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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O ORÁCULO / Artur Azevedo
O ORÁCULO / Artur Azevedo

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                   

 

 

Artur Azevedo

 

 

 

 

COMÉDIA EM UM ATO
PERSONAGENS: HELENA (viúva) NELSON (advogado) FREDERICO PONTES (solteirão) JOSÉ (criado de Nelson)
A cena passa-se na cidade do Rio de Janeiro Atualidade  
ATO ÚNICO Sala e ao mesmo tempo consultório do Dr. Nelson. Porta ao fundo. Duas janelas à esquerda e duas portas à direita. Estantes de livros, consolos, etc. Á direita, perto da porta do primeiro plano, mesa carregada de livros, papéis, pena, tímpano, uma caixa de charutos, etc. Perto da mesa, quase ao centro, uma poltrona.


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CENA I
 
JOSÉ (ao levantar o pano, José está refestelado na poltrona com um espanador na mão, a saborear um charuto)  Digam lá o que disserem: não há vida melhor que a de criado de um advogado rico e sem causas. Passo os dias numa beatitude invejável, sem ter absolutamente o que fazer, comendo e bebendo do melhor, e fumando magníficos charutos! O amo nunca está em casa, e eu faço de conta que tudo isto é nosso. Permita Deus que tão cedo não acabem os seus amores com a tal viúva das Laranjeiras. Enquanto aquilo durar, durará também a minha beatitude, E por que não há de durar? A viúva é bonita a valer, e não deve custar grandes sacrifícios por ser senhora abonada. (Sinal de dinheiro) É esquisito que não se casem... ela viúva, ele solteiro. Mas Deus me livre de se lembrarem disso. Entrando uma mulher nesta casa, adeus beatitude! (Toque de campainha. José levanta-se) Quem será? Algum cliente? Duvido! seria o mesmo que aparecer uma violeta em Dezembro. (Indo espiar pelo buraco da fechadura da porta do fundo) Mas não me engano, é ela a viúva das Laranjeiras! Ora esta! é a primeira vez que aqui vem! Dar-se-á caso que... (Novo toque de campainha) Lá vou! lá vou! (Abre a porta. Entra Helena elegantemente vestida. Toilette clara) CENA II José, Helena.
 
JOSÉ (inclinando-se diante de Helena) Minha senhora. 
 
HELENA Boa tarde. (Procura alguém com os olhos) 
 
JOSÉ Ele não está em casa, minha senhora.
 
HELENA Demora-se?
 
JOSÉ Não sei, porque não tem horas certas. 
 
HELENA (encarando-o) Conhece-me?
 
JOSÉ Pois não, minha senhora. Mais de uma vez tive â honra de ir à casa de vossa excelência, mandado do s'or doutor.
 
HELENA Sim... é verdade...
 
JOSÉ E, quando assim não fosse, bastava todos os dias ver o retraio de vossa excelência à cabeceira do leito do s'or doutor... (Apontando para a porta da direita, 1° plano) Ali naquele quarto.
 
HELENA O meu retrato?
 
JOSÉ Está parecidíssimo. Só lhe falta falar. 
 
HELENA Ele saiu há muito tempo?
 
JOSÉ Logo depois do almoço. 
 
HELENA Tem estado doente?
 
JOSÉ Não, minha senhora; está de perfeita saúde.
 
HELENA (arrebatadamente) Então por que há quatro dias não me aparece?
 
JOSÉ Não sei, minha senhora.
 
HELENA Está visto... não pode saber... não é da sua conta...
 
Mas como estou nervosa e agitada!
 
JOSÉ (oferecendo-lhe a poltrona) Por que não se senta, minha senhora? (Helena senta-se) Vossa excelência quer que lhe vá buscar um copo d'água com um pouco de açúcar e uma gota de água de flor de laranja?
 
HELENA Para quê?
 
JOSÉ Como vossa excelência disse que estava nervosa...
 
