com você do que qualquer outro cara.
Parte de mim se sentia ofendida. Como ele podia dizer isso? Como podia ter a audácia de me amar, querendo eu ou não? Eu tinha dito para ele não me amar! Ele não
tinha esse direito.
E a outra parte de mim... A outra parte estava com medo.
Se eu continuar amando você, talvez um dia consiga fazer você me amar também.
Era ridículo. Não era possível fazer uma pessoa amar você só porque você a amava. Não importava o quão charmoso, bonito e engraçado ele fosse. Um alquimista e um
Moroi nunca poderiam ficar juntos. Era impossível.
Tenho quase certeza de que já está meio apaixonada por mim.
Completamente impossível.
3
Fiel à sua palavra, Adrian não voltou a mencionar nossa relação - ou a falta dela. Vez ou outra, porém, eu podia jurar que via alguma coisa em seus olhos, como um
eco da declaração de que continuaria me amando. Ou talvez fosse só sua impertinência de sempre.
Depois de uma última escala e uma hora de carro, já era noite quando finalmente chegamos à cidadezinha turística nas montanhas Pocono, onde seria o casamento. Ao
sair do carro, tive uma surpresa. Dezembro na Pensilvânia era completamente diferente de dezembro em Palm Springs. Fui recebida por um vento gélido e cortante, do
tipo que congela o nariz e a boca. Uma camada de neve fresca recobria tudo, brilhando sob a luz da mesma lua cheia que iluminara minha sessão de magia com a sra.
Terwilliger. As estrelas estavam tão visíveis ali quanto no deserto árido, embora o vento frio as fizesse brilhar ainda mais forte.
Adrian ficou no táxi, mas se debruçou na janela quando o motorista me entregou a maleta.
- Precisa de ajuda? - ele perguntou. Sua respiração soltou uma nuvenzinha gelada no ar.
Era uma oferta rara vindo dele.
- Não, obrigada. Imagino que você não vai ficar aqui, vai? - perguntei, apontando para a pousada em frente à qual o carro havia parado.
Adrian apontou para mais adiante na estrada, em direção a um grande hotel iluminado em cima de uma montanha.
- Lá em cima. É lá onde vão ser todas as festas, se estiver interessada. Devem estar começando agora.
Senti um calafrio que nada tinha a ver com o clima. Os Moroi normalmente viviam num horário noturno, começando os dias ao pôr do sol. Aqueles que viviam entre os
humanos, como Adrian, precisavam se adaptar a um horário diurno. Mas ali, em uma cidadezinha pequena que devia estar cheia de convidados Moroi, ele teria a chance
de voltar ao horário que, para ele, era mais natural.
- Anotado - eu disse. Depois de alguns segundos de silêncio constrangedor, a temperatura me deu uma desculpa para fugir. - Melhor eu entrar, lá deve estar quentinho.
Foi, hum, legal viajar com você.
Ele abriu um sorriso.
- Igualmente, Sage. Até amanhã.
A porta do carro se fechou e de repente me senti sozinha sem ele. O carro partiu na direção do hotel imponente. Minha pousada parecia minúscula em comparação, mas
era bonita e conservada. Os alquimistas tinham feito minha reserva ali exatamente por saberem que os convidados Moroi teriam outras instalações. Quer dizer, a maioria
deles.
- Veio para o casamento, querida? - perguntou a dona da pousada enquanto confirmava minha reserva. - Alguns outros convidados também estão hospedados aqui com a
gente.
Fiz que sim enquanto assinava a nota do cartão de crédito. Não era nenhuma surpresa que alguns acabariam ficando naquela pousada, mas haveria muito menos convidados
ali do que no outro hotel. Fiz questão de trancar a porta. Confiava nos meus amigos em Palm Springs, mas todos os outros Moroi e dampiros eram suspeitos.
Cidadezinhas como aquela e suas pousadas sempre pareciam feitas para casais em férias românticas. Meu quarto não era exceção. Tinha uma cama de casal coberta por
um dossel fino, além de uma banheira de hidromassagem em forma de coração ao lado da lareira. Tudo parecia gritar amor e romance, o que me fez pensar em Adrian de
novo. Fiz o possível para ignorar tudo aquilo e escrevi uma rápida mensagem para Donna Stanton, uma alquimista importante que supervisionava minha missão em Palm
Springs.
Cheguei ao Vale Pocono. Estou na pousada.
A resposta veio rápido: Ótimo. Até amanhã. Uma segunda mensagem chegou logo em seguida: Tranque bem a porta.
Stanton e um outro alquimista também tinham sido convidados para o casamento. Mas eles já estavam na Costa Leste e chegariam para a cerimônia só no dia seguinte.
Senti inveja deles.
Apesar do nervosismo, dormi surpreendentemente bem e criei coragem para sair e tomar café da manhã. No entanto, não havia por que me preocupar com os Moroi. Eu era
a única pessoa comendo no restaurante banhado pelo sol.
- Que estranho - a dona da pousada comentou enquanto me servia café e ovos. - Vários hóspedes ficaram fora até tarde, mas pensei que pelo menos alguns viriam comer.
- Então, para enfatizar a estranheza da situação, ela acrescentou: - Afinal, o café da manhã é por conta da casa.
O fato de os Moroi ainda estarem na cama me deu coragem para explorar um pouco mais a cidade naquele dia. Por mais que tivesse levado botas e um casaco pesado, a
mudança de tempo ainda era um tanto surpreendente. Palm Springs havia me deixado mal-acostumada. Não demorei a voltar para a pousada e passei o resto da tarde lendo
o livro da sra. Terwilliger ao lado da lareira. Devorei a primeira seção e continuei até a de feitiços avançados, que ela havia me dito para pular. Talvez por serem
proibidos, não conseguia parar de ler sobre eles. Os temas que o livro descrevia eram tão interessantes e abrangentes que quase pulei da cadeira quando ouvi uma
batida na porta. Congelei, imaginando se algum Moroi confuso havia batido na porta errada atrás de um amigo. Ou pior: de um fornecedor.
De repente, meu telefone apitou com uma mensagem de Stanton: Estamos na sua porta.
Dito e feito. Quando abri, encontrei Stanton ao lado de Ian Jansen, um alquimista da minha idade. A presença dele era uma surpresa. Não via Ian desde que ele, Stanton
e eu havíamos sido detidos por alguns Moroi para um interrogatório a respeito de uma dampira fugitiva. Naqueles tempos, Ian tinha uma paixão não correspondida por
mim. A julgar pelo sorriso bobo na cara dele, as coisas não haviam mudado muito. Eu os convidei para entrar e fiz questão de trancar a porta. Assim como eu, os dois
tinham uma tatuagem de lírio dourado na bochecha esquerda. Era o sinal da nossa ordem: tatuagens infundidas com sangue de vampiro que nos garantiam uma cicatrização
rápida e eram projetadas para nos impedir, magicamente, de conversar sobre assuntos alquimistas com pessoas que não soubessem nada sobre vampiros.
Stanton arqueou a sobrancelha ao ver a banheira em forma de coração e depois se acomodou numa cadeira perto do fogo.
- Foi fácil chegar aqui?
Tirando a parte de viajar com um lindo vampiro que acha que está apaixonado por mim...
- Foi tranquilo - respondi. Olhei para Ian, franzindo a testa. - Não estava esperando você aqui. Quer dizer, que bom que veio, mas depois da última vez... - Fiz
uma pausa quando algo me ocorreu. Olhei ao redor. - Nós três estamos aqui. Justo nós três que ficamos em, hum, prisão domiciliar.
Stanton assentiu.
- Foi decidido que, se a ideia é melhorar as relações entre nossos grupos, os Moroi deveriam começar pedindo desculpa especificamente a nós três.
Ian fechou a cara e cruzou os braços, se encostando na parede. Ele tinha olhos e cabelos castanhos, com um penteado perfeitamente arrumado.
- Não quero desculpa nenhuma daqueles monstros depois do que fizeram com a gente no verão passado. Mal consigo acreditar que estamos aqui! Este lugar está cheio
deles. Vai saber o que pode acontecer se um deles beber champanhe demais hoje à noite e sair procurando um lanche? Aqui estamos nós, humanos fresquinhos.
Queria dizer que aquilo era ridículo, mas, pela lógica alquimista, era uma preocupação perfeitamente válida. E, me lembrando de que não conhecia a maioria dos Moroi
ali, percebi que talvez os medos dele não fossem tão infundados assim.
- Acho que precisaremos ficar juntos, então - eu disse. Não foi uma boa escolha de palavras, considerando o sorriso esperançoso de Ian.
Era raro os alquimistas terem tempo para socializar, e aquele dia não foi exceção. Stanton logo nos pôs para trabalhar, revisando nossos planos para o casamento
e qual era nosso objetivo ali. Um dossiê continha informações sobre a vida de Sonya e Mikhail, como se eu não soubesse nada sobre eles. Mas minha atual missão e
meu histórico com Sonya eram segredo para os outros alquimistas; por isso, por causa de Ian, tive que ouvir todos aqueles fatos como se fossem novidades para mim,
assim como eram para ele.
- As festividades devem durar quase até o amanhecer - disse Stanton, juntando os papéis após terminar de passar as informações. - Depois, Ian e eu vamos embora e
no caminho deixamos você no aeroporto. Você não vai precisar passar mais uma noite aqui.
A expressão de Ian ficou sombria e protetora.
- Você não devia ter passado a noite aqui sozinha. Devia ter alguém para protegê-la.
- Posso cuidar de mim mesma - retruquei, um pouco mais áspera do que pretendia. Quer eu gostasse ou não, o treinamento da sra. Terwilliger havia me fortalecido interna
e externamente. Nossas sessões, somadas ao curso de defesa pessoal, tinham me ensinado a ficar atenta ao ambiente. A intenção de Ian podia ser boa, mas eu não gostava
que ele, ou quem quer que fosse, achasse que eu precisava ser protegida.
- Sage está perfeitamente bem, como você pode ver - Stanton disse, seca. A paixão de Ian devia estar clara para ela, e ficou igualmente claro para mim que ela não
via utilidade nenhuma em algo tão infantil. Seu olhar se voltou para a janela, banhada pela luz vermelha e laranja do pôr do sol. - Bom, está quase na hora. Vamos
nos arrumar?
Eles já tinham chegado com os trajes formais, mas eu ainda precisava me trocar. Os dois ficaram conversando enquanto eu me aprontava no banheiro, mas, toda vez que
saía para pegar alguma coisa, como uma escova de cabelo ou brincos, via Ian me observando com aquele olhar bobo. Ótimo. Era só o que me faltava.
O casamento aconteceria na atração turística mais famosa da cidade: um gigantesco jardim coberto que desafiava o tempo gélido do lado de fora. Sonya era completamente
apaixonada por plantas e flores, e aquele era o local perfeito para o casamento dela. As paredes de vidro que cercavam o lugar estavam embaçadas pela diferença drástica
entre as temperaturas interna e externa. Nós três chegamos à entrada do jardim, onde se vendiam bilhetes durante o horário de funcionamento normal da estufa. Ali,
finalmente encontramos os Moroi que estiveram escondidos de mim à luz do dia.
Havia umas duas dezenas deles andando de um lado para o outro na entrada, com roupas elegantes e aquela beleza exótica, com seus traços esbeltos e pálidos. Alguns
eram garçons e outros atendentes que ajudavam a organizar o evento e guiar os convidados para o átrio dentro da estufa. A maioria dos Moroi eram apenas convidados
normais, que paravam para assinar o livro de visitas ou conversar com amigos e familiares que não viam fazia tempo. Ao redor, dampiros com ternos pretos e brancos
alinhados ficavam de sentinela, atentos a qualquer sinal de perigo. A presença deles me lembrou de uma ameaça muito maior do que um Moroi bêbado nos confundindo
com fornecedores.
Realizar o evento à noite nos expunha a ataques Strigoi. Os Strigoi eram um tipo muito diferente de vampiro, tão diferente que eu quase me senti idiota por ter medo
das pessoas ali. Os Strigoi eram imortais, o que conseguiam assassinando suas vítimas - diferente dos Moroi, que bebiam sangue de humanos voluntários apenas para
se sustentar. Os Strigoi eram selvagens, rápidos e fortes, e só saíam à noite. A luz do dia, que os Moroi achavam meramente desconfortável, era fatal para eles.
Esses demônios faziam a maior parte de seus ataques contra humanos desavisados, mas Moroi e dampiros eram seu alimento favorito. Um evento como aquele, com tantos
Moroi e dampiros reunidos em um só lugar, era praticamente um banquete para os Strigoi.
Ao olhar para os dampiros guardiões, porém, soube que qualquer Strigoi teria dificuldades para invadir aquele evento. Os guardiões treinavam a vida toda, aperfeiçoando
suas habilidades para combater os Strigoi. Como a rainha Moroi compareceria ao evento, suspeitei que os seguranças que eu tinha visto até então eram apenas a ponta
do iceberg.
Várias pessoas ali reunidas pararam de falar quando nos viram. Nem todos os Moroi sabiam sobre os alquimistas ou como trabalhávamos com seu povo. Por isso, a presença
de três humanos que não eram fornecedores era um tanto estranha. Mesmo aqueles que sabiam sobre os alquimistas deviam estar surpresos com a nossa presença, dada
a formalidade das nossas relações. Stanton tinha experiência suficiente para não deixar transparecer seu nervosismo, mas Ian fez abertamente o sinal alquimista contra
o mal enquanto todos os Moroi e dampiros nos examinavam. Consegui me manter calma, mas bem que queria que houvesse pelo menos um rosto conhecido naquela multidão.
- Sra. Stanton?
Uma Moroi com maçãs do rosto pronunciadas se aproximou rapidamente.
- Sou Colleen, a coordenadora do casamento. Conversamos por telefone, lembra? - Ela estendeu a mão, que mesmo Stanton hesitou um momento antes de apertar.
- Sim, claro - disse Stanton, com a voz formal e impassível. - Obrigada por nos convidar. - Ela a apresentou a Ian e a mim.
Colleen apontou para a entrada do átrio.
- Venham, venham. Estamos com seus lugares reservados. Eu mesma acompanho vocês.
Ela nos guiou sob olhares curiosos. Ao chegarmos no átrio, me detive e, por um instante, esqueci os vampiros ao nosso redor. A estufa principal era magnífica. O
teto era alto e abobadado, feito do mesmo vidro das paredes. Tinham aberto uma área no centro e disposto bancos com flores entrelaçadas, de maneira muito parecida
com o que se veria num casamento humano. Um tablado diante dos bancos estava enfeitado com ainda mais flores - claramente, era onde o casal faria seus votos.
Mas foi o resto da estufa que me tirou o fôlego. Era como se tivéssemos entrado em uma selva tropical. Árvores e outras plantas carregadas com flores de cores vivas
ladeavam o recinto, enchendo o ar úmido de um perfume quase estonteante. Como não havia sol para iluminar a estufa, tochas e velas haviam sido posicionadas de maneira
engenhosa em meio a todo aquele verde, lançando uma luz ao mesmo tempo misteriosa e romântica sobre o ambiente. Senti como se tivesse entrado em algum templo sagrado
na Amazônia. E, obviamente, quase escondidos entre os arbustos e árvores, guardiões de preto caminhavam de um lado para o outro, vigiando tudo.
Colleen nos guiou até três assentos à direita com plaquinhas de RESERVADO. Os lugares eram quase no meio, não tão importantes quanto os reservados à família, claro,
mas o bastante para mostrar que os Moroi nos tinham em alta conta e realmente estavam tentando desfazer a tensão causada pelo nosso confinamento.
- Posso servir alguma coisa para vocês? - perguntou Colleen. Percebi então que a efusividade dela era apenas nervosismo. Nós a deixávamos quase, quase tão nervosa
quanto ela e os outros nos deixavam. - O que vocês quiserem.
- Não - Stanton respondeu por nós. - Obrigada.
Colleen assentiu, ansiosa.
- Se precisarem de qualquer coisinha, não hesitem em pedir. Só chamem os atendentes e eles me avisarão imediatamente. - Ela ficou parada por mais um momento, retorcendo
as mãos. - É melhor eu dar uma olhada nos outros. Lembrem-se: chamem se precisarem de qualquer coisa.
- Eu preciso é dar o fora daqui - murmurou Ian depois que ela se afastou. Eu não disse nada; nenhuma resposta parecia segura. Se dissesse que estávamos em segurança,
ele me olharia desconfiado. Mas se agisse como se estivéssemos correndo risco de vida, estaria mentindo. Minha opinião estava entre esses dois extremos.
Um dos atendentes me entregou o programa e Ian se aproximou um tanto mais do que eu gostaria para ler por sobre meu ombro. O programa detalhava a lista de músicas
e leituras, além dos participantes da cerimônia. Pude ver pela cara de Ian que ele estava esperando encontrar “Derramamento profano de sangue” logo depois da leitura
dos Coríntios. O que ele disse a seguir confirmou minha suspeita.
- Eles fazem um belo trabalho fingindo que são normais, né? - ele comentou, sem se importar em esconder a repugnância na voz. Fiquei um tanto surpresa com a maldade
em seu tom. Não me lembrava desse comportamento tão extremista no último verão. - Como se fosse um casamento de verdade ou coisa assim.
Ele também não estava abaixando a voz, e olhei ao redor, com medo de que alguém tivesse ouvido.
- Então você acha que não é um casamento de verdade? - respondi, com um sussurro.
Ian deu de ombros, mas pelo menos entendeu a indireta e abaixou a voz.
- Entre eles? Não importa. Eles não têm família ou amor verdadeiro. São uns monstros.
Foi irônico ele ter mencionado “amor verdadeiro”, pois naquele exato momento Adrian e seu pai estavam sendo conduzidos até o lado oposto do átrio. Adrian sempre
se vestia bem, mas eu nunca o tinha visto num traje tão formal. Odiava admitir, mas a roupa caía muito bem nele: um terno e um colete azul-marinho quase pretos,
combinados com uma camisa azul-clara, além de uma gravata listrada azul e branca. Destoava dos ternos pretos e cinzas mais sóbrios que a maioria dos homens estava
usando, mas não de maneira exagerada ou cafona. Enquanto o examinava, Adrian voltou os olhos para onde eu estava e encontrou os meus. Ele sorriu e deu um aceno rápido.
Respondi com outro sorriso, mas a voz de Stanton me fez voltar à realidade. Observei Adrian por mais um instante e então desviei o olhar.
- Sr. Jansen - disse Stanton, com a voz severa. - Guarde suas opiniões para você. Independente da validade delas, somos convidados aqui e vamos nos comportar de
maneira civilizada.
Ian assentiu a contragosto, ficando um pouco vermelho e lançando um olhar de soslaio para mim, como se receber uma bronca na minha frente pudesse arruinar suas chances
comigo. Mas não havia por que se preocupar, já que nunca teve a menor chance comigo.
Colleen mandou um atendente até nós e, enquanto ele falava com Stanton, Ian cochichou no meu ouvido.
- Sou o único que acha loucura a gente vir aqui? - Ele apontou com a cabeça para Stanton. - Ela acha que não tem problema, mas eles nos mantiveram em cativeiro.
Isso é imperdoável. Você não fica com raiva?
Certamente não tinha gostado na época, mas acabei entendendo por que aquilo havia acontecido.
- Odeio que tenham feito isso também - menti, tentando parecer convincente. - Fico brava sempre que lembro.
Ian pareceu aliviado o bastante para esquecer o assunto.
Ficamos sentados num silêncio maravilhoso enquanto o átrio continuava a se encher. Quando a cerimônia estava prestes a começar, devia ter cerca de duzentas pessoas
na estufa. Continuei procurando por rostos familiares, mas Adrian e seu pai eram os únicos que eu conhecia. Então, no último minuto, uma figura de roupas brilhantes
entrou apressada. Resmunguei enquanto Stanton soltou um “tsc” de desaprovação. Abe Mazur havia acabado de chegar.
Enquanto Adrian conseguia usar um traje formal colorido com estilo, Abe usava cores para ofender a moral dos outros. Mas era preciso admitir que aquele era um dos
conjuntos mais básicos que eu já tinha visto Abe usar: um terno branco, com uma camisa verde-kiwi e um lenço estampado. Ele estava com seus brincos dourados de sempre,
e o brilho do seu cabelo preto me levava a pensar que tinha aplicado violentamente algum óleo capilar. Abe era um Moroi de moral duvidosa, além de pai da minha amiga
- e dampira por quem Adrian fora apaixonado - Rose Hathaway. Abe me deixava nervosa porque, no passado, eu fizera alguns acordos secretos com ele. Ele deixava Stanton
nervosa porque era um Moroi que os alquimistas nunca conseguiam controlar. Abe se sentou na primeira fila, recebendo um olhar horrorizado de Colleen, que supervisionava
tudo do canto da estufa. Eu suspeitava que aquele não era o lugar dele.
Ouvi o som de um trompete e aqueles que estavam sentados nas fileiras dos fundos se ajoelharam de repente. Como uma onda, as pessoas sentadas no resto das fileiras
começaram a fazer o mesmo. Stanton, Ian e eu trocamos olhares confusos. Então, entendi.
- A rainha - murmurei. - A rainha está chegando.
Pude ver pela expressão de Stanton que ela não havia considerado essa possibilidade. Ela teve uma fração de segundo para decidir o protocolo para aquela situação,
de modo a manter nossa condição de convidados “civilizados”.
- Não se ajoelhem - ela sussurrou. - Fiquem onde estão.
Era uma decisão válida, visto que não devíamos fidelidade à rainha Moroi. Mesmo assim, fiquei constrangida por ser uma das únicas pessoas que não estavam ajoelhadas.
Um momento depois, uma voz retumbante declarou:
- Sua Majestade Real, a rainha Vasilisa, primeira de seu nome.
Até Ian perdeu o fôlego quando ela entrou. Vasilisa - ou Lissa, como Adrian e Rose insistiam em chamá-la - era o retrato da beleza etérea. Era difícil acreditar
que ela tinha a minha idade. Ela caminhava com uma compostura e uma nobreza que pareciam eternas. Seu corpo alto e esbelto se destacava mesmo entre os Moroi, e seu
cabelo loiro platinado enquadrava seu rosto pálido como um véu celestial. Embora estivesse usando um moderno vestido de festa lilás, ela conseguia usá-lo como se
fosse um grandioso vestido de baile vitoriano. Um rapaz de cabelo preto e olhos azuis penetrantes caminhava ao lado dela. Seu namorado, Christian Ozera, era sempre
fácil de avistar, criando um contraste sombrio que combinava perfeitamente com a luminosidade dela.
Depois que o casal real se sentou na primeira fila, parecendo muito surpresos ao encontrar Abe esperando por eles lá, todos voltaram aos seus lugares. Um violoncelista
escondido começou a tocar, e todos retomaram o fôlego ao cair no ritual familiar do casamento.
- Incrível, né? - murmurou Ian no meu ouvido. - A fragilidade do reinado dela. Basta um deslize para eles caírem no caos.
Nesse ponto ele estava coberto de razão, e esse era o motivo pelo qual a segurança de Jill era tão importante. Uma antiga lei Moroi dizia que um monarca precisava
ter ao menos um membro da família vivo para manter o trono. Jill era a única pessoa restante na linhagem de Lissa. Aqueles que se opunham a Lissa por causa de sua
idade e de suas ideias perceberam que matar Jill seria muito mais fácil do que ir atrás de uma rainha. Muitos se opunham à lei e estavam tentando mudá-la. Até que
isso acontecesse, o caos político gerado pelo assassinato de Jill seria imenso. Os alquimistas, cuja função era manter o mundo dos Moroi oculto e protegido, precisavam
evitar que a sociedade deles entrasse em crise. E, num nível um pouco mais pessoal, eu precisava evitar a morte de Jill porque, por mais improvável que fosse, no
curto período em que dividimos um quarto, passei a gostar dela.
Desviei os pensamentos dessas ideias sombrias e me concentrei no estágio seguinte do casamento. Madrinhas com vestidos de cetim verde-escuro guiavam a procissão,
e me perguntei se Abe estava tentando combinar com elas usando aquela camisa. Se estava, havia fracassado completamente.
Entre elas, vi o primeiro rosto conhecido além de Adrian. Rose Hathaway. Não era nenhuma surpresa ela ser madrinha, já que tinha sido ela a responsável por juntar
os dois pombinhos. Ela herdara o cabelo e os olhos negros do pai, e era a única dampira entre as madrinhas. Não precisei ver os olhares surpresos de alguns convidados
para saber que aquilo não era nada convencional. Se Rose percebeu ou se importou, não deixou transparecer. Avançou com altivez, a cabeça erguida e o rosto brilhando
de alegria. Com aquela aparência dampira quase humana, ela era mais baixa do que suas companheiras Moroi e tinha um corpo mais atlético que as Moroi magras e de
seios pequenos.
Rose tinha um corpo muito normal e saudável entre humanos. Mesmo assim, quando eu me comparava com as Moroi, me sentia enorme. Sabia que era ridículo, ainda mais
porque eu usava um número menor do que Rose, mas era uma sensação difícil de superar. Pouco antes, Adrian havia tido uma conversa incômoda comigo sobre isso, a ponto
de dizer que eu estava à beira de um distúrbio alimentar. Eu tinha ficado furiosa e dito para ele cuidar dos próprios problemas... mas, desde então, comecei a analisar
mais seriamente minhas atitudes. Agora, tentava comer mais e tinha ganhado exatamente meio quilo, o que me pareceu errado e torturante até meu amigo Trey comentar
que eu estava “muito bonita ultimamente”. Isso reforçou a ideia de que alguns quilinhos a mais não me matariam, e poderiam até me fazer bem. Não que eu fosse admitir
isso para Adrian.
Todos nos levantamos quando Sonya entrou. Ela estava gloriosa, com um vestido de seda cor de marfim e rosinhas brancas enfeitando o cabelo flamejante. A rainha estava
magnífica, mas havia um brilho em torno de Sonya que diminuía até a beleza de Lissa. Talvez fosse algo inerente às noivas. Havia uma aura de amor ao redor dela que
a fazia brilhar. Fiquei surpresa ao sentir uma pontada no peito.
Ian devia ter ficado desapontado ao não ver nenhum derramamento de sangue, mas a cerimônia foi doce e cheia de emoção. Não conseguia acreditar na severidade dos
meus colegas alquimistas - eu estava à beira de lágrimas quando o casal declamou os votos. Mesmo se eles não tivessem passado por poucas e boas para ficarem juntos,
a cerimônia de Sonya e Mikhail era daquelas de apertar o peito. Enquanto ouvia as juras de amor eterno que faziam um ao outro, me peguei desviando o olhar para Adrian.
Ele não percebeu que eu o estava observando, mas pude notar que a cerimônia estava tendo o mesmo efeito sobre ele. Ele estava arrebatado.
Ele tinha um olhar raro e doce nos olhos, e me lembrou do artista perturbado que vivia sob todo aquele sarcasmo. Eu gostava disso nele - não que ele fosse perturbado,
mas da maneira como podia sentir as coisas com tamanha profundidade e depois transformar essas emoções em arte. Eu tinha sentimentos, claro, como todas as pessoas,
mas essa capacidade de expressá-los de forma criativa era uma área em que eu nunca teria muita habilidade. Não fazia parte da minha natureza. Às vezes eu tirava
sarro da arte dele, especialmente das obras mais abstratas. Mas, em segredo, admirava muito seu talento e adorava as muitas facetas de sua personalidade.
Enquanto isso, precisei me esforçar para manter uma expressão neutra, de uma alquimista normal que não ligava nem um pouco para os eventos profanos dos vampiros.
Nenhum dos meus colegas me questionou - então, pelo jeito, consegui. Talvez levasse jeito para o pôquer.
Sonya e Mikhail se beijaram e a multidão irrompeu em vivas. As pessoas fizeram ainda mais barulho quando ele deu um segundo beijo ardente nela, e depois um terceiro.
O estágio seguinte da cerimônia, a recepção, aconteceria no hotel em que Adrian e a maioria dos Moroi estavam hospedados. Sonya e Mikhail foram os primeiros a sair,
seguidos pela rainha e outros nobres importantes. Stanton, Ian e eu esperamos, pacientes, até que dessem sinal para que nossa fileira se alinhasse para entrar nas
limusines que levariam os convidados pelo trajeto de um quilômetro até o hotel. Não seria uma caminhada tão ruim, mesmo de salto, não fosse a temperatura congelante.
Nossa vez chegou e entramos no fundo de uma limusine.
- Agora só precisamos sobreviver à recepção - disse Ian quando o motorista fechou a porta. - Pelo menos temos um carro só para nós.
De repente, a porta se abriu e Abe entrou rapidamente.
- Tem espaço para mais um? - Ele abriu um sorriso ao ver Stanton e eu. - É um prazer vê-las de novo. E você deve ser Ian. Prazer. - Abe estendeu a mão. Por um momento,
tive a impressão de que Ian não a apertaria, mas um olhar cortante de Stanton ordenou o contrário. Depois disso, Ian ficou olhando para a mão como se esperasse que
ela fosse soltar fumaça.
O trajeto durou mais ou menos cinco minutos, mas pude ver no rosto dos alquimistas que, para eles, pareceu durar cinco horas.
- Acho maravilhoso vocês três terem sido convidados - disse Abe, completamente à vontade. - Considerando o quanto trabalhamos juntos, devíamos ter mais interações
agradáveis como essa, não acham? Talvez vocês comecem a nos convidar para seus casamentos também. - Ele piscou para mim. - Tenho certeza de que você deve ter uma
fila de pretendentes.
Nem mesmo Stanton conseguiu se manter impassível. O horror no rosto dela mostrava que havia poucas coisas mais profanas do que a presença de um vampiro em um casamento
humano. Ela pareceu visivelmente aliviada quando chegamos ao hotel, mas ainda não estávamos livres de Abe. Alguém muito atencioso, provavelmente Colleen, havia nos
colocado numa mesa junto com ele, talvez imaginando que seria bom ficarmos sentados perto de um Moroi que conhecíamos. Abe pareceu se divertir muito com o constrangimento
criado pela sua presença, mas eu precisava admitir que estava aliviada que alguém reconhecesse a tensão entre nós em vez de simplesmente fingir que estava tudo bem.
- Não tem sangue aí - Abe disse quando o jantar foi servido. Nós três estávamos hesitando em cortar o frango ao molho marsala. - Só tem sangue nos drinques e você
precisa pedir por eles no balcão. Ninguém vai colocar nada na bebida de vocês, e os fornecedores estão em outra sala.
Ian e Stanton ainda não pareciam convencidos. Percebi que precisava ser a corajosa dos três e comecei a comer sem hesitar mais. Os vampiros podiam ser criaturas
antinaturais, mas tinham um excelente gosto para comida. Um instante depois, os outros alquimistas me imitaram, e até eles foram obrigados a admitir que estava muito
boa.
Quando os pratos foram tirados, Ian criou coragem para ir ao banheiro, dando a Stanton uma breve chance de se aproximar para pedir um relato em sussurros.
- Estava tudo bem quando você saiu? - Com ou sem relações tensas, nossa missão de manter os Moroi estáveis não havia mudado.
- Sim - respondi. - Estava tudo calmo lá. Nenhum sinal de problema. - Ela não precisava saber sobre meus dramas pessoais. Mantendo o tom descontraído, perguntei:
- Alguma notícia dos guerreiros? Ou do tal Marcus Finch?
Stanton fez que não.
- Nenhuma. Mas aviso você se descobrirmos alguma coisa.
Respondi com um sorriso educado, duvidando seriamente das palavras dela. Nem sempre gostava das minhas missões alquimistas, mas passei a maior parte da vida seguindo
ordens sem questionar, pois acreditava que meus superiores sabiam o que precisava ser feito e estavam agindo pelo bem maior. Os acontecimentos recentes, porém, tinham
colocado isso em questão. Quando tivemos de combater alguns caçadores de vampiros malucos que se autodenominavam Guerreiros da Luz, Stanton havia escondido informações
de mim, comentando que só sabíamos o estritamente necessário. Depois tentou pôr panos quentes na questão, me elogiando por ser uma excelente alquimista que entendia
esse tipo de conduta, mas o incidente havia me deixado fervendo de raiva. Eu não queria ser um fantoche nas mãos de ninguém. Podia aceitar que a causa maior às vezes
exigia decisões difíceis, mas me recusava a ser usada ou colocada em situações de perigo por causa de mentiras “importantes”. Eu tinha dado minha vida aos alquimistas,
sempre acreditando que o que eles faziam e me falavam era certo. Achava que eu era importante, que eles sempre cuidariam de mim. Agora, não tinha mais tanta certeza.
Porém... o que eu podia fazer? Estava presa por juramento aos alquimistas. Gostando ou não do que faziam comigo, eu não tinha saída, não tinha como questioná-los...
Ao menos era o que eu pensava até descobrir a existência de Marcus Finch.
Eu ficara sabendo dele pouco tempo antes, logo depois de descobrir que, no passado, ele havia cruzado o caminho dos guerreiros para salvar um Moroi chamado Clarence.
Embora os guerreiros normalmente só fossem atrás dos Strigoi, um grupo deles decidiu atacar Clarence. Marcus havia defendido Clarence dos guerreiros, convencendo-os
a deixar o vampiro em paz. Quase acreditei que Clarence estava inventando a história até ver uma foto de Marcus.
E foi então que as coisas ficaram muito esquisitas. Marcus parecia ter cruzado com os alquimistas também. Na realidade, Clarence e um dos guerreiros haviam dado
a entender que Marcus fora um alquimista no passado, mas não era mais. Não acreditei até ver a foto dele. Ele não tinha um lírio dourado, mas uma grande tatuagem
tribal em tinta azul, de tamanho suficiente para cobrir a dourada se estivesse tentando esconder o lírio.
Ver aquilo mudou a minha vida. Eu não fazia ideia de que era possível tatuar por cima de algo tão potente. Sem dúvida, nunca tinha pensado que alguém poderia abandonar
os alquimistas ou mesmo que alguém poderia querer fazer isso, considerando que nosso objetivo era infundido dentro de nós quase desde o nascimento. Como alguém poderia
considerar a ideia de abandonar nossas missões? Como alguém poderia se tornar um renegado e simplesmente dar as costas para os alquimistas? O que havia acontecido
para ele fazer uma coisa dessas? Será que havia passado por coisas parecidas com as que eu tinha vivido?
E será que o deixaram ir embora?
Quando perguntara a respeito dele, Stanton dissera que os alquimistas não tinham nenhuma informação sobre Marcus, mas eu sabia que ela estava mentindo. Ela não fazia
ideia de que eu tinha aquela foto. A nova tatuagem dele podia ser grande o bastante para cobrir o lírio, mas dava para ver traços do que estava por baixo, o que
provava que, de fato, ele havia sido um de nós. E, se tinha a marca alquimista, sem dúvida eles sabiam quem ele era. Estavam encobrindo o caso, o que me deixou ainda
mais intrigada. Na verdade, eu estava um tanto obcecada por Marcus. Algum instinto me dizia que ele era a chave para os meus problemas, que ele poderia me ajudar
a descobrir os segredos e as mentiras que os alquimistas me contavam. Infelizmente, eu não fazia a menor ideia de como encontrá-lo.
- É importante que ninguém aqui saiba o que você está fazendo, então não se esqueça de ser discreta - acrescentou Stanton, como se eu precisasse ser lembrada. Uma
ruga de preocupação surgiu entre as sobrancelhas dela. - Eu estava especialmente preocupada com a vinda daquele Ivashkov para o casamento. Ninguém pode saber que
vocês dois são mais do que meros conhecidos. Detalhes como esse podem comprometer nossa missão.
- Ah, não - respondi rapidamente. - Não precisa se preocupar com Adrian. Ele entende a importância do trabalho. Nunca faria nada que pudesse comprometer a missão.
Ian voltou e nossa conversa se encerrou ali. O jantar logo deu lugar ao baile. Com a atmosfera mais relaxada, vários Moroi vieram se apresentar. Eu me senti quase
tão popular quanto os noivos. Ian apertou tantas mãos que acabou ficando imune a elas. E, por mais constrangedor que fosse para meus colegas, pude notar que o evento
realmente estava atingindo o objetivo de aliviar as relações entre alquimistas e Moroi. Stanton e Ian estavam longe de se tornar amigos de qualquer um deles, mas
claramente tiveram uma surpresa agradável com a simpatia e a gentileza da maioria dos convidados.
- Estou contente por termos essa chance de ficar juntos - Ian me disse durante uma pausa nas nossas relações públicas. - É tão difícil com nosso trabalho, sabe?
Estou em St. Louis agora, nos arquivos da unidade de lá. Para onde eles mandaram você?
O sigilo era fundamental para proteger Jill.
- Estou fazendo trabalho de campo, mas não posso dizer onde. Sabe como é.
- Claro, claro. Mas, sabe, se quiser fazer uma visita um dia... posso mostrar a cidade para você.
O desespero dele era quase fofo.
- Tipo, para tirar férias?
- Bom, é... Er, não exatamente. - Ele sabia muito bem que era raro alquimistas conseguirem férias. - Haverá cerimônias de fim de ano, sabe. Se quiser ir, hum, é
só me avisar.
Os sacerdotes alquimistas realizavam cerimônias especiais de fim de ano nas principais unidades. Algumas famílias alquimistas faziam questão de ir sempre. Fazia
tempo que eu não comparecia a uma, já que minhas missões estavam me levando de um lado para o outro ultimamente.
- Me lembrarei disso.
Houve uma longa pausa, e em seguida ele balbuciou:
- Queria tirar você para dançar, sabe. Mas não seria certo neste lugar tão profano.
Forcei um sorriso.
- Claro. Além disso, estamos aqui a trabalho. Precisamos nos concentrar em criar boas relações com eles.
Ian ia começar a responder quando uma voz conhecida nos interrompeu.
- Srta. Sage?
Levantamos os olhos e encontramos Adrian parado à nossa frente, elegante em seus vários tons de azul. Seu rosto era o retrato da polidez e do autocontrole, o que
significava que algo desastroso estava prestes a acontecer.
- É um prazer vê-la de novo - ele disse, como se não nos víssemos havia um certo tempo, e eu assenti. Como eu garantira a Stanton, Adrian sabia que familiaridade
demais entre nós poderia criar um rastro até Jill. - Acho que acabei de ouvir vocês falando sobre criar boas relações. É isso mesmo?
Eu estava sem palavras, então Ian respondeu por mim.
- Exato. Estamos aqui para tornar as coisas mais amigáveis entre nossos povos. - A voz dele, porém, não era nada amigável.
Adrian assentiu, muito sério, como se não tivesse notado a hostilidade de Ian.
- Acho uma excelente ideia. E pensei em um excelente gesto para representar nosso futuro juntos. - O rosto de Adrian parecia inocente, mas havia uma faísca maliciosa
em seus olhos que eu conhecia muito bem. Ele estendeu a mão para mim. - Quer dançar comigo?
4
Congelei. Não confiava na minha própria voz.
O que Adrian tinha na cabeça? Além de todo o drama entre nós, era absolutamente imperdoável que ele me convidasse para dançar ali, na frente de outros Moroi e alquimistas.
Talvez em Palm Springs, onde a situação era um pouco mais tranquila com meus amigos, não seria um pedido tão maluco. Mas ali? Ele estava correndo o risco de expor
nossa intimidade, o que, por sua vez, colocaria Jill em perigo. Pior: poderia levantar suspeitas de que ele sentia algo por mim. Mesmo se eu insistisse que não correspondia
aos sentimentos dele, o fato de a situação ter chegado até aquele ponto poderia me trazer sérios problemas com os alquimistas.
Enquanto todos esses pensamentos se misturavam na minha cabeça, uma ideia ainda mais inquietante surgiu. Um bom alquimista não deveria se preocupar com essas coisas.
Um bom alquimista simplesmente ficaria horrorizado com o problema mais imediato: dançar com um vampiro. Tocar em um vampiro. Ao perceber isso, rapidamente fiz uma
expressão de choque, esperando parecer convincente.
Felizmente, todos pareciam escandalizados demais para prestar atenção em mim. As boas relações tinham um limite. Stanton e Ian estavam com expressões sinceras de
horror. Os Moroi por perto, embora não tão espantados, pareciam perplexos com a quebra de etiqueta. No entanto... também vi algumas trocas de olhares que mostravam
que eles não estavam inteiramente surpresos que Adrian Ivashkov sugerisse algo tão indecoroso. Era uma atitude muito comum em relação a ele. As pessoas sempre davam
de ombros e diziam: “Ah, é o Adrian...”.
Ian foi o primeiro a recuperar a voz.
- Ela... Não! Ela não pode, de jeito nenhum!
- Por que não? - Adrian olhou para todos, ainda sorridente e despretensioso. - Somos todos amigos aqui, não somos?
Abe, que raramente se surpreendia com alguma coisa, conseguiu disfarçar um pouco da sua perplexidade.
- Tenho certeza de que não é nada de mais. - Seu tom não demonstrava tanta certeza assim. Ele sabia que Adrian não era um completo estranho para mim, mas certamente
imaginou que eu teria as mesmas hesitações de todo alquimista. Como aquela noite havia demonstrado, a maioria de nós ainda tinha problemas com meros apertos de mão.
Stanton parecia no meio de uma batalha mental. Eu tinha certeza de que ela achava o convite descabido... mas sabia da necessidade de manter a paz naquela situação.
Ela engoliu em seco.
- Pode... pode ser um bom gesto. - Ela me lançou um olhar solidário que parecia dizer: “Às vezes é preciso sofrer pelo bem do grupo”.
Ian se voltou para ela imediatamente.
- Você está maluca?
- Sr. Jansen - ela retrucou, transmitindo uma rígida advertência naquelas palavras.
Todos os olhares se voltaram para mim quando perceberam que, no fim das contas, a decisão era minha. Nesse momento, não sabia se deveria ficar escandalizada ou com
medo, e a ideia de dançar com Adrian fazia eu me sentir dos dois jeitos. Encontrei os olhos de Stanton e dei um lento aceno com a cabeça.
- Claro. Tudo bem. Boas relações, não é?
O rosto de Ian ficou vermelho, mas outro olhar contundente de Stanton o manteve quieto. Enquanto Adrian me conduzia até a pista de dança, ouvi alguns sussurros de
Moroi curiosos sobre “aquela pobre alquimista” e como “às vezes ele é tão imprevisível”.
Adrian pôs o braço ao redor da minha cintura, perfeitamente respeitável e distante. Tentei não pensar na última vez que estive nos braços dele. Mesmo com o devido
espaço entre nós, nossas mãos ainda estavam unidas, nossas posturas ainda eram íntimas. Eu estava completamente atenta ao toque de seus dedos sobre meu corpo. Era
macio e delicado, mas parecia transmitir um calor e uma intensidade fora do comum.
- O que você tem na cabeça? - perguntei enquanto nos movíamos ao som da música. Eu estava me esforçando para ignorar o toque de suas mãos. - Sabe a encrenca em que
pode ter me metido?
Adrian abriu um sorriso largo.
- Nah. Eles estão morrendo de pena de você. Você vai virar uma mártir depois de dançar com um vampiro cruel e perverso. Com emprego vitalício entre os alquimistas.
- Achei que você não fosse me pressionar com... sabe... aquelas coisas...
O olhar inocente dele voltou.
- Falei alguma palavra sobre isso? Só convidei você para dançar como um gesto político, nada mais. - Ele fez uma pausa para criar impacto. - Parece que é você quem
não consegue tirar “aquelas coisas” da cabeça.
- Pare de usar minhas palavras contra mim! Isso não... não é nada certo.
- Você devia ver a cara dessa Stanton olhando para a gente - ele comentou, divertido, olhando atrás de mim.
- Está todo mundo olhando para a gente - resmunguei. Não era como se o salão inteiro tivesse parado para olhar, mas definitivamente havia vários olhares pasmos e
curiosos com a visão impensável de um Moroi e uma humana (uma alquimista, ainda por cima) dançando juntos.
Ele assentiu e me fez rodar uma vez. Ele era um excelente dançarino, o que não me surpreendia. Ele podia ser impetuoso e impertinente, mas sabia bem os passos. Talvez
aulas de dança fossem comuns para crianças da elite Moroi. Ou talvez ele simplesmente tivesse um talento natural para usar o corpo. Aquele beijo sem dúvida havia
demonstrado esse talento...
Argh. Adrian estava certo. Era eu quem não conseguia superar “aquelas coisas”.
Sem desconfiar dos meus pensamentos, ele voltou a olhar para Stanton.
- Ela está com cara de um general que acabou de mandar o exército numa missão suicida.
- Que bom que ela se importa - eu disse. Por um momento, esqueci minhas aflições na pista de dança enquanto me lembrava da política de retenção de informações de
Stanton.
- Posso puxar você mais para perto, se quiser - ele disse. - Só para ver o quanto ela se importa. Estou sempre disposto a ajudar, sabe.
- Que ótimo parceiro você é - ironizei. - Se me colocar em risco for pelo bem maior, Stanton provavelmente não vai fazer nada se você der em cima de mim.
O sorriso sarcástico de Adrian se desfez.
- Ela chegou a falar a verdade sobre aquele cara que você estava tentando encontrar? Martin?
- Marcus - corrigi, franzindo a testa. A mentira dela ainda me incomodava. - Ela continua falando que não sabe nada sobre ele, e não posso insistir muito, senão
ela vai desconfiar.
- Pensei num jeito de você encontrar esse cara - Adrian disse. Eu teria achado que era brincadeira se sua expressão não estivesse tão séria.
- Você pensou? - perguntei. Os alquimistas tinham inúmeros dados à sua disposição, de todo tipo de agência ou organização. Eu andara vasculhando tudo nas últimas
semanas, e achava improvável que Adrian tivesse acesso a alguma coisa que eu não tinha.
- Sim. Você tem a foto dele, não tem? Não pode fazer aquele mesmo feitiço da outra noite? Localizar o cara daquele jeito?
Fiquei tão surpresa que quase tropecei. Adrian me apertou com mais força para que eu não caísse. Senti um calafrio quando esse pequeno gesto nos aproximou. A tensão
entre nós aumentou ainda mais e percebi que, assim como nossos corpos, nossos lábios também estavam mais próximos.
Tive um pouco de dificuldade para responder, por estar tão próxima dele e também por ainda estar atordoada com o que ele havia dito.
-É... uau... não é uma má ideia...
- Eu sei - ele disse. - Até eu estou meio surpreso também.
As circunstâncias de fato não eram diferentes de quando procurei a irmã da sra. Terwilliger. Eu precisava localizar alguém que nunca tinha visto na vida. Tinha uma
foto, que era o que o feitiço exigia. A diferença era que eu mesma começaria o feitiço. Era uma magia complexa, e eu sabia que as instruções da sra. Terwilliger
tinham me ajudado. Também havia o dilema moral de praticar esse tipo de feitiço sozinha. Minha consciência lidava mais tranquilamente com a magia quando eu me sentia
coagida a usá-la.
- Não posso tentar até o mês que vem - eu disse, me lembrando do livro de feitiços. - Quer dizer, tenho a foto aqui comigo, mas o feitiço precisa ser feito durante
a lua cheia. Hoje é a última noite de lua cheia deste mês, e eu nunca conseguiria os ingredientes a tempo.
- Do que você precisa?
Eu listei e ele assentiu, jurando que conseguiria encontrá-los.
Dei um riso zombeteiro.
- Onde você vai conseguir erva-doce e hissopo a esta hora da noite? Nesta cidade?
- Aqui é cheio de boticários estranhos. Tem uma lojinha de coisas naturais que vende sabonetes e perfumes feitos de tudo o que você pode imaginar. Tenho certeza
de que lá tem o que você precisa.
- E eu tenho certeza de que já está fechada. - Ele me fez dar mais uma volta cheia de floreios, e eu mantive o ritmo com perfeição.
A música estava chegando ao fim. O tempo voou mais rápido do que eu imaginara. Tinha me esquecido dos olhares curiosos. Tinha me esquecido até que estava com um
vampiro. Simplesmente estava dançando com Adrian, o que parecia simples e natural, desde que eu não pensasse na plateia ao nosso redor.
Ele voltou a assumir aquele ar malandro.
- Não precisa se preocupar. Posso achar a dona e convencê-la a abrir uma exceção.
Resmunguei:
- Não. Nada de compulsão. - Compulsão era uma habilidade que os vampiros tinham de forçar os outros a fazer sua vontade. Todos os vampiros a possuíam em determinado
grau, e nos usuários de espírito ela era mais forte. A maioria dos Moroi considerava aquilo imoral. Para os alquimistas, era um pecado.
A música terminou, mas Adrian não me soltou imediatamente. Ele se aproximou mais um pouco.
- Você quer esperar mais um mês para encontrar o tal Marcus?
- Não - admiti.
Os lábios dele estavam a um centímetro dos meus.
- Então me encontre daqui a duas horas na entrada de serviço do hotel. - Dei um leve aceno e ele recuou, soltando minhas mãos. - Eis mais um sinal de nossas boas
relações. - Com uma reverência que poderia ter vindo diretamente de um romance de Jane Austen, ele apontou para o bar e falou bem alto. - Obrigado pela dança. Posso
acompanhá-la para pegar alguma bebida?
Segui sem dizer uma palavra, com a cabeça girando enquanto pensava no que precisaria fazer dali a duas horas. No bar, Adrian me surpreendeu ao pedir um refrigerante.
- Está se contendo, hein? - comentei, lembrando que ele precisava ficar sóbrio para usar o espírito. Torci para que já não tivesse bebido demais. Para ele, a única
coisa melhor que um open bar seria um maço de cigarros aparecendo na sua porta.
- Sou um mestre do autocontrole - ele afirmou.
Eu não tinha tanta certeza quanto a isso, mas não argumentei. Tomei um gole da minha Coca Diet e ficamos ali parados em um silêncio agradável. Então dois Moroi se
aproximaram do balcão, conversando com o volume e a desinibição daqueles que não tinham hesitado em aproveitar as bebidas grátis.
- Bom, por mais liberal que a menina seja, ela é realmente um colírio - um deles disse. - Eu podia ficar o dia inteiro olhando pra ela, ainda mais naquele vestido.
O amigo dele concordou.
- É um belo avanço depois da Tatiana. É uma pena o que aconteceu com ela, mas talvez a mudança tenha sido pra melhor. Aquela velha sabia sorrir? - Os dois gargalharam
com a piada.
Ao meu lado, o sorriso de Adrian se desfez e ele ficou completamente quieto. Tatiana, a antiga rainha Moroi, era tia-avó de Adrian. Ela havia sido brutalmente assassinada
no verão anterior e, embora Adrian quase nunca falasse sobre ela, ouvi várias pessoas dizerem que eles eram próximos. Ele cerrou os dentes e começou a se virar.
Rapidamente, agarrei sua mão livre, segurando-a com força.
- Adrian, não - eu disse, baixinho.
- Sydney, eles não podem falar uma coisa dessas. - Havia uma expressão agressiva no rosto dele que eu nunca tinha visto antes.
Apertei com mais força.
- Eles estão bêbados, e são dois idiotas. Não merecem seu tempo. Por favor, não comece uma briga aqui. Por Sonya. - Hesitei. - E por mim.
O rosto dele ainda estava cheio de fúria e, por um momento, pensei que ia me ignorar e atirar um copo naqueles dois. Ou pior. Já tinha visto usuários de espírito
furiosos, e eram assustadores. Mas a raiva foi diminuindo, e senti a mão dele relaxar na minha. Ele fechou os olhos por um instante e, quando voltou a abri-los,
estavam embaçados e desfocados.
- Ninguém conhecia Tatiana de verdade, Sydney. - A tristeza na voz dele partiu meu coração. - Todos acham que ela era uma vaca. Não sabem como ela era engraçada
ou como sabia ser doce. Você não tem ideia... não tem ideia de como sinto falta dela. Ela não merecia morrer daquele jeito. Era a única pessoa que me entendia...
mais que meus próprios pais. Ela me aceitava. Via o que tinha de bom na minha alma. Era a única pessoa que acreditava em mim.
Ele estava na minha frente, mas não estava comigo. Reconheci o caráter desconexo e devorador do espírito. Mexia com a cabeça dos usuários. Às vezes os deixava dispersos
e distantes, como ele estava agora. Às vezes punha em xeque sua noção de realidade. E, às vezes, criava um desespero de consequências devastadoras.
- Ela não era a única - eu disse. - Eu acredito em você. Ela está em paz agora e nada que eles disserem vai mudar quem ela era. Volte pra mim, por favor.
Ele estava olhando fixamente para um ponto que eu não conseguia enxergar. Depois de alguns segundos de terror, piscou e voltou a se focar em mim. Seu rosto ainda
estava triste, mas, pelo menos, ele estava no controle de novo.
- Estou aqui, Sage. - Adrian me soltou e olhou ao redor para ter certeza de que ninguém havia percebido que estávamos de mãos dadas. Felizmente, os noivos tinham
ido para a pista, e todos estavam hipnotizados demais observando o casal. - Duas horas.
Ele tomou o resto do refrigerante e se afastou. Fiquei olhando até ele desaparecer no meio da multidão e, então, voltei para a mesa, olhando o relógio no caminho.
Duas horas.
Ian saltou da cadeira quando cheguei.
- Você está bem?
Nenhum convidado Moroi estava por perto, então Stanton era a única perto o suficiente para ouvir. Ela parecia igualmente preocupada.
- Sinto muito por você ter que passar por isso, srta. Sage. Como sempre, sua dedicação ao trabalho é admirável.
- Faço o possível para ajudar - respondi. Ainda estava preocupada com Adrian e torci para que não voltasse a cair nas garras do espírito.
- Ele machucou você? - Ian perguntou, apontando. - Suas mãos?
Olhei para baixo e percebi que estava esfregando as mãos uma na outra. Elas ainda estavam cálidas pelo toque de Adrian.
- Oi? Ah, não. Só, hum, estou tentando tirar a mácula. Na verdade, acho que deveria lavar as mãos. Já volto.
Eles pareceram achar essa ideia perfeitamente plausível e não me detiveram enquanto eu seguia apressada para o banheiro. Livre da preocupação deles, soltei um suspiro
aliviado. Havia desviado de dois problemas, não deixando os alquimistas saberem que eu era amiga de um vampiro nem que estava tramando magia com ele.
- Sydney?
Eu estivera tão distraída no caminho para o banheiro que não percebera Rose ali perto, junto com Dimitri Belikov. Eles estavam de braços dados, sorrindo com a minha
surpresa. Não tinha visto Dimitri naquela noite, e seu traje preto e branco de guardião deixou claro por quê. Ele estava ali a serviço e, sem dúvida, tinha sido
uma das sombras que vi se moverem no meio das árvores da estufa, supervisionando tudo. Ele devia estar num intervalo agora, senão jamais estaria tão à vontade, mesmo
com Rose. Claro que, mesmo “à vontade”, Dimitri poderia pular no meio de um combate a qualquer momento.
Eles formavam um casal lindo. O cabelo e os olhos castanhos dele combinavam com os dela, e os dois tinham uma beleza estonteante. Não era nenhuma surpresa que Adrian
tivesse se apaixonado por ela, pensei, e fiquei surpresa com quanto essa ideia me incomodou. Assim como Sonya e Mikhail, havia um laço de amor entre Rose e Dimitri
que era quase palpável.
- Você está bem? - Rose perguntou, gentil. - Não consigo acreditar que Adrian fez aquilo com você. - Ela reconsiderou. - Na verdade, acho que consigo, sim.
- Estou bem - respondi. - Acho que os outros alquimistas ficaram mais horrorizados do que eu. - Então lembrei que, embora Rose e Dimitri soubessem que eu conhecia
Adrian de Palm Springs, não podia parecer muito à vontade. Voltei a assumir a expressão de consternação. - Mesmo assim, aquilo foi completamente descabido.
- Decoro nunca foi o forte do Adrian - Dimitri comentou.
Rose riu com o eufemismo.
- Se faz você se sentir melhor, vocês ficaram muito bonitos dançando juntos. Foi difícil acreditar que são inimigos mortais... ou seja lá o que os alquimistas pensam.
- Ela apontou para o meu vestido. - Estavam combinando.
Havia me esquecido completamente da minha roupa. Era um vestido de seda de manga curta, quase inteiramente preto, exceto por alguns salpicos de azul-real na saia.
Era uma cor mais ousada do que as que eu costumava usar, mas o preto equilibrava. Ao me lembrar dos tons de azul de Adrian, percebi que, de fato, nossas paletas
se complementavam.
Vocês ficaram muito bonitos dançando juntos.
Não sei como estava minha expressão, mas Rose riu novamente.
- Não entre em pânico - ela disse, com uma faísca no olhar. - Foi bom ver uma humana e um Moroi que pareciam combinar tanto um com o outro.
Combinar tanto um com o outro.
Por que ela ficava dizendo essas coisas? Aquelas palavras estavam me atrapalhando a manter uma conduta fria e racional. Eu sabia que ela estava falando naquele tom
cordial e diplomático que todos se esforçavam para usar ali. Mas, por mais liberais que Rose e Dimitri fossem, tinha certeza de que até mesmo eles ficariam escandalizados
se soubessem a verdade sobre os sentimentos de Adrian e sobre aquele beijo incrível.
Passei o resto da recepção com um nó na garganta. Felizmente, não precisei esconder como me sentia. Tanto os Moroi como os alquimistas esperavam que eu ficasse daquele
jeito. Aliás, não demorou para que Stanton tivesse que suportar sua própria cota de “diplomacia” quando um Moroi de meia-idade a convidou para dançar, obviamente
seguindo a demonstração de boas relações de Adrian. Pelo visto, por mais ultrajante que tivesse sido o comportamento dele, pelo menos um Moroi achou que tinha sido
uma boa ideia e quis seguir o exemplo. Stanton não teve como recusar depois de ter me incentivado, e foi para a pista de dança rangendo os dentes. Ninguém chamou
Ian para dançar, o que provavelmente foi melhor. Ele não pareceu nem um pouco decepcionado.
Adrian não estava por perto; imaginei que estivesse juntando os ingredientes para o feitiço. O tempo foi passando e, quando a marca das duas horas estava perto,
lembrei que, embora tivesse levado a foto de Marcus comigo na viagem (raramente a deixava longe de vista), a havia deixado no meu quarto. Pedi licença a Ian, dizendo
que precisava voltar para a pousada para trocar de sapato e que pegaria um dos carros que transportavam os convidados do casamento pela cidade.
O rosto de Ian imediatamente assumiu um ar protetor.
- Quer que eu vá com você? Não é seguro lá fora.
- Não - respondi -, você precisa ficar aqui. Stanton está correndo mais perigo. - Ela estava perto do bar, conversando com dois Moroi. Imaginei se teria alguma outra
dança no futuro próximo. - Além disso, ainda é cedo; tem mais vampiros aqui do que lá fora. Pelo menos a pousada é administrada por humanos.
Ian não teve como discordar da minha lógica alquimista e, ainda que relutante, me deixou ir. Foi fácil encontrar um táxi e consegui fazer o trajeto de ida e volta
quase no tempo perfeito. Cheguei até a trocar os sapatos para comprovar minha história depois. Embora tivesse usado salto alto para o casamento, tinha colocado um
par de sandálias baixas na mala para alguma eventualidade - um bom planejamento para qualquer ocasião.
Quando cheguei à entrada de serviço, porém, percebi que meu plano perfeito tinha uma falha. Com a pressa e o nervosismo, havia deixado meu xale quente e pesado no
carro, que a essa altura já devia estar longe. Agora, esperando por Adrian no frio cortante da Pensilvânia, coloquei os braços ao redor do corpo e torci para não
congelar antes que ele aparecesse.
No entanto, ele foi fiel à palavra e chegou exatamente na hora marcada, com uma sacola a tiracolo. Melhor ainda: tinha voltado completamente ao normal.
- Tudo pronto - ele me disse.
- Sério? - perguntei, batendo os dentes. - Encontrou tudo?
Ele deu um tapinha na sacola.
- Você pede, eu entrego. Agora, onde vamos fazer isso?
- Em algum lugar afastado. - Olhei ao redor. Depois do estacionamento, havia um terreno baldio que parecia servir. - Lá.
Atravessar o estacionamento asfaltado não foi nenhum problema, mas quando entramos no campo coberto de neve, nem mesmo minhas sandálias práticas serviram para alguma
coisa. Estava com tanto frio que imaginei que minha pele estivesse tão azul quanto o vestido.
- Espere - Adrian disse a certa altura.
- Precisamos ir mais para lá - resmunguei.
Ele, que havia tido o bom senso de colocar um casaco de lã, começou a tirá-lo.
- Toma.
- Você vai ficar com frio - protestei, mas não o impedi de dar um passo à frente e me ajudar a vesti-lo. Adrian era mais alto do que eu, de modo que o casaco, que
ia até seus joelhos, felizmente me cobriu por inteiro. Cheirava a um misto de cigarro e colônia.
- Pronto. - Ele apertou o casaco com mais força ao meu redor. - Estou com uma camisa de manga longa e o terno. Agora vamos. Rápido.
Ele não precisou falar duas vezes. Além da temperatura, precisávamos terminar o feitiço antes que alguém nos visse. Nem mesmo eu teria como explicar aquilo aos alquimistas.
A lua ainda estava clara e reluzente quando finalmente encontramos um lugar aceitável. Examinei a sacola de Adrian, admirada por ele ter conseguido tudo, desde o
espelho até as ervas e flores secas. Ele ficou em silêncio enquanto eu ajeitava tudo, só abrindo a boca quando eu estava quase pronta para começar.
- Posso ajudar em alguma coisa? - perguntou, atencioso.
- Só fique de olho aberto - respondi. - E me segure se eu desmaiar.
- Com prazer.
Eu havia decorado o feitiço quando a sra. Terwilliger e eu fizemos juntas. Mesmo assim, estava nervosa por fazer aquilo sozinha, ainda mais porque o ambiente não
ajudava. Era meio difícil reunir a concentração mental necessária ajoelhada no meio da neve. Então me lembrei de Stanton e das mentiras que os alquimistas me contavam.
Uma centelha de fúria se acendeu em mim, gerando um calor diferente que usei para direcionar meus pensamentos enquanto olhava fixamente para a foto de Marcus. Ele
tinha a idade de Adrian, com o cabelo loiro na altura dos ombros, olhos azuis e melancólicos. A tatuagem em sua bochecha era um entrelaçado de meias-luas azul-escuras.
Aos poucos, fui mergulhando no feitiço.
Senti aquela mesma euforia enquanto o espelho se transformava na imagem de uma cidade. Nenhuma névoa me bloqueou, pois, como era de se imaginar, Marcus não estava
usando o mesmo tipo de magia protetora que a irmã da sra. Terwilliger. A paisagem à minha frente mostrava o que parecia um pequeno apartamento muito simples. Havia
um colchão sem estrado, e uma TV antiga ficava num dos cantos. Olhei ao redor procurando alguma característica marcante, mas não encontrei nada. A única janela do
cômodo finalmente me deu uma pista. Ao fundo, pude distinguir um edifício de estilo espanhol que parecia uma igreja ou mosteiro. Era de reboco branco, com torres
de cúpulas vermelhas. Tentei olhá-la mais de perto - voar, como tinha feito no outro feitiço -, mas subitamente senti o frio da Pensilvânia entrando no meu corpo.
A imagem se desfez em pedaços e eu estava de novo ajoelhada no meio da neve.
- Argh - resmunguei, colocando a mão na testa. - Por pouco.
- Viu alguma coisa? - Adrian perguntou.
- Nada que ajude.
Me levantei um pouco tonta, mas consegui ficar de pé. Pude ver que Adrian estava pronto para me pegar caso eu realmente caísse.
- Você está bem?
- Acho que sim. Só um pouco zonza pela queda de açúcar no sangue. - Devagar, fui pegando o espelho e a sacola. - Devia ter falado para você trazer suco de laranja
também.
- Talvez isso ajude. - Ele tirou do bolso do terno um cantil prateado e o estendeu para mim.
Era típico de Adrian oferecer álcool solicitamente.
- Você sabe que não bebo - eu disse.
- Alguns golinhos não vão deixar você bêbada, Sage. E esta é sua noite de sorte: é Kahlúa. Um licor cheio de açúcar, com sabor de café. Vai, experimenta.
Relutante, dei a sacola para ele e peguei o frasco enquanto começávamos a voltar para o hotel. Tomei um gole de má vontade e fiz uma careta.
- Isso não tem sabor de café. - Por mais que as pessoas enchessem as bebidas alcoólicas de firulas, eu sempre achava o gosto horrível. Não entendia como Adrian conseguia
beber tanto. Mas percebi o gosto do açúcar e, depois de alguns goles, me senti mais estável. Não bebi nada além disso, pois não queria ficar tonta por outros motivos.
- O que você viu? - Adrian perguntou quando chegamos ao estacionamento.
Descrevi o cenário que vi durante o feitiço e soltei um suspiro de frustração.
- Pode ser qualquer lugar na Califórnia. Ou no Sudoeste. Ou no México.
Ele parou e colocou a sacola no ombro.
- Talvez... - Ele tirou o celular do bolso do terno e digitou algumas coisas. Eu tremia e tentava manter a paciência enquanto ele buscava o que queria. - Parecia
com esse lugar?
Olhei para a tela e senti meu queixo cair. Estava olhando para uma foto do edifício da minha visão.
- Sim! O que é?
- É a antiga Missão de Santa Bárbara. - Logo depois, para o caso de eu precisar de ajuda, ele acrescentou: - Fica em Santa Bárbara.
- Como sabia disso? - exclamei. - Quer dizer, como conhece esse lugar?
Ele deu de ombros.
- Já fui para Santa Bárbara. Ajuda?
Meu desânimo anterior se transformou em euforia.
- Sim! Pela posição da janela, posso ter uma boa ideia de onde fica o apartamento. Acho que você encontrou Marcus Finch. - Tomada pela alegria, afaguei o braço dele.
Adrian pousou a mão enluvada em meu rosto e sorriu para mim.
- E pensar que Angeline disse que eu era bonito demais para ser útil. Parece que eu tenho alguma coisa para oferecer ao mundo, afinal.
- E continua bonito - eu disse, sem pensar. Mais um daqueles momentos intensos pairou entre nós, com o luar iluminando os traços marcantes do rosto dele. Então o
momento foi quebrado por uma voz na escuridão.
- Quem está aí?
Ambos tomamos um susto e demos um passo para trás quando um vulto vestido de branco e preto pareceu se materializar nas trevas. Um guardião. Não era ninguém que
eu conhecia, mas me dei conta de como havia sido boba de achar que poderíamos sair e entrar furtivamente no hotel sem sermos vistos. A região devia estar cheia de
guardiões, vigiando o local contra os Strigoi. Eles não teriam se importado com duas pessoas saindo, mas era óbvio que nosso retorno causaria suspeitas.
- E aí, Pete - Adrian disse, abrindo seu sorriso simpático. - Que bom ver você. Tomara que não esteja passando muito frio aqui fora.
O guardião pareceu relaxar um pouco ao reconhecer Adrian, mas ainda estava desconfiado.
- O que estão fazendo aqui fora?
- Só estou trazendo a srta. Sage de volta - disse Adrian. - Ela precisou pegar uma coisa no quarto dela.
Lancei um olhar confuso para ele. A pousada nem era naquela direção. Pete pareceu distraído por um momento. Então, fez que sim com a cabeça.
- Entendi. Bom, é melhor entrarem antes que congelem.
- Valeu - ele disse, me levando dali. - Não deixe de fazer um intervalo e experimentar os canapés. Estão incríveis.
- Você usou a compulsão no guardião - murmurei, depois que estávamos a uma distância segura.
- Só um pouquinho - ele disse, parecendo muito orgulhoso de si mesmo. - E estar aqui fora para acompanhar você é um motivo válido, em que ele não vai pensar muito
depois. Compelir alguém a acreditar numa história funciona melhor se tem um pouco de verdade...
- Adrian? Sydney?
Tínhamos quase chegado à porta dos fundos do hotel e agora estávamos cara a cara com uma figura vestida de cor de marfim. Sonya, envolta numa estola de pele, estava
diante de nós. Mais uma vez, fiquei admirada com a beleza e o brilho que ela parecia irradiar. Ela nos abriu um sorriso intrigado.
Ambos perdemos a fala. Adrian não tinha mais palavras ou truques agora. Sonya também era uma usuária de espírito, e a compulsão não funcionaria nela. Muito nervosa,
procurei alguma desculpa que não fosse Estávamos usando magia ilícita para revelar segredos que os alquimistas não querem que eu saiba.
- Por favor, não diga nada - falei de repente, erguendo o cantil. - Adrian estava me deixando beber um pouco da Kahlúa dele. Stanton vai me matar se descobrir.
Como era de se esperar, Sonya pareceu surpresa.
- Pensei que você não bebesse.
- A noite está meio estressante - eu disse, o que estava longe de ser mentira.
- E é de café - Adrian comentou, como se pudesse ajudar meu argumento.
Não tive certeza se Sonya se deixou convencer, então tentei mudar de assunto.
- Parabéns, aliás. Não consegui falar com você antes. Está linda.
Sonya deixou a curiosidade de lado e me abriu um sorriso.
- Obrigada. É meio surreal. Eu e Mikhail passamos por tanta coisa... houve momentos em que achei que nunca chegaríamos aqui. E agora... - Ela baixou os olhos para
o diamante que reluzia em sua mão. - Bom, aqui estamos nós.
- O que você está fazendo aqui fora, sra. Tanner? - Adrian havia se recuperado do susto e retomado a extroversão. - Não devia estar lá dentro admirando seu marido?
Ela riu.
- Ah, temos uma vida inteira pela frente. Pra ser sincera, só precisava sair um pouco do meio da multidão. - Sonya inspirou fundo aquele ar frio e cortante. - Mas
está na hora de voltar. Daqui a pouco vou atirar o buquê. Você não vai perder essa chance, vai? - Essa parte foi para mim.
Eu ri.
- Acho que vou deixar passar. Já causei especulações demais hoje.
- Ah, sim. Vocês dois e sua dança infame. - Sonya olhou de mim para ele, recuperando um pouco da perplexidade. - Vocês ficam muito bem juntos. - Um silêncio constrangedor
reinou por alguns segundos e, então, ela limpou a garganta. - Bom, vou voltar lá pra dentro, que está mais quentinho. Tomara que mude de ideia, Sydney.
Ela desapareceu pela porta de serviço, e resisti à vontade de bater a cabeça na parede.
- Ela sabe que a gente estava mentindo. Ela consegue ver essas coisas. - Usuários de espírito eram bons em interpretar gestos sutis e Sonya era uma das melhores
entre eles.
- Provavelmente - Adrian concordou. - Mas duvido que imagine que estávamos fazendo magia no meio da neve.
Um pensamento terrível me passou pela cabeça.
- Ai, meu Deus. Ela deve achar que saímos para... você sabe... fazer coisas, tipo, hum, românticas...
Adrian achou muito mais graça dessa ideia do que deveria.
- Viu, lá vem você de novo. É a primeira coisa em que você pensa. - Ele balançou a cabeça, melodramático. - Nem dá para acreditar que vive dizendo que eu sou o obcecado
aqui.
- Não estou obcecada! - exclamei. - Só estou falando que é a conclusão óbvia.
- Óbvia para você. Mas ela está certa sobre uma coisa: precisamos entrar. - Ele tocou o cabelo, ansioso. - Acho que meu gel congelou.
Devolvi o cantil para ele e abri a porta. Logo antes de entrar, hesitei e me voltei para ele.
- Adrian? Obrigada pela ajuda.
- Amigos são para essas coisas. - Ele segurou a porta e fez sinal para que eu entrasse.
- Pois é, mas você foi muito além por uma coisa que não tem nada a ver com você. Agradeço muito por isso. Não tinha obrigação de me ajudar. Não tem os mesmos motivos
que eu para desmascarar os alquimistas.
Sem saber o que mais dizer, fiz um aceno e entrei. Enquanto éramos envolvidos pelo calor e pelo barulho da multidão, pensei ter ouvido Adrian dizer: “Meus motivos
são outros”.
5
Fui embora um pouco depois com os alquimistas e não esperava ver Adrian por um bom tempo. Ele passaria mais alguns dias na Pensilvânia com os outros Moroi, então
não havia chances de pegarmos outro voo juntos. Minha viagem de volta para a Califórnia foi tranquila, embora minha mente estivesse acelerada com todos os acontecimentos
dos últimos dias. Entre o aviso enigmático da sr. Terwilliger e minha nova pista sobre Marcus, eu tinha muito com que me ocupar.
Recebi uma mensagem de Eddie enquanto chamava um táxi no aeroporto de Palm Springs: Vamos comer no Marquee’s. Quer vir? Uma segunda mensagem chegou logo em seguida:
Você pode nos levar pra casa no seu carro depois. Pedi ao taxista que me levasse para o bairro do outro lado da cidade, em vez da área de Amberwood, em Vista Azul.
Estava com fome, pois não tinham servido jantar na classe econômica; além disso, queria logo meu carro de volta.
Quando cheguei ao restaurante, encontrei Eddie e Angeline sentados num lado da mesa, e Jill no outro. Imediatamente entendi por que haviam escolhido comer tão longe
da escola. A distância significava que poderiam sair como um casal. Em Amberwood, todos achavam que éramos parentes. Eddie, Jill e eu fingíamos ser irmãos, e Angeline
era nossa prima. Eddie e Angeline tinham começado a namorar havia pouco tempo e precisavam esconder a relação dos nossos colegas para não levantar suspeitas. Aparentemente,
já atraíamos atenção demais sem isso.
