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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


PRIMEIRA MANHÃ / Dalcídio Jurandir
PRIMEIRA MANHÃ / Dalcídio Jurandir

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                   

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Rangiam-lhe as perneiras, peando-lhe o passo, pri­meira marcha a pé da José Pio ao Ginásio, estirão lento. Trazia um cruzado para o bonde, ida e volta, passagem inteira; preferiu andando pela São João, cruza o Igarapé das Almas, espia a missa de Santana, ali ao pé da porta, o São Pedro na sua cadeira. O velho porteiro lhe estendia o pé de bronze agora em carne viva de tanto o povo beijar. Alfredo inclinou-se. “Abra-me aquela porta, e o resto.” O pé, não beijou. São Pedro avançava a sua sombra e a chave parecia pesar mais.
Quebra a São Mateus, entra no largo do Quartel: Lá está, lá está.
O Liceu.
Devia ter beijado o pé de São Pedro? Voltar à igreja, depositarzinho o beijo e vir correndo, dava tempo? Não. Não. Não, dizem aquelas janelas. Por que todo este silên­cio? Esta praça deserta? Primeiro dia, primeiro instante, às oito ao som da campa, presente, professor. Oito dias de aula perdeu pelo atraso dos uniformes, seu nome no jornal faltando sem motivo. E tão desconhecido, tão pri­meiro ano, tamanhão que estava, sem livro, sem material de desenho ou mapa! Mas adeus de uma vez, cheirosas professoras da Dois de Dezembro, até mais nunca, passe bem para sempre, Barão.
 

Porém, à noite, ontem, com o pouquinho de sono, nas visões da rede e sequioso de miragens, à espera do 10 amanhe|cer para uniformizar-se e partir, chegava-lhe de novo a voz da velha parteira contando-lhe, naqueles dias sem uniforme: Era um outubro seco, queimando os campos, o rio debaixo da lama e de repente a trovoada, o raio no taperebazeiro, dezesseis porcos matava, dentro da casa racha um esteio, e o quarto, onde estava presa a Luciana, tão brusco escancara-se. Foi na Camamoro, a fazenda do senhor seu irmão dela, da velha parteira aqui no bairro, e tudo acontece justamente na semana em que a D. Jovita, mulher do fazendeiro, arrancando do tabocal a filha caçula, tranca a moça, em pêlo, no quarto das selas. Os porcos mortos, o taperebazeiro rachado, a casa a modo que par­tia-se ao meio, viventes pelo campo como tições, Alfredo via; nos restos do clarão saltou a moça, com o seu terror, sua culpa? ou sua inocência? Três dias trancada a bolacha e água, dormindo nos selins suados de cavalo. Então por que a trovoada, aquela sem se esperar chegando, no que soltou o raio, mal choveu parou? Por que os porcos, a conta dos meus anos, dezesseis? E o taperebazeiro, o esteio, a porta da prisão? A mãe na varanda, rodeada, as duas filhas, xerimbabos. O raio vem sic tirou Luciana do pecado, da culpa, da desabenção?
Nem indagou ainda da velha parteira quem Luciana era, é, de rosto, índole, feia, bonita, péssima ou boa criatu­ra, ou muito pé de vento, vamos crer que tudo isso, mas tão culpada que até hoje a família não lavou a vergonha nem demência deu?
— Mea sobrinha meu sangue é. Então não era a caçula? Soube, fui. Sabendo do desabençôo da mãe, preci­sava tirar a desvalida de uma sina. Fui eu saber, corri viajei pé em Belém pé no Arari, ao menos trazer a con­denada no meu governo, comigo, não é mais filha deles, dela? Minha é; perfilho. Arrebanhei ela já largada no portinho, pelos pés dela tinha saído, antes que um, por 11 mando da mãe, arrastasse ela pelo cabelo até dizer: chegou, embarca. Embarcar a filha como rês? Que esta, mesmo indo para o curro, sempre tem seu dono. Por falta de uma bênção, que não, tinha, que eu dava, dei. Que eu sabia com que eu ia lidar, meu filho, isto eu sabia. Conheço a mea cunhada. A mãe de Luciana? A Jovita? Uma tapuia dura, feita de pau piquiá, aquele seu rosto amarrado, uma sober­bia que carrega. Que se dissesse: é branca, nem é, pois de pele até que é bem fechada, comparada ao meu irmão, marido dela, esse um caboco tirando feição fina onde a barba realça o corado das faces, tu que conhece ele, amigo, anos, do teu pai, canso de passar tempo em Cachoeira por via da política, essas coisas de vogal... Essas coisas do entender lá deles.
— Quando substitui o Intendente, D. Santa. Fica lá no chalé, sei.
— Não que pele branca seja um pergaminho. Rosto branco até que suja depressa. Branca não sou, este meu escurinho me serve. Branco enferruja cedo. Mas, sim... Minha cunhada? Mansa na parecença, danada no seu oculto. Aquela? Analfabeta como eu, mas governando a casa como quem sabe ler, sem altear a voz sem se mexer no assento. Da feita que a pessoa, perante ela, praticou uma falta, assim-assim que seja, pode contar, perdão não espere. É crua, soturna, enroscada. Não espere graça. Por outra parte, a filha atrás não fica. Nos olhos daquela mea sobrinha tem como coisa que ela diz, não diz, me quer falar e eu que sei? Ignoro mas pressinto. Tirar criança de dentro das mulheres, meas pareceras, tiro, aprendi, mas seus segredos, não. Falasse, em vez dos olhos usasse a língua. E o sinal do raio lhe abrindo o quarto, só faltou dizer: sai, inocente? Ou Deus preferiu foi soltar a culpada no mundo: te solta, que esta é a tua pena? Eu sei dizer que não foi o diabo aquele raio. Ah isto eu sei, o diabo, não. E eu que 12 lhe pedi: mas Luciana, fala, criatura. Que teu peito sente? Tu falaste? Pensar que pediu perdão? De perdão nem a primeira letra. Quem que ouviu dela um só suspiro? Selou a boca a fogo, o raio lacrou o coração, lá dela, bem dentro, não juro porque não vi mas penso.
Acabando, em Cachoeira, a escola primária com nota oito — seu caderno de caligrafia e ditado atestava. Uma letra de benza-te Deus, o nenhum borrão, a palmeira a lápis de cor na capa enfeitada de fitas, tudo cabeça dela — Luciana até pediu: Mas me mandem pro Ginásio, eu quero. Mandaram? Haveres não tinham para interná-la pensio­nista no Santa Catarina, no Santo Antônio? Instruirzinho a menina no Liceu, ofendia? Foi a mãe que disse não? Disse “não”, acabou-se, o pai quis uma palavra... O não mal saindo da boca de sua mulher, parecendo mais dos olhos, tão manso, baixo, era a lei? O Coronel a língua en­goliu. As duas irmãs mais velhas invejaram? Restava saber. D. Santa não explicava. Também é tempo de indaga sic por que os pais disseram não àquele crente que quis casar com a Luciana. O pastor, na cabeça dos trapiches, a bordo ou beirada do Arari, lia que lia a Bíblia, anunciava para um destes dias o fim do mundo, foi ver a Luciana, adiou o fim, pediu a moça. Com o não, que nunca pensou, sumiu, varrido, dizem que atirava no rio folhas da Sagrada Escritura, e ouviam a Luciana, a cavalo, sob a chuva, numa baeta encarnada a dizer-lhe: Cesse disso, seu Severino, que Deus vê. O senhor não vai me levar com o senhor, se não quiser, está no seu querer, que no meu, eu vou. Me diga que vai, que desço já deste cavalo sua mulher, me carregue com o senhor, na sua posse, na sua religião, me mande batizar na sua fé, por mim o senhor é mesmo que meu esposo, não que já tenha me conhecido, que do meu corpo o senhor tocou foi só na minha mão, mas é pelo céu meu amante, o homem que Deus me mandou, tenha isto no 13 seu juízo... o senhor pede a nossa passagem na lancha “Guilherme” que está vem-não-vem de cima... O pastor num tal espanto, deu com o que fazia e no pavor de si mesmo tentava apanhar as folhas de Moisés e Job entre as sororocas e as aningas, na maré que levava e uma praga lançou sobre a fazenda: desse a peste no gado, perdida a questão das terras de Camamoro correndo ainda no foro, um raio... Os descampados viam o galope da Luciana de regresso à fazenda, vista pelas irmãs, depois, horas, ao pé do chiqueiro com os dezesseis porcos em volta. Isso uns dias antes do raio cair.
Pro Ginásio me mandem, que eu quero, ela pedia, a Luciana Boaventura. Pro Ginásio vou eu, sem pai fazen­deiro nem mãe casada no juiz, esta que podia também ter sido arrancada do tabocal pelo irmão Antônio, tal qual Luciana neste primeiro dia de Ginásio? Vai comigo, dentro de mim, para o Liceu, conforme sua vontade, seu desejo? Solta pelo raio, levada pela tia para a Belém, da tia, não demora, separou-se. Presente nos cuidados, na compaixão da velha tia parteira, erra em Belém, fugindo de si mesma, trancada no seu castigo, à espera de outro raio que lhe abra a porta, que porta, qual, onde, como? Preciso me incomo­dar com o destino alheio, agora que sigo para o meu? Debaixo deste rangido, neste culote enorme, o quepe um tanto alheio à cabeça, Luciana acompanha-me. Enfim, o Ginásio. Pirralho tio bimba que pelou o coco num barbeiro do Ver-o-Peso, adeus. Meto a Luciana no forro do quepe ou no forro da bota? Adeus.
Mas adeus? Adeus nesta perneira rangendo até o pes­coço? Adeus? Despedir-me dos fantasmas que me habitam? Ah nem bateu as sete e meia e já neste sol suando feito um recruta no rumo do quartel, ou atrás da oculta e renegada Luciana? Adeus? O raio também vai me abrindo um caminho, não na rua, nuvem ou rio, mas em mim mesmo, 14 neste verdoengo e secreto ser que sou. Não dizia adeus ao menino, que menino não era mais, mas a um obstinado, inumerável tempo, adeus a certas perdas e temores, a solidão sem causa, onde vê, pelo campo noturno, carregada entre os faróis, o corpo de Lucíola, a madrinha-mãe ao pé do cacto, apagada nas sombras, a d. Celeste vazia de vesti­dos, do vapor “Trombetas” e dos azulejos... No garimpo sem rumo, encontravam-se o Edmundo Menezes e o Anto­ninho Emiliano, este no veleiro, aquele no búfalo. Adeus a uma, duas, três cidades, não mais das moscas nem de He­rodes, que devia sepultar no seio de Dolorosa e na soleira do Ginásio. Nesta hora, 7,25, a cidade era de novo, de seus dezesseis anos, não da Generalíssimo mas do largo do Quartel.
A pé rangendo a marcha, cheirava a cáqui novo, este cheiro de ginasiano verde de quem vai descobrindo no casa­rão tão feio aquele seu colégio, muito belo, na raiz da mon­tanha ou dentro do carocinho de tucumã. Suada manhã de abril e do primeiranista de humanidades. Humanidades. Pedia do pai o Dicionário de Latim, grossão, lombada rota, taciturno, na segunda prateleira da estante envidraçada, à esquerda, a vinte séculos do chalé. Vitam impendere vero. Ó tempora... Regina Angelorum, rezava o pai. E huma­nidades? No plural? Que diferença fazia do singular? Bem fácil saber mas já tão tarde, chegava tão atrasado, essas coisas só valiam saber sempre mais cedo. Subiria, de dois em dois os degraus do poeirento e desejado Liceu, à altura de sua pressa e de seus dezesseis anos. De repente dezes­seis! Como o raio abrindo o quarto de Luciana, caíram estes dezesseis anos, arde o Ginásio no clarão, subirá numa vertigem. Dezesseis. Dezesseis porcos rodeavam Luciana. Quando devia estar saindo, era que entrava no Liceu a voz mudada, já marmanjo para o primeiro ano. Tarde, mas que remédio? A uma légua e meia esse Ginásio, distante 15 mil carocinhos, mil viagens, Gentil, Estrada de Nazaré, Passagem dos Inocentes, agora a pé da José Pio. Tinha o gosto de conquistá-lo semelhante ao beijo que a mãe não lhe deu naquela noite do Muaná. Afinal, ginasiano, mãe, tios, avô, pretada da Areiinha. Os preparatórios, Major Alberto. Explique, na Secretaria Municipal, aos vogais e ao coletor o que é humanidades. Mas pensar em ti, minha senhora mãe, agora-agora, não. Basta a inesperada Lu­ciana desta insônia de ontem, o quase cochichar da velha tia parteira contando. Basta, basta. O raio abriu a porta do Ginásio, entreabre a janela. Tarde no Ginásio, bom ta­manhão entre os primeiranistas mirins? Entrava, a mo­leira amadurecendo, entrava homem, este diploma não lhe deu a Dolorosa? Trazia consigo a penca de menino e me­nina de Cachoeira e do Muaná, Raimundinho dos pastéis, Antônia da Areinha, Andreza (sem Andreza até agora!), Luciana (me mandem pro Ginásio, que eu quero), deles e delas carregado, para entrar no Liceu, por isso o coração pesava mais, ia ligeiro, o passo rangia mais. E esta, aqui no quarteirão, apressada, me cortou a frente, se fosse a desconhecida, a que saltou no clarão do raio, a desaben­çoada?
Exibia-se um pouco para a mocinha da janela que desfolhava a rosa no cachorro, e para estas aqui, suas pa­receiras de rua a pé, talvez operárias, moças de gergelim e costura, marmitinha e tamanco; aqui, senhoritas, vai um ginasiano, vejam a farda, oiçam só o ranger destas per­neiras.
Viu colegas seus passarem no bonde, aquele no estribo, fumando, um olhar maligno, de quem te aguarda, o quepe amassado no sovaco, descosido e desbotado o uniforme com cinco listas no ombro. Desvia-se do bonde, do olhar do quintanista, escorregou na casca de manga, as operárias riem, pisa na pedra solta do calçamento, espirrou lama...
16 — Mas leve em casa que eu tirozinho a mancha, meu anjo, mas coitadinho.
Com o gracejo, mexeu-se dentro de Alfredo o menino do Ver-o-Peso que logo o jovem da José Pio calcou bem fundo, pisou forte, rangeu duro; catou a folha de man­gueira para remover do culote e da bota os pingos e o menino. E esta perneira, vamos afrouxar um pouco? Por que tu ranges tanto, de que bicho é o teu couro, tu és sela? Traído pela calçada e pelo aluno do Barão, não sentia novo o uniforme nem a perneira; velha, enxovalhada, lhe pareceu a fantasia ginasial, demasiado tarde aquele casa­rão como tarde a absolvição de Luciana. Quis voltar para vestir a outra farda, o cáqui verde-claro, de melhor feitio, mais justa. Não dava tempo e tanto tempo perdeu em Ca­choeira, em Muaná, Barão. Salpicadas de lama, as pernei­ras rangiam decepção e vexame, logo pressa e uma raiva confiante. Entrou no botequim, limpa, disfarça, os salpicos do culote; no uniforme e na primeira aula a marca da rua, da calçada pérfida, o risinho — mas coitadinho... — da cafuza de avental e touca. O raio da trovoada atravessa­va-lhe o caminho, atirando-lhe os dezesseis anos, os dezes­seis porcos, o rosto de Luciana.
Entrava com o rumor de varrição e crianças que vinha dos sobradinhos pegados ao Liceu. Neste ranger de pernei­ra, nenhuma voz aqui dentro, um passo, nenhum rosto? Abrindo as janelas lá de cima, o casarão engolia a espessa manhã de Belém. Quis voltar, e continua a subir, incerto, fascinado, chegava tarde? Feriaram de repente, morreu o Bispo, a aula suspensa? Ninguém no topo da escada, nin­guém no corredor que levava à secretaria. O servente, sem vê-lo, lhe indicou a sala, entra num escuro, mas distin­guindo o cáqui, dos alunos do azul e branco das alunas. Um rosto branquinho se voltou para ele, surpreendido, como quem diz: eu te conheço? Que vens fazer aqui, quem te 17 chamou? E aquela, cacheada, de olhos só olhos que olhavam por toda a sala e de tanto olhar tivesse fogo e voz que o queimavam? Mas o lente entrava; de pé, a sala inteira, rosto para o retardatário, cheios todos de uma curiosidade fulminante. Alfredo enfiou-se atrás, sumindo-se numa car­teira do fundo, logo a aula no ar, a lição gotejava, fugitiva. Só agora, com as perneiras em silêncio, sentia o barulho das classes, o rasarão ressoando, este galope dentro do peito, que mel há de sair desta abelheira? O saber tem aqui a sua fábrica? Quis desabotoar-se, onde guardar o quepe? suava, tão presente quanto ausente; a manhã trazia o correr do bonde lá de baixo, a cometa do Corpo de Bom­beiros ali defronte, ruídos e cores que não distinguia, mis­turavam-se. Viu de repente no rosto da inspetora, entrou saiu, a carroça que na rua rodava, fixou-se nos beiços do professor, dissolvidos no rosto de peixe azulado de gelo e barba, a lição escorria. Os óculos faiscavam, refletindo ve­lhas águas do chalé, o rio no sol das duas da tarde; antigos olhos de menino pela beira d’água; a lição distanciava-se. Terá visto uma vez o reflexo de um raio no rio, a água cla­reando pelo fundo, a canarana, um peixe-boi boiou, encan­deado. Que estou fazendo aqui, quem marcou este encontro entre estas criaturas e aquele gelado peixe de óculos? Que entendimento há de sair deste ouvir de muitos e daquele falar de um só? Que está fazendo aqui, lhe disse a mãe ao apanhá-lo conversando com a Eunice, em Muaná. De novo o vago gesto de tédio e impaciência do peixe no seu aquário, riscando o quadro negro. Alfredo tentava com­preender. Palavras brancas cobriam-no de cinza e de per­plexidade. Cinza nas cabeças, ombros, perfis, silêncios, nucas, o lápis da branquinha desenha a própria distração, tocou a cometa dos bombeiros. Sobre este raio que lhe queima o peito, jorre então a mangueira d’água. Esponja no quadro, giz na ponta do dedo como a própria unha, o 18 lente assoou-se. Que é isto; aprender? aprender? Saber? Tere ium sic dom? Repleto dos meninos e meninas de Marajó, sentia-se o mais velho da classe mais obrigado a estudar, o mais exigido. Do interior, ali, era o único? Todos ao feitio da cidade, menos este que é a cor do chão, da maré, da Do­lorosa, a alfazema, os limos de Santana. “Esse caboclinho aí? Passar, não passa. :É um dos degolados. Voltazinho pro teu taperi, cria de mariscador”. disse-lhe o empoado louro quintanista ao vê-lo aguardando, tão murcho, a hora do exame de admissão. Rápido, sumário, o veterano dego­lava, por conta própria, os candidatos. “Vejo pela cara. Vejo pela cara, quem ou não, vai passar.” Alfredo lembrava o Rebelinho, do Barão. Aqui media a petulância do louro, o paletó azul-marinho, a calça de flanela, os cinco anos de Ginásio. Por onde anda o Lamarão? Do Barão nenhum colega, um só, nem mesmo o Rebelinho. Agora não pelava a cabeça por fora no barbeiro do Ver-o-Peso, era por den­tro. Na voz do professor corre a. máquina de tosquia, desa­molada, cheia de dente. Lente do Ginásio. De quanta ciência é feito esse peixe apapá? Congelado na cátedra, o seu aquário de gelo. Um gramofone rouco ou voz de ho­mem? Voz de peixe. Humanidades. Humanidades. Por dentro daquele invólucro de escama, gelo e óculos, grasnava o disco, a manivela da corda era no umbigo, orelha ou rabo? O gramofone emperrou, um momento de costas, olhando à janela; a aula respira, mexe-se, despencou o lápis da mão da menina, logo o bicho se voltou, assesta os óculos, como se não perdoasse naqueles rostos um movimento de vida, a juventude que exalavam. Girou o gramofone, o dedo no broche da gravata talvez com a vaga idéia de espetar num aluno, e caíam, como imprecações, as leis de combinação e mistura, os metais e os metalóides... Alfredo fermentava naquela química irreal. E nem um bruxo, em vez daquele catedrático, para ensinar-lhe a fórmula que dá, de repente, 19 a sabedoria e a fortuna. Ou o gosto de soprar o lente janela fora. Baixando a cabeça, alisando a perneira, Alfredo tenta restituir-se à aula, pela primeira vez em presença da quí­mica. Aquilo ali chama-se cátedra. Em cima, o lente. Quero espirrar, devo? Era dever seu ficar muito feliz, sabo­reando o seu primeiro instante de Liceu e química, sabo­reando o momento, depois, que puder contar à mãe, no chalé, meses, ou anos depois, quem sabe, a mãe, sossegada, na rede, só escutando. Estar aqui, devagarinho, desfeito na atenção geral, fechando dentro dó seu uniforme a flor, ou o raio? dos seus dezesseis anos. Ancho de conhecer a fórmula da. água, ou já conhecia das conversações do pai no chalé? O pai sabia misturar, combinar, fazer viver os pós para o fogo de vista, folheava a coleção portuguesa da Biblioteca do Povo e das Escolas. Propaganda de Instrução para Portugueses e Brasileiros, cantando
Papagaio come milho
Periquito leva a fama
Velha coroca
Nariz de taboca!
E ao pé do fogão com a d. Amélia, com os ratos do telhado, com os peixes transparentes debaixo da janela nas cheias de março, conversava a respeito de enxofre, potassa e terebentina. Mas aqui, cadê as balanças, as botijas, a noite, mais de mágica, de que falava o pai, onde um velho, para voltar a moço, vende a alma ao Demo? Agora a minha, minha, rei dos tachos fervendo, leva. Contanto que decifre esta. química, isto em que estou, que sei de mim? Queria agora decompor o raio, ver fumaçarem as fórmulas na botija, transformar em glicerina o nosso catedrático. Este continuava o ponto já dado na aula anterior? E aqui sem tomar notas, sem lápis, nem papel nem ouvido. Con­fiava alcançar cedo os seus colegas. Teria cabeça? Isto aqui foi uma escolha ou errei a porta? Onde é que estão 20 os petrechos da química, mais químico não era o pai que fazia sabão, os fogos, rolo de prelo, conhecia venenos (“Para vocês, ratazanas, só o veneno dos Bórgias, corsários do telhado!), um dia fabricou açúcar no chalé? (E tu, Amélia, capas frango, eu mexo no meu salitre). E a botica do Ribeirão, em Cachoeira, onde o velho, sujo e expectoran­te, mexia no vaso azul o remédio que não ia acabar de matar as vítimas porque dava sempre algum lucro conservá-las doentes. Muita vez, Alfredo ficava espiando naquela água do vaso os suores do velho, seu mal-humor, suas recusas a atender a um chamado, um socorro, horas mortas, as velhas e porcas anedotas, o hábito de passar pela Doduca, o surdo querer, ganhar fortuna, as cartas à família; é um azar, mulher, que dê tão pouca moléstia neste lugar do diabo... Seu Ribeirão era a boca cheia de sua Escola de Farmácia, desentulhando o diploma; certa vez, a pedido do Major, condenou, difícil e solene, a manteiga um puro sebo no Abifadil, e suas poções iam devagarinho matando. Alfredo espiava-o, velhas tardes; um bruxo, fedendo a sarro e calo­melano, a dosar poções para o cão.
Que poções nos ensina esse boticário de cátedra? O saber exige uma vocação? Sim, saber, queria, mas a seu modo, assim como respirar, apanhar manga no chão da Dois de Dezembro, o mesmo que amar, as aulas como os beijos que aí fora o esperavam. Como varar este nevoeiro? Ouvir deste casarão: Mais do que faz de conta, rapaz, aqui é de vera. De vera os artigos do dr. Menendez, lente de latim, contra os roceiros de Guamá? D. Inácia Alcântara, madri­nha-mãe, que metia no mesmo saco de seus louvores o ca­panga Pé de Bola e o filósofo Farias Brito, aqui estou aluno do dr. Menendez. Em breve vejo o bengalão, o praça de touros, guardando os sonetos, como rapé, no castão. A aula de química enchia o quadro negro de palavras, pala­vras, palavras. Tinha entrado um tanto sorrateiro naquela 21 moenda de letras — será de vera? — como se tivesse sal­tado a janela, arremessado pelo raio, subindo a escada feita dos meninos de Marajó que o carregaram, neste uni­forme marcado de rua e da lástima da ama de avental e touca. Ao passar por mim, quem que me adivinha? Quem me escuta, se nem o Barão me acompanhou, ninguém da Dois de Dezembro, ninguém da Passagem dos Inocentes, ninguém do comício do largo da Pólvora? Aquele, sim, agora sabia, foi um comício. E a mocinha da fábrica de botões, comendo gergelim, o gomo da laranja? Que seria para Antônio, da madrinha-mãe, o aprender química? Desde quando e até onde mudei, ou não me cabe indagar?
“Mamãe, nem sabe como fiquei mudado vestindo a farda do G. P. C. Um trabalho colocar as perneiras. Pri­meiro errei de perna. Sebo de boi nelas abafa o rangido? Ou cachaça?...” Riscará esta palavra. “Mande pelo seu Né, da “Lobato”, o Dicionário de Latim, mas mande escon­dido do papai, é possível?”
Não. Fazia dó furtar o Dicionário. Não ia apenas deixar um vazio na estante mas também no pai. No chalé, o Dicionário era que nem uma pessoa, embora mitológica. Nunca via o pai abri-lo, sempre no seu lugar, com a sua língua de missa e botânica. Uma semana antes da volta a Belém, de noite, no chalé, sonhando com o Ginásio, emba­lava-se na rede, roçando o pé na estante envidraçada que se abriu. O pé tocava na lombada do Dicionário. Era tocar e irrompiam do livro aquelas vozes mortas que tantos sé­culos falaram a língua ali sepultada. Pôs-se a escutar o imenso coro, o numeroso latim dos oradores e das legiões, das orgias e dos templos, dos césares e dos santos... Sobre aqueles séculos do falar latim, embalava-se, embalava-se, o pé na tumba sonora. Parou o embalo, fechou a estante, desceu ao campo e tentou descobrir onde a matinta-perera tanto agourava. O chalé lhe pareceu o tempo morto, o 22 museu das vozes mortas; abeirou-se do rio, este, sim, tão vivo, tão recém-nascido.
Não, não, direito não era tirar escondido aquele ma­ciço catálogo da fala antiga. A mãe, decerto, mandaria; um de menos a espanar, um de menos a incutir no Major o gosto de correr mundo sem mexer-se da rede. Pena des­falcar o chalé, provocar no pai aquele seu ingênuo furor quando não encontrava as coisas. Para achar, por exemplo, a gravatinha de elástico, percorria o universo, as filosofias e o telhado, pois ocorreu uma tarde que os ratos levaram a gravata para um recanto de telha, meio limoso e secreto lá pelas bandas da dispensa. Por isso, na cozinha, a mãe ouviu falar de Flamarion e Diógenes. O Major ia se sentir de menos ao dar por falta do velho habitante. Farejaria a ausência no ar, tinha um pressentir, a estante avisava. Se­melhante latim não valia no Ginásio, não era o mesmo do professor Menendez. Ficasse sempre à disposição do pai, quando, este, numa repentina faceirice, diante de visi­tas, quisesse retirar da estante, como de um jazigo, aquele esquife onde dormia Roma e as traças habitavam. Era o seu pé de meia da ilustração.
Corpus juris civilis, recitava o pai, nas horas em que lia este e aquele processo de sua rala e tão de graça advocacia. Lá no fogão, a d. Amélia:
— E os nossos honorários, senhor advogado?
O Major fechava os autos: honorários? Amélia já decorava a palavra? A cabeça dessa preta!
— Arrenego do amigo que come o meu comigo e o seu consigo, Corpus Juris civilis, minha senhora.
Deixará em paz o Dicionário, deixará o pai intacto.
O gramofone arquejava. A química era só giz no quadro negro.
Pronto, a campa, esvaziou-se o aquário de gelo, escor­reu o lente, um aluno corre, passou a esponja escreve no 23 quadro: vai-te defunto em pé, logo apagou. E agora à es­pera... Mas que aconteceu que os alunos o rodeavam, reprimiam o riso? Tirando-o da, sala, chegava a inspetora:
— Mas, meu filho, como foi que entrou no terceiro ano enganado? Não é esta a sua sala. Não sabia que a química não é ainda sua matéria? Nem sabe ainda as suas matérias a estudar? O primeiro ano é lá, não tem que errar, ali, a outra sala. Queria já principiar pelo terceiro? Meu Deus, nem parece que aprendeu... que fez a admissão.
Como coisa que é a. primeira vez que freqüenta um estabe­lecimento de ensino... Vai. Deixo-te entrar na segunda aula. Perdeste a de matemática.
Estabelecimento de ensino. Começo a desconfiar que sou demais neste estabelecimento de ensino. Este engano de sala não foi um sinal? Todo o terceiro ano me olha zombe­teiro, num ar de vaia. contida, tão de quem te espero. Mas coitadinho, lastimava a ama. Mas, meu filho, eu disse “es­covinha” foi brincando, eu que te mandei pelar a cabeça? ria a mãe na proa do barco. Mac Donald? É invenção da Celeste. Esta nada mais é que a Inocentes, meu anjo, ria o Leônidas na lama da Passagem. As mesmas arapucas da cidade? Estabelecimento de ensino. O mesmo logro inape­lável? O alçapão é o mesmo, em toda a parte? Olhem o falso terceiroanista. Olhem o falso terceiroanista! Ahn! passando a perna na Secretaria, na inspetora, pulando dois degraus? Efeitos do raio? O pé de São Pedro que castiga?
Com um frio, um suor, feito o antigo paludismo, entrou no primeiro ano, rebaixado, agora sim, sem dúvida o mais velho, o marmanjo magralhão, o fora de idade entre as bem bonitinhas de azul e branco e os bem penteados soldadinhos mal saídos do cueiro e d’O Tico-Tico... Abateu-se na car­teira dos fundos. Estabelecimento de Ensino e Mac Donald, que diferença há? Ninguém nem deu pela presença dele. 24 Ouvia em todo o casarão da inspetora: Entrou no terceiro pensando que fosse o primeiro ano, mas olha aí o calouro, o matuto. Tirem uma linha do espertinho. Volta pro teu taperi, cria de igapó.
O professor de português tardava. Vem não vem. Recaiu, correu entre os alunos. Sofre do peito, e mal voltou do Ceará, cuspiu sangue. Alfredo ouviu. Ceará? Ceará? Voltou de Guaramiranga?
A campa.
Descer do pátio, ganhar o sol e o céu e o ar ginasiano, disfarçar o engano da sala, dez horas, primeira manhã do
Ginásio, tens um pátio, como sonhaste no colégio, vais conhecer as cinco classes juntas, passar pelo quintanista louro: Passei ou não passei, hein, seu calça de flanela? Tu, que me degolaste, tenho a cabeça no pescoço, vês? Meu taperi é aqui mesmo. Esta a. minha moradia, o meu mundo onde irromperam naquele raio os dezesseis anos.
Encontro a vocação, as sonhadas amizades, meu des­tino, meu ser?
Sozinho, solitário, inocente, — a chave, São Pedro — entrou no pátio cheio.
O calouro! O pátio o engoliu, o levou até o fundo e o devolveu entre as alas no mesmo alarido, pisa um, o coco­rote, aquele esbarro, o pescoção, o tropeço, pega! despen­cou-se, viu-se lá fora no meio da praça debaixo ainda da algazarra que ficara no pátio, pátio dos trezentos Belero­fontes, dos dezesseis porcos multiplicados.
Parou, sem fôlego, cego, o pátio sobre a nuca, as caras tão bruscas que o espiavam, o colhiam pelo sovaco e o ati­ravam aos outros e estes riam, bigu! bigu! com suas boche­chas e punhos, o focinho, o bico da vaia, a mão que lhe revirou o bolso... estes quatrocentos réis só? No chuvisco, suando, sozinho na praça cheia de soldados, lançado no fosso. Ordinário, à direita, volver! Acelerado marche!
25 Eu te quero um homem, lhe disse a Magá, aquela tarde, Rui Barbosa, voltando com as suas panelas da Quintino. Te quero com a natureza bem má, meu anjo, sussurrava-lhe a madrinha-mãe, ao pé do cacto, em Nazaré. Mas foi trote? Era o trote. É o trote? Cru-cru do que ia acontecer, cru, falava a mãe no chalé: E eu que sei? De tudo isso ando crua. Tu me pegaste crua. Crua e nua. Agora o filho, cru e nu, no fosso, quem retira o pátio de cima? Mas não sabia? Nunca sabia? Escuta o riso do pátio, reboa nas salas, sa­code o casarão. H20. Estabelecimento de Ensino. Pateta! No terceiro ano? Calouro. O mesmo riso aqui na muxinga do carroceiro assustando o velho boi dorminhoco e ali, na repentina moça a abrir a janela, como se fosse pela pri­meira vez que abria. Bigu! Bigu! E a senhora aí, com a vassoura, na porta? Varrendo não o lixo, dona, mas estes dezesseis anos. Em pó o derradeiro caco do colégio. Ca­louro. Clandestino do terceiro. O calourão queria passar por veterano? Batiza a farda! Raspa a perneira! Dessela o quepe! Solta as piranhas nele! Subitamente a trovoada, este raio, imundo, prende de novo a Luciana, faz levantar do chiqueiro. os dezesseis porcos multiplicados. O sol coava o chuvisquinho, lá se vão os recrutas. Era, agora, menos do que ninguém na praça vazia. Quente, as perneiras rangiam a sua galhofa, queimando-lhe o passo. Quepe amassado na mão, arrancada a carneira, a pala torta, no forro o risinho da Andreza, ou seu dó? Troçando, se rindo, Andreza era sempre uma companhia, sobretudo nesta solidão grossa, esta, suando debaixo do chuvisco, que trazia da aula de química e do pátio.
Andreza, nesta hora, de onde não sabia, lhe falava: Mas seu fujão!? Já pra tua carteira, tua, que nós te demos. Retorna ao pátio, atira o quepe e o medo às tuas piranhas. Passa pela prova, meu arara, te convence de que és rapaz, de que és e podes vestir não a farda nova mas a amarrotada, 26 decentemente suja, esgarçando no cotovelo e no ombro. Foi o teu batizado, seu pagão. O pátio foi cruel? Compara a crueldade dele com este curral no aguaceiro, noites, este sempre lavar os trapos no rio, no meio das formigas, este sempre escamar peixe na feitoria debaixo do carapanãzal, este galopar, meu Deus, horas, pelo campo, doida de mim, pensando: onde é a cova do meu mano assassinado? No avô fantasma a bater lago e mondongo atrás da, outra visagem, aquela no búfalo, agora pelo fundo... O pátio foi o novo alçapão? Caíste? Mas não era pra cair? E não subiste, de novo, na praça, de novo comigo? Deves agora voltar, que lá é o teu assento, em nosso nome, o escolhido por nós, para que puxes da química, do latim e do pátio, como puxavas o peixinho, o saber que não sabemos. Me ouvindo, mano? Escutando estazinha tão sozinha aqui dos meus longes?
Deixou-se ir pelo chuvisco, rangente e ensopado, sem lenço, sem perdão. Calouro. Era pra ser degolado, como predisse o quintanista louro? Agora, pode caminhar, sim, é, sim, um fugir necessário para recuperar as coisas que julgou perdidas ao pôr o pé no batente do Ginásio e ao saltar do pátio. No forro do quepe a voz de Andreza.
“Andreza”, chamou doce, baixo, pelo descampado, de­zembro último, um chamar maluco, ao galopar, atrás dela, no rumo de Santa Júlia. Disseram-lhe: Ela? Pois não está na Santa Júlia? Teu cavalo, Raul, que eu quero ir. Vamos, meu alvação, que é longe a Santa Júlia, assim, no findarzi­nho a tarde, estamos lá. Acende o raio nas patas, fôlego, não tens rédeas, galopeador, voa que quero a Andreza antes do sol sumir. Foi. O alvação cansava quando avistou a Santa Júlia. Como coisa que, ao chegar, teve um tal medo: estava de calças compridas. Quinze anos. Devagar, apro­ximou-se, passava a mão no lombo do animal suado, suava. Como iria encontrá-la? Como seria? Que diria ela? Onde 27 os dois meninos para que pudessem se abraçar, se dizerem desaforo, atracarem-se dentro da vala, brabos e meigos no mesmo minuto? Lá estavam mulheres na janela, o vento a abanar as roupas na corda, um alvoroço no curral, o vento arrepiava o tucumãzeiro carregado. Não era mais o me­nino, não era mais a menina, que eram, depois de anos? Queria recuar, sem vê-la, descampado afora. Avançou, pe­quenino no alazão, a casa aumenta, o curral poeirando com os urros da ferra, no rodopio do vento o tucumãzeiro desfe­ria os seus espinhos, escancara-se a janela, as mãos atando a fita no cabelo, e o rosto numa aparição, o sol sumia, longas claridades atravessavam a casa, o cavalo, o medo, a desesperança, o rosto desconhecido. Lhe deu aquele espanto e um alívio, amargo; dobrou num galope de contente desespero. Não, não era. Não estava na Santa Júlia. Estava onde? Onde? Em que boi, cavalo, búfalo, igaçaba, ferra, caçada, proa de montaria jogando tarrafa, a atirar-se doida no encontro dos peixes, rio abaixo? De que jeito cresceu, baixava a bainha do único vestido, donzela ou sem tempo de ser, colhida ao pé da .porteira, no jirau que marca nas costas o sono duro, o amor sem rede e mal amado. Teria saído da menina a qualquer que nunca ri, para sempre de luto com a morte da família? Nem nunca se lembrava da pororoca na cabeça de quem um instante ficaram, aflitos e felizes, oh glória que foi! Não mais a preta de sol atolada na lagoinha amarela debaixo dos ventos que redemoinha­vam amarelos escorrendo arco-íris? Tartaruga velha, mãe desta lagoinha, teu poço onde é? Teu poço um dia eu acho? Me diz! Assim falava a menina. Assim repetia agora o rapaz, também indagando: achaste, estás no poço? Correu para a lagoinha: seca-seca, rachando; dos pés de boi ao sol endurecia a marca. E que olha os fundos da velha casa da finada Lucíola — guarda ainda os carretéis? E o São Expedito? — deu com aquela caveira de boi ao pé do 28 ca­|jueiro avô: a cabeça do “Caprichoso”, sem mais um vestígio do boi bumbá que foi, nem os olhos de vidro, tão vivos nas noites de junho, boi dos Saraivas. Pelos buracos da caveira velha, aquela noite de São Marçal, tão morta, tam­bém se via. Mas dos chifres vinha a voz de Andreza: uma coisa nós dois fazemos sempre: o baile da Mãe Maria. Faria então a busca em todas as fazendas e em todas as moças? Ela se distribuía em quantas? Foi se largando aos bocadinhos nesta, naquela, numa, noutra, até que dela-dela mesmo nem mais um fio de cabelo, nem o sinalzinho quase embaixo do sovaco, desfeita nas alheias, oculta nas meninas que sempre nascerão ao pé do rio, lago, curral, do miritizal borbulhando na enchente? Correrá as sete lon­juras de Marajó para livrar Andreza de seu vestido de coral, das chaves do xadrez atiradas no rio, dos ossos do irmão espalhados pelo campo? Mas não tinham perdido subitamente as coisas que os uniam? Patuá miri pupé ah Andreza, no ninho nem uma pena deixaste, treze ilhas, treze lagos, treze fazendas a correr, treze Andrezas encontrando, não a Andreza, que esta é a quatorze, onde a roleta não pára, O que restou deles dois boi pisou, cobriu com a sua obra verde, logo dura no sol? Não mais aquela nem a de agora, e esta, aonde? Tornarem-se amigos, como se ensina o modo? Amantes? Amantes de tal pegadio só por força do Guajará, o lago que faz soar coisas no fundo, puxa por baixo o mar de longe, aí sempre os dois amantes, dos dois dobrado o encanto. Voltava da Santa Júlia querendo uns minutos dentro do rio, colher no fundo a visão dela, feita de faíscas da forja do ferreiro, colher as muitas An­drezas pescando e mirando o rio, e uma só, aquela, debruça­dinha no esteio do trapiche, cheia dos barcos e lanchas que mal atracavam passavam nem adeus lhe diziam. Ah que quero tanto ir... seu olhar falava, quem ouvia o seu suspiro? Andreza a apanhar o peixe subindo na desova.
29 Sabia de um rego, no geral dos lavrados, era peixal de maré e solapo que estrondava cardumes com a Andreza no meio. Ou Andreza punha fogo no tabocal para fazer muçuã sair ou no piri queimando os bichos, que até de rabo quei­mado fugia o jacaré? Queria fazer como o anu, catar os carrapatos do gado, como catou, um dia, meus micuins. Quem mais malina? Ia meter pelo olhinho dum caroço de tucumã toda a saudade dela: agora, sim, enterrei neste caroço o inteiro tempo em que andamos juntos, assim, e para sempre, sem dizer água vai. Logo o caroço falava: Eu? Eu que te ligo? Pá! corria para o pé de um na beira d’água: oi tu aí, pirralho, me apanha do chão, que de dentro de mim te tiro esta menina. Ela faz nascer baile onde não tem, tira da bosta de boi o pudim das fadas, rastreia no ar o peixe que está desovando, no seu mais quentinho choca ova do peixe mandií e no orfãozinho, no pelado filhote da garça baleada faz criar pluma. E da voz da Inocência no chalé, vinha a oração de amansar pessoas brabas, que a gente tanto gosta e dela só nos vem é dentada de piranha: Te amansa, Andreza, me ensina, Inocência, a oração de amansar. Serra o dente da piranha. O fio das unhas dela fique cego-cego. Quero desencavar Andreza como, esta hora, Andreza desencava ovo de camaleoa. Sai de dentro da Andreza, some-some. Amanhã, leão bravo, enterra tua cara no chão que estou armado com as armas de São Jorge Deus quer Deus pode Deus faz tudo quanto quer. Assim eu acabo as forças do teu coração e te quero em baixo do meu pé esquerdo, eu te trago presa morta sepultada. Na­quela antiga tarde no cemitério, Andreza esteve beija-não-beija, de repente não beijou. Aquele beijo anda no ar, pelos murucizeiros, um beijo perdido, seco no vento batendo nas janelas do chalé. Bom é parar um pouco, o montar castiga, cavalo e eu aonde vamos? E nestas horas o ferreiro abre a forja aqui dentro e sopra e ateia, queimou-se a 30 busca e a reza da Inocência e de tudo aquilo este carvão, esta poeira, este galope de volta. Que o levou à Camamoro, a fazenda do Coronel Braulino, o Delabençoe, com suas terras em questã (de nunca ter fim no foro de Belém), e algo sentiu, agora explica: Já estava ali a ausência de Luciana. Da casa parecia ouvir o que só mais tarde de verdade ouviu por boca da velha parteira. A velha usava um dizer um pouco fanho e devagar, as mãos pontuando, a dar mais antigüidade e mais sal às coisas que contava. De sua voz e das pausas no contar saía uma Luciana mais an­tiga do que era, descendo no raio, sobre as folhas soltas da Bíblia galopando, segura pela mãe no tabocal, e a d. Jovita surrou mas surrou que surrou a filha, um ai não se ouviu, e do sangue da filha a verduga foi lavar as mãos no algui­dar d’água, a muxinga pingando sangue, um cachorro foi, lambeu. Luciana em pêlo sangrava no quarto, a mãe salpi­cou-lhe sal na carne viva. Um ai que fosse, ouviste? “Só um medo tive: de morcego, contava depois a prisioneira, mas com o quarto trancado quem que entrava? Ali na fa­zenda a sombra do raio. O bacurizeiro? Nem sinal. Passou pela fazenda sem nada saber, trazendo no seu galope aquela obscura visão do tabocal, raio, Luciana, dezesseis porcos, que hoje povoa a casa da José Pio e bate a sua marcha, ida e volta do Ginásio a José Pio. Pois não foi que, na volta de Camamoro, também passou pela Mãe Maria? Tinha um baile de brancos na casa de soalho, no rancho de chão os vaqueiros arrastavam o pé, Alfredo ouviu chamarem: Ra­miro! Ramiro! Ramiro? Àquele cantador de chula, o rosto grosso, tocando viola e violão pelas beiragens do Arari, toca a falar de uma tal de Orminda que deixou a sombra na torre da igreja em Cachoeira? Ramiro? O amigo do Ca­çaba, este, uma tarde de embarque de gado, devolvido pelas piranhas, só esqueleto? Orminda, de Ponta de Pedras, cor­redeira, do mundo, dela a mãe falava no chalé. Rio, lago, 31­porteiras, ranchos, tarrafas, selas, redes, bancos de mon­taria, toldos abaeteuaras, falavam de Orminda, estava na chula de Ramiro, no cantar dele tão constante que até se podia indagar: Orminda viva não está? Pelo menos dentro do violão, com Ramiro acima e abaixo nos lavradões, ferras, escornando no- couro de jacaré, ao pé do velho boi marre­queiro. Que tão formosa foi, todos ouviam, a mãe repetia: que era, era. E dela nem um retrato. Só aquele, Deus te livre, de seu corpo, na igreja. Lá na torre os traços da pecadora, que ali se deu, e ali ficou a forma de seu corpo; morta foi mais tarde, por seus pecados, ouvindo cantarem o acalanto de Silvana, cavaleiro do meu pai me dá um jarri­nho d’água... Se tem céu, repetia a mãe no chalé, a Ormin­da vai é remando pra lá.
Olhou o rancho: Fumegando de pares, à luz das lam­parinas, fedia um pouco a boi. Ramiro! gritavam. E viu:
mais violão tinia, mais o vaqueiro afinava. O rosto despe­dia uma brabeza, mais não era que saudade, e sua ira e suas trevas ao ver Orminda marcada por Nossa Senhora, na torre onde ela de um outro foi. Um instante emborcou a garrafa, de dentro do violão puxou um lenço. Lenço? Mais Orminda que lenço a lhe enxugar o rosto, e aquele viúvo sem ser viúvo arrancou um tocar e um cantar com uma furiosidade e brio que todo o rancho fumegou galopeou. Alfredo correu, entre o resfolgo dos cavalos, para baixo da casa grande: lá em cima um baile de verdade, a fina valsa, passada a cera no soalho? Não, Andreza, de vera só o nosso baile do faz de conta, aquela noite. E foi que ao rodear o curral, por uma curiosidade e aflição, num pressentir — Andreza no baile dos brancos ou no forró dos vaqueiros?
E encontrá-la, adeus o outro baile — e foi que em vez de Andreza:
— Mas, mamãe, a senhora? Perdida na Mãe Maria? Como?
32 — Queres uma carne na brasa? Perdida? Perdida estou.
— Na brasa?
— Um instantinho te faço uma, e está que vale, a pena. Carne que tem! Eu que te indague de onde está chegando. Ou lingüiça? Te asso uma, já-já. Me deu na vontade, ora esta. Espiar. “Vamos, d. Amélia” a Águeda insistiu. Tanto fez que eu: “Ora, me dá então um lugar na tua garupa, me deixa ué, espichar a perna no campo, que é que tem ?” Lingüiça?
Aproximou-se dela, cheirando-lhe as palavras, só ta­baco. Então disse que não tinha fome, vá lá que mais tarde uma lasca de lingüiça. Mas e aquela mãe festejada na Areinha? Aqui, cadê? Aqui nem se sabe se do rancho, do fogão do baile, entre os que bordejam no sereno, à roda das carnes e das lingüiças, ao choá dos cavalos mijando. Talvez subisse pelos fundos a espiar do corredor os brancos dan­çarem, mas não podia estar ali uma Gouveia, parenta da­quela, de senhor rosto, pela mãe cuspido? Lá no chalé, sim, era quem era. E aqui, aqui quem é? Por que fugiu do hospital? Não a queria nesta fazenda, assando na brasa a lingüiça cheirosa, nem mesmo convidada, trazida pela mão da d. Águeda. D. Águeda e a mãe na cor se igualavam, sendo que d. Águeda ao peso de bastante filho. Nos braços da Águeda, o Felixzinho afogava as saudades da Síria, des­cansava do balcão e do armarinho. D. Águeda, no arraial de dezembro, montava a sua banquinha de doce e mingau de arroz, majestosa no servir, com os filhos ao lado e toda a sua corte. Do seu banquinho — que nem trono — de mingauzeira, falava que, quem ouvia, dizia: negra ou rainha? recendendo o seu patchuli no cabelo, sempre a rosa monte-cristo de sua roseira velha. Foi saber o que fez aquela d. Amélia do Major Alberto na noite de São Marçal, e vai, corre no chalé a d. Águeda, altona, alvaçoa de talco, 33 no cabelo sempre a rosa: Ah d. Amélia, Deus que mandou a senhora fazer o que tanto meu peito me pedia muita ocasião, escarrar em cheio na lamparina de uma das Gouveias, da mais jararaca delas, a Nhãnhã. Foi elas que es­palharam que a finada mea filha perdeu o juízo por ter espiado eu despindo, mudando as vestes da santa, obrigação minha que sempre fiz oculto. Acendi foi uma vela pro meu São Jorge pela graça, rezei pela senhora, pedi um futuro pro seu filho, ah que lavei o peito lavei. Escarro de Deus mandado. Lhe trago anui esta renda dos meus bilrinhos, meu coração, mas não repare, vejazinho se serve pra barra de uma sua anágua. Também por estes dias, D. Amélia, em seu inteiro juízo, alegando ver rendas, visitou d. Águe­da. Um tempo ficou entre os bilros, deixou na mesita um mimo, admirou o alguidar feito de caramujo moído, para a roseira monte-cristo ensinou um estrume. Pobre da Águeda, não bastava ter perdido. a filha doida-doida. No que espiou a mãe, roupeira  de Nossa Senhora, despir a imagem, lá na igreja, Geralda viu. Evém contando entre as suas pareceiras por um inocente contar, até assustada, diz-não-diz — conta que tu não fica cega, pequena. Tudo, tudo, Deus me livre — negando-se a estoriar o visto bem miudinho. Tudo, não, Geralda, que faz endoidecer a cabeça. A metade do que viste, e só, nos conta. Palavras que foram ditas e já à tarde foi aquele desassossego dela, olhou no poço: Meu Deus, lá está no fundo o rosto de Nossa Se­nhora, roça no barrasco e no grunhido deste escuta: eivem o teu castigo. Embrulhou-se na rede, a debater-se, entra noite, deu as onze, Geralda já possessa; chama, tamanha hora, e sem esperar que atenda, o seu Ribeirão; não é que o bruxo acode? Na maior paciência à beira da rede, na rude sobrancelha a tímida compaixão; chama seu Juanico, sabedor dos males na cabeça, ouve também o Major Alberto que consulta o Chernoviz, com os catálogos embaixo da 34 rede; toca montaria para buscar um rezado do Goiapi, leva a doente no Tarumã, é uma sessão na d. Marcolina. No que se prepara a d. Águeda para embarcar a filha na “Guilherme”, ir a Belém a conselho da d. Amélia, a moça foi parando de gritar, lhe deu foi um sossego, coisa esta a modo dum repouso, um sono tão sono lá nela, que só bastou foi a d. Amélia lhe pôr na mão a cera acesa no fósforo do dr. Campos, o Juiz Substituto, ali presente, orelha torada, um pouco bêbado e que rezava, ele próprio correndo no seu Mané Leão para mandar dobrar o sino. Mas não bastava isso para d. Águeda. No chalé, de bôca do Rodolfo, d. Amélia sabe: a irmã do Capoeira, mais que de repente ganha aquele corpo, o santo dia debruçada tão sem termos no balcão do Felixzinho, que este, hora pra outra, pois não monta, mas mesmo ali defronte da Águeda, uma semelhante casa de telha, soalho e calçada, não põe a Godência Capoeira num tal pedestal? Ali defronte da Águeda, bem defronte, a Godência se fazendo de branca; sim, que alva nasceu de pele, mas vá ver, a amarelona; então que o dia inteiro janeleava. De tarde, trazia para a calçada a cadeira de embalo, se embalava, de roupão, chi­nela, volta no pescoço, pente alta no cabelo, embalos e mais embalos. Quem te visse, Capoeirinha, a Águeda cansa de te ver pixota de papo fundo, remelenta, pé, perna, pescoço tudo tuíra, o olho comprido atrás de uma sobra de mingau, um fio de linha de carretel... D. Águeda o pé não botou mais nem pela frente nem pelos fundos da taberna do Fe­lixzinho. Faça de conta que não foi com ela. Proibiu-se, proibiu os filhos, sendo dois dele, daquele turco. D. Amélia, que do chalé tão raro era sair, foi visitá-la. Na despedida, no que se abraçaram, a d. Águeda a cabeça pendeu no ombro da amiga, mordeu o beiço, foi impossível, as lágrimas vie­ram. Um tempo sem se dizerem palavra ficaram, abra­çadas. Assim a mãe está aqui com a d. Águeda na Mãe 35 Maria, na boa amizade, ela e a d. Águeda briosas de sua cor, irmãs de opinião. Filhos e filhas da d. Águeda estavam no rancho. D. Águeda, na mesma majestade, dirigia os comes e bebes do baile, e sua saia, pano comprado em Belém à custa do seu mingau, feitio, prova, costura, d. Amélia quem fez, e botando na cabeça da amiga: olha, Águeda, tira do teu juízo que foi castigo de Nossa Senhora. O olho da tua filha nem a curiosidade dela havia de man­char o corpo da santa. Depois o corpo ali é mais um faz de conta, a santa não tem aquele corpo, tem o dela que está na nossa fé. A doença já estava entranhada na tua filha. As Gouveias mereciam mais de um escarro na cara, cria­tura, e teu escarro.
E aqui na fazenda, era uma escapula e d. Águeda, sacudindo o peitilho suado, soprando para dentro do colo, descia: d. Amélia, mas me valha, que tal o sal desta carne? E este meu tal de chocolate, de ovo mal batido, não pitia? A mãe grau dez dava como se quisesse dizer: Ora, Águeda, deixa de prosa, perto de ti, nessas tuas coisas, quem sou eu. Quanta ocasião no chalé, a mãe não reprovou os muitos chocolates, casa deste, casa daquela, o doce azedo, os ruins almoços de aniversário, não por se gabar de que faria me­lhor e sim por um natural em dizer, menos por um regozijo que por lástima. Tanto foi que, ouvindo-a, o pai chamou o filho a um canto da saleta, defronte do retratinho de Au­gusto Comte, cochichou: Nessas coisas, ela, psiu, psiu... Ouviste? Ela? Ela? E fez um gesto breve, sem dizer mais palavra, logo ajeitando o Comte para que este tam­bém pudesse ouvi-lo. Alfredo perplexo. As feições do pai louvando a mãe! Pela primeira vez! Era tudo que o pai podia dizer, ou sentir, aquele rosto branco, feliz pela admi­ração e pela confidência, cheio da satisfação a dar ao filho de que sabia fazer justiça, sabia dar merecimento... E noites, levou Alfredo, na rede, a esmiuçar os traços daquele 36 louvor estampado nas faces alvas, o olhar confidente, a testa aprovadora, na sobrancelha o acento da admiração tanto tempo secreta, agora confessada. Mas em todo o rosto do pai via também, na sombra, a outra confissão, algo que desabafasse: no entanto veja, nada ela faz para ser sem­pre assim. A outra, agora, prevalece. A outra atrás do armário da dispensa. Admire lá as garrafas, um montão. Pulou da rede: queria ver o que não viu nó pai? Ficou diante do Comte: no escuro tu, que nunca li mas foste tes­temunha, me dás ou não razão? E sentiu que toldava o rosto do pai e o merecimento da mãe com a sua insônia, com a intolerância de seu amor filial. Aqui na Mãe Maria, a mãe vinha vê-lo, curiosa, ansiosa de saber, sim, se do filho é permitido dançar no baile ou se resignava ao rancho, no arrebenta-peito? Vinha atrás dele? Temia que ele reen­contrasse Andreza? Quem sabe, por parte dela, uns longes de ciúme ou mau pressentir, por saber que o filho, por muito verde, agora estudando, no ponto de um futuro, qui­sesse... Não. Melhor não era julgar a mãe. Mas por que não lhe falava da ausente? Curioso, no chalé, em vez de Maninha, Andreza permanecia, embora longe. De Marii­nha, tudo se consumia, dissolveu-se na ponta da cercã a última bruxa de pano. De Andreza, por viva e sumida, voz, passos, cheiro, seu olhar, tudo aumentava, mas sempre menina. A mãe não sentia isso? É verdade que sobre An­dreza, ele mesmo, de boca, falava? Medo de indagar, a crer que a mãe ralhava: Ora, meu filho, que idéia essa de sempre atrás de Andreza? Pois Andreza... E soltasse a verdade, ou simples mentira, uma conversa malina. Pos­sível que a mãe deseje vê-lo lá em cima, valsando no soalho fino. Não tanto por ter subido um degrau mas por vê-lo rapaz, chegando da cidade, seu filho homem. Mãe, para nós, melhor e sempre, é o baile de Andreza. Não, não me vá pedir para entrar no baile, como filho do Major, às 37 portas do Ginásio, em Belém. Aqui, nesta porteira, filho sou, mas só da senhora. Antes o rancho, e eu lá que piso? Escabreei-me, a perna morta. Igual meu irmão por parte de pai, arrisco fazer de Andreza a minha Irene, a cortar-me com o seu riso, atrás dela arrastando-me pelo encharcado, debaixo do pio da acuraua? A mãe receia isso? Um e outro olhar dela, parece, me indaga, quer adivinhar, prevenir-me contra o que supõe ser uma sina? Com a família assassi­nada, Andreza carregava um fado? A mãe, dizer não diz, rói na entranha os seus particulares. Caçador de Andreza, não vejo um urubu-rei que voando tire de seu rabo a pena que me ajude a acertar a mira. Urubu-rei, voa teu vôo sobre o meu passo, desprende tua pena da fortuna sobre este caçador panema. Minha espingarda é meu coração, põe sorte dentro dele, com uma tua pena, urubu-rei. Ah se a mãe me pegasse chamando o urubu-rei, por certo me acreditava metido nas sessões, eu pedindo o socorro dos pajés: me descubram o rastro de Andreza. Eu atrás de Andreza enfeitiçado e atrás de mim esta mãe que desdenha de feitiço, nem parece filha do pai, dela, um velho rastrea­dor de lobisomem, de água mato e bicho muito bom sabedor. Lá está d. Águeda dispondo a louça para servir o baile, arruma doces, despacha bandeja, a guardar-se por dentro, vergar não vergara, também não se acudia com pajé, mas e a malincolia no olhar? Quinze anos com aquele sírio, era quinze dias? Maginou o pai e a mãe, olhando, juntos, o cometa. Na luz que vinha do cometa, a mãe ganhava em sossegado espanto uma feição de noiva, do cometa o véu, das estrelas a grinalda. Bem queria que fosse gerado em noite assim. Assim talvez a mãe quisesse, ela em moça surrada pelo irmão por ter pegado filho, seu noivado foi, quem sabe, chorar, chorar, chorar na beira d’água, mor­dendo cipó, o filho gerando. Quando Lucíola foi levada do campo, a mãe se ofereceu para vesti-la novamente de 38 noiva. Depois se ouvia no chalé: Lucíola assim, sim. Coi­tada, em vida, foi todo aquele tempo para a gente preparar ela noiva, disfarçarzinho a feiúra, o caruncho dos anos. Foi morrer e apareceu nela uma bem moça, a feição de uma formosura que ela, parece, guardava por dentro.., eu que sei? E aqui via a mãe sozinha, como se viesse fugindo, de repente batendo com a porta da dispensa, quebrasse com desespero as garrafas cheias e estas atrás dela com seus gargalos: E tua sede? E tua sede?
