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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


PAIXÃO SELVAGEM / Lorraine Heath
PAIXÃO SELVAGEM / Lorraine Heath

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

Biblio VT

 

 

 

 

Exteriormente, Lauren Fairfield é um modelo de mulher nobre e sofisticada. Em seu coração, porém, ela anseia por um amor perdido... Por isso Lauren quase desmaia quando descobre que o atraente cavalheiro recém-chegado à Londres, é ninguém mais ninguém menos que Tom Warner, o rapaz por quem ela um dia se apaixonou!
Tom está em Londres para reivindicar o título de conde de Sachse, e também para honrar um juramento feito no passado à uma linda jovem, uma promessa escandalosa que nenhuma dama de respeito ousaria cumprir...
O futuro de Tom é a aristocracia, e Lauren jamais poderia amar um nobre pedante e dominador. Mas a chama que ela um dia acendeu no coração de Tom ainda arde, e ele não descansará enquanto não provar à orgulhosa e relutante beldade que "para sempre" é uma promessa a ser cumprida...

 


 


Capítulo I

Londres, 1880

- Disseram que é diabolicamente bonito. - E também assustadoramente incivilizado!
- Não me surpreendo. Afinal, é americano, não é?
- Na verdade, não. Pode ter crescido na América do Norte, mas o sangue dele é tão inglês quanto o seu e o meu.
- Ainda bem.
- Ouvi dizer também que ele tem mais dinheiro que a rainha.
- Pois ouso falar que vai precisar de todo esse dinheiro para arranjar uma esposa. Qual de nós desejaria se casar com um selvagem?
Quem na verdade?
Sentada na sala de estar da casa do padrasto, Lauren Fairfield observava as jovens falando da vida alheia. Apesar de ter nascido na América do Norte, procurava se portar como uma dama inglesa discreta, não expressando o que realmente pensava sobre tudo aquilo. Não contribuíra com nenhuma palavra àquela conversa ridícula, pura especulação, baseada em mexericos.
O que Lauren sabia era que aquelas jovens fariam exatamente o contrário do que declaravam. Tudo o que mais queriam era se casar com esse selvagem rico, bonito e solteiro. Se o matrimônio não fosse possível, desejariam ao menos viver uma aventura com esse homem.
Lauren tinha de se esforçar para continuar ali, fingindo que estava adorando a inesperada reunião. Lembrou-se de como havia sido difícil que essas mesmas jovens a aceitassem no grupo. Quantas gafes cometera quando ainda não tinha se ajustado aos costumes da sociedade inglesa.
A sala foi tomada pelo silêncio por alguns instantes. Finalmente, Lady Blythe estendeu a mão e tocou a de Lauren.
- Oh, minha querida, nós a ofendemos ao nos referir à natureza bárbara dos americanos?
- Não pretendíamos fazê-lo - Cassandra acrescentou. -Ninguém nem sequer imaginaria que você também é americana, por isso vivemos nos esquecendo desse detalhe. O que eu diria ser um grande elogio. Transformou-se em um exemplo de dama inglesa.
As outras moças concordaram imediatamente. Como elas, Lauren vestia-se de acordo com a moda mais recente: uma elegante saia que acentuava a cintura fina e estreitava os quadris. Suspeitava que essa moda não favorecia Lady Blythe e tampouco Cassandra. As duas não ficavam bem de saia justa.
Que pensamento mais cruel. Lauren não gostava de ficar observando os pontos fracos das conhecidas. Mas como reprimir seu lado americano, que apreciava o pensamento livre?
Respirou fundo. Talvez estivesse cansada de se portar como uma dama. Não estava naquela sala por vontade própria. As regras da boa educação a mandavam agir como anfitriã. As quatro jovens nobres, ricas e ainda solteiras haviam aparecido sem qualquer convite, justificando a inesperada visita com a desculpa esfarrapada de que queriam comentar a novidade que vinha escandalizando Londres inteira. Lauren tinha sido obrigada a recebê-las, já que a mãe e as irmãs estavam fazendo compras.
-Fico profundamente encantada de saber que me têm em tão alto conceito - Lauren respondeu, mais por hábito do que por qualquer outra coisa.
Ela e as irmãs tinham passado horas e horas praticando reações fingidas ao ouvirem os falsos elogios na corte, assim as respostas pareceriam pelo menos sinceras. Algumas vezes, Lauren sentia-se descontente demais com o rumo que sua vida tomara. Tudo parecia fazer parte de uma encenação teatral, com as falas previamente escritas e ensaiadas. Vez por outra, às escondidas, fazia alguma travessura e sentia-se refeita com isso.
- Não há nada pior do que um americano não educado.
- Quem expôs essa opinião nada simpática foi Cassandra.
- Felizmente, Lauren, parece ser inglesa, sem fazer esforço algum.
Sem esforço? Lauren se surpreendia de que as jovens houvessem esquecido tão depressa as vezes que tinham revirado os olhos e se escandalizado diante de um comportamento não adequado a uma dama. Impiedosamente, debochavam de como ela se atrapalhava ao fazer as reverências e riam da escolha errada de palavras. Lauren fora o foco de muitos mexericos por um bom tempo. Cassandra jamais teria idéia de quantas noites Lauren passara acordada, ensopando o travesseiro de lágrimas.
Na verdade, seu comportamento era resultado de muito esforço, Lauren pensou, suspirando. Sentar-se, andar, falar como uma dama, tudo lhe era difícil demais. Lembrar-se de todos os títulos dos nobres, saber a quais deles deveria se curvar, quando sorrir para um cavalheiro, como flertar sem parecer uma mulher sem compostura. Não havia um minuto sequer em que agisse com naturalidade, expondo os pensamentos verdadeiros, sendo ela mesma, Lauren Fairfield.
Vinha praticando, estudando, observando, tudo com um único objetivo: não causar embaraço ao padrasto. Enterrara tão profundamente algumas peculiaridades de seu antigo comportamento que não tinha certeza de que poderia voltar a ser como era antes. Havia se tornado, como Cassandra se referira momentos antes, uma perfeita dama inglesa. Quase ninguém mais se lembrava da família pouco civilizada que lorde Ravenleigh tinha tido a ousadia de trazer do Texas, depois de visitar o irmão gêmeo, Kit Montgomery. Outro que havia deixado Londres por causa de um escândalo.
Lauren voltou a suspirar. Até ela começava a duvidar que um dia pudesse voltar ao lugar que considerava seu lar. Não que estivesse conformada em ficar para sempre na Inglaterra. Ultimamente começou a fazer alguns planos, acreditava que havia alguma possibilidade de voltar ao Texas. Desejava que, se isso acontecesse, não fosse tarde demais para realizar um sonho.
Lauren deixara o coração no Texas.
- Agora nos conte - Lady Blythe pediu com animação, interrompendo os pensamentos de Lauren. - Chegou a conhecer o conde de Sachse?
Ah, finalmente, ali estava a verdadeira razão que trouxera as moças àquela casa. Queriam descobrir se ela talvez tivesse algo a lhes contar sobre o homem que havia recentemente desembarcado nas praias da Inglaterra, com a intenção de tomar o que lhe era de direito, o título de conde.
Tão entretida com os planos de voltar ao Texas, Lauren não estivera atenta aos rumores sobre esse recém-chegado às cortes londrinas. Apenas tinha ouvido falar de um conde que havia se perdido na América do Norte, sabe-se lá a razão, e que tinha sido encontrado havia pouco tempo. Todos acreditavam que ele tivesse morrido de alguma doença quando menino. Pelo menos fora isso o que a mãe do garoto tinha dito a todos, depois de retornar da América do Norte. Não passara pela cabeça de ninguém que a condessa estivesse mentindo, especialmente diante de todas as lágrimas que ela havia derramado, lamentando a perda do único filho. Recentemente, porém, uma carta tinha sido descoberta entre os pertences da condessa e revelava uma verdade espantosa. O menino não morrera e havia sido entregue a uma família americana. Investigadores ingleses tinham-no localizado e o tal filho voltara à Inglaterra agora que o pai havia morrido.
Lauren achava que o verdadeiro milagre fora Archibald Warner, um primo distante que herdaria o título e as propriedades da família, ter tido a decência de contratar investigadores particulares para procurar o legítimo herdeiro. Ela sabia que muitos lordes, tendo experimentado o poder, a influência e o prestígio que lhes vinha com o título de conde, não teriam aberto mão de privilégios dessa natureza.
Procurou responder à pergunta de Lady Blythe:
- Nunca tive o prazer de conhecer esse conde. Lembrem-se de que os Estados Unidos são um país enorme. As chances de nossos caminhos terem se cruzado foram muito pequenas.
- Mas dizem que ele foi achado no Texas - Cassandra interveio. - Certamente isso aumenta as chances de tê-lo conhecido, já que morou nesse mesmo lugar algum tempo.
- O Texas é o maior dos Estados da América do Norte. Não creio que as chances de nos encontrarmos fossem grandes. E, como você mesma acabou de dizer, Cassandra, morei lá por pouco tempo.
Lauren observou, atenta, a expressão do rosto das jovens damas. Será que haviam apostado entre si se ela conhecia ou não o tal conde? Parecia que as pessoas na Inglaterra viviam apostando o tempo todo. Na última temporada, a maioria das apostas se centrara em quem o duque de Kimburton escolheria como esposa. Lady Blythe ou a Srta. Lauren Fairfield? Ao fim da temporada, o duque tinha escolhido Lauren, que recusara a proposta de casamento e havia provocado um escândalo na corte. Afinal, como uma norte-americana, honrada pelo pedido de casamento por parte de um nobre duque, ousara dizer não a ele?
Lauren lembrou-se de seu pretendente. Kimburton era simpático, rico e muito educado. Mas o que ela menos procurava no momento era um marido.
Diante da possibilidade de ficar na Inglaterra para sempre, tinha recusado a proposta do duque. Como um cavalheiro, ele aceitara a recusa com elegância, mas rumores diziam que o duque não tinha planos para voltar a Londres na próxima temporada. Provavelmente estava ferido em seu orgulho. Lauren lamentava tê-lo magoado, porque, entre todos os cavalheiros ingleses que conhecera, ele havia sido o que conseguira lhe despertar interesse.
Lauren estava surpresa que Lady Blythe, depois de ter sido preterida pelo duque de Kimburton, houvesse ousado lhe fazer aquela visita.
Claro, a oportunidade de saber alguma coisa sobre o novo conde era um incentivo forte demais para levar Lady Blythe a perdoar a sua rival pela decepção e humilhação que sofrera. Aquilo e o fato de que Lauren certamente não seria uma séria concorrente em qualquer disputa nessa nova temporada. Tendo declinado a proposta do duque, a Srta. Fairfield sabia que seria improvável que qualquer outro homem tentasse lhe ganhar a atenção, temendo passar pelo embaraço sofrido pelo pretendente anterior. O que em parte era uma pena, porque ela perderia o prazer de flertar. No entanto, tinha outros planos mais importantes com que se preocupar do que ficar sendo cortejada nos suntuosos bailes que aconteceriam.
Lauren sorriu para as quatro damas que a olhavam, cheias de curiosidade.
- Além do mais, amigas, já faz dez anos que morei no Texas. Se de fato o conde e eu chegamos a nos conhecer, duvido que consiga me lembrar de quem possa ser ele. Não se esqueçam de que não deve ter se apresentado com o sobrenome Sachse.
- Creio que ele não faria isso. Não tinha a menor idéia de que era herdeiro de um título ou que tivesse alguma fortuna na Inglaterra - Cassandra concordou.
- Conseguem sequer imaginar o que levou uma mãe a abandonar o filho em um lugar como aquele? - Lady Blythe perguntou. - Deixando-o entre pagãos?
Lauren sentiu vontade de rir. Lady Blythe dissera pagãos, como se estivesse se referindo a uma deliciosa sobremesa coberta de chocolate. Começou a perceber que suas suspeitas estavam se confirmando. Aquelas jovens queriam se jogar nos braços de qualquer homem que viesse da América do Norte. Pareciam deslumbradas com a perspectiva de se relacionarem com o selvagem e os olhos delas brilhavam a qualquer menção do misterioso lorde.
- Pelo que ouvi, a mãe não o abandonou - Cassandra rebateu. - Ela teria deixado o filho com uma família importante de Nova York, uma cidade de prestígio e moderna.
- Pode ser, mas não chega a ser Londres, e, assim, dificilmente um ambiente adequado para se criar um futuro lorde. Além do mais, o investigador não o encontrou em Nova York. Quem pode saber que tipo de influências impróprias sofreu esse pobre menino? Não consigo nem imaginar o que a mãe dele pensava quando o deixou naquelas terras. - Lady Blythe não abandonava o lado prepotente de querer sempre dar a última palavra. Apenas a opinião dela importava.
- Quem sabe a condessa estivesse querendo proteger o filho -Anne murmurou baixinho. - Quem conheceu o velho conde de Sachse mal podia tolerar o homem. Era violento e mal-educado. Corriam histórias horríveis sobre o que fazia em seu condado. Foi Richard quem comentou isso comigo.
Richard era o irmão bem mais velho de Anne. O duque de Weddington. Lauren o tinha visto apenas uma vez em um baile. Aparentemente, ele não tolerava festas também. Seu prestígio, no entanto, garantia à irmã comparecer a todas, apesar de ela ainda ser bem jovem. Anne acabara de ser apresentada à corte.
- Mas por que a América do Norte? - Lady Blythe procurou ostentar um olhar de indignação. - Certamente a condessa poderia ter encontrado algum lugar melhor e mais perto da Inglaterra, onde o filho já tivesse até ideia de sua origem e herança. Por que não o deixou na França, por exemplo? Por que escolher uma terra de índios e caubóis?
- Não sabemos as razões que levaram essa mãe a fazer tal escolha - Anne falou. - O fato é que ela não quis nenhum lugar por aqui. Não sei dizer o que ela estava pensando, mas pelo menos sabemos o que fez.
- Acredita que o novo conde seja uma criatura tão odiosa quanto o pai? - Lady Blythe perguntou.
- Ouvi dizer que não é nada parecido com o pai - anunciou Priscilla.
Era a amiga mais íntima e querida de Anne. Ninguém nunca via uma sem a outra ao lado. Priscilla era uma espécie de autoridade em todos os assuntos e sua palavra era ouvida com respeito, não fazia mexerico.
- Mas, afinal, alguém já viu esse homem? - Lady Blythe perguntou às amigas.
As moças olharam-se.
- Pode ser que eu o tenha visto - Priscilla disse finalmente, o rosto ruborizando com tal confissão.
Todas as jovens, com exceção de Lauren, soltaram um gemido e correram para mais perto de Priscilla, como se pudessem enxergar o conde no brilho dos olhos da amiga,
- Onde? - Lady Blythe mal continha a ansiedade.
- Conte como aconteceu - Cassandra o exigiu. - Foi na casa de algum conhecido?
- Responda bem depressa, antes que eu desmaie de ansiedade - Lady Blythe pediu.
- Não há muito a contar. Eu estava passeando no Hyde Park ontem de manhã e notei um homem montando um lindo cavalo negro.
- Não queremos saber do cavalo. E ele, como era? - Cassandra perguntou. - Era bonito?
- Mal posso dizer. Usava roupa preta. Casaco e chapéu pretos. Assim não consegui ver suas feições. Acredito que se vestia como os caubóis americanos. E o mais interessante... - Ela se inclinou para mais perto das amigas e abaixou a voz até que se tornasse um sussurro conspirador: - Bem, quando nossos cavalos emparelharam acidentalmente, o casaco dele balançava ao vento e acredito ter visto uma pistola presa ao cinto.
- Não! - Lady Blythe exclamou.
- Sim!
- Que intrigante!
Que ridículo, Lauren pensou. Ficarem tão envolvidas com um homem quando havia tantos lordes à disposição na corte. O interesse, porém, nascera do fato de o novo conde ser um desconhecido de todas, ainda não tinha sido testado.
Estive nessa mesma situação antes. E agora sentia pena do conde que teria Londres inteira observando seus mínimos gestos. Tampouco ele havia sido preparado para o papel que a sociedade esperava que assumisse.
- Está familiarizada com caubóis, não é, Lauren? - Lady Blythe indagou.
Lauren sentiu um aperto no coração diante da pergunta que liberava lembranças antigas, que havia tempo procurava esquecer. Nem imaginava que ainda provocassem emoções tão fortes, já que faziam parte de um passado distante.
- Sim - ela respondeu. - Conheci muitos caubóis, mas isso foi quando eu era menina, minhas lembranças podem ter sido afetadas pela inexperiência e a pouca idade. Mamãe vive me dizendo que tendemos a nos lembrar das coisas como se tivessem sido mais agradáveis do que na verdade foram.
Esses comentários da mãe sempre aconteciam quando Lauren insistia em voltar ao Texas.
- Conte-nos do que se lembra - Cassandra pediu. Lauren se recordava de um sorriso que lhe fazia o coração disparar. E dos olhos escuros e da expressão de um rosto. Lembrava-se dos cabelos negros, longos e despenteados. Das mãos sujas, roupas muito usadas e de um corpo que, apesar de magro, era bastante forte.
- Vamos - Lady Blythe implorou. - Não nos torture assim. Diga-nos com que um caubói se parece.
Lauren começava a sentir dor de cabeça e gostaria de deitar-se um pouco, antes do jantar. Não podia, porém, largar as moças na sala.
- O caubói é uma pessoa respeitável - ela disse. Apesar de que o caubói que conhecera tão bem não tinha sido sempre assim tão respeitável. - Ele cumprimenta as damas levando a mão ao chapéu - Lauren acrescentou.
Embora o caubói das lembranças dela nem sempre o fizesse.
- Fala pouco.
O seu caubói era falante até demais.
- Ao atravessar a rua, prefere cobrir esse caminho a cavalo a andar.
Bem, talvez o seu caubói também fizesse isso, caso possuísse um cavalo.
- Sorri fácil e demora a perder a calma.
Tudo ao contrário do que fazia o caubói de quem ela tanto se lembrava.
- E adoram mulheres.
Oh, sim, especialmente o dela. Gostava de todas, jovens e velhas, de bom corpo ou magras demais. Jamais discriminava.
Lauren soltou uma gargalhada e surpreendeu as moças.
- Bem, essa é a minha visão de um caubói. - Do que ela considerara lhe pertencer.
- Então ele adora mulheres. Isso é muito bom - Lady Blythe falou. - Nossos cavalheiros costumam achar que estamos à disposição. Só o que querem é que a esposa lhes dê, um herdeiro. Sem romantismo algum.
- Por outro lado, os caubóis não são refinados como os cavalheiros que conhecem - Lauren o admitiu. - Os presentes que costumam dar são fitas para o cabelo ou flores roubadas de algum jardim por onde passaram. Por vezes, recitam poesias.
- Todos presentes vindos do coração. - A voz de Anne soou sonhadora.
- Bem, ouso dizer que me parece difícil que nosso conde caubói precise roubar flores - Lady Blythe interrompeu a amiga. - Segundo os rumores, ele é muito rico. Já tinha uma fortuna antes de saber que herdaria as terras e o título do pai. É um homem a ser invejado.
- Invejado? - Lauren perguntou. - Porque conseguiu riqueza por meio do trabalho duro? Porque agora teve de deixar tudo para trás e viver em um país tão diferente do que lhe era familiar?
- Não somos assim tão diferentes - Lady Blythe reclamou. - O que deve ser invejada é a fortuna dele.
- Que provavelmente ganhou graças ao próprio trabalho.
- E que a mais feliz das esposas terá o prazer de gastar.
- Mas diziam que ele terá sorte se conseguir arranjar uma esposa - Lauren as provocou, com certo atrevimento.
Lady Blythe sorriu, como a sentir-se superior.
- Ninguém nunca sabe. Quando um homem tem muitas moedas no bolso e um título, pode parecer subitamente mais atraente.
- Além do mais, como a Srta. Fairfield nos lembrou, ele fez por merecer o seu dinheiro. O que é uma infelicidade - Cassandra disse.
- Porém, ele trabalhou antes de saber que era um conde - Lady Blythe retrucou. - Dessa forma, é uma ofensa desculpável.
Lauren sentiu uma enorme simpatia por esse homem de quem as damas falavam. Pena que a vida dele agora tomaria um novo rumo. Talvez fosse uma boa idéia procurá-lo para lhe pedir conselhos sobre como ela poderia voltar ao Texas, antes que se tornasse uma aristocrata, como aquelas que tinha à frente.
O novo conde de Sachse não seria o mesmo homem de antes. Não mais seria dono de seus pensamentos, opiniões e sonhos.

Ele ouviu a voz que povoava os seus sonhos e se surpreendeu por conseguir identificá-la, apesar de todos os anos que haviam passado. O tom e o sotaque tinham mudado levemente, ele não podia negar. A voz se tornara mais suave, com um timbre gentil, capaz de cativar qualquer homem que a escutasse.
Era como Thomas Warner sentia-se. Cativado.
Porém, não era assim que ele queria se sentir.
Tom não tinha medo praticamente de nada, mas receava o encontro de logo mais. Tratava-se de algo pelo qual teria de passar mais cedo ou mais tarde. Havia adiado o quanto pudera, no entanto tinha chegado a hora. Estivera por um bom tempo dividido entre o desejo de que acontecesse logo e o de que nunca viesse a acontecer.
Enquanto o mordomo, que não o tinha olhado com boa cara porque não trouxera cartão algum, havia ido informar ao conde de Ravenleigh que um homem o procurava, Tom, ficou parado junto à entrada, sentindo os calcanhares gelados. Nunca fora paciente. Tinha se costumado a dar ordens e ver todos lhe obedecerem sem fazer pergunta alguma. Irritava-se por estar ali, no frio, esperando para ser atendido.
Então ouvira as vozes... E havia identificado a dela. Havia perdido um pouco da musicalidade de que ele tanto se lembrava e apenas em algumas palavras percebia-se o jeito antigo de falar.
Curioso, deu uma olhada para o lado de onde vinham as vozes. Era uma reunião de mulheres, tão entretidas na conversa que não haviam notado a presença dele. Lembrou-se de um tempo em sua vida em que tudo o que queria era o toque de uma certa mulher, mas não apenas isso, como também lhe aspirar o perfume, sentir a suavidade e o carinho que podia oferecer.
Sabia que era errado ficar ali, sem anunciar a sua presença, mas não tinha certeza do que aconteceria quando Lauren o visse.
Talvez nem o reconhecesse.
Enquanto ele nunca havia sido capaz de esquecê-la.

Capítulo II

Dez anos antes
Vi o que fez.
Sentado junto à parede dos fundos do armazém geral, Tom Warner ouviu a conhecida voz feminina e levantou-se, esfregando as mãos na roupa para tirar o pó. Com um toque no chapéu, cumprimentou a garota a sua frente, mãos na cintura em clara atitude de crítica. Ela era bonita, os olhos de um tom azul que lembrava o do céu na primavera e os cabelos da cor esplendorosa do sol.
- Do que está falando?
- Roubou os biscoitos.
Tom passou rapidamente a mão na boca, eliminando os últimos vestígios do alimento, mastigou e engoliu o restante, desejando ter algum leite à mão para limpar a garganta.
- Que biscoitos?
-Também é mentiroso?-Os olhos azuis brilharam mais ainda.
- Por que se preocupa com isso? A loja não é sua.
- É errado roubar e mentir sobre o que fez.
- Só quando se rouba tendo dinheiro no bolso. Além do mais, eu estava com fome.
Ela arqueou as sobrancelhas.
- Não tinha nenhum dinheiro?
- Tenho duas moedas que estou reservando para uma emergência.
- A fome é uma emergência.
- Não é, não. - Tom gostava do modo como a garota o olhava. - Já passei fome outras vezes. Sempre acontece.
- Quer dizer que sempre rouba alguma coisa?
- Ora, Deus provê o alimento para mim.
- Agora se tornou um pregador?
- Ah, inferno, não.
Ela arregalou os olhos, surpresa.
- Não devia praguejar.
Dizer inferno não era praguejar, ou era?
- Bem, maldição - ele disse, sentindo prazer ao ver o olhar de horror da garota. - O que resta a um homem, se ele não pode roubar, mentir ou praguejar?
- Ainda não é um homem. - A voz dela soou cheia de indignação.
- Estou perto. Logo vou completar dezesseis anos. Ele enfiou a mão no bolso e tirou papel e um pouco de tabaco, então lentamente enrolou um cigarro. Colocou-o entre os lábios e observou mais uma vez o ar de protesto da garota. Acendeu o cigarro e o tragou profundamente. Fumar ajudava a afastar a fome.
- Não deveria fumar na presença de uma dama, sem antes lhe pedir permissão.
Tom exalou a fumaça e deu uma olhada exagerada em volta.
- Não estou vendo nenhuma dama por aqui.
- Eu sou a dama.
- Ora, é apenas uma menina.
- Não sou, não. Sou uma jovem dama e meu corpo está bem desenvolvido.
- Deixe-me ver.
Ela piscou rapidamente, sem entender direito o que ele pedira.
- O que quer dizer com isso?
- Quero que me deixe desabotoar o seu vestido. Deixe-me ver se está mesmo se tornando uma mulher.
Ela pareceu analisar a proposta, depois dirigiu a Tom um olhar que o deixou extasiado.
- Está bem.
Deus do céu! Ela o deixaria despi-la, Tom pensou, abismado. Jogou o cigarro no chão e o amassou com o pé. Sentiu a boca seca e justificou a sensação, pondo a culpa no tabaco que mascava. Tirou as mãos dos bolsos da calça e as estendeu na direção do corpo da garota, embaraçado que estivessem tremendo. Mas ele não desistiria porque queria desesperadamente ver o que andava lhe tirando o sono nos últimos tempos. Os seios de uma mulher. Bem, de uma garota nesse caso, mas seios eram seios. Se soubesse que ia ser tão fácil atingir seu objetivo, já lhe teria pedido há mais tempo.
- Lauren Fairfield, o que pensa que está fazendo?
A pergunta soou atrás de Tom, quando eleja abrira quase todos os botões, faltando apenas um para revelar o corpo despido da moça em questão. Era a mãe da garota, Elizabeth Fairfield.
Tom sentiu falta de ar, não só porque sabia que se encontrava em uma situação crítica, como pela frustração de ver cair por terra aquela oportunidade de ouro. Teria de se conformar com sua falta de sorte.
- Também está fumando? - a Sra. Fairfield perguntou, dirigindo-se à filha.
-Não, mãe. Apenas ele. E nem pediu a minha permissão. Também pragueja.
A garota interrompeu as explicações, abaixou o olhar, e Tom desejou lhe dar um beijo por manter a boca fechada, não revelando as piores transgressões que ele cometera. Quem sabe isso o livrasse da cadeia? Não podiam prender um homem por fumar ou blasfemar. Mas, se a garota tivesse revelado à mãe que ele havia roubado também...
- Seu pai daria uma surra nesse rapaz por estar tomando liberdades com você. Já que ele morreu, eu me encarregarei de resolver o problema. - A mãe agarrou a filha pelo braço e segurou Tom pela orelha.
A prisão poderia até não ser uma opção tão ruim. Ele seguiu a senhora e a garota porque não havia outra escolha, além de não querer ficar sem a orelha. A aparência dele seria muito prejudicada.
Deram a volta no prédio, depois seguiram adiante.
- Xerife! - Elizabeth Fairfield chamou.
Diabos, isso poderia ficar pior do que estava, Tom pensou. A Sra. Fairfield não queria deixar o episódio sem uma punição para ele.
O xerife estava encostado na porta do armazém geral, mas procurou com o olhar quem o estava chamando.
Elizabeth Fairfield assumiu um ar de crítica, ao percebei que o xerife devia ter bebido demais.
- Nem passou do meio-dia e o senhor já está embriagado!- a mãe da garota exclamou, horrorizada ao fitar o xerife. A maior autoridade da cidade observou, surpreso, a mulher que lhe dirigia a reprimenda. Tom nunca tinha visto olhos azuis tão claros.
- Vi o senhor sair do saloon - a Sra. Fairfield continuou. - Não sei como o povo desta cidade o escolheu para xerife, tampouco por que estou me dirigindo a um mulherengo, em busca de solução para meu problema. Talvez seja porque eu não tenha outra escolha. - Sem largar a orelha de Tom, ela o empurrou ao xerife.
O rapaz soltou um profundo gemido.
- Quero que coloque esse sem-vergonha na cadeia. - A Sra. Fairfield exigiu.
Tom tentou pensar apenas no lado positivo. Pelo menos naquela noite teria uma refeição quente e um cobertor. O xerife finalmente falou:
- Minhas desculpas, senhora. Primeiro quero lhe informar que não estou bêbado e, em segundo lugar, não sou mulherengo. Tenho esposa e sou um marido fiel. Quanto a esse rapaz, qual é a reclamação? Ele a atacou ou fez alguma coisa parecida?
O modo de falar do xerife soou estranho para Tom. Pensou até em rir, mas decidiu que seria uma bobagem.
- Não me atacou, mesmo assim quero que o prenda.
- Mas, senhora, não creio que possa...
- Como não pode? O senhor deve prender este rapaz!
- Sob qual acusação?
- Ele estava desabotoando o vestido de minha Lauren, tentando... tirar vantagem da inocência da pobrezinha. Ela só tem catorze anos.
Catorze? Diabos! Era uma criança. Tom pensara que a garota tivesse quase a mesma idade que ele.
O xerife pigarreou e fez um aceno com a cabeça, concordando com o pedido da senhora.
- Pode deixar que resolverei o assunto. Leve a sua filha para casa e tranqüilize-se. Falarei com ele e...
- Não estou pedindo que converse com o sem-vergonha, mas que o coloque na cadeia. Se não o fizer, juro que procurarei o conselho da cidade e exigirei que o expulsem daqui. - A mulher virou-se e se afastou, seguida da filha.
A garota ainda lançou a Tom um olhar que era um verdadeiro pedido de desculpa.
- Quem é essa mulher? - o xerife perguntou ao rapaz. Julgando pelo tom da voz do homem, suave e elegante, Warner percebeu que não era das redondezas. Ou melhor, nem devia ser da América do Norte. Além do mais, pelo jeito como o estava tratando, talvez nem estivesse pensando em colocá-lo na cadeia.
- É a viúva Fairfield - Tom respondeu.
- Qual a sua idade, filho?
O rapaz levantou os olhos desafiadoramente.
- Quinze, e não tenho medo da cadeia.
- Não vou pô-lo na cadeia por ter sido curioso, mas espere até ter dezesseis anos antes de começar a despir as mulheres. E certifique-se de que elas tenham mais idade ou estejam dispostas a receber dinheiro para satisfazer a sua curiosidade. - O xerife fez um gesto vago. - Agora suma daqui. Tom não esperou uma segunda ordem. Correndo, virou a esquina, desceu a alameda e somente parou na rua mais abaixo, perto de uma loja. Procurou no chapéu um toco de cigarro. Decidiu não fumá-lo naquele momento. Se não encontrasse comida à noite, o fumo serviria para amenizar a fome.
- Vejo que continua roubando.
Tom terminou de mastigar o biscoito. Lá estava ela novamente. Lauren Fairfield. Usando um vestido azul, cheio de botões na frente.
- E parece que bebeu também - ela acrescentou com um tom de censura.
Tom gostava quando os olhos da garota brilhavam como naquele momento.
- Achei uma garrafa quase vazia nos fundos do saloon na semana passada. Terminei-a agora.
- Que gosto tinha? - Lauren perguntou, evidentemente curiosa.
De urina, ele pensou em dizer, mas a garota poderia lhe indagar, como sabia que tinha esse gosto e se ele por acaso bebera urina alguma vez.
- Já tomei coisa melhor.
- Deveria levantar-se e tirar o chapéu na presença de uma dama.
- Com certeza você sabe muito sobre boas maneiras.
- Quem é que não sabe?
- Eu não sei nada sobre etiqueta.
- Por que não?
- Não tiro vantagem alguma dela. E quem é que pode censurar o meu comportamento?
- Os seus pais.
- Eles morreram.
De tudo o que Tom já dissera a Lauren, esse comentário pareceu ser o que mais a havia chocado.
- É órfão?
Ele deu de ombros.
- E onde mora?
O rapaz repetiu o gesto.
- Então é por isso que rouba?
-Você faz perguntas demais. - Subitamente, ele mudou de assunto. - O que sabe sobre o xerife?
- Que mamãe não gosta desse homem. Nem dos amigos dele.
- O xerife fala engraçado.
- Porque veio da Inglaterra. Ele e seus amigos se mudaram para a América do Norte depois da guerra, para ajudar na colheita do algodão. Haviam morrido muitos homens por aqui.
Inglaterra. Tom não conhecia ninguém desse país. Tinha certeza disso. No entanto, o modo como o homem falava despertava alguma lembrança em sua memória. Não podia tirar isso da cabeça, mas também não conseguia parar de pensar em Lauren. Ele havia passado a noite sonhando que lhe abrira o vestido.
- Por que está interessado em saber mais sobre o xerife? - ela perguntou.
- Por nada. Estou apenas curioso. Ele me faz lembrar de umas coisas que não sei bem o que significam.
- Lamento que mamãe o tenha colocado numa situação difícil.
- O xerife me deixou ir embora. Não tive de passar a noite na cadeia no final das contas.
Lauren sorriu.
- Fico feliz de ouvir isso.
Deus. Ela precisava sorrir dessa maneira? Tom sentiu o coração disparar. Rindo, ficava ainda mais bonita.
- Então você só tem catorze anos?
- Claro, seu bobo. Por que está perguntando?
- Porque hoje é o meu aniversário, e eu queria comprar um presente para mim.
O olhar e o sorriso de Lauren se tornaram mais brilhantes.
- O que vai comprar?
- A sua permissão de lhe abrir os botões do vestido.
- Pensei que não tivesse dinheiro.
- Eu lhe disse que tinha duas moedas.
- E que ia guardá-las para uma emergência. O coração de Tom disparou mais uma vez.
- Esta é uma emergência.
- Minha mãe ficou irritada quando o viu abrindo meu vestido e...
- Eu não sabia que tinha de pagar. - Ele se levantou, tirou o chapéu e enfiou a mão no bolso. Estendeu duas moedas para Lauren. - O xerife falou que não haveria problema, se eu pagasse para abrir o seu vestido.
- Por que quer gastar o seu dinheiro fazendo isso?
- Porque nunca vi os seios de uma mulher, mas ouvi os meus colegas falando a respeito.
Lauren ficou pensativa.
- Que colegas?
- Os meninos do trem dos órfãos.
- Viajou nesse trem?
- Vindo de Nova York. Mas a locomotiva não parou aqui. Vim andando da casa onde me mandaram ficar. Não gostei da família que me escolheu.
- Como assim?
- Simplesmente não gostei. Quer as moedas ou não? - ele perguntou com impaciência.
Tom não gostava de ficar se lembrando do que lhe acontecera depois que os pais haviam morrido. Queria ter uma boa recordação de seu aniversário de dezesseis anos, algo que pudesse se lembrar por um bom tempo.
Lauren enrugou a testa e, mesmo assim, ficou ainda mais bonita, mais atraente.
- Tudo o que quer é desabotoar o meu vestido?
Ele assentiu com a cabeça, a boca subitamente tão seca que nem conseguia articular palavra alguma.
- Parece bobagem. Em todo caso... Promete não tocar em mim? - ela perguntou.
- Não vou tocá-la - Tom prometeu, sentindo um nó na garganta. - Vou só olhar.
- Penso que não haverá problema se apenas olhar. Lauren estendeu a mão e Tom lhe entregou as moedas.
Ele lamentou estar com as roupas tão sujas. Colocou o chapéu de lado, esfregou as mãos na calça e praguejou porque elas tremiam como da outra vez. Odiava pensar que tremia daquele jeito apenas porque estava para desabotoar o vestido de uma garota. E Tom nem a tocaria, pelo menos sem que ela lhe autorizasse a fazê-lo. Podia ser um ladrão, um mentiroso, alguém que praguejava a toda hora e até um bêbado, já que nos últimos dias dera de beber. No entanto, não era um canalha. Bem, talvez fosse um pouco. Mas naquele momento se contentaria em desabotoar o vestido e dar uma boa olhada nos seios de Lauren. Abriu um botão, depois outro:
- Lauren Fairfield!
Antes que ele pudesse fazer um movimento rápido e escapar dali, sua orelha estava mais uma vez sendo segurada pela mãe da garota. Como essa mulher podia judiá-lo daquele jeito?
- Não acredito que esteja fazendo isso de novo! Não sabe respeitar gente decente? Desta vez vou exigir que o deixem apodrecer na cadeia.
A Sra. Fairfield o arrastou mais uma vez até o xerife.
- Xerife?!
Tom mal conseguia virar a cabeça, mas percebeu de relance a presença do xerife, parado ao lado do posto do correio. A Sra. Fairfield caminhou, decidida, até ele.
- Senhora.
- O sem-vergonha estava de novo abrindo o vestido de minha menina. Despia Lauren!
O xerife olhou, surpreso, para Tom.
- Mas eu lhe disse...
- Hoje faço dezesseis anos - Tom apressou-se em explicar -, e o senhor me disse que eu poderia ver uma mulher se ela estivesse disposta a aceitar dinheiro. Dei a Lauren duas moedas.
- O senhor disse que ele poderia tirar a roupa de minha filha se lhe pagasse?
- Não exatamente. O rapaz interpretou mal as minhas palavras - o xerife tentou explicar.
- O senhor é um inútil - vociferou a mulher. -Quero o senhor e este sem-vergonha juntos na cadeia. Vou convocar o conselho da cidade.
Tom observou a mãe de Lauren ir embora, pisando duro. A filha a seguia, mas voltava a cabeça a toda hora, preocupada que dessa vez o rapaz não escapasse da cadeia.
Tom se emocionou. Fazia um bom tempo que ninguém se preocupava com ele.
- Qual é o seu nome, garoto? - o xerife perguntou.
- Tommy. - Ele preferia Tom, mas sabia que as pessoas eram mais simpáticas quando ouviam esse apelido, passando a vê-lo como um jovem inocente. Sentiam vontade de proteger um Tommy, mas dispostas a mandar um Tom para a cadeia.
- Onde, em nome de Deus, estão os seus pais?
- Mortos.
O xerife suspirou.
- Venha comigo, rapaz.
- Não tenho medo da cadeia.
- Não vou levá-lo para a cadeia.
O xerife caminhou pesadamente em certa direção e Tom pensou na possibilidade de escapar. Mas fugir só pioraria a sua situação.
Era provável que nunca mais visse a garota de olhos azuis.
O xerife parou diante da porta do saloon.
- O senhor vai mentir e dizer que tenho idade suficiente para beber? - Tom perguntou, cheio de esperanças.
O xerife lhe dirigiu um olhar frio.
- Percebo que não vai fazer isso.
Dentro do saloon, um homem os observou entrando e pareceu surpreso.
- O que traz aí, Wyndhaven?
- Um rapaz sem pais e com muito tempo livre. Pode lhe arranjar algum serviço?
O homem observou Tom com muita atenção.
- Sabe lidar com gado, rapaz?
- Ah, sim - Tom respondeu desafiadoramente. - Sei tudo sobre gado.
- Mentira, rapaz. Não sabe nada. É um pequeno mentiroso, mas aprenderá antes que o mês termine.
- O que vai fazer com ele? - o xerife perguntou.
- Vou lhe arranjar trabalho na Texas Lady Cattle Venture.
À tardezinha, Tom estava com a barriga cheia, uma sensação de sono envolvendo o seu corpo e, pela primeira vez por um longo tempo, tinha esperanças de uma vida melhor.
Agora ele era adulto e estava na Inglaterra.
Dez anos haviam se passado desde que tentara abrir o vestido de Lauren.
Naquele exato momento, Tom estava à porta da casa de Ravenleigh, o homem que tinha lhe oferecido uma chance de sair da miséria em que se encontrara um dia.
Não tinha sido o xerife a quem a mãe de Lauren entregara Tom para ser preso quem havia lhe aberto as portas para um futuro melhor. Havia sido o seu irmão gêmeo, que estava no Texas para uma visita. E, quando ele partira da América do Norte, tinha levado consigo para a Inglaterra a viúva Fairfield, Lauren e suas irmãs.
Tom não tinha certeza se fizera algum ruído ali, parado à porta, ou se Lauren simplesmente pressentiu a presença dele, mas o fato era que ela se voltou e o olhou.

Deus do céu! Tornara-se mais bonita do que ele jamais poderia supor. Tom havia imaginado como a jovem estaria depois desses anos todos. Sabia que seria uma mulher atraente com aqueles olhos azuis sedutores e os cabelos dourados. No entanto, a realidade superara a imaginação.
Lauren tinha escutado um ruído e pensara ser a criada, entrando com o chá que serviria às visitas. Quando levantou o rosto e voltou-se para a porta, sua respiração pareceu parar. Nem percebeu as exclamações de surpresa das outras garotas, uma delas chegando mesmo a soltar um berro.
O chá não tinha chegado. Um caubói, sim.
Lauren o reconheceria onde quer que fosse.
Alto e magro, como ela esperava. Tom se inclinou levemente e tirou o chapéu preto, revelando os profundos olhos escuros.

Os cabelos negros, menos rebeldes do que ela se lembrava, alongavam-se até o colarinho da camisa branca, quase escondida sob um casaco escuro. Uma gravata de seda preta adornava o pescoço. A boca continuava sensual.
Lauren jamais pensara em como o sol implacável do Texas e o vento constante marcariam as linhas do rosto dele. O homem que estava à porta havia tido uma vida dura. Provavelmente também participara de muitas distrações. Tom nunca fazia as coisas pela metade. Mesmo com todas essas mudanças, ela o tinha reconhecido imediatamente.
O garoto que quisera lhe abrir o vestido e havia lhe pagado com duas moedas estava ali, a poucos metros dela.
E o olhar de Tom era de posse. Bem, no passado, talvez Lauren lhe tivesse pertencido.
Era a última pessoa que ela poderia pensar em ver novamente, alguém que desistira de esperar reencontrar. Talvez fosse uma miragem, um filamento da imaginação, uma mera esperança que ainda persistia em permanecer em sua mente.
Mas, quando ele caminhou na direção de Lauren e parou à sua frente, o cheiro de couro, tabaco, uísque e poeira, tudo isso fez com que ressurgissem lembranças esquecidas das noites passadas com ele sob a luz das estrelas. Aquele homem era real. E estava ali. Finalmente.
Talvez fosse um milagre.
O coração batia tão forte que Lauren pensou que todos na saia o estivessem ouvindo.
- Tom? - ela murmurou por fim. - É você?
- Como vai, Lauren. - A voz era profunda e sensual.
- O que faz aqui? - ela perguntou.
- Vim cobrar uma dívida.
- Uma dívida? Do que está falando? Meu Deus, Tom, quem lhe deve?
- Ora, querida, esqueceu-se de sua dívida?