Angeline estava encostada no braço de Eddie. Até ele parecia estar se divertindo, o que era gostoso de ver. Ele levava as responsabilidades tão a sério e estava
sempre tão tenso que parecia faltar pouco para que quebrasse no meio. Angeline - apesar de meio rude, imprevisível e muitas vezes inconveniente - vinha fazendo muito
bem a ele, por mais incrível que fosse. Naturalmente, isso não o tornara menos aplicado a seus deveres de guardião.
As coisas estavam um pouco diferentes do outro lado da mesa. Jill parecia completamente infeliz, afundada no banco de braços cruzados. Seu cabelo castanho-claro
estava caído para a frente, cobrindo parte do rosto. Depois de namoros fracassados com um cara que queria ser Strigoi e com o colega de quarto de Eddie, Jill havia
percebido que Eddie poderia muito bem ser o garoto certo para ela. Teria sido perfeito porque, durante muito tempo, ele nutrira uma paixão secreta por Jill, dedicando-se
a ela como um cavaleiro apaixonado que servia à sua donzela soberana. Ele nunca achou que fosse digno de Jill e, sem receber nenhum sinal do amor dela, se voltou
para Angeline, bem quando Jill havia mudado de ideia e começado a gostar dele. Às vezes, parecia uma comédia de Shakespeare... até eu olhar para o rosto de Jill.
Então ficava dividida porque sabia que, se Eddie voltasse a gostar dela, Angeline é que ficaria com aquele ar tristonho. Era uma confusão que me deixava feliz por
estar livre de qualquer relacionamento amoroso.
- Sydney! - Jill se iluminou ao me ver, tirando o cabelo do rosto. Talvez ela precisasse da distração ou, talvez, a nova atitude de Adrian em relação a mim havia
melhorado o humor dela também. De todo modo, fiquei feliz com o retorno de sua simpatia, em vez daqueles olhares emburrados e acusadores que vinha lançando na minha
direção desde que eu o rejeitara.
- Oi, gente - cumprimentei, me sentando no banco ao lado dela. Imediatamente, abri o álbum de fotos do celular, pois ela logo perguntaria sobre o casamento. Apesar
de toda aquela intriga, eu conseguira tirar algumas fotos sem que os outros alquimistas percebessem. Sabia que, mesmo se tivesse visto parte do casamento através
dos olhos de Adrian, Jill gostaria de examinar todos os detalhes.
Ela soltava suspiros de alegria enquanto olhava as fotos.
- Olhem só a Sonya. Ela está tão linda! - Angeline e Eddie se debruçaram para ver. - Ah, e aqui estão Rose e Lissa. Estão muito bonitas também. - Havia um tom estranho
na voz de Jill. Ela era amiga de Rose, mas sua meia-irmã ainda era um mistério. Jill e Lissa nem sabiam que eram irmãs até pouco tempo antes, e o clima político
instável vinha obrigando Lissa a se comportar mais como rainha do que como irmã para Jill. Era uma relação difícil para as duas.
- Foi divertido? - Eddie perguntou.
Considerei minha resposta por alguns segundos.
- Foi interessante. Ainda há muita tensão entre os alquimistas e os Moroi, então algumas partes foram meio estranhas.
- Pelo menos Adrian estava lá. Deve ter sido bom ter alguém que você conhecia - Angeline comentou, bem-intencionada, então apontou para a foto que eu havia tirado
da recepção. O objetivo tinha sido registrar a vista do salão para Jill, mas, por acaso, Adrian passara no meio do enquadramento, com a pose e a perfeição de um
modelo contratado para embelezar o evento. - Lindo como sempre. - Angeline balançou a cabeça. - Como todo mundo lá. Acho que significa que não teve nenhuma briga
para celebrar o casamento, né?
O fato de ela deduzir isso tão rápido era um sinal do progresso que havia feito. Seu povo, os Conservadores, vivia nas florestas da Virgínia Ocidental, e sua abertura
a romances entre vampiros, dampiros e humanos era apenas um dos seus costumes mais estranhos. Lutas entre amigos eram comuns, e Angeline teve que aprender que comportamentos
assim não eram aceitáveis na maior parte dos Estados Unidos.
- Não enquanto eu estava lá - respondi. - Mas quem sabe não aconteceu alguma coisa depois que eu saí? - Isso fez Jill e Eddie abrirem um sorriso largo, e os olhos
de Angeline brilharem de esperança.
A garçonete se aproximou, e pedi uma Coca Diet e uma salada. Podia ter relaxado na minha contagem rígida de calorias, mas jurava que ainda podia sentir o gosto de
açúcar do bolo de casamento que comi depois do feitiço.
Angeline apertou o braço de Eddie com mais força e sorriu para ele.
- Se um dia você for para casa, pode lutar com meu irmão Josh para mostrar que é digno de mim.
Precisei conter o riso. Eu tinha visto a comunidade dos Conservadores e sabia que ela estava falando sério.
- Vocês não estão quebrando um monte de regras namorando sem ter feito isso ainda?
Angeline assentiu, parecendo um pouco triste.
- Minha mãe faria um escândalo se descobrisse. Mas acho que é um caso excepcional.
Eddie sorriu para ela, indulgente. Acho que às vezes ele pensava que exagerávamos em relação aos Conservadores. Ele teria uma bela de uma surpresa se realmente os
visitasse algum dia.
- Talvez eu possa lutar com vários parentes seus pra compensar - ele disse.
- Pode ser que precise mesmo - ela respondeu, sem perceber que ele estava brincando.
Não era uma conversa exatamente romântica, mas Jill pareceu incomodada ao ouvi-los discutir a relação. Ela se virou para mim, claramente tentando não olhar para
eles.
- Sydney, o que vamos fazer no Natal?
Encolhi os ombros, sem saber exatamente o que ela estava perguntando.
- O de sempre, acho. Dar presentes. Cantar músicas. Fazer duelos pagãos. - Angeline sorriu com essa última parte.
Jill revirou os olhos.
- Não, quis dizer que teremos férias de inverno daqui a algumas semanas. Existe alguma chance... existe alguma chance de irmos para casa?
Havia um tom triste na voz dela, e até Eddie e Angeline pararam de se admirar para cravar os olhos em mim. Fiquei incomodada sob seus olhares. Angeline não estava
tão preocupada em visitar os Conservadores, mas eu sabia que Eddie e Jill sentiam falta dos amigos e da família. Queria ter dado a resposta que eles queriam ouvir.
- Sinto muito - falei. - Vocês vão ficar na mansão de Clarence durante as férias. Não podemos correr o risco... bom, vocês sabem. - Não precisava frisar ainda mais
a segurança de Jill. Todos conhecíamos muito bem esse refrão. O comentário de Ian sobre a fragilidade do trono havia me lembrado da importância da nossa missão.
O rosto de Jill esmoreceu. Até mesmo Eddie pareceu decepcionado.
- Imaginei - ela disse. - Só tinha a esperança... quer dizer, estou com muita saudade da minha mãe.
- Acho que podemos mandar uma mensagem para ela - eu disse baixinho.
Sabia que não era a mesma coisa. Às vezes, conseguia ligar para a minha mãe, e ouvir a voz dela era mil vezes melhor do que qualquer e-mail. Vez ou outra, até conseguia
falar com a minha irmã mais velha, Carly, o que sempre me deixava contente, porque ela era muito alegre e divertida. Minha irmã mais nova, Zoe... bom, era outra
história. Ela não atendia meus telefonemas. Zoe estivera prestes a ser iniciada nos alquimistas - para assumir aquela missão, aliás - quando a peguei em seu lugar.
Tinha feito isso para protegê-la do envolvimento com os alquimistas tão cedo, mas ela se sentia ofendida.
Ao olhar para o rosto triste de Jill, senti um aperto no coração. Ela estava passando por tanta coisa. Seu novo status real. Estar na mira de assassinos. Adaptar-se
a uma escola humana. Seus romances desastrosos e mortais. E, agora, aguentar Eddie e Angeline. Ela havia lidado com tudo isso com uma força extraordinária, sempre
decidida a cumprir o que precisava fazer mesmo quando não queria fazê-lo. Lissa era elogiada por ser uma rainha exemplar, mas havia uma realeza e uma força em Jill
que muitos subestimavam. Quando olhei para Eddie, percebi uma faísca em seus olhos que parecia indicar que ele também reconhecia e admirava isso nela.
Depois do jantar, levei todos para Amberwood e fiquei contente em ver meu carro em perfeito estado. Eu dirigia uma perua Subaru chamada Pingado, e Eddie era a única
pessoa em quem eu confiava atrás do volante. Deixei-o no alojamento masculino e, em seguida, levei Angeline e Jill de volta ao nosso. Quando estávamos entrando,
avistei a sra. Santos, uma professora que eu conhecia de vista.
- Vão na frente - falei para Jill e Angeline. - Vejo vocês amanhã.
Elas subiram e eu atravessei o saguão, esperando pacientemente até que a sra. Santos terminasse uma conversa com a responsável pelo alojamento, a sra. Weathers.
Quando a sra. Santos começou a dar meia-volta para sair, chamei a atenção dela.
- Sra. Santos? Sou Sydney Melrose. Estava pensando se poderia...
- Ah, sim - ela disse. - Sei quem você é, minha filha. A sra. Terwilliger sempre elogia você nas reuniões do departamento. - A sra. Santos era uma mulher de ar doce,
com cabelo castanho já grisalho. Diziam que ela estava prestes a se aposentar.
Fiquei um pouco vermelha com o elogio.
- Obrigada. - Ela e a sra. Terwilliger eram professoras de história, embora o foco da sra. Santos fosse história norte-americana, não mundial. - A senhora tem um
minuto? Queria perguntar uma coisa.
- Claro.
Saímos do saguão, afastando-nos do vaivém do alojamento.
- A senhora sabe muita coisa sobre a história local, não é? Do sul da Califórnia?
Ela assentiu.
- Sim. Nasci e cresci aqui.
- Estou interessada em arquitetura não tradicional na área de Los Angeles - eu disse, soltando uma mentira atrás da outra. Já tinha pensado no que ia dizer. - Quer
dizer, estilos que não são comuns no sudoeste dos Estados Unidos. Você conhece algum bairro assim? Ouvi falar que há alguns vitorianos...
Ela abriu um sorriso.
- Ah, sim. Claro. É um assunto fascinante. Vitoriano, Cape Cod, colonial... todos os estilos. Não tenho todas as informações aqui comigo, mas posso mandar um e-mail
para você assim que chegar em casa hoje. Vários sei de cabeça, e conheço um historiador que pode ajudar com os outros.
- Seria ótimo. Muito obrigada.
- É sempre bom ajudar uma aluna prodígio. - Ela deu uma piscadinha enquanto se afastava. - Talvez no próximo semestre você faça um estudo independente comigo. Isto
é, se conseguir se livrar da sra. Terwilliger.
- Vou lembrar disso - eu disse.
Assim que ela foi embora, mandei uma mensagem para a sra. Terwilliger. A sra. Santos vai me falar sobre bairros históricos. A resposta chegou rápido: Ótimo. Venha
para cá agora. Fiz uma careta enquanto escrevia: Acabei de chegar. Nem entrei no quarto. Ao que ela respondeu: Então vai chegar aqui muito mais rápido.
Até podia ser verdade, mas mesmo assim fui até o quarto deixar a mala e trocar de roupa. A sra. Terwilliger morava bem perto da escola e parecia estar andando em
círculos quando cheguei à casa dela.
- Finalmente! - ela exclamou.
Olhei para o relógio.
- Faz só quinze minutos.
Ela meneou a cabeça e estava com a mesma expressão carregada de quando estávamos no deserto.
- Quinze minutos podem ser demais. Venha comigo.
A casa da sra. Terwilliger era pequena e podia se passar por uma loja de produtos esotéricos ou um abrigo de gatos. O grau de bagunça me fazia ranger os dentes.
Livros de feitiços, incenso, estátuas, cristais e todo tipo de itens mágicos estavam empilhados em todos os cômodos da casa. Só a oficina dela, o cômodo para onde
me levou, era impecável - organizado a um nível que até mesmo eu aprovava. Tudo era limpo e ordenado, com rótulos e em ordem alfabética. Uma grande mesa de trabalho
ficava no centro do cômodo, completamente vazia exceto por um lindo colar que eu nunca tinha visto antes. A corrente era feita de elos de ouro intrincados e o pingente
era uma pedra preciosa vermelha-escura entrelaçada numa armação de ouro.
- Granada? - perguntei.
- Muito bem - ela disse, erguendo o colar. A luz das velas na oficina parecia fazer com que todas as faces da pedra brilhassem.
- É lindo - eu disse.
Ela estendeu na minha direção.
- É para você.
Dei um passo para trás, constrangida.
- Para... mim? Quero dizer, obrigada, mas não posso aceitar um presente desses.
- Não é um presente - ela disse. - É uma exigência. Uma que pode salvar sua vida. Pegue e coloque.
Me recusei a tocar naquilo.
- É mágico, não é?
- Sim - ela respondeu. - E não me olhe desse jeito. Não é diferente de nenhum dos amuletos que você mesma já fez.
- Só que qualquer coisa que a senhora faça - engoli em seco, olhando fixamente para a joia vermelho-sangue - será muito mais poderosa do que qualquer coisa que eu
possa criar.
- É exatamente essa a ideia. Agora, tome. - Ela aproximou tanto o colar de mim que a corrente balançou e quase bateu na minha cara.
Enchendo-me de coragem, estendi a mão e o apanhei. Não aconteceu nada. Nenhuma faísca ou fumaça. Nenhuma dor agonizante. Ao notar o olhar cheio de expectativa dela,
prendi o colar no pescoço, fazendo com que a granada repousasse junto à cruz.
Ela soltou um suspiro, visivelmente aliviada.
- Exatamente como eu esperava.
- O quê? - indaguei. Apesar de não notar nada de especial, sentia o peso da granada no pescoço.
- Está ocultando seu poder mágico - ela respondeu. - Ninguém que olhar para você vai saber que é usuária de magia.
- Não sou usuária de magia - eu a lembrei, seca. - Sou uma alquimista.
Ela entreabriu um sorriso.
- Claro que é, uma alquimista que usa magia. E, para uma pessoa poderosa, isso seria óbvio. A magia deixa uma marca no sangue que permeia todo o corpo.
- Como assim? - Eu não teria ficado mais chocada se ela tivesse dito que eu havia contraído uma doença incurável. - A senhora nunca me falou disso antes!
- Não era importante - ela disse, dando de ombros. - Até agora. Preciso que você fique escondida. Não tire esse colar. Nunca.
Pus as mãos na cintura.
- Não estou entendendo.
- Tudo será revelado em seu devido tempo...
- Não - eu disse. Naquele momento, era como se estivesse falando com Stanton ou qualquer uma das várias pessoas que haviam me usado e escondido informações de mim
durante a minha vida inteira. - Tudo será revelado agora. Se a senhora me meteu em alguma situação perigosa, precisa me tirar disso ou dizer como posso sair sozinha.
A sra. Terwilliger ficou me olhando em silêncio por vários segundos. Um gato cinza malhado roçou na minha perna, arruinando a gravidade da situação.
- Você tem razão - ela disse por fim. - Eu lhe devo uma explicação. Sente-se.
Sentei num dos banquinhos ao redor da mesa e ela sentou diante de mim, juntando as mãos à sua frente. Parecia estar encontrando dificuldades para organizar os pensamentos.
Precisei me esforçar para manter a calma e a paciência - caso contrário, o pânico que vinha me remoendo desde o deserto me consumiria por completo.
- Você se lembra daquela mulher que viu na foto? - ela perguntou, enfim.
- Sua irmã.
- Sim. Veronica. Ela é dez anos mais velha que eu e parece ter metade da minha idade, como você deve ter visto. Claro, não é difícil criar uma ilusão. Se eu quisesse
parecer jovem e bonita, poderia; e a palavra-chave aqui é parecer. Mas Veronica realmente conseguiu manter o corpo jovem e vibrante. É um tipo avançado e perigoso
de magia. Não dá para resistir à idade desse jeito sem fazer alguns sacrifícios. - Ela franziu as sobrancelhas e meu coração disparou. A manutenção da juventude
era algo que despertava todos os meus temores alquimistas. Era quase tão terrível quanto a imortalidade Strigoi; talvez até pior, já que estávamos falando de uma
humana. Esse tipo de magia perversa não tinha lugar nesse mundo. O que ela disse em seguida confirmou a perversidade daquilo tudo. - Ou, no caso dela, sem o sacrifício
de outras pessoas.
Sacrifício. A própria palavra pareceu envenenar o ar. Ela se levantou e foi até uma estante, de onde tirou um recorte de jornal. Sem dizer uma palavra, o entregou
para mim. Era uma matéria recente, de três dias antes, falando sobre uma aluna de dezenove anos da UCLA que havia sido encontrada inconsciente em seu dormitório.
Ninguém sabia a causa e a menina estava hospitalizada, sem dar nenhum sinal de quando ou se acordaria.
- O que é isso? - perguntei, sem saber se queria descobrir a resposta.
Examinei a matéria com mais atenção; também continha uma foto. A princípio, me perguntei por que o jornal mostraria uma senhora dormindo. Então, ao ler a legenda,
descobri que a vítima do coma exibia alguns sintomas físicos inexplicáveis: cabelo grisalho e pele seca e enrugada. Os médicos estavam investigando doenças raras
no momento. Eu me encolhi de repulsa, sem conseguir acreditar nos meus próprios olhos. A menina estava horrenda e não consegui olhar para ela por muito tempo.
De repente entendi. Veronica não estava sacrificando as vítimas com facas e altares de pedra. Ela estava conduzindo algum ritual de magia perverso naquelas meninas
que distorcia as leis da natureza, deixando-as naquele estado pavoroso. Meu estômago se revirou e me segurei na mesa para não desmaiar.
- Essa menina é uma das vítimas de Veronica - a sra. Terwilliger confirmou. - É assim que ela mantém a juventude e a beleza: tirando-as de outras pessoas. Quando
li isso, pensei... quase torci para que alguma outra usuária de magia fosse responsável por isso. Não que eu desejasse isso para qualquer pessoa. Mas seu feitiço
de clarividência confirmou que ela está na área, o que significa que é minha responsabilidade lidar com ela.
Tomei coragem para olhar o artigo de novo e senti a náusea subir outra vez. A menina tinha dezenove anos. Como seria a sensação de ter a vida sugada de você tão
jovem? Talvez o coma fosse uma bênção. E como alguém poderia ser tão cruel a ponto de fazer algo assim a outra pessoa?
Eu não sabia exatamente como a sra. Terwilliger ia “lidar” com a irmã e não sabia se queria descobrir. No entanto, se Veronica estava fazendo coisas desse tipo com
garotas inocentes, então alguém - como a sra. Terwilliger - precisava detê-la. Um ataque mágico dessa magnitude era uma das coisas mais terríveis que eu conseguia
imaginar. Fazia aflorar todos os meus medos enraizados sobre como a magia era errada. Como eu poderia justificar seu uso quando era capaz de produzir tamanho horror?
Velhas lições alquimistas voltaram à minha mente: Parte do que torna os Moroi especialmente perigosos é sua capacidade de usar magia. Ninguém tem o direito de subverter
o mundo desse jeito. É errado e pode facilmente fugir do controle.
Voltei para o presente.
- E onde eu entro nisso tudo? Já descobri onde ela está. Por que estou correndo risco?
- Sydney - a sra. Terwilliger começou, me lançando um olhar estranho. - Existem poucas jovens no mundo com suas habilidades. Além da beleza e da juventude, ela quer
sugar a magia da vítima para ficar mais poderosa. Você, querida, seria a presa ideal.
- Ela é como os Strigoi - murmurei, sem conter um arrepio. Embora os vampiros mortos-vivos pudessem se alimentar de qualquer pessoa, preferiam os Moroi porque havia
magia no sangue deles. Beber sangue Moroi tornava os Strigoi mais poderosos. Uma ideia terrível me atingiu de repente. - Ela é quase uma vampira humana.
- Algo assim - a sra. Terwilliger concordou. - Esse amuleto deve esconder o seu poder, mesmo de uma usuária tão poderosa. Ela não deve conseguir encontrá-la.
Uma gata felpuda pulou na mesa e passei a mão sobre seu pelo macio, me sentindo reconfortada pelo contato rápido.
- Você me deixa nervosa com todos esses “deve”. Por que ela procuraria vítimas em Palm Springs? Já sabe sobre mim?
- Não. Mas sabe que eu estou aqui e pode vir me inspecionar de vez em quando, por isso preciso esconder você, caso ela apareça. Mas estou numa situação difícil.
Preciso encontrar Veronica, mas não posso empreender a busca ativamente. Se ela ficar sabendo que estou investigando, vai descobrir que estou ciente de seu plano.
Não posso dar essa vantagem a ela. Se tiver a surpresa ao meu lado, terei mais chances de impedi-la. - Ela franziu a testa. - Pra falar a verdade, estou surpresa
que ela tenha chegado tão perto de mim, na Califórnia. De qualquer modo, preciso ser discreta até a hora do ataque.
A sra. Terwilliger me lançou um olhar significativo e senti um frio na barriga quando comecei a entender aonde ela queria chegar com aquilo.
- Você quer que eu cace Veronica.
- Não exatamente caçar, mas recolher algumas informações. Você é a única pessoa em quem posso confiar para isso. Veronica e eu podemos sentir a presença uma da outra
se chegarmos muito perto, por mais que tentemos ocultar nossa magia. E sei que isso vai soar surpreendente, mas a verdade é que acho melhor você ir atrás dela, mesmo
que seja um alvo em potencial. Você é uma das poucas pessoas em quem confio plenamente, e é esperta o bastante para conseguir fazer uma coisa dessas.
- Mas eu estaria me colocando em risco. Você acabou de falar que eu seria uma presa ideal pra ela. - O vaivém daquela conversa estava me deixando confusa.
- Sim. Foi por isso que fiz esse amuleto. Ela não conseguirá sentir sua magia se você o usar. E, se tomar cuidado durante a investigação, Veronica não terá motivos
para notar sua presença.
Eu ainda não estava entendendo a lógica dela.
- Mas por que eu? Você tem um clã. Se não pode ir atrás dela pessoalmente, deve haver alguma outra pessoa, uma bruxa mais poderosa, que possa caçar essa mulher.
- Dois motivos - ela disse. - O primeiro é que você tem excelentes habilidades investigativas, melhores do que pessoas mais velhas do que você. É inteligente e sabe
se virar sozinha. O outro... bom, é que se alguma outra bruxa for atrás dela, pode muito bem matá-la.
- Seria uma coisa tão horrível assim? - Eu não gostava nem um pouco de morte e violência, mas nesse caso poderia ser justificável se pudesse salvar a vida de outras
pessoas. - Você disse que ia “lidar com ela”.
- Se eu não tiver escolha... se precisar matar Veronica, matarei. - Ela pareceu triste e por um momento senti compaixão. Amava minhas duas irmãs. O que faria se,
um dia, estivesse num conflito mortal com uma delas? Claro, era difícil imaginar Zoe ou Carly cometendo esse tipo de atrocidade. - No entanto, existem outros meios
de neutralizar uma usuária de magia. Se houver um jeito, qualquer jeito, de fazer isso, é o que farei. Meu clã não pensaria da mesma forma e por isso preciso da
sua ajuda.
- Não posso. - Afastei o banquinho e levantei, quase pisando num gato. - Deve haver outras maneiras de fazer isso. Você sabe que já estou cheia de questões sobrenaturais
para resolver. - Na verdade, não conseguia admitir o verdadeiro motivo de querer evitar aquela missão. Era mais do que simplesmente arriscar a vida. Até então, todas
as minhas interações mágicas tinham sido com a sra. Terwilliger. Se aceitasse essa missão, estaria mergulhando no mundo das bruxas, algo que havia jurado nunca fazer.
A sra. Terwilliger apontou para o artigo e sua voz estava calma quando falou:
- Você seria capaz de deixar isso acontecer com outras meninas sabendo que pode impedir Veronica? Nunca soube de uma vítima que acordou depois. Para o feitiço funcionar,
ela precisa renová-lo de tempos em tempos e isso requer cinco vítimas em menos de um mês. Ela já fez isso uma vez antes e fui pega de surpresa. Dessa vez, sabemos
que está acontecendo. Outras quatro pessoas podem sofrer esse destino. É isso que você quer?
Pronto. Ela tocou em outro ponto que vinha me incomodando, porque me conhecia bem demais. Eu não podia deixar pessoas inocentes sofrerem, mesmo que significasse
me arriscar ou enfrentar medos que me assombravam. Se tinha como impedir aquilo, era minha obrigação. Ninguém merecia o destino da menina no jornal.
- Claro que não.
- E não vamos esquecer que você pode acabar sendo uma das vítimas.
Toquei na granada.
- Você disse que eu estava oculta.
- E está, por enquanto. E torço para que continue assim. - Nunca a tinha visto tão séria e era difícil ouvi-la falar daquele jeito. Estava acostumada com sua natureza
tagarela, desastrada e sem frescuras. - Mas vou contar uma coisa que nunca disse antes sobre como as usuárias de magia sentem a presença umas das outras.
Eu havia aprendido ao longo dos anos que, quando alguém dizia “vou contar uma coisa que nunca disse antes”, nunca era algo bom. Me preparei para o pior.
- Usuárias de magia não treinadas manifestam uma aura diferente do que as mais experientes - ela explicou. - Existe algo um tanto, hum, selvagem na magia que cerca
você, algo que é fácil para bruxas avançadas identificarem. Meu clã rastreia usuárias de magia novatas, mas esses são segredos muito bem guardados. Veronica não
tem acesso a esses nomes, mas existem feitiços que ela pode usar que identificam essa magia indomada se estiver perto dela. Deve ter sido assim que encontrou essa
pobre menina. - A sra. Terwilliger apontou para a matéria.
A ideia de ter uma aura mágica “selvagem” era tão terrível quanto descobrir que a magia deixava uma marca em meu sangue.
- Quando ela absorve uma vítima - a sra. Terwilliger continuou -, recebe uma rajada dessa força selvagem. Ela se dissipa logo, mas, enquanto Veronica está em posse
desse poder, sua capacidade de encontrar outra vítima não treinada aumenta por um breve momento. Quanto mais vítimas ela toma, mais aumenta esse poder. Existe a
chance - a sra. Terwilliger disse, muito séria - de que possa ser suficiente para romper a granada. Não sei. - Ela deu de ombros.
- Então está me dizendo que... a cada vítima que ela ataca, aumentam as chances de me encontrar?
- Sim.
- Certo. Vou ajudá-la a caçar essa mulher. - Deixei de lado todos os meus medos e dúvidas. Muita coisa estava em jogo. A minha vida, a de outras meninas... Veronica
precisava ser detida, pelo bem de todas. Alguém como ela não poderia continuar à solta.
- Tem mais - acrescentou a sra. Terwilliger.
Sério?
- Mais do que caçar uma bruxa maligna que quer drenar minha vida e meu poder?
- Se pudermos impedir Veronica de encontrar outras vítimas menos poderosas, limitaremos a capacidade dela de encontrar você. - Ela pegou uma pequena bolsa de veludo
e a esvaziou sobre a mesa, deixando cair vários círculos de ágata. - Estes amuletos têm certa capacidade de mascarar a magia. Não são tão poderosos quanto a granada;
levaria tempo demais. Mas são de uma magia mais simples que pode salvar a vida de outras meninas.
Entendi aonde ela queria chegar.
- E você quer que eu os entregue a elas.
- Desculpe. Sei que estou lhe dando algumas tarefas difíceis...
Aquilo estava ficando cada vez pior.
- Difíceis? Difíceis é pouco. Além de você querer que eu encontre uma mulher capaz de sugar minha vida, também tem o detalhezinho de que os alquimistas ficariam
furiosos se soubessem que estou envolvida nisso.
A sra. Terwilliger não respondeu de imediato. Ficou apenas me olhando. Um gato preto pulou ao lado dela e também me encarou. Aqueles olhos amarelos cravados em mim
pareciam dizer: Faça a coisa certa.
- Por onde começo? - perguntei, finalmente. - Encontrar o bairro é parte do trabalho, certo?
- Sim. E vou dizer onde encontrar as potenciais vítimas, se você se dispuser a avisá-las. Meu clã tem o registro delas. São meninas muito parecidas com você: meninas
com poder que se recusam a treinar e não têm nenhum mentor que as auxilie. Quando soubermos exatamente onde a própria Veronica está... - O olhar da sra. Terwilliger
endureceu. - Aí eu assumo.
Mais uma vez me perguntei se realmente queria saber o significado disso.
Um momento depois, ela acrescentou:
- Ah, e achei que seria uma boa ideia ocultar sua aparência também.
Fiquei mais contente. Não saberia explicar por que, mas aquilo fez eu me sentir muito melhor.
- Existem muitos feitiços para isso, certo? - Eu tinha visto vários durante meus estudos. Mesmo que tivesse que usar magia, seria melhor ter uma aparência diferente.
- Sim... - Ela tamborilou os dedos na mesa. - Mas o amuleto pode não conseguir ocultar um feitiço “ativo”, o que destruiria todo o disfarce. Na verdade, estava pensando
que seu “irmão”, Adrian, poderia ajudar.
Minhas pernas fraquejaram e voltei a me sentar.
- Por que Adrian se envolveria nisso?
- Bom, ele parece disposto a fazer qualquer coisa por você. - Olhei nos olhos dela, procurando algum duplo sentido naquelas palavras. Mas seu olhar estava distante,
concentrado em seus próprios pensamentos. Ela tinha dito cada palavra honestamente. - Veronica não seria capaz de detectar magia de vampiro. O poder dele... aquele
elemento, o espírito, de que ele estava me falando... pode confundir a mente, certo? Afetar o que as pessoas veem?
- Sim...
Ela voltou a se concentrar em mim, assentindo, satisfeita.
- Se ele puder acompanhar você, ajudar a confundir a mente de quem você encontrar... bom, seria um nível extra de proteção.
Ainda não sabia tudo que teria de fazer para encontrar a irmã da sra. Terwilliger, mas, pelo jeito, no mínimo teria que ir a Los Angeles em breve. Eu, presa num
carro com Adrian, enquanto ele continuava com aquele “amor à distância” irritante. Estava tão perturbada com essa ideia que levei um tempo para perceber a questão
maior em que estava me deixando envolver.
- Você entende a gravidade do que está me pedindo? - eu disse baixinho, voltando a tocar a granada. - Para fazer parte disso, vou precisar me expor à magia humana
e vampírica. Tudo o que sempre tentei evitar.
A sra. Terwilliger bufou e, pela primeira vez naquela noite, assumiu aquele seu ar irônico de costume.
- A menos que eu esteja enganada, você vem se expondo aos dois tipos de magia já faz um bom tempo. Então, não estará indo tanto assim contra os seus princípios.
- Ela fez uma pausa enfática. - No máximo, vai contra os princípios alquimistas.
- Os princípios alquimistas são os meus princípios - retruquei rápido.
Ela arqueou uma sobrancelha.
- Ah, é? Eu esperava que seus princípios fossem os seus princípios.
Nunca tinha pensado nesses termos antes, mas, de repente, quis muito que as palavras dela fossem verdade.
6
Segui direitinho as instruções da sra. Terwilliger. Não tirei a granada em nenhum momento, nem mesmo enquanto dormia ou tomava banho. Durante a aula na manhã seguinte,
deixei a pedra embaixo da camiseta para evitar perguntas. Não era evidente que se tratava de um amuleto mágico, mas sem dúvida chamava a atenção. Para minha surpresa,
a sra. Terwilliger não apareceu no primeiro horário, o que me levou a pensar que talvez estivesse investigando por conta própria.
- A sra. T está em alguma missão secreta?
Tive um sobressalto e percebi que estava perdida em meus pensamentos. Ao me virar, encontrei Trey agachado ao lado da minha carteira. A aula ainda nem tinha começado
e uma professora substituta com ar confuso estava tentando entender o caos da mesa da sra. Terwilliger. Trey sorriu com a minha surpresa.
- Q-quê? - perguntei. Será que ele havia descoberto sobre Veronica? Tentei manter a calma. - Por que diz isso?
- Estava só brincando - ele respondeu. - É o segundo ano em que faço uma matéria com ela e ela nunca perdeu uma aula sequer. - Ele me lançou um olhar confuso. -
A não ser que você saiba de alguma coisa que eu não sei.
- Não - respondi automaticamente. - Estou tão surpresa quanto você.
Trey ficou me examinando por alguns momentos. Éramos bons amigos em Amberwood, embora houvesse um pequeno probleminha entre nós.
A família dele estava ligada aos Guerreiros da Luz.
No mês anterior, os guerreiros haviam tentado matar Sonya num ritual bárbaro. Trey havia sido um dos competidores pela “honra” de executá-la, embora tivesse desistido
do combate no último minuto. Eu tentara apelar aos guerreiros para libertar Sonya, mas eles não me deram ouvidos. Nós duas fomos salvas quando um grupo armado de
dampiros apareceu e derrotou os guerreiros. Stanton havia ajudado a orquestrar a invasão, mas não tinha se dado ao trabalho de me informar que eu seria usada como
distração. Era parte do que havia alimentado minha desconfiança em relação a ela e aos alquimistas.
Trey havia levado a culpa por ter me envolvido no ritual e os guerreiros o baniram - assim como a seu pai. Da mesma forma que eu sempre fui pressionada pelos alquimistas,
Trey teve a doutrina dos guerreiros incutida dentro dele durante toda a vida. Seu pai sentia tanta vergonha pelo banimento que quase não falava mais com ele. Eu
sabia como Trey desejava a aprovação do pai, e que esse silêncio era mais doloroso para ele do que a punição dos guerreiros.
Nossas lealdades dificultavam as coisas. Quando eu tentara insinuar que havia questões mal resolvidas entre nós, ele me respondeu com um sorriso triste. “Não precisa
se preocupar”, Trey me dissera. “Não estou escondendo nenhum plano secreto de você porque não sei mais de nenhum. Eles não nos dizem mais nada. Acham que não sou
mais um deles. Fui expulso para sempre e seria preciso um milagre para aceitarem a minha família de volta.” Algo em seus olhos castanhos me dizia que, se ele encontrasse
esse milagre, o agarraria com todas as forças. Eu tinha tentado perguntar a respeito disso, mas ele não queria discutir mais sobre o assunto. “Quero ser seu amigo,
Melbourne”, ele dissera. “Gosto de você. Nunca vamos resolver nossas diferenças. Melhor ignorá-las, já que precisamos nos ver todo dia.”
O surpreendente era que nossa amizade conseguia sobreviver a todo esse drama. A tensão sempre estava lá, pairando oculta entre nós, mas tentávamos ignorá-la. Claro
que, embora ele soubesse do meu envolvimento no mundo dos vampiros, não fazia ideia de que, nos bastidores, eu estava tendo aulas de magia com a nossa professora
de história.
Se ele achou que eu estava mentindo sobre a ausência da sra. Terwilliger, não insistiu no assunto. Apontou com a cabeça para a substituta.
- A aula de hoje não vai dar em nada.
Desviei os pensamentos de toda a intriga mágica. Depois de estudar em casa durante a maior parte da vida, alguns detalhes do mundo letivo “normal” ainda eram um
mistério para mim.
- Como assim?
- Normalmente os professores deixam um plano de aula para os substitutos, com a matéria que eles precisam dar. Vi o plano que a sra. Terwilliger deixou. Dizia: “Distraia
os alunos”. - Trey meneou a cabeça fingindo solidariedade. - Tomara que você consiga lidar com esse desperdício de tempo acadêmico. Quer dizer, é provável que ela
diga: “Façam a lição de casa”. Mas ninguém vai fazer.
Ele estava certo. Não sabia se conseguiria lidar com aquilo.
- Por que não?
Ele pareceu se divertir imensamente com a pergunta.
- Melbourne, às vezes você é o único motivo para eu vir para a aula. Aliás, vi o plano que ela deixou para o seu estudo independente também. Dizia que você nem precisa
ficar na escola. Estará livre para fazer uma loucura.
Eddie, que estava sentado por perto, ouviu a conversa e zombou:
- Vai para a biblioteca?
Os dois riram, mas minha mente já estava girando com as possibilidades. Se realmente não precisasse assistir à última aula, estaria livre para sair do campus mais
cedo. Poderia ir para Los Angeles procurar Veronica e... não. Adrian ainda não tinha voltado. Por um momento, considerei fazer a investigação sem ajuda da magia
dele, mas as advertências da sra. Terwilliger ecoaram na minha cabeça. A caçada teria de esperar.
Mas eu ainda poderia procurar Marcus Finch.
Eram duas horas de viagem até Santa Bárbara, o que significava que eu teria tempo suficiente para ir até lá, investigar Marcus e voltar tranquilamente antes do toque
de recolher da escola. Eu não estava pensando em procurar por ele até o fim de semana, mas percebi que não deveria perder a oportunidade. A missão da sra. Terwilliger
também me afligia, mas não havia nada que eu pudesse fazer até que Adrian voltasse naquela noite.
Marcus Finch era um mistério para mim desde que eu descobrira que ele era um ex-alquimista. Me dar conta de que eu poderia encontrar algumas respostas naquele mesmo
dia fez meu coração acelerar. Uma coisa era suspeitar que os alquimistas estivessem escondendo informações de mim. Outra completamente diferente era aceitar que
eu poderia estar prestes a ter essas suspeitas confirmadas. Na verdade, era um tanto assustador.
Com o passar do dia, fui ficando cada vez mais decidida a fazer a viagem. Precisava enfrentar aquilo cedo ou tarde, e seria melhor acabar com a dúvida de uma vez
por todas. Afinal, tudo o que eu sabia era que Marcus estivera em Santa Bárbara. Ele poderia já ter saído de lá. Eu não queria repetir o feitiço, se pudesse evitar.
De fato, quando apareci para o que normalmente seria meu estudo independente ao fim do dia, a professora substituta (parecendo extremamente cansada depois de um
dia seguindo os passos da sra. Terwilliger) me disse que eu estava livre para ir embora. Agradeci e corri para o alojamento, ciente de que o tempo estava passando.
Não sabia exatamente o que esperar em Santa Bárbara, mas queria estar preparada para qualquer eventualidade.
Troquei o uniforme de Amberwood por calça jeans e uma blusa preta lisa. Depois me ajoelhei e tirei de debaixo da cama uma grande caixa de metal. À primeira vista,
parecia um kit de maquiagem. No entanto, tinha uma fechadura complexa que exigia uma chave e uma combinação numérica. Dentro eu guardava uma coleção de substâncias
químicas alquimistas, que, caso fosse encontrada, provavelmente me levaria a ser expulsa do colégio, uma vez que parecia um kit para produção de drogas ilegais.
Para falar a verdade, alguns dos compostos eram realmente suspeitos.
Peguei alguns itens básicos. Um era uma fórmula normalmente usada para dissolver corpos de Strigoi. Eu não estava esperando encontrar nenhum Strigoi em Santa Bárbara,
mas o composto também poderia ser usado para desintegrar metal facilmente. Escolhi mais algumas misturas, como uma que poderia criar uma nuvem de fumaça digna de
um espião, e as embrulhei com cuidado antes de colocá-las na bolsa. Então tranquei a caixa outra vez e a enfiei embaixo da cama.
Depois de considerar por um momento, respirei fundo e peguei outra caixa escondida. Essa era nova na minha coleção. Continha vários amuletos e poções que eu havia
feito sob as instruções da sra. Terwilliger. Olhando para o conteúdo dela, senti meu estômago se revirar. Nem nos meus sonhos mais loucos eu teria imaginado que
um dia viria a ter um kit como aquele. No começo, só criava talismãs sob as ordens dela. Agora, tinha feito vários por livre e espontânea vontade, e, se o que ela
havia dito sobre a irmã era verdade, logo precisaria fazer mais. Muito relutante, peguei alguns e os embrulhei como havia feito com as substâncias alquimistas. Hesitei
um momento e então coloquei alguns no bolso, para acesso rápido.
O trajeto para Santa Bárbara era tranquilo àquela hora do dia. Dezembro havia refrescado o clima quente do sul da Califórnia, mas o sol ainda estava forte, fazendo
parecer mais quente do que realmente estava. E, conforme me aproximava da costa, o deserto foi dando lugar a um clima mais ameno. As chuvas aumentavam no centro
e no norte do estado naquela época do ano, tornando a paisagem verde e exuberante. Eu gostava de Palm Springs e de Amberwood, mas não ligaria se a missão de Jill
nos tivesse levado mais para o norte.
Encontrar a antiga Missão de Santa Bárbara não foi difícil. Era uma atração turística bastante famosa e muito fácil de avistar quando se chegava perto. A grande
igreja era exatamente como eu tinha visto no feitiço, exceto pelo fato de estar iluminada pelo sol vespertino e não pelo cair da noite. Estacionei na rua de um bairro
residencial e levantei os olhos para aquela obra-prima de estuque e terracota. Queria ter tempo para visitá-la, mas, como sempre acontecia, meus desejos pessoais
precisavam ficar em segundo plano em relação a um objetivo maior.
Agora vinha a parte mais difícil: descobrir onde poderia ser a quitinete que eu tinha visto. O quarteirão em que estacionei dava para uma vista da igreja parecida
com aquela do feitiço. Entretanto, os ângulos não eram exatos, e aquela rua só tinha casas. Eu tinha quase certeza de que o lugar que tinha visto ficava num prédio
residencial. Mantendo a igreja no meu campo de visão, dirigi por algumas ruas e encontrei o que queria: um quarteirão com complexos de apartamentos.
Um dos prédios parecia chique demais. O apartamento que eu vira era simples e antigo. Os outros dois naquela rua pareciam candidatos mais prováveis. Estacionei perto
deles e caminhei ao redor, tentando imaginar como poderia ser o ângulo visto de uma janela mais alta. Era uma pena não ter conseguido ver o estacionamento durante
o feitiço. Teria me dado uma ideia melhor do lugar. Depois de pensar muito, finalmente deduzi que o apartamento ficava no terceiro ou quarto andar. Como um dos prédios
só tinha dois andares, tive uma ideia melhor de qual seria o lugar certo.
Ao entrar no prédio, fiquei contente por ter colocado antisséptico na bolsa. O saguão parecia não ter sido varrido havia mais de um ano. As paredes estavam sujas,
e a tinta, lascada. Havia um pouco de lixo espalhado pelo chão. Teias de aranha dependuravam-se em alguns cantos, e rezei para que as aranhas fossem os únicos habitantes
rastejantes e repulsivos do lugar. Se visse uma barata, era provável que saísse correndo em disparada. O prédio não tinha um porteiro que eu pudesse interrogar,
então chamei uma senhora de meia-idade que estava de saída. Ela parou, me olhando desconfiada.
- Oi - eu disse, esperando não parecer uma ameaça. - Estou tentando encontrar um amigo, mas não sei em que apartamento ele mora. Você o conhece? O nome dele é Marcus.
Ele tem uma tatuagem azul no rosto. - Ao notar o rosto inexpressivo dela, repeti a pergunta em espanhol. Ela pareceu entender, mas, quando terminei a pergunta, sua
única resposta foi um curto não com a cabeça. Nem tive tempo de mostrar a foto.
Passei a meia hora seguinte fazendo a mesma pergunta sempre que via moradores entrando ou saindo do prédio. Fiz isso do lado de fora, preferindo uma área pública
iluminada àquele interior imundo. Algumas pessoas eram meio suspeitas, e alguns homens me lançaram olhares de que definitivamente não gostei. Estava prestes a desistir
quando um menino se aproximou de mim. Ele parecia ter uns dez anos e estivera brincando no estacionamento.
- Conheço o homem que você está procurando - ele me disse em inglês. - Mas o nome dele não é Marcus. É Dave.
Considerando a dificuldade para encontrar Marcus, não era uma grande surpresa ele estar usando um nome falso.
- Tem certeza? - perguntei ao menino. Mostrei a foto para ele. - É esse aqui?
Ele fez que sim.
- É ele mesmo. Ele é bem na dele. Minha mãe diz que deve estar fazendo alguma coisa errada.
Ótimo. Era só o que me faltava.
- Você sabe onde ele mora?
O menino apontou para cima.
- No último andar, número 407.
Agradeci e entrei, subindo escadas que rangeram todo o caminho até o quarto andar. O apartamento ficava perto do fim do corredor, ao lado de outro do qual saía uma
música irritante e muito alta. Bati no 407 e não tive resposta. Sem saber se o morador tinha me ouvido, bati com mais força. Nada.
Olhei para a maçaneta, considerando derretê-la com os ácidos alquimistas. Logo depois, descartei a ideia. Mesmo num prédio de reputação questionável como aquele,
algum vizinho poderia ficar preocupado ao me ver invadir o lugar. Eu não queria chamar atenção. A situação estava ficando cada vez mais frustrante e eu não podia
ficar ali o dia todo.
Considerei minhas possibilidades. Todos diziam como eu era inteligente. Devia haver alguma solução que funcionasse ali, mas qual? Ficar esperando no corredor não
era uma opção. Não tinha como saber quanto tempo Marcus, ou “Dave”, demoraria para aparecer. E, para falar a verdade, quanto menos tempo eu passasse naquele corredor
imundo, melhor. Se ao menos houvesse uma maneira de entrar que não envolvesse destruir...
Foi então que encontrei a resposta. Soltei um resmungo. Não gostava muito da ideia, mas poderia funcionar.
Saí novamente e cumprimentei o menino, que estava pulando de cima dos degraus.
- Dave estava em casa? - ele perguntou.
- Não.
Ele assentiu.
- Normalmente não está mesmo.
Pelo menos isso ajudaria meu novo plano maluco. Deixei o menino e fui até a lateral do prédio, que felizmente estava deserta. Lá, encostada à parede, estava a saída
de incêndio com mais risco de desabar que eu já tinha visto na vida. Considerando a rigidez dos padrões de segurança da Califórnia, fiquei surpresa por aquilo não
ter sido denunciado. Claro, mesmo se fosse, parecia improvável que o dono do prédio agisse rápido, julgando pelas condições do resto do lugar.
Depois de confirmar que ninguém estava por perto, fiquei à sombra da saída de incêndio, torcendo para que ela me ocultasse. Tirei da bolsa um dos amuletos: um colar
feito de ágata e penas de corvo. Coloquei-o ao redor do pescoço e recitei um encantamento em grego. Senti o calor da magia perpassar meu corpo, mas não houve nenhuma
mudança aparente. Teoricamente, eu estaria invisível para quem não estivesse me procurando. Se isso realmente havia acontecido, eu não sabia. Imaginei que descobriria
se alguém passasse e me perguntasse por que eu estava entrando num apartamento pela saída de incêndio.
Quando comecei a subir, porém, quase abortei o plano. Toda a escada rangia e balançava. Os andaimes estavam tão enferrujados que eu não ficaria surpresa se eles
se desintegrassem sob meus pés. Fiquei parada onde estava, tentando criar coragem para continuar. Lembrei que essa poderia ser minha única chance de encontrar Marcus.
O menino no estacionamento havia confirmado que ele morava ali. Eu não podia perder aquela chance.
Engoli em seco e continuei subindo, angustiada, de andar em andar. Quando cheguei ao quarto, olhei para baixo, espantada, sem conseguir acreditar que a escada ainda
estava intacta. Agora eu tinha um novo problema. Havia descoberto onde ficava o apartamento de Marcus, que era a segunda janela depois da escadaria. A distância
não era tão grande, mas, sobre uma borda estreita, pareciam quilômetros. Igualmente intimidador era o fato de que eu teria que atravessar a janela. Ela estava fechada,
o que fazia sentido se ele estava foragido. Eu tinha alguns amuletos capazes de derreter o vidro, mas não confiava na minha capacidade de usá-los enquanto me equilibrava
em cima daquela borda estreita, o que significava que teria de testar o quão boa minha mira tinha se tornado na educação física.
Ainda ciente do estado precário da escada de incêndio, peguei uma bolsinha de pó na bolsa. Medindo a distância, atirei-a com força na direção da janela, recitando
um feitiço. E errei. A bolsinha atingiu a parede do prédio, estourando numa nuvem de poeira, e começou a corroer o reboco. Me encolhi diante da parede dissolvida.
O feitiço acabou se extinguindo, mas deixou um buraco perceptível. Porém, não atravessou a parede toda e pensei que, considerando o estado do prédio, era provável
que ninguém notasse.
Eu só tinha mais uma bolsinha. A vidraça era relativamente grande e eu não podia errar dessa vez. Atirei com força - e acertei. O pó atingiu o vidro, espalhando
uma reação e começando a fundi-lo imediatamente. Derreteu como gelo no sol. Agora, observando ansiosa, queria que a reação continuasse o máximo possível. Precisava
de um buraco grande o bastante para poder passar. Felizmente, quando parou, senti que seria suficiente - se eu conseguisse chegar até lá.
Não tinha medo de altura, mas, enquanto engatinhava pela borda, senti como se estivesse no topo de um arranha-céu. Estava com o coração na boca e pensei quais seriam
as chances de sobreviver a uma queda de quatro andares. Minhas mãos começaram a suar e ordenei que parassem. Não tinha chegado até aquele ponto para elas escorregarem
no último minuto.
No fim, foi meu pé que escorregou. O mundo deu uma volta, e estendi o braço desesperadamente, por pouco conseguindo segurar o lado interno da janela. Me joguei para
cima e, com uma explosão de esforço movida pela adrenalina, consegui passar uma perna pela janela. Respirei fundo e tentei acalmar meu coração. Estava em segurança.
Eu ia conseguir... Um momento depois, consegui passar a outra perna pela beirada, entrando no quarto.
Caí no chão; minhas pernas estavam fracas e trêmulas enquanto eu me esforçava para acalmar a respiração. Tinha sido por pouco. Se meus reflexos tivessem sido mais
lentos, teria descoberto exatamente o que uma queda de quatro andares poderia fazer com o corpo humano. Por mais que gostasse de ciência, esse não era um experimento
que eu estava ansiosa para realizar. Talvez passar tanto tempo perto de dampiros tivesse melhorado minhas habilidades físicas.
Depois que me recuperei, consegui examinar o ambiente. Ali estava eu, no mesmo apartamento que tinha observado na visão. Olhando para trás, avistei a igreja, e verifiquei
se era o mesmo ponto de vista. Sim. Exatamente o mesmo. Lá dentro, reconheci o colchão e os poucos pertences de Marcus. Do outro lado do quarto, a porta que dava
para o corredor tinha várias fechaduras novas e modernas. Dissolver a maçaneta não teria dado em nada.
- E agora? - murmurei. Eu havia conseguido entrar. Não tinha acesso a Marcus, mas, teoricamente, tinha acesso ao apartamento dele. Não sabia bem o que estava procurando,
mas devia começar por algum lugar.
Primeiro, examinei o colchão, sem esperar muita coisa. Não tinha como esconder alguma coisa embaixo, como o meu. Tinha, porém, como ocultar ratos e sabe Deus mais
o quê. Com cuidado, levantei um canto, sabendo que devia estar fazendo uma careta - mas não havia nada ali, vivo ou não. Meu alvo seguinte foi uma pequena pilha
de roupas desordenadas. Vasculhar as roupas sujas (porque imaginava que estivessem sujas se estavam no chão) não foi muito mais promissor do que olhar sob o colchão.
Um cheiro de amaciante me disse que, na verdade, aquelas peças tinham sido lavadas recentemente. Eram roupas masculinas normais, provavelmente de um jovem, o que
se encaixava no perfil de Marcus. Jeans. Camisetas. Cuecas. Quase comecei a dobrá-las enquanto remexia na pilha e precisei me lembrar de que não queria deixar nenhum
sinal da minha passagem. Se bem que a janela derretida era uma evidência um tanto óbvia.
Havia alguns itens pessoais perto do colchão: uma escova de dentes e um desodorante com um aroma descrito, sabe-se lá por quê, como “fiesta oceânica”. Além de uma
cadeira de madeira velha e da TV antiga, só havia outra fonte de conforto e entretenimento naquele cômodo sem graça: uma cópia gasta de O apanhador no campo de centeio.
- Ótimo - murmurei, tentando adivinhar o que isso dizia sobre alguém que não possuía nenhum outro objeto pessoal. - Marcus Finch é um intelectual pretencioso.
O banheiro era claustrofóbico e quase não havia espaço para o boxe do chuveiro, o vaso e a pia, que estava pingando. A julgar pela mancha de fungo no chão, devia
espirrar muita água quando o chuveiro estava ligado. Uma grande aranha preta correu para dentro do ralo e recuei rápido.
Derrotada, fui investigar a porta estreita do único armário no apartamento. Depois de todo aquele trabalho, tinha conseguido encontrar Marcus Finch, mas não o encontrara
em pessoa. Minha busca não havia dado em nada. Eu tinha pouco tempo para esperar e, sinceramente, se fosse ele e encontrasse uma janela derretida em casa, daria
meia-volta e sumiria dali para sempre. Se ele fugisse, eu não teria escolha além de continuar fazendo feitiços de clarividência e...
- Ahh!
Algo pulou em cima de mim quando abri a porta do armário, e não era um rato ou uma barata.
Era um homem.
O armário era tão minúsculo que era um milagre ele caber ali dentro. Mas não tive tempo para processar a logística espacial porque seu punho disparou e me atingiu
na cara.
Na minha vida, já tinha sido prensada contra paredes e mordida por um Strigoi. Mas nunca havia levado um soco e não era uma experiência que gostaria de repetir.
Cambaleei para trás, tão surpresa que demorei para reagir. O rapaz avançou contra mim, segurando meus braços e me chacoalhando enquanto se aproximava.
- Como vocês me encontraram? - ele exclamou. - Quantos outros estão vindo?
Apesar da dor que irradiava do meu rosto, consegui recuperar os sentidos. No mês anterior, tinha feito um curso de defesa pessoal com um criador de chihuahuas meio
maluco que parecia um pirata. Apesar do comportamento pouco convencional de Malachi Wolfe, ele realmente havia me ensinado algumas técnicas legítimas, que me foram
úteis naquele momento. Dei uma joelhada na barriga do meu agressor. Seus olhos azuis se arregalaram enquanto me soltava e caía no chão. Porém, não ficou caído por
muito tempo. Com dificuldade, se reergueu e partiu para cima de mim, mas, a essa altura, eu já tinha pegado uma cadeira e a estava usando para mantê-lo afastado,
como um domador de leões.
- Fique longe - eu disse. - Só quero...
Ignorando minha ameaça, ele avançou e puxou uma das pernas da cadeira, arrancando-a de mim. Depois me encurralou num canto e, apesar de alguns truques que Eddie
havia me ensinado, eu não tinha confiança suficiente para dar um soco. Mesmo assim, me defendi bem quando Marcus tentou me segurar de novo. Nós nos atracamos e caímos
no chão. Eu chutava e arranhava loucamente, dificultando as coisas ao máximo. Foi só quando ele conseguiu me segurar no chão com todo o peso de seu corpo que parei
de me debater. No entanto, tinha liberdade de movimento o bastante para colocar uma mão no bolso.
- Quem enviou você? - ele perguntou. - Onde estão os outros?
Não respondi. Em vez disso, tirei um pequeno frasco do bolso e abri a tampa com uma mão. Imediatamente, saiu um vapor amarelo nocivo com a consistência de gelo seco.
Estendi o frasco para o rosto dele. Marcus se contorceu com repulsa, lágrimas escapando dos olhos. A substância em si era relativamente inofensiva, mas o gás agia
como uma espécie de spray de pimenta. Ele me soltou e, com uma força que eu não sabia que tinha, consegui rolar para cima dele e mantê-lo no chão. Dei uma cotovelada
no pulso dele e ele soltou um resmungo baixo de dor. Com o outro braço, empunhei o frasco de maneira ameaçadora, como se fosse um facão. Isso não o enganaria por
muito tempo, mas, felizmente, me deu tempo para reavaliar a situação. Agora que ele estava parado, finalmente consegui dar uma boa olhada nele e fiquei aliviada
ao ver que tinha atingido meu objetivo. Ele tinha um rosto bonito e jovem, com uma tatuagem azul na bochecha. Era um desenho abstrato que parecia uma treliça de
meias-luas. Um tênue brilho prateado saía pelas bordas de algumas linhas azuis.
- É um prazer conhecer você, Marcus.
Então, a coisa mais surpreendente aconteceu. Com os olhos lacrimejantes, ele também estava tentando olhar direito para mim. Pareceu me reconhecer ao piscar e focar
a visão.
- Sydney Sage - ele exclamou, admirado. - Andei procurando você.
Não tive tempo para ficar surpresa porque, subitamente, ouvi o clique de uma arma e senti o cano dela encostar na minha nuca.
- Saia de cima dele - ordenou uma voz. - E solte a bomba de fumaça.
7
Eu podia estar determinada a encontrar Marcus, mas definitivamente não ia argumentar contra uma arma.
Ergui as mãos e levantei devagar, de costas para a recém-chegada. Com o mesmo cuidado, saí de cima de Marcus e pus o frasco no chão. Ainda estava soltando gás, mas
a reação logo se esgotaria. Então criei coragem para olhar para trás. Quando vi a garota que estava lá, mal pude acreditar em meus próprios olhos.
- Você está bem? - ela perguntou a Marcus. Ele estava se levantando cambaleante. - Saí assim que você ligou.
- É você! - Não consegui dizer nada mais articulado.
A garota à minha frente tinha mais ou menos a minha idade e longos cabelos loiros e desgrenhados. Ela ainda estava com a arma apontada para mim, mas entreabriu um
sorriso.
- É um prazer vê-la de novo.
O sentimento não era mútuo. A última vez que tinha visto aquela menina fora na arena, durante o combate contra os Guerreiros da Luz. Ela também portara uma arma
na ocasião e passara o tempo todo com uma careta no rosto. Havia me empurrado de um lado para o outro e me ameaçado, sem disfarçar que achava uma heresia eu defender
Sonya. Embora parecesse mais calma agora do que quando estava com aqueles fanáticos, não conseguia ignorar quem ela era, ou as implicações disso. Olhei para Marcus,
incrédula. Ele estava esfregando o pulso que eu tinha acotovelado.
- Você... você está com eles! Está do lado dos Guerreiros da Luz!
Acho que nunca fiquei tão decepcionada na vida. Eu tinha apostado todas as minhas fichas em Marcus. Ele havia se tornado um ser quase mítico na minha cabeça, um
salvador rebelde que me contaria todos os segredos do mundo e me libertaria de ser mais uma engrenagem na máquina dos alquimistas. Mas era tudo mentira. Clarence
mencionara que Marcus tinha convencido os guerreiros a deixá-lo em paz. Eu tinha pensado que Marcus tinha algum poder de barganha incrível contra os guerreiros,
mas, pelo jeito, o segredo de sua influência era que ele fazia parte do grupo.
Ele levantou os olhos para mim.
- Quê? Aqueles malucos? Claro que não.
Quase levantei a mão para apontar para a menina, mas achei melhor não fazer nenhum movimento brusco. Preferi acenar com a cabeça na direção dela e notei que todas
as fechaduras na porta haviam sido destravadas. Estivera tão concentrada na luta com Marcus que nem tinha ouvido.
- Sério? Então por que uma guerreira acabou de salvar você?
- Não sou uma guerreira. - A voz dela era quase descontraída, mas a arma contradizia seu tom. - Quer dizer, suponho que seja, mas...
- Sabrina é uma espiã - Marcus explicou. Ele parecia muito mais à vontade agora que eu não estava pulando em cima dele. - Uma bela espiã. Ela está disfarçada entre
eles há mais de um ano. Foi ela quem me contou sobre você.
Mais uma vez, era difícil responder àquilo. Eu também não tinha certeza se acreditava naquela história de espiã.
- O que ela disse exatamente?
Ele me abriu um sorriso de estrela de cinema. Seus dentes eram tão brancos que fiquei me perguntando se tinha feito clareamento dental. Não combinava muito com a
imagem de rebelde foragido, mas nada naquele dia estava acontecendo como eu esperava.
- Ela me contou sobre uma garota alquimista que defendeu uma Moroi e depois ajudou a liderar um grupo de dampiros invasores.
Liderar? Longe disso. Ninguém, muito menos Stanton, havia achado necessário me informar sobre a invasão até que eu estivesse no meio dela. Mas eu não queria revelar
mais do que o necessário.
- Os alquimistas autorizaram a invasão - afirmei.
- Vi como você falou - Sabrina disse. Seu olhar passou de mim para Marcus, com intensidade para mim e admiração para ele. - Foi inspirador. E observamos você por
um tempo, sabe. Você passou um longo período com os Moroi e dampiros em Palm Springs.
- É meu trabalho - eu disse. Ela não parecera muito inspirada na época. Parecera, sim, decepcionada por não poder disparar contra mim.
Marcus abriu um sorriso espertinho.
- Pelo que me contaram, você e aqueles Moroi pareciam quase amigos. E aqui está você agora, procurando por mim. Definitivamente é a dissidente que estávamos esperando.
Não, aquilo não estava saindo nem um pouco como o planejado. Na verdade, era quase o oposto dos meus planos. Tinha ficado tão orgulhosa da minha capacidade de rastrear
Marcus, quando, na verdade, ele já estava de olho em mim. Não gostei nem um pouco disso. Fez com que me sentisse vulnerável, por mais que ele estivesse dizendo algumas
das coisas que eu queria ouvir. Com a necessidade de me sentir no controle, tentei manter a calma e bancar a durona.
- Outros alquimistas podem estar prestes a aparecer - eu disse.
- Eles já estariam aqui a essa altura - ele respondeu, percebendo meu blefe. - Não mandariam você sozinha... apesar de eu ter entrado em pânico quando a vi. Não
percebi quem era e achei que havia outros junto com você. - Ele fez uma pausa e seu ar petulante se transformou em constrangimento. - Desculpa por, hum, ter dado
um soco em você. Se faz você se sentir melhor, você fez alguma coisa bem grave com meu pulso.
O rosto de Sabrina se encheu de preocupação.
- Ah, Marcus. Você precisa ir ao médico?
Ele tentou mover o pulso e fez que não com a cabeça.
- Você sabe que não posso. Nunca sabemos quem pode estar de olho num hospital. Esses lugares são muito fáceis de monitorar.
- Você realmente está se escondendo dos alquimistas - eu disse, admirada.
Ele fez que sim, parecendo quase orgulhoso.
- Estava duvidando? Imaginei que já soubesse dessa parte.
- Eu suspeitava, mas eles não me contaram. Disseram que você nem existia.
Ele pareceu achar graça naquilo. Na verdade, parecia achar graça em tudo, o que considerei um tanto irritante.
- Sei. Foi o que os outros disseram também.
- Que outros?
- Outros como você. - Aqueles olhos azuis se cravaram em mim por um momento, como se pudessem entrever todos os meus segredos. - Outros alquimistas que querem sair
do rebanho.
Eu sabia que estava de olhos arregalados.
- Existem... existem outros?
Marcus se acomodou no chão, recostando-se à parede, ainda esfregando o pulso.
- Vamos sentar. Sabrina, guarde a arma. Não acho que Sydney vá nos dar problemas.
Sabrina não pareceu muito convencida, mas, depois de alguns segundos, obedeceu e sentou no chão, posicionando-se de maneira protetora perto dele.
- Prefiro ficar em pé - eu disse. De jeito nenhum sentaria naquela imundície. Depois de rolar no chão com Marcus, queria tomar um banho de antisséptico.
Ele deu de ombros.
- Como quiser. Você quer respostas? Vai ter que me dar algumas primeiro. Por que veio me procurar sem que os alquimistas soubessem?
Eu não gostava de ser interrogada, mas de que adiantava ficar ali e não entrar na conversa?
- Clarence me contou sobre você - respondi, finalmente. - Ele me mostrou sua foto e vi que você tinha tatuado por cima do lírio. Nem sabia que isso era possível.
- A tatuagem nunca se apagava.
- Clarence Donahue? - Marcus pareceu sinceramente alegre. - Ele é um cara legal. Suponho que tenha ficado amiga dele em Palm Springs?
Eu ia dizer que não éramos amigos, mas então reconsiderei. O que mais seríamos?
- Conseguir isso não é fácil - Marcus continuou, apontando para a tatuagem azul. - Vai ter muito trabalho se quiser fazer também.
Dei um passo para trás.
- Calma aí. Nunca disse que queria isso. Por que eu faria uma coisa dessas?
- Porque vai libertar você - ele respondeu, simplesmente. - Ela evita que você discuta sobre vampiros, não é? Você não acha que isso é tudo que ela faz, acha? Pense
bem. O que impede a tatuagem de exercer outras formas de controle?
Tive de abandonar todas as expectativas sobre aquela conversa, porque cada assunto era mais maluco que o anterior.
- Nunca ouvi nada sobre isso. E nunca senti nada assim. Ela só me impede de falar sobre os vampiros. No resto do tempo, sou eu quem está no controle.
Ele assentiu.
- Talvez. A primeira tatuagem normalmente só tem a compulsão de fala. Eles só começam a retocar com outros componentes se têm motivos para se preocupar com você.
Às vezes as pessoas resistem contra os retoques e, nesse caso... bom, elas são mandadas para a reeducação.
As palavras dele me causaram um arrepio e coloquei a mão na bochecha, me lembrando do encontro que tivera ao receber a missão de Palm Springs.
- Fui retocada faz pouco tempo... mas foi coisa de rotina. - Rotina. Normal. Nada parecido com o que ele estava sugerindo.
- Talvez. - Ele inclinou a cabeça e me lançou um olhar penetrante. - Você fez alguma coisa errada antes disso, querida?
Como ajudar uma dampira fugitiva?
- Depende do que você entende por errado.
Os dois riram. A risada de Marcus era alta, descontraída e até contagiosa, mas a situação era grave demais para que eu me juntasse a eles.
- Eles devem ter reforçado sua lealdade ao grupo, então - ele disse, ainda rindo baixinho. - Mas ou não foi muito forte ou você lutou contra ela, senão não estaria
aqui. - Ele olhou de esguelha para Sabrina. - O que você acha?
Sabrina me examinou com um olhar crítico. Eu ainda estava achando difícil acreditar no papel dela em tudo aquilo.
- Acho que ela seria um bom reforço. E, como ainda está lá dentro, pode ajudar com aquela... outra questão.
- Também acho - ele concordou.
Cruzei os braços. Não gostava que discutissem sobre mim como se eu não estivesse ali.
- Um bom reforço para quê?
- Para o nosso grupo - ele respondeu. Depois se virou para Sabrina. - Precisamos mesmo de um nome, sabia. - Ela bufou e ele se voltou para mim. - Somos uma mistura.
Alguns são ex-guerreiros ou agentes duplos, como Sabrina. Outros são ex-alquimistas.
- E o que vocês fazem? - Fiz um gesto indicando o apartamento. - Isso aqui não parece exatamente uma base de operações altamente tecnológica para um grupo secreto.
- Olha só você. Bonita e divertida - ele disse, parecendo encantado. - Nós fazemos o que você faz... ou quer fazer. Gostamos dos Moroi. Queremos ajudá-los, mas seguindo
nossos próprios termos. Em tese, os alquimistas também querem ajudá-los, mas todos sabemos que no fundo isso se baseia em medo e intolerância, sem mencionar num
controle rígido de seus membros. Então trabalhamos em segredo, já que os alquimistas não gostam muito daqueles que se desgarram do rebanho. Não gostam especialmente
de mim, e é por isso que venho parar em lugares como esse.
- Ficamos de olho nos guerreiros também - Sabrina disse. Ela fez uma careta. - Odeio ficar com aqueles lunáticos, tendo que fingir que concordo com eles. Eles dizem
que só querem destruir os Strigoi, mas, bom, as coisas que já ouvi falarem dos Moroi também...
Uma das minhas lembranças mais perturbadoras da arena dos guerreiros me voltou à mente. Eu tinha ouvido um deles fazer um comentário misterioso sobre como, no futuro,
também lidariam com os Moroi.
- Mas o que vocês realmente fazem? - Falar sobre rebeliões e operações secretas era uma coisa, mas fazer alguma mudança concreta era outra. Eu tinha visitado minha
irmã Carly na faculdade uma vez e visto vários grupos de estudantes que queriam mudar o mundo. A maioria deles ficava sentada bebendo café, conversando muito e fazendo
pouco.
Marcus e Sabrina se entreolharam.
- Não posso colocar você a par das nossas operações - ele disse. - Não até saber que está disposta a romper a tatuagem.
Romper a tatuagem. Havia algo sinistro e definitivo nessas palavras e, de repente, fiquei sem saber o que estava fazendo ali. Quem eram aquelas pessoas de verdade?
Por que eu continuava falando com elas? Então, outro pensamento perturbador me passou pela cabeça: Será que estou duvidando deles por causa do controle da tatuagem?
Será que ela está me deixando cética em relação a qualquer pessoa que questione os alquimistas? Será que Marcus está falando a verdade?
- Também não entendi essa parte - eu disse para os dois. - O que quer dizer “romper” a tatuagem? É só colocar tinta por cima?
Marcus se levantou.
- Cada coisa em seu tempo. Agora, precisamos dar o fora daqui. Mesmo que você tenha sido discreta, imagino que tenha usado recursos alquimistas para me encontrar,
certo?
Hesitei. Ainda que eles estivessem sendo sinceros e tivessem boas intenções em relação aos Moroi, eu definitivamente não revelaria meu envolvimento com magia.
- Mais ou menos.
- Tenho certeza de que você é do bem, mas não podemos correr o risco. Esse lugar está comprometido. - Ele lançou um olhar nostálgico para a quitinete. Para ser sincera,
achava que ele deveria me agradecer por lhe dar um motivo para ir embora.
Sabrina também se levantou, com o rosto mais severo.
- Vou garantir que o abrigo secundário esteja pronto.
- Você é um anjo, como sempre - ele disse.
- Ei, como sabia que eu estava chegando? - perguntei. - Você teve tempo de se esconder e mandar uma mensagem para ela. - O que eu realmente queria saber era como
ele tinha me visto através do feitiço de invisibilidade. Eu sentira a magia me preencher. Tinha certeza de que havia lançado o feitiço corretamente, mas ele havia
me descoberto. O feitiço não funcionava se alguém estivesse procurando você, então será que ele tinha olhado pela janela justo quando eu estava subindo pela saída
de incêndio? Pior coincidência impossível.
- Tony me avisou. - Marcus me abriu aquele sorriso deslumbrante. Acho que ele queria que eu sorrisse de volta. - Ele é um bom menino.
Tony? Foi então que entendi. O menino do estacionamento. Ele havia fingido me ajudar e então me denunciara. Devia ter falado com Marcus enquanto eu subia a escada
de incêndio. Talvez Marcus só abrisse a porta com alguma batida secreta. Pelo menos eu tinha o conforto de saber que lançara o feitiço direito. Só não tinha funcionado
porque Marcus fora avisado que uma garota estava atrás dele.
Ele começou a guardar seus poucos pertences numa mochila.
- Aliás, O apanhador no campo de centeio é um livro ótimo. - Ele deu uma piscadinha. - Talvez um dia desses possamos ter uma conversa sobre literatura.
Eu não estava interessada. Quando olhei para ele, vi que continuava esfregando o pulso. Eu não conseguia acreditar que havia causado um ferimento tão grave e me
senti um pouco culpada, apesar de tudo o que havia acontecido.
- Você deveria cuidar disso - eu disse. Sabrina concordou com a cabeça.
Ele suspirou.
- Não posso. Pelo menos não por métodos convencionais. Os alquimistas têm olhos em toda parte.
Métodos convencionais.
- Hum, posso ajudar você a se tratar por métodos não convencionais - eu disse.
- Você conhece algum médico discreto? - Sabrina perguntou, esperançosa.
- Não. Mas conheço um Moroi usuário de espírito.
Marcus ficou paralisado, e gostei um pouco de surpreendê-lo.
- Sério? Ouvimos falar deles, mas nunca conhecemos nenhum. Aquela mulher que eles tinham capturado... Sonya? Ela é uma, não é? Ela sumiu antes que pudéssemos descobrir
mais.
Falar sobre Adrian me deixava nervosa, mas Sabrina já deveria saber da existência dele se estava me vigiando.
- Sim, é uma usuária, e existe outro em Palm Springs. Posso levar você até ele e pedir que cure seu machucado.
O rosto de Marcus se encheu de entusiasmo. Sabrina olhou para ele, horrorizada.
- Você não pode simplesmente sair com ela. - Era ciúme ou preocupação na voz dela?
- Por que não? - ele perguntou. - Ela está confiando em nós. Devemos o mesmo a ela. Além do mais, estou louco para conhecer um usuário de espírito. E o abrigo secreto
não é longe de Palm Springs. Você faz os preparativos para que tudo esteja em ordem e me busca depois.
Sabrina não gostou nem um pouco da ideia. Talvez eu ainda não estivesse entendendo a dinâmica do grupo, mas estava claro que ela o via como líder e era obcessivamente
protetora. Na verdade, suspeitei que os sentimentos dela não fossem apenas profissionais. Eles ficaram discutindo sobre a segurança dele ao sair comigo, e os escutei
sem dizer uma palavra. Enquanto isso, fiquei me perguntando se eu estaria segura saindo com um cara desconhecido. Clarence confiava nele, tentei me tranquilizar.
E ele é bem paranoico. Além disso, com o pulso de Marcus machucado, achava que conseguiria me defender.
Ele finalmente convenceu Sabrina a deixá-lo ir, mas não sem que ela soltasse:
- Se alguma coisa acontecer com ele, eu acabo com você. - Aparentemente, sua fachada durona na arena não tinha sido completamente simulada.
Nós nos despedimos, e logo eu e Marcus estávamos na estrada para Palm Springs. Tentei arrancar mais informações dele, mas ele não mordia a isca. Em vez disso, ficava
me elogiando e dizendo coisas que estavam a um passo de cantadas baratas. Pensando em como ele havia flertado com Sabrina também, não achei que havia nada de especial
em mim. Imaginei que ele só estava acostumado a ter mulheres a seus pés. Ele era bonito, eu tinha que admitir, mas seria preciso muito mais para me conquistar.