— Galopei que galopei-me. Assei, não se ria, foi. Nem sabe até onde me atirei. Corri que foi uma imensidade.
— E quem está te perguntando? Eu? Então assou o teu sim-senhor? Não coçaste o cavalo alheio?
— O cavalo deixei com o dono no rancho. Celina no baile? Coçado estou eu, mamãe. Celina no baile? Raul com a rabeca no rancho. Sempre os dois e assim anos...
— Dizendo anos como se tu tivesses idade. Falas do tempo de barriga cheia. Achas tantos anos no namoro dos dois? Seu Alberto diz que é o Romeu e a Julieta montados no boi velho, atrás da copudeira. Sendo que de família só a Julieta. Raul, coitado, realeza dele é pintando cruz, canoa, santo, máscara de carnaval, os paus de embandeiramen­to... Encarnou a Nossa Senhora da Conceição, sabias? Mas não a de Cachoeira. Uma do Caracará.
— Coçado estou eu, sim.
— Quem manda virar errante... Vamos, vamos ver esse teu sim-senhor assado.
— Raul no rancho, Celina no baile. E o tio com a filha do espanhol? Não há meio de casarem?
— Casarem? Que tu tem com isso?
— Celina sempre gaga?
— Agorinha logrou as vigias dela no baile, desceu feito um azougue pra espiar o Romeu tocando no rancho. Te 39 mete entre teu tio e aquela ai-me-acuda, te mete... Teu tio? Caiu num alçapão. Mas me deixa me calar.
Cheirava a tabaco e baunilha, esta no cabelo, uma va­gem. (Também caí num alçapão?).
— Queres, eu ponho sebo quente na assadura. Empo­lou? Te assou muito? Montando assim, tão desacostumado,. horas... Quem mandou ser um fino... Agüenta o sebo?
— Mas bem-bem quente? De doer muito, é?
— Que dói, dói, mas mata a assadura. Num átimo... Queres? Tens?
— O quê?
— Peito de agüentar?
A mãe ria. Tal qual quando o viu voltando do barbeiro do Ver-o-Peso, pelado. Mas aqui ao pé da cerca, debaixo do baile na varanda, o riso dela era aquele antigo, alumian­do mais que o baile, que as luzes da Mãe Maria. Este um baile? Não. Só o de Andreza era. Sebo quente. Na outra assadura também, aqui por dentro, mãe, para doer muito mais.
Voltavam os dois pelo campo, a pé, noite alta, rumo da Cachoeira. A mãe sem uma palavra, serena, pisando vaga-lumes. Teria ido procurá-lo? Adivinhara-lhe o galope até Santa Júlia, a busca, o interrogar dele sempre mudo, a volta até Mãe Maria, ferido da montada e daquela ausên­cia? Raul e Celina, o tio Sebastião e Dolores. O pai falou, de passagem, deles, uma noite, para ocupar-se logo de Maria Madalena lavando os pés do Cristo. Caiu no alçapão, disse a mãe. Era para preveni-lo quanto às suas buscas de Andreza? Um alçapão? O tio caiu no alçapão? Dolores a lavar, com as suas mãos alvas, o pé prato do tio? A mãe em silêncio, ele também em silêncio, guardados pelas acurauas gritando atrás e adiante. Uma légua a caminhar, por entre o gado esparso, as cobras bordejando, as aves viajeiras. Até onde continuaria mudo? Até quando este 40 silêncio, reprimindo coisas que queria dizer à mãe, a oca­sião de lhe falar, limpando ressentimentos e queixas: Ma­mãe, como a senhora tem feito tudo por mim, hein? Pela primeira vez rapaz ao lado da mãe, sozinhos no descam­pado, este em que caiba o mundo, o tempo, as paixões, este rapaz de mim nascendo, Andreza, a inencontrável... Raul e Celina, aquele no rancho tocando, esta, no baile, os dois, nessa separação, tão juntos; já não pareciam os mesmos montados no boi porque não eram mais vistos na presença de Andreza. Outrora, menino, saía com a mãe, agora, não; é um rapaz, pela primeira vez nesta solidão, que não é do campo, nesta distância não do caminho mas do momento, em que, morto o guri, vivo o rapaz, iria reatar com a mãe as relações perdidas, numa compreensão, nesta outra idade. Lhe pegar no braço, a mão pelo ombro da mãe, não sabia, num temor de lhe falar, desajeitoso de lhe aparecer perante ela um homem; olhe que o seu filho mudou de penas, me veja bem agora. Podemos continuar, por exemplo, a falar do tio e de Dolores, estes ainda só namorados ou já aman­tes, não aconteceu na igreja o que deles disseram, certo ou não, a falância corre mundo. Estaria a mãe também mu­dada, confusa, ou orgulhosa, achando tudo muito natural, ou indiferente, ao ser acompanhada na tamanha noite por um homem, que não era esse nem aquele, irmão, amante, o Major, mas o filho dela? Juntos, como nunca, prontos para a longa confidência, a ouvir dela a confissão desejada, o motivo, ou a sem-razão, o pretexto de tudo que a transfor­mava na secreta sede na dispensa. Mãe, estou aqui, aqui te escuto, quem dos dois o mais necessitado de confessar-se, de abrir neste caminho outro caminho que junte mãe e filho, restituídos ao chalé? Pesada de silêncio, ela, nem com o boi, que se levantou da sombra, se espantou, lenta. Dos mais longes lavradões subiu aquele urro, como se fosse de misteriosa malhada, cercada de onças, urrando geral. 41 Al|fredo, atrás, esquivo, no passo da mãe. Queria-lhe dizer, por exemplo, dos derradeiros meses do Barão. Do Barão queria sair antes de encerrarem-se as aulas do quinto ano. Mas até lá que tão compridos meses. Com quinze anos de repente, apanhado em flagrante pelo mundo aqui fora, lá dentro se desconhecia. Desajeitava-se, alheio às aulas, a atenção na rua, ou em si mesmo que mudava. Principiou faltando, faltando. Já na José Pio, agasalhado, por pedido da mãe, na casa do Coronel Braulino, o Delabençoe, as ca­minhadas para a Dois de Dezembro iam se tornando mais longas, mais lentas, mais carregadas de seus quinze anos. E só de meninos cada vez mais o Barão. E ele, a enfiar a primeira calça comprida feita pelo Leônidas em Cachoeira, não podia debater-se na gaiola. Aulas, o cinza da Diretora, campa, busto do Barão, pesavam-lhe. Crescia demais. Uma manhã, a ouvir o hino “Do Amapá... Amapaaaá...” não entrou, passava a máquina “Timboteua”, enfiou pela Gentil, no trilho do trem — outra máquina escoteira, desta vez a “Ananindeua” e logo o tróli que parou, ele pediu passagem —que fim levava o Antônio e o seu Santo Antônio lançado no cesto do passante, e tu, Libânia, aonde? — parou em São Brás, saía o trem do Pinheiro; em poucas horas entrava no portão da prima Angélica, casada com um embarcadiço; uma puxada porta e janela lá dentro embaixo das manguei­ras oi o camarão de espeto no jantar e o sono no alpendre guardado pelas mangueiras, a prima só, o marido no Purus. Acordou aos passos da prima que voltava da praia, cheia de peixes, a enfiada de caranguejos soltando-se tão vivos pelo corredor, e a alegria da prima? De sarar doente desen­ganado. “Aproveite as pernas, primo, me vá buscar uma farinha, um quilo — escolha uma bem boa — lá no mercado, enquanto eu te preparo estas unhas, um casquinho, gosta de caranguejada? tu vai ver, toma o dinheiro, tira daqui do peito da blusa que estou com a mão ocupada”.
42 Que senhora gurijuba, aquela, escorrendo no ombro do canoeiro, e o teu pé descalço, Alfredo, no toldo quente da traqueteira, o rio encarapinhado, a fala das criaturas, com um travor doce, dentro das montarias, me leva para a ilha, aquela (olhe a distância) tu, tu mesma, rapariga de blusa cetim, sentada na popa, lá vem o vapor do Mosqueiro. A visão na praia, esquiva — Libânia? — o mesmo rosto de maças tostadas, e olhando de olho fechadinho. Vaga notícia de que morava no Pinheiro. Corre atrás, impossível, o vulto encantou-se entre os coqueiros da olaria. Aqui peque­nininho embarcando pra Cachoeira, Mariinha já nascida, o cachorro te mordeu a mão, ouves ainda o teu berreiro, a roda das mulheres que te acodem, a mãe que te suga a costa da mão, a banha de bicho, a folha que benze, o colo que te agasalha debaixo do toldo? Crê até hoje que não foi na mão, mas no peito, aqui bem fundo. Vai morrer danado, ouviu de um moleque bem perto. Quem? Danado. Corta a língua desse agoirento, também escutou. Debatia-se, a roda em torno do seu berreiro, como se quisessem vê-lo atacado do mal que dá o cão, o cachorro fugiu, fugiu? É manso, foi que estranhou, só estranhou, muito mansinho. Não quero essa mansidão para o lado do meu filho. Dormiu quando e onde? Que acordou, a vela lá em cima sossegada sem vento, azul-azul, o jogo do rio aqui em baixo então que sossegava, sarava. De dente danado no seu coração não ficou senão esta baba. que faz saltar a adolescência, esta busca de Andreza, esta visão de barro e pressa virando Libânia entre os coqueiros e tijolos da olaria; será que as ilhas Caratateua, Baía do Sol, poço de caranguejo e estouro de maré num qualquer confim, guardam a explicação deste desassossego? Mas à noite, no alpendre, ficou na escuta: só, a prima Angélica no quarto, se embalava, desfiando ca­belo. Cupuaçu, manga, aquele cabelo no escuro, a casa recendia. A modo que o embalar segredava: vem, vem. Ou 43 não era? Doeu-lhe o ouvido, o dente do cão revolvia-lhe o peito, um trem apitou? Apanho o trem? Um cão ladrando o fez saltar da rede. Saltou para a estação.
Algumas horas depois, com um cupuaçu debaixo do braço, tão culpado quanto liberto da tentação, a pé pela Independência, chega ao Ver-o-Peso; que faço, como voltar ao Barão, explicar no chalé? Tirar aquele certificado pri­mário estava ficando um pouco para trás, passava de tem­po e gosto. Se queria um caroço de tucumã para escoar o desassossego, procurava, procurava... Ia acabar achando o coquinho lá no seio da. Dolorosa em Santana, na pedra de Santana, ouvindo ao pé da travessa de caranguejos a rede da prima Angélica. Agarrou-se a um Júlio Verne, ao lou­rinho preto de pólvora, romance de Victor Hugo, cozido a tiros na parede, onde estavam os heroísmos, onde as barricadas?. A cigana Esmeralda, na ponta do pé, saltava do outro livro de capa portuguesa, caminhava pela perna do leitor, como uma ponte sobre a baía de Marajó, e caía de­baixo dos jenipapeiros não mais cigana de Notre Dame mas Andreza sem tirar nem pôr. O corcunda de Notre Dame o levava para os sinos onde, vestida de Arcebispo, mais gor­da, brandindo o cacto, blasfemava a madrinha-mãe. As professoras, sempre cheirando a Barão, faziam a descrição da raiz no quadro negro, quando raiz era a que se entra­nhava aqui dentro uma raiz do mundo; Andreza, eu preciso te escutar, vem me dizer que é que sinto e me arde... Rever Andreza era completar a juventude? Quinze anos. Aqui os dois cortes, Leônidas, para a roupa do cavalheiro. Quanto de altura? Meu Deus, o voz de frango, vestiu o primeiro fato, comprido nas mangas nem mal tirou o alinhavo, lá se foi pelo aterro, de longe escritinho um homem, parece ainda tropeçar nas calças, esse meu filho mesmo... E sua voz mudando, sim, destoada, voz ainda alheia. Ouvindo a voz dos outros de sua idade, é que sentia a mudança, homem 44 daqui a um tempinho, afina as cordas para o primeiro cantar de galo. Talvez fosse ao desembarcar do “Santo Afonso”, chegando da noite de Santana, que começou a mudar de voz. E era seu costume, de calça curta, uma e outra vez, entrar de beiço nos isguetes da Rua das Palhas e do Capoeira, mais por simples espiar, a mãe sabendo um pouco, o pai, não. Desta vez novilho calçudo, a voz mu­dando, no Capoeira entrou. Ninguém se dava conta dele ao entrar menino, uma e outra, por instigação, troça ou acolhimento, vinha a dama tirava ele, ou ele mesmo, es­premia-se entre os pares para chegar ao corredor, onde, na passagem, segurava o braço da mais zinha, de sua idade e tamanho e esta a ter de deixar na mão de outra a cuia de mingau que bebia... Agora na calça comprida, foi entrar, afoito tirou a dama; que a música parou, ao pé dele, ama­reludo e socado, o Capoeira:
— A fineza explicar-se.
— Como?
— É dois o consentimento. Dois mil.
Com o cobrador, frente com frente. Dois? Eu? Não com a cabeça, a voz de menino, a cara enterrada, sumiu, andou no campo assustou-se: um boi no escuro com o olhar do Capoeira, nas corujas a voz do Capoeira. Ir no Salu, no Doutor Campos, no Raul, tem dois mil réis aí até amanhã? Dois. Calça comprida. Até mil e quinhentos a bom regatear... De homem para homem, o Capoeira o abordou. Fineza explicar-se. Menino não se explicava. Ah vão dizer no mercado amanhã, na casa do seu Cristóvão, que o Capoeira botou da festa o filho do Major Alberto, tamanho coirão se fazendo de mimi pra dançar grátis, o inocentinho! Que a dama dele não se tranque pra ver se não sai prenha. Beiceiro de festa? Rodolfo, zás, no ouvido da mãe, e esta, por não dizer nada, a dar mais vexame ao filho. Mas: “Por que não me pediu os dois mil-réis? Eu 45 não lhe dava? “Súbita, imprevista indagação da mãe. Mãe inesperada. Rodolfo, o componedor na mão, de costas es­cutava”. Rodolfo, o Capoeira não me botou da festa. Me cobrou, eu tinha, eu que não quis pagar, saí. Foi”. Rodolfo virou-se, surpreendido. Ele que veio dizer? Quem mais senão a Blandina da nhá Maria Souza? Não viu a Blandina no Capoeira, pintadinha de rosto que nem ovo de tetéu, blusa de marujo, sempre se derretendo de rir? Rodolfo ali­sou-lhe o ombro: Mas então já não é um homem? Dançou, se explicou. A mãe, na dispensa, dando o assunto por mor­to, fechou-se. Dança igual aquela, há mais? Não vai ha­ver, por perdida para sempre. Era uma vez quem entrava de graça, agora pagava. E ter de se explicar, pela primeira vez, na condição de homem, ocasião era. Vendo-se, pela primeira vez, tratado como um rapaz, fugiu como um me­nino. Foi um alçapão, um outro logro. Prevenido, teria de queixo em cima, chamado o Capoeira, e passar-lhe, ao pé da dama, a melhor moeda do mundo, dada pela mãe, lu­zindo dos quinze anos, pesando a homem. Perdeu.
No Ver-o-Peso, pisou na proa da vigilenga; a noite — daquelas que só no Ver-o-Peso — escorria dos bailéus, ve­lame. toldos, cargas de peixe, vozes de canoeiros. Canoeiro não seria melhor? “Deus me livre que filho meu escolha o ofício de barqueiro”. Içar vela rumo da Vigia, azulando nas salgadas lonjuras de cação e piraíba, varado de vento e sol sem nome, um. Noite do Ver-o-Peso. Um vigilengo veio da terra: meu mano, por uma camaradagem, me puxe aquele tição? Mano. mano. Acendeu o mata-rato do mano e este: “Deus lhe dê sustância”, soprou, foi soprando sobre o comércio, as igrejas, sobre a cidade, um fumo, liamba que fumava, era? No peixe bagre assando, o suspiro da prima Angélica. E deu a maré. Esperou que a Sé tocasse e a luz apagasse e o bonde do Curro o levasse a José Pio. Acabar com o Barão. Acabar com o Barão. Ao vigilengo 46 queria dizer: Mano meu, me leve, mano velho, pra aquela tua banda onde teu umbigo vira flor de alecrim, coroas de areia e peixe, os teus mais longes. Mas ia para a José Pio. O Coronel Braulino, deelabençoando, teve a distinta genti­leza de lhe dar agasalho na José Pio. Nesta casa têm senhoras, moças, velhas, moças chegando do Orfanato. Tem seu quarto, água de torneira, luz elétrica, aqui d. Celeste até que morava. Mas que ia fazer de sua imediata adoles­cência, abrindo-se aqui no quarto como aqueles cacaus do cacaueiro do quintal, o gomo quente carnudo? Já não cabia no Barão nem na Dois de Dezembro, não podia mais passar pela Santa Casa; até que uma volta para ver o lázaro na esquina da Inocentes podia dar, mas lhe ficou naquela tarde da bola aos pés do espantalho a visão do santo subindo. este raio aqui do peito, cheirosas professoras, não podeis explicar. Estava confundindo natureza com Maria Tereza? Na manhã chuvisquenta, os golpes da enxada do capinador traziam o cheiro de oriza e japana e abriam aqui no peito tal sede, uma fome, àqueles figos de Portugal na Manuel Barata, o rosto, mas tão de repente, da italiana entre os couros e sovelas na tenda do sapateiro, partia para a In­glaterra o vapor “Hildebrand” nem 5$000 para mandar ler a mão? E este sapato, boca de jacaré, sem agüentar mais remonte, pedrinha entrando, o dedão :do pé a espiar na frente o capim, o caco de vidro, a poça de lama... Chegar-dizer na cara da Diretora: sua malacafenta! Para quebrar o gênio do padre Afonso, entrar na Basílica, ligei­rinho trepar lá em cima e descer com a Nossa Senhora de Nazaré embrulhada numa folha de bananeira, feito um beiju, a servir a santa na bandeja aos mais carecentes. de um milagre, ali na General Gurjão, aqui no Igarapé das Almas, lá no São Brás entre os restantes flagelados, no Prata, no Tucunduba... Ao anoitecer, por que este silên­cio, a sala escura, esta chuva com os dedos na vidraça? 47 A quem pedir o mundo? Escancarou a janela, arrancou de fora, noite molhada e escorregadia como um peixe, a cidade que sonhava, cheirando a sapato novo, a jantar-concerto do Grande Hotel, a farofa e assado, rés-do-chão, nos Pon­dés da Quintino, a caixinha de tâmaras, o pianista que não ouviu, a exposição de pintura nunca vista, o circo nos der­radeiros espetáculos; capenga, pelo Ver-o-Peso, o elefante, coitado, os canoeiros a chamar o palhaço para comer nas proas o mapará cozido e com isso ganhar sal e gordura; sobre a espuma do chope no Bar Pilsen o pugilista Gibson e a contorcionista Magdala. Estaszinhas, quebradeiras de castanha, que passam, tão perequetés, bem queimadas, en­fiadas nas meias de algodão, vão ao baile dos Estivadores da Borracha, dançar o charleston, mas me levem, que vos sirvo de companhia na volta, nesse estirão comprido, meio assombrado fora de hora, do Reduto ao D. João, uma delas com andiroba demais no cabelo. Lá vai o forde atopetado de saias, rostos, por não se ver bem, lindíssimos, o leque oculta a mais demoniosa, carro um tanto proibido, é banho no São Joaquim? Não viu, não foi, não soube. De dia — que sol nas janelas! — o folhudo apuizeiro sobre o inaca­bado casarão da Penitenciária cravava as suas ventosas não no tijolo mas nesta barriga da perna, nesta suculenta pre­guiça, andar não podia mais, apitavam os vapores do Gua­jará, matinal de regatas, rowing, lia nos cronistas, os remos no alto, gaiolas embandeirados, baile no capitânea, ganhou a Tuna. A mãe, no chalé, lhe falava daqueles portu­gueses, cedinho-cedinho, acompanhando nas suas balieiras, o navio alemão que arriava o ferro, e quantas vezes cam­peão de remo não era o Rubilar? E agora, um remador daqueles, da Tuna, ser. Veneza do Senador Lemos é que não era mais, madrinha-mãe; nesta lama do Guajará fi­cou no fundo o campeão de mergulho Periçá. Draga que cava o rio, me retira de mim estas pedras. Pano enfestado 48 para lençol a mãe queria comprar. O comércio não fiava uma cabeça de alho. Coitada, o que pôde comprar foi três metros de pano-da-américa. Escorregou no banheiro em cima do sabonete sonho das ninfas; varando as estacas chega o cantar da Esméia, incerta pelo quintal vizinho, ou quando rebenta a corda do balde e ela chama a mãe e fisga com um esse de rede, na ponta do cabo, o balde lá no
fundo do poço e puxa, e dentro do balde vem o sapo, saltou no chão, a modo verde, a modo azul, querendo contar coisas, um olhar que a Alfredo fazia lembrar aqueles, de sua ami­zade, pelo campo, na hora de jogar o carocinho na palma da mão... Águas velhas, tão pretas, do Valha-me-Deus, do Lava-pés, os urubus bebiam. Junho ardia nas velhas fogueiras de São João, e aqui na São João entre o largo e a esquina da igreja de São Raimundo armou-se o arraial vermelho de poeira, encharcando bastava uma pancada d’água, ruidoso de roletas, toca a banda dos bombeiros, per­deu no jacaré, arrisca no avestruz, ganhando dois mil-réis, vamos ver no cine-teatro poeira do barrigudo seu Messias a representação do Tangará. No palco, a feiticeira, com seus colares, suas pussangas, era num bosque, coitadinho do Tangará, coitadinho do caçador, está cantando a feiti­ceira, e num repente Alfredo imaginou no meio da roda o sapo da Esméia, o sapo esverdeado, logo azulzinho, na ca­ beça de uma pirralha, puxando para este banco, aqui do lado, neste barracão de zinco e tábua do seu Messias, a ca­tivante pessoa da feiticeira. Feiticeira, mas deixe de tanto fazer malvadeza com o pássaro, desça do seu bosque, jogue de lado as palmas do poeira à cunha e venha na barraqui­nha, comigo, beber mas bem devagar um tristinho mingau de arroz com coco, que é o que posso lhe oferecerzinho com o que restou do avestruz, nesta noite; mas se quiser uma porção, uma enfiada de palavras de sua escolha, seu agrado, seu espanto, igual aquelas do vosso enredo no palco e no 49 palanque dos currais de boi bumbá, escritas em papel cor de rosa, aqui é que tem, até demais, bem batidas em ternura como no ovo o chocolate, e neste meu xarão guardado dentro do peito, tire, prove esta palavra, esta outra, qual mais doce, com mais canela, não faça cerimônia, abanque-se, descubra o xarão, faça como eu fiz, menino ainda, carregando um xarão de senhores doces para a Estrada de Nazaré, mas estes são. só meus, pode tirar com todo o consentimento e insistência de minha parte, faço questão, vai me doer muito se fizer desfeita, me faça merecendente; de escondido, de escondido mesmo, será um pouco mais longe das fogueiras, das luzes do arraial, atrás do muro do Esquadrão, um roçarzinho por esse seu rosto tão a caráter de feiticeira, e provar no seu beiço se ficou o gosto do mingau. Ao menos me deixe seguirzinho atrás, no rabo do seu cordão pela rua, torcer para que ganhes um diadema, o primeiro prêmio do con­curso, a melhor feiticeira dos bichos do ano, e aprender con­tigo a enfeitiçar num átimo, me ensinas? E esperou na porta do cine-teatro, eivém que eivém o cordão consagrado, no meio do aperta-cunha, povarame, ela passou na corren­teza, roça a pulseira, me dá um fio de cetim do teu colo, uma pena da tua plumagem, ao menos uma conta... Ficou foi no seu nariz, como coisa de um cheiro e de uma canção, um “perde-pra-sempre a tua. esperança”, foi? Ao longe poeiravam os bumbás de Belém; ao longe? Ou aqui dentro, neste canto de rua, defronte de seu mingau de arroz com coco, ouvindo os bumbás de Cachoeira:
O boi balanceou
tornou a balancear
chamai as moreninhas
para virem depurar
Junho. No chalé, o pai recordava: na cidade, ele um menino, era São João, a avó Tereza pedia fiado ao 50 taver|neiro um cento de bixas e uma carta de petardos chineses. Os meninos então que soltavam. Mas mal o sino de Santana badalava as seis da tarde, chave na porta, todos metidos em camisão, rede. Manduca, o primo, queimado pela bixa; a avó Tereza rezava, ouvindo lá fora passar de volta com a sua panela de tacacá na cabeça, a cafuza Brasilina. A avó rezava, tempo de guerra, guerra do Paraguai, o vai no fogo, alferes do 11.º de infantaria... A avó rezando. E aqui em junho, debaixo do mosquiteiro de filó bordado, ver a nossa mãe dormir. Ver no dicionário a palavra pitonisa. Fazer parte de uma caçada de borboletas no Marco da Légua, saber de cor o nome de cada um dos 15.000 bichos da Ama­zônia, ir em missão descobrir índios e pré-história nos rios Maracá e Anauaripucu, de cima da serra Roraima fazer jorrar as lendas. Meu Deus, de onde venho, que flor saí eu deste enxerto preto e branco? Vadios malfeitores ratonei­ros ladrões condenados, tais foram os primeiros colonos no Pará, assim falava o pai num tom de lástima e troça. Dos brigues da África descarregavam o sofrimento. Mas abria o jornal: Jacira na pedra do necrotério.
Essa é de amar
é de amar
até morrer
Cantava a roda da rua. Cantavam no tabuleiro os fo­lhetos de Guajarina, no Mercado de Ferro a $200 cada. Em agosto o pau d’arco no largo da Pólvora se cobria de dourado. Ver o pau d’arco em flor ou partir para os lar­gões e fundões do Salgado, no chega e vira dos pescadores, tempo de peixe oi vigilengas bolineiras e os búzios: onde estás que vós não vem hein seu compadre vento? Ei ei! compadre vento! Vem ventando vento velho! Onde foi que ouviu de dentro dum caramujo o sopro de Andreza? Os dois apanhavam caramujo na maré seca. Brincavam de se lembrar das pessoas que tinham morrido afogado. — 51 Que tu fazia se a finada Clara aparecesse? — E o Gaçaba? E apanha caramujo, bate lama, colhe a flor da aninga, brincando de fazer os afogados aparecerem. Mas Andreza, no que se adiantou deu um grito: rente da toiça de aninga, Olha o carreirão que levaram! (Era o filho do Poronga, peito em cima, já faz horas que boiou, entre os caramujos e os miritis da vazante, inchando). Atolar-se no caran­guejal, tirar ovo de camaleoa, lançar o espinhel, deu que deu num cardume. Quem toca violão no toldo da geleira? Quem soletra o folheto de Marina e Alonso ao pé do mastro? Tirar do peito esta âncora, fundear com ela o barco. O oceano, este-um, nunca viu, viu sim, na alcova dos Alcântaras, na voz de Antônio: ó princesa Jamarina... Sua cor, cheiro e força, sentia um pouco quando ao pé do tio An­tônio. Da Vigia para o oceano, as águas da terra galopa­vam pesado, travessia puxada a fôlego, até dar nas velas em cheio do tio Antônio em brabo grosso azulume comendo a costa do Maguari. Tinha de seguir para o largo do Quartel, cobrir-se com o amarelo do pau d’arco, em agosto, agosto é a lua no chalé muito mais lua que nunca. Mas no Barão, não. Faria exame de fim de ano como candidato estranho, no “Benjamim Constante”. O filho do seu Né da “Lobato”, o Dinoca, aluno da Escola de Marinha Mercante, falan­do-lhe do motor contínuo, falava-lhe também de um profes­sor diziam que uma onça em preparar aluno para exame de quinto ano. Na mão de semelhante mestre, podia-se fiar, deixando de ouvir a campa do Barão, ver o busto do Barão, a Diretora do Barão. Pois faria o exame preparado pelo professor Benício, no São João tanto falado. Em busca do mestre correu becos, sumiu em goelas, saltou poças, rompeu um mato, cruza o futebol, deixou passar um enterro de anjo, chega ao mestre, já arrependido. O curiboca velho, gravata e suspensório, parecia esperá-lo, com um ar maligno, ao pé da mesa atulhada de papéis, pedras de 52 dominó e gengibre, com teias de aranha sobre um Coração de Jesus, roído de bicho, amarelando na parede. Alfredo embaraçou-se, o mestre olhava como se lhe dissesse: pe­guei-te, desertor do Barão. Vou submeter-te a uma saba­tina dos diabos, Raça! Alfredo gaguejava, quase culpado diante da muda acusação do mestre, o olhar do velho dizen­do: a juventude que perdi, está aí toda em ti, ladrão! Al­fredo rodeou: não precisava combinar primeiro o quanto por mês? Necessário fazer uma prova para avaliar o grau? O velho transpirava sombriamente quarenta anos de magistério. Veio o cafezinho com a macaxeira gorda. O mestre brandia o pedaço de macaxeira contra o atraso de sua pensão no Tesouro. “Vamos ao quintal ver o capado. Cevo essa criatura para o almoço quando voltar o meu so­brinho de Roma. Ordenou-se. O sr. meu filho, já deve ter feito o seu curso de catecismo?” Alfredo mentiu: Já. “Uma coisa lhe digo: ninguém sabe nada, só o Cristo e o nosso instinto. O Cristo em viagem de inspeção pelo Universo... Resta-nos o nosso senhor instinto. Nos demais mundos o protozoário é o mesmo. Aqui e lá. Prepare-se para as provas do bode que berra em nós, don donzel. Até agora não saí da guerra imunda, velho, batido, pelhancoso, como estou, marrando sempre. Olhe este beiço, este empapuça­mento, e isto aqui cá em baixo, fechado a botão? As feras não estão na selva nem na jaula, é aqui dentro de nós que estão devorando-nos. Menino, já me pagaram os atrasados do Tesouro? Sou ainda do finado Partido Conservador, um caco do velho Partido, e fiquei com Taunay contra a Repú­blica, essa marafona fingindo estátua no largo da Pólvora, com os urubus obrando em cima. Quero o meu carneiro no Santa Isabel com estes dizeres: “Aqui jaz um bode, nem a morte lhe tirou o cio”. Entendeu? Então apanhe-me, por favor, aquele paletó, cuidado com os lacraus da parede, vamos ao Seminário? Pelo menos no Seminário pode 53 estu­|dar de graça. Nesta rua enlameada pode abrir-se a estrada de Damasco. Mas que se abra primeiro a goela do Diabo naquele futebol. Raça! Seu pai contou a história? Da visão de Damasco? No chalé? Que teu pai é esse, nos ca­fundós, que sabe coisas? Deixa-me ver teus olhos... Tens um sorrir nos olhos que principia ingênuo e acaba sardôni­co. Sabe o máximo divisor comum? Um exemplo de con­junção subordinativa. Dê-me a definição do caule. Um polígono, sabe traçar? Ensinei, sim, no interior, comecei pela Vigia. Sim, me atolei nas botas pelo mangue, descamei foi muita caboclinha ao pé dos gurijubas e dos carangue­jos. Elas me abriam os cascos de caranguejo, partiam as unhas e me davam na boca, por pura brincadeira me passa­vam a gordura não me cabe vos dizer onde. Era debaixo dos batelões emborcados, era à sombra das redes de pesca, ouvindo assar tainha. Mas uma noite, arrancado de uma rede, os machos me pegam, a um pau me amarram como cação no espeto. Meus berros quem que ouvia? “Vai morrer moqueado, professor. Nos queira desculpar. “E um fogo atiçaram e eu peixe no primeirinho calor das brasas dei um urro, um tal urro, me mijei, urrei por Nossa Senhora... Larguem, larguem o professor ah que é por demais frouxo. Só umas cipoadas no curno. Frouxo, que já fede.” Foi o que fizeram. Deixaram-me no pau, nu e roxo e foi que aquelazinha da praia, rosto barrento e olhos azulados, pes­cando camarão, vem, me acudiu, dizer duas palavras, ela dizia, mas arrancando. Com ela fui, correu minha fama pelo Salgado, meu apelido: professor Moquém. Dei um sumiço pelas praias, arrastando aquela minha acudideira, quantas noites não me acudia a pobre, comigo, me sacudin­do, eu que pulava do sono: querem moquear-me, querem moquear-me! Não foi que um dia boiei em Belém, nomeado para a escola do São Miguel do Guamá? Vinte e cinco anos eu tinha. Por isso vos digo, don donzel: prepare-se mas é 54 para as provas com aquela que ali passa, uma ciência que todos estudam e dela cada um sai mais cru e nu, condenados ao moquém. Olha, olha, olha, ali vai. Com o encarnado da saia parece dentro dum pimentão. Sobre aquilo fiz correr minha inocência, minhas lágrimas, meu suor, minha gala, meu sangue, a fé em Deus, estes meus quarenta anos de magistério, agora o meu ronco de moribundo. E infeliz de mim, do professor Moquém, que não disse a tempo o “bas­ta”, depois de quebrada a lança. Nessas questões, temos que ser o carvalho da fábula não o junco. Talvez não me compreenda ainda. Vejo, vejo os caranguejos, soltos, fu­gindo, e o cigarro que ela acendia na candeinha de azeite, logo apanhando os caranguejos. Arpoava peixe nas pedras. Andávamos então pela praia da Maiâdeua sic. Noite de cama­rão, ela voltava tão molhada como se nascesse d’água. E eu repetia: acabaste de passar as horas d’água que te cabe, minha anfíbia? A custo, depois de muito rogar, ela o rosto de lado, ia me contando do lago perto da praia, onde a donzela branca vestida de branco morava. “Não és tu quando entras no lago? Te mirando no lago, te enxergas branca vestida de branco? “O olhar dela desta vez se es­verdeava, se abria num ah! mas credo !“ Silenciosa, me trazia os camarões. E a cozinhação dos peixes, ah que pei­xes, que caldos, não era meu dedo que eu lambia naquele meu comer com a mão mas os dela, que tudo consentia, calada, calada como um peixe. “Queres o vestido branco da donzela? Eu vou no lago, te trago, queres?” Aí que a ca­lada fazia um te esconjuro e ficava entre as tabocas da parede me olhando, os olhos desafiando: Professor Moquém, vá, se atreva, vá buscar, ai dêle que se atreva. Ouvia o risinho dela, e lá na Maiãndeua sic o bater da onda. Uma e outra vez, quando punha em infusão a folha graúda do trevo-cumaru para cheiro, ela cantarolava:
“Eu sou Manuel Adriano
Que vivo nas ondas do mar
Guardo nesta caixinha
A minha noiva encantada”
Tudo que eu tinha, a ração de pureza que eu tinha, nela ficou, naquele modo dela de se calar, ralhar com os caran­guejos, de me dizer: eu lhe gosto. Uma noite, ela maris­cava, me sumi da palhoça sem dizer fum-nem-fom. Ela ficou sem rei nem roque. A praga que ela me fez — que devia ter feito e eu merecido — foi amarrar-me a este meu outro magistério, sordidamente, anos a dentro. No meu casebre acolho as bruxas, as morcegas me visitam, enfiadas nas saias que vão largando pelo chão, pendurando. Tomam banho depois no Valha-me-Deus. São elas. E do meio delas, com seu arpão, a garrafa de trevo-cumaru, no vestido da donzela, salta a vigiense, a minha esposarana da praia da Maiâdeua, como se saltasse de dentro de uma peixada fervendo. Olha, olha, vai passando e rebolando. Ainda és virgem, rapazinho? E aqui vieste ver um mestre, ouvindo a fama e topas com um bodão velho, meu filho. Vamos ver se achamos neste beco fedendo a merda a estrada de Da­masco. Sabe o que tem de impuro numa religião? Nunca me sinto tão impuro quando vou à missa, não de mim que salte a impureza mas de todos ali presentes, pecadoras, pa­dre e santo, as imagens nos recordam a nossa condição. Que condição? E que são elas, as imagens, senão o nosso arre­medo? O pau e o barro delas não arremedam a nossa carne? Saio da igreja e logo reencontro Deus aqui fora, neste ca­pim, naquele menino comido de feridas. Bem, o sobrinho vem de Roma. Além do porco uma caranguejada, quero iniciar o meu padre primeiramente na gula, depois na An­tonieta. Não. A estrada de Damasco é aqui a Antonieta com o pé na poeira, com aquele seu suar nas costas, o coçar-se, o cuspir grosso e desse cuspo o chão deste beco 56 anda fumegando. Olha as moscas... Tudo é da Antonieta, a sua calda. Estivadores e marinheiros se trocam facadas, anavalham-se grudados na saliva. Deve ter vinte anos. Me pisca o olho quando lhe tiro o chapéu e lhe avalio os dons. Parece que é dever dela deixar-se humildemente avaliar, sabendo que sou prático dessa navegação e que o meu olhar lhe diz: vai em bom rumo, vai em bom rumo, que bom barco és. Repentino me pede a bênção. Esta semana, eu dava aula, e de repente aquele sopro bem em cheio na janela: pois não era a égua, a Antonieta? E logo: bênção, profes­sor? E lá se foi, no ar um cheiro de piramutaba cozida, cumaru e enxofre. Cristo está olhando? Só o seu divino pé pode secar esta saliva no chão... Hás de ler, no Santa Isabel, debaixo do outro que escrevam, o oficial, o meu verdadeiro epitáfio. Lá se vai. Lá se vai, a égua, gosta de passar pelas janelas e soprar, lá vai soprando. Uma tarde, passando pelo Mercado, no Ver-o-Peso, vi: ela, com uma penca de baunilha na mão, consultando o dr. Raiz. Eu ia a este, ver se me recolhia esta hérnia. “Que tu estás fazendo, Antonieta?” Se você visse o espanto fingido, a cabeça bai­xa, ao me responder: “pedir pro dr. Raiz me baixar um calombo”. Eu me espiguei, me fiz mais sério, finquei a vista na demônio: Onde tu tens o calombo? Que calombo? Foi então que o dr. Raiz, com as mãos cheias de ervas, logo me atendeu. Quem sabe não foi ela oferecer a baba para as misturadas do curandeiro, ou coisa mais? Espero o sobri­nho de Roma. Lá fora, na cidade, sou o paradigma do ma­gistério estadual. Fiz um sobrinho seguir a carreira ecle­siástica. Aqui nestes becos, à noite, como um caranguejo, vou beirando as cercas, espreito a égua, ouço-lhe o riso e o cuspo ao pé dos marinheiros de navalha em punho. Debaixo da chuva, espero os velhos fantasmas, varejo com as moscas a sobra noturna. E assalto bruxas feito um lobisomem. Mas toda a pureza, a que me coube por direito 57 de nascença, ficou na vigiense. Me acudiu do moquém. Sim, vejo nos teus olhos a faísca. É a lição que te dou, esta, o mais pó são letras e algarismos. Nisto, vários cachorros rodeiam o mestre. Acossado pelos cães, o aluno fugiu. Até que uma tarde, chega a José Pio um bilhete do Barão: aonde andava o sr. Alfredo? Podia perder o ano. Doente? Muito lhe agradeceria, etc., etc. Bilhete para a mãe, esta inesperadamente chegando de Cachoeira.
— Uma diretora até que atenciosa. Foi ou não uma consideração da parte dela? Bem delicada não acha? Os termos! Até me faz lembrar a nossa professora de Cachoei­ra. Eu se fosse tu, fazia as vontades da senhora, que custa?
E ele querendo perguntar-lhe: E a senhora, que veio fazer? Por que abriu o bilhete? Por que anda falando em internar-se no hospital?
— Bem, toma o bilhete, tu quem sabe.
A mãe soprava a cinza de cima daquela Diretora. A mãe vinha internar-se na Ordem Terceira? Que doença? Que acontecia no chalé? Vindo de vez, posta na rua, depois de uma daquelas altercações noite afora? Falava no hos­pital, agitada, o bafo a denunciá-la; cortou o cabelo na moda, saía, entrava, o filho fechado no quarto. Foi o mês em que a casa, na José Pio, esvaziou-se com a ida da família para a fazenda; os parentes, a filha e netas da velha par­teira, recolheram-se de novo à travessa do Curro. De Luciana, a velha parteira pouco falava, mas toda a casa, toda a família, sob o peso da Luciana. Assim mãe e filho ficaram sós e sem tostão na moradia que ficou enorme. A mãe es­perava carta do Major para poder internar-se. Por que não trouxe o dinheiro? O filho ia na 22 de Junho, a uma casa de grades de ferro que nunca abria a janela, difícil de entreabrir a porta a quem apertou, vezes, a campainha. Ia arrancar do Doutor Intendente de Cachoeira, sempre em 58 Belém, um vale. Não era mais o dr. Bezerra. Era o dr. Amoedo, que escrevia nos jornais, línguas falava, também viajado, dizem que distintíssima pessoa. Alfredo e ele três palavras, mais não trocavam. A Alfredo doía esperar tanto, subir os degraus do corredor, gaguejando ao Doutor a que vinha... Mas traziazinho os vinte mil-réis. Carta do Major nem cheiro, O chalé desfeito? Trocaria o Liceu pela oficina para que a mãe não fôsse vender mingau no mer­cado, tacacá no canto de muro, lavar roupa no hospital?
Bom que a mãe não ficasse em Belém, vendendo min­gau ou tacacazeira, importava? longe de tudo aquilo que a consumia. Mãe e filho trabalhando. À noite, rompendo os escuros e a lama do São João, iria apanhar com o pro­fessor Benício entre o chiqueiro do porco e o sopro de An­tonieta, o pouco saber que era preciso. Na mãe via as Ilhas,. que sempre lhe pareceram fabulosas, onde ela trabalhou, aprendeu a assinarzinho o nome, apanhou do irmão, perde o filho, o culpado não acusou, não diz quem; na mãe via a Areinha onde lavou roupa alheia, arma tear, renda de bilro, lanceia camarão, açaí que apanhou nem se conta; em Cachoeira o ofício do chalé, sobre o fogão chorando, sem lágrimas, o filho afogado, chorando a Maninha. Aprecia­va a mãe trabalhar, sempre a sentir, longe ou perto, a mãe trabalhando. Também a via limpando a manga do can­deeiro, esta depois tão limpa que acendia luz nova no chalé; assim lava e enxuga o vidro da manga, com tamanha paciência e silêncio, era um modo seu de se indagar a si mesma, passar um pano por dentro de sua alma? Um anoitecer no tezinho do quintal, vê a mãe partir a lenha, a acha dura e grossa; ele voltava dos campos queimados, também queimado de sol, solidão e gana de partir; à roda do chalé, nas lonjuras, corria o fumo e o fogo, um azul crestado pulverizava-se lá em cima. A mãe partia lenha, 59 e a cada golpe na acha, era como se fôsse nela mesma, partindo na lenha o seu mistério, ou com isso corta a sede?
Não, a sorte não era seguir o pai na Secretaria Muni­cipal, no embalo da rede com o catálogo na mão, e dizer: vou ser doutor, como doutores são os filhos dos fazendeiros, DR na frente do nome. Ia seguir era a mãe, dela a família que dava filho pras oficinas, pros barcos da costa, pro se­ringal, para a esquina do tacacá, Magá da tartaruga, Mãe Ciana do cheiro-cheiroso. Primos da Rui Barbosa, tios, o avô dos paneiros, não valia mais que o Desembargador Julião, carcereiro dos caboclos do Guamá, o seu Antônio Emiliano, ladrão de azulejos, desertor da Inocentes, o fan­tasma dr. Edmundo voltando da Inglaterra? Mas desconfiava que ia assim ficando injusto com o pai. Por, ser daquele pai, também não valia? Trazia ou não trazia do pai o sangue de ser doutor? Via no Major o bom de fazer coisas, usar ferramentas, o avesso do Secretário. Debaixo daquele oradorzinho oficial, escrivão do Conselho e do In­tendente, Major de papelório e sessão cívica, não estava um mestre de oficina sentido com o mundo e consigo mesmo por não ter ficado ao pé de uma forja ou da sua impressora em Belém? Via o pai, às voltas com catálogos, saudoso, quem sabe, do bom trabalho, querendo repetir, numa tenda de ferreiro ou tipógrafo, os dias da criação, no domingo  olhar a sua obra. Que era mesmo trabalhar de verdade?, Horas, ficava o pai, vendo o pedreiro usar a colher no reparo do fogão no chalé. No tijolo o toque da colher, fazendo a massa, não mais tijolo, agora do chalé carne e osso. Que nem o pai, o filho invejava o fazer o pão no Delfim. Ao pé da masseira, diante do forno, sentado nas sacas de trigo ou ajudando o padeiro a retirar com a pá os muitos pães, era o pão, pão que vem da Bíblia. “Não sei qual mais prefiro se cortar pano ou fazer pão”, dizia o Leônidas. Logo o Major trazia um catálogo, roupas de 60 ho­|mem. Paris. E por que não chegava para perto da mãe: Mamãe, vou ser padeiro? Que tal nós dois, a senhora no mingau e eu no pão? Ou trazia no sangue o germe daqueles ofícios que o pai tem-não-tem, faz isso, faz aquilo, acaba não fazendo, por ser um Coimbra, e vem a política, aca­bando Secretário? Quem trabalhava, de vera, no chalé, o tipógrafo seu Alberto ou o Major da Intendência? Vezes sem conta, pulando da rede, não ia surpreender o pai à janela, espião da noite alta, saudoso do cometa de Halley visto no oriente das três e meia em diante, um pouco abaixo de Vênus? Mais que o pai, a mãe trabalha, mais, mas muito mais, desde lavar todo o chalé carregando água do poço até acudir com irrigador, calomelano e termômetro os doentes da vizinhança e a uma boa légua nos campos. Ficava, então entre a cabeça do pai na cauda do cometa e o pé da mãe no estrume da horta? A questão fincava em ganhar dinheiro e mais nada? Este é que é o valor do trabalho, só? Entrou numa padaria de São João; com o pão saindo, com o cheiro daquela fabricação voltou, empoado de trigo, limpo não sabia de que, trazia uma alvura indefinida, muito íntima, maior ternura pela. cidade e pela chalé, maior sim­patia pelo Rodolfo, o tipógrafo, pelo Leônidas, tão padeiro quanto alfaiate... E um temor também, quase uma co­vardia, um quase desespero: a pique de enterrar no forno e na masseira, não o seu colégio, já perdido, mas o Ginásio sempre em vista? Não tinha vaga na padaria, nem de ser­vente, e pareciam espantados com ele, como se lhe disses­sem: mas tu, mocinho, que andas com livro debaixo do braço? Torra o teu, debaixo do sovaco. Deixa cá este outro pão conosco. Foi o dia em que voou o último tostão da mão da mãe, e um novo vale do Intendente não podia. E passou o aniversário — quinze anos! — em jejum, flutuando, entre as cadeiras forradas de branco na sala aberta sobre a José Pio e o largo onde jazia, inacabado, com toda a feição de 61 ruína histérica, coberto cercado de mato, o casarão da Pe­nitenciária. Tinha sido velho sonho dos governos dotar Belém de uma cadeia senhora cadeia orgulho do Pará coma pedia o progresso, a boa educação, os preços da borracha. Mas esta, águas abaixo, deixou foi a Penitenciária Modelo do Norte do Brasil agasalhando flagelados do sertão. Al­fredo saía da janela, flutuava, insônia, novos jejuns, correu padarias, sem querer furtou do cesto um pão de tostão, cresceu-lhe o pão no estômago, no sonho morrendo, sepul­tado num pão. Espiou oficinas, chegava a ver a mãe esten­dendo na corda os sombrios lençóis brancos da Santa Casa ou aqueles que por um acaso amortalham indigentes no porão. Um domingo, na raiz do cacaueiro, debaixo da chuva, aí largou-se abrindo cacau, abrindo cacau, a ferver a adolescência, que-que era viver?
— Mas, meu filho?
— Senhora, mamãe? Que te deu?
— Que foi?
— Alfredo!
— Abro cacau, que tem demais?
— Mas, meu filho, assim chovendo, debaixo da chuva, nem sentindo chover?
Veio a carta do pai, sossegada na cama, a mãe no hospital, com a freira desdobrando-lhe o lençol alvo, a papeleta na parede, em branco; logo chegava a Dorotéia, a prima cozinheira — que valia por duas — dos brancos de São Jerônimo. As duas toca a conversarem. Saiu pela São João, carregado de pressentimentos, com a Gentil, Nazaré e a Inocentes nas costas — que doença era, ia curar-se? — por que em vez dele, à Dorotéia? O risco de encontrar-se, sem mais aquela, com a d. Celeste e dela ouvir: por que, por que, não me avisaste, Alfredo, por que me deixaste ir atrás do meu sobrado, que conta me dás dos meus azulejos? Viu 62 em Muaná o raso-raso onde uma vez era o casarão de d. Celeste. Ir à Rui Barbosa, para avisar os primos não ia, vexado, a papeleta na cabeceira da doente, em branco; Do­rotéia, cuidadosa de nada dizer, fechada, vendo-o como se visse ainda aquele menino da noite de Areinha. Teria de falar ao médico? Abordar a Dorotéia? Passava de longe pela Quintino, e via, na esquina, a Magá, com seu tacacá, suas adivinhas cheias de baunilha e pimenta, rodeada da freguesia. No caminho da Cidade Velha:
— Mãe Ciana! Mamãe no hospital. Vai lá? Na Or­dem Terceira.
— Dê no meu nome este cheiro pra ela.
— Também tem freguesia na Cidade Velha?