Capítulo III

Lauren arregalou os olhos, procurando entender no que não lhe fazia sentido. A única coisa que ela lhe,ficara devendo...
Bom Deus! Depois de todo aquele tempo, Tom tinha vindo à Inglaterra receber o que havia deixado de fazer no Texas? Abrir o vestido dela? O homem perdera a cabeça?
- Não pode estar falando sério.
- Estou, sim.
Ele observou, deliciado, as feições de Lauren assumirem uma expressão de desafio. Não podia explicar por que lhe agradava ver a jovem assim, obstinada, apertando os lábios em sinal claro de desaprovação. Não tinha vindo até ali para colher a desaprovação dela. Nada disso. É que Lauren sempre conseguia despertar nele um lado meio diabólico.
- É ele, não é? - uma das damas perguntou, antes que Lauren pudesse dar a Tom a devida resposta.
Ele se voltou para a mulher que havia falado. Era bonita, de cabelos loiros e olhos azuis. Parecia até mais bela do que Lauren. Não que isso fizesse alguma diferença para ele. No entanto, não tinha o hábito de ignorar as mulheres. Eram muito raras no Texas. Sendo assim, Tom sorriu.
- Quem pensa que sou, querida?
- Oh! - A moça soltou uma risadinha, e seus olhos começaram a brilhar. - O conde de Sachse.
- Claro que não é o conde de Sachse! - Lauren exclamou. - É um antigo conhecido que veio tratar de negócios com meu padrasto. Não é essa a razão de estar aqui, Tom? Veio contar a Ravenleigh as novidades sobre a Texas Lady Cattle Vonture?
Ele sabia que, à medida que a empresa tinha crescido e incluía mais do que gado, Ravenleigh havia se tornado um investidor, sócio do irmão e de seus dois amigos, Grayson Rhodes e Harrison Bainbridge. Tom tinha conhecimento também de que os homens mantinham Ravenleigh informado dos progressos da empresa. O padrasto de Lauren estava a par do sucesso de Tom. De certa forma, o rapaz órfão que todos acreditavam sem futuro fora acolhido por esses homens. Tom sentia-se como que adotado por eles.
- Eu já lhe disse à razão que me trouxe aqui. - O olhar dele fez o coração de Lauren disparar mais uma vez.
- Certamente não viajou para tão longe de sua casa por alguma coisa tão trivial... - Ela parou abruptamente de talar, como se tivesse lembrado que não estavam sozinhos, è sim com várias damas da sociedade inglesa ali na sala, jovens que adoravam mexericar.
Tom percebeu a hesitação de Lauren. Ele também sabia que cada inglês que conhecera na vida tinha estado em algum escândalo que o levara a uma espécie de exílio no Texas.
- Nunca considerei trivial nada que a envolvesse - Tom falou, notando que Lauren ruborizava.
Não se lembrava de tê-la visto corar antes. Mas precisava se lembrar de que não era mais a menina que o desafiara nos fundos do armazém geral. Ela agora mantinha uma postura, uma calma e graça que lhe faltavam na adolescência. Transformara-se em uma dama, e ele não tinha muita certeza de unais eram os seus sentimentos quanto a essa mudança.
- Por favor, sente-se conosco - a moça que o identificara como conde de Sachse o convidou.
Tom lamentou que o reencontro com Lauren não tivesse acontecido em um momento em que estivessem a sós. Depois de todos esses anos, ela merecia essa consideração. Ambos mereciam.
- Por favor - implorou uma das outras mulheres. - Vamos adorar que se reúna a nós.
Como Tom poderia dizer não a um convite tão gentil?
- Agradeço a atenção. - Ele se sentou em uma cadeira, cruzou as pernas e colocou o chapéu sobre elas.
O olhar de Lauren expressava claramente a sua reprovação à postura dele. Talvez nem fosse isso. Quem sabe estivesse tendo dificuldade para acreditar em sua presença ali, na sala de estar. Ele próprio mal conseguia crer que estivesse na casa da mulher que lhe povoara os sonhos nos últimos anos.
Bem, era a realidade. E não estava fazendo nada de errado naquele momento. Pelo costume inglês, não era apropriado que um homem ficasse sozinho com uma mulher, por mais inocentes que fossem suas intenções. No entanto, ali estavam várias mulheres, então tudo bem.
Com um gesto de cabeça, significando que aceitava a presença do inesperado convidado, Lauren fez as apresentações.
- O senhor é um caubói? - Lady Blythe perguntou.
- Sim, querida, sou.
Ela arregalou os olhos, bateu os cílios várias vezes; parecendo muito satisfeita. Tom apreciava atrair à atenção das mulheres como naquele momento.
Inclinando-se, Lauren lhe tocou na mão, e ele sentiu um arrepio de desejo. Ela sempre provocava esse efeito em Tom, mas nunca fora tão forte, tão urgente, tão imediato.
- Os pais destas damas são nobres. Deve dirigir-se a elas, com mais formalidade - Lauren o repreendeu.
- Não me importo de que o senhor me chame de querida - Lady Blythe falou. - Nunca antes um cavalheiro me chamou dessa maneira.
Tom fingiu-se chocado.
- Acho muito difícil de acreditar nisso, querida. Lady Blythe soltou uma risadinha.
- Mas é verdade.
- Então imagino que a senhorita esteja morando no lugar errado, porque os homens do Texas se alinhariam para chamá-la de querida.
- Verdade?
- Não estou habituado a mentir.
- Desde quando? - Lauren perguntou.
Tom voltou-se imediatamente para a Srta. Fairfield. Antes que dissesse o que estava pensando, foram interrompidos.
- Tom!
A voz familiar ecoou na sala. Tom levantou-se e viu o conde de Ravenleigh atravessar a sala. A aparência do homem não mudara muito desde a última vez que haviam estado juntos. Umas poucas rugas, alguns fios de cabelos brancos quase invisíveis no meio de tantos outros de um loiro-avermelhado.
- É bom vê-lo, meu rapaz.
- Estou feliz de encontrá-lo, senhor.
- Não tinha idéia de que estivesse planejando viajar para este canto do mundo. Deveria ter me escrito para que eu tivesse feito os preparativos para recebê-lo. Precisa de um lugar para ficar, Tom?
- Não, senhor, já estou acomodado.
- Excelente. - O conde virou-se para as jovens. - Senhoritas, perdoem a minha interrupção.
- Ora, milorde. A sua presença só nos causa prazer - Lady Blythe disse educadamente.
- Estou feliz de que estejam em minha casa. - O conde voltou-se para a enteada. - Lauren, por favor, avise o chefe da cozinha que teremos um convidado para o jantar. Vai juntar conosco, não vai, Tom?
- Ah, sim, senhor.
- Esplêndido! - O conde bateu amigavelmente no braço de Tom. -Vamos até a biblioteca, onde poderemos conversar enquanto toma um aperitivo. Quero ouvir tudo o que tem a me contar sobre as suas aventuras, e desejo saber o que meu irmão e meus amigos andam fazendo naquele lugar que chamam de Texas. As cartas não dizem tudo o que eu gostaria de ter conhecimento.
Tom acenou para as mulheres.
- Senhoritas, foi um prazer conhecê-las.
Lady Blythe parecia ter a certeza de que Tom se dirigira diretamente a ela e abriu um enorme sorriso. Os olhos brilhavam.
Tom voltou-se para a jovem que o interessava e lhe fez um sinal de despedida com o chapéu.
- Lauren.
Então ele seguiu Ravenleigh, pensando em qual seria a opinião de Lauren ao saber que ficaria para o jantar.
- Simplesmente tem de nos contar tudo!
- Diga-nos onde o conheceu.
- Quem é ele? Se não é o conde...
- Os caubóis são todos tão bonitos assim?
- É possível que ele seja o conde de Sachse? Afinal, ele não disse que não o era.
- Mas tampouco afirmou que fosse.
- É um homem tão intrigante! Mas, seja lá quem for, vou pedir à mamãe que o convide para o próximo baile.
Lauren sentiu-se confusa diante de tantos comentários e perguntas, não sabia por qual começar a responder.
- Lauren, obviamente já esteve com ele antes. Como se sente em reencontrá-lo? - Lady Blythe indagou.
Todas as demais damas pararam de falar e fizeram o mais absoluto silêncio, aguardando a resposta da Srta. Fairfield. Porém, ela não podia dizer a verdade. Tom havia feito o que sempre fizera. Ele a tinha deixado confusa, excitada e com raiva mais uma vez.
Em todos esses anos, Lauren acreditara ter conseguido superar as emoções que havia sentido pelo seu caubói, mas bastara vê-lo de novo para que os sentimentos esquecidos voltassem com toda a intensidade. Como poderia responder a pergunta de Lady Blythe?
Naquele momento, era impossível.
- Não pretendo ser indelicada, mas, como ouviram o meu padrasto, preciso dar algumas ordens ao chefe da cozinha, já que teremos um convidado para o jantar. Peço que me perdoem, pois terei de solicitar que se retirem. Talvez possamos nos reencontrar em data próxima.
As jovens se levantaram de pronto.
- Claro, claro - Lady Blythe murmurou. - Porém, antes de sairmos, pode nos dizer qual é o misterioso débito que tem com o caubói que agora conversa com o seu padrasto?
- Oh, eu lhe devo uma moeda - Lauren respondeu, apressada.
Os olhares das moças revelavam total incredulidade.
- Quer nos fazer crer que ele viajou da América do Norte para cá apenas a fim de recuperar essa moeda?
Lauren forçou uma risadinha.
- Sei que parece ridículo, mas...
- Pois acho intrigante. Ouso dizer que a presença desse homem tornará a próxima temporada muito mais interessante - Lady Blythe falou.
Oh, meu Deus, certamente Tom não ficará tanto tempo na Inglaterra, aponto de poder participar das festas. Apesar de que, se ele estivesse procurando uma esposa, o que ela duvidava, encontraria muitas mulheres ansiosas para se casar com um homem bonito e rico como ele. Só que não conseguia imaginar Tom pensando em casamento.
- Senhoritas, por favor, precisam me desculpar. Tenho mesmo de procurar o chefe da cozinha.
Lauren voltou-se, então, para o mordomo.
- Simpson, por favor, escolte as senhoritas até suas respectivas carruagens, enquanto informo ao chefe da cozinha que teremos uma visita inesperada para o jantar.
Sabendo que Simpson seguiria as suas ordens, ela se dirigiu à cozinha e, no caminho, foi dando instruções às criadas sobre o jantar de logo mais. Quando teve certeza de que tudo sairia perfeito, respirou fundo e procurou se armar da pouca coragem que lhe restava para, por fim, enfrentar o passado.
Caminhou rumo à biblioteca, um lugar que lhe agradava, já que ali a família se reunia para a leitura da noite. Era uma sala que a fazia se lembrar do Texas, porque a mãe sempre lia para as filhas à noite quando viviam em Fortune. Lauren continuava a apreciar esse hábito, mas agora tinha mais livros para escolher. Desde que Ravenleigh se tornara seu padrasto, havia passado a ter muito mais coisas. Essa era uma das razões de a mãe não entender o descontentamento da filha.
Respirando fundo para se acalmar, Lauren entrou na biblioteca. Todas as sensações que a dominavam ao entrar naquele aposento tornaram-se insignificantes com a poderosa presença de Tom ali. Como ele podia ocupar tanto espaço, quando apenas se sentara em uma das cadeiras de couro em frente ao conde?
Os dois bebiam, provavelmente uísque. Lauren desejou ter tomado um pouco desse líquido conhecido por descontrair até as pessoas mais tímidas. Naquele momento, ela precisava de coragem.
Tom estava ali. Aquele que lhe tinha prometido escrever e nunca o havia feito. Tom, que prometera buscá-la e finalmente tinha chegado...
Para cobrar a dívida.
Se Lauren não estivesse tão desapontada, teria sido tomada pela fúria. O que lhe teria respondido se ele afirmasse ter vindo buscá-la? Ela conhecera o rapaz, mas nada sabia desse homem que havia pouco estivera ao seu lado na sala de estar. Simplesmente teria aceitado seguir com ele?
Ele se tornara mais alto, mais forte, mas não havia grandes mudanças físicas de que ela desgostasse. O rapaz confiante em si mesmo tinha se transformado em um homem igualmente orgulhoso. Não precisava saber como havia sido o passado dele para reconhecer os resultados de sua jornada.
- Desculpem-me interromper a conversa dos senhores - ela disse, procurando afastar as perguntas e dúvidas que lhe atormentavam a mente.
- Entre, querida - o padrasto falou. - Tom acabou de me dar uma notícia fascinante. Por favor, junte-se a nós.
Como se caminhasse em meio à neblina, ela deu mais alguns passos e sentou-se ao lado do padrasto, de frente para Tom. Ele não era mais o garoto que Lauren tinha deixado para trás no Texas. Os interesses que Tom tivera então, apesar de escandalosos, continham certa medida de inocência. Agora, ela não podia acreditar que esse homem com as feições marcadas pelo trabalho duro sob o sol inclemente do Texas mantivesse qualquer sinal de inocência. Mesmo assim, continuava a ser o seu Tom. O que a atraíra nele, no passado, ainda estava presente no homem à sua frente. Por todas as regras que tivesse quebrado e por mais escandalosas que pudessem ser algumas de suas atitudes, ele ainda possuía dentro de si muito valor.
- Qual a notícia fascinante que veio nos contar? - Lauren finalmente questionou.
Tom olhou para o conde, preferindo que fosse ele a anunciar a novidade. Como Ravenleigh apenas sorrisse, deixando para o recém-chegado a incumbência, Tom arrumou-se na poltrona, parecendo mal acomodado. Esfregou as mãos e respirou fundo.
-A jovem dama lá na sala de estar acertou ao dizer quem eu era.
- Um caubói? Isso não é nada difícil de imaginar. Basta olhá-lo com atenção e...
- Não, não. Ela me chamou por um nome. E de fato sou o conde de Sachse.
Lauren ouviu as palavras, mas estas não faziam sentido. Como? Lady Blythe perguntara a Tom se era o conde de quem toda a sociedade inglesa comentava no momento, o tal conde de Sachse. Entretanto, o que isso tinha a ver com seu caubói?
Deus, Tom agora era um conde?!!
- É o conde de Sachse?
Ele concordou com um aceno de cabeça.
- Sim, sou o conde de quem todos andam falando. Lauren lembrou-se das moças que haviam estado na sala de estar e do interesse delas pelo novo lorde. Tinham se sentido atraídas também por Tom, mesmo sem ter certeza de que ele fosse o homem por quem estavam fascinadas. Tentou analisar a nova realidade do caubói que conhecera ainda rapazote.
Olhou para o homem que fazia parte de seus sonhos desde os catorze anos. Não, não era o mesmo. Ela mantinha a imagem de um rapaz de dezesseis anos, não a de um homem, feito.
Tom continuaria sendo o mesmo de antes?
Não conseguiu esconder o enorme desapontamento que sentia. Tom não viera para encontrá-la, e sim para assumir o título de conde. Não havia vindo nem mesmo para desabotoar o vestido dela, como anunciara pouco antes ao dizer que estava ali para cobrar uma dívida. Sua presença na Inglaterra justificava-se apenas pelo fato de que ele agora não era mais Tom Warner, e sim o maldito conde.
- Então é lorde Sachse? - A voz de Lauren soou ríspida. Tom concordou.
- E por que não confirmou o fato quando Lady Blythe...
- Porque você tinha tanta certeza de que eu não era o conde, e não quis começar a lhe dar explicações de minha atual circunstância diante de estranhos.
- Atual circunstância? Diz isso como se estivesse pensando que ela possa a vir a se modificar? Se for de fato o conde, vai continuar o sendo.
- Sei disso. Mas não significa que eu deseje ser o conde. Lauren procurou manter a postura elegante e não revelar a decepção por não ter sido ela o motivo que trouxera Tom à Inglaterra.
Por que estaria tão abalada? Tantos anos haviam se passado e continuava cheia de esperanças de ver seu sonho realizado?
- Já lhe disse qual a razão que me trouxe à Inglaterra. Esqueceu-se?
- Contou-me que seus pais haviam morrido - ela o lembrou.
- Pensei que as pessoas com quem eu havia vivido fossem meus pais. Nunca me disseram que eu tinha sido adotado ou coisa assim. Ninguém mencionou que meus verdadeiros pais eram ingleses e tampouco nobres. Julguei-me um órfão quando me vi sem ninguém na América do Norte.
- Não se lembrava de seus pais verdadeiros?
-Não tenho lembrança alguma de momentos vividos com outra família, a não ser daquela com quem cresci. Agora, fico olhando para o retrato da mulher que dizem ser minha verdadeira mãe e... quero me lembrar dela, mas não consigo.
Lauren sentiu pena de Tom. Devia ser horrível não ter recordação alguma da mãe nem do pai. Ela perdera o seu quando ainda era pequena, mesmo assim se lembrava de momentos passados juntos.
- Lamento que sua vida tenha virado de pernas para o ar - Lauren se ouviu dizendo, tomada pela simpatia. Sabia como era difícil se ajustar a um mundo diferente daquele com que se estava acostumado. - Posso imaginar como deve ser complicado se ver inesperadamente diante de tantas responsabilidades.
- Não são as responsabilidades que me aborrecem. Aprendi a lidar com elas. Apenas sinto que não pertenço à vida de nobre. Ela não me agrada. Considerei a possibilidade de ignorar esse título, mas os investigadores me explicaram que não é uma escolha permitida. Querendo ou não, tudo o que está aqui me esperando pertence-me e não posso abrir mão de nada.
- A lei é muito clara a esse respeito - o padrasto de Lauren interveio. - Não se pode recusar um título a que temos direito por questão do fator hereditário.
- Sendo assim, agora está preso à Inglaterra - a jovem concluiu.
- Lauren nunca foi feliz aqui - o conde de Ravenleigh disse.
Surpresa, ela olhou para o padrasto.
- Não me recrimine, minha querida enteada. Lamento não ter lhe dado a felicidade que merece.
Lauren emocionou-se com as palavras amorosas do padrasto e sentiu que seus olhos se enchiam de lágrimas. Desesperadamente queria dizer a ele que agradecia todo o conforto, o amor e a aceitação que havia lhe oferecido naqueles anos todos.
- Não pode se culpar. Não há nada que o senhor poderia ter feito de diferente. Simplesmente não me ajusto a este novo tipo de vida.
- Mas você se ajustou, aprendeu muito, e agora terá de ajudar o nosso amigo. Tom vai precisar de alguém que lhe ensine como as coisas funcionam por aqui. Estivemos discutindo a possibilidade de você ser a tutora dele nesses assuntos.
- E quanto a Lady Sachse? A viúva do velho conde fez um trabalho exemplar, ensinando Archibald Warner.
- E se apaixonou pelo meu primo durante esse período - Tom acrescentou. - Recentemente se casou com ele.
- Eu não sabia disso,
-A cerimônia não foi realizada em Londres. Ela simplesmente partiu, sem olhar para trás.
A mulher havia conseguido tudo aquilo com que Lauren sonhava: largar tudo e não olhar para trás. Subitamente sentiu simpatia pela ex-viúva. O modo como Lady Sachse tinha se comportado em Londres jamais dera indício algum de que não era feliz com a vida que levava. Quantas outras mulheres também não estavam satisfeitas com sua existência?. - Fale com minha prima Lydia. Ela é agora a duquesa de Harrington e adora seguir todas as regras. Inclusive publicou um livro sobre etiqueta. É muito popular entre as herdeiras americanas que estão querendo se ajustar à sociedade londrina. É possível comprar o livro dela em qualquer livraria.
- Nunca fui dado a leituras. Prefiro aulas práticas e gostaria que você fosse minha professora.
- Lamento, mas estou muito ocupada no momento.
- Não vou gastar muito de seu tempo - ele murmurou, decidido.
- Não tem idéia de quantas regras precisará aprender, Tom. Levará meses, e não tenho todo esse tempo disponível.
- O que há de tão urgente assim que se torna um empecilho às nossas aulas?
- Há algum tempo, faço planos de retornar ao Texas.
A declaração de Lauren atingiu Tom como um soco no estômago e ele teria perdido o equilíbrio, caso estivesse de pé. Não era possível que ela o deixasse agora que a havia reencontrado.
Ravenleigh parecia igualmente chocado, mas nenhum dos dois homens pôde fazer qualquer pergunta a Lauren porque nesse minuto risadas alegres ecoaram na sala, quando a porta se abriu e três mulheres entraram, felizes da vida.
Ravenleigh levantou-se seguido de Tom, que ficou se perguntando se a mulher mais velha seria a mãe de Lauren. Não que ela lembrasse a pessoa amarga que ele conhecera em Fortune. Pelo contrário, parecia satisfeita com a vida. As duas jovens que a acompanhavam deviam ser as irmãs de Lauren. Tom tinha uma vaga lembrança delas, mas, mesmo que não tivesse, as reconheceria imediatamente, já que eram parecidas com Lauren. Possuíam em comum os cabelos loiros, os olhos azuis e as feições delicadas. As duas eram muito bonitas, porém a beleza delas não se comparava com a de Lauren. Não era novidade, já que nenhuma outra mulher podia se comparar a ela.
- Noto que fizeram um passeio agradável - Ravenleigh falou.
- Oh, sim - a mais nova das irmãs respondeu, os olhos azuis presos em Tom, sem esconder o interesse.
- Lembra-se de Tom, mamãe? - Lauren perguntou.
Por um breve momento, enquanto Elizabeth Fairfield, agora esposa de Ravenleigh, o fitava, ele pareceu notar o mesmo gesto de desafio de seu queixo, como nos tempos antigos.
- Sim, claro - ela respondeu. - O que o traz a Londres? Tom se surpreendeu ao ouvi-la falar como uma verdadeira dama inglesa.
- Ele veio assumir o seu título - Lauren explicou, antes que Tom pudesse responder. - É o lorde de Sachse.
A mãe de Lauren olhou para Tom como se subitamente houvessem surgido chifres na cabeça dele. Mais uma vez o fazia se sentir como se estivesse fazendo algo errado. No Texas, Tom sempre estivera diante dessa mulher inflexível.
- Bem, que grande surpresa - ela disse finalmente, a voz pouco expressiva.
- É fantástico! - uma das irmãs exclamou. - Não há quem não cite o seu nome e sua história emocionante. O conde inglês perdido na América do Norte é o tema das conversas desta semana. Todas as pessoas que encontramos hoje nos perguntaram se conhecíamos o conde de Sachse.
- A jovem riu. - Não imaginávamos que o conhecíamos.
- Pode ser que tenha melhor memória que eu - a outra irmã confessou -, mas devo lhe dizer que não me recordo do senhor. Lamento muito, milorde. - Ela fez uma mesura. - Sou Amy no caso de sua lembrança ser tão vaga quanto a minha.
Tom curvou a cabeça.
- Eu me lembro da senhorita.
- E eu, milorde, sou Samantha. Lembra-se também de mim?
- Sim, senhorita, mas não precisa me chamar de milorde.
- Devo, sim. É uma das regras, creio que a de número três.
- Elas são numeradas? - Tom perguntou com surpresa.
- Minha irmã está brincando - Amy disse. - Há tantas regras a seguir que Lauren as enumerou, para que as memorizássemos melhor. Quando chegou ao número trinta e cinco, ela desistiu de continuar porque se tratava de caso perdido.
-O senhor já sabia que era conde quando nos conhecemos no Texas? - Samantha perguntou.
- Não.
- Mas agora tem de nos contar como tudo aconteceu. Vamos ser, sem dúvida, as damas mais invejadas das festas do príncipe.
- Festas do príncipe?
- Minhas desculpas, milorde. Esqueci como tudo é estranho quando nos encontramos em um lugar a que não estamos habituados. O príncipe de Gales tem uma residência em Londres e oferece recepções muito concorridas. E lá não há quem não adore mexericos. Agora que todos vão saber que conhecemos a pessoa mais comentada da temporada, seremos o centro das festas. Todos vão querer saber detalhes de sua vida, milorde.
Tom não estava certo de gostar dessa possibilidade. Uma das coisas que mais detestava era que se intrometessem em sua vida.
- Esta família não precisa de mais mexericos - a mãe das moças murmurou.
- Mas esse é o ponto, mamãe - Samantha explicava. - Agora os mexericos não serão a nosso respeito, mas sobre o conde.
-Não é recomendável ficar espalhando histórias, Samantha. - A mulher mais velha olhou para as filhas. - Precisamos nos retirar, senhores. Temos de nos preparar para o jantar.
- Convidei Tom para jantar conosco - Ravenleigh informou.
A mãe de Lauren pareceu derrotada. Dirigiu a Tom um olhar forçado.
- Claro, claro. Será um prazer termos o senhor como convidado. Agora vamos, meninas.
Tom percebeu o olhar de desculpas que Lauren lhe dirigia. Era como nos tempos antigos, em que ela sempre seguia a mãe por dever de filha.
Quando as mulheres deixaram a biblioteca, Ravenleigh pegou o copo de uísque.
- Vamos terminar nossa bebida - ele propôs.
Tom voltou a sentar-se na poltrona, pegou o seu copo e tomou o uísque que Montgomery tinha enviado de presente a Ravenleigh. Era um gosto familiar e, por um momento, pareceu que Tom estivesse de novo no Texas, saboreando a bebida. Voltou-se então para o padrasto de Lauren.
- Ficou surpreso com a intenção de Lauren de voltar ao Texas?
- Não tinha idéia da pretensão dela. Lamento muito, Tom, ou melhor, Sachse. Veio vê-la, não é?
Tom concordou, imaginando se lhe seria possível passar alguns momentos a sós com Lauren naquela noite. Quem sabe poderiam conversar de fato. Por que ela estaria planejando voltar ao Texas? Do que exatamente sentia falta? Obviamente não era saudade dele, já que, mesmo ao reencontrá-lo em Londres, Lauren continuava querendo voltar à América do Norte.
- Tem se encontrado com meu irmão ultimamente? - Ravenleigh perguntou, mudando de assunto.
Kit Montgomery havia se tornado uma lenda no Texas, elogiado pela busca por justiça. Havia sido o xerife de Fortune, tornara-se sócio da Texas Lady Cattle Venture e era uma pessoa por quem Tom sentia muito respeito.
- Quase não o tenho visto desde que se tornou um Ranger e se mudou para a parte oeste do Estado - Tom respondeu.
- Ele acha que o clima quente pode melhorar a saúde da esposa - Ravenleigh falou. - Pode ser que melhore.
- Montgomery é um homem muito admirado na América do Norte. Estão escrevendo outro livro sobre ele.
Ravenleigh riu, satisfeito.
- Parece ironia do destino meu irmão, que deixou a Inglaterra por causa de escândalos, estar agora com uma reputação de homem notável. Ele e os amigos se deram muito bem na América do Norte.
- Não vou discordar disso. Ravenleigh observou Tom por um minuto.
- Kit e os amigos têm elogiado o seu trabalho, Tom. Saiu-se extraordinariamente bem nos negócios.
- De fato, minha vida mudou muito. Estou satisfeito no Texas, mas não posso dizer o mesmo quanto a este lado do mundo.
- Vai se adaptar e acabar gostando daqui. Não duvido disso.
- Foi a pessoa que me deu o empurrão inicial, Ravenleigh, e lhe agradeço.
- E eu lhe devo o fato de ter a minha família como é hoje. Se não tivesse saído da linha em Fortune, eu não teria conhecido a minha Elizabeth.
- Ela mudou muito desde a última vez que a vi - Tom confessou.
Ravenleigh ficou sério.
- Todos nós mudamos, Tom. Ajustarem-se ao meu tipo de vida foi muito duro para Elizabeth e as filhas, mais do que eu imaginara que pudesse ser. Pensei que Lauren seria mais simpática com o senhor. Ela não devia ter se recusado a ajudá-lo. Mas Samantha poderá substituí-la bem nesse caso.
O problema era que Tom não queria que Samantha o ajudasse. Queria Lauren e, se tivesse uma oportunidade de conversarem, ele a convenceria. Quem sabe a faria reconsiderar a idéia de deixar Londres, pelo menos por enquanto.
- Não desisti de persuadir Lauren, Ravenleigh.
O conde percebeu a emoção que havia na voz de Tom.
- Parece que não entendi bem o que custou a Lauren mudar-se para cá.
- O que custou a nós dois - Tom o corrigiu em voz baixa.

- Sabe o que todos estão dizendo sobre Tom? - perguntou Samantha.
- Que é diabolicamente bonito, assustadoramente incivilizado e incrivelmente rico - Lauren respondeu, enquanto escolhia o vestido que usaria no jantar.
Era-lhe difícil ficar conversando com a irmã quando todos os seus pensamentos estavam voltados para os acontecimentos daquela tarde. Tom. Ele era o conde de Sachse.
- Lady Blythe e as amigas estiveram aqui esta tarde para saber se eu podia revelar alguma coisa sobre o novo lorde.
- Estiveram aqui?
- Sim.
- E?
Lauren olhou para a irmã que estava sentada na cama, com uma expressão de curiosidade no olhar.
- E o quê?
- O que aconteceu?
- O que pensa que pode ter acontecido? Tom estava usando calça, o que era mais do que suficiente para que Lady Blythe começasse a agir como uma tola.
- Cassandra encenou mais um de seus infames desmaios?
- Felizmente não.
- E Lady Blythe ficou interessada em Tom?
- Claro. Eu não sabia que ele era o conde de Sachse até que elas saíram daqui. Se Lady Blythe o houvesse descoberto, provavelmente teria se atirado nos braços de Tom.
- E o que acha disso?
- Do quê?
- Lauren, deixe de bancar a desinteressada, repetindo cada pergunta minha. Não pode negar que sempre teve esperanças de que Tom viesse atrás de você. Recusou todas as propostas de casamento que recebeu dos lordes. Porque esperava Tom ou porque não quisesse se casar com um lorde.
Um pouco das duas coisas talvez, Lauren pensou, enquanto voltava a examinar os vestidos em seu guarda-roupa. Sentia uma dorzinha de cabeça. Talvez nem descesse para jantar aquela noite, preferindo repousar. Não estava gostando de passar pelo interrogatório de Samantha e sabia que logo Amy também estaria lhe fazendo perguntas e mais perguntas.
- Está apaixonada por ele? - Samantha questionou. Lauren voltou-se para a irmã com ar de censura.
- Nem o conheço bem. Vi esse homem quando ainda era um rapaz, mas o tempo passou. Nem sei quais são os meus sentimentos em relação a lorde Sachse.
- Exponha-os quando se decidir. Ele tem todas as qualidades que quero em um marido, e se não estiver interessada...
- Que qualidades?
- É bonito, charmoso, tem dinheiro e um título.
- Quanta bobagem. A beleza some com o passar dos anos, o dinheiro pode também desaparecer...
- Mas o charme e o título durarão para sempre. Lauren levantou-se, irritada.
- Está me provocando. Certamente deve querer saber mais sobre um homem antes de decidir se casar com ele.
- Pense o que quiser - Samantha retrucou. - Mas sou diferente de você, querida irmã, e não me oponho a me casar com um lorde.
Lauren viu Samantha sair do quarto, suas palavras ainda ressoando no aposento. A irmã estaria mesmo interessada em Tom? E, se estivesse, o que isso tinha a ver com ela?
Infelizmente, Lauren reconhecia que se importaria muito se Samantha se envolvesse com Tom.
A mãe de Lauren tinha dado duas filhas a Ravenleigh, Joy e Christine. Joy tinha nove anos e Christine seis. Loiras, haviam herdado os olhos azuis do pai. Eram muito novas para se reunirem à família durante o jantar, mas foram à biblioteca para conhecer o novo conde e deixaram Tom encantado. Ele ficou pensando que em poucos anos as duas estariam despertando paixões nos rapazes.
Um pouco depois que as garotinhas voltaram aos seus quartos e quando Ravenleigh pediu licença para cuidar de alguns assuntos da casa, Tom aproveitou a oportunidade para dar um passeio pelo jardim. Caminhou até a varanda, sentindo o aroma das rosas que enfeitavam elaborados canteiros. Será que agora que era um lorde deveria saber o nome de todas as flores que ornamentavam o jardim da mansão do Ravenleigh? Os ingleses pareciam amar os seus jardins.

Balançou a cabeça, desanimado. Essas pessoas não faziam parte do mundo de Tom.
Tirou um cigarro do bolso interno do casaco, pensando seriamente em pedir desculpas e não participar do jantar de logo mais. Não estava vestido de forma adequada, e uma das coisas que tinha aprendido era que cada refeição assemelhava-se a uma espécie de festa, e um homem deveria estar com um traje adequado. No entanto, ele vestia uma roupa comum, um casaco que lhe custara incrivelmente caro, sem contudo torná-lo parecido com um cavalheiro inglês. Sentia-se fora de seu ambiente. A mãe de Lauren de certo o observaria como nos tempos de antes e o classificaria como sempre; o fizera. Não levaria em conta o título de conde que agora ele possuía e o julgaria um pilantra e pé-rapado. Talvez porque ela tivesse se transformado com sucesso em uma Lady inglesa, enquanto ele jamais se tornaria um cavalheiro inglês, por mais que se esforçasse. E tinha de reconhecer que não se sentia predisposto a sacrificar a sua identidade só para aparentar o que não era.
Também era preciso lembrar que a mãe de Lauren apenas o havia encontrado em Fortune em momentos complicados. Era natural que não o visse com bons olhos. Mais de uma vez, pegara-o fazendo alguma coisa inadequada.
Não que ele tivesse se portado melhor nessa tarde. Em vez de ter uma conversa agradável com Lauren, ele a lembrara da dívida, fazendo-a se recordar dos tempos em que, eram tão jovens ainda. Afinal, Tom nem pensava em recuperar as moedas, tampouco estava ali para abrir os botões de algum vestido. Porém, sentira prazer em ver o brilho de raiva nos olhos azuis de Lauren. Adorava lhe observar as reações apaixonadas.
Naquele exato momento, imaginou estar sendo vigiado. Um outro perfume viera a se misturar com o das rosas e das demais flores do jardim. Sem se voltar, soube imediatamente quem entrara na varanda.
- Quer tragar o cigarro? - ele perguntou.
- Continua sendo uma criatura de maus hábitos, Tom. E saiba que damas não fumam.
- E tampouco bebem ou praguejam, não é? Mas houve um tempo em que me acompanhava nesses meus maus hábitos.
- Eu era então uma criança. Você estava sempre me corrompendo, e eu era tola o suficiente para imitá-lo. Não sou mais uma criança.
- Isso é bastante óbvio, Lauren.
Ela se aproximou e Tom lhe admirou mais uma vez a beleza. Estava usando um vestido azul, elegante e muito feminino. Os cabelos haviam sido presos no alto da cabeça, mas alguns cachos rebeldes soltavam-se do penteado bem-comportado. Ah, os ingleses se davam a um trabalho enorme para se prepararem para um simples jantar.
- Não tinha idéia de que herdaria uma fortuna e um título de nobreza, Tom?
- Nenhuma.
- Então deve ter sido um choque.
- É pouco.
- Disse que não se lembra de nada de seu passado.
- Não me recordo de meus verdadeiros pais nem de uma vida aqui na Inglaterra.
- Mas sua mãe deve tê-lo amado muito.
- Tanto que me abandonou - ele ironizou.
- Tom, não pense assim.
- Ela me entregou a uma família e sumiu de minha vida. O que julga que devo pensar?
Ele se deteve antes de afirmar que Lauren também o abandonara. Bem, a mãe dele já havia morrido, mas Lauren estava ali, ao seu lado. Poderia dar mais uma chance ao relacionamento dos dois.
- Não conheci o seu pai, Tom, mas a crueldade dele chega a ser uma lenda. Penso que sua mãe quis poupá-lo de sofrimento. Procurou afastá-lo de um pai violento.
- Imagino que ela poderia ter feito outras coisas para impedir que eu sofresse nas mãos de meu pai. Abandonar o filho não me parece a melhor das alternativas.
- Ela não tinha como saber que seus pais adotivos morreriam e você ficaria órfão. É muito corajoso por aceitar a carga que jogaram em cima de você agora.
- É preciso coragem para enfrentar um estouro de boiada. Vir aqui não passa de uma inconveniência apenas.
- Em alguns meses, poderá ter uma definição diferente para coragem.
Ele não achava que precisasse de muita coragem para comparecer a bailes, jantares e óperas. Claro, o jantar daquela noite seria o primeiro em que teria de se comportar como um cavalheiro. Não que precisasse se esforçar muito para pôr em prática suas boas maneiras. Sabia como se portar à mesa, já que jantara com homens de negócios e banqueiros na América do Norte. Trabalhar com o império do gado fazia parte da Texas Lady Cattle Venture.
- Tenho uma proposta a lhe fazer, Lauren - Tom murmurou, decidindo se valer de seu charme e gentilezas.
- Não tenho interesse em suas propostas, Tom.
- Ainda não a escutou, Lauren.
- Está perdendo tempo.
- Que é meu e posso gastar. Ensine-me o que não sei e a liberarei de seu débito.
Lauren não conseguiu deixar de rir.
- O débito? Não está se achando no direito de me desabotoar o vestido, não é?
- Isso ou quero de volta as moedas.
- E onde pensa que vou conseguir moedas americanas neste país, depois de todos esses anos?
- Esse é um problema seu, querida, mas deve me pagar de um modo ou de outro.
Lauren não podia acreditar que Tom estivesse falando sério.
- Já não deve ter a curiosidade de antes, Tom. Imagino que tenha sido saciada.
De fato, ele desabotoara muitos vestidos, mas nunca havia achado a experiência completamente satisfatória. E sabia a razão. Sempre quis apenas uma mulher. Lauren.
Tragou o cigarro, sem comentar a afirmação da jovem.
- Está me ignorando? - ela perguntou por fim.
- Nunca poderia ignorá-la, Lauren.
- Mas fez isso por dez anos.
- Diabos que fiz! - A voz dele soou como um trovão no silêncio do anoitecer. Jogou longe o cigarro e a encarou. - Como pode me dizer que a ignorei? Eu lhe escrevi todas as noites, como lhe prometera. Todas as noites nos primeiros dois anos que se seguiram à sua partida. No terceiro ano, eu lhe escrevi uma carta por semana. Depois uma a cada mês. Nem sempre podia colocá-las no correio, assim as juntava e depois as postava de uma vez. Eu lhe escrevi, Lauren.
Ela sacudiu a cabeça, os olhos revelando o choque provocado pelo que acabara de escutar.
- Nunca recebi carta alguma, Tom. Nem uma única.
- Pois as escrevi - ele repetiu, a raiva se dissipando à medida que entendia a razão por trás do silêncio de Lauren em todos aqueles anos.
- Quando parou de me escrever? - ela perguntou.
- Nunca parei de todo. No fim, eu lhe escrevia, mas não enviava as cartas. - Como ele desejava poder tocar em Lauren.
- É um ladrão, Tom. E pragueja. E mente...
- Nunca menti para você, Lauren. Sabe disso, não é? Lágrimas escorriam dos olhos da jovem.
- Por que não recebi suas cartas?
- Não sei, querida.
- Todas as manhãs, eu esperava encontrar uma carta sua. Por anos continuei aguardando, até que desisti. E, apesar de nunca ouvir nenhum comentário a seu respeito, esperava que um dia me escrevesse e viesse me buscar. Oh, Tom, estive aqui tão infeliz e sentindo falta da vida que deixara para trás.
Algumas vezes um homem não consegue encontrar palavras poderosas o suficiente, a ponto de fazer uma mulher, parar de chorar. Assim, Tom nem tentou,
Tomou o rosto de Lauren em suas mãos, sentindo-lhe a maciez da pele, tocando no caminho das lágrimas.
Não era mais a menina de antes, e sim uma mulher. Os olhos dela estavam fechados, quando ele abaixou o rosto e seus lábios se encontraram. O beijo tinha o gosto de que ele se lembrava. Lauren, que havia se tornado uma mulher capaz de provocar grandes paixões em qualquer homem, voltava, naquele momento, a ser como antes. Ele desejou carregá-la em seus braços e levá-la para muito longe dali, para um lugar onde pudesse terminar aquilo que no passado começara a fazer.
Mas não queria terminar nada, e sim começar algo novo com Lauren. Dez anos atrás, ele a amara como um garoto de dezesseis anos podia fazê-lo. Não sabia se a amava ainda, porém o que sentia era uma enorme afeição e o desejo de retomar o que lhe havia sido tirado.
Pensara em Lauren todas as noites de cada ano em que tinham estado separados. Levara-a consigo em seus sonhos, em suas lembranças. E agora, uma mulher adulta, ela não parecia muito diferente da imagem que ele havia formado em sua mente.
Lauren era Lauren.
Que ironia ela tê-lo esperado para que a levasse de volta ao Texas,enquanto ele sonhava que Lauren retornaria um dia e os dois se reencontrariam, ela nunca respondera à carta alguma, mesmo assim a esperança havia persistido. Nunca desistira de sonhar com um futuro em que os dois estivessem juntos.
Naquele momento, Tom saboreava a doçura da boca de Lauren misturada ao sal de suas lágrimas. Aquela mulher se sentira infeliz esses anos todos na Inglaterra. Não podia condená-la por tê-lo deixado com o coração ferido e decepcionado.

Capítulo IV

Dez anos antes
Lauren nem podia acreditar que estivesse deitada ao lado de um rapaz, na grama verde perto da baia. No escuro. Se não fosse pela lua cheia, ela teria dificuldade de ver o rosto de Tom.
Mais do que isso. Lauren estava de camisola, mas era feita de um tecido grosso e se assemelhava a um vestido. Nenhuma parte mais íntima do corpo podia ser vista através do pano. Tom, como sempre, usava calça e camisa.
Naquela noite, ele tirara do bolso um cigarro e o acendera. Ela havia experimentado o fumo e achado o gosto muito ruim. Tom sempre a procurava tarde da noite, depois que a mãe dela tinha ido dormir. Jogava pedrinhas na janela do quarto do andar de cima, sabendo que Lauren devia estar à sua espera. A garota saía às escondidas pela janela, arriscava-se a uma queda, mas não conseguia deixar de passar aqueles momentos proibidos com Tom. E aguardava a hora em que de lhe pediria para lhe desabotoar o vestido, porém Tom parecia ter desistido de fazê-lo, isso, de certa forma, aumentava ainda mais a atração que sentia por ele.
- Olhe! - Tom apontou para o céu. - Viu a estrela cadente?
- Vi, sim. Por que acha que as estrelas caem desse jeito? O que será que acontece com elas?
- Não sei. É uma daquelas coisas que não sabemos explicar.
- E onde acha que elas caem?
- Vai ver que em outro lugar do céu.
- Mamãe disse que aquele que fizer um pedido quando uma estrela estiver caindo terá o desejo atendido.
- Não acredito nisso.
Lauren sentou-se e olhou, surpresa, para Tom. Ele mantinha as mãos atrás da cabeça, o corpo comprido estendido no chão. Vinha trabalhando na Texas Lady havia mais de uma semana, no entanto parecia ter crescido nesses poucos dias. Comia regularmente agora e tinha um lugar para dormir. Felizmente passara a época dos biscoitos roubados.
- É triste não acreditar em desejos, Tom. Uma pessoa deve querer algumas coisas na vida.
- Não disse que não acredito em desejar coisas. Quero muitas coisas nesta vida. Só não acredito que baste o desejo. É preciso lutar para conseguir o que se quer.
Lauren sentou-se e envolveu as pernas com os braços, pressionando o queixo contra o joelho.
- Roubar facilita as coisas, é isso o que está dizendo? Não perde tempo querendo uma coisa, já que basta roubá-la?
- Não tenho roubado nada desde que comecei a trabalhar. Também já lhe disse que roubar é coisa ruim quando se tem dinheiro no bolso. Agora que possuo um pouco, não preciso mais disso.
- Estou contente. Não quero que vá para a cadeia... nem para o inferno.
- Não estou preocupado com o inferno. Já estive lá.
- Somente se vai para lá após a morte e se não tiver sido uma pessoa boa.
- Eu era bom e fui para o inferno mesmo estando vivo. Lauren estendeu a mão e tocou com carinho no ombro de Tom. Queria tocar no rosto dele onde já havia alguns fios de barba, mas não sabia como ele reagiria ao gesto.
- Foi quando esteve no trem dos órfãos?
- Com a família a quem me entregaram. Nunca conseguia agradar ao velho por mais que trabalhasse. Ele me trancou em um galpão uma noite, com medo que eu fugisse.
- E você fugiu.
- Sim.
- Como escapou?
- Ele começou a me espancar sem qualquer motivo. Continuamente. O velho devia ser maluco. E então comecei a ficar cansado de apanhar. Assim, um dia, revidei e ele caiu para trás. Aproveitei para fugir. Eu era bem mais rápido do que o velho e corri até chegar aqui.
- Estou contente que tenha parado nesta cidade.
- Não tinha planejado ficar aqui para sempre, mas agora fui contratado para cuidar de gado. Não vejo razão para ir embora, já que estou com a barriga cheia e tenho uma cama onde dormir.
Lauren sentiu-se desapontada que essa fosse a razão que q segurava na cidade. Ao contrário de Tom, ela acreditava em desejos. Desviou o olhar e ficou olhando a baia.
Tom vivera as suas aventuras, tinha estado em muitas partes e ela jamais colocara um pé fora de Fortune. Havia pensado em lhe contar que, quando vira a estrela caindo, tinha desejado que pudesse viajar para algum lugar bem bonito. Porém, a mãe também lhe dissera que os desejos só se tornavam realidade se fossem mantidos em segredo. Não podia se arriscar a revelar o que desejara havia pouco.
- Já beijou um homem? - Tom perguntou inesperadamente.
Lauren não olhou para ele, mas sacudiu a cabeça, negando.
- E você já beijou uma garota?
- Não. - Ele se sentou na grama. - Mas ando interessado em beijar.
- Alguém que eu conheça? - Ela se esforçou em manter o sorriso.
Tom espreguiçou os braços e virou para Lauren o rosto iluminado pela lua.
- Tenho uma coisa para lhe dar.
- O quê? - ela perguntou, imaginando qual seria esse presente: um beijo.
Ele se inclinou e ajeitou os cabelos que Lauren tinha trançado. Depois enfiou a mão no bolso e tirou algo.
- Uma fita para os seus cabelos.
- Não consigo dizer de que cor é nesta escuridão.
- E da cor de seus olhos.
Com o coração batendo forte, ela pegou a fita e uniu as duas tranças.
- Roubou a fita?
- Não, foi a primeira coisa que comprei com o dinheiro que ganhei com meu trabalho.
Lauren não conseguiu deixar de sorrir.
- Verdade?
- Sim,
- E qual foi a segunda coisa que comprou?
- Um licor, mas não posso lhe mostrar porque tomei tudo.
- Não gosto mesmo de licor. - A garota estava feliz. Nunca antes ganhara um presente de um rapaz. Tom havia escolhido uma fita, um presente muito especial. Nem o inglês que andava visitando a mãe dela tinha lhe dado uma fita.
- Está pensando se quero ou não beijá-la? Lauren levantou o rosto na direção de Tom.
- Foi por isso que comprou a fita? Para que eu o deixasse me beijar em agradecimento?
- Não. Quando vi a fita, lembrei-me de você. Mesmo se não quiser o beijo...
Rapidamente ela tomou a iniciativa e encostou os lábios nos dele. Cheiravam cigarro e bebida. Não podia voltar para casa com aquele cheiro, senão a mãe ficaria fora de si.
Afastou-se e lambeu os lábios. Olhou para Tom à espera de sua reação ao beijo.
- E então? - ela finalmente perguntou.
- Foi como uma estrela cruzando os céus.
- Isso é bom ou ruim?
- Significa que foi muito rápido, acabou sem nem bem ter começado. - Tom pegou o queixo de Lauren com a mão áspera de alguém que trabalhava duro. - Deixe-me tentar do meu jeito.
- Não pensei que houvesse um jeito especial. Vou acabar achando que já beijou antes.
- Não significa que eu não tenha pensado em beijar.
- E quem pensava em...
- Shh, menina. Algumas vezes você fala demais. Quando os lábios dele, quentes e firmes, mesmo assim gentis, pressionaram os dela, Lauren pensou que amaria esse rapaz até o dia de sua morte.