O sol estava se pondo quando estacionamos diante do prédio do Adrian e só então pensei que deveria ter avisado que estávamos chegando. Agora era tarde demais.
Caminhamos até a porta e bati três vezes.
- Está aberta - uma voz gritou de dentro. Entrei, e Marcus me seguiu.
Adrian estava trabalhando numa pintura abstrata que parecia um castelo cristalino de um mundo fantástico.
- Que surpresa - ele disse. Seus olhos pousaram em Marcus e se arregalaram. - Caramba. Você o encontrou.
- Graças a você - eu disse.
Adrian olhou para mim. Um sorriso começou a se formar em seu rosto e, então, se desfez instantaneamente.
- O que aconteceu com seu rosto?
- Ah. - Toquei de leve o inchaço. Ainda doía, mas não tanto quanto antes. Soltei as palavras seguintes sem pensar. - Marcus me bateu.
Eu nunca tinha visto Adrian se mover tão rápido. Marcus não teve tempo para reagir, talvez porque estivesse exausto depois da nossa luta. Adrian empurrou Marcus
contra a parede e, para meu espanto completo, deu um soco na cara dele. Uma vez, Adrian me dissera brincando que nunca sujava as mãos, então eu não estava preparada
para aquilo. Na verdade, se Adrian fosse atacar alguém, eu imaginava que faria algo com magia e induzido pelo espírito. No entanto... quando olhei para ele, percebi
que algo tão delicado como a magia não passava nem perto da sua cabeça. Ele entrara num modo de ação primitivo: ver uma ameaça, partir para cima dela. Era outro
lado surpreendente, mas fascinante, do enigma que era Adrian Ivashkov.
Marcus logo se recuperou e respondeu na mesma moeda. Ele empurrou Adrian para trás, retraindo-se um pouco de dor. Mesmo machucado, ele ainda era forte.
- O que foi isso? Quem é você?
- Um cara que vai acabar com você por ter machucado Sydney - Adrian respondeu.
Ele tentou dar outro soco, mas Marcus se esquivou e acertou um que jogou Adrian em cima de um dos cavaletes. Quando Marcus se preparou para dar outro golpe, Adrian
o evadiu com uma manobra que aprendera no curso de Wolfe. Eu teria aplaudido se não estivesse tão estarrecida com a situação. Sabia que algumas garotas achavam sexy
ter homens brigando por elas, mas não era o meu caso.
- Ei, vocês dois, chega! - gritei.
- Ninguém machuca você e sai impune - Adrian disse.
- O que aconteceu entre a gente não tem nada a ver com você - Marcus retrucou.
- Tudo o que acontece com ela tem a ver comigo.
Os dois ficaram se medindo, à espera que o outro atacasse.
- Adrian - exclamei -, foi um acidente!
- Para mim não parece um acidente - ele respondeu, sem tirar os olhos de Marcus em nenhum momento.
- Você deveria ouvir o que ela está falando - Marcus grunhiu. O cara relaxado que eu havia conhecido desapareceu, mas acho que ser atacado faria isso com qualquer
um. - Pode poupá-lo de ter seu rostinho bonito arrebentado. Quanto tempo leva pra deixar seu cabelo assim?
- Pelo menos penteio o cabelo - Adrian retrucou.
Marcus avançou, mas não diretamente contra Adrian. Ele pegou um quadro de um cavalete e o usou como arma. Adrian conseguiu se esquivar de novo, mas a pintura não
resistiu. A tela se partiu no meio e Marcus a jogou para o lado, pronto para o próximo golpe.
Adrian olhou de soslaio para a tela.
- Agora você realmente me irritou.
- Chega! - Algo me dizia que eles não dariam ouvidos à razão. Aquilo exigia intervenção direta. Atravessei a sala e me coloquei entre os dois.
- Sydney, saia da frente - Adrian ordenou.
- É verdade - concordou Marcus. - Finalmente disse alguma coisa que faz sentido.
- Não! - Estendi os braços para separá-los. - Vocês dois, para trás, agora! - Minha voz ecoou pelo apartamento e me recusei a sair do lugar. - Para trás - repeti,
enunciando as palavras devagar.
- Sydney... - A voz de Adrian estava um pouco mais hesitante do que quando me disse para sair da frente.
Me virei de um para o outro, lançando um olhar severo para os dois.
- Adrian, realmente foi um acidente. Marcus, esse é o cara que vai ajudar você, então mostre um pouco de respeito.
Mais do que qualquer outra coisa, minhas palavras deixaram os dois confusos.
- Espere - Adrian disse. - Você disse “ajudar”?
Marcus estava igualmente atônito.
- Esse babaca é usuário de espírito?
- Vocês dois estão agindo como idiotas - repreendi. Da próxima vez que não tivesse nada para fazer, pesquisaria em algum livro sobre comportamento causado por testosterona.
Era um mistério para mim. - Adrian, podemos conversar em particular? No quarto, por exemplo?
Adrian concordou, mas não sem antes disparar um último olhar ameaçador para Marcus. Eu disse para Marcus ficar onde estava e torci para que não fosse embora nem
chamasse outra pessoa armada. Adrian me seguiu até o quarto e fechou a porta atrás de nós.
- Sabe - ele disse -, em circunstâncias normais, você me chamar para o quarto seria o ponto alto do meu dia.
Cruzei os braços e sentei na cama. Fiz isso por mero cansaço, mas, um momento depois, me dei conta do que estava fazendo. É aqui que Adrian dorme. Estou encostando
nos lençóis que envolvem seu corpo à noite. O que ele veste para dormir? Será que veste alguma coisa?
Me levantei em um salto.
- Foi mesmo um acidente - eu disse. - Marcus achou que eu estava lá para raptá-lo.
Adrian, sem ter nada contra a cama, sentou. Então soltou um resmungo de dor, provavelmente por causa do soco no estômago.
- Se alguém como você aparecesse para me raptar, eu deixaria.
Mesmo sentindo dor, ele não parava.
- Estou falando sério. Foi por instinto, e ele pediu mil desculpas no carro depois que descobriu quem eu era.
Isso chamou a atenção dele.
- Ele sabia quem você era?
Fiz um resumo do meu dia em Santa Bárbara. Ele ouviu com atenção, assentindo e alternando entre uma expressão de confusão e outra de surpresa.
- Não imaginei que você acabaria machucando Marcus quando o trouxe para cá - eu disse, depois de terminar a história.
- Estava defendendo sua honra. - Adrian abriu aquele sorriso despreocupado que sempre conseguia me deixar furiosa e encantada ao mesmo tempo. - Muito másculo, não
acha?
- Muito mesmo - respondi, seca. Eu não gostava de violência, mas o fato de ele ter feito algo tão inesperado por mim era mesmo incrível. Não que eu fosse dar esse
gostinho para ele. - Wolfe ficaria orgulhoso. Acha que consegue não dar mais nenhuma demonstração de “masculinidade” enquanto Marcus está aqui? Por favor?
Adrian abanou a cabeça, ainda sorrindo.
- Já disse várias vezes que faria qualquer coisa por você. Só fico torcendo para que um dia você peça algo como “Adrian, vamos para uma banheira de hidromassagem?”
ou “Adrian, me leva para comer fondue?”.
- Bom, às vezes a gente precisa... Você disse fondue? - Algumas vezes era impossível seguir a linha de raciocínio dele. - Por que eu diria uma coisa dessas?
Ele deu de ombros.
- Eu gosto de fondue.
Não sabia como responder a isso. Aquele dia estava ficando cada vez mais desgastante.
- Desculpe por não estar pedindo uma coisa tão chique quanto queijo derretido, mas agora preciso descobrir mais informações sobre Marcus e o grupo dele... e sobre
a tatuagem.
Adrian reconheceu a gravidade da situação. Levantou e tocou de leve o lírio na minha bochecha.
- Não confio nele. Pode estar usando você. Mas... também não gosto da ideia de isso controlar você.
- Somos dois - admiti, perdendo um pouco da postura rígida de antes.
Ele traçou o contorno do meu rosto por alguns segundos ofegantes e então deixou a mão cair.
- Talvez valha a pena ajudar o cara pra conseguir algumas respostas.
- Promete que não vai entrar em mais nenhuma briga? Por favor?
- Prometo - ele respondeu. - Desde que ele não me provoque.
- Vou pedir para ele prometer também. - Só me restava torcer para que a “masculinidade” deles não fosse mais forte. Enquanto pensava em tudo aquilo, outra coisa
que tinha quase esquecido me veio à mente. - Ah... Adrian, tenho que pedir outro favor. Um grande favor.
- Fondue? - ele perguntou, esperançoso.
- Não. É sobre a irmã da sra. Terwilliger...
Contei o que havia descoberto. A ironia em seu rosto desapareceu e se transformou em incredulidade.
- E você só menciona isso agora? - ele exclamou quando terminei. - Que uma bruxa sugadora de almas está atrás de você?
- Ela nem sabe que eu existo. - Fiquei surpresa com o quão defensiva me senti de repente. - E sou a única pessoa que pode ajudar, pelo menos segundo a sra. Terwilliger.
Ela acha que eu sou algum tipo de superdetetive.
- Bom, você tem um quê de Sherlock Holmes - ele disse. A brincadeira não durou; ele estava incomodado demais. - Mas você devia ter me contado! Podia ter ligado.
- Estava meio ocupada com Marcus.
- Agora suas prioridades são outras. Isso é muito mais importante que o grupinho de Vingadores dele. Se precisamos acabar com uma feiticeira do mal antes que ela
pegue você, claro que ajudo. - Ele hesitou. - Com uma condição.
Olhei para ele, desconfiada.
- Qual?
- Me deixe curar você também.
Dei um pulo para trás, quase mais chocada do que ficaria se ele tivesse sugerido me dar outro soco.
- Não! De jeito nenhum! Não precisa. Estou melhor que ele.
- Você quer voltar para Amberwood com a cara assim? Não vai conseguir esconder esse roxo, Sage. E se Castile vir, com certeza vai atrás de Marcus. - Adrian cruzou
os braços com ar de desafio. - Esse é o meu preço.
Ele estava blefando, e eu sabia disso. Talvez estivesse sendo egocêntrica, mas tinha certeza de que ele não me deixaria entrar numa situação perigosa sozinha. No
entanto, ele estava certo. Eu ainda não tinha visto a marca que Marcus havia deixado, mas não queria ter que explicar aquilo na escola. E, sim, havia uma boa chance
de Eddie decidir caçar meu agressor. Ser espancado por um dampiro vingativo poderia dificultar o trabalho com Marcus.
Mas... como eu poderia aceitar? Quando eu usava magia, pelo menos, era nos meus próprios termos. E, embora minha tatuagem contivesse traços de sangue de vampiro,
eu me consolava com a ideia de que estava ligada aos quatro elementos “normais”, que eu conseguia entender. O espírito ainda era uma entidade desconhecida, com habilidades
que sempre nos surpreendiam. Como eu me poderia me sujeitar a essa magia vampírica?
Adivinhando meu debate interior, a expressão de Adrian se abrandou.
- Eu vivo fazendo isso. É um feitiço simples. Sem surpresas.
- Talvez - eu disse, relutante. - Mas cada vez que você usa o espírito, tem mais chances de ficar louco.
- Já sou louco por você, Sage.
Pelo menos esse era um território conhecido.
- Você disse que não voltaria a falar desse assunto.
Ele simplesmente ficou me olhando, sem dizer nada. Por fim, abri os braços.
- Tudo bem - eu disse, com mais coragem do que realmente sentia. - Acabe logo com isso.
Adrian não perdeu tempo. Deu um passo à frente, estendeu o braço e pousou a mão na minha bochecha outra vez. Prendi a respiração e meu coração acelerou. Seria muito,
muito fácil para ele me puxar e me beijar outra vez. Um calorzinho formigante se espalhou pela minha pele e, por um momento, pensei que fosse só minha reação normal
ao toque dele. Mas não. Era a magia. Seus olhos se fixaram nos meus e, por uma fração de segundo, ficamos suspensos no tempo. Depois, ele tirou a mão e deu um passo
para trás.
- Pronto - ele disse. - Foi tão ruim assim?
Não, não tinha sido nada ruim. A dor latejante havia desaparecido. Tudo o que restava era a voz constante na minha cabeça repetindo que o que havia acabado de acontecer
era errado. Essa mesma voz tentou me dizer que Adrian havia deixado uma mácula em mim... mas era difícil de acreditar vindo dele. Voltei a respirar.
- Obrigada - eu disse. - Não precisava.
Ele abriu um daqueles sorrisinhos dele.
- Ah, acredite, precisava.
Um silêncio constrangedor pairou entre nós por um momento. Pigarreei.
- Bom. Precisamos voltar para falar com Marcus. Talvez tenhamos tempo de jantar antes de Sabrina aparecer e vocês dois podem fazer as pazes.
- Duvido que mesmo uma caminhada sob o luar vá resolver nossos problemas.
Suas palavras me lembraram de outra coisa que eu queria falar com ele quando voltasse à cidade, algo que tinha uma prioridade muito menor.
- Seu casaco; você nunca pegou de volta depois do casamento. Está no meu carro.
Ele fez um gesto de desdém.
- Pode ficar com ele. Tenho outros.
- O que vou fazer com um casaco de lã? - perguntei. - Ainda mais aqui em Palm Springs?
- Durma com ele - sugeriu Adrian. - Pensando em mim.
Pus as mãos na cintura e tentei lançar um olhar intimidador, o que não era nada fácil considerando a altura dele. Além disso, as palavras dele subitamente trouxeram
de volta a sensação desnorteante que tivera ao me sentar em sua cama.
- Você prometeu que não voltaria a falar de coisas românticas comigo.
- Isso foi romântico? - ele perguntou. - Só estava fazendo uma sugestão porque o casaco é pesado e quentinho. Imaginei que fosse pensar em mim porque esse foi um
gesto muito legal da minha parte. Mais uma vez é você quem está interpretando tudo o que eu falo de maneira romântica.
- Não estou. Você entendeu o que eu quis dizer.
Ele meneou a cabeça, fingindo compaixão.
- Sabe, Sage, às vezes acho que sou eu quem precisa de uma ordem de restrição contra você.
- Adrian!
Mas ele já havia saído pela porta, sua risada brincalhona ecoando pelo corredor.
8
Se dependesse dele, Adrian teria saído à caça da irmã da sra. Terwilliger naquela mesma hora. Mas o toque de recolher de Amberwood não permitiria; além do mais,
eu preferia empreender aquela busca à luz do dia. Pelo menos ele curou Marcus sem que saíssem no braço de novo, o que era um avanço. Marcus perdeu um pouco da hostilidade
e tentou puxar conversa com Adrian sobre o que o espírito era capaz de fazer. Adrian deu respostas curtas e pareceu aliviado quando Sabrina apareceu para levar Marcus
embora. Ele se despediu de mim com ar misterioso, dizendo apenas que me mandaria uma mensagem em breve sobre o “próximo estágio”. Eu estava cansada demais para pedir
mais detalhes e voltei ao alojamento para descansar e me recuperar daquele dia maluco.
Fui acordada ao romper do dia com batidas violentas na porta. Olhei para o relógio, fazendo uma careta ao notar que faltava uma hora para o horário em que costumava
me levantar. Continuei na cama, torcendo para que a pessoa desistisse. Se algo realmente urgente tivesse acontecido, teriam me ligado no celular. Mas a tela não
mostrava nenhuma ligação perdida.
Infelizmente, as batidas não pararam. Com um pressentimento ruim, finalmente me levantei, quase temendo o que encontraria atrás da porta.
Era Angeline.
- Finalmente - ela disse, entrando sem que eu a convidasse. - Pensei que nunca fosse abrir.
- Desculpe - eu disse, fechando a porta atrás dela. - Estava muito ocupada dormindo.
Ela caminhou diretamente para a cama e sentou como se fosse dona do quarto. Eu não fazia a menor ideia do horário dela, mas Angeline sempre me parecera alguém que
dormia até tarde. Pelo jeito, não era o caso naquele dia. Ela estava usando o uniforme da escola, com o cabelo vermelho-vivo amarrado atrás da cabeça no que era,
para os padrões dela, um rabo de cavalo até que caprichado.
Meu medo cresceu. Liguei a cafeteira, que eu sempre deixava pronta com grãos frescos e água. Algo me dizia que precisaria de uma xícara para passar por aquilo.
- Qual é o problema? - perguntei, me acomodando na cadeira da escrivaninha. Nem tentei adivinhar. Quando se tratava de Angeline, podia ser qualquer coisa, desde
atirar uma carteira através da sala num acesso de raiva até acidentalmente derrubar ácido clorídrico em outro aluno. Ambos tinham acontecido pouco tempo antes.
- Vou repetir em matemática - ela respondeu.
Era uma notícia desagradável, mas não totalmente inesperada. A comunidade de Angeline nas montanhas, embora educasse as crianças, não alcançava os altos padrões
do currículo de Amberwood. Ela tinha problemas em muitas matérias, mas, até então, estava conseguindo se virar.
- Já estou com problemas em espanhol - ela acrescentou. - Mas aquela piñata que fiz me deu alguns pontos extras, então estou aguentando bem, por enquanto.
Tinham me falado sobre a piñata. Angeline a tinha feito para a feira cultural, e havia sido tão cuidadosa com o papel machê que nenhum dos seus colegas conseguira
quebrá-la por meios normais. Angeline acabara jogando a piñata contra uma parede e precisou ser impedida pela professora quando tirou um isqueiro do bolso.
- Mas, se reprovar em espanhol e em matemática, posso ser expulsa.
Aquilo me fez esquecer a piñata inflamável e voltar para o presente.
- Ugh - resmunguei, sem saber um jeito melhor de articular as ideias. O lado ruim de uma escola que tinha altos padrões era que... bom, ela tinha altos padrões.
Problemas em uma matéria poderiam ser tolerados, mas não em duas. E, se Angeline fosse expulsa, teríamos um nível de segurança a menos para Jill, sem contar que
eu provavelmente levaria a culpa por tudo aquilo.
- A sra. Hayward disse que preciso de um tutor. Ela disse que preciso melhorar ou, pelo menos, mostrar que estou me esforçando.
Isso era promissor, pensei. Mesmo se um tutor não pudesse ajudar, com sorte a escola seria mais tolerante por causa do esforço bem-intencionado dela.
- Está bem - eu disse. - Vamos conseguir um tutor pra você.
Ela franziu a testa.
- Por que não pode ser você? Você é inteligente. É boa em matemática.
Por que eu não podia? Bom, primeiro porque tinha que impedir uma feiticeira do mal de sugar a juventude e o poder de garotas inocentes. Depois, precisava descobrir
os segredos e as mentiras que a organização da qual eu fazia parte desde que tinha nascido estava me contando.
Em vez disso, respondi:
- Ando meio ocupada.
- Mas precisa ser você. Seria moleza - ela protestou.
- Muito ocupada - reiterei. - É uma surpresa Eddie não poder.
A menção ao nome dele fez brotar um sorriso no rosto dela.
- Ele se ofereceu, mas as notas dele são só medianas. Preciso de alguém que seja muito bom.
- Então vou arranjar alguém muito bom. Eu mesma não posso agora.
Angeline não gostou nada da resposta, mas pelo menos não destruiu minha mesa.
- Tá. Tudo bem. Mas seja rápida.
- Sim, majestade - murmurei, observando-a sair mal-humorada.
Pelo menos os problemas acadêmicos de Angeline eram um pouco mais fáceis de resolver do que as outras intrigas sobrenaturais que ocupavam meu tempo. Como já estava
acordada e havia tomado café, achei que não fazia sentido voltar para a cama. Tomei banho e me vesti, depois fiz alguns trabalhos extras para a escola enquanto esperava
pelo café da manhã. Quando o refeitório abriu, desci as escadas e esperei perto da entrada. Demorou apenas cinco minutos para que minha amiga Kristin Sawyer chegasse.
Ela sempre saía para correr antes das aulas e, depois, costumava ser a primeira na fila para o café da manhã. Ela fazia cálculo avançado comigo.
- Ei - cumprimentei, sem conseguir acompanhar o ritmo dela. - Foi boa a corrida?
- Foi ótima - ela respondeu. Sua pele morena ainda estava um tanto suada. - Muito melhor agora que o tempo está mais fresco. - Ela me olhou com curiosidade. - Não
costumo ver você aqui tão cedo. Aliás, nem costumo ver você tomando café da manhã.
- É a refeição mais importante do dia, não é? - Peguei mingau de aveia e uma maçã. - Além disso, preciso pedir um favor pra você.
Kristin quase derrubou o prato com ovos mexidos que um dos atendentes entregava para ela. Seus olhos castanhos se arregalaram.
- Precisa pedir um favor pra mim?
Embora meus amigos humanos não fossem minha responsabilidade do mesmo modo que os Moroi e os dampiros, eu tomava conta deles mesmo assim. Havia ajudado Kristin diversas
vezes.
- Sim... Minha prima Angeline precisa de um tutor de matemática.
Kristin me olhou com expectativa, como se estivesse esperando que eu terminasse a história. Então ela entendeu.
- Quem, eu? Não. De jeito nenhum.
- Ah, por favor. Seria moleza. - Eu a segui até uma mesa, me apressando para acompanhar seu ritmo. Talvez ela tenha pensado que, se andasse rápido o bastante, poderia
fugir do meu pedido. - Angeline está em matemática básica. Você poderia ajudá-la com as mãos nas costas.
Kristin sentou e me lançou um olhar demorado.
- Sydney, vi sua prima bater num homem adulto e atirar um microfone numa pessoa. Você realmente acha que vou aceitar um trabalho que vai obrigá-la a fazer o que
ela não quer? E se ficar frustrada com o que eu disser pra ela? Como vou saber que não vai me furar com um compasso?
- Não dá para saber - admiti. - Mas acho improvável. Acho mesmo. Ela realmente quer melhorar a nota. Senão, pode ser expulsa.
- Sinto muito. - Kristin parecia sincera. - Sabe que eu faria quase qualquer coisa por você, mas não isso. Vai ter que encontrar alguém que não tenha medo dela.
Pensei nas palavras dela várias vezes enquanto ia para a aula de história. Ela tinha razão. Mas as únicas pessoas completamente à vontade com Angeline eram Eddie
e Jill, e eles estavam fora da lista de possíveis tutores. Cogitei que talvez devesse oferecer dinheiro a alguém quando fosse para a aula de cálculo mais tarde.
- Srta. Melbourne.
A sra. Terwilliger tinha voltado à ativa, sem dúvida para o alívio da substituta. Ela me chamou até sua mesa caótica e me entregou uma folha de papel.
- Aqui está a lista de que falei.
Examinei a página. Continha o nome e o endereço de seis meninas. Deviam ser as garotas que ela havia mencionado, com aptidão mágica mas sem clã ou mentor para cuidar
delas. Todos os endereços eram na região metropolitana de Los Angeles.
- A sra. Santos lhe enviou as informações de que precisava para o projeto, não?
- Sim, enviou. - A sra. Santos havia me mandado um e-mail sobre os bairros históricos que conhecia, e eu havia reduzido a lista a dois candidatos prováveis. - Vou
começar a trabalhar no, hum, projeto no fim de semana.
A sra. Terwilliger arqueou uma sobrancelha.
- Por que só no fim de semana? Achei que você nunca adiasse uma tarefa.
Fiquei um tanto desconcertada.
- Bom, normalmente não. Mas isso vai demorar um pouco... Precisarei viajar e não tenho muito tempo livre nos dias de semana.
- Ah - ela disse, entendendo rápido. - Bom, nesse caso, pode usar o horário do estudo independente para isso. Vai lhe dar um tempinho extra. E direi à sra. Weathers
que talvez você chegue depois do toque de recolher. Tomarei as providências para que ela concorde. Esse projeto é de importância máxima.
Não havia como protestar.
- Começarei hoje, então.
Enquanto voltava para minha carteira, uma voz disse:
- Caramba, Melbourne. Bem quando eu achava que aquele seu estudo independente não podia ficar mais fácil... agora você nem precisa ir mais pra aula?
Parei e sorri para Trey. Ele era o assistente da sra. Terwilliger naquela matéria, o que significava que vivia organizando e xerocando papéis.
- É uma tarefa muito importante - eu disse.
- Imagino. Qual é?
- Não quero entediar você. - Olhei de novo para o rosto dele. Nem precisei me esforçar para mudar de assunto. - O que aconteceu com você?
Os olhos dele estavam vermelhos, e o estado desgrenhado do seu cabelo preto sugeria que não tinha tomado banho naquela manhã. Sua pele normalmente bronzeada estava
com uma cor pálida, quase doentia. Ele entreabriu um sorriso e abaixou a voz.
- O irmão do Craig Lo levou umas cervejas pra gente ontem à noite. Eram de uma microcervejaria. Eram boas.
Soltei um suspiro.
- Trey, pensei que você fosse melhor do que isso.
Trey me lançou o olhar mais indignado que conseguiu em meio à sua ressaca.
- Ei, algumas pessoas se divertem de vez em quando. Você deveria experimentar uma hora dessas. Já tentei juntar você e Brayden, mas você estragou tudo.
- Não estraguei nada! - Brayden era um barista que trabalhava com Trey e compartilhava meu amor pelos estudos e por conhecimentos gerais. Nosso breve relacionamento
tinha sido repleto de informações, mas vazio de paixão. - Foi ele quem terminou comigo.
- Ninguém adivinharia. Sabia que ele vive escrevendo poemas apaixonados sobre você nos intervalos?
Isso me pegou de surpresa.
- Ele... escreve? - Brayden havia terminado comigo porque minhas várias obrigações com os vampiros viviam interferindo no nosso relacionamento, o que me levava a
dar menos atenção a ele e cancelar muitos compromissos. - Fico mal por saber que foi tão pesado para ele. É uma surpresa ele ter um... acesso de paixão desses.
Trey riu.
- Não sei se é paixão. Ele se preocupa mais com a forma dos poemas e fica sentado com livros sobre pentâmetro iâmbico e análise de sonetos.
- Tá, agora parece que estamos falando da mesma pessoa. - O sinal estava prestes a tocar; fiz menção de voltar para o meu lugar quando percebi uma coisa na carteira
de Trey. - Ainda não terminou isso?
Era uma lista de exercícios que tínhamos de resolver para a aula de química, com vários problemas complicados sobre ácidos e bases. Precisávamos entregar no horário
seguinte, e parecia improvável que Trey fosse conseguir, já que tudo o que havia no papel até agora era o nome dele.
- Não... Eu ia terminar ontem à noite, mas...
- Claro. A cerveja. Se divertir. - Nem me dei ao trabalho de esconder minha desaprovação. - É uma parte enorme da nota.
- Eu sei, eu sei. - Ele olhou para os papéis com um suspiro. - Vou fazer o máximo possível até lá. Crédito parcial é melhor que nenhum crédito.
Fiquei examinando-o por um instante e, então, tomei uma decisão que ia contra muitos dos meus princípios mais básicos. Enfiei a mão na bolsa e tirei meu trabalho
terminado.
- Toma - eu disse.
Ele pegou as folhas, franzindo a testa.
- Toma o quê?
- É a minha lição. Use as minhas respostas.
- Eu... - O queixo dele caiu. - Você tem noção do que está fazendo?
- Sim.
- Acho que não tem. Você está me dando sua lição.
- Sim.
- E me dizendo para fingir que é minha.
- Sim.
- Mas na verdade não fui eu que fiz.
- Quer ou não quer? - perguntei, frustrada. Comecei a pegar os papéis de volta, mas ele os segurou com força.
- Ah, eu quero - ele disse. - Só gostaria de saber o que você quer em troca. Porque isso não compensa meu banimento entre meus amigos e a minha família. - Ele manteve
o tom amigável, mas notei uma nota de amargura em sua voz. Não tinha jeito. Por mais que gostássemos um do outro, nossas respectivas filiações aos guerreiros e aos
alquimistas sempre estariam entre nós. Poderia ser uma piada agora... mas algum dia talvez não fosse mais.
- Preciso de um favor - expliquei. - Um favorzinho, na verdade. Não tem nada a ver com... aquelas coisas.
Como era de se esperar, Trey ficou desconfiado.
- Que favor?
O sinal tocou, então falei rápido.
- Angeline precisa de um tutor de matemática, senão vai reprovar. E, se reprovar, vai ser expulsa. Seria bem fácil pra você. E pegaria bem no seu currículo pra faculdade.
- Sua prima é um pouquinho maluca - ele disse. Mas não recusou, o que tomei como um bom sinal.
- Você achava ela bonita - eu o lembrei.
- Sim, mas isso foi antes... - Ele não terminou a frase, mas eu entendi. Antes de ele descobrir que ela era uma dampira. Os guerreiros tinham os mesmos tabus que
os alquimistas quanto a relacionamentos inter-raciais.
- Tudo bem - eu disse. - Entendi. Vou pegar meu trabalho e voltar pro meu lugar. - Estendi a mão, mas ele não me devolveu as folhas.
- Espera. Eu topo. Mas, se ela me machucar, tomara que você se sinta muito culpada. A temporada de basquete acabou de começar e meu time vai desmoronar se eu ficar
no banco por causa dela.
Abri um sorriso largo.
- Eu ficaria arrasada.
Angeline não se animou muito quando lhe contei durante o almoço. Na verdade, ficou vermelha de raiva e parecia prestes a atirar a bandeja para o outro lado do refeitório.
- Você quer que eu estude com aquele... aquele... caçador de vampiros? - ela perguntou. Fiquei imaginando se ela tinha outro nome em mente, mas se conteve, numa
demonstração impressionante de autocontrole. - Ainda mais depois do que eles tentaram fazer com Sonya?
- Trey não é como os outros - defendi. - Ele se recusou a matar Sonya e até teve o trabalho de me colocar lá dentro para ajudá-la, o que, aliás, acabou ferrando
com a vida dele.
Eddie parecia estar se divertindo, apesar do assunto desagradável.
- Você esqueceu de mencionar que ele está louco pra voltar para aquela vida.
Apontei meu garfo para Eddie.
- Não venha me dizer que também acha Trey uma má opção.
- Para tutor? - Ele balançou a cabeça. - Não, ele é o.k. Só estou dizendo que você não deveria acreditar que está tudo às mil maravilhas com ele. É muito provável
que o grupo dele esteja trabalhando contra a gente.
- Ele é meu amigo - eu disse, torcendo para que meu tom de voz pusesse fim à discussão. Depois de dar mais alguns argumentos, Eddie convenceu Angeline a estudar
com Trey, lembrando que ela precisava manter as notas altas. Apesar disso, as palavras de Eddie me perturbaram. Eu tinha certeza absoluta de que Trey era meu amigo,
mas não sabia se aquela rixa entre nós um dia viria à tona.
Quando Eddie e Angeline saíram para as aulas da tarde, pedi para Jill ficar na mesa por mais um minuto.
- O que Adrian está fazendo agora?
- Está na aula de pintura - ela respondeu prontamente.
- O laço deve estar forte hoje, hein? - perguntei. Em alguns dias as visões que ela tinha da mente e das experiências dele eram mais claras do que em outros.
Ela encolheu os ombros.
- Não, mas são onze da manhã de terça-feira.
- Claro - eu disse, me sentindo idiota. Eu sabia os horários de todo mundo; era necessário para o meu trabalho. - Devia ter imaginado. Você acha que ele poderá se
encontrar comigo depois da aula?
- Pra ir caçar bruxas? Sim, ele deve estar saindo agora.
Jill sabia o que Adrian sabia, o que significava que já estava a par da minha busca por Veronica. Embora eu tivesse aprendido a aceitar que contar meus segredos
a Adrian significava contar a Jill indiretamente, ainda era um pouco chocante ouvir esses assuntos proibidos discutidos tão abertamente. Ao ver minha reação atordoada,
Jill abriu um meio sorriso.
- Não se preocupe - ela disse. - Eu guardo os segredos de Adrian. E os seus também. - A amargura na voz dela também me pegou de surpresa.
- Você está brava comigo? - perguntei, sem entender. - Você não está... não está chateada ainda por causa do que aconteceu entre mim e Adrian, está? Pensei que tivesse
deixado isso pra lá. - Embora a declaração de Adrian de que me amaria apesar de todos os obstáculos tivesse sido perturbadora, sua atitude mais relaxada tinha contaminado
Jill até então.
- Adrian deixou um pouco pra lá - ela disse. - Não vê o perigo de você sair por aí com outro cara.
Fiquei sem entender.
- Outro cara? Você não está falando do... Marcus, está? Isso é loucura.
- É mesmo? - Jill perguntou. O laço era muito estranho às vezes. Jill estava com ciúme no lugar de Adrian. - Ele é humano, você é humana. Vocês dois têm esse lance
de alquimistas rebeldes. E eu vi o cara. Ele é bem bonito. Não dá para saber o que vai acontecer.
- Bom, eu sei o que vai acontecer: nada - eu disse. Mesmo através de um laço psíquico, Marcus conseguia seduzir as garotas. - Acabei de conhecê-lo. Nem sei se confio
nele direito e definitivamente não sinto nada por ele. Olha, entendo que você queira ajudar Adrian, mas não pode ficar brava comigo pelo que aconteceu. Você sabe
por que o rejeitei, ainda mais depois do que aconteceu com Micah. - Micah era o colega de quarto de Eddie e, embora ela soubesse que não poderia haver relacionamentos
sérios entre humanos e vampiros, havia se surpreendido com a complexidade e a dificuldade da situação.
- É... - Ela franziu a testa, visivelmente dividida entre os sentimentos de Adrian e o que ela sabia ser certo. - Mas talvez com Adrian... sei lá. Talvez as coisas
possam ser diferentes. Ou talvez ao menos exista um jeito de fazer com que ele sofra menos.
Desviei o olhar, sem conseguir encará-la. Não gostava de saber que Adrian estava sofrendo, mas o que eu poderia fazer? O que eles queriam que eu fizesse? Os dois
sabiam das regras.
- Sinto muito - eu disse, pegando minha bandeja e levantando. - Nunca quis que nada disso acontecesse. Adrian vai me esquecer.
- Você realmente quer que Adrian a esqueça? - ela perguntou.
- Como assim? Por que você faria uma pergunta dessas?
Ela não respondeu; em vez disso, fez uma cena mexendo seu purê de batata. Quando percebi que não ia responder, sacudi a cabeça e caminhei em direção à saída. Podia
sentir o olhar dela pesando nas minhas costas enquanto aquela pergunta ecoava na minha cabeça: Você realmente quer que Adrian a esqueça?
9
Como Jill havia dito, Adrian estava mais do que disposto a partir para a caça naquela tarde. Tanto que, quando finalmente falei com ele, se ofereceu para me buscar
quando as aulas terminassem para maximizar nosso tempo. Não vi problema, já que isso significava que eu viajaria no Mustang. Claro que preferiria ir dirigindo, mas
teria de servir.
- Quando você vai dar um nome pro seu carro? - perguntei quando já estávamos na estrada para Los Angeles.
- É um objeto inanimado - ele respondeu. - Nomes são para pessoas e bichinhos de estimação.
Fiz carinho no painel do Mustang.
- Não ouve o que ele está dizendo. - Depois me voltei para Adrian. - As pessoas vivem dando nome para barcos.
- Também não entendo isso, mas talvez compreendesse se meu velho me arranjasse a grana para um iate particular. - Ele me lançou um olhar rápido e divertido antes
de voltar a atenção para a estrada. - Como uma pessoa fria e lógica como você pode ser tão obcecada com algo fútil desse jeito?
Não sabia que parte me incomodava mais: ser chamada de fria ou de obcecada.
- Só estou dando o devido respeito a uma linda máquina.
- Você deu um nome de café pro seu carro. Isso é sinal de respeito?
- Do mais alto respeito - respondi.
Ele deu uma risada incrédula.
- Certo, então. Você dá o nome. Aceito o que você quiser.
- Sério? - perguntei, um tanto atordoada. De fato eu estivera importunando Adrian para que desse um nome ao carro, mas não sabia se queria esse tipo de responsabilidade
nas mãos. - É uma decisão muito importante.
- Uma questão de vida ou morte - ele disse, inexpressivo. - Melhor escolher com cuidado.
- Sim, mas você é a “mente criativa” aqui!
- É bom você ir treinando.
Fiquei em silêncio durante a maior parte da viagem, desorientada com a seriedade do dilema que tinha à frente. O que o nome deveria refletir? A cor amarela brilhante?
As linhas curvilíneas? O motor potente? Era uma tarefa avassaladora.
Adrian me tirou dos meus pensamentos quando começamos a nos aproximar dos bairros residenciais nos arredores de Los Angeles.
- Não vamos entrar na cidade, vamos?
- Hein? - Eu estava dividida entre Vento Estival e Pó de Ouro. - Ah, não. Vamos para o norte. Pegue a próxima saída.
A sra. Santos tinha me falado sobre dois bairros conhecidos por suas casas de estilo vitoriano. Eu havia feito uma vasta pesquisa sobre os dois na internet, chegando
a olhar imagens de satélite. Por fim, escolhi um que se parecia mais com o da minha visão e cruzei os dedos para que tivesse a mesma sorte que tivera ao procurar
o apartamento de Marcus. O universo definitivamente estava me devendo alguns favores.
Infelizmente, as coisas não pareceram tão promissoras quando enfim chegamos ao endereço que eu tinha anotado. Era uma área residencial calma, cheia de casas naquele
estilo característico, mas nenhuma igual à que eu tinha visto através do feitiço. Percorremos a rua de cima a baixo enquanto eu examinava os dois lados, torcendo
para que pudesse ter deixado alguma casa passar despercebida.
- Argh - eu disse, me afundando no banco. Sem sorte. Pelo jeito, o universo tinha me deixado na mão dessa vez. - Vamos ter que olhar o outro lugar, mas, sério, não
parecia o lugar certo.
- Bom, não vai doer se... - Adrian fez uma curva abrupta, entrando numa travessa que quase passara despercebida. Levei um tranco quando o carro bateu na guia.
- O que você está fazendo? Cuidado com os pneus!
- Veja. - Ele fez outra curva, entrando na rua paralela. A maioria das casas era de estilo contemporâneo... mas um quarteirão tinha outras casas vitorianas. Perdi
o fôlego.
- Ali!
Adrian parou o carro do outro lado da rua, em frente à casa da minha visão. Era igualzinha, desde a varanda coberta até os arbustos de hortênsia. E, agora, sob a
luz do dia, eu conseguia ler a placa no jardim: POUSADA DO VELHO MUNDO. Letras menores identificavam a casa como um lugar histórico.
- Bom, aqui vamos nós. - Adrian estava visivelmente satisfeito com sua descoberta, apesar do dano aos seus pneus. - Talvez a irmã de Jackie esteja hospedada aqui.
- Escolha peculiar para uma base de operações mágicas abomináveis - comentei.
- Não sei, não. Já que não tem nenhum castelo mal-assombrado no bairro, por que não uma pousada?
Respirei fundo.
- Certo. Vamos investigar. Tem certeza de que consegue confundir a mente das pessoas que me virem?
- Fácil - ele respondeu. - Seria ainda mais fácil se você estivesse usando a peruca.
- Ai, caramba. Esqueci. - Abaixei e peguei uma peruca castanha na altura dos ombros que a sra. Terwilliger havia me dado. Mesmo com a magia de Adrian, queríamos
tomar cuidados extras. Embora fosse bom que as pessoas recebessem visitas de uma loira de quem não conseguiriam se lembrar direito, seria ainda melhor se recebessem
visitas de uma morena de quem não conseguiriam se lembrar direito. Coloquei a peruca, torcendo para que ninguém tivesse visto minha transformação. Levantei a cabeça.
- Está boa?
O rosto de Adrian mostrou aprovação.
- Está linda. Você parece ainda mais nerd do que eu achava possível.
Saímos do carro, e fiquei pensando se realmente queria parecer nerd. Muita gente já me achava sem graça. O cabelo loiro talvez fosse a única coisa interessante em
mim. Então pensei por um minuto na minha experiência recente de subir uma escada de incêndio, invadir um apartamento e sair no braço com um fugitivo. Sem mencionar
que estava caçando uma bruxa perversa e poderosa ao lado de um vampiro capaz de controlar a mente das pessoas.
Bom, talvez eu não fosse tão sem graça assim.
Entramos num saguão pequeno e bonitinho, onde havia uma mesa ornamentada e uma sala de espera com móveis de vime. Coelhos empalhados em roupas de festa enfeitavam
as prateleiras, e pinturas a óleo da rainha Vitória estavam penduradas nas paredes. Pelo jeito, os donos levavam o estilo da casa bem a sério, embora eu não soubesse
exatamente qual era a relação com os coelhos.
Uma menina da minha idade estava sentada atrás da mesa e levantou os olhos de uma revista, surpresa. Ela tinha cabelo curto platinado e óculos de aro grosso. Dezenas
de colares estavam pendurados em seu pescoço, formando um conjunto espalhafatoso que contrariava meu senso estético minimalista. Contas rosa-shocking, uma estrela
verde reluzente, um medalhão de ouro e diamante, uma chapa de identificação... era de dar nó na cabeça. Pior ainda: ela estava mascando chiclete bem alto.
- Oi - ela disse. - Posso ajudar?
Tínhamos todo um discurso planejado, mas Adrian imediatamente fugiu do roteiro.
- Sim - ele disse, passando o braço ao meu redor. - Estávamos procurando um lugar para dar uma fugidinha no fim de semana, e uma amiga nossa jurou que esta pousada
é a melhor em questão de romance. - Ele me puxou para mais perto. - Nosso aniversário de namoro está chegando. Estamos juntos faz um ano, mas, cara, passou tão rápido.
- É verdade - eu disse, tentando não deixar o queixo cair. Forcei um sorriso e torci para que estivesse parecendo contente.
A menina olhou de mim para ele, sua expressão cada vez mais gentil.
- Que fofo. Parabéns.
- Podemos dar uma olhada nas acomodações? - Adrian perguntou. - Quer dizer, se tiver algum quarto vago.
- Claro - ela disse, levantando. Ela cuspiu o chiclete numa lata de lixo e foi até nós. - Sou Alicia. Meus tios sãos os donos daqui.
- Taylor - eu disse, apertando a mão dela.
- Jet - Adrian disse. Quase soltei um resmungo. Por algum motivo inexplicável, “Jet Steele” era um pseudônimo que Adrian adorava usar. Mas no ensaio naquele dia,
tínhamos decidido que ele se chamaria Brian.
Alicia olhou para nós de novo, com uma ruguinha na testa que logo desapareceu. Imaginei que fosse a compulsão de Adrian, confundindo um pouco as percepções dela
sobre nós.
- Venham comigo. Temos alguns quartos vagos que vocês podem dar uma olhada. - Depois de mais um olhar confuso para nós, ela se dirigiu para a escada.
- Não é ótimo, querida? - Adrian perguntou alto enquanto subíamos a escada rangente. - Sei que você adora coelhos. Você não tinha um quando era criança? Qual era
o nome dele mesmo? Pulinho?
- Isso - respondi, resistindo à vontade de dar um soco no braço dele. Pulinho? Sério? - Melhor coelho do mundo.
- Que legal - Alicia disse. - Então vou mostrar a vocês primeiro a Suíte Coelhinho.
A Suíte Coelhinho tinha mais coelhos empalhados e bem-vestidos como parte da decoração. A colcha que cobria a cama de casal também tinha uma borda de coelhos e corações
alternados. Havia vários livros sobre a lareira, incluindo As aventuras de Pedro Coelho e Coelho corre. Até aquele momento, nunca pensara o quão absurdo um quarto
temático poderia ser.
- Uau - Adrian disse. Ele sentou na cama e testou a maciez do colchão, aprovando com a cabeça. - É incrível. O que você acha, florzinha?
- Estou sem palavras - respondi honestamente.
Ele deu um tapinha no lugar ao lado dele.
- Quer experimentar?
Respondi com um olhar e fiquei aliviada quando ele levantou. Adrian e camas acendiam sentimentos contraditórios dentro de mim.
Depois disso, Alicia nos mostrou a Suíte Glória-da-manhã, a Suíte Veludo e a Suíte Londres, todas competindo para superar umas às outras em questão de breguice.
No entanto, apesar da artimanha absurda de Adrian, o tour me deu a oportunidade de anotar mentalmente o nome das outras portas no corredor. Seguimos Alicia até o
andar de baixo.
- Não podemos ver a Suíte Safira ou a Suíte Príncipe Alberto? - perguntei.
Alicia fez que não.
- Sinto muito, estão ocupadas. Posso dar um folheto com algumas fotos se vocês quiserem.
Adrian me abraçou outra vez.
- Docinho, não era na Suíte Príncipe Alberto que a Veronica estava? Ela não está mais aqui, está?
- Não sei - respondi. Essa parte, pelo menos, era parecida com o que tínhamos ensaiado. Olhei para Alicia. - Você não pode nos dizer, né? Se nossa amiga Veronica
está aqui? Ela é muito bonita, tem cabelo preto e longo...
- Ah, sim - Alicia disse, sorrindo. - Claro que me lembro dela. Ela estava na Suíte Veludo, mas fechou a conta ontem.
Resisti à vontade de dar um chute na mesa. Tão perto. Tínhamos perdido Veronica por um único dia! Sim, o universo estava definitivamente contra mim. Eu não poderia
lançar o feitiço de clarividência até a próxima lua cheia, que seria dali a um mês.
- Ah, que pena - Adrian disse, ainda com aquele sorriso simpático. - Acho que só vamos encontrar Veronica no Natal mesmo. Obrigado pela ajuda.
- Vocês não querem reservar um quarto? - Alicia perguntou, esperançosa.
- Ligamos pra você depois - respondi. Não queria correr o risco de deixar Adrian reservar um e depois dizer que fazia parte do disfarce. - Vamos dar uma olhada em
outros lugares. A gente não quer tomar nenhuma decisão precipitada pro nosso aniversário de um ano.
- Mas - Adrian disse, dando uma piscadinha para ela - estou com um bom pressentimento sobre a Suíte Coelhinho.
Alicia nos levou até a saída e arregalou os olhos quando viu o Mustang.
- Uau, que carro lindo!
- É fantástico - eu disse.
- É o nosso bebê... quer dizer, até termos um bebê de verdade. Você não acha que ele precisa de um nome? - Adrian perguntou. - Estou tentando convencer a Taylor.
- Mais uma vez tive de lutar contra a vontade de dar um soco nele.
- Ah, claro - Alicia disse. - Esse tipo de carro... é a realeza dos automóveis.
- Viu só? - Adrian me encarou, triunfante. - E olhe que a Alicia é especialista em realeza. Você não viu todos aqueles quadros?
- Obrigada pela ajuda - eu disse, empurrando-o para a frente. - Depois a gente entra em contato.
Entramos no carro e, depois de dar tchau para Alicia, Adrian deu partida no motor. Fiquei olhando para a frente sem reação enquanto nos afastávamos.
- Assim como na Suíte Coelhinho, estou sem palavras para descrever o que acabou de acontecer. O que foi aquilo? Aniversário de namoro? Jet?
- Jet combina mais comigo do que Brian - ele argumentou. - E era uma história muito melhor do que alegar que íamos fazer uma visita surpresa no aniversário da nossa
“amiga” Veronica.
- Isso eu não sei. Mas conseguimos a informação de que precisávamos... e não é nada boa.
Adrian ficou sério.
- Tem certeza? Talvez Veronica tenha deixado a região. Talvez você e as outras meninas não estejam mais correndo perigo.
- É, seria bom... tirando o detalhe de que outra garota em algum outro canto sofreria em nosso lugar e não teríamos como impedir. - Tirei da bolsa a lista que a
sra. Terwilliger tinha me dado. - Um desses endereços é em Pasadena. Não custa nada dar uma passada lá no caminho e avisar a garota.
A menina que procurávamos se chamava Wendy Stone. Ela estudava no Instituto de Tecnologia da Califórnia, o que parecia uma estranha vocação para uma bruxa aprendiz.
Claro, a sra. Terwilliger havia me dito que essas meninas não estudavam magia, e supus que o fato de não terem mentoras sugeria que pudessem, na verdade, ser resistentes
a suas habilidades inatas... um pouco como eu.
Wendy morava num prédio perto do campus que foi fácil de achar. Era ocupado em sua maioria por estudantes, mas parecia um palácio perto do prédio de Marcus. Enquanto
passávamos por jovens com mochilas nas costas conversando sobre suas aulas, senti uma pontada de tristeza que não experimentava havia muito tempo. Me tornar uma
alquimista significava que eu não podia frequentar a universidade. Era um sonho que eu tinha fazia tempo, embora me matricular em Amberwood tivesse diminuído um
pouco essa tristeza. Agora, no meio daquele alvoroço universitário, uma onda de inveja surgiu dentro de mim. Como seria levar esse tipo de vida? Devotar seus dias
unicamente à busca por conhecimento, sem nenhuma intriga ou perigo? Até mesmo Adrian, com seu curso de arte de meio período, conseguia ter algum tipo de experiência
acadêmica.
- Não fique triste - ele disse quando chegamos ao andar de Wendy. - Você ainda pode entrar na faculdade um dia.
Olhei para ele, assombrada.
- Como sabe o que eu estava pensando?
- Conheço você - ele disse simplesmente, sem nenhuma ironia. - Sua aura está triste, então imaginei que estar no campus de uma faculdade tinha algo a ver com isso.
Não consegui encará-lo e virei o rosto.
- Não gosto disso.
- Do quê? De alguém saber o que realmente importa na sua vida?
Sim, era exatamente isso. Mas por que me incomodava? Porque esse alguém era Adrian, me dei conta. Por que um vampiro me entendia tão bem? Por que não um dos meus
amigos? Por que não um dos meus amigos humanos?
- Você pode ser Jet se quiser - eu disse bruscamente, tentando tomar as rédeas da situação e esconder meus sentimentos conturbados. Afinal, não era hora de terapia.
- Mas não vamos posar de casal de novo.
- Tem certeza? - ele perguntou. Seu tom ficou descontraído outra vez, e ele voltou a ser o velho Adrian que eu conhecia. - Porque tenho vários outros apelidos carinhosos
para usar. Quindinzinho. Bombonzinho. Pudinzinho de pão.
- Por que todos eles são comidas calóricas? - perguntei. Não queria estimulá-lo, mas a pergunta escapou antes que eu pudesse impedir. - E pudim de pão não é muito
romântico.
Tínhamos chegado à porta de Wendy.
- Quer que eu chame você de aipo, então? - ele perguntou. - Não inspira a mesma sensação quente e carinhosa.
- Quero que me chame de Sydney. - Bati na porta. - Quer dizer, Taylor.
Uma menina sardenta com cabelo ruivo e encaracolado abriu a porta. Ela estreitou os olhos, desconfiada, quando nos viu.
- Pois não?
- Estamos procurando Wendy Stone - eu disse.
Ela fechou a cara.
- Vocês são do setor de graduação? Porque já disse que o cheque está a caminho.
- Não. - Abaixei a voz e me certifiquei de que não havia ninguém por perto. - Meu nome é Taylor. Estamos aqui pra falar com você sobre, hum, magia.
A transformação foi súbita e surpreendente. Ela passou de desconfiada e cautelosa a horrorizada e indignada.
- Não, não e não! Já falei mil vezes que não quero me envolver! Não acredito que vocês têm a coragem de aparecer na minha porta pra tentar me converter pro circo
de horrores que é esse clã de vocês.
Ela tentou fechar a porta, mas Adrian conseguiu impedir com o pé. Muito másculo.
- Espere - ele disse. - Não é essa a questão. Sua vida pode estar em risco.
Wendy ficou incrédula.
- Vocês vão me ameaçar, ainda por cima?
- Não, não é nada desse tipo. Por favor - implorei. - Só nos escute por cinco minutos. Depois vamos embora e nunca mais importunaremos você.
Wendy hesitou e então finalmente fez que sim, resignada.
- Tá. Mas vou pegar meu spray de pimenta.
O apartamento dela era limpo e organizado, exceto por uma pilha de papéis e livros de engenharia espalhados pelo chão. Pelo jeito, tínhamos interrompido algum trabalho
para a faculdade, o que trouxe minha tristeza de volta. Ela cumpriu sua promessa de pegar o spray de pimenta e então ficou parada na nossa frente com os braços cruzados.
- Falem - ordenou.
Mostrei a foto de Veronica.
- Já viu essa mulher?
- Não.
- Que bom. - Era mesmo bom? Ou será que significava que Veronica poderia ter marcado Wendy como futura vítima e estava esperando para dar o bote? - Ela é perigosa.
Como posso dizer? Ela...
- Ela encontra garotas com dons para a magia e suga as almas delas - Adrian contribuiu, prestativo.
Wendy estremeceu.
- Desculpe, o que você disse?
- Não é exatamente assim - eu disse. - Mas é mais ou menos isso. Ela busca meninas com magia e rouba o poder delas.
- Mas eu não uso magia - Wendy argumentou. - Como disse pra vocês, não quero me envolver com isso. Tem uma bruxa em Anaheim que vive me dizendo que tenho potencial
e que deveria virar aprendiz dela. Sempre digo não e nunca nem tentei um feitiço. Essa sugadora de almas não tem por que vir atrás de mim.
A sra. Terwilliger me avisara que algumas meninas poderiam dizer isso. Na verdade, dissera que a maioria usaria esse argumento.
- Não importa - eu disse. - Isso não vai impedi-la.
Agora Wendy estava horrorizada, e tinha motivos para isso. Minha reação fora parecida. Era frustrante saber que aquilo do qual você vinha tentando fugir poderia
estar vindo atrás de você.
- Então o que devo fazer? - ela perguntou.
- Bom, fuja dela se possível. Se ela vier atrás de você... bom, não deixe ela entrar. Não fique sozinha com ela. - Era um conselho um tanto bobo. - Se a vir, avise
aquela bruxa em Anaheim. Aliás... sei que não quer, mas, se eu fosse você, entraria em contato com aquela bruxa agora mesmo e pediria ajuda a ela. Seria bom aprender
alguns feitiços defensivos também. Entendo que você não queira. Acredite em mim, entendo de verdade. Mas isso pode salvar sua vida. Além disso... - Estendi o amuleto
de ágata. - Você precisa usar isso o tempo todo.
Wendy olhou para o amuleto como se fosse uma cobra venenosa.
- Isso é algum truque pra me fazer aprender magia de qualquer jeito? Virem aqui com essa historinha de que, se eu não aprender, podem sugar minha alma?
De novo tive que dar crédito a ela. Eu teria pensado exatamente a mesma coisa.
- Estamos falando a verdade - insisti. - Não tenho como provar... ou melhor, tenho sim. Me passe seu e-mail e vou mandar uma notícia sobre uma das vítimas.
Wendy parecia prestes a usar o spray de pimenta.
- Acho que teria ouvido falar se alguma menina tivesse a alma sugada por magia.
- Não ficou exatamente óbvio para quem não conhece o mundo mágico. Deixe eu mandar pra você e aí você pode tomar suas próprias decisões. É o melhor que posso oferecer.
Relutante, ela aceitou e anotou o e-mail dela. Adrian deu um passo à frente para pegar o papel, mas ele devia ter se movido rápido demais, porque ela subitamente
apontou a lata de spray de pimenta na direção dele.
- Para trás! - exclamou. No mesmo momento, pulei na frente dele, com medo de que levasse um monte de spray de pimenta na cara. Lancei o primeiro feitiço em que consegui
pensar, um feitiço simples que criava um espetáculo de luzes coloridas e flamejantes, mas inofensivas. Um feitiço de escudo teria sido muito mais útil, mas eu ainda
não tinha praticado nenhum. Era uma coisa a corrigir para o caso de nossas missões futuras envolverem mais spray de pimenta.
- Para trás você! - avisei.
Como eu esperava, o espetáculo luminoso foi assustador para uma pessoa avessa à magia como Wendy. Ela recuou até o outro lado do apartamento e, felizmente, não usou
o spray.
- S-saiam - ela gaguejou, com o olhar apavorado.
- Por favor, tome as precauções - eu disse. Pus o amuleto no chão. - E, por favor, use isso. Vou mandar o artigo por e-mail.
- Saiam - ela repetiu, sem fazer nenhum movimento em direção ao amuleto.
Enquanto eu e Adrian saíamos do prédio e andávamos sob o sol, suspirei alto. Estava tão decepcionada que nem conseguia ficar triste com o ambiente da universidade.
- Não foi exatamente um sucesso - eu disse.
Ele pensou um pouco e então abriu um sorriso.
- Sei não, Sage. Você se colocou na mira do spray de pimenta pra me salvar. Acho que já está se apaixonando por mim.
- Eu... imaginei que seria uma pena estragar seu rostinho bonito - gaguejei. Na verdade, não tinha pensado em nada tão específico. Tudo o que sabia era que Adrian
estava em perigo. Proteger Adrian havia sido instintivo.
- Enfim, aquele feitiço foi incrível.
Entreabri um sorriso.
- Era inofensivo e essa é a questão. Wendy não sabia disso. Veronica vai atrás dessas meninas porque elas não têm nenhuma proteção mágica, e exatamente por isso
não conseguem se defender. Não acho que um spray de pimenta vá ajudar, mas talvez o artigo possa convencê-la. Ai, droga. Vou ter que criar um e-mail falso pra Taylor.
- Não se preocupe - Adrian disse. - Jet Steele já tem um que você pode usar.
Isso acabou me fazendo rir.
- Claro que tem. Pra falar com todas as meninas que você conhece pela internet, não é?
Adrian não fez nenhum comentário, nem afirmativo nem negativo, o que me incomodou mais do que deveria. Era para ser uma piada... mas e se não fosse? Se os boatos
e algumas das minhas observações fossem verdade, Adrian tinha experiência com muitas mulheres. Muitas. Pensar nele com outras me deixou perturbada, muito mais do
que deveria. Quantas meninas ele já tinha beijado com a mesma intensidade? Quantas já tinham estado na cama dele? Quantas tinham sentido as mãos dele em seu corpo?
Ele não devia ter amado todas. Algumas, provavelmente a maioria, tinham sido meras conquistas, meninas de cujo rosto ele se esquecia na manhã seguinte. Até onde
eu sabia, eu era apenas a conquista máxima para ele, um teste para suas habilidades. Seria difícil encontrar um desafio maior do que uma humana com problemas em
relação a vampiros.
Mesmo assim, lembrando todas as coisas ditas e não ditas entre nós, tive quase certeza de que não era o caso. Por mais maluco que fosse esse envolvimento amoroso,
ele me amava... ou acreditava amar. Eu não era uma conquista qualquer. Seria até melhor se fosse. Sem uma conexão emocional, ele acabaria desistindo e encontrando
consolo facilmente nos braços de outra pessoa. Aquele seria um bom momento para sugerir isso, aliás.
Mas fiquei quieta.
10
Na manhã seguinte, procurei a sra. Terwilliger antes da aula para fazer um resumo das aventuras do dia anterior. Ela ficou debruçada na mesa, bebericando um cappuccino
enquanto eu falava. Sua expressão foi ficando cada vez mais sombria à medida que a história avançava.
- Hum, que pena - ela disse. - Fico contente que você tenha encontrado a garota, mas não teremos outra pista sobre Veronica até a próxima lua cheia. Até lá, pode
ser tarde demais.
- Não tem nenhum outro feitiço de clarividência que a gente possa usar? - perguntei.
- Não - ela respondeu. - A maioria avisaria Veronica que estou procurando por ela. Tem um que pode me mascarar... mas talvez não consiga penetrar o escudo que ela
está usando para se esconder.
- Vale a pena tentar, não? - perguntei. O sinal tocou e os alunos começaram a entrar na sala. Ela me abriu um sorriso enquanto se endireitava.
- Ora, srta. Melbourne, nunca pensei que ouviria uma sugestão dessas vinda de você. Mas tem razão. Vamos conversar sobre isso mais tarde. Tem uma coisa que queria
mostrar a você.
Meu instinto antimagia começou a apitar... mas então parou. Em algum momento, contra a minha vontade, eu tinha sido envolvida naquilo tudo. Agora estava preocupada
demais com as outras vítimas de Veronica para dar atenção aos meus medos de sempre. Aos olhos dos alquimistas, usar magia era ruim. Aos meus, era pior deixar inocentes
correndo perigo.
Sem ter de combater mais nenhuma situação de perigo, senti o dia passar rápido. Quando encontrei a sra. Terwilliger para nosso estudo independente, ela estava com
suas coisas arrumadas, esperando que eu chegasse.
- Viagem de campo - ela me disse. - Precisamos trabalhar nisso em casa. - Um olhar melancólico perpassou seu rosto. - Pena que não podemos passar no Spencer’s.
Cafeína e magia não se misturavam, o que era um bom motivo para ficar longe da segunda. Comecei a dizer que, como eu não faria nenhuma magia, não tinha as mesmas
restrições. Um momento depois, achei que seria maldade. A sra. Terwilliger tinha problemas suficientes com uma irmã sedenta por sangue à solta. Não precisava de
piadinhas para completar.
Os gatos estavam esperando na porta quando chegamos à casa dela, o que foi um pouco assustador. Nunca tinha visto todos juntos e contei treze. Não pude deixar de
imaginar se o número era proposital.
- Preciso dar comida para eles antes - ela me disse enquanto os bichanos se atropelavam aos seus pés. - Depois começamos.
Fiz que sim, sem dizer nada, achando que era um bom plano. Se aqueles gatos não recebessem comida logo, era provável que se voltassem contra nós e estávamos em menor
número.
Depois que a comida os distraiu, descemos até a oficina. Não havia muito que eu pudesse fazer além de observar. Normalmente, a pessoa que fazia o feitiço tinha de
realizar todo o trabalho sozinha. Ajudei com algumas medições, mas só. Eu já tinha visto a sra. Terwilliger lançar alguns feitiços rápidos e extravagantes, mas nunca
nada daquela magnitude. Logo ficou claro que era uma façanha e tanto. Ela não tinha nada para se ligar a Veronica, nenhum fio de cabelo ou foto. O feitiço exigia
que a pessoa usasse uma imagem mental de quem estava buscando. Os outros componentes, ervas e óleos, ajudavam a fortalecer a magia, mas a maior parte do trabalho
cabia à sra. Terwilliger. Assistir à preparação dela despertou sentimentos contraditórios dentro de mim. Ansiedade era um, claro, mas também um fascínio secreto
em ver alguém com a força dela lançar um feitiço.
Quando tudo estava em seu devido lugar, ela declamou o encantamento. Tive que abafar um grito quando senti a onda de poder que irrompeu dela. Nunca tinha sentido
o poder de outra pessoa antes, e a intensidade quase me fez cair. A sra. Terwilliger estava olhando fixamente para um ponto alguns metros à sua frente. Depois de
um longo momento, um ponto brilhante surgiu no ar. Ele foi aumentando até se transformar num disco plano e tremeluzente, que pairou como um espelho. Dei um passo
para trás, com um pouco de medo de que fosse se expandir e consumir o cômodo todo. Por fim, o disco se estabilizou. Um silêncio tenso reinou na oficina enquanto
ela contemplava aquela superfície brilhante. Um minuto se passou e, então, o disco oval foi diminuindo até desaparecer. Exausta, a sra. Terwilliger se segurou na
lateral da mesa para não desabar. Ela estava suando muito e lhe dei o suco de laranja que tínhamos preparado antes.
- A senhora viu alguma coisa? - perguntei. Eu não tinha visto nada, mas talvez só quem lançasse o feitiço pudesse ver o que ele revelava.
- Não - ela respondeu. - O feitiço não conseguiu entrar em contato com a mente dela. A barreira que ela criou deve ser muito forte.
- Então não podemos fazer nada até o mês que vem. - Senti um frio na barriga. Até aquele momento, não havia notado quanto queria que aquele feitiço funcionasse.
Boa parte da minha vida envolvia solucionar problemas, e me sentia perdida quando ficava sem alternativas.
- Você e Adrian podem continuar alertando as outras meninas - a sra. Terwilliger me disse. O rosto dela estava recuperando a cor. - Assim pelo menos reduzimos a
velocidade de Veronica.
Olhei a hora no meu celular. O feitiço havia levado mais tempo do que eu imaginara.
- Acho que não dá pra fazer outra viagem de ida e volta até Los Angeles hoje. Amanhã falo com ele, e tentamos acabar com a lista.
Depois que me convenci de que ela não desmaiaria por exaustão mágica, fiz menção de sair. Ela me deteve quando eu estava prestes a passar pela porta.
- Sydney?
Olhei para trás, subitamente apreensiva. O problema de tantas pessoas me chamarem por apelidos era que, quando alguém dizia meu nome verdadeiro, normalmente significava
que algo sério estava para acontecer.
- Sim?
- Nós falamos sobre avisar as outras, mas não se esqueça de cuidar de você mesma também. Continue estudando o livro. Aprenda a se proteger. E nunca deixe de usar
o amuleto.
Toquei a granada, escondida sob a blusa.
- Sim, senhora. Vou me cuidar.
No caminho de volta para a escola, recebi a mensagem prometida de Marcus, pedindo que o encontrasse num fliperama ali perto. Eu conhecia o lugar e uma vez tinha
ido ao campo de minigolfe que ficava ao lado, então não foi difícil chegar até lá. Marcus estava esperando por mim junto à porta e, felizmente, Sabrina não estava
por perto com uma arma.
Nunca tinha frequentado fliperamas na vida e não entendia muito bem a graça deles. Não combinavam muito com os padrões de criação do meu pai. Era uma sobrecarga
sensorial para a qual eu não estava preparada. O ar estava cheio do aroma de pizza ligeiramente queimada. Crianças e adolescentes animados corriam de um jogo para
o outro. E, por todos os lados, tudo parecia piscar e apitar. Pestanejei, pensando que talvez meu pai estivesse certo em evitar esses lugares.
- É aqui que vamos discutir atividades secretas? - perguntei, incrédula.
Ele me abriu um daqueles sorrisos de estrela de cinema.
- Não é um lugar fácil para as pessoas espionarem você. Além disso, faz anos que não jogo Skee-Ball. Aquele jogo é demais.
- Que jogo?
- Como assim? - Foi legal pegar Marcus de surpresa outra vez, mesmo por uma coisa tão trivial. - Você não sabe o que está perdendo. Me empreste um dinheiro para
as fichas e eu mostro pra você. - Pelo jeito, ser um líder renegado e fugitivo não pagava muito bem.
Ele logo encontrou as máquinas de Skee-Ball. Comprei um monte de fichas e entreguei para ele.
- Fique à vontade.
Ele imediatamente colocou uma ficha e atirou sua primeira bola. Ela caiu completamente fora dos aros e Marcus fez uma careta.
- Você não perde tempo - comentei.
Os olhos dele estavam concentrados no jogo enquanto fazia seu segundo lançamento, que errou de novo.
- É uma tática de sobrevivência. Quando você passa tanto tempo fugindo... sempre escondido... bom, aproveita esses momentos de liberdade. E quando sai com garotas
bonitas também.
- Como sabe que estamos livres? Como pode ter tanta certeza de que os alquimistas não estão me seguindo? - perguntei. Na verdade, tinha quase certeza de que não
estava sendo seguida e só queria testá-lo.
- Porque eles teriam aparecido naquele primeiro dia.
Ele tinha razão. Pus as mãos na cintura e tentei ser paciente.
- Quanto tempo você vai jogar? Quando vamos poder conversar?
- Podemos conversar agora. - Sua bola seguinte acertou o aro de dez pontos, e ele comemorou. - Posso conversar e jogar ao mesmo tempo. Vai perguntando. Revelarei
o máximo de segredos surpreendentes que puder.
- Não é fácil me surpreender. - Mas não perderia aquela oportunidade. Olhei ao redor, mas ele tinha razão. Ninguém conseguiria nos escutar num lugar barulhento como
aquele. Na verdade, mal conseguíamos ouvir um ao outro. - O que você fez para ser expulso dos alquimistas?
- Não fui expulso. Eu saí. - A partida acabou, e ele inseriu mais uma ficha. - Por causa de uma Moroi.
Congelei, sem conseguir acreditar no que tinha ouvido. Marcus Finch havia começado uma grande rebelião... porque tinha se envolvido com uma Moroi? Era muito próximo
da minha própria situação. Como não disse nada, ele se virou para mim e examinou meu rosto.
- Ah, não, nada desse tipo - ele disse, se dando conta do que eu estava pensando. - Nem eu faria uma coisa dessas.
- Claro que não - eu disse, torcendo para conseguir esconder meu nervosismo. - Quem faria?
Ele voltou ao jogo.
- Nós éramos amigos. Fui mandado para Atenas, onde ela morava com a irmã.
Isso desviou minha atenção.
- Atenas? Você foi para Atenas? É um dos lugares para onde eu queria ir. Em vez disso, me mandaram pra São Petersburgo, mas eu sempre tinha a esperança de que, talvez,
pudessem me transferir para a Grécia. Ou mesmo para a Itália. - Eu estava quase balbuciando, mas ele não pareceu notar.
- Qual é o problema de São Petersburgo? Além do grande número de Strigoi...
- O problema é que não é Atenas nem Roma. Meu pai pediu especificamente para eu não ser mandada para nenhum desses lugares. Ele achou que eu ficaria muito distraída.
Marcus parou outra vez e me examinou longamente. Havia compaixão em seu rosto, como se toda a minha história e meu drama familiar estivessem passando diante dos
seus olhos. Eu não queria que ele sentisse pena de mim e desejei não ter falado nada. Limpei a garganta.
- Então, me conte sobre essa menina em Atenas.
Ele entendeu a deixa.
- Como estava dizendo, ela era minha amiga. Muito engraçada. Sério, cara. Ela me fazia rolar de rir. A gente passava a maior parte do tempo juntos, mas você sabe
que isso é meio recriminado.
Quase ri. “Meio” era um eufemismo. Alquimistas não deveriam interagir com Moroi a menos que fosse absolutamente necessário para questões profissionais ou relacionadas
a deter ou esconder os Strigoi. A minha missão fugia um pouco das regras, visto que exigia que eu falasse com Jill quase diariamente.
- Enfim - ele continuou. - Alguém percebeu e recebi muita atenção indesejada. Mais ou menos na mesma época, comecei a ouvir uns boatos de que alguns alquimistas
estavam prendendo alguns Moroi à força. E até que alquimistas estavam interagindo com guerreiros.
- Como assim? Impossível. Nunca trabalharíamos com aqueles lunáticos. - A ideia de prisioneiros Moroi era absurda, mas foi a segunda parte que realmente me deixou
pasma. Nem conseguia imaginar. Seria como dizer que os alquimistas estavam trabalhando com alienígenas.
- Foi o que pensei. - Ele lançou outra bola, parecendo extremamente satisfeito consigo mesmo quando conseguiu trinta pontos. - Mas continuei ouvindo rumores; então,
comecei a fazer perguntas. Muitas perguntas. E, bom, foi então que as coisas começaram a desandar. Fazer perguntas nunca pega bem, ainda mais se você incomoda.
Pensei na minha própria experiência.
- É verdade.
- Então, foi nessa época que saí. Ou melhor, fugi. Estava vendo os sinais. Tinha ultrapassado um limite e sabia que era só uma questão de tempo até me mandarem uma
passagem só de ida para a reeducação. - Começou outra partida e ele me chamou com um gesto. - Quer tentar?
Estava tão atordoada com o que ele havia dito que dei um passo à frente e peguei uma bola. Os alquimistas eram lógicos, organizados e racionais. Eu sabia que alguns
gostariam de fazer mais para combater os Strigoi, mas não era possível que estivessem trabalhando com fanáticos armados.
- Stanton me disse que só toleramos os guerreiros. Que só ficamos de olho neles.
- Foi o que me falaram também. - Ele me observou enquanto eu me preparava para a jogada. - Demora um tempo pra aprender, aliás. Você pode levar alguns...
Lancei a bola e acertei o aro de cinquenta pontos. Marcus não conseguiu falar nada por alguns segundos, perdendo a presunção de antes.
- Você disse que nunca tinha jogado! - exclamou.
- E é verdade. - Acertei outra no aro de cinquenta pontos.
- Então como você está fazendo isso?
- Não sei. - Cinquenta pontos de novo. - É só pensar no peso da bola e na distância até o aro. Não é tão difícil. É meio sem graça, na verdade.
Marcus ainda estava assombrado.
- Você é algum tipo de superatleta?
Quase ri de desprezo.
- Não precisa ser atleta pra jogar isso.
- Mas... não... - Ele olhou para os aros, então para mim, e então de volta para os aros. - É impossível. Eu jogo isso desde criança! Meu pai sempre me levava ao
parque de diversões no verão e eu passava pelo menos uma hora jogando toda vez.
- Talvez devesse ter passado duas. - Lancei outra bola. - Agora me conte mais sobre os guerreiros e os alquimistas. Você conseguiu alguma prova?
Ele demorou vários momentos até conseguir retomar a conversa.
- Não. Tentei. Até me aproximei dos guerreiros por um tempo... foi assim que conheci Clarence. Meu pessoal descobriu alguns podres dos alquimistas e salvou outro
Moroi dos guerreiros, mas nunca conseguimos fazer uma conexão entre os dois grupos. - Ele fez uma pausa dramática. - Até agora.
Peguei a bola seguinte. Aquela atividade comum estava me ajudando a analisar suas palavras chocantes.
- O que aconteceu?
- Foi sorte, na verdade. Tem um cara trabalhando com a gente agora que acabou de sair dos alquimistas e romper a tatuagem - ele explicou. Ele falava como se não
fosse nada de mais, mas eu ainda não conseguia me livrar da sensação incômoda que a ideia de “romper a tatuagem” me causava. - Ele tinha ouvido uma coisa que batia
com outra que Sabrina descobriu. Agora só precisamos conseguir evidências que liguem as duas.
