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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O SEGREDO DE CARROWAY / Suzanne Enoch
O SEGREDO DE CARROWAY / Suzanne Enoch

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

Biblio VT

 

 

 

 

Londres, 1816
Com suas duas melhores amigas casadas e felizes, Lucinda Barrett percebe que não pode mais adiar suas aulas de amor. O homem que ela espera ensinar precisa ser alguém que não mexa com seu coração, e esse alguém, definitivamente, não é Robert Carroway! O atraente e reservado herói de guerra é complicado demais, sempre evitando os círculos sociais de Londres e suas frivolidades. Ainda assim, é uma agradável surpresa quando ele se oferece para ajudar Lucinda na missão de corrigir e preparar para o casamento um outro nobre, mais adequado. O problema é Lucinda conseguir resistir ao incrível feitiço dos olhos azuis de Robert e à sua sensualidade, que a deixa sem fôlego. Lucinda quer um marido, não um amante apaixonado e irresistível, capaz de abalar o seu mundo com um único beijo! E seu coração lhe diz que Robert pode ser esse homem, o amor mais perigoso, excitante e arrebatador que ela conhecerá na vida...

 

 

 


 

 

 


PROLOGO

A chuva batia mais forte na vidraça, como a insistir para ser ouvida na sala de visitas de Lucinda Barret.
— Isto tinha de ser escrito — Lucinda falou mais alto que a chuva de verão e a discussão. Ela e as amigas tão eloquentes concordavam: os homens não sabiam ser cavalheiros.
Mas não bastava ter consciência do fato, que só causava frustração e muita contrariedade. Então, era hora de agir.
Apanhou várias folhas de papel em branco no gaveteiro e voltou à mesa.
— Nós três somos muito influentes, principalmente sobre os cavalheiros que serão alvo destas regras. — Entregou uma folha a Georgiana, uma a Evelyn, e ficou com uma.
— Prestaremos um serviço a todas as mulheres — declarou Georgiana Hailey, a expressão antes amofinada agora mais pensativa.
— A lista só vai servir a nós mesmas — Evelyn Ruddick contestou, mas pegou o lápis que Lucinda lhe entregara.
— Discordo — retrucou a outra. — Vai servir a todas quando pusermos nossas normas em prática. Proponho que cada uma de nós escolha um cavalheiro, e o ensine a como impressionar devidamente uma dama.
— Mas é claro! — Entusiasmou-se Lucinda, dando um leve soco na mesa.
— Poderíamos publicar nossas normas. — Georgiana ria quando começou a escrever. — "Lições de Amor", por Três Damas Distintas.
Lista de Lucinda
1. Ao conversar com uma dama, todo homem deve prestar atenção, em vez de vagar o olhar pelo recinto como se aguardasse a chegada de alguém mais interessante.
2. Em um baile, o cavalheiro deve dançar e interagir. Ir a uma festa só para olhar os outros e ser visto, principalmente quando houver damas sem parceiros, é grosseria.
3. Todo cavalheiro deve cultivar outros interesses além das tendências da época. Uma mente aberta é mais interessante do que um laço de gravata perfeito.
4. Só por estar cortejando uma dama, o cavalheiro não precisa concordar com tudo o que o pai dela diz, embora deva respeitá-lo mesmo na ausência dele.
— Vai ser engraçado. — Evelyn soprou a folha para limpar a poeira do grafite.
— Tenho uma pergunta. — Lucinda releu o que escrevera. — Se criarmos três homens perfeitos, estaremos fazendo um favor à sociedade ou reduzindo as possibilidades de um ou outro encontrar uma companheira?
— Ora, Lucie. — Georgiana riu. — A questão é se todo homem é ou não capaz de aprender a portar-se à altura de conquistar a admiração e o respeito de uma dama.
— Sim — Lucinda contrapôs —, mas se formos mesmo ensinar esses homens hipotéticos, devemos, no mínimo, ter uma ideia do que vamos fazer com eles depois. Afinal, suponho que vamos conseguir. Evelyn sorriu.
— Está mais confiante do que eu, Lucie. Mas isso porque Georgie e eu temos irmãos, o que não é coisa para se gabar!
— E meu pai é general!
— Pois eu nos declaro aptas para o desafio. — Georgiana deslizou sua folha de papel no sentido horário e pegou a de Lucinda.
Cada uma leu a lista das outras duas. Lucinda impressionou-se com sua subjetividade. Cada lista espelhava sua autora.
— Quem será a primeira? — Evelyn perguntou. As três se entreolharam e caíram na gargalhada.
— De uma coisa eu sei... — Lucinda disse, cínica. — Alunos é que não vão faltar.

 

CAPITULO I


Catorze meses depois
— Não, você não trapaceou, Evie, e espero que pare de dizer que sim. — Lucinda Barret, exasperada com a amiga, ajeitou-se melhor no largo peitoril da janela.
— Eu sei, minha intenção era ensinar um cafajeste, e acabei me casando com ele. — Preocupada, Evelyn levantou-se, foi em passos longos ao refúgio de Lucinda e voltou.
— Há menos de dois meses eu era a reles e insípida Evelyn Ruddick, e agora sou a marquesa de St. Aubyn. Nem posso acreditar...
— Você não era reles e insípida, Evie. — Georgiana entrava apressada na sala íntima, acenando para o mordomo fechar a porta. — E não se desculpe, porque eu, além de estar atrasada para o chá, também me casei com o objeto de minhas aulas.
— Não precisa se desculpar por nenhum dos dois casos, Georgie. — Lucinda sorriu, divertida.
Georgiana sorriu de volta, acenou para Evelyn sentar-se no sofá e se acomodou a seu lado.
— Pode ser, mas há pouco mais de um ano eu teria fuzilado quem sugerisse que eu iria me casar com Tristan Carroway. E agora eis-me aqui, lady Dare, a dois meses de pôr mais um Carroway no mundo.
— Quem sabe será menina? — Evelyn ria.
— Isso que não compensa as outras desvantagens. — Georgiana moveu-se, pouco à vontade. — Nunca vou entender a valentia da mãe de Tristan: fez mais quatro varões depois de já ter feito um! Se não fossem as tias dele, eu seria absoluta minoria. E mesmo assim elas me abandonaram... Foram para as águas termais de Bath.
— Por falar nos irmãos Carroway... — Lucinda começou, enigmática, pois enfim se decidira a contar seus planos às amigas. — Vocês sabiam que o tenente Bradshaw Carroway vai voltar para Londres?
— Eu sabia. O navio chega a Brighton no fim de semana. Ele espera ser indicado para um novo posto nas Índias Ocidentais. Logo onde! — Georgiana estreitou o olhar — Por que mencionou Shaw? Você o escolheu para aluno, por acaso?
— De jeito nenhum. — enrubesceu Lucinda. — Já imaginaram a reação de meu pai se eu desse atenção a alguém da Marinha? De qualquer forma, ensinar não implica em casamento iminente.
— Pois as chances parecem apontar nessa direção — bufou Evelyn.
— Uma possibilidade que você não deve ignorar... — Georgiana sorveu um gole do chá, fitando Lucinda sobre a borda da xícara com o olhar fatal de uma cigana loira que tudo via: — Você já escolheu seu aluno.
— Será? — Evelyn aplaudiu. — Quem é o vilão?
Lucinda olhou, hesitante, de uma para outra: duas bem-casadas instrutoras. O que diriam se soubessem que ela as observava com um misto de interesse e ciúme? Teriam percebido que, assim que Evelyn se casara com St. Aubyn, ela começara a procurar um aluno para si própria? Não um aluno que carecesse das aulas, mas com quem ela quisesse se casar? Suspirou. Claro que tinham percebido. Eram suas melhores amigas.
— Bem, eu aprofundei minha procura. — E a limitei a uma só pessoa, completou em pensamento.
— Diga logo — Georgiana pressionou. — Essa história das aulas foi ideia sua... Portanto, querida, sem mais delongas!
— Nem desculpas! — adicionou Evelyn.
— Eu sei, mas é que...
— Está bem. — Lucinda inspirou fundo. — É lorde Geoffrey Newcombe.
Lorde Geoffrey, quarto filho do duque de Fenley, era possivelmente o homem mais bonito que ela já vira. Outras damas, de mesma opinião, a ele se referiam como "Adonis". Cabelos loiros encaracolados, olhos verdes-claros, ombros largos e um sorriso capaz de encantar uma cobra. Não surpreendia que as mulheres a ele se atirassem com regularidade quase calculada.
Estava óbvio que ela o escolhera para casar, não para ensinar Afinal, dezenas de cavalheiros de conduta mais inconveniente existiam aos montes em Mayfair.
— Lorde Geoffrey é uma esplêndida escolha — Georgiana aprovou.
— Também acho — concordou Evelyn com seu sorriso de fada.
— Obrigada. — Os ombros de Lucinda relaxaram. — Eu pensei muito: ele é herói de guerra, fato que meu pai com certeza aprova, e muito bonito. Algumas aulas não lhe fariam mal, pois ele é arrogante e insensível... Receio que eu esteja sendo muito óbvia quanto ao porquê de minha escolha.
— Não, não está — Evelyn contestou. — Está sendo brilhante, como sempre. Quero dizer, você não pode ignorar o fato de Georgie e eu termos nos apaixonado e casado com nossos alunos. Isso tem que ser considerado!
— E também não pode ignorar o fato de você e seu pai serem muito próximos, e que o general Barrett tem que gostar da pessoa que você escolher para aluno — lembrou Georgiana. — Tenha você pensado ou não no que possa acontecer além das aulas.
— Acertou. — Lucinda sorriu, agradecida pela tentativa das amigas em justificar sua escolha. — Eu sei que o general o tem em alta conta, mas sei também, como ele mesmo diz, que não quer me ver sozinha com lorde Geoffrey quando ele estiver fora.
— Nunca vi você dar um passo em falso, Lucie. Como podemos ajudar? — Georgiana ria quando se levantou, desajeitada, para servir chá a Lucinda.
— Ora, eu dou conta... — O chá transbordou do pires e espirrou em seu vestido. — Georgie!
A viscondessa deu um salto e aprumou o bule.
— Mil desculpas! Eu me distraí... Olhem!
No jardim da frente, Edward, o cunhado caçula de Georgiana, de dez anos de idade, tentava subir no assento de uma carruagem de corrida com a ajuda do novo marido de Evelyn, o marquês de St. Aubyn.
— Santo! — Evelyn correu à porta e gritou para o marido. — Esses cavalos vão arrancar os braços de Edward!
— Edward! Desça já daí! — Georgiana ordenou ao lado dela.
— Ora, não se incomodem comigo. — Lucinda riu, afastou cuidadosamente a xícara de chá e se levantou. — É só o meu vestido que está encharcado de chá.
No último ano, ela conhecera a Mansão Carroway tão bem quanto sua própria casa. Assim, depois de uma última olhada para se certificar de que ninguém corria perigo, subiu as escadas e, no segundo andar, entrou num dos quartos vazios. Não sabia como Georgiana aguentava lorde Dare, os quatro irmãos mais novos e as duas tias.
Mas a amiga parecia vicejar no caos, assim como Evelyn e as constantes diabruras de St. Aubyn.
Claro que para ela, Lucinda, desde seus cinco anos de idade a Mansão Barrett era apenas ela e o pai, o general Augustus Barrett. Estava muito mais acostumada ao sossego do que ao constante tumulto que Georgiana tinha de enfrentar.
Mergulhou um pano em uma bacia e aplicou leves batidas na mancha de chá que lhe inundava a frente do vestido de passeio de musselina verde.
— Droga! — murmurou, um tanto irritada, em frente ao espelho.
Um breve movimento no reflexo chamou-lhe a atenção. Olhos azuis fitavam-na com a densidade dos profundos lagos do Norte no verão.
Ela se voltou, sobressaltada.
— Ora, mil desculpas, eu não queria...
Era um dos irmãos Carroway, só podia ser. Aquele Carroway. Estava sentado à janela com um livro na mão.
Robert. O irmão do meio. O que fora ferido em Waterloo. O tal, diziam, que não "regulava bem". Ela mal o vira em público desde que ele voltara da guerra. E pouco falara com ele, mesmo no casamento de Georgiana e Tristan.
Ele fechou o livro e se levantou devagar.
— Minha culpa — disse em voz baixa. — Mil perdões.
— Não se vá. — Ruborizada, ela demorou a abaixar a mão que segurava o pano contra o busto. — Estou limpando meu vestido... Seu irmão Edward quer aprender a pilotar uma carruagem de corrida, apesar da objeção de Georgiana.
Ele parou a meio caminho da porta.
— Ele jogou chá na senhorita?
— Não, não foi ele. Georgie o viu lá fora, no jardim, conspirando com St. Aubyn, e derramou chá em mim. — Ela riu, e bateu o pano mais uma vez num ponto mais digno do corpo.
Como ele soubera do chá? Rumores diziam, ela lembrou, que aqueles olhos azuis viam através das pessoas.
Bobagem. Ele sentira o cheiro, coisa assim.
Olhos azul-escuros avaliaram-na mais um pouco. A desolação do rosto se fora nos três anos que ali estava, desde seu regresso, mas ele ainda parecia magro e exaurido. Era como um lobo, Lucinda pensou de repente. E, boato ou não, aquele olhar era muito... inquietante.
Ele cerrou o maxilar Depois, com visível esforço, relaxou os ombros.
— A senhorita já escolheu?
— Escolheu o quê? — Ela o fitava, constrangida.
— Nada. — O olhar de cobalto afastou-se do dela. — Boa tarde.
Com passos ligeiramente mancos, ele deixou o aposento.
Lucinda olhou o vão da porta vazio, depois o livro esquecido no peitoril da janela: Frankenstein, ou o Moderno Prometeu, de Mary Shelley. As bordas das páginas puídas e a lombada trincada davam a imaginar que ele, ou alguém, havia praticamente destruído o livro de tanto ler.
— Lucie?
— Estou aqui.
Instantes depois, Georgiana entrava no quarto.
— Afoguei você com o chá?
— Não, continuo viva. — Ela voltou às batidas no vestido. — Como está Edward?
— Correndo de carruagem na rua... — Lady Dare suspirou. — E adernando, com St. Aubyn na rédea. Desculpe pelo chá.
— Não foi nada. — Lucinda hesitou. — Georgie, você contou a alguém sobre nossas aulas?
— Só para Tristan. E só a meu respeito. Por quê?
Porque havia tido a nítida impressão de que Robert Carroway perguntara sobre aquela escolha. Será que ele lia mesmo o pensamento das pessoas?
— Por nada — respondeu, disfarçando sua estranheza. — Pronto. Melhor que isso, impossível.
Lucinda acompanhou Georgiana ao corredor Quando começaram a descer as escadas, ela olhou para trás a tempo de ver um ombro largo desaparecer, depressa, quarto adentro.
— Georgiana — perguntou em voz baixa, ao chegarem ao pé da escadaria. — Como anda o irmão de Tristan ultimamente? Robert, melhor dizendo.
— Bit? — A viscondessa encolheu os ombros, chamando o cunhado pelo apelido. — Parece que está bem. Já quase não manca mais. Por quê?
— Por nada. É que eu o vi lá em cima. Ele...
— Ele impressiona, eu sei — Georgiana completou, serena. — Espero que não a tenha atemorizado.
— De maneira alguma. Só me surpreendeu.
Ao entrarem de volta na sala íntima, Lucinda olhou para o alto da escada. A pergunta que ele fizera, se fosse sobre o que ela desconfiava... Como ficara sabendo?
Robert Carroway dirigiu-se para a escadaria quando Georgiana e a srta. Barrett voltaram para a companhia da amiga, Evelyn, na sala íntima. Georgiana desculpava-se por ele. Sempre agia assim.
Ele conhecia cada um ali: Tristan, Georgiana, Shaw, Andrew e as tias. Todos tinham uma resposta pronta para quem perguntasse por ele, ou melhor, pela ausência dele.
Tristan havia lhe perguntado, pela manhã, se ele queria ir a Tattersall. Sempre que se preparavam para sair, ele ou Georgiana o convidavam. Quanto tempo iria demorar, pensou, para que suas recusas desestimulassem novos convites?
Sua família talvez não o compreendesse, mas o deixava em paz sempre que ele assim queria, e o deixava ausentar-se quando as paredes começassem a comprimi-lo. As visitas e as aglomerações não lhe proporcionavam nada, a não ser conversas bem-educadas sobre o tempo, moda ou alguma outra idiotice. Estremecia só de pensar.
Com o livro na mão, voltou, claudicante, ao quarto de hóspedes: seu quarto, onde se sentia mais à vontade na companhia da brisa fresca da tarde. Dali ele ouvia as três damas enquanto riam na sala íntima.
Ouviu Lucinda rir. Ela vinha sempre visitar Georgiana. Será que percebia que ele sempre fazia questão de estar por perto quando ela vinha? Se percebia, o que diria?
Não importava. Ele estava em casa, na Inglaterra, em Londres. Não seria privado de água e alimento, nem seria espancado por falar com as pessoas. Isto não acontecia havia três anos e ele estava livre, a salvo.
Forçou-se a olhar para o livro, recusando-se a admitir contente com o dia ainda claro. O que mais queria era estar ali, trancado em seu quarto.
— Eu escolhi o quê?
Robert se retesou e virou-se rapidamente. Levantou-se, claudicante.
— Srta. Barrett!
Ele sempre achara que os cabelos dela fossem castanhos, até vê-la passar no facho de luz projetado no chão naquele fim de tarde. Centelhas vermelhas cintilaram na arrebatadora revolução dos pequenos cachos que encimavam-lhe a cabeça, de onde uma mecha encaracolada se desgarrava e ia acariciar a maçã do rosto delicado. A pele lisa e macia parecia um pêssego.
— Sinto muito — ela murmurou, a pele alva se colorindo em róseo rubor. — Não quis assustá-lo.
Segundos se passaram até Robert perceber que a olhava fixamente, e que ela esperava uma resposta.
— Eu não a ouvi entrar.
Meigos olhos castanho-claros o estudavam.
Ele esperou o inevitável comentário sobre o tempo. De toda conversa que durasse assim tanto tempo, quando ele aguentava, esperava mal-estar, desprezo, medo ou, ainda pior, pena.
Lucinda Guinevere Barrett, porém, sorriu.
— O general está lendo um estudo sobre a tática dos índios americanos, os iroqueses em particular. Ele admira muito a capacidade que eles têm de se mover e agir sorrateiramente, e tenho treinado aproximar-me dele assim. Pelo visto, aprendi melhor do que imaginava.
General Augustus Barrett. Outro motivo por que ele raramente comparecia aos eventos sociais. A imagem do homem sempre evocava nele uma súbita névoa de mosquetes flamejantes, fumaça e gritos.
Passada a bruma, Robert voltou-se para a mulher alta e esbelta, ainda em pé no vão da porta, que tinha a infelicidade de ser filha de Barrett.
Diga alguma coisa.
— Seu aluno — falou de súbito e cerrou os lábios. Mas não a tempo de impedir que tamanha idiotice fosse pronunciada.
— Como? — Ela hesitou, intrigada. Explique-se!, ele quase gritou consigo. Você sabe construir uma frase.
— A senhorita já escolheu seu aluno?
Ela empalideceu, depois ruborizou levemente.
— Como foi que soube?
O semblante aterrorizado de Lucinda o deixou um pouco mais à vontade. Nos últimos três anos se acostumara àquela expressão que sempre sinalizava, para ele, o momento de pronunciar uma grosseria e se retirar.
Naquela tarde, contudo, ela bloqueava a porta, e ele queria continuar ali. Na verdade, parte dele queria ficar, se ela ficasse.
— Sou bastante observador. — Robert deu de ombros. — Georgiana escolheu Tristan. Quando sua amiga, a srta. Ruddick, escolheu St. Aubyn, a senhorita e minha cunhada ficaram preocupadas.
— Fomos tão óbvias assim?
— Não, não foram. — Ele gostou que ela não tivesse negado o esquema.
— Não contou isto para mais ninguém, não é?
— Eu, geralmente, não converso nada com ninguém, srta. Barret.
A expressão de Lucinda suavizou-se, e ela esboçou um sorriso que devia superar em muito o seu em elegância e simpatia.
— Obrigada. Seria constrangedor para todos nós se os mexeriqueiros descobrissem que estamos fazendo listas de alunos a quem ensinar
Listas. Ele não sabia dessas listas.
Imaginou o que a dela conteria. Preocupou-se, mas a longa experiência permitiu-lhe permanecer impassível. Provavelmente ela precisava de alguém que gostasse de conversar, ou no mínimo capaz de juntar frases em sucessão.
— Seu segredo está a salvo. — Ele esperou um compasso. — E então... A senhorita escolheu?
— Meu aluno? — Ela hesitou por um momento. — Escolhi, sim.
Robert vacilou novamente. Estaria mostrando como se sentia, isto é, tão distante, desesperado e incapaz de travar uma conversa civilizada? Antes era tão fácil...
— Posso perguntar quem é?
Ele se congratulou por sua boa educação, oportunidade e correção gramatical, mas o semblante de Lucinda se fechou, e ela recuou um passo.
Maldição. De volta à Inglaterra havia três anos, ele ainda não percebera que, apesar de seus esforços, não fazia ideia de como ter modos civilizados. Não até aquela tarde, quando Lucinda Barrett o procurara para continuar a conversa, pelo menos.
— Perdão, eu...
— Lorde Geoffrey Newcombe — ela respondeu, interrompendo as desculpas.
— A senhorita que se casar com Geoffrey Newcombe? — ele indagou, surpreso com a escolha. — Por que logo ele?
Ela empalideceu novamente, mas não com a mesma graça de antes.
— Nós resolvemos dar aulas para ensinar alguns homens a ser cavalheiros. A ideia é ver se consigo convencê-lo ou persuadi-lo a conformar-se aos itens de minha lista. Só isso.
— Quer dizer que o objetivo final não é o matrimônio...
— Não! Eu sería incapaz de usar algum ardil para obrigar alguém a se casar comigo.
— Eu...
— Eu não precisaria apelar para tal baixeza... Não gostei da insinuação.
Lucinda deu meia-volta e se retirou, empertigada. Desceu as escadas em passos pesados, já sem se preocupar em ser sorrateira.
Robert permaneceu imóvel, depois se acocorou para apanhar o livro que não percebera ter caído no chão.
Arre! Obviamente, assim como três anos antes, ele ainda não estava preparado para reingressar na sociedade. E até cinco minutos antes, excetuados alguns auspiciosos devaneios com a mulher que acabara de insultar, não teria dado a mínima.
Abriu de novo o livro e olhou cegamente para a página. Sentira-se quase... humano quando Lucinda sorrira. Uma sensação com a qual ele poderia se acostumar aos poucos. Recostou-se e alçou o olhar à janela. Lógico que, se quisesse ver de novo aquele sorriso, precisaria se desculpar.
E logo, enquanto ainda era possível reparar o dano.
Lucinda chegou à festa de Wellcrist em companhia do pai. Um ano e meio antes, o general Barrett teria qualificado o festejo de entediante, e preferido ir a um clube com amigos da política. Naquela época, porém, a filha tinha as amigas para ir aos eventos da temporada. Ela, Georgiana e Evelyn eram praticamente inseparáveis: as Três Irmãs, como muita gente bem as chamava.
Mas Georgiana e Evelyn haviam encontrado o amor, e suas decorrentes obrigações, em outras paragens. O general percebera isso antes dela, e, como bom estrategista militar, adotara uma nova tática, mais condizente com a situação.
Ele, obviamente, se preocupava com ela. E sua simples presença, naquele dia, confirmava isso. Incomodava-a o fato de ele se preocupar.
Por isso, escolhera lorde Geoffrey Newcombe.
As aulas eram um pretexto, uma justificativa para que se aproximasse de Geoffrey.
Ela sabia por que o escolhera. O general, seu pai, queria vê-la feliz e bem tratada. E ela queria deixá-lo tranquilo e cuidar dele: uma missão que se atribuía desde os cinco anos de idade, e que fora interrompida apenas quando ele havia ido para a guerra.
Depois de muito considerar, Lucinda decidiu que casar-se com o quarto filho, o caçula, do duque de Fenley seria a solução quase perfeita. Gostava dele, o pai também. O dote dela somado ao soldo do futuro marido os deixariam confortavelmente estabelecidos. Além disso, ele não parecia onerado com maus hábitos ou dívidas de jogo. Seguro e estável, amigo e descomplicado, não oferecia a perspectiva de vir a ser mais um fardo para ela, sempre tão azafamada, ou de se ressentir com a obrigação e o afeto que ela dedicava ao pai.
— Ah, lá está o almirante Hunt com aquele novato, Carroway. — O general tinha um lampejo de marechal incrustado nos olhos cinza-aço. — Hora de afundar a Marinha.
Bradshaw Carroway não possuía capacidades que a surpreendessem, mas voltara para Londres mais cedo e, por isso, além da carreira naval, o charmoso tenente poderia ter sido seu primeiro candidato da lista, não fosse ele da Marinha, motivo que deixaria seu pai apoplético.
— Seja simpático com o almirante, papai — ela advertiu, disfarçando seu divertimento. — Nada de grosserias.
— Claro. Maus tratos verbais apenas, filha. Ele hesitou, preocupado. — A não ser que você...
— Vá. — Ela o dispensou com um aceno, sem esperar que ele se oferecesse para fazer-lhe companhia a noite inteira.
Ele a beijou apressadamente no rosto e, com passos largos, foi enfrentar o amigo mais antigo e maior rival.
Pobre tenente Bradshaw Carroway! Estava prestes a se ver sob fogo cruzado, Lucinda pensou, sorrindo.
Olhou para a mesa de refrescos. Ia ao encontro de Evelyn para cumprimentá-la, mas desapressou o passo quando lorde St. Aubyn apareceu ao lado da esposa com dois copos de vinho Madeira nas mãos.
Soltou um suspiro. Antes eram as três juntas, agora não mais.
— Srta. Barrett — disse uma voz masculina atrás dela. Sobressaltada, ela se voltou e fitou o rosto redondo de seu mais determinado pretendente.
— Henning — saudou-o com um aceno de cabeça, e não soube ali decidir o que era pior: ser a terceira pessoa de um par feliz, ou a segunda de um par indesejado.
— Por favor, me chame de Francis. Não existe formalidade entre nós, não? — Ele viu o cartão de dança antes que ela o escondesse. — Vejo que ainda tem uma valsa em aberto... Concede-me a honra? Minha avó adoraria me ver dançando com uma moça tão bonita. Por que não vamos até lá cumprimentá-la e...
— Ah, vou cumprimentá-la agora mesmo!
A última coisa que Lucinda queria naquela noite era emaranhar-se em conversa com a tirânica Agnes Henning. Assim, privilegiou seu neto com um deslumbrante sorriso e se afastou antes que ele a lembrasse da valsa.
— Essa foi por pouco — disse-lhe uma voz conhecida atrás de seu ombro.
Ora essa, a noite subitamente começava a melhorar!
— Lorde Geoffrey — respondeu com uma mesura, desfrutando do leve arrepio que lhe percorria a espinha.
Olhos muito verdes percorreram de alto a baixo o vestido avermelhado e subiram de volta ao seu rosto.
— Lucinda Barrett. Permita-me elogiar a estratégia que usou para não dançar com Henning. Eu estava prestes a socorrê-la.
Ela ruborizou e desejou que Henning, para seu próprio bem, não tivesse escolhido lugar tão exposto para abordá-la. Não queria deixá-lo em má situação.
— Se ouvi bem, ainda tem uma valsa em aberto. Posso?
Ele apanhou na mão dela o cartão e o lápis e escreveu o próprio nome.
— Nossa meta hoje — indicou com um gesto de cabeça um grupo de rapazes à volta da debutante Elizabeth Fairchild —, é não deixar Henning entrar no salão. O homem é um perigo para qualquer criatura.
— Bem, Henning costuma mesmo dar uns pisões — ela concordou. Mas não teve tempo de defendê-lo, porque viu Georgiana sorrir para ela do outro lado do salão. — Henning não é o único a...
— Um bronco de cada vez, Lucinda — Geoffrey a interrompeu. — Assim que ele aprender a lição, vamos para o próximo. — Curvou-se, reverente, sobre a mão de Lucinda, e uma mecha de cabelos dourados ocultou-lhe uma maliciosa piscadela. —Até a valsa.
Os amigos dele a cercaram, alvoroçados, quando ele se afastou, mas ela se desvencilhou, pois reservara um espaço para o desditoso Francis Henning. Por menos que gostasse de dançar com ele, não apreciava a ideia de discriminá-lo ainda mais dos festejos. Principalmente em companhia da avó recém-chegada de Yorkshire.
Lucinda admirou os ombros largos de lorde Geoffrey quando ele abriu caminho para chegar ao cartão de dança de outra jovem. Que maus modos do homem que ela escolhera para ensinar! Uma escolha com justo motivo.
— Lucie! — Georgiana se aproximou, puxando o marido consigo. — Bom começo, não? — Beijou Lucinda no rosto.
— Não espalhe!
— Está bem. — A viscondessa se aprumou. — Vi o general conversando com o almirante Hunt... Precisamos intervir?
— Bobagem — lorde Dare descartou. — Shaw está petrificado. Um pouco de terror fará bem ao meu caro irmão.
— Não vai haver carnificina, papai prometeu. — Lucinda riu. Depois, admirou detidamente as róseas maçãs do rosto e as curvas redondas das ancas de Georgiana. — Pensei que vocês fossem passar a noite aqui dentro. Lá fora está tão frio!
— Foi o que eu disse a ela — Dare resmungou, erguendo a mão da esposa para beijar-lhe os dedos — Mas Georgie insiste em dançar comigo a noite inteira.
— Quanta ilusão, Tristan querido... — Georgiana riu, pousando a mão no braço do marido. — Entrei por causa das sobremesas.
— Sobremesas? — A expressão de Tristan se animou. — Por falar nisso, conheço uma sobremesa muito saborosa... O que ele está fazendo aqui? — perguntou, em seguida, ao olhar por sobre o ombro da esposa.
Lucinda se voltou para acompanhar a expressão grave. Perto da entrada do salão, em um elegante traje cinza-escuro, e com um semblante frio, estava Robert Carroway.
— Nossa! — Georgiana sussurrou. — Será que houve algum problema em casa?
— Vou descobrir.
Antes mesmo de lorde Dare se mover, Robert os viu e sumiu na aglomeração.
Tamanha agilidade surpreendeu Lucinda. Enquanto ela conjeturava por que um Carroway se daria o trabalho de aparecer e desaparecer tão rapidamente, ele se esgueirou entre lorde Northrum e lady Bryce e reapareceu ao lado do grupo.
— Bit! — Dare já não se surpreendia com a agilidade do irmão. — Está tudo bem?
Ele ergueu as sobrancelhas.
— Fui convidado, não?
— Eu sei, mas...
— Bit! — Bradshaw forçou a passagem entre os convivas. — Agarre minha âncora! O que faz aqui?
— Agarre minha âncora? — lorde Dare troçou, bem-humorado. — Um homem do mar!
— Eu queria dar uma palavrinha com a srta. Barrett — Robert interrompeu a conversa.
Lucinda entendeu a preocupação de Dare e as ostentosas expressões de espanto de Bradshaw e Georgiana, mas a resposta surgiu da simultânea desolação e desespero no olhar de Robert.
— Claro. — Aproximou-se, acatando o aceno de Robert.
— Quando o chamam de "fantasma" não é por acaso. Você foi impressionante de tão sorrateiro.
Ele não respondeu, tampouco ofereceu o braço. Mas a omissão não a aborreceu. Estar perto dele já a inquietava bastante. Tocar nele, provavelmente, seria devastador.
Olhares curiosos os acompanharam, até Robert diminuir o passo e olhar para trás, zangado, quando enfim ficaram a sós ao pé da escadaria principal. Ele a fitou longamente, os olhos azuis cintilando à luz tênue do lustre.
— Vim me desculpar por ontem.
O primeiro impulso de Lucinda, de desculpar-se também, não era necessário. E dizer que a breve conversa do dia anterior não merecera dela um único instante de reflexão não saiu de seus lábios.
Mas ele devia ter remoído o incidente, do contrário não teria vindo encontrá-la.
— Obrigada. Você foi direto, mas sua conclusão quanto ao desafio de nossas aulas foi absolutamente lógico.
— Eu fui grosseiro.
Lucinda não pôde evitar um sorriso intrigado diante do homem alto, magnificente e inquietante que insistia em se condenar.
— Você me pegou desprevenida, como todo bom soldado.
— Não sou um bom soldado. — Ele olhou novamente para as pessoas cochichando, aglomeradas no vão da porta. — Boa noite.
— Tenho um espaço em aberto no meu cartão — Lucinda ofereceu, quando ele já se afastava. — Se me der o prazer...
Ele parou e respondeu:
— Ofereça a Henning. Estão querendo boicotá-lo.
— Eu sei. Eu ia oferecer, mas, se você quiser... Ela nem terminou de falar e ele sumiu de vista. Lucinda olhou por sobre o ombro. Ninguém. Suspirou. Por ocasião de seu debut, em Londres, Robert Carroway, então com vinte e um anos, dançara com ela. Ele ainda se lembraria disso? Naquela temporada, estivera de visita à cidade.
Pelo que ela se recordava, ele dançava muito bem. Era um jovem de beleza devastadora, conhecido de todos, muito sagaz, de futuro promissor... Até alistar-se no Exército para combater Napoleão Bonaparte.
— Lucinda! — Georgiana se aproximou rapidamente.
— Está tudo bem?
— Tudo ótimo. Ele achou que eu tivesse me ofendido ontem, e queria se desculpar.
— E ofendeu mesmo?
— Qual nada. Foi apenas uma divergência de opiniões. — Ela sorriu e tomou a amiga pelo braço. — Preciso de uma taça de vinho Madeira. Afinal, conversei com Robert Carroway duas vezes em uma semana! — Ela riu, empertigando-se contra o barulho e a aglomeração do saião. O que queria, mesmo, era um momento de sossego.
— Quem sabe lorde Geoffrey não fica com ciúme?
— Por falar nele... — a amiga murmurou, apontando-o com o queixo.
O Adonis dourado emergiu de um grupo e se posicionou entre ela e Georgiana.
— Nossa valsa está começando — avisou, bem-humorado.
— Desculpe. Nem percebi!
— Compreendo...
Ele a abraçou pela cintura e Lucinda ocultou o sorriso. A menção ao ciúme para Georgiana fora de brincadeira, embora Robert Carroway fosse uma visão agradável para qualquer mulher.
— Compreende o quê? — incitou, ousada.
— Bem, em primeiro lugar, a aparição do "mudinho". Em segundo, ele fala! E falou com você — Geoffrey ironizou, começando a dançar. — Eu achava que Robert tivesse morrido, e que lorde Dare o tivesse enterrado no porão ou coisa assim.
— Que bobagem. — Ela se aborreceu, mas percebeu que tamanha insensibilidade, tão característica da alta sociedade, era mais um defeito a corrigir. — Ele é apenas um soldado ferido de guerra.
— Também levei um tiro em Waterloo, no braço — o rapaz contestou, depois ofereceu um sorriso de valentia. — Como doeu! Devo contar minhas façanhas heróicas?
Ele fora ferido, sim, todos sabiam. E das tais façanhas ela já ouvira muitas. Mas, diante daquele deslumbrante sorriso, Lucinda resolveu deixá-lo contar um de seus divertidos casos. Seria uma maneira eficaz de avaliar sua estratégia inicial, e de esquecer o olhar sombrio de outro soldado bem diferente...
— Conte, por favor.
Robert tomou a variante quando voltava para a Mansão Carroway, parando por alguns momentos na orla do parque. Àquela hora, pouco mais de meia-noite, ninguém importante passaria pelo Hyde Park.
Expirou, enevoando o ar frio da noite, relaxou as rédeas do cavalo, e deu-lhe alguns tapinhas nas costelas. Os músculos do baio se retesaram por baixo do couro liso, e os dois partiram depois de um breve salto.
Tolley arremeteu-se em solto galope no facho de luar. Robert ia curvado sobre o lombo, os olhos semicerrados para se proteger do vento. Em volta, calma e silêncio. O ranger do couro dos arreios, o tropel surdo dos cascos e o ronco respiratório de Tolley eram ali os únicos sons.
Nessas noites, quando cavalgava da mansão escura e silenciosa para o parque deserto, ele conseguia esquecer. Um cavaleiro solitário, um cavalo veloz, o vento no rosto, o mundo escancarado sem muros, grades, lágrimas, gritos ou morte. Numa noite assim nada o afetava.
Quando sentiu Tolley respirar com dificuldade e encurtar a passada, diminuiu a marcha e retomou. Os cavalariços dormiam, mas ele preferia assim. No silêncio, escovou o baio, deu-lhe uma maçã e o levou para a cocheira.
A porta da frente da casa estava sem tranca, à espera de Tristan, Georgiana e Shaw, e ele entrou silenciosamente.
— Por onde você andou?
Robert sobressaltou-se, mas relaxou de novo ao reconhecer a voz jovem.
— Você devia estar na cama, dormindo. — Dirigiu-se à figura delgada, que se sentava esticada no primeiro degrau das escadas.
— Perguntei primeiro — Edward afirmou com o peso da autoridade de seus dez anos de idade. — Saiba que estou aqui há mais de uma hora, e você estava por aí, não se sabe onde, fazendo não sei o quê.
Edward tiritava dentro da camisola, agarrando na mão fechada um soldadinho de chumbo.
— Tive uma incumbência, Miúdo. — Robert suspendeu e abraçou o menino, aprumando-se para suportar o aperto daqueles braços pequenos pendurados em seu pescoço.
— Eu estava preocupado. Ainda não tenho idade para ser o homem da casa, e todos saíram.
Robert pôs o irmão no ombro e subiu a escadaria, recusando-se a dar atenção ao joelho doente. Ao menos aquele irmão ainda o via perfeito.
— Sonhei que o navio de Shaw tinha afundado.
— Shaw está dançando no baile de Wellcrist. Zangue com ele amanhã por não ter acordado você quando chegou em casa ontem.
— Vou zangar. — Edward chegou sonolento ao quarto. — Não vai sair de novo, vai?
Robert o colocou na cama e o cobriu, enquanto Edward aconchegava-se aos travesseiros.
— Boa noite, Miúdo.
— Boa noite, Bit.
Por que Miúdo escolhera logo ele para consolá-lo?
Claro, ele quase não saía. Mas nunca dera indícios de ser uma pessoa em quem confiar. Seus outros irmãos sempre implicavam com Edward, dizendo que ele não tinha motivo para ter medo de ficar sozinho, afinal havia muita gente em casa: os criados e as tias, quando estas vinham à cidade.
Cinco anos antes, ele talvez não soubesse explicar o problema, pois ainda não conhecia o Château Pagnon nem de ouvir falar... Muito menos le comte Jean-Paul Barrere.
No quarto, enquanto tirava a jaqueta dos ombros, foi à janela e a escancarou. A lareira quase apagada incandesceu no nicho de pedra e arrefeceu de novo com a corrente de ar frio.
Robert ignorou a súbita friagem. Precisava de ar fresco para dormir, do que só abria mão quando nevava, mesmo em Londres.
Instantes depois, já estava deitado na cama macia, os braços cruzados atrás da cabeça. Lucinda Barrett estava mesmo interessada em Geoffrey Newcombe. Os dois formaram um belo par na festa de Wellcrist, dançando a valsa. Ela estava bonita, sorrindo, conversando com os amigos e amigas, um diamante entre pedras preciosas.
Robert suspirou. Não devia ter menosprezado sua escolha, afinal ele não estava mais em posição de avaliar quem valia a pena ou não. Ela fora generosa, acatara seu pedido de desculpas, e ainda pedira que ele ficasse.
O simples fato de ter-se forçado a ir à festa, e ter conversado com ela com algum decoro, o surpreendia.
Virou-se de lado e ficou de frente para a janela. Um dia antes não se imaginaria perdendo tanto tempo com festejo tão insignificante, com tanta gente. Fora muito difícil, mas ele conseguira. E sabia por quê.
Não pensara nas salas fechadas, na multidão, no calor ou na conversa insípida, mas na srta. Barrett. E agora pensava em encontrá-la de novo. De trás das portas daquele inferno particular, espreitara-a durante três anos, até conversarem naquele dia, pela primeira vez. Ela o aproximara da luz, e agora tudo parecia diferente.
Pela primeira vez em três anos, Robert dormiu pensando em sossego, serenidade e em um sorriso de paz. Não em terror e morte, ou se acordaria no dia seguinte.

— Não, papai, não acho que lorde Milburne seja anarquista.
A expressão do general Augustus Barrett era divertida. Havia resolução nos olhos cinzentos, mas não a determinação ferrenha que levara tantos recrutas a reconsiderarem sua opção de carreira.
— Venha vê-lo, Lucinda. — Acenou para ela vir à janela. — Blusão vermelho, colete branco, calça verde... Ou é anarquista ou é a bandeira da Espanha.
— Nossa! Ainda bem que a Espanha é aliada. — Lucinda riu ao parar perto do pai e olhar a rua.
— Não seria, se visse esse inglês expor ao ridículo suas cores. Mas, por que está acenando para nós? Não é um dos seus pretendentes, é? Se vier para cá, vou ter que atirar nele.
— Não, não é meu pretendente. — Lucinda recuou da janela, meneando a cabeça. — Não quero me casar com uma bandeira. Tem mais algum capítulo para mim? — Com um gesto, indicou a colossal escrivaninha de mogno, repleta de anotações a esmo e folhas de papel escritas.
— Ainda não. Minhas anotações de Salamanca não estão lá essas coisas, receio. Mas não mude de assunto.
— Que assunto?
— Seus pretendentes! — Ele deu um leve tapa no espaldar da poltrona da escrivaninha.
— Papai, o senhor não vai começar de novo a convidar seus amigos oficiais para virem nos visitar, não é? O senhor, eu, e uns trinta homens de vermelho e branco... Eu me sentia a bandeira da França sitiada! Prefiro as negociações de paz. E o senhor me deve um capítulo, não fique adiando.
O general afundou-se na poltrona.
— As anotações estão uma bagunça, mais do que eu pensava. Que maçada! E minha memória já não é mais a mesma.
— Com as responsabilidades que a Guarda Real Montada e o Serviço de Guerra continuam a atribuir ao senhor, não creio que o considerem incapaz. Muito menos eu.
— Um pouco de solidariedade sempre faz bem, filha.
Ela sorriu. O pai não estava perdendo a memória, mas a hipótese era mais uma oportunidade para fomentar as aulas.
Um frêmito percorreu-lhe a espinha.
— Sabe, papai, acho que lorde Geoffrey Newcombe lutou em Salamanca. Ele vai estar no Almack's à noite... Posso pedir a ele para passar aqui, e ver se pode ajudá-lo a decifrar suas anotações.
— Lorde Geoffrey. Sim, um rapaz ousado, mordaz. Levou um tiro no braço em Waterloo. Vocês dançaram uma valsa ontem.
Ele a estudou, porém ela fingiu-se ocupada, arrumando alguns livros de consulta.
— Dancei no mínimo com uns doze cavalheiros, como sempre. Como ele falou da guerra, imagino que possa ajudá-lo.
— Talvez você tenha razão. Vou pedir a colaboração dele por escrito.
— Ótimo!
Foi nesse instante que ele notou nela o velho vestido de musselina azul e o chapéu de palha.
— Nós temos um jardineiro, sabia?
— Sei, mas gosto de cuidar das rosas. Uso luvas para não me espetar.
— Igualzinha à sua mãe. — O general cavoucou uma gaveta e começou a apontar uma pena. — Mane e as rosas.
Ela sorria.
— Vou preparar um buquê para seu escritório. Lucinda apanhou as luvas e as tesouras. No saguão, esperou o mordomo abrir a porta da frente.
— Estarei no jardim, Ballow.
— Pois não, srta. Lucinda.
Worley, o jardineiro, já limpara o jardim, aonde ela chegou cantarolando a valsa da noite anterior.
Lucinda suspirou. Desde seu nascimento, a mãe dela plantara uma rosa por ano. Após sua morte, ela tentava manter a tradição. A vigésima quarta rosa, de pétalas amarelas duplas e com fragrância de canela, viera da Turquia na última quarta-feira.
— Como vai? — ela perguntou à rosa e se ajoelhou sobre a barra do vestido para examinar a terra. — Está precisando de água, não é?
Ainda cantarolava ao podar as folhas sujas, que não resistiram à longa viagem. Usar as memórias do pai como pretexto para convocar lorde Geoffrey fora obra de gênio!
Um regador apareceu ao lado.
— Obrigada, Worley, você leu meu pensamento.
Ao estender o braço para apanhar o regador, no entanto, não viu as surradas botas de serviço de Worley, mas sim um belo par de botas hessianas. Ergueu os olhos para as calças de couro de corça castanho-amareladas, o paletó preto, o colete marrom, a gravata cor de neve, o maxilar determinado, a boca retilínea e, enfim, um par de olhos azuis sob cabelos castanhos e algo desalinhados.
— Robert! — Na pressa de levantar-se, pisou na saia e quase caiu em cima de uma roseira.
Ele a amparou e Lucinda se reequilibrou. Ele a soltou rapidamente, recuou e recolheu os braços atrás das costas, acuado.
— Eu não mordo. — Ela demorou a limpar o vestido. Assim como ele, precisava de um momento para se acalmar.
— Eu sei que não.
Seja boazinha, ela se lembrou. Robert devia ter um bom motivo para estar ali. Georgiana pouco falava dele, mas deixara bem claro o quão difícil parecia ser para Robert sair de casa.
— Não foi sua culpa, mas você me assustou — disse, consternada.
— Estou treinando para viver sorrateiramente — ele explicou em voz baixa. — Uma capacidade que a senhorita parece admirar.
Lucinda o fitou com firmeza. Sua expressão era tranquila, mas o azul dos olhos parecia sorrir bem no fundo. Ao menos ele tinha senso de humor.
— É muito melhor nisso do que eu, sem dúvida. Podemos fazer um pacto para não sermos tão sorrateiros um com o outro, antes de nos machucarmos.
— Concordo. — Ele mudou de tom, olhando em volta. — Andei pensando... — As palavras vieram lentas, relutantes.
— E?
Robert tomou fôlego.
— Está perdendo seu tempo com Geoffrey Newcombe.
— Mesmo? — Ela ergueu a sobrancelha. — Por quê? Ele fez uma pausa para estudar o rosto dela.
— Eu a ofendi.
Se ele podia ser direto, ela também.
— Sim, ofendeu. Mas, explique o porquê.
— Ele é arrogante e mimado.
Lucinda não sabia se estava aborrecida ou intrigada.
— Daí a necessidade de corrigi-lo, não? — completou Robert.
— Alunos com boas maneiras não me serviriam, não é mesmo? Além disso, um cavalheiro não fala mal de outro na presença de uma dama.
— Não, não fala — Robert anuiu. — Não sou cavalheiro, e a senhorita é amiga de Georgiana, mas é bom levar em conta que, se Tristan e St. Aubyn são arrogantes, se foram mal orientados, ao menos não foram mimados. Seja qual for a lição que a senhorita tem a dar, Geoffrey só vai lhe dar atenção se puder tirar algum proveito. Ele pensa que o mundo deve reverenciá-lo.
— Se o senhor evita seus pares, como pode conhecer tanto deles? — Lucinda começava a se aborrecer. — E quanto a mim, chegou a alguma conclusão?
— Quanto à senhorita? — A pergunta o chocara.
— Sim, quanto a mim. Se analisou o caráter de lorde Geoffrey, de St. Aubyn e de seu próprio irmão, pode muito bem me analisar.
Quando ela se abaixou para apanhar a tesoura de poda, surpreendeu-se curiosa em saber o que Robert Carroway pensava dela. Talvez estivesse sendo muito direta, mas, afinal, não pedira a opinião dele.
— A senhorita merece coisa melhor do que Newcombe. É o que sei.
— Agradeço sua preocupação — ela se aprumou —, mas deve admitir que discordamos em um pon...
Ele desaparecera.
Lucinda olhou em volta. Robert sumira como se fosse um espectro que ela evocara na imaginação.
— Ora essa. — Podou uma folhinha perdida. — Pois do senhor eu tenho o que dizer, seu grosseirão!
— Falando sozinha? — O pai vinha ao seu encontro entre as fileiras de rosas.
— Não, eu... — o rosto dela se aqueceu. — Eu estava conversando com o novo broto.
— Ele respondeu?
— É tímido.
— Se responder, não deixe de me contar, está bem?
— Muito engraçado!
— Veja, um mensageiro entregou hoje de manhã. — O general exibia uma carta entre os dedos.
— E o senhor resolveu vir entregá-la pessoalmente porque todos os criados quebraram as pernas, não foi? — Ela apanhou a missiva. — Ou está fazendo hora porque não sabe como terminar o Capítulo Três?
— Não sei o que escrever. Estou descobrindo que combater na guerra é fácil. Difícil é escrever sobre ela e política.
Lucinda riu, afastando, ou tentando afastar do pensamento a incômoda visita de Robert Carroway. Depois de três anos de quase total reclusão, por parte dele, haviam se encontrado três vezes em três dias. Alguma coisa os reunira.
— Mas o senhor está se saindo bem nas duas — retomou a conversa. — Se quiser, pode me ajudar na poda.
— Não, filha. Curvo-me à sua habilidade superior neste caso... Voltarei para meus rascunhos.
— Estratégia inteligente, general. Ele se foi.
Lucinda olhou em volta para ver se havia mais alguém à espreita, depois abriu a mensagem. A caligrafia ela já reconhecera, por isso não se surpreendeu ao ler que Evelyn a convidava, e também a seu pai, para um jantar informal oferecido por lorde e lady St. Aubyn no sábado à noite. Lucinda sorria até ler o post-scriptum entre parênteses ao pé da página: "Lorde Geoffrey Newcombe também será convidado".
Enfiou o convite no bolso da peliça. As amigas, obviamente, estavam tentando ajudá-la, mas naquele instante chegou a execrar todo aquele esquema de aulas, que ela mesma inventara!
Minha nossa! Ao menos Georgiana e Evelyn tinham escolhido seus alunos com legítima intenção letiva. No caso dela, porém, tanto as duas como o recluso Robert Carroway sabiam que as aulas eram mero pretexto. Pior; as amigas serviam-lhe lorde Geoffrey numa bandeja de prata, sem nem sequer dissimularem sua função casamenteira.
— Maldição! — praguejou, usando uma das expressões menos sutis que aprendera com o pai e seus amigos do Exército, e, embirrada, acabou encharcando a terra em volta da rosa com a água trazida por Robert.
Ela não queria as coisas assim... Não. Ela fingia que não as queria assim, e, naquele caso, estava enganando apenas a si mesma. Talvez também a lorde Geoffrey.
De qualquer modo, já tinha o garfo e a faca. Só faltava mandar servir a refeição. E se Robert Carroway achava que ela precisava de conselhos, estava muito enganado.
Sem dizer que ela não precisava explicar-se, muito menos para um quase eremita que nem sequer pedia licença para se retirar de uma conversa. Na verdade, se ela preferia lorde Geoffrey, sorte de Robert Carroway, pois ele, sim, precisava de uma boa lição.
Robert desapressou Tolley, pondo-o em passo de marcha ao se aproximarem dos limites da Mansão Carroway. Edward e Bradshaw estavam do lado de fora da cocheira inspecionando a nova sela que o irmão caçula ganhara de aniversário para o pônei.
Inspirou fundo e tomou o caminho da entrada. Pelo modo desastroso como terminara a conversa com a srta. Barret, nada pior poderia acontecer no resto do dia.
— Bit! — Edward correu até ele e o agarrou pela bota. — Shaw já contou?
— Miúdo, cuidado...
— Ele vai comandar um navio. — Edward não deu atenção a Bradshaw. — Ele agora é capitão!
— Quase capitão — Bradshaw corrigiu, fitando Robert.
— Daqui a dois meses, a menos que Napoleão fuja de novo.
— Parabéns — Robert o cumprimentou, controlando o arrepio que ameaçou tomá-lo.
Apeou de Tolley e hesitou ao entregar as rédeas ao cavalariço. Havia momentos em que preferia a Mansão Carroway de antes, quando Georgiana e seu patrimônio ainda não tinham vindo salvá-la, e quando ele cuidava pessoalmente de Tolley sem ter de esperar a meia-noite para sair só, sem dar satisfações.
— Aonde você foi? — O caçula Carroway perguntou.
— Saí a serviço.
Serviço inútil, a bem da verdade. Agora já não sabia por que fora, a não ser pelo fato de gostar do jeito como Lucinda Barrett o tratava. Poucos agiam assim naqueles tempos, mesmo nas raras oportunidades às quais comparecia. Ele pensara até em ajudá-la, mas como, se mal conseguia ajudar a si mesmo?
— Você vai cavalgar comigo e Shaw? — Miúdo prosseguiu.
— Tenho que ler as cartas que chegaram — respondeu, dirigindo-se à porta da frente da casa, amargando uma profunda antipatia pela multidão que ocupava o Hyde Park àquela hora do dia.
— Bit, espere. — Shaw devolveu as rédeas do pônei a Edward. — Volto já, Miúdo.
— Ande rápido. Quero um sorvete de limão.
Robert diminuiu o passo quando Shaw emparelhou com ele. Sabia de cor a conversa, palavra por palavra: a mesma que tinham com ele sempre que algum familiar voltava para casa depois de um período de ausência.
— Estou bem. — Ele tentou encurtar o interrogatório.
— Não, não é isso. É que, para o meu navio, vou contratar um terceiro imediato... Pensei em você.
— Não — Robert volveu, categórico.
Shaw o pegara de surpresa. Mesmo assim, ele já se viu punindo a si mesmo, preso na minúscula cabine cheia de gente em um navio solitário, perdido no meio do oceano durante um ano ou mais.
— Só porque saiu do Exército, não quer dizer que não possa fazer alguma outra coisa útil.
Robert parou e encarou o irmão mais velho.
— Como se flutuar pelo mundo dentro de um navio fosse coisa útil.
— Você não faz ideia... — O semblante de Shaw se fechou.
— Deixe-me em paz, Shaw. Não quero levar a mesma vida que você.
— Por que não? Você não tem mais vida própria. Robert entrou porta adentro, praticamente avançando contra Dawkins. Dirigiu-se á escadaria mancando.
— Você não precisa viver assim! — o irmão gritou.
— Preciso, sim — ele murmurou de volta, tremendo no íntimo.
Precisava de sossego e solidão. Não podia nem pensar em viver preso dentro de um espaço apertado e sem saída.
Já trancado no quarto, indo até a janela e voltando sem parar, sentiu-se como se as paredes o comprimissem mais e mais. Suas mãos começaram a tremer, e ele cerrou os punhos com força. Entrara em um pânico cego e tenebroso, sem causa, sem motivo plausível, e não conseguia interrompê-lo. Maldito Bradshaw!
De olhos fechados, caiu no chão debaixo da janela. Havia exagerado: saíra duas vezes em dois dias, tentara enfrentar olhares e cochichos, e ainda travara conversas civilizadas depois de três anos de solidão e silêncio quase absolutos.
Calma, ordenou a si mesmo. Não ia a lugar algum, nada iria lhe acontecer Estava a salvo, em segurança.
Silêncio, acalme-se..., repetiu para si, até as palavras se fundirem, turvas, em um canto de sua mente.
— Bit! Robert!
Tristan batia à porta do quarto.
Ele abriu os olhos. Já não havia luz na janela.
Sentou-se e se enroscou na escuridão. Aos poucos, foi esticando os dedos crispados.
Ao se levantar, contorceu-se com a rigidez dos músculos.
— Bit? Está tudo bem?
Ao chegar à porta ainda se sentia um pouco mal, mas sabia, por isso, que o pior já passara. Sentia a pele se esticar sobre os ossos, como se tivesse cem anos de idade. Inspirou fundo e abriu a porta.
— Estou bem — resmungou, fitando o semblante preocupado do irmão mais velho.
— Posso entrar?
— Não.
— Seu aspecto está horrível.
— Eu sei.
— Shaw me contou da proposta que fez a você — Tristan disse, firmando os lábios.
Robert tomou-se de pavor. De novo, não. Ele mal se recuperara!
— E você acha que eu deveria aceitar, não?
— Não. Shaw é um idiota. Eu disse isso a ele.
— Ótimo.
O visconde se calou por instantes.
— Por que não conversa comigo? Quero tentar ajudá-lo. Robert recuou com a mão agarrada à porta.
— Estou fazendo o que posso — sussurrou, intuindo que, se falasse alto, talvez não conseguisse firmar a voz.
— Eu sei. Se precisar de alguma coisa, se quiser que eu vá chamar alguém, é só dizer.
— Não preciso. Tristan o fitou.
— Sabe o que andei pensando?
— O quê? — ele perguntou, pois ainda não estava preparado para encarar o quarto escuro e vazio, tampouco a família lá embaixo.
— Que você precisa de um passatempo. Sei que gosta de ler, sei que tem exercitado Tolley... Não estou me referindo a bordados, ou coisa assim. — O irmão riu. — Na verdade, nem sei o que sugerir. Alguma coisa pequena, para começar. Alguma coisa para...
— Para me ocupar — Robert completou.
— Não se zangue, eu...
— Não estou zangado. — Ele inspirou fundo novamente. — Talvez você tenha razão.
— Acha mesmo? É raro alguém me dizer isso. Não se esqueça de contar para Georgie, ela vai gostar.
Robert sentiu-se culpado diante da surpresa e do alívio no rosto de Tristan, e forçou-se a sorrir.
— Guardou meu jantar?
— Foi por isso que subi. Miúdo está quase comendo os talheres.
— Não precisavam esperar por mim. — Robert o olhou, incrédulo.
— Não se preocupe conosco.
Na sala de jantar, Robert sentou-se, cabisbaixo. Todos o olhavam, preocupados, pensando em palavras de incentivo a dizer. Shaw estava zangado consigo mesmo, e também com Robert porque, afinal, tudo o que fizera fora oferecer ao irmão mais novo uma oportunidade de iniciar uma nova carreira.
— Evie e St. Aubyn nos convidaram para jantar no sábado — Georgiana anunciou, quebrando o silêncio.
— Todos, ou só os adultos? — Edward perguntou.
— Nós todos, queridinho. Só nós, Lucie, o general e Geoffrey Newcombe.
— Eu gosto de lorde Geoffrey — Miúdo externou sua opinião. — Ele conta cada história! E conheceu Wellington!
— St. Aubyn também — contrapôs Bradshaw. Robert sentiu-se alvo de todos os olhares. Esperavam para ver se ele iria se manifestar, é claro, porém ele se limitou a comer, cabisbaixo. Nada tinha a dizer. Alguém logo mudaria de assunto, tentando ajudá-lo, e a conversa continuaria sem ele. Era essa a rotina, e todos a conheciam.
— Bit, você conheceu Wellington?
Todos, exceto Edward. Robert queria ignorar a pergunta, mas, se o fizesse, estaria desconsiderando Miúdo, que não falaria mais com ele, o que subtrairia de sua vida a última gota de sanidade.
— Eu o vi cavalgando e, um dia, tomamos uísque juntos. Nada mais.
— Por que tomaram uísque juntos? — O caçula Carroway insistiu, movimentando-se continuamente no assento.
— Porque eu tinha uma garrafa de uísque, estava nevando, e ele pediu um copo para não congelar o saco.
— Ele disse "saco"?!
— Meninos! — Georgiana esganiçou.
— Foi Bit quem disse.
Shaw começou a tossir no guardanapo, e Dawkins, o mordomo, logo procurou algo interessante para espiar lá fora. Robert olhou para Tristan e Georgiana, que reprimiam o sorriso.
Quis fechar os olhos. Depois de três horas de pavor, quase imobilizado por causa da contração dos músculos, estava exausto. Parecia ter corrido uma distância enorme. Dormir, porém, era uma perspectiva ainda mais inquietante. Parecia cansado demais para sonhar.
Talvez Tristan tivesse razão. Talvez ele precisasse de alguma coisa, que não o ameaçasse, para se distrair.
— Jardim — sussurrou, sem saber ao certo se falara em voz alta, até ver o olhar intrigado do irmão mais velho.
— O quê? — Tristan franziu o cenho.
Flores, plantas, coisas que crescessem. Coisas que não gritassem ou sangrassem quando morriam. Que não o olhassem, acusadoras, quando ele não soubesse o que fazer.
Fazia sentido.
— Quero plantar um jardim — decidiu.
— Que tipo de jardim? — Bradshaw indagou, hesitante.
Não pressione o "mudinho", Robert disse para si, embora detestasse a alcunha tanto quanto os olhares e silêncios.
Lucinda tinha um jardim, lembrou, do qual estava cuidando quando a encontrara ajoelhada na terra. Quando discordara dele e discutira com ele como se ele fosse uma pessoa normal.
— Um jardim de rosas — resmungou, por fim.
— Rosas! — Georgiana repetiu, fitando-o, judiciosa. — Já era hora de algum Carroway cultivar algo além de sua questionável reputação.
— Minha reputação não é questionável — Edward afirmou, olhando para Robert com expressão meio desconcertada, rodando as batatas-doces em círculos na superfície do prato. — Rosas? Por que não anda a cavalo comigo?
Flores?, ponderou Robert. Ora essa, seria ele assim tão imbecil e inútil? Viu-se um velho biruta conversando com um ramo de florzinhas moribundas na mão.
Mas se não desse esse passo seria um velho biruta trancado em um quarto e falando sozinho.
Sentiu falta de ar, empurrou a cadeira para trás e se levantou.
— Com licença.
— Só quero que me prometa que vai plantar rosas brancas — Georgiana falou em voz alta, enquanto ele se retirava. — Adoro rosas brancas!