HELENA Pois sim, aceito. (José inclina-se e sai; Helena ergue-se e percorre a cena) Não há que ver: está farto de mim! Desfez-se o encanto! tudo acabou. Já o esperava: há muitos meses noto a mudança do seu entusiasmo de outrora. Melhor seria que nos houvéssemos casado. E dizer que foi eu que não o quis! Dei-me tão mal com o casamento, que não me sorriu experimentá-lo de novo. Era bem independente para não me importar com o que dissessem. (Senta-se e ergue-se logo em seguida, cada vez mais agitada) Mas não! é impossível que Nelson seja ingrato. Há três anos pertenço-lhe, e nunca tive outro amor, nunca pensei noutro homem. (José  volta, trazendo um copo d'água numa salva de prata que apresenta a Helena. Ela bebe alguns goles) Obrigada. (José vai colocar a salva com, o copo sobre um consolo) Diga-me, José. (Ele aproxima-se) Chama-se José, não é assim? 
 
JOSÉ José Tralhota para servir a vossa excelência.
 
HELENA Diga-me. (Arrependendo-se) Não, não me diga nada! (À parte) Que ia eu fazer? Um criado!
 
JOSÉ Vossa excelência pode confiar cegamente em mim. Há dois anos estou ao serviço do S'or doutor Nelson e ele aprecia muito a minha discrição. 
 
HELENA Não; não seria correto interrogá-lo. Não quero que o seu amo possa acusar-me da mais leve incorreção.
 
JOSÉ Sou um simples criado de servir, mas... possuo alguma penetração.
 
HELENA Que tenho eu com isso?
 
JOSÉ Julgo ser agradável a vossa excelência afiançando-lhe que nada observei nesta casa que pudesse causar a vossa excelência a menor inquietação. 
 
HELENA Bom.
 
JOSÉ Entretanto, se vossa excelência quiser, observarei daqui em diante ainda com mais cuidado, e comunicarei a vossa excelência.
 
HELENA Cale-se! Por quem me toma? Espiá-lo? Nunca! (Toque de campainha; sobressaltada) Será ele?
 
JOSÉ Não, minha senhora. O toque de campainha do s'or doutor é mais enérgico, mais de dono da casa.
 
HELENA Então algum cliente?
 
JOSÉ Seria um fenômeno, mas... quem sabe? Tudo acontece. Não fizeram a Avenida? (Indo ver pelo buraco da fechadura) Não, senhora, não é um fenômeno. (Descendo) É um cavalheiro do meu conhecimento que nunca vi cá em casa; o comendador Frederico Pontes.
 
HELENA Frederico Pontes? Não quero que me veja! É um velho amigo de minha família.
 
JOSÉ (indo abrir a porta do quarto da direita) Queira vossa excelência entrar para cá enquanto o despacho.
 
HELENA (hesitando) No quarto dele?... 
 
JOSÉ  (quase malicioso) Que tem isso? Vossa excelência já lá está em fotografia. O original não será demais.
 
HELENA (ao entrar) Se ele aparecer, não lhe diga que estou no seu quarto.
 
JOSÉ Sim, minha senhora. HELENA Quero causar-lhe uma surpresa.
 
JOSÉ E muito agradável. (Helena sai) Parece-me que a água de flor de laranja lhe fez bem. (Novo toque de campainha) Lá vou! lá vou! (Vai abrir a porta do fundo)
 
 
CENA III José, Frederico.
 
JOSÉ (inclinando-se) Queira entrar, s'or comendador Frederico Pontes
 
(Entra Frederico. Homem quase setuagenário, bem conservado e elegante. Cabelos brancos. Monóculo. Polainas. Veste um fato claro da última moda, um pouco impróprio, talvez, da sua idade. Traz um pacote na mão) 
 
FREDERICO Então você conhece-me?
 
JOSÉ Se o conheço! Olhe bem para mim, s'or comendador: sou o José Tralhota, que vossa excelência trouxe de Lisboa.
 
FREDERICO (assestando o monóculo)  Ah! sim... o meu criado do quarto do Hotel Central. Eras tão esperto, tão vivo, tão inteligente, que resolvi trazer-te comigo quando saí de Lisboa... Chegando, porém, ao Rio de Janeiro, arrependi-me, e pus-te no olho da rua. (Senta-se na poltrona) 
 
JOSÉ Ainda estou por saber o motivo dessa desgraça.
 
FREDERICO Convenci-me de que tinhas espírito de mais para um simples criado... Os Scapins e Frontins só me agradam na Comédia ou no Odeon. Fora dali acho-os detestáveis. Entretanto, ao saíres de minha casa, poderias aspirar a coisa melhor... Por que não te arranjaste no comércio? 
 
