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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O PAVOR / William Voltz
O PAVOR / William Voltz

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Um fantasma parece ter embarcado na nave K-262...

Perry Rhodan quer saber se seu velho adversário e pretenso aliado, o computador-regente de Árcon, criou bases secretas ou colocou agentes em outros planetas. Para cumprir tal projeto, o administrador do Império Solar envia várias expedições de investigação pela Galáxia.

Durante as expedições, uma com destino a Epan passa por momentos de pavor inimaginável...

 

O cheiro de suor, sangue, sujeira, animais e terra úmida revolvida; uma massa de espectadores formada por pequenos funcionários, grandes dignitários, mercadores, contrabandistas, operários, soldados e nobres; o rugido da luta, o tinir das armas, os gritos dos animais feridos, as exclamações exaltadas do público... Era este o “espetáculo” na arena de Rapmaag.

Sob o disfarce de um epanense e se parecendo com uma estátua de anão de “tamanho descomunal”, Walt Scoobey tocou no braço de Marcus Everson.

— Como vamos localizar nosso contato em meio a esta multidão? — perguntou.

Deixou os olhos rondar sobre o círculo da arena, cuja massa ondulante oferecia um quadro bastante colorido. Havia poucos lugares vagos.

O Coronel Marcus Everson, um homem de um metro e noventa, que no seu disfarce não apresentava um aspecto muito melhor que o de seu companheiro, olhou cautelosamente em torno.

— Ele entrará em contato conosco — respondeu. — Será conveniente falar em voz baixa. Em hipótese alguma devemos chamar a atenção de quem quer que seja. Tomara que Goldstein não se esqueça disso.

Um toque de fanfarra impediu-o de prosseguir em suas explicações. Os jogos iriam começar. Seis robustos soldados arrastaram uma jaula para dentro da área principal do estádio. Na jaula via-se um animal parecido com um sáurio.

— Será que realmente haverá um idiota que se disponha a lutar contra esse monstro? — perguntou Scoobey em tom incrédulo.

Sua voz foi sufocada pelo uivo da multidão.

Alguns ajudantes apareceram na pista de luta, a fim de desatrelar os animais de tração e levá-los para fora da arena.

Assim que todos se colocaram em segurança, alguém que se encontrava no limite da clareira abriu a jaula usando uma longa corda. O pescoço do monstro parecia uma cobra. O berreiro do povo ávido de sensação parecia deixá-lo perturbado.

Os guardas espetaram o monstro com longas varas. Conseguiram o que queriam. Cego de raiva, o monstro saiu da jaula. Nuvens de poeira vermelha levantaram-se. Sempre que o animal se aproximava da borda da arena, os espectadores das primeiras filas fugiam apavorados.

Uma porta abriu-se logo abaixo do camarote do rei. Um epanense, que quase chegava a ser do tamanho de Everson, entrou na arena, recebido por uma verdadeira onda de aplausos. Para os padrões epanenses era grande. Mantinha os olhos oblíquos semicerrados, a fim de proteger-se da poeira. As grandes orelhas salientes estavam cobertas pelo cabelo. O gladiador usava um colete de couro. Na mão direita, segurava uma espada de lâmina larga.

— Será que pretende enfrentar o monstro com esse palito? — perguntou Scoobey fora de si. — Isso é suicídio!

Everson completou sem a menor comoção:

— E bastante lamentável, Walt. Aquele sujeito maluco é nosso contato. Nos levará para junto de Goldstein.

Scoobey ficou nervoso. Sua mão apalpou um lugar embaixo da larga capa colorida, que substituía o uniforme espacial do Império Solar. Com um gesto rápido, Everson segurou seu braço.

— Guarde a arma! — ordenou. — Seu disparo pode nos denunciar!

Scoobey voltou a tirar a mão de baixo das vestes.

— Tem certeza de que o homem que vai arriscar a vida lá embaixo é nosso contato?

Everson acenou resolutamente com a cabeça.

— Está vendo o cinto dele? Nele foram bordadas algumas meias-luas. Meia-lua na arena, é esta a indicação que nos foi dada.

O gladiador epanense cumprimentou o rei. Colocou-se no centro da arena, esperando que o gigantesco inimigo o avistasse. Na parte visível de seu corpo havia numerosas cicatrizes.

Um grito prolongado de desafio saiu da boca do lutador. Os olhos pequenos e estúpidos do animal fitaram-no. O pescoço de cobra virou-se abruptamente. Com a cabeça estendida para a frente, o monstro precipitou-se sobre o homem solitário. Toneladas de carne e músculo fizeram o chão estremecer. Quando a fera partiu para o epanense, ameaçando derrubá-lo, um grito de pavor soou na tribuna.

O homem desviou-se com um salto fantástico. O animal passou por ele, pois não conseguiu controlar imediatamente o impulso daquela enorme massa. O epanense levantou-se no mesmo instante. O inimigo veio parar junto ao muro que limitava a arena, a fim de iniciar outro ataque. O epanense, que lutava pela vida, correu em direção ao muro.

Everson ouviu Scoobey gemer baixinho. Com o corpo inclinado para a frente, o oficial mantinha a cabeça apoiada em ambas as mãos.

— Você não acha que isso é uma coisa desumana? — disse Scoobey.

— Tudo é feito espontaneamente — objetou Everson. — Ninguém é obrigado a lutar contra vontade. Um gladiador ganha mais que um ministro. Provavelmente também gozam de maior popularidade. E, para isso, arriscam o maior valor que possuem: a vida.

— Goldstein já deveria ter entrado em contato conosco — disse Scoobey com a voz impaciente. — Está usando a mesma máscara que nós. Muitas vezes não consigo compreender esses mutantes.

Everson sorriu. Conhecia a mentalidade de Scoobey. Se ninguém o tranqüilizasse, o oficial seria como uma banana de dinamite que ameaçasse explodir a qualquer momento.

— Goldstein ainda é jovem. Esta é sua primeira missão. Além disso, os telepatas costumam ser sensíveis e prudentes. Olhe!

O grito de Everson fora causado pela cena que se desenrolava na arena. Seu contato achava-se de costas contra o muro, com o corpo ligeiramente abaixado. Mantinha a espada um tanto erguida, e fitava tranqüilamente o monstro que se aproximava. A fera investiu cegamente contra a pequena criatura que se atrevia a enfrentá-lo. O epanense colocou-se na proteção do ângulo morto formado pelo muro. E dali desferiu o primeiro golpe. Atacando obliquamente e de baixo para cima, atingiu o pescoço do animal.

Louco de susto e de dor, o monstro esbarrou na parede de barro. O grito estridente dos espectadores encheu o estádio. Everson perguntou a si mesmo por que os lugares mais caros eram justamente os das fileiras de baixo, se estes tornavam-se os mais perigosos.

O epanense, um homem frio e audacioso, contornou o gigantesco animal. Esquivou-se habilmente às chicotadas desferidas pela cauda. O animal perdeu-o de vista. Nuvens de poeira vermelha subiam da arena. O revestimento amarelo do camarote real assumiu uma tonalidade escura. A multidão voltou a gritar. Everson confessou a contragosto que, embora a luta apelasse para os instintos mais animalescos, nela havia algo de excitante.

O gladiador lutava com resolução e prudência. Aproveitava-se habilmente da lerdeza do monstro. Suas armas eram a inteligência e alguns feixes de nervos de aço. A espada que trazia na mão era apenas o instrumento de execução.

— Está conseguindo! — exclamou Scoobey em tom exaltado. — Por todos os planetas! Ninguém acreditará nesta história. Todo mundo me chamará de mentiroso.

Everson lançou-lhe um olhar triste.

Teve de esforçar-se para não dizer que Scoobey contava histórias muito mais incríveis aos cadetes da Academia Espacial, com o rosto mais sério deste mundo.

O duelo aproximava-se do fim. Os movimentos do monstro ficavam cada vez mais lentos. Sangrava em muitos lugares. O epanense continuava a mover-se com a precisão de uma máquina. Everson teve a impressão de que o fim da luta tornava-se um espetáculo degradante; sentiu-se enojado.

Finalmente o gigantesco animal caiu na poeira, e seu sangue deu uma coloração escura ao solo. O vencedor, radiante, colocou-se diante do camarote real, ergueu o braço a título de cumprimento. O rei levantou-se. Era uma pequena figura arredondada, de braços curtos e movimentos apressados. Aplausos frenéticos envolveram o vencedor.

Everson sentiu um gosto desagradável na boca. Centenas de epanenses tomaram a arena de assalto. O gladiador foi carregado nos ombros pela multidão delirante.

— Acabou — disse Scoobey. — O que vamos fazer?

— Será difícil entrar em contato com ele — admitiu Everson. — Os fãs não o largarão tão cedo. Acho que foi a atração principal do espetáculo de hoje. Vamos dar uma olhada nas proximidades do lugar em que está o rei.

— Por quê? — perguntou Scoobey. Rugas de impaciência surgiram em sua testa. — Quer oferecer uma ovação àquele gorducho?

Everson lançou um olhar para o camarote real. Todas as “eminências” se haviam levantado. A maior parte dos homens, que rodeavam o rei, era muito mais alta que ele. Everson perguntou a si mesmo o que diria o homem mais poderoso de Epan se soubesse da presença de três homens vindos de um planeta situado a mais de dez mil anos-luz. Que pensamentos lhe viriam à cabeça se visse a nave girino pousada nas proximidades da cidade, numa área deserta?

— Coloque-se no lugar do agente de uma potência estrangeira — disse Everson em resposta à pergunta do companheiro. — Onde procuraria ficar?

— É claro que o senhor tem razão — concordou Scoobey. — Alguém que queira tomar pé neste planeta não irá relacionar-se com o simples homem de rua. Goldstein já teve tempo de sobra para descobrir se por aqui já surgiram agentes de alguma raça estranha de astronautas.

Everson ergueu-se lentamente. Mesmo sob o disfarce epanense, sua figura era imponente. As grandes conquistas dos arcônidas na área da biologia e os extraordinários produtos farmacêuticos faziam com que esse homem de oitenta e cinco anos parecesse um robusto cinqüentão. O coronel tinha chance de atingir a idade de cento e quarenta anos.

— Bem, vamos tentar a sorte — decidiu Everson.

Abriu caminho em direção à saída. Um pequeno epanense de corpo ressequido interpôs-se em seu caminho.

— Querem ir embora logo depois da luta de Mataal? — perguntou. Sua voz parecia de pássaro, e nela havia um tom odiento.

Everson, que realizara um hipnotreinamento do dialeto epanense, tal qual Goldstein e Scoobey, respondeu em tom amável:

— Ficamos entusiasmados com a coragem de Mataal. Nossa terra fica ao norte, nas proximidades de Aplaag. Mas as arenas de lá não oferecem nada que se compare aos espetáculos daqui. Esse Mataal é formidável.

Um sorriso esboçou-se no rosto flácido do epanense. Em seus olhos, via-se um brilho orgulhoso. Everson inclinou a cabeça para o homenzinho e colocou algumas moedas em seu bolso.

— Temos de voltar logo para Aplaag, amigo. Mas gostaríamos de cumprimentar Mataal. Acho que o senhor nos poderá ajudar.

O homem lançou-lhe um olhar astuto e sacudiu a cabeça.

— Não posso sair daqui — disse em tom triste. — Preciso controlar os ingressos. Se abandonar meu posto, perderei o emprego.

Era um homem que mandava numa pequenina área, por isso sentia-se orgulhoso e importante. Num gesto significativo, bateu no bolso em que Everson colocara as moedas. O coronel colocou mais algumas.

— Tenho uma idéia — disse o homenzinho imediatamente. — Volte à arena. A entrada das salas dos gladiadores fica pouco antes da escadaria destinada ao público. Quem está vigiando essa entrada é Orgabaas, um amigo de minha esposa.

Scoobey deu uma cutucada em Everson e sorriu.

— Deixe isso para lá! — disse o coronel em tom indignado.

— Orgabaas os ajudará — prometeu o epanense. — Naturalmente... — voltou a bater no bolso.

Everson agradeceu e arrastou Scoobey. Voltaram pelo caminho já percorrido e encontraram a entrada que lhes fora indicada. Um velho epanense de pernas tortas e pele muito amarela fechou-lhes o caminho.

— Aonde pensam que vão? — perguntou em tom áspero.

Sem dizer uma palavra, Everson deixou cair algumas moedas nas mãos do homem. A expressão indignada de seu rosto desapareceu.

— Metade da Galáxia é subornável — constatou Scoobey em tom amargurado.

Mais uma vez, Everson tomou a palavra:

— Queremos falar com Mataal. Somos de Aplaag e gostaríamos de travar conhecimento com o grande lutador.

Sem dizer uma palavra, Orgabaas apontou para uma porta. Everson mandou que seu imediato esperasse e entrou sem bater. Sentiu-se envolvido por um cheiro acre de tinta fresca. A sala estava repleta de epanenses. Mataal achava-se em meio àquela multidão. Todos falavam ao mesmo tempo. Everson afastou um grupo de jovens epanenses para penetrar na sala.

Subitamente viu Mataal. O gladiador estava deitado numa esteira azul. Tirara o colete de couro. Tinha os olhos fechados. Em torno dele, os fanáticos estavam de pé, agachados, deitados ou ajoelhados e gesticulavam que nem uns loucos.

Everson fez uso de seus fortes braços para avançar até a esteira. Com um sorriso amável, inclinou-se sobre Mataal.

— Meia-lua na arena — cochichou ao ouvido do epanense.

Mataal abriu os olhos oblíquos. Eram negros e imperscrutáveis. Everson teve a impressão de que sua imagem se refletiria nesses olhos, desde que se aproximasse bastante. Enfrentou o olhar indagador. As vozes tornaram-se mais fortes. Todos acharam que era chegado o momento em que poderiam importunar o lutador com seus desejos ou perguntas. Mas...

— Meus amigos — disse Mataal com uma voz que, embora fosse suave, penetrava em todos os cantos da sala. — Façam o favor de retirar-se.

Everson ficou espantado ao ver que a sala se esvaziou num instante. Depois que o último dos fãs havia desaparecido, Mataal disse:

— São como crianças. Não acha?

Sua voz era agradável e revelava um elevado grau de cultura. Esse homem deveria ter possibilidade de ganhar dinheiro sem arriscar a vida.

Everson não estava disposto a envolver-se numa discussão sobre os fãs de Mataal.

— Onde está Goldstein? — perguntou em tom lacônico.

Mataal colocou as mãos sobre os ombros do coronel. Everson sentiu a força inacreditável daqueles braços.

— Eu o levarei para junto dele — disse o epanense em tom solícito. — Acontece que o senhor nem imagina em que estado se encontra o rapaz.

Essas palavras guardavam um significado funesto, que deixou Everson apavorado.

— Está doente? — perguntou com a voz embargada.

— Devo confessar que não sei — respondeu Mataal. — Acho que está mudado, mas ele não fala sobre o que lhe aconteceu. Depois de sua chegada, muitas vezes desapareceu por vários dias. Não sei qual é a tarefa que o senhor lhe confiou, mas há alguns dias, quando voltou, parecia bastante perturbado. Está quieto e indiferente. Nestes últimos dias, não saiu mais de minha casa.

Everson refletiu intensamente.

O que poderia ter acontecido com o jovem mutante? Teria entrado em contato com agentes de outras potências?

— Goldstein disse alguma coisa que leve a concluir que seu estranho comportamento tem algo a ver com uma terceira pessoa?

— Ele não fala sobre isso — repetiu Mataal. — O senhor verá com seus próprios olhos. Garanto-lhe que nada falta a seu amigo, e que está gozando de todas as regalias de hóspede — depois de ligeira pausa, acrescentou: — Se desejar, podemos ir agora.

Everson fez um gesto afirmativo, e Mataal passou por ele, dirigindo-se à porta. Assim que abriu-a, Walt Scoobey entrou.

— Olá! — disse, olhando Mataal de lado. — Um verdadeiro exército passou por aqui. Será que toda aquela gente estava lá dentro?

— Walt — disse Everson a meia voz, deixando de lado a língua epanense. — Este homem acaba de contar que alguma coisa não está em ordem com Goldstein. Pelo que diz, o mutante parece bastante mudado.

Scoobey cocou as orelhas artificialmente aumentadas. Para demonstrar a admiração que sentiam por Mataal, os espectadores acorriam de todos os lados. Com a ajuda de Orgabaas, o lutador conseguiu abrir caminho. Saíram juntos da arena e Mataal levou-os à cidade.

As construções pelas quais passavam, feitas de barro, madeira ou pedra bruta, eram mais ou menos suntuosas, segundo as posses dos donos. O meio de transporte consistia em carros ovais puxados por animais semelhantes a cavalos. Muitas vezes, Mataal recebia cumprimentos respeitosos.

Caminhavam lado a lado sem dizer uma palavra.

Mataal parou diante de uma casa que se distinguia pelo tamanho descomunal.

— É aqui que eu moro — disse em tom orgulhoso.

Caminhou à frente dos outros. Alguns criados com vestes coloridas abriram as portas. Mataal sorria.

— É o sinal do êxito do lutador — disse. — Não preciso de cartaz de propaganda.

Foram ao pátio interno e entraram num aposento decorado com muito bom gosto.

Mataal olhou para Everson e depois para Scoobey.

— Aceitam um refresco?

— Queremos ver Goldstein — disse Everson em tom impaciente.

Com um sorriso condescendente, Mataal levou-os a um pequeno aposento, muito limpo, no qual havia uma cama baixa de madeira onde um jovem estava deitado. Tinha os olhos muito abertos.

Quando eles entraram, não se moveu. Não fez absolutamente nada.

Era Goldstein.

Na porta, Mataal disse com a voz baixa:

— É claro que não é nenhum epanense; os senhores também não são.

 

O jovem mutante jazia à frente de Everson. Parecia abobalhado. Os lóbulos das orelhas artificiais estavam exageradamente afastados da cabeça. A pele amarela estava desbotando. Talvez Goldstein não se preocupara com o fato de que a cor natural de sua pele voltara a aparecer. A peruca estava reduzida a alguns feixes de fios vermelhos.

Essas impressões deixaram Everson tão abalado que só compreendeu todo o alcance das palavras de Mataal, quando Scoobey olhou para Goldstein e praguejou baixinho. Os nervos estomacais de Everson contraíram-se.

Quem era esse Mataal que, segundo parecia, não tinha a menor dificuldade em resolver qualquer enigma ou problema? Será que também era um telepata? Por acaso disporia de forças paranormais, que lhe permitiam enfrentar os gigantescos animais na arena?

— Mais alguém sabe disso? — perguntou Everson em tom contrariado.

Mataal fez um gesto negativo com as mãos.

— Não sou nenhum tagarela. Além de mim, ninguém sabe.

Everson percebeu que só lhe restava uma possibilidade. Mataal conhecia sua identidade. Se quisessem evitar que a espalhasse, teriam de levá-lo à nave girino. Mais do que isso, Mataal teria de acompanhá-los à Terra. Sua descoberta representava um perigo enorme. Se caísse nas mãos de algum agente de uma potência galáctica, levaria apenas alguns segundos para contar tudo. Mas Perry Rhodan fazia questão absoluta de que as missões dos agentes do Império Solar fossem mantidas em segredo...

— Mataal — principiou Everson em tom tranqüilo — preciso explicar-lhe uma porção de coisas. Acontece que o senhor não me compreenderia. Seu horizonte, visto sob um ângulo relativista, é tão restrito que não seria capaz de assimilar tudo. Viemos de outro sistema solar, situado nos confins da Galáxia. Posso garantir que os objetivos de nossa missão são justos.

— Conheço Goldstein — disse Mataal. — E agora já conheço os senhores. Isso me basta. Confio nos senhores.

Everson voltou a olhar para o mutante.

— Parece morto — observou Scoobey em tom preocupado.

O coronel sentiu uma onda de compaixão apossar-se de sua mente. Admirava esses homens que, a muitos anos-luz de seu mundo, defendiam uma posição ímpar, a fim de cumprir uma missão que visava à existência e ao desenvolvimento de todas as raças.

Everson foi ao outro lado da cama, para que o rapaz pudesse vê-lo. Os olhos do mutante pareciam fitar alguma coisa situada a grande distância.

— Goldstein! — exclamou o coronel. — Aqui fala Marcus Everson. Walt Scoobey está a meu lado. O senhor nos reconhece?

— Reconheço — respondeu o telepata com a voz débil.

Por alguns segundos, seus olhos retornaram à realidade daquela sala. Parecia um boneco ao qual se precisava dar corda para despertá-lo para a vida. Havia alguma coisa no mutante que dava a Everson a certeza de que não se sentia muito entusiasmado com a chegada deles. Em sua postura havia um protesto mudo, uma rejeição sensível, não expressa em palavras.

O Goldstein que estava deitado ali era outro Goldstein, um Goldstein completamente mudado.

Everson perguntou:

— O que houve?

— Nada — respondeu o mutante em voz baixa. — Realmente não houve nada.

Everson lançou um olhar rápido para Mataal. O epanense mantinha-se a seu lado numa atitude quase indiferente; fitava Goldstein. Seus olhos escuros estavam semicerrados. O silêncio naquele quarto era tamanho que Everson ouvia a respiração dos outros. Talvez Goldstein estivesse com medo de falar enquanto Mataal se encontrasse no quarto.

— O senhor se importaria de deixar-nos a sós por um instante? — pediu o coronel.

Sem dizer uma palavra, o gladiador saiu. Assim que se encontrava do lado de fora, Everson ouviu que chamou um criado. Mas, naquele instante, não tinha tempo para refletir sobre as intenções do epanense.

— Então? — perguntou. — Já está disposto a falar?

— Tudo bem — asseverou Goldstein, fazendo um esforço tremendo para dar um tom enérgico. — Não encontrei o menor indício de que neste planeta existam membros de outra raça de astronautas. Em Epan, não existe qualquer agente estrangeiro. Com algumas raras exceções, os nativos são inofensivos e decadentes. Acho que nunca conseguirão desenvolver uma tecnologia avançada. Podemos voltar tranqüilamente à Terra.

— O senhor contou a Mataal que não somos epanenses? — interveio Scoobey.

— Mataal é muito inteligente. Além disso, está farejando um negócio.

É uma resposta pouco precisa para uma pergunta direta”, pensou Everson. Em voz alta perguntou:

— Por que está tão apático? Sente-se doente?

— Não — respondeu Goldstein em tom áspero. — Não estou doente. Quem foi que lhe disse que estou?

Estava pálido e magro, e falou como uma pessoa debilitada por uma enfermidade prolongada. Teve dificuldade em articular as palavras.

— Não sei o que é. Deve ser as condições climáticas.

Everson sabia que em Epan o verão e o inverno se sucediam com uma rapidez enorme.

Mas será que isso poderia ser motivo da modificação havida com Goldstein?

