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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O FEITIÇO DO HIGHLANDER / Karen Marie Moning
O FEITIÇO DO HIGHLANDER / Karen Marie Moning

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

                            Alguns homens nascem com boa estrela.

                            Cheio de cuidados femininos do esperado momento de seu nascimento no seio de uma família de sete formosas moças, mas, aí, nenhum varão, seu pai tinha morrido em um acidente de caça duas semanas antes, ao chegar ao mundo Cian MacKeltar pesava cinco quilogramas e já era o laird do castelo. É fácil que algo assim suba à cabeça de um bebê.

                            Ao amadurecer e fazer-se homem, Cian herdou os rasgos físicos típicos dos Keltar: corpulento e de ombros muito largos, seus músculos ondulavam em um corpo magnífico coroado pelo rosto escuro e grosseiramente formoso de um anjo vingador. Seus nobres antepassados celtas, com sua agressiva herança de guerreiros aristocratas, também lhe legaram uma tremenda sexualidade; um intenso erotismo que só esperava a ocasião de ser liberado dava forma ao seu andar, e estava presente em cada um de seus movimentos.

                            Aos trinta anos, Cian MacKeltar era o Sol, a Lua, e as estrelas.

                            E sabia.

                            Se por acaso isto fosse pouco, ainda era um druida.

                            E, a diferença da imensa maioria de seus ancestrais, sempre sérios e meditabundos (algo que logo seriam superados pela pletora de figuras realmente sombrias que ainda tinham que nascer), gostava de sê-lo.

                            Gostava de tudo o que tinha a ver com ser um druida.

                            Gostava do poder que sentia pulsar em suas veias. Gostava de passar largas horas na biblioteca da câmara subterrânea do castelo Keltar, em companhia de um bom uísque e a grande coleção de artefatos e textos da antiga sabedoria, para estudar o conhecimento oculto, combinar um feitiço de resultados imprevisíveis com uma arriscada poção, e assim ser cada vez mais forte e poderoso.

                            Gostava de percorrer as colinas cobertas de urze depois de uma tormenta enquanto pronunciava as antigas palavras que curavam a terra e às pequenas criaturas selvagens. Gostava de celebrar os ritos das estações, essas noites em que cantava sob a grande lua alaranjada das colheitas enquanto o vento das Highlands lhe enredava os largos cabelos escuros e convertia em pilares de fogo as fogueiras sagradas que tinha acendido, porque sabia que os todo-poderosos tuatha dê danaan dependiam dele.

                            Gostava de seduzir às mulheres formosas e as fazer sua sob seu corpo firme como a rocha, e nesses instantes sempre recorria a suas artes druidicas para lhes fazer sentir o tipo de prazer ilimitado que se murmurava só um exótico amante do povo mágico podia dar.

                            Inclusive gostava que uma grande parte de seu mundo não pudesse evitar lhe ter um pouco de medo, ao ser ele um druida Keltar e ter herdado a velha e aterradora magia dos Antigos.

                            O laird responsável pela continuação do sagrado legado Keltar a finais do século IX era obscuramente sedutor e ninguém podia resistir a seu encanto, e não tinha existido um druida mais capitalista que ele.

                            Cian MacKeltar não tinha tido que fazer frente a nenhuma classe de oposição ou desafio, e ninguém lhe tinha superado. Em honra à verdade, nem sequer lhe tinha passado pela cabeça a possibilidade de que um dia algo ou alguém pudesse fazê-lo.

                            Até aquele maldito Samhain de seu trigésimo ano. Alguns homens nascem com boa estrela.

                            Cian MacKeltar não.

                            Pouco depois daquilo, a câmara subterrânea que continha a biblioteca ficou selada para não voltar a ser mencionada nunca, e todas as referências a Cian MacKeltar foram apagadas dos anais escritos dos Keltar.

                            Os Keltar da atualidade gostam de enredar-se em apaixonados debates sobre se esse ancestral tão controvertido existiu em realidade.

                            E ninguém sabe que agora mais de mil e cem anos depois, Cian MacKeltar ainda vive.

                            Se à existência infernal que leva agora pode chamar de vida.

 

 

 

 

                            A chamada que trocou o curso da vida da Jessica St. James chegou à noite de uma sexta-feira sem nada de particular, que não diferia significativamente das outras noites de sexta-feira de sua excessivamente previsível existência, e esse era um dos temas sobre os que Jessi preferia não falar porque se caracterizava por não ter nada de particular.

                            Sentada na escada de incêndios junto à janela da cozinha de seu apartamento, no terceiro piso do 222 da Elizabeth Street, Jessi desfrutava de um anoitecer mais quente do que o habitual no outono.

                            Esticava o pescoço para a esquina do edifício de pedra avermelhada sem incomodar-se em dissimular que tinha saído para bisbilhotar e observava a todos que, diferente dela, tinham tempo para viver sua vida, falavam e riam na calçada em frente ao clube noturno que havia do outro da rua.

                            Já fazia uns minutos que não podia apartar a vista de uma ruiva de pernas longas e seu noivo, um bonitão com jeans e camiseta branca de cabelo escuro, pele bronzeada e montões de músculos. O bonitão empurrou a ruiva para a parede e assim que a teve presa ali, levantou-lhe as mãos por cima da cabeça e a beijou como se o mundo fosse acabar-se nesse dia, com todo seu magnífico corpo concentrado no trabalho. (E que agitação de quadris! O bonitão se esfregava contra sua garota com tanto entusiasmo que era como vê-los fazer amor em plena rua.)

                            Jessi tragou ar.

                            Deus tinham-na beijado assim alguma vez? Como se o homem estivesse impaciente por penetrá-la? Como se quisesse devorá-la, tão cheio de desejo que não pararia até haver entrado na pele?

                            A ruiva apartou as mãos da parede para posá-las sobre o traseiro do bonitão, e Jessi apertou os punhos quando a viu curvar os dedos sobre aquelas nádegas tão musculosas.

                            Quando as mãos do bonitão subiram para os peitos da ruiva e começaram a lhe apertar os mamilos com os polegares, Jessi sentiu endurecer os seus como duas pequenas pérolas. Quase podia imaginar que era ela quem estava beijando aquele pedaço de homem, que era ela a que estava a ponto de afogar-se em uma tórrida paixão animal.

                            "Por que não posso ter esse tipo de vida?", pensou.

                            "Claro que pode tê-la recordou uma voz interior, mas antes tem que fazer o doutorado."

                            O aviso distou muito de ser tão efetivo como quando acabava de matricular-se na universidade. Jessi estava farta de dedicar metade de sua existência à faculdade, de ter que fazer equilíbrios para chegar ao fim do mês, de correr constantemente de sua aula para sua exaustiva jornada trabalhista como ajudante do professor Keene e logo correr a casa e começar a estudar de novo ou, se realmente tinha um de seus estranhos dias de sorte, se permitir quatro ou cinco horas de sono antes de levantar-se da cama e voltar a correr.

                            Seu horário estava tão rigidamente organizado e exigia tanto dela que não ficava tempo para levar uma vida social. Isso sempre tinha sido um problema, e Jessi levava pior que nunca. Havia casais em qualquer lugar que fosse e todos estavam muitos interessados em mostrar ao mundo que eram um casal, e pareciam maravilhosamente bem enquanto o faziam.

                            Mas Jessi não. Em sua vida simplesmente não havia tempo para dedicar a um casal. Jessi não era uma dessas afortunadas que podem passar pela universidade com todos os gastos pagos. Ela tinha que economizar, fazer todo tipo de economia, e assegurar-se de tirar o maior proveito a cada centavo e cada momento. Não só tinha que fazer frente ao programa acadêmico e a uma larga jornada trabalhista, mas também dava aulas. Isso apenas deixava tempo para comer, tomar banho e dormir.

                            Nas incomuns ocasiões em que tentava sair com alguém, seus homens em seguida se fartavam de que Jessi pudesse vê-los tão pouco e, combinado com o muito abaixo que pareciam estar em sua lista de prioridades e o pouco disposta que se mostrava a deitar-se com eles, a não ser conhecê-los (a maioria dos universitários pareciam convencidos de que se à terceira entrevista ainda não tinham conseguido anotar o tanto, devia ser porque aquela garota tinha algo estranho com os homens), fazia que não demorassem a procurar pastos mais verdes.

                            Mesmo assim, logo tudo teria valido a pena. Por muito que algumas pessoas pensassem que chegar a ser arqueóloga e dedicar o resto de sua vida a brincar com coisas velhas, cheias de pó ou freqüentemente mortas, não era uma perspectiva particularmente emocionante (ou ao menos isso pensava sua mãe, que detestava a especialidade acadêmica escolhida por Jessi e não entendia por que sua filha não estava felizmente casada e trazia para o mundo um bebê atrás do outro como faziam suas irmãs), Jessi não podia imaginar uma carreira mais apaixonante. Possivelmente não encabeçasse a lista de sonhos de outras pessoas, mas ocupava o primeiro lugar na sua.

                            Doutora Jessica St. James. Estava tão perto que quase podia tocá-lo com as pontas dos dedos. Outro ano e meio e teria terminado de preparar o doutorado.

                            Então sairia com todos os homens que pusessem a tiro, e se apressaria a recuperar todo o tempo perdido. Mas até então, não tinha trabalhado tão duro e contraído tantas dívidas para se agarrar ao primeiro homem que encontrasse só porque seu sistema hormonal cismou em fazer horas extras.

                            Dentro de uns anos, consolou-se Jessi sem apartar o olhar da concorrida rua, os que agora foram a esse clube provavelmente seguiriam indo a ele, sem que suas vidas tivessem trocado grande coisa, enquanto ela viajaria a lugares longínquos para desenterrar restos do passado e viver grandes aventuras.

                            E o melhor, o Senhor Apropriado a estaria esperando em algum dessas futuras jazidas arqueológicas. Sempre tinha a possibilidade de que houvesse tocado em sorte o tipo de vida que leva atraso no plano de vôo, e agora teria que armar-se de paciência enquanto via separar a outros antes que chegasse seu turno.

                            Mãe de Deus, o bonitão acabava de colocar a mão nas calças da ruiva. E ela acabava de lhe pôr a mão em cima da... OH, ali onde Deus e o mundo inteiro podiam vê-los!

                            Além da janela, em algum lugar daquele apartamento tão pequeno e cheio de coisas ao qual não iria mal que fossem para o lixo e uma boa limpeza, o telefone começou a soar. Jessi pôs os olhos em branco. A parte mundana de sua existência sempre sabia escolher os momentos menos apropriados para intrometer-se.

                            Ring. Ring.

                            Jessi devorou uma última porção ocular daquela descarada exibição de sexo na calçada, e logo subiu, a contra gosto, na beira da janela da cozinha para entrar no apartamento. Sacudiu a cabeça para tentar limpar a mente e logo baixou à persiana. Olhos que não vêem, coração que não sente. Ou ao menos não muito, em todo caso.

                            Riiing.

                            Onde estaria esse bendito telefone?

                            Finalmente o localizou no sofá, quase enterrado sob um montão de almofadas, pacotes de caramelos e uma caixa de pizza que continha -puaj- um pouco de pelinhos arrepiados que reluziam com um verdor fosforescente. Enquanto apartava com cautela a caixa, Jessi titubeou e sua mão ficou suspensa no ar sobre o telefone.

                            Por um instante, o mais breve e peculiar dos interlúdios, Jessi experimentou a inexplicável, mas muito intensa sensação de que não deveria agarrá-lo.

                            Que deveria deixá-lo no sofá para que soasse e soasse. Possivelmente durante todo o fim de semana.

                            Mais tarde, lembraria-se daquela sensação.

                            O tempo pareceu deter seu curso durante aquela estranha porção de segundos cheios de significado, e Jessi sentiu que o universo continha a respiração à espera de ver o que ela faria em seguida.

                            A idéia era tão ridícula e egocêntrica que enrugou o nariz só de pensá-lo.

                            Como se o universo tivesse reparado alguma vez em Jessi St. James.

                            Agarrou o telefone.

                            Lucan Myrddin Trevayne ia e vinha ante o fogo que ardia na chaminé.

                            Quando empregava o sortilégio de um feiticeiro para ocultar sua verdadeira aparência - coisa que fazia sempre que havia alguém presente-, Lucan era alto, arrumado, de constituição ainda muito robusta aos quarenta e poucos anos que aparentava, e sua abundante cabeleira negra tão somente mostrava um pouco de prata nas têmporas. Era o tipo de homem que as mulheres voltavam à cabeça para olhá-lo, e os homens retrocedessem instintivamente para lhe ceder o passo. Seu porte dizia uma coisa: " Poder? Eu o tenho, e você não. "E se pensar o contrário, me ponha a prova." Seus rasgos eram puro Velho Mundo, e seus olhos cinza eram tão frios como as águas de um lago escocês sob um céu de tormenta. Sua verdadeira aparência era muito menos atrativa.

                            Lucan tinha acumulado uma tremenda quantidade de riqueza e poder no curso de sua existência, que tinha sido muito mais longa que a da maioria dos humanos. Tinha participações majoritárias em muitas empresas de diferentes naturezas, desde bancos até meios de comunicação e companhias petrolíferas. Possuía residências em uma dúzia de cidades. Tinha a seu serviço um seleto grupo de homens que tinham sido submetidos a um adestramento muito peculiar, assim como a umas quantas mulheres às que recorria de vez em quando para seus assuntos mais privados.

                            A sua esquerda, sentado em uma grande poltrona, um daqueles homens permanecia imóvel em uma tensa espera.

                            -Isto é absurdo, Román - grunhiu Lucan. - por que diabos estão demorando tanto?

                            Roman se revolveu em sua poltrona, à defensiva. Com suas feições tão classicamente opostas como as de uma moeda antiga e seu cabelo comprido e loiro, vê-lo era como contemplar a uma estátua da Roma clássica que tivesse cobrado vida.

                            -Tenho vários homens trabalhando nisso, senhor Trevayne-Disse, com a sombra de um acento russo. - Os melhores homens de que dispomos. O problema é que seguiram uma dúzia de direções diferentes. Venderam-nas no mercado negro. Ninguém tem nomes. Precisamos de tempo...

                            -O tempo é algo do que não disponho - o interrompeu Lucan com aspereza-. Cada hora, cada momento que passa, faz menos provável que chegue a recuperá-las. Essas malditas coisas devem ser encontradas.

                            "Essas malditas coisas" eram as Consagrações Escuras ou "Invisíveis" dos tuatha dê danaan, artefatos dotados de um imenso poder criados por uma antiga civilização que tinha passado a figurar, séculos antes e de maneira completamente errônea, nos livros de história do homem como uma raça mítica: os daoine sidhe ou fae.

                            Lucan acreditou que não podia haver um lugar melhor onde guardar seus tesouros que a bem custodiada residência privada que tinha em Londres.

                            Estava equivocado. Terrivelmente equivocado.

                            Não estava seguro do que foi que aconteceu exatamente fazia uns meses, enquanto ele estava fora do país seguindo uma pista que esperava que pudesse levá-lo até o Livro Negro, a última e mais capitalista das quatro Consagrações Invisíveis, mas em algum lugar de Londres - e seu epicentro teve que estar no leste da cidade, porque Lucan ainda podia sentir os últimos resíduos de poder- tinha ocorrido algo que reverberou através de toda a Inglaterra. Um poder imenso e muito antigo tinha aflorado por um breve período de tempo, e suas descomunais emanações neutralizaram todas as outras classes de magia na Grã-Bretanha.

                            Este fato tivesse carecido de importância para Lucan, pois o que fosse aquilo voltou a esfumar-se tão depressa como tinha chegado, a não ser porque sua repentina aparição tinha feito pedacinhos às formidáveis, supostamente inatacáveis, defesas que protegiam suas posses mais apreciadas. Protegiam-nas tão bem que a idéia de complementá-las com algum moderno sistema de segurança sempre lhe tinha parecido risível.

                            Agora já não lhe parecia tão risível.

                            Apressou a fazer instalar o sistema mais avançado disponível da atualidade, com câmaras que varriam todos os ângulos em cada uma das habitações, porque enquanto ele estava fora do país, um ladrão tinha irrompido no museu privado de sua residência e roubado artefatos que Lucan tinha em seu poder desde fazia séculos, entre eles suas insubstituíveis Consagrações: a caixa, o amuleto e o espelho.

                            Por sorte uns vizinhos viram o ladrão enquanto partia com seu butim. Desgraçadamente, quando o pessoal cuidadosamente selecionado por Lucan conseguiu identificar ao bastardo e lhe seguir o rastro, este já tinha vendido os artefatos ao primeiro de uma larga série de escorregadios intermediários.

                            Artefatos como aqueles, de uma natureza tão fabulosa e cuja procedência não podia ser localizada, indevidamente terminavam em um de dois lugares: em mãos das autoridades de algum país depois de que os tivesse interceptado em trânsito, ou vendidos no mercado negro por uma pequena fração de seu valor antes de desaparecer, às vezes durante centenas de anos, até que se voltasse a ouvir falar deles em algum vago rumor. Puderam obter uns quantos nomes que, além disso, obviamente eram falsos, do ladrão antes que morresse. Os homens de Lucan levavam meses seguindo um rastro que tinha sido deliberada e astutamente turvado. E o tempo começava a ser vital.

                            -... Embora tenhamos recuperado três dos manuscritos e uma das espadas, não pudemos averiguar nada a respeito da caixa ou o amuleto. Mas parece que possivelmente tenhamos uma boa pista sobre o espelho - estava dizendo Roman.

                            Lucan se enrijeceu. O espelho. O Cristal Escuro era a única Consagração que necessitava com urgência. De todos os anos em que podiam havê-lo roubado, tinha tido que ser precisamente neste, quando terei que pagar o dízimo! As outras Consagrações Escuras podiam esperar um pouco mais, embora não muito: eram muito perigosas para que andassem soltas pelo mundo. Cada Consagração conferia a seu possuidor um dom em troca de um preço, sempre que o possuidor contasse com o conhecimento e o poder necessário para utilizá-la. O Dom Escuro do espelho era a imortalidade, sempre que seu possuidor cumprisse as condições impostas pelo espelho. Lucan levava mais de mil anos as cumprindo. E não tinha nenhuma intenção de deixar de fazê-lo.

                            -Um envio que se murmurava poderia corresponder ao que andamos procurando saiu da Inglaterra com rumo aos Estados Unidos através da Irlanda faz uns dias. Acreditam que irá para alguma universidade de Chicago, a uma...

                            -E então o que faz sentado aqui, merda? -disse Lucan friamente-. Se tiveres uma pista sobre o espelho, a que seja, quero que a siga pessoalmente. Já. Tinha que recuperar o espelho antes do Samhain. Ou do contrário...

                            Esse "ou do contrário" era uma eventualidade em que Lucan se negava a pensar. O espelho seria encontrado, o dízimo seria pago: uma pequena quantidade em ouro puro passava através do espelho cada cem anos; segundo a forma de medir o tempo que usavam os Antigos, o que equivalia a mais de um século de acordo com a cronologia moderna, exatamente a meia-noite da festividade do Samhain, ou Halloween, como a chamava o século atual. O dízimo devia pagar-se em um prazo de vinte e seis dias, ao cabo dos quais o espelho voltaria a estar em poder de Lucan... Ou "O Pacto" que obrigava a seu cativo ficaria quebrado.

                            Enquanto o homem loiro recolhia seu casaco e suas luvas, Lucan reiterou sua posição no que concernia às Consagrações Escuras.

                            -Nada de testemunhas, Roman. Qualquer pessoa que chegue, embora, só seja a vislumbrar uma das Consagrações...

                            Roman inclinou a cabeça em silenciosa aquiescência.

                            Lucan não disse nada mais. Não precisava. Roman sabia como gostava que levassem seus assuntos, ao igual que sabiam todos os que trabalhavam a seu serviço e ainda estavam vivos.

                            Passado um momento, pouco depois de meia-noite, Jessi voltava ao campus pela terceira vez aquele dia, à ala sul do Departamento de Arqueologia. Abriu a porta do escritório do professor Keene com sua chave.

                            Perguntou-se ironicamente por que se incomodou em ir-se dali. Dado seu horário de trabalho, mais valeria levar um cama de armar a esse velho quartinho, ao final do corredor, para ser deixado entre todos aqueles esfregões, vassouras e cubos que levavam anos sem usar-se. Assim não só conseguiria dormir mais, mas também economizaria em gasolina.

                            Quando o professor Keene a chamou do hospital para lhe contar que tinha tido "uma colisão sem importância" enquanto voltava para campus em seu carro -"umas quantas fraturas e contusões sem importância, nada pelo que teria que preocupar-se", apressou-se a assegurar-, o primeiro que pensou Jessi foi que o professor ia pedir lhe que se fizesse cargo de suas classes durante os próximos dias (o que significaria que sua janela de sono ficaria reduzida de só quatro ou cinco horas a um enorme zero), mas seu chefe a informou que já tinha chamado ao Mark Troudeau e acordado que ele se encarregaria das classes até sua volta. "Mas tenho que lhe pedir um pequeno favor, Jessica. Estou esperando um pacote. "Tinha que recebê-lo em meu escritório a primeira hora da noite", tinha-lhe explicado o professor Keene, com aquela voz tão profunda dele, que, inclusive depois de vinte e cinco anos longe do Country Louth, Irlanda, nunca tinha perdido seu acento.

                            Jessi adorava essa forma de falar tão musical. Sonhava com o dia em que a pudesse ouvir de lábios de todos os paroquianos de um pub enquanto dava boa conta de um guisado irlandês, uma grande fatia de pão de centeio e uma Guinness com a quantidade justa de espuma. Depois, naturalmente, de passar um dia inteiro no Museu Nacional da Irlanda contemplando com olhos cheios de deleite tesouros tão fabulosos como o broche da Tara, o cálice do Ardagh e a coleção dourada Broighter.

                            Com o telefone apertado entre a orelha e o ombro, Jessi olhou seu relógio e o dia luminoso lhe indicou que passavam dez minutos das dez.

                            -Que classe de pacote é esse para que o entreguem à uma hora tão tardia?- perguntou-se Jessi.

                            -OH, não se preocupe por isso. Assine a confirmação de recebimento, fecha com chave e vete a casa. É tudo o que necessito que faça.

                            - Claro, professor, mas o que...?

                            - Você assina, fecha com chave e te esqueça do assunto. Uma pausa, um silêncio muito significativo, e logo: Não há razão para que o mencione a ninguém. É um assunto pessoal. Não tem nada que ver com a universidade.

                            Jessi piscou, um pouco surpreendida; nunca tinha ouvido esse tom na voz do professor. As palavras tinham sido articuladas com uma estranha precisão, e soaram um pouco à defensiva, quase..., bom, como se o professor tivesse algo que ocultar.

                            - Tenha cuidado, que eu me encarregarei de tudo. Descanse, professor. Não se preocupe com nada- se apressou a tranqüilizá-lo, depois de chegar à conclusão de que o pobrezinho tinha que estar um pouco alterado pelos calmantes que lhe estariam dando no hospital. Jessi ainda se lembrava da vez que tomou Tylenol com codeína, e logo demorou horas em deixar de sentir-se irritável e ter picadas por todo o corpo. Com todas essas contusões múltiplas, estava segura de que ao professor lhe teriam dado algo mais forte que um pouco de Tylenol.

                            Deteve-se embaixo dos fluorescentes que zumbiam brandamente no teto do corredor da universidade e esfregou os olhos ao tempo que bocejava aparatosamente. Estava esgotada. Levantou-se as seis e quinze porque tinha que dar uma aula as sete e vinte e quando conseguisse chegar a casa essa noite - bem, essa manhã - e voltar a meter-se na cama, teria que fazer frente à outra jornada de vinte e quatro horas. Uma mais.

                            Jessi fez girar a chave na fechadura, empurrou a porta do escritório, procurou as cegas o interruptor da luz e o acionou. Entrou no escritório do professor e inalou, saboreando a mescla de aroma de livros, couro e polimento para madeira que flutuava no ar junto com o aroma do tabaco do cachimbo favorito do professor. Algum dia ela também teria seu próprio escritório, e se pareceria muito a esse.

                            A espaçosa habitação tinha estantes que iam do chão até o teto e umas grandes janelas que, durante o dia, banhavam de sol um antigo tapete tecido com uma intrincada teia de fios vermelhos, marrons e âmbar. O mobiliário de teca e mogno era muito masculino: um majestoso escritório cujas patas terminavam em forma de garras; um suntuoso sofá de couro Chesterfield em uma cor grão de café intensamente torrado; duas poltronas em conjunto. Havia numerosos aparadores de cristal para curiosidades e umas quantas mesas auxiliares com as réplicas mais valoradas pelo professor. A reprodução de um abajur Tiffany completava seu escritório. O computador, com sua tela plana de vinte e uma polegadas, era o único que parecia destoar naquele ambiente. Bastaria tira-lo, e Jessi estaria na biblioteca de uma casa de campo inglesa do século XIX.

                            -Aqui dentro - disse aos repartidores por cima do ombro. O envio resultou não ser exatamente o que ela esperava. Pelo modo em que o professor lhe falou dele, Jessi tinha imaginado um envelope muito grosso, possivelmente um pequeno pacote.

                            Mas em realidade se tratava de uma caixa de madeira enorme. Era alta, larga, aproximadamente do tamanho de um..., bom, de um sarcófago ou algo pelo estilo, e conduzir aquilo através dos corredores da universidade não estava resultando nada fácil.

                            -Com cuidado, homem. Inclina-o! Inclina-o! Ai! Que me esmaga o dedo. Retrocede um pouco e ponha em ângulo!

                            Uma desculpa com voz afogada. Mais grunhidos.

                            -Esta maldita coisa resiste horrores. O corredor é muito estreito.

                            -Já quase chegaram disse Jessi a modo de ajuda-. Só um pouquinho mais.

                            De fato, uns instantes depois os dois homens baixavam com cuidado dos ombros a caixa oblonga e a depositavam sobre o tapete.

                            -O professor me disse que teria que assinar algo - disse Jessi, sem dissimular seu intento por lhes apressar. Tinha por diante um dia inteiro de trabalho e estudo amanhã..., ou seja, hoje.

                            -Necessitamos algo mais que isso, senhora. Este envio não se pode deixar no destino até que tenha sido verificado.

                            -Verificado? -repetiu Jessi-. E isso o que significa?

                            - Que este envio vale um montão de grana, e a pela seguradora que contratou sua apólice, o transportador precisa dispor de uma verificação visual e uma comutação de responsabilidades. Vê? Aqui o tem. O carregador mais corpulento lhe estendeu uma tabuleta para sujeitar papéis em que havia umas quantas folhas. Dá-me igual quem o faça, senhora, como tal de que alguém me tire de cima os formulários.

                            Assim era, porque na folha de envio estava estampado em grandes letras vermelhas VERIFICAÇÃO VISUAL E REQUER COMUTAÇÃO, E logo havia duas páginas de pedante e pomposo jargão legal com toda uma série de términos e definições que detalhavam os direitos da naval e o comprador.

                            Jessi passou a mão por seus curtos cachos escuros e suspirou. O professor não ia gostar de nada daquilo. Havia dito que era algo pessoal.

                            -E se não deixar que abram o envio e o inspecionem?

                            -Então voltará para lugar de que veio, senhora. E asseguro que o transportador encherá o saco muitíssimo.

                            -Sim. - disse o outro homem.- Assegurar essa coisa há flanco um rim e parte do outro. Se tiver que devolvê-la, seu professor terá que cobrir com os gastos da viagem de volta. Ele também se encherá o saco muitíssimo.

                            Os dois repartidores ficaram olhando-a com expressão desafiante, remissos a tornar-se ao ombro pela segunda vez aquela caixa tão difícil de manobrar, levá-la pelo corredor, colocá-la na caminhonete e devolvê-la ao armazém, para logo voltar a fazer a entrega passado um tempo. Nem sequer lhe tinham falado a seus peitos, algo que os homens estavam acostumados a fazer, sobre tudo no primeiro encontro, o que lhe deixou muito claro que estavam impacientes por livrar-se daquela carga e reatar suas vidas.

                            Jessi olhou o telefone. Logo olhou seu relógio.

                            Não sabia o número da habitação do professor e suspeitava que se chamasse o posto telefônico do hospital nunca passariam para ele a essas horas. Embora o professor tivesse insistido em que não tinha nada grave, Jessi sabia que os médicos não o teriam internado se as lesões não tivessem sido bastante sérias. Os hospitais de hoje em dia davam as altas ao mesmo ritmo que os ganhos.

                            Preocuparia-se mais o professor se ela abrisse a caixa, ou se rechaçava a entrega e logo lhe custava uma fortuna ter que carregar com os custos de voltar a transportá-la?

                            Jessi suspirou de novo, tão temerosa de abrir a caixa como de não fazê-lo.

                            Ao final foi quão universitária nunca tinha um centavo a que se encarregou de tomar a decisão.

                            -Perfeito. Pois então façamo-lo. Abram a caixa.

                            Vinte minutos depois, os repartidores tinham posto a boa cobrança a assinatura rabiscada pela Jessi e partiram, levando consigo os restos da caixa.

                            E agora Jessi, em pé ante o objeto, contemplava-o com curiosidade. Não era um sarcófago depois de tudo. De fato, a maior parte do conteúdo da caixa resultou ser um recheio protetor acompanhado de uma grande quantidade de papel.

                            Os repartidores rebuscaram entre capas e mais capas de recheio misturado até extrair um espelho e, depois de perguntar onde queria que o pusessem, foram para as estantes e o deixaram apoiado nelas.

                            Trinta centímetros mais alto que Jessi, o marco do espelho reluzia com suaves brilhos dourados. Formas e símbolos esculpidos de tal uniformidade e coesão que pareciam implicar um sistema de escritura que cobriam até o último centímetro daquele grande adorno. Jessi entreabriu os olhos e ficou a examinar as talhas, mas sua especialidade não era a lingüística, e os símbolos não se correspondiam com nada que, sem rebuscar em livros ou notas, pudesse identificar como uma letra, palavra ou símbolo. Dentro do pomposo marco dourado, as bordas exteriores do cristal prateado se achavam turvados pelo que parecia ser alguma classe de nebulosa mancha negra, mas, além disso, o espelho era assombrosamente limpo. Jessi imaginou que em algum momento de sua existência se teria quebrado e sido substituído, com o que ao final resultaria ser séculos mais jovem que o marco. Nenhum espelho da antigüidade tinha conseguido alcançar semelhante nível de claridade. Embora os espelhos artificiais mais antigos descobertos até o momento pelos arqueólogos se remontavam ao ano 6200 a.C., não eram feitos de cristal, mas sim de obsidiana polida. Os primeiros espelhos de cristal de um tamanho realmente significativo - painéis de metro por metro e meio- não se fizeram até 1680 pelo vidraceiro italiano Bernardo Perrotto para o Salão dos Espelhos do palácio do Versalles, encarregados pelo extravagante Rei Sol, Luis XlV. Os excepcionais espelhos de cristal das dimensões do que Jessi tinha diante de si - com seus impressionantes quase dois metros de altura- geralmente resultavam ter só umas quantas centenas de anos, no melhor dos casos.

                            Tendo em vista como parecia antigo o azougue daquele, devia ter menos de um século de antigüidade, e ninguém tinha enlouquecido ou morrido ao envenenar-se lentamente por mercúrio enquanto o fazia. Muitos chapeleiros e fabricantes de espelhos tinham pagado com a vida sua maneira de ganhar o sustento, mas por sorte isso já pertencia ao passado.

                            Jessi voltou a entreabrir os olhos, pensativa, e submeteu o espelho a um minucioso escrutínio. A arqueóloga que levava por dentro morria de vontade de conhecer a procedência daquela peça, e já começava a se perguntar se o marco estaria datado com exatidão.

                            Franziu o sobrecenho. Para que podia querer o professor um espelho, em todo caso? Essa classe de objetos não correspondia em nada com seus gostos habituais, decantados para as reproduções de armas e relógios antigos como o astrolábio alemão do século XVI que adornava seu escritório. E como podia permitir o professor adquirir com seu salário acadêmico algo que valia "um montão de grana"?

                            Jessi tirou a chave do bolso dos jeans e deu meia volta para ir embora. Fazia o que lhe tinha pedido o professor. Ela já tinha terminado.

                            Apagou a luz e no momento em que se dispunha a sair pela porta sentiu um calafrio. O pêlo da nuca se arrepiou de repente com um súbito formigamento, como se acabasse de eletrizar-se. O coração começou a palpitar freneticamente, e teve a súbita e terrível certeza de que a estavam observando.

                            Do modo em que se observava a uma presa.

                            Com um estremecimento, Jessi voltou novamente para o espelho.

                            Suavemente iluminado pela pálida claridade azulada do protetor de tela do computador, o artefato apresentava um aspecto fantasmal. O dourado tornou se prateado; o azougue do espelho se obscureceu e estava povoado de sombras.

                            E então algo se moveu dentro daquelas sombras.

                            Jessi tragou ar com uma inspiração tão brusca que se engasgou e começou a tossir enquanto gesticulava em busca do interruptor d a luz.

                            Uma súbita corrente de claridade caiu do teto e alagou a habitação.

                            Jessi cravou o olhar no cristal oblongo e apertou a garganta com uma mão ao tempo que tragava convulsivamente.

                            Seu reflexo lhe devolveu o olhar.

                            Passado um instante, Jessi fechou os olhos. Logo os abriu de um golpe. Voltou a olhar no espelho.

                            Só viu si mesma.

                            Um calafrio atrás de outro lhe subia pelas costas. O pulso freneticamente no oco do pescoço sob a palma da mão. Jessi abriu muito os olhos e percorreu a habitação com o olhar, entre nervosa e assustada.

                            O escritório do professor estava exatamente como devia estar. Passado um instante que lhe fez eterno, Jessi tentou rir. Mas o que tivesse devido ser uma gargalhada se converteu em um ofego entrecortado que ressoou por todo o escritório com um sem-fim de eco desagradáveis, como se a quantidade de metros quadrados disponível e o espaço realmente ocupado não coincidissem de tudo.

                            - Jessi, começaram a afrouxar os parafusos - sussurrou. Estava no escritório do professor, a sós com um espelho e sua imaginação hiperativa.

                            Jessi sacudiu a cabeça, voltou-se, apagou a luz e esta vez fechou a porta energicamente e sem olhar atrás.

                            Cruzou o corredor com rápidas pernadas, saiu ao estacionamento na parte de atrás e se encaminhou para seu carro, tão depressa que deixou a seu passo uma esteira de folhas vermelhas e douradas.

                            Quanto maior era a distância que se interpunha entre ela e o edifício, mais ridícula se sentia Jessi. Como tinha chegado a assustar-se dessa maneira só porque era de noite e estava sozinha no campus? Algum dia trabalharia em alguma escavação arqueológica de qualquer rincão perdido do mundo, muito provavelmente a altas horas da noite e às vezes sozinha. Não podia permitir-se essa classe de fantasias. Havia momentos, entretanto, nos que a imaginação começava a fazer das suas, sobre tudo quando tocava um broche druida de dois mil e quinhentos anos ou examinava uma espada fabulosa do período de La Tène (segundo período da idade do ferro - 500ac). Certas relíquias do passado pareciam conter pequenas quantidades de energia, o resíduo das vidas cheias de paixões de quem as havia tocado.

                            Embora nunca nada nem remotamente parecido ao que ela acreditou ver fazia uns instantes.

                            -Que diabos foi isso? -resmungou, ao tempo que sentia um último estremecimento-. Deus, está claro que levo o sexo metido no cérebro.

                            Ver em ação ao bonitão e seu ruiva fazia um momento parecia havê-la afetado profundamente. Isso, combinado com o esgotamento e a pouca luz, decidiu Jessi firmemente enquanto abria a porta de seu carro e se sentava ao volante, teve que ser muito para sua mente e, por um instante, tinha-lhe feito ter uma espécie de alucinação/fantasia com os olhos abertos.

                            Porque por um instante tinha estado convencida de ver um homem meio nu, um deus do sexo feito homem, para falar a verdade em pé no escritório do Keene, que lhe devolvia o olhar.

                            Deixou-se enganar pela luz, algum estranho jogo de sombras, devia ser isso.

                            Um homem imponente, obscuramente belo e musculoso, que gotejava poder. E avidez. E sexo. A classe de sexo do que nunca chegam a desfrutar, as garotas boas.

                            "OH, querida, precisa encontrar um namorado!"

                            Aquele homem a olhava como se ela fosse Chapeuzinho Vermelho e ele o grande lobo mau depois de uma larga temporada de jejum.

                            Sim, não cabia dúvida de que se deixou enganar pela luz. Olhava-a de dentro do espelho.

                            Em um lugar que não era um lugar, e mesmo assim era o bastante lugar para utilizá-lo como fortaleza prisão da que não podia fugir, um lugar tão aterrador que um homem atual teria enlouquecido só vendo, quase dois metros de Highlander do século IX se agitou dentro de sua jaula.

                            Um som bestial vibrou nas profundidades de sua garganta. Tal como pensava: tinha cheirado a uma mulher.

         2

                            Uns dias depois...

                            Quando Jessi voltou a usar sua chave do escritório do professor - já entrada a noite da segunda-feira-, uma parte distante de seu cérebro notou que algo não estava de tudo bem, algum detalhe insignificante que não chegou a advertir, porque nesse momento era a convidada de honra em sua própria e animadíssima festa de auto compaixão.

                            Aconteceu-lhe completamente por alto que primeiro tinha feito girar a chave para logo voltar a fazê-la girar, com o que em realidade fez foi fechar a porta e abri-la de novo.

                            Se não tivesse estado tão entretida em lamentar do deprimente monte de trabalhos de fim de trimestre com o que a obrigavam a carregar a ausência de seu chefe - uns trabalhos que teria tido tempo de começar a qualificar se a noite anterior o Professor Keene não tivesse deixado na secretária eletrônica uma mensagem com uma larguíssima lista de publicações e fontes diversas que queria que levasse ao hospital depois de recolher em uma dúzia de lugares distintos, a fim de tomar notas para o livro que tinha começado a escrever em sua convalescença-, Jessi teria sido o bastante consciente do que a rodeava para pensar-se duas vezes se devia voltar a entrar nesse escritório.

                            Então possivelmente houvesse tornado a fechar a porta, tivesse dado uma volta na chave e logo tivesse ido em busca do serviço de segurança do campus.

                            Desgraçadamente, absorta como estava em sua própria desdita Jessi não se deu conta de nada.

                            Plantada ante a porta entreaberta, apartou umas mechas da cara com um vigoroso bufido e trocou de lugar a mochila cheia prestes a arrebentar que levava no ombro para que seus livros lhe deixassem de cravar-se na parte posterior das costelas.

                            -Cento e onze trabalhos? Por que não se conformam me dando um tiro e ao menos assim deixarei de padecer? -Jessi tinha contado os trabalhos com incredulidade depois de que Mark Troud os entregasse com um amplo sorriso. Adeus a toda esperança de dormir embora só fosse uma hora durante os próximos dias.

                            "Né acordamos que eu daria as aulas do Keene, Jess, e já sabe quão apertado tenho o horário. "Ele disse que você se encarregaria de qualificar os trabalhos."

                            Jessi sabia exatamente por que seu chefe havia dito que ela se encarregaria de qualificar os trabalhos. Porque, sem dúvida, Mark o tinha chamado durante o fim de semana para " sugerir" que fosse ela. Mark não deixava de lhe complicar a vida desde o ano passado, qual tentou ficar com ela (sem êxito) na festa natalina do departamento. Jessi não suportava que os homens tentassem cercar conversação com seus peitos assim que a conheciam, como se por cima deles não houvesse nada no que valesse a pena fixar-se, e Mark era um caso particularmente patético. Ela não ia por aí falando com a entre perna dos homens.

                            Como era de esperar, o professor tinha deixado outra mensagem enquanto ela dava uma aula - com o que nas últimas vinte e quatro horas o total de comunicados já subia a cinco (Por Deus, que alguém lhe requisitasse o telefone desse homem ou o deixasse inconsciente com uma boa dose de sedativos)-, para lhe agradecer que fosse "uma ajudante tão simpática e disposta a ajudar aos dois, Mark está ocupadíssimo, e disse que não se importaria em lhe dar uma mão".

                            Claro. Como se Jessi pudesse escolher. E como se Mark estivesse ainda mais ocupado que ela. Mas o mundo acadêmico ainda era como o resto do mundo em muitos aspectos, uma reserva masculina e cada vez que Jessi começava a esquecê-lo, a vida invariavelmente se apressava a lhe administrar alguma classe de aviso. Jessi empurrou a porta com o quadril, entrou no escritório e a deixou entreaberta. Logo rodeou o escritório e foi diretamente para uma das paredes das estantes. Não se incomodou em acender a luz, em parte porque ela mesma se encarregou de organizar o escritório e sabia exatamente onde encontrar os dois livros sobre os celtas da Galia que queria o professor Keene, e em parte porque estava decidida a não deixar-se distrair pelo espelho e o formigueiro de perguntas que tinha feito aparecer em sua mente.

                            Procurava não pensar no estranho efeito óptico que padeceu na sexta-feira, e tinha chegado à conclusão de que tudo foi coisa da pouca luz combinada com o esgotamento. Mas morria de vontade de saber se o espelho era uma autêntica relíquia. Como tinha arrumado o professor para consegui-lo? Haveria alguma forma de estabelecer sua origem? Levou-se a cabo alguma datação realmente confiável? O que eram esses símbolos, em todo caso?

                            Jessi tinha o tipo de memória que sempre pegam as coisas com uma habilidade extremamente útil no campo acadêmico que tinha elegido, e bastou com aquela rápida inspeção inicial para que alguns dos símbolos ficassem gravados nela. Seu subconsciente não tinha deixado de dar voltas após, e estava muito ocupado perguntando-se por que lhe resultavam tão familiares e, entretanto, ao mesmo tempo lhe parecia que não deveriam estar ali. Jessi tentava determinar onde tinha visto. Algo similar anteriormente. Sua especialidade era a arqueologia da Europa do paleolítico até a Idade do Ferro "celta". Embora estivesse claro que o espelho era de manufatura recente, não podia evitar sentir-se fascinada pela possibilidade de que em realidade o marco pudesse remontar-se a algum momento de finais da Idade do Ferro.

                            Conhecia o bastante bem a si mesma para saber que se essa noite jogava outra olhada à relíquia, a curiosidade poderia mais que ela e ficaria a rebuscar nos livros de referência do professor para tentar determinar o que eram aqueles símbolos ao mesmo tempo em que espremia o cérebro para estabelecer uma data. "Tampouco seria a primeira vez", pensou sardonicamente. Já tinha perdido a conta das noites que tinha passado em claro sem dar-se conta, concentrada em examinar um artefato ou outro, sobretudo naquelas estranhas e gloriosas ocasiões em que a universidade tinha a sorte de que algum colecionador lhe confiasse uma peça durante uns dias para que fosse estudada ou verificada. Ao dia seguinte sempre o pagava com acréscimo. Com essa infernal pilha de trabalhos esperando-a, não podia permitir-se perder nem um instante. Entrar e sair, rápida e eficiente, era: o plano e se atinaria a ele.

                            Dispunha-se a agarrar da prateleira os dois grossos volumes que devia buscar quando ouviu o suave estalo da porta ao fechar-se atrás dela.

                            Jessi ficou imóvel, com a mão suspensa no ar. Logo soltou um bufido e agarrou o primeiro livro. Uma corrente e ar. Só tinha sido isso.

                            -Esquece-o, de acordo? Não pense me assustar só porque é de noite e volto a estar sozinha no campus. Esse ditoso espelho só é um espelho-. Disse firmemente à prateleira.

                            -Em realidade, não é - murmurou detrás dela uma voz que falava com um leve acento-. É muito mais que um mero espelho Quem mais sabe que está aqui?

                            Jessi deixou escapar uma exclamação afogada e se voltou tão depressa que o livro lhe escapou da mão, chocou-se contra a parede e caiu ao chão com um ruído que a fez estremecer. Sabia que o professor Keene adorava seus livros, sobre tudo os de tampas duras, e se poria feito uma fúria se o descuido de Jessi provocava que aquele acabasse com o lombo partido. Ao outro extremo do escritório, a tênue claridade que emanava do ordenador, pôde entrever a silhueta de um homem apoiado contra a porta, olhando-a com os braços cruzados em cima do peito.

                            -Q... o que..., quem...? -gaguejou Jessi.

                            A habitação ficou alagada de luz.

                            -Assustei-a - disse o homem docemente, ao tempo que apartava a mão do interruptor da parede.

                            Depois Jessi se daria conta de que não se tratou de uma desculpa, mas sim do mero reconhecimento de um fato.

                            Voltou a piscar, ainda um pouco deslumbrada pelo súbito incremento na voltagem, e olhou ao homem. Tranqüilamente apoiado na porta, havia tornado a cruzar-se de braços. Alto e com uma constituição magnífica, era extremamente atraente. Seus largos cabelos loiros recolhidos sobre a nuca revelavam um rosto clássico impecavelmente barbeado. Levava um caro traje escuro feito sob medida, uma camisa recém engomada, uma gravata muito elegante. Seu acento soava claramente eslavo, talvez russo, pensou Jessi. Um jovem professor estrangeiro em visita acadêmica? Contratado pela universidade para que desse algum curso, possivelmente?

                            -Não sabia que houvesse ninguém mais nesta ala do departamento-disse-. Busca ao professor Keene?

                            -O professor e eu já passamos um momento juntos esta noite-replicou ele com um fantasma de um sorriso.

                            Uma maneira bastante estranha de expressá-lo; o comentário passou pela mente do Jessi sem que chegasse a percebê-lo, porque ainda estava assimilando o gambito de abertura do visitante. O tema lhe interessava muito, assim decidiu centrar-se nele.

                            -O que quer dizer com isso de que é muito mais que um mero espelho? O que você sabe a respeito dele? De onde procede? Veio aqui para autenticá-lo? Ou já foi autenticado? O que são esses símbolos? Sabe?

                            Ele se separou da porta e deu dois passos para o interior do escritório.

                            -Tenho entendido que o trouxeram na sexta-feira passada. Viu-o alguém mais?

                            Jessi refletiu uns instantes e logo negou com a cabeça.

                            -Acredito que não. Os que trouxeram a encomenda abriram a caixa, mas, além disso, só eu o vi. Por quê?

                            Ele percorreu o escritório com o olhar.

                            -Não entraram para limpar? Alguma outra pessoa que tenha uma chave como a sua?

                            Jessi franziu o sobrecenho, um pouco perplexa ante o curso que tomavam as perguntas. E um pouco irritada ao ver que o homem não respondia a nenhuma das suas.

                            -Não. O serviço de limpeza vem às quartas-feiras e a única razão pela que tenho uma chave é que sou a ajudante do professor Keene.

                            -Compreendo - disse o homem, ao tempo que avançava outro passo.

                            Foi então quando Jessi o sentiu.

                            Ameaça. Como uma aura impalpável que emanava dele. A princípio não a tinha percebido, desarmada por sua atitude, curiosa sobre o artefato, distraída perifericamente por suas próprias reflexões. Mas estava aí, um lobo oculto sob o disfarce de ovelha. Em que pese a toda sua aparência de educado interesse, havia algo frio e perigoso debaixo daquele traje tão elegante. E agora seu olhar estava posto nela.

                            Por quê? Não tinha nenhum sentido!

                            E de repente esse minúsculo detalhe que lhe tinha passado por cima quando fez girar a chave na fechadura emergiu das águas lamacentas do subconsciente do Jessi. A porta não estava fechada com chave! Aquele homem tinha que estar dentro do escritório, e se escondeu detrás da porta quando ela a empurrou com o quadril!

                            "Faz que siga falando", pensou enquanto tentava não deixar-se levar pelo pânico. Respirou fundo. A adrenalina já havia entrado em ação, lhe acelerando o ritmo cardíaco e fazendo que sentisse pequenos tremores nas mãos e as pernas. Jessi se concentrou em ocultar que, embora tarde, por fim tinha reconhecido o perigo. A surpresa podia ser a única vantagem de que dispunha. Em algum lugar do escritório havia algo que poderia usar como arma, algo mais ameaçador que um livro. Tinha que fazer-se com esse algo ante que aquele homem soubesse que o tinha descoberto. Jessi olhou dissimuladamente para a direita.

                            Sim! Tal como pensava, uma das réplicas de facas antigas do professor estava exposta em uma mesinha de curiosidades perto dela. Embora fosse uma reprodução, feita de aço e não de ouro encravado com pedras preciosas, seria tão mortífera como o original.

                            -Bom, E que antigüidade tem esse espelho? -perguntou, ao tempo que adotava sua melhor expressão de olhos abertos ao máximo e perdão-mas-é-que-sou-um pouco-tonta.

                            Por um momento o homem pareceu meditar se devia lhe responder ou não, e logo encolheu de ombros.

                            -Você provavelmente o situaria na Antiga Idade da Pedra.

                            Jessi tragou ar, e por uma fração de segundo se esqueceu do medo. A Antiga Idade da Pedra? Tirava o sarro ou o que?

                            Um momento, um momento. Pois claro que não o dizia a sério! Era patentemente impossível. As primeiras formas de escrita, a cuneiforme e os hieróglifos, não tinham aparecido até um período situado entre meios e finais do século IV antes da era cristã! E esses símbolos esculpidos no marco do espelho em alguma classe de escritura.

                            - Ja, ja. Ouça, que não sou tão idiota. - Bom, admitiu Jessi uma careta de consternação, o certo era que hoje dava a ilusão de sê-lo, virtualmente em todas as frontes, mas normalmente ela não era assim. Normalmente ela só padecia de uma ou duas frentes de estupidez, mas não essa espécie de atordoamento generalizado que a envolvia por toda parte-. Isso o situaria antes do ano dez mil da era cristã - mofou, enquanto roubava uns quantos centímetros mais. Teria se dado conta o homem do que tentava fazer ela? Fosse assim, dissimulava-o muito bem.

                            -Sim, situaria-o justo aí. Consideravelmente "pre" - disse ele enquanto dava outro passo adiante.

                            Jessi considerou a possibilidade de gritar, mas estava quase segura de que não havia ninguém mais na ala sul àquelas horas da noite, e suspeitava que mais valia que economizasse energias para investi-las em defender-se.