Aí Mãe Ciana embrulhou a língua. Vergadinha, car­regando o cesto de cheiro, mas mais carregada do seu Lício, de quem andava à procura, sempre. Aonde o seu Lício, Mãe de Deus? Diga, diga, diga logo à velha, ou não tem Mãe de Deus? Na travessa de Alenquer, à porta do funi­leiro? Na Dr. Assis, imprimindo “O Semeador”? ou por dentro, perdido, do palacete Pinho, entre os pombos do telhado e os urubus da família? Desta vez fabricando bombas? Em que janela de sobradinho pendurou a suada e libertária camisa, onde pousou o cachimbo, este já não lhe acendia as idéias, a revolta, o seu caminhar? Morria de sua barriga d’água na D. Tomázia Perdigão? Tem tido no­tícias do Guamá? Quando virá aquele noivo da Etelvina, à frente de seus irmãos de roça e pesca, para fincar na mão da estátua, no largo da Pólvora, o arpão e a foice? Mãe Ciana, a pé. pela Cidade Velha, fazia as carunchosas ruas velhas recenderem cheiro-cheiroso a duzentos réis cada papel; ia espiando pelos casarões e calçadas algo do seu Lício que ela conhecia bem. Talvez fôsse no Porto do Sal só para cochichar consigo: aqui o diabão velho embarcou aqueles dois perseguidos, que foram se embora, que Deus 63 anote e pese na conta do pecador. Até que Alfredo voltou com os papelinhos de cheiro, passava pelas ruas proibidas e mal faladas ao pé da Caixa D’água e vê, à janela acima um palmo do calçamento, a chamá-lo, uma, semblante mais de mãe, “meu filho”, ela dizia. Avançou, atirou-lhe os pa­pelinhos, foi que pressentiu, estremece, atraído, uma acesa maligna curiosidade: se ali a Libânia... correu fu­gindo da própria calúnia ou da suposição, quem sabia, que chegava a seduzi-lo, sentindo-se réu, e adeus o papelinho de cheiro da Mãe Ciana, que era para a mãe. Libânia, aqui não é tua moradia mas lá, no teu chão, guardada pelos tajás. Porque que não ia mais ao Barão? Voltou ao hospital, entra na enfermaria, e a mãe? Fugiu, sussurrando-lhe, atarantada, a freira velha. Corre na José Pio, nem mãe nem mala da mãe, em que fogão da São Jerônimo pegaria a Dorotéia? Saltou no Ver-o-Peso: a mãe tinha seguido no barco “São João”. Imaginou-a na rua, fugindo do hospital, jogando o lençol na cara da freira, pobre mãe na cidade, agora no toldo do “São João”. Re­cordou-a, aquela noite, coberta de cinza e pranto, ao pé do fogão: minha filha dentro da cova cheia d’água, como o outro, também se afogou, ela vem aqui me ver, vou enxugar a roupinha dela, Alfredo. Teu lugar, meu filho, é no estudo. Correu as ruas dos brancos, podia ser que encontrasse a Dorotéia. Não. Um foguetão d’O Estado, aglomeração defronte, era o placar, telegrama do sul, mo­vimentam-se tropas, mudam comandos; revolta, revolta, ouviu. Lembrou o 22: a madrinha-mãe, com as suas pules do jacaré e do touro, apostava no Nilo-Seabra contra o Seu Mé — a mulher do dr. Nilo que senhora! Com estopim na guelra casou contra pai e mãe que não queriam na família aquele que foi um mulatinho vendendo pão em Campos — rugiu em julho o Forte da praia, rugiu só, foi traído, 64 ca­|lou-se, saem dele pela areia do mar os dezoito rapazes contra quantos mil? Uns leões, meu filho, uns leões, uns leões; o pé no Palácio das Águias subiu o Seu Mé, subiu o Rolinha; ao pé do cacto, desconforme de banha e solidão, olhando a casa vai-que-vai abaixo, a madrinha-mãe, embuchada nos seus espantos ou no seu mistério, uns leões, mas,. Virgílio, meu marido, tu roubou? Roubasse grande, grande, grande, no roubo feito um leão, uns leões; “revolta”, ouviu-a dos engraxates carcamanos, vibrava a barbearia, na escada da Biblioteca o gato esvaía-se, a pata quebrada, num miado surdo; indiferente, descia dos livros, carregado de espiritismo e caspa, o dr. Bessa; com o latim e as musas na pasta pendurada no cabo, brandia o bengalão o professor Menendez, rumo do Liceu, e sem chapéu, no branco H. J. o cravo lascivo na lapela, no mesmo ar de quem fez da cidade o seu harém o velho Pennafort; ria um da janela d’O Esta­do, dentuça escura, a melena; bala nessa canalha, escutou, assustou-se; na porta da joalheria, de costas para a vitrina, a esfolar as chagas do ofício, o arrogante mendigo. Que vão falar, no pedestal da República, os oradores contra a môsca e a morte dos anjos? Que me diz de tudo isso, car­voeiro que passas, tu, ei, carregador, puxando o teu carrinho, sabes de alguma coisa, jergelineiro sic ? Lá em baixo da Campos Sales, como se a rua fosse águas a dentro, era o rio, de cobre, no sol fervendo. Quanto uma coalhada no Café Manduca? Dois à direita, paga! Louça! Já vais, Barriga de Bacu, é hoje, na Cristal? Um completo! Revol­ta? Ora! Bernardes está firme que nem rocha. Deu a vaca? Que centena? Abanque-se, Porca Prenha, vens do Foro? É o barril de pólvora, o Exército esta não engole. Lá vem o Matraca, Abdon removido para as profundas. O estopim em São Paulo? Olha aqui uma viúva, garçon! Dr. Acilino! Dr. Acilino! Angina pectoris? Olha, é 65 ama|nhã a cabeça de gurijuba no tucupi, no Marco, pessoal, carreguem o Genaro! Dou o pescoço se aquilo não foi pênalti. Tirei a pública forma, sim, foi no Chermont ah mas eu vou ao Supremo... Já disse que com aquele arminho das togas, limpo o meu sim-senhor, o meu sim-senhor. Tem razão o Mac-Donne: foi fal, fal, fal! Trancou o Estandico pelas costas, plena área. Mas está dentro dos autos. Do oficial de justiça molhei a mão com duzentos, molhei a do escrivão, molhei a mão... Ah mas vou ao Supremo, justi­ça choldra, quem entra no Foro sai fedendo. Mas foi pênalti escarrado... Aquelas peles de lontra? Esta coalhada azedou, como tudo nesta cidade, azedou, volta com ela, azedou. Telefone para o sr., dr. Osvaldo. O Manduca exi­bia os jogadores de futebol,, a legalidade e a subversão, o tribuno que recitava nas sessões cívicas: Los cavalos de los conquistadores, los cavalos de los conquistadores... O solicitador Samanajás, ao peso de sua papada; o eminente leprólogo; o Procurador Geral, cavanhaque e colete e um ar colonial e um tom amortalhado; e sendo muito cumpri­mentado, por mais uma nomeação nova, entra o dr. Bra­gantino, o Barata Branca do Palácio, cabide de empregos e de interinidades, também suplente do Juiz Seccional; sentou um padre, levantou-se o quiromante, roçando a so­brecasaca e o croasê do desembargador Fulgêncio; saltou da mesa o auditor de guerra, irmão mariano, atrás da en­chapelada, rumo das transversais; na janela do “Nova América”, o castanheiro do Baixo Amazonas, chegado ago­rinha no “Marcílio Dias”, a seu lado, cobrando-lhe a notícia da chegada, o gordão Laudelino, diretor e único distri­buidor do seu hebdomadário; abriu-se o leilão na esquina, de novo na janela, espirrando com a melena conspirativa e a dentuça da mazorca o macilento da oposição; entre a balbúrdia dos despojos, berrava o leiloeiro, até os tapetes 66 suavam. Girou no largo das Mercês, vara o corredor da Alfândega, ninguém na capatazia, o cais no sol guinchava. E agora na Gentil, 160, bem atrás do quartel federal? Que fazia o batalhão? Chega a Nazaré, já está correndo o circo de cavalinhos lá se foi ele no elefante, aquela tarde, tio bimba-tio-bimba, chegando de Cachoeira, outras tardes, sem dez réis, só olhando, e a Libânia, a sua vez também, escanchada no camelo, séria, nunca viu tão séria, ao tom da musiquinha, valsa? polca? fedendo a vapor que saía da caldeirinha a lenha, subia-descia, a maquinita do cavalinho, ai meu Deus que coitadinha tão esfalfada, os desbotados, pacientes bichos subindo descendo rangiam rodando, quan­to menino carregou, e ao pé das babás barbadianas, quantos anos, avô carroussel, pode que daqui um pouco com a re­volta no quartel o carroussel voe; esse quartel é baixo desconforme, quase rente do chão, agachou-se demais. Por devoção à sua vizinha, a Senhora de Nazaré toda prosa na sua Basílica em obras que nunca nunca os padres deixam acabar? Esse quartel tem uma entrada de catacumba, pin­taram a guarita, me deixa entrar, seu sentinela? Quais as ordens, que hora toca rancho, e a prontidão? Mas onde estás, madrinha-mãe, velha moradeira do 160, escolhendo bago a bago o frei joão pra janta como se fôsse munição pros teus leões? Uns leões, uns leões. Uns doidos, uns doidos, psiu, psiu, uns doidos, dizia o pai no chalé, abrindo na antologia a página de Herculano. Eivém que eivém o trem da carne, carrega os buchos do Curro ou as armas do paiol? Vai sair em armas o batalhão da fina flor de Belém que faz as honras da parada, do bal masquê do Pálace, do arraial de Nazaré, em uniforme de gala, donairosos sar­gentos do 26 B. O. sois de salvar a República? Será que tão cedo assim anoitece? Cometa sino Usina trem arriam a bandeira (aqui na memória: do piano dos Alcântaras, no 67 160, um som grosso já noturno, quem tocou? O espírito do Carlos Gomes, que sempre tocava no seu piano no Museu Comercial, quis agora experimentar o dos Alcântaras? Suava de menino o vovô carrossel, corre deste largo, fugi­tivo do Barão, queres saber porque tua mãe viajou, onde anda a Dorotéia? anoiteceu, e este silêncio não demora é estrondo. Até que chegava na José Pio, devia ter indagado da mãe sua doença, sem arredar o pé da cama, que te fizeram no hospital, mãe? A rede gela, a insônia ferve, não estou aqui, estou na rua, um tiro? Tiros? Longe atira­ram? A luz apagou, fuzilaria, foi? Ninguém passa? Tropel no largo do Esquadrão, é a ronda, patrulham no Umarizal? Despencam do subúrbio os brigadas de fundilho puído para dar combate aos galãs da tropa federal. Os heroísmos, as barricadas, será? Mas d. Dudu vai virando a sua máquina, costura que costura dúzias e dúzias de ceroulas, com prazo de entrega, da loja Au Bon Marché, parou de repente: Mas, Alfredo, aquele-menino, vais sair de novo, não te faltas da rua? Deu urtiga na tua rede? Olha o tempo, rapaz. Que­res café? O tempo? Café? Quero os meus quinze anos, o trovoar lá fora, o estampido, a trincheira, lá fora é o tempo. A fina flor da farda desensarilhou as armas novas em folha, soprou as luzes da cidade (fecha a Basílica, padre Afonso, primeiro nos entregue as torres para os nossos ninhos de metralhadoras. Que a Milagrosa nos guie), e aqui os quinze anos chocando a rede, debaixo da vossa casta anágua, d. Dudu? E este correr pela rua, salta o valão podre, que é isto? um porco, nestes fedores recende heroísmo, e este medo? Melhor voltar, afinando o ouvido e à delícia de escutar largado no soalho aquele tirotear longe, fantásticos tiros, troou. surdo longe, longe, e um arrepio e esta segurança — d. Dudu costurando, café, montão de ceroulas se o repente de um pelotão bababá! na porta, 68 en|trincherou-se na Penitenciária, com os cearás flagelados pulando dos seus trapos, valei-nos santos do Cariri, me acuda, São Francisco de Canindé! Saber que é a morte e é bela na praça onde caem as mangas, jorra sangue do 26 B/C, às armas! com a foice no traseiro o Desembargador Chefe de Polícia despencando pelo pedestal da República, cubram com o beijo das cheirosas professoras e com a sumaúma desta sumaumeira os mortos do primeiro assalto, enterrem na Soledade, nas antigas covas da febre amarela o soldado de barriga aberta sobre a roseira, que é morrer heroicamente? Voar desta rua, deste escuro no Igarapé das Almas, deste mal-assombrado em que se enroscou a cidade e cair dentro da barricada mas onde? Qual? Onde o Valjean carregando este jovem pelos canos do esgoto para os braços de Andreza? Onde os clarins? Dança na escada da Basílica, cigana Esmeralda, é o corcunda de­pendurado nos carrilhões ou é o padre Afonso? Esqua­drão de cavalaria na São Jerônimo, tiros na Piedade, caí­ram os sargentos como carneirinhos no fogo do B. I. tão estadual, três meses de atraso no Tesouro, a farda de bunda furada. Carreguem de dinamite a Berlinda da Vir­gem, lancem o carro sagrado sobre o Palácio, pegou fogo o carroussel? Desembestou pela Boaventura da Silva um cavalo de carroça, bateu no fio de eletricidade que está caído, meu Deus, passem de largo! Forneiam pão nesta padaria, alguém amorosamente saltou pela janela de onde lhe afiram a penca de jasmins, como escolher: esta janela ou o pau-de-fogo? Luziu um sabre no escuro? Tio Sebas­tião, sabido em armas, falou no picar pipocar da metra­lhadora, aqui em Belém têm canhões? Lá vai outro cavalo relinchando pela Dois de Dezembro, aqui é um breu de mau agouro e silêncio, apreensão, incerteza, zoando que Manaus está na mão dos revoltosos, levantou-se o Forte de Óbidos, 69 guardando a garganta do rio, de onde vem a lancha “Ajuri­caba” fumegando Amazonas abaixo, eivém, eivém, Manaus na mão dos tenentes, zarpam de Santarém e de Monte Ale­gre os gaiolas em pânico, eivém a “Ajuricaba”, virou corsário nos estirões, rompeu pelo Arumanduba, deu ordens em Prainhas, saem de Belém as patrulhas contra a lancha que se esconde nos Estreitos, sabe de cor os esconderijos, enfia-se pelas águas secretas, virou pelo fundo pajé sacaca, oculta-se no perau, de repente boiúna de canhão na cabeça, apagou os faróis no paraná da Laura depressa chamem os dois encouraçados nacionais a “Ajuricaba” desfez-se no Cutijuba, rondou pela baía do Sol, espalhou-se na Boiçu, recebe lenha em Curralinho, seu banzeiro sobe no Cocal, fundeou em rio que ninguém sabe, ouviram o apito no Guamá, meteu-se entre os jacarés do Arienga, entrou pelo Arapiranga, intimou a barca-farol de Bragança, seu rastro ouvido na barra; aqui no Una Curro Velho Souza Franco Reduto beirando o rio e o cais, fogem o povo, eivém o terror de guerra, é a “Ajuricaba” armada em canhoneira, ou Belém se rende ou. canhão bufa, lancha que ninguém vê e seu nome em toda parte, encha, vaze, no seco, no balcedo, o canhão na proa, por isso passam de muda na rua escura com as suas trouxas e seus curumins chorando os habitan­tes da beirada, silenciosos e apressados pela noite escura.
É naturalmente melancólica a. gente da. beira do rio. Face a face toda a vida com a natureza grandiosa e solene, mais monótona e triste do Amazonas, isolada e distante da agitação social, concentra-se a alma num apático recolhi­mento, que se traduz externamente pela tristeza do sem­blante e pela gravidade do gesto. O caboclo não ri, sorri apenas; e a. sua natureza contemplativa revela-se no olhar fixo e vago...
Corre a beirada, pelo olhar fixo e vago dos beirantes de rio, o banzeiro da “Ajuricaba”, espuma o beiçame de mangal e estiva, a ubá a vapor, canhão na proa, caboclo no leme, manobrou na correnteza, nos rebojos, empinou sobre o pedral, e voa a estória da fabulosa barranco acima, várzea afora, furo a dentro. Já se refugia o Governo, como sempre no Arsenal de Marinha, para isso acha-se às ordens, com maçãs na mesa, o Comandante da Flotilha, esta encalhada, os cascos na lama do Curro Velho e do Porto do Sal; para isso está às ordens o Capitão do Porto, o garbo em unifor­me no palanque dos desfiles, embalando-se, à noite, arraial de Nazaré, outubro, nas cadeiras de embalo da Sociedade do Descanso, doido por compota, almirante no mandar fazer as camas de campanha dos asilados. Tudo que for a Ordem Constituída, asile-se no Arsenal, por via das dúvi­das. Assim foi no Lemos, assim com o Enéas Martins, bom papel higiênico usa a Marinha. E se vier a “Ajuricaba” barra a dentro? Pois não é só ferrugem e rato a fortaleza de Nossa Senhora das Mercês da Barra? Tanto é que aquela cobra grande, pleno dia, subiu, espiou pela boca dos canhões velhos, contam que engoliu os dois vigias que ali dormiam, jantou os ratos e afundou a fortaleza. Esvaziou-se o Ver-o-Peso, barcos e canoas sumiram-se, restavam cofos e grudes pela calçada, os urubus sobre caranguejos mortos. Queimando vingança e cólera, sentou ferro na Tatuoca a lancha guerreira, são os tenentes de Manaus, o tapuio no leme, acordem roceiros do Guamá, manobrem doutro lado, tomem os trens, jantem com compota no Arse­nal. Nem um bonde nem um tiro. Proibido o ajuntamen­to? Aqui d’el rei! Aqui d’el rei! dizia o pai, repentino es­cureceu a Cidade Velha, o Ver-o-Peso, o largo de Nazaré, será que as chaves dos transformadores da Usina estão na mão do seu Lício? Passou buzinando a Filomena (levava feridos?), badala a campa da carroça do leite, chegou a 71 hora de queimar mosca? Bandos de anjos montando os cavalinhos ao som dos tiros do 26 B. C. Aqui atrás na Gentil, no 160, querias espiar pela persiana, madrinha-mãe, te esvaindo de medo, os sargentos acabaram com o atraso do Tesouro, com a mosca que fabrica anjos, a soltarem trens e trens de mantimento para as fomes do Guamá. No 204, o dr. Bessa, de fraque e algodão no ouvido, invoca o irmão do além que faz cessar o ódio, o sangue, os ais. No 236, saem do jardim de Valmira pelo portão aberto os ja­butis em fila, com a dona em cima dum, a chamar: o sargento Ponte e Silva, é o terceiro sargento da segunda companhia. O que me trazia balões do arraial. Ou então me chamem o praça 123, da terceira, o 123, sim. Um moreno que me fazia adeus do trem. Qual dos dois, Valmira? Qual dos dois no largo escuro, riscado de tiros? Toda ela um marfim em meio das peças de artilharia e sempre em cima do jabuti, a barragem de bala, os legalistas atirando das janelas do 160, escalando o muro do quartel, os jabutis es­palham-se na Dois de Dezembro, acertam o caminho do Bosque e das marés do Una, deixando no largo aquela alvinha bem em cima do jabuti fiel, a que chamava pelo sar­gento e pelo praça, de repente calou-se, deitou no escuro, e as sumaúmas caindo das velhas árvores amortalharam-lhe o corpo, e os sonhos e o coração que não sabia se era o sargento ou se o praça. E do jardim na Gentil, no 236, colhidas pelas balas, voando, vinham cair aos pés da morta as rosas, as dálias, e uma folha de pega-rapaz. É certo que na Piedade tombou o filho da nhá Felismina pedindo: água? E o Major Vasconcelos? Que tanto buzinar é aquele? O leiteiro deixa aqui a garrafa, um quartilho; irrom­peu a passeata com a moça do gergelim, empunhando o es­tandarte da Sociedade Imperial Artística Beneficente e o do Dois de Ouro, o bumbá antigo, entra a cavalaria no 72 Palácio, chocam-se animais e sabres no salão dos despachos, despencam das paredes os retratos dos Governadores, salta janela abaixo com um lustre na cabeça o cavalo do brigada; ao Arsenal! Ao Arsenal! No ombro dos seus netos da Rui Barbosa a Mãe Ciana espalhando cheiro sobre o povo; em vez da tartaruga, Magá abre o casco do Contra-Almirante, sete pratos à fogo lento nas fogueiras da Triunvirato, e seu Lício, o gorro no ar: agora a bomba, agora a bomba. Aba­nando as fogueiras e carregando os cunhetes de balas, des­cem da Sé os santos e os anjos e os bons defuntos ali, por acaso sepultados. Com seus uniformes bem talhados no Baliu, os finos mancebos do 26 B.C. se enroscam nos parale­lepípedos, historicamente amarrotados, calando baioneta, granada na mão, no bolso do dólmã o lencinho cheirando, e eivém mais trens passando por cima deles, os trens tra­zendo o Guamá em peso. E subir, de fuzil, a torre de Santo Alexandre para anunciar com sino, e paisano, e pálido, e quinze anos, suando medo e heroísmo... Mas lá está no chalé o pai com a calça no rendengue, pé no chão, Camões na mão, junto da mãe que torrava café, como sempre, na segunda-feira, queimando no torrador uma folha de canela:
“Dai-me uma fúria grande e sonorosa”.
Nisto, na barraca da esquina, a criança tossindo com guariba. Deu uma aragem, espreguiçou-se a mangueira carregada, foi que foi manga. Esta é tão doce... E esta... qual das duas mais? Tempo delas? Aquilo para as bandas do Marco da Légua são os fogos da revolta, as granadas do 26 B. C., ou dia raiando?
Patrulhas pela Santa Luzia, com armas na mão, be­biam mingau na Velha Leocádia, madrugadeira da esquina. Quebra aqui pela Curuçá, adiante pela Soares Carneiro. Já o padeiro da José Pio?
73 No velho serão, acabando a encomenda, a d. Dudu vira que vira a máquina:
— Mas a noite toda na rua, menino? Te perdeste? E eu... Bem. Que for o teu, será. Mas a revolta, viste? Não? Pois eu daqui deste meu assento escuteizinho, acom­panhei os tiros com o barulinho desta máquina. Tu te es­condeste onde? Não te escondeste? Já queres café? De onde trouxeste tanta manga, aquêle-menino.
Palavras não eram ditas e já no corredor aquele ran­ger de bota, mais negro que de costume, cantil na ilharga, um jabuti no ombro e desta vez catingando, o tio, o tio, o tio Sebastião.
— Tem aí uma roupa velha? Uma casimira do Coro­nel Braulino que já não sirva? E uma ceroula, dessa, me serve, me serve, com sua licença, me serve. O jabuti, este, é teu, era da moça.
— A moça? Que foi, titio? A moça? E o “Ajuricaba”?
— Dá o recado pra Dolores que deve ter seguido pra Cachoeira. Me meti. Perdeu-se. Sobrou um bando seguin­do o cabo de metralhadora na mão pela estrada de ferro. Obrigado pelo café, d. Dudu. Tenho que voar. Não estive nunca aqui, me ouviram? E tu, meu sobrinho, Deus que te abençoe, mete a cabeça no livro. A moça? No necrotério. Dela este jabuti. Vou caçar onça no Mocooões.
Com o jabuti no braço, longamente a pé pelo Reduto, arrepiado pelo Ver-o-Peso, voltando a ser o menino que viu, pela primeira vez, aquele defunto no necrotério, Alfredo se aproximou, entre curiosos: a forma alva na pedra, alva, não sabia se a mesma transparência — iam abrir? — e não estavam as sumaúmas nem as rosas nem as dálias nem os jabutis nem o sargento Ponte e Silva nem o praça 123. E então, com aquela morte tão alva nos olhos, o jabuti dentro de casa, carregou o Barão até o fim do ano, 74 comen­|do o bolo de milho da Justina, a servente do Barão, adeus porteiro veterano de Canudos, o tio no Mocooões matando aquelas onças, que por estas de Belém andava perseguido.
Levado a fazer o discursinho de adeus, salão cheio, tanto rosto de menina agora moças, sentiu-se girando; atra­vessou pro Muaná, com o jabuti, carregado pelas palmas que soaram no Barão, pelo cabo fugitivo de metralhadora, este — um assombrava pela estrada de ferro — um dia volta, um dia vem que vem com todo o Guamá atrás — e escutou o derradeiro chiar da velha máquina selvagem da “Ajuricaba” na mão, do Governo. E o abraço da Diretora, coitada, como lembrança, me faça presente de vosso espar­tilho? O pai espia o certificado, o indicador sobre a nota oito: E agora? O liceu? Bones, bones... Cada um arrote os cabedais que possui. E voltou a folhear o catálogo dos terçados Collins New York 212 Walter Street.
E foi que roxa, de roxo, ao fim da novena, lhe apareceu a Eunice. Ainda só de olhares, e pouco, da parte dele ape­nas o será, me engano? Eunice, o queixo e a vista sobre o arraial, e de leve, pelo rosto de Alfredo lá do outro lado, parecia roçar a pestana e o seu pouco caso. Na palhoça da tia Lúcia, as primas, negralhonas de escorrer piche, os dentes de tapioca, lavavam gomavam para as famílias. E vai que Alfredo viu, na tábua de engomar, o organdi de Eunice. Pronto, com o tal vestido se abraçou..
— Mas, primo Alfredo! Me deixa o vestido da outra sossegado. Martinha, vai, mea filha, corre na casa da d. Eduviges, me chama a filha dela aquela cara de batata roxa, pra vir acenderzinho a cera aqui na mão deste meu morre-não-morre.
O organdi era o feitio dela, o esquivo, o arisco, a soberbia por pura faceirice, a súbita roxinha na porta, logo entrava para debruçar-se na janela e isto num 75 relâm­|pago, a deixar ver unicamente a mão enfiando a agulha... Quis furtar o vestido, levá-lo nos braços, como se carrega um paramento de santo, até a casa de Eunice e dentro das dobras do organdi, bem macio, uma palavra, e o seu suspiro.
Eunice, de lilás, mais roxa no pó-de-arroz, entrava na igreja, ver uma sinhãzinha de Alencar nas Minas de Prata, mas roxa, e saía, esguia comendo suspiro, o doce; um redondinho rosto sobre o arraial, e menos que um repente flecha­va o rapaz ali só te olhando ao pé do xarão de pastel, tocou a banda, Eunice fugindo-lhe. Para ganhar paciência, ser visto pela Eunice, se numa casualidade por ali passasse, ia conversar sem nunca falar da roxa, por baixo da janela, com a Odaléa, toda manhã, ambos comendo ingá dos graú­dos, azedos tamarindos, ou mangabas que os caboclos tra­ziam nos paneirinhos. Com a Odaléa queria perder receios, um simples aprender, o encanto da janeleira logo ele trans­fere para Eunice, quase de se dizer: esta desta janela aqui não mereço. Ou mereço? Ela, uma prima do lado branco, filha da professora diplomada no Gentil Bittencourt, co­piava modinhas, pronomes sabia, do alto de sua janela até boa prima, com o rosto a dizer: melhor do que tu, Deus me diz que não sou. Ele, assim, tentava usá-la, esperando que a batatinha roxa visse, soubesse, suspeitasse, e comparasse diante dele a roxidão dela com o brancor da outra. Que bom par faz, o bem moreninho com a bem alvinha! lhes falou, eram dez horas, a velha tapuia a estender roupa no capinzal defronte. Debruçada, Odaléa conversava as quan­tas coisas. Por exemplo: seu namorado jornalista de Belém escrevia no jornal sobre os olhos dela mas tão bonito. Men­tira, diziam os olhos dela. A boca ia falando, o olhar desmentindo. Queres também, Odaléa, fugir num navio? Não vem mais vapor a Muaná? Os bailes a bordo, acabou? Tam­bém esperas morar na Passagem Mac Donald? Perguntar 76 mesmo, não perguntava. Odaléa, o sol bem no rosto, na boca o grude da mangaba, parecia adivinhar-lhe as pergun­tas. E assim com palavras sem palavras, longo longamen­te conversavam. Lá no peitoril. Odaléa não fazia diferen­ça entre sua pele e a do primo cá em baixo, o pé nas cascas de fruta. Alfredo, por estudar, subia ou não subia um de­grau, branqueava a pele?
— Debaixo da casca morena, o gomo branco. Que é que é?
Era a fala da lavadeira. Ingá? Nunca de ser. O par que tanto conversava? Alfredo e Odaléa nem como coisa, faziam que não escutavam, acima estavam, ali maldade nenhuma nem com o ninho de caba que brincavam, mão em cima da mão, os dedos dela mordendo como marimbondos. Abriam os ingás cada bago um veludo maciamente devora­do. Um sumo de mangabas eles também sorviam que até podia dar uma tontura, sumo dos quinze anos. No capim os lençóis alvejavam, a rede se estendeu num azul desmaia­do. A lavadeira cantava:
“Pescador da barca bela”.
— D. Tertuliana!
— Vá falando, mea flor.
— Um ingá?
— Tenho tido febre noite sim noite não, mea flor. Ingá faz mal. Comam os dois por mim, faz de conta que saboreei. Achando alvo o lençol?
— Quero um mais alvinho.
— Para o dia?
— A senhora já vem? Chega. Estenda a sua roupa. Não está mais quem falou com a senhora.
— Vou quarar, sim mea flor, um, mas tão alvinho e que o casal caiba, ah que Deus assim consinta. Rezo que ele seja moreno.
77 — Crie termos, d. Terta. Olhe lá o passarinho pisan­do a rede. Que-que lhe deu que a senhora hoje me anda tão saída? Aquele passarinho em cima da rede quer é lhe dizer alguma coisa...
— A chaga do amor quem fez que cure, dizia o meu avô.
— A senhora carrega na alma é a má intenção, d. Terta, espante é que é o passarinho.
Alfredo olhou a cerca, as anáguas da Odaléa desabrochavam.
— Nunca é torto o seu juízo, d. Odaléa. Sem direiteza há bom futuro? Nunca pise em ramo verde.
— Este aqui é meu primo, a senhora bem sabe. Pega, conversarmos? Estuda na cidade. Nossa conversa é no maior desinteresse. Não esprema a sua pimenta que não arde.
— Ainda bem que reconhece nele o seu primo, que seu primo é, o filho da Amélia da Areinha. Também o coração escurece que escurece tudo...
— Mas d. Terta! Agora isso... Cuide a senhora dos seus lençóis, que eu cuido aqui de minha janela.
— Minha filha, lavei as tuas sunguinhas, Deus me dê vida pra poder lavar as roupas do teu dia. A Deus peço com pureza d’alma.
— Ah, d. Terta, enxoval meu será só nuvem, nuvem, nuvem. Igual aquelas.
— Os anjos salpicando a goma na roupa? Nossa Se­nhora passando a ferro?
— D. Terta! Aproveite o seu sol, que aproveito este meu não fazer nada.
— Pronto! O vento derrubou da cerca as tuas intimi­dades... É esta, esta manhã ventosa... Senta o rabos. vento! Rum!
78— Mas d. Tertuliana!
— Que é mea flor? Que tem?
— Já chega, d. Terta. Vou tapar meu ouvido. Alfredo, que era que a gente falava? Olha, não vai reparando na d. Tertuliana.
— Pecador da barca bela...
— Pecador?
— Ou não é?
Uma tarde, afoito, com o jabuti num paneiro, Alfredo tira. do bolso a carta, a primeira que escrevia, três vezes passada a limpo, letra a capricho, o papel, do mais fino, tirado da pasta do pai, passou o envelope no pó-de-arroz da ceguinha, leu alto para o bacurizeiro na. raiz do igarapé, e que tal, japim? Indagou de vários ninhos.
— Odaléa... Te trago este jabuti. Mas primeiro lê isto.
Ela, no que viu, cruzou as mãos, suspensa, virou-se para os fundos da casa num súbito receio, deixou cair o ingá. Com a pressa de tirar do envelope o papel imprevisto, caiu-lhe o broche que lhe atava o peito da blusa, oh pescador da barca bela, ah barca bela, Alfredo intimamente repetia, agora confuso, a lavadeira pendurava de novo na cerca aquelas intimidades.
— Mas a Eunice? Te declarando para Eunice? Tu? Na tua idade? Bem, faço muito gosto. Tenho que fazer lá dentro, agora. Licença.
— Ao menos põe pra dentro o jabuti que é teu.
A carta no ar, Alfredo apanhou no chão, a janela es­cureceu, o jabuti sumiu-se, olhou para a lavadeira, correu para as filhas do seu Crisóstomo, debaixo da mangueira, atrás da igreja. No meio delas, a carta na mão, a janela vazia, a roxa na janela, Odaléa pisando mangabas... Afoi­to, pede à Silvina um simples favor, não lhe fazendo de 79 criada, levasse a cópia da modinha guardada neste envelo­pe até as mãos da Eunice, podia? Ver um bando de abe­lhas, as filhas do seu Crisóstomo caíram sobre aquela flor aberta ao calor do fogão, e dela tiraram o doçume, foi geral a leitura, virou um recitativo, oh coisas tão sentidas, olhem, olhem, olhem a modinha dele. Semelhante modi­nha queria eu. Isto é que é declarar-se, como aquele zinho, com o resto da casca de pinto ainda agarrado nele, apren­deu? Mas olhem, este pedacinho aqui, faz de conta que é pra mim, meu Santo Antônio, como ele fala dos quinze anos... Virgem de Nazaré, chega, chega de ler que senão choro, que chorar sempre foi o meu fraco. Cada sentimen­to. Eunice nas nuvens. Eunice é ver uma fada no bosque. A roxa, coberta de ouro. Mas olhem me escutem aqui só esta passagem. Aquele vestido dela, que não acho lá essas coisas, o lilás? Está aqui, inteiro, aqui, mana, mas menina! Donde ele tirou então tanto lisonjear? Demais bonito para ser verdade ah que é demais é. Ah canarinho. Tira coisas de lá de dentro da gente que só. soprado, o diabo não so­prou?
Mas soa o telefone no ouvido da Eunice, era a Sinhara depressa ao pé da inocente; eivém a destinatária, de roxa que era ficou escura, saltando fina na mão da outra ai! seu nome na saliva de semelhante pessoal, a carta machucada, pública, gasta da leitura, já rota na ponta — tirado até o nome dela, — bem embaixo da assinatura a nódoa da man­ga, de sobejo as palavras no papel, beberam todo o sumo, da carta, que restava, senão um papel servido? Sem ler, sorrindo, se fazendo de acima, rasgou em miudinho, peran­te os presentes, brusca murmurou: aquele apresentado! Eras! Os restos da carta queimavam-lhe a palma da mão fechada, fugiu, o resto da tarde, em segredo e com raiva, a juntar os pedacinhos; veio a irmã e soprou, desfez a carta 80 pelo quintal, virando arroz no bico das galinhas. Mal com a irmã, esperou, à noite, pela passagem de Alfredo que morava na vizinhança. A barraca do avô na Areinha andava mudando as palhas.
— Rodeia, fala comigo aí atrás.
A casa era de esquina. A primeira vez que ia falar com ela! Do parapeito da cozinha, entre as folhas do tajá orelha de burro, veio a voz baixa para as estacas aqui fora:
— Mas quem, quem que lhe autorizou quem lhe falou que a Silvinha já é o correio da vila? Quem? Ela é ela, eu sou eu. Foi-foi mais um seu propósito, que eu bem sei. Se eu tal soubesse... Que autorização lhe deram, quem lhe pediu fosse deixar, logo onde, na mão daquelas foguetei­ras? E eu, minha cara no meio delas, servindo de pura ca­çoagem, com o papel espremido, meu nome tirado. Era o meu nome? Que cabeça, só um pateta mesmo. Ou seu puro propósito? Seu leso. E agora?
E agora? Que queria dizer: E agora? Não havia mais remédio? Aquele segredo na boca do mundo? A carta na ponta da língua da Silvinha repetindo as passagens no ar­raial? Do parapeito, entre as folhas do tajá orelha de bur­ro, a roxa desferia o seu carão que o tornava feliz, cada vez mais embaraçado, feliz, mesmo no risco de perdê-la, também enleado pela sensação que provocou nas outras e agora, é verdade... aquele pasmo na Odaléa e o “licença”... Depressa escrevo outra, Eunice, melhor, melhor, envelope lacrado, mas desce do parapeito, mal te vejo entre as folhas desse tajá orelha de burro na sombra, vem aqui nas estacas. Sei que estás de lilás, sim, e tudo isso ele não dizia, não dizia nada. No poleiro próximo, as galinhas ra­lhavam. De cima do parapeito e do tajá, a roxa, que se calara, ia de novo cochichar mas nisto:
— Que está fazendo, roubando galinha da comadre
81 Eduviges? E que jabuti aquele que Odaléa mandou de vol­ta? É o que trouxeste de Belém?
Era a mãe saindo do escuro e que o levou para a frente da casa — tinham de partir de madrugada — se despedi­ram da comadre bem sentada inocente no passeio, e da filha vestida de lilás com o seu olhar dizendo: E agora? Na “Borboleta”, o chalé retornava a Cachoeira, com o jabuti na bagagem. Ah custosa manhã pelo Marajoaçu, temer as correntezas do Canal, o embaraço diante da mãe que- não tocava no assunto, as três moças na espuma da hélice, vi­rando na roda do motor, saltando em torno da “Borboleta”, ah esta lanchinha que, par de anos! sempre, sempre nave­gava. Carregara-lhe a. infância, agora os quinze anos, uma carga bem pesada quanto... cuidado, frágil. A viagem cheirava a mangaba? Na proa o tajá de Eunice abria as suas orelhas de burro. Mas Odaléa? A janela vazia? Pesca­dor da barca bela... Debruçada na janela da casa caindo, que se dissesse que Odaléa era uma flor, se podia dizer, era. Um cochilo na borda e foi Odaléa a sair das mangabas, en­tra, o cabelo na testa, na casca de ingá... Deslizou do cochilo, desemboca no rio do chalé, o magro, o torto, o íntimo Arari, vamos passando Araquiçaua, boa tarde, idosas goiabeiras, bodes velhos, velhas pedras esverdeando de limo, o meu limo. As pedras têm mãe, dizia o avô. Aqui deixei de comer aqueles camarões, para sempre. Clara a Jacirema, as afogadas, boa tarde. Lá, muito mais adiante, foi o banho do tio na noite de Santana. O tio caça onça em Mocoões. Enfim, Eunice, Silvinha, Odaléa, adeus, Muaná, até outro ano, será?
— O Capitão Modesto manda lhe dizer, Major, pro se­nhor passar a noite no “Fé em Deus” que ele quer muito conversar com o senhor.
82 Foi o grito da beirada, depois do aceno, a “Borboleta” diminuindo a marcha. Aí a mãe gritou também:
— Como vai a Socorro? A tia Maria? Na volta dou um pulo aí. Quero levar uns filhos de bogarim. Sim. Bogarim!
— Vá, vá lá. O teu compadre Modesto quer conversa, seco pelas novas. Me dá, Amélia, aqueles jornais dali. Vá lá, psiu, psiu, se em “Fé em Deus” tem demais lama, porco sobra. E coco e receita do compadre Capitão para curar o Brasil. Entre no Puca, seu piloto. Vamos lambiscar um arroz doce, um leitão guisado do nosso patriota.
O Major calçou o bute, juntou aos jornais dois alma­naques, a folhinha, um horóscopo. A mãe desata a rede, tirou do baú a saia do passeio, piscando para o filho. Su­biam o Puca, o igarapé do compadre capitão Modesto, enfia­do num senhor palmeiral, sossego que chegava de abafar o motorzinho. Trapiche arriando no tijuco. Saindo do co­queiral a casa toda esperava, feito chegada de santo. Mas só ao voltar do banho no igarapé, do cocal maciço, do chiqueiro onde os porcos dormiam cevados, é que Alfredo se espantou: hum, a mãe recebida de grande? Aqui esposa e não esposarana? No meio da família branca do compadre capitão Modesto, até mais senhora que a dona da casa? Num ar de visitante que já esperava as honras, ciente de que as brancas se admiravam dela, a cercavam, não mais pelo Major e sim por ser a d. Amélia ou porque, melhor que o Major, ela é o chalé? Ou por mãe de um estudante em Belém? Agora, mamãe, te quero saber. Sabia? E ela, pela casa, das mulheres rodeada, a língua não poupava, fingindo não estar surpresa, achando natural o acolhimento, usou mesmo esta e aquela palavra só usada pela professora de Cachoeira. Vendo-a assim, por que levá-la para o chalé onde a esperava a fatal sede? Sim, mãe, à vontade, menos lembrar-se de troçar do seu filho encontradinho nas 83 esta|cas, venta no escuro, ouvindo a batatinha roxa cochichar: E agora? A mãe fazia que nada viu, até agora. Do filho falava pouco, só o estudar dele em Belém, muito para o “Fé em Deus”, bastante para ela, mãe. Abriu, para a curiosidade das moças, o seu baú. “Ainda tem por aí muita língua, língua de pirarucu, ralando conversa de que o seu Alberto então que me enche de coisas,, pois olhem bem o meu baú.” E olhou para o filho, como se indagasse: você, sim, não? Não? Logo no quarto se reuniram em torno de roupas, rendas e da viagem que a filha mais velha do Ca­pitão Modesto — estava pra ser pedida — tencionava fa­zer a Cachoeira.
— D. Amélia, chegue e prove deste doce de miriti. Doceira chegou na senhora, parou. Pois prove. Não! Não me diga que está bom, mas deixe de caçoar, jure! A delica­deza dela! Então, parabéns, passaste na prova, Rosário. Manda o teu te pedir já-já, agora mesmo, antes que a d. Amélia diga do teu doce o contrário.
— Mas olhe, olhe... A principal coisa quando eu che­gar em Cachoeira é a senhora ir comigo me levar na d. Du­duca. Com a senhora. Com a senhora só. Com quem? Quem? A sua prima em Belém? Ah mas eu noiva da roça... noiva? Nem pedida estou. A senhora escreve pra sua prima, escreve? Bem, se a senhora falar com ela por carta, eu até que aceito. Costureira da cidade é senhora costureira, eu não sei? Se a senhora interceder com a sua prima para ao menos talhar o meu vestido ah d. Amélia qual o pago que lhe dou? Pois lhe guardo um botão. Lhe guardo? Mas a senhora, quem lhe disse que a senhora não vêm? Uma. das poucas pessoas presentes é a senhora, não brinque. Tão bonitinho que é o seu brinco...
— Ei, meninas! Parem com os remos, que assim esta canoa vai longe. Estão me fazendo aqui de Vossa Senhoria?
84 Alfredo quis sentir que isso era com ele, uma satisfação a dar-lhe a mãe encabulada? Não a ponto de alguém j perceber, só ele, mais adivinhando. Uma coisa temia: que a quase noiva fosse à Cachoeira, meter-se no chalé, pegar na dispensa... Pobre mamãe! Não! Na varanda aberta sobre o igarapé e o cocal, o Capitão Modesto, atando a rede para o compadre, desatava os seus assuntos de um ano. Estou cada vez mais bicho do mato, mais bicho do mato, dizia fingindo, se fazendo do ronca e cru de tudo que lá fora acontecia e desacontecia. Que novas me dá da nossa velha Europa, compadre? Assim dizia por vaga pavulage, assim falava num ar zombeteiro e entendido. Nunca saía do “Fé em Deus” nem para votar, era em sua casa a eleição do distrito. Alfredo, devagarinho, curioso, divertido, via na mão daqueles dois oficiais da Guarda Nacional, um de chinelo, outro na rede, a cura do Brasil e do mundo. O com­padre Capitão dosava a pastilha que fosse desendoidecer os homens. Sacudia a pastilha, infalível. No Major, com o coco verde ao pé, um encolher de ombro, o embalo senten­cioso, a pachorrenta segurança de que se sabe mais íntimo do mundo lá fora, a finória cautela pelos olhos, arrepian­do-lhe o bigode. O filho ouvia no chalé o pai dizer: Psiu, psiu, aquele meu compadre Capitão Modesto? Salva o Bra­sil e todo esse velho vale dos homens, emprenhando a urna na própria casa, tempo de eleição, reunindo o eleitorado vivo em torno do toucinho e do foguetório com os votos daquele outro lado, para onde depois vamos. À noite, Al­fredo espia a beiragem, marezão, encostou uma veleira, salta o piloto com o violão, saiu serenata. Alfredo acomoda-­se ao pé do oratório, ele e a mais novinha da casa, alheios à serenata e à conversação geral. Alfredo punha-se longe, mal refeito da viagem súbita, do encontro interrompido, a reatar aquela conversa entre a roxinha do tajá e o coruja 85 da cerca. À mesa do oratório, no castiçal tão bem areado que se acreditava de ouro, a caçula acende a vela. Deva­garzinho ia Alfredo descendo do parapeito de Eunice, da janela da Odaléa, até que uma furtiva palavra da mocinha o fez cair no alçapão. Então, foi, tirou da bagagem o jabuti, dou não dou, dou não dou, e deu: tome que lhe trouxe, trate bem dele. A moça indaga. Ele sem explicar nada. Deu-lhe, no silêncio, um brusco pesar pela Valmira, brusco, o impul­so de sair dali, correr entre os coqueiros... A moça só olhava, estudando aquele embaraço, curiosa, ansiosa, fa­minta de conversar, de tirar dele, rapaz da cidade, o que a cidade tem, oculta e promete. Num querer ganhar intimi­dade, fez-se mais dada, como coisa que ele era de casa, um primo, puxa um assunto mais travesso, resvala aqui, dis­farça ali, foi passando nas palavras e na faceirice a sua urtiga e o seu anel arqueava-se no riso ou de repente cara de anjo, a voz proibida, o todo sorrateiro, o olhar facheando sobre o desconfiado. De embaraçado, foi por pouco, Alfre­do chega a saliente. Já nem sabiam como principiaram. Reinavam com o castiçal.
— Com que então ele se parece?
— Tu... Tu! Me morde aqui. Eu que puxei? De nada sei. Me encontraste uma inocente. Que vai que és tu, que da palavra inocência nem a primeira letra sabe. Mas fala bai­xo... É? É comparado um castiçal?
— Que é que foi isso? Encapuçou a cabeça?
— Este capucho de palha? Veio forrando as garrafas de cerveja. Foi na última eleição. Gosto. Não é ver um chapéu? Ofende os seus delicados olhos?
— Muito lhe agradeço ter tirado o chapéu. Foi tirar e é seu cabelo cheirando...
86 — Esta loção? Encomenda de Belém. Faço uma eco­nomia dela! Raro ponho no cabelo. Só-só nas grandes ocasiões.
— É? Quando?
— Ainda está pra chegar esse quando. É o castiçal?
— E o vestido? Tem um lilás? Tem?
— Lilás? Eu viúva? Este, cor-de-rosa, é a primeira vez que visto. Gosta? Não gosta. Sabe, eu queria ser uma errante.
— Por que não? Já não é?
— Errante, seu maldoso, não é o mesmo que cair num erro. Então pra caçoar da gente é ele...
— Que adivinha é? Falei torto?
— Te veste de anjo, olha-olha as azinhas dele, voa, voa logo. Lá vaizinho ......
— Desentendo. Não mordo a isca. Estás escrito a Eva.
— De nós dois, pescador, sou eu o peixe. Eva? E olha que daqui um pouco um santo abre o oratório, diz: acabem ai com essa conversa. Mas se assemelha? Sopro a vela para uma comparação? Me diz, sem dizer, basta mexendo a cabeça, antes que o santo abra a porta. Quem me dera eu Eva.
— Os santos acabam falando: licença para entrar nessa conversinha tão da boa?
— Mas incréu! Põe no fogo a tua urtiga. Gosta de botar teus maus pensamentos na cabeça alheia, não, seu espertinho? E o castiçal? É? Principiou de tua boca, por mim que não. Olha, primeiro aceite um pedaço deste meu doce de miriti. Não, deste aqui com a marca do meu dente. Vai comer com a minha peçonha. Não se gabe. Come. Te dá nojo do meu dente? Ah, ah, engoliu de uma vez... assim que não, que te engasga.
— Com a tua peçonha?
87 — Falazinho mais baixo que os santos estão de orelha em pé. É parecença do castiçal? Vossa senhoria pode me dizer?
— Ora, quem pergunta... É? Já não viste?
— Mas ah... da minha parte lhe agradeço pelo belo juízo. Tanto que não esperava de um cavalheiro se ins­truindo na cidade se atrevendo a semelhante aleive contra uma enterrada neste igarapé Puca do meu pai capitão Mo­desto.
— Onde a graça?
— Eu que te pergunte: onde?
— Que foi que eu disse? Ludica é apelido ou teu nome no tabelião?
— Nome não tenho. Ludica é nome de agrado. E tu, me diz, anda, me diz um agrado, dos teus.
— Ludica.
— ...
— ...
— Calado? A causa? Olhando o meu pescoço? ....... Sim. Sou pescoçuda.
— Ludica, Ludica...
— Agora isso... Bonita era uma irmã que eu tinha.
— Onde mora com o marido?
— Foi japim fazer ninho na seringueira, naquela, atrás da casa, pronto. O mau agouro era a doença da Líbia. Doença atrás dos pulmões.
— ...
— ...
— Também minha irmã...
— Sei. Sei. Soubemos. Não fale.
— Não demora e estou aqui para o seu, Ludica.
— O meu? Meu enterro? Me desejando a morte assim tão cedo?
88 — Debaixo do laranjal encontrei d. Ludica apanhan­do rosa branca, rosa branca pra se casar. Rosa branca é casamento, d. Ludica vai se casar. D. Ludica, deixe disso, deixe disso, olhe lá.
— Quando quiser aparecer, dá prazer. Não pra me ver casando.
— Por uma casualidade comigo?
— Desincumba então seu pai do pedido. Meu compa­dre capitão, peço a mão de vossa filha, pro meu filho se casar.
— Quem sou eu.
— Eu que diga eu quem sou. Eu tão zinha ele tão zão!
— Só sei que não demora, papai no chalé imprimindo o cartão de comunicação.
— Perco muita agulha, aquele-menino. Quem perde agulha, se casa? Depois sou tão desamorosa. Me varreram o pé, perdi meu casamento.
— Da outra vez que passei por aqui, não tinha um gramofone?
— Tinha? Quando? Te lembra, Ludica, te lembra... Meu Deus, que desmemória!
— Tinha que eu sei. Quebrou?
Bem, agora estou me lembrando... Não reparou que a casa arredou um par de braça mais longe da beirada?. Tinha. Hoje já teve. Pois uma noite a correnteza deu mas deu! que botou no fundo a sala com gramofone a preguiçosa do papai o disco da viúva alegre coqueiro da beira e tudo. Correnteza? Cismam da cobra, uma grande ai ao pé mo­rando. Devia, era ter me levado também. Ó moradeira do poço, vem! Me leva!
— Morrer por morrer, melhor tocar viola.
— Viola? Sabe do sapo pai?
— Me parecendo que sei, mas me diz a que tu sabes.
89 — O sapo pai dizia: quando eu morrer quem quer vir comigo?
— Eu que não eu que não...
— Não corte a minha palavra, seu cabuloso. Os sapi­nhos logo-logo não respondem. Os sapinhos ficam é o bico fechado. Como eu devia ficar ao pé de ti, me costura a boca, depressa, mamãe...
— Linha cinqüenta ou quarenta?
— Eu que te costure o beiço, seu cabuloso.
— Com o fio do teu cabelo?
— Cabuloso, me deixa acabar a passagem do sapo pai. Enjoou?
— Quanto mais te oiço mais me dói no osso.
— Obrigado.
— Não tem de que.
— Até quando rasgando as nossas sedas?
— Até quando.
— Bem, onde a gente estava? Ahn: e de novo o pai sapo: quando eu morrer quem quer ficar com a mea viola? Euqueroeuqueroeuqueróeuquero. O sapo lá se foi com bei­rada, coqueiro, viúva alegre, o cartão do couraçado “Minas Gerais”, gramofone e tudo, até um dia. E a viola do sapo comigo.
— E dá coco lá no fundo? O gramofone toca? E a viola, onde guardas? Que é a tua viola?
— Coco dá, sim, muito. Devera! Pela fé da mucura. Mas por esses teus olhinhos não estás me acreditando. Toca. Da rede escuto. Oiço um baile, a meu lá. E a viola, só eu vejo, sou só eu que toco. A viola comigo
— E comigo, não?
— Levas tudo que estou te dizendo para o lado da mal­dade? Não te fia!
90 — De ossos de borboleta queres fazer uma carcassa de zebu, puxa! Bem, está na hora de mergulhar. Mergulha?
— A gente mergulha, como? E a mãe do poço?
— Pelo menos dormir. Não, não, que o meu sono é um chumbo. Pode que por lá eu fique, não volte. E tu?
— Ah aquele-menino, meu dormir é por demaiszinho leve, comi foi ovo de tetéu.
— Tetéu? De tetéu só sei que patrulha o campo, no que pressente o caçador, vai avisando os guarás, as marre­cas, bom amigo é. Também faz sono leve?
— Então? Tetéu voa leve, pisa leve, se sustenta le­vezinho num só pé, leve-leve, de jurar que ele pisa em cima d’água como numa folha de aninga... Leve-leve, O jeito é tirar do ninho do tetéu o ovo, a gente se reparte. Não. Te dou a minha metade, que noutro dia já comi um inteiro. Se comer mais, nunca mais durmo. E assim de sono leve a gente mergulha. Vamos mergulhar? Um, dois...
— Antes de dizer o três: De Adão e Eva?
— Quem tu és... Que é que faço com o dono desta prenda... Vamos jogar prenda onde nem tu nem eu pode dizer por que? Do contrário, paga prenda.
— Por que?
— Pague, pague prenda.
— E tu quem sois pra cobrar prenda?
— Quem sou eu? A dona da viola.
— Quando pagares prenda, a prenda é a tua viola? Me deixa procurar onde guardas tua viola? Euqueroeuqueroeuqueroeuqueroeuquero
— Tu maldosinho não és, é maldosão. Onde estou que não me levanto? Voa, voa, tetéu, me guarda deste caçador.
— Tetéu sabe onde estás, onde estás? Caminhando para ser a Eva, assim me sopra o tetéu. Por dentro do rio é o paraíso, sim. Sim?
91 — Escuta o meu caminhar?
— Um tanto longe. Está apanhando ainda os cocos no fundo.
— Mas eu tão perto? Não me olhe, que eu tapo o rosto com a mão.
— Te dou quebranto?
— Tem olhos venenosos.
— O teu?
— Que fosse, eu queria. Que tu acha?
— Penseroso? Pois eu visto o meu cor-de-rosa novo-­novo e o meu cavalheiro vem e pede que vista um lilás. E agora? Me vê? Que é que vê?
— E agora? Foi o que ouvi de uma pessoa em Muaná. E agora?
— Como é a graça da tal pessoa? Me diga o santo, senão me levanto, me meto na rede, nunca mais, lhe deixo esquecido aí no banco. Quem foi?
— E agora? Tire as mãos do rosto. Assim fica mais
— Não precisa, que o espelho vem me dizendo todo dia isso. Que vê com o meu rosto tapado? A feiura não tapei? Adivinhe, ande.
— Um anel no dedo direito, quem te deu?
— Não digo nada a ninguém. Como é o nome da moça
te disse em Muaná: E agora?
— Ludica.
— Axi! Ludica é esta aqui, sou eu, não uma qualquer, não sou a alheia. Feia esta é mas não outra. Moro no “Fé em Deus”. Não quer dizer? Não diga... Por mim... Que eu perco em não saber? Grandes mistérios! Curiosa eu sou das coisas que valha a pena.
92 — Destapa a vista. Pois advinha então quem sou. Eu que sou, sei? Não sabemos. Sabemos?
— Por que então saber que não sabemos?
— Sabe a pergunta que fez?
— Sei. Esta: quem lhe falou lá em Muaná: E agora?
A modinha que o piloto está agora cantando, conhece? Que é até bonita, é. Sentida... Quer me copiar a letra? Piloto, piloto, não me diga que o senhor é o boto...
— Vamos ouvir mais de perto?
— Esta nossa serenata aqui não entoa? É a minha viola que desafina? Te custa saber onde ela está? Fada do bosque, toca no meu ombro com a tua varinha, que eu fique já-já vestida de lilás pra merecer a companhia deste meu apaixonado das outras.
— Aprecias tanto assim o doce de bacurí?
— Vício. Por doçura dou a vida. E tu?
— Comi andando uma vez um xarão de doce. Quase inteirinho. Foi na cidade.
— Nossos gênios combinando, não?
— Em doçura?
— En en sic
— Sapo velho, onde a Ludica tem a viola?
— Sapinho, sapinho! Deus castiga o preguntador. Não está ouvindo a viola? Só de ouvir não satisfaz?
— Espera... assim. Tira a mão dos olhos, assim na luz do castiçal tua feição me lembra. É a princesa Magalona?
— Varre, varre, vassourinha. Me belisca a mão? Me belisca a mão? Belisca? Brincar de vassourinha, vamos?
— Varre a casa do rei e da rainha.
— Pico pico maçarico quem te deu tamanho bico?
— Se sou bicudo, és espinhuda. Varre, varre, vassou­rinha.
93 — Bico tens, espinha eu não. Varre, varre, vassou­rinha.
— Isto é uma vassourinha da nossa pura invenção, não?
— Tua. Minha que não é.
Vem, fecha a mão em cima da minha, vamos: dás licença de tirar um limão?
— Com isso vem, só estou a tua cabeça! e belisca a. pele de mea mão, eh, vê lá. Varre a casa do rei e da rainha.
— Dá licença de tirar um limão?
— Só não querendo... Mas cuidado com as cabas que têm muito.
— Ai, assim não. Teu dedo não belisca, ferra, ninho de caba.
— Varre, varre, vassourinha. Se afrontou com o meu belisco?
— Quem te pôs ferrão nos dedos?
— Variando da cabeça? É o castiçal? Não bote as mãos na cabeça, que chama a morte.
— Que-que fiz pra te lembrares do castiçal? Vamos levar o castiçal pra alumiar nosso mergulho atrás do coco do fundo e do gramofone? Quem que leva- o castiçal? Va­mos alumiar o sono dela no poço, a cobra? Quem que leva o castiçal?
— Quem? Quem? Ora quem. Teu mau juízo não te queima a língua?
— O castiçal te queima?
— Castiçal? Falei em castiçal? Meu Deus, me tape o ouvido.
— Mas o nosso mergulho?
— Que mergulho então esse? Alfredo, acorde, que estás sonhando alto. Acorde senão cai da rede.
94 — Mas os coqueiros lá no fundo não estão carregan­do? O gramofone tocando?
— E agora? Quem te disse em Muaná: E agora? Sou indigna de saber. Desmereço? Quem?
— Lambisca o mistério. Bem, foi o gramofone aqui do fundo. Vamos?
— Eu mergulhar de lilás? Por que ela disse “E ago­ra ?“ Que aconteceu a ela, que foi, que malineza tua, que vocês dois fizeram... Se não contar, eu maldo a vida inteira, um besourinho vem de Muaná me diz. Queres que eu vá vestida de lilás? “E agora?” Foi só o que ela falou, depois? Pintou a saracura em Muaná, hein? “E agora?” foi só o que ela...
— Não. Não.
— Não. Que foi mais?
— O meu “não” é que não vais mergulhar vestida de lilás.
— E com este? Por que aquele “E agora?” Hein, cul­pado, hein? Não queres que eu mergulhe com este? Eu tenho mais dois, um azul e um branco. Escolhe. Mas antes do mergulho, me faça as vontades: que foi aquele “E agora ?“
— Esqueceu o acordo?
— Bem, não imploro. Acordo? Tem por escrito. As­sinei documento? Meu pai selou? O acordo do paraíso?
— Mas não foi? Não íamos levar o castiçal?
— Onde, onde?
— O castiçal? Mas não estás vendo aí na mesa?
— Aí na mesa? Aí na mesa? Meu Deus, ele vê coisas que eu não vejo!
Ou só tu vês o invisível?
— Que é o invisível? Me explica. Saber eu quero. Estão servindo café. Queres?
— Não.
95 — Que tu queres?
— O invisível.
— Então estou aqui, a invisível. Café com miolo de boto, aceita? Eu faço. Faço?
— Então faz.
— Ah meu malinoso. Deixo a Deus o teu castigo pelo bom do juízo que fizeste de uma pessoa que vos recebe com todos os agrados e respeitos. Quem puxou? Eu? Tu. Tu só. Eu sabia?
— A Eva. E café com aquele miolo, vais servir? Faz virar o coração de quem bebe?
— Olha, olha o santinho. Maliciosidade ai chegou, pa­rou. Vou até me arredar um pouco de junto dele que esse mal pega. Pega no ar. Pega no ar? Depois, não quero ser a outra, torcendo as orelhas: E agora?
— Respirei, foi respirar, o teu suspiro, peguei, o teu, mal me passaste. Ou é o efeito da peçonha? Me dá água carmelitana, depressa...
— Morremos então juntos? Vamos no mesmo caixão para a mesma cova? Sabe onde o cemitério destas bandas? Sabe que é até bom morrer cedo?
— Tudo isso dos dentinhos pra fora, vivente. Faz o café, quem te trouxe o miolo? O próprio boto? Este aí, feito piloto, no violão? Agora que me ofereceu, eu quero.
— Até de feiticeira ele me faz, oh minha sorte! Mun­dungreiro és tu, que eu sei do teu parentesco com a cobra. É o que tu estudas?
— É, professora.
— Olhando o castiçal? Sopro? Quer que apague?
— De colocar na cabeceira de defunto?
— Não, não. Deixe de falar na morte, vivente.
— No altar? Oratório, aqui na mesa, no dia dos fi­nados?
96— Que-que te deu pra lembrar dos mortos, seu tene­broso?
— Pra alumiar coisas no escuro? E nós não morre­mos, um dia?
— Eu? Fico pra semente. Como coisas no escuro? No escuro... me deixa pensar primeiro. Custo a pensar, me cobriram muito a cabeça em criança que acabei rude. Tu mesmo estás dizendo, as coisas no escuro. É, é, o que vou dizer pra tua mãe, que não nasceste dela, de tão que és. Espera, não mexe a língua, quem está falando agora conti­go é uma pessoa a quem deves obediência. Te acendeu? Que é coisas no escuro?
— Faça a volta, pata-cega. Peguei mesmo a d. Pimen­teira pela raiz?