- Como vão conseguir isso?
- Na verdade, é você quem vai conseguir.
Ele falou isso enquanto eu estava atirando outra bola. Ela passou longe, ultrapassando os arcos e até a máquina. Então bateu na parede e caiu perto de algumas meninas,
que levaram um susto. Marcus foi atrás da bola e deu um sorriso de desculpas, e elas responderam que não tinha sido nada demais. Assim que foram embora, murmurei
para Marcus:
- O que você disse?
- Você me ouviu. Quer entrar pro grupo? Quer romper a tatuagem? - Era irritante como ele estava convencido. - Então isso faz parte do processo.
- Nunca disse que queria fazer essas coisas! - sussurrei. - Só queria descobrir mais sobre eles.
- E aposto que adoraria saber se existem facções alquimistas trabalhando com os guerreiros.
Marcus estava certo. Eu realmente queria muito saber.
Ele segurou minha mão.
- Sydney, sei que é muita coisa para absorver. Não culpo você por estar em dúvida, e é exatamente por isso que preciso de você. Você é inteligente. Observadora.
Você questiona. E, assim como aconteceu comigo, esses questionamentos ainda vão causar problemas pra você, se é que já não causaram. Saia agora, enquanto pode, do
seu jeito.
- A gente acabou de se conhecer! Não vou fugir do grupo que me criou. - Soltei minha mão da dele. - Estava disposta a ouvir o que você tinha a dizer, mas agora você
foi longe demais.
Dei meia-volta e parti em direção à porta, sem querer ouvir mais nada. No entanto, as palavras dele fervilhavam dentro de mim. Apesar de eu ter sido absolvida depois
de meu envolvimento com Rose, minha ficha ainda devia estar suja. E, apesar de não ter insistido em saber mais sobre Marcus Finch, será que o simples fato de mencioná-lo
não tinha deixado Stanton desconfiada? Quanto tempo levaria até que eles suspeitassem de mim?
Abri as portas e saí sob a luz fulgurante do sol, que afugentou as sombras do que eu tinha acabado de ouvir. Marcus estava logo atrás de mim e tocou meu ombro.
- Sydney, desculpa. Não estou tentando assustar você - ele disse, agora sem aquela atitude petulante. Ele parecia completamente sincero. - É só que percebo uma coisa
em você... uma coisa com a qual me identifico. Acho que estamos do mesmo lado, queremos as mesmas coisas. Nós dois nos aproximamos dos Moroi e queremos ajudá-los,
sem que mintam para nós ou nos usem.
Olhei para ele, desconfiada.
- Continue.
- Por favor, ouça o que temos a dizer.
- Foi o que acabei de fazer.
- Você me ouviu - ele corrigiu. - Quero que conheça os outros e ouça as histórias deles também. Eles vão contar o que enfrentaram. Vão falar sobre isto. - Ele apontou
para a tatuagem em seu rosto. - E, quando ouvir mais sobre aquela tarefa... bom, acho que vai querer nos ajudar com isso também.
- Ah, sim. O grande mistério que vai desvendar uma conspiração entre alquimistas e guerreiros. - Ele continuou sério, o que me incomodou mais do que se tivesse revelado
de repente que tudo não passava de uma grande piada. - E agora? Você vai chamar os outros e vamos todos passar um dia no fliperama?
- Não - ele respondeu. - Seria muito arriscado. Vou juntar todo mundo em outro lugar e então digo a você onde nos encontrar, mas vai ser de última hora de novo.
Não posso arriscar que nos descubram.
- Não posso partir numa grande viagem - avisei. - Ninguém liga muito quando vou a Los Angeles, mas atravessar o estado vai atrair a atenção indesejada de que você
estava falando.
- Eu sei, eu sei. Vai ser perto. Só preciso garantir que seja seguro. - Sua animação tinha voltado. - Você vai? Conversará com a gente?
Por mais que não quisesse, estava curiosa. Ainda que me recusasse a acreditar numa conexão entre guerreiros e alquimistas, queria descobrir que pistas aquelas pessoas
acreditavam ter. Também queria ver esse grupinho misterioso dele. Como Adrian os tinha chamado? Marcus e os Vingadores? E, claro, tinha a tatuagem. Marcus vivia
se referindo aos segredos dela, mas ainda não havia me dado detalhes.
- Vou - respondi, finalmente. - Com uma condição.
- Pode falar.
- Quero levar uma pessoa comigo - eu disse. - Juro que ele é de confiança. Depois que Sabrina apontou uma arma pra mim, você deve imaginar por que estou um pouco
nervosa de ver seu clubinho.
Marcus parecia prestes a aceitar, mas de repente recuou.
- Não é aquele Adrian, é?
- Não, não. Quem eu quero levar é um dampiro. Ninguém interessado em entregar vocês para os alquimistas, ainda mais se realmente estiverem trabalhando para proteger
os Moroi. Você diz que tem um bom pressentimento em relação a mim, certo? Então precisa confiar quando digo que não precisa se preocupar com ele. Ele só iria para
eu me sentir um pouco mais segura.
- Você é que não tem por que se preocupar - Marcus disse. - Não vamos machucá-la.
- Quero acreditar nisso. Mas não tenho tanta confiança quanto você.
Ele não disse nada de imediato e então desatou a rir.
- Nada mais justo. Leve seu amigo. - Ele apertou minha mão, como se estivéssemos fechando um ótimo negócio. - Entro em contato com você para passar os detalhes.
Você não vai se arrepender, Sydney. Prometo.
11
Marcus desapareceu a caminho de seu esconderijo misterioso, e eu fui para casa. O que ele havia me contado ainda parecia absurdo. Fiquei repetindo a mim mesma que
nada daquilo podia ser verdade. Era mais fácil de lidar assim.
De volta a Amberwood, encontrei o burburinho costumeiro da atividade estudantil vespertina. Era reconfortante depois da minha excursão cheia de surpresas, sem nenhum
fanático ou feitiço misterioso por perto. Recebi uma mensagem no celular assim que entrei no alojamento. Era de Jill: Venha nos ver quando voltar. Pelo jeito, eu
não teria nem um minuto de descanso. Deixei a bolsa no quarto e desci preguiçosamente até o segundo andar, sem saber o que encontraria.
Jill abriu a porta, parecendo imensamente aliviada ao me ver.
- Graças a Deus. Temos um problema.
- Nós sempre temos um problema - eu disse. Entrei e vi Angeline sentada no chão, encostada na parede, com um ar angustiado. - O que aconteceu?
Ela levantou os olhos rapidamente.
- Não foi culpa minha.
Meu frio na barriga aumentou.
- Nunca é, né? De novo: o que aconteceu?
Como Angeline se recusava a falar, Jill disse:
- Ela causou uma concussão na cabeça do Trey com um livro de álgebra.
Antes que eu começasse a entender aquilo, Angeline se levantou em um salto.
- O médico falou que não foi uma concussão!
- Esperem. - Olhei para as duas, com um pouco de esperança de que elas começassem a rir com a peça que deviam estar pregando. - Você fez alguma coisa com Trey que
precisou de cuidados médicos?
- Mal encostei nele - ela insistiu.
Sentei na cama de Jill e resisti à vontade de me esconder debaixo dos lençóis.
- Não. Você não pode fazer isso. Não de novo. O que o diretor disse? Ai, meu Deus. Pra onde vamos mandar você? - Depois que Angeline tinha saído no braço durante
uma apresentação musical antidrogas, ficou claro que mais uma briga a faria ser expulsa.
- Eddie assumiu a culpa - Jill disse. Um sorriso discreto perpassou seus lábios. - Não tinha muitas testemunhas, então Eddie disse que eles estavam brincando na
biblioteca jogando o livro de um lado para o outro. Disse que se descuidou e lançou o livro com força demais... e que acabou acertando Trey sem querer.
- É - Angeline interrompeu. - Foi o que aconteceu mesmo.
- Não, não foi - Jill contestou. - Eu vi. Você ficou brava porque Trey disse que não deveria ser tão difícil entender que o x sempre tem um valor diferente.
- Ele estava me chamando de burra!
Variáveis não pareciam um conceito tão complicado para mim, mas eu podia ver que, sob a presunção de Angeline, ela realmente estava constrangida. Sempre tive a impressão
de que, entre os Conservadores, Angeline era algo como uma líder. Em Amberwood, tinha que se esforçar para acompanhar o ritmo acadêmico e social, perdida num mundo
muito diferente daquele em que havia crescido. Isso deixaria qualquer pessoa insegura. E, por mais que achasse questionável que Trey a tivesse chamado de burra,
conseguia entender como alguns de seus comentários sarcásticos poderiam ser interpretados dessa maneira.
- Eddie vai ter problemas por causa disso? - perguntei. Duvidava que ele fosse expulso por algo assim, mas, considerando minha sorte, era bem possível que ele recebesse
a punição de que livrara Angeline.
- Detenção - Jill disse.
- Ele aceitou com muita coragem - Angeline acrescentou.
- Aposto que sim - falei, enquanto me perguntava se alguma das duas percebia que estavam com a mesma expressão de adoração. - Angeline, sei que deve ser frustrante
ter um tutor, mas você precisa manter a calma, tá? Trey só está tentando ajudar.
Ela pareceu cética.
- Ele é meio arrogante às vezes.
- Eu sei, mas as pessoas não estão exatamente fazendo fila pra preencher essa vaga. Precisamos de você aqui. Jill precisa de você aqui. Eddie precisa de você aqui.
- Notei que parte de sua indignação passou quando mencionei seus amigos e seu dever. - Por favor, tente trabalhar com Trey.
Meio a contragosto, ela assentiu, e me levantei para sair. Jill me seguiu apressada até o corredor.
- Ei, Sydney? Como foi o encontro com Marcus?
- Nada de mais - eu disse. Definitivamente não compartilharia as revelações bombásticas de Marcus. - Foi informativo. E aprendi a jogar Skee-Ball.
Jill pareceu quase ofendida.
- Vocês jogaram Skee-Ball? Pensei que quisesse descobrir a história secreta dos alquimistas.
- Fizemos as duas coisas ao mesmo tempo - eu disse, não gostando nada do tom dela.
Saí antes que ela pudesse fazer outro comentário e mandei uma mensagem para Eddie quando cheguei ao dormitório. Ouvi o que aconteceu. Sinto muito. E obrigada. A
resposta dele foi rápida: Pelo menos não foi uma concussão.
No caminho para encontrar Adrian no dia seguinte, me preparei para os comentários sarcásticos. Era provável que Jill já tivesse contado a ele sobre o encontro no
fliperama, o que provavelmente o levaria a dizer algo como: “Bom saber que você está tão dedicada a descobrir a verdade sobre os alquimistas. É bom não perder o
jogo de vista”.
Quando estacionei em frente ao prédio do Adrian, ele já estava me esperando na calçada. Assim que vi seu rosto sério, meu coração disparou. Pulei do carro, quase
sem parar para tirar as chaves da ignição.
- O que aconteceu? - perguntei, correndo até ele.
Ele pousou a mão no meu ombro, mas eu estava preocupada demais para ligar para o toque.
- Sydney, não quero que perca a calma. Não vai ter nenhuma sequela.
Examinei Adrian de cima a baixo.
- Você está bem? Se machucou?
Por um momento, sua expressão sombria se tornou confusa. Então ele entendeu.
- Ah, você acha que fui eu? Não, estou bem. Venha.
Ele me levou até o fundo do prédio, onde ficava o estacionamento particular dos moradores. Eu congelei, boquiaberta enquanto absorvia a cena terrível. Alguns outros
moradores estavam andando de um lado para o outro, e um policial estava parado por perto, fazendo algumas anotações. Ao nosso redor, sete carros estacionados tinham
os pneus furados.
Incluindo o Mustang.
- Não!
Corri até ele, ajoelhando e examinando o dano. Senti como se estivesse no meio de uma guerra, segurando um companheiro morto no campo de batalha. Estava prestes
a gritar: “Aguente firme, amigo!”.
Adrian se agachou ao meu lado.
- Os pneus podem ser trocados. Acho que o seguro até cobre isso.
Eu ainda estava horrorizada.
- Quem fez isso?
Ele encolheu os ombros.
- Acho que foram uns pivetes. Fizeram a mesma coisa nuns carros no outro quarteirão ontem.
- E você não achou que valia a pena me contar?
- Não fazia ideia de que viriam para cá também. Além disso, sabia que você teria um ataque e ia querer instalar vigilância vinte e quatro horas aqui.
- Não é má ideia. - Levantei os olhos para o prédio. - Você deveria falar com o proprietário sobre isso.
Adrian não parecia tão preocupado quanto deveria estar.
- Não sei se ele aceitaria. Quer dizer, essa não é uma região muito perigosa.
Apontei para o Mustang.
- Então como isso foi acontecer?
Embora pudéssemos usar o Pingado para ir até Los Angeles, tivemos de esperar o fim do trabalho da polícia e depois pedir um guincho. Fiz questão de falar ao motorista
do guincho que era melhor ele não causar nenhum arranhão no carro e, então, observei com tristeza enquanto o Mustang era rebocado para longe. Depois que o ponto
amarelo reluzente desapareceu numa esquina, perguntei para Adrian:
- Está pronto para ir?
- A gente tem tempo suficiente?
Olhei para o celular e soltei um resmungo. Tínhamos gastado tempo demais lidando com as consequências do vandalismo. Apesar disso, eu odiava esperar até o dia seguinte,
considerando que já tinha perdido o dia anterior lidando com Marcus. Liguei para a sra. Terwilliger e perguntei se ela me daria cobertura caso eu voltasse depois
do toque de recolher.
- Sim, sim, claro - ela disse, num tom que sugeria não entender por que eu tinha me dado ao trabalho de ligar. - Fale com o máximo de garotas que puder.
A sra. Terwilliger havia me dado seis nomes. Já tínhamos avisado Wendy Stone. Outras três moravam relativamente perto uma da outra e eram nosso objetivo naquela
noite. As duas últimas moravam perto da costa, e planejamos falar com elas no dia seguinte. Adrian tentou conversar comigo durante todo o trajeto, mas minha cabeça
ainda estava no Mustang.
- Ai, meu Deus, sou uma idiota - eu disse quando estávamos perto do nosso destino.
- Nunca usaria esse termo para descrever você - ele disse prontamente. - Articulada. Elegante. Inteligente. Organizada. Bonita. Usaria esses termos, mas nunca “idiota”.
Quase perguntei por que “bonita” vinha depois de “organizada”, mas então me lembrei da minha verdadeira preocupação.
- Não paro de pensar naquele carro enquanto a vida de garotas inocentes está em risco. Sou uma imbecil. Minhas prioridades estão todas erradas.
Meus olhos estavam concentrados na estrada, mas pude perceber que ele estava sorrindo.
- Se suas prioridades realmente estivessem erradas, você teria seguido o guincho. Mas você está aqui, indo ajudar completas desconhecidas. Isso é uma coisa nobre,
Sage.
- Não se exclua dessa - eu disse. - Você está sendo bem nobre também, indo nessas viagens comigo.
- Bom, não é a mesma coisa que jogar Skee-Ball, mas é o que posso fazer. Como foi, aliás? Descobriu alguma coisa?
- Sim, muitas... algumas bem inacreditáveis, na verdade. Mas ainda preciso de provas.
A sorte estava do nosso lado no começo. As duas primeiras meninas estavam em casa, embora a reação delas tenha sido parecida com a de Wendy Stone. Dessa vez, tive
o cuidado de levar o artigo de jornal comigo, com a esperança de causar uma impressão mais forte. A imagem macabra as fez parar para pensar, mas saí sem saber se
realmente me levariam a sério e usariam os amuletos de ágata.
Nossa boa sorte acabou quando chegamos ao último nome. Ela também era uma universitária, o que significava que visitaríamos outro campus. Seu nome era Lynne Titus,
e morava na república de uma fraternidade. Admito que, enquanto batia na porta, estava completamente preparada para encontrar um grupo de meninas vestidas de rosa,
fazendo uma guerra de travesseiro na sala. Mas, quando nos deixaram entrar, encontramos uma casa organizada, não muito diferente do apartamento de Wendy. Algumas
meninas entravam e outras saíam, enquanto outras estavam sentadas com livros e papéis.
- Lynne? - disse a menina que abriu a porta. - Ela acabou de sair.
Sabia que não deveria ficar surpresa. Aquelas meninas tinham suas próprias vidas. Não estavam todas pacientemente esperando que eu chegasse e conversasse com elas.
Preocupada, olhei para uma janela, percebendo que o sol estava prestes a se pôr.
- Tem ideia de quando ela volta?
- Não - a menina respondeu. - Desculpe. Não sei nem aonde ela foi.
Adrian e eu nos entreolhamos.
- Você está livre do toque de recolher - ele me lembrou.
- Eu sei. Mas não significa que quero passar a noite toda esperando. - Fiz alguns cálculos mentais. - Acho que podemos ficar aqui algumas horas. Três, no máximo.
Adrian pareceu adorar a ideia, e fiquei em dúvida se estava mais animado por passar um tempo num campus... ou por passar um tempo comigo.
- O que tem de divertido pra fazer aqui? - ele perguntou para nossa anfitriã, observando o calmo ambiente acadêmico ao nosso redor. - Nenhuma grande festa, né?
A menina lançou um olhar de censura.
- Somos uma fraternidade muito séria. Se estão procurando festas, com certeza tem uma descendo a rua. Aquelas meninas dão uma festa por noite. - Adrian me olhou,
esperançoso.
- Ah, sério? - eu disse. - Não dá pra procurar um museu legal?
- Precisamos ficar por perto para o caso de Lynne voltar - Adrian argumentou. Algo me dizia que, mesmo se a festa fosse do outro lado do campus, ele também teria
insistido. - Além disso, se quer tanto ir para a faculdade, precisa ver tudo o que ela tem a oferecer. E não é você que gosta de coisas gregas? Então, todas essas
fraternidades têm nome grego.
Definitivamente não era isso que eu tinha em mente, e ele sabia. Relutante, acabei aceitando, mas logo avisei que ele não poderia beber. Eu estava com a peruca morena
e imaginava que ele estivesse usando o espírito para aumentar ainda mais meu disfarce. O álcool diminuiria sua capacidade de usar magia. Além do mais, simplesmente
não queria ver Adrian bêbado.
Foi fácil encontrar a casa onde ocorria a festa pela música vindo dela. Um casal bebendo cerveja em copos de plástico nos barrou na porta.
- A festa é só para fraternidades - a menina disse. Parecia prestes a cair do banquinho. - Com quem vocês estão?
Apontei vagamente na direção da fraternidade de Lynne.
- Hum, com eles.
- Ergo Iam Alfa - Adrian disse, sem hesitar. Eu estava esperando que o casal comentasse que algumas daquelas letras nem gregas eram. Mas, talvez porque Adrian tivesse
falado com muita confiança ou porque eles já tinham bebido demais, o menino fez sinal para que entrássemos.
Era quase como voltar para o fliperama - uma enchente avassaladora de estímulos. A casa estava lotada e barulhenta; fumaça pairava no ar e o álcool estava por toda
parte. Muitas pessoas nos ofereceram bebidas, e uma menina nos convidou - três vezes - para participar de um jogo estranho que envolvia uma bolinha de pingue-pongue
e copos de cerveja, esquecendo que já tinha falado com a gente antes. Fiquei olhando assombrada, tentando disfarçar a repulsa.
- Que desperdício da mensalidade. Isso está arruinando todos os meus sonhos universitários - gritei para Adrian. - Tem alguma coisa pra fazer além de beber ou ser
babaca?
Ele examinou a sala, conseguindo ver além por causa de sua altura. Então abriu um sorriso.
- Aquilo parece interessante. - Ele segurou na minha mão. - Venha.
Numa cozinha surpreendentemente bonita e espaçosa, encontramos várias meninas sentadas no chão, pintando camisetas. A julgar pelo trabalho malfeito e pelas manchas
de tinta, elas também tinham bebido. Uma menina tinha um copo de cerveja ao lado de um copo idêntico de tinta, e torci para que não confundisse os dois.
- O que estão fazendo? - perguntei.
Uma das meninas levantou os olhos e sorriu.
- Camisetas para o festival de inverno. Quer ajudar?
Antes que eu pudesse dizer não, Adrian já estava agachado ao lado delas.
- Claro. - Ele pegou uma camiseta branca e um pincel com tinta azul. - O que estamos pintando? - O trabalho tosco das meninas tornava a pergunta válida.
- Nossos nomes - uma delas respondeu.
- Coisas de inverno - a outra corrigiu.
Isso bastou para Adrian. Ele começou a pintar flocos de neve na camiseta. Sem conseguir me conter, me ajoelhei para ver melhor. Apesar de seus defeitos, Adrian era
um bom artista. Ele misturou algumas cores, pintando flocos de neve intricados e estilizados. Em determinado momento, parou para acender um cigarro de cravo, compartilhando
o cinzeiro com uma das meninas. Era um hábito de que eu não gostava muito, mas, pelo menos, o resto da fumaça naquele lugar disfarçava a dele. Enquanto terminava
e escrevia o nome da fraternidade, percebi que todas as outras meninas tinham parado para olhar.
- Está linda - disse uma delas, com os olhos arregalados. - Posso ficar com ela?
- Eu quero - insistiu a outra.
- Vou fazer uma pra cada - ele prometeu. A maneira como elas o olhavam era um lembrete incômodo da longa experiência dele com mulheres. Me aproximei um pouco mais,
para que elas não pensassem besteira.
Ele deu a camiseta branca para a primeira menina e então começou a trabalhar numa azul. Depois que cumpriu sua promessa para cada uma delas, remexeu na pilha de
camisetas até encontrar uma preta masculina.
- Preciso prestar homenagem à minha fraternidade.
- Claro - ironizei. - Ergo Iam Alfa.
Adrian assentiu, solene.
- Um grupo de muita tradição e prestígio.
- Nunca ouvi falar deles - disse a menina que pegou a primeira camiseta.
- Eles não deixam muita gente entrar - ele comentou. Com tinta branca, escreveu as iniciais da sua fraternidade de mentira: EIA.
- Não é isso que os marinheiros falam? - perguntou uma outra.
- É que os Iam Alfa têm origens náuticas - ele explicou. Para o meu espanto, começou a pintar um esqueleto pirata numa motocicleta.
- Ah, não - resmunguei. - Não a tatuagem.
- É o nosso símbolo - ele disse. Certa vez, tivemos de investigar um estúdio de tatuagem e, para distrair o dono, Adrian tinha entrado e fingido estar interessado
numa tatuagem que se parecia muito com o que estava desenhando agora. Quer dizer, eu achava que ele estivesse fingindo. - Não é da hora?
“Da hora” não era a expressão que eu usaria, mas, apesar de ser uma imagem ridícula, ele realmente fez um belo trabalho. Sentei, abraçando os joelhos e me recostando
na parede. Ele logo parou com as piadas e ficou completamente absorto no trabalho, pintando os ossos do esqueleto meticulosamente, assim como os do esqueleto de
papagaio no ombro do personagem. Fiquei olhando para seu rosto enquanto pintava, fascinada pelo brilho em seus olhos. A arte era uma das poucas coisas que pareciam
ancorá-lo no mundo e tirá-lo da escuridão que havia dentro dele. Ele parecia brilhar com uma luz interior que realçava ainda mais seu rosto já bonito. Era mais um
daqueles vislumbres raros e tocantes da natureza intensa e passional que havia por trás das piadas que vivia fazendo. Essa natureza aparecia com a arte, e havia
aparecido quando ele me beijou.
De repente, Adrian olhou para mim. Nossos olhares se cruzaram, e senti como se ele pudesse ler minha mente. Com que frequência ele pensava naquele beijo? E, se era
realmente louco por mim, será que imaginava outras coisas além de beijos? Será que fantasiava comigo? Em que tipo de coisas pensava? Seus lábios no meu pescoço?
Sua mão na minha perna? Essa perna estava nua...?
Fiquei com medo de que meus olhos me traíssem e desviei o olhar rápido. Desesperada, procurei algum comentário engraçadinho e impessoal.
- Não se esqueça do ninja atirando shurikens.
- Claro. - Pude sentir o olhar de Adrian em mim por mais alguns momentos. Havia algo de tangível nele, um calor que me envolvia. Não voltei a olhar até ter certeza
de que sua atenção estava de volta na camiseta. Ele acrescentou os shurikens e então se afastou, triunfante. - Bem legal, né?
- Nada mal - respondi. Na verdade, estava incrível.
- Quer uma também? - Ele sorriu de uma maneira que reacendeu aqueles sentimentos calorosos. Não consegui não retribuir o sorriso.
- Não temos tempo - consegui dizer. - Precisamos ver se Lynne já voltou.
- Faço rapidinho.
- Nada de pirata - adverti. Ele encontrou uma pequena camiseta roxa e começou a pintá-la. - Roxa?
- É a sua cor - ele insistiu. Essas palavras me deram um calafrio. Adrian conseguia enxergar a aura das pessoas, uma luz que as cercava e que estava relacionada
com a personalidade delas. Ele me dissera que a minha era amarela, uma cor comum a todos os intelectuais. Mas eu também tinha tons de roxo, o que indicava uma natureza
passional e espiritual. Não eram qualidades que eu costumava achar que possuía... mas, às vezes, bem que gostaria de tê-las.
Observei, fascinada, enquanto ele pintava um grande coração prateado com chamas de um lado. Todo o desenho era em estilo celta. Era lindo.
- De onde tirou isso? - perguntei, maravilhada. Já tinha visto boa parte dos trabalhos dele, mas nunca algo como aquilo.
Seus olhos estavam cravados no coração, completamente absorvidos no trabalho.
- Só uma coisa que me passou pela cabeça. Me lembra você. Doce e ardente ao mesmo tempo. Uma chama na escuridão, iluminando meu caminho. - Aquela voz... aquelas
palavras. Reconheci um de seus momentos movidos pelo espírito. Deveria ter me incomodado, mas havia algo de sensual na maneira como ele falava, algo que me fazia
perder o ar. Uma chama na escuridão.
Ele trocou o pincel prateado por um preto. E, antes que eu pudesse impedir, escreveu no coração: EIA. E abaixo, em letras menores: membra honorária.
- O que você está fazendo? - gritei. O encanto havia se partido. - Estragou a camiseta!
Adrian se voltou para mim com um olhar malandro.
- Pensei que ficaria lisonjeada em ser aceita como membra honorária.
- Como faço para entrar? - uma das meninas perguntou.
Apesar da minha indignação, peguei a camiseta quando ele a estendeu. Ergui com cuidado para não estragar a pintura. Apesar das palavras ridículas, o coração em chamas
ainda era espetacular. Ele se destacava, e não conseguia parar de admirá-lo. Como alguém tão irreverente conseguia criar algo tão bonito? Quando finalmente voltei
a levantar os olhos, dei de cara com Adrian me observando. Aquele transe de antes tomou conta de mim, e não consegui me mover.
- Você não pintou nada - ele disse baixinho.
- Minha criatividade é nula - eu disse.
- Todo mundo tem um pouco de criatividade - ele insistiu. Então me entregou o pincel prateado e se encostou na parede também. Nossos braços e pernas se tocaram.
Ele pôs sua camiseta preta da EIA no colo. - Vai. Acrescente alguma coisa. Qualquer coisa.
Fiz que não em protesto e tentei devolver o pincel.
- Não sei desenhar nem pintar. Vou estragar tudo.
- Sydney. - Ele colocou o pincel de volta na minha mão. - É um esqueleto de pirata, não a Monalisa. Você não vai diminuir o valor dele.
Talvez fosse o caso, mas era difícil imaginar o que eu poderia acrescentar àquilo. Eu sabia fazer muitas coisas, mas pintar definitivamente não era uma delas, ainda
mais em comparação ao talento dele. No entanto, algo em seu olhar me motivou e, depois de pensar muito, fiz o melhor que pude para desenhar uma gravata no pescoço
do esqueleto. Adrian franziu a testa.
- É uma corda?
- É uma gravata! - esbravejei, tentando não me sentir ofendida.
Ele riu, visivelmente se divertindo.
- Desculpe.
- Ele pode ir a uma reunião executiva agora - acrescentei, achando necessário defender meu trabalho. - Está muito elegante.
Adrian pareceu gostar ainda mais.
- Claro que sim. Elegante e perigoso. - Parte de seu bom humor foi diminuindo, e ele ficou pensativo enquanto me examinava longamente. - Igual a você.
Tinha estado tão preocupada com o desafio artístico que, até aquele momento, não havia percebido o quanto ele se aproximara de mim. De repente, vários detalhes entraram
em foco. O formato dos seus lábios, a linha do seu pescoço.
- Não sou perigosa - murmurei.
Ele aproximou o rosto do meu.
- Para mim, é.
E, de algum modo, contrariando toda a lógica, nos beijamos. Fechei os olhos, e o mundo ao nosso redor desapareceu. O barulho, a fumaça... tudo sumiu. A única coisa
que importava era o sabor da boca dele, um misto de cravo e menta. Havia um ardor em seu beijo, um desespero... que retribuí, com a mesma ansiedade. Não o impedi
quando ele me puxou ainda mais para perto, quase indo parar no colo dele. Ninguém nunca tinha me abraçado daquele jeito, e fiquei surpresa com a avidez com que meu
corpo respondeu. Seu braço envolveu minha cintura, me puxando ainda mais para perto, e sua outra mão desceu pela minha nuca, se emaranhando no meu cabelo. Por incrível
que pareça, a peruca continuou no lugar. Ele tirou os lábios dos meus e começou a dar beijos suaves pelo meu pescoço. Inclinei a cabeça para trás, perdendo o fôlego
quando a boca dele retomou a intensidade. Havia um caráter selvagem naquele beijo que enviava ondas elétricas por todo o meu corpo. Uma voz alquimista me advertiu
que era exatamente assim que os vampiros se alimentavam, mas eu não estava com medo. Adrian não me machucaria, e eu precisava saber a força com que ele poderia me
beijar e...
- Ai, meu Deus!
Adrian e eu nos separamos como se tivessem jogado um balde de água fria em nós, embora nossas pernas continuassem entrelaçadas. Olhei ao redor em pânico, quase esperando
ver Stanton nos observando, indignada. Em vez disso, levantei os olhos e vi o rosto apavorado de uma garota desconhecida. Ela nem estava olhando para nós.
- Vocês não vão acreditar no que aconteceu! - ela gritou, se dirigindo às outras artistas. Ela apontou vagamente para trás. - Um pouco adiante na rua da Capa, encontraram
uma menina inconsciente. Eles não conseguem acordar a coitada. Não sei o que aconteceu, mas parece que ela foi atacada. Tem até polícia lá na frente.
Adrian e eu nos entreolhamos por um instante, atordoados. Então, sem dizer uma palavra, nos levantamos. Ele segurou minha mão para me estabilizar até que minhas
pernas trêmulas recuperassem a força. Estou fraca por causa da notícia, disse a mim mesma. Não porque estava ficando com um vampiro.
Mas o perigo e a embriaguez daqueles beijos desapareceram quase instantaneamente quando voltamos à fraternidade de Lynne. Havia pessoas apavoradas por todo lado,
e a segurança do campus ficava entrando e saindo, o que permitiu que entrássemos pela porta aberta.
- O que aconteceu? - perguntei para uma menina morena ali perto.
- Lynne... - ela disse, mordendo os lábios. - Acabaram de encontrá-la num auditório vazio.
Algo em seu tom de voz me deixou apreensiva.
- Ela está viva?
Ela assentiu.
- Acho que sim, mas dizem que tem alguma coisa muito errada. Ela está inconsciente e parece... sei lá... velha.
Me virei para Adrian e percebi vagamente que ele estava com tinta prateada no cabelo. Eu ainda estava com o pincel na mão quando o abraçara.
- Saco - ele murmurou. - Tarde demais.
Eu queria gritar de frustração. Estivéramos tão perto de avisá-la. Disseram que ela havia saído pouco antes de chegarmos. E se tivéssemos chegado antes? E se tivéssemos
visitado Lynne antes das outras duas? Eu tinha escolhido a ordem ao acaso. Pior: e se tivéssemos conseguido encontrá-la em vez de ficar brincando de pintura com
as meninas bêbadas da fraternidade?
E se eu não tivesse beijado Adrian? Ou, talvez, tinha sido ele quem tinha me beijado. De qualquer modo, eu não tinha exatamente resistido.
No entanto, quanto mais eu descobria, mais improváveis pareciam as chances de termos conseguido alguma coisa investigando na casa de Lynne. Ninguém sabia aonde ela
havia ido. Só uma pessoa a tinha visto sair, uma menina de cabelo loiro e encaracolado que frustrou a polícia do campus com respostas vagas.
- Desculpe - ela ficava repetindo. - Não consigo... não consigo me lembrar da menina com quem ela saiu.
- Nada? - um dos policiais perguntou. - Altura? Idade? Cor do cabelo?
A menina franziu a testa, como se fizesse o maior esforço mental possível. Por fim, desistiu, com uma expressão derrotada, e meneou a cabeça.
- Desculpe, mas não lembro.
- Ela tinha cabelo preto? - sugeri.
A menina entreabriu um sorriso.
- Talvez. Não, espere. Acho que era castanho. Não. Ruivo, talvez?
Adrian e eu nos afastamos, sabendo que não havia mais nada que pudéssemos fazer.
- Aquela menina parece muito confusa - eu disse enquanto voltávamos para o carro.
- Sem dúvida - ele concordou. - Parece familiar?
- Muito - murmurei, reconhecendo os sinais de magia.
Ninguém poderia negar. Veronica passara por ali. E nós tínhamos chegado tarde demais para detê-la.
12
Eu me senti um fracasso quando, no dia seguinte, dei a notícia à sra. Terwilliger antes de as aulas começarem.
Com o semblante pálido e carregado, ela disse que não havia nada que eu pudesse ter feito. Mas eu não sabia se deveria acreditar nisso. Continuava me angustiando
com as mesmas dúvidas da noite anterior. E se eu não tivesse passado o outro dia com Marcus? E se não tivesse perdido tanto tempo garantindo que o Mustang fosse
bem tratado? E se não tivesse me envolvido numa intensa demonstração pública de afeto com Adrian? Eu tinha deixado minhas questões pessoais interferirem no trabalho
e uma garota pagara com a própria vida. Queria faltar na aula e avisar as outras imediatamente, mas a sra. Terwilliger me garantiu que Veronica não conseguiria atacar
tão cedo. Ela me disse que não havia mal em esperar até a tarde.
Concordei, relutante, e voltei para a minha carteira, pensando em ler alguma coisa antes do começo da aula. Não achava que conseguiria.
- Srta. Melbourne? - ela chamou. Levantei os olhos e vi que a expressão triste dela havia se iluminado um pouco. Ela parecia achar graça em alguma coisa, o que era
estranho, considerando as circunstâncias.
- Sim?
- Talvez seja bom fazer alguma coisa com o seu pescoço.
Não entendi nada.
- Meu pescoço?
Ela enfiou a mão na bolsa e me entregou um espelhinho. Abri e analisei meu pescoço, ainda tentando entender do que ela estava falando. Então eu vi. Uma pequena mancha
roxa avermelhada na lateral do pescoço.
- O que é isso? - exclamei.
A sra. Terwilliger riu.
- Embora ninguém me dê um faz tempo, se não me engano é conhecido como “chupão”. - Ela fez uma pausa e arqueou a sobrancelha. - Isso você sabe o que é, não?
- Claro que sei! - Fechei o espelho. - Mas não tem como... quer dizer, nós mal...
Ela ergueu a mão para me calar.
- Não precisa justificar sua vida pessoal pra mim. Mas, nos próximos quinze minutos, talvez queira dar um jeito de manter isso em segredo.
Eu já estava em pé quando ela terminou a frase. Quando saí do prédio, tive a incrível sorte de encontrar o circular do campus parado bem na frente. Corri até ele
e, apesar de o caminho até o alojamento demorar só alguns minutos, parecia uma eternidade. Durante todo esse tempo, minha mente fervilhava com o que havia acontecido.
Estou com um chupão. Deixei Adrian Ivashkov me dar um chupão.
Como tinha deixado isso acontecer? A notícia devastadora sobre Lynne tinha feito com que eu ignorasse o impacto daquele lapso, mas não havia mais como fugir do que
tinha acontecido. Contra todos os meus princípios, me deixei envolver nos beijos de Adrian. E não só nos beijos. Pensar na maneira como nossos corpos tinham se pressionado
um contra o outro me deixava tão vermelha quanto na noite anterior.
Não, não, não! Não podia pensar nisso. Devia esquecer que tinha acontecido. Precisava garantir que nunca voltasse a acontecer. O que tinha dado em mim? Eu não correspondia
ao sentimento dele. Adrian era um Moroi. E, mesmo se não fosse, definitivamente não era o cara mais adequado para mim. Eu precisava de alguém sério, alguém com potencial
de conseguir um emprego com plano de saúde. Alguém como Brayden.
É, e o namoro de vocês deu muito certo, né, Sydney?
O que acontecera com Adrian tinha sido um erro. Claramente um ato pervertido de luxúria, talvez incentivado pelo fato de ele ser tão proibido para mim. Só isso.
As mulheres gostavam desse tipo de coisa. Quando pesquisara sobre relacionamentos, tinha visto um livro que se chamava Bad boys e as mulheres que se apaixonam por
eles. Eu o havia ignorado porque Brayden era praticamente o oposto de um bad boy, mas talvez valesse a pena comprá-lo agora.
Uma chama na escuridão. Eu precisava esquecer que Adrian tinha me chamado assim. Tinha de esquecer.
Faltava mais um minuto para chegar ao alojamento, então mandei uma mensagem de texto rápida para Adrian: Estou com um chupão! Você está proibido de beijar de novo.
Sinceramente, não esperava que ele estivesse acordado àquela hora da manhã, então foi uma surpresa receber a resposta: Tudo bem. Não vou mais beijar seu pescoço.
Típico. Não! Você nunca mais vai me beijar EM LUGAR NENHUM. Você disse que manteria distância.
Estou tentando, ele respondeu. Mas é você que não mantém distância de mim.
Não achei que isso merecia uma resposta.
Quando cheguei ao alojamento, perguntei à motorista quanto tempo ela esperaria até voltar para o campus central.
- Vou sair agora mesmo - ela respondeu.
- Por favor - implorei. - Espere um minutinho. Eu pago.
Ela pareceu ofendida.
- Não aceito suborno.
Mas, quando voltei correndo do dormitório, usando uma gola rolê, ela ainda estava lá. Consegui entrar na sala da sra. Terwilliger no mesmo instante em que o sinal
tocava. Ela me lançou um olhar de quem sabe das coisas, mas não disse nada sobre minha troca de roupa.
Durante a aula, recebi uma mensagem de Marcus. Pode nos encontrar hoje? San Bernardino, às 16h.
Bom, ele tinha avisado que seria em cima da hora. San Bernardino ficava a uma hora de viagem. Eu tinha falado com Eddie que o encontro seria naquela semana, e ele
aceitara me acompanhar. Só torci para que não tivesse nada planejado naquela tarde. Respondi a mensagem dizendo que iríamos, e Marcus me enviou o endereço.
Depois da aula de história, uma menina da aula de inglês me chamou para perguntar se podia pegar meu caderno emprestado porque tinha faltado no dia anterior. Eddie
já tinha saído quando terminei de falar com ela, então só consegui perguntar sobre San Bernardino na hora do almoço.
- Claro - ele disse, assumindo a postura rígida de guardião.
Jill já sabia sobre a viagem porque eu havia contado a Adrian. Me senti um pouco mal por tirar Eddie dela. Na verdade, muito mal. Ficar sem Eddie era um risco grave,
embora eu tivesse consciência de que ele nem sempre passava todos os segundos perto ela. Às vezes era impossível, e por isso havíamos convocado Angeline. Mesmo assim,
se algum alquimista descobrisse que eu estava usando o principal guarda-costas dela para viagens pessoais, eu estaria numa fria. Quer dizer, era provável que já
estivesse numa fria mesmo sem isso, considerando que estava indo me encontrar com um grupo de rebeldes. Virei para Angeline, que estava tentando decifrar umas anotações
sobre equações de segundo grau.
- Angeline, você precisa ficar com Jill até a gente voltar - eu disse. - E não saiam do alojamento, só por segurança. Não fiquem passeando pelo campus.
Jill fez que sim, mas Angeline levantou os olhos, consternada.
- Tenho que encontrar Trey pra estudar. Como você quer que eu passe?
Eu não conseguia resistir a um argumento acadêmico.
- Estudem no saguão do alojamento. É seguro lá. Jill pode ficar fazendo os trabalhos dela com vocês.
Angeline não pareceu inteiramente satisfeita com a alternativa, mas não voltou a protestar. Ela fez menção de voltar para o caderno e então olhou de novo para mim.
- Por que você está com essa blusa? - ela perguntou. - Está calor hoje. - Era verdade. As temperaturas quentes fora de época haviam voltado.
Para minha surpresa, Eddie concordou com ela.
- Estava pensando a mesma coisa.
- Ah, hum... - Por favor, não fique vermelha, não fique vermelha, pedi a mim mesma. - Só estou com frio hoje.
- Que estranho - Jill disse, completamente inexpressiva. - Para alguém que costuma ser tão fria, até que você consegue esquentar bem rapidinho.
Era uma frase típica de Adrian. Jill sabia perfeitamente por que eu estava com a gola rolê, e lancei um olhar de recriminação para ela. Eddie e Angeline pareciam
completamente confusos. Levantei, apesar de mal ter tocado na comida. Isso ninguém estranharia.
- Bom, preciso ir. Encontro você depois, Eddie. - Saí apressada antes que alguém pudesse me questionar mais.
Estava um pouco hesitante em deixar Eddie conhecer Marcus. Eddie certamente não o denunciaria - e com certeza não me denunciaria - para os alquimistas por conspiração.
Ainda assim, não queria que Eddie pensasse que os alquimistas estavam envolvidos em esquemas perversos contra os Moroi. Ele poderia muito bem repassar a informação
ao seu grupo, o que, por sua vez, poderia causar inúmeros problemas diplomáticos. A mera suspeita de que os alquimistas pudessem estar em contato com os guerreiros
era perigosa. Mas decidi que ter Eddie como proteção valia o risco de ele ouvir algo que não devesse ouvir. Ele era meu amigo, e eu confiava nele. No entanto, precisei
dar algumas informações básicas durante o trajeto para San Bernardino.
- Quem são exatamente essas pessoas? - ele perguntou.
- Ex-alquimistas - eu disse. - Eles não gostam de todos os procedimentos e da burocracia. Querem interagir com os Moroi e dampiros à sua maneira.
- Não parece tão mau. - Eu podia notar a cautela em sua voz. Eddie não era bobo. - Por que quis que eu fosse com você?
- Não sei muito sobre eles, só isso. Acho que têm boas intenções, mas vamos ver. - Escolhi as palavras seguintes com cuidado. Não podia deixar de avisá-lo. - Eles
têm muitas teorias conspiratórias. Alguns até... hum... acham que pode haver alquimistas trabalhando com os guerreiros.
- O quê? - Foi uma surpresa o queixo dele não ter caído.
- Eles não têm nenhuma prova concreta - acrescentei rápido. - Tem uma guerreira que espiona para eles. Ela acha que ouviu alguma coisa... mas tudo me parece meio
estranho ainda. Eles querem que eu ajude a investigar, mas não acho que exista mesmo algo do tipo. Quer dizer, os alquimistas ajudaram a arquitetar a invasão, não
foi? Deter uma execução ritualística não ajudaria muito a promover as relações entre os grupos.
- Não mesmo - ele admitiu, mas ficou claro que não estava totalmente à vontade.
Decidi passar para um assunto mais seguro. Não tinha por que me preocupar com Marcus e os outros Vingadores (não conseguia tirar da cabeça o nome que Adrian tinha
dado) até ouvir o que eles tinham a dizer.
- Como vão as coisas? - perguntei. - Com Angeline? E Jill? Estou tão ocupada com, hum, outras coisas que acho que não estamos conversando direito.
Ele demorou para responder.
- Tudo calmo com Jill, o que é bom. Queremos que as coisas fiquem o mais paradas possível pra ela. A situação com Micah melhorou também. Muitos amigos dele não falavam
mais com ela depois do término. Mas ele superou bem e agora eles estão amigos... então, os outros acharam que também podiam se reaproximar.
- Que alívio.
Quando chegamos a Amberwood, Jill tivera problemas para se adaptar. Namorar Micah abrira vários círculos sociais para ela, e eu estava com medo do que poderia acontecer
agora que eles tinham terminado. As coisas haviam piorado quando eu a proibi de modelar para uma estilista teimosa, Lia DiStefano, que arriscou expô-la. Para Jill,
foi como se tivesse perdido tudo que conquistara, por isso fiquei contente ao saber que as coisas estavam voltando a dar certo para ela.
- É fácil gostar da Jill - acrescentei. - Aposto que a maioria deles está feliz por continuar amigo dela.
- Pois é. - Foi tudo o que ele disse, mas havia muitas emoções nessas duas palavras. Me voltei para ele e encontrei um olhar sonhador em seu rosto. Micah poderia
ter superado Jill, mas Eddie não. Fiquei me perguntando se ele mesmo sabia disso.
- Como está Angeline?
O olhar sonhador se desfez e ele franziu a testa.
- Confusa.
Eu ri.
- Como sempre.
- Ela vai de um extremo a outro. Quando começamos a sair, ela, hum, não conseguia desgrudar de mim. - Não sabia exatamente o que isso queria dizer, e não queria
pensar muito a respeito. - Agora mal consigo um tempinho pra ficar sozinho com ela. Ela começou a jogar basquete por algum motivo. Acho que está meio fascinada pelo
jogo ter tantas regras, comparado às insanidades que os Conservadores fazem pra se divertir. E está realmente dedicada a melhorar aquela nota de matemática também.
Acho que isso é bom. - Ele não parecia ter tanta certeza. Já eu fiquei mais que satisfeita.
- Acho que a possibilidade de ser expulsa realmente a deixou com medo. Apesar de toda a dificuldade pra se adaptar aqui, Angeline não quer voltar pra casa. - Quando
Rose estava fugindo, eu a escondi com Dimitri entre os Conservadores. Foi lá que conheci Angeline e, mesmo naquela época, ela tinha implorado para que Rose a tirasse
daquele mundo rural. - Dê um tempo pra ela. Isso vai se resolver e o... hum... entusiasmo dela vai voltar.
Chegamos ao endereço em San Bernardino, uma loja de ferragens que parecia um local estranho para uma reunião secreta. Parei o carro no estacionamento e mandei uma
mensagem para Marcus dizendo que estávamos lá. Não houve resposta.
- Que estranho - eu disse. - Tomara que ele não tenha mudado de ideia.
Eddie tinha deixado seus problemas amorosos de lado e estava com aquele olhar alerta de guardião.
- Aposto que estamos sendo observados. Se eles são tão paranoicos quanto você diz, a reunião não deve ser aqui. Eles mandaram você vir pra cá e estão procurando
sinais para ver se fomos seguidos.
Olhei para ele, admirada.
- Nunca teria pensado numa coisa dessas.
- É por isso que vim também - ele disse, com um sorriso.
Dito e feito. Dez minutos depois, Marcus me mandou uma mensagem com outro endereço. Pelo jeito, tínhamos passado no teste. O novo local era outro lugar barulhento
e movimentado: um restaurante familiar com atores andando de um lado para o outro em fantasias de animais gigantes. Era ainda mais absurdo que o fliperama, se é
que isso era possível.
- Ele sempre escolhe os lugares mais estranhos - comentei.
Eddie estava olhando ao redor.
- É genial, na verdade. Barulhento demais para alguém ouvir. Uma saída na frente e outra nos fundos. E, se os alquimistas aparecessem, imagino que não fariam um
escândalo diante de tantas crianças, fariam?
- Acho que não.
Marcus nos encontrou na entrada e nos chamou com um gesto.
- Oi, linda. Venha, temos uma mesa. - Ele parou para apertar a mão de Eddie. - Prazer. É sempre bom ganhar reforços para a causa.
Eu não sabia ao certo o que esperar dos Vingadores. Talvez um bando de renegados brutos, com cicatrizes de batalha e tapa-olho, como Wolfe. Em vez disso, o que encontramos
foi um casal dividindo um prato de nuggets. Eles tinham lírios dourados na bochecha.
Marcus nos levou até duas cadeiras.
- Sydney, Eddie. Estes são Amelia e Wade.
Nos cumprimentamos.
- Sabrina não está com vocês? - perguntei.
- Ah, ela está aqui, sim - Marcus disse, em um tom enigmático.
Entendi a indireta e olhei ao redor. Eu não era a única que tinha levado proteção. Sabrina estava escondida em algum lugar no meio da multidão, à espreita. Talvez
vestindo uma fantasia de animal. Fiquei me perguntando se ela teria levado a arma para um lugar como aquele.
Amelia nos ofereceu a comida.
- Querem um pouco? A gente pediu uma porção de queijo também.
Recusei. Apesar da minha decisão de comer mais, frituras ainda estavam fora de questão.
- Vamos ao que interessa - eu disse. - Vocês iam me contar sobre as tatuagens e essa tarefa misteriosa que têm para mim.
Wade riu.
- Ela já quer pôr a mão na massa.
- É a minha garota - Marcus disse, mas era como se ele dissesse: É por isso que precisamos dela para a causa. Ele esperou até que uma garçonete vestida de gato trouxesse
a porção de queijo e anotasse nossos pedidos. Pelo menos imaginei que fosse uma garçonete. Era difícil definir o gênero por trás da fantasia.
- O processo da tatuagem é simples - Marcus disse, depois que a garçonete se afastou. - Falei pra você que os alquimistas conseguem colocar compulsão Moroi nela,
certo? Para limitar a comunicação... entre outras coisas, se necessário.
Eu ainda não sabia se deveria acreditar na ideia de controle mental através das tatuagens, mas deixei que ele continuasse.
- Quando os Moroi ajudam a fazer a tinta com o sangue, os usuários de terra colocam a compulsão que evita que falemos sobre vampiros. A magia de terra está em harmonia
com os outros três elementos: ar, água e fogo. Essa harmonia dá poder à tatuagem. Então se você conseguir um pouco de tinta mágica e pedir para um Moroi desfazer
a magia de terra nela, isso destrói o laço com os outros elementos e acaba com qualquer compulsão lá dentro. É só injetar essa tinta “rompida” na tatuagem que ela
vai quebrar a harmonia dos outros elementos também, o que, por sua vez, destrói todas as outras coerções que os alquimistas possam ter colocado nela.
Eddie e eu ficamos olhando.
- É “só” isso que eu preciso fazer? - perguntei, incrédula.
- É mais fácil do que parece - Amelia disse. - A parte difícil... Bom, Marcus acrescentou outra etapa ao processo. Não é estritamente necessária... mas ajuda.
Estávamos ali havia dez minutos, e eu já estava com dor de cabeça.
- Você decidiu improvisar um pouco?
A risada que Marcus soltou era contagiante como sempre... exceto que, mais uma vez, a situação não era muito engraçada. Ele fez uma pausa, parecendo esperar que
ríssemos também. Quando não rimos, retomou a explicação.
- É um ponto de vista. Mas Amelia está certa: ajuda. Antes de deixar qualquer pessoa romper a tatuagem, peço que realizem uma tarefa. Uma tarefa que vá diretamente
contra os alquimistas.
Eddie não conseguiu mais se conter.
- Como um ritual de iniciação?
- Mais do que isso - Marcus respondeu. - Tenho uma teoria de que, ao fazer algo assim, que desafie todo o treinamento que você teve, a compulsão enfraquece um pouco.
Normalmente a tarefa envolve infiltração e ajuda a causa. Esse enfraquecimento ajuda a nova tinta a surtir efeito. Além disso, é um bom teste. Desativar a tatuagem
não significa que você esteja pronta pra sair. Não desfaz anos de condicionamento mental. Tento encontrar pessoas que se consideram prontas pra se rebelar, mas,
às vezes, na hora H, elas dão para trás. Melhor descobrir antes de mexer na tatuagem.
Me virei para Amelia e Wade.
- E vocês dois fizeram isso? Cumpriram um desafio e então suas tatuagens foram desativadas?
Os dois assentiram.
- Só precisamos selar com o azul agora. - Ao notar minha confusão, Wade explicou: - Mesmo depois de romper os elementos, a tatuagem ainda pode ser retocada. Alguém
poderia fazer isso à força e compelir você. Tatuar em cima com tinta azul garante que você nunca volte a ser controlado.
- E eu aqui achando que a sua era só uma escolha estética - eu disse a Marcus.
Ele tocou distraidamente as meias-luas.
- Ah, o desenho é. Mas a tinta é obrigatória. É uma mistura especial bem difícil de conseguir; só conheço um cara no México que faz. Vou levar Amelia e Wade para
lá nas próximas semanas, pra selar a deles. Você pode ir com a gente.
Ignorei a sugestão maluca.
- Essa tinta azul não deixa meio óbvio para os alquimistas que alguma coisa está acontecendo?
- Ah, já saímos dos alquimistas - Amelia disse. - Não estamos mais com eles.
Mais uma vez, Eddie entrou na conversa.
- Mas vocês acabaram de falar sobre infiltração. Por que não continuar realizando missões secretas depois que os elementos estiverem rompidos? Ainda mais se isso
já basta para libertar vocês? Suas tatuagens estão iguais às da Sydney agora. Se realmente acham que tem alguma coisa suspeita acontecendo, por que não trabalhar
de dentro e esperar para selar a tatuagem?
- Muito arriscado - Marcus respondeu. - A pessoa poderia cometer um deslize e dizer algo que a tatuagem não deixaria antes. Ou, se não tomasse cuidado, eles poderiam
vê-la indo encontrar os outros. Então a mandariam para a reeducação, onde consertariam a tatuagem.
- Pra mim parece que vale correr esse risco pra conseguir mais informações - eu disse. - Se a pessoa tomar cuidado...
Marcus fez que não, sem o bom humor de sempre.
- Conheço pessoas que tentaram. Elas achavam que ninguém estava desconfiando delas, e estavam erradas. Não vamos mais cometer esse erro. - Ele tocou a tatuagem de
novo. - É assim que fazemos as coisas agora. Você completa a missão, rompe a tatuagem, sai dos alquimistas e sela a tatuagem. Depois, trabalhamos de fora. Também
nos poupa a perda de tempo com os trabalhinhos rotineiros dos alquimistas.
- Então existem outros? - perguntei, entendendo o que ele havia insinuado.
- Claro. - Ele retomou o bom humor. - Você não achou que éramos só nós três, achou?
Para falar a verdade, eu não fazia ideia.
- Então é isso que está me oferecendo: uma promessa duvidosa sobre a minha tatuagem, mas só se eu cometer uma traiçãozinha por vocês.
- Estou oferecendo sua liberdade - Marcus corrigiu. - E a chance de ajudar os Moroi e os dampiros sem fazer parte de nenhuma conspiração. Do seu próprio jeito.
Eddie e eu nos entreolhamos.
- Por falar em conspiração - eu disse -, agora vocês poderiam me contar sobre essa suposta conexão entre alquimistas e guerreiros... aquela que vocês precisam que
eu prove.
O trio nem percebeu o sarcasmo, de tão empolgados.
- Exato - Marcus disse. - Conte pra ela, Wade.
Wade terminou de comer um nugget coberto com molho ranch e então se debruçou sobre a mesa.
- Pouco antes de me juntar a Marcus, fui mandado para a base de St. Louis. Eu trabalhava nas operações, cuidando do acesso de visitantes, fazendo tours... nada muito
interessante.
Assenti. Pelo menos aquilo me era familiar. Fazer parte dos alquimistas significava cumprir todo tipo de função. Às vezes, isso implicava destruir corpos de Strigoi.
Às vezes, fazer café para supervisores em visita. Tudo em prol da causa maior.
- Vi muitas coisas. Quer dizer, você deve imaginar. - Ele pareceu conturbado. - As posturas severas. As regras rígidas. Alguns Moroi visitavam, sabe. Eu gostava
deles. Ficava feliz por estarmos ajudando, apesar de todo mundo ao meu redor agir como se ajudar criaturas tão “malignas” fosse um destino terrível que éramos obrigados
a cumprir. Eu aceitava porque pensava que nos diziam a verdade. Enfim, certa semana... juro, houve ataques de Strigoi sem parar em todo o país. Acontece às vezes,
sabe. Os guardiões mataram a maioria deles, e os alquimistas em campo estavam ocupados acobertando tudo. Embora quase tudo estivesse resolvido, fiquei me perguntando
por que sempre lidávamos só com as consequências se tínhamos tantos recursos. Tipo, eu não achava que deveríamos perseguir os Strigoi, mas deveria haver uma maneira
de ajudar os Moroi e guardiões a serem mais proativos. Então... mencionei isso ao meu supervisor.
Marcus e Amelia estavam com expressões profundamente sinceras, e até eu estava curiosa.
- O que aconteceu? - perguntei baixinho.
O olhar de Wade parecia voltado para o passado.
- Fui muito repreendido. Meus superiores ficavam repetindo sem parar como era errado ter ideias como essa sobre os Moroi, que dirá falar esse tipo de coisa em voz
alta. Eles não me mandaram para a reeducação, mas me suspenderam por duas semanas e, todo dia, eu tinha que ouvir sermões sobre como era uma pessoa terrível e que
estava prestes a ser corrompido. Terminada a suspensão, eu já acreditava neles... até que conheci Marcus. Ele me fez perceber que eu não precisava mais levar aquela
vida.
- Então você saiu - eu disse, sentindo um respeito inesperado por Marcus.
- Sim. Mas não antes de completar a missão que Marcus me deu. Consegui pegar a lista confidencial de visitantes.
Isso foi uma surpresa. Os alquimistas sempre estavam cobertos de segredos. Embora a maioria das nossas ações fosse registrada diligentemente, havia algumas coisas
que os líderes do alto escalão não queriam que o resto da sociedade soubesse. Tudo, claro, pelo bem maior. A lista confidencial detalhava as pessoas que tinham acesso
a essas coisas, mas que os chefões queriam manter em segredo. Não era algo que um alquimista comum poderia ver.
- Você é jovem - eu disse. - Não teria acesso a algo assim.
Wade riu.
- Claro que não. Por isso a tarefa foi difícil. Marcus não manda a gente cumprir tarefas fáceis. Precisei fazer muitas coisas perigosas, coisas que me deixaram feliz
por ter fugido depois. A lista nos mostrou a conexão com os guerreiros.
- Estava escrito “Reunião ultrassecreta com caçadores de vampiros”? - Eddie perguntou. Além de suas habilidades de proteção, era por causa de momentos como aquele
que eu gostava de tê-lo comigo.
Wade ficou sem graça com a ironia.
- Não. Ela estava toda codificada. Quer dizer, não dava nomes completos, só as iniciais. Nem eu consegui pegar os nomes completos. Mas um dos registros era Z. J.
Marcus e seus Vingadores me olharam com expectativa, como se isso devesse significar algo para mim. Voltei a olhar para Eddie, mas ele estava tão desorientado quanto
eu.
- O que quer dizer? - perguntei.
- Zebulon Jameson - Marcus respondeu. Mais uma vez, houve um momento de expectativa. Não disse nada, e Marcus pareceu incrédulo. - Você esteve com os guerreiros.
Não se lembra dele? Mestre Jameson?
Eu lembrava, sim. Era uma das autoridades do alto escalão dos guerreiros, um homem intimidador de barba grisalha que usava um manto dourado antiquado.
- Não sabia o primeiro nome dele - respondi. - Mas não é meio exagerado deduzir que ele seja o tal Z. J.? Talvez seja, sei lá, Zachary Johnson.
- Ou Zeke Jones - Eddie sugeriu.
A gata voltou com outra limonada para Marcus e logo tive a prova de que era uma mulher.
- Obrigado, querida - Marcus agradeceu, abrindo um sorriso que quase a fez perder os sentidos e derrubar a bandeja. Quando ele se voltou para nós, tinha retomado
a postura profissional. - É aí que entra Sabrina. Pouco antes de Wade conseguir a lista, ela ouviu mestre Jameson falar com um de seus comparsas sobre uma viagem
que faria a St. Louis, uma viagem em que poderia descobrir pistas sobre uma menina desaparecida. Foi na mesma época.
- É uma grande coincidência - eu disse. Mas, ao mesmo tempo, me lembrei de uma coisa que Sonya Karp sempre dizia sobre o mundo dos Moroi e dos alquimistas: Não existem
coincidências.
- Quem é essa menina desaparecida de quem eles estavam falando? - Eddie perguntou, cauteloso.
Olhei para ele e imediatamente entendi o que estava pensando. Uma menina desaparecida em que os guerreiros estavam interessados. Havia uma menina desaparecida em
que os Moroi estavam muitíssimo interessados também. E que os alquimistas estavam determinados em manter em segurança. Ela era o motivo pelo qual eu estava alocada
em Palm Springs, aliás. Na verdade, eu estava fingindo ser irmã dela.
Jill.
Não disse nada e voltei a me concentrar em Marcus.
Ele encolheu os ombros.
- Não faço ideia; só sei que encontrar essa menina causaria muitos problemas aos Moroi. Os detalhes ainda não importam. Antes, precisamos provar o contato entre
os grupos.
Os detalhes eram imensamente importantes para mim e Eddie, mas eu não tinha certeza do quanto Marcus e seus amigos sabiam sobre Jill. Não podia demonstrar muito
interesse.
- E é isso que vocês querem de mim? - perguntei, me lembrando da conversa anterior. - E como eu conseguiria isso? Visitando mestre Jameson e perguntando pra ele?
- Todos os visitantes são filmados quando passam pelas entradas de segurança - Wade disse. - Mesmo os ultrassecretos. Você só precisa roubar uma cópia desses vídeos.
Estão todos armazenados nos computadores deles.
Aquelas pessoas tinham uma ideia muito diferente do significado da palavra “só”.
- Eu sou uma alquimista a trabalho em Palm Springs - eu os lembrei. - Não uma hacker. Nem fico em St. Louis! Como eu faria para entrar lá e roubar alguma coisa?
Marcus inclinou a cabeça para me examinar, fazendo com que alguns fios de seu cabelo dourado caíssem para a frente.
- Acho que você é perfeitamente capaz de improvisar. Não consegue encontrar um jeito de ir para St. Louis? Algum motivo pra fazer uma visita a alguém?
- Não! Eu não teria como... - Minha voz foi perdendo a força enquanto eu me lembrava do casamento. Ian, com seu olhar apaixonado, havia me convidado para visitá-lo
em St. Louis. Ele tivera a audácia de usar as festas de fim de ano como uma maneira de aumentar suas chances comigo.
Os olhos de Marcus brilharam.
- Já pensou em alguma coisa, não pensou? Você é genial, eu sabia. - Amelia pareceu incomodada ao ouvir o elogio.
- Seria arriscado - eu disse.
- É sempre assim com a gente - Marcus retrucou.
Ainda não estava convencida.
- Conheço alguém lá, mas precisaria de permissão pra ir, o que não seria nada fácil. - Olhei para cada um deles. - Vocês sabem como é. Todos vocês já foram alquimistas.
Sabem que não podemos simplesmente tirar férias quando temos vontade.
Wade e Amelia tiveram o pudor de parecer constrangidos, mas Marcus não se deixou abater.
- Você vai deixar essa chance passar? Mesmo que não queira se juntar a nós ou alterar a tatuagem, pelo menos considere. Você viu os guerreiros. Viu do que são capazes.
Pode imaginar o que aconteceria se tivessem acesso aos recursos alquimistas?
- É tudo circunstancial - argumentou a cientista dentro de mim.
- Sydney - Eddie disse.
Me virei para ele e vi algo em seu olhar que jamais esperaria: súplica. Ele não ligava para as conspirações alquimistas ou para os Vingadores de Marcus. Mas se importava
com Jill, e tinha ouvido algo que o fez pensar que ela poderia estar em perigo. Isso era inaceitável para ele. Ele faria qualquer coisa em seu poder para mantê-la
segura, mas mesmo ele sabia que não era capaz de roubar informações dos alquimistas. Eu também não era, mas ele não sabia disso. Confiava em mim, e agora, silenciosamente,
estava implorando para que eu ajudasse.
Marcus aproveitou o momento:
- Você não tem nada a perder... quer dizer, se não for pega. Se conseguir as imagens e não encontrarmos nada... bom, que seja. Alarme falso. Mas se tivermos provas
concretas de que Jameson esteve lá, não preciso nem dizer a importância disso. Seja como for, você deveria romper a tatuagem e se juntar a nós. Além disso, depois
de uma façanha como essa, realmente gostaria de continuar com os alquimistas? - Ele me olhou fixamente. - Mas a decisão é sua. Só nos ajude com isso por enquanto.
Contrariando todo o meu bom senso, minha mente já estava começando a pensar em maneiras de realizar a tarefa.
- Eu precisaria de muitas informações sobre as operações - murmurei.
- Posso fornecer essas informações a você - Wade se voluntariou prontamente.
Não respondi. Aquilo era uma maluquice - uma ideia maluca de um grupo maluco. Mas olhei para a tatuagem de Marcus e para a maneira como os outros o seguiam... a
maneira como a própria Sabrina o seguia. Eles tinham uma dedicação, uma confiança inabalável que nada tinha a ver com os flertes bobos de Marcus. Era possível que
realmente estivessem certos.
- Sydney - Eddie disse novamente. E dessa vez acrescentou: - Por favor.
Senti minha determinação enfraquecer. Uma menina desaparecida, que poderia causar muitos problemas se fosse encontrada. Se realmente estivessem falando de Jill,
como eu poderia correr o risco de que alguma coisa acontecesse a ela?
Mas e se eu fosse pega?
Não seja pega, uma voz interior me disse.
Com um suspiro, me virei para Wade.
- Certo - eu disse. - Me passe as informações.
13
Wade me contou tudo o que sabia. Eram informações úteis, mas eu não tinha certeza se seriam suficientes. Primeiro, eu precisaria ir para St. Louis... e isso já era
complicado. Estava me preparando para os telefonemas que teria de fazer, torcendo para que tivesse lábia suficiente para proceder com o plano.
Antes de empreender essa tarefa, só queria a normalidade e o conforto do meu quarto. No caminho de volta para Amberwood, Eddie e eu analisamos todos os detalhes
do encontro. Ele estava impaciente para fazer mais algum progresso, e prometi que o manteria a par de tudo.
Eu tinha acabado de chegar à porta quando meu celular tocou. Era a sra. Terwilliger. Às vezes eu podia jurar que ela tinha um sensor na frente do meu quarto que
a avisava no instante em que eu aparecia.
- Srta. Melbourne - ela disse. - Precisamos nos encontrar.
Meu coração parou.
- Não é outra vítima, é? Você disse tínhamos tempo.
- E temos - ela respondeu. - Por isso é melhor nos encontrarmos logo. Ler sobre feitiços é uma coisa, mas você precisa praticar. Me recuso a deixar Veronica pegar
você.
As palavras dela desencadearam um misto de sentimentos dentro de mim. Naturalmente, senti minha reação automática contra a prática de magia. Mas ela logo diminuiu
diante da descoberta de que a sra. Terwilliger gostava de mim e estava preocupada com a minha segurança. Meu próprio desejo de não entrar em coma também era uma
motivação forte.
- Quando a senhora quer me encontrar? - perguntei.
- Amanhã de manhã.
Percebi que o dia seguinte era sábado. Mas já? Onde minha semana tinha ido parar? Eu tinha planejado levar Adrian para buscar o carro dele na manhã seguinte e esperava
que não fosse demorar demais.
- Pode ser ao meio-dia? Tenho um compromisso de manhã.
- Tudo bem - a sra. Terwilliger disse, um tanto relutante. - Me encontre em casa e então iremos para o Parque da Pedra Solitária.
Eu estava prestes a deitar na cama mas parei.
- Por que precisa ser no meio do deserto? - O Parque da Rocha Solitária era longe e raramente recebia muitos turistas. Eu não tinha me esquecido do medo que sentira
da última vez que ela tinha me levado para o meio do nada. Pelo menos dessa vez seria à luz do dia.
- Bom, acho difícil conseguirmos praticar na escola - ela argumentou.
- Verdade...
- Traga seus livros e os componentes em que vem trabalhando.
Desligamos e escrevi uma mensagem rápida para Adrian: Precisamos ser rápidos amanhã. Vou encontrar a sra. T ao meio-dia. A resposta dele não foi totalmente inesperada:
Por quê? Claro que ele precisava saber de tudo que estava acontecendo na minha vida. Respondi que a sra. Terwilliger queria trabalhar minha proteção mágica. Dessa
vez ele realmente me surpreendeu: Posso assistir? Queria saber como ela está protegendo você.
Uau, Adrian pedindo permissão? Ele tinha um histórico de simplesmente se convidar para os passeios. Hesitei, ainda confusa depois do nosso momento acalorado na fraternidade.
No entanto, ele não tinha tocado no assunto desde então, e sua preocupação me comoveu. Respondi que sim e ele mandou uma carinha feliz.
Não sabia exatamente o que vestir para um “treinamento mágico”, então, na manhã seguinte, optei por roupas confortáveis. Adrian me olhou de cima a baixo quando entrou
no Pingado.
- Casual, hein? Não vejo você assim desde os tempos do Wolfe.
- Não sei o que ela tem em mente - expliquei, fazendo uma curva em U na rua dele. - Imaginei que seria a melhor opção.
- Você podia ter vestido a camiseta da EIA.
- Não queria sujar - eu disse, sorrindo.
Em parte, era verdade. Ainda achava lindíssimo o coração em chamas que ele havia pintado. Mas sempre que olhava para a camiseta, as lembranças daquela noite voltavam
à minha mente. Como pude fazer aquilo? Havia me feito essa pergunta uma centena de vezes e toda resposta que encontrava parecia falsa. Minha teoria principal era
que eu simplesmente ficara fascinada pela seriedade com que Adrian encarava a arte, pela maneira como a emoção e a paixão tinham tomado conta dele. As meninas gostavam
tanto de artistas quanto de bad boys, não é? Mesmo agora, algo ardia em meu peito quando pensava naquele olhar extasiado em seu rosto. Adorava que ele tivesse algo
tão poderoso dentro de si.
Mas, conforme vivia repetindo, não era desculpa para ter subido em cima dele e deixado ele me beijar, ainda mais no pescoço! Eu comprara o livro sobre bad boys pela
internet, mas não tinha ajudado em nada. Finalmente, decidi que a melhor solução - senão a mais saudável - era fingir que aquilo nunca tinha acontecido. Não significava
que eu havia esquecido. Tanto que, sentada ao lado dele no carro, foi difícil não pensar na sensação do corpo tão perto do meu. Ou em como seus dedos tinham se emaranhado
no meu cabelo. Ou em seus lábios...
Sydney! Pare. Pense em outra coisa. Conjugue verbos em latim. Recite a tabela periódica.
Nada disso adiantou. Pelo menos Adrian continuou não comentando nada sobre aquela noite. Por fim, encontrei uma distração ao contar a ele sobre a viagem para San
Bernardino. Discutir sobre conspirações, grupos rebeldes e invasões praticamente acabou com todos os sentimentos ardentes que permaneciam em mim. Adrian não gostou
da ideia de que os alquimistas estivessem trabalhando com os guerreiros ou de que a tatuagem estivesse me controlando, mas também não queria que eu me envolvesse
numa situação perigosa. Tentei minimizar a quase impossibilidade de invadir a base de St. Louis, mas ele claramente não acreditou em mim.
A sra. Terwilliger me mandou duas mensagens pedindo que eu não me atrasasse. Fiquei de olho no relógio, mas o cuidado com o Mustang era algo que eu levava muito
a sério, e precisei me demorar na oficina para garantir que ele estava em perfeitas condições. Adrian queria comprar os pneus básicos, mas insisti para que comprasse
uns de melhor qualidade, convencendo-o de que o custo extra valeria a pena. E, depois que os inspecionei, me parabenizei pela escolha. Só depois de me certificar
de que o carro não havia sofrido nenhum arranhão desnecessário, deixei que ele pagasse. Dirigimos os dois carros até Vista Azul, e fiquei contente quando chegamos
bem na hora. Não estávamos atrasados, mas a sra. Terwilliger já esperava por nós na entrada.
Designamos Adrian como o motorista do grupo.
- Céus - eu disse quando ela entrou apressada no carro. - A senhora tem que ir a algum lugar depois?
Ela me abriu um sorriso tenso, e não pude deixar de notar a palidez em seu rosto.
- Não, mas temos pouco tempo. Lancei um feitiço grande hoje de manhã que não vai durar pra sempre. Estamos em contagem regressiva.
Ela não disse mais nada até chegarmos ao parque, e esse silêncio me deixou apreensiva, imaginando todo tipo de cenário assustador. Embora confiasse nela, senti um
alívio súbito por ter Adrian conosco.
Apesar de não ser muito movimentado, o Parque da Rocha Solitária tinha alguns excursionistas esporádicos. A sra. Terwilliger - que, aliás, estava com botas de excursionista
- caminhou pelo terreno rochoso em busca de um lugar convenientemente afastado para fazermos o que tinha em mente. Algumas formações rochosas estratificadas pontilhavam
a paisagem, mas eu não conseguia apreciar direito a beleza delas. Na maior parte do tempo fiquei pensando sobre como estávamos no deserto sob o sol a pino. Mesmo
não sendo verão, ainda sofríamos com o calor.
Olhei para Adrian enquanto caminhávamos e vi que ele também estava olhando para mim. Do bolso do casaco, tirou um protetor solar.
- Sabia que você ia perguntar. Estou quase tão preparado quanto você.