 
JOSÉ Não sou ambicioso... Agrada-me essa situação... considero-me colocado melhor que o meu amo.
 
FREDERICO És filósofo... e mandrião. 
 
JOSÉ Mais mandrião que filósofo.
 
FREDERICO Estás então ao serviço do Dr. Nelson?
 
JOSÉ Sim, senhor, e afianço-lhe que o Dr. Nelson está satisfeito. 
 
FREDERICO Se ele fosse tão espirituoso como tu, não te poderia aturar. 
 
JOSÉ Nem eu o aturaria.
 
FREDERICO Ele fuma charutos tão bons como os que eu fumava? 
 
JOSÉ Os charutos que ele fuma não se comparam com os de vossa excelência. Os de vossa excelência eram baianos; os dele são de Havana.
 
FREDERICO Tanto melhor para ti. Eu gosto dos meus, e não quero de outros. (Mostrando o pacote) Ainda agora aqui trago provisão para um mês. (Erguendo-se) Vai pôr isto sobre um móvel qualquer. (José coloca o pacote sobre um consolo) Pelo que vejo, teu amo não está em casa? 
 
JOSÉ Não senhor.
 
FREDERICO Se é bem criado não deve tardar. Escreveu-me, pedindo-me que desse um pulo até cá quando viesse à cidade, porque desejava fazer-me uma consulta.
 
JOSÉ Logo vi que vinha para ser consultado. Para consultar ainda está para ser o primeiro que aqui venha.
 
FREDERICO Respondi-lhe dizendo que hoje às duas horas o procuraria. (Consultando o relógio) Já são duas e cinco.
 
 
CENA IV Os mesmos, Nelson, depois Helena, escondida.
 
NELSON (entrando do fundo) O seu relógio está cinco minutos adiantado, comendador. O meu está certo pelo balão.
 
HELENA (entreabrindo a porta, à parte)  É a sua voz! é ele!...
 
FREDERICO Mais minuto, menos minuto não quer dizer nada. (Depois de apertar a mão a Nelson) Estou ao seu dispor.
 
NELSON (a José) Vá lá para dentro. (José sai pela direita, olhando para a porta do quarto onde Helena está escondida; leva a salva e o copo) Desculpe-me tê-lo incomodado, mas o senhor mora tão longe, na Gávea... para lá ir é preciso perder um dia inteiro... por isso pedi-lhe que quando viesse à cidade...
 
FREDERICO Fez muito bem, não tem de que se desculpar. Sou um solteirão ocioso. Vivo dos rendimentos que escaparam à minha mocidade tempestuosa, e tornei-me um contemplativo, sem outra ocupação que não seja fumar e ler Balzac.
 
NELSON (oferecendo-lhe uma cadeira perto da mesa) É o seu autor favorito?
 
FREDERICO O favorito não, o único: Balzac é suficiente para a existência de um leitor. Na sua obra estão compendiados, não só toda a sociedade moderna como todo o gênero humano. Tenho relido aqueles cem volumes não sei quantas vezes. Sempre que chego ao último, sinto saudades do primeiro, e atiro-me a ele com curiosidade e sofreguidão. Bastaram a Balzac vinte anos para escrever tudo aquilo; aos simples mortais como nós meu caro Nelson, são necessários cinquenta para ler aquilo tudo. Mas vamos lá, que deseja de mim? 
 
(Sentam-se, devendo Nelson ficar o mais perto possível de Helena, que continua escondida)
 
NELSON  Eu sei que o comendador é um dos brasileiros que miais têm viajado... sei que na sua mocidade, que o senhor é o primeiro a classificar de tempestuosa, teve um número considerável de aventuras galantes, e é tido como um oráculo em questões de amor. Sei também que muitos rapazes inexperientes recorreram aos seus conselhos, e tais e tão discretos foram estes, que eles alcançaram tudo quanto pretendiam. Pois bem; fiado na velha amizade que o ligou a meu pai, e na bondade com que sempre me tratou, quero também eu consultá-lo sobre um caso melindroso.
 
FREDERICO Um caso de amor? 
 
NELSON Sim, um caso de amor.
 