- Tom, aconteceu uma coisa horrível! - Lauren não conseguia conter as lágrimas. - Estamos indo embora!
Ele olhou para a garota. Pensou ter ouvido errado. O que ela dissera, meu Deus?
- Indo embora? Vai sair de Fortune? Para onde? Ela fez sinal que sim, as lágrimas em seus olhos.
- Aquele inglês que estava cortejando minha mãe pediu-a em casamento, e ela aceitou. Vamos viver na Inglaterra.
Tom sentiu-se atordoado ao ouvir as palavras de Lauren. Ela era a melhor parte da vida dele, como podia ir embora?
- Vai para tão longe? Haverá um oceano nos separando.
- Tom, nunca mais vou vê-lo.
Ele a abraçou, puxando-a para bem perto, sentindo as lagrimas que deslizavam naquele rosto delicado molharem o pescoço dele. Lauren não podia estar indo embora. Era muito cedo. Tom ainda não tinha nada para lhe oferecer.
- O que vamos fazer? - ela perguntou.
Ele engoliu em seco, detestando a verdade do que ia dizer naquele instante.
- Lauren, não tenho nada a lhe oferecer.
- Pensei que me amasse.
Tom desviou o olhar, sentindo o coração despedaçado. - Sei que nunca me disse que me amava, mas pensei...
- É o que sinto, Lauren. - A declaração veio espontânea. Ele não podia negar os seus sentimentos.
- Então o que vamos fazer? - ela perguntou mais uma vez.
Tom não sabia. Lembrou-se do inglês que seria o padrasto de Lauren. Era um homem extremamente bem vestido. Na verdade, um conde inglês, mas nada afetado. Tom conversara com ele algumas vezes, já que o conde estava investindo no negócio de gado.
Mesmo trabalhando na Texas Lady Cattle Venture, Tom não podia nem pensar em comprar roupas novas. Pena que não tivesse sido esse inglês a adotá-lo quando estivera no trem dos órfãos. O conde cuidaria bem de Lauren até que Tom pudesse ir buscá-la na Inglaterra.
- Penso que deve ir com sua família - o rapaz respondeu finalmente, como se ela tivesse outra escolha, o que ele sabia não ser verdade.
Se a mãe de Lauren estava indo à Inglaterra, jamais deixaria a filha para trás.
A garota olhou para Tom, tentando aceitar aquelas palavras.
- Juro que irei buscá-la logo que puder, Lauren. Prometo que não vai demorar. Vou começar a guardar todo o dinheiro que ganhar.
Nas noites que se seguiram, ele pensou que morreria de saudade de Lauren quando ela partisse. Ficavam junto à baia, e Tom descrevia a casa onde viveriam num futuro não muito distante e falavam das coisas que comprariam, dos passeios que fariam. Na última noite que haviam passado juntos, adormeceram nos braços um do outro, banhados pela luz do luar.
Ao amanhecer, ele a levara para casa.
- Vou sentir muito a sua falta, Tom. Promete me escrever?
- Todos os dias.
- Quando for me buscar, ficaremos juntos para sempre.
- Para sempre - ele repetiu. - Chegará o dia em que nunca mais iremos nos separar.

Capítulo V

As promessas de Tom ecoaram na mente de Lauren. Ele mantivera uma, mas o destino tinha impedido que cumprisse a outra. Muitos anos haviam se passado. O que ela havia sobre esse homem? O que Tom sabia sobre ela?
Suas realidades agora eram outras.
Ele precisava ficar na Inglaterra e Lauren queria partir dali.
Na varanda, em meio ao perfume das flores do jardim, ela não conseguia resistir à ternura do beijo. No entanto, talvez esse fosse apenas o modo que Tom encontrara para que ela parasse de chorar.
Sentiu em seu rosto a aspereza das mãos calejadas pelo trabalho duro. Os ingleses nunca executavam um trabalho rude sem usar luvas. Tom nem havia tido essa chance e, mesmo se tivesse tido, não conseguia imaginá-lo sem querer tocar nas coisas.
Lembrou-se do que a mãe sempre dizia a respeito dos sentimentos da filha pelo rapaz do Texas. Era uma emoção mal interpretada. Impossível que uma menina amasse um menino e esse amor permanecesse vivo até a maturidade.
Lauren não podia negar que Tom ainda lhe despertava estranhas e deliciosas sensações físicas. Nunca se cansaria de olhar para aquele rosto bonito, de escutar a sua voz é de estar em seus abraços. Mas ele poderia ter mudado e não ser exatamente o rapaz que ela havia conhecido.
O que as pessoas no Texas pensavam de Tom? Claro que ele tinha se sobressaído no trabalho, enriquecera, inclusive. Mas seria um homem de respeito e leal? Um líder?
E o que as mulheres que ele havia conhecido nos últimos anos pensavam desse homem?
Ela havia sido cortejada por Kimburton, que chegara a pedi-la em casamento. Tinha gostado de ser bajulada, no entanto não se sentira tentada a se deixar beijar e tocar pelo nobre inglês.
Havia tido momentos em que desejara ser como as outras jovens, mas isso significaria trocar de sonhos.
E os sonhos dela agora teriam alguma chance de se realizar?
O lugar de Tom; o lar dele seria a Inglaterra e para sempre.
Atingida por esse pensamento, interrompeu o beijo e afastou-se, sentindo que as pernas pareciam não sustentá-la. Estava confusa, perdida e incerta de seus sentimentos. Havia se deixado envolver pela raiva dos últimos anos, porque ele quebrara a promessa feita e não tinha lhe escrito carta alguma. Chegara a odiá-lo. Mas sabia que essa emoção era injustificada. Como poderia descartar os dez anos que havia passado acreditando que Tom a abandonara? Simplesmente porque tinha descoberto não ser a verdade que apagava todas as amarguras sentidas, todas as decepções sofridas.
- Aonde essa nova descoberta nos leva, Lauren? - ele perguntou, como se lesse os pensamentos dela.
- Não sei, Tom. Estava justamente pensando nisso, no que acreditei nos últimos anos. Tenho de reorganizar os meus sentimentos diante da verdade. E sinto-me estranha. Preciso de tempo para analisar o nosso relacionamento.
Ele balançou a cabeça, como se soubesse a resposta antes que ela a pronunciasse. Ou talvez entendesse melhor do que Lauren o que era descobrir a verdade depois de ter sido enganado a vida toda.
-Acho melhor não ficar para o jantar - Tom murmurou, com voz áspera. - Apresente as minhas desculpas à sua família. E pode deixar que encontro o caminho da saída.
Sentiu-se tentada a chamá-lo, mas deteve-se. Ficou ouvindo os passos dele soarem na casa até desaparecerem.
Tom tinha ido embora.
Por um bom tempo depois que ele havia partido, Lauren ficou sentada no banco de pedra do jardim, rodeada das rosas que a mãe tanto adorava cuidar. Esse pequeno canto era o lugar preferido de Elizabeth Fairfield, onde se permitia lembrar os tempos que deixara para trás, quando vivia em uma fazenda. Ela adorava mexer na terra e deixá-la pronta para as roseiras brotarem. Os jardineiros cuidavam da maior parte do jardim da mansão, mas aquele canto era reservado à sua mãe. Lauren também tinha passado muitas horas ali sentada, procurando encontrar a paz na beleza que a mãe criara. Sentiria falta daquele lugarzinho quando deixasse a Inglaterra, mas ainda assim precisava ir embora e bem depressa, antes que se sentisse tentada a ficar.
As lágrimas voltaram a deslizar pelo seu rosto. Nunca imaginara que um dia pudesse sentir falta daquele lugar. Havia odiado a Inglaterra antes mesmo de chegar até lá, como se o país fosse o responsável por tê-la afastado de quem tanto gostava.
O principal motivo de sua tristeza nos últimos dez anos foi o fato de Tom ter ficado para trás e prometido buscá-la sem tê-lo cumprido. Lauren perdera a chance de vê-lo se transformar em um homem bem-sucedido.
E agora, um nobre.
Ele finalmente estava na Inglaterra, mas por causa de seu título de nobreza. Se não fosse por essa razão, ainda estaria na América do Norte. Não porque quebrara sua promessa, e sim porque tinha passado a acreditar que a menina que o encantava olhando as estrelas o havia esquecido.
Como mudar o que ficara para trás? Haveria um modo de, retomarem de onde tinham parado? Poderiam esquecer as mágoas sentidas, os ressentimentos, as chances que perderam de ficarem juntos, de rirem, de se beijarem? De verem as estrelas cadentes?
Lauren procurou analisar friamente os seus atuais sentimentos.
Não podia negar que estava feliz por reencontrar Tom, de saber que ele estava bem. Até chegava a considerar a possibilidade de ensiná-lo as regras de etiqueta inglesa, não a ponto de lhe permitir que tomasse liberdades com ela, apenas simplesmente para ter a oportunidade de passarem algum tempo juntos. Mas precisava proteger o seu coração. Ele era vulnerável demais. Não queria se colocar na situação de abandonar Tom novamente. O problema maior era que não conseguia nem pensar em ficar muito mais tempo na Inglaterra, já que corria o risco de perder os últimos vestígios da verdadeira Lauren.
Ela havia se adaptado e se ajustado e desempenhava bem o papel de enteada de um aristocrata, mas nunca se sentia à vontade em meio aos nobres. No começo, desejara ser aceita, especialmente para agradar à mãe e às irmãs. Mas isso tinha mudado. Precisava comunicar à família o seu desejo de voltar a ser ela mesma. Não seria uma tarefa fácil. Sendo assim, tinha de ensaiar as palavras que diria à mãe.
Lembrou-se de quando haviam chegado à Inglaterra e do trabalho que o padrasto tivera para lhes corrigir a forma de falar e se comportar. Não podiam mais agir como se estivessem no Texas.
Lauren sorriu.
Ah, chegara a pensar que o conde as colocaria em um navio e as mandaria de volta à América do Norte. Em vez disso, ele havia contratado uma série de tutores para ensinar à esposa e às enteadas como falar delicadamente, as regras de etiqueta a seguir, como caminhar com elegância, como dançar, cavalgar, jantar, tocar piano, cantar, pintar e escrever cartas. O conde havia moldado a esposa e as enteadas a ponto de torná-las inglesas.
Tom queria que Lauren lhe ensinasse o que precisava saber para não cometer gafes em reuniões sociais. Ele não tinha idéia no que estava se envolvendo. Levaria meses. Deus, poderia levar anos. Tom era rude e muitos dos seus hábitos pareciam incivilizados diante dos ingleses.
Mas ela não queria que ele mudasse, que fosse domado, que se ajustasse àquelas regras bobas.
Escutou o farfalhar de saia e não se surpreendeu ao ver a mãe se sentar ao seu lado no banco.
- Sempre gostei deste recanto do jardim.
- Eu também.
- O jantar está para ser servido.
- Estou sem fome, mamãe. Gostaria que me dispensasse dessa refeição.
- Samantha encontrou Tom, no hall de entrada. Ele pediu desculpas, mas se lembrou de um compromisso e não pôde ficar para o jantar. Vocês conversaram antes de ele ir embora?
- Sim, nós nos falamos.
- E ele lhe contou alguma coisa interessante? Lauren não conseguia definir bem o tom de voz da mãe. Era como se ela esperasse ouvir alguma revelação.
- Tom quer que eu o ensine a se tornar um cavalheiro.
- Ele pode contratar outra pessoa.
- Pois Tom insiste em me contratar. Recusei naturalmente.
- Fez bem. Sei que deve ser muito difícil revê-lo depois de tantos anos.
Lauren só percebeu que voltara a chorar quando sentiu o rosto molhado.
- "Difícil" não define bem o que estou sentindo. Tom deve ficar na Inglaterra agora, e não quero mais morar neste lugar.
Lauren percebeu que a mãe estremeceu. Observou-a atentamente. A transformação de fazendeira de plantação de algodão em condessa tinha acontecido gradualmente, a ponio() de a filha se esquecer até de como a mãe se parecia antes de deixarem o Texas. O que Lauren se lembrava mais na mãe era da insistência em que a filha não passasse tempo algum com aquele rapaz incorrigível.
Lauren olhou para o melancólico pôr-do-sol.
- Tom disse que me escreveu, mamãe. Todos esses anos. Ele me escreveu.
Elizabeth levantou-se, deu alguns passos a esmo, cruzou os braços e mergulhou o olhar na escuridão. Nada falou.
- A senhora não me deixou ver as cartas.
- Estava tão infeliz, minha filha...
- E não me entregar as cartas foi o modo que encontrou de me fazer feliz? - Lauren perguntou, levantando-se subitamente, tomada pela revolta.
- Pensei que a transição seria mais fácil se não se lembrasse constantemente do que acontecera no Texas.
- É a justificativa mais absurda que já ouvi na vida. A senhora não deixou de me entregar as cartas de minhas amigas do Texas. As de Lydia e as de Gina, por exemplo.
Gina era agora a condessa de Huntingdon, tendo se casado com o primo de Ravenleigh, Devon Sheridan.
- Mas era diferente. Não creio que as cartas das meninas a lembrariam do que havia deixado para trás. Não saía escondida de casa à noite para se encontrar com Gina ou com Lydia.
- A senhora não tinha o direito...
- É responsabilidade de uma mãe proteger os filhos.
- Do que estava me protegendo?
- De uma desilusão, filha. Eu estava tentando fazer com que a sua adaptação se tornasse mais fácil.
- Pois a senhora falhou miseravelmente.
Mesmo na escuridão, Lauren percebeu que Elizabeth estremeceu mais uma vez. De imediato, arrependeu-se da dureza de suas palavras, mas não conseguia controlar a raiva que sentia. Nunca estivera tão irritada, tão magoada. Nunca havia se sentido tão traída. A mãe a fizera sofrer, intencionalmente ou não. Nunca tinha entendido o que Tom significava para a filha, caso contrário não teria interceptado as cartas.
- Posso ter as minhas correspondências agora, por favor? - Lauren pediu.
O mal estava feito. Brigar com a mãe não levaria a nada.
- Lamento muito, Lauren. Queimei todas elas. Lauren sentiu como se houvesse sido golpeada.
- Tom me contou que me escreveu todos os dias por dois anos. Deve ter escrito mais de mil cartas, mamãe. A senhora leu alguma delas?
A mãe negou com a cabeça.
- Não as li porque me pareceu errado fazê-lo.
- Só que não entregá-las a mim e destruí-las lhe pareceu certo?
- Não me pareceu errado porque eu tinha uma boa razão para o que fazia.
- Mas não estou convencida de que fosse um bom motivo, mamãe. Nunca se sentiu culpada?
- Eventualmente. A perseverança do rapaz me surpreendeu, porém, quando percebi que ele não desistiria tão fácil, já era tarde demais. Se as cartas começassem a chegar, você iria querer saber o que tinha acontecido com as outras. Pensei que qualquer explicação que eu inventasse não seria adequada.
- Quer dizer que sentiu medo de que eu a odiasse pelo que havia feito?
-Temi que tivesse dificuldade em me perdoar. Mas ainda assim sei que agi certo porque eu a estava protegendo, querendo afastá-la de falsas esperanças. Eu desejava uma vida melhor para você. Nunca quis que tivesse as mãos cheias de calos como as minhas.
- Sei como são suas mãos, mamãe. Elas me confortaram muitas vezes.
E mantiveram as cartas de Tom longe de mim.
- Minhas mãos são horríveis, mesmo depois desses anos todos. Nem imagina como me sinto embaraçada quando temos convidados para o jantar e há damas que nunca trabalharam no campo, jamais usaram as mãos para colher algodão, nem levantaram nada mais pesado do que um leque.
- Bobagem, mamãe. Elas revelam a sua força, a sua determinação. Não deveriam embaraçá-la. Por que se envergonhar de algo que adquiriu com seu trabalho?
- Elas me recordam da vida que tive. Amei o seu pai, Lauren, era um bom homem. Entretanto, graças ao trabalho duro e o dia longo demais, envelheci mesmo sendo jovem. Seu pai significava tudo para mim, nem sei como sobrevivi à morte dele. Então conheci Christopher Montgomery e me apaixonei por ele. Jamais imaginara que me apaixonaria outra vez. Ele me trouxe a um mundo onde minhas costas não doem e minhas mãos nunca sangram. Ele me mimou assim como as minhas meninas, e o amor que eu sentia por ele aumentou com a vida que ele tem me oferecido.
O amor crescera? Eu, porém, não tive chance de experimentar essa emoção, Lauren lastimou-se.
- Eu queria que minhas filhas sempre tivessem uma vida de conforto - Elizabeth continuou. - Não se lembra como nos divertimos praticando as regras de etiqueta?
Lauren engoliu as lágrimas e voltou o rosto para a escuridão, que refletia exatamente a sua vida. Não olhar para a mãe tornava mais fácil se recordar de como ela era uma mulher leal e corajosa.
- Tudo o que eu sempre quis é que fosse feliz, minha filha.
Lauren sentiu que seus olhos novamente se enchiam de lágrimas.
- Mamãe, também foi isso que eu quis esses anos todos, mas me sinto muito solitária aqui. Não me ajusto a esta vida. Nunca me ajustei. E nunca vou me ajustar.
- O seu padrasto mencionou que você anunciou planos de voltar ao Texas.
Lauren percebeu que havia tristeza na voz da mãe.
- Sim. - Respirou fundo, sabendo que a revelação seguinte não seria bem recebida. - Venho trabalhando em uma loja, ganhando um salário e economizando para poder pagar a minha passagem de volta ao Texas.
Lauren tinha arranjado esse emprego logo depois de declinar a proposta de casamento de Kimburton. Percebera que não queria continuar na Inglaterra. Não aceitava nem a idéia de se casar com ele, um homem gentil e generoso, assim jamais se casaria com qualquer outro, pelo menos não com um inglês. No Texas talvez se decidisse por algum pretendente, pois se sentiria em casa, no meio de gente comum. Onde pudesse ser ela mesma e encontrar por fim a felicidade.
- Como arranjou tempo para trabalhar se é voluntária na missão que ajuda os pobres? - a mãe perguntou.
Lauren lhe dirigiu um sorriso triste.
- Menti. Não trabalho como voluntária. Parece que enganar é uma das características de nossa família.
A mãe deu um passo em direção a Lauren.
-Deixará esse trabalho amanhã. Empregar-se como uma pobretona só causará embaraço ao seu padrasto. O que dirão os nossos conhecidos se descobrirem que a enteada do conde de Ravenleigh trabalha em uma lojinha? O que estava pensando quando arranjou esse emprego?
- Que preferia isso a morrer de tristeza se ficasse mais tempo na Inglaterra. Ravenleigh não é mais responsável por mim, mamãe. Nem a senhora. Eu a amo, mas não aceito a vida que me oferece. Vou voltar ao Texas, custe o que custar. De certo modo, creio que a senhora me fez um favor. Se tivesse me entregado as cartas, eu poderia agora estar casada com Tom, então que escolha teria a não ser me tornar a esposa bem-comportada de um conde?

Já se passara mais de uma hora desde que Tom havia deixado a mansão de Ravenleigh e agora estava sentado na biblioteca da mansão que herdara, rodeado de objetos que tinham pertencido aos antigos moradores da casa. As únicas coisas que colocara naquele aposento foram as garrafas de uísque que tinha trazido do Texas.
Sentou-se em uma cadeira confortável e deixou os pensamentos voltarem para Lauren.
Os cabelos dela haviam adquirido um tom dourado. Como desejara soltar as presilhas do comportado penteado... Queria mais do que isso: mantê-la em seus braços, beijá-la até perder o fôlego.
Entretanto, Lauren tinha planos de voltar ao Texas, aparentemente não se importando com o fato de Tom não estar mais lá. Como a convenceria a ficar na Inglaterra se ele próprio queria tanto deixar o país?
Não havia tido esperanças de que Lauren o estivesse esperando, mas, bem no fundo, era o que mais desejara. Bobagens, expectativas irreais com que tinha vivido tantos anos.
Nas cartas que escrevera, havia descrito os seus planos, os seus sonhos, e Lauren tinha feito parte de todos. Mesmo não recebendo qualquer resposta às suas correspondências, ele ainda assim havia continuado esperando e justificando a razão de estar sendo ignorado. Não que no começo pudesse ter ido buscá-la, já que não tinha dinheiro algum. Haviam sido necessários dez anos de trabalho duro, e muito planejamento, para que por fim estivesse em posição de partir para a Inglaterra.
E fora então que o investigador inglês o tinha encontrado. E subitamente Tom descobrira que havia feito tantos planos para nada. As suas terras e seu gado ficariam agora em outras mãos. Não moraria mais na casa que tinha acabado de construir.
A terra, a casa, os sonhos... pertenciam a um outro homem, o caubói que ele julgara ser. E agora ali estava, tentando desesperadamente descobrir sua verdadeira identidade. Isso lhe exigia ter de ficar no lugar que era seu por direito de nascença.
Era o conde de Sachse.
Não se parecia muito com um conde. Nem agia como tal. Não que se importasse com essas coisas. Estava acostumado a ser julgado por seu caráter, pela integridade de sua palavra. Não pelo modo elegante de falar, pelas roupas ou a habilidade de segurar uma xícara de chá sobre o joelho.
O que importava a um homem era a sua integridade.
Pegou uma garrafa e tomou o uísque no gargalo, nem se dando ao trabalho de colocá-lo em um copo. Queria empacotar as suas coisas e embarcar de volta ao Texas. Não podia culpar Lauren por querer a mesma coisa.
O verão estava chegando, mas ele tinha um fogo aceso na lareira. Terra gelada aquela. Sentiu um calafrio e naturalmente voltou a pensar no calor do Texas.
Por vezes pensara que o ato mais cruel de sua mãe tinha sido o de lhe dar a chance de ter uma vida que satisfazia os seus sonhos para então trazê-lo de volta a um mundo a que ele não se encaixaria nunca.
Não precisava de nada disso, porém, ao que tudo indicava, também não teria como desistir do que herdara. Era inglês por nascimento, americano por criação. Alguma coisa naquelas paredes clamava por ele. Alguma coisa além delas o tocava.
Não conseguia explicar essas sensações. Fazer parte de dois mundos, amar um e querer amar o outro. Um a que ele queria pertencer e conhecer, mas talvez isso jamais acontecesse.
Lauren sentou-se junto à janela de seu quarto, a cortina aberta o suficiente para que pudesse olhar para a rua deserta, iluminada apenas pela luz dos lampiões. O quarto também estava quase às escuras, havia somente uma lâmpada de querosene com a chama já baixa, colocada ao lado da cama. O ar era de melancolia, assim como o estado de espírito de Lauren. Todos esses anos, ela se sentira abandonada. E, durante todo esse tempo, Tom havia mantido a sua promessa.
Se ela tivesse recebido as cartas, tudo agora seria diferente? Ter lido as palavras que Tom escrevera teria amenizado a solidão que sentia? Havia sido infeliz porque deixara o Texas ou porque deixara Tom para trás?
Lauren se lembrava de ter chorado até dormir em tantas noites solitárias que tinha passado naquele mesmo quarto, tomada pela saudade. Aos poucos, conforme a desilusão crescia porque não recebia nenhuma carta, passara a transferir a saudade para o próprio Texas, prendendo-se às coisas de que ela gostava lá. Era mais fácil sentir saudade de algo que nunca poderia traí-la. Lauren não admitia mais correr o risco de ser magoada por sentir falta de alguém que havia pensado lhe pertencer.
De repente, pareceu voltar no tempo. Seria fruto de sua imaginação acreditar que alguém estivesse jogando pedras em sua janela, exatamente como Tom costumava fazer noite após noite no Texas? Mas o som parecia de fato ser de pedrinhas. Talvez fosse apenas mais uma de suas fantasias. Sempre sonhou que chegaria o momento em que olharia pela janela e veria Tom lá embaixo.
Fechou os olhos e deixou o pensamento voltar-se ao homem que esperara por tantos anos. Ele também deveria ter sofrido a mesma perda. Também tinha se sentido traído porque ela quebrara a promessa e não havia lhe respondido carta alguma.
O barulho repetiu-se e Lauren se pôs em alerta. Seus olhos vasculharam a rua. E lá estava ele. O seu caubói, de roupa preta e chapéu na mão. Um caubói nas ruas de Londres.
Ela abriu mais a cortina, para que ele soubesse que já fora visto. Acenou para Tom, mesmo sem saber se estaria visível.
Deixou a janela e correu em busca de um vestido que não exigisse a ajuda de ninguém para abotoá-lo. Encontrou um com os botões na frente e logo se via diante do espelho. Desfez as tranças e puxou o cabelo para trás, amarrando-o com uma larga fita de seda. Sua imagem refletia a antecipação de que algo de especial aconteceria a ela naquela noite. Estaria com Tom. Em uma hora desaconselhável, como em todas as outras que haviam se encontrado sob a luz das estrelas. Depois de tantos anos. Por um momento, sentiu-se, mais uma vez, uma garotinha.
Abrindo a porta, esgueirou-se pelo corredor decorado com retratos, plantas e pequenas mesas adornadas por inúmeros enfeites, que mantinham as criadas ocupadas boa parte da manhã, tirando o pó de cada um deles.
Desceu silenciosamente as escadas, aliviada ao descobrir que o mordomo não estava no hall de entrada. Com o coração disparado, chegou à porta, abriu-a e encontrou-se lá fora. Caminhou ao encontro de Tom.
- O que está fazendo aqui? - ela perguntou em um sussurro.
- Vou escoltá-la à minha carruagem. Faremos um passeio.
- Mas isso não é de bom-tom - ela retrucou, seguindo as grandes passadas do caubói.
- Vou deixar que me demonstre o que é de bom-tom ou não mais tarde. Agora vamos sair daqui o mais depressa possível, antes que alguém perceba a sua ausência.
Um criado abriu a porta da carruagem quando os dois se aproximaram. Tom a ajudou a entrar e se acomodar, então se sentou no banco em frente. Lauren sentiu que ele a examinava atentamente. A carruagem tomou um caminho já definido.
- Como soube que aquele era o meu quarto? - ela perguntou, quebrando o silêncio que reinava entre os dois.
- Paguei um criado de sua casa para me dar essa informação.
- De fato deve ter pago muito bem para ele ter aceitado. Se meu padrasto descobrir, o pobre homem será despedido.
- Se tiver sido um homem - Tom falou, sugerindo que uma das criadas também poderia tê-lo feito.
- Não vai me contar para onde estamos indo?
- Prefiro que se surpreenda.
Lauren olhou a paisagem pela janela da carruagem.
- Falei com minha mãe depois que você foi embora. Ela admitiu ter pegado as cartas.
- Já imaginava que houvesse sido ela.
- Revelou-me que as queimou.
Lauren julgou ter ouvido um grunhido de raiva, talvez por saber que ela jamais leria o que ele tinha escrito.
- Recebeu as cartas que eu lhe escrevi, Tom? - Estivera tão chocada com o que a mãe tinha feito com as correspondências que Tom enviara, que nem havia se lembrado de perguntar se ele recebera as dela.
- Não recebi carta alguma. Lauren suspirou.
- Penso que mamãe também pegou as minhas. Eu costumava colocá-las em uma bandeja de prata no hall de entrada, certa de que o criado as enviaria junto com as de meu padrasto. Nunca me ocorreu que...
Tom inclinou-se e pegou as mãos de Lauren. As dele eram ásperas, não como as de um cavalheiro. Tom ficaria embaraçado como a mãe dela, pelo fato de mostrarem que realizara um trabalho rude?
- Isso agora não importa, Lauren.
Importava, sim, a jovem pensou. Jamais teria a chance de ler o que Tom havia lhe escrito.
Ele ficou em silêncio. Talvez não importasse para Tom porque estar com ela era o suficiente por enquanto.
Christopher Montgomery observou a agonia da esposa.
- Saia da janela e volte para a cama, Elizabeth.
- Poderia ter impedido Lauren de sair.
- Ela tem vinte e quatro anos, querida. Idade suficiente para tomar as próprias decisões.
Os olhos de Elizabeth voltaram a se encher de lágrimas.
- Tinha tempo suficiente para descer e enfrentar esse homem.
Montgomery sorriu.
-Acredito que ele carregue uma pistola-brincou o conde.
Elizabeth não estava para piadas naquele momento e não apreciou o bom humor do marido. Ele a abraçou, procurando confortá-la.
Sofria vendo o estado da esposa. Ela trouxera três filhas para o casamento e havia lhe dado outras duas. Ao contrário da maioria dos aristocratas, ele nunca quisera um filho homem. Seu irmão gêmeo era quem deveria ter sido o conde de Ravenleigh, mas aquele segredo era conhecido apenas dos dois. Christopher passaria o título ao seu sobrinho. Por ora, o que lhe importava era confortar a mulher que amava profundamente.
- Se proibíssemos os dois de se verem, encontrariam um modo de escapar à nossa vigilância, não importando o que pensasse disso, querida.
Elizabeth balançou a cabeça, discordando.
- Ele não entende as nossas regras. Vai arruinar Lauren. Montgomery secou as lágrimas do rosto da mulher.
- Ou quem sabe ele prove ser capaz de dar a ela o que nunca conseguimos: a felicidade.
- Mas a que custe?
- Algumas vezes tudo o que podemos fazer é ajudar os nossos filhos a se levantarem se caírem.
- E não somos responsáveis por essa queda?
Novas lágrimas invadiram os olhos da mulher, mais do que o marido conseguia secar.
- Elizabeth...
- Christopher, fiz algo horrível, e não sei como consertar o meu erro.
- Apenas me conte tudo, querida, e tentaremos encontrar uma solução.

Havia silêncio às margens do Tamisa, em um dos trechos do rio fora de Londres. Lauren estava deitada sobre o casaco que Tom estendera no chão frio, sentindo o perfume do tecido. Olhava o céu como quando era uma garota.
- Aqui não é possível ver o céu cheio de estrelas igual ao do Texas. E nunca mais vi uma estrela cadente.
- Se visse uma, o que pediria? - Tom perguntou, enquanto acariciava de leve o braço de Lauren.
Ela se voltou para ele e sentiu uma tristeza enorme. Nunca mais recuperaria o que deixara para trás no Texas.
- Não sei. Nem mesmo sei se pediria alguma coisa.
- Parou de acreditar que os desejos se realizam? Lauren soltou uma risada.
- Não, ainda acredito nisso, mas, infelizmente, quando um dos meus se realizou, vi minha vida seguir um rumo inesperado.
- E o que desejou que não deveria ter acontecido?
- Em uma daquelas noites em que víamos as estrelas caindo, desejei ser mais livre, viver como você fazia, ter mais experiências. Estava me sentindo entediada com minha vidinha simples. Desejei viajar. Só não pensava que minha viagem seria para tão longe e definitiva.
- Eu adorava vê-la acreditando em seus desejos.
- E eu achava que me considerava uma boba.
- Não, Lauren. Só porque eu não acreditava que conseguiria realizar um sonho não significava que você não pudesse alcançar o seu. E tem de recomeçar a fazer seus pedidos. Poderá se surpreender com o fato de eles se realizarem novamente.
- Se eu pudesse fazer um pedido agora, gostaria de ter as suas cartas de volta. O que me escreveu, Tom?
- Bem, deixe-me ver se recordo. - Ele voltou o olhar para o céu, como se as palavras estivessem escritas entre as estrelas.-Querida Lauren, hoje peguei três novilhos e, como não estavam marcados, marquei-os e os reuni ao rebanho. Todo seu, Tom.
Lauren caiu na risada.
- Que falta de romantismo!
- Ah, vai melhorar. Querida Lauren, trabalhei hoje tirando um novilho da lama e acabei com minhas costas pelo esforço. Se estivesse aqui, poderia ter me ajudado, empurrando o animal enquanto eu o puxava. Seu, Tom.
Lauren riu descontroladamente.
- Não pode ser isso o que me escreveu.
- Mais ou menos. Nunca fui de escrever. Minhas cartas eram curtinhas, apenas uma sentença ou duas, o suficiente para não quebrar a minha promessa de lhe escrever todos os dias, ao menos nos dois primeiros anos.
Lauren estendeu a mão e tocou delicadamente no rosto de Tom.
- E todo esse tempo eu não soube de nada. Como mamãe pôde destruí-las? Deve ter enviado mais de mil cartas.
- Duvida de mim?
- Não. Mas duvido que tenha escrito apenas sobre o gado. Tom voltou-se para o lado do rio e pareceu perdido em seus pensamentos.
- Depois que os meses foram passando e você não me respondia, pensei que talvez estivesse cansada do que eu escrevia, assim comecei a lhe contar sobre a minha solidão.
Lauren sentiu um aperto no coração. Tom sofrera todos esses anos e tudo poderia ter sido muito diferente, se a mãe dela não tivesse interferido no relacionamento.
Tom percebeu sua melancolia e procurou fazer com que ela sorrisse novamente.
-E você, Lauren, se lembra de alguma coisa que tenha me escrito nas cartas que nunca recebi?
- Sim. Querido Tom, todas as moças que conheço são damas e sabem se comportar. Não sei como ser uma dama.
- Sempre foi uma dama, querida.
- Uma dama aceitaria que um rapaz lhe abrisse os botões do vestido e dez anos mais tarde o ouviria exigir que o deixasse terminar o que havia deixado pela metade?
- Não pode me culpar por desejar isso, Lauren. Diabos, querida, é como se lhe dessem um presente todo embrulhado e não pudesse desatar as fitas. Dez anos mais tarde ainda estou disposto a ver o que havia dentro do pacote.
Ele a fazia rir novamente. Lauren sentiu-se solta, leve, feliz pela primeira vez em muito tempo.
- Tom, você enxerga as coisas de forma simples quando são bem mais complicadas.
- Os botões de seu vestido me parecem bem fáceis de abrir. Não creio que teria trabalho algum em lidar com eles.
- Mas isso poderia ser um problema para nós dois. E, se abrindo os botões, você não resistisse à tentação de tocar o meu corpo?
Tom aproximou-se mais de Lauren e a voz dele soou rouca.
- Pois penso que está com medo de querer que eu não resista à tentação.
Ele estava brincando, mas era muito provável que acontecesse exatamente o que ele havia dito. Se tocar no rosto de Tom já a fazia sentir estranhas sensações pelo corpo, o que aconteceria se as ousadias fossem bem maiores?
Lauren precisava distraí-lo para que ele se esquecesse dos botões do vestido dela. Por que não escolhera um fechado, nas costas? Caminhavam numa direção muito perigosa. Engoliu em seco, determinada a manter o comportamento de' acordo com os padrões recomendáveis.
- Escrevi-lhe outras cartas.
- Verdade?
Lauren percebeu que Tom sabia perfeitamente que ela queria fugir do terreno perigoso. Assim, aceitou que voltassem ao assunto das cartas.
- Querido Tom, todos os rapazes que conheci são lorde isso e lorde aquilo. Não sei se gosto deles. Sua, Lauren.
Foi a vez de Tom rir.
- Estou feliz que não tenha se interessado por nenhum dos almofadinhas daqui.
Lauren pensou em lhe contar sobre Kimburton, mas para, quê? Essa fase de sua vida estava encerrada. Mesmo assim, quase foi tentada a descobrir se Tom sentiria ciúme se soubesse que outro homem a cortejara.
Afastou o pensamento e voltou ao assunto das cartas.
- Acho que lhe escrevi cartas longas, falando de roupas, especialmente depois de minha primeira viagem a Paris. No Texas, eu colocava um vestido de manhã e só o tirava na hora de dormir. Aqui troco de roupa três ou quatro vezes por dia, dependendo da atividade ou de onde estou indo ou de quem vou visitar. Algumas vezes me sinto culpada por não ser feliz quando tenho recebido tantas coisas, enquanto há pessoas que não têm nada.
- Está realmente infeliz aqui? Ela assentiu.
- Não sei explicar, Tom. Sinto falta de tanta coisa do Texas. O cheiro atrás do armazém geral quando íamos à cidade aos sábados, lembra-se? A forma amigável com que as pessoas nos cumprimentavam, sem se importarem com quem éramos ou quem eram os nossos pais. Contanto que respeitássemos os mais velhos e não deixássemos de tratar bem as pessoas, tudo corria em paz. Aqui há regras para tudo, inclusive como devemos nos sentar à mesa. As apresentações são muito formais. Mesmo que encontre algum conhecido, tem de cumprimentá-lo de forma apropriada. É tedioso.
- Então, diga-me, querida, como pretende voltar ao Texas.
- Ora, de navio. Tom riu gostosamente.
- Isso eu sei. Mas a passagem de navio custa caro. Espera que Ravenleigh a pague?
- Nem ousaria lhe pedir isso. Ele tem sido um pai maravilhoso, e não desejo colocá-lo em posição difícil. Minha mãe deseja desesperadamente que eu fique aqui. Pensa que a vida no Texas é muito dura e que me esqueci de como é de verdade.
- De fato é bem dura e difícil, Lauren.
- Mas aqui também não é nada fácil para mim.
- Você não respondeu à minha pergunta. Como pretende pagar a passagem.
- Com algo escandaloso, e tem de me prometer não contar a ninguém.
- Para quem eu iria contar?
- Arranjei um emprego em uma loja.
- Uma loja? Que tipo de coisas vende para ser considerado um trabalho escandaloso?
- O escândalo não tem nada a ver com a loja em si nem com o produto, e sim com o que o trabalho representa. Meu padrasto é nobre. Se souberem que sua enteada está trabalhando, isso lhe causaria embaraço. Tive uma enorme dificuldade para encontrar uma loja que fica em um lugar aonde os nobres nunca vão.
- Ravenleigh pareceu surpreso que estivesse pensando em voltar ao Texas.
- Eu disse à mamãe que ocupava os meus dias com trabalho de caridade.
- Você mentiu?
- Não tive outra escolha. Para voltar a Fortune, tenho de ajuntar dinheiro. Porém, agora contei a verdade à mamãe e ela exigiu que eu largue o emprego.
- E vai fazê-lo?
- Não posso. Pensarei em alguma saída depois. Agora estou me sentindo muito bem conversando com você. Conte-me o que fez esses anos.
- Sou um caubói. Não há nada extraordinário nisso.
Ela estendeu a mão e tocou nos cabelos de Tom. Não conseguiu resistir a esse, desejo. Sempre o viu como um rapaz bonito e se tornara um homem capaz de despertar o interesse de qualquer mulher. Imaginou o assédio que sofreria por ser solteiro, nobre e rico.
Sentia-se dividida entre o desejo de conhecê-lo melhor e o medo de acabar com o coração partido.
- Tem sido muito responsável esses anos todos, Tom.
- E trabalhei duro para poder arranjar dinheiro bem depressa.
- O que pretendia fazer com o dinheiro?
- Ter meu próprio rancho. Um caubói que trabalha como empregado tem pouca chance de constituir uma família, e eu sempre quis ter a minha e dar a minha mulher e meus filhos tudo de melhor.
- Tem seu rancho agora?
- Claro que sim. Acabei de construir a casa. E coloquei as mãos na massa. Queria alguma coisa permanente e que durasse mais do que eu. De repente descubro que tenho propriedades em um país de que não me lembro.
- Isso não diminui o que conquistou no Texas. Que nome deu ao seu rancho?
- Coração Solitário.
Lauren sentiu um aperto na garganta. Não havia nada a dizer a respeito. O nome do rancho de Tom refletia o que cada um havia passado naqueles dez anos.
- Qual a sua lembrança mais antiga, Lauren? - Tom perguntou com muita seriedade.
- A sua imagem nos fundos do armazém geral ficou gravada em minha mente.
- Não me refiro a nós dois, e sim a uma lembrança de quando ainda era muito pequena.
- Deus. - Ela fechou os olhos e depois de um momento voltou a abri-los. - Lembro-me de meu pai vestido com uma farda, pronto para ir lutar na guerra. Ele se ajoelhou diante das filhas e prometeu-nos que voltaria. Foi uma promessa que não Conseguiu cumprir.
- Se estou calculando certo, você deveria ter uns quatro anos.
Ela concordou com um gesto de cabeça.
- Por aí.
- Eu era um pouco mais velho quando minha mãe me tirou da Inglaterra, e não guardo nenhuma lembrança, Lauren. Não me recordo de dizer adeus a ninguém. Não me lembro de nenhum abraço nem de lágrimas. Não sei se estava com medo ou animado. Quando recordo o passado, minhas memórias começam em Nova York.
- Será que os investigadores não se enganaram, Tom? E se você não for o conde de Sachse?
- Já esteve na residência dos Sachse em Londres? - ele perguntou.
Será que Tom era como os outros homens, encantara-se com o luxo das mansões dos nobres e não conseguia nem imaginar que tudo aquilo poderia não ser seu? Sentiu-se um pouco desapontada por Tom não ter tentado provar que não era conde.
- Já a vi pelo lado de fora, mas nunca estive lá dentro - ela respondeu por fim. - Não me lembro de Lady Sachse ter dado nenhum baile, e, caso tenha oferecido algum jantar, não fui convidada.
Subitamente ele se sentou.
- Quero lhe mostrar uma coisa, mas temos de ir até a mansão.
- Tom...
- Sei que não é adequado que uma jovem esteja com um cavalheiro sem uma acompanhante, mas aqui estamos sozinhos. Já quebramos regras. Além do mais, meu mordomo está lá e não vai contar a ninguém que você foi à mansão. Aprendi que os criados mantêm a boca fechada para não comprometerem os patrões.
- A não ser que sejam pagos regiamente para passarem informações a interessados - ela acrescentou com um leve sorriso.
- Ninguém vai ficar sabendo, Lauren. Venha até a casa comigo.
- Mas já passou da meia-noite - ela disse, não se sentindo confortável com a idéia de que ia tão tarde da noite à casa de um homem.
Mas isso era tolice. O que poderia acontecer dentro de uma casa que não fosse provável, às margens do Tamisa?
- Não vamos nos demorar - ele prometeu. - Estará de volta a sua casa antes de o sol se levantar e ninguém nem perceberá que passou a noite fora.
A curiosidade venceu a hesitação. Além do mais, Lauren não estava querendo terminar aquele encontro tão cedo. Pretendia ficar mais tempo com Tom.
- Está bem - ela concordou.

