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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O RESSURGIR DE ATLANTIS / Alyssa Day
O RESSURGIR DE ATLANTIS / Alyssa Day

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

 

   

Há onze mil anos, antes que os mares tragassem os atlantes, Poseidon escolheu alguns quantos guerreiros aos que converteu nos sentinelas dos seres humanos do novo mundo. Só havia uma regra: era proibido desejá-los. Mas as regras foram feitas para serem quebradas...

Riley Dawson é mais do que uma assistente social de Virginia Beach entregue a seu trabalho. Ela foi abençoada com um vínculo mental ao que durante milhares de anos, só os atlantes possuíam. O fato de que seja uma empática possivelmente explique sua melancólica conexão com as agitadas ondas do oceano, o santuário que proporciona a ela e os desejos que parecem emanar de suas profundidades…

Conlan, o príncipe supremo de Atlântida, subiu à superfície com a missão de recuperar o Tridente roubado de Poseidon. Mas, algo mais possuiu Conlan: as emoções e os desejos mais íntimos de uma mulher humana. Incapaz de resistir àquela beleza misteriosa, Conlan logo compartilha com ela algo mais que sua mente. Mas em plena batalha para recuperar o poder de Poseidon, quanto tempo pode durar um amor proibido entre duas almas diferentes de dois mundos diferentes?

 

 

 

 

Capital de Atlântida, 9600 A.C.

Aconteceu antes do cataclismo que impôs aos atlantes a cobiça da humanidade. No templo de Poseidon, na alma das Sete Ilhas de Atlântida, um grupo de guerreiros se reuniu com o supremo sacerdote do deus do mar. Este os dividiu em sete grupos de sete e a cada um atribuiu um dever sagrado e um objeto poderoso: uma pedra preciosa imbuída de magia. Alguns deviam afundar-se no fundo do mar, protegidos dos olhos curiosos e da cobiça dos invejosos pelas águas que os alimentavam. Outros deviam unir-se às terras dos humanos e ir aos lugares atribuídos, todos eles terras altas, para proteger a linhagem em caso de que se produzisse uma grande inundação.

Todos eles deviam esperar. E vigiar. E proteger.

E seria o arauto que anunciaria a véspera da destruição da humanidade.

Então, e só então, Atlântida ressurgiria.

Pois eles eram os Guerreiros de Poseidon e a marca do Tridente que ostentavam era uma prova de confiança do dever sagrado que teriam que cumprir como protetores da humanidade.

Gostassem ou não.

 

Capital de Atlântida, tempos atuais

Conlan agitou uma mão diante do portal e por um instante se perguntou se sua magia reconheceria a um guerreiro que estivesse há mais de sete anos sem cruzar sua soleira.

Sete anos, três semanas e onze dias, para ser exato.

Enquanto esperava, afundado até o peito na água curativa, a morte riu dele, piscava na beira de seu campo de visão, resplandecia nas correntes do profundo oceano azul que o rodeava, palpitava no sangue escarlate que jorrava a um ritmo constante do lado de seu tronco e da perna. Pôs-se a rir sem vontade e se ergueu apoiando uma mão no joelho.

— Se Anubisa, essa puta vampira, não pôde comigo, não penso me render agora, merda. — ele grunhiu à escuridão vazia que o rodeava.

Luzes aquáticas iridescentes brilharam como se quisessem responder a seu desafio e o portal se alargou para deixá-lo passar. Dois homens, dois guerreiros, faziam guarda ali. Ambos abriram muito os olhos e separaram os lábios, expressões idênticas que refletiam o mesmo choque quando ficaram olhando a membrana transparente que cobria o portal. Conlan abriu caminho pela abertura, que se dilatava para adaptar-se à criatura ou ser que considerava digno de entrar.

— Príncipe Conlan! Está vivo! — disse um.

— Mais ou menos. — respondeu ao tempo que entrava em Atlântida. Absorveu a primeira visão de sua terra natal, da que não desfrutava há mais de sete anos, expandiu os pulmões para saborear a frescura daquele ar filtrado pelo mar. Não muito distante, as colunas de mármore branco com nervuras de ouro que flanqueavam o Templo de Poseidon resplandeciam com os tons que refletia o entardecer artificial. Conlan ficou sem fôlego ao vê-lo.

Uma visão que acreditava firmemente que nunca mais voltaria a experimentar. Sobre tudo, quando ela tinha proposto, entre risadas, lhe tirar os olhos.

 

— Um príncipe supremo que não pode ver. Que metáfora tão deliciosa para a perda de seu pai, o rei filósofo, jovem príncipe. Por que não suplica?

Rodeou-o sem pressa, açoitando-o com o látego terminado em pontas de prata, com gestos quase ociosos, enquanto ele permanecia impotente ante ela, preso com grilhões feitos para criaturas vindas de infernos mais profundos.

A vampira estendeu um dedo delicado e roçou as gotas de sangue que brotavam com impaciência ao passar do látego.

Depois levou o dedo à boca com um sorriso.

— Mas suplicará. Igual a como seu pai me suplicou quando arranquei a carne de sua mãe enquanto ainda estava viva. — ronronou de prazer; em seus olhos se mesclava a maldade com uma luxúria vil.

Conlan rugiu de ódio, desafiante, durante horas. Dias.

Inclusive chorou, enlouquecido pela dor, em sete ocasiões distintas.

Uma por cada ano de prisão. Mas não suplicou nenhuma só vez.

 

— Mas ela, sim. — disse com a voz rouca pelo esforço de permanecer erguido — Ela que irá suplicar antes que eu termine com ela.

— Alteza? — os guardas se adiantaram apressados para ajudá-lo enquanto gritavam para que alguém fosse ajudá-los.

Conlan levantou a cabeça com uma sacudida seca, mostrou os dentes e grunhiu como o animal em que havia se convertido. Os dois guardas se detiveram em seco, paralisados, sem saber muito bem como reagir ante um membro da realeza que havia se tornado selvagem.

Conlan se adiantou cambaleando-se, decidido a dar os primeiros passos por sua terra natal sem ajuda de ninguém.

— Devemos informar a Alaric imediatamente. — disse o guerreiro mais velho e experiente dos dois.

Marcus. Marius, possivelmente?

Conlan tentou concentrar-se, estava certo de que conhecia aquele homem.

Era importante que recordasse as coisas.

Sim, Marcus.

— Está sangrando, alteza.

— Mais ou menos. — repetiu, e deu mais outro passo, cambaleando-se.

Depois, o mundo se afundou na escuridão, caindo em uma espiral.

 

Ven estava na câmara de observação, observando a sala de cura no andar inferior, onde o supremo sacerdote de Poseidon, obviamente exausto, trabalhava em excesso no irmão de Ven. Não era tão fácil acabar com a energia de Alaric, demônios. Corriam rumores de que era o supremo sacerdote mais poderoso que tinha servido ao deus do mar.

Também não era que os guerreiros soubessem diferenciar muito bem um sacerdote de outro. Nem que, geralmente, isso importasse muita coisa. Exceto que, nesse preciso instante, essa distinção importava muito a Vem.

E muito.

Ven se agarrou com força ao corrimão e afundou os dedos na madeira macia, enquanto pensava no que Anubisa devia haver feito a Conlan. Sabia o que havia feito a Alexios, um dos guardiões mais leais de Conlan. Passou dois anos sob os tenros cuidados de Anubisa e os de sua malignas apóstatas  de Algolagnia, cujo único prazer sexual era obtido através de dor e tortura.

E depois o deixou, nu e agonizante, para que morresse atirado sobre um montão de merda de porco. A deusa vampira da morte era uma fanática pelo simbolismo. Possivelmente o tivesse herdado de seu pai-marido, Chaos. Teria que ser muito retorcido para isso.

Alaric tinha levado quase seis meses para recuperar as lembranças do guerreiro e esse meio ano tinha incluído dois ciclos de purificações no Templo para limpar sua alma.

Ven preferia não pensar nisso, merda, odiava pensar nisso, mas às vezes se perguntava se Alexios tinha conseguido sair do poço negro do inferno ao que aquela puta o havia arrastado.

Contudo, Alaric lhe alta e Alexios voltou a ser um dos Sete. Era uma questão de honra que Ven confiasse nele.

Os Sete eram a guarda mais leal do príncipe supremo de toda Atlântida, embora estivesse desaparecido, presumivelmente morto.

Também dirigiam e coordenavam as equipes de guerreiros que patrulhavam a superfície da terra e vigiavam aos malditos humanos, que se deixavam pastorear como, como os chamavam os chupa sangues?, ah, novilhos.

Enquanto isso, Ven e os Guerreiros de Poseidon tinham que manter-se nas sombras. Sem que ninguém os visse. Incógnitos, caralho. Eles tinham que defender os caminhantes dos idiotas que havia entre os chupa-sangues, os monstros peludos e todas essas merdas que se arrastavam na noite assustando a todo e qualquer ser vivente. E, com franqueza, dava a sensação de que os idiotas eram a maior parte dessas espécies concretas.

E eles não haviam feito nada de errado, demônios, nos últimos onze mil anos, nem um dia a mais, nem um dia a menos. Até o dia, uns dez anos antes, em que os insetos raros que habitavam a noite decidiram sair de seus caixões. Primeiro os vampiros, depois os troca-formas. O trabalho dos guerreiros de Poseidon se tornou milhões de vezes mais difícil nesse momento.

Pela razão que fosse, Anubisa não se incomodou em contar a sua gente, a sociedade vampírica, o segredo de Atlântida. Mas Ven supunha que isso poderia mudar a qualquer momento. Se alguém sabia algo dos caprichos dos deuses e deusas, esses eram os atlantes.

Condenados ao fundo do mar pelo desejo de Poseidon. Não que ele tenha se queixado. Em voz alta, pelo menos.

Contudo, não era nada fácil defender aos humanos quando os grandes, maus e feios vagavam com liberdade pela terra e aos atlantes era proibido abandonar as sombras. Mas, Ven tinha discutido no Conselho até ficar rouco e depois tinha terminado por render-se. Os Anciões não queriam que se soubesse nada de Atlântida e, até que Conlan subisse ao trono, ninguém podia fazer nada contra o decreto.

Ven olhou outra vez a seu irmão, mal se ouvia a melodia tranquilizadora das harpas e as flautas que as donzelas do templo tocavam enquanto rodeavam a seu irmão. Supunha-se que a música ajudava com a cura.

Ven começou a rir. Certo, Conlan odiava essa merda leve e amaciada de Debussy. Quando subisse ao trono, certamente pediria que tocassem Bruce Springsteen ou U2 em sua coroação.

Sim. Se Conlan subisse ao trono.

Preferia não pensar no que ocorreria se Conlan ficasse afetado. Porque adivinha quem era o próximo na linha de sucessão..? Isso. Ven passaria de ser o Vingador do Rei a ser príncipe supremo em um maldito minuto real, e ele não estava feito para dirigir nada, merda.

Voltou a olhar a seu irmão, ali deitado, quieto. Conlan tinha crescido como qualquer membro de uma casa real, com o sentido da honra, do dever e as demais encantadoras merdas arraigadas em sua alma. Mas Ven havia crescido como um autêntico lutador das ruas. Havia uma parte feia em sua alma. A parte que se encolheu e morreu ao acompanhar sua mãe ao final, justo antes que morresse. Quando lhe rogou que se salvasse e protegesse a seu irmão.

E ele o prometeu, entre soluços, enquanto sua mãe morria.

E olhe o trabalho de merda que ele havia feito para manter a sua palavra.

A madeira se partiu sob seus punhos.

— Uma madeira muito dura para quebrá-la só com as mãos. — comentou uma voz seca.

Ven não levantou a cabeça para olhar ao sacerdote, só começou a tirar as lascas das palmas rasgadas e ensanguentadas.

— Sim, já não se fazem corrimões como antigamente. — murmurou.

Alaric se aproximou, quase como se flutuasse, aquele cara lhe arrepiava os cabelos, e se deteve junto a ele.

— Posso curar isso se quiser. — se ofereceu com tom desapaixonado.

— Acredito que já fez muitas curas por um dia, não te parece?

Alaric não disse nada, limitou-se a olhar a seu príncipe adormecido por cima do corrimão.

Ven estudou Alaric enquanto o sacerdote observava a Conlan. Alaric e Conlan haviam crescido juntos, brincando de correr pelo reino como crianças que eram, deixando ruas e campos aos pedaços com jogos e brincadeiras. Poucas vezes refreados por seus pais indulgentes ou uma comunidade que respeitava muito ao herdeiro real e a seu primo.

Mais tarde abriram caminho entre as tavernas e entre as moças com o mesmo impulso e encanto juvenil.

No sacerdote já não havia mais nada daquela juventude. Luzia o poder de seu cargo como uma armadura. Invisível, mas inconfundível. Os planos cortantes de seu rosto e o ascetismo de seu nariz aquilino recordavam a todos os que se enfrentavam a ele que tinham diante de si a um homem de fé, despojado de tudo pelas exigências de seu cargo.

As exigências do poder. Quer dizer, se aqueles olhos verdes que resplandeciam com suavidade já não os tivessem advertido.

Supremo sacerdote, fantasma escuro, instrumento do poder de Poseidon.

Filho da puta horripilante.

— Não, nenhum de nós ainda possui aquele charme juvenil, verdade, Alaric?

Alaric levantou uma sobrancelha mas, além disso, o comentário não pareceu lhe surpreender muito.

— Quer saber se ficou comprometido. — disse com o rosto cinzento e consumido. Depois de umas doze horas de cura, era impressionante que pudesse manter-se em pé sequer.

— Depois de Alexios… — começou a dizer Ven, mas se deteve, incapaz de continuar.

Se Anubisa tinha comprometido a alma de seu irmão, a família real estava condenada de verdade. Aquela puta teria completado finalmente uma promessa que já tinha cinco mil anos.

Ven cruzaria as portas do próprio inferno para colocar suas adagas naquele traseiro de chupa-sangue. E era honesto o bastante para saber que jamais sairia vivo desse enfrentamento.

Alaric respirou fundo.

— Está inteiro.

Todo o corpo de Ven se afundou com um suspiro de alívio tão feroz que por um instante sua visão se tornou literalmente imprecisa. Piscou para espantar os pontos cinza que flutuavam diante dos seus olhos.

— Graças ao Poseidon!

Alaric permaneceu em silêncio, o que suscitou as suspeitas de Ven. Só uma pequena dúvida.

— Alaric? Há algo que não esteja me dizendo? É uma simples coincidência que tenha voltado justo algumas horas depois que Reisen arrancasse as portas do Templo e fugisse com o Tridente?

O sacerdote apertou a mandíbula, mas ainda demorou um minuto para falar. Finalmente o fez.

— Quanto a Reisen, não sei o que te dizer. De momento é impossível averiguar seu paradeiro. E Conlan… — Alaric duvidou, depois pareceu tomar uma decisão e assentiu — O príncipe está inteiro. De algum modo, apesar de sete anos de torturas, está inteiro. Ela não foi capaz de comprometer sua mente nem capturar sua alma para dispor dela. Mas…

Ven se agarrou ao braço de Alaric com um punho de aço.

— Mas? Mas o que?

Alaric não disse nada, limitou-se a olhar a mão de Ven que lhe rodeava o braço. Ambos sabiam que Alaric podia incinerar a mão de Ven com uma única onda de poder elementar. Mas nesse preciso instante isso não importava nem um pouco a Ven.

De todos os modos suspirou e soltou o braço de Alaric.

— Mas o que? É meu irmão. Tenho o direito de saber .

Alaric assentiu com um gesto imperceptível e voltou a baixar os olhos para contemplar a figura imóvel de Conlan.

— Mas só porque ela não foi capaz de subornar a alma de seu irmão para poder utilizá-la não significa que Conlan a conserve inteira. Ninguém pode sobreviver a tanto tempo de tortura com a alma intacta.

Levantou a cabeça e olhou a Ven fixamente. Um olhar morto. Um olhar que prometia destruição. Ven viu refletido nos olhos do sacerdote sua própria necessidade de matar a fogo a uns quantos vampiros.

— Conlan retornou para nós, Ven. Mas é possível que passe muito tempo até que saibamos se ele deixou alguma coisa para trás.

Ven mostrou os dentes em uma feroz ameaça de sorriso.

— Resolveremos. Meu irmão é o guerreiro mais forte que conheço. E Anubisa vai averiguar com toda exatidão o que significa que eu seja o Vingador do Rei. — cravou os punhos nos cabos das adagas com um brilho nos olhos — Vou colocar um pouco de vingança naquele traseiro nojento que ela tem.

Os olhos de Alaric brilharam durante um instante com uma luz verde tão brilhante que Ven teve que entrecerrar os olhos.

— Oh, sim. Essa puta vai averiguar. E será um prazer para mim te ajudar com essa lição.

Enquanto os dois saíam da câmara de observação, Alaric voltou a cabeça e viu o corrimão que Ven tinha destroçado, depois o olhou.

— Poseidon também tem motivos para vingar-se.

Ven assentiu e fez em silêncio o segundo juramento formal de toda sua vida.

Embora morresse na tentativa, Anubisa seria destruída. Glória a Poseidon. Essa puta está acabada.

 

— Um momento interessante.

Conlan ficou tenso e crispou os nervos para tentar agarrar pela centésima vez, ou possivelmente milésima, a espada que Anubisa lhe tinha roubado. Depois, a familiaridade da voz penetrou na letargia do processo de cura.

— Alaric. — disse, relaxando-se e apoiando-se de novo nos travesseiros.

O supremo sacerdote de Poseidon ficou olhando-o, a insinuação de um sorriso levantava as comissuras de sua boca.

— É um pouco aborrecido ter razão todo o tempo. Bem-vindo de novo, Conlan. Umas férias muito longas?

Conlan se sentou na mesa de mármore e ouro dos curadores, esticou-se e ficou olhando sua pele restaurada. Os ossos que deixaram de estar quebrados e voltaram para seu lugar.

As cicatrizes que nunca se curariam.

Consumia-o a necessidade de queimar o rosto daquela puta e arrancar-lhe do corpo com uma grande puta bola de energia. Isso recomia suas vísceras. Afastou-a com uma sacudida e voltou a concentrar-se no sacerdote.

— É que você teve razão todo o tempo? — repetiu — Sabia que estava vivo?

— Sabia. — lhe confirmou Alaric, umas linhas duras lhe sulcavam o rosto. Cruzou-se os braços e se apoiou em uma coluna de mármore branco.

O olhar de Conlan se fixou nas nervuras de oricalco  acobreado que se entrelaçavam ao redor de sua escultura. Golfinhos saltando. Nereidas  rindo-se de seus jogos. O aroma das tulipas de lava verdes e azuis impregnava o ar.

As imagens e os aromas do lar que lhe tinham sido negadas durante sete malditos anos.

Arrancou os olhos dessas imagens e os voltou a cravar em Alaric.

— E entretanto deixou que me apodrecesse ali? — a traição cintilou entre os dois e combateu com o senso comum.

Alaric tinha obrigações a cumprir com o Templo. Com o povo.

Com Atlântida.

Alaric se ergueu e pouco a pouco descruzou os braços, sua contenção só sublinhava o enorme poder desatado em seu interior, seus gélidos olhos verdes cintilavam de fúria.

— Procurei você. Cada dia durante os últimos sete anos. Inclusive hoje, antes que chegasse, estava me preparando para me unir a seu irmão, que estava esperando lá em cima para fazer outra viagem desesperada, para ir te procurar e te resgatar de onde quer que tivessem te prendido.

Conlan apertou a mandíbula e recordou o disparo de despedida da Anubisa, depois assentiu.

— Ocultou-nos. É mais poderosa do que sequer suspeitávamos.

O rosto de Alaric se endureceu, se é que uns planos e umas linhas esculpidas que já pareciam esculpidas em mármore podiam endurecer.

— Anubisa. — disse com tom terminante. Não era uma pergunta — Tampouco é nenhuma surpresa que a deusa da noite possa projetar o vazio da morte para mascarar suas… Atividades.

A palavra tortura flutuou no ar entre os dois, retorcendo-se e palpitando. Ao menos o sacerdote teve a decência de não pronunciá-la.

Conlan assentiu e procurou com a mão a cicatriz que tinha na base da garganta sem dar-se conta. Quando o fez se obrigou a baixar a mão.

— Impediu-me o acesso à água. Afastou-me de qualquer bebedouro, salvo pelo mínimo imprescindível para que pudesse beber e me manter com vida. Não tive oportunidade de canalizar nenhum poder, absolutamente nenhuma oportunidade.

Quando ao fim pôde suportar encontrar-se de novo com os olhos de Alaric, Conlan se estremeceu ao ver a profundidade da dor e a fúria que havia neles.

— Nenhuma só vez. Nem a menor ressonância de sua existência. — disse Alaric enquanto segurava o cabo de jade de sua adaga. Depois a estendeu a Conlan com a lâmina para baixo — Se você duvida de minha lealdade, primo, termina agora com minha vida. Eu mereço isso por meu fracasso.

Conlan notou a referência a sua relação familiar com o canto mais cínico de sua mente, o que calculava a sutileza da política dos atlantes. Alaric nunca pronunciava nenhuma palavra que não tivesse ao menos dois significados. Com frequência polêmicos, às vezes pedagógicos.

Nunca sem propósito.

Conlan aceitou a adaga, deu-lhe a volta e depois a estendeu de novo a seu proprietário.

— Se fracassou no papel para o que lhe designaram, sacerdote, a justiça de Poseidon será a que te castigará. Eu não te faço nenhuma falta.

Alaric sacudiu o cabelo negro que lhe caía pelos ombros e entrecerrou os olhos ao ouvir a ênfase que seu primo deu a seu título. Depois assentiu uma vez e devolveu a adaga à bainha cravejada de esmeraldas.

— Como disse. Mas temos outros problemas, príncipe. — disse com idêntica ênfase no título — Finalmente retornou, mas só horas depois que se perdesse o meio de sua ascensão ao trono.

— Conte-me. — disse Conlan, a fúria abrasava os restos do pouco autocontrole que ficava.

— Reisen. Matou a dois de meus seguidores. — Alaric cuspiu as palavras e apertou os punhos — Conlan, o levou. Levou o Tridente. Subiu à superfície. Se os não mortos conseguem pegá-lo com ele…

As palavras de Alaric foram perdendo potência. Os dois sabiam o preço que se pagava por empregar mal o poder. O antigo supremo sacerdote de Poseidon se apodrecia no abismo negro da masmorra do templo por exceder-se no exercício de seus poderes.

Poseidon passava faturas letais a aqueles que o traíam.

Conlan, de repente, tomou uma inspiração profunda de ar e o pelo dos braços se arrepiou, como resposta às correntes quase invisíveis de energia elementar que Alaric fazia ranger pela sala. Para que o poder lhe escapasse assim, o sacerdote tinha que estar quase a ponto de perder o maldito controle. Ou, naqueles sete anos seu poder tinha aumentado como nunca.

Conlan não sabia que opção deveria preocupá-lo mais.

Sua amizade suportou as tensões das exigências da política e do poder, e estava disposto a confiar sua vida a Alaric. Ou não?

Aquilo era suficiente para acabar com a cabeça de qualquer um.

Apertou os lençóis com os punhos e lutou para recuperar a compostura. Para recuperar algo parecido a um porte real que cobrisse a acidentada demência que ameaçava lhe consumir o cérebro.

A devorar as vísceras. E acabar com sua alma.

Seu coração já fazia tempo que tinha desaparecido. Destroçado sob o extremo de um látego enquanto lhe obrigavam a escutar os sussurros sedosos que descreviam as atrocidades que tinham cometido contra sua mãe e senhora.

Anubisa e suas apóstatas de Algolagnia. Tinham assassinado a sua mãe milímetro a milímetro e tinham desfrutado com isso. Pior ainda, ficaram brincando olhando-a. Um profundo estremecimento o atormentou ao recordar que Anubisa se masturbou até chegar ao orgasmo enquanto lhe contava histórias sobre as torturas de seus pais.

Uma e outra vez, e outra vez mais.

Anubisa ia morrer.

Todos iriam morrer.

— Conlan? — a voz de Alaric o arrancou quase com um puxão físico de suas lembranças de sangue e morte.

Alaric. Havia dito horas depois…

— Horas? E aqui estou agora. — disse Conlan enquanto recordava — Deixou que eu fugisse. Sabia, Alaric. Ela sabia.

Seu último dia. Sua última hora.

 

— Ah, principezinho, quanto prazer você me proporcionou. — lhe tinha murmurado ao ouvido. Depois se tinha deslizado por seu corpo nu e lhe tinha tratado com delicadeza o suor, o sangue e outros fluídos mais espessos que se acumulavam e deslizavam por suas coxas — Mas acredito que deve retornar para seu povo. Um surpresa deliciosa aguarda você. E, em seu estado atual, já não me diverte.

Levantou-se e fez um gesto a um de seus serventes para que se aproximasse.

— Doze de minha guarda pessoal. Doze, entendeu-me? Que não te engane com esta debilidade temporária. Este pirralho de príncipe de Atlântida tem … Uma fortaleza oculta. — percorreu-lhe com um dedo o membro e pôs-se a rir quando ele tentou afastar-se.

Depois voltou a olhar a seu servente.

— Leve-o daqui.

Ainda nua, com o cabelo comprido e ondulado condensado pelo sangue do príncipe, Anubisa se dirigiu com passo firme à porta da cela que lhe tinha servido de prisão durante sete anos. Depois se deteve e o olhou por cima do ombro.

— Sua linhagem me diverte, príncipe . Diga a seu irmão que o próximo é ele.

E Conlan a amaldiçoou então, depois de finalmente recuperar a voz. Chamou-a de coisas que nem sequer sabia que conhecia. Até que chegaram seus guardas e um deles lhe demonstrou que se ofendeu em nome de sua senhora lhe batendo com um pau na cabeça.

 

Tirou a imagem da cabeça com uma sacudida. Tinha saído do inferno de Anubisa. Mas jamais se libertaria das lembranças.

Possivelmente nunca conseguisse recuperar a prudência totalmente.

Mas era Conlan de Atlântida e tinha retornado. Seu povo queria um rei, não uma ruína quebrada de príncipe.

Olhou a Alaric, diante dele, e viu a preocupação refletida no rosto do sacerdote. Possivelmente até Alaric quisesse um rei.

Acabou o sentir prazer com sonhos de vingança, chegou o momento de se encarar à realidade.

— Já não somos meninos que fazem corridas nas ruas, verdade? — disse Conlan, uma sombra daquela liberdade recordada cruzou sua mente.

Antes de ter que fazer frente às exigências que lhe impunha ser filho de seu pai. Antes que Alaric tivesse que fazer frente às exigências que lhe impunha ser o escolhido de Poseidon.

Alaric inclinou a cabeça com expressão precavida, depois a sacudiu pouco a pouco.

— Já faz muitos anos que não, Conlan.

— Muitos. — respondeu Conlan — Muitos. — baixou os pés da mesa de cura e ficou de pé.

— A infância possivelmente tenha ficado atrás, mas não a lealdade, nunca. É meu príncipe mas, antes disso, é meu amigo. Nunca o duvide. — disse Alaric.

Conlan leu a verdade nos olhos de Alaric e se sentiu melhor. Estendeu-lhe a mão e entrelaçaram os braços, uma renovação tácita de sua amizade que possivelmente os dois necessitavam

Depois, o príncipe se esticou contente de ver que seu corpo voltava a funcionar. Ia

necessitar até a último grama de energia que tivesse.

— Assim se atrasarão tanto minha ascensão ao trono como as obrigações matrimoniais que me unirão a uma virgem morta há séculos. — disse com secura— A verdade é que este último não me preocupa muito.

— Morta não. Só dormindo, aguardando suas necessidades. É seu destino. — lhe recordou Alaric.

Como se precisasse que o recordassem. Como se não o tivessem perseguido com esse dever em concreto durante centenas de anos. O amor não constava na ordem do dia dos programas de reprodução dos Guerreiros de Poseidon, sobre tudo quando se tratava de um membro da realeza.

Franziu o cenho ao pensar naquela fantasia. Amor. Na melhor das hipóteses, um mito com o que ninar aos bebês.

— Eu estou indo. Vou atrás desse sacana do Reisen. Vou recuperar o Tridente, sacerdote. E se fará justiça com a Casa de Micenas.

Alaric lhe sorriu e Conlan pôde vislumbrar uma sombra do menino que seu primo tinha sido.

— Vamos todos. Ven está preparando-se para a viagem. Do que haverá nos valido preparar a procissão de boas-vindas…!

Conlan tentou lhe devolver o sorriso, mas sua boca tinha perdido a memória. Depois de tantos anos de crispar-se de agonia, já não sabia sorrir. Anos de uivar de raiva e desespero.

Alaric elevou uma sobrancelha e esticou a boca em uma linha sombria.

— É uma expressão… Interessante. Um dia vai ter que me contar exatamente o que lhe fizeram.

— Não. — respondeu Conlan — Isso não.

 

Virginia Beach (Praia Virgínia)

— Dina, pense em sua filha. — Riley Dawson se agachou junto à única janela da sala com as mãos soltas e abertas dos lados.

Sem ameaçar, sem ameaçar, sem ameaçar.

Riley obrigou a seus músculos faciais a relaxarem-se e a adotar uma expressão de calma enquanto observava como sua gravidíssima cliente de dezesseis anos colocava um pouco mais o extremo letal de uma pistola muito grande e muito feia pela boca do homem inconsciente. A pele do homem tinha um tom branco pastoso, mas Riley via que o peito dele se movia com uma respiração superficial.

Não está morto. Que continue assim, Riley.

— Estou pensando em minha filha, Riley. Não se meta nisto! Minha menina não vai crescer com um pai que é um vagabundo asqueroso que vive pelas ruas. — o olhar de Dina percorreu a sala inteira com um brilho, escorregou pelo rosto de Riley e depois retornou a Morris, que seguia deitado, muito quieto e muito pálido, na borda da cama.

Riley viu que o peito do homem se movia. Seguia respirando apesar da força com que a arma bateu na parte posterior de seu crânio, porrada da qual Riley foi testemunha ao entrar pela porta aberta para fazer sua visita mensal. Mas tinha estado em suficientes salas lotadas de ruídos, pessoal de emergências e aroma de morte para saber que uma vida podia terminar em um instante. E a mão de Dina que segurava a pistola tremia.

— Dina, me escute. Sinto que tenha encontrado o Morris com outra garota. Cometeu um tremendo engano e estou segura de que sente muito. Mas tem que pensar em sua filha. Precisa de você, Dina. Se fizer mal ao Morris, vai para prisão, e quem vai criar então a sua menina? Sabe que sua mãe não pode. — uma dolorosa cãibra atravessou os músculos da perna de Riley, que se queixava por ter que estar agachada no chão tanto tempo.

Fez um pequeno movimento para trocar de postura, mas com cuidado de não fazer nada repentino nem brusco.

Dina soltou uma gargalhada que parecia oxidada por falta de uso.

— Essa puta que só sabe usar crack? Ela não é uma mãe. Ela não vai se aproximar da minha menina.

— Exato. Sabe que é a melhor pessoa do mundo para cuidar de seu bebê. Já pensou que nome vai colocar nela?

Que não deixem de falar. Teria que distraí-los com assuntos mais agradáveis, algo com o que sintam uma conexão pessoal.

A voz de um dos conferencistas de alguma das centenas de horas de cursos que havia feito martelou a cabeça.

Isso. Temas agradáveis quando ela tem uma pistola colocada pela garganta do muito idiota. E o que tem que eu esteja a ponto de fazer xixi na calcinha em qualquer momento? Os manuais nunca mencionaram esse pequeno detalhe.

Dina sorriu um pouco.

— Vou chamá-la de Paris. Como essa cidade da França. A da torre. É tão bonita… Nos falaram dela na escola. E vou levá-la ali algum dia. Paris Marguerite, em homenagem a avó.

— É um nome muito bonito, Dina. Paris Marguerite. E agora, por favor, me dê a pistola. Você não quer que Paris Marguerite cresça sem sua mamãe, verdade? — Riley foi se levantando pouco a pouco do chão sem fazer caso das muitas ferroadas que sentia nos músculos das coxas. Depois esticou a mão com a palma para cima.

— Por favor, me dê a pistola. Eu te ajudarei. Solucionaremos isto juntas. Por favor, me dê a pistola, para que Paris Marguerite cresça com sua mamãe, que vai cuidar muito bem dela. —conteve o fôlego quando Dina vacilou um momento, olhando primeiro a Riley e depois ao Morris, e volta a começar.

A vida de um homem pendia na borda vacilante da indecisão de uma adolescente. Não. Disso tampouco falavam no maldito manual.

Dina respirou muito fundo, com um estremecimento e os ombros lhe afundaram um pouco. Tirou a pistola da boca de Morris de um puxão e a estendeu a Riley. Esta sentiu que o fôlego que levava meia hora contendo ia escapando dos pulmões.

Obrigado, obrigado, obrigado, não posso…

Os olhos de Morris se abriram de repente. Saltou da cama com o sangue saindo pela boca e lhe jorrando pelo rosto e jogou um murro a Dina na mandíbula.

— A certou-me na cabeça? Puta. Apontou-me com uma pistola? Já te ensinarei quem aponta com uma pistola ao Morris.

Quando Dina caiu ao chão pela força do golpe, Morris foi lhe dar um chute no ventre. Riley saiu a toda velocidade do canto e correu para eles gritando.

— Não, não! Morris, não! Não lhe faça mal! Não faça mal a seu bebê!

A sala se converteu em um caleidoscópio de imagens fraturadas e movimentos, em uma cacofonia de sons. Quase em câmera lenta, Riley viu o chute que aterrissava com toda sua força no lado do enorme ventre de Dina. Ouviu Dina gritar, ouviu Morris gritando, ouviu a alguém mais gritar, era ela a que gritava?

Saltou sobre ele sem lhe importar que aquele homem pesasse uns cinquenta quilogramas a mais que ela.

— Não, não, não. Não lhe faça mal. Tem que parar. Morris tem que parar.

Morris a segurou pelo cabelo com um puxão brutal e lhe afastou a cabeça de repente.

— Ninguém me diz o que tenho que fazer. E ninguém menos que uma assistente social de merda.

Morris levantou o punho.

Mova-se. Tem que se mover.

Riley afastou a cabeça de um puxão para a esquerda justo quando o enorme punho lhe cravava em um lado do rosto.

Justo, quase. Possivelmente. Por favor, Deus, que não tenha o pescoço quebrado. A sala se escurece. Lute, Riley. Lute para permanecer consciente.

O punho voltava a cair.

— Não, por favor…

Mas, Morris não fez conta, com o rosto crispado de raiva, incapaz de ouvir, incapaz de raciocinar. O punho explodiu outra vez, salvo que não era o punho de Morris.

E não era o rosto de Riley.

Trovão? É um trovão? Está tão negro…

Enquanto Riley lutava contra o negrume, a mão que lhe segurava o cabelo se foi soltando. O rosto de Morris mudou, uma caricatura em câmera lenta que ia passando de uma careta de intenso ódio a outra de surpresa. Os dois ficaram olhando a mancha escarlate que florescia, estendia-se e lhe cobria a camisa. Quando Riley tocou com um dedo curioso a mancha pegajosa e escura que lhe salpicava o rosto, a sala sumiu na escuridão.

 

Conlan abriu o portal e o concentrou na costa leste dos Estados Unidos. Virginia, para ser preciso. Ven tinha estado “investigando”, segundo Alaric. O que podia ser traduzido como: “Tirar informação a força de toda a escória que encontrou em todas as direções”. Seu irmão sempre preferiu uma aproximação bastante direta.

Nesse momento, Ven estava reunindo ao resto dos Sete para acompanhar Conlan à superfície. Só que Conlan não estava de humor para esperar. Nem sequer por seu irmão. Possivelmente, sobre tudo por seu irmão. Se visse um só pingo de compaixão nos olhos de Ven…

Bom. Esqueça-se disso. Concentre-se no portal.

Sete anos sem usar e a magia estava um tanto oxidada. Ou o portal, bastante temperamental no melhor dos dias, tinha decidido brincar com ele, como Conlan descobriu quando atravessou a água.

Montões de água.

Por sorte agarrou por instinto uma grande baforada de ar antes de lançar-se pela trêmula abertura. Essa era outra lição que aprendeu da maneira mais difícil: o portal tinha seu próprio poder, independente dos atlantes que tinham sido os primeiros em utilizá-lo mais de onze mil anos atrás.

Deveriam pendurar um pôster que dissesse “Cuidado!” naquele traste caprichoso. Deu um par de pernadas e se dirigiu à superfície, supôs que estava a uns dez metros de profundidade, pela aparência da flora e da fauna de águas pouco profundas que resplandeciam debaixo da diluída luz da lua.

Mas as distâncias podiam ser enganosas no mar.

E também havia o problema de onde diabos poderia estar a costa. Não seria o primeiro que terminaria chapinhando no meio do oceano.

Essa era a ideia que o portal tinha de uma brincadeira. Se os portais tinham emoções, esse possuía um senso de humor do mais vingativo.

Quando saiu à superfície e tomou uma baforada de ar, uma força quase tangível se estrelou contra ele. Uma sensação agônica lhe atravessou a cabeça e logo se interrompeu como se lhe tivessem desligado com um interruptor. Um sabor amargo lhe abrasou a boca; uma acidez, como um limão molhado pelo mar.

Atravessou-o outra onda de dor que o desequilibrou. Esteve a ponto de afundar-se outra vez sob as ondas sem perceber apenas a areia da costa que se abatia não muito longe.

Sacudiu a cabeça e tentou fugir do fogo que lhe abrasava a cabeça. Lançou uma gargalhada seca. Ultimamente tinha muita prática com a dor.

Pense, maldito seja.

Uns pensamentos absurdos formaram redemoinhos em seu machucado cérebro.

Se a cabeça de um príncipe atlante se partir em duas n meio do oceano, faz algum ruído?

Esteve a ponto de tornar-se a rir de novo, mas em lugar disso cuspiu água pelo nariz.

Engasgando e tossindo, por fim obrigou a seus membros a colaborar e se dirigiu à costa; não demorou em dar-se conta de que podia tocar o fundo e caminhar.

Ao final sortiu efeito sua preparação e pôde manter-se erguido e coerente.

Analise. Raciocine. Utilize a lógica.

Uma terceira onda de dor o abrasou e o fez cair de joelhos, teve que colocar o rosto debaixo das ondas que rompiam na borda. Lutou para levantar-se e se precipitou para a costa.

Os poderes mentais de algum vampiro? Não me parece isso. Podiam fazer isso com sua mente, mas não projetar a dor assim. Poderia ser Reisen? O Tridente concedeu-lhe algum tipo de poder mental do que não sabemos nada?

Suas botas se chocaram com a areia seca e se derrubou, caindo de joelhos com um cambaleio.

Enviou uma mensagem mental a Ven.

Necessitava de ajuda.

Mas não foram os familiares padrões de Ven os que responderam a sua chamada, a não ser um diminuto ponto de consciência que cintilou no mais profundo de sua mente, vacilou como uma vela em uma corrente e depois se concentrou.

Uma imagem de beleza partida pela dor. Uma mulher com o cabelo da cor do sol.

Algo se fechou de repente na mente de Conlan e a mulher e a dor se desvaneceram. Quase como se uma porta mental se fechasse.

E não foi Conlan o que a fechou.

 

Riley piscou ao olhar o paramédico que lhe examinava os olhos enquanto tomava o pulso com os dedos. Depois afastou o olhar e examinou a sala, sabia que tinha rosto de sono, e que estava morta de cansaço.

O paramédico repetiu a frase mais devagar, como se Riley não a tivesse entendido da primeira vez.

— Tem que ir a emergência para dar uma olhada.

A jovem começou a sacudir a cabeça, não, mas se deteve quando as pontadas de dor atravessaram o crânio inteiro.

— Não quero ir até a emergência. Foi um simples murro.

Afastou-lhe a mão e se levantou com as pernas trementes, o que certamente dava razão ao paramédico, mas que diabos!

— Já passei por coisas piores. Preciso ir dar um passeio. Necessito de ar fresco.

Já tinha falado com o detetive que estava a cargo do que se converteu na cena de um crime. Ela já não tinha nada mais que fazer ali e a sala a estava sufocando.

A primeira vez foi toda uma surpresa ver quanta gente aparecia na cena de um crime.

Quantos funcionários se reuniam na confluência do mundano: tinham que tirar fotos, tirar impressões, tirar medidas…

A blasfêmia da morte obscurecida pelos detalhes do trabalho policial moderno. Por alguma razão, era como se não devesse ser assim, mas sempre era igual.

Já o tinha visto muitas vezes. Deveria haver-se tornado secretária, como sua irmãzinha. Quinn nunca tinha que enfrentar o desespero. Nem os punhos. Nem o sangue na roupa.

Fazia estragos na conta da lavanderia.

O paramédico se afastou um pouco e apagou a lanterna com a que lhe tinha estado examinando os olhos.

— Não acredito que tenha uma concussão, mas vai ter um olho roxo de tamanho familiar. Deveria vir comigo, sério, para que o médico a examine.

O estômago de Riley se retorceu, vazio e enojado. Separou-se do paramédico e deixou de lhe prestar atenção antes de voltar a examinar a sala. O apartamento barato. O caos que deixava seu passado de violência.

O fedor da morte, o sangue e o corpo ao desprender-se de seus resíduos. Algo que tinha surpreendido em sua primeira morte, essa secreção. A última indignidade. Um cadáver manchado de sedimentos nas mãos dos cuidados impessoais do depósito.

Riley ouviu o gemido que brotava do mais profundo de sua garganta e o afogou. Agora era mais dura. Havia se acostumado.

Imune a qualquer emoção.

Ao menos isso era o que se dizia. Até que viu o urso.

Apoiado no canto da sala, junto a um berço, um urso de pelúcia gigante com um laço rosa lhe sorria como um bobo à sala inteira, impassível ante o drama que acabava de desdobrar-se ante ele.

Aquele maldito laço rosa a pôs mal.

— Tenho que sair daqui. Por favor, saia da frente. Por favor. — girou em volta e passou como um furacão junto ao paramédico, com cuidado de rodear ao pessoal que havia se agachado no chão para tirar fotos.

— Ei, Dawson, onde acha que vai? — o detetive com o que tinha falado antes, Ramsey? Ramírez? Havia colocado umas luvas novas; as rugas de seu rosto se aprofundaram quando percorreu o rosto de Riley com o olhar — Tem um aspecto de merda. Deveria ir com eles para a emergência.

Riley não parou, limitou-se a frear um pouco.

— Vou vomitar. Tenho que ir tomar banho e descansar um pouco. — voltou a cabeça e o olhou por cima do ombro — Ligarei para você assim que puder.

O outro abriu a boca, certamente para protestar, mas ela não se importou. O que iriam fazer, prendê-la? Sabiam quem era e, embora fosse só de ouvir falar, que sempre cumpria o que falava.

O policial assentiu, resignado. A compreensão e algo mais que ela preferia não definir enfraqueceu sua expressão. Compaixão? Aquele cara deveria deixar sua compaixão para Dina e sua filha. Elas iam necessitar. Ela só estava fazendo seu trabalho.

E dessa vez ela realmente riu, embora quando o fez não soou… Bem. Sim, claro, seu trabalho. Naquele trabalho estava cagando muito bem.

Outro dia, outro cadáver. Só neste ano, com aquele já eram oito cadáveres.

O detetive assentiu.

— De acordo. De todos os modos por agora já nos disse o suficiente. Ligue-me pela manhã. Tem meu cartão.

Riley apalpou o cartão que colocou no bolso e se dirigiu à porta. Pela amanhã. Ligaria-o pela manhã. Mas essa noite tinha que ir à água. À praia. Seu santuário. Sentia o poder e a paz do oceano chamando-a. Precisava sentir a carícia das ondas, assim voltaria a sentir-se melhor.

 

Conlan permanecia sozinho na escuridão, com os olhos fechados e os sentidos desdobrados para perceber a presença de qualquer um que se aproximasse. Amigo ou inimigo.

Merda, quase preferia que fosse um inimigo. Gostaria de dar umas quantas bordoadas a alguém. Mostrou os dentes de modo que pudesse passar por um sorriso. E então abriu os olhos de repente.

Porque a porta que continha as emoções e impedia o acesso a sua mente acabava de abrir-se de repente outra vez. Cambaleou-se e lutou para não perder o equilíbrio por baixo daquela inundação de angústia. Tudo o que podia fazer era contornar como pudesse e rezar para que seu irmão ou Alaric chegassem logo. Voltou a fechar os olhos. Lutou para concentrar-se. Jogou mão dessa parte de seu treinamento que não incluía espadas nem adagas.

Isolar em compartimentos separados. Um Guerreiro de Poseidon não pode permitir-se ter emoções. O preço da arrogância é sua vida, Conlan.

Quase podia ouvir Archelaus sussurrando-lhe na cabeça.

Utilize todos os seus sentidos. Jamais confie só em sua mente. Subestimar o potencial de um inimigo para criar ilusões significa a morte.

Conlan se concentrou, crispado, mas conseguiu olhá-lo com indiferença. Sua mente analisou o problema de sua própria dualidade; o cálculo impassível estudou a dor furiosa.

As provas não indicam nenhuma causa interna. Procure no exterior.

Certo. Estava fora dele. Alguém, ou alguma coisa, emitia dor com potência suficiente para abrir caminho entre as defesas mentais de Conlan.

O inimigo com o que tinha estado desejando encontrar-se, possivelmente. Aquilo não era nenhum amigo, certamente. Nenhum atlante podia enviar emoções a outro.

— Bom, como se está acostumado a dizer, tome cuidado com o que desejas, não? —murmurou para si enquanto lhe esticavam os músculos pelo esforço de dominar as ondas de angústia.

Dedicou um pensamento à fonte. Alguém, em alguma parte, estava sofrendo uma dor de todos os diabos dos nove infernos.

 

Riley se afastou com esforço de sua velha Honda, estacionada sem muito cuidado entre dois espaços do estacionamento deserto e se dirigiu à praia. Não eram muitos os que iam à praia a essas horas de uma fria noite de outubro.

O aroma do ar do mar e a água salgada a alcançou e a jovem respirou fundo, um frágil abraço de calma foi abrindo passo por seu organismo. O estômago lhe grunhiu para lhe recordar que fazia mais de quatorze horas que não comia nada. Quase sem pensar, colocou a mão no bolso do blaser e tirou uma das barrinhas de proteínas que quase sempre levava consigo.

Em seu trabalho não havia um horário regular de refeições.

Começou a tirar o pacote que envolvia a barrinha e foi então quando a golpeou: Morris não voltaria a comer nunca mais.

Esse pensamento caiu sobre ela como uma rocha e a fez dobrar-se. Qual era o número mágico? Quantas vezes ia ter que ver alguém morrer antes que finalmente isso deixasse de fazer-lhe mal?

E que classe de pessoa era, caralho, para querer semelhante coisa?

Obrigou-se a endireitar-se e olhou o relógio, depois amaldiçoou baixinho. Já era quase a hora do toque de recolher. Todos sabiam do toque de recolher. Até tinha a cópia obrigatória da Ata de Amparo de Espécies Não Humanas de 2006 presa em uma janela de sua casa, como exigia a nova lei.

— Eu não me importo. Preciso deste passeio. Não vão me matar porque passei uns quantos minutos da hora humana. — murmurou.

O oceano significava alívio. Distração. E sua mente necessitava ambas as coisas com desespero.

E agora falo sozinha. Isso sim que é um sinal de que tenho que ser jogada no lixo.

Deu um chute a uma lata vazia quando por fim alcançou a areia e depois meteu a barrinha de proteínas sem abrir no bolso. Possivelmente mais tarde.

A luz da lua fazia piruetas sobre a superfície das ondas, despreocupada e alegre. Impassível ante as preocupações humanas. Riley levantou a cabeça para calcular a fase. Essa manhã não tinha escutado o alerta lunar na rádio.

Quarto crescente. Bom. Ainda faltavam dois dias até a lua cheia.

Que bem dava a todos seguir a mudanças das fases da lua desde que os troca- formas tinham anunciado sua existência. Era irônico tudo o que se podia conseguir em uma só década. Certamente ela teria pensado que um quarto crescente era algo que tinha a ver com macacos.

A vida era muito mais fácil quando a lua só era algo sobre o que saltavam as vacas nos livros de contos.

Vacas. Contos.

Esse maldito urso e seu laço rosa.

Riley se afundou na areia, perto da água, e se rendeu às lágrimas.

 

Quando uma nova onda de dor alagou sua mente, Conlan levantou a cabeça e cheirou o ar.

A garota está perto. Garota? Não sei como sei mas, sim, é uma garota. Possivelmente a uns quantos quilômetros daqui.

Pôs-se a andar e acelerou. Começou a correr. Converteu-se de súbito em moléculas de água pura com a velocidade sobrenatural dos de sua espécie.

Devo encontrá-la.

Uma necessidade, inexplicável mas intensa. Uma determinação primitiva.

Tenho que encontrá-la já.

 

Riley se estremeceu com um suspiro tremente, tentava sair das correntes de angústia que ameaçavam afundá-la. Dina ia para prisão.

Por favor, Deus, cuide de Dina.

Riley levantou a cabeça e olhou outra vez a impassível lua, depois lançou uma gargalhada amarga.

Embora, por que me incomodo? Não é como se as centenas de preces que enviei até agora tivessem sortido algum efeito. O da menina é o pior. Se chegar a viver, vai para uma casa de acolhida.

Riley pensou em um bebê que acabava de deixar em uma casa de acolhida, uma das melhores. A senhora Graham gostava de todos os seus meninos, mas tinha uma afinidade especial com os mais indefesos. O pequeno cravou os olhinhos no rosto de Riley quando esta tinha entregue seu corpinho crispado e viciado no crack a sua nova cuidadora. Seus dedinhos se fecharam e abriram como anêmonas do mar em busca de uma luz que possivelmente nunca chegasse.

A jovem se esfregou os braços, estava tremendo. A senhora Graham estava no limite de sua capacidade. Riley não tinha ninguém disponível que fosse tão boa como ela. O bebê de Dina terminaria criando-se na mesma cultura de violência e pobreza, ou possivelmente um pouco inclusive pior, que a que tinha moldado a Dina e ao Morris.

Se é que a pequena chegasse a viver.

Riley tirou a ideia da cabeça com um empurrão quase físico. Não podia pensar nisso. Não, nesse momento.

Não, quando estava quase a ponto de perder a prudência.

Coloque-o na caixa, Riley. Já pensará nisso manhã.

Mas enquanto apertava a mandíbula para deter o grito que lhe escapava da garganta, um estranho sexto sentido captou o perigo. Vislumbrou-os pela extremidade do olho,arrastando-se pela areia, entrando e saindo das sombras jogadas pelas nuvens.

Eram três. A jovem se escondeu de um salto, pronta para pôr-se a correr enquanto examinava a zona em busca de uma via de escapamento.

Assombrada ao dar-se conta de que, durante apenas uma fração de segundo, havia-se sentido muito desesperada para sequer tentar salvar-se.

 

Conlan girou pelo ar mais rápido que nunca e desdobrou sua concentração como uma flecha para poder utilizar as gotas de água que flutuavam no ar marinho como se fosse um prisma, até que ao fim pôde ver o perfil da jovem.

Um tanto para a visão dos atlantes.

As sombras captaram a luz da lua e ocultaram o rosto feminino. Tudo o que Conlan via era uma forma esbelta escondida na praia. O impacto da dor da jovem se amplificou, se triplicou, quando o atlante viu que lhe tremiam os ombros.

Não cabia dúvida de que aquela garota era a fonte da granada emocional que tinha feito pedacinhos a suas defesas. Não era um exército. Nenhuma conspiração vampírica para controlar sua mente.

Uma simples humana, sozinha. E estava projetando emoções. Era aknasha. Empática.

Assombrado, sem poder acreditar Conlan lhe enviou uma vacilante sonda mental. A mente da garota se agarrou a essa sonda e lhe encabritaram os pensamentos, à defensiva. Como se pressentisse o perigo. Aquela garota pensava que era um predador. O atlante mostrou os dentes com o que quase se poderia chamar sorriso. Tinham-lhe chamado coisas piores.

Conlan tentou fechar seus escudos mentais, mas a jovem arremeteu contra ele. A defesa converteu-se em ataque, tentava discernir que caralho era.

“Larga minha mente!”

Desafio. Coragem.

Uma emoção pura, ardente.

E no fundo, uma insinuação de medo.

A lógica de Conlan tentou encontrar sentido no impossível. Nem sequer os atlantes podiam projetar emoções para a sonda mental, já não. Mas aquela garota o estava fazendo. E a um nível tão intenso, tão visceral, que seus sentidos de guerreiro estiveram a ponto de não captar a ameaça que se abatia sobre ela.

Eram três. Pretendiam lhe fazer dano. Conlan amaldiçoou baixo com raiva em um idioma muito antigo.

Iriam morrer.

Moveu-se inclusive mais rápido que antes.

 

Riley levantou a cabeça, subitamente consciente de uma ameaça muito maior que os três que a seguiam. Alguma coisa, alguém, e quase o sentia em seu interior.

— Genial. Ou agora temos vampiros com poderes mentais novos ou meu maldito sexto sentido achou que enlouquecer agora seria ótimo. — murmurou ao tempo que se levantava da areia e começava a caminhar.

Rápido.

Possivelmente tivesse se equivocado. Possivelmente só fossem três caras que tinham saído para dar um passeio pela praia.

Claro, e eu sou Cachinhos de Ouro.

— Espere um momento, neném. Queremos ter umas palavrinha contigo. — exclamou um deles com voz pastosa.

Os outros puseram-se a rir e a ameaça daquela gargalhada provocou um calafrio de medo na coluna de Riley.

O ar que a rodeava se espessou, pareceu desenhar um torvelinho mais negro e escuro, como se uma força oposta se reunisse e ameaçasse tudo.

Mas não a ela.

A escuridão a acariciou ao passar e depois se acumulou e converteu em uma nuvem sinistra a suas costas. Riley seguiu caminhando, mais rápido, já quase corria quando se voltou para jogar um

olhar por cima do ombro. Os homens se detiveram e haviam ficado com a boca aberta.

— Que caralho é isso? — disse um deles esfregando os braços. A barriga pendurava por cima do cinto e levava o cabelo gordurento penteado por cima da calvície. Uma cicatriz vermelha e inflamada lhe sobressaía por um lado do pescoço. Pilhou-a olhando e lhe lançou um sorriso obsceno — Assim está desejando me provar, né, garota? Certamente você não é tão dura quanto a outra.

Os homens baixaram a cabeça, abriram caminho entre as sombras da barreira e se precipitaram atrás dela.

Riley se estremeceu e pôs-se a correr. A ameaça invisível que flutuava no ar que a rodeava se incrementou. Não havia humano que pudesse fazer isso. Era uma presença intangível, mas uma ameaça muito tangível.

Oh, não. Que alguém me ajude, por favor. É um maldito vampiro. Ou um troca-formas. Jamais deveria haver passado por cima do toque de recolher.

A areia parecia rir dela, lhe segurar os tornozelos, fazê-la tropeçar. Ouviu que seus perseguidores esmurravam a areia com os pés, cada vez mais perto.

Afastou o pânico com um empurrão.

Recorda o que diz a seus clientes. É uma violação, é horrível, embrutece a alma, mas poderá sobreviver. Não vão lhe matar. É só temporário. Não importa nada, salvo seguir viva. Pode sobreviver a isto.

Um rugido desumano, brutal, ressonou em sua cabeça, não… Não estava só em sua cabeça. Ouviu-o de verdade. Deteve-se com uma inclinação brusca e olhou a seus perseguidores.

Os filhos da puta também pararam.

— Que caralho foi isso, Red? Disse que esses putos homens lobo não apareciam por aqui. — choramingou um deles.

Riley sacudiu a cabeça, apanhada. Os ossos lhe tinham liquidificado, mas se obrigou a seguir movendo-se. Valia mais arriscar-se a ser o jantar de um vampiro invisível do que a vítima de um bando. É muito cedo para os troca-formas.

— Suponho que os violadores de agora não estão muito atualizados sobre as fases lunares. —disse, a histeria estava a ponto de invadi-la. Ouviu-se outra vez o rugido, esta vez parou em seco. O terror a sacudiu inteira. Não havia humano que fizesse aquele som.

Ia morrer.

Engasgou-se com uma gargalhada. Possivelmente a metessem em uma gaveta junto ao de Morris no necrotério. Uma voz, uma melodiosa e sedosa, ressonou no interior de sua cabeça.

“Os não mortos jamais lhe apanharão, pequena aknasha. É muito valiosa para nós. Temos que averiguar como você conseguiu um talento tão interessante.”

A carícia aveludada daquela voz se chocou contra suas defesas mentais enquanto tentava insinuar-se no interior de sua mente.

Fascinada apesar da situação, Riley tentou lhe dar a sua vez um pequeno empurrão mental.

“Quem é? Como pode falar assim comigo? Os vampiros e os troca-formas não têm esse poder, verdade?”

Examinou os céus com desespero, temia um ataque de cima, depois olhou aos valentões que tinha atrás de si.

Genial. Entretenho-me com um joguinho de controle mental e eles me apanham. Brilhante, Riley. Por que não limita-se a te atirar aí adiante e que façam o que quiserem?

A voz voltou a ressonar em sua mente, a doçura tinha desaparecido e um gelo implacável ocupava seu lugar.

“Não se preocupe por esses idiotas daí detrás. Muito me agrada matar a alguém agora.”

— Morte? — enquanto um canto pequeno e escuro da alma de Riley se levantava e aclamava a ideia, sua consciência não tragava.

Já tinha visto morte suficiente por uma noite. Já tinha visto morte suficiente para toda uma vida.

— Não. Seja quem for, nada de matar. Por favor, só me ajude a sair daqui. — disse em voz alta, e se deu conta de que, com toda probabilidade, estava negociando com um maldito chupa sangue.

“Afaste-se. Agora. Já estão mortos. E eu não gosto dos animais que se alimentam de mulheres indefesas.”

Aquele tom melódico envolveu os sentidos femininos e agudizou ainda mais suas terminações nervosas, mas se enfureceu ao ouvir semelhante presunção arrogante.

“Equivocou-se de mulher, colega, ninguém me manipula. E se for uma espécie de idiota sobrenatural, equivocou-se de mulher também, ninguém vai me comer.”

Girou de repente a meio passo longo e se agachou em posição defensiva, enquanto se perguntava como caralho ia defender-se dos quatro.

E um deles com suficiente força não morta para levantar uma casa.

“Que feroz! Comer você? Não sou nenhum vampiro, minha fera. Mas tenho que admitir que, por alguma razão, a ideia de… Saborear você… Não me parece de todo mal. E nem sequer vi seu rosto ainda. Assim, quem está controlando a mente de quem aqui?”

Sua risada silenciosa se insinuou na mente de Riley, ardia, era… Sexo. Uma onda de calor atravessou-a, um calor que a banhou, rodeou-a inteira.

— Espero que não esteja esperando que responda a isso. — murmurou, sentiu que o rosto lhe estalava em chamas e se alegrou de que estivesse escuro — Mas que classe de imbecil se excita quando sua vida corre perigo? A próxima coisa que eu farei é me pôr tão baixa e descer ao porão com a equipe de hóquei dos assassinos em série.

Separou-se de todos eles, da provável direção do cara do controle mental e dos ordinários. Mas o que uma mulher ia fazer contra quatro?

Riley ficou olhando enquanto apertava os punhos com tal força que cravou as unhas nas palmas das mãos, os bêbados a estavam rodeando. O fedor azedo daqueles corpos sem lavar triplicou as náuseas que mal estava conseguindo conter e sentiu uma arcada quando seu estômago tentou rebelar-se.

Jamais seria capaz de derrotá-los juntos e fugir, já era impossível. Não só deles, mas também do estranho que lhe sussurrava na mente. Mas ao menos podia lhe dar uns chutes e murros à parte do corpo que lhe deixassem à mão.

Não iriam apanhá-la sem lutar.

“Fique quieta. Já me ocupo destes criminosos. E depois, aknasha, vamos falar você e eu de como transmite emoções através da sonda mental. Nem te ocorra tentar escapar de mim.”