FREDERICO Exagerou quem lhe disse que sou um oráculo. Alguma experiência, isso tenho, porque toda a minha vida rescende a odor "di femina" As mulheres me custaram muito para que não me deixassem, pelo menos o orgulho e a consolação de as ficar conhecendo... Entretanto, não foram. elas, foi esse grande psicólogo, Balzac, quem fez de mim, em questões de amor, não era um oráculo, mas um conselheiro modesto embora avisado. Exponha-me o seu caso.
 
NELSON Mas de antemão perdoe a maçada.
 
FREDERICO Não é maçada. Estes assuntos para mim têm mais interesse que a navegação aérea e a telegrafia sem fios.
 
NELSON Então um charutinho, para me ouvir com mais paciência. (Oferece-lhe a caixa de charutos)
 
FREDERICO (tirando um charuto) Aceito, mesmo porque sei que só fuma havanos.
 
NELSON Sabe? 
 
FREDERICO Pelo seu criado?
 
NELSON Ah! 
 
(Acendem os charutos e fumam) 
 
FREDERICO Vamos lá.
 
NELSON Há três anos sou o amante de uma senhora viúva, distinta, bem educada. Quero acabar com essa ligação. Que devo fazer? 
 
HELENA (à parte) Oh!
 
FREDERICO É a primeira vez que sou consultado neste sentido. Ordinariamente recorrem à minha experiência os que desejam, não acabar, mas principiar. — É indispensável, antes de mais nada, conhecer o motivo que o desgostou. Tem ciúmes dela?
 
NELSON Ciúmes? Oh! se a conhecesse! É um modelo de meiguice, fidelidade e constância.
 
FREDERICO Existe alguma particularidade que o afaste desse modelo?... quero dizer: alguma enfermidade... algum defeito físico... por exemplo: o mau hálito?
 
NELSON Por amor de Deus! É uma mulher sadia, limpa, cheirosa! 
 
FREDERICO Então é feia?
 
NELSON Feia? Uma das caras mais bonitas do Rio de Janeiro! 
 
FREDERICO Tem mau gênio?
 
NELSON Uma pombinha sem fel.
 
FREDERICO Então é tola, vaidosa, presumida, afetada, asneirona? 
 
NELSON (interrompendo-o) Nada disso. É uma mulher de espírito e, como já lhe disse, perfeitamente educada.
 
FREDERICO É devota? Anda metida nas igrejas? Passa horas esquecidas a rezar diante de um oratório?
 
NELSON Apenas vai ouvir missa aos domingos. 
 
FREDERICO Talvez abuse do piano, ou cante desafinado...
 
NELSON Não canta. Toca piano mas não abusa. Digo-lhe mais: é uma boa intérprete de Chopin.
 
FREDERICO O senhor gosta de outra mulher? 
 
NELSON Juro-lhe que não.
 
FREDERICO Bom. Já sei o que isso é. O meu amigo aborreceu-se dela, porque não lhe descobriu defeitos. É boa de mais.
 
NELSON Quem sabe? 
 
HELENA (à parte) Oh!
 
NELSON O caso é que esta ligação já durou mais tempo do que devia. Urge acabar com ela. A viúva tem uma filhinha que ainda está na idade em que se olha sem ver, mas a menina cresce a olhos vistos, e é conveniente fazer com que mais tarde não obrigue a mãe a corar.
 
FREDERICO Isso agora é um pouco de hipocrisia. Que lhe importaria a filha se o senhor gostasse deveras da mãe? O amor não conhece escrúpulos, nem conveniências.
 
NELSON Demais, sou moço... tenho um grande horizonte diante de mim... enceto agora a minha carreira de advogado... Esta ligação pôde prejudicar seriamente o meu futuro.
 
FREDERICO Vá por aí. O que o inquieta é o seu futuro, e não o da menina. Mas digame: tem certeza, certeza absoluta de que essa mulher possui todas as perfeições?
 
NELSON Se não é a mais perfeita, é a menos imperfeita que ainda conheci.
 
FREDERICO Cuidado, meu amigo! Muitas vezes tem a gente certeza de uma coisa, e a coisa é outra, muito diversa. Por exemplo: este charuto, que o senhor pagou como sendo de Havana, é um rio-grandense que não troco pelo pior dos meus baianos. (Levanta-se e vai atirar o charuto pela janela) 
 
NELSON (erguendo-se) Pois olhe, paguei-o bem caro.
 