 

CAPITULO II


— Georgie! — Lucinda desceu depressa as escadas para receber a amiga. — Por acaso enlouqueci? Achei que iríamos fazer compras amanhã.
— Nós enlouquecemos, não você. — A viscondessa tomou suas mãos estendidas. Nossa visita não é social.
Georgiana não parecia alarmada, mas, ainda assim, Lucinda se lembrou do abrupto encerramento de sua conversa com Robert no dia anterior. Só o que faltava era levar uma descompostura da amiga por ter maltratado seu cunhado inválido.
— O que houve? — Conduziu a moça à sala íntima. Georgiana deu uma tossidela.
— Tristan está tentando encontrar uma ocupação para Bit... Robert, que lhe dê paz de espírito. Sei que é estranho, mas...
— Não, não é estranho — Lucinda a interrompeu, ocultando o sobressalto à menção do nome do rapaz. — Continue.
— Ontem à noite, Robert mencionou que gostaria de cultivar rosas. Eu...
— Rosas? — Lucinda excitou-se com uma remota suposição.
— Sim. Não sei de onde surgiu a ideia, mas ele deve ter seus motivos. Eu mesma pensei em me oferecer para ajudá-lo a começar, mas temi que ele recusasse e desistisse. — Lady Dare entrelaçava e desenlaçava os dedos. — Eu não conversaria sobre ele com ninguém, mas você é como se fosse da família, Lucie.
— E você, da minha. — Lucinda se aprumou, afastando o temor de se envolver num empreendimento talvez dos mais complicados. Georgiana precisava dela, e quiçá Robert também, o que a intrigava mais do que ela queria admitir. — Posso preparar umas mudas, e tenho alguns livros sobre o cultivo de rosas. Posso levá-los quando for visitá-la e pegá-lo de surpresa.
— De surpresa? Não acho boa ideia.
— Assim vai ser mais difícil ele recusar. — Lucinda sorriu. — Ou mudar de ideia.
— Está bem. Vou correr o risco, mas ele vai brigar comigo. Quero que Robert se recupere, Lucie. Tenho saudades de ouvir suas risadas.
Com um sorriso contido, Lucinda se aproximou do sofá e abraçou a amiga.
— Ele levou cinco tiros em Waterloo. Presenciou todo aquele horror, Georgie... Tudo isso o afetou.
Georgiana se condoeu por mais algum tempo, depois se recuperou.
— Claro. — Desviou o rosto do olhar curioso de Lucinda. — Agradeço o que você puder fazer por ele.
Que bom que a amiga concordara com ela, pensou Georgiana. Mas o momento não era para divagações. Contaria o resto depois.
— Passo lá antes do almoço.
Instantes depois que Georgiana saiu, o general entrou na sala de visitas.
— Parece que sua ideia vai salvar o capítulo sobre Salamanca. — Ele guardava uma carta no bolso. — Lorde Geoffrey escreveu, dizendo que terá muito prazer em ler o material comigo e ver o que podemos reconstruir.
— Que ótimo!
— Ele vem depois do almoço. Eu gostaria que você estivesse presente, para tomar nota.
Ao menos algumas coisas estavam funcionando conforme planejadas, refletiu Lucinda.
— Estarei, com prazer. — Levantou-se e beijou o pai no rosto ao passar por ele. — Até lá já devo ter voltado.
— Aonde você vai?
O general a interrompeu, segurando-a pelos ombros, e ela parou, surpresa.
— Robert Carroway não é seu pretendente, é?
— Não, só amigo. — Diante de olhar tão sério, franziu o cenho. — Por quê?
— Não faz meu gosto como soldado, nem como homem.
— Papai, o senhor...
— Sei que ele é cunhado de sua amiga Georgie, mas procure evitá-lo. Não se aproxime tanto dele. A fama de Carroway pode se refletir em você... e em mim.
— Que fama? Ele quase não aparece em público há três anos, e foi ferido em Waterloo. É um herói de guerra.
O pai se calou por instantes.
— Há quem diga que sim. Mas há outros feridos de guerra que não andam se escondendo da própria sombra. Lorde Geoffrey, por exemplo... Carroway é mercadoria com defeito, Lucie. Não se esqueça disto.
Lucinda não viu razão de ser nos dois avisos, porém concordou.
— Fique tranquilo... Serei cautelosa.
— Ótimo. Assim o seu velho vai poder descansar em paz. Lucinda forçou um sorriso, agarrando-se ao braço do pai com ambas as mãos.
— Quem será esse velho? O senhor tem que me apresentar a ele.

A família Carroway raramente se reunia para o café da manhã. Cada um tinha uma agenda própria: encontros, reuniões, excursões programadas e, no caso de Edward, aulas.
Robert não tinha nada disso, e nutria convicto gosto pela solidão. As nove e meia, quando entrou na sala de refeições, não se surpreendeu ao se ver apenas na companhia de dois lacaios.
Ele planejara assim. Gostava das manhãs. O raiar do sol tornara-se para ele um milagre diário.
Uma cópia recém-chegada do London Times esperava por Tristan em cima da mesa de canto, porém Robert não fez caso dela. Não se importava com o que acontecia no resto do mundo, ou em Londres.
No aparador, encheu o prato com presunto e torradas e foi sentar-se na extremidade mais distante da mesa. Cortou uma fatia de presunto e a levou à boca no exato instante em que o mordomo entrou no recinto.
— Sr. Robert, há uma visita para o senhor.
Dawkins parecia pouco à vontade. Nenhum dos criados gostava de conversar com ele, embora ele fizesse questão de não puxar conversa.
— Não estou em casa. — Ignorando o batimento surdo do coração, introduziu o alimento na boca.
— Pois não, senhor — o mordomo aquiesceu. Quando Dawkins saiu, Robert voltou a comer. Havia muito não recebia visitas. Devia ter havido um mal-entendido. Na certa era alguém procurando Shaw. Dawkins apareceu no umbral da porta.
— Senhor, a srta. Barrett quer saber se deixa a caixa, ou se volta mais tarde para entregá-la.
— Srta. Barrett? — Ele pousou os talheres. — Que caixa?
— Não sei, senhor. Devo perguntar?
Robert empurrou a cadeira para trás e se levantou.
— Eu mesmo vou.
Lucinda Barrett se encontrava no saguão. Com o coração aos saltos, ele olhou o elegante gorro amarelo nos cabelos castanho-avermelhados, combinando com o vestido bege. Notou o caixote de madeira aos seus pés. A menos que estivesse enganado, a expressão nos olhos castanho-claros era de satisfação.
Robert se aprumou. Convidada ou não, ela era visita, e ele deveria falar primeiro.
— O que a senhorita veio fazer aqui?
Lucinda jogou para ele um par de luvas de jardinagem, as quais ele agarrou por reflexo.
— Pegue. — Agora ela apontava para a caixa. — E me acompanhe, por favor.
Ele quase obedeceu, mas estacou quando começava a se abaixar
— Não — decidiu, endireitando o corpo.
A srta. Barrett cruzou os braços sobre o peito em um claro desafio.
— O senhor foi ou não foi grosseiro comigo ontem?
— Por quê?
— Estou me vingando. — Com um sorriso leve e espontâneo, tocou a caixa com a ponta de um pé. — Venha comigo... São só alguns metros, e o que está dentro da caixa não vai mordê-lo. Isto é, se o senhor tiver cuidado.
Dawkins voltara para o corredor acompanhado dos dois lacaios. Uma aia espreitava do andar de cima, de onde Robert ouvia Edwards discutindo com seu professor particular sobre Madagascar
Ele deu de ombros, pousou as luvas em cima da tampa, abaixou-se e levantou a caixa.
Lucinda abriu a porta da frente antes de Dawkins. Sem nem sequer indicar que Robert a seguisse, ela desceu as escadas e tomou a direita no caminho para o jardim.
Por mais estranho que fosse, ali fora ele ao menos se sentia a salvo dos olhares curiosos lá de dentro. Acompanhou-a, vendo que ela caminhava, animada, em direção à cocheira. Ao passar do caminho para o gramado, levantou a saia para não molhar a barra.
— Aqui está muito bom. — Parou e girou o corpo em frente à parede externa da cocheira. — Bem ensolarado e protegido do tempo.
Lucinda o fitou, calçando seu próprio par de luvas.
— Ponha a caixa no chão...
Robert a olhou, imóvel. Mas ao vê-la calçando as luvas, tudo começou a fazer sentido. Por um instante, pensou em ir procurar Georgiana e agradecer-lhe com belas palavras...
Pôs a caixa no chão com cuidado e recuou.
— Passar bem, senhorita. Mas, da próxima vez, peça a um lacaio para trazer suas coisas. Bom dia.
— Robert! — Ele já se afastava. — Quando alguém dá de presente mudas de rosas raras e valiosas, o presenteado costuma agradecer!
Ele parou.
— Eu não pedi nada à senhorita.
— Por isso usei a palavra presente. Há também vários livros sobre cultivo de rosas. E, para as plantas não morrerem por falta de conhecimento, pensei em lhe dar uma breve aula introdutória, além de algumas instruções gerais.
Robert se voltou.
— Não quero suas rosas, suas instruções, nem sua maldita caridade — disse, ríspido.
Lucinda hesitou, e ele percebeu que, provavelmente, a tinha chocado.
Que fosse. Não gostava de surpresas.
— O senhor foi me ver, ontem — Lucinda começou, devagar, o olhar sustentando o dele. — Quando estive com Georgie, esta manhã, e ela falou das rosas, imaginei que fosse me pedir umas mudas. Assim, não é caridade: é a resposta a uma pergunta que o senhor não chegou a fazer
Ora, ela não se dava o respeito para aturar tanta estupidez?, Robert se perguntou, aturdido. Quando ele fora embora no dia anterior sem dar satisfação, perdera o direito de vê-la ou conversar com ela sobre qualquer assunto. Ao mesmo tempo, aquele presente, nome que ela preferiu usar, era uma faca de dois gumes. Para não ser um reles inválido aos olhos dela, teria de mudar o proceder, porque, além do mais, aquilo tudo era para ele, por ele.
— Na verdade, pensei em propor uma troca — mentiu, a mente célere buscando possibilidades.
— Troca? — Ela o fitou, cética. — Que tipo de troca? Era o que ele queria ter dito no dia anterior. Robert respirou fundo. A aproximação do pai dela fora o motivo que dera a si mesmo para ter ido embora repentinamente; mas fora mera desculpa. Ele havia se calado, pois não tinha certeza de poder realizar o que queria propor
É agora ou nunca, disse consigo. Se quisesse reingressar na sociedade, não poderia usar a família como muleta. Não o levariam a sério, nem ele próprio o faria. Mas Lucinda lhe dera uma motivação.
— Pensei que, se a senhorita me ajudasse a plantar um jardim de rosas, eu poderia ajudá-la com lorde Geoffrey Newcombe.
— Com Geoffrey? Como?
Praga! Agora ele precisaria de um plano real.
— Se a senhorita o quiser para fins letivos, ou mesmo para algo além disso, se eu estiver na sua companhia, os encontros parecerão eventuais. Georgie e lady St. Aubyn não podem ajudar muito, agora que estão casadas. Eu, por ser solteiro, posso prever as reações de Geoffrey, o que pode dar à senhorita uma certa vantagem.
Lucinda piscou, pensativa.
— O senhor me aconselharia e, quando necessário, me acompanharia em passeios e encontros, nos quais eu teria o único propósito de estar com lorde Geoffrey... É isso?
— Sim.
Até que o esquema o matasse, Robert completou em pensamento.
Lucinda caminhou lentamente até o caixote, apanhou o par de luvas em cima da tampa e o estendeu a ele.
— Vamos começar?
Tristan não encontrava a esposa. Ela saíra cedo para um breve afazer, ele sabia que ela já tinha voltado, mas não se encontrava no quarto, na sala de estar de cima, na enfeitada sala íntima das tias, tampouco na sala do café.
Maldição. Georgiana estava com quase oito meses de gravidez. Se não reduzisse o ritmo, ele iria levá-la à força para o Parque Dare, em Devon, se preciso.
— Georgiana!
— Shh! — O som vinha da biblioteca. — Estou aqui. Silêncio, por favor.
Mais do que curioso, o visconde entrou no recinto. Encostada na parede, ao lado da vidraça de uma janela entreaberta, a esposa espiava para fora,
— O que está fazendo?
Ela fechou-lhe a boca com a mão.
— Veja!
Tristan olhou na direção da cocheira e pasmou. Lucinda Barrett encontrava-se no centro de uma moita de capim com um livro aberto nas mãos. Do lado oposto, falando e gesticulando, e com um amontoado de folhas e espinhos nas mãos, estava Robert. Mesmo claudicante, este caminhava por um quadrado imaginário de uns cinco metros de lado.
— O que está acontecendo? — Tristan olhava o irmão fixamente.
— Pedi a Lucinda para trazer umas mudas de rosas — Georgiana respondeu no mesmo tom baixo. — Agora os dois estão conversando!
Georgiana deu o braço ao marido, apoiando-se em seu ombro, satisfeita.
Tristan continuou assistindo à cena. Robert estava distante de Lucinda, mas os dois interagiam. E ele a procurara na festa de Wellcrist.
— Georgie, ele... — Tristan tomou fôlego. — Lucinda gosta dele?
— Lucinda gosta de todo mundo — ela disse, rindo. — E todos gostam dela.
— Mas...
— Acho que ela não tem interesse em Bit, Tristan, se é isso o que está pensando. Lucie já tem alguém em vista.
— É melhor acabarmos com isso de uma vez.
— Não! — Georgiana o sacudiu. — Deixe-os em paz. Se você interferir, vai magoar Bit. Eles estão só conversando. E você não os viu, entendeu? Não sabe de nada!
Tristan suspirou. Queria proteger o irmão com cada fibra de seu ser. Faria tudo para vê-lo bem... mesmo que estivesse atrasado três anos.
Georgiana estava certa. Como sempre.
— Não vi nada e não sei de nada por enquanto — ele concordou, beijando-a no rosto. — E você também não. Mas me reservo o direito de interferir se necessário.
— Espero continuarmos na bem-aventurança de não saber de nada!
Ele a puxou da janela e a abraçou com um suspiro.
— Estou com um mau pressentimento.
— Tristan, Robert não estaria lá contra a vontade. Talvez esteja querendo voltar para nosso convívio.
— Tomara que tenha razão.
Robert ainda ouvia a srta. Barrett instruí-lo sobre que peixe produzia o melhor fertilizante para as rosas, quando olhou novamente para a janela da biblioteca. Georgiana e Tristan pensavam ser bons espiões. Georgiana planejara aquela visita de Lucinda, claro. Ele só esperava que aquela espionagem não tivesse por fim manipulá-lo.
Se ele fosse ainda tão espontâneo como o Robert de antes da guerra, aceitaria de bom grado o papel de casamenteira da cunhada e tentaria conquistar Lucinda. Ela lembrava uma brisa cálida em um dia frio.
Por mais que ele se sentisse atraído por sua serenidade, ela agora tinha outra pessoa em vista. Gostava de estar perto dela, mas resistia por não ser mais o Robert de antes. Agora era apenas Bit: um pedaço do que já fora.
Seria tolice negar que a achava muito bonita, quase medieval, com aqueles cabelos castanhos, olhos negros e pele macia. Os cabelos exalavam o aroma agradável das rosas. Imaginou-a banhando-se em um lago de pétalas vermelhas e, chocado, sentiu o corpo reagir. Fazia quatro anos que não tinha contato com uma mulher. Ele era agora um monge com um mosteiro próprio. Mas de uma religião na qual ao menos olhar era permitido.
— Por outro lado, peixe demais estraga a terra, sabia? — Lucinda o despertou do transe.
— Entendi.
Robert girou nas mãos o nodoso graveto de uma rosa felicité parmentier. Metade das mudas poderiam não vingar, Lucinda o alertara.
Fitou os brotos que tinha nas mãos. Aquelas coisas espinhosas, sem terra e raízes, já pareciam sem vida. Estariam mesmo vivas? Sentiam alguma coisa quando morriam?
— Acho que não foi uma boa ideia — falou de repente, apressando-se em devolver as mudas ao caixote.
— O que houve? — Ela o fitou, espantada.
— Não tenho tempo para isso. — Robert recuou, concentrando-se na própria respiração. Detestava quando o pânico ameaçava tomá-lo por causa de algum devaneio.
— Curioso... — A srta. Barrett inspirou fundo. — O general também não gosta de jardinagem.
Ele enrijeceu à menção do pai dela.
— Não que eu não goste...
— Então, nosso trato foi cancelado. — Ela pousou o livro no chão e retirou as luvas. — Combinado. Não houve danos para as partes.
— E quanto às suas mudas? — Robert a viu se afastar, dirigindo-se ao coche.
— Não tenho espaço para plantar um jardim novo. Jogue-as fora.
Lucinda subiu na carruagem, e ele se limitou a observar enquanto o veículo saía para a rua e desaparecia.
Estranho. Ela não se importava, mesmo, que ele desse fim às rosas? Algumas mudas eram raríssimas. Ou sabia que ele se aborrecera sem motivo e que não faria isso jamais?
Suspirou e, com o pé, empurrou o caixote para a sombra da cocheira. Foi até a casa, decidido a vestir uma roupa mais apropriada à jardinagem.
Algum tempo depois, quando terminou de limpar o capim e revolver a terra, Robert se lembrou que só dera duas mordidas em uma torrada no café da manhã, e que a hora do almoço já tinha passado. Assim, relutante, guardou a pá na cocheira.
Àquela hora da tarde não encontraria a necessária quantidade de peixe, pensou. No dia seguinte, a primeira coisa a fazer pela manhã seria ir ao cais do Tâmisa. As mudas, segundo Lucinda, poderiam alimentar-se da terra durante um ou dois dias, em temperatura amena.
Amarrou a tampa do caixote, apanhou os livros e voltou para o interior da casa. Estava certo a respeito de uma coisa: com o solo e as plantas não era preciso conversar, o que era uma bênção.
Da família, entretanto, não podia dizer o mesmo. Seus familiares costumavam procurá-lo várias vezes ao dia para perguntar se ele estava passando bem, se queria ir cavalgar, caminhar ou passear de carruagem. Curiosamente, passara boa parte daquele dia no jardim, e vira apenas uns dois cavalariços, o que significava que a família Carroway inteira sabia o que ele andara fazendo e não quisera interferir.
Enquanto não lhe pedissem explicações, enquanto fingissem que nada havia mudado, que ele não estava tentando sair do poço sem fundo onde se encontrava desde seu retorno à Inglaterra, ele seria solidário com o subterfúgio.
A parte difícil era decidir se assumia ou não, para Lucinda, que ele resolvera cultivar as rosas. Porque, assim que ela soubesse, ele seria obrigado a cumprir sua parte no trato.
E este era o verdadeiro teste: saber se ele era ou não capaz de voltar a ser humano.
Tomara pudesse saber a resposta dessa questão antes de tentar prová-la... Tomara conseguisse se convencer de que não ligava para o que Lucinda pensava dele.
Lucinda entrou esbaforida na Mansão Barrett, subiu correndo a escadaria e foi vestir-se mais apropriadamente para a visita. Segundo o general, lorde Geoffrey viria depois do almoço, mas, como ela demorara além do previsto na Mansão Carroway, só teve tempo para o pêssego que a aia foi correndo buscar na cozinha.
Quanto a Robert Carroway, ela tomara a melhor decisão possível. Recusava-se a se culpar por tê-lo abandonado. Dependeria dele decidir se queria ou não o jardim, pois não era nenhuma tola: para ele, aquilo era muito mais do que um simples projeto.
O quê, precisamente, ela não sabia. Mas, agora que convivera um pouco mais com Robert, agora que vira as mal-assombradas profundezas daqueles belíssimos olhos azuis, esperava que o presente o socorresse.
Lucinda flagrou-se diante de seu próprio reflexo, que até então olhava cegamente no espelho da penteadeira, e sacudiu-se para espantar o devaneio.
Quando Helena travou o fecho do colar, ela ouviu a porta da frente abrir-se, lá embaixo, e a voz suave e melodiosa de lorde Geoffrey responder à saudação de Ballow.
Seu coração acelerou. Ele chegara, e as aulas iriam começar
Demorou-se um pouco mais, de propósito, amaciando alguns caracóis nos cabelos e escolhendo uma estratégia. Precisaria de mais tempo para a trama, porém o encontro com Robert exaurira sua sagacidade e atenção. Nunca imaginara que conversar com alguém que falava tão pouco fosse tão... interessante.
Ouviu uma batida na porta.
— Srta. Barrett... — Era o mordomo. — Seu pai pede sua presença no escritório.
— Já estou indo.
Concentre-se, Lucinda. Aquela visita, ao contrário do encontro com Robert, não era apenas social: definiria seu futuro estado civil!
Com um suspiro, ela acompanhou Ballow ao andar térreo, tentando livrar-se dos eventos da manhã, e entrou rápida e silenciosamente no escritório do pai.
— Boa tarde, papai, lorde Geoffrey... — cumprimentou-os com uma mesura.
— Srta. Barret. — O filho do duque de Fenley retribuiu levantando-se da poltrona e tomando-a pela mão. — O general Barrett disse-me que a senhorita concordou em tomar notas de nossa atividade.
— Concordei, sim. — Ela o contornou para beijar o pai, em seguida acenou para que se sentassem. — Vou ficar perto da janela, assim não atrapalho o trabalho de vocês.
— Tolice. — Lorde Geoffrey puxou a cadeira ao lado.
— Minhas histórias são sempre melhores quando há platéia.
Enquanto Lucinda se sentava com lápis e papel nas mãos, o general abriu suas anotações com rasgos e manchas de água e fogo de Salamanca.
— A cozinha do maldito navio que me trouxe à Inglaterra, depois que Napoleão foi para Elba, pegou fogo — resmungou, folheando as páginas com cuidado.
— Meu diário de Pamplona foi totalmente destruído, só porque um coronel infeliz quis comer uma torrada para curar o enjoo.
— Espero que o senhor o tenha rebaixado. — Lorde Geoffrey sorriu. — Quanto a Pamplona, também presenciei alguma atividade lá. Não tanta quanto o senhor, certamente, mas meu testemunho está à sua disposição, caso precise.
— É muita generosidade sua, milorde.
— Pode me chamar de Geoffrey, por favor... Com três irmãos mais velhos, minhas chances de herdar algum título são quase nulas.
— Nesse caso, será Geoffrey. — O general sorriu de volta. — Salamanca foi seu primeiro combate, não?
— Sim, e em grande estilo, se assim posso dizer A bala de um mosquete francês arrancou meu quepe dois minutos depois do início dos combates.
Lucinda ouviu a conversa dos dois, anotou datas, condições do tempo, movimentação dos soldados e observações pessoais. Podia quase sentir o calor da batalha, ver a fumaça, o avanço e recuo dos soldados, enquanto Wellington ofuscava as forças do marechal Auguste Marmont, comandante do Exército de Portugal.
Soltou uma exclamação ao ouvir Geoffrey contar que quase fora arrastado pela correnteza quando seu batalhão atravessara o rio Tormes durante um temporal, já quase no fim da batalha.
— Peço desculpas — murmurou quando os dois olharam para ela. — É que a narração estava tão viva!
— Só espero não horrorizá-la com meus relatos — Geoffrey comentou, preocupado.
Uma oportunidade.
— Asseguro, milorde, que, apesar de nunca ter estado em combate, li todas as anotações e toda a correspondência de meu pai, além dos rascunhos desses capítulos. Também prestei serviços voluntários logo depois da guerra em alguns hospitais. Como filha do general Augustus Barrett, cresci em contato com conflitos.
— E com o dom de relatá-los — o pai a ajudou, com um sorriso afetuoso.
— Submeto-me à sua correção — Geoffrey concedeu —, embora, para ser franco, e creio que seu pai concordará com meu ponto de vista, haja certos aspectos de uma batalha que um cavalheiro não deve contar a uma dama. Afinal, que sentido teria a guerra se não o de preservar a paz e a serenidade em casa?
— Muito bem colocado, Geoffrey — o general anuiu. — Você se incomoda se Lucinda anotar sua frase?
— De modo algum. — Geoffrey retirou do bolso um relógio, cuja hora conferiu com a que marcava o do aparador. — Sinto, general, mas tenho uma reunião com meu contador às quatro.
— Ora! — O general marcou a página do diário e fechou-o com cuidado. — Foi um bom começo. Podemos continuar nossa discussão na terça-feira, no almoço? Minha cozinheira faz um delicioso frango assado.
— Será um prazer. — Geoffrey lançou um olhar caloroso a Lucinda.
— Combinado? — Lucinda perguntou, levantando-se.
— Sem dúvida.
Quando Geoffrey a tomou pela mão novamente, demorou-se um pouco mais que de costume. Estava tudo indo tão bem! E teriam oportunidade ainda melhor para conversar no jantar de Evelyn e St. Aubyn, em alguns dias.
— Bom rapaz. Muito correto — o general comentou quando Geoffrey voltou a seu cavalo e, a meio-galope, tomou a estrada.
— Parece que sim.
— E ainda é capitão, embora não em serviço ativo. Se Napoleão tivesse vencido em Waterloo, lorde Geoffrey seria major. Talvez tenente-coronel. Atitude para tanto ele tem de sobra. Mas não há guerras suficientes.
Por um instante fugaz, um par de confusos olhos azuis visitou o pensamento de Lucinda.
— Ah, já basta de guerra! Que bom que o senhor está trabalhando na Guarda Real Montada e escrevendo suas memórias em vez desses diários horríveis.
— Claro, claro, minha menina. — O general se voltou para os papéis na escrivaninha, onde, ela sabia, ele passara quase a noite toda esboçando o capítulo seguinte de seu livro. — De qualquer modo, gostei da colaboração de Geoffrey.
— Eu também. — Lucinda dirigiu-se à biblioteca. Queria procurar o mapa da Espanha e localizar a cidade de Salamanca.
Perguntou-se se Robert teria combatido ali, se teria as mesmas lembranças de Geoffrey e do pai... E se ela teria a coragem de perguntar-lhe tal coisa.

Quando Robert vestia o sobretudo e as luvas de cavalgar, ouviu os passos abafados de Edward descendo as escadas atrás dele. Praga. Por isso ele preferia cavalgar à meia-noite, e não durante o dia.
— Aonde você vai? — o irmão caçula perguntou.
— Tenho coisas a fazer.
Apanhou o chapéu nas mãos de Dawkins e enfiou-o na cabeça, notando o olhar de reprovação do mordomo diante do comprimento de seus cabelos.
— Você sempre diz isso — Edward reclamou. — Também quero ir!
— É muito maçante. — Incomodado, ele esperou Dawkins abrir a porta da frente.
— Mesmo assim, quero ir. Shaw vai a um piquenique com uma moça, Tristan vai ao Parlamento, e Georgie foi fazer compras.
Com Lucinda Barrett, se bem ouvira.
— E o sr. Trost? — ele perguntou, mesmo sabendo que era dia de folga do professor particular.
— Foi visitar a mãe. E eu não vou fazer dever de casa à toa.
Robert desejou que seu outro irmão, Andrew, não adiasse por mais outra semana seu regresso de Cambridge.
— Pegue seu casaco — falou com um suspiro.
— Oba! — Edward correu escadaria acima, mas parou de repente. — Bit, você não vai sair sem mim, vai?
— Não. — Ele pensara na hipótese. — Estarei na cocheira... Vou mandar selar Tolley e Tempestade.
— Desço já.
Robert saiu. Enquanto esperava os cavalos, inspecionou seu projeto de jardim. O dissimulado desconhecimento que a família manifestava quanto ao seu quadrado de terra capinada prosseguira durante o jantar e o apressado café da manhã, porém ele duvidava que conseguissem impedir Edward de manifestar-se a respeito.
Moveu o pescoço com uma careta. Fora dormir cansado e acordara com o sol, com os músculos dos ombros doloridos, ainda que surpreso e agradecido por ter dormido a noite inteira e não se lembrar de ter sonhado. Este fato, por si só, estimulava-o a continuar cultivando o roseiral.
Montou Tolley quando viu Edward sair correndo porta afora.
— Aonde nós vamos? — Edward perguntou, pondo um pé nas mãos de João Cavalariço para impulsionar-se para a sela de Tempestade.
— Ao rio.
Saíram a meio-galope e rumaram para o sudeste. Ao chegarem a Pall Mall, Robert refreou o impulso de galopar com Tolley. Ainda era cedo, porém Mayfair já se encontrava repleta de gente. Vendedores de leite, frutas, verduras, legumes, lenha e carvão, carroceiros comprando e vendendo de tudo, criados, meninas oferecendo laranjas, além de alguns nobres madrugadores, povoavam as ruas empurrando-se, gritando e até cantando.
— Por que temos que ir ao rio?
— Peixes.
— Vamos pescar?
O entusiasmo de Edward incomodou Robert, que dissimulou o mau humor
— Não, preciso de peixe fresco para o jardim.
— Peixes para o jardim, Bit?!
— É fertilizante para rosas. Na teoria, ao menos.
— Que maçada...
— O que foi?
— Desculpe, mas não posso perguntar nada sobre o seu jardim, nem mencionar a palavra "rosa".
Robert comprimiu os lábios.
— Ordem de quem?
— De todos. Primeiro de Georgie, depois de Tristan e Shaw. Já estou até com raiva de rosas.
— Se tivermos sorte, antes do meio-dia você também vai detestar peixes.
— Posso ajudar você com o jardim? Ah... Georgie disse para eu não perguntar isso também.
Quando saíram de Mayfair, as ruas estavam ainda mais populosas. O peito de Robert começou a se apertar e ele se esforçou para manter constante a respiração. Se sucumbisse ao pânico ali, impossível dizer o que seria de Edward. Precisava se distrair enquanto ainda conseguia se controlar
— Quer me ajudar no jardim? — perguntou, ofegante. — Pensei que preferisse cavalgar com Shaw ou Tristan.
— Gosto de cavalgar com você também. Quase não usa a rédea com Tolley! Quero aprender a cavalgar assim com Tempestade. E já que os outros não querem nem falar nesse jardim, eu ajudo você. Não tem por que fazer tudo sozinho.
— Obrigado, Miúdo.
Edward sorriu, satisfeito com a perfeição de seu mundo. Robert o invejou. Já se sentira assim. Agora, no entanto, a consciência do quanto perdera só piorava as coisas. Era como se jamais fosse conseguir enxergar a luz.
— Aquele ali é um peixeiro? — Entusiasmou-se o menino.
Robert desmontou e claudicou até um homem de pele curtida, junto a uma carroça maltratada pelo tempo.
— Preciso comprar peixe.
— Pois não, milorde, tenho todos bem fresquinhos: bacalhau, cavalinha, eperlano...
— Quero duas dúzias — Robert interrompeu, esperando que a mercadoria cheirasse melhor que o vendedor.
— Pois não, milorde. De que tipo?
— Deste tamanho. — Ele levou as mãos a uns trinta centímetros uma da outra.
— Os mais saborosos são mais caros, senhor...
— São para usar como fertilizante! — interveio Edward.
— Fertilizante? Vai misturar uma pesca desta com terra? — o homem protestou. — Se espalharem por aí que meu peixe só serve para enterrar, ninguém vai...
— Nós todos seremos enterrados — contrapôs Robert, suando. Precisava voltar para casa. E logo. — Quanto é?
— Dez xelins.
— Oito. — Robert apanhou as moedas no bolso. O homem torceu o nariz, porém nada disse.
— Vamos, Miúdo — Robert comandou, amarrando a saca de tecido com os peixes no arção.
Minutos depois, notando que Edward estava quieto demais, o que não era de seu feitio, olhou para o irmão. O menino, com os lábios cerrados, olhava fixamente para as orelhas de seu cavalo.
— O que foi, Edward?
— Você não devia ter dito para o peixeiro que nós todos vamos ser enterrados. Não devia ficar pensando essas coisas.
Robert segurou o ar. Seria mais fácil se Edward o visse como um doente e fracassado, como os demais.
Um lampejo do sorriso de Lucinda Barrett atravessou-lhe o pensamento, vindo do nada.
— Peço desculpas. Não estou me sentindo bem...
— Lembro-me de quando você voltou para casa depois da guerra contra Napoleão — o irmão o interrompeu abruptamente. — Shaw disse que você ia morrer, mas eu sabia que não.
— Como sabia que não?
— Por causa da carta que você me escreveu, dizendo que iria me ensinar a pular cerca quando eu tivesse idade. Andrew tentou me ensinar no ano passado, quando você estava na Escócia, mas eu quero que você me ensine.
Robert engoliu em seco. Esquecera-se da carta. Fora a última que escrevera. Ele a havia colocado no saco do correio na noite em que tudo mudara. Na noite em que aquele inferno havia começado. Enfim, avistaram a casa.
— Deixe que Andrew o ensine — resolveu, antes de fustigar Tolley com o pé e sair a galope.
Ao chegarem à cocheira, Robert desmontou, apanhou o saco de peixes e o jogou ao lado do caixote de mudas. Foi para casa e abriu a porta com um empurrão antes de Dawkins.
— Ei, por onde você andou? — Tristan saiu de seu escritório para interpelá-lo.
— Por aí. — Robert ignorou o olhar zangado do irmão e se dirigiu à escadaria.
— Com Edward?
— Sim.
— Não pode sair a cavalo com Edward sem avisar aonde vai — Tristan o repreendeu.
— Está bem.
— Robert, ainda não terminei!
Já, no que lhe dizia respeito, ele decidiu. O pânico o tomava de novo, cravando-lhe pesadas garras no peito, dificultando a entrada de ar nos pulmões.
— Maldito — sibilou, irrompendo quarto adentro e batendo a porta com força. — Chega, chega, chega!
Então Edward confiava nele por causa de uma carta boba. Ele se lembrava. Tinha falado do frio que fazia quando atravessaram a fronteira da Espanha e chegaram à França, e que ele estava otimista pois diziam que Napoleão havia abdicado. A guerra terminara, todos pensaram. Assim, pensava voltar para casa em breve, na esperança de que seu regimento não estivesse entre os convocados para permanecer na região e implantar a paz. O regimento havia ficado, mas ele, não.
— Robert!
Ignorou Tristan batendo à porta. Mal o ouvia, na verdade, enquanto andava de um lado a outro, no quarto, tentando suplantar a escuridão que o perseguia.
Preenchera formulários, pedindo licenças que foram concedidas. De seu regimento, os que sobraram pensavam que ele tivesse regressado à Inglaterra. Sua família pensava que ele ainda estivesse na Espanha.
— Robert, abra a porta! Não estou brincando!
A raiva e o medo na voz de Tristan o trouxeram de volta ao presente. Robert apressou-se em abrir a porta com um puxão.
— Eu não faria nada que pusesse Edward em perigo — declarou com voz áspera.
Se Tristan tinha mais alguma coisa a dizer a respeito, não disse.
— Está muito pálido, Bit.
— Vá embora! — Robert bateu a porta de novo. Instantes depois, ouviu o som das botas de Tristan se afastando.
Tentou inspirar novamente. Sentia-se estrangulado.
Quando ia recomeçar a andar, viu as roupas de jardinagem que deixara estendidas em uma cadeira. Precisava enterrar os peixes antes que os gatos de Mayfair se atraíssem pelo cheiro. Se não plantasse as mudas naquele dia, melhor seria aceitar a sugestão de Lucinda e jogá-las fora.
Suas mãos tremiam quando ele tirou a casaca e a pendurou em um dos pilares da cama. Tristan insistira em contratar para ele um criado pessoal, pois, obviamente, não entendia que era de suma importância que ninguém tivesse livre acesso aos seus aposentos, às suas coisas. Vestir-se e cuidar dos próprios pertences era uma das poucas maneiras que ainda tinha para se provar como homem.
Quando, enfim, calçou o velho par de botas e pegou as pesadas luvas que Lucinda lhe emprestara, surpreendeu-se ao perceber que os desesperados batimentos de seu coração haviam acalmado. Sentia-se quase normal.
Arriscou olhar em volta ao abrir a porta do quarto e sair para o corredor. Ainda sentia os efeitos do pânico: o cansaço, o tremor. Mas, desta vez, ele contra-atacara. Pela primeira vez, não deixara a escuridão vencer.
E isso ele devia as rosas... e à srta. Barrett.
Lucinda diminuiu inevitavelmente o passo quando chegou com o general à escadas frontais da Mansão Harlboro. Antes de Evelyn se casar com St. Aubyn, cruzara aquele limiar apenas uma vez, mas não se atrevera a passar do saguão.
Agora, no interior da mansão onde, até poucas semanas, damas virtuosas temiam pôr os pés, ela chegava à vontade para um jantar íntimo com a família, amigos e um potencial futuro marido.
— Sejam bem-vindos, general Barrett, srta. Barrett. — O mordomo os conduziu pela casa. — Lorde e lady St. Aubyn estão na sala de visitas.
— Obrigada, Jansen.
A porta da sala encontrava-se entreaberta. A tempo, Lucinda se lembrou de que Evelyn e St. Aubyn estavam casados havia apenas um mês, e tossiu discretamente.
— Boa noite! — Evelyn sorriu, beijou Lucinda e os trouxe para o interior do aposento. — Vocês são os primeiros a chegar.
St. Aubyn posicionou-se ao lado de Evelyn, acariciando-a possessivamente nas costas.
— E na hora exata. Eu estava quase ganhando uma discussão.
— Não estava, não. — Evelyn ruborizou.
— Continuamos depois... — ele insistiu, os olhos verdes fixos nos dela. — General Barrett, posso desafiá-lo para um jogo de bilhar? Imagino que as damas queiram conversar.
— Considerando a amizade entre Lucinda e Evelyn, é melhor me chamar de Augustus.
— Ao que parece, entrei para uma família maior do que eu esperava — o marquês respondeu, simpático. — Assim seja. E, se eu ganhar, o senhor pode me chamar de Santo. Na improvável hipótese de eu perder, insisto que me trate por "Supremo Lorde Beneficente, Marquês de St. Aubyn".
Augustus riu.
— Não pense que isso irá me desequilibrar, meu jovem...
Lucinda observou os dois se afastando.
— Ainda não consigo acreditar.
— No quê? — Evelyn sentava-se no sofá.
— No Supremo Lorde Beneficente. — Ela sorriu. — Quero dizer, em Michael Harlboro. Sei que ele teve que se esforçar para conquistá-la, mas... Evie, você se casou com o marquês de St. Aubyn!
— Minha mãe também se recusa a acreditar... — Evelyn fez uma careta. — E meu irmão quase não fala conosco.
— Eu sei. Sinto muito.
— Eu, não. Michael acha que me incomodo, mas não me importo, juro. Eles têm que aceitar que sou corajosa, independente, e que eu e Santo nos amamos na mesma medida. Para chegar onde estamos foi preciso muito esforço.
— Acha que estou agindo de má-fé? — Lucinda perguntou abruptamente. — Responda com sinceridade, por favor.
Evelyn segurou as mãos da amiga, indicando que se sentasse, e a fitou nos olhos.
— Na verdade, ter um propósito e tomar as providências necessárias para realizá-lo não é agir de má-fé.
— Eu me referia ás aulas.
— Claro que não, Lucie. Quando nos decidimos pelas aulas, naquele dia, estávamos apenas exprimindo uma certa... insatisfação com nossas vidas.
— Eu não preciso de marido para ser feliz — Lucinda retrucou.
— Eu não quis dizer isso. — Evelyn soltou um suspiro.
— Estou feliz com Santo, mas também porque minha família não controla mais a minha vida.
— Talvez seja isso o que está errado comigo — Lucinda ficou mais calma. — Não tenho uma ambição que me impulsione. Só quero ver o general bem cuidado, e impedir que o caos domine minha vida.
— Ainda bem que não se apaixonou por lorde Dare. — Evelyn riu.
Uma visão fugaz do problemático irmão de Dare franziu o cenho de Lucinda, mas ela se recompôs antes que a amiga percebesse. Para quem queria evitar confusão, porém, estava dedicando tempo demais a um certo par de olhos azul-escuros.
— Ou por Santo, já que estou começando até a gostar dele — provocou, bem-humorada.
— Só porque você não quer a mesma coisa que eu e Georgiana, não quer dizer que esteja agindo de má-fé.
Lucinda olhou demoradamente para a amiga.
— Tenho que pedir desculpas a você, Evie.
— Por quê?
— Sempre foi uma grande amiga: generosa, leal... Mas eu não tinha percebido que agora, além de tudo, é sábia.
— Perdi muita coisa? — Georgiana perguntou da porta. — A culpa é de Tristan. Ele insistiu para que eu...
— Com licença, senhoras — o visconde a interrompeu, beijando-a na nuca. — Onde estão os outros varões, por favor?
— Tristan!
— No salão de bilhar — Evelyn respondeu, achando graça.
— Oba! — A voz de Edward ressoou no fim do corredor — Santo vai me ensinar a roubar!
— Edward Carroway, você não vai... — O alerta de Georgiana sumiu sob o estrépito das botas.
— Eu não invejo Georgie às vezes — Evelyn comentou, ainda rindo.
— E Andrew está para chegar a Londres a qualquer momento. A pobre terá que se ver com cinco varões Carroway! — Lucinda sorriu.
Flagrou-se pensando se um deles viera com os demais, porém logo afastou o pensamento. Tinha outras coisas em que se concentrar. Como dissipar possíveis suspeitas de Geoffrey quanto ao porquê de ele ter sido convidado para o encontro. Isto é, se ele viesse.
— Evie, está esperando mais alguém? — perguntou em voz baixa.
Os olhos cinzentos de Evelyn sorriram.
— A qualquer momento.
Em perfeito sincronismo, um vulto alto e moreno preencheu o vão da porta do estúdio. Lucinda olhou, esperando ver Geoffrey, mas o par de olhos azul-escuros que a fitavam só podiam pertencer a um homem.
— Robert! — Ela se surpreendeu com o fôlego de sua exclamação, mas, ora bolas, não esperava encontrá-lo ali.
— Lady St. Aubyn — ele cumprimentou em voz baixa.
— Srta. Barrett.
— Sr. Carroway. — Evelyn também se sentiu desconcertada. — Que bom que o senhor veio... Venha sentar-se conosco.
Ele pousou o olhar em Lucinda.
— Posso trocar uma palavra com a senhorita primeiro?
— Claro.
Ela se levantou, evitando o olhar curioso de Evelyn, e acompanhou Robert à relativa calma do corredor.
Ele vestia cinza, exceto pela gravata branca de laço simples. A cor e a luz tênue traziam para seus olhos um tom sombrio. Mais uma vez, ela teve a inquietante sensação de que ele lia seus pensamentos.
— Plantei as mudas — Robert falou abruptamente. — Com os peixes.
— Plantou? Que bom!
— E tenho um trato com a senhorita. E essa, agora!
— Robert, seu oferecimento foi muito gentil, mas... Ele estendeu a mão e a tocou no rosto, os dedos deslizando por sua pele como se ela fosse evaporar.
Um tremor percorreu a espinha de Lucinda. Aceitando ou não as rosas, não esperava que Robert mencionasse o trato novamente. E também jamais esperara emocionar-se ao ser tocada por ele.
Fitou os graves olhos azuis.
— Robert...
— Boa noite, Lucinda. — A voz suave de Geoffrey se arrastou próxima à entrada. — Carroway... Estou surpreso em vê-lo aqui.
Robert abaixou a mão. Só então Lucinda percebeu que ele já havia percebido a aproximação de Geoffrey, e agira com a intenção de provocá-lo. Olhou para Lucinda, moveu o olhar para o lorde, e sumiu corredor afora, na direção do salão de bilhar
— Interessante. — Geoffrey a tomou pela mão e se curvou.
— Sim. — Lucinda engoliu em seco. — É um amigo meu.
— Percebi. A senhorita me ajudaria a encontrar o casal anfitrião?
— Claro. Por aqui.
Geoffrey ofereceu o braço, e ela o aceitou antes de se dirigir ao estúdio. Quão estranha aquela noite se tornara! Havia cinco minutos, seria capaz de apostar que Robert Carroway não ousaria vir à Mansão Harlboro, e que, mesmo determinado a ajudá-la, sua proposta seria inútil e indesejada.
Pois estava enganada nos dois casos, ao que parecia.
Levou a mão ao rosto furtivamente e tocou o lugar acariciado. A pele parecia sensível e estranha.

Robert inspirou, abriu a porta do salão de bilhar e entrou. O murmúrio grave das vozes masculinas o atingiu. Todos pareciam falar ao mesmo tempo. Depois, discerniu os tons mais agudos e suaves de Georgiana que, como sempre, tentava amainar o caos. Olhou para a cunhada principalmente para ganhar tempo, antes de encarar o homem no fundo da sala. Passara o dia se lembrando do pacto com a srta. Barrett, e dizendo a si mesmo que, para cumpri-lo, não poderia restringir-se às paredes da Mansão Carroway, não importando quem encontrasse pelo caminho.
— Você promete, Santo? — Georgiana insistia.
— Prometo. Só vou ensinar habilidades que sejam socialmente aceitas.
— Georgie, você vai me prejudicar! — reclamava Edward.
— Não vou, não. O que estou tentando é precisamente não prejudicá-lo. — Ela beijou o rosto de Tristan e se dirigiu à porta.
Robert se moveu de lado para evitar a colisão.
— Georgiana — cumprimentou-a, abrindo a porta para ela.
Ela o tocou no braço, carinhosa, antes de deixar o recinto. O pouco que conhecia dele, fora ele mesmo quem revelara. Ela contara a Tristan, claro, porém o assunto havia ficado apenas entre eles e os irmãos. Afinal, que família iria querer que soubessem que seu valente soldado não fora ferido em Waterloo e que, muito pelo contrário, nem sequer participara da batalha? Que passara sete meses preso e que não tomara parte nas duas rendições de Napoleão Bonaparte? Que desculpas dariam para tudo isso?
Robert tomou fôlego. E o que diria sua família se soubesse toda a verdade sobre aqueles sete meses?
Estremeceu e, intencionalmente, olhou para o homem a quem, ao menos durante um certo período, pensara em matar.
— Não se preocupe, rapazinho — o general Augustus Barrett dizia a Edward. — Eu não prometi nada... Fique perto de mim e aprenda como se faz.
Quando Geoffrey entrou no salão nesse mesmo instante, Robert se distanciou um pouco mais da aglomeração, e não se surpreendeu quando o general se adiantou para ser o primeiro a cumprimentar Newcombe.
— Geoffrey... Já conhece todos, não? — Barrett trocou um aperto de mãos com o quarto filho do duque de Fenley. — Nosso anfitrião, lorde St. Aubyn, e...
— Santo — o marquês interrompeu com um sorriso cordial.
— Claro — Geoffrey respondeu. — Agradeço o convite, embora inesperado.
— Gosto de surpresas — retrucou St. Aubyn, algo cínico.
O general prosseguiu com as apresentações:
— Todos os demais são da família Carroway. Tristan, lorde Dare, e seus outros irmãos: tenente Bradshaw, infelizmente na Marinha, Edward e...
— Pode me chamar de Miúdo — Edward interveio, orgulhoso. Sou o caçula.
— Miúdo — Geoffrey confirmou com um solene aperto na mão estendida de Edward.
— E aquele outro é Robert — general Barrett finalizou, quase sem olhá-lo.
Geoffrey o fitou.
— Sim, já fomos apresentados.
Robert inclinou a cabeça, ainda atento ao general. Então era isso o que ele era para Barrett: "aquele outro". Ao menos o desprezo era recíproco.
— Obrigado — uma voz gutural se insinuou ao lado. Era Santo, apoiado no taco de bilhar.
— Pelo quê? — Bit quis saber
— Como sou novo no grupo, pensei que fosse a mim que estivesse evitando em nossos vários encontros — explicou o marquês. — Mas não sou eu, não é? É Barrett.
— Não sei sobre o que está falando.
St. Aubyn aquiesceu com um gesto de cabeça.
— Mesmo assim, vou providenciar algumas alterações nas posições da mesa do jantar. Evelyn o colocou ao lado de Augustus.
Robert cerrou o maxilar. Só faltava essa! Viera motivado a ajudar Lucinda, não pensara na disposição dos assentos. Em suas visitas, sempre breves, nunca fora convidado a permanecer para o jantar.
— Se é assim, agradeço.
— Você serviu no Dreadnought? — Geoffrey perguntava a Bradshaw.
— Servi. Travamos mais de dez batalhas durante a guerra.
— Dez batalhas? — o general Barrett, que ainda instruía Edward, olhou para os dois. — Quantas delas foram para bloquear as investidas das barcaças francesas?
— Algumas. — Shaw forçou o sorriso ao responder.
— Quantidade suficiente para promover Shaw a capitão. — Edward manteve sua lealdade.
— Parabéns, Carroway — Geoffrey interveio. — Eu devia ter tentado a sorte na Marinha.
— Bobagem, rapaz. Há muito mais oportunidade de ascensão no Exército.
— Bit conheceu Wellington — Edward acrescentou, alinhando a tacada seguinte.
Um par de olhos cinzentos se voltou para Robert.
— Claro que sim — o general concedeu. — Sua Graça sempre fez questão de visitar os oficiais feridos.
— Foi antes disso — contestou o menino. — Eles tomaram uísque juntos!
— Verdade? — Geoffrey o interpelou, cínico. — Por que não nos brinda com o episódio, Carroway?
— Não — Robert volveu, sustentando o olhar. Tristan e Bradshaw moveram-se à frente ao mesmo tempo.
— Sua vez, Miúdo — o visconde avisou, colocando-se estrategicamente entre Robert e Geoffrey.
— Quero deixar claro que estou perdendo porque sou um anfitrião generoso — St. Aubyn intercedeu, deslocando-se, por coincidência ou não, para impedir que Robert e o general Barrett vissem um ao outro.
O mordomo de Harlboro entrou solene no recinto, fez um breve aceno com a cabeça para St. Aubyn e fechou a porta.
— O jantar está na mesa!
Quando todos começaram a se deslocar para ir ao encontro das damas na sala de visitas, Edward encontrou Robert e cochichou-lhe:
— Quem eu acompanho?
Robert calculou depressa. Com três damas presentes, a Newcombe caberia acompanhar uma dama convidada, no caso, Lucinda Barrett.
— A mim.
— Ótimo — o menino agradeceu. — Que bom que você veio, se não eu teria de me acompanhar sozinho!
Robert sorriu. Ao menos alguém estava contente com sua presença.
Ao se aproximarem de Shaw, no fim da fila que ia em pares para a sala de jantar, Robert teve que modificar tal pensamento. Georgiana sorria para ele, e Tristan e Bradshaw olhavam-no disfarçadamente.
Muito bem, todos os Carroway estavam contentes por ele ter aguentado até o jantar. E, talvez graças a eles, suportasse aquele tormento a noite inteira.
Olhou para Lucinda, que examinava o perfil de Geoffrey. Se ele fosse Geoffrey, não teria perdido tempo no salão de bilhar. Porém, se pensava em se comparar ao filho de Fenley, a ideia dissipou-se assim que soube onde St. Aubyn resolvera sentá-lo.
— Srta. Barrett. — Ele tomou o assento ao lado dela, o coração aos saltos.
Lucinda estava tão elegante e, ao mesmo tempo, tão à vontade! Uma sensação que ele jamais esperava experimentar outra vez. Conjeturou se ela, embora tivesse aparentado vontade de conversar com ele, preferia não ter ido ao seu encontro no corredor quando de sua chegada à mansão.
Não. Sua respiração parecera paralisar quando a tocara no rosto. Ele sabia que sim, pois sentira o próprio coração quase parar. Seria um sinal de que ainda não estava inteiramente morto por dentro? Ou estaria simplesmente obcecado por Lucinda Barrett?
A quem pretendia ajudar, afinal? A ela ou a si mesmo?
Fosse quem fosse, ele precisaria elevar-se de "mudinho" a rival. Já iniciara o processo, mas um toque, por mais macio e paralisante que houvesse sido, não bastava a seus intentos.
Esperou a conversa se animar à volta deles.
— Ocorreu-me que se eu soubesse o conteúdo de sua lista... — começou, em voz baixa.
— Não... Não! — ela sussurrou, nervosa.
Você vai conseguir, ele disse consigo, depois forçou um sorriso.
— Se não contar, vou adivinhar de qualquer modo. Lucinda sorveu um longo gole do vinho Madeira.
— Robert, agradeço seu oferecimento, mas não preciso de sua ajuda. Considere as mudas de rosas como um presente apenas.
— E se eu disser que Geoffrey apenas se considera um herói, e que essa opinião que ele tem de si mesmo é que convenceu a todos? — murmurou, ousado.
Ela o olhou de lado, depois olhou Geoffrey, que conversava, absorto, com o general ali perto.
Ora, ora. Não era à toa que Evelyn lançava furiosos olhares para o marido. Evie a sentara ao lado de Geoffrey, mas St. Aubyn mudara os lugares e pusera o "mudinho" ao lado dela... Robert devia um favor a Santo, aparentemente.
— Lorde Geoffrey está colaborando com meu pai na recriação de algumas partes dos diários de guerra, o que mostra que a situação está sob controle.
— Muito bem. Diga-me um item de sua lista e paro de importuná-la.
Ela cerrou os lábios macios. Ao menos ele os imaginava macios.
— Um item — insistiu.
— Está bem. — Lucinda pousou o guardanapo no regaço. — Conto um item se me disser uma coisa.
Um frio agarrou-lhe o peito. E se ele não soubesse responder e voltasse àquele silêncio profundo, onde falar lhe era impossível? Levara um ano para sair daquele poço, para onde não voltaria por nada ou ninguém neste mundo.
— Trato feito ou não? — Foi a vez de ela insistir.
Calma, Robert pensou, repetindo seu mantra predileto. Lucinda fizera um desafio muito simples, e esperava que ele o aceitasse ou recusasse, como qualquer ser humano normal.
— Feito — conseguiu dizer em voz baixa e rouca.
— Mesmo?
A expressão de Robert se enterneceu e produziu um sorriso fugidio, que se expandiu para os olhos cor de cobalto. A respiração de Lucinda paralisou. Se ele não estivesse em tão mau estado, seria irresistível.
— Não esperava que eu concordasse — ele afirmou.
Lucinda flagrou Geoffrey olhando para os dois. Uma tolice tramar com Robert... Aquilo só iria retardar seus planos para Geoffrey; talvez até colocá-los em risco. Bem no íntimo, porém, Robert Carroway a intrigava.
— Verdade, eu não esperava — confessou, e em um só fôlego, evocou sua lista: — Muito bem, eis a primeira lição, mais ou menos: "Ao conversar com uma dama, preste atenção nela. Não aja como se estivesse fazendo hora até aparecer alguém mais interessante".
— Só isso? — Robert ergueu as sobrancelhas.
— É importante. — Um calor tomou o rosto de Lucinda. — Não só para mim, mas para qualquer dama. Agora você tem que me contar uma coisa.
Ao ver a tensão no rosto bonito, ela mudou imediatamente o que ia perguntar. A curiosidade em saber a verdadeira causa dos problemas de Robert podia esperar. Não queria magoá-lo.
— Já que você agora cultiva rosas, onde encontraria as palavras: "Agora é primavera, as raízes do mato ainda estão rasas. Deixe-as ficar, e elas cobrirão o jardim."?
— Como é?
— O senhor ouviu.
Robert a fitou longamente. Eram versos não muito conhecidos nos círculos literários e, por um momento, Lucinda se perguntou se ele iria, ou saberia, responder
Mas viu um sorriso se abrir lentamente nos lábios de Robert.
— Estão em Henrique VI, Parte Dois, de Shakespeare. Mas ele não falava de plantas.
— Sei que não, mas as palavras me pareceram pertinentes.
Aliviada e satisfeita por tê-lo surpreendido, e por ele saber a origem de uma de suas citações prediletas, ela retribuiu o sorriso.
— Você lê mais do que Frankenstein.
— Eu leio tudo...
— Lucie? Lucinda, ouça! — Evelyn acenava para ela. — Lorde Geoffrey está nos contando da noite em que atravessou o rio Tormes, na Espanha.
— Divirta-se — Robert murmurou, amargo.
— Está sendo mesquinho — ela objetou no mesmo tom. — Não há mal nenhum em ser herói.
—Heróis não contam bravatas... Mas vou fazê-lo prestar atenção na senhorita.
Ela prestou parte de sua atenção à história de Geoffrey. Escolhera-o pois a opção lhe parecera agradável e indolor. Seu propósito continuava o mesmo, mas, com o envolvimento de Robert Carroway, sua caçada se transfigurara inteiramente.
Tomou outro gole de vinho Madeira, sentindo o calor irradiar do homem alto e rijo ao lado. De repente, sua atividade letiva tornara-se interessantíssima.
Robert parou antes de entrar na sala do café. Despertara mais tarde porque, ao acordar, o som da chuva viera amaciar e tranquilizar os pesadelos que o tinham atormentado até quase o amanhecer.
— Por que sempre pensa que estou tramando alguma coisa? — Era a voz de Georgiana.
— Porque está — Tristan respondeu. — Eu não sou cego. Você e suas amigas escolheram mais um para as suas aulas.
— Não faço ideia do que...
— Ora, vamos. Demorei a descobrir que a presa de Evie era St. Aubyn, mas como ainda falta Lucinda, aposto que...
— Já chega, Tristan — ela o interrompeu, achando graça mais do que zangando. — Você não pode saber das nossas aulas.
— As estratégias de vocês três são muito coerentes. É difícil errar quando se sabe o que procurar. E tem mais: o que me diz do convite de última hora para lorde Geoffrey Newcombe ir ao jantar? Para mim foi claro. Para o bem de Lucinda, espero que não tenha sido assim tão óbvio para Geoffrey.
Georgiana ria.
— Minha nossa, está até solidário com Lucinda!
— Não estou solidário com ninguém. Não me meta nisso, por favor... Mas, e Bit, onde entra nessa história?
Robert se recostou à parede. Fosse qual fosse a opinião geral a respeito de espionagem, ele aprendera a apreciar seus méritos.
— Bit não está envolvido — Georgiana respondeu. — Eu não o poria numa coisa dessas, nem Lucie. Foi você quem sugeriu que ele arranjasse um passatempo. Lucinda apenas conhece rosas... Não é nenhuma ameaça.
Robert bufou consigo. Se aquilo fosse sinônimo de serenidade, percepção e compreensão, Georgiana estava certa. Ele passara três anos à espera de ver Lucinda, mesmo à distância. Agora, estar perto dela, interagir com ela, era a como a luz do dia depois de uma noite longa e tenebrosa. Ele havia soltado as asas um pouco mais, porém ainda se escondia nas sombras com medo de o sol queimá-lo e transformá-lo em cinzas. No entanto, fizera um trato com Lucinda. E ela continuava atraente como uma luz de vela para uma mariposa.
— Bom dia. — Entrou no salão do café.
— Bom dia — Georgiana respondeu, sentada ao lado de Tristan. — Como está se sentindo?
— Com fome. — Robert foi servir-se no aparador, pensando por que as coisas de que gostava de lembrar pareciam tão fora de seu alcance. — Tristan, você vai mesmo almoçar no clube, hoje?
Quase pôde ver o olhar que lorde e lady Dare trocaram entre si.
— Vou, sim.
— Posso ir com você? Silêncio.
— Claro.
— Obrigado.
O apetite lhe fugiu quando começou a pensar no que se propunha a fazer. Mesmo assim pôs umas fatias de pão e uma fruta fresca no prato. A fome só piorava a situação, e ele precisaria evocar todos os seus trunfos.
Já se acomodava à mesa quando Bradshaw entrou com Edward a tiracolo.
— Eu peso mais do que um saco de pano, sim! — Edward protestava.
— Você apenas se mexe mais do que um saco — Bradshaw concedeu, pondo o irmão no chão.
— Conversa!
— Bom dia, minha família. — Bradshaw saudou rindo. — Tristan, posso mesmo levar Perkins para almoçar? Há tempos ele procura alguém que recomende seu ingresso no clube.
Lorde Dare pigarreou e Robert fingiu não notar a hesitação do irmão mais velho. Almoçar em um lugar público com gente da família já seria suficientemente enervante. Se levassem um estranho, ele talvez não agüentasse.
— Só nós hoje, Shaw — contornou o visconde. — Você, Bit e eu.
— Boa idéia. Não podemos permitir que estranhos se misturem à família.
— Só faltava essa! — Georgiana riu.
— Eu quero ir! — Edward surrupiara meia laranja do prato do irmão. — Tenho o mesmo sangue.
— Para entrar no clube é preciso pesar mais do que um saco de pano, Miúdo.
— Mas eu peso mais...
— Você pode almoçar comigo e Lucinda — Georgiana sugeriu.
— Com um monte de mulheres?
— No museu — completou a viscondessa.
— Podemos ver as múmias?
— Claro. Evie deve levar alguns afilhados.
— Os órfãos? — Edward encheu seu pão com geleia, a qual transbordou para o prato.
— Uns dez caçulas.
— Vou ser o mais velho?
— Lógico. — Georgiana sorriu.
— Então, está bem.
Como as tias estivessem fora, Robert teria a Mansão Carroway praticamente só para si a tarde inteira. Mas era assim quase todo dia e, a bem da verdade, ele já estava ficando cansado daquela infindável repetição. Se iria continuar pensando assim depois do almoço, não fazia idéia. Na realidade, não sabia nem se iria sobreviver à refeição.
Mas já sabia que, recluso, não poderia auxiliar a srta. Barret ou a si mesmo. Se o clube o aceitasse de volta em seu pretensioso rebanho, provavelmente saberia a qual dama ele dedicava sua atenção... E lorde Geoffrey Newcombe também.
Enfiou mais uma torrada na boca. Tentou não pensar muito no assunto, mas, se lograsse êxito naquele dia, talvez saísse um pouquinho das sombras. Se o sol fraco não estivesse muito forte, quem sabe aonde seu passo seguinte o levaria?