Riley deu um passo atrás quando o fornido e musculoso homem que tinha adiante esticou o braço como se quisesse lhe agarrar um peito. Cheirou-lhe o vapor do fôlego, cerveja e o aroma acre de algo mais forte.

— Vamos, neném, nos dê um beijinho. — franziu os lábios e lançou uns sonoros beijos ao ar enquanto outros ordinários uivavam de risada.

A jovem voltou a sentir náuseas ante a mera ideia de que qualquer um daqueles a tocasse.

Inclinou-se para trás, depois girou o pé e, com toda a raiva que tinha dentro de si, até a última grama, dirigiu-o diretamente contra a virilha do sacana.

E deu no alvo, com força.

O homem uivou, segurou a virilha e caiu na areia como uma rocha grande e feia. Riley se cambaleou para trás e o ordinário que tinha detrás a segurou pelos ombros e enterrou os sujos dedos em sua pele através da jaqueta leve que usava. A jovem vaiou de dor e outro sussurro de pura fúria masculina lhe respondeu, lhe abrasando o cérebro. A suas costas, alguém rugiu raivoso aos céus.

Alguém não, ele.

O homem que a segurava afogou um grito e se separou dela. Riley girava a cabeça de um lado a outro tentando não perder de vista a nenhum dos três.

Ao menos o cara do chão não parecia a ponto de ir a nenhuma parte. Estava ali caído, gemendo e choramingando com uma voz muito fina. Um tanto para ela, pelo menos.

E então o viu. A sombra negra se fundiu em uma figura alta que corria para ela tão rápido que dava a sensação de que os pés não tocavam o chão.

Um poder, violento e furioso, envolveu-a inteira. A pele gelou-se ao senti-lo.

Não sabia se estava salva ou perdida sem remédio.

 

Conlan lutou para respirar, quase cego pela bruma vermelha de fúria que o abrasava, asfixiava-o, ameaçava cobrindo sua visão. A ira de um desenquadrado.

O atlante a agradeceu.

Adiante.

Levantou os braços e canalizou a água do mar, que se levantou pelo ar como um funil, em fragmentos, convertendo-se em gelo ao elevar-se. Conlan disparou as adagas de gelo contra seus alvos, flechas do arco de Poseidon.

Os homens caíram para trás gritando quando lhes cravou na carne uma morte afiada como uma navalha.

— Não a toquem. Jamais. — grunhiu enquanto levantava os braços exigindo obediência. Os oceanos de Poseidon dominavam o mundo.

Os Guerreiros de Poseidon dominavam o oceano.

Ele era o príncipe supremo e o primeiro dos Guerreiros, e os destruiria por atrever-se a tocá-la.

A espuma fervia na borda da areia, as cristas das ondas se elevavam a alturas impossíveis, quase pareciam procurar a sua presa. Conlan baixou os braços de repente e apontou. Ordenou ao delírio das ondas que se elevasse cada vez mais.

A fúria do atlante se inchou, ameaçando lhe fazendo perder o controle. A bruma vermelha se estendeu um pouco mais por seu campo de visão. Poder devolver o golpe depois de tantos anos de impotência…

A risada zombadora de Anubisa ressonou em seu cérebro. Era um puto louco.

E então algo o roçou, por dentro. Um toque de coragem, de desafio.

Uma luz na escuridão. Compaixão no meio da crueldade.

Seu olhar se pousou na mulher que se escondeu na areia, com as mãos ainda levantadas para defender-se dos filhos da mãe que a tinham atacado. No meio de tudo aquilo, ainda lhe dedicava energia a responder a sua loucura.

Esmagaria-os por ela. Cravaria-lhes a água e lhes arrancaria cada tira de pele dos ossos.

E desfrutaria de cada instante.

— Não! Mas o que é? Quieto! Vai matar a todos! — gritou-lhe a jovem, desafiante apesar do terror que projetava. Além da compaixão, incapaz de raciocinar, Conlan levantou os braços outra vez e os baixou de repente, ordenou ao muro de água que se estrelasse contra a costa. Para esmagar a aqueles homens que jaziam na areia, sangrando e choramingando.

Empurrou a onda para a costa.

A voz da jovem, quebrada, vacilante, ressonou em sua cabeça.

“Pare! Por favor, não me mate! Minha irmã… Sou tudo o que tem. E… Não os mate. Por favor. Já está bom de mortes.”

Conlan se maravilhou de sua bondade, de seu coragem. De sua luz.

Inclusive enquanto pensava que a morte se precipitava para ela, ainda dedicava um pensamento ao lixo que tinha tentado atacá-la.

Conlan seguiu o pensamento da jovem pelo caminho que o levou até sua mente.

“Eu jamais te faria mal. Confie em mim.”

Ou era um condenado idiota? Possivelmente aquela garota só fosse uma atriz com muito talento.

Ninguém tão compassivo podia ser de verdade. Mas a bruma vermelha se elevou e retrocedeu. Por alguma razão, o roce mental daquela jovem o acalmava. Emprestava-lhe um pouco de paz. Conlan estava dentro de sua mente, a mulher estava projetando emoções. Ali não havia nenhum engano, não havia mal. Nada, exceto compaixão envolta em terror. Em dor.

Conlan concentrou seu poder na água e os homens que se encontravam em seu caminho e pronunciou uma única palavra.

— Diminuam.

Com uma simetria perfeita, a água esmurrou a costa com uma forma esférica perfeita ao redor do lugar onde se encontrava a jovem, sem que nenhuma só gota a tocasse. Percebeu a comoção e o assombro que a envolvia ante semelhante espetáculo e quase pôde saborear o pavor quando esticou a mão para tocar o muro de água que a rodeava.

A mulher afogou um grito, o som afogado de uma gargalhada, antes de emitir seus pensamentos.

“O único me ocorre é a separação do Mar Vermelho, mas certamente, você não tem nada a ver com Moisés.”

Conlan esmagou a água contra os idiota, mas se freou no último segundo. Conteria-se.

Por ela.

Possivelmente tivessem algumas partes quebradas, mas viveriam. O muro de oceano os amassou e os cravou na areia, mas os deixou com oxigênio suficiente nos pulmões para sobreviver.

Coisa que não lhe fez muita graça.

Quando as ondas se retiraram e deixaram aos homens chorando, balbuciando e, caralho, a ponto de cagar-se nas calças, Conlan deu um passo mais e levantou outra vez os braços. As ondas saltaram com impaciência para cumprir sua vontade e a espuma ferveu antecipando outro ataque.

O atlante sentiu um prazer cruel ao ver como se encolhiam, como aqueles idiotas haviam querido vê-la fazer.

“Sim, eu também posso ser muito filho da puta.”

Falou com cada grama de ira que albergava seu corpo fervendo na superfície, os músculos dos braços se esticavam pelo esforço de conter o muro de água.

— Ordeno-lhes que abandonem este lugar e não retornem jamais. Não tentarão fazer mal a nenhuma outra pessoa, porque então lhes buscarei e farei justiça, a que só a compaixão desta mulher lhes salvou esta noite.

Varreu-os com o olhar e abandonou o discurso formal.

— Em outras palavras, serão uns filhos da puta mortos. Estamos entendidos?

Os caras prometeram tudo entre balbucios, com a voz entrecortada. Depois, quando ele lhes fez um gesto para que se fossem, afastaram-se correndo, cheirando a medo e urina. Seu olhar os seguiu só um momento, depois se girou, atraído de uma forma inexplicável pela mulher. Aquela garota tinha coragem, ou talvez quisesse morrer. Em qualquer caso, tinha-o visto dominar o oceano e, entretanto, era o bastante valente para manter-se firme.

Guerreiros bem treinados se encolheram ante ele com menor motivo.

Como diabos uma mulher tão pequena teve tanta coragem?

Abrasava-o uma curiosidade selvagem. Queria, não, necessitava, ver seu rosto, escurecido naquele momento pelo cabelo e oculto na escuridão. Tanta fúria era desproporcionada, não tinha sentido. Aqueles homens não eram mais que uns bufões, era muito fácil acovardá-los.

Mas, por alguma razão, tinha querido lhes arrancar a carne dos ossos.

Possivelmente tanto tempo de tortura convertesse a qualquer um em um sacana doente e retorcido. Inclusive ao suposto próximo governante de Atlântida.

Um pouco de lógica não viria mau. Utilize algo desse tão cacarejado treinamento dos guerreiros atlantes.

Sim, certo, lógica. A lógica ditava que estudasse suas próprias reações.

A lógica aconselhava prudência.

A jovem começou a afastar-se dele pouco a pouco. À puta merda com a lógica.

Testou uma ordem real, para ver como reagia.

“Aproxime-se mais de mim, mulher. Preciso ver o rosto daquela que me exige que não faça mal aos que a ameaçam. É compassiva ou uma simples idiota?”

A jovem sacudiu a cabeça, o cabelo comprido e despenteado voou pelo ar e no corpo de Conlan algo se esticou. A garota fez caso omisso da pergunta mental e a ordem do homem e não cedeu nem um pouquinho.

— Pode-se saber quem é você e como se colocou em minha mente? E por certo, cara, já pode deixar de me dar ordens. Conheço técnicas de autodefesa. Não teria precisado de você para nada.

Sua voz. Era poesia lírica, sensual, uma música que lhe acariciava os ouvidos e ressonava por todo seu corpo. Tocava-o como uns dedos delicados roçando as cordas de uma harpa. O corpo do atlante se esticou pelo esforço.

O corpo feminino se estremeceu de indignação; entretanto, a emoção que seguia emitindo confessava a verdade. Sabia que aqueles caras lhe haveriam feito muito dano.

Emoção. Por alguma razão, Conlan não deixava de perder a noção de um feito inesperado, sem precedentes, incrível, merda: aquela mulher estava emitindo emoções. Sabia que haveria sofrido um dano muito grave se ele não estivesse ali; de fato, Conlan percebia que a garota sabia e, com isso, um resíduo de medo e dor.

A jovem suspirou e afundou os ombros.

— Sinto muito. Deveria estar te agradecendo. Seja quem for, ou o que for… Você me salvou desses homens. Obrigado.

Depois levantou a cabeça e o olhou.

— Agora não irá beber meu sangue nem me arrancar os braços, verdade? Porque, com franqueza, tive um dia de merda e não estou com paciência. — disse com desconfiança.

Conlan piscou, desconcertado pela aparente incapacidade da garota para continuar uma conversa lógica. Poderia tentar usar frases simples e falar em voz alta. Possivelmente o terror convertesse às mulheres humanas em idiotas balbuciantes.

Com lentidão, com muito cuidado, escolhendo as palavras, tentou explicar-se.

— Não sou nenhum não morto, nem daqueles que trocam de forma e se convertem em animais. Sou… Outra coisa. Está a salvo comigo, aknasha, completamente a salvo.

A garota plantou as mãos nos quadris e ficou olhando.

— Não faz mais que me chamar disso. O que significa? E o que é isso de “outra coisa”? E por que fala como se acabasse de sair de um livro de contos de fadas antigo?

Enquanto pensava como lhe responder, o banco de nuvens do céu terminou de passar finalmente e descobriu a lua. A luz trêmula que caiu sobre os traços femininos lhe rasgou as vísceras com uma onda de sensações. Ninguém podia ser tão bonita.

Esteve a ponto de começar a rir. Falava de contos de fadas quando parecia recém saída de um. Seu rosto brilhava com a perfeição de uma Nereida. A luz prateada mal iluminava as ondas douradas que deviam arder como o fogo à luz do sol. Os olhos…

Não é possível. Nenhum humano tem os olhos assim.

— São verde-azulados. — disse em voz alta, sem pensar — Seus olhos.

Verde-azulados. A cor da casa real de Atlântida.

Sua cor.

— Bom… Minha mãe tinha os olhos deste tom de azul profundo. —sussurrou a jovem, e levantou uma mão para tocar ao rosto.

Conlan conteve o fôlego ao sentir a dor da mulher. Algo sobre sua mãe…

— Já não está. — murmurou.

De algum modo sabia. Sentia-o. Era incapaz de entender aquela urgência, como se o tivesse infundido a atração magnética que a lua exercia sobre as marés. Queria tocá-la.

Precisava tocá-la.

Quase sem pensá-lo, esticou o braço para lhe tocar o rosto com as pontas dos dedos. A jovem tremeu, mas não se afastou, assim Conlan se atreveu a lhe acariciar a curva da sedosa bochecha com dedos trementes. Ansiando algo. Com um desejo que brotava de não sabia onde.

Um desejo são, limpo. Fazia mais de um século que não desejava nada. E certamente não nos últimos sete anos.

Nada puro. Nada que não fosse retorcido.

Mercadoria danificada.

Afastou a mão com um puxão.

— Aknasha significa “empática”. — disse com brutalidade — É empática. A primeira no período de aproximadamente dez mil anos.

 

Riley ficou olhando ao homem que a tinha salvado de uma agressão e, quase com toda segurança, de uma violação . Se sua mente tinha conjurado sua fantasia mais erótica para que a salvasse da triste realidade em que a estavam atacando, o certo era que havia feito um trabalho muito bom. Aquele homem era uma espécie de super-herói feito realidade.

Quer dizer, se é que faziam super-heróis com toda a pinta de perigosas estrelas de Hollywood. Era vinte centímetros mais alto que ela, que media um e setenta e sete, e tinha um corpo que era o sonho erótico de qualquer ninfomaníaca. Ombros e braços musculosos, um peito largo que se ia afunilando para uma cintura sem gordura. Deus, aquelas coxas deviam ter o tamanho de sua cintura. O homem era uma improvável montanha de músculos vestido com uma camisa negra de seda metida em umas elegantes calças negras.

Riley levantou os olhos de repente antes de seguir baixando e os cravou no peito masculino, ardiam-lhe as bochechas ao saber que a tinha surpreendido devorando-o com o olhar.

Embora a verdade é que devem comer a este homem com os olhos aonde quer que vá, não é que não esteja acostumado.

O cabelo negro e sedoso lhe roçava os ombros em ondas resplandecentes que emolduravam um rosto que desafiava a qualquer descrição. Bonito. Pela primeira vez em sua vida, Riley utilizava esse adjetivo para descrever a um homem.

O homem lhe levantou o queixo com um dedo e Riley o voltou a olhar. Ele estava sorrindo, o humor lhe iluminava os olhos escuros, quase como se tivesse ouvido o que estava…

— Ai, Deus. — murmurou — Empática significa que pode ler meus pensamentos? — cravou os olhos mais à frente do sedoso cabelo, além daquela boca esculpida até a perfeição e além das maçãs do rosto que pareciam esculpidos em granito.

Ao fim o olhar da jovem se cravou nos olhos gelados e negros que a abraçavam. Era estranho que o gelo pudesse arder daquele modo, pensou com ar ausente, apanhada quase sem querer no olhar daquele homem.

— Você me ouviu, verdade? — perguntou.

A vergonha era quase um simples efeito secundário.

O homem lhe roçou a bochecha com os dedos, com tal doçura que Riley esteve a ponto de estremecer-se pela sensação, e depois falou no interior de sua cabeça com uma voz que deveria estar proibida.

“Posso ouvir seus pensamentos mas, por alguma razão, também posso sentir suas emoções. É impossível, mas é verdade.”

Uísque envolto em veludo. Uma voz profunda, pura e masculina, com um tom suave e rouco que se enrolava ao redor das terminações nervosas de Riley até que a pele se esticava de desejo. Um desejo que lhe acariciava cada zona erógena que jamais tinha percebido em seu corpo.

Desejo de que a tocasse. Desejo de que seguisse lhe falando por aquele atalho mental que nenhuma outra pessoa jamais tinha compartilhado com ela.

Desejo.

A voz masculina ressonou em sua mente, brusca. Tensa.

“Estou te ouvindo, e possivelmente deveria pensar em outra coisa. Porque há algo em você que me está abrasando por dentro e não sei se estou em condições de controlá-lo.”

Riley percebeu seu desconcerto, quase como se estivesse procurando a resposta a um problema insolúvel. Aproximou-se um pouco mais a ela e lhe envolveu a nuca com uma mão, com suavidade.

“Preciso te tocar. Não quero te assustar mas, por favor, me deixe te tocar. Só quero pousar a testa na tua.”

Em seus olhos havia um simples rogo.

“Por favor.”

Tremendo, segura de que tinha que estar louca para aceitar, assentiu de todos os modos. Não podia evitá-lo. Havia algo dentro dela que lhe impedia de fugir. Possivelmente fosse loucura, ou possivelmente só a subida de adrenalina depois de ter sobrevivido a duas experiências que poderiam havê-la matado em uma só noite.

Mas cada instinto protetor que tão bem lhe tinha servido em seu trabalho, e que deveria ter estado gritando: cuidado, cuidado, te afaste do super forte, estava gritando: sim, sim, sim, me toque, me toque.

Riley despertou de repente de sua excursão mental ao dar-se conta de que o melhor homem que jamais tinha conhecido estava se inclinando para ela. Pouco a pouco, muito pouco a pouco, inclinava o rosto para ela, como se fosse beijá-la.

Ah, tomara que a beijasse.

A só um fôlego dela, o homem esboçou um sorriso lento de pura satisfação masculina que o fazia parecer ainda mais o predador do que era, sem dúvida nenhuma.

“Não há problema, aknasha. Mas antes, quero sentir o roce de sua mente.”

E com isso, o homem baixou a cabeça e apoiou a testa na dela.

E pela segunda vez essa noite, o mundo de Riley explodiu.

O corpo se endureceu e se afastou com tal força que teria caído se ele não a houvesse segurado com mãos fortes que a agarraram pelos braços. Era ele. Ele. Conlan. Chamava-se Conlan e era… Uma espécie de líder. Os pensamentos e as impressões saltavam da mente dele para a dela, afogando-a em sensações e cores. Seus… Pensamentos..? Sua aura? Sua alma..? Um verde azulado vívido, como um lago da água mais transparente ou as profundidades do mar. Mas o negrume, um negrume fervente girava no meio de tudo.

Tortura. Dor. Um nome, um rosto, uma beleza escura destroçada pelo mal e a loucura.

Anubisa?

Riley se retorceu em seus braços, tentando escapar da intensidade daquela mente que a capturava, mas ele a segurou com uns braços que eram como barras de aço.

Igual à dor gravada nas lembranças do homem a retinha entre suas garras.

Tortura, dor, fogo… Algo o esfaqueava, fazia-o pedaços, uma agonia abrasadora… Como pôde suportar tanta dor durante tanto tempo?

A jovem afogou um grito, tentava respirar, tentava manter a distância. Já não pretendia afastar-se, só queria entender. Como? Como era possível que estivesse dentro de sua mente? Percebia-o… O conhecia, o entendia a um nível fundamental. Podia ler a feroz determinação daquele homem de descobri-la, de explorá-la, de… Fazê-la sua? A intensidade daquele exame mental mudou, e com toda a sutileza do maremoto que aquele homem tinha provocado pouco antes, converteu suas emoções em uma efusão de desejo sexual.

Um apetite violento, tingido de comoção ao comprovar a reação que despertava nele.

Riley afastou a cabeça da dele em uma tentativa desesperada de proteger-se e pensou, durante apenas um instante, que tinha visto um fogo verde azulado ardendo nas profundidades de suas pupilas negras.

Sacudiu a cabeça para esclarecer-se um pouco e falou em voz alta para tentar mitigar o anseio que elevava-se entre eles.

— Conlan. Chama-se Conlan, não? Não sei como sei mas… Eu sou Riley.

E depois, apesar de seu medo, riu um pouco.

— Uau. Para que logo fale do momento “eu, Tarzan, você, Jane”.

E depois, as lembranças apagaram o sorriso do rosto feminino.

— Como pôde suportá-lo? Tanta dor durante tanto tempo…

Sacudiu a cabeça, sofria por ele. Sofria por aquele homem ao que nem sequer conhecia.

— Eu teria me tornado louca.

E por fim ele falou, com voz inexpressiva.

— Não tire nenhuma conclusão precipitada. Jamais disse que estivesse cordato.

 

Conlan jogou a cabeça para trás e respirou fundo, a feia realidade de suas lembranças, sem adornos, flutuava no silêncio, entre os dois. Aquela mulher, aquela pequena humana, tinha mais coragem do que ele supunha. Tinha penetrado com sua mente na dela e tinha roçado seu núcleo fundamental, os pensamentos dos dois quase se fundiram. A pureza da alma feminina o havia emocionado porque seu cinismo tinha séculos de antiguidade.

Um só roce e já a conhecia, de algum modo.

A um nível intelectual. Emocional.

— Outra vez. Preciso te tocar outra vez. — disse com voz brusca enquanto a atraía para ele — Por favor.

Baixou os olhos e a olhou, desejando que não o negasse. Sustentou-lhe o olhar, o medo se apagava convertido em aceitação, e então assentiu e fechou os olhos ao tempo que elevava a testa para a dele.

Mas nessa ocasião ele não queria um simples roce inocente. Precisava saboreá-la. Só por um instante. Sabia que estava mentindo ao falar de um simples instante, enquanto o pensava. Mas não lhe importava.

Precipitou-se sobre ela e capturou seus lábios com os seus. Com o primeiro roce de sua boca os olhos da jovem se abriram de repente e ofegou apenas o tempo suficiente para que a língua masculina desaparecesse na boca dela e completasse a posse. E, com o sabor daquela boca, todo pensamento coerente saiu voando da cabeça de Conlan. Sentiu a energia que estalava em seu corpo, que procurava os elementos.

Nem sequer tentou detê-lo. O mar ferveu pela borda da areia e abaixo deles, e o vento converteu-se em um torvelinho a seu redor.

Com a força de um ciclone.

O corpo da jovem se estremeceu e se arqueou para ele, a suavidade de suas curvas era tentadora, mas era o roce de sua memória o que podia lhe voltar louco. O corpo de Conlan se endureceu além do que qualquer ânsia que tivesse conhecido poderia ter provocado. Agressivo, dominante, até que a roupa esteve a ponto de lhe estalar pela pressão.

Colocou e tirou a língua de sua boca, empurrando-a e retirando-se com uma cadência mais antiga que o tempo. Queria subir pela calidez daquela boca e meter-se no refúgio de seu corpo, tudo de uma vez.

A prudência tentou elevar-se em sua mente e abrir-se caminho por aquela ânsia feroz.

Riley. Chama-se Riley. É humana.

Isto não está certo.

Acariciou-lhe o rosto.

A prudência não tinha nenhuma puta possibilidade.

Ao tempo que ele a atraía para a dureza de seu corpo, Riley soube que tinha que estar sonhando. Nada, nada, tinha sido assim em toda sua vida. O poder a atravessava como uma onda, o calor a fundia com ele.

Queria subir por seu corpo, introduzir-se nele, sentir aquele corpo esfregando-se contra ela, penetrando-a. A intensidade daquele sentimento a emocionou ao tempo que gemia e pedia mais, mais, mais, toda razão perdida em uma tempestade de desejo.

Necessidade.

Agarrou-se a aqueles bíceps duros como pedras, tentando não cair. Possivelmente o que tentava era atraí-lo mais para ela. Moveu as mãos sem querer, pousou-as no peito masculino, abaixou-as ao estômago duro e plano e logo as subiu até o pescoço. Colocou os dedos em seu cabelo. Mais perto, mais ainda. Depois ouviu um gemido, e era ela, ela. Estava choramingando. Se não lhe tivesse metido a língua na boca, estaria-lhe rogando que a apertasse ainda mais.

Deixou de respirar, concentrou-se nas emoções daquele homem, meteu em seu interior as cores que pintavam. Os azuis e verdes, a paixão cristalina e resplandecente que girava a seu redor e se perdeu em tudo isso, perdeu-se nele.

Estava perdida.

A ideia de perder-se fez brotar um breve instante de racionalidade. Lutou para afastar-se dele, para encontrar um pouco de prudência, para batalhar contra aquele desejo voraz.

A prudência teve que render-se.

Emitiu um gemido diminuto na boca dele e Conlan também se perdeu, desejava-a, a ansiava, necessitava-a. Só a ela. Só a ela. Agora.

Conlan tentou concentrar-se nos pensamentos da jovem para evitar lhe arrancar a roupa como um animal. Enviou sua mente ao interior da dela, ao interior de sua alma, e ficou cativado por sua bondade inata, seu desinteresse, sua luz.

A epifania de sua pureza caiu sobre ele com uma força que estava além de toda razão. E ficou paralisado.

Estava perdido.

Ela também o desejava.

Consumido por aquelas duas revelações, seu espírito e seu desejo, o calor ardente explodiu com a intensidade de um vulcão em seu interior. A paixão e a energia elementar do ar estalaram e rangeram ao redor de seus corpos, incinerando ao atlante por dentro.

Seu corpo explodiu em chamas e quis mais, muito mais. A necessidade se tornou voraz. Só um roce. Só um pouquinho. Um pouquinho que continuou para sempre.

Acariciou-lhe com as mãos a coluna, atraiu-lhe os quadris um pouco mais para seu calor, sua necessidade. Sua mente e seu corpo clamavam a gritos esse único momento no que a paixão, não a obrigação nem o dever, pudesse governar todas as suas ações.

Seu aroma, a seda de seu cabelo, a calidez da pele feminina junto à frescura da espuma do mar dele, tudo se combinou para tirar o dever de sua mente com um estalo.

Queria, não, precisava afundá-la na areia e fazer seu aquele corpo uma e outra vez, afundar-se em sua calidez com a fúria incansável das ondas. Seus sentidos enaltecidos perceberam o desejo feminino, um desejo que se elevava para igualar-se ao seu ao tempo em que a mulher se agarrava a seus ombros. As mãos de Conlan percorreram as curvas femininas, acariciaram sua suavidade, moldaram seu corpo ao seu com tal força que aquela mulher teria que render-se a seus desejos.

Algo primitivo, selvagem, elevou a cabeça em seu interior e exigiu que fizesse precisamente isso.

Que exigisse o que era dele. E deixasse sua marca nela.

Sua marca. As chamas. De repente se deu conta de que a marca de Poseidon que levava no peito lhe queimava a pele, quase como o dia que havia feito o juramento. Um aviso?

Tentou pensar, estudar a sensação, mas seu corpo se afogava em uma necessidade pura.

Perdido no milagre da mente e do corpo daquela mulher, Conlan a beijou, reclamou-a com a boca. Apertou as mãos sobre ela até que a jovem gritou um pouco. O diminuto gemido o arrancou de sua loucura e ficou quieto, enquanto sua prudência tentava ressurgir por algum lugar.

A jovem afastou a cabeça com os olhos aturdidos e os lábios inchados.

— Machucou-me. — sussurrou.

Soltou-a imediatamente, com as mãos trementes e amaldiçoando-se por lhe haver causado algum tipo de dor.

— Sinto-o… Maldita seja. Eu… Não tenho desculpa.

Inclinou a cabeça, custava-lhe respirar. Odiou-se a si mesmo. E com isso se congelou qualquer resto de paixão que pudesse ter ficado. Fez uma profunda reverência, depois elevou os olhos e a olhou.

— Por favor, aceite minhas desculpas. Eu nunca… Não. Sou um idiota tão bruto como a escória que acaba de fugir daqui correndo.

A jovem esboçou um pequeno sorriso, o fio de medo ia desaparecendo de seus olhos, mas seguia presente em sua mente. Estava tremendo. Possivelmente tanto de medo como de paixão.

Era pior que a escória.

A mulher tentou falar, respirava depressa e era óbvio que tentava acalmar-se.

— Eu não… não posso… Não pode. — depois respirou fundo e se separou dele.

— Que caralho foi isso? Eu não faço estas coisas. Quer dizer, acabo de fazê-lo assim deve pensar… Mas é que eu não… Oh, deixe de balbuciar, Riley.

Dedicou-lhe outro sorriso instável, ainda lhe custava respirar.

— Dado que é muito provável que tenha me salvado a vida e tudo mais, está perdoado por, bom, por abusar de mim, virtualmente aqui mesmo, na praia. Não é que eu não tenha cooperado, ou o que seja. Mas tenho que ir. — Riley foi se afastando de costas com cuidado, não parecia dar-se conta de que ele permanecia em sua mente.

Sinceridade.

Inclusive envergonhada pelo que via como seu próprio e lascivo comportamento, era o bastante sincera para admitir ante ele que ela havia sentido aquele mesmo desejo furioso. O respeito de Conlan por sua valentia cresceu um pouco mais, embora tivesse que lutar contra seu corpo, que lhe exigia que a levasse a seu palácio e a tivesse cativa durante um ano.

Ou dois.

Se possível, nua em todo momento.

Conlan sentiu o sorriso selvagem que se estendia por seu rosto. Era uma mulher valente e bonita até o incrível, e além disso era aknasha.

Era sua obrigação estudá-la. Passar muito tempo com ela.

Para racionalizar o feito de que queira despi-la e tê-la debaixo de mim, caralho. Em minha cama. Aqui mesmo, na areia. Em qualquer parte. Muito em breve.

Agora.

Tomou uma profunda baforada de ar e lutou para recuperar o controle. O Tridente. Tinha que encontrar o Tridente. E enquanto isso, a deixaria metida em Atlântida, a salvo.

Pensou nos guerreiros fazendo guarda, treinando, merda, com apenas pensar em outros varões caminhando perto de Riley… E ficou sem fôlego.

Bom, poderia ficar no templo.

Com os sacerdotes. Os sacerdotes celibatários.

Longe de Alaric, com voto de celibato ou sem ele.

Riley deu outro passo para trás, o atlante ainda podia perceber sua confusão. Duvidava de sua própria prudência. O esgotamento começava a apoderar-se dela. Os acontecimentos daquela noite tinham acabado com ela, ele tinha acabado com ela. Não podia lamentar havê-la tocado. Havê-la acariciado. Mas se arrependia de ter posto ao limite os recursos já forçados da jovem. Embargou-o uma estranha sensação de ternura. Queria protegê-la.

Inclusive de si mesmo.

Baixou a cabeça e lhe sorriu, mas não bastou para tranquilizá-la. Riley esteve a ponto de tropeçar com a pressa por afastar-se dele.

— Tenho que ir para casa. É tarde. O toque de recolher e tudo isso. Tenho que… Adeus.

Dispôs-se a segui-la, mas notou que Ven e os Sete tinham atravessado finalmente as ondas e que Alaric não ficava atrás. Sabia que poderia encontrá-la embora estivesse longe, assim escaneou a zona para confirmar que já fazia muito tempo que os atacantes tinham desaparecido.

Mas lhe custou um triunfo ficar quieto e deixá-la ir. Só o tempo suficiente para que chegasse a sua casa. Quereria fazer uma mala, certamente. Não sabia quanto tempo a reteria em Atlântida.

No mais profundo de seu ser, algo protestou por deixá-la escapar.

Só seria durante um momento, desta vez, ao menos. Estarei a seu lado em menos de uma hora. O resto… O resto terei que decifrá-lo mais tarde.

Negou-se a pensar em seu dever. Ou na futura rainha que nem sequer conhecia.

Enquanto olhava como se afastava dele correndo, sua mente lhe proporcionou o nome, quase acariciando as sílabas, e ele o sussurrou em voz alta.

— Riley.

Quando seu corpo se endureceu ainda mais com o simples som de seu nome, a verdade nua lhe caiu em cima como um trovão. Aquela mulher não era uma simples empática.

Era a sua.

Conlan sacudiu a cabeça. Estúpido. Fútil. Sua obrigação estava clara. Sangue azul. Destinado a um programa de procriação real.

Fez uma careta de desprezo.

O estábulo real.

Seu olhar retornou em busca de Riley e a distinguiu na borda da praia, onde se havia dado a volta para olhá-lo. Vacilante, a mente da jovem lhe estendeu a mão.

“Adeus, Conlan. Obrigado.”

“Não há de que, Riley. Mas não acredite que isto é um adeus, nada disso.”

Quando a jovem desapareceu na noite, Conlan levantou os braços e arrojou uma onda de feroz alegria ao mar, uma família de golfinhos que passava por ali saltou no ar para celebrá-lo, um arabesco de prazer compartilhado. O ar ressonou com as vibrações do poder de Poseidon.

E depois, sem advertência prévia, a debilidade e a vertigem caíram sobre ele. Conlan se cambaleou para trás e depois caiu na areia.

E lhe atravessou o medo por Riley.

Sacudiu a cabeça de um lado a outro para tentar limpar-se. Odiava a ideia, mas tinha que fazê-lo. Tinha que pedir ajuda.

Ven! Preciso… Necessito que me ajude.

 

À centenas de quilômetros de distância, o supremo senhor dos vampiros, Barrabás, levantou a cabeça e cheirou o ar. Alguma coisa, mas o que? Só por um instante havia sentido uma perturbação nos elementos como nunca…

— Mas, senador Barnes, como líder do Primus, deve… — disse o humano, encolhendo-se um pouco.

Barrabás lhe vaiou, odiava aquele nome falso. Barnes. Um nome patético.

Mas sabia que não era muito prudente reivindicar seu legado. Muitos ainda recordavam de seu nome, maldito pela história e os acontecimentos que Pôncio Pilatos tinha posto em marcha aquele dia.

Logo. Muito em breve poderia fazer-se valer ao fim, e então o nome de Barrabás seria odiado e temido com tal magnitude que o ocorrido com antecedência não seria nada para aqueles novilhos.

O novilho que tinha adiante se prostrou ali mesmo, no chão de cimento da câmara subterrânea central do Primus.

— Como líder do Primus, devo fazer o que me dê vontade. — grunhiu — As outras duas câmaras do Congresso farão exatamente o que eu lhes diga, não?

O humano se arrastou e se retirou da sala, o mais provável era que se sentisse afortunado, dado o que acabava de presenciar.

O olhar do vampiro se pousou um momento no congressista de Iowa e no senador de Michigan que tinham estado causando tantos problemas. Penduravam com os pés longe do chão e os braços trespassados nos grilhões atarraxados ao muro.

As fêmeas de sua manada de sangue revoavam a seu redor, lesavam com delicadeza a pele dos homens acorrentados e chupavam o sangue que corria por aquelas formas nuas. O de Iowa ainda gemia um pouco, mas o outro já fazia tempo que havia se calado.

Barrabás considerou e desprezou várias conclusões vinculadas à força relativa da filiação política daqueles tipos, apoiando-se em sua resistência e depois se atirou em sua poltrona com aspecto de trono. Entrecerrou os olhos e se concentrou na perturbação que tinha percebido nos elementos.

— O que poderia ter semelhante poder? — murmurou enquanto tamborilava com os dedos no braço da poltrona.

A porta da câmara se abriu de repente e seu segundo, Drakos, entrou como um trovão na câmara.

— Sentiu isso, Barrabás?

Barrabás assentiu com um movimento quase imperceptível da cabeça.

— Senti-o. O que era?

Drakos flutuou até o chão e seu cabelo prateado se pousou ao redor de seus ombros. A Barrabás não passou desapercebido que umas quantas de suas mulheres lhe lançavam olhadas ávidas e furtivas a seu general.

Teria que fazer algo com Drakos. Já é quase o bastante poderoso para me desafiar. Possivelmente haja chegado a hora de encontrar um novo segundo.

Mas em voz alta só respondeu à pergunta exposta.

— Possivelmente nada. Possivelmente tudo. Mande à vanguarda. Agora não podemos nos permitir distrações.

— Anubisa?

Barrabás conteve o estremecimento por pouco, por muito pouco.

— Temo-me que não esteve… Disponível nos últimos tempos. Tampouco é que nos diga nunca o que sabe.

— Contudo, se a desafiarmos… — Drakos apertou a mandíbula.

— Já basta. — rugiu Barrabás — Faz o que te digo.

— Como ordena, assim se fará. — respondeu Drakos afastando o olhar e fazendo uma profunda reverência. — Assumirei o comando da vanguarda.

— Não. Necessito-te aqui. — disse Barrabás — Envie a outro. Envie Terminus.

Drakos levantou uma sobrancelha, mas além disso seu rosto era ilegível. Nada surpreendente para um vampiro de mais de novecentos anos, mas inconveniente, não obstante.

Barrabás se levantou com um movimento tão veloz que resultava impreciso. Possivelmente inclusive teria aterrorizado ao congressista acorrentado se uma das mulheres não lhe acabasse de cortar a jugular.

— É difícil encontrar bons políticos nestes tempos. — comentou Barrabás — Todos carecem de certa integridade.

Barrabás rodeou as salpicaduras de sangue e inalou com prazer aquele aroma denso e acobreado, depois chamou com um gesto a seu general.

— Tenho um trabalho mais importante para você, meu segundo no comando. Preciso de outra telepata. Possivelmente tenha me mostrado muito solícito com a última, muito cuidadoso, suponho.

Pensou com certo pesar no vulto de carne inanimada que tinha deixado no chão de seus aposentos.

Drakos falou sem emoção.

— As telepatas escasseiam muito, meu senhor, e cada vez é mais difícil as localizar. Esperava que esta…

Barrabás o cortou.

— Questiona minhas ordens, Drakos?

Embora a verdade era que durante o último ano tinha sido mais duro do que o habitual com as telepatas. Sua ânsia de sangue e carne estava aumentando, não remetendo, à medida que se fazia mais velho e mais forte, e havia alguma coisa em ouvir os pensamentos atormentados de sua vítima, através do vínculo telepático que era insuportavelmente suculento.

Oxalá, ainda existissem as empáticas. Poder sentir de verdade a dor do novilho quando o infligia… Estremeceu de êxtase com apenas pensá-lo.

Nenhum outro tinha sobrevivido tanto tempo como ele, não havia ninguém ao que Barrabás pudesse perguntar se teria que enfrentar a apetites mais vorazes com o passar do tempo. Possivelmente estivesse destinado a converter-se em um animal, inclusive pior que os troca-formas que pretendia destruir.

Desfez-se de seus negros pensamentos e saiu com o Drakos da câmara depois de jogar uma última olhada a suas mulheres, que lambiam com frenesi a fonte de sangue do congressista.

— E chama a minha secretária. Tenho uma nova proposta que fazer com respeito ao último projeto de lei que bloquearam. Acredito que ao resto do Congresso possivelmente lhe pareça mais… Aceitável… Agora.

Deteve-se na porta e assinalou com uma sacudida da cabeça os restos dos oponentes mais resolvidos que tinha tido no Capitólio.

— E logo diga a alguém que tire o lixo.

 

Conlan respirou fundo, seguro de que o aroma de Riley permanecia no ar que o rodeava. Ainda podia saboreá-la, sua calidez e sua doçura. Ainda sentia o rastro de sua pele sedosa em suas mãos, em seu corpo endurecido e dolorido. Ainda podia sentir as emoções que a jovem emitia com tanta força.

Tudo lhe exigia que fosse atrás dela. Embargava-o uma necessidade que combinava com a obsessão, mas se elevaram séculos de treinamento para anular seus instintos. Tinha que enfrentar-se e analisar a ameaça. Jamais tinha experimentado nada como aquela onda de debilidade. Certo que durou só uns minutos, mas quem sabia se poderia voltar?

Além disso, que diabos o tinha provocado? Foi compartilhar as emoções da garota?

Pelos ovos de Poseidon, não tinha ouvido jamais nada parecido em todas as histórias que seu povo contava. Nunca lhe tinham advertido de algo assim.

Tinha que identificar a causa da debilidade para poder acautelá-la. Derrotá-la. Como Alaric adorava proclamar: “o conhecimento é poder”.

Procurou a seu irmão no atalho mental que compartilhavam.

“Ven?”

A voz lhe respondeu imediatamente em sua cabeça, ressonava nela a fúria e também, melhor escondida mas ainda evidente, a preocupação.

“Estamos chegando, irmão.”

O dever enraizado em seu ser depois de tantos anos lutava por recuperar o controle de sua mente. Sua obrigação era recuperar o Tridente. Subir ao fim ao trono no que tinha evitado pensar durante os últimos dois séculos. Guiar a seu povo.

Um futuro rei não abandonava suas obrigações para seguir a uma mulher. Pôs-se a rir sem vontade.

Sim, certo, o dever. Porque o que Atlântida necessita agora mesmo é que se sente no trono, depois de meio milênio de reinado perfeito de meu pai, um puto louco que nem sequer foi capaz de escapar de um vampiro.

Apertou a mandíbula e passeou pela areia desenhando círculos. Tampouco era que Riley, nem nenhuma outra mulher, merecesse ter que viver com ele.

Seus pensamentos retornaram a Anubisa. E se a dor tivesse acabado com ele? E se apartir de então o sexo fosse para ele algo manchado, retorcido?

Algo mau?

O que ele podia oferecer a uma mulher? Tinha que ser racional.

Sim, certo. Salvo que a racionalidade era impossível, merda. Seu corpo se esticou um pouco mais, doeu só pensando no cabelo de Riley deslizando-se entre suas mãos como a mais magnífica das sedas atlantes. Não havia nada mau nela. Nada nela, nos dois juntos, não lhe fez sentir outra coisa que não fosse boa.

Muito boa. Como podia sentir-se tão bem abraçando a uma mulher a que acabava de conhecer? A uma humana?

Conlan fechou os olhos e respirou com lentidão pelo nariz, apelou à disciplina de seu treinamento para mitigar aquela necessidade furiosa. Era um príncipe supremo e sabia qual era sua obrigação.

Sim, certo, bom, porque foda-se à obrigação. Ven tem cinco minutos e depois vou atrás dela. Vou me assegurar de que está a salvo antes de ir recuperar o Tridente.

Uma fonte se disparou no ar como um torvelinho e levou o Alaric até a areia.

Tão dramático como sempre.

O cabelo negro como a noite do sacerdote girou ao redor de seus ombros e recordou a Conlan as histórias que se contavam sobre ele. Alaric, o guardião escuro da cólera de Poseidon. As pessoas invocavam o nome do supremo sacerdote para aterrorizar aos meninos e fazer que obedecessem a seus pais.

Conlan franziu o cenho e pela primeira vez se perguntou como se sentiria Alaric ao ver-se convertido em uma espécie de pesadelo. Mas o brilho de compreensão se desvaneceu quando o sacerdote começou a rir.

— Maldito seja, minha paciência está chegando a seu limite, assim corre o risco de rir se quiser. — grunhiu, sentia-se como um idiota, tentando recuperar a dignidade quando pouco antes andava atirado pelos chãos.

Alaric sabia.

O sacerdote lhe sorriu.

— É que não compreende meu bom humor, Conlan? Passo tão pouco tempo em terra firme que mereço desfrutá-lo, não acredita? — adiantou-se um pouco e esticou uma mão.

Com umas calças negras apertadas e uma camisa de seda negra quase idêntica a de Conlan, Alaric poderia ter sido seu irmão gêmeo.

O gêmeo maligno.

Contudo, Conlan não tinha tempo para zangar-se como um menino. Agarrou a mão que o outro estendia, sabia que Alaric leria suas emoções com mais facilidade através do tato.

Precisava saber o que lhe tinha acontecido, embora isso significasse que tivessem que meter-se em sua cabeça.

— Uma fonte ? Seus jogos infantis chamam a atenção, sacerdote, e não nos convém. Fica advertido, preferiria que o deixasse. — grunhiu recorrendo à linguagem formal.

Alaric voltou a sorrir e lhe soltou a mão, era óbvio que não se arrependia de nada.

— Oh, oh. Chama-me sacerdote em lugar de Alaric. Suponho que significa que está provando as maneiras régias, velho amigo, para ver que tal lhe sentam.

E depois o sorriso se desvaneceu e, também, a ilusão de cordialidade com ela. Ficou só um predador escuro e letal cujos gélidos olhos verdes resplandeciam de poder.

— Fica você advertido, faço só o que desejo. O supremo sacerdote de Poseidon não responde ante ninguém, salvo ante o deus do mar.

Antes que Conlan pudesse formular uma resposta, sentiu, mais que ouviu, que seu irmão saía disparado da água sem mal perturbar a superfície. Girou e viu Ven atravessar a areia com passos firmes, com as lâminas acobreadas das adagas de oricalco desencapadas e prontas para atacar.

Ven ostentava o título de Vingador do Rei por herança e por direito. Não havia guerreiro mais qualificado que ele. Ninguém podia matar a um vampiro ou a um troca-formas melhor que ele. Uma habilidade muito prática em um homem que tinha jurado proteger a seu irmão, o príncipe supremo.

Salvo quando Conlan se jogava à superfície a toda pressa sem esperar a seu irmão nem a sua guarda de elite.

Coisa que jamais tinha feito. Algo para demonstrar, cara?

Conlan descartou a ideia de discutir com Alaric e se voltou para seu irmão. Ven ia estar de saco cheio.

E com razão.

Ven atravessou a praia como um furacão.

— Em nome dos nove infernos, pode-se saber em que caralho estava pensando? Mas você está louco, cara? Enfrentamos a uma ameaça que nem sequer entendemos, e te ocorre te pôr em plano Rambo?

Conlan lutou para evitar que o desdém lhe tingisse a voz e esteve a ponto de consegui-lo. Apontou.

— Desafia a um combate, Irmão? — ficou justo diante de Ven, apesar de que seu irmão mais novo era uns cinco centímetros mais alto que ele e pesava uns vinte e cinco quilogramas a mais.

Ven mostrou os dentes.

— Ouça, idiota…

Conlan, com gesto deliberado, estendeu um braço e uma bola de luz prateada de cor turquesa se elevou na palma aberta. Depois varreu com o olhar a Ven e ao resto dos Sete e envolveu-se nos restos de dignidade que sobravam.

— Acredito que te excede em seu papel de Vingador do Rei, irmão. Eu não respondo ante ninguém.

Ao mesmo tempo em que as palavras abandonavam sua boca se deu conta do muito que se pareciam com as que Alaric acabava de pronunciar.

E, evidentemente, o mesmo pensou Alaric, cujos olhos resplandeceram com um olhar divertido. Mas ao menos teve o bom senso de manter a boca fechada.

Coisa que Ven não fez. Abriu a boca e ficou olhando a bola de energia pura que rangia na mão de Conlan.

— Exceder-me? Exceder-me em meu papel? Acontece que sou o Vingador do Rei, moleque real mais teimoso que uma mula.

Conlan lançou um olhar assassino a seu irmão, os dois cara a cara; Ven não se arredava. E foi então quando o som de um aplauso interrompeu o momento. O príncipe voltou a cabeça com uma sacudida e atravessou ao Alaric com um olhar colérico. O sacerdote seguiu aplaudindo sem alterar-se.

— Precioso. Impressionante, não cabe dúvida. — disse o sacerdote com voz lenta — Temos ao Reisen solto por aí com o Tridente e uma ameaça desconhecida que drenou o poder de nosso príncipe, e ainda temos tempo para que os irmãos Caretas brinquem de medir o pinto?

Conlan abriu a boca e depois a voltou a fechar, começava a passar-se o mau humor. Agitou os dedos e a bola de energia se desvaneceu, depois se separou de seu irmão.

— O respeito pela realeza não é a sua praia, certo? — disse a Alaric — Mas por muito que me incomode, tem razão.

Conlan olhou a sua guarda, todos embelezados como seu irmão, com as calças de couro negro e os casacos longos que Ven tinha exigido que usassem em qualquer viagem à superfície.

Pensava que o de motoqueiro mal era o melhor disfarce para uns caras que sobressaíam por cima da maior parte dos varões humanos.

Os guerreiros de Conlan, os Guerreiros de Poseidon, encontravam-se em posição de batalha, rodeando com os punhos os cabos das espadas e examinando de forma constante o entorno em busca de um perigo iminente que pudesse ameaçar a seu senhor.

E ali estava ele, perdendo o tempo com sacanagens. Ven passou uma mão pelo cabelo.

— Certo, certo, mudando de assunto. Em qualquer caso, o que aconteceu? Todos sentimos a perturbação dos elementos quando lhe atacaram. Que classe de criatura poderia haver feito isso? Foi um vampiro?

— Não…

Ven continuou falando sem lhe fazer caso.

— E se pode saber por que diabos dos nove infernos enfrentou a ele sem nós? Por que foi sem nós?

Conlan olhou a seus homens, a seus irmãos de armas, antes de responder. A expressão de Denal era de intensa recriminação, mas assim que se deu conta de que Conlan o estava olhando, dominou-se e adotou outra mais implacável.

Ven seguiu o olhar de Conlan, que percorria toda a fila. Seus guerreiros. Tinham jurado servir a Poseidon e ao trono e se enfrentavam a uma vida dura e hostil. Lutavam contra qualquer um que ameaçasse à humanidade. Muitos morriam. Aos que sobreviviam os remendavam e voltavam para a luta.

E sua recompensa? Destinados a contrair matrimônios sem amor com mulheres com as que ordenavam-lhes que se casassem. Como ele ia fazer também em duas semanas.

Conlan mediu o teor de seus homens e se deu conta de novo de quão afortunado era. Não teria querido ter a ninguém mais com ele.

Alexios, feroz, com o rosto marcado e sombrio.

Brennan, impassível salvo pelos nódulos brancos que rodeavam as armas.

Justice, com o cabelo azul preso em uma trança que lhe chegava à cintura; atrás de um ombro, o punho da espada se sobressaía da bainha. O membro dos Sete ao que Conlan menos compreendia, e no que menos confiava. Mas um guerreiro imponente, independente de sua aparência.

Bastien se elevava sobre todos os outros. Mais de dois metros e dez de puro músculo e aguçados instintos de batalha.

Christophe, cuja pele resplandecia levemente pelos restos de um poder mal controlado.

E por último, Denal outra vez, o mais jovem dos Sete e o último a chegar. Ainda estava preparando-se na academia quando Conlan havia… Se ausentado.

Antes que Conlan pudesse falar, a voz de Ven voltou a ressonar.

— Vai me dar alguma pista do que estava pensando? Estava pensando sequer? Estes homens juraram te proteger, estão dispostos inclusive a morrer por você. Mas você tem que ir se fazer de herói! — bufou Ven, o desgosto se refletia em todo seu rosto — Porque a última vez te funcionou muito bem, não?

Alguém afogou uma exclamação. Conlan baixou a cabeça e aceitou o duro golpe. Se houvesse esperado a que chegassem guerreiros suficientes quando tinha açoitado a Anubisa até sua toca, possivelmente.

Não. Só os perdedores voltavam a vista para olhar ao passado. Lutou para recuperar a calma.

— Continua sem meias palavras quanto tem que jogar sujo, não é, irmão?

Ven sacudiu a cabeça e franziu o cenho ainda mais. Era óbvio o desgosto que sentia.

— Um bom governante permite que seus súditos façam seu trabalho, Conlan. Possivelmente seja hora que aprenda de uma vez.

Conlan girou em volta para olhar a seu irmão com os punhos apertados. Depois respirou fundo e pensou melhor.

— Possivelmente tenha razão.

Ouviu outra exclamação afogada a suas costas. Inclusive antes de sua captura, nunca haviam visto seu príncipe dar nem um só passo atrás.

E possivelmente já era hora de que o vissem. A razão devia moderar a cólera. Possivelmente tivesse que elevar o filósofo e ficar à altura do guerreiro.

Conlan assinalou a seu irmão com a cabeça.

— Está me enchendo o saco, mas o que diz tem sentido.

Ven piscou, aparentemente ficou sem fala, assim Conlan seguiu falando enquanto continuava em tão feliz estado.

— Mas o consideraria um favor pessoal se tivesse a amabilidade de perdoar e esquecer para que pudéssemos seguir adiante e recuperar o Tridente.

Ven voltou a piscar, depois fez uma pequena reverência e um sorriso lhe crispou as comissuras da boca.

— Considere feito, alteza.

— Volte a me chamar de “alteza” e te dou um chute no traseiro. — disse Conlan, e um sorriso triste se desenhou em seu rosto antes de desvanecer-se — Deveria ter esperado, admito-o. Mas isso não é tudo o que tenho que admitir. Temos que falar. Considerem um assunto de máxima urgência.

Ven elevou uma só sobrancelha. Seu corpo se esticou e adotou uma atitude ainda mais aguçada de cautela, se é que isso era possível, enquanto agitava a cabeça de um lado a outro e examinava a praia e a escuridão que havia mais à frente.

— O que é? Reisen? Encontrou com algum vampiro ou com algum homem lobo? Dê-me algo contra o que lutar, maldito seja.

Alaric se deslizou pela areia sem ruído e se aproximou ainda mais. Conlan recordou a um tubarão preparando-se para atacar.

— Qual era a ameaça? — perguntou Alaric — Encontrou-se com alguma nova forma de magia que possa controlar inclusive os elementos?

Conlan sacudiu a cabeça e pesou suas palavras.

— Tenho quase a certeza absoluta de que vou lamentar lhes haver contado isto. Mas têm direito a saber. Sobre tudo porque se refere a uma possível debilidade.

Salvo que nesse momento estava falando de uma debilidade pessoal. Uma debilidade do herdeiro ao trono. A estratégia política de Atlântida exigiria que se calasse. A estratégia bélica de Atlântida exigia que revelasse tudo.

Mediu a Ven e Alaric com o olhar. Ven era família e Alaric tinha sido amigo de Conlan de infância. Jamais ocultou nada a nenhum dos dois. Entretanto, enquanto contemplava o feroz fulgor verde de poder que brilhava nos olhos de Alaric, Conlan chegou a uma desagradável conclusão: não estava de tudo seguro de que o sacerdote pudesse dizer o mesmo.

Conlan pediu a sua guarda que se aproximasse e depois falou com o tom claro e formal de seu cargo. Pouco importava que tanta formalidade lhe soasse falsa depois de tantos anos.

Merda, possivelmente se falasse como um rei, terminaria sentindo-se como tal.

— Minha apressada partida foi imprudente e um engano da minha parte. Meu irmão me recordou que um bom rei permite que seus guerreiros façam aquilo para o que foram treinados.

Mediu a expressão de cada guerreiro, um por um, e depois continuou com voz sombria.

— Entretanto, há algo que devo lhes advertir. Vou ser o rei e inclusive agora sou o príncipe supremo. E atuarei como considero conveniente em todo momento.

Fez uma pausa e depois dedicou um sorriso a Ven.

— Terá que tentar me seguir, irmãozinho.

Mas o humor não demorou para desvanecer-se de sua expressão, Conlan levantou a cabeça e cheirou o ar em busca de qualquer troca nos elementos, observou o entorno em busca de qualquer criatura viva ou não morta que pudesse haver perto. Depois enviou um sinal mental para voltar a tocar a Riley e apertou os dentes ao dar-se conta de que inclusive aquela breve separação o punha tenso.

Crispava-o.

Maldita fosse. Quem era aquela mulher? E o que é mais, o que era?

Aquela garota nem sequer se deu conta de que ele tinha permanecido em sua mente, inadvertido, enquanto ela dirigia os escassos quilômetros que a separavam de seu pequeno lar.

Conlan só tinha interrompido a conexão durante a rixa que tinha tido com seus guerreiros e com o Alaric.

Enviou um pequeno toque.

“Estou aqui, Riley. Está bem?”

O atlante percebeu a exclamação de surpresa da jovem, quase podia vê-la. Riley devolveu o toque, suas emoções revoavam como diminutas anêmonas do mar na mente masculina.

“Conlan? Ainda pode falar comigo? Mas se estou a quase quinze quilômetros da praia e… Não sei como mas sei que você ainda está aí.”

“Posso te sentir, aknasha. E além disso vou proteger você. É muito valiosa para… Meu povo.”

Riley lhe enviou a leve insinuação de uma gargalhada, isso e uma sensação entristecedora de cansaço.

“Isso é muito bonito mas eu não valho muito para ninguém. Só preciso tomar um bom banho de espuma e ir dormir. Adeus.”

E com isso a sensação de umas portas mentais que se fechavam de repente cortou toda conexão com ele. Conlan se recuperou da sensação com uma careta, tinha a boca seca e lutava para evitar que seu corpo voltasse a endurecer-se, ante a ideia daquele corpo nu resplandecendo em uma banheira cheia de bolhas perfumadas.

Fechou os olhos com força e gemeu.

Ven o olhou com os olhos entrecerrados.

— O que acontece? A ameaça?

Conlan abriu os olhos de repente e viu que Ven e o resto dos Sete se agachavam em uma posição de batalha, com as espadas preparadas. Alaric lançou os braços ao ar como se fosse invocar o poder e as ondas do oceano responderam imediatamente com uma estrondosa sinfonia de percussão contra a borda.

Conlan levantou uma mão.

— Não, não passa nada. Não há nenhuma ameaça.

Depois sorriu.

— Ou, para ser mais exato, a ameaça vai tomar um banho de espuma.

 

— O que aconteceu, lorde Reisen?

Reisen partiu o ar com a mão para ordenar a seu guerreiro que desistisse, que deixasse de fazer ruído enquanto ele abria sua mente e seus sentidos para captar qualquer perturbação nos elementos.

Durante um minuto quase tinha pensado…

Mas, não. Já fazia muito tempo que Conlan estava morto. A casa real havia sumido no caos. Não havia ninguém disposto a dar um passo adiante e admitir que Anubisa assassinou ao herdeiro das Sete Ilhas.

Até esse momento.

Reisen baixou os olhos e contemplou a forma longa envolta em veludo vermelho que repousava sobre a mesa. O Tridente. Quase não podia acreditar que o tivesse pego de verdade. Que nesse momento jazia em uma mesa em uma das casas seguras, que sua gente tinha, justo diante dos narizes dos caminhantes que dormiam nos edifícios que os rodeavam.

Ele o tinha levado diante do nariz de Alaric.

Coisa que lhe produziu uma grande satisfação. Idiota arrogante. A lembrança de seu último e definitivo enfrentamento, nove dias antes, cruzou como um brilho por sua mente.

 

— Sabe que não vai voltar, Alaric. — disse Reisen, passeando-se pelo chão de mármore do aposento privado do sacerdote — Já passaram sete anos. E, inclusive se voltar, não será Conlan.

Deteve-se e cravou os olhos no sacerdote.

— Estará… Mau.

Alaric cruzou os braços, parecia mais um homem de rua que um dos escolhidos de Poseidon, até que via o poder que ardia em seus olhos.

— Conlan é mais forte que qualquer um de vocês. Mais forte que qualquer outro guerreiro na história de Atlântida. Poseidon não me deu nenhuma indicação de que esteja morto. Ou de que tenha mudado. — Alaric entrecerrou os olhos — Está me dizendo que dúvida do deus do mar?

Reisen se deu um murro na outra mão.

— Não blasfemei jamais e não penso começar agora, assim não vá por aí, sacerdote. Só me pergunto se está ouvindo de verdade o que Poseidon lhe diz. Não estará canalizando suas próprias esperanças, as que anseiam a volta de seu amigo de infância?

— Não se atreva jamais a me desafiar, Reisen. A Casa de Micenas o lamentaria. — Alaric não elevou a voz, mas os muros do templo se estremeceram.

Reisen nem sequer piscou.

— Possivelmente seja você o que chegue a lamentar este dia, Alaric.

Depois saiu com passo firme do templo sem olhar para trás.

Já estava elaborando seu plano.

 

Reisen esticou a mão para tocar as dobras do veludo que cobria o Tridente. Tocá-lo era um sacrilégio e estava mais que preparado para morrer por isso. O Tridente de Poseidon. O meio que durante milênios havia feito subir aos reis de Atlântida a seu trono.

E, entretanto, quando o agarrou aquele dia no templo, permaneceu quieto. Inanimado. Um simples objeto bonito: ouro, prata e oricalco fundido e moldado com o mesmo desenho que ele levava marcado no peito.

Mas com sete espaços abertos que mostravam onde haviam protegido sete joias antes do cataclismo.

Antes que as repartissem pelas terras da superfície para seu amparo e salvaguarda.

— Meu senhor… — começou a dizer outra vez o guerreiro. Afastado de suas reflexões, Reisen levantou os olhos e o olhou. Micah, o primeiro de seus Sete — Temos que ir daqui. Eles estarão atrás de nós em breve. — disse Micah rodeando com os punhos os cabos de suas adagas.

Irmãos guerreiros de Poseidon. E mais unidos ainda pela enormidade do ato que tinham cometido.

— É justiça, Micah? — perguntou-se Reisen em voz alta — É justiça o que fazemos por nossa terra? Ou é traição, como sem dúvida Alaric o chamará?