- Quase - eu disse. Ele tinha previsto meus pensamentos de novo. Por uma fração de segundo, fingi que éramos só nós dois em uma agradável caminhada vespertina. Parecia
que a maior parte do tempo que passávamos juntos era em alguma missão urgente. Como seria só passarmos o tempo sem o peso do mundo nas costas? A sra. Terwilliger
logo nos trouxe de volta à dura realidade.
- Aqui deve servir - ela disse, examinando o terreno ao seu redor. Ela tinha conseguido encontrar uma das áreas mais desoladas do parque. Eu não ficaria surpresa
se visse urubus circulando no céu. - Trouxe tudo o que pedi?
- Sim, senhora. - Ajoelhei e vasculhei minha bolsa. Dentro estava o livro de feitiços, além de algumas misturas líquidas e herbáceas que eu tinha feito a pedido
dela.
- Pegue o combustível de bola de fogo - ela instruiu.
Os olhos de Adrian se arregalaram.
- Você disse “bola de fogo”? Da hora.
- Você vê magia de fogo o tempo todo - eu o lembrei. - Dos Moroi que conseguem lançar.
- Sim, mas nunca vi um humano fazer uma coisa dessas. Nunca vi você fazer uma coisa dessas.
Teria preferido que ele não parecesse tão impressionado, porque me lembrou da gravidade do que estávamos prestes a fazer. Eu teria me sentido melhor se ele tratasse
aquilo como se não fosse nada de mais. Mas aquele feitiço era mesmo assombroso.
Uma vez eu lançara um feitiço que envolvia atirar um amuleto produzido meticulosamente recitando palavras que o faziam arder em chamas. Tinha um enorme componente
físico. Já esse era um dos mais mentais e envolvia, basicamente, a criação de fogo do nada.
O combustível a que a sra. Terwilliger havia se referido era uma bolsinha com cinzas de madeira de teixo queimada. Ela a pegou das minhas mãos e examinou o conteúdo,
murmurando em aprovação:
- Sim, sim. Muito bom. Uniformidade excelente. Você queimou pelo tempo exato. - Ela devolveu a bolsinha. - Mas, com o tempo, não vai mais precisar disso. É o que
torna esse feitiço tão poderoso. Ele pode ser realizado muito rápido, com pouquíssima preparação. Mas você precisa praticar muito para chegar a esse nível.
Fiz que sim e tentei agir como uma estudante. Até aquele momento, o que ela dizia era parecido com o que o livro tinha descrito. Se eu pensasse em tudo aquilo como
um exercício extraclasse, era bem menos intimidante. Nem um pouco assustador.
A sra. Terwilliger inclinou a cabeça e olhou atrás de mim.
- Adrian? Talvez você queira ficar mais longe. Bem longe.
Tá. Talvez um pouco assustador.
Ele obedeceu e se afastou. Aparentemente, a sra. Terwilliger não temia por si mesma, pois continuou a poucos metros de mim.
- Agora - ela começou -, aplique as cinzas e estenda a mão.
Pus a mão dentro da bolsinha, tocando as cinzas com o polegar e o indicador. Em seguida, esfreguei de leve todos os dedos uns nos outros até que toda a palma da
mão estivesse coberta por uma fina camada cinzenta. Coloquei a bolsinha no chão e estendi a mão, com a palma voltada para cima. Eu sabia o que vinha a seguir, mas
esperei pelas instruções.
- Reúna sua magia para invocar a chama das cinzas. Sem encantamento, só com a força de vontade.
A magia surgiu dentro de mim. Invocar um elemento me lembrava do que os Moroi faziam, o que foi um pouco estranho. Meu esforço resultou em uma faísca vermelha, que
pairou no ar sobre a palma da minha mão. Aos poucos, foi crescendo e crescendo, até ficar do tamanho de uma bola de tênis. O êxtase da magia tomou conta de mim.
Prendi a respiração, mal conseguindo acreditar no que tinha acabado de fazer. As chamas vermelhas se retorciam e giravam e, embora eu pudesse sentir seu calor, não
me queimavam.
A sra. Terwilliger soltou um resmungo que parecia ao mesmo tempo divertido e surpreso.
- Excelente. Às vezes me esqueço do seu talento natural. Essa ainda é vermelha, mas algo me diz que não vai demorar muito para você conseguir produzir bolas azuis,
sem precisar das cinzas. Invocar elementos é mais fácil do que tentar transformar uma substância em outra.
Fiquei olhando para a bola de fogo, em transe, mas logo percebi que estava ficando cansada. As chamas bruxulearam e foram diminuindo até desaparecerem por completo.
- Quanto antes você atirar a bola, melhor - ela disse. - Vai consumir toda a sua energia tentando sustentá-la. É melhor lançá-la contra o adversário e invocar outra.
Tente de novo e, dessa vez, atire.
Invoquei o fogo mais uma vez e senti uma pontada de satisfação ao ver que ele assumiu um tom mais alaranjado. Eu havia aprendido logo nas primeiras aulas de química
na infância que, quanto mais clara a chama, com mais calor ela ardia. Mesmo assim, ainda parecia faltar muito para chegar ao azul.
E então... atirei.
Quer dizer, tentei. Meu controle sobre a bola vacilou quando tentei lançá-la na direção de um trecho descampado. Ela se desfez, e as chamas se transformaram em fumaça,
que foi levada pelo vento.
- É difícil - me justifiquei, sabendo como a desculpa soava esfarrapada. - Segurar a bola e atirar parece um simples movimento físico. Mas preciso fazer isso ao
mesmo tempo que controlo a magia.
- Exato. - A sra. Terwilliger parecia muito satisfeita. - E é aí que entra a prática.
Felizmente, não precisei de muitas tentativas para descobrir como fazer tudo dar certo ao mesmo tempo. Adrian me aplaudiu quando consegui atirar uma bola de fogo
direito, resultando em um belo lançamento que atingiu com perfeição a pedra em que estava mirando. Lancei um olhar triunfante para a sra. Terwilliger e esperei pelo
próximo feitiço que treinaríamos. Para a minha surpresa, ela não pareceu tão impressionada quanto eu esperava.
- De novo - ela disse.
- Mas já aprendi - protestei. - Deveríamos praticar outro. Eu estava lendo a segunda parte do livro...
- Você não está pronta para isso ainda - ela me repreendeu. - Se acha esse feitiço cansativo, desmaiaria só de tentar os mais avançados. Vamos. - Ela apontou para
o chão árido do deserto. - De novo.
Eu queria dizer que, para mim, era impossível não avançar na leitura de um livro. Era como eu funcionava em todas as matérias. Mas algo me dizia que não era o melhor
momento para fazer esse comentário.
Ela me fez praticar o lançamento inúmeras vezes. Depois que ficou convencida de que eu tinha aprendido, me fez praticar o aumento do calor do fogo. Finalmente consegui
chegar a um tom amarelo, mas não mais que isso. Então precisei realizar o feitiço sem as cinzas. Quando cheguei a esse ponto, voltamos a praticar os lançamentos.
Ela escolheu diversos alvos e acertei todos com facilidade.
- Parece Skee-Ball - murmurei. - Fácil e sem graça.
- Sim - a sra. Terwilliger concordou. - É fácil acertar objetos inanimados. Mas alvos em movimento? Alvos vivos? Não é tão fácil assim. Então, vamos passar para
essa parte?
A bola de fogo que eu estava segurando desapareceu com a minha surpresa.
- O que a senhora quer dizer? - Se ela esperava que eu começasse a mirar em pássaros ou roedores, estava muito enganada. Jamais incineraria algo vivo. - O que você
quer que eu acerte?
A sra. Terwilliger ajeitou os óculos e recuou alguns passos.
- Eu.
Esperei ela dizer que era uma piada ou, pelo menos, mais alguma explicação, mas ela ficou em silêncio. Olhei para Adrian atrás de mim, na esperança de que pudesse
me explicar aquilo, mas ele parecia tão espantado quanto eu. Olhei para o chão chamuscado onde minhas outras bolas de fogo haviam acertado.
- A senhora não pode me pedir para fazer isso.
Ela entreabriu um sorriso.
- Garanto que posso. Vá em frente, não vai me machucar.
Precisei pensar por alguns segundos para formular uma resposta.
- Eu atiro muito bem. Posso acertar a senhora.
Ela respondeu com uma risada sincera.
- Acertar, sim. Machucar, não. Vá em frente e atire. Não temos muito tempo.
Eu não sabia quanto tempo havia se passado exatamente, mas o sol estava definitivamente mais baixo no céu. Voltei a olhar para Adrian, pedindo ajuda em silêncio
para lidar com aquela insanidade. Ele deu de ombros.
- Você é testemunha - disse para ele. - Ouviu que ela me mandou fazer isso.
Ele assentiu.
- Você é completamente inocente.
Respirei fundo e invoquei a próxima bola. Estava tão exausta que ela se acendeu vermelha e tive que me esforçar para aquecê-la. Então levantei os olhos para a sra.
Terwilliger e me preparei para o lançamento. Era mais difícil do que eu tinha imaginado, e não só porque eu estava com medo de machucá-la. Atirar algo no chão quase
não exigia pensamento. A concentração nesse caso ficava apenas na mira. Mas enfrentar uma pessoa, olhar nos olhos dela e vê-la respirar... bom, ela estava certa.
Era completamente diferente de acertar um objeto inanimado. Comecei a tremer, sem saber se conseguiria fazer aquilo.
- Está perdendo tempo - ela advertiu. - Está consumindo sua energia de novo. Atire.
A ordem me fez agir. Eu atirei.
A bola de fogo voou da minha mão diretamente contra ela - mas não encostou. Não consegui acreditar nos meus próprios olhos. A uns trinta centímetros da sra. Terwilliger,
a bola atingiu uma barreira invisível, dividindo-se em chamas pequenas que logo se dissiparam em fumaça. Fiquei boquiaberta.
- O que foi isso? - exclamei.
- Um feitiço de escudo poderosíssimo - ela disse, visivelmente satisfeita com a minha reação. Ela ergueu um pendente que estava escondido sob a blusa. Não parecia
nada de especial, só uma cornalina envolta em fios de prata. - Fazer um desses exige muito esforço... e mantê-lo, ainda mais. O resultado é um escudo invisível,
como você percebeu, que quase nenhum ataque físico ou mágico pode penetrar.
Adrian logo estava ao meu lado.
- Quer dizer que existe um feitiço que deixa você protegido de qualquer coisa e você só pensou em mencionar agora? Você não para de falar que Sydney está correndo
perigo! Por que não ensina só esse? Assim sua irmã não poderá encostar nela. - Embora Adrian não parecesse prestes a atacá-la como havia acontecido com Marcus, estava
quase igualmente furioso. Seu rosto estava inflamado; seu olhar, duro. Ele cerrou os punhos, mas acho que nem percebeu. Era mais uma daquelas reações instintivas.
A sra. Terwilliger permaneceu firme diante da raiva dele.
- Se fosse tão simples, acredite, eu faria isso. Infelizmente, há muitas questões envolvidas. Uma é que Sydney, apesar de ser um prodígio, não tem poder suficiente
para lançar esse feitiço. Eu quase não tenho poder suficiente. Outro problema é que ele dura muito pouco, e é por isso que estou insistindo tanto na questão do tempo.
Ele só se mantém por seis horas e exige tanto esforço que não dá para simplesmente ativá-lo e sustentá-lo pelo tempo que você quiser. Já estou exausta e ficarei
ainda mais depois. Não vou conseguir lançar esse feitiço, e acho que nenhum outro, por mais um dia... no mínimo. É por isso que preciso que Sydney esteja sempre
preparada.
Adrian e eu não dissemos nada de imediato. Eu havia notado o cansaço dela quando ela entrara no carro, mas não tinha pensado muito a respeito. Ao longo do treino,
havia notado que ela estava suando e parecendo ainda mais cansada, mas tinha culpado o calor por isso. Só agora conseguia entender plenamente a extensão do que ela
havia feito.
- Por que se esforçou tanto? - perguntei.
- Para manter você viva - ela respondeu, seca. - Agora não faça com que tenha sido em vão. Só temos mais uma hora até o feitiço perder a força e você precisa mirar
em alguém sem pensar duas vezes. Você hesita demais.
Ela estava certa. Mesmo sabendo que ela estava protegida, era difícil atacá-la. Eu não conseguia aceitar o caminho da violência. Precisava esquecer todas as minhas
preocupações internas e tratar aquilo como um jogo de Skee-Ball. Mirar, atirar. Mirar, atirar. Não pense demais.
Em pouco tempo, consegui combater meus medos e atirar sem hesitação. A sra. Terwilliger até tentou se mover um pouco, para me dar uma sensação melhor do que seria
combater um inimigo real, mas não achei muito difícil. Afinal, ela estava cansada e não conseguia correr de um lado para o outro ou desviar das bolas de fogo. Na
verdade, fiquei com pena. Ela parecia prestes a desmaiar e senti uma pontada de culpa enquanto preparava meu próximo lançamento...
- Ahh!
Uma chama saiu das pontas dos dedos da sra. Terwilliger assim que lancei a bola de fogo. Errei feio, e a bola desapareceu antes de chegar perto dela. A bola de fogo
dela passou a menos de trinta centímetros de mim. Com um sorriso exausto, ela caiu de joelhos e soltou a respiração.
- Estão dispensados - ela disse.
- O que foi isso? - perguntei. - Eu não tenho um escudo mágico!
Ela não pareceu ter a mesma preocupação.
- Nem chegou perto de você. Tomei cuidado. Só queria mostrar que, por mais “fácil e sem graça” que pareça, tudo vai pelos ares quando alguém realmente está atacando
você. Agora, Adrian, me faria o favor de trazer minha bolsa? Tenho umas tâmaras secas que acho que tanto eu quanto Sydney adoraríamos comer agora.
Ela estava certa. Eu tinha me concentrado tanto na lição que nem percebera como estava cansada. Ela estava ainda mais, mas o treino definitivamente tinha me afetado.
Nunca usara magia por tanto tempo, e meu corpo estava fraco e exaurido por causa da queda de açúcar no sangue. Comecei a entender por que ela havia me alertado para
ficar longe da parte realmente difícil. Praticamente engoli as tâmaras secas que ela havia levado para nós e, embora o açúcar ajudasse, estava louca para comer mais.
Adrian nos acompanhou gentilmente até a entrada do estacionamento, levando cada uma em um braço.
- Pena que estamos no meio do nada - resmunguei depois que entramos no carro. - Você ficaria surpreso com o quanto eu comeria agora. Acho que vou desmaiar antes
de voltarmos para a civilização.
- Na verdade - Adrian disse -, deve ser seu dia de sorte. Acho que vi um lugar não muito longe daqui quando a gente estava vindo.
Eu não tinha visto nada, mas estivera preocupada demais com a lição da sra. Terwilliger para reparar. Depois de cinco minutos na estrada, vi que Adrian estava certo
sobre o restaurante. Ele pegou a saída em uma estradinha sombria, parando no estacionamento de cascalho de um restaurante pequeno, recém-pintado de branco.
Fiquei olhando incrédula para a plaqueta em frente.
- “Tortas e Tal”?
- Você queria açúcar - Adrian me lembrou.
O Mustang soltou poeira e cascalho no ar, e me arrepiei pelo carro.
- A parte do “Tal” não é muito estimulante.
- Pensei que você fosse ficar mais incomodada com a parte das “Tortas”.
Apesar da minha apreensão, Tortas e Tal era um restaurante bonito e limpinho. Havia cortinas de bolinha nas janelas, e a vitrine estava cheia de todo tipo de torta
imaginável, além de coisas “tais” como bolos de cenoura e brownies. Éramos as únicas pessoas com menos de sessenta anos no lugar.
Pedimos nossas tortas e nos sentamos numa mesa de canto. Pedi uma de pêssego; Adrian, de chocolate; e a sra. Terwilliger, de nozes. E, claro, eu e ela pedimos café
para a garçonete assim que nos sentamos, uma vez que havíamos passado por uma dura abstinência devido à magia. Dei um gole e imediatamente me senti melhor.
Adrian comeu sua fatia num ritmo razoável, como uma pessoa normal, mas eu e a sra. Terwilliger devoramos as nossas como se não comêssemos havia um mês. Conversar
era irrelevante. Tudo o que importava era a torta. Adrian nos observou com prazer, e não interrompeu até que nós duas tivéssemos quase limpado o prato.
Ele apontou para o meu prato vazio.
- Mais uma fatia?
- Vou pedir mais café. - Olhei para o prato brilhando e não pude deixar de perceber que aquela vozinha interior que costumava ficar me lembrando da quantidade de
calorias que eu ingeria andava quieta nos últimos tempos. Na verdade, nem parecia estar mais dentro de mim. Eu tinha ficado brava com a “intervenção” alimentar de
Adrian, mas as palavras dele acabaram tendo um impacto maior do que eu esperava. Não que tivesse alguma coisa a ver especificamente com ele, claro. Diminuir minhas
restrições alimentares era simplesmente uma ideia sensata. Só isso. - Estou bem melhor agora.
- Eu pego pra você - ele me disse. Quando voltou, trazia uma caneca para a sra. Terwilliger também. - Imaginei que também fosse querer.
Ela agradeceu com um sorriso.
- Obrigada. Você é muito atencioso. - Enquanto ela bebia, notei que ainda parecia cansada, embora tivéssemos acabado de nos reabastecer de açúcar. Ela não parecia
mais prestes a desmaiar, mas estava claro que não tinha se recuperado tão rapidamente quanto eu.
- A senhora tem certeza de que está bem? - perguntei.
- Não se preocupe, vou ficar. - Ela deu mais um gole no café, com o rosto pensativo. - Não faço esse feitiço há anos. Esqueci o quanto ele exige de mim.
Eu estava assombrada com o trabalho que ela havia tido por mim. Desde que me identificara como uma usuária de magia em potencial, eu só vinha resistindo às suas
propostas e até mesmo sendo hostil.
- Obrigada - disse para ela. - Por tudo... queria poder compensar a senhora pelo esforço.
Ela pôs a caneca na mesa e colocou mais açúcar.
- Fico feliz em fazer isso. Não precisa me recompensar. Mas... depois que tudo isso tiver terminado, gostaria muito que você conhecesse meu clã. Não estou pedindo
para entrar - ela acrescentou, rápido. - Só conversar. Suspeito que acharia o Stelle muito interessante.
- Stelle - repeti. Ela nunca tinha chamado o clã pelo nome antes. - Estrelas.
- Sim - ela concordou. - Nossas origens são italianas, embora, como você já deve ter visto, a magia que usamos venha de diversas culturas.
Eu estava sem palavras. Ela tinha feito tanto por mim... sem dúvida não seria nada de mais só conversar com outras bruxas, certo? Mas, se era algo tão pequeno, por
que eu estava com tanto medo? A resposta me ocorreu alguns segundos depois. Conversar com outras bruxas e ver sua organização levaria meu envolvimento mágico a outro
nível. Eu havia precisado de muito tempo para me acostumar à magia que estava usando. Tinha superado muitos dos meus medos, mas parte de mim tratava a magia como
uma atividade paralela. Como um passatempo. Conhecer outras bruxas mudaria tudo. Eu teria que aceitar que fazia parte de algo muito maior do que um mero exercício
ocasional. Conhecer um clã parecia definitivo. E eu não sabia se estava pronta para ser considerada uma bruxa.
- Vou pensar - eu disse por fim. Queria poder oferecer mais, mas meus instintos de proteção haviam assumido o comando.
- Já está bom - ela disse com um pequeno sorriso. Então seu celular tocou, e ela baixou os olhos. - Por falar em Stelle, preciso conversar com uma das minhas irmãs.
Encontro vocês no carro. - Ela terminou o café e saiu.
Eu e Adrian a seguimos alguns minutos depois. Eu ainda estava apreensiva em relação ao clã e segurei-o pelo braço. Disse baixinho:
- Adrian, como cheguei a esse ponto? Estou tentando descobrir os segredos dos alquimistas e praticando magia no deserto! - No verão passado, quando estava com Rose
na Rússia, eu mal conseguia tolerar a ideia de dormir no mesmo quarto que ela. Tinha ficado com vários mantras alquimistas se repetindo na minha cabeça, me advertindo
do perigo dos vampiros. E, agora, ali estava eu, aliada a vampiros e questionando os alquimistas. Aquela menina na Rússia não tinha nada em comum com essa em Palm
Springs.
Não, no fundo, ainda sou a mesma pessoa. Precisava ser... porque, senão, quem eu era?
Adrian me abriu um sorriso compreensivo.
- Acho que foi uma série de motivos. Sua curiosidade. Sua necessidade de fazer a coisa certa. Tudo isso trouxe você até aqui. Sei que os alquimistas ensinaram você
a pensar de um jeito, mas o que está fazendo agora... não é errado.
Passei a mão no cabelo.
- Mesmo assim, apesar de tudo isso, não consigo ter uma conversinha de nada com o clã da sra. Terwilliger.
- Você tem limites. - Com carinho, ele arrumou uma das minhas mechas teimosas. - Não tem mal nenhum nisso.
- Marcus diria que é a tatuagem que está me impedindo.
Adrian deixou a mão cair.
- Marcus diz muitas coisas.
- Não acho que esteja tentando me enganar. Ele acredita na causa, e estou mesmo preocupada com o controle mental... mas, pra falar a verdade, é difícil acreditar
que algo esteja me impedindo quando faço coisas como essa. - Apontei para fora, onde estava a sra. Terwilliger. - O dogma alquimista diz que essa magia é errada
e antinatural.
O sorriso de Adrian voltou.
- Se faz você se sentir melhor, você parecia bem natural lá no parque.
- Fazendo o quê? Atirando bolas de fogo? - Balancei a cabeça. - Não tem nada de natural nisso.
- Você pode não achar, mas... enfim. Você estava... incrível, lançando aquele fogo como uma antiga deusa da guerra.
Irritada, desviei o olhar.
- Fala sério.
Ele segurou meu braço e me puxou de volta para ele.
- Estou falando sério.
Engoli em seco, sem conseguir dizer nada. Só conseguia pensar na proximidade entre nós, e que ele estava me segurando a uma distância de poucos centímetros. Quase
tão perto quanto na fraternidade.
- Não sou uma guerreira nem uma deusa - consegui dizer, finalmente.
Adrian se aproximou ainda mais.
- Para mim, é as duas coisas.
Eu conhecia aquele olhar. Conhecia porque já o tinha visto antes. Estava esperando que ele me beijasse, mas, em vez disso, ele passou os dedos no meu pescoço.
- Aí está, hein? Medalha de honra.
Demorei um tempo para perceber que ele estava falando do chupão. Tinha perdido a cor, mas não desaparecera por completo. Me afastei.
- Não! Foi um erro. Você estava fora de si quando fez isso comigo.
Ele arqueou a sobrancelha.
- Sage, me lembro muito bem de tudo o que aconteceu naquela noite. Você não parecia tão relutante. Estava praticamente em cima de mim.
- Não me lembro muito dos detalhes - menti.
Ele tirou a mão do meu pescoço e tocou a ponta do dedo nos meus lábios.
- Mas posso ficar só nos beijos se você quiser. Não deixo mais marcas. - Ele fez menção de se aproximar e me afastei rapidamente.
- Não! Isso é errado.
- O quê? Beijar você ou beijar você no Tortas e Tal?
Olhei ao redor, percebendo subitamente que estávamos dando um showzinho para a clientela do restaurante, embora eles não pudessem ouvir. Dei um passo para trás.
- As duas coisas - respondi, sentindo minhas bochechas arderem. - Se for tentar fazer algo inapropriado, o que, aliás, você disse que não tentaria mais, pelo menos
escolha um lugar melhor!
Ele riu baixinho, e o brilho em seus olhos me deixou ainda mais confusa.
- Está bem - ele disse. - Da próxima vez que for beijar você, prometo escolher um lugar mais romântico.
- Eu... como assim? Não! Nem pensar! - Comecei a sair em direção à porta e ele me seguiu. - Você não falou que me amaria de longe? Que não voltaria a falar, hum,
nessas coisas? - Para alguém que teoricamente estava mantendo distância, ele não estava fazendo um bom trabalho. E eu estava me saindo ainda pior em fingir indiferença.
Ele me ultrapassou e bloqueou a saída.
- Disse que não falaria, se você não quisesse. Mas você está me dando sinais contraditórios, Sage.
- Não estou - eu disse, surpresa por conseguir dizer aquilo na cara dele. Nem eu acreditava em mim mesma. - Você está sendo presunçoso e arrogante e um monte de
outras coisas se acha que mudei de ideia.
- Viu, é exatamente isso. - Ali estava ele de novo, entrando no meu espaço. - Acho que você gosta das “outras coisas”.
Me esforcei para não cair na dele e me afastei.
- Eu gosto de humanos.
Outra lição alquimista me veio à mente. Eles se parecem conosco, mas não se engane. Os Moroi não têm a maldade dos Strigoi, mas criaturas que bebem sangue e manipulam
a natureza não têm lugar no nosso mundo. Trabalhe com eles somente o necessário. Não somos iguais a eles. Mantenha o máximo de distância possível. É para o bem da
sua alma.
Adrian não pareceu acreditar naquilo também, mas se afastou e saiu. Eu o segui alguns segundos depois, pensando que, naquele dia, havia brincado com fogo várias
vezes.
14
O domingo começou calmo. Estávamos nos aproximando do próximo ataque de Veronica, e senti um frio na barriga ao pensar em qual seria o próximo passo dela... e em
como estávamos de mãos atadas para impedi-la. Então, recebi ajuda de uma fonte inesperada quando meu celular tocou e um número desconhecido apareceu na tela.
Normalmente eu nem atenderia, mas minha vida estava muito longe do normal nos últimos dias. Além do mais, o código de área era de Los Angeles.
- Alô?
- Oi! Por favor, a Taylor?
Levei um tempo para me lembrar da minha identidade secreta. Não me lembrei, no entanto, de ter dado meu número verdadeiro a nenhuma das meninas que tínhamos avisado
sobre Veronica.
- Pois não? - respondi, desconfiada.
- Aqui é Alicia, da Pousada do Velho Mundo.
- Oi - eu disse, ainda sem saber por que ou como ela estava me ligando.
Ela estava animada e alegre, como quando nos conhecemos.
- Queria saber se vocês já tomaram uma decisão sobre o quarto para o aniversário de vocês.
- Ah... então. Ainda estamos pensando. Mas, hum, acho que vamos escolher algum lugar mais perto da costa. Sabe como é, passeios românticos na praia e tudo o mais.
- Entendo, claro - ela disse, embora parecesse decepcionada com a perda de hóspedes. - Se mudar de ideia, me avise. Estamos com uma promoção este mês, então vocês
poderiam alugar a Suíte Coelhinho a um preço muito bom. Lembro que você comentou que fazia você se lembrar do seu coelho de estimação. Como era o nome dele?
- Pulinho - eu disse, inexpressiva.
- Pulinho! Verdade. Que nome fofo.
- É, demais. - Tentei pensar numa maneira delicada de formular a pergunta seguinte, mas acabei decidindo ser direta. - Alicia, como conseguiu meu número?
- Ah, Jet me deu.
- Ele deu?
- Sim. - Ela parecia ter superado a decepção e agora soava alegre e animada de novo. - Ele preencheu uma ficha enquanto vocês estavam aqui e colocou seu número.
Quase soltei um resmungo. Típico.
- Bom saber - eu disse. Fiquei me perguntando com que frequência Adrian dava meu número para as pessoas. - Obrigada por avisar.
- É um prazer. Ah! - Ela deu uma risadinha. - Já ia me esquecendo. Sua amiga voltou.
Congelei.
- Que amiga?
- Veronica. Ela chegou ontem.
Minha primeira reação foi de felicidade. A segunda, de pânico.
- Você contou que perguntamos sobre ela?
- Ah, não. Lembrei que vocês disseram que queriam fazer uma surpresa.
Quase soltei um suspiro de alívio.
- Obrigada. Nós, hum, não queríamos estragar a surpresa. Acho que vamos passar aí e fazer uma visitinha, mas não conte nada pra ela.
- Pode deixar!
Desliguei e fiquei olhando para o celular. Veronica estava de volta, exatamente quando pensávamos ter perdido o rastro dela. Liguei imediatamente para a sra. Terwilliger,
mas caiu na caixa postal. Deixei uma mensagem de voz e, logo depois, mandei uma de texto, dizendo que tinha uma notícia urgente. Meu celular tocou quando estava
prestes a ligar para Adrian. Quase quis que fosse Alicia com mais informações para me dar, mas vi que o número era de Stanton. Respirei fundo e tentei atender com
a maior calma possível.
- Srta. Sage - ela disse. - Recebi sua mensagem ontem.
- Sim. Obrigada por me ligar de volta.
Eu havia ligado no dia anterior, pouco antes de encontrar Adrian. O treinamento mágico da sra. Terwilliger tinha ganhado prioridade naquele dia, mas eu não havia
me esquecido do meu acordo com Marcus.
- Eu tenho, hum, um favor pra pedir - continuei.
Stanton, que raramente se surpreendia, ficou claramente surpresa agora.
- Você sem dúvida tem o direito de pedir... mas não faz o tipo que geralmente pede favores.
- Eu sei, e me sinto meio mal por isso. Então, se a senhora disser que não, vou entender. - Na verdade, se ela dissesse não, eu teria vários problemas, mas era melhor
não parecer muito ansiosa. - Bom, estive pensando que vou ter que passar o Natal aqui... com os Moroi. E claro que entendo isso. Faz parte da missão, mas... bom,
estaria mentindo se dissesse que isso não me incomoda. Então estava pensando se tem algum jeito de eu receber permissão para ir a uma das grandes cerimônias de fim
de ano. Faria eu me sentir... ah, não sei. Mais ligada. Purificada, até. Estou sempre cercada por eles aqui, por essa corrupção, sabe? Às vezes sinto que nem consigo
respirar direito. Deve parecer ridículo.
Cortei a tagarelice. Quando Marcus tinha sugerido que eu aproveitasse o fato de conhecer alguém em St. Louis, eu havia pensado imediatamente em Ian. Então percebi
que não seria suficiente. Ausentar-se para algo mais espiritual e voltado ao grupo, como as cerimônias anuais de fim de ano dos alquimistas, era outra questão. Muitos
alquimistas recebiam permissão para viajar e frequentar essas cerimônias. Elas estavam relacionadas à nossa fé e à nossa união de grupo. Inclusive, Ian tinha falado
delas no casamento, com a esperança de me levar a visitá-lo. Mal sabia ele que daria certo. Mais ou menos.
- Não parece nem um pouco ridículo - Stanton disse. Isso soava promissor, e tentei abrir os punhos e relaxar.
- Estava pensando que talvez pudesse ir antes das férias de inverno - acrescentei. - Jill pode ficar dentro dos limites da escola, então não deve haver tanto risco.
E Eddie e Angeline estão sempre com ela. Eu poderia dar uma passadinha em St. Louis para uma viagem rápida no fim de semana.
- St. Louis? - Quase pude vê-la franzindo a testa. - Tem cerimônias em Phoenix também. Seria muito mais perto para você.
- Eu sei. Só... - Torci para que meu nervosismo me ajudasse a parecer convincente. - Eu, hum, estava pensando em ver Ian de novo.
- Ah, entendi. - Houve uma longa pausa. - Essa é uma surpresa maior do que você querer comparecer às cerimônias. Pelo que vi no casamento, você não parecia tão encantada
pelo sr. Jansen.
Então eu estava certa: Stanton percebera a paixonite dele. No entanto, ela também havia notado que não era recíproca. Ela era extremamente observadora, o que me
fez lembrar dos avisos de Marcus sobre como os alquimistas prestavam atenção a tudo o que fazíamos. Comecei a entender os medos dele e por que retirava seus recrutas
das garras dos alquimistas tão rapidamente. Será que eu já estava chamando atenção? Será que todas essas coisinhas que fazia, incluindo esse pedido, estariam lentamente
me incriminando?
Mais uma vez, torci para que o nervosismo me fizesse parecer uma simples garota apaixonada, da qual Stanton teria pena. St. Louis não era tão longe de avião, e o
resultado final dava na mesma.
- Bom, aquela era uma viagem profissional. Não queria desviar do nosso objetivo.
- Claro. - A pausa que ela fez a seguir foi de apenas alguns segundos, mas pareceu durar horas. - Bom, não vejo por que não deixá-la ir. Você tem feito um excelente
trabalho e, claro, posso entender a vontade de reencontrar rostos conhecidos. Você está passando mais tempo com os Moroi do que muitos alquimistas passarão na vida
e não hesitou quando aquele Ivashkov se jogou em cima de você no casamento.
Também não hesitei quando ele se jogou em cima de mim na fraternidade. Ou será que fui eu que me joguei em cima dele?
- Obrigada.
Ela me autorizou a ir no fim de semana seguinte e disse que eu poderia usar os fundos alquimistas para agendar a viagem. Quando desligamos, considerei ligar para
Ian, mas então decidi por uma abordagem mais impessoal. Escrevi um e-mail rápido dizendo que estaria na cidade e que gostaria de encontrá-lo. Depois de pensar por
alguns instantes, mandei uma mensagem para Marcus: Tudo preparado.
Chegou a hora do almoço, e Eddie me mandou uma mensagem perguntando se eu poderia encontrar Jill e ele no restaurante do meu alojamento. Desci as escadas na hora
marcada e encontrei Eddie, taciturno, sentado sozinho em uma mesa. Fiquei me perguntando onde estava Angeline e lembrei que ela não tinha sido mencionada na mensagem.
Em vez de falar dela, me foquei em quem Eddie havia mencionado.
- Cadê a Jill?
Ele apontou com a cabeça para o outro lado do restaurante. Segui seu olhar e vi Jill em pé, perto de uma mesa, rindo e conversando. Ela estava segurando uma bandeja
e parecia ter parado no caminho de volta da fila de comida. Micah e outros meninos estavam naquela mesa, e fiquei feliz de ver que ele realmente não parecia ter
problemas em ser amigo dela de novo.
- Legal - eu disse, voltando a olhar para a comida. - Que bom que ela está se dando bem com todo mundo.
Eddie olhou para mim, assombrado.
- Não vê o que está acontecendo?
Eu estava prestes a morder minha maçã e parei. Odiava essas perguntas ardilosas. Significavam que eu não tinha visto alguma sutileza social, o que, aliás, não era
meu forte. Ao olhar de novo para Jill, tentei adivinhar do que ele estava falando.
- Micah está tentando voltar com ela?
- Claro que não - Eddie disse, como se fosse minha obrigação saber. - Ele está saindo com Claire Cipriano agora.
- Desculpe. Não consigo acompanhar os namoros de todo mundo. Vou colocar na minha lista de coisas a fazer depois de, sabe, desvendar conspirações alquimistas e descobrir
se os guerreiros estão atrás de Jill.
O olhar de Eddie ainda estava cravado em Jill, e ele assentiu, o que me fez pensar que não tinha ouvido uma palavra do que eu tinha dito.
- Travis e Juan querem chamar Jill pra sair.
- E daí? Ela aprendeu a lição sobre relações entre humanos e vampiros. - Eu também deveria ter aprendido. - Ela vai dizer não.
- Mesmo assim, eles não deveriam incomodá-la - ele resmungou.
Jill não parecia exatamente incomodada com a atenção. Na verdade, era bom vê-la sorridente e alegre de novo. A autoconfiança combinava com ela e destacava seu status
real, e ela estava claramente curtindo a paquera que estava rolando. Uma coisa que eu havia aprendido na minha educação social era que paquerar não era o mesmo que
sair com alguém. Minha amiga Julia era uma especialista nessa diferença. Se fazia Jill feliz, eu não via nenhum problema naquilo.
Para dizer a verdade, quem parecia mais incomodado com os pretendentes de Jill era Eddie. Em tese, ele tinha a desculpa de que queria protegê-la, mas aquilo parecia
pessoal. Decidi trazê-lo de volta para sua própria vida amorosa, aquela com que ele realmente deveria se preocupar.
- E Angeline, cadê?
Jill começou a vir em nossa direção. Parecendo aliviado, Eddie se virou para mim.
- Bom, era sobre isso que queríamos conversar.
Sempre que alguém queria falar comigo, significava que algo estranho estava prestes a acontecer. Emergências de fato nunca tinham introdução. Elas eram ditas logo
de cara. Já coisas premeditadas eram um mistério.
- O que está acontecendo? - perguntei quando Jill se sentou. - Com Angeline?
Ela trocou um olhar significativo com Eddie.
- A gente acha que ela está tramando alguma coisa - ela disse. - Alguma coisa ruim.
De novo não. Olhei para Eddie.
- Ela ainda está distante?
- Sim. Ela almoçou com a gente ontem. - Ele franziu a testa. - Mas estava estranha. Não conseguiu explicar por que anda tão ocupada.
Jill concordou.
- Na verdade, começou a ficar cada vez mais brava quando a gente insistiu. Era estranho. Acho que ela se meteu em alguma confusão.
Me recostei na cadeira.
- Angeline normalmente se mete em confusões espontâneas, não premeditadas. Vocês estão falando como se ela estivesse planejando alguma coisa em segredo. Não é o
estilo dela. No máximo, está comprando roupas curtas escondida.
Eddie parecia querer sorrir, mas não conseguiu.
- É verdade.
Jill não pareceu tão convencida.
- Você precisa falar com ela. Descobrir o que está acontecendo.
- Por que vocês não falam com ela? - perguntei, olhando para os dois. - Vocês estão sempre com ela.
- Nós tentamos - Jill protestou. - Mas como eu disse, quanto mais falávamos, mais brava ela ficava.
- Bom, isso consigo entender - retruquei. - Vejam, sinto muito se tem alguma coisa estranha acontecendo com ela. Não quero que ela se meta em confusão, acreditem
em mim. Mas não posso ficar levando a menina pela mão o tempo todo. Já arrumei um monitor de matemática pra ela. Meu trabalho é garantir que ela continue na escola
e não destrua o disfarce. O resto é irrelevante, e simplesmente não tenho tempo pra isso. E, se ela não fala com vocês, por que acham que falaria comigo?
Eu tinha sido um pouco mais rude do que pretendia. Realmente gostava de todos eles. Também não queria que houvesse problemas no grupo. No entanto, era sempre um
pouco frustrante quando vinham até mim com dramas como esse, como se eu fosse a mãe deles. Eles eram umas das pessoas mais inteligentes e competentes que eu conhecia.
Não precisavam de mim, e Angeline não era nenhum gênio do crime. Descobrir os motivos dela não deveria ser tão difícil.
Nenhum dos dois falou nada de imediato.
- É só que você é muito boa em falar com as pessoas - Jill disse, finalmente. - Você se comunica muito bem.
Esse definitivamente não era um elogio que eu ouvia muito.
- Não faço nada de especial. Só sou persistente. Continuem tentando e talvez consigam. - Ao ver que Jill estava prestes a protestar, acrescentei: - Por favor. Não
me peçam pra fazer isso agora. Vocês sabem que tem muita coisa acontecendo na minha vida no momento.
Lancei um olhar significativo para os dois. Ambos sabiam sobre Marcus, e Jill também sabia sobre a irmã da sra. Terwilliger. Depois de alguns momentos, eles caíram
em si e ambos pareceram sem graça.
Eddie deu uma cutucadinha em Jill.
- Ela tem razão. Deveríamos continuar tentando com Angeline.
- Está bem - Jill disse. Meu alívio durou pouco. - Vamos tentar mais um pouco. Então, se não der certo, Sydney pode intervir.
Soltei um resmungo.
Quando nos separamos, não pude deixar de me lembrar do comentário de Marcus em San Bernardino, sobre como os alquimistas ficavam presos a trabalhos rotineiros. Tentei
me tranquilizar pensando que Jill e Eddie cuidariam disso sozinhos, e que eu realmente não teria de intervir. Partindo do princípio, claro, de que Angeline realmente
não estivesse planejando nada catastrófico.
Infelizmente, essas noções logo foram abaladas quando, mais tarde, entrei no circular que me levaria ao campus central. Nos fins de semana, só havia um ônibus que
parava em todos os prédios, e aquele tinha acabado de passar no alojamento masculino. Encontrei Trey sentado num banco, olhando pela janela com um sorriso no rosto.
Quando me viu, o sorriso se desfez.
- Ei - eu disse, me sentando ao lado dele. Ele parecia meio nervoso. - Está indo estudar?
- Encontrar Angeline, na verdade.
Não tinha como fugir dela naquele dia, mas, pelo menos, se estava estudando matemática, parecia improvável que estivesse planejando um golpe ou um incêndio criminoso.
No entanto, a expressão conturbada dele me preocupou.
- Ela... não bateu em você de novo, bateu? - Não notei nenhuma marca, mas, com Angeline, nunca dava para saber.
- Hum? Não, não. Não recentemente. - Ele hesitou antes de voltar a falar. - Melbourne, por quanto tempo precisa que eu faça isso?
- Não sei. - Eu vinha me concentrando em fazê-la passar pelos problemas atuais, não futuros. Um dia de cada vez. - A prova final dela vai ser antes das férias. Se
ela passar, acho que você fica livre. A menos que queira continuar depois das férias... quer dizer, se ela não estiver cansando muito você.
Isso o assustou muito mais do que eu esperava.
- O.k. Bom saber.
Ele parecia tão triste quando desceu no ponto da biblioteca que fiquei pensando se aquelas respostas de química teriam valido a pena. Eu gostava de Trey. Nunca pensei
que impor Angeline a ele causaria uma mudança tão radical em sua vida. Mas supus que esse fosse simplesmente o efeito dela no mundo.
Observei enquanto ele se afastava e então me dirigi ao prédio de ciências. Uma das professoras, a sra. Whittaker, era uma botânica amadora que sempre fornecia com
prazer várias plantas e ervas para a sra. Terwilliger. Ela pensava que a sra. Terwilliger utilizava as plantas em projetos de artesanato, como pot-pourri e velas,
e não era raro eu ter de pegar as últimas provisões. Quando entrei na sala dela, a sra. Whittaker estava corrigindo provas em sua mesa.
- Oi, Sydney - ela disse, quase sem levantar os olhos. - Coloquei tudo ali, em cima daquele balcão.
- Obrigada.
Fui até lá e fiquei surpresa ao encontrar um estoque de especiarias. Era a maior quantidade que eu já tinha buscado para ela.
- Ela pediu bastante coisa dessa vez - a sra. Whittaker comentou, como que imaginando meus pensamentos. - Realmente vai usar alho no pot-pourri?
- Ah, isso é para, hum, um prato que ela está fazendo. Sabe como é, festas de fim de ano e tudo mais.
Ela assentiu e voltou ao trabalho. Uma coisa que sempre ajudava em questões alquimistas (e de feitiçaria também) era que as pessoas raramente imaginavam motivos
sobrenaturais para comportamentos e fenômenos estranhos.
Quase considerei visitar Trey e Angeline na biblioteca, para avaliar o comportamento dela com meus próprios olhos, mas concluí que seria melhor não me envolver.
Eddie e Jill lidariam com o problema. Sem mais nada para fazer, me atrevi a ter esperança de que realmente poderia ficar em casa e ler naquele dia. Mas, quando voltei
ao alojamento, fui recebida pela visão espantosa de Marcus, sentado num banco do lado de fora, tocando violão. Quatro meninas estavam paradas perto dele, ouvindo
maravilhadas. Caminhei até o círculo e cruzei os braços.
- Sério? - perguntei.
Marcus levantou os olhos e abriu um sorriso. Uma das meninas chegou a suspirar.
- Oi, Sydney.
Quatro pares de olhos se voltaram para mim, exibindo um misto de incredulidade e ciúme.
- Oi - eu disse. - Você é a última pessoa que eu esperava ver aqui.
- Nunca faço o que é previsível. - Ele jogou o cabelo para trás e começou a guardar o violão de volta no estojo. - Desculpem, meninas. Eu e Sydney precisamos conversar.
Elas me olharam com ainda mais incredulidade, o que me incomodou um pouco. Era tão inacreditável assim que um cara bonito quisesse conversar comigo? As fãs dele
se dispersaram com má vontade, e Marcus e eu fomos dar uma volta pelo campus.
- Você não deveria estar escondido? - perguntei. - Em vez de ficar pedindo esmola com o violão?
- Não pedi dinheiro pra elas em nenhum momento. Além disso, estou disfarçado hoje. - Ele apontou para a bochecha, e notei que sua tatuagem estava quase invisível.
- Você está usando maquiagem? - perguntei.
- Não me julgue - ele disse. - Assim posso andar por aí com mais liberdade. Sabrina me ajudou a encontrar o tom certo para a minha pele.
Paramos perto de umas árvores em que havia certa privacidade.
- Então por que está aqui? Por que não ligou ou mandou mensagem?
- Porque tenho uma entrega. - Ele colocou a mão no bolso da camisa e me deu uma folha de papel dobrada que parecia ter viajado o mundo antes de chegar até mim. Quando
abri e consegui alisar o papel, vi vários desenhos traçados meticulosamente. Olhei de volta para ele.
- A planta do Wade.
- Como prometido. - Um pouco daquela presunção diminuiu, e ele pareceu sinceramente impressionado. - Você tem mesmo um jeito de ir para St. Louis?
- Está tudo fechado - respondi. - Quer dizer, tirando a parte em que invado o servidor deles. Mas tenho algumas ideias sobre como fazer isso.
Ele riu.
- Claro que tem. Nem vou me dar ao trabalho de perguntar. Toda garota tem seus segredos. Talvez algum dia você revele os seus. - Pelo seu tom, ele poderia estar
falando de segredos não profissionais. - Quando isso tudo acabar.
- Algum dia vai acabar? - perguntei. Era para ser uma piada, mas minha voz soou mais triste do que eu pretendia.
Ele me olhou longamente.
- Não, na verdade não. Mas selar a tatuagem no México é divertido. Tomara que você venha com a gente. Pelo menos podemos aproveitar a praia e tomar margaritas enquanto
desfazemos magias perversas. Você tem biquíni?
- Não. E não bebo.
- Então podemos sair pra tomar um café qualquer dia. Isso sei que você bebe.
- Ando muito ocupada - eu disse, pensando em tudo o que me afligia. - E você sabe que eu ainda não decidi nem se vou fazer a primeira fase de romper a tatuagem.
- Você deveria, Sydney. - Ele tinha retomado o ar profissional e apontou para minha bochecha. - Faça isso pelo menos. Não deixe que eles controlem você mais do que
já controlaram. Sei que acha a gente meio maluco, mas isso é algo que levamos muito a sério.
- Oi, Sydney.
Olhei para o lado e vi minha amiga Julia Cavendish carregando uma grande pilha de livros. Alguns segundos depois, Marcus olhou para ela também. Os olhos dela se
arregalaram, e ela tropeçou e derrubou tudo no chão, corando.
- Ai, meu Deus. Sou uma idiota.
Fiz menção de ajudar, mas em uma fração de segundo Marcus já estava ao lado dela, com aquele sorriso de astro de cinema.
- Acontece nas melhores famílias. Prazer, sou Dave.
- J-Julia - ela gaguejou. Desde que a conhecera, nunca a tinha visto encantada por um garoto antes. Normalmente, ela era uma devoradora de homens.
- Pronto. - Ele devolveu os livros para ela, todos numa pilha organizada.
- Obrigada. Muito obrigada. Não precisava. Tipo, a culpa foi minha. Não costumo ser tão destrambelhada. E você deve estar ocupado. Deve ter muita coisa pra fazer.
Claro. - Nunca tinha visto Julia falar sem parar também.
Marcus deu um tapinha nas costas dela, e pensei que ela fosse desmaiar.
- É sempre um prazer ajudar uma donzela em apuros. - Ele me deu um aceno de cabeça. - Preciso ir, Sydney. Depois falo com você.
Respondi com outro aceno. Assim que ele se afastou, Julia derrubou os livros de novo e correu na minha direção.
- Sydney, você precisa me dizer quem é esse cara.
- Ele já disse. Dave.
- Sim, mas quem é esse cara? - Ela agarrou meu braço e parecia estar prestes a me chacoalhar até que eu desse respostas.
- Só um cara que conheço. - Pensei um pouco mais. - Um amigo, acho.
Ela segurou o fôlego.
- Vocês dois não estão... assim...
- Quê? Não! Por que você pensaria uma coisa dessas?
- Porque ele é lindo, ué - ela respondeu, como se isso bastasse para que fôssemos almas gêmeas. - Você não fica com vontade de arrancar a roupa dele?
- Nem um pouco.
- Sério? - Ela me examinou, como se eu estivesse brincando. - Nem um tiquinho?
- Não.
Ela deu um passo para trás e começou a pegar os livros.
- Caramba, Syd. Não sei o que pensar de você às vezes. Tipo, fico contente que ele esteja solteiro... ele está solteiro, né? Mas eu já teria partido pra cima dele
se fosse você.
As palavras de Jill sobre como ele era humano e tinha “aquele lance de alquimista rebelde” me voltaram à mente. Talvez eu devesse começar a considerar Marcus ou
algum outro ex-alquimista como opção romântica. Ter alguém que não fosse um vampiro proibido na minha vida poderia facilitar as coisas. Tentei procurar em mim a
mesma reação que as outras meninas tinham perto de Marcus, mas não encontrei nada. Por mais que tentasse, simplesmente não sentia a mesma atração por ele. O cabelo
dele era loiro demais, pensei. E seus olhos precisavam de um pouco mais de verde.
- Desculpe - eu disse a Julia. - Só não sinto nada por ele.
- Se é o que você diz... Ainda acho você maluca. Eu iria até o inferno por um cara desses.
Todas as reflexões sobre relacionamentos desapareceram, e senti um frio na barriga no caminho enquanto voltávamos para o alojamento. O inferno era uma boa analogia
para aquilo em que eu estava me metendo.
- Você pode estar mais perto da verdade do que imagina.
Ela sorriu.
- Viu? Sabia que você não ia resistir.
15
A sra. Terwilliger estava me esperando no saguão quando Julia e eu chegamos ao alojamento.
- Sério, você colocou um aparelho de rastreamento em mim? - perguntei. Julia deu uma olhada no rosto severo da professora e foi embora rapidinho.
- Só muita coincidência - a sra. Terwilliger respondeu. - Soube que você tem uma novidade.
- Por incrível que pareça, tenho.
A sra. Terwilliger estava com uma expressão grave enquanto me levava para o lado de fora, para termos mais privacidade em mais uma reunião ultrassecreta ao ar livre.
Nos últimos dias, ela mal parecia a mesma professora hippie e estabanada que eu havia conhecido quando entrara em Amberwood.
- Conte - ela mandou.
Contei sobre o telefonema de Alicia, e a expressão conturbada dela não inspirou muita confiança. Parte de mim estivera esperando que ela revelasse algum plano fantástico
e infalível que vinha tramando secretamente.
- Bom, nesse caso - ela disse depois que terminei -, acho que terei de ir para lá.
- Eu é que vou pra lá - corrigi.
Ela abriu um sorrisinho.
- Você já fez mais que o suficiente. É hora de eu assumir o comando e lidar com Veronica.
- Mas a senhora já me mandou pra lá antes.
- Quando não tínhamos certeza de onde era o esconderijo ou do que ela estava fazendo. Dessa vez, temos testemunhas oculares confirmando que ela está lá. Não posso
perder essa oportunidade. - Ela olhou para um relógio perto da porta e suspirou. - Iria hoje à noite se pudesse, mas não fiz as preparações necessárias. Vou começar
a trabalhar nelas agora e partir amanhã à noitinha. Tomara que não a perca de novo.
- Não. - A insubordinação na minha voz foi uma surpresa até para mim. Eu não contradizia professores, nem nenhum tipo de autoridade, com frequência. Tá, na verdade
nunca. - Ela já nos enganou antes. Vamos investigar primeiro. Você não pode se revelar ainda; vai que alguma coisa dá errado? Vai estar pronta amanhã à noite? Então
deixe Adrian e eu irmos lá de dia... quer dizer, se alguém conseguir me tirar da escola.
Um pouco da tensão dela diminuiu, e ela abriu um sorriso.
- Acho que consigo fazer isso. Mas odeio continuar colocando você em perigo.
- Já ultrapassamos esse ponto faz tempo.
Ela não tinha como argumentar contra isso. Combinei com Adrian que me buscasse no dia seguinte, depois de dar uma bronca em “Jet” por ter dado o número de telefone
da “Taylor”. Na manhã seguinte, a sra. Terwilliger foi fiel à sua palavra. Fui liberada das aulas por causa de uma “viagem de campo”. A vantagem de ser uma aluna-modelo
era que nenhum dos professores arranjava problemas quando eu faltava às aulas. Eles sabiam que eu faria os trabalhos. Era provável que me deixassem tirar folga pelo
resto do semestre.
Durante o trajeto, contei a Adrian que havia conseguido marcar a viagem para St. Louis para cumprir a tarefa sinistra de Marcus. A expressão dele foi ficando sombria,
mas ele manteve silêncio a respeito do assunto. Eu sabia o conflito que aquilo era para ele. Ele não gostava do Marcus. Não gostava que eu me envolvesse numa missão
potencialmente perigosa. No entanto, também confiava em mim para tomar minhas próprias decisões. Não era de sua natureza discordar de mim ou me dizer o que fazer,
embora, secretamente, pudesse querer fazer isso. Seu único comentário foi de apoio.
- Tome cuidado, Sage. Pelo amor de Deus, tome cuidado. Já vi você fazer umas coisas loucas, mas isso já é demais, até mesmo pra você. Você deve ser a única pessoa
capaz de fazer algo assim, mas... não baixe a guarda em nenhum momento.
Quando disse que pretendia usar Ian para conseguir maior acesso, a expressão conturbada de Adrian deu lugar a uma de incredulidade.
- Espere um pouco. Deixe eu ver se entendi. Você vai seduzir um cara pra conseguir espionar os alquimistas?
Seduzir Ian? Ugh.
- Não tire conclusões precipitadas - repreendi. - Só vou tentar usar os sentimentos dele por mim pra conseguir o que eu quero.
- Uau. Que frieza, Sage. Que frieza.
- Ei. - Fiquei um pouco indignada com a acusação. - Não vou prometer me casar com ele e depois dar um fora. Ele me convidou pra jantar enquanto eu estiver lá. Vamos
nos divertir e vou tentar convencê-lo a me levar em um tour pela base. Só isso.
- E esse “convencimento” não envolve nada físico?
Lancei um olhar de censura para ele e torci para que pudesse me ver pelo canto do olho.
- Adrian. Pareço o tipo de pessoa que faria uma coisa dessas?
- Bom... - Ele parou, e imaginei que estivesse contendo algum comentário sarcástico. - Não, acho que não. Pelo menos não com um cara como ele. Você comprou um vestido?
Pronto, Adrian mudando de assunto aleatoriamente outra vez.
- Pro jantar e pra cerimônia? Já tenho um monte.
- Acho que isso responde à minha pergunta. - Ele parecia estar travando uma grande batalha mental. Enfim, disse: - Vou dar alguns conselhos a você.
- Ai, não.
Ele voltou a olhar para mim.
- Quem sabe mais sobre os pontos fracos dos homens, eu ou você?
- Tudo bem, desembucha. - Me recusei a responder diretamente.
- Compre um vestido novo. Um que mostre muita pele. Curto. Sem alça. Talvez com um sutiã com enchimento também. - Ele chegou a ter a audácia de dar uma avaliada
rápida no meu peito. - Hum, talvez não. Mas definitivamente salto alto.
- Adrian! - exclamei. - Você viu como os alquimistas se vestem. Acha que eu poderia usar algo assim numa cerimônia na igreja?
Ele não estava nem ligando.
- Dê um jeito. Troque de roupa ou algo assim. Mas garanto que, se deseja que um homem faça algo potencialmente difícil pra você, a melhor maneira é distrair o cara
para que ele não pense nas consequências.
- Você não confia muito nos homens.
- Ei, estou falando a verdade. Já me distraí muito com vestidos sensuais.
Eu não achava que fosse um argumento muito válido, pois Adrian se distraía com muitas coisas. Fondue. Camisetas. Gatinhos.
- Então é isso? Mostro um pouquinho de pele e vou ter o mundo aos meus pés?
- Não, mas ajuda. - O mais incrível era que ele estava falando muito sério. - E você tem que fingir confiança o tempo todo, como se o negócio já estivesse fechado.
Depois, quando for fazer o pedido, não se esqueça de dizer que vai ficar “devendo uma para ele”. Mas não fale mais nada. A imaginação dele vai fazer o resto do trabalho
por você.
Balancei a cabeça, contente por estarmos chegando ao destino. Não sabia quanto mais conseguiria ouvir.
- Esse é o conselho mais ridículo que já ouvi. É meio sexista também, mas não sei quem ofende mais, os homens ou as mulheres.
- Ouça, Sage. Não sei muito sobre química ou invadir computadores ou fotossíntere, mas tenho muita experiência com isso. - Acho que ele quis dizer fotossíntese,
mas não o corrigi. - Use o meu conhecimento. Não desperdice meus conselhos.
Ele parecia tão sincero que eu finalmente disse que consideraria, embora fosse difícil me imaginar usando uma roupa como a que ele havia descrito. Minha resposta
o deixou satisfeito, e ele não disse mais nada.
Quando chegamos à pousada, coloquei a peruca morena para que pudéssemos voltar a ser Taylor e Jet. Me preparei enquanto nos aproximávamos da porta.
- Onde estamos nos metendo? - murmurei. Eu tinha demonstrado muita coragem enquanto convencia a sra. Terwilliger, mas só agora estava me dando conta de que poderíamos
dar de cara com uma feiticeira do mal. Eu ainda não tinha desenvolvido a capacidade de sentir a magia dos outros, então poderia muito bem ser pega de surpresa caso
ela também tivesse encontrado um jeito de mudar a aparência. Tudo o que poderia fazer era confiar que o espírito de Adrian e o amuleto da sra. Terwilliger me disfarçariam.
Se Veronica estivesse lá, pareceríamos um casal comum. Ao menos era o que eu esperava.
Alicia estava lendo outra revista quando entramos. Ela usava os mesmos óculos de aro grosso e os mesmos colares espalhafatosos. Seu rosto se iluminou ao nos ver.
- Vocês voltaram.
Adrian me abraçou imediatamente.
- Quando ficamos sabendo que Veronica tinha voltado, ficamos com vontade de ver nossa amiga logo. Não é mesmo, favo de mel?
- Sim - respondi. Pelo menos ele estava usando apelidos mais saudáveis.
- Ah. - O sorriso exultante de Alicia se desfez um pouco. - Ela acabou de sair.
- Você está de brincadeira - eu disse. Como nossa sorte poderia ser tão ruim? - Quer dizer que ela já fez o registro de saída?
- Não, ainda está hospedada na Suíte Veludo. Acho que só saiu para resolver algumas coisas. Mas... - Ela ficou encabulada. - Talvez eu tenha, hum, estragado a surpresa.
- Ah, é? - perguntei, cautelosa. Senti o braço de Adrian ficar tenso ao meu redor, mas não havia nada de romântico nisso.
- Não consegui resistir. Disse a ela que poderia ter algumas visitas inesperadas em breve. Visitas agradáveis - ela acrescentou. - Queria garantir que ela não ficasse
fora por muito tempo.
- Que gentil da sua parte - Adrian comentou. Seu sorriso estava tão tenso quanto o meu. Ao tentar nos “ajudar”, Alicia poderia muito bem ter destruído tudo.
O que fazer agora? Não precisei tomar uma decisão imediata porque uma mulher de meia-idade entrou pela porta.
- Oi - ela cumprimentou Alicia. - Queria saber se posso dar uma festa de casamento aqui. Para a minha sobrinha.
- Claro - Alicia disse, olhando de um lado para o outro. Ela pareceu um pouco confusa em relação a quem ajudar, e fui rápida em intervir.
- Ah - eu disse. - Já que estamos aqui, podemos dar outra olhada na Suíte Coelhinho? Não conseguimos parar de falar dela.
Alicia franziu a testa.
- Pensei que fossem passar o aniversário na costa...
- E vamos - Adrian disse, seguindo minha deixa. - Mas Taylor estava pensando sobre o Algodãozinho um dia desses e achamos que deveríamos reconsiderar. - Eu tinha
que dar crédito a ele por reforçar a história que eu tinha inventado sobre viajarmos para a costa. Mas era de se esperar que ele lembrasse o nome do coelho de mentira
que ele mesmo havia criado.
- Pulinho - corrigi.
- A Suíte Coelhinho ainda está vaga? - ele perguntou. - A gente pode dar uma olhadinha rápida enquanto você ajuda a moça.
Alicia hesitou um momento antes de entregar uma chave.
- Claro. Me avisem se tiverem alguma dúvida.
Peguei a chave e segui em direção à escada com Adrian. Atrás de nós, ouvíamos a mulher perguntando se havia problema em montar uma tenda no quintal e quantas placas
elétricas a pousada poderia sustentar sem risco de incêndio. Quando chegamos ao segundo andar, Adrian disse:
- Deixe-me adivinhar. Você quer dar uma espiada na Suíte Veludo.
Respondi com um sorriso, contente por ele ter adivinhado meu plano.
- Sim. Muito boa a ideia, né? Se tivermos sorte, Alicia ficará distraída por um bom tempo.
- Eu poderia ter compelido a menina - ele me lembrou.
- Você já está usando espírito demais.
Encontrei a Suíte Veludo e enfiei a chave na fechadura, na esperança de que Alicia tivesse nos dado a chave mestra, e não a específica da Suíte Coelhinho. Quando
ela nos mostrou o lugar da última vez, só tinha usado uma chave. Um clique me informou que tivemos sorte e que eu não teria que usar nenhuma substância química para
derreter metal naquele dia.
Tínhamos visto a Suíte Veludo durante a última visita e, no geral, ela parecia igualzinha. Lençóis de veludo, móveis cobertos de veludo e até um papel de parede
com textura de veludo. Só que, dessa vez, o quarto não estava mais intocado como antes. Indícios denunciavam que ele havia sido ocupado recentemente. A cama estava
desfeita, e o cheiro de xampu no banheiro indicava um banho recente.
- Talvez Alicia tenha se enganado e Veronica foi embora, sim - Adrian disse. Ele abriu uma gaveta depois da outra e não achou nada. No armário, encontrou sapatos
de salto alto enfiados num canto e um cinto no cabide, coisas fáceis de esquecer quando se arruma a mala rapidamente. - Alguém saiu daqui às pressas.
Minhas esperanças caíram por terra. Ao revelar nossa “surpresa”, Alicia parecia ter assustado Veronica, fazendo com que ela abandonasse o quarto. Não encontramos
nenhum sinal de que voltaria e, como Adrian havia dito, ela parecia ter saído às pressas, a julgar pelas coisas que foram deixadas para trás: uma gilete no boxe,
um frasco de perfume na pia do banheiro, e uma pilha de folhetos de restaurantes na mesa de cabeceira.
Sentei na cama e dei uma olhada nos folhetos, não muito convencida de que pudessem me dizer alguma coisa. Comida chinesa, indiana, mexicana. Pelo menos Veronica
tinha um gosto diversificado. Cheguei ao fim da pilha e joguei todos no chão.
- Ela foi embora - eu disse. Não dava para negar os fatos. - Aquela idiota da Alicia abriu o bico e agora perdemos Veronica de novo.
Adrian sentou ao meu lado, o rosto refletindo a mesma frustração.
- Vamos encontrá-la. Diminuímos a velocidade dela escondendo as outras meninas. Talvez isso nos dê tempo até a próxima lua cheia, e então você poderá usar o feitiço
de clarividência outra vez.
- Tomara - eu disse, embora não estivesse tão otimista.
Ele ajeitou um pouco do cabelo da minha peruca e virou meu rosto para ele.
- Vai ficar tudo bem. Ela não sabe nada sobre você.
Sabia que ele estava certo, mas aquilo não era um grande consolo. Encostei a cabeça no ombro dele, desejando poder reparar toda a situação. Era o meu trabalho, não
era?
- Isso significa que outra pessoa pode sofrer no meu lugar. Não quero que isso aconteça. Preciso deter essa mulher de uma vez por todas.
- Quanta coragem. - Ele entreabriu um sorriso e passou a ponta dos dedos no meu rosto, descendo devagar pelo pescoço até o ombro. Onde quer que me tocasse, deixava
um rastro de arrepio. Como continuava a fazer aquilo comigo? Marcus, que seduzia todas as meninas do mundo, não tinha nenhum efeito sobre mim. Mas um leve toque
de Adrian me desfazia por completo. - Você poderia competir com Castile - acrescentou.
- Pare com isso - adverti.
- De comparar você a Castile?
- Não é disso que estou falando, e você sabe. - As mãos dele eram perigosas demais, assim como estar na cama com ele. Com medo de ser beijada mais uma vez, me afastei
de repente, e o movimento rápido o pegou de surpresa. Seus dedos ficaram presos no meu cabelo e nos dois colares, o que fez com que as duas correntes se rompessem
e a peruca morena quase saísse. Rapidamente, segurei a granada antes que caísse, mas a cruz escorregou. Graças a Deus eu tinha segurado a mais importante. - Nada
de beijos - avisei. Prendi o amuleto de novo e endireitei a peruca.
- Você tinha dito nada de beijos a não ser num lugar romântico - ele me lembrou. - Está querendo dizer que este lugar não é romântico? - Ele indicou com a cabeça
toda a cafonice de veludo ao nosso redor. Então pegou a pequena cruz e a ergueu no ar, parecendo pensativo enquanto examinava a maneira como a luz era refletida
na superfície dourada. - Você me deu isto uma vez.
- E você me devolveu.
- Eu estava bravo.
- E agora?
Ele deu de ombros.
- Agora só estou determinado.
- Adrian - suspirei. - Por que continua fazendo isso? Os toques... os beijos... sabe que não quero.
- Não parece que não quer.
- Pare de falar essas coisas. Dá raiva. Daqui a pouco vai dizer que eu estava pedindo. - Por que ele tinha que ser tão irritante? Tudo bem, eu realmente não tinha
passado uma mensagem muito clara na fraternidade. Ou no Tortas e Tal. Mas, dessa vez, estava conseguindo resistir. - Acabei de me afastar de você. Precisa que eu
seja ainda mais direta?
- Não são exatamente suas ações - ele disse, ainda segurando a cruz. - É a sua aura.
Soltei um resmungo.
- Não, não, isso não. Não quero mais ouvir sobre auras.
- Mas estou falando sério. - Ele se virou e se esticou na cama, deitando de lado. Então afagou o lugar ao lado dele. - Deite.
- Adrian...
- Não vou beijar você - ele disse. - Prometo.
- Você me acha idiota? - perguntei. - Não vou cair nessa.
Ele me olhou longamente.
- Você realmente acha que vou atacá-la ou coisa assim?
- Não - respondi rápido. - Claro que não.
- Então deite, por favor.
Desconfiada, me deitei de lado também, olhando para ele a poucos e intensos centímetros de distância. Um olhar arrebatado e um tanto disperso surgiu em seu rosto.
Ele havia se entregado nas mãos do espírito.
- Sabe o que estou vendo agora? A aura de sempre. Um amarelo-ouro estável, forte e saudável, com pontinhos de roxo aqui e ali. Mas, quando faço isso...
Ele colocou a mão no meu quadril e todo o meu corpo ficou tenso. Sua mão deslizou sob a camiseta e parou na minha cintura. Minha pele ardia sob o toque dele, e os
lugares não tocados ansiavam por aquele calor.
- Está vendo? - ele disse. Ele estava no auge do espírito agora, mas, ao mesmo tempo, estava comigo. - Quer dizer, acho que não. Mas, quando toco em você, sua aura...
arde. As cores ficam mais fortes, brilham com mais intensidade, o roxo aumenta. Por quê, Sydney? Por quê? - Ele me puxou para mais perto. - Por que reage assim se
não significo nada pra você? - Havia um desespero sincero em sua voz.
Foi difícil falar.
- É instinto. Ou algo assim. Você é Moroi. Eu sou alquimista. Claro que eu teria uma reação. Ou achou que eu seria indiferente?
- A reação da maioria dos alquimistas envolveria nojo, repulsa e água benta.
Era um ótimo argumento.
- Bom... fico mais à vontade com os Moroi do que a maioria dos alquimistas. Talvez seja só uma reação puramente física, causada por hormônios e anos de evolução.
Meu corpo não sabe que é errado. Sou suscetível ao desejo como qualquer outra pessoa. - Devia haver um livro sobre isso ou pelo menos um artigo em alguma revista
feminina.
A sombra de um sorriso perpassou seus lábios. Ele estava em completa sintonia comigo agora.
- Não, não é. Quer dizer, é, mas não sem motivo. Conheço você o suficiente para saber disso agora. Você não é o tipo de pessoa “suscetível ao desejo” sem que exista
um sentimento para amparar esse desejo. - Ele desceu a mão para o meu quadril, deslizando-a pela minha perna. Senti um calafrio e ele aproximou o rosto do meu. Havia
tantas coisas em seus olhos, tanto desejo e tanto anseio. - Viu? De novo. Minha chama na escuridão.
- Não me beije - murmurei. Foi o único argumento que consegui formular. Se ele me beijasse, eu estaria perdida. Fechei os olhos. - Você disse que não me beijaria.
- E não vou. - Seus lábios estavam a um centímetro dos meus. - A menos que você queira.
Abri os olhos, pronta para dizer não - que não importava o que minha aura pudesse estar dizendo, aquilo não poderia continuar. Que não havia nenhum sentimento por
trás daquele desejo. Tentei me agarrar ao meu argumento anterior. Eu me sentia tão à vontade perto dos Moroi agora que era óbvio que uma parte primitiva em mim ficava
esquecendo o que ele era. Era um instinto básico. Eu estava tendo uma simples reação física a ele, às suas mãos, aos seus lábios, ao seu corpo...
Ele segurou meu braço e rolou para cima de mim. Fechei os olhos e pus os braços em volta do pescoço dele. Senti seus lábios tocarem os meus, não ainda como um beijo,
mas um mero toque de...
A porta se abriu e me retraí. Alicia entrou, levou um susto e pôs a mão na boca para abafar um grito de surpresa.
- Ah... ah - ela gaguejou. - Desculpem... eu... não imaginei que...
Adrian e eu nos afastamos imediatamente e nos sentamos. Meu coração estava prestes a sair pela boca, e sabia que estava vermelha. Arrumei a peruca rapidinho, aliviada
ao perceber que ainda estava no lugar. Ele recuperou a voz primeiro.
- Desculpe... nos animamos um pouquinho demais. Estávamos olhando os outros quartos e decidimos, hum, experimentar um pouco. - Apesar das palavras inocentes, ele
estava com um ar presunçoso, do tipo que se vê em um menino que acabou de fazer uma conquista. Era fingimento ou ele realmente achava que tinha conseguido alguma
coisa?
Alicia parecia tão constrangida quanto eu.
- Entendi. Bom, este quarto está ocupado. É... - Ela franziu a testa ao olhar ao redor. - É da Veronica. Mas parece que ela foi embora.
Finalmente consegui falar.
- Foi por isso que achamos que estava vazio - eu disse rapidamente. - Não tinha nada aqui.
Felizmente, Alicia parecia ter se esquecido da nossa posição comprometedora.
- Que estranho. Ela não fez o registro de saída. Quer dizer, pagou adiantado em dinheiro, mas mesmo assim... Muito esquisito.
Saímos logo depois disso, mais uma vez dizendo para Alicia que entraríamos em contato. Nenhum de nós falou muito depois que entramos no carro. Eu estava perdida
em meus próprios pensamentos, que se dividiam entre a frustração pelo sumiço de Veronica e a confusão causada por Adrian. No entanto, me recusava a admitir essa
última parte, e escolhi minha tática de sempre. Quanto antes aquele momento fosse esquecido, melhor. Eu tinha quase certeza de que poderia continuar repetindo isso
a mim mesma. Parte de mim, quase tão sarcástica quanto Adrian, sugeriu que eu pegasse um livro sobre negação da realidade da próxima vez que passasse pela seção
de autoajuda.
- Mais um beco sem saída - eu disse quando estávamos de volta à estrada. Mandei uma mensagem para a sra. Terwilliger: V foi embora. Não precisa entrar em ação. A
resposta dela chegou alguns minutos depois: Vamos continuar tentando. Eu quase podia sentir a decepção dela pelo celular. Ela não era a única. Adrian parecia especialmente
melancólico no caminho de volta. Respondeu a tudo que eu disse, mas estava visivelmente distraído.
Quando me deixou em Amberwood naquela noite, encontrei tudo em um silêncio misericordioso. Nenhuma crise, nenhuma missão perigosa. Tinha a impressão de que fazia
séculos que eu não tinha um momento para mim, e deitei, me sentindo reconfortada pelas tarefas rotineiras de lição de casa e leitura. Caí no sono com a cara afundada
no livro de cálculo.
Tive um daqueles sonhos absurdos que todo mundo tem. O gato da minha família conseguia falar e estava dirigindo o Mustang de Adrian. Ele me perguntou se eu queria
fazer uma viagem a Birmingham. Eu disse que tinha muitos trabalhos para fazer, mas que, se quisesse ir para Fargo, eu poderia considerar.
Estávamos negociando quem pagaria a gasolina quando, de repente, o sonho se dissolveu em trevas. Uma sensação fria tomou conta de mim, seguida por um pavor quase
igual ao que senti quando Adrian e eu enfrentamos um Strigoi no apartamento dele. A gargalhada de uma mulher soou ao meu redor, sórdida e repulsiva, como uma fumaça
tóxica. Uma voz surgiu da escuridão, ecoando em minha mente.
Ela escondeu você muito bem, mas não vai ser assim para sempre. Você não pode ocultar um poder como o seu eternamente. Estou no seu rastro. Ainda vou encontrar você.