A expressão de perplexidade surgida no rosto de Scoobey provava que este também não sabia o que pensar. Pouco importava o que acontecera ao rapaz em Epan; de qualquer maneira, teria de ser levado de volta à Terra o mais rápido possível. Os especialistas de Terrânia logo descobririam o que havia com ele.

O instinto seguro da desgraça próxima, que Everson adquirira nos longos anos de serviço, fez-se ouvir em sua mente. O mutante teria de ser retirado desse ambiente.

— Mataal! — gritou em tom enérgico.

Everson impressionou-se com a tranqüilidade e autoconfiança que o epanense demonstrou ao voltar. Lamentou-se de não possuir dons telepáticos que lhe permitissem penetrar nos pensamentos daquele homem.

— Levaremos Goldstein à nossa espaçonave — disse Everson. — Vamos voltar ao nosso mundo.

Um brilho frio surgiu nos olhos oblíquos. Everson sentiu-se como se fosse o animal estúpido da arena, que ficou entregue à arma desse indivíduo frio.

— Eu os levarei para fora da cidade — disse o epanense em tom cortês.

Everson fez um esforço.

— O senhor irá um pouco mais longe — disse em tom frio. — Terá de acompanhar-nos à Terra.

A risada de Mataal parecia despreocupada. Limitou-se a dizer uma única palavra:

— Não!

— Vire-se! — gritou Everson.

Mataal viu que Scoobey estava atrás dele. O oficial apontava-lhe o paralisador.

— Temos duas possibilidades — principiou Everson. — Podemos paralisá-lo com esta arma, ou então podemos matá-lo. Nunca se esqueça de que não recuaremos diante de nada. Nosso povo está envolvido num jogo cósmico no qual um pequeno erro poderá acarretar sua destruição. A missão é tão importante que não podemos ter consideração pela vida de qualquer indivíduo. Procure compreender depressa.

No íntimo, Everson não pôde deixar de admirar aquele ser estranho. A tranqüilidade com que recebeu aquelas palavras só encontrava par na calma demonstrada durante a luta na arena.

— O senhor já mostrou seus trunfos — disse Mataal e fez um gesto em direção a Walt Scoobey. — Agora é minha vez. É claro que poderão matar-me, mas nesse caso não sairão vivos desta casa. Quando o senhor me pediu que saísse para conversar à vontade com Goldstein, avisei meus criados de que, haja o que houver, acompanharei meus hóspedes para fora da casa. O senhor compreende? Se o senhor me paralisar com essa arma, terá de enfrentar outro problema. Como poderia levar o corpo imóvel do homem mais popular da cidade, desculpe a imodéstia, até a nave espacial? E se não me matar ou imobilizar, terão de contar com a possibilidade de que eu informe à primeira pessoa com que me encontre quem é o senhor e que estou sendo obrigado a acompanhá-lo.”

Sorriu. Sua segurança era assombrosa. Prosseguiu num tom irônico:

— E tem mais: para os senhores, é preferível que ninguém os reconheça. Se usarem essa arma, provocarão suspeitas. A arma mais moderna por aqui é a besta.

A inteligência refinada daquele homem, a segurança com que sabia avaliar a situação, e a lógica com que tirava as conclusões, poderiam conduzir ao fracasso da missão. Um bárbaro primitivo, sob os padrões da Terra, causava-lhes problemas!

— Muito bem — interveio Scoobey — assumiremos o risco.

Encostou o paralisador às costas de Mataal.

— O senhor irá à nossa frente. Nós lhe indicaremos o caminho. Se der um pio, farei uso da arma. Diremos aos homens com que nos encontrarmos que somos seus amigos. Afirmaremos que a luta na arena o deixou tão exausto que acabou desmaiando. Somos seus amigos e estamos levando-o a um médico conhecido, que se encontra na cidade conosco. Então, Mataal, vamos?

O epanense caminhou em direção à porta sem oferecer a menor resistência. Scoobey seguiu-o. Havia uma expressão resoluta em seu rosto. Everson olhou para Goldstein, que permaneceu imóvel na cama.

— Vamos, homem! — gritou o coronel. — Mexa-se!

Goldstein desceu apaticamente do leito. Seu aspecto era amedrontador. Os olhos estavam afundados nas órbitas, e mal conseguia manter-se de pé.

— Procure controlar-se! — disse Everson em tom áspero.

Logo se arrependeu dessas palavras. Tinha certeza de que Goldstein estava fazendo o possível.

Quando saíram do quarto, um dos criados se encontrava junto à porta. A expressão de seu rosto não anunciava qualquer perigo. Apesar disso, Everson suspirou aliviado quando deixaram a casa.

 

Mataal andava dois metros à frente de Goldstein e Scoobey. Everson mantinha-se ligeiramente ao lado. Um veículo aproximou-se deles. O epanense sentado na carroça oval estalou a língua e bateu com o chicote para fazer o animal andar mais depressa. No momento em que a carroça se encontrava ao lado de Mataal, o gladiador soltou um grito rouco e, com um salto desesperado, saltou na direção do veículo.

A carroça parou.

Everson ouviu Scoobey praguejar. Contornou e subiu na “charrete”, para deixar Mataal no ângulo de tiro do oficial. O carroceiro levantou-se e bateu com o chicote. Atingiu Everson nas costas. A força do golpe derrubou o coronel.

Mataal conseguiu entrar na carroça. Scoobey, que não podia arriscar-se a atirar, já que poderia atingir Everson, saltou atrás dele. Mais uma vez, o carroceiro fez uso do chicote. Era um homem pequeno e robusto, que lutava com uma obstinação silenciosa. A cada vez que brandia o chicote, seus lábios abriam-se, mostrando duas fileiras de cacos de dentes escuros.

Scoobey desviou-se das chicotadas e abraçou as pernas do lutador.

Everson levantou-se gemendo. Suas costas ardiam. Puxou para trás o braço levantado do carroceiro. O homem perdeu o equilíbrio e caiu ao chão juntamente com Everson. A poeira levantou-se e ardeu nos olhos de Everson. Este rezou aos céus para que não aparecessem outros epanenses. Seu adversário era pequeno e ágil.

— Rápido, coronel! — disse a voz ofegante de Scoobey. — O sujeito vai fugir.

Mataal agora apertava o pequeno oficial contra o parapeito da carroça e tentava atirá-lo para fora.

Everson desferiu um tremendo golpe em seu adversário, colocando-o fora de ação. Depois atirou-se sobre Mataal, que se dispunha a pegar as rédeas e tanger o animal. O epanense empurrou-o violentamente para trás. Everson bateu com a cabeça em algum lugar da carroça. Viu Scoobey ajoelhado com o paralisador na mão. Círculos vermelhos dançavam à frente de seus olhos. Sentiu o corpo inundado pelas dores.

— O animal, Walt! — gritou com grande esforço. — Atire contra o animal.

A carroça, que começava a movimentar-se, reduziu a velocidade. Scoobey, que ainda trazia a arma em punho, aproximou-se. Atingidos pelo paralisador, Mataal e o animal desmaiaram.

— Teremos de carregar Mataal — disse Everson, esfregando o crânio dolorido. — O carroceiro pode ficar deitado aqui. Levará algum tempo para recuperar os sentidos. E não saberá contar muita coisa.

Scoobey fez que sim. Em sua testa surgiram rugas de preocupação.

— O rapaz... — disse.

Everson olhou para trás. Goldstein continuava no mesmo lugar. Não interviera na luta.

 

O sussurro dos aparelhos eletrônicos transformou-se num forte zumbido. Everson abriu os olhos e procurou penetrar pela semi-escuridão.

Sabia que um ruído indefinível o despertara...

Perplexo, notou que, por sentir-se nervoso, seu coração palpitava fortemente. Sacudiu a cabeça e ligou a luz.

O minúsculo recinto apresentava certo conforto. E esperando que o nervosismo fosse cessar sob o efeito da luz, Everson sentiu-se decepcionado, pois continuou agitado. Vestiu-se e saiu do camarote. O girino identificado pelo prefixo K-262, que os tripulantes chamavam carinhosamente de Fauna, encontrava-se em queda livre.

Everson deixou que o corrimão da escada da sala de comando lhe passasse sob a mão. O nervosismo diminuiu um pouco. Grande parte dos quinze tripulantes encontrava-se nos camarotes. Antes da próxima transição, o quadro mudaria de supetão, pois todos teriam de estar a postos.

Scoobey, um telegrafista e o cadete Ramirez estavam na sala de comando.

— Olá, coronel! — exclamou Scoobey.

— Por que não está descansando?

A pergunta não deixava de ter sua justificativa, pois o imediato estava em condições de cuidar do serviço de rotina.

— Quero falar com Mataal e Goldstein — respondeu Everson. — Talvez o rapaz já esteja melhor.

Scoobey sorriu e esteve prestes a dar uma resposta, quando, no corredor que ficava abaixo deles, uma porta de camarote abriu-se violentamente.

Gerald Finney, um técnico esbelto, de cabelos negros, olhou-os com uma expressão de perplexidade. Everson inclinou-se sobre o corrimão.

— O que houve com o senhor, Finney?

Na testa do homem via-se uma pequena cicatriz, perfeitamente curada. Everson viu-a brilhar sob a forma dum triângulo branco.

— Não sei — gaguejou.

Evidentemente estava à procura de uma desculpa.

— Por que está andando por aí na sua hora de descanso? — perguntou Everson em tom áspero. — Diga logo!

— Fiquei com sede — respondeu o técnico apressadamente e engoliu em seco.

— Suba para cá! — ordenou o coronel.

Finney apressou-se em cumprir a ordem. Everson fitou-o atentamente. E então viu: Finney estava com medo!

— O que houve realmente?

Os olhos do homem procuravam um ponto que pudessem fitar sem provocar suspeitas. Everson notou que os lábios de Finney tremiam.

— Tive um pesadelo — disse Finney. — Não pense que foi a loucura espacial. Como sabe, já estou no cosmo há muito tempo. Foi mesmo um pesadelo.

— Com o que andou sonhando? — perguntou Everson em tom insistente. Seus pensamentos recuaram alguns minutos, até o momento em que sentira palpitações enquanto estava na cama.

— Foi um sonho muito infantil, coronel — disse o homem. — Tive a impressão... eh... de que havia alguém bem perto de mim.

O telegrafista deu uma risadinha.

— O senhor costuma ter esse tipo de alucinação? — perguntou Everson.

Finney sacudiu resolutamente a cabeça.

— Foi a primeira vez.

— Quero que o Dr. Morton o examine — disse Everson, concluindo a palestra. — Não deixe de me avisar se isso se repetir.

— Não estou doente — asseverou Finney. — Um sonho não é nenhuma doença! Por que tenho de falar com o Dr. Morton?

— Faça o que mandei — ordenou Everson. — Retire-se.

Finney saiu desolado. Everson seguiu-o com os olhos, até que Scoobey surgisse a seu lado.

— Não pense que sou um monstro que tem a mania de comandar — disse Everson, que leu a desaprovação no rosto de Scoobey.

— Não vou perguntar por que fez isso — disse o oficial em tom sério.

— Quer saber por que estou aqui em cima, Walt? Tive o mesmo sonho que deixou Finney tão agitado. Além disso, tive a impressão de ter ouvido um ruído. Um ruído estranho, que não combina com a gama de ruídos da nave.

Um sorriso embaraçado surgiu no rosto de Scoobey. O coronel não era homem de correr atrás de fantasmas. Sua experiência espacial, aliada às suas qualidades humanas e à audácia, fizeram com que, nos seus longos anos de serviço, se transformasse num modelo para os cadetes de Terrânia.

Apesar disso, Scoobey estava convencido de que Everson não avaliava corretamente a situação em que se encontravam. Se duas pessoas sonhavam simultaneamente com a mesma coisa, isso só poderia ser obra do acaso.

Everson acordara poucos instantes antes de Finney. Apavorado, Scoobey olhou para baixo.

O camarote de Finney ficava bem mais perto que o de Everson.

Durante todo o tempo, pudera observar o corredor que se estendia junto à parede interna da K-262. Se alguém tivesse estado com Finney, eles o teriam visto. Scoobey cerrou os olhos. Não poderia permitir que Everson o enervasse. Talvez a luta em Epan cansara demais o coronel. Scoobey não pôde impedir que, em sua mente, surgisse a seguinte pergunta: Será que o tratamento especial da medicina arcônida, a que Everson se submetera, porventura mantinha jovem apenas o corpo, sem influenciar o espírito?

— Verificaremos a eventual ocorrência de fatos semelhantes — disse Everson. — Peço-lhes que redobrem a atenção. Indague sobre os sonhos dos tripulantes, mesmo que estes não compreendam o sentido da pergunta.

— Sim senhor — disse Scoobey em tom contrariado. — Não se preocupe.

Everson desceu pela escada. Passou pelo estreito passadiço circular, e chegou à porta na qual havia um letreiro que proibia a entrada dos tripulantes. Bateu com o punho contra a placa de metal leve.

— Entre — disse uma voz abafada. Everson abriu. Sentado sobre a cama, com as pernas encolhidas, Mataal fitou-o com uma expressão sombria.

— Como se sente? — perguntou Everson.

— Como um prisioneiro — respondeu o epanense. — Talvez pior.

— Por certo, pior — reforçou Everson. — Estamos no espaço, Mataal. Portanto, o senhor não pode sair da nave. Ramirez é um bom professor de línguas?

— Prefiro ficar só — respondeu Mataal em arcônida.

Everson não pôde deixar de sorrir.

— Saiu do quarto nestes últimos minutos? — perguntou em tom cauteloso.

O corpo de Mataal ficou um pouco tenso.

— Não — disse. — Por que faz essa pergunta?

O coronel fez um gesto de indiferença.

— Procure conformar-se com sua situação — recomendou ao epanense. — Não há nenhum motivo de desespero. Na Terra encontrará amigos, e um dia poderá voltar para Epan.

Mataal não se dignou a responder.

— Pense um pouco — prosseguiu Everson em tom comedido. — O senhor está tendo uma oportunidade sem par de testemunhar um espetáculo cósmico. Ao acompanhar-nos, o senhor está dando um salto de alguns séculos. Provavelmente sua raça talvez demorará mais que isso para dominar a navegação espacial. Pelo que informa Goldstein, muitos epanenses se encontram num estado de decadência. Mataal, o senhor é um homem inteligente e corajoso. Por isso, pode contar com meu respeito e amizade. Era só o que lhe queria dizer no momento.

Deixou a sós o epanense para falar com Goldstein.

O jovem telepata estava sentado à mesa, escrevendo. Olhando por cima dos ombros do mutante, Everson leu um bilhete com os nomes dos tripulantes da nave. O nome de Everson ocupava o primeiro lugar.

O coronel perguntou a si mesmo por que Goldstein se dava a esse trabalho, mas preferiu não perturbar a mente do jovem com uma pergunta a esse respeito.

— Vejo que está melhorando — disse.

O telepata, que estava muito pálido, sorriu. Dobrou cuidadosamente a folha escrita, rasgou-a em pedacinhos e atirou-os ao chão.

Depois fitou Everson. Tinha os olhos muito arregalados.

— Coronel — cochichou. — Há alguém a bordo.

Uma onda fria de pavor subiu pelo corpo de Everson. Mais uma vez, era a sensação indefinível que anunciava o perigo.

Será que Goldstein ficara louco?

Nos olhos do mutante via-se um brilho doentio. Os lábios estavam rachados e ressequidos. Um riso histérico ressoou nos ouvidos de Everson. Apavorado, o coronel recuou alguns passos.

— Há alguém a bordo — uivou Goldstein com o rosto desfigurado. — Eu lhes trouxe uma bela surpresa, uma surpresa maluca. Carreguei a morte para dentro da Fauna.

Everson empurrou-o para cima da cama revolvida. Num gesto resoluto, ligou o microfone que se encontrava sobre a mesa.

— Doutor! — exclamou. — Dr. Morton! Aqui fala o comandante. Faça o favor de vir imediatamente ao camarote de Goldstein. O rapaz está ficando maluco.

Dali a um segundo, o pequeno alto-falante deu um estalido. Ouviu-se a voz áspera do médico de bordo.

— Já estou a caminho.

Pouco depois, o Dr. Morton entrou apressadamente. Suas vestes eram desleixadas como sempre. A camisa esvoaçava por cima da calça. A barba parecia ter sido “tratada” com uma ceifadeira. As calças do médico eram seguras por suspensórios, que apresentavam uma cor indefinível e estavam retorcidos várias vezes por cima do ombro. Os olhos eram de um azul incrível. Sobressaíam clara e alegremente em meio às hirsutas sobrancelhas negras. Mas, ao fitar Goldstein, tornou-se sério.

— Está com febre — disse o médico.

— A morte está a bordo — gritou Goldstein. — Por que não acreditam no que estou dizendo? Afinal, sou telepata. Eu sinto. Façam alguma coisa!

Scoobey surgiu na porta.

— Quem está berrando? — perguntou. — O que aconteceu?

Everson apontou para o mutante.

— É mais um que está vendo fantasmas.

O Dr. Morton preparou uma injeção. Scoobey observou-o com uma expressão de desconfiança.

— Isso o acalmará — disse Morton e aplicou-lhe a agulhada.

— Muito obrigado, doutor — disse Everson. — Walt, volte ao seu trabalho.

Quando Scoobey não podia mais ouvi-lo, o Dr. Morton disse:

— As coisas não estão boas?

Everson confirmou com um gesto.

Goldstein estava estendido rígido na cama.

O médico afastou-se. Seus passos ressoaram no passadiço de alumínio. Assim que o ruído cessou, Everson sentiu-se dominado pelo desânimo.

 

Gonzáles Ramirez entrou no camarote e suspirou aliviado. Era um rapaz magro, de estatura mediana, que havia pouco prestara os exames finais na Academia Espacial. Até então, só fizera trabalhos de rotina. Porém sempre existia alguma diferença entre ficar numa sala de aula da Academia ou trabalhar no espaço.

Ramirez sentou-se numa confortável cadeira. Descansaria algumas horas e voltaria para junto de Mataal, a fim de ensinar a língua arcônida ao epanense. Muito alegre, Gonzáles lembrou-se das dificuldades que essa língua cheia de vogais lhe causara há poucos anos.

Tirou o casaco. Viu a pele morena dos braços. Teve uma vaga lembrança de dias quentes de verão, areias escaldantes, gritos estridentes de crianças de olhos negros e do cheiro das tortillas. Imaginava-se no México.

Sem querer, Ramirez estalou a língua. Recostou-se confortavelmente na cadeira. O México era o passado: um mundo quente e colorido situado em algum lugar do planeta Terra. E o futuro? Os dedos de Ramirez tatearam o mapa estelar, preso à parede por pequenos estiletes. Aquilo era o futuro. Parecia satisfeito. Ficou sonhando de olhos abertos.

Ouviu alguém abrir a porta do camarote. Levantou-se de um salto.

Será que dormira?

Mas não havia ninguém no recinto. Talvez o visitante tivesse saído para não despertá-lo. Levantou-se apressadamente para verificar.

Porém o longo corredor estava vazio.

Lembrou-se das alucinações de Finney, e das palavras que este dissera a Everson. Depois balbuciou:

— Pensei que houvesse alguém por perto.

Sorriu. Deixou-se impressionar por Finney. Dirigiu-se à cama e alisou as cobertas. Pretendia dormir um pouco antes de voltar a falar com Mataal.

Gonzáles Ramirez, o galã da Academia, ajeitou-se e fechou os olhos.

Subitamente ouviu a porta abrir-se. Ouviu nitidamente e com plena consciência. Seu corpo contraiu-se.

Porém manteve os olhos fechados e procurou convencer-se de que se enganara. Há instantes olhara pela porta do camarote e não vira ninguém. Deveria fechar firmemente os olhos e acreditar que se enganara.

Mexeu-se de um lado para outro. Esforçou-se obstinadamente para pensar em sua terra natal. Areias escaldantes, a gritaria das crianças e o vento cálido que soprava sobre as montanhas. A voz da mãe que lhe recomendava que sempre se conduzisse com decência e a voz potente do pai, que costumava ficar sentado na varanda ao sol do entardecer.

De repente, ouviu a porta ser fechada.

Soltou um grito de pavor e abriu os olhos. Seu coração palpitava fortemente. O suor gotejou em sua testa. Tremia por todo o corpo. Passou a língua pelos lábios ressequidos.

Não viu nada; o camarote estava vazio.

Saiu apressadamente da cama e vestiu o casaco. Não havia a menor dúvida de que estava ficando pouco. Que nem Finney!

Finney? Seria possível que dois homens sadios e normais apresentassem simultaneamente os mesmos sintomas de loucura? Ramirez esteve a ponto de procurar o Dr. Morton, mas desistiu de seu intento. Alguém iria gracejar.

Pensariam que ele era um cadete inexperiente, no qual poderiam meter medo. Sabia que os velhos astronautas gostavam de divertir-se à custa dos calouros. Apenas esperavam que corresse para junto do Dr. Morton, todo assustado, e se submetesse a um exame. O “espetáculo” apresentado por Finney fazia parte da gozação e, ao que parecia, até o comandante participava da brincadeira.

Mas não se deixaria enganar tão facilmente. Mais calmo, voltou para a cama.

Não teve de esperar muito tempo até que ouvisse novamente o ruído na fechadura.

É melhor fingir-me de surdo”, pensou. “Esses espertalhões vão acabar desanimando se me encontrarem dormindo tranqüilamente.”

A porta fechou-se abruptamente. O cadete teve de esforçar-se para não sorrir. Apoiou-se no travesseiro. Em tom de deboche fez:

— Buuuuh!

Depois abriu os olhos. Mas já era tarde...

 

O Coronel Marcus Everson subiu à sala de comando, apoiando-se ao corrimão da escada. O girino estava prestes a realizar a primeira transição. Com os cabelos desgrenhados, Scoobey corria entre as calculadoras eletrônicas, a fim de conferir as coordenadas.

— Tudo preparado, coronel! — gritou para Everson.

— Ligar neutralizador de freqüência — ordenou Everson.

Esse instrumento de alta precisão servia para evitar que qualquer estação pudesse medir a transição de uma nave espacial. Seu equivalente era o rastreador estrutural, que permitia determinar a posição exata de uma nave no momento em que a mesma saía do hiperespaço. Era um dos tantos benefícios que o Império Solar devia a seu fundador, Perry Rhodan.

— Neutralizador de freqüência funcionando — gritou Fashong, um pequeno astronauta chinês com voz gutural.

Everson acomodou-se em sua poltrona. O braço de apoio virou-se. O dispositivo hidráulico que movia as barras telescópicas da poltrona emitiu um leve chiado. Todas as instalações da nave despertaram para a vida.

— Paralisar os aparelhos de rádio — ordenou Everson.