FREDERICO E as mulheres enganam mais facilmente que os charutos. 
 
NELSON Afirmo-lhe que a mulher de quem se trata é excepcional. 
 
FREDERICO E o senhor quer se ver livre dela?
 
NELSON Quero!
 
FREDERICO E a sua resolução é inabalável? 
 
NELSON Inabalável.
 
FREDERICO Que esquisitice! Enfim, só há um meio de conseguir o que deseja... um meio violento, mas único.
 
NELSON Qual?
 
FREDERICO Suma-se! Desapareça!
 
NELSON Ela irá procurar-me onde quer que eu vá.
 
FREDERICO Boa dúvida; mas faça-se invisível, meta-se no mato e volte ao cabo de oito dias. Naturalmente ela aparece e pergunta em termos ásperos, ou sentidos, o motivo do seu procedimento. Muna-se então de um pouco de coragem, e responda o seguinte: "À vista de um fato que chegou ao meu conhecimento, nada mais pode haver de comum entre nós. Não me peça explicações: meta a mão na consciência, e meça a extensão do meu ressentimento."
 
NELSON E se ela aparecer antes que eu desapareça? Há quatro dias não a procuro. Espero que de um momento para outro surja por aí. Ad-mira-me até que ainda não tivesse vindo.
 
FREDERICO Ela não lhe escreveu?   NELSON Não há nada neste mundo que a obrigue a escrever uma carta nem mesmo um simples bilhete ao seu amante. É um sistema que adotou e ao qual não cede haja o que houver.
 
FREDERICO Decididamente essa mulher é uma fênix. Eu, no seu caso, metia-a numa redoma.
 
NELSON Mas diga-me... se ela aparecer? 
 
FREDERICO Atire-lhe a tal frase: "À vista de um fato..."
 
NELSON (interrompendo-o) Mas que fato? Pois não lhe disse já que ela é um modelo de fidelidade?
 
FREDERICO (sorrindo) Meu jovem amigo, devo parecer-lhe implacável para com o belo sexo; mas creia; não há mulher, por mais virtuosa, por mais amante, que não tenha alguma coisa de que a acuse a consciência. A sua bela viúva, em que pese às aparências, não deve, não pode escapar à lei comum. Desde que o senhor se refira positivamente, categoricamente a um fato, embora não declare que fato seja, ela ficará persuadida de que o seu amante veio ao conhecimento de alguma coisa que se passou, e a pobrezinha julgava encoberta no véu de impenetrável mistério.
 
NELSON Mas quando mesmo ela tenha algum pecadilho na consciência (juro-lhe que o não tem), com certeza protestará energicamente e exigirá que eu ponha os pontos nos ii; há de querer que eu declare a que fato aludo, e... vamos e venhamos! como acusá-la sem consentir que ela se defenda? 
 
FREDERICO Ah! meu doutor! se pretende aplicar razoes jurídicas ao caso, está bem arranjado! A jurisprudência do amor é absoluta. Acuse, retire-se, e não entre em explicações. Afianço-lhe que o êxito é seguro, tanto mais? perdoe-me este pequenino ataque ao seu amor próprio... — tanto mais que receio seja ela tão inocente como os seus charutos são de Havana. (Indo buscar o chapéu e a bengala) — E com esta, adeus! Siga o meu conselho e dê-me notícias suas. (Estende a mão)
 
NELSON (apertando-lha) Adeus, comendador, e muito obrigado. Vou acompanhá-lo até a escada.
 
FREDERICO Por quem é, não se incomode!
 
NELSON Ora essa é boa! 
 
(Saem ambos pela porta do fundo) 
 
HELENA (vindo à cena) Agora nós!... É preciso que ele não me veja... Quero mostrar a estes senhores que eu também li a Comédia Humana. (Esconde-se atrás de uma das portas do fundo)   NELSON (no corredor) Adeus, comendador, e ainda uma vez obrigado! (Volta sem ver Helena e esta sai rapidamente pela porta do fundo) 
 
 
CENA V Nelson, depois José.
 