Capítulo VI

Lauren olhou para o retrato do último conde de Sachse. Voltou-se para o homem que estava ao seu lado. A semelhança entre os dois era assombrosa.
- Você tem um olhar mais bondoso, Tom - ela falou. O retrato estava posicionado no hall, de forma que quem entrasse na casa logo visse a imagem.
- Ele era diabolicamente bonito - Tom o admitiu.
- Tal pai, tal filho.
- Espero que as semelhanças entre nós fique apenas na aparência, Lauren. Nem posso me imaginar herdando traços da personalidade de meu pai.
Ela começou a rir, mas se deteve porque seria um fardo pesado demais se Tom tivesse herdado um legado assim tão ruim. Que as semelhanças entre pai e filho se restringissem apenas à aparência.
Tom afastou-se do retrato, tirou o casaco e Lauren pôde ver os músculos de seus braços, adquiridos com o trabalho duro. Os alfaiates londrinos teriam bastante dificuldade para moldar os trajes de Tom, já que só vestiam lordes habituados a uma vida sem grandes exercícios físicos.
- Estou em Londres há alguns dias - Tom informou e Lauren se surpreendeu com a seriedade de sua expressão. - Estive no clube dos cavalheiros, encontrei-me com meu advogado, conversei com um empresário, compareci ao banco e visitei a sua família. - Tom sacudiu a cabeça. - Nenhuma das pessoas com quem conversei lamentou a morte de meu pai. Ninguém se referiu a ele com palavras bondosas. O mesmo aconteceu com os criados que conheci quando estive na casa de campo. Lá todos pareciam esperar que eu de repente começasse a me portar como um monstro. Somente esta tarde, em sua casa, é que senti uma espécie de votos de boas-vindas. O único parente que conheci foi Archibald Warner. É um cavalheiro muito distinto, e parece que nada herdou de meu pai. Felizmente.
- Tom, tenho certeza de que não está interpretando corretamente a reação das pessoas.
- Sabe por que sou tão rico?
A pergunta pegou Lauren de surpresa. O que isso tinha a ver com o que conversavam? Assim, balançou a cabeça em uma negativa e arriscou uma resposta:
- Porque criou e vendeu o seu gado? Qual o preço da carne hoje em dia?
Tom sorriu, sugerindo que ela era inocente e ingênua.
- Se fosse assim tão fácil, todos no Texas seriam ricos.
- Então qual é seu segredo?
- Posso olhar para um homem e julgar a sua honestidade, a sua honradez e saber se é uma pessoa confiável. Posso fechar um negócio com um simples aperto de mão, sabendo que tudo o que foi combinado será cumprido. Posso olhar diretamente nos olhos de um homem e saber o que pensa de mim. A forma como as pessoas daqui me olham deixa bem claro que me consideram um intruso.
Lauren voltou-se para o retrato do pai de Tom e sentiu um calafrio. Algo no olhar do antigo conde era arrepiante. Havia mais do que arrogância. Era como se ele se julgasse acima de todos os demais.
- Tenho duas coisas que agem contra mim - Tom murmurou. - Meu pai e os anos que passei no Texas.
Lauren o olhou, sabendo que ele estava dizendo tudo aquilo porque queria que ela conhecesse exatamente a sua presente situação. Lembrou-se das mulheres que haviam estado na sala de estar da casa do padrasto, referindo-se a Tom e aos seus modos incivilizados.
- Sei que os ingleses me consideram um selvagem, Lauren - disse, como se estivesse lendo os pensamentos dela. - Pareço-me demais com meu pai e as pessoas não se esquecem de minhas raízes. Esperam que eu me porte como ele. Todos sabem que cresci em uma terra selvagem e acreditam que devo me comportar como um pônei indomável. Só tenho uma coisa a meu favor.
Esperou que ele revelasse que vantagem era essa. Como Tom nada mais disse, Lauren não resistiu à curiosidade.
- E que vantagem é essa?
- Contar com você, Lauren.
Ela se sentiu como se lhe faltasse o chão.
- Acho que não entendi...
- Você conhece essas pessoas, sabe quais são suas expectativas e, como bem disse Ravenleigh, adaptou-se a elas. Convivi com alguns barões de gado. Diabos, sou um barão do gado, sequer() saber a verdade. Quero, ou melhor, preciso mostrar a essas pessoas que posso me sair bem em qualquer lugar. - Tom abaixou o olhar como se analisasse suas botas, depois fitou Lauren e ela pôde ver o quanto ele estava vulnerável. - Talvez eu queira me exibir também.
Lauren sentiu uma pontada no coração diante de tal revelação. Viu o orgulho estampado no rosto de Tom e o que devia ter lhe custado expor suas inseguranças. Lembrou-se de como ele estivera confiante na sala de estar, mas havia parecido deslocado na biblioteca, revelando as mudanças em sua vida. Era um homem complexo, e ela pouco sabia sobre ele. Apesar de ninguém contar com isso, Tom compreendia a extensão de tudo o que tinha herdado.
- Preciso de ajuda, querida. Não quer voltar ao Texas? Pois tenho quatro mil acres de boa terra, uma casa e gado. Tudo isso pode ser seu. Apenas me ajude a ser o lorde que meu pai não foi.
Era a primeira vez que Tom lhe pedia ajuda, Lauren pensou.
- Mas, Tom...
- Estou apenas pedindo que me ajude a enfrentar a temporada, Lauren.
Mudá-lo? Era isso que ela teria de fazer? Torná-lo um homem civilizado e destruir tudo que tanto gostava nele? A rebeldia, a independência? Talvez tivesse sido por não querer vê-lo diferente que houvesse lhe negado ajuda. Não pretendia ser a responsável por transformá-lo em um tipo de homem que ela nunca conseguiria amar.
Lauren suspirou. Haveria alguma chance de Tom não mudar nunca?
Era tão difícil aceitar um novo tipo de vida, mas parecia inevitável que Tom terminasse por se ajustar. Ela detestava a idéia de se tornar uma dama inglesa, daí a necessidade de' se afastar dali o mais depressa possível. Mas ele não tinha escolha. Precisava ficar, pois era um lorde.
E, se ficasse, deixaria de ser o seu Tom.
- Sei que estou lhe pedindo demais...
Pedindo demais? Ele não imaginava o quanto. Significava que deixaria de ter qualquer esperança de que algo pudesse acontecer entre os dois. Mas Tom lhe oferecia os meios de sair dali, de se manter, de ser uma mulher independente. Longe dele, porém. Engolindo em seco, Lauren se decidiu.
- Quero uma passagem de volta ao Texas. É tudo de que preciso, Tom.
Ela não estaria na Inglaterra para ver o homem que criaria. Ele concordou, novamente sem qualquer arrogância.
- Pedirei aos meus advogados que coloquem nosso acordo no papel.
- Não é preciso, Tom. Não disse que sela os seus negócios com um aperto de mãos? - Lauren respirou fundo e estendeu a dela.
Ele se aproximou e pegou a mão da jovem.
- Faço algo diferente quando fecho um negócio com uma mulher - ele disse, levantando o rosto delicado e aproximando seus lábios dos dela.
- Verdade? - Lauren aceitou o beijo.
Tom intensificou a carícia. Com um gemido, ousou mais, e a língua invadiu a boca de Lauren, incapaz de manter o beijo em apenas um pacto impessoal. Subitamente estavam em meio a um abraço intenso, os seios dela apertados contra o forte peito de Tom.
Ele a levara ao rio para que se lembrassem dos bons momentos que haviam vivido no Texas. E a trouxera à sua casa, para que entendesse o que ele teria de enfrentar.
Como conseguiria ficar ao lado daquele homem, dia após dia, sem voltar a se envolver emocionalmente? Tom lhe provocava arrepios pelo corpo e fraqueza nas pernas.
- Com quantas mulheres selou acordos dessa forma? - ela questionou, procurando disfarçar o que o beijo lhe provocara.
- É a primeira, minha querida. Lauren não resistiu e caiu na risada.
- Precisamos estabelecer regras, se vamos passar muito tempo juntos, Tom.
- Querida, já tenho regras demais a aprender aqui. Não precisamos aumentar a lista. Vou me comportar direito. - Ele sorriu. - Mesmo que me seja muito difícil.
Cumprindo a promessa que fizera, Tom a levou para casa antes que o sol surgisse. Assim que chegaram, ajudou-a a descer da carruagem e a acompanhou até a porta da entrada.
- Cavalgo todas as manhãs no Hyde Park - ele disse. -Foi o que me contaram. Priscilla o viu por lá.
- E provavelmente venho fazendo tudo errado. Acompanhe-me esta manhã e me ensine como devo me comportar.
- Mas, Tom, andar a cavalo é sua especialidade. Tenho certeza de que tem cavalgado corretamente.
- Cavalgar não é o problema. Preciso saber com quem devo falar ou simplesmente acenar ou até ignorar. Vou me sentir melhor cavalgando em sua companhia.
- Está bem. Eu o encontrarei na entrada do parque às onze horas.
- Até mais, Lauren. - Ele se voltou e caminhou até a carruagem.
- Tom?
- O que foi, meu bem?
- Deixe a arma em casa, por favor.
- Lição número um?
- Sim, lição número um.
- Tom é o conde de Sachse.
Sentada na sala da casa da prima, Lauren fez a revelação. Havia acordado bem cedo. Dormira apenas algumas horas quando então tinha sonhado estar em um navio, que enfrentava ondas violentíssimas na costa da Inglaterra e não conseguia se afastar do país. No sonho, Lauren se atirava na água tentado atravessar o Atlântico a nado, mas voltava sempre ao ponto de partida. Finalmente, acordara, sentindo-se exausta.
Precisava falar com alguém em quem confiasse, que a entenderia. Logo que sua criada, Molly, a ajudara a se vestir, Lauren tinha pedido que a carruagem fosse preparada, mesmo sendo um horário inadequado para visitas. Felizmente, a amizade que tinha com Lydia lhe permitia quebrar algumas regras da etiqueta.
- O seu Tom? - a prima perguntou, arregalando os olhos e sentando-se na beirada da cadeira.
Vestia um roupão de seda verde, pois ainda não tivera tempo de se arrumar naquela manhã.
- Ele não é o meu Tom. Mas, sim, o Tom que ambas conhecemos no Texas.
- É incrível. Como é possível?
- Ele é filho...
- Entendo essa parte. Ouvi muitas histórias sobre Um lorde desaparecido, porém jamais imaginei que pudesse ser alguém que eu conhecesse. Dancei com Tom no Texas em minha festa de aniversário quando fiz dezoito anos.
Lauren não conseguiu impedir que uma onda de ciúme fosse desencadeada.
- Nunca mencionou esse fato, Lydia.
- Porque eu sabia que você estava interessada em Tom.
- Não é verdade.
- Ah, estava, sim, mas deixemos isso para lá. Tom é o conde de Sachse. Não tenho certeza de que Londres esteja preparada para receber um lorde acostumado a fazer as coisas à sua moda.
- Pois posso lhe assegurar que é verdade. E eis por que estou aqui a esta hora da manhã, importunando-a. Preciso de sua ajuda.
- Claro. O que posso fazer?
Lauren levantou-se e começou a caminhar pela sala, de um lado para o outro. Estava agradecida pelo fato de o marido de Lydia, Rhys Rhodes, o duque de Harrington, ter sido delicado a ponto de deixar as duas sozinhas, depois de se assegurar de que não acontecera nada de ruim que justificasse a presença de Lauren na casa àquela hora da manhã.
- Como posso ajudar? - Lydia insistiu.
- Concordei em ensinar Tom como se portar se quiser se tornar um homem de respeito neste país. - Lauren parou de andar e encarou a prima. - Sei que está em cima da hora, mas pensei que em minha primeira lição poderia ensiná-lo como agir corretamente em um jantar. Talvez pudesse nos oferecer esse jantar esta noite, algo muito íntimo.
- Para quantas pessoas?
- Para nós quatro, além de Gina e Devon.
- Estou de acordo.
Lauren voltou a sentar-se na cadeira de brocado dourado.
- Obrigada, prima. Por se tratar de um jantar bem íntimo, Tom não se sentirá embaraçado, caso cometa alguma gafe.
- Não posso imaginar que o Tom que conheci no Texas se sinta embaraçado com alguma coisa.
- Ele tem muito que aprender.
Lydia observou a prima por algum tempo.
- Mas não é isso o que a está preocupando. O que mais tem a me contar.
Lauren sentiu que as lágrimas lhe invadiam os olhos.
- Todos esses anos Tom me escreveu. Mamãe destruiu as cartas dele antes que eu tivesse a chance de lê-las. Também se apossou das que enviei a Tom.
- Não posso acreditar que tia Elizabeth foi capaz de fazer uma coisa dessas. Por que faria isso?
-Achava que eu me adaptaria com mais facilidade à vida daqui se não tivesse lembranças do Texas.
- Mas ela lhe entregou as cartas que escrevi, não foi?
- Exatamente. Penso que temia que eu fugisse para me encontrar com Tom.
Lydia sorriu.
- E é isso o que vai fazer agora que ele está aqui?
- Saí de casa às escondidas ontem à noite para me encontrar com ele.
- E?
- Demos um passeio de carruagem pelas ruas de Londres, olhamos um pouco as estrelas, e ele me pediu que o ajudasse. Ao fim da temporada das festas, Tom me comprará uma passagem para o Texas.
- De quem foi essa idéia?
- Ele me fez a proposta, e aceitei.
- Estou surpresa por ter aceitado. Você sempre quis voltar ao Texas para estar com Tom e, agora que ele veio para cá, presumo que...
- Que eu deveria desistir do meu sonho? Não, Lydia. Nunca me senti bem na Inglaterra. Não quero este tipo de vida para mim.
- Mas tem escondido isso muito bem, Lauren. Meu Deus, é o exemplo da dama inglesa. Sabe tudo sobre etiqueta. Não sei como conseguiu manter essa imagem.
- Você é que se saiu bem. Até já publicou um livro sobre boas maneiras. - Lauren suspirou. - Nunca se sentiu como se estivesse dentro de uma caixa, arranhando a tampa em uma tentativa de sair dali?
- Credo, prima. Está descrevendo um caixão. Não seja tão emotiva.
- Não pretendia ser. Apenas queria que soubesse como venho me sentindo esses anos todos.
Uma criada entrou na sala e colocou uma bandeja com chá e biscoitos sobre a mesa ao lado de Lydia.
- Obrigada - disse a dona da casa.
Lauren ficou em silêncio até que a criada saiu da sala. Lydia serviu primeiro o chá à prima, depois preparou a segunda xícara.
- Adora tudo isso, não é? - Lauren perguntou.
- De fato. Penso que somos diferentes porque tenho ao meu lado alguém a quem amo e que me ama também. Você teve tanta dificuldade porque deixou o seu coração no Texas.
- Pensa que deixei o meu coração com Tom? Lydia franziu a testa.
- E não?
- Mas aconteceu há muito tempo. Agora Tom e eu somos pessoas diferentes. Entendi isso a noite passada. Quando ele me beijou, não foi como antes.
Lydia colocou a xícara sobre a bandeja e voltou-se, surpresa, para Lauren.
- O quê? Quando Tom a beijou?
- Primeiro no jardim de minha casa, mais tarde para selar o nosso acordo. E acredito que ele queira me cobrar uma dívida passada.
- Deve alguma coisa a Tom?
Somente a Lydia podia confessar um comportamento nada correto da adolescência.
- Antes de deixar o Texas, ele me deu duas moedas em troca de desabotoar o meu vestido, e acabou não podendo fazê-lo. Assim, a dívida permanece.
- Está me dizendo que espera que Tom venha a desabotoar o seu vestido? - Lydia sorria.
- Não há razão para diversão - Lauren protestou.
- Não estou achando engraçado, mas você tinha catorze anos. Sempre soube que Tom era inteligente, porém cobrar agora essa dívida é uma bobagem.
- Ele não parece pensar assim. Quer saber de que maneira Tom me recordou a dívida?
- Diga, diga..
- Estávamos na sala diante de quatro damas de nossa sociedade. Perguntei a ele o que fazia na Inglaterra. "Vim cobrar uma dívida", ele disse bem alto para todas nós ouvirmos.
- Talvez tivesse ido cobrar uma dívida de seu padrasto.
- Nada disso. Precisava ver a intensidade do olhar dele. Não houve dúvida alguma sobre a que dívida ele estava se referindo.
- Tia Elizabeth sempre considerou Tom uma influência ruim para você. Estou começando a entender a atitude dela.! Mas talvez agora titia o considere mais aceitável, já que se tornou um nobre.
- Irônico, não é? Talvez ela o ache mais aceitável no exato momento em que o imagino menos.
- Por que pensa assim?
- A vida dele vai girar em torno de coisas de que detesto.
- Você gosta de bailes, festas e diversões.
- De bailes, festas e diversões onde uma mulher possa falar o que pensa e não seja obrigada a se recolher a uma sala, enquanto os homens aproveitam a oportunidade para conversar sobre todos os assuntos, fumando e bebendo. Onde o comportamento das mulheres não seja observado nem comentado.
- E se descobrir que ainda ocupa um lugar no coração dele?
-Improvável. Foi Tom quem me ofereceu o meio de partir daqui. Por que faria isso se quisesse que eu permanecesse ao seu lado?
- Lauren, não vê o que há por trás do comportamento de Tom? Ele é um homem e, se for como Rhys, deve achar muito difícil expressar seus verdadeiros sentimentos. Talvez ele tema a rejeição de lhe pedir que fique.
- E então me ofereceu o meio de partir?
- Quem é que pode entender a lógica de um homem?
- E sobre a tal dívida que ele pensa cobrar? Um brilho especial surgiu nos olhos de Lydia.
- Diga-lhe que caso se comporte bem, você poderá até pagar essa dívida...
Tendo deixado de jantar na noite anterior, Lauren estava incrivelmente faminta. Depois de voltar da visita que fizera a Lydia, dirigiu-se à pequena sala de jantar, onde o café da manhã era sempre servido com um elaborado sortimento de pratos apetitosos. Tinha de admitir que nunca havia comido tão bem até ter Ravenleigh como padrasto.
Serviu-se do que gostava mais e levou o prato à mesa. Escolhera ovos com tomates preparados na manteiga, salmão grelhado e torradas com geléia. Sentiu-se tentada a pegar mais alguma coisa, mas voltou atrás. Aquilo lhe satisfaria.
Surpreendeu-se ao ver que a mãe e o padrasto não estavam lá, e, como não havia pratos vazios sobre a mesa, significava que ainda não tinham tomado o café da manhã. Talvez a mãe tivesse dormido mal, como acontecera com ela. E, quando Elizabeth não dormia bem, tampouco o padrasto conseguia repousar. Era um marido dedicadíssimo.
Olhou para o prato subitamente sem fome. De certo, Lydia tinha brincado ao fazer a observação final, dizendo-lhe que deveria pagar a dívida para com Tom.
Imaginou como seria a vida dela no Texas, muito diferente da atual. E, sem entender bem a razão, foi tomada por uma ponta de tristeza diante do pensamento de que estaria começando tudo mais uma vez.
Lauren não conhecia Tom, pelo menos não o Tom que lhe havia aparecido no dia anterior. Mesmo que ele tivesse vindo buscá-la, ela não sabia se o seguiria. Quem saberia dizer que tipo de influências ele sofrera nos anos passados?
Tinha conhecimento de que o irmão de seu padrasto e os demais amigos elogiavam Tom constantemente. Ele havia se saído muito bem nos negócios, mas era bobagem ela ficar pensando em que tipo de homem Tom se transformara.
A porta da sala se abriu e ela observou a mãe e o padrasto entrarem para tomar o café. Nenhum dos dois parecia ter dormido bem.
Lauren viu a mãe sentar-se ao seu lado, e o padrasto escolher a cadeira ao lado da esposa, assumindo um ar de solidariedade. Durante todos os anos desde o casamento, ele estivera ao lado da esposa, sempre a apoiando no que se referia à disciplina das filhas. Lauren ficou imaginando se Ravenleigh teria aprovado que a mulher se apossasse das cartas de uma delas.
- Levantou-se cedo, minha filha - a mãe disse, querendo quebrar o silêncio que reinava entre as duas desde a noite anterior.
- Tive de resolver alguns assuntos.
Elizabeth balançou a cabeça como se soubesse do que se tratava, talvez pensando que Lauren tinha se dirigido à loja onde trabalhava para pedir demissão. Nem imaginava que a filha tinha ido visitar a prima.
- Devo-lhe desculpas, Lauren. Pensei estar agindo bem ao fazer o que fiz.
- Mamãe, certamente chegará o dia em que a perdoarei por ter pego minhas cartas, mas não neste momento.
- Nem esperava que me desculpasse hoje, Lauren. Ravenleigh colocou a mão sobre a da esposa. Lauren podia sentir que havia amor nos bondosos olhos dele. Elizabeth sorriu para o marido.
- Antes de deixar o Texas - a mãe começou a dizer -, vendi a fazenda e coloquei o dinheiro em um fundo, que o seu padrasto tem administrado como um falcão por todos esses anos. Era minha intenção lhe dar a sua parte no dia em que se casasse, como um presente de seu pai. Decidi dá-lo antes, assim terá meios de se manter, pelo menos por um tempo, depois que voltar ao Texas. O seu padrasto se ofereceu para lhe comprar a passagem. Ele acha que podemos preparar a sua partida para daqui a uma semana.
Lauren sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Era doloroso ver o quanto custava à mãe deixá-la partir. Uma prova de amor tanto da mãe como do padrasto. Ele sempre fora bom para Lauren, e sem dúvida deveria ter convencido a esposa da melhor atitude a tomar naquele momento.
Usando um guardanapo, ela secou as lágrimas e procurou palavras para expressar a sua gratidão. Voltou-se então para Ravenleigh.
- Nem sei como lhe dizer o quanto a sua generosidade significa para mim. Estou feliz que administre os meus fundos e lhe agradeço por se oferecer para pagar a minha passagem. No entanto, já fiz outros arranjos e...
-Não é necessário que continue a trabalhar naquela loja - Elizabeth interrompeu.
- Sei disso. Estou planejando apresentar a minha demissão ainda hoje de manhã. Fiz um acordo com Tom. Ele vai me pagar a passagem porque vou lhe ensinar o que precisa saber para se sair bem na sociedade inglesa.
Se a mãe pareceu surpresa, Ravenleigh, no entanto, aceitou a notícia com tranquilidade. Era como se soubesse que Lauren, no fim, concordaria em ajudar Tom.
Subitamente, Lauren enrubesceu. Como justificaria o acordo com Tom sem contar à família que tinha saído às escondidas na noite passada? Talvez pensassem que ela tivera essa conversa no jardim antes do jantar.
- Bem, tão logo eu volte da loja, planejo me encontrar com Tom no parque. Hoje à noite jantaremos na casa de Lydia. Pedirei a Tom que venha me buscar aqui em casa, se, a senhora não fizer objeções.
- Nenhuma objeção - o padrasto disse, antes que a mãe de Lauren pudesse responder. Ele se levantou e cruzou as mãos com ar satisfeito. - Agora que tudo está assentado, vou comer. Estou faminto.
Ele se dirigiu à mesa ao lado, para se servir. Elizabeth olhou para as mãos marcadas.
- Estou feliz por não ter quebrado o pescoço na noite passada, saindo pela janela do quarto quando Tom apareceu. Dessa vez, foi um pouco prudente, usando a porta da entrada. Suponho que isso se tornará um ritual noturno.
- Mamãe, a senhora tem de deixar que eu cuide de minha vida e cometa os meus próprios erros.
- Então reconhece que estar com esse homem é errado? Como a mãe podia oferecer independência com uma das mãos e querer prendê-la com a outra?
- E a senhora reconhece que nunca o saberei se continuar cortando as minhas asas?
Elizabeth ficou sem palavras. O que era bom porque nada mais havia a falar sobre aquele assunto, pelo menos no momento.
Um delicioso perfume de rosas invadiu o aposento. Lauren voltou a cabeça ao notar que o mordomo entrava com dois criados a segui-lo. Carregavam dois enormes buques de flores, um de rosas brancas e outro de amarelas.
- Milady - Simpson disse, com uma reverência -, essas flores foram entregues com instruções de que as brancas eram para a dama da casa, e as amarelas para a filha mais velha.
Ao estender os buques a Lauren e à mãe, o mordomo também lhes entregou dois envelopes. Dentro do seu, Lauren encontrou uma nota que dizia:
Uma pequena parte do Texas.
Enterrando o rosto no perfumado buque que continha pelo menos duas dúzias de rosas amarelas, ela deu uma olhadinha para a mãe.
- O que o seu bilhete diz, mamãe?
- Sem mágoas. Tão texano e direto.
- Para o seu conhecimento, ele me disse que costuma escrever apenas uma sentença ou duas em cada carta - Lauren explicou.
A mãe pigarreou e levantou-se.
-Bem, preciso mandar que coloquem estas flores na água - ela murmurou, saindo da sala.
Lauren olhou para o padrasto que estava sentado no fim da mesa, tomando o seu café da manhã.
- Sua mãe pensou estar fazendo o melhor para você, minha filha.
- Sei disso. - Lauren caminhou até Ravenleigh ainda segurando o seu buque. Inclinando-se, beijou-o no rosto. - Amo o senhor, Papa.
Duas vezes Tom havia conseguido lhe dar um pedacinho do Texas. Lauren saiu da sala pensando se esses pedacinhos do Texas não estariam em Londres, sem que ela sequer os tivesse notado.
- Milorde?
Tom voltou-se para o mordomo. Não o tinha ouvido entrar na sala de jantar. Ainda achava enervante que os criados se movessem pela casa tão silenciosamente, como fantasmas. Era suficiente para fazer um homem pular de susto. Além de levar Tom a desistir de andar armado antes mesmo de atender ao pedido de Lauren. O mordomo o havia surpreendido naquela manhã e Tom se voltara para o homem empunhando a arma. O pobre tinha caído no chão, desmaiado de susto.
Nesse momento, já recuperado, o mordomo lhe estendia uma bandeja de prata. Nela estava um elegante cartão. Tom o leu. Obviamente a notícia de que estava na cidade já havia se espalhado.
- Mande-os entrar.
O mordomo fez uma reverência.
- Imediatamente, milorde.
Usando o guardanapo de linho, Tom limpou a boca e as mãos, jogou o pano sobre a mesa e levantou-se para receber as visitas. Não estava usando casaco, o que era impróprio quando se recebia convidados, mas considerou que os que estavam em sua casa não iam reparar nesse detalhe.
Uma mulher mais elegante do que nos tempos do Texas entrou na sala e lhe dirigiu um sorriso brilhante como o sol. Acompanhava-a um cavalheiro moreno, vestido com muito cuidado.
-Thomas Warner, nem acredito que esteja aqui! - Lydia exclamou. - Por que não nos avisou de que estava na cidade?
Tom sentiu-se embaraçado por um momento.
- Cheguei há poucos dias. E, como era de esperar, não segui as regras devidas, informando os conhecidos de minha presença na cidade.
Tom ficou surpreso ao notar que Lydia recebia a resposta com aparente prazer.
- Quero lhe apresentar o meu marido, Tom. - Ela deu um passo atrás. Orgulho e amor se refletiam nos olhos da dama. - Rhys Rhodes, o duque de Harrington. Thomas Warner, o conde de Sachse.
Tom gostou do que viu em Harrington. Os cabelos grisalhos lhe davam um ar de respeitabilidade. Era certamente um homem em quem se podia confiar. Qualquer negócio com o duque poderia ser selado com um aperto de mão.
-Sachse - Harrington disse; com uma voz profunda. Tom o cumprimentou com um aceno de cabeça.
- Harrington. Tenho de admitir que estranho chamar as pessoas pelo sobrenome.
- Confie em mim. Logo estará acostumado com os nossos hábitos. O meu padrasto sabe das novidades sobre o senhor? - Lydia perguntou.
O padrasto de Lydia, Grayson Rhodes, era outro inglês que tinha chegado ao Texas depois da Guerra Civil. Tom havia lhe feito uma visita no ano anterior, sendo assim sabia que o meio-irmão de Grayson, o marido de Lydia, era o legítimo herdeiro do ducado, enquanto Grayson era filho bastardo do duque, sem chance de herdar os bens do pai. Tom achava essas conexões familiares complicadas demais. Ali na Inglaterra as coisas aconteciam dessa maneira.
- Não contei a ninguém sobre esse meu suposto título de conde quando saí de Fortune - Tom confessou. - Tinha certeza de que tudo não passava de um engano.
- Que incrível. Tom Warner descobre que é um conde inglês, ele que pensava ser um órfão americano.
- Concordo que seja inacreditável.
- Não tinha sequer idéia de sua origem?
- Não. - Tom olhou para a mesa, sem saber se era apropriado convidar o casal para tomar café da manhã. Mesmo assim, arriscou: - Aceitam tomar café comigo?
- Seria ótimo - Harrington respondeu. - No momento em que Lydia descobriu quem era o conde de Sachse, arrastou-me de casa. Meu estômago vem protestando desde então.
- Por favor, sirvam-se.
Quando todos haviam feito o prato e estavam sentados à mesa, Lydia olhou para Tom.
-Então, diga-me, quais os seus planos em relação a Lauren.
Tom quase engasgou com a comida. Decidiu responder com sinceridade:
- Não sei ainda muito bem.
O que não era verdade. Ele a teria ao seu lado durante a temporada... então, bem, se preocuparia quando surgissem os problemas. Se surgissem, claro.
- Foi ela quem lhe contou que eu estava aqui? Lydia concordou.
-Sabia que Lauren está fazendo planos de voltar ao Texas?
Lydia pareceu hesitar, como se não estivesse certa se deveria fazer revelações sobre a prima.
-Nos primeiros anos, depois que chegou a Londres, Lauren me escrevia com frequência. As cartas eram sempre chorosas. Ela teve muita dificuldade para se ajustar, mas acabou tendo sucesso e nunca mais reclamou. Só recentemente fiquei sabendo que ela sonhava voltar ao Texas. Também sei que Lauren vai ajudá-lo durante a temporada. Durante esse tempo, talvez o senhor possa convencê-la a ficar. Tom gostou das palavras de Lydia.
- Não sei se quero que isso aconteça. Não posso forçar Lauren a permanecer em um lugar onde não se sente feliz. Dez anos haviam se passado. Ambos mudaram. Talvez a atração que sentiam quando adolescentes não se repetisse na Inglaterra.
Bobagem, Tom pensou. Bastara olhar para Lauren para saber que a queria em seus braços.
- Por que ele ainda não chegou? Disse que o viu cavalgar no parque outro dia.
- Certamente o conde surgirá a qualquer momento.
- Talvez tenhamos chegado muito tarde.
- Quem sabe ele já esteve aqui e foi embora?
- Poderia ter dito isso mais cedo.

Quatro damas estavam no Hyde Park em busca da chance de encontrar o novo conde de Sachse. Lauren as viu ao entrar no parque e sentiu um arrepio. As moças pareciam espias e não havia dúvidas sobre quem esperavam ver. Não seria surpresa se acampassem diante da casa de Ravenleigh, na tentativa de encontrarem o homem.
Lady Blythe avistou Lauren e foi em sua direção.
- Eu sabia que o homem que estava em sua casa era Sachse. Afinal, quantos homens vestidos como caubóis andam por Londres? Viemos aqui para comprovar.
- De fato, Tom Warner é o conde a quem se referiam. - Lauren estava consternada com a presença daquelas mulheres ali.
- Por que não nos confirmou o fato em sua casa? - Lady Blythe perguntou. - Teria evitado o desconforto de me esconder na frente da casa dele, para descobrir se era mesmo o conde de Sachse.
- E ele a viu? - Priscilla indagou.
- Não. Fiquei escondida atrás de minha carruagem. Anoitecia quando ele voltou para a mansão. Deve ter deixado a casa de Lauren logo após o jantar - Lady Blythe respondeu.
- De fato ele não demorou muito em minha casa - Lauren afirmou.
Sabia da curiosidade das moças, mas simplesmente não imaginara que Lady Blythe recorreria a atitudes de espia.
- Por que escondeu de nós que ele era o conde?
- Na verdade nem eu mesma sabia. Tomei conhecimento depois. - Lauren tentou aparentar uma calma que não sentia.
- Meu Deus, aquele homem é o conde? - Cassandra perguntou.
Todos os olhares se voltaram na direção que ela indicava.
- Deve ser ele - Lady Blythe respondeu. - Mas não está usando o casaco de caubói nesta manhã.
- Será que está com a pistola? - Cassandra parecia excitada.
- Pode ser que sim - Priscilla respondeu. - Mas não dá para ver daqui.
- Será que ele já matou alguém? - Lady Blythe voltou-se para as amigas.
- Não será apropriado lhe perguntar uma coisa dessas - Anne disse, indignada.
-Acho os americanos fascinantes - Cassandra afirmou. Tom aproximou-se das jovens com um sorriso aberto.
- Bom dia, senhoritas.
Lady Blythe começou a piscar sem parar, como se tivesse um cisco no olho; Cassandra batia no peito; Priscilla balançava o corpo e Anne sorria. Honestamente, Lauren se surpreendia com as moças. Parecia que nunca tinham visto um homem antes. Oh, sim, Tom era bonitão, um recém-chegado na cidade, diferente dos cavalheiros ingleses, mesmo assim já começava a se sentir irritada com esse espetáculo ridículo.
- Milorde - Lady Blythe disse, rindo. - Que maldadezinha foi aquela em não nos confirmar na casa da Srta. Fairfield que o senhor era de fato quem eu imaginara?
- Minhas desculpas, querida. Ainda não estou acostumado a agir como um lorde. E, já que Ravenleigh e a família ainda não sabiam que eu era o conde de Sachse, acreditei que seria adequado lhes contar antes.
- Ouso dizer que o perdoarei se o senhor me acompanhar em meu passeio.
- Infelizmente terei de decepcioná-la mais uma vez. Já havia prometido cavalgar com a Srta. Fairfield. - Ele deu uma piscada atrevida. - Mas seria um prazer se nos acompanhasse.
Lauren não podia deixar de reconhecer que Tom soubera lidar bem com a situação. Fruto da experiência com as mulheres no Texas, ela pensou. Quando garoto era especialista em flertar, imagine então com o passar do tempo.
- Terei imenso prazer em aceitar o convite - Lady Blythe respondeu sem esconder o seu entusiasmo.
Lauren não tinha certeza de quando Lady Blythe tinha se tornado tão irritante, mas não podia negar que agora a achava uma pessoa intragável. Posicionara o seu cavalo do lado direito do de Tom, enquanto Lady Blythe havia escolhido o lado esquerdo. E se envolvera em uma conversa intensa com ele.
Cassandra emparelhou a montaria ao lado da de Lauren.
- Não sei se estava certa quando afirmei que o conde teria dificuldades em arranjar uma esposa - Cassandra sussurrou a Lauren.
- Não creio que ele esteja procurando uma esposa. - Lauren se surpreendeu por sentir-se tomada de ciúme.
Claro que Tom encontraria uma esposa. Precisava de um herdeiro e também acabaria com a solidão. Não podia culpar dama alguma por querer se tornar sua mulher.
- Por que o conde não pensaria em se casar? - Cassandra retrucou. - Ele precisa de um herdeiro, não é?
Talvez não quisesse reconhecer que Tom pudesse estar procurando uma esposa, Lauren pensou, um tanto desconsolada.
- Ele ainda tem de se ajustar à vida da sociedade inglesa
- Lauren respondeu por fim.
- Pois parece que já se ajustou muito bem. Exceto pela roupa, claro.
- Pois gosto do jeito como se veste - Priscilla disse em um cochicho conspirador. - Ele fica com ar de safado.
Sim, Lauren o reconheceu, ele parecia mesmo um pouco bandido sem a jaqueta que lhe disfarçava os músculos.
De repente, viu-se imaginando como seria ter os dedos de Tom lhe abrindo os botões do vestido. Tremeria como acontecera nos tempos em que era apenas um adolescente de dezesseis anos que havia jurado nunca ter visto os seios de uma mulher?
A risada de Lady Blythe ecoou por toda a parte, mais irritante do que a voz. Uma dama não deveria rir daquela forma em público.
- Não é justo - Priscilla reclamou. - Não podemos escutar o que estão dizendo. - Levantou a voz e chamou:
- Lady Blythe, o que estão conversando de tão divertido? Conte-nos.
Lady Blythe voltou-se ligeiramente.
- O conde está me explicando que usa um chapéu de dez galões. Os chapéus no Texas são denominados pela quantia de água que pode ser colocada dentro dele. Dá para imaginar uma coisa dessas?
- Por que colocariam água em um chapéu? - Priscilla quis saber, mas Lady Blythe já lhe dera as costas e tinha voltado a atenção a Tom.
- O chapéu é usado para lavar o cavalo - Lauren explicou.
- Estranho costume. O lugar deve ser terrivelmente in-civilizado - Cassandra opinou.
- É assustador - Priscilla acrescentou. - Mas não é justo que Lady Blythe tenha toda a atenção do conde só para si. Milorde gosta de ser um caubói? - ela perguntou a Tom.
Sorrindo, ele afastou o olhar de Lady Blythe, e Lauren mais uma vez se surpreendeu com a beleza máscula. Parecia forte e capaz. Ninguém que o observasse poderia suspeitar que Tom tivesse qualquer dúvida sobre o lugar que deveria ocupar na sociedade. Subitamente sentiu-se satisfeita por ele ter lhe confidenciado as inseguranças.
- Gosto muito - Tom respondeu a Priscilla -, mas sou mais do que um caubói. Sou dono de um rancho. Tenho minha própria terra, gado e homens que trabalham para mim. - A risada dele soou forte.
Lauren sentiu um arrepio na espinha. Ele não parecia ofendido que Priscilla o estivesse interrogando.
- Mas, querida, que rumores desagradáveis andam circulando sobre mim?
- Não há nada de desagradável em ser rico.
- Porém, falar sobre dinheiro é desagradável - interveio Cassandra.
- Estava apenas curiosa de saber como um homem pode se tornar rico. Meu pai herdou todo o seu dinheiro, assim nunca pensei como se sentiria alguém que não tivesse dinheiro.
É preciso trabalhar duro e por muito tempo, Lauren pensou, mordendo os lábios, mais uma vez irritada com a futilidade das moças.
- Comecei fazendo fortuna com gado - Tom disse, se dando ao trabalho de responder a Priscilla. - Depois fiz alguns investimentos e tive sorte.
Mais uma vez, Lauren se surpreendeu com a facilidade com que ele se saía de situações embaraçosas. Sentiu-se tentada a lhe dizer que não teria qualquer dificuldade em meio aos nobres. Nunca se atrapalhava, sempre tinha a resposta certa e não era agressivo.
Tom falava com discrição sobre o seu sucesso. E isso era estranho, porque nunca o imaginara sendo modesto. Talvez estivesse desconfortável com tantas perguntas a respeito de como havia feito fortuna, no entanto não deixava transparecer.
- O que está achando de Londres? - Anne perguntou.
- Um pouco mais povoada do que a cidade em que eu vivia.
- Fora isso, o que pensa desta cidade? - Agora era Lady Blythe quem questionava.
- Ainda não vi o suficiente para formar uma opinião. Cheguei à mansão Sachse há poucos dias.
E não tardou para que ele batesse à porta da casa dela, Lauren pensou. Não pôde evitar de sentir-se feliz por isso. Mesmo que a intenção inicial de Tom fosse outra, e não a que ele revelara na sala de estar, diante das damas inglesas.
Lady Blythe parou o cavalo e voltou-se para Tom.
- Senhor, agora que chegamos ao fim de nosso percurso, não quer dar uma volta a pé comigo pelo parque?
- Adoraria, querida, mas prometi a Ravenleigh que acompanharia a Srta. Fairfield até sua casa.
- Sim, naturalmente - Lady Blythe murmurou. - Talvez alguma outra hora.
Tom bateu no chapéu em sinal de despedida às jovens, antes de voltar a atenção a Lauren.
- Está pronta, querida?
Sim, estava mais do que pronta. Então, emparelhou o cavalo dela com o de Tom. Ele montava com muita facilidade sobre uma sela texana em vez de uma inglesa, com os quadris largos e as pernas longas bem acomodados.
Tom lançou a Lauren um olhar intenso, como se finalmente estivesse com a pessoa que lhe era familiar.
- Está bastante quieta esta manhã, Lauren. Não dormiu bem?
- O que uma coisa tem a ver com a outra?
- Apenas pensei que pudesse estar cansada e por essa razão não estivesse conversando.
- Eu não tinha nada a dizer. Ao contrário de Lady Blythe, não gosto de conversa banal.
- Está com ciúme porque eu dava atenção a ela?
- É claro que não. - Lauren tentou se convencer de que estava irritada, e não com ciúme.
Afinal, tinha razão de estar com raiva, já que Lady Blythe havia impedido que uma primeira aula sobre etiqueta fosse dada no parque. E o motivo era bastante razoável.
Ele riu como se soubesse o que de fato a levara ao silêncio.
- Lydia lhe mandou um abraço.
- Encontrou-se com minha prima?
- Sim, nesta manhã. Ela apareceu em minha casa. Estava animada como sempre. Lydia e o marido tomaram café da manhã comigo. Gostei de Harrington.
- Não me surpreendo que os dois tenham se dado bem. Ele era bem safado antes de Lydia transformá-lo em um cavalheiro.
- Então me acha um safado? Um patife?
- Não pode negar que tem os seus momentos, mas parece ter deixado para trás esse seu lado meio fora-da-lei, pelo menos no que se refere às damas. Saiu-se muito bem com elas.
- Preferia ter cavalgado apenas com você. - Tom falava a verdade. Lady Blythe era uma pessoa agradável, mas também muito exibida. Lauren seria incapaz de tentar aparecer daquela maneira.
Ela usava uma roupa de montaria azul-escura, abotoada até o pescoço. Um pequeno véu preso ao chapéu cobria parte de seu rosto. Os cabelos haviam sido presos para cima. Estava elegante e com uma aparência tão casual como na noite anterior, quando estivera deitada às margens do Tamisa.
Ele não sabia dizer qual seria a maior qualidade de Lauren. Gostava de tudo nela assim como havia gostado durante a juventude. Tom percebia que seus sentimentos por Lauren quando tinha dezesseis anos eram os mais fortes que um adolescente podia ter. E, naquele instante, eram ainda mais intensos, quase incontroláveis.
- Foi gentil de sua parte mandar flores para mamãe - ela disse, quebrando o silêncio que reinava entre eles.
Tom sentiu-se embaraçado, mas, como jamais mentia a Lauren, resolveu se abrir com ela.
- Estou tentando convencer sua mãe a me ver com outros olhos.
- Por quê?
- Ela me pareceu aborrecida desde que nossos caminhos voltaram a se cruzar. Agora que você vai me ajudar, pensei que se lhe mandasse flores lhe despertaria um pouco de compaixão.
- Se decidir voltar atrás com relação ao acordo que fez comigo, não vejo problemas. Minha mãe e Ravenleigh deixaram claro que me darão todos os recursos necessários para que eu volte ao Texas se quiser.
Tom sentiu como se alguém tivesse lhe enfiado uma faca no estômago.
- Fizemos um acordo, Lauren. - Ele tentou inutilmente falar com naturalidade.
- Estou ciente disso e planejo ajudá-lo até o fim da temporada. Mas queria que soubesse que se quiser contratar outra pessoa...
- Não quero.
Lauren sorriu.
- Tom, à luz do dia, a sua proposta foi generosa demais.
- Estou contente por tê-la feito.
-Está bem. Vamos jantar esta noite com Lydia e o marido.
- Ela já me convidou.
- Sairemos da minha casa. Venha me buscar por volta das sete horas.
Tom franziu a testa.
- Mas Lydia disse que o jantar seria às sete? Lauren sorriu.
- Sim, claro. No entanto, os convidados devem sempre chegar atrasados. Vejo-o esta noite, Tom.
Ela guiou o cavalo para uma das áreas da mansão de Ravenleigh. Tom sentiu-se tentado a segui-la, mas em vez disso ficou observando-a se afastar. Perguntou a si mesmo se chegaria o tempo em que não se sentiria incomodado ao ver aumentar a distância que os separava.