— Telerrádio paralisado — confirmou Maria Landi, oficial-chefe do setor de rádio.

— Rádio de bordo paralisado — anunciou Ralf Zimmermann.

Os minutos seguintes passaram-se entre as ordens de Everson e as confirmações de suas execuções. Scoobey fez sua poltrona girar em direção a Everson.

— Ramirez está ausente — cochichou.

Everson examinou os homens que o cercavam. Sentiu a falta do cadete. Ramirez não tinha qualquer tarefa específica durante o salto, mas sua presença era indispensável. Devia colher experiências, para um dia poder conduzir as naves pelo espaço.

— Será responsabilizado pelo ato de indisciplina — disse Everson em tom contrariado. — Provavelmente ainda está em companhia de Mataal e deixou-se envolver em discussões grandiosas.

“Prosseguir! — disse com a voz forte. — Scoobey, verifique as máquinas robotizadas.”

Nenhum cérebro humano seria capaz de resolver os problemas matemáticos extremamente complexos que os computadores eletrônicos solucionavam numa questão de segundos. Everson sabia perfeitamente em que extensão o homem dependia dessas máquinas. Talvez um dia poderia ser capaz de mover-se entre as estrelas sem o auxílio das mesmas. Everson lembrou-se dos mutantes teleportadores, que abriram novas perspectivas.

Será que o fato de a Humanidade não ter avançado nesse terreno era devido exclusivamente à falta de uma melhor compreensão do Universo? Será que a astronáutica técnica era apenas uma obra fragmentária?

Everson não encontrou respostas a estas perguntas.

Concentrou-se apenas na tarefa que tinha diante de si.

— K-262 preparada para a transição — gritou Scoobey com a voz rouca.

Os homens no interior da esfera de sessenta metros de diâmetro pareceram encolher-se. O salto, que os levava do Universo em direção ao para-espaço, onde o tempo e o espaço perdiam todo significado, nunca deixava de ser fascinante.

— Cento e oitenta segundos para a transição — anunciou Fashong.

Everson deixou que um minuto se passasse.

— Verifique as máquinas, Walt — ordenou.

Os olhos treinados do imediato abrangeram todos os controles.

— Sessenta segundos para a transição — disse Fashong com a tranqüilidade típica do asiático.

— Então, Scoobey? — perguntou Everson.

— Tudo em ordem — foi a resposta.

— Fashong e os outros?

O coronel aguardou a confirmação de todos. Depois deu a última ordem anterior ao salto.

— Iniciar a contagem regressiva, Fashong!

Dali a dez segundos, a Fauna rompeu a estrutura espaço-temporal, mobilizando um volume de energia suficiente para pulverizar uma lua. Num espaço de tempo que não era mensurável por qualquer poder do Universo, o vôo da pequena nave transformou-se no deslizar de uma entidade fantasmagórica. Um tempo zero e uma eternidade se passaram. Todos os pontos de referência perderam a validade. O irreal ocupou o espaço. As moléculas e os átomos desfizeram-se, deslocaram-se, dilataram-se e voltaram a reunir-se que nem um gigantesco caleidoscópio que sempre oferece quadros novos ao observador.

Logo que o salto findou, Everson ordenou:

— Verificar posição!

Recebeu a confirmação de que a primeira transição fora bem sucedida. A K-262 encontrava-se exatamente no setor previsto. Mais dois saltos colocariam a nave nas proximidades do Sol.

Everson encolheu os apoios telescópicos de sua poltrona e desceu.

— Assuma, Walt — gritou para Scoobey.

— Não se esqueça de Ramirez — disse o pequeno oficial.

Everson confirmou com um gesto.

Resolveu não chamar o mexicano pelo sistema de intercomunicação. Seria preferível falar com ele pessoalmente. Teria de moderar o entusiasmo que o cadete sentia por Mataal. Não era possível que o “gladiador” chegasse ao ponto de fazê-lo esquecer.

Sem apressar-se, o coronel chegou ao camarote de Mataal e entrou imediatamente. O epanense estava dormindo. Ergueu-se devagar.

— Já está de volta? — perguntou em tom contrariado.

— Ramirez esteve aqui?

— Por enquanto não — respondeu Mataal. — Mas já que me acordou, pode pedir que venha cá. Infelizmente não tenho permissão para sair daqui.

Everson não deu atenção às palavras um tanto agressivas de seu interlocutor. Estava preocupado com o cadete.

Onde estaria?

O coronel andou apressado pelo passadiço. Bateu energicamente à porta do camarote de Ramirez. Não aconteceu nada. Everson praguejou contra todos os cadetes e abriu violentamente a porta. Seu grito de espanto ficou preso na garganta.

Ramirez achava-se estendido no chão, perto da cama. Esta estava desarrumada, como se tivesse havido uma luta violenta. Everson suspirou aliviado ao constatar que o rapaz estava vivo.

Os olhos do mexicano apresentavam uma rigidez cadavérica. Os cabelos estavam arrepiados.

— Ramirez — perguntou Everson — o que houve?

O cadete não pôde responder. Seu corpo estava contorcido. Everson obrigou-se a refletir calmamente. Pela segunda vez no espaço de poucas horas usou o microfone para chamar o Dr. Morton.

Lembrou-se das palavras de Goldstein:

“— Eu trouxe a morte para dentro da nave.”

Será que realmente falara sério? Teria o mutante trazido uma doença contagiosa a bordo da nave girino?

Everson sacudiu a cabeça. O planeta Epan fora cuidadosamente analisado...

O Dr. Morton não se fez esperar. Sem dizer uma palavra, empurrou o comandante para o lado e inclinou-se sobre Ramirez.

— Ainda está vivo? — perguntou ao médico.

Este confirmou com um gesto.

— O que será, doutor?

— Está totalmente paralisado. Conheço diversos venenos que provocam esse efeito. Veja!

Moveu as mãos diante dos olhos de Ramirez. Este não apresentou qualquer reação.

— Acha que alguém o envenenou? — perguntou Everson.

— É claro que não. Ajude-me, coronel; vamos colocá-lo na cama.

Levantaram o corpo do cadete. O médico respirava pesadamente, enquanto fazia o exame.

— Será que sofreu algum choque? — perguntou o coronel. — Ou acredita se tratar de uma doença desconhecida?

O Dr. Morton coçou a barba. Seus olhos já não espelhavam nenhuma alegria.

— Os motivos podem ser vários — disse. — Será preferível colocarmos este camarote sob quarentena. Permita que submeta o epanense a um exame rigoroso. Ramirez esteve muitas vezes em contato com ele.

— Faça o que acha que deve ser feito. Enquanto isso, reunirei a tripulação — disse Everson.

Deixou que o médico ficasse a sós com Ramirez. Dali a pouco, sua voz foi ouvida em todos os cantos da nave.

— Todos os homens, inclusive os que estão de folga, devem comparecer à sala de comando. Espero-os dentro de três minutos.

Scoobey aproximou-se dele. A presença do imediato deixou Everson um pouco mais aliviado. A atividade e a agilidade de Scoobey sempre irradiavam certo otimismo.

— O que houve com Ramirez? — perguntou Scoobey com a voz preocupada.

— Está totalmente paralítico. Mataal afirma que o cadete não esteve com ele.

Fashong, o chinês, apareceu na sala de comando e se enfileirou entre os outros, mantendo-se numa atitude de expectativa. Everson esperou que todos chegassem. O médico foi o último. O jaleco amassado e desajeitado ressaltou-se ainda mais em meio àqueles homens bem uniformizados. Everson sentiu olhares curiosos pousados nele.

— Suponho que todos estejam informados sobre o que se passou em Epan — principiou o coronel em tom tranqüilo. — Todos sabem em que estado se encontra Goldstein. O Dr. Morton poderá fornecer os detalhes. Vimo-nos obrigados a introduzir um nativo epanense no girino. Por uma questão psicológica ainda não pude apresentá-lo aos senhores. Peço-lhes que compreendam as novas impressões a que esse homem está exposto. Um confronto excessivamente repentino com nossa civilização poderia produzir danos graves em sua personalidade. Foi este o motivo de minha cautela, que muitos interpretaram como um jogo de mistérios.

Interrompeu-se até que cessassem os murmúrios.

— Quero informá-los de que, há poucas horas, nosso técnico Finney teve um sonho durante o qual alguém entrou em seu camarote. Não há nada de extraordinário nisso. O que é estranho é que eu também tive esse sonho quase no mesmo instante que Finney.

O técnico olhou para o chão; parecia embaraçado. Os murmúrios voltaram.

— Silêncio! — disse o coronel. — Não é só isso. Acabo de encontrar o cadete Ramirez. Está totalmente paralítico.

Everson não esperara que a notícia fosse provocar um tumulto. O fato é que, depois de suas palavras, um silêncio total instalou-se na sala de comando. Os astronautas fitaram-no, como se ele pudesse oferecer a solução do enigma.

— Ramirez deve ser mantido em quarentena — disse o Dr. Morton. — Ninguém poderá falar com ele sem minha autorização. Peço que todos se cuidem. Qualquer indício de... de doença deverá ser avisado imediatamente.

— Aposto que isso tem alguma relação com o homem estranho que temos a bordo — disse Zimmermann.

Havia em sua voz um tom de ameaça, que deixou o coronel temeroso. Zimmermann era um homem robusto e retraído, de rosto anguloso. O nariz recurvado e os lábios estreitos davam-lhe um aspecto quase brutal. Sempre que falava, os olhos cinzentos ficavam arregalados.

Ouviu-se um murmúrio de concordância. Era uma revolta incipiente contra a presença de Mataal. Se houvesse outros incidentes, a cólera dos tripulantes sem dúvida se dirigiria contra o epanense.

Um sorriso quase imperceptível surgiu no rosto de Everson. Em sua testa, apareceu uma pequena ruga.

— O senhor sabe perfeitamente que o planeta Epan foi examinado rigorosamente por nossos especialistas — disse, dirigindo-se a Zimmermann. — É impossível que Mataal tenha qualquer coisa a ver com a doença de Ramirez.

Zimmermann teve uma percepção instintiva do apoio representado pela disposição de ânimo dos seus companheiros.

— Acontece que Ramirez esteve constantemente em contato com o desconhecido — disse em tom obstinado.

Everson poderia tê-lo chamado à ordem, mas isso apenas aumentaria o clima de desconfiança. Um pequeno estratagema psicológico poderia resolver a situação.

— Zimmermann — disse Everson com um sorriso de escárnio. — Será que suas pernas estão tremendo de medo?

Todo mundo irrompeu em gargalhadas. Zimmermann ficou rubro de cólera. Se fizesse qualquer outra observação, daria a impressão de que realmente estava com medo. Everson sabia que apenas alcançara uma vitória temporária. Se houvesse novos incidentes, a inquietação aumentaria.

— O senhor acha que pode haver alguma ligação entre a doença de Ramirez e a de Goldstein? — perguntou Honda Inoshiro, o astronavegador japonês, que também era um excelente jogador de xadrez.

— Não sei dizer — respondeu o Dr. Morton. — Mas não é impossível.

— Voltem aos seus lugares — ordenou Everson. — Sigam em todas as circunstâncias as instruções do Dr. Morton. Scoobey, diga a Landi que tome todos os preparativos para um contato de telecomunicação com a Terra. Quero informar Rhodan sobre o que está acontecendo.

Dali a pouco menos de uma hora, Scoobey apareceu no camarote de Everson.

— Por que não transmitiu sua informação pelo alto-falante? — perguntou o coronel em tom áspero. — Resolveu fazer um pouco de exercício?

Scoobey não riu.

— Não conseguimos transmitir nenhuma mensagem à Terra — disse em tom deprimido.

— Não é possível! — exclamou Everson. — O aparelho é novo e foi testado; não pode falhar.

O oficial repetiu como se fosse um autômato.

— Não conseguimos transmitir nenhuma mensagem, coronel.

— Landi não pode reparar o defeito? — perguntou Everson com um triste pressentimento.

— Nem sequer o descobriu — informou Scoobey em tom apático. — Sabe que é um elemento de primeiríssima ordem. Se alguém pode reparar o aparelho, será ele.

Ao que parecia, queria dizer mais alguma coisa. Porém preferiu ficar calado. Everson fitou-o prolongadamente.

— O que houve, Walt? Diga logo!

— Coronel — desabafou Scoobey. — Alguém deve ter inutilizado propositadamente o transmissor. Na minha opinião foi sabotagem.

— Quer dizer... — cochichou Everson.

— Quero dizer que há alguém a bordo que está interessado em que não consigamos entrar em contato com a Terra. Alguém quer evitar que em Terrânia tenham conhecimento das ocorrências.

— Quem poderia ser esse alguém? — perguntou Everson.

— Mataal!

— Sim — concordou Everson. — Mas é estranho, pois o epanense não tem qualquer conhecimento ligado a aparelhos técnicos sofisticados.

Falando em voz alta, disse:

— O senhor precisa encontrar provas, Walt, custe o que custar!

 

O grito humano, estridente e prolongado, ressoou pela nave girino.

Everson atirou o livro aberto em cima da mesa. A cadeira caiu ruidosamente ao chão. Com dois passos longos, colocou-se fora do camarote. Viu homens sobressaltados correrem. Os astronautas da sala de comando haviam abandonado seus lugares e estavam debruçados sobre a balaustrada, para ver o que havia acontecido. Everson concentrou-se.

De que direção viera o ruído?”, pensava no momento em que encontrou-se com Finney.

— O que houve, coronel? — perguntou o técnico em tom de perplexidade.

— É aqui! — gritou uma voz do lado oposto do passadiço.

Everson correu. Finney o acompanhou.

Quem chamara fora Poul Weiss, um técnico. Estava de pé junto à porta aberta do camarote de Stanford. Todo sangue parecia ter fugido de seu rosto. Balbuciou palavras incompreensíveis. Fashong, que se mantinha imóvel ao lado de Weiss, apontou silenciosamente para Stanford, assim que Everson chegou ao lugar onde se encontravam.

Everson viu que George Stanford, um biólogo de vinte e oito anos de idade, estava caído para trás, na sua cadeira. As mãos seguravam algumas cartas de baralho.

Stanford não jogara sozinho. Seu parceiro estava estendido no solo. Era Gordon Short, navegador, de quarenta e seis anos de idade. Seu rosto estava desfigurado numa careta de fantasma.

Weiss passou por Everson. Abaixou-se para tirar outras cartas da mão de Short. Weiss colocou-as à frente dos olhos de Everson.

— Que jogo esse felizardo tinha...! — disse Weiss em voz forçada. — Que jogada, senhores!

Abriu a mão e as cartas esvoaçaram para o solo.

Everson empurrou Weiss para fora. Gostaria de lembrar-se de alguma coisa que pudesse dizer aos homens a título de explicação. Sentiu que o fitavam com os olhos zangados. Quase toda tripulação estava presente.

Everson virou-se e os observou.

— Ambos estão vivos — disse com certa perplexidade na voz.

Ninguém respondeu. Depois de algum tempo, o Dr. Morton rompeu a muralha de homens silenciosos.

— Deixem-me passar! — gritou em tom exaltado e abriu passagem à força.

— Vai içar a bandeira amarela da quarentena? — perguntou uma voz sarcástica.

Teria sido Weiss? Ou Wolkow? Ou Sternal? Everson não saberia dizer.

— O doutor não tem mais bandeiras — gritou outra voz.

— Ajude o doutor! — ordenou Everson a Werner Sternal, que exercia as funções de segundo-navegador.

O homem obedeceu. Juntamente com Morton colocou Stanford sobre a cama.

— Será preferível levarmos Short daqui — sugeriu o médico. — Não convém que os dois doentes fiquem juntos.

— Está bem — concordou Everson. — Sternal poderá ajudar.

Levantando a voz, prosseguiu:

— Precisamos substituir três homens, para efetuar a transição. O segundo salto está próximo. Se todos se esforçarem um pouco, deveremos conseguir. Espero que ninguém entre em pânico; afinal nossos companheiros não estão mortos. Tenho certeza de que o Dr. Morton conseguirá curar a paralisia de que foram acometidos. Não adianta tirar conclusões apressadas. Mantenham a disciplina e não se esqueçam de que um motim só pioraria nossa situação. Espero que, face aos acontecimentos, fiquem com os olhos bem abertos. Deste momento em diante, o sistema de intercomunicação de bordo ficará ligado ininterruptamente. Os esforços para restabelecer as comunicações com a Terra serão intensificados. Se conseguirmos entrar em contato com Terrânia, Rhodan mandará uma nave em nosso auxílio.

Zimmermann adiantou-se. Em seus olhos lia-se a revolta indisfarçada.

— Exigimos que Mataal seja colocado imediatamente sob vigilância — disse. — Achamos que é o culpado.

— Não acusaremos ninguém sem provas — respondeu Everson em tom frio. — É claro que falarei com o epanense.

Ao que parecia, Zimmermann não estava disposto a dar-se por satisfeito com a informação, mas o olhar enérgico de Everson fê-lo recuar. Everson sabia que Scoobey também desconfiava do gladiador. Mas, perguntou a si mesmo, como é que uma pessoa estranha poderia deslocar-se com tamanha habilidade no interior do girino, atacando os homens, conseguindo colocar fora de ação o telecomunicador.

Everson não podia negar que havia certos motivos para suspeitar de Mataal, mas seria ilógico pronunciar essas suspeitas. Se havia alguma ligação entre a falha do aparelhamento de rádio e a doença de que foram acometidos os homens, isso devia ser obra de outra pessoa.

Porém, por mais que refletisse, o coronel não conseguia imaginar quem poderia ser o autor daquilo. Lamentou que Goldstein tivesse sido colocado fora de ação pela doença. O telepata poderia “verificar” os pensamentos dos homens. Everson lembrou-se de que Goldstein dissera ter trazido a morte para a nave. Seriam apenas as palavras de um louco, ou havia algo de verdade por trás das mesmas? Quem foi que Goldstein trouxe para bordo a não ser Mataal?

Everson não pôde senão continuar a acreditar que se tratava de uma misteriosa doença. Mais dia menos dia, o Dr. Morton daria cabo da moléstia.

— Realmente devíamos vigiar Mataal — disse Scoobey em meio às suas reflexões. — Mesmo que seja apenas para manter a calma a bordo. É o que sugiro.

— Pensarei a respeito — disse o comandante.

— O que faremos se outros homens forem acometidos pela doença? — perguntou Scoobey. — Como poderemos realizar a segunda transição?

Com menos de dez astronautas, tornava-se extremamente difícil manobrar a Fauna. Quando a nave se encontrava em queda livre, bastava um homem para controlá-la. Mas as imensas tarefas ligadas a um hipersalto espacial só poderiam ser realizadas por um grupo maior. E a falha do hipercomunicador trazia mais inconvenientes do que Everson gostaria de admitir. Com isso, tornava-se impossível pedir auxílio à Terra. Estavam completamente isolados, entregues ao destino que os esperava.

— Temos de fazer tudo para evitar que isso aconteça — disse Everson.

Mas, fazer o quê?

 

Quando retornou a seu camarote, o coronel encontrou Goldstein sentado. Everson fez como se não percebesse o ato de indisciplina. O rapaz soltou uma risadinha.

— O que veio fazer aqui, Goldstein? — perguntou Everson em tom contrariado. — Recebeu ordens para não sair de seu camarote. O Dr. Morton já lhe explicou que está doente e não pode andar por aí — falou como quem se dirige a uma criança malcriada.

O mutante magro interrompeu-o com um gesto.

— Morton acha que sou louco — disse. Apontou com o dedo para a cabeça. Everson esteve a ponto de fazer um gesto negativo, mas Goldstein acrescentou com a voz tranqüila: — É claro que o senhor também acha.

— Rapaz, você só precisa de descanso. Quando chegarmos à Terra, tudo se arranjará!

— À Terra? — Goldstein deu uma risada de escárnio. — Não venha dizer-me que realmente acredita que voltaremos a vê-la.

Mais uma vez, surgiu a sensação inequívoca de um perigo ameaçador.

— Afinal, o que é que o senhor sabe? — perguntou Everson ao telepata.

Os dedos de Goldstein enlaçaram-se violentamente. Os olhos começaram a chamejar. O cabelo desgrenhado caía-lhe na testa.

— Por que pergunta? — uivou. — Não estou aqui para dar as respostas.

Everson pegou o maço e tirou um cigarro. Acendeu-o cuidadosamente antes de prosseguir:

— Procure ser sensato, Goldstein. Será que alguém o mandou falar comigo?

As mãos de Goldstein tremiam sobre a mesa.

— Estou com medo — gritou. Seu rosto estava banhado em suor e as veias do pescoço pareciam estourar. — Estou com medo de que aquilo volte, tal qual em Epan. Voltará para matar-me — irrompeu numa série de soluços incontroláveis.

— De que está falando, meu filho? — perguntou o coronel em tom insistente.

Goldstein foi sacudido pelo pavor. Coisas horríveis deviam passar-se em sua mente.

— Esteve bem dentro de mim. Esperou, mantendo-se à espreita. Não pude fazer nada para impedi-lo. Se eu falar, voltará. O senhor compreende? Está escondido em algum lugar, sempre espreitando. Será que está dentro do senhor? Sim, pode ser...

Caiu ao chão. Everson calou-se, profundamente abalado. Uma experiência terrível devia ter deixado o mutante nesse estado.

Será que as palavras daquele louco tinham algum sentido? Eram fatos? Ou eram apenas fantasias de um demente? Ou eram ambas as coisas?

A responsabilidade pela nave pesava fortemente sobre Everson. Pousaria em segurança na Terra ou não? Sabia que estava impotente. Mas nunca deveria confessar essa impotência aos outros, ou deixar que eles a notassem. E, o que era o principal, não devia permitir que os tripulantes ouvissem as falas loucas de Goldstein.

— Levante-se, Goldstein, eu o levarei de volta — disse Everson.

O mutante levantou-se, cambaleante. Everson segurou-o. Do lugar de onde se encontrava, o coronel via que todas as portas dos camarotes estavam abertas.

Foi empurrando Goldstein pelo passadiço. Passaram por Finney. O técnico de cabelos negros estava deitado e olhou-os. Seus olhos se detiveram em Goldstein, que se apoiava nos braços de Everson, e seus lábios abriram-se para demonstrar sua preocupação através de uma pergunta. Mas o coronel apressou o passo. Finalmente chegaram ao alojamento de Goldstein.

— O sistema de intercomunicação fica constantemente ligado — disse Everson. — Se não se sentir bem, poderá chamar o Dr. Morton.

O mutante parecia não compreendê-lo. Cambaleou em direção à cama. Everson trancou a porta. Sabia que não havia nada que pudesse fazer. Apenas lhe restava esperar.