— Onde vós aprendeu a ofender tanto os outros? Pi­menta minha já te queimou? Nasci de tua semente? Te queimou, me diz, anda, seu calunioso. Sou da tua planta­ção? Me vendaste os olhos?
— Queres soprar a vela? No escuro?
— Quem melhor sabe, meu partioso, do que vossa se­nhoria... Olhe, vendei os olhos com este lenço. Só de te enxergar teu mal eu pego. Estou no escuro, vamos mergu­lhar, até me deu uma sonolência. Me flechaste, bicho do fundo? Se... Ah eu dizendo que sei? Não está mais aqui quem disse . Não tira o lenço do meu rosto, quem lhe auto­rizou? Tão adiantado! Cala-cala a boca, que eivém...
— Que a senhorita e o senhorito conversam tão baixo ao pé do oratório que o castiçal se apagou?
— Não é, d. Amélia, pois seu filho não deu de me exa­minar nos meus estudos? A valença foi não ter palmatória senão coitada da palma da mea mão só carne viva. Mas olha, Alfredo, promessa é dívida, caridade para esta 97 próxi­|ma, guarda bem guardadinho contigo a minha ignorância, Gostando da serenata, d. Amélia?
Já na beira do igarapé onde um coqueiro vergava com os seus cachos, Alfredo acenou para a Ludica debruçada no alpendre.
— Me acha aí nas tuas plantas do parapeito a formi­guinha taoca, sim?
— E tu, quem soprou o castiçal?
— Vamos buscar o gramofone? Ele vai tocar o rato, que roeste meu baú.
— E os cocos?
— Primeiro não é o gramofone?
— Com o castiçal?
— Quando vamos?
— Com o primeiro galo.
— Ou com o tocar da viola?
— Já?
— Naquele acordo? Só não querendo...
— A fada me trouxe, agorinha-agorinha, o vestido lilás. Vou com ele? Aquele café, já fiz. Naquele acordo só se me disser o caso do “E agora?” Diz?
— Mas, meus filhos, variando da cabeça?
— Nossa conversa não vai mais ter fim, mamãe.
— Até se acabar a mocidade?
— Não, não, sem fim, tu longe eu longe tu perto eu perto, invisível, visível, corra o tempo a lonjura nos separe, nós dois vamos conversando.
— Nós dois conversando?
— Nós dois conversando. Olhe, catei no raminho do cravo a formiguinha. Já mexi o seu café, está bem prepa­radinho. Mas suba. Quem te deu o jabuti? Foi a “E agora?”
— Nós dois conversando?
— Nós dois conversando.
98 Nós dois conversando. Naquela noite, pelo campo, ele e a mãe, sozinhos, juntos, nunca os dois abrindo boca, palavras não eram ditas. Onde a língua para os seus mais sérios particulares? À beira do rio:
— Ó Rosa, ó Henrique, ó Alfer, quem aí doutro lado. A canoa! gritou a mãe.
Ele ouviu, foi só; gritou, calou-se, O mais era o chalé lá atrás da Folha-Miúda, carregado de silêncio, sombra e catálogos, o vazar lamacento do rio, com aquele peixe que boiou, silencioso. Queria ao menos que ela escutasse: Ma­mãe, a senhora não me pegou em culpa. Ela estava prote­gida pelo tajá orelha de burro, o parapeito, a cerca e a bra­bezazinha dela contra mim. Chegou a me ver com a cabeça na estaca? E as outras coisas, mamãe, de Belém, tantas a contar, ou podíamos principiarzinho a falar de Ludica, dos cachos de coco que ela carregou para a proa da “Borbo­leta”? E daquela cabeça saindo do meio dos cocos, o jabuti de volta? Ludica cismou contra o bicho. De Andreza, sim, mas depois. E a senhora? Por que unicamente aquele grito pedindo travessia? Por que não me pediu a mim para chamar a outra beirada? Como se o rio nos separasse, aqui mãe e filho de Areinha e lá o chalé de família, que nos rejeitava? De repente, ela tira o sapato, apanha a ponta da saia, desce, caiu no rio, nadando, sem ouvir os apelos, e a gritar: Não venha atrás, que sei cortar bem a correnteza, você ainda não. Se aquiete, aí, que alcanço já-já o outro lado. Alfredo!
O mesmo Alfredo! no “São Pedro”, meio da trovoada, quando ele quis sair do toldo. Alfredo! E tempo de pira­nha, podia um sucuriju, um jacaré por acaso, uma cãibra, bem por aqui bolou do Gaçaba o esqueleto limpo... Ia cair atrás mas num repente, de longe, da outra beirada: já vou! Espera! Com pouco, empurrando a montaria, ela chegava, 99 a escorrer pelo rosto e pelos braços um negror do fundo. Frente do chalé, este com as janelas carrancudas, Alfredo pegou-lhe a mão.
— Mas então? Que lhe deu?
— Eu? Logo eu... Eu?
Sorria, espremendo a saia, pitiava a lama, riu num alivio, divertida, como se o rio a tivesse lavado por dentro, levando-lhe as coisas mais secretas, as confidências que não quis ou não podia dizer ao filho. O riso era um desafio? Aquele repente de cair n’água não repetia o antigo, atrás do filho que se afogou? Quando ela se deitou, Alfredo, depois de tanto entra-não-entra, entrou no quarto e roçou os lá­bios na testa da adormecida, ou ela fingia dormir, quem sabia? mas no rosto da mãe um tão sossego e sono que pagava todas as penas. E vai, deu-lhe uma vergonha de não ter trazido a embarcação para a mãe; corre, necessário o risco, terá de atravessar também agora sozinho, secreto, com o rio vazando, ávido. Caiu n’água, roçou o fundo, pen­sando encontrar as chaves da cadeia atiradas naquela tarde pela Andreza. Com elas iria abrir a porta da desaparecida. Noutra margem, que levava à Mãe Maria, às buscas de Andreza, nu, com os calafrios de voltar a nado, ouvia o riso da matinta. Aí mais foi sua vergonha e a inutilidade de seu gesto. Sorte a embarcação que passava. E soltou o jabuti no rio. Quem sabe no céu, de que falava a estória, não car­regado pelo urubu mas pela moça da Gentil, mãezinha do bicho.
“Do casco de um jabuti
Eu fiz um barco a vapor”...
... boiou na Municipalidade com o bonde espirrando-lhe água e lama; passavam os alvos zebus puro sangue da cocheira Jabuti, importados de Minas, fidalgos do bairro. Cortar bem a correnteza. Caminhou tanto em tão pouco 100 tempo? Longe ressoava o casarão. No passo dos recrutas a sua fuga atropelada. Cessava a chuva. Que lhe restava senão asco? Entrando errado na aula de química, traído no pátio, escorraçado na fuga, foi uma deserção? Teria de submeter-se ao resto do trote? O rebojo o tragou e o devol­veu a esta praia, mastigado e vomitado. A manhã escurecia de novo, apita as onze a usina Romariz, a rua um lodo guloso. Desertava? Culpa de ter ido tão tarde? Bigu! Mas teve suficiente nojo para ficar, embora desfeito pelo trote? Teria saído intacto de orgulho e ódio. Inocente do tributo, pagava a multa dobrado. Saber cortar a corren­teza. O nojo do pátio era de si também, e do que fosse estudo, dezesseis anos, José Pio. E agora? escuta a voz de Eunice, com a carta dos quinze anos virando arroz no bico das galinhas. E agora? A curiosidade, fingindo ciúme, de Ludica, faz parte do trote também. Cortei a correnteza? Rapazes de Cachoeira e Muaná, remeiros e apanhadores de açaí, de longas noites de gapuia ou destrançando tarrafa, lá estão atrás de seus remos e de seus cachos de açaí, da por­teira e flor d’água, na boca os dois dedos do assobio: Corta! Corta a correnteza, seu frouxo! Corno entrar na casa do Coronel Delabençoe, assim, encharcado de suor, chuva, asco, vergonha? Aqui, sim, em nome da mãe, é que teria de atravessar este rio. Meter-se no casco do jabuti, varar o pátio, subir ao primeiro ano, carumbé fardado. A petição em que ficou o quepe, a farda este mulambo, as perneiras, então? Não rangem mais? Empapadas? Ainda do avesso o bolso: estes quatrocentos réis só? Principiava o Ginásio nem valendo aquela moeda. Pagava o nado da mãe naquela noite, pagava? Quatrocentos. réis que a velha parteira lhe deu, quase com voz de menina: tome pro seu bonde. Certo, muita vez, é uma menina, sim, se vê nos olhos da velha. Apanhou dos bebês que faz nascer, uma tal inocência, um 101 cheiro, e um gosto de olhar as pessoas, como se estas esti­vessem nascendo. As órfãs arrastam a velha pela rua, as órfãs rabeiam em torno da velha, riem, troçam, malcriadas, fugindo porta afora, aquela recostada no poste conversando com um marinheiro, a outra num velório, por uma altura da noite, brincando de gato-podre. Um cruzado, nem isto restou. Cada um arrota os cabedais que possui. Ao reco­lher o bolso, via-se vaiado por uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete cidades, Belém, coberto das moscas que cobriram o subúrbio.
Mas aqueles dias de ontem acompanham—me na volta. do Liceu. Um socorro, foi. A mãe não atravessou o rio à noite? Não foi um sinal? Não soltou o jabuti? As pira­nhas não se afastaram de seu corpo quando nadava? Dos dois mil-réis ganhos num parto, vem a velha e dá um cruzado. Da conversação de Ludica — corra tempo, lonjura nos separe, nós dois conversando — vinha um sopro que lhe enxugava o suor, a chuva, o asco. Ludica abria o coco verde, dava-lhe na boca. Pátio, trote, Ginásio, multiplica­dos, valiam a casca daquele coco? Aquela conversação foi o jogo que ela sonhou jogar quando menina? Cada palavra um brinquedo desejado, imaginado, nunca aparecido, nun­ca teve? Mas entrar, assim nesta casa aqui na José Pio, é que são elas, corrido do pátio, de si mesmo. Entrava? De­sertava? Agora, donos da rua, em direção da cocheira, como se fossem para o castelo, os zebus de cupim puro san­gue. Que fosse passar uns dias na prima Angélica? O marido agora estava. Que trem, esta hora, e a passagem? Espiou pela porta, ninguém no corredor, lá na varanda, sim, e riam. Entra-não-entra, pela calçada, olhou a rua que acabava na baixa, onde as barracas num aguaçal verde pareciam de bubuia. E logo era o rio feito um vinho de bacaba, maré grande, partia um vapor. Aqui vizinho, à 102 esquerda, pegado à casa, sobre o portão da velha puxada lá dentro arriava-se o velho jasmineiro. E fora, rente da cerca, o banquinho de tão antigo desfazendo-se. Entre as estacas soltas, brotou o rosto de Esméia, a reluzir, espesso, o seu pretume, o oleoso pixaim ao sol. Olhava os zebus, querendo naturalmente montar num deles, no mais branco, acariciar-lhe o cupim, seguir, rainha negra, para a cochei­ra real. Mas ao ver o ginasiano, sacudiu a ramada que bor­rifou o chão, e com os jasmins caindo parecia chamá-lo: Vem que estão comigo os teus dezesseis anos.
Ligeiro entrou, sem ser visto, livrando-se da farda, química, pátio, fechou o quarto, nu — jasmim o cheiro que entrava? — “Alfredo, almoçar”. ouviu. Sair nu, correr assim para os coqueiros onde Lúdica o espera, assim no igarapé, aceso o castiçal, a viola tocando, ambos correndo em cima dos miritis. Um agrado dos teus, um só, me diz. Ludica. Ludica. Atrás, encharcados, os coqueiros se ofere­ciam. E o peso da noite, sua espessura, e calor de água e folhagem, Alfredo sentia na mão. Almoçar. Um raio para cegar o mundo e deixar-me sair assim em nudez plena. Volto ao Liceu, amanhã. Fui eu, em mim, está em mim a visão do pátio, não no pátio, em mim a incompreensão, a repulsa, matutice, medo. Esméia, a jovem preta, nascendo do jasmineiro. Andreza e Edmundo, ‘no descampado sem perdão, encontram-se? Novamente bateram. O almoço. É a d. Dudu. Volto ao Liceu, sim, outro, mas volto. E entran­do com a Ludica, o coco verde no ombro, os dois Adão e Eva? Que é coisas no escuro?
Feito inda agorinha de manhã, já azedou este cozidi­nho, gosto a peixe, o do aquário, molho do pátio e daquele caminhar, horas, que há de ser, cinco anos, vem e vai, José Pio-Largo do Quartel, Largo do Quartel-José Pio, escala em Muaná, um pulo, ao menos em pensamento, no aquelezinho 103 o seu rio, currais cardumes mururés onde Andreza finge estar. Cozidinho insosso! Não de sal ou ruineza da carne; de insosso para o azedo foi um passo, este que separa a cozinheira do conviva. Os pedaços bóiam no caldo ralo. Aqui? Nem o cominho e a pimenta do reino das irmãs do Muaná. A abadessa carrega de arroz em papa o prato fundo de ramagens azuis, tentemos um pirão desta farinha mofada pela idade e solidão da abadessa. Onde estás, fari­nha torrada, amarela do Maranhão, da Magá? Como coisa que via a Libânia, no Ver-o-Peso, provando, muito compe­netrada, nenhuma agradava, a farinha dos paneiros, um a um. E estes pratos, encardidos, roídos; não, não, não parece prata da casa, d. Dudu quem os trouxe do Curro Velho. Enganou-se, será que tudo vê sob o peso do trote? Nem beira roída nem encardição dos pratos. Encardido, roído, quem mais senão eu?
... Panelame, vasilha, saco de café, até a machadinha de cortar carne, d. Dudu só usa os dela.
— Vasilhame alheio, mesmo esse aí, caindo em peda­ços, que deixaram de fora? Eu usar?
D. Dudu volta-se para a máquina de costura no cor­redor:
— Desta escrava aqui, tiro dela o meu de-comer, o meu de-servir.
Voltou do quarto de Alfredo com o uniforme, o quepe, a perneira, rumo do quintal. Vou fazer tudo de novo, disse.
— Mas deixe, d. Dudu, não, não.
Num tempo, tornou à costura, agora calças, sempre do Au Bon Marché, nova encomenda, prazo curto. Na loja de roupa feita, um sobradão de azulejos atulhado de armari­nho, d. Dudu ganhou nome, senhora dona de corte e costura em roupa de homem. É a d. Violante aqui de Belém? Em vez de viúva carregada de filho, imaculada solteirona, ou 104 ambas viúvas de nascença? Jornais d. Dudu nunca lê, nem reúne em casa a Oposição, como a d. Violante em Cachoeira.
— Política? Ela me alinhava as ceroulas, me prega casa, botão, bainha? Em leitura nossa mãe não fez nós caprichar. Mas leio o mundo, leio o mundo, soletrando, mas leio. Memória, até que tenho.
E é quase espanto para Alfredo vê-la vergar o longo corpo, em direção do cozidinho aqui na mesa, o dedo em riste:
— Ocasião não dou que uma de lá me venha me faça má ausência.
Arremedava pela cozinha a prima Graziela, filha do Coronel Delabençoe.
— Ah assim por assim uma e outra coisa nesta cozi­nha me fede errado. Quando nós fomos cismo que esta ti­gela não estava rachada. Ah mas como foi que quebrou (rato que não) aquela xícara ah possiva sic então não está tam­bém faltando a travessinha de beiço floreado?
Foi, virou a máquina, parou. Era uma rude calça de riscado, faltando coser os bolsos. Curvou-se para Alfredo sentado à mesa, cheiro de fazenda nova, o cozidinho es­friava.
— Eu, Domingas Amaral, esta?
Alfredo levantou os olhos, aqui ao pé, comprida, a ma­greza parda curtida de serões, d. Dudu impunha o queixo.
— Esta? Deixem, me deixem comer no meu cocho. Quem no seu cocho come, bem servido é. Sim que me jogar no rosto, cara a cara, elas não. Se afigure, põe na tua ca­beça, vá duvidando da boa malcriada que esta é. Vá que seja uma indireta mas esta ficava na primeira metade. A outra faço engolir.
Apanhou lá fora o uniforme do ginasiano que havia espremido e pendurou na corda. Trouxe as perneiras 105 lim|pas. Desentortou o quepe. Quis, fez um gesto, fazer uma pergunta, desguiou-se pelo corredor. O cozidinho esfriava. Esta senhora vê em tudo isso uma obrigação dela? Acha um dever servir-me? E está aqui, de novo, voltando àquele assunto:
— O meu é meu e sendo meu estou no meu direito de vos dizer: é nosso. O meu é o meu, não é o teu, que o meu sei eu sei que dou, com ele sirvo. Dar conta do que é meu, só dou a esta sua criada. Esta, eu e Deus. Mas o teu quem me diz? Se afigure. Sei se de coração do seu o sr. me dá? Dá?
Indagava, num regozijo desafiador e olhou, piscando, o armário onde o trivial vasilhame da casa, arrumado como foi, está.
— Se a mea mão tiver de apostemar, não é por ter pegado em coisa daí desse armário. Não me cubro com a pena alheia. Para isso varo as madrugadas. Quero que até o gume da machadinha delas encontrem como deixaram. A chave da casa me confiaram? Olhar isto aqui que man­daram fazer para não morarem, a. só servir de hotel para eles mesmos e isto por uns dias, não demorou, embora?
Arrastou a cadeira, sentou-se defronte de Alfredo.
— Olho. E olho por um trato com elas, vou lhe dizer e isto foi uma condição. Nem tua mãe catou disso uma pa­lavra. Te deixou, foi embora a mulher mais inocente. Foi o trato. Consentissem que o filho da d. Amélia, no seu di­reito de estudo, merecesse um agasalho, vendo eu que a tua mãe, meu bom amigo, estava que não sabia o que fazer pra te deixar em Belém, estudando. Tu não viste o que eu vi, da tua mãe, o que ela fez para ocultar de tua vista e ouvido, eu sei, foi. A tua mãe deves, e que bom filho és, farejo isso em ti. Não vejo então as coisas? Sim, que tua cabeça, muita vez eu sinto que tu penduras lá no caibro, 106 vara a telha, sei lá, hoje, por um exemplo, que te aconteceu? Chuva? Caíste? Hum, não te indago, que teu juízo é teu e se tenho de dar conta de ti pra tua mãe, não será por meia. pataca.
Levantou-se repetindo: Ou não?
Sem tocar no cozidinho, impacienta-se. Essa revelação humilha-me. Meia-pataca. Serei eu mesmo bom filho? Não sei ver minha mãe? Aqui não está a minha falta? Vi o que passou no hospital? Crua indiferença de minha parte? Esta senhora aqui me revolve indagações adormecidas, cul­pas soterradas... De pé, d. Dudu, avançou o queixo, feito um dente de dragão, um queixo que é uma dava contra o mundo:
— Tirava um pedaço da casa você hospedado aqui? O esse da tua rede ia roer tanto a escápula do quarto? Mando fazer outra escápula se assim for o sucedido. Tirou o lugar dum outro?
— Da outra? Queria dizer: a outra?
Alfredo arriscou a pergunta, pôs-se de guarda, remexeu o pirão. Meia-pataca.
D. Dudu não respondeu, examinando a lançadeira.
— Não era a preferida do pai, d. Dudu? Tanto era que, pelo que me disse a d. Santa, esta casa foi feita na in­tenção dela, da predileta. Foi, não foi? Bem, não me meto.
A máquina virava e subitamente, como era costume, d. Dudu ergueu-se, veio, inclinou-se para Alfredo, num tom cumprimenteiro:
— Bem razão havia se...
Ligeira a pôr carvão no ferro, esperou que a curiosida­de e a impaciência de Alfredo aumentassem. Alfredo arre­pendia-se: tocar em coisas que podiam incompatibilizá-lo com os donos da casa onde se hospedava.
— Que quem podia sair daqui uniformizada do 107 Giná­|sio, aquele-menino, ou saindo diplomada professora, essa então deixaram seguir a carreira? Era a trancada, o raio destrancou, matando dezesseis porcos, derruba a árvore. A mãe, tu pensa que aproveitou os porcos? Mandou enterrar tudo, mandou vigiar quem se atrevesse a desenterrar a porcada. O vigia com ordem de alvejar. De algum porco o que ficou por fora ficou o que urubu comeu. O resto da árvore, a mãe mandou destroncar, queimar, tapou a cova da árvore com cal cobriu. Inda comi bacuri daquele bacurizei­ro. Só sei que a sentença não foi revogada. A casa, esta? Estava feita, O pai? Pra te dizer uma coisa, não sei te dizer. Quis vender a casa no mesmo instante. Foi então que Graziela no jogo mostrou suas cartas: A casa é nossa, meu pai. O sr. se engana. Uma coisa me passou pela cabeça de que Graziela estava se vingando em dizer isso ao pai, o olhar dela dizia: a casa é minha, agora é minha.
Cortou a linha com o dente, tomou a temperatura do ferro de engomar.
— O pai se descarregou de tudo. Deixou que as saias da casa fossem? o tribunal. A culpa no cartório ele não tinha? Que autoridade naquela ocasião para... Não era razão. Nem aí então a mulher dele sabia nem sabe ainda... Me deixe me calar. Isto é que é. Não mexeu uma palha. Para ele as palhas que mexe é a questã das terras de Camamoro. Nunca chega a um fim. Mas a questã da filha?
Alfredo via nos olhos da d. Dudu um regozijo pelo que sucedera aos parentes, como se dissesse: arre! Ria com uma intenção que Alfredo não decifrava.
— Mas quando ela então veio com mamãe pro Curro Velho, era aquela entonada, o dia na janela. Não pregava um botão. A mamãe a dizer que orgulho não era, era pai­xão. Era só de boca grudada, como coisa que tivessem lhe cortado a língua. Uma vassoura, em casa, pegou? Nós, lá 108 em casa, eu com meas irmãs, quem passava a ferro passava, quem costurava, costurava, quem ficava no fogão, ficava. Um dia a mea. irmã contrariou-se com ela, bateram língua, bateram que bateram. Minto. Ela só resmungou, mordendo o beiço e não sei o que mea irmã disse que a outra deu um tal grito e então resmungou que havia de ver a mea irmã morrendo indigente na Santa Casa, saindo o corpo no ra­becão. Que dissesse que eu ouvi, não ouvi, eu ia saindo com aquele monte de costura pra loja. Mea irmã fez cons­tar. A mana, que levou a praga, faleceu, sim, todo mundo ali no Curro Velho pôde ver que ela foi enterrada em segun­da classe, o caixão saiu da nossa porta, custou o tanto que a nossa costura podia arcar. Eu sei foi que depois do gri­to... eu sei foi que a Luciana justamente na terça-feira do dia 6 de agosto, quando se deu a discussão, que anoiteceu, eu sei que ela anoiteceu. No amanhecer, na quarta, quem te disse? Fomos ver, sumiu com a roupa do corpo. Toca então a nossa mãe atrás pra saber o paradeiro, toca atrás, toca atrás, mamãe que parteja por aí tudo e vem, nos diz que não achou até hoje. Sim? Ah não achou, não, mamãe? Foi? Conheço a minha mãe.
D. Dudu tocou então na Bíblia. A Bíblia do pregador, que pedira Luciana em casamento, achada no mangal, le­vada secretamente para as mãos de Luciana. Esta escon­deu o livro, dele fazia seu travesseiro. Até se contava que foi com ela achada no tabocal também. Quanta noite seu pensamento fumegando com a cabeça em cima da Santa Es­critura, de umas cem folhas arrancadas. A Bíblia não era dos padres, era dos crentes, que importava? Luciana apoia­va a cabeça na Bíblia, como se quisesse dizer: saíram deste livro as coisas que me perderam.
— Quem sabe não leu o cantar de Salomão, não, d. Dudu?
109 — Pouco ouvi da Bíblia, tu que és leitor, eu de Salo­mão, só sei, por ter escutado, da partilha do filho. No que Salomão fez muito do bem. As mães deviam dar seu filhos a quem deve criar sem paixão nem faniquito. As outras, sem terem parido, que criem. Por exemplo, eu, que tenho parte com jacamim, gosto de chocar o ovo alheio.
Alfredo cismava: Salomão cortava o filho. Algo de um filho cortado ao meio, sentia-se. Salomão repartia o filho reclamado pela mãe e pelo mundo, e este só trazia mesmo da criança a metade, a virar homem, e a outra na mão da mãe verdadeira para sempre menino.
— E a mãe dela a tirar a Bíblia da filha, e a filha a se agarrar com o livro e as folhas caindo. A mamãe guar­dou uma, tirei do baú dela, espera...
Abriu a gaveta da máquina e desenrolou o pedaço da Bíblia que Alfredo leu: “Desce e assenta-te no pó ó virgem filha da Babilônia, assenta-te no chão; não há já trono, ó filha dos caldeus, porque nunca mais serás chamada a tenra nem a delicada. Toma o mó, e mói a farinha; desco­bre a tua cabeça, descalça os pés, descobre a perna, e passa os rios”. E aqui acabava o pedaço que d. Dudu recolheu e guardou na gaveta da máquina.
E passa os rios, não é o que aí diz? Não está moen­do a farinha?
Alfredo remexeu o pirão. Quantos rios passou Lucia­na? Moendo a sua farinha. Irene, Dolorosa, rios passaram, quanta farinha moeram? D. Dudu parece, com isso, um tanto satisfeita?
— Aquelas que a mamãe retirou agora do orfanato? Vão ou não vão moer a farinha delas? Passar os rios?
— Mas a senhora desejando?
— Eu? Sou eu que ponho a mão por dentro do juízo delas? Sou eu que dou o moinho e digo: moam a farinha?
110 Eu? Desejar não desejo, ponho o meu binóculo. Meço com a minha trena.
— Se esta casa foi feita para a caçula, por que seu Braulino lhe negou o Ginásio?
— E então as duas irmãs, pra que estavam lá, fincando pé, que não? As duas, bem-bem não, mais a Gra­ziela. A outra irmã, nisso, não fedia,. E a mãe que tanto impinimava? O dizer-não dela é aferrolhando a boca. E tudo o mais.
— Disque tinha um bandolim na fazenda?
— Do bandolim a estória é da nossa boa prima Graziela. Meteu na cabeça. Um bandolim, a flauta, depois o violi­no, lá estão no arquivo. Contam que Luciana só troçava. Graziela só ela queria ser uma orquestra. Só faltou piano. Mas Graziela o dó-ré-mi aprendeu?
— E a caçula?
— Merecendente, meu amigo, é quem não perde o seu juízo. Aquela, ao tropeçar sendo vista, carrega na costa o saco da maldição. Sabe que a mãe quis com a marca do gado marcar a filha? Não fez por duas razões: o marido se meteu e a marca era a letra da família. Nem mesmo mar­cada a fogo em riba das cadeiras, a renegada merecia. Mas o raio não foi para abrir as cabeças, dizer: voltem atrás com a punição? Se tivessem de punir tudo... A bom, te cala, boca, que é o que é, é.
D. Dudu, de esguelha, o queixo empinou:
— Mas, por exemplo, ela. Em vez do tabocal, fugisse, me procurasse, me dissesse: mea mãe me cortou o rumo do Ginásio. Graziela, por nunca saber tirar um tom do ban­dolim nem um sopro da flauta, me invejou que eu pedisse um colégio, pois me acuda, mea tia, que mea cabeça bem que dá pra livro.
Avançou, esbarrou no banco, o olhar pequenino.
111 — Assim me falasse. E esta, seca, parenta de jaca­mim, dobrada na máquina, esta feiosa que sou eu, dizia: arma então tua rede, bela e formosa, se nem tua rede tu trouxeste, te dou uma, toma, não como as tuas, as vossas, de varanda rendada, lá da fazenda do teu pai vosso. Esta, te dou, não vai reparando no fundo remendado com pano de saco. Vai, vai te acomodando na barraca velha, por isso não, que tu estudas e o teu estudar é muito mais que os mil bois do teu pai. Que a tal inveja da tua irmã, inveja não e, e mais burridade. Fez? Não há formosa sem senão. Por ora, a mulher tem mais a cabeça debaixo da saia que em cima do pescoço, me dá licença de te dizer, se bem que eu moça donzela sou, nunca saí do meu pescoço e perante eu tu és tirado ontezinho do cueiro.
Vai, sopra o ferro, e vem como se investisse.
— Mamãe? Meu tio até bem pouco ouvia ela em muita coisa. Quando foi o semelhante tetetê, eu só sei que ma­mãe não sabia se acudir, se pedir, se aprovar, mais piedosa que justiceira, no fim foi que achou a punição demais de­mais. Mas os conhecimentos do meu tio em Belém, deles quem abriu a porta? Foi mamãe, ninguém diz que não. Ela corria famílias, a chamados, se não partejava, benzia, era o doutor mal sair ela entrava. Abaixo de Deus, os dois salvavam. Famílias de educação queriam o doutor e a ben­zedeira, sempre o certo, nunca o duvidoso. Mamãe, tudo que queria, fazia. Os filhos do padre Moncorrier, quem pegou? Uma noite, bate em casa uma desconhecida já com as dores, pede: Me acuda, d. Santa, que não tenho onde ter esta criança, pai não tem, lá de casa me botaram, só falto descansar dentro de uma cocheira, ou no capinzal, me valha, d. Santa. Mamãe, com pouco tempo, arranjou um estivador pra marido da rapariga. E assim tem sido. Só um parto, um? Nem a conta dos dedos, aí entre os 112 flagela­|dos, na Penitenciária, de pegar dois no mesmo prédio. Que vai que a mão dela a modo que não pega, é um ímã. Eu sei?
Entrou um passarinho pela janela, saiu. Alfredo corre e olha lá fora, a tarde sobre o poço, sol escorria no cacaueiro, inveja de Graziela? Até onde somos culpados da culpa alheia?
— Agora? Agora perante as netas? Cadê mamãe? Olha, rapaz, nós morando no Curro, a casa era alugada, quando bate o Lobão, o sesmeiro do bairro. “Vão me des­culpar, não se zanguem”, começa ele. Eu e meas irmãs na costura, até que nós se espantamos com a amabilidade dele assim tanta. “Mas o terreno se atrasou, a dona não pagou e eu vou botar na porta da barraca o papel de venda, olhem que está muito atrasado o pagamento do chão.” Então eu: “Mamãe compra.” “Como, meninas?” Só tenho uma pala­vra, dr. Lobão. “Então vamos lavrar a escritura ?“ Nós sem um mel coado, uma cruz de vintém dentro de casa. Pra te encurtar, só sei que compramos. E só nós saias dentro de casa. O filho homem da família atirou-se pro Madeira, anos dele me dá uma só notícia, uma fração de notícia que seja, um vestígio. Essa foi a nossa criação. Mas agora? Que criação dá pras netas?
E numa triunfante lembrança, o ferro na mão:
— Se aqui estás, foi ó que tinha de ser. Ela desasou, tens culpa? É como mamãe diz: erê.
Aqui Alfredo pensa em d. Celeste. Culpado era, sim. Sim. Aos dois, marido e mulher, mentiu lá na Inocentes, leal não foi, embora os dois mentissem. A todo minuto é preciso refazer a consciência? A todo instante, punir-se ou, afastando a punição, iludir-se que é inocente? A dívida com a d. Celeste terá de pagar procurando Luciana? “Não vá, d. Celeste, que não encontrará mais a sua casa de azulejos”. Tinha de dizer. Em troca, por esta proeza de 113 não ter dito, ocupa a casa alheia, a casa de Luciana. Com quanta culpa se precisa fazer uma consciência?
— E pensa que uma só vez deu saudade nela, ali em casa, desterrada, sabe do que? Falou, fez que falou, foi um resmungo: saudade do pássaro aritauá, preto e amarelo, que gostava de escutar, O aritauá era de asa ou calça? A sorte escarrou no espinhaço dela. Não é nada-nada, nadi­nha, tudo também foi a crueza da mãe. A mãe no renegar cru e nu, a filha no mesmo seguinte. E tu, menino, aqui estás de graça? E as hospedagens do meu tio, o pai delas, em Cachoeira, em que hotel é?
Soprou o ferro, deixou-o na janela, senta-se defronte de Alfredo:
— Menino, mas ainda não me mexeste nem na comi­da? Eu que pensei que depois do estudo vinhas arado? Sim, onde, o hotel? Pensa que não sei que o meu tio quando as­sume lá, é intendente interino só de boca e assinatura? De resolver a administração é o teu pai? E no fogão, pros qui­tutes do Intendente interino, quem a quituteira, quem a criada? Quem outra senão aquela que veio na cidade, trou­xe o filho num barco, passa as agonias para deixar o filho estudando? Quem senão a d. Amélia? Quer queiram, quer não...
Se deixou calar, senhora abadessa? Solte o nó, tire o freio. Ia dizer um louvor, que não gosta de fazer às mu­lheres, uma consideração fora de propósito? Ou coisa que sem querer ofende?
— Olhar o palacete, aceito o trato, assim por assim, vou também carreteando a minha criadagem, a escrava, de onde tiro os meus bois, os meus teréns de fogão e mesa. Por mim o alheio de que o dono tem ciúme pode viver a sua eternidade.
114 Chiou a chaleira, corre a d. Dudu, destampou. Nisto é mestra: em fazer, rápido, um café.
— No mais me deixem eu fazendo o meu café, Deus me livrando dos ares que na missa não vou nem rezo na hora da rede. Minha reza Deus sabe, não requer língua ou mão cruzada. Meus senões Deus anotou, não vou passar calote. Rosário meu-meu mesmo nunca possuí senão um, herança da mea defunta irmã, mofando no baú da família no Curro Velho. Quando deres um bordo por lá, tira um tempo espiando no baú que eu por uma deferência posso te abrir, que a chave anda comigo, aqui no cós, pois lá me andam duas mucuras soltas do Orfanato, as netinhas de minha mãe, diplomadinhas em tudo menos no que se apro­veite. Comunguei? Não engulo o filho de Deus dentro da­quela cápsula que mais parece de quinino, que aqui não vá um desrespeito. Por dentro da gente há mais tripa que espírito. Que até Deus, vou crer, que chegando perto do desencarnado põe logo logo o dedo no nariz, preferindo nos esperar por lá, se debaixo dos sete palmos a gente acertazi­nho sair. O que sair de nós pode subir, atravessa o ar, a nuvem, pode lavarzinho um pouco, custando, porque olha que o nosso sujo nunca é pouco. Não sei. Vou crer que sim, que alguma coisa de nós subir suba. Assim me ensinaram. No mais, uns amigos na praça não rejeito. Mas aquele-­menino, nem mexeste ainda na comida, rapaz! Te enchi de minha conversa, que acabaste em fastio. Ou vieste já da aula fastioso?
E num risinho curto, endurecendo o queixo:
— Ou quer comer nos cristais da cristaleira? A chave levaram, ai de nós ai de nós... Estuda, que te compro um cristal.
Com efeito, na varanda, trancada a chave (levada pe­las filhas do Delabençoe), a cristaleira guardava nas suas 115 redomas o aparelho de mesa, os jogos de cerimônia, o cisne paliteiro, a gentil manteigueira, sobretudo a terrina, tra­zida solenemente dum leilão de Nazaré, distante das ou­tras, só, ali venerada. Eis na vitrina da José Pio, de corpo presente, as louças de catálogo que folheava no chalé, mas aquelas no papel mais à mão do que estas. Isso na gente Alcântara? Jamais. Louça, nos Alcântaras, a que restava de lemismo e a do ostracismo, serviam sem distinção de casta. Seu Virgílio comia no pratarrão de sempre que lembrava Guaramiranga, o requeijão da serra. É fato que a madrinha-mãe, minutos antes daquela derradeira hora de Nazaré, de repente quebra o prato — me expliquem —como se quebrasse o marido, e os cacos enterrou ao pé do cacto.
Aqui na mesa, no cocho da d. Dudu, se cobrindo de mosca e sebo, o cozidinho aguarda, paciente, o apetite do estudante que disfarça, exagera o interesse pela conversa, cata um arroz, molha o pirão... ah pirão da madrinha-mãe, que saudade hein, rapadura, hein, milho verde, hein cará roxo, jogados pelo trem?
Cozidinho, cozidinho, tu parece de mês. No meio do pirão, ria a ginasiana do terceiro e a multidão do pátio, caras, caras, logo um pirão de pés e punhos. Arredou o prato. Meia-pataca. O seu fel contra as órfãs, contra a prima Graziela, d. Dudu, derrame neste pirão.
E foi que, sem bater, as duas órfãs entraram, sorrindo, ligeiras de chinela pelo corredor, caladas sempre. Corre­ram para o pé da tia atrás da bênção que ela. mal deu, es­cura de contrariedade e frieza, sem fitá-las, exagerando a sua atenção na máquina. Acercaram-se da mesa de Alfre­do, ambas muito claras, a menor corada de sol, de uma brancura de goma, o lábio saltando em carne viva, pregui­çosa nos movimentos. A mais velha, liso cabelo 116 despen|teado, trazia ainda do Orfanato a palidez, o rosto, um prato, de raso, o passo em fila, o olhar de simulação e espreita. A menor olhava de banda, arregalada, faminta de ver tudo. Um instante sumiram-se. Logo se levantou a d. Dudu, numa excitação, se rindo, a cochichar:
— Viu como fazem a ronda?
— Que ronda?
— O caminho delas. O ofício que aprendem.
— Mas que caminho delas, d. Dudu, que ofício?
Arqueou-se para a mesa, como se gaguejasse, como se as palavras a sufocassem.
— Tu. Tu. tu... Tu ainda come coco. Quem a profe­cia faz não sou eu, é o tempo. Já não estão juntando a fari­nha pra moer? O que eu escrever pode ler. Essas? Nem bem te vejo já te conheço o bastante. O avoado delas só a avó não vê. Com elas, a mamãe? Ai que é um ai me acuda. Não passo por cigana mas o futuro me dá a mão delas que eu leio. A mamãe! Ela, ela. que nos corria com relho em cima, escolhia lugar onde bater? Até que assim foi bom que nos pusesse cobro, nos emendasse. Estava no seu papel. Agora a avó... Relho se houver um dia é na costa dela pela mão das netas. A correção? A emenda que a avó dá? Adoça onde devia meter a urtiga. Pois se já a menor, a avó já não deu até sapato de fivela? As candinhas que me soprem.
Alfredo quis levantar-se brusco, rejeitando de uma vez o almoço. Foi o tempo em que veio ela com a farda enxuta a ferro.
— Viu? Quem aposta que você vestiu ela hoje? Vestiu? Me diga!
Inerte diante do almoço. Sabia agradecer? .A solicitu­de dela vexava-o, produzia-lhe um inexplicável ressentimen­to. Aumentava-lhe a sensação de fastio, de desamparo, de 117 ser também da rua como as órfãs. E sem comer, o cozido gelava. Cozido pela mãe, cozido, ficava que nem na mesa de rei. Aqui na d. Dudu engasgas urubu. Mal agradecido, sim. Só faltando cuspir no prato que lhe dão. A mesada do chalé, bem, custava, mas vinha, só trinta, pagava? Ago­ra, agora uma garfada. Aqui, corno no Capoeira, o cozidi­nho podia dizer: a fineza explicar-se? Desta casa a chave eu pego contanto que o desvalido ate aqui a sua rede. Esta condição só agora sabe, a mãe sem saber também, e a d. Dudu joga na mesa como um trunfo. Trabalhar, trabalhar? E parece que a exibir a farda limpa, vai dizendo: “Vês? Sem mim que havia de ser de ti, nesta cidade? Por que não se largou da mãe, dizendo-lhe: com quinze anos, me faço aprendiz marinheiro, me jogo num pontão para o. Acre, me boto num Ita? Agora, esta casa à disposição do estudante que fugiu do estudo, à disposição do ginasiano pelo Ginásio escorraçado. Nesta casa, feita para a predileta vir morar. A anônima corre as ruas da Babilônia, moendo a sua fari­nha, passa os rios, não mais a tenra nem a delicada. Tam­bém, vós, d. Amélia, nossa mãe do chalé, passaste os rios, móis a tua farinha atrás do armário. A desabençoada nun­ca há de pôr o pé neste soalho, nunca há de ver o mundo debruçada nesta janela. Marcada foi no coração com a outra marca de gado, que a mãe usou, com a letra P. Aqui estaria escancarando a casa, a cristaleira, o riso debaixo do cacaueiro, o seu subir correndo os degraus da entrada,  tira a fita do cabelo e ao mesmo tempo a tangerina, feliz 1 de seu Ginásio, de suas janelas, de suas amigas no aniver­sário.
Meteu fundo o garfo no pirão. Comida não tirou, mas a reflexão que o ilumina: e se possível fosse... Cabia a ele, sim. É preciso, é preciso. Cabia dobrar os velhos da fazenda, desenferrolhar aquela mãe, escreveria ao Coronel, 118 convenceria as duas irmãs. Luciana de volta, a culpa que tivesse, a vergonha que fosse, aqui perdoada e dona. A velha bem sabia do paradeiro, sim. Conheço a minha mãe, repetia a d. Dudu. Só uma ajuda queria: a do tio Sebas­tião, ainda entre as onças no Mocoões, receoso do porão entre os condenados do Oiapoque. Era preciso. Era preci­so. Que se deu, de vera, no tabocal? Que fizeram as duas irmãs? E o Ginásio que ela quis, e o pastor que lhe nega­ram, que signo trazia o raio, me expliquem o silêncio dela, e quem com ela no tabocal, mas quem, quem? E a Bíblia por travesseiro? A velha parteira tinha, tinha o rumo da er­rante. Então o Coronel Braulino Boaventura, tão macio no falar, no comer, no conversar, tão delabençoe no chalé, a dizer eiseã, eiseã, em vez de sim senhor, a barba grande de D. Pedro, alva com uns longes de uma ferrugem na pon­ta, tão dado com a mãe Amélia e sem reparar nem a cor nem a condição... Diante da d. Amélia era tão seu Boaventura. Seu Delabençoe, não! Velho! Velhos! E eu ti­rando vantagem? No lugar da outra, aqui no Ginásio, isto que não, que a casa é dela. Do meu dever dizer-lhe: é tua e posso, só por um teu consentimento, atar a minha rede. Aqui perdoada e dona. Só assim é possível morar aqui sossegado.
Levantou-se.
— Como? Nem ao menos provou a carne, aquele-me­nino? Quem estuda muito come. Ou é vermes? Estou que é vermes. Mostra, revira o olho. Me parecendo que é ver-me. Posso te dar, no domingo, um purgativo. Purga faz voltar o apetite.
Assustou-se com a d. Dudu. Voltou a sentar, num re­pentino abatimento. De pé, mexendo com a colher no prato dele, como se fosse dar-lhe na boca?
— Num minuto eu como, d. Dudu. Estava querendo me lembrar de uma passagem na lição de hoje...
119 — Na hora de comer. Isto não. Tempo tem de sobra. Estudando como se fosse tirar o pai da forca? Teu pai é aquele bom Major lá de Cachoeira, de presença não conhe­ço, sei de fama, santo pela paciência de carregar nas costas, de agüentar o meu senhor tio feito intendente interino. O cargo é dele, mas a carga é do Secretário. A escola do meu tio? Uma vez numa parada, vestiu a farda branca de Guarda Nacional. As coisas que te digo. Quem sofreu para fazer as quebras do trajo de gala foi meu ferro, foi mea goma, foi meu braço.
Revistando a calça do uniforme, topou defeito, tam­bém no dólmã.
— Por mais bom nome que a alfaiataria tenha, veja isto. Fazer tua farda, de agora em diante, ninguém mais, se não esta sua criada.
— Mas os dois uniformes é o tempo todo do Ginásio.
— Eu cá te espero. Então te quero ver cerzidinho no quinto ano?
E assestou o queixo, como uma proa, varando os cinco anos pela frente.
Vamos, apanha o garfo cabo de pau, arrisca uma pro­va. Primeiro ajeitar os dedos no garfo... D. Dudu sabe, por certo, comer de talher. Vê o meu desajeito? Afinal, ela me serve para cumprir a palavra, desvelo sem motivo, reco­nhecida ao chalé pelo que este faz ao tio, ou compaixão, por que? Estudar é um ofício, disse ela. E eu que tenho de lhe ser grato, de aceitar esta hospedagem, engolir esta senhora que até me assusta, chega a irritar-me, às vezes me pro­voca uma raiva de que me envergonho, pois me faz desco­brir em mim este orgulho oco em que redemoinham os ecos do pátio. Meia pataca. D. Dudu, administrando o ginasia­no, vai cobrar o cozido e o uniforme passado? Primeiro 120 ajeitar estes dedos, humilhados que foram na inútil defesa no pátio quando arrojaram contra mim o trote imundo. Saber pegar no garfo, eis a questão. Um domingo, com o Belerofonte querendo ficar em pé no porco Pégaso, a d. Celeste, à mesa, fechando o seu penhoar, falou macio, malmente pelo rosto o sorrisinho: Mas, Alfredo, tão engraça­do o teu pegar no garfo, até que estúrdio. Onde tu leste? Ferido, respondeu-lhe: na Mitologia do seu marido, ali de cima do caixote de milho. Seu Antonino Emiliano tirou a mão da panela onde comia e riu alto, salpicando comida, logo carregou o rosto numa fingida solenidade, estava meio bêbedo; mas o nosso acadêmico do Barão do Rio Branco também não pronunciou ainda há pouco a palavra epiGRÁ­fe? É da mesma gramática do garfo. EpiGRÁfe.
E Alfredo viu subir e torcer-se o pescoço do seu Anto­nino, inchou veia, gogó, queixo, bochecha, para ventar da boca gramatical o fatal acento: ePígrafe! ePígrafe! En­talado, empalidecendo, debaixo da vaia de Belerofonte que lhe atirava o porco em cima, Alfredo meteu a cabeça no prato e comeu com desespero e rancor. Também na Gentil, também domingo, a abrir com os dedos gordos o peito da galinha de forno, a madrinha-mãe rosnava alegremente o seu escárnio: comer com a mão, as duas mãos, eu gosto, de lamber os dedos, era assim em Capanema. Mas na obri­gação de pegar talher, nas praxes, nas cerimônias, as deli­cadas merdas sociais, entro em brio, pegar sei, que o diabo, credo-cruz, me ensinou. E assim apanhava em cheio este sempre tão errado no pegar o garfo. Pego assim por me dar vontade, porque quero, respondeu. Sorrindo d. Celeste repousava o garfo num gesto perfeito e de leve, no guar­danapo, que sempre tinha, fosse a janta um mingau, enxu­gou dois dedos, noutro gesto perfeito. Não comia senão para mostrar como se devia pegar no garfo. E o seu exato 121 silenciosíssimo beber? (Nunca se faz barulho na boca ao beber água ou sopa, ralhava a mãe, mas num ralhar brincalhão.. Que glutegluteglute fazia Andreza engolindo o vinho de muruci com farinha, o caldo de peixe, então que borbulhava, a pura leitoa no cocho, o rosto um muruci puro, as escamas pelo canto da boca e logo pelo assoalho virando peixe a apanhar com a língua os bagos de farinha. Aqui neste cocho, no caco da abadessa, entre os fantasmas da Gentil e da Inocentes, desenhava-se na fumaça do prato a visão de Luciana, reclamada por esta casa, no uniforme do Ginásio, dizendo-lhe: sai, desinfeta, seu intruso... Pega direito o garfo, que canhoto só és de ação e pensar. Tu que ainda não sabes nem o nó do sapato nem o da gravata nem o nó que são esses. teus dezesseis anos. Nem aquele trote pressentias! Meia pataca.
Vamos primeiro retirar da estante, no chalé, aquele Tratado da Civilidade e Etiqueta, da Condessa, descoberto por acaso, folheia aqui e ali. O garfo conserva-se na mão esquerda. Cada vez que se interrompe de comer, põe-se sobre o prato a faca e o garfo, nunca se descansando a faca sobre o prato, serviços de porcelana, a palavra buffet man­jares fedendo a traça. Cogumelos? E a perdiz? Em Paris? Fechou semelhante gramática.
D. Dudu recolheu a roupa do quintal, seca abadessa deste mosteiro. Eivém a Nini, prima das duas, chegando da fabriquinha de saco de papel, situada na vizinhança. Também passou uns tempos no Orfanato. Choraminguen­ta no falar, Nini dizia no olhar úmido: ah eu não passo de uma triste órfã. Será que o esforço de falar lhe dá esse tom de choro, não demora uma lágrima na pestana? De­pois de colar saco, vem lamuriar ao pé do cacau? Bastou perguntar: boa de sal a comida? e Alfredo sentiu todo o 122 sal cortando-lhe as tripas, o coro do catecismo dentro do fígado, no prato as ceras derretidas de cem responsos.
— Que aconteceu que ele chegou do Ginásio tão de uniforme maltratado... Mas que foi? Precisava pegar chuva?
Era a d. Dudu informando, Nini abanou a cabeça, las­timosa, será que vai chorar?
— Eu disse lá no seu Camilo: ele começou as aulas hoje, esta manhã, o primeiro dia dele de Ginásio. Até uma lá me perguntou: que se estuda no Ginásio? Que é Ginásio? Para pessoa tão crua, responder não se sabe. Sabedoria não é para quem quer nem para quem pode. É para quem escolhido é. Mas foi que foi um puro, sem tirar nem pôr, um soldadinho. Não desencaminhou alguma rueira, não fez no Igarapé das Almas alguma caboclinha cair de cima de uma proa? Faceiro até que então que ia, eu não vi? Espiei do portão, lá, de seu Camilo. As paus com formiga, lá no seu Camilo, querem porque te querem conhecer. Por estas paragens, um ginasiano é mais que novidade. Aqui na José Pio, és tu só, primeiro e único. Foi o que acabei de falar lá na fábrica. As letras da gola, quando embaciar, me dá que ano. Sua mãe não confiou você pra mea tia para ser maltratado.
Nini ria choramingando, um tanto quanto frenética desta vez. Maltratado. Maltratado. Aqui d. Dudu, mão na ilharga, embicou o queixo, gracejando ríspida:
— Te fia, te fia, que de tua mãe tenho procuração para te pôr cobro quando tiver uma percisão. Idade nem tama­nho, não enxergo.
— E titia , ele precisa de um guarda-chuva. Vovó lhe emprestou o dinheiro do bonde? E eu no seu Camilo: ah, mas não me esqueci de indagar dele se tinha pro bonde? Até que pareceu que veio a pé. Foi, titia?
123 Tichia, falava, tichia. Encare-me, órfã lacrimejante, e veja se tem algum orfãozinho dentro destes ossos, que só ossos sou, muito mais magro ando. O estrago não foi no uniforme, é verdade, mas cadê olho, choraminguenta, pra me enxergares, cadê, meu verte-lágrima?
Nini, atenta no comer de Alfredo, parecia dizer-lhe:
com cara de órfão, estás, meu santinho. Contendo o gesto brusco, Alfredo levanta-se, senta-se, vendo, sem querer, naquela moça, uma atenciosidade, o simples trivial de quem quer servir, saber, por bem, o que acontece, talvez adivi­nhasse...
— Titia, quem sabe, se ele não quer antes uns ovos? Queres? Queres, eu estalo. Custar não custa. Tem aí.
— Não, não. Não estou comendo?
Sucederam-se as garfadas; d. Dudu virava a máquina, cosendo por dentro do rapaz a manhã do trote, a fuga, o medo e o asco de voltar ao Liceu. Deixou cair o garfo no soalho, Nini corre; apanha o trem e o devolve, foi debruçar-se no parapeito do alpendre, toca a cantarolar tão chorosamente que Alfredo, a garfada no ar:
— Ó Nini, por compaixão...
Ela dobrou-se num rir lacrimejante, sem entender, fazendo-se entendida, veio vindo num ar de fazer mimo, curvou-se sobre a mesa, carregada de espinhas na testa, quase sem sobrancelha, a insistir se ele queria os ovos. Alfredo, o garfo esquecido, lembrando o volume, que as traças comiam, na montra empoeirada do sebo: “La Clef du diagnostic”. La clef. La clef? Nini insistia: mas que­res conhecer as moças lá no seu Camilo, queria, não queria?
— La clef?
— Hein? Variando?
Alfredo sucumbe, delicadamente apanha o garfo (La clef)? “É permitido expressar-se livremente a respeito dos 124 superiores? R. — Até certo ponto, e contanto que seja com circunspecção e justiça”. Moral e Cívica. “Tempes­tuoso tempo” leu num livro. La clef du diagnostic. Traça, poeira, mofo, Liceu. Tempestuoso. La clef e o tempo. Nini.
— Tem a Noca, tem a Jóia, tem a Pérola... Não é. nada não é nada mas seu Camilo faz saco de papel para umas bem dez freguesias.
No corredor, a máquina parando. Aqui treinando pe­gar o garfo. La clef.
— Quando apitar no curtume as onze, vê quem sai do seu Camilo... Ah, não. A essa hora estás no Ginásio. Pois bem, de tarde. Uma, a Pérola, é bem gaga, com aquele cabelão caindo já pelo calcanhar. Tu podes tirar cópia da modinha, “Adeus, para sempre”? Quero que as meninas lá onde trabalho espiem tua letra, rapaz! A letra dum ginasiano G. P. C. Não é pouca conversa. Nesta nossa triste rua dos Juruemas acabados, por uma consideração tu vai, me explica pra Noca. Ela? Nem sabe o que é ser ginasiano. A mais minha amiga, Só que tem que é a mais desvalida, morando na casa dum tio meio carrasco. É sair do seu Camilo vai dobrar o espinhaço em cima da tina, preparar os filhinhos demoninhos da mulher do tio, está que só manda fazer, sentada está, sentada fica. Noquinha é cuidar do jantar, partir lenha, é Noca daqui, Noca dali,, descansar quando? Ser um ginasiano deve ser bom, não é? foi ela perguntando. Tudo que conversa é indagando, a bom indagar ah mas tanto indaga que até fede.
Alfredo enfiou-se no quarto.
Quando viu — mas em tão pouco tempo? — escurecia,, a Usina apitando, a noite o chamava. Jantar, não. Choca os ovos, Nini. Noite. Noite em que pudesse vingar-se, sol­tar-se ou começar a busca da renegada, ou de si mesmo, onde?
125 Parou, a ouvir a d. Dudu: daquele dia em diante, nin­guém entrava mais pela porta da frente, só pelo portão do lado, para subir pelos fundos. Assim poupava a fechadu­ra das donas, o soalho do corredor, visitas que tivesse de ser obrigada a mandar entrar para a sala ou mesmo para a varanda. “Não quero gastar o alheio.” Não queria que a Graziela, lá na Camamoro vivesse falando: hum, hum, Dudu, então, com recepções na nossa casa.
— Ó Nini! Toma, torce duas vezes a chave, põe também a tranca.
— Não é melhor lacrando?
— Brincando comigo, menino?
Alfredo espia, sentindo o nariz na porta. No rosto da d. Dudu o sabor da proeza. Graziela, de tais recepções, não ia falar mais.
Devolvida a chave à tia, Nini veio com uns ovos na mão: queres jantar? o rosto queixoso, e mais uma vez Alfredo não escapou: ela foi falando do Orfanato. Será. que Nini quer, com isso, dizer: olha o que é nosso viver de órfãs e compara com o teu, filho de papai mamãe, ginasia­nozinho de sorte?
— Manda buscar, Nini, o jacamim da d. Brasiliana pra chocar esses ovos:
Nini riu-se como se fosse ter um passamento — ria-se ou chorava? — e logo falou, chorando a voz, das orfãzinhas lavando que lavando aqueles lençóis mas tão pesados, e acorda de madrugada, e ensaboa aquela altura de roupa, e esfrega desconforme soalho e ouve a missa das seis e tome comunhão...
— Pois Ana, uma vez, me cochichou: a tua hóstia não amarga? A minha azeda.
Tinha gosto de sabão, de água sabonosa, do fel das freiras?
126 Aqui Alfredo vai até a igreja de Muaná, com o tio: anda, meu sobrinho, te prepara pra comunhão. Tu já fizes­te, ou esta é a primeira? Vai. Primeiro te confessa, purgar as penas. Cristo dentro daquela cápsula? Mas não! Quem mais senão o tio? Agora sabe. Recebia o gosto de Areinha, daquele Deus deles, cheirando a mangaba e caju, real por ser do tio; talvez, por isso mesmo fosse perdendo a fé, só ficasse agora com o coração do tio no dele, para sempre, ou não?
— Qual era mesmo o número da tua cama, Nini?
— Vinte e oito, já te disse, surdo.
— De ferro, era?
— De ferro. Tamanho dum enorme dormitório, o San­ta Inês. E ter de limpar a enfermaria também, ah...
— Mas, Nini, me põe um talco, um carmim nesse teu rosto. Está que uma cera.
— Mas eu ligo? Depois que mea mãe morreu...
Alfredo impaciente, lembrando as rosadas meninas, a Odaléa, a empoadinha Eunice, repete: Irmã Emiliana. Ir­mã Josefa Camila. Irmã Úrsula..
— A superiora?
— Gelsomina.
Gelsomina. Gelsomina, repete Alfredo devagar, como fugir deste orfanato? Gelsomina.
— Bonita?