Mãos surgiram das trevas para me pegar, envolvendo minha garganta e me impedindo de respirar. Gritei e acordei na minha cama, cercada por livros. Eu tinha deixado
a luz acesa, o que afugentou parte do terror do pesadelo. Mas só um pouco. Estava pingando de suor, e minha camiseta estava empapada. Toquei meu pescoço, mas não
havia nada de errado com ele. A granada continuava pendurada no lugar, mas não a cruz.
Não precisa ter medo de um sonho, pensei. Não tinha nenhuma importância e, aliás, com tudo o que vinha acontecendo nos últimos tempos, era uma surpresa eu não ter
pesadelos com mais frequência. No entanto, quando me lembrei dele, não tive tanta certeza. Havia algo de muito terrível e real naquele sonho, um horror que parecia
tocar minha alma.
Não quis dormir depois disso; fiz uma xícara de café e tentei voltar a ler. Funcionou por um tempo, mas, perto das quatro, meu corpo não aguentava mais. Caí no sono
em cima dos livros de novo, mas dessa vez não sonhei.
16
Na manhã seguinte, relatei toda a viagem à pousada para a sra. Terwilliger. Nos encontramos no Spencer’s e, numa rara demonstração de que conseguia acordar cedo,
Adrian nos acompanhou.
- Tenho um grupo de estudos daqui a pouco - ele explicou. Seu humor estava muito melhor, sem nenhuma menção da... indiscrição do dia anterior.
Embora não houvesse muito o que contar, surgiram rugas de preocupação no rosto dela enquanto ouvia a nossa história. O verdadeiro pânico surgiu quando mencionei
meu sonho. Os olhos da sra. Terwilliger se arregalaram, e ela segurou a xícara de café com tanta força que pensei que fosse quebrar.
- Ela descobriu - murmurou. - Seja por essa tal de Alicia ou de alguma outra forma, Veronica descobriu sobre você. Não deveria ter mandado você pra lá. Pensei que
passaria despercebida se as outras meninas fossem enfeitiçadas, mas eu estava errada. Fui egoísta e ingênua. Teria sido melhor se ela soubesse que era eu quem a
estava perseguindo desde o começo. Tem certeza de que estava disfarçando a aparência de Sydney? - Essa foi para Adrian.
- Positivo - ele respondeu. - Todo mundo com que conversamos, todas as meninas e até mesmo Alicia... ninguém tem uma ideia clara da aparência de Sydney.
- Talvez ela esteja espionando você - sugeri. - E viu a gente junto. Eu não estava disfarçada por aqui.
- Talvez - a sra. Terwilliger concordou. - Mas também sabemos que ela está agindo em Los Angeles. Ela deve ter passado bastante tempo perseguindo as vítimas, o que
não deixaria muito tempo para que viesse até aqui e me espionasse tanto assim. Veronica pode ser poderosa, mas não consegue se teletransportar. - A expressão da
minha professora endureceu, resoluta. - Bom, não há nada a fazer agora além de controlar os danos. Ela ainda não sabe exatamente onde você está ou que está relacionada
a mim. Vou fazer outro amuleto para tentar fortalecer o que você já tem, mas pode não funcionar se ela já tiver encontrado uma maneira de chegar até você. E, enquanto
isso, não se preocupe mais com ataque. Você precisa se focar na defesa, especialmente em feitiços de invisibilidade. Sua melhor proteção contra Veronica agora é
que ela simplesmente não encontre você caso venha procurar em Palm Springs.
Eu vinha lendo sobre os feitiços avançados de ataque, apesar dos avisos dela. Com essa nova reviravolta, porém, sabia que ela tinha razão e que a defesa era mais
importante. Mesmo assim, não conseguia me livrar do medo de que Veronica tivesse me descoberto enquanto espionava a sra. Terwilliger, o que, por sua vez, me fazia
temer pela segurança da minha professora.
- A senhora vive dizendo que ela não está atrás da senhora... mas tem certeza?
- Ela vai me evitar se puder - a sra. Terwilliger disse, com o ar confiante. - Tenho o poder, mas não a juventude e a beleza que ela procura. E nem mesmo ela mataria
a própria irmã. É o último resquício de humanidade que ainda lhe resta.
- Será que ela vai manter essa postura quando você a confrontar? - Adrian perguntou.
- Não - a sra. Terwilliger respondeu. - Nesse caso vale tudo. Queria encontrar você hoje à noite para praticar outras táticas defensivas.
Olhei para ela, desconfiada.
- A senhora vai estar disposta? Sem ofensas, mas já parece exausta.
- Ficarei bem. Me encontre no parque de novo em torno das dez. Vou falar para Weathers liberar você. Precisamos mantê-la em segurança. - Ela ficou olhando para o
nada por alguns instantes e então voltou a se concentrar em mim. - Considerando as atuais circunstâncias... não seria má ideia você conseguir alguns, hum, meios
mais básicos de defesa também.
- Básicos? - perguntei, confusa.
- Ela quer dizer uma arma ou uma faca - Adrian respondeu, entendendo antes de mim.
A sra. Terwilliger assentiu.
- Se algum dia você confrontar Veronica, é mais provável que resulte em magia contra magia... mas, bom, nunca se sabe. Ter um plano B pode salvá-la.
Não gostei nada dessa ideia.
- Não sei lutar com uma faca. E não gosto de armas.
- Mas gostaria de entrar em coma e envelhecer antes da hora? - Adrian perguntou.
Cravei os olhos nele, surpresa ao vê-lo apoiar a ideia.
- Claro que não. Mas onde conseguiríamos uma arma em tão pouco tempo?
Pela cara que fez, ele viu que eu tinha razão. Então, voltou a se entusiasmar.
- Acho que tenho uma ideia.
- Tenho certeza de que vão dar um jeito - a sra. Terwilliger disse, já com a cabeça em outra coisa. Ela olhou o relógio de pulso. - Está quase na hora da aula.
Nos levantamos, nos preparando para sair, mas puxei Adrian para trás. Não conseguia imaginar como ele sabia onde conseguir uma arma em tão pouco tempo. Ele não me
explicou e simplesmente disse que me encontraria depois da aula. Antes de ir embora, me lembrei de outra coisa que queria perguntar.
- Adrian, você ficou com a minha cruz?
- A sua... Ah. - Ao olhar nos olhos dele, quase pude ver os acontecimentos do dia anterior passando pela sua mente, incluindo o momento em que rolamos pela cama.
- Deixei cair quando... ah, bom, antes de a gente sair. Você não pegou?
Fiz que não e o rosto dele esmoreceu.
- Desculpa, Sydney.
- Tudo bem - eu disse automaticamente.
- Não está tudo bem, e a culpa é minha. Sei como ela é importante para você.
Ela realmente era importante para mim, mas eu me culpava quase tanto quanto ele. Deveria ter pensado nela antes de sairmos, mas estivera um pouco perturbada.
- É só um colar - eu disse.
Isso não lhe serviu de consolo. Ele parecia tão abatido quando nos separamos que torci para que não se esquecesse da nossa visita ao seu fornecedor misterioso de
armas mais tarde. No entanto, não havia com o que me preocupar. Quando as aulas terminaram, o Mustang estava em frente ao alojamento. Adrian parecia mais animado,
e não voltou a mencionar o colar.
Quando me contou de seu plano para a arma, fiquei em choque, mas, depois de pensar um pouco, concluí que ele poderia ter razão. E assim, pouco menos de uma hora
depois, estávamos fora da cidade, a caminho de uma casa que parecia abandonada no meio de um grande terreno desolado. Havíamos chegado à Escola de Defesa Wolfe.
- Nunca pensei que voltaríamos aqui - comentei.
A casa de Wolfe não tinha janelas, e não havia carros à vista.
- Talvez ele não esteja em casa - murmurei para Adrian enquanto caminhávamos até a porta. - A gente devia ter ligado primeiro.
- Wolfe não me parece o tipo que sai muito de casa - Adrian disse. Ele bateu na porta e, quase instantaneamente, ouvimos um alvoroço de latidos e passinhos apressados.
Fiz uma careta. Wolfe, por motivos que eu nunca conseguiria entender, tinha uma matilha de chihuahuas em casa. Certa vez, ele dissera que os cães matariam uma pessoa
com um simples comando.
Esperamos alguns minutos, mas os latidos eram o único sinal de que havia vida lá dentro. Adrian bateu mais uma vez (deixando os cachorros ainda mais agitados) e
então encolheu os ombros.
- Acho que você tem...
A porta se abriu de repente, apenas uma fresta, e um olho cinza nos examinou por trás de uma corrente.
- Ah - disse uma voz rouca. - São vocês dois.
A porta se fechou e ouvi a corrente sendo destravada. Um momento depois, Wolfe saiu rapidamente, com cuidado para não deixar nenhum cachorro escapar. Ele usava um
tapa-olho do lado esquerdo, mas não devia fazer muita diferença, pois seu outro olho parecia enxergar através de mim.
- Vocês deviam ter ligado - ele disse. - Quase soltei os cachorros em cima de vocês.
Wolfe estava usando sua bermuda favorita, além de uma camiseta que exibia uma águia-de-cabeça-branca dirigindo um caminhão enorme. A águia tinha uma bandeira dos
Estados Unidos em uma das garras e uma espada de samurai na outra. Era uma escolha de arma peculiar para uma camiseta patriótica, mas fazia tempo que tínhamos aprendido
a não questionar o guarda-roupa de Wolfe. Aprendemos a lição quando ele expulsou uma mulher da nossa turma que teve a audácia de perguntar se ele só tinha uma bermuda
ou várias iguais.
- Do que vocês precisam? - ele perguntou. - Os próximos cursos só começam depois do Ano-Novo.
Adrian e eu nos entreolhamos.
- Hum, precisamos de uma arma - eu disse. - Quer dizer, uma arma emprestada.
Wolfe coçou a barba.
- Não empresto armas para alunos que não fizeram meu curso de tiro. Segurança vem em primeiro lugar. - No entanto, achei promissor que ele chegasse a emprestar armas.
Era característico de Wolfe sequer se dar ao trabalho de perguntar por que queríamos uma.
- Já tenho treinamento - eu disse. Era verdade. Era obrigatório para todos os alquimistas. Eu tinha me saído bem, mas, como mencionara a Adrian, não gostava nem
um pouco de armas. Uma faca pelo menos tinha outras utilidades. Mas um revólver? Só servia para ferir e matar.
Wolfe arqueou a sobrancelha do seu olho bom. Ficou claro que não acreditava em mim.
- Consegue provar?
- O senhor tem um campo de tiro? - repliquei com frieza.
Ele pareceu quase ofendido.
- Claro que tenho.
Ele nos levou até uma construção atrás da garagem em que nos treinava. Eu nunca havia entrado ali antes, mas, assim como na casa dele, não havia janelas. A porta
era revestida de fechaduras suficientes para atender aos padrões de segurança alquimistas. Ele nos conduziu para dentro e fiquei boquiaberta ao ver não apenas um
campo de tiro, mas também uma parede coberta por diversos tipos de arma. Wolfe deu uma olhada rápida pelo pequeno abrigo.
- Os tampões de ouvido devem estar em casa. Já volto.
Continuei contemplando a parede, consciente de que estava com os olhos arregalados.
- Não tem como isso estar dentro da lei.
A resposta de Adrian foi inesperada.
- Você notou o tapa-olho dele?
Com dificuldade, tirei os olhos do arsenal.
- Hum, sim. Desde o dia em que o conhecemos.
- Não, não. Quer dizer, juro que ficava no outro olho da última vez.
- Não ficava, não - eu disse imediatamente.
- Tem certeza? - Adrian perguntou.
Percebi que não tinha. Palavras e números eu decorava com facilidade. Mas outros detalhes, como roupas, cabelo ou tapa-olhos, eram fáceis de esquecer.
- Não faz sentido - eu disse por fim. - Por que ele faria uma coisa dessas?
- Ele é Malachi Wolfe - Adrian disse. - Por que não faria uma coisa dessas?
Não havia como rebater esse argumento.
Wolfe voltou com os protetores de ouvido. Depois de examinar a parede, selecionou um revólver pequeno e, então, abriu um armarinho que continha a munição. Pelo menos
ele não deixava um monte de armas carregadas à solta.
- Pode deixar - eu disse. Peguei a arma das mãos dele e, sem a menor dificuldade, a carreguei. Ele soltou um grunhido baixo de aprovação e apontou para o outro lado
do campo, onde havia um grande papel recortado mostrando uma silhueta humana com vários alvos.
- Pois bem - ele disse. - Não se preocupe em acertar os...
Disparei, esvaziando o pente com perfeição nos alvos mais difíceis. Devolvi a arma para ele. E ele a devolveu para mim. Atrás dele, pude ver Adrian de os olhos arregalados.
- Pode ficar - Wolfe disse. - Você passou no teste. Precisa comprar sua própria munição, mas, se preencher o acordo de locação, já pode levar.
Logo descobri que o “acordo de locação” era só uma folha de papel em que ele escrevia o tipo da arma de um lado e eu colocava minhas iniciais no outro.
- Sério? - perguntei. - É tudo que preciso fazer? Assim, eu agradeço, mas... - Eu não sabia mais o que dizer.
Wolfe ignorou meus protestos.
- Você é uma boa menina. Se diz que precisa de uma arma, acredito em você. Alguém está causando problemas?
Coloquei o revólver na bolsa.
- Uma coisa assim.
Wolfe olhou para Adrian.
- E você? Precisa de uma arma também?
- Estou bem assim - Adrian disse. - Além disso, não tenho treinamento. Segurança vem em primeiro lugar.
Wolfe abriu o armário de munição e tirou um longo tubo de madeira e um saco plástico cheio do que pareciam ser pequenos dardos.
- Quer pegar minha zarabatana? Não demora muito pra aprender a usar isso. Quer dizer, você nunca vai ter a habilidade e a astúcia dos guerreiros amazônicos de quem
roubei a arma, mas pode se livrar de algumas situações perigosas.
- Valeu, mas acho melhor não - Adrian disse depois de vários segundos. Ele quase pareceu ter considerado a oferta.
Eu ainda estava em choque com as palavras de Wolfe, sem saber se acreditava no que tinha ouvido.
- O senhor já foi para a Amazônia?
Dessa vez, Wolfe arqueou a sobrancelha acima do seu tapa-olho.
- Não acredita em mim?
- Não, não, claro que acredito - respondi rapidamente. - É só que o senhor nunca mencionou antes.
Ele ficou com o olhar perdido.
- Faz anos que tento esquecer o período que passei lá. Mas tem coisas de que não dá para fugir.
Pairou um longo silêncio constrangedor. Por fim, limpei a garganta.
- Bom, obrigada. Precisamos ir. Tomara que eu não precise usar a arma tão cedo.
- Fique com ela pelo tempo que precisar - ele disse. - Se eu quiser de volta, encontro você.
Depois desse comentário perturbador, Adrian e eu fomos embora. Ainda que eu entendesse os motivos da sra. Terwilliger para sugerir métodos de defesa “tradicionais”,
não estava nem um pouco à vontade levando uma arma comigo o tempo todo. Teria que deixar o revólver no carro para o caso de as autoridades da escola algum dia revistarem
meu quarto. Meus kits de alquimia e magia já eram um risco. Eu tinha quase certeza de que não haveria como argumentar se encontrassem uma arma.
Adrian me levou de volta a Amberwood. Quando estava abrindo a porta do carro, olhei para ele.
- Obrigada - eu disse. - Por tudo. Por ter ido à pousada. Por sugerir falar com Wolfe.
- Ei, valeu a pena só por descobrirmos que ele tem uma zarabatana.
Eu ri.
- Na verdade, ficaria mais surpresa se ele não tivesse. Vejo você depois.
Adrian assentiu.
- Antes do que você imagina.
- Como assim? - perguntei, me enchendo de desconfiança.
Ele fugiu da pergunta e enfiou a mão embaixo do assento.
- Liguei para Alicia - ele disse, enquanto pegava uma caixinha. - Ela não conseguiu encontrar a cruz. A faxineira deles já tinha passado e limpado o quarto, mas
ela falou que daria uma olhada no meio das roupas de cama. Ah, e também perguntei sobre Veronica. Ela não voltou mais.
Eram notícias desanimadoras, mas fiquei comovida por ele ter ligado.
- Obrigada pela tentativa.
Ele abriu a caixa e tirou um colar com uma cruzinha de madeira.
- Comprei outra pra você. Claro, sei que não tem como substituir aquela, mas queria dar alguma coisa pra compensar. E não venha me dizer que não pode aceitar um
presente caro - ele disse, adivinhando o protesto que eu estava prestes a fazer. - Comprei num camelô por cinco dólares, e tenho quase certeza de que a corrente
é de latão.
Mordi a língua e peguei o colar. A cruz não pesava quase nada. Olhando mais de perto, pude ver um minúsculo desenho de flores prateadas na superfície.
- Não foi o camelô que fez isso. Isso é trabalho seu.
- Então... sei que você gosta de coisas mais básicas, mas eu sempre preciso de algum enfeitinho.
Passei o dedo na superfície da cruz.
- Por que glórias-da-manhã?
- Porque não sou muito fã de lírios.
Abri um sorriso.
Quando voltei ao dormitório, deixei o colar na cômoda. Lancei um último olhar carinhoso para ele e então tentei decidir qual seria a melhor maneira de passar o resto
do dia. Nossa viagem não tinha demorado tanto, então eu tinha tempo de sobra para jantar e ver se não estava atrasada com os trabalhos da escola. Acabei comendo
com Kristin e Julia, para variar um pouco, o que foi uma boa pausa do drama dos meus outros amigos. Claro, a maior parte do jantar consistiu em Julia falando sem
parar sobre “Dave”. No fim, ela e Kristin exigiram saber quando eu o levaria até lá de novo.
Ao cair da noite, comecei a me preparar para o encontro com a sra. Terwilliger. Não sabia ao certo que tipo de magia praticaríamos ao ar livre, mas imaginei que
deveria me preparar para qualquer eventualidade. Coloquei na bolsa uma grande variedade de itens do kit e me precavi com uma barra de cereal para me recuperar depois
da magia. Quando estava tudo em ordem, voltei para o andar de baixo. Estava quase na porta do alojamento quando a sra. Weathers me chamou.
- Sydney?
Olhei para trás.
- Sim?
- Aonde está indo? Está quase na hora do toque de recolher.
Franzindo a testa, fui até a mesa dela.
- Vou fazer uma tarefa para a sra. Terwilliger.
A sra. Weathers pareceu confusa.
- Sei que você tem feito muitas coisas assim para ela... mas não recebi autorização para deixar você sair hoje depois do horário. - Ela parecia estar pedindo desculpas.
- Tenho certeza de que está tudo programado, mas, enfim, regras são regras.
- Claro - eu disse. - Mas ela disse que avisaria a senhora. Tem certeza de que não recebeu nada? Um bilhete? Um telefonema?
Ela fez que não.
- Nadinha. Sinto muito.
- Entendi - murmurei, mas não sabia se tinha entendido mesmo. Apesar de sua personalidade distraída, a sra. Terwilliger costumava ser boa nesse tipo de coisa. A
sra. Weathers prometeu que me deixaria sair caso a sra. Terwilliger desse a permissão por telefone, então, subi para o quarto e tentei ligar para ela. Caiu direto
na caixa postal, e não houve resposta para minha mensagem de texto. Será que tinha acontecido alguma coisa? Será que aquele confronto mágico que eu vinha temendo
havia finalmente ocorrido?
Fiquei andando pelo dormitório por quase uma hora, sendo consumida por todas as minhas preocupações. Veronica. Marcus. St. Louis. A sra. Terwilliger. O sonho. Várias
e várias vezes, fiquei imaginando o pior resultado possível para todas elas. Quando já estava achando que ficaria maluca, a sra. Terwilliger finalmente me ligou
de volta.
- Por que você não apareceu? - ela perguntou assim que atendi. Fiquei aliviada. Ela tinha ido até o parque. Isso explicava a falta de respostas; não havia sinal
lá.
- Eu tentei! A sra. Weathers não me deixou sair. A senhora esqueceu de me dar permissão.
- Tenho quase certeza de que não... - A voz dela foi perdendo a força e a segurança. - Quer dizer, pensei que tinha...
- Tudo bem - eu falei. - A senhora está com muita coisa na cabeça.
- Não, não está tudo bem. - Ela parecia brava, mas consigo mesma, não comigo. - Eu precisava ter feito isso.
- Bom, a senhora pode ligar para a sra. Weathers agora - eu disse.
- Agora é tarde. Já estou em casa. Vamos ter de remarcar.
- Sinto muito - eu disse. - Eu tentei.
A sra. Terwilliger soltou um suspiro.
- Sei que tentou. A culpa não é sua. É minha. Estou deixando isso tudo me cansar e agora estou ficando esquecida. Já assumi riscos demais às suas custas, e isso
pôs Veronica na sua cola. Não posso deixar que ela avance mais.
Senti um calafrio na espinha quando pensei naquelas meninas em coma, e na possibilidade de me tornar uma delas. Eu estava conseguindo me manter calma e controlada
durante a investigação, mas o sonho da noite anterior havia feito com que me desse conta dos perigos que estava enfrentando. Aquela imagem da menina no jornal pairou
em minha mente enquanto eu andava com o celular de um lado para o outro. Parei em frente ao espelho e tentei me imaginar daquele jeito, envelhecida antes do tempo.
Fechei os olhos e virei o rosto. Não podia deixar isso acontecer comigo. Simplesmente não podia, e precisava da sra. Terwilliger para me manter em segurança. Eu
até podia ser um prodígio, mas não era nem um pouco capaz de enfrentar alguém como a irmã dela.
- Descanse um pouco - eu disse enfim. - A senhora parece cansada.
- Vou tentar. E você tome cuidado, srta. Melbourne.
- Pode deixar.
Tomar cuidado era a única coisa que eu poderia fazer sozinha por enquanto. Só me restava torcer para que isso bastasse.
Quando desligamos, eu não queria dormir. Estava com medo, e não apenas devido ao sonho da noite anterior. A sra. Terwilliger havia me explicado que existia um tipo
de feitiço de busca que encontrava pessoas durante o sono, e eu temia que, se Veronica me alcançasse outra vez, poderia descobrir minha localização. O problema era
que, depois da última noite maldormida, eu estava ainda mais exausta agora. Meu café de sempre e minhas tentativas de distração fracassaram e, sem que eu percebesse,
adormeci.
Não sei quanto tempo se passou até eu sonhar. Em um momento, estava mergulhada no esquecimento do sono. No seguinte, estava no salão em que ocorrera a recepção de
Sonya e Mikhail. Era exatamente igual: flores em toda parte, mesas cobertas por toalhas brancas e copos de cristal. A única diferença era que o salão estava vazio
e silencioso. Era estranho ver todo aquele luxo e glamour sem ninguém para desfrutar. Eu poderia estar numa cidade fantasma. Olhei para baixo e vi que também estava
usando o mesmo vestido daquela noite.
- Eu poderia ter feito ele vermelho, sabe. Cai melhor em você... Não que azul não fique bom.
Adrian caminhou até mim, usando o mesmo terno azul-marinho. Finalmente entendi. Estava em um sonho de espírito. Era mais uma das façanhas incríveis daquele elemento,
a capacidade do usuário de invadir os sonhos de outra pessoa. Não, não invadir. O usuário na verdade criava todo o sonho, controlando os mínimos detalhes.
- Faz tempo que você não me coloca num desses - eu disse.
- E veja como você progrediu. Da última vez, estava gritando e esperneando. - Ele estendeu a mão. - Quer dançar?
- Não tem música - eu disse. Não que tivesse alguma intenção de dançar. Mas ele estava certo a respeito da minha reação. Eu não havia exatamente gritado e esperneado,
mas meio que tive um ataque, sim. Na época, ainda tinha muito medo de vampiros e magia, e ficar cercada por um mundo totalmente construído por magia havia me deixado
perturbada. E agora? Agora, pelo jeito, eu estava tão à vontade com aquilo que minha maior preocupação era que ele tinha me colocado logo naquele vestido. Apontei
para a roupa.
- Você pode mudar isso?
- Você mesma pode mudar - ele respondeu. - Estou liberando o controle. É só se imaginar como está no mundo real.
Fiz o que ele disse e, um segundo depois, estava usando uma calça jeans e uma malha azul-clara. Ele ficou visivelmente desapontado.
- É assim que você dorme?
- Não. - Eu ri. - Estava tentando não dormir. Não funcionou. Por que você me trouxe pra cá?
Ele andou um pouco e pegou uma taça de cristal, aprovando com a cabeça como se fosse um especialista em fabricação de vidro.
- Exatamente por isso. Vi como aquele sonho te deixou incomodada. Imaginei que, se a trouxesse para um desses, Veronica não conseguiria te alcançar.
Eu nunca teria pensado nisso, mas a magia vampírica era sem dúvida preferível à dela. Olhei ao redor, apreciando melhor o salão. Parecia um santuário, um lugar onde
ela não me alcançaria. Ao menos, era o que eu esperava. Não fazíamos a menor ideia de como a magia dela funcionaria contra a de Adrian. Até onde eu sabia, ela poderia
muito bem entrar pela porta com o buquê de Sonya nas mãos.
- Obrigada - agradeci, me sentando em uma das mesas. - Foi gentil da sua parte. - Era um daqueles momentos incríveis em que Adrian havia tido a delicadeza de adivinhar
meus pensamentos... Ou, no caso, meus medos.
- Bom, teve uma pontinha de egoísmo da minha parte. Queria ver você de novo nesse vestido. - Ele pensou um pouco. - Na verdade, queria ver você de novo naquele vestido
vermelho do Halloween, mas imaginei que seria forçar a barra.
Desviei os olhos, enquanto a imagem daquele vestido voltava à minha memória. Lia DiStefano havia feito a fantasia para mim. Ela usara como inspiração uma túnica
da Roma antiga e acabou criando um vestido leve, vermelho e dourado. Foi naquele dia que Adrian me dissera que eu era a criatura mais linda que já tinha caminhado
sobre a terra. Isso tinha acontecido antes de ele se declarar para mim, mas, mesmo naquela época, suas palavras haviam mexido comigo. Pensei no que ele estava fazendo
por mim agora e decidi dar uma pequena recompensa a ele. Voltei a me concentrar na minha roupa e o vestido azul voltou.
- Melhor assim? - perguntei.
Ele abriu um sorriso que também me fez sorrir.
- Sim.
Torcendo para que não estivesse prestes a receber uma resposta sugestiva, perguntei:
- Então, o que a gente vai fazer?
- Tem certeza de que não quer dançar? Posso criar uma música. - Meu silêncio respondeu por mim. - Está bem, está bem. Que tal um joguinho? Banco Imobiliário? Jogo
da Vida? Batalha naval? Twister? Tanto faz, mas me recuso a jogar Scrabble com você.
Começamos com batalha naval - eu venci - e depois passamos para Banco Imobiliário. Esse foi um pouco trabalhoso de montar porque Adrian só conseguia criar coisas
que era capaz de imaginar. Ele não conseguia se lembrar de todas as ruas e cartas, então fizemos nosso melhor para recriá-las. Nenhum de nós conseguia se lembrar
de uma das ruas amarelas, então a chamamos de “rua do Jet”.
A partida se mostrou surpreendentemente equilibrada, e me deixei levar pelo jogo. O poder ficou alternando entre nós. Exatamente quando um parecia ter todo o controle,
o outro se recuperava. Eu não tinha dúvida da minha capacidade de vencer... até que perdi. Fiquei ali sentada, perplexa, olhando fixamente para o tabuleiro.
- Você já perdeu algum jogo na vida? - ele perguntou.
- Eu... sim, claro... só não achava...
- ... que eu podia ganhar de você?
- Não, é só que... não acontece muito. - Levantei os olhos para ele e balancei a cabeça. - Parabéns.
Ele se recostou na cadeira e riu.
- Acho que ganhar de você melhorou sua opinião a meu respeito mais do que qualquer outra coisa que já fiz na vida.
- Sempre tive uma boa opinião a seu respeito. - Eu me alonguei, surpresa por sentir cãibras no corpo. Era estranho como aqueles sonhos podiam ter um componente tão
físico. - Faz quanto tempo que a gente está aqui?
- Não sei. Não é manhã ainda. - Ele não parecia preocupado. - O que você quer jogar agora?
- Não deveríamos jogar mais nada - eu disse, me levantando. - Estamos aqui faz horas. Eu estou dormindo, mas você não. Não pode ficar acordado a noite toda.
- Sou um vampiro, Sage. Uma criatura da noite, lembra?
- Sim, mas está seguindo um horário humano - repreendi.
Mesmo assim, ele não pareceu preocupado.
- Só tenho uma aula amanhã. Eu compenso.
- E o espírito? - Comecei a andar de um lado para o outro, inquieta, ao me dar conta das implicações. - Você não pode usar muito. Não faz bem para você.
- Prefiro correr o risco. - Ele não disse, mas estava correndo esse risco por mim.
Voltei à mesa e parei diante dele.
- Você precisa tomar cuidado. Somando isso à caça a Veronica... - Me senti subitamente mal. Não tinha pensado duas vezes em pedir a ajuda dele para aquilo. Eu havia
me esquecido dos riscos. - Quando tivermos acabado com Veronica, você vai precisar parar com o espírito.
- Não se preocupe. - Ele sorriu. - Quando nos livrarmos daquela vaca, vou comemorar tanto que não vou ficar sóbrio por dias.
- Não é exatamente a melhor maneira de comemorar. Já pensou em tomar antidepressivos? - Eu sabia que ajudavam usuários de espírito a bloquear a magia.
O sorriso dele se desfez.
- Não vou encostar nisso. Lissa tomou e odiou. Ficar sem o espírito quase a deixou maluca.
Cruzei os braços e me encostei à mesa.
- Sim, mas usar o espírito vai deixar você maluco também.
- Chega de bronca hoje, Sage. Está estragando minha vitória espetacular no Banco Imobiliário.
Ele estava descontraído demais para um assunto tão sério, mas eu o conhecia bem o bastante para saber quando não ia ceder.
- Está bem. Então vamos terminar bem. Me mande de volta e durma um pouco.
- Tem certeza de que vai ficar bem? - A preocupação dele era muito intensa. Pensei que ninguém nunca havia se preocupado tanto comigo. Bom, talvez a sra. Terwilliger.
- Ela já deve ter desistido. - Eu não fazia ideia, na verdade, mas não podia deixar que ele se esforçasse tanto. A ideia de Veronica me descobrir ainda me aterrorizava...
mas a ideia de Adrian se colocar em perigo era quase ainda mais assustadora. Ele vinha se arriscando tanto por mim. Eu não podia fazer menos por ele. - Mas você
pode voltar amanhã à noite.
O rosto de Adrian se iluminou como se eu tivesse aceitado um encontro amoroso.
- Combinado, então.
De repente, o salão se dissolveu ao meu redor. Voltei a ter sonhos tranquilos e por pouco não o ouvi dizer:
- Bons sonhos, Sage.
17
Embora nossos planos mágicos tivessem fracassado, a sra. Terwilliger havia pedido que eu passasse na sala dela antes das aulas na manhã seguinte, para que pudéssemos
discutir nossa estratégia e os próximos passos. Quase não tive tempo de passar no restaurante, mas encontrei Jill, Eddie e Angeline sentados juntos. Parecia fazer
muito tempo desde que todos estivéramos numa situação relativamente normal, e fiquei feliz com esse breve momento de amizade. Era um refúgio na tempestade que vinha
sendo minha vida nos últimos tempos.
Jill estava sorrindo muito com alguma coisa em que Eddie não parecia ver a menor graça.
- Ele não me contou nada disso - ele disse.
- Claro que não. - Jill deu risada. - Está envergonhado demais.
Me sentei com a bandeja.
- Quem está envergonhado demais? - Eu sempre imaginava que qualquer menino de quem eles estivessem falando fosse Adrian, embora fosse difícil imaginar Adrian com
vergonha de alguma coisa.
- Micah - Jill respondeu. - Eu o convenci a modelar para o clube de costura de novo. Dessa vez ele trouxe Juan e Travis também.
- Como conseguiu isso? - perguntei. Jill havia conhecido Lia através do clube de costura da escola. Quando Jill e Micah ainda namoravam, ela o havia convencido a
servir de modelo para algumas roupas muito malfeitas. Ele tinha aceitado por amor, mas eu não tinha tanta certeza de que havia gostado.
Jill se debruçou na mesa, com um brilho eufórico no olhar.
- Claire fez Micah se sentir culpado. Foi muito engraçado. Mas não sei como ele convenceu Juan e Travis. Talvez eles estivessem devendo um favor a ele.
- Talvez eles tenham segundas intenções - Eddie disse. Fiquei surpresa com o tom dele até me lembrar das últimas novidades que havia me contado. Será? Claire era
a nova namorada de Micah. Juan e Travis eram amigos dele, e gostavam de Jill. Eddie não gostava do fato de que eles gostavam dela. Entendi. Pelo jeito, Eddie não
tinha escondido suas opiniões sobre o assunto, porque Jill revirou os olhos.
- Dá pra parar de se preocupar com isso? - ela pediu. Ela estava sorrindo, mas parecia um tanto incomodada. - Eles são caras legais. E não vou fazer nenhuma besteira.
Não precisa ficar me dando sermão sobre humanos e Moroi. Aprendi a lição.
Seus olhos cor de jade se voltaram para mim, e o sorriso dela vacilou um pouco. Ela me examinou por um momento longo e angustiante, e fiquei curiosa para saber em
que estava pensando. Será que ainda tinha esperança de um final feliz entre mim e Adrian? Será que estava se perguntando por que eu e Adrian nos metíamos em tantas
situações de intimidade? Eu também queria saber por quê. Por fim, Jill desviou o olhar, retomando o bom humor.
- Só estou cuidando de você - Eddie disse, obstinado.
- Você tem que cuidar dos assassinos. Desses caras cuido eu. Não sou uma criança e, além disso, nunca tivemos tantos modelos homens. Vai ser ótimo. Se conseguirmos
mais alguns, o clube pode fazer um projeto só de roupas masculinas.
Eddie ainda parecia sério demais para uma discussão como aquela.
- Eddie poderia se voluntariar também - sugeri. - Aposto que a postura de guardião dele ficaria ótima na passarela.
Ele ficou vermelho, e até eu precisava admitir que foi fofo. Se Jill tinha ficado irritada com a superproteção dele, não dava mais para notar. Pela expressão encantada
dela, era de pensar que nunca tinha visto nada mais incrível do que Eddie vermelho. Acho que ele estava horrorizado demais com a ideia de desfilar numa passarela
para perceber.
Angeline tinha ficado completamente quieta até então. Olhei para ela, esperando que tivesse algum comentário engraçado sobre seu namorado sendo incentivado a virar
modelo. Mas, para a minha surpresa, ela não estava prestando a mínima atenção à conversa. Tinha um livro de geometria aberto e tentava desesperadamente desenhar
uns círculos à mão. Era torturante ver aquilo, mas, depois do comentário de Kristin de que Angeline poderia apunhalar alguém com o compasso, talvez fosse melhor
desenhar à mão mesmo.
- O que você acha, Angeline? - perguntei, só para testar o nível de concentração dela. - Eddie daria um bom modelo?
- Humm? - Ela não levantou os olhos. - Ah, sim. Você devia deixar Jill experimentar algumas roupas em você.
Agora foi Jill quem ficou vermelha. Eddie, ainda mais.
Quando achei que o café da manhã não pudesse ficar mais bizarro, Trey passou pela mesa e deu um chute de leve na cadeira de Angeline.
- Ei, McCormick. - Ele apontou para o papel quadriculado. - Hora de dar uma olhada nas suas curvas.
Em vez de rebater com alguma resposta sarcástica, ela levantou os olhos instantaneamente, com um grande sorriso no rosto.
- Estou trabalhando nelas desde que acordei - ela disse. - Acho que estão ficando boas.
- Parecem boas daqui - Trey disse.
Aqueles eram os piores círculos que eu já tinha visto na vida, mas imaginei que Trey estava tentando incentivá-la. Fiquei surpresa com a seriedade com que ela estava
levando aquela nota de matemática. Para mim, parecia que estava pondo aquilo acima de todo o resto, inclusive sua vida pessoal. Ela juntou as coisas para que eles
pudessem ir para a biblioteca. Eddie pareceu desapontado, mas não podia protestar sem revelar seu relacionamento com Angeline. Trey sabia que não éramos parentes
de verdade, mas o namoro dos dois ainda era segredo.
Percebi então que estava quase na hora de encontrar a sra. Terwilliger. Terminei minha banana às pressas e falei para Eddie e Jill que os veria depois. Não fazia
a menor ideia se eles ficariam conversando sobre modelos ou sobre a vida amorosa de Jill.
Apareci bem na hora da reunião, mas encontrei a sala da sra. Terwilliger trancada e escura. Mesmo em tempos de crise, pensei que ela tinha o direito de chegar um
pouco atrasada de vez em quando, então sentei no corredor e comecei a ler meu livro de inglês.
Estava tão concentrada que nem percebi quanto tempo havia se passado até ouvir o sinal tocar e perceber que os alunos estavam começando a lotar os corredores. Levantei
os olhos no exato momento em que aquela professora substituta com ar cansado chegou à porta apressada com um molho de chaves. Levantei com dificuldade.
- A sra. Terwilliger faltou hoje? - perguntei. - Ela está bem?
- Eles não me contam os motivos - a substituta disse, brusca. - Só me mandam aparecer aqui. Tomara que ela tenha deixado uma tarefa desta vez.
Conhecendo a sra. Terwilliger, tive o pressentimento de que seria outro dia de “lição de casa”. Arrastando os pés, entrei na sala atrás da substituta, sentindo um
aperto de ansiedade.
A hora seguinte foi angustiante. Mal ouvi a substituta nos mandar fazer a lição de casa. Em vez de prestar atenção, ficava olhando discretamente para o celular,
na esperança de que chegasse uma mensagem da sra. Terwilliger. Não aconteceu.
Fui de uma aula para a outra, mas estava distraída demais para prestar atenção. Até levei um susto em inglês quando quase confundi Henrique IV com Henrique VI ao
responder a uma questão dissertativa. Felizmente, me dei conta antes de colocar esse erro vergonhoso no papel.
Quando voltei à sala da sra. Terwilliger para o estudo independente no fim do dia, estava esperando que a substituta me dissesse que eu poderia ir embora mais cedo
de novo. Em vez disso, encontrei a própria sra. Terwilliger, remexendo em uns papéis na mesa.
- A senhora voltou! - exclamei. - Estava com medo de que tivesse acontecido alguma coisa.
- Comigo não - ela disse. Seu rosto estava pálido e cansado. - Mas outra pessoa não teve a mesma sorte.
- Não. De novo, não. - Me afundei numa cadeira, e todos os medos que vinha levando de um lado para o outro naquele dia pesaram com tudo em meu peito. - Pensei que
tínhamos protegido aquelas meninas.
A sra. Terwilliger sentou na minha frente.
- Não foram elas. Ontem à noite, Veronica atacou uma integrante do meu clã. Alana.
Levei alguns momentos para processar a notícia.
- O seu clã... quer dizer, uma bruxa experiente?
- Sim.
- Alguém como a senhora?
O rosto dela me deu a resposta antes que ela falasse:
- Sim.
Eu estava tremendo.
- Mas a senhora disse que ela só vai atrás de garotas jovens.
- Normalmente. Assim ela consegue pegar a beleza e a juventude delas, junto com o poder. - A sra. Terwilliger não parecia ter de se preocupar com alguém em busca
de sua juventude. O cansaço e o estresse estavam surtindo efeito, fazendo com que ela parecesse mais velha do que realmente era. - Algumas usuárias de magia que
fazem esse feitiço só estão preocupadas com o poder, não com a juventude. Mas esse nunca foi o estilo de Veronica. Ela é fútil. Sempre quis as vantagens superficiais...
pra não falar das vítimas fáceis. Alguém do meu clã seria mais difícil de atacar, o que torna esse comportamento surpreendente.
- Isso significa que a senhora pode ser um alvo - eu disse. - Esse tempo todo a senhora ficou dizendo que está segura, mas isso muda tudo.
A sra. Terwilliger meneou a cabeça e uma centelha resoluta se acendeu em seus olhos.
- Não. Talvez ela tenha feito isso para me despistar, para me fazer pensar que tem outra pessoa por trás desses feitiços. Ou talvez para me levar a pensar que não
está interessada em você. Seja qual for o motivo, ela não vai me atacar.
Eu admirava a sra. Terwilliger por ter a irmã em tão alta conta, mas não conseguia ter a mesma confiança de que o carinho fraternal seria mais forte do que uma busca
maligna por poder e juventude.
- Sem querer ofender, mas não existe a mínima chance de que a senhora esteja enganada? A senhora disse que ela só vai atrás de aprendizes jovens, mas obviamente
não é o caso. Ela já está fazendo coisas que a senhora não estava esperando.
A sra. Terwilliger se recusou a desistir de sua opinião.
- Veronica pode estar fazendo muitas coisas terríveis, mas não vai me enfrentar a menos que seja obrigada. - Ela me deu um novo livro de feitiços e uma bolsinha.
- E só porque ela foi atrás de uma bruxa mais velha, não significa que você não esteja correndo risco. Marquei algumas páginas em que quero que dê uma olhadinha.
Tem um feitiço aí que acho que pode ser especialmente útil. Juntei alguns componentes para você, e o resto acho que você consegue lançar sozinha... mas lembre-se
de fazer num lugar afastado. Nesse meio-tempo, ainda preciso preparar aquele amuleto secundário que prometi. Muita coisa pra fazer ultimamente.
Senti um misto de sentimentos. Mais uma vez, estava impressionada com o fato de a sra. Terwilliger não medir esforços por mim. No entanto, não conseguia me livrar
do medo de que ela estivesse em perigo.
- Talvez seja bom fazer um pra senhora também, por via das dúvidas.
Ela entreabriu um sorriso.
- Ainda insistindo nisso, hein? Enfim, depois que eu tiver garantido o seu, a gente pensa em outro. Mas pode levar tempo. O que estou pensando para você é especialmente
complexo.
Isso fez eu me sentir ainda pior. Ela sempre parecia tão cansada ultimamente e todas essas coisas que vinha fazendo por mim só agravavam a situação. Mas, por mais
que eu argumentasse, ela se recusava a dar ouvidos. Saí da sala me sentindo triste e confusa. Eu precisava desabafar com alguém. Claro, minhas escolhas eram limitadas
quando o assunto era esse. Mandei uma mensagem para Adrian: V atacou uma bruxa de verdade ontem à noite. A sra. T se recusa a se proteger. Ela só se preocupa comigo.
Como sempre, a resposta veio rápido: Quer conversar?
Eu queria? Não fazia o tipo que sentava e analisava meus sentimentos, mas a companhia me faria bem. Sabia que não deveria passar mais tempo com Adrian do que o estritamente
necessário, considerando como meus sentimentos por ele eram confusos. Mas ele era a única pessoa com quem queria conversar. Preciso lançar uns feitiços pra ela agora.
Quer vir me buscar e ir comigo?
Ele me respondeu com uma carinha feliz.
Ela havia me dito para ir a algum lugar afastado, então decidi pelo Parque da Rocha Solitária de novo. Quando Adrian e eu chegamos, o lugar estava ardendo sob o
calor do fim de tarde, e achei difícil acreditar que faltavam só algumas semanas para o Natal. Eu estava usando roupas confortáveis, como da outra vez, e tirei meu
casaco de Amberwood enquanto caminhávamos penosamente pelo terreno rochoso. Ele também tirou o casaco, e fiquei surpresa quando vi o que estava usando por baixo.
- Sério? - perguntei. - Sua camiseta da EIA?
Ele abriu um sorriso largo.
- Ei, é uma camiseta muito boa. Estou pensando em abrir uma divisão da fraternidade no campus da Carlton. - Carlton era a faculdade em que ele frequentava aulas
de arte. Era bem pequena e nem chegava a ter fraternidades.
- Uma divisão? - ironizei. - Você não quer dizer a única divisão?
- Precisa começar em algum lugar, Sage.
Chegamos ao mesmo local onde eu havia praticado com a sra. Terwilliger, e tentei ignorar as marcas chamuscadas no terreno. Adrian havia decidido transformar aquilo
em um piquenique no deserto e trouxera uma cesta com uma toalha e uma garrafa térmica com limonada.
- Pensei que poderíamos passar no Tortas e Tal na volta, já que você adora aquele lugar - ele explicou, inexpressivo, enquanto me servia um copo. - Deve dar uma
forcinha pra você depois do feitiço.
- Queria que tudo isso acabasse logo - eu disse, passando a mão sobre o couro gasto do livro da sra. Terwilliger. Era um volume antigo escrito à mão chamado Invocações
e conjurações. - Odeio viver com essa incerteza, com medo de que Veronica esteja espreitando a cada esquina. Minha vida já é complicada demais sem bruxas na minha
cola.
Adrian, sério, deitou sobre a toalha e apoiou a cabeça no cotovelo.
- Se é que ela está na sua cola.
Me sentei de pernas cruzadas, tomando cuidado para manter muito mais distância entre nós do que na Suíte Veludo.
- A sra. Terwilliger não me ouve. Ela só fica se preocupando comigo.
- Deixe que ela se preocupe - ele sugeriu. - Quer dizer, entendo totalmente que você esteja preocupada com ela. Também estou. Mas precisamos aceitar que ela sabe
do que está falando. Ela está envolvida nessas coisas há muito mais tempo do que a gente.
Não consegui conter o riso.
- Desde quando você está envolvido com magia?
- Desde que comecei a cuidar de você, e ser másculo e corajoso.
- Engraçado, não é assim que eu me lembro. - Me esforcei para manter uma expressão neutra. - Se pensar em todas as caronas que dei pra você, em como consegui que
você frequentasse a faculdade... bom, parece que sou eu quem está cuidando de você.
Ele se inclinou para mim.
- Acho que estamos cuidando um do outro.
Nós nos olhamos e sorrimos, mas não havia nada de sensual nisso. Não era nenhum joguinho, nenhuma tentativa maliciosa de Adrian dar em cima de mim. E eu não estava
com medo. Éramos só duas pessoas que gostavam uma da outra. Isso me lembrou do que havia nos unido inicialmente, antes de todas as complicações amorosas. Nós tínhamos
uma conexão. Contra toda a lógica, nos entendíamos e, como ele mesmo disse, cuidávamos um do outro. Eu nunca havia tido uma relação assim com ninguém e fiquei surpresa
com o quanto valorizava a nossa.
- Enfim, acho melhor colocar a mão na massa. - Baixei os olhos para o livro. - Ainda não tive tempo de olhar o que ela quer que eu faça. Isso não parece um livro
de defesa.
- Talvez você esteja passando de bolas de fogo para raios e trovões - Adrian sugeriu. - Aposto que seria igual a atirar shurikens. Exceto que, enfim, daria para
queimar pessoas.
Quando encontrei a página que a sra. Terwilliger havia marcado, li o título em voz alta:
- Invocação de Callistana.
- O que significa “callistana”? - Adrian perguntou.
Examinei a palavra, tomando cuidado para decifrar a escrita rebuscada corretamente.
- Não sei. Parece a palavra grega que significa “bonito”, mas não exatamente. O subtítulo é “Para proteção e aviso avançado”.
- Talvez seja um tipo de escudo como o que Jackie tinha - Adrian sugeriu. - Só que mais fácil.
- Pode ser - concordei. Bem que eu gostaria de um pouquinho de proteção.
Abri a bolsinha que a sra. Terwilliger havia me dado. Dentro, encontrei resina de sangue-de-dragão, um pequeno frasco de óleo de gardênia, ramos de baga de zimbro
e um cristal de quartzo esfumaçado e reluzente, rutilado com linhas de ouro. Embora ela tivesse dado os ingredientes, as instruções exigiam que eu os usasse e medisse
de maneira muito específica, o que fazia sentido. Como sempre, era o trabalho de quem lançava o feitiço que fortalecia a magia. Adrian sentou e leu por sobre meu
ombro.
- Não fala exatamente o que acontece quando você lança - ele comentou.
- É... não estou muito animada com essa parte. - Aparentemente, quem lançasse aquele feitiço deveria saber o que estava fazendo. Se fosse algum tipo de escudo protetor,
talvez o campo de força se materializasse ao meu redor, como o da sra. Terwilliger. - Enfim, não temos tempo a perder. Logo vamos descobrir.
Adrian riu enquanto me observava caminhar até um trecho de terreno descampado.
- Sou o único aqui surpreso por você estar praticando magia sem saber o que vai acontecer?
- Não - garanti a ele. - Não é.
Precisei pegar os ramos de baga de zimbro um a um e fazer um pequeno círculo com eles, dizendo “Fogo e fumaça” cada vez que colocava um no chão. Quando terminei,
ungi cada baga com uma gota de óleo e recitei “Sopro e vida”. Dentro do círculo, acendi uma pequena pilha de resina e coloquei o quartzo esfumaçado em cima. Em seguida,
dei um passo para trás e reli o feitiço, decorando as palavras e os gestos. Quando tive certeza de que os sabia de cor, entreguei o livro para Adrian e lancei um
olhar esperançoso para ele.
- Me deseje sorte - eu disse.
- Você faz a sua própria sorte - ele respondeu.
Tentei não revirar os olhos e voltei para o círculo. Recitei o complexo encantamento em grego, apontando para os quatro pontos cardeais enquanto falava, de acordo
com as instruções do livro. A rapidez com que a magia se formou dentro de mim foi surpreendente, e me encheu daquele poder exultante. Pronunciei as últimas palavras,
apontando para o círculo de zimbro. Senti a magia sair de mim e passar para o quartzo. Então esperei que alguma coisa acontecesse.
Mas nada aconteceu.
Voltei a olhar para Adrian, na esperança de que ele tivesse visto algo que eu não percebera. Ele encolheu os ombros.
- Talvez você tenha feito alguma coisa errada.
- Deu certo - insisti. - Eu senti a magia.
- Talvez só não dê para ver. E, com o risco de levar uma bronca, preciso dizer que você fica linda quando faz essas coisas. Toda graciosa e... - Seus olhos se arregalaram.
- Hum, Sydney? Aquela pedra está pegando fogo.
Olhei de volta para o círculo.
- É só a resina que está...
Parei. Ele tinha razão. O quartzo estava soltando fumaça. Fiquei olhando, fascinada e, então, lentamente, o quartzo começou a derreter. Mas, em vez de se dissipar
em uma poça, o líquido estava adquirindo outro contorno, que logo endureceu formando algo novo e inesperado: um dragão cristalino.
Era pequeno - cabia na palma da mão - e brilhava como o quartzo marrom-escuro. Parecia mais com o tipo serpentino associado à cultura chinesa do que com os dragões
alados da mitologia europeia. Todos os detalhes estavam esculpidos meticulosamente, desde a crina até as escamas da pele. Era fascinante.
E estava se mexendo.
Soltei um grito e dei um pulo para trás, esbarrando em Adrian. Ele pôs um braço ao meu redor, da maneira mais protetora que pôde, mas estava claramente tão assustado
quanto eu. O dragão abriu suas pálpebras de cristal e olhou para nós com olhinhos dourados. Soltou um pequeno grunhido e então começou a andar na nossa direção,
com as garrinhas raspando as rochas.
- Que diabo é isso? - Adrian perguntou.
- Acha que eu sei?
- Foi você quem criou! Faça alguma coisa.
Quase perguntei se não era ele quem deveria cuidar de mim, mas ele tinha razão: eu tinha invocado aquela coisa. Não importava para onde andássemos ou corrêssemos,
o dragão continuava a nos seguir e soltar gritinhos agudos que pareciam unhas raspando numa lousa. Peguei o celular e tentei ligar para a sra. Terwilliger, mas não
havia sinal ali. Correndo até a toalha, apanhei o livro de feitiços e então corri de volta para onde Adrian estava. Abri no índice, procurando “callistana”. Encontrei
duas entradas: “Callistana, Invocação de” e “Callistana, Banimento de”. Era de se imaginar que os dois estariam lado a lado no livro, mas estavam separados por várias
páginas. Procurei a página do segundo feitiço e encontrei instruções breves e diretas: “Depois que teu callistana tiver se alimentado e descansado, podes invocá-lo
e bani-lo durante um ano e um dia”. Abaixo, havia um encantamento curto.
Levantei os olhos para Adrian.
- Diz que precisamos alimentar aquilo.
- Será que assim ele cala a boca? - ele perguntou. Seu braço estava ao meu redor de novo.
- Não faço ideia.
- Talvez dê para correr mais rápido do que ele.
Todos os meus instintos para esconder o sobrenatural vieram à tona.
- Não podemos simplesmente deixar um dragão por aí pra algum excursionista encontrar! Precisamos arranjar comida pra ele. - Não que eu fizesse a menor ideia do que
dar para ele comer. Com sorte, humanos e vampiros não estavam no cardápio.
Uma expressão resoluta perpassou o rosto de Adrian. Em uma grande demonstração de coragem, ele avançou até a cesta de piquenique e conseguiu fechar o dragão dentro
dela, baixando a tampa com força. O choramingo ficou mais baixo, mas não cessou por completo.
- Uau - eu disse. - Másculo e corajoso.
Apreensivo, Adrian olhou para a cesta.
- Só espero que não sopre fogo. Pelo menos está preso. E agora, o que a gente faz?
- Agora damos comida pra ele. - Tomei uma decisão. - Vamos levá-lo pro Tortas e Tal.
Não sabia se dragões comiam torta, mas era a fonte de alimento mais próxima disponível. Além disso, eu tinha quase certeza de que o celular funcionaria lá. Adrian
nos levou de carro para o pequeno restaurante enquanto eu segurava a cesta barulhenta com cuidado. Ele entrou, enquanto eu fiquei no carro tentando ligar para a
sra. Terwilliger. Caiu na caixa postal e nem me preocupei com as formalidades. Será que ela nunca estava perto do celular?
- Me ligue agora - eu disse entredentes. Os gritinhos do dragão estavam começando a me irritar.
Adrian voltou cerca de dez minutos depois carregando duas sacolas. Fiquei olhando assombrada enquanto ele entrava no carro.
- Você comprou a loja toda?
- Não sabia de que tipo ele queria - ele argumentou. As duas sacolas continham meia dúzia de fatias de torta diversas. O conteúdo de cada uma estava anotado cuidadosamente
no embrulho.
- Também não sei - eu disse.
Adrian vasculhou as sacolas e tirou uma fatia de torta de coco.
- Se eu fosse um dragão, gostaria dessa.
Não discuti, sobretudo porque não havia nenhum argumento lógico naquela frase. Ele tirou a tampa da torta e então olhou para mim com expectativa. Engolindo em seco,
abri a cesta e torci para que o dragão não saísse e atacasse minha cara com as garras. Adrian colocou a torta rapidamente dentro da cesta. Ansiosos, nos debruçamos
para olhar.
A princípio, pareceu que o dragão realmente sairia atrás de nós. Então, percebeu a torta. A criaturinha de cristal cheirou a fatia, deu algumas voltas ao redor dela
e então começou a roê-la com mordidinhas minúsculas. O melhor de tudo foi que os gritos pararam. Ficamos olhando maravilhados enquanto o dragão chegava a um terço
da torta. Então, de repente, ele rolou de costas e começou a roncar. Adrian e eu ficamos ali, parados, até finalmente criarmos coragem para olhar um para o outro.
- Acho que você estava certo sobre o sabor - eu disse.
- Será que dá pra banir essa coisa agora? - ele perguntou. - Acha que ele comeu e descansou o bastante?
Peguei o livro de feitiços e reli o encantamento.
- Vamos descobrir logo.
Recitei as palavras. O corpo do dragão soltou fumaça. Ele começou a tremeluzir e, em questão de segundos, estávamos olhando para um pedaço inerte de quartzo esfumaçado.
Em mais uma demonstração de coragem, Adrian apanhou a pedra, mas a manteve o mais longe possível enquanto a examinava. O toque do meu celular nos assustou, e ele
deixou o cristal cair de volta dentro da cesta. Olhei para a tela e vi o nome da sra. Terwilliger.
- A senhora me fez invocar um dragão! - exclamei.
- Nada disso - ela respondeu. - Callistanas são um tipo de demônio.
Congelei.
- Demônio?
- Bom - ela emendou -, um demônio muito pequeno e normalmente benigno. - Não respondi por um tempo. - Sydney? Ainda está aí?
- A senhora me fez invocar um demônio - respondi, com a voz dura. - Sabe como me sinto em relação ao sobrenatural. Passou esse tempo todo tentando me convencer de
que usamos magia para o bem maior na batalha contra o mal e acabou me fazendo invocar uma criatura do inferno!
- Criatura do inferno? - Ela bufou. - Não mesmo. Você não sabe nada sobre demônios. Falei que são benignos, não falei? Callistanas podem ser muito úteis. Eles avisam
se tem magia negra por perto e até tentam defender você se for atacada. Não que consigam causar muitos danos.
Eu não tinha tanta certeza.
- Se são tão úteis, por que a senhora não tem um?
- Ah, bom, já estou num nível em que consigo sentir magia negra sozinha. Além disso, com o perdão da palavra, callistanas são um saco. Eles fazem aquele barulhinho
irritante quando estão com fome. Gatos são mais do que adequados para as minhas necessidades.
- Sim - eu disse. - Notei a parte do barulho. Dei um pouco de torta pra ele e o transformei de volta numa pedra.
- Pronto, viu? - Fazia dias que eu não a ouvia tão contente. - Veja como já avançou. Aconteça o que acontecer nesse problemão em que nos metemos, mais do que nunca
tenho certeza de que fiz a escolha certa ao pôr você no caminho mágico.
Eu estava com coisa demais na cabeça para agradecer o elogio.
- Então, o que faço agora?
- Ele vai desaparecer sozinho depois de um ano e um dia. Até lá, pode chamá-lo quando precisar. Pode tentar treiná-lo. E, claro, vai precisar dar comida para ele.
O que quer que faça, ele será leal a você. Ele cria um vínculo com a primeira pessoa que vê e vai precisar passar tempo com você... Sydney? Ainda está aí?
Eu tinha ficado em silêncio de novo.
- A primeira pessoa que vê? - finalmente consegui perguntar. - E não a pessoa que lançou o feitiço?
- Bom, normalmente são a mesma pessoa.
Olhei para Adrian, que estava comendo uma fatia de torta de amora enquanto ouvia atentamente o meu lado da conversa.
- O que acontece se tiver duas pessoas lá quando ele abrir os olhos? Adrian estava comigo quando fiz a invocação.
Agora foi ela quem ficou em silêncio.
- Ah... Humm. Bom, acho que devia ter falado alguma coisa antes de você lançar o feitiço.
Aquele era o eufemismo do século.
- A senhora devia ter me falado várias coisas antes de eu lançar o feitiço! O que acontece se o dragão... ou demônio, sei lá, viu Adrian e eu? Ele criou um vínculo
com os dois?
- Pense nesses termos - a sra. Terwilliger disse, depois de vários momentos de consideração. - O callistana acha que vocês são os pais dele.
18
Eu definitivamente não estava esperando voltar do passeio daquele dia com a guarda compartilhada de um minidragão. (Eu me recusava a chamá-lo de demônio.) E logo
ficou claro que Adrian não seria o “pai” mais dedicado.
- Pode ficar com ele agora - ele me disse quando voltamos a Amberwood. - Eu fico nos fins de semana.
- Você não faz nada da vida - protestei. - Além disso, faltam poucos dias para o fim de semana. E nem sabe se ele é menino.
- Bom, não acho que ele vá se importar, e eu é que não vou investigar pra descobrir a verdade. - Adrian colocou o quartzo na cesta e fechou a tampa antes de me entregá-la.
- Você não precisa invocá-lo outra vez, sabe.
Peguei a cesta e abri a porta do carro.
- Eu sei. Mas me sinto mal deixando o bicho feito pedra. - A sra. Terwilliger havia me dito que seria mais saudável para ele se o deixasse sair de vez em quando.
- Viu? Já está com instinto maternal. Você tem jeito pra coisa, Sage. - Adrian sorriu e me deu uma sacola com fatias de torta. Ele tinha ficado com algumas. - Veja
só. Você nem precisa mais romper a tatuagem. Acha que estaria cuidando de um bebê dragão um mês atrás?
- Não sei. - Mas ele tinha razão. Provavelmente eu teria saído correndo e gritando pelo deserto. Ou talvez tentado um exorcismo. - Vou ficar com ele por enquanto,
mas você precisa cumprir sua parte em algum momento. A sra. Terwilliger disse que o callistana precisa passar tempo com nós dois. Humm...
- Humm o quê?
Balancei a cabeça.
- Só estou pensando mais pra frente. Imaginando o que faria com ele se realmente fosse para o México.
Adrian me olhou, confuso.
- O que tem no México?
Foi então que percebi que isso nunca tinha vindo à tona. Adrian só sabia da tarefa que Marcus me passara e do rompimento da tatuagem, não do selamento. Eu não estava
guardando segredo sobre o resto, mas, de repente, me senti desconfortável ao contar isso para ele.
- Ah. Então... Marcus diz que, depois que eu fizer esse tal ato rebelde, podemos romper os elementos e me livrar do controle da tatuagem. Mas pra realmente conter
o feitiço e garantir que a tatuagem nunca mais seja reparada, preciso tatuar em cima, como ele fez. Ele chama isso de selar a tatuagem, e só funciona com um composto
especial que é difícil de encontrar. Ele fez a dele no México e vai levar alguns Vingadores lá pra que façam também.
- Entendi. - O sorriso de Adrian havia sumido. - Então você vai com eles?
Encolhi os ombros.
- Não sei. Marcus quer que eu vá.
- Claro que quer.
Ignorei o tom dele.
- Estou pensando ainda... mas é um grande passo. Não só pela tatuagem. Se fizer isso, não tem mais volta. Estarei dando as costas para os alquimistas.
- E para nós - ele disse. - Caso só esteja ajudando Jill para cumprir ordens.
- Você sabe que a questão não é mais essa. - De novo não gostei do tom dele. - Sabe que gosto dela... de todos vocês.
Seu rosto estava sério.
- E mesmo assim fugiria com um cara que acabou de conhecer.
- Não é verdade! Não iríamos “fugir” juntos. Eu voltaria pra cá! E viajaríamos por um motivo muito específico.
- Praias e margaritas?
Fiquei sem palavras por alguns momentos. O que ele disse era muito parecido com a piada de Marcus. Será que isso era tudo que as pessoas associavam ao México?
- Entendi agora - retruquei. - Você estava concordando plenamente que eu rompesse a tatuagem e pensasse por conta própria, mas só enquanto fosse conveniente a você,
né? Assim como aquela história de me “amar de longe”, que só funciona quando não tem a oportunidade de pôr as mãos em mim. E os lábios. E... tudo mais.
Adrian raramente ficava bravo, e não diria que estava exatamente bravo agora. Mas com certeza estava exasperado.
- Você realmente está negando tanto a realidade, Sydney? Realmente acredita em si mesma quando diz que não sente nada? Ainda mais depois do que vem acontecendo entre
nós?
- Não vem acontecendo nada entre nós - respondi automaticamente. - Atração física é muito diferente de amor. Você deveria saber disso melhor que qualquer pessoa.
- Puxa - ele disse. Sua expressão não havia mudado, mas vi uma mágoa em seus olhos. Eu havia ferido os sentimentos dele. - É isso que incomoda você? Meu passado?
Que talvez eu seja um especialista numa área em que você não é?
- Uma área em que você adoraria me educar, né? Mais uma garota pra colocar na sua lista de conquistas.
Ele ficou sem palavras por alguns instantes e então ergueu um dedo.
- Primeiro, não tenho uma lista. - Outro dedo. - Segundo, se tivesse uma, poderia encontrar alguém muito mais fácil para colocar nela. - Para o terceiro dedo, ele
se aproximou de mim. - E, por último, sei que você sabe que não é uma simples conquista, então não finja realmente acreditar nisso. Nós passamos por muita coisa
juntos. Somos muito próximos, temos uma ligação muito forte. Eu não estava tomado pelo espírito quando disse que você é minha chama na escuridão. Nós afugentamos
as trevas um do outro. Nossos passados não importam. O que temos é maior do que isso. Eu amo você e, por trás dessa fachada lógica, calculista e supersticiosa, sei
que você também me ama. Fugir pro México e evitar todos os seus problemas não vai mudar isso. Você só vai acabar confusa e assustada.
- Já me sinto assim - eu disse baixinho.
Adrian se recostou no banco, com o ar cansado.
- Bom, essa é a maior verdade que você falou até agora.
Peguei a cesta e abri a porta do carro com tudo. Sem dizer outra palavra, saí a passos duros em direção ao alojamento, me recusando a olhar para trás, para que ele
não visse as lágrimas que inexplicavelmente haviam surgido nos meus olhos. Eu só não sabia que parte da conversa havia me abalado mais.
Senti que conseguiria conter as lágrimas quando cheguei ao quarto, mas ainda precisava me acalmar. Mesmo depois de tranquilizar minhas emoções, era difícil esquecer
as palavras dele. Você é a minha chama na escuridão. Nós afugentamos as trevas um do outro. Eu nem sabia o que isso queria dizer!
Pelo menos subir clandestinamente para o quarto com um dragão me distraiu. Entrei com a cesta, na esperança de que dragões demoníacos não fossem considerados contrabando.
Ninguém me parou enquanto eu subia as escadas, e fiquei me perguntando como o prenderia se o invocasse de novo. Quando cheguei à porta, encontrei Jill parada do
lado de fora, com um brilho entusiasmado nos olhos verde-claros.
- Quero ver - ela disse. O laço era mais intenso em momentos de grande emoção e, a julgar pela cara que Adrian tinha feito quando o dragão estava nos perseguindo,
as emoções dele estavam fortes. Fiquei me perguntando se ela havia testemunhado nossa discussão também ou se isso não tinha passado através do laço. Talvez ela já
estivesse acostumada à tensão entre mim e ele a essa altura.
- Não posso libertar o dragão ainda - eu disse, deixando que ela entrasse no quarto. - Preciso de alguma coisa onde possa guardá-lo. Como uma gaiola. Talvez compre
uma amanhã.
Jill franziu a testa, e então abriu um sorriso.
- Tenho uma ideia. - Ela olhou para o meu despertador. - Espero que não seja tarde demais.
E, sem explicação, saiu prometendo voltar logo. Eu ainda estava um pouco trêmula por causa da magia, mas não havia tido tempo de corrigir a situação com todas as
outras agitações do dia. Então me sentei à escrivaninha com um livro de feitiços e comi o resto da torta de creme de coco, que já estava mole, tomando cuidado para
antes cortar fora a parte que o dragão havia comido. Não sabia se callistanas transmitiam germes, mas preferi não arriscar.
Jill voltou uma hora depois, trazendo um aquário de vidro retangular, do tipo em que se colocam peixes ou hamsters.
- Onde conseguiu isso? - perguntei, tirando o abajur da escrivaninha para que aquilo coubesse.
- Com a minha professora de biologia. Nosso porquinho-da-índia morreu algumas semanas atrás e ela ficou triste demais para comprar outro.
- Ela não perguntou para que você usaria? - Examinei o tanque e vi que estava impecável. Pelo jeito, alguém o limpara depois do falecimento do porquinho-da-índia.
- Não podemos ter bichinhos de estimação.
- Falei pra ela que estava construindo um diorama. Ela não questionou. - Ansiosa, Jill colocou o aquário em cima da mesa. - Podemos devolver quando você comprar
outro.
Coloquei o cristal de quartzo dentro do aquário e fechei a tampa com força, me certificando de que estava bem presa. Jill insistiu mais um pouco, e finalmente pronunciei
as palavras de invocação. Depois de soltar um pouco de fumaça, o quartzo se transformou em dragão outra vez. Felizmente, ele não estava mais fazendo aquele barulho,
então imaginei que ainda estivesse cheio. Em vez disso, ficou andando pelo tanque, examinando seu novo lar. Em determinado momento, tentou escalar um dos lados da
nova gaiola, mas suas garrinhas não conseguiam se agarrar ao vidro.
- Ufa, que alívio - eu disse.
O rosto de Jill estava maravilhado.
- Acho que ele vai ficar entediado aí dentro. Você devia comprar uns brinquedos pra ele.
- Brinquedos para um demônio? Dar torta não é o suficiente?
- Ele quer você - ela insistiu.
Era verdade. Quando olhei para o tanque, encontrei o callistana me observando com adoração. Ele estava até abanando o rabinho.
- Não - eu disse para ele, com firmeza. - Isso não é um filme da Disney pra eu ter um amiguinho fofo. Você não vai sair.
Cortei um pedaço de torta de mirtilo e coloquei dentro do tanque, caso ele quisesse um lanchinho noturno. Eu me recusava a arriscar um chamado no meio da noite.
Depois de pensar um momento, coloquei também uma bolinha antiestresse e um lenço.
- Pronto - eu disse a Jill. - Comida, brinquedo e uma cama. Está feliz?
O callistana parecia estar. Ele jogou a bola de um lado para o outro algumas vezes e então se enrolou no ninho que eu tinha feito com o lenço. Parecia mais ou menos
satisfeito, exceto pelo fato de que ficava olhando para mim a toda hora.
- Óin - ela disse. - Como ele é fofo. Que nome você vai dar para ele?
Como se eu precisasse de mais uma coisa com que me preocupar.
- O “pai” dele pode dar o nome. Já estou devendo um para o Mustang.
Depois de olhar o callistana encantada por mais um tempo, Jill finalmente foi para seu próprio quarto. Eu me preparei para ir para a cama também, sempre de olho
no dragão. Mas ele não fez nada ameaçador, e eu até consegui dormir, embora tivesse um sono agitado. Ficava imaginando que ele encontraria uma maneira de sair e
viria para a cama comigo. E, claro, também tinha medo de que Veronica viesse atrás de mim.
Acabei atingindo um sono profundo, durante o qual Adrian me levou para um sonho de espírito. Depois da nossa briga de antes, eu sinceramente não esperava vê-lo naquela
noite, o que havia me deixado triste. O salão do casamento se materializou ao nosso redor, mas a imagem tremia e ficava saindo de foco.
- Pensei que não viria - eu disse a ele.
Nada de trajes formais naquela noite. Ele estava usando a mesma roupa de antes, jeans e a camiseta da EIA, embora ambos parecessem um pouco mais amassados. Foi então
que me toquei que era como ele estava no mundo real.
- Achou que eu abandonaria você nas garras da Veronica?
- Não - admiti. - Qual é o problema do salão?
Ele pareceu um pouco envergonhado.
- Meu controle não está muito bom hoje.
Não entendi por quê... no começo.
- Você está bêbado.
- Bebi um pouquinho - ele me corrigiu, se recostando em uma das mesas. - Se estivesse bêbado, nem estaria aqui. E, na verdade, até que está bom depois de quatro
White Russians.
- White o quê? - Fiz menção de sentar, mas estava com medo de que a cadeira se desmaterializasse embaixo de mim.
- É um drinque - ele disse. - Era de se imaginar que eu não gostaria de uma coisa com esse nome, sabe, considerando minha experiência pessoal com russos. Mas eles
são surpreendentemente deliciosos. Os drinques, não os russos. Tem Kahlúa também. Pode ser o drinque que você sempre quis na vida.
- Kahlúa não tem gosto de café - eu disse. - Então nem comece. - Eu estava morrendo de curiosidade de saber por que ele havia bebido. Às vezes, Adrian bebia para
atenuar o espírito, mas ele parecia ainda querer acessar a magia naquela noite. E, claro, durante boa parte do tempo, nem precisava de um motivo. No fundo, fiquei
pensando se nossa briga o teria levado a beber. Não sabia se isso fazia eu me sentir culpada ou brava.
- Eu também precisava vir me desculpar - ele disse e sentou, aparentemente sem medo das cadeiras.
Por um momento, senti um medo inexplicável, achei que ele fosse retirar o que havia dito sobre eu ser uma chama na escuridão para ele. Em vez disso, ele disse:
- Se você precisa ir para o México terminar o processo, eu entendo. Foi um erro criticar você por isso ou sugerir que eu tinha algum poder de decisão nessa história.
Uma das coisas mais incríveis sobre você é que, no fim das contas, sempre toma boas decisões. Nem sempre dá pra dizer o mesmo sobre mim. Decida o que quiser, vou
apoiar você.
Aquelas lágrimas irritantes ameaçaram voltar, e pisquei para que não rolassem.
- Obrigada. Isso significa muito para mim... E, pra falar a verdade, ainda não sei o que vou fazer. Sei que Marcus tem medo que eu acabe me metendo em encrenca e
volte a ficar sob o controle dos alquimistas. Mas, enfim, acho que continuar fazendo parte dos alquimistas me daria mais poder e, além disso... não quero deixar
você. Ahn, vocês.
Ele abriu um sorriso que iluminou todo o seu rosto. Como uma chama na escuridão.
- Bom, “nós” ficamos muito contentes em ouvir isso. Ah, e também será um prazer cuidar do nosso querido filhotinho de dragão enquanto você estiver em St. Louis.
Retribuí o sorriso.
- Como uma pedra ou na forma real?
- Ainda não decidi. Como ele está agora?
- Está trancado num aquário. Acho que eu acordaria se ele subisse na cama comigo, então ainda deve estar dormindo. - Ao menos era o que eu esperava.
- Bom, tenho certeza de que subir na cama com você seria... - Adrian engoliu o comentário que estava prestes a fazer. Em vez disso, apontou para a mesa e um tabuleiro
de Banco Imobiliário apareceu. - Vamos jogar?