 

Ralf Zimmermann, segundo-operador de rádio do girino, olhou para o relógio de bordo que se encontrava à sua frente. Dali a alguns minutos, seu período de serviço chegaria ao fim. Maria Landi, o primeiro-operador, assumiria seu posto. Até lá, Landi tentaria em vão descobrir o motivo da falha do telecomunicador.

Zimmermann viu Walt Scoobey encolhido na poltrona de comando. Os olhos do imediato estavam injetados de sangue. Os acontecimentos desenrolados a bordo representavam uma carga tremenda para ele. Zimmermann praguejou baixinho.

Será que Everson estava cego? Ainda não se dera conta de que os incidentes só passaram a ocorrer depois que o epanense subiu a bordo?

Zimmermann não tinha a menor dúvida de que Mataal era culpado de tudo. Devia impedir que esse estranho traiçoeiro causasse outras desgraças. Devia agir por conta própria. Talvez ele mesmo fosse a próxima vítima da lista de Mataal. Mas não deixaria que as coisas chegassem a esse ponto...

Havia poucos homens na sala de comando. Zimmermann olhou para o passadiço. O intercomunicador, constantemente ligado, representava o maior perigo para a ação que pretendia levar a efeito. Suas mãos brincaram com os controles que tinha à sua frente.

Dali a alguns minutos, Landi apareceria para revezá-lo, e então duas coisas poderiam acontecer. O primeiro-operador de rádio poderia iniciar imediatamente os trabalhos de reparo, ou então realizar uma verificação de rotina...

Zimmermann resolveu assumir o risco. Colocou a chave principal na posição de silêncio. O sistema de intercomunicação de bordo acabara de ser colocado fora de ação.

Zimmermann ouviu os sons dos passos dos homens que entrariam em serviço nas próximas horas. Scoobey saiu da poltrona de comando, para que esta fosse ocupada por Everson. Os dois oficiais trocaram algumas palavras que Zimmermann não entendeu. Landi foi o último a chegar. Dirigiu-se imediatamente ao aparelho de telecomunicação.

Zimmermann suspirou aliviado e sorriu para Landi, que já desaparecera em meio a uma confusão de tubos e cabos. Espreguiçou-se e bocejou como se estivesse satisfeito por ter terminado o trabalho. Ninguém o seguiu com os olhos quando saiu devagar da sala de comando. Uma grande tranqüilidade e uma decisão fria encheram seu espírito.

Lembrou-se do tempo de escola, quando certa vez saíra para dar uma sova no primeiro aluno da turma, porque este o denunciara perante os professores. Correra pelo longo corredor, enquanto o eco de seus passos se perdia nas salas de aula. Estava na hora do recreio. O tal aluno estava encostado a uma coluna, juntamente com dois colegas, e mastigava tranqüilamente um sanduíche. Era um rapaz corpulento, de face vermelha e olhos ágeis. Lançou um olhar de desprezo para o adversário, muito menor que ele. Depois de uma briga violenta, Zimmermann e o outro receberam uma severa repreensão.

Ao lembrar-se disso, Zimmermann sorriu. Chegou ao passadiço. Teria de passar por três camarotes cujas portas estavam abertas, e em cujo interior provavelmente se encontravam os respectivos tripulantes. Só depois disso, chegaria ao destino, que era Mataal.

Ao passar pelo primeiro camarote, teve sorte. Constantin Wolkow estava deitado e dormia com a boca aberta. O camarote seguinte estava vazio. Provavelmente Dealcour estaria no camarote de outra pessoa, jogando uma partida de xadrez. Zimmermann fez um gesto de satisfação e prosseguiu. Faltava passar pela última barreira.

— Olá, Ralf! — Gritou Werner Sternal.

O operador de rádio parou imediatamente. Esforçou-se para dar uma expressão inocente ao rosto, enquanto refletia com intensidade sobre a maneira de ludibriar Sternal. Este parecia satisfeito com a quebra da monotonia resultante da presença de Zimmermann.

Quanto tempo demorará até que Everson note que o sistema de intercomunicação não está funcionando?”, indagou-se Zimmermann.

— Entre! — disse Sternal.

À procura de qualquer expressão de suspeita, Zimmermann fitou os olhos verdes do astronavegador. Mas ao que tudo indicava Sternal realmente só desejava companhia. O tempo urgia. Zimmermann fez um gesto de recusa.

— Estou muito cansado — disse a título de desculpa. — E vou deitar um pouco.

Um sorriso condescendente surgiu no rosto de Sternal.

— Será que o vento está soprando do lado errado para você, Ralf? Seu porto de destino fica do outro lado.

Chegou o momento decisivo”, pensou Zimmermann.

— O comandante pediu que controlasse todas as portas — disse com a voz resmunguenta de quem não está muito satisfeito com a tarefa adicional que lhe foi atribuída. — Vejo que estão abertas.

— Menos a de meu vizinho — disse Sternal em tom irônico.

Zimmermann sentiu-se aliviado ao notar que Sternal voltara a acomodar-se.

Prosseguiu sem demonstrar a menor pressa. Não avistava ninguém. Parou à frente do camarote de Mataal. Aguçou os ouvidos. Depois baixou repentinamente a maçaneta.

Viu a escuridão à sua frente. O epanense devia ter desligado a luz. Acreditou reconhecer, no reflexo da luz que penetrava no camarote, os contornos vagos de uma figura humana. Entrou no camarote e fechou a porta atrás de si. Parou no mesmo lugar. Abriu ligeiramente a boca e passou a língua pelos lábios ressequidos de nervosismo. Depois foi tateando para a frente.

Por que o epanense não se movia? Estaria dormindo? Zimmermann sentiu a raiva e o ódio apossarem-se de sua mente. Sentiu-se tomado de uma cega vontade de destruição.

— Mataal! — disse em tom de ameaça. — Apareça!

— O que deseja? — disse uma voz, vinda do escuro, num pesado arcônida.

O operador de rádio dirigiu-se ao lugar do qual vinha a voz. O tom da mesma estimulou-o, impulsionou-o para a frente e o enfureceu.

A idéia de que devia eliminar o epanense dominou-o a tal ponto que lhe roubava toda capacidade de reflexão. Cerrou os dentes e tateou em direção de...

De repente, a luz acendeu-se. Por um momento Zimmermann sentiu-se ofuscado. Sua postura era uma demonstração evidente das intenções que trazia na mente.

Mataal saltou da cama e ficou de costas para a parede. Seus olhos escuros fitavam-no atentamente.

— Retire-se! — disse em tom frio.

Zimmermann que, segundo se dizia, tinha a força de um lenhador, atirou-se para a frente, a fim de segurar o epanense. Mas apenas encontrou a parede; suas mãos atingiram o vazio. Ao mesmo tempo, sentiu um par de punhos ossudos na altura dos rins. Viu que o plano estava condenado ao fracasso, antes que realmente tivesse dado início à sua execução.

Atirou-se desesperadamente para a frente e conseguiu segurar as pernas do epanense. Os dois caíram ao chão. Zimmermann ergueu o corpo para colocar-se sobre o adversário e procurou apertar-lhe o pescoço. Mataal levantou as pernas e comprimiu-as contra o peito de Zimmermann. Este sentiu-se empurrado inexoravelmente para trás. Num gesto instintivo, o astronauta segurou o pé de Mataal...

A luta continuou feroz e os dois voltaram a colocar-se de pé.

Zimmermann percebeu que subestimara o inimigo. Cerrou os punhos e precipitou-se sobre o inimigo. O rosto amarelo que via diante de si não demonstrou a menor comoção. Um forte soco de Zimmermann perdeu todo o efeito de encontro aos braços levantados de Mataal. A pancada desferida por este atirou o operador de rádio para trás. Zimmermann passou a ver “luzes vermelhas”. Mais uma vez, precipitou-se sobre Mataal.

Uma voz de repreensão bradou violentamente, e Zimmermann suspendeu o ataque.

Era o coronel. Seu rosto parecia sério e cansado. Apontou um paralisador sobre Zimmermann. Este fitou-o com uma expressão obstinada. Sentia dores em várias partes do corpo e respirava pesadamente.

— Pobre idiota... — disse Everson em tom de compaixão. — Mataal poderia tê-lo matado quando quisesse. Quem lhe deu essa idéia maluca?

Zimmermann lançou um olhar odiento sobre o epanense.

— Este sujeito é culpado de tudo que vem acontecendo na nave. Enquanto não estava a bordo não tivemos problemas.

Everson guardou o paralisador.

— O senhor já disse isso — lembrou ao operador de rádio. — Acontece que não tem provas. Quer matar um homem com base em simples suspeitas. Sabe perfeitamente o que isso significa. É o fim da sua carreira; na Terra enfrentará os juízes.

— Apenas faço votos de que o senhor seja o próximo a ser atacado por seu “amigo” — disse Zimmermann em tom amargurado. — Até parece que o senhor não quer...

— Dê o fora, Zimmermann! — ordenou Everson em tom áspero.

Zimmermann saiu cambaleando. Everson lançou um olhar pensativo para Mataal, que se acomodara na beira da cama.

— Agradeço por sua intervenção — disse o epanense.

— Acho que sou eu que devo agradecer — objetou Everson. — O senhor poderia tê-lo matado. Agiu de forma irresponsável. Quando chegar à Terra, não escapará às conseqüências. Evidentemente existe a possibilidade de que esteja com a razão. O senhor tem algo a ver com a paralisia desses homens?

— Adiantaria alguma coisa se eu lhe garantisse que sou inocente? O senhor continuaria a suspeitar de mim — disse a criatura extraterrana.

— Sim — admitiu Everson. — Acho que o senhor tem razão. O senhor tem conhecimento de alguma doença existente em Epan que provoque sintomas semelhantes a estes?

— Já disse ao Dr. Morton que não conhecemos nada parecido.

— Só nos resta fazer votos de que ninguém mais seja atingido pela doença — disse Everson.

Mas essa esperança seria vã.

Henry Dealcour foi a próxima vítima!

 

— Xeque! — disse Dealcour em tom exultante e colocou seu bispo em diagonal à frente do rei de Inoshiro.

As pestanas do japonesinho ergueram-se sensivelmente. Parecia um buda em miniatura sentado diante do tabuleiro de xadrez.

— Você joga muito bem — disse Inoshiro em tom cortês. — No entanto, não posso deixar de realçar que, com quatro lances, estará em xeque-mate.

Dealcour fitou o tabuleiro. Calculava que as posições de suas peças eram muito mais favoráveis. Inoshiro colocou um bispo à frente do rei de Dealcour e passou à ofensiva com uma torre que estivera encoberta pelo bispo.

— Parece que tem razão — confessou Dealcour a contragosto. — Honda, você é uma velha raposa. Mas um dia eu lhe derrotarei.

Colocou seu rei em segurança, mas o próximo movimento da dama de Inoshiro voltou a colocá-lo em dificuldade.

— Desisto — disse em tom resignado.

O japonês soltou uma risadinha, enquanto arrumava as figuras.

Dealcour levantou-se e lançou um olhar contrariado para o relógio.

— Ainda tenho três horas; vou dormir um pouco — disse.

Deu uma pancadinha no ombro de seu parceiro e saiu do camarote.

Henry Dealcour era um homem de estatura mediana e cabelos ruivos. E, como acontece com quase todas as pessoas ruivas, tinha um crânio de formato peculiar. O nariz aquilino era notável. Tinha uma inteligência penetrante, que raramente se deixava influenciar por qualquer tipo de sentimento. Costumava ser retraído. O japonês era o único ao qual se sentia ligado por uma discreta amizade.

Assim que chegou a seu camarote, foi à cama. Dobrou os braços e apoiou a cabeça. Voltou a rememorar o jogo com Inoshiro e procurou descobrir em que ponto cometera o erro decisivo.

Naquele momento, alguma coisa saiu da parede, junto à cama.

Qualquer outro homem teria sofrido um choque. Só a mente fria de Dealcour evitou que o mesmo tivesse igual destino. Seu coração ameaçava parar de bater. Parecia que a parede de metal leve se tornava transparente, deixando de existir no lugar em que “aquilo” saíra da parede. No mesmo instante, Dealcour lembrou-se de que o sistema de intercomunicação já estava ligado.

— Coronel! — gritou em tom penetrante. — Aqui fala Dealcour. Alguma coisa está passando pela parede. Venha imediatamente!

O medo ameaçava embargar-lhe a voz, que parecia apagar-se.

— Agüente firme! — respondeu Everson.

Dealcour fitou a coisa, que se desprendera completamente da parede. Era uma sombra brilhante e transparente, que não tinha a menor substância sólida. Dealcour nunca vira nada que se parecesse com aquilo. Sentiu-se dominado pelo pânico. Esteve a ponto de gritar, dar vazão ao pavor que sentia, desabafar, mas nenhum som saiu de sua boca.

Aquela coisa incrível já se encontrava em cima dele...

 

Os rostos de Everson, Finney, Sternal e Weiss exprimiam cólera e um medo mal disfarçado.

Everson levantou a cabeça. Seu corpo alto parecia mais encurvado que de costume.

— Então? — perguntou.

Finney fez-se de porta-voz do grupo. Sternal e Weiss deixaram patente que partilhavam a opinião do mesmo.

— Dealcour foi a quarta vitima — disse o técnico. — Agora já temos provas palpáveis de que alguém a bordo da nave é culpado da paralisia desses homens. Dealcour viu alguma coisa antes de ser atingido. O que pretende fazer, coronel?

— É perfeitamente possível que Dealcour tenha sofrido uma alucinação — retrucou Everson. — Quem agiu de forma irresponsável foi o senhor, Sternal. Encarreguei-o de vigiar Mataal, mas o senhor deixou que Zimmermann entrasse em seu camarote.

— Pensei que só me coubesse cuidar para que Mataal não saísse — disse Sternal em tom de perplexidade.

Antes que Everson pudesse responder, Poul Weiss interveio na discussão.

— Poucos minutos antes de seu pedido de socorro, Dealcour esteve no camarote de Inoshiro. Jogaram xadrez, e o japonês não teve a impressão de que Dealcour estivesse delirando. Não teria deixado de perceber qualquer modificação ocorrida com Dealcour.

— Pois bem — disse Everson em tom tranqüilo. — Admitamos que um dos tripulantes quer colocar-nos, um após o outro, fora de ação. Com que finalidade poderia agir assim? Se mais alguém for acometido pela paralisia, não poderemos realizar mais nenhuma transição, e as conseqüências disso não seriam nada agradáveis.

— Ninguém afirmou que o culpado seja um dos tripulantes — observou Finney.

Everson sacudiu resolutamente a cabeça.

— Nada disso, senhores. Vejo que querem seguir o caminho mais fácil. Outra vez, querem culpar ao epanense. Sternal nunca constatou que Mataal tivesse andado pela Fauna sem ser vigiado.

Finney disse:

— Dealcour afirmou que alguma coisa chegou a ele através da parede. Dali se conclui que Mataal pode ter se tornado invisível para deslocar-se pelo interior da nave.

— Isso só pode ser uma piada — ironizou o coronel. — Só falta afirmar que o epanense é um teleportador. Sua fantasia está ficando descontrolada... ou seu medo.

Everson sabia perfeitamente que era o medo. Era a sensação de que qualquer um deles poderia ser o próximo a ser paralisado. E a isso aliava-se a preocupação de mais um desfalque entre os tripulantes, que tornaria impossível qualquer nova transição da nave. Ainda havia a certeza cada vez maior do desamparo em que se encontravam desde quando o aparelho de telecomunicações entrara em pane. E para o comandante havia mais um problema. Devia manter a paz e a ordem. Se irrompesse o pânico, a situação seria ainda pior.

— Queremos fazer uma sugestão — disse Sternal. — Temos uma idéia que nos permitirá evitar que mais alguém seja surpreendido a sós.

— Faça o favor de falar — disse o velho astronauta.

— Sugerimos que daqui em diante todos os tripulantes permaneçam na sala de comando. Há lugar suficiente. Ninguém andará só. Quando houver necessidade de ir a outra parte da nave, formaremos duplas. Desta maneira, poderemos controlar-nos uns aos outros. É claro que a medida incluiria Goldstein e Mataal. Já falamos com o Dr. Morton, e este disse que os homens paralisados também podem ficar na sala de comando.

É uma boa idéia”, pensou Everson. “Mas se os incidentes continuarem a surgir com os homens reunidos? Estarão comprimidos num espaço exíguo, vigiando-se mutuamente, com os nervos extremamente tensos; será o começo do fim.”

Entre várias alternativas desfavoráveis, cabia-lhe escolher a melhor. Esperavam que fizesse alguma coisa. Mas, justamente por isso, a decepção seria ainda maior, se o plano falhasse. Em hipótese alguma, os astronautas deviam permanecer inativos. Deviam manter-se ocupados, a fim de distrair seus pensamentos. Mas o problema maior que Everson enfrentava não era este. Podia ser formulado em poucas palavras: tinha de levar a nave de volta à Terra.

— Podem retirar-se — disse. — É uma boa idéia.

Esperou que saíssem. Depois inclinou-se sobre o microfone.

— Atenção! — disse. — Aqui fala o comandante. A partir deste momento, vigoram medidas especiais de segurança. Todos os homens comparecerão à sala de comando. O Dr. Morton cuidará do resto. Ninguém poderá andar desacompanhado na nave. Isto também se aplica a Scoobey e a mim. O epanense também estará conosco. Por isso quero pedir-lhes que não se esqueçam de que esse homem é membro de uma raça muito mais atrasada que a nossa. A carga psíquica a que está submetido é enorme, e não devemos aumentá-la com provocações desnecessárias. Goldstein e os outros doentes serão levados à sala de comando pelo Dr. Morton e dois astronautas que não estejam de serviço. Espero que mantenham a calma e a disciplina. Qualquer indisciplina receberá punição imediata e rigorosa. Dou-lhes dez minutos para cumprirem minhas ordens. Obrigado.

No momento em que saía do camarote, Scoobey apareceu no corredor.

— Acha que foi uma boa idéia? — perguntou.

Everson recuou um passo, para ceder lugar a Weiss e Finney, que transportavam Short, um dos homens paralisados.

— Qual é sua opinião? — perguntou. Scoobey levantou os olhos castanhos para ele.

— O senhor está esperando demais para fazer a segunda transição, coronel — disse em tom cauteloso. — O que espera conseguir mantendo-se por mais tempo neste canto abandonado do Universo?

Everson aborreceu-se com a atitude de indecisão que ameaçava dominá-lo.

Teria sido realmente apenas o desejo de aguardar o desenrolar dos acontecimentos que o impedira de ordenar os preparativos do segundo salto? Ou estaria transformado num homem velho, preso às rotinas, que se abalava com qualquer incidente? As ordens que vinha dando não decorriam exclusivamente das sugestões dos tripulantes? Se agora desse ordem para penetrar no hiperespaço, esta na verdade teria sua origem em Scoobey.

Everson fitou as mãos. Eram firmes e morenas. Veias finas estendiam-se em direção aos braços. Não tremiam. Com elas, o coronel conduzira a K-262 seguramente por muitos anos-luz.

Teria tudo isso chegado ao fim? Será que seu tempo terminara? Seria apenas um astronauta gasto e vazio, que se via desamparado diante de qualquer imprevisto?

Não, meu velho”, pensou Everson. “Os outros não foram menos atingidos por isso que você.

Falando em voz alta, disse:

— Realizaremos a segunda transição. Não podemos esperar mais.

— Muito bem — disse Scoobey em tom satisfeito.

No momento em que chegaram juntos à sala de comando, o Dr. Morton acabara de concluir o transporte de doentes. Parecia totalmente descontraído. Os circunstantes mantinham-se numa calma estranha. Everson lançou um olhar apavorado para os doentes estendidos no chão. O médico os cobrira. Apenas seus rostos sobressaíam debaixo das cobertas. Everson compreendeu imediatamente por que os homens estavam tão calados: havia mais um homem paralisado.

Everson apenas viu o rosto forte e anguloso, mas, no mesmo instante, compreendeu quem estava deitado ali: Ralf Zimmermann.

— Deve ter acontecido pouco antes de o senhor ter transmitido suas ordens — disse o Dr. Morton, cuja voz parecia chegar ao ouvido de Everson através de um espesso véu. — Fashong foi quem o encontrou.

Era a quinta vítima, e esta fora atingida poucas horas depois de Dealcour. Everson olhou para Mataal, que estava sentado num canto afastado. Os olhos negros do epanense enfrentaram seu olhar. Mas neles não se via nada além da raiva muda.

Everson caminhou lentamente em direção à poltrona de comando. Ninguém falava. Um dos homens tossiu baixinho. O zumbido dos aparelhos enchia a sala. Sem dizer uma palavra, os astronautas dirigiram-se a seus lugares. Goldstein soltou uma risadinha de louco. Parecia o sinal.

— Preparar o segundo salto — ordenou Everson.

Mãos ágeis passaram pelos teclados, vozes soaram pela sala, luzes de controle acenderam-se. Mais uma vez o medo, o pânico, o pavor e a raiva foram dominados. Um sopro de coragem e confiança parecia ter atingido o pequeno grupo. Os cinco homens paralisados, deitados no chão, e Goldstein, o mutante, que balbuciava como uma criança, constituíam o único indício de que tudo aquilo — o medo, a raiva, o pânico e o pavor — poderia voltar.

 

Marcus Everson, comandante da K-262, passou a mão pela testa coberta de suor. O mal-estar cessou, cedendo lugar a uma sensação profunda de satisfação. Girou a poltrona para o lado de Scoobey. No rosto do pequeno oficial, via-se um sorriso de alívio.

— Conseguimos — disse este. — As coordenadas estão corretas. Estamos quase em casa, coronel.

Uma única transição separava a nave da Terra. Os dez homens fizeram o que estava a seu alcance. Conseguiram compensar a falta dos tripulantes atingidos pela paralisia. Uma nova confiança encheu a alma de Everson. Decidiu realizar o último salto o quanto antes. Era possível que, até lá, Landi conseguisse reparar o aparelho de telecomunicação.

Everson saltou da poltrona. O primeiro-operador de rádio estava sentado à frente do aparelho. Everson apenas viu o cabelo negro e crespo por cima do encosto da poltrona. Landi parecia totalmente absorvido pelo estudo do aparelho defeituoso.

— Dentro de pouco tempo estará em ordem, Landi — disse Everson, dando-lhe uma pancadinha no ombro.

Sob o toque de sua mão, Landi caiu da poltrona. Ao cair, girou em torno do eixo da cadeira com uma terrível lentidão. Por um instante, Everson viu o rosto desfigurado e enrijecido de medo passar bem à sua frente. Enquanto o coronel ainda estava paralisado pelo choque, a nova vítima caiu de vez ao chão.

Landi estava deitado de costas. A luz refletia-se nos seus olhos muito arregalados. O Dr. Morton arrastou o operador de rádio para o lugar em que se encontravam os outros doentes e cobriu-o.

