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SOMBRAS PRATEADAS / Richelle Mead
SOMBRAS PRATEADAS / Richelle Mead

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

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Não era nenhuma novidade, já que eu tinha acordado no escuro nos últimos... bom, não sabia quantos dias. Podiam ser semanas ou meses. Eu havia perdido a noção do tempo naquela cela fria e minúscula, com o piso de pedra dura servindo de cama. Meus captores podiam me manter acordada ou dormindo com a ajuda de uma droga que tornava impossível medir a passagem do tempo. Durante um período, tive certeza de que a droga estava na comida ou na água, por isso entrei em greve de fome. Não adiantou, e a única coisa que consegui foi ser alimentada à força — uma experiência que nunca, nunca mesmo, gostaria de repetir. Finalmente entendi que a droga vinha através do sistema de ventilação e, ao contrário da comida, não dava para entrar em greve de ar.
Por um tempo, tive a ideia fantasiosa de contar os meses a partir do meu ciclo menstrual, como as mulheres faziam em sociedades primitivas, sincronizando-se com a lua. Meus captores, defensores da limpeza e da eficiência, haviam até fornecido produtos de higiene feminina para quando chegasse a hora. Mas esse plano também não deu certo. Parar o anticoncepcional de repente desregulou meus ciclos e tornou impossível medir qualquer coisa, ainda mais com aquelas horas de sono malucas. A única coisa de que eu tinha certeza era que não estava grávida, o que foi um alívio enorme. Se tivesse um filho de Adrian, os alquimistas teriam poder ilimitado sobre mim. Mas só havia eu naquele corpo, e eu era capaz de suportar qualquer coisa que eles fizessem contra mim. Fome, frio. Não importava. Não ia deixar que me destruíssem.
— Você pensou sobre seus pecados, Sydney?
A voz feminina e metálica reverberou pela cela pequena, parecendo vir de todas as direções ao mesmo tempo. Sentei, puxando a camisola áspera até o joelho. Era mais por força do hábito do que qualquer outra coisa. Além de não ter manga, ela era tão fina que não esquentava nada. Só me dava uma sensação psicológica de decência. Os alquimistas me deram a camisola após algum tempo de cativeiro, dizendo que era um símbolo de boa vontade. Acho que na verdade não conseguiam lidar comigo nua, ainda mais quando viram que não estava tendo o efeito esperado.
— Eu dormi — respondi, contendo um bocejo. — Não tive tempo pra pensar. — A droga no ar me mantinha sonolenta o tempo todo, mas eles também mandavam alguma espécie de estimulante que garantia que eu ficasse acordada quando queriam, por mais exausta que estivesse. O resultado era que nunca me sentia descansada de verdade, o que era exatamente o objetivo deles. Pressão psicológica funcionava melhor contra uma mente cansada.
— Você sonhou? — perguntou a voz. — Sonhou com a redenção? Sonhou com a sensação de ver a luz outra vez?
— Você sabe que não. — Eu estava estranhamente falante. Eles viviam me fazendo essas perguntas e normalmente eu não dizia nada. — Mas, se vocês pararem de me sedar, talvez eu consiga dormir de verdade e ter sonhos pra contar.
Acima de tudo, se eu dormisse de verdade, livre das drogas, Adrian poderia me encontrar nos meus sonhos e me ajudar a encontrar uma saída daquele buraco dos infernos.

 


 


Adrian.

Só o seu nome me fazia suportar aquelas horas longas e sombrias. Pensar nele, no nosso passado e no nosso futuro, me ajudava a sobreviver ao presente. Era comum me perder em devaneios, lembrando dos poucos meses que tivemos juntos. Foi tão pouco tempo mesmo? Nada mais nos meus dezenove anos parecia tão vívido ou cheio de sentido quanto aquela época. Eu passava os dias pensando nele. Revivia cada lembrança preciosa, as alegres e as tristes, e, depois que as esgotava, fantasiava sobre o futuro. Vivia cada um dos cenários possíveis que tínhamos imaginado para nós dois, todos os nossos “planos de fuga” bobos.

Adrian.

Ele era o motivo de eu sobreviver àquela prisão.

E também era o motivo de eu ter ido parar naquele lugar.

— Você não precisa que seu subconsciente diga o que seu consciente já sabe — a voz falou. — Você é impura e maculada. Sua alma está envolta em trevas e você pecou contra os seus.

Soltei um suspiro diante daquela velha retórica e mudei de posição, tentando ficar mais confortável, embora fosse uma batalha perdida. Fazia séculos que meus músculos estavam em um estado constante de tensão. Não havia possibilidade de conforto naquele lugar.

— Deve ser triste para você — continuou a voz — saber que partiu o coração do seu pai.

Essa era uma técnica nova e me pegou tão de surpresa que retruquei sem pensar.

— Meu pai não tem coração.

— Ele tem, Sydney. Ele tem. — A menos que eu estivesse enganada, a voz parecia contente por ter me feito falar. — Ele lamenta muito sua decadência. Ainda mais porque você era muito promissora para nós e nossa luta contra o mal.

Me arrastei para trás até encostar na parede áspera.

— Bom, ele tem outra filha que é muito mais promissora agora, então estou certa de que vai superar.

— Você partiu o coração dela também. Os dois estão sofrendo mais do que você pode imaginar. Não seria bom se reconciliar com eles?

— Você está me oferecendo essa chance? — perguntei, desconfiada.

— Estamos te oferecendo essa chance desde o começo, Sydney. É só dizer as palavras certas e ficaremos felizes em começar seu caminho rumo à redenção.

— Você está me dizendo que isto aqui ainda não é parte do caminho?

— Isto é parte do esforço para purificar sua alma.

— Certo — eu disse. — Purificar minha alma através da fome e da humilhação.

— Você quer ver sua família ou não? Não seria bom sentar com eles e conversar?

Não respondi; em vez disso, tentei descobrir qual era a jogada. A voz já tinha me oferecido muitas coisas, a maioria itens de conforto: calor, uma cama macia, roupas de verdade. Também haviam proposto outras recompensas, como a cruz de madeira que Adrian tinha feito para mim e comida muito mais apetitosa do que o mingau com que vinham me mantendo viva. Tentaram até me seduzir com o aroma de café pelo sistema de ventilação. Alguém, provavelmente dessa família que se importava tanto comigo, devia ter contado minhas preferências.

Mas isso... A chance de ver e falar com outras pessoas era outra história. Embora Zoe e meu pai não estivessem exatamente no topo da lista de quem eu gostaria de ver no momento, o que me interessou foram as implicações do que os alquimistas estavam oferecendo: uma vida fora daquela cela.

— O que eu teria que fazer? — perguntei.

— Você sabe o que tem que fazer — a voz respondeu. — Admitir sua culpa. Confessar seus pecados e dizer que está pronta para se redimir.

Quase disse: Não tenho nada para confessar. Era o que tinha dito centenas de vezes antes. Talvez milhares. Mas estava intrigada. Se fosse encontrar outras pessoas, eles teriam de desligar aquele veneno no ar, certo? E então eu poderia sonhar...

— É só dizer essas palavras que posso ver minha família?

A voz era tão condescendente que chegava a irritar.

— Claro que não imediatamente. Você precisa fazer por merecer. Mas poderá passar para o próximo estágio da sua cura.

— Reeducação — eu disse.

— Seu tom faz parecer que é algo ruim — disse a voz. — Nós fazemos isso para ajudar você.

— Não, obrigada — eu disse. — Estou me acostumando com este lugar. Seria uma pena sair daqui agora.

Além disso, eu sabia que a verdadeira tortura começaria na reeducação. Claro, poderia não esgotar tanto meu corpo quanto aquela cela escura, mas seria lá que eles se focariam no controle mental. As condições penosas da cela eram apenas uma preparação, com o objetivo de me deixar fraca e impotente para que estivesse suscetível quando tentassem mudar minha mentalidade na reeducação. Para que agradecesse àqueles monstros pelo que fariam comigo.

Ainda assim, não conseguia deixar de pensar que, se saísse daquela cela, teria a chance de dormir e sonhar normalmente. Se entrasse em contato com Adrian, tudo poderia mudar. No mínimo, saberia que ele estava bem... se eu sobrevivesse à reeducação, claro. Podia especular o tipo de manipulação psicológica que tentariam usar sobre mim, mas não dava para ter certeza. Será que eu suportaria? Será que conseguiria manter a mente intacta, ou eles me fariam ir contra todos os meus princípios e entes queridos? Era o risco de sair daquela cela. Também sabia que os alquimistas possuíam drogas e técnicas para fazer seus comandos “pegarem”, por assim dizer, e, embora fosse possível que eu estivesse protegida, graças ao uso regular de magia antes de ter sido aprisionada, ainda tinha medo de estar vulnerável. O único jeito seguro que conhecia de me proteger da compulsão alquimista era por meio de uma poção que eu já havia produzido e usado com bons resultados num amigo meu — mas não em mim mesma.

Outras reflexões foram deixadas para depois quando senti um cansaço profundo. A essa altura, já sabia que não dava para resistir e deitei no chão, permitindo que um sono pesado e sem sonhos caísse sobre mim, sepultando as ideias de liberdade. Mas, antes que a droga me derrubasse, disse o nome dele mentalmente, usando-o como um amuleto para me manter firme.

Adrian.

Um tempo indefinido depois, acordei e encontrei comida na cela. Era o mingau de sempre, algum tipo de cereal quente de caixinha que devia ser fortificado com vitaminas e minerais para, na medida do possível, me manter saudável. Mas chamar aquilo de “cereal quente” era generosidade. “Morno” seria mais adequado. Eles o deixavam o mais insosso possível. Com ou sem gosto, comi automaticamente, sabendo que precisava manter as forças para quando saísse daquele lugar.

Se é que um dia vou sair daqui.

Esse pensamento traiçoeiro surgiu antes que eu pudesse impedir. Era um medo que vinha me assombrando, a possibilidade de me manterem ali para sempre, de eu nunca mais ver as pessoas que amava — Adrian, Eddie, Jill, ninguém. De nunca mais praticar magia. De nunca mais ler um livro. Este último pensamento me atingiu com força porque, naquele dia, por mais que os devaneios sobre Adrian me ajudassem a atravessar as horas sombrias, eu daria tudo por algo tão mundano quanto um romance barato para ler. Aceitaria até uma revista ou um panfleto. Qualquer coisa que não fosse a escuridão e aquela voz.

Seja forte, repeti para mim mesma. Seja forte por você. Seja forte por Adrian. Ele faria o mesmo, não faria?

Sim, faria. Onde quer que estivesse, ainda em Palm Springs ou em outro lugar, eu sabia que Adrian nunca desistiria de mim, e precisava estar à altura. Tinha que estar pronta para quando estivéssemos juntos novamente. Tinha que estar pronta para o nosso reencontro.

Centrum permanebit. As palavras em latim ecoaram na minha cabeça, me dando forças. Significavam “o centro vai aguentar” e eram inspiradas em um poema que Adrian tinha lido. Nós somos o centro agora, pensei. E eu e ele vamos aguentar, custe o que custar.

Terminei a refeição miserável e fui me lavar na pequena pia no canto da cela, tateando o caminho na escuridão até chegar ao lado do pequeno vaso sanitário. Um banho ou ducha de verdade estavam fora de questão (embora eles já tivessem oferecido isso como recompensa) e eu precisava me limpar diariamente (ou o que achava que era diariamente) com uma toalha de rosto e água fria com cheiro de ferrugem. Era humilhante saber que eles estavam observando com suas câmeras de visão noturna, mas ainda era mais digno do que ficar suja. Eu não daria essa satisfação a eles. Continuaria sendo humana, embora estivessem me acusando justamente do contrário.

Quando estava limpa o suficiente, voltei a me encolher na parede, batendo os dentes enquanto a pele molhada tremia sob o ar frio. Será que algum dia me sentiria aquecida de novo?

— Sydney, falamos com seu pai e sua irmã — a voz disse. — Eles ficaram tristes em saber que você não queria vê-los. Zoe até chorou.