                            -De acordo, ponhamos que dito aceitar isso como ponto de partida, ao tempo que se deslocava umas quantas frações de centímetro. "Só um pouquinho mais. "Que não deixe de falar." atreveria-se a saltar sobre a faca-. Você assegura que o marco pertence à Antiga Idade da Pedra. Correto? E as talhas foram acrescentadas depois, e o espelho foi inserido no marco ao redor do século passado.

                            -Não. A peça inteira, em sua totalidade, é da Antiga Idade da Pedra.

                            Jessi ficou boquiaberta. Apressou-se a fechá-la, mas sentiu que voltava a abrir. Escrutinou o rosto do homem e não detectou nenhum indício de que estivesse tomando o cabelo.

                            -Impossível! Símbolos à parte, isso é um espelho de cristal!

                            Ele riu brandamente.

                            - Não... De tudo. Nada é... Exatamente o que parece em uma peça invisível.

                            -Uma peça invisível? -repetiu ela com cara de perplexidade-. Temo-me que não estou familiarizada com essa classificação. Curvou os dedos, pronta para lançar-se sobre a faca enquanto sua mente iniciava a contagem. Cinco... , quatro... , três...

                            -Quase ninguém o está. Indica que referimos a certas relíquias tão especiais que poucas pessoas chegam às ver e são ainda menos as que vivem para contá-lo. Antigas consagrações feitas pelos tuatha dê danaan mais tenebrosos. Guardou silêncio, um instante. - Não se preocupe, Jessica St. James...

                            OH, Deus, aquele desconhecido sabia seu nome. Como tinha podido chegar a inteirar-se disso?

                            -... Farei que aconteça o mais rápido possível. Não sentirá nada. - Seu sorriso era aterradoramente amável.

                            -Mãe de Deus! Jessi saltou sobre a faca no mesmo instante em que o homem se equilibrava sobre ela.

                            Quando se teme por sua vida, observou Jessi com o sereno distanciamento próprio de um sonho, os acontecimentos têm uma estranha forma de fingir que transcorrem mais devagar, embora saiba que em realidade correm vertiginosamente para ti como um trem expresso decidido a te esmagar.

                            Foi consciente de cada detalhe do ataque do homem, como se a visse projetada em uma minuciosa supressão de fotos instantâneas: seus joelhos se flexionaram, seu corpo esticou sobre si mesmo como uma mola a ponto de saltar, uma mão entrou em um bolso e saiu dele com um cabo muito magro cujos extremos estavam envoltos em couro, os olhos esfriaram, o rosto endureceu, e inclusive reparou na sombra de brancura que apareceu ao redor de suas fossas nasais quando estas se dilataram de repente sob os efeitos de uma aterradora e incongruente excitação sexual.

                            A percepção de seu próprio corpo experimentou uma dicotomia similar. Sabia que respirava com bruscos ofegos entrecortados e o coração pulsava muito depressa, mas sentia as pernas pesadas como o chumbo e os poucos passos que conseguiu dar pareceram requerer uma vida inteira.

                            O homem apertou os lábios em uma careta zombadora e, nesse sorriso que cortava como uma navalha, Jessi viu a súbita certeza de que embora conseguisse chegar a armar-se com a pequena faca, daria absolutamente igual. A morte aguardava naquele sorriso. Ele já tinha feito aquilo antes. Muitas, muitas vezes. E era um perito nisso. Jessi não tinha nem idéia de como sabia, simplesmente sabia.

                            Enquanto o homem vinha para ela, os extremos envoltos em couro do cabo já estendidos ao redor de suas mãos, o brilho prateado do espelho, apoiado nas estantes além da mesa, atraiu o olhar do Jessi.

                            O espelho, claro!

                            Embora fosse seguro que nunca poderia vencer a aquele assassino em um enfrentamento físico, dava a casualidade de que se encontrava justo entre ele e o que queria.

                            E o que queria era muito frágil.

                            Jessi virtualmente caiu sobre a mesinha de curiosidades e, em vez de agarrar a faca, apartou-o e aferrou a grosa base de estanho do abajur que havia ao seu lado. Logo girou em um movimento sinuoso para encarar com o homem, retrocedeu até que sentiu que o espelho lhe roçava as costas, e elevou o abajur como se fosse um taco de beisebol de beisebol.

                            -Quieto aí!

                            O homem se deteve tão abruptamente que poderia ter caído de bruços, o que dizia muito sobre a enorme quantidade de músculo letal que havia debaixo daquele traje. OH, sim, assim que a tocasse podia dar-se por morta.

                            -Dá mais um passo e farei pedacinhos o espelho - disse Jessi, ao tempo que brandia o abajur ameaçadoramente.

                            Era o som de uma brusca inspiração o que acabava de ouvir detrás dela? Seguido por um juramento em voz baixa?

                            Impossível!

                            Jessi não se atreveu a voltar-se. Não se atreveu a apartar os olhos de seu atacante embora só fosse por um momento. Não se atreveu a dar passo ao soluço de medo que tentava subir por sua garganta.

                            Um brilho de fúria ardeu nos olhos do homem quando olhou mais à frente do ombro do Jessi, e logo voltou a cravar o olhar em seu rosto.

                            -Não o fará. Você não destrói a história, mas sim a preserva. Essa coisa não tem preço. E é tão antiga quanto disse que era. Poderia ser a relíquia mais importante jamais vista por arqueólogo algum. Desmente milhares de anos dessa suposta <<história>> dela. Pense no impacto que poderia chegar a causar sobre seu mundo.

                            -Sobre o meu pessoalmente? Caramba, pois, uh, nenhum, se estiver morta. Retroceda, senhor, se não querer ver feito pedacinhos desse espelho. E acredito que você quer que siga inteiro. Porque me parece que quebrado já não teria absolutamente nenhum valor para você. - Se a ia matar, dava igual reduzir o espelho a um milhão de diminutos fragmentos chapeados; por muito que a historiadora que levava dentro protestasse violentamente ante semelhante sacrilégio. Se ia morrer ali, Jessi levaria consigo o que aquele homem desejava possuir. Se for estar morta, Por Deus, ele ia ser desgraçado, também.

                            Um músculo tremeu na mandíbula do homem. Seus olhos foram da Jessi ao espelho e voltaram a cravar-se nela. Seu corpo se esticou como se dispusesse a dar um passo adiante.

                            -Não o faça - lhe advertiu Jessi-. Falo a sério. -Sopesou a base do abajur, pronta para incrustá-la no espelho assim que o homem começasse a respirar de uma forma que não fosse de seu agrado. Isso possivelmente faria que começassem a lutar em cima das partes de cristal; ele escorregaria, cortaria-se e não demoraria em morrer sangrando. Parecia improvável, mas coisas mais estranhas se viram.

                            -Empate - murmurou ele-. Interessante. Tem mais coragem do que pensava.

                            -Se quer viver, moça - disse detrás dela uma voz muito profunda que falava com acento escocês-, mais vale que me chame agora mesmo para que possa sair daqui.

                            Jessi estremeceu, e sentiu que lhe arrepiava o pêlo da nuca.

                            Igual a que tinha acontecida na sexta-feira, de repente o escritório pareceu sofrer uma estranha alteração. Já não tinha o tamanho e a forma que se supunha deveria ter. Era como se uma porta - que segundo todas as convenções da realidade não podia estar ali- acabasse de abrir-se subitamente, e as dimensões conhecidas do mundo que habitava Jessi tivessem deixado de estar em seu lugar habitual.

                            -Fecha o bico - grunhiu seu atacante, com o olhar ainda fixo mais à frente do ombro do Jessi-, ou eu mesmo te esquartejarei.

                            Uma escura e zombadora gargalhada ressoou atrás do Jessi. O som a fez estremecer.

                            -Não te atreverá a fazê-lo, e sabe muito bem. Por isso não te equilibraste sobre ela. Lucan te enviou aqui com umas instruções muito precisas. Tem que o levar de volta intacto, não? A mera possibilidade de que o espelho possa ficar feito pedacinhos, te gela o sangue, verdade? Porque sabe o que te faria ele então. Suplicaria a morte.

                            -Vale já, não? -sussurrou Jessi, com os olhos muito abertos. Podia sentir como lhe mudava a cara, e sabia que estava branca como a neve-. Não posso acreditá-lo. -Tragou ar com uma trêmula inspiração-. É que não posso acreditá-lo ...

                            A lógica insistia em que não podia haver ninguém detrás dela, E muito menos dentro de um espelho, pelo amor de Deus! Mas a parte mais visceral da Jessi não era da mesma opinião. Essa parte percebia a presença de um "Homem", com h maiúsculo, atrás dela, e esse homem emitia o calor de uma pequena forja, o bastante intenso para que Jessi sentisse que de repente fazia um terrível frio diante e aos lados dela. O pescoço começava a doer pelo esforço de manter o olhar fixo no homem que queria assassiná-la e reprimir o impulso de girar a cabeça para olhar o espelho. Jessi podia senti-lo detrás dele. Algo. Alguém. Poder enjaulado. Sexualidade enjaulada. Não saberia dizer o que era o que havia atrás dela, mas fosse o que fosse tinha que ser formidável.

                            -Não te dê a volta, mulher - lhe aconselhou ele, isso ou o que queira que fosse aquela presença-. Não aparte os olhos dele e fala depois de mim...

                            -Não o aconselho - a advertiu o homem loiro enquanto a olhava aos olhos-. Não tem nem idéia do que deixaria sair desse espelho se o fizesse.

                            Jessi voltou a tragar ar com outro ofego entrecortado. Podia sentir a fúria que o loiro se obrigava a manter a raia e sabia que ele chegava a pensar, embora só fosse por uma fração de segundo, ela não ia romper o espelho depois de tudo, já podia dar-se como morta. Não se atrevia nem a pestanejar, porque temia que o loiro aproveitasse esse fugaz instante de vulnerabilidade para equilibrar-se sobre ela. E as suas costas havia algo que não podia estar aí, ao menos não segundo nenhuma das leis da física tal como as entendia Jessie. Estava disposta a admitir que houvesse umas quantas leis das que não entendia, mas se sentia o bastante segura das que tinha conseguido chegar a entender para decidir-se a protestar com um fio de voz:

                            -Isto é uma loucura.

                            -Deixá-lo sair sim seria uma loucura - disse o loiro-. Aparte-se do espelho. Faça o que lhe digo e me assegurarei de que não lhe faça nenhum dano.

                            -OH, como vou acreditar isso. Agora decidiu ser meu protetor?

                            -Me chame para que possa sair daqui, mulher- ordenou a voz espelho-. Seu protetor sou eu.

                            -Isto não está acontecendo-. Jessi tentou convencer-se de que aquilo não podia ser verdade. A sensação de estar vivendo um sonho aumentava por momentos. Jessi sentia como se estivesse em pé, perplexa, em um cenário, enquanto os atores interpretavam seus papéis ao redor dela, e se alguém tinha um programa de mão com essas pequenas sinopses que lhe ajudavam a seguir a obra, ela não os tinha visto. Por nenhuma parte.

                            -Matará-te, moça - disse a profunda voz escocesa a suas costas-, e você sabe. Mas não sabe que eu vá te matar. Morte segura ou a possibilidade de morrer, a eleição é muito simples.

                            -E supõe que isso tem que me tranqüilizar?-resmungou Jessi secamente por cima do ombro, em uma réplica dirigida ao que fosse que estava ali, mas que realmente não podia estar ali.

                            O loiro sorriu friamente.

                            -OH, ele a matará, e muito mais brutalmente que eu. Com exceção de que se sair daí a deixarei viver. Agarrarei o espelho e irei. Dou-lhe minha palavra.

                            -Vá - replicou Jessi, ao tempo que negava com a cabeça-. Agora. E não romperei o espelho.

                            -Não se irá, moça, até que esteja morta. Não pode fazê-lo. Está obrigado a servir a alguém que o castigaria se te deixasse com vida agora que viu o Cristal Escuro. Não há nada que eu possa fazer para te convencer de que deva confiar em mim. Terá que confiar em seus instintos. Ele ou eu. Escolha. Agora.

                            -É um assassino implacável, e está encerrado aí porque não havia outra maneira de detê-lo. Foi feito prisioneiro porque era um perigo para o mundo. Fez falta todo o poder de uns druidas formidáveis...

                            -Mulher, escolha! Repete isto: Lialth bree che bree, Cian MacKeltar, drachme sesidh!

                            Jessi não vacilou em repetir as estranhas palavras apenas as ouviu. Porque ao fim tinha entendido o que era o que estava passando. Seus instintos não a tinham enganado, porque nada de todo aquilo estava acontecendo.

                            O que estava acontecendo era que tinha entrado no escritório do professor Keene e, em vez de ir diretamente à prateleira para agarrar os livros como acreditou que tinha feito, sentou-se um instante no fofo sofá de couro Chesterfield porque notava os olhos um pouco cansados. Mas terminou em uma posição muito horizontal. Agora estava profundamente adormecida, e tinha o mais estranho dos sonhos.

                            E todo mundo sabia que dava igual o que pudesse ocorrer em sonhos. Ao final sempre despertava. Sempre. Assim, porque não deixar sair do espelho aquele homem?

                            Jessi repetiu o estranho encantamento duas vezes, só para estar segura. Houve uma chama de intensa luz dourada, o calor se incrementou marcadamente detrás dela, e de repente o escritório pareceu muito pequeno para tudo o que havia nele. A sensação de distorção espacial aumentou até voltar-se quase insuportável.

                            O abajur foi extraído de seus dedos sem força e depositada em seu lugar. Umas mãos muito fortes se fecharam sobre sua cintura por atrás. Levantaram-na do chão e a depositaram atrás do proprietário das mãos, de modo que ficasse resguardada por seu corpo

                            Então foi quando o cheirou. OH, Deus, Tinha sentido ela alguma vez um aroma semelhante? Os músculos da feminilidade lhe puseram rígidos com um súbito espasmo. Ali não havia nenhum vestígio químico de desodorante ou loção pós-barba. Nada artificial. Só homem em estado puro: uma combinação de couro esquentado pelo sol em contato com a pele, um beijo enfeitado por ganso de prego ou algum outro condimento exótico, um hálito de suor, e a muda promessa do sexo sem ataduras de nenhuma classe. Se o domínio sexual masculino tinha um aroma, aquele homem parecia ser feito dele e sua proximidade fez que Jessi sentisse como se acabassem de lhe administrar uma dose maciça de feromonios, porque tanto os mamilos como a virilha esticaram de repente em um súbito despertar sexual.

                            Olhou acima. E um pouco mais acima.

                            Era o mesmo homem muito alto, imponente e cheio de músculos, fantasia da noite da sexta-feira; sua larga juba negra uma dúzia de tranças, rodeadas com contas de ouro, prata e cobre lhe cobriam a metade das costas. Sua nua, aveludada e OH-tão-formosas costas.

                            -Buf -ofegou Jessi. Em todas suas incursões voyeurísticas, nunca tinha chegado a ver um homem tão selvagem e esplendidamente masculino. Acreditava que essa classe de homens só existia em seu subconsciente.

                            Então lhe ocorreu pensar que dado que tudo aquilo era obra de seu subconsciente, já ia sendo hora de que tentasse transformar esse perverso sonho hoje-todo mundo-tenta-matar-a Jessi em algo que fosse mais de seu agrado: um sonho abrasadoramente sexual, por exemplo.

                            Normalmente até ao mais intratável dos sonhos lhe bastava com um empurrãozinho de nada.

                            Bom, pois então empurraria um pouco. Que teria que empurrar a aquele homem que parecia uma fantasia feita realidade? Faria-o de boa vontade. Com supremo prazer, inclusive. Jessi pôs as mãos sobre aquelas costas perfeitas, e se concentrou em sentir a presença de cada um dos músculos sob suas palmas enquanto as subia lentamente por ele.

                            Fechou as mãos sobre aquela magnífica juba escura. Esfregou-se contra aquele homem, amoldando o corpo a esse musculoso traseiro tão deliciosamente apertado.

                            E o lambeu.

                            Subiu lentamente a língua por suas costas. Saboreou o sabor a sal, homem e calor masculino.

                            Notou que todo o corpo dele se convulsionava com uma violência que lhe teria parecido aterradora, se estivesse acordada e algo de todo aquilo fosse real. Ouviu-o tragar ar com um vaio entrecortado, como se acabasse de sentir uma dor deliciosa. Logo ficou completamente imóvel, e emitiu um som gutural.

                            -Me prove, mulher -vaiou.

                            Jogou a cabeça atrás com um brusco puxão que liberou suas tranças das mãos do Jessi. Cruzou a soleira com grande rapidez e fechou de uma portada.

                            Só então se deu conta Jessi de que seu atacante tampouco estava ali. Teria fugido assim que ela liberou o homem do espelho.

                            Com um ruidoso suspiro, Jessi foi ao sofá e se sentou. Passados uns instantes, tombou-se, estirou as pernas e cruzou os braços detrás da nuca.

                            Cruzou as pernas. As descruzou. Esfregou os olhos. Beliscou-se experimentalmente um par de vezes.

                            Deus estava excitadíssima. Não recordava ter estado tão excitada em toda sua vida. Apertando-se contra o corpo dele havia sentido uma espécie de..., descarga, a falta de uma palavra melhor. Percorria-a de pés a cabeça, e em seguida estava pronta para o sexo. Com as calcinhas molhadas, disposta a ir diretamente ao final sem necessidade de preliminares, e impaciente por entrar em ação.

                            <<Assim que isto é o que chamam um sonho úmido>>, pensou com um bufo de diversão.

                            Um sonho úmido preocupantemente vívido e detalhado, mas um pouco torpe no fim.

                            Agora despertaria em qualquer momento.

                            Aha. Em qualquer momento.

         3

                            Jessi despertou com frio, com os músculos intumescidos e o início do que prometia ser uma espantosa dor de cabeça.

                            Doía-lhe o pescoço por ter dormido em uma postura estranha e em algum momento da noite devia ter atirado o travesseiro ao chão, porque não havia nada nem remotamente fofo debaixo de sua cabeça. Abriu os olhos e se incorporou, com a intenção de tomar um pouco do Advil, recuperar o travesseiro perdido e passar outro momento deitada, mas, assim que abriu os olhos, teve que acrescentar a sua lista de queixas o fato de que não tinha nem idéia de qual era sua localização atual dentro do universo. Estava perplexa.

                            Desgraçadamente, a pausa da realidade que lhe proporcionou que ainda não se despertou de tudo foi muito breve. Porque apenas se incorporou, Jessi descobriu que não estava em sua cama, a não ser no sofá do escritório do professor Keene, e os acontecimentos da noite anterior estalaram como uma bomba de ação retardada dentro de seu cérebro.

                            Jessi gemeu, deixou cair à cabeça e a apertou com as mãos. Acontecimentos impossíveis: um desconhecido que tinha tentado matá-la no escritório; uma absurda história de que o espelho se remontava à Antiga Idade de Pedra; um homem dentro do espelho ao que ela tinha liberado, sem lhe importar que supostamente fosse um assassino implacável.

                            Pura loucura.

                            -O que está me passando? -choramingou Jessi com o rosto entre as mãos.

                            Mas já sabia o que lhe estava passando; era dolorosamente óbvio. Tinham-lhe começado a afrouxar os parafusos, isso era o que acontecia. E a sua não seria a primeira mente que sucumbia sob o peso de uma carga muito ambiciosa no curso de pos graduação. Estranho era o trimestre em que não houvesse um ou dois estudantes que se davam por vencidos. Os sobreviventes sempre sacudiam a cabeça e fofocavam implacavelmente a respeito de como fulano ou fulana "não tinha podido agüentar a pressão". Jessi sabia, porque estava presente quando diziam essas coisas.

                            "Mas eu posso agüentar a pressão! Obtenho uns resultados realmente magníficos, não há mais que jogar uma olhada as minhas qualificações acadêmicas!", protestou para seu interior.

                            "Claro, claro. "Pois então -replicou a lógica sem alterar-se- já me dirá que outra explicação pode haver para todas essas alucinações, ou sonhos, ou o que quer que sejam, que não paraste que ter durante os últimos dias."

                            Jessi suspirou. Tratar de negar não serviria de nada, porque o certo era que durante os últimos dias tinha tido um par de episódios de..., bom, algo... , durante os que não só tinha sido incapaz de distinguir a realidade da fantasia, mas também era como se nem sequer fosse ela a que criava a fantasia.

                            "O que não parece justo", pensou enquanto tragava uma borbulha de gargalhadas que teriam soado quase histéricas. Se uma garota estava perdendo o julgamento, não deveria ao menos desfrutá-lo um pouco? Por que demônios ia conjurar a um espécime masculino ideal, o mais incendiário dos bonitões, só para logo converter a si mesmo na vítima indefesa de algum estranho plano de assassinato?

                            -É que não entendo. -Jessi levou os dedos às têmporas palpitantes e as esfregou cautelosamente em lentos círculos. Ao menos que realmente tivesse acontecido.

                            -Claro. Já. Um homem dentro do espelho. Seguro.

                            Com os dedos ainda nas têmporas, Jessi levantou a cabeça e passeou o olhar pelo escritório suavemente iluminado, em busca de pistas. Não havia nenhum indício de que alguém mais tivesse entrado ali além dela. OH, o abajur estava no chão, em vez de sobre sua mesinha habitual, e havia um livro atirado no tapete junto à parede, mas isso não provava que ontem à noite houvesse alguém mais no escritório com ela. Ou não podia caminhar dormindo enquanto tinha os sonhos mais vívidos.

                            Jessi se obrigou a olhar no espelho. Diretamente dentro dele. Duro cristal prateado. Nada mais.

                            Obrigou-se a levantar do sofá e ir para o espelho. Pôs suas palmas quentes sobre o ainda mais frio cristal.

                            Duro cristal prateado. Nada mais. Era impossível que algo tivesse saído daí.

                            Jessi ficou firme e deu as costas à relíquia.

                            Com gestos lentos e enrijecidos, recolheu sua mochila do chão, foi procurar os livros que lhe tinha pedido o professor, os meteu na bolsa, saiu do escritório e fechou a porta com chave.

                            Pela primeira vez em toda a história de sua carreira acadêmica, Jessi fez o impensável: faltou às aulas, foi a casa, tomou umas quantas aspirinas, colocou sua camiseta favorita do Godsmack, meteu-se na cama e se tampou a cabeça com as mantas.

                            E ficou escondida ali.

                            Ela nunca se dava por vencida. Nunca renunciava a seus planos e ao programa que se fixou. Nunca tentava evitar responsabilidades. Por muito sobrecarregada de obrigações que pudesse chegar a estar, Jessi sabia que bastava deixar que uma só delas se atrasasse ou ficasse por atender para que uma dúzia mais se visse afetada. Um pequeno lapso de nada podia dar início a uma incomparável queda em cascata para os abismos sem fundo da entropia. Portanto, tudo tinha que ser atendido e completado da maneira planejada.

                      No inverno anterior, Jessi tinha ido à aula durante uma das tormentas de neve mais brutais que se recordavam em Chicago, tremendo de pés a cabeça com os violentos calafrios de um início de gripe e encontrando-se tão mal que sentia como se lhe tivessem colocado um alfinete em cada um dos milhões de diminutos poros de sua pele. Em mais de uma ocasião tinha dado aulas enquanto incubava uma laringite que quase a tinha deixado sem voz, ajudada unicamente por um chá que sabia fatal feito com azeite de oliva, exumações de laranja e outros ingredientes não mencionáveis que ainda a faziam estremecer quando pensava neles. Tinha qualificado trabalhos com quase quarenta graus de febre.

                            Mas a loucura não era uma tarefa pendente que alguém pudesse tirar de cima para lhe voltar às costas e passar ao próximo projeto.

                            E Jessi não tinha nem idéia de como fazer para se ver com ela. Nada mais que cruzar a porta de seu apartamento, pensou que o chocolate podia ser um bom primeiro passo, assim agarrou um saco do Hershey Kisses que reservava para as emergências (por exemplo, algum desastre particularmente grave no cabelo, o síndrome de tensão pré-menstrual, ou o típico dia em que não agüentava aos homens), e ficou a dar boa conta daqueles deliciosos salgadinhos de cacau em seu quente casulo debaixo das mantas.

                            Depois de ter devorado o saco inteiro, ficou profundamente adormecida.

                            Dormiu sem parar até as nove da noite.

                            Ao despertar encontrava-se muito melhor, tanto que lhe ocorreu que talvez quão único precisasse fosse dez horas seguidas de sono sem interrupções. Que, agora que começava a fazer-se maior - depois de tudo, tampouco era como se acabasse de matricular-se na universidade. Já tinha vinte e quatro anos!-, suas freqüentes noites em claro possivelmente já não fossem tão suportáveis como no passado. Que possivelmente deveria começar a tomar vitaminas. Beber mais leite. Comer verduras.

                            Não estava louca, disse-se, ao tempo que sacudia a cabeça e sorria levemente ante o absurdo da idéia. Os dois sonhos/alucinações tão intensamente vívidos que tinha tido não eram mais que um episódio isolado de estresse combinado com falta de sono, e não tinha por que fazer uma montanha de um grão de areia.

                            -Só estava esgotada - murmurou para si, com um assentimento de cabeça cheio de otimismo que não vinha muito a conto.

                            O chocolate e umas quantas horas de sono tinham bastado para fazer que se sentisse um pouco mais animada. Deram-lhe as forças que necessitava para partir do zero.

                            Jessi se sentia pronta para voltar a começar desde o começo, fazer frente ao dia, ou da noite, o que lhe tocasse em sorte, e demonstrar a si mesma que não ocorria absolutamente nada.

                            Ao menos assim era como se sentia antes de acender o televisor.

                            Vingança.

                            Essa era a possibilidade que tinha impedido que Cian MacKeltar enlouquecesse durante os 1.133 anos que passou cativo no Cristal Escuro.

                            Desde fora, o cristal parecia pouco mais que um espelho recarregado de adornos. De dentro, era uma prisão de pedra circular, com quinze passos de diâmetro desde qualquer ponto pelo que alguém escolhesse percorrê-la. E Cian a tinha percorrido muitíssimo. Tinha contado cada maldita pedra. Chão de pedra. Muros de pedra. Teto de pedra. Cinza. Monótona. Fria.

                            Tinha obtido não sucumbir ao passo dos séculos graças a um único pensamento, que ardia em suas veias como fogo líquido.

                            Vingança. Cian viveu esse pensamento, respirou-o e chegou a converter-se nele, enquanto esperava dentro daquela jaula, desde dia em que Lucan Myrddin Trevayne, um homem ao que antigamente tinha por seu melhor amigo e um grande companheiro nas artes mágicas, tinha-o aprisionado ao Cristal Escuro, com o que conseguiu a imortalidade para si mesmo.

                            Havido conta do imenso poder dos feitiços de aprisionamento que Lucan tinha usado contra ele-unidos a que o estar prisioneiro no espelho fez que Cian ficasse reduzido à impotência, porque só podia sair dele se alguém que estivesse fora do espelho lhe outorgava uns breves instantes de liberdade entoando um feitiço de invocação-, alguns homens poderiam ter renunciado a toda esperança de vingar-se por considerá-la impossível.

                            Mas ao ser um druida, e, além disso, um Keltar, Cian sabia que as coisas que pareciam impossíveis raras vezes os eram.

                            Porque em realidade "impossível" significava "o que ainda não aconteceu".

                            Uma grande verdade que ficou demonstrada quando, três meses e meio antes, um ladrão tinha entrado na fortaleza que Trevayne tinha em Londres - o que em si mesmo já era uma impossibilidade e levou a metade das relíquias mais apreciadas do bastardo, o Cristal Escuro entre elas, quando só faltavam uns meses para pagar o dízimo que atava Cian à Consagração.

                            O azar por fim tinha decidido favorecê-lo. Lucan tinha perdido a posse do espelho justo quando mais necessidade tinha dele.

                            Agora era o décimo dia do décimo mês, e a Cian bastava com não cair em poder de Lucan durante vinte e dois dias mais - até que desse a meia-noite na véspera do Dia das Consagrações, o aniversário de seu encarceramento original- para poder saciar essa sede de vingança que não tinha deixado de consumi-lo durante um milênio. E por todos os diabos, ardia em desejos de fazê-la!

                            Agora que Lucan tinha uma pista sólida sobre o Livro Escuro, a mais perigosa de todas as Consagrações Invisíveis era ainda mais vital que Cian rompesse o maldito Pacto que o aprisionava. O Livro Escuro permitia invocar a magia negra mais letal jamais conhecida pela humanidade, pelo que em mãos de qualquer homem era uma receita infalível para a destruição cataclísmica. Nas de Lucan Merlin Trevayne, podia desencadear o fim do mundo tal como o conhecia a humanidade. Se consegui-se decifrar alguns dos intrincados feitiços que continha o livro, Lucan poderia reescrever a história e trocar o tempo. Cian tinha que evitar que se fizesse com ele. Tinha que derrotar o seu antigo inimigo de uma vez por todas.

                            Ao princípio tinha pensado que a batalha já quase estava ganha.

                            O Cristal Escuro chegou a passar por tantas mãos e foi enviado tão longe que Cian acreditava que Lucan nunca conseguiria encontrá-lo a tempo, mas o que aconteceu ontem lhe tinha deixado muito claro que não ia ser assim. Lucan tinha conseguido dar com ele, e isso queria dizer que a Cian lhe acabava o tempo.

                            Reconheceu ao assassino russo quando este entrou no escritório. Já tinha tido ocasião de vislumbrado várias vezes no passado quando Roman visitava a residência que Trevayne tinha em Londres, onde Cian estava pendurado em uma parede do estúdio privado de seu inimigo, da que o torturava a vista oferecida por um muro de janelas, que davam a uma rua muito freqüentada em um mundo no qual ele nunca voltaria a viver.

                            Ao menos tinha uma vista. Se Lucan o tivesse pendurado voltado para a parede, possivelmente nem sequer o desejo de vingança teria impedido que Cian chegasse a enlouquecer. Tampouco teria tido ocasião de levar a cabo toda classe de provas com o espelho quando seu carcereiro estava fora, e assim aprender a materializar dentro dele os objetos inertes que ficavam em sua linha de visão. Desse modo, tinha podido manter-se à corrente do passado do tempo e das mudanças que trazia consigo o progresso. Cian devorou cada um dos livros, periódicos e publicações que tinham passado pelo estúdio de Lucan ao longo dos séculos, e às vezes até pôde ver um pouco a televisão, enquanto a paisagem se metamorfoseava além da janela e deixava de ser uma verde ladeira para converter-se primeiro em um povo e, finalmente, em uma sofisticada cidade.

                            Muito parecida com aquela "Chicago" que tinha percorrido a noite anterior.

                            Graças a Deus, por fim podia voltar a andar livremente! Sentiu o tato da erva esmagada sob suas botas e saboreou a carícia do vento em sua cara!

                            Dentro do espelho houve dias nos que Cian de boa vontade cortaria o braço direito com tal de poder aspirar uma baforada de um fogo de turfa cheio de fragrantes feixes de urze, ou encher os pulmões umas quantas vezes com o ar que cheirava a sal em algum dos escarpados de Escócia. Ou tombar-se no alto de uma colina para olhar os céus, nunca tão próximos aos olhos que lá na Escócia, e ver como o crepúsculo se apropriava deles cheios de franjas violetas e carmesins, até o momento em que aconteceriam ser um dossel de veludo negro salpicado de diamantes estrelados.

                            Cian levava 1.133 anos sem ver sua amada Escócia. Ter que viver exilado de sua terra natal era o inferno para um highlander.

                            Embora Lucan o liberasse ocasionalmente em troca de que Cian o ajudasse com um feitiço particularmente difícil ou alguma escura ação que queria levar a cabo - e então o muito bastardo sempre se mantinha dentro de uma intrincada rede de amparos mágicas, com o que Cian não o podia tocar-, a última liberação tinha tido lugar fazia mais de cento e vinte anos, esses períodos de liberdade duravam muito pouco. A magia do Cristal Escuro sempre o reclamava passado um tempo, em que pese a toda a resistência que lhe opunha Cian. Dava igual o longe ou quão depressa fugisse, davam igual quais fossem os amparos druídicas que chegasse a urdir ao redor dele, porque passado um tempo - e o intervalo nunca era o mesmo; uma vez, um dia inteiro; em outra ocasião, só uma hora-, simplesmente já não se achava em qualquer lugar que estivesse: em um momento determinado era livre; ao seguinte, voltava a estar encerrado em sua prisão.

                            A noite anterior Cian tinha demorado um bom momento em dar com o rastro do Roman e, porque temia que o espelho o reclamasse antes que conseguisse localizado, aplicou todos seus sentidos ao trabalho. Estava seguro de que outro dos homens de Lucan não demorariam em chegar. E logo chegaria outro e depois outro mais, ad infinitum, até recuperar o espelho e todo vestígio de pessoa que tivesse chegado a entrevê-lo por um instante fosse eliminado.

                            Aquela classe de homens - os que recorriam à magia, tanto a branca como a escura, os que praticavam o draiod heacht sempre se asseguravam de que coisas como as Consagrações permanecessem ocultas aos olhos do mundo. Cian o fazia porque o homem atual não devia ver-se turbado pela existência de tais coisas. Lucan, pelo contrário, o fazia porque no mundo havia muitos outros feiticeiros (e todos se mantinham escrupulosamente afastados de outros) que não se deteriam ante nada com tal de roubar as cobiçadas e perigosas Consagrações Escuras, se chegavam a descobrir que as tinha em seu poder. Contra a crença geral, o número de feiticeiros e bruxas não parava de crescer.

                            Um druida Keltar tivesse urdido um complicado feitiço de cor que - sempre que fosse concebido com o devido cuidado- apagaria o conhecimento proibido das mentes de quem tivesse estado expostos a ele, sem lhes causar nenhum dano durante o processo.

                            Mas Lucan não. Matar era mais singelo, porque permitia combinar um mínimo de esforço com um máximo de prazer e benefício. Lucan queria sentir que a vida e a morte dependiam dele. Sempre lhe tinha encantado ser capaz de exercer esse poder.

                            Cian sorriu amargamente. Todos os que se interpuseram no caminho de Lucan podiam ser sacrificados, e a mulher era um obstáculo. Agora corria um perigo mortal que nunca poderia entender e ao que não podia sobreviver.

                            Seus pensamentos se voltaram mais delicados e ao mesmo tempo mais ferozes quando passaram a centrar-se nela. Apaixonada, valente e cheia de brio, era uma mulher impressionante, com aqueles curtos cachos negros que se apartavam brandamente das delicadas feições de um rosto em forma de coração, e os peitos mais perfeitos, abundantes e deliciosamente redondos que Cian nunca tinha visto. Um traseiro precioso, também. Os jeans azuis e aquele suéter de cor pêssego tão apertado que levava tinham permitido distinguir as curvas mais íntimas de seu corpo. Inclusive pôde entrever uma parte de suas calcinhas - que não cobririam mais de uma fração de seu generoso traseiro, feitas com umas finas cintas de tecido-, aparecendo para cima da cintura de seus jeans. Uma mariposa de cor rosa adornava o tênue objeto alaranjada na base da coluna vertebral da mulher, que parecia como se aquelas calcinhas tivessem sido desenhadas para se sobressair por cima de seus jeans e capturar o olhar de um homem. "Os homens deste século têm que ser um autêntico modelo de compostura - pensou Cian enquanto olhava fixamente o delicado retalho de tecido elevando-se entre os globos gêmeos de seu traseiro-, ou uma miserável turma de eunucos." Pele cremosa beijada pelo sol, olhos da cor do jade e a boca de uma tentadora sensualidade, chamava-se Jessica.

                            "Jessica" tinha-a chamado o assassino enviado por Lucan. Como Cian esperava, Jessica se esforçou por convencer a si mesma de que a noite anterior nunca tinha sido real. As poucas vezes em que os não iniciados tinham ocasião de ver o prisioneiro do espelho culpavam o que fosse para negar a possibilidade de sua existência.

                            Ele, pelo contrário, estava disposto a recordar todas as vezes que pudesse, cada instante da noite anterior, porque queria convencer-se de que realmente tinha acontecido.

                            Jessica tinha se esfregado contra ele e o tinha saboreado. Apertou os magníficos globos de seus peitos contra as costas de Cian, de modo que ele pôde sentir a presença dos mamilos endurecidos através da lã, e logo o lambeu.

                            Como se desejasse sentir o sal de sua pele na língua.

                            O membro de Cian tinha despertado de repente com uma ereção tão violenta que o movimento arrastou consigo os testículos, e pouco faltou para que a semente saísse disparada deles.

                            O desespero com que a sentia apertar-se contra suas costas afetou a Cian de um modo que nunca tinha experimentado antes, e de repente foi como se uma tremenda convulsão lhe rasgasse a alma. Por um instante temeu não ser capaz de obrigá-la a apartar as mãos que ela tinha enredado em seus escuros cabelos para ir-se daquele escritório. Precisou recorrer a toda sua força de vontade para não equilibrar-se sobre ela, tombá-la no chão e possuí-la ali mesmo. Para esquecer-se por completo de seu atacante. Para enterrar-se dentro dela e permanecer ali até que a magia escura o arrancasse daquele corpo tão magnífico.

                            Mas sabia que não devia fazer isso, porque Cian não só não ia permitir que a vida da Jessica St. James fosse extinta como uma frágil vela apanhada na mortífera tempestade que ela mesma tinha criado, mas sim também a necessitava.

                            -Vinte e dois dias - murmurou. Depois de mais de um milênio de espera, agora sua vingança dependia de um número de dias risivelmente finito.

                            Jessica St. James ainda não sabia, mas o ajudaria a fazer com as ferramentas que necessitava.

                            Se não voluntariamente, por obra das artes escuras que conhecia Cian.

                            E tinha chegado a conhecer muitas.

                            Tinha praticado a maioria delas. E em todas se destacou.

                            Lucan não era o único que tinha cobiçado o Cristal Escuro.

         4

                            Castelo Keltar, Escócia

                            -Não lhe vais acreditar isso, Drustan - disse Dageus MacKeltar ao tempo que elevava o olhar para seu irmão gêmeo, três minutos maior que ele, quando este entrou na biblioteca do castelo Keltar.

                            -Parece-me que já não fica muito que possa me surpreender depois de tudo o que chegamos a ver, irmão, mas tenta-o - disse Drustan secamente. Foi para um magnífico móvel bar de mogno, elegantemente encravado em uma das seções de estantes, e se serviu um pouco do Macallan, um excelente malte escocês.

                            Dageus passou umas quantas páginas mais do tomo encadernado em um couro cheio de arranhões que sustentava, deixou-o a um lado e logo estirou as pernas e entrelaçou as mãos atrás da nuca. O céu cor cobalto começava a tingir-se de violeta além das grandes janelas emoldurados por cortinados de veludo, e Dageus guardou silêncio um instante enquanto saboreava a formosura de outro ocaso nas Highlands.

                            - Lembra-te de que sempre tínhamos acreditado que nunca Cian MacKeltar alguma vez tinha existido, que não era mais que um mito?

                            -Sim - replicou Drustan enquanto ia reunir se com ele perto do fogo-ou O legendário e terrível Cian: o único antepassado do clã MacKeltar que cruzou voluntariamente a barreira que nos separa das artes escuras...

                            -Isso não é de tudo certo, irmão. Eu também o fiz-o corrigiu Dageus brandamente.

                            Drustan se enrijeceu.

                            -Não, você atuou movido pelo amor; isso é algo muito distinto. Esse Cian, que muito provavelmente só seja uma fábula urdida para fortalecer nossa fidelidade aos juramentos que emprestamos, obrou impulsionado por uma insaciável sede de poder.

                            -Pode que sim e pode que não. -Uma sombra de cinismo flutuou no sorriso do Dageus-. Prefiro não pensar no que nossa origem pode chegar a dizer de mim dentro de mil anos. -Assinalou o tomo-. Este é um dos diários de Cian MacKeltar.

                            Drustan se deteve, a meio caminho de uma das poltronas e o copo já muito perto de seus lábios. Olhos chapeados que brilhavam de fascinação procuraram o olhar dourado de seu irmão. Baixou o copo e se acomodou lentamente na poltrona.

                            -Seriamente?

                            -Sim. Embora muitas das páginas foram arrancadas, as notas foram feitas por um tal Cian MacKeltar, que viveu em meados do nono século.

                            -É o diário que disse que encontrou nosso pai na câmara subterrânea da biblioteca secreta, a última vez que foi ao século dezesseis com a Chloe através das pedras?

                            A biblioteca subterrânea era uma larga e estreita câmara aberta na rocha debaixo do castelo onde se guardava a maior parte da sabedoria ancestral e as relíquias dos Keltar, incluída a lâmina de ouro sobre a que estava gravado O Pacto entre os tuatha dê danaan e o homem. A entrada oculta tinha sido selada atrás de uma chaminé, fazia mais de um milênio.

                            Com o passar dos séculos, a existência da câmara tinha ficado completamente esquecida. Existiam vagas histórias de que em um longínquo passado os Keltar possuíram uma porção da sabedoria muito maior que a que conservavam agora, mas eram poucos os que acreditavam em suas histórias e ainda menos os que tentaram encontrar a câmara perdida, sempre infrutiferamente. Não foi até que Nell, a ama de chaves do castelo - que posteriormente se casou com o pai do Dageus e Drustan, Silvan, e se converteu em sua madrasta-, ativou inadvertidamente o mecanismo de abertura enquanto tirava o pó um dia, quando a câmara foi descoberta. Mas Nell não falou dela, porque acreditava que Silvan já conhecia sua existência e pensava que não lhe faria nenhuma graça que ela estivesse à corrente dos assuntos privados de seu clã. Provavelmente nunca o teria mencionado ao Silvan, se Dageus não se visse em tais apuros.

                            Seu pai tinha aberto a câmara por um breve período de tempo no século XVI, mas logo voltou a selá-la com a esperança de que isso evitaria que os acontecimentos que teriam lugar entre os séculos XVI e XXI sofressem alterações. Recentemente Drustan tinha consentido em fazer que voltasse a ser acessível para as gerações futuras. Da reabertura da câmara subterrânea, Dageus tinha começado a ocupar-se dela e agora traduzia os pergaminhos de maior antigüidade, tirava cópias dos documentos mais frágeis, e descobria muitas coisas referentes a seus antigos benfeitores durante o processo. E agora, acabava de descobrir umas quantas sobre um de seus antigos antepassados.

                            -Não. Esse jornal não era mais que um registro onde se consignavam os últimos acontecimentos: jejuns, nascimentos, mortes. Este diário fala dos estudos nas artes druídicas que levou a cabo Cian, e uma grande parte dele foi escrito em um código cifrado. Estava escondido debaixo de uma laje rachada com a que tropeçou Chloe. Suspeita que possa haver mais segredos ocultos pela câmara.

                            A esposa do Dageus, Chloe, era uma ávida historiadora cuja maior ilusão era compilar um catálogo sistemático do conteúdo do depósito subterrâneo. Como Dageus não suportava estar separado dela muito momento, já se tinha resignado a passar a maior parte de seu tempo (o que queria dizer, provavelmente, até o momento em que sua muito bela esposa, que estava grávida, estivesse a ponto de dar a luz) naquele recinto subterrâneo cheio de pó, e daí a função de escrivão que atribuiu a si mesmo.

                            Sorriu. Antes uma fria e úmida câmara subterrânea em companhia de sua adorada Chloe que o mais formoso rincão das Highlands em um dia ensolarado sem ela. "Ai - se corrigiu apaixonadamente-, antes o inferno com o Chloe que o céu sem ela." Tão grande era o amor que sentia pela mulher que tomou cativa na hora mais escura de sua existência e que lhe tinha entregado seu coração apesar de suas ações, apesar do escuro mal que Dageus levava dentro naquele tempo.

                            -O que nos conta a respeito desse antepassado nosso este diário? -disse Drustan com curiosidade.

                            Dageus soltou um bufido ao ver tão bruscamente talhado o fio de seus pensamentos. Feito a esperança de que haveria muito mais, e disse que deveria rebuscar na câmara para ver o que outras coisas podiam descobrir a respeito daquele épico antepassado dele. Acreditava que alguém precisava ter uma boa compreensão do passado para assegurar um brilhante futuro, e que quem esquecia o passado estavam condenados a repeti-lo.

                            -A julgar pelo que tenho lido nas partes que pude decifrar, pouca coisa além de que Cian MacKeltar foi um homem que existiu realmente, não uma mera fábula, e que a câmara não foi esquecida mas sim nos ocultaram deliberadamente. Nosso pai acreditava que deve ter produzido uma batalha ou alguma praga que cobrou muitas vidas abruptamente, incluídas as de todos aqueles que sabiam da existência da câmara. Mas não foi assim. A última entrada do diário não foi escrita por Cian MacKeltar, mas sim é uma advertência sobre o uso da magia. Quem quer que seja que escrevesse essa entrada também tomou a decisão de selar a câmara subterrânea, e logo mandou alterar as estadias superiores para que permanecesse sempre oculta.

                            -Seriamente? -Drustan levantou as sobrancelhas.

                            -Sim. Mas ao diário lhe arrancaram tantas páginas que não pude averiguar o que foi de tão terrível que fez Cian MacKeltar, ou qual foi seu destino, mas a última entrada deixa muito claro que a câmara foi selada por causa dele.

                            -Hummm - murmurou Drustan pensativamente, enquanto bebia um sorvo do Macallan-. O que pôde chegar a fazer um homem para que fosse preciso adotar medidas tão drásticas? Selar a câmara separou a todas as gerações futuras do baluarte no qual guardávamos nosso conhecimento e nosso poder. Tiveram que pensar muito bem, já que sabiam que ao fazê-lo, nos privariam de nossa herança.

                            -Certo - disse Dageus com cenho-a gente não pode evitar perguntar-se o que será que fez Cian.

                            -É que não posso acreditar isso, colega! Alguém rompeu o pescoço desse tio e logo deixou o cadáver ali, em um dos jardins do campus.

                            -Estupendo. O que nos faltava, né? Mais crimes. Agora a universidade já tem a desculpa que necessitava para nos apertar as porcas e voltar a subir as taxas.

                            Jessi sacudiu a cabeça e abriu passo entre o grupo de estudantes que matava o tempo na cafeteria. Enquanto passava, perguntou-se se ela também tinha tentado presumir de experiência quando tinha a idade deles e se o faria igual de mau. Esperava que não.

                            O campus era um fervedouro de rumores. A polícia logo que tinha proporcionado detalhes, assim que todos fingiam saber algo. O mais gracioso era que Jessi é que realmente sabia algo a respeito desse "cadáver sem identificação", loiro e bem vestido que tinham encontrado o dia anterior em um dos jardins do campus, e era quão única não falava do assunto.

                            E não pensava fazê-lo.

                            Quando tinha ligado a televisão à noite anterior, só para ver que no informativo local falavam do assassinato de um dos dois homens que não tinham deixado de ocupar seus pensamentos durante a maior parte do dia enquanto se esforçava por se auto convencer de que nunca tinham sido reais, Jessi ficou tão atônita que não pôde apartar o olhar da tela até um bom momento depois de que tivessem-passado a falar de outros temas.

                            A polícia estava investigando o assassinato do loiro. Não levava nenhum tipo de identificação, e tinham pedido que qualquer pessoa que pudesse saber algo a respeito dele entrasse em contato com a polícia.

                            O que expunha uma pergunta: se o resto do mundo podia ver o loiro, significava isso que ela não se tornou louca depois de tudo?

                            Ou significava que o homem loiro era real, mas que tinha imaginado ao homem dentro do espelho e todos os acontecimentos que o acompanharam?

                            Ou significava que tinha chegado a tais extremos de loucura que agora imaginava o informativo local em um patético (embora, isso tinha que admiti-lo, admiravelmente determinado e impressionantemente coerente) esforço por conferir um pouco de credibilidade a seus delírios?

                            Buf. Perguntas difíceis.

                            Jessi passou horas dando voltas a essas elucubrações, até que finalmente, quando já faltava pouco para que saísse o sol, alcançou uma certa aparência de calma através de uma firme resolução: estava metida em um bom apuro ao que faria frente do mesmo modo que se tratasse de uma investigação arqueológica, aplicando os meticulosos métodos de uma analista científica.

                            Faria provisão de todos os fatos aos que pudesse jogar mão e, só depois de que tivesse acumulado a maior quantidade de material possível, começaria a jogar com esses fatos como se fossem as peças de um quebra-cabeças para obter uma representação da realidade o mais precisa possível. Não voltaria a falar de loucura, ou a pensar nela, até que a investigação tivesse terminado.

                            Vital para sua investigação: uma conversação com o professor Keene. Jessie precisava lhe fazer umas quantas perguntas a respeito dessa relíquia sobre a que desejava não ter posto nunca os olhos, como por exemplo, de onde diabos tinha saído.

                            Embora em realidade possivelmente não fosse uma relíquia, pensou, subitamente animada pela possibilidade, a não ser uma mera imitação, algo que lhes tinha ocorrido aos do departamento de efeitos especiais em um episódio do Stargate ou alguma outra dessas séries de ficção científica que podia ver via satélite em canais como SciFi. Ou possivelmente tinham instalado o último grito em conexões audiovisuais, habilmente dissimulado no marco, e em realidade todo o enigma se reduzia a um minúsculo e' extraordinariamente sofisticado sistema de projeção sobre tela.

                            O que..., hum, não explicava a interação entre o atacante e o homem prisioneiro no espelho. Mas agora teria que conceber possibilidades, as examinar e ir descartando uma por uma até encontrar a solução.

                            Possibilidade: o espelho possivelmente estava..., hum, bom, hum..., maldito.

                            Como lhe tinha podido ocorrer pensar isso? Seu analista interior nunca se pôs em ridículo dessa maneira.

                            Contudo, fazer o ridículo sempre era preferível a estar louca como uma cabra.

                            A noite anterior Jessi tinha utilizado a linha direta com a habitação do hospital facilitada pelo professor em uma de suas numerosas mensagens, mas este não respondeu à chamada. O primeiro que fez pela manhã foi voltar a tentá-lo, mas tampouco houve sorte. Ainda estaria dormindo, supôs Jessi.

                            Ela sempre tinha sido muito pragmática. Sabia pensar com lógica sem deixar-se arrastar pelas fantasias, isso era o que lhe tinha permitido chegar tão longe na vida. Jessi era o tipo de garota o-que-tenho-na-mão. E depois de intensas reflexões, decidiu que não se sentia louca. Sentia-se perfeitamente normal a respeito de tudo salvo por aquele estúpido incidente com o espelho.

                            Possivelmente deveria romper o espelho, pensou de mau humor. Assim se acabariam os problemas, não?