Capítulo VII

Não posso acreditar que vai sair esta noite com um cavalheiro sem uma acompanhante, Lauren. Papai deve estar esperando Tom no hall de entrada com uma pistola.
- Não, ele nem vai estar no hall-Lauren disse, cortando a conversa de Amy e estudando com ar crítico o próprio reflexo no espelho.
O vestido de Lauren era branco com um modesto decote, plissado nas costas, a saia acompanhava a linha das pernas, terminando com uma cauda curta. Um laço de cetim rosa dava o toque de cor ao traje.
Era o terceiro vestido que ela experimentava. Molly já estava perdendo a paciência quando Lauren mandou a criada sair. Porém, continuava indecisa. O decote era muito profundo ou não suficientemente profundo?
O vestido não apresentava nem sequer um botão na frente. Era uma bênção. Pelo menos Tom não teria a atenção desviada e poderia se concentrar nas lições que ela pretendia lhe passar.
Bem, não tinha muita certeza de querer vestidos sem botões na frente. Ainda se dividia entre desejos e censuras diante da possibilidade de ele se atrever a pedir que Lauren pagasse a antiga dívida de imediato. Realmente desejava que Tom não a tivesse lembrado de que havia algo inacabado entre eles.
- Mamãe não vai deixá-la sair e...
- Ela não vai interferir - Lauren interrompeu a irmã, sem conter a irritação.
Subitamente sentia o corpete apertado demais, e, em nome de Deus, por que estava fazendo tanto calor?
- Está ruborizada? É por causa de Tom?
- Não, estou apenas com calor. E já falei com mamãe e papai, por isso não vão interferir em meu passeio de hoje à noite.
Lauren havia pedido que não recepcionassem Tom porque não queria que o embaraçassem, fazendo exigências nem lembrando a inconveniência de uma jovem passear com um homem sem estar devidamente acompanhada. Sabia como a mãe tinha preconceito contra Tom, uma atitude insensata que um buque de flores não seria capaz de demovê-la.
Amy não desistira ainda.
-Tem certeza de que não quer que eu a acompanhe? Estou louca para experimentar um vestido novo.
- Sim, tenho certeza. Deixe o vestido para uma outra ocasião.
- Mas é um comportamento escandaloso, Lauren. Vai sair sozinha com o conde?
- Estarei com Tom, Amy. Lembra-se dos tempos em que ninguém nos seguia como uma sombra? Nós dois pretendemos comparecer apenas a um jantar. E ainda por cima será na casa de nossa prima Lydia.
- Esse é o ponto. Sei que confia em Tom, mas é um homem, e as damas com menos de trinta anos não andam sozinhas na companhia de um homem que não seja o pai ou o irmão. Simplesmente não se faz isso.
- Parece estar lendo o manual de etiqueta.
- Pois tive de memorizar aquela coisa toda. De qualquer forma, penso seriamente em ir junto com vocês.
- Se nunca tivéssemos deixado o Texas, teríamos crescido sem acompanhantes. Sabe muito bem que nas áreas menos povoadas uma mulher viaja o dia inteiro e à noite com um homem que não o marido nem o irmão apenas para irem a um baile? Ninguém vê mal algum nisso. Droga, aqui todos desconfiam de tudo.
- Você praguejou.
- Praguejei mesmo. - Lauren não o havia feito desde que chegara à Inglaterra.
Tom fazia com que ela se esquecesse das normas do bom comportamento. Mas por que estava surpresa com isso? Tom era Tom e ela o conhecia mais do que bem.
Como seria bom se ainda estivessem no Texas!
Lauren voltou-se para Amy, que estava deitada na cama da irmã. Apoiava o queixo nas mãos, e os olhos azuis brilhavam. Todas as irmãs tinham olhos azuis, mas as que haviam nascido no Texas tinham um tom mais escuro do que as filhas de Ravenleigh, que herdaram do pai os olhos azul-claros.
- Parece que ninguém em Londres acredita que as mulheres sejam capazes de resistir ao charme dos homens. Todos nos julgam criaturas tolas, ingênuas e fracas. Daí ficam nos rodeando de acompanhantes e regras - Lauren reclamou. - No Texas, os homens respeitam as mulheres e ninguém precisa de acompanhantes nem de regras de comportamento. O bom senso prevalece. Os homens não tiram vantagens das mulheres. Dessa forma, esta noite vou fingir que estou no Texas.
- Bobagem. Tom pode ter vivido no Texas, mas seu sangue é inglês, e Lady Angelina ouviu de Lady Caroline, que ouviu de Lady Deborah, que, na tarde em que Tom veio nos visitar, ele a abraçou de forma inapropriada a ponto de Lady Blythe praticamente sofrer um desmaio.
Lauren revirou os olhos. Os mexericos em Londres eram incríveis.
- Estou surpresa de que os rumores não tenham espalhado também que Tom ousou até me despir diante do olhar escandalizado de Papa e das jovens damas que estavam presentes na sala.
Amy abriu um enorme sorriso.
- Na verdade, ouvi um comentário que dizia que Tom abriu o seu vestido.
- Com quatro mulheres assistindo ao espetáculo?
- Soa exagerado, mas torna a história interessante. - Amy sentou-se. - Então, ele a abraçou?
- Não. Ele simplesmente me cumprimentou. - E a tinha lembrado da antiga dívida.
- Tom a ama, sabe disso, não é?
- Papa me ama?
- Bem, ele a ama, claro. Mas estou falando de Tom.
- Deveria se referir a ele como conde de Sachse.
- Ele não parece um Sachse, parece um Tom. Lauren voltou mais uma vez a atenção ao espelho. Pegou um caríssimo perfume francês e colocou uma gotinha atrás de cada orelha e, depois, esperando que a irmã não visse, jogou um pouco no decote. A curiosidade acabou levando a melhor e ela se voltou para Amy.
- Por que disse que Tom me ama?
- Por causa do jeito como a olha. Com intensidade e paixão. Parece que ele quer memorizar cada detalhe de sua aparência, como se subitamente você fosse desaparecer.
Vou mesmo desaparecer, Lauren pensou. No fim da temporada. Deveria começar a conversar sobre isso com as irmãs, para que se adaptassem à sua iminente partida.
De repente a porta se abriu e Samantha apareceu, demonstrando cansaço.
- Tom acabou de chegar. Meu Deus, Lauren, acha que estará em segurança com ele?
- Claro que sim. Por que não estaria?
- Bem, Tom se transformou completamente. Acredite-me, até mamãe está chocada.
O pânico tomou conta de Lauren.
- Mamãe está lá embaixo?
Ela e o padrasto haviam combinado ficarem no quarto ou na biblioteca. Não cumprimentariam Tom.
- Ela e papai estão lá - Samantha respondeu.
- Deus, pensei que eles tivessem entendido que eu não os queria lá - Lauren murmurou, saindo do quarto e descendo as escadas apressadamente.
Amy a seguiu, dizendo:
- Bem, a casa é deles.
- Sei disso, mas vai ser tão embaraçoso...
- Somente porque pensa que a sua vida no Texas era mais interessante que esta?
- E era.
Lauren desceu os últimos degraus.
- Porém...
- Esqueça isso, por favor. Não desejo me envolver em uma discussão com você. Tenho assuntos mais importantes... - Parou de falar porque viu Tom na sala.
Pelo menos achava que era ele. Certamente era. Sim, definitivamente era. Os olhos pelo menos eram os mesmo a maneira como se tornaram brilhantes ao avistá-la fez com que Lauren sentisse falta de ar. De fato, Tom parecia querer ver não só o seu corpo, mas sua alma, o coração e todo o seu ser.
Fora aquele olhar que havia levado Amy a pensar que Tom estava apaixonado? Ele sempre a olhava desse jeito, desde quando se encontravam atrás do armazém geral, Lauren lembrou-se.
- Tom se transformou! - Amy exclamou, surpresa. -Como está elegante! Nem parece um caubói. Oh, bem, agora é um conde.
- Fique quieta - Lauren ordenou.
Nunca tinha visto nada de errado na aparência de Tom. Vestido como caubói, sempre lhe parecera muito bonito. Entretanto, nessa noite...
Não havia qualquer evidência de caubói à vista. Tom usava um fraque cinza, calça em um tom mais escuro e um colete cor de vinho. Uma gravata de seda preta adornava a camisa cinza-clara. As botas foram substituídas por sapatos pretos, polidos a ponto de Lauren poder enxergar a sua imagem neles. E, na mão esquerda coberta por uma luva branca, ele segurava um chapéu preto.
Os cabelos negros estavam penteados para trás, não mais rebeldes. Os olhos escuros brilhavam quando Tom lhe dirigiu um de seus sorrisos sensuais. Apenas isso a fazia se lembrar de um caubói atrevido.
- Como vai, querida - ele a cumprimentou com voz grave.
- Está... - Lauren sorriu. - Muito elegante.
- Apesar dos rumores, não sou um completo selvagem.
- Falando em rumores... - Elizabeth interveio, dirigindo-se à filha. - Se insistir em sair sem uma acompanhante...
- Mamãe, já discutimos esse assunto. As únicas pessoas que saberão que fui a um Jantar sem acompanhante são as desta e as da casa de Lydia. Se os rumores surgirem, saberei exatamente onde procurar a pessoa que falou demais. E não ficarei nada satisfeita.
Elizabeth olhou para Tom.
- Se o senhor ousar tirar vantagem...
- Eu lhe entregarei pessoalmente um chicote, senhora - ele disse.
Elizabeth ficou surpresa com a resposta e pareceu mais tranquila.
- Quero lhe agradecer as flores que me enviou. Um gesto adorável de sua parte.
- Foi um prazer, senhora.
Lauren escondeu um sorriso e reparou que a mãe fazia o mesmo.
- Não me esperem acordados - ela anunciou, enquanto caminhava para a porta.
O mordomo a abriu, e Lauren seguiu adiante, esperando que Tom a alcançasse.
- Suponho que poderia ter sido bem pior - ela, disse. Olhou para Tom e sorriu.-Eu planejava pedir a Harrington que lhe explicasse como se vestir, mas pelo visto dispensará essa aula.
- Lady Sachse me levou a um alfaiate que me apresentou vários trajes. Aprovou o trabalho dele?
Lauren observou Tom por um minuto. Ele estaria querendo um elogio sobre a elegância com que se vestia naquela noite?
- O alfaiate fez um excelente trabalho. Está muito bem vestido. É charmoso naturalmente.
- Queria merecer a felicidade de estar ao lado da mulher mais bonita de Londres.
- Que conversa perigosa, Tom. Vamos manter o nosso relacionamento no campo dos negócios. Não nego que posso cair em tentação e terminar me arrependendo de não estar acompanhada por uma de minhas irmãs.
Eles haviam chegado à carruagem. Tom a ajudou a subir, e o mero toque dos dedos de ambos causou um arrepio na espinha de Lauren.
- Seria assim tão ruim? - ele perguntou.
- Poderia estragar o nosso acordo.
- Não é a isso que me refiro. Seria ruim? Ela abaixou os olhos e fitou os lábios de Tom.
- Eu deveria ensiná-lo como se tornar um cavalheiro inglês e isso não incluía que me seduzisse. - Somente depois de ter pronunciado tais palavras, Lauren se deu conta de que serviram para aumentar o desejo dele. Tom sempre gostou de um bom desafio. - Precisa aprender a não expor tanto os seus pensamentos - ela acrescentou. - Tem que adquirir alguma prática de fingimento.
- Sabe o que estou pensando?
- Acredito que sim.
- E está aborrecida com a direção que meus pensamentos estão seguindo?
- Estou lisonjeada - Lauren respondeu. - Porém, ao mesmo tempo, preocupada. Um cavalheiro não deveria deixar uma mulher sentir-se assim. Bem, essa já pode ser uma de nossas primeiras lições.
Lauren viu desapontamento na expressão de Tom. Sentando-se no banco da carruagem, notou que havia um enorme buque de rosas, cujo perfume envolvia todo o ambiente.
- Para quem são as flores? - ela perguntou, quando ele se sentou no banco oposto ao dela.
- Para Lydia.
- Muita gentileza de sua parte.
- Era o mínimo que eu poderia fazer. Também no Texas seguimos algumas regras de boa educação.
Ela desejou que não o tivesse alertado a esconder as suas emoções. Parecia que agora Tom seguia com maestria o último conselho que lhe dera havia pouco. Sentado à frente dela, Lauren não conseguia ter a menor noção do que ele pensava naquele momento. Então dirigiu o olhar para a paisagem vista da janela, lamentando o acordo que fizera. Nunca se perdoaria por transformá-lo em um homem a quem jamais conseguiria amar.
Enquanto a carruagem seguia o seu caminho, Tom fingia escutar Lauren falar sobre garfos, colheres e facas, como os vários pratos eram servidos, qual era a hora própria para começar a comer - quando colocavam o prato à sua frente, sem precisar esperar que todos fossem servidos -, quando parar de comer, como não deixar o prato totalmente vazio e nunca repetir a sobremesa. E ela prosseguia, explicando o que todos esperavam que ele fizesse, sobre o que deveria conversar. Fazia exatamente aquilo para o que fora contratada, explicando-lhe as regras de etiqueta da sociedade inglesa. Um tédio.
Não era bem isso o que ele esperava receber. Queria fazer sucesso diante dessa sociedade pedante, mas começava a entender que desejava provar mais a si mesmo. Queria a aprovação de Lauren acima de tudo. E Tom vira desejo nos olhos dela, desejo que espelhavam os dele, mas Lauren se acostumara a conter as emoções. Uma pena. Como uma mulher que sabia que era desejada por um homem podia agir como se nada estivesse acontecendo?
Enquanto Lauren continuava a expor as regras, Tom entendeu a razão que a levara a enumerá-las.
- Essa é a regra trinta e cinco? - ele perguntou, interrompendo-a.
- O que disse?
- Uma de suas irmãs mencionou que você enumerou as regras. Já perdi a conta em qual estamos.
- Eu lhe falei que teria de memorizar muita coisa. - Ela desviou o olhar para a paisagem, subitamente constrangida com tudo o que havia dito. Ou talvez por causa do evidente desinteresse de Tom pelas regras de etiqueta. Desinteresse que ela, no fundo, compartilhava.
- Não precisa me ensinar tudo em uma aula só, Lauren. Vamos aproveitar a noite, querida.
- Está me pagando para que eu lhe ensine como se portar com classe. E o pagamento é fantástico, assim devo dar conta de meus deveres. Há de se tornar um cavalheiro perfeito.
Tom franziu a testa. Estava começando a se aborrecer com o fato de Lauren lembrá-lo a toda hora dos termos do acordo entre os dois. Ele queria a ajuda dela. Não podia negar, mas desejava também aproveitar a oportunidade para passarem mais tempo juntos.
- Quem estará presente no jantar de Lydia? - Tom perguntou.
- Lembra-se de Gina?
- Pierce?
- Sim. Ela está casada com o conde de Huntingdon. Eles estarão lá. Apenas nós seis. Considerei mais sensato que houvesse poucas pessoas e parte delas já conhecidas suas. Lydia e Gina sabem que você está tentando se adaptar à sociedade inglesa, e os maridos entenderão que levará algum tempo para que aprenda tudo do que precisa. Assim, se cometer uma gafe, não sairá daquelas paredes.

Tom fingiu estar jogando pôquer, cuidando para não revelar as suas cartas, porque não queria que Lauren soubesse de seu desapontamento ao perceber que ela esperava que ele cometesse gafes. Talvez fosse culpa dele mesmo por ter lhe pedido ajuda. No entanto, tinha consciência de que era bem mais refinado do que Lauren poderia supor.
Talvez a noite se revelasse uma experiência de aprendizagem para ambos.
Quanto mais Tom conhecia o duque de Harrington, mais gostava do homem. Talvez porque, como ele, tivesse se visto com um título inesperado. Bem, não totalmente inesperado. Rhys era o segundo filho legítimo e havia crescido sabendo que teria pouquíssimas chances de se tornar um duque. O caso de Tom era diferente, já que ele jamais esperara por título algum. Enfim, Rhys tinha se tornado duque, o que, no fundo, não lhe agradara de todo, mas havia deixado Lydia deslumbrada. Ela adorava ser uma duquesa.
O homem não era convencido e recebeu um olhar de censura, por parte de Lauren quando disse a Tom que poderia chamá-lo de Rhys.
- Tom precisa aprender a se dirigir às pessoas de forma correta - Lauren falou.
- Vou presenteá-lo com um dos livros de Lydia - Rhys prometeu, usando de certa ironia.
Tom havia gostado também de Huntingdon, o marido de Gina, talvez porque, quando ele tirou as luvas antes de jantar, era evidente que tinha as mãos de um fazendeiro, e, pelo que Tom soubera, os aristocratas não deviam fazer qualquer trabalho manual. Isso aparentemente estava mudando.
O jantar transcorreu de forma muito agradável, com conversas interessantes, e ninguém pareceu estar julgando as ações de Tom. Claro que havia toda aquela loucura de talheres e pratos. Comer com o garfo na mão esquerda tinha levado algum tempo, desde que estava acostumado a usar a direita. Lauren, porém, lhe explicara que era sinal de origem nobre usar somente a mão esquerda. A direita era reservada à faca, ela havia insistido. Tom comentara que desse jeito acabaria por usar a faca para cortar a própria garganta.
Rhys se esforçou para não rir do comentário, enquanto Lydia e Lauren lhe haviam dirigido um olhar de censura. Fazer Lydia rir de uma observação como aquela era tão difícil quanto tirar um sorriso de Lauren.
Sentada ao lado de Tom, Lauren tentava gentilmente orientá-lo durante a refeição, com discretas observações, somente perdendo a paciência quando notava que ele não estava dando a devida atenção à lição. Para ser honesto, Tom achava tudo aquilo uma grande bobagem. Se alguém fizesse um juízo ruim dele porque usara a faca na mão esquerda, dispensaria completamente a opinião dessa pessoa.
A disposição dos lugares à mesa do jantar não o havia aborrecido, já que o colocaram ao lado de Lauren. Assim ele podia sentir o perfume que ela usava e que emanava de todo o seu corpo. Muito melhor do que se estivesse sentada do outro lado da mesa.
- Graças a Deus, terminou - Rhys disse, logo que as damas saíram da sala de jantar. - Mal posso tolerar essas refeições formais.
O jantar tinha acabado depois das oito horas. As mulheres, como mandava a etiqueta, haviam se retirado para uma outra sala, enquanto os cavalheiros continuavam à mesa para tomarem conhaque e conversarem assuntos de homem. Tom não queria ser ingrato, mas preferia que as mulheres tivessem permanecido ali. Era mais um dos hábitos ingleses de que desgostava. Chegara a sugerir a Lauren que acompanharia as mulheres, mas ela insistira em que fizesse a parte dele, isto é, ficasse com os homens.
- Formal? Bom Deus, formal é quando temos mais de centenas de convidados. Este jantar foi apenas uma reunião agradável - opinou Huntingdon.
Rhys olhou para Tom e depois para Huntingdon.
- Ao contrário do senhor e de mim, Tom teve uma vida mais aberta. Apenas nós dois sabemos como é a existência de um nobre.
- Quando foi a última vez que plantou trigo? - perguntou Huntingdon.
- Tenho de confessar que o mais perto que cheguei disso foi carregar a carga de um navio, o que, meu amigo, é trabalho de arrebentar as costas.
Rindo, Tom chamou a atenção dos dois homens.
- Pensei que nobres nunca levantassem um dedo para executar qualquer trabalho braçal.
- É verdade - Huntingdon respondeu. - Perdoe-me o deslize.
- Tom, como estão meu irmão e a família? - Rhys questionou, enquanto lhe servia mais conhaque.
- Estão bem. Na última vez que os vi, tinham construído uma nova casa e andavam viajando.
- Fico feliz. Grayson teve uma vida difícil crescendo aqui, não sendo filho legítimo e tudo o mais. Para piorar, meu irmão mais velho, Quentin, não é o mais bondoso.
- À crueldade é comum entre os nobres? - Tom indagou. - Pergunto porque ouvi contarem coisas horríveis sobre meu pai.
- Não é bem assim. Na aristocracia, como em todo lugar, há bons homens e boas mulheres que desempenham as suas funções e levam as suas posições muito a sério. Mas, como em outros segmentos da sociedade, há exceções, e temos maçãs podres também. - Rhys tomou um gole de conhaque. - Saiba que esta é a parte da noite em que se supõe que vou lhe dar instruções de como se comportar depois de um jantar. Lauren me sussurrou ao ouvido antes de sair da sala sobre o seu mau hábito de fumar. Assim, aqui vão as regras que conheço. Se decidir fumar, não pode se reunir às damas. Não é de bom-tom ficar à volta delas e lhes encher os vestidos de cheiro de fumo. Claro, se seu anfitrião tiver uma sala especial para fumantes e puder lhe oferecer um paletó para cobrir o seu traje, isso é permitido. Não tenho nem a sala nem o paletó.
- Uma vergonha. Há ótimos cigarros no bolso de meu casaco.
- Verdade? A todos os meus vícios, vou acrescentar o de fumar à lista. Que acha de irmos à varanda. Garantirá que a fumaça não impregne nossas roupas.
Tom abriu um enorme sorriso.
- Sempre escolho uma varanda para fumar.
Rhys voltou a encher os copos de conhaque, antes de acompanhar Tom e Huntingdon à varanda. Logo depois, cada um deles estava se deliciando com o cigarro e a bebida.
- Acredito que este pode ser o início de um mau hábito para mim - Rhys falou.
- Posso pensar em hábitos piores. Já me envolvi com alguns deles.
- Também eu, mas o casamento diminuiu consideravelmente a quantidade deles.
- Soube que conheceu Gina no Texas - Huntingdon disse a Tom.
- Não tão bem quanto conheci Lydia, já que a família de Gina deixou o Texas. Ela fala em voltar para lá?
- Não, penso que está muito feliz na Inglaterra. Apoiado no pilar, Tom ficou imaginando o que teria de fazer para tornar Lauren feliz em Londres.
- Digam-me. O que há de tão especial no que está para vir? Lauren acha importante demais.
- A que se refere? À temporada das festas? - perguntou Rhys.
- Sim, a temporada, os bons modos, a etiqueta, a necessidade de causar uma boa impressão. Tudo isso.
Observando Tom, Rhys tragou o cigarro.
- Na verdade, é terrivelmente importante. Alarga ou limita as suas opções, dependendo de como se comporta. Acredite ou não, a sua tarefa maior é se casar e produzir um herdeiro que ficará com seus títulos.
Tom não conseguiu se controlar e riu.
- Não está falando sério.
- Infelizmente estou. Se conheço a sua situação financeira, baseando-me nos rumores que circulam por aí, o senhor não tem problemas nessa área. Precisa dar uma olhada em suas propriedades, delegar trabalhos e verificar periodicamente se tudo está sendo bem-feito. No entanto, uma grande parte de seu esforço será o de encontrar a esposa certa, e isso, meu amigo, é o verdadeiro propósito da temporada de festas. Cada baile é um mercado de casamento. O senhor observa quem está se oferecendo, faz a sua seleção, escolhe uma moça e a corteja. Ao fim da temporada, ela deverá estar usando o seu anel em vez de o de outro cavalheiro.
-Já que não estou procurando uma esposa, posso escapar dessa bobagem toda?
- Pensei que Lauren estivesse planejando voltar ao Texas.
- Sim, está. - Tom tragou o seu cigarro. - Sei que é infeliz aqui.
- Não posso dizer nada a esse respeito. Apenas a conheci na última temporada. Antes disso, eu era uma espécie de... excluído!
- Por quê?
- Por causa de um escândalo da família. No entanto, suponho que tudo esteja esquecido, e recuperei o meu lugar na sociedade, mas somente por causa de Lydia.
- Ela é feliz aqui?
- Incrivelmente feliz.
- Como conseguiu essa proeza?
- Não tive de me empenhar muito. Ela simplesmente adora todas as festas que considero tediosas.
- Se o senhor pensa dessa maneira, por que continua em Londres?
- Porque Lydia ama esta vida, e eu amo minha esposa. Além disso, devo começar a preparar o terreno para os nossos filhos, quando vierem, para que sejam plenamente aceitos e amados por todos os que os conhecerem.
Tom sorriu.
- Estou acostumado a ver um homem ser julgado por seus próprios méritos.
- Um homem pode se levantar depois do escândalo de sua família. Os escândalos de um homem também podem derrubar a família. Comportamento inadequado não é bem tolerado, especialmente pelos nobres mais velhos. Recomendo que leve a sério as instruções de Lauren. Uma reputação marcada não recebe sempre uma segunda chance.
- Lauren diz que é necessário coragem para se sair bem.
- Principalmente quando não se está habituado a essa vida. Desconfio que os perigos que enfrentou no Texas eram sempre claros, visíveis, nada dúbios. Aqui nem sempre são óbvios.
- Se eu soubesse a verdadeira razão de Lauren sentir-se infeliz, poderia contribuir para que ela mudasse de idéia e continuasse na Inglaterra.
- Ah, então o senhor não deve partir para a caçada de esposa.
Tom ficou em silêncio, olhando a escuridão. Se Lauren fosse embora...
- Como posso me casar com alguém a quem não amo?
- Meu pai se casou. Ele e minha mãe passaram boa parte da vida miseravelmente, e sobrou infelicidade para os filhos também.
- Imagino que isso realmente poderia fazer muitas pessoas infelizes.
- Falando por experiência - Huntingdon interveio -, um casamento de conveniência não precisa ser ruim. Eu me casei por dinheiro e fui feliz por encontrar o amor nessa união.
- Mesmo assim, tem de admitir que, entre os aristocratas, são comuns os casamentos por outros motivos que não seja o amor. Casa-se por motivos políticos, prestígio, dinheiro... Poucos se casam por amor.
- Não posso me imaginar casando por qualquer outro motivo, que não o amor - Tom afirmou.
- Está me dizendo que no Texas todos se casam por amor? - Rhys indagou.
Tom terminou de beber o seu conhaque e balançou a cabeça em uma negativa.
- Não. Os homens precisam de companheiras, as mulheres precisam de segurança. Algumas vezes, casa-se para fugir da solidão. Só acho que as nossas razões parecem mais honestas do que as dos nobres.
- Vai ter de parar de pensar como se não fosse um de nós, Tom - Rhys disse, rindo. - Isso não soará bem aos ingleses.
- E acha que devo me preocupar com isso? O que preciso fazer para agradar a todos os nobres?
- Se um dia escolher uma esposa, tiver filhos; sim, será mais bem visto pela sociedade. Não quer dizer que deva mudar seu jeito de ser. Simplesmente faça isso para ser aceito por nossa sociedade.
Tom estava começando a entender a razão de Lauren achar aquela vida detestável. Não era um lugar onde uma jovem pudesse deixar um rapaz lhe abrir os botões do vestido. Não era um lugar onde um rapaz podia sequer pensar em pedir para fazer isso. Com as acompanhantes e os comportamentos restritos, era de imaginar como um homem passaria o resto de seus dias se não estivesse ao lado da mulher amada.
Três lordes morenos haviam se sentado à mesa durante o jantar. Observando-os, baseando-se no comportamento deles, Lauren seria incapaz de distinguir os dois que tinham sido criados na Inglaterra daquele que não fora. Somente quando Tom falava era possível perceber o sotaque estrangeiro. Mas nem todas as palavras denunciavam a sua origem.

- Penso que o jantar transcorreu muito bem - Lydia falou, conversando com Gina e Lauren na sala de estar.
Bebiam chá enquanto os homens saboreavam o conhaque na sala de jantar. - Não concorda comigo, Lauren?
- O quê? Ah, sim. - Lauren tentou prestar atenção à conversa com as duas mulheres, apesar de seu pensamento ainda estar concentrado no jantar.
Sabia que Lydia e Gina certamente discordariam, mas Lauren achava Tom o mais belo dos três homens, e observá-lo durante a refeição não tinha sido um trabalho, mas um prazer.
-Tom parecia estar muito à vontade em nossa companhia durante o jantar - Gina disse. - Não sou muito chegada a jantares formais, porém o desta noite foi muito agradável.
Lauren observou as duas mulheres. Uma apegada à etiqueta, outra aborrecida com a quantidade de regras a seguir.
- Preocupa-se demais com tudo, Gina - Lydia falou. -Estranhas palavras de alguém que pensa que precisava escrever um livro sobre o assunto - Gina retrucou. As duas não hesitavam em dizer o que pensavam.
- Lauren, parece estar a milhas daqui - Lydia reclamou.
- Estou apenas surpresa.
- Com o quê? - Gina perguntou.
- Temo ser tão culpada quanto as outras damas inglesas que pensavam que Tom se portaria como um selvagem.
- Não há muito a exibir em apenas um jantar - Lydia opinou.
- Não para um cavalheiro - acrescentou Gina. - Já as mulheres têm de se preocupar com a distribuição dos lugares à mesa, o que deverá ser servido. Tudo o que há de importante acaba nas mãos das mulheres. Os homens apenas se sentam onde são indicados e comem o que lhes é servido.
- Sim, suponho que seja verdade. - Mas não era por isso que Lauren estava distraída. - Ele parecia muito seguro de si.
- Por que não se mostraria assim? Estava entre amigos - Lydia disse.
- Não lhe deu uma lição de como se portar antes de virem ao jantar?
- Claro que não. Apenas queria que ele se sentisse bem-vindo.
- E o que importa se ele estiver recebendo lições em outra parte? - Gina perguntou.
- Não está. O problema é que eu poderia estar a meio caminho do Texas se não tivesse lhe feito a promessa de ensiná-lo.
- Não acredito que não queira participar da temporada, Lauren?! - Lydia exclamou, horrorizada.
- Só você adora a temporada, Lydia - Gina disse, rindo. Lauren sacudiu a cabeça, ao falar:
- Depois que recusei o pedido de casamento de Kimburton, a temporada se tornou muito cansativa. Suspeito que ninguém ousará me convidar para dançar.
- Que bobagem! - Gina exclamou. - É uma herdeira, Lauren. Haverá muitos interessados em dançar com você. Os amigos podem ter sentido pena de Kimburton, mas não há um lorde em Londres que não ficará feliz de saber que terá uma oportunidade de colocar as mãos no dinheiro da família Ravenleigh. Confie em mim, querida, sei como alguns homens querem encher os próprios cofres à custa de uma esposa.
Huntingdon tinha se casado com Gina exatamente por essa razão. Um casamento de conveniência que havia surpreendido a todos por ter se tornado uma união de amor.
- E agora nos conte quais são seus planos quanto a Tom - Lydia pediu a Lauren.
Engolindo em seco, a jovem olhou para a prima.
- O que perguntou?
- Falava de Tom. Que outras lições planeja lhe ensinar?
- Ah, lições, claro. Um... bem, haverá um baile na próxima semana. Precisaremos revisar o protocolo.
- Quer que eu ofereça um pequeno baile para que possam praticar? - Lydia questionou.
Lauren riu.
- Não acho que seja necessário. Posso explicar a Tom o que precisa saber. Ele não quer ser visto como incivilizado. Suponho que uma ida ao teatro seja suficiente.
- Pretende voltar mesmo para o Texas, Lauren? - Gina perguntou, mudando de assunto, antes que Lauren citasse toda a lista de lições que daria a Tom.
- Sim. Isso a deixa com ciúme?
- Estranhamente, não. Ir ao Texas significaria deixar Devon. Não posso imaginar a minha vida sem o meu marido. Um dia você amou Tom e...
- Eu era adolescente. Agora estamos ambos mudados.
- E se enquanto estiver ao lado dele descobrir que ainda está apaixonada? - Lydia questionou.
Ignorando a pergunta da prima, Lauren se levantou, foi até a janela e olhou em direção ao jardim.
- Parece que os cavalheiros estão lá fora, fumando.
- Devemos nos unir a eles? - Gina perguntou. - Sempre achei uma bobagem essa história de separar os homens das mulheres depois do jantar.
- Acha tudo bobagem - Lydia reclamou.
- Porque a maior parte das regras é bobagem mesmo.
- É o que pensa que eles conversam quando se encontram sozinhos? - Lauren indagou.
- Rhys me assegurou que não falam de nada importante - Lydia respondeu.
- Podemos dar uma olhada e descobrir - Gina propôs.
- Isso seria inapropriado - Lauren lembrou as duas mulheres.
-Somos mulheres do Texas - Gina defendeu-se. - Ganhamos o direito de sermos impróprias.
Lauren riu.
- Ganhamos esse direito?
- Talvez ganhar não seja o termo adequado. Se quiserem saber ó que acho, creio que devemos escutar a conversa dos homens.
- Estou tentando ensinar Tom a se comportar conforme as regras.
- O que é um tédio na minha opinião.
- Pois vou lhes dizer uma coisa. Pensam que estou satisfeita de transformar a pessoa a quem amei um dia em um cavalheiro bem-comportado? - Lauren enfiou o rosto entre as mãos, lutando contra as lágrimas.
- Lauren?
As duas amigas a abraçaram e ela as olhou com gratidão.
- Desculpem-me. Não quero que ele cometa gafes, por isso prometi que lhe ensinaria como se comportar em nossa sociedade. Sei que é bobagem, mas sinto falta do garoto que ele era.
- Isso aconteceria mesmo se não o estivesse ensinando - Lydia falou. - Ele deixou de ser o garoto que conheceu muito tempo atrás. Talvez seja a hora de dar uma boa olhada no homem que ele se tornou.

- O jantar foi muito mais agradável do que pensei que fosse - Tom disse, enquanto a carruagem percorria as ruas silenciosas.
Ele se sentara em frente a Lauren, mas ela podia sentir um leve aroma de cigarro e algum traço do conhaque que Tom tomara depois do jantar.
Observou-o com os olhos semicerrados. Era um homem que ocupava um bom espaço, não porque fosse enorme, mas por causa de seus músculos e as longas pernas. Dê uma boa olhada no homem, lhe sugerira a prima. Como se Lauren tivesse alguma escolha. E ela gostava do que via.
- O que está pensando? - ele perguntou.
- Em Lydia. Ela pretende oferecer o primeiro baile da temporada na próxima semana. Estou simplesmente fazendo uma lista de tudo o que precisamos fazer antes que o baile ocorra. - Estava mentindo naturalmente. - Suponho que você deva querer tomar algumas aulas de dança.
- Sei dançar.
Lauren sorriu.
- A dança aqui é um pouco diferente com a que está acostumado, Tom.
- Sei como se dança aqui. O padrasto de Lydia me ensinou, assim como a outros caubóis, uma série de danças antes do aniversário da enteada. Penso que era parte do presente dela: ter certeza de que ninguém lhe pisaria no pé.
- Ela mencionou que dançaram, mas não disse se você dançava bem.
- Não sei por que ela faria qualquer comentário do gênero. Porque Lauren queria saber tudo sobre Tom. Olhando para a escuridão através da janela da carruagem, ela findou se perguntando se lhe irritava saber que Tom tinha dançado com Lydia quando nunca dançara com ela. Estava confusa por saber das várias facetas da personalidade de Tom, coisas ainda não familiares, em virtude do período tão longo que os havia separado.
- Antes de vir à Inglaterra, poderia ter pedido a Grayson Rhodes qe lhe ensinasse o que queria saber-Lauren falou.
- Não tive tempo, a não ser pegar o vapor e tentar entender a confusão em que eu estava metido. Além do mais, não tinha certeza de chegar aqui e ter mesmo um título a minha espera. Achei que tudo não passava de um enorme engano. Assim, não queria parecer tolo, espalhando a novidade de que eu era um conde.
Lauren arregalou os olhos, surpresa. Jamais imaginara que Tom desse importância ao que as pessoas pensassem dele.
- Então, acredita que possa se sair bem no baile? - ela perguntou.
- Creio que sim.
- Marcarei outros passeios até lá. É importante ser visto, e, se Lydia e Rhys nos acompanharem, poderei lhe apresentar aos outros conhecidos e assim, no baile, não se sentirá tão deslocado.
- Gosto de Rhys - Tom disse, como se começasse a se aborrecer com aquela história de etiqueta.
- Lydia adora o marido.
- Penso que o sentimento é mútuo.
- Na última temporada, tentou convencê-la de que ele deveria se afastar de Londres porque a família do duque tinha se envolvido em um escândalo e ele queria poupar Lydia. Ela, porém, se recusou a deixar o marido.
- Para um lugar que conta com uma enorme quantidade de regras de comportamento, é estranho que aconteçam tantos escândalos.
- Imagine quantos escândalos mais teríamos se não houvesse as regras.
- Talvez o problema resida no fato de existirem tantas regras. As pessoas sentem necessidade de quebrá-las, ou pelo menos ver se podem ser contornadas.
- É o que faz, Tom? Verifica se dá para contorná-las?
- Não me conhece o suficiente, Lauren, para saber que não me contento em dar um jeitinho? Prefiro quebrar as regras.
- E se alguém sair magoado?
- Não vejo a razão de alguém se magoar porque peguei o garfo com a mão direita.
- Essas são as regras que pretende quebrar?
- Claro que sim.
- Pois vou contar à mamãe. Ela ficará bem mais tranquila.
- Duvido muito.
Lauren percebeu que seria melhor fugir daquele terreno perigoso.
- Sabe que todos esperam que as moças tenham desmaios e pequenos chiliques? Lady Blythe reuniu as amigas e fizeram uma reunião em que ensaiaram os desmaios mais elegantes.
Tom começou a rir.
- Não posso imaginá-la desmaiando, Lauren.
-Nunca desmaiei. Acho uma bobagem. Por que uma mulher deve parecer assim tão frágil quando não precisa de nada disso?
- Talvez as moças desmaiem porque pensam que isso faz com que os homens se sintam muito fortes e queiram protegê-las.
- Ainda assim é bobagem. Gostaria de se casar com uma moça totalmente dependente?
-Não. Quero uma mulher forte ao meu lado, que eu possa provocar e que ela me provoque também. Uma mulher que me coloque na linha, caso eu precise.
- Talvez eu devesse escrever um livro como o de Lydia, mas o meu se chamaria: Como Domar um Caubói. Venderia muito bem enquanto você estivesse solteiro e todas as moças de Londres acreditassem ter uma chance de conquistar o seu coração.
- Rhys me disse que não preciso necessariamente me casar por amor aqui.
- Isso não significa que não tente capturar o coração das damas. É parte do jogo. Terá de se casar, Tom. Vai precisar de um herdeiro.
- Ravenleigh não tem um. Ele se preocupa com isso?
- Parece contraditório, mas ele nunca pressionou mamãe a lhe dar um filho. Pelo menos nunca o percebi. Na verdade, ele quer passar o título para o sobrinho. - Ela suspirou. - Saiu-se muito bem esta noite, Tom.
- Não queria embaraçá-la.
- Por isso foi bom o jantar ter sido na casa de Lydia. Ninguém se importaria se cometesse uma gafe.
- Considero Rhys um amigo.
- Sim, levando-se em conta que os dois são um pouco safados.
- Acho que gosta que eu seja assim.
- Não me tente a provar que está errado, Tom.
- Aposto que tem medo de que eu prove que estou certo, isso sim.
Ele se moveu na carruagem e sentou-se ao lado dela.
-Um cavalheiro não deve se sentar ao lado de uma dama.
- Sei disso. - Tocou de leve os lábios de Lauren. Estava sem luvas.
Quando Tom as tinha tirado?
- Não se cansa de enumerar as regras? - ele perguntou.
- Está me pagando para fazê-lo.
- Mas, quando estamos apenas os dois, não ligo para regra alguma.
Antes que ela sequer pensasse em objetar, a boca de Tom cobria a dela, em um beijo atrevido. Lauren podia sentir o gosto de conhaque, o cheiro do fumo e, principalmente, o perfume de Tom. Deveria insistir em que ele parasse, mas se deu ao direito de sentir todo aquele prazer por mais alguns instantes.
A carruagem parou, e eles se separaram. Ela podia notar que o caubói sorria.
- Não provou nada, Tom.
O sorriso dele aumentou. Lauren sabia que estava protestando demais. Tom tinha conhecimento de que ela não seria capaz de resistir aos seus abraços.
A porta da carruagem se abriu e o cocheiro a ajudou a descer. Tom a acompanhou até a porta da casa.
- O que faremos a seguir? - ele perguntou, como se ela planejasse desaparecer antes que pudesse beijá-la mais uma vez.
- Vou conversar com Lydia e ver quando ela estará disponível para nos acompanhar a um passeio. Aí, eu o avisarei.
Ele passou o dedo levemente pelo pescoço macio de Lauren e o desejo deixou-a atordoada.
- Quero apenas um beijo - ele murmurou.
Apenas um beijo. Era como se ele estivesse dizendo que as jóias da Coroa eram apenas jóias ou que o Big Ben fosse apenas um sino.
- Momentos como este tornarão mais difícil a minha partida - Lauren sussurrou.
- Não quer levar consigo nenhuma lembrança?
- Prefiro me restringir ao acordo que fizemos.
- Está bem. - Tom pegou a mão dela, tirou a luva e beijou-lhe os dedos. - Apenas se lembre que fizemos dois acordos, e ambos devem ser mantidos.
Antes que Lauren pudesse comentar que o acordo que tinham feito quando adolescentes nunca deveria ser mantido, ele se virou e desceu os degraus da entrada. Bobagem pensar que Tom se esqueceria da dívida.
Entrou na casa, decidida a pedir a Molly que desse todos os vestidos abotoados na frente. Não que pensasse que Tom tiraria vantagem sem a permissão dela, mas, na verdade, ele estava certo. Temia que Tom fosse uma tentação grande demais e que ela não pudesse resistir.
Quando a carruagem se afastou da mansão de Ravenleigh, Tom tirou do bolso a luva de Lauren que mantivera consigo. O que ela pensaria ao perceber que ele lhe tirara a luva e não a havia devolvido? Aquela pequena peça fazia com que Tom sentisse como se levasse consigo uma parte de Lauren.
Cada momento que passava ao lado dela era um tormento; estar perto e não poder tocá-la, beijá-la, nem possuí-la.
Não estava certo quando seus planos sobre ela tinham mudado, mas o fato era que queria lhe demonstrar a paixão que havia entre os dois.
Não desejava que Lauren partisse sem que tudo tivesse sido explorado entre eles. O que significava que Tom teria de lhe transpor as reservas. E fazê-la se esquecer do esforço despendido para se tornar uma dama inglesa.
Precisava fazer com que Lauren o desejasse tão desesperadamente quanto a queria.