Os olhos de Micah brilharam com o ardor da causa que defendiam.

— É de justiça procurar as joias que se perderam. Devolver à Atlântida sua antiga glória, meu senhor. Depois de mais de onze mil anos, já é hora, sem dúvida.

Reisen assentiu pouco a pouco.

— Sim, já é hora. Encomendaram-nos a tarefa de ser o primeiro arauto a véspera da destruição da humanidade. — disse citando as antigas palavras.

— O descaramento dos habitantes da noite é sem dúvida algo mais que um primeiro arauto. — grunhiu Micah.

Um sorriso cruzou durante um instante fugaz o rosto de Reisen. Os habitantes da noite. Aquela linguagem arcaica lhe recordou que Micah não tinha passado muito tempo fora de Atlântida. E, contudo, era friamente preciso.

— Por Atlântida, então, Micah. — disse levantando sua própria adaga no ar — Por lhe devolver à Atlântida sua glória e supremacia.

O resto de seus guerreiros, que tinham entrado na sala enquanto ele e Micah falavam, levantaram as adagas por cima da cabeça ao uníssono.

— Por Atlântida! — gritaram de uma vez — Pelos Micenas!

Reisen sorriu. Sim, por Atlântida e Micenas. E por sua própria ascensão ao trono de uma Atlântida nova e restaurada.

— Pelos Micenas. — rugiu.

E depois voltou a olhar uma vez mais o fardo que repousava na mesa, surpreso por uma faísca de movimento e luz.

— Devo haver imaginado. — murmurou, mas suas palavras ficaram afogadas pelo estrondo dos gritos de seus guerreiros.

Porque, durante apenas um décimo de segundo, pareceu-lhe que o veludo havia resplandecido.

 

— Mas você perdeu um de seus reais parafusos? — Ven deu uma pausa em seus passeios e brutais maldições, que, por certo, lançava em atlante antigo, latim e um dialeto muito pouco utilizado que em seus tempos se ouvia perto de Constantinopla, e se deteve justo diante de seu irmão com os punhos nos quadris.

Conlan suspirou, não sabia se concedia a seu irmão uma medalha por sua criatividade ou ordenava ao Justice que prendesse o Vingador do Rei por traição.

Poderia decidir no cara ou coroa...

Conlan deu um passo para Ven e invadiu sem lhe importar nem um pouco o que seu irmão gostava de chamar seu “espaço pessoal”.

— Não te perguntei a opinião que merecem minhas ações. Limitei-me a descrever um possível risco que ameaça a nossos guerreiros. Se houver mais humanos que podem nos incapacitar com uma telepatia emocional…

Não mencionou que deixou um maldito montão de coisas sem contar em seu relato. A apaixonada atração que sentia por ela não punha em perigo a segurança de Atlântida.

Admite-o, atração é uma palavra muito insossa. Experimente luxúria abrasadora capaz de te romper os ovos em qualquer momento.

Expulsou uma baforada de ar pela boca. Até os príncipes tinham direito a um pouco de intimidade, não?

Ven sacudiu a cabeça, aborrecido, depois voltou a passear-se e amaldiçoar. Conlan deixou de escutá-lo depois de lhe ouvir dizer algo sobre um “feto de escaravelho do esterco” em português antigo e se voltou para Alaric, que permaneceu em silêncio, coisa nada própria dele, durante a explicação que Conlan tinha dado dos acontecimentos daquela noite.

Quando Alaric falava já resultava bastante perigoso. Que ficasse calado era mortal.

O sacerdote ficou olhando fixamente, sem piscar, tão quieto que quase não parecia humano. Se havia algum homem que não parecia feito para o sacerdócio, Conlan haveria dito que era Alaric. Com sua mesma estatura, a forma musculosa do sacerdote estava à altura da ameaça letal que ardia em seus olhos.

Certamente nenhum colegial ia buscá-lo para lhe contar suas travessuras infantis em um confessionário. E entretanto, se dizia que mais de uma mulher, seduzida pela beleza escura de Alaric, tinha albergado esperanças de convencer ao moreno sacerdote para que… Adaptasse… Seu voto de celibato.

Conlan quase começou a rir com apenas pensá-lo. Era bem sabido que Poseidon despojaria de seus poderes a qualquer sacerdote que violasse o voto de celibato. O poder era a única amante que Alaric tinha; nenhuma mulher se interporia entre o sacerdote e sua ambição.

Como se tivesse lido a mente do príncipe, Alaric mostrou os dentes com uma careta fria de sorriso fingido.

— Estou de acordo com o Conlan.

— Ouça, olhe, eu… O que? — aquela afirmação o deslocou.

— Já me ouviu. — lhe respondeu Alaric sem alterar — Quer seguir a esta humana até sua casa para garantir sua segurança. Exige que a translademos à Atlântida como sua… Convidada. Estou de acordo contigo.

Ven não pôde mais e explodiu.

— Genial. Agora são dois os que perderam o maldito parafuso. Esperava mais de você, rato do templo.

O olhar de Alaric se cravou com suavidade em Ven e algo que sussurrava uma insinuação de perigo mortal passou em seus olhos.

— Agora sou o supremo sacerdote do deus do mar, meu senhor Vingador. Já é hora de deixar esses… Galanteios infantis.

Conlan trocou de postura para interpor-se entre os dois homens. O último que faltava era que seus dois conselheiros mais provados se dedicassem a arrancar a cabeça entre si.

— Acalme-se, Ven. Tem que dar exemplo a meus guerreiros, não?

Ven soltou um bufido.

— E na hora da verdade, dou exemplo. Mas ficar impassível com ar gélido quando nos enfrentamos a um problema sério não é meu estilo. Vai tomar nomes e repartir porrada. —deteve-se um momento e voltou a embainhar suas adagas de repente.

— Aceitar que levemos a uma humana à Atlântida, e além disso, quando o Tridente está nas mãos do inimigo? Repito, são uns putos loucos.

Não obstante, Ven sacudiu a cabeça e se afastou enquanto estendia um braço como se quisesse dizer a Alaric que continuasse.

O sacerdote deu de ombros.

— O conhecimento é poder. A humana tem poderes que nós desconhecemos. Se de verdade pode transmitir emoções pelo atalho mental, então terei que estudá-la e analisá-la para encontrar a fonte dessa habilidade.

Ven começou a interromper, mas Alaric levantou uma mão.

— Por não mencionar a enormidade potencial de uma arma que pode pôr de joelhos a um guerreiro com a força e os escudos mentais que tem Conlan. — disse com um tom de voz clínico e imparcial.

Conlan emitiu um grunhido no mais profundo da garganta que surpreendeu inclusive a ele e, pela forma em que o olharam, todos os outros.

— Dissecariam a Riley em um laboratório se acreditasse que essa ia ser a única maneira de entender seus dons, verdade?

Alaric elevou uma sobrancelha.

— Riley? Sabe como se chama?

A fúria ameaçava embargar a Conlan, que apertou os punhos até que os nódulos ficaram brancos, enquanto lutava para recuperar a compostura suficiente para poder falar.

— Não… Vai tocá-la. — disse entre dentes.

Alaric esticou as mãos imediatamente com as palmas para baixo, como se quisesse demonstrar que não pretendia fazer dano a ninguém. Depois recorreu de novo à linguagem formal, possivelmente se dava conta da ameaça que supunha Conlan.

— Percebo uma perturbação nos elementos que nos rodeiam, e entretanto, até agora não mostrava nenhum sinal externo disso. Dado que não sou humano como você e não posso perceber as emoções, deve explicar a reação que minhas palavras despertaram em você.

Conlan se obrigou a relaxar as mãos e respirou uma baforada de ar purificador.

— Nem sequer sei se posso explicá-lo. Ou, se pudesse, se quereria explicá-lo.

Sacudiu a cabeça para tentar limpar. Sua mente procurou sem querer a consciência adormecida de Riley e esse simples roce foi suficiente para acalmá-lo um pouco.

E suficiente para encher o saco também. Que caralho estava acontecendo?

— Necessito tempo para entendê-lo eu mesmo. — admitiu.

Ven o interrompeu.

— Alaric, seguro que te dá conta de que o mais importante é recuperar o Tridente, não brincar de babás com uma mulher humana. Eu também gosto das humanas, Conlan, e desfrutei de muitas horas felizes com elas. — no rosto do irmão de Conlan cintilou um sorriso lupino — Caralho, às vezes até com duas de uma vez. Ao longo dos séculos inclusive defendi a milhares delas de vampiros e dos malditos troca-formas. Mas não me vê por aí vigiando suas casas.

Alguém lançou uma gargalhada. O olhar de Conlan varreu como um látego a fileira de guerreiros. Bastien. É obvio. Aquele maldito era muito grande para ter medo de nada. Nem sequer à ira de dois príncipes atlantes.

Maldito seja.

Tinha que admirar os ovos que aquele cara tinha.

Conlan se voltou de novo para Ven e assentiu.

— Tem razão. Mas esta é diferente. É possível que tenha uma habilidade que se pode utilizar contra mim, contra qualquer de nós, e o que tem isso de bom?

A parte de seu cérebro em que o dever dava passo à necessidade lhe gritou.

E além disso a desejo. E penso fazê-la minha. A merda com o dever.

— De acordo. — respondeu Alaric sobressaltando ao Conlan.

Mas, é obvio, Alaric estava respondendo a suas palavras, não a seus pensamentos.

Ou isso esperava Conlan. Se o sacerdote tinha conseguido dominar a sondagem mental, a política de Atlântida estava a ponto de meter-se em um bom montão de fedorenta merda de baleia.

O olhar de Alaric não vacilou nem um só instante.

— Poderia nos distrair em um momento crítico e nos custar o objetivo de nossa missão. Conteremos à mulher e depois recuperaremos o Tridente. É o mais inteligente, como você diz, Conlan. E também é certo que necessito tempo e um lugar tranquilo para averiguar o paradeiro do Tridente.

Ven grunhiu um pouco e depois pôs os olhos em branco.

— Bom, se colocado dessa forma… Vamos lá.

Deu uma sacudida com a cabeça para a esquerda e Bastien, Denal e outros se distribuíram ao redor de Conlan, Alaric e Ven. Com os casacos negros batendo as asas atrás deles, nove dos predadores mais letais que percorreram a terra e seus oceanos e se converteram em bruma líquida; depois se dirigiram a uma casa diminuta em que dormia uma mulher.

E uma vez que volte a vê-la, darei-me conta de que esta descabelada atração foi só algo momentâneo. A levaremos a um lugar seguro para estudá-la mais tarde e depois recuperaremos o Tridente. Não mudou nada.

Salvo que os anos de treinamento que Conlan tinha passado conhecendo-se burlaram-se dele.

Será, idiota? Mudou tudo. Ela o mudou.

Mas nem sequer com toda sua disciplina, treinamento e afiada lógica foi capaz de averiguar a que “ela” se referia.

 

Riley voltou a olhar o relógio pela terceira vez em uma hora. Tinha dormido, quanto? Uns vinte minutos possivelmente? Depois de deixar duas mensagens virtualmente incoerentes na secretaria eletrônica de Quinn, claro.

Deu-se a volta e se sentou na cama. Tampouco era de estranhar que não estivesse navegando pela fofa terra dos sonhos, dadas as circunstâncias. Seus pensamentos se detiveram um instante em Dina e o bebê e depois em Morris. Estremeceu-se quando a reação retardada caiu finalmente sobre ela.

— Poderia ter sido eu. Morris estava tentando me matar. — sussurrou, depois se abraçou os joelhos e começou a balançar-se. Um estremecimento abriu passo por seu corpo até que ficou ali sentada, tremendo, com as lágrimas deslizando-se por suas bochechas — E não foi o único. Esses caras desta noite… Se ele não tivesse ali…

Conlan.

Só de pensar em seu nome podia conjurar seu rosto. Maçãs do rosto elegantes, aristocráticas. Uma mandíbula forte. Uns lábios que o mais artístico dos anjos devia havê-los esculpido.

Um calafrio de calor lhe encrespou no abdômen.

E esse beijo. Foi… Tremendo. Oh, não te passe, Riley. Anjos, por favor. Nem que fosse a primeira vez que viu um cara bonito.

— Ninguém como ele. — sussurrou à escuridão de seu dormitório — Jamais alguém como ele. Nunca alguém que pudesse entrar em minha mente.

Exceto Quinn. Sua irmã e ela sempre tinham podido compartilhar uma forma de comunicação quase telepática. Jamais lhe deram muita importância, todo mundo sabia que os gêmeos se comunicavam de forma especial e só dez meses separavam a elas, quase podiam ser gêmeas.

Mas nunca com nenhuma outra pessoa. Nunca com um estranho. E nunca com um homem incrivelmente maravilhoso que lhe tinha salvado a vida… Ou, como mínimo, que a salvou de um ataque atroz.

“Conlan.”

E então uma voz, doce mas insistente, penetrou em sua cabeça.

“Sim, estou aqui.”

E, depois sua preocupação, áspera e feroz.

“Necessita-me? Está em perigo?”

Riley levantou uma mão, como se pudesse tocar as cores das emoções que giravam em seu interior. E não eram suas emoções.

Eram as dele.

— Posto que é um sonho, não vejo por que não vou responder você. Porque isto tem que ser um sonho, não? É só um pouco do DSPT para pôr a cereja final ao dia. — Riley secou as lágrimas com a mão.

Sim. Tinha que ser isso. Porque aquilo não tinha acontecido em realidade. Ninguém podia fazer com que o oceano se comportasse assim. Nem sequer os vampiros.

“O que é o DSPT? E por que mente a você mesma? Sabe que sou real, aknasha. Ouve-me em sua mente. Sente minhas emoções, embora não tenho nem ideia de como pode ser possível.”

Riley começou a rir, não podia evitá-lo. Ao escutar essa voz masculina era como se ondas frescas do oceano lhe acariciassem as terminações nervosas e suavizassem suas bordas.

Como se a atravessassem e convertessem sua calma em excitação em só dez segundos.

Como é possível?

— Muito bem, dom da minha Imaginação. Que diabo! Lá vou. DSPT significa Desordem de Stress Pós-Traumático. É o que acontece comigo depois de Morris ter estado a ponto de me matar com um tiro. — começou a rir outra vez — E, aparentemente, as minhas alucinações não são elefantes rosa. Eu tenho que conjurar um cara muito bonito, o que é uma merda, e ainda por cima é capaz de compartilhar seus pensamentos e emoções comigo.

Levantou-se e se dirigiu ao banheiro.

— Tenho que ter drogas por alguma parte. Possivelmente só um pouco de Valium ?

E então o fogo outra vez, e as emoções masculinas se escureceram.

“Alguém te disparou?”

Aquele tom baixo, perigoso. Um calafrio diferente a acariciou ao sentir o domínio puro daquela voz.

Tampouco é que ela fosse das que fazia corpo mole diante de um macho alfa protetor.

— Estou bem. Está morto, assim não ponha agora em plano “eu sou a lei”.

Mas voltou a escutar aquela voz, e esta vez a fez deter-se em seco; havia algo arrogante e puramente masculino em suas palavras.

“Assim acredita que sou muito bonito, né?”

Riley pôs os olhos em branco. Era evidente que até na Alucinalândia os homens tinham uns egos enormes. Perguntou-se distraída o que mais aquele cara teria enorme, depois se conteve quando ficou vermelha como um tomate.

“Não vá por aí, Riley. Pode ser que só sejam imaginações tuas.”, disse o homem, uma certa sombra de racionalidade e humor tingia as palavras que ouvia em sua mente. “Possivelmente não deveria olhar pela janela.”

— O que? — correu à janela, levantou as persianas de repente e ficou olhando com ar selvagem seu diminuto jardim.

Quatro, não, cinco homens, de pé, ali abaixo, rodeavam a Conlan desenhando uma coisa parecida a um círculo. Observou que todos eram do tamanho de Conlan e que todos estavam vestidos de negro antes de voltar a cravar os olhos na figura que se encontrava sozinha no meio.

E que a olhava dali.

— Ai, merda, é você. — sussurrou enquanto apoiava as palmas das mãos na janela, presa nos olhos do homem.

“Sim, pois sou eu. E se só sou imaginação sua, esta imaginação pode te dizer que lhe agradeceria muito se… Repensasse… Seus trajes antes de aparecer diante de meus homens?”

A voz que Riley ouvia em sua mente adotou um tom rouco.

“Não é que não saiba apreciar o vestuário de noite que escolheu.”

Riley baixou os olhos, olhou-se e lhe arderam as bochechas. Só usava um top verde velho e gasto, que tinha “Para cima, Garotas Espertas” bordado com fio dourado esvaído, em cima de uma calcinha de renda.

Uma calcinha bastante pequena, para falar a verdade.

Com o rosto em chamas, Riley se separou da janela, não sabia muito bem se o que sentia era medo, vergonha ou excitação ao ver que era um homem real.

Real e de pé diante de sua casa.

Decidiu-se por uma combinação das três coisas, de repente sua respiração se tornou superficial e rápida. Mas esteve dentro de seu coração, de suas lembranças, até de sua alma de algum modo, e o único que tinha visto era honra e integridade, nem rastro de tendências homicidas, não parecia um assassino em série.

Bom, pois não se tratava da opção A: imaginação dela. Maldita fosse, tudo aquilo era muito confuso.

Em qualquer caso tinha umas quantas perguntas que lhe fazer. Era assistente social, pelo amor de Deus. Ficava em perigo todos os dias. E esteve no interior da mente desse homem. Sabia que não tinha intenção de lhe fazer dano. Não estava muito segura de como sabia, mas sabia.

Enquanto vestia um par de jeans pôs-se a rir sem muita vontade.

— Perigo é meu segundo nome.

A voz ressonou em sua mente, voltava a estar de muito bom humor. Pois que bom que pudesse entretê-lo tanto.

De fato, podia sentir literalmente a risada masculina que se frisava em seu interior enquanto ele falava. Ou que lhe enviava em ondas. Ou o que fosse.

“Seriamente? Eu haveria dito que era Problema.”

Riley sorriu antes de dar-se conta sequer. Seu primeiro sorriso em muito tempo.

— Pois será melhor que te prepare para um bom problema, Conlan, se não puder me dar uma explicação decente do que está fazendo diante de minha casa.

O sorriso se desvaneceu do rosto feminino. Genial, havia uma Opção B: aquele tipo era uma espécie de perseguidor raro. Como se já não tivesse tido bastante por uma só noite.

Para uma vida inteira.

Mas não era estúpida. Nem covarde tampouco. Riley colocou uma jaqueta com um par de puxões e agarrou um telefone para poder discar o 911 a toda velocidade se fosse necessário. Depois desceu as escadas correndo e jogou uma olhada pela mira da porta. Sim, ainda estava ali. Conlan e uns homens que estava claro que também eram da Terra dos Grandes.

Respirou fundo e abriu a porta de um puxão. E foi então quando se armou a grande bagunça.

Vampiros.

Estava chovendo vampiros. Estavam-se materializando diante de seus olhos.

É obvio tinha visto vampiros antes, como todo mundo. E não só na CNN. Os tinha visto de perto, rondando pelos becos e esconderijos da cidade. Procurando vítimas que estivessem dispostas, oferecendo a esquiva promessa da imortalidade, atraindo aos jovens, os fracos, os desesperados.

Mas jamais viu duas dúzias inteiras caindo do céu, precipitando-se sobre a diminuta extensão de grama que tinha diante de casa.

A mesma grama onde se encontrava Conlan com seus homens.

Recuperou-se de repente da impressão e gritou para adverti-los.

— Cuidado, Conlan! Vampiros!

Mas tanto ele como seus homens já tinham levantado a cabeça e estavam desembainhando uma espécie de adaga. As lâminas cintilaram como cobre encravado de diamantes, bonito e mortal.

Algo assim como o próprio homem.

“Riley, volta para dentro!” Bramou Conlan em sua mente. “Fecha essa maldita porta e te esconda.”

Mas a jovem permaneceu ali, imóvel, com o telefone esquecido na mão. O silêncio era surrealista, as cenas de brigas dos filmes sempre estavam cheias de armaduras estrelando-se umas contra outras e gritos.

Mas a briga que tinha adiante era muito mais aterradora pela ausência quase absoluta de som.

O vampiro maior aterrissou diante de Conlan com a espada na mão. Ele cruzou as adagas para bloquear o golpe e depois as desceu de súbito, com sanha, para golpear o braço esquerdo do vampiro. Com um movimento repentino subiu o braço, cravou a adaga no coração de seu atacante e o vampiro se derrubou.

Chegaram mais homens correndo pela esquina de sua casa. Iam vestidos com couro negro e casacos longos, como uma espécie de bando de motoristas aterradores. Um deles, com o cabelo azul e trançado até a cintura, foi o que quebrou o silêncio. Rugiu algo, um nome, um desafio, algo que soou a “Poseidon!”, e depois voou pelo ar em um salto selvagem, com uma espada e uma adaga levantadas para frente. Aterrissou em cima de um vampiro que tinha tentado, sem conseguir, afastar-se com um giro.

Cabelo azul cravou as duas armas no pescoço do vampiro, girou o que com toda clareza eram uns braços muito poderosos sem deixar de chiar como uma fera e depois voltou a tirar as lâminas de um puxão.

Riley ficou ali plantada, sem piscar, o combate corpo a corpo e o jogo de espadas bramavam na noite a seu redor.

Com os olhos cravados na cabeça do vampiro.

A cabeça que se desprendeu do corpo e rodou até deter-se a menos de um metro, justo ao lado de suas azáleas adormecidas.

Agarrou-se ao marco da porta com uma mão e sacudiu pouco a pouco a cabeça de um lado a outro, um torvelinho de névoa ameaçava obscurecendo sua linha de visão…

Bom, isso não pode ocorrer, não? Porque ninguém decapita vampiros em minha grama, não? Não pode ser bom para a erva. Nem para as azáleas.

Ela reconheceu os sintomas, objetivamente falando. Estava entrando em estado de choque. Intumescimento, visão cinza, o frio…

Então levantou os olhos e se encontrou com o olhar de Conlan. Aquele homem havia sentido seu terror. Devia havê-lo distraído, porque Riley se deu conta de que não advertiu ao vampiro que saltou sobre ele por detrás, lhe apontando à costas com a espada.

O intumescimento se fez pedaços.

— Nãoo! — chiou enquanto saía do alpendre de um salto e se lançava para aqueles dois.

Sem pensar. Quão único a empurrava era a urgência. Tinha que ajudá-lo. Tinha que protegê-lo.

Devo protegê-lo.

— Deixa-o em paz! — gritou.

Saltou sobre as costas do vampiro e lhe rodeou o pescoço para agarrá-lo pela garganta. Para estrangulá-lo.

Mas já era muito tarde. O vampiro lhe vaiou quando tirou a espada jorrando de sangue, o sangue de Conlan.

— Deixa-o em paz de uma vez! — repetiu Riley, cega de cólera.

As aulas de autodefesa sortiram efeito, procurou algo com os dedos e os cravou com uma tática que mal recordava.

“Vai por seus olhos, Riley. Por muito grande que seja, sempre pode ir pelos olhos.”

Incrustou-lhe os dedos e teve arcadas ao sentir que as unhas cravavam em algo mole. O vampiro lançou um grito agônico e se girou ao tempo que lhe arrancava os braços de seu corpo.

E a esmagava contra o chão.

O vampiro se girou segurando os olhos cheios de lágrimas e Riley tentou arrastar-se para trás para escapar. Depois, o vampiro voltou a rugir de raiva, lançando cuspe pelas presas retorcidas e gretadas, e voltou a concentrar-se em Conlan, que jazia muito quieto ao lado de Riley. O vampiro jogou para trás uma bota, era óbvio que planejava chutar a cabeça de Conlan.

Riley aspirou uma corrente de ar e gritou com todas as suas forças. Depois se lançou diante do vampiro para lhe bloquear o pé de algum modo e evitar que esmagasse o crânio de Conlan.

Foi então quando um granizo de folhas de cobre fatiou o ar sobre ela e aterrissou no peito e na garganta do vampiro, cujo pé vacilou um momento. O vampiro se cambaleou.

Um arco de fogo azul, ou possivelmente uma corrente elétrica, uma coisa não humana, humano não podia ser, nem sequer os vampiros tinham bolas de fogo azuis, mas que caralho? Saiu disparado das mãos de um dos homens de Conlan e incinerou a cabeça do vampiro.

Incinerada.

Arrasada.

Quando se derrubou sobre a forma quieta de Conlan, Riley começou a rir.

E já não pôde parar. Riu sem parar, sem saber muito bem quando a risada se converteu em pranto, até que ao fim elevou os olhos e viu o círculo de homens que a olhavam com as lâminas desembainhadas. Palpitava-lhe a cabeça, doía-lhe, tinha a sensação de que estava a ponto de partir-se pelas reverberações de… Que, com exatidão?

O que estava um pouco mais afastado dos outros inclinou a cabeça e cravou nela um olhar verde e gelado. Era muito bonito, como todos outros, mas em seus olhos não havia nada. Estavam mortos. Em seu trabalho, Riley havia visto criminosos curtidos, reincidentes, com mais emoção em seus olhos que aquele.

— A ferida de Conlan não é grave. A folha estava recoberta de veneno, a dose teria sido letal para um humano. — afirmou o homem enquanto a observava com arrogância — Não será maior problema lhe limpar o sangue.

Riley soluçou um pouco e depois lhe lançou um olhar furioso e desafiante.

— Parece um assassino em série, colega. Mas seja quem for, a menos que possa ajudar de verdade ao Conlan, vai ter que passar por cima de mim para chegar até ele.

Um grito afogado coletivo surgiu entre outros. Os seis, não os sete, tinham estado a ponto de não ver que estava atirado no chão com o sangue jorrando pela cabeça, quando a levantou para olhá-la.

— Tentou protegê-lo quando nós falhamos. — disse entre dentes enquanto se secava o sangue dos olhos com uma mão — E nós, que juramos servi-lo…

Outro dos homens, um que se parecia muitíssimo a Conlan, assentiu com expressão lúgubre e depois lançou uma gargalhada.

— A garota te calou, rato do templo.

O que gargalhou fincou um joelho no chão, diante dela, o sorriso se desvaneceu entre a expressão sombria e inclinou a cabeça.

— Jamais vimos coragem como a sua entre os humanos, senhora. Ofereceu sua vida para proteger a meu irmão. Mas deve deixar que nosso curador o ajude.

Riley segurou a cabeça, tentava evitar que lhe rachasse ali mesmo. A emoção a tinha silenciado ao reconhecer a fonte daquela dor atordoada. Era ele. Que tinha ajoelhado diante dela.

Não, não de tudo. Olhou-os a todos e o assombro afogou ao medo. Eram todos, suas emoções. Sua raiva e sua dor.

Riley esticou uma mão para o homem enorme que afirmava ser o irmão de Conlan, tocou-lhe com suavidade o braço e depois se afastou com um estremecimento.

— Medo por seu irmão. Fúria e vingança… Quem é Terminus?

Quando o homem abriu muito os olhos, no que se refletiu a impressão que também sentia Riley, a jovem examinou ao resto do grupo. Cores, muitas cores, dor, a percussão, os tambores da fúria de todos que lhe esmurravam o cérebro.

O coração. A alma.

Muito. Muito.

Muito, muito, muito…

Esboçou seu melhor sorriso, o mais profissional.

— Olá, sou sua nova assistente social. — um sorriso e juntou as mãos com gesto recatado — Mas já tive o bastante, obrigado. — sussurrou.

Depois fechou os olhos e pela segunda vez essa noite, pela segunda vez em toda sua vida, deslizou-se em um estado de inconsciência.

Mas o ouviu, ouviu o irmão de Conlan quando caiu pelo poço escuro de silêncio, no negrume. Ouviu a emoção em sua voz.

— Leu-me, Alaric. Minhas emoções. E é possível que estivesse sondando meus pensamentos. Estava lendo a todos nós.

 

Barrabás levantou a cabeça e vaiou. Drakos levantou os olhos dos mapas que tinha na mesa do aposento privado de Barrabás.

— Meu senhor? O que acontece?

— É Terminus. — grunhiu Barrabás enquanto esmagava um abajur e o atirava ao chão —Está morto.

— Mas…

— Permanentemente morto. O vínculo que o unia a mim se rompeu. Senti sua violência, sua cólera, como deve sentir um senhor de vampiros toda sua linhagem. — era um aviso muito pouco sutil. Drakos não pertencia à linhagem de Barrabás, assim que este sempre se enfrentava a uma pontada de dúvida sobre ele — Algo… Algo novo, Drakos. Estamos enfrentando a algo novo, e seja o que for, seja quem for, pode manipular os elementos.

Drakos girou a cabeça para olhar a porta de aço incrustada no muro da cripta.

— É Anubisa? Segue convencido de que pretende retornar a Ragnarok?

— A Perdição dos Deuses. Possivelmente. É a filha-mulher de Chaos. O que outra coisa procuraria? Não se alimenta de sangue, mas sim de terror e desespero.

Como faria eu se pudesse, e cada vez mais, à medida que passam os anos.

Drakos interrompeu os pensamentos de seu senhor.

— É hora de consultar os pergaminhos?

Barrabás ficou olhando a seu general mais brilhante e refletiu um momento.

É leal? Posso confiar nele? Acaso importa? Se me ajudar a descobrir as respostas que necessito, pode sofrer um acidente com bastante facilidade.

Barrabás cruzou até a cripta.

— Acredito que é possível.

 

As terminações nervosas de Conlan arderam e a dor lhe abrasou o corpo. Despertou com um rugido e apanhou a garganta da figura que tinha diante de si.

— Morte aos apóstatas de Algolagnia!

E se olhou nos olhos compassivos de Alaric.

Depois soltou o punho que apertava como um torno a garganta do sacerdote e afastou os olhos. A compaixão era quão único jamais pensava tolerar, nem nesse momento nem nunca.

Precisava… Necessitava…

— Riley? — perguntou com a voz rouca.

O processo de cura sempre lhe queimava o corpo e lhe deixava a garganta irritada, como se estivesse ressecada. Jogou uma olhada à camisa rasgada e ensanguentada e à pele lisa, intacta; a última vez que a tinha visto a atravessava a ponta de uma espada, e assim soube que necessitou uma ajuda de Alaric.

Outra dívida para pagar.

Alaric intercambiou um olhar com Ven, que se encontrava ao outro lado de Conlan, e depois voltou a olhar a Conlan.

— Não sofreu danos. —disse.

Conlan se levantou com esforço e se sentou na borda da cama, depois examinou a sala que reconheceu como parte de uma das casas seguras de Ven. Não mudou muito desde a última vez que a tinha visto, apesar dos anos.

O mesmo mobiliário funcional. Os pôsteres dos mesmos filmes nas paredes.

Um par de predadores o olharam com desprezo do pôster de “Komodo contra Cobra” que havia em frente a cama. Conlan olhou às bestas gigantes e depois a seus conselheiros e esteve a ponto de começar a rir. Não saberia por quem apostar se qualquer dos dois tinham que ver-se contra seu irmão ou Alaric.

Claro que, pensando-o bem, os répteis não teriam nada que fazer.

— Sim, certo, não sofreu danos físicos. — acrescentou Ven com tom crítico.

Conlan se levantou e girou em volta para olhar a seu irmão.

— O que quer dizer com isso de “físicos”? Está ferida? É que um desses filhos da puta vampiros lhe fez algo com uma espécie de truque mental?

Custava-lhe respirar, quase tanto como manter-se em pé, mas os outros não iriam inteirar-se. Já era suficiente que Alaric tivesse passe-livre a sua mente cada vez que o sanava.

Ven sacudiu a cabeça.

— Não, apesar da parte em que se lançou diante da bota do vampiro para proteger essa tua cabeçona. Ei, ouça, isso foi bom, quando saltou em cima do chupa sangue que te trespassou com a espada.

Desapareceu o sangue do rosto de Conlan e a debilidade dos joelhos se duplicou.

— Ficou em perigo por mim? Onde está? Tenho que vê-la agora. Tenho que…

Alaric o interrompeu sem alterar-se.

— Possivelmente você possa querer dizer alguma coisa ao jovem Denal, que acredita que, apesar de que o superavam em número, como três contra um…

— Sim, e apesar da ferida que tinha na cabeça. — interpôs Ven.

— Acredita que falhou com seu príncipe. — continuou Alaric, cujos olhos se cravaram em Conlan cuspindo fogo verde — Possivelmente queira te expor o bem-estar de seus homens antes de perguntar pelo de uma humana.

Conlan apertou os punhos, estava-o invadindo a ira e estava a ponto de perder os estribos, assim se obrigou a acalmar-se.

— Possivelmente, — se burlou — possivelmente queira me dizer onde estão todos para que possa vê-lo por mim mesmo.

Ven assinalou com a mão a porta sala e Conlan se dirigiu para ela, primeiro vacilante, mas logo recuperando as forças à medida que caminhava. Quando chegou à porta, deteve-se e se deu volta para olhar a Alaric. Recordou seu dever, por muito que as palavras lhe engasgassem na garganta.

— Agradeço a cura. E possivelmente, em lugar de brigar, poderia averiguar por que em minha mente não há nada mais que essa mulher humana que acabo de conhecer.

Ven se pôs-se a rir.

— Caralho, Conlan, isso eu posso te dizer. Ela é muito bonita, caralho…

Conlan girou em volta e levantou as mãos quase sem dar-se conta para agarrar a Ven pelo peito da camisa.

— É melhor que se cale agora mesmo, irmão. — grunhiu — Compara-a com suas putas e terá que responder por isso.

Ven lançou um assobio sem deixar-se impressionar, depois separou os dedos de Conlan de sua camisa.

— Terei que responder por isso, não é? Se colocou agora em plano formal comigo, velho irmãozinho, é que tem que ser uma garota muito especial.

— Especial, sem dúvida. E eu diria que perigosa também. — disse Alaric em voz baixa.

Conlan fez caso omisso e saiu pela porta; por fim conseguiu limpar a bruma que invadia seu cérebro tempo suficiente para recordar que podia tocar a mente de Riley. Mas quando tentou, não percebeu nada.

Coisa que não contribuiu para tranquilizá-lo muito, de fato, nada.

Ven o levou por um curto corredor até um dos vários dormitórios da casa e abriu a porta. Conlan viu uma forma aconchegada sob a colcha, imóvel.

Atravessou-o uma pontada de medo. Agarrou-se ao braço de Ven com um punho de ferro, tanto para evitar correr para ela como para sustentar-se.

— Disse-me que não tinha sofrido danos.

— Relaxe, homem. Deu a sensação de que se fechava em si mesma, mentalmente falando. Sobrecarga de dados, ou algo assim. E não é de se estranhar, depois do que fez. — Ven esboçou uns quantos detalhes da batalha, incluindo o papel de Riley nela.

Conlan ficou ali plantado, escutou que uma frágil humana tinha posto sua vida em perigo por ele e a dor lhe apunhalou o peito. Mais ou menos na zona do coração que acreditava haver perdido.

Quando Ven chegou ao momento no que Riley se enfrentou a Alaric, os olhos de Conlan brilharam.

— Isso deve ter sido pior que colocar um peixe-espada pelo traseiro. Uma “simples humana” enfrentando-se ao supremo sacerdote de Poseidon? Maldita seja, é valente. — depois se estremeceu e sentiu que o embargava uma onda de ódio por si mesmo — Claro que deveria ter estado protegendo-a eu a ela. A ela e ao resto de vocês.

Ven lhe pôs uma mão no ombro.

— Relaxe, irmão. Não havia forma de saber que os vampiros se dedicam agora a recobrir as lâminas de veneno. Essa ferida nem sequer te teria freado se não tivesse sido pelo veneno.

Conlan afastou os olhos de Riley sem vontades e olhou a seu irmão.

— E o resto dos Sete? Há algum ferido?

— Vamos, mostrarei-lhe isso enquanto Riley dorme um pouco. Sobre tudo cortes e machucados, nada que não se fizessem em uma boa partida de Tlachtli. — disse.

Conlan quase começou a rir. Só Ven podia comparar uma batalha mortal com o antigo jogo atlante de bola. Claro que os astecas sacrificavam aos perdedores quando jogavam, não?

Desceram pelo corredor para a sala que Ven tinha convertido em uma sala de jogos e televisão.

— Deram uma boa porrada na cabeça de Denal. Por sorte, tem o crânio quase tão duro como o teu. Mas parece pó, em plano “Oh, falhei a meu senhor” e demais. Possivelmente queira lhe dizer algo.

Conlan apertou a mandíbula.

— Eu já sou crescido. Não me importo com o que acontece. Mas você, e todos, têm que proteger a Riley por mim.

Ven abriu a boca e logo a voltou a fechar de repente.

— Bom. Pois vou querer saber o que te fez essa garota para te pôr assim e n… Quanto tempo? Umas quantas horas?

Conlan suspirou enquanto dobravam a esquina.

— Sei, também gostaria de sabê-lo, não creia.

Os seis guerreiros que vadiavam na sala se quadraram de uma forma ou outra quando entraram Conlan e Ven. Justice, com a onipresente espada embainhada à costas, estava apoiado na parede contrária, no pôster do filme Godzilla. Deixou de estudar um momento a vista que oferecia a única janela da sala e lhe lançou uma saudação zombadora com dois dedos a Conlan, depois se virou para olhar outra vez para fora.

Bastien e Christophe estavam jogando uma partida na mesa de hóquei aéreo da esquina. A enorme mão de Bastien tragava o maço que utilizava para bater no disco.

Os dois levantaram a vista e o olharam, mas o guri não deixou de lançar o disco amarelo de um lado a outro da mesa.

Brennan tirou o som da televisão e depois se levantou pouco a pouco do sofá. Olhou a Conlan com uma expressão tão imutável como sempre. Poseidon tinha amaldiçoado ao Brennan por uma transgressão menor em que estava envolvida a filha de um senador romano e lhe tinha tirado todas suas emoções.

Salvo que, possivelmente, o feito de não ter emoções não era uma maldição, a não ser uma bênção.

Conlan não estava muito seguro. Sobre tudo quando sua mente não deixava de tentar tocar a Riley, que seguia ali deitada, sem responder.

Alexios abaixou a cabeça, um costume novo. Depois a levantou com ar desafiante e afastou o cabelo do rosto com uma sacudida. A terrível cicatriz captou o brilho dos abajures, a luz desenhou sombras sobre os cumes retorcidos e os vales da pele do guerreiro.

Conlan recordou que Alexios, com seus olhos de cor azul escuro e sua longa juba de cabelo castanho e dourado, sempre se tinha visto obrigado a tirar de cima às mulheres. Seus olhos voltaram a pousar nas cicatrizes do lado esquerdo do rosto de seu guerreiro. Aquele rosto repeliria a uma mulher ou a dor que angustiava aqueles olhos a atrairia?

Não era uma pergunta que Conlan lhe tivesse ocorrido fazer. Nem antes, nem nunca, salvo porque era consciente da presença de Riley em sua mente.

Conlan se encontrou com o olhar de Alexios.

— Não te envergonhe jamais das cicatrizes que ganhou me defendendo de Anubisa e sua praga de guardiãs vampiros, irmão.

Alexios emitiu um som, quase um grunhido, no mais profundo da garganta.

— Cicatrizes que ganhei quando não pude lhes defender, dirão, meu senhor. Igual fracassamos esta noite ao lhe proteger.

Outro som baixo, interrompido de repente, atraiu a atenção de Conlan, que se deu volta para olhar a outra esquina da grande sala, onde viu Denal meio sentado, meio jogado contra o respaldo de outro sofá.

— Denal, curou-se? — perguntou Conlan enquanto se aproximava com passo firme para falar com o mais jovem dos membros de sua guarda.

Denal fez uma careta.

— Sarei. Estou cansado, mas são. Salvo o coração, meu príncipe. Meu coração está desolado por lhe haver falhado. — Denal colocou a mão no coração, elevou a cabeça e olhou a Conlan — Por favor, tome minha vida agora.

Conlan piscou.

— Que faça o que?

Ven bufou e se colocou justo detrás de Conlan, a sua direita.

— O guri leu muitos pergaminhos antigos. Além disso, é a primeira vez que sobe.

Ven se agachou com ar tranquilo junto ao jovem.

— Cara, seu vocabulário tem que entrar no século vinte e um.

— Cara. — lhe grunhiu o guerreiro — Expresse como quiser, mas a verdade não muda. Eu era o que estava mais perto de Conlan quando esse vampiro o atacou. Deveria ter cravado a lâmina em mim.

Conlan esticou o braço para pousar a mão com suavidade na cabeça de Denal durante um instante.

— Entretanto, Ven me contou que você estava enfrentando a três vampiros sozinho, incluindo outro que tentou me arrancar as tripas, não? E não recebeu um golpe de machado em um lado da cabeça?

Denal baixou os olhos, mas assentiu.

— Só era o lado plano do machado, meu senhor.

Bastien o interrompeu, sua voz baixa era um trovão.

— Sim, e pelo menos foi na cabeça. Por aí não há nada que mereça a pena. Estamos como um deuses.

Conlan sentiu vontade de rir ao ouvir as conhecidas brincadeiras de Bastien, mas sabia que Denal era muito formal para entender que seu príncipe não estava rindo dele. Conteve o sorriso e olhou com expressão séria a seu guerreiro mais jovem.

— Graças a Poseidon que foi o extremo plano do machado, ou te teria partido a cabeça em dois. E se acabou o de “meu senhor” e “meu príncipe”. Chame-me de Conlan. — girou a tempo para ver que Justice bufava e punha os olhos em branco — Tem algo a dizer, Justice?

O guerreiro se separou da parede e se espreguiçou como um leopardo preparando-se para atacar. Era estranho, Conlan sempre tinha recordado a um animal da selva. Inclusive com o cabelo azul.

— Conlan, príncipe, chamemos como quiser, fica uma coisa por dizer… inda não nos contou o que lhe ocorreu. O que Anubisa lhe fez.

Justice baixou o olhar um instante e depois percorreu o corpo inteiro de Conlan, sua expressão logo que estava a uma fração de resultar insultante.

— Não sabemos se ficou… Comprometido. Ou sim?

Como um só, Ven e Christophe foram para Justice.

—Vou te tirar na porrada daqui por isso, azulzinho. — grunhiu Ven.

Christophe não disse nada, limitou-se a levantar uma mão e franzir o cenho. Formou-lhe uma bola resplandecente de energia na palma da mão.

Conlan também levantou uma mão, mas para evitar o enfrentamento.

— Já está bom! — ordenou — Deixe-o em paz. Tem seu ponto de razão.

A voz de Alaric ressonou da porta.

— Ele teria tido se não tivesse sido eu o que o curou. Tanto antes como agora. — Alaric entrou com passo firme na sala e se deteve justo no meio — Algum de vocês duvida dos poderes de Poseidon?

Nem sequer Justice se atrevia a blasfemar. Como um só, sete cabeças se sacudiram de um lado a outro.

Nem rastro de dúvida por ali.

Alaric esboçou aquele aterrador sorriso tão próprio dele, o que fazia que até o lorde atlante mais ambicioso entregasse ao Templo do Poseidon o dízimo completo.

— Como deve ser. O processo de cura não é só físico. Vejo as intenções autênticas e as lembranças mais escuras daquele ao que sano. — cravou os olhos em Conlan — Ninguém corrompeu a nosso príncipe, embora qualquer de vocês estariam corrompidos. É mais forte inclusive do que ele mesmo acredita .

Conlan afastou o olhar. A ideia de que Alaric compartilhasse suas lembranças sobre a tortura e o fogo não era muito consoladora, precisamente.

Mercadoria danificada. Pervertido além de toda redenção.

Anubisa era a rainha das mentiras e, entretanto, possivelmente houvesse um quê de verdade no que lhe disse tantas vezes.

Alaric continuou.

— Deixados a mercê do delicado roce de Anubisa, a maioria de vocês, teriam caído. Conlan retornou para nós inteiro. Mais forte que antes. Não volte a questionar seu governo diante de mim, lorde Justice.

Justice inclinou a cabeça. Ou assentia ou esperava o momento para desafiá-lo. Conlan decidiu preocupar-se com isso em outro momento.

Alaric fez um gesto quase casual com uma mão e a bola de energia que seguia brilhando na mão de Christophe se apagou. O guerreiro levou a mão à boca com um vaio de fúria.

— E você não brinque com o poder diante de mim, garoto. — lhe disse Alaric — Rechaçou as constrições do Templo.

Christophe, que já fazia mais de dois séculos que tinha deixado de ser um moço, já fosse grande ou pequeno, deu um passo para Alaric. O desafio perfilava cada um dos músculos tensos do pescoço e a garganta do atlante.

— O poder de Poseidon não se limita a aqueles que permitiram que o Templo cortasse seus ovos, sacerdote. O poder de invocar a água e os outros elementos está a disposição daqueles que se atrevem a utilizá-lo.

Os olhos de Alaric resplandeceram de tal modo que foi como se um foco de luz verde e penetrante cintilasse sobre o rosto de Christophe.

— Não acredito que queira abrir um debate sobre ovos com alguém que enfrentou ao Rito do Esquecimento e sobreviveu. Não há eunucos em meu templo, garoto. — disse recalcando a última palavra.

Christophe não se arredou.

— Sim, certo, o rito de aceitação como Guerreiro de Poseidon tampouco é um lanche para celebrar o solstício. Possivelmente deveria recordar isso, velho.

Conlan se interpôs entre os dois, embora Christophe já tivesse demonstrado o senso comum suficiente para afastar-se de uma vez.

— Já está bem. Temos que nos concentrar no Tridente, como não deixa de me recordar, Alaric. Não saldar velhas contas, nem abrir outras novas, justo aqui, diante da mesa de hóquei.

Depois se dirigiu a Christophe.

— E não todos os elementos, Christophe. Sabe que o fogo está proibido para os Guerreiros de Poseidon, para todos os atlantes.

Bastien esmagou o disco contra a portaria com um floreio.

— Sim, ninguém seria tão idiota para brincar com fogo, meu pri... Isto é, Conlan. Estamos como deus. Por que Alaric e você não descansam um pouco para que possamos sair amanhã pela manhã cedo? Temos que arrebentar a uns quantos Micenas.

Alaric assentiu.

— Admito que preciso descansar depois de realizar suas curas. Foi necessário um esforço considerável para dispersar esse veneno.

Conlan notou pela primeira vez que o rosto de Alaric era de uma cor quase cinza e amaldiçoou baixo. Um governante deveria ser consciente da saúde e as necessidades de todos seus súditos. Inclusive dos mais fortes.

Sim, certo, como governante dou asco. Isso não há quem o discuta.

— Descanse. — ordenou — Eu estarei com Riley. Ven, organiza os turnos de vigilância. Pode…

Ven pôs os olhos em branco.

— Sei o que tenho que fazer, Conlan. Não é a primeira vez.

Conlan inclinou a cabeça e recorreu de novo à linguagem formal para recalcar suas exigências.

— Deixo minhas tarefas nas mãos do Vingador do Rei. E todos os outros, recordem seu primeiro treinamento e protejam suas emoções.

Não havia outra forma de dizê-lo, só podia fazê-lo sem rodeios.

— Riley é aknasha.

Ouviu que todos continham o fôlego e viu que Alaric entrecerrava os olhos, depois esperou.

Brennan falou pela primeira vez desde que Conlan tinha entrado na sala.

— Isso explicaria sua reação depois da batalha. Se necessitar amparo, possivelmente o mais adequado seja eu, dado que não tenho emoções com as que afligir seus sentido.s — disse com voz serena — Faria com que minha maldição servisse para alguma coisa, pelo menos uma vez.

Conlan entrecerrou os olhos e procurou no rosto de seu guerreiro algum sinal de amargura, mas só encontrou a calma paciente com a que Brennan se enfrentava sempre ao mundo. Uma espiral de cólera lhe agitou as tripas ante a ideia que Brennan, ou qualquer outro homem, passasse tempo com Riley.

Pois bem. Tenho que me controlar, merda.

— Obrigado, Brennan. Discutiremos os planos pela manhã, mas te agradeço o oferecimento. — disse enquanto inclinava a cabeça para aquele guerreiro incapaz de experimentar nada.

Depois se voltou para Ven.

— Preciso descansar um pouco para terminar de me recuperar. Dê-me até o amanhecer, a menos que haja alguma outra crise.

Conlan jogou um último olhar ao Justice com os olhos entrecerrados e saiu da habitação. Depois foi ver Riley, que estava mandando pequenas ondas que indicavam que começava a recuperar a consciência.

Ao descer pelo corredor, ouviu Bastien falar.

— Ven, o que acontece com essa tal Riley? Uma empática emocional depois de tantos milhares de anos? Que merda está acontecendo?

Conlan sacudiu a cabeça, um impulso quase magnético o empurrava para o quarto da jovem.

Oxalá soubesse.

 

Alaric esperou até que ouviu que os passos de Conlan chegavam ao quarto de Riley e depois se deu volta e olhou aos Sete.

— Temos que falar desta humana, desta aknasha em potencial, e o que vamos fazer sobre ela.

Ven se apoiou em uma estante bem sortida.

— Pretende sustentar esta conversa nas costas de meu irmão? — a voz era serena. A expressão dos olhos não — Aproxima-te perigosamente à traição, meu amigo.

— Agora mesmo é possível que não se mostre muito receptivo a certos raciocínios. — respondeu Alaric — Não se pode dizer que esteja atuando de forma racional no que se refere a essa garota. Não notou que não se questionou sequer a presença desses vampiros?

Justice deu as costas à janela para lançar um olhar sardônico a Alaric.

— E, entretanto, quando fui eu o que mencionei que possivelmente não fosse muito racional, saltou para minha jugular.

Alaric negou com a cabeça com ar desdenhoso.

— Aqui não se trata de que Anubisa o comprometeu ou não. Já lhes disse que não e me atenho a meu pronunciamento. Entretanto, suas ações com respeito a esta mulher humana não são de todo lógicas.

Alexios fez um ruído com a garganta, algo que quase poderia considerar um grunhido.

— E você, entre todos, queria lhe negar uma distração de seus pesadelos? Da tortura que persegue-o sem dúvida noite e dia?

Alaric se perguntou se Alexios estava falando da tortura de Conlan ou da sua própria.

Perguntou-se se o próprio Alexios sabia.

Depois desprezou a questão, era irrelevante.

— Eu não lhe negaria nada, e sobre tudo não o meio de sua ascensão. Entretanto, cada hora que Reisen mantém o Tridente em seu poder, Conlan está uma hora mais perto de perder o trono de Atlântida.

Bastien estrelou o disco contra a mesa, apertou o punho e os enormes músculos de seus braços se esticaram.

— Vou colocar o punho pela garganta de Reisen e lhe arrancar os rins. Vou cortar os ovos e ele vai usar como brinco. Penso converter pessoalmente em eunuco a cada guerreiro da Casa de Micenas.

Ven tirou uma de suas adagas da bainha e examinou o fio.

— Oh, estou seguro de que não vai faltar ajuda com isso, meu amigo. E falando de vampiros, de que merda ia isso? Encontramo-nos com suficientes durante nossas patrulhas, mas tentamos não deixar testemunhas. Por que de repente um grupo de chupa sangues nos atacou?

Deteve-se de repente, ficou sem sangue no rosto e as linhas que lhe emolduravam a boca empalideceram.

— Anubisa. Finalmente quebrou a maldição que lhe impedia de falar com os vampiros de nós, é isso? — Ven devolveu a adaga a sua bainha com um golpe seco — Estamos perdidos, merda.

Brennan, imperturbável como sempre, ficou muito quieto.

— Mas os vampiros foram por nós ou o objetivo era a mulher? Era Terminus o que dirigia a matilha. É um dos generais nos que Barrabás mais confia. Do que lhe ia servir Riley a Barrabás? É que reconheceu seus poderes empáticos?

Juntou as mãos diante dele e fez uma pirâmide com os dedos.

— Faz mais de dois mil anos que tentamos caçar Barrabás, sem êxito, e os humanos o escolhem como membro de seu governo. O senador Barnes. Têm que admitir que a ironia é deliciosa.

Justice deu um murro ao respaldo do sofá.

— Tem um sentido muito fodido do que é delicioso, guerreiro. No que a mim diz respeito, o único que significa é que ultimamente é mais visível. Melhor para mim, assim posso encontrá-lo, agarrá-lo e lhe cortar essa asquerosa cabeça de idiota.

Brennan moveu a cabeça uma fração e cravou os olhos em Alaric sem fazer nenhum caso a Justice.

— É mais, a questão segue sendo a mesma, Alaric. Segue carecendo da energia necessária para averiguar o paradeiro do Tridente?

Alaric fechou os olhos e mandou seus sentidos para explorar a noite. Mas a energia requerida para limpar o veneno da corrente sanguínea de Conlan tinha drenado todos os seus recursos. Não sentia nada, nem sequer a mais ligeira ressonância do Tridente.

E sua perda era como uma ferida aberta em sua alma.

Meu dever. Meu dever como supremo sacerdote era proteger o Tridente do deus do mar. Meu fracasso.

Abriu os olhos e sentiu o peso de todas os olhares sobre ele.

— Devo descansar. Não sinto o poder do Tridente. Reisen e seu guerreiros o estão ocultando de mim, sem dúvida, mas certamente poderei perceber a localização do Tridente quando me tiver recuperado da cura. — Alaric pensou um pouco mais e depois sacudiu a cabeça — Não sei o que pensar deste ataque. Mas têm que saber uma coisa: se Reisen tiver se aliado de algum modo com os não mortos, a vingança de Poseidon será tão cruel que essa palavra ficará despojada de todo seu significado.

Do sofá onde se encolheu de lado, Denal riu com amargura e depois deu um murro na perna.

— Vampiros. Reisen. Uma humana que demonstra mais coragem que eu. Sou um autêntico inútil. Primeiro, fracasso na hora de proteger a meu príncipe e depois permito que nosso sacerdote desperdice sua energia sanando minha desprezível cabeça.

Justice se inclinou e lhe deu um cascudo à cabeça já sã de Denal.

— Sim. Bom trabalho em sua primeira missão, guri.

Denal se levantou de um salto do sofá e se lançou para Justice, mas Alaric já havia suportado mais que suficiente. Com um gesto quase negligente agitou uma mão e fez que Denal ficasse imóvel no ar, em pleno passo longo.

Justice lançou um assobio, mas se separou de Denal.

— Bom truque, cara. Pode me ensinar isso .

A visão que Alaric tinha da sala mudou e adquiriu um tom verde esmeralda; soube então que os limites de seu autocontrole tinham estalado por fim.

Brennan se adiantou um passo.

— O poder do deus do mar brota com ferocidade de seus olhos, supremo sacerdote, é uma advertência. Possivelmente me permita intervir e escoltá-lo até um lugar onde possa descansar?

Christophe esboçou um amplo sorriso.

— Sim, vai esfriar um pouco, cara . Não lhe ponha isso em modo “o poder dos deuses” agora.

A falta de emoções do Brennan combinada com a irreverência de Christophe, devolveram certa serenidade a Alaric. O fulgor verde diminuiu e ficou olhando a cada um dos Guerreiros, que se foram inclinando ante ele.

Todos salvo Ven, que se limitou a esboçar um sorriso enviesado.

— Sim, sim, é o lobo feroz, é o coco, que horror. Mas ainda não decidimos o que vamos fazer com esta mulher. Além disso, Barrabás ficará muito puto, quando averiguar que temos feito picadinho a seu general.

Alaric soltou Denal, que caiu com um ruído seco ao chão.

— Levaremos a mulher à Atlântida, ao Templo. Estudaremos-la e averiguaremos se é aknasha de verdade. É mais, investigaremos os pergaminhos antigos em busca de algo sobre a fusão das almas. — respondeu Alaric, tocado de repente pelos dedos gelados do medo.

— A o que? — perguntou Bastien com o cenho franzido.

Alaric os estudou e pesou quanto podia lhes revelar. Se Conlan tinha achado a fusão das almas, coisa da que se escreveu pela última vez há mais de dez mil anos antes, com uma humana, aquilo ia convulsionar a tradição atlante até os alicerces.

Tudo mudaria. Absolutamente tudo.

Lutou contra a premonição e enquadrou os ombros.

— Não é nada do que terão que preocupar-se neste momento. Quanto aos vampiros, seguiremos derrotando-os, como havemos feito durante milênios. — fez uma pausa e depois assentiu pouco a pouco — E quanto à mulher, se supuser uma ameaça para Conlan, nós a mataremos.

 

Riley despertou de um sonho inquieto no que homens com rostos duros e olhos reluzentes tentavam assassiná-la. Girou para olhar o despertador e ver quanto tinha conseguido descansar dessa vez. Salvo que o despertador não estava em sua mesinha de noite.

E já que pensava, essa não era sua mesinha de noite.

Levantou-se de repente, de repente estava completamente acordada, e brigou com o edredom que a cravava à cama. Não era seu edredom. Nem sua cama.

Onde caralho estou?

Quando a porta começou a abrir, deixou escapar um gritinho e rodou da cama com edredom e tudo antes de levantar a cabeça imediatamente para ficar olhando ao intruso que estava ao outro lado da cama.

— É você. — ofegou quando Conlan encheu o marco da porta.

Cada centímetro musculoso daquele homem, ali plantado, só com as calças e a camisa desabotoada. Não pôde evitá-lo, Riley ficou olhando. Aquele homem era puro músculo, da atroz cicatriz que tinha na garganta, até o peito, o abdômen esculpido e, se seguia descendo…

A jovem voltou a levantar os olhos com uma sacudida, ardiam-lhe as bochechas e provou com um pouco de sacanagem em plano, “que conste que não te estava comendo com os olhos”.

— Tem que deixar de me assediar de uma vez.

Os lábios masculinos se crisparam com um meio sorriso e depois seu rosto adotou de novo uma expressão séria.

— Estou aqui para lhe oferecer meu agradecimento, minha senhora.

Consciente do ridículo aspecto que oferecia, sentada no chão e presa por um edredom, Riley tentou comportar-se com certa dignidade.

— Por que está falando como se estivesse em Camelot? Em um momento fala com normalidade e ao seguinte parece sir Lancelot ou algo assim.

Afastou-se o cabelo do rosto e se perguntou se estava muito feia. Não é que fosse o melhor momento para ficar em plano “garota linda”, mas se sentia um pouco insegura diante do Adônis ou quem caralho fosse aquele cara.

Conlan se pôs a rir um pouco e esse som apaziguou o torvelinho de pensamentos de Riley, penetrou em seu interior e envolveu os espaços vazios que encontrou.

Não tinha sentido, nada daquilo tinha sentido. Como era possível que alguém ao que acabava de conhecer encaixasse como a peça de um quebra-cabeças nas bordas desiguais que a compunham? Riley jamais acreditou no amor a primeira vista, nem no destino, nem em nada que tivesse a ver com o romantismo.

Via os resultados disso que chamavam de amor cada dia em seu trabalho. Via-o e tentava recolher os pedaços. Era suficiente para fazer que até o Cupido começasse a beber.

Mas havia algo naquele homem…

— Tem razão. — disse Conlan entrando no quarto e fechando a porta a suas costas — Às vezes esquecemos a linguagem moderna que aprendemos com os anos. Sobre tudo em momentos de crise, quando revertemos à formalidade por questões de protocolo. — depois inclinou a cabeça — Permitam-me, me desculpar, não obstante. Merece mais de mim do que posso expressar com palavras.

Riley sentiu uma corrente de emoção que brotava dele, como se tivesse aberto uma porta e os sentimentos saíssem por ali. Remorso. Pena. Uma dor intensa, mordaz.

Levou-se uma mão à cabeça, esperava que a inundação de emoções dos outros a atravessasse a cabeça como um furacão em qualquer momento, mas, por sorte, as emoções de todos os outros pareciam mais surdas, mitigadas. Tinha a mente envolta em algodões, fechada.

Autodefesa?

Por que não recordava o que tinha acontecido? Tinha visto o Conlan pela janela e logo…

— Onde estou? Por que tenho uma bruma na cabeça? Por que está… Oh, chifres, quer dar a volta um minuto nada mais?

O homem levantou uma daquelas sobrancelhas escuras e elegantes, depois assentiu uma vez e obedeceu.