* * *
— Preciso me sentar um pouco. — Georgiana encontrou um banco de pedra, contíguo à exposição egípcia no Museu Britânico, e largou-se nele com um suspiro.
Lucinda sentou-se ao lado e ficou observando Evelyn, assistida por Edward, explicar as teorias da mumificação. Gemidos e narizes retorcidos atestavam o deleite da meninada.
— Vou pedir a Tristan para massagear meus pés em casa. — Sem dar a perceber, Georgiana tirou um sapato com um movimento brusco do pé.
— Você não devia ter vindo.
— Não comece. Só tenho três semanas até Dare me espanar para meu confinamento no Parque Dare. "Confinamento"... Quem teve a idéia de usar esta palavra? Parece até que vou para a prisão!
— Só mais três semanas? — Lucinda repetiu.
— Eu sei, planejei tudo errado. Você começou a dar suas aulas, Bradshaw está em vias de receber o navio que vai capitanear, e Robert vai almoçar no clube. Será que ele já está se sentindo bem para tanto? Bem, se ele precisar de mim ou de lorde Dare, vou ter que dar à luz aqui mesmo em Londres.
Lucinda se intrigou. Robert ia a um lugar público de livre e espontânea vontade? Só podia ter a ver com o trato entre ela e ele...
Droga. Se porventura estivesse magoado, seria por culpa dela. Precisava desfazer o trato imediatamente, apesar de a atenção de Robert ter dado maior dimensão à sua vida. Não que sua vida fosse limitada, claro. Era ordeira, e Robert apenas perturbara essa ordem. Então, por que ela não o evitava? Por que não parava de pensar nele?
— Lucie?
— Hein? Desculpe, meu pensamento estava longe.
— Onde, em particular?
— O que está insinuando? — Ela fitou Georgiana, surpresa com a expressão subitamente circunspecta da amiga.
— Robert — foi a resposta clara.
Lucinda deu um longo suspiro. Georgiana era sua melhor amiga, e sinceramente preocupada com o bem-estar do cunhado.
E ela também, começava a perceber. Porque ele era um amigo, um novo amigo. Inesperado, quando ela parecia já estar com a vida toda planejada nos mínimos detalhes.
— O que vou dizer tem que ficar entre nós duas — decidiu, séria.
— Está bem.
— Ofereci-me para ajudar Robert no roseiral e ele recusou. Acho que pensou que eu estivesse com pena dele, ou coisa assim. Ele me propôs um trato.
— Trato?
— Em troca das mudas de rosas e minhas instruções, ele se propôs a me ajudar a conseguir que lorde Geoffrey cumpra os itens de minha lista.
Georgiana levantou-se de um salto, façanha nada fácil para uma mulher grávida.
— Você contou a ele sobre nossas lições?
— Não, claro que não! Foi ele quem puxou o assunto. Ele sabia das lições, de você, e de Dare e St. Aubyn.
Georgiana voltou ao assento.
— Maldição. Eu devia ter percebido. Ele sempre sabe de tudo o que está acontecendo.
— Uma vantagem, quando se é praticamente invisível.
— Ele não... Ora, não sei por que estou me exaltando com você. Quem está bisbilhotando não é você, é ele!
— Não creio que tivesse intenção de nos prejudicar Estava apenas curioso. — Lucinda deu o braço a Georgiana. — Tentei convencê-lo de que as rosas eram um presente, mas Robert insistiu em me ajudar com lorde Geoffrey.
— Por isso ele anda tão ocupado ultimamente. Robert sabe que você está genuinamente interessada em Geoffrey?
Foi mais uma afirmação que uma interrogação, porém Lucinda anuiu mesmo assim.
— Claro que sabe. Na verdade, achava que, com as aulas, queríamos encontrar apenas alguém com quem nos casarmos.
Georgiana cerrou o maxilar.
— E um dia ele apareceu de repente e disse tudo isso para você.
— Sim.
A viscondessa levantou-se ao mesmo tempo que as crianças saíam do salão egípcio.
— Vou ter uma conversinha com Bit hoje à noite.
— Não, não vai. Não pode contar nada do que contei. Possa ele ajudar ou não, da forma que for, eu não vou ser responsável por... — ela procurou as palavras certas — ...adoecê-lo de novo.
Edward emergiu ao fim da fila de órfãos. Lucinda imaginou como ele se sentiria tendo quatro irmãos mais velhos tão formidáveis, e tendo sido criado por eles a maior parte do tempo. Edward era autoconfiante... Como poderia não sê-lo, com uma família daquelas?
E quanto a Robert? O que teria acontecido a ele? O que poderia ter presenciado que o mudara tão profundamente? Por que ele achava que tinham algo a oferecer um ao outro?
Lucinda suspirou. Nada que se dissesse a mais lhe faria bem. Altruísmo ou caridade não explicava por que ela não se cansava de notar que ele tinha os olhos mais lindos do mundo.
— Srta. Lucinda?
Ela se sobressaltou.
— Sim, Edward?
— Quase me esqueci... Tenho que dar isto para a senhorita.
O menino de dez anos de idade retirou do bolso do casaco um bilhete todo dobrado e o entregou a ela.
— Obrigada.
O bilhete aberto revelou a caligrafia de Robert: muito refinada, como se cada palavra tivesse sido escolhida antes de a pena tocar o papel. A missiva perguntava simplesmente se ela gostaria de ir cavalgar pela manhã, e estava assinada com as iniciais R. C.
Lucinda quase descartou a hipótese, pois Geoffrey iria almoçar no dia seguinte com o general. Todavia, o almoço daria a ela uma desculpa, em nome da causa, para abreviar o encontro com seu co-conspirador convicto. Além do mais, não precisaria decidir naquele momento se dar continuidade àquele envolvimento era ou não um ato de caridade.
Apanhou um lápis na retícula, escreveu a resposta ao pé do papel e dobrou-o novamente.
— Por favor, entregue a ele. — Devolveu o bilhete a Edward.
Georgiana a olhava, ansiosa, porém ela fingiu não notar Se Robert quisesse envolver a cunhada no assunto, teria pedido a ela que entregasse o bilhete.
Lucinda respirou fundo. Estaria com dois cavalheiros no dia seguinte. Um para ajudá-la a armar a rede para o segundo, que não fazia ideia de que era a presa. E ela ainda dizia que gostava das coisas descomplicadas... Essa era muito boa!
Quando Robert desceu, Tristan e Bradshaw já se encontravam no saguão, escondendo o nervosismo, pois sabiam que Robert não ia a um clube de cavalheiros em Londres havia mais de cinco anos: desde que deixara a Inglaterra para apresentar-se ao seu regimento na Espanha.
— Mandei vir a carruagem — Tristan informou. — Prefere ir a cavalo?
A escolha não era fácil: ir sentado em uma carruagem pequena e escura, ou dar-se a fácil oportunidade de montar Tolley e esquivar-se do compromisso.
— Vou na carruagem.
— Ótimo. Está pronto?
Robert fez que sim, embora os músculos muito tensos pedissem que batesse em retirada. A respiração já começava a acelerar, e ele se forçou a diminuir o ritmo. Iria conseguir Seriam uma ou duas horas no máximo, depois bastava esperar a cavalgada com Lucinda.
Ou sem ela, se ela tivesse juízo e recusasse o convite.
Até o mordomo parecia preocupado quando abriu a porta da carruagem. Robert pendurou-se no estribo à espera de que Bradshaw e Tristan subissem primeiro. Ele sabia que, se desistisse, nem um nem outro jamais tocaria de novo no assunto. Mas lembrou-se do que Bradshaw havia dito: que ele jamais fizera nada por si mesmo.
Tomou fôlego e entrou na carruagem. Os irmãos o veriam tenso e relutante, mas não o veriam aterrorizado. Não por medo da carruagem ou do clube, mas por não poder impedir que o pânico o emboscasse a céu aberto.
— Tive uma idéia — Bradshaw anunciou.
— Surpreendente! — Tristan retrucou, cínico.
— Muito engraçado... É que, como St. Aubyn agora está entre nós, poderíamos contar com ele e o duque de Wycliffe para requerermos nossa readmissão no clube White's.
— Se me lembro — Tristan protestou —, eu fui o único a ser expulso do White's, e por sua culpa.
— Por isso estou planejando levá-lo de volta.
— Não se incomode, Shaw. Gostei de ter sido expulso. Faz Georgiana se lembrar do quanto eu a amo.
— E do quanto ela ficou furiosa com você. — Robert aderiu ao humor mórbido, agradecido pela distração.
— Esse é um dos motivos da minha proposta... — Shaw acrescentou.
— Não, esse detalhe foi Bit quem levantou, mas, mesmo assim, não estou interessado. Vou ser pai em três semanas, meus caros, e isso é tudo que me importa no momento.
Robert estudou a expressão de prazer do irmão. Tristan se encontrava visivelmente entusiasmado e satisfeito com a iminente paternidade. Estranho ver alguém viver uma alegria por antecipação. Ainda mais para ele, que, havia muito tempo, sentia horror das noites por não saber se veria o amanhecer.
A carruagem parou em frente ao clube. Um lacaio de libré subiu o degrau, abriu a porta e desceu com um salto curto para o chão.
De novo Robert esperou, pendente no estribo, antes de descer. Ele iria conseguir Queria conseguir.
— Bem-vindos, lorde Dare, sr. Carroway — o maître saudou os dois. A Robert lançou um olhar, e os conduziu ao amplo restaurante do clube.
— Uma mesa na janela, por favor — Robert murmurou ao ver o salão lotado, as mesas apertadas e o pesado e escuro revestimento das paredes. Respire, disse a si mesmo.
Tristan cumprimentou com um gesto de cabeça um ou outro conhecido.
Com um músculo repuxando o pescoço roliço, o maître rumou para o outro lado, e fez sinal para um par de lacaios limparem e arrumarem uma mesa recém-desocupada.
— Gostam desta?
— Bit? — o visconde o consultou.
Robert concordou em silencio, e os três Carroway se sentaram.
Ele soprou o ar. Conseguira entrar! Agora era só comer e ir embora.
— Carroway! — Uma voz masculina chegou-lhe aos ouvidos. — Meus parabéns! — Uma mão carnuda passou à sua frente na direção de Bradshaw. — Capitão, não?
— Ainda não oficialmente. — Bradshaw retribuiu o aperto de mão. — Conhece meus irmãos Dare e Robert, Hedgely? Tristan, Bit... lorde Hedgely.
— Conheço lorde Dare. Este é o outro, não? Hedgely retirou uma cadeira da mesa vizinha, arrastou-a para perto, e pousou nela seu enorme corpanzil.
— Ouvi dizer que você perdeu uma perna ou coisa assim em Waterloo. Ou foi a cabeça? — O homem fez piada. — Não me parece um paciente de hospício.
O olhar de Robert, concentrado nas próprias mãos, ergueu-se para o rosto de Hedgely. Olhos castanhos, cravados em um rosto redondo e gordo, lhe sorriam.
— Nós nos conhecemos há alguns anos — Robert falou em voz baixa, porém firme. — Estava com lady Wedgerton, se me lembro... O marido dela soube do flerte?
Hedgely continuou sentado, mas boquiaberto, o rosto vermelho.
Um leve rumor percorreu os arredores. Robert permaneceu imóvel, à espera do próximo movimento. Paradoxalmente, não ter nada a perder e estar à beira do precipício conferia um certo poder.
— Deve haver algum engano — Hedgely vociferou, enfim.
— O senhor também se enganou — Robert redarguiu.
— Parece que temos alguma coisa em comum.
— Não há motivo para grosserias, meu rapaz. Só falei por caridade a um incapaci...
— Também estou sendo muito caridoso com o senhor — Robert o interrompeu, percebendo que Shaw começara a levantar-se, e Tristan o puxava de volta ao assento.
— Suas dívidas de jogo... como vão?
— Não tenho que aturar isto! — Hedgely exclamou ríspido depois de levantar-se bruscamente. — Melhor você controlar seu irmão, Dare, ou pô-lo de volta na jaula!
— Mas estou gostando da conversa. — Tristan apanhou um charuto no bolso. — Se está se sentindo incomodado, tenha um bom dia, Hedgely.
Bradshaw observou Hedgely voltar em silêncio para sua mesa e sentar-se entre as solidárias comiserações dos amigos.
— Foi interessante. — Shaw riu por trás da taça de vinho do Porto.
— Eu só fiz uma pergunta... — Robert descerrou o punho, sentindo o sangue voltar aos dedos. O apoio dos irmãos aqueceu o que restava de sua alma. — Peço desculpas.
— Para mim o dia só vai ficar completo se alguém tentar me expulsar do clube — Tristan bravateou. — Mas o acontecido me fez pensar: por que quis vir ao clube, hoje, Bit? Deveria saber que iria testar a curiosidade pública.
— Podem bisbilhotar à vontade — Robert conteve um tremor. — Mas que fiquem longe de mim. E eu vim porque quis. Se isso não basta...
— Claro que basta. E se serve de consolo, depois de Hedgely não creio que alguém vá procurá-lo de novo para insultá-lo.
— Serve, sim.
Shaw pigarreou, pedindo espaço na conversa.
— Não estou pedindo para apanhar, Bit, mas não tive intenção de provocá-lo naquele dia.
Robert manuseou demoradamente a taça de vinho do Porto que Tristan pusera à sua frente. Depois, encolheu os ombros, indiferente.
— Nem sempre sei quando vai... — Parou, empalidecendo ligeiramente. Céus! Quase contara aos irmãos sobre o transtorno do pânico. Se o fizesse, iria parar no hospício, com certeza. — Aceito as desculpas — murmurou, empurrando a taça de volta ao irmão em seguida.
— Achei que isto pudesse facilitar seu dia... — Tristan deu um peteleco no cálice, fazendo-o tilintar.
— Por algum tempo, talvez. Mas não seria real. — Robert sentiu as mãos tremer e as cerrou novamente.
— Tem certeza de que não...
— Não vou beber, Tristan. Se eu começar, não sei se consigo parar.
Tristan acenou para o lacaio.
— Carneiro assado para três, Stephen — pediu, e riu da careta de Bradshaw. — E um copo de limonada.
— Sim, milorde.
Quando o lacaio se afastou para a cozinha, Tristan acendeu o charuto e se recostou na cadeira.
— Recebi uma carta de Andrew, ontem. Ele vai tomar a diligência dos correios em Cambridge. Deve chegar em Londres amanhã à tarde.
— Que bom.
Andrew provavelmente preferia o colégio, onde era mais divertido. Robert, porém, gostava de ter todos debaixo da vista. Não fazia sentido, mas precisava saber que todos estavam em segurança... Precisava sentir-se capaz de protegê-los.
Como se ele pudesse, de fato, proteger alguém.
— Você vai conosco quando Georgiana e eu formos para o Parque Dare?
— Vão levar Edward? — Robert hesitou. Tristan respondeu que sim.
— Nossas tias também vão. Elas insistem que Georgie vai precisar delas.
— Não sei se vou — Robert continuou inseguro.
Um rosto lhe veio á mente: oval, delicado, de olhos castanho-claros e cabelos escuros que reluziam feito bronze ao sol. Lucinda estaria em Londres, ainda no encalço de Geoffrey Newcombe. Assuntos que não lhe diziam respeito, mas, se ele estava agora ali, sentado no clube, o motivo era ela.
— Não precisa decidir já.
— Já estarei no mar na ocasião — Bradshaw interpôs-se —, portanto vou me contentar em saber que você vai dar meu nome ao recém-nascido.
— Não creio que "Doido Varrido" vá satisfazer os requisitos de Georgie, mas vou transmitir sua sugestão a ela...
A refeição chegou e Robert percebeu-se calmo, a ponto de sentir fome. Sua presença ali era uma vitória. Mínima, mas ainda assim uma vitória.
O primeiro sinal de seu excesso de confiança só se deu quando, ao ouvir Tristan praguejar por entre os dentes, acompanhou o olhar irritado do irmão à entrada do salão.
Em meio à movimentação, viu o motivo de seu mau humor: o duque de Wellington, acompanhado de alguns guardas da Guarda Real Montada, dirigia-se a uma mesa, a uns três metros de onde estavam. O general Augustus Barrett olhou na direção deles e cumprimentou Tristan com um gesto de cabeça ao sentar-se à direita do duque.
O primeiro pensamento de Robert foi ir embora imediatamente, antes que aqueles oficiais cheios de medalhas começassem a contar histórias, enaltecendo a glória da guerra. Olhou para os irmãos, que comiam em silêncio à espera de sua reação. Se fosse embora, iriam com ele.
Mas sair um minuto depois da chegada de Wellington poderia gerar graves repercussões políticas.
Melhor ignorá-los, deu-se a ordem, enfiando voluntariosamente na boca uma garfada de carneiro assado.
— Bit... — Bradshaw sussurrou de repente, tenso.
— Capitão Robert Carroway — a voz de Wellington ressoou atrás dele, e o duque pousou-lhe a mão no ombro.
— Vossa Graça — Robert cumprimentou, surpreendendo-se com a firmeza da própria voz. Pela primeira vez ocorreu-lhe que, em comparação ao que acontecera na Espanha, aquilo era nada.
— Creio que ainda lhe devo uma garrafa de uísque — o duque se lembrou.
— Não precisa se incomodar.
— Além dos agradecimentos de toda a nação, claro. — Wellington sorria. — Sua contribuição no campo de batalha de Waterloo foi muito valiosa.
Ele não sabia de nada. Wellington não sabia de nada!
— Obrigado.
Aplausos recatados, e dirigidos mais ao duque do que ao destinatário do elogio, irromperam no salão.
Robert segurou o fôlego. Se o duque lhe pedisse que levantasse para um aperto de mãos, ele vomitaria.
Mas Wellington voltou para a própria mesa depois de dar-lhe mais um tapinha nas costas.
— Robert? — Tristan sussurrou ao vê-lo pálido.
O pânico ameaçava tomar conta dele novamente. Se sucumbisse ali seria um desastre. E se quisesse se manter lúcido, teria de fazê-lo por conta própria.
Robert inspirou em busca de ar.
— Vamos comer.
Quinze minutos. Se ficassem mais quinze minutos, Tristan e Shaw poderiam sair sem insultar ninguém.
Começou a contar cada segundo de cada minuto. Conseguiria sobreviver. Pois não vivera sete meses de sua vida assim? Não era fácil, mas suportável. Enquanto estivesse contando, não se afogaria no desespero.
Além disso, no dia seguinte iria cavalgar com Lucinda Barrett. E ela possuía o dom de transformar segundos em minutos.
Chegou a quinze deles, enfim.
— Vou embora. — Empurrou a cadeira para trás.
— Vamos todos. — Tristan acenou, pedindo a conta, assinou-a rapidamente e os três se levantaram.
— Foi um gesto simpático de Wellington — comentou Shaw ao subir na carruagem. — Duvido que ele saia por aí agradecendo a qualquer um que tenha combatido em Waterloo.
Robert sentou-se e fechou a porta, agradecido por trocar a multidão por um espaço apertado.
— Ele não sabe nada — resmungou, e cruzou os braços para ocultar dos irmãos as mãos trêmulas.
— Não se subestime, Bit. Se ele agradeceu, é porque você merece.
— Bradshaw... — Tristan o alertou. — Deixe estar
— Eu não combati em Waterloo — Robert revelou de súbito. Em seguida cerrou os olhos para não ver o choque no rosto de Shaw.
Pronto, pensou. Mais um irmão a somar-se à decepção do resto da família.

— Meu pai disse que Wellington homenageou você, ontem...
Lucinda calçava as luvas de cavalgar e, com o canto dos olhos, fitava Robert caminhando ao lado. O baio o acompanhava um passo atrás, avaliando as habilidades quase perfeitas daquele cavaleiro que o comandava mesmo sem tocar nas rédeas.
— Contou que ele agradeceu seus préstimos em Waterloo — ela prosseguiu, já que ele não respondia. — Foi um gesto simpático.
— Por quê? — A menção o deixou mal-humorado. Lucinda comprimiu os lábios. Podia estar cuidando do jardim àquela hora
— É um gesto simpático agradecer os préstimos de alguém.
O cavalariço de Lucinda trouxe Ísis da cocheira. Robert olhou para o rapaz, claudicou um passo à frente e ofereceu as mãos para ajudá-la a montar
— Ele fez aquilo para dizer que estava no comando em Waterloo, e era a ele a quem a nação devia gratidão. Talvez esteja preparando o terreno para ser primeiro-ministro. O que eu era ou o que fiz não importa.
Lucinda apoiou o pé na mão de Robert e o deixou impulsioná-la para a sela.
— Isso que você disse... é fato ou está supondo?
De um jeito ou de outro, o que ele diria não importava. O melhor resultado da aparição pública de Robert no dia anterior fora o pai dela tê-lo mencionado sem fechar a cara.
Robert montou com um movimento fluido.
— Raciocínio dedutivo. — Cutucou o cavalo para se aproximar do dela. — Quer cavalgar por aí ou ir ao Hyde Park?
Ela entendeu o porquê da pergunta. Era quase impossível até mesmo caminhar no parque àquela hora da manhã. Se fossem cavalgar iriam para o norte, na direção de Londres. Ela passaria a manhã na companhia dele, e correria o risco de chegar atrasada à visita de Geoffrey.
Olhos azul-escuros a observavam, atentos. Robert provavelmente sabia da reunião do general com Geoffrey, pois sempre parecia estar a par de tudo. E a pergunta fora um desafio que faria sentido se ele fosse seu pretendente, não um reles ajudante casamenteiro.
— Prefiro cavalgar — respondeu apenas.
Um lampejo iluminou o fundo dos olhos de Robert, e ele aquiesceu com um gesto de cabeça.
— Trago-a de volta para o almoço. — Com o joelho, tocou a montaria.
— Robert! Ele parou.
— Mudou de ideia?
— Preciso de um acompanhante.
Ele não entendeu a princípio, mas de repente sorriu. E a mudança em seu semblante foi tanta, que ela prendeu a respiração. Minha nossa! Ele era bonito demais.
— Peço desculpas, não pensei no assunto.
— Benjamin? — Lucinda chamou em voz alta, ainda incomodada. — Por favor, sele uma montaria e venha conosco.
— Sim, srta. Lucinda. — O cavalariço apressou-se e logo desapareceu atrás da casa.
— Um esquecimento nada cavalheiresco, não? — Restos de contentamento ainda dançavam-lhe nos olhos azuis.
— Uma lisonja, de certo modo. — Lucinda sorriu de volta.
— Por quê?
— Um acompanhante serve para proteger as meninas bem-comportadas dos lobos maus... Aparentemente, você nos vê em pé de igualdade.
— Bela maneira de dizer que eu não mordo...
Ele não se ofendera, Lucinda percebeu, surpresa. Se Geoffrey a convidasse a ir a algum lugar, provavelmente seria o primeiro a sugerir a presença de um acompanhante para proteger a virtude dela contra sua devassa virilidade.
— Eu não quis dizer isso. Acho que você morde, mas é honrado.
Robert a fitou por instantes, agora com um olhar diferente. Benjamin surgiu em passo de trote, e os três seguiram em direção ao norte. O cavalariço os seguiu cerca de três metros atrás.
— Georgiana diz que você é ótimo cavaleiro — Lucinda comentou depois de um quilômetro em silêncio. Robert e o cavalo pareciam tão unidos que as rédeas não fariam falta. — Vejo que ela tem razão.
— Gosto de cavalgar. Quando voltei da Espanha, não sabia se Tolley ia me reconhecer, mas reconheceu. Melhor do que eu. — Ele acariciou o baio com tapinhas no pescoço, num gesto cheio de afeto.
Lucinda engoliu em seco. Pela primeira vez, sentia aquele homem solitário e reservado baixar a guarda.
Subitamente, perguntou-se se merecia estar ali. Não estava praticando um ato de caridade. Robert era quem concedia a ela a honra de observá-lo.
— Já que nosso trabalho é ensinar a primeira lição a lorde Geoffrey — ele deu objetividade à conversa —, que tal você me contar a segunda lição?
Ela enrijeceu. Mais trabalho. Era desconcertante imaginar que aquilo não passava de uma reles troca de favores.
— Como vamos fazer lorde Geoffrey dar atenção exclusiva à dama que estiver com ele?
— Ou seja, a você? — ele completou.
Ela nada dissera sobre sua intenção original: a de casar-se com Geoffrey. Mas negá-la agora seria fora de propósito.
— Está bem, a mim. Como vamos conseguir? Robert titubeou.
— É complicado.
— Creio que minha inteligência dê para o gasto... — Ela tentou deixá-lo à vontade novamente. — Vamos, surpreenda-me.
— Devo-lhe desculpas novamente. Eu deveria escolher melhor as palavras, já que faço tão pouco uso delas...
Ela soltou uma risada diante de tão inesperado senso de humor. Georgiana já mencionara o fato, mas agora ela, Lucinda, tinha certeza; Robert não revelava aquele seu lado a qualquer um.
Sentiu-se novamente honrada, e surpresa por gostar de pilheriar em companhia dele.
— Não se desculpe. — Sorriu. — Quando eu me ofender, aviso. E não mude de assunto. Como vamos trabalhar a lição número um?
— Olhe à direita — ele indicou, manobrando Tolley para se aproximar dela.
Ela o fez. Passavam em frente à firma de embalagens Gentlemen Jackson, onde, descendo a escadaria, Earl Clanfeld e William Pierce interromperam a conversa para vê-los passar.
— Lorde Clanfeld e o sr. Pierce?
— São amigos do seu lorde Geoffrey e, por coincidência, vão encontrá-lo agora no White's.
— Como sabe?
Ele encolheu os ombros.
— Eu presto atenção.
Notável. Lucinda conjeturou se ele sabia de cor a agenda das pessoas, e se tudo o que entreouvia não se devia à sua capacidade de tomar-se praticamente invisível. Não era à toa que diziam que ele lia o pensamento dos outros.
— Muito bem, então vai haver reunião no White's agora de manhã. De que isto nos serve?
— Eles sabem que lorde Geoffrey vai encontrar você e seu pai no almoço. Vão falar de você, e do fato de a terem visto de manhã em companhia de outro homem... Para melhorar, vamos retardar um pouquinho nossa volta, assim ele a vê chegando comigo.
— Vamos enciumá-lo? Acho meio prematuro adotar essa tática, não acha?
— A questão não é o ciúme. Vamos mostrar a Geoffrey que você não é só a menina que toma anotações para o pai, e sim uma dama que conta com admiradores.
Admiradores. Robert se incluía nessa categoria? Ou seria apenas uma paga pelas rosas? Concentrou o olhar nas orelhas de Ísis. Ora, pouco importavam os motivos dele. Tinham feito um trato e ponto final.
— E se eu tivesse escolhido ir ao Hyde Park?
— Eu sabia que você não iria querer ir ao parque.
— Uma suposição um tanto presunçosa... Como poderia saber?
— Você é generosa, tem consideração pelas pessoas, e sabia que eu não queria ir ao parque a uma hora destas. — O sorriso fugaz voltou-lhe ao rosto. — Mas, se você assim escolhesse, a cunhada de lorde Geoffrey, marquesa de Easton, passeia pelo parque com uma comitiva todas as terças e quintas-feiras pela manhã. Seria uma opção apenas de emergência, pois ela só vai estar com Geoffrey e a família Newcombe depois de amanhã á noite.
— Que caminhos tortuosos os seus! Para sua informação, eu pessoalmente não gosto do Hyde Park.
— Não vou me esquecer disso.
Não esqueceria, sem dúvida. Lucinda sacudiu a cabeça de leve, fingindo que a calma daquele homem não continha a pitada de intimidade que nela secava a garganta e acelerava o coração.
— Há mais alguém a impressionar esta manhã?
— Creio que não. Podemos ser antipáticos à vontade.
— Ainda bem! Aliás, na verdade, é mais fácil ser simpática quando não há necessidade disso.
Ao se afastarem das edificações e entrarem na região dos prados e clareiras, Robert diminuiu o passo e a fitou novamente.
— Quando eu converso, sou assim — falou, devagar. — Perdi o hábito de conversar, acho. E me preocupo tanto com isso que perco as oportunidades.
— Você conversa comigo.
— Com você é fácil conversar.
O rosto de Lucinda corou. Ela não precisava de elogios, ora essa!
Robert cutucou o cavalo com os joelhos, e partiu com Tolley prado adentro a meio-galope. Aliviada por não precisar falar dessa vez, ela foi atrás.
Lucinda era boa amazona, mais dada aos passeios sossegados do que aos galopes, mas tinha habilidade bastante para conhecer suas limitações, o que deu a Robert a certeza de que ela não iria cair do cavalo e quebrar o pescoço.
Para ele e Tolley, andar de dia era uma mudança radical. De dia, a sensação de desvincular-se do mundo não era tão intensa, mas, em compensação, havia o ar quente e a luz do sol.
Os dois passaram duas horas cavalgando, apostando corridas e, de quebra, conversando. Para Robert, foi a experiência mais libertadora dos últimos três anos.O sorriso que exibia no rosto ao levar a mão ao bolso e pegar o relógio era espontâneo e natural.
Abriu a tampa, recolocou o relógio no bolso e começou a traçar com Tolley um círculo estreito à volta de Lucinda e da égua Ísis.
— Hora de voltarmos.
Os cabelos escuros de Lucinda, com nuances de vermelho e dourado, tinham-se soltado atrás do chapéu, e uma mecha de fios emaranhados acariciava-lhe o rosto quando ela sorriu para ele.
— Hora da segunda parte do nosso plano? Ele anuiu e tomou o caminho da estrada.
Não olhe para ela assim, pensou. Ela era uma amiga, o que, para ele, era uma raridade. Além disso, Lucinda já deixara claro que, para ela, ele não "mordia", e que já havia escolhido outro.
Lucinda nem tentou puxar conversa no caminho de volta para a Mansão Barrett. Se Robert estivesse certo, Geoffrey Newcombe estaria à espera e os veria chegar.
Ele tomou novo fôlego, desejando que tivessem passado o dia inteiro fora, e aproximou-se dela.
— Você ia me contar o que diz a segunda lição.
— Não, não ia. — Ela riu. — Você ainda não apresentou os resultados prometidos para a primeira aula.
— Mas preciso preparar a estratégia para o próximo passo... O projeto é complexo, você tem que entender. Preciso tramar, planejar, arquitetar tudo.
— Pensando bem, é uma bobagem. — Ela ruborizou. — Não é exatamente para mim... É para todas as damas.
— Conte. — Simpático, ele tentava persuadi-la já perto de casa.
Ela suspirou.
— Está bem. Diz apenas que todo cavalheiro que se dá o trabalho de ir a um baile deve dançar. Principalmente quando há mais damas do que cavalheiros presentes. É constrangedor ser uma dama solitária.
— Geoffrey já dançou com você.
— Já, mas ele dança quando quer. Toda dama deve ser tirada para dançar ao menos uma vez. Tenho certeza de que a maioria dos homens bonitos, mais conhecidos, nem olha para quem está em pé junto da parede, ou fingindo-se ocupada à mesa de refrescos.
— Você nota — ele observou, divertido. Fazia sentido. Ela o notara também.
De qualquer modo, dançar era uma atividade em que Geoffrey levava vantagem. Mas Robert dissera que iria ajudar, e daria um jeito.
— Vou preparar um plano.
Chegavam ao caminho da entrada. Ele cedeu a frente, desejando, de súbito, não ter que devolvê-la a ninguém.
Surpreendeu-se quando ela parou, por sorte entre dois arbustos largos que os ocultavam da casa, e estendeu a mão para tocá-lo no braço.
— Robert, esta lição não pretende menosprezá-lo — disse, séria.
Antes de poder convencer-se da imbecilidade do impulso, ou de pensar onde estaria o acompanhante, ele se inclinou e tocou os lábios dela com os seus.
Por um segundo, por um batimento do coração, o tempo parou.
Ele se aprumou, antes mesmo que Lucinda pudesse se afastar
— Eu sei — respondeu, calmo, assim que retomou a respiração. — Não estava pensando em mim quando preparou sua lista.
Lucinda ficou tão perplexa quanto ele. Robert deu um tapa no flanco de Ísis, e a égua saltou em frente.
Ele seguiu logo atrás, caminho adentro, notando o movimento da cortina em um dos quartos de cima. Ah, a platéia...
Apeou de Tolley e foi, claudicante, tomar a mão de Lucinda.
— Peço desculpas mais uma vez. — Forçou-se a sorrir ao ampará-la até o chão. — Quero saber como será a continuação da primeira lição.
Sem esperar por resposta, voltou-se e montou Tolley. Lucinda o viu se afastar caminho afora, deslizando os dedos pelos lábios.
Robert tomou o trajeto mais longo para casa. Não queria beijar Lucinda, nem nada parecido. Dizia-se só amigo dela, sem mais motivos, mas a necessidade de tocá-la o dominara. O fato de estar anos sem tocar ninguém poderia ser o motivo, mas não servia de justificativa.
— Idiota — murmurou consigo, e Tolley posicionou as orelhas para ouvi-lo.
Ele havia estragado o trato. Lucinda seria uma tola se desse continuidade àquela relação. E Lucinda Barrett não era nenhuma parva.
Valera a pena trocar sua melhor chance de reingressar no clube por um beijo? Por uma fuga terna, suave, hesitante e momentânea do inferno?
Sim.
John, o chefe dos cavalariços, emergiu da cocheira para cuidar de Tolley quando ele desmontou. Robert apanhou no bolso a última cenoura e a ofereceu ao cavalo. No todo, fora uma manhã produtiva.
Aquela hora do dia, sua família já se espalhara entre os vários encontros, almoços e reuniões sociais. Edward e o professor particular também tinham combinado passar a tarde no Zoológico de Londres.
— Sr. Robert... — Dawkins abriu a porta da frente. — Devo pedir à sra. Haller para preparar seu almoço?
— Só um sanduíche. Estarei na biblioteca.
— Sim, senhor.
Entre o saguão e a biblioteca, porém, ficava o escritório de Tristan. À porta, Robert hesitou, mas entrou. Todos os convites aceitos pela família ficavam em um dos cantos da escrivaninha do visconde. Não importava se estragara ou não a relação com Lucinda. Queria vê-la de novo, nem que fosse para levar um tapa provavelmente merecido.
Além disso, a segunda lição de Lucinda tinha a ver com dança e, para dançar, era preciso ir a uma festa.
Dançar. Sem contar a dor constante no joelho esquerdo, ele talvez nem se lembrasse mais dos passos da dança mais simples. Quem não gostaria de vê-lo tropeçar no salão com a caridosa srta. Barrett, e cair estatelado no chão? Os demais cavalheiros se sentiriam estimulados a tirar as damas para dançar, ao menos para protegê-las de Robert Carroway.
Remexeu duas vezes, por via das dúvidas, a pilha de convites. Como Tristan e Georgiana compareceriam, Lucinda provavelmente iria também.
Felizmente havia dois ou três eventos menores, menos formais. Antes de escolher, contudo, precisava saber o quão desgostosa Lucinda estava com ele.
A porta da frente se abriu e Robert reorganizou rapidamente a pilha de convite. Saiu para o corredor, mas parou ao ouvir o som de um objeto pesado cair no chão do saguão.
— Sr. Andrew! Nós o esperávamos à noite.
— Consegui uma carona com um amigo. Quem está em casa?
— Só o sr. Robert, no momento. O senhor poderá encontrá-lo na biblioteca.
— Muito obrigado, Dawkins. Se a sra. Haller preparar meu almoço, não terei que comer alguma peça da mobília.
— O almoço será servido, senhor. — O mordomo riu. Ao ver Andrew adentrar o corredor, Robert pensou em se esconder. Mas não teria tempo de ir do escritório para a biblioteca sem ser visto. Se o visse ali, Andrew pensaria que ele o estava evitando, impressão que ele causava amiúde, mesmo involuntariamente. Assim, desfez a expressão fugidia do rosto e foi ao encontro do irmão.
— Bit! — Com seus dezoito anos, Andrew quase derrapou ao parar. Ergueu os braços, preparando o abraço, mas abaixou-os, como se de repente se lembrasse de qual irmão tinha à sua frente.
— Está mais alto. — Robert estendeu a mão.
Com um lampejo de surpresa nos olhos azul-claros, Andrew apertou a mão de Robert.
— Quase cinco centímetros. Acho que estou mais alto do que Shaw.
Andrew olhou a porta aberta do escritório de Tristan, atrás dele.
— Eu estava olhando os convites — explicou, lembrando-se de que nada tinha a esconder — Vamos à biblioteca... Conte-me como foi seu ano letivo.
Andrew sorriu, contente.
— Aquela terra capinada, lá perto da cocheira, o que é?
— O meu roseiral. — Robert lembrou-se de que precisava regar de novo as mudas. Lucinda o instruíra a fazê-lo diariamente no primeiro mês.
— Seu ro... — Andrew diminuiu o passo para fitá-lo. Apontou para o paletó do irmão. — Saiu a cavalo?
— Com uma amiga. — Robert sentiu um aperto no peito. Se Lucinda ainda era amiga ou não, era preciso confirmar.
Andrew jogou os braços ao redor dele e deu-lhe um abraço apertado.
O primeiro instinto de Robert foi recuar para se esquivar da imobilização. Calma, pediu a si mesmo, forçando-se a tomar fôlego. É Andrew.
Conseguiu dar um tapinha nas costas do irmão.
— Desculpe.— Andrew desfez o abraço. — Você está bem?
Ele fez que sim com um gesto firme da cabeça.
— Você me pegou de surpresa.
— E você a mim. — O irmão o estudava detidamente, com um leve toque de preocupação nos olhos azul-acinzentados. — Da próxima vez eu aviso.
Os dois se instalaram na biblioteca e, por quase uma hora, Andrew o brindou com uma ininterrupta crônica dos melhores momentos do segundo ano em Cambridge. Robert bem que queria, depois de uma manhã com Lucinda, e do ato imbecil que praticara, alguns minutos de silêncio e solidão. Mas Andrew parecia tão embevecido com seu "aproveitamento", como dissera Tristan, que não quis desapontá-lo.
Mesmo assim, a contínua sociabilidade, e ouvir histórias de uma vida agradável e agitada, tão diferente da sua, o oprimiram.
Robert sentiu as mãos começar a tremer. Agarrou um livro, abriu e começou a ler, firmando-o contra as pernas de modo a ocultar do irmão sua fraqueza.
Mas, logo depois, as paredes começaram a apertar ao redor dele, e sua pele começou a se esticar sobre os músculos.
Maldição. Se continuasse ali, não conseguiria controlar o pânico.
Levantou-se com tal dificuldade que Andrew se calou.
— Preciso ir — disse com dificuldade lançando-se para a porta.
— Precisa de alguma coisa?
— Não, eu o vejo no jantar.
Robert entrou no quarto e bateu a porta.
— Respire. — Deu-se a ordem. — Basta respirar! Foi o que fez durante alguns minutos, forçando-se a andar de um lado a outro. Não em passadas largas, mas em cadência natural, inspirando e expirando lenta e regularmente.
Para sua surpresa, o passo ficou mais fácil. Ele parou junto à janela, então, e olhou lá fora.
A tarde se estendia no pátio da cocheira, onde avistou seu pequeno jardim. Ainda precisava regá-lo. Mas, se saísse do quarto, teria de enfrentar os criados, os familiares que já estavam em casa, as conversas...
Pare!
Aquilo era ridículo. Só precisava regar algumas plantas. Foi resoluto até a saída.
Tudo vai correr bem, disse consigo, e abriu a porta. Desça a escada, vá pelo corredor.
Procurou fixar o olhar em cada passo, e conseguiu.
Saia pela porta da frente, contorne a casa. Dawkins abriu a porta. Nada perguntou, talvez percebendo a situação.
Pegue um balde e vá até o poço.
Já ao ar livre, os movimentos ficaram mais fáceis. Ele encheu o balde no poço, atrás da cocheira, e regou cada muda cuidadosamente. Depois, arrancou os brotos do mato nascidos nos últimos três dias e passou o ancinho para desfazer as pegadas das botas e a terra prensada.
— Bit?
Robert deu um salto. Quando se voltou, viu Tristan a um metro da beira do jardim.
— O que foi?
— Vai jantar conosco?
Ele olhou para o alto, piscando. A oeste não restava uma única réstia de luz do poente. Se não fosse a lua quase cheia, estaria na total escuridão.
Com aquela escuridão ele não se incomodava. A outra, ele derrotara pela segunda vez.
— Andrew chegou — disse, apoiando o ancinho na parede da cocheira.
— Eu sei. Está por aí, alardeando que o único irmão Carroway mais baixo que Shaw agora é Edward.
Robert sorriu.
— Aposto que Shaw não está gostando nada dessa história.
— Não. — O visconde hesitou. — Você esteve no meu escritório.
— Estive. — Robert dirigia-se à entrada da casa quando Tristan o cercou.
— Não zangue com Andrew. Ele só mencionou porque estava contando da hora em que chegou em casa.
— Fui dar uma olhada nos convites.
— Isso ele contou também, por isso pensei em avisar você que a família vai ao baile de Montrose, amanhã à noite. Não quer ir conosco?
— E quanto a Edward? — Ele não queria abandonar a única pessoa que confiava nele.
— São só duas a três horas, Bit, ele vai ficar bem. Vou mandar o sr. Trost esticar a aula, assim ele terá de estudar um pouco mais de matemática.
— Isso se Trost concordar. Miúdo não gosta de ficar sozinho.
— E então, você vai?
— Todos vão?
O visconde o fitou por instantes.
— Evie e Santo, Lucinda e o general, mais Wycliffe e Emma.
Se o duque e a duquesa de Wycliffe iriam, o evento não seria dos menores, como ele gostaria, refletiu Robert. Mas precisava saber o quanto antes se Lucinda estava zangada com ele.
— Eu vou.

 


CAPITULO III


Com a mão dolorida, Lucinda pôs a pena de lado e soprou a folha de papel para secar a tinta. Geoffrey e o general bebiam conhaque, e a conversa evoluíra para uma discussão sobre o mérito ou demérito de vários oficiais britânicos com quem tinham servido.
— Major Scoggins? — Geoffrey riu. — Não era aquele que precisava ser amarrado à sela toda manhã?
— Esse mesmo. Eu nunca soube ao certo se essa providência era necessária porque ele era péssimo cavaleiro, ou porque tinha propensão à bebida.
O general olhou o pequeno relógio na escrivaninha.
— Praga... Você fica para jantar, Geoffrey?
— Eu gostaria, mas infelizmente tenho outro compromisso. — Ele pôs de lado o copo de conhaque. Na verdade, preciso ir embora agora mesmo.
Augustus Barrett levantou-se para apertar a mão do jovem.
— Mais uma vez, obrigado pela colaboração.
— Não precisa agradecer, Augustus. Toda oportunidade que tenho para contar minhas bravatas é bem-vinda... — Olhou novamente para Lucinda e acrescentou com uma mesura: — E a platéia é muito apreciada.
— E sabe apreciar, também. — Ela sorriu. — Vou acompanhá-lo até a porta, milorde.
— Geoffrey, por favor.
Com um gesto, ele indicou que Lucinda o precedesse, e ela o conduziu ao saguão. Geoffrey, durante toda a tarde, fizera questão de incluí-la na conversa, e por duas vezes se aproximara dela para ver as anotações.
— Muito obrigada mais uma vez, é muita generosidade sua. — À porta, ela parou junto ao mordomo. — Nunca vi o general tão entusiasmado com esse projeto do livro.
Ele a tomou pela mão e, com os lábios, roçou-lhe os dedos.
— É um prazer ajudar. Quem sabe posso vê-la sem lápis e papel... — Belos olhos verdes a fitaram. — A senhorita gosta de cavalgar?
Se Robert estava certo, ou Geoffrey estivera observando os dois, ou seus amigos o tinham informado das atividades dela. Ou ambos.
— Gosto muito.
— Ficaria honrado se me acompanhasse ao Hyde Park. Amanhã, pela manhã?
E essa agora!
— Tenho um almoço, mas...
— Dez horas?
— Está bem.
Geoffrey sorriu, apertou levemente os dedos dela e os soltou.
— Virei buscá-la. Até amanhã.
— Boa noite, Geoffrey.
Ele mandou vir o cavalo e foi-se em passo de trote. Ela o observou, depois voltou ao escritório do pai.
— Andei pensando, filha... — Ele folheava os escritos, acrescentando detalhes nas margens. — Seria exagero pedir a Geoffrey para recapitular todas as minhas anotações junto comigo? Ele me faz lembrar de certos eventos e conversas.
— Ele me convidou para irmos cavalgar amanhã de manhã.
— E você aceitou? — O general pousou os papéis na escrivaninha.
— Aceitei. Portanto, se o senhor estiver prolongando a permanência dele só por minha causa, pode ficar tranquilo.
Olhos cinzentos, sérios e resolutos, procuraram os dela.
— Está me acusando de cultivar a amizade com lorde Geoffrey para estimulá-lo a cortejar você?
— O mestre-estrategista é o senhor.
— Mas foi você quem sugeriu que eu travasse contato com ele.
— Pois é. — Lucinda não se intimidou.
— Bem, para mim, Geoffrey é muito útil: lembra de coisas que confirmam minhas recordações.
— Se é assim, use-o à vontade, general.
— Obrigado.
O sorriso de Augustos esmaeceu. Ele inclinou-se para a frente e pousou os cotovelos nas pilhas de diários e anotações.
— Você foi cavalgar também com Robert Carroway.
Lucinda respondeu que sim, suprimindo a lembrança do beijo suave e terno de Robert.
— Não vá estimular as memórias de guerra dele por minha causa também — pediu em voz baixa.
— Não farei isso. — Ele afagou-lhe a mão. — Sei que cresceu em meio a oficiais militares e suas histórias, mas, por favor, Lucinda, nem por isso precisa se fixar nesse Robert Carroway. Você tem opções bem melhores.
Ela retirou a mão.
— Fui apenas cavalgar com ele, papai. Robert é cunhado de minha melhor amiga, e tem dificuldade de conversar com as pessoas. Ele não é um dândi, e nem me conta histórias de guerra, fascinantes ou não. E eu não me fixaria nele em nenhuma circunstância.
O general levantou-se, suspirando.
— Faça seu ato de caridade. Espero, para o bem dele, que você tenha deixado claro que não está interessada.
— Claro que sim.
Depois que o pai deixou o escritório, Lucinda continuou sentada na poltrona das visitas por um longo momento. O beijo de Geoffrey em seus dedos fora frívolo. Não era para ser levado a sério. Já Robert Carroway jogava por regras diferentes... Aliás, ele não jogava.
Tocou os lábios novamente, depois largou as mãos sobre as pernas. Ora, aquilo fora... quase um beijo.
Seu semblante se fechou. Breve ou não, era preciso desfazer o trato com Robert antes que tudo se complicasse ainda mais. Ela já percebera que o prazer que sentia ao vê-lo nada tinha a ver com caridade.
Mas não podia considerar aquele soldado alquebrado, ferido de guerra, um pretendente. Muito menos um potencial cônjuge. Seu pai jamais o aceitaria.
E mais: aprofundar a relação com Robert complicaria sua vida mil vezes. Ela queria um marido simpático, atencioso, descomplicado, que a ajudasse a cuidar do pai, e não que se ressentisse da atenção que dedicava a ele.
Tranquilidade. Seria pedir muito?
Arre! Se ela queria sossego, não devia estar pensando em Robert, muito menos em seu beijo.

Depois de muito procurar, Robert encontrou três caixas de música: duas no sótão e uma na sala de estar diurna das tias, e levou-as para a sala do café.
— Bom dia — Georgiana cumprimentou, fitando-o.
— Bom dia.
Ele fora à procura de Georgiana, não gostou de encontrar Tristan.
— O que é isso?
— Nada. — Robert ajeitou melhor as peças nos braços.
— Já terminou de comer?
— Já. — Tristan empurrou imediatamente o prato.
— Precisa de mim?
— Preciso que você saia da sala — Robert respondeu sem rodeios.
— Que eu saia da sala?
— Isso mesmo.
— Eu tenho mesmo que ir ler a correspondência. — Georgiana riu.
— Não, você não! — Robert corrigiu, sentindo o impulso nada habitual de sorrir. — Só Tristan.
— Só eu?
A viscondessa afagou o braço do marido.
— Que pena, Dare. Dê-me um beijo, e pode ir.
— É assim? — Tristan levantou-se, conciliador. — O patriarca da família expulso sem cerimônia.
— Até logo. — Georgiana riu às gargalhadas.
— Sei quando estou sendo inconveniente. E se não posso ficar, vocês também não podem. — Ele se dirigiu aos dois lacaios à janela — Fora! — Beijou Georgiana no rosto, pegou uma laranja no aparador e saiu atrás dos serviçais.
— Em que posso ser útil, Bit? — Georgiana perguntou.
Chegara a parte mais difícil. Robert inspirou fundo e pousou as caixas de música em cima da mesa.
— Quero saber se consigo dançar sem me passar por um idiota.
Como a viscondessa não berrasse de espanto ou se dobrasse de tanto rir, abriu as caixas uma a uma.
— Encontrei uma valsa e duas danças campestres.
— Vamos levá-las para a sala de visitas — ela interrompeu. — Seus irmãos vão nos incomodar quando descerem para o café.
Ela apanhou uma caixa, deixando as outras duas para Robert.
Tristan, no corredor, fingiu examinar um vaso com uma flor cor-de-rosa quando os dois passaram por ele.
Robert começou a desacreditar da idéia, mas tentou ignorar o calafrio que lhe arrepiava a nuca. Despertar de manhã, depois de sonhar a noite toda com um perturbador passeio a cavalo, deixara-o inquieto.
Só precisava saber se ainda sabia dançar, disse para si mesmo. Verificar se ainda tinha a capacidade e a habilidade necessárias não o obrigaria a dançar em público.
— O que vocês estão fazendo? — Edward vinha do corredor da ala oeste.
— Arrumações — Georgiana respondeu, cínica. — Vá já tomar seu café.
Os dois não encontraram outro Carroway quando foram para o refúgio das tias, uma saleta revestida com cortinas de crinolina. Robert pôs as caixas de música no peitoril e se pôs de frente para a cunhada.
— Eu não sei se... — Comprimiu os lábios.
— Não aceito desculpas. Vamos começar com a valsa? — Georgiana levantou a tampa da caixa de música, posicionou os braços e esperou.
Podia confiar em Georgiana, Robert lembrou a si mesmo. Ela poderia ser sua irmã. Compreendia o que se passava com ele pelo pouco que lhe confidenciara. Saberia dançar com ela. Engoliu em seco, tomou a mão direita da cunhada e apoiou a palma da mão direita em sua cintura. Com um sorriso de incentivo, pousou a mão esquerda no ombro dele.
Georgiana era afetuosa, viva e feminina, e Robert sentiu um certo desprezo por si mesmo. Com uma exclamação, afastou-se, cerrando com tanta força os punhos que as articulações ficaram brancas.
— Bit?
— Peço desculpas — conseguiu dizer, dirigindo-se para a porta. — Foi uma bobagem.
— Claro que não, Robert! — ela disse, firme. — A qualquer hora que quiser treinar, estarei à disposição.
Dessa vez o pânico o atingiu em cheio, e quase o dobrou antes de ele chegar ao quarto. Quando entrou em seu santuário, cambaleante, bateu a porta.
O que ele pensava da vida? Que podia voltar a ser o que era? Voltar a dançar, a rir, a atrair-se por uma mulher, como se nada tivesse acontecido?
Não tinha mais esse direito. Já devia estar morto, e os mortos só conheciam a escuridão.
Arqueado, Robert se ajoelhou em um canto do quarto e balançou o corpo para a frente e para trás em agonia.
Pare. Pare... Pare!, pedia a si mesmo, desesperado.
— O que houve com ele? O que você fez? — Tristan interpelou Georgiana, andando de um lado para outro em frente à porta do quarto de Robert.
— Nada. — Ela estava mais calma do que o marido. — Ele só não estava preparado para o que se propôs a fazer
— Mas...
— Fale mais baixo, Tristan, Robert não precisa saber que estamos falando dele.
— Mas ele estava melhorando — Tristan sussurrou.
— E está... acho. — Georgiana suspirou. — Fazia duas semanas ele não tinha uma crise tão violenta.
Robert se aprumou e, aos tropeços, foi até a porta ouvir. Tentou controlar o tremor das mãos para segurar a maçaneta. A vontade de vomitar persistia, mas ele não queria ser visto todo enroscado no chão.
Pense noutra coisa, disse consigo. Já funcionara antes. Uma distração. Algo que não fosse a respeito dos sete meses de privação, dor e terror que o assolavam. Que não fossem os cinco tiros que levara. Que não se tratasse das emoções que o haviam assolado quando ele, enfim, desistira e desmoronara.
Era isso que ele não podia contar a ninguém. A maneira como o viam já era maligna demais. Se descobrissem o que tinha acontecido...
Abriu a porta com um puxão.
— Vão embora.
Um balde d'água gelada atingiu-o em cheio no rosto.
O choque o petrificou por um breve segundo, mas, como que por instinto, ele arrancou o balde das mãos do agressor e o arremessou com força na parede oposta.
— Bit! Robert! Sou eu! — Tristan berrou, tentando arrancar as mãos dele, agora cravadas em seu pescoço.
Robert piscou com a água que lhe escorria dos olhos.
— Eu sei que é você — berrou também, exprimindo sua revolta. — Não faça mais isso! Nunca mais!
Sacudiu a cabeça para enxugar os cabelos e recuou. Sua roupa estava encharcada e havia água até nas botas.
— Tristan, você é asqueroso!
— Eu disse para ele não fazer isso! — Georgiana torcia a barra do xale, nervosa. — Vou ajudá-lo a trocar de roupa, Robert.
Ele se esquivou da mão dela.
— Eu me troco sozinho.
Com o coração ainda acelerado, e a respiração ainda saindo em espasmos, começou a perceber que estava se sentindo quase... normal. Por pouco não se afogara, era verdade, mas a providência tinha funcionado. O pânico havia tentado, como sempre, invadir-lhe a mente, mas alguma coisa o forçara a abandoná-lo.
Robert olhou para Tristan e o viu também sem fôlego, com a gravata encharcada e disforme no lugar onde ele quase o estrangulara. Não parecia nem um pouco zangado, entretanto. Na realidade, parecia até achar graça.
— Retiro o que disse — Robert falou em voz baixa.
— O que foi que você disse?
— Para você não fazer mais isso. Mudei de ideia.
— Imaginei que a água fria fosse...
— Eu vou mudar.
Robert voltou para o quarto e bateu a porta. Encolheu-se, tirou o paletó lentamente, desabotoou o colete e os largou no chão. Naquela manhã deixara duas coisas bem claras, pensou, enquanto procurava uma camisa limpa no armário. A primeira era que ainda precisava treinar muito se quisesse dançar com Lucinda à noite. A segunda, que aprendera outra maneira de distrair a mente e manter o pânico à distância. Pensar em Lucinda e no roseiral causava menos danos ao guarda-roupa, claro, mas um balde de água fria seria útil numa emergência.
— Ótimo — murmurou, tirando a gravata arruinada e jogando-a na pilha de roupas molhadas.
— Só preciso arrumar um jeito de ter sempre alguns baldes por perto.

— Então, pensei que talvez fosse mais prudente bater em retirada.
Lucinda riu da história de Geoffrey. A marcha a que foram forçados por conta da multidão no Hyde Park os levara de volta à extremidade leste do parque.
Ela teve que reconhecer mais uma vez o poder de observação de Robert Carroway: Geoffrey não tivera tempo de escolher onde cavalgar, pois não tirava os olhos dela.
Verdade que se preocupara em estimular o interesse dele: vestira paletó e saia carmim, estilo militar. Ser charmosa e atenciosa com Geoffrey era fácil. Quanto a ele, salvo engano, a atenção por ela não se devia apenas às boas maneiras.
A manhã fora interessante, mas um senão a incomodava. Uma marcha tranquila no Hyde Park não se comparava a um galope no campo, daquele de embolar os cabelos. E esforçar-se por lançar charme, o que ela gostava de pensar que fazia parte de seu caráter, era no mínimo cansativo. Com Robert ela nem precisava falar.
Lucinda piscou, confusa. Um bom galope e depois ficar à toa, em silêncio, não era o que se esperava de uma dama.
Ela precisava se concentrar. Tinha sobrenome e fortuna respeitáveis, Geoffrey era de família das mais auspiciosas, e uma união dos dois seria honrosa para ambas as partes. Além disso, ele era charmoso e bonito, e muitas além dela deveriam querê-lo para si.
— Vai ao baile de Montrose hoje à noite? — ele perguntou.
— Pretendo ir, sim.
— Diga que vai reservar uma valsa para mim, Lucinda.
— Vou reservar uma valsa para você. — Ela sorriu.
— E uma quadrilha.
Dançar duas vezes com o mesmo cavalheiro não era incomum, mas, para a nobreza presente, seria indício de alta estima dele por ela.
— E uma quadrilha.
— E uma dança campestre.
— Assim você vai privar os demais presentes de sua companhia!
Além do que, três danças poderiam comprometer a reputação dela.
— Exagerei. Peço desculpas.
— Ora, Geoffrey, você sabia que eu ia recusar... Só está querendo me agradar.
— Diga "sim".
— Sim... Se você não atrasar meu almoço.
Ele consultou o relógio de bolso, preocupou-se, e acenou para o cavalariço acompanhante.
— Você me permitiria enviar Isaac na frente para avisar que chegará um pouco atrasada?
— Creio que não.
— Pena. Então é melhor eu levá-la para casa.
— Com certeza. — Ela riu de novo.
Ao chegarem, Geoffrey insistiu em ajudá-la pessoalmente a apear de Ísis. Se ela fosse uma debutante de dezoito anos, já teria desfalecido com tanta atenção, mas nunca fora dada a desmaios. Agora, seis anos depois, sentia-se de fato lisonjeada. Talvez um pouco mais: sentia um prazer quase arrogante.
O plano estava funcionando: o general aprovava Geoffrey, ela gostava dele, ele parecia interessado nela, e não havia iminência de traição, desilusão ou entusiasmos inconvenientes. Não fosse a artificialidade no olhar, tudo estaria perfeito.
— Foi ótimo, Geoffrey. Muito obrigada.
— Eu é que agradeço, Lucinda. — Ele beijou-lhe a mão ainda vestida com a luva. — Espero que esta tenha sido a primeira de muitas manhãs que passaremos juntos.
Ela apenas sorriu.
Não, ela não sucumbiria a essas lisonjas, que até gostava de ouvir. Não o escolhera apenas por isso.
— Até a noite.
— Até.
Quando entrou, Lucinda viu que as amigas já a esperavam para o almoço.
— Estou atrasada? — perguntou, acompanhando o mordomo á sala de visitas.
Evelyn se aproximou, os olhos dançando.
— Nós é que chegamos cedo.
— E esperamos que esta seja a primeira de muitos atrasos... — Georgiana acrescentou, maliciosa.
— Muito engraçado — Lucinda acanhou-se. — Da próxima vez, vou mandar Ballow fechar as cortinas.
— Vejo que tudo está indo muito bem. — Evelyn a beijou no rosto. — Vamos? Eu vim com a caleche.
— Posso me trocar primeiro? Não demoro.
— Claro. Enquanto esperamos, vamos trocar mexericos sobre você.
Lucinda subiu ao segundo andar e, a caminho, chamou Helena. No quarto, livrou-se do chapéu e do paletó. O vestido escolhido para o almoço já estava na cama à sua espera.
Alguém bateu, abriu a porta e entrou. Não era a aia, e sim Georgiana, pouco à vontade.
— Vim ajudá-la a se vestir.
— Helena já vem vindo.
— Não... Eu vim substituí-la.
— Por quê?
— Porque quero conversar com você, e não quero que ninguém ouça. Nem Evie.
Lucinda soube imediatamente que o assunto era Robert, e pousou de lado a escova de cabelo.
— Gosto de Robert como amigo, Georgie. Com o general, minha vida já é um tanto complicada... Parece egoísmo, mas quero um marido para facilitar, e não dificultar as coisas para mim.
Georgiana respirou fundo.
— Não é egoísmo, Lucie, você está sendo prática. Você é prática. Não quero me fazer de casamenteira, mas Bit está sofrendo há muito tempo, e você, para ele, é alguém com quem ele pode conversar
— Apenas debatemos sobre uma série de coisas. Sinto-me à vontade para expor minhas opiniões na presença dele.
— Talvez seja esse o segredo. Nós, com medo de piorá-lo, medimos muito o que dizer.
— Fique tranquila, Georgie. Sempre que ele quiser discutir, estarei à disposição.
— Que bom, obrigada. É muito complicado, mas não quero envolvê-la, se você não quiser.
Ah, a culpa. Se fosse só isso, ela teria mudado de assunto. Se Robert não a tivesse beijado, se o beijo e a presença dele não tivessem sido mais interessantes do que ela se sentia à vontade de admitir, não teria dito mais nada.
Lucinda suspirou.
— Tenho me perguntado por que temos nos encontrado muito mais nos últimos dez dias do que nos últimos três anos.
— Robert está tentando voltar a ser o que era. — Georgiana a ajudou a pôr o vestido azul de musselina. — Não sei muito do que aconteceu a ele, mas... — Engoliu em seco. — Foi terrível, Lucie. Portanto, o que você puder fazer por ele, eu agradeço.
Lucinda queria saber o que de tão terrível tinha acontecido a Robert. Se perguntasse e descobrisse, entretanto, tudo mudaria. As coisas já estavam diferentes entre eles, mas ela daria um jeito de conservar seu interesse unicamente na melhora do rapaz.
— Farei o que puder — concordou de bom grado.