                            Não necessariamente, por desgraça. Se realmente estava louca, seu deus sexual ilusório se limitaria a mudar-se a outro objeto inerte (o que fez que lhe ocorressem umas quantas idéias bastante curiosas, sobre tudo a que tinha que ver com algo que guardava na gaveta da mesinha de noite). Se não estava louca, cabia a possibilidade de que ao romper esse espelho destruíra uma das relíquias mais fundamentais jamais descobertas.

                            -Parece que terei que ir à caça dos fatos - disse com um suspiro de irritação.

                            Tirou seu celular da bolsa, abriu-o com um rápido giro e olhou a tela. Não tinha mensagens. Tinha esperado que o professor a chamaria antes que as classes a mantivessem ocupada durante todo o dia.

                            Agora já era muito tarde. Jessi apagou o celular, voltou a guardá-lo na bolsa, agarrou seu café da barra, pagou-o no caixa e saiu a toda pressa.

                            Tinha uma aula atrás de outra até as 16.45, mas assim que tivesse terminado com elas iria diretamente ao hospital.

                            17.52.

                            O Dan Ryan Expressway a hora do rush era um nível no inferno de Dante.

                            Jessi estava apanhada em um congestionamento de trafego consistente em paradas-e-avanços e onde havia muitas mais paradas que avanços (tantas que, de fato, levava meia hora pondo em dia o trabalho pendente) quando soou seu celular.

                            Jogou ao lado as notas que tinha começado a tomar, fez que seu carro percorresse a passo de tartaruga a impressionante distancia de trinta centímetros, tirou o celular da bolsa e respondeu à chamada, com a esperança de que seria o professor. Mas era Mark Troudeau.

                            A língua do Jessi já tinha começado a dar forma a uma furiosa negativa a aceitar nem um só trabalho que qualificar mais, quando Mark a cortou em seco dizendo que a chamava para comunicar que a polícia do campus acabava de informar de que o professor Keene tinha morrido.

                            Jessi começou a tremer, apertou o volante com as mãos e exalou um soluço.

                            -E te segure, Jess: assassinaram-no - soltou Mark sem deter-se para tomar fôlego, claramente fascinado e alheio ao feito de que ela se se pôs a chorar, a todos os ruídos de sorver ar pelo nariz que tinha começado a fazer. Às vezes os homens podiam ser tão incrivelmente idiotas.

                            Jessi foi vagamente consciente de que o trafego havia tornado a ficar em movimento. Apartou o pé da embreagem passou a manga da jaqueta pelo rosto.

                            -E pelo que diz a polícia, parece que Keene estava metido em algum assunto bastante turvo. Disseram que recentemente tirou um montão de dinheiro do fundo para a aposentadoria e hipotecou sua casa ao banco. Inteirei-me que tinha uns terrenos em algum lugar da Geórgia, e também acabava de vendê-los. A polícia não tem nem idéia de quem pôde necessitar tanto dinheiro de repente.

                            Jessi se deu conta de que o carro que tinha diante acabava de voltar a ficar imóvel, assim pisou no freio e conseguiu deter-se abruptamente a um par de centímetros de seu pára-choque traseiro. O tipo que tinha detrás tocou a buzina furiosamente. Não uma só vez, a não ser muitas e entre um bom acompanhamento de gestos feitos com a outra mão.

                            -Claro - resmungou Jessi entre soluços, ao tempo que fazia um gesto de sua autoria no espelho retrovisor-, como se eu tivesse a culpa do trafego. Esqueça-me.

                            O trafego era o que menos a preocupava. Fechou os olhos.

                            Assim ao parecer se tratava de uma autêntica peça arqueológica depois de tudo, embora fosse certo que -agora Jessi o via bastante claro- tinha sido comercializada de maneira completamente ilegal através do mercado negro.

                            Ao parecer, o professor estava misturado em um assunto bastante turvo.

                            -Enforcado - dizia Mark-. O enforcaram. Agora já ninguém faz isso, verdade? Quem faz esse tipo de coisas hoje em dia?

                            Jessi pôs a mão sobre o microfone de seu celular e olhou o mar de carros detidos sem vê-lo.

                            -Que demônios está passando? -sussurrou. Mark seguiu falando, um zumbido distante.

                            "O professor e eu já passamos um momento juntos esta noite", havia dito o loiro. Jessi tinha ignorado o comentário bruscamente, porque já tinha bastante com seus próprios problemas.

                            E agora o professor estava morto.

                            "Correção" pensou Jessi com um calafrio, porque segundo o que acabava de lhe contar Mark - a morte tinha acontecido às 18.15 da segunda-feira-, o professor já estava morto antes que ela fosse recolher seus livros aquela noite.

                            E o tinha estado todo o tempo enquanto ela estava em seu escritório.

                            -Agora vem o pior de tudo - disse Mark, que não tinha parado de falar-. Ellis, o chefe do departamento, diz-me que terei que me encarregar das aulas do professor durante o resto do trimestre. É que são do que não há, verdade? Como se não pudessem permitir-se contratar um...

                            -OH, a ver se cresce de uma vez, Mark - vaiou Jessi, enquanto pulsava o botão de desligar com o polegar.

                            Quando por fim conseguiu escapar do décimo nível do inferno, Jessi se meteu por uma série de ruas laterais e logo dirigiu para o campus.

                            Os pensamentos rodavam através de sua mente em uma atropelada confusão. Entre todos eles só havia um que estivesse claro, e a atraía como um farol.

                            Precisava voltar a ver o espelho. Por que, não tinha nem idéia.

                            Pôs-se a pensar no que devia fazer, isso foi o único que lhe ocorreu. Sentia-se incapaz de ir para casa. Estava tão nervosa que subiria pelas paredes. Não podia ir ao hospital; já não havia ninguém a quem visitar. Tinha umas quantas amigas íntimas, mas todas tendiam a trabalhar tanto como ela, assim não lhes faria nenhuma graça que Jessi se apresentasse sem avisar, e, além disso, inclusive no caso de que o fizesse, O que lhes diria? "Olá, Ginger, Como vai tudo? "Por certo, ou me tornei louca, ou minha vida decidiu que quer ter uma aventura de Indiana Jones, com misteriosas peças arqueológicas, vilãos estrangeiros e espetaculares efeitos especiais incluídos."

                            Quando chegou ao escritório, Jessi viu que havia uma faixa policial na porta.

                            Isso a deteve por um momento. Então observou que era uma faixa da polícia do campus e a arrancou. Violar os procedimentos universitários não parecia um delito tão grave como violar uma lei no "mundo real".

                            Enquanto girava a chave na fechadura, não sem haver-se assegurado antes que esta vez a porta realmente se encontrava fechada com chave, Jessi perguntou a si mesma o que pensava que ia fazer uma vez dentro.

                            Cercar conversação com uma peça arqueológica? Pôr as mãos sobre o cristal? Tratar de invocar um espírito? Fazer como se o espelho fosse um tabuleiro ouija ou algo parecido?

                            Mas o destino quis que não tivesse que fazer absolutamente nada.

                            Porque assim que abriu a porta, Jessi viu que um feixe de luz entrava do corredor e caía diretamente sobre o cristal inquieto.

                            Seus pés deixaram de obedecê-la. Suas mãos ficaram rigidamente imóveis sobre a porta. "Até sua respiração se deteve na metade de uma inalação:" Jessi não tinha podido assegurá-lo, mas lhe pareceu que seu coração também deixava de pulsar durante um comprido e denso instante.

                            Aquele homem imponente, meio nu e absolutamente irresistível que parecia um deus do sexo estava em pé dentro do espelho, e a fulminou com o olhar enquanto dizia:

                            -Já era hora de que voltasse, moça.

         5

                            Jessi esteve a ponto de morrer quando tinha dezessete anos. Tinha ido a um desses ginásios onde pode fazer escalada em interiores (porque sua melhor amiga telefonou para lhe dizer que esse jogador da equipe de futebol universitário pelo que estava interessada e seus amigos estariam ali), e teve uma queda tão terrível que rompeu muitos ossos e sofreu uma fratura de crânio.

                            Isso a obrigou a perder os melhores momentos de seu último ano no instituto, porque teve que passar a recuperação em casa - com a cabeça barbeada no lugar onde tiveram que lhe pôr uma placa metálica para que seu crânio voltasse a estar inteiro -, enquanto escutava as histórias de festas, graduações e bailes que lhe contavam outras estudantes.

                            E o tipo pelo que bebia os ventos nem sequer tinha estado no ginásio de escalada esse dia.

                            A experiência lhe tinha ensinado umas quantas coisas. Uma: o velho adágio que assegurava que o homem propunha, a mulher dispunha e logo vinha o diabo e todo o decompunha não podia ser mais certo. Ela não tinha podido ir animar a sua equipe de futebol nas finais estatais o único ano que conseguiram chegar a elas durante os últimos sete; não tinha podido luzir o precioso vestido rosa que ainda tinha pendurado no armário; não tinha arrojado sua boina ao ar; não tinha assistido a uma só das festas que organizaram os do último curso. E dois: quando as coisas ficavam feias, às vezes o senso de humor era quão único podia salvar a uma pessoa. Podia rir ou podia chorar, e chorar não só lhe fazia sentir ainda pior, mas também além fazia que tivesse ainda pior aspecto.

                            E enquanto estava em pé ali, sem poder apartar os olhos daquela - coisa dentro do espelho que não podia estar dentro do espelho, em um escritório onde não fazia muito que tinham tentado matá-la - com o anterior ocupante de dito escritório recentemente assassinado-, lhe ocorreu pensar que os acontecimentos dos últimos dias pareciam indicar que as coisas começavam a ficar muito feias.

                            Começou a rir brandamente.

                            Não pôde evitá-lo.

                            Os escuros olhos do deus do sexo se entreabriram e franziu o sobrecenho.

                            -Isto não é para rir. Entra aqui e fecha essa porta. Agora. Há muito do que temos que falar e o tempo é absolutamente essencial.

                            Jessi riu mais forte, e se levou uma mão à boca enquanto se agarrava à ombreira da porta com a outra. "O tempo é absolutamente essencial." Quem podia ser capaz de falar assim?

                            -Pelo amor de Deus, moça, pronuncia as palavras que me permitem sair do espelho - disse ele, agora claramente exasperado-. Necessita que alguém te explique o que aconteceu.

                            -OH, parece-me que não - conseguiu dizer Jessi entre risada e risada, sem lhe importar que estas tivessem começado há soar um pouco histéricas-. E não sou nenhuma moça - lhe informou altivamente. Logo voltou a rir.

                            Ele grunhiu brandamente.

                            -Mulher, a outra noite pronunciou as palavras que me permitem sair do espelho e não te fiz nenhum dano. Não quer voltar a confiar em mim?

                            Jessi riu com desdém.

                            -A outra noite acreditava que estava sonhando. Não teve nada que ver com a confiança.

                            -Matei ao homem que tentava te matar. Não te parece que isso é razão suficiente para que confie em mim?

                            Jessi deixou de rir. Bom, agora já sabia. O homem do espelho era o que tinha quebrado o pescoço do loiro e logo tinha deixado atirado o cadáver naqueles jardins do campus. Embora uma parte do cérebro da Jessi já sabia que tinha que ter sido ele-tanto se esses acontecimentos tinham tido lugar em um mundo ilusório como se tinham acontecido no mundo real-, sua observação fez que lhe olhasse as mãos. Umas mãos muito grandes. Perfeitamente capazes de romper pescoços.

                            Depois de um instante de vacilação, Jessi entrou no escritório com muita cautela. Outra pausa, e logo fechou a porta detrás de si.

                            As risadas se esfumaram. Um milhar de perguntas não.

                            Jessi colocou as mãos nos bolsos dianteiros de seus jeans e cravou o olhar no espelho.

                            Fechou os olhos. Apertou as pálpebras. Abriu os olhos. Logo o tentou um par de vezes mais, só para estar segura.

                            Ele ainda estava ali. "OH, merda."

                            -Poderia te haver dito que isso não funcionaria - disse ele secamente.

                            -Tornei-me louca? -sussurrou ela.

                            -Não, não perdeste o julgamento. Estou aqui. Isto está acontecendo realmente. E se quer sobreviver, tem que dar crédito ao que lhe conto.

                            -Ninguém pode estar dentro de um espelho. É impossível.

                            -Diga isso ao espelho - replicou ele, ao tempo que golpeava o interior do cristal com o punho para dar mais ênfase a suas palavras. -Muito gracioso. Mas não resulta convincente. -OH, vê-lo golpear o espelho de dentro tinha sido realmente estranho! -Isso só corresponde a você. E te aconselho que o digas de uma vez antes que outro assassino venha te matar.

                            O tom displicente da resposta bastou para que Jessi por fim tivesse tudo claro. Ele sabia que era real, e que se ela era muito idiota para vê-lo, então era lá ela com seu problema. Uma ilusão certamente faria o que fosse com tal de seguir existindo, não?

                            Mas como podia ser real?

                            Jessi carecia de precedentes com o que fazer frente ao inexplicável. "Acumular o maior número possível de feitos. "Quão único posso fazer é explorar o que está passando, e não emitir nenhum julgamento até que saiba algo mais."

                            Com vistas a isso, arrojar um pouco mais de luz sobre as coisas estendeu a mão para o interruptor da parede e acendeu os fluorescentes do teto.

                            E pôde ver o homem do espelho realmente bem pela primeira vez. "Complicações" pensou enquanto abria muito os olhos para que não passasse nada por alto. As duas ocasiões em que pôde entrevê-lo antes, só tinha podido olhá-lo durante uns instantes e o escritório estava cheio de sombras. Jessi só tinha tido tempo de fazer uma impressão geral dele: um homem enorme, escuro e intensamente sexual.

                            Não tinha visto os detalhes.

                            E que detalhes!

                            Ficou tão atônita que baixou os olhos. Logo voltou a subi-los. Baixou-os. Depois seu olhar voltou a subir. Muito devagar.

                            -Tome seu tempo, moça - murmurou ele, em um tom tão baixo que Jessi apenas o ouviu. O comentário que fez a seguir ficou deliberadamente por debaixo do nível de audição dela-: Eu planejo tomá-lo contigo.

                            Era tão alto que enchia o espelho de um a outro extremo do marco. Tremendamente corpulento, com ombros muito largos e músculos ondulantes, a cintura envolta com um tecido negro e escarlate - um autêntico kilt escocês, se não estava equivocada-, levava reluzentes braceletes metálicos ao redor dos pulsos, e calçava botas de couro negro.

                            Não levava camisa. Runas tatuadas com finos traços negros e escarlates cobriam todo o lado esquerdo daquele peito esculpido, começando pelo extremo inferior de sua caixa torácica para subir por cima de um mamilo, atravessar o ombro e terminar no início de sua mandíbula. Uma banda de runas tatuadas nas mesmas cores circundava cada capitalista bíceps. Um caminho sedoso de pelos escuros nascia em seus abdominais justo em cima do umbigo para desaparecer debaixo do kilt.

                            OH, Deus, tentava tentá-la? Era uma protuberância isso que levantava o kilt?

                            O olhar do Jessi ficou apanhado ali por um incômodo instante. Abriu os olhos um pouco mais. Logo tragou ar com uma brusca inspiração e conseguiu apartar o olhar. Um súbito rubor lhe esquentou as bochechas.

                            Acabava de lhe comer o pênis com os olhos.

                            Plantada ante o espelho, o tinha contemplado sem nenhuma dissimulação. O tempo suficiente para que ele se desse conta. Estava claro que lhe acontecia algo. Seus hormônios se transbordaram. O normal era ficar embevecida ante os artefatos arqueológicos, não ante os pênis.

                            Jessi se obrigou a subir o olhar para seu rosto. Era tão pecaminosamente formoso como o resto de sua pessoa. Tinha os rasgos orgulhosos e esculpidos a cinzel de um antigo guerreiro celta, mandíbula e maçãs do rosto firmes, um nariz aristocrático arrogantemente dilatado nas atletas, e uma boca tão sexy e tão beijavel que os lábios de Jessi se apertaram instintivamente e logo se separaram, só olhando-o, como se saboreassem um beijo. Jessi os umedeceu com a língua, e por um instante sentiu que lhe faltava à respiração. O escuro princípio de barba que cobria aquela mandíbula esculpida fazia que seus firmes lábios rosados parecessem ainda mais sensuais entre toda aquela áspera masculinidade.

                            Viu que seu cabelo não era tão negro como lhe tinha parecido na escuridão, mas sim de uma reluzente cor mogno com fios de ouro e cobre que brilhavam brandamente. Levava a metade da juba recolhida em dúzias de finas traças, e reluzentes contas metálicas rodeavam suas pontas. Seus olhos eram uísque queimado, sua pele suave veludo dourado.

                            Todo ele gotejava um poder primitivo e elementar e parecia tão antigo como o espelho, uma regressão há um tempo no qual os homens tinham sido homens e as mulheres Faziam O Que Lhes Diziam.

                            Jessi entreabriu os olhos. Nunca tinha podido agüentar a essa classe de homens. Machistas e dominantes se acreditavam com direito a dirigir às mulheres a seu desejo.

                            Lástima que seu corpo não parecesse ser da mesma opinião.

                            Lástima que seu corpo parecesse estar interessadíssimo nas diferentes ordens que podia chegar a receber daquele homem, como por exemplo: "te tire a roupa, mulher; deixa que te saboreie com minha língua... "

                            Tampouco ajudava em nada que ele parecesse à classe de homem que nunca aceitaria um não por resposta, que não toleraria nenhuma classe de inibições por parte de uma mulher; a classe de homem que, assim que conseguia levar a cama a uma mulher, não a deixava levantar-se até lhe fazer tudo o que tinha planejado, até que a tivesse falhado tão a consciência que ela logo que poderia andar.

                            -Diz as palavras que me farão sair do espelho, mulher - foi a seca ordem, embelezada por aquele acento escocês tão sexy, que recebeu dele. Aquele homem tinha uma voz tão incrível como sua aparência, profunda e embriagadora como um ponche de rum, e Jessi a sentiu descer para seu estômago para ficar a arder lentamente dentro dele.

                            Não replicou com um fio de voz. Não voltaria a deixar solto a aquele... O que queira que fosse saturado de testosterona. Então te rogo, mulher, que deixe de me olhar assim.

                            -Como te estou olhando?

                            - Como se queria voltar a usar sua língua sobre minha pessoa e esta vez sobre algo mais que minhas costas. - disse ele, ao tempo que se mordia o lábio inferior e lhe dirigia um sorriso diabólico.

                            - Não pretendia te lamber replicou ela à defensiva. Já te disse que acreditava que só era um sonho.

                            - Serei o que você queira sonhar, mulher. Quão único tem que fazer é me chamar para que saia do espelho. - Percorreu-a com um olhar abrasador que dedicou especial atenção a seus peitos e suas coxas.

                            Jessi sentiu que lhe ardia a pele ali onde se deteve seu olhar.

                            - Isso... Não... Vai acontecer...

                            Ele se encolheu de ombros, um ondular de poderosos músculos.

                            - Como quer, moça. Morre desnecessariamente. E logo não diga que não te ofereci minha ajuda.

                            Deu meia volta dentro do espelho. O cristal inquieto que o continha pareceu ondular, a mancha negra que havia ao redor dos borde fluiu e se estremeceu como se a superfície se houvesse voltado líquida, e de repente Jessi se encontrou ante um espelho como qualquer outro.

                            - Né, espera!- chiou, presa do pânico-. Volta aqui! - Necessitava respostas. Precisava saber o que estava passando. O que era o espelho; como era possível que estivessem acontecendo todas aquelas coisas; quem tentava matá-la; realmente enviariam mais assassinos por ela?

                            - Por quê?- perguntou aquela voz profunda e suave desde algum lugar dentro do espelho.

                            - Porque preciso saber o que está passando!

                            - Neste mundo tudo tem um preço, mulher.

                            - Por que diz isso? -perguntou-lhe Jessi à lisa superfície chapeada. Agora conversava com um espelho. Logo poderia lhe tirar o posto de trabalho a Alice no País das Maravilhas.

                            - Não pode estar mais claro, verdade? Eu tenho algo que você necessita. Você tem algo que eu quero.

                            Jessi ficou paralisada. Sentiu que se o fazia um nó na garganta e o coração começou a lhe pulsar com força. Umedeceu os lábios subitamente ressecados.

                            - Q-o que?

                            - Necessita meu amparo. Necessita-me para seguir com vida. Eu sei o que está acontecendo, quem quer te matar, e como detê-los.

                            - E o que é o que quer em troca?- perguntou ela cautelosamente.

                            - Ai, moça, muitíssimas coisas. Mas tentemos não nos complicar a vida e comecemos pela liberdade.

                            Jessi sacudiu a cabeça.

                            - Nem pensar. Não sei o que...

                            - Sabe tudo o que precisa saber - a interrompeu ele secamente. - Sabe que morrerá sem mim. Não pense que poderá me dirigir a seu desejo. Levo muito tempo apanhado dentro deste maldito espelho para me andar com olhares. Este cristal é a única prisão que padecerei. Não penso permitir que construa outra prisão para mim, mulher.

                            O acento escocês se tornou mais marcado, e virtualmente cuspiu as últimas palavras. Jessi tragou saliva sonoramente. Tinha a boca tão seca que ouviu como um ranger de coisas minúsculas quando a noz lhe subiu e lhe desceu na garganta. Pigarreou.

                            De repente voltou a vê-lo no espelho, plantado ante ela enquanto a olhava entre um redemoinho de ondulações chapeados que se agitavam como as águas de um mar enfurecido.

                            Aquela boca tão sexy e arrogante se curvou em um sorriso. Se pretendia tranqüilizá-la, pensou Jessi com um estremecimento, não podia havê-lo feito pior. Era um sorriso cheio de poder contido e fogo encadeado, e em seguida sabia que tanto o poder como o fogo podiam ficar livres em qualquer momento.

                            Então lhe ocorreu pensar que, se tivesse podido vê-lo bem a outra noite, provavelmente nunca o teria liberado, tanto se acreditava estar sonhando como se não. O assassino que tão aterrador lhe tinha parecido não era nada comparado com aquele homem. Simplesmente não estava no seu nível. Romper o pescoço ao loiro provavelmente lhe teria resultado tão fácil como fazer um gesto para afugentar a uma mosca. Saltava à vista que aquele homem tinha algo do que as pessoas normais simplesmente careciam. Jessi procurou provar o trinco detrás dela.

                            - Me deixe sair disse ele, em voz baixa, mas intensa. Diz as palavras. Serei seu escudo. Interporei-me entre ti e todos outros. É o que necessita, e você sabe. Não seja tola, mulher.

                            Jessi sacudiu a cabeça e fez girar o trinco.

                            - Vai ser não, então? Prefere morrer? Antes que me ter a seu lado? O que é que teme que possa te fazer que seja tão terrível?

                            A forma em que seu olhar abrasador se detinha em certas partes de Jessi deixava muito claro algumas das coisas que tinha intenção de lhe fazer.

                            O que fez que Jessi também ficasse a pensar nelas, com toda classe de detalhes. E uns segundos depois voltou a notar essa leve umidade nas calcinhas. Que diabos lhe passava? Seria que seus ovários ficaram entupidos em um ciclo permanente de ovulação? Tinham decidido soltar óvulos em um constante bombardeio indiscriminado que (e isso era o pior de tudo), parecia voltar-se mais entusiástico quanto mais horrível fosse o homem que tinham diante?

                            Abriu a porta de um puxão e saiu ao corredor.

                            - Preciso pensar - resmungou enquanto se ia.

                            - Pensa rápido, Jessica. Não dispõe de muito tempo.

                            - Estupendo, simplesmente estupendo. Todo mundo sabe como me chamo. -Com uma expressão de ferocidade, Jessi fechou a porta tão forte que fez tremer o marco.

                            - O próximo assassino pode aparecer em qualquer momento- disse a profunda voz dele através da porta do escritório-, e será muito mais sofisticado que o último. Acaso seja uma mulher. Diga-me, moça, Crê que terá tempo de ver como vais morrer?

                            Jessi estava tão furiosa que lhe deu uma patada à porta.

                            - Não te afaste muito. Vais necessitar-me- prosseguiu ele. Jessi encarou a porta e resmungou uma obscenidade que ele não teria podido ouvir, mas a ouviu. Pôs-se a rir e disse:

                            - Isso é uma impossibilidade física, mulher, ou, me acredite, a maioria de nós os "idiotas" o faríamos.

                            Jessi pôs os olhos em branco e esta vez não se incomodou em fechar com chave.

                            Sabia que certamente não serviria de nada, mas antes de ir-se arrancou o resto da fita que havia posto a polícia do campus fez uma bola com ela e a meteu no bolso.

                            Possivelmente teria sorte e alguém roubava aquele maldito espelho e se liberava dele.

                            OPÇÕES

  1. Ir à polícia. Contar-lhe tudo e solicitar amparo.
  2. Contatar com o transportador original, mandar de volta espelho ao lugar de que veio e esperar que isso arrumasse tudo.
  3. Fugir do país.
  4. Ingressar em um hospital para doentes mentais e confiar em que, com todos esses ferrolhos e paredes acolchoadas, fossem mais seguros que os hospitais normais.

                            Jessi terminou o café, apartou a taça, contemplou sua patética lista e suspirou.

                            Ainda estava um pouco alterada, mas escrever a lista de opções ao menos tinha servido para acalmá-la um pouco, obrigando-a a ser realista ante uma situação que não podia ser mais irreal.

                            O número quatro ficava descartado: soava muito deixar que o azar se encarregasse de decidir por ela e, ao fim das contas, tinha que ver-se envolta em um acidente automobilístico, preferia ser a que ia ao volante quando ocorresse. Por aquilo de tentar controlar o destino, mais que nada.

                            O número um ficava descartado. O primeiro que fariam na delegacia de polícia seria tornar-se a rir se tentava lhes explicar que sabia quem tinha assassinado o seu homem sem identificar: um imponente, muito alto e tenebroso deus do sexo que queria ser livre, já que dava casualidade de que estava apanhado dentro de um espelho feito faz mais de dez mil anos, porque cabia a possibilidade de que fosse um criminoso sem escrúpulos que tinha sido... , hum, confinado por um deus paranormal dentro de dito espelho para que... , hum, o mundo estivesse a salvo dele.

                            Já. Buf. Até lhe parecia que teria que estar muito louca para dizer essas coisas.

                            Isso deixava os números dois e três como soluções potenciais.

                            Embora postos a pensar, fugir do país e não voltar a pôr os pés nele ao menos não até que estivesse razoavelmente segura de que se esqueceram dela custaria muitíssimo mais dinheiro que tratar de devolver o espelho ao lugar de que provinha, inclusive com o exorbitante preço do seguro incluído, e Jessi tinha que acreditar que se devolvia aquela peça arqueológica, a pessoa que queria fazer-se com ela a deixaria em paz.

                            Depois de tudo, o que ia fazer ela? Dar publicidade ao assunto? Começar a falar às pessoas desse artefato impossível uma vez que se esfumou? Desacreditar-se completamente e renunciar a qualquer possibilidade de que algum dia pudesse chegar a ter um futuro prometedor no campo da arqueologia?

                            O que cada vez parecia mais improvável, por certo. Certamente poderia os persuadir disso, quaisquer pessoas que fossem. Qualquer pessoa que tivesse dois dedos de frente em seguida se daria conta de que ela nunca ia falar daquilo.

                            Jessi passeou o olhar pela cafeteria da universidade; os reservados de madeira com as paredes atapetadas estavam muito pouco concorridos a àquela hora da noite, e não havia ninguém sentado o bastante perto para poder ouvi-la. Assim agarrou seu móvel, abriu-o, chamou informação e lhe deu o número do Allied Certified Deliveries, o nome que tinha visto estampado nos lados da caminhonete de partilha.

                            Já eram as 20.55 e Jessi não esperava que a atendessem, pelo que em um primeiro momento só pôde balbuciar um pouco antes de conseguir expressar o propósito de sua chamada: tinha recebido um pacote que queria devolver, mas não lhe tinham dado nenhuma cópia da folha de envio, assim não sabia aonde tinha que enviá-lo.

                            Sem fazer o menor esforço para dissimular sua irritação, a mulher ao outro extremo da linha lhe informou que os escritórios já estavam fechados, e que se tinha respondido era só porque estava falando com seu marido quando se cortou a comunicação, e pensou que era seu marido quem voltava a chamar.

                            - Volte a tentá-lo amanhã disse- impacientemente.

                            - Espere! Não desligue, por favor - exclamou Jessi, presa do pânico. Amanhã poderia ser muito tarde. Necessito que venham a recolhê-lo há primeira hora. Tenho que devolver essa coisa o antes possível.

                            Silêncio.

                            - Enviá-la sai realmente caro - explicou Jessi ao silêncio, com esperança de que o dinheiro manteria a mulher na linha e a motivaria a mostrar-se serviçal. -Provavelmente seja um dos envios mais caros que vocês têm feito. Cruzou o mar e requereu um transporte especial.

                            - Vai pagar para enviá-lo ao ponto de origem, ou tenta fazer que os gastos corram por conta do transportador? Perguntou a mulher desconfiadamente.

                            - Nota promissória - disse Jessi sem vacilar. Embora a aborrecesse por completo a idéia de ter que gastar dinheiro em algo que não lhe reporia nada que logo pudesse ensinar, ao menos assim estaria viva para pagar os prazos. Seu Visa tinha um limite de crédito realmente aterrador; a quantidade de corda que os bancos estavam dispostos a dar aos universitários para que se enforcassem com ela nunca deixava de assombrá-la.

                            - Tem o número de fatura?

                            - Claro que não. Acabo de lhe dizer que não tenho a folha de envio. Seus empregados se esqueceram de me dar uma cópia.

                            - Nunca nos esquecemos de dar cópias da HDE, se encrespou a mulher. Deve ter guardada em qualquer lugar e agora não recorda onde.

                            Jessi suspirou.

                            - De acordo, terá sido isso. O caso é que não a tenho.

                            - Senhora, nós fazemos centenas de entregas por semana. Sem um número de fatura, não posso saber de que entrega me fala. Bom, sempre pode procurá-la pelo sobrenome, não?

                            - Os computadores já estão apagados desconectam-se às oito. Terá que voltar a chamar amanhã.

                            Foi uma entrega bastante pouco habitual - insistiu Jessi. - Possivelmente dela se lembre. Trouxeram-na muito tarde de noite. Há pouco. Posso lhe descrever aos homens que a trouxeram. - Detalhou rapidamente ao casal de repartidores.

                            Houve outro comprido silencio.

                            - Senhora - disse ao cabo a mulher-, a esses dois homens os assassinaram este fim de semana. Estrangulados, igual a esse professor de que falaram em todos os informativos da televisão. A polícia não nos deixa em paz. -Uma nota de amargura se infiltrou em sua voz-. Comportam-se como se a empresa de meu marido tivesse tido algo que ver com o assassinato, como se estivéssemos metidos em negócios turvos ou algo pelo estilo. - Uma pausa, logo-: Como você disse que se chamava?

                            Jessi desligou com a sensação de que acabavam de lhe dar uma patada no estômago.

                            Não acudiu diretamente a ele. Negava-se a fazer isso.

                            Que a derrota tivesse demorado tão pouco em chegar lhe doía.

                            Os últimos dias tinham suposto um autêntico curso de humilhação para ela. Nada tinha saído nem remotamente de acordo com O Plano Jessi St. James Para Uma Boa Vida, e tinha o horrível pressentimento de que as coisas seguiriam assim durante muito tempo. Assim que ficou obstinadamente sentada na cafeteria da universidade até que deram às doze e meia da noite, e tomou muito mais café de que conviria a seus nervos em carne viva enquanto saboreava os que suspeitava foram ser seus últimos momentos de quase normalidade em muito tempo, antes de inclinar-se ante o inevitável.

                            Não queria morrer. Complicações, mas logo que tinha chegado a viver.

                            "A vida é o que te ocorre enquanto está ocupado em fazer outros planos." Sua amiga Ginger lhe tinha dado uma tigela com essa frase escrita nela fazia uns meses. Se lhe dava a volta, no outro lado punha "Quando ter uma vida se converteu em um acontecimento que precisava programar?" Jessi tinha metido a tigela no fundo de sua despensa e não voltou a olhá-la, porque essa triste verdade descrevia muito bem a classe de existência que levava ela.

                            Não certamente não estava pronta para morrer. Queria ao menos outros sessenta ou setenta anos de vida. Nem sequer tinha chegado às partes boas da existência. O problema era que não estava segura de sua capacidade para, como o tinha expressado tão sucintamente o homem do espelho, "ter tempo de ver como vais morrer". Ainda não tinha terminado a carreira universitária, nada menos que arqueologia. As pessoas nunca tinham sido seu forte. Não as vivas, em todo caso. Tinha acumulado bastante experiência com as que estavam mortas, como as múmias ou os seres humanos fossilizados, não a levariam muito longe com um assassino. A triste verdade da morte provavelmente poderia ir para ela foice em riste e a Jessi nem sequer lhe ocorreria tentar fugir, porque estaria muito distraída tentando determinar a antigüidade, origem e a composição da foice.

                            Por conseguinte, tanto se gostava como se não - e santo Di, não gostava nada-, necessitava ao homem do espelho. Dava igual o que pudesse ser. O professor estava morto. Os dois empregados da agência de transportes estavam mortos. Ela seria a seguinte. Três das quatro pessoas às que eram preciso eliminar já tinham caído. Jessi se sentia como uma dessas heroínas despistadas que Sl len aparecem nas novelas de mistério, ou nessas novelas românticas onde todos andam detrás de algum segredo oculto; o cabo solto que teria que atar, a que o psicopata acossava implacavelmente a ingênua jovenzinha indefesa. E ela nunca havia se considerado indefesa. Um pouco ingênua possivelmente, mas não indefesa.

                            Agora, de novo ante a porta do escritório do professor Keene, Jessi fez provisão de valor e se preparou mentalmente para implorar a misericórdia de um ser impossível.

                            Ou ele a protegeria tal como tinha assegurado, ou realmente era um vilão cosmicamente malvado, encarcerado com toda justiça, que mentia como um velhaco porque em realidade planejava matá-la a julgar por como lhe tinham ido as coisas a ela ultimamente de alguma forma particularmente horrível e com muito sangue, quando o liberasse de sua prisão.

                            Nesse caso, estaria perdida tanto se o punha em liberdade como se não, com seu falecimento pendente unicamente de que decidisse quando e aonde ia se produzir, assim provavelmente o melhor que podia fazer era não pensar mais e seguir adiante com isso.

                            Jessi olhou seu relógio e viu que passavam quarenta e dois minutos das doze.

                            Adeus à vida tal como a conhecia; olá caos. Com a esperança de que não fosse só despedir-se da vida, empurrou a porta e entrou no escritório.

                            - Bom - disse à superfície chapeada com um suspiro, acredito que podemos fazer um trato.

                            Ele já estava ali antes que Jessi acabasse de articular a palavra "acredito", e terminou o resto da frase um pouco entrecortada.

                            Logo viu como um sorriso exultante curvava lentamente os lábios do homem do espelho.

                            - Deixa de entendimentos mulher, me tire daqui agora mesmo.

         6

                            - Não me venha com desculpas grunhiu Lucan pelo telefone-. Roman morreu. Necessito a Eve em Chicago já.

                            Ficou em pé, foi para as janelas de seu escritório e contemplou o amanhecer londrino enquanto as primeiras pinceladas de sol começavam a dissipar a névoa. Ao longe o céu ainda estava o bastante escuro para que Lucan visse seu reflexo sobreposto sobre o cristal colorido. Quando estava a sós nunca se incomodava em recorrer a nenhum enfeitiço para ocultar sua aparência.

                            Seu crânio era um miasma de runas riscadas em negro e escarlate, sua língua se agitava como uma asa negra dentro de sua boca tatuada quando falava, e um fulgor avermelhado brilhava em seus olhos de fera.

                            Era quinta-feira pela manhã. Ficavam vinte dias.

                            Voltou o olhar por volta do círculo de cores mais intensas no papel de seda grafite onde o Cristal Escuro tinha permanecido pendurado durante tanto tempo. O cativeiro de Cian tinha sido uma constante fonte de diversão para Lucan: o Keltar legendário, o druida mais capitalista que jamais tivesse existido, enfeitiçado por um tal Lucan Myrddin Trevayne.

                            Fechou os punhos e apertou a mandíbula. Aquele lugar vazio logo voltaria a estar cheio. Lucan voltou a concentrar-se na conversação e disse:

                            - Agora a senhorita St. James sabe que corre perigo. Não sabemos como reagirá, assim necessito que se ocupem dela imediatamente. Mas antes que nada, preciso recuperar esse maldito espelho. Roman disse que estava no escritório do professor. Faz que Eve o envie a minha residência privada assim que chegar a Chicago. Logo terá que encarregar-se da garota e de todos os que hajam visto o espelho.

                            Maldito Roman. A polícia fazia muitas perguntas e suspeitava que ao menos um ou dois agentes haviam visto o cristal Escuro, o que significava que teria que retirar da ativa a um par de membros do departamento policial. No passado nunca lhe tinha negado ao Roman sua preferência pelo estrangulamento, com tal de que fosse ali, despachasse às testemunhas sem que a polícia encontrasse os corpos, e logo se fora rapidamente, antes que se abrisse uma investigação.

                            Mas esta vez Roman não tinha sabido fazer o que se esperava dele. Não pôde ocupar-se da mulher, e acabou morto.

                            O qual dava muito que pensar a Lucan.

                            Como tinha ido parar Roman a uns jardins do campus universitário com o pescoço quebrado? Lucan só sabia de um homem fosse o bastante forte e destro para lhe romper o pescoço ao russo como se rompesse um osso de frango: Cian MacKeltar.

                            E se fosse assim, alguém tinha que havê-lo deixado sair do espelho no qual estava prisioneiro. O que era realmente grave.

                            A única pessoa que lhe ocorria que podia ter feito tal coisa era a senhorita St. James. Segundo Roman, quando foi investigar a última vez, em Chicago havia quatro pessoas que tinham chegado a ver o Cristal Escuro ou, como o doutor Liam Keene, sabiam suficiente a respeito dele para que teria que as considerar perigosas, e Jessica St. James era a última a que teria que desaparecer, Lucan tinha muito presente que os Keltar sempre tinham sabido tratar às mulheres.

                            Lucan enrugou o lábio superior depreciativamente. Tantos dons inapreciáveis desperdiçados em um montanhês primitivo, um highlander, nada menos. Não só atitude, fortaleza e carisma, a não ser energia em estado puro. A classe de poder que lhe tinha exigido lhe duravam dúzias de vidas para chegar a adquiri-lo em uma mera porção de seu potencial, esse Keltar o tinha tido centuplicado desde que nasceu.

                            Se a senhorita St. James realmente se deixou seduzir pelo Keltar, então Lucan acabava de enviar a Eve à morte. Não demoraria em ter sua resposta. Se Eve não voltasse a dar sinais de vida, saberia que tinha entre as mãos um problema muito mais sério do que imaginou.

                            - Lhe diga a Eve que deixe seu outro contrato para mais adiante. Necessito-a agora. -Uma pausa, seguida de um grunhido.- Não acredito isso de que não tem forma de te pôr em contato com ela. Encontra uma. Faz que Eve esteja em Chicago hoje mesmo ou do contrário...

                            Lucan escutou uns instantes com o telefone longe da orelha. Depois de uma larga pausa, disse em um tom ainda mais seco que antes:

                            -Parece-me que não o entende. Quero-a ali agora. Aconselho-te que lhe transmita minhas ordens e deixe que ela seja a que dita. - Pulsou o botão que punha fim à comunicação. Já sabia o que faria ela. Eve ganhava a vida traficando com a morte e havia muito poucas coisas que lhe dessem medo, mas temia a Lucan. Ela e Lucan tinham tido uma pequena aventura fazia uns anos. Eve conhecia sua verdadeira natureza. Obedeceria.

                            Lucan esfregou a mandíbula e entreabriu os olhos. Samhain se aproximava muito depressa. Pela primeira vez em séculos, Lucan sentiu um tênue murmúrio de inquietação. Tinha sido intocável, virtualmente invencível durante tanto tempo, que quase não reconheceu a emoção.

                            Ao menos sabia exatamente onde estava o espelho. Isso aliviava uma grande parte de sua inquietação. Contudo, se não estava em seu poder dentro de muito pouco, não ficaria mais remédio que ir buscá-lo pessoalmente.

                            Coisa que tivesse preferido não ter que fazer.

                            Nas estranhas ocasiões em que tinha liberado ao Keltar do Cristal Escuro, Lucan sempre se mantinha em um lugar fortemente protegido que se encarregava de neutralizar o imenso poder do highlander até que o espelho voltava a reclamar a seu cativo. Os intensos e complexos amparos mágicos necessários para manter suprimido o poder de Cian MacKeltar requeriam rituais minuciosos nos que era preciso investir muito tempo.

                            Lucan se perguntou se ele e seus homens poderiam proteger magicamente os terrenos da universidade ao redor do espelho.

                            Possivelmente. Seria arriscado. Eram muitas as coisas que podiam ir mal. Podiam ser vistos. Podia cruzar-se com outra magia, tão antiga como nova, que criasse conflitos. A gente não sabia, mas a magia os rodeava por toda parte. Sempre tinha estado presente, e sempre o estaria. Agora meramente se ocultava a si mesmo com muita mais sofisticação que antigamente.

                   Atreveria-se ele a enfrentar ao highlander com todos seus poderes intactos em terreno não protegido?

                            Lucan disse que mil anos tinham que ser suficientes para ter superado a Cian MacKeltar e poder ter a certeza de que já não havia nenhum feiticeiro maior que ele.

                            Separou-se das janelas e pensou que oxalá pudesse estar seguro disso. Mas não tinha sido sua superioridade como feiticeiro a que pôs ao Keltar dentro daquele espelho, a não ser uma ardilosa combinação de enganos e traição.

                            Possivelmente o Keltar não tinha sido liberado depois de tudo. Cabia a possibilidade de que Roman tivesse sido presa de outro assassino. Às vezes o faziam, e começavam a caçar-se entre si por dinheiro ou por glória ou meramente pela provocação que representava fazê-la.

                            Dentro de um ou dois dias saberia com certeza. Então decidiria seu próximo movimento.

                            Cian aguardava com os punhos apertados sobre os flancos. Já sabia que ela voltaria. Jessica não era nenhuma estúpida. Tinha sido o bastante pronta para identificar o espelho como a arma mais efetiva quando Roman a ameaçou, e Cian não duvidava de que saberia ver o acertado de sua oferta. Mas não estava seguro de quanto demoraria em compreendê-lo, e agora o tempo era tudo para ele.

                            Vinte dias.

                            Isso era tudo o que necessitava dela.

                            Não era, nem de longe, tudo o que queria dela. Tudo o que queria dela teria feito ruborizar até a mais experimentada das prostitutas.

                            Agora ela o olhava a um par de metros além de sua prisão, com seus escuros olhos verdes muito abertos e seus lábios ligeiramente separados, esses peitos que eram como um sonho feito realidade subiam e baixavam com cada nervosa inspiração que fazia.

                            Cian estava impaciente por saboreá-los. Queria acariciá-los com as mãos, e excitar os mamilos com sua língua cheia de paixão. Queria chupar-lhe firme e profundamente. Uns peitos assim faziam que um homem entrassem vontades de ver bebês ante eles. Seus bebês.

                            Mas não muito freqüentemente, ou não haveria tempo suficiente para ele.

                            Sacudiu a cabeça, ouviu tilintar as contas de metal que adornavam suas tranças e mantiveram a raia aqueles pensamentos cheios de desejo.

                            Assim que Jessica o fizesse sair do espelho, usaria a Voz sobre ela.

                            A pele lhe formigava com a necessidade de escapar do lugar no qual a essas alturas Lucan certamente já tinha que saber que se achava. Cian tinha matado ao assassino a madrugada da terça-feira. Já tinham transcorrido vinte e quatro horas após. Embora preferisse não pensar em quando tinha sido a última vez que pôde andar livremente pelo mundo, graças aos livros, as publicações e a vista das janelas que tinha podido olhar no estúdio de Lucan, Cian tinha uma idéia bastante clara da trama e o discorrer do mundo moderno. Sabia que era horrorosamente enorme e de uma vez surpreendentemente menor do que nunca tinha sido antes, com uma população de milhares de milhões de pessoas (nem sequer um druida Keltar podia evitar sentir-se um pouco sobressaltado ante semelhantes magnitudes), e, entretanto, havia nele telefones que podiam abranger continentes inteiros em questão de segundos, computadores que podiam recuperar instantaneamente qualquer tipo de informação e pôr em contato às pessoas sem importar que estivessem em extremos opostos do mundo, e aeroplanos que podiam atravessar continentes em menos de um dia. Era desconcertante. Era fascinante.

                            E isso significava que tinham que mover-se. Já.

                            A Voz, a arte druida da compulsão, era um dos maiores talentos que possuía Cian. Quando era um moço às portas de fazer-se homem esse momento da vida em que os poderes de um Keltar se faziam visíveis e estavam acostumados a flutuar violentamente conforme se desenvolviam, durante uma semana tinha ido pelo castelo sem deixar de usar a Voz sobre quantos se cruzavam em seu caminho, e sempre sem dar-se conta do que fazia. Não reparou nisso até que lhe ocorreu perguntar-se por que todo mundo se esforçava por lhe agradar. Então aprendeu a tomar cuidado, a escutar seus próprios tons em busca dessa superposição de vozes tão especial. Só um imbecil, ou um noviço com uma compulsão pela morte, recorria à magia, inadvertidamente.

                            Liberado do espelho e em um terreno carente de amparos mágicos, Lucan era o único que podia resistir a seu domínio da Voz e isso unicamente porque tinha sido Cian quem lhe ensinou a utilizá-la. Embora Lucan nunca tivesse chegado a ser o bastante apto nessa arte, a prática do druidismo fazia que tanto o mentor como o discípulo desenvolvessem a capacidade de poder resistir um ao outro durante o processo de adestramento.

                            Jessica St. James se mostraria dócil, que era o que faziam sempre as mulheres. Elas eram suaves e delicadas, e não tinham a culpa de que a natureza as tivesse feito tão maleáveis. Cian lhe ordenaria que o levasse a um lugar seguro no qual pudessem esconder-se e uma vez ali... OH, uma vez ali, Cian tinha séculos inteiros de desejos por coisas que saciar muito afastadas da vingança, e com suas generosas curvas, sua delicada pele e seus reluzentes cabelos negros aquela mulher era a resposta a todas elas.

                            Que melhor maneira de passar os últimos vinte dias de sua servidão do que com uma mulher tão delicadamente sensual, que satisfaria todos seus apetites sexuais e lhe permitiria fazer realidade seus mais secretos desejos e fantasias carnais?

                            Nesse momento, a delicadeza sensual feita mulher levantou queixo.

                            Obstinadamente.

                            Inclusive com o que tivesse podido ser uma faísca de fogo os olhos.

                            - Não te deixarei sair até que tenha respondido a umas quantas pergunta lhe informou friamente.

                            Cian soltou um bufido de impaciência. Por que tinha tido que escolher precisamente aquele momento para lhe levar a contrária? Não cabia dúvida de que as mulheres tinham o dom da oportunidade.

                            - Moça, não há tempo para isto Lucan sem dúvida já enviou outro assassino que se aproxima enquanto falamos.

                            - Lucan?- saltou ela. -É a pessoa que quer recuperar o espelho?

                            - Sim.

                            - Lucan que mais?

                            Cian se cruzou de braços e a olhou.

                            - Por quê? Conhece-o, talvez? Replicou sardonicamente ao tempo que arqueava uma escura sobrancelha. Quando viu que ela subia pouco mais o queixo e o olhava com fúria, suspirou e disse Trevayne. Chama-se Lucan Trevayne.

                            - Quem e o que é você?

                            - Pronunciou meu nome quando me liberou a primeira vez disse ele pacientemente. - Sou Cian MacKeltar. Quanto ao o que, só sou um homem.

                            - O loiro disse que foi um assassino- replicou ela com uma venenosa doçura. -Lembra-te dele? O homem ao que assassinou. Deus disse ele indignadamente, e a frigideira disse ao bule que se apartasse porque a manchava.

                            - Também disse que terá que te encerrar para que o mundo não corresse perigo.

                            - Dificilmente. Seu mundo, Jessica, estaria muito mais seguro comigo nele.

                            - Bem, e então por que está dentro de um espelho? Iluminou-lhe o rosto, como se acabasse de pensar em algo que a tinha posto de bom humor.-É uma espécie de gênio? Pode conceder desejos?

                            - Se referir aos djinns, até um parvo de povo sabe que não existem. Não, não concedo desejos.

                            - Sim, bom, e todo mundo sabe que não há homens dentro dos espelhos. Como acabou apanhado em um?

                            - Fui vítima de um engano. De que outra maneira ia acabar um homem apanhado dentro de um espelho?

                            - Como te enganou?

                            - É uma história muito longa. - Quando viu que ela abria a boca para insistir em que a contasse, disse-: E não uma da que queira falar. Deixa-o estar.

                            Os olhos dela se entreabriram como os de um gato.

                            - O loiro também disse que o espelho tinha sido feito pelos invisíveis. Procurei "invisíveis" na rede. Não é nenhuma classificação arqueológica. Há-me flanco o meu encontrá-la, mas tenho descoberto que é uma classificação que se aplica a certas criaturas mágicas - disse com uma careta desdenhosa. -O que, se for tão amável de me dizer isso supõe-se que devo pensar que significa isso exatamente?

                            - Que te encontra ante um artefato incrivelmente estranho? -sugeriu ele jovialmente. -Mulher, agora não temos tempo para falar dessas coisas. Responderei a todas suas perguntas assim que me tenha liberado e nos tenhamos posto em movimento.

                            A mentira fluiu de sua língua sem nenhuma dificuldade. Assim que ela o tivesse liberado, sossegaria todas suas preocupações com uma simples ordem administrada mediante a Voz. Disse que acrescentaria imediatamente umas quantas ordens mais, à parte era um homem que, levava muito tempo sem poder gozar de uma mulher, e ardia em desejos de pôr fim a aquela abstinência. Pensar nas ordens eróticas que lhe daria bastou para que seu membro começasse a erguer-se e lhe apertassem os testículos. "Traz aqui esse rabo tão precioso que tem, Jessica. Abre essa formosa boca e lambe isto. Date a volta, mulher, e deixa que me encha as mãos com esses peitos tão esplêndidos enquanto te inclino sobre... "

                            -Por que alguém ia querer te enganar para que acabasse prisioneiro dentro de um espelho?