NELSON "À vista de um fato que chegou ao meu conhecimento, nada mais pode haver de comum entre nós! Não me peça explicações: meta a mão na consciência e meça a extensão do meu ressentimento!" Assim, sozinho, sem ela diante de mim, é fácil; mas dizer coisas destas a uma senhora de quem não se suspeita... Mas, se realmente?... Qual! Pode lá ser! Decididamente há de faltar-me o ânimo. (Com uma ideia) Se eu lhe escrevesse? o efeito seria o mesmo. (Senta-se à mesa, dispondo-se para escrever e toca um tímpano. Molha a pena, prepara o papel, etc. Entra José) 
 
NELSON Ninguém me procurou enquanto estive fora?
 
JOSÉ (depois de lançar uma olhadela à porta do quarto) Ninguém. 
 
NELSON Feche aquela porta. (Aponta para o fundo)
 
JOSÉ (depois de fechar a porta, reparando no pacote que o comendador deixou ficar) Oh! o s'or comendador deixou ficar aqui os charutos! 
 
NELSON Como sabe que são charutos!
 
JOSÉ Ele disse-me. 
 
NELSON Conhecem-se?
 
TOSE — Pois se foi ele quem me trouxe de Lisboa. 
 
NELSON É um bom tipo.
 
JOSÉ Magnífico.
 
NELSON E atirado às mulheres, hein? 
 
JOSÉ Faziam dele gato-sapato. 
 
NELSON Deveras?
 
JOSÉ E foi uma delas que o fez comendador. 
 
NELSON Como assim?
 
JOSÉ Foi a condição que impôs aos seus favores. Parece-me estar toda a ouvi-la: "Meu Frederiquinho, enquanto não fores comendador não serei tua!" Daí a quinze dias ele tinha a comenda de Cristo.
 
NELSON Bom. Basta de dar à língua. Veja se o apanha no largo da Carioca. Provavelmente foi tomar o bonde da Gávea. Esses charutos devem fazerlhe falta.
 
JOSÉ É já. (Vai abrir a porta do fundo)   NELSON Por aí não. Vá pela porta da sala de jantar. 
 
(José sai pela direita, 2° plano)
 
 
CENA VI Nelson, depois Helena.
 
NELSON (tomando a pena e escrevendo) Minha senhora, à vista de um fato... (Toque de campainha) Deve ser o comendador que vem buscar os charutos... E eu que lhos mandei levar! (Levanta-se e vai abrir a porta. Entra Helena) Helena!
 
HELENA (com ímpeto) Meu Nelson, meu amor, que quer isto dizer? Há quatro dias não me apareces! É a primeira vez, em três anos, que a tua ausência foi tão prolongada!... Dize... que tens tu?... que te fiz eu?... Por que me recebes com tanta frieza?... que se passou?... disseram-te mal de mim?... fui vítima de alguma intriga?... por que te calas?... por que me repeles?... Já me não amas? Dize! (Pausa) Este silêncio... (Com um grito) Ah! Tudo adivinho! amas outra!...
 
NELSON (com um grande esforço) A vista de um fato que chegou ao meu conhecimento, nada mais pode haver de comum entre nós. 
 
HELENA Que fato?
 
NELSON Não me peça explicações.
 
HELENA Tenho, me parece, o direito não de pedi-las, mas de exigi-las. 
 
NELSON Meta a mão na consciência, e meça a extensão do meu ressentimento. (Afasta-se)
 
HELENA Estou perdida! O miserável não guardou segredo! (Cai sentada numa cadeira e cobre o rosto com as mãos)
 
NELSON (com um sobressalto) O miserável?! Que miserável?! 
 
HELENA Bem sabes quem é, pois vejo que nada ignoras. (Erguendo-se) Tens razão. Nelson: nada mais pode haver de comum entre nós. Aprecio e respeito a delicadeza dos teus sentimentos. (Dirige-se para a porta do fundo)
 
NELSON Ouve, Helena!
 
HELENA Nada mais quero ouvir. Peco-te, como um último favor, que me não insultes. Eu estava na doce persuasão de que tudo ignorarias, de que jamais virias ao conhecimento de uma fraqueza que tão desgraçada, me faz, porque cava um abismo entre nós. Vejo que o infame foi indiscreto e fez chegar aos teus ouvidos a notícia de uma vergonha aventura a que fui arrastada num momento de desvario, e da qual me arrependi amargamente. Que fatalidade! (Finge que chora e soluça) Oh! eu devia ter adivinhado que tudo sabias!... A tua ausência foi significativa, e eu, louca, na suposição estúpida de que poderia esconder a minha ignomínia! (Com um soluço) Adeus!
 