Nini parece ofender-se. Alfredo apanha, lá em Ca­choeira, o livro, aquele, da Itália. Leu no livro Gelsomina? Cabeça de Nini era ver a outra, em dia de círio, de cera, no carro das promessas.
— Baile havia no orfanato? Te botaram entre as que desfilavam para a escolha da noiva? Nunca?
Nini finge não entender. Alfredo quer malinar, mas hesita, curioso. Nini insiste:
127 — Cinema lá só era a Vida de Cristo
Alfredo: foi. Desfilou também. Queria ver teus olhos, Nini, teus olhos para o desconhecido que escolhia, escolhia,
só teus olhos, queria ver, Nini.
— Cinema só-só a Vida de Cristo. Ana, a palma da mão preta-preta de apanhar bolo. Dalila, por isso, quis falar com a Superiora. Ana, castigada demais, assim não. Dalila bate a campainha para falar com a superiora: Irmã Supe­riora Gelsomina, Ana não foi por querer que errou a marca do pano. Perdoe ela. A senhora já viu a mão dela e o joelho? Ana, de joelhos, por não ter marcado bem a parte que lhe cabia na toalha dos Taveiras.
— Daqueles fazendeiros? Foi? Encomenda?
— E então? Me lembro da toalha que se marcava. Ti­nha uma cercadura em linha. Ana falhou na barra. Ana, sem um gemer, o olho enxuto-enxuto, levando bolo. Ficava toda cor de sangue, branca que ela é. E de joelho todo dia. A mão não podia pegar coisa alguma, mas não podia mes­mo pegar nem na agulha do croché. Ana, no dormitório, sonhava alto: eu mato essas... Donde que ela foi aprender cada nome é que não sei. Vinham as colegas e abafavam com o lençol o horror que saía da boca de Ana contra as freiras. Ana oh boça suja!
— Com muita razão. Nomes feios que Deus lhe en­sinava.
— Ah mas não brinca, não s a tua alma. Nunca ouvi de tua boca um.
— Nunca estive no orfanato.
— Ana, era ouvir os apitos dos vapores, a cometa do Arsenal, o sino da Sé batendo, então que pulava, de cami­são levantado: eu quero, eu quero sair, eu juro que pulo o muro, que pulo, pulo. Marinheiro da Flotilha, me leva no teu capote. Me leva, apito de navio. Me leva, diabo 128 apitan|do. Me leva, balão de São João, quero dançar debaixo do boi. Cometa do demônio, estás me chamando. Assim, lhe dava uma, não sei quem que entrava nela, atirava o colchão no soalho, navio das Europas me leva debaixo ao menos da tua popa. Na hora do feijão com arroz, Ana cuspia no prato. Na tarde no chá com pão: jejuo e rezo pedindo ao santo pra botar aquelas fedorentas no tacho. Foi, então, naquela missa que Ana — Deus não me esteja ouvindo — vomitou inteirinha a hóstia dentro da mão e disse: vou dar já praquele ratinho, meu conhecido, lá da cozinha. Pois não foi? Ana? Diferença dela com o diabo? Me diz, qual?
Alfredo quer fugir e Nini em sua volta: Mamãe, coi­tada, finou-se. Como se consumiu! Fazia casa de. calça de homem a dois vinténs. E enxovais para as noivas do inte­rior, que fazendo a soma, é a quantidade de uma loja in­teira. Mas eu que sinto isto-isto por meu pai? Eu? Me desnaturei. Te juro. Não sei se Deus me castiga, mas é. Me procura? Soube que estive no orfanato? Foi no Asilo ver mea mãe? Fez foi mandar o irmão em casa, um dia depois da saída do enterro da mamãe. O irmão, pois não ia buscar os bens da finada? “Entreguem o baú de folha, disse a tia Dudu sem arredar da máquina. O tal disque do meu tio respondeu: mas este de fundo assim estragado?” Aí mea tia levantou o queixo: Leve também aquele banquinho sem perna e o piniquinho furado. Não era dela? É dele. É do testamento. E o monstro que nunca que foi meu tio:
Nem os cem mil-réis que dizia que guardava? Falta aquela navalha”. A navalha do meu pai, enferrujada, sem cabo. A rêde da finada. Assim como estou te dizendo. Assim tudo levou. O taberneiro. Foi. Quando eu me lembro disso, te juro, ai que me dá uma tamanha furiosidade! E quando a mea maninha — sem tamanho ainda — morreu?
Escorre um suor das espinhas, da cera de Nini. Viu 129 a mãe levada para o asilo sem uma tira de pano em cima do corpo e trazida para ver a filhinha no caixão.
— Ah antes fosse eu, ou as duas juntas. Porque fiquei, não sei.
Mal a mãe chegou no Curro, olha a filha no caixão, então que apanha a tranca da porta e não toca a enxotar as pessoas? Foi um valei-me, e a bater e a quebrar, e põe abaixo o castiçal emprestado do vizinho e derrubou o caixão no soalho. “Todos me mataram a mea filha. Me mataram. Todos”, dizia e com muito custo tirada de cima do caixão no chão e quando se levantou, muito escura, muito sosse­gada, pareceu como satisfeita, atracou-se na tranca, como se fosse na cruz.
Nini enxuga os olhos, enxuga a cera. Alfredo, desvian­do-se dela e a pensar na mãe no chalé: não me quebras, órfã, nem com teus joelhos de castigo nem com a tua mãe de tranca na mão.
Foi então que reapareceu a d. Dudu.
Virgem, alta, ossuda, saia preta de merinó, o miudinho olhar varando o nosso osso, o queixo tirado de um dente de dragão, no vai e vem de sempre ocupada, as mãos para trás, d. Dudu administrava o corredor e os fundos. Como se tivesse, aquele minuto, sabido a novidade, apanha o Alfredo no caminho do portão, cochichou-lhe: pois não correu que o tio dela, o nosso Coronel Braulino Amanajás Boaven­tura, havia mandado abrir uma cova num retiro da fazenda com cruz e as iniciais da caçula? Bonecas da menina, os cadernos de escola, o barrete de ouro, o romance de Paulo e Virgínia, a carta em que o pai dizia que a casa era dela, os vestidos, até aquele, que vestiu na derradeira vez que vem para o último dia da festa de Nazaré, olhando os fo­gos... ali sepultou, O pai teria feito isso tudo oculto, com a ajuda de um vaqueiro de sua maior fiança. Que Graziela 130 ao dar por falta dos teréns da irmã, irou-se: coisa nenhuma tinha de ir para aquela semelhante sujeita.
— Pode-se entender que a irmã tivesse assim essa tanta ira, d. Dudu?
D. Dudu a modo que piscou, com a sua sabedoria secre­ta das coisas e das criaturas.
— Assim o pai enterrou a predileta. Estou também que foi uma vingança do pai contra a Graziela. Eu que sei?
E rindo, abafadamente:
— Dia de finados, lá, acendendo vela. Mas se a Gra­ziela bispa? Vai, desenterra...
Ela tornou à máquina, sardônica, e logo se levantou, conspirativa, saboreando o espanto do seu confidente.
— E o mais que tu não sabes? Eu que te diga. E olha, não arredo o pé desta máquina.
— Mas a senhora soube, vai sabendo, como?
D. Dudu aconchegou a mão na orelha num ar finório.
— E o maço de cartas? cochichou.
— Um monte. De quem? Eu que te digo? Culpa te­nho que viesse parar na mea mão? Pois por uma pirraça, das minhas, meti enterrei o maço no meio do travesseiro da alcova.
Tapou o riso com a mão, firmou os olhos, enrugando a testa para ouvir o confidente, logo zombeteira:
— As cartas dela? Isto que não.
— Dele?
— Que dele?
Notando o embaraço de Alfredo, d. Dudu apressou-se:
— De quem vós nunca pode avaliar. É de um “ele”, sim, mas a estória fia com outro novelo. Soquei foi aí no travesseiro o casal. Por ora, eu e uma amiga e agora tu, sabemos. a boca. Queres café?
Apanhou o mamão verde, riscou-o com a faca para sair o leite. Guardou no bolso da saia, a chave que Nini 131 lhe dera e olhou para Alfredo, este sai-não-sai, cheio de ofensas, ansioso daquelas cartas, preferindo estar fora daquele novelo e neste se embaraçando. Fiava com outro novelo. Tinha de entrar pelo portão, subir pelos fundos. Os fundos da casa. Os fundos da família. Por que aceitou morar aqui, no lugar da ausente? Família! Família! Será preciso trazê-la de volta, sim. O mó é nesta casa, restituí-­la a este soalho, tirar-lhe do coração aquela marca. Vê-la de volta, vale muito mais que o meu ir e vir, cinco anos, como aluno do Liceu. Serei o outro raio abrindo a boca daquela mãe, matando na Graziela os dezesseis porcos, der­rubando de dentro daquele macio, o Barba do Imperador, o duro bacurizeiro. Um raio que a vergonha e o asco me fazem desencadear. Perdoada e dona, isto será muito mais que as minhas humanidades.
Lá vem a abadessa, limpando o candeeiro.
— Agora no serão, vou usar só luz que esteja nas meas posses. Não gasto a lâmpada alheia. A luz do inglês, por isso não, que eu pago do meu, para não cortarem, sem ter gasto no registro. Não quero que a Graziela me ande falando que me aproveito de costurar na luz da eletricidade dela. Queres café? Sempre costurei com lamparina na barraca velha.
Será que é também para não abrir a lâmpada do quar­to? Com toda essa luz do inglês, tenho de comprar a mi­nha lamparina? Tenta recordar noites, serões, em que a mãe, com ele no colo, costurava à luz da lamparina. Não via senão a mãe, à janela, com o farol sobre a enchente, a apanhar da água com a zagaia a toalha da mesa. Ou na­quela noite em que a ia paria no curral, ao pé do atoleiro e quando a Felícia, no chalé sabrecada, levantou o rosto, ou a aflição do mundo? à luz da lamparina. E o grito 132 de Mariinha pegando fogo, o toco da vela no gargalo da garrafa à cabeceira do defunto, o Dionísio. Impacientou-se. Da janela do corredor, olhou a noite. Pesada, morna, a parede do vizinho era ver paredão de cadeia.
Principiaria por dizer à nossa d. Dudu que ia revogar a sentença, tirar dos velhos o perdão; mas ainda não se en­vergonhavam do que fizeram? Escreveria ao pai no chalé, que intercedesse. Por que nunca se falou do assunto no chalé? Por que nem na d. Violante nem na d. Duduca nem na casa do seu Cristóvão? A mãe teria sabido. Escreveria ao pai, este, carta na mão, ligeirinho pela varanda, vira e volta, volta e vira a exprimir o seu desagrado: não me to­que apito onde não é chamado. Limite-se ao seu estudo, bico no livro e não nos particulares da família que o aco­lheu. Não se meta a fogueteiro. Livre-se dos atritos, como dizia o desembargador. Depois, talvez se aconselhasse com os catálogos, o prelinho, a resposta do Cristo a Pedro, que se deve perdoar setenta vezes sete. Setenta vezes sete, Co­ronel Braulino. A carta seria em nome de Maninha, da cega (palavras tiradas deste Victor Hugo, desmanado dois volumes a mil-réis no sebo). O Delabençoe ouvia muito o Secretário. “Sua palavra, Major me faz as vezes de um mandamento, pode crer, meu compadre.” Foi o que ouviu na saleta a respeito dos assuntos municipais. Pois o pai diria uma palavra ao compadre. Por que o Delabençoe pou­pou-se ao pai, sem dizer coisíssima? Morria de vergonha? Vergonha tivesse mas de ter varrido a filha da fazenda. Setenta vezes sete, meu Barba do Imperador. Perdão? Lu­ciana não pediu, não pedia, falou a velha parteira. E quem que tem de pedir? D. Dudu fazia bem trancar a porta da casa para que só fosse aberta pela dona, perdoando a famí­lia. Carta ao pai, sim. Em vez do Dicionário de Latim, a palavra em favor de Luciana. Ou será isto um simples 133 faz­-|de-conta? Continuo no mesmo jogo do tucumã?) E por ser so isto não vai ferir a ausente que não pediu não encomen­dou nem sabe se estou no mundo? Quem sabe não se en­tocou, feito onça baleada, na sua sorte, ostenta a surra sofrida, o sal que lhe salgou as carnes, as palavras que lhe diz a Bíblia, a cova que o pai lhe fez?
Aqui o uniforme. Volta ao Liceu amanhã? Nesta per­neira, não o ranger da caminhada mas o vozear do pátio, aquele ponta-pé no culote... O beiço treme. Ser um daqueles leões da madrinha-mãe, saltando no meio das piranhas, mordido, dilacerado, só ficasse esqueleto, mas no meio do pátio cheio e entre os trezentos ginasianos um deles, sem arredar pé. Agora é tarde. Inês é morta. Tarde piaste, gracejo do pai à notícia da queda de Enéas Martins. Todo o Ginásio sabendo que um tamanho caverna do primeiro ano, o calouro da roça, covardemente fugiu do trote devido. E para limpar-se queria correr a cidade atrás de uma desconhecida, de quem nunca soube, apanhar-lhe a mão: vamos que a tua casa te chama.
Sim, o raio, correr na d. Santa, arrancar-lhe o endereço, bater por toda a Babilônia, até aos pés da renegada, se preciso ajoelhar-se, acalentar-lhe o orgulho; o silêncio, o medo, o seu assombro, até que ela por fim dissesse: sim, e aqui perdoada e dona. Luciana em toda a casa, quem a enxotaria? E ver a cara da d. Dudu, viva a loucura, o raio , contra a família, a impura nos lençóis imaculados da alcova, no travesseiro impoluto do casal...
— Mas, aquele-menino, nem café? Jejuando? Se sen­tiu por ter de entrar pelos fundos? Bem, você...
— Não, não. A senhora tem toda a razão. É que estou com o diabo da lição de hoje na cabeça..
— Olhe, meu jejuador, a luz do teu quarto tu pode abrir, que é o teu estudo.
134 E este constrangimento, o embaraço crescente à me­dida que D. Dudu o cobre de atenção, uma atenção seca, exata, infatigável, o administra. Ela que riu, sem pena, da cova de Luciana.
No quintal, ao pé do cacau, depois ao pé do café, lem­brou a primeira vez que viu, nesta árvore, café como fruto, não concebia, como também trigo no pendão, sardinha em lata pescada ao mar, nem o Delabençoe, que abençoava tudo quanto fosse menino, moça e rapaz em Cachoeira, delabençoando a filha dele. Chegava dos sinos de São Rai­mundo a ave-maria e os ecos do pátio.
Este cheirume de cacau e mangerona o apazigua um pouco, pelo menos o coração asserena.
Sobre a varanda, sala de visitas e os dois quartos, d. Dudu baixou a sua cortina invisível. Daqui para este lado, ninguém põe o pé, só ele, por uma regalia; e põe de­vagar, feito o primeiro. Transita a medo, com suas caute­las, a mão na mesa de jantar — alguém aqui algum dia comeu? — a cristaleira, os espelhos tão sem memória e sob o cortinado a cama. Nem o eco dum ressono nem a cinza de uma insônia. Meteu a cabeça pelo cortinado: qual dos dois travesseiros? Não será graça da d. Dudu? Sepultura de Luciana. Cartas não sei de quem no travesseiro. Era? Aqui luz não se abre, ainda cheiram a tinta as paredes, a verniz as cadeiras; dissolvidos em sombra e mofo, na mol­dura, a barba do Delabençoe e a mulher. E desta o olhar falando: aqui o pé não pões, cachorra. Te ferrei dentro do peito como se ferra vaca no pescoço, sendo que o teu urro é sempre. Alfredo ouvia urrarem as vacas velhas do chalé, tempo de ferra ah falecida Merência. Ficou pela dispensa o ferro do pai, inútil, pelo menos deixava de sabrecar o couro das criaturas, ali a um canto, antes de fogo tão feroz, agora apagado, enferrujando, velho ferro da propriedade 135 extinta. Merência. Mas Luciana, naquela ferra, um ai não deu nem dá, conta a parteira.
As janelas da frente, abria? Tentou mirar-se nas vidraças, escuro-escuro, o lustre a modo que ia despencar; sentou-se na cadeira de embalo, rangeu a palhinha. E tudo aqui pedindo: me usem, me usem. D. Celeste, na Inocentes, ou vagueando a pé, na quarta-feira, ao pé do posta restan­te, atrás do sobrado desfeito. Pelos rios, até o pescoço, aquela que saberia usar tudo isto. O que tinha a 32, em Nazaré, de caduca e inválida, desmanchando-se nas juntas,. tem esta a pedir, tão moça: mas me habitem, me habitem! E a sua solidão range na cadeira de embalo e faz ecoar o passo da renegada pelos becos da Babilônia. Esbarrou no consolo, gira por entre os sofás, adornos, o gesso, o jarro, por entre os cem bois que compraram tudo isto.
Saiu pelo portão de ferro — por aqui ela há de entrar, sim, por minha mão, que a casa é dela, e a luz, e a cristalei­ra, e a cadeira de embalo. Como principiar? Ir na velha parteira.
Vizinho, debaixo do jasmineiro, a Esméia num negror feérico.
No Curro Velho, iam saindo as órfãs, a avó tinha ido pegar uma criança no Prado.
Andou pela beirada do rio, saltando nos barcos podres, trapiches velhos, espiou o estaleiro do mestre Afonso. Ar­queado no mangue, o navio morto varava a noite com um chaminé de aflição e ferrugem. E pela escotilha safa o olhar do padrinho Barbosa. Fugiu para não ouvir saltar do chaminé o ganso grasnando.
Fugiu do estaleiro e agora? Entrar neste beco mal enxuto ao pé do rio, misericórdia, nem na Inocentes, por ser este aqui mais agachado, mais soturno, mais sem nome, salta o buraco, olha olha que é a carroça atravessada, topa 136 no cão, aqui renteia a parede, ali resvalando; estreitou-se a goela onde as barraquinhas se afundam e de lá e cá quase se roçam o rosto, um apagadinho rosto de palha e barro, não sei se pedindo socorro ou te mandando ao diabo. Lá no fundo, a lamparina clareia-não-clareia o joguinho de car­tas, gente ou meios fantasmas? e as coisas, tão nenhumas, ao som de um pássaro-preto na gaiola debatendo-se. Pressa de sair do beco que o engasga, fedendo a bucho, a peixe, a pira de cachorro, a seca. Aqui descarregaram flagelados, que ano foi? Deles é a fala, batida ainda do flagelo, ainda sopra a calamidade. Aqueles vultos na cumeeira cobrem de palha nova o ovo de porta e janela, escorre na pouquinha luz a sombra verde das palmas de ubuçu, aqui defronte quem geme? Encostada na cerca, a talha rachada lembra a Andreza escondendo-se numa igaçaba de Camutins na sala velha do Coronel Bernardo: — Índio que me mandou este meu caixão de barro, Alfredo, me enterra debaixo do teu chalé nesta panelona?
— Por aí, não, moço, olhe o pé na vala.
Assusta-se nem agradece, a voz o ampara, vem da portinha escura, moça, menina, mãe? Só a voz mesma a guiá-lo até desembocar diante da Penitenciária. Esta, vo­mitando a sua escuridão, inchava de silêncio e sono. Dentro seus moradores que nem emparedados. Curioso, agora duas buscava, Andreza e Luciana; a culpa, ou castigo, delas era o de terem deixado de ser meninas? Está em ambas o que lhe falta para ganhar o mundo como homem? Caminhava entre as duas, a que sumiu sem dúvida morando na igaçaba e a que perdeu a bênção, acuada num beco.
Mas voltou-se a um chamado.
— Eu?
Duas mulheres parando na esquina esburacada, meio ocultas no capinzal, acenavam.
137 — Quer chegar até aqui perto?
Correu como se adivinhasse, diminuindo o passo ao reconhecer a primeira senhora. A outra, de lado, a escon­der-se em si mesma, cutucava com a sombrinha a toiça de capim.
— Se espantou? Consigo mesmo que queremos falar. Era em você que pensávamos, pessoa conhecida, pra nos acudir, lhe vimos, fomos logo chamando. Ia aonde? Lhe tiramos o passeio, ah malvadeza... Foi?
— Mas tu, só tu, Abigail. Nós, uma osga! Tu chamas rapaz e diz nós, nós.
— Bem, primeiro sair deste capim e destes covões, credo, aí, pronto. Molhou a barra do meu vestido. Não sé espante. Ponha-se a gosto que ninguém aqui é de cerimô­nia. Nos sirva de cavalheiro nesta nossa expedição, acom­panhe duas matintas pereras, mais adiante vai ouvir o nosso assovio. Nos conhece, não é? É. É. As duas vizinhas da José Pio. Sempre a gente dá bom dia ou boa tarde. Boa noite é raro, ou nunca. Nunca saímos. Quem que não se dá com a d. Dudu? Foi a mãe dela, a d. Santa que me assistiu.
Enquanto a d. Santa puder pegar criança, diz o bom do meu marido (para não dizer o contrário), doutor, não. Para isso é marido etc. e tal. Grandes coisas! Mas espero não ocupar mais a boa paciência da velha senão em cura de ezipla, uma benzição, e só. Em cura de ezipla me aconse­lhou ter um jabuti dentro de casa, e eu tenho, sim. Se um filho consome, jamais dois. Que eu ter um mais, ou dois, eu que quero? Um chega. É muito. É como Deus me livre, se eu ficasse viúva (hoje, esta noite, até que eu que­ria), eu casar de novo?
Caminharam rápido,. esta, falante, aquela a boca lacrada. D. Abigail passava na José Pio, sempre séria, andar sério; no dar boa tarde, virava aquela toda risonha, 138 feliz­-|feliz de salvar as pessoas. D. Ivaína, esta, fechada, o olhar breve, o passo preguiçoso, era um bom dia de má vontade.
— Eh, Ivaína, escuro! Pena não ter uma faca no dente contra lobisomem.
No quarteirão, ao pé da latada que escondia a porta e janela, uma anágua-de-noiva, alta e alva, como a clarear a passagem.
— Oh flor! Morador dessa casa, me ofereça essa sua anágua-de-noiva. Anágua-de-noiva, de longe cheira, de per­to não. É como marido da gente, perto não cheira, de lon­ge sim. Não, Ivaína? Ah que isto é dar com o pau na pa­ciência.
— Abigail!
D. Abigail, a mais cheia de corpo, os braços nus, exa­lava mutamba diante da flor que pendia para a rua. E voltou-se para Alfredo, como se fosse decifrar o mistério daquele caminhar:
— Toda vez que passo pela casa onde vós mora, meu cavalheiro, eu me digo: aqui fui gerada aqui nasci aqui me criei aqui namorei aqui me casei... Quando que me conformo saber que tudo aquilo foi, não é?
— Como?
— Aquela casa? Não sabia ainda que ela está em cima da nossa? Que debaixo dos alicerces estão sepultados os Juruemas? Ali foi nossa família. Um casarão de seis janelas, pratibanda com o anjinho de gesso no topo, frente de azulejos iguais àqueles do palacete Pinho na dr. Assis, vidraça azul e branco, passeio alto, ali na José Pio. Atrás se tinha um forno que era ver de padaria. E as touceiras de açaí bem atrás do pé de cacau? Saía pela Manoel Evaris­to. Cada cacharrão de açaí que os moleques tiravam! Uma vez, eu menina, bem moleca, subi num açaizeiro, desci, cain­do, aos gritos, ferrada de caba, me inchou a cara, e tome 139 febre! Mas debulhar açaí no alguidar, cachos e cachos, não me dissesse que não, que eu o pé batia, fazia. Nesse açaizal hoje, tem é uma casa, pro lado da Manoel Evaristo, um ou dois sonhos meus bem enterrados. Só osso. Era mas acabou-se. Hoje somos mais os Juruemas? Meu avô era arrematante de vísceras. Mas o bucho, tanto, era pouco para o desperdício. A casa foi-se, Os marchantes, credores velhos, vieram em cima do que restava. Chega o barbudi­nho e aí está a nova casa. Vivíamos da tripa. Meu avô a bem dizer abarcava toda a buchada do Curro. Foi. Agora, adeus.
Alfredo; eu de novo dentro do que se acabou? A cale­che dos Menezes, a vida inteira, rodando dentro de mim?
— De lá à custa de bucho saiu o tal do meu casamento para a igreja, nossos casamentos, também das manas. O quintal? Trançado de tripa de boi. Um dos primeiros filés chegando na cidade era pra nossa mesa. Noite de São João no meio da rua, defronte da porta. Aquela fogueirona! Um cento de lenha ardendo e toca todo mundo a passar a fo­gueira, as capelinhas na cabeça das moças, o tanto haver de cheiro cheiroso por toda a casa, as tinas verdes de raiz e folhas, e toca a jogar bixas, de repente o fogo de vista, e entra na sala um cordão, outro, o tem-tem, o cabuculino, eivém dançar o boi, tanta espanta coió pela calçada, as pistolas que acendi, as garrafadas de cheiro que entornáva­mos no banho! Uma vez — o banheiro rente do açaizal — saímos, nós moças, vestidas de Eva, não sei que nos deu na cabeça correndo pelo escuro do açaizal, queimando rezina de breu...
— Abigail!
— Tira a honra, contar, Ivaína, criatura? Ou não foi? É eu que encontro, uma noite, dentro da tina a Deo­linda? De vestido só, a pele dela, é o que cobria a doida, 140 a nossa empregada. A Deolinda qual que se banhava n’água era no suco do cheiro, o corpo dela chegava de esverdear, verde-verde, o cabelo um verdume que parecia fumegando. Era os Juruemas na José Pio. Os aniversários que dáva­mos? A cozinhação lá por dentro! Vez de três tartarugas, e depena peru e esfola capado, a pescada de escabeche, os cofos de caranguejos, as pencas de mucuãs sic, e a bruta ma­niçoba, quem quisesse. Macia de dois dias pelo meio da lata. As muitas mesas, fosse contar os convidados. E cor­ria o frasco, do jenipapo à champanha. O avô, na cadeira de couro, na cabeceira, que nem um retrato daqueles anti­gos da monarquia, a figura que vem nas notas de cinqüenta mil-réis. E quando a nossa família ia a convite do Mestre Martinho para a ladainha do Divino Espírito Santo, no le­vantamento do Mastro, com o arraial cheio, a banda de música dos bombeiros? Lá vão os donos da tripa. Lá vai o rei do bucho. Lá vai o Coronel dos miúdos. Os carrinhos de bucho corriam pela cidade. Chegou o bucho! Bucho! Um rim assado na grelha, ah o meu avô gostava. E o vovô que fez casar o barbeiro com a Deolinda? Já o bucho só nosso já não era, era também do Coró. Meu avô perdia. Foi só mexer. com a Deolinda — e eu sei que o cinema do par foi no açaizal dos fundos — o barbeiro esquipou-se den­tro dum navio, de saída para o sul. Vovô vai, catou o fujão na terceira classe: “Mas salta, rapaz, não te levo na polí­cia, vem que te caso, seu esmorecido, te coloco. Toma as alianças, toma pro enxoval dela, te abro uma porta no Una com aquele espelho grande que tenho encostado no meu quarto e os mais aparelhos de barbearia te dou. Põe o véu nela, de altar e lei é tua mulher”. O casamento? Tal qual um dos nossos da família, Deolinda distribuindo grinalda, tira retrato... Mas cismo que o avô pela Deolinda até que tinha... eu que sei? Ou filha dele, criando em casa 141 es|condido? Era de nos dar um senhor ciúme mas até que­ engolíamos, no risco de sabermos que-que íamos saber? Deolinda, de agosto a dezembro, ia, apanhava o cacho no açaizeiro, debulha amassa e dá no tigelão grosso, louça por­tuguesa, o vinho pro vovô. Ela amassando, inclinada sobre o alguidar, com o colo vai e vem, vem e vai, tão cheio, a gente cismava que o açaí não saía dos bagos no alguidar mas dela, dos braços, dos peitos em cima do alguidar...
— Abigail, que te deu?
— O que, Ivaína?
— Febre?.
— Por que?
— Delirando...
— Meu delírio é hoje, esta noite, minha rosa. O avô era o avô. Se sustentava por Deolinda uma paixão de ve­lho ou de pai, eu sei? Só sei que açaí, meu avô nunca mais eu vi tomar, depois que a amassadeira casou. Deolinda era quem trazia o tição para acender o cachimbo, não sei se o avo acendia no tição ou no olhar dela, sei lá. Deolinda cortava as unhas dele do pé. Bem me lembro que olhei o’ avô quando a noiva foi acenando com a cabeça sim ao juiz.
Eu que me atrevo a dizer o que pensei naquele tal instan­te? Então que uma noite, dia 15 de maio, nós, Juruemas, que vivíamos de arrematar bucho ‘mas já na falência, dá­vamos o baile das flores, damas e cavalheiros de branco a rigor, te lembra, Ivaína? Eu já casada, foi no intervalo, serviam os músicos na varandona, quando se ouviu lá da frente meu Deus, que é, que foi, corre, aquele barulho, aquele escarcéu, o mundo acabando, Jesus me acuda que tudo vai abaixo... o soalho foi que foi se arriando, pare­ceu assim que o telhado se derretia todo, forro, parede, frente, nossa família. Feito uma coisa que a terra aboca­nhava a casa num fumaçal de poeira, foi tudo, o baile 142 in­|teiro estrepoliando debandando para onde não caísse caco de telha, viga podre, caco de casa... Deus que ninguém ficou debaixo. Ah mas quem que adivinhava? Me lembro de uma rosa inteira, ainda, se desabotoando no meio do alarido e das ruínas, aqui garrafa derramando o seu resto de vinho, ali um pão de ló inteiro-inteiro com a marca dum pé que passou por cima... Nunca, um só dia, a casa deu este sinal, O avô dizia: esta? Seculo seculorum.
D. Abigail ficou na ponta dos pés, rodou, conteve o riso e alto foi falando:
— Isso de seculo seculorum me faz lembrar a vez que fui me confessar no padre, eu menina, me assanhando de moça, mas ninguém me achando senão moleca. Pois o padre foi abrir a janelinha do confessionário, me viu, me cochichou: entreaberto botão, entrefechada rosa... Mas nunca, olhe que nunca mais me esqueci dessas palavras, não, nunca, então eu já não era menina, não? Eu podia me confessar? O padre me fazia moca. Menina não é mais, seu olhar dizia. Eu escutei duas vezes, fiz que estava rezan­do, um medo me deu, mas contente, depois do espanto, de descobrir que eu chegava a moça. Assim ajoelhada. Num repente me botei de pé, enfiei a cabeça pela janelita, fiz uma língua deste tamanho pro padre: entreaberto é a mãe, reverendo, cuche! E olhe! Não sei como me vi no meio da rua, foi num relâmpago.
Alfredo sem rir: Mas cuche? A senhora disse cuche?
— Cuche. Mas por dentro, moça-moça, eu me sentia, dizendo: obrigada, reverendo. Pois bem: a nossa casa. Me criei debaixo, segura de que ia ali também criar meus netos, como foi? Que sina foi? Que aconteceu com uma casa tão firme de vista, tão bem sustentada, de repente cai? Ah en­ganosa!
— Não deu sinal, Abigail? Vocês que não viam, mu­lher.
143 — Eu tinha que ela não era assim tão velha. Diabo! Mostrando o que não parecia? Por fora aquele garbo de forro, azulejo, lustre, por dentro de espinhaço podre? Estava até de pintura nova. Era o que restava da família, a sobra do que se .teve, eu que ainda peguei um pouco do cabedal. Ela e as festas fingiam a nossa pompa. Nem as almas avisaram. De inteiro só ficou o corredor lajeado. Seis janelas, com o baile das flores, se desmancharam como se fosse num tremor de terra. Naquelas seis janelas me debrucei menina e até agora me debruço. Também acabou-se a José Pio naquela noite. Acabou-se espalhou-se a famí­lia Jurema que só se mantinha de posição e nome naquela casa. Esfarelou-se o palacete, esfarelou-se o nome, adeus bucho! Casarão festeiro! Não foi, foi leal com a família, podia antes nos dizer: aviso que no dia 15 de maio vou abaixo, me cansei de festa, dos Juruemas. As casas não cansam? Ou tudo é nada, ou nunca o ente pode confiar nos alicerces? José Pio só era rua graças a ela, por nós, que éramos ali a sociedade. Que hoje? Rainha, sociedade, ali, gente, hoje é a Brasiliana entrando pela taberna, botou as canelonas na nuca do português, aprende violão, e abrindo cada vez mais o valão da boca da rua. Tu, Ivaína, sabes que o teu marido quando vem de viagem... Que os mari­dos proíbem suas mulheres de irem lá. O quarto daquela mulher é um camarim de coisas que a Alfândega nem adi­vinha. Da Guiana, de Iquitos, então... Teu marido, Ivaína, bem que sabe e te proíbe de ver... Do respiro que tem no mirante da taberna, ela nos olha a gente passar. Sim, que teu marido te traz até mantilha, sim, eu sei. Contam que o esconderijo da Brasiliana é cavado debaixo da taberna. Tenho que tem até ligação com a vala, quem sabe se não querem abrir daquela vala uma saída para a baía? Será que pela vala entram os grossos contrabandos?
144 Alfredo não sabia. Da Brasiliana ouvia o xô! contra os urubus, conhecia o quimono amarelo, o penteado torre de Pizza, ou as tranças compridas e o violão. Lá dentro, rio mirante, o camarim; vinha de lá, às vezes, um cheirume de rezinas queimadas.
D. Abigail repete:
— Que hoje? É sombra da José Pio. O diabo soprou:
no chão. E do chão se levantou aquela casa. Me escute, moço, desculpe indagar, é por uma curiosidade só, mas onde é seu quarto?
— Abigail...
— Espera... Não sei, não sei, mas aqui ao lado do nosso ginasiano, me dá que me dá uma saudade da nossa casa... Saudade só? Só? Aí, Fernando, acode as minhas coisas de menina... foi o que eu gritei quando vi a casa caindo. O meu marido me pegou no braço, me puxou, fugi­mos pelo açaizal. Juro que no braço dele não estava a mu­lher dele mas aquela pirralha que eu era... Sabe o que é engolir uma casa desabando, carregar o entulho toda a vida adentro? Moço, o ar. mora na viva mas respira da morta os nossos suspiros.
— Abigail, a noite te virou a cabeça, mulher?
— E assim aquele... como é o nome? O coronel bar­budinho de Marajó — é seu parente? — andando atrás de fazer casa na José Pio vê o entulho, o terreno, com dinheiro de boi comprou. Pena que não tivesse comprado a parte do açaizal. Podia ser que deixasse as touceiras dando cacho. Muito do entulho bem que serviu pros pedreiros. Na massa daquelas paredes muito de nós juro que está.
Alfredo via nos olhos da d. Abigail a família desfeita no entulho, ela falou nos cacos em que ficou tudo, o São Sebastião, o aparador com louça, a mesa — quanta flor! —Ide doce e bebida, e o seu tempo de menina e das irmãs, 145 aquelas tias que iam ao Prado de carruagem, as pastori­nhas em dezembro, os cordões em Junho, os bailes de máscaras, as valsas e polcas soterradas, ainda pegou o jazz... A casa de Luciana sobre os bailes da gente Juruema, sobre os Juruemas tão falados da José Pio.
— Hum, no que cai uma coisa outra se levantando. A casa onde mora, aquele-moço, é nova, sim, talhada à mo­derna, não aprecio, mas isto é gosto de cada um. Mas tão só, que não! Tão fechada, tão sem ninguém morar! Ah que comparação com a nossa velha! Aquele nosso fami­lhão! Vovó bem que nos diz: consolo foi cair em plena festa. Acabamos em maio, nas flores. O baile a jasmim cheirava. Nessa noite, o Zé Luiz, nosso primo, flautista, depois que o jazz foi embora, tocou tocou tocou até a Usina apitar. Por cima de tudo era a flauta dele. E eu agarrada no meu marido em volta dos escombros. O sereno agora era em cima do entulho, e havia gente rindo, e gente que tirou do entulho o que sobrasse. E vamos, distribui a famí­lia, pelos buracos da parentada, onde caber a nação? Só meu avô, com sua barba meio amarelaça, que eu tanto penteei... ah que até do catarro dele tenho saudade, só meu avô uma veinha no rosto que fosse não mexeu. A casa tão segura, tão de pé! Vá a gente confiar. Se deixou pintar e tudo, como dizendo: estão pintando é o meu cadá­ver. E foi a casa cair, morre avô, morre mamãe, morre a Zita, Brígida encarangou com reumatismo. E o mais? Fosse contar. Por isso que para dar sorte eu tenho, lá na nossa puxada — está quando quiser, às ordens — até bosta de cobra. Sabe Ivaína, que vou criar um pinto dentro de casa? Me ensinaram que todo mal entrando em casa quem recebe é o pinto. Sim que ao pé do portão já tenho aquele tajá.
— E seu avô, então...
146 — No fundo do quintal o resto da noite, de pé, sem uma palavra, O único dali de pé. Que a casa estava mais caindo em cima dele que no chão, eu sei, eu sabia. Aquele só foi abaixo mesmo pra ser levado àquela outra nossa casa sem janela.
Um quarteirão, os três calados. D. Abigail, de início solta a língua, botou cadeado? Que favor pedem, acudir quem, que rumo tomam, velório, ver doente, atrás de pajé, ir na polícia, serenar casamento? E seus maridos? Estes, um conhecia, era de bordo, estaria em viagem? Passava na José Pio, charuto e chile, encharcado nos seus extratos de contrabando. E aqui agora o fugido do Liceu com as duas esposas em silêncio? Contidas de vergonha e medo? Na voz de d. Abigail, em tudo que dizia, era mais para disfarçar a apreensão, a incerteza, a raiva... E ao falar da casa velha, da família, do baile das flores, o ressentimento visava mais longe, até onde e a quem, não sabia. Mais do que o azedume de ter de passar todo dia por onde um dia foram os Jurue­mas, era este caminhar desatinado. Ia num passo amargo. D. Ivaína, sempre arisca, a ocultar-se, muda, escasseando o rosto. Agora cutuca a outra com a sombrinha para que continuasse a falar, o favor pedisse. Mas d. Abigail queria encobrir os cuidados presentes.
— O avô, o cálice de vinho-do-porto na mão, adminis­trava o baile. A barba em cima de tudo, bem festeira mas vigiando. Na cabeceira, fazia o seu cerimonial, partia os bolos, determinava os oradores, peguei ele ainda marcando quadrilha. Quem abusasse, ele segurava pela gola, no fun­dilho, rua. Estou vendo ele no passeio, na preguiçosa, ca­chimbo, jornal, a carapuça de pano, o papagaio velho, o macaquinho de cheiro, o altão capitão Juruema de muito nome pelo São João, bucheiro-mor. Dele a raça acabou. Que ele teve, teve, sim. Poupar não estava no seu dicionário. As festas fazia, penhorando os restos de ouro, até um 147 ora|tório, bonito! Pois até enterro saindo daquele casarão podia se ver. Os dourados, os crepes, as. coroas, a carrua­gem do defunto na São João, os bondes na Municipalidade, assim não foi com o finado tio Joca? Quando vi chorarem, vi os luxos, eu, menina, pensei que tudo aquilo fosse mais pro povo da rua ver, dizer assim: vejam como os Juruemas morrem. Depois, era o armador cobrando, cobrando, de tanto cobrador bater na porta, abalou os alicerces... No mais sempre as seis janelas escancaradas com todo o sol entrando. Por que vivem tão fechadas as duas janelas da casa nova? Por que o luto?
Alfredo quis responder ou fazer supor: por Luciana. Como se a casa adivinhasse, reclamasse sua dona e se im­punha a si mesmo o silêncio, o luto; escancaro-me, enxoto de mim a casa velha, se me trouxerem a minha dona. A D. Abigail, de leve, com o braço nu no cavalheiro:
— Agora este-um tão moço sozinho-sozinho numa casa tão fechada. Viesse morar na. nossa velha, na que ficou debaixo.. Viesse. Ali, assim, não tem medo? E então foi hoje, não?
— Hoje, d. Abigail, hoje?
— Sim, o primeiro dia de Ginásio. Até que indaguei: virou soldado? Ficou bem de farda. Devia nos acudir mas com o seu uniforme. Quepe e perneira dão respeito.
— Quando voltei, viu?
— Não, que foi?
— Chovia.
— Fui eu que dei um nó na minha combinação pra chamar chuva.
— Mas Abigail!?
— Tão sem cabeça estou que falei o que não devia? Que blasfêmia soltei? Dizer o que não se diz, consentir o não consentido, já pratiquei, fiz, Ivaína? Ou chegou, esta 148 noite, a minha vez? Ivaína, se tu te arrependes, te deu medo, não queres mais ir, está em tempo, menina. Volta. Que eu, por mim, retesei a flecha. À toa não foi que pen­durei na minha volta esta oração. Que eu desencanto hoje, eu desencanto. Sou a caça atrás do caçador. Hoje eu morro mas desencanto. Uma Juruema aceita o desafio, vamos ver quem sobe no pau de sebo e arranca o bicho, se a Juruema, se um Aguiar. É do nó, que falei, Ivaína?
— Abigail, mulher...
— Olha, Ivaína, foi Deus que nos apareceu esse vizi­nho. Do céu veio pra nós duas sozinhas. Ele vai testemu­nhar. A ninguém, fale, aquele-moço, por misericórdia, nos afiance, nos jura? Posso confiar? Fique então sendo o nosso anjo da guarda.
— Anjo? resmungou d. Ivaína, num passo brusco.
— Ivaína, não deixa a espora te doer tanto. Sim, meu anjo da guarda nunca me virou as costas, pois nunca durmo nua. Tu dormes?
— Abigail, padecente, te desconheço, rapariga. Não repare moço, que ela nunca foi assim. Abigail, raiva não tira os termos de uma senhora. Assim também não. Teu rancor te perde. Moço, não mude o seu rumo, que nós duas daqui voltamos. De tão danada, a minha prima aqui já nem sabe o que diz.
Alfredo abriu os braços, sorrindo. D. Abigail lhe fez sinal que ficasse, não se incomodasse. Segurou o braço da prima, segredou-lhe, voltou-se para o jovem:
— Pois dei, sim, o nó, pedindo que chovesse sem fim. E não foi que só choveu de manhã? Esperei de tarde, boca da noite, choveste? Adeus. O demônio! Tivesse ao menos chovido. Nó mais mal dado! Ah, que tanto que tomei ba­nho daquela batata, do vai-e-volta!
— Te fiaste no nó, Abigail, na chuva, como se nó e 149 chuva proibisse... Ora, mulher... Banho de vai-e-volta não faz ninguém voltar.
— A d. Abigail queria chovendo dia e noite?
Acenando que sim, d. Abigail se inclina a examinar a gola do vestido, receosa de um bicho andando nela, contou que em sua casa deu de aparecer uma tal quantidade de bicho, tapuru, lacrau, ratinho vermelhinho caindo do te­lhado, tamanha aranha caranguejeira, descendo no pano do mosquiteiro, além do moscaréu, ai que nunca acabar de mosca, e ao pé do esteio na frente pois não nasceu também um formigueiro? Era não era? Não contente, o azar foi mais, me aparece uma borboleta-bruxa.
— O que, Abigail, era?
— Muita moça por esse São João apetitou entrar na igreja de véu e grinalda no braço de quem foi o meu nubente. Perdoaram?
Alfredo apanhou em cima dele o olhar de d. Ivaína que desviou o rosto, num passo de sobressaltada. D. Abigail cortava os maus olhados. Alfredo arriscou uma pergunta.
— Depois vós digo, aquele-moço. Agora, correr o nos­so risco. Faz de conta que vós é o prático dessa barra. Vou hoje até os confins. O nó, aquele-moço, é bem outro, é mais que cego. Desatar é que são elas. No Ginásio faz também o tiro?
No que êle quis responder, d. Abigail voltou-se para a outra, passou-lhe o braço pelo ombro, a cochichar-lhe... Al­fredo ouvia: mas ah... mas ah... D. Ivaína abriu fechou a sombrinha, deu uma topada, amaldiçoou, disse que fosse tudo para as profundas mas que dali voltava, voltava para casa, logo passou a correr na frente, parou, tomou fôlego. Sentou-se num toco, enterrando a cabeça no colo, aí ficou um tempo. D. Abigail emparelhou-se com o cavalheiro.
150 — Desenterra a cabeça, desvalida, desespero não é remédio.
D. Ivaína fez saltar a cabeça assim de repente, estava de pé, tudo num instante, deu o rosto à noite, a face de quem acordava e ao mesmo tempo crispada de uma espécie de humilhação e nojo.
— É. A rês atrás do açougueiro.
D. Abigail não escondeu o seu pasmo e deixou a mão ficar um tempo no ombro da companheira que se assoava na barra do vestido.
— Não repare nas nossas confidências, eu e Ivaína. Saímos de casa para um fim, O bem que você está nos fazendo só Deus lhe paga. Olha, Ivaína, não te adiante na frente assim tanto. Não espalha a patrulha. Tu aí sozinha e eu aqui atrás... Vamos tomar o nosso rumo?
O nosso rumo? Servir de testemunha? Correr o ris­co? A rês atrás do açougueiro? Dar boa noite ou aceitar acompanhá-las? Afinal, a que iam? D. Abigail pareceu alhear-se um momento, desabotoada nas costas, a dizer, surdamente: — Oh esta mea raiva, oh esta mea raiva... O horror que me dá. Um raio que eu tivesse...
Também vós senhoras, às voltas com um raio? D. Ivaí­na, muda-muda, o moreno escorrendo pelo pescoço, queima­va a nuca, e um desassossegado colo. Boa noite, alguém passou. Recuando para a sombra, as duas não responderam. Trovejou longe. Esta noite.., murmurou d. Abigail cruzando os braços nus, sem dizer mais nada. À frente de Alfredo, parou, pediu-lhe, baixo: quer me prender esse colchete aqui nas costas, não lhe fazendo de meu criado? mas a entender que isso era só para cochichar-lhe: Aquela lá na frente vai que vai escumando, a prima Ivaína. E eu? Eu, me visse por dentro, me visse.
151 A outra, adiante uns dez passos, insondável.
Ivaína, pára um pouco, rapariga.
Pararam. Na casa defronte abriu a luz da sala, as duas depressa debaixo da mangueira, acenando para Alfredo que se recostou no poste, esperou. D. Abigail o chamou.
— Pode mesmo nos acompanhar?
— Pois não.
Colando-se na cerca, d. Abigail tirou de entre as. esta­cas um botão de papoula.
— Bem que eu queria desta papoula um chá. Ai que eu dormia. Não dormia? Em vez deste caminhar dos infer­nos, dormir e me guardar no sono. Qual! Não merece tanto, não merece nada. Você não fuma? Ah que eu até um cigarro, de que tenho tanto abuso, um, eu um instantinho eu tirava uma fumaça. E tu, Ivaína? Mas eu do sono, hoje, quero milhas. Não, Ivaína?
Mãos cruzadas sobre a nuca, d. Ivaína não respon­dia.
Que dos infernos era? õ Antônio, amarelinho perna seca da madrinha-mãe, vem nadando das Ilhas, quebra a lâmpada para que estas senhoras soltem a senha. Que ao menos me indaguem sobre o pátio, souberam? Ou me quei­ram falar... sim, o interesse pela casa, saber da janela fechada, quem sabe? Sim, podia ser. Sabendo da presença dele na casa, que é dela, Luciana manda-lhe um recado, que as senhoras trazem por pura abelhudice e sem a ciência dos maridos, saboreando assim um risco, próprio de pes­soas mantidas em proibição. O casamento proíbe muito. Mas, d. Abigail e d. Ivaína a isso não se prestam, tementes que são de seus maridos, sabem de Luciana quanto sei de Trebizonda. Ou a uma conversa da d. Santa, compadecidas, vão levá-lo a uma esquina, a um tronco de mangueira onde 152 Luciana lhe queira dar uma palavra. Nada tão desejado, nesta hora, como uma palavra da ausente. Não que viesse dizer: sou uma culpada, sou uma inocente, perdão não peço. Uma palavra, qualquer, uma boa noite, o seu rosto, num re­pente, bastava. Mas não será ainda o pátio que lhe confere esta preocupação absurda, este vir pela noite atrás de quem não sabe nem pode encontrar agora, e teimando esperar por d. Santa no Curro Velho? As senhoras cortam-lhe o ca­minho, delas a mutamba, os bailes no entulho, o respirar, o colchete de d. Abigail, e da d. Ivaína o secreto rosto. Pri­meiro encontro com mulher do teu próximo, duas. Duas senhoras lhe dão esta primeira vez de se portar como cava­lheiro e nelas ao mesmo tempo assim devagarinho ir desco­brindo adivinhando o que ainda não via nas outras. Não, não é mais a Libânia nem Odaléa nem Andreza. Nem Esméia, negra quanto donzela alva de jasmins. Também não é mais a Dolorosa? De que horror, de que infernos, fala a d. Abigail? Por um simples dizer? Escumavam por den­tro, era? Horror, sempre se diz, por puro abuso da pala­vra. E tanto chuva queria a d. Abigail, que explicava? O nó da combinação, d. Ivaína achou feio. Ora, combinações da Odaléa abriam-se ao público na cerca da lavadeira.
— Não é melhor seguir doutro lado? Indagou. As damas obedeceram, silenciosas, numa pressa assustada, esta casa é conhecida, vamos passar de largo, podia choverzinho um pouco para que Ivaína abrisse a sombrinha, assim dis­farçava mais, como cabiam três? Lá em casa tem um so­bretudo grosso, mesmo neste calor servia.
— Mas, Abigail, os três?
— Que três, Ivaína? Nós? Dentro, uai, debaixo do sobretudo.
D. Ivaína consentia aproximar-se, sem ainda mostrar o rosto.
153 — Quebra-se pela Curuçá? indagou a d. Abigail.
Aonde vamos? Aonde? As duas senhoras emparelharam com o rapaz, “vamos andando”, d. Abigail repetia » baixo, cautelosa, como quem vai no encalço. Andando. E é ele anjo da guarda entre as duas caminhantes, nunca ha­via senão trocado bom dia boa tarde boa noite com seme­lhantes senhoras vizinhas da José Pio quando passavam no alto dos seus matrimônios, casadas da cabeça aos pés. Moravam naquelas puxadas gêmeas, de madeira, borradas de oca, fim da rua, passando pela jaqueira grande. Agora não mais senhoras de dia voltando das compras, seguindo para a igreja, mas senhoras da noite, carregadas de miste­riosa ira e pressa, seus colos agitados, a modo que fugiam?
— Pela Curuçá pode-se sair no Una e já. Primeiro, a batida pelo Una. Canivetinho de pintainho que anda na barra do vinte e cinco...
Parando de repente, d. Abigail tirou um sapato, so­prou num ai de alívio; ao calçar-se se apoia breve no ombro  do cavalheiro que vê parte das costas da senhora; novos colchetes desprendendo, abria-se a maneira do vestido. D. Ivaína, a voz furtiva, o olhar guardado, caminhava e uma e outra vez ao roçar de leve no cavalheiro, logo desviava-se, logo vinha, cabeça baixa, será que vai rezando? Escureceu mais o quarteirão deserto — e a faca no dente contra o lobisomem? — d. Abigail amparou-se no tronco da castanheira, braço na testa e deu um salto, um grito, correu, viu uma borboleta bruxa, bateu os pés, tinha pisado no for­migueiro. Saltou como uma bailarina, sacudia o vestido, dava-se palmadas na perna.
— Estou com o mocotó feito fogo., Se me sobem, meu Deus!
— Mas antes das formigas foi só por ver a borboleta bruxa? Que foi, d. Abigail?
154 D. Abigail estendeu a mão ao cavalheiro:
— Pegue. Não é um gelo? A borboleta grande, tão parada, credo! Mas que é, Ivaína, que me olhas tão assim? Eh, não me azela sic, pequena! Eu como cravo, me abro, tu, como rosa te fecha.
Na sombra, a, d. Ivaína quase invisível, esperava-os. Tonta? indagou, rouca Tonta? D. Abigail esfregava as pernas, batia as roupas por dentro por fora, esmigalhou a formiga: arre! arre! faz de conta que és tu, formigão de calça que a tal me obrigas. Que sinal foi aquela borboleta bruxa? Alfredo ouvia, e ouvia também o passo brusco da d. Ivaína lá na frente. Ao pé da vala, d. Abigail receou pular, o cavalheiro deu-lhe a mão incerta, a senhora pulou, caindo-lhe o sapato do pé esquerdo. E ali, d. Ivaína, ali tão junto, o olhar aceso.
— Cansada, d. Ivaína?
No mesmo sobressalto, ela afastou-se, revoando o cabe­lo, quase a correr, no mesmo que foi, voltou, as mãos no rosto: oh Abigail eu volto. Eu volto. Alfredo deteve-se, cada vez mais inseguro, num gesto de acudi-la. D. Ivaína a seu lado continuou a caminhada D. Abigail, queimada das formigas, pediu o lenço de Alfredo — lenço que a mãe tirou do Major, bastante velho — e passou no pescoço, devol­veu-o, Alfredo não sabia. No saltar a vala, ela segurou a mão dele, sem receio nem pressa, no pulo a figa de guiné da pulseira roçou os lábios do rapaz. — “Esta figa? É fei­ta de mucuracaá.” — Escapou-se na frente, bruscamente enraivecida. “Tu, diabo!”, volvendo com o gesto de dar o braço ao cavalheiro, confusa, se deu conta, alegou fadiga, o braço nos olhos, fazendo-se envergonhada. Mais alto no meio das duas, Alfredo viu-se pisando na linha alta e bam­ba daquele trapézio, ou na lona feito um bobo? Delas não só a mutamba mas a loção de bordo, de contrabando, o seu 155 colo, d. Ivaína, os seus braços, d. Abigail, tinham saído do seu banho, preocupadas que iam, trescalavam mais. D. Abigail, impaciente, por esta palha se lamentava, toca-não-toca o ombro do cavalheiro, a indagar-lhe do Ginásio, de Cachoeira, da nova casa por dentro, viu quando entrava, uma tarde, a cristaleira... De novo os colchetes, sim? logo a imprecação surda da qual saía cantarolando. D. Ivaína, se bem que agora junto, nem um suspiro, trancada.
— Bem que já andamos, não é? Só falta a cruz. Olha, meu pé, tu não incha. Até quando, Ivaína?
D. Ivaína nem uma palavra.
— Até o inferno? De quem a culpa? De má moléstia, de todo o pior mal que pegue, inche eu sei quem. Pobre de mim, atrás de um peixe bagre!
No que disse, d. Abigail deu com o pé no toco, o rosto nas costas do cavalheiro, agarra-se na blusa do rapaz, sol­tou-se o cabelo nas mãos dele, ela fugiu mãos na cabeça.
— Calamidade! No chão meus grampos. Me acenda um fósforo? Ah sim não fuma. Como atar este sanhanhá todo? Me dá teus olhos, Ivaína, me deixa ver no espelho deles. Acende aí então, no capim, seu vaga-lume. Me deixa achar meus grampos. Pra que foi que nasceu mulher no mundo, meu Nosso Senhor Jesus Cristo? Costela mais des­graçada! Me acende, vaga-lume. E agora?
D. Ivaína acudiu com uma fita. D. Abigail atou, os braços altos, sumarentos na sombra, e isso a fazia mais longe de sua puxada na José Pio, mais à feição da noite.
— Pelo jeito nós até que parecemos levadas pelo diabo, que acha? Sim que lhe dou razão. Mas espera daqui a um pouco. Ai meu Deus que é que não vai falar esse moço que nós sorteamos para nos carregar tão assim nesta noite, mas meu Deus! Que dia é hoje do mês e da semana? Não lhe gabo a companhia.
156 — Que tem acompanhar?
— Que tem? Quem que adivinha? Só vós, meu Deus.
— Que vós meu Deus nada, Abigail. Agora é com os cachorros.
— Ivaína!
D. Ivaína fechou mais o colo, à espreita, carregando o seu mistério sobre as pedras do Una. E aqui foi que Alfre­do foi se lembrando, como não lhe ocorreu antes? Sim, sim, ia se lembrando, Dinoca lhe havia dito, foi na porta do Antonico, Brasiliana ao violão, também esta sabia? Era, a dona, essa, de que se falava. Corria na José Pio que a d. Ivaína, na lua de mel, o marido a rompeu como um touro e de tal crueldade a senhora não sarava. Mas neste minuto desmentia, parecendo dizer: daquela prova ganhei este sobressalto, com que enleio o meu acompanhante, tirei do inferno o meu sabor. Alfredo espantado com a súbita lembrança. Ou aquela instantânea dureza no rosto era ainda a sufocação do grito, de sua morta esperança de que daria menos um ai que um suspiro quando o girassol, não o chifre, lhe pousasse e a iluminasse? D. Ivaína guardava, tensa, as suas doações entre gelo e fogo. O marido, é ver­dade, se via passando na José Pio, boné e barbado, enter­rando a cabeça no tronco, feito um touro raspando o chão. Alfredo presumia-se, agora, mais íntimo da golpeada. A noiva, esta noite, vinha atrás de suas bodas.