— Está em um lugar seguro. Sua cabeça está recuperando-se sem dúvida da inundação de emoções que lhe colocaram antes. — respondeu Conlan — Pedi a meus guerreiros que lhe ocultem suas emoções. Deveria me haver dado conta de que te resultaria doloroso ver-se submetida a tantos de uma vez. Sinto muito.

Riley saiu como pôde do edredom e se levantou.

— Não tem que continuar te desculpando, Conlan. Mas possivelmente poderia me dizer que caralho está acontecendo.

É muito menos embaraçoso olhá-lo ao rosto do que contemplar esses quase dois metros do chão.

— Muito bem, Conlan, já pode dar a volta. E eu gostaria de receber umas quantas respostas. Em primeiro lugar, está…

E no meio da palavra, a gaze que lhe cobria a mente se elevou e voltou a recordar tudo. A batalha. A espada. Conlan caindo… Tornando-se muito quieto.

Abriu muito os olhos e pôs-se a andar, depois a correr para ele, rodeando a cama.

— Oh, merda bendita! Estava… Estava morto! Ou quase morto! Por que anda por aí? Deveria estar em um hospital!

Alcançou-o, agarrou-lhe a camisa e lhe deu um puxão para procurar a horrenda ferida de espada que devia… Tinha que estar… Não estava ali.

— Não está. — disse pouco a pouco — Como é possível?

Um pouco aturdida lhe pôs a palma da mão sobre o coração, esperando. E então o sentiu. O batimento do coração. Os músculos do peito masculino se esticaram sob sua mão, Riley levantou a cabeça, olhou a mandíbula apertada do homem e tirou a mão de repente.

— Não é um vampiro, porque te pulsa o coração. — disse — É um troca-formas? Que classe de pelo vai sair?

Afastou-se procurando alguma janela, uma porta, um guarda do zoológico, possivelmente. Qualquer tipo de ajuda.

O homem pôs-se a rir outra vez.

— Não me vai sair nenhum tipo de pelo , minha valente. Não sou nada que você conheça.

— Eu que o diga. — murmurou a jovem.

De repente, como em um impulso, o homem se ajoelhou diante dela. Até ajoelhado a cabeça do cara lhe chegava pelo peito, lhe recordando de novo o tamanho e a força que tinha.

Não se podia dizer que fosse a classe de cara com a que queria estar sozinha em um quarto.

Salvo… Salvo que ela tinha estado dentro de sua mente. E não havia nada, salvo integridade, nas emoções que ela havia sentido. Não sabia como sabia, mas assim era.

O homem levantou a cabeça e a olhou, com os olhos negros absortos nela. Era o homem mais bonito que tinha visto na sua vida, mais atrativo do que se imaginou que podia chegar a ser um homem. Possivelmente estava sonhando.

A diminuta chama de luz verde azulada que tinha acreditado imaginar em seus olhos voltou a piscar no centro de suas pupilas.

— Jurei proteger a toda a humanidade e, salvo por um breve espaço de tempo, hei cumprido com meu papel durante séculos. Mas esta noite, em um só momento, você me mostrou mais coragem do que eu jamais vi.

Riley começou a falar, mas ele o impediu lhe agarrando as mãos entre as suas.

— Tem minha gratidão e estará sob meu amparo a partir de agora e até que as ondas já não toquem a costa.

Era como se lhe fizesse uma promessa… Um voto sagrado.

De repente, estava custando muito para Riley recordar por que não deveria querer ouvir as promessas ou votos daquele homem. Salvo… Salvo… Algo que havia dito…

— Humanidade? Bom, aí fora ficou bastante claro que não é humano, com tanta bola de energia incineradora de vampiros. Assim, que demônios é? — disse rompendo desse modo o transe em que aquelas palavras a tinham cativado e afastando-se um pouco.

Conlan sorriu e se levantou sem esforço.

— Não sou nenhum demônio dos nove infernos. — disse — Sou Conlan, de Atlântida.

Riley lançou uma gargalhada.

— Sim, certo. Como não. E eu sou Alice, do País das Maravilhas.

Depois sacudiu a cabeça. A avó de Alice tinha acertado.

Curiosa, curiosa e curiosa.

 

Conlan levou as mãos às costas e as entrelaçou. Não podia deixar que aquela garota soubesse o que lhe estava custando permanecer no mesmo quarto que ela.

A sós.

Com uma cama gigante ocupando quase tudo. Cada parte de seu corpo se esticava em apenas pensar em envolvê-la de novo naquele edredom.

Poder envolvê-la em seus braços.

Mas que diabos dos nove infernos lhe acontecia? Era pior que um recruta brincalhão recém saído da academia. Ele jamais tinha reagido assim ante uma mulher.

Ante nenhuma mulher. E sobre tudo se fosse humana. Nem sequer ante uma que parecia acalorada e meio adormecida, igual a se acabasse de despertar de uma noite de prazer entre seus braços.

Concentre-se.

Cruzou-lhe pela cabeça, como um brilho, a donzela atlante que tinham selecionado para ele.

A ditosa política atlante, arcaica, fria e morta.

Ao contrário da mulher que tinha adiante, cálida e viva.

— Ao vermelho vivo, inclusive. — murmurou.

Riley só deixou de afastar-se dele quando topou com a cama. O olhar masculino lhe acariciou as pernas. Quilômetros e quilômetros de pernas. Umas pernas intermináveis envoltas em uns jeans cômodos, esvaídos.

Queria sentir aquelas pernas ao redor de sua cintura.

Uns peitos tentadores inclusive embaixo daquela jaqueta muito grande, o bastante generosos para que pudesse vê-los apertados contra o tecido quando sua proprietária fazia certos movimentos. Tinha-os sentido contra seu peito na praia. E sua cintura desenhava uma curva perfeita. Do tamanho perfeito para suas mãos.

Era exuberante e deliciosa. Não um pau de mulher como a figura que estava na moda essa década. Podia segurá-la debaixo dele, afundar-se nela sem preocupar-se se por acaso ia quebrá-la, encher as mãos com seu corpo…

— A Atlântida, claro. — disse Riley outra vez, arrancando-o de suas fantasias e possivelmente inclusive evitando que gozasse ali mesmo, nas calças.

Conlan amaldiçoou baixo em atlante antigo.

— E já pode deixá-lo agora mesmo. — continuou a jovem com as bochechas coloridas outra vez. Tão coloridas como quando lhe tinha olhado o peito. Com apenas pensá-lo, voltou para abrasar uma onda de calor. Depois deu um passo para ela.

— Deixar o que? — deu outro passo.

Riley falou sem fôlego, com a voz rouca.

— Deixar de me olhar as pernas. Deixar de me olhar como se estivesse no menu. Deixar de te aproximar tanto. Deixar de ser tão… Tão… Tão excessivo.

— Excessivo? — outro passo.

A jovem levantou as mãos como se quisesse espantá-lo, embora o outro estivesse ainda a cinco passos dela.

— E deixa de repetir tudo o que digo. — disse Riley dando um pulo no chão.

Aquilo lhe fez sorrir. Que fera! Não era de estranhar que não pudesse tira-la da cabeça.

Estava metido em uma confusão.

E não se importava.

— Se te prometer que deixo de repetir suas palavras, posso dar outro passo? — perguntou ele, bebendo-lhe com os olhos.

Sob o fulgor dourado do abajur da mesinha, seu cabelo era como a luz da casa refletido em âmbar. Um raio de sol na cúpula dourada do Templo de Poseidon. Uns olhos tão azuis como a superfície do oceano ao anoitecer.

Maldita fosse, de repente se tinha convertido em um poeta. Estava perdendo a cabeça. Possivelmente outro passo a mais não fosse tão boa ideia. Deixou de caminhar.

Riley negou com a cabeça e depois assentiu.

— Não acredito… Sim, não, aghhh! Por que é tão difícil pensar a seu redor?

Conlan cruzou os braços e recuperou a prudência de repente.

— Essa sim que é uma boa pergunta. — disse com os olhos entrecerrados — Por que tem esse efeito sobre mim? O que é? Como é que pode acessar aos atalhos mentais dos atlantes e, o que é mais importante, como é que pode sentir nossas emoções? Como é que posso sentir as tuas? É uma arma enviada para pôr a prova minhas defesas?

— Uma arma, sim, claro, seu idiota… Não sou nenhuma arma, sou assistente social. — Riley começou a andar de lado para rodear a cama — E já vejo que voltamos de volta a Atlântida. É do continente perdido. Um produto da imaginação de Platão que supostamente desapareceu faz mais de onze mil anos. Essa Atlântida?

Conlan descruzou os braços e deu outro passo para ela. Não podia evitá-lo. Não queria evitá-lo.

— Platão foi castigado por sua loquacidade em Critias e em Timeo. O poeta Sólon não deveria ter compartilhado com Platão os segredos que aquele sacerdote egípcio lhe tinha contado. Mas nossos descendentes sabem manter os segredos de Atlântida.

Outro passo mais. Alcançou-o o incitante aroma feminino. Fresco. Um pouco floral com um toque de folhagem. Samambaias oceânicas, possivelmente.

Respirou fundo e soube que poderia encontrá-la só por seu aroma depois desse momento. Adorava sentir o aroma daquela mulher em seu nariz.

Queria sentir seu sabor na boca. Doíam-lhe as mãos de vontade de sentir sua pele. Riley seguia olhando-o. Ah, sim. Algo sobre continentes.

— Não é que seja um continente perdido. Nós sempre soubemos onde estamos. — disse — Nos limitamos a desenvolver certas defesas para ocultar as Sete Ilhas de sua tecnologia. — sorriu — Esse invento dos submarinos esteve a ponto de ser um problema durante um tempo.

A jovem se afastou e rodeou por completo a cama.

— Certo, pois mostre-me as guelras.

Aquilo pegou ao Conlan totalmente despreparado, ficou olhando-a durante um momento, depois jogou a cabeça para trás e lançou uma gargalhada estrondosa.

Riley o olhou como se estivesse louco.

Claro que possivelmente não se equivocasse muito. Certamente estava louco.

Recuperou o fôlego e sacudiu a cabeça.

— Obrigado por isso, aknasha. Precisava rir um pouco depois do ocorrido esta noite. — Lhe desvaneceu o sorriso — Depois dos últimos sete anos, na realidade.

Tomou uma decisão, separou-se dela e se deixou cair em uma poltrona que havia na esquina do quarto.

— Se ficar aqui sentado, longe de você, sentiria-se o bastante segura para escutar o que tenho que dizer?

Tremente, como se estivesse a ponto de fugir, Riley o olhou fixamente durante vários segundos. Ao fim pareceu tomar uma decisão. Assentiu e se sentou na cama com as pernas cruzadas.

— Sim, vou te escutar. É muito estranho, mas já me sinto segura. Ou possivelmente não seja tão estranho, tendo em conta o que aconteceu antes na praia.

Conlan só queria sinceridade entre os dois.

— Esteve dentro de minha mente, Riley. Foi um pouco desejado ou não, agora me conhece a um nível mais profundo que a maior parte das pessoas. Possivelmente a um nível mais profundo que ninguém, além de nosso curador.

A jovem ficou olhando, vacilante, depois assentiu.

— E a estas alturas já deve saber que eu também estive dentro de sua mente. — disse ele, quase com medo de admiti-lo — Vi sua bondade e sua abnegação. Conheço você.

A menos que o engano daquela mulher estivesse oculto atrás de algum truque mental, que burlou a mente de Conlan. Quem sabia do que era capaz um autêntico empático?

Riley saltou da cama e começou a passear-se de um lado a outro diante dele.

— Não sabe nada. — disse com amargura — Bondade? Sim, certo. Só sou alguém que tenta fazer seu trabalho o melhor que pode e pelo geral fracassa miseravelmente.

Deteve-se diante dele, tão perto que Conlan podia esticar a mão e tocá-la. Teve que agarrar-se aos braços da poltrona para não fazê-lo.

Para não tocá-la.

Maldita seja.

Tinha tanta vontade de tocá-la.

— Conta-me. — disse em seu lugar.

— Sim, como não. É da mítica Atlântida e quer ouvir falar de um dia na vida de uma assistente social?

— Conta-me. — repetiu ele, lhe abrindo a mente para que ela percebesse que o que dizia era verdade, que soubesse que ele queria saber tudo sobre ela.

Uma expressão de assombro banhou o rosto feminino.

— Assim quer sabê-lo de verdade?

— Sim.

Riley se deteve um momento e depois se afundou no tapete, perto dele. Logo, quase como se estivesse em transe, relatou-lhe o ocorrido durante todo aquele dia. Enquanto lhe contava a história da garota da pistola, Conlan teve que lutar com todas as suas forças para não perder o controle e que ela não visse a cólera que o embargava. Queria matar. Queria quebrar, rasgar e atravessar a parede com o punho.

Mas não fez nada disso, limitou-se a ficar sentado com uma máscara de serenidade no rosto, recorrendo a seu treinamento com desespero, tratando de não perder a objetividade.

Como aquela mulher podia afetá-lo tanto?

Contemplou-a ali sentada, diante dele, com o rosto angustiado enquanto lhe falava dos meninos que tentava resgatar. Meninas que tinham meninos. A desesperada luta contra a pobreza e uma sociedade que não tinha tempo para as almas perdidas.

E enquanto ela falava, enquanto ele sentia as emoções que subjaziam nessas palavras, a pergunta que governava sua mente mudou.

Como não lhe ia afetar tanto aquela mulher?

As palavras de Riley foram perdendo força.

— E foi então quando você apareceu. Suponho que já conhece o resto. Possivelmente agora possa me dizer exatamente quem e o que é e por que me seguiu até minha casa. — olhou a seu redor, piscou e contemplou o quarto, depois se levantou com certo esforço, precavida outra vez. — E já que estamos falando nisso, também pode me dizer onde caralho estou.

Conlan se levantou com lentidão para não assustá-la.

— Deu-me uma lição de humildade, Riley. Devo corresponder a sua honestidade com a minha. Sou um dos chefes dos Guerreiros de Poseidon e jurei proteger a humanidade.

Agarrou-se um dos lados da camisa e o afastou para lhe mostrar a marca de Poseidon que levava. No lado direito superior do peito, onde o próprio deus do mar tinha gravado a fogo o símbolo dos Guerreiros de Poseidon na carne de Conlan.

O círculo que representava a todos os povos do mundo, interseptado pela pirâmide de conhecimento transferido pelos antepassados. A silhueta do Tridente de Poseidon dividindo as duas figuras.

— Esta marca que levo é a prova de meu voto sagrado. E entretanto, pelo que ouvi entre linhas em seu relato, esta noite você merece levá-la mais que eu.

Riley levantou a mão, quase como se quisesse desenhar o símbolo com as gemas dos dedos. Depois afastou a mão e sorriu.

— Volta a recorrer à linguagem formal. — disse — Por alguma razão recorda a minha mãe, me chiando quando me metia em uma confusão. Quando me chamava “Riley Elisabeth Dawson” significava que tinha me metido em uma confusão muito grande.

— Riley Elisabeth. — repetiu o atlante saboreando o som — Fica bem. Forte e feminino ao mesmo tempo.

Por alguma razão, sem dar-se conta, aproximou-se um pouco mais a ela. O calor que desprendia o corpo feminino, a sedução das curvas de seu corpo, a linha de seu pescoço, atraiu-o sem poder evitá-lo. Riley levantou a cabeça e o olhou. Em seus olhos, um brilho alarmado se converteu em consciência do que estava acontecendo.

Ainda podia senti-la em seu interior. Seus pensamentos, suas emoções. Queria sentir seu corpo no interior dessa mulher.

Conlan levantou as mãos e as pousou nos braços femininos para atraí-la para ele. Pouco a pouco. Com doçura. Dando-lhe tempo para que o rechaçasse.

Rezando para que não o fizesse.

Deu um passo para frente para encontrar-se com ela a meio caminho. Bebeu seu aroma.

Ansiava enterrar o rosto no cabelo sedoso que caía pelos ombros femininos.

Ansiava enterrar o corpo nesse calor.

Pelos ovos de Poseidon, precisava tocá-la outra vez. Precisava beijá-la outra vez.

— Riley. — gemeu — Por favor.

A jovem sabia com exatidão o que queria. Viu-o quando a consciência do que estava acontecendo trocou naqueles olhos e se converteu em espera.

Antecipação.

Riley levantou a cabeça e lhe roçou os lábios com os seus. E ele se perdeu então.

Perdeu-se na sensação, nas cores que cintilavam na mente feminina, na dele também, nas mentes dos dois. Perdeu-se na sensação da suavidade do corpo feminino apertado contra sua dureza. O beijo se aprofundou.

Aprofundou-o ele. Conlan introduziu a língua na boca cálida, doce e acolhedora de Riley e os joelhos estiveram a ponto de dobrar-se quando lhe rodeou o pescoço com os braços e o apertou ainda mais.

Calor, cores e uma corrente de necessidade. Apanhado no torvelinho, em um ciclone, uma galés  oceânica total e absoluta de desejo, Conlan a apertou entre seus braços e a levantou até que os pés da jovem já não tocaram o chão. Os peitos femininos se esfregaram contra o peito nu do atlante, que gemeu no mais profundo de sua garganta e da dela, no espaço apanhado entre ambas as bocas.

Riley levantou as pernas e rodeou os quadris dele, agitando-se para poder apoiar-se em seu corpo, o calor que sentia entre as pernas ficou de repente apoiado no membro de Conlan. Por incrível que parecesse, o atlante se endureceu ainda mais, estava seguro de que ia arrebentar as calças, ia rasgar a camisa dela, lhe ia arrancar os jeans. Ia averiguar se as cores de sua cabeça se intensificavam e convertiam em uma explosão de cor quando se introduzisse nela com todas as suas forças.

A paixão que enchia seus sentidos o atravessou com a força de um foguete, como um estalo.

Ou possivelmente não, maldita fosse. Isso era a porta, que se abriu de repente.

Conlan girou em volta para enfrentar-se à ameaça com um grunhido, enquanto baixava Riley e a empurrava atrás dele ao mesmo tempo.

Minha. Minha e eu a protejo. Minha!

Quem estava na porta era Ven, com a boca aberta pela segunda vez essa noite.

— Isto, agora. Bom. Errr, sinto a interrupção, mas Alaric acredita que precisa descansar e estão, bom, estão emitindo umas vibrações sexuais tão tremendas que todos os homens da casa estão em... Incômodos.

Riley emitiu um som afogado a suas costas. Conlan sentiu as ondas de vergonha que brotavam dela, assim lutou para recuperar a compostura e respirou fundo.

“Ven. Meu irmão. Não é uma ameaça.”

— Eu… Certo. Vou descansar. — voltou a respirar fundo para tentar tranquilizar-se. Alaric. O Tridente — Foi capaz de se localizar o Tridente?

Ven sacudiu a cabeça com uma expressão divertida estampada no rosto.

— Não, precisa recuperar-se da cura. Mas utilizou umas quantas palavras pouco aduladoras para descrever como está, bom, impedindo de descansar.

Ao Conlan não custou imaginar até que ponto seu irmão estava editando a linguagem empregada por Alaric. Se Riley estava difundindo aquele forno de desejo sexual a todos os guerreiros da casa, e ainda por cima ao sacerdote, que havia feito um voto de celibato, bom…

Merda.

— Sim, entendi. — disse, ainda lhe custava respirar — Riley também precisa descansar. — esperou que seu irmão agarrasse a indireta e se fosse, mas Ven não era dos que se andavam com sutilezas.

— Não vai nos apresentar , irmão? — Ven seguia ali plantado, sem dar sinais de querer mover-se e sorrindo como se fosse idiota.

Conlan abriu a boca para lhe dar um bom corte, mas Riley o surpreendeu saindo de trás dele.

— Olhe, Tarzan, posso estar envergonhada, mas tampouco é que tenha que me proteger de seu próprio irmão, não?

Riley se dirigiu para Ven, que lançou uma gargalhada ao ouvir o “Tarzan”. A jovem caminhou para ele com os ombros quadrados, como se tentasse parecer indiferente.

— Sou Riley.

Quando lhe estendeu a mão a seu irmão, Conlan deu um passo mais sem querer e sentiu um grunhido profundo na garganta antes de conter-se.

Depois levantou a cabeça de repente e ficou olhando a Ven, assustado por sua própria reação. E pela expressão deste, Conlan também tinha surpreendido a seu irmão.

Conlan fincou os dedos nas coxas e lutou para recuperar o controle. Mas o que estava acontecendo?

Ven afastou os olhos de Conlan com expressão precavida e agarrou a mão de Riley para estreitar-lhe com suavidade.

— Pode me chamar de Ven.

E então Ven fez algo que surpreendeu a Conlan como poucas vezes. Fez uma profunda reverência, desembainhado suas adagas com um movimento fluído e as cruzou sobre o peito.

— Meus serviços e minha honra são seus, lady Raio de sol, por ter defendido a meu irmão e príncipe.

Riley voltou a cabeça de repente e ficou olhando a Conlan horrorizada.

— Príncipe? Ele disse príncipe?

Ven se ergueu.

— Oh… Oh. Acreditei que o havia dito, Conlan, já que vamos levá-la para casa para estudá-la.

O brilho das emoções de Riley se intensificou e depois se fechou de repente na cabeça de Conlan.

A jovem apoiou os punhos nos quadris.

— Príncipe? — repetiu, sua voz havia se tornado perigosamente baixa — Leva quem a casa, à Atlântida? E para estudar o que, com exatidão?

Os lábios de Ven tremeram, era evidente que estava evitando tornar-se a rir. Conlan jurou para si com ar sombrio que as pagaria, todas juntas. Que fosse o Vingador do Rei não significava que seu irmão não pudesse lhe pegar duas porradas.

— Bem, mais uma vez. — repetiu Ven — Até mais tarde, cara. Parece-me que vocês tem mais coisas para discutir .

Quando Ven saiu do quarto e fechou a porta atrás dele, Conlan suspirou com autêntico pesar.

— Alguma possibilidade que possamos voltar para a parte dos beijos? — perguntou enquanto tentava adotar sua expressão mais inocente.

Riley entrecerrou os olhos.

— Comece… A… Falar.

O atlante suspirou outra vez.

— Sim. Já me parecia.

 

Riley voltou a rodear a cama, precisava pôr um pouco de espaço entre ela e Conlan. Ou possivelmente deveria dizer, o príncipe Conlan.

Príncipe Conlan. Maldita realeza atlante. Mas em que se colocou essa vez? E por que aquele homem tinha que cheirar tão bem? A especiarias e oceano, um homem puro, sem adulterar?

Entre aquele delicioso aroma, aquele corpo incrível e a voz sensual, deveria saber que não podia ser humano. Mas se o último encontro dela tinha sido com um advogado que tinha muito mais cérebro que músculos!

E não é que pensasse que Conlan não tinha cérebro. Tinha estado dentro de sua mente e tinha podido vislumbrar sua inteligência. A maior parte do que dizia demonstrava que era um homem lógico e com grandes aptidões analíticas. Mas quando a tocava, bom, digamos que a lógica saía voando pela janela. Pela janela dos dois, deve ser dito, e por deformar por completo a metáfora.

— Depois de viver uma década com troca-formas e vampiros que virtualmente se poderia dizer que saíram dos mitos e lendas e invadiram as ruas, mas caralho, se invadiram até o Congresso; a ideia de Atlântida… Tampouco é tão difícil de acreditar que poderia ter sido. —admitiu Riley — Além disso está esse truque tão fanfarrão que fez com a água. Tem sentido que um atlante seja capaz de dominar a água, não?

Conlan esboçou aquele sorriso lento e pecaminoso que tinha, assim Riley se apressou a continuar antes que pudesse distraí-la com outra coisa.

— Bom, e pode falar com os peixes? E as guelras? Tem-nas? E se for assim, onde? Quer dizer, é… Né, tem… Partes normais?

O atlante piscou e depois pôs-se a rir quando a jovem se avermelhava.

— Alguma vez diz o que se espera de você, não? — perguntou.

Depois sorriu e levantou as mãos com as palmas para cima. Uma luz resplandecente de cor verde azulada emanou das duas e se disparou com uma chispada, rodou e caiu como uma espiral em uma cascata de luz que rodeou o quarto e entrou no banheiro.

Em uns segundos, a borda da espiral de luz retornou ao quarto, mas com uma surpreendente diferença. A luz girou convertida em um túnel formando redemoinhos de água. O tubo de líquido, de uns cinco ou seis centímetros de grossura, curvou-se e se lançou em picado pelo quarto. Rodeou-a enquanto ela ficava muito quieta, imóvel, com a boca aberta.

Depois retornou junto a Conlan e o rodeou, pareceu lhe acariciar o corpo durante um momento e depois se desvaneceu no interior de sua pele.

Salvo que o homem não estava molhado.

Riley fechou a boca de repente, segura de que parecia idiota, sobre tudo quando o sorriso dele se converteu em uma gargalhada.

Maldito fosse, o cara estava bom o bastante para comer-lhe quando ria. Os nervos de Riley, crispados já pela overdose de testosterona, está bem, de acordo, pela tensão sexual pura e dura que reinava no quarto, esgotaram-se um pouco mais.

Apoiou-se na parede e se esfregou os braços com as mãos para tentar desfazer-se do arrepio.

— Não, não estou acostumada a fazer o que se espera de mim. — disse para tentar recuperar a normalidade de sua conversa anterior — Deveria ouvir as coisas que minha irmã fazia para evitar que soltasse seu segredos diante dos meninos. Um truque muito bom o da água, por certo.

Conlan se sentou sem esforço na poltrona, mantendo-se a distância, era evidente que tentava tranquilizá-la.

— Obrigado, também sei fazer animais com globos.

— Estou segura.

O atlante lhe sorriu.

— Eu não tenho irmãs. Só somos Ven e eu. Tem alguma outra irmã? Ou irmãos?

— Não, só somos nós duas. Mamãe e papai morreram quando éramos pequenas e desenvolvemos uma certa mentalidade “nós contra o mundo”. Os pais adotivos… — a jovem se mordeu o lábio — Aprendemos a não amar a ninguém. Ama a alguém e então se vão.

Livrou-se da melancolia com um gesto. Tampouco ele queria ouvir essas coisas. Salvo que sim parecia lhe interessar. Tinha a sensação de que lhe interessava de verdade.

— Quinn é… Bom, é frágil. Eu sempre cuidei dela, embora ela era um pouco mais velha. — a verdade era que não tinha sentido compartilhar sua história familiar enquanto se refugiava contra a parede, assim deu um passo precavido e se encarapitou na borda da cama.

Pronta para afastar-se de um salto se ele se aproximasse muito.

Ou mas bem pronta para lhe saltar em cima se lhe aproximasse muito?

Tirou-se a ideia da cabeça sem piedade.

Nada de pensar em sexo, nada de pensar em sexo, nada…

— De pensar em sexo. — disse Conlan.

— O que? — ofegou ela, assombrada por ouvi-lo expressar o que em realidade eram os pensamentos dela.

Salvo que não deveria estranhar, dada a forma em que tinham compartilhado suas emoções. Contudo, notou que voltava a ficar como um tomate outra vez. Uma das grandes alegrias de ser ruiva era a tendência a ruborizar-se como um vulcão. Não se podia dizer que fosse muito útil em uma partida de pôquer.

Conlan juntou as mãos, pousou-as no colo e depois levantou a cabeça para olhá-la nos olhos.

— Temos que falar disto. A intensidade. Da atração que há entre nós, que é intensa. É realmente… — se deteve e pigarreou — Intensa.

Riley riu um pouco.

— Sim. Já vejo que segundo você é intensa. Bom, não é que eu vá por aí saltando em cima de todos os príncipes estrangeiros maciços que me cruzam pela frente. Tampouco é que passem muitos membros da realeza por meu bairro, mas já sabe ao que me refiro. Intensa.

Aquele sorriso presunçoso, tão masculino, voltou a invadir o rosto do atlante, coisa que, apesar de todos os princípios feministas que tinha sempre defendido, quão único conseguiu foi que gostaria de lhe colocar um bocado.

Por toda parte.

Invadiu-a uma onda de calor e voltou a gemer.

— Conlan, não sei o que é tudo isto. Poderia ser… Poderia ser uma espécie de efeito secundário por ler suas emoções? Possivelmente vá reagir assim com todos os atlantes que conheça.

O homem ficou rígido imediatamente na cadeira e se inclinou para frente. As mãos que tinha apertadas no colo ficaram com os nódulos brancos.

— Pela razão que seja, Riley, — grunhiu com os dentes apertados — aparentemente não levo muito bem a ideia de que reações assim aconteçam com qualquer outro homem, atlante ou o que seja.

Riley o observou enquanto ele lutava de forma visível para recuperar o controle, lhe dispararam as aletas do nariz quando respirou fundo e as linhas brancas se aprofundaram nas comissuras da boca. Pensar que era ela a que provocava isso, a que o fazia perder o controle, embora fosse um pouco, punha-a em sintonia, por estranho que fosse.

E muito.

Sobre tudo porque não tinha a sensação de que aquele homem fosse dos que perdia o controle muitas vezes. Depois de tudo, tinha visto o interior de sua mente. Um controle rígido, dever e honra. Não havia muita espontaneidade nem felicidade despreocupada.

E a dor. Ah, jamais esqueceria essa dor.

— Conlan, não é que me pareça bem isso de que te pendure das árvores e grite te golpeando o peito, mas acredito que não vai ser um problema. — aventurou Riley — Depois de tudo, quase esqueceu que seu irmão estava no quarto. Inclusive se parece com você, e deve ter um montão desse DNA atlante cheio de superpoderes, não?

Conlan sorriu um pouco e assentiu, sem deixar de apertar as mãos.

— Bom, pois não houve nada. Zero. — disse ela encolhendo-se de ombros — A meu ver, ele está muito bom e tudo isso…

Conlan voltou a emitir aquele estranho grunhido gutural e Riley levantou as mãos com as palmas para fora.

— Queria dizer que não está mau e isso, mas não senti a necessidade de lhe arrancar a roupa e lambê-lo inteiro nem nada. — terminou com um sorriso.

E então se deu conta do que acabava de dizer, por implicação.

Oh, merda.

E ao Conlan tampouco tinha passado despercebido, se a expressão de seu rosto servia de indicação. A expressão que dizia que ele também queria lambê-la inteira.

O calor atravessou o centro de seu ser e teve que apertar as pernas para evitar a umidade que ameaçava transbordando-se.

Ok, cantando o problema. Fica proibido pensar em príncipes maciços lambendo a quem for, ou o que quer que seja.

O atlante passou uma mão por aquele delicioso cabelo negro que tinha e se levantou de repente da cadeira. Depois começou a passear-se ele também.

— Riley, até que entendamos por que estamos reagindo assim, possivelmente seja melhor que não nos aproximemos muito.

— Sim, certo, está bem. De fato, por que não me leva de volta a minha casa… Ou pode me chamar um táxi? Com um táxi é suficiente, e assim saio desse meio. — disse Riley, inexplicavelmente ferida por havê-lo ouvido expressar o mesmo que ela tinha pensado apenas uns momentos antes.

Conlan deixou de passear-se e se girou para olhá-la desde sua altura.

— Sinto muito, mas você não vai a nenhuma parte.

A dor se transformou em um abrir e fechar de olhos em saco cheio.

— O que quer dizer? Olhe, cara, pode ser que tenha direito a manipular a seus lacaios atlantes, mas eu sou cidadã americana. No que a mim se refere, seus direitos se reduzem a zero.

Conlan se dirigiu com passo firme à cama e se sentou ao lado de Riley antes que ela pudesse mover-se.

— Não se trata de direitos, aknasha. Trata-se de seu próprio amparo. Os vampiros que nos atacaram em sua casa, por que estavam ali? Foram atrás de nós? Suspeito que sim, dada a natureza do ataque. — agarrou-lhe as mãos e continuou — Mas agora sabem que vive nessa casa. Vão se perguntar que classe de conexão tem conosco. Ali já não vai estar a salvo.

Riley olhou as mãos e se perguntou se ele se dava conta de que lhe estava acariciando o dorso da mão com o polegar. Depois se perguntou como era possível que um gesto tão mínimo pudesse fazer que lhe derretessem os ossos.

Temeu de repente que aquele homem estivesse utilizando com ela algum tipo de versão atlante de controle mental.

Afastou as mãos de um puxão antes de falar.

— Assim o que me está dizendo é que me destroçou a vida.

— Não. — disse ele em voz baixa — Acredito que o que estou dizendo é que você complicou a minha.

Riley se separou dele sem levantar-se da cama e tentou ser racional.

— Muito bem. Vamos recapitular. Diga-me o que preciso saber sobre Atlântida. Diga-me por que estes vampiros vieram atrás de nós. Explique-me o que significa aknasha e por que viaja cada vez que pensa que eu possa ser. Trabalho melhor quando disponho de informação, assim já está demorando.

Conlan sorriu e parte da tensão pareceu deixar seus ombros.

— Informação é algo que sim posso te dar, certamente. Merece-lhe isso. Em primeiro lugar, minha terra. A Atlântida. Levaria nos para que pudesse te falar sobre Atlântida. Boa parte do mito, algo da lenda e inclusive certos fragmentos das fantasia, são verdade.

— Mas nada de guelras? — Riley não pôde evitar lhe devolver o sorriso, o seu era um pouco malicioso.

— Definitivamente, nada de guelras. Somos muito parecidos com vocês.

— Assim são humanos, com poderes especiais?

Ele negou com a cabeça.

— Não, humanos não. Primos de sua espécie, sem dúvida alguma. Mais perto da humanidade que dos troca-formas. Muito diferentes dos não mortos. Vivemos em harmonia com sua espécie durante muitos milhares de anos.

— E então lhes afundaram sob a água e agora vivem em uma bolha, é isso? — Riley sabia que o que dizia era uma frivolidade, mas uma garota tinha seus limites quanto ao que podia assimilar em uma só noite.

Aquele incrível sorriso sensual levantou as comissuras da boca masculina e o atlante voltou a apoiar-se na cabeceira da cama.

— Não, nada de bolhas. E tampouco há sereias, antes que me pergunte. Não se pode dizer que Hollywood seja uma fonte de fatos históricos, Riley, apesar do que meu irmão possa pensar.

— Ah! Eu adorava as sereias quando era pequena. Queria crescer, ter um golfinho de mascote, nadar com minha cauda de peixe e tudo isso. — disse ela com tom indignado.

Conlan se inclinou para frente, absorto de repente nela.

— Esta noite, depois de viver uns acontecimentos traumáticos, foi à praia em lugar de ir a sua casa. Por quê?

Riley se sentiu incômoda de repente, trocou de postura na cama e olhou a todas as partes salvo a ele.

— Não sei. — admitiu — Sempre fui assim. Vou ao oceano em busca de distração, para estar sozinha. Para me curar.

A crueldade daquelas palavras flutuou no silêncio, entre os dois, durante um longo momento; depois, ele se apoiou de novo na cabeceira.

— Isso pode ser importante, Riley. Não sei por que, mas tenho a sensação de que é algo importante. Possivelmente Alaric saiba.

Aquele nome lhe soava conhecido, Riley se retorceu um pouco.

— Alaric? É esse ser horripilante que me olhava como se fosse um inseto preso em uma agulha? Acredito que lhe ameacei.

O atlante abriu muito os olhos e depois sorriu.

— Oh, daria a metade do tesouro real por havê-lo visto.

Riley se pôs a rir enquanto tentava não viajar muito com um cara que dizia tão tranquilo coisas como “a metade do tesouro real”.

Merda.

Conlan levantou uma sobrancelha e pareceu ficar tenso outra vez.

— Não irá me dizer que pensou que ele estava bom também?

— Parecia um sentenciado recém escapado da cadeia. — respondeu ela com tom terminante — Gostaria de pedir reforços. Assim, tranquilo, nem a menor insinuação de atração por esse lado.

Conlan se inclinou para frente tão rápido que ela quase nem o viu mover-se, levou-se uma das mãos de Riley à boca, deu-lhe um breve beijo e a soltou.

— Obrigado, Riley. Não entendo por que, e tenho que ser honesto, não me faz nenhuma graça, mas aparentemente preciso saber que nenhum de meus guerreiros não lhe atrás. Nem nenhum outro homem.

Riley pôs os olhos em branco.

— Olhe Conlan, sei que possivelmente acredite outra coisa, pelo modo que reagi contigo, mas não é que seja uma espécie de ninfomaníaca.

— E isso seria um problema por que… — disse ele arrastando as palavras, enquanto lhe voltavam a brilhar os olhos e aquela intrigante chama verde azulada de suas pupilas cintilava ao olhá-la.

— Não seja pervertido. — lhe disse com uma gargalhada — Vale, e há outra coisa. Por que aparece em seus olhos esse brilho verde azulado, no meio das pupilas, como agora?

Conlan se sentou de repente, rígido como um pau.

— Que meus olhos fazem o que?

— Perdoa, não queria te desgostar. É só que tem umas pupilas muito negras até que aparece essa chama verde azulada nelas. Tinha curiosidade.

Conlan se levantou disparado da cama. Quando se deu a volta para olhá-la, a jovem notou que seus olhos voltavam a ser negros. E quando o ouviu falar, a voz era gélida.

— É muito tarde, Riley. Tenho que discutir umas questões estratégicas com Alaric antes de ir descansar. E você também deveria descansar um pouco, porque certamente vamos muito cedo.

Dirigiu-se com passo firme à porta e a deixou olhando-o com a boca aberta.

— Que demônios acaba de acontecer? É que os atlantes têm dupla personalidade ou algo assim? E por que acredita que vou com você a algum lugar pela manhã? Ainda não me explicou nada, príncipe Conlan ou o que seja. — disse furiosa.

Conlan se deteve ante a porta e a olhou.

— Sou Conlan, príncipe supremo de Atlântida. — disse com voz terminante — Não darei explicações a ninguém. Os Guerreiros de Poseidon foram os defensores da humanidade durante mais de onze mil anos e eu, seu líder durante séculos.

Abriu a porta de um puxão, deu um passo e depois se deteve.

— A reação que tenha com uma mulher humana, já seja aknasha ou não, não muda nada.

Antes que ela pudesse pensar em uma resposta o bastante feroz para lhe arrancar o lombo a tiras, o homem tinha desaparecido dando uma portada a suas costas.

— Seu imbecil! — chiou Riley, levantando-se de um salto para correr à porta.

Mas antes que pudesse alcançá-la ouviu o estalo inconfundível de uma fechadura. O impulso a levou até o final. Puxou o trinco, mas só confirmou o que sabia quando ouviu o ruído.

Aquele pedaço de príncipe ditatorial, despótico e arrogante a tinha prendido no quarto.

Oh, ele ia pagar muito caro.

 

Conlan se apoiou na porta do quarto de Riley, mais afetado do que tivesse querido admitir, inclusive ante si mesmo. Seus olhos tinham uma chama verde azulada quando não estava canalizando os elementos nem nenhum outro tipo de poder?

Estava fodido.

Acontecia algo muito estranho com tudo aquilo. Os olhos não mostravam a chama de Poseidon, salvo quando a pessoa em cujo crânio se dava a casualidade que estavam canalizando o poder. Ou invocava os elementos.

Não quando estava sentado conversando com uma mulher. Com uma mulher humana.

A menos… A ideia que lhe tinha gelado as veias cintilou de novo em sua cabeça, negando-se a desaparecer. Os contos que sua mãe lhe contava antes de ir dormir sobre os antigos senhores de Atlântida e suas damas. Contos de ferozes batalhas e amor perdurável.

Relatos do legendário dom da fusão das almas entre um atlante e sua companheira; o dom que marcava o coração de um guerreiro e sua alma com tanta certeza como o símbolo de Poseidon marcava-lhe o corpo.

Era impossível. A fusão das almas era uma lenda, uma fábula. Um conto de fadas desemparelhado. Nada mais. A fusão das almas não existia.

Igual a não existiam as empáticas? Oh, maldita seja.

Necessitava que Alaric solucionasse isso. E logo. Assim que recuperassem o Tridente. Depois de averiguar por que caralho os vampiros tinham atacado e como iam encontrar o Tridente, para começar.

Ou sequer o que iria fazer com Reisen.

Sim. Todos esses assuntos que esqueceu de tirar com Alaric e os Sete antes.

Estava muito fodido.

 

À manhã seguinte, ao amanhecer, Conlan despertou de um sonho inquieto com o aroma do café recém feito e o ruído de umas gargalhadas masculinas e profundas. Durante um minuto ou dois, antes de sair da cama em que tinha caído, esgotado, a noite anterior, já muito tarde, ficou muito quieto, examinando o que sentia. Na realidade, o que não sentia. Era uma espécie de ausência. A falta de algo… Mas o que?

Abriu os olhos de repente quando o compreendeu. O que tinha sentido até então, o que lhe faltava, era a ira.

A fúria.

Tinha necessitado das chamas da ira para vencer a impotência. Para aguilhoar-se e seguir vivo durante os longos anos nos que esteve cativo de Anubisa. Tinha alimentado essas chamas com lembranças de seus pais e pensando em seu irmão e em Atlântida, quando o desespero ou a dor ameaçavam fazendo sucumbir a raiva.

Mas nesse momento, apesar da ameaça dos vampiros, inclusive apesar da traição do Reisen, desprendeu-se de parte desse núcleo interno de fúria que tinha escorado seus alicerces durante tanto tempo. Voltou seus pensamentos para o mais profundo de seu ser, examinando tudo, concentrando-se nos componentes básicos de sua psique.

No que Alaric tinha chamado sua alma inflexível.

Faltou pouco. Maldita fosse, mas tinha faltado muito pouco. Foram tantas as vezes que se perguntou por que se incomodava em tentar seguir vivo, por que seguia lutando contra ela.

Por que não permitia que a morte o levasse.

Conlan recordou o chão de cimento e a grade de metal de dois centímetros e meio por dois centímetros e meio que havia no chão.

 

— Para que drene melhor o sangue. — disse ela com as presas cintilando sob a luz das dúzias de velas que rodeavam a cela — Não é que vá beber tudo isso, principezinho. Haverá muito para tentar a minha manada de sangue, que está aí abaixo.

 

Sua manada de sangue. Mas bem seu coven de seguidores do inferno. Tinha-os ouvido choramingando e fazendo chiar as presas na cova que havia debaixo de sua cela cada hora de cada dia.

Cada hora de cada noite.

Até o dia que o soltou.

— E isso é o que mais me enche o saco, não? — grunhiu enquanto levantava e tirava os pés da cama — Que foi ela que me soltou. Que não escapei. Ao final, resultou que não era muito melhor que o resto de seus bichinhos, verdade?

Não fez falta mais, havia retornado. As paisagens vazias e áridas de sua alma se encheram de ira.

Agradeceu-o. Merda, a ira e ele eram velhos amigos.

“Conlan?” Um roce delicado em sua mente. “Está bem?”

Riley.

Durante só um instante, o lirismo da voz feminina e os azuis e dourados que faiscavam em suas emoções se combinaram para espantar as chamas da mente de Conlan. Fechou os olhos e respirou fundo, seguro de que podia perceber seu aroma limpo e fresco. Flores e o oceano.

Mais segura, e definitivamente mais alta, a voz da jovem atravessou como um trovão sua cabeça.

“Conlan! Se estiver bem, move o traseiro e vem abrir esta porta, ou penso amassar sua cabeça!”

O atlante pôs-se a rir ante a contradição. Ah, sua flor, tão delicada ela. Não era das que dizia o que se esperava dela, verdade?

Pois não. E tampouco era seu nada. Seria melhor para os dois que ele não o esquecesse. Recuperou a compostura e lhe enviou a resposta: “Já vou. Tenta não comer a parede, certo?”

Sentiu um ligeiro vestígio de humor que o atravessava como uma faísca da cor do mel quente e o ouro. A jovem se pôs-se a rir. E logo essa sensação peculiar na cabeça, como uma portada, que bloqueava qualquer vestígio que tivesse dela.

Oh, sim! Riley estava muito de irritada. Ia ser divertido.

Ou não.

 

Reisen deixou de contemplar o objeto que tinha nas mãos e levantou o olhar com uma expressão ainda aturdida nos olhos quando o golpe seco de umas botas de sola grossa trovou no corredor. Micah entrou com passo firme na sala, seguido de perto por vários guerreiros mais.

— Meu senhor. — disse Micah respirando com dificuldade — Enquanto patrulhávamos, descobrimos um ninho de troca-formas em um salão de tatuagens de Virginia Beach.

Reisen se pôs-se a rir.

— Isso parece um pouco estranho, não? Acredita que as tatuagens reaparecem depois que tomem forma animal e logo voltem para ser humano?

Micah cruzou os braços e olhou Reisen com sua habitual expressão implacável.

— Meu senhor?

Reisen se desprendeu tanto do sonho como da espécie de transe no que tinha caído enquanto olhava a esmeralda do tamanho de um ovo de galinha que tinha nas mãos. Havia estado quase uma hora assim, assim se levantou antes de falar.

— E bem? O que fizeram?

Micah deu de ombros.

— Retornamos aqui para lhe contar isso. Não sabia muito bem se nossa missão nos dava tempo para atacar a um punhado de bolas de pelo. Sobre tudo depois do decreto do Conselho que exige que só destruamos aos troca-formas dos quais demonstrou que fizeram algum mal.

Reisen voltou a colocar com cuidado a esmeralda em sua bolsinha de seda e a devolveu com suavidade ao interior de sua pequena caixa de madeira. Os líderes da célula da costa leste dos platônicos tinham estado impacientes por lhe dar a esmeralda quando souberam da verdade sobre o princípio fundamental de sua organização.

A Atlântida era real.

E além disso, Reisen era um príncipe atlante. Trataram-no como se fosse um deus. E não lhe desagradou de todo.

Teve a sensação de que aquele cara ia mijar nas calças. Por sorte para todos os implicados, o homem conseguiu conter sua emoção o tempo suficiente para tirar a esmeralda e entregá-la a Reisen, que tinha que averiguar como ia usar. Por desgraça, era mais fácil dizê-lo que fazê-lo. Mas ao menos algumas coisas eram mais fáceis.

— Todos havemos feito um voto sagrado, juramos que protegeríamos à humanidade. Não nos serve de nada devolver à Atlântida ao lugar que lhe corresponde no mundo se esse mundo está invadido por chupa sangues e troca-formas. Nisso, como em outras muitas coisas, o Conselho se equivoca.

Micah assentiu com um sorriso.

— Esperava que dissesse isso. — disse com as mãos no cabo de seu machado de batalha —Com toda esta tensão gostaria de espancar a uns quantos troca-formas.

Os guerreiros que rodeavam a Micah assentiram e grunhiram, de acordo com o plano. Reisen colocou com cuidado a pequena caixa de madeira e o fardo envolto em tecido do Tridente em uma bolsa de couro. Um dos guerreiros se adiantou.

— Permite-me que leve isso para você, meu senhor?

— Obrigado, mas esta é uma carga que tenho o privilégio de levar eu em pessoa. — e com isso, Reisen os levou a sala principal da casa para planejar o ataque.

Ainda tinha mais de um dia antes da reunião que tinha programado com os platônicos.

Tempo de sobra para amassar a uns quantos troca-formas.

 

Riley seguiu murmurando durante mais de dez minutos depois que Conlan aparecesse e lhe abrisse a porta do quarto. Passou-lhe um sermão assim que o viu. Justo quando começava a confiar nele e a acreditar em tudo sobre a realeza atlante, ele ia e a prendia.

Mas depois que o atlante lhe fez um esboço muito limitado da ameaça que representavam os vampiros, contou que um malfeitor chamado Reisen tinha roubado um artefato muito valioso e depois de que se desculpou cinco ou seis vezes, a jovem se acalmou um pouco.

Era uma loucura, mas sabia que podia confiar nele. Era assombroso: ser capaz de sentir as emoções daquele cara reduzia as dúvidas. Ali do que se tratava era de proteger a ela.

Riley se decantou pelas queixas não verbais depois de saborear o café que havia lhe trazido como objeto de paz. Um líquido quente, doce e delicioso.

Palavras que também poderiam descrever a Conlan. Jogou-lhe uma olhada com os olhos entreabertos. Era justo que um homem estivesse inclusive mais bonito pela manhã? Todo aquele músculo não se reduziu nem um pingo com a luz do dia. E o que era pior, Riley começou a notar coisas novas. Como o leve reflexo azul que emanava de seu cabelo negro. Não parecia cortado em barbearia, assim devia ser um traço atlante. Rodeou a taça de café com mais força, sobre tudo para não esticar a mão e lhe tocar o cabelo.

Era uma compulsão. Um desejo. Tinha a mesma sensação que lhe haviam descrito seus pacientes viciados quando necessitavam de sua droga favorita.

Conlan passeava de um lado a outro do quarto sem lhe fazer muito caso. Ou pelo menos sem olhá-la. Tendo em conta a tensão que se percebia em seus gigantescos ombros, Riley estava disposta a apostar o que fosse a que era muito consciente de sua presença.

Ao menos estava asseada. O pequeno banheiro que seu quarto tinha, sua cela, estava bem provido por uma ampla variedade de sabonetes, xampus e condicionador. Várias escovas de dentes novas, envoltas ainda em seus plásticos, estavam colocadas em fileiras em uma gaveta que havia debaixo do lavabo.

A ideia voltou a encher o saco outra vez.

— Assim você traz aqui a um montão de mulheres, não?

O atlante deixou de passear e girou em volta para olhá-la.

— O que? Do que está falando? Faz mais de uma década que não venho nesta casa. É de meu irmão.

Riley assentiu.

— Lógico. Irmãos, iguais, não? Não são mais que um par de bons meninos que se dedicam a raptar mulheres e às arrastar a sua guarida do mal.

— Você te droga ou o que? Ou é que todas as mulheres humanas são tão ilógicas como você? — parecia realmente confuso, coisa que quase a fez sorrir.

— Assim que se dedica a proteger à humanidade, mas não te dedica a falar muito com ela. Conosco. A coisa vai por aí, mais ou menos? — terminou a taça de café, colocou-a na mesa pequena que havia ao lado da parede e assinalou a porta com um gesto — Além disso, vai me deixar sair daqui logo? Não é que estar sequestrada não tenha sido divertido,mas tenho uma encontro com o detetive Ramírez.

Estremeceu-se ao ouvir aquele grunhido baixo e terminante, que começou no peito masculino e foi subindo até a garganta.

— Você não vai a nenhuma parte, Riley. — disse o atlante — E se você gosta desse tal Ramírez, será melhor que se esqueça de sair com ele. Parece que me transtorno apenas em pensá-lo.

A expressão de seu rosto era possessiva e predadora. De repente se parecia com um animal selvagem que tivesse que defender seu território.

Riley não tinha tomado café suficiente para tudo aquilo.

— Vai começar a mijar pelas paredes para marcar seu território? — perguntou-lhe, toda doçura e ligeireza — Porque quando era pequena tínhamos um gato que o fazia. — depois levantou a cabeça e lhe sorriu — Meu pai o levou para castrar.

Um momento depois Conlan cruzou o quarto e ao seguinte o tinha em cima. Empurrou-a para trás até que o traseiro feminino se chocou contra a cômoda.

— Já enfrentei a uma mulher que queria me castrar. — lhe sussurrou ao ouvido —Acredite- me. Se pude sobreviver a ela, meus ovos estão imensamente mais seguros contigo.

Riley mordeu o lábio, sufocada. O aroma masculino, estranhamente parecido ao do sol sobre o mar, limpo e vigorizante, encheu os escassos centímetros de espaço que os separavam. A jovem sentiu a estranha necessidade de enterrar o nariz no pescoço do atlante e ficar assim, cheirando-o.

Mas em lugar disso levantou as mãos e as pousou no peito para bloqueá-lo.

— Não queria… Quer dizer… Seus ovos estão a salvo, oh, merda. Tudo o que queria dizer é que tenho que ir à delegacia de polícia fazer uma declaração. O detetive Ramírez é o responsável pelo caso.

Os ombros de Conlan se relaxaram e a agressividade que tinha estado irradiando baixou um pouco. Pouco a pouco, com cautela, Riley levantou os escudos mentais que tinha colocado ao redor de suas emoções pouco antes. Quinn e ela tinham praticado durante horas quando eram meninas.

Construíam muros mentais de mentira, primeiro de tijolo e logo, à medida que cresciam em idade e sofisticação, portas de titânio de mentira.

Quinn afirmava que todas suas portas eram feitas de criptonita, mas Riley ria.

 

— Tampouco é que vamos enfrenta a algum super-herói, Quinn. — lhe disse um dia quando uma começava o último ano de instituto e a outra o terminava.

— Nunca se sabe. — lhe respondeu Quinn, escura e dramática como sempre.

 

— O que é criptonita? — perguntou-lhe Conlan com os dedos enroscados em uma mecha do cabelo de Riley.

— O que? Mas como a s…? Ah, sim. Abri a porta. — disse Riley, surpreendida ao princípio e depois resignada — Bom, uma vez que já está aberta, rio perdido.

E dizendo isso levantou as mãos, agarrou-lhe o rosto, preparou-se e, pela primeira vez em toda sua vida, enviou suas emoções, seus pensamentos e sua curiosidade voando ao interior de outra pessoa.

E esteve a ponto de cair de joelhos.

 

Força. Coragem. Honra. Dever. Brilhos do passado.

Um homem com o cabelo grisalho e os olhos de Conlan, de pé ao lado de uma mulher tão bonita que Riley afogou uma exclamação.

Mãe. Pai.

Mudança: Um menino, tinha que ser Ven, e outro, o curador horripilante, possivelmente? Não estava segura porque o menino dos olhos verdes que tanto se pareciam com os de Alaric estava sorrindo.

Não lhe parecia que o curador tivesse sorrido em sua vida.

Todos eles montando a cavalo. Rindo.

Mudança: Filas de homens, todos enormes, musculosos, muito bonitos, nus até a cintura, treinando com espadas e adagas em uma espécie de palestra.

Mudança: Fogos. Facas. Dentes, não, presas. Dor. Uma dor abrasadora, agônica, dilacerador. Estava morrendo, não, não era ela, era ele, ele, era Conlan, estavam-no torturando, estavam-no matando…

 

— Não! — chiou, deixou cair as mãos, separou-as do rosto de Conlan e se derrubou em seus braços fortes e firmes — Não, não, não, não, não.

E quando ele a levantou com suavidade e a sustentou entre seus braços, tudo o que Riley pôde fazer foi soluçar.

Conlan ficou olhando à mulher que chorava entre seus braços e sentiu que os muros que tinha construído ao redor de seu coração começavam a derrubar-se. Ouviu literalmente o estrondo dos tijolos e o cimento e tudo o que pôde pensar foi que precisava afastar-se dela imediatamente.

Quando começou a soltá-la, a jovem se agarrou a seus braços, levantou a cabeça e o olhou com os olhos embargados de dor.

— Malditos sejam pelo que lhe fizeram. Espero que os busque, encontre-os e arranques as tripas cheias de sangue. Sinto muito, Conlan. Não deveria… Nunca deveria ter invadido sua intimidade.

Depois levantou a mão pouco a pouco e lhe acariciou a cicatriz que tinha na garganta.

— Sinto muito. — repetiu com um sussurro. Depois entrecerrou os olhos e voltou a olhá-lo com expressão feroz — Espero ter a oportunidade de tropeçar com alguns desses que fizeram-lhe mal. Não voltarão a ferir ninguém, nunca mais.

Conlan piscou, incapaz de recordar quando comoveu-se tanto com umas palavras, tanto como o comoviam as dela. Queria protegê-lo. Queria vingá-lo.

O rangido dos muros que tinha construído em seu interior se converteu em uma avalanche.

O atlante a abraçou com mais força e enterrou o rosto em seu cabelo.

— Jamais me peça desculpas por sua graça e sua luz, mi amara  aknasha.

Riley se afastou um pouco e levantou a cabeça para olhá-lo entre lágrimas.

— O que significa isso?

Conlan sacudiu a cabeça, tinha um nó na garganta que lhe impedia de formar as palavras. E além disso acreditaria que estava louco de verdade se lhe dissesse que a tinha chamado de sua amada empática.

E falando de loucura, certamente tinha uns dez segundos antes que Ven chegasse para esmurrar aquela porta. Respirou muito fundo e lhe deu um beijo na testa, depois deixou cair os braços e se afastou.

— Riley, sei que deve ter a sensação de que acaba de se meter em um desses filmes de terror que Ven tanto gosta , mas tem que confiar em mim…

Riley esboçou um sorriso brilhante e o olhou enquanto secava as lágrimas do rosto.

— Confiar em você? Está brincando? Depois do que acabo de ver, confiaria-te minha vida.

Conlan foi invadido por uma sensação de alívio que lhe liberou os músculos tensos do pescoço e os ombros.

— Bem. — disse com uma espécie de sorriso — Porque é possível que tenha que fazê-lo.

 

Riley seguiu Conlan por um longo corredor forrado de pôsteres de filmes clássicos de terror. Pôs-se a rir diante do dentuço tomate que decorava o pôster do “Ataque dos Tomates Assassinos” e depois voltou a olhar “A massa devoradora”.

— Steve McQueen. — disse pensativa enquanto riscava a borda do marco com um dedo — Eu adorava este filme.

Conlan lhe estendeu a mão e sorriu.

— Meu irmão e você vão se dar maravilhosamente.

Quando dobraram a esquina e entraram em uma espécie de grande sala de jogos, Riley se deteve de repente ao ver uma multidão de homens enormes. Sentados, de pé, apoiados… Enchiam cada canto. Bom, os homens e as vasilhas, as caixas, as bandejas de comida que cobriam cada centímetro que ficava livre. Dava a sensação de que naquela sala se deteve todo um exército para tomar o café da manhã.

Deus, eram enormes. Não era de estranhar que precisassem comer tanto. Seguro que necessitavam vários milhões de calorias para alimentar a cada um daqueles caras. Fechou os olhos e olhou em seu interior um momento para assegurar-se de que seus escudos emocionais tinham as portas de titânio bem fechadas. Não queria repetir o da noite anterior.

Quase ao uníssono, os homens se quadraram de repente e ficaram olhando, a maior parte estendendo as mãos às adagas que levavam.

“Deseja um café com armas mortíferas?”

Tampou-se a boca com a mão para tentar conter-se, mas sentia o desatinado impulso de começar a rir. A risada do estresse, chamava-a Quinn. Salvo que poucas vezes acontecia a sua irmã.

E a Riley sempre.

Apertou um pouco mais a mão de Conlan e levantou o queixo para olhá-los. O brilho de histeria se desvaneceu assim que viu o propósito letal que invadia a expressão de todos.

— Apresento-lhes a Riley Elisabeth Dawson. — disse Conlan — É aknasha e é um prazer tê-la entre nós. Por favor tratem-na com toda cortesia. Riley, me permita te apresentar a meus guerreiros. Estes são os Sete, meus companheiros mais leais. Já conhece Ven, é óbvio. — disse Conlan assinalando a seu irmão.

— Ah, sim, o aficionado dos filmes clássicos. — disse ela com um sorriso — Não há ninguém como Steve McQueen.

Ven lhe sorriu do outro lado da sala e levantou um pãozinho meio comido a modo de saudação.

— É óbvio que tem um critério cinematográfico de primeira, lady Raio de sol.

Conlan continuou.

— Lorde Justice.

O homem que tinha a longa trança de cabelo azul e a espada ainda atada à costas assentiu sem sorrir. Riley assentiu a sua vez. Aquele homem seria muito bonito, certo, para morrer, se sorrisse alguma vez. Olhou a espada. Possivelmente se conformava com o “para morrer”.

— Bastien.

O gigante que estava apoiado na parede, ao outro lado da sala, com uma caixa de donuts em uma mão enorme, sorriu-lhe.

— É um prazer, lady Riley. Qualquer um que seja o bastante valente para saltar desarmado em cima de um chupa sangue e para defender a meu príncipe é como deus para mim.

Riley sentiu que lhe reacendiam as bochechas, até as pontas das orelhas.

— Só Riley, por favor. E obrigado. Embora possivelmente foi mais estupidez que valentia.

Outro guerreiro, com o sorriso fácil e ar travesso, inclinou-se ante ela.