Fiz uma careta por dentro, me arrependendo de ter entrado no jogo deles da última vez. Agora a voz achava que chantagem familiar exercia algum efeito sobre mim. Como eles podiam achar que eu gostaria de ver as pessoas que haviam me trancado naquele lugar? Os únicos membros da minha família com quem eu queria falar — minha mãe e minha irmã mais velha — não deviam estar na lista de visitas, ainda mais se meu pai tivesse vencido o divórcio. Esse resultado era algo que eu queria saber, mas não ia revelar meu interesse.

— Você não se arrepende da dor que causou a eles? — perguntou a voz.

— Acho que são eles que deviam se arrepender da dor que me causaram — retruquei.

— Eles não queriam te causar nenhuma dor. — A voz parecia estar tentando me consolar, mas eu só queria socar quem estivesse por trás dela, e olha que não sou uma pessoa violenta. — Eles fizeram o que fizeram para te ajudar. É tudo que estamos tentando fazer. Eles adorariam ter a chance de conversar com você e se explicar.

— Aposto que sim — murmurei. — Se é que vocês falaram com eles. — Eu estava me odiando por manter uma conversa com meus captores. Fazia tempo que não falava tanto. Eles deviam estar adorando.

— Zoe perguntou se pode trazer um latte de baunilha light pra você quando vier. Dissemos que sim. Tudo que queremos é uma visita civilizada, para vocês sentarem e terem uma conversa sincera, que cure sua família e especialmente sua alma.

Meu coração bateu mais rápido, e não era pela promessa do café. A voz estava confirmando o que já tinha sugerido antes. Uma visita de verdade, sentar, tomar café... aquilo só poderia acontecer fora da minha cela. Se a oferta fosse real, eles nunca trariam meu pai e Zoe para aquele lugar — não que meu objetivo fosse vê-los. O que eu queria era sair dali. Ainda acreditava que era capaz de ficar lá para sempre, de suportar o que quer que eles fizessem contra mim. E era. Mas o que estava conseguindo com isso? Só provava que eu era durona e rebelde, e, por mais que me orgulhasse dessas coisas, elas não estavam me levando para perto de Adrian. Nem de Adrian, nem de nenhum dos meus amigos. Eu precisava sonhar. Para sonhar, precisava me livrar da sedação contínua.

E não era só isso. Se saísse daquela cela pequena e escura, talvez conseguisse praticar magia. Talvez descobrisse para qual parte do mundo tinham me levado. Talvez pudesse me libertar.

Mas primeiro precisava sair daquela cela. Eu tinha pensado que ficar ali fosse um ato de bravura, mas, de repente, suspeitei que sair fosse o verdadeiro teste de coragem.

— O que você acha, Sydney? — A voz parecia entusiasmada, quase ansiosa, o que contrastava com o tom altivo e imperioso a que eu havia me acostumado. Eles nunca tinham despertado meu interesse antes. — Gostaria de dar seus primeiros passos para limpar sua alma... e ver sua família?

Há quanto tempo eu definhava naquela cela, entrando e saindo desse estado de consciência perturbado? Ao tocar o torso e os braços, notei que tinha perdido bastante peso, o tipo de perda que levava semanas. Semanas, meses... eu não fazia ideia. E, enquanto estava ali, o mundo continuava dando voltas, um mundo cheio de gente que precisava de mim.

— Sydney?

Não querendo parecer muito ansiosa, tentei me esquivar.

— Como sei que posso confiar em vocês? Que vão me deixar ver minha família se eu... começar essa jornada?

— O mal e a mentira não fazem parte do nosso caminho — disse a voz. — Somos adeptos da luz e da honestidade.

Mentirosos, pensei. Fazia anos que eles mentiam para mim, dizendo que pessoas boas eram monstros e tentando ditar como eu deveria seguir a minha vida. Mas não importava. Só precisava que mantivessem a palavra em relação à minha família.

— Vou ter... uma cama de verdade? — Consegui deixar a voz embargada. Os alquimistas tinham me ensinado a ser uma excelente atriz e, agora, veriam seu treinamento em ação.

— Sim, Sydney. Uma cama de verdade, roupas de verdade, comida de verdade. E pessoas com quem conversar... pessoas que vão te ajudar se você ouvir.

Essa última parte fechou o acordo. Se fossem me manter perto de outras pessoas regularmente, não poderiam mais drogar o ar. Naquele momento, senti que ficava mais alerta e agitada. Eles estavam mandando o estimulante pelo sistema de ventilação, e a droga me deixava ansiosa, querendo tomar decisões por impulso. Era um bom recurso sobre uma mente cansada e estava funcionando — só não do jeito como eles queriam.

Por hábito, levei a mão à clavícula, tocando uma cruz que não estava mais lá. Não deixe que eles me mudem, orei em silêncio. Permita que eu mantenha minha sanidade. Permita que eu suporte o que está por vir, seja lá o que for.

— Sydney?

— O que preciso fazer? — perguntei.

— Você sabe o que precisa fazer — a voz respondeu. — Sabe o que precisa dizer.

Levei a mão ao peito e as palavras agora não eram uma oração, mas uma mensagem silenciosa para Adrian: Espere por mim. Seja forte e também serei. Vou lutar e resistir a tudo que me aguarda. Não vou te esquecer. Nunca vou te abandonar, apesar de todas as mentiras que terei de contar a eles. Nosso centro vai aguentar.

— Você sabe o que precisa dizer — a voz repetiu. Ela estava quase salivando.

Limpei a garganta.

— Pequei contras os meus e deixei minha alma ser corrompida. Estou pronta para expurgar essa escuridão.

— E quais foram os seus pecados? — a voz perguntou. — Confesse o que você fez.

Isso era mais difícil, mas consegui encontrar as palavras. Para chegar mais perto de Adrian e da liberdade, eu era capaz de falar qualquer coisa.

Respirei fundo e disse:

— Me apaixonei por um vampiro.

E, de repente, fui cegada pela luz.


2

Adrian

 

— Não me leve a mal, mas você está um lixo.

Ergui a cabeça da mesa e abri um olho com dificuldade. Mesmo de óculos escuros — dentro da sala —, a luz era forte demais para minha cabeça latejante.

— Sério? — perguntei. — É possível não levar isso a mal?

Rowena Clark me lançou um olhar de censura tão parecido com os de Sydney que senti meu estômago revirar.

— Você pode levar isso como uma crítica construtiva. — Rowena torceu o nariz. — Você está de ressaca, né? Porque isso significaria que, tipo, você ficou sóbrio em algum momento. Mas como está cheirando a uma fábrica de gim, não tenho tanta certeza.

— Estou sóbrio. Quase. — Tomei coragem para tirar os óculos escuros e olhar direito para ela. — Seu cabelo está azul.

— Verde-água — ela corrigiu, tocando o cabelo timidamente. — E você já viu dois dias atrás.

— Vi? — Dois dias atrás tinha sido nossa última aula de multimídia na Faculdade Carlton. Eu mal conseguia lembrar das duas últimas horas. — Bom, é possível que eu não estivesse sóbrio naquele dia. Mas você está bonita — acrescentei, torcendo para que o elogio me livrasse da bronca. Não funcionou.

Na verdade, meus dias sóbrios na faculdade eram mais ou menos cinquenta por cento. Mas eu achava que o simples fato de estar indo às aulas me dava algum crédito. Quando Sydney foi embora — ou melhor, foi levada embora —, eu nem queria mais ir. Não queria ir a lugar nenhum nem fazer nada além de procurar minha namorada. Fiquei na cama por dias, esperando e usando o espírito para procurá-la no mundo dos sonhos. Mas não consegui estabelecer nenhuma conexão. Em qualquer hora do dia que tentasse, nunca conseguia encontrar Sydney dormindo. Não fazia sentido. Ninguém conseguiria ficar acordado tanto tempo. Era difícil entrar em contato com pessoas bêbadas, já que o álcool suprimia os efeitos do espírito e bloqueava a mente da pessoa, mas duvidava que ela estivesse tomando um coquetel atrás do outro com seus captores.

Eu poderia ter duvidado de mim mesmo e das minhas habilidades, ainda mais depois de ter usado por um tempo medicamentos que bloqueavam o espírito. Mas minha magia logo voltou com força total e não tive dificuldade para encontrar outras pessoas em sonhos. Eu podia ser incompetente em muitas coisas na vida, mas era de longe o melhor usuário de espírito para visitar sonhos. O problema era que eu só conhecia alguns outros usuários de espírito, então não tinha muito com quem me aconselhar sobre o motivo para não conseguir encontrar Sydney. Todos os vampiros Moroi usavam algum tipo de magia elemental. A maioria era especialista em um dos quatro elementos físicos: terra, ar, água ou fogo. Poucos usavam o espírito e não havia muita coisa documentada sobre ele, ao contrário dos outros elementos. Ouvi muitas teorias, mas ninguém sabia ao certo por que eu não conseguia encontrar Sydney.

O assistente da professora pôs um montinho de papéis grampeados na minha frente e outro igual na frente de Rowena, me distraindo daqueles pensamentos.

— O que é isso?

— Hum, a prova final — Rowena disse, revirando os olhos. — Deixa eu adivinhar: você também não lembrava disso? Nem de quando me ofereci pra estudar com você?

— Eu devia estar distraído — murmurei, folheando as páginas, apreensivo.

A desaprovação de Rowena deu lugar à compaixão, mas o que quer que ela fosse dizer em seguida foi abafado pelo professor nos mandando ficar em silêncio e começar a trabalhar. Olhei para a prova e me perguntei se teria como enrolar. Parte do que tinha me tirado da cama e me feito voltar à faculdade era saber como o estudo era importante para Sydney. Ela sempre tivera inveja da minha oportunidade, uma oportunidade que o cretino do pai dela lhe negara. Quando me dei conta de que não conseguiria encontrar Sydney tão cedo — e, acredite, eu já havia tentado uma série de estratégias mundanas, além das mágicas —, decidi seguir em frente e fazer o que seria a vontade dela: terminar o semestre na faculdade.

Claro, nunca fui um dos alunos mais dedicados. Como a maioria das minhas aulas era de introdução à arte, os professores geralmente nos passavam desde que a gente entregasse alguma coisa. Foi a minha sorte, porque “coisa” era provavelmente a melhor descrição para algumas das porcarias que eu vinha criando nos últimos tempos. Eu mantinha uma média passável — por pouco —, mas essa prova poderia acabar comigo. Aquelas perguntas eram tudo ou nada, certo ou errado. Eu não podia simplesmente fazer um desenho ou um quadro meia-boca e contar com pontos pelo esforço.

À medida que tentava ao máximo responder às perguntas sobre desenho de contorno e desconstrução de paisagens, senti a depressão me sugar. E não era só porque eu provavelmente seria reprovado na matéria. Além disso, estaria decepcionando Sydney, que tinha altas expectativas em relação a mim. Mas, na verdade, o que era uma matéria comparada a todas as outras formas como eu havia falhado? Se nossos papéis estivessem invertidos, era provável que ela já tivesse me encontrado a essa altura. Ela era mais inteligente e criativa do que eu. Teria feito o extraordinário. Eu não conseguia lidar nem com o ordinário.

Passada uma hora, entreguei a prova torcendo para que não tivesse desperdiçado um semestre inteiro. Rowena já havia terminado e me esperava do lado de fora da sala.

— Quer sair pra comer alguma coisa? — ela perguntou. — Eu pago.

— Não, valeu. Preciso encontrar minha prima.

Rowena me lançou um olhar desconfiado.

— Você não vai dirigindo, vai?

— Estou sóbrio agora, obrigado — respondi. — Mas, se faz você se sentir melhor, não, vou de ônibus.

— Bom, então é isso, né? Último dia de aula.

Tomei um susto ao perceber que era verdade. Eu ainda tinha algumas aulas, mas nenhuma com ela.

— Tenho certeza de que a gente vai se ver — eu disse, fingindo confiança.

— Espero que sim — ela respondeu, parecendo preocupada. — Você tem meu número. Pelo menos tinha. Vou ficar aqui nas férias. Dá uma ligada pra mim e pra Cassie se quiser sair... ou se estiver a fim de conversar... sei que você está passando por uns tempos difíceis...