Andrew passava pela porta da biblioteca quando Robert o agarrou pelo braço e o puxou para dentro.
— Ei!
— Preciso de sua ajuda — Robert falou depressa para não mudar de idéia. — Mas você não pode contar a ninguém.
— Não vou contar. — Andrew se reequilibrou aos tropeços.
— Abra os braços.
Desconcertado, Andrew obedeceu. Sem tempo para pensar se iria lograr êxito ou fracasso, dois resultados igualmente perturbadores, Robert segurou-lhe uma das mãos, colocou a outra no próprio ombro e, manobrando a cintura do irmão, deu início a uma ruidosa valsa.
— Não pise no meu pé! — Andrew reclamou, tropeçando. Robert fechou os olhos, tentando mentalizar a música e memorizar os passos.
— Não tente conduzir! — alertou o irmão.
— Está bem...
Não havia como confundir Andrew com uma mulher, mas escolhera Andrew por ser ele um companheiro leal.
Em poucos instantes, Robert já se sentia mais relaxado, e seus passos já estavam mais fáceis e fluentes. O joelho doía, não mais que de costume, porém estava firme. A instabilidade da última crise permanecia, mas eleja conseguia ocultá-la.
Robert abriu os olhos quando Andrew começou a cantarolar, desafinado. Parou e soltou o irmão.
— Foi muito ruim? — quis saber, preocupado.
— Só achei que eu estava dançando para o lado errado. Fora isso, nada contra.
Ele abriu o sorriso largo e carismático dos Carroway.
— Você não dança mal.
— Obrigado. — Andrew franziu o cenho de leve. — Não vou ter que me vestir de menina hoje à noite e dançar com você, não é? Você dança muito bem, mano, imagino que qualquer dama vai qu...
— Não, você não vai ter que ir de vestido — Robert retrucou, contente por restaurar o sorriso original do irmão. — Eu só queria ter certeza de que ainda me lembrava dos passos.
— Lembra, sim. — Andrew olhou para a porta. — Vou almoçar com alguns amigos, agora.
— Já terminamos, pode ir.
— Obrigado.
Assim que o irmão saiu, Robert fechou a porta e foi à janela, treinando alguns rodopios e mesuras da quadrilha. Ele iria conseguir, mas, apesar da aprovação de Andrew, sentia que os passos ainda estavam enferrujados. Do jeito que a manhã começara, porém, sentia-se satisfeito.
A agradável sensação durou quase trinta segundos, quando percebeu que não poderia simplesmente dirigir-se a Lucinda, dançar a valsa com ela e desaparecer. Não. Para ajudá-la na lição número dois, para ter motivo para continuar em sua companhia, ele teria de conduzir por comparação, o que significaria dançar com outras damas as demais danças da noite.
Afundou-se no peitoril da janela. Aquilo seria impossível.
Praguejou e deu um soco na esquadria de madeira. Estava ali havia minutos, odiando-se — e a tudo o que havia de errado com ele —, quando se lembrou do que Lucinda dissera: que suas aulas visavam ajudar moças que se demoravam à mesa dos refrescos e nos cantos; aquelas sem dotes, sem traços, charme, sagacidade ou graça a recomendá-las. As desiludidas.
A dama que tivesse de escolher entre continuar sentada ou dançar com ele, no mínimo titubearia antes de recusar. E se havia alguém capaz de compreender esse tipo de pessoa, esse alguém era ele.
Tais jovens não esperariam muito dele, E ele poderia passar despercebido por todos, exceto por Lucinda... e Geoffrey Newcombe, claro, que não seria bobo de não ficar de olho em um rival inesperado, embora improvável.
Ele, um rival. Inimaginável.
Gostava de Lucinda Barrett, pensou. Gostava de sua companhia, mas havia algo mais: ansiava por ela, por sua serenidade, por sua independência, seu amor-próprio. Lucinda era a esperança para um homem havia muito desesperançado.
Por esse motivo, sabia que deveria ficar distante dela, ao menos para seu bem. Ele queria ver o Céu, mas, se tentasse trazer um anjo para seu mundo, um dos dois ou ambos se incendiariam, e virariam cinzas.
Não, ela os via como amigos. E amigos os dois seriam, mesmo que isso o matasse.
Mas essa parte seria fácil. Ele estava morto havia anos.
— É impressão minha ou os moradores de Mayfair vieram todos? — general Barrett perguntou.
— Não é impressão sua. — Lucinda apoiou-se no braço do pai. — Céus! Aquilo é um malabarista?
A atração não a surpreendia. Havia quatro anos lady Montrose fazia o possível para uma de suas festas ser considerada o evento da temporada. Em vão.
— Vejo que Geoffrey fez questão de chegar na hora — o pai assinalou.
— A bem da verdade, papai, ele não foi o único. Você mesmo notou, toda a Mayfair...
— Você entendeu, mocinha. Não vou monopolizá-lo esta noite. Esta tarefa será sua.
— Não vou monopolizar ninguém. Ela passou os olhos pelo ambiente e encontrou uma conhecida.
— Veja, lady Miller já voltou da excursão de artes plásticas a Veneza...
— Lilian? Onde?
Lucinda indicou a posição da viúva e soltou o braço do pai.
— Lembre-se de que o senhor me prometeu uma valsa.
— Vou guardar a vaga, mas, se for preciso, abro mão. O fato de o pai querer deixá-la a sós era prova de sua perspectiva com Geoffrey. Ela sorriu quando o Adonis da temporada se aproximou.
— Boa noite... Ele a beijou nos dedos.
— Lucinda. — Olhou-a de alto a baixo. — Está belíssima.
— Obrigada. — O vestido de seda azul-escuro com ornatos de prata era um de seus prediletos. Ela gostou de saber que ele o apreciara.
— Reservou dois espaços no seu cartão para mim?
— Além do meu pai, você é o único cavalheiro em minha lista.
Geoffrey pegou com ela o cartão e o lápis, e anotou seu nome junto à valsa e à quadrilha escolhidas.
— Pena que não haja cavalheiros suficientes para afastar Francis Henning do salão... Tem certeza de que só me concederá duas danças?
Lucinda se aborreceu que ele e os amigos ainda estivessem preocupados em enxotar o inditoso Francis, mas conjeturou se a alusão não fora apenas uma isca. Quanto às damas presentes, eram mesmo em número bem superior ao dos cavalheiros, e muitas seriam abandonadas às paredes.
— Só duas — repetiu, sorrindo para atenuar a recusa. — Mas não se desespere. Duvido que lhe faltem damas.
— Nenhuma se compara a você.
Geoffrey pediu licença para cumprimentar o pai dela.
Lucinda concedeu as demais danças em questão de minutos. Depois, avistou as figuras altas de St. Aubyn e Dare, e, por entre o espremido aglomerado, foi encontrá-los.
— Lucie, está linda! — Evelyn a abraçou. — Eu não disse que esse azul iria ficar divino em você?
— Tinha razão, reconheço.
— Espere. — Evelyn a segurou pelo braço quando ela se voltou para ir cumprimentar Georgiana. — Dare está tentando convencê-la a ir para casa... Ele acha que o salão vai ficar muito abafado com tanta gente.
— E tem razão.
Lucinda viu Georgiana pôr um dedo sobre os lábios do marido e depois beijá-lo.
— Prometo — dizia. — Se eu começar a me sentir mal, eu aviso e vamos embora.
Nesse ínterim, St. Aubyn inclinou-se e cochichou ao pé do ouvido de Evelyn algo que a fez corar. Antes que ela respondesse, saiu à cata de um lacaio levando uma bandeja com ponche.
— Venha, vamos cumprimentar Georgie. — Evelyn disfarçou. — Você nem adivinha quem veio também!
Lucinda sabia. Já avistara Robert Carroway do outro lado do salão. Ele olhava para ela, os revoltos e compridos cabelos escuros tombando sobre o colarinho, uma mecha pendendo sobre um dos olhos azuis. O paletó e a calça pretos realçavam a esbelta rigidez de seu porte, e o colete carmim se destacava, vivo feito sangue.
Ela imaginou que ele fosse vir ao seu encontro, porém Robert inclinou a cabeça e sumiu na multidão.
Lucinda franziu o cenho de leve. Segundo Georgiana, ele a via como a salvadora de seus infortúnios. Por isso, o mínimo que podia fazer era vir cumprimentá-la, aproximar-se para ela poder ver-lhe a expressão do olhar e conjeturar se ele pensava em beijá-la de novo.
— Quem é o seu par na primeira dança? — Georgiana se aproximou.
— Lorde Geoffrey.
— Ah...
— Uma boa estratégia. — Lucinda ignorou o tom pretensioso de Georgiana. — A primeira dança e a última valsa.
— Sem dúvida! Mas eu li suas aulas, querida, e podemos dizer que lorde Geoffrey saiu-se muito bem na primeira lição.
— Tenho uma pergunta — Evelyn interpôs-se, baixando a voz ante a aproximação de Geoffrey. — Se ele pedir sua mão antes de satisfazer todos os pontos das suas quatro aulas, vamos permitir que você aceite?
— Está zombando de mim. — Lucinda reprimiu um sorriso. — Quando começou a instruir St. Aubyn, não estava tão segura de si quanto eu...
— Não vamos falar de mim. Agora é a sua vez.
A orquestra anunciava a iminência da primeira dança da noite quando Geoffrey se aproximou dela.
— Lady Aubyn, lady Dare, com sua licença...
— Claro — Georgiana concedeu.
Menos reservada, Evelyn soprou-lhes um beijo.
— Divirtam-se!
— Essa amizade entre vocês é notável. — Geoffrey a conduziu para a fila dos pares. — Sinto-me cortejando também a elas e suas famílias, além de você e seu pai.
Quando Lucinda ia responder, a música começou, e ela percebeu com precisão o que ele dissera. Geoffrey não desejava seu coração, assim como ela não desejava o dele. Interessante, eram ambos mercenários. Aquilo facilitava a situação, embora, bem lá no fundo, em vez da indiferença que ela poderia dissimular, a constatação lhe causasse uma certa mágoa.
Lucinda forçou-se a pensar no imediato quando as figurações da dança os reuniram novamente.
— Reconheço: o general está embevecido por você... ou por sua memória.
— E um prazer poder ajud... — Geoffrey parou e riu. — Não, não é possível!
Lucinda perdeu a fala quando olhou na mesma direção que ele. A srta. Margaret Heywater também dançava. Amaldiçoada com a abominável combinação de um dote inexistente, e uma tendência ao estrabismo e a afetação, naquele momento parecia até atraente com o rosto corado e o vestido de babados de segunda mão. Lucinda não duvidou que o milagre se devia ao homem que lhe segurava os dedos, sorria para ela, dava um passo e rodopiava com tal elegância, que ela, repentinamente, quis chorar.
Outras pessoas já os haviam notado. A resultante altivez do rosto dava à srta. Heywater um porte até elegante. Robert não dava a transparecer se percebera que quase todos os convivas os observavam, estarrecidos.
Lucinda titubeou ao quase colidir com lorde Charles Daymore, mas agarrou-se à mão dele a tempo de impedir o caos no salão. As filas de homens e mulheres se enroscavam, as mãos se tocando, soltando-se e buscando o novo par.
Quando ela chegou em Robert, percebeu que prendia a respiração.
— Olá — cumprimentou-o quando seus dedos se tocaram.
Ele a saudou com um gesto da cabeça, os olhos azuis encontrando os dela.
— Lição dois — murmurou, e trocou de par.
Os pares originais se uniram novamente, e Lucinda flagrou Geoffrey ainda olhando para Robert e Margaret.
— Estranho. O aleijado nunca dança com ninguém. O que ele sabe de Margaret Heywater que eu não sei?
— Não o chame assim! — Lucinda repreendeu, chocada. — Vai ver ele está sendo apenas gentil.
— Não vai ser difícil saber. O cartão de dança dela deve estar quase vazio.
Lucinda disfarçou um sorriso. Robert fizera mais uma milagre. Se Geoffrey dançasse com Margaret, os demais cavalheiros iriam todos querer saber por quê, e fazer o mesmo.
Geoffrey agarrou a mão dela abruptamente, agora com mais força.
— Eu não quis dizer que outra dama seria capaz de desviar minha atenção de você — ele se corrigiu.
— Claro que não.
Lucinda pensou naquela declaração. Ele esperava que ela sentisse ciúme? Ela deveria sentir ciúme?
— Não sabe mesmo por que ele está dançando com ela?
— Não — mentiu.
— Mas você é amiga dele, não?
— Não perguntei, nem ele me perguntou por que estou dançando com você. — Ela começou a se aborrecer. — A solução seria você tirá-la para dançar e descobrir por si mesmo.
Geoffrey a fitou e sorriu.
— Peço desculpas de novo, Lucinda. Saiba que você é o centro dos meus pensamentos.
Ela retribuiu o sorriso para mostrar que não se ofendera.
— Tem apenas duas danças comigo... O resto da noite estará livre.
Assim que a dança terminou, confirmando o que ela previra, uma meia dúzia de cavalheiros, Geoffrey entre eles, aproximou-se de Margaret.
Mas Robert sumira de novo. Sem dúvida já cumprira sua boa ação. Uma jovem candidata a tomar um "chá-de-cadeira" agora teria par a noite inteira. E alguns jovens que passariam a noite em pé, conversando sobre cavalos ou fazendo apostas, estariam fazendo alguma coisa útil.
— Vinho Madeira? — St. Aubyn ofereceu, surgindo ao lado dela.
— Sim, obrigada. — Aceitou a taça e tomou um gole.
— Onde está Evie?
— Testando minha paciência com Bradshaw. — O marquês apontou o par posicionando-se para a quadrilha.
Ela procurou seu parceiro e o viu em meio à aglomeração em volta de Margaret.
— Já dançou hoje? — perguntou a St. Aubyn.
— Com Evelyn, a menos que você queira um par, claro.
— Minha quota está completa, obrigada.
Ela, e toda a Londres, conheciam St. Aubyn havia anos. Sua fama era merecida, porém ele sofrerá uma notável mudança desde que havia conhecido Evelyn. Ela, Lucinda, embora tivesse aprendido a apreciar sua inteligência e humor sagaz, jamais conseguira antever o que ele diria ou faria.
— Curioso... — St. Aubyn olhava para Bradshaw e Evelyn.
— O quê?
— Sua família é amiga dos Carroway. Mas o que houve entre seu pai e Robert?
Ela o fitou com um aperto no estômago. O pai jamais contara a ninguém suas reservas quanto a Robert, muito menos às suas amizades.
— Como assim?
St. Aubyn encolheu os ombros.
— Talvez eu esteja interpretando mal Robert. — Concedeu um sorriso obscuro. — Tendo mesmo a procurar confusão.
St. Aubyn jamais oferecera uma interpretação errada para algo que ela tivesse notado. O pai não gostava muito de Robert, era verdade, mas ela não imaginara que a inimizade pudesse ser recíproca.
— Qual seria o motivo? — Franziu o cenho.
— Seu parceiro deve estar esperando. — O sorriso de St. Aubyn tornou-se mais denso. Ele a tocou no braço e se inclinou. — Gosto de satisfazer minha curiosidade, mas não a compartilho.
— Muito conveniente.
Charles Daymore tornou a aparecer atrás dela. Lucinda girou o corpo e lhe deu o braço.
— Vamos dançar nossa quadrilha, por favor.
A dança mal começara, e ela avistou novamente Robert, dessa vez com Hyacinth Styles. Uma menina simpática, mas tímida de dar dó, cuja presença no salão era quase tão surpreendente quanto a de Robert. O par dançava mais ou menos na mesma diagonal, o que aborreceu Lucinda, pois a forçou a admitir que precisava muito conversar com ele.
Evelyn, e principalmente Bradshaw, também os observavam, embora, para Lucinda, Bradshaw devesse mesmo era é ficar de olho no marido de Evelyn.
Ela procurou St. Aubyn no salão e o viu ao lado de Tristan e Georgiana. Ele não teria mencionado o problema entre o general e Robert se não tivesse motivo.
O que seria? Por que ela não notara?
— Lucinda, você vai a Vauxhall no sábado? Charles fez a pergunta quando os dois rodavam em volta um do outro. E com uma entonação tão auspiciosa, que ela se lembrou de que quase não lhe dirigira a palavra. Ela o fitou, sem graça, e ele sorriu.
— Eu soube que o Regente pretende comparecer pessoalmente.
— Vou com uns amigos.
— Mesmo? — Ele sorriu, esperançoso.
Lucinda procurou uma maneira delicada de dizer que ele não seria convidado.
—Uma pena só conseguirmos alugar um camarote pequeno... Se soubéssemos que o Regente iria, teríamos procurado um maior para acomodar a todos.
— Sem dúvida,
Agora que Charles mencionara Vauxhall, ela conjeturou se Robert iria.
Suspirou. Deveria preocupar-se, isso sim, em saber se lorde Geoffrey iria com eles. Tristan ficara de convidá-lo, e ela teria de confirmar com Georgiana.
Quando a dança terminou, Charles a acompanhou de volta até lorde e lady Dare.
Vendo-se a sós com ela, eventualmente, Georgiana a segurou pela cintura.
— O que você contou ao Bit dos itens de sua lista?
— Mencionei que é constrangedor para uma dama tomar um "chá-de-cadeira" quando há cavalheiros presentes — ela confessou, sem graça.
— Entendo.
Lucinda se preocupou. Agora Georgiana ficaria zangada com ela ou, pior, poderia acusá-la de incentivar Robert a ir adiante.
Não, ela não fizera nada errado. O próprio Robert sabia que ela estava interessada em Geoffrey.
—Ele sabe que eu escolhi lorde Geoffrey, Georgie... — sussurrou, preocupada.
Georgiana a beijou no rosto.
— Ele veio, e está dançando. O que o inspirou, nem quero saber.
Uma mão tocou o ombro de Lucinda, e Tristan a surpreendeu com um beijo do outro lado.
— Não sei por quê, mas Georgie acha que a responsabilidade em parte é sua.
— Acho que Robert queria isso. Fui apenas um pretexto para ele agir. Não agradeçam a mim.
O resto da noite passou em um redemoinho de casacas e vestidos de seda. Robert Carroway dançou todas as músicas, nenhuma com ela. Mais tarde, notou, seus ombros pareciam mais tensos, o rosto tristonho. Mesmo assim ele continuou. Graças à sua atitude, muitas jovens que teriam sido ignoradas estavam com seus cartões cheios, e ainda foram convidadas para um ou outro piquenique durante a semana.
Lucinda interagiu com Geoffrey tanto quanto interagira com Robert. Mesmo durante os intervalos para os refrescos, ela o vira anotando seu nome nos cartões de jovens a quem, provavelmente, ele nunca dera atenção antes. Lucinda chegou a conjeturar se o sumiço de Robert faria parte do plano; mas isso seria esperar muito, mesmo de alguém com os poderes de percepção do irmão do meio dos Carroway.
A última dança da noite era a valsa, e Geoffrey a procurou novamente, enfim.
— Vamos? — Estendeu a mão, e Lucinda se dirigiu com ele ao salão.
— Teve uma noite agitada... — Ela se esforçou para não rir quando ele a fitou, exasperado.
— Ao menos alguém notou... Olhe, lá vem ele de novo. Geoffrey apontou para o outro lado do salão. Era Robert entrando na pista com a srta. Jane Melroy.
— Esse aleijado está determinado a dançar com todas as moças feias de Londres. Pudera... E o que ele pode conseguir hoje em dia.
Lucinda se soltou. Talvez devesse incluir um simples "seja cavalheiro" na lição, porém Geoffrey sabia que ela era amiga de Robert... Ela dissera isso várias vezes!
— Com licença. Meu pai está muito cansado... Acho melhor irmos, para casa.
O sorriso de Geoffrey se esvaiu.
— Eu a ofendi. Peço desculpas.
— Não foi a mim que você insultou, Geoffrey... De qualquer modo, já pedi para não chamá-lo assim.
— Vou vê-la em Vauxhall, não? — Ele a segurou pelo braço.
— Provavelmente.
Lucinda comprimiu os lábios. Não queria que a noite terminasse assim, mas também não iria tolerar outro comentário daqueles por parte de Geoffrey.
— Boa noite.
— Lucinda — ele protestou, ainda tentando segurá-la pela manga.
Ela a puxou, soltando-se.
— Pode ter sido uma brincadeira, mas de extremo mau gosto. Não aprecio quem faz pouco dos outros. Passar bem, Geoffrey.
O general, talvez sentindo que havia alguma coisa errada, afastou-se de seu grupo e foi ao encontro dela.
— O que houve, minha filha?
— Nada. Apenas tomei uma atitude. Vamos para casa?
— Sou o ponto de exclamação de sua atitude.
— Obrigada. — Lucinda deu o braço ao pai.
—Estamos desistindo de Geoffrey? — Ele a conduziu em meio à aglomeração, rumo a uma das portas do salão.
— Não. Estamos apenas insistindo que ele tenha mais consideração pelas pessoas não tão perfeitas quanto ele.
— Ele não me parece nada satisfeito.
— Ótimo.
Ao passarem pela porta dupla, ela não resistiu: olhou por cima do ombro. Geoffrey continuava parado no mesmo lugar, a linha rígida das costas revelando raiva.
Mais perto, porém, Robert a fitava por sobre a cabeça de seu par. Instantes depois, lançava-lhe um sorriso discreto.
Lucinda tomou a carruagem com o pai, pensativa. Robert devia mesmo ler a mente das pessoas.
Se isso fosse verdade, ela estava em apuros.
Robert acordou muito depois do sol nascente. Esperava estar tenso e agitado depois de ter passado a noite anterior no meio de tanta gente, porém sentia-se relaxado e satisfeito. Ele conseguira. Ficara na festa até o fim, participara de todas as danças. As conversas, ele reconhecia, tinham sido um tanto esparsas, mas isso ele podia corrigir.
Sentou-se na cama, pôs as pernas para fora e se levantou.
E caiu no chão.
— Praga!
Tentou se levantar, impulsionando-se na coluna da cama, mas o joelho latejou, recusando-se a suportar seu peso.
Fazia sentido. Preocupado que o pânico o assolasse no meio do salão, não pensara no estrago que as quatro horas de dança fariam à sua perna manca.
Saltou em um só pé até o armário, ainda praguejando, apanhou uma calça e largou-se na cadeira da penteadeira para vesti-la. Um criado seria útil nessas horas, mas isso estava fora de questão.
Olhou-se no espelho. Os cabelos emaranhados e a barba de um dia não o preocupavam. Ele já estava acostumado a vê-los. Quando olhava o próprio reflexo, geralmente já se encontrava ao menos de camisa.
Agora, com o peito nu, seu olhar se desviou para os ferimentos que ele próprio tinha causado. Uma pequena cicatriz redonda logo abaixo do ombro esquerdo, outra no alto das costas, onde a bala saíra. Havia uma marca maior, com a pele franzida, no lado esquerdo da bacia. Outra atrás: uma mancha irregular branca, onde o cirurgião espanhol tentara, por vinte minutos, extrair a bala de chumbo que ainda tinha no corpo.
Uma outra cicatriz, mais estreita e alongada, marcava o braço direito, onde o primeiro tiro o atingira de raspão. O último fora no joelho esquerdo: o tiro que o derrubara.
Robert se inclinou até a cômoda e, com a ponta dos dedos, apanhou uma camisa. Afastou-se do espelho e enfiou o pano branco cabeça abaixo.
Pronto. Agora todas estavam escondidas, mas não esquecidas... Jamais.
Barbeou-se, lavou-se e se vestiu. Quando abaixou para pegar as botas, caiu de novo no chão, ao lado da cama. Fazia dois anos que abandonara a bengala, do que se arrependia naquele momento.
Quando começou a conjeturar como chegaria à sala do café, lá embaixo, alguém bateu à porta.
— Entre.
Edward entrou, o olhar procurando o tio na janela, onde ele costumava se sentar para ler. O menino titubeou ao avistar o irmão sentado no chão com uma bota calçada.
— O que houve?
— Estou me vestindo. E você, o que quer?
— Vim procurar você. Está sentado no chão!
— Estou? — Robert calçava a segunda bota. — Devo ter errado a cama. Quem está em casa?
— Todos. E...
— Que bom. Chame Shaw ou Andrew, por favor. Os dois fariam menos perguntas do que Tristan. Edwardo bufou.
— Posso contar uma coisa primeiro?
Robert se apoiou de costas na cama e cruzou os braços.
— Pode.
— Tem visita para você, foi o que vim avisar.
— Quem é? — O coração dele palpitou.
— Lucinda. Ela está conversando com Georgie. Disse que não tem pressa, mas...
Robert tentou se agarrar à coluna da cama, mas desistiu. Dissipara-se o horror de não saber com quem seria forçado a conversar, mas permanecia a ansiedade que lhe corria sorrateira sob a pele.
— Obrigado. — Notou que Edward o fitava boquiaberto. — Por favor, chame Shaw ou Andrew.
— Quebrou a perna de novo?
— Não, a perna só está cansada... E eu, tentando não deixar Lucinda esperando. Quer me fazer o favor de chamar um adulto. Miúdo?
Mas Edward, em vez de sair, aproximou-se.
— Eu ajudo você.
— Se eu cair, posso esmagar você, e nós dois vamos precisar de ajuda!
Edward o avaliou com o olhar enviesado.
— É mesmo, você pode me esmagar. Não se mexa, volto logo — concedeu, e voou porta afora.
— E seja dis...
— Shaw! Andrew! Bit machucou a perna, precisa de ajuda!
— ...creto — Robert completou com um suspiro. Logo, passos estrepitosos subiam as escadas para o terceiro andar Robert estalou a língua. Não queria alarmar toda a família de novo. Já dera muito trabalho desde que voltara da Europa.
— Bit, o que... — Shaw parou à porta aberta. Sem fôlego, com o semblante preocupado e desorientado, viu o irmão com uma perna levemente dobrada apoiando-se na coluna da cama de carvalho.
— Meu joelho...
— O que houve? — Tristan e Andrew perguntaram ao mesmo tempo, procurando a melhor posição para aprumá-lo por trás. O mordomo e três lacaios espiavam do corredor.
— Georgie não está subindo também, não é? — O pensamento o alarmou.
— Eu disse a ela para ficar lá embaixo com Lucinda. O que houve?
Ele soltou o ar, aliviado.
— Nada. Meu joelho endureceu, foi isso. Pedi a Miúdo para trazer alguém para me ajudar a descer, mas, como sempre, ele exagerou.
— Vou ter uma conversinha com esse moleque — Shaw falou, zangado. — Ele precisa saber que não pode assustar as pessoas desse jeito. — Dirigiu-se a Dare. — Vocês o agüentam sozinhos?
— Agüentamos.
— Vamos descer, pessoal! — Ele abriu caminho entre os presentes no corredor
— Não ouviram? — Tristan reforçou. — Dawkins, Henry... todos para baixo.
— Sim, milorde. — O mordomo orientou os lacaios que ali se aglomeravam a desimpedirem o corredor.
— Está doendo? — O visconde voltou ao quarto acompanhado de Andrew.
— Não — Robert mentiu. Havia dias vinha sentindo dor Tristan o fitou por instantes.
— Vamos levar você lá para baixo, depois vou mandar buscar um médico para ver esse joelho. Não devia tê-lo forçado tanto.
— Não quero médico nenhum.
— Mas, Bit...
— Não. — Aquela arenga não podia durar a vida inteira. Já estava cansado de cutucadas e agulhadas.
— Está bem, sem médico. — Tristan bufou. — Por enquanto.
Robert não respondeu. O que ele queria, naquele instante, era ir lá para baixo.
— Vão me levar ou não?
Com Andrew apoiando-o sob o ombro esquerdo e Tristan sob o direito, Robert claudicou mui dignamente escada abaixo, e entrou no salão do café. Shaw já avisara a todos que Robert estava bem e, pelo olhar acabrunhado de Edward, o caçula fora admoestado quanto aos perigos de um alarme falso.
Robert se desvencilhou dos irmãos assim que encontrou uma cadeira vaga onde se apoiar. Depois de certificar-se de que não havia mais ninguém assustado, voltou a atenção para Lucinda, para quem teria olhado quando entrou no salão se tivesse como disfarçar a alegria de revê-la. Afinal, eram só amigos.
Olhos castanho-claros, porém, fitaram-no depois de inspecionar sua perna dobrada. Claro, agora ninguém mais podia se esquecer que Robert Carroway era um aleijado, ele pensou, desgostoso. O louco dançara tanto que não conseguia mais andar.
Com a memória refrescada, Lucinda, sem dúvida, daria uma desculpa e iria embora.
— Eu vim perguntar se você não queria ir caminhar comigo, e me mostrar como vão indo as rosas... Mas, como agora temos que descartar a caminhada, que tal você me contar?
Ele engoliu em seco. Lucinda trajava musselina amarela e parecia a luz do sol.
— Miúdo, a bengala de tia Milly deve estar no quarto dela. Poderia ir pegá-la para mim?
— Volto já. — Edward pareceu feliz de evadir-se dali.
— Robert — Tristan cochichou-lhe ao ouvido —, você precisa descansar...
— Tenho uma pergunta sobre uma das mudas, srta. Barrett. — Ele ignorou o irmão.
— Que bom! — O sorriso afetuoso de Lucinda se firmou. — Gosto de me sentir uma autoridade nas coisas.
Edward logo voltou com a bengala. Robert a pegou e testou, confirmando que resistiria ao seu peso. Era um pouco curta, e seu joelho doía muito, mas ele suportaria. Suportaria qualquer coisa.
— Vamos? — Indicou que Lucinda fosse na frente. Foi uma façanha chegar à porta da frente e descer os degraus, e o esforço deve ter se refletido em seu rosto, pois Lucinda segurou-lhe o braço desimpedido.
— Pode deixar — ele resmungou, desvencilhando-se do contato. — Não preciso de ajuda.
Os olhos castanho-claros fitaram os seus, um tanto ressentidos.
— Não vou ajudar — ela afirmou. — Estou apenas tentando forçá-lo a me acompanhar como um cavalheiro.
Os braços de Lucinda, vestidos em mangas curtas e bufantes, estavam nus até os pulsos, onde elegantes luvas de renda deixavam entrever os dedos. O calor dela atravessava a manga de sua camisa e aquecia sua pele. Ela deu-lhe o braço, obstinada.
— É outra lição? — Robert forçou-se a perguntar, satisfeito com o tom normal de sua voz.
— Não, é uma regra geral.
Graças à simulada falta de assistência por parte dela, ele se deslocou com facilidade pelo caminho, e os dois chegaram ao roseiral, ao lado da cocheira, sem que ele se estatelasse no chão.
— As mudas parecem muito saudáveis — ela elogiou.
— Usei linguado.
— Isso! Para as rosas, o melhor! Há umas folhinhas nascendo, você viu? Ali e ali.
Robert a fitava, ciente de que um terremoto agitava as cortinas da biblioteca... ou então que a família inteira os estava espionando.
— Não veio até aqui para avaliar as folhas do roseiral — falou num impulso.
— É verdade. Vim para agradecer por ontem à noite. Se eu tentasse dar aquela aula sozinha, não teria logrado tanto êxito. Foi ótimo. Você foi ótimo.
— Deu certo por sua causa. Se Geoffrey não pensasse que você tem um certo interesse por mim, nem teria me visto. Ninguém teria.
Um certo interesse por Robert. Coisa de colegial apaixonada, o que também não ajudava em nada.
Lucinda olhou as rosas e conjeturou se ele, de fato, não sabia o quanto tinha agradado. Ela e Geoffrey não haviam sido os únicos a observá-lo. Com os cabelos castanhos desgrenhados, os olhos intensos, Robert parecia um poeta. E tornara-se ainda mais atraente por causa do mistério que o envolvia. Não só para ela, os muito sussurros que ouvira, só haviam atestado admiração.
— Seja como for, eu agradeço. Aquelas moças ficaram tão contentes! Sei que não deve ter sido fácil para você...
— Eu estou bem — ele interrompeu.
Uma expressão que Robert usava amiúde. Uma resposta automática para quem se preocupava com ele.
— Não, não está. Você machucou sua perna por conta da minha empreitada.
Ele não se moveu, mas Lucinda o sentiu se distanciar.
— É só o meu joelho. Endurece quando me apoio nele por muito tempo... Você e Geoffrey discutiram?
Lucinda titubeou. Ele devia ter notado. Reparava em tudo.
— Ele fez um comentário... depreciativo sobre uma pessoa que estava dançando ontem, e eu não gostei.
Ela fez uma pausa. Se Robert podia se intrometer em assunto dela, faria o mesmo.
— Você levou um tiro no joelho, não foi? No rosto dele um músculo repuxou.
— Levei. O comentário de Geoffrey... foi sobre mim, não foi?
— Foi — ela confessou em voz baixa. — Por isso não gostei.
— Mas me coloquei como rival potencial dele — Robert observou enquanto passavam, vagarosos, pela frente do roseiral e se encaminhavam para a cocheira. — Se ele me insultou, é bom sinal.
— Insultar alguém não pode ser bom sinal — ela contestou. — Você e ele tiveram as mesmas experiências. Se ele não consegue ser solidário com um combatente...
— Nós não tivemos as mesmas experiências. Ele pensa que sim. Todos pensam. É por esse motivo que... — Robert se interrompeu. — Como são os pulgões?
— Você só precisa se preocupar com pulgões quando as flores brotarem.
Ela o segurou pelo braço. Não conseguiria fazer isso se a perna dele não estivesse machucada.
— É por esse motivo o quê, Robert?
— Nada.
— Termine o que ia dizer.
Robert fez que não. Olhava para a cocheira, agora, como se quisesse fugir. Se o fizesse, ela iria atrás dele. Georgiana fizera algumas insinuações, ele evitara discuti-las, mas ela só queria saber por que ele se sentia tão magoado.
— É por isso que me desprezam — ele sussurrou, por fim.
— Está errado, Robert. Ninguém tem o direito de desprezá-lo — Lucinda contrapôs, aborrecida com a ideia, e também consigo mesma por tê-lo obrigado a falar. — Você foi ferido muitas vezes. Wellington em pessoa o chamou de herói por sua atuação em Waterloo.
Ele soltou o braço com um puxão e mancou até a cocheira.
— Não atuei em Waterloo — disse, desaparecendo cocheira adentro.
Lucinda foi atrás, decidida. A um breve aceno de Robert, os três cavalariços saíram, deixando-os sozinhos com os cavalos.
— Claro que teve. Afora a preferência política de Wellington, você...
— Eu não estive em Waterloo, Lucinda.
Robert seguiu na direção do boxe de seu cavalo baio. Tolley colocou a cabeça para fora e acariciou-lhe o braço com o focinho.
— Agora pode ir embora.
Lucinda fitou as costas largas, chocada. Todos sabiam que ele fora ferido em Waterloo. Ela se lembrava: fora um dos primeiros soldados a voltar para Londres, apenas três dias após a batalha.
Hesitou. O mensageiro de Wellington levara dois dias para trazer a notícia ao príncipe George, tendo ido a cavalo até o navio que o esperava.
— Está calculando o tempo, não está? — Robert perguntou, calmo. — É filha do general Barrett, conhece as rotas por onde viajavam as tropas e as informações... Fiquei feliz por a notícia ter chegado antes de mim, assim não tive que responder a nenhuma pergunta.
Não, não é possível, ela pensou.
— O que aconteceu, Robert? —Aproximou-se e pousou a mão no ombro dele. Sentiu os músculos se contraindo ao toque. — Os tiros, como aconteceram?
Ele se voltou, claudicante, e a fitou, acuado.
— Não precisa saber.
— Preciso, sim.
— Vai contar ao seu pai.
Ele tentou contorná-la, mas Lucinda, novamente aproveitando-se da perna defeituosa, empurrou-o contra a porta do boxe, tomou-lhe a bengala e a escondeu atrás do corpo.
— Não vou contar nada a ele.
— Por que não?
— Porque você não quer.
Robert cerrou os olhos por instantes, já ofegante. Quando olhou de novo para ela, dissimulou o mal-estar.
— Por que você quer saber?
— Porque somos amigos, Robert. E amigos se preocupam uns com os outros.
Ela estendeu a mão e pousou-a no coração dele. Tocá-lo talvez não fosse a medida indicada, mas era a única capaz de fazê-lo reagir.
Curioso, tocar Geoffrey não lhe causava arrepios na pele.
— E os amigos guardam segredos. Portanto, se quiser contar, conte. Senão, continuarei sua amiga.
Ele a fitou longamente.
— Já ouviu falar do Castelo Pagnon?
— Já. É no sul da França, não?
— É. Passei sete meses lá.
Robert dera a entender, pela entonação na voz, que estivera no castelo em férias. Mas ela sabia que fora uma dissimulação.
— Por quê?
Ele entreabriu os lábios para falar, no entanto, tudo o que emitiu foi um suspiro.
— Não quero falar disso... — decidiu e, inclinando-se, capturou os lábios dela com os seus.
Lucinda se aproximou mais, quase instintivamente, cravou os dedos na lapela de Robert e impulsionou-se contra o tórax sólido e rijo. Carinho... Desejo. A sensação a arrebatou quando ele moldou seus lábios nos dela e os comprimiu. Foi como se ele respirasse por intermédio dela.
Ardor e desejo percorreram-lhe a espinha sob o afago das mãos de Robert.
Ela soltou um suspiro. O primeiro beijo fora experimental, como se ele tentasse se lembrar o que era um beijo...
Mas não aquele. Lucinda sabia muito bem o que ele queria: ela.
Mente e corpo começaram a sincronizar, e ela se percebeu gemendo, bebendo daquela boca.
— Não! — Ela tentou afastá-lo, de súbito. — Pare, por favor.
Robert a soltou abruptamente.
— Desculpe. Eu não queria...
— Você não queria me beijar. — Ela recuou e quase tropeçou na bengala caída. — Pois muito bem.
— Não, não é isso! — Ele deu um passo à frente, claudicante, tentando apanhar a bengala. — Eu queria beijá-la.
— Mas, por quê? — ela balbuciou, ainda pouco à vontade com o calor que sentia sob o leve vestido de musselina.
— Se eu contar, acho que não poderemos mais ser amigos... — Ele ainda fitava os lábios carnudos. — Ainda somos amigos, não?
Lucinda pensou em ponderar que jamais um amigo a beijara assim, deixando seu coração à beira de explodir no peito. Mas, se reclamasse que ele passara dos limites, Robert se fecharia, jamais a tocaria ou beijaria de novo, do que, por ora, ela não estava preparada para abrir mão.
— Sim, somos amigos — concordou, ajeitando a frente do vestido. Se ele dissesse que a desejava, o desejo era mútuo. Porém, se não queria aborrecê-la, se não estava falando a sério, a pessoa que ele fosse beijar com tais intenções poderia morrer em seus braços de pleno êxtase. — ...Claro que somos.
Ele se aprumou e olhou em volta. Parecia ter se esquecido que estavam na cocheira.
— E melhor eu devolvê-la para Georgiana. — Moveu-se com auxílio da bengala, oferecendo o braço a Lucinda.
— Claro. A esta altura, sua família deve estar se perguntando o que fizemos às suas rosas.
Na entrada da cocheira, Robert parou de novo.
— Irá ver os fogos de artifício em Vauxhall?
— Vou. Você vai?
— Vou tentar. Lá você terá de me contar qual é a terceira aula para lorde Geoffrey.
Robert a deixou com Georgiana na sala íntima e sumiu nas entranhas da mansão. Lucinda, por mais que gostasse da companhia da amiga, naquela manhã quis demorar-se pouco e ir logo para casa. Precisava pensar mais no porquê de lorde Geoffrey ainda não tê-la beijado, quando Robert já o fizera duas vezes.
E ainda precisava transcrever vários diários de guerra do general, um dos quais, se não estava enganada, mencionava o Castelo Pagnon.
Era isso. Uma pesquisa, era o que faria.
— Bom dia, srta. Lucinda — Ballow saudou ao abrir a porta. — Só a esperávamos para o almoço.
— O general está? — ela indagou, animada, desejando ter a habilidade de Robert para se esquivar dos interrogatórios, sutis ou não.
— O general foi convocado para uma reunião na Guarda Real Montada, senhorita. Posso mandar Albert lhe servir um chá?
— Não, obrigada. Vou ter que... Estarei no escritório do general. — Ela entregou o chapéu e o xale.
Tinha o semblante contraído. Estava agitada, como se tivesse tomado várias xícaras de café.
Tudo por um beijo que não devia ter acontecido. E que, mesmo incandescendo-a até os dedos dos pés, não passava de um beijo.
Os diários ainda por editar encontravam-se guardados em ordem de data em uma mesa lateral. As anotações eram muito resumidas no caso das campanhas mais rápidas, daí a necessidade da colaboração de Geoffrey, ou fartamente descritas. Às vezes o pai mencionava incidentes terríveis, mas não os detalhava. "Como condizia a um cavalheiro", ele sempre dizia.
Lucinda folheou o primeiro diário, procurando os nomes dos lugares. Encontrou nomes de cidades onde houvera ocupação. Em outro, batalhas, como Cadiz, Burgos e Terragona, além de nomes de oficiais britânicos, como o general Rowland Hill e o major-general Galbraith Cole.
Encontrou o que procurava no diário da primavera de 1814. Em meio a uma breve descrição da batalha de Bayonne, nos Pirineus, o general mencionava um castelo encravado no sopé de uma montanha, já dentro da fronteira francesa. O nome era Castelo Pagnon, e a descrição, felizmente, não omitia as principais estradas e atalhos de acesso pois, na opinião de seu pai, para ocupá-lo precisariam da metade do exército peninsular.
Ela folheou algumas páginas à frente, depois voltou. Nada mais. A julgar pela concisão do relato, ele devia ter estado muito ocupado naquele dia.
Recostou-se no espaldar com um suspiro. Agora sabia que o Castelo Pagnon ficava ao norte da cidade de Bayonne, que estivera fortemente defendida. E sabia que Robert Carroway ali passara meses a fio. Teria sido enviado para lá para recuperar-se dos ferimentos? A descrição do general deixava transparecer que o castelo não estivera sob domínio britânico ou espanhol. E as feridas de Robert, pelo que sabia, ainda estavam abertas quando ele voltara para casa. Não tinham sido tratadas em um mosteiro ou coisa assim.
— Que confusão!
Lucinda sobressaltou-se. O pai estava no vão da porta, os braços cruzados sobre o peito largo.
— Eu estava procurando... uma coisa.
Como tivesse aberto muitos diários em cima da estante e da escrivaninha, tratou de fechar um por um e pô-los de novo em ordem.
— Segredos militares? — Ele entrou e fechou a porta.
— Como se o senhor fosse anotá-los em um diário... — Ela forçou o sorriso, desocupando a poltrona do pai.
— Você mencionou um castelo chamado Pagnon. Era algum hospital militar, ou coisa do gênero?
— Por quê? — O general caminhou para o outro lado do escritório, a expressão agora arrefecida.
— Perguntei por perguntar. — Lucinda se dirigiu à porta. — Suas anotações da batalha de Bayonne estão muito resumidas.
— Sim, foi uma batalha confusa. — Com o semblante grave, ele afundou na poltrona. — Não foi um bom momento para o Exército britânico, nem para mim.
— Nunca soube disso. — Ela pausou com a mão na maçaneta da porta.
O pai dela bufou, depois abriu o diário de Bayonne.
— Castelo Pagnon. Ouvi alguns soldados comentar a respeito. Do jeito que falavam, Mary Shelley deve ter se inspirado nele para escrever aquela história do monstro.
— Frankenstein?
— Esse mesmo. Mas foram só rumores. — Augustus olhou novamente as anotações. — Escrevi que, do ponto de vista militar, ocupar o lugar seria um pesadelo... Mas, quem mencionou esse castelo, filha?
O general sabia mais, era óbvio, porém não queria se abrir. Lucinda quis perguntar, contudo se comprometera com Robert e já ultrapassara os limites com o pai. Se insistisse, ele faria o mesmo.
— Um amigo, de passagem — respondeu, por fim. — Obrigada.
— De nada.
O tom do pai, entretanto, a fez se voltar novamente.
— Alguma coisa errada?
— Hein? Não. Uns pequenos entreveros na Guarda Real Montada.
— Não quer me contar?
— Não é nada importante. — O general sorriu. — E você, tem algo a me dizer sobre esse seu súbito interesse pelo Castelo Pagnon, por exemplo? Que amigo o mencionou?
— Ah, nem me lembro — ela respondeu, pouco à vontade.
Acostumara-se a conversar livremente com o pai, mas Robert deixara claro que não queria o general sabendo do assunto.
— O nome me chamou a atenção, pareceu-me conhecido.
— Entendo.
A expressão do pai revelava que ele já fazia ideia de quem era esse amigo, porém ele preferiu se calar.
— A conversa está interessante, filha, mas agora preciso trabalhar um pouco. Até mais tarde.
Lucinda saiu do escritório com mais perguntas do que respostas. Continuou pensando no assunto enquanto cuidava das rosas, depois subiu para trocar de roupa.
Ao se sentar para pentear os cabelos, porém, flagrou-se examinando o próprio reflexo no espelho, incomodada. O que ela queria, remexendo nas coisas do pai?
E as aulas nada tinham a ver com Robert, que, de um jeito ou de outro, se envolvera na história. Mesmo assim, a primeira coisa que ela havia pensado em fazer pela manhã fora ir até a Mansão Carroway para agradecer-lhe.
Além disso, dedicara a tarde a descobrir algo sobre o Castelo Pagnon... além de pensar naquele beijo.
Suspirou. Precisava urgentemente reavaliar seu plano de ação. Afinal de contas, tivera na noite anterior uma discussão desagradável com seu futuro marido, e nem sequer pensara no assunto.
O que Robert dissera, o que começara a contar, todavia, ela não poderia ignorar. Como poderia esquecer? E como evitar querer saber tudo o que havia acontecido a ele?
— Não, Lucinda. — Ela olhou séria para a figura no espelho. — Faça o que se propôs a fazer!
O beijo de Robert a excitara, porém ele seria um problema para ela. Nada havia nele que pudesse lhe facilitar a vida. Robert não poderia, nem conseguiria, conversar naturalmente com o general, de quem, caso se confirmassem as suspeitas de St. Aubyn, ele nem sequer gostava. Além disso, era certo que Robert não lhe seria companhia agradável.
Alguém bateu á porta, e Lucinda se apressou em ajeitar os cabelos.
— Entre!
— Srta. Lucinda — Ballow anunciou —, há uma visita para a senhorita. — Estendeu o braço com a bandeja de prata. No centro, um cartão de visita elegante, em alto relevo: Lorde Geoffrey Newcombe.
Logo agora? E ela em trajes de jardinagem!
— Praga...
— Digo que a senhorita saiu?
— Não, diga que desço em alguns minutos. Peça a Helena para vir aqui, por favor.
— Sim, senhorita. — O mordomo se retirou e fechou a porta.
Ela escolheu outro vestido rapidamente. Quando Helena chegou, ajudou-a a vestir o de musselina azul, e a pentear de novo os cabelos.
Em menos de cinco minutos, ela descia as escadas correndo.
— Lorde Geoffrey está com o general, no escritório — Ballow avisou ao vê-la.
Claro, pois Geoffrey parecia mais interessado em relacionar-se com o general do que com ela, o que, aliás, atendia aos propósitos de Lucinda. Ela, por sua vez, passara a manhã com Robert, e não perdera tempo pensando em como fazer as pazes com seu pretenso aluno.
— Olá — cumprimentou os homens com um sorriso. Os dois interromperam imediatamente a conversa, e Geoffrey se levantou.
— Lucinda, que bom que a encontrei em casa.
— Voltei cedo de uma visita.
Geoffrey olhou para o general, depois de novo para ela.
— Eu esperava convencê-la a almoçar comigo.
Que ousadia passar por lá esperando encontrá-la à disposição. Mas Geoffrey estava com sorte, pois ela não marcara nada para o resto da tarde.
— Considere-me convencida — concordou, sorrindo. Saíram no coche de Geoffrey, com Helena atrás, assim que Lucinda colocou o chapéu de passeio. Por instantes ela se imaginou na companhia de Robert Carroway, pois lorde Geoffrey, em silêncio, não fazia outra coisa senão apertar os maxilares.
Cabia a ela puxar conversa, falar do tempo ou da última atuação de Edmund Keane no Teatro Drury Lane, porém, a imagem de Robert dentro de um castelo de pedra envolto em neblina a instigava.
Ora essa, ela precisava saber por que ele ficara em tal lugar, e o que ele havia feito lá... O que não conseguiria conjeturando sozinha. Só Robert poderia responder.
— Ainda está zangada comigo? — Geoffrey perguntou de repente.
— Eu...
— Peço desculpas, sinceramente — ele a interrompeu. — Diga o que preciso fazer para você me perdoar.
Lucinda pensou em dizer que não era preciso ele se humilhar, mas, como filha do general Augustus Barrett, tinha instintos eficazes. Talvez fosse hora de Geoffrey começar a responder algumas perguntas, já que ninguém se prontificava a fazê-lo.
— Esclareça uma coisa para mim — começou, devagar.
— Qualquer coisa.
— O que você e eu estamos fazendo aqui?
— Quer saber por que estamos aqui, agora, no meu coche? Porque eu a aborreci ontem e...
— Não, Geoffrey. Você sabe o que quero dizer. Ele a fitou, incomodado.
— Certas perguntas, Lucinda, uma dama não deve fazer.
— Seja condescendente... É importante. E seja sincero. Sua bela fisionomia retorceu-se levemente, mas ele aquiesceu.
— Pois bem, estamos aqui por dois motivos. O primeiro, é porque você é bonita, agradável, prática, conhece a vida militar e eu desejo você.
— E o segundo motivo?
— O segundo motivo... — Ele olhou em volta, assegurando-se de que ninguém poderia ouvir. — O segundo motivo é constrangedor, e peço sua discrição.
— Pode contar com isso.
— Seu pai é general, e eu, apenas o quarto filho do meu pai. Ainda estou no Exército, você sabe.
— Meu pai me contou.
— Minha licença voluntária foi prorrogada, com metade do soldo, por sugestão do meu comandante. Como você sabe. Sua Majestade, durante a guerra peninsular, recrutou muitos soldados e oficiais. Mas a guerra acabou e estou em dificuldades.
Lucinda anuiu, exprimindo ter entendido a situação.
—Recebo pouco dinheiro de minha família, que esperava que eu enriquecesse na carreira militar — ele prosseguiu, consternado. — Minha perspectiva era promissora, no entanto a guerra acabou antes que saísse a minha promoção. Nem o tiro em Waterloo ajudou. E ascensão militar em tempo de paz, como você sabe, é quase impossível. Mas seu pai é um dos decanos da Guarda Real Montada. Se você e eu nos uníssemos, minhas chances de ser promovido a major, e ir comandar algum posto na Índia, seriam muito maiores.
Então era isso. Geoffrey se encontrava na posição nada invejável de precisar da guerra ou de um protetor influente. Ela estava certa: ele a assediava para cortejar o pai dela.
Deixaria o fato de ele querer servir na Índia para consideração posterior. Até porque os maridos, para manterem o status social, em geral deixavam as esposas em Londres.
— Deve estar ainda mais zangada agora. — Ele suspirou. — Mas você me pediu franqueza.
— Verdade.
— Mas eu ainda pretendo conquistar seu coração, Lucinda.
— Geoffrey, desde o início eu duvidei dos seus motivos. Não posso culpá-lo de ser prático, característica que, como você mesmo diz, também admira em mim.
— Não está zangada?
— Não.
— Posso continuar procurando você.
— Pode.
O coche entrou no centro de comércio Pall Mall, e Geoffrey freou a parelha ao longo do bistrô predileto de Lucinda. Saltou para o chão, já sem o recato que demonstrara até então e, apressado, contornou o coche e ofereceu-lhe a mão.
Quando ela se levantou, ele a segurou pela cintura com ambas as mãos e a pôs no chão.
— Mas...
Ele inclinou-se e a beijou nos lábios.
— Geoffrey! — ela exclamou, espantada.
— Por isto não vou pedir desculpas. — Ele segurou a mão dela e a pousou no braço. — Quero desfrutar de sua beleza, outro aspecto seu pelo qual sou profundamente grato.
Um lacaio indicou uma mesa. Lucinda sentou-se, cumprimentando com gestos de cabeça os conhecidos nas mesas próximas.
Soltou um suspiro. Ela pedira sinceridade a Geoffrey, e a recebera em boa dose. Ele se confessara grato à sua beleza pois, se ela fosse feia, ele não teria tanto prazer em cortejá-la, óbvio.
E quanto a ela própria? Escolhera Geoffrey por seus bons modos e atrativos aos olhos do general, ou por seu belo semblante e fama de herói? Nenhuma das duas opções era fundamento meritório.
Mas ela, ao menos, não era assim tão prática a ponto de não apreciar seu beijo. Ele beijava bem, com óbvia habilidade. E o fizera no momento certo para não serem vistos e propiciar à conversa uma pontuação correta.
Lucinda tomou um bem-vindo gole de vinho Madeira assim que o lacaio o serviu. Um brinde ao êxito, bradou intimamente. Não uma tática de retardamento para dar a ela tempo de pensar alguma coisa inócua e charmosa para dizer e mudar de assunto...
Sim, tudo fluía às mil maravilhas. E ela não iria pensar que encontraria Robert Carroway no sábado à noite, nem que teria de dizer a ele que seu trato estava suspenso, um vez que ela e Geoffrey haviam entrado em entendimento.
Tampouco pensaria no beijo que tinham trocado.
Um beijo que a aquecera por dentro, mas que a deixara tão... chamuscada.
Não. Não queria feridas. Queria paz e sossego.
Robert lia, no sofá da biblioteca, com as pernas bem esticadas para repousar o joelho machucado. A família desistira de perguntar como estava passando. O último, Andrew, tinha saído havia quase uma hora para algum divertimento vespertino ou coisa assim.
A questão de como se sentia complicava-se cada vez mais. O joelho doía, mas já não latejava como antes. Pela primeira vez em muito tempo, sentia os ossos, músculos e veias tomados com... vida.
Era isso. Ele se sentia vivo. Ao beijar Lucinda, lembrara-se de coisas que havia muito considerava perdidas: o sabor de uma mulher, a sensação de encostar em uma pele macia, os excitantes aromas do suor e do sexo.
— Robert, você enlouqueceu — murmurou sozinho ao virar a página.
Quando Lucinda lhe revelara ter escolhido Geoffrey Newcombe como pretendente, fora ao mesmo tempo uma surpresa e uma decepção, embora o fato de ela ter entregado o coração a outra pessoa o deixasse a salvo. Poderiam ser amigos, ele continuaria a ajudá-la, e isso o ajudaria a reingressar na sociedade. Êxito ou fracasso não importavam muito, quando o objetivo era em benefício de outra pessoa.
O problema era que Lucinda já não se sentia tão segura a seu lado como antes. Ou ela nunca se sentira assim, e ele havia se enganado por temer que a verdade o jogasse outra vez no pânico.
Então, o "incapacitado" agora queria Lucinda Barret... Seria até engraçado se ela não houvesse participado ativamente do beijo, colando o corpo ao dele. Tudo fora real, inviabilizando qualquer mentira conveniente.
Robert ouviu a porta da frente se abrir, depois vozes. Dawkins, claro. Depois, os tons mais graves de Tristan e, surpreendentemente, de Greydon Brakenridge, o duque de Wycliffe. A sessão do Parlamento devia ter terminado mais cedo.
Os dois adentraram o corredor, provavelmente para o escritório. Eram bons amigos, motivo que devia ter impedido o duque de matar Tristan quando o visconde abandonara Georgiana.
Robert sorriu ao se lembrar. Primos diretos costumavam proteger suas relações com as mulheres, e Greydon e Georgiana eram mais unidos do que muitos irmãos.
— Bit?
— Estou bem — ele respondeu, olhando para o vão da porta.
— Não era isso o que eu ia perguntar — Tristan retrucou. — Está em casa desde hoje de manhã?
Robert fez que sim.
— Por quê?
— Não quero que suba ou desça as escadas sem ajuda. Aliás, Greydon está pedindo emprestada a sela antiga de Miúdo.
— Está na sala dos arreios, embrulhada em aniagem. É para a menina Elizabeth?
— Vou tentar convencer Emma de que um ano e dois meses não é muito cedo para começar a cavalgar — o duque respondeu por trás dele, divertido.
— E não vai conseguir — zombou Tristan —, mas vai valer a pena assistir à contenda. Acho que também vou emprestar um escudo para cada um.
— O cavalo de brinquedo de Edward está no sótão, se quiser fazer Elizabeth treinar primeiro. — Robert voltou ao livro. — Além de, com certeza, ajudar a atenuar a discussão.
— Eu sempre disse que não era a inteligência mais brilhante da família, Tristan — Wycliffe provocou com sua fala arrastada.
— Nunca duvidei disso — contrapôs lorde Dare. — O que está lendo. Bit?
— Cultivo e Conservação de Rosas. A srta. Barrett me emprestou.
Os homens se entreolharam, discretos.
— Obrigado pela ajuda, Robert — Greydon agradeceu.
— Vamos nos ver em Vauxhall?
— Talvez.
— Ótimo.
Os dois homens se afastaram e entraram no escritório de Tristan. Robert ergueu o rosto da leitura. A visita do duque nada tinha a ver com crianças, cavalos ou informalidades, tinha certeza. Aqueles dois estavam agitados demais.
E Tristan perguntara onde ele passara o dia...
Interessante. Era hábito tomarem conta de sua vida, mas não na frente de estranhos.
Seria fácil escutar a conversa dos dois. O quarto em cima do escritório de Tristan encontrava-se desocupado e era usado como depósito de móveis antigos. O problema seria subir as escadas com aquele joelho.
Robert recostou-se novamente. Se o assunto fosse importante, alguém contaria a ele na hora oportuna.
A hora oportuna foi o jantar, e o alguém foi Andrew.
— Você soube? —Andrew perguntou com a boca cheia de pernil assado.
— Devo pedir a Dawkins para retirar seus talheres, para que você possa comer com as mãos? — Georgiana ironizou.
— Desculpe. — Ele engoliu a comida, depois prosseguiu:
— Não se falou de outra coisa em Tattersall hoje à tarde.
— Diga logo, Andrew! — instou Edward.
Em meio aos risos disfarçados, Robert comia. Fazia umas duas semanas que estava com mais apetite, mas quase perdeu a fome ao flagrar Tristan a fitá-lo, muito sério.
— Ainda não está confirmado — o irmão mais velho disse lentamente —, mas dizem que alguns documentos sumiram da Guarda Real Montada, ontem.
— Que documentos? — Edward perguntou.
— Mapas da ilha de Santa Helena — Andrew anunciou. — E também a lista dos simpatizantes de Napoleão ou coisa assim.
— Estão tentando soltar Napoleão. — Bradshaw pousou o garfo com tal estrépito, que Robert se contraiu.
— Uma conclusão precipitada, Shaw — contestou Tristan. — Pode ser apenas um boato. Ninguém na Guarda Real Montada confirmou o roubo.
Robert cerrou os olhos, a conversa se transformando em um rumor surdo que lhe encharcou os ouvidos. Na última vez em que Napoleão fugira de uma prisão insular, fora preciso a aliança dos Exércitos da Inglaterra e da Prússia, e a batalha de Waterloo, para detê-lo.
Dessa vez não o levariam para a luta, mas Robert sabia o que os soldados haviam tido de suportar, e conjeturou se os franceses ocupariam de novo o Castelo Pagnon.
— Sente-se, Bit...
Robert abriu os olhos. Estava em pé de frente para a mesa, a cadeira recuada atrás dele. Tristan o agarrava pelo braço. Num gesto brusco, ele se desvencilhou do irmão, agarrou a bengala e mancou até a porta.
Respire.
— Estou bem, só preciso de ar fresco.
O joelho o estorvava, mesmo assim ele chegou cambaleante à porta da frente, abriu-a com força e desceu as escadas da frente aos tropeços. Parou no roseiral, seu roseiral, e se sentou no chão, ao lado das mudas.
— Robert! — Tristan se aproximou rapidamente, tentando se justificar. — Eu...
— Você devia ter me contado antes! — ele berrou. Apanhou um torrão de terra e pensou em atirá-lo contra qualquer coisa. Mas acabou cerrando o punho com tanta força que a terra escorreu-lhe por entre os dedos. — Vocês já sabiam. Você e Greydon.
— Bit...
Deixe-me em paz!
Robert só se mexeu quando ouviu Tristan afastar-se do caminho das carruagens.
Estava escuro e a lua ainda demoraria a surgir. Nuvens sobrevoavam Londres, anunciando chuva.
Ele gostava de chuva. Quando chovia nos Pireneus, era um dos que disputavam lugar á janela. Estendia a mão com um pedaço de pano para armazenar água, o que poderia lhe render mais um ou dois dias de vida.
A notícia do furto não devia tê-lo surpreendido tanto. Afinal, só muito tempo depois ele soubera do exílio de Napoleão em Elba, da fuga e dos cem dias de guerra que terminaram em Waterloo.
Mas sempre soubera o que a guerra tinha causado a ele... e a tantos outros sem a mesma sorte.
Retalhou uma folha com os dedos. Se o ex-imperador tivesse ido para o Castelo Pagnon, em vez daquelas duas ilhas plácidas e aconchegantes, talvez não quisesse tanto a guerra e o cheiro doce e metálico do sangue... mas, sim, o aroma do ar fresco.
Robert fechou os olhos por um instante. Não devia ter mencionado o Castelo Pagnon para Lucinda. Agora esperava que ela esquecesse aquele nome.
Afinal, poucos conheciam a fortaleza. Aliás, os poucos que sobreviveram a ela... assim como ele.
Quando a chuva caiu, Robert ainda estava sentado á beira do jardim. Reclinou a cabeça para trás, e gotas frias escorreram-lhe pelo rosto.
Era só uma chuva, pensou. E a notícia de Andrew podia não passar de um simples boato; na pior das hipóteses, o sumiço de algumas folhas de papel. Ele não tinha mais nada a ver com aquilo.
Mesmo depois de uma noite de chuva intermitente, Lucinda desejou que chovesse mais. A exibição dos fogos de artifício em Vauxhall tinha tudo para ser a melhor da temporada, e o Regente, além de grande parte da população de Mayfair, planejava comparecer.
Ela mesma encontrara um lindo vestido para usar: cor de alfazema com rendas e contas violeta. Adorava essas festas, as pessoas, o espetáculo...
Mas dias antes, se lembrara de que Robert as detestava, ainda que pretendesse comparecer. E, não bastasse isso, ela planejava contar a ele que Geoffrey revelara seus intentos, por menos nobres que estes pudessem parecer, e que o casamento dos dois estava praticamente acertado. Ela não teria mais aulas a dar e, consequentemente, a colaboração de Robert não era mais necessária.
Muito obrigada e adeus. Vou tentar esquecer seus beijos.
— Bom dia, querida — o pai a saudou no salão do café, vindo do escritório.
— Bom dia, papai. — Ela o fitou mais detidamente. — Trabalhou a noite inteira? Não dormiu?
O general deu-lhe um prato e indicou que ela se servisse primeiro.
— Acordei cedo. Estava tentando esclarecer umas passagens.
— Mas o capítulo estava indo bem. — Ela escolheu um pêssego e algumas torradas.
— Não é esse o problema. Aliás, Geoffrey já esteve aqui, hoje. Deixou uma carta e uma caixa de chocolates.
— Para mim ou para você?
— Conversamos algumas coisas, mas tenho certeza de que os objetos são para você. Ele não pôde demorar-se: tinha hora com o alfaiate.
Ela observou o pai novamente. Ele pusera apenas algumas frutas no prato. Quando perdia o apetite, era sinal de problema sério.
— Posso ajudar em alguma coisa?
O general sentou-se no lugar de costume: à cabeceira da mesa, com ela ao lado esquerdo. Recusou o chá oferecido pelo lacaio e pediu café, o que deu a Lucinda a certeza de que alguma coisa o perturbava.
— Papai...
— Não é nada.
— O senhor vai ver os fogos de artifício à noite?
— Ainda não sei. — Seu olhar cinza-metálico concentrou-se no prato. — Pensando bem, talvez você possa me ajudar.
— E só dizer.
— Quem lhe falou sobre o Castelo Pagnon? Lucinda sentiu o sangue refluir do rosto.
— Como eu já disse, papai, não me lembro. Pode me passar a geleia, por favor?
O general fez o que ela pedia.
— É importante, filha. Nada que vá comprometer seus amigos, mas pode ser uma pista para coisa mais séria.
— Trata-se do que estava tentando esclarecer?
— Sim. Posso tentar adivinhar, mas prefiro que você me confirme.
Ela inspirou fundo.
— Prometi discrição. Vou contar porque o senhor é meu pai, mas não quero magoar ninguém.
— Eu entendo, mas, para eu ter paz de espírito... foi Robert Carroway?
— Foi.
Lucinda se sentiu imunda, perversa. Havia feito uma promessa a Robert no dia anterior, e já a quebrava.
— Estávamos conversando sobre a guerra. Ele disse que não combateu em Waterloo, e que passou meses a fio no Castelo Pagnon. Achei que fosse um hospital.
O pai fez um longo silêncio.
— Robert contou como foi parar lá, ou como conseguiu sair? — perguntou, enfim, a expressão ilegível.
— Não. — Lucinda franziu o cenho. — O senhor conhece esse lugar... Mais do que me contou, não é mesmo?
— O que sei de Pagnon não convém aos ouvidos de uma dama, Lucinda.
— Papai, eu quero saber.
— Tenho uma reunião agora de manhã. — O general se levantou, inclinou-se e a beijou na testa. — Se você sair, não conte nossa conversa para ninguém. Muito menos para alguém da família Carroway.
— Papai, o que está acontecendo? Ele a ignorou.
Instantes depois, Lucinda ouviu a porta da frente abrir e fechar. O desjejum do pai jazia, intocado, no lugar ao lado.
Ela execrou aquele mistério, incapaz de se livrar da sensação de ter agido muito mal com Robert. Acabara de confirmar que o pai sabia de algo terrível a respeito dele.
Pousou o guardanapo na mesa, decidida. Sabia onde encontrar a resposta. Isso se Robert estivesse disposto a falar com ela, e se ela tivesse a coragem de perguntar.
No entanto, se fosse vê-lo naquele dia, depois de tê-lo visitado no dia anterior, todos começariam a falar. Até mesmo Georgiana, que sabia de seu trato com ele, duvidaria que sua motivação fosse apenas o jogo para a conquista de Geoffrey. E teria razão.
Mesmo assim, Lucinda subiu as escadas, disposta a se trocar. A reticência de Robert tinha uma vantagem: ele tendia a ficar em casa. Dessa forma, ela poderia alegar uma visita a Georgiana, embora soubesse que ela se encontrava fora, tomando café da manhã com a tia, a duquesa viúva de Wycliffe.
Lucinda inspirou fundo. Estava ansiosa não apenas por obter respostas, mas também por rever Robert.
Quando chegou à Mansão Carroway, Dawkins abriu a porta da carruagem.
— Bom dia, srta. Barrett. — Ele a amparou na descida.
Assim que pisou no chão, Lucinda avistou Robert agachado ao lado da casa, em mangas de camisa, arrancando mato do canteiro. Tinha as mãos sujas de terra, os cabelos caídos sobre os olhos...
Sentiu a boca ressecar.
— Srta. Barrett? — O mordomo a fitava, curioso.
— Lady Dare está? — Ela se forçou a desviar a atenção do corpo forte.
Assim que o mordomo respondesse "não", estaria livre para ir até Robert.
— Está, srta. Barrett. Ela piscou, surpresa.
— Ela está com visitas? Não quero incomodar. Dawkins a conduziu á sala de estar.
— Um instante, por favor.
Por que Georgiana estaria em casa? O café da manhã com a duquesa fora marcado havia mais de uma semana. Agora ela teria de pensar num motivo para a visita.
— Srta. Barrett, lady Dare está lá em cima, no salão de música.
Ela agradeceu com um gesto de cabeça e subiu a escadaria.
Georgiana estava ao piano, tocando com os braços estendidos sobre a barriga. Recebeu Lucinda com um sorriso.
— Você veio me ver, Lucie? Que bom! — Encerrou a peça de Haydn. — Estou louca para ir dar uma volta sem a escolta desses homens grandalhões e superprotetores.
Mesmo frustrada, Lucinda riu.
— Não sou homem, nem grandalhona, mas não prometo não ser superprotetora. — Ajudou a amiga a se levantar. — Eu vinha para cá, mas, no meio do caminho, lembrei-me que você ia tomar o café da manhã com a duquesa — mentiu. — Encontrá-la em casa foi uma surpresa.
— Tia Frederica enviou um bilhete cancelando. — Georgiana sorriu, irônica. — Deve ter jogado baralho com as amigas até altas horas, e quis dormir até mais tarde.
As duas desceram. Georgiana segurando o corrimão com uma das mãos, o braço de Lucinda com a outra. Só então Lucinda se deu conta da adiantada gravidez da amiga. Vendo-a quase todo dia, as mudanças tinham-lhe sido imperceptíveis.
— Quer ir caminhar mesmo? — perguntou, preocupada.
— Só sei que não quero ficar trancada em casa enquanto todos estão nas regatas. — Georgiana suspirou. — Não sei como Bit consegue ficar sozinho o dia inteiro, mas parece que isso o acalma.
— Ele está no jardim. Eu o vi cuidando das rosas quando cheguei.
— Ah, é? O joelho deve ter melhorado. Andar um pouco pode fazer bem a ele.
Lucinda não pensara em chamá-lo para o passeio. Queria conversar com ele, mas não na presença de Georgiana. Ele provavelmente não se abriria na presença das duas.
Por outro lado, refletiu Lucinda, aborrecida, Robert costumava conversar a sós com a cunhada, que, por isso, sabia muito mais dele do que ela própria.
Tolice. Afinal, Georgiana era cunhada de Robert, e ela era só uma amiga. Que, aliás, iria desposar Geoffrey Newcombe quando este formalizasse o pedido. E que não deveria estar por aí, olhando para outro homem... Muito menos para Robert Carroway.
Do jardim, Robert viu Georgiana e Lucinda ao fundo, vindo em sua direção.
Aprumou-se de imediato. Lucinda lembrava a primavera naquele vestido de musselina com raminhos verdes e brancos, os cabelos castanhos encimados por um chapéu verde. Tentou desviar o olhar, mas não conseguiu.
Pare, ordenou-se. Lucinda não pertencia a ele. Ele não a merecia, e ela ficaria melhor sem ele.
— Que dar uma volta conosco, Bit?
Como já estivesse em pé, não tinha motivos para declinar. Desarregaçou as mangas e apanhou a jaqueta que jogara em cima da roda de uma carruagem. Mancava mais do que nos últimos tempos, mas já não usava a bengala de tia Milly.
Na rua, passaram por belos jardins e mansões, com muita gente nas janelas a espiá-los. Lucinda e Georgiana iam de braços dados. Ele, do outro lado da cunhada, e bem próximo, para o caso de ela tropeçar.
— Até que formamos um trio simpático, não? — comentou Georgiana. — Só não garanto que não vá ter de carregar a mim e a Bit na volta, Lucie...
— Um de cada vez, por favor! — Ela riu.
— O general Barnett foi assistir àquelas regatas idiotas?
— Não... Ele tinha uma reunião.
Uma reunião. Robert adivinhou o assunto e sentiu um arrepio. Se os velhos generais da Guarda Real Montada preferiram reunir-se numa tarde de sábado, em vez de irem assistir às regatas no Tâmisa, era porque havia coisa grave em curso.
O passeio contornou quatro quadras. Quando regressaram à Mansão Carroway, Robert não sabia quem estava mais contente por terem voltado; ele ou Georgiana.
Apesar da intensa dor no joelho, amparou a cunhada escada acima.
— Dawkins, se você me trouxer um copo de limonada, ficarei imensamente grata. — Georgiana largou-se no sofá da sala de estar.
Robert sempre sabia onde Lucinda estava, por isso soube que ela ia tocá-lo com uma pulsação de antecedência. Enrijeceu, mas não se esquivou. O contato, mesmo através do tecido do paletó, incandesceu sua pele.
— Georgie, você ficaria sozinha um instante? — Lucinda perguntou. — Notei que algumas rosas estão com um pouco de mofo. Ainda estão muito frágeis, e eu...
— Podem ir, daqui não saio.
Robert a acompanhou até o lado de fora da casa. Poderia mostrar indiferença, era perito nisso, mas, no íntimo, imaginava beijá-la novamente.
Beijá-la, despi-la do vestido de primavera, acariciar a pele macia e ardente...
— Eu menti — Lucinda disse abruptamente, parando para olhá-lo de frente.
— Eu sei.
— Como?
— Eu sei o que é mofo. — Ele sorriu. — Não há mofo em minhas rosas.
— Mas você veio comigo. — Lucinda estava ruborizada.
— Imaginei que quisesse me dizer alguma coisa. Ela respirou fundo.
— Quero, sim. Depois de nossa conversa, ontem, andei lendo uns diários de meu pai. Eu sabia que ele tinha mencionado o Castelo Pagnon, mas não me lembrava onde...
— Esqueça o que eu disse, não era importante. — Robert tentou ignorar o aperto na boca do estômago. Três anos depois, ainda não suportava ouvir aquele nome.
— Robert, o que você foi fazer lá? O general escreveu que o lugar era muito fortificado, mas não de interesse estratégico. Mas devia ser importante, senão você não o teria mencionado.
Ele sabia que aquilo iria acontecer. Se fosse outra pessoa, simplesmente iria embora, mas com Lucinda ele podia conversar. A presença dela atenuava a distância entre ele e o mundo.
— Eu era prisioneiro.
— Prisioneiro?
— Isto não tem a ver com nosso trato — ele desconversou, enfiando as mãos nos bolsos para Lucinda não vê-las trêmulas. — Por que não me fala de sua terceira lição? Posso precisar de tempo para me preparar
Lucinda passou a andar de um lado para outro. Ele a segurou pelo braço quando teve a oportunidade, porém ela se desvencilhou.
— Não mude de assunto — falou, ríspida. — Quero saber a verdade sobre o Castelo Pagnon.
— Não. — Ele examinou o rosto delicado, agora muito pálido. — Lição número três.
— Alguém já lhe disse o quanto é irascível? — Os lábios dela tremiam.
— Já.
— Robert, eu... — Lucinda franziu o cenho e deu-lhe as costas, com o chapéu encobrindo-lhe o rosto. — Vim aqui para saber mais a seu respeito,
— Por quê? — Ele a segurou pelo ombro e a fez virar-se de frente outra vez.
— Porque sim.
— Ora, essa, quem não tem vocabulário sou eu... — Robert a estudou, atento. Ele sabia por que não queria falar, mas não sabia por que Lucinda resistia a dizer o que pensava. — Alguma coisa aconteceu. Geoffrey está criando caso por causa de nossos encontros, é isso?
— Não... Podemos falar de Geoffrey depois.
— Diga, Lucinda. O que a está perturbando?
Ela parou ao pé da escadaria da frente. Era a primeira vez que ele a chamava pelo primeiro nome.
— Nós somos amigos. — Pôs-se de frente para ele novamente. Amigos diferentes, era verdade... Amigos que se beijavam. Ela, ao menos não cansava de se imaginar trocando com ele muitos e muitos beijos. — Mas se você não quer conversar comigo, por que vou conversar com você?
Olhos azuis a fitaram, mas se desviaram em seguida.
O extremado senso de honestidade de Robert era sua vantagem, refletiu Lucinda. Se ela o lembrasse disso, quem sabe ele parasse de pressioná-la para revelar o que ela ainda não estava preparada... Como dizer-lhe que não precisava mais dele, mas que o queria por perto?
— O que quer saber? — ele perguntou bem calmo.
Havia em sua voz tanta dor e relutância, que ela quase desistiu. E teria desistido se não estivesse tão viva em sua memória a observação do pai, de que a questão era importante.
— Vamos entrar? — sugeriu, tensa. Robert negou com um gesto de cabeça.
— Ainda não sei até que ponto posso responder às suas dúvidas, mas, de qualquer modo, é melhor ficarmos aqui fora.
— Dê-me o braço, e vamos caminhar um pouco.
— Sem nenhum acompanhante?
— Para quê? Vamos apenas dar uma volta na quadra, ao ar livre.
Robert estendeu o braço e ela o aceitou. O joelho dele já parecia melhor, e o contato era um mero pretexto para tocá-lo, aconchegar-se nele. Robert ainda exalava um aroma de terra fresca, de couro e, no fundo, de sabão de barbear. Lucinda flagrou-se olhando os lábios sensuais.
Virou o rosto, perturbada. Amigos, lembrou a si mesma. Eram apenas amigos.
O silêncio pairou entre eles e ela percebeu que teria de puxar conversa. Não seria fácil. Ela não queria magoá-lo ainda mais, porém precisava conhecê-lo melhor.
E não apenas para satisfazer uma curiosidade motivada pelos comentários do pai.
— Nos diários do general — começou, enviando uma prece aos Céus —, notei que ele evitou dar detalhes por três motivos: em primeiro lugar, quando a campanha foi muito envolvente, ou rápida demais, e ele não teve tempo de anotar tudo. Em segundo, se a batalha foi confusa, e os detalhes, difíceis de ordenar. Em terceiro, por querer garantir a segurança dos soldados, caso os diários fossem capturados.
— A omissão dos detalhes também pode ter sido causada por irrelevância — Robert complementou.
— Sim, mas as irrelevâncias ele preferiu nem mencionar. Ele olhou para ela e os olhares se encontraram.
— O general Barrett sabe que você o decifrou tão bem assim?
— Acho que sim. — Lucinda sorriu. — Faço muitas perguntas.
— Já notei. — Ao passarem por mais uma casa, contornaram a esquina. — Gosta muito do seu pai, não?
— Gosto. Ele nunca me tratou como inferior por eu ser mulher, e fez questão de me dar uma educação de alto nível.
— "Eu dera vida com muito boas intenções, e ansiava pelo momento de pô-la em prática e me tornar útil para meus semelhantes..." — ele declamou, abrindo novamente um sorriso fugaz.
— Isso é de Frankenstein, não? — Ela se lembrou do livro puído que ele lia no dia em que tudo começara.
— Está supondo, ou sabe?
— Supondo. Sou boa nisso. Por exemplo: deduzi que a concisão de meu pai no caso de Bayonne e do Castelo Pagnon se deve a três motivos: tempo, conteúdo e segurança.
Com a mão ainda apoiada no braço de Robert, ela sentiu que seus músculos se retesavam, embora seu semblante continuasse imperturbável.
— Não tenho como deduzir o que se passava na mente do general Barrett, mas eu diria que está certa.
Lucinda engoliu em seco. Poderia perguntar por que ele não gostava do pai dela, ou o que havia de importante no Castelo Pagnon. Ela já percebera que as duas coisas tinham uma ligação.
Olhou novamente para o rosto bonito e tenso.
— Então o Castelo Pagnon era uma prisão.
— Especial.
— Como assim? Ele tomou fôlego.
— Não o conheci completamente — falou em voz baixa, áspera, distante. — Mas, pelo pouco que vi, era uma prisão para oficiais ingleses... Um lugar onde os franceses tentavam obter informações.
Um lugar onde os oficiais ingleses eram torturados. Onde eu fui torturado.
— Lamento — ela sussurrou.
— Você não tem culpa de nada.
— Nunca falou disso para ninguém, não é? — Ela apertou o braço dele inconscientemente.
— Não. Quero dizer. Contei por alto, para Georgiana, que éramos proibidos de conversar. Só isso. Não havia por que contar mais. No fundo, ela não queria saber mais.
— Não tinham permissão para conversar?!
— Entre nós, não. Se um guarda nos ouvisse falando, um cochicho que fosse, nos levava lá para fora e nos espancava.
— Não entendo... Uma maneira de conseguir informação é ouvir a conversa dos outros.
— Se quiséssemos falar, tínhamos de falar com ele. Um violento calafrio o sacudiu.
— Robert?
Ele cerrou os olhos por instantes.
— Passei três anos tentando esquecer isso, Lucinda. Não gosto de lembrar.
— Não precisa fazer isso.
Ela falava a sério. As informações de que o pai precisava e a curiosidade dela poderiam esperar. Caminharam mais um pouco em silêncio.
— Talvez eu precise me lembrar, sim. É estranho, mas se eu me lembrar e não morrer, isso pode me ajudar.
E aquela, agora? A questão não era mais se ele falaria ou não, e sim, se ela suportaria ouvir.
Lucinda engoliu em seco. Já ouvira muitos casos, muitas histórias do pai e seus companheiros de farda, mas aquela era recente, e na certa horripilante.
— Conte o que conseguir — sugeriu em voz baixa.
— Não precisa compartilhar dos meus pesadelos, Lucinda. Quando conversa comigo, eu me sinto humano de novo... Já é suficiente.
Os dois passaram por um arbusto de rododendros cor-de-rosa, com uma carruagem vazia parada ao lado.
Ela não agüentou mais. Precisava tocá-lo, consolá-lo, qualquer coisa. Puxou-o pelo braço e ficaram frente a frente. Ela o acariciou nos cabelos, abaixou-lhe carinhosamente o rosto e o beijou.
Sentiu o corpo arder quando Robert a encostou na lateral da carruagem. Precisava estar perto dele. Dor, frustração, orgulho ferido e raiva fundiam-se dentro dela.
As mãos de Robert deslizaram por seus ombros, roçaram em seus seios e se firmaram na cintura. Quando os lábios dos dois se separaram, os de Robert percorreram-lhe a linha do queixo e foram beijá-la na base do pescoço.
Lucinda sentiu os joelhos bambear. Teria caído não fosse a carruagem atrás dela.
— Lucinda...
— Shhh... Beije-me.
Ela tentou puxá-lo para colá-lo mais ao corpo, mas teria sido mais fácil mover uma estátua.
— Uma carruagem! — Robert a afastou.
Um segundo depois, Lucinda ouviu o estrépito de um coche se aproximando na alameda.
Frustrada, deu-lhe o braço de novo e, resistindo ao impulso de ajeitar o chapéu, reiniciou a caminhada ao lado dele.
— Ainda não me contou como é a terceira lição para Geoffrey. — A voz dele agora estava mais forte.
— Penso em contar logo mais, à noite — ela respondeu, ainda trêmula.
— Não deve ser coisa boa.
Não era para ele. Nem para ela.
— Bobagem, eu...
— Maldito traidor!
Robert voltou rapidamente a cabeça e deu um passo à frente, bloqueando a visão de Lucinda.
Ela se inclinou de lado, tentando descobrir do que se tratava. O coche passou, veloz,
— Quem era?
— Sir Walter Fengrove e a sra. Daltrey — ele respondeu, distante, olhando o caleche afastar-se aos solavancos.
— Ele estava falando conosco? Por que nos insultaria?
— Não sei. — Robert se posicionou ao lado dela e retomou o passo, agora soturno.
— Robert?
— Estou bem. Temos que voltar.
Lucinda sentia claramente que ele não estava bem, mas não quis importuná-lo ainda mais.
— Você tem razão. Vamos ver Georgie.