— Christophe, minha senhora. E a maior parte das batalhas são mais estúpidas que valentes, não lhe parece? Por isso as liberam os homens e não as mulheres. — seus brilhantes olhos azuis resplandeceram de bom humor — Será uma honra compartilhar meu café da manhã com você, encantadora dama, já seja aknasha ou não.

Conlan grunhiu, um som que brotou das profundidades de sua garganta com tal ressonância que reverberou por toda a sala.

— Se afaste dela, Christophe. Não vai cortejar a esta dama.

Riley pôs os olhos em branco e se soltou de um puxão da mão de Conlan.

— Cortejar a esta dama? Voltou a falar como Lancelot. Eu nunca gostei de Lancelot. Era um tipo lisonjeador e um tanto turvo.

Ven se pôs a rir.

— Ah, isso sim que é o cúmulo. Você gosta de Steve McQueen e acaba de baixar as fumaças ao príncipe supremo. Tem-te feito proprietária de meu coração para sempre.

Riley sorriu, era inexplicável, mas se sentia incrivelmente segura rodeada por uns mil quilogramas de guerreiros atlantes.

Conlan grunhiu outra vez e voltou a agarrá-la pela mão.

— Como ia dizendo, acredite, se existe um Dom Juan é Christophe, e este é Alexios.

Um homem que permanecia na esquina, meio escondido por uma estante, saudou-a com a cabeça e se inclinou um pouco, mas não falou. Quando levantou a cabeça, Riley vislumbrou as cruéis cicatrizes que lhe cobriam o rosto, mas o guerreiro a agachou imediatamente para que o cabelo dourado a cobrisse. A luz matinal que entrava pela janela iluminou sua juba como se fosse uma coroa.

Riley soltou o que estava pensando.

— Uau. Qualquer estrela de cinema pagaria uma fortuna para ter um cabelo assim. Que sorte tem.

Alexios levantou outra vez a cabeça, com os olhos entrecerrados e a boca apertada em uma careta. Suas cicatrizes ficaram ressaltadas com dureza sob a luz do sol.

— Sorte? Possivelmente antigamente, já faz muito tempo. Faria bem em afastar-se de mim e de minha versão da sorte.

Riley reconheceu a dor que embargava seus olhos, assim quase sem pensar baixou seus escudos apenas uma fração e o buscou.

Depois se tornou para trás com tal força que se chocou contra a parede.

— Não, não, eu… Sinto muito. — sussurrou.

Voltou a fechar os escudos de repente.

— Sinto tudo o que sofreu e perdeu, Alexios. — disse ao tempo que sua voz ia recuperando forças — Mas, por favor, não se desespere ainda. Sempre existe a possibilidade de que haja um amanhã melhor.

— Afaste-se de minhas emoções, empática. — grunhiu o guerreiro — Está invadindo minha intimidade.

Conlan tentou afastar-se dela, com o corpo tenso, mas ela o deteve com uma pressão da mão. Expôs-se ao dizer a Alexios que tinha sido um acidente, mas desprezou a ideia em favor da verdade, assim manteve a cabeça alta.

— Tem toda a razão, Alexios. E também me desculpo por isso.

Alexios vacilou um momento, com os olhos muito abertos pela surpresa, e depois se inclinou ante ela.

— Aceito suas desculpas. E como tão elegantemente disse Bastien, com a coragem que mostrou ontem ganhou meu perdão.

Conlan lhe apertou a mão. Riley percebeu o orgulho e o alívio que sentia o príncipe e se maravilhou da força de seus sentimentos.

Inclusive através de seus escudos.

Outro guerreiro se levantou de uma poltrona, aproximou-se dela, deteve-se e se inclinou. Seu rosto era de traços afiados e linhas duras, e umas ondas de cabelo negro separavam de tanta dura masculinidade para cair pelos ombros.

Tinha os olhos verdes mais pálidos que Riley tinha visto jamais, uma cor que lhe fez pensar na primavera.

— Eu sou Brennan, lady Riley. Também é proprietária de minha gratidão, pela coragem que mostrou ontem à noite, mas eu gostaria de lhe pedir um favor, se me permitir isso.

Foi Conlan o que perguntou antes que Riley pudesse dizer qualquer coisa.

— Que tipo de favor, Brennan?

Brennan inclinou a cabeça para Conlan e depois voltou a olhar a Riley com uma expressão intensa, e entretanto, por estranho que fosse, desprovida de qualquer emoção. Aquele cara tinha que ser um jogador de pôquer extraordinário.

— Ao contrário de Alexios, eu gostaria de lhe pedir que me examinasse e me contasse o que pode ver de minhas emoções. — lhe pediu com um tom de voz totalmente sereno e inexpressivo.

Aquilo despertou a curiosidade de Riley.

— Por que me pede isso? É uma espécie de prova?

O homem inclinou a cabeça.

— Possivelmente. Mas a prova é para mim, não para você. Quererá me conceder este pequeno favor?

Riley levantou a cabeça e olhou a Conlan, que assentiu com a mandíbula apertada.

— Só se quiser fazê-lo, Riley.

Esta duvidou e depois assentiu. Soltou-se da mão de Conlan, deixou cair as mãos aos flancos, fechou os olhos e abriu a porta mental. Um estranho zumbido assaltou seus sentidos, como se lhe estivessem transmitindo em estéreo as correntes mentais dos atlantes que estavam na sala, mas desde muito longe.

Concentrou-se em Brennan e bloqueou o ruído de fundo. Como havia feito com o Conlan, enviou seus sentidos voando ao interior do guerreiro que permanecia muito quieto diante dela, embora se encolheu um pouco ao antecipar-se à força de suas emoções.

Depois afogou um grito ante o que encontrou. Ou, mas bem, ante o que não encontrou.

Abriu os olhos de repente, emocionada.

— Como o faz? Como protege suas emoções de uma forma tão absoluta que sou incapaz de sentir o menor brilho?

O guerreiro baixou a cabeça e a olhou sem perder a calma.

— Não protejo nada. Quer tentar outra vez?

Riley piscou, não entendia aquilo.

— Importa-se que te toque?

A seu lado, Conlan voltou a emitir aquele estranho grunhido. Depois lhe rodeou a cintura com um braço e a apertou contra ele.

— Por favor! Já estou farta de que te dedique a marcar o território, merda. — disse dando uma cotovelada a Conlan no flanco e afastando-se dele — Faz o favor de te conter. Isto é interessante.

Brennan levantou uma sobrancelha e na sala alguém lançou uma gargalhada. Riley se fez omissa dos dois.

— Posso? — voltou a perguntar.

Brennan assentiu uma vez e fechou os olhos. Riley deu um passo mais para ele, o bastante perto para poder lhe tocar o rosto com as mãos, mas não tanto como para que Conlan voltasse a ficar em modo “Tarzan”. Levantou as mãos e as colocou nas bochechas de Brennan.

Fechou os olhos e enviou seus sentidos a sondar o interior do homem, mas com mais força que antes. Procurou, pinçou, sondou em busca da menor insinuação de cor, algum traçado, por pequeno que fosse, de emoção.

Não havia nada. As profundidades e os baixos de sua alma eram tão puros como a água cristalina da montanha. Tão transparentes como o gelo de uma geleira fundida.

Não havia nada. Nenhum sentimento. Nenhuma emoção.

— É como se sua alma tivesse morrido, como se sua humanidade tivesse morrido, mas seu corpo não soubesse ainda. — sussurrou, mas lamentou as palavras ao pronunciá-las. Baixou as mãos e se separou dele — O que é? Como pode ter a alma vazia de tudo salvo o intelecto?

Brennan sorriu, mas nem o menor roce daquele sorriso chegou a seus olhos.

— Estou maldito. Esperava que alguém que é aknasha pudesse encontrar algum rastro das emoções que rezava por recuperar algum dia. Mas se não for assim, você tem razão. Não sou mais que um morto que imita as ações dos vivos.

A ausência absoluta de sentimento que havia atrás dessas palavras, que deveria ter gritado sumido na agonia e a dor, puseram em relevo as palavras do guerreiro.

Levada por um impulso, Riley lhe pousou a mão no braço.

— Não entendo muito disto das aknashas. Mas se houver algo nesta habilidade que tenho… Bom, se puder averiguar de algum modo como utilizá-la para te ajudar, prometo que farei tudo o que puder.

Atrás dela, Conlan inalou uma áspera baforada de ar, Riley se deu volta pronta para discutir. Mas a expressão dos olhos masculinos não tinha nada que ver com a posse e tudo com o assombro.

— Nos honras, Riley. Levamos vampiros até sua casa, raptamos-lhe em plena noite, lhe tratamos como a uma prisioneira e, contudo, tem a cortesia de oferecer sua ajuda a meu irmão guerreiro.

A jovem se ruborizou e pôs os olhos em branco.

— Não é para tanto. Só…

— Acaba de oferecer sua ajuda, outra vez, depois que certamente me salvasse a vida ontem à noite. Acredite, sim que é para tanto.

Brennan fez uma profunda reverência.

— E para mim é uma grande honra que tenha se oferecido.

Antes que Riley pudesse pensar em uma resposta, ouviu o som de um pigarro atrás dela. Voltou-se de novo para a sala e viu que o homem que tinha estado atirado no chão, ferido, a noite anterior, elevava-se diante dela com as adagas desembainhadas e cruzadas ante ele.

— Sou Denal, lady Riley. E com sua coragem e abnegação se forjarão as canções dos poetas durante os séculos vindouros. — disse com ardor. Depois fincou um joelho no chão, diante dela — Por isso declaro que sou o defensor de lady Riley, se a dama me aceitar.

A dama ficou olhando-o sem saber o que dizer quando o atlante lhe estendeu as adagas com o punho para frente e inclinou a cabeça. Riley girou a cabeça para olhar a Conlan com a esperança de que lhe desse algum conselho sobre como devia dirigir aquela situação, mas o príncipe se limitou a levantar os ombros por um instante sem dizer nada.

A jovem respirou fundo, abriu outra vez os escudos mentais e lutou contra aquele curioso zumbido de fundo, depois tomou a medida ao homem que tinha ajoelhado adiante. Era todo ao contrário de Brennan, Denal era todo brilhos de emoção e entusiastas noções de honra, do dever e do cavalheirismo.

Riley sorriu um pouco e se perguntou se ela tinha sido alguma vez tão jovem. Depois lhe desvaneceu o sorriso quando se deu conta de que era muito provável que aquele menino fosse muito mais velho que ela.

Aquilo da Atlântida era muito complicado.

Mas o menino seguia ajoelhado, esperando. A sensação de antecipação que reinava na sala podia cortar-se com uma faca. Quando olhou pela sala, se deu conta de que todos e cada um estavam esperando para ver como ia reagir ante a declaração de Denal.

Respirou fundo e agarrou as adagas que lhe oferecia.

— Eu, bom, obrigado, Denal. Em tempos tão perigosos como estes, não me ocorre um oferecimento de amparo mais valioso. Você…

Voltou a olhar a seu redor enquanto tentava pensar nas palavras adequadas. Para aqueles caras parecia comum a formalidade e os rituais. Ao final se decantou pela simplicidade.

— Você me honra.

Denal levantou a cabeça e a olhou com os olhos brilhantes, depois ficou de pé. Riley estendeu as adagas outra vez com a esperança de que aquilo fosse o que tinha que fazer. O atlante agarrou-as e as devolveu às bainhas que lhe pendiam dos flancos das imensas coxas.

Os outros Guerreiros começaram a aplaudir, aclamar e dar pulos. Riley sorriu e começou a dizer algo quando uma voz gélida a interrompeu desde atrás.

— Não é comovedor? Possivelmente logo poderíamos dar um abraço em grupo.

 

Conlan girou em volta para enfrentar-se com Alaric.

— Eu não gosto de seu tom, sacerdote. — disse cruzando os braços.

Alaric elevou uma sobrancelha e deu de ombros. Não era que Conlan esperasse intimidá-lo, mas um pouco de respeito não estaria mau.

— Terá respeito quando lhe ganhar. — disse Alaric, respondendo aos pensamentos de Conlan de uma forma horripilante outra vez.

Conlan arquivou o detalhe para revisá-lo mais tarde e depois, antes que o grito afogado chegasse a deixar os lábios de Riley, estrelou ao Alaric contra a parede.

— Ou está a meu serviço, ou não está. Poseidon te deu o cargo de supremo sacerdote, mas o que concede o papel de conselheiro real sigo sendo eu. — depois cravou os olhos nos do sacerdote — Se toda esta atitude é sua forma de dizer que quer deixar o trabalho, considera-o feito.

Soltou a camisa de Alaric e se dirigiu a Riley.

— Deve estar morta de fome. Com um pouco de sorte, um destes poços sem fundo terá-nos guardado uma madalena ou duas.

Riley ficou olhando-o com a boca aberta, a ponto de dizer algo. Mas o atlante sacudiu a cabeça e, por surpreendente que pudesse parecer, a jovem o acompanhou sem dizer nada.

Quando começaram a cruzar a sala para a mesa de café baixa coberta de comida, o príncipe ouviu a voz de Alaric atrás dele.

— Não, não quero deixar o trabalho, idio… Meu príncipe. Precisamente estou tentando fazer meu trabalho, que inclui recuperar o Tridente para que possa subir ao trono.

Conlan jamais tinha ouvido tanta angústia na voz do sacerdote. Agarrou o cotovelo de Riley e a empurrou para Ven. Depois se deu a volta para olhar a Alaric.

— Não é tua culpa. Em todo caso, a culpa é minha por não ter estado ali para proteger o Templo.

Bastien deixou a taça de café na mesa com um golpe seco.

— A culpa é minha. Tinha muitos amigos na Casa Dr. Micenas. Bem sabem os deuses que deveria ter suspeitado o que estavam tramando.

Justice se pôs-se a rir.

— Sim, é culpa de todos. Não é culpa de ninguém. Mas que porra importa? Enquanto estamos aqui sentados, comendo torradas e nos jogando a culpa, Reisen vai se afastando cada vez mais.

Conlan levantou uma mão.

— Já está bom. Justice tem razão. Alaric, pode averiguar o paradeiro do Tridente?

— Não. Recebo brilhos e depois desaparece. Quase como se tivessem descoberto um escudo mágico para protegê-lo. Ou o Tridente se oculta de um sacerdote fracassado.

Ven falou então com tom sério.

— Então estamos perdidos. Podemos procurar da forma antiga, mas a estas alturas poderia estar a milhares de quilômetros daqui, em qualquer direção.

— Tem um grupo de guerreiros com ele. — aventurou Christophe — A menos que se separaram. Não seria nada fácil ocultar a dez guerreiros ou mais que viajem juntos.

Conlan respirou fundo e tentou não perder a calma.

— Então também nos dividiremos para segui-los. Alaric, há algum modo de que possa magnificar a busca?

Antes que Alaric pudesse responder, Riley o interrompeu.

— Por acaso não estarão procurando um bando de caras que emitem as mesmas vibrações emocionais que todos vocês, exceto que com um montão de merda, tipo “Ra… Ra… Ra, missão sagrada, missão sagrada” no meio?

Nove cabeças se giraram de repente para olhá-la. A jovem piscou e depois continuou enquanto olhava em seu interior.

— Se for assim, não acredito que estejam a mais de trinta quilômetros daqui. Levo uma meia hora tentando me proteger de suas emoções, e não é fácil. Acreditei que era uma espécie de ruído de fundo que vocês emitiam, mas estou começando às classificar e as separar e não cabe dúvida de que são diferentes.

Fechou os olhos e Conlan sentiu que se concentrava. Depois se levantou de um salto do sofá e esteve a ponto de atirar a madalena em cima da cabeça de Ven.

— E temos que nos pôr em marcha. Porque estão saindo para atacar a uns troca-formas. Agora mesmo.

 

Ven assinalou a porta com uma sacudida e os guerreiros foram saindo da sala atrás dele, deixando a Conlan e Riley discutindo sobre um tal Ramírez. O modo que tinha seu irmão de repente de preocupar-se pelos sentimentos de uma mulher humana resultava quase gracioso. Se isso era o que a fusão das almas fazia a um homem, graças a Poseidon que não lhe tinha acontecido. Ele preferia as mulheres sem cérebro e esquecíveis, e tinha a sensação de que lady Raio de sol não era nenhuma dessas duas coisas.

Tampouco é que fosse seu problema. Pelo menos no momento. Se a garota causasse algum problema, bom, já se ocuparia dele. Esse era seu trabalho, não?

Chegou ao armário da entrada e abriu a porta de repente. Colocou a mão entre uns quantos blasers e casacos, agarrou a barra dos cabides com uma mão e a girou três quartos para frente e meio giro para trás.

Ouviu-se um estalo e um zumbido e a barra, com casacos e tudo, se recuou por uma abertura feita por um painel que se deslizou pelo lado direito do armário. Um segundo painel que havia na parte posterior do armário se abriu sem ruído e deu passo a uma sala pequena cheia de brinquedos reluzentes.

— Bonito arsenal, Vem. — disse Christophe metendo-se detrás dele — O que tem aí dentro?

Ven apertou um interruptor e os focos iluminaram o conteúdo da sala.

— Permita-me que lhe mostre, meu amigo. — disse enquanto passava junto a uma estante de metralhadoras para baixar uma escopeta desenhada com exclusividade para ele — Esta pequenina é uma Franchi SPAS-12. Uma escopeta de combate desenhada com todo carinho pelos italianos, que são uns gênios quando se trata de carros, armas e qualquer tipo de maquinaria deliciosa. Leva umas modificações especiais para poder carregá-la com isto. — levantou um frasquinho de cristal com forma de bala cheia com um líquido viscoso — Uma dose especialmente alta do Especial K. O único com o que quase se pode garantir que podemos fazer cair a um troca-formas.

Denal se abriu passo com os ombros e os olhou com os olhos muito abertos.

— Especial K?

— Ketamina. Um tranquilizador para animais. Segura isto. — Ven colocou a arma entre as mãos de Denal — Arma. Veneno. Explosivos. Aqui temos de tudo, senhoras. — disse Vem, um sorriso sombrio lhe enrugava as comissuras da boca.

— O poder de controlar os elementos já não te basta, Vingador? — perguntou Alaric.

— Economize o desdém para alguém ao que lhe importe uma merda. Nem todos nós temos o nível de acesso que você tem ao poder de Poseidon. — disse Ven.

— Eu fico com a espada. — disse Justice com voz lenta — Ela e eu matamos a mais chupa sangues e troca-formas que todos seus brinquedinhos juntos.

— Dane-se você. Mais para mim. — respondeu Ven, enquanto carregava as armas — Aqui há de sobra para o que as quiserem. Como dizem nos filmes, meninos…

— Carregar, apontar, fogo! — gritou Christophe com um sorriso.

Ven assentiu.

— Carregar, apontar, fogo.

 

Os dedos de Conlan apertavam o volante do Mercedes com força, enquanto escutava as muitas chamadas que Riley fazia. Primeiro ligou a seu escritório e pediu algum tempo livre. Pelo que pôde averiguar da conversa unilateral, no escritório estavam encantados de lhe dar o tempo que quisesse. Dava a sensação de que Riley não tirou muitas férias nos últimos anos.

Por que não lhe surpreendia? Aquela garota tinha um sendo de dever tão enraizado como o de qualquer guerreiro.

— Err, detetive Ramírez, sou eu, Riley Dawson. — lhe dizia nesse momento ao celular fazendo alarde de não olhar a Conlan, ao que lhe divertia aquele desafio.

E não só lhe divertia, para ser sincero. Punha-o a cem. Embora, por alguma razão, tudo o que aquela mulher tinha que fazer era respirar e já o punha a cem.

Definitivamente, aquilo não era bom sinal.

A assistente social ficou calada um momento e assentiu a algo que lhe dizia o detetive pelo telefone. Depois voltou a falar.

— Graças a Deus. — depois olhou a Conlan — O bebê está bem. — disse antes de voltar a falar por telefone — Sim, posso passar aí para fazer a declaração, mas a verdade é que o que eu disse ontem à noite é tudo o que sei. Muito bem. Tem meu número de celular. Se houver algo, me ligue.

Quando fechou o telefone com um giro do pulso, Conlan pensou e logo decidiu não lhe dizer que o celular não ia ter cobertura quando estivesse sob o oceano.

Ela já o averiguaria. Para que procurar problemas?

Alaric se inclinou sobre o assento da parte de trás, justo detrás de Riley.

— Odeio os carros, Conlan. Diga-me por que te pareceu tão importante que utilizemos carros.

Conlan lhe lançou um olhar.

— Eu e você, inclusive Ven, resulta-nos muito fácil viajar com a bruma, mas não é tanto para alguns dos Sete, sobre tudo quando se trata de distâncias longas. E além disso ia ser muito para Riley. Posto que ela é quão única pode perceber o Reisen e seus homens, queria que estivesse cômoda.

Ven falou então.

— Por mim não há nenhum problema. Essas viagens não fazem bem aos meus brinquedos. A nada de metal sem oricalco, recordam? Ouçam, temos uma máquina estupenda, assentos muito cômodos e um sistema de som excelente. Eu carreguei alguns CDs bem legais, se quer lhe dar às pistas, vocês mesmo.

Conlan olhou pelo retrovisor para assegurar-se de que Justice e outros estavam detrás deles com o Hummer.

— Não se pode dizer que tenha escolhido uns veículos muito discretos, né, Ven? — disse com tom seco.

Riley emitiu um pequeno gemido com a garganta e se agarrou ainda mais a seu diminuto celular.

— Temos que chegar lá e rápido. Já estão muito perto. Eu… Devem estar no parque. Esta é a estrada que leva ao parque estatal First Landing. Ouvi que a Liga local de Aprecio aos Troca-formas tinham um foro ali.

Ven bufou.

— Genial. Agora resulta que esses filhos da puta têm uma liga de avaliação? Mas se passam a maior parte do tempo procurando formas de lhes comer vivos!

Riley girou a cabeça para olhá-lo com expressão desanimada.

— Não acredito que isso seja de tudo verdade. Tanto os troca-formas como os vampiros hão feito um esforço consideráveis para integrar-se de forma pacífica na sociedade.

Tocou então ao Conlan fazer um gesto de desgosto.

— São todos idiotas? Faz milhares de anos que as duas raças consideram os humanos simples novilhos, seu fornecimento de mantimentos pessoal. De repente saem à luz, metaforicamente falando, claro, e o primeiro que fazem é tentar assumir o mando. E isso é integrar-se? E dá igual se for de forma pacífica ou ao contrário.

— Eu, bem, estou de acordo contigo, mais ou menos. — Riley suspirou — Sempre pensei que era muito estranho que só uns anos depois de saber que existem os vampiros nos encontremos de repente com que dirigem sua própria câmara do Congresso. A ver, como pôde ocorrer sem algum tipo de controle mental? — disse.

— Controle mental ou ameaça física. — disse Alaric sem alterar-se — Aparentemente muitas de suas vozes discrepantes sofreram uns acidentes bastante prematuros ou desapareceram. É que ninguém notou um padrão em tudo isso?

— Não sei do que está falando. — disse Riley — Nas notícias não apareceu nada disso.

— Refere-se aos meios de comunicação dominados pelos troca-formas? Pergunto-me como pode ser possível. — lhe respondeu Alaric com a voz carregada de sarcasmo.

Conlan se meteu pela entrada do parque e encontrou um lugar para o carro. Em seu cérebro amontoavam-se como em um torvelinho os pensamentos mais desumanos. Depois de estacionar com um gesto brusco e desligar o motor, voltou-se em seu assento e ficou olhando a Alaric.

— Suspeita que poderiam estar associando-se? Depois de tantos séculos de matar-se entre si, de verdade acredita que os troca-formas ajudariam aos chupa sangues?

Alaric lhe devolveu o olhar com calma, embora Conlan notou que os olhos do sacerdote tinham começado a brilhar.

— Esteve fora boa parte desta década, Conlan. A verdade é que parece haver um certo espírito de cooperação entre eles, algo que não estava aí antes. Isso preocupa muito ao Conselho.

— Não me foda, até me preocupa muito. — grunhiu Vem — Se…

Riley lançou um chiado, um guincho estridente que Conlan jamais tinha ouvido. A jovem segurou a cabeça e gritou. Ele a rodeou com os braços para tentar consolá-la. Precisava consolá-la.

Precisava fazer que aquele som desumano se detivesse.

— Riley! Riley, o que acontece?

Ela deixou de chiar de repente e ficou olhando-o, com os olhos vazios e cravados em algo de seu interior.

— Estão aqui. Estão aqui e estão matando. Assassinando. Violência, morte e dor… Não! Não, não é possível!

Começou a gritar com tal força que Conlan pensou que lhe ia romper os tímpanos. Agarrou-a pelos ombros e a sacudiu um pouco para tentar tirá-la do inferno que era óbvio que estava experimentando.

— Riley! Está a salvo. Está aqui, conosco. Tem que te proteger dessas emoções. — disse-lhe com aspereza.

A jovem sacudiu a cabeça de um lado a outro.

— Não, não, não, não o entende. — gemeu — É Quinn. Não sei como, mas têm a minha irmã. Posso senti-la… Posso senti-la e está morrendo.

Ven e Alaric saíram de um salto do carro e deram uma portada às portas, depois, Ven abriu a de Conlan de um puxão. Conlan subiu a Riley a seu colo e a tirou do carro com ele. Ajudou-a a levantar-se e lhe rodeou a cintura com um braço firme.

— Diga-nos isso, nos mostre onde estão. Riley. Sabe que podemos ajudá-la se nos disser isso. Riley levantou a cabeça para olhá-lo sem deixar de segurar-lhe aturdida ainda.

— O que? Dor, Quinn, nãoooo!

Alaric levantou a cabeça com uma sacudida repentina e assinalou um atalho.

— Ali. Já posso sentir o Tridente. Resplandece de poder. E… Não sei como, mas também posso receber sua irmã. — disse mostrando os dentes com um grunhido — A sinto como se a tivesse sob a minha pele. Riley tem razão. Se não chegarmos ali rápido, vai morrer.

O Hummer estacionou a seu lado e os guerreiros saíram em turba.

— Ei, que legal. Bom, o que temos, caras? — exclamou Christophe, depois ficou paralisado quando viu Riley.

Endureceu-lhe a expressão e se dirigiu a eles seguido pelo Bastien e outros.

— Vamos atrás deles. — ordenou Conlan — Riley, você fica aqui, assim não correrá perigo e…

— Não! É minha irmã! — soltou ela, que por um instante parecia haver-se recuperado do atordoamento — Vou com vocês.

— Não temos tempo para discuti-lo. — disse Alaric — E estamos chamando a atenção. — assinalou com a cabeça a uns campistas que estavam olhando abertamente ao grupo de guerreiros embutidos em couro. Seu corpo inteiro sofreu então uma sacudida, como se lhe tivessem dado um golpe — Agora. Vamos já. — disse entre dentes, com os olhos verdes brilhando mais do que Conlan jamais tinha visto.

Primeiro a passo vivo e depois na corrida, Alaric partiu pela pista que entrava no bosque.

Ven olhou a Conlan, que assentiu.

— Segue-o. E outros também. Eu vou agora mesmo.

Quando os guerreiros saíram disparados pelo caminho detrás de Alaric, Conlan baixou a cabeça e olhou a Riley, que seguia apoiada nele.

— Você não vem, não quero que corra perigo. Juro-te que se não, fico aqui e me sento em cima de você. — grunhiu.

A jovem piscou.

— Sim, está bem. De repente me sinto muito débil. Mas me trará Quinn imediatamente?

— Prometo-lhe isso. — disse ele, depois abriu a porta do carro e a ajudou a entrar outra vez. Riley se recostou no assento, era óbvio que estava esgotada. O atlante sentiu uma onda de preocupação pelo que devia custar a aquela mulher ser empática.

Depois se inclinou sobre ela e lhe deu um beijo na testa.

— Trarei-a em seguida.

Olhou-o com os olhos enormes e muito abertos em meio do pálido rosto.

— Então vai, vai já.

Enquanto ela voltava a fechar os olhos, Conlan fechou a porta do carro e olhou a seu redor, viu que os turistas estavam detrás de seu grande trailer até converter-se em bruma. Assim chegaria mais rápido e sem que ninguém o visse. E que os deuses perdoassem ao que se atreveu a fazer mal à irmã de Riley.

Porque Conlan não ia ter piedade com ele.

 

Riley esperou uns segundos e depois jogou uma olhada entre os cílios, a tempo de ver que o gigantesco príncipe atlante se dissolvia convertido em um chuvarada de bruma.

— Mas que diabos? — piscou e depois se esfregou os olhos — Genial. A versão atlante de Houdini.

Mas não tinha tempo para preocupar-se por ele e seus estúpidos truques, a dor de Quinn estava-a abrasando. Abriu a porta do carro de um puxão e saiu de um salto, depois saiu correndo pelo caminho na mesma direção que tinham tomado os guerreiros uns minutos antes.

— Como se um simples estúpido pudesse me afastar de Quinn quando me necessita. Nem agora nem nunca. — pôs-se a correr ao tempo que dava obrigado em silêncio pelas velhas sapatilhas esportivas que pôs a toda pressa a noite antes e que ainda usava.

Outra pontada da dor de Quinn a atravessou inteira. Teve que dobrar-se por um momento, depois se ergueu e correu mais rápido ainda ao tempo que tentava tranquilizar a Quinn da única forma que sabia.

“Já vou, Quinn. Já estou quase aí. Não te atreva a morrer, é tudo o que tenho.”

 

Conlan acabava de se igualar a Ven e aos Sete que corriam pelo atalho quando o caminho se alargou e girou à esquerda. Quando dobrou a esquina, com o corpo ainda convertido em uma bruma translúcida, o atlante se topou com uma cena de violência e morte.

A impressão destruiu toda sua concentração e voltou a recuperar sua aparência habitual com uma sacudida nauseante. Ao redor de uma dúzia de corpos ensanguentados, mutilados e rasgados salpicavam o atalho. Sentiu que a bílis se acumulava na garganta quando seus guerreiros chegaram em tromba atrás dele. O bosque tranquilo e iluminado pelo sol que os rodeava contrastava de forma zombadora com aquela horripilante visão.

— Eu não gosto disso. — grunhiu Ven a seu lado — Eu não gosto nada disso.

Justice se abriu passo até colocar-se do outro lado de Conlan, com a espada desembainhada e mostrando os dentes.

— Vê o Reisen? É um dos mortos?

Alexios passou junto a eles e junto com o Conlan começou a examinar os corpos caídos. Os outros os seguiram com as adagas e as armas de fogo à mão; os olhos de todos examinavam o bosque sem cessar em busca de alguma sinal de possível perigo.

— Este é um troca-formas. — exclamou Conlan ao ver os reveladores olhos.

Os olhos de um troca-formas recuperavam a cor e a forma do animal correspondente ao morrer. O que jazia em várias partes a seus pés tinha sido uma espécie de lobo.

Depois levantou a cabeça com uma sacudida e procurou ao que deveria ter chegado ali antes que dele.

— Alaric, onde está?

— Estou aqui e necessito sua ajuda. — respondeu Alaric a suas costas.

Conlan girou em volta e viu o sacerdote saindo de detrás de uma árvore caída. Encaminhou-se para ele, mas depois se deteve em seco.

O rosto de Alaric desenhava planos duros e ferozes, em seus olhos verdes havia uma expressão feroz, selvagem. Quando voltou a falar, sua voz prometia uma morte brutal aos causadores de tanta destruição.

— Já me é impossível ajudá-la. Vai morrer.

O ruído de umas pegadas frenéticas interrompeu a resposta que pudesse haver ocorrido a Conlan; tanto ele como Alaric se deram volta e viram Riley, que dobrava a esquina a toda velocidade.

A jovem viu a cena e se deteve de repente com um chiado, tremendo, antes de começar a gritar.

— Quinn! Onde está?

Conlan correu para ela, mas foi Justice o que a agarrou quando a jovem se derrubou. A levantou nos braços e a deu com cuidado a Conlan, depois fez uma pequena reverência.

— Sua humana, meu príncipe.

Conlan fez caso omisso da ligeira brincadeira que tingia a voz do guerreiro e inclinou a cabeça para olhar a Riley.

— Shh. Não se foi ainda. Tem tempo de lhe dizer adeus.

Riley afogou um grito, custava-lhe respirar, mas começou a gritar outra vez, empurrando-o e arranhando-o para que a deixasse no chão.

— Não! Minha irmã, não. Coloque-me no chão. Agora mesmo.

Mas em lugar de baixá-la, Conlan a abraçou com mais força e lhe voltou o rosto para seu peito para que não tivesse que contemplar o açougue que os rodeava. Depois se esquivou e passou por cima de alguns corpos para dirigir-se com passo firme para Alaric.

Quando chegou à árvore morta, soltou Riley um pouco e a depositou com suavidade no chão. Alaric estava ajoelhado diante do corpo de uma mulher. Tinha uma ferida no ombro pela que emanava sangue com cada pulsar. Conlan cheirou o ar. O aroma sulfúrico da pólvora.

Tinham-lhe dado um tiro.

Quinn tinha o cabelo curto e escuro em lugar do dourado de Riley, mas a pele branca e sedosa e os delicados traços faciais tinham o selo da força e da beleza de Riley.

Ela se atirou ao chão e rodeou a sua irmã com os braços, soluçando. Durante um instante, uma fração de segundo que passou tão rápido que Conlan não esteve seguro de havê-lo visto de verdade, Alaric ficou rígido e esticou os dedos, convertidos quase em garras, como se quisesse atacar a Riley.

Mas quando Conlan foi interpor se entre os dois, o momento se desvaneceu e as chamas verdes dos olhos de Alaric se amorteceram um pouco.

— Ajude-a! — Riley agarrou a cabeça de sua irmã com cuidado e a pousou em seu colo antes de ficar olhando a Alaric — Ajude-a! Sei que pode fazê-lo. Curou um envenenamento, feridas de espada e cabeças quebradas. Seguro que pode curar uma pequena… Oh, meu Deus! É uma ferida de bala. Por favor, por favor. — lhe rogou, de algum modo soluçava e ordenava, tudo de uma vez.

Alaric sacudiu a cabeça com uma expressão aturdida na cara. Tinha olhos de louco, quase como se preferisse pô-los branco. Conlan não o tinha visto assim jamais.

— Não posso. — murmurou com tom angustiado — Não posso chegar a ela. Só posso sentir a dor que transmite. Não posso chegar mais à frente.

Conlan fincou um joelho no chão, ao lado de Riley, e a abraçou com a esperança de consolá-la um pouco. Deu-lhe uma cotovelada desumana e o tirou de cima, sem afastar os olhos de Alaric nem por um instante. Mostrou os dentes e grunhiu com tal ferocidade que quase pareceu converter-se em uma troca-formas.

— Pode e o fará porque eu te vou levar além dessa dor. — e dizendo isso se apoderou do antebraço de Alaric com a força de um torno e lhe obrigou a baixar a mão até o ombro de sua irmã — Vi curas na televisão. Curas de bruxas. Têm que tocar para sanar. Suponho que contigo é igual.

Enquanto Conlan os olhava, Riley conseguiu de algum modo ganhar a resistência com o Alaric, combatendo sua reticência com puro desespero. Quando a mão do sacerdote atravessou os últimos milímetros de espaço que o separavam do ombro de Quinn, Conlan viu um fulgor de cor água-marinha que passava da palma da mão de Alaric à irmã de Riley.

Quando os dedos de Alaric tocaram finalmente a Quinn, o corpo da jovem, que descansava no colo de Riley, deu um salto ao sentir o contato e seus pés tamborilaram sobre a pilha dourada e vermelha de folhas caídas em que repousavam. Riley, sem deixar de segurar com força o braço de Alaric, fechou os olhos.

Alaric lançou para trás a cabeça com um estremecimento, os tendões de seu pescoço se puseram em relevo e todos os músculos de seu corpo pareceram esticar-se.

Conlan pousou as mãos nos ombros de Riley, mas uma descarga elétrica o separou de um empurrão. Por espaço de uns quantos segundos, os três, Alaric, Quinn e Riley, ficaram paralisados em um doloroso quadro vivo pintado com uma radiante luz verde azulada.

E depois, como um somente, Riley e Alaric se derrubaram entre ofegos. Conlan agarrou a Riley antes que pudesse cair sobre sua irmã, segurou o queixo com doçura e procurou em seu rosto algum sinal de possível dano.

Alaric se recuperou um pouco com uma mão no joelho e a outra ainda no ombro de Quinn.

— Não sei por que te viu apanhada no processo de cura, Riley. Jamais tinha canalizado assim os poderes de cura. Está ferida?

Antes que Riley pudesse responder, uma voz feminina tranquila e um pouco rouca interrompeu os ofegos dos outros dois.

— Se aproximar um centímetro mais essa mão à minha teta, eu a corto.

Alaric lhe jogou uma olhada aos olhos de Quinn quando os abriu e se separou dela. Depois levantou-se com tal velocidade que Conlan quase nem o viu, embora observou que Alaric se separava da jovem sacudindo a cabeça e murmurando algo para si.

Conlan foi incapaz de entender o que dizia, mas ouviu a cadência do atlante antigo e se perguntou o que lhe aconteceria. Depois acariciou a cabeça de Riley, um breve roce mais para seu consolo que para o dela, e se levantou para seguir a Alaric.

Alcançou ao sacerdote do outro lado do caminho, justo quando este começava a brilhar para converter-se em bruma.

— Pare um momento. — lhe ordenou — Onde diabos dos nove infernos acredita que vai? O que acaba de acontecer aí atrás?

Alaric retornou a sua forma corpórea e girou em volta para olhar ao príncipe.

— Quer saber o que acaba de acontecer? — perguntou com uma fúria selvagem na voz e desespero desenhado nas linhas duras de seu rosto — Quer saber o que acaba de acontecer? — com apenas dois passos estava justo diante do nariz de Conlan — Vou-lhe dizer o que acaba de acontecer, meu príncipe. — continuou Alaric com voz áspera — O que acaba de acontecer é que enviei minha energia curadora ao interior de Quinn. Ao interior dessa humana. E ela se apoderou de mim.

Passou uma mão pelo cabelo e lançou uma gargalhada um pouco perturbada, e seus olhos cintilava uma luz verde e ardente.

Selvagem.

— Essa garota me fincou as garras mentais nos ovos, isso é o que aconteceu. Eu a curei e ela destruiu algo em mim. Fez-o pedaços.

— Mas que…? — Conlan não conseguiu fazer a pergunta.

— Meu autocontrole. — grunhiu Alaric — Esse controle absolutamente pétreo que me passei séculos aperfeiçoando. A irmã de sua amiguinha estendeu suas emoções, ou essa natureza de bruxa empática dela, ou o que caralho for, e tudo o que ansiava fazer era fodê-la.

Conlan deu meio passo atrás ao ouvir a ferocidade no tom do sacerdote e levou as mãos aos cabos das adagas. Durante um instante, uma morte gelada impregnou o ar entre os dois.

Alaric se pôs-se a rir, uma risada amarga outra vez.

— Oh, não lhe fazem falta as adagas. Apesar de que a desejei mais do que desejei nada em toda minha vida, não vou tocá-la. Embora inclusive nestes momentos minha mente me tortura com imagens nas que me vejo me afundando em seu corpo, aí mesmo, no chão, entre seu próprio sangue, fodendo-a sem parar até me incrustar em sua alma. — Alaric deu um chute brutal a uma árvore e vários fragmentos de casca voaram pelos ares e depois se desintegraram entre os raios de energia verde que lhes disparou.

Esse era um território novo e perigoso, de modo que Conlan tentou proceder com cautela.

— Alaric, deve…

— Sim. Devo. Devo não sucumbir jamais à sede de luxúria, ou será o fim de meu poder. E certamente já não seguiria sendo útil a você ou à Atlântida. Não lhe serviria de nada ao filho da puta ciumento de deus do mar ao que sirvo. — disse o sacerdote com tom inexpressivo, sua voz se desprendeu de repente da raiva e a paixão que a tinham tingido momentos antes — Tenho que me afastar dela. — continuou — Agora. Tenho que ir embora daqui. De todos os modos hoje já não posso fazer nada mais. Este… Este consumo de energia me tirou qualquer esperança que pudesse ter de localizar outra vez o Tridente, não posso fazer nada até que me recupere. Já lhes verei na casa segura de Ven esta noite.

Conlan agarrou a seu amigo pelos ombros, emocionado por uma blasfêmia que não lhe tinha ouvido jamais.

— Alaric, tem que saber que a utilidade que tem para mim e para a Atlântida vai muito além dos poderes que tenha Poseidon podido te conceder. Seus sábios conselhos me serviram bem durante séculos e vou necessitar quando subir ao trono.

Alaric ficou olhando por cima do ombro de Conlan a Riley e sua irmã.

— Essas empáticas. São o sinal de uma mudança traiçoeira em nossos costumes, Conlan. Percebo-o. Vai haver mudanças. Um perigo que se abate sobre nós do interior de nossas próprias almas.

E dizendo isso deu dois passos correndo e saltou no ar para transformar-se em uma bruma resplandecente que se desvaneceu em um instante.

Conlan contemplou o espaço no que Alaric se desvaneceu durante um longo minuto e pensou em suas últimas palavras.

Mas Alaric se equivocava. Não ia haver mudanças.

As mudanças já estavam aqui.

 

Vinte minutos mais tarde, Conlan se encontrava ao lado de Ven, contemplando com expressão sombria o montão de corpos que tanto eles como o resto dos Sete tinham metido detrás dos troncos mortos. Depois de séculos de servir como guerreiro ainda não havia se acostumado ao cheiro fétido da morte. O estômago lhe grunhia em sua ânsia por desfazer-se de seu conteúdo. Esfregou-se as mãos com folhas, mas depois se deu conta da futilidade do esforço, assim invocou um jorro de água das folhas que o rodeavam e de um pequeno arroio que passava a uns cem metros para lavar as mãos.

A bruma se liquidificou na terrina de suas mãos e o guerreiro lavou o sangue das mãos e os antebraços enquanto se perguntava como Reisen e os guerreiros que ficavam depois de sobreviver a semelhante açougue teriam escapado. Tinham que estar cobertos de sangue e vísceras.

Salvo, claro está, que tivessem viajado convertidos em bruma. O que possivelmente explicasse por que Riley tinha deixado de detectá-los. Teria que pôr a prova essa teoria com ela em algum momento. Quando não houvesse uma dúzia de homens mortos jazendo a seus pés, claro.

Quase sem querer, buscou-a com a mente, mas a jovem tinha fechado aqueles malditos escudos, com tal força que nem sequer saberia que estava ali se não acabasse de deixá-la. Embora fosse melhor assim. Havia um limite no que se podia esperar que aquela garota suportasse.

Justice e Bastien percorriam a zona do bosque mais próxima procurando qualquer sinal de Reisen e seus guerreiros enquanto Christophe e outros faziam guarda.

Brennan, carente de emoções, permanecia com Riley e sua irmã. Riley lhe disse que estavam perdendo o tempo.

— Foram-se. Ou fizeram magia ou aprenderam a mascarar suas emoções na última meia hora. Porque não sinto nada absolutamente.

Conlan não estava muito seguro se podia confiar em sua habilidade para perceber os guerreiros de Micenas, dado o alcance do horror que acabava de viver. Mas os sentidos de Riley, por comprometidos que estivessem, eram tudo o que tinham.

Alaric se tinha ido.

— Temos que nos desfazer dos cadáveres. Não podemos deixar este desastre às autoridades humanas. — grunhiu Ven enquanto secava o suor da testa com o antebraço — É um pesadelo.

Conlan assentiu. Tinham contado sete troca-formas mortos e cinco atlantes. Teria que destruir as provas daquela batalha.

— Tampouco vamos cavar um grande buraco. — respondeu — Há uma forma mas, com tantos, vamos ter que fazê-lo os dois.

Ven lhe lançou um olhar.

— Não estará pensando…

— Que outra coisa ia pensar? Temos que utilizar a solução definitiva.

Ven lançou um assobio.

— Mortus desicana. Ignorava que sabia canalizar essa classe de poder. Alguma vez…?

Conlan o cortou.

— Não. E não é que não o tivesse tentado com a Anubisa se tivesse tido a menor oportunidade. Mas isto é diferente. Estes homens já estão mortos. Não nos imporia nenhuma penitência.

— Está seguro? O que o rato do templo diz sobre o assunto?

Conlan duvidou um momento, não sabia muito bem quanto podia dizer. Não faria nenhuma graça ao Alaric que expusesse uma debilidade dele.

Em qualquer caso tampouco havia tempo.

— Foi-se. A cura… Retornou a casa segura .

— O que? É que depois de curar uma simples ferida de bala já está feito um gatinho? Vai ouvir…

Conlan ouviu um rangido entre as árvores, a uns cinquenta metros de distância, e se concentrou. Era Justice. Mas o som não fazia mais que sublinhar a pressa que tinham.

— Ven. Concentre-se. Ajude-me a canalizar o mortus desicana para destruir estes cadáveres ou o tenho que fazer eu sozinho?

— Ajudo-te, tranquilo. Mas que Poseidon nos ajude se te equivoca com o da penitência. Doze corpos… Pode que não sobrevivamos.

Depois de jogar uma rápida olhada para assegurar-se de que Brennan ainda mantinha a Riley afastada do montão ensanguentado de assassinados, Conlan respirou fundo e levantou as mãos para mandar sua chamada ao vento.

Se a jovem o visse, acreditaria que ele era o mesmo tipo de monstro que provocou aquele pesadelo de sangue.

A seu lado, Ven fez o mesmo, e os dois começaram a entoar o cântico.

 

Poseidon, Pai da Água.

Senhor dos elementos, avatar de justiça para todos os atlantes. Ouça nosso rogo, sente nossa necessidade.

Nos empreste seu poder para o mortus desicana. Ouça nosso rogo, sente nossa necessidade.

 

Por um momento não aconteceu nada. O desespero atravessou a Conlan. Poseidon tinha-o abandonado de verdade, um ser indigno depois do que Anubisa lhe havia feito?

Mercadoria danificada. Mercadoria danificada. Mercadoria…

E então uma corrente elétrica entrou em seu corpo como uma tromba. Do ar, da água, do chão, do próprio vento. Penetrou-lhe pelos pés, pela pele, desceu-lhe pelo crânio do céu sem nuvens. O poder dos elementos lhe atravessou a carne, chiou por suas terminações nervosas, rasgou sua capacidade de controle.

Mas o atlante lutou contra ele, conteve-o, canalizou-o. Sem nem sequer dar-se conta que estava-o fazendo, rugiu proclamando seu domínio sobre o poder.

— Eu sou Conlan de Atlântida e te ordeno que leve a cabo o mortus desicana!

E dizendo isso, através das mãos arrojou todo o poder que seu corpo albergava contra o montão de cadáveres e observou, recreou-se, orgulhou-se do poder. O rugido da carga dos elementos cobriu e rodeou os corpos dos mortos, penetrou em todos e cada um dos poros de sua pele, em cada orifício, e levou a cabo seu aterrador trabalho.

Absorveu e drenou cada grama de água, cada gota de fluido. Incorporou o líquido e devolveu o fluido à natureza, de onde procedia. Secou e drenados os cadáveres dos mortos.

Enquanto Conlan sussurrava com fúria, com frenesi, com a ardilosa chamada das sereias do poder sem adulterações. O mortus desicana.

O poder com o potencial de absorver os fluídos dos tecidos e os ossos daqueles que ainda estavam vivos.

Uma ideia tão sedutora que esteve a ponto de asfixiá-lo. E isso foi o que o deteve. O horror ante o que poderia converter-se, ante o que o fato de empunhar semelhante poder poderia fazer a sua mente, a sua alma, arrancou-o da fonte dos elementos imediatamente.

Ao perder o controle caiu para trás, ofegando, e se apoiou na árvore mais próxima. Quando conseguiu desprender-se do poder e do clima e do pó dos corpos secos, viu Ven, derrubado no chão, tentando levantar um braço.

Quando Conlan tentou levantar-se para recuperar a força suficiente para continuar, uma voz brusca se interpôs em seu esgotamento.

Era Justice.

— Muito interessante, meu príncipe. Não sabia que dominava a invocação da morte proibida. — Justice fez uma ligeira reverência e rodeou o montão de pó e fragmentos de ossos que jaziam onde apenas uns minutos antes estavam os corpos de doze homens.

Deu-lhe um chute a um crânio que se afastou rodando dos outros e que explodiu em uma chuva de pó fino e seco.

Justice inclinou a cabeça e ficou olhando a Conlan e a Ven com os olhos entrecerrados.

— Muito, mas muito interessante.

 

Barrabás se recostou em sua poltrona de madeira esculpida, no centro da galeria principal do Primus, horas depois que todos os outros se fossem para casa, para continuar com suas vidas sem sentido. Estava contente com o trabalho do dia. Outro codicilo mais que se acrescentaria à Ata de Amparo das Espécies Não Humanas de 2006, que ele tinha escrito, um de seus melhores lucros, estava a só uma assinatura de converter-se em lei.

Foi introduzindo o codicilo a base de persuasão, encanto e força bruta. O desaparecimento de dois membros chave das câmaras humanas do Congresso tampouco lhes fez nenhum dano.

Sorriu mostrando os dentes, um gesto que aterrorizaria ao homem débil que quase com toda segurança estava sentado no Gabinete Oval, tremendo, nesse mesmo momento. Seus assessores estavam aconselhando ao presidente que vetasse o projeto de lei.

Barrabás sabia que aquele boneco de pano não tinha a coragem suficiente para fazê-lo. A expressão “caso perdido” adquiria todo um novo significado quando um político tinha que tratar com o senhor dos vampiros.

— Deve se sentir muito satisfeito, lorde Bar… Lorde Barnes. — Drakos tinha entrado sem que ninguém o visse e nesse momento descia pelo corredor com passo firme.

A Barrabás não fazia muita graça que um general pudesse aproximar-se a ele com tanto sigilo, que lhe recordou uma vez mais que logo teria que começar a buscar um substituto para Drakos.

Possivelmente Calígula. A ideia lhe proporcionou um prazer perverso e voltou a sorrir.

— Sim, Drakos, estou muito, muito satisfeito. Para consolidar o poder não há mais que adquirir e otimizar os conhecimentos.

Barrabás ficou de pé e depois levitou desde sua posição até o chão da câmara.

— Se conhecer tanto a seu inimigo como a você mesmo, sairá de cem batalhas com cem vitórias nas mão. Se não conhecer a seu inimigo nem a você mesmo, perderá a todas.

Drakos levantou uma sobrancelha.

— Sun Tzu ?

Barrabás inclinou a cabeça.

— Um autêntico mestre da estratégia.

— Também era um de nós?

— Não, embora seja surpreendente que não o fosse. Se eu tivesse tido a oportunidade… Bom. Dá no mesmo. O que tem que me contar?

— Nossos espiões informam um fracasso completo na hora de determinar o que pode haver ocorrido a Terminus e sua vanguarda, meu senhor. Havemos…

Mas antes que Drakos pudesse terminar a ideia, um calafrio percorreu a câmara inteira. Embora carecesse de cor, destruiu a luz. Embora carecesse de aroma, fedia a bílis e morte.

Embora carecesse de som, ensurdeceu-os aos dois e os fez derrubar-se de joelhos.

Engasgando-se, meio afogado, Barrabás mal teve tempo de dar forma o nome em sua mente antes que ela falasse.

Anubisa. Deusa da noite.

Em sua voz ressonavam os repiques que anunciavam a forca do verdugo, o machado do bárbaro. Chiava em seu tom o som do cristal moído que fazia pedaços as cordas vocais de vários humanos gritando.

E entretanto, de algum modo, as palavras eram serenas e estáticas. A morte que arrebata o fôlego a um recém-nascido em seu berço.

Como lhe tinha visto fazer. Não só o fôlego, mas também o sangue também.

Como lhe tinha ajudado a fazer.

Maravilhou-lhe que ainda existissem pedaços quebrados de sua consciência, assassinada muito tempo atrás, para lhe ferroar o fígado.

Para retorcer-se em seu cérebro.

Barrabás estava chiando de agonia antes que a deusa tivesse terminado sua primeira frase. E depois foi incapaz de emitir som algum.

Derrubou-se de barriga para baixo, ao lado da forma inconsciente de seu general.

— Cada vez é mais forte, Barrabás. — cantarolou Anubisa com seu ritmo alegre e envenenado — A última vez que te vi, já tinha se mijado inteiro muito antes que formasse as palavras.

Voltou a cabeça com esforço para tentar olhá-la ao rosto, e o gelo que flutuava no ar intensificou-se. Converteu suas vísceras em água pura.

Teria rezado para não terminar sujando-se, mas a quem rezavam os senhores da escuridão?

A puta da deusa que tinha adiante, é óbvio. E ela não tinha nada parecido à piedade ou a compaixão em seu interior.

Barrabás apertou as nádegas e escutou.

A deusa pôs-se a rir. Com o som de sua risada, as criaturas vivas morriam. Também o tinha visto.

Um coágulo diminuto que tinha no cérebro explodiu e lhe provocou uma hemorragia nasal. Ficou deitado, muito quieto, enquanto o sangue lhe escorregava por um lado do rosto e formava um atoleiro no chão que tinha debaixo da bochecha.

— É essa a oferenda que me faz, lorde Barnes? E, sim, é obvio que conheço sua patética tentativa de ocultar seu verdadeiro eu a estes novilhos.

As pontas dos dedos e a borda do vestido de seda da vampiresa era tudo o que Barrabás podia ver. Vestida de branco. Um branco virginal e farsante cobria à deusa de todas as luxúrias.

Que era pelo que a deusa se divertia tanto.

O havia dito uma vez. E depois o quebrou em mil pedaços.

Uma e outra vez.

Barrabás se encolheu ao apenas recordá-lo. Encolheu-se ao recordar que, ao final de tudo, tinha rogado que lhe provocasse mais dor. Mais humilhações.

Arrastou-se ante ela em busca de suas retorcidas perversões.

A deusa fez um gesto com uma mão e o liberou. Capaz de mover-se de repente, o vampiro teve medo de fazê-lo.

Conhecia bem seus jogos.

— Se levante, meu Barrabás. Ouço nesse esgoto que tem por mente que recorda nossos momentos de ócio com… Saudade. Quer que volte a te agradar com meus brinquedinhos?

Barrabás se levantou lutando para conter o estremecimento que ameaçava devorar todo seu corpo. Seus brinquedinhos. Látegos com garras de ferro. Grilhões de aço que podiam prender muitas mais coisas que os braços e as pernas.

Ousou olhá-la e viu que não tinha mudado absolutamente. Por acaso, era mais bela que trezentos anos antes, a última vez que a tinha visto.

A última vez que a havia sentido.

E quase tinha experimentado a morte real então. Umas ondas sedosas de cabelo negro como a meia-noite acariciavam umas curvas de tal perfeição que fariam babar e enlouquecer a qualquer homem humano. Uns olhos penetrantes da cor negra das almas condenadas o olhavam com um brilho vermelho exato no centro.

Devia estar de bom humor.

Possivelmente não tivesse que morrer.

Provavelmente não essa vez.

— Teme me responder, lorde Barrabás? — infundiu na palavra “lorde” um sarcasmo tão áspero que poderia ter arrancado a carne dos ossos.

E isso também o havia feito com ela. Mais de seus “brinquedinhos”.

— Eu… Perdoe-me, minha senhora, minha deusa. Não tenho palavras ante sua beleza. —gaguejou.

Sabia que as adulações possivelmente, e só possivelmente, pudessem distraí-la. Era a Morte personificada, mas era uma morte antiga, gênero feminino. As palavras bonitas lhe chamavam a atenção igual às coisas brilhantes atraíam a uma gralha.

— Sim. Sim, sou bela, Barrabás. — se pavoneou a deusa — E já faz muito tempo que me contenho e não realizo meus jogos favoritos por culpa da maldição de Poseidon. Mas este dia e a noite de ontem me deram grande alegria, jovenzinho. Deseja saber por quê?

Embora já tivesse quase três mil anos, o “jovenzinho” teve medo de fazer algo mais que assentir.

Anubisa lhe acariciou a bochecha com um dedo e a pele do vampiro ardeu e escapuliu ao passo do roce. Barrabás lutou para não estremecer-se.

— O próprio principezinho violou a maldição de Poseidon. Revelou-lhe a existência de Atlântida a uma das novilhas, quebrando assim a antiga constrição que me impôs esse idiota do deus do mar. — disse a deusa, suas saias desenhavam um torvelinho a seu redor com a força de sua cólera.

Barrabás afogou um grito.

— A Atlântida? O continente perdido da lenda existe de verdade?

A deusa voltou a sorrir, tinha a boca lotada de dentes. Dente brilhantes, afiados como adagas. O vampiro se inclinou para ela, hipnotizado pela visão, mas a deusa pôs-se a rir e deu as costas.

— Não, Barrabás, não estou de humor para provar de novo sua mercadoria. Primeiro te falarei de Atlântida e te direi como tem que servir a meus planos, e depois… — Anubisa sorriu outra vez e empurrou com uma sapatilha a forma imóvel de Drakos — Depois ensinarei seu general a jogar.

 

Riley plantou uma mão no quadril enquanto com a outra seguia segurando a Quinn e ficou olhando a montanha de músculo com patas que bloqueava o atalho.

— Olhe, Bastien, agradeço que seja tão leal a Conlan. De verdade. Mas Brennan já nos deixou ir e preciso levar minha irmã a um médico.

Um rastro de cálida compreensão cruzou o atraente rosto de Bastien, mas de todos os modos sacudiu a cabeça e cruzou os braços sobre o enorme peito.

— Sinto muito, lady Riley, mas não posso lhe permitir que passe .

Riley ouviu um estalo agudo e, de repente, Bastien tinha apertada contra o pescoço uma navalha de aspecto letal. E era Quinn a que sustentava o extremo não afiado da mesma.

Riley afogou um grito, mas Bastien se limitou a suspirar, como se não lhe preocupassem absolutamente os aproximadamente quinze centímetros de aço que lhe ameaçavam a garganta.

Quinn se separou de Riley e a empurrou um pouco com o outro braço.

— Verá o que vamos fazer, colega. Você nos deixa ir a mim e a minha irmã ou eu lhe fatio a artéria carótida em pedacinhos antes que possa dizer “o gigante não tão feliz”.

Bastien inclusive sorriu.

— Não me surpreende que tenha a coragem de um guerreiro cinco vezes maior que você, pequena. O sangue de sua irmã pulsa com força em você. Amamentaram-nas com o leite de uma tigresa?

Riley se recuperou da surpresa de repente e puxou o braço de sua irmã.

— Quinn, pare! Estes homens são… Bom, são… São os bons.

Deu-se volta para olhar a Riley aos olhos sem que a mão que segurava a navalha vacilasse um

só instante.

— Riley, aqui há coisas que você não entende. Esses homens que estavam mortos… Eram…

— Eram troca-formas e guerreiros atlantes. — disse Conlan entrando no atalho junto a Riley — O que seria interessante saber é como você terminou ali atirada, ferida, no meio de todos.

Brennan apareceu sem ruído ao lado de Quinn.

— Pressenti que tinham terminado o mortus desicana e que já seria seguro permitir que lady Riley e sua irmã caminhassem para você. — disse fazendo uma pequena reverência a Conlan.

Quinn entrecerrou os olhos, mas ao final baixou a navalha e se separou de Bastien, que lhe piscou o olho.

— Superados em número por guerreiros atlantes. Isso explicaria muitas coisas do modo que tiveram… Bom. Tem alguma prova que demonstre esta ridícula história? E o que estão fazendo aqui? — depois varreu com a mão o atalho — Foram seus homens os que atacaram a meus lobos?

O coração de Riley, que ao fim tinha começado a tranquilizar-se, voltou a disparar-se outra vez.

— O que? Seus lobos? Mas o que você faz com uma matilha de troca-formas?

Quinn lhe deu uns doces leves golpes no braço com o gesto de uma mãe que consola a um bebê que começa a andar.

— Shh, irmãzinha. Não passa nada. Já lhe contarei isso mais tarde.

Ah, não, isso não podia estar acontecendo. Riley afastou o braço de um puxão da mão de Quinn.

— Pode te colocar onde te caiba a atitude condescendente, Quinn. Diga-me que caralho está fazendo aqui e por que tinha uma… Uma ferida de bala que quase te manda ao outro lado.