                            Bruscamente arrancado do luxurioso estupor de seus pensamentos, Cian deu um passo atrás para que a prata do espelho envolvesse a metade inferior de seu corpo e ocultasse o súbito elevar de seu Kilt. Duvidava que uma prova tão descarada de quais fossem suas intenções fosse servir como persuasão para liberá-lo. Demônios tinha que ter usado a Voz para fazer-se com um pouco de roupa moderna quando liquidou ao Roman a outra noite! Aqueles jeans apertadamente rodeados ao corpo que pareciam fazer furor tanto entre os homens como entre as mulheres provavelmente seriam capazes de conter inclusive um membro tão grande como o seu.

                            - Porque ao me atar a este espelho, me enganou e adquiriu a imortalidade. Cada relíquia invisível oferece alguma classe de Escuro. O dom do Cristal Escuro é viver eternamente, não envelhecer nunca, não ter que trocar - grunhiu. Pelo Danu, Até onde teria que chegar para conseguir que aquela mulher o tirasse do maldito cristal?

                            - OH-. Ela o olhou com cara de não entender nada. -vamos ver se me esclareço: está-me dizendo que não só há gente de espelhos e criaturas mágicas escondidas não sei onde que estão muito ocupadas fabricando artefatos dotados de atributos paranormais, mas sim também há imortais rondando por meu mundo?

                            Ele quase gritou de frustração.

                            - Duvido muito que "rondem", mulher. E, que eu saiba, o fae levam milênios sem fabricar nada, não desde que se retiraram a seus reinos ocultos. E deixa de tomar de brincadeira. Limito-me a responder suas perguntas.

                            - Suas respostas são impossíveis.

                            - É que já não rege a máxima de que uma coisa deixa de ser impossível quando acontece?

                            - Nunca vi a um imortal, e certamente nunca vi a uma criatura mágica.

                            - Isso é fiar muito fino. Viu-me. E reza para que nunca veja nenhuma delas.

                            - Por que...?

                            - Jessica- disse ele em um tom suave e ameaçador que fez que o nome dela ressonasse com a promessa de infinitos perigos. Vou contar até três. Se deixar que chegue a esse número sem ter iniciado o cântico para me liberar, rescindirei minha oferta. Não moverei nem um dedo quando o próximo assassino venha por ti. Ficarei sentado e te verei morrer de forma lenta e horrível. Começo a contar. Um. Dois...

                            - Não nos ponhamos nervosos disse ela com repentina inquietação. -Pensava dizê-lo. Só queria esclarecer umas quantas coisas antes de começar a...

                            - Três...

                            - Vale, já o digo! Digo-o! Lialth bree che bree...

                            - Demônios, moça, por fim!

                            7

                            -... Cian MacKeltar, drachme se-sidh! - concluiu Jessi entrecortadamente.

                            Logo retrocedeu com nervosismo, sem poder apartar o olhar do espelho enquanto o coração lhe pulsava com força dentro do peito.

                            O azougue se enegreceu e foi invadido por uma fumaça que fervia de sombras, como um portal que dá a uma tormenta. Logo a mancha negra ao redor da borda se expandiu com velocidade até engolir toda a superfície. Ao mesmo tempo, um resplendor dourado irradiou das talhas do marco e pintou runas chamejantes através da roupa do Jessi, os móveis, as paredes do escritório. A desconcertante sensação de distorção espacial entre aquelas quatro paredes cresceu até um nível de unhas-que-arranhavam-uma-p

 

 

 

 

 

içarra, e Jessi sentiu que lhe punham os nervos em pé.

                            Então, tão abruptamente como tinha começado, o resplendor se atenuou e o negrume se dissipou de repente, para revelar uma franja aquosa que dançava e ondulava como a superfície do lago Michigan em um dia de vento.

                            Um pé calçado com uma bota se abriu passo através da franja aquosa e logo Jessi viu aparecer uma robusta coxa, conforme a imagem unidimensional atravessava uma espécie de soleira de conto de fadas e se transformava, fragmento a fragmento, no mero reflexo de um homem tridimensional. Era impossível. Era aterrador. Era a coisa mais emocionante que Jessi tinha visto jamais.

                            Depois apareceram aqueles quadris envoltos em um kilt e aquele abdômen que fazia pensar em um pacote de seis latas de cerveja, e logo lhe tocou o turno a aquele torso esculpido sobre o que ondulavam montões de músculos cheios de tatuagens negras e escarlates.

                            O último em aparecer foi o rosto pecaminosamente formoso, um brilho de triunfo em seus olhos cor uísque e os dentes muito brancos esculpidos em um sorriso exultante.

                            O homem do espelho sacudiu a cabeça em um movimento cheio de majestade, e as contas de metal que adornavam suas tranças tilintaram enquanto acabava de sair de sua prisão.

                            A sensação de distorção espacial se dissipou de repente, e o cristal voltou a ser uma lâmina chapeada que refletiu aquele traseiro tão apertado e a magnífica musculatura de suas costas.

                            Jessi se armou de valor, e tentou consolar-se com o pensamento de que se ia morrer agora, ao menos teria direito a uma última ração de manjar para a vista. Aquele homem tinha que estar no aparador da Galeria de Machos Irresistíveis Cheios de Músculos. Complicações, provavelmente era o dono da galeria ou, se não, fazia de garanhão para as mães da metade dos exemplares.

                            Dentro do espelho já o via bastante grande, mas fora parecia ainda mais enorme. Aquele homem tinha presença, essa qualidade indefinível que dotava a certas pessoas de um estranho magnetismo que atraía a outros, inclusive contra sua vontade. E ele sabia.

                            À vista da presunçosa arrogância com que se comportava, sempre o tinha sabido.

                            Porco presumido.

                            Mas Era o tipo de porco presumido que, além disso, é capaz de matar? Essa era a pergunta importante.

                            - Se for me matar, agradec...

                            - Deixa de falar, moça. Agora traz aqui esse traseiro tão precioso que tem e me beijará.

                            Jessi ficou boquiaberta. Fechou a boca. Voltou a abri-la. De repente sentiu uma estranha picada na cabeça justo debaixo da pele, em cima da placa metálica. Esfregou-se o couro cabeludo.

                            - Nem o sonhe. - Quis que as palavras fossem um vaio de indignação, mas soaram mas bem como um grasnido. Estava claro que a esse homem gostava muito seu traseiro, já que acabava de lhe ouvir dizer que era precioso. Podiam criar uma sociedade de admiração mútua integrada por duas pessoas.

                            -Tire esse objeto de lã que leva, mulher, e mostra-me os peitos.

                            Jessi se engasgou, e durante uns segundos foi incapaz de falar.

                            Numerosos homens tinham tentado alcançar essa meta e ela sabia que tinha uns peitos excepcionais, mas nenhum de uma maneira tão óbvia e sem incomodar-se em exercitar embora só fosse uma minúscula quantidade de esforço sedutor. Apressou-se a cobrir-lhe com as mãos defensivamente.

                            -OH, pois me temo que vai ser não...

                            -Te cale!- rugiu ele. -Não voltará a falar até que eu diga que pode fazê-la.

                            Jessi se tornou atrás como uma cobra que se dispõe a atacar e voltou a arranhar o couro cabeludo. Não podia falar a sério! Certamente parecia ter falado muito a sério.

                            Depois de um momento de perplexo silêncio, em uma voz o bastante doce para causar cavidades em uma capa dental, Jessi disse:

                            - Merda, asqueroso neandertal dominante. Errou de era, assim veja que se inteire de que já não vivemos na Idade da Pedra.

                            - Como já assinalei antes, isso é uma impossibilidade física. E sei muito bem em que época estamos. Vêem aqui, Jessica St. James. Agora.

                            Jessi piscou. Então lhe ocorreu algo que explicaria muitas coisas a respeito daquele homem.

                            -Quanto tempo esteve prisioneiro dentro desse espelho?- inquiriu.

                            Um músculo tremeu na mandíbula dele.

                            - Te disse que se cale.

                            Ele parecia decidido a persistir em sua necessidade, mas o aborrecimento inicial da Jessi começou a minguar conforme sentia crescer a suspeita de que sua conjetura tinha dado no alvo.

                            - Bom, está claro que não me vou calar, assim já posto poderia responder a minha pergunta.

                            Ele entreabriu os olhos, e a percorreu de cima abaixo com aquela olhada cor de uísque.

                            - Mil cento e trinta e três anos.

                            -O que?! -Jessi tragou ar. Isso o situaria em... Não! O século IX? Impossível. Um homem do século IX que tinha ficado apanhado dentro de um espelho antiqüíssimo e logo tinha passado onze séculos dentro dele? Não podia ser. Um calafrio correu pelo corpo do Jessi e sentiu que lhe arrepiavam o cabelo.

                            -Seriamente? -pôs-se tão contente que quase chiou as palavras. Os últimos vestígios de seu aborrecimento ficaram reduzidos a um montão de cinzas.

                            OH, as coisas que poderia lhe contar aquele homem! Tinha sido contemporâneo do legendário rei Cináed MAC Ailpin? Tinha tomado parte em todas aquelas grandes batalha? Tinha presenciado a unificação dos escoceses e os pictos? Esses braceletes incríveis que levava possivelmente tivessem sido feitos no século IX. E o que eram essas tatuagens que levava? E as runas esculpidas no espelho possivelmente correspondessem a uma língua ainda não descoberta. Mãe de Deus! E agora que pensava nisso, realmente o espelho datava da Idade de Pedra? Como podia ser tão antigo? De onde tinha saído? Quem o tinha criado? Do que parecia? Agora que já tinha admitido a realidade de sua existência, Jessi tinha muitíssimas perguntas a respeito daquele objeto. Sua mente era um caos de perguntas que colidiam e se enredavam entre si, e ao final estava tão confusa que quão único pôde fazer foi ficar olhando em um perplexo silêncio.

                            Demorou uns instantes em dar-se conta de que ele a olhava com exatamente a mesma expressão.

                            Como se não pudesse acreditar que ela existisse.

                            Ali estavam, em pé no escritório do professor Keene separados por três metros de distância, e cada um olhava ao outro com uma expressão entre incrédula e cheia de suspeita. O que era ridículo, claro. Como podia ser que lhe custasse acreditar nela?

                            - Diz meu nome, moça ordenou ele com voz ensurdecedora.

                            Jessi sacudiu a cabeça, estupefata por todas as perguntas que amontoavam em sua mente e surpreendida por sua petição.

                            - Cian MacKeltar. Por quê?

                            Isso pareceu tranqüilizado um pouco. Logo voltou para olhar com cara de suspeita.

                            - Te arranhe o nariz, mulher.

                            - Não me pica.

                            - Ponha nas pontas dos pés.

                            Ela enrugou o nariz.

                            - Não quero.

                            - Por todos os diabos - ofegou ele, como se falasse consigo mesmo, - não pode ser. - Voltou a submetê-la ao mesmo intenso escrutínio de antes, pareceu manter uma breve mas muito acalorada discussão consigo mesmo, e logo lhe indicou o escritório com um gesto da cabeça .-Sente-se nessa cadeira.

                            -Não gosto. Encontro-me muito bem em pé onde estou, obrigado.

                            -Te umedeça os lábios? Disse ele, ao tempo que cravava o olhar em sua boca.

                            Jessi teve que fazer um considerável esforço de vontade para não umedecer-lhe enquanto ele os olhava daquela maneira. Era como ser observada por aquele homem a obrigasse a fixar a vista nessa boca sua tão incrivelmente beijavel, a querer não só umedecer os lábios, mas também oferecer-lhe em um gesto insinuante e lhe levar imediatamente seu "precioso traseiro". Possivelmente até lhe mostraria os peitos, depois de tudo. Jessi estava assombrada ante quão indiscriminada tinha resultado ser a natureza dos hormônios, e a horrorizou descobrir que um homem podia cair fatal - porque já não se tratava de que não tivessem nada em comum, mas sim além nem sequer existiam no mesmo mundo-, e mesmo assim queria lhe arrancar a roupa e praticar apaixonadamente o sexo com ele como se fossem dois animais em zelo.

                            Resistiu, estoicamente.

                            -Que trato me oferece?

                            - Deus - murmurou ele lentamente. -passei tanto tempo encerrado aí dentro que o perdi.

                            -O que é o que perdeste? OH, refere-te ao julgamento. Sim, bom, parece-me que nisso estamos completamente de acordo.

                            Ele franziu o sobrecenho e a contemplou em silêncio um comprido instante. Depois o franzir desapareceu de sua frente e seus olhos clarearam.

                            - Não, minha mente ainda é tão extraordinariamente superior como o foi sempre no passado. Bom, dá igual. Há mais de uma maneira de esfolar a um gato.

                            Deus, que arrogante era aquele homem. Sua presunçosa segurança em si mesmo enchia de assombro ao Jessi. Todos os homens do século IX tinham sido assim?

                            Embora agora que pensava nisso, lhe ocorreu que teria que havê-lo visto vir.

                            Depois de tudo, ela adorava a história, estudava a humanidade, e refletia sobre as antigas civilizações. Sabia como tinha sido a vida fazia mil anos para as mulheres.

                            Os homens eram homens.

                            E as mulheres eram propriedades.

                            Mas por muito que Jessi soubesse tudo isso, o que não se esperava era que ele baixasse aquela cabeça tão sexy e arremetesse contra ela.

                            -Uuuuf!- grunhiu Jessi quando o ombro dele fez contato com seu estômago.

                            Seus pés separaram do chão, seu mundo se inclinou precariamente, e de repente se encontrou em cima do ombro dele com a cabeça pendurando para baixo.

                            Rodeou-lhe a cintura com um daqueles braços repletos de músculos e a deixou apanhada contra seu ombro. A outra mão ficou firmemente plantada sobre seu traseiro.

                            Jessi abriu os lábios e se dispunha a soltar um chiado do que até uma banshee se sentiria orgulhosa, quando a mão dele se moveu.

                            Possessivamente. De um modo muito íntimo. Para descender entre suas pernas.

                            O homem apertou uns dedos duros como a rocha contra a abertura da vulva do Jessi através dos jeans, e seu polegar encontrou expertamente o clitóris ao mesmo tempo.

                            Jessi sentiu que um fogo abrasador ardia por todo seu corpo. Sua boca, aberta no que se pretendia fosse um alarido de raiva, limitou-se a exalar perplexamente.

                            Aquela mão tão grande e cálida permaneceu ali uns instantes durante o que aplicou uma delicada, mas implacável pressão. Senti-la bastou para que todas as terminações nervosas da Jessi cobrassem vida de repente e seu útero se estremecesse com um súbito desejo.

                            Ele não disse nada. Ela tampouco, principalmente porque, nesse momento, o único que lhe ocorreu que podia dizer foi: "Perdão, mas sua mão parece haver-se extraviado entre minhas pernas e se a mover embora só sejam uns milímetros de nada, estou segura de que poderia chegar ao orgasmo."

                            A mão se foi.

                            Logo retornou, mais abaixo, para apertá-la contra ele por detrás dos joelhos.

                            A razão retornou também, acompanhada por fúria. O triste era que o que acabava de lhe fazer aquele homem a tinha deixado tão excitada que Jessi não tinha claro se estava furiosa com ele por havê-lo feito em primeiro lugar, ou por ter deixado de fazê-lo.

                            E isso a pôs ainda mais furiosa.

                            - Baixa me- conseguiu vaiar. Soou um pouco mais ofegante que sibilante, mas era o melhor que podia fazer com a cabeça pendurando para o chão e os peitos apertados contra a cara.

                            - Refreia sua loquacidade, mulher.

                            -Que refreie meu o que?

                            - Significa "cala", Jessica. Guarda silêncio. Mataria-te estar calada?

                            - Provavelmente- replicou ela. - Baixa me. Posso andar.

                            - Não. Porque não quero que seja proprietária de seu destino em nenhum modo, por muito insignificante que seja. É muito imprevisível.

                            - Eu sou imprevisível?

                            - Sim.

                            Jessi ficou sem fala um momento. Logo lhe beliscou o traseiro com força.

                            - Ai!- chiou ele, e lhe bateu no traseiro.

                            - Ai!- chiou ela.

                            - Te leve bem - grunhiu ele. - Olho por olho e dente por dente, moça. Lembre-se disso. - O braço que lhe rodeava a cintura afrouxou sua presa uns instantes e Jessi passou a ficar colocada em uma nova posição em cima de seu ombro para logo ser apertada de novo contra ele, o que lhe fez compreender que provavelmente não conseguiria baixar dali nem que sua vida dependesse disso. Aquele braço cheio de músculos parecia ser feito de aço reforçado.

                            Ele a tinha trocado de posição tão abruptamente que a mochila do Jessi, que seguia pendurada entre seus ombros, saiu-se do lugar. Carregada como estava com sua bolsa, seu portátil, um livro de texto sobre as civilizações antigas que tinha dez centímetros de grossura e todo um sortido de cadernos de notas, lápis e canetas, a mochila sucumbiu à força da gravidade, escorregou e lhe deu na nuca com um forte impacto.

                            - Ai! Voltou a chiar Jessi. - Merda! Baixa me agora mesmo, animal!

                            - Incrível. - ouviu que resmungava ele.

                            - Ah, vá. Assim que o encontra incrível, verdade? -grunhiu Jessi. - A que acabou em cima do ombro de um personagem sou eu. Você é o personagem. Sou eu a que tem direito a dizer "incrível", não você.

                            - Incrível - voltou a resmungar ele. Girou-se tão depressa que Jessi esteve a ponto de pulverizar as cinco taças extra de café que se tomou na cafeteria sobre aquele magnífico traseiro que acabava de beliscar e, sim, ao igual que seu braço, as nádegas daquele homem também pareciam ser feitas de aço.

                            Levantou do chão o enorme espelho, o colocou debaixo do braço que tinha liberado ao trocar a de posição, e se voltou para a porta. Mulher em um lado, artefato no outro. Sem que isso parecesse lhe exigir o menor esforço.

                            E Jessi sabia o que pesava aquele espelho. Os da empresa de transportes logo que tinham podido com seu peso.

                            - Por onde?- inquiriu ele, depois de sair ao corredor.

                            Jessi levantou a cabeça, em um intento de poder ver algo com dezessete quilogramas de mochila - uma vez a pesou porque queria tomar em consideração o exercício que supunha levá-la em cima na hora de calcular sua calórica diária, com o que ganhou duas rações de flocos de aveia especiais Krispy Kremes em dias alternos - apoiados em seu crânio.

                            -Por que deveria dizer isso replicou altaneramente.

                            Mordeu-lhe o quadril.

                            - Esquerda - chiou ela.

                            Ele se voltou para a esquerda e iniciou um rápido trote.

                            Jessi notou que começava a lhe doer o pescoço pelo esforço de ter a cabeça levantada e voltou a baixá-la. Os peitos ficavam justo na cara e, enquanto ricocheteava sobre aquelas costas tão com cada passo que dava ele, a mochila se estrelava uma e outra vez contra sua nuca. Ao menos seus peitos lhe faziam de proteção na cara contra os repetidos golpes, e assim não teria que notar como seu nariz levava o ritmo em um rápido matraqueio contra a coluna vertebral dele. Jessi agradeceu ao céu aquele pequeno favor. Ou aqueles dois grandes favores, como era o caso.

                            - Aonde me leva?- balbuciou contra seu suéter.

                            - A qualquer que seja o meio de transporte de que disponha. Logo nos levará até uns alojamentos apropriados.

                            - Farei-o?

                            - Se quer viver.

                            Ela voltou a balbuciar algo ininteligível.

                            - O que há dito?

                            - Acaba de dizer algo a respeito de seus peitos?- disse ele cautelosamente. Uma pausa e logo, em um tom cheio de reverência: OH, Deus, mas se lhe estão esmagando a cara!- deteve-se tão abruptamente que a mochila se estrelou contra a nuca do Jessi em um movimento dobro, a primeira vez com um golpezinho e a segunda com um impacto, bastante mais violento, que a deixou um pouco aturdida.

                            Quando sentiu que o peito dele começava a tremer, Jessi demorou uns segundos em poder identificar o movimento. Estava rindo. O muito bastardo estava rindo.

                            -Odeio-te - disse a seus peitos. Sabia que nem o direito nem o esquerdo se dariam por ofendidos, já que eles também odiavam a aquele homem.

                            Ele não parava de rir, e suas gargalhadas fizeram que as últimas reservas de energia que ficavam ao Jessi se dissipassem em uma nuvem de fumaça. Estava esgotada, não entendia nada, e realmente quão único queria era pôr os pés no chão.

                            - Poderia fazer o favor de me baixar?- disse com voz queixosa.

                            Suspeitou que ele deve ter sentido a diminuição da tensão nos músculos dela, leu sua linguagem corporal e saber, mentalmente, que por fim tinha resumido.

                            A risada cessou. Ele se inclinou e lhe pôs os pés no chão com muito cuidado. Seu olhar cor de uísque escocês brilhava com uma diversão e um desejo sexual que nem sequer se incomodou em tratar de ocultar.

                            - Melhor?- lhe rodeando o queixo com uma mão, roçou-lhe o lábio inferior com o polegar.

                            Jessi se apressou a apartar a cara.

                            - Melhor. Venha. Saiamos daqui antes que alguém nos veja com o espelho do professor...

                            -Que droga está fazendo, Jess? Ladrou secamente Mad Troudeau detrás dela.

                            Jessi se voltou para olhá-lo com incredulidade. Como podia ser que lhe tivesse bastado pensando-o para que se fizesse realidade?

                            O escritório do Mark estava separado por umas quantas dezenas de metros de que tinha ocupado o professor Keene. Quando Jessi passou ante ele fazia um momento, não havia nenhuma luz acesa. O que podia estar fazendo ele ali à uma hora tão tardia? É que não tinha vida da que ocupar-se?

                            Estupendo, simplesmente estupendo. Justo o que necessitava: Mark solto por aí para lhe contar a tudo o que queria escutá-lo que Jessi não só tinha arrancado a fita da polícia do campus e entrado no escritório do professor, mas sim logo tinha saído dele com um misterioso artefato que não tinha preço. Se os policiais começavam a investigar, em seguida descobririam que o que levou do escritório era o que os dois repartidores (assassinados) haviam trazido para o professor (assassinado).

                            E ela se teria dado OH tão incriminatoriamente à fuga, desaparecida sem deixar rastro, visto por última vez em companhia de um desconhecido muito alto que levava um kilt, enquanto roubava a peça arqueológica fabulosamente cara saída do mercado negro pela que já tinham morrido três pessoas.

                            Sem ter ocasião de contar sua versão da história e assinalar que alguém tinha tentado matá-la a ela, também.

                            Como se alguém fora a acreditá-la embora o fizesse.

                            Merda, merda, merda. Quando todo aquilo tivesse terminado Jessi esperada tirar o doutorado na universidade onde tinha começado a estudar a carreira, não através de cursos de correspondência do cárcere. Esse tipo de coisas sempre ficava fatal em um currículo.

                            - OH, pelo amor de Deus, Mark, são as duas da madrugada! O que faz aqui?

                            - Acredito que acabo de te perguntar precisamente isso. Seus olhos castanhos sem moldura foram da Jessi ao colosso meio nu carregado com o espelho, e voltaram a cravar-se em Jessi.

                            O que podia dizer ela? Sondou as profundidades de sua mente e tirou uma rede vazia. Por muito que se espremesse o cérebro, não lhe ocorria uma só desculpa para suas circunstâncias atuais; convincente ou de outro tipo. Jessi tivesse agradecido inclusive uma que soasse claramente absurda, mas ao parecer seu cérebro tinha dado por terminada a jornada trabalhista.

                            Enquanto ela o olhava como uma idiota sem poder mover do lugar, Cian MacKeltar se fez cargo do problema.

                            - Retornará a essa habitação da que saíste, e permanecerá dentro dela, em silêncio, até muito depois de que nos tenhamos ido. Agora.

                            Mark se deu a volta e pôs-se a andar obedientemente pelo corredor em direção a seu escritório sem nem sequer um zurro de protesto.

                            "Caraca." Jessi piscou e levantou o olhar para Cian MacKeltar.

                            - Hummm, murmurou ele brandamente enquanto seguia com o olhar ao licenciado que batia em retirada. -Pode que só ela seja.

                            - Ela? Refere-te para mim? O que é isso que pode que só eu seja? -perguntou Jessi espectador.

                            - Que homenzinho mais insignificante - mofou ele, enquanto Mark fechava a porta obedientemente.

                            Seria por isso? Era essa a razão pela que Mark tinha fugido com o rabo entre as pernas, porque ele era um homenzinho insignificante e Cian MacKeltar era tão enorme e imponente?

                            Jessi inclinou a cabeça para trás e o contemplou. Com seus quase dois metros de altura, e seus mais de noventa quilogramas de puro músculo, ninguém podia evitar parecer um miúdo ante ele. Com aquelas tranças escuras que lhe chegavam até o meio das costas e essas ameaçadoras tatuagens negras e escarlates que serpenteavam através de seu peito para deter-se onde começava a mandíbula de granito sombreada por um princípio de barba, parecia completamente primitivo: um mortífero guerreiro da antigüidade que espreitava pelos corredores da universidade. Jessi supôs que seu aspecto teria bastado para deixar claro ao Mark que não poderia sair vencedor de uma discussão com aquele homem, assim decidiu que não tinha sentido iniciá-la.

                            Causar semelhante impacto sobre o mundo tinha que ser delicioso! Jessi decidiu que se realmente existia a reencarnação, queria retornar sendo Cian MacKeltar. Embora só fosse por uma vez, adoraria ser o homem que era um convencido em lugar de ter que estar submetida aos ditados dos homens que eram uns idiotas. E se ia ser o homem que era um convencido, preferia fazer as coisas bem e ser o exemplar mais terrível da espécie.

                            - Isso foi assombroso disse com voz entusiasmada-. Não tem nem idéia de quão insuportável é esse tipo. Já não me lembro das vezes que desejei poder lhe obrigar a fugir como acaba de fazer. Como se não tivesse outra alternativa que me obedecer, ou algo pelo estilo.

                            -Vamos, Jessica. -Cian MacKeltar fechou uma mão ao redor de seu braço-. Temos que desaparecer.

                            Desapareceram.

                            .

                            8

                            Uma hora depois se detinham sob a marquise do Sheraton no centro de Chicago.

                            Jessi quis ir para casa recolher umas quantas coisas, mas Cian MacKeltar vetou imediatamente e com muita veemência.

                            "O próximo assassino já poderia estar te esperando ali, mulher", disse-lhe, e Jessi estremeceu. Aterrava-a pensar que nesse mesmo instante alguém podia estar à espreita dentro de seu apartamento com as luzes apagadas, à espera que ela entrasse ali para matá-la. Era estranho pensar que não podia voltar para casa. Possivelmente por muito, muito tempo.

                            Possivelmente nunca.

                            Mas enquanto conduzia compreendeu que agora a coisa já não tinha remédio. Tinha ido muito longe para voltar atrás. Oficialmente, já era uma fugitiva. Sua situação não teria sido tão apurada se Mark não os tivesse surpreso quando se foram com o artefato.

                            Mas o tinha feito. Esse leite já tinha sido derramado, e não tinha sentido chorar por ele.

                            Olhou a Cian, que podia ver por cima do enorme espelho posto de lado entre os assentos do carro. Uma boa quarta parte dele sobressaía da porta traseira aberta e tinha sido cuidadosamente envolta, para que não sofresse nenhum dano, com um amplo sortido de objetos da Jessi as jaquetas, os suéteres e as camisetas que tendiam a acumular-se dentro de seu carro conforme mudavam as estações-, embutidas a modo de amparo entre o metal e o cristal.

                            Com a cabeça pega ao teto, Cian parecia sentir-se tremendamente incômodo. Colocá-lo no diminuto carro tinha sido tão difícil como introduzir o espelho.

                            Não tinham parado de discutir nem um instante por cima disso durante todo o trajeto até o centro. Aquele homem sabia dar um nível completamente novo ao conceito do que significa se fazer de co-piloto.

                            "Procura não executar os movimentos de afastamento tão abruptamente! Pelo amor de Deus, mulher, É que tem que sair disparada para frente depois de cada afastamento? Está segura de que prendeu bem o espelho? Deveríamos parar e comprová-lo. Pelo Danu, moça, tenta guiar à besta com um pouco de doçura em vez de lhe fincar os talões dessa maneira! -Um silêncio, uma fileira juramentos murmurados em voz baixa, e logo-: Cavalos! O que foi feito dos cavalos? É que pereceram todos em alguma batalha?"

                            Quando Jessi pôs seu compacto favorito do Godsmack em um esforço por não ter que ouvi-lo, ele soltou um rugido que fez vibrar as janelas do carro. "Por todo o sagrado, mulher, O que é esse ruído tão horrendo? Para e desiste! Nem um campo de batalha em plena carga poderia ser tão horrível!"

                            Uh. Encantava-lhe Godsmack. Estava claro que aquele homem não tinha o menor gosto musical.

                            Jessi enrugou a frente e pôs o Réquiem do Mozart que reservava para seus dias mais negros, normalmente os fins de semana e uns instantes depois ele já estava assobiando alegremente ao compasso a música. Alegremente. Quem entendia a esse homem.

                            -Terá que esperar aqui - lhe informou ela. - Irei a recepção e virei te buscar assim que me tenham dado a habitação. -Parece-me que não - grunhiu ele.

                            -Te vê muito distinto ao resto de nós.

                            -Certo -admitiu ele- Sou maior. Mais forte. Melhor.

                            O olhar que lhe lançou Jessi dizia que tinha algo muito desagradável na ponta da língua e não conseguia tirar-se o dela. -Não me referia a isso. Nunca poderemos passar despercebidos contigo andando por aí vestido assim. -Deixe isso comigo, mulher.

                            Antes que ela pudesse articular outra palavra, ele lutou uns instantes com a manivela, abriu a porta e saiu do carro. Ou mas bem se jogou para fora dele para logo desdobrar-se sobre o pavimento e fechar a porta.

                            Por ser um homem do século IX, não cabia dúvida de que o via muito familiarizado com as coisas modernas pensou Jessi, embora parecesse que por havê-las observado e não porque tivesse interagido com elas. Quando subiu ao carro o examinou tudo, pulsando os botões e fazendo girar os comandos no painel. Inclusive ficou olhando o volante com expressão pensativa. Afortunadamente, pareceu pensar melhor. Por desgraça, Jessi não acreditava que essa circunspeção fosse durar muito. Aquele homem gostava de ser o que mandava.

                            -Não me olharão - ouviu que dizia aos porteiros do hotel-. Só verão ela. -Um silêncio. Logo: E não lhe olharão os peitos.

                            Jessi piscou e pôs-se a rir. Que neandertal parecia! Como se os peitos dela fossem de sua propriedade ou algo pelo estilo! E pensava que os porteiros do hotel o obedeceriam mansamente como tinha feito Mark?

                            Nesse caso, Jessi tinha uma notícia para ele: não era tão impressionante.

                            -Não é tão impressionante - disse enquanto descia do carro e lhe lançava um olhar gélido através do teto.

                            Cinco porteiros do hotel estavam em pé ao redor do carro. Todos a olhavam, e unicamente a ela, e só sua cara. -Podemos recolher sua bagagem, senhora? -disse um deles, ao tempo que a olhava diretamente aos olhos.

                            Os homens rara vez faziam isso. Ao menos não de entrada.

                            Jessi alisou o suéter rosa e inspirou, muito devagar e o mais profundamente que pôde. Isso sempre funcionava.

                            Cinco olhadas permaneceram fixas em seu rosto.

                            Jessi olhou para baixo. Seus peitos seguiam ali, redondos, erguidos e tão óbvios como sempre.

                            -Não tenho bagagem - disse sem entender nada, e tirou a chave do carro de seu chaveiro.

                            Cian foi à porta traseira e começou a tirar o espelho.

                            -Não podemos entrar com isso! -Muito tarde, Jessi compreendeu que teria sido mais sensato ir a algum motel de má sorte perdido nos subúrbios. Mas o Sheraton era o único hotel no qual se alojou (durante um seminário de arqueologia o verão passado), e quando saíram do campus, foi diretamente para ele, conduzindo em uma espécie de piloto automático perplexa, muito ocupada em defender sua capacidade de condução para que fosse possível pensar com claridade. Colocar aquele homem em uma habitação de hotel sem causar uma comoção que demoraria muito tempo em ser esquecida já ia ser bastante difícil. Tinham que evitar chamar a atenção. Levar o espelho era simplesmente impossível. Embora pensando bem, disse Jessi com cenho, tampouco podiam deixá-lo no carro.

                            -Deixe comigo, mulher - repetiu ele.

                            Foi então quando Jessi caiu na conta de que só era questão de tempo que a polícia viesse a prendê-la, e sentiu que se fazia um vazio no estômago.

                            Como em um escuro portento, uma sirene da polícia começou a soar umas quantas ruas abaixo.

                            Jessi estremeceu.

                            OH, sim. Só era questão de tempo.

                            Não tinha perdido o dom. Por todos os diabos, não o tinha perdido!

                            Isso queria dizer que não lhe acontecia nada. Só que acontecia algo era a ela.

                            Com o espelho debaixo de um braço e o outro ao redor de sua mulher, Cian a levou ao interior daqueles alojamentos aparatosamente iluminados onde lhe tinha tirado brilho a tudo até fazê-la reluzir.

                            Deus, que maravilha poder voltar a andar livremente e com uma mulher tão formosa em seu braço. Estar vivo era o céu. Inclusive quando lhe perseguiam.

                            Inclusive quando tinhas sabor do que teria que fazer frente. Isso era muito mais do que Cian esperava com a partida tão avançada.

                            A cidade da Jessi St. James se parecia muito ao que tinha visto de Londres, com insignificantes diferenças. Ambas eram enormes, ambas estavam tremendamente povoadas e vibravam com um frenesi de carros e pessoas que corriam de um lado a outro, mas a cidade dela tinha edifícios mais altos que nenhum dos que ele tinha podido entrever do estúdio de Lucan.

                            Cian continuou lançando ordens com a Voz enquanto entravam nos alojamentos que ela tinha escolhido. "Não nos olhem. Fora de meu caminho. Não reparem no espelho. "Não estamos aqui."

                            Os feitiços da memória eram extremamente complicados, e se faziam mal podiam chegar causar danos terríveis que logo não havia maneira de reverter. Desviar os olhares da gente sempre custava menos que lhes fazer esquecer.

                            Contudo, as ordens não específicas como "não estamos aqui" nunca chegavam a ser verdadeiramente efetivas. Serviam para ocultar um pouco as coisas, para fazer que os acontecimentos se voltassem imprecisos. Para que a Voz fosse realmente irresistível, as ordens tinham que ser as mais concisas e precisas possível. As ordens muito vagas ou complicadas podiam causar problemas. Uma ordem que fora contra as convicções mais fundamentais de uma pessoa podia causar uma intensa dor.

                            -Por que não fica aqui enquanto vou ver uma habitação? -Inclinou a cabeça para trás e o olhou. E não faz falta que me agarre o braço. -acrescentou irritadamente-. Não tenho outro lugar aonde ir.

                            Ele sorriu. Isso lhe tinha gostado.

                            -Onde?

                            -Onde o que?

                            -Onde tem que ir um para pedir uma habitação?

                            -OH. Aí. -Assinalou com o dedo. - Espera aqui.

                            -Cessará em seus intentos de me dar ordens, moça. -Cian voltou a provar a Voz sobre ela, pensando que possivelmente algo em seu entorno anterior entrava em conflito com seu intento de usar a magia. -e você cessará em seus intentos de me ordenar que deixe de te dar ordens - disse ela exasperadamente-. Só tento ajudar.

                            -Para o pouco que valerei o dia em que necessite ajuda na hora de satisfazer as necessidades de uma mulher, bem poderia estar morto.

                            Ela o mediu com o olhar.

                            -Já eu gostaria que mais homens compartilhassem esse sentimento. Claro que ainda teria que te acostumar a deixar de falar em plano eu Tarzán, você Jane.

                            Cian não tinha nem idéia da que podia referir-se ela, mas dava igual. Agora o que importava era conseguir uma habitação.

                            Escoltou-a até o lugar que tinha escrito, RECEPÇÃO, e apoiou o espelho com muito cuidado na curta parede de madeira.

                            Um quarentão de aspecto elegante, cabelo castanho avermelhado e um bigode que devia pinicar bastante foi para eles, com cara de que tivesse preferido estar em qualquer outro lugar a essas horas.

                            -Dará-nos uma habitação. Agora. E deixa de me olhar.

                            -Terá que desculpá-lo se apressou a dizer Jessica ao seu lado. -Às vezes pode ser um pouco ... OH, pelo amor de Deus! -Deixou a frase e levantou a vista para Cian para contemplá-lo com cenho quando o recepcionista, obedientemente e sem nenhuma classe de protesto, apartou os olhos dele e começou a processar os impressos para que lhes dessem uma habitação. - A gente não pára de te obedecer como se fosse alguma classe de ... , de... , bom, de deus... Ou algo pelo estilo.

                            -Te figure! -"Em meus tempos, moça, era-o."

                            -Não posso.

                            -Já me tinha dado conta de que não pode - cortou ele.

                            -Bom, por que o fazem?

                            -Acaso, mulher, porque reconhecem a um Homem entre os homens. -Não pôde resistir à tentação de provocá-la um pouco. - Refiro a um Homem com "H" maiúsculo.

                            Jessica pôs os olhos em branco, como ele tinha sabido o que faria. Reprimiu um sorriso. Explicar-lhe sobre a Voz não teria servido de nada. Não o teria entendido, e, além disso, era exasperantemente imune a ela. Impassivelmente imune. A diversão se desvaneceu. Cian entreabriu os olhos e a estudou pela centésima vez, em um novo intento de discernir algo -o que fosse- distinto nela que pudesse explicar aquela peculiaridade.

                            Não pôde discernir nada. De todas as moças que a Fortuna podia ter renomado para lhe servir como salvadora a contra gosto, a muito esperta tinha decidido lhe enviar à única mulher a que não podia controlar.

                            -Necessitarei um cartão de crédito - dizia o homem do mostrador.

                            Cian abriu a boca para voltar a usar a Voz, mas Jessica já entregava algo ao homem. Não tinha nem idéia do que podia ser aquilo. Encolheu de ombros. Bom, deixaria que ela se sentisse útil. Sabia que às mulheres também gostava de sentirem-se importantes. O único que lhe desgostava um pouco era que ele preferia fazer que se sentissem importantes de outra maneira.

                            Como mulheres, por exemplo. Em sua cama. Enquanto ele estava dentro delas.

                            E esta mulher, OH, esta lhe provocava algo estranho. Uma versão mais sutil dessa sacudida eletrizante que sentiu a primeira vez que ela o tocou se repetia cada vez que ele a tocava. Fazia que fosse quase impossível manter as mãos afastadas dela. Todo o tempo que a levou em cima do ombro não tinha parado de sentir como uma corrente muito tênue vaiava através de seu corpo. Cada vez que seus corpos se tocavam em algum ponto, Cian em seguida sentia como se os raios de uma tormenta de verão começassem a chispar sob sua pele.

                            E sabia, por muito que Jessica fingisse o contrário, que ela também sentia o mesmo. Quando pôs a mão tão ostensivamente sobre seu montículo de mulher, estava preparado para a indignação, o escândalo e uma feroz reprimenda verbal. Ele nunca tinha tratado a uma mulher de um modo tão possessivo - ao menos não até depois de ser amantes-, passando por cima de qualquer pretensão de cortesia ou sedução. E, entretanto, de algum modo tinha sabido que Jessica não arremeteria contra ele.

                            Era como se sua mão simplesmente tivesse sido feita para estar nessa parte de seu corpo. E ela sabia, também.

                            "Não te deixe levar pela fantasia, Keltar. Segue assim e logo começará a pensar que Jessica St. James é a companheira de sua vida."

                            Segundo a lenda dos Keltar, cada druida que nascia no clã estava destinado a encontrar uma companheira da alma, um casal perfeito em coração e mente, assim como em corpo, a que ficaria unido por uma paixão explosiva e incendiária que nada podia conter. Se o Keltar intercambiava os sagrados votos de união druídica com seu verdadeiro amor, e seu par os devolvia voluntariamente, então suas almas ficariam unidas para toda a eternidade, nesta vida e além dela, para sempre. Os votos os vinculavam para sempre um ao outro. Dizia-se que se um Keltar dizia os votos e estes não lhe eram devolvidos, esse Keltar sempre estaria incompleto porque lhe faltaria uma parte de seu coração e sentiria falta do amor de uma mulher a que nunca poderia ter, eternamente preso a ela, através de sua vida e de toda sua existência futura, tanto no ciclo do renascimento como no paraíso, o inferno ou, inclusive, em uma eterna prisão invisível. "Se algo deve perder-se... -diziam os legendários votos-, será minha vida pela tua... "

                            Cian soprou depreciativamente. Ele não tinha nenhuma vida que dar.

                            Só um pequeno vestígio de alma.

                            Tampouco muita honra, se a gente queria aprofundar no juramento. Coisa que ele não queria fazer.

                            -O que acontece? -perguntou ela, surpreendida ao ouvi-lo suspirar.

                            Cian baixou a vista para ela. Jessica o olhava de soslaio, com a cabeça inclinada para trás para poder olhar seu rosto. Os cachos de sua curta juba negra reluziam sob as luzes do hotel, sua delicada pele brilhava como um beijo dourado de sol-à moça gostava de estar ao ar livre-, e a expressão em seus olhos conseguia ser curiosa, irritada, preocupada e resolvida, tudo ao mesmo tempo.

                            Só olhando-o assim, sua Jessica já o fazia sentir que lhe faltava à respiração. E ele não era o tipo de homem que isso ocorresse facilmente. Era algo mais que sua aparência que provocava isso, e Cian sabia que provinha da mulher que havia dentro desse magnífico pacote.

                            Jessica St. James era toda uma mulher; precisamente o tipo de mulher que ele levava tanto tempo desejando encontrar. Erudita e educada, tinha coragem, temperamento e independência de vontade. Cian tinha chegado a sentir-se tão enfastiado de tudo que o rodeava no século IX que se alegrou ante uma boa manha feminina, embora fosse completamente infundada - lhe teria encantado qualquer amostra de têmpera-, mas como laird do castelo desde seu nascimento, e herdeiro dos rituais do druidismo, quão único recebeu por parte das moças desde que era pequeno foi obediência, deferência e um respeitoso sobressalto. "Sim, milord. Como você diga, milord. No que posso lhe servir, milord? É o vinho de seu agrado, milord? Posso trazer lhe o que seja... , milord?" E a coisa não fez a não ser piorar conforme crescia e se convertia em um homem, um guerreiro e um feiticeiro formidavelmente poderoso.

                            Sentia-se cada vez mais atraído pelas mulheres mais amadurecidas, como aquela. Suspeitava que Jessica St. James já tinha que ter vivido seu bom quarto de século. Na época de Cian, a essa idade provavelmente já teria tido três ou quatro bebês e teria perdido a uns quantos maridos. Cian preferia às mulheres que tinham vivido o seu, porque o passar do tempo as fazia maturar e as voltava mais interessantes. Gostava de fazer o amor - que diabos, isso sempre lhe tinha encantado!-, mas também gostava de poder falar quando havia um hiato temporário no sexo.

                            Aquela mulher era certamente interessante. Parecia ser imune a seu poder para dar ordens a outros. Atrativa e decidida, elevava o olhar para ele para contemplá-lo com um brilho irresistível em seu carnudo lábio inferior.

                            Cian baixou a cabeça e a saboreou.

                            Era suave como a seda, e absolutamente deliciosa. Mordiscou-lhe delicadamente o lábio inferior e logo saboreou a quase imperceptível fricção que sentiu ao lhe roçar a boca com a sua. Não tentou aprofundar o beijo; já haveria tempo para beijos muito mais abrasadores e intensos depois. De momento se daria por satisfeito com o puro prazer hedonista de saboreá-la languidamente. Com movimentos lentos e suaves, atraindo-a para ele. Quando sentiu que o corpo dela se inclinava para diante para começar a derreter-se, apartou-se com um lento e erótico puxão sobre seu lábio inferior.

                            Jessica elevou o olhar para ele com uma expressão entre surpreendida e escrutinadora, os lábios entreabertos e o inferior ligeiramente estendido para fora.

                            Cian notou um leve formigamento na boca depois daquele breve contato. Perguntou-se se ela o sentiria também. Perguntou-se o que estaria pensando, sentindo.

                            Desdobrou seus sentidos e a sondou, com a suspeita de que ao fazê-la não serviria de nada. Se a Voz não sortia efeito algum sobre ela, duvidava muito que a escuta profunda fosse servir de algo.

                            A escuta profunda era a arte druídico de ler as mentes e os corações de outros, e era outra de suas grandes habilidades. Não, isso não era de tudo correto. Ele se destacava em todas as artes druídicas. Sempre o tinha feito.

                            Cian era uma anomalia; o único Keltar que ao nascer já possuía o poder de todos seus antepassados, combinado e incrementado; uma anormalidade da natureza; um anátema em uma, pelo resto, muito honorável, antiga e previsível estirpe. Seu pai tinha se destacado nas artes curativas, seu avô era infalível na hora de predizer as estações para o semeio e o recolhimento das colheitas, e seu tio sempre esteve muito dotado tanto para a Voz como para a alquimia; mas Cian nasceu com todos esses talentos centuplicados, além de capacidades jamais vistas antes em nenhum Keltar. Isso era uma parte do por que acabou apanhado dentro do Cristal Escuro.

                            "Muito poder para um só homem. Não siga por esse caminho, Cian - estava acostumada a lhe dizer sua mãe, enquanto o olhava com olhos cheios de preocupação-. Um dia irá muito longe."

                            E assim foi. Cian quis fazer-se com as Consagrações Escuras, embora soubesse que continham a essência inatamente corruptora da magia negra, e que nenhum homem podia possuir uma sem ser trocado por ela. Mesmo assim, não deixou de desejar, igual ao tinha feito Lucan, um poder cada vez maior; mas enquanto que Lucan estava disposto a abraçar o mal, o engano de Cian tinha consistido em que se acreditou arrogantemente incapaz de ser corrompido ou derrotado por homem ou magia alguma.

                            Que equivocado estava.

                            Mas isso tinha sido em outro tempo, uma história já muito longínqua, e uma que mais valia esquecer.

                            Ela existia agora.

                            Cian abriu sua mente, enfocou os sentidos e a sondou delicadamente.

                            Nenhuma só sombra de emoção. Nem o menor sussurro de um pensamento.

                            Assombroso.

                            Centrou seus poderes nela e arremeteu contra Jessica St. James um aríete arrojado contra as portas do castelo de sua mente.

                            Para ficar a prova a si mesmo, disparou-lhe uma flecha de busca ao homem que ia lhes dar a habitação. Viu-o apressar-se a retroceder. O empregado do escritório era muito desgraçado. Sua esposa o tinha abandonado recentemente por um de seus melhores amigos. Cian tragou saliva e tentou tirar-se da língua o repugnante sabor do desespero do homem. O desespero nunca fazia bem a ninguém. Entraram-lhe vontades de agarrá-lo pelos ombros e lhe dizer: "Luta, idiota. Luta por ela. Nunca dê a batalha por perdida. Nunca permita que seu inimigo se eleve com a vitória."

                            -Não te renda, homem - vaiou.

                            O empregado levantou a cabeça e o olhou com cara de susto. -Não pode deixá-la partir assim - grunhiu Cian-. Ela é sua esposa.

                            O empregado entreabriu os olhos e pareceu assustar-se bastante.

                            -Quem é você? Conheço-o? -perguntou à defensiva.

                            -Dizia algo? -disse Jessica junto a ele-. O que acontece?

                            -Nada. Esquece-o - disse Cian. E ao empregado do mostrador lhe disse: -Tranqüilo. -Ele não era alguém para salvar ao mundo. Bom, talvez sim, mas sabia o que teria que fazer para isso, e não era isso.

                            Com um suave bufo de exasperação, Jessica aceitou uma plaquinha de mãos do novamente submisso empregado do mostrador, fez girar seu precioso traseiro e pôs-se a andar por volta de duas enormes portas de ouro brunido que havia na parede. Lançou-lhe um rápido olhar por cima do ombro, e sua expressão não poderia haver dito mais claramente: "Bom, já pode vir, pedaço de bruto autoritário. Não me agrada, mas temos que aturar um ao outro."

                            Cian admirou a vista por um momento, antes de recolher o espelho e ir a seu encontro.

                            Vinte dias com aquela mulher.

                            Acaso, em algum lugar, alguma divindade em que ele nunca tinha acreditado, acreditava nele. Acreditava que redimiria a si mesmo e agora o recompensava adiantado.

                            Jessica St. James se deteve ante as portas de ouro brunido. Bocejou, estirou os braços por cima da cabeça, arqueou as costas e inclinou primeiro o corpo para um lado e logo para o outro, como estirando a coluna.

                            Demônios, aquela mulher era uma mulher em todos os lugares onde teria que sê-lo!

                            Que mais dava o porquê das coisas? Ela era sua pelos vinte próximos dias.

         9

                            Jessi sentou no escritório de madeira de cerejeira na habitação 2112, conectou seu portátil, olhou-se com cenho no espelho de parede pendurado sobre o escritório, e perguntou por que os hotéis sempre penduravam espelhos sobre os escritórios. Quem podia querer contemplar-se enquanto escrevia? Ao parecer muita gente devia querer fazê-lo, porque todos os hotéis nos que tinha estado Jessi tinham virtualmente a mesma disposição: armário à esquerda da porta; quarto de banho à direita da porta (ou vice-versa); a primeira cama de frente para um escritório com o espelho pendurado na parede em cima dele; uma mesinha de noite com radio - despertador e telefone entre as camas; a segunda cama de frente para um armário com um oco para o televisor; e, na parede do fundo, uma mesa e duas cadeiras diante de uma parede envidraçada.

                            Aquela habitação não era diferente, embora estivesse um pouco por cima de algumas nas que tinha estado Jessi, com seu tapete merlot-e-champanha, adornada por um desenho de diamantes dourados, o papel de parede de finos tons marfim lavrados com embelezamentos dourados nas molduras, camas com lençóis de cor marfim recém engomadas e colchas cor champanha, cortinas vermelho escuro nas janelas.