Capítulo VIII

Investiguei. Ele foi convidado.
- Então certamente virá.
- Esperamos que sim. - O conde de Sachse pode não saber a importância desse acontecimento.
- É o primeiro baile da temporada. Claro que sabe da importância. Ele já está aqui por tempo suficiente para aprender a apreciar alguns de nossos costumes.
- Espero que o conde não planeje dirigir todas as atenções desta noite a Lauren, como tem feito desde que chegou à Inglaterra.
De pé, ao lado das quatro damas que haviam estado em sua casa em busca de informações sobre o conde de Sachse, Lauren não conseguiu evitar o rubor do rosto diante da observação direta de Lady Blythe, obviamente desaprovadora. O olhar dela era duro, os lábios estavam apertados, e a sobrancelha arqueada. O baile havia começado e as moças estavam envolvidas em seu costumeiro bate-papo, cheio de mexericos. O fato de o primeiro baile da temporada ser oferecido pela duquesa de Harrington tornava o acontecimento de rara importância.
E, como era de esperar, o conde de Sachse continuava sendo o tema de todas as conversas sussurradas, não só das jovens damas como dos cavalheiros que temiam a concorrência.
- Não. Ele aprendeu no Texas e...
- Meu Deus, penso que seja ele ali - Lady Blythe interrompeu a resposta de Lauren.
- Tem razão! - Cassandra exclamou. - Devo confessar que gosto muito quando o vejo vestido de caubói, mas neste momento está extraordinariamente bonito.
- E excessivamente perigoso. Um lobo na pele de um cordeiro. Mal posso respirar - Lady Blythe disse com um gemido.
Talvez porque seu corpete esteja muito apertado, Lauren sentiu vontade de falar, mas se conteve, pois também tinha dificuldade de respirar.
Tom estava simplesmente lindo. O traje era negro e de, corte muito elegante. A camisa de seda branca não escondia a largura do peito nem dos ombros. A gravata igualmente de seda adornava a camisa. O tom bronzeado de sua pele deixava todos os demais homens do salão parecerem doentes. Conforme caminhava, todos se voltavam para ele. Com passos firmes e leves, lembrava uma fera que podia ser capturada, mas nunca domada. Não um lobo, mas algo mais nobre: um leão talvez um tigre ou uma pantera. Ou uma criatura da noite.
Apesar de tudo o que lhe havia ensinado, Lauren não o domara, e reconhecer isso lhe dava um prazer imenso. Não queria destruir um espécime tão magnífico.
Nesse instante, Tom a localizou. Como o fizera, estando em meio a tanta gente?
Antes que a alcançasse, a música começou a tocar e o baile foi iniciado com uma valsa. O cartão de danças de Lauren estava quase cheio, mas ela deliberadamente havia deixado a primeira em aberto. Somente agora entendia a razão disso.
O conde de Sachse parou diante de Lauren e o olhar dele deixou clara a admiração pela forma como ela se vestia naquela noite.
- Boa noite, querida - ele cumprimentou, inclinando-se educadamente.
- Como vai, Tom. - Ela fez uma pequena reverência. - Como vai, milorde.
- Não precisa ser tão formal, Lauren - pediu, abrindo um belo sorriso. Voltou-se então para as outras moças. - Boa noite, senhoritas. Não posso me lembrar de outra ocasião onde tenha visto tanta beleza em um só lugar.
Lauren irritou-se ao ouvir gritinhos e suspiros.
- Espero não ter chegado tarde demais para reservar uma dança com cada uma das senhoritas.
Lady Blythe começou a vasculhar o seu cartão de dança.
- Acredito que a dança cinco esteja disponível. É uma valsa.
Tom pegou o lápis que ela lhe estendia e escreveu o seu nome no espaço correspondente. Voltou-se então para Cassandra.
- Também terei a chance de dançar com a senhorita? A jovem começou a se abanar freneticamente e Lauren temeu que Cassandra viesse a ter um de seus infames desmaios.
- A dança oito, milorde. - A voz saiu trêmula. Lauren começava a se sentir aborrecida. Não gostava de ver Tom flertar com as mulheres, nem sequer admitia a ideia de que ele pudesse se interessar por qualquer uma delas.
Tom assinou o cartão de Cassandra, depois o de Anne e finalmente o de Priscilla. E ainda o de algumas outras jovens que se reuniram à sua volta, estendendo-lhe os cartões sem qualquer acanhamento.
- Agora as senhoritas vão me desculpar, mas prometi a minha primeira dança a Srta. Fairfield.
Tom estendeu a mão a Lauren, mas ela se adiantou e segurou no braço dele.
- Deve oferecer o braço a uma dama - ela lhe disse baixinho.
Ele sorriu, e Lauren teve a impressão de vê-lo ruborizar levemente. Que interessante. Não que fosse novidade, pois ela já vira acontecer o mesmo em todas as vezes em que Tom ficava embaraçado.
- Obrigado - ele murmurou e a acompanhou até a pista de dança, onde a envolveu nos braços.
- Preciso lhe dizer que as mulheres londrinas estão interessadas em você, Tom.
- Harrington explicou que minha tarefa mais importante nesta temporada é encontrar uma esposa.
Lauren tropeçou.
- Está bem? - Ele a segurou firme.
- Sim. - Tom pensava em se casar. Ela sabia que isso aconteceria. Simplesmente não aceitava a ideia. - Não percebi que já começou a caçar uma esposa.
- A palavra exata é essa, não é? "Caçar" esposa? Isso torna a tarefa um pouco selvagem, não acha?
- Suponho que sim. Mas estou surpresa. Não percebi que estivesse procurando uma esposa.
- Não no momento. Vou deixar as minhas em aberto. - Ele a observou com atenção. - Adorei o seu vestido.
- Acredito que Charles Worth teria um ataque se o ouvisse chamar o meu traje de noite de vestido.
- Fica bem em você. Mas quem é Charles Worth?
- Um costureiro famoso. Ele tem a habilidade de saber escolher não só o estilo como a cor da roupa que cai bem para cada tipo de mulher. As criações dele são consideradas obras de arte, e ouso dizer que cobra tão caro que as peças deveriam ser penduradas nas paredes.
- Não pode negar que adotou alguns trejeitos ingleses, não é?
- Não posso negar. Às vezes fico com medo de ter adotado outros mais.
- Por que isso a assusta?
- É normal que eu tenha sofrido a influência deste país, já que estou aqui há mais de dez anos. Mas e se acontecer de eu voltar para o Texas e descobrir que me tornei inglesa demais? Não seria irônico eu não me adaptar mais ao Texas?
- Pois lhe digo uma coisa. Pode se ajustar a qualquer lugar, Lauren.
- Ao menos posso aparentar ter me adaptado. E, tocando nesse assunto, digo-lhe que parece estar se adequando muito bem. Não creio que vá precisar de mim esta noite.
- Querida, é claro que preciso de você. Não duvide disso nem por um segundo.
Lauren sentiu-se tentada a tocar no rosto de Tom, acariciar-lhe o cabelo tão bem-arrumado. Conforme dançavam, ela foi se perdendo no calor daquele olhar ardente e possessivo. Não queria que fizesse o mesmo com qualquer outra mulher.
A música acabou e ouviram-se então pequenos murmúrios quando as pessoas procuravam os novos pares. Lauren não tivera a chance de dançar com Tom no Texas. Estava feliz por ter dançado com ele antes de deixar a Inglaterra.
Ele se inclinou, segurando a mão de Lauren com ternura.
- Foi um prazer dançar com você, querida. Espero que tenha me reservado mais uma dança.
Lauren sentiu o coração bater mais forte.
- A última - ela lhe sussurrou.
- Estarei contando os minutos.
Enquanto ele a seguia para fora da pista de danças, Lauren se deu conta de que também estaria fazendo o mesmo.
Tom nunca sentira ciúme antes, mas no momento estava sendo tomado por esse sentimento, Lauren era a mulher mais bonita do salão e uma das mais requisitadas para dançar. O cartão de danças dela devia estar cheio porque ainda não havia se sentado uma única vez e continuava dançando. Ele sabia disso porque não conseguia afastar os olhos dela.
- Pare de olhar para Lauren.
Tom fitou Lydia, com quem estava dançando. Parecia que ela se movia bem melhor do que na festa de aniversário no Texas.
- Não sei se gosto desse sistema de cartão de dança - ele reclamou.
- Se não o tivéssemos, Lauren não teria chance de dançar com mais ninguém, não é?
Bem, esse seria o desejo de Tom, mas não tinha certeza se Lauren partilharia do mesmo sentimento. Na última semana, durante cada um dos passeios, ela fora delicada e reservada enquanto dava as instruções, explicações e os exemplos do que considerava próprio e impróprio. Ele não podia negar que aprendera muito e que Lauren não estivesse fazendo exatamente aquilo que lhe havia sido pedido: ensiná-lo a ser um homem civilizado. Mas raros foram os momentos que tinham passado sozinhos, para conversarem com total descontração e explorarem as possibilidades.
Fora necessária muita força de vontade para que Tom não ficasse jogando pedrinhas na janela de Lauren todas as noites, como o havia feito no passado.
- Alguém está sonhando acordado - Lydia disse.
-Desculpe-me, querida. Apenas estava pensando em tudo o que temos feito nesta semana e ainda não encontramos um momento para simplesmente conversarmos.
- A temporada é conhecida por suas atividades frenéticas.
- E adora tudo isso.
- Sim. E vou lhe avisando que tudo ficará mais agitado depois deste primeiro baile.
- Nem posso imaginar. - Ele queria participar dos eventos, mas sentia falta de uma noite tranquila, observando as estrelas.
- Se sentir atraído por alguma garota, avise-me que farei as devidas apresentações - Lydia se ofereceu.
- Agradeço a sua boa vontade.
Os últimos acordes da música foram seguidos pelo silêncio mais uma vez. Lydia ergueu-se na ponta dos pés e sussurrou no ouvido de Tom:
- Posso lhe revelar que Lauren tem o hábito de dar uma voltinha no jardim entre as danças doze e treze.
Tom abriu um enorme sorriso.
- Pois prefiro essa informação a qualquer apresentação, Lydia.
- Eu tinha certeza disso, Tom.
Com essa perspectiva na cabeça o animando bastante, ele dançou com Lady Blythe, talvez a segunda mais bonita garota da festa. A dama flertava com ele sem acanhamento, o que não o aborrecia. Tom gostava de flertar também. No fundo, não tinha qualquer interesse por Lady Blythe. Apenas Lauren era capaz de lhe prender toda a atenção e o interesse.
Lauren, a quem ele tinha prometido comprar a passagem para o Texas ao fim da temporada das festas. Não poderia ter feito acordo pior se estivesse lidando com o próprio diabo.
Escapou do salão durante a décima primeira dança e ficou envolto em sombras, observando os outros dançarem. Logo seguia para os jardins. Reparou que alguns casais saíam sorrateiramente e se dirigiam para um trecho escuro, a fim de se divertirem.
Bem, ele também sentia falta de um pouco de diversão. Estava gostando do baile, a companhia era agradável e vinha se distraindo bastante nos últimos dias. Mas não conseguia identificar um propósito por trás dessas atividades, a não ser ver e ser visto pelos outros, causando uma boa impressão em Londres.
Ficou imaginando por quanto tempo sentiria esse desejo de impressionar os nobres. E quando deixaria o pai descansar em paz.
Percebeu que Lauren se afastava do salão e caminhava para uma área deserta dos jardins.
- O que está fazendo aqui, Tom? - ela perguntou assim que ele surgiu à sua frente, saindo das sombras.
- Tem ideia de quantas vezes me fez essa mesma pergunta desde que cheguei a Londres?
- Obviamente vou continuar fazendo porque tem a mania de surgir sem avisar.
- Não pediu a Lydia que me contasse que estaria no jardim neste momento?
- Não disse nada. Minha prima parece gostar de fazer pequenas armações. Não sabia que estava tão atenta aos meus hábitos.
A voz de Lauren não soou cheia de censura, talvez apenas com uma ponta de provocação, como se não estivesse aborrecida com o fato de Lydia ter revelado a Tom o seu ritual.
- Por que sempre dá suas voltas entre essas danças em particular?
- Preciso me afastar um pouco de toda aquela loucura e entre essas duas danças me parece o momento perfeito.
- Permite-me que fique ao seu lado?
- Se prometer se comportar bem.
- Dessa forma acaba com toda a diversão, Lauren. - Estendeu o braço e ela aceitou.
- Parece que está aproveitando o baile - ela disse, depois que haviam caminhado um pouco e sentado em um banco isolado.
Como ele poderia lhe explicar? Queria se divertir, não negava que gostava de ter uma mulher em seus braços, dançando pelo salão, mas...
- Há algumas regras que diminuem a diversão. Lauren sorriu.
- Sabe que concordo com você? Sempre gostei de dançar, e os cavalheiros são simpáticos, mesmo assim parece que falta alguma coisa para tudo ser perfeito.
- Ah, os cavalheiros parecem ser simpáticos demais. Antes que Lauren percebesse o que Tom pretendia, ele a puxava para um lado mais escuro do jardim e a encostava contra uma parede. Ficaram próximos um do outro, mas sem se tocarem.
- Admita, Lauren. Não gosta que os cavalheiros sejam assim tão refinados e não tentem fazer nada de proibido. -Tom lhe tocou o rosto com as mãos sem luvas. - Eles se comportam como devem, não é? - perguntou, provocando-a enquanto aumentava as carícias. - Eles são domados.
Nesse momento Lauren já sentia sensações estranhas lhe percorrerem o corpo, os mamilos ficaram intumescidos e os joelhos amolecerem.
Impetuoso, Tom se apoderou dos lábios dela, beijando-a em seguida no rosto, no pescoço, na nuca, sempre de forma muito imprópria.
Lauren retribuía os beijos, deixando que ele lhe despenteasse os cabelos e amassasse a roupa tão elegante. Perdera o domínio sobre si mesma e permitia que o conde avançasse com as carícias e aumentasse a intimidade.
E ela que havia pensado que Tom se tornara um cavalheiro civilizado. O beijo demonstrava claramente que tinha se enganado. Ele ainda era tão selvagem quanto a terra onde haviam estado juntos tempos atrás.
Lauren também se sentia selvagem, indomável. Queria, assim como Tom, que o beijo tivesse aquela intensidade, queria que os braços másculos a envolvessem por inteiro.
Desejos.
Tom interrompeu-se repentinamente, deixando-a atordoada. As danças doze e treze já deviam ter acabado e ela estava ali com os lábios trêmulos e os cabelos desarrumados. Tentou ajeitá-los sem muito sucesso.
- Há uma porta lateral que leva à área dos criados e termina em um caminho que também dá entrada ao salão. Se tivermos sorte, poderemos voltar sem chamar a atenção de ninguém - Lauren murmurou.
- Gosto de vê-la como está agora - ele disse.
- Bobagem. Nem consegue me enxergar nesta escuridão.
- Vejo-a perfeitamente. - A voz de Tom soou profunda e rouca. - Vamos deixar tudo para trás, Lauren. Vamos embora.
- Embora? Penso que nossos últimos momentos juntos demonstraram que nenhum de nós é civilizado como deveria...
- E também que não somos tão selvagens como deveríamos. Ainda está vestida, querida.
Completamente, o que era quase um milagre, desde que ela tinha demonstrado uma total falta de controle.
- Tom, não posso simplesmente deixar o baile com você.
- Mesmo que ninguém nos veja?
- Meus pais devem estar procurando por mim, assim como o cavalheiro a quem prometi dançar. Não, sinto muito. Não posso arruinar a minha reputação.
- Mas pretende deixar a Inglaterra. No Texas, a sua reputação não será afetada faça aqui o que fizer.
- Ainda não estou no Texas e tenho a minha família a considerar. Não quero lhes causar vergonha alguma porque não temos força suficiente para agirmos como duas pessoas civilizadas.
Ele a libertou de seus braços, beijando-lhe os dedos.
- Não se esqueça do que me prometeu. A última dança. Eu a verei no salão.
Ela se esgueirou pelo jardim, entrou na área dos criados e voltou para o salão, descobrindo que aparentemente ninguém dera por sua falta.
Tentou se acalmar. Como conseguira resistir a Thomas Warner? Como conseguira voltar ao baile e não ir embora com aquele homem tentador?
Tom não estava gostando da segunda dança com Lady Blythe tanto como da primeira, principalmente porque ele contava os minutos em que teria Lauren de novo em seus braços para a última dança. Pena que fosse apenas para dançar, já que a mente estava povoada de mil e uma possibilidades bem melhores. Ele a queria em seus braços, mas em outro lugar, mais íntimo.
Com o canto dos olhos, percebeu que Lauren voltava ao salão, não mais com os cabelos desarrumados e o vestido amassado. Como poderia parecer tão calma enquanto Tom ainda carregava na pele o perfume dela?
- Milorde? - Lady Blythe o chamou.
Ele abaixou a cabeça e olhou para a bela dama com quem dançava.
- Sim, querida?
- Adoro quando me chama de querida. No entanto, milorde, não pude deixar de notar que tem dado muita atenção a Srta. Fairfield.
Tom se esforçou para não dizer que ela não se metesse em sua vida e que ele dava atenção a quem queria. Mas sorriu apenas. Um sorriso falso naturalmente!
- De fato, isso tem acontecido.
- Espero que não esteja muito envolvido com ela. Não gosto de falar mal das pessoas e odeio mexericos. Entretanto, o senhor acaba de chegar a Londres e desconhece que a Srta. Fairfield ganhou a reputação de seduzir os homens e depois humilhá-los. Na temporada passada, ela deixou que o pobre duque de Kimburton a cortejasse e, quando ele a pediu em casamento, a Srta. Fairfield impiedosamente recusou a proposta.
Tom parou a dança por um momento e arregalou os olhos.
- Talvez o duque tivesse se enganado e...
- Não, não. Pode perguntar a qualquer pessoa presente neste salão. A Srta. Fairfield flertou com o duque, encorajou o pobrezinho por quem não sentia nada. Isso não se faz. O resultado foi desastroso, para o coração do duque, claro. Ninguém ficou surpreso quando ele a pediu em casamento, mas todos se mostraram abismados, chocados, na verdade, quando ela rejeitou a proposta sem lhe dar qualquer explicação.
- O duque de Kimburton está aqui esta noite?
- Não. Ele foi muito humilhado. Decidiu não participar da temporada das festas este ano, e não consigo culpá-lo. Posso lhe dizer que seja precavido, conde de Sachse. Sempre gostei da Srta. Fairfield e ainda a considero uma amiga, mas não posso aprovar o comportamento dela quanto ao duque e temo que leve o senhor a um destino igualmente infeliz.
Lady Blythe sorriu e piscou repetidas vezes. Tom, que nunca ficava sem saber o que falar, viu-se sem palavras. Então Lauren tinha sido cortejada, ao que tudo indicava encorajara o sujeito e nem pensava em aceitar qualquer proposta que o tal duque faria ao fim da temporada.
- Eu nunca encorajaria um homem com quem não quisesse me casar - Lady Blythe acrescentou, cansada de esperar que Tom lhe desse alguma resposta. - Parece muito cruel.
- Talvez o duque tenha interpretado errado as reações da Srta. Fairfield - ele disse por fim.
- Pois já lhe falei que não foi isso. Ela parecia gostar do duque, e todos atribuíram a reação dela ao fato de sua origem americana. Pode ter sido outro o motivo, mas não tenho nem sequer ideia do que pode tê-la levado a se comportar de tal forma.
A música acabou e Lady Blythe colocou a mão enluvada sobre o ombro de Tom, os olhos cheios de preocupação.
- Peço que, tome cuidado, milorde. É óbvio que o senhor é vulnerável a ela da mesma maneira que o foi o duque. E, como eu já lhe disse, vai ser muito doloroso ver o senhor magoado. Apesar de conhecê-lo há tão pouco tempo, sinto muita simpatia pelo senhor.
- Agradeço o seu interesse.
A mentira saía da boca de Tom com facilidade, quando na verdade o que queria era se afastar de Lady Blythe o mais depressa possível. Todos os seus músculos estavam tensos; o queixo doía pelo esforço de continuar sorrindo sem vontade. Subitamente, sentiu-se irritado com tudo.
Acompanhou-a até a sua cadeira com a certeza de que, nem bem ele se afastasse, Lady Blythe começaria a mexericar com suas amigas. Falariam mal de Lauren e de seu novo pretendente, Tom Warner.
Ficou imaginando a razão de Lauren não ter comentado sobre esse tal de KAmburton. Quais teriam sido os verdadeiros sentimentos dela pelo homem? Bem, havia muita coisa que Lauren e ele precisavam discutir. E queria encontrá-la o mais rápido possível.
- Acredita que ela teve a audácia de comparecer a este baile?
- A duquesa de Harrington é prima dela. Não poderia deixar de vir.
- Ao contrário, acredito que deveria ter tido a decência de não aparecer aqui fosse qual fosse o parentesco com a anfitriã.
- Pois ouso dizer que ela atraiu a atenção de Sachse.
- O idiota nem tem ideia da humilhação que ela pode lhe infligir.
- Talvez pudéssemos contar a verdade ao homem e impedir que ele passe por tolo diante da Srta. Fairfield. Quem sabe alguém nos apresente a ele?
- Não é preciso nenhuma apresentação, senhores - Tom disse, surgindo por trás de uma pilastra, onde estivera escutando os homens falando de Lauren e de seu novo e idiota admirador. Mas tinha de reconhecer que o assunto da conversa coincidia com os mexericos de Lady Blythe.
- Eu diria, Sachse, que não fomos formalmente apresentados - o mais alto dos três homens falou.
Tom sentiu vontade de enforcá-lo ali mesmo, diante de todos.
- Permita-me então fazer as honras - o homem continuou, enquanto Tom se mantinha em silêncio. - Sou o conde de Whithaven e meus amigos são o marquês de Kingstorfe o visconde Reynolds.
Os outros dois cavalheiros cumprimentaram Tom.
- Os senhores faziam mexericos sobre a Srta. Fairfield?
- Não, não, meu amigo - Whithaven respondeu. - As mulheres é que mexericam. Apenas conversávamos, trocávamos ideias, especulávamos sobre o que poderá acontecer nesta temporada. Queríamos ajudar, mas notamos que parece muito envolvido com a Srta. Fairfield.
- Não vejo como meus interesses sejam da conta dos senhores.
- Talvez não, mas nos sentimos obrigados a avisá-lo de que ela tratou muito mal um de nossos amigos na última temporada. Um bom sujeito, Kimburton, e nem deu valor ao nobre título dele.
- Porque recusou a proposta de casamento que ele lhe fez?
- Porque, meu velho, ela deu todas as indicações de que diria "sim". Perdi uma fortuna em apostas.
- Então os senhores se divertem apostando no destino das pessoas? - Tom questionou no mais perfeito inglês, deixando os homens surpresos.
O conde de Sachse deu um passo à frente.
- Se eu fosse os senhores, pararia de falar da Srta. Fairfield. Posso muito bem fazer uma aposta sobre quem vai ser atingido primeiro pelo meu punho.
- O senhor não ousaria.
Tom começou a se afastar dos cavalheiros, sabendo que não poderia perder a paciência. Mas era difícil demais.
Acabou acertando um soco no rosto de Whithaven, sem que conseguisse se controlar. O homem perdeu o equilíbrio e caiu, porém antes se chocou contra um casal que dançava.
Alguém gritou, Tom ouviu gemidos, berros, a música subitamente parou e Reynolds parecia fora de si.
Sentiu uma certa mão em seu braço, olhou em volta e notou Lauren olhando para ele.
- Tom, o que está fazendo?
- Sendo um texano selvagem.
- Há algum problema aqui? - Rhys Harrington perguntou, aproximando-se.
Tom se voltou para o homem com quem pensava em desenvolver uma amizade.
- Desculpe-me por criar problemas em sua festa. Eu deveria ter dado o soco nesse imbecil lá fora.
- Talvez devêssemos ir à biblioteca.
- Não, obrigado. Penso que é melhor eu ir embora. - Tom olhou para Whithaven.
Uma mulher loira e de olhos verdes estava ajoelhada ao lado dele, enquanto Kingston e Reynolds tentavam fazer parar o sangue que lhe escorria do nariz.
Tom saiu do salão antes que causasse mais danos. E ele que tentava não imitar o comportamento do pai...

Capítulo IX

Tom estava com raiva de si mesmo por ter perdido o controle, bravo com Whithaven por ousar desafiá-lo, exasperado com Lauren por mostrar interesse por outro homem, apesar de não ter dado em nada.
Odiava-se por ter saído da festa como o fizera. Zangado com Lauren também por ela não o ter seguido, não que ele lhe houvesse pedido, mas mesmo assim ela poderia ter ficado do lado dele. Tom entrara para uma sociedade aparentemente civilizada, no entanto podre por baixo. Desejava que os investigadores nunca o houvessem encontrado. Queria que o sangue de seu pai não corresse em suas veias.
Estava com raiva de mais uma coisa.
Ele não poderia ser o homem que tinha se tornado.
Sentou-se na pesada cadeira forrada de brocado que havia ao lado da cama, diante da lareira. Sentia frio à noite naquela casa. Mesmo o uísque que tomava desregradamente naquele momento não estava fazendo efeito. Nada parecia aquecê-lo.
Ouviu a porta abrir e fechar. Maldito criado de quarto. O homem parecia pensar que somente ele poderia ter controle sobre a roupa do patrão.
Estava cansado de ver os outros tentando interferir em sua vida.
- Pensei que tivesse dito que deveria ir para a cama, que posso muito bem me despir sem a sua ajuda hoje à noite.
- Na verdade, não me lembro de ter me dito isso.
-Lauren.
Tom pulou da cadeira tão depressa que quase a derrubou. Sua cabeça subitamente esquentou, como se o uísque começasse a fazer efeito.
A jovem entrara no quarto e estava parada junto à porta. Usava um vestido simples, sem qualquer enfeite. Algo que ela devia ter colocado sozinha sem a ajuda da criada. Uma roupa parecida com a que usara quando haviam passeado às margens do rio Tamisa e se deitado no chão para olhar as estrelas. O cabelo estava preso no alto da cabeça, e ele desejou soltá-lo, deixando-o cair nos ombros, como antigamente.
Não conseguia afastar os olhos de Lauren enquanto ela atravessava a curta distância que os separava, até ficarem muito perto um do outro, nada os separando.
Os olhos dela refletiam uma enorme tristeza, fazendo com que ele desejasse tomá-la em seus braços e confortá-la, dizendo que tudo acabaria bem. Mas Tom nunca fora de fazer promessas que não poderia cumprir.
- Estou aqui para pagar a dívida que tenho com você - ela disse suavemente.
Tom sentiu o coração disparar. Eram as últimas palavras que esperava ouvir.
- E, quando a dívida estiver paga, quero libertá-lo do acordo que fizemos recentemente.
Ele mal poderia culpá-la por fazer aquele pedido. Não tinha dúvidas de que seu comportamento no baile a havia envergonhado.
- Concordo - Tom murmurou.
- Lembra-se da condição da dívida, Tom. A condição que se aplicava a você?
- Olhar, mas não tocar.
- Quero que mantenha a sua palavra.
A palavra dele? Não tocar quando desejava tão desesperadamente fazer amor com ela? Lauren sabia o que estava lhe pedindo e o que lhe custaria seguir à risca o acordo feito no passado?
As mãos fortes começaram a tremer tanto que Tom ficaria a noite toda tentando sem sucesso abrir os botões do vestido.
- Farei como prometi, mas terá que ser você a abrir os botões.
- Bem, se fizermos algumas mudanças no acordo, vai considerar a dívida paga?
Ele concordou mais uma vez.
- Pague-me, Lauren.
Ela abaixou o olhar, passou a língua pelos lábios, respirou fundo...
E continuou parada.
- Não vou considerar a dívida paga até que os botões estejam abertos - ele disse.
- Quantos botões?
- Abra-os até a cintura.
Ele notou que ela enrubescera, mas continuou inflexível.
- Vamos, Lauren.
- Pare de me apressar. Nunca fiz isso antes.
Tom sabia que era errado despertar raiva em Lauren, apesar de gostar tanto de vê-la perder a calma.
- Nunca desabotoou um vestido? - ele perguntou.
- Não na frente de um homem.
- Não é nada diferente.
- É claro que é. Gostaria que eu insistisse em que você desabotoasse a calça?
Tom não conseguiu deixar de rir.
- Ficarei muito feliz de fazê-lo se você se sentir mais à vontade.
- Tom, você sempre quer me corromper.
- Pare de me distrair com essa conversa ou eu mesmo vou precisar abrir os botões.
- Não me apresse, Tom.
- Não devo apressá-la? Diabos, mulher, esperei dez anos por isso! Abra logo!
Antes que ele perdesse a pouca paciência que lhe restava. A impaciência estava levando a melhor quando Lauren abriu o primeiro botão logo abaixo da gola, e Tom percebeu que ela tremia bastante, quase tanto quando ele.
- Lauren?
Ela levantou o olhar. Havia ternura na voz dele.
- Leve o tempo que precisar.
Era estranho que um momento que ela fantasiara por anos se tornasse real. Estava demorando de propósito, fazendo com que Tom esperasse por aquilo que ele queria, do mesmo modo que ela havia aguardado aqueles anos todos. Esperara que ele viesse buscá-la até que havia desistido desse sonho. E fora quando ela quase tinha aceitado a proposta de casamento de um outro homem.
Lauren não sentia medo de Tom. Nunca tivera. Não desde o momento em que havia colocado os olhos naquele rapaz rebelde. Mas ele lhe despertava seu lado selvagem, a parte que ela queria esconder porque sabia que era errado. Tom a incitava a ser uma pessoa incivilizada, a ser tudo aquilo que Lauren deixara de lado.
Algumas vezes tinha se sentido sufocar, moldando-se como a dama que a mãe gostaria que ela se tornasse, que a sociedade exigia, e assim deixando de ser a mulher que era na verdade. Somente Tom sempre a fazia sentir que ainda havia uma chance de readquirir a própria identidade.
E essa era a razão de estar ali naquele momento. Porque no fundo queria desabotoar o vestido para ele... E ao mesmo tempo temia que Tom se desapontasse com o que visse.
Ele não tinha dito nenhuma palavra sobre amor. Estava apenas interessado em que ela pagasse a dívida, porque acordos devem ser respeitados. E chegara a hora de pagá-la. Libertar ambos do passado.
Ele não a tocaria. Não veria muito mais do que ela já havia revelado ao usar aquela camisola quando olhavam as estrelas. Era só a ideia... De que revelaria o que mantinha escondido. E ela pretendia fazê-lo bem devagar. Fazer com que ele esperasse um pouco mais.
Pressionou os dedos sobre a palma das mãos a fim de parar de tremer e respirou fundo. Na verdade não eram apenas as mãos que tremiam, mas o corpo inteiro. Lauren temia que Tom percebesse como estava nervosa.
Alcançou o primeiro botão, estranhando que estivesse tão frio. Abriu-o facilmente. Passou para o segundo, esperando que o olhar de Tom descesse para o seu corpo, mas ele mantinha os olhos presos aos dela. No quarto botão, Tom moveu as mãos para os lados do corpo, os punhos fechados. No quinto, ele apoiou a mão com tanta força na mesa de mármore que ela se surpreendeu que a pedra não tivesse se quebrado.
Ligeiras gotas de suor apareceram na testa dele e Lauren não tinha certeza se Tom continuava a respirar. Ao desabotoar o último botão, ela afastou o tecido e revelou a combinação de algodão branco que ainda lhe cobria o corpo, mesmo assim se sentiu completamente nua.
Então ele abaixou o olhar, e o que Lauren viu nos olhos do conde era quase assustador. Um desejo animal, tão grande que chegava a ser doloroso.
Ele lhe deu as costas e ficou olhando as chamas da lareira.
- A dívida está paga - Tom falou. - Pode ir embora. Ela deu um passo na direção dele.
- Saia daqui, Lauren - grunhiu com os dentes cerra dos -, antes que eu faça uma coisa de que ambos nos arrependeremos. Provei esta noite que não sou nada além de um bárbaro.
E aquela também era a razão que a trouxera até ali. Porque tinha visto a expressão no rosto de Tom depois que esmurrara Whithaven, vira vergonha e mortificação. Ela havia enxergado um homem que queria provar ser diferente do pai e, aos olhos dos que o rodeavam, tinha se mostrado ser igual a ele.
- Um bárbaro já teria me levado para a cama - Lauren murmurou.
Tom se voltou para Lauren e, em seus olhos, ela viu não o garoto que ele tinha sido, mas o homem que havia se tornado, alguém que mal conseguia conter as paixões.
- Eu a estou avisando, Lauren. Melhor ir embora.
- Os bárbaros não avisam. - Ela deu mais um passo na direção de Tom. - Por que esmurrou Whithaven? Ele disse alguma coisa...
- Disse muitas coisas.
- Sobre você?
Ela observou atentamente a reação de Tom.
- Ele falou de mim, não é? O que exatamente ele disse?
- Que você tinha alguém. Eu morrendo de saudade lá no Texas e você sendo cortejada por um sujeito.
- Nunca recebi as suas cartas - ela sussurrou calmamente. - Dez anos. Como você podia acreditar que em todo esse tempo algum cavalheiro não me daria atenção e eu não daria atenção a ele. Não vai me dizer que nunca teve uma mulher...
-As minhas eram pagas para me agradar. Nunca nenhuma significou nada para mim, Lauren, nenhuma esperou uma proposta de casamento, nem receber a honra de usar o meu nome. Nenhuma jamais teve a chance de ocupar o seu lugar em meu coração.
No coração dele. Ela tivera um lugar no coração de Tom. Ainda tinha?
Lauren se moveu para mais perto.
- É diferente aqui, Tom. Diferente para uma mulher. O valor de uma jovem se baseia no que ela leva ao casamento. Desde o momento em que é apresentada à sociedade, sua meta é se casar. Está constantemente à mostra, não importa aonde vá, seja em uma volta no parque, a um concerto, a um baile ou a um jantar. O modo como ela se veste e se comporta é assunto de todas as conversas. Todos os aspectos de sua vida são analisados. Ela tem amigas de boa família? Faz sucesso nos bailes?
Houve silêncio por um momento, antes de Lauren prosseguir:
- Então, sim, quando Kimburton começou a me cortejar, retribuí suas atenções. Era maravilhoso ter de agradar apenas a um homem em vez de centenas. Ele era incrivelmente educado, e eu me sentia solitária. Por um tempo, deixei de ir para a cama à noite pensando em você.
- Por que recusou a proposta de casamento que ele lhe fez? Lauren sentiu a garganta ardendo com o esforço de conter as lágrimas, mas elas escaparam e deslizaram por seu rosto.
- Porque compreendi que, se eu me casasse com ele, teria de viver aqui para sempre, e eu não poderia prometer nada eterno a nenhum homem. Foi então que arranjei um emprego e comecei a fazer planos para voltar ao Texas, eu precisava saber se você havia me esquecido.
- Minha linda. - Tom a abraçou e com toda a ternura começou a secar as lágrimas que corriam abundantes pelo rosto de Lauren. - Eu nunca poderia esquecê-la. Deus do céu, como pôde pensar que haveria alguma chance de isso acontecer?
Ele abaixou a cabeça e seus lábios encontraram os dela. Foi como se a primavera invadisse o aposento. Tudo parecia perfeito agora, e, como Lauren continuasse trêmula, Tom a sustentou com seus braços fortes para que não caísse.
Lá no fundo da mente, ele começava a fazer planos. Não queria que Lauren partisse. Imploraria que ela ficasse, se fosse necessário. Precisavam se amar antes que a sociedade os atolasse de regras, antes que antigas promessas dessem lugar a novas.
Tom mordiscou os lábios macios de Lauren, depois forçou a entrada de sua língua naquela boca que aceitava a carícia ousada e se liberava completamente.
Ela nem sequer pensava em resistir ou em pedir para que Tom parasse com o que estava fazendo. Nenhum homem a beijara antes e nenhum jamais tinha ousado fazer o que Tom fazia naquele momento. Mesmo no passado, ele se atrevia a ir mais longe do que deveria. Agora, estava beijando Tom, pressionando o seu corpo contra o dele, reconhecendo que o desejo que sentia era natural como o ato de respirar.
Não havia vergonha nesses sentimentos, nenhuma desonra nesse momento de intimidade. Ela queria fazer mais do que abrir os botões de seu vestido. Desejava tirar toda a roupa, desabotoar a calça dele e despi-lo por inteiro.
Tom intensificou o beijo, sentindo a reciprocidade das carícias. A garota que pulava da janela às escondidas para se encontrar com ele no passado havia se tornado uma mulher que qualquer homem sonharia abraçar.
Com um gemido, ele a levantou nos braços e a levou para a cama. Gentilmente, deitou-a sobre os lençóis e se estendeu ao lado dela. O olhar de Lauren não mostrava qualquer medo. Tom só via desejo rivalizando com o seu.
Beijou o delicado queixo, o pescoço, e passeou a língua pela pele macia. Com os dedos, fez com que o vestido desabotoado deslizasse para o chão. Mas ainda havia a combinação de cetim.
Continuou com os olhos presos ao corpo de Lauren, encantado com a textura da pele. Censurou-se por não ter se barbeado. Agora a machucaria.
Manteve o olhar preso ao dela, a respiração ofegante, esperando para ver-lhe a reação a cada toque, a cada atrevimento. Lauren se mostrava exatamente como ele esperava.
Não queria assustá-la de forma alguma. Era um homem determinado, mas até aquele momento jamais soubera que tinha tanto controle sobre si mesmo. Somente um homem de ferro poderia olhar para Lauren, e não a possuir imediatamente.
Engoliu em seco, a respiração saindo com dificuldade. Desatou mais um laço, lutou para manter os dedos firmes e, quando cada peça ia sendo tirada, mais perto seus dedos ficavam daquela pele macia. E nua.
Moveu o tecido que ainda cobria os seios de Lauren, seios fartos e mamilos cor-de-rosa.
- Como você é linda...
- Meus seios não são tão fartos como os de Lady Blythe ou Lady...
- Você é perfeita.
- Sou pequena.
- Você é perfeita - ele repetiu, abaixando a boca e lhe beijando os lábios enquanto explorava a perfeição do corpo.
Lauren imaginava se o fogo da lareira havia se espalhado pelo quarto, porque nunca se sentira tão quente em sua vida inteira. O beijo de Tom era selvagem, possessivo e as mãos exploravam todos os lugares que queria. Não podia imaginar nenhum cavalheiro se comportando como Tom, praticamente a levando a perder a razão. Certamente morreria graças às sensações que ele lhe provocava com a língua, com o toque de seus dedos.
Naquele momento, Tom deslizava a língua pelo pescoço de Lauren, descendo até os seios e arrancando-lhe gemidos. Com dificuldade para se controlar, ela agarrou os cabelos dele, ainda muito longos, grossos, escuros, bonitos e brilhantes sob a luz da lareira.
Então ele voltou a beijá-la nos lábios. Era o prelúdio de uma promessa que ela não tinha certeza de que poderia manter.
Ambos eram subitamente mãos, bocas, línguas, toques, beijos, carícias... O corpo de Tom pesava sobre o dela. De forma prazerosa. Lauren jamais pensaria que seria capaz de lhe sustentar o peso, contudo, agora o que aumentava era a paixão, o desejo de estar o mais perto dele possível.
Puxou-o pelos ombros. Respirando pesadamente, Tom a fitou com tanto desejo da mesma forma que esse sentimento avassalador tomava conta do corpo dela.
- Abri todos os meus botões para você - Lauren murmurou, surpresa com o tom da própria voz. - O mínimo que pode fazer é desabotoar os seus para mim.
Ele se sentou na beira da cama, olhando para ela, as mãos abrindo os botões em uma velocidade tal que a fez rir. Então Lauren se sentou e começou a despi-lo, primeiro a camisa, que revelou o peito magnífico.
Foi então que ela viu uma cicatriz nas costelas de Tom.
- Onde arranjou essa marca? - perguntou, cheia de curiosidade.
Como ele não respondesse, ela levantou os olhos e viu que a expressão do rosto do caubói havia sido tomada por más lembranças.
- Foi o homem que o tirou do trem dos órfãos que fez isso? Ele o espancava, não é?
- Não, essa marca não foi ele quem fez.
- E como a conseguiu?
- Meu pai - ele respondeu, rangendo os dentes.
- O seu pai? - Tal declaração a horrorizou.
- Estou me lembrando de coisas, Lauren, e, por Deus, desejava não estar me recordando de nada. Eu não queria ter batido em Whithaven.
Lauren o silenciou, colocando os dedos nos lábios de Tom.
- Eu sei disso. Podemos remediar essa situação. Podemos, sim, Tom. - Ela abaixou a cabeça e pressionou os lábios sobre a cicatriz.
- Lauren... Nesta noite não quero me lembrar do passado - ele finalmente conseguiu dizer. Então sorriu. - Não vai desabotoar a minha calça?
Naquele momento, ela queria voltar a ser a garota do Texas, e não mais a senhorita inglesa. Porém, hesitou desapontando a si mesma e provavelmente a Tom também.
Mas, se ele estava desapontado, não dava sinais. Livrou-se de sua roupa. Estavam nus agora e Lauren se deslumbrou ao ver o vigor de sua masculinidade.
- Meu Deus, Tom - ela murmurou, engolindo em seco, mas sorrindo.
Rindo, ele a deitou na cama, beijando-a desesperadamente. Faminto, provando, tocando, explorando todos os pontos daquele corpo macio e sedutor. Tirou-lhe os grampos dos cabelos e os deixou soltos sobre o travesseiro.
Lauren sabia por que recusara a proposta de Kimburton. Ele não era Tom. Não era o seu caubói. Não era o rapaz que tinha roubado o seu coração debaixo de um céu cheio de estrelas em uma noite no Texas.
A mãe dela sempre chamou Tom de ladrão, mas como uma pessoa podia roubar algo que já possuía?
Ele lhe abriu as pernas e Lauren sentiu o membro rijo pressionando o corpo dela. Estava pronta para Tom, sabia que estava, mas havia ainda algum desconforto.
- Vou me esforçar para que não sinta muita dor, embora na primeira vez seja inevitável, querida. Depois, suponho que não. Ao menos foi o que ouvi dizer. Eu lhe prometo que na segunda vez sentirá prazer.
- Eu o farei manter a sua promessa.
Ele a beijou e a penetrou. No primeiro momento, Lauren gritou, mas Tom a segurou firme, lambendo as lágrimas que surgiram nos olhos dela.
- Perdão, Lauren.
- Não foi assim tão ruim, Tom. Apenas...
Seus olhares se encontraram e nos dele havia dúvida e preocupação. Emoções que raramente mostrava ao mundo, mas revelava apenas a ela. Aquele rude caubói, que podia fazê-la estremecer com seus beijos, que usava uma arma no bolso do casaco, tinha um coração mole.
- É que nunca imaginei que...
Tom começou a se mover dentro dela e logo Lauren sentiu-se tomada por um inesperado prazer, que se intensificou e a levou ao êxtase.
Ofegante, Tom permaneceu sobre ela, ambos os corpos molhados.
- Foi como uma estrela cadente - ela murmurou.

Tom acordou e viu Lauren sentada no chão, em frente ao fogo da lareira, com um cobertor em volta do corpo, as roupas ainda esparramadas pelo quarto assim como as dele. Pensou em dizer que a amava, que sempre a havia amado, mas pareceu ser uma crueldade, já que não tinha planos de como segurá-la na Inglaterra.
Levantou-se, vestiu a calça e a abotoou. Como Lauren não deu qualquer indicação de que sabia que ele acordara e estava se vestindo, imediatamente concluiu que ela devia ter se arrependido por ter feito sexo com ele.
Lauren queria voltar ao Texas, e ele poderia lhe concretizar esse desejo, pagando-lhe a passagem.
Sentou-se ao lado dela e ficou apenas a observá-la sem nada dizer.
- O que está pensando? - finalmente perguntou.
- Em como a vida é curiosa. A gente acha que tem tudo planejado, que sabe o que quer, então, quando menos espera, não sabe de mais nada.
Tom tocou de leve nos cabelos que Lauren deixara soltos, procurando memorizar a textura dos fios para quando chegasse o dia em que não mais pudesse tocá-los.
- O que não sabe, querida?
Lauren voltou-se para ele. Havia tamanha tristeza naquele olhar que Tom pensou ser capaz de fazer qualquer coisa no mundo para lhe afastar tal sentimento.
- Não sei o que fazer, Tom. Se eu voltar ao Texas, você não estará lá.
- Provavelmente terei de ir lá algumas vezes. Não posso abandonar os meus negócios.
Lauren simplesmente encostou a cabeça no ombro vigoroso e ele a abraçou bem forte.
- Irá me visitar quando estiver no Texas, Tom?
Ele sentiu uma pontada no coração ao ouvir tais palavras. O Texas significava mais para Lauren do que ele.
- Claro que sim - ele se esforçou em responder.
- Por quanto tempo.
- Para sempre.
- Tom, não pode prometer que estará comigo pelo resto de sua vida. Não irá cumprir. Provavelmente se casará e...
- Então vou lhe fazer uma outra promessa agora. Farei com que sinta um prazer indescritível na cama. Na primeira vez, você sentiu dor. Na segunda, vai desejar não sair mais da cama. Penso que posso cumprir esta nova promessa imediatamente. Se não tiver objeções.
Lauren entreabriu os lábios e seu olhar pareceu mais animado. Era tudo do que ele precisava. Tirou rapidamente a calça que acabara de vestir e a beijou ardentemente. Carregou-a nos braços até a cama, sem interromper o beijo, sentindo um prazer enorme causado pelos longos cabelos de Lauren, que lhe tocavam a pele. Deitou-a na cama, intensificando o beijo. Em parte, queria confessar todo o seu amor. Falar com honestidade de seus sentimentos. Porque a amava profundamente.
E amara a menina que costumava criticar o seu mau comportamento. Assim como a moça elegante que ela se tornara e que continuava a lhe repreender os vícios.
A menina que se preocupava com as boas maneiras; a mulher que se importava com a etiqueta.
A menina que o encontrava na escuridão da noite; a mulher que fazia o mesmo.
A menina cujo sorriso lhe roubara o coração; a mulher cuja risada mantinha o coração dele aquecido.
A menina que havia concordado em expor o corpo juvenil.
A mulher tentadora que o tinha procurado para pagar uma antiga dívida.
A menina que ele deixara para trás. A mulher que agora tinha nos braços.
Se a mãe nunca o houvesse tirado da Inglaterra, as mãos dele não seriam ásperas a ponto de machucar a maciez da pele de Lauren, mas também elas não seriam tão fortes. No Texas, essas mãos podiam proteger sua amada, trabalhar duro para lhe dar tudo o que quisesse, proporcionar-lhe uma boa vida. Na Inglaterra, as mesmas mãos pareciam inúteis.
Gemendo baixo, ele intensificou o beijo, determinado a levar Lauren a sensações desconhecidas e enlouquecedoras. Trabalhavam bem, juntos. Sempre haviam se completado.
Tom a libertava de todas as restrições da vida enquanto ele devia se tornar uma pessoa boa.
De fato haviam nascido para se completarem. Só desejava que pudessem continuar juntos como estavam naquele momento.
As mãos de Lauren participavam ativamente do ato de amor, tocando os cabelos dele, o rosto, o peito, as costas. Também ela usava a língua macia como veludo para levá-lo à loucura.
Com o joelho, ele lhe separou as pernas. Apertou-a nos braços, fez com que seus corpos se unissem de tal forma que Lauren gemeu alto de prazer. Usou os dedos para lhe excitar as partes íntimas.
Lauren arregalou os olhos por um momento, depois sorriu. Era maravilhoso o que sentia. Não só estava nos braços do homem a quem sempre amou, como ele lhe dava o prazer que ela antecipara.
Então Tom a possuiu, com calma, com mais facilidade daquela vez. Lauren estava pronta para recebê-lo, e não demorou, ela também acompanhava o ritmo da dança frenética do amor.
Um pensamento invadiu a mente de Tom e o deixou desesperado.
Deus, onde ele encontraria forças para deixar que Lauren partisse? Como poderia continuar vivendo sem ela?
Lauren acordou languidamente, apoiada no corpo de Tom. Ele lhe acariciava de leve as costas.
- Logo terei de ir embora.
- Sei disso.
Ela tocou com os dedos a cicatriz que beijara antes. Havia outras tantas.
- Quando começou a se lembrar dos tempos em que esteve com seu pai?
- As coisas me aparecem como imagens soltas.
- Seu pai o espancava a ponto de lhe deixar marcas. Mas você era o herdeiro dele...
- Lauren, quero sair de Londres. Venha comigo, querida.
- Para onde vai?
- Para a propriedade da família, de meus ancestrais. Meu condado.
Lauren sentou-se na cama.
- Minha família realizará um baile na próxima semana, e terei de estar aqui. Acredite ou não, oferecer um baile sempre deixa minha mãe nervosa.
- Acha que ela irá me convidar?
- Naturalmente.
- Então conversarei com Whithaven e acertarei nossas contas. Nesse meio tempo, vamos sair desta cidade.
- Mas eu teria de levar uma acompanhante.
- Está bem.
- Preciso de um dia para me preparar.
- Então partiremos depois de amanhã. Ela se inclinou e o beijou.
- Agora tenho de me vestir e voltar para casa.
- Eu a levarei. - Tom abraçou-a, fazendo com que- se deitasse novamente. - Mas agora, vamos repetir o que fizemos há pouco, se não tiver nada contra.
- Absolutamente nada, milorde.
Ela passaria uma semana com Tom, longe das damas e dos cavalheiros pedantes e mexeriqueiros.
Esses momentos a levariam ao céu ou diretamente ao inferno?