Quinn teve o atrevimento de pôr os olhos em branco.

— Isso é um pouco dramático, não te parece? E foi só no ombro. Tive piores. — lhe abrandou a expressão e atraiu a Riley para lhe dar um abraço feroz — Sinto muito, irmãzinha. Amo-te tanto que não queria que visse nada deste mundo. — Quinn se afastou de repente e examinou a zona — E falando disso, onde está esse outro homem? Tive uma sensação muito estranha, era como se me metesse na pele para me curar de dentro… — foi a voz e levantou a mão para tocar a camisa feita farrapos e a pele ilesa que tinha debaixo — E sei que não imaginei o balaço.

— Podemos compartilhar todas as nossas histórias quando voltarmos para casa. — disse Conlan — Acredito que já é hora de que saiamos daqui.

— A cena do crime. — acrescentou Quinn, várias rugas de dor e esgotamento lhe marcavam o rosto — Onde estão? O que fez com… Os corpos?

Ven se aproximou deles cambaleando-se, parecia que tinha estado em três semanas de bebedeira. Tinha a pele cinza e umas olheiras negras sob os olhos que chegavam aos pés. Riley o olhou e depois a Conlan, cujo rosto estava também gasto e pálido, embora não tanto como o de Ven.

— Pode-se saber o que aconteceu com vocês dois? — perguntou, e abriu sua mente e suas emoções pela primeira vez desde que tinha visto os corpos.

Mas os escudos mentais de Conlan estavam erguidos muito bem. Foi incapaz de sentir nada nele.

Ven, entretanto, ou não era tão forte ou estava muito cansado para que lhe importasse. Riley o sentiu nele: a dor, o esgotamento, o horror ante o que tinham feito.

Mas não entendeu as emoções.

— O que fizeram com os corpos? — perguntou, fazendo eco das dúvidas de Quinn.

— Tivemos que nos desfazer deles. Não podemos deixar um desastre assim nas mãos das autoridades humanas. — disse Conlan com a mandíbula apertada.

— Mas… Não! Não podem fazer isso! Temos que ligar para o 911 e…

— Tem razão, Riley. — disse Quinn, muito cansada, com a cabeça baixa — Isto está inclusive além da O.P.. Sobre tudo se forem de Atlântida de verdade.

Conlan estendeu a mão a Riley, que o olhou piscando, sem poder acreditar.

— Mas isso não pode ser. Os caras de Operações Paranormais se ocupam deste tipo de coisas todo o tempo, não? Quer dizer…

— Riley. — disse Conlan com voz suave — Já não fica nada, não vão encontrar nada. Por favor. Temos que levar a sua irmã a um lugar seguro.

Riley duvidou um minuto mais e depois assentiu antes de quadrar os ombros.

— Claro. Como não. Tem razão. A Atlântida existe, os vampiros me atacam, o noivo da minha cliente quase me mata e minha irmã está metida em um grupo de homens lobo. O que tem tudo isso de estranho?

Rodeou com força a Quinn e desceram pelo atalho rumo aos carros e, com um pouco de sorte, a algumas respostas.

 

Conlan ficou olhando pela janela a luz do sol que desaparecia, enquanto se perguntava como era possível que o mundo pudesse tornar-se louco em só umas horas. Nem Quinn nem Riley quiseram falar com ele no trajeto de volta à casa. Quinn ficou adormecida quase imediatamente ao chegar. Riley seguia sentada, sem mover-se, em uma cadeira junto à cama de sua irmã; tinha permanecido assim toda a tarde.

Alaric seguia sem aparecer.

Enviou Bastien a fazer uma patrulha para ver do que podia descobrir, enquanto Chistophe utilizava sua estranha genialidade com a internet para piratear todas as redes de mídia locais que pudesse encontrar.

Ven tinha ido procurar um contato entre a população local de troca-formas e levou Alexios com ele. Possivelmente alguém se inteirasse do que estava fazendo exatamente uma matilha local de lobos para meter-se em uma confusão com o Reisen e seus homens.

Embora, conhecendo o Reisen, seguro que era ao contrário. Não se podia dizer que a Casa de Micenas fosse muito sutil na hora de deixar claros seus sentimentos. Para eles o único troca- formas bom era o que estava morto.

Brennan passeava pela grama do exterior, de guarda; ao vê-lo esboçou uma saudação e logo assinalou para cima. Assim Justice tinha tomado posições no telhado. Bom.

Denal estava sentado no chão, fora do quarto de Riley e Quinn, com as adagas prontas. Estava tomando muito a sério sua obrigação como defensor de Riley.

Inclusive, para diversão e consternação de Conlan, no que a seu príncipe se referia.

— Agora não quer falar com você, meu senhor. — lhe havia dito Denal, muito pálido, surpreso certamente de sua própria audácia, mas firme, diante da porta do dormitório.

Conlan assentiu, resignado.

De momento.

Mas se inclinou sobre seu jovem guerreiro e lhe disse em voz muito baixa.

— Serve bem a sua senhora, Denal. Mas tem que saber algo. Se eu quiser estar a seu lado neste instante, nem você nem nenhuma força da própria natureza poderia me deter. Recorda-o no futuro.

Tinha que dizer em honra de Denal que o novato não se arredou nem um milímetro. Mas Conlan ouviu a exalação explosiva de fôlego do jovem, quando se afastou do dormitório e seu sentinela.

Conlan fechou os olhos e tentou chegar a Riley, mas os escudos mentais da mulher seguiam em seu lugar. Depois enviou uma chamada pelo atalho mental que todos os atlantes compartilhavam.

“Alaric, onde está? Precisamos de você, sacerdote.”

 

Já eram quase nove e meia quando Quinn despertou. Denal, que permanecia acampado ante sua porta, tentou convencer a Riley várias vezes para que comesse algo, mas ver Quinn ali deitada, meio moribunda, liberando o que parecia uma espécie de batalha sobrenatural, tinha-lhe tirado o apetite.

Quinn estava de costas, com os braços muito abertos, como sempre havia dormido. Riley ficou olhando-a fixamente e foi então quando os olhos de Quinn se abriram com uma piscada.

— Riley? — sussurrou com a voz rouca — Onde estamos?

— Ficou adormecida no carro, Quinn. — disse Riley tornando-se para frente para agarrar a mão de sua irmã — Estamos em uma casa que é do irmão de Conlan, Ven.

Quinn lhe apertou a mão, um breve apertão, e se levantou com certo esforço. Ainda tinha farrapos da camisa que levava posta quando lhe tinham disparado.

— O que aconteceu, Riley? Quem era esse homem e como me curou o ombro?

— Não sei muito bem como curou, Quinn. Chama-se Alaric e…

—Alaric. — interpôs Quinn abrindo muito os olhos — Sabia. De algum modo soube que se chamava assim. É quase como se tivesse me falado quando estava dentro de mim.

— Dentro de você ?

— Sim. Podia senti-lo trabalhando em meu interior para me curar o ombro. Foi muito estranho. Quase como se uma bola de energia, azuis, verdes e prata, mas com a escuridão sombreando tudo, estivesse viajando por minha pele, literalmente. — Quinn sacudiu a cabeça e depois se afastou os cachos escuros dos olhos — Ou é que estou me tornando louca? —perguntou.

A angústia era evidente em seu olhar.

— Não está ficando louca. Eu passei quase pelo mesmo com o Conlan. Há algo diferente e assombroso nestes atlantes. Posso penetrar em suas emoções a um nível muito mais profundo que com qualquer outra pessoa… Salvo contigo, Quinn.

Riley se levantou de um salto e começou a passear-se por todo o pequeno quarto.

— E eles também podem sentir minhas emoções, até certo ponto. É quase incrível, mas Conlan às vezes pode ler o meu pensamento. Ele… Não sei como descrevê-lo. Está além de tudo o que senti até hoje.

Riley se voltou para Quinn ao ouvir o assobio profundo de sua irmã, que a olhava fixamente e procurava algo em sua expressão.

— O que é esse tom que ouço em sua voz, Riley? Não te ouvi com esse tom na faculdade. Não, possivelmente nenhuma vez. É que sente algo por esse cara?

O rosto de Riley ardia, assim abaixou a cabeça, mas não antes que Quinn visse.

— Não sei. Não sei o que sinto, salvo que estive dentro de sua mente, Quinn. E jamais vi nada parecido, jamais senti nada parecido.

Cruzou o quarto e se sentou na cama, ao lado de sua irmã.

— Salvou-me. Salvou-me de uns ordinários que havia na praia e que me teriam violado ou algo pior. Depois que me salvou, bom, mais ou menos nos salvamos um ao outro, de um bando de vampiros que montaram diante de minha casa. — Riley voltou a agarrar a mão de Quinn e se agarrou a ela como se fosse um salva-vidas — Estive em seu interior. A dor… Não sei como pode ter sobrevivido à tortura que vi em suas lembranças.

— Outro bichinho perdido que você anseia levar para casa?

— Que anseio levar para casa. — refletiu Riley — O de “ansiar” certamente é certo. Eu não posso acreditar que esteja admitindo, mas entre nós há uma atração animal assombrosa. Desejo-o mais do que desejei nada ou a ninguém em toda minha vida. — depois sacudiu a cabeça — É uma loucura, juro-lhe isso.

Quinn soltou da mão de Riley, agarrou a sua irmã pelos ombros e lhe deu uma pequena sacudida.

— É que, que conste que lhe pergunto da forma mais diplomática possível, perdeu o parafuso mais importante? Quanto tempo faz que conhece esse cara? Parece-me que já teria me dito se levasse um tempo saindo com dom Atlante Maciço.

Riley sacudiu a cabeça.

— Nem sequer estamos saindo. Conheci-o ontem à noite. E entretanto o conheço melhor do que jamais conheci a ninguém. Salvo a você. E quando estamos juntos, bom…

Quinn voltou a assobiar.

— Não tem que jurá-lo, irmãzinha. Pela cor que te acaba de pôr no rosto se nota que entre ele e você são muito capazes de jogar fumaça. Deitou com ele?

— Não! Nada disso! Acabo de conhecê-lo. Mas, bom… — Riley se mordeu o lábio e pensou um pouco — De acordo, lá vai. Se tivesse tido a oportunidade, é muito provável que o fizesse. Jamais senti esse tipo de atração por nenhum homem. Em minha vida.

Deteve-se em plena frase.

— Espere um momento! Esqueça-se de minha inexistente vida sexual. Aqui estamos falando de você. Que demônios estava fazendo com um grupo de troca-formas? E o que é isso de ir de dura pela vida? Não é que seja… Quero dizer…

— Sei o que quer dizer. A pobre e frágil Quinn, a que todo mundo tem que proteger. — disse Quinn com amargura — Bom, às vezes tem que crescer. E não me incomodei em avisar a ninguém que tinha mudado, porque ser débil e inútil é uma coberta estupenda. Pense no Zorro ou no Pimpinela Escarlate .

— Mas quando..? Que..? — Riley ficou sem palavras.

Não estava segura de como perguntar a sua irmã o que teria que perguntar.

E tampouco sabia muito bem se queria ouvir a resposta.

— Mais tarde. Já lhe contarei isso mais tarde. Possivelmente. — Quinn ficou olhando-a um bom momento, depois tirou as pernas da cama e se agachou para colocar as botas — Você se dá melhor que eu em calibrar o caráter de uma pessoa por suas emoções, Riley. Assim suponho que aceitarei sua palavra no que ao tal Conlan se refere. Mas só com a condição de que possa pô-lo a prova eu mesma.

Uma batida à porta economizou a Riley o trabalho de responder.

— Vai, Denal. Já lhe disse que não quero comer nada. — exclamou.

A porta se abriu de repente e Conlan ficou emoldurado na entrada.

— Não sou Denal, e por muito que pense que deveria comer algo, que o penso, é mais importante que falemos. Tenho que saber o que sua irmã sabe.

Riley tentou ver o corredor por detrás da figura de Conlan.

— Onde está Denal? Acreditei que não se iria nunca.

Conlan deu de ombros.

— Acredito que cabe a possibilidade de que Ven o esteja segurando de cabeça abaixo pela janela neste mesmo momentos. Em seu zelo por te servir parece haver-se esquecido de que seu príncipe supremo sou eu.

Só a insinuação de um sorriso traía a graça reticente que fazia ao Conlan a deserção de seu guerreiro.

Antes que Riley pudesse responder, Quinn se levantou e se aproximou com passo firme a Conlan.

— Então é príncipe, né? Se você tiver jogado um truque em minha irmãzinha, vai ter que me dar umas quantas explicações. E eu sou o tipo de garota muito capaz de lhe dar um bom chute a esse traseiro de atlante que tem.

E dizendo isso, mais rápido do que Riley a tinha visto mover-se jamais, Quinn colocou as mãos nas têmporas de Conlan.

— Deixe-me entrar, me deixe entrar, peixinho. — disse com um cantarolado.

Conlan, que tinha ficado olhando a Riley por cima da cabeça de Quinn, não se moveu sequer. Ela sabia quão rápido podia mover-se. Poderia ter quebrado o contato com Quinn em um abrir e fechar de olhos. Que coisa, poderia lhe haver quebrado os braços em um abrir e fechar de olhos.

Mas em lugar disso, sorriu a Riley e fechou os olhos. Durante um momento reinou um silêncio absoluto no quarto. Depois, Quinn deixou cair as mãos e se separou de Conlan cambaleando-se.

— Mas quem é? Como é possível que tenha sobrevivido a essa classe de tortura? — seguiu apartando-se dele até que chegou à cama e se deixou cair sobre ela, ao lado de Riley.

— Quinn, encontra-te bem? — Riley procurou a sua irmã com suas emoções, mas por uma vez não pôde penetrar nelas. Levantou-se de um salto e se enfrentou a Conlan — O que fez?

— Não, a pergunta é o que você fez com ele. — disse Quinn a suas costas. Riley se voltou para olhar a sua irmã, mas a atenção de Quinn estava cravada em Conlan, como um raio laser — Não sei como, Riley, mas está dentro de sua alma.

O calor alagou a Riley como um torvelinho. Olhou-se nos olhos de Conlan e lhe abriu suas emoções. Soube que o que dizia sua irmã era verdade.

Mas não estava de toda pronta para que ele soubesse que ele também havia se colocado no mais profundo de seu ser.

Ouviram-se umas passadas secas no corredor que se dirigiam para eles. A voz de Ven as precedia.

— Conlan, temos um problema. Ou possivelmente deveria expressá-lo de outro modo. Caralho, o que temos é uma porrada de problemas. Mas este é novo.

— Pois considere a mim como um problema a mais, atlante. — grunhiu Quinn — Porque até que averigue por que sua gente atacou à minha, vai me ter em cima.

Ven olhou a Quinn de cima abaixo e sorriu.

— Céu, consideraria isso o melhor momento da semana. Caralho, possivelmente de todo o puto ano.

Uma voz gélida varreu o quarto um instante antes que Alaric se convertesse em uma presença dura, ameaçadora, entre Quinn e Ven.

— Advirto-lhe isso, Vingador. Se a tocar, destruo-te.

Riley se levantou de um salto com a intenção de proteger a sua irmã de Alaric, que era o homem mais aterrador que ela tinha visto. Um homem que tinha a casualidade de possuir os poderes mágicos da morte ao seu dispor.

Por inexplicável que fosse, Quinn se pôs a rir. O som reverberou por todo o quarto, agudo e selvagem.

— Bem-vindo ao lanche, cara de peixe. Tenho a estranha sensação de que você e eu temos coisas das que falar, sobre tudo depois de que quase me pusesse a mão na teta. — disse sem deixar de esboçar aquele sorriso sinistro — No mínimo, parece-me que me deve um jantar.

Riley os olhou a todos, a Conlan, a Ven, a Alaric e a sua irmã, e pouco a pouco sacudiu a cabeça.

— É que o mundo inteiro enlouqueceu?

 

Reisen desceu mancando a escada do armazém abandonado que Micah lhes tinha encontrado. Graças a Poseidon, o Tridente estava a salvo, ainda que o levasse atado à costas, debaixo do casaco.

Teve sorte.

Mais sorte que cinco de seus homens. Cinco guerreiros assassinados, e para que? Para proteger a uma população humana o estúpida bastante para receber aos troca-formas e aos chupa sangues lhes pondo os pescoços em bandeja de prata?

O único raio possível de luz naquele puto túnel negro de seu dia era que não se fez menção alguma da batalha nos meios de comunicação. Claro que os meios eram controlados pelos traseiros peludos desde que haviam se apoderado da CNN e das redes de comunicação, assim supôs que tampouco era de estranhar.

Contudo, decidiu tomar-lhe como um ponto a seu favor. Depois de tudo, Alaric não podia seguir uma notícia que não tinha ouvido.

O sacerdote estaria seguindo os telejornais. Alaric o converteria na missão de sua vida: encontrar uma forma de localizar Reisen e lhe cortar os ovos.

Pouco a pouco.

Deu uma olhada aos números que brilhavam na esfera do relógio de bolso de prata de seu pai. Era irônico que a única lembrança que tinha de seu pai perdesse estabilidade por culpa dos poderes que canalizava.

Aos relógios não faziam muita graça os poderes dos elementos. Tirou o celular do bolso das calças e fez uma careta ao ver a tela negra.

Pensando-o bem, não havia máquina que se desse bem com os elementos.

Mas não fazia falta confirmar o encontro com a Sociedade Platônica. Não era uma reunião que eles iriam esquecer.

E quando o Tridente estivesse inteiro sob seu poder, os cinco que tinha perdido esse dia seriam vingados.

E seu pai também.

Os caminhantes iriam arder.

 

Conlan colocou aos participantes daquela reunião improvisada de forma bastante deliberada. Alaric se apoiava na parede a um lado da sala.

Riley estava sentada com Quinn em um sofá, justo em frente de Alaric.

Ven e ele se situaram nas outras duas paredes, com o que aquilo parecia uma estranha partida de xadrez atlante de quatro jogadores, mas utilizando peças de verdade.

Claro que, pensando-o bem, desde que voltou se sentia como um simples peão.

Pois essa merda acabou.

Quinn esticou as pernas e cruzou as botas em um claro desdobramento de despreocupação estudada. Era tão dura como sua irmã mas, ao contrário de Riley, Quinn sabia que era uma garota dura. E fazia toda uma divulgação disso.

E durante uns segundos, quando lhe tinha permitido que entrasse em sua mente, Conlan havia sentido a mancha negra da alma de Quinn. Aquela garota tinha segredos, a boa Quinn Dawson.

Segredos perigosos.

— Vamos falar ou vamos ficar nos olhando assim toda a noite? — disse Quinn alargando as palavras — Não é que não sejam um grande bando nem que não estejam muito bons, mas tenho coisas para fazer, gente a que matar.

Riley ficou olhando a sua irmã sem poder acreditar-lhe. Conlan enviou um toque ligeiro às emoções de Riley para comprovar se havia alguma nota falsa.

Não, nada. Estava completamente desconcertada pela presença de Quinn naquele desastre.

Conlan cruzou de braços.

— Uma escolha interessante de palavras. Possivelmente já esteja pronta para nos contar o que estava fazendo com esses troca-formas que chama de “seus” lobos.

Alaric não disse nada, limitou-se a olhar a Quinn sem piscar, com os olhos verdes e ardentes.

Quinn começou a rir.

— Sim, claro. Bom, você me mostra o seu e eu te mostro o meu, como se está acostumado a dizer.

— Ei, o que você quer ver, exatamente? Eu, estaria encantado. — disse Ven.

E nada mais ao dizer essas palavras a sala tremeu como se uma falha subaquática ameaçasse quebrar-se. Conlan sentiu o vento gélido que passou cortante junto a seu rosto para seu irmão e soube o que era o que tinha provocado o tremor.

Ou, melhor, quem.

— Já basta, sacerdote. — grunhiu — Não sei de que está jogando, mas não temos tempo para estupidez. Todos temos que pôr as cartas sobre a mesa, e já.

Foi como se não houvesse dito nada.

— Quer que te mostre o meu? — Alaric cruzou a sala com passo colérico, para Quinn e Riley, mas se deteve meia dúzia de passos, antes que Conlan ou Ven houvessem tido oportunidade de mover-se — Bom, o que te parece isto?

Com os olhos ardendo, mais do que Conlan jamais o tivesse visto, Alaric levantou primeiro uma mão, depois a outra. E ao movê-las, Quinn e Riley foram elevando-se do sofá até que se encontraram levitando a poucos centímetros do teto, ainda sentadas, pousadas sobre umas bolas resplandecentes de luz verde azulada.

— Que tal isso? — perguntou Alaric — E o que tem isto?

Baixou de repente as duas mãos com um movimento cortante e depois as levantou, com as palmas para cima enquanto murmurava algo baixo. As mulheres se precipitaram para o chão, mas uma fonte as recolheu e as voltou a pousar com suavidade no sofá.

Com outro brusco movimento da mão, a água desapareceu. Nem Riley nem Quinn tinham uma só gota em cima de si.

Riley ofegou um pouco.

— Uau, que bonito… Foi…

— Um truque de salão muito bonito, cara de peixe. — disse Quinn. Depois fingiu um grande bocejo — Já terminamos com a fumaça e os espelhos? Oh, desculpa, era água e espelhos, não?

Em apenas um instante, Alaric estava levantando-a do sofá e apertando-a contra ele.

— Não ultrapasse os limites comigo, mulher. Lamentaríamos os dois.

Mas não era cólera o que Conlan ouvia na voz de Alaric. Era uma súplica quase desesperada. Quando Quinn respondeu, fez-o em voz tão baixa que Conlan mal foi capaz de distinguir as palavras. E quando o fez, não tinham nenhum sentido.

— Esqueça o que acha que viu em mim, muito bonito. — murmurou — Eu já estou perdida.

E o que fez depois provocou que Conlan e Ven corressem ao outro lado da sala para protegê-la. Porque a jovem tinha levantado as mãos e as pôs no rosto de Alaric.

Um som que Conlan não tinha ouvido jamais saiu da garganta do sacerdote, um som duro, entrecortado, cheio de uma dor dilaceradora. Uma onda de choque de som que, literalmente, jogou a Conlan e a seu irmão para trás e os estrelou com força contra o chão.

Nos segundos que lhes fizeram falta para recuperar o fôlego e levantar os olhos, Alaric tinha desaparecido. Quinn estava sozinha, com as mãos ainda imóveis no lugar que havia ocupado o rosto de Alaric.

Pelo seu rosto corriam as lágrimas.

Riley se levantou de um salto e rodeou a sua irmã com os braços.

— Possivelmente deveríamos deixar isto para amanhã. — disse olhando furiosa ao Conlan — Acredito que Quinn já sofreu bastante por hoje. Nós duas sofremos o bastante. Tenho que levá-la para casa, Conlan.

Antes que ele pudesse pronunciar uma só palavra de protesto, conseguiu um apoio de uma fonte inesperada. Quinn se secou as lágrimas das bochechas com o dorso da mão e depois pigarreou.

— Não. — disse — Acredito que deveria ficar com eles.

 

Os quatro se sentaram ao redor da mesa da cozinha, Riley e Quinn segurando xícaras de chá doce e quente. Conlan e Ven tinham cada um uma cerveja. Conlan tinha sentado o bastante perto de Riley para que a jovem pudesse esticar a mão e tocá-lo se quisesse.

Tampouco era que ela precisasse tocá-lo. Não muito.

A maior parte dos outros homens passaram por ali, foram entrando de um em um ou de dois em dois, alguns traziam comida e cerveja, outros notícias.

Nenhum trazia resultados. Reisen se tinha desvanecido.

Riley tinha tentado sorrir a todos e cada um, sobre tudo a Denal, que se tinha ajoelhado diante dela, tinha-lhe presenteado com uma braçada de flores e depois se retirou da cozinha com cuidado de manter uma distância segura entre ele, Conlan e Ven.

Ven fez uma piada sobre a teimosia de colegial de Denal, mas ninguém conseguiu sorrir sequer.

E nesse momento estavam sentados, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Quando Justice apareceu, foi quase um alívio.

— Assim aqui está todo o grupo. — disse com aquele tom de sabichão tão próprio dele.

Claro que alguém capaz de usar uma trança azul que lhe chegava à cintura sobre uma espada, que tinha atada à costas, certamente podia ser todo sabichão se gostasse.

Riley tinha visto o que podia fazer com aquela espada.

— Minha grama jamais voltará a ser a mesma. — murmurou.

Quinn levantou a cabeça da xícara de chá e se fixou em Justice.

— É você! — disse com um grito afogado — Acreditei que fosse uma lenda urbana.

Ven jogou a cadeira para trás e a apoiou em só duas pernas.

— Claro. O louco do machado que corta aos noivos em fatias é Justice. A verdade é que tem sentido, se o pensar bem. Os dois lhes põem os arrepiados, não?

Justice fez caso omisso da brincadeira e se concentrou em Quinn.

— O que você ouviu, com exatidão?

— Oh, defensor dos fracos, Robin Hood moderno, blá, blá, blá. Não se pode dizer que passe desapercebido. — lhe respondeu Quinn varrendo-o com os olhos, das botas até a ponta da cabeça azul trançada, uns dois metros mais acima.

Justice se inclinou um pouco.

— Tampouco se pode dizer que você passe despercebida. Sua fúria e sua dor ardem o suficiente para iluminar a cidade inteira. Possivelmente queira aprender com sua irmã a ocultar suas emoções.

E dizendo isso deixou a cozinha com passos longos que comiam o chão e deixavam Quinn atrás, olhando-o furiosa.

Riley pensou que já era hora de intervir.

— O que está acontecendo aqui, Quinn? Dá-me a sensação de que não é administradora em uma companhia de seguros, depois de tudo.

A risada de Quinn soou oxidada, como se tivesse passado muito tempo da última vez que algo lhe tinha parecido engraçado.

— Não, não trabalho para uma companhia de seguros. Como já lhe disse, necessito saber qual a intenção dos atlantes aqui antes de te contar algo.

Depois cravou o olhar em Conlan.

— De que lado vão ficar ?

— Lado do que? — perguntou Riley — Do que está falando?

— Lado da revolução, irmãzinha.

Riley aspirou uma baforada de ar. É obvio tinha ouvido rumores de uma revolução contra a rápida usurpação das espécies sobrenaturais que se incrustavam na sociedade e o governo humano, mas ela se manteve à margem. Era uma pessoa apolítica, já tinha suficiente tentando manter a seus clientes sãos e alimentados.

E vivos.

Conlan assentiu um pouco.

— Está bem. Tudo o que estou disposto a te contar agora mesmo é verdade, e o faço com a condição de que nenhuma das duas compartilhem esta informação com ninguém.

A cadeira de Ven posou os quatro pés no chão com um golpe seco.

— Não pode fazê-lo, Conlan. Não pode…

— Riley tem direito de saber, já que vamos levá-la para casa conosco. E, portanto, sua irmã também deve sabê-lo.

Riley sentiu que os nervos do pescoço ficavam rígidos.

— Eu já havia ouvido isso. É engraçado, mas não me lembro de ouvir ninguém perguntando se quero ir a algum lugar.

Conlan lhe agarrou a mão e a apertou.

— Confia em mim?

— Eu… — Riley vacilou um momento, depois recordou o que tinha vislumbrado nas lembranças masculinas, em sua alma — Sim, confio em você. Isso de aknasha que há entre nós… Pode ser que esteja acabando com meu senso comum, mas o certo é que sei que posso confiar em você. Mas onde está sua casa? Está falando de verdade do continente perdido de Atlântida?

Ven soltou um bufo.

— Não estávamos perdidos. Só nos ocultávamos de vocês, idiotas.

Quinn se tornou para frente e apoiou os braços cruzados na mesa.

— Se fosse você, vigiaria a quem chama de idiota, cara de peixe.

O atlante esboçou um grande sorriso.

— Quer comprovar se tenho guelra?

— Já está bem! Podemos deixar as rixas para outro momento e seguir com isto? — disse Riley.

Conlan assentiu.

— Sim. Viemos do continente de Atlântida. Há mais de onze mil anos, as Sete Ilhas cavalgavam pela superfície das águas como suas próprias terras. Nossa civilização e tecnologia eram muito superiores às dos humanos daquele tempo, mas nós compartilhávamos o conhecimento das ciências e as artes que considerávamos apropriado.

— Assim que se dignavam a ajudar aos pobrezinhos humanos? — burlou-se Quinn.

— Quinn. Isso não ajuda. — murmurou Riley.

Sua irmã pôs os olhos em branco, mas ficou calada.

— Como está acostumado a ocorrer, os humanos, com os que Atlântida sempre tinha desfrutado de uma coexistência pacífica, tornaram-se ambiciosos. — continuou Conlan — Não todos, nem sequer a maioria. Só uns quantos corruptos que estavam no poder. Os suficientes para tirar adiante a ideia de conquistar nossas terras e apoderar-se do que era nosso.

— Sim, sobre tudo o ouro e o houvesse de valor. — grunhiu Ven.

— Poderíamos havê-lo solucionado. Segundo os pergaminhos antigos, estávamos a ponto de solucioná-lo. Mas foi então quando decidiram os vampiros entrar no campo de batalha. — disse Conlan.

Riley se estremeceu.

— Tinham vampiros inclusive então?

— Os chupa sangues andam por aqui desde o começo dos tempos, quando o deus Chaos deitou-se com sua retorcida filha Anubisa e começou todo este repugnante… — Ven recorreu a um idioma de ressonâncias poéticas líricas que a Riley não soava de nada.

— Pode ser que sejam aknasha, mas não entendem o atlante antigo, Vem. — comentou Conlan, e um sorriso irônico se formou em sua boca.

Depois, o bom humor desapareceu de seu rosto e o substituiu uma expressão tão aterradora e angustiada que Riley lhe apertou a mão com força para tentar tirá-lo do inferno que visse em sua mente.

Pareceu ajudar um pouco, mas Riley seguiu vendo o selo de um predador na sombra que arrojava seu rosto, assim teve bom cuidado de não procurar suas emoções nesse momento.

Sabia que não queria entrar no que fosse que estivesse vendo o atlante.

— Anubisa. — disse este com um chiar de dentes — A união ímpia de Chaos e Anubisa, a deusa da morte. Deles descendem os ancestrais de todos os chupa sangues. Anubisa é vampiro mas, por isso pudemos saber, alimenta-se de emoções negativas mais que de sangue. Quanto mais apaixonadas, melhor.

— Como a dor da tortura. — sussurrou Riley, compreendendo de repente o que tinha visto e sentido nas lembranças de Conlan.

O príncipe soltou a mão de Riley e suavizou a expressão, que adotou uma máscara de serenidade.

Uma máscara falsa de serenidade, certamente. Como tinha podido sobreviver àquilo?

Como alguém podia sobreviver àquilo?

Com a ideia chegou o desespero.

— Como podemos derrotar a alguém que acredita que é uma deusa?

— É que é uma deusa. — disse Ven.

Riley sacudiu a cabeça.

— Não, para mim. Sou monoteísta e só reconheço um único Deus. Não é que não esteja de acordo com suas crenças, não é isso, mas tenho que ter fé em que não é toda poderosa. Em qualquer caso, se tiver poderes divinos, estamos metidos em uma boa confusão.

— Esquece-se de que um deus também nos guia. O poder de Poseidon supera o de Anubisa. —assinalou Ven.

Atravessou-a uma onda de raiva.

— Bom, e onde caralho estava quando torturavam a seu próprio príncipe até quase a morte? — gritou Riley arrastando a cadeira para levantar-se — Onde estava seu estúpido deus do mar então?

Conlan a atraiu para si para lhe dar um breve abraço, depois a sentou com suavidade em seu colo, como se levasse anos fazendo-o.

— Honra-me que esteja disposta a desafiar mesmo a Poseidon para me defender, mi amara aknasha. — lhe murmurou com os lábios colocados entre seu cabelo.

A sensação do fôlego masculino em seu ouvido revolveu algo na parte inferior do abdômen de Riley, que apertou os músculos das coxas. Se Quinn e Ven não estivessem sentados ali mesmo, os dois olhando-os com a boca aberta, sem poder acreditar Riley teria se virado e plantado em Conlan a mãe de todos os beijos.

E possivelmente ainda o fizesse.

Quinn entrecerrou os olhos.

— Muito bem. Assim houve uma baderna com os humanos, e logo o que?

Foi Ven quem respondeu dessa vez.

— Então os deuses entraram em uma grande luta e ocorreu o Cataclismo. Uma dessas grandes merdas catastróficas do estilo “então vou engolir a terra” que acontecem quando um punhado de pirralhos começam a brigar pelos brinquedos.

A voz de Conlan era um rumor surdo que lhe saía do peito que tinha apoiado nas costas de Riley.

— Embora o que meu irmão diz se aproxime muito à blasfêmia, no essencial tem razão. A Atlântida se viu obrigada a inundar-se sob o mar para proteger, tanto dos humanos que nos ameaçavam como da batalha entre os deuses. Primeiro a magia e depois uma combinação de magia e tecnologia nos ocultaram e evitou que nos descobrissem durante todos estes anos.

Riley sentiu um acanhamento repentino, deslizou-se do colo de Conlan e retornou a sua cadeira.

— Mas esteve subindo à superfície todo este tempo?

— Não, nem sempre. Demorou um tempo para aprender os segredos da viagem entre nossa terra e a superfície. Mas havíamos feito um juramento como Guerreiros de Poseidon. Os guerreiros dessa época não se deteriam ante nada, deviam encontrar um modo de retornar e proteger aos humanos da crescente ameaça que representavam os vampiros e os troca-formas. —Conlan terminou a cerveja e voltou a deixar a garrafa na mesa com certa força — Nosso trabalho é lhes manter a salvo, inclusive quando fazem todo o possível para entorpecê-lo.

Quinn brincou um pouco com sua xícara e depois pareceu tomar uma decisão. Afastou-se os cachos dos olhos com um gesto brusco da mão e começou a falar.

— Certo, estive examinando aos dois e, se servir de algo, suas emoções me dizem que nos estão contando a verdade. Digo que se servir de algo porque, se seriamente forem atlantes, e portanto uma espécie diferente por completo… — elevou a vista em busca de confirmação e Conlan assentiu — Então é possível que minhas tão cacarejadas habilidades para examinar as emoções não sirvam absolutamente para nada quando se tratar de vocês. Suas emoções se parecem em algo às nossas?

Ven começou a responder, mas a jovem levantou uma mão.

— Não, não te incomode. Parecem-me sinceras e tenho que confiar em minhas vísceras ou não sobra mais nada. E se começar a duvidar delas a estas alturas, a partida, como se está acostumado a dizer, terá terminado.

Riley pousou uma mão no braço de sua irmã para confirmar o que seus sentidos diziam. Quinn estava dizendo uma verdade que era muito dolorosa para ela. As terminações nervosas de Riley se estremeceram quando sentiram a angústia que subjazia sob as palavras de Quinn.

— Não tem nada, Quinn. Seja o que for o que precisa dizer, estou aqui contigo. — murmurou, enviando a sua irmã ondas de segurança e amor, através de seu vínculo fraterno pessoal.

— Bom, esse cara alto, moreno e feio nos chamou de idiotas. E tem razão. Não todos, mas somos suficientes os que nos escondemos debaixo de uma rocha e deixamos que se produzam as mudanças sem tentar enfrentá-las. — Quinn começou a dizer com voz inexpressiva.

Riley fez uma careta ao ouvir aquele eco do que tinha pensado pouco antes. Possivelmente Quinn pensava que ela também era idiota.

— Ser apolítica ou não marchar sobre Washington não converte uma pessoa em idiota, Quinn. — disse — Alguns tentam fazer a diferença a um nível mais local.

Quinn lhe deu um breve e feroz abraço.

— Não estava falando de você, céu. Você se dedica vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, a esses pegajosos aos que tenta salvar com tanto desespero. Estou falando de pessoas que ficam sentadas sem fazer nada, enquanto os vampiros se apoderam de nosso governo.

— Não são nenhum pegajosos. — disse Riley em voz baixa — São pessoas que nunca tiveram o básico para melhorar na vida. Eu tento ajudá-los com isso.

— Sinto muito. Já sei. Tem razão. Não são pegajosos. E você é virtualmente uma maldita Santa por fazer o que faz. Mas meu caminho é um tanto diferente.

Ven soltou um assobio repentino e ficou olhando a Quinn. A admiração era evidente em seus olhos.

— Tem que ser ladrão para reconhecer ao que rouba. Está metida na revolução.

Quinn inclinou a cabeça sem sorrir.

— Pois sim. E só por te contar isto poderiam me matar amanhã mesmo, assim considera-o um intercâmbio justo pelo que nos contaram sobre a Atlântida. — a jovem fez uma pausa e depois respirou fundo — Não só estou metida na revolução. Sou uma de suas líderes. E esses lobos que seus colegas mataram? Estavam na minha equipe. Assim sou responsável por suas mortes.

Quinn fechou a boca de repente quando Brennan entrou na cozinha e ficou olhando-o com ar suspeito.

— Não tem problema, Quinn, este é Brennan. — tranquilizou Riley a sua irmã — Ele…

— Um truquinho muito fanfarrão esse de enterrar suas emoções no mais profundo, não? —disse Quinn com os olhos entrecerrados — Estive a ponto de não as sentir absolutamente, cara. Bonita hostilidade, por certo. Como se arrumou para bloquear suas emoções?

 

Riley ficou olhando a noite pela janela.

— Não posso acreditar que se foi. Não posso acreditar que minha irmã, a líder rebelde, tenha fugido em plena noite para uma missão urgente. Não faço mais que pensar que estou presa em um filme de série B e que vou acordar em qualquer momento.

Conlan foi incapaz de permanecer mais tempo afastado dela. Tinha observado sua coragem, enquanto se inteirava e assumia tudo o que ele e sua irmã lhe foram lançando esse dia.

Tinha passado muito tempo desde a última vez que a tocou e suas mãos ansiavam sentir a pele daquela mulher. Com dois simples passos longos cruzou o dormitório e a envolveu entre seus braços.

— Sinto-o tanto, mi amara. Detesto que tenha lhe obrigado a despertar de uma maneira tão crua à feia realidade do que está acontecendo.

Riley se afastou de repente e se voltou para olhá-lo com os punhos nos quadris.

— A feia realidade? É que você vai me contar o que é a feia realidade? Meus clientes se matam entre si em suas casas, por pura rotina. Seus bebês nascem viciados no crack e depois às vezes morrem de fome antes que eu possa lhes conseguir ajuda, e tudo graças ao senador “sou o senhor dos vampiros” Barnes e seu trabalho de terra queimada nos serviços sociais para humanos. Assim não me fale de realidades feias.

Conlan se apoiou na parede e se obrigou a não aproximar-se a ela, apesar de que seu corpo lhe estava exigindo que a voltasse a apertar contra si.

— Os meninos são as primeiras baixas da guerra.

Riley girou em volta, afastou-se dele e se afundou na cama. Agarrou-se a cabeça com as mãos e gemeu. Depois o olhou aos olhos.

—Quando isto se converteu em uma guerra? Aqui ninguém declarou nenhuma guerra, que eu saiba, e de repente me encontro na primeira linha.

O atlante cruzou o espaço que o separava dela e se sentou a seu lado. Tudo nele se rebelava contra as palavras que se via obrigado a pronunciar, mas a coragem daquela mulher tinha ganho seu respeito.

Merecia-se a liberdade.

— Se quer ir embora, só tem que dizê-lo. Acredito que seu poder empático pode nos ser de imensa ajuda em nossa batalha para proteger a sua gente. Essa é a verdade.

A jovem não disse nada, limitou-se a olhá-lo sem mover-se. Tinha ocultado suas emoções e ele não podia chegar a ela.

— Mas a verdade também é esta. — continuou ele com voz rouca — Por alguma razão sinto algo por você que está além de tudo o que sonhei ou acreditei possível. Inclusive neste mesmo instante meu corpo brama para que te faça minha. Para que te dispa e te coloque debaixo de mim nesta cama mesmo.

Riley ofegou um pouco, mas não se afastou. Conlan decidiu tomar-lhe como um sinal esperançoso.

— Necessito-te, Riley. Sim, a Atlântida te necessita. Precisamos estudar esse poder que tem e ver se podemos duplicá-lo. Se Quinn não nos tivesse convencido de que sua missão era tão urgente, teria tentado persuadi-la para que também viesse conosco.

— Ela sentiu alguma emoção em Brennan, Conlan. Isso tem que lhe dar alguma esperança.

— Oxalá não sejam falsas esperanças. Brennan merece algo melhor que o que a vida lhe foi dada.

O atlante tentou concentrar-se. Tentou não distrair-se com o aroma feminino. Com o desejo que ameaçava afogando-o.

— A capacidade de uma aknasha… Esperamos descobrir se pode utilizar contra nós. Ou possivelmente se pode utilizar a nosso favor. Mas apesar dessa necessidade, dessas duas necessidades, apesar do que é meu dever como futuro rei das Sete Ilhas, deixar-te-ia partir.

Juntou as mãos e as apertou com energia para não obrigá-la a ficar com ele pela força, rezou para poder manter o controle até que ela se fosse. Era um homem e tinha dignidade suficiente ao menos para isso.

E não era que não estivesse a ponto de começar a suplicar.

— Em outro tempo a teria pego sem mais. Agora que te conheço, pergunto a você. Mas tem que me dizer isso agora. Tem que te levantar e sair deste quarto agora mesmo. Eu pedirei a Ven que te leve aonde você quiser, a um lugar seguro. Mas tem que ser agora.

Ao fim se voltou para olhá-la, com o corpo tão tenso que teve a sensação de que estava a ponto de partir-se. Ardia de pura necessidade, mas o gelava o medo de que ela pudesse ir-se.

— Porque se ficar, tomarei como um sim. Sim à Atlântida, a nossa causa mas, sobre tudo, sim a mim.

Riley esticou o braço para lhe acariciar o rosto com uma mão trêmula.

— Conlan…

O atlante afastou a cabeça de um puxão.

— É que não o vê? Já não sei me controlar. — grunhiu — Tudo o que tenho são uns farrapos de dignidade sobre um forno de desejo. Tem que te afastar de mim, merda, agora mesmo.

Levantou-se de um salto da cama e se afastou da tentação. Da mulher que era, de algum modo, tudo o que sempre tinha querido. Fechou os olhos e ficou ali de pé, com a cabeça abaixada e os ombros subindo e descendo pelo esforço que lhe custava conter-se e, não esticá-la na cama e lhe cobrir a boca com a sua.

Cobrir-lhe o corpo com o seu.

E ao fim… Ao fim ouviu os passos leves da jovem quando começou a cruzar o quarto.

Os passos que a afastariam dele para sempre. Conlan se estremeceu quando o banhou uma dor maior que qualquer das que Anubisa lhe tinha administrado, uma dor que lhe abrasou o coração, que ele acreditava que tinha perdido para sempre.

E então os passos se detiveram.

E a jovem se encontrava diante dele, os olhos enormes em seu rosto pálido.

— Não vou a nenhum lugar, Conlan. Minha resposta é sim.

Riley levantou a cabeça e olhou a Conlan, consciente, no mais profundo de seu coração, de que acabava de tomar a decisão mais importante de sua vida. O atlante ficou olhando-a, com os olhos cada vez mais abertos. Depois jogou a cabeça para trás e esticou os músculos do pescoço, ao engolir o ar como um homem que se estivesse afogando.

E então explodiu. Envolveu-a com os braços e a apertou contra seu corpo tão rápido que a jovem deixou escapar um som, quando lhe esmagaram os peitos contra o torso masculino.

Conlan lhe rodeou a cintura com um braço, com força, e levantou o outro para lhe cobrir a nuca com a palma da mão.

— Obrigado, mi amara. — sussurrou com os lábios a milímetros dos dela — Obrigado por este presente.

Riley quase nem teve tempo para preocupar-se, tinha passado tão pouco tempo, em realidade não conhecia-o, e depois a boca masculina cobriu a sua. E quando as emoções do atlante se abriram ante ela, a jovem se deu conta de que nunca tinha conhecido a nenhum homem como conhecia aquele.

Desejava-o com cada grama de seu ser. Tinha os lábios suaves e firmes, perfeitos para ela, e beijava com a paixão de um homem que morria por ela. Apertou-se mais contra ele, desesperada para senti-lo todo contra ela, desejando mais, muito mais.

Conlan se afastou um pouco dela, custava-lhe respirar. Sempre tinha sabido que aquela mulher teria sabor de calidez e sol, a uma paixão doce e limpa. Mas nesse instante tinha um sabor melhor.

Tinha o sabor de uma mulher que era dele.

Esmagou-lhe a boca com a sua outra vez, precisava sentir a prova feminina. Saber que se rendia. Que aceitava seu desejo e que a necessitava.

— Agora. — disse Conlan, e ouviu o rogo em sua própria voz, mas não lhe importou — Por favor. Agora.

— Sim. — disse ela lhe rodeando o pescoço com os braços — Sim, por favor. Agora.

Elevou-a do chão e a levou para a cama sem deixar de beijá-la um só instante. Em uns segundos fechou a porta com chave e voltou para a cama. Tirou a camisa no caminho, desesperado por sentir a pele de Riley sobre a sua.

Ela jazia ali, com o cabelo esparramado sobre os travesseiros, uma fantasia feita realidade. Conlan queria chorar de alegria.

Queria rugir e anunciar ao mundo que ela era dele.

Mas não fez nenhuma das duas coisas. Limitou-se a acariciá-la. Ao fim, por fim, acariciou-a.

Riley tremeu quando Conlan se esticou pouco a pouco na cama, a seu lado. Por alguma razão o peito e os ombros masculinos pareciam inclusive maiores sem a camisa. Era um muro de músculos, mas ela tinha visto o que havia mais à frente do orgulhoso exterior de guerreiro, tinha visto o homem que se ocultava no interior.

Quando ele a tocou, quando os dedos de Conlan lhe acariciaram com suavidade a bochecha e depois o pescoço, observou que ela não era quão única estava tremendo.

E isso a fez dar, cambaleando-se, o último passo que a lançou pelo precipício e a despojou de qualquer inibição que ficasse. Aquele guerreiro grande e duro que podia enfrentar-se e lutar contra vampiros e troca-formas, e com qualquer dessas coisas horripilantes que se arrastam na noite, aquele guerreiro a desejava de tal modo que lhe tremiam as mãos.

Riley atraiu a cabeça do atlante para si e sorriu.

— Beije-me. Beije-me e faça com que eu me sinta segura outra vez. — sussurrou.

O calor da chama verde azulada que ardia nos olhos do guerreiro lhe abrasou as terminações nervosas, esquentou e umedeceu diretamente seu centro. Sentiu os peitos mais cheios, mais tensos, como se quisessem sentir o peso do homem sobre eles.

Arqueou-se contra ele e antes que ele tivesse tido a oportunidade de obedecer seu rogo, Riley tomou o controle.

Ela o beijou. Com suavidade, com doçura.

O aroma do homem a rodeou. Picante, quente e varonil, e, de repente, a suavidade deixou de estar na ordem do dia.

Gemeu e o beijou, seus lábios capturaram os masculinos e sua língua se afundou na boca do atlante. Envolveu-lhe as pernas com uma das suas e o atraiu para ela, desejando-o, reclamando-o, precisando sentir sua dureza contra ela.

Conlan pensou que era muito possível que morresse e fosse a montanha dos deuses. Riley o estava prendendo inteiro, atraía-o para ela e o beijava como se estivesse morta de fome e ele fosse a sobremesa.

O que lhe deu umas quantas ideias. Ideias francamente boas.

Separou-se dos lábios femininos e foi desenhando um caminho de beijos pela bochecha de Riley. Depois desceu pelo pescoço, onde a mordeu e a lambeu, gozando dos gemidos guturais da jovem. Agarrou-lhe a jaqueta com uma mão e a subiu para lhe descobrir o ventre quente, depois foi deslizando os dedos para cima até que lhe rodeou a parte inferior do peito.

Riley afogou uma exclamação ao senti-lo e se arqueou para ele.

— Toque-me, por favor, me toque, Conlan.

O atlante se deu volta e a levantou, tirou-lhe a jaqueta de um puxão pela cabeça e depois a beijou outra vez, afundando a língua em sua boca para reclamá-la. Foi um beijo duro, um beijo que ansiava marcá-la.

Minha. Minha. Sempre minha.

O pensamento chegou de algum lugar tão profundo de seu ser que Conlan não reconheceu a fonte. Um desejo primitivo de marcá-la, de reclamá-la, de levá-la a seu palácio e não deixá-la ir jamais sacudiu seu corpo com uma força que o assustou. Sabia que ela também podia senti-lo, porque as emoções femininas registraram de repente a emoção, através do vínculo empático que a unia a ele.

E então ela sorriu sob seus lábios e lhe enviou ondas de aceitação. Sentia-se forte, segura no poder único e feminino que exercia sobre ele, e o fez saber.

O corpo masculino se esticou ante aquela sensação, ao perceber as cores da excitação feminina em seu próprio corpo, em seu cérebro. O membro lhe endureceu até o ponto que lhe doeu dentro das calças, de repente muito apertadas. Separou-se da boca de Riley e baixou os olhos para olhar aqueles peitos redondos e perfeitos que enchiam as partes de renda que os cobriam. Queria pousar a boca sobre eles.

Manipulou com uma mão o broche diminuto, grunhindo de frustração quando não se desabotoou imediatamente. Riley se pôs-se a rir e lhe agarrou a mão.

— O que acontece? O grande guerreiro mal é incapaz de se encarregar do broche de um simples sutiã? — burlou-se com a voz rouca e os olhos brilhando quentes.

A felicidade daquela mulher resplandecia na mente de Conlan como o pó das fadas.

— O grande guerreiro mau lhe vai arrancar isso com os dentes se não ajudar um pouco. — respondeu.

E depois se inclinou e lhe agarrou o mamilo com a boca, com tecido e tudo. Riley se arqueou sobre a cama com um gemido.

Com a outra mão, Conlan lhe acariciou o outro peito, rodeando-o e apertando-o. Esfregou-lhe o mamilo com o polegar ao mesmo ritmo que lhe lambia o outro. Os gemidos da mulher se tornaram mais frenéticos, agarrou-se às costas de seu amante, enquanto agitava a cabeça de um lado a outro sobre o travesseiro.

— Oh, por favor, por favor.

Conlan soltou o mamilo que tinha na boca e lhe soprou um pouco de ar quente, observou o estremecimento que atravessava todo o corpo feminino.

— Por favor o que, Riley? Diga-o.

— Por favor. Preciso de você. — pôs-lhe as mãos na cabeça e puxou-o para beijá-lo.

Mas Conlan não tinha terminado ainda. Pousou a boca sobre o outro peito e substituiu o polegar pelos lábios. Mais endurecido ainda quando o corpo de Riley se levantou com uma sacudida e se esfregou contra ele, lhe suplicando sem palavras. Mordeu-lhe o mamilo com doçura e a mulher afogou um grito, depois gemeu seu nome.

— Agora, maldito seja, agora. Necessito-te dentro de mim agora. — disse Riley, custava-lhe respirar, e um torvelinho de paixão e desejo agudo e penetrante fluiu de suas emoções e atravessou a Conlan.

— Sim. — gemeu ele entre dentes — Sim, vou fazer te minha, já.

Riley levantou a cabeça e ficou olhando ao homem que a havia tornado quase louca de desejo e por um instante não o reconheceu sob o anseio feroz e primitivo que tinha gravado no rosto.

Possivelmente ela não era quão única estava perdendo a cabeça ali.

Conlan se deu volta e se agachou para tirar as botas e as meias, depois se levantou e se despojou das calças com um único e violento movimento. Quando se elevou frente a ela, orgulhoso, alto e gloriosamente nu, Riley conteve o fôlego.

— É tão bonito. — sussurrou enquanto esticava uma mão para tocar uma coxa musculosa.

Sua ereção, tão grande como o resto, esticou-se e se agitou um pouco ao sentir o roce tão perto.

Riley quis saboreá-la.

O atlante lançou uma pequena gargalhada.

— Sou um guerreiro. Cheio de cicatrizes e rendido, não há nada bonito aqui. Mas você… Você faz que os próprios deuses chorem de inveja ante sua beleza.

Esticou os braços para agarrar as mãos e puxou-a para levantá-la a seu lado. E depois Riley sentiu os dedos masculinos na cintura, desabotoavam-lhe os jeans, e de repente estava tão nua como ele.

Por um momento o acanhamento a invadiu, mas logo sentiu as mãos dele e a afligiu um desejo feroz.

— Acaricie-me, Conlan. Beije-me e me toque por toda parte. Quero sentir suas mãos sobre mim.

Então foi a vez dele gemer, capturou-lhe a cabeça com as duas mãos e se precipitou sobre ela para beijá-la com tal ânsia de posse e tal fogo que o coração de Riley deu um tombo. Agarrou-se aos ombros do atlante para tentar sustentar-se apesar de que os joelhos lhe dobravam.

Conlan percorreu o corpo feminino com as mãos, desceu pelos braços com um roce ligeiro, depois os quadris, depois subiu pelas costas com uma carícia. Riley tremeu e se apertou contra ele, adorava a sensação de senti-lo duro contra ela. Ansiava o ter em seu interior.

E como se ele pudesse ouvi-la, as mãos masculinas desceram por seu corpo e de caminho cobriram os peitos. A jovem voltou a gemer, queria que deixasse de torturá-la.

Não queria que parasse jamais.

Queria mais.

As mãos masculinas continuaram seu caminho, desciam por seu ventre, acariciando-lhe e ao fim, alguém riscou um atalho pelos cachos que surgiam entre as pernas e com um roce ligeiro lhe acariciou o calor que emanava dali.

Conlan levantou a cabeça para olhá-la, em seu sorriso havia um triunfo feroz.

— Está molhada por mim, Riley. Está empapada por mim.

— Eu… Oh! — antes que Riley pudesse elaborar uma resposta, o atlante lhe introduziu dois dedos e a jovem perdeu a capacidade de falar.

Apertou os músculos ao redor dos dedos e esteve a ponto de gritar ao sentir aquele prazer.

— Oh, sim. Conlan. Sim, por favor, mais.

Conlan deu obrigado com uma oração aos deuses que queriam lhe ouvir. Aquela mulher era tão sensível a suas carícias, estava tão acesa, tão molhada. Quando ela se esticou ao redor de seus dedos, o atlante acreditou que ia perder o controle e ejacular antes inclusive de entrar na suave doçura do corpo feminino.

Jamais havia sentido a paixão com aquela força esmagadora.

“Mercadoria danificada, principezinho.”

Sussurrou em sua cabeça aquela voz que o deteve, que o imobilizou, mas só por um instante.

Riley abriu os olhos e olhou diretamente a alma masculina.

— Não. Não. Ela não está aqui, jamais voltará a te fazer dano. Não a deixe entrar, Conlan. — beijou-o e apertou com gesto deliberado sua calidez ao redor dos dedos masculinos outra vez — Sinta-me. Sou real. Estou aqui. Não a deixe ganhar.

Algo explodiu no coração de Conlan.

— Sim, sim, mi amara. Está aqui para mim. É minha. Ela é menos que nada. — disse com a voz rouca e as palavras tão ferventes como uma prece.

Tirou os dedos e Riley gemeu um pouco, mas então ele a levantou entre seus braços e a depositou na cama. A jovem piscou, pareceu retornar de muito longe. Sacudiu a cabeça um pouco.

— Nós… Eu… Proteção. Eu estou bem, mas…

Conlan a entendeu imediatamente, suas emoções eram um livro aberto para ele.

— Não, somos imunes. Não pode me contagiar nem um simples resfriado, nem eu a você, minha bonita. E não podemos produzir meninos sem que Poseidon benza o ritual da fertilidade.

Riley assentiu, sentia a verdade de suas palavras nas emoções masculinas. Depois levantou os braços para ele e esboçou um sorriso tão sensual e prometedor que os joelhos de Conlan se derreteram.

Quando se afundou para cobrir o corpo feminino com o seu, abriu-lhe seu coração. Despojou-se de qualquer escudo emocional que pudesse ficar, para que ela pudesse sentir o grande presente que lhe tinha feito.

Depois lhe levantou os joelhos para apoiar-lhe em seus próprios quadris e se afundou nela até o punho com um só embate, rugindo de prazer.

Ofegando seu nome.

Pousou a testa na de Riley, lutando para respirar.

— Minha, Riley. Diga-o. É minha.

Agarrou-lhe o rosto com as mãos e o atraiu para sua boca.

— Sou sua, Conlan.

Depois o beijou com toda a paixão que ele podia sentir naquela alma feminina. A jovem elevou a cabeça e o olhou, com os olhos quentes e resplandecentes, e voltou a lhe sorrir.

— E você também é meu.

O corpo de Riley se arqueou para recebê-lo. A emoção que embargou ao Conlan e depois atravessou a ela foi uma revelação. Assombro… Perplexidade. Simples gratidão.

Conlan jamais tinha pertencido a ninguém. Ninguém jamais o tinha querido só pelo que era, não desde que era menino.

Sua gratidão se transformou em um tsunami de paixão atenuado por calidez, uma paixão que Conlan compartilhou com ela, através do vínculo que os unia. O corpo feminino se estremeceu debaixo do dele e houve algo no atlante que pareceu estalar.

— Sinto muito, Riley, mas já não posso me controlar mais. — conseguiu dizer entre dentes — Vou fazer te minha agora mesmo e vai ser duro e rápido. Prometo-te que tentarei algo mais delicado depois mas…

A mulher lhe pôs um dedo nos lábios e sorriu, todo o poder feminino resplandecia em seus olhos.

— Falar menos e fazer mais.

Com um grito de alegria, Conlan se retirou e voltou a introduzir-se nela, seu corpo captou um ritmo que era mais antigo inclusive que Atlântida. Mais antigo que os próprios deuses.

Riley se arqueou para ele no ritmo de suas investidas, enquanto ele a cavalgava, acariciava-a e introduzia-se nela uma e outra vez. Sentia que o corpo feminino se apertava a seu redor e a tensão ia crescendo sem parar em seu interior.

Riley jamais havia sentido nada assim. O calor e a tensão escorregadia, a espiral de eletricidade do corpo masculino que bombeava em seu interior, os músculos duros que se esforçavam debaixo de seus dedos, o brilho daqueles olhos que lhe demonstravam que aquele homem estava desfrutando de cada minuto tanto como ela.

Tudo aquilo a estava levando ao limite. Cada terminação nervosa de seu corpo cantava. A pressão foi crescendo em um crescente interminável, em uma explosão de cor, até que a jovem explodiu e caiu no espaço, afundando os dedos nos ombros masculinos para evitar cair rodando ao abismo do mundo.

Conlan ficou rígido, com os músculos lutando por manter o controle, enquanto ela se estremecia debaixo dele. E quando ela voltou para terra firme, abriu os olhos e o olhou fixamente.

— Conlan?

O atlante se inclinou para lhe depositar um beijo suave nos lábios, o perfil duro dos músculos do pescoço e os ombros demonstravam a Riley quanto lhe estava custando conter-se.

— Riley, quero que saiba algo. O que os antigos relatos disseram é verdade. Levo te esperando, sem sabê-lo, toda minha vida.

A jovem ficou olhando-o, aturdida pelo que as palavras e as emoções do atlante estavam expressando.

— Está me dizendo..?

— Amo você, Riley. Tomou posse do meu coração. — e com essas palavras, algo naquele controle pareceu romper-se.

Afundou-se nela uma vez, duas, três vezes mais, e depois entrou nela com um último embate que o afundou tanto em seu interior que Riley o sentiu contra seu útero. Conlan lançou a cabeça para trás e chiou seu nome ao tempo que explodia em seu interior. Sua mente, seu coração e inclusive sua alma se abriram àquela mulher mais que nunca, e Riley sentiu que ela também dançava, girava e gozava com as emoções do atlante.

Com sua paixão.

E voltou a explodir, subindo como uma espiral incansável para um lugar em que nunca tinha estado. Explodiu uma vez ao redor do homem que tinha em seu interior. E caiu, caiu sem parar…

Apaixonada. Por alguma razão, por incrível que fosse, amava a esse homem que acabava de conhecer. Esse homem que já conhecia há uma eternidade.