— Já passei por coisa pior — menti. Ela não sabia nem da metade e nem poderia saber, já que era uma humana comum. Rowena pensava que Sydney tinha terminado comigo e era terrível ver a compaixão dela. Mas eu definitivamente não podia falar a verdade. — E pode ter certeza de que vou ligar, então é bom ficar esperando. Te vejo por aí, Ro.

Ela deu um aceno triste e fui andando em direção ao ponto de ônibus mais próximo. Não era muito longe, mas eu estava suando quando cheguei. Era maio em Palm Springs e a primavera estava sendo substituída pelo calor opressivo do verão que se aproximava. Pus os óculos escuros enquanto esperava e tentei ignorar o casal que fumava perto de mim. Cigarros, pelo menos, eram um vício que não tinha retomado desde que Sydney fora embora, mas às vezes era difícil. Muito difícil.

Para me distrair, abri a mochila e dei uma olhada na estatuazinha dourada de dragão ali dentro. Passei a mão em suas costas, sentindo as escamas minúsculas. Nenhum artista poderia ter criado uma obra de arte tão perfeita porque, na verdade, não era uma escultura. Era um dragão de verdade — quer dizer, para ser preciso, era um callistana, um tipo de demônio benigno que Sydney havia invocado. Ele tinha se apegado a mim e a ela, mas só ela tinha o poder de transformá-lo entre suas formas viva e inerte. Infelizmente para Pulinho, ele ficou preso nesse estado desde que ela fora sequestrada. Segundo a mentora mágica de Sydney, Jackie Terwilliger, Pulinho ainda estava tecnicamente vivo, mas levando uma vida bastante infeliz, sem comida e sem atividades. Eu o levava para todo lugar, mesmo sem saber se ficar comigo significava alguma coisa para ele. Era de Sydney de quem ele realmente precisava, e eu o entendia. Também precisava dela.

Eu tinha falado a verdade para Rowena: estava sóbrio agora. E era de propósito. O longo trajeto de ônibus me dava a oportunidade perfeita de buscar Sydney. Embora eu não tentasse mais alcançar seus sonhos com a mesma frequência de antes, ainda fazia questão de ficar sóbrio algumas vezes por dia para procurar por ela. Assim que o ônibus começou a se mover e eu sentei no banco, acessei a magia de espírito de dentro de mim, me deliciando com a sensação incrível que proporcionava. No entanto, era uma alegria ambígua, mitigada pelo fato de que o espírito estava me enlouquecendo lentamente.

“Enlouquecer” é uma palavra feia, disse uma voz na minha cabeça. Pense que está ganhando um novo olhar para a realidade.

Estremeci. A voz na minha cabeça não era minha consciência nem nada do tipo. Era minha falecida tia Tatiana, antiga rainha dos Moroi. Ou melhor, era o espírito me fazendo alucinar com ela. Era comum ouvir sua voz quando meu humor estava especialmente pra baixo. Agora, desde que Sydney tinha sido levada embora, o fantasma da tia Tatiana era minha companhia constante. O lado bom — se é que existia algum — era que alguns dos efeitos colaterais de bipolaridade do espírito haviam ficado menos frequentes. Era como se a loucura do espírito tivesse mudado de forma. Será que era melhor ter conversas mentais com uma parente morta ou ficar sujeito a mudanças de humor drásticas? Para ser sincero, eu não fazia a menor ideia.

Vai embora, eu disse a ela. Você não é de verdade. Além disso, está na hora de eu procurar Sydney.

Assim que me liguei à magia, usei os sentidos para procurar por Sydney, a pessoa que eu conhecia mais do que qualquer outra no mundo. Encontrar uma pessoa adormecida que eu conhecesse pouco teria sido fácil. Encontrar Sydney — se ela estivesse dormindo — não exigiria esforço nenhum. Mas não consegui estabelecer nenhum contato e, depois de um tempo, soltei a magia. Ou ela estava acordada ou estava bloqueada para mim. Derrotado mais uma vez, peguei um frasco de vodca na mochila e me ocupei com ele no trajeto até Vista Azul.

Eu já estava meio alto, com o espírito bloqueado mas não a dor no peito, quando cheguei à Escola Preparatória Amberwood. As aulas da tarde tinham acabado de terminar e alunos de uniformes chiques se movimentavam entre os prédios, indo estudar ou fazer seja lá o que colegiais fizessem no fim do semestre. Fui andando até o alojamento feminino e esperei Jill Mastrano Dragomir vir me encontrar.

Enquanto Rowena só conseguia imaginar o que estava me perturbando, Jill sabia exatamente quais eram os meus problemas. Isso porque, aos quinze anos de idade, Jill tinha a “vantagem” de enxergar dentro da minha cabeça. No ano anterior, ela fora atacada por assassinos que queriam destronar sua irmã, a qual, por acaso, era rainha dos Moroi e amiga minha. Tecnicamente, os assassinos tinham cumprido sua missão, mas eu trouxe Jill de volta à vida por meio de outras habilidades extraordinárias do espírito. Essa façanha de cura exigira muito de mim e também criara um laço psíquico que fazia com que Jill soubesse de tudo que eu sentia e pensava. Meu surto recente de depressão e alcoolismo estava sendo difícil para ela, embora, pelo menos, a bebida anestesiasse o laço de vez em quando. Se Sydney estivesse ali, teria me repreendido por ser egoísta e não pensar nos sentimentos de Jill. Mas Sydney não estava ali. A responsabilidade recaía apenas sobre os meus ombros e, pelo jeito, eu não era forte o bastante para sustentar esse peso.

Três circulares passaram e Jill não estava em nenhum. Esse era o dia da semana que costumávamos nos ver e eu estava tomando cuidado para me manter fiel ao compromisso, mesmo que não estivesse me mantendo fiel a mais nada na vida. Tirei o celular do bolso e mandei uma mensagem para ela: Ei, tô aqui. Tá tudo bem?

Ela não respondeu e comecei a sentir uma pontada de preocupação. Depois da tentativa de assassinato, Jill tinha sido enviada a Palm Springs para se esconder entre os humanos, pois o deserto era um lugar onde nem a nossa espécie nem os Strigoi — os vampiros mortos-vivos do mal — gostariam de estar. Os alquimistas, uma sociedade secreta empenhada em manter humanos e vampiros longe uns dos outros, tinham mandado Sydney para garantir que tudo corresse com tranquilidade. Os alquimistas queriam evitar uma guerra civil entre os Moroi, e Sydney tinha feito um bom trabalho ajudando Jill a passar por todo tipo de percalços. O erro de Sydney fora se envolver romanticamente com um vampiro. Isso meio que ia contra o processo operacional dos alquimistas de manter humanos e vampiros separados, e a organização reagira com brutalidade e eficácia.

Desde que Sydney fora levada embora e sua substituta de cara azeda, Maura, chegara a Palm Springs, as coisas andavam relativamente tranquilas para Jill. Não havia nenhum sinal de perigo e até tínhamos ouvido que ela poderia voltar à sociedade Moroi quando o ano letivo terminasse, no mês seguinte. Esse tipo de desaparecimento não era comum e, como não recebi nenhuma resposta, mandei uma mensagem para Eddie Castile.

Enquanto Jill e eu éramos Moroi, ele era um dampiro, membro de uma raça mestiça de humanos e vampiros. Sua espécie era treinada para defender a nossa e ele era um dos melhores. Infelizmente, suas formidáveis habilidades de batalha não tinham sido suficientes quando os alquimistas foram atrás de Sydney, pois ela o enganara para fazer com que se separassem. Ela tinha se sacrificado para salvar a pele dele, algo que Eddie não conseguia superar. A humilhação destruíra o ardente romance entre ele e Jill, pois o guardião não se achava mais digno de uma princesa Moroi. No entanto, ainda era seu guarda-costas e eu sabia que, se alguma coisa acontecesse a ela, ele seria o primeiro a saber.

Mas Eddie também não respondeu à minha mensagem, assim como os dois outros dampiros que trabalhavam como seguranças dela. Era estranho, mas tentei me tranquilizar: o silêncio deles devia significar que tinham se distraído juntos e estavam bem. Jill apareceria logo mais.

O sol estava me incomodando de novo, então dei a volta no prédio e achei um banco sob a sombra das palmeiras. Me acomodei nele e logo caí no sono, tanto por ter ficado até tarde no bar na noite anterior como por ter bebido todo o frasco de vodca. Mais tarde, o som de vozes me acordou e vi que o sol tinha se movido bastante no céu. Sobre mim, estavam os rostos de Jill e Eddie, junto com nossos amigos, Angeline, Trey e Neil.

— Ei — eu disse com a voz rouca, sentando com dificuldade. — Onde vocês estavam?

— Onde você estava? — Eddie perguntou, com um tom de acusação.

Os olhos verdes de Jill se suavizaram ao olhar para mim.

— Não tem problema. Ele ficou aqui o tempo todo. Esqueceu. Dá pra entender por quê... Quer dizer, ele está passando por um período difícil.

— Esqueci o quê? — perguntei, olhando impaciente de um para o outro.

— Deixa pra lá — Jill disse, evasiva.

— O que eu esqueci? — exclamei.

Angeline Dawes, outra guardiã dampira de Jill, foi direta como sempre:

— O desfile de fim de semestre da Jill.

Fiquei olhando para eles sem entender e então lembrei. Uma das atividades extracurriculares de Jill era um clube de costura. Ela havia começado como modelo, mas, quando isso se provou perigoso e público demais para alguém na posição dela, passou a desenhar as peças nos bastidores — e descobriu que era muito boa nisso. Ela passara o último mês falando sobre um grande desfile que o clube estava organizando como projeto de fim de semestre, e fora bom vê-la animada com alguma coisa de novo. Eu sabia que ela também estava sofrendo por causa de Sydney e, somando a minha depressão transferida e o fim do namoro com Eddie, ela estava vivendo uma época tão sombria quanto a minha. O desfile e a chance de mostrar seu trabalho tinham sido um ponto de luz para ela, pequeno em comparação com o resto, mas de uma importância monumental na vida de uma adolescente que precisava de um pouco de normalidade.

E eu tinha perdido.

Trechos de conversas voltaram à minha mente: ela me falando a hora e o dia, e eu prometendo que estaria lá, dando meu apoio. Ela tinha até me lembrado na última vez que a gente se viu naquela semana, mas em seguida fui celebrar a Quinta da Tequila num bar perto do meu prédio. Dizer que o desfile dela me escapara da memória era um eufemismo.

— Droga, desculpa, Chave de Cadeia. Tentei mandar mensagem... — Ergui o celular para mostrar a eles, mas o que acabei mostrando foi o frasco de vodca. Enfiei-o de volta na mochila às pressas.

— A gente teve que desligar o celular durante o desfile — Neil explicou. Ele era o terceiro dampiro no grupo, uma adição recente a Palm Springs. Aos poucos eu passara a gostar dele, talvez porque estivesse sofrendo também. Neil estava perdidamente apaixonado por uma dampira que tinha desaparecido, embora, diferentemente de Sydney, o silêncio de Olive Sinclair se devesse a problemas pessoais e não a um sequestro alquimista.

— Bom... e como foi? — arrisquei. — Aposto que suas coisas eram incríveis, não?

Eu estava me sentindo tão incrivelmente idiota que mal conseguia suportar. Podia não conseguir lutar contra os alquimistas que haviam levado Sydney. Podia não estar preparado para uma prova. Mas, pelo amor de Deus, pelo menos devia ter ido ao desfile de Jill! Só precisava chegar lá, sentar e aplaudir. Não consegui fazer nem isso, e o peso do fracasso ficou subitamente esmagador. Uma neblina negra encheu minha mente, destruindo meu humor, me fazendo odiar tudo e todos, mas principalmente eu mesmo. Não era nenhuma surpresa eu não conseguir salvar Sydney. Não conseguia nem cuidar de mim mesmo.

Não precisa cuidar de si mesmo, tia Tatiana sussurrou na minha cabeça. Deixe que eu cuido de você.