Caminhei até a mesa e examinei o tabuleiro, que também parecia ter sofrido com a bebedeira dele, considerando que metade das ruas estava em branco. As que estavam
lá tinham nomes como “travessa Castile” e “avenida Chave de Cadeia”.
- Estão faltando algumas coisas no tabuleiro - eu disse, diplomática.
Adrian não pareceu preocupado.
- Bom, acho que isso melhora as suas chances.
Não pude resistir à provocação e me atrevi a sentar em uma das cadeiras. Sorri para ele e comecei a contar o dinheiro, contente por tudo estar (relativamente) normal
entre nós de novo.
19
Não sei como, mas perdi de novo.
Se Adrian fosse capaz de fazer cálculos de cabeça, poderia jurar que estava usando seus poderes para afetar a maneira como o dado rolava. O mais provável, porém,
era que ele tinha um talento natural e inexplicável para Banco Imobiliário... ou muita, mas muita sorte. Apesar de tudo, foi divertido, e perder para ele era muito
melhor do que ter Veronica me atormentando durante o sono. Ele continuou a me visitar em sonho nos dias seguintes e, embora eu nunca me sentisse completamente a
salvo de Veronica, pelos menos não precisava gastar meus neurônios me preocupando com ela o tempo todo. Essa honra passou a ser da minha viagem para St. Louis no
fim de semana, que chegou antes do que eu imaginava.
Depois que entrei no avião, me dei conta do que estava prestes a fazer. Aquele era o ponto de virada. Na segurança de Palm Springs, eu vinha conseguindo manter uma
postura relativamente calma e controlada. St. Louis parecera muito longe até então. Agora, as tarefas diante de mim pareciam colossais e um tanto malucas. Sem falar
perigosas. Não havia nenhuma parte daquilo que não pudesse me meter em encrenca. Mentir para Stanton. Invadir servidores ultrassecretos. Até mesmo seduzir Ian para
conseguir informações poderia ter consequências.
E, sinceramente, quem era eu para achar que conseguiria seduzi-lo e arrancar segredos dele? Eu não era como Rose ou Julia. Os homens se jogavam aos pés delas. Mas
eu? Eu não tinha o menor traquejo social e o menor jeito com romance. Ian poderia até gostar de mim, mas isso não significava que eu tinha algum poder mágico sobre
ele. Claro, se essa parte do plano fracassasse, eu ficaria livre das outras tarefas.
Aquilo tudo era completamente opressivo e, enquanto eu olhava fixamente pela janela do avião, observando St. Louis se aproximar cada vez mais, meu medo foi crescendo.
Minhas mãos estavam suadas demais para segurar um livro e, quando recusei comida, foi por causa do frio na barriga, não por uma obsessão com calorias.
Não conseguia decidir se ficava em um quarto de hotel ou na própria base, que hospedava alquimistas em visita como eu. No fim das contas, me decidi pelo hotel. Quanto
menos tempo passasse sob o olhar vigilante dos meus supervisores, melhor.
Assim também não teria que me preocupar que minha roupa chamasse muita atenção. Não tinha seguido todas as sugestões de Adrian, mas o vestido que havia comprado
para a viagem era um pouco mais chamativo do que eu usava normalmente no dia a dia. Certo, muito mais chamativo. Teria destoado completamente dos trajes simples
e de cores neutras dos alquimistas. Mas, quando encontrei Ian no saguão do hotel para o jantar, percebi que tinha feito a escolha certa.
- Uau - ele disse, de olhos arregalados. - Você está incrível.
Pelo jeito, os instintos alquimistas dele não se ofenderam com a minha roupa. Era um vestido justo que ia até o meio da coxa, aberto nas costas e com um decote tão
grande que me deixava constrangida, juntando os seios a um ponto que eu nem achava possível. Qualquer modéstia que as mangas longas pudessem oferecer era desfeita
pela combinação de tecidos: um forro bege coberto de renda preta e marrom. Dava a ilusão de que eu não estava usando nada por baixo. A vendedora havia me garantido
que todas as partes do vestido deveriam ficar apertadas daquele jeito (pela primeira vez na vida, eu tinha pedido para experimentar um número maior) e que eu precisava
de um salto de pelo menos dez centímetros para fazer o conjunto funcionar. Com a ajuda de vários grampos, eu tinha até conseguido prender o cabelo em um coque, o
que não era nada fácil com meu corte em camadas.
Fiquei envergonhada enquanto atravessava o saguão, mas ninguém me lançou nenhum olhar estarrecido. Os poucos que recebi foram de admiração. O hotel era bem chique,
e eu era só mais uma entre as várias mulheres usando vestido formal. Nada escandaloso ou fora do comum. Você consegue, Sydney. E usar um vestido revelador não devia
ser tão difícil quanto invadir um servidor, certo?
Certo?
Sorri quando me aproximei de Ian e dei um rápido abraço nele, o que foi estranho - em parte porque era Ian, em parte porque eu me sentia nua naquele vestido. Esse
lance de mulher fatal era mais difícil do que eu imaginava.
- Que bom ver você de novo - eu disse. - Sei como deve ser inconveniente, tão em cima da hora.
Ian sacudiu a cabeça com tanta força que quase esperei ouvir um chocalho.
- Nã... não. Inconveniente nenhum.
Convencida de que ele tinha dado uma boa olhada, vesti meu casaco preto, e apontei para a saída.
- Vamos enfrentar o frio?
Ele correu na minha frente para abrir a porta. Alguns flocos de neve dispersos estavam caindo e pousaram no meu casaco e no meu cabelo. Meu hálito formava uma nuvem
gélida no ar, e tive uma lembrança súbita de atravessar o terreno baldio com Adrian para usar o feitiço de clarividência. Mal sabia eu que procurar Marcus resultaria
em cumprir missões para ele em um vestido justo.
Ian havia parado o carro no estacionamento em frente ao hotel. Ele dirigia um Corolla, que era ainda mais sem graça por ser branco. Um ambientador em formato de
árvore ficava pendurado no espelho retrovisor, mas, em vez de ter o aroma de pinho tradicional, um pequeno rótulo chamava o perfume de “Cheirinho de carro novo”.
Na verdade, fedia a plástico. Assumi uma expressão destemida. Marcus estava definitivamente me devendo uma.
- Fiz uma reserva para nós num restaurante de frutos do mar muito bom - ele disse. - É bem perto da base, então podemos ir para a cerimônia logo depois.
- Parece ótimo - eu falei. Eu nunca comia frutos do mar em um estado tão longe da costa.
O restaurante se chamava Esconderijo Fresco, o que não melhorou muito minha opinião sobre ele. Mesmo assim, eu precisava dar crédito pela tentativa de criar um ambiente
romântico. A maior parte da iluminação vinha de velas, e um pianista no canto tocava músicas agradáveis. Outras pessoas bem-vestidas enchiam as mesas, rindo e conversando
diante de taças de vinho e coquetéis de camarão. O recepcionista nos guiou até uma mesa no canto, coberta por uma toalha bordô e decorada com um ramalhete de orquídeas
verdes. Eu nunca tinha visto uma tão de perto e fiquei sinceramente fascinada com sua aparência exótica e sensual. Se ao menos estivesse ali com qualquer outra pessoa...
Hesitei em tirar o casaco. Fazia com que me sentisse exposta, e precisei me lembrar das consequências da ligação entre alquimistas e guerreiros. Assim que o vestido
foi revelado outra vez, tive o prazer de ver Ian se derreter de novo. Eu me lembrei do conselho de Adrian sobre autoconfiança e abri um sorriso convencido, na esperança
de dar a impressão de que estava fazendo um grande favor a Ian ao permitir que ficasse na minha presença. E, para a minha surpresa total e absoluta, pareceu funcionar.
Inesperadamente me peguei com um pensamento perigoso: talvez não fosse o vestido que tinha poder ali.
Talvez fosse eu.
Abri o cardápio e comecei a procurar uma opção de carne ou frango.
- O que você recomenda?
- O dourado é ótimo - ele disse. - O peixe-espada também.
O garçom parou ao nosso lado, e pedi uma salada Caesar de frango. Imaginei que eles não teriam como errar as anchovas no molho.
Ficamos sozinhos esperando, sem nada para fazer senão conversar. Ian começou:
- Acho que não pode me falar onde está, né?
- Desculpe, mas não posso. Sabe como é. - Passei exatamente meia colher de manteiga num pãozinho. Não queria exagerar, mas poderia me permitir um pouco de prazer
já que havia pedido uma salada. - Posso dizer que estou em campo. Mas não posso contar muito mais.
Os olhos de Ian se desviaram do meu decote e se voltaram para a chama da vela.
- Tenho saudade disso, sabe. Ficar em campo.
- Você ficava, né? O que aconteceu? - Eu não tinha pensado muito sobre isso ultimamente, mas, quando Ian acompanhara Stanton e eu até a corte Moroi, ele havia sido
tirado de seu posto para fazer a viagem. Ele tinha uma missão mais no sul, na Flórida ou na Geórgia, se eu não estivesse enganada.
- O que aconteceu foi que aqueles Moroi nos prenderam. - Ele se virou para mim e me surpreendi com a fúria em seu olhar. - Não lidei muito bem com isso.
- Nenhum de nós lidou.
Ele balançou a cabeça.
- Não, não. Eu realmente não lidei bem. Meio que perdi a cabeça. Eles me mandaram para o controle de raiva depois disso.
Quase deixei o pãozinho cair. Por essa eu não esperava. Se me pedissem para citar dez pessoas que precisavam de controle de raiva, Ian não estaria nem no fim da
lista. Meu pai, por outro lado, estaria perto do topo.
- Por... por quanto tempo você ficou lá? - gaguejei.
- Duas semanas, e depois me deixaram sair.
Eu não sabia a intensidade da raiva que ele havia sentido para ser levado ao controle de raiva, mas achei interessante que duas semanas foram o bastante para os
alquimistas o considerarem pronto para trabalhar de novo. Enquanto isso, o esquema de Keith de usar os Moroi para ganhar dinheiro havia feito com que merecesse pelo
menos dois meses na reeducação - talvez mais, já que eu não ouvia notícias dele fazia tempo.
- Mas eles não me deixaram mais trabalhar em campo - Ian acrescentou. - Acho que não posso ficar perto dos Moroi por um tempo. É por isso que estou preso aqui.
- Nos arquivos.
- Sim.
- Não parece tão ruim - eu disse a ele. Não era totalmente mentira. - Um monte de livros.
- Não se engane, Sydney. - Ele começou a despedaçar o pão de centeio. - Só sou um bibliotecário supervalorizado.
Talvez, mas não era com isso que eu estava preocupada. Minha preocupação era que, segundo Wade, os arquivos ficavam em um andar protegido, logo acima da sala de
vigilância que abrigava as imagens de segurança. Ele havia me desenhado um mapa de cada andar, fazendo questão de que eu memorizasse a planta e os melhores jeitos
de entrar e sair.
- Mesmo assim, eu adoraria ver - eu disse. - Quer dizer, a história que eles contêm é fascinante. - Também não era totalmente mentira. Eu me debrucei, pousando os
cotovelos na mesa, e tive o prazer de ver os olhos dele descerem para o meu decote. Não era tão difícil. Para falar a verdade, não sabia por que não tinha começado
a usar meus “encantos femininos” muito antes. Claro, não sabia que tinha algum encanto feminino até aquele momento. - Você poderia me levar em um tour? Nos arquivos,
especificamente. Você parece o tipo de pessoa com acesso a... muitos lugares.
Ian engasgou com o pãozinho. Depois de um acesso de tosse, olhou para o meu rosto, depois para meu decote (de novo) e depois novamente para meu rosto.
- Hum, eu adoraria, mas não é exatamente aberto ao público... quer dizer, nem mesmo pro público alquimista. Só quem tem autorização especial de pesquisador pode
entrar. Mas podemos visitar as partes de acesso geral do prédio.
- Ah. Entendi. - Baixei os olhos para o prato, fazendo um leve beicinho, mas não disse mais nada. Quando o garçom chegou com a comida, torci para que meu silêncio
estivesse fazendo com que ele reconsiderasse o que poderia estar perdendo.
Por fim, Ian não conseguiu aguentar mais. Ele pigarreou, talvez porque ainda estivesse com pão preso na garganta.
- Bom, talvez eu consiga... sabe, o problema é levar você para os andares de segurança máxima. Se a gente passasse pelo posto de controle, não seria difícil levar
você até os arquivos, ainda mais se eu estiver trabalhando.
- Mas você não pode fazer nada em relação ao posto de controle principal? - provoquei, como se todo homem de verdade devesse ser capaz de fazer isso.
- Não, quer dizer... talvez. Tenho um amigo que trabalha lá. Não sei se ele vai trabalhar amanhã, mas, mesmo assim, talvez possa ajudar. Ele está me devendo uma
grana, então posso usar isso como moeda de troca. Acho.
- Ah, Ian. - Abri um sorriso que esperava ser tão bom quanto o de Marcus. - Que incrível. - Eu me lembrei do que Adrian havia dito. - Vou ficar devendo uma pra você
se fizer isso por mim.
Ele ficou visivelmente contente com a minha reação, e fiquei me perguntando se Adrian estava certo sobre a interpretação de “ficar devendo uma”.
- Ligo pra você hoje à noite, depois da cerimônia - Ian disse. Ele parecia determinado agora. - Tomara que dê certo antes do seu voo amanhã.
Eu o recompensei escutando atentamente a todas as suas palavras pelo resto do jantar, como se nunca tivesse ouvido nada tão fascinante. Enquanto isso, meu coração
estava acelerado com a ideia de que agora eu estava a um passo de cumprir a tarefa de Marcus, a um passo de talvez provar uma conexão entre um bando de fanáticos
armados e a organização a que eu tinha servido toda a minha vida.
A salada era minúscula, então aceitei ver o cardápio de sobremesas depois do prato principal. Ian sugeriu que dividíssemos, mas achei essa ideia um pouco íntima
demais para o meu gosto, sem falar que era anti-higiênica. Acabei comendo uma fatia de torta de limão sozinha, confiante que ainda faltava muito para atingir dois
quilos. Quando Adrian me dissera que eu pareceria mais saudável se ganhasse um pouquinho de peso, ele havia acrescentado que eu poderia aumentar o tamanho do meu
sutiã. Eu nem conseguia imaginar o que isso faria por aquele vestido.
A base alquimista em St. Louis ficava dentro de um complexo industrial gigantesco sob a fachada de uma fábrica. Instituições Moroi - a corte e suas escolas - normalmente
fingiam ser universidades. Era irônico o fato de “criaturas da noite” viverem em meio a jardins lindamente planejados, enquanto “servos da luz”, como nós, se escondiam
em prédios feios e sem janelas.
Dentro, porém, tudo era limpo, reluzente e organizado. Uma recepcionista fez nosso registro de entrada quando chegamos ao guichê principal e nos deu passagem, junto
com muitos outros que haviam chegado para a cerimônia. Havia lírios dourados por toda a parte. Para muitos, era um evento familiar muito animado, e várias crianças
arrastavam seus pais alquimistas. Tive uma sensação estranha ao olhar para aquelas crianças que haviam nascido dentro do mundo alquimista. Fiquei pensando como elas
se sentiriam dali a dez anos. Será que estariam animadas em assumir o desafio? Ou começariam a questionar o que haviam aprendido?
A base tinha três andares acima do nível do solo e cinco abaixo. Seria difícil para pessoas comuns simplesmente entrarem ali, mas, mesmo assim, tomávamos precauções,
mantendo as salas mais normais no andar principal. Enquanto percorríamos o corredor em direção ao auditório, passamos pelo departamento financeiro, de viagem e de
manutenção. Todas as salas tinham janelas abertas que davam para o corredor, mantendo o ideal alquimista de que não tínhamos nada a esconder.
As salas de segurança máxima no subsolo, porém, não eram tão acessíveis.
Eu já tinha visitado aquela base uma vez para um seminário de treinamento, que, aliás, havia acontecido no mesmo auditório em que entramos para a cerimônia. Apesar
do tom espiritual do evento, o salão quase não lembrava uma igreja. Alguém havia se dado ao trabalho de decorar as paredes com guirlandas de sempre-viva enfeitadas
com laços vermelhos e de colocar vasos de bico-de-papagaio no palco. O salão tinha equipamento audiovisual de última geração, incluindo uma tela gigante que dava
uma visão grandiosa de tudo o que acontecia no palco. O auditório era tão bem pensado que até quem estava sentado nos cantos mais extremos tinha uma boa visão, por
isso imaginei que a tela servisse só para dar destaque.
Ian e eu nos sentamos perto do meio do auditório.
- Você não vai tirar seu casaco? - ele perguntou, esperançoso.
Eu é que não deixaria o vestido à mostra naquele retiro de cinza, marrons e colarinhos altos. Além do mais, se continuasse com o casaco, daria algo para ele esperar
ansioso. Adrian se orgulharia da minha capacidade de manipular o sexo oposto... e não pude deixar de imaginar se ele seria capaz de resistir àquele vestido. Claramente,
eu estava ficando autoconfiante demais com meu novo poder.
- Estou com frio - eu disse, apertando o casaco. Era meio ridículo, visto que as luzes do palco e o grande número de pessoas já estavam deixando o salão abafado,
mas imaginei que, como estava frio lá fora, a mentira poderia passar impune.
Para alguém que costuma ser tão fria, até que você consegue esquentar bem rapidinho.
- Sydney? É você?
Congelei, não pela surpresa de ouvir meu nome, mas pela voz que o havia dito. Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Lentamente, desviei os olhos de Ian e
encarei meu pai. Ele estava parado ao nosso lado, usando um casaco de lã pesado, com flocos de neve em seu cabelo loiro-escuro já um pouco grisalho.
- Oi, pai - eu disse. Então, vi quem estava ao lado dele. - Zoe?
Precisei me segurar para não pular em cima dela e lhe dar um abraço. Eu não via nem falava com minha irmã mais nova desde a noite em que tinha sido tirada da cama
e enviada para a missão em Palm Springs. Era a missão que ela achava que eu tinha roubado dela, apesar de todos os meus protestos. Era a missão que a havia afastado
de mim.
Olhei para ela agora, tentando avaliar em que pé estávamos. Ela não demonstrou um ódio ostensivo, como no nosso último encontro, o que era um bom sinal. Infelizmente,
também não estava muito simpática e afetuosa. Parecia estar com um pé atrás, me observando com cuidado, quase com desconfiança. Notei que não tinha um lírio dourado
na bochecha ainda.
- Que surpresa ver você aqui - meu pai disse.
Suas palavras de despedida haviam sido “não me envergonhe”; portanto, não fiquei exatamente espantada com suas baixas expectativas.
- São as festas - eu disse. Forçar um sorriso foi muito mais difícil do que vinha sendo com Ian. - É importante estar com o grupo. Conhece Ian Jansen?
Ian, de olhos arregalados, avançou e apertou a mão de meu pai. Ficou claro que não estava esperando conhecer meus pais tão cedo.
- É um prazer conhecer o senhor.
Meu pai assentiu com gravidade e alternou o olhar de mim para ele. Qualquer surpresa que houvesse tido em me ver ali havia sido superada por me ver com um “namorado”.
Olhando de soslaio para Ian, tentei imaginá-lo através dos olhos de alguém como meu pai. Arrumado, respeitador, alquimista. O fato de que Ian me entediava era irrelevante.
Duvidei que meu pai pensasse muito sobre meus namoros, mas, se pensasse, provavelmente não teria imaginado que eu ficaria com um bom partido como aquele.
- O senhor gostaria de sentar com a gente? - Ian perguntou. Precisava dar crédito a ele: havia superado seu choque inicial e estava agora agindo como um perfeito
pretendente. - Seria uma honra.
A princípio, pensei que estava exagerando. Então percebi que conhecer meu pai poderia realmente ser uma honra. Jared Sage não era nenhum astro do rock, mas tinha
uma reputação entre os alquimistas que, para os padrões deles, era extraordinária. Meu pai pareceu gostar da bajulação e aceitou. Ele sentou ao lado de Ian.
- Sente com a sua irmã - ele disse a Zoe, apontando para mim com a cabeça.
Zoe obedeceu, mas ficou olhando fixo para a frente. Entendi, então, que também estava nervosa. Ao olhar para minha irmã, percebi quanta saudade sentia dela. Havíamos
herdado os olhos castanhos do nosso pai, mas ela tinha o cabelo castanho da nossa mãe, o que me deixava com um pouco de inveja. Zoe também parecia muito mais arrumada
do que da última vez que a tinha visto. Ela estava com um vestido bonito de caxemira marrom-escuro e não tinha um único fio de cabelo fora do lugar. Algo em sua
expressão me incomodou, mas demorei para perceber exatamente o quê. Logo me dei conta. Ela parecia mais velha. Parecia quase adulta, como eu. Imaginei que era besteira
da minha parte ficar triste, visto que ela já tinha quinze anos, mas parte de mim queria que ela continuasse uma menininha para sempre.
- Zoe - eu disse baixinho, embora não precisasse me preocupar que os homens ouvissem. Meu pai estava interrogando Ian. - Faz muito tempo que eu queria falar com
você.
Ela fez que sim.
- Eu sei. A mamãe me fala sempre que você liga. - Mas ela não deu nenhuma desculpa para evitar minhas ligações.
- Desculpe pela maneira como deixei as coisas. Nunca quis magoar você ou puxar seu tapete. Pensei que estava fazendo um favor a você, evitando que se envolvesse.
A boca dela ficou tensa e algo firme brilhou em seus olhos.
- Não ligo de me envolver. Quero me envolver, você sabe disso. E teria sido ótimo! Estar no campo com quinze anos. Eu poderia ter começado uma carreira brilhante.
O papai ficaria orgulhoso.
Escolhi minhas palavras com muito cuidado para não ofendê-la.
- Sim, mas um ano a mais com o papai vai ser realmente, hum, brilhante. Ele tem muita experiência, e você vai ficar feliz por poder aprender o máximo possível antes
de começar, acredite. Mesmo se tiver que esperar por uma missão aos dezesseis, ainda vai estar na nossa frente.
Cada palavra que saía da minha boca fazia com que eu me sentisse mal, mas Zoe pareceu convencida. Eu não ficava incomodada com o fato de ela querer fazer parte da
causa, mas me doía o quão óbvio era que ela só estava fazendo aquilo para impressionar nosso pai.
- Acho que sim. E estou aprendendo muito mesmo. Mas queria ter pelo menos uma experiência em campo, mesmo que não fosse no meu próprio posto. É só teoria com o papai.
Nunca nem vi um Moroi.
- Tenho certeza de que ele vai dar um jeito nisso. - Eu não gostava de encorajar aquilo, mas, pelo menos, ela estava conversando comigo.
As luzes diminuíram, pondo fim à nossa conversa. A música de um órgão encheu o salão, e o aroma de olíbano pairou ao nosso redor. Incenso e resina eram ingredientes
comuns em magia, e minha mente logo começou a fazer associações com o livro de feitiços que eu havia meticulosamente copiado. “Olíbano é usado para curar queimaduras.
Também pode ser usado para lançar feitiços de adivinhação ou purificação...”
Interrompi essa linha de pensamento imediatamente. Embora estivesse quieta, pensar sobre magia no meio de uma cerimônia sagrada dos alquimistas era um sacrilégio.
Me mexi, desconfortável, imaginando o que todas aquelas pessoas pensariam se soubessem a verdade sobre mim: que eu praticava magia e que havia beijado um vampiro...
Os sacerdotes alquimistas eram chamados de hierofantes. Eles davam bênçãos e ofereciam conselhos morais quando necessário. No dia a dia, usavam ternos, mas, para
aquela ocasião, o hierofante principal estava usando mantos que me trouxeram à mente a lembrança desagradável do que alguns dos guerreiros vestiam. Era outro lembrete
de que tínhamos história em comum - e, talvez, um futuro em comum. Marcus estava certo. Aquele era um mistério que eu precisava resolver, qualquer que fosse minha
decisão sobre o rompimento da tatuagem.
Eu havia participado de cerimônias como aquela algumas vezes, e sabia as orações em latim de cor. Cantei com o resto da congregação e ouvi atentamente enquanto o
hierofante reafirmava nossos objetivos, sua voz ecoando pelo sistema de som. Embora a religião alquimista tivesse algumas relações fracas com o cristianismo, havia
pouquíssimas menções a Deus, Jesus ou mesmo o Natal. A maior parte do sermão foi sobre nossa obrigação de ajudar a proteger a humanidade da tentação de seguir os
Strigoi que ofereciam uma imortalidade profana. Essa recomendação, ao menos, não era exagerada.
Eu tinha ouvido histórias sobre - e até visto com meus próprios olhos - o que acontecia quando humanos decidiam servir aos Strigoi. Os Strigoi prometiam transformar
seus servos como recompensa. Esses humanos os ajudavam a espalhar sua maldade e eles próprios se tornavam monstros, mesmo antes da transformação. Manter esses vampiros
nefastos escondidos era para o bem dos humanos fracos, incapazes de se proteger. Prestei ainda mais atenção quando o hierofante mencionou os Moroi em seu sermão,
como um meio para atingir o fim de derrotar os Strigoi. Ele não inspirava sentimentos exatamente carinhosos ou calorosos em relação a eles, mas, pelo menos, também
não clamou a favor da destruição dos Moroi e dampiros.
Concordei com boa parte da mensagem, mas ela não inspirou o mesmo ardor em mim como antigamente. E, quando o hierofante começou a falar com sua voz monótona sobre
dever, obediência e o que era “natural”, comecei a me sentir desligada. Quase desejei que ele falasse mais sobre o divino, como aconteceria na cerimônia de uma igreja
normal. Considerando tudo o que vinha acontecendo na minha vida, não seria mal ter uma ligação com uma força superior. Em alguns momentos, enquanto escutava o hierofante,
pensava se tudo o que ele estava dizendo tinha sido simplesmente inventado por um bando de gente reunida na Idade Média, sem nenhuma ordem sagrada.
Ao fim da cerimônia, estava me sentindo uma traidora. Talvez a brincadeira de Adrian estivesse certa: eu nem precisava de Marcus para romper a tatuagem e minha ligação
com o grupo. Ao olhar para meus companheiros e para os outros alquimistas no salão, ficou claro que eu estava sozinha ali. Todos pareciam cativados pelo sermão,
devotados à causa.
Mais uma vez, me veio a lembrança perturbadora dos guerreiros e sua devoção fanática. Não, não, por mais que os alquimistas possam ser culpados de alguma coisa,
não temos nada a ver com aquele comportamento maluco. E, no entanto... percebi que era um pouco mais complexo do que isso. Os alquimistas não disparavam antes de
perguntar, tampouco faziam com que seus membros lutassem uns contra os outros. Éramos civilizados e racionais, mas tínhamos a tendência de fazer o que nos mandavam.
Era essa a semelhança, e ela poderia ser perigosa.
Meu pai e Zoe saíram comigo e Ian.
- Não foi incrível? - ela perguntou. - Ouvir aquilo... enfim, fico muito contente que o pai decidiu ter mais uma alquimista na família. É bom aumentar nossos números.
Será que essa tinha sido realmente a motivação dele? Ou ele tinha tomado a decisão porque não confiava mais em mim depois que ajudei Rose?
Era irritante que a única conversa que conseguia ter com Zoe girasse em torno da retórica alquimista, mas aceitei, depois do silêncio dos últimos meses. No fundo,
sentia saudade de conversar como antigamente. Eu queria aquilo de volta. Embora ela estivesse um pouco mais animada, aquela velha intimidade que antes existia entre
nós ficara para trás.
- Queria que tivéssemos mais tempo - eu disse, quando nossos grupos estavam prestes a se separar no estacionamento. - Tem tanta coisa que quero dizer a você.
Ela sorriu, e havia uma sinceridade nesse sorriso que me enterneceu. Talvez a distância entre nós pudesse ser reparada.
- Eu também. Desculpe por... enfim, o jeito como as coisas aconteceram. Tomara que a gente se encontre de novo em breve. Eu... estava com saudades.
Isso quase me derrubou, e o abraço dela ainda mais.
- Vamos nos encontrar logo, prometo.
Ian, que meu pai parecia ver agora como futuro genro, me levou de volta para o hotel e não conseguia parar de falar efusivamente sobre como tinha sido incrível conhecer
Jared Sage. Quanto a mim, ainda conseguia sentir o abraço de Zoe na pele.
Ele prometeu que entraria em contato comigo na manhã seguinte sobre o tour pelos arquivos. Então, para a minha confusão, fechou os olhos e se aproximou. Levei um
momento para entender que ele estava esperando um beijo de boa-noite. Sério? Era assim que ele tentava conseguir um beijo? Será que já tinha beijado alguém na vida?
Até Brayden havia demonstrado um pouco mais de paixão. E, claro, nenhum menino chegava aos pés de Adrian nesse quesito.
Como não fiz nada, ele finalmente abriu os olhos. Dei outro abraço nele - com o casaco - e disse ter ficado muito contente por ele ter conhecido meu pai. Ele pareceu
satisfeito com isso.
Adrian fez sua visita noturna depois que dormi. Naturalmente, quis saber os detalhes do vestido. Também ficou tentando descobrir como exatamente eu tinha convencido
Ian e pareceu se divertir com os poucos detalhes que contei a ele. Mas, na maior parte do tempo, eu não conseguia parar de falar sobre Zoe. Adrian logo desistiu
dos outros assuntos e simplesmente ficou ouvindo enquanto eu lhe contava todos os detalhes.
- Ela falou comigo, Adrian! - Andei de um lado para o outro pelo salão do casamento, mexendo as mãos, eufórica. - E não estava brava. No fim, estava até feliz em
me ver. Sabe o quanto isso significa pra mim? Assim, sei que você não tem irmãos, mas ter alguém que você não vê faz tempo aceitar você de volta...
- Não sei como é - ele disse baixinho. - Mas posso imaginar.
Eu estava concentrada demais na minha alegria naquela hora, mas, depois, fiquei pensando se ele estava se referindo à mãe, que estava presa.
- É bom ver você tão feliz - ele acrescentou. - Não que andasse triste, mas estava com muita coisa na cabeça.
Não consegui conter o riso, e parei de andar por um momento.
- Está dizendo que bruxas do mal e espionagem são estressantes?
- Não. - Ele veio na minha direção. - É o nosso dia a dia. Mas estou indo pra cama agora. Acho que você consegue se virar sem mim hoje.
Ele vinha me visitando todas as noites desde o sonho de Veronica. A maioria das viagens era curta agora, mas, mesmo assim, eu sabia que demandava muito esforço e
espírito dele.
- Obrigada. Às vezes parece que nem tenho como agradecer você o bastante.
- Não precisa agradecer, Sage. Boa sorte amanhã.
Certo. Roubar informações ultrassecretas de uma base de segurança máxima.
- Obrigada - repeti. Perdi um pouco da animação, mas não toda. - Aconteça o que acontecer, fazer as pazes com Zoe me fez achar que essa missão valeu a pena.
- Isso é porque você não foi pega. - Ele envolveu meu rosto com as mãos e se aproximou. - Tome cuidado para não deixar isso acontecer. Não quero ter que visitar
você em sonhos na prisão... ou na versão alquimista de uma prisão.
- Ei, pelo menos eu teria a sua companhia, certo?
Ele fez que sim, cabisbaixo, e o sonho desapareceu ao meu redor.
20
Ian me acordou cedo na manhã seguinte com um telefonema. No começo, pensei que talvez quisesse me levar para a base antes que os outros alquimistas acordassem, mas
descobri que ele só queria tomar café. Considerando que era ele quem me daria acesso, não pude recusar. Ele pretendia me levar para a base ainda de manhã, mas o
convenci a irmos lá pelo meio-dia. Isso significava prolongar o café da manhã, mas o sacrifício valeria a pena. No entanto, eu estava usando calça cáqui e blusa
de linho outra vez. Espionagens à parte, vestidos de festa e bufês de café da manhã simplesmente não combinavam. No entanto, me dei ao luxo de abrir dois botões
da camisa. Entrar na base desse jeito era praticamente escandaloso, e Ian pareceu fascinado com o ato de “rebeldia”.
O domingo na base estava muito mais calmo do que a noite anterior. Embora alquimistas nunca tivessem pausas de verdade em suas obrigações, a maior parte da base
funcionava em horário comercial, durante a semana. Não tive problemas em passar pela recepção principal de novo, mas, como previsto, demoramos um pouco para conseguir
entrar na área de segurança máxima. O rapaz em serviço não era o amigo que estava devendo um favor a Ian. Foi preciso esperar que ele saísse da sala dos fundos e,
mesmo assim, Ian precisou insistir bastante para convencer o colega a me deixar entrar. Acho que ficou claro para os dois que Ian só estava tentando me impressionar.
Por fim, o primeiro rapaz aceitou o que parecia ser um passeio inofensivo. Afinal, eu também era uma alquimista, e só estava fazendo um passeio pela biblioteca.
O que poderia dar errado?
Eles revistaram minha bolsa e me fizeram passar por um detector de metal. Eu tinha dois feitiços em mente que poderia realizar sem componentes físicos, então, pelo
menos, não teria que explicar cristais ou ervas. A parte problemática era um pen drive que havia escondido no sutiã. Eles poderiam não questionar se eu estivesse
carregando na bolsa, mas não queria correr o risco de pedirem para retê-lo. No entanto, se o pen drive aparecesse no escaneamento, eu teria muito mais dificuldade
para explicar por que estava escondido. Fiquei tensa ao passar pelo detector, me preparando para correr ou tentar um golpe de Wolfe. Mas, como eu esperava, ele era
pequeno demais para ser detectado e nos deram permissão para entrar. Era um obstáculo a menos, embora isso não me deixasse menos tensa.
- Você acabou trocando isso pelo dinheiro que ele estava devendo a você? - perguntei enquanto Ian e eu descíamos em direção aos arquivos.
- Sim. - Ele fez uma careta. - Tentei trocar por metade do que ele me devia, mas era tudo ou nada pra ele.
- Então quanto este passeio está custando pra você?
- Cinquenta dólares. Mas vale a pena - ele acrescentou, rápido.
O jantar tinha sido mais ou menos o mesmo. Aquele fim de semana estava custando os olhos da cara para Ian, ainda mais porque só eu receberia uma recompensa. Não
pude deixar de me sentir um tanto culpada, e precisei me lembrar várias vezes de que aquilo era por uma boa causa. Teria me oferecido para reembolsar todo aquele
dinheiro, mas algo me dizia que isso ia contra tudo que eu vinha tentando conseguir com meus “encantos femininos”.
Os arquivos eram trancados com fechaduras eletrônicas que se abriram quando Ian passou seu cartão. Quando entramos, quase me esqueci de que aquilo era apenas um
pretexto para o plano maior. Eu estava rodeada por livros, livros e mais livros, além de rolos de papel e documentos escritos em pergaminho. Itens antigos e delicados
ficavam protegidos em caixas de vidro, acompanhados por anotações e plaquetas sobre como acessar suas cópias digitais nos computadores. Dois alquimistas, jovens
como nós, trabalhavam em mesas e transcreviam livros antigos em seus laptops. Uma parecia muito animada com seu trabalho; o outro, entediado. Ele pareceu gostar
da distração quando entramos.
Devo ter feito a expressão admirada como era esperada de mim, pois, quando me voltei para Ian, ele estava me observando com orgulho.
- Bem legal, né? - Pelo jeito, ser um bibliotecário supervalorizado havia se tornado um trabalho muito mais interessante para ele. - Venha.
Ele não precisou falar duas vezes. Começamos a explorar toda a sala de arquivos, que se estendia muito mais além do que eu havia imaginado a princípio. Os alquimistas
prezavam pelo conhecimento, o que ficava claro com aquele acervo, que remontava a séculos atrás. Eu ficava olhando para as prateleiras, querendo ler todos os volumes.
Eles vinham em diferentes línguas e abarcavam uma variedade de tópicos úteis para o ofício: química, história, mitologia, sobrenatural... Era vertiginoso.
- Como vocês organizam? - perguntei. - Como dá para encontrar alguma coisa?
Ian apontou para pequenas plaquetas nas estantes que eu não havia notado. Elas traziam códigos alfanuméricos que não faziam parte de nenhum sistema de arquivamento
que eu conhecia.
- Elas catalogam tudo. E o diretório está aqui.
Ian me levou até um painel sensível ao toque instalado na parede. Toquei nele e apareceu um menu de opções: AUTOR, PERÍODO, TEMA, LÍNGUA. Apertei TEMA e fui levada
por uma série de tópicos cada vez mais específicos até finalmente perceber que estava pesquisando por “magia” na seção de sobrenatural. O painel me deu uma lista
de títulos, cada um com seu próprio código no sistema de organização.
Para a minha surpresa, realmente havia vários livros sobre magia, e fiquei morrendo de curiosidade. Os alquimistas tinham registros de bruxas? Ou era tudo especulação?
O mais provável era que fossem livros moralistas pregando como seria pervertido para humanos tentar aquelas façanhas.
- Posso dar uma olhada em alguns livros? - perguntei. - Sei que não posso ficar sentada lendo a tarde toda, mas é que tem tanta história... só quero fazer parte
disso por um tempinho. Ficaria devendo uma para você.
Para falar a verdade, não achei que a frase funcionaria de novo, mas funcionou.
- Claro. - Ele apontou para uma salinha nos fundos. - Preciso organizar algumas coisas. Me encontra aqui de novo em uma hora?
Agradeci várias vezes e então voltei à tela sensível ao toque. Queria muito investigar os livros de magia, mas precisava me lembrar do motivo de estar ali. Como
já estava nos arquivos, poderia muito bem fazer uma pesquisa que ajudasse a causa. Naveguei pelos menus até encontrar a seção de história antiga dos alquimistas.
Eu tinha esperança de encontrar uma referência a caçadores de vampiro em geral ou aos guerreiros em específico. Não tive essa sorte. O melhor que poderia fazer era
seguir os códigos das várias estantes que detalhavam a formação dos alquimistas. A maioria dos livros era densa e escrita em estilo antiquado. Os mais antigos nem
eram em inglês.
Passei os olhos por alguns e logo percebi que uma tarefa como aquela levaria muito mais do que uma hora. Os livros mais recentes não mencionavam os guerreiros, o
que não era nenhuma surpresa, visto que essas informações agora eram escondidas. Se eu fosse encontrar alguma referência a caçadores de vampiros, seria nos livros
mais antigos. Eles não ofereciam muito em termos de índices e sumários, e eu não tinha como ler tudo. Ao lembrar da minha verdadeira missão ali, coloquei os livros
de lado depois de uns dez minutos e fui atrás de Ian. Aquela tensão de antes retornou, e comecei a suar frio.
- Ei, tem algum banheiro aqui?
Torci para que não tivesse. Eu vira um no corredor quando tínhamos chegado àquele andar. Parte do meu plano dependia de sair dos arquivos.
- Descendo o corredor, perto das escadas - ele disse. Algum problema de trabalho estava exigindo a atenção dele e, com sorte, faria com que não reparasse na hora.
- Bate na porta quando voltar. Vou falar para os escribas abrirem pra você.
Durante todo o dia, eu tinha sentido um frio na barriga que vinha tentando ignorar. Agora não havia como fugir. Era hora do impensável.
Não havia espaço para sutilezas na segurança alquimista. O corredor tinha uma câmera em cada ponta. Elas ficavam voltadas uma para a outra, proporcionando uma imagem
longa e contínua do corredor. Os banheiros ficavam no fim do corredor, quase diretamente embaixo de uma câmera. Entrei no feminino e verifiquei que não havia ninguém
nem câmeras lá dentro. Pelo menos ali os alquimistas permitiam um pouco de privacidade.
Lançar o feitiço de invisibilidade foi fácil. Sair foi um pouco mais complicado. A posição das câmeras me fez pensar que a porta do banheiro era muito rente à parede
para que conseguissem dar uma boa visão dela. A porta se abria para dentro, então consegui sair discretamente, confiante de que nenhuma câmera havia pegado uma porta
se abrindo misteriosamente. O maior problema foi a porta da escada. Ficava no campo de visão de uma das câmeras. A sra. Terwilliger havia dito que o feitiço de invisibilidade
me protegeria de fotos e vídeos. Por isso, não tinha medo de ser vista. Simplesmente precisava correr o risco de a câmera gravar a porta se abrindo sozinha.
Embora soubesse que havia guardas assistindo às imagens das câmeras ao vivo, havia muitas para que eles examinassem todas a cada segundo. Se não aparecesse nenhum
movimento súbito naquela câmera, eu duvidava que algum guarda notaria. E, se as coisas continuassem tranquilas naquele andar, ninguém teria motivo para rever as
imagens. Já o andar de operações... bom, se tudo corresse de acordo com o plano, aquele domingo sonolento estava prestes a ficar muito mais agitado.
Entrei e saí discretamente das escadas, abrindo a porta o mínimo possível. O andar de operações tinha ainda mais segurança do que o de arquivos, com portas pesadas
de aparência industrial que exigiam códigos e cartões de acesso. Eu não tinha a ilusão de que conseguiria invadir alguma delas. Entrar na sala de segurança, assim
como o resto daquela missão, exigia uma estranha combinação de sorte e lógica. O que mais se podia esperar de alquimistas era a pontualidade. Eu sabia como os horários
deles costumavam funcionar. A pausa para o almoço acontecia pontualmente em horas típicas: onze, meio-dia e uma. Esse era o motivo pelo qual eu havia pedido para
Ian marcar nossa visita nesse horário - assim, poderia ficar relativamente certa de que alguns funcionários estariam entrando e saindo da sala. Faltavam cinco minutos
para o meio-dia, e cruzei os dedos para que alguém saísse logo.
No fim das contas, alguém entrou. Um homem veio assobiando pelo corredor. Quando se aproximou da porta, o cheiro de hambúrguer denunciou seu pedido de almoço. Prendi
a respiração enquanto ele passava o cartão e digitava os números. A fechadura soltou um estalo, e ele abriu a porta. Entrei apressada atrás dele e passei pela porta
sem ter de segurá-la ou abri-la mais. Infelizmente, ele parou antes do que eu imaginava, e esbarrei nele. Me afastei imediatamente, e ele olhou ao redor, sobressaltado.
Por favor, não pense que tem uma pessoa invisível aqui. Seria horrível chegar tão longe e ser descoberta logo agora. Felizmente, subterfúgios mágicos não eram a
primeira coisa em que os alquimistas pensavam para justificar algo estranho. Depois de mais alguns segundos de confusão, ele deu de ombros e cumprimentou um dos
colegas.
Wade havia descrito a sala com perfeição. Uma parede era coberta por monitores, alternando entre visões de diferentes câmeras. Alguns guardas ficavam de olho nas
imagens, enquanto outros trabalhavam em computadores. Wade também havia dito qual dos computadores continha os arquivos de que eu precisava. Eu me aproximei dele,
tomando cuidado para evitar outros contatos acidentais. Uma mulher já estava sentada na estação.
- Eu estava pensando em comida tailandesa - ela disse a um dos colegas. - Só preciso terminar esse relatório.
Não! Ela estava prestes a sair para o almoço. Para que o plano desse certo, isso não poderia acontecer. Se ela saísse, o computador travaria, e eu precisava dele
acessível. Ela estava atrasada para o almoço, o que significava que eu tinha que agir logo.
Aquela sala não era livre de vigilância. Até os vigilantes eram vigiados. Felizmente, só havia uma câmera. Escolhi um computador com a tela virada para a câmera
e me posicionei atrás dele. Vários fios saíam de trás do painel e as ventoinhas giravam constantemente lá dentro. Coloquei a mão em cima do painel e fiz mais um
exame rápido. A parte de trás do computador não ficava ao alcance da câmera, mas não seria nada bom se ficasse no campo de visão de alguém. No entanto, todo mundo
parecia ocupado. Era hora de agir.
Criei uma bola de fogo, das menores. Eu a mantive na mão e a pousei junto ao painel. Apesar do tamanho, invoquei o maior calor que consegui. Não exatamente azul,
mas quase lá. Logo surtiu efeito e, em questão de segundos, as cordas e o painel começaram a derreter. O cheiro de plástico queimado chegou até mim, e o computador
começou a soltar fumaça. Foi o suficiente. Fiz a bola de fogo sumir e me afastei correndo do computador. Todos tinham percebido que ele estava queimando a essa altura,
e um alarme disparou. Houve gritos de surpresa, e alguém pediu um extintor de incêndio aos berros. Todos se levantaram de suas cadeiras para olhar, incluindo a mulher
que estava no computador que eu precisava usar.
Não havia tempo a perder. Sentei imediatamente na cadeira e inseri o pen drive. Com luvas, peguei o mouse e comecei a clicar pelos diretórios. Wade não havia conseguido
me ajudar muito nesse aspecto. Tínhamos esperança de que encontrar os arquivos seria intuitivo. Enquanto isso, eu estava plenamente ciente do passar do tempo, e
de que alguém poderia notar um mouse se mexendo sozinho. Mesmo depois de apagar o fogo, os alquimistas continuaram perto do computador fumegante, tentando imaginar
o que teria acontecido. Superaquecimento não era um problema raro, mas uma chama surgindo tão rápido definitivamente era. Aqueles computadores continham informações
extremamente importantes.
Parecia haver milhões de diretórios. Olhei alguns candidatos prováveis, mas nunca chegava a lugar nenhum. Cada vez que ficava sem saída, xingava mentalmente o tempo
perdido. Os alquimistas não ficariam longe por muito tempo. Por fim, depois de muita busca estressante, encontrei um diretório de imagens antigas de vigilância.
Continha pastas ligadas a todas as câmeras do prédio, incluindo uma chamada POSTO DE CONTROLE PRINCIPAL. Cliquei nela e encontrei arquivos nomeados por data. Wade
havia dito que, depois de um tempo, aqueles arquivos eram armazenados, mas o dia de que eu precisava ainda estava lá. As câmeras gravavam um quadro por segundo.
Multiplicado por vinte e quatro horas, isso gerava um arquivo gigantesco, mas não do tamanho que uma filmagem contínua criaria. O arquivo cabia no meu pen drive,
e comecei a transferência.
A conexão era rápida, mas, mesmo assim, era uma transferência e tanto. A tela me disse que ainda faltavam dez segundos. Dez segundos! A dona do computador poderia
voltar a qualquer momento. Eu me dei ao luxo de dar mais uma olhada nos alquimistas. Eles ainda estavam apurando o mistério. O problema de cientistas como nós era
que uma falha tecnológica como aquela era fascinante. Além disso, não passou pela cabeça de nenhum deles considerar uma explicação sobrenatural. Eles ficaram lançando
teorias uns para os outros e começaram a desmontar o computador derretido. A cópia dos arquivos terminou, e me levantei correndo da cadeira, no exato segundo em
que a mulher começou a voltar para lá. Eu estava plenamente preparada para arriscar mais uma “porta fantasma” enquanto os outros estavam distraídos, mas o alarme
de incêndio havia chamado a atenção de outras pessoas no corredor. Alquimistas entravam e saíam com tanta frequência que não vi problema em segurar a porta por tempo
suficiente para passar por ela despercebida.
Praticamente corri de volta para o andar dos arquivos e precisei me acalmar quando entrei no banheiro de novo. Desfiz o feitiço de invisibilidade e esperei que minha
respiração voltasse ao normal. Coloquei o pen drive de volta no sutiã e as luvas de volta na bolsa. Dei uma olhada no espelho e achei que estava parecendo inocente
o bastante para voltar aos arquivos.
Uma escriba me deixou entrar. Era a menina concentrada, e o olhar que me lançou deixou claro que abrir a porta para mim era um desperdício de tempo. Ian ainda parecia
atolado de trabalho, o que foi um alívio. Eu tinha ficado fora tempo demais para uma ida ao banheiro, e estava com medo de que ele estivesse se perguntando onde
eu estava. As coisas teriam sido ainda piores se ele tivesse mandado a menina me procurar, tanto porque eu não estaria no banheiro como porque ela ficaria muito
incomodada com a interrupção. Na seção de história, me sentei com um livro que peguei ao acaso e fiquei fingindo ler. Estava nervosa e inquieta demais para entender
as palavras, por mais que tentasse me acalmar. Os alquimistas não tinham motivo para suspeitar que eu havia causado o fogo. Não tinham motivo para pensar que eu
havia roubado informações. Não tinham motivo para desconfiar que eu estivesse ligada a qualquer parte daquilo.
Passada a uma hora, Ian veio a meu encontro e fingi estar desapontada por ter que ir embora. Na verdade, estava louca para dar o fora daquele prédio o mais rápido
possível. Ele me levou até o aeroporto e não parou de falar sobre a próxima vez em que nos veríamos. Fiquei sorrindo e concordando com a cabeça, como ele esperava
de mim, mas o lembrei de que o trabalho tinha que vir em primeiro lugar e que minha posição era especialmente desgastante. Ele ficou visivelmente decepcionado, mas
não tinha como negar minha lógica. O bem maior dos alquimistas vinha em primeiro lugar. Felizmente ele não tentou um daqueles beijos ridículos de novo, embora sugerisse
que marcássemos uma conversa por vídeo qualquer hora. Falei para ele me mandar um e-mail, embora prometesse a mim mesma que jamais abriria um e-mail dele.
Não relaxei até o avião decolar, quando a possibilidade de ser descoberta pelos alquimistas parecia bem mais baixa. Meu lado mais paranoico ficou com medo de que
houvesse um grupo esperando por mim no aeroporto de Palm Springs, mas, até lá, eu tinha algumas horas de paz.
Eu havia imaginado que simplesmente entregaria o pen drive para Marcus e deixaria por isso mesmo. Mas agora, com o arquivo em mãos, a curiosidade foi mais forte.
Eu precisava solucionar aquele mistério. Será que o Z. J. que havia visitado os alquimistas era mesmo o mestre Jameson?
Com um copo de café na mão, abri o arquivo e comecei a assistir.
Mesmo com um quadro por segundo, o vídeo durou uma eternidade. A maior parte não mostrava nada além de um posto de controle pacato, e os momentos mais interessantes
eram quando os guardas mudavam de posição ou faziam intervalos. Muitos alquimistas entravam e saíam, mas, considerando a duração total do vídeo, eram poucos e esparsos.
Até Ian apareceu uma vez, para começar seu turno.
Eu não estava nem na metade quando o avião começou a descer. Desanimada, me preparei para uma noite com mais do mesmo quando voltasse ao alojamento. Pelo menos conseguiria
fazer um café decente para aguentar aquilo. Quase fiquei tentada a simplesmente jogar o arquivo nas mãos de Marcus no dia seguinte e deixar que ele tivesse o trabalho
de assistir o vídeo... mas aquela vozinha incômoda insistindo para que eu descobrisse a verdade por conta própria acabou vencendo. Não era uma questão de mera curiosidade.
Eu não achava que Marcus fosse realmente fabricar evidências, mas, se pudesse ver com os próprios olhos que...
Lá estava ele na tela.
Ele não estava usando aqueles mantos exagerados, mas não havia como confundir sua barba antiquada. Ele usava roupas casuais de executivo e parecia estar sorrindo
com algo que um homem ao seu lado dizia. O homem tinha um lírio na bochecha, mas não era ninguém que eu conhecia.
Mestre Jameson. Com os alquimistas.
A conspiração de Marcus e dos outros Vingadores tinha dado frutos. Um lado mais desconfiado de mim queria acreditar que aquilo era uma montagem, que talvez eles
tivessem alterado o vídeo e plantado aquilo lá. Mas não. Eu mesma tinha copiado o arquivo de um servidor alquimista. Era possível que Marcus tivesse outros agentes
infiltrados trabalhando para ele, mas aquilo não havia sido fácil para mim, mesmo com a ajuda de magia. Além disso, por que Marcus teria tanto trabalho para me fazer
acreditar naquela história? Se fosse alguma trama perversa para que eu me juntasse a ele, havia vários outros meios que ele poderia ter tentado, com evidências muito
mais fáceis de forjar.
Meus instintos me diziam que aquilo era verídico. Eu não tinha me esquecido das semelhanças entre nossos rituais ou do fato de que os guerreiros queriam que nossos
grupos se unissem. Os alquimistas e os guerreiros podiam não ser melhores amigos ainda, mas alguém havia ao menos concedido uma reunião ao mestre Jameson. A questão
era: o que havia acontecido nessa reunião? Será que o alquimista do vídeo tinha mandado Jameson embora de mãos abanando? Ou será que os dois estavam juntos agora?
Fosse qual fosse o resultado, era uma prova irrefutável de que alquimistas e guerreiros ainda estavam em contato. Stanton me dissera que apenas os vigiávamos e que
não tínhamos interesse em ouvir o que eles tinham a dizer.
Não era a primeira vez que mentiam para mim.
21
Uma parte de mim queria muito que aquilo fosse mentira. Assisti ao vídeo mais três vezes, criando teorias malucas. Talvez mestre Jameson tivesse um irmão gêmeo que
não fosse um fanático que odiava vampiros. Mas não. O vídeo não mentia. Quem mentia eram os alquimistas.
Eu não podia ignorar aquilo. Não podia esperar mais. Precisava resolver esse assunto imediatamente, se não antes.
Enviei uma mensagem para Marcus assim que o avião pousou: Vamos nos encontrar hoje. Sem joguinhos. Sem rodeios. HOJE.
Quando cheguei ao alojamento, ele ainda não havia respondido. O que será que estava fazendo? Relendo O apanhador no campo de centeio? Se eu soubesse em que buraco
ele estava metido, teria ido para lá na mesma hora. Não havia nada a fazer além de esperar, então liguei para a sra. Terwilliger, tanto para me distrair como para
conseguir um pouco de liberdade.
- Nenhuma novidade - ela me disse quando atendeu. - Ainda estamos observando e esperando... mas seu segundo amuleto está quase pronto.
- Não foi por isso que liguei - eu disse. - Preciso que a senhora me consiga uma extensão do toque de recolher hoje. - Eu me sentia mal por usar minha professora
para algo totalmente não relacionado à busca por Veronica, mas precisava falar com Marcus.
- Ah, é? Vai me fazer uma visita surpresa?
- Hum... não. É pra outra coisa.
Ela viu graça naquilo.
- Agora você usa minha assistência para assuntos pessoais?
- Não acha que fiz por merecer? - repliquei.
A sra. Terwilliger riu, algo que eu não a ouvia fazer havia muito tempo. Ela aceitou meu pedido e prometeu ligar para a recepção do alojamento imediatamente. Assim
que desligamos, meu telefone tocou com a resposta de Marcus. Tudo o que a mensagem continha era um endereço que ficava a meia hora de distância. Imaginando que ele
estaria pronto para me atender, apanhei minha bolsa e peguei a estrada.
Considerando meus últimos encontros com Marcus, não teria ficado surpresa se ele me levasse a uma loja de departamentos ou a um bar de karaokê. Em vez disso, me
deparei com uma antiga loja de música, do tipo que vendia discos de vinil. Na porta, estava pendurada uma grande placa em que se lia “FECHADO”, o que era reforçado
pelas janelas escuras e pelo estacionamento vazio. Saí do carro e confirmei o endereço, me perguntando se o GPS havia me levado para o lugar errado. Minha ansiedade
de antes deu lugar ao nervosismo. Como eu estava sendo descuidada! Uma das primeiras lições de Wolfe era evitar lugares perigosos e, no entanto, ali estava eu, me
colocando em risco.
Então, do meio das sombras, ouvi alguém sussurrar meu nome. Me virei na direção do som e vi Sabrina surgir em meio à escuridão, portando uma arma, como sempre. Talvez,
se mostrasse para ela o revólver no meu porta-luvas, pudéssemos ter um momento de afinidade.
- Vá para os fundos - ela disse. - Bata na porta. - Sem dizer outra palavra, ela voltou para as sombras.
A entrada dos fundos parecia o tipo de lugar em que as pessoas pediam para ser roubadas, e fiquei me perguntando se Sabrina viria em meu socorro se fosse preciso.
Bati na porta, quase esperando que me pedissem uma senha do tipo “iguana enferrujada”, como em uma sociedade secreta. Em vez disso, Marcus abriu a porta, já com
um daqueles sorrisos com que sempre esperava me conquistar. Por mais estranho que parecesse, naquela noite me deixou mais à vontade.
- Oi, linda. Pode entrar.
Passei por ele e vi que estávamos no quartinho dos fundos da loja, cheio de mesas, prateleiras e caixas de discos e fitas cassetes. Wade e Amelia estavam encostados
na parede na mesma posição, com os braços cruzados.
Marcus trancou a porta atrás de nós.
- Bom ver você inteira. Pela sua mensagem e pela sua cara, você encontrou alguma coisa.
A raiva que eu vinha guardando desde a minha descoberta explodiu com tudo. Peguei o laptop da bolsa e resisti à vontade de batê-lo com força em cima da mesa.
- Sim! Não consigo acreditar. Vocês tinham razão. Sua teoria mirabolante estava certa. Os alquimistas estão mentindo! Enfim, alguns deles, pelo menos. Sei lá. Metade
não sabe o que a outra metade está fazendo.
Pensei que Marcus fosse fazer algum comentário presunçoso ou, pelo menos, soltar um “eu avisei”. Mas seu rosto bonito estava triste e amargurado, o que me lembrou
da foto que eu tinha visto dele e de Clarence.
- Droga - ele disse baixinho. - Estava torcendo pra você voltar com um monte de vídeos chatos. Amelia, troque de posição com Sabrina. Quero que ela veja isso.
Amelia pareceu decepcionada por ser mandada embora, mas não hesitou em obedecer à ordem. Quando Sabrina voltou, eu estava com o vídeo preparado no tempo certo. Eles
se reuniram ao meu redor.
- Prontos? - perguntei. Eles assentiram, e pude ver o misto de emoções dentro de cada um. Ali estava a evidência da teoria da conspiração que eles tanto queriam
provar. Ao mesmo tempo, as implicações eram arrasadoras, e os três entendiam muito bem o perigo potencial daquilo que estavam prestes a ver.
Comecei o vídeo. Durava apenas alguns segundos, mas eram segundos fortes em que a figura barbada surgia na tela. Ouvi Sabrina respirar fundo.
- É ele. Mestre Jameson. - Ela olhou para cada um de nós. - Esse lugar é mesmo alquimista? Ele esteve mesmo lá?
- Sim - Wade respondeu. - E quem está com ele é Dale Hawthorne, um dos diretores.
Isso ativou minha memória.
- Conheço esse nome. Ele tem o mesmo cargo de Stanton, não é?
- Mais ou menos.
- É possível que ela não saiba de uma visita como essa? - perguntei. - Mesmo na posição dela?
Quem respondeu foi Marcus.
- Talvez. Mas levar um guerreiro ali, mesmo num andar de segurança máxima, é muita coragem. Mesmo que ela não saiba da reunião, pode apostar que outras pessoas sabem.
Se fosse completamente secreto, Hawthorne teria encontrado o mestre em outro lugar. Claro, a lista protegida também significa que não era uma coisa a que todo mundo
tinha acesso.
Então era possível que Stanton não tivesse mentido para mim... pelo menos não sobre o fato de que os alquimistas estavam em contato com os guerreiros. Ela sem dúvida
tinha mentido quando afirmara que os alquimistas não conheciam Marcus, visto que ele dissera ser um personagem famoso entre o alto escalão. Mesmo que ela não soubesse
a respeito de mestre Jameson, isso não mudava o fato de que outros alquimistas - alquimistas importantes - tinham amigos perigosos. Eu poderia nem sempre gostar
dos procedimentos deles, mas sempre quis acreditar que estavam fazendo o bem pelo mundo. Talvez estivessem. Talvez não. Eu já não sabia de mais nada.
Quando tirei os olhos da figura congelada de mestre Jameson, encontrei Marcus me observando.
- Você está pronta? - ele perguntou.
- Pronta pra quê?
Ele caminhou até outra mesa e voltou com uma caixinha. Quando a abriu, vi um pequeno frasco de líquido prateado e uma seringa.
- O que é... Ah. - De repente, entendi. - É o sangue pra romper a tatuagem.
Ele fez que sim.
- Quando elementos são tirados, ocorre uma reação que o deixa prateado. Demora alguns anos, mas, com o tempo, o dourado na sua pele vai ficar prateado também.
Todos estavam olhando para mim com expectativa, e dei um passo para trás.
- Não sei se estou pronta pra isso.
- Por que esperar? - Marcus perguntou, e apontou para o laptop. - Você viu o vídeo. Sabe do que eles são capazes. Vai continuar mentindo para si mesma? Não quer
seguir em frente com os olhos abertos?
- Então... Quero, mas não sei se estou pronta para injetarem uma substância estranha em mim.
Marcus encheu a seringa com o líquido prateado.
- Posso demonstrar na minha tatuagem se fizer você se sentir melhor. Não vai me machucar, e você vai ver que não tem nenhum efeito colateral.
- Não temos certeza se eles fizeram alguma coisa comigo - protestei. Ele tinha um argumento lógico, mas eu ainda estava morrendo de medo de dar aquele passo. Podia
sentir minhas mãos tremendo. - Pode ser um desperdício. Pode ser que não tenha nenhuma compulsão de lealdade em mim.
- Mas você também não tem certeza - ele argumentou. - E sempre tem um pouquinho de lealdade na primeira tatuagem. Não o bastante para fazer de você um robô escravo,
mas enfim. Você não se sentiria melhor sabendo que tudo foi embora?
Eu não conseguia tirar os olhos da agulha.
- Vou me sentir diferente?
- Não. Exceto que vai poder abordar alguém na rua e começar a falar sobre vampiros. - Eu não sabia dizer se ele estava brincando ou não. - Mas aí só mandariam você
para um hospício.
Será que eu estava pronta para aquilo? Será que realmente daria o próximo passo e me juntaria aos Vingadores de Marcus? Eu tinha passado no teste dele, como ele
esperava. E, obviamente, aquele grupo não era inútil. Eles ficavam de olho nos alquimistas e nos guerreiros. Também pareciam querer o melhor para os Moroi.
Os Moroi... ou, mais especificamente, Jill. Não havia me esquecido do comentário de Sabrina de que os guerreiros estavam interessados em uma menina desaparecida.
Quem mais poderia ser além de Jill? E será que esse tal de Hawthorne tinha acesso à localização dela? Será que tinha passado essa informação para mestre Jameson?
E será que essa informação poderia colocar em risco as pessoas ao redor dela, como Adrian, por exemplo?
Eram perguntas para as quais eu não tinha resposta, mas precisava descobrir.
- Certo - eu disse. - Pode fazer.
Marcus não perdeu tempo. Acho que ficou com medo de que eu mudasse de ideia, o que talvez não fosse infundado. Sentei em uma das cadeiras e inclinei a cabeça para
que ele conseguisse encostar na minha bochecha. Wade segurou minha cabeça com cuidado.
- Só pra garantir que você fique parada - ele disse, em tom de desculpas.
Antes que Marcus começasse, perguntei:
- Onde você aprendeu a fazer isso?
Ele estava com uma expressão solene por causa da tarefa, mas minha pergunta trouxe seu sorriso de volta.
- Tecnicamente não vou tatuar você, se é disso que está com medo - ele disse. Na verdade, eu estava com medo de muitas coisas. - São só algumas injeções, como se
estivéssemos retocando.
- E o processo propriamente dito? Como você descobriu? - Eu deveria ter feito essa pergunta antes de sentar na cadeira. Mas não estava esperando fazer aquilo tão
cedo, ou tão de repente.
- Um Moroi amigo meu criou a hipótese. Eu me ofereci como cobaia, e deu certo. - Ele voltou a ficar sério e ergueu a agulha. - Pronta?
Respirei fundo, sentindo como se estivesse à beira de um precipício.
Era hora de pular.
- Sim.
Doía tão pouco quanto o retoque, só algumas picadinhas na pele. Incômodas, mas não exatamente doloridas. Na verdade, o processo nem foi longo, mas pareceu durar
uma eternidade. Enquanto Marcus trabalhava, eu ficava me perguntando: o que estou fazendo? Por fim, Marcus deu um passo para trás e me observou com um brilho nos
olhos. Sabrina e Wade também sorriram.
- Prontinho - Marcus disse. - Bem-vinda ao grupo, Sydney.
Tirei meu espelhinho da bolsa para olhar a tatuagem. Minha pele estava avermelhada por causa das picadas da agulha, mas, se o resto do processo também fosse como
o retoque, a irritação passaria logo. Fora isso, o lírio não parecia diferente.
Eu também não me sentia diferente. Não queria invadir a base alquimista e exigir justiça, nem nada do tipo. Aceitar o desafio dele de falar para alguém de fora sobre
vampiros devia ser o melhor jeito de ver se a tatuagem havia sido alterada, mas eu não estava com vontade de fazer isso também.
- É só isso? - perguntei.
- Só isso - Marcus respondeu. - Depois que selarmos, você não vai ter que se preocupar com...
- Não vou selar.
Todos os sorrisos se fecharam.
Marcus pareceu confuso, como se tivesse ouvido errado.
- Você precisa selar. Vamos pro México no fim de semana que vem. Depois disso, os alquimistas nunca conseguirão pegar você.
- Não vou selar - repeti. - E não vou para o México. - Apontei para o laptop. - Olhe só o que consegui! Se continuar onde estou, posso descobrir outras coisas. Posso
descobrir o que mais os alquimistas e os guerreiros estão tramando juntos. - Poderia descobrir se Jill estava correndo perigo. - Ficar marcada para sempre e virar
uma dissidente seria o fim de todas essas oportunidades. Eu não teria como voltar atrás depois disso.
Acho que Marcus sempre conseguia o que queria, e minha revelação o pegou completamente desprevenido. Wade continuou a discussão.
- Você já não tem como voltar atrás. Deixará um rastro de migalhas atrás de si, Sydney. Olha só o que você fez. Além disso, já fez perguntas sobre Marcus. Mesmo
que não esteja defendendo os Moroi, os alquimistas sabem que você passa muito tempo com eles. E, algum dia, alguém pode perceber que você esteve lá no dia em que
as informações foram roubadas.
- Ninguém sabe que foram roubadas - eu disse prontamente.
- Você acha que ninguém sabe - Wade corrigiu. - Essas coisinhas bastam para levantar suspeita. Continue fazendo mais e você só vai piorar as coisas. Eles vão começar
a notar e é aí que tudo irá pelos ares.
Marcus havia se recuperado do choque inicial.
- Exato. Ouça, se quiser continuar onde está até a gente ir pro México, tudo bem. Pense com calma. Depois disso, você precisa fugir. Vamos continuar trabalhando
de fora.
- Vocês podem fazer o que quiserem. - Comecei a guardar meu laptop. - Eu vou trabalhar de dentro.
Marcus segurou meu braço.
- Você está cavando sua própria cova, Sydney! - ele disse, muito sério. - Vai ser pega.
Livrei meu braço.
- Vou tomar cuidado.
- Todo mundo comete erros - Sabrina disse, falando pela primeira vez em muito tempo.
- Vou correr esse risco. - Pendurei a bolsa no ombro. - A menos que vocês me impeçam à força.
Nenhum deles respondeu.
- Então estou indo. Não tenho medo dos alquimistas. Obrigada por tudo que fizeram por mim. Fico muito agradecida mesmo.
- Eu que agradeço - Marcus disse, enfim. Ele balançou a cabeça para Wade, que parecia prestes a protestar. - Por conseguir o vídeo. Para falar a verdade, não achava
que você fosse conseguir. Pensei que fosse voltar de mãos abanando, mas mesmo assim eu teria rompido a tatuagem pra você. Como prêmio de consolação, sabe. Em vez
disso, você confirmou a impressão que eu tinha: você é incrível. Seria muito útil para nós.
- Bom, vocês sabem como me encontrar.
- E você sabe como nos encontrar - ele disse. - Vamos ficar aqui a semana toda se mudar de ideia.
Abri a porta.
- Não vou mudar de ideia. Não vou fugir.
Amelia me deu tchau quando entrei no carro, sem saber que eu tinha acabado de desafiar seu querido líder. No caminho de volta para Amberwood, fiquei surpresa com
a liberdade que estava sentindo, e não tinha nada a ver com a tatuagem. Era a noção de que eu havia desafiado a todos: os alquimistas, os guerreiros, os Vingadores.
Não servia a ninguém, qualquer que fosse a causa. Era apenas eu, capaz de tomar minhas próprias decisões. Não era algo com que tivesse muita experiência.
E estava prestes a fazer algo drástico. Não tinha falado nada para Marcus e seu grupo porque estava com medo de que fossem mesmo me impedir. Quando voltei para Amberwood,
fui direto para o quarto e liguei para Stanton. Ela atendeu no primeiro toque, o que considerei um sinal divino de que estava fazendo a coisa certa.
- Srta. Sage, que inesperado. Gostou da cerimônia?
- Sim - eu disse. - Foi muito inspiradora. Mas não é por isso que estou ligando. Nós temos um problema. Os Guerreiros da Luz estão atrás de Jill. - Eu não podia
perder tempo.
- Por que eles fariam uma coisa dessas? - Ela pareceu genuinamente surpresa, mas, se havia algo em que eu acreditava com todo o coração, era que os alquimistas sabiam
mentir muito bem.
- Porque sabem que, se o paradeiro de Jill vier à tona, a sociedade Moroi pode desmoronar. O foco deles ainda são os Strigoi, mas eles adorariam que a situação dos
Moroi fosse de mal a pior.
- Entendi. - Eu nunca sabia se ela fazia essas pausas para organizar os pensamentos ou se era só pelo efeito dramático. - E como exatamente você ficou sabendo disso?
- Aquele menino que eu conheço que foi dos guerreiros. Ainda nos damos bem, e ele está com o pé atrás em relação a eles. Ele mencionou ter ouvido falar sobre uma
menina desaparecida que poderia causar vários problemas se fosse encontrada. - Talvez fosse errado colocar Trey no meio daquela mentira, mas eu realmente duvidava
de que Stanton fosse interrogá-lo tão cedo.
- E você imaginou que fosse a Dragomir.
- Claro - exclamei. - Quem mais poderia ser? A senhora conhece outras meninas Moroi? É óbvio que é ela!
- Acalme-se, srta. Sage. - A voz dela era inexpressiva e imperturbável. - Não precisa se exaltar.
- Precisamos agir! Se há uma chance de os guerreiros estarem de olho nela, precisamos tirá-la de Palm Springs imediatamente.
- Essa - ela disse, incisiva - não é uma possibilidade. Foi preciso muito planejamento para colocá-la na posição atual.
Não acreditei nesse argumento nem por um segundo. Metade do nosso trabalho era controlar danos e nos adaptar a situações que mudavam rapidamente.
- Ah, é? E vocês contaram com a possibilidade de aqueles psicopatas caça-vampiros a encontrarem?
Stanton ignorou a indireta.
- Você tem alguma evidência de que os guerreiros realmente têm informações concretas sobre ela? Seu amigo forneceu algum detalhe?
- Não - admiti. - Mas mesmo assim precisamos fazer alguma coisa.
- Não tem nenhum “nós” aqui. - Sua voz inexpressiva se tornou cortante. - Não é você quem decide o que vamos fazer.
Quase protestei, mas me contive. O pavor se instalou em mim. O que eu tinha acabado de fazer? Minha intenção tinha sido levar Stanton a tomar alguma atitude real
ou ver se, sem querer, ela revelaria que sabia de algum contato com os guerreiros. Eu pensara que mencionar Trey me daria credibilidade, considerando que obviamente
não poderia contar o verdadeiro motivo que me fazia temer pela segurança de Jill. No entanto, em algum momento, havia passado de um pedido para uma exigência. Tinha
quase dado uma ordem para ela aos berros. Esse não era o comportamento típico de Sydney. Não era o comportamento típico dos alquimistas. O que era mesmo que Wade
havia dito? Deixará um rastro de migalhas atrás de si, Sydney.
Será que eu agira daquela maneira porque havia rompido a tatuagem?
Aquilo não era uma migalha. Era um pão inteiro. Eu estava à beira da insubordinação e, de repente, pude imaginar a lista de que Marcus sempre me advertia, aquela
que registrava todas as coisas suspeitas que eu andava fazendo. Será que Stanton já estava atualizando essa lista naquele exato momento?
Eu precisava corrigir aquela situação, mas como? Como poderia retirar o que havia dito? Minha mente estava em disparada e levei vários segundos para me acalmar e
começar a pensar racionalmente. A missão. Concentre-se na missão. Stanton entenderia.
- Desculpe - eu disse, por fim. Fique calma. Seja respeitosa. - Só estou... só estou preocupada com a missão. Vi meu pai na cerimônia, sabe. - Esse era um fato que
ela poderia conferir. - A senhora deve ter visto como estavam as coisas na noite em que saí de casa. Como a nossa relação estava mal. Eu... preciso que ele se orgulhe
de mim. Se tudo for pelos ares aqui, ele nunca vai me perdoar.
Ela não respondeu, e torci para que isso significasse que estava ouvindo com atenção... e acreditando em mim.
- Quero fazer um bom trabalho aqui. Quero cumprir nossos objetivos e manter Jill escondida. Mas já houve tantas complicações que ninguém previu... Primeiro Keith,
e agora os guerreiros. Nunca tenho certeza de que ela está completamente protegida, mesmo com Eddie e Angeline. Isso acaba comigo. E... - Eu não era nenhuma atriz
capaz de fingir lágrimas, mas fiz o melhor que pude para fazer uma voz embargada. - E nunca me sinto protegida. Falei para a senhora, quando pedi para ir à cerimônia,
como é terrível estar com os Moroi. Eles estão por toda parte, e os dampiros também. Eu como com eles. Vou para a aula com eles. Estar entre alquimistas nesse fim
de semana salvou a minha vida. Não estou tentando fugir das minhas obrigações. Entendo que precisamos fazer sacrifícios. E agora já não fico tão mal entre eles,
mas às vezes o estresse é insuportável. Por isso, quando ouvi essa história dos guerreiros, perdi o controle... fiquei pensando que poderia fracassar. Desculpe.