Capítulo X

Tom queria sair o mais rápido possível de Londres. Desejava estar com Lauren. Ele havia engolido o orgulho, vestido a melhor roupa, munido-se de toda a boa vontade e logo à tarde seguiu para a casa de Lydia e Rhys, para pedir desculpas pelo comportamento da noite anterior, durante o baile.
Entregou o cartão ao mordomo e ficou à porta, sabendo que talvez Lydia não o recebesse. Não a culparia se estivesse zangada1 com ele. Mesmo assim, faria de tudo para pedir desculpas e fazer um pedido todo especial a ela. Nesse momento, a única coisa que podia esperar era, pelo menos, ter permissão para entrar na casa. Já seria um ponto positivo.
Não conseguia deixar de pensar em Lauren. Ela conseguira escapar de casa na noite anterior, mas ele não queria viver de breves momentos. Precisava passar bastante tempo ao lado da jovem. Ambos necessitavam disso.
O mordomo voltou.
- Sua Graça o espera. Faça a gentileza de me seguir, milorde.
Tom seguiu o mordomo pelo corredor que o levou à sala de estar, onde Lydia estava sentada em uma poltrona, tomando chá em uma xícara de porcelana chinesa, enquanto Rhys observava os jardins através da janela. Sempre protetor ao lado da esposa.
Lydia levantou os olhos e sorriu.
- Milorde, por favor, reúna-se a nós. Gostaria de uma xícara de chá?
- Não, obrigado. Primeiro, quero me desculpar pela noite passada. Meu temperamento levou a melhor sobre mim.
- Aceito as suas desculpas. Assumo que lorde Whithaven também teve sua parcela de culpa.
Tom sorriu.
- Ainda não me desculpei com ele. Penso que esse pedido de desculpas deverá ser em público.
Lydia dirigiu-lhe um olhar de expectativa.
- Pretendo que isso aconteça o mais breve possível.
- Sim. Mas, por favor, sente-se. Estou com dor no pescoço de levantar a cabeça para olhá-lo.
Tom sentou-se em uma cadeira ao lado dela, assim podia manter um olho em Rhys enquanto também permitia ao homem observá-lo. Suspeitava que Harrington não era alguém que quisesse encontrar em uma alameda escura, estando sozinho. Apesar da atual fama de civilizado, Tom achava que havia muito de selvagem no duque.
- Imagino que tenha vindo aqui com algum outro propósito, além do de pedir desculpas - Lydia disse, abrindo o jogo e afastando o olhar de Harrington.
Tom balançou a cabeça afirmativamente.
- Comprei o seu livro hoje de manhã. Lydia sorriu, satisfeita.
- Verdade? Está se divertindo com a leitura?
- Não creio que tenha escrito para o leitor se divertir.
- Suponho que não. Mas precisa de explicação sobre algum dos assuntos que abordei?
- Sobre acompanhantes. A senhora escreveu que uma prima casada é uma acompanhante mais adequada do que uma mãe.
- Sim.
- A senhora é prima de Lauren e é casada.
- Exatamente. É por essa razão que irei acompanhá-la e o senhor em viagem para os arredores de Londres. Bem, sem mencionar o fato de que adoro viajar.
- Está sabendo de nossa viagem? Lydia dirigiu-lhe um sorriso conspirador.
- Aquele passeio de um dia para fora da cidade? Tom não pôde deixar de bater palmas de satisfação.
- Mais do que um passeio e mais do que um dia. Quero levar Lauren à casa de meus ancestrais. Por uma semana ou coisa assim. Sei que estou lhe pedindo demais, mas a compensarei.
- E o que exatamente pensa que vale a felicidade de minha prima?
Tom observou Lydia com atenção, tentando entender aonde ela queria chegar com aquela pergunta. Era uma censura ou uma aprovação?
- Diga o seu preço.
Rindo, ela levou a xícara de chá aos lábios, ficando em silêncio por alguns instantes, sem desviar o olhar de Tom. Então pousou a xícara no pires.
- É uma pena que não tenha chegado um pouco mais cedo.
- Por quê? Estava planejando sair agora?
- Lamento dizer que sim. Lauren esteve aqui bem cedinho para me pedir que lhe servisse de acompanhante. Parece que ela deseja acompanhar um certo lorde ao condado dos Sachse. Concordei porque amo minha prima, e não vou receber qualquer benefício financeiro.
- Ela esteve aqui?
- Sim. Estava ansiosa pela minha ajuda. Deseja muito sair de Londres por uns tempos. Já que Rhys e eu queremos a mesma coisa, fiquei feliz em lhe atender o pedido.
- Então será a nossa acompanhante?
- Exatamente.
- Poderia ter me dito isso antes.
- E perder a chance de vê-lo me fazer um pedido? No entanto, não se engane. Assumirei esse papel com toda a responsabilidade.
- Não pretendo tirar vantagens desse passeio.
Rhys tossiu, pigarreou, como se não acreditasse nas palavras de Tom. O que era normal, já que nem Tom estava certo de que seria um cavalheiro bem-comportado nesse passeio. Não pretendia desrespeitar Lydia, mas, se Lauren quisesse repetir o que haviam feito na casa dele...
- Estaremos prontos para partir amanhã cedo - Lydia anunciou.
- Eu lhe enviarei a minha carruagem às sete horas.
- Meu bom Deus - Rhys reclamou. - Tenha piedade de mim, homem, e escolha uma hora mais razoável.
- Às dez?
- Ao meio-dia.
- Onze horas.
- Que seja às onze.
Lydia inclinou-se e bateu no joelho de Tom.
- Se Lauren tiver sucesso em convencer tia Elizabeth de que serei uma boa acompanhante durante essa visita ao campo, então tudo estará combinado.
Lauren observou a mãe podar as rosas, mexer no solo, arrancar as ervas daninhas que haviam ousado entrar em seu domínio. Suspeitava que os próximos minutos seriam muito difíceis, mas já tinha vinte e quatro anos, idade suficiente para tomar as próprias decisões. Estava pronta para proclamar a sua independência.
Então por que tremia? Porque sabia que estava diante de uma batalha que podia não vencer, mesmo com todos os argumentos preparados. Respirando fundo, ajoelhou-se ao lado da mãe, puxou uma erva daninha e a colocou de lado.
- As rosas brotaram maravilhosas este ano, mamãe.
- De fato. Estou bastante feliz.
- Com razão. Trabalhou duro com as roseiras. Juro que nunca vi jardim tão lindo.
- Faz muito tempo que não me elogia. - A mãe colocou uma das ferramentas no chão, procurou remover a terra das luvas e vagarosamente as tirou. - A culpa é um sentimento muito pesado de carregar.
O calor invadiu o rosto de Lauren, que ficou imaginando se a mãe sabia que ela estivera com Tom na noite anterior.
- Não estou me sentindo culpada de nada. - Lauren sorriu, mas a voz soou desafinada.
- Estava me referindo a mim.
- Ah, claro.
- Fico pensando se porventura eu cavar o jardim muitas vezes o tornarei perfeito.
- Não tenho certeza de que tudo seja perfeito, mamãe. Não foi assim tão ruim quanto poderia ter sido.
A mãe se voltou para ela. Parecia incrivelmente jovem, vulnerável, com o rosto sujo de terra. Lauren resistiu ao desejo de limpá-la, era bom ver a mãe não se parecer tanto com uma condessa.
- Algumas vezes penso que gosto do cheiro da terra mais do que do perfume das rosas.
- E o seu lado de fazendeira, mamãe.
- Provavelmente. Mas o que a traz aqui neste canto do jardim?
- Tom me convidou para conhecer a propriedade de campo da família dele, Lydia concordou em nos acompanhar, e eu gostaria de ir. - As palavras saíram rápidas e desgovernadas.
- Acha que será bom para você?
- Sim.
- Então se cuide bem enquanto estiver por lá. Lauren arregalou os olhos, mas a mãe já voltara a atenção ao canteiro de rosas. Vestia novamente as luvas.
- A senhora está me dando permissão para ir? Lauren começava a desconfiar de que a mãe sabia o que ela fizera na noite passada.
- Pelo menos assim - a mãe respondeu - saberei onde você está e posso fingir que acredito que Lydia será uma acompanhante perfeita. A presença dela ao seu lado dará uma aparência de seriedade ao passeio. Pelo menos é o que espero.
- Lydia será uma acompanhante excelente - Lauren disse, sentindo a necessidade de defender a prima. - Ela, mais do que ninguém, sabe o preço de um escândalo.
- Não precisa me convencer disso, minha filha. Vá com a minha bênção.
Uma batalha ganha com tanta facilidade era uma batalha ainda não terminada.
- Partirei amanhã - Lauren informou, ainda esperando ver alguma reação por parte da mãe.
- Cuide bem de seu coração, minha filha.
Lauren deu um abraço bem apertado na mãe, não se importando de se sujar de terra.
- Obrigada por tornar este momento fácil para mim. - Beijou o rosto de Elizabeth, parecendo notar que havia um brilho esquisito nos olhos da mãe. Lágrimas, naturalmente. - Amo muito a senhora - acrescentou, saindo então do jardim e correndo ao quarto, para preparar a bagagem para a viagem.
Pelo fato de Tom e Rhys serem bem altos e porque as moças, mesmo planejando passar poucos dias no campo, estavam levando dois baús cheios de roupas, eles viajaram em duas carruagens, e, mesmo não sendo muito apropriado, Lauren ficou sozinha na carruagem com Tom.
- Está muito quieta, Lauren - o conde de Sachse disse, logo que deixaram os limites de Londres.
- Minha mãe me surpreendeu ao concordar facilmente com nossa viagem. Não confio muito nessa capitulação.
Tom riu gostosamente.
- Talvez ela pense que, passando algum tempo comigo, se convencerá de que não tem mais interesse por mim nem pelo Texas.
Lauren o observou, sentado à sua frente. Usava um traje cinza, um colete azul e uma gravata vermelha. Compreendeu que não poderia esperar que ele voltasse a se apresentar como um caubói. Isso a surpreendeu e entristeceu ao mesmo tempo. Mas também lhe agradou. Não podia assumir todo o crédito pela transformação dele. Muito disso partira do próprio Tom.
- Nunca estive no condado de Sachse - ela disse, quebrando o silêncio.
- Precisa ser melhor administrado. Vou querer mudar muitas coisas por lá.
- Por quê?
- Meu pai parecia gostar de um tipo de decoração que não aprecio. Também os camponeses estão levando uma vida muito difícil por lá.
- De que tipo de decoração se refere?
- A propriedade está repleta de estátuas nuas, esse tipo de coisa. Decidi deixar que minha futura esposa cuide dessas mudanças e decore a casa a seu gosto.
Lauren sentiu um aperto na garganta ao ouvir Tom se referir a uma esposa. Ele precisava falar disso tantas vezes? Ora, ela não podia negar que invejava a mulher que se casaria com ele. E certamente o conde se casaria.
- Que delicadeza de sua parte - ela murmurou, procurando esconder os sentimentos.
- Pensei ser uma decisão civilizada.
Tom riu e Lauren fez o mesmo. Ultimamente vinha rindo bastante.
- Incrível como está absorvendo o sotaque britânico, Tom. Para quem veio recentemente do Texas, isso me parecia impossível. Agora precisa apenas treinar o uso das palavras.
- Sempre pensei que falar inglês significasse apenas falar inglês.
- Não exatamente. Mas está indo muito bem. Aprende as coisas facilmente.
- Nada é muito fácil, Lauren. Por exemplo, ficar sentado aqui no banco à sua frente quando gostaria de estar ao seu lado.
- Pretendo me portar com decoro durante o tempo em que estivermos fora de Londres. Não quero colocar Lydia em uma posição difícil.
Inclinando-se, ele pegou as mãos enluvadas de Lauren.
- Defina decoro.
- Não tenho planos de ser seduzida. Tom estreitou os olhos.
- Como uma pessoa pode planejar não ser seduzida?
- Significa apenas que estarei atenta a qualquer atitude não muito apropriada de sua parte. - Ela não pretendia ir ao quarto dele, por exemplo. Absolutamente não iria.
Rindo, como se soubesse que Lauren não resistiria à tentação, Tom lhe soltou as mãos e voltou a se encostar no banco. Pôs-se a olhar a paisagem pela janela da carruagem.
- O que está fazendo? - ela perguntou.
- Olhando o campo. É tão verde.
- Há campos verdes no Texas.
- Não em Fortune. Não como este. Lá, no começo do verão, tudo se torna marrom. - Ele a fitou. - Não se lembra disso?
-Tenho uma vaga lembrança... - Muito vaga. Na verdade, não se lembrava mais de como era o campo no Texas.
- Não penso que tudo ficará seco por aqui.
- Você é como minha mãe com o jardim de rosas. Ela tem o seu pequeno pedaço de terra para cuidar.
- Sachse Hall é mais do que, um pedaço de terra. É na verdade uma enorme fazenda. E mais do que bem-vinda a percorrê-la.
- Tem alma de fazendeiro, não é, Tom?
- Bem, terra é terra, seja aqui ou no Texas. Sinto vontade de estar em fazendas.
Ficaram em silêncio enquanto observavam os campos verdejantes por onde a carruagem passava.
Lauren estava pensativa. Tom devia ter herdado do pai o gosto pela terra. Enfim, não herdara do progenitor apenas as cicatrizes.
Era espantoso ver o ar de apreciação nos olhos dele enquanto fitava o cenário. Parecia não se cansar de ver os campos, de admirar o verde, de observar as plantações.
- Tem alguma lembrança de seu pai passeando com você pelas terras?
- Nenhuma. As recordações surgem inesperadamente e até agora nenhuma foi agradável.
Tom mudou de banco e sentou-se ao lado dela, inclinando-se para a janela, de modo que ambos se tocassem.
- Quer trocar de lugar comigo para que tenha uma visão melhor? - Lauren perguntou.
- Não, gosto do que estou vendo.
- Estas são suas terras?
- Não, ainda não. Ficam mais adiante. Tudo é simplesmente lindo. É impossível não gostar da terra que dá tantas coisas para nós.
- Está em seu sangue esse amor, Tom.
- Pode ser. Quando passo por aqui, não sinto tanta saudade do Texas.
Em certo trecho da viagem, nuvens escuras surgiram no céu e começou a chover. Lauren dormira, a cabeça apoiada no ombro de Tom. Ele havia tirado o casaco e a coberto com ele para que não sentisse frio. O prazer que sentia por estarem juntos era indescritível. Aspirava-lhe o perfume, acariciava os cabelos macios, estremecia quando seus corpos se tocavam. Tom desejava memorizar tudo para quando ela não estivesse mais ao lado dele.
A viagem ao campo representava uma oportunidade para desfrutar da convivência com Lauren. Ele tinha negócios a tratar na propriedade, mas queria passar a maior parte do tempo passeando com Lauren, cavalgando, mostrando-lhe os jardins, tentando convencê-la de que ali estava uma espécie de pedaço do Texas.

Ela teria uma visão mais realista da vida dele. Não seria em bailes, jantares, óperas e cavalgadas no parque. Na verdade, a vida de Tom não se resumia a isso. Queria que Lauren o visse não como um caubói ou um lorde, mas como homem.
A chuva, felizmente, parou quando as carruagens se aproximavam de Sachse Hall. Tom irritou-se por sentir o coração bater mais forte ao avistar o lar de seus ancestrais. Herdara aquilo tudo porque era filho de seu pai, apesar de que este o tinha julgado morto havia muito tempo. Mas não fora Tom que tinha trabalhado aquela terra nem contratado os criados que cuidavam da plantação e de toda a propriedade. Nem mesmo havia sido ele a comprar as obras de arte espalhadas pela casa e, no entanto, não podia negar que dentro dele existia o desejo de que Lauren se surpreendesse e admirasse o lugar.
Queria que ela visse tudo como se houvesse feito por ele. Que notasse o potencial do que poderia vir a ser.
Somente quando a carruagem parou diante da casa, percebeu que Lauren o fitava. Ela tirara o casaco dele e o segurava nas mãos.
- Está nervoso - ela murmurou suavemente.
- Não diga bobagens. - Ele pegou o casaco e o vestiu.
- Pensei que não se importasse muito com o que não adquiriu corri seu trabalho duro.
- Também pensei. Mas agora, ao ver o que herdei, lembro-me de que há uma história por trás dessas paredes, uma história que cobre seis gerações. O que tenho no Texas começou comigo, e não posso negar o meu orgulho pelo que consegui. Mas gosto de pensar que houve um tempo em que homens de minha família começaram a erguer esta casa e cuidar deste lugar. É uma espécie de legado e admiro o trabalho daqueles que foram proprietários do que agora é meu.
A porta da carruagem se abriu e o cocheiro ajudou Lauren a sair, seguida de Tom.
- Que maravilha! - ela exclamou, olhando em torno. Tom não podia deixar de concordar com ela. A casa tinha três andares, o dobro da altura da que ele construíra no Texas. Não podia deixar de pensar que seus antecessores haviam se considerado gigantes entre os homens e desejado que a propriedade onde vivessem refletisse a sua grandeza. Rhys e Lydia se aproximaram, e os criados que haviam viajado numa terceira carruagem já se dirigiam à casa-grande, onde começariam a atender os desejos dos senhores e das senhoras.
- A antiga Lady Sachse ofereceu uma festa aqui no ano passado - Lydia informou. - Ela sabia como deixar as pessoas bem à vontade.
- Todos com exceção de você, minha querida - Rhys lembrou a esposa.
- Somente até que ela compreendeu que não conseguiria conquistá-lo, meu querido.
Tom caiu na risada e abraçou os amigos. O céu começava a escurecer com a proximidade da noite.
- Vamos entrar e nos acomodar - o anfitrião propôs.
O que não seria tarefa fácil para os criados que se movimentavam, carregando os baús para dentro da magnífica construção.
- Já que nunca tive um convidado nesta minha residência, tenho pouco a lhes oferecer. Mesmo assim, sintam-se livres e considerem-na como a casa dos senhores.
- Ficaremos muito bem, Tom - Lydia lhe assegurou. - Não se sinta obrigado a nos impressionar com qualquer formalidade.
- Não me façam voltar aos meus maus hábitos - ele disse, rindo. - Posso muito bem aprender agora como receber meus convidados na Inglaterra.
- O modo mais fácil é arranjando uma esposa que cuidará disso tudo para o senhor - Rhys falou, o que lhe rendeu um tapa no braço.
O olhar de Lydia era de censura.
- O que foi? Só falei a verdade - Rhys se defendeu. - São as mulheres as encarregadas de cuidar da casa.
- Mas não a razão para se casar. O casamento deve ser por amor.
Os olhares de Rhys e Tom se cruzaram.
- Esqueça o que acabei de falar.
Subiram os degraus e um criado lhes abriu a porta. As mulheres entraram primeiro, seguidas pelos homens.
O mordomo, empertigado e formal, estava esperando o patrão.
- Milorde, seja bem-vindo.
- Obrigado, Smythe. - Tom tinha mandado avisar o mordomo de que receberiam convidados.
- O quarto para o duque e a duquesa já está preparado, e a Srta. Fairfield ficará na área antes ocupada pela antiga condessa. Acredito que acharão as acomodações bastante satisfatórias.
- Obrigado. E quanto ao jantar...
- Será servido às sete horas como sempre. Sugiro que se reúnam na biblioteca, onde tomei a liberdade de estocar os armários com o melhor vinho do Porto, conhaque e uísque.
Tom voltou-se para os seus convidados.
- Parece que tudo já foi providenciado.
- Nada é mais valioso do que uma equipe de criados competentes - Lydia disse. - Vou então me refrescar. Nos veremos na biblioteca, não é?
- Está bem.
Lydia pegou a prima pelo braço.
- Vamos, Lauren. Não sei quanto a você, mas estou ansiosa para tirar estas roupas de viagem.
- Eu as acompanharei aos quartos, senhoras - Smythe prontificou-se.
Enquanto as mulheres subiam as escadas, Rhys ficou ao lado de Tom.
- Não vai querer mudar de roupa também?
- Vou, sim, mas primeiro gostaria de avisá-lo de que Lydia está levando muito a sério esse papel de acompanhante, apesar de saber que haverá momentos em que Lauren poderá escapar de sua vigilância. Farei o possível para distrair minha esposa quando a noite estiver mais adiantada.
- Ficarei muito agradecido - Tom falou, sorrindo.
- É o mínimo que posso fazer. Como não tivemos oportunidade de conversarmos a sós desde o incidente com Whithaven...
- Realmente lamento tudo aquilo.
- Whithaven é um sujeito arrogante e pomposo. Tom surpreendeu-se com o comentário de Rhys.
- Fiquei satisfeito de ver aquele imbecil levar um soco - o duque acrescentou. - Você me vingou.
- Ele alguma vez o ofendeu?
- Sim. E eu queria que você soubesse que, apesar de ter escolhido o momento e o lugar errados, a lição que lhe deu foi bem-merecida.
De repente, Rhys notou as estátuas nuas.
- Interessante trabalho de arte - ele opinou.
- Pensei em mandar vestir essas estátuas.
- Eu deixaria tudo como está. As formas da nudez são provocantes.
-Não estou acostumado com tanta exposição das partes íntimas.
- É arte, meu amigo. E as mulheres tendem a apreciá-la.
Capítulo XI

Lauren olhou os magníficos jardins pela janela. Lembrou-se imediatamente da mãe. Ela os adoraria. Era óbvio que, para se conseguir jardins assim tão elaborados, levava muito tempo. Provavelmente a mãe de Tom gostasse de jardinagem. Ou mesmo o pai, mas de alguma forma essa possibilidade parecia remota aos olhos de Lauren. Um homem que espancava o filho não devia ter sensibilidade para gostar de flores.
Lembrou-se das estátuas nuas. Sim, certamente haviam sido uma escolha do pai de Tom.
Lydia se aproximou da prima.
- Rhys e eu vamos descansar um pouco, mas passaremos pelo seu quarto daqui a uma hora para acompanhá-la ao jantar.
- Não há necessidade, Lydia. Planejo descer antes disso.
- A que horas? Vou procurar ajustar o meu horário. Lauren afastou o olhar dos jardins e voltou-se para a prima.
- Lydia, está aqui como minha acompanhante apenas porque não quero embaraçar minha mãe nem meu padrasto diante da sociedade. Mas, por favor, não siga assim tão à risca os seus deveres.
Lauren caminhou até a cama e examinou o vestido que a criada havia escolhido para o jantar. Parecia adequado para a ocasião.
- Está contando que eu vire o rosto para o outro lado enquanto se comporta de forma inapropriada?-Lydia perguntou.
- Claro que não - Lauren respondeu, procurando acalmar a prima. - Espero que não se preocupe tanto comigo nem se torne a minha sombra. Relaxe, aproveite o tempo em que estiver aqui, distraia-se com seu marido e, quando não estivermos os quatro juntos, espero que não se preocupe comigo.
- Não está planejando se comportar de forma errada, não é?
- Não. No entanto, se surgir alguma ocasião em que eu seja tentada a quebrar alguma regra, espero não deixar escapar a oportunidade.
- Meu Deus, onde me meti? - Lydia levantou as mãos aos céus. - Assumi um compromisso com sua mãe. Mesmo assim, vou tentar ser uma boa acompanhante, mas sem exagerar, está bem? Rhys provavelmente terá uma ideia diferente da minha, contudo vou tentar distraí-lo durante a noite.
- Um plano excelente, prima.
Lauren chegou à biblioteca antes que todos os outros. Descobriu onde ficava o aposento perguntando para os criados que direção tomar. Por morar havia tantos anos na casa de Ravenleigh, não estava acostumada com um exército de criados. Imaginava que Tom também devia ter estranhado ao chegar à Inglaterra e se deparar com uma nova realidade.
Olhou em torno e ficou impressionada com o tamanho do cômodo e com as estantes enormes que abrigavam centenas de livros. Havia, inclusive, escadas para se alcançar algum volume que se encontrava mais ao alto.
Deixou solta a imaginação e viu-se sentada em uma poltrona confortável, lendo algum livro de Dickens, Austen ou Alcott. Quem sabe a mãe de Tom não fizesse exatamente isso, usando a leitura para afastar da mente o tormento por ter deixado o filho em outro continente.
Voltou a examinar a sala. Havia uma enorme escrivaninha perto de uma igualmente enorme lareira. Dessa vez, imaginou Tom trabalhando ali, examinando papéis e documentos. Certamente, lá estaria ela lendo algum bom livro.
Ouviu a porta se abrir e voltou-se para ver quem entrava. Tom usava roupas escuras, muito elegantes, e, como sempre, não dispensara o colete.
- Onde estão os outros? - ele perguntou.
- Preparando-se para descer, suponho.
Ele caminhou até a mesa onde estavam os copos de cristais alinhados.
- Aceita uma dose de conhaque?
- Sim, um pouquinho.
Ele caminhou até onde estava a bebida e serviu dois copos.
- Não termos uma acompanhante para você seria muito mais interessante - ele confessou.
- Infelizmente, eu não poderia estar aqui sozinha - ela não se acanhou em revelar. - Lydia e Rhys não demorarão a descer.
- O que pensa desta casa? - ele perguntou, enchendo novamente o seu copo.
- "Casa" não parece ser o termo correto para este lugar. E praticamente um castelo.
- Mas não um lar. - Tom caminhou até a janela e deixou o seu olhar se perder na paisagem lá fora.
- Não, não um lar. Mas pode vir a ser um, não é?
- É uma casa fria. Sinto calafrios aqui dentro.
- É comum em casas antigas. Deve ser mais difícil suportar o inverno. Bem, está acostumado com o calor do Texas e vai estranhar demais a Inglaterra. Mesmo em Londres, durante o inverno, ando pela casa enrolada em uma manta. E fico sempre procurando me acomodar perto de uma lareira. - Ela tomou um pouco de conhaque. - Você tem um jardim adorável, Tom.
- Não posso dar o crédito a mim. Na verdade, não contribuí em nada com esta casa.
- Mas terá crédito de acordo com o que fizer no futuro, suas mãos são muito capazes.
Mãos capazes, ela dissera. Sim, ele sempre trabalhou duro.
- Aquele é o retrato de sua mãe? - ela perguntou, apontando para um quadro na parede acima da lareira.
- Sim.
- Era muito bonita.
- Mas tinha o olhar triste, não acha?
- As pessoas geralmente não sorriem quando estão servindo de modelo para alguma pintura, Tom.
- Não é a falta do sorriso. São os olhos dela. Parecem vazios, sem expressão alguma. Fico me perguntando por que ela não deixou o meu pai e ficou comigo na América do Norte. Por que será que ela voltou para casa?
- Talvez porque gostasse de morar aqui, ou quem sabe tentou evitar que o marido fosse atrás da mulher e do filho na América. Creio que sua mãe deve ter sofrido de saudade de você, Tom.
- Acha que ela deveria ter escolhido a mim em vez da Inglaterra?
- Como lhe disse, ela deve ter pensado em livrá-lo de qualquer contato com o pai. Deus, Tom, sua mãe falou para todos que você tinha morrido. Para afastá-lo de seu pai, consequentemente ela própria precisou se afastar do filho. Daí os olhos tristes do retrato.
- Espero não ter de enfrentar tristezas como as dela. Lauren o observou atentamente.
- Lembro-me do dia em que o conheci em Fortune. Pensei que fosse um rapaz triste.
- Sim, claro, porque sua mãe apareceu e me impediu de abrir os botões de seu vestido.
- Bobo, não foi nesse dia. Quantos anos tinha quando estava no trem dos órfãos?
- Catorze. Quando as pessoas que cuidavam de mim morreram, me vi sem ninguém. Eu costumava chamá-las por papai e mamãe. Agora sei o quanto fui tolo por não perceber que tínhamos sobrenomes diferentes. Apenas me sentia uma criança especial, amada. Mas então se foram.

- Talvez devêssemos nos unir a eles.
- É o que faremos.
O jantar foi muito agradável, os pratos foram servidos como se Tom estivesse-morando ali e os houvesse escolhido. Uma prova de que a antiga Lady Sachse treinara bem a equipe de empregados. No entanto, quando o mordomo discretamente informou o patrão de que deveria procurar o cozinheiro na manhã seguinte para escolher o cardápio que seria servido no almoço e no jantar, Tom viu-se em uma enrascada. Estava acostumado a se sentar, comer carne e tomar cerveja. Como escolheria quais pratos deveriam ser servidos aos hóspedes?
- Está tudo bem? - Lauren perguntou ao encontrá-lo no corredor.
-Aparentemente terei de discutir comida com o cozinheiro amanhã cedo.
- É uma tarefa que usualmente cabe à dona da casa,, mas, enquanto não há uma, posso me encarregar disso, se não se importar.
- Você faria isso?
- Deixe-me ver... Se não o fizer, correremos o risco de comer apenas carne e tomar cerveja. - Ela sorriu. - Não me importo de ajudá-lo, Tom. Eu o farei com prazer.
- Fico-lhe muito agradecido.
- E os nossos estômagos também.
- Como sabe que prefiro carne?
- Primeiro, porque é um criador de gado bovino, não cria galinhas nem é pescador. Em segundo lugar, é o único prato que não deixa sobrar nada.
- Significa que tenho gostos simples.
- Pois deve se aventurar um pouco, saborear novos pratos.
- E quanto a você, Lauren? Se sente uma aventureira?
- Estou aqui, não estou?
Ele não podia negar que a presença de Lauren em sua casa lhe dava um enorme prazer. E agora via também como seria perfeito se ela fosse definitivamente a senhora daquele lugar. Aspirou-lhe o perfume e sentiu-se feliz. Quem sabe além de contar com a ajuda de Lauren para escolher os cardápios, ela lhe desse prazer novamente na cama?
- Parece se movimentar bem nesta casa - ele falou, um pouco surpreso.
- Lydia esteve aqui uma vez e se lembra da disposição dos cômodos. Conversamos sobre isso e ela me deu todas as indicações. Neste momento, Lydia e Rhys devem estar nos esperando na varanda.
De fato o casal amigo estava conversando baixinho na varanda e subitamente pararam quando Tom e Lauren se aproximaram.
- Suponho que devemos segui-los - Lydia disse -, para que eu possa ficar de olho no que fazem.
Virando os olhos, Tom levou Lauren para dar uma volta no jardim. Lydia e Rhys os acompanharam.
- Não sei como as pessoas neste país conseguem escolher com quem querem se casar, já que nunca estão sozinhas e alguém lhes observa cada movimento.
- Oh, não há quem não consiga escapar das acompanhantes. E atualmente elas não são tão rígidas como antigamente. Mais e mais jovens começam a se rebelar contra o fato de que suas famílias não confiam nelas. Tom riu.
- Não são os homens que se comportam mal?
- Eles se portam mal, sim, mas as moças nem sempre querem ser vigiadas. Se tiverem força, poderão resistir facilmente à tentação de não seguir as regras recomendadas.
- E o que considera um comportamento inadequado?
- Não preciso defini-lo, Tom. Sabe exatamente o que é impróprio.
- Fumar um charuto?
- Definitivamente.
- Beber?
- Bebidas em excesso? Sim.
- Beijar?
- A não ser que seja no rosto, sim, não há dúvida disso.
- Não me lembro de tê-la visto objetar a nenhum dos beijos que lhe dei.
- Você me pegou de surpresa, antes que eu pudesse protestar.
Pega de surpresa? Tom sorriu. Cada vez que haviam se beijado, Lauren correspondera à carícia intensamente. Tinha aproveitado o momento. Que tipo de jogo ela estaria fazendo agora?
Sentiram cheiro de chuva no ar. Em poucos minutos, caía uma tempestade.
- Vamos voltar para casa - Rhys gritou.
Tom deixou que os convidados corressem para a mansão, enquanto puxava Lauren para debaixo de um gazebo. Naturalmente chegaram ensopados debaixo da cobertura. No entanto, Lauren ria, a roupa grudada ao corpo.
Tom sorriu. A chuva o ajudara a realizar o desejo de ver os cabelos de Lauren sem a formalidade de um penteado refinado. Ela agora estava mais parecida com a garota de antigamente.
- Por que não voltamos para a casa como Lydia e Rhys? - ela perguntou.
- Porque o gazebo estava mais perto.
- Mas molhei minhas roupas. Se estivesse na casa, eu as trocaria. Aqui não tenho nada.
- Como assim? Tem a mim.
- Mas também está molhado.
- Podemos nos aquecer um ao outro - ele propôs.
- Suponho que esteja sugerindo que tiremos a roupa para gerar mais calor.
- Seus pensamentos parecem levá-la a um comportamento nada adequado a uma dama.
- Tom, quando vamos voltar para casa?
- Quando a chuva parar.
- E quando vai ser isso?
- Pode levar horas...

Se eu tiver sorte, ele pensou, tirando a última presilha dos cabelos de Lauren e deixando-os cair nos ombros. Queria provar naquele momento que podia ficar bem próximo dela sem tocá-la. Mas parecia tão difícil resistir ao desejo que o dominava...
Lauren sabia que estava deixando Tom louco de paixão. Ela se expunha com naturalidade aos olhos dele. A roupa molhada, o perfume provocante, o gesto de molhar os lábios com a língua...
Estavam tão perto que Tom sentia o calor que vinha do corpo de Lauren, o seu cheiro intoxicante e quase podia saborear a doçura de seus lábios.
Talvez o que ele quisesse provar era que Lauren não conseguiria resistir a essa proximidade. E queria uma evidência de que ela o desejava tanto quanto ele. Inclinou-se e passou a língua pelos lábios dela. Sentiu quando Lauren enfiou os dedos por baixo do colete e tocou a pele máscula.
- Meus dedos estão frios e sua pele está quente, Tom. Como consegue se manter aquecido?
Lauren tinha a capacidade de acender um fogo dentro dele que o consumia naquele exato momento. Engolindo em seco, o conde fechou os olhos. Não conseguiria se conter... Não podia abraçar Lauren, tinha de resistir à tentação, fazer com que ela tomasse a iniciativa.
- Milorde?
Tom abriu os olhos ao ouvir uma voz de homem. Smythe estava no gazebo, segurando um guarda-chuva que pingava, molhando o interior do abrigo.
- A duquesa mandou que eu lhes trouxesse um guarda-chuva, para que possam voltar para a casa, sem se arriscarem a pegar uma doença.
A chuva não lhe faria mal algum, Tom pensou. Mas o orgulho e a vaidade, a necessidade de provar que Lauren o desejava, ah, isso, sim, terminaria por lhe causar uma doença. Respirou fundo, forçou o corpo a relaxar para pensar com mais clareza. Ardia de desejo.
- Obrigado por trazer o guarda-chuva - disse a Smythe por fim.
- A duquesa espera que os senhores voltem imediatamente, caso contrário, o duque poderá sentir a necessidade de vir até aqui se assegurar de que tudo esteja bem.
Tom lutou contra a impaciência.
- Informe à duquesa de que voltaremos muito em breve.
- Sim, senhor. Que tempo horrível tem feito ultimamente nesta época do ano. Posso lhe sugerir que andem bem devagar para que a srta Fairfield não corra o risco de cair e torcer a perna.
- Faremos isso.
- Informarei a duquesa de que haverá uma pequena demora na volta dos senhores por causa dessa precaução.
Antes que Tom pudesse responder, o mordomo corria pela alameda que o levaria de volta à casa.
Tom olhou para Lauren e a viu bater os dentes de frio. Sem o calor do corpo dele, sem o calor da paixão que os unia, ela se sentia gelada.
- Venha - ele murmurou.
Lauren correu para o lado de Tom e caminharam devagar para a casa, debaixo do guarda-chuva.
- Não se importe comigo. Posso me molhar -disse, mantendo-a totalmente coberta. - Foi bom que a sua acompanhante tenha interferido. Se não o houvesse feito, você teria cedido. - Então a beijou na boca, decidido a fazê-la se arrepender de não ter oferecido resistência alguma.
Com um suspiro de satisfação, Lauren enfiou-se totalmente na água quente que as criadas haviam colocado na banheira. Sentiu a friagem deixar o corpo e ser substituída por uma sensação de euforia, como a que sentia quando Tom a beijava. Amaldiçoara a interrupção, mesmo que no fundo se sentisse grata a Lydia. Não entendia por que Tom tinha ficado imóvel, como uma das estátuas que ornamentavam a casa. Todo vestido, embora passasse a ela a sensação de estar sem roupa alguma. Ele a provocava a ponto de lhe quebrar a resistência e desejar tomar a iniciativa do contato físico. Bebeu um gole do chá que Lydia lhe havia preparado, imaginando se estava tão doce porque a prima colocara muito açúcar, ou se ainda mantinha na boca o gosto do beijo de Tom. Lauren mal tocara nos lábios dele, porém tinha sido o suficiente para sentir o gosto de uma sobremesa deliciosa.
- Espero que não tenha ficado chateada comigo por ter mandado Smythe levar o guarda-chuva a vocês, pois sei de todos os perigos que podem ocorrer em um gazebo - Lydia disse, tirando Lauren de seus pensamentos.
A prima estava sentada em uma cadeira, no outro lado do quarto, como se Lauren precisasse de proteção.
Lauren colocou a xícara de chá de lado e pegou o sabonete.
- Espero que não esteja planejando dormir em minha cama.
- Não, claro que não.
O silêncio reinou por um tempo no quarto, quebrado apenas pelo ruído do fogo crepitando na lareira.
- Tomara que não chova o tempo todo em que estivermos aqui - Lydia falou, puxando assunto. - Rhys está ansioso para cavalgar amanhã.
- Tenho certeza de que teremos alguns dias de sol. Agora gostaria que me contasse as suas experiências dentro de um gazebo, Lydia.
A duquesa continuou tomando o seu chá e não respondeu.
- Esteve em um gazebo com Rhys, não é?
- Na propriedade da família dele, logo depois que nos conhecemos. Foi quando ele me beijou pela primeira vez.
- Então tenha um pouco de pena de mim, Lydia. Juro que está sendo pior que minha mãe. Tom não vai tirar vantagem, a não ser que eu lhe dê essa liberdade. E, honestamente, penso que, se decidir deixar que ele tire vantagem, não creio que possa impedir que isso aconteça.
- Então por que estou aqui?
- Para manter as aparências. Sempre achei a função das acompanhantes uma bobagem. Quero passar estes dias com Tom, conhecê-lo novamente, lembrar-me daquilo que ocorreu entre nós dois no Texas.
Lydia começou a protestar, mas Lauren fez um gesto pedindo que esperasse e a ouvisse.
- Lembro-me de uma vez em que esteve em minha casa, antes de se casar, e adoeceu. Rhys entrou em seu quarto, sentou-se na cama e você não pareceu chocada nem envergonhada, apesar do fato de um homem sentar-se na cama de uma dama não ser decente segundo as regras. - Lauren observou Lydia abaixar o olhar e seu rosto ficar vermelho. - Sabe o que é ser jovem e... curiosa, sabe o que é ter mais intimidade com um homem. Se estiver tentando me proteger porque teme que eu possa trilhar um caminho que já conhece, faça-o caso tenha a convicção de que estaria mais feliz agora se não o tivesse trilhado.
Lydia levantou o olhar.
- Por que não diz simplesmente que eu fique longe de vocês? Por que todo esse discurso floreado?
Lauren levantou-se.
- Então eu lhe peço que fique longe de nós dois. Está aqui para satisfazer a minha mãe e a sociedade, Lydia. Não a mim e certamente não a Tom.
- Você o ama, Lauren.
- Não sei. Há momentos em que vejo vestígios do menino que ele foi... mas não sei se isso me basta. Estou tentando seguir o seu conselho e conhecer o homem que ele se tornou. Se ficar nos separando, nunca saberei se estarei segura com ele.
Lydia assentiu com um gesto de cabeça.
- Não precisamos agir como estranhos e nos evitarmos completamente. Apenas não mande o mordomo nos procurar quando estivermos sozinhos.
Já passava da meia-noite quando Lauren finalmente ousou sair de seu quarto, certa de que Lydia, se não estivesse dormindo, pelo menos não estaria passeando pelos corredores. A tempestade tinha aumentado de intensidade, os trovões sacudiam a enorme mansão e assustavam a jovem. Começou a descer as escadas, quando percebeu a presença de Smythe, apagando as velas do candelabro. Os criados se recolhiam tarde naquela casa.
Lauren fechou melhor o roupão. Sorriu de leve para o mordomo e passou por ele apressadamente, subindo as escadas que levavam a uma outra ala da propriedade.
- Milorde está na biblioteca - Smythe disse com voz bastante alta.
Lauren fez um gesto com a cabeça e seguiu na direção oposta.
Pretendia inverter os papéis agora. Fingir-se de estátua como Tom fizera no gazebo. Queria que dessa vez fosse ele a lhe sentir o perfume.
Ela estava revirando na cama com desejos insatisfeitos, e, se ele estivesse ainda acordado ou na biblioteca, talvez se sentisse da mesma forma. Por que não viera procurá-la?
Bem tarde da noite, quando não havia chance de qualquer criado estar acordado, Lauren abriu a porta do quarto e saiu pisando leve pelo corredor. Chegou à biblioteca e entrou. Tudo estava na mais completa escuridão. Sentiu um calafrio. Obviamente Tom não se encontrava mais ali. Estava para sair, quando percebeu a silhueta de um homem ao lado de uma enorme janela no andar superior da biblioteca. Ela reconheceria aquela forma, onde estivesse.
Ele olhava a noite, e não parecia ter percebido a presença dela. Lauren silenciosamente atravessou o aposento e subiu as escadas que davam para o segundo andar. Sentiu o cheiro familiar de livros velhos e couro.
Um relâmpago clareou o céu, dando a ela uma visão bem nítida de Tom Ele não usava casaco, apenas a camisa e a calça. Fitava, fascinado, a tempestade.
- Você está bem? - ela perguntou.
- Estava apenas me lembrando de outras tempestades. Olhando pela janela, Lauren observou novos relâmpagos, clareando a escuridão.
- A vista é magnífica.
- Eles brigaram aqui. Na biblioteca - Tom murmurou.
- Quem?
- Minha mãe e meu pai. Eu estava escondido na biblioteca lendo; gostava de ficar no meio de todos esses livros. Meu pai gritava. Queria outro filho e a forçou... - parou de falar, rangendo os dentes.
- Qual era a sua idade?
Agora ela estava bem ao lado dele.
- Tinha acabado de aprender a ler. Penso que não consegui ler qualquer outro livro depois desse dia.
Lauren se lembrava de Tom dizer que preferia fazer outras coisas a ler.
- Por que minha mãe voltou para casa? - Tom perguntou mais uma vez.
- Para protegê-lo. Não pode haver outra explicação. Ela o amava muito, Tom. Acredito nisso de todo o coração.
- Sou como ele, Lauren?
- Não, Tom, não é.
- Mas a forcei a abrir o seu vestido.
- Você me provocou para que eu o fizesse. Acha mesmo que eu o teria aberto se não o desejasse? Meu Deus, Tom, entrei na carruagem e mandei o cocheiro me levar à sua casa. Ficou surpreso quando surgi em seu quarto.
- Por que me procurou naquela noite?
- Porque imaginei o que sentiria depois de esmurrar Whithaven: remorso, humilhação e medo de se assemelhar ao seu pai. - Lauren lhe tocou o cabelo e lhe sorriu. - E porque eu queria lhe dar conforto e carinho, achei que não apreciaria rosas amarelas.
Como Tom não se descontraiu com a brincadeira, Lauren acrescentou:
- Você é um homem decente, querido. Em nome de Deus, como pode pensar que se parece com a pessoa que foi o seu pai?
- O mesmo sangue corre em minhas veias, Lauren.
- Pode ser que corra o sangue dele, mas a alma não é a mesma. Você é Thomas Warner. Sua mãe lhe garantiu que se tornasse outro homem e deve agradecer a ela por isso.
Ele a beijou com muita ternura, como se temesse liberar a fome que os havia devorado antes. Lauren não permitiria que as lembranças do passado de Tom destruíssem a paixão que ele era capaz de sentir. Tom nunca a forçara a nada, e nunca o faria, porque não era de sua natureza ser cruel, ferir e magoar os outros sem razão. Se esse era o último presente que poderia lhe dar, ela apagaria todas as dúvidas da mente dele.
Seria a agressora. Não podia negar que já havia tomado a iniciativa na noite em que fora à casa dele. Podia ter se mostrado tímida com a realidade do que queria, mas não tinha feito nada que não desejasse.
Começou a desabotoar a camisa de Tom. Isso deu a Lauren satisfação, uma sensação de poder, de saber que tinha capacidade de fazê-lo tremer.
A camisola que usava deslizou no ombro e ele lhe pegou um dos seios. Com a língua, sugou o mamilo, primeiro sem controle, depois mais gentilmente. Ela enfiou as mãos por baixo da camisa e tocou no peito de Tom.
Relâmpagos iluminaram o aposento e expuseram a quase nudez dos dois corpos. Lauren beijava Tom com fúria, tocando com os lábios todas as partes do corpo a que conseguia acesso.
- Lamento, querida, mas não posso esperar.
Ante que percebesse porque ele pedia desculpas, Lauren sentiu que Tom a pressionava contra uma das estantes e levantava sua camisola acima da cintura. A calça dele estava desabotoada. Então, Tom a possuiu.
Ouviu-se apenas um leve gemido que escapou dos lábios de Lauren, quando ele usava a sua língua para maiores carícias e movia os quadris.
Se antes Tom tinha sido paciente, agora estava impaciente, assim como ela. Lauren aprendera a ser impetuosa. Dessa forma, envolveu os quadris musculosos com as pernas, enquanto Tom penetrava cada vez mais fundo em suas partes íntimas.
As sensações de prazer foram crescendo, enlouquecendo-os até a liberação final.
Quando tudo terminou, ele a beijou com ternura.
- Prometo que da próxima vez iremos mais devagar, minha querida.
- Tom, não me esquecerei dessa promessa.
Com a luz da lua iluminando o quarto, Tom observava Lauren dormir aconchegada a seu corpo, a cabeça apoiada no ombro dele. Havia cumprido a promessa, levara-a em seus braços para a cama, onde haviam feito amor bem devagar, tirando as roupas sem pressa, tocando-se em todos os pontos do corpo, antes de cederem ao desejo maior da posse.
Exausta, ela adormecera.
Não era mais uma criança. Longe disso.
E era uma pena que não gostasse da Inglaterra. Seria uma condessa exemplar. Seria a escolha dele para esposa, para companheira. Porém, a vida ao lado de Tom diminuiria os risos de Lauren. Ele não podia fazer isso com a mulher que amava.
Percebeu que Lauren acordara e o observava, interessada.
- O que está fazendo? - ela perguntou suavemente.
- Olhando-a dormir.
- Não está cansado?
- Posso dormir mais tarde. - Quando não tiver mais do que lembranças como companhia.
- Acho que eu deveria voltar ao meu quarto.
- Fique um pouco mais.
Ela deslizou os dedos no peito rijo.
- Eu disse a Amy que as mulheres não tinham acompanhantes no Texas porque se comportavam bem. Elas não se comportam bem, não é?
- Depende da sua definição de mau comportamento, suponho.
- Isto me parece um mau comportamento.
- Adoro quando fala sobre comportamento - ele disse, rindo.
- Você gosta?
- Claro. E gosto de outras coisas em você. Acha que sou um bom amante?
- Amante. Sim, devo admitir que é meu amante. Isso me faz uma garota má.
- É a única mulher para mim.
Ela rolou para cima de Tom, beijou-lhe o peito e começou a acariciá-lo com a língua. Gemendo, ele a apertou em seus braços.
Tom olhou para a janela, de onde se via agora um céu estrelado.
- Veja, querida - ele pediu.
- O quê? Quero fazer amor de novo.
- Antes gostaria que olhasse as estrelas. Veja, há muitas no céu.
- Quer que eu olhe as estrelas?
- Enquanto fizermos amor, você não poderá me tocar, apenas sentir. Quero que se lembre sempre de nosso amor quando avistar uma estrela no céu.
Tom agora beijava o corpo nu de Lauren, sua língua tocando os ombros, as costas, os seios, o ventre da amada.
Ela gostaria de lhe retribuir as carícias, beijar o corpo inteiro de Tom. Ele, porém, a queria olhando as estrelas. E, de repente, ela viu uma estrela cadente.
- Está quente e úmida. Pronta para mim, Lauren. Mantenha os olhos abertos.
E então ele a penetrou, dando-lhe um prazer imenso e incontrolável.
- Agora há estrelas no céu e em meu corpo - ela murmurou. - E desejo que o meu pedido se torne realidade.
- Espero que tenha sido um pedido especial, Lauren.
- E foi - ela lhe assegurou, imaginando por que antes dessa noite não tinha visto uma estrela cadente naquela parte do mundo.
Que outras coisas Lauren deixara de ver?