                            Atrás da Jessi, Cian MacKeltar tomava uma ducha além da porta fechada do quarto de banho.

                            A porta que ela tinha fechado.

                            Como também fechou os olhos quando ele deixou cair seu kilt em frente dela. O que não queria dizer que Jessi fosse uma pacata e se abstivesse de olhá-lo através da separação da ducha quando fechou firmemente a porta uns instantes depois. Porque o tinha olhado.

                            Ao entrar na habitação do hotel, o olhar dele foi imediatamente por volta das duas camas. E Jessi seguiu a mesma direção, com o que houve um desses momentos de intensa tensão entre duas pessoas nos que ou se equilibram uma sobre a outra, ou afastam tudo o que podem uma da outra.

                            Jessi executou um cauteloso deslocamento lateral que quase a levou de volta ao corredor. Tinha-lhe sorrido levemente, burlonamente, e logo passou junto a ela para submeter toda a habitação a um minucioso exame antes de deixar o espelho apoiado contra a parede do fundo, de frente para a porta de entrada. A Jessi não passou por cima que assim também ficava de frente para as camas, mas se negou a pensar muito nisso.

                            Por um instante pensou que ele ia beijá-la outra vez, mas, enquanto vinha novamente para ela, seu olhar foi mais à frente para posar-se no quarto de banho.

                            -Deus - exclamou-, por fim sei o que é uma privada moderna!

                            Não podia ver além da porta de que havia no estúdio de Lucan, embora haja visto imagens... -Se calou e contemplou o quarto de banho com expressão pensativa.

                            -Era aí onde tinha... , uh, onde tinha o espelho pendurado? Em seu estúdio? -Que estranha teria sido sua existência dentro de um espelho! Jessi se sentia incapaz de imaginá-la.

                            -Sim. Embora haja visto a maioria das invenções modernas em livros e demais reproduções dentro de seu estúdio, não tive ocasião de examinar os objetos reais.

                            Jessi se dispunha a lhe fazer uma rápida demonstração - o que fosse com tal de afastar-se daquelas camas-, mas ele em seguida pôs mãos à obra, igual a tinha feito no carro, e tomou o mando para começar a girar os controles e apertar as embalagens de xampu e condicionador até que a habitação ficou convertida em uma sauna a vapor, aromatizada com os perfumes dos artigos de penteadeira.

                            -Contém esta hotelaria uma cozinha e empregadas que trazem a comida, moça? -perguntou ele, depois de interromper suas explorações momentaneamente.

                            Jessi assentiu.

                            Quando viu que ele tirava os braceletes das bonecas, devia ter imaginado que viria a seguir.

                            Sem maiores preâmbulos, ele deixou cair seu kilt. Logo ficou plantado ali, sem nenhum sentido da vergonha, com uma capa de couro que continha uma faca abundantemente adornada com jóias atada a uma coxa cheia de músculos por única vestimenta. Também tirou isto, para deixar em cima do compartimento da ducha, e logo ficou sob o jorro.

                            Jessi apressou a dar meia volta, com o pulso repentinamente acelerado no pescoço e fechando os olhos.

                            Ainda podia sentir o sabor dele nos lábios. O beijo que lhe deu no vestíbulo do hotel a tinha deixado aturdida.

                            E tinha inflamado o corpo com um intenso calor que a abrasava por dentro. Não tinha metido a língua, ou tinha tentado lhe agarrar um peito assim que pensou que a tinha distraída com o beijo. Não, o que fez foi beijá-la languidamente, sem tocar em nenhum lugar, como se dispusesse de todo o tempo do mundo, lhe passando pela boca aqueles lábios tão firmes e sexys ao tempo que lhe chupava delicadamente o lábio inferior.

                            Jessi se derreteu sob o beijo daquele neandertal egoísta, e sentiu separar os lábios.

                            A lógica, a razão e a capacidade de ser consciente dos acontecimentos atuais se esfumaram de seu cérebro tão abrupta e completamente como se alguém acabasse de usar um aspirador para extrair-lhe através da orelha.

                            Era essa delicadeza o que tanto a tinha afetado, decidiu enquanto subiam no elevador. Tinha-a pego por surpresa, nada mais. Porque não se esperava semelhante suavidade por parte de um homem tão agressivo com um corpo duro como a rocha. Jessi não estava preparada para isso, como tampouco estava para que logo ficasse completamente nu ante ela.

                            E, complicações, que traseiro...

                            Quando voltou a abrir os olhos e deu a volta, olhou através do cristal embaciado. Ali estava ele, quase dois metros de magnífico corpo nu para que enchesse a vista com eles.

                            Robustos músculos davam forma a suas largas pernas e suas grossas coxas, com seu apertado traseiro perfeitamente formado e cheio de ainda mais deliciosos músculos. A Jessi adorava que um homem tivesse um bom traseiro! Muitos tipos virtualmente não tinham traseiro. Tanto as pernas como o traseiro estavam polvilhados por sedosos pelos escuros; ele não era um desses fisiculturistas ou modelos à caça de mulheres que barbeiam o corpo: Cian MacKeltar era um homem, homem, e estava orgulhoso disso. Jessi viu que havia mais pelos escuros em seus antebraços e sob seus braços.

                            Ensaboou-se e começou a esfregar-se sob o vapor do jorro de água. Suas poderosas mãos moveram sobre seu corpo, e Jessi seguiu com o olhar o ondular daqueles músculos tão magníficos sob o veludo dourado de sua pele molhada.

                            Jessi estava tão absorta em observar enquanto se lavava que quando ele pegou um pouco do condicionador na mão e a fechou ao redor de sua virilidade, não apartou seu cada vez mais perplexo olhar da ducha. Não foi até que a mão dele começou a subir e descer por seu membro em um rítmico vaivém quando Jessi caiu na conta do que era exatamente o que lhe estava vendo fazer.

                            Com os olhos muito abertos, apressou-se a subir o olhar para seu rosto. O olhar dele tinha estado fixo no rosto do Jessi, os olhos entreabertos e um fogo abrasador nas pupilas. Então viu que lhe dirigia um sorriso cheio de malícia que era tanto um convite como uma provocação, e colocava a ponta da língua entre os dentes.

                            Jessi retrocedeu a toda pressa e fechou a porta de uma vez. Aquele homem era muito bem provido.

                            Uma parte dela tinha que estar completamente louca e a que lhe davam igual às conseqüências, só queria entrar no quarto de banho, despir-se, meter-se na ducha com ele e apartar sua mão para substituí-la pela sua.

                            "Tenta não perder o controle, Jessi - brigou com si mesma-. e quando falo de controlar refiro a sua vida, não ao que lhe acaba de ver o homem do espelho."

                            Depois de deixá-lo encerrado no quarto de banho e respirar profundamente umas quantas vezes para tranqüilizar-se, Jessi foi ao telefone, marcou a chave do serviço de habitações e fez um pedido, que também pagou em seu cartão de crédito.

                            -Por que não? -murmurou a seu reflexo por cima da tampa do portátil-. Já postos, também poderia me aproveitar da impunidade. -Tal e como foram as coisas, de todas as maneiras provavelmente não viveria o suficiente para ter que pagá-lo. Jessi se olhou no espelho e fez uma careta. Tinha sido um dia muito comprido, e começava a acusar o esforço. Sua maquiagem ao parecer tinha atirado a toalha, seus cabelos já tinham começado a fazer das suas, e tinha a roupa cheia de rugas.

                            Agarrou um lenço de papel de uma caixa que havia em cima do escritório, fez desaparecer os vestígios de rimel que lhe manchavam as pestanas e passou a mão por seus curtos cachos escuros.

                            A gente estava acostumada lhe dizer que parecia uma versão com mais curvas da garota que interpretava a Virginia, a heroína do décimo reino, e Jessi supunha que tinham razão sempre que pensassem na Virginia depois de que o homem lobo lhe tivesse feito um bom desastre no cabelo. Ou depois de que os ciganos a tivessem amaldiçoado por ter liberado a seus pobres pássaros enjaulados. Jessi também os teria libertado. O que não queria dizer que levasse o cabelo feito um desastre. O cortava a cada seis semanas na Academia de Tratamentos de Beleza, e sempre sabiam fazer um bom trabalho para os seis reais que cobravam.

                            Entreabriu os olhos e contemplou seu reflexo. Peitos. Sim, não cabia dúvida de que era seu melhor atributo. Algumas pessoas têm um cabelo e umas unhas magníficas, algumas pessoas têm um sorriso precioso ou uns olhos bonitos, algumas pessoas têm o tipo de traseiro perfeito e repugnantemente ideal que sabe manter-se dentro da parte inferior do biquíni para que possa usá-lo na praia. Jessi tinha bons peitos. Tampouco era que fossem tão grandes, certamente. Francamente, não lhe parecia que fossem. Era só que os deixavam realmente redondos, realmente altos e realmente firmes, e tampouco tinha o pescoço muito comprido (que era a razão pela que levava o cabelo tão curto, e além disso as garotas da Academia de Tratamentos de Beleza diziam que assim seu pescoço parecia mais largo), já vezes até ela pensava que certos tops faziam que seus peitos parecessem um pouco artificiais, mas não o eram. Eram completamente naturais. Possivelmente mostrassem um certo excesso de entusiasmo na hora de manter-se erguidos, mas Jessi pensava que deveria desfrutar disso enquanto pudesse, porque já tinha aprendido a resolver equações complexas como a que combinava a gravidade com o passado do tempo.

                            O reflexo da reluzente esfera vermelha do relógio da mesinha de noite atraiu subitamente sua atenção quando o cilindro das horas rodou com uma piscada.

                            As quatro da madrugada.

                            Jessi se olhou no espelho, atônita, e caiu na conta de que só faltavam três horas e vinte minutos para que começassem as classes correspondentes à jornada. Na terça-feira dava quatro aulas de Antropologia.

                            Ou acostumava às dar. Certamente hoje não ia dar nenhuma.

                            Considerou chamar para dizer que estava doente, mas decidiu que seria melhor não fazê-lo. Quando tudo aquilo tivesse terminado, já pensaria em que classe de história podia contar. Possivelmente conseguisse penetrar a de que a levaram pela força e ficasse completamente exonerada. O que significava que se agora chamava para dizer que estava doente, isso a faria ficar como uma mentirosa. "Já sei que não é muito habitual que um seqüestrador deixe chamar por telefone a sua seqüestrada para dizer que não se encontra bem, mas é que era um seqüestrador muito estranho." Claro. Isso soaria do mais acreditável.

                            Jessi exalou um ruidoso suspiro, voltou a centrar sua atenção no portátil e se conectou com a linha do hotel. Decidiu comprovar seu correio eletrônico enquanto ele tomava banho, parcialmente em um sem dúvida-inútil intento de achar um pouco de consolo na rotina, mas também para não pensar no sexo, o que, com ele rondando por ali, provavelmente era como tentar não pensar no chocolate enquanto estava sentada ante um fondue do tamanho de uma pessoa rodeada de coqueiros.

                            Sua caixa estava cheia do habitual, boletins informativos aos que se havia assinado para manter-se à corrente das novidades mais significativas em seu campo; mensagens de estudantes das classes que tinha a seu cargo, repletos de desculpas impressionantemente imaginativas sobre por que eles deveriam ser a exceção à regra, e terei que lhes perdoar seu: a) absentismo, b) ausência a um exame, c) atraso na hora de entregar um trabalho. As criatividades e sempre entretidas súplicas de clemência vinham seguidas por correio lixo, correio lixo e mais correio lixo e, finalmente, o que mais gostou: as fotos do Homem Nu da Semana enviadas por suas ciberamigas do RBL Romântica.

                            A correspondência não a entreteve muito momento. Jessi remeteu os boletins a uma pasta de espera para examiná-los mais adiante, respondeu com uma negativa a todas as desculpas/súplicas de um alongamento de prazo que não viessem acompanhadas por um falecimento na família, livrou-se do correio lixo, e estudou apreciativamente as fotos do Homem Nu antes de escolher uma delas como fundo para o ordenador de seu escritório.

                            Ia sair do e-mail quando viu aparecer um novo correio eletrônico. Leu a identificação da pessoa que o enviava.

                            Myrddin@Drui.com.

                            Jessi não conhecia nenhum Myrddin@Drui.com e tinha autêntica fobia aos vírus. Se lhe acontecia algo a seu portátil, um novo não figurava no pressuposto. A linha onde punha o assunto da mensagem estava vazia, o que significava, segundo os critérios muito estritos pelos que se guiava Jessi, que o único lugar ao que podia ir parar aquele correio eletrônico era o ícone do cesto de papéis.

                            Quando moveu o ponteiro para ele, Jessi sentiu um frio terrível.

                            Pôs os dedos sobre o mouse e o fez rodar para trás para apartar o ponteiro.

                            Logo voltou a impulsioná-lo para diante. Um frio tão intenso que quase doía lhe lambeu a mão imediatamente.

                            Jessi se estremeceu e soltou o mouse. OH, que coisa mais estranha.

                            Jessi franziu o sobrecenho e ficou a pensar em como tinha visto materializar-se aquela mensagem. Tinha aparecido alguma vez um correio eletrônico em seu e-mail quando ela estava inativa dentro da página?

                            Não que ela pudesse recordar. Às vezes, quando punha ao dia a página ou voltava a entrar na rolha, apareciam mensagens novas, mas nunca tinha visto materializar-se um enquanto ela estava inativa dentro da página.

                            Devagar e com muita cautela, Jessi voltou a levar o ponteiro para a linha explicativa: SEM ASSUNTO. Torceu o gesto ante a sensação imediata de que lhe tinham metido a mão molhada dentro de um congelador e logo fez clique sem pensar duas vezes e se apressou a apartar os dedos da almofadinha do mouse.

                            Apertou-se a bochecha com a palma da mão e notou que lhe tremia. Estava gelada.

                            Olhou a tela com olhos como pratos. O correio eletrônico continha três curtas linhas:

                            "Devolve o espelho imediatamente.

                            "Contata com o Myrddin@Drui.com para receber instruções.

                            "Tem vinte e quatro horas."

                            Isso era tudo. Na tela não havia nada mais salvo por uma linha de símbolos e formas absurdas no extremo inferior.

                            Jessi se tinha posto às estudar quando uma sombra pareceu abater-se repentinamente sobre a habitação de hotel. A esfera do relógio da mesinha de noite brilhou com menos força, a luz no teto do pequeno vestíbulo de entrada zumbiu, e o papel de parede cor marfim adquiriu um doentio tom amarelado.

                            E tão claramente como se um homem estivesse em pé a seu lado, Jessi ouviu que uma profunda e refinada voz masculina dizia:

                            -Morrerá, Jessica St. James.

                            Jessi girou em redondo e percorreu a habitação com o olhar. Ali não havia ninguém.

                            A água seguia correndo na ducha detrás da porta do quarto de banho, e Cian MacKeltar ainda fazia ruído debaixo dela.

                            Jessi ficou absolutamente imóvel, frágil como o cristal, à espera de ver se seu convidado imaterial tinha algo mais que acrescentar.

                            Os segundos transcorreram lentamente.

                            Jessi encurvou os ombros e contemplou seu reflexo com expressão taciturna.

                            Tinha-a chamado Jessica St. James. Ao parecer todo deus sabia seu nome.

                            Lucan apartou a mão da tela.

                            Ela tinha ido. Mas por um instante Lucan a tinha tido ali. Jovem e cheia de vida.

                            Além disso, um enigma. Oculta por espessas sombras que ele não tinha podido penetrar. Quem era aquela mulher que estava com Cian MacKeltar?

                            O habitual era que se conseguia estabelecer uma conexão, logo pudesse usar a escuta profunda, sondar e obter algo mais que a sensação geral que tinha percebido dela, sendo essa a razão pela que tinha tentado estabelecer o contato para começar. Queria comprovar se havia algo que pudesse averiguar a respeito da Jessica St. James e passar-lhe a Eve para que atuasse com a maior diligencia.

                            Os usuários de Internet se preocupavam com os vírus e o roubo de identidades e, pelo contrário, eram completamente inconscientes dos verdadeiros perigos que corriam ao entrar na World Wide Web, onde se conectariam com o primeiro que encontrassem sem pensar que podia estar à espera de que chegassem para usá-los como presa. Preocupavam-se com os assassinos e os estelionatários, pelos pederastas que podiam enrolar a seus filhos. Não tinham nem idéia da facilidade com que um praticante das artes escuras podia chegar a violá-los, examiná-los e coagi-los através de uma linha telefônica.

                            Mesmo assim, Lucan não tinha podido chegar muito longe com aquela mulher. Uma estranha barreira se encarregou de detê-lo assim que começou a exercer pressão sobre a senhorita St. James.

                            Abriu o expediente do Roman, que continha a conscienciosa avaliação de seus objetivos levada a cabo pelo defunto assassino, a qual incluía fotos, direções - tanto as reais como as do ciberespaço-, matrícula de seu veículo, certidão de nascimento, passaporte, linhas de crédito, recursos disponíveis e demais feitos pertinentes, e voltou a estudar a foto da senhorita St. James.

                            Sua carteira de motorista lhe proporcionou suas características pessoais. Vinte e quatro anos. Altura: um metro sessenta e cinco. Peso: sessenta quilogramas. Olhos: verdes. Cabelo: negro. Doador de órgãos: não.

                            Era preciosa.

                            Não lhe coube dúvida de que Cian MacKeltar a desejava. O highlander estaria tão fascinado como ele por sua resistência à sondagem. Lucan e o highlander não eram tão distintos como gostava de acreditar esse bastardo condescendente.

                            Fechou o expediente, teclou uma série de números em seu telefone e lhe transmitiu uma mudança de planos ao sócio da Eve: o espelho ainda era a prioridade, mas, além disso, devia fazer tudo o que estivesse em sua mão para trazer a senhorita St. James viva.

                            Lucan estava impaciente por estudá-la e dar com as chaves que faziam dela um autêntico enigma. Fazia muitíssimo tempo que não se sentia intrigado por uma mulher.

                            Já satisfaria sua curiosidade enquanto o Keltar olhava impotente desde seu cabide no alto da parede do estúdio.

                            -OH, isso sim que não vai dar certo - disse Jessi secamente quando Cian saiu do quarto de banho. Saltou da cama e foi contemplá-lo de um lugar seguro, ao lado da janela. Estar sentada na cama com aquele homem na habitação simplesmente não parecia prudente-. Volta a entrar aí e se vista - ordenou.

                            O mais gracioso de tudo era que Jessi se entreteve fazendo apostas consigo mesma sobre em que estado sairia do quarto de banho seu arcaico highlander: com o kilt e recatado, envolto em uma toalha e semi-recatado, ou completamente nu e em plena modalidade depredadora. Ao final se decidiu por completamente nu. Devia a si mesmo cinco reais.

                            Ele deixou sua capa e a faca adornada com jóias em cima do escritório, embelezado com duas toalhas; uma na cintura e a outra enrolada ao redor da cabeça ao estilo turbante. O efeito era virtualmente o mesmo que se fosse nu. De fato, a Jessi entraram vontades de lhe arrancar as toalhas para não mais vê-las.

                            Como se lhe tivesse lido a mente, ele baixou a cabeça e desenrolou a primeira toalha para secar o excesso de água de sua escura juba. Logo voltou a erguer-se e jogou o cabelo sobre as costas com um suave tinido de contas metálicas. Fios de água desceram por seu peito magnificamente tatuado, e um fino fio escorreu sobre aquele mamilo tatuado. Os músculos se incharam e ondularam em seus bíceps tatuados.

                            Jessi umedeceu os lábios e se perguntou o que seria o que andava mal nela. Nunca tinha reagido tão intensamente à presença de um homem.

                            Bastava-lhe olhando-o para sentir-se estremecer por dentro. E tampouco era como se nunca tivesse saído com um homem bonito. Tinha-o feito. Kenny Dirisio era um autêntico garanhão Italiano de Primeira. Até Ginger, com todo o cerebral e concentrada que era ela, havia dito: "Jessi, garota, segue meu conselho, te salte uns quantos cursos este trimestre e jogue a garra a esse. Exemplares assim não aparecem muito freqüentemente."

                            Mas Jessi não tinha jogado a garra. De fato, o que fez foi oferecer-se voluntária para outro seminário, isso provocou que rompessem, e agora sabia por que tinham quebrado. Embora seu cérebro apreciasse a incrível masculinidade do Kenny, seu corpo nunca tinha chegado a ficar em marcha. Em realidade, nenhum dos tipos com os que chegou a sair tinha obtido que ficasse em marcha.

                            Com Cian MacKeltar, entretanto, pese ao feito de que o cérebro da Jessi não queria ter nada que ver com ele, seu corpo queria fazer com ele tudo o que podia chegar a fazer entre um homem e uma mulher. Seu corpo tinha feito algo mais que ficar em marcha, e já estava ocupadíssimo avivando o fogo para assar o primeiro turno de pequenos MacKeltar.

                            Com um homem que chamava "casa" a um espelho. Isso era muito mau sinal.

                            -Não pediu que trouxessem comida, Jessica?

                            Jessi piscou e tentou voltar a enfocar seus pensamentos.

                            -Sim, mas ainda demorará um momento em chegar. Olhe, estive pensando, que plano tem, em todo caso?

                            -Me deitar contigo.

                            -Não, referia-me à classe de plano que poderia funcionar. -Mostrou-lhe os dentes em um frio sorriso.

                            -Ah, esse plano. Consistiria em cruzar esta habitação agora mesmo e te beijar até que começasse a te arrancar a roupa e me rogasse que lhe F...

                            -Não, tampouco referia a esse - se apressou a dizer ela. Como tinha podido mover-se tão depressa?

                            Fazia um instante ele estava ao outro extremo da habitação, com o espaço de duas camas entre eles, e um segundo depois uma mão muito grande se fechou brandamente sobre o queixo da Jessi para lhe inclinar a cabeça para trás ao tempo que sentia o calor possessivo da outra na cintura. Aquele homem era mortiferamente rápido. O que era muito bom sinal no referente ao amparo, já que agora ele passava a ser a única pessoa da que Jessi não ia estar protegida.

                            Cravou nela um olhar abrasador. Logo baixou a boca, muito devagar e como se não tivesse pressa, sem deixar de olhá-la aos olhos em nenhum momento. Visto. Tão de perto, era realmente magnífico. Seus olhos cor uísque brilhavam como abismos dourados emoldurados por grossas pestanas escuras. Sua pele era como veludo dourado delicadamente escurecido por um princípio de barba. Seus lábios eram sensuais, rosados e firmes, e permaneciam curvados no início de um sorriso.

                            -Me diga que não te beije, Jessica. Diga-me isso agora mesmo. E mais vale que consiga me fazer acreditar que o diz a sério - lhe advertiu docemente, a apenas um centímetro de seus lábios.

                            -Não me beije - murmurou ela, ao tempo que se umedecia os lábios.

                            -Tenta outra vez - disse ele.

                            -Não me beije. -Começou a inclinar-se para o corpo dele, aço atraído por um ímã.

                            -Tenta outra vez - vaiou ele-. E mais vale que tome cuidado, mulher, porque é sua última oportunidade.

                            Jessi inspirou profundamente.

                            -Não... Me... -Outra profunda inspiração-. Beije? Ele riu, um riso cheio de triunfo.

                            Complicações pensou Jessi com desalento enquanto aquela cabeça tão sexy descia para a sua, pequeno desastre acabava de fazer com a pontuação.

         10

                            Embora soubesse que ia chegar, Jessi não estava preparada para o beijo de Cian MacKeltar. Nada teria podido prepará-la para a devastadora intensidade com que a beijou ele.

                            Aquele beijo não tinha nada que ver com o que lhe deu no vestíbulo do hotel, quando apenas a tinha roçado com os lábios. Agora a beijava de verdade. Intenso e exigente, aquele beijo em estado puro era tão sedutor como descaradamente carnal.

                            O highlander do século IX fechou uma mão em torno dos curtos cachos escuros do Jessi e plantou sua boca sobre a sua. Tomou a bochecha com a outra mão e lhe apertou brandamente a comissura dos lábios com o polegar, até deixá-los separados. Assim que a sentiu ceder, selou-lhe os lábios com os seus e os abriu ainda mais para aprofundar no beijo, tomar completa posse de sua boca e sossegar qualquer vestígio de protesto que ela tivesse pensado emitir.

                            Era um beijo dominante, o beijo de um homem que sabia que era um homem e ao que adorava sê-lo, um beijo de perito que sabia o que fazia. Cian MacKeltar não era nenhum universitário, nenhum jovem licenciado que media cautelosamente a magra linha entre o desejo e a correção política. Agora Jessi estava com um homem que se sentia perfeitamente a suas largas com o desejo, que carecia de inibições e não andava com rodeios.

                            Era exatamente a classe de beijo, compreendeu com atordoamento, que levava toda a vida esperando. Mas até agora não tinha sido capaz de definir com exatidão o que era o que sentia falta, o que podia ser esse algo para o que reservou a si mesmo durante todo aquele tempo. Assombrou-a dar-se conta de que o problema com seus namorados da universidade sempre tinham consistido em que eram só isso: namorados da universidade, uns meninos com os que saía para passar o momento.

                            Mas Cian MacKeltar era um homem, e uma força verdadeiramente formidável no que fazia referência à sexualidade. Jessi simplesmente não estava a sua altura.

                            Então se deu conta de outra coisa: que teria muita sorte se saía daquela habitação de hotel sendo a mesma Jessi que quando entrou nela. Sendo virgem, embora isso fosse algo que nunca admitiria ante nenhuma de suas amigas. Agora já ninguém era virgem, e a pressão de seus iguais podia chegar a voltar-se intensa se as pessoas sabiam que você ainda o era.

                            Pessoalmente, Jessi sempre tinha tido claro que se fosse virgem ou não era assunto dela. Dela, e do homem com o que decidisse compartilhar essa perda. Sua mãe podia respirar liberalmente a que tivesse filhos, mas também respirava tudo o que tivesse que ver com o respeitar-se a si mesmo. "Tomem cuidado na hora de escolher, garotas - aconselhava Lilly St. James a sua filha-. Há muito horror solto pelo mundo." Havida conta de que atualmente sua mãe andava entre os maridos número quatro e número cinco, Jessi pensava que tinha que estar muito bem informada sobre o tema.

                            -Deus, moça, que bem sabe - ronronou Cian MacKeltar.

                            Jessi estremeceu de prazer quando lhe atraiu o lábio inferior entre os seus, mordiscou-o e logo fechou a boca com força sobre a sua para inundar sua língua nela. Beijava como um homem que não tivesse podido desfrutar desse prazer talvez em mil anos ou um período semelhante e estivesse decidido a tirar o máximo proveito possível dele, a saborear todas suas sutis e sensuais férias. Tão logo tentava e seduzia como atacava, e isso a enlouquecia. Beijava como se quisesse devorá-la, talvez inclusive meter-se em sua pele. Beijava como se lhe fizesse amor a sua boca, aquele highlander formoso como o pecado com sua quente língua molhada e seu corpo tatuado duro como a pedra. Beijava tão minuciosa e possessivamente que Jessi já não era Jessi a não ser só uma mulher enquanto ele só era um homem, e se existia era unicamente porque ele a beijava e se deixava de fazê-la, podia ser que ela deixasse de existir.

                            Jessi não teve nem idéia de como acabaram no chão.

                            Fazia um momento ele a tinha em seus braços enquanto a beijava com uns beijos que tiravam o sentido - literalmente, ao parecer-, e um segundo depois estava estendida de barriga para cima no chão debaixo de seu enorme e poderoso corpo ainda molhado pela ducha, com os mamilos tão endurecidos que se cravavam no peito nu dele através do sutiã e o suéter, com a barra de aço da ereção dele firmemente apertada contra seu estômago.

                            E não podia estar do toda segura, mas lhe parecia que agora já não sentia uma toalha entre eles. E mãe de Deus, aquele homem era enorme.

                            Perplexa e aturdida, Jessi se perguntou como lhe tinha ocorrido fazer aquelas coisas e, enquanto o perguntava, enterrou os dedos no enredo molhado da cabeleira dele.

                            Mais beijos, lentos e delicados, firmes e cheios de paixão. Jessi se afogava em muito homem, no sabor e o aroma e o contato de Cian MacKeltar. Como se tivessem vontade própria, suas mãos descenderam pela grossa coluna do pescoço dele e desceram para as musculosas protuberâncias de seus ombros.

                            Então ele trocou de posição para que suas pernas ficassem em cima das suas, e Jessi apenas se deu conta disso até que o viu acomodar-se entre o v de suas coxas, e a grossa protuberância de seu membro fez que a costura interior de seus jeans se apertasse contra seu clitóris para roçar-lhe com uma deliciosa fricção. O gesto era tão íntimo que a fez estremecer.

                            Quando lhe pôs uma mão debaixo do traseiro, levantou-lhe os quadris e deu início a uma série de lentos ataques eróticos que eram tão velhos como a humanidade, uma parte longínqua da mente do Jessi começou a fazer soar um clamoroso alarme. Mas o alarme interior não demorou em voltar-se um pouco mais tênue com cada lenta e poderosa investida do membro dele, conforme o Jessi caía sob o irresistível e sedutor feitiço de Cian MacKeltar.

                            Quando lhe subiu o suéter até as costelas e começou a riscar um atalho de beijos desde seu traseiro até seus peitos, devagar e sem dar-se pressa em nenhum momento, como se gravasse na memória cada uma das sutis curvas e descidas de seu corpo, Jessi choramingou dentro da boca de Cian, ávida para sentir aquelas mãos tão grandes sobre todo seu corpo nu. Sentia como se uma corrente elétrica de pequena voltagem palpitasse sob sua pele em qualquer lugar que a tocava ele, e cada terminação nervosa se apressava a cobrar vida com um delicioso comichão. Quando ele fechou a mão sobre um de seus peitos, uma corrente de calor descendeu para o estômago do Jessi e ainda mais abaixo, e não pôde evitar reprimir o impulso de lhe cravar as unhas nos ombros ao tempo que se arqueava avidamente para cima para acolher seu próximo ataque.

                            Ele tragou ar com um vaio entrecortado e de repente pegou na borda dos seus jeans, e um instante depois Jessi sentiu o frescor do ar sobre sua pele nua quando lhe baixou os jeans e as calcinhas. Aquele alarme quase inaudível soava de novo, agora com mais força que antes, mas ele a beijava tão apaixonadamente, com tanta energia e...

                            ... De repente Jessi se encontrou boquejando como um peixe fora da água.

                            Só no chão.

                            Piscou. Céus terei que ver quão depressa podia chegar a mover-se aquele homem! Jessi se sentou no chão e olhou a seu redor sem entender nada.

                            -Onde está? -disse com voz entrecortada.

                            -Atrás de ti, mulher - foi a seca e furiosa réplica.

                            Jessi olhou por cima do ombro. Ele estava dentro do espelho apoiado na esquina, e respirava com força como se acabasse de jogar uma carreira. Vê-lo respirar assim fez que Jessi se desse conta de que ela também ofegava. Seus lábios estavam inchados, notava que lhe começava a arder as costas ali onde a tinha esfregado contra o tapete, e lhe palpitavam os mamilos.

                            Por que estava ele dentro do espelho? Em realidade, como tinha entrado no espelho? Jessi o olhou boquiaberta.

                            -Reclama-me assim que passou um tempo - disse ele cansativamente.

                            Jessi ficou olhando com a boca aberta.

                            -S-sem nenhum preâmbulo? -Gaguejou-. Simplesmente te reclama?

                            -Sim. Não fui eu quem decidiu te deixar dessa maneira. -Seu olhar desceu bruscamente e ficou fixo-. Ai, Jessica, tem um traseiro realmente precioso. Quase valeu a pena viver um milhar anos para vê-lo.

                            Suas palavras fizeram que Jessi se desse conta de que estava sentada no chão, entre o armário da televisão e a cama, de frente para a porta de entrada e com o traseiro ao ar dirigido para o espelho enquanto o olhava por cima do ombro, com o suéter levantado, os jeans abaixados e as calcinhas caídas ao redor dos joelhos.

                            A fria realidade da razão retornou.

                            OH, Deus, o que tinha estado a ponto de fazer? Ainda boquiaberta, Jessi cravou o olhar no espelho.

                            Uns quantos minutos tinham bastado para que se encontrasse tombada no chão com os jeans abaixados e as calcinhas ao redor dos joelhos! Uns quantos beijos apaixonados, e tinha estado a ponto de praticar o sexo com um homem ao que mal conhecia. Que, além disso, era incrivelmente arrogante e atávico. Que vivia dentro de um espelho. E precisamente agora que estava metida em uma boa confusão, além disso!

                            Isso não era nada próprio dela. Teria se tornado louca?

                            Atônita e envergonhada de si mesmo, Jessi se levantou do chão e começou a subir os jeans. As calcinhas lhe enredaram nas coxas e os jeans ficaram presos justo debaixo do traseiro antes que tivesse acabado de os subir de tudo. Jessi puxou, mas os jeans se negaram a ceder. Quão único cedeu foi seu traseiro, porque o sentiu oscilar.

                            Ele fez um som estrangulado.

                            -Meu Deus, mulher, me vai matar.

                            Jessi lhe dirigiu um olhar carrancudo por cima do ombro enquanto corria, com o traseiro ao ar e as bochechas acesas, a procurar refúgio dentro do quarto de banho.

                            Um gemido a seguiu.

                            -Faz o favor de deixar de me olhar o traseiro - vaiou Jessi ferozmente.

                            Pôde ouvir a risada dele, inclusive através da porta fechada.

                            Umas horas depois, Jessi despertou com tanta fome que sentia enxames no estômago.

                            Deu-se a volta na incômoda cama de hotel cheia de vultos e olhou o relógio. Não era de sentir saudades que tivesse fome: Levava mais de vinte e quatro horas sem comer!

                            O pedido ao serviço de habitações não tinha chegado, pela razão que fosse: ou tinham tentado entregar-lhe enquanto ela estava estendida sob o corpo duro como uma rocha de Cian MacKeltar, surda, muda e cega a tudo o que não fosse à ofensiva de sensações eróticas que ele descarregava sobre seus sentidos; ou haviam perdido o pedido; ou haviam o trazido tão tarde que ela já estava dormindo. Como rara vez podia desfrutar de uma noite inteira de sono, Jessi tendia a dormir assim que punha a cabeça sobre o travesseiro, e dormia como o tronco proverbial, de barriga para cima e com os braços estendidos.

                            Depois da derrota do quase-fazê-lo-no-chão, Jessi foi ao quarto de banho e ficou dentro um bom momento para esfriar-se um pouco e tratar de pensar em como estavam às coisas. Mas principalmente para esfriar-se - aquele homem desprendia um intenso calor sexual-, porque a essas alturas já estava tão esgotada que não conseguia encontrar muito sentido a nada.

                            Quando por fim saiu do quarto de banho, informou com uma fria formalidade ao espelho de que devia manter-se afastado dela e deixá-la dormir, e acrescentou que não se atrevesse a despertá-la a menos que sua vida corresse perigo. Também lhe disse que não queria falar de nada do que tinha ocorrido, nem agora nem talvez nunca.

                            Ele riu brandamente. "Como deseja, Jessica", replicou depois.

                            O estômago do Jessi protestou com um comprido e queixoso gemido.

                            Sua mão procurou o interruptor da luz no spot mural que havia sobre a mesa de noite, acionou-o, agarrou o telefone e apertou o botão para falar com o serviço de habitações. Jessi estava pedindo uma ração dupla de hambúrguer com queijo e batatas fritas e um copo super grande de refresco, quando o espelho grunhiu:

                            -Que seja o quádruplo de todo isso. E se não haver nada doce, acrescenta algo que o seja.

                            Jessi supôs que o comeria quando voltasse a sair do espelho, encolheu-se de ombros e fez o que lhe pedia.

                            Até que o espelho o reclamou, nem lhe tinha passado pela cabeça perguntar-se por que havia tornado a entrar nele depois de que ela o deixasse sair aquela primeira noite em que matou ao assassino. Em defesa própria, Jessi podia alegar que tinha tido muitas outras coisas na cabeça. Agora já sabia a resposta. Aparentemente, Cian MacKeltar não tinha eleição. Embora pudesse liberar do espelho cantando um feitiço, logo não podia permanecer fora dele durante muito tempo.

                            Isso era um problema. Como planejava protegê-la desde detrás de um painel de cristal inquieto?

                            Jessi voltou a deixar o telefone no suporte e olhou a Cian com cenho. Deus, que formoso era. Cada vez que o olhava ficava sem respiração. Vê-lo fazia que se esquecesse de todas as coisas importantes nas que deveria estar pensando. Sacudiu a cabeça e tentou pensar com claridade. Tinha chegado o momento de obter mais respostas.

                            -Com que freqüência e por quanto tempo te pode liberar desse espelho?

                            Ele se apoiou em algo dentro do espelho que Jessi não podia ver, cruzou os braços sobre o peito e cruzou seus pés calçados com botas à altura dos tornozelos. Jessi entreabriu os olhos.

                            -Espera um momento, como arrumou para que sua roupa fosse parar aí dentro?

                            -Dispus de muitos séculos para experimentar com o cristal. Embora os elementos que o compõem ficam além de minha compreensão, aprendi a me servir dele até certo ponto. Foi concebido para conter humanos, não coisas inanimadas, e aprendi a materializar em seu interior os objetos inertes que se encontram dentro de meu campo de visão.

                            Jessi piscou e olhou a seu redor. O kilt e as botas tinham desaparecido. Até a faca e sua capa tinham desaparecido. Aparentemente ele tinha levado todas essas coisas ao interior do espelho enquanto ela estava dormindo. OH, tinha um milhão de perguntas a respeito da natureza daquele artefato! Mas primeiro o mais importante: assegurá-la sobrevivência.

                            -E bem? -insistiu-. Com que freqüência? Ele se encolheu de ombros.

                            -Tenta outra vez.

                            Jessi respirou fundo. Em realidade não queria o ter fora do espelho, ao menos no momento. Ainda não se sentia preparada para ver-se com ele em carne e osso, porque não estava segura de como reagiria seu corpo ante a proximidade daqueles quase dois metros de atrativa carne masculina. Mesmo assim, precisava entender os parâmetros da situação em que se encontravam. Recitou o canto que servia para liberá-lo.

                            Não aconteceu nada. Ele inclinou a cabeça.

                            -Já imaginava. Não posso dar nenhuma resposta precisa a sua pergunta. Só posso te dizer o que aconteceu no passado. Em certas ocasiões, quando Lucan desejava algo de mim, permitia-me desfrutar de um período de liberdade. Uma vez, faz vários séculos, liberou-me durante quatro dias consecutivos. Cada dia me permitia um intervalo diferente junto ao cristal. Um dia só pude ter umas poucas horas, outros cinco ou seis, o quarto dia dispôs da totalidade de um dia e uma noite. Não há forma de predizê-lo.

                            -Assim pode sair cada dia, ao menos durante um momento - discorreu ela.

                            -Sim.

                            -O que significa que provavelmente não possa voltar a sair do espelho até manhã pela manhã.

                            Outro encolhimento de ombros.

                            -Não sei. Deveria seguir tentando-o a intervalos freqüentes.

                            - Como pensa me proteger se não puder permanecer fora desse espelho? -disse ela de mau humor.

                            -Moça, basta-nos evitando cair nas mãos de Lucan durante certo número de dias. Vinte, para ser exatos. Isso é muito pouco tempo, verdade? Asseguro-te que te manterei a salvo até então.

                            - Vinte dias? Por que só vinte?

                            Isso não soava tão terrível. Jessi não sabia que houvesse um limite ao período de tempo durante o que sua vida ficaria de patas para acima, e a alegrou saber que ia ser relativamente curto. Estava segura de que poderia voltar a encarrilhar sua existência depois de só vinte dias fora-de-controle, se as coisas realmente ficavam resolvidas quando finalizasse esse prazo. Agradeceu ter sido o bastante sensata para não chamar dizendo que estava doente. De repente suas probabilidades de sobreviver e voltar para a normalidade parecia haver incrementado grandemente. Ao melhor uma boa mentira bastaria para tirá-la do apuro. Possivelmente nem sequer faria falta que fosse a metade de criatividade que algumas das que tentavam usar seus estudantes.

                            -Porque O Pacto que me mantém preso ao Cristal Escuro exige que um dízimo do ouro mais puro seja enviado através do espelho cada século para reafirmar que este objeto pertence aos invisíveis. O próximo dízimo deve ser pago a véspera de Todos os Santos, o trinta e um de outubro, a meia-noite.

                            Complicações. Dízimos, pactos, pertença: cada vez que a Jessi lhe ocorria ficar a pensar em reatar uma vida normal, lhe recordava que estava colocada até as sobrancelhas em um mundo de feitiços e maldições que parecia saído de um conto de fadas.

                            E a parte realmente aterradora era que tudo começava a lhe soar um pouco razoável. Quanto mais interagia com um homem que vivia dentro de um espelho, menos lhe custava acostumar-se aos acontecimentos estranhos subseqüentes. A existência de Cian MacKeltar já era tão inexplicável em e por si mesma que não tinha sentido ficar a discutir as outras coisas inexplicáveis. Embora Jessi nunca tivesse acreditado nela, a magia existia. Agora mesmo tinha a prova diante dos olhos. Fim das alegações por escrito, caso fechado.

                            Jessi estava perplexa. Sacudiu a cabeça e se levantou da cama - tinha dormido com toda a roupa posta salvo pelos sapatos e as meias três-quartos-, foi até o espelho e se deteve ante ele. Estudou o fabuloso marco com seus estranhos símbolos, acariciou os frios relevos dourados e passou a mão pelo cristal prateado.

                            Dentro do espelho, Cian também levantou a mão e seguiu a trajetória da sua, em um gesto que fez que parecesse como se as pontas de seus dedos se encontrassem. Jessi só sentiu o frio do cristal.

                            Quando as pontas de seus dedos passaram sobre a mancha negra no bordo, apressou-se a apartá-los. Havia sentido que lhe gelavam de repente, como quando recebeu aquele estranho correio eletrônico, e quase lhe tinha parecido como se..., bom, como se uma espécie de sanguessuga psíquica tentasse manter-se presa a eles enquanto os apartava, como se não quisesse soltar-lhe. Jessi disse que devia falar com Cian do tal Myrddin e esse inquietante correio eletrônico que lhe tinha arrepiado a pele. Mas primeiro mais perguntas.

                            -Isso se deve a que o espelho é uma Consagração Invisível, moça - disse ele brandamente.

                            -O que?

                            -Refiro-me à sensação de frio. O poder escuro é frio, enquanto que o poder da luz é quente. Um artefato visível exsuda um suave calor. Mas basta com que um homem toque uma página do Livro Escuro dos invisíveis para que essa página comece a absorver seu calor. Dizem que consultar o Livro Escuro converte a um homem em algo que já não é humano porque ao final chegará um momento no qual esse contato, ao prolongar-se dia detrás dia, terá-o despojado de toda a luz e o calor que houvesse em seu interior.

                            Jessi absorveu a informação, mas tinha assuntos mais urgentes nos que pensar. Precisava sentir que ainda era capaz de exercer um certo grau de controle sobre as coisas e para isso antes tinha que entender sua situação imediata e, que ela soubesse, esse Livro Escuro do que lhe acabava de falar ele não tinha nada que ver com seus problemas.

                            -Assim que quão único temos que fazer é te manter longe desse Lucan até que tenha passado o momento em que teria que pagar o dízimo, e então o feitiço ficará quebrado? Só precisamos escondê-lo durante três semanas? Isso é tudo?

                            -Sim.

                            -Então, O que... , o que passará quando o feitiço for quebrado e seja livre? -Poderia libertá-la Cian MacKeltar desse homem que queria vê-la morta? Assegurar sua volta a uma vida agradável e normal?

                            Ele inalou profundamente, e um brilho de aterradora brutalidade brilhou de repente em seus olhos cor uísque. Quando voltou a falar, sua voz soou áspera.

                            -Então já nunca terá que voltar a preocupar-se por Lucan Trevayne. Ninguém terá que fazê-la. Juro-o.

                            Ouvir-lhe dizer isso fez que Jessi desse um passo atrás. Com aquelas palavras, ele tinha se transformado de um homem muito sexy em uma besta selvagem, os lábios apertados em uma careta silenciosa, os orifícios nasais subitamente dilatados, os olhos entreabertos e não de tudo cordatos. Uma loucura nascida de mais de mil anos de cativeiro fulgurou por um instante naquelas profundidades cor uísque, fria e infestada de sombras como a mancha de tinta que cobria o perímetro do Cristal Escuro.

                            Jessi tragou saliva.

                            -Parece muito seguro de sua capacidade para derrotá-lo, tendo em conta que foi ele quem te deixou preso dentro desse espelho. -sentiu-se obrigada a assinalar.

                            Um malvado sorriso de fera curvou os lábios dele.

                            -Ah, Jessica, esta vez ganharei. Disso pode estar segura-disse com suave ameaça.

                            Aquelas palavras fizeram que Jessi sentisse que lhe gelava o sangue nas veias. Havia uma segurança tão implacável na voz dele, uma selvageria tal em seus olhos, que de repente já não lhe coube dúvida de que Cian MacKeltar era perfeitamente capaz de mantê-la com vida.

                            Algo lhe dizia que aquele homem tinha uns quantos truques escondidos em seus proverbiais mangas, inclusive agora que estava apanhado dentro de um espelho. Truques que ela provavelmente nem sequer podia imaginar. Jessi teve outra vez a estranha sensação de que havia algo mais em Cian MacKeltar.

                            OH, sim, de um modo ou outro, aquele homem a manteria a salvo. "E como arrumará você para te manter a salvo dele?" Boa pergunta.

                            Vinte dias mais. Durante os que ele poderia ver-se livre do espelho por ao menos uma porção de cada dia.

                            Jessi não sabia o que fazer.

                            Cian MacKeltar a atraía de uma maneira que desafiava a lógica ou a razão. Claro que isso não deveria surpreendê-la muito, pensou sardonicamente, porque tudo em sua situação atual desafiava a lógica ou a razão. Jessi teve a súbita e desalentadora suspeita de que ainda tivesse intacto o hímen provavelmente não se devia tanto a sua impressionante fibra moral a não ser ao feito de que, simplesmente, nunca tinha experimentado aquela intensa química que não guardava nenhuma classe de relação com o cérebro. Porque se a tivesse experimentado antes, certamente a essas alturas já não seria Virgem.

                            -Serviço de habitações! -A alegre chamada veio acompanhada por um enérgico repico de nódulos sobre a porta.

                            Um pouco mais animada, Jessi se separou do espelho.

                            -Graças a Deus - disse-. Morro de fome.

                            Cian retrocedeu até ficar atrás do azougue, de onde podia ver sem ser visto.

                            Enquanto Jessica ia para a porta, cravou o olhar em seu precioso traseiro. Essa mesma manhã tinha tido nas mãos aquelas deliciosas curvas suaves como a seda, uma nádega em cada palma.

                            Dispunha-se a possuir a aquela mulher, a enchê-la com seu membro e pulverizar sua semente dentro dela. Havia tocado a curvatura de seus magníficos peitos, tinha beijado aqueles lábios tão carnudos, tinha saboreado a doçura de mel que era Jessica St. James. E logo saborearia a doçura entre suas coxas, enquanto lambia e chupava e mordiscava até levá-la a um tremente orgasmo atrás de outro.

                            Um suave grunhido cresceu dentro de sua garganta. Deus adorava vê-la mover-se! Jessica tinha um andar resolvido e de propósito, mas também cheios de graça. Com um corpo semelhante, não podia evitar ser sexy. Seus curtos cachos escuros a faziam parecer ainda mais feminina, porque realçavam a delicadeza de seu pescoço, os finos ossos de suas omoplatas e a esbelta curva de suas costas.

                            "Não quero falar do que ocorreu faz uns momentos", havia-lhe dito secamente.

                            "Por mim encantado, mulher", tinha pensado ele com uma calma silenciosa e um encolhimento de ombros. Não necessitavam às palavras.

                            Seus corpos falavam a mesma linguagem, usavam idêntico vocabulário.

                            Desejo. Luxúria. Desejo.

                            Cian a olhou e algo possessivo e abrasador se agitou dentro de seu peito.

                            Não tinha nada que ver com o fato de que queria deitar-se com ela. Sim que tinha que ver, e muito, respondendo a uma chamada de procurar casal que não podia ser negada.

                            Tinha que ver com a pura paixão animal. Tinha que ver com...

                            Comida. Por todos os diabos. Cian sentiu que o fazia a boca na água. Cheirava a carne.

                            -Pode pô-la aí - estava dizendo Jessica, ao tempo que assinalava a mesa junto às janelas.

                            Uma mulher de trinta e poucos anos, esbelta e com una a cabeleira castanha que lhe chegava às costas, entrou com um carrinho com rodas sobre o que havia uma bandeja e o levou pelo estreito corredor entre as camas e o mobiliário.

                            Carne pouco feita. Bendita fosse Jessica St. James, que não tinha pedido que lhes trouxessem pescado ou alguma ave! Cian levava mais de um século sem comer e queria carne que não estivesse muito feita. A última vez que o tinha liberado Lucan, conseguiu encher o estômago com pão, queijo e cerveja. Para seu paladar acostumado às privações tinha sido um autêntico festim de sabores e texturas divinamente variadas, mas não era carne tenra e suculenta. Era uma lembrança que não tinha deixado de atormentá-lo durante 427 anos.

                            Embora quando estava dentro do espelho sua existência ficava suspensa e não padecia nenhuma necessidade corporal - não havia fome, não havia sede, não havia nenhuma necessidade de dormir, banhar-se ou urinar-, isso não significava que não padecesse necessidades mentais.

                            Estava faminto. Diabos tinha uma fome terrível! Não era estranho que se entretivesse semanas inteiras rememorando os sabores e os aromas de suas comidas favoritas.

                            Cian fechou os olhos e saboreou os aromas que começaram a flutuar junto ao espelho conforme a mulher começava a esvaziar o carrinho.

                            Não teria sabido dizer o que foi o que o pôs em guarda. Logo decidiria que as intenções da mulher talvez fossem tão intensas e tivesse a mente tão centrada nelas que tinha recorrido à escuta profunda sem dar-se conta de que o fazia, porque tinha podido captar inclusive através do cristal. Isso já lhe tinha ocorrido em algumas ocasiões com Lucan, habitualmente quando suas emoções eram muito intensas porque algo o havia posto furioso.