NELSON Mas; vem cá... quero saber...
 
HELENA Saber o que, se tudo sabes? Que resultaria de qualquer explicação entre os dois? O teu perdão?... Oh! não, não me perdoes, Nelson, porque o teu perdão deporia contra o teu caráter de homem de bem! (Com outro soluço) Adeus! (Encaminha-se para a porta) 
 
NELSON (tornando-lhe a passagem) Já te disse que quero saber. 
 
HELENA Se alguma coisa queres saber que não saibas, sabe que foi a tua frieza, o teu desprendimento, o pouco caso com que afinal começaste a tratar-me, que me determinaram a dar o mau passo que dei, e que tantas lágrimas me vai custar. Tu nunca me compreendeste... nunca estimaste o incomparável tesouro que havia aqui. (Bate no peito) 
 
NELSON (enfurecido) Então era certo? Pertencestes a outro homem? 
 
HELENA (com doçura) Se já tão fria, tão tranquilamente mo disseste, por que o repetes agora com tanta veemência? Não fiquemos irritados um contra o outro... separemo-nos como dois bons amigos... com um aperto de mão. (Enquanto lhe aperta a mão) Adeus! Lembra-te sempre da infeliz Helena, que te ama ainda como sempre te amou, mas mão procures nunca mais tornar a vê-la: não é digna de ti. (Aproximando-se mais de Nelson sem lhe largar a mão) Se algum dia te recordares, com pena, da nossa aventura passada, console-te a certeza de que a minha vida vai ser de agora em diante um inferno de remorsos e saudades. Adeus para sempre! 
 
NELSON (enlaçando-a) Não! não sairás daqui sem me dizeres o nome desse homem!
 
HELENA (tranquilamente) Pois se o sabes...
 
NELSON (furioso) Não sei! Queria experimentar-te... e não imaginava...
 
HELENA (fugindo-lhe dos braços) Experimentar-me! Não compreendo! Se de nada sabias, como e por que me lançaste em rosto a minha culpa? E culpa foi? pergunto agora. Tens acaso mais direito sobre mim que qualquer outro homem? Não sou eu livre como os pássaros? Não recusei a mão de esposo que me ofereceste? Sabes tu se nesse homem encontrei mais solicitude, mais carinho, mais amor do que em ti? Quem é aqui o credor? Que me deste em troca de quanto te dei? Por ti segreguei-me da sociedade, sacrifiquei o futuro de minha filha, enterrei a minha mocidade, por que imaginei que o teu amor compensasse tudo isso! Qual foi a compensação? Esse ardil infame de inventar um homem! Pois bem, Nelson, esse homem existe e nunca saberás quem é! Adeus!
 
NELSON (agarrando-a) Helena! Helena! diz-me o nome do teu amante! 
 
HELENA Cala-te! Não desças mais!
 
NELSON (frenético e apaixonado) Desço! desço! quero descer, descer muito, com tanto que te encontre lá embaixo!... Faze de mim o juízo que quiseres... despreza-me como ao mais abjeto dos homens... mas essa terrível confissão fez com que o meu amor extinto despertasse mais violento, mais impetuoso que nunca!
 
HELENA (tentando desvencilhar-se dos braços de Nelson) Deixa-me! deixa-me.
 
NELSON Ao meu amor faltou isto — o ciúme! Eu amo-te! Amo-te mais do que te amei, porque nunca me pareceste mais bela, nunca me seduziste assim!
 
HELENA Não! Deixa-me! Não sou digna de ti!
 
NELSON Cala-te, meu amor, minha amante, minha doce Helena! Per-doo-te! Amote! Adoro-te!
 
HELENA Se realmente me amas, se me adoras, então és tu que não és digno de mim! (Desprende-se dos braços dele e corre para a porta do fundo)
 
NELSON (indo buscá-la) Vem cá... Ouve... Não sou eu que te perdoo... és tu que me perdoas a mim, porque tens razão: o indigno sou eu. (Helena finge que chora) Não chores... senta-te aqui... ao pé de mim... e conversemos tranquilamente. (Fá-la sentar-se na poltrona e senta-se numa cadeira)
 
HELENA (enxugando as lágrimas fingidas) Nada disto sucederia se nos tivéssemos casado.
 