O olhar de Everson caiu sobre uma fita branca que se encontrava embaixo do aparelho de rádio.

Abaixou-se para pegá-la. Era uma prova de que o aparelho funcionara por um instante. Todas as mensagens expedidas eram registradas nessas fitas estreitas.

Teria Landi conseguido transmitir uma mensagem pouco antes de ser atingido pelo misterioso atacante? Conseguira concluir os reparos?

Dedicou sua atenção à fita que tinha na mão. A frase que conseguiu ler deixou patente que os casos de paralisia não eram nenhuma doença.

Havia alguém na nave que reduzia propositadamente o número dos homens capazes de entrarem em ação. As palavras vistas por Everson não passavam de uma amarga ironia!

O instante durante o qual, segundo parecia, o aparelho funcionara perfeitamente, fora aproveitado para enviar ao espaço uma mensagem mentirosa.

Everson voltou a examinar a falsa mensagem.

 

Tudo em ordem a bordo da K-262. Everson.

 

Enfiou a fita no bolso do uniforme. Procurou lembrar-se de quem estivera sentado ao lado de Landi durante a transição. O lugar de Wolkow ficava à direita e ligeiramente atrás do assento do operador de rádio. E o de Sternal ficava à esquerda.

Antes que Everson pudesse dizer qualquer coisa, os alarmas automáticos soaram. O ruído estridente pesou em seus nervos superexcitados. Duas luzes vermelhas acenderam-se no painel de emergência.

— Coronel! — gritou Scoobey num desespero louco. — Dois conjuntos propulsores entraram em pane.

Todos falavam e gritavam ao mesmo tempo. Everson sentiu uma vontade irresistível de cair na poltrona e deixar que os acontecimentos tomassem seu curso.

Os propulsores da Fauna dispunham de vários dispositivos de segurança contra acidentes de todo tipo. Era altamente improvável que dois conjuntos falhassem ao mesmo tempo. Se fosse um caso de sabotagem, Everson via-se diante de um enigma insolúvel, pois ninguém se deslocara no interior da nave. Everson aspirou profundamente. Teria de mandar dois homens aos compartimentos em que se encontravam as máquinas defeituosas. Finney, o técnico, não poderia deixar de ir. Wolkow o acompanharia. Scoobey desligou as sereias.

— Finney! — gritou Everson em meio ao súbito silêncio. — Wolkow!

As luzes do painel de segurança pareciam um par de olhos malévolos.

— Procurem localizar e reparar o defeito. Ajam com cautela. O sistema de intercomunicação de bordo está ligado. A qualquer momento, poderão entrar em contato conosco.

Sem demonstrar muito interesse, Finney perguntou:

— E se tivermos de abandonar o local?

— Nesse caso, saiam — disse Everson.

Finney confirmou com um gesto indiferente. Desceu pelas escadas juntamente com Wolkow. Everson seguiu-os com os olhos, até que os perdesse de vista.

O comandante dirigiu-se aos homens que permaneciam na sala de comando.

— Todos sabemos em que situação nos encontramos — disse. — Apesar disso, espero que ninguém perca a calma. Por enquanto não temos informações precisas sobre as avarias. Provavelmente Finney e Wolkow conseguirão pôr as máquinas em ordem.

Fez um sinal para Sternal, que olhava fixamente o painel de emergência.

— Sternal, o senhor esteve sentado ao lado de Landi durante o hipersalto. Notou alguma coisa de anormal?

— Não senhor — disse o navegador. — Só percebi quando Landi caiu da poltrona.

Ao lembrar-se da cena, engoliu em seco.

— Dr. Morton — disse Everson, dirigindo-se ao médico barbudo. — O senhor acredita que um de nós possa causar a paralisia? Acha que existe a menor possibilidade de que seja assim?

— Esse tipo de paralisia pode ser provocado por alguém que disponha dos necessários recursos e conhecimentos médicos. Esta última parte aplica-se a qualquer um de nós. Todos aprendemos o necessário para que possamos arranjar-nos sozinhos se estivermos num planeta deserto. Apesar disso, sou de opinião que o culpado não pertence à tripulação da nave.

O médico refletiu por um instante.

— Existem varias toxinas que produzem um efeito como este. Acontece que, no caso de alguns dos tripulantes paralisados, especialmente no de Landi, não vejo como o veneno poderia ter sido introduzido em seu corpo. Alem disso, submeti todos os doentes a um exame rigoroso e posso afirmar com segurança absoluta que não houve nenhuma intoxicação. Ao que tudo indica, ainda resta muita coisa para esclarecer, pois trata-se de um choque.

— O que está esperando, coronel? — gritou Weiss. Sua mão estendida apontava para Mataal, que se mantinha sentado, imóvel. — O senhor acaba de ouvir que não pode ser nenhum dos tripulantes.

— Cale-se! — disse Everson, advertindo o homem exaltado — Como explicar a pane no telecomunicador e nos dois propulsores? Será que o epanense poderia ter realizado atos de sabotagem como estes?

A atmosfera estava tensa ao Extremo.

Os homens vigiavam-se mutuamente com uma suspeita cada vez mais intensa. E as desconfianças recaíram principalmente em Mataal.

— O Dr. Morton aplicará uma injeção no epanense — decidiu Everson. — Ficará por algum tempo em estado de hibernação. Se durante esse tempo houver outros desastres, poderemos ter certeza de que nada tem a ver com os casos de paralisia.

Repetiu as mesmas palavras em língua epanense. O ser extraterrano fitou-o com uma expressão de indiferença.

— É claro que não tenho nada com isso — disse, estreitando os olhos. — Antes que use a violência, manifesto minha concordância.

Everson fez um sinal para o Dr. Morton. Atrás dele. Fashong soltou um grito de surpresa. Everson virou-se abruptamente. As duas luzes vermelhas se haviam apagado.

— Não é possível! — exclamou o coronel. — Finney e Wolkow ainda não podem ter concluído os reparos. Mal podem ter começado.

Uma suspeita horripilante surgiu em sua mente. Deu dois passos e colocou-se à frente do microfone.

— Finney! — berrou. — Wolkow! Estão ouvindo?

Um silêncio pavoroso espalhou-se pela sala. Everson sentiu as pulsações de seu coração. Os alto-falantes continuaram silenciosos. Goldstein ergueu-se do leito. Ao que parecia, nem sabia onde estava, pois seus olhos espantados fitavam os arredores.

— Finney! — voltou a gritar Everson, enquanto sua garganta ameaçava fechar-se. — Finney! Wolkow!

No seu íntimo sabia que não obteria resposta. Nem Finney nem Wolkow responderiam. Seus corpos paralisados jaziam em algum lugar da nave. Deviam estar rígidos, com os olhos muito arregalados. Everson viu o quadro com os olhos de sua mente... O inimigo invisível revelara uma habilidade tremenda ao afastar os dois homens do grupo, e ele, Everson, fizera o jogo do mesmo.

— Vou procurá-los — disse Sternal.

O navegador fez menção de sair da sala.

— Pare! — gritou o coronel. — Fique onde está.

Sternal não tomou conhecimento da ordem e prosseguiu imperturbavelmente. Numa decisão súbita, Everson pegou o paralisador e disparou. Sternal caiu na escada.

— Traga-o para cima, Weiss! — ordenou Everson. — Logo recuperará os sentidos. Repito: ninguém deverá sair da sala de comando, haja o que houver.

Sentiu-se cansado e desesperado. Os poucos homens que lhe restavam não poderiam realizar a última transição.

Estavam à mercê do inimigo traiçoeiro.

 

Goldstein seguiu sem a menor dificuldade o caminho do pseudo-corpo. Ainda tinha de fazer algum esforço para conduzir aquela figura absurda e antinatural na direção desejada. Era bem verdade que se tornava cada vez menos difícil compreender a estrutura atômica de objetos pouco complicados, mas tinha de agir com cautela, para que não surgisse a menor suspeita contra ele. A capacidade maravilhosa, que descobrira em Epan, tinha de ser formada e desenvolvida com todo cuidado. A idéia de se fazer doente funcionara muito bem. Ninguém lhe dava a menor atenção.

Goldstein soltou uma risadinha de triunfo. Enquanto suas forças paranormais continuavam a deslocar o bloco disforme de matéria, os olhos observavam os astronautas desesperados. Estavam prestes a entregar os pontos.

Refletiu sobre se deveria oferecer-lhes um pequeno espetáculo. Bastaria um ligeiro reagrupamento da estrutura molecular para que a poltrona do comandante assumisse o aspecto de uma sela. Mas resolveu deixar essas cenas para depois, quando recorreria a elas para impor sua vontade aos tripulantes. Ainda era cedo para voltar à Terra. Sabia que seu novo dom não tinha similar em todo o Exército de Mutantes, mas este, em seu conjunto, ainda representava um poder que não conseguiria vencer.

Como numa brincadeira, Goldstein afastou as moléculas de uma parede de metal leve e deixou que o pseudo-corpo entrasse na abertura assim formada.

Representava um novo elo na corrente dos mutantes. Goldstein era um transformador de moléculas. Era algo mais que a telecinese, que apenas lhe permitiria mover a matéria. Sabia transformá-la. Podia controlá-la pela força de sua mente, dar-lhe a conformação desejada, e mantê-la no estado que desejasse. Com massas mais complexas, ainda não se conduzia com muita habilidade. Mas quando se tratava de criaturas humanas, sua ação limitava-se apenas a afetar o funcionamento de certos tendões nervosos, a fim de paralisar os corpos.

Mais tarde, precisaria deles, para usar o girino em conformidade com seus desejos. No momento, pouco lhe importava de que forma exercia seu domínio sobre esses homens.

Dispondo de uma arma mental tão poderosa, nunca se submeteria à vontade de outro homem. Rhodan e seus mutantes não mandariam nele. Se dispusesse de tempo para desenvolver suas faculdades, não haveria nada que pudesse representar um perigo para ele. A pequena nave espacial era um excelente campo de experiências.

Enquanto Weiss depositava o corpo de Sternal a seu lado, permaneceu em atitude indiferente. O coronel guardou o paralisador. Nessa hora teria sido fácil pegá-los de surpresa. Mas todos eles, especialmente Everson, teriam de ser submetidos a um cuidadoso “trabalho”. Devia dar demonstrações de sua força, provar-lhes que seria inútil resistir. Se caísse sobre eles de uma hora para outra, continuariam recalcitrantes e se esforçariam para criar problemas.

Deixou que o pseudo-corpo se desfizesse em minúsculas partículas de pó. No momento não precisava dele. Finney e Wolkow jaziam como que paralisados diante de um dos compartimentos da nave.

O mutante acolhera propositadamente os homem mais arrojados para colocá-los fora de ação.

Com uma expressão irônica nos olhos, contemplou seu campo de escolha. Havia o comandante. imbuído de ideais e senso de responsabilidade e Walt Scoobey, o imediato, cujo senso de humor desaparecera nestas últimas horas.

Sem a menor pressa Goldstein dirigiu os olhos sobre o próximo escolhido Era Fashong, cuja calma asiática seria mais difícil de romper. Seguir-se-ia Poul Weiss, o homem de temperamento indomável. Ainda havia Werner Sternal, que era a próxima vítima escolhida por Goldstein, e Inoshiro, o japonês, cujos pensamentos sempre se encontravam próximos à verdade embora o nipônico não soubesse disso.

Ainda restava o médico, que preparava a injeção de Mataal. Sem dúvida seria difícil vencer sua resistência

Goldstein pretendia apoderar-se da Fauna. Ainda não tinha uma idéia muito precisa do que faria depois. Tudo dependia da forma pela qual se desenvolveriam suas extraordinárias faculdades. Por enquanto continuava a avançar nesse terreno. Precisava ir tateando. Um único erro poderia representar o fim. Teria de prosseguir no papel de doente debilitado.

Em hipótese alguma deveria superestimar suas forças. Precisava poupar-se. Poderia prosseguir com experiência, mais simples. Depois que estivesse mais descansado, começaria a fazer tarefas mais complicadas. Não tinha pressa. Everson não poderia realizar a última transição, e as provisões que se encentravam a bordo da nave ofereciam uma margem de tolerância que lhe permitia refletir antes de agir.

O jovem mutante estava satisfeito com os êxitos já alcançados. Graças as suas faculdades, não teve a menor dificuldade em iludir um grupo de astronautas experimentados. E aquilo que fizera com um grupo reduzido de pessoas também deveria funcionar numa cidade, talvez até numa grande cidade. Goldstein afastou esse pensamento. Ainda era muito cedo para fazer tais tipos de reflexões. Era jovem e inteligente e possuía um dom que nenhum ser humano possuíra antes dele. Era capaz de desenvolver um poder imenso. Além disso, dominava a arte da telepatia. Era capaz de penetrar na mente dos seus semelhantes para descobrir-lhes os planos e as idéias.

Everson por exemplo estava pesando as possibilidades de realizar o último salto. Goldstein não seguiu as reflexões do comandante pois estas não poderiam chegar a qualquer resultado aproveitável. O Dr. Morton pensava nos homens paralisados. Enquanto isso Fashong refletia sobre se o próprio Everson não poderia ser responsável pelo que estava acontecendo.

As idéias mais perigosas eram as do japonês. Inoshiro tinha idéias bem definidas sobre a maneira pela qual foram produzidas as paralisias.

Já que um estado desses não pode ter sido produzido por influências externas, só resta uma possibilidade...”, pensava o japonês.

Goldstein resolveu mantê-lo sob uma vigilância ininterrupta.

Scoobey realizava cálculos mentais para descobrir por quanto tempo o girino poderia permanecer no espaço antes que todos morressem de fome. As idéias de Weiss também eram bem interessantes. Ele imaginava o que faria quando descobrissem o autor daqueles atentados. O mais medroso era Sternal, que esperava que Everson tomasse logo alguma providência que os ajudasse a sair daquela situação.

— Procure controlar-se um pouco — foram as palavras que Goldstein ouviu saírem da boca de Everson.

O comandante da nave dirigia-se a Sternal, que acabara de recuperar-se dos efeitos do disparo.

— Não podemos deixá-los jogados por lá — disse Sternal. — É possível que as radiações no interior da câmara de reação sejam tão intensas... — sua voz transformou-se num cochicho inaudível.

— Provavelmente ainda não chegaram lá — disse Everson em tom menos áspero.

Preciso 'esquentar-lhes' a cabeça”, pensou Goldstein. “Seus nervos devem ser mantidos sob tensão constante.

Procurou um objeto adequado. Sua escolha recaiu na cobertura que protegia Stanford. Certificou-se de que ninguém observava os doentes. Seu cérebro absorveu o modelo da estrutura molecular da coberta. Fixou na mente o esquema das moléculas de carbono. Poderia modificar-lhes a forma de agrupamento à vontade. Se quisesse moldaria uma corda de alguns metros de comprimento, dividindo-a em várias partes.

Mas não pretendia fazer nada disso. Sob a influência de sua vontade, a coberta saiu suavemente de cima do corpo de Stanford. Goldstein voltou a examinar atentamente os homens; depois colocou as moléculas em movimento. Um tapete voador parecia afastar-se de Stanford. Goldstein desenvolveu um trabalho rápido e preciso. Colocou o grande pedaço de tecido em cima de Zimmermann. O operador de rádio estava duplamente protegido, enquanto Stanford jazia apenas em seu uniforme.

Scoobey foi o primeiro a perceber.

— Doutor, o senhor descobriu Stanford? — perguntou, dirigindo-se a Morton.

O médico olhou para os doentes.

— É claro que não — respondeu. Levantando a voz, perguntou: — Quem descobriu Stanford?

Ninguém respondeu. Um tanto perturbado, o médico aproximou-se dos homens paralisados.

— Deve ter sido alguém que é muito amigo de Zimmermann — disse em tom de perplexidade.

Voltou a envolver Stanford cuidadosamente em sua coberta.

Goldstein percebeu que um truque como este não poderia abalá-los. Seus nervos estavam tão tensos que não atribuiriam maior importância ao incidente. Todos acreditavam se tratar de um engano.

Menos um dos presentes! Inoshiro!

Goldstein acompanhou cuidadosamente os pensamentos do japonês. Poucos minutos antes do ato de Goldstein, Inoshiro observara os doentes. Tinha certeza absoluta de que até aquele momento Stanford ainda estivera coberto. E, nesse meio tempo, ninguém se aproximara dos homens paralisados. Era impossível que algum dos astronautas imobilizados tivesse sido o autor da modificação. Goldstein era o único que não estava paralisado.

Será que o mutante louco teria sido o autor da brincadeira? Para isso teria de levantar-se”, prosseguia Inoshiro em suas reflexões, ignorando que um “ouvinte” acompanhava seus pensamentos. “Por mais que estenda os braços, não alcançará Stanford. Até parece que alguma força invisível... O mutante!

O choque mental foi tão violento que Goldstein estremeceu. O japonês desconfiara e estava prestes a avisar Everson. O mutante não teria tempo para paralisar Inoshiro. Para isso, teria de realizar uma sondagem cuidadosa dos respectivos centros nervosos.

Goldstein viu uma caneta que se encontrava sobre a mesa do navegador. Para o mutante, o objeto não passava de uma acumulação de moléculas pouco complicadas que poderia transformar à vontade. Num instante, Goldstein modificou o objeto alongado, reagrupando as moléculas num conjunto de forma cúbica.

Inoshiro estava olhando em sua direção. A excitação de sua mente era mais que evidente. Goldstein agiu com uma frieza total. Antes que os lábios do japonês pudessem abrir-se para formular a acusação, Goldstein acelerou o movimento do lápis totalmente transformado e fê-lo bater com força contra a testa de Inoshiro.

O pequeno asiático soltou um gemido e caiu. Estava inconsciente. Os homens correram em sua direção. Goldstein deixou cair cautelosamente a arma improvisada. Enquanto os astronautas cuidavam do ferido, levantavam-no do chão e o examinavam, o mutante restituiu o formato original ao lápis e o recolocou na escrivaninha.

— Olhe a testa dele, doutor — disse Everson.

Perplexos, o Dr. Morton e Everson estavam inclinados sobre seu corpo. O médico virou a cabeça do japonês para cima.

— Está apenas inconsciente — afirmou. — Parece que alguém lhe deu uma pancada com uma pequena barra de metal.

Everson fitou o médico de bordo: não sabia o que pensar.

— Não é possível — disse. — Ninguém viu nada... A causa do ferimento deve ser outra.

— Talvez tenha esbarrado em alguma coisa — supôs Weiss.

Goldstein não deu maior atenção à sua conversa.

O japonês não continuaria inconsciente por muito tempo. Mas havia uma possibilidade de prolongar o estado em que se encontrava. Goldstein voltou a descansar no leito improvisado. Agora já tinha tempo para colocar o japonês fora de ação, tal qual fizera com os homens que estavam deitados a seu lado.

A respiração de Goldstein acelerou-se. Ainda haveria alguém capaz de detê-lo? Passaria por cima de todos, por cima de Everson, de Rhodan, dos mutantes — de qualquer pessoa que se interpusesse em seu caminho. Depois disso, ele, Goldstein, controlaria todas as encruzilhadas da história, e a evolução da Humanidade se processaria pela trilha que iria formar em sua mente.

Goldstein tinha idéias perfeitamente definidas sobre seu futuro. Era verdade que, bem no seu íntimo, sentia certo mal-estar que não conseguia explicar.

 

Certa vez nos anos de juventude Everson vira um filme cultural, que mostrava como os membros de um povo primitivo irrigavam seus campos Faziam um burro magro e estropiado correr em círculo com os olhos vendados bombeando a água Enquanto o animal indefeso, martirizado pelos insetos corria ao sol do meio-dia alguns dos nativos se mantinham inativos à sombra do poço.

Naquele tempo, o tratamento dispensado ao animal provocara uma cólera violenta em Everson. E agora, que estava encolhido na sua poltrona, tresnoitado, com o rosto pálido e encovado, sentia uma compreensão ainda mais profunda pelo sofrimento do burro. Sua situação era semelhante à do quadrúpede que vira no filme. Everson também se movia em círculo. Parecia estar com os olhos vendados, incapaz de reconhecer a verdade.

Suas mãos seguraram o copo com o líquido gelado, que o Dr. Morton lhe dera para animá-lo.

Inoshiro não chegou a recuperar os sentidos. Passou do estado de inconsciência à misteriosa paralisia. Há poucos minutos Sternal fora atingido também. O homem caíra à porta da sala de comando, sem emitir qualquer som, como se fosse uma marionete cujo fio é cortado.

Quase todos estavam transformados em bonecos, encontrando-se sob o poder do inimigo invisível, que os dirigia segundo sua vontade! Everson lançou um olhar para os quatro homens que ainda lhe restavam; um deles devia ser o criminoso

Seria o Dr. Morton? O médico era uma verdadeira capacidade e não teria a menor dificuldade em provocar paralisias desse tipo. Acontece que Everson não conseguia conceber uma idéia precisa sobre o como. Ou seria Fashong? Era um chinês ágil, que sempre mostrava um rosto indiferente. Que motivo poderia ter para agir dessa forma?

Poul Weiss? Everson sacudiu a cabeça. Não acreditava que aquele homem tivesse algo a ver com aquilo. E o mesmo acontecia com Scoobey, que estava encolhido em sua poltrona, muito cansado, cochilando com os olhos entreabertos.

Mataal estava sob os efeitos da injeção aplicada pelo Dr. Morton. Seria inútil aplicar-lhe outra dose, pois a inocência do epanense era evidente. E todos os outros tripulantes achavam-se paralisados. Com exceção de Goldstein. Mas esse rapaz estava louco.

As chances de descobrir o culpado não eram muito grandes.

Será que havia mais alguma coisa a bordo?

Everson lembrou-se das palavras confusas de Goldstein.

O mutante não dissera em suas fantasias que a morte subira a bordo juntamente com ele? Será que eram apenas os pressentimentos sombrios de um homem dotado de faculdades paranormais? Ou haveria realmente um inimigo desconhecido a bordo?

Ao levantar-se, Everson teve a sensação de que estava sendo observado por olhos desconfiados. Os companheiros deviam desconfiar dele, tal qual ele desconfiava dos mesmos.

O coronel aproximou-se lentamente de Goldstein. O telepata mantinha os olhos fechados. Sua respiração era apressada; parecia exaltado. Everson inclinou-se sobre ele.

— Goldstein — disse em voz baixa. — Goldstein, você me ouve?

O mutante abriu os olhos, que apresentavam um brilho febril enquanto fitavam Everson.

— Calma, rapaz — disse Everson. — Quero conversar com você.

Goldstein ergueu-se abruptamente. Fitou os homens paralisados. Virou o corpo e apoiou-se sobre os cotovelos.

— Todos estão paralisados — disse apontando nervosamente os corpos. — Daqui a pouco, todos estarão deitados assim; todos.