Capítulo XII

Lauren acordou com o som de um irritante tique, tique, tique. Ainda estava escuro quando Tom a levara de volta ao quarto dela, e ela tinha caído em um sono profundo e sem sonhos.
Piscou os olhos por causa da luz do sol que entrava pela janela e lhe atingia o rosto. O som parecia vir de fora e as cortinas estavam entreabertas. Jogando as cobertas de lado, ela se levantou e foi dar uma olhada.
Tom estava lá embaixo, esperando-a, com dois cavalos selados. Vestia um traje de montaria bastante elegante. Lauren acenou para ele, depois tocou a sineta, chamando Molly para ajudá-la a se vestir.
Não haveria necessidade de chamar Lydia, já que tudo ficara bem claro entre as duas no dia anterior. A prima estava ali apenas para manter as aparências e Lauren assumiria uma postura adequada diante dos criados. Quando possível, Tom e ela dariam as suas escapadas.
Molly chegou e ajudou-a a vestir o seu traje de montaria preferido.
- Sabe se o duque e a duquesa já acordaram? - Lauren perguntou à criada.
- Eles ainda não chamaram nenhum criado para ajudá-los a se vestir. Creio que estejam dormindo.
Lauren não conseguiu deixar de sorrir.
- Ótimo! - ela exclamou.
Já no corredor, Lauren encontrou apenas uma criada colocando um arranjo de flores sobre a mesa. A garota fez uma reverência, Lauren a cumprimentou, depois desceu as escadas, cheia de animação. Ouviu o som de suas botas ao pisar no granito. Onde estavam os tapetes e as passadeiras das escadas? Aquela casa precisava de fato de uma patroa.
Tentou não fazer barulho para não acordar Lydia e o marido. Tom havia trazido os cavalos para bem perto da casa.
- Bom dia, querida. Dormiu bem?
- Muito bem, obrigada. - Colocando as luvas, ela se dirigiu ao cavalo menor. - Ajude-me a montar, Tom, antes que a minha acompanhante apareça e nos diga que não poderemos passear sozinhos.
O sorriso dele se ampliou, antecipando o dia agradável que tinham pela frente...
- E se ela nos pegar assim? - ele perguntou, não se acanhando e beijando-a ali mesmo.
- Se minha prima nos pegar, vai começar a dormir em minha cama e como escaparei para a sua?
- Está planejando voltar para lá?
- Sim.
Então, ele a tomou nos braços e a colocou sobre a sela. Lauren ajeitou a saia e sorriu.
- Aonde vamos?
- Irá conhecer o meu condado.
Ela ó observou subir em sua montaria, sem deixar de notar-lhe o corpo másculo e a afinidade que tinha com os cavalos. Consequência do trabalho como vaqueiro, ela reconheceu.
- Vai começar a dizer aos seus empregados o que quer que façam no campo?
- Hoje não. Apenas vou lhe mostrar as terras e deixar que' os camponeses saibam que estou na propriedade. Saberão onde me procurar.
- Há muitos trabalhadores?
- Vários. Andei consultando os livros dos antigos senhores. Parece que permanecem nesta área cerca de dez famílias.
- E você já as conhece.
- Todas elas.
Ele devia ter feito isso logo ao chegar à Inglaterra, Lauren concluiu. Ficou surpresa quando Tom começou a citar as famílias pelos nomes. Memorizara todos. Havia se inteirado sobre o que era plantado ali e quais os problemas mais comuns que os camponeses encontravam na terra.
Lauren se surpreenderia mais a seguir. Foram cruzando com os trabalhadores pelo caminho, Tom conversou com cada um deles, não de cima de seu cavalo, mas desmontado. Falou de igual para igual, perguntou dos problemas que vinham enfrentando, ouviu com simpatia as reclamações sobre o tempo ruim que andava fazendo. Por fim, Tom descobriu que muitas das casas haviam sido danificadas pelas tempestades e se ofereceu para pagar os estragos. Quando lhe disseram que havia gado doente, ele também garantiu que cobriria o tratamento dos animais.
Lauren se emocionou. Tom não tratava ninguém como um orgulhoso senhor de terras, não como o homem que controlava o destino de seus empregados, mas como se fossem sócios, tentando garantir um futuro bom para todos. E estava claro que era respeitado.
Assim, ela cavalgou silenciosamente, apenas o observando. Em uma das paradas, conversou com uma mulher que sorria, muito satisfeita.
- Milorde mandou os meus dois rapazes para as terras que ele tem na América do Norte. Pagou a viagem de ambos. Disse que estava precisando de trabalhadores em seu rancho. Meus filhos são bem fortes. Juro que fomos abençoados no dia em que milorde chegou a esta terra. O outro senhor, o que cuidava de tudo antes deste chegar, era um bom homem. Não temos reclamações, mas este aqui - a mulher balançou a cabeça de forma expressiva - é abençoado.
Tais palavras voltaram à mente de Lauren quando ela se sentou para descansar um pouco nas ruínas de uma antiga fortificação, ao lado de um riacho. Tom obviamente planejara não apenas visitar os camponeses, mas improvisar um café da manhã para ela, porque havia trazido biscoitos, geléia e café. Também não se esquecera dos pães.
Sentaram-se lado a lado, e ele conversava, animado.
- A Sra. Whipple mencionou que você mandou os dois filhos dela para o Texas - Lauren falou, mastigando um biscoito bem devagar.
- A maioria dos jovens no Texas está indo trabalhar nas fábricas das cidades. Não percebem que é muito melhor ficar no campo.
Lambendo a geléia que lambuzava seus dedos, Lauren sorriu.
- Porque o trabalho nas fábricas não é ao ar livre?
- Trabalham sem sol, sem brisa, sem terra sob os seus pés.
- Como se você pisasse muito na terra, Tom. Sei que, se pode cavalgar, não caminha.
- Está bem. Então sem sol, sem brisa, sem o cheiro do gado.
- Acha agradável o cheiro das vacas?
- É melhor do que cheiro de máquina.
- Já pensou em como sua vida seria diferente se tivesse crescido na Inglaterra?
- Penso nisso todos os dias.
- Apreciaria coisas diferentes.
- Dormiria até mais tarde em vez de passear sob o sol, sentaria atrás de uma escrivaninha em vez de cavalgar pelo campo. - Tom balançou a cabeça. - Não posso me imaginar fazendo isso, Lauren.
- No entanto, não pode negar que trouxe para cá algo que estava faltando: a valorização dos homens que trabalham duro.
Ela tirara as luvas para comer e Tom lhe acariciava a pele com suavidade.
- Pensa que isso é uma vantagem.
- Acho que é o que faz de você um senhor especial. Parece-me que essa gente o adora.
Tom dirigiu a Lauren um daqueles seus sorrisos sensuais.
- Então me considera especial, não é? Na verdade, nunca conheceu ninguém igual a mim, conheceu?
- Nunca.
Abraçando-a, ele a puxou para bem perto e a beijou. Lauren podia sentir o aroma da geléia de morangos que ele acabara de comer.
- Que maravilha! Nada de acompanhantes e estou me comportando bem, não acha?
Lauren deslumbrou-se com aquele olhar profundo, com o timbre da voz de Tom, que a faziam se recordar dos prazeres que ele lhe proporcionava durante os atos de amor. Imediatamente sentiu o desejo lhe invadir o corpo. Bastava que ele a fitasse, sorrisse para ela, tocasse em qualquer parte de seu corpo para que se sentisse ansiosa por carícias ousadas e indescritivelmente prazerosas.
- Penso que o comportamento muito correto é tedioso - Tom confessou.
- Concordo plenamente com você. Por que acha que pedi a Lydia que parasse de nos observar muito de perto?
O sorriso de Tom se tornou mais sensual e provocante.
- Podemos voltar e repetir os nossos momentos de prazer na cama. O que acha da idéia?
Podia resistir aos cigarros, não praguejava, mas como sucumbir à volúpia dos beijos de Tom?
E por que não ceder ao que lhe dava tanto prazer?
- Não precisamos necessariamente voltar à sua cama, não é?
- Podemos fazer amor aqui mesmo sobre a relva e em meio a uma paisagem encantadora. - A voz dele soou rouca e cheia de sensualidade. - Sabe que mal posso olhá-la sem desejar despi-la?
Lauren olhou em torno, subitamente alerta.
-Tem certeza de que não seremos descobertos a qualquer momento?
- Se um dos camponeses nos avistar, se afastará silenciosamente. Ninguém vai querer irritar o grande senhor destas terras, não é?
- E se Lydia e Rhys decidirem conhecer este riacho?
- Como saberiam de sua existência? Querida, deixe-me lhe tirar as roupas e ver o seu corpo à luz do dia. Não sente vontade de fazer amor aqui, neste minuto?
- Sim. Apesar de não ser tão selvagem como você gostaria que eu fosse.
- É exatamente como gosto que seja, Lauren.
Tom pôs-se a beijá-la e o corpo de Lauren preparou-se para os prazeres do mundo, agora sob a luz do sol, sem cobertas, sem testemunhas, a não ser os pássaros que revoavam entre as árvores.
Os dias que se seguiram mostraram a Lauren como todos admiravam Tom. Ele se tornara um senhor de terras eficiente e bondoso, que sabia lidar com os empregados.
Ela agora conhecia a razão do sucesso profissional de Tom no Texas.
Rhys também se interessou em participar do trabalho social. Uma das casas havia sofrido danos durante uma tempestade e o teto caíra. Tom e Rhys ajudaram a montar o novo teto, arregaçando as mangas e trabalhando ao lado dos camponeses. Lauren e Lydia tinham colaborado na preparação da comida para os trabalhadores. Tom não se importava com os calos em suas mãos.
As noites se revelaram mágicas. O conde de Sachse era um amante carinhoso e ardente. Lauren começou a se angustiar com a passagem dos dias porque sabia que o tempo estava se esgotando e logo teriam de voltar a Londres.
Tom continuava a fazer promessas. Dissera que voltaria ao Texas, que a visitaria, mas Lauren sabia que ele só poderia cumprir as promessas imediatas. Ficou imaginando a saudade que sentiria desse homem maravilhoso quando não estivesse mais ao lado dele.
Por que não partira para o Texas antes de chegar a esse grau de intimidade com Tom? Não conseguia imaginar um dia ou uma noite sem ele por perto. Não conseguiria sobreviver sem que estivessem juntos.
Tentou memorizar todos os detalhes daqueles momentos maravilhosos. E de tudo o que Tom fazia. A forma como abotoava e desabotoava a camisa, o modo como dormia, como acordava, sempre a tocando, sempre procurando novas carícias.
Os murmúrios no escuro, os murmúrios sob o luar. Os tantos sorrisos, as risadas, a alegria que parecia estar sempre com ele.
Definitivamente não sobreviveria sem esses dias e essas noites.
O tempo em Sachse Hall estava acabando, e os quatro se sentaram em torno de uma mesa na varanda, tomando o chá da tarde e comendo canapés de pepino. Lauren não podia deixar, de desejar mais um dia, mais uma noite, longe de Londres. Mas, na manhã seguinte, iria querer a mesma coisa. E assim por diante.
Era estranho que nos últimos dias ela nem houvesse pensado no Texas nem desejara estar lá. Sentia-se feliz vivendo com Tom. Observando-o trabalhar e se divertir. Tendo momentos apaixonantes todos os dias e todas as noites.
- Então amanhã vamos deixar este santuário idílico e voltar à realidade da temporada das festas de Londres - Rhys lamentou.
- Está fazendo com que eu me sinta culpada por obrigá-lo a participar daquilo tudo - Lydia disse ao marido.
Rhys acariciou a mão da esposa, beijou-lhe o rosto e sorriu.
- Enquanto estiver ao meu lado, minha querida, posso enfrentar qualquer coisa.
O modo como ele olhava para Lydia deixava claro que de fato qualquer coisa era suportável, tendo a mulher amada ao seu lado. Lauren ficou se perguntando se não havia se sentido infeliz na Inglaterra porque estivera todos aqueles anos longe de Tom. Na verdade, Lydia estava certa. O coração de Lauren nunca esteve na Inglaterra. Agora estaria?
- Suponho que, se sairmos bem cedinho, teremos tempo de nos preparar para o baile que tia Elizabeth vai oferecer - Lydia opinou.
- Mamãe sempre fica nervosa com essas festas.
- Pois ela sempre aparentou muita calma nessas ocasiões. E, falando em festas, Tom, Whithaven deverá estar nesse baile. O que pretende fazer?
- Já tenho tudo planejado, Lydia. Até os menores detalhes.
- O que vai fazer? - Lauren perguntou. Tom piscou para ela.
- Confie em mim. Duvido que seja algo que meu pai fosse capaz de fazer.
Tudo parecia muito confuso quando Lauren chegou em casa. Despediu-se de Tom com a promessa de que lhe reservaria a primeira dança e com os criados entrando com todos os seus baús. Foi diretamente em busca da mãe e a encontrou no salão, fazendo os arranjos de flores.
Flores amarelas. Quantas flores amarelas.
Abraçou a condessa antes de olhar em volta.
- O que a levou a escolher flores amarelas, mamãe?
- Tom providenciou todos os arranjos antes de partir para o campo. Pediu-me a permissão para se encarregar da escolha das flores e deixou combinado com a floricultura a data de entrega.
- Ele mandou todas essas flores?
- Sim. Disse que nossa casa se pareceria com um pedaço do Texas. Mas, conte-me, filha, como transcorreu a viagem. Foi como esperava?
- Tudo transcorreu de forma perfeita. Porém, voltei confusa, mamãe. - Lauren foi até uma das mesas, pegou uma das rosas do vaso e sentiu o seu aroma. - Quando Ravenleigh lhe pediu que deixasse o Texas, a senhora teve alguma dúvida se estava tomando a decisão certa?
- Claro que tive dúvidas. Lauren olhou para a mãe.
- Quando se está em uma encruzilhada, como saber qual o caminho que leva à felicidade?
- Ninguém sabe. Simplesmente se toma uma decisão e se espera que seja a melhor. Algumas vezes tomamos o caminho errado e vivemos com isso.
Lauren concordou, aspirando o perfume da rosa mais uma vez.
- Descobri muitas coisas sobre Tom durante a estada na propriedade dele. E muito sobre mim mesma.
- A que conclusões chegou?
- Ainda não sei.
De pé sob uma gigantesca árvore, Tom desejava ter uma garrafa de uísque no lugar do cigarro em seus lábios.
Praguejando, lembrou-se de que Lauren havia previsto que ele passaria por aquele momento, em que tinha de se armar de coragem.
Chegara em sua carruagem, havia parado diante da casa de Ravenleigh e depois se refugiado em um lugar ermo. De lá podia ver todos os outros veículos se aproximando, as pessoas descendo e entrando na mansão.
Usavam roupas elegantes e refinadas. Ouviu-lhes as risadas e os observou entrando na casa sem hesitar.
Ele, no entanto, vacilava. Tinha certeza de que estaria entrando em um inferno.
A música começou a tocar e ele soube que não poderia demorar muito mais ali fora. Precisava entrar, mas onde estava a sua coragem?
Pegou o cigarro ainda apagado que pusera na boca e o olhou. Colocou-o de volta no bolso. Podia ser muito rico, mas havia aprendido a não jogar as coisas fora. Lamentaria a perda de um cigarro caro.
Respirou fundo e caminhou em direção à porta da mansão. Na última vez em que estivera em um baile, ele havia se portado como um caubói. Agora precisava se mostrar de acordo com a nova posição social, um nobre cavalheiro.
Lauren já estava imaginando que Tom não viria à festa, e não poderia culpá-lo. Sabia o quão difícil era comparecer a uma solenidade onde seria objeto de mexericos. Não tinha ideia se Tom já se desculpara com Whithaven e, caso não o tivesse feito, muitos virariam o nariz para p conde de Sachse.
Ela se encontrava ao lado da mãe e do padrasto, ao pé das escadas que davam para o salão iluminado, já completamente cheio.
- Bem, suponho que precisamos começar a cumprimentar os convidados - Elizabeth sugeriu.
- Sei que Tom virá à festa - Lauren disse. - Não acha que devo esperá-lo aqui?
- Tenho certeza de que Tom nos encontrará no meio de todos esses convidados.
Lauren notou então que a música subitamente parou e as pessoas murmuravam qualquer coisa. Olhou para a porta e viu Tom se aproximando.
Ele fez uma reverência a Ravenleigh, pegou a mão da condessa e a beijou sobre a luva.
- Agradeço que tenha me permitido vir à sua casa, senhora.
- Estou certa de que não me arrependerei.
- Se isso acontecer, lembre-me de lhe passar o chicote. Ele se voltou para Lauren e também lhe beijou a mão, conforme mandava a etiqueta.
- Tom, se eu soubesse que tinha planejado ficar lá fora sozinho...
- Ainda não terminei o que preciso fazer, querida. Guarde uma dança para mim - ele murmurou, afastando-se.
As pessoas lhe abriram caminho enquanto se dirigia a lorde Whithaven.

- Whithaven, creio que lhe devo desculpas.
- Ouso dizer que sim.
- Não pretendia esmurrá-lo, mas o fazemos no Texas. Os caubóis são homens mais de ação do que de palavras, e não aceitamos bem quando nossas mulheres são insultadas.
- Bem, eu não pretendia insultar ninguém. Apenas estava tentando poupá-lo... Não sabia que já considerava a moça como... sua dama. Também lhe peço desculpas.
Tom lhe estendeu a mão.
- Desculpas aceitas.
- Então vamos nos divertir - Whithaven disse, virando-se e seguindo na direção dos amigos. Havia um sorriso em seu rosto, como se tivesse conseguido uma vitória.
A música voltou a ser ouvida e Lauren percebeu lágrimas nos olhos dela. Não esperava que Tom voltasse ao seu lado, assim se misturou à multidão até alcançá-lo. Sentia-se orgulhosa desse homem que conhecia tão bem, que a beijava apaixonadamente, que fazia amor com ela.
- Posso ter a honra desta dança, milorde? Tom sorriu para Lauren.
- Minha querida, pode ter todas as minhas danças.
- Considerando que será o assunto da festa e dos mexericos, posso lhe consentir mais duas.
Rindo, ele a tomou em seus braços.
- Soube lidar bem com o problema, Tom.
- Sou honesto quando lido com os texanos. Os homens daqui não merecem menos respeito.
- Ouvi as suas palavras. Sou a sua dama?
- Como pode duvidar disso, Lauren? Será por todo o tempo em que estiver na Inglaterra.
E o que aconteceria depois?, ela se perguntou. Iria se tornar a dama de outro homem?
Dançaram não duas, mas quatro músicas. Tom não se importava com as regras. Não se importava com que os outros pensassem dele. Lauren partiria logo do país, e ele estava tentando passar o maior tempo possível ao lado da mulher que amava.
- Pelo menos dance uma vez com mamãe e com minhas irmãs - ela pediu. - Vou retocar a maquiagem.
- Não demore. Não consigo ficar longe de você.
- Está bem. - Queria poder beijá-lo ali mesmo, no salão. No entanto, apenas lhe bateu no braço, em um gesto de carinho.
Subiu as escadas e dirigiu-se ao banheiro reservado às mulheres. Diante do espelho, ajeitou o penteado e retocou a maquiagem.
Quando chegava às escadas, Lady Blythe esperava por ela. Lauren sorriu para a dama, porque assim pedia a etiqueta.
- Como vai, Lady Blythe?
- Não é justo - ela sussurrou sem esconder a raiva que sentia.
- O que não é justo? - Lauren perguntou.
- Você roubou Kimburton de mim. Eu o amava e ele não voltou mais a Londres. Sachse mostrou-se interessado por mim, e então você avançou sobre ele sem nenhuma decência.
- O interesse de Tom...
- Era dirigido a mim. Ele me chamava de querida.
- É o faz a todas as mulheres. Isso não significa nada.
- Significa, sim. Pensa que está tudo bem porque ele pediu desculpas a Whithaven? Pois vou contar a Londres inteira que você passou a noite com o conde de Sachse.
Lauren olhou, espantada, para a moça.
-Você não...
- Quer saber como sei que isso aconteceu? Pois a vi entrando na casa do conde altas horas da noite. E depois foi para o campo com ele.
- Estava espionando o conde?
- Um ato inocente comparado com o que tem feito.
- Minha vida não é de sua conta, Lady Blythe. Lauren começou a se afastar, mas a dama lhe agarrou o braço.
-Vou acabar com sua vida. Farei com que homem algum ouse querer se casar com você. Nem mesmo Sachse. Já teve a sua chance com Kimburton. Sachse pertence a mim.
- Está interessada nele somente por causa do dinheiro e do título. Eu o quero porque o amo - Lauren parou de falar, surpresa com suas palavras.
Ela amava Tom. Todos os planos que vinha fazendo de retornar ao Texas significavam apenas que queria estar ao lado dele. Tinha se recusado a admitir isso porque houvera um tempo em que havia julgado ter sido abandonada. Mas Tom não a abandonara. E, assim, por uma bobagem, tinha pensado em ir embora.
Agora o procuraria e confessaria os seus sentimentos. Não voltaria ao Texas. Queria ficar na Inglaterra.
Virou-se para as escadas. Precisava encontrar Tom. Imediatamente.
- Não vai chegar nem perto do conde de Sachse - Lady Blythe falou, dando-lhe um empurrão.
Lauren perdeu o equilíbrio e rolou pelas escadas de granito, batendo a cabeça e vendo tudo escurecer à sua frente.

- Milorde, preciso lhe pedir que saia do quarto.
Tom não se importou com o olhar do médico que lhe fazia tal pedido. Sentado em uma cadeira ao lado da cama, o conde mantinha os olhos presos em Lauren, a mão segurando a da jovem. Por que ela não acordava?
Nem bem tinha chegado ao pé da escada quando ouvira o eco do grito de Lauren e a havia visto rolar escadaria abaixo. Não conseguira fazer nada para lhe impedir a queda. Apenas a tinha pego gentilmente nos braços e a levado ao quarto.
- Não vou sair daqui - Tom disse finalmente.
- Tom... - a mãe de Lauren murmurou. Ele se voltou para ela.
- Não vou sair do lado de Lauren. - Colocou força suficiente ao pronunciar tais palavras, para não deixar dúvida alguma de que pretendia fazer exatamente o que dizia.
Elizabeth e o médico trocaram olhares.
- Está bem - disse o doutor, suspirando.
Tom voltou a atenção a Lauren, passando-lhe o dedo na testa com enorme delicadeza. Ela não reagia. Nem um movimento, nem um murmúrio, nem um sussurro. Nada. Simplesmente estava lá, deitada, com a pele fria e incrivelmente pálida.
Escutou os passos da mãe de Lauren indo até a janela. O médico voltou-se mais uma vez a ele.
-Na verdade, milorde, não posso examiná-la com o senhor no caminho. Queremos o melhor para ela, não é verdade?
Se eles queriam o melhor para Lauren, então ela deveria estar no Texas. Por que não comprará antes a passagem? Por que havia insistido em manter a amada mais tempo ao lado dele se não era isso o que ela queria? Por que tinha sido tão egoísta? Tom não era diferente do pai, importando-se apenas com suas necessidades e seus desejos e que fosse para o inferno o resto das pessoas.
Sinalizando para o médico, ele se levantou, foi até a janela e encostou o ombro na parede. Com as cortinas puxadas para o lado, a mãe de Lauren olhava a escuridão. Não se importou, que Tom ficasse ao seu lado.
- Ela vai ficar bem - ele murmurou, sentindo a necessidade de confortar a senhora, assim como precisava ser confortado.
Mas, sem Lauren, ele não encontraria consolo. Era ela a única que podia lhe ver a alma, que podia olhar para o escuro e enxergar uma luz.
- Não pode ter certeza disso - Elizabeth murmurou.
Não, ele não podia. Apenas precisava ter esperanças. Se visse uma estrela cadente naquele momento, faria um único pedido. Sabia onde poderia ver muitas estrelas e onde uma mulher ficaria a noite inteira olhando para elas e fazendo pedidos.
- Vou levar Lauren de volta para o Texas - Tom murmurou.
Elizabeth voltou-se para ele, mas, antes que falasse alguma coisa, Tom se adiantou:
- Esteja ela acordada ou não, vou levá-la de volta ao Texas. - A voz era firme.
Ele estava dizendo o que ia fazer e não admitiria que o tentassem impedir.
Percebeu que Elizabeth chorava.
- Atrapalhei a vida dos dois porque pensei que estava fazendo o melhor para Lauren.
- Sei disso, mas agora é a minha vez de fazer o que é melhor para ela.
Virou-se quando o médico veio na direção da janela.
- Ela bateu a cabeça.
Tom se aproximou da cama para que o médico fizesse o diagnóstico.
- O que isso significa exatamente? - ele perguntou.
- Que vamos ter de esperar.
- Esperar o quê? - Tom indagou com impaciência.
- Que Lauren acorde. Isso pode acontecer a qualquer momento. Ou não vir a acontecer nunca. É impossível saber. Se ela acordar, bem... vou lhes ser muito franco, não saberia dizer a extensão do dano que pode ter sido causado no cérebro de Lauren. Só saberemos quando ela acordar.
-Não há mais nada que o senhor possa fazer?-Elizabeth perguntou.
- Infelizmente não. A boa notícia é que nada parece estar quebrado. Eu gostaria de sugerir que alguém fique ao lado dela e a observe. Se Lauren acordar ou houver qualquer mudança em seu estado, podem me chamar a qualquer hora.
A mãe de Lauren procurou afastar as lágrimas do rosto.
- Faremos o que for melhor para ela.
- Então, para começar, recomendo que a criada tire esse vestido desconfortável e lhe vista uma camisola.
- Providenciarei para que isso seja feito agora - Elizabeth falou.
- Voltarei amanhã de manhã para ver como ela está.
- Obrigada, doutor. - Elizabeth voltou-se para Tom. - Não há razão para ficar aqui. Eu o chamarei se ela acordar.
Tom balançou a cabeça em negativa.
- A senhora não me escutou? Não vou sair deste quarto. E ele não saiu. Para ser discreto, ficou de costas para a cama quando a criada despiu Lauren e lhe vestiu uma camisola. Quando ela terminou e Tom finalmente voltou à cadeira ao lado da cama, Lauren já estava sob os cobertores, apenas com as mãos de fora. Um arrepio percorreu o corpo dele.
Não poderia perdê-la. Elizabeth saiu do quarto, mas ele continuou fazendo a sua vigília, protegendo-a contra o anjo da morte. Pegou a mão da amada e a ficou segurando.
- Não sei se pode me ouvir, querida - ele sussurrou -, mas eu menti para você. Na primeira noite, quando estava deitada às margens do rio, e eu disse que tinha lhe escrito uma carta falando do gado... não era verdade, e me lembro de cada palavra...
Minha querida Lauren,
Doeu-me muito vê-la hoje entrando no trem que a levou para longe de mim. Sei que não me viu na temporada, mas eu estava lá. Não me despedi porque receei que sua mãe ficasse irritada quando me visse. Achei que já era difícil demais para você estar partindo. Assim, observei-a às escondidas. Sei que usava a fita de cabelo que eu lhe tinha dado. Algum dia, lhe comprarei outra, muito mais bonita. Meu Deus, já sinto saudade e não se passou nem um dia que você me deixou. Mas, farei de tudo para que nos vejamos de novo.
Para sempre seu, Tom
Tocou nos cabelos de Lauren e arrumou alguns fios que haviam escapado do penteado.
Minha querida Lauren,
Meu coração dói porque não estamos juntos. Os dias parecem longos demais, assim como as noites. Mesmo quando penso em você e sorrio, a dor não me abandona. Não posso imaginar por que pensar em você seja assim doloroso. Deito-me naquele lugar onde ficávamos olhando as estrelas, mas sempre estou sozinho. Na outra noite, vi uma estrela cadente e fiz um pedido. Desejei que voltasse para mim. Porém, sei que isso não vai acontecer, que é bobagem minha. No entanto, irei à sua procura, exatamente como lhe prometi. Seu para sempre, Tom
Ele não olhou quando a mãe de Lauren sentou-se em uma cadeira do outro lado da cama.
- Ela chorou noite após noite durante a viagem até aqui - Elizabeth disse. - Mas Amy e Samantha também choraram. Deixar o lugar onde sempre viveram foi muito difícil, mas eu conhecia minhas filhas o suficiente para saber que se ajustariam à nova vida. As crianças são resistentes. Um pai ou uma mãe sabem que estão tentando fazer o melhor para os filhos.
- Nunca fiquei contra a senhora por trazer Lauren para a Inglaterra.
- Se insiste em ficar neste quarto enquanto minha filha se recupera, terá de casar com Lauren, Tom.
Ele sabia que Elizabeth pensava estar mais uma vez fazendo o melhor para Lauren. E queria que Tom soubesse que aprovaria o casamento entre os dois.
- Vou ficar aqui - ele afirmou. Ela se levantou imediatamente.
- Vou comunicar ao meu marido que você vai lhe pedir a mão de Lauren em casamento.
- Não vou me casar com ela.
Elizabeth o olhou, escandalizada, e se tivesse uma arma provavelmente teria atirado contra ele.
- E Lauren quem tem de escolher com quem quer se casar. Não será nem a senhora nem eu a lhe escolher o marido.
- E por quanto tempo pretende ficar aqui?
- Até que ela acorde.
Minha querida Lauren,
Comprei alguma terra hoje. É um passo para mais perto de você. Agora tudo o que preciso é de um rebanho, de uma casa e de vaqueiros. Creio que em um ano, ou talvez dois, poderei ir buscá-la. Meu maior medo é que tenha se cansado de me esperar. Que tenha se casado. Não sei por que continuo lhe escrevendo e pensando em você. De certa forma, nem parece que se passaram tantos anos. Mas, ao mesmo tempo, parece que passou uma vida inteira. Você continua dona de meu coração.
Lauren escutou a voz rouca. Queria conversar com Tom, pedir que ele continuasse a dizer aquelas palavras lindas, mas não conseguia. Ele, porém, prosseguia falando. Sempre que ela acordava, toda vez que voltava a dormir. Mas Lauren não conseguia nem abrir os olhos e a cabeça doía demais.
Tentou abrir os olhos de novo, tentou falar... Não pare. Não pare. Enquanto você falar, terei alguma coisa a me sustentar...
- Não está ajudando em nada ficando doente, Tom. Está horrível e sua voz completamente rouca.
Esfregando os olhos, ele olhou para Lydia. Ela, as irmãs de Lauren, a mãe e o padrasto, todos faziam turnos passando algumas horas naquele quarto. O único que não saía de lá, a não ser para lavar o rosto e comer alguma coisa, era ele. E sua voz soava áspera, mas Tom tinha medo de que, se o quarto se enchesse de silêncio, Lauren partisse.
Levantou-se e foi até a janela. Já era noite novamente e ele nem reparara que o dia havia se passado. Seria a segunda ou a terceira noite?
- Talvez devesse ir para casa por algumas horas - Lydia propôs.
- Não.
- Então pelo menos se deite por algum tempo. Ravenleigh tem quartos de hóspedes e...
- Não.
- Creio que seja mais teimoso do que Rhys.
Tom olhou para a rua, depois se voltou para Lydia.
- Hoje não tem neblina.
- E o que isso interessa?
- As estrelas podem estar mais visíveis.
- E...
- Preciso levar Lauren até a beira do rio.
- Tia Elizabeth não vai permitir.
- Não vamos contar a ela.
Tom atravessou o quarto, ajoelhou-se diante de Lydia e lhe tomou as mãos. Sabia que estava próximo de um colapso, mal continha as lágrimas.
- Isso significará muito para Lauren.
- Tom, ela não está consciente.
- Não temos certeza de nada. Ajude-me a levá-la à carruagem. Pode ficar conosco se quiser. Sirva-nos de acompanhante novamente.
- Como se alguma vez eu tivesse sido uma boa acompanhante. Não pense que não sei o que aconteceu em seu condado...
- Amo Lauren, Lydia. Sempre a amei. Deixar que ela parta para o Texas vai acabar comigo. Mesmo assim, é o que farei, mas antes ela tem de acordar. Confie em mim. Sei do que Lauren precisa.
- Tia Elizabeth vai me matar.
- Somente depois que tiver me matado.
- Se isso não der certo, Thomas Warner, vai me prometer que irá para a sua casa e descansará antes que venha a adoecer?
Ele olhou para Lauren, tão quieta, tão parada. Sacudiu a cabeça, negando.
- Essa é uma promessa que não posso cumprir.
- É o homem mais teimoso que conheço.

Mesmo assim, ela se levantou e começou a envolver Lauren em uma manta.
Quando Tom a carregava nos braços, Lydia desceu as escadas na frente, encontrou o mordomo e mandou que ele providenciasse a carruagem.
Tom sabia que era um homem desesperado, mas o que mais poderia fazer?
Lydia tinha decidido permanecer na carruagem, contudo Tom queria Lauren lá fora. Segurando-a firme, ele caminhou até o rio, parou perto de uma árvore e cuidadosamente a colocou no chão, com as costas apoiadas em um tronco.
Ficou embalando Lauren com enorme carinho. Ela parecia tão frágil... Haviam se passado três ou quatro dias? Ele perdera a conta.
- Aqui não é o Texas, querida, mas há um rio e acima de nós estão as estrelas. Você sabe que eu tinha medo de ser como meu pai, no entanto, convenceu-me de que não sou, porque ele não era o tipo de homem que pudesse amar alguém tão profundamente quanto eu a amo.
Tom olhou para o céu, tão vasto, tão negro...
- Há uma estrela, Lauren. Cadente. Meu desejo é que você acorde.
- Mas não acredita em desejos.
O coração de Tom deu um salto, e ele olhou para a mulher que tinha nos braços, rodeada de sombras.
- Lauren?
- Olá, Tom.
Rindo, ele sentiu os olhos arderem, cheios de lágrimas.
- Olá, minha querida.
Havia muita coisa de que Lauren não se lembrava. Não se recordava da queda nem de ter batido a cabeça. Não se lembrava de ter sentido qualquer dor.
Do que ela se recordava era da voz áspera que ouvira, das palavras e do amor. Lembrava-se do amor mais do que tudo.
Assim, surpreendeu-se quando, uma semana depois, viu-se segurando uma passagem de navio que a levaria a Nova York, onde tomaria outro navio que a deixaria em Galveston.
- Você me ensinou tudo o que eu precisava aprender - Tom disse, sentando-se perto de Lauren, parecendo extremamente formal, com o chapéu enorme sobre o colo. - Não vejo razão alguma para que continue aqui até o fim da temporada das festas. O médico diz que está forte o suficiente para viajar.
- Você disse a Lydia que morreria quando eu partisse. Ele olhou para Lauren.
- Ouviu-me dizendo isso?
- Escutei outras coisas também. Disse a ela que me amava. Diga que me ama, Tom.
Para a surpresa de Lauren, ele se levantou, aproximou-se e ajoelhou-se diante dela, pegando-lhe a mão.
- Eu a amo loucamente, querida. Sempre a amei e sempre a amarei. Posso lhe oferecer apenas um pedacinho do Texas, mas posso lhe dar o meu coração inteiro. Eu lhe pediria para se casar comigo se soubesse que é isso o que deseja.
- É o que mais quero.
- Tem certeza?
- Tinha certeza até mesmo antes de cair. Simplesmente não tive a chance de dizer a você. -Ela tocou no rosto amado. - Eu o amo, Thomas Warner. Sempre o amei e sempre o amarei.
De repente, Lauren se viu sendo beijada com paixão. Sabia que Tom era a única parte do Texas de que sempre precisara.

Capítulo XIII

Eles se apaixonaram quando eram adolescentes no Texas.
- Ouvi dizer que Sachse escreveu a ela uma carta por dia, durante os dois primeiros anos em que estiveram separados.
- Ouso dizer que acho tudo isso incrivelmente romântico.
- Notou como ele a olha? - Eu adoraria que um cavalheiro olhasse para mim com igual intensidade.
- Mas o conde não a olha como um cavalheiro, deve ter pensamentos bem bárbaros.
- Que bom! - Lauren exclamou. - Sou uma mulher de sorte.
As três moças se voltaram para ela, os olhos arregalados, as bocas abertas. Era estranho vê-las sem Lady Blythe por perto. Os pais de Lady Blyte a tinham enviado para a casa de campo, envergonhados e embaraçados com o comportamento horrível da filha durante o baile na mansão de Ravenleigh. Lauren na verdade tivera até pena dela, porque, depois de seu ato de violência, seria impossível que ela encontrasse um cavalheiro disposto a se tornar seu marido. Lauren havia chegado a lhe enviar um buque de flores com um cartão que dizia: "Sem ressentimentos".
Podia ser generosa com seu perdão. Afinal, sem o comportamento de Lady Blythe, Lauren talvez nunca soubesse de verdade o que Tom lhe havia escrito nas cartas, nem imaginaria como era forte e constante o amor dele, um sentimento que atravessara o tempo.
- Lady Sachse, não notamos a sua aproximação - justificou Cassandra. - Não pretendíamos insultá-la, querida amiga, mas ninguém pode deixar de notar que seu marido está ansioso para que o brunch termine logo, para assim viajarem em lua-de-mel.
Lauren sorriu, não se importando por também não conseguir esconder a ansiedade de se ver apenas nos braços de Tom.
- Mais uma vez, que bom. Sou uma mulher de sorte.
O casamento de Lauren com Tom tinha sido o acontecimento mais comentado da temporada. A igreja estivera lotada e todos pareciam frenéticos para dar uma olhadinha bem de perto nos noivos. As duas meias-irmãs, vestidas como princesas, haviam jogado pétalas de rosas da igreja até a carruagem, que levara Lauren e Tom para a casa dos pais dela. Um refinado brunch fora servido em seguida. Depois disso, as irmãs de Lauren tinham-na levado ao quarto, onde ela se trocara, vestindo um traje apropriado para a viagem. Ela havia acabado de voltar à sala de estar para se despedir de todos quando ouvira as damas conversando. Aquele era o dia mais feliz da vida de Lauren e queria que todos estivessem felizes como ela.
- Para onde viajarão? - Anne perguntou.
- Vamos para o Texas, onde ficaremos alguns meses. - Era o presente de casamento que Tom lhe dera.
- Que maravilha! - Priscilla exclamou.
- Passaremos algum tempo por lá porque meu marido possui um rancho e vários outros empreendimentos. Precisam conhecer o Texas. Posso me encarregar de lhes apresentar alguns caubóis.
- Deus. Seria possível? - Cassandra murmurou, parecendo muito satisfeita.
- Se as minhas amigas me permitirem, penso que meu marido e eu estamos para partir. Agradeço a todas por terem vindo ao nosso casamento. Sempre considerei valiosa a amizade de vocês. - Lauren sorriu. - Lorde Sachse está me olhando como se fosse me devorar sem piedade.
- De fato é exatamente o que parece - Cassandra murmurou, sentindo que a respiração lhe faltava.
Sorrindo, Lauren piscou para elas.
- Mal posso esperar, amigas.
Elas ficaram engasgando e se abanando enquanto Lauren foi se encontrar com o marido, que conversava naquele momento com Elizabeth e Ravenleigh. Estavam rindo. Tom, de alguma forma, conseguira fazer desaparecer as diferenças que havia entre eles. Talvez tivesse sido o fato de Sachse ter passado dias ao lado da cama da amada que havia impressionado por demais a todos.
Era um pouco estranho, mas agora que chegara finalmente o momento em que partiria dali, não tinha certeza de estar pronta para ir embora. Tom a abraçou carinhosamente.
- Está bem, querida?
Ela fez que sim e se surpreendeu com a rouquidão da própria voz.
- Não sei se estou pronta para partir, Tom, mas sei que é o que preciso fazer.
- Lauren, este é o seu casamento. Se quiser ficar aqui o dia todo, nós o faremos.
- Está me mimando demais, Tom, fazendo-me todas as vontades.
Ele ficou subitamente muito sério.
- É o meu plano, querida.
Ficando na ponta dos pés, ela o beijou no rosto.
- Gosto de seu plano. Mas agora estou pronta. - Ela se voltou para a mãe. - Pode acreditar no que vai acontecer? Vou para casa, mamãe.
- Espero que descubra que lar não é um lugar. É onde estiver o seu coração. - Elizabeth olhou para Tom, depois novamente para Lauren. - Pensei que era ainda muito nova para deixar o coração no Texas e lamento...
- Mamãe... - Lauren tocou os lábios da mãe com os dedos enluvados. - Tudo isso ficou no passado. Estou mais feliz hoje do que jamais estive. E sei que está certa. Se meu lar terminar sendo no Texas ou na Inglaterra, o fator determinante será a presença de Tom ao meu lado.
- Vai ou não vai embora? - Amy perguntou com impaciência.
Lauren olhou para a garota e sorriu.
- Estou indo.
- E não vai sentir falta daqui? Dos bailes, das festas?
- Logo estaremos de volta - Lauren lhe assegurou. - Antes da próxima temporada. Agora que estou casada, chegou a hora de Samantha participar dessas festas todas. - Olhou para a irmã, mas Samantha mal reagiu à declaração.
- Penso que ela já está interessada em alguém - Amy sussurrou a Lauren.
- Acredito que o artigo da página principal do jornal de amanhã contará como foi difícil a noiva dizer adeus à família - Samantha ironizou.
Seguiu-se uma sessão de abraços e desejos de felicidade. Lauren percebeu que continha as lágrimas. Mas eram de felicidade e não de tristeza, feia pensou. Não podia estar triste no dia de seu casamento com o homem que amava. Mas sentia um aperto no peito.
Virou-se para a mãe e a encontrou com os olhos cheios de lágrimas. As dela pareciam ser de tristeza.
- Sempre desejei o melhor para você, minha filha.
- Sei disso, mamãe.
- E quem diria que seria feliz com um caubói? Rindo, Lauren deu um abraço bem apertado em Elizabeth.
- Um caubói e lorde. Estou feliz por não ter de escolher entre os dois. Eu a amo, mamãe, e sentirei a sua falta.
- Lauren, querida - Tom interveio -, todos estão cansados. Vamos?
Lauren abraçou p padrasto.
- Obrigada pela vida que me deu - ela murmurou, comovida.
- É um prazer tê-la como filha.
- Não deixe Samantha se casar antes que eu volte da América do Norte.
Ravenleigh riu.
- Como se eu pudesse impedir que qualquer uma das minhas filhas faça o que lhes passa pela cabeça. Você não tem o meu sangue, mas o meu coração.
Lauren sentiu as lágrimas rolando pelo seu rosto e Tom lhe estendeu um lenço.
- Eu o amo, Papa.
Ela o abraçou mais uma vez e novamente a mãe e as irmãs. Os convidados começaram a rodear os noivos, desejando-lhes felicidade. Finalmente Lauren colocou a mão no braço de Tom e permitiu que ele a levasse para a carruagem que os esperava. Pelo caminho, só viram rostos sorridentes, tantas pessoas lhes desejando o melhor da vida.
Era estranho partir, porque finalmente ela descobrira que havia se ajustado à vida na Inglaterra.
Chegaram ao solar da família de Tom no fim da tarde. As coisas de Lauren já haviam sido trazidas para a casa e o quarto já estava preparado. Tom continuava comentando os planos da viagem de núpcias. No dia seguinte, partiriam para Liverpool, onde tomariam um navio que os levaria ao Texas. Por alguns poucos meses, ficariam na América do Norte. No caso de Lauren engravidar, ele queria que o herdeiro nascesse na Inglaterra. Baseando-se em como Tom planejara a vida dos dois, ela não duvidava que logo estaria lhe dando um herdeiro. E sabia que nada a faria mais feliz. Após o jantar, cada um se retirou para os seus aposentos privados, e Lauren não conseguiu deixar de sentir um friozinho no estômago, diante da perspectiva de passar a primeira noite como esposa de Tom.
Dispensou Molly depois que a criada a ajudou a preparar-se para se deitar. Escovou os cabelos, pensando em como Tom era um homem complexo. Todos haviam julgado que ele não se ajustaria ao novo papel de lorde. No entanto, não só se adequara, como não tinha deixado de ser o antigo Tom, com todas as peculiaridades. Sentia orgulho de seus ancestrais, aceitara a ideia de que havia nascido inglês, sem adotar o jeito afetado dos nobres. Era rancheiro e lorde ao mesmo tempo. Soubera combinar as duas realidades distintas.
Pelo espelho, notou que Tom tinha entrado em seu quarto. Vestia um roupão preto. A camisola de Lauren não era como as que usava quando fugia do quarto para olhar estrelas cadentes. Era transparente e ousada, cobria muito pouco de seu corpo. Pelo olhar de Tom, ela teve certeza de que não continuaria vestindo a camisola por muito tempo mais.
Ele se aproximou e ajoelhou-se na frente da esposa. Ela enfiou os dedos nos cabelos negros e fingiu penteá-los.
- Eu o amo, Thomas Warner. Sempre o amei. - Abriu o estojo de jóias e o entregou ao caubói.
Em cima do forro de veludo, estavam duas moedas.
- Mas você disse...
- Não falei que não tinha mais as moedas. Simplesmente lhe perguntei onde pensava que eu acharia uma moeda americana aqui na Inglaterra.
Ela tirou uma das moedas do estojo e a colocou sobre a palma da mão de Tom. Parecia pequena e insignificante, no entanto, tinha um valor inestimável para os dois.
- É uma das que lhe dei?
- Claro.
Sorrindo, ele pegou a peça de metal entre os dedos.
- Então poderia ter me devolvido as moedas e se livrado da dívida.
Sorrindo calorosamente, Lauren pegou a moeda de volta.
- Podia tê-lo feito, mas qual mulher em seu juízo perfeito escolheria devolver uma moeda quando poderia fazer com que você lhe abrisse os botões do vestido?
Ela enfiou a mão novamente no estojo e puxou uma fita azul de cabelo.
- Também guardei isto.
Tom a tomou nos braços e a beijou apaixonadamente.
- Você é tudo o que eu mais quis ter na vida, Tom. Não sei por que decidi que apenas queria voltar ao Texas, quando o que eu sentia era a sua falta. No entanto, lembre-se de que eu pensava ter sido esquecida. Não sabia das cartas, de seu eterno amor.
Ele a beijou novamente.
- Não era do Texas que eu sentia falta, nem da baia, da terra, dos cheiros. Nem mesmo das estrelas. Sentia falta de você.
Ele a carregou para a cama e lhe pediu o que ela menos esperava.
- Quero que desabotoe a sua camisola, minha querida esposa.
- Mas, Tom, não somente já lhe paguei a minha dívida como provei que podia lhe devolver as moedas.
- Faça o que lhe peço não para pagar dívida alguma, mas porque me dá um enorme prazer assistir ao modo como abre os botões, como os seus olhos escurecem a cada um que abre e a respiração fica mais difícil pela antecipação do que faremos então.
- Você apaga as luzes?
- Não.
- Tom...
- Lauren, só de olhar para você já sinto a respiração falhar.
Então ela abriu o primeiro botão.
- Faz com que a minha parte mais máscula estremeça. Ela abriu o segundo botão.
- Deixa-me desesperado porque penso que pode me abandonar...
- Nunca o deixarei, Tom.
Mais um botão. E outro. E mais outro.
- Tom, também não respiro direito quando olho para você, meu amor.
Outro botão e mais outro.
Ela observou com satisfação quando ele se levantou lentamente, desamarrou o cinto do roupão e livrou-se da indumentária.
Um botão, outro mais.
Lauren abriu a camisola e a deixou deslizar pelo corpo até cair aos seus pés. Ele deu um longo suspiro de satisfação.
- Nunca vou me cansar de olhá-la.
- Eu é que nunca me cansarei de olhar para você, Tom.
- É minha esposa, Lauren.
Ela concordou, mal sabendo o que dizer, querendo que ele logo a tomasse nos braços.
Finalmente Tom se aproximou e acariciou-lhe o rosto.
- Não pode imaginar como ansiei por poder passar noite após noite ao seu lado. Que nunca eu me veja sozinho por qualquer razão que seja. Quero que fiquemos juntos em todos os momentos de nossas vidas. Ficaremos juntos para sempre. Esta é a nova promessa que lhe faço.
- É um novo acordo? Vai respeitá-lo?
- Minha querida, eu sempre soube fazer negócios com mulheres.
Lauren riu. Não precisava ficar com ciúme. Um homem que ficara dias e noites sentado ao lado de uma cama em vigília, querendo que a mulher que amava retornasse à vida, jamais se interessaria por outra.
Tom a envolveu nos braços. Não era a primeira vez que faziam amor e sabiam como satisfazer um ao outro.
Ele a levou para a cama, e o jogo do amor começou. Carícias já conhecidas, mas nunca deixadas de lado tal o prazer que produziam.
Não demorou e ambos gemiam de prazer.
Quando após o êxtase ficaram deitados, ainda abraçados, Lauren sussurrou ao ouvido do marido:
- Cada vez que fazemos amor é como se eu estivesse olhando para um céu cheio de estrelas lá no Texas.
- Querida, há um pedaço do Texas que quero lhe dar. Rindo, ela encostou o rosto no peito musculoso de Tom.
Lauren tinha se enganado quando dissera à mãe que no dia seguinte partiria para o seu lar.
Bobagem. O seu lar estava ali, naquele momento, exata-mente ao lado dela.

 

 

                                                                  Lorraine Heath

 

 

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