NELSON Tu não quiseste...
 
HELENA Se eu fosse tua mulher não te enganaria...
 
NELSON Ainda estás em tempo de o ser.
 
HELENA Oh! Nelson!
 
NELSON Amo-te! Amas-me! Que nos importa o resto?
 
HELENA Não, tu não me podes amar como outrora...
 
NELSON Amo-te com mais paixão, com mais fogo! (Enche-a de beijos; entra José e cobre os olhos com as mãos)
 
 
CENA VII Nelson, Helena, José, que logo sai.
 
JOSÉ Ah!
 
NELSON e HELENA Ah!
 
NELSON (erguendo-se) Que é? Tire a mão dos olhos!
 
JOSÉ Não encontrei o comendador no largo da Carioca. Voltei com os charutos.
 
NELSON Pois guarde-os lá dentro. Logo à tardinha irá levá-los à Gávea.
 
JOSÉ (à parte) Um passeio à Gávea! oh! beatitude!... (Sai pela direita, 2° plano. Nelson volta a sentar-se onde estava ao lado de Helena) 
 
HELENA Queres então que eu seja tua mulher?
 
NELSON Esse é o único meio de sermos felizes; essa é a maior prova de amor que podemos dar um ao outro.
 
HELENA Imponho apenas uma condição. 
 
NELSON Dize.
 
HELENA Jamais e sob pretexto algum me pedirás explicações sobre o passado... nenhum nome procurarás saber...
 
NELSON Persistes então em me ocultar...
 
HELENA (erguendo-se) Persisto. 
 
NELSON (erguendo-se) Seja! 
 
 
CENA VIII Nelson, Helena, Frederico.
 
FREDERICO (entrando) Com licença. Deixei ficar aqui os meus charutos. (Vendo Helena, surpreso) Oh! a senhora D. Helena aqui! 
 
NELSON Conhecem-se?
 
HELENA Há muitos anos... o senhor comendador foi muito amigo de meu pai.
 
NELSON E também do meu. Que coincidência! 
 
FREDERICO Coincidência por quê?
 
NELSON Porque somos noivos. 
 
FREDERICO Noivos?
 
HELENA Acabamos de ajustar o nosso casamento.
 
FREDERICO Parabéns, muitos parabéns... Mas os meus charutos? Tenho um bonde daqui a meia hora.
 
NELSON Vou buscá-los. Estão com o criado. (Sai pela direita, 2º plano)
 
 
CENA IX Helena, Frederico, depois Nelson e José.
 
HELENA Ai está em que deram os seus conselhos, senhor oráculo! 
 
FREDERICO Os meus conselhos?
 
HELENA Eu sou a fênix, a mulher ideal de quem ele se queria ver livre, e ouvi tudo dali, onde estava escondida. Creia, não obstante a sua implacabilidade para com as pobres mulheres, que nunca tive outro amante... mas disselhe o contrário... confessei-lhe uma culpa que não tinha, porque só assim poderia reconquistá-lo.
 
FREDERICO Mas agora que o casamento está tratado, é preciso dissuadir o pobre rapaz.
 
HELENA Mais tarde, ou talvez nunca. Esse homem, que ele não sabe quem é... essa aventura misteriosa... essa ignóbil mentira é a garantia da minha felicidade. Enquanto ele supuser que não fui dele só, será só meu.
 
FREDERICO Que mulher! Aquele idiota não a merece! 
 
HELENA Merece... Hei de prová-lo. Tenho a minha ideia. 
 
FREDERICO (à parte)
 
Hum!
 
NELSON (voltando com o pacote e acompanhado por José) Comendador, aqui tem os seus baianos.
 
FREDERICO Obrigado. (Apertando a mão a Nelson) Meu amigo, renovo os meus parabéns, e, uma vez que se vai casar, recomendo-lhe que leia a Psicologia do casamento.
 
HELENA De Balzac?
 
FREDERICO De Balzac, sim. É uma fantasia licenciosa, mas genial, que corre mundo desde 1829. Minha senhora... (Aperta a mão a Helena) 
 
JOSÉ (à parte) Ele casa-se!... Adeus beatitude!...

 

 

                                                                  Artur Azevedo

 

 

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