— Conte-me alguma coisa sobre isso — pediu Everson em tom insistente.

Goldstein agarrou-se ao comandante. Este sacudiu-o num gesto animador.

— Estamos sendo observados — cochichou o telepata com a voz chorosa. Seus olhos corriam nervosamente de um lado para outro. — Se eu disser alguma coisa, ele nos matará.

— Ninguém o matará. De quem está falando? Diga quem está nos observando; fale logo, Goldstein!

As últimas palavras quase chegaram a soar como um grito.

Um sorriso abobado surgiu no rosto de Goldstein. Por um momento Everson teve uma sensação estranha; parecia que deixara de notar um pormenor decisivo. Não conseguia segurar os pensamentos, estes se desfaziam como se alguém os apagasse com um pano.

— É o Dr. Morton — disse Goldstein com a voz de criança que revela a “novidade” que ouviu de um adulto. — O Dr. Morton me matará — gritou em tom estridente.

Everson afastou-se do mutante. O Dr. Morton levantou-se com o rosto pálido. Havia uma expressão séria nos seus olhos azuis quando os mesmos se dirigiram sobre Everson. O coronel tirou o paralisador.

— O senhor está louco — gritou o médico. — Goldstein está fora de si. Vai acreditar num louco?

— É um telepata — disse Everson. — Pode ser um telepata louco, mas sabe ler pensamentos. E desconfia do senhor, doutor. O senhor é a única pessoa a bordo que poderia colocar-nos numa situação como esta. Seus conhecimentos podem colocar os doentes nesse estado. Ainda mais que o senhor não foi atingido pela paralisia.

O médico barbudo recuou alguns passos. Levantou os braços, num gesto de acusação contra Everson.

— Agora já vejo tudo — gritou. — Foi o senhor que fez tudo isso. Que esperto! Se o senhor me eliminar, ninguém mais poderá impedir sua atuação — fez um sinal para Scoobey e Weiss. — Ele é o culpado; não tenham a menor dúvida.

Num gesto decidido Everson levantou o paralisador.

— Segurem-no! — berrou o médico, louco de raiva. — Segurem-no, antes que seja tarde. Não estão percebendo seu jogo diabólico?

Mais tarde, Everson não saberia dizer por que resolvera atirar. Morton cambaleou e caiu.

— Está apenas paralisado — disse Everson em tom indiferente.

— Não parecia sentir-se culpado — disse Fashong em voz baixa.

— Parecia sentir-se menos culpado que eu? — perguntou Everson.

— Não adianta nada desconfiarmos constantemente uns dos outros — respondeu o chinês em tom tranqüilo. — Devemos conformar-nos com o fato de que fomos derrotados. Se tentarmos entrar em contato com o inimigo, talvez descubramos quem é ele.

— Nosso inimigo só pode ser um louco — disse Everson. — Impede nossa última transição e, com isso, ele mesmo se condena à morte.

Mataal se recuperava lentamente dos efeitos da injeção. Everson ajudou-o a levantar-se. O epanense notou que o número dos homens paralizados aumentara.

— Ao que parece sua situação não melhorou — falou com certa ironia. — Ainda suspeitam de mim?

Everson sacudiu a cabeça.

— Acho que minha idéia não é nada má — disse Fashong em tom obstinado. — Devemos entrar em contato com nosso inimigo fantasmagórico; não temos outra alternativa. Vamos capitular.

— Quem vai resolver quando capitularemos sou eu, Fashong — esbravejou Everson. — Além disso, nosso “amigo” só aparecerá quando ele achar que já chegou a hora.

Scoobey, que se mantivera em silêncio por muito tempo, ergueu-se de sua poltrona. Falou como um homem que refletira detidamente sobre um problema e acabara de encontrar a melhor solução.

— Tenho outro plano, coronel — disse. — Vamos destruir a nave.

Esperou que alguém o contradissesse. Quando viu que ninguém se dispunha a falar, prosseguiu:

— Faremos a Fauna explodir no espaço. O Comandante Everson poderá confirmar que isso é possível. É bem verdade que todos morreriam, mas a mesma coisa aconteceria com nosso inimigo. Com uma ação dessas, poderíamos atraí-lo para fora do esconderijo. Terá de fazer alguma coisa, a não ser que queira morrer conosco. Não poderá prosseguir na tática que tem adotado. Antes de mais nada, terá de desistir de nos colocar fora de ação um após o outro, pois meu plano não lhe deixaria tempo para isso. Obrigaríamos o inimigo a pôr as cartas na mesa.

— Concordo com sua idéia — exclamou Poul Weiss em tom apaixonado.

Fashong mostrou-se mais cauteloso:

— Isso parece um tanto definitivo. Seu plano não nos deixaria outra alternativa senão morrermos todos, ou... bem, é justamente sobre esse ou que não sabemos nada.

— Também sou de opinião que não devemos arriscar a nave — disse Everson. — Ainda temos uma chance de resolver a situação de outra maneira.

Com dois passos. Scoobey colocou-se ao lado de Mataal e levantou-lhe o braço.

— Será que este homem não tem o direito de participar da decisão? Afinal, sua vida está tão ameaçada quanto a nossa. Vamos dar-lhe a oportunidade de manifestar sua opinião. É o mínimo que podemos fazer.

— Está bem — disse Everson. — Perguntarei a Mataal.

Relatou em língua epanense o que havia acontecido.

— Destrua a nave — disse Mataal. — Nunca ninguém derrotou um inimigo por meio da inatividade.

Seus dentes brilharam e o rosto amarelo desfigurou-se numa furiosa resolução. Everson tinha certeza de que para Mataal o desconhecido era um monstro que poderia ser vencido na arena com a espada.

— Você ganhou — disse Everson, dirigindo-se ao imediato. — Mataal também concorda. Ainda vamos perguntar ao Dr. Morton. Não demorará em recuperar os sentidos.

Scoobey aproximou-se do médico e tocou-o com a ponta do pé.

— O senhor está sem sorte, coronel — disse com a voz débil. — Aqui temos outra prova de que não podemos esperar mais. O doutor está paralisado. Pretende manter-se inativo ate que estejamos todos paralisados, coronel?

Everson sentiu vontade de investir com os punhos contra alguma coisa.

— O estado de Morton faz com que as suspeitas recaiam sobre mim — admitiu. — Por isso concordo com sua idéia.

Scoobey sorriu.

— Muito bem — disse em tom satisfeito. — O senhor sabe o que deve fazer, coronel. Não podemos executar o plano aqui em cima. Devemos ir até os propulsores. Sugiro que saiamos juntos da sala de comando. Vamos logo.

Quatro serranos de inteligência superior a média e um gladiador epanense fitaram-se. Em seus olhares, havia uma concordância muda. Scoobey caminhou à frente dos demais.

Não chegaram longe...

Seus olhos presenciaram um espetáculo incrível. A escada, que constituía o único caminho para as outras partes da nave, dissolveu-se à sua frente. Desapareceu sem mais nem menos, afinou, tornou-se transparente, ficou reduzida a uma visão bastante vaga e desfez-se de todo.

— Parece que nosso procedimento não agradou ao desconhecido — disse Weiss em tom seco, olhando por cima da amurada.

No momento, não tinham qualquer possibilidade de sair da sala de comando. Esta se transformara numa prisão, onde estavam à mercê do implacável inimigo.

Uma risada horrível arrancou-os de suas reflexões. Estremeceram apavorados. Era Goldstein.

— Vamos dar-lhe uma injeção — disse Scoobey.

— Ele se acalmará logo — disse Everson. — Deve ser um ligeiro ataque.

Que possibilidades lhes restavam? O que poderiam fazer?

Everson sentiu-se totalmente exausto. Via-se diante do inimigo como quem está privado de toda substância. A aparência dos outros não era diferente. Só o epanense, que parecia não compreender o que estava acontecendo, não se mostrou abalado.

Everson examinou atentamente o lugar em que poucos minutos antes se encontrara a escada de alumínio.

Como se poderia explicar o desaparecimento da mesma?

Será que ainda lhes restava alguma chance?

 

Goldstein foi-se recuperando aos poucos do cansaço. O esforço que tivera de fazer para dissolver em poucos instantes a escada de acesso representara uma carga sobre-humana.

Não quis deixar passar essa oportunidade de dar uma demonstração de sua força. Teria de convencer Everson de que era invencível. O moral do pequeno grupo teria de esfacelar-se peça por peça. Goldstein tinha certeza de que conseguiria.

— Se amarrarmos todas as cobertas, um de nós poderá descer — sugeriu Poul Weiss.

— Isso não adiantará nada — objetou Everson. — A corda que fabricarmos terá a mesma sorte da escada.

Fashong disse:

— Gostaria que minha proposta fosse considerada, coronel.

Se conhecermos o inimigo, será mais fácil surpreendê-lo”, pensou o chinês. “Será que Everson ainda não compreendeu?

Goldstein não teve a menor dificuldade em acompanhar esses pensamentos. O chinês seria o próximo a ser colocado fora de ação. A resolução férrea do asiático e sua capacidade de conceber um raciocínio preciso, até mesmo numa situação como esta, poderiam representar um apoio para Everson; e Goldstein não gostava disso.

— Como pretende fazer isso, Fashong? — perguntou Everson. — Quer que use o sistema de intercomunicação de bordo para manifestar minha disposição de negociar? Não me parece que nosso adversário esteja dialogando conosco.

— Minhas palavras poderão parecer uma imodéstia — respondeu Fashong. — Notei que o inimigo age de acordo com certo esquema. Começou por colocar fora de combate os homens menos importantes e depois foi atingindo os outros. Nós quatro, é claro que Mataal deve ser excluído, formamos a elite dirigente da nave. Isso não pode ser simples coincidência.

Não há dúvida de que o chinês não demorará em descobrir a verdade”, pensou Goldstein.

Fashong se colocara na pista como um cão de caça. Goldstein quase chegou a sentir uma ligeira simpatia pelo navegador, que sabia defender-se sem recorrer a qualquer capacidade paranormal.

— Qual é a finalidade que pode haver nessa seqüência? — perguntou o coronel.

Fashong prosseguiu:

— Em condições normais, seria de supor que um indivíduo dotado de raciocínio lógico colocaria fora de ação em primeiro lugar as pessoas mais importantes, pois haveria maior certeza de que estas poderiam opor-lhe alguma resistência. Se não age assim é porque pretende fazer alguma coisa conosco, ou quer exercer pressão sobre nós. Quer nos obrigar a desistir. Por que não fazemos a vontade do personagem misterioso, coronel?

Everson levantou a voz ao responder:

— Aconteça o que acontecer, nunca desistirei.

O chinês aproximou-se da mesa do navegador. Escreveu algumas palavras num pedaço de papel e entregou-o ao comandante.

Parece que podemos capitular”, leu Goldstein nos pensamentos de Everson. “Está na hora de desistirmos do jogo.

Everson amassou o papel e inclinou-se sobre o microfone.

— Estamos dispostos a negociar — disse, falando devagar. — Seja quem for nosso inimigo, queremos que apareça a fim de que possamos chegar a acordo.

Goldstein soltou uma risadinha de escárnio. Suas energias paranormais entraram em ação. A caneta moveu-se sobre a mesa de navegação, como se tivesse sido tocada pela mão de um fantasma. Goldstein dirigiu o bilhete escrito cuidadosamente pela sala de comando. O papel foi-se aproximando de Everson.

— Olhe, coronel! — gritou Weiss

O bilhete ainda flutuava, quando Everson pegou-o.

Leu-o em voz alta:

— Vão para o inferno!

— Diria que é uma expressão tipicamente humana — observou Fashong em tom de satisfação.

Goldstein sabia que não dispunha de muito tempo. Não poderia esperar tanto como fizera com Inoshiro. Sondou cuidadosamente o cérebro do chinês. Bastaria realizar uma pequena modificação; não precisaria fazer mais nada.

— Isso representa um progresso enorme — resmungou Everson em tom sarcástico.

Fashong falou apressadamente;

— Os fatos só permitem uma conclusão.

Goldstein conhecia as palavras que se seguiriam antes que Fashong as pronunciasse. Mas ninguém mais as ouviria.

Subitamente, o astronauta franzino estremeceu. Everson soltou um grito e colocou-se a seu lado.

— Fale! — disse em tom exaltado. — Fale logo, Fashong!

Fashong abriu a boca, mas nenhuma palavra lhe passou pelos lábios. Parecia querer apontar em determinada direção, mas o braço endureceu a meio caminho e caiu pesadamente. Everson sentiu o pequeno corpo amolecer em seus braços.

— Ele sabia — disse o coronel. — Reconheceu o inimigo, mas não pôde dizer-nos quem é. Ficou paralisado que nem os outros.

— Mas ainda conseguiu dizer uma coisa — observou Scoobey. — Mencionou que a expressão “vão para o inferno” é tipicamente humana. Dali se conclui que um de nós três é o criminoso — fitou Weiss e Everson, como se quisesse gravar seus rostos. — Aliás, deve ser um de vocês, pois sei que não sou eu.

Everson foi recuando para um canto. O paralisador surgiu em sua mão.

— Scoobey ou Weiss — disse. — A escolha ficou bastante reduzida.

Weiss soltou uma estrondosa gargalhada.

— É inacreditável! — exclamou. — Vocês podem achar que sou um idiota, mas tenho a impressão de que é um de vocês.

Agora vão atacar-se uns aos outros”, pensou Goldstein muito satisfeito.

O que aconteceria quando o próximo homem fosse colocado fora de ação?

O mutante pensava em Scoobey. Everson e Weiss se anulariam mutuamente. O coronel possuía uma arma. Isso significava que não precisaria preocupar-se com Everson. O astronauta seria o último. Mataal, que estava sentado tranqüilamente no chão, não contava. Uma ligeira visão dos pensamentos do epanense apenas mostrou saudades.

Sem que o quisesse, Fashong colocou os três homens numa pista errada. Cada um deles estava convencido que o autor dos crimes só podia ser um dos outros dois. Everson desconfiava principalmente de Weiss; Scoobey acreditava que o culpado fosse Everson, e Weiss estava convencido de que deveria cuidar-se principalmente de Scoobey.

Muito divertido, Goldstein observou os três homens cansados que trocavam olhares desconfiados. Everson segurava fortemente o paralisador, e Scoobey fez questão de ficar com as costas livres. Weiss estava sentado no chão e pensava que dificilmente teria uma oportunidade de defender-se.

— Acho que estamos procedendo como crianças — disse Weiss. — O comandante acha que pode defender-se com essa arma — um sorriso de desprezo surgiu em seu rosto. — O senhor sabe perfeitamente que isso é impossível. Em quem vai atirar quando lhe acontecer o que acaba de suceder com Fashong?

Everson não respondeu. Scoobey moveu a poltrona para cima. Ficou a dois metros do chão. Weiss levantou os olhos para ele.

— O senhor se sente mais seguro aí em cima? — perguntou ao imediato.

— Minha posição fica mais “esclarecida” — respondeu Scoobey fazendo tom de mistério.

Estavam metidos numa armadilha. Goldstein nem se esforçou para reprimir a sensação de triunfo que se apossava de sua mente. Ele, um mutante jovem e inexperiente, fazia pouco das velhas raposas do espaço. Sua capacidade extraordinária lhe permitia brincar com eles como se fossem bolinhas de gude que podia fazer rolar na direção que quisesse. Devia deixar Everson arrasado a ponto de levá-lo a executar prontamente qualquer ordem que lhe fosse dada. Os outros seguiriam os passos de seu superior.

Se depois dessa “massagem psicológica” Everson não quisesse mostrar-se razoável, não haveria outra alternativa senão matá-lo. Com a morte de Everson, a nave perderia seu dirigente intelectual, mas Scoobey era um substituto à altura. Assim que Goldstein libertasse os astronautas da paralisia de que estavam acometidos, eles se lembrariam com verdadeiro pavor do que lhes acontecera e não se arriscariam a atacá-lo.

O acaso colocara nas mãos de Goldstein a K-262, e com ela uma excelente oportunidade de experimentar suas capacidades paranormais e desenvolvê-las. Não seria fácil abalar o ânimo de Rhodan. Goldstein conhecia o poder desse homem, mas tinha plena consciência de suas faculdades que, convenientemente desenvolvidas, fariam dele um homem invencível.

Um sorriso de desprezo surgiu em seu rosto. Não era um absurdo que um homem que não dispunha de capacidades paranormais desenvolvidas pudesse investir-se nas funções de dirigente do Império Solar? Goldstein tinha certeza de que o Exército de Mutantes apenas esperava surgir algum homem bem poderoso de dentro de suas fileiras. E logo que esse surgisse, assumiria o lugar de Rhodan. Ele, Goldstein, seria esse homem.

Fitou a longa fileira de doentes com uma expressão pensativa. Ali estavam estendidos, mudos e com o corpo rígido. Seus pensamentos não estavam paralisados. Giravam em torno do medo, do ódio e do pavor provocado pelos planos de Goldstein. Agora, que estavam indefesos, “amarrados” ao solo, já conheciam o inimigo. Mas seus lábios, que ansiavam para gritar o que sabiam, permaneceram mudos. As línguas recusavam-se a obedecer.

Goldstein penetrou mais profundamente em suas mentes. Tinham a intenção de submeter-se à vontade do mutante. A disposição estava presente, apenas faltava despertá-la e intensificá-la. Eles se submeteriam, cheios de ódio e cólera, mas obedeceriam.

O telepata estremeceu ao experimentar a sensação de sua força. Suas idéias tinham algo de embriagante. Sentiu um profundo desprezo por aqueles homens que se comunicavam lentamente por meio da palavra falada e viviam no ambiente que os cercava sem compreendê-lo. Ele enxergava mais longe Eles eram uns primitivos; não passavam de uma espécie inferior de animal. Para eles, um pedaço de madeira não as sumia nenhum significado; apenas viam o tamanho, o formato e a cor. Já ele admirava a textura fina da madeira, a estrutura e o agrupamento das moléculas. Possuía um sentido adicional, que tateava a estrutura íntima das pequeninas partes. Conhecia suas qualidades, sabia modificá-las, destruí-las e reconstruí-las.

Por isso era mais que eles. Ultrapassava-os no terreno espiritual, da mesma maneira que eles ultrapassavam o macaco

— Olá, coronel! — a voz forte de Weiss irrompeu em meio aos pensamentos de Goldstein, — O senhor está adormecendo.

Everson, que se recostara, empurrou o corpo para a frente. Teve de esforçar-se para manter os olhos abertos. Passou a mão pelo rosto, como se, com isso, pudesse espantar o cansaço.

Não posso dormir”, diziam os pensamentos de Everson captados por Goldstein. “Agora não posso dormir.”

Scoobey lançou um olhar de espreita pela braçadeira de sua poltrona.

— Não está cansado, Poul? — perguntou. — Até acho você bem disposto.

— Assim, me torno suspeito, não é? — perguntou Weiss em tom irônico. — Um homem que não esteja tão indisposto deve ter uma boa explicação para seu excelente estado — Weiss bocejou fortemente. — Se não estivesse com tanto medo, dormiria — disse.

Não durma agora, meu velho”, pensou o coronel intensamente.

Weiss realizou um grande esforço para manter-se afastado da parede que o convidava a encostar-se.

Pareciam agora não suspeitarem uns dos outros.

Goldstein observava aquela gente, que para ele não passava de um bando de macacos. O comandante, que começava a cambalear de cansaço. Scoobey, pendurado na poltrona, exausto. Weiss que, de tanto medo e raiva, desenvolvera uma espécie de humor sinistro. Mataal pensava intensamente na terra natal, da qual estava separado por distâncias incomensuráveis. Esses pensamentos tornaram-se desagradáveis para Goldstein, pois reforçavam a sensação estranha que se espalhava em seu íntimo. Não os perseguiu mais.

— Precisamos descobrir um método de nos mantermos acordados — disse o imediato.

— Para quê? — perguntou Weiss. — Indique-me um método que me permita dormir tranqüilo, e veja o que farei.

Olhou para Scoobey com certa esperança no rosto.

— Tem alguma sugestão, Walt? — perguntou Everson em tom áspero.

— Temos de conversar — disse Scoobey. — Devemos falar uns com os outros; só assim poderemos vencer o cansaço.

— Não contem comigo — objetou Weiss.

— Ninguém lhe pediu que participasse, Poul — respondeu o coronel.

Era assim que falavam os macacos. Rosnavam na sua linguagem simiesca e procuravam estabelecer algum tipo de comunicação”, pensou o mutante.

Weiss deixou-se cair no chão e fechou os olhos. Resolvera dormir.

— Pois bem, Walt — disse Everson. — Vamos começar.

Goldstein não demorou muito. Já possuía certa prática e sabia por onde começar. Scoobey caiu molemente sobre a braçadeira da poltrona.

— Comece — repetiu Everson.

Olhou para cima. A parte superior do corpo de Scoobey estava pendurada sobre a braçadeira.

— Walt! — gritou o Coronel. — Será que você adormeceu?

Moveu a chave e fez a poltrona descer. O corpo de Scoobey balançava ligeiramente. Everson aproximou-se. Seu rosto transformou-se numa máscara. Goldstein recuou instintivamente sob a violência de sua torrente de idéias.

— Weiss! — gritou o coronel com a voz rouca.

Weiss abriu os olhos e viu Everson abaixado ao lado da poltrona. Olhou para Everson e Scoobey,

— Quer dizer que foi o senhor — disse num tom que quase chegava a ser de alívio. — Por que me poupou?

O paralisador surgiu na mão de Everson. A postura do coronel era selvagem e seus olhos exprimiam uma elevada dose de raiva recalcada. Weiss sorriu debilmente. O sorriso ainda perdurou depois que Everson disparou e o corpo de Weiss foi empurrado para trás sob o efeito paralisante da arma. O técnico cambaleou e tombou.

— Terminou — disse Everson em voz baixa, falando em epanense.

Mataal não respondeu. O coronel fez a poltrona de Scoobey subir novamente.

— Ele quis ficar lá — disse, dirigindo-se a Mataal. — Somos as únicas pessoas nesta nave que ainda podem mover-se. Nós, e Goldstein — completou.

 

Goldstein tirou a coberta de cima do corpo e levantou-se.

— Agora o senhor já sabe, Everson — constatou.

— Já — confirmou o coronel. — Deveria ter descoberto há muito tempo.

Goldstein fez um gesto de desprezo. Seus gestos espelhavam a arrogância.

— Pare de brincar com a arma — ordenou. — Nunca conseguirá apertar o gatilho. Nem tente avançar de punhos erguidos contra mim. Sim, estou lendo esse plano maluco em seus pensamentos. Antes de atingir-me, o senhor se juntará aos camaradas que se encontram a meus pés.

— O que deseja de mim? — perguntou Everson.

Com uma cortesia zombeteira, o mutante apontou para a poltrona de comando.