Em ambas meto o braço, carrego-as comigo pela noi­te... Aonde? Desce, raio, acende o rumo, me escancara esta porta. Naquela carta de Andreza, tão da Gentil, dos trens e das borboletas, atirada miudinho aos sapos — ela no fim pedia uma oração de abrir porta. Quis fazer novas perguntas mas preferia saborear o imprevisível, meio sus­penso, tudo ali era um curso a fazer, pondo à disposição de uma e de outra os seus espantos, a sede de reabilitar-se 157 perante si mesmo, ou saber se a taoca o mordeu, toda ma­tutice que vinha desde o pelamento do barbeiro ao trote no pátio. Que elas também me ensinem a achar a Andreza, como levar de volta a Luciana, a encontrar de novo o ca­minho do Liceu.
— Sozinhas não podíamos, explicava, quase de si para si a d. Abigail, ombro no ombro dele. Alfredo sentia-lhe o arfar, o hálito, e incontida, por isso mesmo ocultando-se àsua maneira, de repente com um pudor de menina, ou fingia isso, para se dar mais encanto ou por sentir-se, sem saber, ou muito sabendo, que mudava, sim, desatava-se... E d. Ivaína, esquiva, rolava a sua cruel aliança no dedo. Então culpadas de tê-lo convidado? Davam-se conta de que não tinham trazido imberbe acompanhante mas um de re­pente homem? Isso não explica o salto que deram, dis­tanciando-se dele, as duas de braço dado, lá na frente?
Eivém, de meia volta, a d. Abigail falando de uma vi­zinha, a amazonense, esta um tanto salgada de língua, querendo passar por infiel ao marido sem ser nunca. D. Abigail indagava-se: por que fingir-se de ordinária, espa­lhar entre as amigas a fama que não era, e sem nenhum proveito, ao contrário? Gabar-se disso entre as amigas? A modo que o próprio marido sabia do faz de conta dela e também divertia-se ou capaz de estar por tudo, as vizinhas não sabiam. Não era. Fora do marido aquela creatura não olhava um homem, pois que as vizinhas a espiavam, se­guiam-lhe o rastro, as horas hora a hora, seus dois filhos bem criados, embora um pouco descuidada de sua pessoa e no tratar a casa, no receber às tardes o marido, que vinha do Miramar onde trabalhava. Quando ia na vizinha, era entrar no quarto, se ver no espelho, diante do talco, do perfume, então que se empoa se estrata, vira a infiel, faz o papel de uma outra nua e crua, e proezas contando, e 158 pegava um desalinho e uma feiura das perdidas, de se pen­sar que era de vera, medonha de modos. Aqui a d. Abigail dava a entender que a imitava? Pelo proceder da amazo­nense, metia a mão no caldeirão. Fiel não por um dever mas pelo amor, que tinha muito, ao marido, pois só dizia de boca aquilo e assim representava, para divertir, escan­dalizar as vizinhas. Ou causar-lhes inveja?
E dito isto, d. Abigail deu de correr, como se quisesse fugir à visão da amazonense, espiou janelas, soprou seme­lhante a Antonieta, soltou grampeou o cabelo, ondulou na frente e atrás de Alfredo, e foi quando passaram pela igreja fechada. D. Ivaína abafou o susto, Alfredo suspen­deu-se, vendo ajoelhada diante da igreja a d. Abigail. E alto aos santos pedia que salvassem o marido, nem um risco as duas corressem, abençoassem o caminho delas, em tão tamanha noite, e prometia uma cabeça de cera no Carro dos Milagres.
— Vós que estais nessa igreja, guiai-me até onde devo ir, meus santinhos.
Afundados no escuro, d. Ivaína e Alfredo, esperavam atônitos. Foi se levantar, d. Abigail veio correndo como para impedir que se consumasse com a d. Ivaína o que ali rezando rezou que não lhe acontecesse.
— Hein, Ivaína, que seria do nosso triste errar se não fosse ele?
Alfredo sentiu o olhar de d. Ivaína que ajeitava o ca­belo, franzia o rosto. D. Abigail colou-se ao acompanhante, de repente fecha o punho contra as invejas alheias, contra as bocas de praga, contra Fernando, o Fernando. Fernan­do? D. Ivaína resmungou: fechasse a porta com o marido dentro. Cala-te, boca.
— Fernando, o seu marido, d. Abigail?
— Não me casei com a peste, aquele-menino.
159 Alfredo estancou, o pé duro: então atrás dos pestes? E eu tio-bimba servindo de guia? Ou será isto mais um alçapão, o dia inteiro no logro, e a noite, para completar o trote? As sumaumeiras, tempo das chuvas, começam a abrir os frutos, recorda Alfredo. Tempo das chuvas. Aqui estas, o fruto abrem, sente-se debaixo das plumas?
— Ivaína, quem faz calar mea boca, é aquela que en­caixota a gente para o pasto das minhocas. Eu desde pixo­ta o meu vício é falar muito. Em criança, minha avó fez pinto piar na minha boca.
E Alfredo escutava as duas adiante, fragmentos de conversa, frases soltas: ele nasceu empelicado, da pelica tiraram um pedaço, guardado na lua nova pra defumar as mãozinhas dele, assim ter sorte. D. Abigail falou da ma­çonaria, suas festas, os programas de recitativos e caridade, quer passar bem? vá num baile maçônico, tem de tudo, do peru à unha de caranguejo. Também o Fernando pertence à Liga de Liberdade contra os Lobos, donos de quase
todo o bairro, herança de uma sesmaria, que o rei de Por­tugal deu a um Lobão, vem de muito longe. O avô sempre foi contra os Lobões que vivem da cobrança do foro. Qual­quer barraquinha de chão tapadinha de taboca e barro, paga pros Lobões. É uma dor suprema. Dor suprema, a valsa que o Santa Cruz tocava ao violão, em São Brás, ao pé do mercado, com os retirantes do Ceará, ali, no chão, ressonando. Alfredo escutava. D. Ivaína, a um momento, se fez exótica, olho puxado, uma coisa que era uma solidão dentro dela! D. Abigail recompôs o calo, sungou atrás, suspirou alto.
— Não anda de costas, Abigail, que isso faz a pessoa infeliz.
— E eu? Mais do que sou? Então essas da rua são que nem onças? Do boi gordo a onça escolhe. Sua 160 prefe­|rência é tirar o fígado, o filé, a língua e deixa o resto pros urubus. Eu urubu? Dele só vão deixar a caveira, o bucho? Ah, Ivaína, queria era ir feito iara, calcanhar às avessas, no tijuco, no rastro, e pegar o boi bem no dente das tais onças.
Ouviu-se o apito da Cremação. Cremação? O forno voltava a queimar o lixo, era?
— Deus! As oito! É Deus que até faz boa noite. Mas melhor chovesse.
A ouvir a Cremação, Alfredo lembrou o tempo na Gen­til, marcado de apitos e pregões, a borboleta na vidraça, o passo de Libânia carregada de lenha, as amêndoas suan­do... Aquele apito contra as moscas, também lembrava o pedestal da República, onde as mulheres, não choravam, bramiam a morte dos filhos, o pai a enterrar o seu anjo no quintal e aquela mãe, fugindo à matança, oculta no barco “Santo Afonso”. Mas foi ontem-ontem! E aqui estou, tra­zido pelo pátio, neste caminho, aqui entre as duas desco­nhecidas, e que querem arrancar das onças da Pedreira pelo menos a carcaça do boi. Ou elas me querem apagar, para sempre, a Gentil, a disenteria dos anjos, a visão de Valmira rodando no largo, a lua que era o seu rosto no necrotério? Estas saias me separam das meninas, da Do­lorosa, agora o apito marca um minuto de presente risco,
— aqui não se pesca o peixinho, é a caça — e não aquelas horas saindo do piano do 160 e das mãos de Libânia a amassar o açaí. Aqui andando para seguir as senhoras desta noite, o calcanhar às avessas no rastro do não con­sentido. O não desejarás a mulher do próximo, nunca tinha entendido ao certo, um vago mandamento no catecismo, numa e noutra conversa do pai; sabia agora melhor aque­las malícias, não era só de seriedades que ali no chalé se conversava, principalmente à tardinha quando os matupi­ris e sardinhas esperavam que a d. Amélia sacudisse a 161 toalha da mesa sobre a enchente; desfilavam na varanda as mulheres cobiçadas, e Sodoma, Roma, Bagdá, o pai folhea­va o seu catálogo de pecados. Mas isto não contaminava a mãe, como se ela se protegesse nos vapores que aspirava das garrafas e botijas. Assim mantinha-se imune, a mãe do afogado, a mãe da Maninha, a mãe na boca do toldo varan­do a trovoada para levar o filho a Belém. O pai trazia da Bíblia e do catecismo e de baixo das batinas as sagradas impurezas que não convertiam a mãe. E aqui, agora, agora vê que estas são as mulheres de que fala o catecismo, são do próximo, o próximo que elas procuravam, que louvam e depreciam, maldizem bendizem, menos ciumentas que ofen­didas, mais inclinadas a parecerem culpadas que vítimas. E num momento as duas, falando alto, passam a rogar pra­gas contra os maridos, aos poucos foi Alfredo sabendo a respeito dos maridos mas sempre muito incerto porque elas, na medida que investiam contra, se apressavam a louvá-los, para que cada uma tivesse a certeza de que o seu era me­lhor que da outra e assim estendiam a disputa até saber, em meias palavras, numa competição, qual das duas era a mais devotada, mais trabalhadeira, mais virtuosa, tornando mais precioso o risco e mais cobiçadas. Ou por estarem amorosas demais dos maridos, de tal forma cegas, temes­sem ficar cobiçosas dele? E logo acusavam o homem, a servidão de séculos que sofriam, a calúnia da Bíblia contra Eva, o opróbrio daquele caminhar. Alfredo ouvia como um diferente homem que viesse desagravá-las, restabelecer a verdade e a justiça. A proporção que elas acusavam, iam se tornando vencidas, sem razão, nem esperança, enlaçadas na sedução da viagem e do que a noite consentia. A paisagem as coisas, os incidentes, o combustível para as explosões da d. Abigail e d. Ivaína, a primeira, no que 162 pra­|guejava, cantava; a segunda, cuspia a sua ira, de repente rindo-se, nem acabou de rir, trancou-se.
Mas eis um homem, rompendo o escuro, riscou um fósforo no rosto da d. Abigail, passou sem dizer nada, as duas sem um protesto. Passado o susto, quase agarram a um só tempo o acompanhante: quem era? quem devia ser? Teria conhecido? Com que cara estavam quando o fósforo acendeu? Quando se conhecia o próprio rosto?
— O fósforo foi mesmo que me ter queimado...
Queimado o rosto de d. Abigail. Vontade de passar-lhe a mão no rosto. Queimado. Alfredo deixou-se ficar atrás para discutir, novamente, consigo mesmo se conti­nuava a acompanhá-las. Se fosse um dos maridos? Ou segui-las, alheio, por fria delicadeza e tédio, aproveitando moer bem miudinho é espalhar pelas ruas e aos pés das duas esposas aquela manhã de trote, chuva, cozido de d. Dudu e aquela tarde de conversação, vigília e busca. D. Ivaína aproximou-se, dá meia-volta, distancia-se. E esta? Não quer sair para uma viagem sem regresso, onde, mesmo para uma ferida maior, sarasse desta? D Abigail se emparelhou.
— Ah tivesse eu dois cavalos e uma charrete. Eu voava naquele rumo. Minhas tias, sim, que andavam de carruagem no Prado. Era aquele tempo. A sua moradia, aquele-moço, está em cima daquele tempo, fincou os esteios no nosso peito, ali debaixo está a. nossa cinza, sabe? Me faz comparar a um mausoléu, me desculpando se lhe ofendo.
Vararam quase correndo a passagem que desembocava na estrada do Acampamento.
— Ofendi?
— Do mausoléu? Quem sabe não sou a visagem que de lá vem para acompanhar as senhoras?
163 D. Ivaína tossiu, cruzou os braços, d. Abigail tocou no ombro do cavalheiro:
— Quem está lhe dizendo isso, eu? A Ivaína?
D. Ivaína voltou-se, quis dizer, não disse, saltou para frente.
— Mas que é tão fechada aquela casa, que é tão vazia, isto que é, é.
É o meu juízo. D. Dudu ali não mora, só costura. Você também, só estuda. Ao menos a nossa velha parteira, me­tesse lá dentro as netas, pendurasse as netas na janela. Àquelas, hein? Sim, que o Orfanato para isso é bom polei­ro. Eu sei. Vi. Aquelas meninas? Bem, bem. Gruda tua língua no céu da boca, Abigail. Eu devia primeiro fechar meu corpo para me dispor a isso, a esta provação, vamos entrando no Acampamento. Que volta nós demos! Até vamos parar? Fechar meu corpo, sim.
— Antes tivesse fechado a tua porta, com teu marido dentro, sua língua no dente, fala a d. Ivaína, baixo, repuxando o vestido nas cadeiras.
— Fechar a alma, eu quero dizer, a alma. Que o cor­po... Me virei na lobisoma.. É ver uma ciganagem. Vamos roubando criança? Este sic
E apontou para Alfredo que olhou para d. Ivaína, um outro rosto era o dela, abria-se o Acampamento, um céu largo, atravessavam o descampado, direção da Pedreira, tinham de passar pelo Posto Sanitário. Estas ciganas me arrebatam, vejam só, criança no colo delas, aqui na coleira o pajem, de que falavam os fascículos semanais metidos debaixo da porta. Elas voltavam a conversar baixinho, lá lia frente, como se ele fosse ali um simples bagageiro, incumbido de apanhar do chão a carga doméstica que elas iam largando no caminho até que ficassem libertas. D. Abigail a modo que adivinhou, esperando-o, falou:
164 — Ai que as formigas me inflamam a perna. Mas não fique tanto atrás. Pra ter de andar, quer que lhe empreste mea perna? Olhe, olhe, não se zangue do que eu brinco.
Foi então que ouviu o tambor, na Pedreira, batiam babaçuê, d. Abigail cantarolou:
Mariana vem faceira
Ajurema...
Ajurema...
— Freqüenta, d. Abigail?
— Então não fui uma noite?
— E hoje?
— Antes fosse, meu inocente, era mas acabou-se.
E d. Abigail se virou para a prima:
— E tu, Ivaína, queres te consultar no batuque do Raimundo Silva? Quem sabe o caruana não nos diz onde? O tambor não chama?
— Vou é ali me consultar com as cobras, resmungou d. Ivaína, amiudando o passo, em direção do Posto Sani­tário.
— Ivaína, é noite. Os viveiros estão desovando, as cobras soltas. Estão dosando o veneno nos boiões do sal amargo e do calomelano. Também que invenção essa do dr. Dias Júnior e dos guardas criar no Posto tão tamanha quantidade de cobras? E a desova é sem fim, asqueroso, um horror. Viu? Viu, sep. Alfredo?
Seu Alfredo! Cerimoniosas com o cavalheiro? Cobras em massa no posto de calomelano e sal amargo. Serpentá­rio bruto, ninhadas sinistras, certa manhã viu. São as cobras tiradas de dentro dos doentes? perguntou uma me­nina. Agora com o Posto fechado, as cobras abrem a sua usina, tecem as bolsas, destilando.
165 — Serpente, me acode, vem comigo, nesta caçada, pe­diu d. Abigail. E se benzeu, dizendo que já não regulava mais, que chamar cobra, cobra ouvia e vinha. Dali saíssem e depressa. Eivém que eivém um bando! Zumbido, grilo, sapo, já era cobra para d. Abigail, sentindo-se pisar em fi­lhinho delas, em bolos de jiboinhas e cascavéis.
— São elas chocalhando. Eu chamei. Foi só cha­mar... Nos tire do cobral, moço.
— Quem tu chamaste, dentro de ti já mora, oco de cobra.
D. Ivaína com a costa da mão se abanava e foi que d. Abigail deu um salto, abateu-se no braço do ginasiano e deste esquiva-se, desculpa-se, tinha visto uma.
— Uma, uma, vi. Vamos, Ivaína, as cobras nos to­caiam.
Respirou, bateu os pés, voltou a sorrir:
— Delas eu só queria agora era uma bolsa de peçonha.
— Mas não basta a nossa? rebateu a d. Ivaína, de supetão, fechando os olhos como se uma luz a cegasse.
E Alfredo, no clareúme da noite, viu os lábios de d. Ivaína, molhados, o seu cuspo no capim, os sumos no rosto, uns olhos rápidos que o pegavam em flagrante. Parecia mundiada pelas cobras do Posto. Quer pôr a mão nos vi­veiros, d. Ivaína? Distribuir seu mel entre as serpentes? D. Abigail ganhava o caminho da Pedreira como se o tam­bor do babaçuê a estivesse chamando. Atrás, os dois num silêncio de fazer escutar as cobras virem vindo. O tambor do terreiro engrossava. Alfredo sem saber se aqui acudia a d. Ivaína sem ânimo de andar ou a d. Abigail, lá adiante, que chamava. Errante neste descampado, serviçal de duas esposas caçando os maridos vá saber-se onde, babaçuê, jogo, marafonas. Podia ter ficado entre os rapazes à es­quina da José Pio, no batente do taberneiro Antonico, 166 ou|vindo a Brasiliana ao violão, lá dentro, recostada na saca de arroz, ao pé do garrafão de vinagre. Ou esperar pela d. Santa no Curro Velho, esta depois de pegar o gitinho, tinha de pegar pela rua, uma a uma, as netas do Orfanato. Ouvir o espreguiçar-se da Esméia debaixo do jasmineiro, os zebus dormindo na cocheira como rajás... Que o diabo não roube a flor de arruda.
— D. Abigail, d. Ivaína, aqui me despeço, me dêem o meu bilhete de desembarque...
— Como? Nos deixa no meio das cobras? Que foi? Que aconteceu? Ivaína, que fizeste?
— Eu, Abigail? Não foste tu?
As duas entreolharam-se, rodeando o cavalheiro.
— Já estamos longe demais para nos deixar aqui tão sozinhas. Por tudo que mais queira, nos acuda. Nós que não lhe deixamos fugir, isto que não, não é, Ivaína? Está na nossa mão. Isso é trato de cavalheiro? Nos largando neste tão soturno? Já viu maior falta de caridade? Que conta vai dar de duas senhoras?
D. Abigail juntou as mãos numa súplica faceira.
— É um pedido, faz?
Ia Alfredo responder mas nisto eivém a d. Ivaína, coleante, puxando uru desdém, sua ilharga de leve no cavalheiro) seu recender, muda, o colo em cima, o olhar em cheio como se falasse: eu que lhe peço, me ouviu? Mas se guardou, emproada, inteiriça, como se nunca trespassada pelo touro. D. Abigail cortou a. frente dos dois, andando de costas:
— Fique. Que contravapor foi esse? Não desembarca que não tem por onde desembarcar. Fique que estas duas surucueuranas, aqui, peçonha só levam sabemos pra quem. 167 Chegue cá, se emparelhe. Ivaína, aqui do outro lado. No meio das duas, não tem por onde. Está na nossa mão, sim.
Alfredo olhou a mão de d. Abigail, tão ao alcance, tão madura, na palma o alvume dos gomos de bacuri. Da d. Ivaína, as duas mãos, juntas no colo, pareciam algemadas. Um momento foi que ele viu abrir-se a mão esquerda, como se desabrochasse, ávida. O tambor soou mais perto, a modo que gorgolejava no açaizal encharcado, aqui ao pé. Atrás, 2 numa e noutra luz, o São João e o Telégrafo. Da barra mato que fechava a cidade, subia uma iluminação suja.
D. Abigail, rente do rapaz, soltava-se, sacudia as roupas como a égua as suas crinas, e foi-que-foi falando: não sou como a Elisa que espiou pelo olho do boto para prender o seu homem. Prendo o homem com o meu olho. E olhou para Alfredo: feiúra é que sempre enxota os maridos. A minha...
— Feiúra, d. Abigail?
— Pergunte pros seus olhos. Seus olhos sabem. Velha ficando estou, que você quer? Ele veio me fazendo triquiné. Triquiné, não sabe? É uma folha bem macia que se passa no rosto, a gente se esconde atrás da porta e diz: triquiné, triquiné, me faz linda, me faz formosa, como tu és. Joga-se a folha para atrás e quem pegar nela, fica com a feiúra. Foi assim que comigo aconteceu. Peguei na folha da outra...
— Não, disse Alfredo.
— Não?
— Abigail, sua donairosa, queres forçar o rapaz a di­zer... falou a outra senhora, segura-não-segura o braço dele, como para puxá-lo para si, ou indagar-lhe: precisei algum dia de triquiné? Mas d. Abigail não deixava:
— Não fico sossegado enquanto não destruir o Vati­cano, dizia o espanhol ao meu avô. Um demônio, Deus me acuda, quando falava. A dinamite, seu Juruema, a 168 dina­|mite. Calado, era um bonito aragonês. Ele dizia: eu sou um aragonês.
— Desconfio, Abigail, que gostavas do espanhol.
— Que estranho pensar o teu, Ivaína. O aragonês era já de idade, eu muito verde. Mas espera, quem sabe? Na­quele tempo eu gostava? Sabia? Quando ele custava a che­gar, eu me agarrava com Nossa Senhora: Mãe de Jesus, me traga já-já o aragonês. O aragonês. Um dia sumiu-se. Fiquei foi noites com a voz do aragonês, às blasfêmias dele me pareciam declarações de amor. Eu amava? Agora sei, estou traindo o Fernando com o meu tempo de moça. Tam­bém esse meu marido a bem dizer me desmamou. Lá vou eu dizendo coisas que não são. Ah que me deu uma vonta­de de comer tatu na nata do leite de búfalo...
— Onde?
— Onde o que?
— Que a senhora comeu.
— Tatu na nata de búfalo? Em Soure, me levaram numa fazenda, um verão. Tão solteirinha eu era! Apanhei tanto muruci pelo campo, muruci de fazer lama. Era de­zembro, os japiins chocavam seus ovos naqueles ninhos deles, grandes, pois não sonhei com um ninho deles? Mas, menino, quem faz os sonhos é o Pedro Botelho no seu tacho, e eu entro, me balançando, chocando ovo de japiim, mas credo! Mas aquele-menino? Onde está essa sua cabeça, o seu sentido? Está aqui e não estar pra ele é a mesma coisa. O juízo está onde ninguém adivinha. Hein, seu pensativo? Triste? Desintristeça, meu cavalheiro. De triste chegam as duas. Triste? Não atino.
— Deixa a tristeza do rapaz, Abigail. Triste da nossa companhia.
— Ouviu? É o que a Ivaína está dizendo?
— Não, d. Abigail, nem triste nem longe.
169 — Mas se joga essa sua cabeça lá em cima, lá em cima... adeus que escuta a gente. Triste, sim, que eu sei. Todo ele no alto da sinagoga... Chega de comer tanto abio.
— Foi a senhora falar em muruci...
— Sim?
— No céu da boca o muruci.
— Também?
E ela fez uma surpresa em todo o rosto, cuidando de ouvir mais o que ele dizia, podia dizer, tristeza e muruci se davam? Sorriu, sorriu tão bem, olhou o rapaz, primeiro um pouco mãe, logo meio menino e se sabendo proibida, como se lhe dissesse: então provemos nossas bocas. Para dis­farçar, cantarolou: peneruê, peneruê... Cara de pinto na chuva é agora a sua. Tome a figura de um mapinguari e tire de sua goela um rugir, nos meta medo. Ah este meu imaginamento. Paca cotia tatu não. Nunca me esqueço daquele realejo com a gaiola em cima, dos periquitinhos dentro, caladinhos, caladinhos. O cego tocando. Você está que nem um periquitinho do realejo. Na nossa gaiola? San­to Amâncio, Santo Amâncio, dó tenha do padecente, aman­sai aquele que me arrasta a esta viagem, me abre debaixo do pé uma areia gulosa. Queria encontrar um fazedor de malefício, queria, que eu, de vera, me agarrava com ele: me faça um... Gente, a que baile vamos? Ivaína, não re­tarda o passo, - turco, de ciúme, te tirou a língua? Vão os dois andando em cima da terra ou debaixo? Um é lá no píncaro, a outra é aqui no fundo. Fala, Ivaína, pra eu me lembrar de tua voz. Diga ao menos: eu, aquele-moço. Eu. Quem havera de dizer, eu batendo rua, neste acelerado, nestas corredeiras... Meu lugar é arrumandinho os meus cerzidos, ao pezinho do meu filho, batendozinho a obrinha verde dele feito ovo e na tigela e dando na boca de meu au­sente — tome sua gemada — quando voltar pelo dia 170 raian­|do. Não sou uma filauciosa mas quem souber fazer male­fício se anuncie, me chame, aqui estou para decorar a ta­buada. Não é uma vergonha eu atrás? Te rebaixando, mulher, estás tirando o pé do teu soalho. Isso é a boca dele dizendo. Ou eu mesma. Mas, mulher, que-que o teu diabo te disse, que te deu no miolo, pra vir por estes es­curos? Quem que te acompanha? Onde pescaram esse? Onde está a tua decência de casada? A maldição da mulher é ficar em casa, do marido é o mundo. No lado dum rapaz, feito uma, me livre Mãe Santíssima, uma... Ivaína, seu Alfredo, descobri. Nós somos, nada somos neste mundo se­não duas panemas.
Da d. Ivaína, feito uma invisível, Alfredo sentia o olhar. A Alfredo certas frases soavam longe, para sempre distantes ou sem sentido ou como se tudo estivesse se pas­sando, onde, quando? Certas indagações se petrificam, ou flutuam como refrãos no escuro, pacientes, inesgotáveis, o olhar de d. Ivaína a modo que crepitava na sombra.
— Tiro da idéia cada coisa, disse d. Abigail com um passo à frente num breve reboleio, logo ocupou o seu lugar, rente do rapaz.
— Fernando está serrando de cima. Chorou na barriga da mãe. O avô tinha coisa. Assim ele me cantava:
Três chagas tem no seu corpo
E todas três são mortais
Por uma entra o sol
E por outra o luar
Pela mais pequena dela.
Entrava a águia real

— Foi, foi isto. Pela mais pequena delas entrou o meu águia real. Agora é um urubu no esterco das outras na farra, nas goelas da Pedreira.
171 — Abigail pára um pouco. Chega! Ovo cru de japiim que comeste, para falares tanto?
— Mas oh a tua má intenção, criatura! Quando tu andas calada é porque estás cevando o teu mau cismar. Não é também a tua sina? Que é que não diz o nosso cavalheiro? Até que me lembrando do Moço Loiro, comparo este com um mancebo... Mas mancebo é palavra que se acabou. Me lembro duma fantasia que eu tive. Eu me vesti de mancebo, gibão de seda, a espada de papelão na cinta. Foi num baile de máscara, na casa que hoje se afundou debaixo da nova do fazendeiro. Ah eu a folgazona. Nessa noite, na dança, me efetivei com quem hoje — Deus me perdoe — é o bom do meu marido. Já em junho agarrei quebrei o ovo no copo d’água e fiz cruz com o copo em cima da fogueira: saiu uma sepultura e não a grinalda que eu esperava que saísse.
— Mas saiu grinalda, de verdade, d. Abigail. Não casou?
— Hoje é mesmo que sepultura, mancebo. Por que me olhas, Ivaína? Ontem pra me adoçar a boca, ele agarrou trouxe um vidro de doce de tamarindo de Óbidos. E eu comigo: meu Deus, quem se salvou hoje? Pois de raiva, mal ele foi saindo, dei pro porco, tudo, mas tudo, aquela doçurama toda, meu Deus, e eu me ralando, água na boca, a aparar o restinho-restinho no beiço do vidro, e ele que sabe que eu morro por tamarindo, seja. doce, ou fruta, que eu quando fiquei grávida do Fernandinho, só o que me apetecia só era tamarindo... Fazia de conta que eu jogava pro porco tudo que era marido, meus prazeres, meus apeti­tes... Me quer ver uma santa? Ou me ver criando rabo de palha? Ai que de repente, me doeu a espinha. É ele me pisando, com a pata no meu espinhaço. Parte, desgraçado, mas me dobrar, não. Me esfregue com a sua mão, 172 aquele-|menino, com a mão fechada, aqui, assim, bem no osso, obrigadinho. São Jerônimo lhe dê grau dez nos exames.
— Abigail, mulher...
— O meu avô...
— Lá eivém, lá eivém as barbas do avô.
— Mas cuidado, pecadora, o que por barbas o moço pode entender.
— Mas ah! Acenda o fósforo, moço, e queime a língua dela.
— Queime que das cinzas nasce outra, não, d. Abigail?
— Meu avô assim que me pedia: esfrega, mea neta, que esse meu osso pegou frio. Inchando a mea canela, de tanto andar, é que é. Mulher e galinha por muito andarem se perdem ainha sic, dizia o aragonês. Também ele dizia ao meu avô: o sol amanhece para todos. Agora, já não sei se sol se Deus. Não, não, queria dizer o pão: pão amanhece para todos. E eu, quando amanhecer? E eu? E o encosto que o Fernando tem na outra, que encosto é, macio, bonito, cheiroso? Qual. Ele prefere as fedorentas, sim. Será, meu Deus, que vou perder o meu travesseiro de orelha?
— De orelha, d. Abigail?
— Sim, quem mais senão o marido? Você, não serviu ainda,, não foi um?
O tempo que d. Ivaína puxou a outra para trás, belis­cou-lhe o braço: Abigail, tem termos, tu não estás só, filha de Deus. Ele é um homem.
Alfredo ouvia: ele e um homem. E logo à sua ilharga a d. Abigail:
— Faz de conta que somos conhecidos velhos, tempo o não conta quando é uma amizade soprada por Deus, olhou, confiou, eu sei de intuição. O que a mea boca diz, meu coração não manda dizer. Não vá fazendo tão mau juízo, por estas palavras que espalho. Respeitoso que é, espero que 173 acompanhe as abandonadas. Estou é um tanto afligida, me dê indulgência, moço, me socorra de minhas aflições, tudo isto cava um desentender, eu gosto do meu marido, isso eu sustento. Porco, come o doce, come o marido e te deita onde não é mais o meu leito. Também de um tempo pra cá não me contraria em tudo? Até nas coisas sagradas. Chega de comer com chapéu na cabeça. Bebe água com a luz na mão. Varado! Quem tem seu amor, rente do chão vai. Meu Santo Ivo, regule a minha mola, ai quem de mim tem pena. Deixa-te’stá. Deixa-te’stá! A gente podia descairzinho um pouco, Ivaína. Arria o escaler, mana. Morde aqui, se não está mais morta de tanto andar. Meu Deus, o moço, que é que não magma? Estas duas quem são? é o que pergunta. Preciso de um badalo acordando todo o mundo, me dêem o paradeiro!
Puxou um fôlego, sacudiu os braços:
— Atrás da Antonieta? A que sopra dentro das casas?
Alfredo riu.
— Conhece?
D. Ivaína inclinou a cabeça para escutar.
Alfredo sorriu.
— Aquela Satanás! Até um a bem dizer menino a en­demoninhada já soprou?
— Não conheço, nunca vi, d. Abigail.
D. Abigail abriu-fechou a sombrinha, roçou por acaso no braço dele, respirou transpirando.
— Seu lenço?
Ele deu, perturbou-se. Os assopros de Antonieta. Por onde anda o professor Moquém?
Esse olhar de d. Ivaína, se de nojo, súplica, ciúme, rancor ou desamparo, entendia? Devolveu o lenço, com pouco caso, cuspiu. Entendia?
— Onde está o cocho onde o porco come? E se 174 adoci­|cando comigo: tome, te trouxe este doce de tamarindo de Óbidos. Doçura eu queria era da mão dele, saber que outra mulher não há, senão eu, o tamarindo que eu queria é o correr da mão dele pelo meu pescoço, coisa que não faz mais, roçar a barba pelo meu rosto mesmo eu sentindo que pica doído, tudo não acabou? Os carinhos, os carinhos que uma senhora casada tem por lei e regulado ao pé do altar, ele quer que eu peça de joelhos? Ralei foi meu joelho agora diante da igreja. Ele vem passar a mão? Ah que me dá uma aversão, uma fúria de virar uma bruxa. Vá, volte, vista o seu uniforme e vamos caçar a pau aquele indesejá­vel. Tu também, Ivaína?
Alfredo olhou para d. Ivaína. Teria ela estremecido com as palavras da prima? Tudo que dizia d. Abigail devia estar cortando fino a outra, pois seu olhar dizia: o meu me atravessou desembestado e foi como se eu me virasse em pedra, agora eu sei. Desta pedra quem descobre a fonte? Fechei-me, abri os meus espinhos, minhas garras, se ele me toca, consinto mas lançando o meu fedor, como as mucuras.
D. Ivaína procurava o marido, ou fugia dele? E aqui d. Ivaína, pelo caminho do Acampamento, alguma coisa desco­bria nela, em mim, nas cobras, nas palavras da prima, al­guma coisa perdida e agora encontrando?
— Coloquei no quintal uma vela para as almas. Que elas me guiem neste caminhar. Vou carregando este meu casamento. Me acuda, moço, seja o meu Cirineu.
D. Ivaína riu. D. Abigail, pelas costas de Alfredo, be­liscou o braço da prima.
— Não ri que o pirão que eu como, tu também comes. Tempo é de contar o caso. Olha o passo da Ema... peneruê. Gandaiando aonde? Aonde? Saber, pra arrancar dele, pena por pena, lhe tirar as tripas, bater nele o malho, como se malha boi. Olhe que me dá uma fúria, moço, sair como 175 aquela Satanás, soprando, não dentro das casas, mas dentro onde sei das mulheres e fazer que todas elas saltem nesta noite, saltem, estourem pela cidade. Me contenha, moço, segure um pouco a mea mão.
Alfredo apanhou-a, a mão se deu, inerte, nem mais sabia se gelada, se oferecida, se desamparada. D. Abigail tropeçou, cambaleou, a mão escapou-se, a senhora endirei­ta-se, os olhos de repente amarelos. Aqui do lado, d. Ivaína escurecia.
— Não é a perna que incha, é aqui por dentro. Invejo o tempo da fortuna. Minhas tias iam de chapéu de aba larga e penacho numa carruagem de dois cavalos cobertos de mantilha para o Prado. Uma delas.— desta eu não gos­tava, tinha um pique pro meu lado — uma delas, a tia Dibu, era de ubres monstras. Se esqueceu em menina de cobrir o peito com a cuia pitinga. Eu, por mim, cobri.
Foi dizer, assustou-se, dobrou de lado, escondendo o rosto. D. Ivaína parou, brusca, a mão na boca. Alfredo a fingir de ausente, sem saber fingir, estacou, alto e sério.
D. Abigail, como alheia, a fazer-se esquecida do que disse, levou o rosto para a frente, cruzando os braços sobre o peito e foi-que-foi falando, vamos destorcer por aqui. Mi­nha paixão era cereja. Cereja de Portugal. Um dia comi, o aragonês me deu. Desejando agora? Agora? Mas será? Não, que seria tamarindo. Vou ficar coxo de tanto dar topada, arre! Ah que a adivinhação do ovo se confirma agora, vai me abrir a cova. Comeu a preciosíssima casta­nha e adeus? Quem a paca cara compra, cara a paca pa­gará. Roa a casca se não tem mais amêndoa. Abre a cova, o ovo, a cova em que sumiu a casa das minhas seis janelas escancaradas. Agora no lugar foi fincada a nova, surda-muda. Eu sei, eu sei que a Antonieta andou pela José Pio, — soprando nos maridos. E lá atrás do sopro se sumiu o meu 156 infeliz. São Lázaro me devolva ele mas cheio da maior lepra!
— Abigail!
— Eras, Ivaína! De mim que foi que ouviste? Oco de cobra está é a tua alma, mulher. Tenho notícia dele? Pois me informem. Pois uma vez deu uma tal ferida na perna, lá nele, que doutor que nada! Montou-se uma farmácia dentro de casa. Oh ferida! Corri no Dr. Raiz que no passar a folha foi fechando a perna do homem. Fechou. Fechou? Passou a ferida pra dentro de mim, aqui, bem aqui, e quem me mete a mão dentro? Quem passa o raminho?
Bateu as mãos, a costa da esquerda pela palma da di­reita, para dizer que não sabia. E contou do pombinho que viu morto no quintal: Então lhe acende uma cera, põe uma rosa em cima do coitadinho, enterrou.
— Quem baleou, não sei. Ou foi suficiente o olhar daquela Brasiliana lá do seu pombal olhando o bichinho? Meu juízo me diz até que foi-foi um aviso... Enterrar, abrir uma cova, queria, sim, mas de sete palmos... Mas não é? Ó moço que vai aí de pescoço tão lá em cima, seu grude na boca, me diga então uma poesia.
Alfredo sorriu, sem responder, as duas roçando-lhe a ilharga. A um sopro de d. Abigail, imitando Antonieta, d. Ivaína no seu sobressalto:
— Tu então já és bota, Abigail?
As duas entreolharam-se, numa espécie de indagação, de pasmo, como tocadas por um súbito ressentimento mú­tuo, de repente rivais, ou vigiando-se, por que, não sabiam. O anular da d. Abigail tocou-fugiu no minguinho do cava­lheiro, a senhora sungou o vestido, cantarolou:
Acordai donzela.
que a noite é bela
177 — Não trouxe todos os meus talismãs. Onde estão os pai és contra os maridos? Que infelicidade me desejaram aquelas que me viram entrando na igreja, sentada no lado dele, na sala da nossa casa da José Pio, no sofá, depois eu repartindo botão da minha grinalda, até pela janela para o sereno da rua, sabe lá o que não fizeram com um botão, as pussangas que dele saíram, eu tive culpa que Fernando não quisesse casar com a Herundina? Eu tive culpa que ele desmanchasse aquele noivado encruado com a Donatila? Eu tive culpa? Eu puxei pela. aba do paletó dele para vir dançar comigo naquela noite? Só sei que ao sair da igreja e dei com certas caras me olhando, uma dor de cabeça foi me dando, dor de cabeça esta que até hoje, até hoje, até hoje. Agora estou ligando as coisas, até hoje, a flecha que atiraram na minha cabeça, a flecha? Quem arranca ela de dentro?
Calou-se, voltou, roçou no cavalheiro, puxou-lhe a blusa:
— Ele se diz do Clube do Caçador. Caça dele é saia, as saias, os bichos da caçada dele, eu não sei? Mexelão de saias, conheço a mira do caçador. Sei a espingarda dele. Mas também eu não posso me virar em pólvora? Eu tatua? Está solta a tatua, caçadores. Lá vou eu, é a caça. Mas a sopa que ele tanto gosta que eu faça, de hoje em diante eu faço, com muito gosto e carinho — pois, não, meu maridi­nho — mas de urtiga!
D. Ivaína sufocou um ah, bateu, por trás de Alfredo, nas costas da prima, desequilibrou-se, logo amparada pelo pulso do cavalheiro, e deste fugiu num pulo para adiante, voltando a emparelhar, transpirando, num recender suado.
— Não repare na Abigail. Juízo dela agora é desen­cantar aonde...
— Ai, Ivaína! Nossa Senhora das Candeias, me alu­mie o caminho!
178 Alfredo deixava-se levar. Aqui bem rente da d. Ivaí­na, era se lembrando das tardes, já muito velhas, a mãe fazia doce de goiaba, a calda fumegante, o chalé recendendo... Um rosto lambuzado de goiaba: Clara. Clara, as mãos no paneiro de goiabas, correndo pelo campo, goiaba na mão, o carneirinho lhe salta no colo, e o garrote lamben­do escumoso a vaca ao pé da jacitara, com aquele amarelão do sol se pondo. E pelo chalé o silêncio, o olhar da mãe quando se soube: Clara o rio levou. O jacaré, quem sabe, lhe puxa a perna, entrançou-se no longo cabelo, e no rio, onde se deu, que a maré enche, passam os miritis, de bubuia tão do gosto que era da afogada. E uma tarde, foi só ver aquele montão de goiabas na cozinha: Clara ali sepultada, até que imaginou. Agora neste bater de tambor, desce na corda do pajé, Clara. Ou viraste aquela alma de beira rio passando .por cima das aningueiras só para dobrar as folhas?
— Mas cadê sua voz, perdeu? Sumiu?
Foi a inesperada voz de d. Ivaína. As mãos dela, tão fe­chadas, que guardavam? Que goiabas espremiam? Os punhos brabos, o colo esquivo.
— Agora que não durmo, agora que não como e eu me vendo nestes assados, suspirou a d. Abigail. Agora que ao pé da noite cheiro penico de barro novo para curar minhas moléstias... E o senhor, meu cavalheiro, se encorujou? Pensando no estudo? Na namorada? Em nós, neste nosso vagar? O gosto de tratar das moléstias dele, do Fernando, eu tinha com piche quente. Estou desabotoada atrás?
Virou o rosto como se tivesse sido apanhada em seus pensamentos.
— Sabe, vou criar o tal pinto. E com aquele peste vou correr o ferrolho, o meu ferrolho. Como desatar isto, meu São Sebastião? Que tu queres dizer, Ivaína. Diz, tu não 179 tem boca? Me alumie o caminho, Santa Clara. Então sou eu que vou culpada, então sou eu que cumpro a praga? Esta dor de cabeça é a flecha? Me dê de novo o seu lenço, olhe a mão.
Alfredo tocou-lhe os dedos, um segundo, d. Abigail assoou-se, deu-lhe no rosto um espanto e logo sorrindo:
— Por que chora a bela Auzenda? Era o que o meu avô dizia ao ver neta chorando. O avô? Tinha um falar tão antigo. Daquela casa era a pilastra. E então? Não morre­mos em pleno baile? Desabamos festejando, já imaginou? No dia seguinte, muitos que passavam: desentulhem o baile, debicavam. De tanto baile foram abaixo os Jurue­mas. Foi o que ficou do bucho. Bem. Se me lastimo, é da carne, sou mortal. Baile, sim, para fazer crer que era o que já não era. Empenhávamos o derradeiro alfinete, o último anel, as últimas vergonhas para nossa fantasia. Fingir a grandeza. A casa vai, perdeu a paciência. Basta! E veio abaixo. Bem, agora, o que for soará. Sim, eu, Abigail Juruema, com aquela casa em pé, aqui não caminhava. Mas já não sou Juruema, não passo de uma Aguiar e ando atrás deste meu pobre sobrenome, por estes buracos. Ando atrás ou vou deixando? Fugindo dele? Por que chora a bela Au­zenda?
Ouvindo-a, Alfredo a modo que as acompanhava por baixo da velha casa, derruída, dentro dos escombros, atrás dos bailes soterrados, da tarde em que a d. Abigail casou, todo o debaixo do chão tocando quadrilha e valsa, transpi­rando noites de maio e junho na, infusão das ervas e raízes... Os três caminhavam. A um momento, d. Abigail deu a ilusão de vir voltando do chão, carregada de seus bailes, a ouvir o aragonês.
— Acabo não lhe devolvendo mais o lenço.
— Ora, às ordens.
180 Se algum dia deu lenço a uma senhora, Alfredo não se lembrava. Nem mesmo a menina? Esse lenço, marcado pela mãe, A. C., a segunda letra ela tirou na José Pio. Foi, por que? As iniciais não eram as mesmas? Tirou o C, de Coimbra, para ficar o A. do filho. A? A, só? Olhe, d. Abigail, não repuxe muito, senão o lenço adeus, de tão usado. D. Abigail enxuga o colo, um pouco mais a dentro, os lóbulos sem brinco, o cotovelo, um nó de baunilha. Nesse trapo de lenço quero levar seu rosto, d. Abigail, sua ferida, d. Ivaína.
Na busca do marido. D. Abigail ia também desespera­damente curiosa dos infernos onde ele fumegava, e das rivais, não ciumenta, mas invejosa. Numa coisa que fosse a Antonieta? Ouviu perto um sopro e cuidou... É certo que já ficava longe o labirinto onde, entre os punhais do marujo e as facas da estiva, a Antonieta soprava. D. Abi­gail, a senhora dá mostras de aceitar o marido assim, osten­tá-lo como um gavião da noite? (D. Abigail lembrava a co­brição de éguas na fazenda, em Soure, e via neste rodeio na Pedreira o marido relinchando, sequiosa dele, não sua mu­lher, mas uma do magote, pela primeira vez coberta, não pelo Fernando trazendo um doce de tamarindo, mas pelo pastor das éguas, estas que soltam as saias nas estrebarias, com clarinete e cana, na Pedreira). D. Abigail devolve-lhe o lenço: Mas este aqui, poldrinho mal saindo do ovo, mal a penugem do mancebo que apanha o lenço, feito um carnei­rinho comendo na mão? Apropriar-me, esta hora, das más artes, soprar um redemoinho sobre este anjo e dele sair mais amante de meu marido, com um dom que o pegasse sempre e fizesse esse anjo não me esquecer nunca. E cor­reu, assustada, para a cerca de onde pendia um maracuja­zeiro, no céu queimou-se a estrela como se a queimasse tam­bém, renteou as estacas, arredia, evasiva, distante, ferida, 181 talvez, ao sentir a submissão a que se entregava Alfredo no passo da d. Ivaína, aqui atrás tão vagarosa no seu ouri­ço. Um instante, por que os três se uniram, toca a conver­sarem, castos e misteriosos.
Invisíveis como se tivessem ficado entre as cobras, as mãos da d. Ivaína, na profunda sombra. Alfredo recorda a mão de d. Dudu abotoada na sua castidade, mão de cos­tura e ferro de engomar, que lhe arrebatou o uniforme, o quepe, a perneira, a vergonha, o asco, e tudo levou e enxugou e passou; estava certo: pela mão de d. Dudu vol­tava ao Ginásio, novo em folha. Pela mesma mão, chega ao destino de Luciana? Ao menos para abrir aquele travesseiro e retirar na fazenda aquela sepultura? E aqui escoltado, por estas mãos, seguro, caramujo pela onda levado ao ar, voltando ao fundo, braços roçam-lhe a blusa, roçam-lhe dentro do peito, e levam devagarinho pelo iga­rapé enchendo com os taperebás amarelinhos, na proa do barco dois rostos banhados da noite e neste macio velejar a d. Ivaína e a d. Abigail, nem uma nem outra, a mulher só, aquela que lhe põe na mão, para fazer ver na treva, a folha de lilás, fazendo subir do lago, sob a chuva de garças. o búfalo. Qual delas na iminência de dizer-lhe: beije-me, embora tomada de repulsa, de horror? Será que também lhes restitui a pureza? Nas duas senhoras o jogo de Ludica, sendo desta mais de ver, por mais menina, o delas picado de ressentimento, incerteza, culpa? Ambas de novo moças, em plena adolescência, sobretudo a que desejavam. Esta é a ocasião não uma mas duas que aboliam a ocasião. Na voz delas o calor das goiabas em calda e um distante, um antigo clamor de mulheres contra o seu destino. D. Abigail, num sussurro, reza? D. Ivaína, o beiço graúdo, os pêlos no ar, enfiando a mão por dentro do colo eriçado, vai 182 tirar uma flor, ou as suas serpentes? Aqui mais apagada, por dentro mais acesa, rompia o ouriço, era? Deixava es­capar um fio do seu novelo oculto? A ponto de soltar o apelo que os dons dilacerados e as bodas perdidas tornavam mais silencioso mais ouvido? Me deixa ver ao menos ra­bear a sucuriju nessa água funda. Me espreitam, agora, por que? Pareciam-lhe vacilantes, frágeis, quebradiças, pela primeira vez encontravam a ocasião proibida? Que amargas virgindades e saborosos desencantos lhe prome­tiam? Caminhava, como se flutuasse, entre aquelas duas portas, invioláveis, que eram com a pressão de seus perfu­mes, seus silêncios, seus calores, à espera de um sopro, ou tempestade, a dele, a quem dariam, esta o baile de maio, aquela o ouriço... Luciana e Liceu apagam-se na cidade extinta. Calava-se o tambor, ouviam-se as cobras? Será que neste instante o mundo principia? Ou vão atirar-se a mim, disputar-me, despedaçar-me, com as suas iras e sedes que não sabem? Mas subitamente as duas fogem pelo es­curo nem boa noite ao cavalheiro, como se o atraíssem para o bosque onde nunca as encontraria.
2
COLARINHO alto, chapéu de massa, guarda-chuva, girou a maçaneta, bateu que bateu palmas. Ninguém.
Ela, na fazenda, (como coisa que foi ontem!) lem­brava-lhe: Mas não me deixe de pôr a campainha elétrica que lhe pedi, um botãozinho do lado de fora de se apertar, olhe-olhe que eu quero.
Esqueceu-se. Tal pedido, de quem fez, agora nunca?
Torce a maçaneta, sacudiu a porta, como se quisesse abafar indagações e dúvidas, a voz dela, aquele pedido, os passos dela na calçada; e queria entrar depressa para fugir a~ outras lembranças e às questões que o retinham aqui fora. Mas, e lá dentro, não se agravam? Voltou a bater.
Tudo fechado, trancado, tudo surdo. Chuviscava ma­nhoso, uma poeirinha d’água.
Tinha de abrir com aquela chave, aqui no bolso, e agora na mão, queimando os dedos. Chave que deu a ela, a ele devolvida numa tira de papel assim escrito a lápis: “chave, só tenho a. do cemitério”. Esta chave, custando a abrir, como esqueceu de enterrar também? Esquecimento, só? “Tome, mea filha, a casa pronta, a chave é sua, é a primeira a. abrir, quando embarca ?“
Entrou com a filha no braço, a Usina apitando, puxou do colete a corrente, olha o relógio, quinze minutos atrasa­do, o quarto de hora a mais na fazenda, a menos na cidade, os quinze minutos valendo quinze anos em que parecia 184 trazer a filha, neste repente comidos pela Usina para fazê­-lo saber que entrava só.
Nunca, nunca viu a casa em pé; desta só o projeto; o andamento da obra, ela seguiu de longe, como a sua mira­gem. Ou sua sombra. Sabia a casa de cor, sem tirar o pé da balança da sela, o dia no campo, “papai, o alpendre”, papai, o gradil, papai o caramanchão”. Ela num galopeio sustancioso no lavrado, tudo da casa, de cor sabia.
Foi até a cozinha. Ninguém.
Deixa o guarda-chuva a escorrer no alpendre (papai, o alpendre) sacode o massa, livra-se da força, descarre­gou-se do paletó azul marinho, colete, suspensórios, corren­do pelo soalho o botão de madrepérola. E mais carregado se sentia.
Por ter vindo na “Lobato”, habituada a desembarcar seus passageiros na escadinha da Port Of, depois da volta do Maguari onde deixa os barcos do gado, o Coronel Braulino Boaventura chegou do cais em automóvel; desnecessá­rio, se desembarca no Curro Velho, a um pulo da José Pie. A casa ali, ao pé, a 48, foi exatamente para não Ver de vir do cais, Ver-o-Peso, Porto do Sal. Na sacada, do alto de suas duas mil reses e da Questão, olhava passarem, no Gua­jará, as velas vigilengas, barcos da contra-costa, gaiolas do Amazonas e Ilhas, a draga, vapor do Mosqueiro, os paque­tes da Europa e Rio, e quem sabe, um dia, com seu velame e mil bandeiras, o navio-escola. Que desembarca no Curro Velho, pega no fim da linha o bonde, quebra pela Munici­palidade, salta na primeira parada, se não quiser vir devagarinho a pé, espiando o curtume; no capinzal, o faxineiro e a foice, e lá por cima com linhas trançando a batalha dos papagaios”, um se enrola no fio elétrico, pára o bonde, o motorneiro tem coração, batendo a campa; e mais um passo, bem aqui dizer: ó de casa, como vai, mana, na janela 185 da irmã, a Santa, e para as órfãs, se estão, no que é raro, o delabençoe, delabençoe, sempre pensando mandar passar uma colher de cimento e cal na frente da moradia; e passa pelos zebus da cocheira Jabuti com aquele cata-vento que tanto queria um igual em Camamoro. Que dobrou pela tra­vessa do Una, é o correr das palhoças abrindo a boca es­cura, como saindo do charco, a Podrona, com os curumins nuinhos pedindo a bênção e um cobre (Delabençoe, tome), e aqui, bem no canto, no “salão” de chão batido, o barbeiro de tamanco e óculo tosquiando o velho tal qual um de Ca­nudos, pé, grenha, barba, olhar. Pena é aquela Penitenciá­ria nascida para ostentar justiça e agora ostentando fla­gelados. Foi bom, abriga em vez de prender.
Mas foi certo a casa aqui. Este arredor, um dia, vai ser praça. Opinião não faltou a contrariar a escolha, ven­ceu a razão. Ou melhor, venceu aquela de pé no estribo, mão na rédea, comigo na malhada.
Até esse menino, todo lá de Nazaré, agorazinho mo­rando nesta, pois uma vez no bonde, de uma altura lhe per­guntou; por que fez casa numa rua assim tão longe, que ninguém sabe? No Curro Velho? Por que não na João Balbi, na Dois de Dezembro, na Quintino? Ou não podia logo comprar um daqueles sobrados de azulejos, um daqueles? Iam no “Circular”, justamente pela esquina da Quintino onde os sobrados lembravam a Alfredo a Belém das primeiras tardes de piano, da fita O Furacão, o sonho de ali morar. Coronel Braulino ficou até um tanto impa­ciente com a pergunta do menino, este já parecendo mais da cidade que beirante de rio, veja! com o bico onde não devia, com o seu ferrão de caçoagem, só faltando dizer: mas espie, seu babacuara, jogou foi seu dinheiro num bura­co só lama. Macio, a barba tolerante, sem dar parecer que estava fazendo a devida diferença entre um calça curta e 186 uma pessoa de sua idade e conhecimento do mundo, ajui­zou: lá, meu amigo, na José Pio, é no mangue bem verdade, mas não dá tanto carapanã, febre é novidade, e estou pé na porta de casa, pé na proa do barco encostado no estaleiro do meu amigo mestre Afonso que este não me deixa sair sem primeiro um cafezinho e me mostrar o novo barco em obras e a indagar quando quero que faça o meu. Seja na ilharga dos navios velhos adernados na lama, seja na ponta do an­tigo Curro, estar ali é estar em casa, no que desembarca, chegou. E mais do que as minhas conveniências, minha ra­zão, foi o gosto da... Queria na cidade, sim, porém um tanto arretirado do barulho, sim que a um passo do bonde, mas também ao pé dum porto, para quando desse na cabeça viajar repentino, bem, adeus, até à volta. Foi. Mas o me­nino, entender, quis? Morava grande em Nazaré encan­deado nas luzes de Nazaré, toda Belém passando por baixo da janela, a um passo dos sorvetes do Grande Hotel. Morar onde não pode malacostuma, acabou entre as moscas da Ino­centes. A casa, aqui, já de pé estava, à espera, só à espera. No que o construtor entrega a obra, a casa cheia de um tudo... Melhor valia ter ficado o menino em Nazaré com aquela primeira pergunta, não aqui, tão presente, tão de­pressa rapaz, com a segunda pergunta, e aquelas cartas escrevendo, aquelas, não, estas, estas, aqui no bolso, três.
Também esta viagem, de um instante para outro, só deu para apanhar a “Lobato” no Mutá, que engatava na popa do terceiro barco a reboque o cabo da “São Gabriel”, a ex-”Zéfiro”, esta acabando de carregarzinho as doze ca­beças do Indaiaçu na caiçara dos Guedes. Certo é que, Curro Velho ou cais, desembarca sempre nos trajes compe­tentes, ao rigor das etiquetas da cidade, assim requer vogal de seu calibre, o Vice-Intendente, o presidente do Conselho Municipal de Cachoeira, o Interino, o membro da executiva 187 local do P.R.F., assim lhe recomenda a Camamoro, fazenda nem grande nem média, mais um compadre em Belém, que é o Ex-Governador do Estado, um advogado da Questã (tantos anos! autos desta altura!), como o dr. Gurgel, bons conhecimentos pela política e foro, marchantarias, comér­cio, Coronel Braulino Boaventura, dono desta casa, à feição moderna, mandada construir...