Ao dar-se conta e antes de poder recuperar o fôlego, voltou a tecer os escudos e os colocou em seu lugar. Não era uma informação que estivesse preparada para compartilhar. Nem sequer com o Conlan.

Ainda não. Era muito cedo. Se amasse a alguém, essa pessoa ia. E ela não estava pronta para deixá-lo partir.

Possivelmente nunca o estivesse.

Conlan se derrubou sobre ela, apoiou-se nos braços para não esmagá-la com seu peso. O único som que se ouvia no quarto eram os ofegos. De ambos. Depois de um minuto ou dois, o atlante se removeu um pouco e rodou de lado sem deixar de abraçá-la.

— Esquece a montanha dos deuses. — murmurou — Renunciaria a ela por isso em um só instante.

 

Riley despertou, quentinha, satisfeita e deliciosamente dolorida em lugares que fazia muito tempo sem estar doloridos. Demorou ainda um momento em abrir os olhos, conformava-se estando ali deitada, com os braços de Conlan a seu redor e a cabeça aconchegada sobre seu ombro. O sol esquentava o quarto. Uma grande paz, inclusive a paz ilusória que sabia que era, enfraquecia seu coração.

— Perguntava-me quando iria despertar, preguiçosa.

Riley se girou um pouco para lhe sorrir.

— Preguiçosa? Eram mais das quatro quando por fim me deixou descansar um pouco.

O sorriso do rosto masculino era presunçoso, inegavelmente masculino. A jovem se tornou a rir e depois o beliscou.

— Ei! — o atlante rodou sobre ela e a apanhou sob seu corpo — Sabe qual é a pena por atacar a um membro da realeza atlante?

Riley pôs os olhos em branco.

— Oh, pobrezinho! Por um beliscãozinho de nada? A masmorra, imagino.

Os olhos de Conlan resplandeceram com ar peralta e algo bastante mais lascivo.

— Ah, não. Nada de masmorras para você. A pena são trabalhos forçados. Em meus aposentos.

Riley lançou uma risada. Não podia evitá-lo. A fazia feliz ver seu orgulhoso guerreiro brincar com ar desenvolto por uma vez.

O coração de Conlan deu um tombo ao ouvir a risada despreocupada de Riley. Jamais tinha ficado muito mais depois de deitar-se com uma mulher. Sempre soube que devia evitar envolver-se muito.

Mas Riley. Riley. Rindo, com as bochechas acesas de felicidade e os restos de uma noite de paixão. Sentia o desejo daquela mulher aprofundar, sabia quando capitulavam suas emoções.

Contudo, Riley não o tinha admitido. Não com palavras.

Conlan esboçou um amplo sorriso.

— Possivelmente tenhamos que trabalhar isso um pouco.

— Trabalhar a ideia de que faça trabalhos forçados? Parece-me que não. — disse Riley, e se retorceu em uma tentativa de escapar dele.

Conlan levantou um braço e deixou que ela se levantasse, apoiada nos cotovelos. O que pôs a ele exatamente onde queria estar, com o rosto ao mesmo nível que seu adorável e diminuto umbigo.

Equilibrou-se sobre ela, apanhou-a outra vez e lhe lambeu a pele cálida.

— Ei! Não é justo. — disse Riley sem deixar de rir.

— Fica quieta. — murmurou o atlante antes de deslizar-se um pouco mais pela cama até que pôde olhar um intrigante triângulo de cachos ruivos.

— Conlan? O que está..?

A voz se interrompeu com um gemido quando ele moveu a mão e riscou um caminho entre os cachos com um dedo.

— Acredito que seu castigo está a ponto de começar, mi amara. Fique quieta e aceite sua sentença.

Separou-lhe as coxas e os apanhou entre as mãos.

— Mas…

Passou-lhe a língua pelo caminho que seu dedo tinha tomado um instante antes e ouviu o gemido feminino. Conlan esboçou um sorriso.

— Acredito que a prisioneira deve comportar-se ou terei que aumentar a pena.

Riley conteve o fôlego quando a língua de Conlan voltou a roçá-la. Terminações nervosas que a jovem nem sequer sabia que tinha crepitaram e despediram um fogo, que lhe atravessou as veias e enviou um arco de eletricidade que explodiu sob a língua masculina e se estendeu por cada centímetro do corpo de Riley.

A jovem gemeu quando ele a beijou, lambeu-a e a chupou, lhe dando os mesmos cuidados que tinha dado a seus seios. Salvo que nessa ocasião, Riley ia gozar em sua boca se não parasse.

Agitava a cabeça de um lado a outro sobre o travesseiro, afogando-se na sensação, rendendo-se ao calor primitivo que despedia faíscas nele, nela, nos dois. Quem sabia onde começava um e terminava o outro? Oh, os lábios daquele homem, a língua, a boca. Ia explodir. Oxalá, oxalá…

Conlan deslizou um dedo em seu interior e apertou.

— Conlan! — gritou alguém, tinha sido ela?

O atlante acrescentou um segundo dedo e foi introduzindo e tirando daquele centro úmido ao ritmo que marcava sua língua, que não deixava o que estava fazendo. Riley ofegou um rogo, uma súplica.

E então o homem se deteve.

Riley abriu os olhos de repente e baixou a cabeça para olhá-lo, tentava respirar, concentrar-se.

Conlan lhe sorriu, com as pupilas quase consumidas por aquele fogo verde azulado que dançava nelas.

— Deixe-se ir por mim, Riley. Deixe-me saborear sua doçura na garganta.

Depois voltou a inclinar a cabeça e ela se fez pedaços com o primeiro roce daquela boca. Deixou ir uma e outra vez até que acreditou que ia desmaiar de tanta sensação.

Quando ao fim a soltou, Conlan a baixou para pô-la a sua altura e lhe acariciou as bochechas.

— Está chorando. Tenho-te feito mal ?

Riley levantou a cabeça e o olhou entre as lágrimas que se emaranhavam em seus cílios.

— Não. Ao contrário. Acredito… Acredito que possivelmente tenha curado algo em mim. —envolveu-lhe o pescoço com os braços e lhe atraiu a cabeça — Necessito-te dentro de mim, Conlan. Por favor.

A satisfação e um olhar de pura posse resplandeceram nos olhos do príncipe.

— Então me terá.

Levantou-lhe as pernas e centrou sua grossa ereção sobre ela, empurrando com ela o sensível núcleo feminino.

— Agora? — perguntou com malícia.

— Agora.

Com um só embate se assentou nela até o fundo, e seu pesado saco golpeou o traseiro feminino. Riley chiou e apertou os músculos a seu redor, sofrendo uma convulsão detrás da outra.

Conlan se retirou e a penetrou outra vez, lançando um grunhido quando o corpo de Riley se esticou ao redor de toda sua grossura. Em menos de doze investidas chiou ao sentir que ele também chegava ao clímax e se estremeceu entre os braços de seu amante, em cujo interior os espasmos duraram um bom momento.

Quando finalmente pôde formar alguma palavra, Riley se pôs a rir.

— Está bem, que saiba que se esse for o castigo, declaro-me sempre culpada.

Conlan rodou um pouco e a levou com ele.

— Não sei muito bem se podemos chamar a isso castigo. — disse sem ter recuperado o fôlego de tudo — Embora possivelmente para você sim. Meu sentido de controle é tão patético como o de um jovenzinho acanhado em seus primeiros dias na Academia.

Riley se aconchegou entre seus braços.

— Conte-me.

— Sobre a minha falta de controle?

— Sobre Atlântida. Deve ser incrível.

Conlan depositou um beijo nos lábios femininos.

— É mais assombrosa do que jamais poderia imaginar. Estou desejando te mostrar meu lar. Mas primeiro, uma ducha. E logo, comer. Depois te contarei tudo o que queira saber.

Riley sacudiu a cabeça.

— Comida. Em um momento como este. É que os homens só pensam em comer?

Conlan se levantou com ela ainda nos braços e depois a levou como se não pesasse nada.

— Não acredito que possa me perguntar isso depois desta noite, pequena empática. Ao menos não se quer conservar certa credibilidade.

— Não sou pequena! Desça-me agora mesmo. — disse Riley, agarrando-se ao pescoço de Conlan com força e rindo-se a gargalhadas.

— Farei-o. Na ducha. — e meneou as sobrancelhas com um falso sorriso lascivo — Disse a você que sou de Atlântida? Sou uma maravilha com a água.

Riley riu todo o caminho até o banheiro, onde descobriu que seu amante não era uma maravilha com a água.

Era espetacular.

 

Ven saiu da ducha e compreendeu o que estava preocupando-o há um bom momento. Não tinha ouvido nada no quarto de Riley em toda a noite. E Vem tinha visto Conlan entrar ali, depois de desfazer-se de Denal encarregando-lhe a ele. Esperava-se uma explosão.

De um tipo ou outro.

Não era que pensasse ficar por ali, se um uma coisa dessa acontecesse, aquelas vibrações de sexo puro teriam começado a esmurrar as paredes como no dia anterior. Havia algo em uma empática e um atlante que levava a tensão sexual ao máximo em sua frequência de emissão.

Possivelmente fosse coisas para expor-lhe.

Pensou na irmã de Riley enquanto colocava uma calça limpa e uma camiseta. Não. Aquela moça era muito escura e complicada para ele. Gostava das mais simples e cordiais.

Fáceis de abandonar.

E os deuses sabiam que lhe esperava o mesmo ingrato destino que o Conlan. Casado com alguma antiquíssima donzela, que alguém já se encarregaria de lhe escolher em seu momento.

Era sua obrigação real cumprir o plano que o Conselho desenhava para a linhagem atlante. Ser príncipe era uma merda.

E não era que nenhum dos guerreiros de Poseidon pudesse escapar de tão excitante tarefa. Obrigados a casar-se com uma virgem de onze mil anos. Uhul! Seria capaz de controlar a emoção?

Ao menos tinha uns cinquenta anos ou assim, antes que fosse sua vez de colocar o pênis na forca. Por assim dizê-lo.

Recolheu a bolsa que tinha deixado junto à porta ao voltar em plena noite. Supôs que Riley já começaria a necessitá-la.

Sorriu ao pensar no que poderia descobrir no quarto da jovem. Abriu a porta, saiu ao corredor e esteve a ponto de se chocar com Alaric. O sacerdote voltava a se vestir todo de negro, o que só acentuava a palidez extrema de seu rosto.

Ali havia alguém que estava perdendo suas preciosas horas de sonho.

— Olhe por onde vai, Vingador. — a careta feroz do rosto do sacerdote haveria assustado a maior parte das pessoas.

Ven só pôs-se a rir.

— É que a calcinha está lhe incomodando? Não pôde dormir depois de te pôr ontem à noite em ridículo diante da irmã de Riley?

Alaric ficou imóvel e depois girou a cabeça pouco a pouco para cravar os olhos em Ven. O poder resplandeceu com uma cor verde feroz em seus olhos.

— Possivelmente queira olhar por onde vai em mais de um sentido. Já quase esgotei toda minha paciência.

Ven começou a lhe responder com a mesma moeda, mas houve algo nos olhos do sacerdote que o deteve. Se não o conhecesse melhor, teria jurado que Alaric sofria por algo.

Se não o conhecesse melhor.

— Merda, e me arruinar o dia antes de haver tomado um café sequer? Vamos atrás dessa cafeína, Alaric. Ah, e tenho que dar isto a Riley, se é que ela e Conlan não se mataram ontem à noite. Não senti nada absolutamente no quarto da garota.

Alaric apertou os lábios, mas pôs-se a andar para a cozinha.

— Rodeei seu quarto com um escudo. Se tivesse tido que sentir algo do que… Bom. Protegi seu quarto. Deixemo-lo assim.

Ven piscou quando Alaric se afastou pelo corredor com passo firme. Ali havia algo que ia mal, algo que ia além da culpa, que era óbvio que destroçava ao sacerdote pela perda do Tridente.

— O que me recorda que temos que começar a mover o traseiro. — murmurou, depois cruzou o corredor para bater na porta de Riley — Levanta, preguiçosa .

Não ouviu resposta alguma e se perguntou se era o escudo o que impedia que a jovem ouvisse a chamada, assim abriu a porta com cuidado.

— Riley?

E teve o imenso prazer de contemplar a gloriosa visão do formoso traseiro nu de Riley, que se esticava junto à cama.

A jovem deixou escapar um gritinho e se precipitou à cama para tampar-se de um puxão com as mantas.

— Ai, Deus. — disse Ven enquanto baixava a cabeça e olhava o chão, suas botas, algo salvo à mulher.

Podia sentir como foram subindo as cores com um rubor lento.

Não era que ver uma mulher nua lhe tivesse incomodado jamais mas, caralho, aquela era Riley, lady Raio de sol. Era tão valente como qualquer guerreiro e merecia algo melhor, não que um idiota a surpreendesse nua.

Além disso, a julgar pelo aroma de sexo que havia no quarto, Conlan ia tentar amassá-lo vivo.

— Não tem nada, Ven, já pode olhar. — disse a jovem com acento seco — Já estou visível. E obrigado por bater, por certo.

Ven lhe dedicou um amplo sorriso.

— Ei, não me olhe assim, eu bati. Alaric pôs uma espécie de feitiço no quarto para protegê-la e que não tivéssemos que suportar… Isto, quero dizer… Merda.

O rosto de Riley ficou como um tomate até a garganta e também a tentadora parte do peito que o atlante podia lhe ver por cima do lençol a que se agarrava.

— Oh, Deus. Oh, eu não, nunca… Ohhh.

E como é natural, esse foi o momento que Conlan escolheu para sair do banheiro, molhado da ducha e nu salvo por uma simples toalha.

— O que? Ven! O que está fazendo aqui dentro?

Depois se interpôs entre Riley e Ven e bloqueou a vista de Ven.

— O que está fazendo aqui quando Riley não se vestiu ainda? — repetiu, havia uma ameaça inquietante em sua voz.

— Ei, tranquilo, irmãozinho. Por isso é por que estou aqui.

Riley fez um ruído interessante, uma espécie de chiado, detrás de Conlan.

— O que?

Ven levantou a bolsa para que ela pudesse vê-la por cima do ombro de Conlan.

— Ontem à noite não podia dormir. Ocorreu-me que possivelmente estivesse cansada de usar a mesma roupa. Passei-me por sua casa para ver se andava por ali alguém pouco amistoso e te trouxe umas coisas para que possa vestir, panaquices de garota, eu o que sei.

Conlan começou a sorrir e lhe tirou a bolsa.

— Já vejo que Riley tem o mesmo efeito em você que em Denal, irmãozinho.

Ven entrecerrou os olhos.

— Sim, bom, não se esqueça que posso te dar uma surra duas vezes ao dia e três nas sextas-feiras, velho.

Riley saltou da cama envolta no lençol e correu para eles.

— Obrigado, obrigado, obrigado! Estava desesperada para pôr a mão em cima de um pouco de roupa limpa. É o melhor!

Deslizou-se entre Conlan e Ven, ficou nas pontas dos pés para deixar um beijo rápido na bochecha de Ven e depois tirou a bolsa de Conlan a toda pressa.

— Muitíssimo obrigado! E agora, se me perdoarem, vou me vestir para que possamos averiguar como vamos recuperar o Tridente e salvar o mundo.

Ven e Conlan ficaram ali plantados, os dois, com a boca aberta, enquanto ela corria ao banheiro envolta como uma múmia e arrastando o extremo do lençol atrás dela.

— Conversas de quarto? — perguntou Ven, sorrindo a seu ruborizado irmão — Por certo, não vi nenhum sinal de vampiros junto à casa de Riley. Deviam ir por nós.

— Obrigado, Ven. Não sei o que faria se… — fez uma pausa, entrecerrou os olhos e depois sacudiu a cabeça — Riley é a mulher mais assombrosa, não, o ser humano mais assombroso, não nem sequer isso. É a pessoa mais assombrosa que jamais encontrei. Aceita o que lhe ponham por diante e não há desafio que a arrede.

Ven se meteu as mãos nos bolsos e uma ligeira insinuação de preocupação penetrou em seu rosto.

— Assim que a garota é assombrosa. E também parece haver conquistado a você , irmão. Já falou da rainha que lhe destinaram?

Conlan apertou a mandíbula.

— Não. Não disse… Não. Mas tenho que falar com Alaric, Ven. As coisas vão ter que mudar.

Ven não disse nada, não estava muito seguro do que ia obter só com palavras. As coisas iam mudar, disso não cabia a menor duvida. O que não sabia era se seria para o bem ou para o mau.

 

Riley procurou na bolsa, encantada de ver que Ven sabia o suficiente de mulheres para lhe trazer um bom sortido de artigos de penteadeira. Vamos ver a roupa.

A jovem tirou um punhado de seda e couro. Aquele cara tinha que estar de brincadeira.

Isso era o que os guerreiros atlantes consideravam um equipamento de batalha adequado para empáticas? Regatas de seda e a única minissaia que tinha?

Pôs os olhos em branco. A saia era o único objeto de couro que havia em seu armário, assim que o motoqueiro deve pensar que era o único apropriado. Ao menos tinha incluído também seu par favorito de botas e um pulôver azul, assim não teria que congelar-se.

Para quando terminou de vestir-se, Conlan se tinha ido. Riley passou uns cinco segundos pensando o pouquíssimo que gostava de enfrentar-se aos guerreiros, quando todo mundo saberia o que Conlan e ela tinham estado fazendo toda a noite, mas o aroma de café venceu ao acanhamento e finalmente se aproximou da cozinha com o queixo levantado.

E só para encontrar a cozinha vazia. Mas uma cafeteira cheia, e, pelo aroma, recentemente feita, estava ali, tentando-a. Escolheu uma madalena da enorme caixa meio vazia que havia na mesa para acompanhar o café e se sentou à mesa, pronta para desfrutar de um café da manhã tranquilo antes de salvar ao mundo.

Ei. Assistente social se enfrenta ao Primus. Filmagem às onze.

— De meu desmembramento, com toda probabilidade. — murmurou para si. Alguém pigarreou atrás dela e a jovem esteve a ponto de atirar a xícara de café.

— Desculpe, lady Riley?

Lady Riley se deu volta e se encontrou com Denal na porta da cozinha.

— Nada. Balbuciava sozinha, que nunca é bom sinal. Entre. Quer um pouco de café?

O guerreiro se inclinou ante ela e, por estranho que fosse, o gesto não desconcertou a Riley. Devia estar acostumando-se já.

Pois, que bom!

Teria que acrescentar o presunção à lista de coisas das que tinha que preocupar-se?

— Não, obrigado, mas eu gostaria pegar outra dessas madalenas de mirtilos, se me permite.

Riley se pôs-se a rir.

— Denal, sério, temos que trabalhar nessa sua linguagem. Incorporá-lo a este século. E claro, fique, fique com a madalena. Aproxime uma cadeira.

O atlante se inclinou outra vez e se sentou em frente dela, lhe dando as costas à parede.

Depois agarrou uma madalena, afundou os dentes nela e uma expressão de prazer se estendeu por todo seu rosto.

Riley sorriu, não pôde evitá-lo. Parecia um menino de dezenove anos. O que fez que se perguntasse algo.

— Denal, com exatidão, quantos anos tem? Porque quando falam entre vocês não fazem mais que dirigir palavras como “séculos”, mas tive tantas coisas na cabeça que preferi não me colocar aí.

O jovem tragou e se limpou a boca com um guardanapo, depois a olhou muito sério.

— Tenho que celebrar logo o aniversário de meu nascimento, lady Riley. Vocês celebram tais ocasiões?

— Sim, com bolo, sorvete e balões. E, por favor, só Riley, certo? E quantas velas vai ter seu bolo?

O menino a olhou perplexo.

— Velas?

— Uma vela por ano. Assim que meu próximo bolo vai ter vinte e oito velas, um número muito próximo aos trinta para meu gosto. — disse estremecendo-se de só pensá-lo — E você?

O outro esboçou um amplo sorriso.

—Temo-me que meu bolo daria lugar a um incêndio, lady… Riley. Minhas velas alcançariam o número de dois e vinte.

A jovem pôs-se a rir.

— Venha, garoto. Vinte e dois não é suficiente para provocar um incêndio. Não poderia assar nenhuma nuvem dessas para pirralhos com vinte e duas velas.

Denal terminou a madalena e escolheu outra, depois negou com a cabeça.

— Duzentas e vinte. Possivelmente suficiente para assar um frango ou dois.

Riley piscou.

— Oh. Bom. Tem um aspecto estupendo para sua idade. — disse com voz débil.

Duzentos e vinte anos? E ele era o pequeno? Mas…

— Denal, quantos anos Conlan tem?

O guerreiro a olhou surpreso.

— Não compartilhou essa informação com você? Mas eu pensei que você e ele… Ei, mas bem…

Foi a vez dela sorrir então, embora notou que lhe coloriam as bochechas.

— Não tem nada, Denal. Ainda estamos… Medindo o terreno.

O jovem cravou os olhos na mesa, que de repente devia haver-se tornado fascinante, já que não era capaz de levantar o olhar para encontrar-se com o dela.

— Aceite minhas desculpas. Não pretendia incomodá-la.

— Acredite em mim, isso não é nada. Deveria ter estado ali para ver algumas das coisas que minha irmã fazia para me envergonhar quando éramos pequenas.

O menino levantou ao fim os olhos com um raio de malícia no olhar.

— Eu era o menor de oito e tenho sete irmãs mais velhas. Imagino muito bem como seriam as coisas entre vocês duas. As minhas me vestiam como se fosse um boneco e me faziam suportar uns chás intermináveis.

— Oh, como vou passar usando isso contra você, guri. — o trovão simpático da voz de Bastien atravessou a cozinha — Possivelmente possamos organizar um chá para você na próxima missão.

Denal se levantou de um salto, deixando cair miolos por todo o chão.

— Se contar essa história a alguém … Vou, vou…

Bastien se pôs-se a rir.

— Possivelmente queira deixá-lo aí até que cresça um pouco, garotinho. Além disso, estou cansado, patrulhei toda a noite. Não seria uma briga justa, não?

Riley tentou conter a vontade de sorrir ante a ideia de Denal enfrentando-se a Bastien.

O guerreiro mais velho tirava o outro quase trinta centímetros e era tão largo como o lado de uma colina pequena.

Mas a conversa a devolveu a sua antiga pergunta.

— Bom dia, Bastien. Bom, se Denal é um garotinho, quantos anos você tem?

— Bom dia, minha senhora. Eu tenho quase quatrocentos anos, louvado seja Poseidon. —Bastien se aproximou do café e se serviu do resto da cafeteira em uma xícara enorme que entre suas mãos parecia uma xícara de boneca.

— E Conlan? — perguntou ela, sem saber muito bem se queria saber a resposta.

Bastien inclinou a cabeça e lhe lançou um sorriso malicioso.

— O príncipe Conlan está a apenas umas semanas da idade em que deve subir ao trono, é óbvio. Celebrará seus primeiros quinhentos anos esse dia, quando se encontrara com sua senhora esposa e se converterá em rei de toda Atlântida.

A xícara de Riley caiu e ficou olhando, sem vê-lo, o café que desenhava arroios na mesa.

— Quando se encontrará com quem, você disse?

 

Riley afastou a cadeira da mesa de um empurrão e desceu como uma tromba pelo corredor em busca de um príncipe atlante mentiroso, falso e a ponto de converter-se em castrado.

Encontrou-o no salão, com Alaric, os dois inclinados sobre um grande mapa que tinham estendido sobre a mesa. O traiçoeiro corpo de Riley experimentou um pequeno comichão ao vê-lo, com o cabelo escuro afastado do rosto por uma fita de couro e as pernas musculosas só o bastante separadas para imaginar-se metida justo no meio, deitada sobre a mesa…

…E convertendo-se na garota boa e idiota da semana enquanto sua prometida o esperava em Atlântida.

— É homem morto. — começou a dizer, depois vacilou, quando Alaric levantou a cabeça e cravou nela aquele sinistro olhar verde e resplandecente que tinha.

Mas nem sequer ter que enfrentar-se Alaric em plena forma a iria deter. Essa vez não.

— Nem… Te… Aproxime.., Alaric. — Riley marcou cada palavra — Você e eu já falaremos do que quer que tenha feito a minha irmã, mas tenho que falar com seu principezinho um momento.

Os lábios de Alaric se crisparam revelando os dentes e o brilho estroboscópico que havia atrás de seus olhos aumentou uns mil graus, mas Conlan levantou uma mão.

— Já basta. Por que isso, Riley? — estendeu-lhe uma mão e enviou uma onda de calidez e confusão através do vínculo emocional que os unia.

A jovem baixou de repente os escudos. Com força. E desfrutou do estremecimento dele ao notá-lo.

— Não se esqueceu de dizer nada quando estava me despindo ontem à noite, príncipe Conlan? O atlante franziu o cenho, a confusão era óbvia em seu olhar.

— O que…?

— Você. E seu meio milhar de anos. O que, por certo, o torna muito, mas muito velho para mim, em qualquer caso. O trono. E, bom, o que era? — Riley se deu uns leves golpes nos dentes enquanto olhava ao teto — Ah, sim. Sua rainha. Isso te lembra alguma coisa, seu idiota?

Ouviu alguém afogar um grito atrás dela, mas já tinha superado com acréscimo o ponto no que podia passar vergonha. Humilhação, sim, certamente. Mas tampouco era como se na casa todo mundo não soubesse já que ela era a puta do dia do bom príncipe.

O rosto de Riley ardeu só de pensá-lo e se alegrou de que Quinn tivesse ido. Conlan deu um passo para ela, mas ela jogou o punho para trás.

— Jamais dei um murro a ninguém em toda minha vida, mas se der um passo mais, pode que seja o primeiro. Sabia que há anos, anos inteiros que não o fazia? Anos desde a última vez que confiei em um homem o suficiente para dar esse passo com ele?

As lágrimas corriam-lhe pelo rosto e as limpou com uma mão, odiava ser tão débil. Tão estúpida.

— Riley, juro a você...

— Oh, sim. Isto vai ser bom. — disse a jovem com amargura — Diga-me que não é o que penso, que não estava enganando a sua prometida comigo ontem à noite, que os sentimentos que me mostrou não eram um montão de mentiras assombrosamente pútridas.

E ao dizer isso, a dor abriu passo ao fim entre a cólera. Abrasou todas suas defesas e foi ressecando tudo até o fundo de sua alma. Riley vacilou e esteve a ponto de derrubar-se pela intensidade da dor.

— Como pôde? — gritou — Como é capaz de me mentir com o coração?

Conlan se moveu a uma velocidade que o apagou e a agarrou entre seus braços, convertidos em barras de aço ao redor da jovem.

— Nos deixem todos. — ladrou, em seus olhos havia uma expressão selvagem de cólera.

Riley lhe deu um empurrão, tentou afastar-se dele sem poder deixar de chorar. Uns soluços duros e dilaceradores que pareciam a ponto de lhe arrancar a garganta.

Depois de tudo, aquele homem já lhe tinha arrancado o coração.

Caiu entre seus braços, um peso morto, com a esperança de que ele a deixasse. Incapaz de fazer que suas pernas a sustentassem. Conlan se foi ao chão com ela, caiu de joelhos diante dela sem deixar de sustentá-la. A jovem sentiu as ondas de angústia masculina que a sacudiam.

As ondas de emoção que a empurravam, lhe vendendo como um camelô suas falsas promessas de sinceridade e franqueza.

— Sai de minha cabeça! — gritou — Não são mais que mentiras. Vai casar com… Como se chama?

— Não…

Riley lhe grunhiu em pleno rosto, aquele homem tinha provocado nela ciúmes ferozes que nunca pensou que seria capaz de sentir.

— Diga-me como se chama!

Conlan baixou os braços e a soltou. Afundou os ombros e a olhou diretamente aos olhos.

— Não sei como se chama. Não nos conhecemos.

Riley caiu para trás com a boca aberta.

— O que? Não o entendo. Por que..?

— Por que, eu também me pergunto isso. — disse Conlan, despojando-se de poder de forma visível. A pele lhe brilhava com um leve brilho verde azulado e a chama voltava a arder em seus olhos — Se estou preparado para ser rei, deveria atuar então como um rei, não é certo?

E dizendo isso agarrou as mãos de Riley e girou a cabeça para olhar a Alaric, que não havia deixado a sala.

— E como rei deveria ter direito de escolher. O fato de que o antigo programa de cria tenha sido o modo de fazer as coisas nas Sete Ilhas desde o começo dos tempos não significa que tenha que continuar como tal.

Conlan olhou a Riley, que permanecia sentada, com as lágrimas ainda caindo pelo rosto e perguntando-se do que aquele homem estava falando.

E por que sequer lhe importava.

Embora se disse que o odiava, não pôde evitar observar o ar majestoso que o envolvia, inclusive ajoelhado no chão. Uma postura que haveria feito submeter-se a qualquer outro homem não conseguia reduzir o aspecto grandioso que tinha ele.

Capaz de dominar a todos.

Riley tentou respirar através do peso que lhe esmagava o peito, através do nó que tinha na garganta.

As seguintes palavras que o atlante disse terminaram de deixá-la sem fôlego.

— Eu, Conlan de Atlântida, príncipe supremo das Sete Ilhas, pelo seguinte decreto que a cerimônia de escolha de casal deixará de aplicar-se a aquele que não a deseje. E eu renuncio a ela. Como rei escolherei com liberdade.

Os gritos afogados que Riley ouviu a suas costas foram mais altos dessa vez, e o seu próprio se ecoou de todos. Alaric ficou pálido como um morto e se agarrou na beira da mesa com as duas mãos. Riley notou tudo, mas só na periferia de seus sentidos, quão único enchia seu campo de visão era o rosto de Conlan.

Foi incapaz de formar uma só palavra.

O príncipe ficou em pé e a levantou com ele antes de lhe rodear a cintura com um braço.

— E faço minha escolha agora. Escolho a ela. Escolho a Riley Elizabeth Dawson, aknasha, humana, para que seja minha senhora esposa e rainha. — voltou-se para Riley com uma alegria no olhar — Se ela me aceitar.

Mas antes que Riley pudesse dizer uma palavra, Alaric a interrompeu.

— Não, nada disso. Não renuncia a nada. Se não quer condenar à Atlântida e ao mundo humano a um segundo cataclismo.

Alaric sorriu com amargura a jovem e depois voltou a olhar a Conlan.

— E sua humana morrerá.

Como se quisesse fazer eco daquela proclamação do fim do mundo, o estrondo de um trovão atravessou a sala e um raio de energia se estrelou contra Alaric.

Conlan afogou um grito e se lançou em um ato reflexo pela sala, para Alaric, quando outro raio de energia abrasou o ar e se lançou contra o sacerdote.

— Mas que demônios dos nove infernos..? — gritou, mas não foi o bastante rápido.

O estalo verde de puro fogo se estrelou contra Alaric em pleno centro. O sacerdote se acendeu como se estivesse eletrificado, sacudindo os braços como uma espécie de marionete possuída pelo demônio.

Conlan ouviu o Riley chiando atrás dele, mas estava preso na corrente elementar que atravessava o ar e se introduzia em Alaric.

Durou horas, ou possivelmente só foram segundos. Não havia forma de saber. O tempo se suspendeu na cúspide de uma energia desenfreada.

E depois, tão repentinamente como tinha chegado, o feixe paralisante de poder se desvaneceu. Ven e Justice entraram correndo na sala dando gritos enquanto Conlan dava um salto e agarrava Alaric antes que se derrubasse.

Deixou a figura inconsciente do sacerdote sobre a mesa e se voltou, respirando com dificuldade, para ajudar a Riley.

A jovem permanecia presa entre Ven e Justice, que a seguravam cada um de um braço e cujas expressões hostis indicavam uma necessidade iminente de fazer dano a alguém.

Ideia que Conlan compartilhava, certamente. Pôs-se a andar para Riley.

— Tire a mão de cima ou quão próximo vai sentir é um chute no traseiro. — grunhiu a seu irmão.

— Ah, sim? E o que é o que está protegendo, com exatidão? À mulher… À empática que teve o poder de fazer que desmaiasse na praia e que acaba de derrubar a Alaric?

Riley afogou um grito.

— O que? Está de brincadeira? Como eu ia fazer isso?

Denal elevou a voz do corredor.

— Lady Riley jamais…

Bastien o interrompeu.

— Cale-se, moço. Este é um assunto do que não sabe nada.

Conlan vacilou um momento. Conhecia-a. Tinha estado no interior da alma daquela mulher, maldita fosse. Mas era verdade que estava muito furiosa e Alaric…

— O que está pensando? — exclamou Riley — Por que me olha assim? Não acreditará que… Uma voz rouca se elevou as costas de Conlan e interrompeu sua súplica.

— Está dizendo a verdade, Conlan. Não teve nada a ver com isto.

Conlan girou em volta e viu Alaric levantando-se na mesa com o rosto gasto e pálido.

— Foi um sinal do Tridente. Está preparado para que o encontrem.

Uma baforada de ar deixou os pulmões de Conlan de repente, o alívio esteve a ponto de lhe provocar um enjoo.

— Riley, eu…

— Não. — disse a jovem com uma voz carente de emoção — Pode guardar seus bonitos discursos. Acaba de demonstrar que não significo nada para você.

Soltou-se do braço de Ven e com a cabeça muito alta se voltou para deixar a sala. Se deteve na porta e falou sem olhá-lo.

— Voltei a sentir o Reisen. Se puder lhes ajudar a localizá-lo, farei-o. Pela Quinn. Pela revolução.

Conlan tentou penetrar em suas emoções, mas, era muito pior que os escudos travados, tudo o que encontrou na mente da jovem foi desolação.

— E te afaste de minha mente, Conlan. Terminamos.

Denal os olhou a todos e se atreveu a falar.

— E agora o que faremos?

Quem respondeu foi Alaric.

— Agora esperamos outra onda para que eu possa localizar o Tridente.

Bastien deu um murro na parede.

— E depois vamos abrir uma lata de porrada na Casa de Micenas.

Conlan seguia ali plantado, com as vísceras rasgadas e ensanguentadas no chão, enquanto a mulher que as tinha arrancado descia pelo corredor e saía de sua vida. Mostrou os dentes com um grunhido.

— Exato, Bastien. Exato.

 

Anubisa levantou a cabeça da figura inerte e ensanguentada do patético general Barrabás que tinha e vaiou. A perturbação dos elementos tinha atravessado sua cabeça como uma brisa limpa que liberasse o fedor acre da morte de um campo de batalha.

Anubisa desprezava as brisas limpas.

Já era hora de pôr Barrabás para trabalhar.

 

Riley se sentou no sofá da sala de jogos, o vazio a invadia, uma ilha de silêncio no meio dos apressados preparativos para a batalha. Alaric e ela passaram todo o dia juntos para tentar localizar Reisen e o Tridente. Ela tinha recebido de forma intermitente algum outro contato, breve e frustrante, com as emoções dos guerreiros ao tempo que o Tridente jogava gato e rato com o sacerdote, um jogo sem dúvida perigoso.

Finalmente, ao entardecer, os brilhos de poder se fizeram mais potentes e Alaric pôde rastreá-los; a emissão de emoções que ela sentia partir do Reisen e seus guerreiros também se fez mais forte e isso os ajudou a triangular uma localização.

Agora só se tratava de esperar. Riley era incapaz de processar tantas desesperadas desigualdades emocionais, assim decidiu deixar de tentá-lo.

Depois de passar toda a tarde sem pensar em Conlan, atitude que manteve com firmeza, o atlante ao fim foi preparar a busca de Reisen e o Tridente.

Riley os ajudaria a encontrar o Tridente que tanto necessitavam e depois nunca mais teria que ver com aqueles idiotas outra vez.

Esteve a ponto de procurar a mente de Conlan antes de conter-se e voltar a baixar os escudos mentais de repente.

O Tridente. Claro, o que tanto necessitava para poder ir converter se em rei e casar-se com sua preciosa rainha. Bom, pois melhor para ele. A expressão de dúvida que havia em seu rosto quando Ven a acusou de machucar a Alaric era algo que nunca esqueceria.

Que nunca poderia perdoar. Aquele homem tinha estado dentro dela, corpo e mente, dentro de seu coração. Mas de todos os modos tinha duvidado dela.

Graças a Deus que não lhe havia dito que o amava.

— Que tampouco é que o amasse. — murmurou com amargura — Um momento fugaz de loucura induzida pela luxúria, verdade?

Um espinho de dor incrustada no mais profundo de seu coração lançou uma pontada de protesto, mas a esmagou.

Sem piedade.

Igual a como ele tinha sido. Desumano. Tinha esmagado suas estúpidas fantasias de ter encontrado finalmente a alguém que entenderia quem ela era na realidade, e que a amaria. Que não a abandonaria.

— Riley?

Genial. E ainda por cima estava se imaginando sua voz. Apertou os olhos com força e não fez caso da umidade que lhe molhava os cílios.

Um dedo lhe acariciou a bochecha e a jovem abriu os olhos de repente. Não o tinha conjurado. Estava ali.

O atlante se ajoelhou diante dela, agarrou-lhe as mãos apesar da tentativa dela de evitar seus dedos. A sala também ficou de repente vazia. Nem guerreiros, nem armas. Só eles dois.

E a dor.

— Riley, não pode deixar que um segundo de dúvida destrua o que encontramos. — lhe disse — Alaric e seu catastrofismo podem apodrecer-se nos nove infernos pelo que a mim concerne. Preciso de você.

Inclusive com os escudos encerrando suas emoções sem deixar uma só fresta e bloqueando também as dele, Riley podia ver a angústia no rosto masculino. As linhas que emolduravam sua boca pareciam haver-se aprofundado toda uma década na última meia hora.

Certamente ela tampouco estava para comer-lhe. E não era que lhe importasse. Voltou a fechar os olhos, decidida a excluí-lo de sua vida.

Mas fraquejou quando sentiu seu fôlego no rosto, quando sentiu seu beijo na testa.

— Sobrevivi durante quinhentos anos só porque não confiei nunca em ninguém, Riley. Nunca acreditei em ninguém. Nunca amei a ninguém.

Abriu os olhos, precisava ver o rosto daquele guerreiro. Depois elevou os escudos, precisava sentir seu coração.

E ambos lhe disseram o mesmo. Conlan, aquele orgulhoso guerreiro, estava-se humilhando ante ela. Desesperado por conseguir seu perdão.

A dor que viu em seus olhos rivalizava com tudo o que Riley tinha sentido nas lembranças que o atlante conservava das torturas de Anubisa. E de repente já não pôde suportá-lo mais.

Não pôde suportar ser a que o fazia mal.

— Conlan, eu…

Interrompeu-a o som de umas botas no corredor. Era Ven, e tinha o rosto de batalha.

— Alaric diz que temos que ir agora. O Tridente está chiando dentro de sua cabeça e há um novo nível de poder nele. — ficou olhando desde sua altura a Conlan e Riley, era óbvio que não gostava do que via, mas não disse nada mais.

Limitou-se a dar-se volta e ir com passo firme.

— Tenho que ir, mi amara aknasha.

— Sei. Tenha muito cuidado.

— Estará aqui quando retornar? — a voz de Conlan era feroz, o desespero a enrouquecia — Então poderemos solucionar isto. Prometa-me isso.

— Sim, prometo-lhe isso. Agora vai. Quanto antes vá, antes voltará.

Conlan a esmagou contra ele com um abraço feroz e depois reclamou os lábios femininos com um beijo abrasador.

— Vou deixar Denal e Brennan contigo para que montem guarda. Tenha muito cuidado, faz-o por mim, Riley. Necessito que esteja a salvo.

Momentos depois se foi e a porta da rua deu uma portada atrás dele. Riley se afundou no sofá, enquanto se perguntava se aquele homem sobreviveria ao enfrentamento com seu inimigo.

E enquanto se perguntava como ela ia sobreviver, se não fosse assim.

 

Reisen ficou olhando com não pouca satisfação às figuras ajoelhadas e embelezadas com túnicas azuis dos vinte membros da Sociedade Platônica que tinham ido oferecer seus serviços e venerar a um príncipe de Atlântida.

Não era ainda príncipe supremo, mas tudo chegaria.

O piso principal do armazém era uma sala de reuniões improvisada, perfeita. Ele havia subido a uma palco de madeira com a mesa nua ante ele, salvo por um vulto envolto em tecido.

Umas velas iluminavam a mesa, embora houvesse focos acesos pelo edifício.

Muito em breve o Tridente iluminaria a noite.

Colocou uma mão no bolso da jaqueta e acariciou a gema que escondia ali. Havia chegado o momento de fazer uma pequena demonstração de poder.

— Elevem-se e contemplem o cumprimento da profecia. — gritou — Contemple o primeiro passo dos Guerreiros de Poseidon, que voltam a ocupar de novo o lugar que lhes corresponde entre a sociedade da terra.

Afastou com gesto suave as dobras de tecido que ocultavam o objeto que todos tinham ido ver e levantou o resplandecente Tridente dourado por cima da cabeça.

— O Tridente de Poseidon! Instrumento de poder para o governante de Atlântida há incalculáveis milênios!

O rugido dos homens sacudiu as paredes e os tacos de dezenas de pés troaram na caverna cheia de ecos da sala.

— Atlântida! Atlântida! Atlântida!

Reisen tirou a esmeralda do bolso e baixou o Tridente. Fechou os olhos um instante e pronunciou uma breve prece.

 

Poseidon, Pai da Água.

Senhor dos elementos, avatar da justiça para todos os atlantes.

Escuta nosso rogo, sente nossa necessidade. Devolva à Atlântida sua antiga glória. Escuta nosso rogo, sente nossa necessidade.

 

Abriu os olhos e, antes de poder pensar na horrenda morte que o aguardava se tivesse se equivocado em suas hipóteses, colocou a esmeralda no buraco superior dos sete vazios que tinha o cajado do Tridente.

O poder se elevou assim que a esmeralda encaixou em seu lugar, atravessou o Tridente com um chiado e esteve a ponto de lhe queimar a mão. Fechou o punho com mais força ainda ao redor do cajado e compartilhou sua alegria e seu triunfo com todos lançando um bramido.

Uma luz cegadora verde e prata saiu disparada do Tridente e iluminou a obscurecida sala com a intensidade do sol do deserto ao meio dia. Os próprios elementos responderam à chamada do Tridente e o vento se converteu em um torvelinho ao redor de Reisen, levantando as túnicas e o cabelo dos humanos.

Umas fitas de água brotaram das paredes e do teto, dos encanamentos oxidados que levavam muitos anos sem levar água a nenhum lugar. Giraram e rodaram pela sala, dançando com a luz, interpretando uma valsa de poder resplandecente.

O poder, ah, o poder. Reisen já ficou quase sem voz, tinha a garganta rouca, mas continuou celebrando sua vitória aos gritos.

A Atlântida será minha, e estes fracos humanos não demorarão a cair. E uma vez mais, o mundo tremerá ante nossos passos.

Ante meus passos.

— Sou Reisen de Atlântida e decreto que assim será.

O Tridente lhe atravessou as mãos com uma onda de calor agudo e abrasador quando soaram aquelas palavras, mas Reisen pôs-se a rir enquanto lhe queimava a pele.

Riu da dor.

E começou a fazer planos para a batalha.

 

— Permite-me que me sente com você? — Denal rondava na entrada, parecia um autêntico pistoleiro do antigo oeste.

Além das adagas que tinha atadas às coxas, uma complicada série de correntes de couro penduravam em uma espécie de coldre duplo que lhe cruzava o peito.

— Preparado para o duelo ao sol? — perguntou Riley enquanto conseguia esboçar um sorriso.

O jovem franziu o cenho.

— Desculpe?

— Nada. Não importa. Uma coisa do selvagem oeste, certamente foi antes que você nascesse. Claro que não é que tenha havido muito antes que você nascesse. Oh! Tanto faz.

O atlante se aproximou da janela e afastou as persianas para aparecer um pouco.

— Brennan está fazendo a primeira guarda fora. Embora não esperamos que haja nenhum problema. Ninguém sabe onde estamos.

— Isso é o que pensavam Reisen e seu bando. E se eles também têm uma empática à mão?

A jovem viu que os olhos do atlante se abriam ainda mais e que uma expressão horrorizada cruzava seu rosto.

— Não pensamos nisso! Mas, mas Alaric disse que você é a primeira em dez mil anos que é aknasha.

Riley se levantou e começou a passear.

— Sim. E logo está minha irmã. E quem sabe quantas mais que vocês não viram, sumidos em sua arrogância?

— Sabe se há alguém mais como você e lady Quinn?

Lady Quinn. O que sua irmã ia rir se o ouvisse.

Ou possivelmente não. A verdade era que Riley já não conhecia essa nova Quinn. A que entrava em combate ao comando de homens lobo.

Abriu sua mente e enviou suas emoções a entrar na noite em busca de sua irmã.

Não sentiu nada. Como se Quinn tivesse morrido de verdade naquele bosque ensanguentado. Ou como se a tivesse deixado fora, uma vez mais. Para ocultar as coisas que tinha feito e a pessoa em que se converteu.

Entristeceu-a pensá-lo.

— Lady Riley?

Piscou e se concentrou no rosto que tinha a frente.

— Não. Não, nunca conheci ninguém, além de Quinn, que pudesse enviar ou perceber emoções como nós fazemos. Acredito que minha mãe possivelmente tivesse esse talento. Há algo nas lembranças que tenho dela…

Fechou os olhos e enviou seus sentidos por um caminho diferente. Em busca da segunda pessoa que penetrou em seu coração e tinha acampado ali.

“Conlan.”

Riley sentiu a reação do guerreiro: os olhos azuis e dourados de calidez e o carinho a alagaram.

“Riley? Precisa de mim?”

“Não. É que… Não. Tenha muito cuidado. Encontra seu Tridente e volta rápido. Por favor.”

O bom humor do atlante a atravessou como um raio trêmulo, debruado por uma forte sensação de alívio.

“Dá-me ordens inclusive a distância. Temos que falar dessa tua afeição em desprezar a realeza.”

“É, que eu formo parte de uma democracia, colega. Demo-lhe um bom chute a um traseiro real para conseguir a liberdade, não acredite que não podemos fazê-lo outra vez.”

Antes que ele pudesse responder às brincadeiras da jovem, a conexão entre ambos vacilou.

Um frio gélido atravessou as veias de Riley.

“Conlan?”

“Estou bem. Tenho que… Tenho que me concentrar. Até mais tarde.”

As barreiras mentais do atlante se fecharam de repente e a jogaram pela força do vínculo emocional que os unia.

Denal permanecia diante dela; seus punhos apertavam com força os punhos das adagas.

— O que ocorre?

— Não sei. Acredito que não é nada. Espero que não seja nada. — Riley se afundou no sofá — E agora, o que fazemos?

— Esperar. — disse o jovem com ar sombrio — Embora eu devesse estar lutando com o resto dos Sete para recuperar o Tridente.

Era tão jovem… O bastante jovem para zangar-se se o deixavam fora da batalha e o derramamento de sangue.

Ou possivelmente era o homem que havia nele, não a juventude. Riley sorriu com tristeza.

— Sinto que tenha que ser babá.

O atlante se sobressaltou ao momento.

— Que… Oh, não. É uma honra para mim protegê-la e servi-la, minha senhora. É só que…

— Não se preocupe. Se eu tivesse um par dessas adagas e soubesse como as usar, também quereria estar metida em toda a medula, suponho. Ao menos para ajudar a proteger…

— Ao príncipe. — assentiu Denal — É certo, então, o que dizem as lendas sobre as aknashas? Que podem formar a fusão das almas muito rápida?

— Ao que? — Riley sentiu que lhe ardiam as bochechas por uma razão muito óbvia, mas sentia curiosidade — O que é uma fusão das almas?

— Diz-se que quando alguém que é aknasha ama de verdade, abre-se a seu amado de modo que ele pode viajar pelos corredores de seu coração e sua alma.

— Muito poético. — disse Brennan ao entrar na sala — O problema disto de “esconder-se a plena vista” que Ven prefere em suas casas é que os vizinhos olham com receio que um tipo como eu patrulhe a noite.

— Com que chamando a atenção em uma zona residencial, né? — perguntou Riley tentando falar com tom ligeiro.

As palavras de Denal a haviam emocionado mais do que estava disposta a admitir. A verdade tinha o costume de fazer esse tipo de coisas. Alguém que ama de verdade.

— É difícil passar despercebido quando é um maciço de quase dois metros, Brennan. É que na Atlântida lhe jogam à água uma espécie de poção da beleza absoluta?

Ficou olhando-os aos dois, ali plantados: músculos e maçãs do rosto vestidos de couro entre uma cascata de aço. Como se acabassem de escapar de um estranho universo paralelo no que os modelos de passarela usam armas.

Denal negava com a cabeça.

— Em Atlântida não vivemos na água. A cúpula nos protege.

Riley piscou e depois pôs-se a rir com tal força que lhe doeram os flancos. Quando o jovem se ofendeu, tentou explicar-se.

— Não, não, não estou rindo de você, Denal. É que acabo de cair atrás do coelho com os Modelos Maciços Desenfreados.

O que fez que lhe entrasse outro ataque de risada, o pior caso de risada de estresse que havia tido jamais, e o fato de que Denal a olhasse sacudindo a cabeça não fazia mais que piorá-lo. Até o Brennan sorriu, embora a expressão nunca lhe alcançasse os olhos.

Quando Riley pôde recuperar o fôlego, secou-se os olhos com as mãos.

— Certo. Sinto muito. De verdade. É que às vezes me entra um ataque destes. Seguro que termino rindo em meu leito de morte. Que tal umas pizzas? Duas ou três? — estudou-os e ampliou mentalmente o pedido. Uma distração. Isso era o que necessitavam — Não, cinco pizzas carregadas até em cima. E podemos pôr um destes filmes. Acredito que Ven tem a melhor coleção de clássicos que jamais vi. Alguém vota pelo King Kong original?

 

Conlan seguiu o Alaric e atravessaram voando a cidade, com os corpos transformados em uma bruma resplandecente. Ven e os outros os seguiam em dois dos carros da coleção deste. Tinham descoberto muito rápido que as armas modernas, de fato, algo que não contivesse ao menos um rastro de oricalco, não podiam mudar com a magia do processo de transformação.

Ven adorava ter seus brinquedinhos com ele. Aquele cara tinha mais armas que um arsenal.

E as iam necessitar, sem dúvida. Embora cinco dos guerreiros de Reisen estivessem mortos, possivelmente ainda os superassem em número. A Casa de Micenas poderia ter chamado a muitos mais para proteger o Tridente roubado.

“Por quê?”

Foi o pensamento que enviou a Alaric.

“Acreditava que estava morto. Queria que a Atlântida ocupasse o que ele considerava que era o lugar que correspondia entre os caminhantes. Impacientou-se com a forma prudente de fazer as coisas do Conselho. Sem dúvida se viu como rei.”

Conlan ouviu a nota subjacente.

“Você é da mesma opinião?”

Embora não fosse empático, não lhe custou nada ler o desgosto nos pensamentos do sacerdote.

“Se não for agora, quando, Conlan? Nos encarregou de proteger à humanidade. Cumprimos esse voto que fizemos nos escondendo como mulheres? Não, não procede. Essa tua mulher e sua irmã guerreira não pensam em esconder-se, deveria nos dar vergonha.”

Alaric acelerou um pouco mais, como se tentasse deixar para trás qualquer pensamento sobre Quinn. Conlan precisava entender mais sobre aquela reação, certamente. Mas havia um assunto muito mais urgente.

“Alaric, o que é esse fim do mundo de que falava? Um segundo cataclismo?”

Mas em lugar de responder, Alaric se precipitou entre as árvores que rodeavam um solar vazio que confinava um edifício grande de aspecto ruinoso.

Um edifício cheio de luz e som e rodeado de carros.

Quando o sacerdote recuperou sua forma corporal com uma luz trêmula, lançou a cabeça e os braços para trás. A tensão invadia os esforços de cada músculo.

— O Tridente está aqui. Chama-me… Provoca-me. Chame os outros. Encontramo-lo.

Conlan, que durante toda a viagem tinha estado comunicando a direção que seguiam a Ven, enviou-lhe as indicações finais através do enlace mental.

“Ven. Apresse-se.”

Recebeu os pensamentos de Ven disparados como uma flecha.

“Cinco minutos se muito. E depois vamos fazer com que o senhor da Casa de Micenas lamente o dia que nasceu.”

— Cinco minutos, Alaric. Temos que esperar aos outros. Pela pinta do estacionamento, superam-nos em número, e a proporção não é boa.

Alaric começou a adiantar-se com os olhos resplandecendo na escuridão.

— Humanos sobre tudo. — grunhiu — Posso senti-los. De todos os modos não importa. Nenhum deles está a minha altura. Vou fazer cair a justiça de Poseidon sobre eles.

Conlan cintilou e apareceu diante de Alaric, lhe bloqueando o passo e lhe impedindo de continuar.

— Vai esperar. Como seu príncipe, ordeno-lhe isso. Se lhe destruírem por um golpe de sorte provocada por sua superioridade numérica, que esperança fica à Atlântida?

O rosto de Alaric mostrava uma expressão selvagem. Não ficava rastro do amigo de infância de Conlan na determinação cruel daquele rosto.

— Fora de meu caminho, príncipe. Isto é trabalho de deuses, e não pode revogar meu objetivo.

— Como príncipe não, possivelmente. Mas e como amigo? — Conlan estendeu uma mão para agarrar o braço do sacerdote.

A luz dos olhos de Alaric arderam ao tocar o rosto de Conlan, mas o príncipe não se arredou. Alaric soltou o braço de um puxão e levantou as mãos para invocar o poder, umas rajadas de vento elevaram Conlan do chão e o atiraram. O príncipe lutou contra o elemento do vento para tentar levantar-se. Alaric se limitou a olhá-lo desde sua altura com expressão pétrea.

— Eu não tenho amigos.

E depois cruzou o solar a passo longos, rumo às janelas resplandecentes do armazém.

 

Anubisa olhou com desprezo a cabeça inclinada do suposto senhor dos vampiros. Seu pai-marido se retorceria de vergonha se tivesse que ver o sangue diluído de sua raça.

Por sorte para todos tinha matado a Chaos. Anubisa recordou sua morte com pena. Era uma pena que não pudesse repetir-se outra vez.

Esse êxtase puro, dilacerador, ao despedaçar a jugular de seu incestuoso amante, quando alcançou o clímax dentro de seu corpo. A raiva impotente de Chaos, quando sua semente e seu sangue fluíram de seu membro e seu pescoço, e encheram a vampira.

Ele a tinha feito deusa da morte e ela comeu sua alma. Tudo muito apropriado, por alguma razão.

Mas o caso é que ficou com aquela pálida imitação da grandeza com a que ousava tentar exercer a liderança.

— A fissura na malha natural dos elementos? É que não a percebeu, idiota?

O outro se estremeceu a seus pés, não era homem suficiente para enfrentar-se a ela.

— Sim, que a percebi, muito eminente. O que quer que faça?

Anubisa balançou quase com delicadeza um pé envolto em seda e lhe deu um chute com a força suficiente para lançar seu corpo pelo ar. O homem se estrelou contra a parede de sua câmara e se deslizou até o chão. Quase desossado.

Inútil.

— Levante-se, patético saco de esterco de verme. O que quero que faça é que rastreie e encontre a esses atlantes que se atrevem a perturbar os elementos. — a cólera fez cintilar os olhos femininos com uma cor vermelha acesa, logo que sentiu o sangue das retinas que lhe escorregava pelo rosto — E leve ao Drakos contigo. É possível que ele tenha algo do senso comum de que é óbvio que você carece.

— Mas…

Anubisa ficou imóvel e o ar da câmara desceu a uma temperatura o bastante gélida para gelar o sangue humano. Certo. Assim que isso era a cólera. Passaram séculos da última vez que seu humor tinha saído da letargia mais absoluta.

— Atreve-se a me questionar? — perguntou, sua voz era um sussurro inexprimível de morte.

— Nunca. — ofegou ele enquanto se levantava do chão.

— Encontre aos atlantes. Agora. E possivelmente ainda te deixe vivo.

 

Ven dirigiu os últimos cem metros sem luzes, queimando pneu. Às vezes a visão noturna atlante era uma vantagem.

Justice já tinha saído do carro antes que Ven pudesse pô-lo em ponto morto. Bastien e Alexios saíram do assento de trás, depois dele.

Ven saiu de um salto e levantou a cabeça para ouvir o vento que passava assobiando sobre sua cabeça. Era Christophe, decidido a viajar através da bruma, embora sua força e velocidade não estivessem à altura da de Conlan e Alaric.

Ven assentiu. Sabia o que era o orgulho.

— Conlan! — ressonou a voz de Justice e Ven pôs-se a correr.

Maldito fosse. Seu irmão, não. Outra vez não.

Aproximou-se correndo ao grupo de guerreiros quando Justice ajudava Conlan a levantar-se.

— Está ferido?

Conlan o olhou, sacudiu a cabeça e respirou fundo.

— Não, mas vou dar um grande chute nesse traseiro verde e resplandecente que Alaric tem assim que lhe ponha as mãos em cima. O filho da puta me nocauteou com magia para ir procurar o Tridente. Não quis esperar reforços.

Christophe tomou forma envolto em uma luz vacilante a seu lado, com o rosto absorto e com os olhos cravados no feio edifício de aço e tijolos que havia ao outro lado do solar.

— É o Tridente. — disse sem fôlego — Está cantando. Jamais senti tanto poder.

Com o rosto transfigurado, Christophe se foi cambaleando para o edifício sem escutar a chamada de Ven, que lhe dizia que parasse. Bastien ficou diante dele e com ar casual lhe deu um murro na mandíbula, com o que esteve a ponto de derrubar ao guerreiro.

Christophe piscou e só então começou a processar o que via ao seu redor, depois esfregou-se a mandíbula e olhou ao Bastien com o cenho franzido.

— Por que demônios dos nove infernos fez isso?

Bastien esboçou um grande sorriso.

— Leva tempo procurando isso, ah, sim, e também estava em uma espécie de transe.

Conlan se adiantou com passo decidido.

— Já está bom. Temos que nos desdobrar e averiguar no que nos estamos colocando. Em que suponho que Alaric já está metido. Se houver algum sentinela, se ocupem deles. Sem ruído.

Bastien tirou as adagas.

— O silêncio é meu segundo nome, meu senhor. Vamos como deus.

Christophe bufou.

— Feio é seu segundo nome.

Alexios se adiantou e lhe deu um empurrão com o ombro a Christophe ao passar junto a ele.

— Uma palavra a mais e vai descobrir um significado completamente novo da palavra feio, cérebro de merda. — grunhiu.

Com vários gestos, Conlan indicou a Justice que tomasse posições pela esquerda e que Alexios fizesse o mesmo pela direita. Ele foi pelo meio, murmurando uma rápida oração a Poseidon para que Alaric aguentasse outro maldito minuto.

Foi então quando as janelas dos edifícios explodiram.

 

Brennan levantou a cabeça de repente.

— Aproxima-se alguém. — jogou mão às armas que nunca deixava muito longe.

Riley tinha notado que todos faziam o mesmo. Inclusive quando estava na cama com ela, as adagas de Conlan tinham ficado em uma mesa, ao alcance da mão.

Ficou com as bochechas vermelhas quando se deu conta de que, pela quinquagésima vez em só hora uma, estava pensando em Conlan nu. Por Deus, estava se convertendo em um garoto, o único que tinha na cabeça era sexo, sexo, sexo. A seguir ia começar a coçar a virilha e a desenvolver uma necessidade urgente de jogar videogame.

— Certamente será o cara da pizza. — disse — Hurra pelas entregas pontuais. Deixe-me pegar a carteira.

Tanto Brennan como Denal se levantaram para acompanhá-la, mas Riley se plantou ali com os punhos nos quadris.

— É o cara da pizza. Que será um garoto fraco que ainda vai ao colégio e que vai mijar nas calças se saírem os dois à porta com essa pinta de Conan de Atlante. Estamos entendidos?

Soou a campainha da porta e Brennan sacudiu a cabeça.

— Não vai sozinha.

Riley apelou à lógica.