— Não quer sentar, coronel? — passou entre as pessoas paralisadas e esperou até que Everson se tivesse acomodado.

— Quero a Fauna — disse, lançando um olhar de espreita para Everson.

Agora, que conhecia o inimigo, Everson já não sentia medo.

— Certa vez você usou a seguinte frase: Vá para o inferno.

Goldstein riu.

— Além de tola, sua reação é irrefletida, meu caro coronel. Vamos rememorar os fatos. Assim sua atitude pouco inteligente logo se modificará.

— Será? Não mudarei de opinião, nem agora, nem depois — asseverou Everson. — Fale quanto quiser.

— Preste atenção, coronel — um tom de escárnio continuava a vibrar na voz de Goldstein. — Ali estão estendidos onze homens paralisados. Dois outros encontram-se na frente da terceira câmara de reação dos propulsores. Quanto a Weiss, o senhor fez o trabalho por mim. Acho que o senhor está interessado em que seus homens voltem a entrar em ação. Everson, é bom que saiba que só tenho duas alternativas. Ou consigo apoderar-me da nave, ou terei de morrer. Nesta última hipótese, não irei só. Refletiu um instante. — Está vendo a caneta sobre a mesa do navegador? — perguntou.

Everson olhou na direção indicada e o mutante fez a caneta flutuar lentamente pelo ar.

— Como vejo, além da telepatia o senhor domina a telecinese — disse Everson. — O senhor já nos ofereceu várias demonstrações.

Goldstein fez um gesto para que Everson se calasse. A caneta começou a mudar de forma. Tornou-se comprida e pontuda como um estilete. Sem que o quisesse, Everson deixou-se fascinar pelo que estava acontecendo. Subitamente o corpo reformado cortou o ar como uma flecha. Espetou-se no chão ao lado de Landi.

Goldstein retirou o objeto. Pesou-o cuidadosamente na mão.

— Everson, o senhor é um homem inteligente — disse. — O que acaba de ser feito com esta caneta também pode acontecer com objetos maiores, inclusive com seres vivos, Há pouco falei que eventualmente teremos de morrer juntos, caso o senhor não queira ser razoável. O que eu quis dizer é que o senhor verá um após outro morrer. Começarei com Ramirez. Seguir-se-ão Short...

— Você nunca conseguirá levar isso a cabo — disse Everson. O suor começou a porejar em seu rosto pálido. — Você só pode estar louco, Goldstein. Só mesmo um alienado poderia conceber um plano desses.

Goldstein fez o estilete recém-criado girar sobre a mão. Depois atirou-o para longe.

— Não faça drama — disse. — Quer ser responsável pela morte de seus camaradas? Cumpra minhas ordens, e o resto se arranjará. Libertarei os homens da paralisia em que se encontram, e eles não nos criarão problemas.

— O que pretende fazer depois disso? — perguntou Everson com um pressentimento sombrio.

— Isso não é da sua conta. Seu trabalho consistirá em levar a nave a um lugar em que possa preparar-me para minhas novas tarefas.

Everson procurou controlar os pensamentos tumultuados. Sabia que, para um telepata, estes não representavam nenhum segredo. O mutante os lia como quem lê um livro aberto. Se Everson se lembrasse de alguma coisa, Goldstein saberia imediatamente e poderia reagir em tempo. Esse indivíduo era bastante cruel para realizar sua ameaça de matar brutalmente toda a tripulação. Numa amarga autocrítica o coronel lembrou-se do erro que cometera. Se tivesse descoberto antes o jogo de Goldstein, teria tido várias possibilidades de reagir. Agora já não havia lugar para qualquer tipo de ação.

— Weiss está recuperando os sentidos — disse a voz clara de Goldstein. — Impeça-o de adotar um procedimento do qual possa arrepender-se.

Everson ajudou Weiss a levantar. O astronauta sacudiu a cabeça e empurrou o comandante.

— Não se incomode — disse.

Depois viu Goldstein.

— Tenha cuidado, Poul — disse Everson em tom de advertência. — Ele nos tem na mão.

— Já começo a compreender — disse Weiss. — Esse frangote nos fez de bobos. Devia levar uma boa sova.

Poul Weiss, que era um homem com coração de leão, fez menção de passar das palavras aos atos.

— Espere aí! — gritou Everson. — Acho que o senhor ainda não compreendeu, Poul. Goldstein quer que lhe entreguemos a nave. Pretende usá-la em seu proveito. Vai matar-nos se não trabalharmos sob seu comando.

Weiss praguejou barbaramente e atirou-se para a frente. Estava a três metros de Goldstein. Everson viu a sombra da poltrona de comando passar à sua frente. Quando Weiss quase estava chegando ao mutante, foi atingido pelo móvel. A violência do golpe atirou-o para o outro lado da sala de comando. Ficou estendido, respirando pesadamente. Os olhos de Goldstein chispavam.

— Está ferido — disse Everson em tom amargo e inclinou-se sobre Weiss para examiná-lo.

— E daí? — perguntou Goldstein, enquanto seu rosto se contorcia numa careta de indiferença. — Ele quis assim. Foi avisado.

— Será que o senhor não tem nem um pouco de sentimento? — gritou Everson em tom furioso.

— Acha que vou ter sentimento por um macaco?

Goldstein acompanhou o coronel com os olhos, enquanto levantava Weiss do chão e o colocava cautelosamente na poltrona. Weiss gemia baixinho.

— Goldstein — disse Everson em tom insistente. — Procure raciocinar. Por enquanto ninguém foi morto. Ainda está em tempo de voltar atrás. O caminho que está seguindo o levará à desgraça. O senhor não escapará à vingança de Rhodan, esteja onde estiver. Não pode brincar conosco sem levar o castigo que merece.

— Cale-se — gritou o mutante. — Não pretendo esconder-me. Não tenho necessidade de fugir de Rhodan. Quem dera que o senhor conseguisse compreender, Everson. Sou mais poderoso que Rhodan. As provas que lhe ofereci não bastam? Não esperarei muito tempo. Ramirez será o primeiro; não se esqueça.

Everson cerrou os lábios. Weiss soltou outro gemido.

— Sente dores? — perguntou Everson.

— Escute — cochichou Weiss com grande esforço. — Haja o que houver, o senhor não pode entregar-lhe a Fauna. Goldstein nunca deverá chegar à Terra.

— Quer que eu o veja matar um por um? — perguntou Everson em tom de desespero.

Weiss comprimiu as mãos contra o peito.

— Sem a nave não poderá fazer nada — gemeu. — Precisa do girino. Não permita que se apodere dele.

Everson sacudiu-o.

— Indique-me uma alternativa, Poul. Como posso impedir que quatorze homens sejam mortos à minha frente?

— Já basta — disse Goldstein em tom penetrante.

Encontrava-se de pé, junto ao estrado da sala de comando. Seu rosto magro, com os olhos febris, tinha um aspecto apavorante. Os cabelos desgrenhados cobriam sua testa.

— O senhor já falou bastante — prosseguiu. — Reflita sobre a decisão que vai tomar — e dirigiu um olhar para Scoobey. — Será que precisa que ele o ajude?

— Não — disse Everson.

Da mesma forma que Weiss, Scoobey insistiria em que a pequena nave não fosse entregue a Goldstein. Não se davam conta das terríveis conseqüências que decorreriam de tal decisão. Everson percebeu que só lhe restava uma resposta. Sua decisão não poderia colocar em perigo a vida dos tripulantes. Depois que Goldstein os libertasse da paralisia, deveria surgir uma chance de colocar o mutante fora de ação.

Everson sentiu-se tomado de incertezas. Não havia a menor dúvida de que Goldstein agiria com a maior cautela. Nesse caso Everson não conseguiria dominar o mutante. Mas o coronel confiava em Rhodan e seu Exército de Mutantes. Mesmo Goldstein teria de falhar face a uma tropa especializada como esta.

Everson tinha certeza de que vira algumas amostras do poder de Goldstein, mas que isso ainda não era tudo.

— Isso mesmo, coronel — observou Goldstein. — O senhor está com a razão.

Everson não tomou conhecimento da observação e prosseguiu em suas reflexões.

Goldstein precisaria dos tripulantes para levar a nave à Terra. E não conseguiria pousar sem ser observado.

— Quem lhe disse que pretendo ir imediatamente à Terra? — perguntou Goldstein.

— Quer dizer que o senhor está guardando nosso planeta para depois — concluiu o coronel. — Ainda tem de esperar, Goldstein. As faculdades especiais que, segundo tudo indica, descobriu em Epan, ainda não estão suficientemente desenvolvidas. Todos os mutantes levaram algum tempo para completar sua formação.

— O senhor sabe raciocinar muito bem — disse o mutante em tom de escárnio. — Acontece que minhas faculdades paranormais bastam para dominar esta nave. A evolução de minhas capacidades ainda está na fase inicial. Nem mesmo eu sei qual será o resultado final.

Everson acenou com a cabeça e disse:

— Isso o deixa preocupado, não é verdade? Você se embriaga na sensação do poder que está para adquirir. Você está doente, meu filho. Seu espírito está perturbado.

— O senhor jamais conseguirá ofender-me — retrucou Goldstein. — O senhor se impressionaria com qualquer coisa que lhe fosse dita por um macaco?

— O senhor deve conhecer a velha história do cientista e do macaco — prosseguiu o comandante. — O homem trancou um chimpanzé num quarto, juntamente com alguns aparelhos, para ver o que o animal faria com os mesmos. No momento em que o cientista espiou pelo buraco da fechadura viu apenas os olhos do macaco. O símio desejava saber o que o homem pretendia fazer.

— Será que com isso o chimpanzé conseguiu sair do quarto? — perguntou Goldstein em tom de deboche.

Ao que parecia, esperava a resposta do coronel. Mas Everson manteve-se em silêncio. O que sentia pelo mutante era uma mistura de medo, ódio e desprezo.

Para um homem dotado das qualidades de Everson, a atitude de Goldstein era praticamente incompreensível. As concepções de Goldstein moviam-se num plano existencial específico, situado além do bem e do mal, que só o próprio mutante poderia conhecer. Nele não se podiam aplicar os padrões normais, pois era uma pessoa anormal. Tratava-se de uma nova espécie de homem, de uma espécie que poderia surgir com uma freqüência cada vez maior.

Everson sentiu-se apavorado ao pesar as probabilidades de que poderiam surgir outros mutantes ávidos de poder. Esse estágio da evolução dos mutantes devia ser mantido sob observação e controlado. Everson reconheceu o trabalho previdente que Rhodan realizara nesse setor, e a essa hora já compreendia certas coisas que antes só o faziam sacudir a cabeça.

— Fico satisfeito ao notar que reflete tão intensamente — disse Goldstein. — Acho, todavia, que se afasta do problema que temos de resolver. Estou aguardando uma resposta à minha pergunta.

— Dê-me mais um pouco de tempo — disse Everson. — O senhor sabe perfeitamente que ainda não consegui tomar uma decisão.

— Procurarei forçar as coisas um pouco — anunciou Goldstein.

O coronel afastou-se de Weiss.

— Olhe para o cadete — disse Goldstein.

Everson viu que a rigidez abandonava lentamente o corpo de Ramirez, que amoleceu, muito cansado, e foi-se levantando aos poucos. Os olhos de Ramirez exprimiam um medo profundo. Com o corpo melo levantado, fitou Goldstein. Sempre que este se movia, girava a cabeça, como se estivesse sob hipnose.

— Gomo vê, posso libertar os homens da paralisia assim que desejar — observou Goldstein.

— O que pretende fazer com o rapaz?

— Está na hora de o senhor decidir — disse Goldstein em voz estridente e maligna. — Se hesitar mais, Ramirez pagara por isso.

Ramirez soltou uma exclamação. Parecia o queixume de um animal... O som deixou o comandante mais abalado que quaisquer palavras.

— Deixe Ramirez em paz — disse Everson. — Pode ficar com a nave. Não posso esconder-lhe meus pensamentos. Por isso sabe que apenas espero uma oportunidade de destruí-lo.

Para surpresa de Everson, o mutante não fez nenhuma observação sarcástica. Aproximou-se tranqüilamente da mesa do navegador.

— Vejo que está começando a agir razoavelmente — disse. — Já podemos conversar sobre o que eu quero. Não procure enganar-me, pois eu descobrirei.

— Pois formule suas exigências — disse o coronel.

— O senhor está sendo esperado na Terra num momento determinado? — perguntou o mutante.

Antes que Everson pudesse pronunciar a resposta, sabia que Goldstein já tomara conhecimento dela.

— É claro que não — disse Everson. — Mas chegará o tempo em que Rhodan quererá saber onde estamos.

— O senhor acompanhou quase desde o início a transformação da Terceira Potência no Império Solar, coronel. O que acha que Rhodan fará depois de algum tempo para descobrir o que aconteceu com o senhor e sua nave?

— Existem diversas possibilidades — respondeu Everson. — Provavelmente irão supor que houve problemas em Epan e mandarão uma nave de reconhecimento para lá.

— Em outras palavras, a Fauna será menos procurada no lugar em que se encontrará dentro em breve: nas proximidades da Terra — constatou Goldstein.

— É possível — admitiu Everson a contragosto. — Mas será impossível pousarmos sem sermos detectados. O sistema de busca e alerta é tão denso que nem mesmo um inseto poderia atravessá-lo sem ser registrado.

— Sei disso — respondeu Goldstein em tom de desprezo. — Caberá ao senhor encontrar um refúgio para que esta nave fique suficientemente próxima da Terra e, ao mesmo tempo, não seja descoberta. Quero que Rhodan nos procure em Epan. Com isso ganharei tempo.

Um sorriso de escárnio surgiu em seus lábios.

— Não tente nenhum truque, Everson.

Por um instante Everson pensara em pousar em Vênus, onde seriam encontrados de qualquer maneira, mas Goldstein logo descobrira o plano e advertira o coronel com um sorriso de superioridade.

— Assim que tivermos encontrado um lugar adequado, poderei dispensar seus serviços por algum tempo — prosseguiu Goldstein, explicando seus planos. — Em determinado momento, o senhor irá à presença de Rhodan para apresentar-lhe minhas exigências. Aguardarei a resposta de Rhodan. Por enquanto não importa qual seja o teor das minhas exigências. No momento, a tarefa mais importante consiste em descobrir uma base de operações adequada.

— Será que o senhor acha que posso dirigir a nave sozinho? Preciso dos tripulantes.

Goldstein fez um gesto de concordância.

— Devolverei seus homens. Mas, antes disso, terei de adotar algumas medidas de segurança, para proteger-me contra um ataque maciço. Se todos investirem contra mim ao mesmo tempo, minha situação poderá tornar-se crítica, e nesse caso talvez não possa tomar maiores considerações na escolha dos meios de defesa. Além das armas espalhadas pela nave, o senhor e Scoobey têm um paralisador. Os senhores atirarão os mesmos sobre a amurada.

“Não se preocupe com Finney e Wolkow; eu os trarei para cá, mesmo sem a escada. Instalar-me-ei atrás dos aparelhos de rádio. A mesa do navegador fica bem à minha frente, motivo por que só um homem poderá aproximar-se de mim de cada vez. Acho que isso bastará. Não acredito que seus homens demonstrarão muito espírito de iniciativa, mas tenho de tomar minhas precauções para qualquer eventualidade. Qualquer pessoa que me atacar será paralisada. Explique isso aos tripulantes, coronel. Assim saberão conter-se e obedecer. Não pretendo assumir o menor risco. Em hipótese alguma, meus planos poderão fracassar por causa de um erro ridículo. Estou decidido a tudo para atingir meu objetivo.”

— Não tenho a menor dúvida — disse Everson em tom irônico. Atirou o paralisa-dor para longe. — O que será feito de Mataal?

— Isso não importa — disse Goldstein. — Provavelmente morrerá. Não consegue adaptar-se ao ambiente. Seu espírito está doente de tristeza e saudades.

Everson dirigiu-se a Mataal, que se mantinha agachado em seu canto que nem uma estátua.

— Lamento que isso tenha acontecido — disse em tom de compaixão. — Não pretendia causar-lhe tanto mal.

Os olhos negros e oblíquos fitaram-no com uma expressão de desespero mudo.

— Quer voltar a seu camarote? — perguntou Everson. — Goldstein não terá nenhuma objeção e encontrará um meio de levá-lo para lá.

Mataal limitou-se a sacudir a cabeça.

— Não perca mais tempo com esse selvagem — interveio Goldstein em tom impaciente. — Sua pessoa não assume a menor importância.

Everson teve de controlar-se para não soltar um palavrão. Só lhe restava uma possibilidade. Teria de esperar até que o mutante cometesse um erro.

— É claro que o sistema de comunicações continuará paralisado — anunciou Goldstein.

Esteve a ponto de acrescentar mais alguma coisa, mas viu pelo canto dos olhos que Ramirez se levantava e cambaleava em direção a Everson que nem um bêbedo. O cadete segurou fortemente o braço do comandante.

— Não, coronel! — sua voz estava reduzida a um sopro. — Sinto muito que tenha fraquejado por um momento. Não lhe entregue a nave. Se quiser matar-nos, também terá de morrer, pois sem nós não poderá fazer nada com o girino. Talvez seja nossa última chance de deter a ação desse criminoso.

O riso irritante de Goldstein produziu uma verdadeira dissonância na sala de comando. O mutante não interrompeu Ramirez. Mas agora, que viu o cadete apoiar-se em Everson, disse:

— Este rapaz quer transformar-se num mártir, Everson. O que acha disso?

Com um gesto suave, Everson desprendeu-se do cadete. Ouviu que mais ao longe Weiss praguejava em termos incompreensíveis.

Goldstein levantou ambos os braços. Ao que tudo indicava, a situação o divertia bastante.

— Não diga nada, coronel — disse. — Já conheço sua resposta, e devo reconhecer que a mesma é razoável. Não quer criar mártires. No meio da tripulação, ainda aparecerão outros idiotas. Ainda bem que o senhor não é um deles.

Everson fitou-o com os olhos chamejantes. Engoliu a ofensa sem dizer uma palavra, pois acreditava saber por que Goldstein a proferira. No fundo era fácil compreender o mutante.

— Infelizmente me vejo forçado a interromper suas reflexões psicológicas — disse Goldstein. — É que temos de cuidar dos homens paralisados. Destruirei qualquer pessoa que se interponha no meu caminho! — exclamou em tom enfático.

Não tenho a menor dúvida”, pensou Everson com a alma amargurada.

 

Tinham os rostos desfigurados pelo ódio mal disfarçado. Trabalhavam em silêncio e a contragosto. Aquele ódio grupal concentrava-se sobre o homem que, com um ligeiro sorriso nos lábios, achava-se de pé entre os aparelhos de rádio e a mesa do navegador, distribuindo ordens. Era um rapaz magro e desleixado, cujos movimentos relaxados quase chegavam a dar-lhe um ar de menino Era ele que adivinhava todos os pensamentos do grupo.

Dois metros acima da cabeça de Goldstein, pairava um pesado bloco de metal, sustentado por forças invisíveis. O mutante ameaçara deixar cair esse bloco de metal sobre qualquer pessoa que se atrevesse a aproximar-se dele sem ordens expressas. Esse pseudo-corpo era algo mais que um dispositivo de segurança destinado a proteger Goldstein. Era o símbolo da derrota. Desde o momento em que o mutante libertara os tripulantes da paralisia, aquilo pairava sobre suas cabeças. Em tom de deboche avisara-os de que poderia voltar a paralisá-los a qualquer momento. Já não precisava sondar as posições de seus tendões nervosos, pois a essa altura as conhecia muito bem. Seus sentidos paranormais permitiam-lhe penetrar em seus cérebros e colocá-los fora de ação dentro de poucos segundos.

Apesar disso, há uma hora haviam feito uma tentativa para dominar o mutante debochado. Dealcour e Landi viram uma chance. Encontravam-se lado a lado, junto ao painel de controle. Até mesmo Everson só percebeu a intenção deles, quando esta se exprimiu em atos.

— Atacar! — berrou Dealcour de repente.

Landi saltou sobre Goldstein que nem um tigre. Soltando um brado guerreiro, a fim de motivar os outros astronautas, Dealcour seguiu-o. Mas antes que estes pudessem concluir o ataque, a ação já havia chegado ao fim. Dealcour e Landi caíram ao chão à frente do mutante.

— Levem-nos daqui — ordenou Goldstein com a voz fria. — Logo recuperarão os sentidos. Será que realmente esperavam conseguir alguma coisa com meios tão grosseiros?

Esperou que Dealcour e o operador de rádio fossem retirados de junto de seus pés.

— Já existe outro plano para derrotar-me — disse. — Scoobey, o senhor realmente acredita que esperarei até que eletrifique a sala de comando?

O imediato respondeu em tom odiento:

— Se chegar à conclusão de que poderá dar certo, assumirei o risco.

— Deixe de bobagens, Walt — interveio Everson. — Você só arriscaria nossa vida sem a menor vantagem. Ele se colocaria em segurança, antes que pudesse começar a executar seu plano. Desista.

— Isso não impede o nobre comandante de também acalentar uma idéia — observou Goldstein. — E o Dr. Morton é simplório a ponto de acreditar que existe uma chance para ele com seu pó paralisante.

Isso acontecera há uma hora. Dali em diante, tudo correra sem novidades. Estavam preparando a terceira transição. Goldstein ordenara algumas modificações. Queria evitar aproximar-se demais da Terra.

Everson sabia que, depois de pousarem, dificilmente teriam uma chance de dominar Goldstein. Se é que havia alguma possibilidade de surpreendê-lo, essa possibilidade só existiria no interior da nave, onde estavam comprimidos num espaço extremamente reduzido. Se não conseguissem colocar fora de ação aquela medonha criatura, Everson não realizaria o pouso. Tinha certeza de que Goldstein sabia de suas intenções. Mas até então o mutante não emitira uma palavra sobre o que pretendia fazer, caso isso acontecesse. Será que encontrara uma possibilidade de pilotar a Fauna sem o auxílio dos tripulantes?

Em condições normais nem haveria como pensar nisso, mas, ao que parecia, não havia nada que fosse impossível para Goldstein.

Quem realizou a próxima tentativa foi Stanford. O biólogo, que só lidava com o instrumental da nave durante a transição, retirara uma pesada chave do painel de controle. Everson viu esse objeto, atirado com violência, passar à sua frente, em direção a Goldstein.

Por um instante teve a impressão de que o mutante fora surpreendido e seria atingido pelo objeto. Mas Everson logo percebeu que Goldstein apenas brincara com eles, para fazer nascer-lhes falsas esperanças.

Abaixou-se instantaneamente e a barra redonda passou por cima de sua cabeça. Diminuindo de velocidade, passou pela sala de comando. Everson notou que a desaceleração fora artificial. O projétil atirado por Stanford descreveu uma ampla curva e voltou que nem um bumerangue. O biólogo acompanhou seu vôo com o rosto pálido.