Uma faísca de compaixão surgiu nos olhos de Jill conforme ela sentia aquele humor sombrio caindo sobre mim.

— Foi ótimo. Não se preocupe, depois te mostro as fotos. Tinha um fotógrafo profissional registrando tudo e ele vai colocar na internet.

Tentei conter as trevas e abri um sorriso tenso.

— Fico feliz em saber. Bom, que tal a gente sair para comemorar então? O jantar é por minha conta.

Jill pareceu triste.

— Eu e Angeline íamos comer com nosso grupo de estudos. Quer dizer, acho que posso cancelar. Ainda falta um mês para as provas, então posso...

— Esquece — eu disse, me levantando. — Alguém nesse laço precisa estar pronto para as provas. Vá estudar. Depois a gente conversa.

Ninguém tentou me impedir, mas Trey Juarez logo me alcançou. Ele devia ser o membro mais estranho do nosso círculo: um humano que já fizera parte de um grupo de caçadores de vampiros. Trey tinha cortado relações com eles, primeiro porque não passavam de um bando de psicopatas e, segundo, porque se apaixonara por Angeline, contra toda e qualquer razão ou lógica. Os dois eram os únicos no grupo que pareciam ter uma vida amorosa feliz e eu sabia que tentavam maneirar as demonstrações de afeto pelo bem de nossas almas infelizes.

— E como exatamente você vai pra casa? — Trey perguntou.

— Quem disse que vou pra casa? — repliquei.

— Eu. Você não tem nada que sair pra beber. Está um lixo.

— Você é a segunda pessoa que me diz isso hoje.

— Bom, então acho que está na hora de começar a ouvir — ele disse, me levando para o estacionamento dos estudantes. — Vem, eu te levo.

Não seria um grande esforço para ele porque a gente dividia o apartamento.

Não foi sempre assim. Antes, ele era um aluno interno em Amberwood, e morava na escola junto com os outros. Seu antigo grupo, os Guerreiros da Luz, tinha os mesmos preconceitos que os alquimistas contra a interação entre humanos e vampiros. Enquanto os alquimistas lidavam com isso escondendo a nossa existência dos humanos, os guerreiros usavam um método muito mais brutal e caçavam vampiros. Eles diziam que só iam atrás dos Strigoi, mas também não eram nem um pouco amigos dos Moroi ou dampiros.

Quando o pai de Trey descobriu sobre Angeline, tomou uma atitude diferente da do pai de Sydney. Em vez de sequestrar o filho e fazê-lo desaparecer sem deixar vestígio, o sr. Juarez tinha simplesmente renegado o rapaz e cortado seu dinheiro. Para a sorte de Trey, as aulas já estavam pagas até o fim do ano letivo. O dormitório e a comida não, por isso o alojamento de Amberwood despejara Trey alguns meses antes. Ele aparecera na minha porta, oferecendo-se para pagar o aluguel com o mísero salário que ganhava trabalhando em um café, só para poder terminar o ensino médio em Amberwood. Eu o recebi de braços abertos e recusei o dinheiro, sabendo que era o que Sydney teria desejado. Minha única condição era nunca voltar para casa e dar de cara com ele e Angeline dando uns amassos no meu sofá.

— Sou um imbecil — resmunguei, depois de vários minutos de silêncio constrangedor no carro dele. — Fiz besteira. Ninguém tem pedido muito de mim. Agora não, pelo menos. Eu só precisava lembrar do desfile dela e nem isso consegui.

— Tem muita coisa ruim rolando na sua vida — ele disse, diplomático.

— Tem na de todo mundo. Quer dizer, olha só pra você. Sua família inteira finge que você não existe e se esforçou pra te expulsar da escola. Você deu a volta por cima, manteve suas notas e continuou nos esportes, e ainda conseguiu arranjar uma bolsa de estudo. — Soltei um suspiro. — Enquanto isso, é provável que eu tenha sido reprovado numa matéria introdutória de arte. Em mais de uma, na verdade, se tiver mais provas nessa semana... o que é bem possível. Nem sei direito.

— É, mas eu ainda tenho Angeline. E isso faz todas as outras coisas valerem a pena. Enquanto você... — Trey não conseguiu terminar a frase e vi uma expressão de dor perpassar seu rosto bronzeado.

Meus amigos de Palm Springs sabiam sobre mim e Sydney. Eles eram os únicos no mundo Moroi (ou no mundo humano, que encobria a existência dos Moroi) que sabiam da nossa relação. Tinham ficado tristes pelo que acontecera, tanto por mim quanto por ela. Também adoravam Sydney. Não como eu, claro, mas ela era uma pessoa extremamente leal que inspirava um afeto profundo em seus amigos.

— Também sinto falta dela — Trey disse baixinho.

— Eu devia ter feito mais — falei, me afundando no banco.

— Você fez o possível e o impossível. Mais do que eu teria conseguido. E não estou falando só de visitar sonhos. Tipo, você foi atrás do pai dela, pressionou os Moroi, infernizou a vida da Maura... fez tudo que dava pra fazer.

— Sou bom em irritar as pessoas — admiti.

— Você está num beco sem saída, só isso. Eles são muito bons em guardar segredos. Mas em algum momento vão deixar escapar alguma coisa, e você vai aproveitar essa brecha. E vou estar lá, do seu lado. Todos nós vamos.

Ele não costumava fazer esses discursos otimistas, mas mesmo assim não me animei muito.

— Não sei como vou encontrar essa brecha.

Trey arregalou os olhos.

— Marcus.

Balancei a cabeça.

— As pistas dele não deram em nada também. Faz um mês que não vejo o cara.

— Não. — Trey apontou enquanto estacionava o carro na frente do prédio. — Marcus está ali.

Dito e feito. Lá, sentado no degrau de entrada do prédio, estava Marcus Finch, o ex-alquimista rebelde que tinha encorajado Sydney a pensar por conta própria e que vinha tentando encontrá-la, também sem sucesso. Abri a porta antes mesmo que Trey parasse o carro.

— Ele não estaria aqui se não tivesse novidades — eu disse, eufórico. Saí do carro e corri pela grama; a letargia de antes substituída por uma sensação de urgência. Era agora. Marcus tinha conseguido. Marcus tinha encontrado respostas.

— O que foi? — perguntei. — Achou Sydney?

— Não exatamente. — Marcus levantou e passou a mão pelo cabelo loiro. — Vamos entrar pra conversar.

Trey estava quase tão ansioso quanto eu enquanto acompanhávamos Marcus até o apartamento. Ficamos olhando para ele com a mesma postura, com os braços cruzados diante do peito.

— E então? — perguntei.

— Consegui uma lista de locais que podem ser centros de reeducação — Marcus começou, não parecendo tão entusiasmado quanto deveria com uma notícia dessas. Segurei o braço dele.

— Isso é incrível! Vamos começar a procurar e...

— São trinta lugares — ele me interrompeu abruptamente.

Soltei o braço dele.

— Trinta?

— Trinta — ele repetiu. — E não sabemos exatamente onde ficam.

— Mas você acabou de dizer...

Ele ergueu a mão.

— Vou explicar primeiro, depois você fala. Essa lista que minhas fontes arranjaram contém cidades nos Estados Unidos que os alquimistas consideraram para estabelecer o centro de reeducação e alguns outros centros operacionais. É de alguns anos atrás e, embora minhas fontes confirmem que eles acabaram construindo o prédio de reeducação numa delas, a gente não sabe com certeza qual cidade foi escolhida... nem em que lugar da cidade construíram o prédio. Temos como descobrir? Claro, e conheço gente que pode começar a procurar. Mas vamos ter que fazer isso cidade por cidade, o que vai demorar um pouco.

Todo o entusiasmo e a esperança que eu tinha sentido ao ver Marcus desapareceram.

— Deixe-me adivinhar: “um pouco” quer dizer alguns dias?

Ele fez uma careta.

— Vai ser caso a caso, dependendo das dificuldades que tivermos em cada cidade. Pode demorar alguns dias para tirar cada uma da lista. Talvez algumas semanas.

Eu não achava que poderia me sentir pior do que tinha me sentido por causa da prova e de Jill, mas, pelo jeito, estava enganado. Me joguei no sofá, derrotado.

— Algumas semanas vezes trinta. Isso pode levar mais de um ano.

— A menos que a gente tenha sorte e ela esteja numa das primeiras cidades. — Mas dava para ver que nem ele achava isso provável.

— É, só que nos últimos tempos a gente não anda tendo muita sorte — comentei. — Não sei por que isso mudaria agora.

— É melhor do que nada — Trey disse. — É a primeira pista de verdade que temos.

— Preciso achar o pai dela — murmurei. — Vou compelir aquele filho da mãe até ele me dizer onde ela está. — Todas as tentativas de localizar Jared Sage haviam falhado. Uma vez consegui dar um telefonema, mas ele desligou na minha cara. Compulsão não funcionava tão bem por telefone.

— Mesmo que o encontre, é provável que ele não saiba — Marcus disse. — Eles guardam segredos uns dos outros, exatamente pra se proteger de confissões forçadas.

— E aqui estamos nós. — Levantei e fui para a cozinha preparar um drinque. — Novamente sem saída. Volte ano que vem, quando confirmar que sua lista não deu em nada.

— Adrian... — Marcus começou, parecendo perdido como nunca o vira antes. Ele costumava ser o garoto propaganda da confiança e da arrogância.

A resposta de Trey foi mais pragmática:

— Chega de beber. Você já tomou demais hoje, cara.

— Quem decide isso sou eu — retruquei. Em vez de realmente fazer um drinque, acabei pegando duas garrafas de bebida aleatórias. Ninguém tentou me impedir quando entrei no quarto e bati a porta.

Antes de começar minha festinha solitária, tentei encontrar Sydney mais uma vez. Não foi fácil, porque ainda estava sob o efeito da vodca da tarde, mas consegui controlar o espírito depois de algumas tentativas. Como sempre, não encontrei nada, mas a certeza de Marcus de que ela estava nos Estados Unidos tinha me dado esperanças. A noite estava começando na Costa Leste e eu precisava tentar, caso ela tivesse ido dormir mais cedo. Pelo jeito, não era o caso.

Logo me entreguei às garrafas, precisando desesperadamente esquecer de tudo. Da faculdade. De Jill. De Sydney. Nunca pensei que fosse possível ficar tão deprimido, ter emoções tão sombrias e profundas a ponto de não conseguir transformá-las em um sentimento construtivo. Quando minha relação com Rose terminou, pensei que nenhuma perda poderia ser mais terrível. Estava errado. Nós nunca tivemos nada muito significativo. O que perdi com ela foi só uma possibilidade.

Mas com Sydney... com Sydney eu tinha tudo, e perdi tudo. Amor, compreensão, respeito. A sensação de que poderíamos nos tornar pessoas melhores por causa um do outro e de que poderíamos suportar qualquer coisa desde que estivéssemos juntos. Só que não estávamos mais juntos. Tínhamos sido separados à força e eu não sabia o que iria acontecer agora.

O centro vai aguentar. Essa foi a frase que Sydney cunhou para nós a partir de “O segundo advento”, um poema de William Butler Yeats. Às vezes, nos meus momentos mais sombrios, eu temia que as palavras originais fossem mais adequadas: Tudo se parte, o centro não aguenta.

Bebi até esquecer tudo, acordando no meio da noite com uma dor de cabeça avassaladora. Também estava com náusea, mas, quando fui cambaleando até o banheiro, não consegui vomitar nada. Só me senti horrível. Talvez porque a escova de cabelo de Sydney ainda estivesse lá, me lembrando dela. Ou, talvez, porque eu não tinha jantado, nem lembrava a última vez que bebera sangue. Não era de admirar que estivesse naquele estado. Eu havia desenvolvido uma tolerância a álcool tão grande ao longo dos anos que quase nunca passava mal com bebida, então devia ter ido longe demais dessa vez. A coisa inteligente a fazer teria sido me hidratar, bebendo litros de água, mas, em vez disso, retomei o comportamento autodestrutivo. Voltei para o quarto para tomar outro drinque e só consegui me sentir ainda pior.