Não deveria ter levantado a voz com a senhora. Estava descontrolada, e isso é inaceitável.
Cortei meu discurso e fiquei tensa esperando a resposta dela. Com sorte, tinha falado o bastante para que Stanton desconsiderasse a ideia de que eu fosse uma dissidente.
Claro, eu poderia ter acabado de me fazer passar por uma alquimista completamente fraca e instável que precisava ser retirada daquela missão. Se isso acontecesse...
bom, nesse caso talvez eu teria de aceitar a oferta de Marcus sobre o México.
A pausa típica dela foi especialmente angustiante dessa vez.
- Entendo - ela disse. - Enfim, levarei tudo isso em consideração. Essa missão é de importância crucial, acredite em mim. Suas preocupações foram ouvidas e decidirei
a melhor atitude a ser tomada.
Não era exatamente o que eu queria ouvir, mas, se tudo desse certo, ela seria fiel à sua palavra. Queria muito acreditar que estava sendo sincera.
- Obrigada, senhora.
- Mais alguma coisa, srta. Sage?
- Não, senhora. E... me desculpe, senhora.
- Desculpas anotadas.
Clique.
Eu vinha andando de um lado para o outro enquanto falava e agora fiquei parada encarando o celular. Minha intuição me dizia que realmente tinha feito com que Stanton
tomasse alguma atitude. O mistério era se essa atitude seria benéfica ou catastrófica para mim.
Foi difícil dormir depois do telefonema e, dessa vez, não tinha nada a ver com Veronica. Eu estava agitada demais, nervosa demais com o que havia acontecido com
Marcus e Stanton. Tentei recuperar aquela sensação de liberdade, mas foi só uma faísca dessa vez, fraquejando diante das minhas novas inseguranças. Ainda assim,
era melhor do que nada.
Caí no sono em torno das três. Tive a vaga impressão de que se passaram algumas horas até eu ser tragada para um dos sonhos de Adrian, de volta ao salão da festa
de casamento.
- Finalmente - ele disse. - Estava quase desistindo. Pensei que você fosse passar a noite inteira acordada. - Ele havia parado de usar o terno naqueles sonhos, provavelmente
porque eu sempre aparecia de calça jeans. Naquela noite, ele também estava de jeans, e com uma camiseta preta lisa.
- Eu também. - Retorci as mãos e comecei a andar de um lado para o outro ali também. O nervosismo de antes se transferiu para o sonho. - Aconteceram muitas coisas
hoje à noite.
O sonho parecia real, sólido. Adrian estava sóbrio.
- Você não acabou de voltar? Quanta coisa pode ter acontecido?
Quando contei, ele meneou a cabeça, abismado.
- Caramba, Sage. Com você é tudo ou nada mesmo. As coisas nunca ficam paradas na sua vida.
Parei na frente dele e me apoiei numa mesa.
- Eu sei, eu sei. Você acha que acabei de fazer uma grande besteira? Meu Deus, talvez Marcus estivesse certo e tivesse um pouco de compulsão na tatuagem me forçando
a ser leal. Eu fico livre por uma hora e saio completamente da linha com a minha chefe.
- Você parece ter encoberto seu rastro - ele disse, embora sua testa estivesse um pouco franzida. - Mas eu ficaria desapontado se mandassem você para um lugar menos
estressante. Seria a pior coisa que poderia acontecer, pelo que você disse.
Comecei a rir, mas de nervosismo.
- O que deu em mim? Estava fazendo coisas malucas muito antes de Marcus romper a tatuagem. Encontrar rebeldes, caçar feiticeiras do mal, até comprar aquele vestido!
Gritar com Stanton é só mais uma maluquice numa longa lista. É como falei pra você no Tortas e Tal: não sei mais quem eu sou.
Adrian sorriu e segurou minhas mãos, se aproximando de mim.
- Bom, em primeiro lugar, o especialista em maluquices aqui sou eu, e isso não é nada. E quanto a você, tem sido a mesma guerreira bonita, corajosa, ridiculamente
inteligente e viciada em café desde o dia em que nos conhecemos. - Finalmente ele colocou “bonita” no topo da lista de adjetivos. Não que eu devesse me importar.
- Puxa-saco - zombei. - Você não sabia nada sobre mim quando a gente se conheceu.
- Sabia que era bonita - ele disse. - Só torci para que fosse o resto também.
Ele sempre tinha aquele brilho nos olhos quando elogiava minha aparência, como se estivesse vendo muito além disso. Era intenso e desorientador... mas eu não me
importei. E essa não foi a única coisa que me perturbou. Como ele tinha se aproximado tanto de mim sem que eu percebesse? Era como se tivesse habilidades secretas
de espião. Suas mãos estavam quentes nas minhas; nossos dedos, entrelaçados. Eu ainda tinha um resquício daquela alegria de antes dentro de mim, e estar junto dele
intensificava esse sentimento. O verde de seus olhos estava lindo como sempre, e fiquei me perguntando se os meus tinham o mesmo efeito sobre ele. Havia um pouco
de amarelo-âmbar misturado com o castanho que uma vez ele havia dito que parecia ouro.
Ele é a única pessoa que nunca me diz o que fazer, percebi. Ah, claro, me pedia muitas coisas, sempre bajulando e com muita lábia. Mas não exigia nada de mim, não
como os alquimistas ou Marcus. Até mesmo Jill e Angeline costumavam começar seus pedidos com “Você tem que...”.
- Por falar naquele vestido - ele acrescentou -, ainda não o vi.
Ri baixinho.
- Você não aguentaria.
Ele arqueou a sobrancelha.
- É um desafio, Sage? Eu aguento muita coisa.
- Não considerando o nosso histórico. Sempre que uso alguma roupa minimamente atraente, você perde o controle.
- Não é totalmente verdade - ele disse. - Eu perco o controle com qualquer roupa que você usar. E aquele vestido vermelho não era “minimamente atraente”. Era um
pedaço do céu na terra. Um pedaço do céu vermelho e sedoso.
Eu deveria ter revirado os olhos. Deveria ter dito que não estava ali para fazer o que ele queria. Mas havia algo nos olhos dele e na maneira como me sentia naquela
noite que me fez querer ver a sua reação. Romper a tatuagem não havia mudado nada entre nós, mas, somado a tudo que eu tinha feito naquela semana, me fez criar coragem.
Pela primeira vez, quis correr um risco com ele, apesar de todos os meus velhos argumentos racionais. Além disso, não havia perigo em deixá-lo dar uma olhada.
Manipulei o sonho como ele havia me ensinado. Alguns momentos depois, o vestido curto de renda substituiu o jeans e a blusa. Criei até os saltos, o que aumentou
minha estatura. Ainda não estava tão alta quanto ele, mas o pequeno aumento havia aproximado nossos rostos.
Os olhos dele se arregalaram. Ainda segurando minhas mãos, deu um passo para trás a fim de examinar o conjunto todo. Havia algo de quase tangível na maneira como
seu olhar percorreu meu corpo. Eu praticamente sentia todos os lugares em que seus olhos pousavam em mim. Quando eles voltaram a encontrar os meus, minha respiração
estava arquejante e eu sabia muito bem que não havia muita roupa entre nós. Talvez houvesse sim algum perigo em deixá-lo dar uma olhada.
- Um pedaço do céu? - consegui perguntar.
- Não - ele respondeu. - Do outro lugar. Onde vou arder por pensar o que estou pensando.
Ele se aproximou de mim novamente. Suas mãos soltaram as minhas e passaram para a minha cintura, e notei que não era a única com a respiração pesada. Ele me puxou
para perto, unindo nossos corpos. O mundo era puro calor e eletricidade, denso com a tensão ao nosso redor, e só faltava uma faísca para essa tensão explodir. Eu
estava me equilibrando à beira de outro precipício, o que não era fácil fazer de salto alto.
Pus os braços em torno do pescoço dele e, dessa vez, fui eu quem o puxou para perto.
- Droga - ele murmurou.
- Que foi? - perguntei, sem tirar os olhos dos dele em nenhum momento.
Ele passou as mãos no meu quadril.
- Não era para eu beijar você.
- Não tem problema.
- O quê?
- Não tem problema se eu beijar você.
Era difícil surpreender Adrian Ivashkov, mas consegui quando trouxe sua boca para perto da minha. Eu o beijei e, por um momento, ele ficou pasmo demais para retribuir.
Isso durou, hum, mais ou menos um segundo. Então a intensidade que eu passara a conhecer tão bem voltou com força total. Ele me guiou para trás, me levantando para
que eu sentasse em cima de uma das mesas. A toalha foi empurrada para trás, derrubando alguns copos. Ouvi o que parecia ser um prato de porcelana se espatifando
no chão.
Toda a lógica e a razão que eu costumava ter haviam desaparecido. Não havia nada além de pele e paixão, e eu não mentiria para mim mesma - pelo menos não naquela
noite. Eu o queria. Arqueei as costas, sabendo muito bem que aquilo me deixava vulnerável e que era um convite para ele. Ele aceitou o convite e empurrou minhas
costas sobre a mesa, descendo o corpo sobre o meu. Aquele beijo avassalador passou da minha boca para a nuca. Ele desceu a alça do meu vestido e também do sutiã,
expondo meu ombro e dando a seus lábios mais pele para conquistar. Um copo rolou da mesa e caiu, logo seguido por outro. Adrian parou o beijo e abri os olhos. Ele
estava com um olhar exasperado.
- Uma mesa - ele disse. - Uma droga de uma mesa.
Alguns momentos depois, a mesa havia desaparecido. Eu estava no apartamento dele, na sua cama, e fiquei contente por não haver mais talheres nas minhas costas. Completada
a mudança, seus lábios voltaram a encontrar os meus. A urgência da minha resposta surpreendeu até a mim. Nunca pensei que seria capaz de agir tão instintivamente,
de me afastar tanto da razão que costumava guiar meus atos. Minhas unhas se cravaram nas costas dele, e ele desceu os lábios pelo meu queixo até o meio do meu pescoço.
Continuou descendo até chegar à base do decote do vestido. Soltei um gemido e ele beijou todo o entorno do decote, só o bastante para me provocar.
- Não se preocupa - ele murmurou. - Você vai continuar com o vestido.
- Ah, é? Essa decisão é sua por acaso?
- Sim - ele respondeu. - Você não vai perder sua virgindade em um sonho. Se é que isso é possível. Não quero pensar no lado filosófico da questão. Além do mais,
não precisamos apressar as coisas. Às vezes vale a pena se demorar na jornada por um tempo antes de chegar ao destino.
Metáforas. Era o preço de ficar com um artista.
Eu estava prestes a dizer isso. Mas então sua mão subiu pela minha perna e voltei a me envolver. Eu podia até continuar com o vestido, mas ele não via mal em tomar
algumas liberdades. Aquela mão entrou sob o vestido, subindo pela minha perna até chegar ao quadril. Senti um ardor por dentro e me concentrei completamente no toque
daquela mão. Ela estava se movendo devagar demais, e a segurei, pronta para fazê-la avançar.
Adrian riu e pegou meu punho, tirando a minha mão e a segurando contra os lençóis.
- Nunca pensei que seria mais devagar que você.
Abri os olhos e encontrei os dele.
- Eu aprendo rápido.
Todo aquele ímpeto selvagem e ardente dentro de mim deve ter transparecido, porque ele prendeu a respiração e seu sorriso se desfez. Ele soltou meu punho e segurou
meu rosto nas mãos, aproximando o dele a apenas um centímetro do meu.
- Meu Deus, Sydney. Você é...
O ardor em seus olhos se transformou em surpresa, e ele olhou para cima de repente.
- Que foi? - perguntei, sem saber se aquela era alguma parte estranha da “jornada”.
Ele fez uma careta e começou a desaparecer diante dos meus olhos.
- Estão acordando você.
22
Abri os olhos, tonta pelo choque repentino de ser arrancada do sonho. Meu corpo estava lento e apertei os olhos diante da luz. A lâmpada que eu havia deixado acesa
na noite anterior se somou à luz do sol que passava pela janela, mas meu celular mostrava que ainda era absurdamente cedo. Alguém bateu na porta e percebi que era
isso que tinha me acordado. Ajeitei o cabelo e levantei da cama cambaleante.
- Se ela estiver precisando de um monitor de geografia agora, eu realmente vou para o México - murmurei. Mas não era Angeline que estava atrás da porta quando abri.
Era Jill.
- Acabou de acontecer uma coisa grave - ela disse, entrando rapidamente.
- Não comigo.
Se ela notou minha irritação, não demonstrou. Na verdade, examinando-a mais atentamente, percebi que ela parecia (ainda) não saber do que havia acontecido entre
mim e Adrian. De acordo com o que eu havia aprendido, sonhos de espírito não eram compartilhados pelo laço, a menos que a pessoa que tinha recebido o beijo das sombras
fosse levada diretamente para dentro do sonho.
Suspirei e sentei na cama, querendo voltar a dormir. O calor e a emoção do sonho estavam perdendo a força, e agora só me sentia exausta.
- Qual é o problema?
- Angeline e Trey.
Resmunguei.
- Ai, meu Deus. O que ela fez com ele agora?
Jill sentou na minha cadeira e assumiu um olhar firme e decidido. O que ela estava prestes a falar não devia ser nada bom.
- Ela tentou trazer Trey para o nosso alojamento ontem à noite.
- Como assim? - Eu realmente precisava dormir mais, porque meu cérebro estava tendo dificuldades para entender a lógica daquilo. - Ela não está tão dedicada à nota
de matemática assim... está?
Jill ergueu uma sobrancelha.
- Sydney, eles não estavam estudando matemática.
- Então o que estavam... Ah. Ah, não. - Caí de costas na cama e fiquei olhando para o teto. - Não. Isso não pode estar acontecendo.
- Também tentei repetir isso para mim mesma - ela disse. - Não adiantou.
Eu me virei de lado para encará-la de novo.
- Certo, supondo que seja verdade, está rolando faz quanto tempo?
- Não sei - Jill parecia tão cansada quanto eu, e muito mais exasperada. - Você sabe como ela é. Tentei arrancar respostas dela, mas ela ficou repetindo que não
era culpa dela e que simplesmente tinha acontecido.
- E o que Trey disse?
- Não consegui falar com ele ainda. Ele foi levado embora assim que eles foram pegos. - Ela abriu um sorriso triste. - O bom é que ele vai ter muito mais problemas
do que ela, então não precisamos nos preocupar que ela seja expulsa.
Ah, não.
- Precisamos nos preocupar que ele seja expulso?
- Acho que não. Ouvi histórias de outras pessoas que fizeram isso e só ficaram em detenção por muito tempo ou coisa assim.
Pelo menos isso. E Angeline ficava tanto em detenção que eles teriam ainda mais tempo para ficar juntos.
- Bom, então acho que não há muito o que fazer. Quer dizer, as consequências sentimentais vão ser uma zona, claro.
- Então... - Jill mudou de posição, nervosa. - Era sobre isso que eu queria falar. Sabe, alguém precisa contar ao Eddie...
Eu levantei da cama em um salto.
- Eu é que não vou fazer isso.
- Ah, claro que não. Ninguém esperaria que você fizesse. - Eu não tinha tanta certeza, mas deixei que ela continuasse. - Angeline vai contar. É a coisa certa a fazer.
- Sim... - Eu ainda não tinha baixado a guarda.
- Mas alguém precisa falar com Eddie depois - ela explicou. - Vai ser difícil pra ele, sabe? Não podemos deixá-lo sozinho. Ele vai precisar de um amigo.
- Você não é amiga dele? - perguntei.
Ela ficou vermelha.
- Sim, claro. Mas não sei se seria certo considerando que... enfim, você sabe o que sinto por ele. É melhor ele ter alguém mais racional e objetivo por perto. Além
disso, não sei se faria um bom trabalho.
- Acho que faria um trabalho melhor do que eu.
- Você é melhor nessas coisas do que pensa. Consegue deixar as coisas mais claras e...
Jill parou de falar de repente. Seus olhos se arregalaram e, por um momento, parecia que ela estava vendo algo que eu não conseguia ver. Demorei um momento para
entender. Não só parecia - era exatamente o que ela estava fazendo. Ela estava tendo um daqueles momentos em que ficava em sincronia com a mente de Adrian. Eu a
vi piscar e, lentamente, voltar a se concentrar no meu quarto. Seus olhos se focaram em mim, e ela empalideceu. E assim, de repente, percebi que ela sabia.
Rose havia dito que, às vezes, no laço, era possível observar as memórias recentes de alguém mesmo que você não estivesse sintonizada com o laço naquele momento.
Quando Jill olhou para mim, pude ver que ela havia visto tudo, todas as coisas que tinham acontecido entre mim e Adrian durante a noite. Era difícil dizer qual de
nós estava mais horrorizada. Repassei tudo o que havia feito e dito, todas as posições comprometedoras em que havia me colocado, literal e figurativamente. Jill
havia simplesmente me “visto” fazer coisas que ninguém nunca mais tinha visto... quer dizer, exceto Adrian, claro. E o que ela havia sentido? Como era me beijar?
Passar as mãos dela, quer dizer, dele no meu corpo?
Era uma situação para a qual eu não estava nem um pouco preparada. Minhas indiscrições ocasionais com Adrian também haviam chegado até Jill, mas nós - especialmente
eu - tínhamos ignorado. Naquela noite, porém, havíamos levado as coisas a um nível completamente diferente, que deixava Jill e eu atônitas e sem palavras. Fiquei
aflita por ela ter me visto tão vulnerável e exposta, e meu lado mais protetor estava preocupado com o simples fato de ela ter visto alguma coisa, ponto.
Ficamos olhando uma para a outra, perdidas em nossos próprios pensamentos, mas Jill se recuperou primeiro. Desviando os olhos, ela andou rápido até a porta.
- Hum, acho melhor eu ir embora, Sydney. Desculpe por ter incomodado você tão cedo. Acho que dava para ter esperado. Angeline vai conversar com Eddie ainda de manhã,
então quando tiver um tempo para falar com ele, sabe, seria ótimo. - Ela respirou fundo e abriu a porta, ainda se recusando a me olhar nos olhos. - Preciso ir. Até
mais. Desculpa de novo.
- Jill...
Ela fechou a porta e me afundei na cama, sem conseguir ficar de pé. Era oficial. Todos os resquícios de ardor e desejo que eu sentia por ter ficado com Adrian haviam
desaparecido por completo diante da expressão de Jill. Até aquele momento, não havia entendido verdadeiramente o que significava me envolver com alguém que tinha
um laço. Tudo o que Adrian dizia para mim, ela ouvia. Todo sentimento que ele tinha por mim, ela também tinha. Toda vez que ele me beijava, ela sentia...
Comecei a me sentir enjoada. Como Rose e Lissa haviam lidado com aquilo? Em algum lugar da minha mente atordoada, lembrei de quando Rose me contou que conseguia
bloquear várias das experiências de Lissa, mas que tinha levado alguns anos para aprender a fazer isso. Adrian e Jill estava ligados pelo laço fazia poucos meses.
O choque de saber o que Jill tinha visto lançou uma sombra sobre tudo o que havia de sensual e emocionante naquela noite. Eu me senti exposta. Me senti fácil e vulgar,
ainda mais ao lembrar de como havia provocado as coisas. Aquela sensação de enjoo aumentou, e não houve como evitar a avalanche de sentimentos que se seguiu.
Eu havia me deixado perder o controle, tinha sido tomada pelo desejo. Não deveria ter feito nada daquilo, e não só porque Adrian era Moroi (embora, claro, esse também
fosse um problema). A minha vida girava em torno de razão e lógica, e eu havia jogado ambas pela janela. Esses eram meus pontos fortes e, ao deixá-los de lado, eu
tinha me tornado fraca. Ainda estava arrebatada pela liberdade e pelos perigos por que havia passado na noite anterior, sem mencionar que estava inebriada por Adrian
e por ele ter me dito que eu era bonita e corajosa e “ridiculamente inteligente”. Eu havia me derretido com o olhar dele ao me ver naquele vestido absurdo. Saber
que ele me desejava havia me desnorteado, fazendo com que eu também o desejasse...
Nada daquilo estava certo.
Com grande esforço, levantei e consegui escolher as roupas para o dia. Cambaleei até o chuveiro feito um zumbi e fiquei tanto tempo no banho que perdi o café da
manhã. Não tinha importância. Não teria conseguido comer nada mesmo, não com todas as emoções que estavam fervilhando dentro de mim. Mal falei com as pessoas enquanto
passava pelos corredores, e foi só quando sentei na sala da sra. Terwilliger que finalmente me lembrei que havia outras pessoas no mundo, com seus próprios problemas.
Mais especificamente, Eddie e Trey.
Eu tinha certeza de que eles não estavam tão traumatizados quanto Jill e eu pelos acontecimentos da noite anterior. Mas ficou claro que ambos haviam tido uma manhã
difícil. Nenhum deles falou ou fez contato visual com ninguém. Acho que era a primeira vez que eu via Eddie ignorar o ambiente. O sinal me interrompeu antes que
eu tivesse a chance de dizer alguma coisa, e passei o resto da aula olhando para os dois, preocupada. Eles não pareciam estar prestes a se meter em alguma loucura
movida pela testosterona, o que era um bom sinal. Me senti mal por ambos - especialmente por Eddie, que havia sido o mais enganado - e me preocupar com eles me ajudou
a não pensar no meu próprio drama. Um pouquinho, pelo menos.
Ao fim da aula, quis falar antes com Eddie, mas a sra. Terwilliger me interpelou. Ela me entregou um grande envelope amarelo que parecia conter um livro. Aparentemente,
os feitiços que eu precisava aprender não acabavam nunca.
- Algumas das coisas de que conversamos - ela me disse. - Estude assim que puder.
- Certo. - Guardei o envelope dentro da bolsa e olhei ao redor em busca de Eddie, mas ele já havia ido embora.
Trey estava na minha aula seguinte, e sentei ao lado dele, como sempre. Ele me olhou de esguelha e então desviou os olhos.
- Então - eu disse.
Ele abanou a cabeça.
- Não comece.
- Não vou começar nada.
Ele ficou quieto por alguns segundos e então se virou para mim com o olhar febril.
- Eu não sabia, juro. Sobre ela e Eddie. Ela nunca mencionou e, claro, eles não falam sobre isso aqui. Eu nunca teria feito isso com ele. Você precisa acreditar.
Eu acreditava. Apesar de todos os defeitos de Trey, ele era honesto e tinha um bom coração. Se alguém havia se comportado mal naquela história, era Angeline.
- Na verdade, estou mais surpresa por você ter se envolvido com alguém como ela. - Não precisava elaborar que “alguém como ela” se referia ao fato de ela ser dampira.
Trey enfiou a cabeça na carteira.
- Eu sei, eu sei. É que tudo aconteceu tão rápido. Num dia ela estava atirando um livro na minha cabeça. No outro, a gente estava se pegando atrás da biblioteca.
- Ai. Eu não precisava ficar sabendo dessa parte. - Levantei os olhos e vi que nossa professora de química ainda estava organizando a mesa, o que nos dava mais algum
tempo. - E agora, o que você vai fazer?
- O que você acha? Preciso terminar. Não deveria ter deixado chegar tão longe.
A Sydney de três meses antes teria dito que era óbvio que ele precisava terminar. Mas esta Sydney disse:
- Você gosta dela?
- Sim, eu... - Ele parou e então abaixou a voz. - Acho que amo Angeline. É muita loucura? Depois de só algumas semanas?
- Não... Não sei. Não sou muito boa em entender essas coisas. - Na verdade, queria dizer que era péssima. - Mas, se é assim que você se sente... talvez... talvez
não devesse jogar isso fora.
Os olhos de Trey se arregalaram, e sua tristeza se transformou em choque.
- Você está falando sério? Como pode dizer uma coisa dessas? Mais do que ninguém, você sabe como as coisas funcionam. Vocês têm as mesmas regras que nós.
Eu mal podia acreditar nas minhas próprias palavras.
- O grupo dela não, e eles parecem viver bem.
Por um momento, pensei ver uma faísca de esperança nos olhos dele, mas então ele balançou a cabeça.
- Não posso, Sydney. Você sabe que não. Mais cedo ou mais tarde vai acabar em desastre. Tem um motivo para as nossas raças não se misturarem. E, se algum dia a minha
família descobrir... Cara. Nem consigo imaginar. Eu nunca mais teria como voltar.
- Você quer mesmo voltar?
Ele não respondeu. Em vez disso, disse apenas:
- Não tem como dar certo. Acabou. - Eu nunca o tinha visto tão triste.
A aula começou e pôs fim à nossa conversa.
Não vi Eddie no restaurante na hora do almoço. Jill estava sentada com Angeline numa mesa no canto e parecia estar dando um forte sermão. Ela poderia não se sentir
à vontade consolando Eddie, mas pelo jeito não tinha problema algum em defendê-lo. Eu não queria ouvir as justificativas de Angeline ou olhar nos olhos de Jill,
então peguei um sanduíche e fui comer do lado de fora. Não tinha tempo para procurar Eddie no restaurante do alojamento masculino, por isso mandei uma mensagem.
Quer tomar café depois?
Não fique com pena de mim, ele respondeu. Eu não achava nem que ele fosse responder, então já era alguma coisa.
Só quero conversar. Por favor.
A mensagem seguinte não veio tão rápido, e quase pude imaginar a batalha mental que ele estava travando. Tá, mas depois do jantar. Tenho um grupo de estudos. Um
momento depois, acrescentou: Mas não no Spencer’s. Trey trabalhava no Spencer’s.
Agora que o drama de Angeline podia esperar, voltei à confusão que era minha própria vida amorosa. Não conseguia tirar a expressão de Jill da cabeça. Não conseguia
me perdoar por ter perdido o controle. E, agora, estava com as palavras de Trey ecoando na minha mente. Mais cedo ou mais tarde vai acabar em desastre. Tem um motivo
para as nossas raças não se misturarem.
Como se invocado pelos meus pensamentos, Adrian me mandou uma mensagem. Quer pegar o dragão hoje?
Eu tinha me esquecido completamente do callistana. Ele ficara com Adrian enquanto eu estava em St. Louis, e agora era a minha vez. Como Adrian não conseguia transformá-lo
de volta em quartzo, o dragão tinha ficado em sua verdadeira forma durante todo o fim de semana.
Pode ser, respondi.
Senti um frio na barriga quando fui até a casa dele mais tarde. Eu tivera o resto do dia para pensar sobre minhas alternativas e finalmente me decidi por uma das
mais extremas.
Quando ele abriu a porta, seu rosto estava iluminado... até ver o meu. Sua expressão ficou ao mesmo tempo triste e exasperada.
- Ah, não - ele disse. - Lá vem.
Entrei.
- Lá vem o quê?
- Você dizendo que o que aconteceu ontem à noite foi um erro e nunca mais pode se repetir.
Desviei os olhos. Era exatamente o que eu ia dizer.
- Adrian, você sabe que não tem como dar certo.
- Porque Moroi e humanos não podem ficar juntos? Porque você não sente o mesmo que eu sinto por você?
- Não - respondi. - Quer dizer, não só é isso. Adrian... Jill viu tudo.
Ele pareceu levar alguns segundos para entender.
- Como ass... Ah. Droga.
- Pois é.
- Eu nem tenho pensado mais nisso. - Ele sentou no sofá e ficou olhando para o nada. O callistana entrou correndo na sala e se empoleirou no braço do sofá. - Quer
dizer, sei que acontece. Até conversamos sobre isso em relação a outras garotas. Ela entende.
- Entende? - exclamei. - Ela tem quinze anos! Você não pode fazer a menina passar por isso.
- Você até podia ser inocente aos quinze, mas Jill não é. Ela sabe como as coisas funcionam.
Não conseguia acreditar nos meus próprios ouvidos.
- Mas não sou uma das outras garotas! Vejo Jill todo dia. Sabe como é difícil olhar para a cara dela, sabendo que ela me viu fazendo aquilo? Ai, meu Deus, e se tivessem
acontecido outras coisas?
- Então o que isso quer dizer, exatamente? - ele perguntou. - Você finalmente tinha mudado de ideia e agora vai terminar as coisas por causa dela?
- Beijar você não é “mudar de ideia”.
Ele me olhou longamente.
- Não foi só um beijo, srta. Eu Aprendo Rápido.
Tentei não demonstrar como me sentia envergonhada dessa frase.
- É exatamente por isso que acabou. Não vou deixar Jill ver uma coisa dessas de novo.
- Então você admite que poderia voltar a acontecer.
- Teoricamente, sim. Mas não quero correr o risco.
- Então vai simplesmente evitar ficar sozinha comigo?
- Vou evitar você, e ponto. - Respirei fundo. - Vou pro México com Marcus.
- Como assim? - Adrian se levantou em um salto e veio até mim. Recuei imediatamente. - E aquela história de trabalhar disfarçada?
- Isso só funciona se eu continuar disfarçada! Acha que vou conseguir isso me encontrando com você às escondidas?
- Você já passa metade do tempo comigo! - Não sabia se ele estava bravo ou não, mas estava visivelmente chateado. - Ninguém percebe. Vamos tomar cuidado.
- Basta um deslize - eu disse. - E não sei mais se consigo confiar em mim mesma. Não posso correr o risco de os alquimistas descobrirem sobre nós. Não posso expor
Jill ao que faríamos juntos. Eles vão mandar outro alquimista pra cuidar dela e, se tudo der certo, Stanton vai tomar uma atitude em relação aos guerreiros.
- Jill sabe que não posso deixar minha vida de lado.
- Mas você precisa - retruquei.
Agora ele ficou bravo.
- E você sabe disso porque é especialista em negar a si mesma as coisas que quer. E agora vai fugir do país para garantir que nunca mais vai ser feliz.
- Exatamente. - Fui até o callistana e recitei o encantamento que o retornava à forma inerte. Coloquei o cristal dentro da bolsa e criei coragem para lançar o olhar
mais frio possível para Adrian. Deve ter sido forte porque ele parecia ter levado um tapa na cara. Ver a dor em seu rosto partiu meu coração. Eu não queria ferir
os sentimentos dele. Não queria deixá-lo para trás. Mas que escolha eu tinha? Muita coisa estava em risco.
- Não tem mais volta - eu disse. - Tomei minha decisão, Adrian. Vou embora neste fim de semana, então, por favor, não torne as coisas mais difíceis do que já são.
Queria que continuássemos amigos. - Meu tom fez parecer que estávamos fechando um negócio.
Caminhei até a porta e Adrian correu atrás de mim. Não conseguia suportar a agonia no rosto dele e precisei de toda a minha força de vontade para não desviar os
olhos.
- Sydney, não faz isso. Você sabe que é um erro. No fundo, você sabe.
Não respondi. Não consegui responder. Fui embora, me obrigando a não olhar para trás. Estava com muito medo de que minha determinação vacilasse, e era exatamente
por isso que precisava ir embora de Palm Springs. Não estava mais segura perto dele. Ninguém deveria ter o direito de exercer esse poder sobre mim.
Tudo o que queria era me esconder no quarto e chorar. Por uma semana. Mas nunca havia descanso para mim. Tudo girava em torno dos outros, e meus próprios sonhos
e sentimentos eram deixados de lado. Por isso, eu não estava na melhor posição para dar conselhos amorosos a Eddie quando nos encontramos naquela noite. Felizmente,
ele estava absorto demais nas próprias emoções para perceber as minhas.
- Nunca deveria ter me envolvido com Angeline - ele me disse. Estávamos num café do outro lado da cidade. Ele havia pedido um chocolate quente e mexia nele fazia
quase uma hora.
- Você não sabia - eu disse. Era difícil manter minha parte da conversa quando eu ficava me lembrando da dor nos olhos de Adrian. - Você não tinha como saber, ainda
mais no caso dela. Ela é imprevisível.
- E é por isso que eu não deveria ter me envolvido. - Ele finalmente pousou a colher na mesa. - Relacionamentos são perigosos mesmo quando você não se envolve com
uma pessoa como ela. E eu não tenho tempo pra esse tipo de distração! Estou aqui por Jill, não por mim. Nunca deveria ter me deixado envolver nessa história.
- Não tem nada de errado em querer ficar com alguém - eu disse, diplomática. A menos que essa pessoa vire seu mundo de ponta-cabeça e faça você perder o controle.
- Talvez quando me aposentar eu tenha tempo. - Não consegui perceber se ele estava falando sério. - Mas não agora. Jill é minha prioridade.
Eu não tinha por que me fazer de cupido, mas precisava tentar.
- Você já pensou seriamente em ficar com Jill? Sei que gostava dela. - E tinha certeza absoluta de que ainda gostava.
- Isso está fora de questão - ele disse com firmeza. - Como você sabe muito bem. Não posso pensar nela desse jeito.
- Ela pensa em você desse jeito. - As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse me conter. Depois do meu próprio desastre amoroso naquele dia, uma parte
de mim queria muito que pelo menos alguém fosse feliz. Não queria que ninguém sofresse como eu.
Ele congelou.
- Ela... Não. Não pode ser.
- Sim.
Toda uma gama de emoções passou pelos olhos de Eddie. Incredulidade. Esperança. Alegria. E, então... resignação. Ele pegou a colher de novo e voltou a mexer o chocolate
compulsivamente.
- Sydney, sabe que não posso. Mais do que ninguém, você sabe como é preciso se focar no trabalho. - Essa era a segunda vez naquele dia que alguém me falava “mais
do que ninguém, você...”. Acho que todo mundo tinha uma ideia preconcebida de mim.
- Você deveria pelo menos tentar - eu disse. - Olhe bem pra ela da próxima vez que estiverem juntos. Veja como ela reage.
Parecia que ele ia tentar, o que considerei uma pequena vitória. De repente, seu rosto ficou alerta.
- O que aconteceu com você e Marcus? A viagem pra St. Louis. Você descobriu alguma coisa sobre Jill?
Escolhi o que diria a seguir com muito cuidado, tanto porque não queria preocupá-lo como porque não queria que ele tomasse nenhuma atitude drástica que, mesmo sem
querer, acabaria revelando minhas transações com Marcus.
- Descobrimos algumas evidências de que os guerreiros falaram com os alquimistas, mas nada que mostre que estejam trabalhando juntos ou que realmente tenham planos
em relação a ela. Também tomei algumas atitudes pra garantir que ela fique protegida.
Ainda não tinha ouvido nenhuma notícia de Stanton e não tinha certeza se essa última parte daria resultados. Mas Eddie pareceu aliviado e eu não queria estressá-lo
ainda mais naquele dia. Seu olhar passou para algo atrás de mim e ele colocou o chocolate quente ainda intacto sobre a mesa.
- Está na hora de ir.
Olhei para o relógio atrás de mim e vi que ele tinha razão. Ainda tínhamos tempo de sobra antes do toque de recolher, mas não queria arriscar. Terminei meu café
e o segui até a saída. O sol estava sumindo no horizonte, colorindo o céu de vermelho e roxo. A temperatura tinha finalmente abaixado para níveis normais, mas aquilo
ainda não parecia inverno para mim. Havia vários carros mal estacionados em frente ao café, por isso eu havia parado o Pingado nos fundos, a fim de evitar que alguma
pessoa descuidada batesse nele ao abrir a porta.
- Obrigado pelo apoio moral - Eddie disse. - Às vezes você realmente parece uma irmã...
Foi então que meu carro explodiu. Quer dizer, mais ou menos.
Preciso admitir que a reação de Eddie foi incrível. Ele me jogou no chão, protegendo meu corpo com o dele. A explosão havia sido ensurdecedora, e gritei quando uma
espécie de espuma caiu na minha cara.
Espuma?
Eddie se levantou com cautela, e fiz o mesmo. Meu carro não tinha explodido em chamas nem nada assim. Em vez disso, estava cheio de uma substância branca que tinha
estourado com tanta força que havia derrubado as portas e quebrado as janelas. Nos aproximamos da lambança e, atrás de nós, ouvi pessoas saindo do café.
- Que porra foi essa? - Eddie perguntou.
Toquei na espuma em meu rosto e a examinei na ponta dos dedos.
- É aquilo que tem dentro do extintor de incêndio - respondi.
- Mas como é que foi parar no seu carro? - ele perguntou. - E tão rápido? Olhei pra ele quando a gente estava saindo. Você que é a especialista em química. Será
que podia acontecer uma reação tão rápido?
- Talvez - admiti. Naquele momento, estava chocada demais para realmente pensar em alguma fórmula. Passei a mão no capô do Pingado e quis chorar. Eu estava à beira
de um ataque de nervos. - Meu pobre carro. Primeiro o do Adrian, agora o meu. Por que as pessoas fazem coisas assim?
- Os vândalos não se importam - disse uma voz atrás de mim. Olhei para trás e vi um dos baristas, um homem mais velho que imaginei ser o dono do café. - Já vi coisas
assim antes. Malditos pirralhos. Vou ligar pra polícia por você. - Ele pegou o celular e se afastou.
- Não sei se vamos conseguir chegar antes do toque de recolher agora - eu disse a Eddie.
Ele me deu um tapinha solidário nas costas.
- Acho que, se você mostrar o boletim de ocorrência no alojamento, eles vão entender.
- É, tomara que... Ai. A polícia. - Corri para o lado do passageiro e encarei a parede de espuma, desolada.
- Qual é o problema? - Eddie perguntou. - Além do óbvio, quer dizer.
- Preciso mexer no porta-luvas. - Abaixei a voz. - Tem uma arma lá dentro.
Ele não acreditou no que ouviu.
- O quê?
Eu não disse mais nada, e ele me ajudou a abrir caminho em meio à espuma. Estávamos ambos cobertos por ela quando cheguei perto do porta-luvas. Depois de confirmar
que não havia ninguém atrás de nós, peguei a arma rápido e a coloquei discretamente dentro da bolsa. Estava prestes a fechar o porta-luvas quando algo brilhante
chamou minha atenção.
- Impossível - eu disse.
Era a minha cruz, a dourada que eu havia perdido. Eu a peguei e derrubei imediatamente, gritando de dor. O metal havia me queimado. Considerando que a substância
da espuma era fria, não parecia provável que tivesse esquentado a cruz. Envolvi a mão na manga da camisa e voltei a pegar a cruz com cuidado.
Eddie espiou por sobre meu ombro.
- Você sempre usa essa cruz.
Fiz que sim com a cabeça e continuei olhando fixamente para ela. Uma sensação terrível tomou conta de mim. Achei um paninho na bolsa e embrulhei a cruz antes de
guardá-la. Então, peguei o celular e liguei para a sra. Terwilliger. Caixa postal. Desliguei sem deixar mensagem.
- Qual é o problema? - Eddie perguntou.
- Não sei direito - respondi. - Mas acho que não é nada bom.
Eu ainda não havia desenvolvido a capacidade de sentir resíduos mágicos, mas tinha quase certeza de que algo tinha sido feito com a cruz, algo que resultara na morte
espumosa do Pingado. Alicia não havia conseguido encontrar a cruz. Será que Veronica tinha voltado ao hotel e a pegado? Se sim, como havia me localizado? Eu sabia
que itens pessoais poderiam ser usados para rastrear alguém, embora os mais comuns fossem fios de cabelo e pedaços de unha. Para uma bruxa tão avançada quanto Veronica,
no entanto, era provável que um objeto como aquele pudesse servir também.
Veronica podia ter me encontrado. Mas, nesse caso, por que destruir meu carro em vez de sugar minha vida?
A polícia chegou logo depois e anotou nossos depoimentos. Em seguida chegou o guincho. Pude ver pelo rosto do motorista que não havia muitas esperanças para o Pingado.
Ele levou meu pobre carro embora e, depois, um dos policiais fez a gentileza de nos levar de volta a Amberwood. Contra todas as previsões, conseguimos chegar a tempo.
Assim que entrei no quarto, tentei ligar para a sra. Terwilliger de novo. Ela não atendeu.
Esvaziei minha bolsa em cima da cama e vi que havia juntado vários itens ao longo do dia. Um deles era uma rosquinha que havia pegado no café. Coloquei no aquário
junto com o cristal de quartzo e invoquei o callistana. Ele logo saiu correndo atrás da rosquinha.
Peguei a cruz e vi que agora estava fria. Qualquer que fosse o feitiço que havia sido usado nela, já havia se desfeito. A arma estava ao lado dela, e logo a escondi
dentro da bolsa outra vez. Restou o envelope da sra. Terwilliger, que eu havia ignorado o dia todo. Talvez, se não estivesse tão distraída com questões pessoais,
poderia ter salvado o Pingado.
Peguei o livro de feitiços e senti alguma coisa sacudir dentro do envelope. Era outro envelope menor. Nele, havia uma mensagem da sra. Terwilliger: Aqui tem outro
amuleto para disfarçar suas habilidades mágicas, só por precaução. É um dos mais poderosos que existem e exigiu muito trabalho, então tome cuidado com ele.
Senti aquela culpa familiar que me atacava sempre que ela me ajudava tanto. Abri o envelope menor e encontrei um pendente prateado de estrela com olivinas. Levei
um susto.
Eu já tinha visto aquele amuleto - aquele amuleto poderoso e feito com cuidado para esconder fortes habilidades mágicas.
Eu o tinha visto no pescoço de Alicia.
23
Por um momento, achei que devia ser coincidência. Afinal, o que havia de tão especial numa estrela com olivinas? Alicia poderia ter simplesmente nascido em agosto
e ter a pedra do seu mês de nascimento em meio àquela balbúrdia de colares que sempre usava. No entanto, se havia algo em que eu acreditava mais do que nunca, era
a crença de Sonya de que não existem coincidências no nosso mundo.
Sentei no chão e tentei encontrar a lógica naquilo tudo. Se o amuleto que Alicia usava era igual àquele, significava que ela também era uma poderosa usuária de magia
tentando esconder suas habilidades. Será que sabia a respeito de Veronica? Será que estava tentando se proteger? Se sim, ela não teria agido de maneira tão despreocupada
com o fato de Veronica estar na pousada. Logo, ou Alicia não sabia quem realmente era Veronica (o que seria mais uma coincidência suspeita) ou estava acobertando
Veronica.
Será que Alicia estava aliada a Veronica?
Essa me pareceu a resposta mais provável. Embora Veronica atacasse usuárias de magia jovens e poderosas, era plausível que visse vantagens em ter uma como assistente.
E, como havíamos notado, ela tinha vítimas de sobra para escolher. Assim, Alicia poderia ajudar e acobertar seus planos perversos, como quando um casal curioso chegasse
fazendo perguntas.
Soltei um resmungo. Alicia esteve brincando com a gente desde o começo. Desde o segundo em que entramos pela porta com histórias sobre nosso aniversário de namoro
e nossa “amiga” Veronica, ela sabia que estávamos mentindo. Sabia que não éramos realmente amigos de Veronica, e pode ter sido poderosa o bastante para impedir parte
da compulsão de Adrian. Ela havia fingido acreditar em tudo, sendo prestativa a ponto de me ligar quando Veronica tinha voltado. Eu já não sabia o que era verdade.
Não fazia ideia se Veronica tinha chegado a ir embora ou voltado depois. Tinha, porém, uma suspeita crescente de que meu carro não era o único que ela havia incapacitado.
Eu conseguia entender que ela havia usado a cruz para me encontrar, mas como localizara o Mustang? Quebrei a cabeça tentando achar alguma informação que pudesse
ter nos identificado. A magia de espírito de Adrian havia confundido nossas aparências, acobertando qualquer ligação a nós. Então me lembrei. Alicia havia nos levado
até a saída e admirado o Mustang. Uma pessoa inteligente, alguém que já estivesse alerta por causa da nossa visita, poderia ter anotado a placa e usado a informação
para rastrear Adrian.
Mas por que furar os pneus? Para nos atrasar, claro. Lynne havia sido atacada naquela noite. E chegamos tarde demais para avisá-la.
Quanto mais eu repensava os acontecimentos das últimas semanas, mais começava a perceber que havíamos sido muito, muito descuidados. Havíamos acreditado que estávamos
sendo muito cuidadosos em nos esconder de Veronica. Ninguém, nem mesmo a sra. Terwilliger, havia considerado que ela poderia ter uma cúmplice com a qual também deveríamos
ficar atentos. E os pesadelos... haviam começado no dia em que Adrian e eu deitamos na cama de veludo. No dia em que minha granada escorregara, o que poderia ser
o bastante para que Alicia sentisse a presença de uma usuária de magia na pousada.
Aquilo me levou de volta ao presente. A sra. Terwilliger. Precisava contar a ela o que havia descoberto. Liguei pela terceira vez. Ela não atendeu de novo. Embora
sempre imaginasse a sra. Terwilliger realizando rituais noturnos, era inteiramente plausível que ela já estivesse na cama àquela altura. Será que uma coisa dessas
poderia esperar até a manhã?
Logo decidi que não. Não podia. Estávamos lidando com usuárias de magia perigosas e violentas, e meu carro tinha acabado de ser atacado. Algo podia estar acontecendo
enquanto eu ficava ali parada, tentando decidir. Eu teria que acordá-la... se é que conseguiria chegar até ela.
Levei só um segundo para tomar minha próxima decisão. Liguei para Adrian.
Ele atendeu no primeiro toque, mas pareceu desconfiado, o que era justo depois do que eu havia feito naquele dia.
- Alô?
Torci para que ele fosse o cara nobre que achava que ele era.
- Adrian, sei que as coisas estão mal entre nós e que talvez eu não tenha o direito de pedir, mas preciso de um favor. É sobre Veronica.
Ele não hesitou.
- Do que você precisa?
- Você pode vir para Amberwood? Preciso da sua ajuda pra transgredir o toque de recolher e sair do alojamento.
Houve alguns segundos de silêncio.
- Sage, faz dois meses que estou esperando você dizer essas palavras. Quer que eu leve uma escada?
O plano já estava se formando na minha cabeça. Os guardas que patrulhavam à noite ficavam de olho no estacionamento estudantil, mas o terreno nos fundos quase não
era vigiado.
- Consigo sair sozinha do prédio. Se você vier pela estrada e não pegar a entrada principal, vai ver uma estradinha de serviço que sobe a colina e passa atrás do
meu alojamento. Estacione ali, perto do barracão de ferramentas, e encontro você assim que sair.
Quando ele respondeu, sua voz estava séria.
- Queria muito acreditar que você está me chamando para alguma aventura noturna incrível, mas não está, né? Deu alguma coisa errada.
- Muito errada - concordei. - Explico pra você no carro.
Rapidamente, vesti uma calça jeans limpa e uma camiseta, colocando por cima um casaco leve de camurça contra o frio da noite. Por segurança, também decidi pôr alguns
suprimentos na bolsa. Se tudo desse certo, só avisaria a sra. Terwilliger e voltaria ao alojamento. Mas, considerando como as coisas andavam nos últimos tempos,
não podia supor que seria tão simples. Levar a maleta dessa vez não seria nada prático, então tive que tomar algumas decisões rápidas sobre as substâncias químicas
e os componentes mágicos de que poderia precisar. Enfiei alguns na bolsa e outros nos bolsos da calça e do casaco.
Quando estava pronta, desci até o quarto de Julia e Kristin. Elas já estavam de pijama, mas ainda não tinham ido dormir. Quando Julia me viu com o casaco e a bolsa,
seus olhos se arregalaram.
- Legal - ela disse.
- Sei que você já saiu antes - eu disse. - Como você fez?
Não era raro os muitos encontros de Julia acontecerem fora dos horários permitidos pela escola, e tanto ela como Kristin já haviam comentado sobre suas proezas.
Eu tinha esperança de que talvez Julia soubesse de algum túnel secreto e que eu não tivesse que arriscar nenhuma façanha acrobática maluca. No entanto, era exatamente
isso o que eu precisava fazer. Ela e Kristin me levaram até a janela e apontaram para uma grande árvore plantada diante dela.
- Nosso quarto tem uma boa vista e acesso fácil - Kristin disse, orgulhosa.
Olhei para a árvore retorcida com desconfiança.
- Isso é fácil?
- Metade do alojamento já usou - ela disse. - Você também consegue.
- A gente deveria começar a cobrar - Julia refletiu, então me abriu um sorriso. - Não se preocupe. Vamos dar uma amostra grátis pra você hoje. Comece com esse galho
aqui, passe para aquele e depois use aqueles ramos ali pra se segurar.
Achei curioso que uma pessoa que dissera na aula de educação física que badminton era um esporte “perigoso” não tivesse reservas em descer uma árvore do terceiro
andar. Claro, o antigo apartamento de Marcus ficava no quarto, e aquela escada de incêndio era mil vezes mais perigosa do que a árvore. Pensar em Alicia e na sra.
Terwilliger me lembrou da importância daquela missão, e, decidida, acenei para Julia e Kristin.
- Vamos lá - eu disse.
Julia se animou e abriu a janela para mim. Kristin ficou olhando com o mesmo entusiasmo.
- Por favor, diga que você está saindo para encontrar um cara irresistível - ela pediu.
Parei quando estava prestes a passar pela janela.
- Na verdade, sim. Mas não do jeito que você está pensando.
Quando cheguei ao galho que Julia havia indicado, descobri que ela tinha razão. Era muito simples - tão simples, aliás, que fiquei surpresa por nenhum funcionário
da escola ter notado essa rota de fuga tão fácil e cortado a árvore. Bom, melhor para nós que tínhamos de sair à noite. Alcancei o chão e acenei para minhas amigas,
que ainda estavam olhando.
Havia alguns postes de iluminação no terreno nos fundos do alojamento, exatamente para desencorajar estudantes desobedientes como eu. Também ficava dentro da rota
de patrulha de um dos guardas, mas não era uma posição em que ele ficava parado o tempo todo. Ele não estava no meu campo de visão, então torci para que estivesse
ocupado com a outra parte do terreno. Havia sombras suficientes no gramado para que eu pudesse ficar escondida durante todo o trajeto, até chegar à cerca dos fundos.
Ela era bem iluminada e, na verdade, a única vantagem que eu tinha era que sabia escalar rápido e que o guarda ainda não havia dado sinal de vida. Novamente me apoiando
na esperança de que o universo estava me devendo alguns favores, ainda mais depois de me enganar em relação a Alicia, engoli em seco e comecei a subir. Não ouvi
nenhum grito quando caí do outro lado, e soltei um suspiro de alívio. Eu tinha conseguido. Voltar seria mais difícil, mas esse era um problema para mais tarde, um
com que, se tudo desse certo, a sra. Terwilliger poderia me ajudar.
Encontrei Adrian esperando por mim no Mustang no lugar exato que eu havia indicado. Ele me olhou de esguelha enquanto ligava o carro.
- Cadê sua roupa de Mulher-Gato?
- Na lavanderia.
Ele sorriu.
- Claro. Agora, para onde vamos, e o que está acontecendo?
- Vamos para a casa da sra. Terwilliger - respondi. - E o que está acontecendo é que o inimigo estava embaixo do nosso nariz esse tempo todo.
Fiquei olhando para Adrian enquanto contava minhas revelações e vi sua expressão passar de incredulidade a apreensão à medida que eu falava.
- A aura dela era perfeita demais - ele disse depois que terminei. - Perfeitamente neutra, perfeitamente normal. Ninguém é assim. Mas não dei importância. Imaginei
que talvez fosse só uma aura humana esquisita.
- Dá para influenciar a aparência da aura? - perguntei.
- Não tanto - ele respondeu. - Não sei muito sobre esses amuletos que vocês usam, mas imagino que foi um deles que distorceu a aparência da dela.
Me afundei no banco, ainda com raiva por não ter descoberto aquilo antes.
- O bom é que ela não sabe que descobrimos sobre sua relação com Veronica. Isso pode nos dar alguma vantagem.
Quando chegamos à casa da sra. Terwilliger, encontramos todas as luzes acesas, o que foi uma surpresa. Eu imaginava que ela estaria dormindo, embora definitivamente
não fosse a primeira vez que ela não atendia o telefone. Mas, quando chegamos perto da casa e batemos na porta, ninguém atendeu. Adrian e eu nos entreolhamos.
- Talvez ela tenha saído com pressa - ele disse. Seu tom expressava o que as palavras não diziam. E se a sra. Terwilliger já houvesse descoberto o mesmo que nós
e tivesse saído para confrontar Alicia e Veronica? Eu não tinha ideia do grau de poder de Alicia, mas as chances não pareciam promissoras.
Quando ninguém atendeu na segunda vez que bati, quase chutei a porta de tanta frustração.
- E agora?
Adrian girou a maçaneta e a porta simplesmente se abriu.
- Que tal esperarmos aqui dentro?
Fiz uma careta.
- Não sei se gosto da ideia de invadir a casa dela.
- Ela deixou a porta destrancada. É quase um convite. - Ele abriu a porta mais um pouco e olhou para mim com expectativa.
Não queria voltar para Amberwood antes de falar com ela, tampouco queria ficar sentada na frente da porta. Torcendo para que ela não ligasse se ficássemos à vontade,
assenti, resignada, e entrei atrás de Adrian. A casa da sra. Terwilliger era a mesma de sempre, bagunçada e perfumada pelo cheiro de incenso. Parei de súbito.
- Espere. Tem alguma coisa errada. - Demorei alguns segundos para descobrir o que era e, quando percebi, não consegui acreditar que não havia me dado conta antes.
- Os gatos sumiram.
- Droga - Adrian disse. - Você tem razão.
Pelo menos um vinha sempre cumprimentar os visitantes e os outros costumavam ficar em cima dos móveis, embaixo das mesas ou simplesmente ocupando o meio do piso.
Mas, agora, não havia nenhum gato à vista.
Fiquei olhando, incrédula.
- O que será que pode...
Um som agudo de estourar os tímpanos me pegou de surpresa. Olhei para baixo e encontrei o dragão colocando a cabeça para fora da bolsa e tentando me escalar. Tarde
demais, percebi que esquecera de fechar o aquário. Pelo jeito, ele havia entrado discretamente dentro da bolsa enquanto eu estava no quarto. O som que estava fazendo
agora era parecido com o gritinho de fome, só que ainda mais irritante. Então, como se não bastasse isso, ele beliscou minha perna. Me abaixei e tentei tirá-lo de
mim.
- Eu não tenho torta! O que você está tentando... Ahh!
Alguma coisa passou voando por cima da minha cabeça e bateu na parede atrás de mim com um esguicho alto. Algumas gotas úmidas caíram na minha bochecha e começaram
a arder. Foi uma surpresa não ouvir o chiado de pele queimando.
- Sydney! - Adrian gritou.
Me virei para onde ele estava olhando e me deparei com Alicia parada no batente entre a sala e a cozinha. A palma de sua mão estava voltada para nós, com uma substância
cintilante e gosmenta. Provavelmente a mesma que estava queimando minha pele agora. Quase passei a mão para limpar aquilo, mas fiquei com medo de que passasse para
os meus dedos. Tentei simplesmente ignorar.
- Sydney - Alicia disse, animada. - Ou eu deveria dizer “Taylor”? Imaginei que veria vocês dois de novo. Mas não tão cedo. Parece que o problema no seu carro não
atrasou vocês hoje.
- Já sabemos de tudo - eu disse a ela, ainda de olho naquela gosma. - Sabemos que você está trabalhando para Veronica.
O ar petulante dela vacilou por um momento, superado pela surpresa.
- Trabalhando para Veronica? Faz séculos que me livrei dela.
- Se livrou de... - Fiquei sem entender por alguns segundos. Então, as outras peças do quebra-cabeça se juntaram. - É você quem está absorvendo o poder daquelas
meninas. E daquela bruxa em San Diego. E... de Veronica Terwilliger.
Eu havia localizado Veronica na pousada com o feitiço de clarividência. Quando a sra. Terwilliger tentou um feitiço de localização diferente, não conseguiu nada.
Eu tinha imaginado que era porque Veronica tinha algum tipo de escudo. Mas, naquele momento, tive certeza de que era porque Veronica já estava em coma. Não havia
uma mente ativa para a sra. Terwilliger encontrar porque Alicia havia consumido a de Veronica.
A sra. Terwilliger...
- Você está aqui atrás dela - eu disse. - Não de mim.
- As menos treinadas são alvos mais fáceis - Alicia disse. - Mas não têm o mesmo poder de bruxas experientes, que podem ser absorvidas com a mesma facilidade se
você as derrubar antes. Não preciso de juventude, como Veronica precisava; só do poder. Quando ela me mostrou como o feitiço funcionava, consegui pegá-la num momento
de distração. Aquela outra universitária me deu forças para conseguir vencer Alana Kale. - Onde eu tinha ouvido esse nome? Alana... ela era do clã da sra. Terwilliger.
- E agora, finalmente, posso apanhar minha maior presa: Jaclyn Terwilliger. Pra falar a verdade, não tinha certeza se conseguiria acabar com ela, mas parece que
ela vem se cansando muito nas últimas semanas. Tudo para proteger sua querida aprendiz.
- Não sou... - Não consegui terminar a frase. Estava prestes a dizer que não era aprendiz da sra. Terwilliger, mas... será que não era mesmo? Eu não estava mais
brincando com magia. Tinha entrado de verdade no ramo. E, agora, precisava proteger minha mentora, assim como ela havia me protegido. Se não fosse tarde demais.
- Onde ela está? - perguntei.
- Perto - Alicia disse, claramente adorando estar com a vantagem. - Queria que você não tivesse descoberto tudo isso. Você teria dado uma ótima presa depois que
aprendesse um pouco mais. Claro que não é nada perto de Jaclyn. Hoje, ela é o grande prêmio.
- Diga onde ela está - Adrian ordenou, com um tom de voz poderoso que eu reconheci.
O olhar de Alicia passou de mim para ele.
- Ah, faça-me o favor - ela zombou. - Não perca tempo com sua compulsão de vampiro. Percebi o que estava acontecendo depois daquela primeira visita de vocês, quando
achei difícil me lembrar dos seus rostos. - Ela mostrou uma pedra de jade no meio de seu amontoado de colares. - Fiz este depois daquele dia. Me deixa imune aos
seus “encantos”.
Um amuleto que resistia à magia dos vampiros? Seria útil ter um no meu repertório. Pesquisaria sobre ele... se conseguisse sobreviver àquela noite.
Vi Alicia se preparar para lançar aquela gosma de novo e desviei com um pulo, puxando Adrian comigo em direção à sala. A substância respingou atrás de nós. Tirei
da bolsa uma flor seca de cardo e joguei na direção de Alicia, gritando um encantamento em grego que a cegaria. Ela fez um leve aceno e riu da minha cara.
- Sério? - perguntou. - Esse feitiço de cegueira corretiva? Talvez você não seja um prodígio tão grande assim.
Adrian abriu um pequeno painel na parede ao nosso lado. Eu nem tinha notado, porque estava distraída demais temendo que ela derretesse meu rosto. Vi a mão dele se
mexer rápido e, subitamente, estávamos mergulhados na escuridão.
- Isso sim é cegueira corretiva - ele murmurou.
Alicia praguejou. Fiquei paralisada pela escuridão ao meu redor. Por mais que aprovasse qualquer tentativa de deixar Alicia mais lenta, também fiquei meio perdida.
Senti a mão de Adrian segurar a minha. Sem dizer uma palavra, ele me puxou para o fundo da sala de estar. Eu o segui rápido, confiando em sua visão superior de vampiro
para nos guiar. Já conseguia ouvir Alicia entoando alguma coisa e tive certeza de que ela logo invocaria um feitiço de criação de luz. Ou, então, um que magicamente
consertasse caixas de fusível.
- Cuidado - Adrian murmurou. - Escada.
Dito e feito. Senti meu pé bater em um degrau de madeira. Descemos correndo, o mais rápido e silenciosamente possível, até o porão. Meus olhos ainda não haviam se
ajustado à escuridão, e me perguntei se não tínhamos acabado de entrar em um calabouço secreto. Mas, enquanto ele me guiava por entre caixas amontoadas, percebi
que o porão era usado simplesmente como um depósito comum. Havia um monte de tralhas ali. Depois de ver a casa já bagunçada da sra. Terwilliger, fiquei curiosa para
saber o que mais ela teria.
- Foi uma boa ideia - eu disse com a voz mais baixa que consegui. - Mas agora estamos presos aqui dentro. Seria melhor se tivéssemos conseguido sair.
- Eu sei - ele respondeu, também aos sussurros. - Mas ela estava perto da porta, e não deu tempo de quebrar uma janela.
Acima de nós, o assoalho rangia enquanto Alicia caminhava pela casa.
- É só uma questão de tempo - eu disse.
- Estava torcendo que fosse suficiente para você pensar em alguma coisa para tirar a gente daqui. Não dá para usar aquelas bolas de fogo? Você era ótima com elas.
- Não aqui dentro. Ainda mais no porão. Vai incendiar a casa toda. E ainda não sabemos onde a sra. Terwilliger está. - Fiquei quebrando a cabeça. A casa era pequena
e não havia muitos lugares onde Alicia pudesse ter escondido a sra. Terwilliger. E eu precisava partir do princípio de que ela realmente estava presa em algum lugar,
já que ainda não havia aparecido em nosso auxílio. Pelo que Alicia disse, parecia que ela ainda não havia sugado o poder da sra. Terwilliger, então, com sorte, ela
só estava incapacitada.
- Deve haver alguma coisa que você possa fazer - Adrian disse, apertando minha mão. - Você é genial e anda lendo todos aqueles livros de feitiços.
Era verdade. Eu vinha lendo toneladas de informações nos últimos meses, informações que nem deveria ter aprendido - mas, naquele momento de terror, minha mente não
conseguia focar em nada.
- Esqueci tudo.
- Não esqueceu, não. - A voz dele era calma e reconfortante na escuridão. Ele empurrou meu cabelo para trás e me deu um daqueles beijinhos na testa. - Relaxe e se
concentre. Ela não vai demorar pra descer atrás de nós. Precisamos acabar com ela ou, pelo menos, atrasá-la para conseguir escapar.
Suas palavras sensatas me concentraram e permitiram que as engrenagens de lógica que guiavam minha vida voltassem a funcionar. Raios de luz atravessavam as pequenas
janelas no porão, permitindo que meus olhos se ajustassem ao breu e eu conseguisse distinguir alguns vultos no cômodo. Ainda podia ouvir Alicia caminhando pelo andar
de cima, então soltei a mão de Adrian e fui de mansinho até a escada. Fazendo alguns arcos graciosos com a mão, entoei um feitiço na escada e voltei rapidamente
até onde estava Adrian, reencontrando o abrigo de seu braço.
- Certo - eu disse. - Acho que isso deve atrasar Alicia um pouquinho.
- O que você fez? - ele perguntou.
Naquele exato momento, ouvimos a porta no topo da escada se abrir. Uma luz se projetou para baixo, embora continuássemos na sombra.
- Vocês não têm alternativa - ouvi Alicia dizer. - Não têm pra onde... Ahh!
Houve uma série de baques surdos enquanto ela deslizava escada abaixo, até cair no chão com um estrépito.
- Gelo invisível nos degraus - eu disse a Adrian.
- Sei que não devo dizer isso - ele falou -, mas acho que amo você ainda mais agora.
Peguei a mão dele e tentei não pensar em como suas palavras mexiam comigo, mesmo naquela situação de vida ou morte.
- Venha.
Saímos do nosso esconderijo e encontramos Alicia estatelada no chão, tentando se levantar. Uma bola prateada pairava perto dela, balançando de acordo com seus movimentos.
Ao nos ver, ela resmungou e fez menção de lançar algo contra nós. Eu havia previsto isso e já tinha um amuleto pronto. Balancei-o pelo fio de seda e pronunciei algumas
palavras rápidas enquanto passávamos por ela. Um breve escudo cintilante reluziu entre nós, por tempo suficiente para absorver os pequenos dardos brilhantes que
ela lançou em nossa direção. O escudo era parecido com o que a sra. Terwilliger havia usado no parque, mas precisava ser invocado na hora e não durava muito tempo.
Não sabia o que Alicia planejava fazer em seguida, mas obviamente algo de ruim estava por vir. Lancei um feitiço preventivo que nunca havia usado antes, um daqueles
que a sra. Terwilliger havia dito para que eu nem me desse ao trabalho de tentar. Exigia muita energia e era poderoso se usado do jeito certo, mas parecia simples
e tinha efeitos interessantes. Basicamente fiz com que Alicia voasse para o outro lado do porão com uma rajada de poder no exato segundo em que ela estava prestes
a levantar. Ela caiu de costas numa pilha de tralhas de Natal. Uma caixa de enfeites despencou, se espatifando no piso duro ao lado dela.
Lançar o feitiço me deixou tonta, mas consegui continuar andando. Invoquei uma bola de fogo quando cheguei à escada, mas a mantive na mão, segurando-a baixo como
se fosse jogar uma bola de Skee-Ball. Minha intenção era apenas levá-la comigo. Esperava que ela derretesse o gelo e, depois dos primeiros passos, percebi que estava
certa.
- Cuidado - Adrian alertou. - Os degraus ainda estão molhados.
Chegamos ao topo da escada, mas Alicia já estava subindo atrás de nós. Dos primeiros degraus, ela usou o mesmo feitiço que eu havia usado contra ela, lançando uma
rajada de energia invisível contra mim e Adrian que nos jogou no chão. Eu vinha segurando a bola de fogo, apesar da advertência da sra. Terwilliger de que isso drenava
meu poder. Quando Alicia me derrubou, a bola voou da minha mão e caiu no sofá. Como ele estava coberto por um tecido barato que parecia vir diretamente dos anos
1970, não foi uma grande surpresa quando rapidamente pegou fogo.
O bom foi que o incêndio resolveu o problema da escuridão. O ruim foi que a casa poderia cair em cima de nós. O callistana, que não tinha sido rápido o bastante
para nos acompanhar quando descemos a escada, veio correndo até mim. Só tive uma fração de segundo para tomar uma decisão.
- Procure a sra. Terwilliger no resto da casa - eu disse a Adrian. - Vou deter Alicia.
O fogo crescente criava sombras estranhas no rosto dele, ressaltando sua angústia diante dessa proposta.
- Sydney.
- Essa é uma daquelas horas em que você precisa confiar em mim sem questionar - eu disse. - Vá logo! Encontre a sra. Terwilliger e tire-a daqui.
Vi milhares de emoções perpassarem seu rosto antes de ele obedecer e sair correndo em direção ao outro lado da casa. O fogo estava se espalhando rapidamente pela
sala de uma maneira que só podia ser mágica. A fumaça crescente me deu uma ideia, e lancei um feitiço que a intensificou, criando uma muralha enevoada na entrada
que dava para a escada do porão. Ela permitiu que eu e o dragão recuássemos um pouco antes de Alicia aparecer e abrir a fumaça com a mesma facilidade com que abriria
uma cortina.
- Aquilo doeu - ela disse.
Lancei um feitiço que deveria envolvê-la em teias de aranha, mas elas caíram antes mesmo de chegar até ela. Era muito frustrante. Eu havia decorado tanta coisa,
mas aqueles feitiços “corretivos” não estavam funcionando. Foi então que entendi por que a principal estratégia da sra. Terwilliger havia sido me esconder e ocultar
minhas habilidades. Como eu poderia enfrentar Veronica? Alicia a havia derrotado, sim, mas provavelmente só depois de enfraquecê-la como havia feito com a sra. Terwilliger.
Entendi também por que a sra. Terwilliger me dissera para conseguir uma arma, a qual, me dei conta agora, eu havia deixado no carro.
O feitiço de gelo havia funcionado porque Alicia não estava esperando por ele. O único outro que havia surtido efeito fora a rajada de poder, um feitiço avançado
em função do qual eu ainda estava fraca. Percebi que seria preciso mais um daqueles. Eu não fazia ideia se tinha a capacidade para lançar um segundo, mas tentar
era minha única chance de...
Gritei ao sentir o que parecia ser um choque elétrico de mil volts passar pelo meu corpo. O gesto de Alicia havia sido sutil, e ela nem havia falado nada. Caí de
novo, me contorcendo de dor enquanto ela caminhava a passos largos na minha direção, com o rosto triunfante. Com bravura, o dragão se colocou entre nós, e ela simplesmente
o chutou para o lado. Ouvi o grito agudo do callistana enquanto ele escorregava pelo piso.
- Talvez devesse absorver você - Alicia disse. Os choques diminuíram, e consegui me sentar ali enquanto recuperava o ar. - Você pode ser minha quinta vítima. Posso
voltar atrás de Jaclyn daqui a alguns anos. Você se revelou muito mais poderosa do que eu imaginava... e tem uma inteligência que irrita. Até que se esforçou hoje.
- Quem disse que acabei? - consegui dizer.
Lancei o primeiro dos feitiços avançados em que consegui pensar. Talvez inspirada pelos enfeites de Natal estilhaçados, me veio à mente a imagem de cacos partidos.
O feitiço não exigia palavras nem componentes físicos, apenas um suave movimento com a mão. O resto foi tirado de mim, um escoamento de energia e poder que doeu
quase tanto quanto o feitiço elétrico que Alicia havia acabado de usar.
Mas os resultados foram impressionantes.
Na mesa de centro da sra. Terwilliger (agora em chamas) havia um pêndulo de Newton com cinco bolinhas. Usei o feitiço de transmutação nelas, forçando-as a sair de
sua forma esférica e se quebrar em lâminas finas e afiadas. Elas se libertaram das cordas sob o meu comando. Essa foi a parte fácil.
A parte difícil foi, como a sra. Terwilliger havia dito, realmente atacar alguém. Não só fazer com que a pessoa levasse um tombo - isso não era tão ruim. Mas um
ataque físico de verdade, um que eu sabia que poderia causar ferimentos graves e diretos, era uma questão completamente diferente. Por mais terrível que Alicia fosse,
por mais que houvesse tentado me matar e quisesse sacrificar a sra. Terwilliger e inúmeras outras, ainda assim era uma pessoa viva, e não era da minha natureza usar
a violência ou tentar tirar a vida de alguém.
Era, porém, da minha natureza salvar a minha vida e a das pessoas que eu amava.
Criei coragem e comandei as lâminas na direção dela. Elas a atingiram no rosto. Alicia gritou e tentou desesperadamente arrancá-las, mas, ao fazer isso, perdeu o
equilíbrio e rolou escada abaixo. Ouvi o grito agudo que soltou ao cair no porão. Embora não pudesse vê-la, sua lanterna mágica a seguiu alegremente até lá embaixo.
Meu triunfo durou pouco. Eu estava mais do que simplesmente tonta - estava prestes a desmaiar. O calor e a luz do fogo eram opressivos, mas minha visão estava obscurecida
pelo cansaço de lançar um feitiço para o qual ainda não estava preparada. Agora, tudo o que eu queria era fechar os olhos e deitar no chão, onde estava quentinho
e confortável...
- Sydney!
A voz de Adrian me tirou da tontura, e consegui abrir os olhos pesados para olhar para ele. Ele me envolveu em seus braços e me pôs de pé. Quando viu que minhas
pernas não estavam reagindo, simplesmente me carregou no colo. O dragão, que não havia sofrido nenhum ferimento grave ao ser chutado, se agarrou na minha camisa
e entrou correndo na bolsa, que ainda estava pendurada no meu ombro.
- Onde... sra. Terwilliger...
- Não está aqui - Adrian disse, correndo em direção à porta. O incêndio agora estava se espalhando pelas paredes e pelo forro. Embora ainda não houvesse chegado
à frente da casa, nosso caminho estava cheio de fumaça e cinzas. Nós dois estávamos tossindo e meus olhos lacrimejavam. Adrian chegou à porta e girou a maçaneta,
gritando quando sua mão foi queimada. Então simplesmente arrombou a porta com um chute, e saímos para a liberdade do ar puro da noite.
Os vizinhos estavam se reunindo do lado de fora, e pude ouvir sirenes ao longe. Alguns ficaram olhando para nós, curiosos, mas a maioria estava paralisada demais
pelo incêndio que tomava conta da casa da sra. Terwilliger. Adrian me levou até o Mustang e, com cuidado, me encostou no carro, mas continuou com o braço ao meu
redor. Ficamos olhando assombrados para o incêndio.
- Juro que procurei, Sydney - ele disse. - Não consegui encontrar Jackie na casa. Talvez ela tenha fugido. - Torci para que ele estivesse certo. Senão, havíamos
acabado de abandonar minha professora de história para uma morte entre as chamas. - O que aconteceu com Alicia?
- Da última vez que vi ela estava no porão. - Senti um nó no estômago. - Não sei se ela vai sair de lá. Adrian, o que foi que eu fiz?
- Você estava se defendendo. E me defendendo. E, com sorte, defendendo Jackie. - Ele apertou o braço ao meu redor. - Alicia era do mal. Pense no que ela fez com
as outras bruxas... no que queria fazer com vocês.
- Nunca suspeitei de nada - eu disse, em choque. - Eu me achava tão inteligente. E, toda vez que falava com ela, pensava que era só uma menina besta e distraída.
Enquanto isso, ela estava rindo pelas minhas costas e prevendo meus passos o tempo todo. É humilhante. Não conheço muita gente assim.
- O Moriarty do seu Sherlock Holmes? - ele sugeriu.
- Adrian - eu falei. Foi tudo que precisei dizer.
De repente, ele voltou a olhar para mim, notando minha roupa pela primeira vez naquela noite, agora que meu casaco estava aberto.
- Você está usando a camiseta da EIA?
- Pois é, nunca travo batalhas mágicas sem...
Um miado repentino chamou minha atenção. Olhei ao redor até ver um par de olhos verdes me observando de trás de um arbusto do outro lado da rua. Consegui me endireitar
e vi que minhas pernas, embora fracas, já sustentavam meu peso. Dei alguns passos vacilantes em direção ao arbusto, e Adrian imediatamente correu para o meu lado.
- O que você está fazendo? Você precisa de ajuda - ele disse.
Apontei.
- Precisa