 

CAPITULO IV


Robert respirou fundo. Havia falado do Castelo Pagnon e não tinha morrido, o que já era uma vitória. Ou teria sido, se sir Walter Fengrove não houvesse aparecido do nada.
Alguma coisa acontecera: havia começado a se sentir bem; inclusive a pensar no futuro. Sentia-se vivo de novo. Algumas partes mais do que outras, era verdade... Principalmente quando estava com Lucinda.
Assim que voltaram para a mansão, ela se despediu de Georgiana e foi embora. Ele voltou, hesitante, para a sala de estar, onde se apoiou no batente da porta, e percebeu Georgiana tamborilando os dedos, irrequieta, no encosto do sofá.
— Você não devia ter ido caminhar.
— Devia, sim — ela retrucou. — Estou espojando feito um hipopótamo.
— Sente-se melhor agora?
— Ao menos não estou enferrujada.
— Vou buscar umas almofadas — Robert sugeriu, aprumando-se.
— Lucinda parecia aborrecida quando saiu. — Georgiana também se ajeitou no sofá. — Ela contou por quê?
— Alguém passou por nós berrando na rua. — Robert disse. — Deve ter fugido do manicômio.
— Pensei mesmo ter ouvido alguma coisa daqui. — Ela sorriu, e a expressão enfatizou seus meigos olhos verdes.
— Você parece mais feliz nos últimos dias.
Robert forçou-se a retribuir o sorriso, esperando que sir Walter, mantendo a tradição dos Fengrove, tivesse passado a tarde bebendo, e saído por aí chamando a todos de traidor.
— Quer um livro além das almofadas?
— Deixei um na mesa do café. Obrigada, Bit.
— Sempre às ordens.
— Está vendo? — Georgiana ria. — Eu não disse que você está mais feliz?
Talvez estivesse. E desfrutaria esses momentos enquanto durassem.
Esperava que sua inquietação não tivesse motivo; que apenas uma reles sensação de desesperança o impedisse de ver perspectivas saudáveis. Pois o beijo de Lucinda, do jeito que foi, indicava que as coisas estavam melhores do que ele imaginava.
Depois de entregar as almofadas e o livro a Georgiana, foi ler na biblioteca. Afora os pés cansados, a cunhada se sentia bem, mas ele queria estar por perto para ouvi-la em caso de necessidade.
Foi vê-la uma hora depois, e a encontrou cochilando no sofá. Já voltava pelo corredor quando a porta da frente abriu-se ruidosamente.
— Não é verdade! — Edward dizia em voz alta, entrando à frente dos irmãos. — Eu ia ganhar três libras se vocês me deixassem apostar no...
— Shhh! — Robert levou a mão à boca do menino.
— Georgie está dormindo.
— Tristan, você trouxe meu sorvete de limão? — A voz dela contradisse a informação.
— Trouxe, sim — Dare respondeu, tomando a dianteira da turma. Ao passar por Robert, tocou-o no braço.
— Quero vê-lo no meu escritório.
O primeiro instinto de Robert foi se enfiar em um lugar escuro e silencioso para não ter que ouvir o irmão. Mas, como aprendera na França, em um lugar assim não estaria necessariamente a salvo.
Edward contava a Dawkins as novidades das regatas. Era o único irmão Carroway alheio ao que havia no ar. Bradshaw e Andrew continuavam no saguão, os rostos solenes e muito zangados, e evitando olhar para ele.
Com uma pressão terrível na boca do estômago, Robert foi ao escritório de Tristan. Apesar do joelho cansado, não quis sentar-se, preferindo andar de um lado a outro à frente da janela.
Tristan entrou minutos depois.
— Por que não se senta. Bit?
— Não quero.
— Está bem. — O visconde suspirou. — Acho que você deve ficar em casa, hoje à noite.
— Por quê?
— Pode ao menos olhar para mim enquanto falo?
Robert inspirou fundo, voltou-se e se sentou no amplo peitoril da janela.
— Há três anos vocês insistem para eu sair. Por que não quer que eu vá a Vauxhall?
— É complicado. — Tristan largou-se numa poltrona.
— Não quero vê-lo magoado, por isso peço que não vá. Ele comprimiu os lábios. A manta com que os irmãos o cobriam a título de proteção às vezes o abafava.
— Não vai me magoar, Tristan. O que houve? Tem a ver com sir Walter Fengrove ter me chamado de "traidor" uma hora atrás?
— Ele o quê? Desgraçado! — Tristan empalideceu.
— Vou tentar outra adivinhação. As coisas que sumiram na Guarda Real Montada... acham que fui eu.
— Algumas pessoas, sim. Mas estão equivocados.
— Eu sei que sim, mas por que me culpam? Tristan levantou-se de supetão e andou de um lado a outro.
— Porque algum imbecil espalhou o boato de que você esteve preso no Castelo Pagnon. E todos sabem que só saíram de lá com vida os oficiais que traíram a pátria.
Robert encarou o irmão. Não conseguia pensar.
Crispou os dedos no peitoril da janela. Ele estivera enganado aquele tempo todo. Ao contrário do esperado, falar do Castelo Pagnon o matara realmente.
— É ridículo — Tristan continuou, furioso. — Vou descobrir quem foi esse mentiroso e fazê-lo contar a verdade. Eles não sabem com quem...
— Eu estive no Pagnon — Robert o interrompeu. Tristan congelou.
— Não, não esteve.
— Se eu aceitei o fato, tem que aceitar também. — Cada palavra foi como um punhal se cravando lenta e dolorosamente em seu peito.
— Mas...
— Eu não roubei nada da Guarda Real Montada, Tristan.
— Claro que não! — Havia dor e horror nos olhos do irmão. — Quem mais sabe que você foi prisioneiro de guerra?
Bem no íntimo de seu coração agonizante, Robert sabia quem. Lucinda o traíra... E justamente quando ele começara a confiar nela, quando começara a ver um novo dia raiar.
E ela fingindo-se de inocente, preocupada e aturdida quando o xingaram no meio da rua! Ele se aprumou de súbito.
— Com licença... Tenho o que fazer.
— Não, Bit. — Tristan bloqueou a porta com o corpo. — Não vai sair daqui sem me explicar. Quem mais sabia disso, se você não contou nem aos seus familiares?
Robert, sentindo retumbar sob a pele os gritos de fúria contidos, empurrou o irmão para o lado.
— Depois.
— Robert...
Ele abriu a porta com força e se dirigiu ao saguão. Bradshaw e Andrew continuavam ali. A perna queimava, porém Robert não se incomodou, já acostumado à dor.
A raiva e a decepção que lhe cravavam o íntimo, estas sim, eram pungentes.
O general Barrett em pessoa abriu a porta quando Lucinda chegou de volta.
— Papai! — Ela se alarmou com os olhos semicerrados e a fisionomia severa do pai. — O que houve?
— No meu escritório. — Ele se voltou e caminhou com passadas largas e retilíneas.
Lucinda franziu o cenho. Nem quando criança levara algum sermão do pai.
Tirou o chapéu e o seguiu, tensa, lamentando não poder ir a um lugar sossegado para pensar em Robert.
Interessante, recordou, distraída. Para quem quase não falava, ele tinha lábios muito sensuais...
— A porta — o general ordenou, enérgico, e sentou-se com as costas eretas, rígido feito uma estátua.
Ela fechou a porta e recostou-se nela.
— O que houve?
— Pedi para que ficasse em casa hoje de manhã.
— Não, não pediu. Pediu para eu não contar nada do que conversamos, e eu não contei.
— E, por que, quando vim almoçar, três pessoas diferentes me pararam para perguntar se era verdade que Robert Carroway tinha roubado documentos da Guarda Real Montada?
Lucinda ficou estupefata. Mais do que se o pai a tivesse esbofeteado.
— Como? Como alguém pode dizer uma coisa dessas de Robert? Esse roubo aconteceu realmente?
Ele a fitou por instantes, depois respirou fundo.
— Aonde foi esta manhã, Lucinda?
— Fui ver Georgiana... — Ela mordeu o lábio. — E perguntar a Robert o que ele sabia do Castelo Pagnon.
— Então foi mexericar. Lucinda, eu...
— Não fui mexericar! Robert só contou isso para mim, e eu, contrariando o desejo dele, contei para o senhor!
— Quer dizer que a culpa é minha?!
— Não precisa gritar. — Ela espalmou as mãos sobre a mesa. — Conte o que está havendo, para podermos raciocinar.
O general se levantou, foi à janela e olhou a rua.
— As vezes peca por seu excesso de confiança.
— Talvez.
— Pois muito bem. Creio que tenha o direito a conhecer os fatos.
— Obrigada.
— Em primeiro lugar, sim, algumas coisas sumiram na Guarda Real Montada. Coisas de valor instrumental, como para soltar Napoleão e iniciar outra conflagração na Europa.
— Minha nossa... — Ela se afastou da porta, titubeante, e sentou-se numa das confortáveis poltronas do escritório. Quando percebeu a extensão das palavras do pai, sentiu o coração descer para a boca do estômago.
— Robert não teria como... Não faria uma coisa dessas. Por que o estão acusando?
— Admiro sua lealdade para com seu amigo, Lucinda, mas evite manifestá-la.
— Você acha que foi ele? Não acredito.
— O que ele lhe contou a respeito do Castelo Pagnon? Ela hesitou, mas, nas circunstâncias, limpar o nome de Robert era mais importante do que guardar segredo. À noite ela se explicaria a respeito, entre outras tantas explicações que devia a ele.
— Papai, Robert Carroway não fez nada errado. Disse-me apenas que o castelo era uma prisão para oficiais britânicos capturados, e que os prisioneiros eram espancados se conversassem entre si. Mas não citou nomes.
— Isso me parece coisa do general Jean-Paul Barrere, oficial de informações de Napoleão, psicopata dos mais... persuasivos.
— Deve ter sido horrível. — Lucinda disse consigo, aprumando-se depois de um longo silêncio. — Não compreendo por que Robert está sendo tratado como traidor só porque esteve preso lá.
Ao menos fora disso o que sir Walter Fenley o acusara aos berros naquela tarde.
— Nada está confirmado ainda, caso contrário já o teriam detido. Mas...
— Detido? — Ela se levantou, sobressaltada. — Papai, o senhor não pode estar falando a sério.
Se Robert fosse preso por causa do que ela contara ao pai, a culpa seria dela. E Robert havia lhe pedido para não dizer nada... Mas, por quê?
— Na verdade, só conhecemos três oficiais que saíram vivos do Castelo Pagnon. Um deles tentou matar seu próprio comandante, e o segundo foi enviado a Elba pouco antes da fuga de Napoleão. Sobra Robert Carroway, que só ontem a Guarda Real Montada soube ter sido prisioneiro de Barrere.
— Depois que eu contei para o senhor.
Lucinda afundou-se na poltrona, sentindo-se leviana, imunda.
— Não se culpe, minha filha. Só ontem eu atinei com tudo. Você diz que tem um amigo militar, ex-combatente, e dez dias depois me pergunta sobre o Castelo Pagnon... Seu ato pode ter poupado a vida de milhões de ingleses.
Ela cerrou os olhos, desejando que tudo sumisse.
— Você não sabe se foi ele.
— Ainda não. — O general sentou-se à frente dela e pousou uma mão em cada braço da poltrona. — Enquanto isso não se resolve, quero você longe dele, longe da família Carroway e daquela casa. Entendeu?
— Mas Georgiana...
— É sua melhor amiga, eu sei. Eu sinto muito, mas o culpado, seja quem for, é um canalha, e não vou permitir que se aproxime de um suspeito. — Ele se aprumou. — Hoje à noite não vamos com os Carroway a Vauxhall, nem a qualquer outro lugar em um futuro razoável.
Lucinda não conseguia pensar. O que mais queria era gritar, bradar que não tinha amigos traidores.
Ora, dois irmãos Carroway tinham arriscado a vida contra o exército de Napoleão e... Céus!, uma coisa daquelas poderia custar a Bradshaw o novo posto de comandante.
Quanto a Robert...
O mordomo bateu à porta:
— Desculpe interromper, senhor, mas há uma visita para a srta. Lucinda.
— Quem é, Ballow?
— O sr. Robert Carroway, senhor.
Lucinda empalideceu. Ele sabia. Sabia que ela quebrara a promessa de não falar. Sabia que por causa dela o estavam chamando de traidor.
— Eu cuido disso — o pai decidiu, dirigindo-se à porta.
— Papai! — Ela o agarrou pelo braço. — O senhor disse que não há nada confirmado.
— Se ele roubou os documentos, não se incomodará em prejudicar você. Fique aqui.
Lucinda ali permaneceu, trêmula, porém abriu a porta do escritório o suficiente para poder espiar.
Era um mal-entendido, um erro. Tinha que ser.
Quando o general chegou ao saguão de entrada, encontrou Robert pálido, mas com a expressão impassível.
— Minha filha não pode receber visitas — disse com voz grave. — Sugiro que vá embora.
Lucinda chegou a pensar que Robert iria agredi-lo, mas seus punhos cerrados não se ergueram.
— A culpa também é sua, não só dela — ele declarou. E acrescentou, com uma voz tão cavernosa que ela estremeceu: — E pensar que eu quase o perdoei...
— Pelo quê?
— Por Bayonne. — Robert empurrou a porta, abrindo-a toda. — Quero-a longe de mim. E o senhor também.
A porta bateu com força logo depois, e Lucinda se retesou. Já vira Robert alegre, frustrado e revoltado, mas, com raiva, era a primeira vez.
Sentiu medo. Era dela que ele estava com raiva.
E o pior: ela merecia.
Havia mais gente sabendo do Castelo Pagnon do que Robert imaginava. Ele fora ingênuo ao supor que, por nunca tê-lo mencionado a quem pudesse ter motivos para discutir o assunto, a fortaleza tivesse deixado de existir. Como se ele, por mera força de vontade, pudesse reduzir a pó o lugar e suas recordações.
Após deixar a Mansão Barrett, por toda a Bond Street viu e ouviu olhares e murmúrios acusadores. Em um único dia, fora da solidão e obscuridade à infâmia. Um dia cruel.
Em casa enfrentaria mais questionamentos, sem dúvida. E pensar que sua casa fora o único lugar onde se sentira a salvo de tudo aquilo! As únicas perguntas que a família lhe fazia era como se sentia ou se precisava de alguma coisa... Agora perdera também esse lugar, e seus moradores.
Ele acariciou o pescoço de Tolley.
— Vamos dar uma volta.
Foram para o norte. Passaram por Londres, pelo prado onde ele e Lucinda tinham estado uma única manhã, e prosseguiram.
Ainda restava um lugar seguro: Glauden Abbey, na Escócia, uma propriedade dos Carroway que Tristan lhe doara no ano anterior. Um lugar com dois lacaios e um cozinheiro, onde ele passara os dois últimos invernos limpando, reformando e consertando, em absoluto silêncio.
Levaria uns cinco dias para chegar. Quatro, se forçasse Tolley. Ficaria no campo até esquecerem a confusão em Londres, até descobrirem quem havia roubado os tais documentos... Até esquecerem que ele tentara ser humano novamente.
Chegou de noitinha a uma estalagem, e parou para comer e descansar Tolley. Ninguém o olhou enviesado, não mais do que a qualquer outro viajante bem trajado, e ele procurou desacelerar a mente, que rodopiava muito.
Em casa, quando dessem por sua falta, ao menos Tristan saberia onde ele estava. Edward ficaria zangado, mas o resto da família entenderia.
A menos que a confissão que fizera a Tristan, a de que estivera preso no Castelo Pagnon, tivesse sido suficiente para que o condenassem. Se assim fosse, não estaria a salvo em lugar nenhum.
Os limiares do pânico se anunciaram, porém ele não deixaria acontecer Não agora. Tomou uma cerveja e comeu um frango assado, depois pediu mais uma caneca de meio litro.
Concentrar-se em outra coisa sempre ajudava, mas naquele dia tudo estava diferente. Era a primeira vez, desde que os rebeldes espanhóis o haviam encontrado, que não se via como vítima apenas de alucinações, mas de uma ameaça real.
E por quê? Porque estava fugindo, desistindo, abandonando a esperança. Como já fizera uma vez.
Lucinda havia falado, era óbvio. E ele ainda considerava isso uma traição quando saíra furiosa e estouvada-mente da Mansão Barrett.
Mas não fazia muito sentido. Se ela tivesse convicção de seu ato, não teria sido o pai dela a ir enfrentá-lo à porta, tinha certeza.
Por outro lado, se ela havia falado sob pressão, não poderia ter agido de outro jeito.
Afinal, não fora ela quem lhe mostrara uma luz no fim do túnel?
Lucinda era quem tinha começado a derreter o gelo e a rocha que o involucravam. Mas não haviam sido seus belos traços que o tinham convencido a dar os primeiros passos claudicantes para um novo dia... e sim seu coração.
Ele não duvidava disso. Não podia duvidar porque, se ela fosse diferente do que a imaginava, não existiria a esperança, que era só o que ele tinha agora. Se ela havia contado seu segredo ao pai, devia ter tido um motivo. Ele só precisava descobrir qual era.
Levantou-se, largou algumas moedas na mesa e foi ao pátio externo da estalagem. O general Barrett agira por suposição, caso contrário um batalhão teria ido despertá-lo pela manhã.
Decidido, Robert pegou Tolley e deu-lhe a cenoura que guardara no bolso na hora do jantar.
— Gostou? — perguntou, e as orelhas do baio se moveram para melhor ouvi-lo.
Durante três anos não se importara com o que pensavam dele, o que não havia sido difícil pois, na verdade, ele não passara de uma sombra.
Agora, pelo contrário, contava com a atenção de todos.
Não era bem o teste que ele queria, mas o que lhe aplicavam.
Com a determinação estampada na fronte, Robert montou.
— Mudança de planos, Tolley... Vamos voltar para Londres.
A noite já ia alta quando o estrépito dos fogos de artifício dissipou-se à distância. Lucinda não conseguia dormir. A expressão do rosto de Robert a assolava e ela sabia que, se dormisse, seria pior.
Conjeturou se os Carroway tinham ido a Vauxhall, e se St. Aubyn e Evelyn também teriam estado presentes.
Esperava que sim, pois atormentava-a pensar em Georgiana e Tristan sozinhos.
Robert havia dito que iria também, porém devia ter repensado sua decisão.
Suspirou. O chá que ela havia trazido para o quarto já estava frio. Mesmo assim, andando vagarosamente, de um lado a outro, tomou um gole.
O pai obviamente sabia toda a verdade sobre o Castelo Pagnon, mas no dia anterior contara apenas o suficiente para aguçar sua curiosidade. Esperava que ela procurasse Robert para saber mais? Queria usá-la para espionar por ele?
Ao ruído na janela, Lucinda se virou instintivamente. A janela se abriu e ela agarrou uma jarra. Um vulto esgueirou-se adentro pelo peitoril.
Com a respiração em suspenso, ela ergueu a arma e avançou.
Uma mão agarrou-lhe o pulso, girou-a e empurrou-a contra um móvel rijo e sólido. Ela inspirou fundo para gritar, porém outra mão cobriu-lhe a boca. A jarra caiu no tapete e rolou para debaixo da cama, emitindo um som oco e metálico.
— Acalmou? — Uma voz conhecida cochichou-lhe ao ouvido.
Robert!
O coração de Lucinda batia tão forte, tão alto, que ela pensou que ele o ouviria.
— Não grite, Lucinda.
Ele a soltou tão abruptamente que ela quase caiu.
Lucinda inspirou fundo para se acalmar. Não achava que fosse ele o ladrão dos documentos, mas aquela presença em seu quarto, no breu da noite, e o fato de ele ter pedido segredo quanto ao Castelo Pagnon a fizeram titubear.
— Posso acender a luz?
— Espere um pouco. — Ela o ouviu fechar rapidamente a cortina.
Com mãos muito trêmulas, acendeu com dificuldade o pavio do lampião. Queria uma oportunidade de conversar com ele, explicar-se, mas ao ver-lhe o rosto e os olhos tensos e graves à luz bruxuleante, não soube se ele a ouviria.
— Robert, eu não causei tudo isso de propósito... Eu sinto muito.
— Eu pedi para você não contar ao seu pai, e você contou. — Ele a examinou como se tentando entendê-la. — Por quê?
— Só perguntei a ele o que era o Castelo Pagnon. Meu pai quis saber como eu soube do lugar, e eu disse que não me lembrava... — Uma lágrima ameaçou escorrer e ela a enxugou, exasperada. — Foi assim que ele me falou que era importante, que ele precisava saber.
— O general explicou por que era tão importante assim? Ela fez que não.
— Falou apenas que estava tentando esclarecer umas coisas. Estava tão preocupado, Robert... Eu não sabia do furto, ou que Pagnon era uma prisão. Só soube depois.
— A quem mais você contou?
— A ninguém.
— Então essa confusão começou com o general. — Robert largou-se na cadeira da penteadeira.
Ele acreditava nela, ao menos isso, ponderou Lucinda. Mas ela não gostara de ouvir seu tom de desprezo ao mencionar o general.
— Eu contei ao meu pai em confiança, e ele sabe disso.
— Você também sabia.
— Por que não queria que meu pai soubesse?
— Tenho meus motivos. — Um músculo pulsou no maxilar tenso. — Que nada têm a ver com o furto dos documentos.
— Robert, eu...
— Alguém passou esse boato adiante. Se não foi você, preciso saber com quem mais o general conversou.
Se continuassem discutindo sobre a integridade do pai dela, não chegariam a um acordo. O último comentário de Robert, entretanto, preocupou-a ainda mais.
— Quer que eu espione meu pai?
— Não. Quero que descubra quem começou o boato. Aposto que, quem o fez, não tem o seu senso de ética.
Robert já não estava tão furioso e ríspido como no momento em que deixara a casa dela, naquela manhã. Ainda estava zangado, mas não com ela.
Lucinda suspirou. Ao ver as mãos dele brincando ociosamente com sua escova, sentiu um arrepio descer a coluna. Podia imaginá-las roçando seus cabelos, deslizando suavemente até...
Afastou o pensamento.
— O boato corre à solta — murmurou. — Saber quem o originou não vai ajudar em nada.
Robert permaneceu calado por alguns instantes.
— Vai me trazer paz de espírito, ao menos. — Um sorriso curvou o canto dos lábios bem-feitos. — Você combinou de me contar a terceira lição hoje à noite, lembra-se?
— Quer falar disso quando está sendo acusado de...
— Alta traição? — ele finalizou, cínico.
— Como pode ficar tão calmo?
— Não estou calmo. — Ele a fitava na penumbra. — Mas estou com você, e nós somos amigos, não somos?
— Eu é quem deveria estar fazendo essa pergunta, Robert. — Outra lágrima escorreu-lhe pelo rosto. Desta vez, ela não conseguiu evitar. — Mas, se você me quer como amiga, então, sim, ainda somos amigos.
— Como minha amiga... Conte-me a terceira lição.
— As lições terminaram — decidiu Lucinda, desgostosa. Pareciam tão infantis agora.
— Está tentando se livrar de mim, é isso? — A fisionomia de Robert se turvou. — Compreendo... Afinal, sou perigoso.
— Não é nada disso. — Ela engoliu em seco. — Eu conversei com Geoffrey... Ele quer ser promovido para receber um posto de comando na Índia.
A expressão de Robert mudou, mas ela não soube dizer por quê.
— Entendi. Newcombe se casa com você e o general o promove a major.
— Isso mesmo.
— Não se incomoda por ele não gostar de você? Por ter de se sujeitar a ele e...
— Não é bem assim.
Lucinda estava sentada na beira da cama, porém levantou-se e andou de um lado para outro, Robert achava que ela amava Geoffrey, quando, na verdade, era ele, Robert, quem a abalava. Ali estava ele, em busca de respostas, de distração... E ela era quem estava confusa.
Céus... Aos vinte e quatro anos de idade, não era mais uma adolescente. Não devia estar desnorteada só porque um homem bonito, e talvez neurótico, invadira seu quarto pela janela.
— Meu pai gosta de Geoffrey, e vai ficar contente se eu me casar com alguém que ele aprove. É simples assim.
— E você vai transigir.
Uma afirmação e um insulto simultâneos. Lucinda nunca pensara no assunto sob tal ângulo, mas, de novo, Robert estava certo.
Entretanto, não era da conta dele.
— Vou — protestou, em um desafio. — Assim todos ficarão satisfeitos.
Robert se levantou de um salto.
— Você não vai aguentar.
— Por que não? Arrumei uma solução simples e conveniente.
Ele se aproximou, segurou-lhe os ombros e a encostou à parede.
— Com tanto amor para dar, Lucinda, você quer ser "conveniente"?
Ela mal conseguia respirar, com Robert tão perto.
— É complicado.
— Sabe o que eu daria para...
Ele cerrou os olhos. Quando os abriu novamente, eles brilhavam com um misto de revolta e algo mais, que despertou nela uma profunda e dolorosa emoção.
— Robert...
— Espere. Quem tem uma lição a ensinar agora sou eu. — Ele respirou fundo. — Um oficial, capitão do Exército, foi emboscado com seu batalhão quando fazia uma missão de reconhecimento. No ataque, todos os seus soldados morreram e só ele restou, o que o fez desconfiar que os franceses não o mataram por algum motivo especial. Eles eram muitos. Ele resistiu, mas foi golpeado na cabeça. Só voltou a si dentro de uma cela com uma janela pequena, fechada com barras de ferro, onde havia outros seis oficiais britânicos. Na cela ao lado, percebeu outros homens. O capitão não sabia se eram seis ou sete, pois só podiam comunicar-se batendo leve e pausadamente na parede de pedra entre eles.
— Robert, eu...
— Ainda não terminei, Lucinda. Durante sete meses esse oficial viu e ouviu seus colegas ser torturados para contar o que sabiam. Assim que eles falavam, eram fuzilados. — Robert bufou com uma mistura de amargura e ódio. — A opção era falar e morrer, ou calar e morrer sob tortura. E a ironia de tudo isso, é que o oficial não sabia de nada que pudesse interessar aos franceses.
— Robert...
— Se eu soubesse alguma coisa, teria contado, Lucinda — ele revelou, confirmando as suspeitas de que o oficial era ele. — Mas o general Barrere não acreditou em mim. Por isso ali fiquei, desejando morrer, sem ter quem me executasse.
Lucinda quis tapar os ouvidos com as mãos, mas ele a agarrou pelo pulsos e os prendeu na parede.
— Não, Robert. E insuportável saber que você queria...
— Que eu queria me matar? Pois foi exatamente o que tentei fazer. A certa altura, sem suportar mais, tomei a faca de um dos guardas que me levavam de volta à cela e avancei contra o comandante, na esperança de ser fuzilado ali mesmo. Eles atiraram, claro... Mas despertei no sopé do castelo, onde devem ter me jogado, pensando que eu estivesse morto. Para não me prenderem de novo, eu me arrastei para o bosque e esperei a morte.
Com um nó na garganta, Lucinda inclinou-se para a frente, ignorando os dedos que ainda lhe prendiam os pulsos. Beijou o rosto amargurado uma, duas vezes, tentando se libertar para apertá-lo contra o corpo.
— Nunca acreditei que pudesse ter roubado alguma coisa — balbuciou, emocionada.
— A questão não é essa. — Robert recuou bruscamente. — Estou morto há três anos, Lucinda. Quis ajudá-la pensando em ajudar a mim mesmo. Sei que minha família sofre por eu estar neste estado, mas a verdade é que estou morto.
Ela ficou horrorizada com a declaração.
— Você não está morto!
— Não fisicamente. Mas, todo dia, se eu acordo, é um milagre — ele confessou com voz grave. — De qualquer modo, não pode ceder a Geoffrey Newcombe, só porque essa é a solução mais simples. Será que não entende?
— Não há nada de errado em ser prática.
— Não é pela praticidade, é pelo vazio. Para você, simplicidade quer dizer não se aborrecer com nada, não se empolgar, não se emocionar.
— Não, quer dizer que... — Lucinda divagou. Robert tinha razão. Mas o que havia de errado em querer viver sem problemas? — É a simplicidade que me deixa feliz.
Ele a fitou, os olhos passeando, traiçoeiros, pela camisola de algodão que ela usava, antes de pousarem mais uma vez em seu rosto com um brilho estranho.
— Mentirosa. — A palavra foi menos que um sussurro.
— Eu não sou...
Robert a beijou. Desta vez a mensagem era clara. Se ela quisesse pará-lo, não conseguiria.
Mas Lucinda não queria. A morte quase o levara, e ainda o rondava. Ela queria ampará-lo, mostrar-lhe que estava vivo, e que a fazia sentir-se viva.
Os lábios se moldaram e o coração de Lucinda palpitou. A língua de Robert tentou abrir caminho e ela gemeu, abrindo-se. Mãos ágeis desfizeram o laço que lhe prendiam os cabelos, afagaram as ondas morenas que lhe tombaram sobre os ombros, meigas.
O corpo e os dedos de Lucinda ardiam quando ela deslizou as mãos dos flancos aos ombros largos, e os despiu da casaca. Robert escorregou as mãos por sua cintura e costas e a apertou contra si, colando os corpos.
— Robert! — ela sussurrou, e nem reconheceu a própria voz entrecortada e rouca pela paixão. Quando ele lhe desnudou os ombros e beijou a pele nua do pescoço ao colo, Lucinda personificou a lascívia. Simplicidade e amizade poderiam esperar.
Instinto e desejo eram tudo o que ela queria agora.
Num impulso, puxou a camisa que ele usava para fora da calça e, deslizando as mãos por baixo, acariciou-lhe o abdômen liso, o tórax largo. Ao seu toque, os músculos dele se retesavam.
Robert a fez segurar as mãos acima da cabeça novamente. Beijou-a nos lábios e no pescoço, enquanto erguia-lhe a camisola com dedos trêmulos. O fino algodão sussurrou contra a pele dela, e a brisa fresca farfalhando as cortinas foi como outro par de mãos a acariciá-la.
Robert subiu o tecido pelos joelhos, pelas coxas, pelos quadris, até desnudar a cintura, os seios e os ombros, e passar a gola pela cabeça de Lucinda, despindo-a por completo. Não a tocou por um longo momento, embora ela pudesse sentir o calor de seu olhar. Palmas frias percorreram suas curvas, acariciaram suas costas, como se ele a memorizasse para esculpi-la mentalmente. Ardendo no íntimo, ela se deixou explorar, trêmula.
— Diga alguma coisa. — Ofegou, aflita.
— Você é linda. — Fitou-a com olhos semicerrados. — Macia, fogosa... Uma mulher em todo o sentido da palavra. E eu...
— Você está vivo, Robert! — Ela pousou um dedo nos lábios dele, interrompendo-o. — Tem o direito de continuar vivo. Toque-me... Eu também sou de verdade.
Feito plumas, os dedos dele foram dos ombros à curva dos seios, os polegares roçando os mamilos devagar, com cuidado, como se ele temesse vê-la sumir.
Lucinda arquejou, o corpo colando-se ao dele. Robert a beijou com volúpia, pressionando~a contra a parede com a força dos lábios e das mãos em seus seios.
— Há quanto tempo! — exclamou, rouco, a superfície das unhas acariciando-lhe os seios.
Deteve-se por um segundo, imaginando que a houvesse ofendido, mas Lucinda gemeu, ao se sentir alvo de tanto prazer.
Robert se permitiu fazer o mesmo. Costumava ter fama de conquistador, mas desde que voltara daquele lugar horrendo não desejara, nem tocara numa única mulher.
Até Lucinda aparecer em sua vida. Até aquele dia.
— Pois, para mim, é a primeira vez — ela revelou, súbita e timidamente.
Robert tornou a se deter, preocupado.
— Eu quero que você sinta prazer. Eu...
— Você fala demais! — Ela o beijou outra vez, inspirando-o.
Ele sorriu e a desarmou por completo. Os joelhos dela bambearam e Robert aproveitou para tomá-la nos braços. Deitou-a na cama feita e ainda intocada, vendo Lucinda envolvê-lo pelo pescoço, ansiosa.
Beijá-lo não bastava. Ela queria mais. Queria se perder nele.
Robert largou-se na cama, ao lado dela. Dos lábios foi beijar-lhe o pescoço, em seguida desceu até as costelas. Com a boca no seio esquerdo, estocou o bico com a língua. Lucinda corcoveou, tentou puxá-lo mais, porém ele segurou as mãos dela mais uma vez e as conduziu ao próprio corpo. Continuou a sugar-lhe os seios enquanto ela desafivelava o cinto e desabotoava a calça.
Lucinda sentiu os dedos tremerem, a mente entregue. Queria vê-lo, senti-lo. Estava viva: o coração batia, a respiração arfava... Impossível não sentir.
E quanto mais ela sentia, mais o queria vivo também. Tudo faria para ele se sentir revitalizado, vibrante e excitado como ela.
Abaixou a calça de Robert e ele se libertou: grande, ereto e impressionante.
Lucinda segurou o ar. Ele inspirou, sentou-se, tirou as botas e as colocou no chão. Com um golpe das pernas, livrou-se das calças e se ajoelhou na cama.
Frente a frente, beijaram-se, fogosos.
— Toque-me — ele pediu com voz rouca, conduzindo a mão de Lucinda.
Tímida, ela o envolveu suavemente e percebeu que ele se contraía, o maxilar cerrado.
— Dói?
— Não! — Robert meneou a cabeça, aturdido. — Mas, como eu disse, faz muito tempo... Quero você, Lucinda. Você me quer?
Tanto que ela mal conseguia respirar.
— Quero! — Ela estendeu a mão para tirar-lhe a camisa.
— Não. — Ele a impediu, segurando-a pelo pulso. Lucinda expirou o ar.
— Eu sei que tem marcas, Robert. Mas mesmo assim eu quero vê-lo, senti-lo.
Ele engoliu em seco e recuou de leve. Por um segundo, Lucinda temeu que ele tivesse mudado de idéia. Mas Robert segurou a fralda da camisa e a tirou por cima da cabeça com um movimento rápido.
Cicatrizes brancas e estriadas, duas no abdômen e uma no ombro, atraíram o olhar de Lucinda. Ele se sentia defeituoso com elas? Inferior ao que era antes?
Afagou-lhe o tórax, tocando-as, sem no entanto, se deter nelas. Robert permaneceu sentado, os olhos cerrados. Parecia não querer ver sua expressão.
Ela ergueu o tronco e o beijou profundamente.
— Também tenho uma cicatriz — disse, fazendo-o deitar-se novamente sobre ela. — Atrás do joelho direito... Meu vestido agarrou nos degraus da carruagem.
Com a respiração acelerada, ela o afagou nas costas e desceu às nádegas rijas e musculosas. Ah, como ela o queria!
— Uma cicatriz? — Robert abriu os olhos, deitando-se de corpo inteiro sobre o dela. A seguir, desceu a cabeça, marcando o trajeto com os lábios, a língua, os dentes.
Ela arfou ao senti-lo afagar com a boca cada porção do seu corpo, agora abaixo da cintura.
— Fiquei apavorada... A carruagem me arrastou a meio caminho da rua. Só então o cocheiro ouviu os gritos de minha governanta.
Ele beijava-lhe a coxa agora. Desceu ao tornozelo, aos pés, depois subiu, coleando pela outra perna. No joelho, parou e o levantou.
— Foi neste?
— Bem aí. Dá para sentir com os... Ah!
Com a ponta da língua, Robert roçou espaçadamente na cicatriz. Depois, ao subir, foi abrindo-lhe as pernas com a cabeça.
Lucinda soprou o ar. Ela ia derreter ou incendiar.
Ou ambos, quando ele a beijou entre as coxas.
— Robert! — balbuciou rascante, mergulhando os dedos nos cabelos dele.
Ele ergueu a cabeça para fitá-la, e ela viu de novo aquele sorriso secreto e contido.
— Agora eu sei que você me quer... — falou com voz rouca.
— Quero muito! — Lucinda sentia a pele apertar. — Por favor...
Robert não respondeu, apenas para atormentá-la um pouco mais com os lábios e a língua.
— Não, Robert, pare! — Ela ofegou. — Vou pegar fogo...
— Você já é uma fogueira.
Lucinda gemeu. Já não agüentava mais. Estava no limiar daquele... êxtase. Agarrou-lhe os cabelos, puxou-o. Robert cedeu finalmente e, sem pressa, foi sugar-lhe os seios. Depois voltou a beijá-la profundamente.
Posicionou-se em cima dela, usando os joelhos para afastar-lhe as coxas, e pressionou-lhe a entrada. Ela, já muito excitada com as carícias, sentiu a pressão e arqueou o quadril involuntariamente.
Devagar... bem devagar... ele a penetrou. Era uma sensação indescritível, muito além do que ela imaginara.
Quando Lucinda sentiu o corpo resistir, Robert parou e respirou fundo. Apoiou-se nos braços fortes para fitá-la com olhos semicerrados.
— É sua última chance de se preservar...
Ela soltou o ar que vinha prendendo. Robert não mudaria de idéia logo agora. Não a deixaria assim... incompleta.
Decidida, ergueu o quadril e inspirou fundo. Soltou um gemido abafado quando ele a penetrou por inteiro. Como Georgiana e Evelyn já haviam comentado com ela, sentiu dor, mas não mais do que ela esperava.
Robert permaneceu na mesma posição e, quando Lucinda abriu de novo os olhos, ele a fitava, preocupado.
— Eu não queria que doesse.
— Quero esquecer a dor — ela falou quase sem fôlego, beijando-o novamente.
Robert começou a se mover, levantando e abaixando o quadril. Lucinda tornou a gemer com a cadência dos movimentos. Laçou-lhe as coxas com as pernas e as costas com os braços, respirando ao ritmo das implacáveis e contínuas estocadas.
— Robert... — Ela ergueu o quadril para melhor receber as investidas. Perplexa, sentiu a pele se aquecer mais, o desejo espiralando do ponto onde estavam unidos, o zumbido na cabeça aumentando... até que explodiu em êxtase.
Robert a beijou com fúria, a língua marcando o ritmo do quadril cada vez mais rápido, e com um gemido rouco, estocou bem fundo e se desfez nela.
Lucinda o recebeu nos braços com um longo suspiro, sentindo-se reconfortada com o peso daquele corpo, cujos batimentos ribombavam em seu peito.
— Era assim, antes?
— Foi melhor.
Permaneceram enroscados um no outro ainda por alguns minutos. Absurdamente relaxada de corpo e mente, ela tentava manter os olhos abertos para não dormir. Não queria perder um único momento daquela presença.
— Preciso ir embora. — Sem avisar, Robert apoiou-se nos braços, levantou-se e sentou na cama.
Chocada, ela pensou em protestar.
Mas foi nesse momento que lhe viu as costas, quando ele abaixou para pegar a calça; riscas brancas e estreitas entrecruzavam-lhe a pele desde as espáduas até as nádegas.
— Céus, você foi chicoteado — constatou, tocando-o sem cerimônia.
Mesmo se preparando para ir embora, Robert sentiu o peso da proximidade. Queria ficar, mas, de súbito, precisou de espaço para respirar. Seu mundo parecia ter virado de cabeça para baixo.
Levantou-se. Para esquivar-se do toque meigo e atraente de Lucinda, vestiu rapidamente as calças e calçou as botas.
— Entre outras coisas — confessou, ofegante.
Ele sabia que não formava uma bela imagem. O criado pessoal, contratado por Tristan quando as feridas ainda estavam abertas, chegara a vomitar. Desde então, ninguém mais o vira despido... até aquela noite.
— Vamos resolver tudo isso, Robert. Esse diz-que-diz vai ter fim mais cedo ou mais tarde. — Lucinda sentou-se na cama e afagou-lhe os ombros. — Vai terminar quando a Guarda Real Montada encontrar o verdadeiro ladrão.
Entretanto, a atenção de todos ainda estaria concentrada nele.
— Em um mundo ideal você teria razão... Por isso vou ter que tomar algumas providências.
— Nós dois vamos — ela corrigiu.
Os escombros do coração de Robert se contraíram.
— Não vim aqui pedir sua ajuda. — Ele vestiu a camisa. — Minha família será arruinada em todos os sentidos se alguém mais souber que eu tentei me matar. Não pode contar nada a seu pai, Lucinda.
Robert tinha razão. Ele e a família estariam ainda mais vulneráveis diante de novos boatos.
— Não vou contar, eu juro.
Lucinda se levantou, esbelta e linda, à luz do lampião. Os cabelos castanhos, compridos e ondulados cobriam-lhe parcialmente os seios. Lembrava a Vênus de Boticelli saindo da concha.
Ele a desejou novamente. Mas, se ficasse, sem dúvida a chamaria de seu raio de luz, sua esperança, sua obsessão, sua razão de viver...
Por isso, precisava ir embora.
Mas Lucinda, que fizera dele um novo ser humano, era irresistível.
Afagou-lhe o rosto com o dorso dos dedos.
— Tenho uma lição para você — murmurou com voz rouca. — Na próxima vez em que vir Geoffrey, pense o quanto ele lhe é conveniente... E depois pense nisto. Ele se inclinou para beijá-la longa e apaixonadamente. Roçou os lábios nos dela. Doía afastar-se.
— Boa noite, Lucinda.
— Boa noite, Robert.