Minha cabeça e meu estômago se acalmaram lá pelo amanhecer, e o máximo que consegui foi um sono agitado. Ele foi interrompido algumas horas depois por uma batida na porta. Na verdade, acho que foi uma batida bem leve, mas, por causa dos resquícios da dor de cabeça, parecia mais uma marreta.

— Vá embora — eu disse, olhando para a porta com os olhos turvos. Trey enfiou a cabeça para dentro.

— Adrian, tem uma pessoa aqui que quer falar com você.

— Já ouvi o que Marcus Vingador tinha pra dizer — retruquei. — Não tenho mais nada pra conversar com ele.

A porta se abriu mais um pouco e uma pessoa passou por Trey. Embora qualquer movimento fizesse minha cabeça girar, consegui sentar e olhar direito. Senti o queixo cair e achei que estava alucinando. Não teria sido a primeira vez. Normalmente, eu só imaginava a tia Tatiana, mas a pessoa à minha frente estava bem viva, linda sob a luz do sol matinal que iluminava suas feições delicadas e seu cabelo loiro. Mas ela não podia estar ali.

— Mãe? — eu disse, com a voz rouca.

— Adrian. — Ela atravessou o quarto e sentou ao meu lado na cama, tocando meu rosto com delicadeza. Sua mão parecia fria contra minha pele febril. — Adrian, está na hora de voltar pra casa.


3

Sydney

 

Perdoei a tática de choque dos alquimistas porque, assim que meus olhos se acostumaram à luz, eles me ofereceram um banho.

A parede da cela se abriu e fui cumprimentada por uma jovem que devia ser uns cinco anos mais velha que eu. Ela usava o tipo de terninho chique que os alquimistas adoram, com o cabelo preto preso em um coque elegante. Sua maquiagem era impecável e seu perfume parecia de lavanda. O lírio dourado em sua bochecha reluzia. Minha visão ainda não estava totalmente recuperada, mas, ao lado dela, ganhei consciência do meu estado — fazia séculos que eu não me limpava de verdade e minha camisola mais parecia um pano de chão.

— Sou Sheridan — ela disse com frieza, sem explicar se esse era seu primeiro nome ou o sobrenome. Fiquei curiosa para saber se ela era uma das pessoas por trás da voz na cela. Tinha quase certeza de que elas se alternavam, usando algum tipo de sintetizador para que a voz parecesse sempre a mesma. — Sou a atual diretora daqui. Me acompanhe, por favor.

Ela atravessou o corredor em seus sapatos altos de couro, e a segui sem dizer nada, não confiando em mim mesma para falar por enquanto. Embora tivesse certa liberdade de movimento na minha cela, também havia limitações, então não andara muito. Meus músculos rígidos protestaram contra a mudança súbita e eu me movia devagar atrás dela, um passo descalço e agonizante de cada vez. Passamos por várias portas sem placas ao longo do caminho e me perguntei o que havia atrás delas. Outras celas escuras com vozes metálicas? Minha preocupação mais imediata, porém, era uma saída, e não parecia haver nenhuma. Tampouco havia janelas ou qualquer indicação de como dar o fora daquele lugar.

Sheridan chegou ao elevador muito antes de mim e me esperou pacientemente. Quando ambas entramos, subimos um andar e chegamos a um corredor igualmente deserto. Uma porta dava para o que parecia um banheiro de academia, com pisos ladrilhados e chuveiros comunitários. Sheridan apontou para uma baia em que havia sabonete e xampu.

— A água vai correr por cinco minutos depois que você abrir a torneira — ela avisou. — Então use com prudência. Haverá roupas esperando por você quando terminar. Estarei no corredor enquanto isso.

Ela saiu do vestiário, supostamente para me dar privacidade, mas eu não tinha dúvidas de que ainda estava sendo observada. Tinha perdido qualquer ilusão de pudor no momento em que chegara naquele lugar. Comecei a tirar a camisola quando notei um espelho ao meu lado na parede e, mais importante, quem me olhava no reflexo.

Eu sabia que estava mal, mas ver a realidade cara a cara era outra questão. A primeira coisa que me deixou espantada foi o peso que havia perdido — era irônico, porque a grande obsessão da minha vida sempre fora ser magra. Sem dúvida, havia atingido, e ultrapassado, esse objetivo. Tinha passado de magra a malnutrida, o que ficava claro não só pela maneira como a camisola caía sobre meu corpo como também pelo meu rosto descarnado. Aquele olhar vazio era intensificado pelas olheiras escuras sob os olhos e pela palidez no restante do rosto devida à falta de sol. Eu parecia estar me recuperando de uma doença grave.

Meu cabelo também estava ruim. Qualquer trabalho decente que eu achava estar fazendo lavando-o no escuro se provou uma piada agora. Os fios estavam fracos e oleosos, pendendo tristes e emaranhados. Eu continuava loira, claro, mas a cor estava sem brilho e escurecida pela sujeira e pelo suor que, por mais que eu esfregasse, não dava para tirar com aquele paninho. Adrian sempre dizia que meu cabelo parecia ouro e brincava que eu tinha uma auréola. O que ele diria agora?

Adrian não me ama por causa do meu cabelo, pensei, encarando o reflexo. Meus olhos estavam firmes e castanhos. Ainda eram os mesmos. Isso é tudo exterior. Minha alma, minha aura, meu caráter... essas coisas não mudaram.

Determinada, ia dar as costas para o reflexo quando notei outra coisa. Meu cabelo estava uns três centímetros mais longo do que da última vez que o vira. Embora eu soubesse que precisava raspar as pernas, não fazia ideia na cela de como andava meu cabelo. Agora, tentei lembrar quanto ele crescia por mês. Mais ou menos um centímetro? Isso sugeria pelo menos dois meses, talvez três levando em conta o efeito da dieta precária. Esse choque foi mais assustador do que minha aparência.

Três meses! Eles tiraram três meses da minha vida, me drogando no escuro.

O que tinha acontecido com Adrian? Jill? Eddie? Qualquer coisa podia ter acontecido na vida deles nesses três meses. Será que estavam bem e em segurança? Ainda em Palm Springs? Um novo pânico surgiu dentro de mim e me forcei a conter essa sensação. Sim, muito tempo havia se passado, mas eu não podia deixar que isso me afetasse. Os alquimistas já estavam fazendo jogos mentais suficientes comigo sem a minha ajuda.

Mas ainda assim... três meses.

Tirei a roupa esfarrapada e entrei na ducha, fechando a cortina atrás de mim. Quando abri a torneira e a água saiu quente, quase caí no chão de alegria. Depois do frio que tinha passado nos últimos três meses, ali estava todo o calor que eu queria. Quer dizer, não todo o calor. Enquanto aumentava a temperatura ao máximo, desejei secretamente que houvesse uma banheira para poder mergulhar naquela água. Mas só o chuveiro já era uma bênção, e fechei os olhos, suspirando com o primeiro prazer que sentia em muito tempo.

Então, lembrando do aviso de Sheridan, abri os olhos e encontrei o xampu. Passei e enxaguei o cabelo três vezes, esperando que fosse o suficiente para tirar o grosso da sujeira. Provavelmente levaria mais alguns banhos até ele ficar limpo de verdade. Em seguida, esfreguei o corpo com o sabonete até ficar com a pele vermelha e com um leve cheiro de antisséptico, depois só fiquei me deliciando sob a água fumegante até ela acabar.

Ao sair, encontrei roupas dobradas cuidadosamente em cima de um banco. Era um uniforme básico, uma calça larga e uma camiseta do tipo que funcionários de hospital — ou, no caso, prisioneiros — usavam. Cáqui, afinal, os alquimistas tinham que manter certo nível de bom gosto. Eles também me deram meias e um par de sapatos marrons simples, e não foi uma surpresa descobrir que eram exatamente do meu tamanho. Um pente completava o conjunto, nada chique, mas suficiente para me ajeitar um pouco. O reflexo que me olhava de volta agora não tinha uma aparência exatamente boa, mas sem dúvida estava “menos ruim”.

— Se sentindo melhor? — Sheridan perguntou, com um sorriso que não se refletia em seus olhos. A melhora em minha aparência não era nada perto da elegância minuciosa dela, mas me consolei pensando que ainda tinha meu respeito próprio e a capacidade de pensar sozinha.

— Sim — respondi. — Obrigada.

— Vai precisar disso também — ela disse, me dando um cartãozinho plástico. Tinha meu nome, um código de barras e uma foto de tempos melhores. Um pequeno clipe plástico na parte de trás permitia que fosse preso na gola do uniforme.

Ela me levou de volta para o elevador.

— Estamos muito felizes por você ter escolhido o caminho para a redenção. De verdade. Estou ansiosa para guiá-la na jornada de volta à luz.

O elevador nos levou para outro andar e uma nova sala, onde havia um tatuador e uma maca. Todo o conforto de um banho quente e roupas de verdade caíram por terra. Eles iriam me tatuar de novo? Mas é claro. Por que depender só de tortura física e psicológica se podiam acrescentar um pouco de controle mágico?

— Só queremos fazer um pequeno retoque — Sheridan explicou, com a voz animada. — Afinal, já faz um tempo.

A verdade é que fazia menos de um ano, mas eu sabia qual era o objetivo deles. As tatuagens alquimistas continham tinta com sangue de vampiro misturado a feitiços de compulsão para reforçar a lealdade. Obviamente, a minha não estava funcionando. Mesmo sendo mágica, a compulsão era apenas uma sugestão forte, que poderia ser vencida com força de vontade suficiente. Eles provavelmente dobrariam a dose normal com a esperança de me tornar mais obediente e me fazer aceitar qualquer retórica a que fosse submetida.

O que eles não sabiam era que eu havia tomado providências para me proteger exatamente disso. Antes de ser capturada, tinha criado minha própria tinta, feita com magia humana — outra coisa abominável para os alquimistas. Aparentemente, essa magia negava a compulsão que havia na tinta feita com sangue de vampiro. Por outro lado, eu não tivera a oportunidade de injetar essa tinta na minha tatuagem para ter uma camada de proteção extra. Estava contando com o que uma bruxa que eu conhecia me dissera: que o próprio ato de praticar magia me protegeria. Segundo ela, a magia humana que eu usava entrava no meu sangue, o que neutralizava o sangue de vampiro da tatuagem alquimista. Claro, eu não tivera nenhuma chance de praticar feitiços no confinamento e minha esperança era que a magia que havia praticado no passado tivesse deixado uma marca permanente em mim.

— Volte a se tornar uma de nós — disse Sheridan, quando a agulha do tatuador encostou no meu rosto. — Renuncie a seus pecados e busque a redenção. Junte-se a nós na batalha para manter os humanos livres da mácula dos vampiros e dampiros. Eles são criaturas das trevas que não fazem parte da ordem natural.

Fiquei tensa, e não por causa da agulha perfurando minha pele. E se o que me falaram estivesse errado? E se o uso da magia não me protegesse? E se, naquele exato momento, a compulsão alquimista estivesse entrando no meu corpo, usando seu poder traiçoeiro para mudar meus pensamentos? Esse era um dos meus maiores medos — que mexessem com a minha mente. De repente, essa ideia me encheu de pavor e tive dificuldade para respirar, o que fez o tatuador parar e perguntar se estava doendo. Engolindo em seco e tentando esconder o pânico, fiz que não e deixei que ele continuasse.

Quando ele terminou, não me senti diferente. Ainda amava Adrian e meus amigos Moroi e dampiros. Será que era o suficiente? Ou a tinta demoraria para surtir efeito? E se o uso de magia não tivesse me protegido, será que minha própria força de vontade me salvaria? Eu tinha superado o último retoque. Será que conseguiria fazer isso mais uma vez?

Sheridan me guiou até a saída depois que o tatuador me liberou, falando como se eu tivesse acabado de sair de um spa e não passado por uma tentativa de lavagem cerebral:

— Sempre me sinto tão renovada depois de um retoque, você não?