O carro o trouxe pelo trilho do bonde até a Municipalidade bem na esquina da José Pio, e olha que com dificuldade. Entrar na José Pio, com aquela vala de entrada, mas t quando? nem mesmo carroça. Tempo dos Juruemas, nas tripas gordas, o velho mandou correr sobre a vala uma esti­va afiançada, mas quem podia crer? durou só dias, logo-logo se arriou. Os Juruemas, no que se desmancham no baile das flores, em maio, some o resto da estiva goela a dentro; a vala agora está mais funda ali no beiço da taberna e onde o Antonico joga o lixo com a fiúza de aterrá-la, os urubus em cima. Por ocasião das tantas moscas, a mortandade desconforme de anjos e mais anjos na cidade, os mata-mos­quitos andaram borrifando creolina, parece que um pouco de cal na beira, alguém acendeu vela, um dia não foi que Amanheceu um tal semelhante embrulho um urubu podre? Sopraram que a goela ser sem funda, terra não havia que a entulhasse, ponte que se sustentasse, cristão que ali se .atrevesse. Indigna a José Pio de ver passar no leito de sua quadra, aquela, fosse uma simples carroça, ao menos o carro dos defuntos? Até d. Brasiliana agarra-reúne um feixe de pirralhos para ajudá-la a atirar pedras no fosso e chegava a dizer: isto aqui, a causa deve ter sido uma seme­lhante etc. e tal maldição... Terra gulosa? Caveira de burro? Loca de lobisomem? Praga de padre? Olha que me empenhei na Limpeza Pública de onde levei muita ordem pra salvar cachorro do fogo da Cremação. Me cobriram de 188 promessa, ao menos espiar vieram? Pedi que pedi no Con­selho, na Saúde me engazuparam, roguei pro seu Marabá lá da “Folha” escrever nas Queixas e Reclamações, até que saiu, mas quede? Não é dos homens que falha o prometido, é o malefício que conserva a gangrena, abriu esse abismo aí... a goela não fecha e se dá ao luxo de ter as suas plan­tinhas pela borda, as suas batataranas, nasce até flor. De hora em hora solta um hálito... Uma qualquer significân­cia tem, ai tem saruá, chamar aquele mestre Ilário do Pinheiro pra fechar essa boca, desencantar esse fundo. E tudo agora nesta imediação, aqui neste canto, deu pra sumir: é o cachorro da d. Idália, de raça, os pintos da criação do seu Juvenial sic, no 68, é o paturi do velho Ângelo, é a honra da­quela menina, a Nena, que facilitou perdeu, de repente mãe, e ainda tão sem peito, o autor nem ela diz nem ninguém adivinha, é aquela senhora-dona, do violinista, que vem, es­cora o poste, confronte a vala, como se visse um jardim, e toda de branco, feição de rosto raro ver igual, justinho na hora em que o marido chora o solo de seu arco no jantar-­concerto do Grande Hotel. Eu miro do meu mirante, lá em cima, do suspiro do meu quarto, Logo depois desce do bon­de um, encapotado num linho alto lá, que leva ela. Eu te­nho que aquela mulher corta é uma volta com a sua sorte. E sim, é porquinho da Índia do seu Trindade, sumiu, os tantos bichos de estimação, futuro de moça, bom nome das casadas, juízo dos rapazes, só tendo uma ferradura aí den­tro atraindo ou mal que nunca se sabe, a pegar em todo mundo. Debandem, meus anjinhos, que pode que um de vocês desapareça pela goela e contas tenho de dar a quem o pariu. Como é que vim parar nesta taberna, eu sei? Anto­nico, diz pro teu irmão trespassar a bodega, prefiro na Vol­ta da Tripa, na Goela da Morte, lá no Escorrega, no calca­nhar do Una, livrai-nos Deus desta vala. Que-que o galego 189 tirou dessa vala, que me imbuiu, me fez cair de bunda e juízo no meio destes urubus? Trem do Pinheiro, me leva, que vou consultar o mestre Ilário, me deixa bater as asas, fica tu sozinho, português do diabo, que isto aqui é o tal de engole as coisas. Estou com dor de cabeça, vou é já no Mer­cado, pedir uma erva ao dr. Raiz, ele que já, uma vez, me levantou a espinhela.
É meus anjinhos, saiam de perto, chega-chega de pe­dra, vai ver estamos apedrejando sabe lá se uma alma aí dentro a bom penar ou uma quantidade delas, quem sabe, lugar de crimes. Enterra-se tanto próximo neste mundo sem o atestado, por conveniência oculta. Melhor fincar logo uma cruz, dia de finados finca vela ao redor.
Conversa, esta, sim, que o Coronel Braulino Boaven­tura ouviu, até com muito gosto, ouvindo .a Brasiliana, na viagem retrasada. Os dois esperavam o bonde, ele no azul marinho, ela, senhora de sua cambraia e de seu chapéu, a olhar os urubus descerem goela adentro e um deles como coisa que trazia no bico uma cobra ou rã, um terém esver­deando e deu um vento e veio aquele bafo e d. Brasiliana entrou voltou salpicada de colônia, trazendo um leque de penas era ver pavão, o bonde demorava, demora essa que deu pra ver: rente da vala passava um lote de zebus da co­cheira Jabuti, um deles assustou-se, atolou-se e num ins­tante sobe; de alvinho que era voltou da vala num piche trágico, d. Brasiliana benzeu-se, o leque em cima, a mão no braço do Coronel, o zebu faz que vai subir na taberna, nisto deu um salto deu um urro escorrendo a sua imundície rua. afora feito um doido pelo portão da fabriquinha de sacos de papel enxota lá de dentro as coitadas que trabalhavam, varou para as baixas da Manoel Evaristo, colheu da corda de roupa e saia vermelha e só foi laçado já nas águas do Guajará. O zebu, aquele, quem que quis? Nem um 190 fazen­|deiro deu preço, nem de graça, quem? A modo que cresceu desconforme o cupim do garrote, tão tristonho pelo está­bulo e capinzal, tão só que só o diabo. Um dia, encontrado morto, o couro escuro, o malassombro nos olhos. Que mal na vala o zebu pegou? D. Brasiliana estoriava para os fre­guês da taberna, aqui junto do Coronel Braulino Boaven­tura e este: ensenhã, ensenhã... Nem tudo a gente há de saber a razão. Se averiguá, logo paga. De coisas, que mui­tas há neste nosso mundo, duvidar não se deve mas antes crer.
Nesta chegada, debaixo do chuverisquinho, que o viu descer do carro e abrir, embaraçado, o guarda-chuva, a d. Brasiliana levantou-se do mocho, atrás do balcão, reboleou nos velhos sapatos de salto alto, abotoou o roupão de folha­gens, a meia caindo-lhe aos pés, o rosto polvilhado de tapio­ca, despencou o cabelo inundando-lhe os ombros:
— Que mal deu no zebu, já sabe me dizer, Coronel Braulino? Chegando? Bem de viagem? Eu? Aqui perante esse abismo aí, esse nosso precipício. Qual será o dia que o carro vai deixar tão lindo o sr. na porta de sua casa que tanto ela merece isso, Coronel? Mexa-mexa os seus pauzi­nhos, Coronel, pensa que não ponho tento no vosso nome no jornal, aí com os homens de categoria? No jornal do Lau­delino, deu sua fotografia, que eu vi, no montão de jornal velho para embrulho, peguei, recortei a notícia de sua che­gada, guardei no forro da mesinha do meu espelho. O gor­do cobra que importância, que mal pergunte, lhe indago porque reinei fazer sair o batismo dum meu afilhado lá da Volta da Tripa, coitadinho... bem que o Coronel... Olhe, olhe, ainda não tem padrinho o coirão. Mas, sim, senhor! Meus apertos de mão, aceite. Vou embandeirar a rua, pen­durar no poste a tabuleta: aqui nesta rua mora um ginasia­no. Que o mocinho boas ventas tem. Não sendo seu 191 paren­|te nem afilhado, só é de gabar a boa disposição do sr. em dar agasalho a um estudante dessas beiradas de rio, que a respeito disso proteger quem estuda... O Governo? Só se o meu jacamim for um dia autoridade! Espera sentada. Quanto mais... quais! estou por ver. Uma coisa, esta, eu, Brasiliana Andrade de Oliveira, lhe pode afiançar: a mãe dele, os poréns que a pele tem, tem, e eu que vou reparar? Eu não me renego, da mesma raça sou, é só ver esta tira de beiço, mulata aqui é até dizer basta, mas como ia lhe dizendo, a mãe dele, no que se tira uma linha dos modos dela, é já que faz a gente criar uma simpatia... Escurinha sim, mas tão respeitosa. Vi, espiei o rapaz inaugurando o uni­forme, ficou que ficou um garboso, igual a um da Escola Militar, de ele nos dizer: não te conheço. Olhe que ele foi passando, passou que nem me viu na porta da taberna, me salvar, quem disse? De parabéns a José Pio, rua que só pêsames recebe. Ter um, afinal, que não empina papagaio nem apedreja mangueira nem vive escovando urubu nem aprende o abc na meladinha, arre, que é de rezar, por isso, cem novenas. Enfim um que pode dar na rua uma catego­ria entre a rapaziada nova. Aprecio quem sojiga a cabeça em cima do livro. Que o sr. acha? E como vai a Questã? Mas quanta idade tem o processo, valha-me Deus, Coronel! Só estou é a sua santa paciência. Só eu morando aqui, conte, já é obra de dois anos, dois meses, nove dias e eu sabendo de sua Questã. “Aí vai um senhor, fazendeiro em Marajó, que sustenta, anos, uma questão no foro de Belém”, eu me digo e digo aos meus fregueses. Mas tão engraçado o sr. chamar Questã! A antigüidade tem os seus bons temperos. Não que ache o sr. antigo, bem pelo contrário. De­baixo dessa tão rara barba está um homem bem mesmo conservado, que o benza Deus, qual é o sal que usa, Coronel, me diga, que já ando precisando, meio moída, beirando... 192 Acha que não? Mas então obrigada. Que só a barba do sr. me desculpe o apresentamento, vale um ouro, experimente me dar só-só um fio dela, e duvide se logo não mando en­castoar, ia ser a minha fiança. Mas olhe, me faça um favor, não se aborreça, se se agastou já não está aqui quem disse. Uma coisa é brincar, outra faltar com o respeito, Coronel. Espere... escute, Coronel, mas que cerimônia, então? Me feche o guarda-chuva, me entre pra dentro, me fuja do chu­visco, não encharque o pé, que encharcar os pés encharca a alma. Friagem inflama as juntas. Mesmo eu não estou brincando, continuando a minha conversa. Com um senhor de idade, não brinco. Falar a verdade não é tomar liberda­de. Sei onde tenho o assento. Não sou assim tão destituí­da. Ah, Coronel Boaventura, até que fiz promessa, mas para o sr. cumprir, veja bem! A promessa de que o sr., se o sr. ganhar a Questã, ainda este ano, vai me mandar fazer um boizinho de cera pro carro dos milagres, dia do Círio. Porém, porém... Quando vamos fechar a boca desse abis­mo aí? Ele parece minar tudo por baixo, arriscando engo­lir também a taberna comigo e tudo. Um dia o bonde de­sencarrilha e lá se vai goela a dentro. Puxe pela manga dos graúdos e mostre a que ponto vai o some-some. Esta rua está oca por dentro, nos ocos mora a calamidade. É o ni­nho da panemice. Nem a Liga da Liberdade. Nem a Profi­laxia. Isto por aqui os donos? Continuam sendo os Lobões, eu penso que um dos Lobões foi aí desaparecido, mata o bi­cho enterra aqui mesmo. Quando que o governo tira dos Lobões este tamanho patrimônio, proíbe eles de nos cobrar foro? Eu sei que até o terreno dos Juruemas estava, em questão com os Lobões. Contam que uma tarde o velho Juruema, desembainhando uma espada velha correu com um Lobão pela rua a fora, o sangue do Lobão na espada queria limpar nas pontas da barba. Que também cheguei a ver o velho Juruema já sem o bucho, de tripa seca. Era um barbão mais comprido, mas rústico. Me falaram que o sr. desatou a questão do terreno, no ato da compra, foi? Como? Não está ainda tudo líquido? E olhe que tenho me agarrado com vogal, com esses doutores meus conheci­dos, com um chefe de seção das Terras. Disque é uma tal de sesmaria dada ainda pelo rei de Portugal, veja o tempo. Só o coitado do seu Lara, na Liga da Liberdade, já fez, meu Deus, bem uns seiscentos discursos. Mas faz por um puro gosto ou vício ou sina. Estou que se acabassem os Lobões, seu Lara inventava outros por não ter de ficar sem fazer discurso e cada um! demorando horas, contado de relógio. E bote floreado, o homenzinho não pára! Uma noite, ele viu eu no sereno, debruçada na janela — sabe, eu alta — pois então, sem que nem porque, não me tirou os olhos, me flechando com a palavra, os esses e erres mais passado a limpo, e eu daqui só te olhando. O homem então que repe­nicou, solando na minha direção, disparou a flecha, uma hora ele tão de pouca altura subiu que subiu na pontinha do pé, a mão foi lá em cima pelo telhado sem forro e eu aqui comigo: vá ver, ele vai já me trazer um querubim do céu, ou um rato. Até que de primeiro não me desagradou, me diverti, depois foi me dandozinho um tal enjôo, o deses­perado só os olhos em cima de mim, os olhos em cima de mim, não acabava mais? Tanta palavra de charada e dicionário, um nome, se não me engano etc. e tal, parecendo Mi­nerva, nome bom pra dar pruma cachorra. Era eu a mecha do balão dele, eu sabia, eu sentia, então pisquei, dei mais porte na figura, uma passadinha no cabelo ao lado, empinei meu colo, pisquei, fiz sinal de chave na boca, fiz língua, ca­reteei, e sem que ninguém me visse fiz uma figa, ah que o seu Lara desceu a fervura, bateu os pratos e o tenho dito disse. Até um, lá, noutra sessão, apareceu, um, bem 194 ama|relento, mas tão barrigudo, meu Deus! Nome dele, se não me enganam as oiças, escutei, é Lício, pois este botou uma falância, uma noite dessa (a reunião na casa daquele seu Azarias da Alfândega, bigode de mais grosso e de ponta virada oh que este homem beeebe...). Pois o buchudo, o barriga de nós todos — me pareceu solitária, ou barriga d’água? — não é que o homem me abriu a goela e me falou tão que me deu um arrepio? Uma bomba nos Lobões era o que ele, nos tão complicados dele, queria dizer, até parecia carregar um haver de bombas dentro da barriga, tão alta esta ficou na ocasião que ele falava. E eu cá comigo: não demora estoura. Mas primeiro uma dinamite naquela vala mocó do cão, meu dúzia de bombas na tripa. Eu só na janela do lado de fora, bem apreciando. Tinha um tal se­reno na rua que só visto. Aprecio o falar bem. Nunca perco as conferências na União Espírita. Pudesse eu, estava lá emperiquitada nas tribunas da Câmara ou no Júri. O ar. já ouviu o Coronel Apolinário? Não? O que perdeu. Sim, que o ar. sabe do dr. Gurgel, no Júri, desmancha cada cri­me! Mas bem, tudo isso, sessão em cima de sessão, e os Lobões nem te ligo, só cobrando: estamos calçados na lei, respondem. Os grandes, lei, justiça, direito, tudo do lado deles? Um dos Lobões, não me sai lá da França, o outro não me sai de dentro das barraquinhas, varando até ver gente naquela posição pelos fundos do quintal nas privadi­nhas tapadas de folhas ou pelos banheiros devassados, sabe lá se espia as Evas no banho de cuja ou catando as suas ver­gonhas. E bota o infeliz do terreno, não paga? Lobões e Magalhães, é a firma. Abre a lei, o rei me deu, nunca que é teu. Um dia eles fazem um despejo geral, levantam o mapa da posse e arrastam — lá se vat nós — os moradores para Guarujá Guajará, morem aí dentro d’água, na folha do man­gue, que é a sorte, caranguejos cabeludos. Eles são uns 196 bem altos, trajados de branco, falam línguas estrangeiras, e quando o vapor inglês vem da Inglaterra vão beber com o comandante. Muitos dados com o Arcebispo. Vitrais, mo­saicos, na Basílica, deles, tem em quantidade. Um-um que é até bem gerado, que é, é, vi de perto, cheirando a charuto, a tão bom tratamento, a esse bom cheiro de senhores dons. Porém... Porém... eles e esta vala algum parentesco que tem, eu juro. Ah, mas pulando de assunto, Coronel, é ver­dade, é verdade, me deixe me dizer, o ar. chega e vira, vai, volta, viagem em cima de viagem, aprecia o andamento da sua Questã, e cadê que se lembra, que diz, lá na fazenda dele, na hora de embarcar pra cá: ora, me deixa também levarzinho uma prova de nossa coalhada para aquela pobre coitada, a. Brasiliana dona, o ar. me chama só na presen­ça, por uma cerimônia, da taberna do Antonico, que sem­pre quando passo é o que me pede, a modo já de uma perse­guição, ela sempre me pedindo. Porém, porém... Quem sou eu, não, Coronel? Quem, para que mereça de vós uma provinha de vossa especial coalhada. Advogo a sua Questã? Sou a Madame Ex-Governador? Enfim, Deus vê, e olhe quando o ar. quiser, tenho às suas ordena umas pedrinhas de anel, um colar de boas pérolas que podia dar de presente a uma das suas filhas, um estojo, um catecismo, de capa branca em dourado fino. O sr. vai demorar um pouco mais na cidade, não? Então? Quando que o vosso compadre volta a governar o Estado?
Calou-se para atender a um menino — um tostão de bola de cuba — Antonico a trocar perna pela travessa Oci­dental do Mercado atrás de cebola, que cebola na cidade nem pra semente. O coronel, ensenhã, ensenhã, quanto embaraço, chapéu na mão, o sorriso espalha-se pela barba lisonjeada, ensenhã, ensenhã, suspende a sobrancelha, quer travar a língua da conversadeira, faz um ar 196 apressado e não é mais que encabulado, dói-lhe o colarinho, tenta devolver o lisonjeio, os mal-entendidos, o guarda-chuva nesta mão e noutra, entra-não-entra na taberna, procura atalhar gaguejando, conservar a criatura a mais distância, saber da carecência das cebolas, ou saber... só Deus sabe; e “não” e “não”, devi a dizer a essa mulher que se emproa na porta, mulatona de metro... e oitenta? Ela apanha os cabelos e os sacode, quase insolentemente no nariz dele. Os atoleiros que essa pisa, e não mente quando fala de sua in­timidade com os oradores cívicos, o Foro, e a Diretoria de Obras Públicas e Terras, a Fiscalização Municipal, o Legis­lativo, alguns comandantes, não só dos navios da lama, mas dos paquetes Belém-Rio, o rosto na tapioca a moda entrudo, também polvilhado de uma negaça, de uma picardia, um ar esconde e não esconde as artes aprendidas, não nesse fosso aí na esquina, mas naquele, o outro. Assim chapéu na mão, com a chave e as cartas no bolso, ensenhã, ensenhã, desgru­dar o pé, quem disse? com pressa de se despedir, não dar mais corda, guloso de escutar. O menino da bola de cuba o salvou.
Chapéu na mão, guarda-chuva aberto, colarinho a en­forcá-lo, arrependido (receoso) de ter dado tanta corda, muda o passo, delabençoe, meu filho, vai passando, então, boas tardes, d. Brasiliana.
— Mas já vai? Deixe passarzinho mais a chuva. Acei­ta um vinho do porto? É uma agonia chegar em casa! Ve­xame de pressa é o coração que paga. Não vê chuva, não vê lama, capaz de não ver nem a vala... Bem, não se esqueça, Coronel, de fazer as comprinhas do 48 aqui conosco. Por cebola que não. Da lasca que eu tiver do meu gasto, lhe dou umas rodelas. Às ordens. Bem que até podíamos fornecer também pra sua fazenda, mais em conta que nos aviamen­tos lá debaixo. Antonico, um bom abatimento lhe dava, isto 197 lhe afianço. Vamos conversar depois, não, Coronel? E a tetéia, a um guarda-chuva cabo de madrepérola, a um perfume, mais descansado, o sr. pode também conversar comigo. (Mas eu não te dei cinco bolas, meu pequenino? Uma de ganho?). Assim em bola de cuba lá se vai a Casa A Redentora. Sape! Sape! Gatos, também vocês? Menino! Quem te mandou escutar conversa, te faz invisível desta taberna, leva mais uma e assim são seis bolas de cuba a menos de vintém cada. Vocês, vocês, menino, gato, urubu, nunca me querem ver contente. Nunca. Como íamos con­versando, Coronel, nessas coisas, que guardo aí dentro, no meu sigilo, aquelas que não levam selo, me dão pra passar, é só querendo, me fale. Dou minha audiência pela porta de lado que o Antonico meteu no miolo abrir, para bebida, à noite. Essa portinha é-é da muito da estreitinha e se eu quero passar me abaixo, que muito altona sou, me vejo a vara que Deus fez de mim. E tão-tão defronte da vala, do Some-some! Acuda, me faça rolar um bom carregamento umas dez carroças, um pontão de boa pedra pra dentro desse dessa goela até entupir, cessar os assombreios. E assim fazer passar o seu automóvel lhe trazendo, Coronel Boaven­tura, e quando dobrar no canto, por favor mande buzinar que eu espio do meu quarto pelo suspiro, Deus queira e Nossa Senhora. Serão pedras abençoadas. Eu azucrino. o Antonico: Ó rapaz da Beira Alta Minho Estremadura, Lei­xões, do raio que te parta, tu, a porta tu só abre se fecharem o sumidor daí, depois, sim, arma o teu balcão de noite. Não estou pra ver bebo é só arredar o pé do balcão, pá! no funil. Sol, chuva, noite, sobe desce mastro do mestre Martinho vem dia do Círio, acaba-se a folhinha, pendura outra, che­gam as cinzas, sempre aí tem urubu, olhe mas olhe! Urubu do diabo, xô! Contam que no cemitério, dia de finados, é visto um dos Lobões ao pé da vala comum e ali ficando, 198 coçando o cabelo, com o livro de talão debaixo do sovaco, a vela na mão, rezando: “Meu Deus, me mostre entre essas caveiras os que estão aí sem pagar o foro do São João do Bruno e Curro Velho. São meus foreiros, primeiro paguem o imposto”. Quando deu as moscas na cidade, aqui no bair­ro deu mais, uma horroridade, por pura praga dos Lobões. Não paga o imposto? Tome mosca, entulhem de anjo o ce­mitério. Arre! Mas nem um calicezinho do porto, Coronel Boaventura? E bem, sua família, Coronel, vem passar uma temporada na cidade? Telefone às ordens, Coronel Boaven­tura. Não quer já-já telefonar pro seu advogado, saber dos andamentos, em que mão de juiz, no Tribunal que papéis falta? Não? Para o Ex-Governador? Não estico o fio até a casa do sr. porque o inglês lasca multa, corta, o satanás do gringo. Deus queira acabe enforcado no próprio fio da eletricidade dêle. Senão eu mesma ia ligar. Mas o número o sr. bem sabe, lhe dei por escrito, em breve terá cartão meu, vou mandar confeccionar cem na Guajarina com o meu nome. Dê o número a quem tiver uma precisão de mandar chamar o ar. em casa, dar um recado. Querendo usar, dá prazer. Não repare nas graças, Coronel. Conversar aqui neste balcão, é raridade uma vez no ano, que as mulheres minhas pareceras de saia, passam de largo, mais medo de mim que da vala. Umas, por proibição dos digníssimos es­posos, outras por emprenhar pelo ouvido, o resto por não querer se equiparar comigo e eu perdoando. Sei do olhinho comprido delas em cima desta sua criada. Não que a con­taminação parta de mim mas das minhas malas lá dentro. “Me deixa ao menos ver, d. Brasiliana”, é o que elas me dizem num telefone sem fio que oiço, calo, lastimo. Deus vê. Pois bem, às ordens, parabéns pelo ginasiano da nossa rua. Olhe, cuidado, cuidado, que o chão está é por demais liso.
199 Dobrar a esquina, mal sabe, como se estivesse certo de que a taberneira, cebola na mão, fone no ouvido, o grosso olhar saltando, viesse atrás, a atirar-lhe nas barbas um re­cado, a notícia, o endereço... Olhe, cuidado, que o chão está por demais liso. Capaz de nem a vala ver.
Armou rede no primeiro quarto, não se deitou, errante pela casa, na moda que pegou lá na fazenda, pelo campo, alheio, só, entre os cavalos, depois daquela noite, daquele raio e destas cartas. O chão demais liso. Abre a janela, fecha, a massa escura da Penitenciária a modo que avan­çava trazendo-lhe um rosto... O rosto que seria, ao entrar, devagarinho olhando a sala, de repente ao pé da cristaleira, e um rodopio pelo quintal, subindo com um cacau. E a cam­painha, papai? As filhas do dr. Gurgel vêm para o meu aniversário?
Tão perto do porto, à mão de quem embarca e desem­barca, mas agora, longe, custoso de chegar, esta casa; cada passo no caminho desta porta é légua e meia. Valia mais ter ficado na Pensão dos Viajantes, no Bulevar, aquele so­brado azul, e ali sozinho, sem esta chuva, sem esta chave, sem...
Podia voltar à taberna, ver se telefonava para o dr. Gurgel, saber de todo o andamento, mas quantos .anos! De­marcações, agrimensores, diligências, honorários, embar­gos e agravos, etc., etc. Questã. Sem bem noção disso, e para certo alívio, o Coronel Braulino Boaventura levantava a taça: à saúde da Questã. Que o rio Arari, de cima a baixo, saiba: é a Questã. Um dia, um dia, ganha-se.
Mas só era a Questã? Telefonar? Só? Fazer-se curioso do recorte do Laudelino sobre a sua chegada, cinqüenta mil-réis a notícia, curioso das pedrinhas para anel e das pedras para a goela, bater na portinha estreita: D. Brasiliana, me deixe ver o perfume (e que tetéias são? logo sobressaltado 200 pelo que havia de revesso e ilegal naquela mulher espigada, espinhaçuda, colo teso, os seios era ver donzela. A criatura falava num debique pegajoso. De sua boca, dos seus olhos caroçudos, do cabelame, escorriam grudes.
Mas por que deu nele um pressentir? Por que vislum­brava? Será que ao pegar o telefone, mais que de repente, no quimono de contrabando, eivém a Brasiliana: Olhe, Co­ronel, eu filha do vento, que não tive sequer uma bênção de pai. E vai, faz saltar da cova sem epitáfio aquela agora errante pela rua.
Não.
Esta rede aqui no quarto está é muito alta. Requer corda. E Dudu? Mas ainda ninguém? Ninguém? Como se esta casa fosse virar aquela cova, lá no meio do campo, na fazenda, que deve estar, por estes dias de chuva, de água repleta. Que panos tão escuros em cima da máquina? Que costura é essa? Dudu, provável, foi ao Bon-Marché. (“Man­de, papai, a Dudu fazer pra mim umas calças, que de calça de homem monto mais com desembaraço, o sr. bem sabe, a calça de homem é com ela. Traga sem mamãe bispar”).
Se de repente batem, e vai abrir, quem vê?
Pelo vizinho a cantiga de roda:
Descubra o seu rosto
Que nós queremos ver

Deixou ordem na “Lobato” para levar as coalhadas ao compadre, o Ex-Governador; ao dr. Gurgel, a manta de pi­rarucu, as pescadas em salmoura do Lago Arari.
“Os raio não foi um sinal?” está na carta, a primeira. Sete, setenta vezes perdoar, vem na segunda. Na terceira: estou no lugar, nesta casa, que não é meu. Cuidado que o chão está é demais liso.
201 Não podia, com o motivo de trazer cebola, chegar a Brasiliana, com aquelas suas cobras do corpo se mexendo, b carregada de miçangas, a farfalhar de contrabando e tro­ça? Por que tirou da vala o tanto assombro?
O ginasiano, içou nas nuvens, por que? Quem sabe, não entra o estudante pela portinha estreita, nas abas da taberneira, esta, pela primeira vez, um vinho do porto no menino? Talvez pelo sério do rosto dele, lhe subisse, nela, a admiração pelo ginasiano, um de boa. cabeça, apressadi­nho de se mostrar tão sabido. Aquele cabelo, que ela não dá um sossego, como o rabo de uma ventania, apanha do pé da vala o menino... É verdade que o filho do nosso Major, de bom costume, não iria se confiar à Brasiliana. Mas porém o enleio dela? As iscas na linha invisível, sem doer o anzol fisga, puxa macio. Entre a vala e a criatura, passar por onde? E toca num assunto que arranque pena, puxe pelo coração do rapaz, serve um lisonjear: como ficou bem de ginasiano, temos um da rua no Liceu, um vinho do porto mais? Um lápis, um caderno, uma borracha, às or­dens, por desprevenido da quantia que não, pois leve. Entre o rato e o querubim, Brasiliana manda o rato catar cebola, e faz entrar o querubim na caverna dos contrabandos. Repentino, vai, volta, em vez dos adereços de Caiena, traz pela mão, lá de dentro: e esta? Adivinhe, Adivinhe quem? Esta a Guarda-Mona também não viu. Adivinhe. Não suspeita? E o menino, adivinhando, vê; vê quem não é vista luas e luas, a; faz três anos; e por certo, a aparecida causa espan­to, por tão formosa, não, mas pelas miragens que dá, primeiro um espiar desconfiado, indagador e um pouco dela desabotoando, devagar, mansinho, sem a gente sentir, que nem flor, até dizer-se: com esta, quem que pode? E só o menino a viu, só ele; disse o nome dela? Pôde ouvi-la? O menino num pião; que em três anos a errante apurou as 202 masartes de nascença, no rosto o desafio de rédea solta, as 2 iras guardadas, o doer que não gritou, os nojos que não cuspiu, terceiroanista do mundo; e ao pé dela, num pião, o menino da casa alheia me dê do seu papel, d. Brasiliana, que vou escrever agora mesmo três cartas com palavras da Bíblia e de Vítor Hugo.
Mas, se, por um impossível, chega um chamado: Co­ronel, telefone pro sr. no Antonico? E vai e ouve...
Não, aquela voz não chama, tranca três anos coração e boca, em pedra se virou. E tão bom era ouvir, ah bem que era, ouvi-la entre os cavalos, na malhada, de cima do rosi­lho, e enxotando porco: cuche, cuche... E do galho da cuieira a dizer graças para a vaca de estimação, de quem, depois, ia tirar leite na tigela de barro. Voz que não se ouviu mais, desde a noite, que foi, nem com as ripadas no lombo. Dela só falou o chelim ensangüentado. E quando ouviu o “não” ao pastor, e montou no rosilho, e só voltou com o sair da lua, fedendo a léguas de galopeio? Ah que pensar inflama. Aquela Brasiliana, então abrindo a vala, encharca o juízo.
Mas se fosse, que seria dele ao telefone, se escutasse, quanto tempo, se ouvisse — bênção, papai? — vindo, vindo não sabia donde — de onde? — da cova no campo, da vala mal-assombrada, desta Belém de cem mil almas alheias, aquela voz? — Brasiliana, esta, bem em cima da barrica, esparralhada, cobrir-se de tapioca e confidência, o buga­lho zombeteiro, escorrendo das compridas pernas a meia. do contrabando e o pez dos seus encantos.
Foi o raio o sinal?
E se pela mão da Brasiliana, ao menino aparecesse, não estaria no rosto dela a luz do raio, o menino via? Aquele mesmo rosto, surpreendido, num estupor, quando, ao pedir o Ginásio, a mãe lhe disse não. Não, não, não. E naquela 203 noite, depois, nem um não por sua inocência ou defesa, ou mentira, diz. Bastava um não, um “não era”, um “não foi”, bastava um ai, que fosse, um ai, ao ser arrastada pela mãe, metida no quarto, “não vai que a imunda não pode ser vista por um homem”. Nem pelo pai? E esse menino com três cartas. Não sabe que em meio de tudo isto é a Questã, as amizades, o compadre Ex-Governador, o dr. Gurgel, a interinidade, a política? Nem na casa do Major, souberam, ou, se souberam, calaram. Não fosse a mãe ter visto, pe­gado, arrancando do escuro, teria de duvidar, iria interro­gá-la, mas a mãe viu, viu, viu, agarrou-a, meu Deus... E abre a cova, e foi esta fúria de esquecer, e engasgar a fúria, pedra em cima da vergonha, dizer: morreu. Mas quando? Isto na Questã, não quero. Duas filhas e um filho dos Boaventura, me chegam. E são anos a demarcar, de­marca, e não demarca, posse e não posse das terras contes­tadas, puxe o direito por mim, dr. Gurgel, contra os Tava­res. estes, com seus advogados, a embargarem, tudo um feixe de nós, desate, dr. Gurgel. Ladrões. E no quarto, es­folada de muxinga, a carne no sal, a caçula. De repente o raio, a endemoninhada saindo, monta o rosilho... Foi o raio o sinal? E agora esse, fedendo a cueiro, aqui em casa, querendo advogar?
— Bença, meu tio?
— Delabençoe.
— E todos por lá?
— Bem. Estão de viagem pronta.
— Meu tio trouxe chave? Estou chegando da loja. Mas chave, trouxe?
— Como então ia abrir? Já visagem eu? Ou que chave pensa que é,?
— Quer café? E pra sua janta, fígado?
— En, en. Toma, compra. Tu faz compra na 204 Brasilia­|na? Não? Me estica uma corda nesse punho de rede. Nunca fizeste uma compra ali? Tens ouvido mais coisas daquela vala? E o menino?
D. Dudu só respondeu depois da chaleira no fogo, de encordoar o punho, trazendo-lhe a toalha:
— Mas menino, meu tio? Vá no dr. Miranda consul­tar os olhos. Estão diminuindo as coisas na sua vista? Ou faz tempo que não vê ele? Meça com a mea trena. Ele, é ver um pé de taboca.
Seu Boaventura no rumo do banheiro: taboca, o tabo­cal. O chão, lá, varridinho, bom de sesta, convidava. Oca­sião, de lua, ali debaixo, metida consigo, a sem-juízo esque­cia-se, horas. O rosilho ao pé, selado, e gemendo longe os bacuraus. “Este é o meu bosque”, dizia. Uma tarde, vol­tando, das demarcações, encontra ali a adormecida; ao pé o rosilho, como se a protegesse, cabeça em cima, a crina vi­gilante. Desde menina fazia dali sua solidão, criando a má plumagem; uma vez enfeitou para um aniversário, com­pletava mês o carneirinho desmamado, trazido de Ponta, de Pedras; noutro dia, o aniversariante, pois não amanhece morto? A causa, ninguém soube. “Esse tabocal é o teu fa­do?” perguntou-lhe a mãe nas poucas palavras que sem­pre tem, o beiço ríspido. E aquela hora, a marca do gado na mão desta. “Larga esse ferro, mulher”. Mas se agora a Brasiliana, lá de dentro puxa a deserdada, levanta-lhe o vestido, com a letra da família sangrando-lhe as costas? E noites depois, foi a mãe, acende um facho, toca fogo no tabocal, a labareda comeu tudo. Tudo? De tudo aquilo so­brou, será, esse pé de taboca a escrever três cartas?
— Não compro na Casa A Redentora, meu tio, mais pelo Antonico, que, este, oh que renegado! de tão ladrão no peso, no preço, na qualidade. Depois, então, que comprou a Caixa Registradora... Com a Brasiliana não compro 205 porque... cadê cabedal? Mesmo não me bate o coração possuir luxos, O sr. sim, que pode. Suas duas filhas podem usufruir dali, tetéias que ali têm, é só baterzinho na porta do lado, abriu, vai dar na arca.
E com o tio de volta do banheiro — preferia cuia a ba­nho de choque — agora com a xícara de café:
— A vala? Não fosse eu costureira de vintém mas. criatura alisando os tapetes do Palácio e então não tinha aterrado o mal-assombro? Mas conheço, meu tio, duas zi­nhas que estão com o pé na beira, ali. Anote. Quanto eu, se dobro por ali, ver não vejo, pessoa ocupada no que vai fazer vê rua? Vê é sua ocupação. Alfredo! Quando entraste, ra­paz? Já falaste com o meu tio? Vem mostrar tua meninice a que altura está, pequeno. Queres café?
Menino! E o menino? Tudo escutou nem o velho o viu entrar. E o menino? Ah tão diferente daquele “E agora?” da Eunice? que a Ludica indagou tanto! E o menino? Tudo ouviu, sim, entrando escondido no quarto, e o menino? Per­gunta não era, não, mas a resposta às suas cartas, três. Sim, senhora, d. Dudu, sem saber, indagou bem: estão di­minuindo as coisas na vista dele. Diminuindo as coisas. E lá no chalé, dizíamos: Mamãe, chegou o Imperador. O Bar­ba do D. Pedro II. Café para o nosso Imperador, sussurra­va o pai, e mais baixo: o nosso Delabençoe. E vai, Marii­nha, instigada, pede: Bencinha? E viravolta, por entre os pinotes de Alfredo: Mamãe, mamãe, foi, foi.
— Foi o que, menina?
— O Delabençoe, respondia Alfredo.
Naqueles primeiros dias do Coronel Braulino Boaven­tura no chalé, Maninha sempre se assustava.
— Mamãe, o seu Pedro Segundo, o dom! Chegando!
— Tira a cometa da boca, corneteira que lá na sala se escuta.
206 — Mas daqui do fogão, longe-longe, mamãe? Ele é um rei, estou com medo, aquilo é a barba? Acendendo o pa­lito no queixo dele, a barba pega fogo?
— Maninha!
Era um tempo seco; fumegante nos campos, tinha tam­baqui chiando na frigideira. Alfredo olhava no poço o fun­do de tabatinga: onde o muçu? O ingá, o gomo branquinho, doce, aliviava a sede.
— O Dom Pedro Segundo, Alfredo, vem.
— O Imperador Delabençoe?
— Mas meninos!
Vinha de Camamoro, quantas vezes, e de montaria com dois remeiros; desembarcava defronte do chalé, e ali atrás do algodoeiro brabo, ao pé da Folha-Miúda, vestia-se; em­paletozava-se, batendo palmas, sobre um ar bonachão um parecer imponente entrava Intendente interino. O ensenhã era a aprovação a tudo que o Major lhe dizia e escrevia a respeito do Conselho, da Intendência e da política. Ense­nhã. Maninha, no colo do nosso Imperador, fazia o Major recordar a anedota da sobrinha de Victor Hugo com o outro Imperador, o do Brasil na França. Nunca Alfredo o via assinar o nome, mas assinava. “Ele até que tem um rosado no rosto moreno, observava a d. Amélia. Os olhos de quem sempre se compadece. Sem altear a voz, muito zeloso em escovar o paletó, pendurar o chapéu, olhar-se no espelho, penteando a barba, e nesta uma tolerância, que toca a Mariinha, no colo, a lhe puxar fio a fio: Minha filha, esta me fazendo renda! Pendure então uns bilros nesta almofada. E aqui, a mim, àquelas cartas, por que não diz ensenhã? E aqui diminuindo as coisas, que estas, nos que principiam, grandes são, mas bem enormes. Enormes. E por isso, meu delabençoe barbudinho, não soubeste medir a enormidade. E o menino? Pois só menino se atreve a mandar três cartas 207 semelhantes, corridas, a primeira naquela noite em que es­crevia — meia-noite? Uma da madrugada? — como se estivesse no bosque atrás das duas senhoras e de repente, ao pé, vendo-o escrever, a moça da Babilônia.
— Não, não passei por lá por Cachoeira. Mas lá, sem novidade.
— E sua família?
— De viagem pronta pra vir. Vem.
— Vem? Quando?
— No mais tardar na quarta. E eu, meu amigo, che­gando um tanto aborrecido..
Alfredo esperou, olhando fixamente para o velho.
— É com o andamento da Questão, tão mal... Me contrariando muito... Anos!
— Ah!
— Novos embargos. Por isso vim. Quanto me contra­reia isso. Anos!
— Anos, não?
— É, conte os anos.
— Mas a família chega na quarta, mesmo? Todos? Todos?
“Compreende, quando digo “todos”? Compreende?
— A gente de saia. E lá por cima, pela Cachoeira, em paz.
Esse tanto sossego na resposta, bem, seu Delabençoe? Alegando assim tanta contrariedade? E nisto entra a d. Santa, voltando dum parto na Vila Isabel, Coronel demons­tra pressa de conversar com o seu advogado. Alfredo fi­zesse o favor de ir ao telefone.
208 Alfredo, na rua, três, dois, seis, três, dois, seis, neste:
número podia então indagar... Não era o advogado? Ques­tã por Questã aquela é menos que esta? Então as terras valem mais? Sem novidade, disse. Em paz. E aqui, saltan­do a vala, a moça da Babilônia. No velho, saindo do banho, no tom benevolente sobre o contrariado, no jeito de pôr à vontade o rapaz, aquelas alturas de não te respondo cartas, pixote! E por que eu de boca não lhe cobrei a resposta? Ou estou ainda incerto de minha ação? Por não esperá-lo aqui tão assim repentino? Ou tudo foi o trote, as duas senho­ras, só?
Esperando que a sobrinha lhe acabe de passar o pale­tó, o Coronel escuta a irmã, esta, a um canto, encolhida no mocho que arrastou da cozinha, como se não quisesse, te­messe ou enjoasse, as cadeiras da varanda.
— Chega, chega, Dudu. Está bem passado. Pra quem é, traíra basta. Quero ainda pegar o doutor.
D. Dudu conhecia o fingimento dele. O tio morria por uma roupa bem passada.
— Olhe, meu tio, o sr. pode não ganhar as suas ques­tões, mas andar na cidade enxovalhado ah que não, enquan­to tiver esta sua sobrinha.
D. Santa ensaiou um assunto, se calou. Com o silên­cio da casa, Alfredo, no quarto, afiava o ouvido. Os três sem boca. Imaginou a conversação deles, se pudessem de­bulhar o íntimo; escondiam-se um do outro e daquela, an­siosos de se explicarem. Silêncio.
Trazia da esquina aquele xô! xô! da taberneira contra os urubus da vala: Meu Deus, que vou ficar toda a vida contra vocês, enxotando, enxotando, como se fossem meus demônios?! Xô! D. Brasiliana benzia-se; nos tamancos altos, chumaçava o cabelo, máscara de tapioca, a olhar vam­piro para ele e logo carrega o rosto, encaroçando os olhos 209 sem quase sobrancelhas, delicada lhe entrega o fone e senta na barrica, direita, calada, alheia, subitamente bela na som­bra entre a Caixa Registradora e as moscas no pirarucu seco. Trazida dos mocós da Pedreira e Jurunas, como con­tavam? Se bordejou pelos rebojos da zona, de cadeira na porta, defronte da Caixa D’água, não se sabia, ouvia-se. Um pressentir de Alfredo, mais desejar que pressentir: sabe de Luciana? E desta vai me dizer onde? D. Brasiliana levanta-se da barrica, sopra a balança, enxotou urubu e pisca para Alfredo, séria, espalmando o rosto: “Quando é que aquele nosso velho enviúva? Que dia? Não está na hora de enviuvar? Batesse o pacau a velha e ia arriscar eu ser a soberana daquela fazenda. E dos meus bois quando fosse pro colégio, eu dava, minha flor. Era ou não era? Mas a velha um dia há de esticar? Brincadeira, aquele-menino, brincadeira, que por mim a velha vai conforme o tempo dela, credo !“ Aceitando a insolência, Alfredo espera o im­previsto — sabe? — a ausente seria a enteada? . Brasilia­na, apanhando o pote de mel cheio de formigas, abriu-o aparou um pingo no dedo que lambeu, fechou o pote: E esse doutor da Questã, conhece em pessoa? Não? Aquele... Não cismou que aquele lunfa de anelão e beca está é depe­nando o inocente? É tão ensenhã o nosso fazendeiro! Tro­çando não estou, estou só dizendo, olhe lá... Por que tan­tos séculos rende o processo? Que decisão falta? Será que só quando você tirar o canudo é que vai arrancar aquelas terras da tanta papelada? Eu? esposa dele? Ra! Ou me dava num prazo a questão ganha ou vá mamar noutra teta, passe bem, doutor. Adeus lingüiças e latas de coalhadas. Ah eu de mim, querendo um moleque e um cachimbo. Conhe­ço aquele graudão lá dos meus conhecimentos na Justiça. Vejo ele sempre na Repartição Criminal, naqueles poderes judiciários todos que eu visito, sim, quando quero livrar “A 210 Redentora” de um abuso do fisco, quando não se molha a mão do desgraçado, tantas arbitrariedades, uma pena, uma infração que nunca foi. Mas uma coisa eu gabo no doutor: ter casado com uma madalena do mais rasgado mundo, meu senhor. Tirou da Cristal, eu soube, como estou tirando do fundo desta saca este cisco. Cobriu a ninguém com o nome dele, entram de braço na Assembléia, juíza da Festa de Na­zaré, isso eu gabo, reconheço o valor. Por isso escureço nele umas tantas coisas. Cheguei a ver, na Basílica, ela, a que antes era a Cota Farofa. Se você visse a proa dela, a proa! Bem, deu sorte, que emproe, esconda o rabo”. D. Brasiliana recolheu-se ao balcão apoiou o rosto na Caixa Registradora, agora enfeou, sim, feia, com. um carão de palhaço, a tapio­ca encardindo, um oleúme no pescoço, um peso de sono e preguiça nos olhos, desarranjada e ossuda. Ao sair, Al­fredo ouviu: Olhe, olhe, são brincadeiras. Querendo um lápis, um caderno, “um dia lhe pagou as ordens. Fique logo doutor pra ganhar a Questã e nos defender das multas. Se Deus quiser, não é?
Alfredo agarra-se às declinações: Umbra... Lucia. Luciana. Mais um motivo para telefonar ao advogado: tirou da Cristal... Enviuvasse o velho, sim, e d. Brasiliana, tão de dentro da saca de milho, ia buscar a enteada onde esti­vesse? Quer correr à taberna, apanhar o telefone... D. Brasiliana ouviria. Não.
Vai ao corredor, olha, na alcova, o Coronel Boaventura atando a gravata. Cada vez mais fina, cada vez mais sumin­do a voz cheirando a partos, a d. Santa no mocho. No olhar suplicante a visão de Luciana e as duas netas fugindo pelo Curro Velho afora. Na mal conversa, no nenhum assunto, por baixo da língua, a velha repetindo: mas tu, Braulino, tu não te compadece, meu irmão, não?
Seu Boaventura escuta, escuta, numa avidez disfarçada, e ambos, da velha e do estudante, quer distância e 211 am­paro; sabem? Sabem, faltando ler nos olhos dela e dele a rua, número, cor da porta... A irmã muito da silenciosa. Está mais murcha, mais quebrada, as duas netas a levam a todo pano para o pé junto. Esta irmã velha, estou que me acusa não só por isto, ela ficou parteira eu fazendeiro, sim. Mas seu orgulho, sua teima? Terá de ir ver a porta e janela do Curro, de que reparos carece. Ela me pede? Me diz das suas necessidades? E aqui não parece recear-me e com uma sufocada súplica? Agora, mais separados, nem sabemos con­versar nem mais seus conselhos oiço nem ver no oficio dela pesar a idade e suas netas a lhe quebrarem a espinha. Oh noite aquela, no tabocal, que me separa cada vez mais desta irmã, desta casa, da família, de Jovita. Aquele rio Jundiá, no atravessar a fazenda, secou, virou charco e teimam os Tavares retirar a demarcação dali. Veremos. Mas e a ta­berneira? Que queria dizer com o some-some? Em todos nós, vala igual se abre? Aquela, com tantas pedras se ater­ra, sabemos. Mas esta, a nossa?
Com o ferro de engomar na mão, soprando e provando a quentura, D. Dudu, vem, roça na janela do quarto:
— Não quer ouvir a conferência?
— Conferência?
— Afia o ouvido, rapaz.
Mal sussurrou, fugiu, Alfredo desentendia. Viu a ve­lha parteira no mocho, tão encolhidinha, tão...
— Mas, d. Santa, triste?
— Ah meu filho...
Tirou o lenço, a velha não quis, ele enxugou-lhe os olhos.
— Pro bonde, amanhã, meu filho?
— Deixe, deixe, mas deixe, d. Santa. Bem... obriga­do, depois lhe pago.
— O pago é o seu estudo, que São Jerônimo te abra a cabeça.
212 Passando roupa, numa espécie de fervor sombrio, e sar­dônica, d. Dudu ama um queixo de dragão. O Coronel co­brindo-se de pressa. Em todo o rosto “Mana Santa, aquela conversa, “não”, se lia. E “Questã” não lhe saia da boca. D. Dudu larga o ferro, avança para o rapaz, puxa-lhe pela manga, vão até a poda do quarto:
— Não te disse? Aquelas lágrimas? Tivesse aposta, quem ganhava?
— O quê?
— Estou te dizendo charada, menino?
— A senhora, que sabe?
— Uma começa a passar os rios. Estão principiando a moer a farinha.
— Mas quem?
— Querias que fosse eu ou a filha do Zebedeu?
— Não, ninguém. Nem...
— Menino, cala é o teu bico. Não preveni? Mamãe me escutou?
— Mas as duas?
— Primeiro, uma na água. Moendo. A outra, custa? Muito grão tem pra moer. Quem soltou? Eu? Lágrima salva?
— Quando?
— Quem diz o dia é folhinha, quem marca a hora é re­lógio, tempo é delas.
— E agora?
Quis dizer-lhe: contente? Contente, D. Dudu? Ga­nhou a aposta? Seu ganho são aquelas lágrimas? Conteve-­se. D. Dudu passava o uniforme do ginasiano, despenteada, saboreando os acontecimentos.
Aqui Alfredo quer dar um beijo na velhinha. Fazê-la andar um pouco debaixo do cacaueiro. Vamos nós dois pro­curar as netas. Vamos, minha avó, vamos também desco­brir a renegada. Aprendo mais nas suas lágrimas que em 213 tantos dias-umbra umbris e sempre sem material de dese­nho! — no Liceu. No seu mentir, sinto o verdadeiro. Essa mão, de tanto parto, nunca deixe de abençoar as duas ne­tas, por mais que estas passem rios, moam farinha, sumam na vala. Olhe o zombeteiro engomar de sua filha, que a senhora castigou tanto, ela menina. No gomar bem capri­chado, d. Dudu põe o doce e põe o azedo, passa a urtiga e pinga o bálsamo, faz sumir no peito do uniforme qualquer vestígio do trote e endurece na gola a sua desforra contra as sobrinhas. O chiar do ferro no dólmã molhado vai re­petindo: eu disse, eu disse, eu disse...
E hoje, que a senhora é vó, as netas lhe sopram nas costas: xô! Xô! é a Brasiliana em cima dos urubus. As duas sim, foi, espiaram a arca, voltaram contando, a vó ralhou. “Mas foi só espiarzinho, vovó! Me tirou o pedaço? Só de eu ver, peguei lepra?” A mais nova falou. Então, nessa noite, ah que nos embalos! Nem bem cedo: café fez? Ou quis? Foi, foi rua. Que é que viu na arca, que escutou da Brasiliana? Indagasse de d. Santa, e esta, pondo as netas debaixo da velha saia preta: dum aleive quem se livra?
Pois essa mão de tanto parto, d. Santa, curtida de nas­cimentos, deixe assim mesmo, tola, tapando a culpa alheia. Reparou na pressa do seu mano? O semblante de barba e boi manso? Dá vontade de lhe dizer: Mas seu velho disfar­çado! Abre os teus esporões, me deixa te bater nas costas pra tirar o engasgo! E no que se enforcou no colarinho, enfia a casimira como se enfiasse a Questã, assume a Inte­rinidade, o seu lugar na sala do Ex-Governador, este? Este agora é o Coronel Braulino Boaventura conversando com o seu advogado.
Vamos nós dois tirar do rio a sua neta, velha abençoa­deira. A mais nova, sim, que viu a arca. Vejo-a, o rosto ver uma portuguesa, o beiço bruto, o rir malino, o sempre 214 espreguiçar-se... De repente, o resmungo, o pinote a um conselho, ao ralho, a unta palavra da avó. E só de ouvir a tia, espicha o beiço num zombar grosso, o olhar desafia e pragueja, o pé prometendo o coice.
A pressa de seu irmão é medo? Receia da senhora lhe dizer alto o que o coração lhe diz tão baixo, tão baixinho: te compadece, meu irmão, que o teu compadecimento um bom pago há de ter, por lá, no dia marcado. Te compadece, que logo um tanto te alivia, é a chave dela que te engasga.
Também da tua parte tu me acode que não sei até onde vou, puxada pelas netas, que estas o freio jogaram n’água.
Mas não está vendo, velha parteira, que o seu irmão quer cobrir tudo, ostentando a Questã?
— Já me vai por uns tantos pares de contos de réis, meu amigo. Se fizer bem a conta...
Enfiou os dedos pela barba como se fizesse a conta. Alfredo finge-se distraído. D. Dudu, no ferro, parece adivi­nhar. Derreada no mocho, a velha parteira vai a modo es­cutando as peripécias, o complicado, os atalhos, arapucas e porfias da Questã, como se escutasse pela voz do morubixaba o grande feito da tribo, mas sempre acima do seu entender dela, cocar real que só o irmão sustenta; e então se verga mais um pouco, tão abaixo do irmão, este que ro­deia na Camamoro as suas muito mais de mil cabeças, se dá com os grandes, risca da família uma criatura e todos lá de cima: amem. Ele, e ali, a Dudu, conforme cisma, até bem que se parecem. Com aquele ferro, Dudu não passa roupa, queima é o rosto das duas sobrinhas; a tábua de en­gomar é o pelourinho. Será que Nini, prima das duas, en­reda?
— Hipoteco, empenho, mas me arretirar dela axi que me arretiro. Questã quem não tem, não quer. E quem tem não quer perder.
— Também tem a seu lado a Marinha?
215 O Coronel Braulino Boaventura empina a barba, vanglorioso.
— Ensenhã.
Diabo! Esta resposta, esta palavra, que tua língua in­ventou, meu Delabençoe, meu Boaventura, bastava. Basta­va. E logo, puxando a mão da velha, correríamos a Babi­lônia, Arsenal, Bailique, Jurunas, Covões, Cremação, Pe­dreira, Zona, Una, voltando com a tua filha, pai, molhada dos rios, de farinha coberta, mas dona desta casa, não mais borboleta bruxa, ensenhã, ensenhã, secando a roupa debaixo de tua bênção, ao pé da cristaleira, ensenhã. Também sepultaste o livro, de que fala a d. Santa, o Carlos Magno? Foi num barco, de passagem pelo Mutá, Luciana vê o livro na camarinha “Um leitão por esse livro, sim?” Alfredo via o livro na cilha, no colo de Luciana montada no rosilho,. debaixo do tabocal.
Nisto o velho, do alto de sua Questã, quer despedir-se da mana e esta se desentoca do mocho, atina mais a voz,. tenta uma súplica, a queixa, um protesto, agora que não sabe, ou sabe? aonde anda a neta mais nova e a outra...
— E as duas, Santa? Elas precisam ter um préstimo.
— Em casa tem. Fiz um regulamento...
Interrompeu-se diante da filha, esta agora ao pé, fran­zindo a testa, a fingir espanto, a ponto de rir.
— Pra uma tenho uma promessa de servente na Or­dem Terceira.
D. Dudu ensaia um aparte, refuga o riso, volta ao ferro, passando ligeiro.
— A outra até que fez, esta semana, benzinho cinco palmos de renda.
— Me traga que eu compro, atalhou a d. Dudu, ciente da inverdade. E depressa chamou o Alfredo para o Alpen­dre, cochichou: conhece a rendeira? E voltou para ouvir:
216 — A outra tem uma promessa que se chama... como é, aquele menino?
— Escritório? chasqueou a d. Dudu, borrifando o pano, num rir ferrado.
A velha se acudiu com o mocho, e aí ficou, inerte.
O seu Boaventura, no embaraço de se despedir:
— Elas precisam de fazer uma qualquer serventia, Santa. Assim batendo rua...
— Menos verdade. Como tu sabe, Braulino?
— O tanto que sei, minha irmã. Elas o que carecem é trabalhar. Já deves estar sentindo a carga da idade. Nós. É. Tenho de chegar a tempo de falar com o doutor.
— Mais são os anos e mais criança eu pego.
— Mas não tem um fim, minha irmã? E as duas? E a tua idade? E as duas? À toa no mundo?
— À toa no mundo? Tu dizes à toa no mundo?
A velha esticou o queixo, quase num atrevimento, re­colheu-se ao mocho, abanando a cabeça, agora resignada:
— Olhar por elas, não olho?
O Coronel sumiu-se pela sala, voltou, parou diante da cristaleira. E a seu lado, já estava a irmã, num ar de es­perta:
— Então pede lá dos teus conhecidos um lugar... Tem essas casas... Pode que uma boa família careça de uma moça... Que tu acha, Dudu?
Batendo as mãos, como a dizer: comigo não conte, d. Dudu inclinou-se para a mãe:
— O préstimo? No moinho? Passando o rio?
Seu Boaventura virou-se, num sobressalto, para a so­brinha, logo disfarçou, quis sair, girou pela varanda: me dá um gole d’água, Dudu.
— De tuas palavras, mea filha, não tiro um sentido. Eu só sei que são meas netas, duas. Também tuas, tuas 217 sobrinhas. A terceira não está em teu poder? Do que foi para mim botar elas no orfanato, tu estás ciente, bem sabes, o tanto empenho, a dor de cabeça, a perna que me inchou de tanto correr a cidade, fiz, aconteci, quanto suei e lagrimei, e tanto foi, botei. De lá trouxeramzinho o que a cabeça delas deu para trazer. Uma vez que saíram do orfanato me cabe... Deus permita terem o rumo delas, consigam. As­sim rezo, assim será, sim. Se não, paciência, Deus me dê um bastão. Que tu acha, Braulino?
O Coronel Boaventura abotoa o punho, onde pôs o cha­péu? olha na cantoneira a fotografia das duas filhas.
— Trouxeramzinho o que a cabeça delas deu, mamãe? E o paradeiro das duas altezas no durante o dia, a senhora pesca, conhece o itinerário? Onde o relho, a vara, a muxin­ga, com que a senhora esfolava a costa das suas filhas, que agora não esfola a delas? Qual a filha sua que deixou de crescer debaixo de coça? Saber criar, hoje, é com mimo, só-só dizendo amém? A renda, me traga, que eu compro.