Quando Robert entrou no saguão da Mansão Carroway, logo pressentiu que havia alguém ali. Já estava prestes a se defender quando um vulto o agarrou pelo braço, e ele sentiu a fragrância do sabão de Tristan.
— Andrew e Shaw já estavam se preparando para ir á Escócia atrás de você. — O visconde acendeu o lampião em cima da mesa de canto. Usara palavras ternas, mas tinha a fisionomia grave.
Robert suspirou. A seu favor nada mudara. Quanto a Lucinda, ao menos a deixara mais esperançosa.
— Vou dormir.
— Primeiro vamos ver Georgiana e mostrar que você está a salvo. Ela estava preocupada. Todos estávamos.
— Amanhã eu a procuro.
— Não, vamos agora. Ela ainda está acordada. A aia está com ela, tentando acalmá-la.
A fugaz sensação de contentamento de Robert se esvaiu. Seus problemas não haviam terminado com a visita a Lucinda e, como sempre, para fugir da própria dor, ele parecia estar magoando sua família.
— Ela está bem?
— Por enquanto. Você não pode desaparecer assim, sem avisar. — A voz do irmão continha raiva e preocupação.
— Eu disse que tinha coisas para resolver — desculpou-se Robert, já subindo a escadaria.
— Isso há quinze horas, Bit. Se tivesse sumido, só nos restaria aturar os boatos, e você estaria arruinado.
— Você também. Por que não reforça a idéia de que voltei desequilibrado da guerra? Pode funcionar a seu favor.
Tristan o agarrou pelos ombros e o virou, quase derrubando-o escada abaixo.
— Você é meu irmão — falou, sério. — Não queremos nos afastar de você. Se você fugir, todos ficaremos arrasados. Peço que pense nisto da próxima vez.
Robert fitou longamente o irmão mais velho.
— Não fiz nada de errado — murmurou, retomando a escadaria.
— Eu sei que não, todos sabemos.
— Mas o resto de Londres, não. Não seja nobre à minha custa, Dare. Para seu próprio bem, e principalmente de Shaw, quero vocês longe de mim se a situação piorar.
— Depois discutimos isso, se for preciso. O que há, por enquanto, são calúnias. — Tristan apontou a porta do quarto principal. — Entre.
— Georgiana?
Rodeada de travesseiros, a cunhada lia um livro, inclinada na cama. A aia, junto à janela, cerzia meias. Ao ouvi-lo, a viscondessa olhou para ele e sorriu, fazendo sumir sua expressão preocupada e abatida.
— Bit! Até que enfim! Você está bem?
— Estou. Peço desculpas pelo aborrecimento.
— Venha cá. — Ela estendeu os braços.
Ele foi, meio a contragosto. Georgiana o abraçou e deu-lhe um sonoro beijo no rosto. Ele se surpreendeu por não se incomodar com aquele contato íntimo, e retribuiu o beijo.
— Onde você esteve?
Os outros irmãos começaram a chegar ao quarto. Shaw e Andrew usavam trajes de montaria, prontos para irem procurá-lo na Escócia, informação que Robert não sabia se lhe fazia bem ou mal.
— Cavalgando.
Não podia dizer a Georgiana que estivera na cama da melhor amiga dela, e que conseguira o que queria, o que precisava.
— Onde? — Edward chegou sonolento, aos tropeços.
— Volte para a cama, Miúdo. — Shaw o abraçou. — Está tudo bem.
— Não, não está — o menino insistiu, soltando-se, e apontou o dedo para Robert. — Você saiu e não avisou. Nós estávamos preocupados.
Só faltava essa, ele pensou, aturdido; levar um sermão de um menino de dez anos!
— Pois é... Peço desculpas.
— Aonde você foi?
Não iriam calar Edward, obviamente, porque ele fazia as perguntas que todos queriam fazer. Tristan fitou Robert, inquisitivo.
— Pensei em ir para o Norte, para Glauden.
— Mas você voltou.
— Porque cansei de toda essa história. Não fiz nada errado, por isso acho que consigo aturar os boatos.
Não era a sua capacidade de agüentar indiretas e insinuações que estava em jogo, refletiu consigo.
— Mas, quanto a vocês, não sei — completou, taciturno. Olhou para Bradshaw, quem, além dele, tinha mais a perder.
— Se você agüentar, nós agüentamos. — Apesar da expressão sombria, seu irmão mais velho sorria.
Robert entendera o sentimento geral. Se ele fugisse, seria muito pior para cada um dos Carroway.
— Combinado — falou, com um suspiro, tentando disfarçar a própria emoção.
— Agora que tudo está de volta no lugar — Tristan bateu as palmas das mãos, decidido —, façam o favor de sair do meu quarto. Menos você, Georgiana.
— Mas...
— Amanhã, Andrew — o visconde interrompeu, ainda atento a Robert. — Vá dormir. Precisaremos de uma estratégia e, de manhã, conversaremos sobre isso.
Todos começaram a se retirar.
A sugestão fazia sentido. No dia seguinte, o culpado talvez já estivesse preso, e todos poderiam esquecer novamente o Carroway "mudinho" e "aleijado".
Uma solução conveniente, senão por um motivo: Lucinda Barrett e seu plano simples e amistoso para com Geoffrey Newcombe.
Robert respirou fundo. Desejava Lucinda, mas não imaginava que ela pudesse querer dele mais que uma noite de amor. Depois dos momentos que tinham passado juntos, porém, o mínimo que ele deveria fazer era verificar se Newcombe aprendera todas as lições dela...
Sorriu, contido. Alguma coisa estava definitivamente errada, se estava mais preocupado com o acordo de Lucinda e amigas do que com a acusação de traição que pesava contra ele.
Quando tirou a roupa e se largou na cama, ainda sentia na pele o aroma de sua musa. Se resistisse aos dias seguintes, teria de imaginar como impedir que percebessem, principalmente o potencial marido de Lucinda, o quanto ela passara a significar para ele.
Pela primeira vez Lucinda desceu para o café antes do pai, tomou um desjejum rápido e saiu para cuidar das rosas antes que ele aparecesse. Descer mais cedo tinha uma vantagem: não dormira a noite inteira, e não tinha intenção de comentar o que se passara com o pai ou com ninguém.
Cortou as folhas amarelas e os brotos que tinham murchado. Já recebera uma proposta de casamento, e até uma indecente, porém recusara ambas. Robert a interessava e a intrigava, talvez porque estimulasse seus sentidos como ninguém.
Sentiu-se excitada ao lembrar do corpo bonito, apesar de machucado e cheio de cicatrizes, deitado em sua cama... dentro dela. Por causa disso, havia entrado no território mais complexo que podia imaginar: a meio caminho entre Robert e o pai.
Para o pai, o ladrão dos documentos da Guarda Real Montada era um canalha, um infame. E era assim que o resto da sociedade via Robert.
Mas não ela. Perdoada ou não, ela faltara com a palavra e dera origem aos boatos. A maior falta de sorte fora uma coincidência, apesar de não provar nada: o roubo e a notícia da prisão de Robert terem acontecido ao mesmo tempo.
Robert poderia livrar-se dos boatos se contasse sobre sua estada no Castelo Pagnon e como esta terminara. Mas a verdade, porém, é que ele tinha razão, poderia também lhe ser prejudicial. As circunstâncias do caso eram extremas. A sociedade não as entenderia, nem tentaria entender. A única parte da história que remanesceria era que um soldado de família proeminente preferira tentar o suicídio a combater Napoleão.
E fora ela quem contara ao pai sobre o paradeiro de Robert.
Quanto ao general, a única questão que justificaria trair a confiança da filha era a segurança do reino. Por esse motivo, e dever de ofício, ele devia ter passado a informação que ela lhe fornecera a alguma autoridade da Guarda Real.
Lucinda suspirou. No pai ela confiava, mas nos colegas dele, não.
— Praga — ela murmurou consigo.
— Você se espetou?
Lucinda pulou, sobressaltada, e corou profundamente ao ver o pai no roseiral.
— Não. É a brisa. Está ressecando as pétalas. Continuou a poda enquanto ele a observava, atento.
— Dormiu bem?
Lucinda enrijeceu. Será que ele ouvira alguma coisa, nas vésperas?
— Por quê?
— Está com uma expressão cansada. — Ele se abaixou, catou algumas mudas soltas e jogou-as no balde. Um gesto inesperado. — Ouvi os fogos de artifício de Vauxhall ontem à noite, e pensei em você.
— Papai, eu não me interesso por fogos de artifício. — Ainda desconcertada, Lucinda cortou um broto em perfeito estado. — Raios!
— Está assim por causa dos Carroway, não? E Georgiana. — O general deu um longo suspiro. — Hoje vamos ter outra reunião. Esperamos fazer uma lista mais completa do que foi furtado e levantar informações sobre os simpatizantes de Napoleão em Londres.
— Ainda nem sabem ao certo o que foi furtado? E com base nisso, e de ouvir dizer que Robert Carroway foi prisioneiro de guerra, o senhor...
— Não fui eu, Lucie.
— Nem eu. O que contei ao senhor não contei a mais ninguém. O senhor confia nas pessoas a quem contou o segredo de Robert, papai?
— Então é isso. — Ele se sentou vagarosamente no banco de pedra, ao fim da fileira de rosas. — Quer me culpar por trair a confiança que você traiu.
— Sim... Não. Eu sei lá! — Ela estalou a língua. — Talvez. Se havia alguém a quem eu achava que podia contar as confidencias dos amigos, era o senhor. Robert ficou furioso.
Furioso e só, completou consigo, sentindo um nó na garganta.
Uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto. Lucinda fungou e, impaciente, enxugou-a com as costas da luva de jardinagem.
— Você o ouviu no saguão, não? — quis saber o general. — Imaginei que iria querer escutar nossa conversa.
— Ouvi.
— Foi para o seu bem, querida. De verdade. A investigação vai continuar. Se Robert Carroway for inocente, poderá se desculpar com ele, ou dizer a Georgiana, noutra ocasião, que não foi a Vauxhall porque não estava se sentindo bem. Se for culpado, você não terá de se explicar.
— Ele não é culpado. Céus, papai, você o conhece bem!
— Não tão bem assim. Você o conhece melhor. Aliás, talvez você possa explicar por que ele me jogou na cara aquela referência a Bayonne, ontem.
— Não sei.
Ela jamais contaria ao general outra confidencia de Robert.
— Quem era o comandante dele?
— Não sei. Acho improvável que ele converse comigo sobre essas coisas agora, afinal, nem tenho permissão para vê-lo, não é mesmo? Por isso, pare de perguntar essas coisas, por favor. Já magoei muita gente, e não pretendo fazer isso de novo.
O general silenciou e ela fingiu continuar a poda. Não se dera conta disso, mas se tornara uma temível informante do Exército. Pior, dormira com o objeto da investigação, a quem, por mais incrível que parecesse, também prometera informações.
— Quase me esqueci. — O general se levantou por fim. — Geoffrey lhe enviou uma mensagem. Você agradeceu a ele pelos chocolates?
— Ainda não. — Na verdade, Lucinda nem se lembrara de fazer isso.
— Mesmo assim, ele pede minha permissão para acompanhá-la à festa dos Hesterfeld.
— Eu não vou. Não quero mais saber desse diz-que-diz.
— É evidente que vai. Não pode se tornar uma eremita, só porque um amigo seu cometeu um deli... — ele ergueu a mão, corrigindo-se — ...é suspeito de ter cometido um delito.
— Georgiana e Tristan provavelmente irão, papai. O senhor mesmo disse que não me quer com eles, e eles nem sabem por quê.
— Se ouviram os comentários, e acho que ouviram, saberão por quê. Não são tolos.
— O senhor sempre me orientou a manter minhas próprias convicções.
— Eu sei, mas desta vez... Só desta vez, peço para você respeitar as minhas. Quem roubou aqueles documentos está tentando deflagrar uma guerra.
— Os Carroway são meus amigos, papai.
Ele sabia disso tão bem quanto ela.
— Você pode perder uma ou duas amizades, Lucinda, não tenho como evitar. Mas ao menos, eu irei preservar sua integridade. Você não fez nada de errado.
Tinha feito, sim, ela refletiu, amargurada, ao se lembrar da decepção em um par de olhos azul-escuros.
— Wellington também sabe do caso?
— Está ciente, mas a investigação ficou a cargo de cinco oficiais do estado-maior.
Mais seis homens além do pai dela tiveram conhecimento de Robert e do Castelo Pagnon antes do resto de Londres. Qualquer um dos outro cinco poderia ter contado a qualquer pessoa.
— Isso é apavorante.
—Mais apavorante é alguém querer soltar Napoleão e recomeçar a carnificina. Estes últimos dias foram difíceis para você, filha. Vá se divertir logo mais. Geoffrey está gostando de você e, se não estou enganado, também gosta dele. Pense na sua vida. Não tem culpa nenhuma do que está acontecendo. Ao contrário, pode até virar heroína.
— Não quero ser heroína. O senhor pode ficar com as honras. — Ela respirou fundo. — Bem, preciso cuidar das minhas rosas.
— Vou avisar a Geoffrey que aceitou o convite.
De costas, ela anuiu com um gesto de cabeça. Discutir não iria adiantar. O pai a queria como um bom soldado, ciente de seu dever.
Bem, na companhia de Geoffrey, na pior das hipóteses, ela não se sentiria tão só na festa, já que não poderia conversar com as amigas. Na melhor hipótese, veria Robert nas sombras, e ele saberia que tinha uma aliada no recinto.
Lucinda e Geoffrey foram ao baile de Hesterfeld com um certo atraso. Geoffrey se fizera presente pontualmente à Mansão Barrett, porém Lucinda demorara quase uma hora para descer com Helena, sua acompanhante.
Uma demora intencional: se chegassem tardiamente não seriam anunciados, e ela poderia sondar o terreno.
— Perdemos as duas primeiras danças. — Geoffrey entrou ao lado dela, cumprimentando outros convidados.
— Peço desculpas. — Lucinda abanou o leque em frente ao rosto para poder espiar á volta. — Minha aia não conseguia achar minhas sapatilhas verdes.
Atrás dos dois. Helena pigarreou significativamente. Geoffrey olhou para a moça, divertido, depois se voltou novamente para Lucinda.
— Não se desculpe. Valeu a pena esperar, pois seu pai e eu pudemos conversar.
— Verdade?
— Sim. Ele me contou que esse mexerico todo tem aborrecido você.
Lucinda inquietou-se, mas não o demonstrou. O pai obviamente queria o casamento dos dois, mas não faria confidencias. Se ele ao menos admitisse que os boatos do Castelo Pagnon haviam partido de alguém a quem ele confidenciara a informação, ela se sentiria mais redimida.
Mas, informação por informação, ela também as queria.
— Ele contou mais alguma coisa?
— Apenas que lhe pediu para evitar a família Carroway.
— Contra a minha vontade. Por favor, esqueça esse pedido.
— Pois eu ia sugerir a mesma coisa. E bom ter cautela, embora os rumores sobre a conduta de Robert pouco possam afetar a família.
— Não há nada confirmado. Podemos mudar de assunto?
— Claro, Lucinda. Mas, para você, como filha de um oficial do Exército, é melhorar encarar do que ignorar os fatos.
— Vou encarar os fatos comprovados.
Ela apertou os lábios, aborrecida. Preferia que Geoffrey não fosse um papagaio do general.
— Admiro sua lealdade para com seus amigos, mas insisto: é melhor evitar os Carroway.
— Ouça! Um cotilhão. — Inflexível, ela o conduziu praticamente a reboque para o salão. — Vamos dançar?
A pista estava cheia, o que era uma vantagem, pois assim ela poderia se esconder no remoinho dos vestidos. E uma desvantagem, porque não poderia ver os demais presentes. Georgiana quase não dançava ultimamente, no entanto os três varões Carroway poderiam estar fazendo exatamente isso. Robert não contava, já que, depois do acontecido, possivelmente jamais iria a outra reunião social.
— Vai ver eles não vieram — comentou Geoffrey, como se adivinhasse seus pensamentos. — Não estavam nos fogos de artifício, ontem.
— Eles também não foram?
— Não. Se lorde e lady St. Aubyn não estivessem no camarote, eu teria achado que tinham me pregado uma peça.
Céus. Ela havia se esquecido de se desculpar por sua ausência.
— Surgiu um imprevisto ontem à noite.
Vários imprevistos, queria dizer. E um deles memorável...
— Não precisa se explicar, Lucinda.
Mesmo sem tê-los procurado, ao fim do baile ela avistou Evelyn e St. Aubyn sentados a um canto, recostados a uma parede. Quem não conhecesse a jovem senhora, diria que ela estava calma. No entanto, Lucinda sabia que aquelas mãos apertadas uma na outra, e a palidez no rosto bonito de Evelyn, tinham a ver com o sofrimento do qual o casal, tão amigo dos Carroway, também devia estar padecendo.
Inspirou fundo e pediu licença a Geoffrey.
— Lucinda! — Evelyn levantou-se e a tomou pelas mãos. — Você já soube, não?
— Já. — Ela se sentou ao lado da moça, porém prestava atenção ao marquês, que, sem dúvida, devia estar mais a par dos acontecimentos. — Papai e eu abandonamos vocês ontem, em Vauxhall. Peço desculpas. Ele não se sentiu bem.
— Deve andar muito ocupado — St. Aubyn ponderou. — Já há algum suspeito?
— Ela não poderia contar. Santo, mesmo que soubesse. Não é mesmo? — Evelyn ainda retorcia os dedos.
— Tem razão. Meu pai está fazendo o possível para desvendar o caso.
— Quando a notícia do roubo se espalhou, Georgie devia ao menos nos ter avisado que Robert poderia ser apontado suspeito... Eu quase agredi Melissa Milton, ontem, quando ela associou Robert ao caso. Se soubéssemos, poderíamos ter atenuado o problema.
Lucinda tentava respirar normalmente.
— Os Carroway também devem ter sido apanhados de surpresa.
— Ele contou para alguém, sem dúvida. — St. Aubyn olhou para Lucinda, que o fitou, perplexa. — E se esteve mesmo preso no Castelo Pagnon, eu não o condenaria. Mesmo que tivesse sido o autor do roubo.
— Não foi ele! — A veemência de Lucinda foi espontânea.
— Eles vão precisar do seu apoio — St. Aubyn interpôs, apontando com um gesto a entrada do salão.
Lucinda se retesou. Estavam todos ali: Tristan e Georgiana, de mãos dadas, Andrew e Bradshaw atrás, e, no meio deles, surpreendentemente, Robert em pessoa.
Nenhum deles parecia à vontade.
Preocupada com o estado de Georgiana, Lucinda olhou para Robert, cujo olhar acuado, que ela esperou que ninguém mais tivesse notado, cortou-lhe o coração. No mais, ele continuava forte e estóico, distante e despreocupado em meio ao burburinho ao redor.
Ela pensou em correr e se atirar em seus braços. Queria abraçá-lo, beijá-lo, sentir seus lábios e a carícia de suas mãos na pele.
O calor no rosto avisou-a do rubor que a tomava, e ela soube que não conseguiria ficar longe dele, nem dos amigos.
Nesse instante Robert olhou para ela, como se soubesse onde ela estava. Lucinda imaginou se ele teria contado à família como a notícia de sua prisão no Castelo Pagnon havia chegado à sociedade. Robert tinha nas mãos a faca e o queijo para destruir, ou no mínimo prejudicar, a amizade dela com Georgiana, e provavelmente com Evelyn também. Ele já não parecia tão aborrecido quando fora embora na noite anterior, mas como poderia esquecer que ela traíra sua confiança se ela mesma não esquecera?
— Vamos, não podemos deixá-los sozinhos. — Evelyn convocou, levantando-se com o marido.
Lucinda os acompanhou, mas parou, surpresa, porque St. Aubyn a deteve.
— Melhor você ficar aqui. Seu pai está diretamente envolvido na investigação... Se for vista com Robert, pode haver comprometimento.
— Você tem razão, Santo. — Evelyn foi obrigada a concordar com o marido. — Fique aqui, Lucie. Eu explico a Georgie.
— Não — protestou Lucinda, sem saber se agradecia ou não à voz da razão. — Não vou perder meus amigos por causa de um boato.
Muito menos por causa de um boato que ela mesma causara.
Resoluta, seguiu atrás de lorde e lady St. Aubyn, mas, poucos passos depois, agarraram-lhe o braço.
— Não vá. — Era Geoffrey, que a conduziu à mesa de refrescos.
— Meu pai o mandou me vigiar? — Ela se soltou, contrariada.
— Ele me pediu para ficar em sua companhia. Mas, interessado em você, e sob influência de seu pai, também não quero que vocês se comprometam.
Ao menos ele era honesto. Lucinda suspirou.
— Todos sabem que nós somos amigos. Se eu me afastar, assim, haverá estranheza. Se eu for vê-los, garanto que será melhor.
— Quando prenderem o aleijado, vão começar a dizer que ele entrou para a Guarda Real Montada por influência sua e de seu pai. Não é só sua paz de espírito que está em jogo, Lucinda.
— Eu sei! — ela contrapôs, e quase se esqueceu de baixar a voz, irritada com o modo como ele se referia a Robert. — Não é só minha paz de espírito que me preocupa, Geoffrey, mas também lealdade e amizade.
— Preciso de você, Lucinda. — Ele tomou a agarrá-la pelo braço. — Não entre nessa confusão.
— Já estou nela.
— Srta. Barrett — falou uma voz grave e baixa, ao lado dela. — Esta valsa já está prometida?
— Eu...
Robert se materializara a um metro dela. Tinha a expressão serena, controlada, mas Lucinda sabia: ele a estava testando para ver se ela o recusaria em público ou não.
— Já — Geoffrey falou por ela. — Vá para casa, Carroway, e poupe a todos de sua presença indigna.
Um par de olhos azul-cobalto encontraram os dele, faiscantes.
— Não é o dono dela ainda, Newcombe. Lucinda pode aceitar ou declinar meu convite por si mesma.
Para quem falava pouco, Robert sabia construir muito bem uma frase.
Lucinda olhou de um para outro: o bom e belo em oposição ao fraco e indigno. O anjo e o demônio.
— Vou dançar com você, Robert.
Ele estendeu a mão e ela aceitou sem delongas. Percebeu que o salão estava em silêncio e que, apesar da discreta aproximação, os dedos de Robert não estavam tão firmes quanto sua voz. Ele fora torturado, e sua própria gente o torturava novamente. Ainda bem que ela decidira ajudá-lo. Não suportaria ter que assistir a isso oculta na segurança das sombras.
— Estou surpresa que tenha vindo.
Os dois entraram na pista de dança. Outros casais aderiram, mas havia muito espaço à volta de Robert e Lucinda.
Seu pai ficaria furioso, porém, na hora oportuna, ela cuidaria disto. Naquele instante sua atenção estava dedicada a Robert.
— Eu queria dançar com você — ele sussurrou. — Na última vez, não tive oportunidade.
A mão afetuosa em sua cintura, e os dedos apertando os seus, germinaram um delicioso calor dentro dela.
— Contou alguma coisa a alguém?
— Quer saber se contei a Georgiana quem começou esse boato? — ele indagou, fitando-a por instantes. — Não. Não levaria a nada. E não vou ferir você, Lucinda, se mantiver a promessa de não magoar minha família.
— Eu jamais faria isso de propósito.
— Como vai seu amigo conveniente?
— Pare com isso, Robert. Estou mais preocupada com você.
— E eu, com você. — Um esboço de sorriso curvou os lábios bem-feitos. —Andei pensando... Não posso pedir que traia a confiança de seu pai.
Lucinda respirou fundo. Ele queria liberá-la daquela obrigação e ela descobrira o porquê na noite anterior.
— Não estou sob tortura, Robert, e já pensei nas conseqüências. Apesar de você desprezar as coisas "simples", a questão é, na verdade, muito clara: um ato meu o magoou e pretendo corrigi-lo.
Os olhares se encontraram mais uma vez. Ele dançava bem a valsa, ela notou: com graça e agilidade. E quase não se notava a perna coxa. Seu joelho provavelmente iria doer no dia seguinte... Uma preocupação desprezível no contexto atual.
— Estou começando a achar que eu deveria ser mais conveniente.
A declaração a fez engolir em seco. Uma das coisas que mais a atraía em Robert era a profundidade do olhar, o que ela agora percebia: Geoffrey não tinha.
— Meu pai se reuniu com outros quatro oficiais da Guarda Real Montada — recomeçou em voz baixa. — Sabe quem são, não é?
— Sei.
— São militares da maior confiança, Robert.
— Sei disso também.
— Eles ainda não tinham um inventário completo do que foi levado. Agora estão preparando uma lista dos simpatizantes de Napoleão em Londres.
Os olhos azuis cintilaram e Lucinda percebeu que tinha dado uma informação importante. Cotejou as reações dele contra o que ela dissera, e resolveu ser mais participativa em vez de reles testemunha.
— Eles já deviam ter essa lista, não é mesmo? Robert a brindou com seu sorriso fugidio.
— Mas é claro...
— Deve ser um dos itens que foram levados. — Lucinda mordeu o lábio. — Eu não devia ter lhe contado.
— Agora é tarde. O general disse mais alguma coisa?
— Para eu ficar longe de você e de sua família até tudo se resolver.
— Ele desconfia mesmo de mim. — O humor fugiu da expressão de Robert. — E vai se aborrecer com você, na certa. Devia ter me contado isso antes.
— Só estarei encrencada se alguém contar a ele que dancei com você.
— E seu amigo conveniente vai ficar de boca calada, por acaso?
Lucinda olhou para Geoffrey, que dançava com lady Desmond enquanto os espionava à distância.
— Não, mas há outros mexericos no ar.
Ela suspirou. Estava numa situação detestável, pois, para ela, Robert era inocente e o pai também. Nenhum dos dois tinha cometido qualquer delito, mas um deles seria penalizado, sem dúvida.
O fim da valsa a pegou desprevenida.
— Ele vai querer saber o que conversamos. — Robert se afastou, tenso.
— Eu sei. Vou dizer que você perguntou se meu pai contou mais alguma coisa a respeito do roubo.
— O que é verdade. — Ele ia acariciá-la no rosto, mas desistiu. — Não vou perguntar mais nada. Muito obrigado, Lucinda.
Engoliu em seco. Queria poupá-la daquela confusão... e dele também.
— Quando vamos nos encontrar de novo? — ela quis saber com a respiração entrecortada.
— Acho que não devemos nos encontrar mais.
— Pois eu acho que sim.
Ela praticamente acabara de sugerir que ele escalasse novamente a janela do quarto, mas, dada sua dedicação a ele e a precária situação de Robert na sociedade, a atitude não seria prudente.
— Vou ver Georgie amanhã à tarde.
— Não vá. Seu pai vai se aborrecer.
Uma simples frase foi muito mais convincente do que os veementes protestos dos demais.
— Vou visitar Evelyn amanhã... Por que não vai ver Santo?
— Está bem. — Um sorriso lento torneou-lhe os lábios. — Vou dar um jeito. E só para que saiba: Georgiana não quer se ausentar de Londres por ora, e Tristan, apesar de mostrar-se zangado, no fundo está aliviado porque ela vai dar à luz aqui.
— Não se culpe.
— Não estou me culpando. A culpa é de quem roubou aqueles malditos documentos.
— Vamos descobrir quem foi. — Ela se arriscou a tocá-lo no braço. — Precisamos descobrir.
— Que idéia absurda foi essa, de expor-se no salão? — Tristan interpelou Robert, quando o irmão voltou para o grupo.
— Só queria dançar.
Assim como Lucinda, Georgiana pousou-lhe a mão no braço:
— Bit, você pode deixar Lucinda e o pai numa posição difícil.
— Vocês têm razão. — Robert olhou um e outro.
— Lucinda queria ficar aqui conosco hoje, e ir visitá-la amanhã, Georgie, mas eu pedi a ela que não fosse. — Hesitou ao fitar a cunhada. — O general disse a ela para se afastar de mim.
— Então Lucinda deve obedecer — a viscondessa propôs sem demora. — Conseguiu convencê-la?
— Acho que sim.
Agressivos, zangados, os irmãos formavam um círculo irregular em volta de Georgiana, como se desafiassem quem a eles se dirigisse com palavras hostis. Ao lado de St. Aubyn, Tristan, encarando os presentes, era a expressão do mau humor.
— Isto já está começando a me incomodar
— Avante, frente unida! — Bradshaw acenou para o lacaio trazer uma bandeja de bebidas. — Em quanto tempo vocês acham que Hesterfeld vai nos pedir para irmos embora?
— Nunca fui enxotado de uma festa — Andrew comentou. — Qual será a sensação?
— Eu já fui — St. Aubyn lembrou. — E, por mais interessante que seja, brigar não vai nos ajudar em nada.
No outro lado do salão, Geoffrey estava de novo com Lucinda. Parecia tentar distraí-la com chocolates.
Robert desejou-lhe êxito. Sua família se encontrava em uma situação difícil, mas Lucinda também. Para ela, que dava tanto valor à confiança e ao jogo limpo, estar envolvida naquilo, e com ele, devia ser martirizante.
Mesmo assim, ela abrira mão da oportunidade de se desvincular dele.
O coração de Robert palpitou forte. Lucinda queria estar por perto para ajudá-lo, porém aquela noite não era das melhores.
— Por que não vamos embora? — sugeriu, exasperado.
— Se formos, os mexeriqueiros vão ganhar esta parada. — Bradshaw cruzou os braços sobre o peito em pose beligerante. — Não vou embora sem dar um soco em alguém.
Robert comprimiu os lábios. A família lhe demonstrava seu apoio e ele se sentia agradecido por isso, claro. Mas aquela ajuda não era efetiva, e seus familiares tampouco estavam ganhando popularidade entre seus conhecidos.
O problema era dele. Ele próprio o causara, principalmente por ter-se calado por tanto tempo. Doravante iria resolvê-lo sem envolver nenhum Carroway.
Poderia não envolver Lucinda também, mas queria um pretexto para estar perto dela.
Todos ao seu redor continuavam revoltados com os boatos. Encontrar um culpado qualquer já restauraria a segurança dos cidadãos da Inglaterra, por isso Robert não sabia se a Guarda Real Montada, já com um bode expiatório em mãos, estaria disposta a despender muito esforço para encontrar o verdadeiro vilão daquela história.
A idéia de ir para a cadeia, mesmo por engano, mesmo por um período breve, caso o verdadeiro ladrão se entregasse, acenava para ele o retomo do transtorno do pânico.
Por isso, também, ele não poderia ser preso nem sequer por um minuto.
— Robert — Georgiana interrompeu seus devaneios, como se adivinhasse seus pensamentos. — Eles não vão acusar você. Nós não vamos deixar.
— Já está meio tarde, Georgie. — Ele forçou um sorriso para a cunhada. — Não vai ajudar em nada ficarmos aqui feito uma manada de rinocerontes ferozes. Quero ir para casa, mas se vocês...
— Vamos — Tristan o interrompeu. — Hesterfeld deve estar à beira de um ataque apoplético com a nossa presença.
Ótimo, pensou Robert. No fim, realizara sua intenção. Vira Lucinda, ela contara quem fora o primeiro a saber da notícia do Castelo Pagnon, e qual fora ao menos um dos documentos roubados.
Mas ele precisava saber mais. A única maneira de inocentar-se seria encontrar o verdadeiro ladrão, tarefa já difícil em circunstâncias normais, mas que para ele era ainda pior, já que se encontrava na posição de único suspeito.
Sem dizer que os boatos não demorariam a tomar corpo suficiente para trancafiá-lo.
Enquanto esperavam junto à chapelaria, Robert não resistiu e olhou para Lucinda pela última vez. Sabia de cor o que ela usava: vestido de seda verde-fosco, com mangas e gola em renda da mesma cor, luvas marfim de cano longo, e um prendedor de cabelos esmeralda combinando com as sapatilhas.
Alguns homens a achavam alta e sofisticada demais, porém Robert sabia: Lucinda era mais inteligente, independente e honesta que a maioria deles, o que os atemorizava.
Ela o atemorizava também, mas por motivo diferente. Era impossível imaginar voltar à vida, à humanidade, sem ela. Sem Lucinda, talvez não valesse a pena.
— Bit — Andrew sussurrou, cutucando-o. — Vamos.
Ele se aprumou, pensando que Evelyn e St. Aubyn tinham ficado para fazer companhia a Lucinda e Geoffrey, mas, principalmente, para manter os mexericos em volume discreto.
Os Carroway tomaram suas carruagens e foram para casa, onde Shaw e Andrew subiram para jogar bilhar.
Os demais seguiram para a sala de visitas onde Georgiana sugeriu um jogo de uíste.
Era a oportunidade que Robert esperava.
— Joguem vocês. Meu joelho está cansado, vou enrolá-lo com uma tolha quente e dormir, se não se incomodam.
Tristan aquiesceu com um gesto de cabeça.
— Essa idiotice vai terminar logo, Bit. Você vai se sair bem.
— Eu sei.
Uma vez no quarto, Robert tirou a roupa e vestiu a jardineira velha e puída. Não dormia muito, e naquela noite não pregaria o olho com o plano que tinha em mente.
Pôs uma perna fora da janela, para descer pelos vãos da treliça sob a hera que chegava ao terraço, mas desistiu. Poderiam dar por sua falta, e Georgiana, grávida, não poderia vitimar-se com a histeria que tomava a família sempre que ele se ausentava sem avisar. Assim, ele escreveu um bilhete dizendo onde estava, deixou em cima da cama e desceu.
Um ou dois anos antes, não imaginava o quanto seus problemas afetavam a família e os amigos. Se agora estava mudado, era graças a Lucinda. Ela o fizera humano novamente. E, céus, ele não pretendia magoá-los mais. Fizera uma promessa a si mesmo, assim como prometia agora descobrir quem eram os traidores da Inglaterra, pois, afinal, não era só ele, seu nome, e sua família que estavam em jogo.
Já quase do lado de fora da janela, porém, Robert ouviu alguém bater à porta e entrar.
— Aonde você vai?! — Era Bradshaw. — É assim que quer provar sua inocência?
— Deixei um bilhete. — Robert apontou para a cama, — Fale baixo, se não vai acordar Edward.
Bradshaw foi à cama e leu a mensagem contra o luar da janela.
— O que vai fazer na Guarda Real Montada, Robert? É loucura!
— Tenho que saber de quem mais eles suspeitam ser simpatizantes de Napoleão. E se é fácil entrar lá...
— Não seja estúpido. Aquela gente está à caça de um vilão!
— Se eu ficar parado aqui, não vou descobrir nada, Shaw. E eles não vão caçar ninguém. Já encontraram seu bode expiatório. Vá dormir. Este problema é meu, eu resolvo.
— O problema não é só seu. São só boatos, mas é o Exército que tem de averiguar.
— Não posso deixar por conta deles, Shaw.
— Por que não?
No peitoril da janela, Robert olhou o nada, procurando, entre os fragmentos espalhados em sua mente, uma maneira de explicar o que ele próprio não entendia.
— Se eu tivesse voltado sadio, se não tivesse me escondido esse tempo todo, tudo isso já teria vindo à tona.
— Eu me lembro muito bem, Bit. Você passou quase um ano sem falar, e não foi sua escolha. Não foi de propósito, apenas para nos atormentar. O que você experimentou deve tê-lo chocado, e não foi sua culpa.
Robert fitou o irmão, emocionado.
— Obrigado pela solidariedade.
— Não vou permitir que se exponha por causa de um reles boato, que passará a ser realidade se você for.
Bradshaw tinha razão, e muita. Mas era insuportável ficar parado, sabendo que alguém manobrava seu destino. Aquilo já acontecera uma vez, e não aconteceria de novo; muito menos agora que ele voltara a ter esperanças.
— A única coisa que me resta é o meu nome.
— E sua vida.
Ele se recostou no vão da janela.
— Aprendi, no Castelo Pagnon, que existe uma diferença entre estar vivo e viver. Apesar de respirar, andar, há muito tempo eu não vivia.
— O que o mudou?
— Se você contar, Shaw, eu...
— Ora, Bit, você nunca contou a Tristan que fui eu quem pôs cola na sela dele!
— Está bem. — Robert sorriu com a recordação. — Você me deve um segredo.
— Nós todos notamos sua mudança, Bit. O que houve?
— Lucinda Barrett.
— Mas ela está interessada em Geoffrey Newcombe!
— Eu sei.
— Está apaixonado por ela?
Robert franziu o cenho. Aquilo tudo era um grande engano. Ele não sabia bem o que era. Se era obsessão ou o quê. E ter ido para a cama com Lucinda não aplacara sua dúvida.
— Não é isso. É mais... admiração. Uma esperança. Não sei explicar.
— Mas o que isso tem a ver com sua ida à Guarda Real Montada e pôr sua vida em risco?
— Quero que ela e o general Barrett saibam a verdade. Se eu não descobrir, sempre haverá desconfiança, olhares, cochichos. Se não fosse na Guarda Real, vão dizer, seria noutro lugar, pois Robert Carroway agora é só um pobre coitado.
— Entendo, Bit, eu...
— Não, Shaw, você não entende. Sou alvo de piedade, repulsa. Sou apenas meio-homem e quero me sentir inteiro de novo.
Robert soltou um longo suspiro. Estava perdendo tempo.
— Acha que agindo assim vai conseguir?
— Pode ajudar.
Bradshaw se levantou, praguejou e se dirigiu à janela.
— Vamos logo. A noite é curta.
— Você não vai! Eu já disse que o problema é meu.
— Não vou ficar aqui e aturar a rabugice de Dare quando ele descobrir aonde você foi. Vamos logo.
Robert capitulou. Qualquer que fosse o pretexto, Bradshaw era uma ajuda e tanto.
Passou um pé para fora da janela, enfiou-se na hera e desceu treliça abaixo.
— Esta trepadeira vem bem a calhar. — Bradshaw, chegando ao chão um segundo depois, olhou a parede de hera. — E algo me diz que você já usou esta saída.
— Já, mas fale baixo. Dare ainda está na sala de visitas.
— Tem razão. A Marinha não precisa dessas ações sorrateiras, só de estômagos resistentes.
Robert sorriu na escuridão e, pelas sombras, dirigiu-se aos fundos da casa. A presença de Shaw afastava seus pensamentos mórbidos, o que provavelmente era uma das motivações do irmão para acompanhá-lo.
— E quanto aos cavalariços?
— Já estão dormindo, menos Wiest, que é quase surdo. Vamos selar os cavalos no pátio.
Os dois conduziram Tolley e Zeus, um cavalo árabe negro, montaria de Bradshaw. Tolley, acostumado às cavalgadas noturnas, deixou-se arrear facilmente, mas Zeus recusava o freio na boca.
Robert apanhou no bolso um torrão de açúcar e o deu a Shaw.
— Tente suborná-lo.
Funcionou, e Bradshaw colocou a brida na cabeça do animal, satisfeito.
— Da próxima vez que eu for encontrar lady Daltrey para um rendezvous, vou levar você.
— O marido sabe do caso de vocês, mas não reclama para ela não rezingar do caso dele com lady Walton.
— Como é?!
— Eu saio muito à noite. — Robert montou, divertido.
Em passo de marcha, seguiram caminho afora. Já longe da casa passaram a meio-galope. A festa de Hesterfeld e outras ainda prosseguiam, no entanto, muitos vendedores e carroceiros já se preparavam para a manhã seguinte.
Os irmãos seguiram trotando rumo à avenida White Hall. Pararam em frente ao prédio do Tesouro.
— Vamos atravessar a praça militar? — Bradshaw perguntou.
— Há uma sentinela em cada lado do prédio. As salas ficam no segundo e terceiro andares.
— Quantas salas são?
— Umas trinta a quarenta.
— Vamos levar a noite inteira!
Robert desmontou devagar e conduziu Tolley ao prédio branco e maciço, cercado por pátios destinados às paradas militares e aos torneios de justa, onde se avistava com facilidade, mesmo à noite, a aproximação de estranhos. A entrada e nos parapeitos viam-se quatro sentinelas. Deveria haver outras tantas em áreas menos visíveis.
— Não trouxemos nenhuma corda — Bradshaw murmurou ao lado de Robert.
— Vamos contornar o prédio primeiro. Há muito tempo não o vejo tão de perto.
Caminharam alguns minutos em silêncio. Robert sabia que já haviam sido vistos, mas esperava que, no escuro, ao menos ele não tivesse sido reconhecido. As cocheiras ficavam no térreo. No andar de cima, as salas, dispostas em autêntico labirinto, dificultavam a circulação. Achar qualquer coisa no escuro seria praticamente impossível.
— Lembra-se de quando jogávamos xadrez, e você me derrotava no quarto movimento, Bit?
— Claro.
— Pois então... Está com a mesma expressão no rosto. Tem alguma idéia?
— Estou achando que vai ser uma perda de tempo tentar entrar no prédio. Vamos acabar sendo presos.
Pouco mais à frente, chegavam aonde tinham começado, fechando o círculo.
— E agora?
— Quem levou os papéis passou horas aí dentro. Quero dizer, mesmo que eu soubesse o que procurar, levaria horas para localizar a sala dos arquivos, além dos próprios mapas e documentos.
— Faz sentido. — O irmão dele aquiesceu. — Vamos embora? Já estou me sentindo um exibicionista.
— Vamos. Não há mais nada a fazer aqui.
De volta ao quarto, onde, por sorte, ninguém estivera em sua ausência, Robert, depois que Shaw retirou-se, largou-se na poltrona de leitura junto à janela. Desde a prisão de Napoleão, o recrutamento e as promoções tinham diminuído muito, bem como o pessoal em serviço na Guarda Real Montada, fosse por corte ou transferência para o Ministério da Guerra. Portanto, as salas da Guarda Real ou estavam sendo usadas como depósito, ou estavam vazias.
Simples. Ele precisava descobrir quem estivera na Guarda Real na semana anterior, e quem conhecia bem o prédio a ponto de encontrar o que procurava e sair sem ser importunado.
Isso se ele tivesse acesso aos arquivos do pessoal, ou a alguém que trabalhasse na repartição.
Acesso ele poderia ter, em parte, por intermédio de Lucinda. Ela queria vê-lo novamente, e parecia disposta a ajudá-lo, mas, por mais generosa que fosse, ele não pediria a ela qualquer coisa que a constrangesse.
De qualquer modo, tentaria explicar a ela.
Acendeu o lampião, abriu o livro que estava lendo e perguntou-se se Lucinda ainda estaria no baile com Geoffrey. O casal tinha um acordo: freqüentariam a alta sociedade pelo período de praxe, para receber desta um consentimento tácito; depois ele pediria a mão dela e a cerimônia se realizaria... convenientemente.
O livro estava aberto, mas Robert não enxergava as palavras. Como tudo teria transcorrido se tivesse sido ele o escolhido para as lições de Lucinda?
Ele, e não Geoffrey, a conquistara verdadeiramente. Mas, sendo quem era, e sendo o pai dela quem era, não alimentava esperanças adicionais. Se tivesse voltado da guerra garboso, sem problemas, repleto de histórias heróicas, talvez o general Barrett fizesse melhor juízo dele, embora ele mesmo não gostasse muito do general.
Mas Lucinda renovara nele a esperança, o que, depois de quatro anos de dor, ele não poderia ignorar
Assim como não podia ignorar o ar que respirava.
Robert se perguntou, suspirando, como estaria agora, à luz dos boatos vigentes, se Lucinda não o tivesse ajudado a sair um pouco das sombras. Talvez estivesse na Escócia, colocando travas nas portas do sítio, temendo que o Exército inglês viesse prendê-lo.
A idéia de morrer não o incomodava muito, mas agora ele encontrara uma razão de viver.
E se essa razão de viver se casasse com outro homem, ele não sabia o que faria.
— Por sorte, eles saíram antes de ser enxotados. Lucinda parou ao passar pela porta do escritório do pai. Geoffrey devia ter chegado antes do café da manhã para falar dos Carroway. E dela.
Encostou o ouvido na porta para ouvir o que ele diria.
— Uma posição incômoda a deles, afinal ninguém foi acusado ainda — o pai dizia.
— Por enquanto, mas talvez valha a pena ter uma conversa séria com Lucinda, pois ela insistiu em ir cumprimentá-los e até dançou com Robert. Entendo os sentimentos dela, mas estes a prejudicam. Eu a avisei, porém tive a impressão de estar incomodando.
Do lado de fora da porta, Lucinda quase pôde ver a expressão preocupada do pai, ouvi-lo tamborilar com os dedos sobre as páginas do último capítulo.
— Ela é teimosa como a mãe, mas é lógica. Tenho certeza de que entende sua preocupação. Descobri que pedir desculpas às vezes ajuda.
O que ajudava, isto sim, era usar o bom senso.
— Quem sabe você não quer me falar um pouco dos seus próprios sentimentos, rapaz? — o general prosseguiu.
— O senhor já os conhece. Lucinda é maravilhosa, e eu gostaria de saber se ela gosta de mim.
— Ela está aceitando sua corte, não?
— Neste caso, eu gostaria de pedir a mão dela em casamento.
O estômago de Lucinda revirou. Tudo tão factual... Mas era o que era: quase um trato comercial. Frio, simples e conveniente.
— Anunciar o noivado nas circunstâncias atuais seria de mau gosto. Ela não tem permissão de estar com os Carroway, mas é amiga deles.
— Mas, assim que essa confusão terminar, tenho sua permissão, certo?
— Sim.
— E quanto ao posto na Índia?
— Não se preocupe, rapaz, tenho muita influência. Você terá o seu cargo em Nova Deli. Desde que respeite a vontade de Lucinda: ficar aqui ou ir com você.
— Evidente.
Infelizmente, a "confusão" era a possível prisão de Robert Carroway: uma referência insensível a uma catástrofe.
— Muito bem. — Geoffrey suspirou, satisfeito. — O senhor acha que ela vai descer em breve?
— A qualquer momento. Chegou a ler o Capítulo Dois?
— Estou quase no fim. Está muito bom... Captou com muita clareza a emoção e o caos da marcha para a cidade de Rodrigo.
— Já prometi a mão de minha filha, Newcombe. — O general bufou. — Não precisa me elogiar.
— Falo sério. Por falar nisso, posso vir entregar o capítulo hoje à tarde e pegar o próximo?
— Leve-o para a Guarda Real Montada. O terceiro está com o general Bronlin, que deve terminar hoje, se não aparecer nada de novo na investigação.
— O senhor teve alguma informação nova?
— Não. — O pai dela suspirou. — Além das buscas nos navios que estão zarpando para o continente, teremos, a partir de hoje, um grupo especial de olho em Robert Carroway para o caso de ele tentar passar os documentos ou sair do país.
Lucinda empalideceu. Não imaginara que pudessem estar investigando Robert. Sorte que a investigação ainda não tinha começado dois dias antes!
Ela precisava avisá-lo, o que doravante seria mais difícil.
Embora preferisse as relações diretas, usaria a arte do subterfúgio. Afinal, não costumava abandonar os amigos, e não gostava de ser manobrada.
— Bom dia, papai. — Entrou no escritório. — Lorde Geoffrey, não esperava encontrá-lo.
Geoffrey levantou-se com um buquê de margaridas nas mãos.
— Para você, querida. Acho que já tem rosas demais.
— Obrigada. — Ela agradeceu com uma mesura.
— Quer ir cavalgar?
— Estou meio dispersiva esta manhã... Tenho que escrever uma carta para Georgiana.
— Lucinda... — O pai levantou-se. — Não precisa ser grosseira.
— Desculpem. Não foi minha intenção. Estou com saudade dos meus amigos e quero lhes oferecer meu apoio.
— Que saudade é essa? — contestou o general. — Esteve com eles ontem á noite.
Os dois tinham acabado de cair na armadilha. Ela fulminou Geoffrey com o olhar.
— Quer dizer que você é o leva-e-traz. De todos, ou só meu?
— Lucinda!
Geoffrey tentou se mostrar arrependido.
— Estou agindo em seu interesse, Lucinda.
— Tem certeza? — Ela se conteve, pois aquele era o homem que resolvera desposar. — Preciso ir. Estou um tanto desnorteada hoje.
— Não vá. Eu é que preciso ir embora já estou atrasado. — Ele estendeu a mão. — Ainda estamos de bem, não?
Todos os homens queriam estar de bem com ela, ultimamente. O que havia de errado?
— É lógico que sim. Eu só preciso de uma manhã para mim.
O general se levantou para conduzir Geoffrey à porta com uma expressão tal, que Lucinda preferiu não acompanhá-los.
Sim, ela se portara muito mal. Geoffrey apenas externara os sentimentos de grande parte da sociedade londrina, embora devesse ter considerado também os sentimentos dela.
— Dançou com Robert ontem. — O pai, de volta ao escritório, sentara-se novamente.
— Ele me convidou.
— Mas eu pedi que se mantivesse afastada dele.
— Sinto muito, papai. Sou muito amiga dos Carroway. Não posso abandoná-los por causa de um boato.
Ele a fitou bem nos olhos, porém Lucinda sustentou o olhar.
A tensão só foi quebrada quando Ballow bateu de leve na porta entreaberta.
— Mensagem para o senhor.
— Deixe-me ver.
O pai leu a nota, e Lucinda se assustou com sua expressão.
— O que houve?
— Seu amigo foi visto ontem à noite... nas imediações da Guarda Real Montada.
— Não é possível. — Ela empalideceu. — Deve haver algum engano.
— As sentinelas têm a descrição dele. Esteve lá por volta das onze horas, a cavalo, com outro homem. Os dois contornaram o prédio e foram embora.
— Robert está sendo acusado de ter invadido o prédio, papai. — Desatinada, ela procurava uma explicação que não fosse ridícula. — Deve ter ido até lá para ver o lugar.
— Ou ver se nossa segurança continua frouxa como na semana passada. Pois não está, garanto. — Ele se levantou e apoiou as mãos na mesa. — Não quero ter de repetir, Lucinda: afaste-se dele.
Por um instante, ela pensou em revelar que Robert já passara uma noite em sua cama, mas se conteve.
— O senhor manda. — Saiu em direção á porta.
— Aonde você vai?
— Vou ler no meu quarto, depois vou almoçar com lady St. Aubyn.
O pai a olhou, desconfiado.
— Não se preocupe, papai... Georgiana não vai estar lá.
— Quando isso terminar, tudo vai ficar bem, você vai ver. Os navios que saem de Dover e Brighton para o continente estão sendo revistados. Se os documentos estiverem a caminho da França, vamos encontrá-los.
— Tenho certeza que sim.
— Tem de pedir desculpas a lorde Geoffrey, Lucinda. Ele tem tentado agradá-la de todo jeito, não há por que tratá-lo mal.
— Está bem. — Ela abriu a porta até o fim.
— Lucinda!
— Sim? — A mão dela ainda estava na maçaneta.
— Com toda a franqueza, minha filha. Geoffrey é melhor do que Robert Carroway, mesmo desconsiderando o acontecido. É generoso, elegante, tem muitos amigos e uma carreira brilhante à sua frente. Robert, ao contrário, é muito introvertido, e não tem perspectivas.
— Agradeço sua opinião. — Ela estava em vias de chorar — Mas fui eu mesma quem sugeriu para você pedir a colaboração de lorde Geoffrey.
— É verdade.
Lucinda subiu depressa as escadas e trancou-se no quarto. Odiava aquela rixa com o pai. Os dois sempre tinham se dado tão bem um com o outro...
Também se detestava por não conseguir parar de pensar em Robert quando, ao que tudo indicava, Geoffrey, para marido, era a melhor escolha.
E execrava, ainda, que ninguém conhecesse o verdadeiro Robert. Nem ele próprio.
Andou de um lado a outro, mais do que leu e, com demasiada antecedência, chamou Helena para ajudá-la a se vestir. Evelyn não se importaria, e Robert precisava saber das novidades o quanto antes.
A Guarda Real Montada provavelmente já o estava vigiando, e se informasse tê-los visto juntos na Mansão Harlboro, haveria problema.
Mas ela saberia contorná-lo.
Evelyn descia as escadas, quando Lucinda chegou.
— Lucie, por sorte você me encontrou aqui. Eu estava de saída: vou a Bond Street comprar um chapéu novo. Não quer ir?
Teria sido melhor, Lucinda conjeturou, ter avisado lorde e lady St. Aubyn que ela e Robert viriam visitá-los.
— Acho melhor almoçarmos antes — sugeriu estrategicamente.
— Você acha? — Evelyn amarrava o chapéu e interrompeu a ação.
— Acho.
— Algum motivo especial?
— O tempo está mudando.
Evelyn olhou por cada uma das duas janelas que ladeavam a porta da frente, e precisou contrair os olhos por causa do sol.
Lucinda lançou um olhar para Jansen, o mordomo de Harlboro, que continuou impassível ao lado do porta-casacos.
— É mesmo. — Evelyn tirou o chapéu. — Jensen, peça à sra. Dooley para preparar uns sanduíches de pepino e limonada.
— Sim, milady. — O homem desapareceu casa adentro. Evelyn segurou o braço de Lucinda e a conduziu à sala de visitas, apressada.
— O que aconteceu? Ontem, na festa, você estava meio dispersiva, e agora me vem com essa?
— Santo está em casa? — Lucinda tentou parar de torcer os dedos. Conjeturou que não seria uma boa espiã,
— Está na cocheira, inspecionando um cavalo de caça que comprou de lorde Mayhew. Por quê?
— Talvez ele receba uma visita também.
— Talvez?
Evelyn sentou-se no sofá e se pôs a alisar a saia de musselina amarelo-escura. Um lacaio trouxe um bule de chá e se retirou.
— Lucinda, eu sei guardar segredo, melhor do que muita gente que conhecemos.
— O que isso tem a ver com...
— Por exemplo — Evelyn a interrompeu enquanto servia o chá. — No começo do ano, quando dei início às minhas aulas para Santo, ele sumiu por uma semana. Lembra-se?
— Claro. — Lucinda se recostou e sorveu um longo gole de chá, desejando que fosse conhaque ou uísque.
— Ele sumiu porque eu o raptei.
Lucinda engasgou, derramando chá no belo tapete persa.
— Você o quê?
— Nós tínhamos discutido e ele prometeu acabar com o orfanato que eu tentava salvar. Eu o tranquei no sótão durante uma semana para convencê-lo a mudar de idéia.
Lucinda fitava a amiga, imóvel. E pensar que ela e Georgiana a achavam a mais acanhada das três!
— E funcionou?
— Se funcionou! — Evelyn sorria, impassível, não fosse a centelha nos olhos cinzentos. — Contei isto para dizer que, seja o que for que tenha em mente, pode confiar em mim.
— Eu...
A porta da sala abriu-se, e St. Aubyn entrou, seguido de Robert.
— Bom dia, Lucinda. — O marquês a saudou com um ar divertido.
Lucinda levantou-se, sobressaltada, e olhou para Robert. Na noite anterior já se controlara, mas naquele dia seria muito mais difícil conter-se para não se atirar em seus braços e beijá-lo até apagar a dor daquele olhar, até saciar seus próprios anseios.
— Bom dia, srta. Barret... — Deliciosamente lascivos, os olhos de Robert a fitaram de alto a baixo, ignorando por completo a presença do casal anfitrião.
Lucinda sentiu-se aquecer. O desejo, feito brisa, embalou-a novamente.
Seria bom se fosse Geoffrey quem a fizesse se sentir assim, pensou. Mas não era.
O homem de quem seu pai não gostava é que abalava suas estruturas.
— Parece que nos esquecemos de avisar Santo e Evie que viríamos visitá-los hoje — comentou, ligeiramente ofegante.
— Mas já que estão aqui, sentem-se e almocem conosco — convidou St. Aubyn. — A menos que queiram que eu e Evie saiamos...
— Não podemos fazer isso, querido — Evelyn contrapôs com firmeza. — Não seria apropriado.
Robert piscou, como se só então tivesse notado haver mais gente na sala.
— Talvez fosse bom se vocês se afastassem — disse, desgostoso. — Afinal, me transformei em um pária nos últimos dias.
— Se você entrou pela porta da frente, é porque é bem-vindo. E se vocês dois se sentem seguros aqui, e queriam um lugar para se encontrar, o lugar é este. — St. Aubyn foi até a mesa lateral, junto da janela. — Conhaque? — ofereceu a Robert.
Ele meneou a cabeça, depois sentou-se na poltrona ao lado de Lucinda. O rosto era de quem não dormia bem havia alguns dias, assim como o dela.
Mas havia naqueles olhos algo além da exaustão. Preocupação, talvez. A menos que estivesse enganada.
E ela viera piorar a situação.
— Alguém o seguiu? — perguntou em voz baixa.
— Tentaram. Dois homens. Deviam ser soldados.
— Com certeza. — Ela empalideceu. — Não podem saber que estou aqui. Meu pai...
Robert segurou a mão dela. Apesar do toque tranquilizador, seus dedos estavam frios.
— Relaxe. Pensam que estou em Piccadilly. Não se incomode com isso, Lucinda, eu já esperava.
— Por causa de ontem à noite?
— Ontem à noite?
— A Guarda Real Montada enviou um bilhete ao meu pai dizendo que você foi visto lá, ontem à noite. Você e outro homem.
— Bradshaw. Fui dar uma olhada no prédio. Queria ver se era tão fácil entrar
— Não devia ter ido pessoalmente. — St. Aubyn afundou-se no sofá ao lado de Evelyn.
— Eu não podia pedir para alguém correr o risco por mim — Robert explicou, e Lucinda, mesmo percebendo que ele não queria interferências no assunto, sentiu-se aliviada com a iniciativa. — Bradshaw só foi porque me flagrou saindo pela janela.
— Pela janela?
Ainda bem que alguns segredos permaneceriam ocultos, Lucinda refletiu ao ver o olhar traquinas de Robert.
— Como sua presença aqui pode me comprometer socialmente, mesmo que eu não dê a mínima para isso — acrescentou St. Aubyn —, quero lhe fazer algumas perguntas, Robert.
— Desculpe, meu amigo. Já tem muita gente envolvida nessa hist...
— A culpa é minha, Robert. — Lucinda levantou-se, nervosa. — Se eu não tivesse contado ao meu pai uma confidencia sua, o suspeito poderia ser até o duque de Wellington.
Robert refreou-se de comentar. Apenas olhou o dia lá fora.
— Não foi uma boa idéia — murmurou apenas. Lucinda olhou para Evelyn e apontou a porta com um gesto de cabeça, numa súplica.
— Vou ver como vai o almoço. — Evelyn se levantou de pronto. — Michael, por favor me traz um xale?
— Eu vou ficar. — St. Aubyn cruzou as pernas à altura dos tornozelos.
— Não vai, não!
— Ora essa, não somos os acompanhantes?
Significativamente, Evelyn moveu o olhar para Robert, que continuava imóvel à janela.
— Por favor!
St. Aubyn bufou, levantando-se.
— Cinco minutos.
Assim que o casal saiu, Lucinda riu.
— Essa é a desvantagem de envolver Santo.
Robert se voltou, caminhou até ela, amparou-lhe o rosto com as mãos e beijou-a com tanta ferocidade que Lucinda quase perdeu o fôlego. Um calor a tomou dos pés a cabeça e ela gemeu, deslizando as mãos por baixo da casaca de Robert para abraçá-lo.
Sentia-se inebriada. Ele a inebriava, e ela sabia que isso era direito.
Robert a prensou contra o encosto do sofá, os lábios moldando-se aos dela com ânsia antes de envolvê-la em um abraço.
— Não é sua culpa — ponderou com voz rouca. — Do jeito que eu sou, alguma coisa iria acontecer mais cedo ou mais tarde.
— Não há nada errado com seu jeito, Robert. Muitos homens teriam morrido passando o que você passou.
— Eu morri também.
— Ainda não. E não vai morrer.
— Quando eu concordo com você, tenho fé que verei o dia raiar. — Ele sorriu, mas ficou sério em seguida. — Eu já achava que podiam ter me visto ontem à noite. Mas havia uma coisa que eu precisava confirmar.
— Era importante?
Lucinda pensou em afagar-lhe os cabelos castanhos, mas recuou e sentou-se. Tinham apenas cinco minutos.
— Era. Tenho muita facilidade para entrar e sair dos lugares...
— Já notei.
Os olhos de Robert lampejaram diante da manifestação de reconhecimento.
— A Guarda Real Montada é um verdadeiro labirinto. Além da lista dos simpatizantes e dos mapas, seu pai mencionou alguma outra coisa que tenha sumido?
— Não.
— Então, a pessoa já devia saber onde estavam, e ter acesso fácil ao prédio. — Com a expressão contraída, Robert andou de um lado a outro. — Quem quer que tenha sido...
— Trabalha na Guarda Real Montada? — ela finalizou, pensativa. — Não tenho certeza, Robert. Eu mesma já estive lá várias vezes. Homens e soldados entram e saem o tempo todo: Wellington e sua comitiva, os amigos do meu pai, os demais oficiais, gente com quem meu pai tem conversado sobre o livro, mensageiros indo e vindo do Parlamento, do Ministério da Guerra...
— Os visitantes e os funcionários têm que se identificar? Há um registro desse "entra-e-sai"?
— Só dos visitantes, que devem assinar o livro na portaria principal, às vistas da sentinela.
— É um bom ponto de partida.
— Não adianta. Eu já teimei com meu pai que não foi você, e ele insiste que eu fique fora dessa confusão e que não insulte lorde Geoffrey.
— Você o insultou?
— Acusei Geoffrey de querer me afastar dos meus amigos para não prejudicar a carreira dele.
— Como ele reagiu?
— Levou flores para mim, hoje de manhã... Mas a verdade é que ele corteja meu pai mais do que a mim.
— Que flores?
Lucinda piscou.
— Com tudo isso acontecendo, está preocupado com as flores?
Robert a observou andar de um lado a outro, pensativo.
— Teriam sido margaridas?
— Como você sabe?!
— Você não gostaria de rosas, porque as cultiva. E margaridas há em excesso este ano.
— E são mais baratas.
— Além de fáceis de colher, fáceis de agradar...
— Se fosse você, que flor teria levado para mim?
— Rosas cor de lavanda — ele respondeu prontamente.
— Por quê? — O coração de Lucinda palpitou.
— Porque lavanda é sua cor predileta, e rosa a sua flor preferida. — Ele a acariciou no rosto com o dedo.
Imóvel, ela desejou que pudessem ficar assim para sempre: entreolhando-se, tocando-se.
— Como sabe que lavanda é minha cor predileta?
— Porque presto atenção. — Ele se inclinou para beijá-la. Desta vez com a leveza de uma pluma, tal qual uma brisa tépida.