Era meio inacreditável que ela pudesse agir com tanta naturalidade, como se fôssemos duas amigas saindo para um passeio, sendo que ela e os outros tinham me deixado meses numa cela escura, seminua e morrendo de fome. Ela esperava que eu me sentisse tão grata pelo banho quente e pelas roupas que perdoaria todo o resto? Sim, percebi segundos depois, provavelmente era o que ela esperava. Devia ter muita gente que saía daquela escuridão disposta a absolutamente tudo para ter de volta simples confortos da vida.

Enquanto subíamos para outro andar, notei que minha mente estava mais clara e meus sentidos mais aguçados do que não sentia havia meses. Provavelmente por um bom motivo. Os alquimistas não estavam mais me submetendo àquele gás, não com Sheridan por perto, então aquele devia ser o primeiro ar puro que eu respirava em muito tempo. Até então, não tinha notado como a diferença era enorme. Adrian talvez conseguisse me visitar em sonhos agora, mas isso teria que esperar. No mínimo, eu poderia praticar magia de novo, já que meu sistema não estava mais poluído, e, com sorte, lutar contra quaisquer efeitos da tatuagem. Mas encontrar um momento sem vigilância não seria fácil.

O próximo corredor em que entramos continha uma série de quartos idênticos com as portas abertas, revelando camas estreitas. Continuei prestando atenção em todo lugar por onde passava, cada andar e cada quarto, ainda em busca de uma saída que parecia não existir. Sheridan me levou para um quarto com o número oito na porta.

— Sempre achei oito um número da sorte — ela me disse. — Rima com “biscoito”. — Ela apontou para uma das duas camas no quarto. — Essa é a sua.

Por um momento, fiquei tão maravilhada com a ideia de uma cama que não me dei conta das implicações daquilo. Não que parecesse muito confortável, mas mesmo assim... Era infinitamente melhor do que o chão da cela, mesmo com o colchão duro e lençóis tão finos que pareciam minha antiga camisola. Eu conseguiria dormir naquela cama, sem dúvida. Poderia dormir e sonhar com Adrian...

— Vou dividir o quarto? — perguntei, finalmente notando a outra cama. Era difícil dizer se o quarto estava ocupado, já que não havia nenhum pertence pessoal ali.

— Sim. O nome dela é Emma. Ela pode te ensinar muita coisa. Estamos muito orgulhosos do progresso dela. — Sheridan deu um passo para fora da sala, então pelo jeito não ficaríamos ali. — Vem, você pode conhecer Emma agora. E os outros também.

Um corredor que saía daquele em que estávamos nos fez passar diante de salas de aula vazias. Enquanto o atravessávamos, me dei conta de algo que meus sentidos enfraquecidos não captavam havia muito tempo: o cheiro de comida. Comida de verdade. Sheridan estava me levando para um refeitório. Uma fome que eu nem sabia estar sentindo ardeu no meu estômago quase que dolorosamente. Eu tinha me adaptado à dieta escassa da prisão, tanto que havia considerado meu estado malnutrido como normal. Só então percebi o quanto desejava uma refeição que não fosse cereal morno.

Na verdade, o refeitório era minúsculo se comparado ao de Amberwood. Tinha cinco mesas, três delas ocupadas por pessoas com uniformes cáqui iguais ao meu. Aparentemente, eram meus companheiros de prisão, todos com lírios dourados na bochecha. Havia doze ao todo, o que me tornava a número treze. Imaginei o que Sheridan diria sobre isso. Os outros detentos eram de idade, sexo e raças diferentes, mas tinha certeza de que eram todos americanos. Em algumas prisões, fazer os detentos se sentirem diferentes era parte do processo. Como o objetivo daquela era nos trazer de volta ao rebanho, era mais provável que nos pusessem junto com pessoas da mesma cultura e da mesma língua, pessoas que poderíamos usar de exemplo se nos esforçássemos. Ao olhar para elas, fiquei tentando adivinhar suas histórias, se algumas delas poderiam ser aliadas.

— Aquele é Baxter — Sheridan disse, apontando para um homem sério vestido de branco. Ele estava atrás de uma janelinha que dava para o refeitório, de onde provavelmente vinha a comida. — A comida dele é deliciosa. Tenho certeza de que vai adorar. E aquela é Addison. Ela é a supervisora do almoço e da aula de artes.

Se ela não tivesse apresentado Addison, eu dificilmente saberia que era uma mulher. Ela devia ter por volta de uns cinquenta anos e vestia um terninho tão sério quanto o de Sheridan, mas menos elegante, e estava parada junto à parede com o olhar atento. Tinha o cabelo raspado rente e um rosto com feições duras que parecia não combinar com o fato de que estava mascando chiclete. O lírio dourado era seu único adorno. Era a última pessoa que eu imaginaria como professora de artes, o que, por sua vez, fez cair outra ficha:

— Vou ter aula de artes?

— Sim, claro — disse Sheridan. — Criatividade é uma excelente terapia para purificar a alma.

Quando entramos no refeitório, um murmúrio baixo de conversas acabou subitamente quando os outros nos notaram. Todos os olhos, tanto de detentos como de supervisores, se voltaram para mim. E nenhum deles parecia amigável.

Sheridan limpou a garganta, como se já não fôssemos o centro das atenções.

— Pessoal? Temos uma nova hóspede que gostaria de apresentar a vocês. Esta é Sydney. Sydney acabou de sair do período de reflexão e está ansiosa para se juntar a vocês na jornada para a purificação.

Levei um segundo para entender que “período de reflexão” devia ser o nome que eles davam ao confinamento na solitária escura.

— Sei que vai ser difícil para vocês aceitarem a presença dela — Sheridan continuou, com a voz doce. — O que é compreensível. Ela não só está muito envolta em trevas, como se corrompeu da maneira mais profana possível: pelo contato íntimo e romântico com vampiros. Entendo se não quiserem interagir com ela para não se deixarem corromper, mas espero que a mantenham em suas orações.

Sheridan voltou seu sorriso mecânico para mim.

— Vejo você depois, na hora da comunhão.

Eu já estava nervosa e apreensiva antes, mas, quando ela virou para sair, um novo tipo de pânico me atingiu.

— Espere. O que devo fazer?

— Comer, é claro. — Ela me olhou de cima a baixo. — A menos que esteja preocupada com seu peso. A decisão é sua.

Ela me deixou no refeitório silencioso, com todos aqueles olhos me encarando. Tinha saído de um inferno para entrar em outro. Nunca me sentira tão envergonhada, exposta para estranhos, com meus segredos revelados. Transtornada, tentei pensar em como agir. Qualquer coisa para me livrar daqueles olhares fixos e dar um passo em direção a meu reencontro com Adrian. Comer, Sheridan havia dito. Como fazer isso? Aquele lugar não era como Amberwood, onde a diretoria dava a alguns alunos do último ano a tarefa de ajudar os calouros. Pelo contrário: Sheridan tinha feito o possível para estimular todos a não me ajudar. Era uma tática genial, concluí, que me faria buscar desesperadamente a aprovação dos outros e talvez enxergar uma pessoa como Sheridan como minha única “amiga”.

Pensar na psicologia dos alquimistas me deixou mais calma. Lógica e solução de enigmas eram coisas com as quais eu sabia lidar. Certo. Se eles queriam que eu me virasse sozinha, era o que eu faria. Parei de olhar para os outros detentos e caminhei diretamente para a janelinha, onde estava a cara fechada do cozinheiro Baxter. Parei na frente dele com uma expressão ansiosa, torcendo para que fosse suficiente. Não foi.

— Erm, com licença — eu disse, baixinho. — Posso... — Que refeição Sheridan disse que era? Eu tinha perdido a noção do tempo na solitária. — ... almoçar?

Ele respondeu com um resmungo e deu as costas, fazendo algo fora do meu campo de visão. Quando se virou para mim, me entregou uma bandeja com um pouco de comida.

— Obrigada — agradeci, pegando a bandeja. Ao fazer isso, minha mão tocou de leve uma de suas luvas. Ele soltou uma exclamação de espanto e seu rosto se encheu de repulsa. Então cuidadosamente tirou a luva que eu tinha tocado, jogou no lixo e pôs uma nova.

Fiquei olhando embasbacada por alguns momentos e depois me virei com a minha bandeja. Nem tentei conversar com os outros; em vez disso, sentei numa das mesas vazias. Muitos continuaram me encarando, mas alguns retomaram suas refeições e conversas. Tentei não pensar se estavam falando de mim e me concentrei na refeição. Era uma pequena porção de espaguete com um molho vermelho que parecia enlatado, uma banana e um copo de leite semidesnatado. Antes de ir para lá, eu nunca teria tocado nenhuma daquelas coisas no dia a dia. Teria feito um discurso sobre a gordura do leite e sobre como a banana era uma das frutas com maior teor de açúcar. Teria questionado a qualidade da carne e os conservantes no molho vermelho.

Todas essas frescuras tinham ficado para trás. Aquilo era comida. Comida de verdade, não um cereal gosmento e sem gosto. Primeiro devorei a banana, quase sem parar para respirar, e precisei me controlar para não tomar o leite de um gole só. Algo me dizia que Baxter não deixava a gente repetir. Fui mais cuidadosa com o espaguete, apenas porque meu estômago talvez não reagisse muito bem à mudança súbita na dieta. Meu estômago discordou e quis que eu mandasse tudo para dentro e lambesse a bandeja. Em comparação ao que andava comendo nos últimos meses, aquele espaguete estava tão delicioso que parecia ter vindo de um restaurante gourmet da Itália. Fui salva da tentação de comer tudo quando um sinal baixo soou cinco minutos depois. Os outros detentos se levantaram em massa e levaram suas bandejas para uma grande lata de lixo, monitorados por Addison. Jogaram fora os restos de comida e então empilharam as bandejas com cuidado num carrinho perto do lixo. Rapidamente fiz o mesmo e depois segui os outros, que estavam saindo do refeitório.

Depois da reação de Baxter ao meu toque, tentei poupar os demais detentos do transtorno de ficar perto de mim e mantive uma distância respeitosa. No entanto, tivemos todos que passar por um corredor estreito, e as manobras que alguns deles fizeram para não trombar em mim teriam sido cômicas em outras circunstâncias. Aqueles que não estavam perto faziam o possível para não ter contato visual comigo e fingiam que eu não existia. Os que não tinham como evitar me lançavam olhares gélidos e fiquei chocada ao ouvir um deles murmurar:

— Vadia.

Tinha me preparado para muitas coisas e esperava ser chamada de diversos nomes, mas esse me pegou desprevenida. Fiquei surpresa com a dor que senti.

Segui o grupo até uma sala de aula e esperei que todos tivessem sentado para não escolher o lugar errado. Quando finalmente sentei em um lugar vazio, as duas pessoas mais próximas afastaram suas carteiras. Elas deviam ter o dobro da minha idade, o que aumentava o ar tragicômico e perverso da situação. O professor, um alquimista de terno, lançou um olhar cortante de sua mesa quando ouviu o movimento.

— Elsa, Stuart. Não é aí que ficam suas carteiras.

A contragosto, os dois moveram as carteiras de volta às fileiras alinhadas; o amor dos alquimistas pela ordem tinha vencido seu medo do mal. Porém, pelos olhares feios que Elsa e Stuart me lançaram, ficou claro que estavam acrescentando essa reprimenda à lista de pecados dos quais eu era culpada.

O professor se apresentou como Harrison, e eu também não soube se esse era seu nome ou sobrenome. Ele era um alquimista mais velho, com o cabelo branco rareando e uma voz nasalada, e logo descobri que estava lá para nos ensinar sobre atualidades. Por um momento, fiquei animada, achando que saberia um pouco do mundo lá fora. Logo ficou claro que era uma aula altamente específica de atualidades.

— O que estamos olhando? — ele perguntou quando uma imagem grotesca de duas meninas com a garganta cortada apareceu numa tela gigante na frente da sala. Várias mãos se levantaram e ele deu a palavra à primeira. — Emma?

— Ataque de Strigoi, senhor.