                            Pelo que queira que fosse, Cian atuou instantaneamente, sem vacilar.

                            Sua mão foi à capa de sua coxa.

                            Abriu muito os olhos, desembainhou seu facão e murmurou o canto que abria o véu de prata.

                            E jogou a faca, seus vinte centímetros de folha afiada como uma navalha de barbear, através do cristal.

         11

                            Jessi retrocedeu ante a mulher do serviço de habitações de boca aberta em um grito ao tempo que sacudia a cabeça em uma frenética negativa.

                            Fazia um momento estava falando de tolices com a empregada do serviço de habitações e de repente algo quente, molhado, completamente inesperado a tinha salpicado, lhe manchando a cara e o cabelo, o suéter, e até os jeans. Jessi fechou os olhos instintivamente.

                            Quando voltou a abri-los, viu a mulher imóvel ante ela, os olhos muito abertos e um pouco frágeis enquanto movia lábios sem emitir som algum.

                            Com a faca encravada de pedras preciosas de Cian MacKeltar se sobressaindo de sua garganta.

                            Quando por fim compreendeu o que era o que a tinha salpicado Jessi esteve a ponto de vomitar. Mas assim que abriu a boca quão único saiu dela foi um grito.

                            -Jessica, tem que deixar de gritar! -ordenou-lhe secamente a voz que falava do interior do espelho.

                            Jessi já sabia, e não teria demorado em calar-se. Seriamente. A mulher tropeçou para trás até que sua cabeça se chocou contra o armário da televisão com um violento impacto, e logo suas costas escorregaram sobre o móvel. Uma última convulsão estremeceu o corpo antes de ficar completamente imóvel, meio sentada, meio caída no chão, o uniforme do hotel enredado ao redor de seus quadris.

                            Enquanto Jessi a olhava atordoada, um pouco de sangue borbulhou entre seus lábios e os olhos ficaram estranhamente vazios. OH, Deus, estava morta; a mulher estava morta!

                            Cian golpeou o interior do espelho com os punhos.

                            -Deixa de gritar, Jessica! Por todos os diabos, me escute, se seus gritos fazem vir alguém, pensará que foi você quem a matou. Ninguém acreditará na sua história de que havia um homem dentro de um espelho e eu não me mostrarei. Deixarei que vá ao cárcere, Jessica!

                            Jessi estremeceu, como se aquelas palavras tivessem sido um bofetão que tinha posto fim a seu ataque de histeria. Deixou de gritar tão abruptamente que o último grito se converteu em um primeiro soluço, e foi engolido pelo silêncio depois.

                            Ele tinha razão.

                            Se seus gritos faziam ir a algum dos hóspedes das habitações mais próximas, encontraria-a coberta de sangue, em posse de um artefato roubado e uma mulher morta no chão. Não demoraria em saber-se que a morte de dita mulher tinha sido provocada por outro artefato que Jessi não poderia explicar por que tinha em seu poder.

                            Prenderiam-na em um abrir e fechar de olhos.

                            E não só por roubo, que era o que a preocupava quando se foram do campus, mas também por assassinato.

                            E não lhe ocorria o que ia ganhar ele se fazia visível para carregar com a culpa.

                            De fato, tendo em conta que quão único queria fazer ele era passar vinte dias o mais escondido possível para poder desfrutar dessa vingança em que não tinha deixado de pensar nem um só dia durante mil anos, provavelmente adoraria acabar guardado sob chave no depósito de artigos roubados do Departamento de Polícia de Chicago. Ali poderia esconder-se de maneira insuperável, sob amparo policial. Não, Cian MacKeltar certamente não tinha nenhum incentivo para salvar a pele ao Jessi.

                            Merda, merda, merda.

                            Jessi apertou os lábios e ficou imóvel, porque não queria arriscar-se a jogar nem que só fosse outra rápida olhada.

                            -Fecha a porta e passa o fecho, Jessica.

                            Jessi saltou por cima da cama tão depressa que caiu ao outro lado. Quando lhe franqueou a entrada à mulher tinha deixado a porta entreaberta, com o passador de segurança estendido entre a porta e o marco. Jessi se levantou do chão, correu para a porta, só o necessário para voltar a introduzir o passador metálico E oco, sempre se assegurando de permanecer fora da linha de visão de qualquer pessoa que pudesse haver no corredor, e fechou a porta e jogou o fecho. Podia ouvir um murmúrio de vozes corredor abaixo e um som de passos que se aproximavam.

                            Não se incomodou em apartar-se da porta. Embora seus gritos tivessem durado mais de uns segundos, tinha bons pulmões: consciente da quantidade de ruído que tinha feito.

                            Uns instantes depois chamaram com firmeza.

                            -Vai tudo bem aí dentro, senhora? -perguntou uma preocupada voz masculina-. Estamos umas portas mais abaixo e a ouvimos gritar.

                            Jessi tragou ar um par de vezes enquanto o coração lhe pulsava com força.

                            -Uh, sim - conseguiu balbuciar finalmente-. Não passa nada. Sinto haver lhes incomodado. -obrigou-se a soltar uma risada envergonhada. -Havia uma aranha na ducha e tenho um pouco de aracnofobia por isso me assustei. -Injetou o que esperava fosse uma convincente nota de abafado em sua voz.

                            Houve um silêncio, e logo o som de uma suave risada masculina.

                            -Meus amigos e eu estaríamos encantados de ocupamos da aranha por você, senhora.

                            Homens. Às vezes podiam ser tão condescendentes, inclusive quando acreditavam que só tentavam ajudar. Jessi nunca tinha tido medo das aranhas. E se tivesse, isso não era razão para rir dela. Os cadáveres, pelo contrário, sim que a punham dos nervos. As coisinhas pequenas com muitas patas nunca a tinham impressionado. Claro que quando tinha medo de algo, simplesmente não podia evitar ter. Uma de suas melhores amigas, Cheryl Caw tinha medo das flores, e isso sim que não tinha nenhuma graça.

                            -Não, não - apressou se a dizer-, já está solucionado, Meu marido se ocupou dela. -"Diz algo", articulou por cima dele para que Cian pudesse lhe ler os lábios.

                            -Agora tudo está em ordem - disse Cian com voz ensurdecedora. - você foi muito amável ao inquirir a respeito.

                            Jessi o olhou com cenho. "Inquirir a respeito?", fez-lhe silenciosamente ao tempo que enrugava o nariz. Deus poderia soar mais arcaico?

                            Ouvir a voz de outro homem fez que uma nota de reserva se infiltrasse na de seu aspirante a salvador.

                            -Possivelmente deveria chamar a recepção para comunicar-lhe Não deveria haver nenhum inseto na habitação. Minha noiva tampouco suporta as aranhas.

                            -Sim, isso farei. Obrigado. -"Vá. Rápido."

                            Os passos começaram a afastar-se pelo corredor e Jessi se deixou cair contra a porta. Cometeu o engano de esfregar os olhos e logo piorou olhando-as mãos.

                            Separou os lábios. Uma corrente de ar entrou em seus pulmões, prelúdio a um grito.

                            -Não o faça, Jessica-vaiou Cian-. Ele não te acreditará duas vezes. Jessi enrugou os lábios e se obrigou a expulsar o ar em uma série de pequenas explosões silenciosas. Logo fez umas quantas inspirações entrecortadas, como se respirasse de uma bolsa de papel. "Não vá gritar. Não vá gritar."

                            -Por que a matou? -perguntou uns minutos depois, quando confiou o suficiente de si mesma para atrever-se a falar.

                            -Olhe na mão dessa mulher. Não posso distinguir o que é, mas pretendia te fazer dano com isso.

                            Jessi se armou de valor, voltou a entrar na habitação a contra gosto e baixou os olhos para a morta. Sua mão esquerda permanecia fechada ao redor de algo. Jessi a empurrou com o pé. Uma seringa de injeção lhe escapou de entre os dedos e rodou sobre o tapete manchado de sangue. Jessi estremeceu.

                            - Jessica, tenta me fazer sair do espelho.

                            Nenhum dos dois esperava que funcionasse. Não funcionou.

                            -Tira a colcha da cama e cobre o corpo com ela.

                            Cautelosamente, Jessi o fez.

                            Não serve de muito. Em lugar de um cadáver na mesma habitação que ela ao que podia ver, agora havia um cadáver na mesma habitação que ela ao que não podia ver, e isso a punha ainda mais nervosa. Todo mundo sabia que os maus nunca morriam realmente justo quando acreditava que por fim estava a salvo, voltavam a levantar-se com os olhos convertidos em dois abismos aterradores para ir para ti enquanto agitavam os braços torpemente como na noite dos mortos vivos.

                            -Agora irás banhar-te, Jessica.

                            Jessi não se moveu do lugar. Não pensava meter-se na ducha só para protagonizar um dos momentos cúpula de Psicose.

                            -Está morta, moça. Juro-o. Era humano, nada que se saísse do corrente. Agora vá banhar-te - disse Cian com uma voz que não admitia resistência alguma-. Eu te protegerei. Vê.

                            Depois de escrutinar uns instantes seu olhar de uísque escocês queimado, Jessi foi ao quarto de banho.

                            Uns minutos antes do amanhecer da sexta-feira, 13 de outubro, Jessi olhou no espelho, soltou um bufido de exasperação e resmungou por enésima vez o feitiço para liberar a Cian.

                            Esta vez por fim sortiu efeito.

                            Tinham transcorrido umas quantas horas da larga ducha com água muito quente em que consumiu duas pastilhas inteiras aqueles sabonetes rosados.

                            Cian a tinha entretido com histórias de sua vida no século IX. Falou-lhe de suas sete irmãs que o adoravam, de sua mãe, tentava levar pelo bom caminho a sua numerosa prole, de eventuais intentos por conseguir para suas irmãs uns maridos dignos delas.

                            Tinha-lhe falado com todo luxo de detalhes de seu castelo nas montanhas, e dos precipícios e correntes de águas cristalinas que o rodeavam. Era óbvio que adorava seu lar, sua família e seu clã.

                            Suas palavras tinham feito que as Highlands cobrassem, brilhantemente na imaginação do Jessi, e aquela grave masculina que não parava de falar a ajudava a relaxar-se. Sabia que seu highlander tentava impedir que ela enlouquecesse de tensão enquanto matava o tempo em uma habitação com um cadáver, e tinha funcionado.

                            A comoção que lhe causou ver que voltavam a tentar matá-la, e a rapidez com que Cian tinha eliminado à mulher que queria assassiná-la, desvaneceu-se finalmente, e Jessi fez frente aos fatos.

                            Feito: aquela mulher tinha ido ali para matá-la. Feito: uma das duas tinha que morrer. Jessi se alegrava de não ter sido ela.

                            Problema: não demoraria em sair de uma habitação onde havia sangue por toda parte, e deixaria um cadáver nela. Embora conseguissem tirar o cadáver da habitação - e Jessi não via como poder chegar a tirá-lo do hotel sem que os vissem-, não poderiam fazer desaparecer todo aquele sangue.

                            Feito: agora era uma fugitiva.

                            Esse era o fato que podia fazê-la enlouquecer. Doutorado, vida, futuro: todo isso tinha saltado pelos ares.

                            O que ia fazer agora?

                            Jessi teve uma repentina e horrenda visão de si mesma em algum momento do não-tão-longínquo futuro enquanto chamava a sua mãe desde algum estranho e aterrador país estrangeiro no qual as baratas e os escaravelhos eram do tamanho de ratos, e tentava convencer a Lilly St. James de que sua filha não tinha feito nada do que a polícia assegurava que tinha feito.

                            Para cúmulo, nem sequer tinha roupa que colocar para sair do hotel sem chamar a atenção. Embora tivesse podido limpar uma parte do sangue de seus jeans, seu suéter era uma causa perdida. Tinha podido salvar suas calcinhas, mas não seu sutiã.

                            Não podia sair ao centro de Chicago envolta na manta que levava agora. Esse tipo de extravagâncias possivelmente pudesse fazer-se em Nova Iorque, mas não na Cidade Tímida.

                            Quando uma intensa claridade dourada emanou das misteriosas runas esculpidas no marco e a sensação de distorção espacial chiou sobre suas já muito maltratadas terminações nervosas, Jessi se envolveu um pouco mais na manta.

                            Começou a levantar do lugar no qual estava sentada sobre a cama, com as pernas cruzadas, o mais próxima possível à parede para poder fingir que o vulto no chão não estava ali. De repente, Cian esteve em pé junto a ela.

                            Antes que Jessi pudesse abrir a boca para protestar, lhe pôs as mãos sobre os ombros, atraiu-a contra seu corpo e a beijou apaixonadamente, antes de soltá-la para que voltasse a cair sentada na cama.

                            Olhou-a um instante, voltou a levantá-la da cama e a beijou de novo.

                            Esta vez a estreitou entre seus braços, um braço ao redor da cintura, a outra mão sobre sua nuca, e a beijou tão profunda e apaixonadamente que Jessi tivesse jurado que todo seu corpo começava a jogar vapor como uma prancha ajustada no ponto de Neblina Densa/Vapor.

                            Aferrou-se a ele para tomar tudo o que lhe dava. Queria afundar-se no corpo de Cian, absorver o aço e o calor daquele homem.

                            Quando a soltou pela segunda vez, Jessi se deixou cair sobre a cama sem fôlego.

                            Sentia-se imensamente melhor que fazia uns instantes, como se algo da formidável força de Cian MacKeltar tivesse passado a ela através de seu beijo. Deus, aquele homem tinha força para dar e tomar.

                            Ela o olhou, seus olhos cor uísque entreabertos pelo desejo e algo mais, algo que Jessi simplesmente não pôde definir; uma emoção que lhe escapava. Quase parecia pena, mas isso não tinha sentido. O que podia lamentar aquele homem?

                            Quando ele levantou a mão e passou brandamente os nódulos pela bochecha para logo deslizar os dedos entre seus curtos cachos negros, Jessi em seguida deixou de pensar nisso. Ele enredou lentamente os dedos através de seus cabelos, como se saboreasse a sedosa textura de cada cacho.

                            A suavidade com que lhe acariciava o cabelo fez que Jessi sentisse um pequeno calafrio.

                            Aquele homem era uma dicotomia ambulante. Essas mãos tão fortes que podiam romper um pescoço e lançar uma faca para matar sem pensar duas vezes eram igualmente capazes de ser tenras e delicadas.

                            -Joga o fecho da porta quando for, moça. Não demorarei muito em voltar. Não abra a ninguém mais que a mim. Obedecerá-me?

                            Jessi abriu a boca para perguntar por que, e o que era o que ia fazer ele, e como pensava que iam sair da confusão no qual estavam colocados, mas lhe apertou os lábios com a ponta do dedo.

                            -O tempo é verdadeiramente essencial-disse com suavidade-. Nunca sei de quanto tempo vá dispor, e agora a ação nos será de muita maior utilidade que as palavras. Obedecerá-me no momento, Jessica?

                            Jessi deixou de conter a respiração e assentiu.

                            -Boa garota.

                            Jessi tirou a língua e fingiu ofegar como um cão, disposta a conformar-se com qualquer fibra de jocosidade que pudesse lhe encontrar à situação.

                            Sorriu-lhe com aprovação.

                            -Nunca perca a capacidade de rir, Jessica. A risada é uma graça redentora.

                            Exatamente o que pensava ela.

                            Ele deu a volta para agarrar a colcha com sua carga ensangüentada, saiu da habitação e fechou a porta detrás de si.

                            -Joga o fecho - foi a ordem em voz baixa que chegou ao Jessi do outro lado.

                            Jessi assim o fez, e só então ouviu como os passos dele se afastavam corredor abaixo.

                            Quarenta minutos depois, Jessi e Cian saíam juntos do elevador.

                            Ele a tinha agarrada da mão e, embora ela nunca se considerasse muito partidária de que a agarrassem da mão, adorava sentir sua mão na de Cian, tão grande e forte, e firme entrelaçamento de seus dedos. Sentia-se delicada e juvenil- de fato, mas bem consumadamente feminina- junto a aquele homem.

                            Elevou o olhar para ele e tragou ar Cian MacKeltar estava devastadoramente atraente. Pôs uns jeans descoloridos e uma camiseta do Ironman que tinha passado por um montão de lavagens. O kilt pendurava de um de seus ombros e a capa para sua faca estava descaradamente atada ao redor da coxa, a mortífera folha agora limpa e devolvida a seu estojo protetor. Jessi já tinha tentado lhe explicar que não podia levá-la assim, que conseguiria que os prendessem. Havia-lhe dito que não esbanjasse o fôlego, por que Cian MacKeltar não obedecia mais leis que as suas. Coisa que não a surpreendeu muito.

                            Seu corpo cheio de músculos ondulava sob o magro tecido de algodão. Com aquelas tatuagens negras e escarlates que subiam até seu pescoço e lhe rodeavam ambos os poderosos bíceps, aqueles braceletes tão ameaçadores nos pulsos, suas largas tranças, e sua imponente altura e corpulência, tinha um aspecto francamente perigoso.

                            Era uma roupa muito adequada para ele, e Jessi se perguntou como as teria arrumado para tirar de seu dono. A briga tinha que ter sido terrível.

                            Logo estava a questão da roupa que havia trazido para ela, e que ainda estava impregnada pelo perfume de outra mulher. Agora levava uma calça de cintura baixas (com a sugestiva legenda <<Não sabe a sorte que tem>> estampada na tira interior do zíper) do modelo Grandes Cavalgadas - como se seu futuro imediato fosse incluir sentar-se com o traseiro voltado para uma habitação cheia de gente-, e um suéter branco de decote em V tão apertado que revelava até a última linha de seu sutiã.

                            Ou o revelaria no caso de que a Cian MacKeltar lhe tivesse ocorrido lhe trazer um.

                            OH, bom. Às vezes uma não estava em situação de exigir nada.

                            Quão único tinha que fazer era chegar até seu carro, e poderia colocar uma jaqueta em cima.

                            Quando ele retornou à habitação e lhe pôs nas mãos o vulto de roupa, Jessi começou a lhe perguntar de onde a tinha tirado.

                            -Cala - havia dito ele imediatamente-. Veste-se e saiamos daqui. Temos que atuar o mais depressa possível. Já teremos tempo para falar quando me reclamar o cristal.

                            "Vale." Jessi encolheu de ombros. Sabia que não podia esquecer-se como se tal coisa de seus problemas atuais. Ele possivelmente pudesse fazê-la. Já o tinha visto encarregar-se de duas coisas que ela não tinha acreditado que tivesse absolutamente nenhuma possibilidade de chegar a fazer: livrar do corpo e procurar um pouco de roupa. Embora realmente tivesse gostado de poder dispor de um sutiã. Entusiasmada não era o adjetivo que Jessi aplicou a si mesmo nesse momento, mas certas partes de seu corpo pareciam sentir-se um pouco mais animadas com cada passo que dava. Esperava não ter que pôr-se a correr pela razão que fosse.

                            O vestíbulo do hotel estava quase vazio há aquela hora tão tardia. Quando entraram no grande espaço cheio de luz e brilhos, a atenção da Jessi em seguida se viu atraída por um homem abarrotado de esteróides que estava em pé ante o mostrador de recepção, com o braço ao redor de uma loira bastante pomposa que parecia muito mais acalmada que ele. Casualmente, tinha o aspecto de ser a classe de homem que levaria uma camiseta do Homem de Ferro.

                            O homem gritava furiosamente a dois empregados de recepção.

                            Estupendo, pensou Jessi. Não podia tirar de cima a paranóia de que em qualquer instante veria sair de um nada a um agente de polícia que os prenderia. Qualquer classe de distração era bem-vinda. Com um pouco de sorte, os empregados de recepção estariam muito ocupados com aquele homem enfurecido para dar-se conta de que ela e Cian escapuliam do hotel. Embora, com um espelho de quase dois metros de alto sob o braço dele, nada que os quase dois metros de homem de Cian MacKeltar pudessem chegar a fazer se pareceria nem remotamente a escapulir-se.

                            Cian lhe apertou a mão.

                            -Depressa, moça.

                            Jessi acelerou o passo e seguiu adiante como tal coisa.

                            -Digo-lhe que esse homem é um dos hóspedes. Vi como voltava a subir no elevador. O filho de cadela levou nossas roupas! -gritou o homem.

                            Jessi piscou. Olhou ao homem e sua esposa. Logo examinou a si mesma.

                            Elevou o olhar para Cian. Ele se encolheu de ombros.

                            -Não todas. Deixei-lhes a roupa interior. -Quando viu que ela levantava as sobrancelhas, acrescentou-: Eram de nossa talha. Necessitávamos roupa. Suspeitei que tivessem mais e, olhe, têm-na. Tropecei com eles no elevador. Segue andando, moça. Mova-se.

                            Tinham cruzado meio vestíbulo quando de repente o homem levantou as mãos em um gesto de exasperação e se voltou para eles.

                            "Acabou-se o que se dava - pensou Jessi, e ficou rígida-. Estamos preparados. Agora chamarão à polícia. Acabaremos entre grades."

                            -Ali está! -rugiu o homem furiosamente-. Esse é o idiota que obrigou a tirar a minha roupa e da minha esposa!

                            Jessi reparou em que a loira pomposa não parecia tão terrivelmente indignada pelo fato de que Cian a tivesse obrigado a tirar a roupa, em todo caso não até o extremo em que o estava seu marido. Teve uma súbita visão da bonita mulher loira ficando em calcinhas e sutiã ante Cian e sentiu o inexplicável impulso de ir dar lhe um bom murro. Como se a loira tivesse a culpa de algo.

                            -Guardarão silêncio e deixarão de nos olhar. Os quatro darão a volta e se colocarão de cara à parede. Agora - disse Cian sem alterar-se.

                            Jessi pôs os olhos em branco. Obviamente, em sua época Cian MacKeltar tinha sido alguma classe de aristocrata ou membro da classe governante. Um suserano, talvez, possivelmente inclusive um parente de algum dos antigos reis pictos, ou do muito mesmo Kennet MacAlpin. Comportava-se igual a um ditador tirânico que esperava que o mundo se inclinasse ante o menor de seus caprichos. "Deixa de nos olhar", realmente!

                            -OH, por favor, não pensará que vão, começou a mofar-se Jessi, só para ficar sem terminar a frase com uma careta de incredulidade.

                            Porque quatro pessoas acabavam de dar a volta, como uma só, para cravar a vista na parede atrás do mostrador de recepção, sem lhes dirigir nenhum só olhar de soslaio mais. Nenhuma só maldição, nenhum protesto, nem sequer um mal dissimulado grunhido de desgosto.

                            Jessi piscou ante aquela visão tão estranha. Logo elevou o olhar para Cian. Depois voltou a olhar aos obedientes cordeirinhos.

                            -Não tentarão nos seguir quando formos - disse Cian-. Guardarão silêncio e permanecerão imóveis até um bom momento depois de que nos tenhamos ido.

                            Suas palavras lhe recordaram a forma em que tirou de cima ao Mark no corredor da universidade, como tinha feito obedecer pelos porteiros do hotel, e dominado ao empregado de recepção quando se inscreveram.

                            Como o fazia? O que era Cian MacKeltar?

                            -Vêem, moça - disse ele.

                            Jessi não se moveu do lugar enquanto o avaliava com suspeita, em um intento de decidir se sentia, embora fosse muito levemente obrigada a obedecê-lo por alguma força inexplicável.

                            Não.

                            Separou-se dele uns centímetros, só para estar segura. Levantou o nariz desafiadoramente. Fez-lhe uma careta.

                            Sem novidade. Sentia-se a mesma de sempre, voluntariosa e cheia de livre-arbítrio.

                            Mas aparentemente ele não pensou enquanto voltava a dirigir o olhar para o mostrador de recepção.

                            -O que lhes tem feito? -quis saber.

                            -Isso requereria uma larga explic...

                            -Sei, sei - o cortou ela com um suspiro de paciência-, e não temos tempo, verdade? Perfeito. Diga-me só isto: Pôde fazer que apagassem de seus computadores de que estive aqui?

                            Ele pareceu perplexo por um instante, e logo uma lenta compreensão apareceu em seus olhos cor uísque.

                            -Ah, refere-te para que não possam te relacionar com a habitação manchada de sangue! Sim, posso fazê-lo. Mas teria que me guiar. Há muitas coisas de seu século que me escapam.

                            Foram ao mostrador de recepção, onde Jessi lhe explicou o que devia fazer.

                            Cian deu uma seca série de ordens aos empregados, e Jessi contemplou com abjeta fascinação como estes obedeciam sem titubear e abriam seus fichários da habitação 2112. Rescindiram todas as transações de crédito e a fizeram desaparecer dos bancos de dados do hotel. Jessi não sabia o que era o que fazia aquele homem nem como o fazia, mas fosse o que fosse estava claro que era um autêntico peso pesado no departamento de persuasão carismática.

                            Um grande problema acabava de ficar resolvido. Jessi por fim pôde dizer adeus a suas visões de baratas e escaravelhos hipertrofiados, e de ter que chamar a sua mãe desde algum país do terceiro mundo.

                            Enquanto os empregados terminavam de dar os últimos toques, Jessi se separou de Cian e caminhou uns metros para jogar um olhar ao fisiculturista e sua esposa. Imóveis e em silêncio, ambos mantinham a vista fixa na parede. Seus olhos tinham a mesma expressão vidrada e vazia que os dos empregados do hotel. Isso era outra coisa da que Jessi tampouco se deu conta antes, provavelmente porque sempre estava muito entretida olhando aquele highlander tão sexy para emprestar muita atenção às pessoas que havia a seu redor.

                            -O que lhes faz? Como o faz?

                            Ele colocou o espelho debaixo do braço e lhe agarrou a mão. -Agora não, moça. Temos que ir.

                            -"Agora não" -grunhiu ela-. Não entendo como é que cada vez que tenho perguntas, sempre é "agora não". Começo a suspeitar que nunca será o momento.

         12

                            -Não pode ir um pouco mais depressa? -Cian olhou a Jessica por cima do espelho, que voltava a estar posto de lado entre os assentos do carro.

                            Aborrecia não saber de quanto tempo dispunha. Ignorá-lo fazia que tudo parecesse mais premente.

                            -Só se pode lhe ordenar ao tráfico de Chicago que se vá a outra parte em uma manhã chuvosa de sexta-feira - disse ela, ao tempo que punha os olhos em branco e assinalava com a mão as ruas cheias de carros. Logo lhe dirigiu um olhar com cenho por cima do espelho-. Não pode, verdade?

                            -Não. Moça tem que ir o mais rápido possível. Escapa deste caos à primeira oportunidade que se apresente.

                            Voltou a sumir em seus pensamentos, logo que ouviu o sardônico "Senhor, sim, senhor" com que lhe respondeu ela.

                            O segundo ataque tinha chegado muito antes do que esperava Cian. Para falar a verdade, não o esperava absolutamente. Não depois de que se alojaram no imenso "hotel" da Jessica.

                            Isso lhe fez compreender que estar no século dela o situava em uma tremenda desvantagem, uma que não tinha nenhuma maneira de compensar. Porque, embora tivesse devorado um sem-fim de tomos e publicações e estudado incessantemente o mundo que havia além da janela do estúdio de Lucan - preparando-se, sempre se preparando para qualquer oportunidade de chegar a vingar-se-; embora soubesse da existência de coisas como os computadores, os carros, os aviões e a televisão, também sabia qual era a população atual do mundo. E o highlander do século IX que havia nele tinha acreditado - enquanto deixavam a universidade para ir ao coração de uma cidade de semelhantes proporções- que seriam tão difíceis de localizar como uma bolinha de pó em um palheiro do tamanho da Escócia.

                            Estava equivocado. Completamente equivocado.

                            Cian não conhecia o suficiente o mundo da Jessica para que pudesse chegar a vê-lo como um todo harmônico. Podia estar familiarizado com as estatísticas e conhecer os inventos modernos, mas não podia perceber instintivamente a forma em que umas coisas encaixavam com outras. Ter lido todos os livros do mundo não manteria com vida a um homem na batalha. Um guerreiro tinha que conhecer seu terreno e entendê-lo.

                            E ele nem o conhecia nem o entendia.

                            Precisava levar a Jessica a algum lugar que lhe resultasse familiar.

                            Lucan não se faria com aquela mulher. Cian não permitiria que o muito bastardo chegasse a lhe tocar embora fosse um cabelo de sua preciosa cabeça.

                            -Não sei como conseguiram dar conosco - resmungou sombriamente.

                            Jessi exalou um ruidoso suspiro.

                            -Eu sim que sei. Sou uma metida - lhe informou com tristeza.

                            Ele a olhou com um leve tremor de hilaridade nos lábios. Os idiomas modernos o confundiam, mas ao menos os reconhecia por ou que eram.

                            -Não, moça, eu não vejo que seja isso. Não há nada em ti que se pareça com nenhuma porção de minha anatomia - disse alegremente, em um intento de a pôr de melhor humor e evitar que voltasse a pensar na horrível cena que tinha tido lugar não fazia muito ante ela.

                            Cian nunca se havia sentido tão frustrado e apanhado dentro do cristal como quando teve que recorrer à ameaça de deixá-la ir ao cárcere para fazer que parasse de gritar, quando em realidade quão único queria era tomá-la em seus braços e acalmá-la com seu corpo. Sossegar seus gritos com seus beijos consolá-la. Fazer que aquele maldito cadáver desaparecesse de seu entorno.

                            Em lugar disso, contou-lhe histórias de sua infância para que pensasse em outras coisas e como maneira de ajudá-la a passar o tempo. Em voz baixa e cheia de doçura, teceu para ela toda a magia das Highlands que pôde. Deixou fora de suas histórias as lembranças mais terríveis, os de um menino que à tenra idade de dez anos tinha tido que assumir a responsabilidade de escolher os bandos e as batalhas e enviar a uns homens que tinham sido os melhores companheiros de seu pai, uns homens que tinham sido como pais para ele, a morrerem no campo de batalha.

                            Um menino que nascia sendo laird de um castelo nas Highlands crescia muito depressa. Ou perdia a seu clã. Ou morria. Cian não aceitava facilmente a perda nem a morte.

                            Falou-lhe de seus dias do verão quando o sol iluminava a urze, do frio prazer de nadar nas águas de um lago em um dia de calor, de suas sete queridas irmãs e suas inacabáveis buscas de maridos aos que ele pudesse dar sua aprovação.

                            Jessica era uma mulher fascinante.

                            "E não é para ti", advertiram-lhe os escassos farrapos de humanidade que ficavam.

                            Não, Jessica não era para ele, mostrou-se de acordo com esses farrapos, e se alegrou de que só fossem farrapos e não pudessem chegar a apresentar nenhum argumento de maior peso.

                            Porque Jessica seria dele. Apesar dos débeis protestos de sua honra, seduziria-a logo que conseguisse levá-la a algum lugar onde não corressem perigo. Da noite em que o lambeu tinha sabido que possuiria a aquela mulher. Ao diabo com as conseqüências.

                            Por que não? Depois de tudo, a ele já o tinham amaldiçoado. Antes de desfazer do cadáver da assassina, tinha-a registrado minuciosamente. A morta não levava em cima mais que armas. Cian tinha pegado uma faca e duas armas de fogo, que agora estavam ocultas em suas botas.

                            Aquela mulher não pretendia matar a sua Jessica.

                            Se tivesse querido matá-la, teria usado uma de suas armas de fogo. Cian sabia muito sobre as armas modernas, que o fascinavam. Já fazia tempo que desejava fazer-se com uma arma de fogo e averiguar do que era capaz. Dentro dele havia um guerreiro do século IX que nunca deixaria de sentir um secreto amor pelas grandes batalhas e o bom armamento.

                            Não, a assassina pretendia deixar inconsciente a sua mulher para poder levar consigo, não matá-la. Por isso tinha recorrido à agulha, em vez de usar a faca ou à bala.

                            Compreendê-lo fez aflorar todo um novo manancial de ódio por volta do homem que tinha sido seu carcereiro durante tantos séculos. Lucan tinha se informado da existência da Jessica St. James de algum jeito, e a queria com vida. De vez em quando, Lucan se entretinha um momento com uma mulher diante do Cristal Escuro, sem lhe importar que ela visse ou ouvisse Cian, porque de todas as formas não sobreviveria para falar disso. Ao Lucan adorava romper as coisas. Sempre lhe tinha gostado. Quanto mais custavam de romper, mais desfrutava ele fazendo-o.

                            Mas esses eram pensamentos escuros. Pensamentos de um tempo que nunca retornaria, porque Cian nunca voltaria a ser propriedade de Lucan Trevayne. Nunca voltaria a estar pendurado na parede do estúdio desse bastardo para ver como uma mulher inocente era submetida a toda classe de abusos sexuais e lhe dava morte depois.

                            Dava igual qual pudesse ser o preço da vingança. Ou da liberdade.

                            Já fazia muito que Cian tinha aceitado aquele preço.

                            -Não quer saber o que fiz? -estava dizendo Jessica.

                            -Sim, quero sabê-lo. -Cravou o olhar em seu perfil. Ela mordiscou o lábio inferior um momento, e a Cian bastou pensar em ser mordiscado por aquela boca tão sensual para que lhe endurecesse o membro.

                            -Usei um cartão de crédito. -Soava desgostada consigo mesma-. Já sei que nas novelas e nos filmes os maus sempre seguem a pista através desse tipo de transações, mas pensava que isso só era um exagero cultivado pelos meios para que não hajam tempos mortos na história. -Olhou-o com cenho-. Quero dizer que, venha já, tão capitalista é esse Lucan que pôde averiguar onde usei meu cartão de crédito quando só fazia umas horas que tinha jogado mão dele?

                            Cian encurralou firmemente seus pensamentos luxuriosos. Precisava entender esse tipo de coisas. Eram vitais para sua capacidade de manter com vida a Jessica e impedir que lhe ocorresse nada.

                            -Me explique o que são esses "cartões de crédito", moça. Uma vez tinha visto na televisão um anúncio para aquelas coisas, no qual uns guerreiros pintados que empunhavam enormes paus caíam como uma horda sedenta de sangre sobre alguém que tinha usado o cartão equivocado, mas não podia entender como usá-lo podia bastar para delatá-lo.

                            Quando lhe teve esclarecido o propósito dos cartões de crédito, e explicado os registros que gerava seu uso, Cian soltou um bufido. Agora entendia como tinha arrumado Lucan para dar com eles tão depressa. Por todos os diabos, podia ser que a intimidade simplesmente tivesse desaparecido do mundo da Jessica? Esses seus computadores faziam que tudo estivesse conectado a alguma outra coisa. Tudo o que um homem dizia e fazia passava a ser do domínio público ou semi público, o que era atroz para um montanhês que preferia que ninguém estivesse à corrente de seus assuntos.

                            -Ele é assim de poderoso, moça. Não tem alguma outra forma de moeda?

                            -Não em quantidade suficiente para sair do país, que é o que começo a pensar que temos que fazer - disse ela lúgubremente.

                            Sim, nisso tinha toda a razão.

                            O fato de que ele nem sequer tivesse sabido que Jessica fazia algo ao que lhe podia seguir a pista - que os revelava tão claramente como um X em um mapa-, porque não entendia o que era um cartão de crédito, significava que não podia esperar evitar que estivessem expostos em todo momento.

                            Não aqui, em todo caso.

                            Agora Cian sabia que o mundo do século XXI continha muitas variáveis além de sua compreensão para que pudesse chegar a controlá-lo.

                            O que significava que teria que fazê-la retroceder no tempo.

                            Por desgraça, não literalmente - não através do Ban Drochaid, as pedras da Ponte Branca custodiadas pelos Keltar; inclusive Cian dava crédito à lenda dos draghar, e não queria ser possuído pelos treze malvados anciões-, a não ser figurativamente.

                            Isso sim podia fazê-lo.

                            Se conseguir entrar o suficiente nas Highlands, então poderia viver com ela durante os próximos dezenove dias empregando os meios do século IX. Meios aos que não lhes podia seguir a pista mediante os métodos modernos. Podia cobri-la em cavernas, esquentá-la com seu corpo, caçar para trazer alimento, e dar-lhe com suas próprias mãos. De acordo com os Velhos Costumes, esses costumes seguidos durante muito tempo mediante as que um homem satisfazia as necessidades de sua mulher.

                            Quão único tinham que fazer era cruzar um oceano. Depressa e sem deixar nenhum rastro.

                            Buscaria-o Lucan ali?

                            Sem dúvida, assim que compreendesse que ele já não estava em Chicago. Lucan o conhecia quase tão bem como ele conhecia Lucan.

                            Mas ali, longe das moradias humanas, Cian teria um pouco mais de vantagem. Lucan nunca tinha amado a natureza, inclusive no século IX, e preferia evitar o exercício físico para ir em busca das comodidades. Sim, quando por fim estivesse nas colinas Cian teria tudo a seu favor.

                            -Me conte tudo o que saiba sobre a viagem moderna - ordenou que-. Fale-me de seus aeroplanos, aonde vão, com que freqüência viajam, onde pode te fazer com um, e como. Conta-me com o maior detalhe possível. Dê-me uma vista a olho de pássaro, moça. Preciso saber tudo, até os fatos mais insignificantes que a ti possa te parecer que carecem de importância. Sou um homem do nono século, moça. Trate- me como tal.

                            Já quase era meio-dia quando Jessi exigiu que fizessem uma parada para comer. Tinha muita fome. Ele podia não precisar comer, sendo imortal ou o que queira que fosse, mas ela sim. A primeira vez que falou com o serviço de habitações não vieram. A segunda vez, os pratos acabaram manchados de sangue. Além de uma barra de chocolate e um saquinho de amendoins que encontrou em sua mochila, Jessi não tinha comido absolutamente nada durante as últimas trinta e seis horas.

                            Desde que saíram de Chicago, Cian a tinha submetido a um consciencioso interrogatório sobre virtualmente todos os temas imagináveis, dos meios de transporte até os computadores passando pelos lugares nos que podiam alojar-se e as transações monetárias.

                            Depois de escutá-la durante um momento, disse-lhe que não podiam arriscar-se a sair do país por O'Hare ou Midway; que se Lucan tinha homens apostados em algum lugar para que o informassem de sua presença, estariam nos dois aeroportos locais.

                            Jessi seguia sem poder acreditar que fossem tentar sair do país, e não tinha nem idéia de como pensava ele fazê-lo.

                            Indicou-lhe que fora ao aeroporto mais próximo. Jessi não sabia se Indianápolis realmente era o aeroporto que ficava mais perto, mas era o único para o que tinha encontrado uma rota a partir de um mapa.

                            Fizeram uma parada um pouco ao leste do Lafayette, Indiana, a uns quarenta e cinco minutos do aeroporto pelo I -65.

                            O aroma de batatas fritas e frango frito fez que ao Jessi fizesse água na boca, nada mais que deter-se dentro do Super-Frango. Sempre tinha a impressão de que os fazia um favor às vacas quando comia ali, e além adorava todas essas ridículas cercas publicitárias junto às auto-estradas com sua campanha COMA MAIS FRANGO. DA NOVA DIETA QUE FAZ FUROR: O FRANGO até SEJA BOM COM AS VACAS. E COMA FRANGO, os anúncios nos que se viam vacas brancas com manchas negras hasteando cartazes que promoviam o consumo de frango lhe faziam soltar gargalhada cada vez que via um.

                            -Irei procurar comida e comeremos dentro do carro - tinha insistido ele-. Temos que seguir em movimento.

                            -Se como enquanto conduzo - discrepou ela-, seguro que me chocarei com algo. Se chocar com algo, o espelho provavelmente se romperá. -Sentia as pernas intumescidas, precisava ir urinar, e começava a estar um pouco irritável-. O que seria de ti então?

                            Isso pareceu deixado bastante impressionado. "Jantaremos a coberto."

                            Jessi tinha pedido seis cubos de dedos de frango com um bom acompanhamento de batatas fritas cortadas em rodelas e agora, sentada a uma mesa com uma toalha de quadrados brancos e amarelos, dava boa conta de seu segundo cubo. Cian já ia pela metade do terceiro.

                            -Estas coisas não se parecem em nada aos dedos de frango de minha época, moça. E te asseguro que cheguei a ver uma boa quantidade de frangos e galinhas. Lembro-me de uma empregada das quadras que tinha uns... , bom, dá igual. As aves de curral que criam agora têm que ser muito maiores que em meus tempos. Tremo só de pensar no tamanho que terão seus bicos.

                            -Em realidade não são dedos de frango - se apressou a explicar, pois não queria ter que pensar em todas as imagens desagradáveis que isso lhe trazia para a mente, ao tempo que molhava um no molho de churrasco e lhe dava uma dentada. Tivesse deixado o tema nesse ponto, realmente o teria feito, mas seus lábios traidores tinham outras idéias-. O que era o que tinha essa empregada?

                            -Isso carece de importância, moça-disse ele, ao tempo que devorava outro dedo de frango com um par de bocados.

                            -Por que tiveste que mencioná-lo se carece de importância? -disse ela em um tom mal-humorado.

                            -Também o dei por resolvido, moça. -Dois dedos de frango mais seguiram o mesmo caminho que os anteriores.

                            -Não o tem feito. Deixou-o pendurando no ar. Agora mesmo está flutuando entre nós, e ver algo flutuando no ar sempre me põe nervosa. Faz que se vá. O que era isso que tinha aquela empregada?

                            Ele molhou uma roda de batata no ketchup e deu boa conta dela em questão de segundos.

                            -Galos, moça, tinha uns galos realmente notáveis. A que pensava que me referia?

                            Jessi já estava mais que zangada. Fulminou-o com o olhar uns instantes, e logo se apressou a apartar a vista. Já ela que mais lhe dava? De acordo, aquela sedutora do século IX possivelmente tinha uns olhos irresistíveis ou umas pernas magníficas ou um o que fosse que não estava nada mal. Mas seus peitos não podiam ser melhores que os seus. Pensar nos peitos fez que se tirasse a jaqueta com um encolhimento de ombros e se erguesse no assento. E que mais dava, em todo caso? Aquela sedutora do passado levava onze séculos morta. Agora o único que tinha que notável nela era que ainda houvesse alguém que se lembrava de seu aspecto.

                            -Voltemos para os frangos, moça. Se não são dedos de frango, por que os chama assim?

                            -Só é um nome fácil de lembrar que decidiram pôr - disse ela irritada, enquanto lhe atirava outra dentada a um dedo de frango-. A alguém do departamento de publicidade lhe ocorreu que podiam chamá-los assim para que resultassem mais atraentes.

                            -Seu século encontra atrativa a idéia de comer os dedos dos frangos? O que me diz das unhas?

                            Jessi bebeu um sorvo da Coca Cola. De repente sentia o frango tão seco como se fosse serragem na língua.

                            -Não acredito que ninguém que peça pense, embora seja por um segundo, nos dedos ou as unhas de um frango, do mesmo modo em que a ninguém lhe ocorre ficar a pensar nos bicos rosados de uma galinha ao comer um peito...

                            Calou e entreabriu os olhos. Ele tinha baixado a cabeça e as tranças lhe ocultavam o rosto, mas pôde ver claramente como uma risada silenciosa fazia tremer seus ombros.

                            O neandertal tirava o sarro.

                            E ela tinha picado.

                            Transcorridos uns instantes, Jessi sacudiu a cabeça e soltou um bufido. Cian MacKeltar se burlou não só de seu século, mas também dele mesmo, com um seco e sutil senso de humor. E ela acreditou o estereótipo que lhe apresentava: eu-enorme-e-estúpido-homem-arcaico. O bufido se converteu em uma risada, e logo a risada passou a ser uma gargalhada.

                            Ele levantou a vista imediatamente e cravou seu escuro olhar ambarino no rosto do Jessi.

                            -Esperava te fazer rir - disse brandamente-. Não vi muita felicidade em seus olhos desde que nossos caminhos se cruzaram.

                            -Não, suponho que não a terá visto. -Admitiu ela-. A verdade é que não tive muitos motivos para me sentir feliz. -Compartilharam uns instantes de amigável silêncio na mesa do Super Frango.

                            -Assim eram seus galos o que tinha tão notável essa empregada. Cian sacudiu a cabeça.

                            -Não, moça.

                            Ela franziu o sobrecenho.

                            -O que, então? Venha, foi você quem começou a falar dela.

                            Dirigiu-lhe um sorriso de fantasia de diabo.

                            -Nos estábulos não havia nenhuma empregada, Jessica. Mas não pude evitar me perguntar como te sentaria que a tivesse havido.

                            Cian MacKeltar não demoraria em ver que ele também podia surrupiar a informação que se negava a dar, pensou Jessi obstinadamente um momento depois enquanto apertavam o passo sobre as escorregadias folhas outonais molhadas através do estacionamento. A brisa de outubro que lhe despenteava os curtos cachos escuros prometia um inverno comprido e frio. A garoa que não tinha parado de cair desde que saíram de Chicago cedeu o passo a uma fina névoa, mas o céu ainda estava cheio de escuras nuvens que ameaçavam descarregando precipitações muito mais intensas. Jessi separou da cara os curtos cachos escuros e se apertou a jaqueta jeans. Em claro contraste com o frio, seu gênio estava vermelho vivo; não podia evitar sentir-se furiosa e humilhada pela facilidade com que a tinha manipulado Cian MacKeltar. Logo que conhecia aquele homem, e mesmo assim tinha sentido ciúmes por ele. Duas vezes. Em questão de horas. Isso não era nada próprio dela. E o fato de que apenas o conhecesse começava a irritá-la. Já tinha aceitado o fato de que teria que ficar com ele para sobreviver, mas, por Deus, queria saber algo mais sobre o homem que estava com ela.

                            Quem e o que era Cian MacKeltar? E quem e o que era esse Lucan Trevayne que a queria morta só porque ela tinha visto seu ditoso artefato? Estava claro que ambos eram algo mais que meros homens.

                            Quando chegaram ao carro, Jessi se deteve junto à porta do assento do condutor e olhou a Cian através do teto com cenho.

                            Ele arqueou uma sobrancelha inquisitiva.

                            -Não penso seguir adiante com isto até que tenha respondido a algumas de minhas perguntas - disse ela.

                            -Jessica...

                            -Esta vez seu "Jessica" não se deixará convencer assim... Assim - repôs sardonicamente-. Só peço cinco minutos. Não acredito que cinco minutos vão fazer que nos matem. O que é, Cian?

                            Ele a avaliou com o olhar por um comprido instante, e logo encolheu um poderoso ombro.

                            -Sou um druida, moça.

                            -Um druida? -piscou ela-. Refere a esses tipos tão aficionados ao muérdago que colocam largas túnicas brancas e estavam convencidos de que podiam comunicar-se com o outro mundo través dos sacrifícios humanos ? -Em sua especialidade acadêmica, Jessi se encontrava a cada momento com referências a aquela misteriosa e tão desprezada classe sacerdotal.

         O famoso Homem e Lindow, que tinha morrido a finais da Idade do Ferro em um pântano do Cheshire onde uns trabalhadores braçais que foram cortar turfa encontraram seu corpo preservado em 1984, evidenciava sinais de assassinato ritual e, como seu estômago continha pólen de muérdago, especulou-se muito a respeito de sua possível relação com os druidas.

                            Cian torceu o gesto.

                            -Ai, isso é o que o mundo de agora pensa de nós?

                            -Mais ou menos sim. Está-me dizendo que os druidas realmente eram alguma classe de magos? Como Merlin ou algo pelo estilo?

                            Ele passeou um olhar cheio de cautela pelo estacionamento. -Jessica, há magia em tudo o que te rodeia. A gente não sabe por que aqueles que a possuem tomam todas as precauções possíveis para ocultá-lo. A magia sempre existiu, e sempre existirá.

                            Jessi entreabriu os olhos.

                            -E esse Lucan também é um druida?

                            -Houve um tempo em que o era. Mas se converteu em um feiticeiro escuro.

                            Uma semana antes, Jessi teria rido na cara de quem ousasse afirmar que existiam semelhantes coisas. Logo tivesse começado a lhes perguntar pelos leões, os tigres, os ursos e as sapatilhas de rubi com sistemas de tele transporte incorporados. Mas agora pôs os cotovelos no teto molhado do carro, apoiou o queixo nas mãos e se limitou a suspirar e dizer:

                            -Vale, e que diferença há?

                            -Um druida nasce com a magia no sangue. Um feiticeiro escuro adquire sua magia através de rigorosos estudos e um comprido processo de aprendizagem das artes negras, reforçado mediante rituais e feitiços. Um druida respeita a natureza inata das coisas e deixa que o universo siga suas próprias pautas. Um feiticeiro escuro perverte a natureza das coisas para adaptá-las a seus próprios fins, e troca as pautas do universo sem parar a pensar nas conseqüências. Um druida procura o conhecimento para curar e nutrir. Um feiticeiro procura chegar a conhecer os perigosos segredos da alquimia para transformar e controlar. Um druida convertido em feiticeiro escuro é muito mais capitalista que um simples feiticeiro ou um simples druida.

                            -Bom, se esse Lucan é um druida que se converteu em um feiticeiro escuro e você só é um druida, e um druida que se converteu em um feiticeiro escuro tem muito mais poder, então como planeja derrotar A... ? OH, complicações! Merda!

                            A compreensão tinha chegado por fim, e Jessi retrocedeu até que suas costas se chocou com o carro estacionado.

                            -Olhe que posso ser lenta de entender, caramba - ofegou-. Porque você é um dos maus, também, verdade? Você também te converteu em um feiticeiro escuro, não? É a única explicação que tem sentido.

                            Ele entreabriu seus olhos cor uísque.

                            -Sobe ao carro, Jessica - disse brandamente. Ela sacudiu a cabeça.

                            -Ah, não. Nem o sonhe. Ainda não terminei. Ainda não me falaste que essa forma de dar ordens que te vi usar. Quando diz às pessoas que faça coisas, e eles simplesmente vão e as fazem. No que consiste exatamente essa magia, a tudo isto?

                            Um músculo estremeceu na mandíbula dele e a contemplou em silencio por um instante que pareceu fazer-se muito comprido. Logo disse:

                            -É a arte druídica da Voz. Alguns a chamam a Voz do Poder. -Não via nenhuma necessidade de lhe explicar que outros a chamavam a Voz da Morte, se o druida era o bastante poderoso. E ele o era. Embora não tinha sabido que podia matar com sua língua até que foi muito tarde, porque então já tinha matado com sua língua-. É um feitiço de compulsão, moça. Agora sobe ao carro. A tormenta piora.