— É, Santa, as duas precisam em que se ocupar.
— Já bem que andam ocupadas, meu tio.
— Nini prometeu avisar de uma vaga no seu Camilo, até hoje...
— E o coice delas quando Nini prometia? É só sair e ver o chão da rua, rastro do pé delas em todo caminho. Só a mamãe é cega. Só a mamãe escurece.
— Enxergar pouco, já enxergo, mea filha. Mas meu coração nunca é cego. Nini prometeu. Arranjar, não ar­ranjou, que eu sei. Vaga, deu? As duas não tinham por que me mentir.
— Pois cegueira no coração é que é preciso, mamãe. O mentir delas para a senhora é dito e feito. É ou não é escurecer as coisas?
218 — Mas eu te confirmo, mea filha: a ficar cega do co­ração, primeiro me arranquem estes meus dois olhos.
— Elas duas até que já arrancaram, mamãe.
— Não, que sem estes eu não podia pegar mais filho alheio. Santa Luzia me conserve o pouco que estes me dão. Tenho ainda de pegar muita criança.
— Tem, tem, mamãe.
— Que inteiras as duas estão, isto eu não sei?
— Quem falou que não? riu-se a d. Dudu. Tirou? Ago­ra recurva-se, fazendo bruxa, tirou atestado médico? A indagar, piscando para Alfredo e mostrando-lhe, de lado, os cinco dedos da mão esquerda, os cinco palmos de renda.
— Umbra, umbra, disse Alfredo, alto, no meio da conversa, com a gramática aberta.
— O que teu ouvido mal ouve, mea filha, tua boca, logo diz sim?
D. Dudu quis rebater, soprou no ferro, Alfredo viu-lhe a raiva, o sorrir escuro, o escárnio fumaçando no ferro. Aqui a d. Santa, cabeça baixa, a figa do rosário entre os dedos, no que suspirou, sossegou. Tinha ainda, esta noite de olhar a barriga da d. Áurea (em véspera do quinto), na baixa da Manoel Evaristo. O Coronel Braulino Boaventura saía. Umbrarum. Umbrarum.
— Que língua é essa, então rapaz? indagou d. Dudu, séria, as mãos no quadril, a testa suada.
— Adivinhe d. Dudu, adivinhe.
— Te trago daqui com pouco é a d. Marta.
— D. Marta?
Já se vem a d. Dudu nos seus mistérios, nas suas negaças. Deixe de nhennhennhen sic, d. Dudu. Desembrulhe.
— Isso que estás decorando é francas?
— Por que d. Marta, d. Dudu?
— É uma alemã. É da Alemanha. Desta alturinha. Mas sabe!
219 — Sabe?
— Alemão, francês, inglês, piano, violino, era até pra ir, um dia, pra Camamoro, a chamado... Bem. Contratei agora ela. Te ensinar francês.
— Por que, d. Dudu? Não... A chamado? Ela, a... Agora eu? Não.
— É um querer meu. Se tu aceita ou deixa de aceitar, não perguntei. Já na segunda-feira. Aqui, ou lá no Curro, ela, vem, te ensina. Sei quem tem cabeça. É ou não é um querer meu? A senhora já vai, mamãe? Bênção?
— Bem, agora vamos! Não destorça. Me diga, d. Dudu. A senhora cortou aquela conversa de ontem. Onde ~a senhora encontrou a d. Celeste? Onde?
— Vou é mandar te benzer a cabeça, não vai passar desta semana. Disso andas muito precisando. Me espie, não arreda os olhos de mim, olha que acabo desconfiando. Que palpitei, palpitei, que a língua não me queimem. A janela da sala anda sendo muito olhada pela rua. Esta rua anda com muita passagem de quem dantes nunca passava. No jasmineiro vizinho, no portão cai-não-cai, tem que tem uma suspirosa. Tua idade ainda não representa. Tua calça comprida só esconde a perna, não veste um cavalheiro. Olha, olha!
— Primeiro a d. Celeste. Não corte a cabeça da con­versa. Onde?
— Comprava carne de viração na Santa Luzia. Com um maço de quiabos na mão. Num vestido tão antigo, só que tu visse. Que o meu, velho é, mas eu sempre sou eu, ela foi aquela. O dela se vê que vestiu a defunta, adeus a moda, tirou do camarote. Pintada, bem verdade, não esta­va. Mas o rosto...
— O rosto?
220 — Tão-tão desmaiado.
— Velha?
— Não, que aquela? Envelhecer? Bote os anos, O des­maio do rosto não descora a formosura dela. Até que pa­rece... Como coisa que ela espera, espera, até que chegue um e veja direito e rente e possa então apreciar o quanto é tão formosa.
— E só? Ia só?
— O refugo que comprou, pelanca e osso, até que já. fedia, com licença da palavra, Deus não me castigue. Me disse: é prum cachorro. E eu, por dentro: ora mas não mente, infeliz.
— Era?
— Via-se. A boca, no que mentia, logo se trancava, se via. Mentia, trancada de seu orgulho, lá dela.
— Estava só?
— Eu disse: a senhora sabe que o seu primo está co­migo? “Que primo?” Então desconhece, d. Celeste? Nega o parentesco? O seu primo, sim, que de preto, de onde ele saiu, saiu fidalgo. Cor ou nome, as minhocas que nos di­gam. Ela se limitou a sorrir. Deu um passo e falou: a mãe dele me faltou foi pagar uma mesada. Ele foi embora de casa sem ao menos obrigado. São assim as tantas coisas. Ai eu atalhei: mas, d. Celeste, não é a mim que a senhora compete cobrar, que, se for por isso, saldo a dívida dele, reponho a importância devida. Eu lá na casa do meu tio, é meu hóspede, fica até quando quer, que de pagamento não faço demanda, basta o que meu fio dorme e come alocé na casa do pai do menino. Ela: “que menino?” Sim, pra esta minha idade, Alfredo ainda é menino. A carne caiu da mão dela. Apanhou, tinha pressa, o cachorro es­perava. Cachorro, cachorro. Só se era o filho. Outro que não era.
221— E só, e foi, ia só?
— Em companhia dela? Só as saudades. Sim, de tudo que ela fez não fez, foi não foi ou era mas acabou-se, eu sei. E então? A que nunca sai de bordo.
— De bordo?
— Mas me morde, meu cavalheiro, me morde este aqui, seu faz-que-não sabe. Pensa? De todo aquele baile, viagem casamento, vos digo: eu soube. Eu é que não puxo apito nem divulgo. Vais na casa dela?
— Não.
Repetiu “não”, “não”, invadido de pena e vergonha.
Nem o velho responde nem responde o chalé.
Aqui, o Delabençoe vai do advogado (Bom dia, Coro­nel Braulino), ao Ex-Governador (Como vai, meu compa­dre Boaventura), deste para a cocheira Jabuti namorar um zebu que a sua fazenda reclama, e dai ao dr. Gurgel de onde sai, de novo, para o Ex-Governador, enseiã, enseiã. D. Dudu, porém, com um piscar e um sorrir, solta a charada; faz suspeitar que o Coronel Braulino Boaventura desce de um carro em certa rua e certa porta se abre e fecha, o tio Braulino ali a tarde inteira. Era? Chega na José Pio, já bem de noite, ao dobrar o canto, lhe aparece com a altura da porta a d. Brasiliana. Defronte, a vala, os urubus. Lá no mirante da taberna, lá no suspiro, o alçapão da feiticei­ra. Ensenhã. Será padrinho, sábado, conforme lhe pediu a dona. Igreja de São Raimundo. Também pagará a notí­cia do batizado, não no Laudelino. Na Folha. Coronel Braulino Boaventura, presidente do Conselho Municipal de Cachoeira. Delabençoe, meu afilhado. Sobe no alçapão, desce, deixa no carro a tetéia, o carro some.
Das cartas não diz nada, faz de conta não recebeu. Abençoador sempre delabençoe, delabençoando a José Pio. Entra em casa, um rosto tão ensenhã, a barba tão 222 compade|cida, um olhar de quem não mata nem mosca, as sobrance­lhas benignas, somente seu Boaventura. Mas responder, responde? Roda pela casa, espia a cristaleira, numa hesita­ção, numa pressa súbita, logo um nunca parar de embalar a rede, voltando para dizer, a barba cerimoniosa:
— O Ex-Governador, meu compadre, vai operar a hérnia.
Dizendo como se invejasse?
Aproveita-se do velho no banheiro, e revolve-lhe o bolso do azul-marinho; aqui as cartas, recebeu, sim, são elas, quentes ainda de quem as escreveu. Delabençoe do diabo. Manso monstro barbudo Boaventura.
E do chalé, nem pai nem mãe para ao menos escreve­rem: não se meta. Silêncio. Não se meta a fogueteiro. E aqui metido, e fundo, e sem esperança, e sem socorro. Se­não valia a pena esta farda, estes dezesseis anos, este ser e estar no mundo?
Tantas vezes não quis interpelá-lo? A boca, deu? Me dê conta do seu perdão e da sua bênção, meu barba do Im­perador, seja apenas Boaventura. Olhe, olhe a sua velhi­nha irmã Boaventura, boca chupada, a mão não cessa de fazer nascer e de abençoar, olhe, olhe, viu-a no mocho? Lhe falta nela é um pouco mais de raiva ou astúcia para arran­car dessa barba o ensenhã que ela levaria na ruão, como um gole d’água, para a moça, de lábio seco-seco, o coração calci­nado. Viu quanto chegou cansada de ajudar a parir, de multiplicar o mundo? Ou mais cansada ainda de correr atrás das duas netas?
Seguiu-o pela cidade, casa do Ex-Governador, na Gen­til, casa do Advogado, no largo de Nazaré, pelo Ver-o-Peso — uma visita ao Mercado de Ferro, um particular com o dr. Raiz. Apanha o carro no largo do Palácio, sumiu. Voltou o carro, Alfredo indaga do chofer:
223 — O sr. sabe onde foi meu tio? 7~ que tenho um recado urgente...
— Sei não, responde o cearense, sei não.
Sei não. E é tudo nesta busca. Sei não. Daqui um pouco, descendo de outro carro, eivém o desaparecido, O carro passou e lá dentro, sim, lá dentro, um rosto, o leque, logo saltou a dama na porta da sapataria. Aqui ao pé do poste o Coronel Boaventura esperava. “Mas eu espiando? Eu?” voltou-se Alfredo para si mesmo, brusco, sem saber se envergonhado, ou capaz de uma chantagem e quis saber de d. Brasiliana: carro, suspiro, arca, a tetéia no carro. Tomou o bonde, se encheu de ardis durante o sono, acordou sem esperança.
Cedinho foi ao Curro Velho.
— D. Santa, me diga, não passo a ninguém, do para­deiro.
— Que paradeiro, meu filho?
E toca a escorrer lágrima do rosto enjilhado. Desta rosa murchando aqui no copo, Alfredo quer tirar a pétala que apare a lágrima e levá-la até onde... que escuro está em toda a casa! Aonde andam as netas?
— Elas? Saíram. Fazer um recado meu, mentiu a velha, sorrindo agora, a provar que as duas netas estavam naquele instante, dando gosto à sua avó.
— A Dudu meteu no juízo, meu filho, que as duas... Estou que é a Nini. Pois a Dudu meteu na cabeça que...
— E Luciana, me diga, d. Santa. Sei que a senhora sabe. Onde?
Alfredo toca na rosa; desfolha-se dentro do copo, al­gumas pétalas no chão. Apanha uma, corre a velha casa, flutua no escuro, um atoleiro o quintal, choveu muito, aqui o São Francisco, de pau, descasca a tinta, amassado na ca­beça, ali a rede armada, com a osga no punho a caçar mosca.
224— Não sei, meu filho, já te disse mais de uma vez que não. Cuide, cuide é do seu estudo. Luciana é do mundo dela.
— Dela só, não, d. Santa. Meu também. Me diga. Me diga ao menos o rosto dela. A senhora bem que sabe. Que idade tem agora?
— Dela as feições até que se apagou de minha vista. Não. Não tem mais remédio. Não viste?. Ela? Nasceu num mês de março. Que quem pegou ela fui até eu. Deve de andar pelos vinte um ou vinte e dois. Sombra dela os do fundo roubaram, foi. Não tem mais remédio. Não viste?
— Viste o que?
— O meu irmão?
— Não.
— Fez bem não ter visto nada. E ela? Ela, então, já é o teu estudo? Te condoeste tanto assim, que é o teu es­tudo?
— É, sim. É.
D. Santa preparava-se para sair, ver os oito meses da d. Chiquinha Arantes, na. Podrona, talvez com a criança atravessada. Alfredo pensa dizer-lhe: Oiça, d. Santa, oiça este que perdeu o sossego para o estudo. A desabençoada sem sombra atravessa a aula, salta da cara dos mestres, espia de dentro da carteira, é abrir o livro e das letras voa a imagem, não o rosto que não conheço, sombra, o raio, o tabocal, a nudez sangrando no celim, nas folhas da Bíblia, anônima num beco. Sem olhos sem boca, sem faces, rosto oco, na pupila do pai, visão da tia, oh moinho oh rio, oh Babilônia. Este lugar, que é dela, me queima. Na José Pio, estou em cima de uma família de fantasmas, os Juruemas, debaixo de uma família de coveiros, os Boaventuras.
Então, d. Santa espiou, atou cabelo, foi, olha à janela, ia sair, não, voltou, atrás de nada pelos cantos da casa, por fim chegou-se:
225 — A fazenda, lá, tem pela frente um bom estirão que vai dar num correr de baixa, alagado brabo. E aí se vê o que foi um rio, o Jandiá, hoje, uma baixa só, o resto secou­zinho de vagar, cabeceira e boca. A parte do meio virou que nem um encharcado, um tal balcedo, que olha o tamanho. Baixa, se não minto, por onde passa a linha da demarca­ção que os Tavares contestam. Mas não foi com papel selado que o mano teve da Marinha? Deixando de ser rio, de ser marinho, ficou terra, o mano foi, procurou o seu direito, correu por lei a linha por cima. Os Tavares: não porque não, não porque não, e entram os doutores, e assim estão até hoje. Os Tavares? Gostam de possuir rios, sim, que eles tiveram posse de uma desconformidade d’água, fo­ram fazendo testamento, divisão de herança, uns no des­perdício, se bem que eles ainda têm, tem, deles o rio das Pacas, o Igarapezinho, e o mais, um resto. Mas a Jovita então cisma que aquela parte da questã o marido devia lar­gar de mão, a parte da baixa. Cisma que aquela baixa empanemou a família. Incluída na benfeitoria, ateou a en­demoninhada na caçula. Da cabeça da Jovita, mulher de tão pouca língua, recolhida no casco dela, deu de sair tal cisma. Desde aí, foi. É que Luciana, se tinha horas no tabocal, in­ventava outras mais demoradas, beirando a baixa, respi­rando o pitiú dos bichos que ali se cria, e cobra, e o que pode ter restado de um rio que se acabou porque ninguém não sabe, correu que correu, vá ver a quantidade de tempo e maré, se esvaiu sem causa. Vazou de vez. O que lá morou e morreu e sobrou, quem adivinha? Luciana quis saber? A água que ali parou, coalhou. De tão negra, fede. Luciana ali se agarrou, sim. “Aprende com as cobras”, disse a mãe chocando o cisma-cisma. Sabia-se que Luciana passava a cavalo pela baixa nas horas. do sol se pondo, debandando guará e garça, como coisa que ia ali enterrar seus sonhos ou 226 pedir um encanto. Contava que os peixes, bichos, dali mo­radores então que conheciam ela, com ela se entretiam. “Mergulhei na baixa e eu e o meu cavalo e saí foi limpinha, enxuta-enxuta, o cavalo era ver um cetim, lá no fundo é até prateado, luze, parece que tem um garçal só ninho”. Assim falou, uma noite, respondendo ao ralho das irmãs que lhe diziam: deixa que um dia, doida, ali tu te some e de ti nem lembrança. “Esta não nasceu de mim, mas daquele aturiá”, resmungou a mãe. O certo é que a Jovita chega de cismar que emprenhou dum bicho lá do mangue, prenhez feita de longe e que botou no mundo a criatura. Cismação de Jovita moradeira de lago. Jovita, no que cismou, cisma feio, atravessado. A baixa, eu vi, só vendo. Uma tal paragem tão mas tão calada de dia, no que chega a noite é aquele gemedor sufocado, um penar dos bichos. Aflige. Mas Lucia­na, tu pensa, horas, bem lá. A modo de estar desejando um saruá lá nela, te benze, boca, no que estás falando, Lucia­na era muito apartada das duas irmãs, carregava uma so­lidão, um desterro. Ali perdeu a sombra? A coisa na ca­beça dela que fez virar sua sorte, a dela, pegou dali? “Está chamando o pai”, chegou da mãe dizer, logo fazendo cruz, enfarrusca a cara, entronada na rede, Jovita. mandando buscar experiente benzedor, se aconselhava, despachou pes­soa onde esperava obter uma explicação. Pois uma noite, chovendo, Luciana chega da baixa, já se apeia assim tomada de um semelhante sono, ver uma pessoa que vira o trago e a dizer: ah que a baixa ficou tão, mas tão bonita na chuva. Desceu um senhor luar. A água então que espelhava virou rio de novo, o Jundiá correndo, por ele vou me embora, sim, não estão vendo? desemboquei no lago Guajará. Ardia de febre, delirou, noutro dia boa.
— Mas o rapaz do tabocal?
— Pra te dizer, não sei.
227D. Santa mais não disse. Disfarçou pelo quarto, voltou.
— Há de dizerem que eu é que estou inventando. Lu­ciana gerada de mulher semelhante eu e do homem seme­lhante tu, isto eu sei, que foi. Se a sombra perdeu, rouba­ram, nunca reparei, não reparo, não corro atrás da sombra alheia. Então, senão, a maldição vinha da mãe que se me­teu com bicho, ou quem disfarçado de bicho? Que passo deu a Jovita que de repente se atreve a cismar, a carregar em cima da filha uma tal penação? Me benzo, grudo mea língua, m~ atrever a pensar não me atrevo. Meu filho, agora tudo sem remédio é. Quem foi reaver no fundo a sombra dela? Quem decifra o que está por dentro da desaparecida? O pai, eu sei, não merecia, que, não por ser meu irmão, bom homem até que é. Tem um fado por saia, não oculto. Foi um caboquinho do Pacacuara de Ponta de Pedras, nossa família da roça, eu até que ajudei a. criar ele. A bem dizer por teima fugiu de casa, subiu o Arari, depois se soube: vaqueiro da d. Leopoldina. Não demora feitor no São Mi­guel, foi reunindo seus vinténs, bem guiado, se fazendo. Com Jovita, na beira do lago, se amarrou, arribou até Cha­ves, Ganhoão, entrou na confiança dos brancos de lá, admi­nistrou, ganhou fama, como pessoa de fé, deixa crescer a barba, bota no capricho dele de que tinha de ser um criador com a barba dos antigos. De lá veio tocando suas cabeças conta uma conta duas, soma dez, querendo criar por conta própria, cercar seu retiro, arrendou um terreno no Baixo Arari, fincou porteira, ferrou seu gadinho, comprou mais outra braça de campo, entra o Jandiá na posse, eivém questã. Depois, atrás dos meus conhecimentos na cidade, veio, veio, apresenta um, apresenta outro, se enfatiotou no Ramos da João Alfredo e eu sei que assim ele foi se dando, foi se dando, porta é que não deixa de abrir quando ele bate palma. Eu sei, como tu sabe, que até Intendente Interino 228 já é, só com o soletrarzinho dele. Luciana, no mais que fosse, já não nascia num rancho, ao pé dum curral coberto de morossocas sic, viu a luz já lá no Camamoro, tinha de se polir num colégio, me responde que não. Veio? Colégio dela foi o tabocal, a sela, a baixa do Jandiá, a sangria que levou da mãe, foi o diploma. Viver ali, como a Jovita vive, asselvaja. Agora...
— Me mostre o caminho.
— Que caminho?
— Dela.
— O teu, sim, é que é. Olha, meu filho, tua irmã morreu. Deus botou, Deus tirou, é com ele. As águas de Marajó corre só pra esta cidade.
— Pra esta cidade?
— Tu bem que sabe. O Arari sangra na baía.
— É. E tem na boca uma ilha, que é dar a meia noite, sai viajando.
— Um tempo tirei para ouvir as tantas coisas, cujas coisas não têm pé na razão. Descrer me custa mais que crer. Não sei mas me dá uma coceira cismar que a mea sobrinha foi flechada, um olho do fundo flechou ela no Jan­diá, me perdoa a Nossa Senhora. Também as invejas fle­cham envenenado.
— E o rapaz no tabocal? Quem? A mãe não diz? Fle­cha da irmã?
— Tu viste? Tu tiraste fotografia? Me dá uma tes­temunha. Ela ao menos abanou a cabeça confessando? A mãe? Só que fez foi arrancar a filha de dentro do escuro, escuro, mais escura que o escuro estava a Jovita atuada de uma fúria, conta no dedo o quanto bateu na filha mas ba­teu, já não batia no corpo mas lá dentro, querendo arran­car a alma como se arranca tripa de boi. Mas Luciana a alma arrolhou por dentro dela. Sangue coalhou no chão. A irmã?
229 Calou-se.
Alfredo assobiou: águas, águas, Irene, as demais. Lem­brou aquele rio morrendo — volta, volta, mãe do rio, me deixa uma espuma, quem sabe um búzio; o expiro de um afogado; Luciana e a ilha andando, qual das duas via­jando mais? “Pra te dizer, não sei”. Igual a mãe nas Ilhas. Quem foi? Quem? Quem?
— D. Santa, as duas? Demoram?
— Tiveram de ir um pedaço longe. Sempre juntas, se dão tão bem, mentiu a avó. Mas e tu? Tu, não é zinho hora de ir pro estudo? Quer levar merenda?
— As duas foram lá?
— Lá onde, meu filho?
— A senhora bem que sabe, me diga. A ninguém con­to. Segredo entre nós dois.
Alfredo observava-a. Negando-se a tocar no assunto.
D. Santa tinha um olhar de agrado, de aprovação, como a dizer: pergunte, vá perguntando, talvez lhe responda, con­fie, talvez nunca lhe diga, mas seu indagar me faz feliz.
Assim no desconhecido, num beco ou na Babilônia, Luciana parecia chamá-lo. Não a viu, ontem, num sonho? Dela só as mãos que lhe apanhavam o rosto. Logo lhe apa­rece o seu Salu, de Cachoeira, leitor dos romanções sem fim, entregando-lhe a espada: Vingador, vingador. E um tabocal se cobrindo de lua, que lua, não sabia. A moça dos jabutis, morta no largo de Nazaré? Acordava com as mãos dela em seu rosto. Da morta ou de Luciana?
Tinha de a descobrir.
— Hein, d. Santa? Quando me diz?
D. Santa nem como coisa, o mesmo que não tivesse es­cutado. À janela, Alfredo via o bonde passar, vazio, para o fim da linha; voltando, a modo que trazia do curtume este 230 ar de mau cheiro. Na vacaria virava o cata-vento. O de Cachoeira parou de vez, perdeu a asa, a armação enferrujava, com o poço ao lado, mais solitário, de cimento e limo e mais
fundo. Aqui d. Santa também não responde, como o poço de quem Andreza indagava, num cochicho: compadre poço, me diga aonde anda aquele dr. montado no búfalo, vos peço. Pode me trazer daí do fundo o baile da Mãe Maria?
— Queres um cuscuz pra merenda? Aí na vizinha tem um bem bom que vendem. Não viste o xarão na porta?
Cuscuz? Queria era aqueles feitos no chalé quando chegava milho verde, tão raro, e agora que desassossego. Aqui e lá, a mãe tão só, tão só o pai, estas horas rabeava na enchente ensolarada o velho peixe aruaná, boiando para in­dagar: cadê aquele menino? E lá pelas cabeceiras, debaixo da chuva, com as orelhas redondas, em meio do gado de vento, gado da Fazenda Real, que os fazendeiros furtavam, a novilha arisca de nome Andreza. Rês da Fazenda Real, sem marca, perdida no vento, quem a laçava? Em que ferra, em que fazenda, vaqueiro, fazendeiro, feitor, ia com o ferro marcá-la, cortar-lhe a orelha redonda? Aqui, ferrada, cor­re a cidade a outra. Esta que me torna um ladrão, me dá esta necessidade de saltar a janela, me faz daquela casa, na José Pio, uma sepultura.
Nisto chega a neta, a mais nova, varando para a co­zinha; a velha, embaraçada, sem saber se vai atrás ou espia o Alfredo, segue numa indagação aos cochichos. Alfredo o espera: A neta veio de lá, será? Trouxe recado? Mas de todo o entendimento, ali na varandinha escura, só escuta um pé socando as tábuas soltas do soalho, ah! foi, foi! axi! (o São Francisco rolou na mesa, pulou no ninho a galinha choca, um púcaro tiniu no pote). Para não ouvir a avó, a neta se pôs a cantarolar e logo, áspera, entre dois goles d’água: do orfanato já azulei que tempo, vovó, dele nem a 231 cinza eu quero. Dele até a sarna tirei, chega! Calo do meu joelho sumiu. Aquelas hão de ferver no tacho, na bosta fervendo. A senhora caducando? Me tome então o pé, me. lasque a palmatória, vó. Faça as vezes da diaba velha de. véu e rosário, me ponha de joelhos, me arroxeie a mão. Pois que fiquei-fiquei no quarto da filha do seu Belarmino, foi, fiquei, a noite inteira, voltei aleijada? Não vou pro enterro? Antes fosse o meu, sim. Não sou a corda de sua caçamba, vovó, ora me deixe. Eu? Eu que sei da Dalila? Não amanheceu? E a senhora vem me pedir contas? Tia Dudu? Medo da tia Dudu? Eu? Está aqui pra tia Dudu, uma boa pacova, também pros sacos de papel da Nini ai meu Deus Nini é tão órfã, a cheia de chilique, é a maior or­fandade, não toca naquele sofrimento que se derrete toda. Quem que é mais choça, vó, a nossa galinha ou ela? Ah! mas não digo? Não digo? Meu Deus, um dia, azulo desta casa, um dia adeus Ana, varo os confins, eu não digo? Quem, mas quem que tirou a droga do meu vestido cor-de-rosa daqui, mas quem? Aposto que é a Dalila, a cachorrona! Ah vovô! já levantei o santo, já ficou de pé, não viu?
E eivém ela num pinote, descascando a pupunha, salta na rua, desembestada.
— Ana, mas Ana... É o chamado frouxo, esvaído, da janela.
Alfredo pulou a vara, correu, no meio da rua, apanha o braço da moça, que empalidece de surpresa e raiva. “Va­mos, Ana”. Alfredo recua com o safanão, avança com as mãos empalmadas: Vamos. Por bem, Ana. Desincha a raiva, menina. Olha que é a tua avó na janela, olha, olha. Os dois forcejam no meio do trilho — passavam uns zebus, solenemente, alvos — por bem, Ana. Alfredo receia trope­çar, tem o pé dela, vendo-lhe nos olhos a noite em claro, ainda a surpresa, em vez da raiva um pique: Xô! Não 232 azela. E olha, o matuto! Enfiou a perneira errado. Erra­do. Primeiro acerta a enfiar a perneira...
Ana o arrasta pelo trilho, espantando os zebus, larga-se a correr para o capinzal, de costas, inclinada, beiçuda, mexendo os dedos: tuco! tuco! tuco! chamando galinha. Já no capinzal, numa obstinação fria, acertando as pernei­ras, Alfredo parou, ouvindo o tuco! tuco! o desafio dela, agora com o sol em cheio no rosto avermelhado, a mão no ar não era mais a roxa, a escura, pisada mão do orfanato. Ele vai, corre, passa-lhe o pé, Ana tropeça, agarrada no pulso, debatendo-se.
— Chamou galinha ou galo? Ana, galinha ou galo?
Num repente, estalando a língua de pouco caso, ela cedeu, estendendo-lhe a mão, de joelhos que estava. De joelhos. De joelhos. Alfredo hesitou, sem saber se a levava ou fugia. Tomou delicado a prisioneira pelo braço, cautelo­so, bem delicado, quis perguntar-lhe por Luciana, indagou foi se o velório esteve bom, quantos gatos podres comeu, se tomou café fervido na água que lavou o defunto. Por bem, Ana. Por bem. ~ a tua avó, não é? Vens no teu que­rer, não é? Num desalinho suarento, mastigando um capim, Ana sacudia as costas do vestido, mais vermelha, a troçar: comandante manda, marinheiro faz. Na calçada, exalando abandono, transpirava quente, o beiço oferecido, o rir de quem se deu.
— Está aqui a cativa, ponha a coleira, falou ao pé da velha, sorrindo, fez festas no queixo da avó — ih! mas a vovó sem um dente? Que nem um tatu? Sentou no soalho, pernas abertas, mostrando a Alfredo a marca no braço:
— Seu bruto... Abanava o colo desabotoado, a esti­rar-se no soalho, fazendo língua.
— Seu galo...
— Mas tem um termo, menina. Mas Ana! Ante que 233 tu bote aleive na tua irmã, te digo que o teu cor-de-rosa, eu que passei, guardei na mala. Mas Ana!
A voz rouca, mais de súplica que censura, e o gesto menos corrige que abençoa. De repente, Ana, num salto, corre ao quarto, apanha o cor-de-rosa e já na porta, com dois dedos na boca assobia contra a velha e o rapaz, voan­do para a rua.
Entrava Dalila, descalça, sarapantada, empinando a barriga chata.
— Mea avó, ande, desenrolha a botija, um moni aí prum sabonete.
Piscava para Alfredo, o peito escorrido, o olhar vazio. Alfredo despede-se. Viu de longe, a Ana, o cor-de-rosa no braço, ao pé dum bucheiro que pesava tripa no carrinho de mão. Ana abanou-lhe o cor-de-rosa na cara, saltou a vala, a fazer adeus com o vestido. Alfredo voltou pela Penitenciá­ria, pulando covas, os zebus passavam.
De alguma coisa D. Brasiliana saberá? Saltarei no al­çapão, irei até a arca.
Na. José Pio, ei, espia, mas olha! olha o chapéu, e as luvas, e estalando sedas, carregada de colar e brinco, moira encantada do contrabando, saltando magicamente da arca, a d. Brasiliana, à espera do bonde. Ia ao Fisco Federal e Municipal, disse ao freguês, obter, como sempre, dispensa de multas aplicadas no Antonico. Viciou a balança não selou o vinagre. Também pagar uma letra na 15 de No­vembro, referente à compra. da Caixa Registradora, que ela quis ostentar na mercearia. O estudante olhou para a en­chapelada muito séria, quis falar, mordeu o beiço, bordejou defronte, brandia a sombrinha contra os urubus, agi­tando as pulseiras: ia dobrar o Fisco, correr a Alfândega, saber se chegou navio de Iquitos, tomar café com o Foro, consultar no Mercado de Ferro, o dr. Raiz, sobre uma dor 234 nas urinas. Eivém o bonde. D. Brasiliana deu a Alfredo um adeuzinho com os dois anéis faiscando, sentou-se leque aberto, só, no banco do meio, a figurona no bonde, com seus penachos, num nem te ligo para as janelas, pasmas, que a viam passar. Ao balcão, o Antonico alisava a cabeça do mascote, um jacamim de costa cinzenta; o bicho, de asa arriada, saltou para a lenha ao pé da porta, tão coitado. Nem ovo de galinha tinha para chocar? Na vala os urubus olha­vam. Em fila indiana pelo trilho vinham os zebus.
Alfredo ganha a São João, a tempo de alcançar a par­ceira de viagem a pé, toda manhã, aquelazinha d’A Nacio­nal, a fábrica de roupas defronte da igreja de Santana. Seguiam juntos, ela com a comidinha numa lata de man­teiga forrada com papel cetim e a fita verde, ele com a gra­mática latina, Luciana se enfiando pelas declinações e o eco: seu bruto, seu galo.
— Eu costuro roupa. Tu saber.
— Sabes o que é saber? Já aprendeste charleston?
— Só queria que tu me contasse o que tu estuda, me conta?
— Um dia. Um dia. Queria era eu saber o que tu sabes.
— Tirador de graça, então! Por que que sei, o que que sei? Dançar nunca dei um passo, Nunca achei esse caridoso que uma só vez dissesse: hum, me deixa levar aquela rejeitada numa festa. Que é que eu sei?
Alfredo, no íntimo, respondia: sabes vir sossegada para A Nacional. Não tens que te encarar com o catedrá­tico de matemática nem com a anta da aula de desenho. Nem com o enigma do chalé. Nem com a busca de Luciana. Nem com este desamparo em que me encontro por não acudir a velha avó nem sossegar aquelas duas nem pedir à d. Dudu que não se regozije e das duas sobrinhas tome conta. E ainda ontem, no Ginásio, sentado estava no banco, 235 no corredor, à espera da campa e passa o lente Penafiel, duro de passo e olhar, colete e pérola na gravata, passou, voltou, parando ao pé do banco:
— Vê-se que não é um cidadão.
— Eu, professor?
— O senhor. Nasceu na roça, vê-se.
— Eu, professor?
— O senhor.
— Eu, professor?
— Um cidadão levantar-se-ia do banco ao ver um su­perior passar, ao ver-me passar. O senhor, não. Vê-se que não é um cidadão. Levante-se.
Sabes, Belmira, que cidadão é quem nasce em Belém, habitante da cidade? Sabias? “Cidadão é toda pessoa que está em condições de ser útil à Pátria” leu num magrinho e mofento “Código do Cidadão” folheado ao pó e escurume morno do sebo da Santo Antônio.
— Que tem vós que vai assim tão calado, tão só ele!
— És cidadoa, Belmira? És?
— Cidadoa? Eu? Eu sei?
— Moras na José Pio que tempo?
— Ali não moro, me encosto. Que tempo? Folhinha em casa quem lhe inventou que eu tenho? O Antonico distri­buiu fim do ano? Pelo que oiço, a Brasiliana mais de dez pendurou lá no alçapão dela. Dizer que vi, não vi, ouvi. Chega o tempo, passa o tempo, eu sei? Faz um trato? Me leva, uma noite só nós dois sabendo, — a gente com uma escada — até o suspiro do mirante dela, e ver?
— Ver?
— Ver, sim. Fingindo não saber?
— Nós?
— Quem mais? De meia máscara. Se atreve?
— Montados nos zebus do Jabuti?
— Falando sério. Rejeita?
236 — Então, hoje às oito, no teu portão?
— Não é no meu pobrezinho portão sem trinco que tem o jasmineiro, meu senhor. No meu só tem é um pé de urtiga. Quem te sacode jasmim na cabeça que nem con­fete não atende pelo nome de Belmira.
— Me sacode o teu cabelo curto que assim me cobres de jasmim, cidadoa.
— Solando banjo assim tão cedo? Bem, cheguei no meu colégio. Obrigadinho pela garupa.
— Então, não, Belmira?
— Me empreste primeiro um terçado pra roçar a ur­tiga do meu portão. É a urtiga quem me guarda. Sim, que o meu portão não tem trinco, mas o teu coração tem um de ferro que uma ferreira, que eu sei, forrou de jasmim, tome tento, enfeitiçado! Às oito? Às oito, adeuzinho que estou é longe-longe a sono solto.
— Às sete?
— O relógio velho lá de casa não quebrou-se? O pon­teirinho caiu. Estamos sem as horas. Bem, até um dia, que está na hora deste meu colégio. Costure bem o seu saber. Se desenfeitice. Em vez da escada, te pulo no ombro, subo em cima da tua cabeça e espio, feito?
— Mas às sete?
Pudesse entrar no Ginásio, esta manhã, só pensando no portão sem trinco, no pé de urtiga, nas sete da noite, no jasmineiro de Esméia, galinha e galo, mas, não. Belmi­ra. Na manhã em que voltava ao Ginásio, três dias depois do trote e da fuga, emparelhou-se com a cidadoa. Conhe­ciam-se de vista. Foi no dobrar a Municipalidade; para­ram, sem quase se falarem, defronte da garapeira do Es­quadrão, curva do Circular. Ela, afetando um natural, te ligo não te ligo, fingia-se muito curiosa de tudo que não fosse, um só instante, aquele ginasiano a seu lado. Ele, 237 surpreendido pelo gratuito atrevimento, sua teima em acompanhá-la. Queria, com a insolência, encobrir o torvo temor de voltar ao pátio, de encarar os Belerofontes.
— Seu nome?
— Por que quer saber? O seu eu sei.
— Então? Me diga o seu. Ofende?
— Ofende.
— Tão sem nome assim?
— Cego?
— Eu?
— Se fosse uma cobra... Não está vendo?
— Onde? Ah!
Na medalhinha do pescoço o nome dela, a dona logo a escondeu por dentro do peito, apressou-se.
— Vai de bonde?
— Eu? Pra que que tenho então pé?
— Longe?
— Conforme.
Se apanhava o bonde ou continuava a pé, Alfredo não sabia. Voltava mesmo ao Ginásio ou acabava no Ver-o-­Peso, indo se embora ou perdido no bosque atrás das duas casadas?
— Quer ir comigo no bonde?
Ela fez beiço, abanou que não, e esperou o bonde passar. Alfredo apanha o estribo, desce na esquina da Jerônimo Pimentel, esperando por ela.
— Porquê?
— Por que o quê?
— Que desceu?
— Eu sei?
— Não vai perder a hora?
O sorriso, a lata de manteiga, o cabelo curto com a pastinha, a tímida faceirice, tudo nela muito amigo, de 238 toda manhã, o acolhia com tanto agrado. Deu a Alfredo um sossego, um alento — desço no pátio, sim, sim — e se viu ao lado de Belmira, na aula de português, com aquele professor de aparição, magrinho, voz abafada, tossindo breve, tão frágil, tão esvaído. Todos na aula o queriam bem, sim. Ou tinham pena? Por que assim tão doente nesta sala que lhe suga os pulmões? Foi a tísica ou a gramática? Roído pelas regras, olhava a aula como se dissesse: falem errado escrevam errado, das folhas da gramática, façam papagaios, aprendam a língua com os canoeiros do Ver-o­-Peso. Esfalfado, deixou a sala num adeus derradeiro. Pois dias depois não morria? Agora a aula de desenho.. Alfre­do imagina-se sobre cubos, paisagens, as rosadas meninas do Cícero Câmara; lembrou-se: o professor Chiquinho, à sombra das ginjeiras carregadas, desenhando caligrafia, abrir majestosas letras góticas. Ia, de sua parte, desenhar agora aquelas três árvores doutro lado do rio, ao pé da armação da draga, com um esbraseante tapuru sobre a ferrugem? Riscar um peixe uéua, um jandiá, oito horas da noite mordendo a isca? Ou a pixuneira lilás, e o rosto de Andreza, só uns traços, boiando do fundo, a gritar: passou por baixo de minha perna um sucuriju, foi, um deste ta­manho, mas sou curada de cobra. E Alfredo toma um susto: invadindo a sala, um galego gorducho, bigodudinho, com uma pressa irritada, o bugalho amarelo, a bater a régua na mesa contra trinta e dois inimigos.
— Menino! Menino! Silêncio na cocheira!
A aula toda acuava-se, como se esvaziassem as cartei­ras, logo avançando, muda, a flechá-lo de ofensa e ódio. E o buldogue desceu para saber, com ferocidade e triunfo, quem não trazia papel de desenho, os materiais, os materiais. Quem não tivesse, fora quanto antes, fora quanto antes. Não tinha mas mas. Rua.
239 Alfredo levantou-se, quis explicar.
— Rua! Rua! Desentulhe a pocilga.
Alfredo saiu, saíram outros, sai a colega a sorrir para ele logo disto se deu conta, trancou o rosto. Alfredo desceu ao pátio, com Belmira a seu lado, pensando no bruxo das letras góticas e das ginjas, o professor Chiquinho, nas meninas rosadas do Cícero Câmara. E do pátio, onde rodou só, já agora ferido pela indiferença geral, subiu para a aula de francês, a primeira. Francês! E não estás aqui, Luciana, nem ao pé da janela, — quanto apreciavas! —o senhor, meu pai, “La clef du diagnostic”, tão empoeirado, as traças comiam. Mas de onde vem esta, balançando as argolas, endureceu no estrado, uma estaca de gola gema de ovo, sapato alto, o dedo sobre a aula como um verme? Toda ela é um giz de saia, o colo de tábua, o catarro didático na voz que esganiça, ralha, corda solta, é francês, sim ou não? Não dispare, não dispare, (ah cheirosas e lentas professoras), e aqui ao lado este sarro, o nome Grammaire, sinistro o quadro-negro, e toda alvaiade e urgente a profes­sora na pista a língua chicoteia, abre a jaula de onde saí­mos, tentamos engolir no ar o pronunciar rouco, saltamos sobre a presa, de goela n chão caímos, estala o francês da domadora. Présent, présent de l’indicatif. Andreza, mira, não me invejas? E de dentro do bolso: não te envergonhas? lhe diz a sempre menina, começou a recender piquiá cozido, chove por dentro do peito uma tal chuva que enche Cachoei­ra, o chalé de bubuia, precisou o jacaré cego vir acudir, re­bocando a casa, encalhou num raso defronte de uma ilhi­nha branca mas branca-branca. Faz só: xô! Toda a ilhinha se levantou, voou, era só garça. E aqui de mentira a sabi­chona garça azeda, feroz de pronúncia e fígado, ganindo furiosamente a sua aula.
240 Seguiu-se o outro número, matemática; de óculos e ca­simira preta entra em silêncio o camelo direto ao quadro, riscando algarismos num rosnar surdo. Teoremas. Teoremas. Enche o quadro, quebrou-se o giz, olhou gelado e nu­meral para a aula, a boca sumia-se num furo de onde esca­pava o regougo algébrico; petrificados em giz, os teoremas também nos petrificam, e o mestre vai jogando sobre nós a sua areia. Tirando os óculos, deu por falta do Pereirinha. na sala, abre a carteira do faltoso, retira uns papéis.
— São os versos dele, professor.
O Pereirinha. Tão só, sempre tão longe da aula e de si mesmo. Presente ou ausente, era a mesma coisa. Ar­mando-se com os óculos, o bico esverdeado e mudo, o ames­trado animal, conforme o número, foi rasgando os versos, devagar, com aritmética delícia numa destreza profissio­nal que o tornava mais certo do seu poder e infalibilidade, logo atirou os restos na cesta, apanha a esponja, apaga os velhos teoremas e risca os novos debaixo do mesmo regougo e o mesmo gelo.
Mas neste minutinho, nesta manhã de zebus e órfãs, Belmira, não me livras de Luciana.
Ali na esquina, novamente? Miragem, não, que nunca foi. Mas quem?
Não era um dia nem dois que via aquela mulher na esquina, o mesmo traje, ao pé da mangueira, a espiar os alunos entrarem. De longe, não podia distinguir-lhe o rosto.
No que ele ia se aproximando, sumia-se a mulher 16 de novembro adentro desfeita entre as palmeiras, na estação do trem, ou fugindo pela João Diogo para os becos da Cidade Velha. Sim, o mesmo traje, à espera, ou à espreita, olhando para a porta do Ginásio. Era? Alfredo, vai, abre o jornal, vai indo, num passo vagaroso, encobrindo-se com a folha aberta na notícia: “está novamente apagada a bóia do canal de Bragança. Por esse motivo o paquete “Campos 241 Sales” que chegou anteontem, aquele canal, não pôde trans­por...” dobra a notícia, como? Mas não! Larga o jornal ao pé da mangueira, a bóia apagada, corre até a 16, a bóia apagada, pulou no estribo do Jurunas, roça o joelho nos sa­cos e cestos que as açaizeiras e tacacazeiras traziam do Ver-o-Peso, ninguém, a bóia apagada. Apagada a manguei­ra, a sala do primeiro ano, a careca do Simão, o inspetor, o rosto dos colegas. Luciana, tua sombra quem roubou? Le­vada pelo sujão dos fundos? É lícito a minha sombra, em vez da tua, em toda a tua casa? Atenção. O professor, esse, entra, de colete, baixinho, soltando vapor, o livro debaixo do braço, assoando-se a seco, a coçar a sobrancelha, subiu o estrado num suspiro e sopro; ergueu e baixou os braços como amputados, agora sentou, inerte, num ar de sono e ausência.
— A piauí nas domas de umburana, cochichou o Ma­cielzinho ao lado, um repetente, cheio de panos no rosto pá­lido e furado de cravos, o cigarrinho escondido, agitando o bolso cheio de fotografias obscenas, com um olhar bem mo­leque.
O catedrático levanta-se, recuperou os braços, o assôo seco, e sorri num vago espanto — ah, os senhores aí? — a esfregar a costa da mão no nariz fumegante. Desceu, voltou ao estrado, abriu o livro de capa amarela.
— Aqui o Silvestre Bonnard. O Silvestre Bonnard...
E espalmou um gesto de pouco preço.
— Os senhores ignoram, ignoram. O Bonnard.
Fechou o livro, marchando sobre a aula, o dedo no ar:
— Rios? Rios da Europa?
Agora os rios se enchendo de cana, tornou o Ma­cielzinho, tirando um trago, agachado na carteira.
— A piauí?
— Nas dornas.
242 — Bebe?
— Não bebe, entorna.
— Está?
Arrepende-se da pergunta, sentindo-se rodeado pelas garrafas na dispensa do chalé, apertado a um canto, com os cacos de vidro pingando cachaça a atacá-lo. Foi um sonho. Agora vê, ali no estrado. Não o professor, a bóia apagada, mas a mãe, ali, diante da aula, saltando sobre as garrafas, de gargalo em gargalo, com as bruxas de pano no colo... Fecha os olhos, toca o braço do colega, (deixasse de cochichar e fumar), e do fundo da carteira sai um fumo em que se contorcem as garrafas, o fumegar da enchente ao meio-dia, como se os peixes e as cobras debaixo dos mururés quentes desovassem. Ou Antônio, variando no dormir, a ensinar a sua geografia, amarelinho, amarelinho, a abrir o mapa dos seus malassombros?
— Agora, os rios da Europa.
O mestre corrigiu a gravata e dela brotavam os rios, corriam pela sala, escondiam-se pelas carteiras, metidos no bolso, escoando pela janela, rios, rios, rios. Já alheio à aula, o mestre ia, vinha, desfiando os rios, como se falasse para si, confidente. Estes rios são meus, unicamente meus, sei de cor, meus. Bebo-os no meu copo, parecia dizer o seu olhar.
— Aulazinha pau d’água, repetiu o Maciel, com a ba­gana acesa, na curva da mão. Alfredo seguia o passo inse­guro, o monólogo distante, os rios levando o mestre, lá se foi, desaguou no Mediterrâneo, no Báltico... A bóia apa­gada. Os rios. Os rios, que o levariam àquela esquina, ocultos e de súbito aos pés da mulher, quem, aquela da Ba­bilônia? Era? De repente, o mestre parou, num giro de cabeça, como se tivesse encontrado, afinal: o Reno. Reno. Reno, sim. Fez um assôo feliz, sorrindo, navegava no Reno, 243 e do Reno olhou os alunos aqui em baixo, olhou com um triunfo sonolento, o olhar injetado.
— Um de vocês... Aí. Alguém já ouviu falar do Reno?
Caminhou pela sala, no seu monólogo, ao sabor do Reno, quis traçar o rio na pedra, rejeitou o giz, subiu o estrado.
— O Reno, sim. Ao Tibre, prefiro o Reno. As Val­quírias.
— Ouvi falar num vinho, professor, foi um dia... levantou-se o repetente, a bagana dentro da carteira.
— Das Valquírias?
— É, não sei, professor. O sr. não falou no Reno?
— Das Valquírias? voltou o mestre a indagar, não dos alunos e sim da janela para onde se voltara, absorto. E rodou, brusco, o dedo sobre a aula que ria em todos os olhos:
— Do Mosela, o afluente? Bem, bem... Prossigamos.
Sorrindo, assoando-se, de extrema a extremo da sala, num passo incerto, fazia jorrar dum nevoeiro as vertentes da Europa. Com os rios na mão, murmurou: os vinhos, os vinhos. Sabem nada, Sabem?
— Podem perguntar-me, abram o atlas, sigo de olhos fechados o Reno.
Estacou, num desafio:
— Atravessemos a noite bárbara, alcancemos São Go­tardo.
Abeirou-se da carteira, tomou o atlas da mocinha e o leque, abanou-se:
— E Mogúncia, ouviu falar? hum, hum? Quando? Coblenza?
Deu a volta, varou a aula até aos fundos, resmungou rios, retrocedeu, o passo difícil, devolvendo o leque:
244 — Dos Nibelungen? Hum, hum?
Foi à frente, foi atrás, volta a apanhar o leque, tentou ficar erecto. Inclinou-se breve, puxou o lenço num lance de mágica:
— Dos Nibelungen? Hum? Hein? Não! Não? Vamos aos rios. Basta. Inundei os senhores de rios da Europa e aí estão os senhores, secos, seus selvagens. De civilização nunca se molham?
Batia as abas do paletó, caiu-lhe o leque das mãos, a aluna apanhou.
— E eu aqui, ensopado, ensopado. Trinta anos de bacias e estuários. Trinta.
Amparou-se na mesa do estrado, vacilou, concentrou-se, e avançou, como se fizesse um gesto intrépido, sobre o carvão do Ruhr, canais, castelos, levadiças, e logo ao qua­dro traçou um curso, em letras fluviais, escreveu, como se o giz desaguasse: Ródano!
E mediu nos alunos o efeito de sua proeza. Numa voz surda, lá se foi, sozinho, para a Itália, bêbedo de afluentes, voltou depressa e calou-se à beira de um congelado rio da Rússia.
— Nas dornas de umburana, cochichou o repetente, aparando a caixa de fósforos que lhe atiravam dos fundos.
— Umburana? Piauí?
— É a Europa destilando...
O mestre, longe, suspirou, cabisbaixo, fazendo nascer o Danúbio. Fez correr pela História o Oder e o Mame, pa­rou no Sena, o dedo no colete, como se dali tirasse Paris. Repousou no Tâmisa, à janela, sobre Londres, ausente, só; aqui no Pará, aqui na sala, os alunos, esquecidos, mexiam-­se como borboletas. Macielzinho ergueu-se, mostrou o ci­garro aceso e encardido, fez que bebia, cambaleou, a mão em concha: Reno, Reno, Reno... Confronte, a menina, 245 séria, tão alvinha e frágil que, a um sopro só, em puro pó se tornaria, pensou Alfredo.
O mestre voltou-se num satisfeito, didático desprezo.
— Basta? A lição do Reno? Dêem-me o Reno na pró­xima aula, que dou nota. Hein? Enfim, vá lá, dou. Dou nota.
E saiu vagaroso piscando muito, ao peso dos seus rios. Com o minguinho coçava a sobrancelha.
De novo a campa: latim. De beiçame espichado, numa pressa administrativa, o Diretor passou. Latim.
Subir numa escada feita de Eunice, Odaléa, Esméia, Belmira, até ao suspiro da d. Brasiliana e abrir a arca, e desta, quem pulou? Andreza? Um bandolim do diabo para a d. Graziela tocar na fazenda as suas invejas contra a irmã? O cobiçado endereço? O pronunciar francês, latim? O martelo que abra a cabeça aos teoremas do professor Azarias? Aquele raio? Latim.
Estamos à espera. A cometa dos Bombeiros. Nem o vento sopra o pó do Liceu, o casarão sufoca, zumbir das aulas, o pátio domado, bolor das cátedras. Atenção. Pri­meiro á bengala, agora a pasta, a juba cinza alta, os óculos estourando, entrou o mestre fingindo briga, solenidade e pasmo.
— Você aí, seu cara de mucura? E ali a zebrinha? Também com o seu bico, seu ganso depenado?
Cercado de ablativos, entra um mormaço, as moscas espreitam; os espectros, em plena manhã, percorrem o casarão. No meio de quarenta colegas, até agora sem um. Sacudindo o bolso atulhado, Macielzinho esconde a cabeça, fuma. Esse-um que entrou: lente? espectro? um barulho? Não tem castão dourado a bengala, os óculos começam a crescer sobre quarenta ausentes. Ontem, debaixo do anún­cio das pastilhas Capper, o soneto dele: “Surge, perianto 246 em pompa, heril a forma egrégia”. O vozeirão, vazio, só faz rir? Aqui, atrás, nesta carteira, é a rua, a busca, o rosto de Luciana, Luciana, Lucianarum. Em plena cova dos espectros. Esta língua, Roma falou? Aqui só capim seco, ruminamos, um mofado ganha-pão de um lente de pantomima.
Sucediam-se os apelidos, o bengalão na mesa, a pasta inchada de sonetos, provas e rascunhos da sempre polêmi­ca sobre se Deus existe ou não com o padre Dubois.
— Toda a estrebaria com os cascos no caderno! Trou­xe na pasta as ferraduras de que precisam. Todos de pata no papel. Quem riu atrás? Seu Maciel, como vai de vadia­ção e vício? Nesta estrebaria nem Hércules! Nem Hér­cules.
Assanha a juba, iam começar as declinações, o lente vai rugir. Atrás, sob a argüição que ruge, Alfredo enco­lhia-se receando ser chamado; junto, fumando escondido, o repetente cochicha: Aes opus auctor quam materiam... tragou o fumo. A apelidação prosseguia, retumbante, era o número do bobo tempestuoso, a patear a turma bronca a cada um de nós zero em latim.
— Deviam era estar pastando nas ruas desta cidade imunda, tomada pelo capinzal. Lavando as vacarias, que­brando pedra no Quatipuru. Quanto lixo a varrer!
“Quanto lixo a varrer, sim, sim”, repete Alfredo, a olhar o mestre, a juba, umbra, umbris. Então fez sentar a seu lado a d. Inácia Alcântara, abre-se o 160 da Gentil, é na varanda, passou um trem, velha tarde de sorvete e te­queteque, entra um passarinho, pousa no piano; a madri­nha-mãe solta o cabelo e entreabre, que calor! o colo alivia­do. “Hás de um dia cair na mão desse lente, meu filho, e tens de rir na cara dele, meu santinho... Rir. O artigo do professor Menendez, lido aquela tarde no 160: amei a 247 choupana pobre, mas feliz, onde gorjeia a infância gárrula no descuido da felicidade rural”.
Sairão, sim, todos diplomados. Mas em coice e rincho!
Vozeirão na pista, assume o mestre um desdém indul­gente que o leva a aproximar-se das alunas, puxa-lhes a orelha, entre apelidinhos, e apanha contra os alunos a ben­gala numa ameaça toureira:
— O Phedro dos senhores, meus quadrúpedes, é isto! Mas, caramba! nem a bengaladas. Nem a bengaladas. Re­linchem! À vontade! Quem relinchou atrás?
— Eu, professor.
— Que queres, múmia? De que sarcófago saíste? Mas é mesmo uma múmia?
Alfredo, de pé, queria, queria indagar-lhe, foi um re­pente, engasgou-se, tenta sentar-se.
— A múmia não relinchou? Voltou ao sarcófago? Alfredo ouviu o Macielzinho rir, a aula rir; o catedrá­tico, bengala em riste: a múmia! a múmia! Vai relinchar, vai!
— Amai a choupana de aspecto pobre, mas feliz... Alfredo gaguejou, vinha andando, suava, será que vou ba­ter, ou cuspir-lhe... está agora a um palmo da bengala —Não foi assim que o sr. ensinou os roceiros do Guamá? Não foi a sua aula de latim? “Não tem direito a bradar: Fome! o povo feliz que abriu os olhos pela vez primeira sobre esta terra opulenta e sob este sol magnífico”...? Não foi?
Riu, riu alto — Não foi? Não foi? — varou o silêncio, o espanto, e foi saindo, cai-lhe a gramática latina, apanha sem fôlego... Enfiou pelo corredor, cruzou o Secretário, corta a proa do lente Penafiel, será suspenso? “.... é per­mitido expressar-se livremente a respeito dos superiores? Até certo ponto, contanto que seja com circunspecção e 248 justiça”. Bem. Bem. Múmia. Fora, a manhã ainda, a busca de Luciana, a escada no suspiro da moira para abrir a arca, a oração de abrir porta. Aonde andas, madrinha-mãe? De­sembainhei teu riso, minha gorda, foi teu riso? Ou no Guamá, dos roceiros, a risada? Umbrarum. Umbrarum.
Na esquina da João Diogo, a apressada velhinha.
D. Santa?
Um segredo dela bem no ouvido, e sem mais palavra, no mesmo ar de confidência e pressa, a velhinha se des­pedia.
Sozinho, na praça, puxa um fôlego. Era? E lá, tão perto, quem ia adivinhar, e desde quando, meu Deus? Vou sim, a pé, e devagar, devagar, “aproveite as pernas”, lhe dizia a prima Angélica. Quem vou ver e que vou eu dizer e ouvir?
Como se fosse, desta vez, de vera, de vera, ouvir a pri­meira aula.
Mas não! Não era nada, não, não via na esquina a d. Santa nem ninguém. Ninguém. Só um faz-de-conta.
A primeira aula?
Sigo sem rumo ou vou na Ponte do Galo?

 

 

                                                                  Dalcídio Jurandir

 

 

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