Isso eu sabia, mas estava mais interessada em Emma, minha colega de quarto. Ela tinha mais ou menos minha idade e estava sentada numa postura tão anormalmente ereta que tive certeza de que teria problemas nas costas no futuro.

— Duas meninas mortas perto de um clube noturno em São Petersburgo — Harrison confirmou. — Elas não tinham nem vinte anos. — A imagem mudou para outra cena horrível, de um homem mais velho que obviamente tivera o sangue drenado. — Budapeste. — Depois outra imagem. — Caracas. — Mais uma. — Nova Escócia. — Ele desligou o projetor e começou a andar de um lado para o outro na frente da sala. — Queria poder dizer que essas fotos são do ano passado. Ou do mês passado. Mas infelizmente não é o caso. Alguém quer arriscar um palpite de quando elas foram tiradas?

A mão de Emma se levantou rapidamente.

— Semana passada, senhor?

— Correto, Emma. Estudos mostram que os ataques de Strigoi não diminuíram desde o ano passado. Pelo contrário: as evidências apontam que estão aumentando. Por que vocês acham que isso está acontecendo?

— Porque os guardiões não estão caçando os Strigoi como deveriam? — De novo, quem respondeu foi Emma. Ai meu Deus, pensei, vou dividir o quarto com a Sydney Sage da reeducação.

— Essa é uma teoria — Harrison disse. — Os guardiões estão muito mais interessados em proteger os Moroi passivamente do que em caçar Strigoi pelo bem de todos. Tanto que, quando sugerimos aumentar o número de guardiões reduzindo a idade mínima de recrutamento, os Moroi foram egoístas e recusaram. Aparentemente, eles acham que estão seguros e não veem necessidade em nos ajudar.

Precisei morder a língua. Eu sabia muito bem que isso não era verdade. Os Moroi estavam sofrendo com um baixo número de guardiões porque não existiam dampiros suficientes. Os dampiros não conseguiam se reproduzir com outros dampiros. A raça havia surgido num tempo em que humanos e Moroi se relacionavam com liberdade e, atualmente, davam continuidade a ela por meio da mestiçagem com os Moroi, o que sempre resultava em filhos dampiros. Era um mistério genético até para os alquimistas. Meus amigos tinham dito que a maioridade dos guardiões era um assunto em alta agora, sobre o qual a rainha dos Moroi, Vasilisa, tinha opiniões fortes. Ela estava lutando para impedir que dampiros se tornassem guardiões antes dos dezoito anos, não por egoísmo, mas porque achava que eles mereciam a chance de aproveitar a adolescência antes de saírem por aí arriscando a vida.

Porém, eu sabia que aquele não era o lugar para expor esse ponto de vista. Mesmo que soubessem disso, ninguém daria ouvidos e eu não podia correr o risco de falar. Precisava me manter na linha e agir como se estivesse no caminho para a redenção a fim de assegurar o maior número possível de privilégios, por mais doloroso que fosse ouvir o discurso de Harrisson.

— Outro fator pode ser que os próprios Moroi estejam ajudando a aumentar a população de Strigoi. Se questionados, a maioria dos Moroi diz que não quer nenhuma relação com os Strigoi. Mas será que realmente podemos confiar neles, quando podem se transformar naqueles monstros perversos com tanta facilidade? É quase um estágio de desenvolvimento para os Moroi. Eles levam vidas “normais”, com família e trabalho, e, quando a idade começa a chegar... enfim, é conveniente beber um pouquinho a mais de suas vítimas “voluntárias”, dizer que foi um “acidente”... e puf! — A quantidade de aspas que Harrison fazia com os dedos era impressionante. — Viram Strigoi, imortais e intocáveis. Como poderiam evitar? Os Moroi não são criaturas com força de vontade, como nós, humanos. E, sem dúvida, não têm almas tão fortes. Como essas criaturas podem resistir à sedução da vida eterna? — Harrison abanou a cabeça fingindo tristeza. — É uma pena, mas esse é o motivo por que as populações de Strigoi não estão caindo. Nossos supostos “aliados” não estão exatamente ajudando.

— Você tem provas?

A voz da discórdia foi um choque para todos, ainda mais quando perceberam que vinha de mim. Fiquei com vontade de me dar um tapa na testa e retirar o que tinha dito. Não fazia nem duas horas que saíra do confinamento! Mas já era tarde demais e as palavras estavam no ar. Além do meu interesse pessoal pelos Moroi, odiava quando as pessoas apresentavam especulações sensacionalistas como se fossem fatos. Os alquimistas deviam saber disso, afinal, tinham me treinado nas artes da lógica.

Todos os olhares voltaram a recair sobre mim e Harrison caminhou até a minha carteira.

— É Sydney, correto? É um prazer ter você aqui, recém-saída do período de reflexão. É um prazer ainda maior ouvi-la falar tão pouco tempo depois de se juntar a nós. A maioria dos novatos espera um pouco mais. Agora... pode fazer a gentileza de repetir o que acabou de dizer?

Engoli em seco, me odiando novamente por ter aberto a boca, mas sabendo que era tarde demais para voltar atrás.

— Perguntei se o senhor tem provas. Seus argumentos são convincentes e parecem fazer sentido, mas, se não tivermos provas para apoiar essas acusações, nós mesmos não passamos de monstros que saem por aí espalhando mentiras e propagandas enganosas.

O resto dos detentos tomou fôlego e Harrisson estreitou os olhos.

— Entendi. Bom, você tem alguma explicação apoiada em “provas”? — Mais aspas com os dedos.

Por que eu não podia simplesmente ter ficado quieta?

— Então — comecei devagar. — Mesmo se existissem tantos guardiões dampiros quanto Strigoi, a luta não seria equilibrada. Os Strigoi são quase sempre mais rápidos e mais fortes e, apesar de alguns guardiões matarem Strigoi sozinhos, normalmente eles precisam caçar em grupo. Quando olhamos para a população dampira, dá pra ver que ela não está à altura da Strigoi. Os dampiros estão em menor número. Não conseguem se reproduzir com tanta facilidade quanto os Moroi ou os humanos... ou mesmo os Strigoi, se o senhor chamar isso de reprodução.

— Bom, pelo que entendo — Harrison disse —, você é uma especialista em reprodução Moroi. Talvez queira ajudar a aumentar a quantidade de dampiros pessoalmente, não é?

Risadinhas surgiram pela sala e não consegui não corar de vergonha.

— Não era a minha intenção, senhor. Só estou dizendo que, se formos analisar criticamente os motivos pelos quais...

— Sydney — ele interrompeu —, infelizmente nós não vamos analisar nada, já que está claro que você ainda não está pronta para participar desta aula.

Meu coração parou. Não. Não, não, não. Eles não podiam me mandar de volta para a escuridão, quando mal tinha saído de lá.

— Senhor...

— Eu acho — ele continuou — que um pouco de purgação pode deixar você mais apta a participar com o nosso grupo.

Eu não fazia ideia do que isso significava, mas dois homens fortes de terno entraram subitamente na sala, que devia estar sob vigilância. Tentei protestar, mas os homens rapidamente me escoltaram para fora da sala antes que conseguisse fazer um apelo a Harrison. Então, argumentei com os brutamontes, dizendo que aquilo era claramente um mal-entendido e que, se me dessem uma segunda chance, poderíamos resolver tudo. Mas eles continuaram quietos e de cara fechada, e senti um frio na barriga com a ideia de ficar trancafiada de novo. Eu me achara tão superior aos joguinhos mentais dos alquimistas e seus itens de conforto que não tinha percebido como já estava dependente deles. A ideia de ficar sem minha dignidade e necessidades básicas era quase insuportável.

Mas eles só me levaram um andar abaixo dessa vez, não de volta para as celas. Na sala onde entramos, a luz era tão forte que fazia doer os olhos. Havia uma grande tela na frente e uma cadeira enorme com amarras nos braços de frente para ela. Sheridan estava em pé perto da cadeira, parecendo calma como sempre... e segurando uma agulha.

Não era uma agulha de tatuador. Era uma coisa gigante e medonha, do tipo usado em injeções médicas.

— Sydney — ela disse com doçura, enquanto os homens me prendiam na cadeira. — É uma pena revê-la tão cedo.


4

Adrian

 

Eu tinha tantas perguntas para minha mãe que nem sabia por onde começar. Provavelmente a mais importante era o que ela estava fazendo ali, já que, até onde eu sabia, ela devia cumprir pena numa prisão Moroi por perjúrio e interferência numa investigação de homicídio.

— Vamos ter tempo de sobra para conversar depois — ela insistiu. — Agora temos um voo pra pegar. Humano, encontre uma mala pra nós.

— O nome dele é Trey — eu disse. — E ele é meu colega de quarto, não meu criado. — Cambaleei até o armário e peguei uma mala que tinha comprado quando me mudara para Palm Springs. Minha mãe começou a guardar meus pertences como se eu tivesse oito anos.

— Você está indo embora? — Trey perguntou, parecendo tão estupefato quanto eu.

— Pelo visto, sim. — Pensei um pouco e, de repente, pareceu uma ótima ideia. Por que eu estava ali, me torturando no meio de um deserto? Sydney tinha partido. Jill estava aprendendo rápido a bloquear o laço, graças ao meu comportamento radical dos últimos tempos. Além disso, ela também iria embora em um mês. — Estou — disse, com mais confiança. — Definitivamente estou indo. Está tudo pago até o fim do semestre. Pode ficar aqui.

Eu precisava me afastar daquele lugar cheio de lembranças de Sydney. Ela estava em tudo que eu via, não só naquele apartamento mas também em Amberwood e em Palm Springs em geral. Todo lugar me trazia alguma memória dela e, embora eu não tivesse desistido de encontrá-la, poderia continuar a busca em algum lugar que não me causasse tanta dor. Talvez esse fosse o recomeço de que eu precisava.

Além disso... minha mãe tinha voltado! Eu havia sentido tanta saudade dela quanto de Sydney, embora de um jeito diferente. Minha mãe não queria que eu falasse com ela em sonhos e meu pai se recusava a entregar minhas cartas. Eu não sabia o que Daniella Ivashkov tinha passado na prisão, mas, ao vê-la agora, não parecia ter sofrido muito. Estava elegante como sempre, bem-vestida e maquiada, movendo-se pelo quarto com aquela autoridade decidida e confiança que a definiam e tinham sido responsáveis pela sua prisão.

— Fique com isso — ela disse, me entregando algo da cômoda. — Guarde com você. É melhor não deixar junto com a bagagem.

Abaixei os olhos e encontrei um par de abotoaduras cintilantes com diamantes e rubis encravados em platina. Era um presente da tia Tatiana. Ela me dera “para ocasiões especiais”, como se eu tivesse motivos para usar milhares de dólares nas mangas. Talvez se tivesse ficado na Corte... Em Palm Springs, foram mais uma tentação, e quase as tinha penhorado numa tentativa desesperada de conseguir dinheiro. Agora, apertei-as com força por alguns momentos, deixando que as pontas afiadas furassem a palma da minha mão, e depois as enfiei no bolso.

Minha mãe terminou de fazer a mala em menos de dez minutos. Quando comentei que ela só tinha arrumado parte dos meus pertences, ela deu de ombros.

— Não temos tempo. A gente compra coisas novas pra você na Corte.

Então estávamos indo para a Corte. Não era uma grande surpresa. Minha família tinha algumas casas ao redor do mundo, mas a Corte Moroi nas montanhas Pocono da Pensilvânia era sua principal residência. Para ser sincero, não importava para onde estávamos indo desde que fosse longe daquele lugar.

Na sala, encontrei um guardião atento à nossa espera. Minha mãe o apresentou como Dale e disse que ele seria nosso motorista. Dei um adeus constrangido a Trey, que ainda estava estupefato com a reviravolta. Ele perguntou se eu queria mandar uma mensagem para Jill e para os outros, o que me fez hesitar. No fim, balancei a cabeça.

— Não precisa.