                            Mas Jessi não estava disposta a permitir que uma inoportuna tormenta a interrompesse agora. Tinha sua própria pequena tormenta interior em caminho, e podia senti-la crescer dentro dela. Aquilo não o fazia nenhuma graça. Absolutamente nenhuma.

                            -Pode fazer que façam coisas que não querem fazer? Como por exemplo, coisas más que iriam seriamente contra sua vontade? Dão-se conta do que lhes está acontecendo quando o faz? Lembram-se quando tudo terminou? -quis saber.

                            O músculo voltou a saltar na mandíbula dele.

                            -Entra no carro, Jessica. Tento te manter com vida - disse sem perder a calma.

                            -E se me nego? -repôs ela com a mesma calma-. Recorrerá à força para me fazer subir ao carro? Obrigará-me a entrar nele? Agora que penso nisso, surpreende-me que ainda não tenha tentado usar essa tua Voz sobre mim. Por que te incomoda em me tratar com tantos olhares quando poderia me ordenar que fizesse o que quisesse? Caramba, você nem sequer tem que seduzir a uma mulher, poderia te limitar a lhe ordenar que... -Se calou e o olhou com os olhos muito abertos.

                            -Sobe... ao... carro... Jessica.

                            -OH, Deus, já tentaste usar comigo -exclamou ela-. O tentou assim que te liberei do espelho. Tentou fazer que te beijasse e te mostrasse os peitos. Verdade que sim?

                            O rosto esculpido dele era uma fortaleza. Se sentia alguma emoção, ficava completamente oculta. O olhar remoto inclinou a cabeça uma só vez.

                            Os raios caíram das nuvens detrás dele, intensas chamas cujos brilhos se recortaram sobre o escuro céu cinza aço de Indiana.

                            Jessi riu causticamente.

                            - E não funcionou, verdade? Pela razão que seja, o caso é que a Voz não surte efeito sobre mim.

                            Ele negou com a cabeça.

                            -Minha magia não surte nenhum efeito sobre ti.

                            Jessi ficou olhando enquanto tentava digerir aquela nova informação que dava um torcido completamente distinto à forma ingênua em que ela tinha acreditado as coisas. Tinha chegado a estar convencida de que Cian MacKeltar era o bom que a mantinha a salvo do mau.

                            Para descobrir que no mundo da Jessica St. James não havia bons.

                            Só havia maus e piores.

                            Queria saber exatamente como quanto pior era ele.

                            -Pergunto-me até onde teria sido capaz de levar as coisas, Senhor Pobrezinho-de-mim-estou-apanhado-em-um-espelho-mágico. Se tivesse funcionado, se me tivesse tirado o suéter e tivesse mostrado os peitos, até onde teria chegado depois?

                            -Até onde diabos você crê que teria chegado?

                            -Pergunto-lhe isso a ti. Até onde? -insistiu ela.

                            -Levo mil cento e trinta e três anos sem fazer o amor, Jessica

                            -respondeu ele secamente-. Sou um homem.

                            -Até onde? -repetiu ela com voz gélida.

                            -Até o final, mulher. Todo o maldito caminho. E agora sobe no maldito carro. -Um relâmpago seguido por um trovão ensurdecedor pontuou suas últimas palavras, como se a mesma natureza conspirasse com ele.

                            Jessi o olhou em silêncio, com a chuva lhe escorregando pela cara e lhe salpicando o peito enquanto sopesava suas opções. Decidida a ser brutalmente honesta consigo mesma.

                            Podia ir-se agora. Sozinha, sem mais recursos que os seus. Para ver se era capaz de desaparecer durante os próximos dezenove dias.

                            O homem que a perseguia era um feiticeiro do século IX que a queria morta.

                            O homem que a mantinha com vida era outro feiticeiro do século IX que queria praticar o sexo com ela e estava disposto a usar a magia para conseguir.

                            Sua vida ou sua "virtude".

                            Também terei que levar em consideração o fato de que era uma virtude que ela tinha estado a ponto de entregar por vontade própria.

                            Certo que nesses momentos se encontrava tão alterada que não podia pensar com claridade, mas tinha estado a ponto de fazê-la.

                            Jessi subiu no maldito carro.

                            13

                            O Cristal Escuro reclamou a Cian quando sobrevoavam o oceano Atlântico a uma altitude de cruzeiro de onze mil metros.

                            Ao menos esta vez não estava a ponto de praticar o sexo, assim Jessi não se viu obrigada a fazer frente a um severo episódio de hostilidade hormonal, e economizou ter que envergonhar de si mesma ante sua terrível falta de fibra moral.

                            Apressou-se a olhar a seu redor quando ele se esfumou, e viu como alguns dos passageiros davam um bote no assento. Não a surpreendeu descobrir que outras pessoas tinham tido os olhos fixos nele quando desapareceu. Cian era a classe de homem a que a gente fica olhando. Em certos casos porque se perguntavam como seria fazer com aquele homem tão imponente que exsudava testosterona (Jessi era um desses casos), em outros porque lhes preocupava o que pudesse ser de suas carteiras, suas bolsas ou suas vidas (e Jessi também era um desses casos).

                            Nenhum dos olheiros abriu a boca. Alguns talvez acreditassem que aquilo tinha acontecido realmente, mas não pareciam ter nenhuma pressa por falar do assunto.

                            Jessi conteve a risada. "Já estive ali, e também passei por isso.

                            As primeiras vezes que o vi pensei que tinha perdido o julgamento."

                            Subiu até o queixo a gasta manta azul da companhia aérea e tentou fingir que tudo estava em ordem, que tinha subido a bordo só e não tinha deixado de estar durante todo esse tempo. Já estava preparada para vê-lo desaparecer. Antes que embarcassem, havia dito que o Cristal Escuro sem dúvida o reclamaria muito antes que chegassem à Escócia.

                            Escócia, Complicações. Tinha saído do país! A vida tal como a conhecia - trabalhar, estudar e todos os planos que tão minuciosamente tinha se planejado afastava dela à assombrosa velocidade de mil quilômetros por hora.

                            Não tinha acreditado que pudessem conseguir, até que chegaram ao aeroporto de Indianápolis e Cian MacKeltar procedeu a obsequiá-la com uma impressionante exibição de suas formidáveis "tatoos".

                            Usou sua "Voz" para obrigar aos empregados do aeroporto a que remetessem o espelho ao compartimento de carga do avião que os levaria a Edimburgo. Não queria deixar nenhuma perseverança de seu passo por ali, assim optou por não obter bilhetes e usou a "persuasão" para passar através do sistema de segurança e os agentes armados. Não tinha nenhum vôo direto à Escócia disponível, e Cian não queria ter que passar por Londres, já que isso os levaria muito perto de Lucan para seu gosto, assim que os "Vozeou" a bordo do Boeing 747 que antes faria escala em Paris, com a palma de sua ou acompanhada por umas quantas ordens o mais concisas possível por toda documentação.

                            Jessi olhava com um abjeto assombro, dissesse o que dissesse ele, a gente acreditava e obedecia. Em silêncio, docilmente, com o olhar vazio de toda expressão. Também tinha usado umas quantas ordens de "esquecer", embora explicou que resultava bastante complicada de dar e que só empregava as de natureza mais leve, para ganhar o maior tempo possível. Contou-lhe que um autêntico feitiço de esquecimento exigia muito tempo e era arriscado, porque a mente se esforçava por reter os rastros que havia nela, e estava acostumado a ocorrer que apagar uma lembrança danificasse muitas outras. Era um tipo de dano de que estava claro não queria ser a causa, algo que Jessi encontrou interessante para um druida - convertido - em - feiticeiro - escuro.

                            Quando estiveram a bordo e se deixaram cair nos assentos que havia junto à saída de emergência (duas aeromoças de voz cantarina se ofereceram, em um tom que a Jessi pareceu excessivamente açucarado, a trocar de lugar umas quantas coisas para que aquele escocês tão alto e bonito pudesse "esticar um pouco as pernas", grrr...),

                      Jessi já tinha uma idéia bastante clara de por que seus "talentos" não funcionavam com ela.

                            Em realidade tinha chegado a sentir como tentavam sortir efeito sobre sua mente.

                            Cada vez que lhe aplicava a compulsão a grande escala, Jessi sentia que a cabeça começava a picar por dentro, justo em cima da placa metálica com a que lhe tinham unido o crânio, que era precisamente o que havia sentido quando o liberou pela primeira vez e ele tentou obrigá-la.

                            Era como se as ordens que ele dava se chocassem com sua placa metálica e a fizessem vibrar sob sua pele. Jessi não tinha nem idéia da que podia dever-se exatamente, e só sabia que a placa a defendia de sua magia.

                            Obrigado, Meu deus! Pela primeira vez em sua vida, Jessi agradeceu ter sofrido aquela horrenda queda em que se partiu o crânio. "Até o final, mulher", havia dito ele sob a chuva no estacionamento do Super-Frango. Com o que queria dizer que teria usado a Voz sobre ela para poder praticar o sexo.

                            Isso a tinha afetado. Profundamente.

                            Até que se deu conta de que ele estava mentindo.

                            Ele talvez acreditasse que a teria obrigado a ir até o final, mas Jessi não acreditava.

                            Sempre tinha julgado às pessoas por suas ações, não por suas palavras. E as ações dele simplesmente não corroboravam suas palavras. Cão ladrador, pouco mordedor. Até as ordens que deu para que pudessem subir ao avião tinham sido medidas com muito cuidado. Usou o mínimo de coerção necessário para alcançar seus objetivos.

                            O que estava muito claro era que um homem disposto a usar a magia para praticar o sexo com ela contra sua vontade, simplesmente tivesse trocado de tática quando falhou a magia e teria passado a usar sua imensa superioridade física para violá-la.

                            Sobre tudo depois de onze séculos de celibato forçoso.

                            Cian era quase dois metros de puro músculo. Tinha tido múltiplas oportunidades de fazer o que quisesse.

                            E não lhe tinha feito nenhum dano.

                            Jessi subiu as pernas ao assento e se acomodou debaixo da manta.

                            As luzes estavam baixas, tinha sido outro dia muito comprido, e o zumbido dos motores era como uma canção de ninar que a ajudava a conciliar o sonho.

                            Fechou os olhos, ficou a pensar no poder que ele tinha-a arte druídica da Voz, tinha-o chamado- e tentou imaginar como seria poder fazer que qualquer pessoa fizesse o que você quisesse, meramente com apenas uma decisão sua.

                            Sentiu-se aniquilada pelas possibilidades.

                            E pela impressionante responsabilidade.

                            Druida - convertido - em - feiticeiro - escuro? Jessi não acreditava. OH, um pouquinho mau possivelmente assim era, mas aquele homem não era nenhum malvado. De fato, à vista de tudo o que provavelmente fosse capaz de fazer, quase parecia um modelo de contenção.

                            Jessi bocejou e se perguntou que idade ele teria quando percebeu que podia fazer obedecer por outros. "Voz" significava poder consumado, liberdade consumada. Significava que podia viver com a mais absoluta impunidade.

                            Que não precisava dar desculpas nem pedir desculpas.

                            Se ela possuísse esse dom, pensou enquanto começava a dormitar poderia subir a um avião quando desse a vontade, voar a Inglaterra e fazer que lhe deixassem comer de beijos os monumentos de Stonehenge. Ou ir a Irlanda, visitar os museus e tocar todos os objetos que continham. Até poderia levar para sua casa, pelo amor de Deus!

                            Ou, fantasiou, poderia ir a um banco, fazer que lhe dessem uns quantos milhões de dólares, comprar casas em dez países distintos, e passar o resto de sua vida divertindo-se ao sol em impolutas praias brancas. Ou, ao diabo com o dinheiro, poderia ir a esses países e fazer que as pessoas dessem suas casas. Perguntou-se a quantas pessoas poderia chegar a controlar simultaneamente com a Voz em um momento determinado, e durante quanto tempo. Certamente haveria limites.

                            -Semelhante quantidade de poder - murmurou com um suspiro sonolento. O mundo seria literalmente seu quarto dos jogos.

                            Mas embora Cian MacKeltar tinha todo esse poder, viu-se apanhado dentro de um espelho por séculos apos séculos.

                            Forte corpo de guerreiro, mas mãos muito suaves. Com uns dotes mágicos e, entretanto, apanhado.

                            Cian MacKeltar era todo um enigma!

                            Uns segundos antes que o sono a reclamasse ocorreu pensar que provavelmente deveria estar muitíssimo preocupada que - inclusive rodeada pelo caos absoluto em que se converteu sua vida- ele fosse um enigma que morria de vontades de decifrar.

         An dit a bhfuil do chroi is ann a thabharfas do chosa thú.

                            (Seus pés lhe levarão onde está seu coração.)

                            VELHO DITADO ESCOCÊS

                            Segunda parte

                            Escócia

         14

                            A muito inoportuna hora das 3.00 da madrugada

                            Aeroporto do Edimburgo

                            Domingo, 15 de outubro

                            -Não, não tenho nenhum comprovante de bagagem - disse Jessi à mulher de atrás do mostrador, pela quinta vez, além da exasperação-. Já o disse. Mas posso descrever-lhe com a máxima exatidão. Sem me esquecer nem um só detalhe. Tanto a caixa como seu conteúdo. Como eu ia saber que existe semelhante caixa, por não mencionar o que há dentro dela, a menos que fosse minha?

                            - E eu já disse -soprou a mulher- que aqui não entregamos nada se não houver um comprovante, senhorita.

                            -É que não entende que necessito dessa caixa? -disse Jessi no tom mais premente de que foi capaz.

                            -Entendo-o perfeitamente - replicou a cinqüentona de cabelos loiro cinza, sem o menor rastro de emoção em seu rosto alisado pelo Botox, mas com um inconfundível tom zombador em sua voz-. Você quer recolher algo para o que não tem um comprovante de entrega. Qual seria sua reação se eu permitisse que outra pessoa levasse seu pacote sem dispor de um comprovante de entrega? Como quer que leve um controle sobre nossos pacotes se deixarmos que a primeira pessoa que venha os leve sem a devida autorização? Essa é a razão, senhorita, pela que damos esses comprovantes. Ter o comprovante permite recuperar o pacote correspondente a esse comprovante. Pode apresentar uma reclamação por perda do comprovante, se o desejar.

                            -Quanto tempo demorarei em recuperar meu pacote se apresentar uma reclamação por perda do comprovante?

                            -Processar uma reclamação por perda do comprovante pode demorar desde várias semanas até vários meses.

                            Jessi não era pessimista por natureza, mas teria jurado que uma nota de presunçosa satisfação acabava de infiltrar-se na voz da mulher, e de repente não coube dúvida de que qualquer reclamação que apresentasse tenderia a demorar vários meses em ser processada. Pela razão que fosse, tinha caído mal a aquela mulher do primeiro momento, e agora não queria ajudá-la.

                            E sem o espelho, Jessi estava perdida. Levava a impressionante soma de quarenta e dois dólares com dezessete centavos na bolsa. OH, claro, tinha um cartão de crédito, mas Lucan saberia exatamente onde se encontrava logo que decidisse usá-lo. Jessi necessitava a conta bancária ilimitada da mágica e sedutora voz de Cian MacKeltar.

                            Tinha que recuperar o espelho como fosse. E estava muito claro que aquela mulher não tinha nenhuma intenção de facilitar as coisas. Algumas pessoas nasciam para solucionar os problemas e outras nasciam para piorá-los. Aquela mulher era uma Encrenqueira com "E" maiúsculo.

                            Jessi resmungou um obrigado quase inaudível e se apressou a dar a volta antes de dizer algo que logo lamentaria.

                            Com um suspiro, trocou a mochila ao outro ombro dolorido, foi de novo pelo comprido corredor, saiu à parte principal do aeroporto e sentou cansativamente sobre uma dura cadeira de plástico.

                            Olhou seu relógio de pulso, o tirou e adiantou seis horas o ponteiro de relógio. Eram pouco mais das nove da manhã, hora do Edimburgo.

                            "Bom - se consolou-, o lado bom é que agora não cabe dúvida de que poderá sair, se consigo chegar até ele." Já tinham transcorrido mais de vinte e quatro horas em ambas os fusos horários da última vez que o libertou e, maldita fosse, o caso era que sentia falta daquele bárbaro dominante. Sentia falta de sua irritante sobrecarrega de testosterona, sentia falta de saber que em qualquer momento podia lhe dar um desses beijos que pareciam lhe aspirar ao cérebro através da orelha e a deixavam convertida em uma melosa gatinha sexual.

                            Jessi se recostou naquela cadeira que parecia saída de uma câmara de torturas, esfregou os olhos e respirou fundo.

                            "O vôo 412 que sai de Edimburgo com destino a Londres sairá... ", entoou alegremente uma voz feminina do alto-falante que tinha em cima.

                            Que sai de Edimburgo. Estava na Escócia. O fabuloso mobiliário de pedra da Skara Brae, com seus mais de cinco mil anos de antigüidade, não estava tão distante dali. A incrível capela Rosslyn ficava a só doze quilômetros de trajeto desde Edimburgo. As ruínas do Dunnottar e outros incontáveis tesouros antigos se elevavam além das portas do aeroporto.

                            E Jessi começava a pensar que nunca conseguiria chegar até ali. Sua ponte aérea procedente de Paris tinha chegado a terra fazia cinco horas.

                            E Jessi desde então tentava recuperar o espelho. Demorou quase uma hora só para chegar ao estúpido Departamento de Recolhimento de Objetos Especiais.

                            Não estava localizado nas imediações da área de bagagens, como tinha esperado Jessi, a não ser ao final de um corredor muito comprido, escondido na parte de trás do aeroporto e acessível unicamente através de um guichê que dava a um comprido mostrador encravado na parede. Achava-se tão deserto que Jessi não acreditou estar no lugar que procurava até que entreviu o diminuto letreiro escrito a mão em uma esquina do escritório. Quase parecia que queriam ficar com as bagagens não reclamadas. Possivelmente, pensou Jessi cinicamente, logo os leiloavam entre os empregados quando o período de tempo durante o que deviam os ter armazenados chegava a seu fim.

                            Nem sequer havia uma porta exterior que desse ao departamento, assim aparentemente o pessoal acessava a ele por algum outro lugar. "Se não houver nenhum nome escrito na caixa, aonde irá quando chegar ao Edimburgo?", tinha perguntado Cian, antes de obrigar aos empregados da companhia aérea a que colocassem o espelho em uma estraga e a remetessem.

                            "Teria que ir a bagagens não reclamadas." Ao Jessi não lhe ocorria outro lugar ao que pudesse ir parar. Sem um nome ou uma direção a qual devolvê-la, certamente não podiam enviar de volta.

                            Ela tinha aprendido essa lição pessoalmente, quando tentou livrar-se da caixa. Também sabia que os aeroportos estavam obrigados a guardar os objetos, inclusive os que não levavam nenhuma identificação, durante certo número de dias. Uma vez tinha perdido a bagagem, entre sua casa em Maine e a universidade em Chicago, e quando por fim voltou a emergir, resultou que não levava nenhuma só etiqueta identificativa.

                            "Se for a esse lugar das "bagagens não reclamadas" e a identifica, darão-lhe isso?", tinha insistido Cian.

                            "Não sei", replicou ela.

                            "Teremos que nos arriscar. Não quero que nossa viagem fique registrada em nenhuma parte. Se puder embora só seja entrar no lugar onde tenham guardada minha caixa e dizer o feitiço, poderei me liberar e usar a Voz para tiramos dali. Jessica, moça, sinto não dispor de um plano que cubra todas as eventualidades. Terá que improvisar."

                            Improvisar não tinha parecido uma tarefa tão complicada lá em Indianápolis. Mas então Jessi se sentia estranhamente invencível com ele a seu lado, e os dois tinham cometido o engano de acreditar que a caixa estaria em algum lugar onde ela pudesse chegar, se é que não recolhê-la.

                            Jessi gemeu brandamente e desejou ter embora só fosse um pingo dos incríveis poderes de Voz de Cian para empregá-los sobre a senhora Cara-de-pedra do Departamento de Recolhimento-de Objetos Especiais.

                            Embora se tivesse dado a oportunidade de chegar a fazer-se com esse poder, pensou, não estava do todo segura de que tivesse querido o ter. Certamente seria uma forma estupenda de saber quão boa era uma pessoa em realidade.

                            Sacudiu a cabeça e levantou da cadeira. Mataria um pouco de tempo com uma taça de café e um croissant, e logo voltaria a percorrer aquele comprido corredor e tentaria de novo.

                            Possivelmente teria a sorte de que a mulher tivesse saído a tomar um descanso e haveria outra pessoa no guichê.

                            A mulher não só não tinha saído a tomar um descanso quando Jessi voltou para o guichê do Departamento de Recolhimento de Objetos Especiais, mas também, além disso, pôs muito má cara quando a viu vir para ela.

         Custava de ver, imperceptível como era a mais de um par de metros de distância, mas se Jessi a observava com atenção, podia entrever como um músculo tentava contrair-se entre as sobrancelhas da empregada.

         O que era muito mau sinal.

         -Poderia tirá-la ao corredor e deixar-me ver? -perguntou-lhe Jessi-. Só para me certificar de que não aconteceu nada e realmente se encontra aqui, e logo juro que irei e a deixarei em paz. Preencherei seus impressos de reclamação e seguirei os passos regulamentares. Só deixe me assegurar de que a caixa chegou aqui. Estou muito preocupada. Por favor? Poderia embora só fosse vê-la, por favor?

         -Não fazemos exceções - replicou a mulher com um bufo de desdém.

         -Mas eu...

         -Qual é a palavra que não entendeu? Tem que ter sido o "não". Muito típico da gente de sua classe. As pessoas como você sempre pensam que terei que fazer uma exceção com elas.

         Jessi piscou.

         - As pessoas como eu? -murmurou, sem ter nem idéia de que classe de pessoa pensava aquela mulher que era ela.

         -Sim. As pessoas como você - resmungou a mulher, ao tempo que lhe cravava o olhar nos peitos-ou Estou segura de que se acostumou a manipular aos homens para que façam tudo o que você queira, mas não me pode manipular. E neste departamento não trabalha nenhum homem, senhorita, assim nem lhe ocorra tentar voltar em outro momento. Já adverti a minhas colegas de trabalho a respeito de você. Não creia que se deixarão chavecar. Terá que seguir as regras para variar, jovenzinha, como faz todo mundo.

         Jessi piscou. Aquele ataque tão injusto a tinha deixado sem fala.

         Ela nunca na vida tinha utilizado sua aparência para conseguir nada e, se sua aparência a tinha ajudado em alguma ocasião, Jessi certamente não tinha chegado a inteirar-se.

         Sem dizer uma palavra mais, Cara - de - pedra inclinou um nariz agora visivelmente enrugado, separou-se do guichê e deixou muito claro que dava por terminado o assunto. Transcorridos uns instantes, voltou-se para um terminal de ordenador e começou a teclar nela com umas unhas pintadas de carmim laranja que tinham aspecto de ser bastante letais.

                            Jessi reprimiu o grunhido que tentava escapar de sua garganta. "se concentre - disse-, e não no mal que te tratou sem que você tivesse feito nada para merecê-lo. Essa mulher não é teu assunto. O que tem que fazer é recuperar o espelho."

                            Retrocedeu uns quantos passos e percorreu o mostrador com o olhar.

                            O espelho tinha que estar perto. Não podia andar muito longe. Se a pessoa ia a esse guichê para reclamar um objeto especial, a lógica ditava que os objetos estariam guardados perto dali para evitar complicações desnecessárias. A pessoa apresentaria seu comprovante e o objeto seria gasto ao mostrador. O que parecia implicar que os objetos tinham que estar em algum lugar atrás do mostrador.

                            Jessi ficou nas pontas dos pés e olhou por cima do mostrador.

                            Cara - de - pedra seguia empenhada em ignorá-la, o que lhe ia de pérolas.

                            Não havia nenhuma caixa até ali onde podia chegar com a vista, e o pequeno recinto, que teria uns seis metros de largura e uns três de fundo, não parecia o bastante grande para que mais de três ou quatro empregadas pudessem estar alinhadas atrás do mostrador ao mesmo tempo.

                            Na parede esquerda tinha pendurada uma turbulenta vista marinha, ao lado de um telefone rotulado como SEGURANÇA. A parede do fundo estava pontuada por pequenos quadros de navios em alto mar, entre os que tinham intercalados distintos certificados de aspecto oficial no marcos negros do modelo padrão.

                            "Merda... , aí!" Na parede da direita, uma porta ao meio abrir revelava um comprido corredor brilhantemente iluminado que se perdia na lonjura.

                            -Minha caixa está nesse corredor, verdade? -exclamou Jessi. Não esperava receber resposta por parte da mulher. Sabia que teria que deduzi-lo a partir da cara que pusesse.

                            A mulher elevou o olhar e um músculo lhe contraiu imperceptivelmente entre as sobrancelhas.

                            Sim, Cian estava perto! O bastante perto para que fosse possível improvisar.

                            "Posso fazê-la, posso fazê-la, sei que posso fazê-la", disse-se Jessi. Manteve o olhar cravado no chão durante uns segundos enquanto se armava de valor. Logo deu meia volta e começou a se afastar do mostrador.

                            -Já era hora - resmungou a mulher desdenhosamente detrás dela-. E não faz falta que te incomode em voltar, jovenzinha malcriada ...

                            O resto foi resmungado em um tom muito baixo para que Jessi pudesse ouvi-lo, mas já tinha captado o essencial. "Ooooh, não imagina a surpresa que te vais levar", pensou com o mesmo desdém. Estava disposta a aceitar que a gente se zangasse com ela quando o merecia de algum jeito, mas não tinha feito absolutamente nada para ganhar essa animosidade daquela mulher, além de ser jovem e ter boas curvas. E ela não podia evitar nenhuma dessas duas coisas. Tampouco era que lhe tivessem servido de algo na vida. Trabalhar duro sim que a tinha ajudado. As tetas certamente não. De fato, se a obrigassem a estabelecer percentagens, Jessi atribuiria 90 por cento ao criar problemas e 10 por cento restantes ao prazer.

                            Moveu os ombros para assegurar-se de que a mochila estava firmemente acomodada sobre suas costas e olhou detrás dela, avaliou a distância até o mostrador e a altura de este, e inspirou profundamente para agarrar forças.

                            Logo girou em redondo, pôs-se a correr e se catapultou pelo ar. Sua curta carreira bastou para dar mais velocidade da que necessitava em realidade, e depois de ter saltado a parede exterior do mostrador, Jessi não pôde controlar a inércia adquirida. As mãos e joelhos lhe escorregaram sobre a superfície envernizada e terminou no chão, junto com os dois ordenadores e a pilha de manuais que tinha miserável consigo em sua queda. O impacto contra o solo foi tão forte que entrechocaram os dentes.

                            -OH! -chiou a mulher-. Saia agora mesmo! Você não pode entrar aqui! Só os empregados do aeroporto podem estar atrás do mostrador!

                            Jessi não esbanjou o fôlego em replicar. Levantou-se do chão, saltou entre os monitores e os manuais, e entrou pela porta meio aberta. O coração lhe palpitava desbocado e a adrenalina galopava por suas veias, fazendo-a sentir tremente e estranhamente invencível. Não era de sentir saudades que a gente se voltasse viciada nas descargas de adrenalina.

                            -Vou chamar aos de segurança! -chiou a mulher detrás dela, e Jessi a ouviu desprender o telefone da parede.

                            -Faz-o... -Jessi baixou a voz, mas apesar de tentá-lo-, raposa. -A segunda palavra não lhe saiu em um tom todo o baixo que pretendia. Ooops. Maldição, agora também teria que despistar aos seguranças!

                            Mas esta vez o que aquela mulher fosse tão mau inseto obrou em benefício da Jessi. Ao parecer, Cara-de-pedra era uma dessas pessoas que só pensam em demonstrar do que podem chegar a ser capazes, e o epíteto da Jessi deveu lhe bastar como desculpa para atuar.

                            Cara-de-pedra pendurou o auricular ruidosamente e entrou pela porta como uma exalação para ir para ela.

                            -Não necessito aos seguranças. Eu mesma posso me ocupar de ti, jovenzinha presumida! -Cinco afiadas garras alaranjadas se fincaram no tecido da mochila do Jessi, e a detiveram em seco de um brusco puxão-. Não entrará aí!

                            Jessi ficou plantada no lugar e percorreu o corredor com o olhar. Teria uns cem metros de comprimento, com um labirinto de corredores que nasciam dele e uma série de portas que pontuavam ambos os lados.

                            Ao final do corredor, reluziam duas grandes portas de aço cujo aspecto sugeria que podiam dar acesso a um armazém. Perto das portas, esperavam vários carrinhos e um pequeno veículo elevador de carga frontal.

                            Ali seria onde estava o espelho, então, detrás dessas duas portas de aço.

                            Jessi necessitava o espelho. Isso era inegociável.

                            E aquela suja burocrata de alma mesquinha que tinha fechado o punho sobre sua mochila era o único que se interpunha entre ela e a pequena questão da continuidade de sua sobrevivência.

                            A vida do Jessi dependia daquela caixa.

                            E não havia outra forma de que pudesse chegar até ela.

                            Um rápido encolhimento de ombros obrigou à mulher a soltar a mochila. Quando lhe deslizou pelo braço, Jessi agarrou as tiras com a mão.

                            Armou-se de coragem e fez outra profunda inspiração para agarrar forças. As ia necessitar.

                            Com uma prece silenciosa para que tudo saísse bem e o único dano que fizesse à empregada fosse lhe pôr um olho roxo, Jessi girou em volta e a golpeou na têmpora com os dezessete quilogramas de mochila que lhe tinham proporcionado um par de cafés da manhã extra.

                            Para seu imenso alívio - não tinha estado segura de que fosse capaz de fazer duas vezes, por muito repulsiva que fosse aquela bruxa-, a Cara-de-pedra vidraram os olhos e caiu desvanecida ao chão depois de bambolear uns instantes.

                            Jessi olhou a seu redor e divisou uns metros mais abaixo uma porta sobre a que dizia "Fornecimentos". Agarrou à mulher pelos pés, colocou seus tornozelos debaixo dos sovacos e a arrastou sobre os ladrilhos do chão.

                            Demorou uns momentos em introduzi-la entre os esfregões, vassouras e fornecimentos de limpeza, mas finalmente o conseguiu. Logo fechou a porta e examinou a porta. Não havia nenhum fecho que jogar. Mau assunto.

                            Isso significava que tinha que se apressar. Sabia que a mulher não estaria inconsciente muito tempo.

                            Com o coração pulsando a toda velocidade, Jessi correu para as portas duplas e Cian.

                            O punho de Lucan atravessou o gesso coberto com papel de seda da parede de seu estúdio.

                            Logo descarregou um segundo murro. E depois um terceiro.

                            Gotas de sangue apareceram rapidamente seus nódulos rasgados e desapareceram com idêntica rapidez. A pele curou, não para ficar reluzente e rosada, mas curou.

                            Lucan se voltou para seu escritório, elevou o olhar até esse retângulo um pouco mais escuro que lhe ofendia a vista só vendo, e grunhiu ao alto-falante do telefone:

                            -Volta a me contar exatamente o que foi o que disseram. Com todo detalhe.

                            -Nenhum deles recordava muitos detalhes, senhor Trevayne - replicou Hans do receptor-. Só se lembravam de que viram um homem alto, tatuado e com tranças escuras que levava um grande espelho de marco dourado debaixo do braço e ia acompanhado por uma moça atrativa, que cruzaram o vestíbulo do Sheraton a manhã da sexta-feira. Alojaram-se no hotel, todos os registros foram apagados. Em uma das habitações encontraram manchas de sangue humano recente no carpete, as cortinas e o mobiliário, mas segundo os registros do hotel essa habitação levava várias noites sem atribuir-se a ninguém, e não se encontrou nenhum corpo.

                            Filho de cadela, suas piores suspeita tinham resultado ser certas.

                            Eve sem dúvida tinha morrido, e a senhorita St. James ajudava ao highlander e colaborava em tudo com ele. Tinham unido suas forças contra ele.

                            E tinha menos de dezessete dias para encontrá-los. -Pôde averiguar aonde foram a partir daí?

                            -Não, senhor Trevayne, ainda não sabemos. Estamos trabalhando nisso. Você tem alguma idéia de aonde podem ter ido, senhor?

                            Lucan passou a mão pela mandíbula. Aonde iria Cian MacKeltar, agora que fora do cristal havia alguém disposto a ajudá-lo? Esse era o fator determinante, depois de tudo. As regras de sua pequena partida tinham trocado dramaticamente. Nunca em um milhão de anos tinha ocorrido a Lucan imaginar que uma seqüência de acontecimentos tão improvável pudesse dar-se, que algo seria capaz de atravessar seus indestrutíveis amparos; que ele estaria fora do país quando isso ocorresse; que um ladrão entraria em sua casa e roubaria o espelho; que o espelho acabaria nas mãos de alguém disposto a ajudar ao Keltar.

                            Cheirava muito a sincronismo. Mesmo assim, tinha ocorrido.

                            Aonde iria o Keltar? Lucan estava seguro de saber: a seu lar nas Highlands é obvio. O montanhês removeria céu e terra com tal de poder voltar a pisar em chão escocês, sobre tudo agora.

                            Lucan levava muito tempo sem visitar as montanhas que se elevavam sobre Inverness. Durante incontáveis gerações, depois de aprisionar a Cian dentro do Cristal Escuro, sempre se tinha mantido à corrente do que fazia a estirpe dos Keltar.

                            Queria estar seguro de que a mãe de Cian tinha cumprido seu juramento para garantir a saúde e o bem-estar de suas sete queridíssimas filhas: selar toda a sabedoria dos Keltar para mantê-la afastada das gerações futuras e apagar o nome de seu filho de todos os anais dos Keltar, com o que impediria que nenhum Keltar do futuro chegasse a ter uma dívida de sangue e tentasse libertar a seu antepassado.

                            Mas a princípios do século XV, quando suas fontes de informação lhe confirmaram que os MacKeltar - até o último homem, mulher e menino- acreditavam que o legendário Cian só tinha sido um mito, Lucan deixou de vigiá-los e já não ligava para eles.

                            Voltou sua atenção para outros lugares, e se concentrou na criação de seu império e sua busca das Consagrações Escuras restantes.

                            O tempo e o êxito o deixaram descuidado. Levava tanto tempo sem ter que confrontar nenhuma provocação que a complacência lhe tinha feito baixar a guarda.

                            Deus, dezessete dias! Era impensável! Estava tão perto de alcançar suas metas. Não podia permitir que aquelas estúpidas distrações lhe fizessem perder de vista seus autênticos objetivos!

                            -Escócia, Hans - falou ao telefone-. Olhe Inverness.

                            Suspeito que prescindirá da civilização e irá às montanhas. Averigua se ainda fica algum MacKeltar na área e deixe saber que ofereço cinco milhões ao que me consiga esse espelho, dez se me consegue o espelho e à mulher. Não obstante, tenho que ser informado no preciso instante em que localize o espelho, e deverá me manter à corrente de seu paradeiro em todo momento. Haverá outros dez milhões para ti, Hans, se fizer que tudo saia de acordo com meus desejos antes que tenha transcorrido uma semana.

                            -Sim, senhor Trevayne! O comunicarei a outros, senhor. Porei a trabalhar nisso todos os homens. Assegurarei-me de que tudo saia de acordo com seus desejos. Você conta com minha garantia pessoal, senhor!

                            Lucan ficou um momento com o olhar perdido no vazio depois de finalizar a chamada. O que eram vinte milhões para ele? Nada. Já fazia séculos que a riqueza não lhe interessava. Agora só queria o que tinha querido sempre: mais poder.

                            Estava perto da culminação de todos seus sonhos, a um passo de possuir finalmente o Livro Escuro dos invisíveis. De ser o maior feiticeiro que nunca existiu, tanto humano como fae.

                            Devia ter visto aquelas complicações. Sabia que quando um homem está a ponto de alcançar a autêntica grandeza, o mundo sempre o põe a prova. Já tinha acontecido antes. Voltaria a acontecer. Deveria estar melhor preparado desta vez. Estaria no futuro.

                            Ele, Lucan Myrddin Trevayne, engendrado por um druida desconhecido no ventre de uma rameira que deitou com dúzias de druidas chegados de todos os limites da Grã-Bretanha durante os três dias que durou o conselho celebrado na minúscula aldeia galesa do Cochlease, fazia 1.187 anos, tinha sabido chegar muito acima apesar de sua ignominiosa origem e estava a ponto de ser mais capitalista do que nunca tivesse podido sonhar, tanto que poderia fazer-se obedecer inclusive pelos legendários tuatha dê danaan.

                            Seus primeiros anos não tinham sido fáceis. Lucan trabalhou e se esforçou ao máximo, estudou e percorreu o mundo em busca de conhecimento e poder. Transformou a si mesmo, e deixou de ser esse filho bastardo de uma rameira ao que tantos druidas se negaram a reconhecer como seu filho para converter-se em um homem respeitado e profundamente temido pelos mais poderosos, tanto entre os druidas como entre os feiticeiros.

                            Foi durante aqueles primeiros anos de viagens quando soube da existência das Consagrações Escuras. A pouca idade de vinte e oito anos, Lucan já tinha conseguido fazer com decalques ao lápis-carvão de três páginas do incrível Livro Escuro, e dedicou os seguintes oito anos de sua vida a decifrar seus textos.

                            Uma vez que pôde decifrá-los, aprendeu muitas coisas daqueles decalques, incluída a localização do Cristal Escuro dos fae invisíveis, assim como o dízimo que teria que pagar e os feitiços de submissão necessários para usá-lo. Se lhe entregavam as três coisas acordadas como preço - um sacrifício de sangue inocente, o feitiço de um cativo, e um dízimo recorrente pago em ouro puro-, o espelho outorgava a vida eterna.

                            Murmurava-se que Merlin havia possuído o Cristal Escuro em tempos longínquos, até que foi arrebatado por um exército de mil guerreiros e um misterioso grupo de homens Santos irlandeses.

                            Desgraçadamente, não bastava saber onde se encontrava e como teria que usá-lo.

                            Lucan tinha tentado pegar o Cristal Escuro quatro vezes. E nas quatro tinha fracassado. A última delas esteve a ponto de morrer, e se viu obrigado a admitir que simplesmente carecesse do poder necessário para abrir acontecer com através dos guardiões.

                            Dedicou os sete anos seguintes a procurar a alguém que pudesse fazê-lo por ele. Encontrou-o na pessoa de Cian MacKeltar.

                            Aborreceu ao highlander nada mais vê-lo.

         15

                            Jessica jazia de bruços em um atoleiro de sangue, seus negros cachos úmidos colados na cabeça.

                            Sangrou e agora, pálida e imóvel, começava a ficar rígida. Suas costas se curvavam em uma dolorosa reverência, a perna direita estendida em um ângulo impossível. O braço esquerdo estava estranhamente torcido por cima da cabeça, a parte interior do pulso voltada para baixo e a palma grotescamente estendida para cima. Sua outra mão estava apertada em um punho ensangüentado.

                            Era óbvio que tinha sofrido muito enquanto morria. Não só dor, mas também um horrível padecimento.

                            Tinha-o chamado a gritos.

                            Nunca tinha deixado de acreditar que ele a salvaria.

                            Havia-lhe dito que o faria; que seria seu escudo. Tinha-lhe jurado que se interporia entre ela e todos outros.

                            E logo não tinha sido capaz de fazê-lo...

                            Cian golpeou a parede com os punhos e jogou a cabeça para trás para uivar como um animal. O som criou ecos nas paredes de pedra, ricocheteou no chão de pedra e voltou para ele depois de haver-se estrelado contra um teto de pedra.

                            Mil cento e trinta e três anos não o tinha feito enlouquecer.

                            Mas os últimos dois dias tinham conseguido o que onze séculos não foram capazes de fazer.

                            Ela estava aí fora, sua Jessica, com seu engenho e sua força de vontade como únicos recursos nos que confiar. E ele estava apanhado no espelho, incapaz de protegê-la.

                            Do momento em que o Cristal Escuro o tinha reclamado, uma possibilidade terrível aconteceu rapidamente à outra e as imagens cruzaram uma e outra vez pela mente de Cian, em uma incessante repetição aterradoramente cheia de detalhes.

                            Um assassino subia ao avião e se sentava detrás deles, e tomava cativa a Jessica logo que desembarcava. Estava, agora mesmo, drogada e de caminho a Londres.

                            Não, o maldito avião simplesmente se precipitou do alto dos céus em uma interminável queda que se prolongou ao longo de muitos quilômetros, até que se espatifou contra o oceano e afundou como uma pedra. Cian tampouco entendia como diabos tinha conseguido para manter-se ali em cima durante tanto tempo, de todos os modos. O avião tinha asas, certo, mas não as batia. (Esse era o menos cruel de seus infernos; naquele Jessica não padecia indignidade alguma e a morte chegava mais depressa que em outros.)

                            Não, não. Quando seu espelho voltasse a ficar destampado, seria para que Cian estivesse novamente pendurado na parede do estúdio de Lucan e olhasse do alto a sua formosa Jessica, atada e amordaçada, enquanto era violada e torturada por seu antigo inimigo.

                            Não, não. Quando seu espelho voltasse a ficar destampado, Cian só veria o odiado rosto de Lucan e então o bastardo lhe faria exatamente quão mesmo já lhe tinha feito antes com sua mãe e suas irmãs. Nunca voltaria a mencionar a Jessica, sem importar o muito que o suplicasse Cian, e deixaria que ele imaginasse o pior de todos os destinos possíveis durante cada um dos dias do resto de uma existência que ia ser eterna.

                            Cada nova e infernal possibilidade era pior que a anterior, e lhe atravessava as vísceras como uma estocada.

                            Cian se apoiou na parede, as mãos apertadas e a mandíbula rígida.

                            Para esperar. E esperar.

                            -Ótimo, está aqui! -exclamou Jessi alegremente ao dobrar a esquina-. Por fim! -A uma dúzia de metros dali, ao final da última fileira (não podia ser de outra maneira) com as palavras ENTRADA NÃO AUTORIZADA escritas em grandes letras vermelhas, entre umas quantas dúzias de avisos de FRÁGIL pulverizados ao azar, a grande caixa de compensado se elevava sobre um de seus extremos.

                            Jessi olhou seu relógio nervosamente. Tinha demorado uma eternidade em dar com ela. Temia que Cara-de-pedra irrompesse pelas portas em qualquer instante para cair sobre ela, seguida pela metade do serviço de segurança do aeroporto de Edimburgo.

                            Quando entrou por aquelas portas, Jessi esperava encontrar um armazém pequeno, não um de dimensões industriais tão largo como um campo de futebol cheio de grandes estantes metálicas que subiam umas sobre outras até chegar a um teto situado a doze metros do chão, com fileira detrás de fileira de pacotes numerados, caixas e pacotes de todo tipo.

                            Tinha perdido um tempo precioso em examinar largos corredores formados por objetos numerados, antes de deduzir que os que não tinham número e careciam de resguardo provavelmente estariam armazenados ao fundo daquele edifício descomunal, porque o pessoal do departamento sabia que ninguém viria a recolhê-los em um futuro imediato.

                            A caixa tinha que ser a entrada mais recente, dado que a tinham posto ao final da fileira. Jessi correu para ela e entoou o canto de invocação.

                            -Lialth bree che bree, Cian MacKeltar, drachme se-sidh!

                            Não passou nada.

                            Jessi repetiu o canto, convencida de que veria brotar luz das frestas e a caixa começaria a bambolear-se.

                            Outra vez nada.

                            Jessi se deteve ante a caixa, inspirou profundamente para recuperar o fôlego e pegou o ouvido ao painel de madeira.

                            -Cian? -chamou. Logo olhou por cima do ombro, convencida de que teria que extremar a cautela. Embora o armazém fosse enorme e ao parecer estava completamente só dentro dele, queria fazer o menor ruído possível ficou direita, e optou por um pouco mais sonoro que uma exclamação, mas inferior a um grito-: Cian!

                            Voltou a pegar o ouvido ao compensado. Isso que acabava de ouvir tinha sido um rugido afogado? Escutou um momento. Tinha divulgado como um rugido. Sim, acabava de ouvir outro.

                            Jessi deu um passo atrás e golpeou a caixa com os punhos.

                            -Cian, estou aqui! Pode me ouvir? Venha, faz o favor de sair agora mesmo! Temos que ter pressa. Não sei quanto demorarão em nos encontramos. Lialth bree che bree, Cian MacKeltar, drachme se-sidh!

                            Silêncio absoluto.

                            Jessi já começava a pensar que algo tinha que ter ido seriamente mal pelo caminho, ou que se teria equivocado de caixa, quando uma intensa luz brotou das frestas, o armazém pareceu fazer-se ainda maior do que era, e houve um súbito rumor de envoltórios protetores dentro da caixa.

                            Um punho muito grande estilhaçou a madeira, a só um par de centímetros de sua orelha esquerda.

                            Jessi piscou e se apressou a retroceder.

                            Cian a ouviu chamá-lo.

                            Em um primeiro momento pensou que aquela voz só era outra viagem de sua torturada imaginação, e logo a ouviu chiar impacientemente que fizesse o favor de sair dali de uma maldita vez e pôs-se a rir. Não cabia dúvida de que era sua Jessica, com o gênio tão a flor de pele como sempre; tinham chegado à Escócia, e ela havia tornado para liberá-lo.

                            Abriu passo entre massas de recheio e almofadado protetor e, com um último empurrão para apartar do espelho, converteu seu corpo em um aríete.

                            Atravessou a primeira madeira com um punho e logo com o outro, e golpeou e chutou a caixa com toda a fúria enjaulada e a raiva impotente que não tinham deixado de roê-lo por dentro durante dois inacabáveis dias.

                            Demoliu a parte dianteira da caixa, tão impaciente por sair que a fez pedaços com as mãos.

                            Quando apartou o olhar das lascas e levantou a vista, foi encontrar a Jessica com as costas apertadas contra um veículo de carga frontal. Estava muito pálida e o olhava fixamente.

                            -Ai, mulher, por Deus - vaiou Cian. Devorou com duas pernadas o espaço que os separava, tomou sua mandíbula com uma mão e lhe inclinou a cara para cima, para reclamar sua boca com um beijo. Uma, duas, três vezes. Logo deu um passo atrás e a fulminou com o olhar-. Pensava que tinha morrido. Não podia sair daí, maldita seja, e pensei em mil coisas diferentes que tinha podido estar mau e imaginei um milhão de mortes diferentes para ti. Beije-me, Jessica. Demonstre-me que está viva.

                            Jessi piscou e o olhou sem entender nada.

                            "Beije-me, Jessica. -As palavras ainda flutuavam no ar-. Demonstre-me que está viva."

                            Quando o viu sair da caixa feito uma fúria, por um momento esteve segura de que se tornou louco, tão selvagem e desumana era a expressão que havia em seus olhos. Logo lançou um olhar abrasador que lhe atravessou a roupa e a pele para chegar até seus ossos e, antes que ouvisse dizer alguma coisa, Jessi já sabia que tinha sido o temor que pudesse lhe haver ocorrido alguma coisa, que o tinha posto em semelhante estado.

                            Ficou perplexa. Sentiu-se secretamente emocionada. Porque, por muito que tivesse negado a admitir, enquanto estava sentada no aeroporto tentando pensar em alguma forma de tirá-lo do espelho, não tinha deixado de sentir como o pânico crescia em seu interior, e não só porque ele fosse a melhor possibilidade de seguir com vida que tinha. De algum modo que não saberia explicar, Cian MacKeltar passou a ser um assunto terrivelmente pessoal que a obrigou a enfrentar um milhão de preocupações. Preocupações que tinham que ver com ele: Onde estava? Encontrava-se bem? E se o espelho tivesse quebrado sem que se dessem conta? Morreria ele? Veria-se apanhado ali dentro para sempre?

                            E se Lucan tinha conseguido pega-lo? Como poderia ela chegar a encontrá-lo nesse caso? Teria que seguir a pista ao tal Lucan, aterrador que parecia ser, e voltar a roubar a Cian?

                            E se alguma vez voltava a ver aquele imponente highlander de escura juba e aspecto de bárbaro?

                            "Só são hormônios. Química combustiva reforçada pelo perigo, nada mais."

                            Fora o que fosse a reação dele correspondia com uma fantasia que Jessi nem sequer sabia que tivesse: a de que, quando por fim o encontrasse, ele não se conformaria saindo do espelho para salvá-la, mas sim sairia dele para reclamá-la como dele. Para apertá-la contra a fortaleza de seu corpo duro como o aço, e tomar posse dela com sua língua aveludada. Para lhe deixar muito claro, da forma mais básica e elementar, que tanto ele como ela estavam vivos e viveriam para lutar outro dia.

                            Era, compreendeu Jessi, o que tinham que haver sentido as mulheres ao longo de toda a história quando seus homens voltavam do campo de batalha por seu próprio pé, não atados à garupa de um cavalo ou aglomerados em uma pilha de corpos em cima de um carro.

                            Impaciente por desfrutar de cada instante de paixão que pudesse lhes oferecer a vida.

                            Ou, ao menos, de poder sentir o fogo abrasador de uns quantos beijos cheios de desejo, em qualquer caso. Depois de tudo, uns quantos beijos nunca lhe tinham feito mal a ninguém.

                            "Embora tudo dependesse de como beijam", pensaria depois. Inclinou a cabeça para trás e umedeceu os lábios. Bastou com isso para que o desejo brilhasse em seus olhos cor uísque. Pôs uma grande palma sobre a nuca do Jessi e plantou a boca sobre a sua.

                            Quando seus lábios se encontraram esta vez, um relâmpago de paixão fluiu entre seus corpos e foi como se ambos enlouquecessem.

                            Jessi tinha visto os efeitos da paixão incontrolável nos filmes, mas nunca os tinha experimentado em si mesmo. Agora os sentiu.

                            Livrou-se da mochila com um encolhimento de ombros e se apertou contra ele, decidida a estar ainda mais perto. Ele respondeu da mesma maneira, e sua grossa e dura ereção ficou apertada contra o ventre do Jessi. Senti-lo tão perto fez que ela tentasse subir por seu corpo, mas aquele repentino intento de escalada bastou para que ambos perdessem o equilíbrio. Ele não reagiu o bastante depressa e se chocaram com as estantes metálicas, com um golpe que os impulsionou para diante.