 

CAPITULO V


Encostado na porta da baia, Robert esperou o cavalariço escovar e guardar Tolley. Os dois haviam tido muito trabalho nos últimos dias. Os cinco quilômetros que precisara cavalgar a mais para despistar possíveis perseguidores tinham valido a pena, porque vira Lucinda... e a beijara.
Sem querer, ela lhe dera uma pista valiosa: o livro de visitantes. Como ele jamais havia ido à Guarda Real Montada, não tinha pensado na possibilidade do acesso de não-funcionários. Um acesso periódico seria suficiente para conhecer o lugar.
Claro, poderia ter sido um empregado, hipótese também provável, mas um visitante fazia mais sentido. De um modo geral, os oficiais, funcionários e guardas eram militares de carreira; não precisavam da guerra para receber seus proventos e cuidar do futuro.
Dinheiro também não parecia ter sido a motivação. Poderia ser um inglês simpatizante de Napoleão, mas, como a guerra já terminara havia três anos, um fanático já teria sido objeto de rumores e a Coroa já o teria detido. Poderia ser um espião...
— O que está fazendo? — Edward entrou na cocheira seguido de Tristan.
— Cultivando dor de cabeça, e você?
— Tristan vai me levar para pescar. Eu ia cavalgar com William Grayson e o tio dele, mas enviaram um bilhete dizendo que William está doente.
Tristan e Robert se entreolharam. Com certeza, a família do menino é que adoecera só de pensar que William sairia com um Carroway...
— Ele vai melhorar logo. — Robert procurou não demonstrar a própria revolta.
— Espero que sim, porque Shaw prometeu nos levar para ver o navio dele em Portsmouth, na semana que vem.
— Miúdo, por que não vai ajudar John a selar Tempestade? — Tristan sugeriu, cutucando o irmão caçula nas costas.
Edward se virou e cruzou os braços sobre o peito.
— Eu não sou bobo. Por que você simplesmente não diz que quer conversar com Bit a sós?
— Miúdo — Tristan sorriu, condescendente —, quero conversar com Bit a sós.
— Está bem, mas eu vou acabar sabendo o que é.
— Fora, moleque! Edward se foi.
— Como foi o almoço com Santo? — indagou Tristan. — Você foi lá, não?
Robert esmigalhou uma folha de feno com os dedos.
— Ele e Evie mandaram lembranças, e querem saber como podem ajudar.
— Bons amigos.
— Verdade. — Remexeu a terra. — Divirtam-se na pescaria.
— Ainda não terminei, Robert. — O irmão dele o fitou, taciturno. — Eu sei que você se culpa pelo acontecido.
— Por que diz isso?
— Porque o conheço e não sou cego. A vantagem de se ter família é que não precisamos nos sentir sozinhos.
Robert comprimiu os lábios. Precisava contar.
—Eu me culpo, sim. Porque, há três anos, tentei resolver a situação e fracassei.
— Como?
— Tentei me matar, Tristan. Ou melhor, provoquei os franceses para me matarem, o que é a mesma coisa.
O irmão dele empalideceu.
— Era a única solução para me livrar do Castelo Pagnon — Robert prosseguiu, incontinenti. — Eu não agüentava mais aquele lugar. Se não fosse a resistência espanhola ter me encontrado no mato, eu teria morrido.
— Você não está pensando...
— Em tentar de novo? Não. Mas é por isso que não posso comentar com ninguém a respeito do Castelo Pagnon. Por isso preciso resolver isso sozinho: porque é minha culpa, e vocês vão se prejudicar se forem meus cúmplices. Você mesmo vai ser pai daqui a um mês.
— E quero um tio para o meu filho. — Tristan o segurou pelo braço.
— Ele vai ter no mínimo três.
— Mas quero que ele tenha um tio com bom senso e inteligência, como você. O que estou tentando dizer é: não nos exclua de sua vida, alegando que é para nosso próprio bem... Nós é que temos de decidir isso.
— Vou pensar no assunto — Robert respondeu, reticente. Sabia que não poderia envolvê-los ou iria prejudicá-los definitivamente. — Para sua informação, lorde Dare, a Guarda Real Montada está me seguindo.
— O quê?!
— Eu os despistei em Piccadilly, mas vão estar por aqui a qualquer momento.
— Só faltava essa! O que mais tem para contar, Bit? Avise para que eu tome uma bebida bem forte antes.
— Por enquanto é só.
Robert suspirou. Não queria falar de Lucinda, pois não conseguiria articular as palavras. Além do mais, Tristan não entenderia sua obsessão.
Com os cavalos selados, ajudou Edward a montar e os viu indo embora em passo de trote. Um cavalariço os acompanhava com os caniços.
— Mais alguma coisa, senhor? — Gimbie guardava Tolley no boxe.
Robert acariciou o pescoço do cavalo, que retribuiu afagando-lhe o pescoço com o focinho.
— Não, estamos bem.
Ele precisava pensar, mas, como sabia que sua presença na cocheira deixava os cavalariços nervosos, foi para o roseiral.
Estava impressionado com as roseiras. Duas semanas antes não passavam de gravetos e espinhos que pareciam mortos não fosse o tênue verde das folhas. Naquela tarde havia novos brotos e, numa roseira maior, encontrou até um botão de rosa.
Mas as ervas daninhas tinham brotado também.
De cócoras, Robert as arrancou. Ah, se os vilões estivessem assim tão expostos entre as pessoas de bem...
Mas, não. Ele próprio se sentira uma erva daninha durante três anos, portanto a analogia não servia.
A metáfora ia além: ele não poderia existir como uma erva daninha esquálida na vida de uma rosa viçosa como Lucinda. Ele a tomara nos braços, contara a ela seus segredos mais íntimos, e ela, ainda assim, preferia desposar Geoffrey Newcombe.
Robert nunca dera muita importância a Geoffrey.
Quando Lucinda o escolhera como futuro cônjuge, entretanto, a indiferença se transformara em antipatia. No momento, com Geoffrey fazendo o papel de patriota — enquanto ele, Robert, se encontrava em uma situação desastrosa, que piorava a cada dia —, a antipatia já se transformara em ódio: um ódio surpreendente de tão obsessivo.
Robert esmurrou a terra. O que faria? Ficaria de braços cruzados, deixando Lucinda comprometer-se com um indivíduo insosso?
Se não fosse Geoffrey o pretendente dela, quem seria? Ele?
Bufou, cínico. Ele, Robert Carroway, casado com Lucinda Guenevere Barrett...
Impossível, mesmo que quisesse. Afinal, o laço do carrasco já ameaçava enforcá-lo por traição.
Mas não, uma voz insistiu dentro dele. Ele precisava e queria provar que estavam todos errados.
— Deu para esmurrar minhocas, agora? — A voz meiga de Georgiana soou atrás dele.
— Só estava pensando.
— Em quê?
— Em como conseguir uma folha de papel à qual eu não tenho acesso, em um lugar onde não tenho permissão para entrar, fingindo que não sei que há gente me vigiando ali no mato.
— Nesse caso, peça a alguém para consegui-la para você, ora.
Robert se voltou para fitá-la.
— E envolver outra pessoa nessa confusão?
— Eu poderia lhe dizer o óbvio: que outras pessoas já estão envolvidas. Por que não pede a alguém da família, ou a algum amigo seu?
— Eu não poderia.
— Ora, eu mesma gostaria de ajudar. Que papel é esse?
— Georgiana, você não pode...
— Tarde demais, já sou voluntária. — Ela sorriu com bom humor e uma surpreendente determinação no olhar. — Fico aborrecida quando as pessoas de quem gosto são acusadas injustamente. Que papel é esse?
Robert se levantou. A vida dos Carroway mudara muito desde que Georgiana viera morar na mansão. A dele mais que a dos outros, exceto por Tristan, era evidente.
Agora Lucinda também vinha habitar seu mundo obscuro e o inundava de luz.
— Preciso de uma página do livro de visitantes da Guarda Real Montada. Quero saber quem esteve lá na semana passada.
— E onde está esse livro?
— Na portaria da Guarda, aos cuidados de uma sentinela.
— Será que ainda está lá, com toda essa investigação?
— Pelo que sei, eles suspeitam de alguém de fora. Não de um freqüentador assíduo.
— Está sendo vigiado de verdade, Bit?
— Estou. Voltaram há cinco minutos. Georgiana apertou o maxilar.
— Quando isso terminar, vou ter uma conversinha com o general Barrett... Muito bem, só saia do jardim depois que eu for embora.
— O quê? Você não vai...
— Nunca imaginei que fosse falar assim com você, Robert, mas fique quieto. Isto é trabalho de mulher.
Georgiana afastou-se e entrou na casa. Robert pegou o regador e, propositadamente, deu as costas para a entrada, a fim de não vinculá-la a ele.
Dez minutos depois de um lacaio ter deixado a mansão, ele ouviu o ruído de um coche se aproximando. Quando arriscou uma espiadela, avistou o timbre vermelho e amarelo de St. Aubyn fulgurando à porta do veículo.
Georgiana entrou no coche amparada por Evelyn e uma aia, e as três partiram imediatamente.
Robert terminou a rega. Teria de esperar para saber o que a cunhada planejara.

— Lucinda!
Ela pulou, sobressaltada, ao ouvir seu nome. Desceu da carruagem do pai e quase tropeçou ao pisar no chão.
— Geoffrey...
— Preciso falar com você. — Geoffrey parou o cavalo baio e desmontou.
À entrada da Mansão Barrett, Ballow a esperava com a porta aberta.
— Estou voltando de um almoço.
Ela deveria sentir culpa, afinal, vinte minutos antes estava beijando Robert Carroway. Entretanto viu-se tomada por uma espécie de enfado quando Geoffrey a tomou pela mão. Suspirou, contrariada. Ainda precisava pensar em como conseguir a relação do pessoal da Guarda Real Montada sem chamar a atenção do pai.
— Se você me esperar na sala de estar...
— Não, por favor, vamos caminhar. Preciso lhe falar agora. — Geoffrey a fez pôr a mão em seu braço.
— Não posso me demorar.
Era a primeira vez que ela o via tão ansioso, e se pôs em guarda. Rumou com ele para o roseiral, onde poderiam ir sem acompanhante. Geoffrey andou depressa, amparando-a pela cintura e, quando ela forçou o corpo para trás, querendo seguir mais devagar, ele a tomou pela mão e a conduziu até o banco de pedra.
— Aqui está bom.
— O que houve?
— Sente-se, por favor.
Ela se sentou e ele continuou em pé, andando de um lado a outro.
— Diga o que há, Geoffrey, por favor
— Eu a segui. — Geoffrey parou na frente dela.
— O quê? — Lucinda ficou petrificada.
— Não sou cego, Lucinda, já notei como você olha para aquele Robert Carroway. Imaginei que você fosse vê-lo por causa de nossa discussão, pela manhã, e a segui até a residência de St. Aubyn.
Ela sentiu o peito se apertar Se seu pai descobrisse que ela lhe desobedecera de novo, jamais a perdoaria.
— Eu não sabia que ele pretendia vis...
— Não importa. Você é mulher... Compreendo sua necessidade de cuidar de cachorros perdidos e pássaros feridos. — Geoffrey sentou-se ao lado dela e segurou-lhe a mão. — Eu disse a seu pai que esperaria até essa confusão serenar, mas não tenho tanta paciência assim.
Lucinda refreou o abrupto impulso de ir correndo para casa, pois se lembrou de que ela mesma escolhera aquilo. Justamente por esse motivo decidira aplicar suas aulas em Geoffrey.
Calma, ordenou a si mesma.
De repente, ele a segurou pelo queixo, ergueu-lhe o rosto e se inclinou para beijá-la.
Lucinda ouviu o murmúrio dos cavalariços na cocheira ali atrás, a passagem de uma charrete na rua em frente, o grasnar de duas gralhas no telhado.
Quando Geoffrey recuou, já estava mais calmo.
— Não vê que fomos feitos um para o outro? — perguntou em voz baixa.
Lucinda estudou o rosto bonito à sua frente, a elegância dos ombros retos.
Mas o beijo a emocionara tanto quanto o pai aceitar uma correção que ela fizera em um dos manuscritos. Se era a isto que Robert chamava de existência amistosa, ela abria mão.
Geoffrey ajoelhou-se subitamente diante dela.
— Pode me chamar de abusado, inconveniente, mas eu preciso saber, Lucinda... Quer se casar comigo?
Ela engoliu em seco.
— Meus amigos estão com problemas, Geoffrey, não posso passar por cima deles.
— Não precisamos nos casar amanhã. Quero apenas saber se você vai me conceder essa honra.
Se ela dissesse "sim", o pai ficaria feliz, Geoffrey seria comandante na Índia e ela teria um futuro seguro e confortável. Ela poderia ficar ou ir com ele, se quisesse. E o general poderia ir também, quem sabe?
Mas não conseguia deixar de pensar nos olhos, na voz, e no toque de outra pessoa.
— Não sei, Geoffrey. Eu... estou com outras preocupações no momento.
Ele a fitou, contrariado.
— Pergunto se quer se casar comigo, e você não pode responder porque tem outras preocupações?
— Não, eu... Só quero dizer que podemos conversar amanhã, na semana que vem, ou no mês que vem. Robert Carroway precisa de ajuda hoje, Geoffrey. Depois será tarde demais.
Geoffrey se aprumou e se sentou novamente ao lado dela.
— Tenho que reconhecer que sua lealdade é admirável. Mas, para seu próprio bem, peço que considere a hipótese de Robert Carroway estar mentindo.
— Ele não está ment...
— Se ele roubou os tais documentos, por que contaria a verdade? Logo para você, filha do general Barrett, que seria sua melhor cúmplice? Ele deve ter se esforçado muito nas últimas semanas para conquistar sua simpatia, Lucinda. Você é o melhor trunfo dele: a única e derradeira esperança.
— Não fale assim, Geoffrey. — Ela se assustou com a própria voz. Geoffrey estava certo: ela era a única chance de Robert escapar ileso, fosse ele culpado ou inocente.
— Não falo para aborrecê-la, Lucinda. — Ele respirou fundo, levantou-se e a fez fazer o mesmo. — Peço que pense no meu pedido. Aconteça o que acontecer com seu amigo, não vou abandoná-la.
— Obrigada, Geoffrey. — Ela forçou o sorriso. — Só preciso pensar.
O que havia de errado com ela, afinal? Alguém lhe oferecia tudo o que ela queria, e ela ainda ia pensar? E diziam que o louco era Robert...
— Leve o tempo que precisar — concedeu Geoffrey, e retirou-se depois de dar-lhe um beijo recatado no rosto.
Lucinda, ainda no banco, afundou a cabeça nas mãos. Que desastre! Aquilo era precisamente o que ela queria evitar: confusões, desconfianças, complicações... Bastaria dizer "sim" a Geoffrey, e sua vida, ao aceno de uma varinha de condão, seria novamente simples e tranqüila.
Ela suspirou. Ao menos ainda lhe sobrava algum tempo.
Assim que Geoffrey saiu da vista de Lucinda, bateu o cabo do chicote com tanta força na perna que o quebrou ao meio. Jogou-o no mato e se dirigiu à montaria. Definitivamente, ele odiava Robert Carroway.

Quando a porta da frente da Mansão Carroway se abriu, Robert deixou rapidamente a biblioteca e se dirigiu para o saguão, onde viu Bradshaw e Andrew entregando os chapéus e casacos a Dawkins.
— Maldição!
— Boa tarde para você também — Shaw o saudou, cínico.
— Boa tarde. Desculpem... Estou esperando Georgie.
— Sei. Por acaso sabe o que dois sujeitos estão fazendo escondidos no bosque, aí fora?
— Estão me vigiando.
— Imaginei. Posso ir lá despistá-los?
— Não, prefiro que saibam onde estou.
— Estou precisando dar uma surra em alguém. — Bradshaw enfiou as luvas no chapéu. — Vamos jogar uma partida de bilhar? — perguntou a Andrew.
— Muito engraçado. — O rapaz remexeu a pilha de cartas que Dawkins que entregara e olhou para Robert com um misto de zanga e condescendência. —Ainda bem que tenho amigos que não fazem idéia do que está acontecendo em Londres... Preciso responder essas cartas.
— Comentário absolutamente desnecessário, Andrew — ralhou Bradshaw.
— Deixe estar, Shaw — interveio Robert com um suspiro. — O problema o afeta também.
— Sim, mas a você muito mais. — Shaw já subia a escadaria. — Quer jogar bilhar?
Robert achou que era o melhor a fazer, pois lera nove vezes a mesma página de Frankenstein e não se lembrava de nada. Acompanhou o irmão.
— Estranho. — Ele pegou dois tacos e jogou um para Shaw. — Agora que não posso sair, estou sentindo falta do ar livre.
— Não vão prendê-lo, Bit. Eu não vou deixar.
— Não está se superestimando?
Shaw soltou uma risada seca, alinhando as bolas.
— Não sei se já percebeu, mas está voltando a ser o arrogante de uns cinco anos atrás... O que eu acho ótimo. Aliás, também para sua informação, faltam uns três dias para aprontarem meu navio em Portsmouth.
— Que bom. Vai se livrar de tudo isto.
— Não vou, não. Pedi prorrogação da minha licença por mais um mês, até que essa idiotice se resolva. E, se for preciso, tenho passe livre para as Américas, em um navio que os presidentes de lá, tenho certeza, gostariam de ver em suas esquadras.
Robert fitou o irmão longamente.
— Bradshaw, você não está falando a sério, está?
— Claro que sim. Não vou permitir que o prendam. Não depois do que já passou no Castelo Pagnon. Encontrei Tristan no Hyde Park, e ele me contou o que você disse a ele hoje de manhã... Não se preocupe: Andrew e Edward não sabem de nada.
— Não. — Robert meneou a cabeça. — Prometa que não vai sacrificar sua carreira por minha causa, aconteça o que acontecer.
— Ora, Miúdo não vive dizendo que eu deveria ser pirata? Quem sabe não está certo? Sua vez.
Robert não sabia se Shaw dissera aquilo para desestabilizá-lo no jogo de bilhar ou porque levara a hipótese a sério. Mas, antes de se decidir por uma ou outra opção, ouviu risos femininos na escadaria.
Suspirou, aliviado. Ao menos Georgiana e Evelyn não tinham sido presas por causa dele. Estavam todos loucos, pensou, desgostoso. Incrível, mas, nas circunstâncias atuais, ele parecia o único sensato por ali.
— Bit?...
— Estamos aqui — Shaw falou em voz alta.
As duas damas, assim que entraram no salão de jogos, largaram-se no sofá ás gargalhadas.
— O que andaram fazendo? — Shaw quis saber, apoiando-se no taco de bilhar.
— É segredo.
— Melhor contar a ele. — Robert indicou Shaw. — Ele quer ser meu cúmplice, portanto tem o direito de saber. Você conseguiu?
— Conseguiu o quê? — Shaw intrigou-se.
—Bem — Georgiana deu uma tossidela —, nós fomos à Guarda Real Montada, e eu...
— Foram aonde?! — Bradshaw deixou o taco cair no chão, pálido. — Tenho que me sentar... — Afundou-se no sofá, ao lado de Evelyn, e olhou para Robert. — Você sabia disso?
— Decerto que sabia. — Georgiana interpôs-se. — E não se engane: quem estava correndo algum risco era Robert, não nós.
— Confio nelas. — Robert apoiou-se na mesa de bilhar. Algo que não temia era morrer, pois, acima de tudo, não precisaria ir para a cadeia.
— Como eu dizia, entramos na Guarda Real Montada, e eu solicitei à sentinela que me anunciasse ao general Barrett. Evie tentou me impedir, porém eu insisti: estava indignada, mesmo, por ele proibir Lucinda de me ver... — Georgiana apoiou-se no ombro de Evelyn. — Além do mais, ando meio irracional.
— Claro, está para dar à luz a qualquer momento — lembrou Evelyn, preocupada.
— Enfim, a sentinela disse que o general não estava, mas eu não acreditei.
— E, então — Evelyn continuou às gargalhadas —, esta maluca fingiu um desmaio e se jogou nos braços do guarda. Foi a representação do século! Cheguei a pensar que ele ia fazer seu parto ali mesmo...
— Santo Deus... — Bradshaw enfiou o rosto nas mãos.
— Dare vai ficar uma fera conosco.
—A melhor parte vem agora — Georgiana prosseguiu.
— Evie fingiu ficar histérica, e curiosos saíam de suas salas, todos querendo ajudar. Ela pegou o livro de visitantes, começou a abanar meu rosto, e eu comecei a gritar, dizendo que queria ir para casa. Queriam que eu ficasse e esperasse o médico do Exército, mas eu insisti, e eles nos ampararam até nossa carruagem. E aqui estamos nós.
— E?... — Robert as interpelou, tenso. — Vocês não foram lá se divertir, não é?
— Então... — Evelyn enfiou a mão dentro do vestido e retirou um maço de folhas amassado. — Aqui estão!
Robert pegou as folhas e as desamassou. Aquelas duas malucas tinham-se exposto por ele, em um ato que poderia ter graves conseqüências para ambas.
— Muito obrigado — agradeceu, comovido.
— O que é isso? — Shaw se levantara e, por detrás de Robert, tentava ver do que se tratava.
— As assinaturas de todos os visitantes da Guarda Real Montada na semana passada. — Robert percorria a lista com o dedo indicador.
Lucinda estava certa. Eram pouco mais de cinqüenta, nos mais variados horários e permanências, e a maioria, de conhecidos, apesar de uns poucos ilegíveis.
— São os suspeitos, Bit? — Shaw enfim situou-se. — Cinqüenta nomes? Não vai tardar e eles vão associar a falta dessas páginas à presença dessas nossas duas damas por lá.
— É verdade.
Robert não prestava mais atenção à conversa, mas a um nome que se repetia várias vezes nos três dias correspondentes às páginas arrancadas, uma assinatura sempre seguida da patente militar, apesar de ele se encontrar em licença voluntária e a meio-soldo: Capitão Geoffrey Newcombe.

Lucinda permaneceu no quarto, ora estudando o próprio reflexo na vidraça da janela, ora olhando para o pátio da cocheira, tentando convencer-se de que não era boba. Afinal, tinha uma justificativa genuína para não aceitar o pedido de casamento de Geoffrey: das quatro aulas que teria de ministrar-lhe, dera apenas duas.
Mas o problema não era de aritmética.
Suspirou e abriu sobre o regaço a folha de papel gasta, contendo as lições que, pouco mais de um ano antes, quando as escrevera, pareciam tão importantes: dar atenção a quem estivesse com a dama, dançar com várias pessoas, interessar-se por outras coisas que não por si mesmo, e ser franco ao opinar sobre os outros.
— Lixo — falou consigo, amassando a folha e jogando-a na cesta.
Não demorava a dar a resposta a Geoffrey por causa das lições, mas sim por causa de Robert. Quando pensava em uma noite romântica diante de uma lareira, era a voz de Robert que ouvia. As mãos temas que lhe tocavam a pele eram as dele...
A hipótese era insensata, em primeiro lugar porque o pai jamais aprovaria sua união. Em segundo, porque Robert jamais a pediria em casamento. Nem teria oportunidade de pedir se, nos dias seguintes, não aparecesse alguém para confessar a traição à Coroa.
Pensar em Robert arrastando-se com correntes nas pernas, preso em uma diminuta cela de paredes inteiriças, apertava-lhe a garganta. Não podiam fazer isso com ele. Se pensassem por um único instante, veriam que Robert seria o último homem em Londres, e em toda a Inglaterra, a querer reiniciar a guerra contra Napoleão. E um dos poucos que sabiam o custo real de uma guerra.
Mas, quem? Quem teria roubado os documentos?
Lucinda pensava, caminhando pelo quarto. Poderia ter sido qualquer um. Um simpatizante de Napoleão, um mercenário aproveitando-se do confronto de duas partes, alguém com algo a ganhar com o reinicio da guerra.
Ao ouvir uma batida na janela, virou-se com a mão sobre o peito. Robert?
A idéia não a desagradou. Pensar em mais um encontro de amor, ato do qual ela jamais participara até alguns dias antes, vinha lhe tomando muito tempo e imaginação. Quando Geoffrey a beijara, quando pedira a mão dela, ela bem que tentara se imaginar fazendo amor com ele. Ele era bonito, beijava bem... Mas a possível obrigação de ter com Geoffrey uma relação íntima não lhe causava nenhum sorriso. Muito pelo contrário.
Novo ruído na vidraça. Deveria ser o estorninho procurando seu ninho.
Ela abriu a janela.
— Xô!
O pássaro se encontrava um pouco acima, na segurança do ninho, e a fitou com seus olhinhos de contas. Sua pulsação acelerou quando olhou para baixo. Avistou a cocheira, a fileira de árvores que a protegiam da rua, e alguma coisa se mexendo atrás do carvalho... Robert!
— O que você está fazendo?
Ele levou um dedo aos lábios e acenou para ela descer. Tinha um sorriso tênue no rosto bonito, e o coração dela palpitou.
Lucinda concordou com um gesto de cabeça e fechou a janela. O pai estava no escritório, mas, como os dois não estavam se falando, ele não a interpelaria. Por via das dúvidas, porém, saiu pela porta dos fundos, passando pela copa e a cozinha.
— Robert, é perigoso vir aqui. Se meu pai...
— Ele não vai nos ver. — Ele segurou-lhe a mão e a puxou para a parede lateral da cocheira.
— E os homens que estão seguindo você?
— Estão vigiando minha casa. Eu precisava conversar com você.
— Devia ter enviado um bilhete por Evie.
— Pior do que está não pode ficar. — Robert afagou-lhe o rosto com um dedo. — Com você, a minha vida melhora, Lucinda. E um fato, mas uma desvantagem para você.
Ela queria que ele a beijasse, mas Robert tentava ser cavalheiro; uma parcimônia conveniente, embora indesejada.
— O que quer conversar comigo? — Lucinda cerrou os dedos, tentando se impedir de tocá-lo.
— Eu consegui a lista. — Robert olhou à volta. — A lista de visitantes da Guarda Real Montada.
— Verdade?!
— Umas amigas a surrupiaram... — Ele sorriu, meigo.
— Que amigas? — Ela sentiu uma ponta de ciúme.
— Georgiana e Evie.
— Ah! Como conseguiram?
— É uma longa história. Em breve vão contá-la pessoalmente.
— E a lista trouxe alguma novidade?
— Uma, ao menos: preciso ficar longe de você, e não apenas porque está praticamente de casamento marcado.
— Acredita que eu roubei aqueles docu...
— Não é isso. — Ele inspirou fundo, — Tenha cuidado nos próximos dias, Lucinda. Com tudo.
— Com o quê, por exemplo? — A voz dela soou insegura. Robert dava a entender que iria desaparecer.
— Ainda não sei ao certo. — Ele a estudou longamente. — Provavelmente não é nada. Eu não devia ter vindo. Queria apenas vê-la... Tome cuidado, por favor.
Ele se voltou para partir, porém ela o agarrou pelo ombro. Sabia como convencê-lo a falar.
— Não vai embora assim, sem mais nem menos... Deslizou os dedos pelos cabelos escuros, puxou-o para si e cobriu com a boca os lábios dele.
Robert correspondeu e ela sentiu as pernas quase dobrarem. Enlaçou-lhe o pescoço e colou o corpo ao dele. Tinha feito aquilo para fazê-lo baixar a guarda, ela poderia dizer, mas o verdadeiro motivo era que não agüentava mais tanto querer. Estivera com ele havia apenas umas poucas horas, mas parecia a vida inteira. Todos os seus pensamentos eram para Robert. Pensava se ele estaria a salvo, queria conversar com ele sobre tudo e nada.
Ela não o deixaria partir. Não sem que ele a tocasse.
Ainda se beijando, foram baixando para a grama até que ele se sentou contra a parede da cocheira e a colocou sobre o colo de frente para ele. Acariciou e massageou os seios túrgidos por cima do fino vestido de musselina, deixando-a arfante de desejo. Àquela hora da tarde os criados já estavam na cozinha jantando, mas qualquer ruído poderia atraí-los. E havia apenas uma barrica d'água e um coche a protegê-los.
Lucinda não se importou. Não deixaria de exercer sua parte na ação. A ereção de Robert repuxava-lhe a calça, e ela começou a desabotoá-la, apressada.
— Céus... — gemeu em meio aos lábios e línguas que se beijavam, fogosos.
Robert a suspendeu e levantou-lhe o vestido até as coxas. Ela se apoiou nos joelhos e, sem pensar duas vezes, deixou-se penetrar pelo membro nervoso.
Ele a preenchia toda, expandindo-a. Lucinda se firmou e, com um suspiro pesado, Robert cravou-lhe os dedos nas ancas, movendo-a para cima e para baixo, excitado.
— Lucinda! — Sua voz saiu rascante e ele inclinou a cabeça para trás, levantando o corpo contra o dela.
— Continue... Continue... — ela entoou num gemido, movendo-se no mesmo ritmo. Fitou os olhos de Robert, infinitos, atemporais, e uma tensão espiralou dentro dela, comprimindo-a até a loucura. Soltou uma exclamação de gozo, que ele abafou com a boca. Em seguida, ele mesmo se retesou e gemeu, derramando-se dentro dela.
Ainda ofegante, Lucinda repousou a testa contra a dele. Robert acariciou-lhe lentamente as coxas, por baixo do vestido.
— Ainda vamos passar um dia inteiro fazendo isso — murmurou com um sorriso.
Ela soltou um suspiro, deliciando-se com a possibilidade.
— E uma noite também — prometeu, beijando-o no contorno do maxilar antes de abraçá-lo com um longo suspiro. — Céus, estamos no pátio da cocheira, em plena luz do dia, e a quinze passos da porta dos fundos da minha casa... — E isso porque confio em você, Robert. — Fitou-o nos olhos. — Espero que também confie em mim e me conte o que está acontecendo.
Fez menção de sair do colo dele, porém Robert a puxou para baixo.
— Fique.
A palavra reverberou no coração dela. Comovida, Lucinda o beijou de novo, agora lentamente.
Robert se recostou à parede de madeira e se deixou acariciar.
A sensação era gloriosa, ela refletiu, sonhadora: ele ainda dentro dela, e ela saboreando o prazer de saber que o excitava, e que era a primeira mulher que ele queria depois de quatro anos de inferno.
Respirou fundo, acariciou-lhe o musculoso tórax por cima da camisa e o fitou.
— Conte-me.
— Eu li os nomes no livro... — Robert desejou ter acreditado nos próprios instintos e ter ido embora enquanto era tempo, apesar do prazer de estar com ela.
— E?
— Shhh!
A porta da cozinha foi aberta e ele se encolheu com ela. Na posição, difícil foi se manterem imóveis e em silêncio.
Alguém despejou uma jarra d'água nas folhagens do quintal, e a porta se fechou novamente.
Não podiam abusar mais da sorte. Assim, depois de muito relutar, Robert a retirou de cima dele.
Os olhos castanho-claros de Lucinda cintilaram ao sol poente quando ela se levantou e ajeitou a saia. Robert ficou em pé também e abotoou as calças, sentindo-se muito mais satisfeito do que poderia se permitir em tais circunstâncias.
— Como eu ia dizer, todos os nomes na lista de presença da Guarda são pertinentes, exceto...
— Exceto? — ela repetiu ao vê-lo hesitar.
Lucinda não iria gostar de ouvir, e não sem motivo. Mas ele aprendera a respeitar seus instintos e ela precisava saber
— Geoffrey Newcombe — revelou, taciturno. — O que , ele pode ter ido fazer na Guarda Real Montada?
— Como?
— Geoffrey esteve lá quatro vezes na semana passada. Você sabe por quê?
Lucinda franziu a testa.
— Ele está lendo o manuscrito do meu pai. Andou entregando e apanhando material lá.
— Pegando material? — Se Geoffrey entrava e saía com documentos, alguns a mais não despertariam suspeitas.
— Geoffrey estava indo ao prédio para ver meu pai, sem dúvida. — Lucinda cruzou os braços sobre o peito com um suspiro. — Quem mais está na lista?
Robert pegou a lista no bolso e a entregou a ela.
— Não vão demorar para saber quem arrancou estas páginas, e por quê. Se tiver alguma coisa em mente, Lucinda, melhor dizer logo.
Ela pegou a lista, mas devolveu-a sem dar muita atenção aos nomes.
— Não foi Geoffrey, Robert. A vida dele já está planejada: casar comigo, ser promovido a major, ir para a Índia, ficar rico... Por que iria roubar documentos, correndo o , risco de ser preso ou reiniciar a guerra com a França?
— Não sei. Ele está mesmo confiante de que vai se casar com você?
— O que isso tem a ver com o roubo? — Ela começou a ruborizar.
Alguma coisa acontecera entre ela e Geoffrey, Robert tinha certeza.
— Casar-se com você é para Geoffrey a base da pirâmide, Lucinda — ele explicou, seguro. — Por isso minha pergunta é pertinente.
— Seu raciocínio me parece conveniente, Robert... De suspeito você passa a suspeitar de Geoffrey.
— Talvez seja. — Ele pausou, atento aos ruídos da Mansão Barrett. — Você diz que confia em mim... Só estou pedindo sua opinião.
— Eu confio em você — ela o examinou longamente —, mas também não tenho motivos para desconfiar de Geoffrey.
— Lucinda!
Os dois se sobressaltaram ao ouvirem o grito do general.
— Esconda-se! — ela sussurrou, aflita.
— Devem ter lhe contado sobre o tumulto causado por Georgiana e Evelyn na Guarda Real.
— Tomara que não!
Lucinda teria ido ao encontro do pai, porém Robert a agarrou pelo braço.
—Geoffrey chegou a pedi-la em casamento? — Ele tentou simular indiferença.
— Pediu, sim. Hoje de manhã.
— E qual foi sua resposta? — Robert sentiu o peito petrificar. Tinham se amado mais uma vez, porém Lucinda continuava determinada a separar sentimento e futuro, apenas para levar uma vida simples e "conveniente". Se ela tivesse dito "sim", teria de abordar as coisas de uma outra maneira.
— Eu disse que precisava pensar um pouco mais. — Ela o empurrou e foi ao encontro do pai. — Agora, vá!
Robert suspirou. Ela não aceitara! Pedira tempo para pensar, o que já bastava, embora ele preferisse uma recusa definitiva.
Também precisava de tempo para decidir o que fazer. O autor do roubo devia ter simplesmente apanhado os documentos e sumido de circulação. Não se escondera; apenas esperara alguém ser acusado.
Os passos pesados do general Barrett vinham em sua direção.
— O que você estava fazendo atrás da cocheira? Robert agachou-se atrás das folhagens, à sombra de um olmo. O general caminhava célere, os punhos cerrados. Espiou atrás da cocheira, como se esperasse encontrar um dos amigos da filha, virou-se e inspecionou os arbustos.
— Eu já disse que estava pensando. — Lucinda se aproximou dele, tensa. —Aconteceu alguma coisa para o senhor berrar assim? Fiquei até com medo.
Ela detestava mentir para o pai. Se o fazia era porque confiava nele e não queria denunciar sua presença.
Robert ficou satisfeito, porém tentou não dar muita importância àquela atitude. Uma coisa era ela confiar nele, outra coisa era dispensar Geoffrey por causa dele...
Barrett estava zangado, contudo Lucinda conseguiu levá-lo para dentro antes que a vizinhança os ouvisse discutindo.
Robert não gostou de deixá-la a sós com o pai, mas, se interferisse, seria pior para todos. Se o general mandasse prendê-lo, ele não poderia fazer o que ainda tinha a fazer.
Esgueirou-se até a rua, e tomou uma carruagem de aluguel até os fundos da Mansão Carroway. Pulou a cerca e escalou a treliça, chegando ao quarto. Para dar cobertura a Lucinda, caso o general desconfiasse, desceu ao jardim e foi regar as rosas. Os dois espias não o tinham visto sair nem voltar, e continuavam do outro lado da rua, atrás das folhagens.

— Gostaria que Miúdo desse ao estudo a mesma atenção que você dá às rosas. — Tristan veio observá-lo, surgindo do nada.
— Estou só fazendo de conta. — Robert apontou a indigesta platéia com um gesto.
— Lucinda teve alguma idéia?
— Não perguntei. — Ele se aprumou. — Ela não se mostrou muito segura para colaborar. Disse que não é justo confiar em mim e não confiar em Geoffrey.
Aborrecia-o o fato de Lucinda não privilegiá-lo em detrimento de Geoffrey, mas pensaria naquilo depois.
— Ela pode ter razão.
— Poder, pode, mas deixa tudo mais difícil para mim.
Tristan bufou.
— Gostaria que você parasse de dizer que o problema é seu, que tem de resolvê-lo sozinho, e que nós não podemos nos comprometer.
— Mas é isso mesmo. — Robert jogou o regador junto da parede da cocheira.
O visconde se aproximou e pousou a mão nos ombros dele.
— Onde quer estar amanhã, ou na semana que vem, Robert? Se tanto faz, deixe-nos de fora. Caso contrário, faça-me o favor de pedir ajuda.
Tristan virou-se e foi para a casa.
Robert espanou a calça com as mãos, pensativo. Algumas semanas antes, ele não teria o que dizer, pois não via futuro para si.
Naquele dia, entretanto, a pergunta e a resposta eram uma questão bem mais complicada. Onde ele queria estar na manhã seguinte, na semana seguinte, para sempre?
Com Lucinda, evidentemente.
Ao pisar no primeiro degrau, parou, ignorando a presença de Dawkins, ainda à porta, esperando-o entrar.
Ora essa. Tinha vinte e oito anos, três dos quais passara a serviço do Exército inglês, e quase quatro praticamente morto. Sabia que vinha melhorando lentamente nos últimos dois. Não era bem uma melhora. Na verdade, ora como se estivesse saindo de um poço. Mas tudo mudara nas últimas semanas. Agora ele se sentia vivo. Até mesmo as acusações e os mexericos tinham servido para lhe devolver as emoções. Vinha redescobrindo antigas sensações, inclusive seu senso de humor.
A paixão, esta ele devia a Lucinda, por quem, agora sabia, não sentia exatamente gratidão. Ele a queria. Queria abraçá-la, conversar com ela, protegê-la, olhá-la apenas... E não suportaria que ela fosse pertencer a outra pessoa.
— Não vai entrar. Bit? — Tristan o chamou de dentro do vestíbulo.
— Já vou.
Robert suspirou. Tinha um bom motivo para querer culpar Geoffrey Newcombe. O que queria dizer a Lucinda Guinevere Barrett não seria fácil nem mesmo antes de ele ser capturado e encarcerado no Castelo Pagnon... Queria dizer que a amava. Não conseguiria mudar-lhe o plano de levar uma vida simples, mas gostaria de saber se ela um dia poderia amá-lo.
Para descobrir isso, precisava resolver aquela situação rapidamente. E para tanto, teria de fazer algo que jamais imaginara nas circunstâncias: pedir ajuda.

Lucinda estava em vias de arrancar os cabelos. No escritório do pai, as mãos pousadas no regaço, ouvia-o vituperar os amigos dela.
— O relatório do tenente Stanley diz que há páginas faltando no livro de visitantes, e você quer que eu acredite que foi coincidência?
Lucinda preferiu calar, pois vira as folhas e sabia que não era coincidência. Mas precisava pensar, apesar dos gritos do pai. Robert, entre tantos nomes, suspeitara de Geoffrey. Seria ciúme?
Um surto de arrepios irrompeu-lhe nos braços.
— Os Carroway persuadiram a sra. St. Aubyn a fazer a encenação, na cena. Espero que St. Aubyn seja mais sensato!
Sob o olhar da lógica, o acontecido não incriminava Geoffrey ou Robert. Robert vivera três anos como sobrevivente do Castelo Pagnon. Por que de uma hora para outra iria bancar o traidor? Quanto a Geoffrey, havia quatro semanas colaborava com o general no capítulo a respeito de Salamanca, e...
E desde então ele começara a visitar o general na Guarda Real Montada!
Lucinda se concentrou. De fato, havia uma forte coincidência: a prisão de Robert e o roubo tinham vindo a público ao mesmo tempo.
— Não tenho outra opção — o pai dela dizia. — Por você dei a Carroway o benefício da dúvida na questão anterior, mas agora temos de novo um roubo na Guarda Real Montada, em plena luz do dia, e obviamente para favorecê-lo! Que outras provas você quer, Lucinda?
— Papai, o senhor mesmo acabou de dizer que havia umas trinta pessoas na portaria quando as páginas do livro sumiram.
— Foi outra coincidência? Você espera que eu acredite?
— O senhor conhece Georgiana e Evelyn tão bem quanto a mim. Espero que se lembre de que elas não são delinqüentes.
— Eu não disse que o fizeram em benefício próprio, e sim para aquele maldito irmão de lorde Dare! — O general se largou na poltrona da escrivaninha, abriu uma gaveta e apanhou uma folha de papel. — Já é hora de ele responder algumas perguntas oficialmente.
— O senhor vai mandar prendê-lo?! — Ela ficou furiosa.
— Vou pedir que ele se apresente à Guarda Real Montada para interrogatório. Se ele não for, mando prendê-lo.
— Não! — Lucinda se levantou e arrancou-lhe a pena da mão.
— Você enlouqueceu, Lucinda? Devolva a pena!
Robert precisava de tempo: ou para resolver aquela confusão, ou para fugir para o exterior.
Uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto. Não, ela não o queria longe dela. Queria-o ali, em Londres.
— Dê mais um dia a ele, papai — pediu com a voz trêmula. — Senão...
— Senão o quê? — O pai estava vermelho de raiva.
— Senão eu nunca mais vou falar com o senhor. — Outra lágrima escorreu, traiçoeira.
— Você... — o general se interrompeu, aturdido — está falando a sério?
— Sim.
Ele abaixou a cabeça. Quando a levantou novamente, Lucinda pensou que jamais o vira tão exausto e acabado.
— Se isto fosse há alguns anos, a esta hora Carroway já estaria preso, e talvez até fosse réu confesso — murmurou ele com voz grave. — Mas hoje descobri que o afeto de minha filha é mais importante que minha carreira e que meu dever para com a pátria.
— Papai... — ela começou, comovida.
— Hoje é quarta-feira, Lucinda. O prazo para Carroway será até sexta, ao meio-dia. Sugiro que envie a ele um bilhete para avisá-lo. Ele estará sendo vigiado. Se fugir, melhor não levar os papéis. Se não o encontrarmos em Londres, será perseguido até o fim do mundo.
— Obrigada. — Lucinda levantou-se.
— E, Lucinda, esteja ele envolvido ou não neste roubo, não o quero mais na Inglaterra. Diga a Carroway que deixar o país será a melhor solução para ele.
Ela fitou o pai, estarrecida. Protestara com tal veemência, que o pai devia ter percebido que Robert era para ela mais do que um simples amigo.
Agora o general tinha motivos para livrar-se do rival de Geoffrey, homem a quem ele privilegiava.
— Robert é inocente, papai — reafirmou, tensa.
— Espero que sim.
Lucinda engoliu em seco. Assim esperava, pois, se Robert fosse embora, ela talvez não o deixasse ir só.
Robert ia entrando em casa quando o mensageiro da Mansão Barrett chegou. O remetente do bilhete era Lucinda e o mensageiro, um lacaio do pai dela. Portanto o general tinha conhecimento da mensagem...
O coração de Robert disparou. O que seria? Barret teria descoberto a respeito dele e a filha?
A caligrafia era nítida, bonita e floreada. Lucinda em pessoa.
Mas o breve sorriso que ele exibia ao abrir o bilhete logo se apagou.
Querido Robert,
Meu pai sabe das páginas arrancadas do livro de visitantes, e está convencido de que você é o culpado por ambos os roubos. Assim, insiste que vá à Guarda Real Montada para interrogatório.
Entretanto eu pedi, e ele concordou, que você tenha até sexta-feira, ao meio-dia para terminar o que começou. Se ainda estiver em Londres no fim desse prazo, ele enviará um pelotão para prendê-lo. E devo informá-lo que até lá você será vigiado.
Bradshaw vinha descendo a escadaria. Ao perceber a expressão grave no rosto do irmão, quis saber:
— De quem é?
— De Lucinda.
O rapaz se desviou imediatamente, foi à sala de visitas e voltou com Tristan.
— O que está acontecendo. Bit?
— Um minuto. Já estou acabando.
Tome cuidado, Robert. Tenho a impressão de que Geoffrey só começou a freqüentar a Guarda Real Montada mais assiduamente há exatas quatro semanas...
Sempre sua,
Lucinda
Enquanto os irmãos discutiam o bilhete, sugerindo que o general Barrett devia ter enlouquecido, Robert olhava a assinatura da mensagem: "Sempre sua".
Era impressão, ou as palavras tinham um significado especial?
— Por que ela mencionou lorde Geoffrey e a Guarda Real Montada? — Andrew perguntou, arrancando o bilhete das mãos de Tristan.
— E uma pista.
— De quê? — Edward quis saber, aderindo ao tumulto acompanhado de seu professor particular.
— Pensei que ela não fosse ajudar — Tristan comentou, fitando Robert.
— Ela, quem? — Edward estava curioso.
— Ela deve ter mudado de idéia — Robert respondeu, distraído.
Precisaria descobrir um pouco mais sobre Geoffrey Newcombe, além de seu desejado casamento com Lucinda. Iria se informar sobre sua patente de major e sobre o tal posto de comandante na Índia.
— Você só tem um dia e meio — Bradshaw lembrou. — Como vai se preparar em tão pouco tempo?
— Barret quer que eu vá embora da Inglaterra.
O motivo que Lucinda usara para convencer o general a dar-lhe mais tempo convencera-o também da necessidade de afastar o problemático Robert Carroway de sua filha...
— Você não pode ir embora da Inglaterra! — Edward bateu os dois pés no chão em protesto. — O que está acontecendo?
— Edward! — Quase todos os adultos gritaram ao mesmo tempo.
— Eu quero saber!
Enquanto Bradshaw pedia ao professor Trost para deixá-los a sós, Robert agachou-se em frente ao menino, zangando consigo por ter de envolvê-lo.
— Estou com um problema. Mas estamos tentando resolvê-lo antes que piore.
— É o mesmo de antes?
— É. Mas já está perto do fim, Miúdo.
— Eu quero ajudar também.
— Você ser meu irmão Já ajuda. — Robert sorriu afetuoso, afagando-lhe os cabelos.
— Promete que não vai embora?
— Prometo. — Robert retribuiu o abraço repentino de Edward, o que ele perderia se não se cuidasse ou fugisse.
— Que atitude vamos tomar? — Andrew insistiu, abrindo espaço na roda para Georgiana, que já lia o bilhete.
— Antes de qualquer coisa, vamos para a sala de visitas.
— Lucinda deve estar arrasada. — Georgiana tomou a dianteira, entrou na sala e sentou-se no sofá. Ao terminar a leitura, olhou para Robert, condoída.
— Eu também estou. — Ele se sentou perto da porta, aguardando pelos demais. — Muito bem... Estão dispostos a me ajudar?
— Você manda. — Tristan e Georgiana deram as mãos.
— Em primeiro lugar — Robert inspirou fundo —, preciso de alguém que tenha uma conversa com Geoffrey sem deixá-lo desconfiar de nada.
— Para isso nenhum de nós serve. Que tal Santo?
— Boa idéia. — Robert alisou a sobrancelha. — Tristan, o leilão de Tattersall é amanhã, não?
— É, mas o lugar é muito aberto.
— Melhor ainda. Posso observar sem ser visto.
— Que tal ficar em casa, fora de perigo, e eu ou Dare fazemos isso? — Bradshaw propôs.
— Não, porque já perdi muito tempo dentro de casa. E Geoffrey pode desconfiar do Santo.
— Evie pode ir — lembrou Georgiana. — Ela já se ofereceu para ajudar.
— Pode funcionar.
— Vou pedir a Evie para enviar uma mensagem a Lucinda. — Georgiana demonstrou sua costumeira astúcia. — Aliás, Evie e Santo deviam estar aqui conosco, planejando.
Ela se levantou, amparada por Tristan, e rumou para o escritório. Instantes depois, um lacaio saiu, e Robert ouviu Georgiana avisar Dawkins que viriam mais duas pessoas para o jantar.
— Não estou entendendo, por que vamos observar lorde Geoffrey? — Edward estava sentado em frente a Bradshaw, a expressão muito séria para a idade.
— Miúdo, por que não vai se arrumar para o jantar? — Tristan sugeriu.
— Porque esta família é minha também, e eu quero saber. Não vou atrapalhar.
— Miúdo, você vai saber de tudo quando tiver a idade certa. — Robert tentou acalmá-lo.
— Mas eu já posso ajudar! — Edward sussurrou com os olhos rasos d'água.
— Está bem. — Robert não deixaria seu irmão caçula, seu maior defensor, chorar assim. — Vamos observar lorde Geoffrey, porque achamos que ele roubou umas coisas e quer pôr a culpa em mim.
— Como ele vai pôr a culpa em você? Andrew bufou, impaciente.
— Edward, depois explicamos.
— Ora essa, a pergunta é bem pertinente — Georgiana intercedeu. — Se Geoffrey é mesmo o culpado, como conseguiu armar tão bem contra você?
— Eu contei para alguém que... que estive no Castelo Pagnon.
Sem a presença de Edward, tudo seria muito mais fácil.
— Contou para Lucinda? — Edward indagou, arguto.
— Ela pode ter contado a ele. Eles vão se casar, não vão?
— Não. — Robert interveio antes que um dos demais respondesse, mas engoliu em seco. — Ela só contou para o general.
— E o general Barrett contou para Geoffrey — deduziu Edward de pronto.
Houve silêncio no recinto. Desde o início, Robert chegara a desconfiar que o general tivesse espalhado o boato, mas, por menos que gostasse dele, o homem era o pai de Lucinda.
— É isso — admitiu. — Barrett contou para os oficiais no comando da Guarda Real Montada, e um deles pode ter passado adiante.
— Mas — Andrew franziu a testa —, lorde Geoffrey é que poderia tirar proveito dos seus antecedentes, Robert. Se estamos achando que foi ele...
— Os oficiais comandantes não iriam espalhar uma coisa dessas sem investigar — Tristan acrescentou.
— Provavelmente, não — Bradshaw complementou, sorvendo um gole de conhaque. — Se forem como os almirantes, só divulgam alguma coisa depois de apurá-la até o fim.
— Considerando que o general faz gosto no casamento de Geoffrey com Lucinda, pode mesmo ter confidenciado a ele. Mas, infelizmente, não temos como confirmar.
— Nós, não — Georgiana concordou. — Mas Lucinda pode.
— Não vou pedir a ela para interpelar o próprio pai.
— Se ela conseguir levar Geoffrey ao leilão de Tattersall, já será suficiente.
Robert não gostou da idéia. Sabia que para Lucinda era difícil desconfiar de Geoffrey. Mas questionar o pai seria para ela ainda pior.
Por outro lado, apesar de se sentir meio tolo só de pensar, eleja estava com saudade dela. Qualquer coisa que a aproximasse dele seria bem-vinda.
— Não sei se ela deve participar disto, afinal, é filha do homem que quer prender Bit — Andrew ponderou.
A discussão pegou fogo e Robert aproveitou para pensar.
Lucinda tinha razão ao dizer que ele queria desconfiar de Geoffrey. Era fácil para ele odiar aquele infeliz, todo bonito e charmoso, que se considerava herói por ter levado um tiro de raspão no braço, e por contar histórias sobre as fraquezas e infortúnios dos outros soldados... Mas detestava-o, principalmente, porque até mesmo ela achava que Geoffrey seria melhor marido do que ele.
— Essa discussão não leva a nada — declarou Tristan, já irritado. — Temos um dia e meio. Não gosto de ultimatos, mas Barrett está com a faca e o queijo na mão.
— Por que não damos uma surra em Geoffrey para ele confessar? — Shaw falava a sério.
— Nada disso — Georgiana interveio, muito séria, ostentando sua poderosa posição de viscondessa Dare, sobrinha do duque de Wycliffe. — Precisamos de provas, e de um motivo, o que até agora não temos.
— Nós vamos conseguir — garantiu Robert, ele na posição de quem passara sete meses dependendo da sorte e dos caprichos de soldados que odiavam os ingleses.
— Não quero ir embora da Inglaterra. Levei quatro anos para voltar para cá.
A porta do estúdio se abriu.
— Estão todos bem? — Lady St. Aubyn entrou, apressada, sem nem mesmo ser anunciada pelo mordomo. St. Aubyn a acompanhava.
Georgiana entregou a ela o bilhete de Lucinda, e os dois o leram ao mesmo tempo.
— Obviamente estamos aqui porque requisitaram nossa ajuda — o marquês começou, ao terminar de ler.
— O que jamais eu negaria, uma vez que, aparentemente, minha esposa também está envolvida até o pescoço...
— Foi por uma boa causa — Georgiana protestou.
— Não estou reclamando. — St. Aubyn sorriu, meio cínico. — Evie me contou. E gostei de saber onde ela escondeu as folhas...
— Santo! — Evelyn corou. — O assunto é sério.
St. Aubyn amparou Evelyn até uma poltrona vazia, em cujo braço sentou-se.
— Vamos planejar sua fuga, Robert, ou vamos pegar esse lorde Geoffrey Newcombe?
— Vamos pegá-lo! — Edward respondeu, entusiasmado. Todos deram idéias e ofereceram hipóteses. Robert as ouviu, comovido. Era muito interessante ver tanta atividade e entusiasmo em seu favor. Tristan tentava assumir o controle do grupo e St. Aubyn media forças com ele. O que todos precisavam ter em mente, porém, era que aquele jogo e seu respectivo resultado eram sua responsabilidade.
— Tudo isso vai depender de Lucinda. Todos se calaram quando ele os interrompeu.
— Ela precisa convencer Geoffrey a acompanhá-la ao leilão, onde encontrará Santo e Evie.
— E nós vamos fazer o quê lá? — St. Aubyn perguntou.
— Procurar parelhas e tentar convencer Geoffrey a comprar um cavalo novo.
— Por que nós queremos que ele compre um cavalo novo? — Edward quis saber.
— Não queremos — Robert explicou, olhando para St. Aubyn. — Queremos apenas que ele fale sobre suas finanças. E, se possível, o que pretende fazer da vida se Lucinda não quiser se casar com ele.
— Essa possibilidade nem deve existir para Geoffrey — Georgiana ponderou. —- Lucinda é muito direta.
— Tenho motivos para acreditar que Geoffrey deve estar ansioso para saber qual será a resposta dela — Robert explicou calmamente.
— Nossa parte não será difícil. — St. Aubyn espanou de seu paletó azul um imaginário grão de poeira. — E você, Robert, o que vai fazer?
— Vou escutar, para ver se estamos no caminho certo, depois irei à casa de Geoffrey. — Robert olhou para Edward, preocupado. — Isso não se faz, ouviu? Só em caso de emergência.
— E quanto a nós? — Andrew perguntou.
— Você pode ir comigo. Não vamos ter muito tempo para procurar os documentos roubados, e preciso de alguém para comprovar que eu não os plantei lá, se for o caso.
— É melhor alguém que não seja da família — Bradshaw contestou.
— Eu sei quem pode nos ajudar — Tristan intercedeu. — De que nos valeria ser amigo do duque de Wycliffe, se não pudéssemos usá-lo num esquema desses?
— Se ele souber o risco que corre... Vocês três têm de ocupar Newcombe o tempo necessário para a nossa busca.
— Temos que ser bem-educados?
— Sim, porque ele tem acesso a Lucinda e ao general Barrett. Geoffrey não pode desconfiar de nada.
— E se vocês não encontrarem nada? — St. Aubyn perguntou, preocupado.
— Temos que encontrar. Eu não quero ir para a cadeia, e prometi não ir embora da Inglaterra.
Dawkins bateu à porta para anunciar o jantar, e todos se levantaram. Georgiana ficou para trás, e Robert, curioso, acompanhou-a.
— Tenho duas perguntas a fazer. — A viscondessa deu-lhe o braço.
— Quais? — Robert perguntou, embora já as adivinhasse.
— Primeira: o que vai fazer se encontrar os documentos na residência de Geoffrey?
— Denunciá-lo.
— Ao general Barrett?
— Ele está chefiando a investigação oficial. — Robert ocultou o calafrio que lhe percorreu o corpo.
— Ele é amigo de Geoffrey, e não gosta de você.
— O sentimento é recíproco, mas posso lidar com Barrett. — Robert surpreendeu-se ansioso pelo encontro. — E a segunda pergunta?
— Como você sabe que Lucinda não aceitou o pedido de casamento de Geoffrey?
— Ela me disse. Georgiana sorriu.
— Ela parece confiar muito em você.
— Sou bom ouvinte. — Ele sorriu de volta, e a cunhada o fitou com afetuosos olhos verdes.
— Tenho o pressentimento de que esse não é o único motivo, Robert Sylvester Carroway...
A porta da sala de jantar, ele cedeu a frente.
— O tempo dirá — falou com um longo suspiro.