Subitamente o objeto aumentou de velocidade. Goldstein soltou uma risada feroz.

— Deite, Stanford! — berrou Everson, que desconfiava do que estava para vir.

O astronauta atirou-se ao chão. Uma sombra escura veio em sua direção.

Isso despedaçará a cabeça dele”, pensou Everson apavorado.

Mas nada disso aconteceu. A chave parou acima da cabeça de Stanford e desceu lentamente, até comprimir-se suavemente contra a nuca do biólogo.

— Levante-se, Stanford — gritou Goldstein num debochado tom de animação. — Recoloque a chave no lugar.

Qualquer ataque estaria fadado ao fracasso, porque Goldstein já o perceberia durante a fase da concepção. O mutante mantinha-os sob um controle ininterrupto.

— Stanford foi mais inteligente que os outros — disse Goldstein. — Pensou que poderia ocultar seu plano, concebendo outro plano na superfície de sua mente. Ficou refletindo constantemente como faria para saltar sobre mim. Dessa forma quis ocultar a idéia propriamente dita. Garanto-lhes que detectarei qualquer plano, por mais refinado que seja, e por mais que procurem disfarçá-lo em suas mentes.

Muito abatido, Stanford voltou a seu lugar. A idéia da duplicação do pensamento não fora nada má, mas nem por isso conseguira ocultar seu plano de Goldstein. Qualquer ataque só poderia ser bem sucedido se fosse lançado numa ação fulminante, sem qualquer reflexão, independentemente de qualquer atividade cerebral anterior.

Acontece que isso é impossível”, pensou Everson com o espírito resignado.

O cérebro humano não era capaz de interromper à vontade seus processos mentais. E uma das peculiaridades do homem consiste em que este pensa com maior intensidade justamente naquilo que quer eliminar de sua mente. Enquanto não resolvessem esse problema, não poderiam derrotar o mutante. Fosse qual fosse o ângulo sob o qual o coronel examinava a situação, esta continuava extremamente difícil. No fim de qualquer caminho, via o triunfo inevitável do mutante.

 

O pseudo-corpo mantido acima de sua cabeça oscilou levemente. Goldstein estabilizou-o e voltou a dirigir-se aos homens.

Contara com certa resistência. Mas sentia-se surpreendido com a obstinação que demonstravam em perseguir o objetivo de eliminá-lo.

Goldstein sabia perfeitamente que a carga a que estavam submetidas suas faculdades paranormais era infinitamente superior à que se verificara no início, quando podia agir com toda calma. Era bem verdade que se tornaram mais fortes e eram capazes de resistir a cargas extraordinárias, mas não tinha certeza sobre se essa capacidade subsistiria por muito tempo. Mas não tinha outra alternativa, pois precisava dos astronautas para pilotar a nave. Conhecia o plano de Everson, que pretendia sabotar o pouso.

No momento oportuno, colocaria o coronel fora de ação e recorreria a Scoobey que, apesar de seu espírito de revolta, era mais fácil de surpreender. O mutante sabia que o espírito conciliatório que Everson demonstrara até então baseava-se na confiança de que ele, Goldstein, cometeria algum erro.

O mutante controlou cautelosamente um segundo pseudo-corpo, que mantinha escondido sob o estrado da sala de comando, a fim de, no momento oportuno, realizar suas experiências com este...

Bem no íntimo, Goldstein sentia uma estranha inquietação. Essa inquietação não o abandonara desde o momento em que percebera suas extraordinárias capacidades. Era uma sensação de que havia mais alguma coisa, que não sabia, mas que devia descobrir de qualquer maneira.

Goldstein reprimiu o nervosismo. Devia dedicar-se exclusivamente à sua tarefa. Apesar disso, sentiu-se atormentado pelas dúvidas.

Que temor era este que sua mente concebia? Surgira no mesmo instante em que se dera conta de suas faculdades paranormais. Oportunamente tomaria algum tempo para procurar descobrir a origem do mal-estar que sentia.

 

Uma sonolência benfazeja esteve a ponto de dominar seu espírito semidesperto. Mas já dormira bastante. A lembrança do longo tempo de descanso mal aproveitado doía em sua mente. Já se conformara com isso, perdera todas as esperanças e a autoconfiança, quando a salvação veio inesperadamente.

Seus pensamentos recuaram ainda mais.

Viu diante de si a gigantesca nave espacial, no momento em que era destruída numa explosão. Lembrou-se de como cambaleara pelo longo corredor...

Estava cercado de outros cientistas. A maior parte deles sangrava pela boca, nariz e orelhas; estavam quase desmaiados pela súbita descompressão.

Viu à sua frente uma cápsula salva-vidas. Homens e mulheres corriam em direção à mesma. Cego de dor e tristeza, foi cambaleando em direção à cápsula. Ao redor dele, as pessoas caíam ao chão e gritavam por socorro, até que a falta de ar abafasse os sons. Tateando, sentiu a escotilha da minúscula nave salva-vidas. Os olhos injetados de sangue só conseguiam perceber algumas sombras. Penetrou no pequeno veículo espacial e, reunindo as últimas forças, acionou a alavanca de catapultagem.

Quando recuperou os sentidos, alguns destroços da grande nave exploradora pairavam a seu lado.

Foi salvo por uma tremenda coincidência. O desastre acontecera nas proximidades de um sistema solar. Escolheu o único planeta de oxigênio e pousou. Saiu da cápsula bastante confiante. Talvez esse mundo fosse habitado por uma raça que conhecia a navegação espacial, e que poderia ajudá-lo a voltar a seu mundo.

Sofreu uma amarga decepção. Os nativos do planeta eram criaturas inteligentes, mas encontravam-se nos estágios iniciais da civilização. Mesmo que interviesse no processo de desenvolvimento para promover o avanço tecnológico, não conseguiria. Conformou-se com a idéia de viver para sempre nesse planeta. Ativou suas potencialidades psicológicas, a fim de estudar detidamente os hábitos dos nativos. Já que estava condenado a ficar, queria levar uma vida relativamente boa. Bastaram algumas modificações de sua estrutura celular para dar-lhe o aspecto de um epanense, que era o nome dado aos habitantes desse mundo.

Também se atribuiu um nome: Mataal!

Mais tarde, passou a atuar como lutador de arena. Os êxitos obtidos, graças às suas faculdades inesgotáveis, logo lhe granjearam a popularidade. Procurou esquecer seu mundo, mas não conseguia satisfazer-se com a vida primitiva de Epan.

Um belo dia Mataal sofreu um choque tremendo; estabeleceu contato telepático com alguém.

Será que entre esses bárbaros existe algum telepata?”, pensou.

Mataal sentiu-se muito satisfeito.

Mas a realidade ultrapassou suas expectativas...

Uma pequena nave espacial acabara de pousar no planeta e largara um telepata nas proximidades da cidade. Era um jovem pertencente a uma raça estranha, que se mascarara para adquirir o aspecto de um epanense. O fato desse indivíduo usar máscara provava que sua raça dominava a telepatia, mas não o processo de reagrupamento molecular ou celular.

Sua grande chance chegara. Com o auxílio do telepata, conseguiria voltar a seu planeta. Mesmo que não conseguisse, poderia desempenhar um papel de destaque entre aquela raça de telepatas. Estava farto da vida primitiva, e ansiava por tarefas grandiosas que lhe permitissem dar provas de seu valor.

Realizou um estudo cuidadoso do jovem. Através de Goldstein soube dos motivos de sua presença no planeta. O saber extenso desse jovem sobre o Império Solar em geral, e Perry Rhodan em particular, espalhou-se à frente de Mataal. Tratava-se de uma raça jovem e ambiciosa, que começava a espalhar-se pelo Universo.

Há vários milênios os indivíduos da espécie de Mataal também já haviam sido fortes e numerosos. Agora a situação era diferente. Partindo de um minúsculo sistema solar, os últimos membros de sua raça realizavam uma espécie de expedição para o espaço incomensurável, a fim de ampliar ainda mais seus conhecimentos. A raça de Mataal diminuía constantemente, sem que pudesse fazer nada para impedi-lo. Mataal sabia que as criaturas de sua estirpe estavam chegando ao fim de uma longa existência.

Justamente por isso, o terrano era sua grande chance, pois lhe permitiria voltar a participar dos acontecimentos que se desenrolavam no plano cósmico. Descobriu que, entre os terranos, os indivíduos dotados de recursos psíquicos especiais eram pouco numerosos.

Mataal não precipitou os acontecimentos. Começou a realizar um trabalho simples, destinado a preparar o telepata para seus objetivos. Mataal se manteria num plano secundário. Enquanto Goldstein trabalhasse para ele, poderia observar, aprender e elaborar seus planos.

Não teve a menor dificuldade em subir a bordo da nave, quando esta veio recolher Goldstein. Ofereceu aos desconhecidos o espetáculo de uma luta de vida e morte, antes de permitir que fosse seqüestrado.

Goldstein, que àquela altura não passava de um instrumento passivo nas mãos de Mataal, entrou em ação. Mataal fizera todos os preparativos. O jovem telepata deveria acreditar que suas novas faculdades já se encontravam latentes em seu espírito.

Mataal dirigiu-o suavemente para o caminho desejado. Agindo habilmente e sem que o mutante desconfiasse de nada, desenvolveu idéias megalomaníacas na mente do rapaz. Os problemas de consciência foram cuidadosamente dispersados por Mataal, a fim de que se evitassem conflitos existenciais.

Uma única vez, Goldstein conseguira desvencilhar-se do domínio espiritual de Mataal. Estando absorto na observação dos tripulantes, Mataal quase chegou a perceber tarde demais que Goldstein procurava avisar o comandante.

Mataal penetrou mais profundamente na mente do mutante, para eliminar a possibilidade da repetição desse tipo de incidente. Enquanto Goldstein agia na convicção de conquistar a nave para si, Mataal podia estudar discretamente a mentalidade dos homens. Teria de aprender, aprender, aprender cada vez mais. Só depois disso, poderia pensar seriamente em defrontar-se com essa raça, dominá-la e aproveitá-la para as finalidades que tinha em vista.

Assim que surgiram os primeiros casos de paralisia, as suspeitas recaíram nele. Contara com isso. Era o ponto crítico que teria de ser vencido. Graças à sua calma e impassibilidade, conseguiu aplacar as suspeitas. Quando o médico lhe aplicou uma injeção fez de conta que desmaiara, e os outros caíram no logro.

Os homens começaram a culpar-se uns aos outros. Mataal conheceu grande número de motivações humanas. Sem dúvida os tipos caracterológicos encontrados no pequeno grupo permitiam conclusões sobre toda a raça.

Que povo não devia ser este!

Nos pensamentos desses homens espelhava-se a imagem de sua vida e morte, suas lutas, suas vitórias e derrotas. Mataal soube de casos de alegria e tristeza, humor e seriedade, amor e ódio. Sentiu-se fascinado por um estilo de vida tão marcado pelos sentimentos. Como puderam experimentar uma evolução tão explosiva? Mataal acharia mais lógico que se despedaçassem uns aos outros, pois cada um dos indivíduos à sua frente parecia carregar ambições próprias.

Mataal nunca soube explicar como alguém conseguira levar essa massa de individualistas a empenhar-se pelo mesmo objetivo. Uma vez que o pensamento dos tripulantes não representava nenhum mistério para ele, ficou sabendo que os arcônidas desempenharam um papel de relevo no desenvolvimento da Humanidade.

As ajudas haviam sido prestadas de maneira pouco espontânea, graças às hábeis manobras realizadas pelo legendário Perry Rhodan, que andava constantemente na cabeça daqueles homens.

Perry Rhodan era o homem que estava procurando! Só através dele poderia realizar seus planos ambiciosos.

Mataal sentia-se admirado: um surpreendente naufrágio espacial daria à sua raça a possibilidade de voltar a desempenhar um grande papel no desenrolar dos acontecimentos cósmicos.

Goldstein, que praticamente não sofria a menor restrição em sua liberdade de movimentos, passou a modificar as concepções que lhe foram sugeridas por Mataal. O mutante realizou experiências com pseudos-corpos, a fim de experimentar o poder que exercia sobre os mesmos. Isso representava mais um elemento que o ajudaria a compreender o comportamento humano. Mataal não impedia que Goldstein cedesse a tais desejos, pois estes em nada poderiam afetar sua atuação.

Depois que Goldstein paralisara quase todos os astronautas, aproximou-se o momento em que o comandante não poderia deixar de suspeitar do mutante. Mataal preparou-se para, se necessário, intervir pessoalmente. Mas Goldstein não revelou o menor desembaraço ao desempenhar o papel do megalomaníaco ávido de poder que Mataal lhe atribuíra.

Mataal sentiu o mal-estar que dominava o subconsciente do rapaz. O comportamento de Goldstein não se harmonizava com seu caráter. A constrição mental exercida por Mataal tornou-se cada vez mais intensa, a fim de evitar que Goldstein se afastasse da trilha que lhe fora traçada.

Os homens libertados da paralisia começaram a combater Goldstein. Mataal viu que agira com muita sabedoria ao utilizar o mutante, pois ele tinha maior capacidade de prever as reações humanas. Mataal também saberia defender-se, mas não teria tempo para adquirir novos conhecimentos.

Os pensamentos de Mataal voltaram ao presente. O cansaço cedera. Sentiu-se disposto e ávido de ação.

Embaixo da sala de comando, pressentiu a leve pulsação de outro pseudo-corpo que o mutante mantinha escondido. Mataal tinha certeza de que os homens não lhe davam a menor atenção. Para eles, não passava de um bárbaro, cheio de saudades. Não tiveram tempo para demonstrar sua compaixão, pois estavam empenhados exclusivamente em conceber planos de ataque contra Goldstein.

Era de admirar que não desistissem, apesar dos insucessos que já tinham experimentado. Mataal teria de contar com a possibilidade de que mais tarde iria defrontar-se com gente de ânimo igual, com homens que jamais desistiriam, mas prosseguiriam na luta, mesmo que a situação fosse desesperadora.

 

Goldstein retirou o pseudo-corpo lentamente de baixo do estrado da sala de comando.

O que aconteceria se reunisse as duas porções de matéria? Como se comportariam as respectivas massas no espaço, fora da nave? Conseguiria manter o controle sobre as mesmas?

O mutante fez com que o segundo pseudo-corpo se aproximasse. Embora os tripulantes desejassem, nada lhe poderiam fazer.

Por algum tempo, nas proximidades do lugar em que se encontrava, Goldstein manteve a porção de matéria formada pela aglutinação de peças da antiga escada. Realizou um ligeiro exame dos pensamentos dos homens e constatou que não havia qualquer perigo. Poderia prosseguir tranqüilamente no seu trabalho.

O objeto artificial desapareceu. Goldstein dirigiu-o para o envoltório externo da nave. Deteve-se. Talvez fosse preferível realizar a experiência na comporta de ar.

Enquanto Goldstein se mantinha de pé atrás da mesa de navegação, contemplando os arredores com os olhos bem atentos, o pseudo-corpo flutuou para o interior da comporta. Uma fração da substância paranormal de Goldstein acompanhava o bloco de matéria e dirigia seus movimentos. Deu certo!

Goldstein levou a aglomeração de matéria para o negrume do espaço infinito.

Depois veio o rompimento dos diques, que liberou uma torrente de águas revoltas...

A parte do espírito de Goldstein, que levara o pseudo-corpo para o espaço, permaneceu fora da nave... e fora do domínio invisível exercido por Mataal.

Era um fenômeno estranho, que se parecia com o primeiro tatear suave da planta que rompe a terra.

A primeira conseqüência foi um crescimento doloroso do mal-estar de Goldstein. Sentiu-se terrivelmente cindido, como se existisse de duas formas diferentes.

Seu espírito subdividiu-se em duas áreas, bem distintas uma da outra.

A parte liberada de sua mente, que se encontrava fora da nave, sustentada pelas energias paranormais, parecia querer transmitir uma notícia importante. Por absurdo que pudesse parecer, o espírito de Goldstein entrou em revolta, sua consciência fez esforços desesperados para não receber a notícia.

O mal-estar cresceu e continuou a crescer. Parecia perfurá-lo e comprimi-lo. A parte de sua mente, que se subtraíra ao controle de Mataal, lutava com uma obstinação muda contra o domínio que ainda era exercido sobre ele.

 

Só quando o segundo pseudo-corpo já se encontrava fora da nave, Mataal percebeu o erro que cometera. Repentinamente viu-se arrancado de sua posição segura. O pânico inundou sua alma. Só uma ação fulminante poderia salvá-lo. O pavor, que lhe causava a idéia de numa questão de segundos ter desperdiçado uma formidável oportunidade, ameaçava paralisá-lo.

A pressão paranormal irradiada pela massa de matéria, que se mantinha no espaço livre, tornou-se cada vez mais intensa. Sem que o soubesse, Goldstein atirava porções cada vez maiores de substância paranormal para fora da nave. Dentro de mais alguns segundos, reconheceria a verdadeira situação.

O pseudo-corpo teria de ser destruído. Mataal reduziu a influência que exercia sobre o cérebro de Goldstein, para concentrar todas as forças no ataque.

Foi o segundo erro por ele cometido. Enquanto dedicava sua atenção ao que se passava do lado de fora da comporta de ar, deu tempo a Goldstein para captar uma informação que a parte liberada de sua mente lhe oferecia com tamanha obstinação.

 

A sensação desagradável de Goldstein transformou-se numa terrível certeza. O sofrimento mental fê-lo choramingar. Os homens que o cercavam espantaram-se. Entesaram os corpos, pois esperavam que o mutante revelasse um momento de fraqueza.

Quando Mataal começou a dissolver o pseudo-corpo no espaço, Goldstein estremeceu.

Naquele instante, um sino parecia arrebentar em sua cabeça. Suspirou aliviado.

Viu tudo com uma terrível nitidez. O que fizera? A que atos se deixara levar? Sentiu o ódio que o cercava.

Mataal não lhe deixou tempo para novas reflexões. De repente o bloco de matéria voltou para o interior da K-262. Ao mesmo tempo, voltou a sentir a pressão em seu cérebro.

Goldstein reconhecera o inimigo e começava a dar-lhe combate. Deixou que parte de sua energia paranormal fluísse para o pseudo-corpo que flutuava na sala de comando, a fim de, numa linha mais ampla, enfrentar os ferozes ataques de Mataal.

Os astronautas nem desconfiaram do duelo que se desenrolava à sua frente, mas invisível para seus olhos. O rosto do jovem mutante desfigurou-se e o suor cobriu sua testa, mas ninguém disse uma palavra.

O fato de por tanto tempo não ter passado de um instrumento barato na mão de outra pessoa o fez sentir-se envergonhado.

O dique fora rompido por completo.

Um homem jovem e pertinaz acabara de recuperar a liberdade e estava disposto a defendê-la. Uma fagulha surgira na mente de Goldstein, transformou-se em chama, passou a um processo de combustão constante e encheu todos os cantos de seu espírito consciente.

Precisava vencer Mataal!

 

O bloco de matéria artificialmente aglutinada caiu ruidosamente na comporta de ar. Mataal levantou-se de um salto. Os pensamentos de Goldstein investiram contra ele. Eram pensamentos carregados de uma selvageria indomada. Mataal procurou reforçar seu domínio sobre a mente do terrano, mas já era tarde.

— Mataal! — berrou Goldstein através da sala de comando.

Os homens abaixaram-se como se desconfiassem do que se passava.

— Mataal, já sei tudo.

Mataal começou a tremer. Fez um esforço para conservar a calma. Teria de intervir pessoalmente. Os astronautas não compreenderam os berros de Goldstein e mantiveram-se inativos.

Mataal teria de apagar as faculdades que conferira a Goldstein no planeta de Epan. Depois ocuparia o lugar do mutante.

Isso lhe roubaria o tempo que dedicava às observações, mas aumentaria consideravelmente sua margem de segurança.

Mataal revolveu impiedosamente os respectivos setores. Agulhas incandescentes penetravam no cérebro de Goldstein. A tensão mental desfez-se em violentas descargas. A loucura parecia atingir o rapaz. Mas aquilo apenas durou alguns segundos. Goldstein logo se transformou no simples telepata de antes.

Foi o terceiro erro de Mataal, e o mais grave de todos.

E também foi seu último erro.

Enquanto Mataal sentia certo alívio, seu fim se aproximava. De um instante para outro, o pseudo-corpo que se encontrava suspenso sobre a mesa de navegação perdeu a substância paranormal que o sustentava. Transformou-se num bloco de metal igual a qualquer outro, que, sob os efeitos da gravitação artificial existente no interior da nave, pesava várias centenas de quilos.

Transformou-se num bloco de matéria sem vida, que caiu sobre Mataal e o soterrou. A vítima nem teve tempo para refletir sobre as conseqüências de seu ato. Talvez fosse bom. Seu fim representava a condenação final de uma raça horripilante ao definhamento lento e seguro.

 

A rigidez abandonou o corpo de Goldstein. Este pôs o rosto entre as mãos e soluçou. Um esgotamento total ameaçava dominá-lo. Diante de seus olhos, surgiram contornos apagados e sombras convulsas. Ouviu a voz de Everson, que deu uma ordem.

Subitamente percebeu que alguém se encontrava a seu lado. Fez um esforço tremendo e reconheceu o coronel.

— Já passou tudo, Goldstein — disse Everson.

— Foi Mataal — cochichou Goldstein. — Não tive culpa.

— Sei disso, meu filho — disse o comandante. — Está tudo bem. Você deve estar muito cansado. Quando recuperar as forças, talvez possa remover este bloco enorme da sala de comando, para que o Dr. Morton possa examinar o cadáver dessa estranha criatura.

O olhar de Goldstein tornou-se mais claro. Fitou o bloco de matéria que esmagara o corpo de Mataal. A cabeça ficara intacta e não estava coberta. A morte trouxera-lhe uma terrível modificação. As duras feições epanenses se haviam transformado num rosto horrível, com feições de morcego. Parecia um rosto humanóide, desumano, sanguinário.

— Neste ponto não posso ajudá-lo, coronel — disse Goldstein num tom que quase chegava a ser de felicidade. — Já não sou capaz de mover a matéria.

— Que monstro! — gritou Weiss, aproximando-se cautelosamente dos restos mortais de Mataal.

— Cale-se! — disse Goldstein em tom de recriminação. — Afinal, o que é que o senhor entende disso? Não foi nenhum monstro. Eu fui parte dele e compreendo seu comportamento. Pensava primeiro em sua raça e depois em si mesmo. O senhor não compreende, Weiss? Não era mau, e muito menos poderia ser chamado de monstro. Apenas era diferente...

 

 

                                                                  WilliamVoltz

 

 

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