                            Cambalearam através do corredor, tropeçaram com os restos da caixa e acabaram no chão de cimento.

                            Mas ele não interrompeu o beijo em nenhum momento.

                            Tomou o rosto entre suas grandes mãos e o reclamou com uma língua que parecia arder. Fechou os dentes sobre seu lábio inferior e puxou brandamente dele para logo chupar-lhe com um pouco menos de suavidade, antes de reatar seus lentos e eróticos movimentos no escorregadio interior da boca dela.

                            Jogou com a boca do Jessi fazendo que sua língua entrasse e saísse dela com um ritmo pausado e cheio de sensualidade, e Jessi a chupou freneticamente, como se essa língua fosse aquela outra parte dele que estava impaciente por capturar para tê-lo o mais dentro possível. Ela deixou fazer por um instante e logo apartou a boca com um suave grunhido para lhe mordiscar delicadamente a linha da mandíbula, em uma deliciosa carícia que fez que Jessi sentisse o suave roce de seu princípio de barba na pele. Deixou uma esteira de beijos abrasadores sobre seu pescoço e logo a mordeu brandamente, no oco onde o ombro dela se encontrava com o pescoço, para tomar o tendão entre seus dentes.

                            Jessi tragou ar com um vaio afogado ao tempo que arqueava as costas para pegar-se a ele. Inclinou a cabeça para trás, impaciente por lhe proporcionar o maior acesso possível.

                            Ele atirou impacientemente do pescoço de sua jaqueta jeans e pulverizou uma corrente de diminutos mordiscos amorosos sobre a pele de seu ombro, sempre em um sutil equilíbrio sobre a fronteira entre o que não bastava e o que quase era muito.

                            Jessi teve a suspeita de que Cian MacKeltar visitava muito freqüentemente aquela fronteira invisível.

                            Deus, o que lhe estava passando? Perguntou-se confusamente. Ia dizer lhe que tinham que dar-se pressa e sair correndo dali. Que Cara-de-pedra ia chegar a qualquer momento. Que os da segurança sem dúvida já vinham de caminho. Só uns quantos beijos mais e lhe diria todo isso. Em qualquer momento...

                            Mas o que fez foi atirar de sua camiseta, colocar as mãos debaixo dela e subir lentamente por aquele abdômen tão sexy para acariciar-lhe com as pontas dos dedos em um movimento circular até que suas mãos encontraram a magnífica musculatura de suas costas.

                            Ele deslizou as mãos sob seu suéter, em uma sutil mudança de postura que fez que o promontório de sua ereção passasse a ficar colocado entre as coxas do Jessi.

                            "Temos que ir", ia dizer lhe ela.

                            -Não posso respirar-disse pelo contrário-. É muito grande. Quero estar em cima.

                            Ele deixou escapar um som a meio caminho entre a risada e o ofego, e deu a volta para ficar em cima. Jessi se sentou sobre seu corpo e o olhou com os olhos muito abertos. A protuberância de seu membro esticava o tecido daqueles jeans descoloridos, e era preocupantemente enorme.

                            -Te tire essa maldita jaqueta - ordenou ele.

                            "Mas é que temos que ir", quis responder ela. Mas quando já tinha a boca aberta, lhe apertou os lábios com a ponta dos dedos e de repente Jessi se encontrou mordiscando para logo passar a chupá-los dentro de sua boca.

                            Ele gemeu, os olhos entreabertos e o olhar apaixonadamente cravado na boca dela.

                            Jessi se livrou da jaqueta com um encolhimento de ombros.

                            Quando ele tirou seu suéter, ela levantou os braços por cima da cabeça e cedeu a essa nova ação. Seus peitos ficaram liberados do suéter, e oscilaram ante ele enquanto os mamilos se apressavam a endurecer-se.

                            Cian elevou o olhar debaixo dela, e sentiu que o desejo lhe apertava as vísceras até deixar-lhe mais tensas que a corda de um arco preparado para disparar sua flecha contra o primeiro alvo que se movesse. Sim, sua Jessica era verdadeiramente magnífica!

                            Sentou-se escarranchado sobre ele com um ondular de seus generosos peitos, e Cian viu como lhe oferecia aquelas magníficas curvas que tivessem podido fazer que um homem chegasse ao clímax só as vendo. Sua pele era seda e nata de leite, e bastou a olhar para saber que toda ela teria sabor disso, tão dentro como fora. Havia lugares nos que seria ainda mais cremosa que em outros, e todo ele ardeu em desejos de não deixar nenhum só por saborear. Seus peitos, tão grandes e formosos, eram tremendamente atraentes. Seus mamilos eram dois duros topos rosados que oscilavam lentamente sobre o rosto de Cian. Incorporou-se sobre o chão de cimento com uma rápida contração dos abdominais, fechou as mãos sobre aquele magnífico par de seios, e meteu um mamilo o mais para dentro da boca que pôde para molhá-lo e fazer que ela sentisse seu calor. Puxou ligeiramente o mamilo, roçou-o com os dentes e saboreou sua deliciosa dureza de pérola com um rápido giro da língua.

                            Jessi arqueou as costas e enterrou as mãos nas tranças de Cian, e começou a gemer quando ele usou sua mandíbula sem barbear para esfregar delicadamente a sensível pele de seus mamilos endurecidos pela deliciosa umidade dos beijos que acabava de lhes dar. Depois começou a lamber com lentas e eróticas carícias da língua até que Jessi se retorceu impacientemente em cima dele. Viu como voltava à cabeça entre seus peitos, primeiro por volta de um e logo para o outro, para excitar implacavelmente os mamilos com a ponta da língua e, de quando em quando, mordiscar a pele sob as pontas rosadas endurecidas por suas cuidados.

                            A provocadora lentidão daquelas carícias não demorou em fazer que os peitos doessem de desejo. Jessi necessitava mais fricção. Queria que a boca dele se fechasse firmemente sobre seus peitos, que os apertasse e os fizesse rodar entre os dedos, sentir o passo de seus dentes. Queria que fosse enérgico, apaixonado e exigente. Queria que a reclamasse como dele.

                            Estava tão excitada que o desejo tinha chegado a fazer-se doloroso. Ele moveu a língua sobre um mamilo, e logo passou ao outro para lhe administrar uma nova sessão daquelas carícias tão tortuosamente delicadas.

                            -Por favor, Cian, mais - choramingou.

                            Um instante depois sentiu que lhe faltava a respiração quando ele se incorporou e lhe deu a volta para deixá-la deitada de barriga para cima. Um murmúrio abrasador vibrou dentro da garganta dele.

                            O cimento estava muito frio comparado com o calor abrasador que Jessi sentia na pele. Cian se inclinou sobre ela, seu formidável peso sustentado sobre as palmas das mãos postas a cada lado de seu corpo. Enterrou a cara em seus peitos e - OH, pensou ela, por fim, obrigado- meteu na boca primeiro um mamilo e logo o outro. Chupou. Mordiscou brandamente. Fez rodar os brotos endurecidos entre a língua e o véu do paladar, ao tempo que os roçava delicadamente com a borda dos dentes. Logo apoiou o peso do corpo em um antebraço, e baixou a mão que tinha deixado livre para começar a ocupar-se dos jeans do Jessi.

                            -Cian - ofegou ela.

                            -Sim, moça? -Baixou a boca um pouco mais para deixar uma esteira de beijos quentes e úmidos sobre o estômago do Jessi, e logo fez um alto em seu umbigo para inundar-se nele e lavar-lhe delicadamente.

                            -OH, Deus, Cian! -exclamou ela, ao tempo que movia os quadris para que ele não tivesse que lutar muito com a cintura, de sua segunda pele, o jeans.

                            Uns instantes depois, Jessi o ouviu rir maliciosamente e soube que acabava de desabotoar os jeans e visto as palavras "Não sabe a sorte que tem" escrita com finos traços dourados sobre o tecido interior do zíper.

                            -Sim, hoje me sorri a sorte - murmurou.

                            -Huuh-hummmm - conseguiu balbuciar ela.

                            -Não serei eu quem discuta isso, moça. Suponho que sou um homem afortunado. -Fez uma pausa-. Mulher - disse logo-, farei que se esqueça de todos os homens que conheceste. -Mas...

                            -Cala. -Depois sua boca voltou a arder sobre o corpo dela, em uma chuva de diminutas mordiscadas amorosas ao longo da delicada pele de seus quadris enquanto baixava os jeans centímetro a centímetro.

                            Jessi não ouviu chegar às pessoas que vinham para eles.

                            Estava tão absorta no furor erótico que nada tivesse podido passar através dele.

                            Felizmente, Cian ouviu a voz cheia de fúria.

                            -É que não me ouvistes? Digo que entrou aí!

                            Separou-se dela e inclinou a cabeça para escutar. Abruptamente, a puxou até deixá-la sentada no chão e começou a subir os jeans pelos quadris.

                            Perplexa e confundida pelo desejo, Jessi ficou sentada no frio cimento e o olhou com os olhos muito abertos.

                            "Alguém vem", articulou ele silenciosamente, ao tempo que fazia gestos para que guardasse silêncio. Logo se incorporou, levantou-a em pela cintura dos jeans e a meteu neles com uma rápida sacudida, oscilando os músculos de seus braços.

                            Os olhos ficaram frágeis quando a sacudiu no ar e um olhar de fúria apareceu neles. Logo deu a volta para deixar que fechasse os jeans. Transcorrido um comprido instante, voltou-se novamente para dar o seu suéter e a ajudou a passar pela cabeça.

                            Vinha-lhe tão apertado que ficou entupido sobre os peitos. Ela olhou com uma estranha expressão de derrota. Logo deu um passo atrás e desabotoou os jeans. Colocou a mão por dentro, tragou ar com um vaio afogado e arrumou bem o membro.

                            Ela terminou de embutir-se no suéter e colocou a jaqueta jeans. Logo agarrou sua mochila e a jogou às costas.

                            O matraqueio de uns sapatos de salto ressoou através do chão de cimento, cada vez mais perto deles e acompanhado por um ruído de sapatos de sola branda. Parecia um grupo numeroso.

                            Deus esqueceu-se completamente de Cara-de-pedra! Em questão de minutos. Uns quantos beijos tinham bastado para que seu cérebro deixasse de funcionar uma vez mais. Que demônios lhe passava? Como era possível que as carícias de um homem causassem semelhantes estragos no agudo intelecto e o poder de raciocínio dos que tão orgulhosa se sentia ela no passado?

                            Jessi franziu o sobrecenho e olhou a Cian MacKeltar com os olhos entreabertos, desejosa de averiguar o que era o que tinha ele que nenhum outro homem possuía.

                            Estava familiarizada com a teoria de que as mulheres se sentiam atraídas sexualmente de maneira instintiva pelos homens que podiam oferecer o complemento genético mais favorável; aqueles cujo DNA fortaleceria o seu, e vice-versa, com o que garantiam que dariam a luz filhos mais fortes e desse modo assegurariam que a raça humana tivesse o maior número possível de probabilidades de sobreviver.

                            Era Cian MacKeltar seu par mais favorável biologicamente falando? Estava condenada a sentir-se atraída por ele sem que pudesse fazer nada para evitar? Estava a mesma natureza conspirando contra ela em algum diabólico plano evolutivo para deixá-la grávida?

                            "Nesse caso - propôs uma diabólica voz interior-, provavelmente deveríamos deitar com ele e acabar de uma vez, né? Não te parece?"

                            -O que me parece é que não vai tão desencaminhada - resmungou Jessi.

                            Embora a antropóloga que levava dentro podia ver que a teoria não deixava de ter sua lógica, Jessi preferia acreditar que o amor e o sexo tinham mais que ver com o livre-arbítrio e o que soubesse tomar seu tempo na hora de escolher.

                            Mas em sua resposta a Cian MacKeltar não havia nada nem remotamente relacionado com o livre-arbítrio e o saber tomar-se seu tempo na hora de escolher.

                            -Não sei que demônios pode fazer aí atrás! -estava dizendo Cara - de-pedra-. Sabem vós? Ouvistes esse ruído? É como uma animália. Não se conformou em me atacar. Agrediu-me brutalmente. Espero que tenha um bom advogado, porque o vai necessitar. Penso processá-la. Minha cara possivelmente nunca volte a ser a mesma. Provavelmente terão que me fazer cirurgia plástica.

                            "OH, por favor...", bufou Jessi em silêncio.

                            Cian a olhou, a frustração sexual em estado puro que ardia em seu escuro olhar ambarino agora moderado pela diversão.

                            -Bateu-lhe? -articulou em voz baixa.

                            -Tive que fazer para poder chegar até ti - disse ela enrugando o nariz. Começou a alisar o suéter tratando de não ruborizar, pois acabava de recordar o que tinham feito e, o que era ainda pior, o que tinham estado a ponto de fazer. Mãe de Deus pensou com desgosto, a próxima vez possivelmente deveria limitar-se a lhe arrojar sua virgindade à cara.

                            OH, céus, um momento. Mas se isso era precisamente o que tinha tentado fazer fazia uns instantes.

                            Os ombros dele tremeram em uma gargalhada silenciosa. Foi para ela, baixou a cabeça e lhe pôs a boca no ouvido. Beijou os delicados sulcos, saboreando sua orelha com a ponta da língua.

                            -Faria que um marido das Highlands se sentisse muito orgulhoso de ti, moça-sussurrou.

                            Sentir a língua dele em sua orelha era tão intensamente erótico que Jessi se estremeceu.

                            -Obrigado - murmurou. De lábios de um druida-guerreiro do século IX, aquilo era todo um elogio-. A deixei sem sentido de um só golpe, além disso -acrescentou, sem poder evitar alardear um pouquinho.

                            Os ombros dele vibraram com mais força.

                            -Bem, Senhor Druida-convertido-em-feiticeiro-escuro - continuou Jessi, temos um pequeno problema. Crê que pode nos tirar daqui?

                            Ele jogou a cabeça atrás e riu a gargalhadas. O som foi como se um trovão longínquo lhe saísse do peito, criando ecos que se pulverizaram pelo armazém.

                            -Ouvistes isso? -A uns quantos corredores de distância, Cara-de-pedra soava escandalizada-. Há um homem aí com ela! Como arrumou essa criatura para trazer um homem aí dentro?

                            Cian olhou ao Jessi e lhe dirigiu um sorriso irresistivelmente atraente que não podia estar mais paga de si mesmo. Era o sorriso de um homem que sabe muito bem até onde chega seu poder, e que está encantado do ter.

                            -Sim, posso. Você sente-se, mulher, e te relaxe. Eu me ocuparei de tudo.

                            A Jessi não coube nenhuma dúvida de que podia fazê-la. E, a contra gosto, teve que admitir que essa era uma das coisas que mais gostava em um homem.

         16

                            Escócia: limitada pelo Atlântico, o mar do Norte e Inglaterra; aproximadamente a metade de grande que sua vizinha; composta principalmente por lendas, montanhas, e setecentas e oitenta e sete ilhas maiores, contando as Shetlands, as Orkneys e os dois arquipélagos que formavam as Hébridas.

                            Jessi tinha o tipo de memória que guardava todo tipo de informação.

                            Sabia que se riscava uma linha reta do extremo sul daquele país tão escarpado até seu extremo norte, veria que só media 440 quilômetros de comprimento, embora sua costa cobrisse 9.920 quilômetros cheios de magníficas vistas.

                            Também sabia que a verdadeira colisão da Inglaterra e Escócia virtualmente tinha precedido à topada dos que tomavam as coisas muito a peito e as forças políticas por 425 milhões de anos, quando a deriva continental fez que Escócia - até então parte integrante de uma massa de terra que incluía a América do Norte- e Inglaterra - até então parte da Gondwana- colidissem uma com outra, não muito longe dos atuais limites políticos.

                            Um autêntico empório de tesouros históricos, Escócia ocupava um dos primeiros postos em uma larga lista de lugares que fazia muito tempo, Jessi queria ver algum dia, junto com a Irlanda, Alemanha, Bélgica, França, Suíça e tudo o que tinha formado parte dessas antigas Galias onde viveram, amaram e guerrearam tão apaixonadamente os protoceltas.

                            Mesmo assim, refletiu enquanto fazia girar o volante para evitar um buraco na sinuosa estrada rural de um só sulco, nunca tinha imaginado que chegaria a Grã-Bretanha tão logo.

                            E certamente não como uma fugitiva acossada, em companhia de um highlander do século IX, para conduzir um grande 4x4 negro para o interior das Highlands.

                            Cian voltava a estar dentro do espelho, e estava francamente zangado por isso.

                            Jessi não o estava. De fato, que o espelho houvesse tornado a reclamá-lo pouco depois de que Cian tivesse usado a Voz para escapar do aeroporto e requisitar seu veículo "de aluguel" tinha sido todo um alívio para ela.

                            Por duas vezes já, tinha estado a ponto de entregar sua virgindade. De fato, se não os tivessem interrompido, a teria entregue em qualquer das duas ocasiões.

                            Não conseguia entender. Ela sempre pensava tudo duas vezes, e nunca fazia nada sem ter uma boa razão. Sabia que se ainda não se deitou com um homem era, em grande parte, porque tinha visto como sua mãe chegava a somar quatro maridos. Jessi tinha três irmãs, quatorze meio-irmãos e meio-irmãs (alguns deles procedentes do matrimônio anterior do homem), um caso bastante grave de cinismo e, como resultado disso, uma intensa necessidade de comprometer-se.

                            Adorava a sua mãe, e jamais teria admitido que alguém ousasse criticar ao Lilly St. James. Ninguém tinha direito a meter-se com sua mamãe.

                            Até lhe agradavam seus meio-irmãos.

                            Mas detestava ter uma família tão complicada, e essa era uma das razões pelas que abandonou o Maine para ir para Chicago e ficar a viver ali, preferindo as largas conversações telefônicas dominicais com Lilly a ter que consumir-se pelo caos que era o lar dos St. James.             Embora atualmente não estivesse casada, sua mãe havia tornado a sair com homens, e às vezes isso implicava algo bastante pior que a repentina aquisição de uns quantos irmãos e irmãs extra que pegavam emprestada a roupa e as chaves do carro com a impunidade própria da adolescência.

                            Os jantares de aniversário e graduações se convertiam indevidamente em autênticas catástrofes de programação. As férias eram um pesadelo. Jessi nunca poderia entender a idéia do compromisso marital que parecia ter sua mãe. Lilly era agente imobiliária, e tratava os sagrados votos do matrimônio como se fosse um mais de seus "acordos": um contrato de curta duração com uma opção para renová-lo, que ela rara vez exercitava.

                            Jessi tinha muito claro que algum dia se casaria. Teria filhos com um homem. Três ou quatro seria estupendo; possivelmente um menino e duas meninas que nunca padeceriam nenhuma classe de confusão a respeito de com quem estavam aparentados, e como, isso por não mencionar os freqüentemente incompreensíveis porquês. Sua mãe tinha elegido uns quantos espécimes realmente estranhos para seu desfile de noivos.

                            Jessi queria ter um mundo pequeno, bem administrado e que se achasse o mais isolado possível de outros. Quanto menos pessoas tentassem chegar a querer, acreditava ela, melhor poderia as querer. Jessi era a classe de garota que prefere a qualidade à quantidade.

                            Entretanto, com Cian MacKeltar, todos esses qualificadores prévios para as relações que tanto esmerou em calcular saíam voando pela janela.

                            Ele a olhava, e Jessi sentia que lhe umedecia o sexo.

                            Ele a tocava, e Jessi se derretia.

                            Ele a beijava, e Jessi começava a tirar a roupa.

                            Não lhe ocorria uma só razão para isso. Sim, ele era muito sexy. Sim, ele era puro macho e dava igual a isso não casasse muito com o novo movimento feminista que parecia preferir que os homens estivessem emasculados- gostava da masculinidade em um homem. Gostava que seus homens estivessem um pouco por polir, que não os tivessem domado de tudo. Sim, Cian MacKeltar era fascinante, e Jessi morria de vontades de levá-lo a algum lugar onde pudesse interrogá-lo sobre o século IX, e inteirar-se do que lhe tinha acontecido exatamente fazia onze séculos.

                            Mas Cian MacKeltar também era uma impossibilidade lógica.

                            Vivia em um espelho. Era um feiticeiro que tinha uma conta pendente com outro feiticeiro. E era muito mais velho que ela.

                            Não era o tipo de homem que se casa. Nem sequer era dos que mantêm uma relação estável. E Jessi sabia.

                            Mas apesar de todo isso, cada vez que ele a tocava era como se experimentasse uma regressão imediata que a convertia em uma de suas antepassadas primitivas, impulsionada pelas três diretivas primárias: comer, dormir, praticar o sexo. Embora se classificasse essas diretivas pela ordem que ela gostasse, primeiro viria o praticar o sexo, enquanto se sentia magra e tinha o estômago bem plano, logo uma boa comida com montões desses hidratos de carbono que lhe deixavam decadentemente relaxada, e por último dormir. Logo viria despertar e voltar a praticar o sexo, com o benefício acrescentado de queimar uns quantos hidratos de carbono enquanto o fazia. Para poder voltar a comer.

                            Mas em realidade todo isso não vinha ao caso.

                            Cian MacKeltar era um homem que parecia incapaz de manter as mãos separadas dela.

                            E quando saísse daquele espelho, sem dúvida voltariam a saltar um em cima do outro. E Jessi não podia contar com que surgisse uma nova interrupção naquelas colinas desoladas às que se dirigiam, a menos que um meteoro caísse do céu ou fossem atacados por algum rebanho de ovelhas que rondava por ali.

                            -Tornei a escorregar, moça - disse ele com um grunhido de desgosto do assento do lado-. Agora só posso ver o teto.

                            Jessi reduziu a velocidade e se deteve acostamento. Quando subiram ao 4x4, Cian colocou o espelho através das duas fileiras posteriores de assentos, e logo se instalou no assento do acompanhante. Mas quando o Cristal Escuro o reclamou, escassamente uma hora depois de ter saído de Edimburgo, de caminho a Inverness, disse-lhe que jogasse atrás o assento dianteiro tudo o que pudesse - o que era bastante no espaçoso 4x4-, adiantasse um pouco o espelho, deixasse-o inclinado em ângulo, e o sujeitasse com o cinto de segurança, para que assim ele pudesse ver por aonde iam. "Não estou muito seguro do terreno, moça - tinha explicado-. Sei aonde quero ir, mas não sei que aspecto terá depois de tanto tempo. Haverá estradas e edifícios e outras coisas que antes não estavam ali; não obstante, deveria ser capaz de identificar as montanhas se tiver uma vista o bastante boa."

                            Desgraçadamente, o cinto de segurança tinha sido desenhado para conter o tamanho e a forma de uma pessoa, não um espelho plano, e o cristal escorregava continuamente para baixo para adotar uma posição mais horizontal. Se Jessi tivesse tido embora só fosse um vulto de bagagem, poderia havê-lo embutido junto à base do marco, no chão, mas as circunstâncias os obrigavam a viajar ao estilo dos foragidos. Dentro do 4x4 só levavam as três bolsas de comida rápida vazias do almoço que pegaram no aeroporto e um punhado de mapas e panfletos que ele tinha pegado de um posto de periódicos enquanto se foram.

                            Quando Jessi se inclinou sobre o espelho para voltar a ajustá-lo, Cian resmungou algo nessa misteriosa língua dele e um livro saiu subitamente do espelho, passando a um par de centímetros de seu nariz, seguido por uns quantos livros mais. Jessi se apressou a apartar-se da trajetória. Já tinha quebrado o nariz em uma ocasião, aquele dia no ginásio de escalada, e tinha ficado o suficientemente torcida para seu gosto, um pouco inclinada para a esquerda.

                            -Ponha na base do espelho para que façam de cunhas - ordenou ele.

                            Jessi piscou.

                            -Tem livros aí dentro?

                            -Acumulei uns quantos objetos ao longo dos séculos.

                            Coisas que Lucan não sentiria falta.

                            Jessi dispôs os livros ao pé do espelho, pondo-os extremo contra extremo enquanto ficava boquiaberta ante os títulos:

                            Uma breve historia do tempo, do Stephen Hawking; o Dicionário Webster's; a História natural do Plínio; A enciclopédia ilustrada do universo; e Geographica, um enorme volume de mapas e cartas de navegação.

                            -Você gosta de ter à mão um pouco de leitura ligeira para passar o momento, né? -murmurou. Pessoalmente, ela optava pela série de Stephanie Plum que escrevia Janet Evanovich (sempre tinha pensado que teria sido uma boa ranger de Texas) ou qualquer livro de Linda Howard, nessas estranhas ocasiões em que lia por prazer. Coisa que fazia, uma vez ao ano.

                            -Esforcei-me por me manter à corrente do passar dos séculos.

                            Jessi olhou no espelho. Depois de havê-lo visto em carne e osso muito pouco antes, era estranho ver Cian como uma figura de uma só dimensão no cristal. Ter que vê-lo assim não gostava nada. Começava a odiar a esse espelho. Porque podia reclamar a Cian quando tivesse vontade. Sacudiu a cabeça. Fazia tão somente uns minutos se alegrou de que o espelho o reclamasse. Agora a irritava que o tivesse feito. Teria claro alguma vez o que sentia por ele?

                            -Para o dia em que por fim fosse livre? Por isso te mantinha à corrente da atualidade?

                            Cian cravou nela seu insondável olhar de uísque queimado.

                            -Sim.

                            Livre. Depois de onze séculos, o highlander do século IX ia ficar livre em pouco mais de duas semanas.

                            -Dezessete dias mais - murmurou Jessi pensativamente-. Deus tem que estar subindo pelas..., hum, paredes..., ou o que seja que há aí dentro, verdade?

                            -Sim.

                            -Bom, e o que é o que há aí dentro, de todos os modos? -Sacudiu brandamente o espelho para certificar-se de que tinha conseguido assegurá-lo. Parecia bastante sujeito. Agora já não deveria escorregar. -Pedra - disse ele secamente.

                            - E que mais?

                            -Pedra. Cinza. De distintos tamanhos - respondeu ele em tom monocórdio-. Cinqüenta e duas mil novecentas e oitenta e sete pedras. Vinte e sete mil duzentas e dezesseis delas são de um cinza ligeiramente mais pálido que o resto. Trinta e seis mil e quatro são mais retangulares que quadradas. Há novecentas e dezoito que têm uma forma vagamente hexagonal. Noventa e duas delas têm uma nervura de bronze que discorre através de sua cara. Três estão rachadas. A dois passos do centro há uma pedra que se sobressai ligeiramente das demais, e tropecei com ela muitíssimas vezes durante os primeiros séculos. Alguma outra pergunta?

                            Jessi não pôde evitar encolher-se sob o impacto daquelas palavras, e por um momento foi como se não pudesse respirar. Sentiu uma súbita opressão no peito e na garganta. "Sim, isto, verá, como lhe arrumaste isso para te manter cordato aí dentro? O que impediu que acabasse louco de atar? Como pudeste sobreviver mais de mil anos em semelhante inferno?"

                            Não o perguntou por que tivesse sido como perguntar a uma montanha por que ainda estava em pé, como o tinha estado do amanhecer dos tempos, possivelmente remodelada em certas sutis maneiras, mas ali, sempre ali. E salvo que houvesse algum cataclismo a escala planetária, a montanha sempre estaria ali.

                            Aquele homem era forte; não só fisicamente, mas também mental e emocionalmente. Uma rocha com forma humana, o tipo de homem no qual uma mulher podia encontrar apoio inclusive nos piores momentos sem ter que preocupar-se nunca pela possibilidade de que as coisas se desmoronassem, porque um homem assim simplesmente não permitiria que chegassem a desmoronar-se. Jessi nunca tinha conhecido a ninguém como Cian. A sociedade do século XXI produzia muito poucos machos alfa. A que podia recorrer um homem hoje em dia para aprender a ser forte, ficar a prova a si mesmo, edificar um caráter? Bater o recorde de pontuação no último videojogo? Comprar a gravata e o traje apropriados? Golpear bolinhas brancas com paus ridiculamente caros em uma grama ao que lhe tinham feito a manicura? Batalhar pela praça de estacionamento mais próxima aos grandes armazéns?

                            -Não - conseguiu dizer-. Não tenho mais perguntas.

                            Onze séculos de cativeiro. Pendurado na parede do estúdio de seu odiado inimigo. Onze séculos de não tocar nada. Desde não comer. Desde não fazer o amor. Tinha tido a alguém com quem falar?

                            O rosto do Jessi teve que revelar os pensamentos que lhe passavam pela cabeça, porque ele a surpreendeu dizendo docemente: - Agora já dá igual, mas obrigado pela compaixão. Quase terminou. Dezessete dias mais, Jessica. É tudo o que falta.

                            Por alguma razão que não tivesse sabido explicar, lhe ouvir dizer aquilo, fez que Jessi sentisse que lhe enchiam os olhos de lágrimas. Onze séculos não só não o tinham convertido em um monstro, mas também agora tentava tranqüilizá-la, fazer que seu encarceramento não a afetasse tanto.

                            -Chora por mim, mulher. Jessi virou o olhar.

                            -Foi um dia muito comprido. Demônios foi uma semana muito larga.

                            -Jessica. -Seu nome foi uma suave ordem.

                            Que ela desobedeceu, porque voltou os olhos para o guichê para contemplar as colinas.

                            -Jessica, me olhe.

                            -Choro por ti, vale? -disse secamente-. Pelos onze séculos que tem apanhado aí dentro. Posso voltar a conduzir ou necessita algo mais?

                            Ele sorriu levemente, levantou a mão e pôs a palma sobre o interior do cristal.

                            Sem que Jessi fosse consciente disso, sua mão subiu para ir ao encontro da sua e se alinhou sobre o frio cristal prateado, palma contra palma, dedo contra dedo, polegar contra polegar. E embora quão único percebesse sob a palma foi uma fria dureza, o gesto fez que sentisse um novo e delicado calor dentro de seu coração.

                            Nenhum dos dois falou ou se moveu por um instante.

                            Depois Jessi se apressou a apartar o olhar, tirou um guardanapo de papel das bolsas de comida rápida, assoou o nariz, pôs a primeira e reatou o caminho serpenteando em ascensão ao interior das Highlands escocesas.

                            Por do sol nas Highlands.

                            Cian demorou quase todo o dia em localizar as covas nas que brincava quando menino.

                            O terreno tinha mudado muito no curso dos últimos mil anos, e as novas estradas e casas faziam que custasse reconhecer o que antigamente Cian considerava imutável e tão único que não podia confundir com nenhuma outra coisa. Até as montanhas se viam diferentes quando a gente elevava o olhar para elas desde as concorridas ruas de uma cidade, em vez das contemplar através de uma grande extensão de campos pontuados de ovelhas.

                            Não permitiria que Jessica entrasse nas covas até que ele tivesse ocasião de as explorar em busca de possíveis perigos, assim que disse que deixasse o espelho firmemente apoiado junto à entrada da guarida de pedra, para poder montar guarda sobre toda a paisagem ao redor dela. Cian estava preparado para fazer frente a qualquer ameaça, embora duvidasse de que alguém fosse por ali aquele anoitecer, ou o seguinte.

                            Agora, no alto de uma montanha, olhava fora do Cristal Escuro para deleitar-se com dois dos espetáculos mais formosos que tivesse visto nunca: Escócia banhada pelos últimos resplendores do crepúsculo e Jessica St. James.

                            Seu amado país era uma digna cortina de fundo para a mulher. Sentada com as pernas cruzadas, de cara a ele, apenas meio metro de distância do espelho, seus negros cachos iluminados desde atrás pelas chamas escarlate e ouro do crepúsculo, sua fronte e suas maçãs do rosto polvilhado de rosa queimado, seus lábios vermelho veludo. Seus formosos dentes brilharam com um brilho de brancura quando sorriu, seus olhos iluminados por um fogo interior que quase igualou o do céu detrás dela quando se pôs a rir.

                            Tinha rido freqüentemente enquanto falavam. Sua Jessica parecia uma mulher capaz de encontrar algo humorístico em quase todas as coisas, sua apurada situação atual incluída, o que em opinião de Cian era uma virtude digna de um guerreiro. Com o medo nunca obtinha nada. E com o pesar tampouco, como muito bem sabia ele. Nem todo o pesar do mundo trocaria absolutamente nada agora. Não o que tinha sido. Não o que seria.

                            Mesmo assim, o humor e a tenacidade podiam te ajudar a sair bem dos piores momentos, e ela possuía ambas as coisas em grandes quantidades.

                            A pedido dele, Jessica lhe tinha falado de todas as tribulações pelas que teve que passar quando tentou reclamar seu espelho no aeroporto.

                            Quando chegava a alguma parte particularmente emocionante, começava a falar com as mãos e acompanhava suas palavras com gestos, e então as pontas de seus dedos roçavam o cristal. Cian tinha alcançado tal nível de sintonia física com ela que sentia como se um estremecimento o beijasse brandamente cada vez que o fazia, como se os dedos da Jessica o roçassem a ele e não a um frio espelho.

                            Pela primeira vez em mais de um milênio, podia ver como a noite tomava posse de seus Highlands - algo que tinha sentido muita falta- e, entretanto, achava um prazer ainda maior em escutar a história que contava Jessica, e ria com as imagens que ela pintava para ele. Podia ver sua ferazinha saltando sobre o balcão, golpeando com sua mochila a aquela mulher que se negava a ajudá-la, e colocando-a em um armário. Havia algo de pagão dentro da Jessica St. James.

                            Uma coisa mais que gostava daquela moça, pensou sorrindo.

                            Olhou-a, e pouco a pouco o sorriso se apagou de seus lábios. Jessica tinha jogado seu plaid sobre os ombros para se esquentar enquanto o sol descendia lentamente no céu e beijava a escura cordilheira de montanhas que enchia o horizonte. Vê-la embelezada com seu plaid revolveu algo em seu interior. Embora não usasse as cores dos Keltar e só era uma parte de tecido escocês que Cian trouxe para o interior do espelho fazia uns séculos, quando sentia falta de seu lar ainda pensava nele como dele. Era como se Jessica tivesse nascido para usá-lo. O escarlate e o negro lhe sentavam muito bem. Jessica era uma mulher apaixonada e cheia de vida, moldada por um generoso criador de jóias com gosto pelos tons intensos: verde jade nos olhos, negro azeviche no cabelo, rosa e ouro beijado pelo sol em sua pele.

                            Já fazia um momento que conversavam. Pela primeira vez desde que uniram suas sortes, não havia toda classe de calamidades surgindo de um nada a seu redor. De dentro do espelho Cian não podia fazer mais do que já tinha feito para garantir sua segurança, assim aproveitou a oportunidade que lhe brindava o momento para saber mais coisas a respeito da Jessica St. James.

                            Onde tinha crescido? Tinha um clã? Quantas pessoas o compunham, quais eram e onde estavam? O que estudava na universidade? Que classe de coisas tinha sonhado chegando a fazer algum dia?

                            "Aprendo a cavar na terra - tinha respondido ela com um sorriso zombador-, isso é o que sonho fazendo algum dia." depois de lhe explicar o que queria dizer realmente, ele compreendeu que essa era outra das coisas que a atraíam nela. Jessica St. James era tão curiosa como um druida. Cian podia imaginar a removendo o chão em busca de tesouros do passado, e vê-la sorrir com deleite enquanto desenterrava restos de uma vasilha, partes de armadura e armas. Ai, Deus, como gostaria de estar ali junto a ela enquanto o fazia! Contar-lhe histórias a respeito das coisas que encontrasse e, mais tarde, tê-la debaixo dele para mostrar outro artefato do passado, este real e muito vivo.

                            Se pudesse ter o que quisesse no mundo, tinha-lhe perguntado, o que pediria?

                            Ela respondeu a essa pergunta sem titubear: "Uma pessoa que fosse minha melhor amiga." Logo se apressou a acrescentar: "Uma pessoa que de verdade seja minha melhor amiga; alguém com quem tivesse vontades de me pôr a falar logo que despertasse pela manhã, e com a que não me passassem as vontades de falar, até o último segundo antes de ir dormir."

                            Ele sorriu levemente. "Refere a um companheiro da alma", pensou para si. Referia-se a um homem, alguém a quem pudesse amar durante toda a vida. Cian podia vê-lo em seus olhos.

                            Logo contou como tinha decidido ser arqueóloga; ao parecer, quando era mais jovem leu um livro que a inspirou e a impulsionou a tomar esse caminho na vida.

                            Ele escutava atentamente, olhava atentamente. Teria podido estar ali sentado durante duas eternidades, acaso mais, pendente dela. Queria ouvir os menores detalhes de sua vida, saber todo o possível a respeito daquela mulher.

                            -Assim ali estava eu, no segundo ano - dizia ela-, quando me dava conta de que aquilo não se pareceria em nada à múmia da Anne Rice. Que a arqueologia não consistia em viajar, ir a lugares exóticos e sentir a emoção do descobrimento. Que em realidade tinha que suar a gota gorda e te encarregar de montões de trâmites. A maioria dos arqueólogos nunca chegam a cavar na terra.

                            "Mas então já era muito tarde - acrescentou com um sorriso envergonhado-. Tinha-me apaixonado pela arqueologia por razões totalmente diferentes. Voltei-me viciada na história. Tinha-me deixado apanhar pelos mistérios de nossas origens, as origens do mundo, e o resto de juntar as peças do quebra-cabeças.

                            Agora falava de coisas próprias de druidas, das coisas que a Cian sempre o tinham fascinado. A vida estava cheia de diminutas partículas de verdade e conhecimento, pulverizadas aqui e lá, e um homem ou uma mulher prudente se esforçavam pelas recolher todas.

                            Um homem que não soubesse ser prudente ia atrás de outras coisas. Como as Consagrações Invisíveis.

                            E o pagava muito caro. Ai, Deus, pagava-o muito caro!

                            -Minha mãe detesta a carreira que escolhi - confiou ela-. Não entende por que não me caso e trago para o mundo um bebê atrás de outro. Por muito que se esforce, Lilly nunca conseguirá entender que eu prefira passar o tempo com os objetos arqueológicos quando poderia ir por aí tentando encontrar um marido.

                            Cian sentiu que lhe revolvia o estômago. "Tentando encontrar um marido... " Que palavras mais odiosas. Fizeram que até a última gota de sangue feiticeiro ardesse de fúria em suas veias.

                            -Por que não tem um homem? -perguntou com voz tensa. O sorriso fugiu dos lábios da Jessica. Guardou silêncio um instante. Logo voltou a sorrir, mas esta vez com um sorriso comovedoramente agridoce e amadurecido para sua idade.

                            -Às vezes parece que nasci em uma época equivocada, Cian. Acredito que isso forma parte da razão pela que me atrai tanto o passado. Sou uma garota um pouco antiquada. Minha mãe teve quatro maridos, e já anda procurando o próximo.

                            -Morreram, moça? -perguntou ele. Perguntou-se se ela teria alguma idéia de como o afetava sua presença, sentada ali como estava agora. Com o plaid apertado ao redor dos ombros, suas delicadas mãos postas em cima do regaço, as palmas para cima e os dedos meio curvados. Refletia sem ser consciente de si mesmo, com seu luminoso olhar da cor do jade volta para dentro.

                            -Não - repôs ao tempo que negava com a cabeça-. Simplesmente parecem decidir que já não se querem. Se é que alguma vez se quiseram. O habitual é que seja ela quem os deixa.

                            -E eles permitem que os abandone? -Se a mãe era como a filha, parecia-lhe inconcebível que um homem pudesse deixá-la partir, que um marido não fizesse quanto estava em sua mão para que fora feliz, para insuflar um hálito de vida em todos e cada um dos sonhos de sua esposa.

                            Nunca entenderia os matrimônios modernos. O divórcio escapava a sua compreensão. Embora às vezes ele pudesse não dar importância, o certo era que um druida Keltar vivia por seus votos de atadura, e pelo dia em que por fim poderia jogo de dados.

                            Para ele, esse dia nunca chegaria. Mas para ele, eram muitos os dias que nunca chegariam. Tinham sido cancelados por muitos dias que seguiram um rumo equivocado.

                            -Não entendo, Jessica. O amor, uma vez que se deu, é para sempre. Não pode esfumar-se assim. É que não amam a sua mãe, esses homens com os que se casa?

                            Ela se encolheu de ombros, e por um instante pareceu tão perplexa como ele.

                            -Não sei - disse. Às vezes me pergunto se as pessoas de hoje em dia ainda sabem o que é o amor. Às vezes, quando vejo que minhas amigas da faculdade trocam de apaixonados tão tranqüilamente como poderiam trocar de sapatos, penso que agora há muitas pessoas no mundo, e todos nossos avanços tecnológicos facilitaram tanto as coisas que de algum modo menosprezam nossos valores mais básicos e essenciais. É como se hoje em dia os cônjuges fossem um eletrodoméstico a mais: algo do que sempre pode prescindir, constantemente voltados a pôr em circulação dentro do mercado, e todo mundo tenta estar à última... , como se pudesse haver um "estar à última" no amor. -Pôs os olhos em branco-. Nem pensar. Eu não sou feita para isso. Terei um marido. Casarei-me uma vez. Quando antes de dar o passo decisivo sabe que vai ser por vida, isso faz com que se pense nisso um pouco, e obriga a ir mais devagar e escolher o melhor possível.

                            Quando sumiu em um silêncio pensativo, Cian sorriu amargamente e não pôde evitar pensar em quão caprichoso podia chegar a ser o destino. Jessica St. James era temperamental, divertida, apaixonada, generosa, e tremendamente sexy.

                            Era a mulher perfeita para ele. Em todos os aspectos, incluída sua capacidade para impedir de ler seus pensamentos. Ela, e só ela, sempre estaria além de sua magia, esse talento impossível de controlar que se encarregou de fazer que a vida lhe resultasse tão fácil. Condenadamente muito fácil. Perigosamente fácil.

                            Aquela mulher estava feita a medida para um homem de sua índole.

                            - E você o que? -Disse ela finalmente-. Esteve casado em seu século?

                            Cian não passou por cima a sombra que cruzou seus formosos olhos.

                            Jessica St. James não queria nem pensar que ele se casou, que tivesse amado a outra mulher. Sabê-lo aliviou um pouco a dor que o roia por dentro. Sabia que essa dor não demoraria em piorar, e que cresceria um pouco mais com cada dia que passasse.

                            -Não, moça. Ainda não tinha encontrado à mulher de minha vida quando fiquei prisioneiro dentro do Cristal Escuro.

                            Jessi enrugou a frente e pareceu refletir nisso, mas então trocou de parecer.

                            -Deus - disse-, tenho tantas perguntas que fazer que nem eu mesma sei o que quero te perguntar... Quantos anos têm, por certo? Sem contar o tempo que passaste dentro do espelho, quero dizer.

                            -Acabava de completar os trinta quando caí prisioneiro. E você?

                            -Vinte e quatro.

                            -Em minha época, seria...

                            -Sei, sei; em sua época tivesse sido uma solteirona, certo? -pôs-se a rir-. Já vejo que em certas coisas é igual a minha mãe.

                            -Não - disse ele-, você não teria permanecido solteira. Seguro que já iria por seu terceiro ou quarto marido. Uma beleza como a tua faria ir aos homens mais ricos do país. Desgraçadamente, também eram os que tinham mais anos.

                            Ela abriu os olhos e um tremor quase imperceptível lhe estremeceu os lábios.

                            -Uma beleza como a... -se interrompeu e avermelhou levemente-. Obrigado - murmurou depois, e lhe sorriu com malícia-. Pois que bem, não? Caso-me; ele morre. Caso-me; ele morre. E nem sequer teria o consolo de que isso fizesse de mim uma viúva rica para fazer o que me desse à vontade. Algum parente seu se apressaria a casar-se comigo, verdade? Para que não tivessem que despedir-se do dote e as terras porque eu tinha deixado de formar parte da família.

                            Cian assentiu.

                            -Mas meu clã não era tão bárbaro - disse logo. Ter sete irmãs que podiam falar todas de uma vez, e em voz muito alta quando queriam, ensinou-me um par de coisas.

                            Jessi riu e ambos guardaram silêncio.

                            Finalmente ela abriu a boca, mas voltou a fechá-la. Inclinou-se para frente e perguntou, em voz muito baixa:

                            -Como ocorreu, Cian? Como acabou dentro do espelho? Ele retrocedeu para o interior de sua prisão entre uma rede de ondulações chapeados.

                            -Em outra ocasião - disse. Embora, de quando em quando, uma parte perversa de seu ser parecia empenhada em fazer que Jessica pensasse o pior dele, adorava a intimidade que começava a nascer entre ambos. Não queria manchá-la com histórias de antigos pecados-. E agora a dormir, minha doce Jessica. Temos muito que fazer pela manhã.

                            Já entrada a noite, Cian montava guarda nu, depois do véu prateado dos invisíveis, provido de facas e armas de fogo, e velava pelo sono da Jessica.

                            Envolta em um monte de roupas que ficavam muito grandes, Jessica dormia sobre o leito improvisado com suas roupas ao pé do espelho. Cian tinha acumulado uma boa quantidade de indumentária ao longo dos séculos. Quando anoiteceu de tudo e a temperatura baixou ainda mais, jogou-lhe até o último objeto, incluídos os jeans e a camiseta que levava, em um esforço por dar um pouco de calor que a protegesse da fria noite de outubro.

                            O sonho tinha ficado relegado dentro do espelho, igual a todas as necessidades físicas. Montaria guarda até que ela despertasse. Tinha posto tudo a salvo que podia no momento.

                            Mesmo assim estava muito menos a salvo do que ele podia fazer e faria que estivesse, quando empregasse todos os meios que tinha ao seu dispor, qualquer que fosse o preço a pagar por isso.

                            Cian não tinha mentido quando disse que no dia seguinte tinham muitas coisas que fazer. Pela manhã, voltariam para Inverness e pegariam provisões. Pela manhã, ele percorreria o perímetro de seu retiro, enterraria pedras de amparo em oito pontos e cantaria feitiços em sessenta e quatro.

                            Pela manhã encontraria algo com o que poder tatuar-se, porque precisaria ter mais runas de amparo sobre o corpo para não ver-se afetado pelas artes negras às que deveria recorrer quando estendesse as armadilhas que a manteriam a salvo de Lucan e seus esbirros. Pela manhã transmutaria o chão, do mesmo modo em que os cemitérios antigos eram encantados em tempos longínquos, para obrigar à terra a que trocasse e fazer que cobrasse vida e respondesse unicamente ante ele.

                            Se havia algo morto no chão que pensava usar, as conseqüências podiam chegar a ser o bastante... Desagradáveis, mas Cian protegeria a sua Jessica. Embora tivesse que tatuar-se de pés a cabeça, barbear o crânio e tingir o couro cabeludo, as palmas das mãos, as plantas dos pés e a língua, lhe serviria de escudo.

                            "Chegará o dia em que te terá tatuado todo o corpo. -As lágrimas tinham brilhado nos olhos de sua mãe quando viu as tatuagens escarlate que Cian acabava de fazer no pescoço, tão recentes que ainda brotavam deles gotinhas de sangue mesclado com o corante-. Como defenderá sua alma então? Tem que parar, Cian. Faz que se vá longe daqui."

                            Cian tinha rido dela. "Ainda não entreguei nenhum uma décima parte de meu corpo, mãe. E Lucan pode ser um homem instruído, mas não tem suficiente poder para ser perigoso."

                            "Equivoca-te. E sua presença te volta perigoso."

                            "Não deveria falar de coisas a respeito das que não sabe nada." Mas sua mãe sabia muito bem do que falava. Desde aquela fria noite de inverno em que o escuro galês chamou a suas portas para pedir que lhe dessem proteção, porque dizia haver-se extraviado na tormenta, tinha-o sabido.

                            "Diga que se vá, Cian - lhe tinha suplicado-. Vem a nossa casa, e a escuridão vai atrás dele de muitas maneiras diferentes." Estavam acostumados a vir lhe pedir conselho porque tinha o dom da clarividência.

                            "Não faremos mais que dar de comer e proporcionar abrigo por uma noite", disse Cian para agradá-la. Tinha havido um tempo no qual fazer felizes às pessoas que amava era seu maior prazer no mundo. Sobre tudo as suas irmãs e a sua mãe. As oito tinham sido um ramalhete de mariposas que revoavam através de seus dias, dando cor a sua vida enquanto esperava com crescente impaciência a chegada de sua própria companheira.

                            Mas então descobriu que o homem que estava sentado ante ele àquela noite era outro druida; algo com o que Cian nunca encontrou anteriormente, e sua curiosidade foi tão forte que não pôde lhe dizer que se fosse. Seu pai tinha morrido antes que ele nascesse não tinha irmãos, e nunca tinha ouvido falar de outro druida.

                            Uma coisa levou a outra. O amor próprio e a arrogância tiveram boa parte de culpa.

                            "Eu sei fazer este feitiço. E você?" "Sim. Pode fazer este?"

                            "Sim. Sabe como se faz para chamar os elementos?"

                            "Sim. Conhece a Voz? Ouviste falar das Consagrações Invisíveis?"

                            "Não, embora saiba da existência das Consagrações Visíveis: a lança, a pedra, a espada e o caldeirão."

                            "Ah, de maneira que não ouviste falar do Cristal da Vidência... "

                            Assim chamou Lucan ao Cristal Escuro quando falou dele pela primeira vez. O druida galês começou a estender sua armadilha essa mesma noite, e soube pôr o melhor das cevas. "Imagina que pudesse predizer para onde soprarão os ventos da mudança política, saber com qual dos aspirantes ao trono deveria aliar a seu clã. E se soubesse quando pode padecer alguma tragédia um de seus seres queridos? Dizem que o cristal mostra o futuro com toda classe de detalhes, isso é algo que nenhum de nossos feitiços poderá chegar a fazer jamais."

                            Talvez, pensou Cian, e sentiu que o coração começava a pulsar mais depressa, inclusive pudesse mostrar a chegada da companheira da alma de um Keltar.

                            Tinha bastado abrir silenciosamente uma porta aquela noite, fazendo ouvidos surdos às palavras de sua mãe. A vida urdia sua complicada trama a partir da mais inocente das alternativas, do mais insignificante dos momentos.

                            Todas as pessoas às que tinha amado levavam mais de mil anos mortas.

                            Contaria Lucan às horas que faltavam para a festividade do Samhain - a que ele chamava Hollantide em galês, uma noite de visitas fantasmagóricas, fogueiras e adivinhações- do mesmo modo em que as contava ele? Embora tivesse falado de dias, Cian tinha muito claro quanto ia durar sua espera.

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