— Olhe, se assustarem ao guri, vai ter uma grande historia que contar na pizzaria, não? De verdade querem que o endereço e o telefone de sua suposta casa segura fique guardado em um computador de umas pessoas que acreditam que o que vive aqui é um grupo de motoqueiros que traficam drogas?

Denal tirou a espada em plano “eu sou o guerreiro e você é uma pobre e indefesa donzela”.

Riley pôs os olhos em branco.

— Brennan? Você é mais velho e mais sábio, não? Não tem sentido o que digo?

A campainha voltou a tocar. Brennan assentiu por fim.

— Pode ir. Eu permanecerei detrás da porta enquanto você efetua a transação.

— De acordo. Mas vamos antes que meu pepperoni se esfrie.

Riley deteve o filme, quem não adorava a Fay Wray ?, e tirou a carteira de sua jaqueta de caminho à porta. Brennan lhe deu uma notas dobradas.

— Não vai pagar nossa comida, lady Riley. Embora lhe agradecemos o oferecimento.

A jovem deu de ombros e lhe deixou que colocasse o dinheiro na mão.

— Muito bem. É possível que paguem a um guerreiro real melhor que a uma assistente social? Brennan se colocou detrás da porta e afastou um guarda-chuva.

— Os atlantes necessitam guarda-chuva? Acreditei que vocês gostavam da água. — brincou Riley com a esperança de que Denal começasse a falar outra vez da cúpula.

Mas Denal se limitou a sorrir e sacudiu a cabeça enquanto espreitava atrás da porta do armário. Riley jogou uma olhada ao maço de notas.

— Caralho, que tampouco necessitamos um par de centenas de dólares para umas quantas pizzas.

Grande gorjeta que o guri ia levar!

Riley abriu a porta com uma gargalhada enquanto continuava separando as notas.

— Entra, guri, quanto é…

E foi derrubada ao chão pelo primeiro de um enxame de vampiros que se equilibraram com um sussurro.

 

Alaric se enfrentou a Reisen sobre as cabeças de vários humanos encolhidos. Gostaria de vomitar ante o sacrilégio de ver o Tridente em um lugar tão lúgubre.

Com aquele idiota que era um ladrão.

A emoção do primeiro estalo de energia que tinha arrojado ricocheteou em um círculo de poder que rodeava ao Tridente e seu portador. Mas ao tempo que o Tridente protegia a Reisen, a chamada de sereia cantava cada vez mais alto e urgente na cabeça de Alaric.

Resgate-me, sacerdote. Devolva-me ao templo de meu deus.

O poder que havia nele, amplificado além de tudo o que o sacerdote jamais tivesse conhecido, abrasou-o ao mesmo tempo em que o seduziu. Um poder que estava além de todo o imaginável.

E Reisen só tinha acrescentado a primeira joia.

Sim, só a primeira. Devolva-me a minha primeira glória, Alaric, e será tua uma glória e um poder sem medida.

Durante o que durou um simples sussurro, os pensamentos de Alaric se voltaram para Quinn. Mas aquela mulher não jamais poderia ser sua. Se o poder ia ser sua única amante, esse seria o calor sobre o que cavalgaria.

Levantou os braços, levitou no ar e flutuou sobre os corpos dos guerreiros que estavam ali caído em sua primeira surra.

— Venho pelo que é meu por direito, micênico. — exclamou.

Sua voz era profunda e nela ressonava o poder que estava canalizando.

— Teu? É muito o que reclama, sacerdote. O Tridente pertence a Poseidon. Você não é mais que seu servo. — se burlou Reisen — Ou é que aspira à divindade agora que Conlan está morto?

— Conlan vive, idiota. De fato, está a caminho para derrotar esta força patética que você reuniu, o que fica de vocês depois de que os troca-formas lhes derrotaram ontem.

— Mentira! — rugiu Reisen — Seria capaz de mentir sobre seu príncipe morto para alcançar o poder para você?

A voz de Conlan abriu caminho entre o zumbido de poder que ia aumentando.

— Aparentemente os rumores sobre minha morte exageraram muito.

Reisen levantou a cabeça de repente para olhar a seu príncipe, que parecia muito vivo. O sobressalto o debilitou, porque lhe tremeram as mãos sobre o Tridente e esteve a ponto de soltá-lo.

Ao mesmo tempo que os guerreiros de Reisen começavam a agitar-se e levantavam do chão onde tinham caído durante a primeira surra, Ven, Justice e outros entraram pelas janelas e por uma porta traseira, e rodearam a sala.

Reisen ficou ali plantado, com a boca aberta.

— Conlan! Como é que está vivo depois de sete anos?

O príncipe deu um passo para ele. A ameaça sombreava seus traços, cada linha de seu corpo exsudava poder real.

— Já falaremos, micênico. Ou, melhor, eu falarei e você escutará. Mas no momento, devolva o Tridente ao sacerdote de Poseidon.

Reisen elevou no ar o reluzente cajado.

— Parece-me que não. Decidimos que Atlântida vai empreender um novo rumo. Inclusive embora tantos anos com Anubisa não lhe tenham comprometido, está preso ao passado. Eu sou o caminho do futuro. E com isto sou incansável.

Alaric invocou os elementos, formou uma bola de poder reluzente e a lançou contra Reisen.

O Tridente só desviou uma parte de sua força, por isso a esfera de energia se estrelou contra Reisen e o fez dar uns passos para trás. A seu redor, os guerreiros da Casa de Micenas tiraram seus aços e começaram a aproximar-se.

Conlan se voltou para olhar Alaric e assentiu.

— Vamos jogar.

 

Riley ficou olhando os olhos vermelhos e furiosos do vampiro cujas mãos lhe esmagavam a garganta. Ouviu vozes, o som de uma batalha. Denal e Brennan rugiam o nome de Atlântida e Poseidon. Mas por alguma razão ouvia tudo muito, muito longe.

E parecia estar passando em câmara lenta.

No único que era capaz de concentrar-se era na gota de saliva que se acumulava na comissura da boca do vampiro que a estava assassinando. Uma criatura que abria os lábios sobre umas presas amareladas e gretadas e jogava a cabeça para trás para atacá-la.

Ia morrer sob as presas de um vampiro com os dentes ardidos.

Nunca disse a Conlan que o amo.

O desespero lhe deu forças. Levantou os braços de um puxão e depois os esticou com a tática que tinha aprendido para soltar-se de um atacante.

Claro que se supunha que eram atacantes que não podiam levantar sua casa com uma só mão, como bem poderia fazer um daqueles malditos vampiros.

Contudo, o monstro afrouxou sua presa durante uma fração de segundo. O suficiente para que a jovem levantasse o joelho e a cravasse com todas suas as forças na virilha ao tempo que se perguntava se os vampiros tinham testículo.

O horrendo chiado do monstro lhe confirmou que sim.

Saiu rodando debaixo da estridente criatura gritando também, fazendo pedaços a noite com um alarido inarticulado e ensurdecedor, lhe enviando seus pensamentos e seu terror a Conlan com mais poder do que nunca tinha utilizado.

Vampiros! Muitos! Denal… Oh! Deus, não.

Ficou imóvel um momento, afligida pelo horror. Muitos, são muitos.

Muitos. E eu não penso morrer assim.

Agarrou o guarda-chuva que ainda seguia apoiado na porta do armário, por estranho que fosse, e correu por volta dos quatro vampiros que estavam atacando a Denal.

— Tirem essas asquerosas garras de cima de meu amigo! — chiou ao tempo que Denal lhe cravava a ponta da espada no peito do vampiro que tinha adiante.

Devia ter alcançado o coração, porque o vampiro explodiu em mil asquerosos pedaços de sangue e osso que cobriram o tapete.

Enquanto Riley se obrigava a atravessar aquele desastre correndo, apontando a outro vampiro com o extremo bicudo do guarda-chuva, os ossos e o sangue começaram a dissolver-se.

Brennan lhe gritou da esquina, onde estava enfrentando-se contra mais três. Já devia ter matado a algum, porque tinham sido mais de sete os que entraram pela porta.

— Riley! O que a atacou! Deve lhe cortar a cabeça!

Ela se deteve em seco e ficou olhando a Denal e depois a Brennan, depois voltou para olhar ao vampiro, que tentava levantar-se.

— Com um maldito guarda-chuva? — chiou.

— Atrás de você! O armário!

Abriu de um puxão a porta do armário e viu uma sala cheia de armas.

— Mas o que…

Depois, agarrou o que tinha mais perto, uma coisa parecida a uma machado de batalha de um filme antigo.

— Que caralho. Sempre quis ser viking.

Deixe de balbuciar, Riley, disse-se, a ponto de tornar-se louca de medo.

— Riley! Agora!

Girou em volta com uma sacudida e o machado a frente.

Depois fatiou a parte superior do crânio do vampiro que se aproximava arrastando-se por detrás. O sangue e os miolos caíram em uma cascata da cabeça da criatura, e lhe salpicaram as pernas e as botas.

O que terminou com os restos de prudência que ficavam.

— Tenho miolos nas pernas! — chiou enquanto esmurrava ao vampiro moribundo com machadadas e punhaladas.

Com um dos golpes lhe arrancou a cabeça do pescoço.

— Não o suporto mais! Não… O… Suporto… Mais.

Saiu correndo da sala, escorregou no sangue e nos miolos do chão e esteve a ponto de cair. Soluçava devido ao pânico e à adrenalina pura que lhe corria pelas veias.

Lançou-se correndo pelos vampiros que rodeavam a Denal sem deixar de lançar machadadas e golpes com a machado.

— Não, não, não! Deixem ele em paz! — soluçou, chiou, rugiu. Não dizia nada com sentido. E lhe dava igual.

O senso comum já não tinha nada que fazer ali.

— Tenho miolos nas pernas! Sou assistente social! Vou te cortar a cabeça triplicado!

Uma fúria cega invadiu-a. Começou a lançar-se de direita a esquerda pondo toda a fúria e a incerteza de todo aquele dia em cada golpe. O machado fatiou o ombro do vampiro que tinha adiante e a cravou até o peito.

Quando a criatura caiu ao chão chiando, o machado se foi com ela. Riley não podia tirá-lo.

Estava encaixada nos ossos do vampiro, em sua caixa torácica.

— Riley! — bramou-lhe a voz de Brennan — Saia daqui agora mesmo! Rápido, corra e se põe a salvo! Agora!

Denal, sem deixar de batalhar com ferocidade, com uma espada em uma mão e a adaga na outra, ficou olhando a Riley por cima do ombro do vampiro que o atacava.

— Lady Riley! Por favor! Fique a salvo! Deixe-me cumprir meu papel de protetor.

A jovem ficou ali plantada, soluçando, incapaz de mover-se entre os dois grupos de competidores. Brennan derrubou a outro vampiro e só ficava um. Denal ainda lutava contra dois.

— Tenho que conseguir outra arma. Tenho que ajudar. — exclamou — Conlan! Onde está?

Mas quando tentou encontrá-lo, tudo o que sentiu foi aquele curioso negrume com a que Reisen tinha rodeado a si mesmo e a seus guerreiros pouco antes.

Riley se deu volta e se obrigou a mover as pernas cobertas de miolos e jorrando sangue para voltar para a sala das armas. Já quase tinha chegado quando ouviu o golpe seco e o rugido angustiado de Denal.

Girou-se para ver o que era. Chiou outra vez e caiu de joelhos.

Brennan se elevava ofegando sobre o corpo já sem cabeça do último vampiro.

Denal jazia no chão, empalado por uma espada que o vampiro lhe tinha atravessado no estômago antes de morrer.

E enquanto Riley olhava, com as lágrimas quase cegas, a vida e a luz dos olhos de Denal se foram atenuando, até que se apagaram. A cabeça do atlante caiu para um lado e morreu.

 

Conlan apertava as pontas das adagas contra duas gargantas diferentes. Os guerreiros que tinha desarmado continham o fôlego, abandonados contra a parede. Sem dúvida, liam a morte em seus olhos.

O vaio do aço sulcando o ar lhe advertiu do perigo segundos antes que outro dos homens de Reisen caísse morto aos pés de Conlan. Este girou e viu Justice limpando a espada nas roupas do homem caído.

— Só estou vigiando suas costas, Conlan.

O príncipe assentiu.

— Literalmente, estou vendo. Devo-te uma.

Justice elevou uma sobrancelha.

— Oh, acredito que não deveríamos começar a contar, meu senhor. Porque os “te devo” já se aproximam das cifras de dois dígitos.

Ven e outros mantinham ao resto dos guerreiros micênicos a raia atrás dos canhões de as armas semiautomáticas. O problema com os brinquedinhos de Ven era que, no melhor dos casos, a fiabilidade da maquinaria não era muito alta ao redor de alguém capaz de canalizar os elementos.

Perigosa no pior.

Ven sempre dizia que gostava de viver no fio da navalha.

Alexios se movia entre os humanos comprovando que se encontrassem bem. Todos vestiam umas túnicas estranhas e expressões de terror mescladas com assombro. Conlan captou murmúrios de “Atlântida, Atlântida”.

Outro problema mais que acrescentar a sua crescente lista.

No cenário improvisado, Alaric se enfrentava a Reisen, que ainda conservava o Tridente. Um muro reluzente de energia estalava entre eles, vacilando primeiro por volta de um e depois para o outro.

Reisen não tinha formação para utilizar objetos poderosos, mas Alaric disse uma vez a Conlan que o Tridente parecia ter critério próprio. “Mais volúvel que uma mulher bonita” tinham sido suas palavras exatas.

Mas Alaric parecia estar ganhando essa batalha.

Os homens que tinha nos outros extremos das adagas se moveram e Conlan pressionou as pontas uns milímetros mais contra a pele tenra da garganta dos guerreiros.

— Creem que estou distraído? É que têm intenção de fazer algo?

Os homens permaneceram em silêncio, abrindo muito os olhos para negá-lo. Com medo de falar, certamente.

Aterrados de que um príncipe que havia retornado da tumba convertido em um assassino selvagem.

Bem.

— Quem sabe o que Anubisa me fez enquanto estive fora? — perguntou burlando-se deles — Pode ser que seja um vampiro em segredo.

Inclinou-se um pouco mais sobre eles, esticou os lábios e vaiou.

O homem da direita lançou um ligeiro chiado, depois lhe puseram os olhos em branco e caiu. Conlan mal teve tempo de afastar a lâmina de um puxão antes que aquele maldito idiota se empalasse sozinho.

O guerreiro que estava à esquerda de Conlan não se deixou intimidar.

— Possivelmente seja pior que um vampiro, se joga jogos infantis como esse com homens que merecem algo melhor, meu senhor.

As palavras removeram uma vergonha distante a que seguiu a ira.

— Ousa brigar comigo? Recorda algo sobre a traição? O que tem sobre blasfemar contra o Templo de Poseidon roubando um de seus ícones? E o de te atrever a atacar a seu príncipe supremo?

O desafio do olhar do homem não se atenuou.

— Sou Micah, primeiro dos Sete de Reisen. Acreditávamos que estava morto e que Atlântida não tinha líder. Você…

— Ven era o herdeiro ao trono e todo mundo sabia. Embora não é má forma de tentar racionalizá-lo.

Micah esboçou um sorriso desdenhoso.

— Ven? Quantas vezes deixou claro que não quer governo algum? Está muito mais cômodo no botequim que no palácio. Reisen também tem sangue de reis em suas veias, e serviria bem a nosso povo.

Conlan deu um passo para trás e embainhou as adagas. Depois lançou um olhar desdenhoso ao guerreiro, de acima a abaixo.

— Assim pensa em me dar um sermão sobre as exigências do trono? Volta junto às saias de sua mãe, moço, e deixa que os homens pensem.

Micah rugiu um desafio e carregou contra ele, justo como Conlan esperava. Levantou o punho e o estrelou contra o rosto de Micah.

O jovem piscou, depois caiu para frente e aterrissou no chão, sobre o nariz, que o mais provável é que já estivesse quebrado.

— Escolheu um mau dia para te pôr em minha puta lista negra, guerreiro. — disse Conlan, quase para si.

Depois se deu volta e se dirigiu à mágica batalha de vontades que seguia acontecendo na parte frontal da sala.

Alaric se tinha aberto caminho até o Tridente e estava a só uns centímetros de agarrá-lo. A onda de choque de poder, que se estendia em círculos de energia, fazia cair de joelhos a todos os presentes na sala.

Conlan se dirigiu para ali e outro estalo de poder brotou do Tridente. Várias ondas de luz prateadas e verde-azuladas nas que resplandecia o calor troaram a todos. O príncipe supremo abaixou a cabeça e a maior parte da energia lhe passou por cima.

Assim que passou, lançou-se à corrida para Alaric e Reisen, decidido a pôr fim àquele beco sem saída.

— Por Atlântida! Por Poseidon! — as palavras lhe brotaram da garganta, não menos poderosas pelo fato de serem involuntárias.

Voltou. Por todos os deuses, voltou. Anubisa não tinha ganho, depois de tudo.

Já quase os tinha alcançado quando a voz de Riley, suas emoções, caíram sobre sua cabeça com uma raiva e uma dor torrenciais.

“Conlan! Morte! Ira! Angústia! Morte, morte, morte, não..!”

A onda de choque das emoções femininas o derrubaram e caiu de joelhos, afogando-se com a dor de sua amada, a só uns passos de Alaric e Reisen.

“Vem me ajudar! Necessito-te, preciso poder..!”

 

Riley já não tinha voz para gritar. Não ficavam forças para soluçar. Caiu, arrastou-se entre os inqualificáveis resíduos de vísceras, sangue e morte de vampiros que sujavam o chão.

De algum modo conseguiu aproximar-se até Denal justo quando Brennan chegava junto aos dois. A jovem tentou concentrar-se com os olhos cheios de lágrimas e se deu conta de que Brennan estava ferido. E era grave.

Coxeava. Estava coberto de tantos cortes e mordidas que Riley não sabia como era capaz de seguir mantendo-se em pé.

Mordidas. Oh, não.

— Brennan? Os atlantes podem converter-se em vampiros?

O guerreiro sacudiu a cabeça e caiu de joelhos junto ao corpo de Denal.

— Não. — disse entre dentes, com um estremecimento — Vírus… Não… Não vampiro. Mata-nos ou nos liberamos dele.

Brennan afogou um grito e levou a mão ao pescoço, enquanto seu corpo se arqueava submetido a um terrível espasmo convulsivo.

Riley esticou o braço para agarrá-lo pela mão, sem saber muito bem que outra coisa podia fazer para ajudá-lo.

— Possivelmente seja grave desta vez. — ofegou ele — Devo levá-la a um lugar seguro.

— Tentei chamar o Conlan. Nada, só um espaço negro e vazio onde deveriam estar suas emoções. — disse Riley, tratando de conter as lágrimas.

E as deixando cair depois. O que importava?

Denal merecia suas lágrimas ao menos.

— Tira-a, Brennan, temos que tirá-la! — rogou Riley, sabia que não ficavam força para tirar a espada do corpo de Denal.

Brennan assentiu, silencioso e sombrio, a pele já lhe tinha encolhido sobre os ossos do rosto. O crânio se via sob a carne que cobria o rosto.

O guerreiro respirou fundo e se elevou para agarrar o punho da espada. Utilizou-a para levantar-se, depois reuniu os restos de energia que ficavam. Com um poderoso puxão, tirou a espada do corpo de Denal e a atirou longe deles, pelo corredor.

Depois se derrubou junto a Riley, sem forças.

— Já não posso protegê-la, minha senhora. Falhei-lhe. Sinto muito.

Riley sacudiu a cabeça sem deixar de chorar. Depois se inclinou sobre Denal, levantou-lhe a cabeça e os ombros e os pousou em seu colo. Uma vez conseguido isso, enquanto acariciava o rosto sem vida de Denal com uma mão, estendeu a outra para entrelaçá-la no cabelo de Brennan e tentar lhe proporcionar algum consolo.

— Não. Não me falhou, nenhum dos dois. Foi seu estúpido e patético deus do mar. Onde estava seu precioso Poseidon quando o necessitávamos?

Deu-se conta de que estava gritando ao deus dos guerreiros, mas não lhe importava.

— Onde estava quando seu príncipe te necessitava, filho da puta egoísta? Nadando por aí e pulando com uma puta nereida?

Brennan tentou levantar a mão, mas lhe caiu contra o flanco, encolhida e anciã. Estava se consumindo diante de Riley.

— E onde está agora, hein? Idiota! Desafio você! Cure a estes homens, seus guerreiros, se é que é tão poderoso! — chiou de raiva até que lhe ardeu a garganta e lhe prendeu a pele por dentro.

Um inferno de dor a ferroou, queimou-a e a atravessou com um rugido que penetrou na sala, lhe abrasando o fôlego que saía de seus pulmões. Riley começou a rir, selvagem e desumana.

— Sim? Isso é tudo o que tem? Vem aqui e me esmague em pessoa, maldito covarde! Mas que classe de deus é? Vamos! Desafio você! Vem curar estes homens!

Uma corrente de cascatas de chamas entrelaçadas com água brotou do teto e alagou a sala. Rodeou a Riley e aos dois guerreiros caídos. Marcou-lhe a pele com uma intensidade abrasadora. E no meio da dor, Riley encontrou um oásis de calma em seu interior. Um momento de reflexão arrojado sobre ela por uma necessidade desesperada.

Assim é como vou morrer. Burlando-me de um deus.

Uma voz que ressonou com um poder que estava além de tudo o que ela havia imaginado, trovejou por toda a sala, atravessou-lhe a cabeça e cruzou a malha da realidade.

“A magia tem um preço, e o amor é o mais caro. Oferece a você em troca destes homens?”

A dor se deteve. Tudo o que Riley viu foi luz e cor, e as brumas frescas da brisa do oceano. O mar envolvia-a e a voz do deus do mar a enchia.

Atreveu-se a amar a um príncipe e o deus dele ia matá-la por sua ousadia.

A voz a atravessou com um estalo outra vez e ressonou em seus ossos, em seus dentes, em seu sangue.

“Oferece a você em troca destes homens ?”

Riley duvidou, sabia que a resposta tinha que ser a verdade absoluta. Baixou a cabeça, contemplou os rostos dos guerreiros e entrou em suas lembranças. O alegre Denal, tímido atrás de um buquê de flores. Brennan, carente de emoções, ansiando recuperar aqueles sentimentos que tinham-lhe roubado.

E agora suas vidas. Esse era seu preço.

“Fará com que Conlan saiba que eu o amo?”

“Não se regateia com um deus.”

Riley abaixou a cabeça e fez caso omisso das lágrimas que lhe caíam pelo rosto. Da dor que lhe rasgava o coração.

Assentiu.

Disse as palavras em voz alta, precisava ouvi-las. Uma promessa. Um oferecimento. Um juramento solene.

— Sim. Ofereço-me em troca destes homens.

“Assim seja.”

A água se elevou em uma espiral do chão, brotou das paredes e caiu do teto. Protegeu a Riley e aos dois guerreiros entre suas ondas acariciadoras.

De algum modo soube que tinha que estender as mãos.

De algum modo soube o que apareceu nelas.

Com o resplendor cegante de uma dúzia de sóis, a imagem do Tridente se fundiu e surgiu nas palmas de suas mãos um instante antes de que sentisse seu peso.

“Assim seja! Eu ordeno isso.”

Uma luminosidade feroz se estendeu do Tridente e cruzou o corpo de Riley para rodear primeiro a Denal e depois a Brennan. Em apenas um instante adquiriu tal brilho que a jovem já não pôde vê-los e teve que fechar os olhos para defender-se do resplendor. Mas sentia suas formas imóveis junto a ela.

A água se converteu em fogo e lhe abrasou as costas como a correia de um látego cujas pontas fossem ardentes. A dor a derrubou, gritando, caindo, ardendo.

E quando chegou a escuridão, Riley lhe deu as boas-vindas. Sua vida pela dos guerreiros. Seu último pensamento foi para sua irmã.

“Ei, Quinn. Estaria orgulhosa de mim. Tive que morrer para fazê-lo, mas ao fim somos parte de sua revolução.”

 

Ao mesmo tempo que Conlan lutava para levantar a cabeça, o Tridente desapareceu entre uma labareda de luz e cor. Reisen e Alaric chiaram quando uma explosão de poder que apagou todas as luzes do edifício os derrubou.

Para quando Ven e outros recuperaram o sentido o suficiente para tirar as lanternas que levavam, Conlan tinha subido de um salto ao cenário de madeira para procurar Alaric.

Ajoelhou-se junto a seu amigo e seu alívio não conheceu limites quando ouviu que o sacerdote ainda respirava. À luz da lanterna de Ven, Alaric estava pálido como um morto, mas abriu os olhos e o fulgor verde e feroz que havia neles se cravou ardendo em Conlan.

— O Tridente?

Uma voz rouca falou com suas costas. Reisen. Conlan girou em volta para proteger do perigo que tinha esquecido como um imbecil, temeroso pelo Alaric.

Mas Reisen não era ameaça alguma. Por acaso tinha pior aspecto que Alaric. Sangrava pelas comissuras dos olhos e pelo nariz.

— Desapareceu. — ofegou — Essa voz… Em minha cabeça… Falava de morte. Depois me explodiu o Tridente nas mãos.

Reisen deixou cair a cabeça entre as mãos sem dar a menor atenção à meia dúzia de espadas, adagas e armas que lhe apontavam de perto.

— Desapareceu. O que fiz?

— Você também a ouviu? Ouviu Riley em sua mente? — Conlan agarrou Reisen pelo braço e o sacudiu — A ouviu chamar?

— Todos a ouvimos, irmão. — disse Ven.

Conlan olhou ao grupo e viu que todos assentiam com a cabeça.

Levantou-se de um salto e se elevou no ar.

— Então nos necessita. Denal, Brennan… Nos necessitam todos, agora.

Transformou-se em bruma e se elevou para atravessar a sala e cruzar a janela que o levaria ao ar livre e de retorno a Riley.

Enquanto o fazia, buscou-a com suas emoções.

E rezou, quando sentiu só negrume, para que não fosse muito tarde.

 

Reisen abriu os olhos. Ao consumir o poder, tinha caído desacordado, certamente durante um momento, a julgar pela rigidez do braço que lhe tinha ficado dobrado sob o corpo. Levantou-se com certo esforço e olhou a sala mal iluminada. A luz da lua entrava pelas janelas e era o único iluminava a devastação.

Corpos, tanto de humanos como atlantes, jaziam pulverizados pelo chão. Muitos se agitaram quando os olhou; não estavam mortos, pois, mas o estalo os tinha surpreendido.

Então se deu conta de que sentia falta de... Conlan e o Tridente tinham desaparecido.

Tinha fracassado.

Reisen fechou os olhos quando sentiu todo o impacto de seu fracasso. Ficou sem opções, deveria tirar a vida de uma vez. Sua morte marcaria o fim de um traidor que havia destruído a honra da Casa de Micenas.

Os gritos o arrancaram de seu excesso de auto compaixão. Centenas de vampiros, uma onda atrás de outra, entraram voando pela janela e aterrissaram sobre seus guerreiros e os indefesos platônicos.

Uma dúzia inteira foi atrás dele.

Reisen sorriu e foi desembainhado as adagas. Ao menos morreria como um guerreiro e levaria a uns quantos daqueles chupa sangues infernais com ele.

— Estou aqui.

 

Conlan acreditava que já tinha vivido o que era a tortura.

Mas não era nada comparado com a dor que o rasgou quando viu o corpo nu e ensanguentado de Riley atirado no chão, com o Denal e Brennan derrubados a seu lado. Uma espada, adagas e um machado jaziam não longe deles.

Todas as armas estavam cobertas de sangue.

Entrou disparado pela porta aberta ao tempo que recuperava sua forma corporal, a angústia lhe brotava como um rugido pela garganta.

— Riley, não, não, não. — caiu de joelhos a seu lado e arrancou a camisa para cobrir a nudez da jovem.

Depois envolveu seu corpo quente com seus braços.

Seu corpo quente. Com medo a acreditá-lo, sustentou a palma aberta sobre a boca e o nariz da moça sem chegar a tocá-la.

E sentiu seu fôlego.

Estava viva.

— Está viva! Pelos deuses, está viva. — apoiou a testa na da jovem e sussurrou uma oração de agradecimento — Está viva, aknasha. Jamais voltarei a pedir nada mais.

Com um resplendor, Alaric cobrou forma a seu lado e examinou a sala ao tempo que se agachava junto a Denal.

— O que aconteceu aqui? Por que estão inconscientes? Não tem feridas que eu possa ver.

— Traga-me uma manta. — lhe ordenou Conlan — Tenho que tampá-la. Levá-la a uma cama. Alaric sacudiu a cabeça.

— Não a mova ainda. Deixe-me comprovar que não há nenhuma ferida interna. — aproximou-se um pouco mais e colocou uma mão sobre o ombro de Riley.

Conlan lutou contra o impulso de grunhir ao sacerdote. Seus instintos primários se tornaram loucos pela necessidade de defender e proteger, como um animal com sua companheira.

— Não a estou tocando, Conlan. Tem que… Oh! — o sacerdote tirou a mão de um puxão como se queimasse .

Depois ficou olhando a Conlan, a emoção o fazia abrir ainda mais os olhos.

— Afaste a camisa das costas dela, Conlan. Tenho que lhe ver o ombro. — o assombro que debruava a voz de Alaric convenceu a Conlan, que obedeceu e moveu com suavidade uma esquina do tecido que cobria a jovem.

E os dois ficaram olhando a marca do Tridente que ainda fumegava pelas bordas e bordava a pele feminina.

— Esta é uma marca que eu não posso curar, Conlan. — murmurou Alaric.

Olharam-se e depois voltaram a olhar a pele enegrecida. Os olhos de Riley se abriram com uma piscada.

— Conlan? Alaric? Estou morta?

Antes que pudessem lhe responder, Riley voltou a sumir em um profundo nível de inconsciência. Alaric foi incapaz de arrancá-la dele e sugeriu que dormisse. Conlan a levou ao dormitório e limpou com delicadeza o sangue e os miolos que lhe manchavam as mãos e as pernas.

Tremeram-lhe as mãos quando lhe acariciou a curva do tornozelo e teve vontade de gritar. Queria bramar, destruir, assassinar a alguém ou algo.

Queria chorar.

Mas não fez nenhuma dessas coisas. Não merecia chorar por ela. Tinha-a deixado ali para que a atacassem. Poderiam havê-la matado.

Não só era desprezível como príncipe. Era desprezível como homem.

Ela merecia algo melhor.

Deteve-se um instante com a esponja morna apertada entre as mãos e olhou a pele pálida da jovem. Inclusive nesse instante sua mente se rebelava contra a ideia de que alguém pudesse lhe fazer dano. Alguém ia morrer.

Por que a tinha encontrado nua? O que lhe tinham feito?

E quem tinha sido?

A ideia de que um homem, ou, o que era pior, alguma criatura, tivesse podido atacá-la despertava nele uma cólera que lhe aniquilava a alma.

Mas por que o Tridente? Alaric havia dito que era a marca do sacerdote, mas não quis dizer mais até que Riley despertasse.

Mas o sacerdote tinha ficado emocionado. Inseguro. Quase temeroso, a julgar pelas linhas duras de seu rosto.

— Riley. — sussurrou Conlan enquanto cobria sua figura já limpa com a manta — Por favor, volta para mim.

Alguém bateu na porta. Conlan se colocou entre a porta e a cama com as mãos nas adagas.

— Entre.

Ven abriu a porta.

— Estamos preparados para ir. Tenho outro lugar, nos subúrbios da cidade. Sem casas em vários quilômetros à volta . Ninguém salvo eu a conhece, comprei-a faz só uns meses.

Ven cruzou o espaço que o separava de seu irmão e olhou a figura que dormia na cama.

— Vai ficar bem?

Conlan se ajoelhou ao lado da jovem e lhe afastou com doçura o cabelo do rosto.

— Tem que ficar bem. — disse sem mais — Ou eu irei com ela.

Ven começou a dizer algo, deteve-se e pousou uma mão no ombro de Conlan.

— Então nos asseguraremos de que fique bem. Vamos.

Conlan envolveu Riley melhor na manta e a agarrou nos braços. Seguiu a Ven pelo corredor, aonde aguardavam outros, que desenhavam um círculo irregular ao redor de Alaric. O sacerdote estava pálido como a morte.

— Brennan e Denal estão no assento de trás do Hummer. — disse Bastien — Alaric nos disse que só estão dormindo e não demorarão para despertar.

— Um torpor que eu não vi jamais. — murmurou Justice — Não se alteraram sequer quando os levamos aos veículos. Faz nos perguntar o que lhes aconteceu.

Alexios assinalou um guarda-chuva atirado no chão.

— E para que o guarda-chuva? Havia armas por todo o chão, quando entramos atrás de vocês. Eu contei um machado, várias adagas e as duas espadas. Mas nenhuma só arma de nenhum intruso, nem sinal de que o houvesse algum, salvo pelo sangue de nossas armas.

Christophe esticou as mãos com as palmas para cima.

— Não é que isto seja meu, mas já que Alaric está fora de combate, posso tentar perceber o poder que tenha podido usar-se.

Fechou os olhos e levantou a cabeça, os músculos do pescoço esticaram. Depois seu corpo sofreu uma sacudida, como se o tivessem golpeado.

— Alguém invocou muito poder aqui. Um poder enorme. Do mesmo nível do que nos golpeou nesse armazém, Alaric. O que poderia fazer isso?

Christophe se voltou para Alaric.

— Nem Denal nem Brennan podem canalizar os elementos a esse nível. O que é o que poderia ter invocado esse poder?

— Foi o Tridente. — disse o sacerdote com voz inexpressiva — Poseidon entregou seu cajado a Riley e a ordenou.

A gargalhada de Alaric estava coberta de uma fúria escura.

— Aparentemente Poseidon reclamou a sua aknasha, Conlan. Agora pertence a ele.

 

Conduziram até a nova casa, Alaric se negava a especular mais sobre o que poderia ter acontecido. Não queria sequer comentar o que havia dito sobre Riley. A casa era uma espécie de casario labiríntico , bastante separada do que Ven disse que era uma estrada rural pela que poucos passavam. Conlan observou sinais de vários negócios relacionados com cavalos e viu uns quantos equinos nos campos junto aos que passaram. Esperou no carro com Riley enquanto outros asseguravam o edifício. Ninguém queria correr mais riscos.

— Agora mesmo você pode chamá-lo de obstáculo, mas tem um grande potencial e se pode remodelar. Além disso, tem a vantagem de estar no meio do nada. — disse Ven quando voltou.

— Dá-me igual o que pense. Ponha todo mundo para vigiar. — disse Conlan com tom terminante — Bom, a todos salvo Denal e Brennan. Que descansem um pouco.

— Está de brincadeira? Não poderia fazê-los descansar nem que os atasse. — disse Ven — Desde que recuperaram o sentido estão resolvidos a proteger a lady Raio de sol. Aparentemente têm uma história de merda que contar.

Conlan olhou a seu irmão com o cenho franzido, mas este se limitou a sacudir a cabeça com expressão solene.

— E eu estou com eles, irmão. Disseram que Riley se meteu em meio dos vampiros. Isso vai muito mais à frente do cumprimento do dever, cara .

Depois olhou a figura imóvel que Conlan levava nos braços enquanto se dirigiam à casa.

— Grande mulher. Merece algo melhor que o embrulho no que a colocamos.

Uma sensação gélida se estendeu pelas veias de Conlan. Quando falou, uma ferocidade mal contida sublinhou cada uma de suas palavras.

— Sim. Mas não posso… Não penso deixá-la escapar. Jamais, Ven.

Ven deu de ombros.

— Não é a mim ao que tem que convencer. Alaric parece ter algo a dizer sobre o assunto. Que conste que eu estaria encantado de me desfazer dessas regras que dizem que não pode ser e além disso é impossível, e que terá que casar-se com uma virgem de onze mil anos. Mas isso vão ter que solucionar os homens mais preparados que eu.

Acompanhou a Conlan a um espaçoso quarto que havia ao final do corredor do segundo andar e se despediu. Conlan deixou a Riley com suavidade na cama e a cobriu com a colcha, enquanto pensava que Oxalá não respirasse de forma tão superficial.

Estava tão pálida…

Depois arrastou uma poltrona pelo tapete, colocou-o justo ao lado da cama e agarrou uma mão da jovem entre as suas. E rezou ao deus que o tinha abandonado ao sofrimento durante sete anos.

 

Umas horas depois, Ven voltou para lhe dizer que Denal e Brennan queriam vê-lo.

Conlan seguia sentado na poltrona sem soltar a mão de Riley. Precisava lhe tocar ao menos a pele, já que a mente e as emoções da mulher permaneciam fechadas.

Obrigou-se a respirar através do nó na garganta que ameaçava asfixiá-lo. Alaric havia dito que ficaria bem. Tinha que agarrar-se a isso.

O silêncio de Poseidon era ensurdecedor.

— Traga-os. — ordenou Conlan — Não penso deixá-la.

Ven assentiu.

— Eu imaginava. Estão aqui.

Conlan olhou a Denal e Brennan quando entraram no quarto, ambos tinham parado os olhos em Riley. Brennan os saudou com a cabeça de forma superficial e depois voltou a olhar a cama.

Denal jogou para trás a cabeça e lançou tal uivo de angústia que arrepiou o pelo dos braços de Conlan e um calafrio gelado lhe percorreu a coluna.

— Está morta? — Denal se aproximou cambaleando-se à cama — Não foi um sonho, então?

— Vive. — disse Conlan. A atenção de Denal se dirigiu ao fim a seu príncipe — Alaric diz que ficará bem. Está sumida no mesmo estranho e profundo torpor no que caíram vocês dois.

— Graças aos deuses. — disse Brennan em voz baixa e reverente ao aproximar-se ele também — Graças a Poseidon, pois foi realmente ele o que estava na sala conosco, não é certo?

A mão de Conlan se disparou e agarrou o braço de Brennan com uma presa de aço.

— Conta-me o que aconteceu? Houve uma batalha? Por que Riley ficou desprotegida? Brennan fincou um joelho no chão ante ele e baixou a cabeça.

— Falhamo-lhes, príncipe. Fracassamos, não pudemos protegê-la.

Denal se ajoelhou também e levantou uma mão para roçar o cabelo de Riley. Conlan permitiu o gesto, sabia de algum modo que o guerreiro precisava perceber que a jovem estava viva.

Depois Denal deixou cair o rosto sobre a borda da cama e começou a soluçar. Grandes soluços dilaceradores que sacudiram todo seu corpo com força. O nome de Riley estava ali e outra dor sem palavras.

Conlan soltou a Brennan e pôs uma mão no ombro de Denal.

— Conte-me, Denal. Tranquiliza-se e conta-me.

Levantou a cabeça e viu que Alaric se reuniu com Ven na porta. Os outros lotavam o corredor detrás deles.

— Entrem todos. Procurem um lugar onde sentar. Temos que ouvir isto.

Alaric, que se movia como alguém muito velho e cansado, agarrou a poltrona que sobrava no quarto. Ven e outros foram entrando em fila e encontraram um lugar no chão ou se apoiaram nas paredes.

Os ombros de Denal deixaram de palpitar e respirou fundo.

— Brennan deveria contá-lo. Neste momento carecer de emoções seria uma bênção sem preço. Não posso… — lhe tremeu a voz e se deteve sacudindo a cabeça.

Brennan se ergueu ante eles.

— Oxalá pudesse sentir a dor que deveria estar gravado a fogo em minha alma. Lady Riley não merece menos.

Pouco a pouco e atribuindo-se a si mesmo toda a culpa, Brennan relatou os acontecimentos da noite. Seu olhar retornava sem parar a Riley enquanto falava.

Denal o interrompeu várias vezes para tentar compartilhar a culpa. Brennan sacudiu a cabeça olhando ao jovem guerreiro e concluiu.

— E então tirei a espada do corpo de Denal, mas o veneno das mordidas de vampiro me esmagou. Estava morrendo, meu senhor.

Conlan escutou em silêncio, tremendo de raiva. Quando Brennan fez uma pausa, Conlan se inclinou para frente.

— No passado atuamos como protetores só quando os vampiros atacavam aos humanos. Mas eles vieram até nossa porta. Fizeram mal a Riley. Agora eles vão morrer.

Olhou a seus homens e a Alaric, todos os quais assentiram, seus rostos lúgubres faziam eco da determinação de seu príncipe.

— Todos irão morrer. — repetiu.

Alaric falou então com voz serena.

— Mas temos que saber o que aconteceu depois. Riley deve despertar e nos contar sua parte da história. É óbvio que Denal está vivo e Brennan já não está infectado pelo veneno dos vampiros. E tem… Algum outro assunto.

Ninguém salvo Conlan tinha visto a marca gravada a fogo nas costas de Riley. O príncipe assentiu e agradeceu em silêncio a discrição do sacerdote.

Denal levantou a cabeça e ficou olhando ao sacerdote com os olhos avermelhados pelas lágrimas que seguiam caindo.

— Sei o que ocorreu depois. Não sei como, mas o vi tudo. Eu estava em um lugar muito bonito que estava cheio do doce aroma do oceano. Não me doía nada, nem sequer a ferida da espada que terminou com minha vida. Mas enquanto descansava e dava a boa-vinda àquela paz, vi Riley no chão daquela sala, segurando meu corpo. Também vi e ouvi tudo o que aconteceu. Lady Riley regateou com o deus do mar. Ofereceu sua vida em troca da nossa.

A voz da cama era tão débil e rouca que Conlan acreditou que estava imaginando-a.

— Disse-me que com um deus não se regateia. — sussurrou Riley — Assim… Por que sigo viva?

Conlan se levantou da poltrona e afastou Denal de um empurrão em apenas um instante. Riley o olhou com uns olhos enormes em seu pálido rosto.

— Riley! Está acordada!

Acariciou-lhe o cabelo, o rosto, inclinou-se sobre ela para depositar o mais doce dos beijos em seus lábios. Graças aos deuses.

Graças aos deuses.

Riley lhe sorriu, as lágrimas lhe brilhavam nos olhos.

— O que é mais assombroso é que esteja viva, suponho. Sobre tudo depois da piada de Poseidon pulando com uma nereida. Tenho entendido que os deuses matam a uns quantos por muito menos.

Trocou de posição na cama e fez uma careta.

— Mas me dói muito o ombro. Não estou segura do que lhe aconteceu.

Conlan sentiu as lágrimas que lhe caíam pelo rosto, mas lhe deu igual.

— Não passa nada. Ocuparemo-nos dele. Está viva e isso é o único importa. Se tivesse desaparecido de minha vida…

Ouviu um pigarro atrás dele e Alaric lhe pôs uma mão no ombro.

— Possivelmente deveríamos deixar Riley descansar um pouco. Há muitas coisas que temos que discutir.

Conlan lhe afastou a mão com um gesto.

— Sim, todos deveriam sair. Eu ficarei aqui, enquanto descansa.

Denal se levantou, a felicidade e a vergonha liberavam um combate em sua expressão.

— Não há palavras para expressar a alegria que sinto ao ver que vive, minha senhora. Passarei o resto de minha vida compensando-a por seu sacrifício.

Inclinou-se ante ela e as lágrimas brotaram entre os cílios de Riley. Brennan também se inclinou, depois se ajoelhou ao lado da cama.

— Seu sacrifício por alguém tão indigno como eu vai além de tudo o que sou capaz de compreender. Se em algum momento me necessitar, não tem mais que me chamar.

Riley sorriu aos dois e se levantou um pouco sobre o travesseiro.

— Vocês arriscaram suas vidas por mim. Que eu fizesse o mesmo por vocês não foi nenhum sacrifício. Alegro-me tanto de que estejam vivos!

Estendeu os braços a Denal, que olhou a toda pressa ao Conlan. Este assentiu e Denal se inclinou para que Riley pudesse abraçá-lo. Quando se afastou, a jovem fez o mesmo com o Brennan.

Se Conlan tivesse albergado alguma esperança de proteger embora fosse os cantos mais longínquos e escuros de sua alma do amor que sentia por ela, esse momento acabou com todas as suas ilusões. Vê-la estendendo os braços para abraçar a seus guerreiros e saber o sacrifício que havia feito por eles o honrava, honrava-os a todos, mais que o maior dos dons.

Agarrou-lhe as mãos com doçura entre as suas e inclinou a cabeça, depois pronunciou as palavras que ansiavam sair de sua alma em atlante antigo:

 

“Ofereço minha espada, meu coração e minha vida para proteger a sua.

Desde este instante até que a última gota do oceano se desvaneça da face da terra.

Você será minha alma.”

 

A jovem sorriu, é obvio que não entendia nenhuma só palavra, e depois lhe fecharam as pálpebras.

Conlan nem sequer ouviu os outros quando deixaram o quarto.

 

Enquanto dormia, a morte foi atrás de Riley uma e outra vez, encolhendo sua pele, queimando sua carne como se fosse ácido, até que finalmente abriu passo gritando até a vigília. Salvo que os gritos ficaram confinados a seus sonhos. O único som que saiu de sua garganta foi um ofego rouco.

Mas até esse pequeno som foi suficiente para despertar ao homem que estava deitado a seu lado na cama. Uma cama diferente daquela em que tinha dormido a noite anterior, observou.

Um quarto diferente.

Conlan apertou o braço que lhe rodeava a cintura com gesto protetor.

— Riley? Está acordada? Encontra-se bem?

Riley o olhou nos olhos e viu a conhecida chama verde azulada que ardia em suas pupilas. O sinal da paixão que sentia por ela.

Seu amor.

— Eles estão bem de verdade? Não sonhei isso também?

Conlan assentiu.

— Salvou aos dois. Seu sacrifício… — lhe quebrou a voz.

A jovem levantou uma mão para lhe afastar o cabelo do rosto.

— Shh. — o tranquilizou — Não tem nada. Estou aqui.

O corpo inteiro do atlante se estremeceu.

— Se tivesse perdido você… Não volte a arriscar sua vida assim nunca mais.

Riley sorriu, sentia-se mais fraca que nunca e entretanto mais forte também.

— Já está me manipulando outra vez. Vamos ter que trabalhar nesse complexo de rei que tem.

Os lábios de Conlan desenharam um sorriso.

— Pois se acostume, porque vou manipular você durante muito tempo.

Inclinou-se sobre ela e a beijou na testa, no nariz e depois nos lábios.

— Não voltarei a permitir que se separe de mim. Entende-o, verdade? — atraiu-a para ele e envolveu-a em um feroz abraço — Nunca.

Riley abriu seus escudos e sentiu todo o alcance da paixão masculina. Seu próprio corpo respondeu com um estremecimento.

— Conlan? Preciso te sentir agora. Preciso sentir seu calor.

— Vou abraçar você a noite inteira, meu amor. Vou abraçar você para sempre. — murmurou ele em seu cabelo, enquanto lhe acariciava com suavidade os braços.

— Não. — Riley o separou de um empurrão e se sentou na cama. Tentava fugir da rocha que esmagava-lhe os pulmões — Preciso me sentir viva. Preciso te dizer… Preciso te demonstrar…

Rodou sobre a cama de modo que ficou meio deitada sobre ele e lhe acariciou o rosto com as mãos.

— Preciso-o. — sussurrou.

E depois o beijou como se estivesse morrendo de sede e seus lábios contivessem a última gota de água.

Conlan gemeu ao senti-la. Tinha tentado com todas as suas forças ser doce. Proporciona-lhe o consolo e a segurança que estava seguro que ela desejaria em lugar de afligi-la com suas ânsias.

Mas Riley o estava beijando como se quisesse devorá-lo. A paixão das carícias femininas abriu as comportas de desejo que ele tinha lutado para manter fechadas. O terror que passou ao ver seu corpo inerte atirado no chão.

O alívio ao ver que vivia.

— Riley, minha aknasha, amo você. Necessito de você. Preciso estar dentro de você agora mesmo, já, agora. — gemeu em sua boca.

Riley sorriu e abriu sua mente e seu coração para permitir que ele sentisse seu calor e tudo o que necessitava. Sem pensar, já incapaz de raciocinar, Conlan arrancou a roupa, necessitava desesperadamente sentir sua pele contra a dela.

Riley tremia de desejo. Necessitava-o. Precisava senti-lo dentro dela para saber que estava viva. O grande corpo do atlante tremeu, enquanto mexia e arrancava a roupa até que esteve tão nu como ela. Separou com um puxão a colcha que cobria a Riley e a substituiu com seu próprio corpo, separou-lhe as pernas e introduziu os dedos para senti-la, prová-la, saber que estava pronta para recebê-lo.

Conlan emitiu um som baixo no mais profundo da garganta e se concentrou sobre ela. A jovem sentiu sua grossura pressionando-a e se arqueou para ajudá-lo. O atlante estava tão excitado que teve que ir movendo-se para entrar nela e ela teve que esticar-se quase até que lhe doeu à medida que toda a longitude e largura da ereção foi penetrando-a pouco a pouco.

Riley gemeu de desejo, de ânsia, e o beijou e lhe mordeu a boca como se quisesse consumi-lo. Conlan se retirou um pouco e quando ela gemeu, afundou-se nela tudo o que pôde.

A jovem chiou então. Chiou e o arranhou, cravou-lhe as unhas nos ombros e nas costas. Suplicou-lhe que queria mais, mais, mais forte, mais forte. Reafirmava-se com aquele ato, estava viva, e ele também estava vivo e estava ali com ela.

Ao menos no momento.

Depois viu no rosto masculino o feroz predador que ela tinha desatado e gozou dele.

— É minha, Riley. Minha, mi amara aknasha, minha amada empática. Vou fazer-te minha agora mesmo, vou foder você, vou me gravar a fogo em sua alma. — grunhiu o atlante apertando a mandíbula com os últimos farrapos de autocontrole que pareciam ficar.

Riley podia sentir o ardente impulso de possuí-la que o sacudia, coração e alma.

A jovem arqueou o pescoço, o calor e o desejo a queimavam, e ofegou. Depois esboçou um sorriso lento, em seus olhos brilhava a calidez de certo conhecimento.

— Não, Conlan. Vai fazer amor comigo. Porque me ama. — depois lhe acariciou o rosto — E eu também te amo.

Conlan ficou completamente imóvel, tremiam-lhe as mãos sobre a pele feminina.

— Diga-o outra vez. — lhe pediu com a voz rouca — Diga-me isso outra vez.

— Amo você, Conlan. E é meu.

O atlante fechou os olhos, mas Riley sentiu o estalo de cor das emoções masculinas que explodiram nela. O êxtase, uma alegria ardente e abrasadora. Assombro. Admiração.

Depois abriu os olhos de novo e a beijou. E lhe fez amor durante muito tempo.

 

Barrabás jogou uma olhada ao Tridente envolto naquele tecido, não gostava muito de tocá-lo com as mãos nuas. Estava seguro de que o castigo por ter a ousadia de roubar a um deus seria um espanto inimaginável.

Não havia feito nada consegui-lo. Ao ver a mulher e aos atlantes agonizando no chão, Barrabás colocou um ramo na casa e foi empurrando o Tridente até que cruzou a soleira. Ele não tinha podido entrar, já que não se encontrava na primeira onda que a estúpida humana tinha convidado a entrar sem dar-se conta.

Os comandantes-chefes nunca estavam na primeira linha, depois de tudo.

O Tridente. O autêntico instrumento de poder de Poseidon, segundo os antigos pergaminhos. Concedido ao supremo sacerdote da sede de Atlântida, para seu uso nos rituais sagrados. Como o rito da ascensão ao trono daquele pirralho de príncipe que tinham.

Uma pena.

Era de supor que o pequenino não ia ser rei, depois de tudo.

Drakos se materializou na câmara de paredes de cimento a uns quantos passos dele, a curiosidade era óbvia em seu rosto.

— Tentou utilizá-lo? — perguntou. Barrabás o olhou com expressão desdenhosa.

— É que você tentaria jogar descaradamente com o brinquedo do deus do mar? Está claro por que sou eu o senhor dos vampiros e você, um simples servo.

Drakos não teve o senso comum de fingir sequer que se acovardava.

— Então um general é um simples servo? E Anubisa? Falou do seu brinquedo novo?

— Não! E você tampouco o fará. Ainda não estou preparado para renunciar a minha nova posse e ela certamente a reclamará.

Barrabás remontou o voo e rodeou a mesa para enfrentar-se a seu general, enquanto o empurrava com força com a mente. Drakos não se desabou, mas a tensão de seu rosto mostrava o que lhe estava custando permanecer erguido.

— Ah, quer um pequeno desafio, não é, general? E isso por quê? É que pretende subir em minha estima agora que destruíram Terminus?

Drakos inclinou a cabeça.

— Se assim o desejar, meu senhor. Pensei em várias estratégias para enfrentarmos a esses atlantes. Estratégias que lhe permitirá consolidar seu poder até que seja inquebrável.

Barrabás não pôde evitar sentir certo interesse. Não era a primeira vez que via os resultados dos extraordinários planos de batalha de Drakos.

Possivelmente ainda não matasse a seu general. No momento.

Voltou a olhar o Tridente.

— Temos que consultar os pergaminhos outra vez. Ver se podemos encontrar alguma pista sobre como controlar o poder que esta arma deve exercer.

Drakos se inclinou.

— Um plano muito inteligente, meu senhor.

Barrabás estendeu uma mão, esteve a ponto de tocar o Tridente, mas a afastou.

— E me traga vários de minha manada de sangue. Acredito que vamos fazer uns quantos experimentos para ver que vingança Poseidon faz cair sobre qualquer vampiro que tente entreter-se com seu brinquedo.

— Recorde que temos vários atlantes que capturamos. Seguro que eles sabem algo de seu poder. — assinalou Drakos — Há formas muito simples de fazer falar aos humanos. Estes não podem ser tão diferentes.

Barrabás sorriu.

— Logo o averiguaremos, não acredita?

 

Riley entrou dando um tropeção na ducha, esgotada, mas feliz. Quando a água fumegante golpeou a pele esteve a ponto de ronronar de alívio. Tinha tomado uma ducha durante a noite, algo rápido para assear-se, mas aquela ia ser um luxo, um alívio para tantos músculos doloridos.

Lutar contra vampiros era muito exaustivo.

Um pensamento que terminou de limpá-la. Denal, Brennan e ela estiveram muito perto da morte. De fato, Denal tinha morrido de verdade. E Conlan não lhe disse ainda o que havia acontecido com Reisen e o Tridente.

Enquanto lavava as costas tocou com os dedos um estranho rebordo no ombro. Sua memória retornou com brilho à dor abrasadora que havia sentido quando Poseidon havia aceitado sua oferta.

Aquele cara não a teria cortado, verdade?

Claro que, o que sabia ela do que era capaz de fazer um deus?

Abriu a porta da ducha e se precipitou para o espelho depois de agarrar uma toalha para limpar o vapor da superfície. Depois deu as costas ao espelho e torceu o pescoço com estupidez para poder olhar por cima do ombro.

E ver a cicatriz… Não, o ferro… Que a marcava.

— Oh, meu Deus! Marcou-me!

Não se deu conta de que tinha chiado até que Conlan abriu a porta de um puxão e entrou correndo no banheiro com as adagas na mão.

— O que acontece?

Riley o olhou e depois voltou a olhar no espelho a imagem de quinze centímetros que tinha gravada a fogo na pele da clavícula.

— Marcou-me, Conlan. Isso é um… Um…

— É o Tridente. — Conlan suspirou e a envolveu em uma toalha, depois a abraçou durante um longo instante — Temos que falar com Alaric para averiguar o que significa com exatidão.

Riley não estava muito segura de querer sabê-lo.

Vestiram-se em silêncio e desceram para tomar o café da manhã. O aroma de bacon frito a tinha convencido de deixar o quarto e aventurar-se ao exterior apesar de sua reticência. Riley sabia que o quarto tinha sido um oásis, uma miragem de paz.

— E se acabou, verdade? Essa ilusão de segurança que criamos ontem à noite. Voltamos para a realidade. — disse Riley procurando a mão de seu amante.

— Protegerei-te com tudo o que tenho e tudo o que sou, aknasha. — Conlan se deteve no patamar das escadas para atraí-la e lhe dar um rápido abraço — Não o duvide nunca.

A jovem sorriu, mas o fez mais por ele que porque fosse um verdadeiro reflexo de felicidade alguma. Possivelmente passasse muito tempo antes que tivesse alguma razão real para voltar a sorrir.

Bastien reinava na alegre cozinha vermelha e branca, dava voltas aos omeletes e fritava bacon com a habilidade que a prática dá.

— O que gosta, lady Riley?

A dama fechou os olhos e inspirou fundo, depois decidiu dar o gosto e desfrutar do momento. Uma garota não podia brigar com o estômago vazio.

— Tomarei um pouco de tudo. Estou morta de fome, e cheira genial! E me chame só de Riley, por favor, Bastien.

O atlante lhe sorriu.

— Tudo bem, um pouco de tudo.

Enquanto servia uma taça de café da cafeteira recém feita que havia na bancada, estudou aos homens presentes na cozinha. Ven e Christophe estavam terminando de tomar o café da manhã e, depois de um rápido sorriso e lhes saudar com a cabeça a ela e a Conlan, reataram sua discussão sobre os méritos relativos das engenharias automotoras italiana e alemã.

Conlan pousou uma mão na dela, mas o que ela tinha tomado por um gesto romântico não era na realidade mais que uma avessa forma de jogar a mão à xícara de café da jovem, que o olhou com o cenho franzido, enquanto tentava não sorrir para não arruinar o efeito.

— Ei! Pegue seu próprio café, principezinho.

Conlan se pôs a rir, deu um gole e lhe devolveu a xícara antes de lhe depositar um beijo no cocuruto.

— Não tem nenhum respeito por minha real pessoa.

— Nem um pouquinho.

Ven os olhou com ar especulativo.

— Bom, isso é de admirar em uma mulher, irmão. Deve ser uma mudança agradável depois de toda a atenção que recebeu entre as mulheres que há em casa.

A felicidade de Riley escapou como o ar de um globo cravado. As mulheres que havia em casa. A rainha que tinham destinada para ele.

Sentou-se na enorme mesa de madeira do casario, de repente tinha perdido o apetite, e ficou olhando sua xícara. Ven pareceu dar-se conta de que tinha metido a pata até o fundo e grunhiu.

— Ei, perdoa, não queria… Só estava aproveitando que os dois parecem muito felizes e queria me colocar um pouco com o Conlan e… Oh, merda. Quer dizer, desculpa, lady Raio de sol.

O arrependimento do atlante era tão dolorosamente óbvio que Riley tentou esboçar um sorriso tranquilizador.

— Não tem nada. Só estou cansada.

Conlan se inclinou um pouco e deu a seu irmão um cascudo, depois sentou junto a Riley e lhe rodeou o ombro com um braço. A jovem sentia a preocupação masculina, mas não tinha força para tranquilizá-lo também.

Quando estavam terminando de tomar o café da manhã, a energia da cozinha mudou de repente, quase como se um vento gélido atravessasse a cozinha. Riley levantou a cabeça com os punhos apertados, pronta para defender-se.

Para atacar.

Ao tempo que uma parte diminuta de seu ser perguntava em que estava se convertendo.

Era Alaric, estendendo o calor de sua personalidade por onde passava.

— Temos que conversar. — disse cravando o olhar em Riley.

— Olá pra você também. Sim, estou bem, obrigado por perguntar. — lhe respondeu a jovem com a voz carregada de sarcasmo.

Imbecil.

O sacerdote inclinou a cabeça, admitindo de forma tácita que a humana tinha razão.

— Como está, Riley? E para ser mais exato, que tal o ombro?

— Sabia? O que é?

Conlan se agitou na cadeira.

— Possivelmente deveríamos falar disto em particular.

Ven afastou a cadeira e levantou-se.

— Sim, certo, mas eu também deveria saber. Christophe, como Bastien cozinhou, é sua vez de limpar.

Soltou um gemido.

— Cara, eu sempre termino metido nisso… — levantou a cabeça, encontrou com o olhar de Riley e conteve-se — Certo. Estou nisso.

Quando Alaric encabeçou a marcha para sair da cozinha, Bastien esticou uma mão e roçou com suavidade o braço de Riley.

— Estamos atrás de você, de acordo? Não se estresse por nada disto. Vamos cuidar de você muito bem.

Riley abriu