— Já vai dormir? — O general Barrett postou-se à porta do escritório, com a mão na maçaneta.
— Acho que sim. — Lucinda estava no patamar das escadas. — Estou cansada.
— Quer que eu peça a Helena para levar seu jantar?
— Não, obrigada, estou sem fome. — Ela continuou escadaria acima.
— Lucinda!
Ela parou e se voltou para fitar o pai.
— Você tem que encarar o fato de que Robert Carroway é o suspeito mais provável — falou o general. — Tem de estar preparada para o pior.
Lucinda engoliu com dificuldade. Entrava em pânico a cada insinuação de que Robert seria preso; principalmente quando essas vinham do pai dela, em quem, até três a quatro semanas atrás, tinha plena confiança.
Por que tudo mudara tanto? Porque ela teria muito a perder? Porque ela gostava de Robert?
Ela descobrira a resposta: a vida só poderia ser simples e tranqüila se não houvesse influências externas importantes.
A revisão de memórias de guerra, segundo alguns generais, seria um trabalho pavoroso para uma mulher. E ela agora se perguntava: por que não se incomodara? Só se sentira afetada quando Robert mostrara a ela a verdade e o horror da guerra.
— Por que ele é o suspeito mais provável, papai? — Debruçada na balaustrada, Lucinda procurou controlar-se, usando um tom calmo e regular. — Por que foi torturado e sobreviveu? Se eu não tivesse contado nada ao senhor, vocês suspeitariam de quem?
— O fato, minha filha, é que você contou, e eu agradeço, pois facilitou muito a investigação.
— O senhor descobriu quem espalhou a notícia em Londres?
— Eu já disse, Lucinda, isso não importa.
— Importa, sim. Quem poderia se beneficiar com a continuação da guerra? Ou da venda dos documentos? Porque, francamente, Robert Carroway não tem nada a ganhar num ou noutro caso. E o senhor sabe disso, senão, não teria dado mais tempo a ele.
— Fiz isso por você.
Ela inspirou fundo, ainda sem acreditar que estava em vias de fazer a temível pergunta.
— O senhor chegou a mencionar a estada de Robert no Castelo Pagnon para Geoffrey?
— Está suspeitando de Geoffrey? — o general perguntou, perplexo.
Ela se aprumou e desceu as escadas, apressada. Se não mudasse já a linha de pensamento do pai, não conseguiria as informações necessárias.
Precisava de respostas, e era a única capaz de consegui-las.
— Geoffrey sentiu ciúme de Robert no início de minha amizade com ele, papai. Pode ter espalhado a notícia para antipatizá-lo aos olhos de todos, sabendo que a fonte era fidedigna. Robert não espalharia o boato se tivesse roubado os documentos.
— Isso é ridículo, Lucinda. Se Robert Carroway é inocente, quanto antes o interrogarmos, melhor será para todos nós.
— Não foi Robert — ele afirmou, resoluta.
E se também não fora Geoffrey, poderia ter sido um dos colegas do pai que, já de idade avançada como ele, fora incapaz de perceber que o suculento boato poderia destruir a vida de uma pessoa.
— Boa noite, papai — murmurou, frustrada.
— Boa noite, Lucie. E saiba que Geoffrey, apesar do suposto ciúme, não teria contado a ninguém. Tenho certeza de que ele sabe guardar segredo.
Lucinda quase tropeçou num degrau, e ajeitou o sapato para disfarçar.
Geoffrey sabia! Seu pai contara a ele.
Céus, precisava contar a Robert! Desejou que ele estivesse de novo escondido em seu quarto, esperando por ela, mas seu coração batia tão depressa que ela pensou que fosse desmaiar. Acabara de constatar que Geoffrey, por mais improváveis que fossem as acusações de Robert contra ele, não era tão inocente quanto ela imaginava.
A noite passaria sem incidentes, disse a si mesma. Mas avisaria Robert de sua descoberta na manhã seguinte.
Sua neutralidade terminara. Dali para frente, ela tomaria partido.
Lucinda não dormiu bem. O dilema a perseguira: Geoffrey o fizera por ciúme ou outro motivo execrável?
Ela despertou com o raiar do sol, e logo começou a escrever o bilhete. A meio caminho, já pensando em como fazê-lo chegar a Robert, recebeu uma mensagem de Evelyn:
Lucinda,
Santo e eu gostaríamos que você e Geoffrey fossem conosco ao leilão de Tattersall, agora, pela manhã. Mas é melhor você mesma entrar em contato com Geoffrey e convidá-lo...
Algum esquema estava em andamento, e, ao que parecia, felizmente Robert entendera que ela se encontrava disposta a ajudar.
Ela leu no bilhete a hora e o local, mas não entendeu o motivo do encontro. Talvez fosse melhor assim, caso o general o interceptasse.
Infelizmente, o pai dela agora também não merecia sua plena confiança, refletiu, amargurada.
Escreveu rapidamente um bilhete para Evelyn, aceitando o convite, e começava a redigir um para Geoffrey, convencendo-o a acompanhá-la, quando o pai bateu à porta do quarto.
— Lucinda?
Ela escondeu os dois bilhetes debaixo da agenda.
— Entre, papai. O que há?
— Tenho uma reunião agora de manhã, e quero me precaver contra possíveis inconvenientes na minha ausência.
— Inconvenientes? O senhor acha que eu vou fugir com o peixeiro ou coisa assim? — Indignada, ela respirou fundo. — Estou escrevendo um bilhete para Geoffrey, perguntando se posso acompanhá-lo ao leilão de Tattersall. Ele quer comprar um novo cavalo e... bem, eu fui meio rude com ele ontem.
— Rude como?
— Ele me pediu em casamento.
— Ah, é? Por que não me contou? Qual foi sua resposta?
— Que eu preferia esperar essa confusão com Robert terminar. — Lucinda ficou aliviada por poder contar a verdade, o que, aliás, pouco adiantava em meio a tanta complicação. — Geoffrey pode ter considerado isso uma recusa, e quero que ele saiba que não foi.
— Um exemplo de lealdade, meus parabéns. Quanto aos seus outros amigos, você deveria escolher melhor. — Ele deu meia-volta. — Cumprimente Geoffrey por mim, e pergunte se ele já terminou o capítulo.
— Está bem, papai.
Robert e Bradshaw chegaram a Tattersall minutos antes de St. Aubyn e Evelyn. Felizmente, já havia muita gente nos currais e nas barracas da feira. Não ser visto não seria nenhum desafio, mas escutar uma conversa... tarefa quase impossível. Mesmo assim, Robert estava determinado a cumpri-la.
Deixaram os cavalos com dois meninos vestidos em trajes típicos.
— Onde quer que eu fique? — Shaw perguntou.
— Em um lugar alto. Caso Geoffrey saia e vá para casa, tem de chegar lá antes dele. Senão, você também estará em apuros.
— Você só vai até lá se ele disser algo que o incrimine. Do contrário, você fica, certo? — Shaw pedia confirmação.
— Posso não gostar de Geoffrey, mas gosto muito menos da idéia de ser preso.
— Ótimo. — Shaw o incentivou, sacudindo-o pelos ombros. — Vou me posicionar. E você, onde vai estar?
— Estarei aqui, onde ninguém me vê e posso escutar todos.
— Diga-me, Robert — o irmão perguntou, achando graça —, onde você arrumou essa roupa?
— No fundo da cocheira. Não quero ser reconhecido.
— Não vai precisar se preocupar com isso.
O objetivo era ser confundido com os serventes das cocheiras de Tattersall. Ele usava um chapéu amassado, enfiado até os olhos, calça e camisa esfarrapadas. As botas sujas de lama e excremento de cavalo, felizmente do tamanho certo, não o fariam mancar ainda mais. Se não o reconhecessem, ele poderia circular pelo lugar à vontade. O mau cheiro fazia parte do disfarce.
Esperava St. Aubyn e Evelyn quando, à beira do aglomerado de gente, e por causa da tensão e do aperto, lembrou-se do transtorno do pânico que sempre o rondava nas reentrâncias sombrias de sua mente. Estava ocupado demais no momento, entretanto, para lhe dar atenção.
Viu Shaw logo depois, em uma sacada próxima, conversando com uma bela mulher. Fazia sentido. O irmão sempre tirava o máximo proveito de qualquer situação.
Ao fim da primeira volta, avistou St. Aubyn e Evelyn chegando, e mal acreditou que os dois pudessem estar ali para ajudá-lo. Ele tinha bons amigos. Melhores do que imaginava ou julgava merecer.
St. Aubyn parecia à vontade, porém era mais dado a subterfúgios do que Evelyn, que não parava de olhar para os lados, para trás, para a multidão, obviamente procurando por ele ou Bradshaw. Robert demorou a se aproximar para dizer que tudo corria bem, depois de muito pedir licença e desculpar-se, pois as pessoas não costumavam dar passagem a cavalariços.
— Bom dia, milady. Milorde... — Ele os saudou, segurando a aba do chapéu.
— Você me assustou! — Evelyn exclamou em voz baixa.
— O cheiro está de amargar. — St. Aubyn achou graça.
— É parte do plano. Shaw está me dando cobertura... Mas finjam que não estamos aqui.
— Está bem. — Evelyn inspirou fundo. — Lucinda nos enviou um bilhete, dizendo que ia tentar convencer Geoffrey a trazê-la, mas não tive mais notícias. Se ela vier, os dois devem estar chegando.
— A qualquer momento.
Lucinda iria ajudar, ele se entusiasmou, tentando não rir feito um idiota ao imiscuir-se de novo na multidão. Queria rir, cantar e dançar, porque ela decidira não confiar de todo no dourado lorde Geoffrey.
Por outro lado, talvez ela não devesse se arriscar tanto. Se Geoffrey desconfiasse do esquema, talvez até tentasse fugir da Inglaterra.
Robert culpou-se. Mas não permitiria que aquele infeliz maltratasse Lucinda.
Uma brisa cálida tocou-lhe a pele, como se anunciando a chegada dela. Voltou-se e avistou-a em meio à multidão. Usava um vestido de musselina justo e decotado, que lhe realçava a curva dos seios. Ao ver Geoffrey todo atencioso ao lado dela, sentiu os lábios ressecados. Tinha vontade de amarrotar-lhe as fuças, fosse ele traidor ou não.
Quando Evelyn acenou para os dois, Robert aproximou-se, á espreita. Aguardou pacientemente pelos amistosos apertos de mãos e abraços.
Discreto, examinava o rosto de Geoffrey em busca de indícios que confirmassem a suspeita de todos. Sempre amável e elegante, o homem personificava o perfeito cavalheiro inglês.
Se ele, Robert, mostrasse tal aspecto e conduta, talvez a nobreza não tivesse dado ouvidos aos boatos tão depressa, refletiu, desgostoso. Naquele momento, por exemplo, usando aquela roupa rasgada e malcheirosa, qualquer pessoa o acharia deplorável... Só esperava que não o reconhecessem.
— Comprar para o aniversário do general — Lucinda dizia, com a mão no braço de Geoffrey. — Mas ele tem um gosto muito particular.
— Comprando ou não hoje, é sempre bom saber quem está produzindo animais de qualidade — Geoffrey comentou.
— Não necessariamente. — St. Aubyn segurou o braço de Evelyn e caminhou entre a aglomeração até onde estavam os proponentes compradores. — Se um criador produz um bom cavalo, nem sempre os demais potros terão a mesma qualidade. Se você gostar de algum, deve comprar, Lucinda. E se seu pai não gostar, pode vender depois. Não concorda, lorde Geoffrey?
— Geoffrey, por favor. Respeito sua opinião, mas sou mais cuidadoso em minhas compras.
— E precisa ser... Afinal é o quarto filho, não? — St. Aubyn provocou, num misto de insulto e comiseração.
— Não conheço bem Fenley, mas dizem que é bem avarento.
— Verdade. — Geoffrey acabou rindo da pilhéria. — Na filosofia dele, depois do primogênito, os outros filhos têm que se arranjar por conta própria.
— Uma visão muito rígida — Lucinda solidarizou-se com o pretendente. — Seu pai deve se orgulhar de seu êxito.
Robert quis beijar Lucinda. Ela estava jogando o jogo com perfeição. Era óbvio que Geoffrey precisava de uma promoção, a qual lhe daria o direito de escolher seu posto. Se não a conseguisse com o casamento, só uma guerra lhe propiciaria nova oportunidade. Daí o roubo dos documentos na Guarda.
Mas para realizar seu sonho da maneira mais fácil, entretanto, Geoffrey precisava arrumar um culpado para o roubo dos papéis que tinha como garantia... e Robert e os boatos haviam sido uma conveniente coincidência.
— Vai orgulhar-se muito mais quando eu me firmar na minha carreira. — Geoffrey beijou a mão de Lucinda, ostentando seu sorriso sedutor.
— Você ainda está no Exército, não? — St. Aubyn instigou.
— Estou. E as oportunidades são muitas... Uma será minha. Nossa — ele se corrigiu, sorrindo para Lucinda.
Desgraçado.
Robert debruçou-se numa roda de charrete, pensando em maquinar alguns métodos para livrar-se do infeliz, caso não conseguissem culpá-lo do roubo.
— Aposto que a família Carroway teria preferido que Robert não tivesse se alistado no Exército... — St. Aubyn contrapôs, astuto.
— Santo! — Evelyn fingiu-se incomodada.
— É a verdade.
— Todo esse acontecido trouxe muitos problemas para o general — Lucinda admitiu, e olhou casualmente na direção de Robert.
O coração dele quase parou.
— Robert é meu amigo — ela prosseguiu, tornando a se concentrar em. Geoffrey. — Estaria mentindo se não admitisse que estou arrasada com as últimas notícias.
— O leilão de parelhas está quase no fim — St. Aubyn avisou.
— Tão cedo? — Lucinda desembaraçou-se da mão do pretendente. — Com licença, volto num minuto.
— Esteja à vontade.Você vai sozinha ou devo chamar sua aia na carruagem?
— Vou com você, Lucinda — Evelyn prontificou-se. — Preciso tomar um refresco também.
Robert afastou-se rapidamente da charrete, dirigiu-se à construção mais próxima e entrou numa alameda deserta. Lucinda e Evelyn chegaram instantes depois.
— Como sabia que eu...
Lucinda o agarrou pela lapela e o beijou com ânsia. Robert não retribuiu porque estava muito sujo, e porque ouviu Evelyn exclamar, ansiosa.
— Lucinda! — Ele a beijou de novo, então recuou. — Cuidado, alguém pode nos ver
— Eu já vi... — Evelyn arregalou os olhos. — Há quanto tempo vocês dois...
— Agora não temos tempo de explicar — Lucinda finalizou, sem tirar os olhos dele.
E aqueles olhos castanhos revelavam mais esperança e medo do que ele vira nos últimos tempos. Robert a acariciou no rosto com um suspiro.
— Sinto muito tê-la envolvido nisto. Sei que não podia ajudar porque...
— Mudei de idéia, Robert. — Ela o fitou de alto a baixo. — Está interessante...
— Temos que voltar — Evelyn interpôs-se. — Se não podem me explicar, também não podem namorar. Ouviu alguma coisa importante da conversa, Robert?
— Quase. Evie, desculpe, mas precisamos ficar a sós um momento.
— Está bem... — ela concordou, contrariada. — Estarei ali. — Apontou a entrada da alameda e se foi.
— O que você quer saber? — Lucinda o puxou pela manga.
— Ganhei mais um dia porque você pediu, não foi?
— Tomara que esteja certo, Robert, senão vou ter de pedir muitas desculpas ao meu pai por conta de Geoffrey.
— Por falar no general, preciso saber se você estaria disposta a perguntar a ele de novo quem começou esse falatório.
— Quer confirmar se foi Geoffrey?
— Lucinda, eu preferia que houvesse outro jeito...
— Meu pai contou a Geoffrey que você esteve no Castelo Pagnon, um dia antes da reunião na Guarda Real Montada.
Robert soprou o ar, aliviado. Eles estavam certos, só podia ser Geoffrey.
— Obrigado — ele agradeceu com um sorriso, sabendo quão difícil fora para ela interpelar o pai.
— Gostei... — ela sussurrou.
— Gostou do quê?
— Desse sorriso. — Lucinda o tocou nos lábios, acariciando-os com o dedo, e o beijou lentamente, saboreando o contato. — Temos que voltar agora — completou, relutante.
— Ainda tenho uma coisa a fazer... — murmurou Robert. — Pode manter Geoffrey ocupado?
— Posso. Mas tome cuidado. E, Robert... Se precisar sair do país para se proteger, saia. Mas me avise onde está.
— Você é a razão do meu sorriso. — Ele a tocou no rosto, comovido, antes de bater em retirada pelos fundos.
Tinha uma residência para revistar.
— Não fique parando à toa — Robert se irritou. — Lembre-se de que Lucinda está lá com ele, mantendo-o ocupado.
— St. Aubyn e Evie estão com ela. — Tristan olhava a casa atrás dos arbustos. — Prefiro que não me vejam entrando.
— Ele não está em casa, Dare. Além disso, vamos usar máscaras.
O terceiro comparsa estava recostado a um olmo. Não observava a casa, e sim Robert, que acabou se voltando para ele, exasperado.
— Vamos logo?
— Desculpe, mas está difícil entender essa sua roupa... — comentou o duque de Wycliffe, divertido.
— Arre! É só um disfarce. Querem saber? Estou indo. — Decidido, Robert colocou a máscara de tigre e atravessou a rua, tentando não mancar para não ser reconhecido. Wycliffe e Tristan o acompanharam com suas respectivas máscaras.
— Estão prontos? — Robert segurou a aldrava da porta.
— O escritório primeiro, depois a biblioteca e o quarto. Se não encontrarmos nada, vamos revirar a casa toda.
Os dois concordaram com um aceno de cabeça. Robert bateu à porta, que se abriu um instante depois.
— Ladrões! — O velho mordomo assustou-se. Robert forçou a passagem. O idoso recuou aos tropeções e tentou golpeá-lo com a bengala, mas Robert a interceptou, torceu-a e a tomou com facilidade.
— Entre aí. — Apontou a despensa da sala íntima, e o homem obedeceu. — Vocês dois! — Robert, apontando a bengala como se fosse uma pistola, avançou contra os dois lacaios que vinham da área de serviço. — Entrem no armário também. Rápido!
— São seis criados ao todo — Wycliffe avisou, segurando o mordomo.
— E vocês são só três... — o lacaio mais corpulento ameaçou, brandindo os dois punhos cerrados.
— Não queremos machucar ninguém, mas não atrapalhem! — Robert se impacientou, alerta.
— Caiam fora! — O lacaio desferiu um soco. Robert abaixou-se e o golpeou na têmpora com a bengala, jogando-o, desfalecido, ao chão.
— E você, prefere entrar ou cair? — Dirigiu-se ao segundo lacaio, que, andando de lado, entrou na despensa.
Tristan arrastou o empregado caído para dentro do depósito.
— Faltam três. — Robert foi á cozinha, ao fim da área de serviço. — Vá ver lá em cima.
Tristan seguiu escadaria acima, enquanto Wycliffe vigiava os três na despensa. Os criados não deviam conhecer as atividades de Geoffrey, mas não podiam ficar soltos para não irem buscar reforços. A revista tinha de ser rápida, antes que Geoffrey voltasse.
O cozinheiro e o copeiro lavavam panelas na cozinha e, dessa vez, bastou a postura ameaçadora de Robert para que se convencessem a entrar na despensa, junto com os demais. Dare desceu as escadas, trazendo à frente a governanta apavorada. Com todos dentro da despensa, Wycliffe os trancou e pôs uma barricada em frente á porta da despensa.
— Vamos encontrar esses malditos documentos murmurou, resoluto.
— Bonito baio — Geoffrey comentou, tão próximo de Lucinda que seu hálito a aqueceu no rosto.
— É lindo — ela concordou, usando toda a força de vontade para não se afastar dele. — Mas já o vi em algum leilão anterior, não?
— Já. Ele derrubou lorde Rayburne na semana passada, e no outono mordeu o filho de Totley.
— Nesse caso, talvez um pouco indócil para meu pai. Ela vira Bradshaw instantes atrás em uma sacada, acompanhado de belas mulheres de reputação duvidosa. Com St. Aubyn por perto, e Shaw à espreita, devia sentir-se absolutamente segura. Mas tinha de levar em conta que aquele homem a seu lado estivera em sua casa, conversara com seu pai, mentira fartamente, beijara-a e ainda a pedira em casamento.
E, segundo a opinião geral, o que faltava confirmar, furtara documentos que poderiam deflagrar uma guerra e espalhara um boato para prejudicar um semelhante. Por quê? Robert fora uma vítima escolhida, ou uma ferramenta útil?
De um jeito ou de outro, o processo de incriminá-lo estava em andamento.
— É interessante domar um animal indócil — Geoffrey comentou.
Lucinda olhou o cercado em frente, repleto de cavalos. Estaria Geoffrey falando em termos genéricos, ou teria feito uma insinuação a respeito dela?
— Espera ser nomeado para um posto na Índia, não? — Evelyn perguntou, vivaz.
— Isso mesmo. Wellington serviu lá e não reclamou.
— Levaria sua esposa?
— Eu gostaria de tê-la ao meu lado. — Geoffrey fitou Lucinda.
Ela entreouvira a conversa quando o pai deixara claro que a decisão de acompanhá-lo à Índia seria dela. Mas não podia tocar no assunto para não se denunciar.
Estranho, porém, que não sofrera com a possibilidade de o futuro marido passar anos na Índia sem ela, enquanto a perspectiva de Robert ir embora de Londres a deixava arrasada.
Ainda bem que aquela conversa era um faz-de-conta. Forçou um sorriso.
— Ouvi coisas encantadoras sobre a Índia. As especiarias, a música... O general vai gostar muito, tenho certeza.
Algo passou pelos olhos verde-esmeralda.
— O general Barrett, na Índia? Ele será bem-vindo, óbvio, mas duvido que goste de lá. Sem os amigos, não vai ter a quem contar suas memórias.
— Mas eu e você estaremos lá — reforçou Lucinda.
— Claro que seria uma honra hospedar um oficial superior com a reputação do general. Porém ele não é mais tão jovem. Não creio que vá se sentir à vontade em um lugar tão distante e exótico. A própria viagem de navio é sacrificada.
Que interessante. A presença do general, homem honesto e probo, na certa não facilitaria as coisas para um genro recém-formado major, que, aparentemente, pretendia enriquecer às custas de contrabando, coerção e especulação.
— A viagem é assim, tão sacrificada? Nossa... Se é assim, também não sei se vou me sentir à vontade.
Ele sorriu, evasivo.
— Esse assunto é para ocasião mais propícia.
— Quero apenas conhecer seus planos, Geoffrey. Você pouco me falou deles. Se quer se casar comigo, devo, no mínimo, ter o direito de saber onde vou morar.
— Você é filha de um general, está acostumada ao estilo de vida militar.
— Eu era muito criança quando meu pai combateu no continente. Fiquei com minha tia, e freqüentei várias escolas para moças. Ele não queria me ver morando em casernas.
— Sua demora em responder ao meu pedido de casamento não era por causa dos problemas de Carroway, e sim porque, na verdade, não quer se casar comigo?
Mais essa! Ela o provocara sem querer, pois, suspeitando dele, sua irritação fora aumentando a cada frase que ele dizia.
— Eu não disse isso. Só queria saber dos detalhes.
— Olhe, Lucinda, aquele baio é maravilhoso — Evelyn interveio.
— E quis conversar sobre isso logo aqui? — Geoffrey insistiu, meio ríspido, ignorando a amiga dela.
Lucinda comprimiu os lábios.
— Você acabou de dizer que gostava de domar animais indóceis... — ela retrucou, tentando virar o jogo. — Como devo interpretar sua afirmação?
— Responda-me uma coisa, Lucinda. — Ele segurou o braço dela com força. — Depois que esta confusão com seu amigo acabar, vai aceitar meu pedido de casamento, ou está me provocando apenas para divertir seus amigos?
Ela não teve tempo de interpretar o que Geoffrey dizia no olhar, pois ele simplesmente se virou e se afastou a passos largos.
— Geoffrey! — ela o chamou, aflita. — Aonde você vai?
— Você exagerou, não? — St. Aubyn sussurrou, discreto.
— Se eu agisse com displicência, ele desconfiaria. Ansiosa, Lucinda olhou para o lugar onde estava Bradshaw. Ele desaparecera. Tomara tivesse ido avisar Robert que Geoffrey, talvez, estivesse a caminho de casa.
— Sou uma idiota!
— Não, não é — Evelyn contestou. — Você está certa. Ele ia desconfiar mesmo que nós o estávamos retendo aqui sem motivo. Por isso Bradshaw estava de olho em nós.
— Como vocês vieram? — St. Aubyn as guiou pelos braços, afastando-as dos cercados.
— Num coche, onde minha aia está esperando. Ele não vai descontar nela, vai?
— Creio que não. Mas vai mandá-la sair, e isso pode demorar algum tempo. Shaw está a cavalo: terá uns cinco a seis minutos de dianteira à frente de Newcombe. Espero.
— O que vamos fazer?
Lucinda ainda se culpava. Devia ter agüentado quieta mais um pouco.
Céus! E se os três ainda não tivessem encontrado os documentos? Robert corria o risco de ser exposto e incriminado.
— Você disse que seu pai tinha uma reunião hoje de manhã? — St. Aubyn perguntou.
— Tinha, sim, na Guarda Real Montada.
— Vamos lá visitá-lo. Se Geoffrey tem os documentos e pretende incriminar Robert, terá que mostrá-los para alguém.
— Não estão aqui também — Robert resmungou e levantou a máscara.
Maldição. O escritório estava imaculado, como se jamais frequentado, embora não estivesse em bom estado de conservação. Na biblioteca, os livros também pareciam em ordem.
Agora estavam espalhados no chão, e assim iam ficar, para compensar a desordem que aquele infeliz fizera em sua vida.
— No armário também não estão. — Tristan levantou-se e olhou para Wycliffe, que vasculhava em vão os livros e papéis espalhados na estante de carvalho.
— Estão aqui, em algum lugar! — Robert exclamou.
— Se você tem em casa documentos que podem render muito dinheiro ou pô-lo na prisão, vai querê-los por perto, para não correr o risco de alguém encontrá-los por acaso. E num lugar tal a que os criados não tenham acesso, e que não o obrigue a se expor quando for consultá-los ou pegá-los.
— Disso se deduz que ainda faltam muitos lugares possíveis — Tristan observou, limpando as mãos na calça.
Robert andava de um lado para outro, imaginando a planta baixa do lugar. Era uma casa pequena, alugada, indício de que Geoffrey não estava com os bolsos muito cheios.
Mesmo assim, ele se proclamava um herói de vasta reputação... Herói que, para ser promovido a major, pretendia casar-se com a filha de um general ou deflagrar uma guerra.
— A farda — Robert lembrou-se, indo para a escadaria.
— Onde ele guarda a farda?
— Que farda? — Tristan duvidou.
— Ele ainda está no Exército. Deve estar em algum armário, pronta para ser usada em uma ocasião especial...
— Uma entrada triunfal na prisão, por exemplo — o irmão ironizou, seguindo Robert de perto até os aposentos de Geoffrey. — Não seria meio esquisito guardar documentos em uma farda?
— Não para quem vê nela um meio de ser promovido.
— Estou quase acreditando nisso, mesmo sem ter encontrado nada ainda — acrescentou Wycliffe.
— Já pensei muito no assunto. — Robert abriu a porta do quarto.
Para um rendimento modesto, a quantidade de guarda-roupas na suíte surpreendia e explicava onde lorde Geoffrey gastava todo o seu dinheiro.
— E eu pensando que Georgiana tivesse roupas demais! — Tristan murmurou, dirigindo-se ao armário mais distante.
Robert abriu o mais próximo e procurou entre casacas, coletes, calças e calções. As camisas deviam estar em outro armário. De joelhos em frente às gavetas de baixo, encontrou meias e cachecóis, mas nenhum uniforme.
No silêncio da casa, o som da porta da frente se abrindo teve o efeito de um tiro. Ele se aprumou rapidamente e foi ao corredor. A idéia de arrancar a confissão de lorde Geoffrey a sopapos começava a fazer sentido.
— Tem algum ladrão aqui? — Era a voz de Bradshaw.
— Aqui em cima! — Robert o chamou, debruçado na balaustrada.
— Ele está vindo... — Bradshaw ofegava. — E parece zangado.
— E Lucinda?
— Ficou lá. — Shaw subiu a escadaria. — Parece que tiveram uma discussão, e ele se retirou. Foi direto para a carruagem. Deve chegar aqui em minutos.
— Achei uma coisa! — Wycliffe alardeou.
Robert correu de volta ao quarto, onde o duque puxava um baú raso de carvalho debaixo da cama.
— Está fechado a chave.
— Se a farda estiver aí dentro, a chave deve estar com Geoffrey.
Robert examinou a fechadura, que era de boa qualidade. Quando tivera a extrema sorte de escapar do Castelo Pagnon, usava apenas a calça e a camisa rasgadas e sujas de sangue. Mesmo que o uniforme estivesse inteiro, ele o teria queimado, tal fora o desgosto que este lhe trouxera.
Geoffrey, ao contrário, tinha orgulho do prestígio que a farda lhe trazia...
— Tem que estar aí.
— Vamos levar o baú — Bradshaw sugeriu.
— Não há tempo. — Robert pegou a pistola na cinta.
— Para que trouxe isso? — Bradshaw interpelou.
— Imprevistos...
Robert armou o gatilho e disparou, sem rodeios. Não fazia aquilo havia quatro anos, mas sua pontaria ainda estava boa.
Abriu a tampa. Ali dentro jazia, agora com um furo no lado esquerdo da casaca muito bem passada, uma farda de capitão.
— Um tiro perfeito. Bem no coração... — Wycliffe pegou o paletó e o sacudiu.
Imediatamente, folhas de papel adejaram para o chão. Robert cerrou os olhos por um instante. Ele estava certo!
Agora precisava encontrar os mapas também, não só para incriminar Geoffrey, mas para não levar a Inglaterra a outra guerra contra Napoleão.
— É a lista! — Tristan constatou com raiva. Ingleses simpatizantes de Napoleão. Pena não podermos ficar com ela por alguns dias, para irmos visitar uns e outros...
Robert vistoriou a farda com mais atenção e tocou um pergaminho enrolado debaixo da espada. Retirou-o. Ali estava, diante de todos, com distâncias, cotas e a planta do forte local, a ilha de Santa Helena.
— Os mapas! Você conseguiu! — Exultante, Tristan sacudiu o ombro de Robert.
— Vamos embora — Bradshaw sugeriu. — Não me incomodo de ser herói, mas não quero ser preso por furto e agressão contra criados.
— Estão trancados na despensa — Tristan informou, empilhando os papéis e colocando-os debaixo do braço.
Desceram a escadaria, saíram pela porta da frente e se dirigiram às montarias. Não havia sinal de Geoffrey, que certamente iria zangar-se quando chegasse.
— Preciso desses papéis — Robert pediu, antes de montarem, estendendo a mão para Tristan.
— Vou levá-los para a Guarda Real Montada — Tristan contestou. — Não se preocupe, Bit. Agora basta que vá para algum lugar onde possa estar em segurança.
— Esses papéis não vão para a Guarda Real Montada.
— Como? — Wycliffe arregalou os olhos.
— Lorde Geoffrey conseguiu acesso a esses documentos por intermédio do general Barrett, cuja carreira podemos destruir se os entregarmos diretamente aos seus superiores.
— Pensei que não gostasse muito do general Barrett.
— E não gosto. — Robert pegou os documentos das mãos de Tristan, dobrou-os e os guardou em seu blusão de vaqueiro. — Mas gosto da filha dele.
Prejudicar o general seria o mesmo que prejudicar Lucinda, e Robert não queria isso. A animosidade entre eles era uma questão pessoal. Ele não queria destruir um homem que, aos olhos de todos, era honrado e honesto.
— Vamos à casa do general?
— Não. — Robert montou Tolley. — Eu vou sozinho. Vocês vão para a Mansão Carroway, e estejam preparados, ou para informar às autoridades que fugi para os Estados Unidos, ou para testemunhar o fato de termos encontrado os documentos com Geoffrey, no baú da farda.
—Você manda, Bit. — Tristan suspirou. — Mas tenha muito cuidado.
— Terei.
Robert respirou fundo. Sua integridade dependeria de como o general Barrett receberia a notícia. Contudo ele estava disposto a correr o risco. O que estava em jogo não era o apenas o futuro de Geoffrey ou o seu, mas também a felicidade da filha dele.
Lucinda percebeu, no rosto das sentinelas, que Evelyn não era bem-vinda na Guarda Real Montada, mesmo em companhia da filha do general Barrett. E a presença de St. Aubyn os deixara ainda mais nervosos.
Sentiu-se até aliviada em saber que o pai já fora embora. Ele também não gostaria de vê-la em tais companhias.
— Ele deve estar em casa. — Ela entrou no coche, amparada por St. Aubyn. — Melhor assim, pois posso conversar com ele a sós e ver se o chamo à razão. Se entrarmos todos de uma vez, meu pai pode ficar na defensiva.
— Não deveria enfrentá-lo sozinha. — Evelyn evidenciava no rosto rugas de preocupação.
— O problema não é enfrentá-lo, é conseguir que ele seja receptivo.
Lucinda esperava que, naquele grandioso esquema de Robert, alguém tivesse a incumbência de vir avisá-la que ele encontrara os documentos e saíra a salvo da residência de Geoffrey.
— Está se arriscando, Lucinda. — St. Aubyn dirigia a carruagem. — Se acusar Geoffrey, não tem como voltar atrás. E Robert não estará em posição de defend...
— Ela sabe, Santo. — Evelyn o interrompeu, pondo sua mão sobre a do marido.
Lucinda agradeceu o voto de confiança. Sabia que acusar Geoffrey era uma questão grave. Quanto a Robert, o que a deixava insegura não era sua capacidade de desmascarar Geoffrey, mas a possibilidade, depois de fazê-lo, de ele voltar às trevas, para dentro de si mesmo.
Em frente à casa de Lucinda, a carruagem parou.
— Tem certeza de que não precisamos esperar aqui? — Evelyn insistiu.
— Tenho.
— Se eles encontrarem os documentos — St. Aubyn acrescentou —, é provável que vão diretamente à Guarda Real Montada. De lá devem chamar seu pai para ver as provas.
— Ao menos posso deixá-lo preparado para a notícia. — Lucinda desceu da carruagem acompanhada de Helena.
— Então, boa sorte. Nós vamos para a Mansão Carroway, onde o resto da ação vai se desenrolar. — Ao comando de St. Aubyn, a carruagem tomou o caminho da estrada.
— O general está no escritório — Ballow avisou, abrindo a porta e pegando o xale de Lucinda. — Há alguma coisa errada, senhorita.
O que seria? Era muito cedo para algo ter acontecido. Ela rumou para o escritório, apressada. A porta estava trancada.
— Papai! — Bateu, nervosa. — Preciso falar com o senhor.
Passos pesados aproximaram-se. A porta rangeu e se abriu.
Lucinda se deteve ante a fisionomia grave e zangada do general.
— Também preciso falar com você. — Ele se afastou de lado para que ela entrasse.
— O que está havendo? — Mal perguntou, conteve-se, perplexa. Apoiado no peitoril da janela, estava Geoffrey. — Geoffrey? — Ela procurou o que dizer. — Por que me largou em Tattersall? O que está fazendo aqui? O que está havendo, afinal?
— Eu já estava de saída. — Ele se despediu dela com um frio aceno de cabeça ao rumar para a porta.
A primeira coisa que ocorreu a Lucinda foi que, se Geoffrey estava ali, Robert teria mais tempo para a revista.
— Eu o ofendi de alguma maneira? No vão da porta, ele parou para fitá-la.
— Você me decepcionou. Eu a tinha em alta conta. Saiu, então, e ela se voltou para o pai, que a fitava, lívido.
— Você me enganou — ele disse, calmo. — Pediu-me para esperar, e usou o prazo que eu lhe dei para magoar alguém que considero amigo, e que eu esperava fosse mais que um amigo para você.
— O que ele andou contando para o senhor? Geoffrey não poderia saber o que estava acontecendo.
Caso contrário, teria ido diretamente para casa, e não vindo conversar com o general.
A menos que os documentos não estivessem lá, ou estivessem tão bem escondidos que seria impossível achá-los. A menos que ele já tivesse tomado as providências necessárias para se proteger.
— Ele disse — o general falava alto, e nem fechara a porta — que você conspirou com seus ditos amigos para afastar as suspeitas de Robert Carroway, e incriminá-lo do roubo na Guarda Real Montada.
— Eu...
— Contou também que Carroway planejou plantar as provas na casa dele, e por esse motivo ele teve que vir aqui para me contar.
O que não faltava a Geoffrey era coragem. O sabor de verdade de sua justificativa tomava muito difícil refutá-la,
— Papai, há muito mais por trás disso do que o senhor possa imaginar.
— Do que eu possa imaginar? Suponho que trinta anos no Exército de Sua Majestade, e três anos no estado-maior da Guarda Real Montada não valham nada em comparação aos planos dos seus amigos.
— Não é bem assim...
— Perdão, senhor, mas o senhor não tem permissão de entrar nesta casa. — Era a voz de Ballow, transtornado.
Lucinda voltou-se a tempo de ver Robert empurrar o mordomo contra a porta e irromper saguão adentro com um olhar de vitória. Depois de um instante de exultação, porém, ela entrou em pânico pois, se ele tivesse encontrado os documentos, devia ter ido diretamente à Guarda Real.
— Robert! — ela exclamou, trêmula. — O que está fazendo aqui?
— Lucinda. — Ele parou ao lado dela, os olhos fixos no pai dela. — Preciso conversar com o general Barrett, a sós.
— Saia já da minha casa, seu patife! Não tome minha paciência por tolerância!
— Lucie, espere por nós na biblioteca, por favor.
— Está tudo bem? — Ela tocou a manga da camisa de Robert.
— Vai estar... em breve.
Ele esperou Lucinda afastar-se, depois encarou o general.
— Vamos para seu escritório, ou conversamos aqui mesmo?
— Não vamos a lugar nenhum. Não me force a enxotá-lo pessoalmente, Carroway. Tenha a dignidade de sair com os próprios pés!
— É o que farei, daqui a pouco. Por favor... — Robert indicou o escritório, tentando ocultar a raiva.
O general Barrett o avaliou. Mascar vidro seria mais fácil do que enfrentar o homem à sua frente, concluiu, depois de considerar os dez centímetros de altura a mais de Robert, e os vinte e cinco anos de diferença entre eles.
— Dois minutos.
Robert o seguiu, entrou e fechou a porta.
— Você é um traidor, Carroway. Não vai me convencer do contrário. Portanto, a menos que me mate, o que não recomendo em vista da quantidade de testemunhas presentes, é melhor que vá embora. Não só daqui, mas deste país. E o único favor que posso fazer a você, e apenas por Lucinda.
— Em abril de 1814 — Robert fitou o amontoado de papéis em cima da escrivaninha —, o senhor comandava uma divisão do Exército no cerco a Bayonne.
— Sei onde eu estava, não precisa me lembrar.
— Preciso, sim. Napoleão tinha sido derrotado, o cessar-fogo fora declarado... Mas o senhor sabia que o General Thouvenot ainda resistia em Bayonne, e que ele pretendia atacá-lo segundo o depoimento de prisioneiros franceses.
— Não era uma informação fidedigna.
— Por isso, à noite, o senhor enviou uma patrulha de reconhecimento até as trincheiras francesas?
— Correto. Mas o que...
— Era a minha patrulha, general Barrett. — Robert teve que cerrar os punhos para manter-se calmo. — Mil franceses contra quinze ingleses, que morreram sem esboçar defesa... Quanto a mim, espancaram-me e levaram-me desacordado.
— Fui informado de que todos os soldados da patrulha tinham sido dizimados. — O rosto do general desbotara.
— Todos... menos um. Vinte dias depois que o senhor o forçou a recuar para Bayonne, Thouvenot admitiu a abdicação de Napoleão, e a guerra terminou. — Robert fitou os olhos do general. — Mas não para mim. Os ocupantes do Castelo Pagnon não se renderam e, no entanto, o Exército inglês nunca tentou tomá-lo. A resistência tramava a fuga de Napoleão. Queria saber sobre o senhor, comandante da minha divisão, e sua família. Pensavam inclusive em matar ou chantagear comandantes ingleses.
— O senhor...
— Eu não disse nada, general. Até que, sete meses depois, quando percebi que não agüentaria muito tempo mais, e depois de presenciar atrocidades inesquecíveis, simulei atacá-los para que me matassem. A tentativa valeu a pena. Pensaram que eu tivesse morrido e despejaram-me lá fora, por cima do muro do castelo. A resistência espanhola me encontrou dois dias depois e me cobriu com ataduras. Eu sobrevivi.
Fora tudo bem pior, mas de nada adiantaria entrar em detalhes, os quais ele guardaria consigo para sempre. Ele não era traidor. Mas precisaria convencer o general Barrett.
— Está me culpando pelo que lhe aconteceu? — A voz do homem saiu rouca de sua boca ressecada. — Foi por isso que...
— Sim, eu o culpei, mas não quero me vingar. E muito menos reiniciar a guerra. O que aconteceu comigo, não desejo para ninguém. Mas preciso que me ouça, e com atenção. Não por mim, ou pelo senhor, mas por Lucinda. Sem interrupções ou contestações, até eu terminar. Fui claro?
— Foi. Se é a única maneira de me livrar de você. —A voz faltava convicção, mas a rispidez voltara ao semblante do general.
— É a única. Em primeiro lugar: entre o desaparecimento dos documentos e a notícia do roubo, quanto tempo se passou?
— Um dia.
— Depois que o senhor contou a lorde Geoffrey Newcombe que eu estive preso no Castelo Pagnon, em quanto tempo a notícia veio à tona?
— Não sei.
— Responda à pergunta, por favor.
O general pensou. Havia relutância em seu olhar.
— Doze horas, talvez menos.
— Como vê, transformei-me em um excelente bode expiatório, general, mas não fui eu quem roubou os documentos da Guarda.
— E acha que foi Geoffrey.
— Eu sei que foi ele. — Robert pegou de dentro do paletó os papéis e cópias, e os abriu sobre a mesa do general. — Encontrei-os há pouco, no baú da farda de Geoffrey. O duque de Wycliffe pode testemunhar, se for necessário.
— Você os colocou lá! Geoffrey me alertou que você tentaria inculpá-lo do roubo.
— Por quê? O que eu teria a ganhar?
— E Geoffrey, o que teria a ganhar? — rebateu o general.
— Geoffrey quer um posto de comando na Índia. No momento, ele não passa de um soldado competente, com um nome importante. Poderia se casar com Lucinda e ser promovido, mas, para isso, ela precisaria concordar. Assim, Geoffrey precisaria de garantias. Com estes documentos em mãos, poderia vendê-los para conseguir dinheiro... ou reiniciar a guerra contra Napoleão. Num ou noutro caso, ele conseguiria o que quer.
— E seu envolvimento nisto? — quis saber o pai de Lucinda, fitando-o com olhos estreitos.
— Como já afirmei, não passei de um bode expiatório para Newcombe. Não sou muito popular, além de um rival em potencial em relação a Lucinda. Mas a pergunta mais pertinente no momento é: qual o seu envolvimento nisso tudo, general?
— Está me acusando? — O general levantou-se abruptamente.
— Não, não estou. Mas o acesso de Geoffrey à Guarda Real Montada deu-se por seu intermédio, e, como ele alardeia que o senhor é o mentor dele, o caso pode trazer-lhe repercussões adversas.
— Ele esteve aqui há pouco — Barrett falou quase consigo. — Dizendo que Lucinda e as amigas estavam conspirando contra ele, e a seu favor. Essas amigas de Lucinda, eu me lembrei depois, casaram-se também com verdadeiros tratantes: Dare, e um tal de St. Aubyn... Não sei por que resolveram não gostar de Geoffrey. Lucinda gosta dele... ou gostava.
— Gostava. — Robert levantou-se, controlado. — Bem, além dos documentos recuperados, o senhor tem a minha história para opor à de Geoffrey, e sua própria reputação em jogo. Vou para a biblioteca... Espero lá por sua decisão.
— E, para depois de desacreditar a Geoffrey e a mim, sair por aí, lampeiro, debochando de nós...
— Não, porque não quero magoar Lucinda. — Robert se perguntou se o general estaria dando a devida importância a esse detalhe. — Vou acatar sua decisão. Só peço, se o senhor me julgar culpado do ocorrido, para não envolver minha família na acusação.
Apesar dos riscos, inclusive o de ser levado dali por um pelotão, Robert sabia que a decisão cabia ao general Augustus Barrett.
Lucinda encontrava-se sentada no sofá da biblioteca, olhando para fora. Tinha as articulações dos dedos muito brancas, e quase vibrava de tão tensa, mas, para quem não a conhecesse, era o espelho da tranqüilidade.
— Lucinda... — Robert entrou.
— Como foi a conversa? — Ela se levantou rapidamente e cravou os dedos nas mangas da camisa dele. —Você encontrou os documentos? Geoffrey esteve aqui. Não sei o que contou ao meu pai, mas ele tentou culpar...
Robert inclinou-se e a beijou nos lábios. Imediatamente, sentiu-a ardente, viva. Totalmente diferente do momento em que a vira na presença do general.
— Encontrei.
— Ainda bem! — Ela o abraçou, trêmula. — Eu estava tão preocupada... Quando vi Geoffrey aqui, não sabia o que pensar
Ele recuou para fitá-la. Ficava cada vez mais difícil se lembrar de que sua vida era tão insípida antes de Lucinda, cuja compreensão e beleza tinham-na coberto de cores. Se o incidente tivesse ocorrido no ano anterior, ele teria ido embora. Naquela ocasião, nada importava para ele. Mas a esperança de Lucinda o comovera.
Ali, abraçada a ele, parecia tão frágil que poderia desvanecer no espaço se ele cerrasse os olhos. Mas ela era forte, amorosa e sincera.
Robert pensou em dizer a ela o quanto a amava, mas não seria justo. Lucinda queria casar-se com alguém simples e amistoso, que o pai aprovasse, e esse alguém não era ele.
— Robert — ela sussurrou, preocupada —, o que houve?
— Nada. — Ele sorriu forçado. — Deixei a decisão para seu pai.
— O que disse a ele?
— Não posso contar, Lucinda, foi uma conversa entre dois soldados.
O general pigarreou e os dois se viraram ao mesmo tempo. O pai dela observou os braços de Robert em torno da cintura de Lucinda, os dela segurando os ombros dele com ânsia. Robert teria se afastado se ela não o tivesse impedido, segurando-o pela nuca.
— Lucinda — o general tinha mas mãos os documentos roubados —, o sr. Carroway e eu temos de sair.
A respiração dela paralisou. Sentiu os músculos de Robert se contraírem sob seus dedos, mas ele não se moveu. Sobre o que teriam conversado? Qual teria sido a decisão de seu pai?
Com medo, não quis deixá-lo ir, sentindo que talvez nunca mais pudesse abraçá-lo de novo.
— Aonde vocês vão? — ela perguntou.
— A Guarda Real Montada.
— Não, papai, não foi Robert!
— Sei que não. — Ele olhou para Robert, depois para ela. — Lucinda, você me faria um favor?
Ela chegou a pensar, pela primeira vez na vida, em perguntar que favor, antes de concordar. Mas lembrou-se da eterna confiança que sempre tivera no pai.
— Por certo que sim.
— Deduzo que os demais conspiradores estão na Mansão Carroway, não?
— É lá que se reúnem. — Robert aquiesceu.
— Pois bem. Lucinda, quero que vá até lá e peça aos seus amigos para localizarem Geoffrey Newcombe. Não quero que façam nada: apenas que o localizem e retornem à casa dos Carroway. Robert e eu estaremos lá em breve.
— O senhor promete?
— Prometo. Ainda está em tempo de eu tomar a atitude correta.
— Vou pegar meu chapéu. — Lucinda correu escada acima.
— O senhor sabe o quanto essa atitude correta pode lhe custar? — Robert ponderou.
— Se acharem que a culpa foi minha, enfrentarei as conseqüências. Eu não deixaria Geoffrey impune para me safar.
Robert esperara, na melhor das hipóteses, que Geoffrey fosse enviado a uma viagem inesperada à Austrália ou aos Estados Unidos, e que os documentos, num passe de mágica, aparecessem de novo na Guarda Real Montada. Passara anos a fio observando o general em busca de atos e atitudes que ilustrassem a tirania e a covardia características de quem enviara uma patrulha de reconhecimento para uma emboscada fatal. Agora, ao que parecia, tinha sido rigoroso demais.
— Vou de coche com Helena. — Lucinda ofegava, ansiosa. — Vamos começar as buscas.
— Tome cuidado, Lucinda — Robert a lembrou.
Já quase saindo, Lucinda deu meia-volta, aproximou-se dele, puxou-o pelos cabelos e aplicou-lhe um sonoro beijo.
— Tome cuidado, você.
O general fitou Robert, inquisitivo, porém ele lhe respondeu com um olhar sereno. O homem que tirasse suas conclusões. O que se passava entre ele e Lucinda dizia respeito só aos dois, a ninguém mais.
O general Barrett mandou arrear sua montaria, e, junto com Robert, rumou para a Guarda Real Montada. Robert não falava porque não queria. Barrett, porque pensava, absorto.
— Recebemos informações contraditórias — Barrett rompeu o silêncio de repente. — Disseram-nos que Thouvenot poderia invadir a cidade de Saint Etienne na manhã seguinte, por isso mandei levantar a movimentação das tropas e a localização dos canhões. Se eu soubesse, não teria enviado a patrulha.
Não era um pedido de desculpas. Se fosse, Robert não o teria aceitado.
Mas aquiesceu com um gesto de cabeça, manifestando compreensão.
— O que contei ao senhor sobre o Castelo Pagnon deve ficar entre nós.
— Combinado. É melhor esperar no saguão — Barret aconselhou com um suspiro. — Ainda não o conhecem bem por aqui.
Ao descer da própria montaria, Robert notou os olhares desconfiados das sentinelas. O general Barrett entrou no prédio com os documentos nas mãos e, consigo, Robert pensou que estaria mais à vontade perto de Tolley, pois poderia ter de fugir de repente. Além do mais, aquele pátio fechado, onde se realizavam as paradas militares, lembrava muito uma prisão.
Desejou que o general fosse breve e convincente, para logo decidirem o que fazer com Geoffrey.
Depois, ele pensaria em como evitar que Lucinda dedicasse suas futuras aulas a outra pessoa.

— Bit foi à Guarda Real Montada? Espontaneamente? — Tristan perguntou.
Lucinda tentava normalizar a respiração. Nunca conduzira tão rápido, mesmo assim aquém da necessidade.
— Meu pai prometeu vir o mais rápido possível. Precisamos localizar Geoffrey.
Estavam presentes Evelyn e St. Aubyn, Wycliffe, que permanecera com o grupo, os irmãos Carroway e Georgiana, aglomerados na enfeitada, e agora apertada, sala íntima.
— Vamos em pares — Bradshaw sugeriu. — Assim, se o acharmos, um poderá vir avisar, e o outro ficar de olho nele.
— Boa idéia — Dare concordou. — Wycliffe e eu, Shaw e Andrew, Santo e...
— Eu também vou — Lucinda declarou, decidida. — Sei onde procurar.
— Nós também sabemos — acrescentou Evelyn.
— Eu vou também! — Edward gritou.
— Com sua licença, milorde. — Dawkins entrou na sala depois de bater à porta. — Também sou voluntário, além de todos os criados e cavalariços.
— Precisamos agir com rapidez — incitou Wycliffe.
— Quando Geoffrey chegar em casa, vai saber que encontramos os documentos. Deve estar a meio caminho de Bristol agora.
— Acho que não — Lucinda contestou. — Ele estava muito confiante em ter transferido a suspeita de volta para Robert. Só correria se fosse culpado. É mais provável que esteja tentando nos prejudicar ainda mais, ou insuflando a corte criminal para executar Robert como traidor da pátria.
— Não vamos tirar conclusões precipitadas. — Embora preocupado, Tristan tentou amenizar a situação. — Muito bem. Dawkins fica aqui para receber as informações que forem chegando. Os cavalariços e lacaios serão os nossos mensageiros, mas Georgie deve ficar em casa.
— Eu vou com Evie e Lucinda — contrapôs a viscondessa.
— Miúdo vai comigo. — St. Aubyn afagou os cabelos de Edward.
— Mas aonde nós vamos? — Edward quis saber.
— Eu vou ao White's, já que metade dos Carroway foi banida de lá. E ao clube — Wycliffe se ofereceu.
— Nós vamos aos outros clubes. — Dare deu um tapinha de cumplicidade no braço de Andrew. — E à casa dele, caso ainda esteja lá.
— Bond Street? — Evelyn sugeriu, e Lucinda concordou.
Geoffrey poderia querer ir lá para comprar um presente para Lucinda como desculpa por seu último comportamento. Além disso, lá estaria boa parte da população feminina de Mayfair, ou seja, ouvidos solidários para com as queixas do belo capitão Geoffrey.
— Piccadilly — St. Aubyn declarou.
— Eu fico com Covent Garden. — Bradshaw vestiu as luvas de cavalgar.
Foram todos para a cocheira. Georgiana, ao subir na carruagem de Lucinda, amparada por Dare, olhou o roseiral de Robert: uma muda já apresentava alguns brotos. Sorriu para o que lhe pareceu um bom presságio.
— Vocês três, tenham cuidado — Dare alertou-as.
— Se Geoffrey estava disposto a trair nosso país, não vai hesitar em agredi-las.
— Duvido. Não passa de um covarde. — A mulher dele segurou as rédeas e entoou o ruído de partida para sua parelha cinza, que saiu em passo de trote.
Evelyn, no banco de trás, debruçou-se entre as duas.
— Georgiana, adivinhe o que eu vi em Tattersall...
— Evie! — Lucinda corou. — Estamos trabalhando.
— O quê? — Georgiana insistiu em saber.
— Vi duas pessoas se beijando... E não era um beijo comum. Os dois estavam quase se engolindo!
— Que exagero! — Lucinda reclamou, ruborizando ainda mais.
Georgiana a fitou surpresa, mas a compreensão tomou-lhe os olhos verdes.
— Você e Bit — concluiu, calmamente.
— Não sei como aconteceu — ela gaguejou. — Ele é extraordinário. Muito mais do que ele próprio imagina.
— Devia ter me contado! — Georgiana reclamou.
— É sério?
Tão sério que ela sonhava com ele todas as noites, pensava nele o dia inteiro. Se Robert precisasse sair do país, iria com ele, ou iria ao seu encontro depois.
— Prefiro que isso fique entre mim e Robert. Olhem, chegamos! — Lucinda respirou, aliviada. — Geoffrey montava um alazão quando deixou nossa casa.
— Vamos até o fim da rua primeiro, depois voltamos a pé.
Ao primeiro olhar, não viram Hércules, o cavalo de Geoffrey, mas havia muitas alamedas e ruas laterais onde um homem poderia amarrar seu cavalo.
Ao fim da rua, pararam. Lucinda e Evelyn saltaram para o chão, e Georgiana desceu quase se arrastando.
Lucinda ficou com todos os sentidos em alerta ao entrar na zona do comércio, pois queria ser a primeira a encontrá-lo. Geoffrey tentara destruir Robert, cortejara-a, beijara-a, pedira-a em casamento, e ao mesmo tempo tentara vender informações confidenciais para a França que poderiam reiniciar a guerra...
Outra guerra, da qual outras pessoas sairiam tão feridas quanto Robert.
— Lucie, vá mais devagar. — Evelyn pediu logo atrás, onde ia de braço dado com Georgiana.
Ela olhou por cima do ombro, justificando-se:
— Não quero dar a ele a oportunidade de fugir. Quando olhou à frente de novo, parou tão de repente que as duas quase esbarraram nela.
— Ele está ali — sussurrou, nervosa.
As abas do fraque cinza de Geoffrey sumiram dentro de uma numa loja de doces. As três recuaram, escondendo-se numa alameda.
— Tem certeza de que era ele?
— Absoluta!
— Para poupar Georgie, vocês duas esperem aqui. Eu vou avisar Dawkins e volto assim que puder — Evelyn propôs, e correu para a carruagem.
— Temos que ficar de olho nele — Georgiana insistiu. — Se Geoffrey desaparecer antes de chegar alguém, vamos ter que começar tudo de novo.
Lucinda inspirou fundo, tentando normalizar a palpitação irregular do coração. Estava preocupada também com Georgiana, já no oitavo mês de gravidez.
— Por que não espera aqui, e eu vou segui-lo?
— Vou com você.
— Ora essa, por que não damos uma volta, nós três? — A voz de Geoffrey veio da entrada da alameda. Lucinda olhou para Georgiana, e percebeu que não se atemorizara. Estava, sim, furiosa, pois ocupava um lugar especial no coração de Robert, que Geoffrey ameaçava.
— Geoffrey! — falou com surpreendente firmeza. — Ainda bem! Georgie está com vertigens... Pode nos ajudar ou ainda está muito zangado comigo?
— Claro que posso ajudar.— Geoffrey se aproximou.
— Aonde foi lady St. Aubyn?
— Foi buscar lorde Dare, para ele trazer a carruagem.
— Bem pensado. Por que não vamos para o Dulce Café? Lá vocês poderão se sentar e esperar os reforços.
Reforços? Maneira beligerante de falar, mas em público seria difícil ele tentar algum ato covarde.
Geoffrey amparou o braço de Georgiana, e os três dirigiram-se à rua principal.
Lucinda não esperava que ele tivesse acreditado, mas a simulação de Geoffrey já lhes daria o tempo de que precisavam, pois sete cavalheiros ali chegariam em alguns minutos. A menos, é claro, que alguma coisa-não saísse a contento na Guarda Real Montada.
Ela sentiu medo. Imaginou Robert sendo preso e arrastado para uma cela escura nos subterrâneos do palácio.
Por favor, apoie Robert... Ela pensou no pai, que infelizmente não era a única autoridade na Guarda Real.
No café, em uma mesa na calçada, Geoffrey sentou-se entre as duas. Aos olhos dos passantes, um casal de namorados com uma respeitável acompanhante. Aos olhos delas, uma ameaça em potencial.
Quando um objeto rijo tocou-a na lateral do corpo, Lucinda viu, no bolso da casaca de Geoffrey, o característico contorno de uma pistola.
— Não se mexa, Lucinda. Aqui ainda somos amigos — ele murmurou.
— Para que isso? — ela sussurrou, notando, pelos olhos arregalados de Georgiana que a amiga percebera a movimentação.
— Para ver quem vem buscá-las. Todo homem tem que proteger seu patrimônio.
— Com uma pistola?
— Traga-nos chá com biscoitos. — Com a mão desimpedida, ele acenou para um lacaio.
— Geoffrey, que ridículo! Ontem mesmo falávamos de nosso casamento!
— Eu falava de casamento. Você se divertia à minha custa. Invadiram minha casa enquanto estávamos em Tattersall.
— Você avisou as autoridades?
— Avisei. Meus criados conseguiram descrever os elementos. — Ele olhou para Georgiana. — E lamento informar que era o seu cunhado Robert, completamente alucinado. Espero que consigam prendê-lo para interrogatório, para não ser executado como cão raivoso...
O medo de Lucinda evaporou diante do sorriso confiante.
— Se você o prejudicar, pode morrer antes de ser preso — afirmou calmamente.
—Pessoas como eu, querida, não vão presas. O príncipe regente nos condecora por nossos serviços à Coroa. Somos promovidos, ficamos ricos, precisamente como planejamos.
De repente, o pai dela dobrou a esquina a galope, ladeado por Dare e Bradshaw.
E Robert? O que acontecera a Robert?
— Não é interessante? A carruagem da lady Dare não veio.
— Deve ter havido um mal-entendido.
— Newcombe! — o pai de Lucinda gritou do cavalo.
— Levante-se!
— General Barrett... O que houve? — Geoffrey dissimulou. — Por favor, acalme-se. Lucinda e eu estamos conversando, com todo o respeito.
Os demais comensais começaram a cochichar. Lucinda continuou fitando o pai, esperando que ele percebesse que Geoffrey estava armado. Dare parecia zangado, mas não alarmado, e atento à sua pálida esposa.
— Ora, papai. — Lucinda forçou um sorriso. — Pelo visto, o senhor esperava encontrar um arsenal, um tiroteio, ou coisa assim. Só estamos conversando...
O rosto de Dare ficou lívido, o maxilar de Barrett enrijeceu. Tinham entendido o sinal.
— Geoffrey, você não tem nada a ganhar — A voz do general era autoritária. — Venha conosco, queremos conversar.
— Estou bem aqui, obrigado. Onde está o aleijado do seu irmão, lorde Dare? Ele anda falando muito mal de mim.
— Está preso na Guarda Real Montada por sua causa — Tristan respondeu. — Ao que parece, acusaram-no de ter invadido sua casa. Precisamos de sua presença para desmentir isso.
— Mas ele invadiu minha casa, sim, para tentar plantar os documentos roubados...
— Geoffrey, guarde sua pistola. Vamos conversar — O general estendeu as duas mãos à frente, para mostrar que não estava armado.
Comensais começaram a evacuar as mesas, transeuntes aglomeraram-se nas calçadas. No café, só os três e a pistola de Geoffrey. Apontada para ela, Lucinda refletiu, algo aliviada, e não para Georgiana.
— Deixe Georgiana ir, Geoffrey. Eu fico — Lucinda sussurrou.
— Gosto de me sentar entre duas damas. Está confortável, não, lady Dare?
— Um pouco tonta com toda essa sua aflição — Georgiana respondeu. — Guarde essa arma, porque, se nos ferir, vai agradecer por só morrer uma vez.
— Ora, foi-se embora nossa boa educação... Que pena, a tarde está tão agradável...
— E vai ficar mais ainda... — Bem atrás deles, Robert, instou com voz firme. No mesmo instante, a cabeça de Geoffrey inclinou-se à frente, empurrada com violência pelo cano de uma pistola.
— Vou matá-la, Carroway! — Geoffrey ameaçou, mas já sem ironia na voz.
— Vai para a cadeia ou para o inferno, Newcombe — Robert volveu por entre os dentes. — Escolha um!
Depois do que pareceu uma eternidade, a ponta da pistola de Geoffrey afastou-se lentamente de Lucinda.
— Venha, Georgiana — Lucinda chamou a amiga com cuidado, para não irritar os dois contendores. Ajudou-a a se levantar, e as duas se afastaram.
Dare apeou e foi ao encontro de ambas no mesmo momento.
— Você está bem, Lucinda? — O pai fez o mesmo e a segurou pelos ombros.
Lucinda fitou Robert e Geoffrey, ambos ainda imóveis feito estátuas.
— Estou bem, Robert! — Lucinda tentou tranquilizá-lo. — Nós duas estamos bem.
— Jogue a pistola no chão, Geoffrey! — ordenou Robert, a voz ainda carregada.
— Muito bem, Carroway. — Geoffrey obedeceu. — Você ganhou. Nesse aspecto, podemos ser cavalheiros.
— Não podemos, não...
— Não, Bit, não atire! — Dare prendeu o fôlego ao ver a expressão do irmão.
Lucinda também segurou o ar. Geoffrey cometera o grave erro de ameaçar a vida de gente que Robert levava no coração.
Não, Robert... Deu um passo à frente, cautelosa.
— Fique aqui!
O pai tentou segurá-la, mas ela se desvencilhou. Devagar, avançou mais um passo. Olhou fixamente para a mão de Robert, notando as articulações exangues que ainda empunhavam a pistola contra a cabeça de Geoffrey.
— Robert... — Ela se dirigiu ao lado oposto da mesa. — Ele vai para a cadeia, como você disse. Você conseguiu.
— Ele apontou a arma para você — ele falou, seco.
— Mas eu estou bem.
— Eu não a feri, Carroway, contenha-se!
— Fique quieto, Geoffrey — Lucinda ordenou, calma, segurando o ar por um segundo ao ver a mão de Robert tremer. — Ele fracassou... — Aproximou-se, as mãos espalmadas à frente. — Se o matar, você vai preso. Eu não quero você preso, Bit. Quero você a meu lado, comigo.
Geoffrey choramingou, mas, ameaçado mais uma vez, conteve-se.
— Só nós dois. — Ela pôs a mão no ombro de Robert, depois a desceu ao longo do braço e a pousou na mão gelada que empunhava a arma.
Robert exalou, trêmulo, então recuou.
De supetão, Geoffrey empurrou a cadeira para trás e o golpeou. No movimento, os três caíram no chão e a pistola soltou-se no ar. Em pânico, Lucinda recuou pelo solo enquanto Geoffrey berrava e saltava sobre Robert. Ela gritou, apavorada. Robert esquivou-se para o lado e golpeou Geoffrey com um soco, fazendo-o tombar outra vez. Então pulou sobre ele, imobilizando-o, e passou a esmurrá-lo no abdômen, nas costelas, no rosto.
— Agora vai aprender o que é lutar pela vida! — Robert o suspendeu pela lapela e o arremessou sobre a mesa do café.
— Robert, pare!
Dare e Shaw aproximaram-se e arrastaram Geoffrey para afastá-lo de Robert. Lucinda se jogou sobre Robert e o abraçou com força.
Haveria falatório, sem dúvida, mas ela não se importava. Robert enfim a abraçou e a apertou contra o corpo.
— Eu morreria por você, Lucinda.
— Não quero que morra por mim, quero que viva por mim!
Ela abaixou-lhe o rosto e beijou-o: uma, duas, três vezes. Robert retribuiu o beijo apaixonadamente.
— Eu te amo — ela sussurrou-lhe junto aos lábios.
— Eu também te amo, Lucinda. Gostaria de estar à altura dos seus anseios.
Ela o fitou no fundo dos olhos.
— Eu quero você, Robert. Ele piscou, aturdido.
— Não sou igual aos outros. Posso tentar, mas...
— O item três da minha lista diz que, para um homem ser digno aos meus olhos, é preciso que ele se interesse por outras coisas além do aspecto físico. O item quatro, que deve ter consideração por meu pai... Sei que não gosta dele, mas mostrou muito mais respeito por ele do que Geoffrey. Portanto, você é a pessoa que eu procuro. Não quero uma vida simples e conveniente, Robert Carroway. Quero você.
— Você me quer? — A tensão se dissipou no rosto bonito, e um sorriso tomou-lhe os lábios. — Você é uma boba.
— Ao contrário, eu deixei de ser boba. Robert inclinou-se e a beijou com ternura.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ele respirou fundo, e seus olhos se tornaram ainda mais azuis.
— Quer se casar comigo? Quer morar comigo?
— Quero me casar com você. E quero morar com você... Não seria feliz em outro lugar.
— Não sei respirar sem você, Lucinda.
Dare se aproximou do irmão.
— Sem dizer que, sem você, as rosas dele morreriam todas... — Os olhos de Dare estavam mais fulgurantes do que o sorriso.
— É verdade — Robert concordou, erguendo-a pela cintura para girá-la no ar. — Você me devolveu a vida!
— E você me ensinou a dar ainda mais valor à vida... Portanto, empatamos.
Lucinda enxugou uma lágrima solitária que lhe escorreu pelo rosto. Estranho ela chorar quando ali, nos braços de Robert, estava tão contente, tão aliviada, tão esperançosa.
Os demais comparsas tinham chegado. St. Aubyn precisou segurar Edward, para não deixá-lo chutar Geoffrey. Cada um apresentava uma surpresa e satisfação diferente no semblante.
E o pai dela nem estava tão aborrecido assim, impressionado com Robert depois da conversa que haviam tido no escritório.
O sorriso de Robert se abriu.
— O que foi? — ela perguntou, retribuindo o sorriso.
— Meu joelho não está doendo. Você faz milagres.
— Vou lembrá-lo disso na nossa festa de casamento, quando formos dançar.
Ele riu solto e Lucinda sentiu o coração disparar. Era a primeira vez que ela o ouvia rindo; um som ao qual queria se acostumar.
Robert dissera que não poderia ser igual aos outros homens, mas não era verdade. Ele passara por maus momentos, ainda tinha lembranças sombrias, mas disso os dois cuidariam juntos dali para a frente. Queria ajudá-lo, queria estar ao lado dele quando ele enfim emergisse plenamente para a luz do sol.
Viu Evelyn e Georgiana de mãos dadas, rindo e chorando. As três tinham conseguido. Haviam ministrado suas aulas e encontrado o amor. Era uma idéia originada da frustração, e em um dia chuvoso, o resultado fora muito bom.
Lucinda olhou novamente para Robert e ele sorriu, meigo, antes de beijá-la nos lábios. Decididamente, a idéia delas tinha sido ótima.

 

 

                                                                  Suzanne Enoch

 

 

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