Jill entenderia meus motivos para ir embora, entenderia que precisava me afastar das lembranças e dos meus fracassos. Qualquer coisa que eu dissesse em palavras não seria nada perto do que ela saberia pelo laço, e ela poderia contar a verdade para os outros ou inventar uma história por mim. Eddie pensaria que eu estava fugindo, mas ficar naquele lugar por três meses só tinha me deixado mais infeliz, não me aproximando de Sydney. Uma mudança de ares poderia ser exatamente do que eu precisava.

Minha mãe tinha comprado passagens de primeira classe para a Pensilvânia, com Dale sentado do outro lado do corredor. Depois de tanto economizar no meu tempo de estudante, estranhei um pouco esse tipo de luxo, mas, quanto mais tempo passava com a minha mãe, mais natural aquilo parecia. Uma aeromoça veio nos oferecer bebidas, mas a dor latejante na minha cabeça me obrigou a recusar e aceitar só uma água. Além disso, queria estar com a cabeça no lugar para ouvir o que minha mãe tinha a dizer.

— Faz uma semana que estou em casa — ela disse, como se tivesse voltado de férias. — Andei ocupada reorganizando as coisas por lá, mas não parei de pensar em você.

— Como soube onde me encontrar? — perguntei. Minha localização, ligada a Jill, era um segredo muito bem guardado. Ninguém a botaria em risco revelando onde eu estava.

Ela arqueou a sobrancelha.

— Recebi uma mensagem misteriosa. Anônima. Dizia que você estava “passando por um período difícil” e precisava de mim. Tinha seu endereço e instruções rígidas para não divulgá-lo, porque você estava conduzindo uma operação importante para a rainha. Fiquei sabendo uma coisa ou outra sobre o trabalho que você anda fazendo pra nos proteger dos Strigoi. É muito impressionante.

Passando por um período difícil. Foram as palavras que Jill tinha usado para me defender na noite anterior por ter esquecido o desfile dela. Contive um grunhido. Ninguém arriscaria a segurança de Jill para contar à minha mãe onde eu estava, exceto a própria Jill.

— Alguém sabe que você está aqui? — perguntei.

— Claro que não — ela disse, ofendida. — Eu nunca revelaria segredos tão importantes para o futuro dos Moroi. Se há alguma forma de erradicar os Strigoi, vou fazer minha parte e ajudar você a fazer a sua... embora deva admitir, querido, que você realmente parece um pouquinho mal.

Se minha mãe achava que só estávamos em Palm Springs para fazer pesquisas sobre os Strigoi, eu não iria discordar. Com sorte, ela não teria motivos para pensar mais nisso agora que tinha me buscado.

— “Um pouquinho mal” é um eufemismo — eu disse.

Ela pôs a mão sobre a minha.

— Qual é o problema? Você estava tão bem. Soube que voltou a estudar. E estava fazendo esse trabalho pra rainha.

Levei um susto ao me lembrar das duas matérias que ainda não tinha fechado. Será que tinha provas finais delas também? Ou projetos para entregar? Droga. Eu tinha ficado tão atordoado pela chegada da minha mãe e pela chance de escapar que esquecera completamente a faculdade. Talvez tivesse arruinado minha última chance de sucesso universitário. Mas o orgulho na voz dela me comoveu e não consegui contar a verdade.

— Sim, andei ocupado — respondi, sem entrar em detalhes.

— Então qual é o problema? — ela repetiu.

Olhei nos olhos dela, que estavam cheios de uma compaixão rara. Antes da prisão, quase todo mundo via Daniella Ivashkov como uma aristocrata metida, fria e antipática. Eu também, mas, em raros momentos luminosos, também a via como minha mãe. E de repente me peguei contando a verdade... ou pelo menos parte dela.

— Tinha... bem, tinha uma menina.

Ela suspirou.

— Ah, Adrian. É só isso?

— Não é só isso! — exclamei, bravo. — Ela era a menina. A menina que transformou tudo. Que me transformou.

— Certo, certo — ela disse, tentando me acalmar. — Desculpe. O que aconteceu com ela?

Tentei encontrar algum jeito de contar a verdade.

— A família dela não me aprovou.

Agora minha mãe ficou brava, supondo, claro, que a menina era Moroi.

— Isso é ridículo! Você vem de uma das melhores linhagens Moroi, tanto pelo lado Tarus como pelo lado Ivashkov. Nem a rainha tem uma linhagem melhor. Se a família dessa menina vê algum problema em você, eles são loucos.

Quase abri um sorriso.

— Bom, nisso a gente concorda.

— Então qual é o problema? Se ela é adulta... Ai, Adrian, por favor, diga que ela não é menor de idade.

— Ela é adulta.

O rosto da minha mãe se encheu de alívio.

— Então ela pode tomar suas próprias decisões e ficar com você independente do que a família pensa. E, se ela concordar com eles, não merece seu tempo e você está melhor sem ela.

Eu queria dizer que não era tão simples, mas ela não havia reagido muito bem ao meu envolvimento com Rose. Uma dampira era imperdoável. Uma humana era inconcebível.

— Acho que, além da minha linhagem, tem a ver comigo particularmente — eu disse apenas.

Minha mãe soltou um “tsc” de desaprovação.

— Bom, vamos ver se ela volta a si. Quem não iria querer meu filho? Mas você não devia se deixar atingir tanto por essas coisas. Qual é o seu problema com as meninas, querido? Por que tem que ser tudo ou nada? Você leva sempre ao extremo.

— Porque não faço as coisas pela metade, mãe. Ainda mais quando se trata de amor.

Quando aterrissamos e pude ligar o celular, encontrei uma mensagem de Jill esperando por mim: Sim, fui eu. Sei que veio pra Palm Springs por minha causa, mas achei que era hora de uma mudança de ares. Quando Lissa me contou que sua mãe tinha voltado, pensei que seria bom pra você ficar com ela, então juntei os dois. Espero que não tenha problema.

Você é a melhor, Chave de Cadeia, respondi.

A resposta dela me fez sorrir: Você não sabe nem da metade. Suas outras matérias requeriam projetos finais, não provas. Eu e Trey reviramos seu apartamento e encontramos alguns projetos inacabados pra entregar. Não sei se vai dar pra passar, mas alguns pontos são melhores que nada.

Era de esperar. Jill acompanhava melhor do que eu as coisas que eu precisava entregar para a faculdade. Havia diversos projetos que eu tinha começado e largado no meio, então não sabia o que ela havia entregado, mas, considerando meu estado recente, deviam ser melhor do que qualquer coisa que eu tivesse feito de propósito para os trabalhos finais. Agora estava nas mãos do destino.

No entanto, enquanto Gale nos levava para a Corte de carro, uma coisa não saía da minha cabeça. Minha mãe tinha dito que voltara uma semana antes. Jill dera meu endereço a ela, o que estimulara uma visita em pessoa, mas isso teria sido mesmo necessário? Ainda que a localização de Jill fosse segredo, se minha mãe tivesse pedido, Lissa teria tomado providências para que ela conseguisse me telefonar de forma segura. Por que ela não tinha pedido? Era quase como se estivesse adiando falar comigo e só tivesse agido quando Jill chamou atenção aos meus problemas. Mas, mesmo se eu estivesse bem, minha mãe iria querer entrar em contato comigo... certo?

Ou talvez eu estivesse sendo paranoico. Não podia duvidar do amor da minha mãe. Apesar dos seus defeitos, ela se importava comigo, e ver que estava viva e bem me lembrou de como ficara aflito durante seu confinamento. Porém, todas as vezes que tentei falar da prisão, ela fugiu do assunto.

— Acabou — ela disse simplesmente enquanto passávamos pelos portões de segurança da Corte. — Cumpri minha sentença, e ponto. A única coisa que você precisa saber é que isso me fez reavaliar minhas prioridades e o que realmente importa na vida. — Ela tocou meu rosto de leve. — E você está no topo dessas prioridades, querido.

A Corte Moroi parecia uma universidade, com vários prédios góticos antigos dispostos num terreno amplo. Na verdade, para o mundo humano, era uma instituição acadêmica, uma universidade particular de elite em que ninguém costumava interferir. Funcionários do governo e alguns membros da realeza Moroi tinham residência permanente ali, e também havia acomodações para hóspedes e todo tipo de serviços para tornar a vida suportável. Era, em certo sentido, uma cidade fechada.

Imaginei que minha mãe fosse nos levar para casa, mas, em vez disso, estacionamos em frente a um dos prédios para hóspedes.

— Depois de morar sozinho, imaginei que não iria querer ficar comigo e seu pai — ela explicou. — Depois a gente pensa em algo mais permanente, mas, por enquanto, a rainha arranjou um quarto pra você.

Fiquei surpreso, mas ela estava certa em relação a uma coisa: eu realmente não queria meu pai monitorando aonde eu ia ou deixava de ir. Nem ela, na verdade. Não que estivesse planejando grandes noitadas. Estava ali para recomeçar, decidido a usar todos os recursos disponíveis para ajudar Sydney. Porém, depois de se esforçar tanto para me encontrar, eu pensava que minha mãe fosse me querer trancado dentro de casa.

O recepcionista do prédio me deu as chaves do quarto e minha mãe se despediu com um abraço.

— Tenho um compromisso, mas amanhã a gente se vê, pode ser? Vamos receber convidados para o jantar. Tenho certeza de que seu pai adoraria te ver. Passe lá e a gente conversa. Você vai ficar bem agora, não vai?

— Claro — eu disse. Tínhamos perdido boa parte do dia por causa da viagem e do fuso-horário. — Não tem muito o que fazer a essa hora. Acho que vou pra cama cedo.

Ela me deu outro abraço e subi para o quarto, que era uma suíte digna de um hotel cinco estrelas. Depois de pôr a mala num canto, fiz algumas ligações e comecei a pôr meus planos em ação. Feito isso, tomei um banho rápido (o primeiro do dia) e saí logo em seguida. Mas não para me divertir.

Mas, claro, algumas pessoas considerariam um encontro com Rose Hathaway e Lissa Dragomir bem divertido.

As duas viviam no lugar que por ali era chamado de palácio real, embora, do lado de fora, mantivesse a mesma fachada universitária dos outros prédios. Ao entrar, todo o peso da história Moroi caía sobre o visitante com a grandeza do Velho Mundo: candelabros de cristal, cortinas de veludo, retratos a óleo de monarcas antigos. Os aposentos da rainha, porém, eram bem modernos, pois foram decorados mais de acordo com o gosto pessoal dela do que com seu cargo. Eu ficava feliz por Lissa ter escolhido aposentos diferentes daqueles em que minha tia havia morado — e morrido. Já era surreal o bastante estar naquele lugar sem essa lembrança para me assombrar.

As duas estavam na sala de estar de Lissa quando cheguei. Lissa estava sentada de pernas cruzadas num sofá, cercada de livros, enquanto Rose se acomodara de cabeça para baixo numa poltrona, deixando o longo cabelo preto se esparramar pelo chão. Ao me ver, ela levantou de um salto com sua habilidade e elegância dampira, correu até mim e me deu um breve abraço caloroso.

— Você está mesmo aqui! Achei que fosse uma piada. Imaginei que ficaria com Jill.

— Ela não precisa de mim agora — eu disse, indo abraçar Lissa, que levantou, abandonando os livros. — As aulas estão acabando e ela tem um monte de coisas pra mantê-la ocupada.

— Nem me fale — Rose disse, revirando os olhos. — A srta. Estudiosa aqui está acabando com toda a diversão.

Lissa abriu um sorriso carinhoso para a melhor amiga.

— As provas começam amanhã.

— As minhas já acabaram — eu disse.

— E você foi bem? — Lissa perguntou, sentando de novo.

Olhei para os livros dela.

— Digamos apenas que não me esforcei tanto quanto você.

— Viu? — Rose resmungou. Ela se jogou de volta na poltrona, com os braços cruzados.

Sentei entre as duas e pensei nas minhas poucas chances de passar naquele semestre.

— Acho que Lissa está fazendo a coisa certa.

Aos dezoito anos, Lissa era a rainha mais jovem da história Moroi, eleita em meio ao caos que se seguiu à morte da minha tia. Ninguém acharia ruim se ela não fosse à faculdade ou simplesmente estudasse à distância. Lissa, porém, havia se mantido fiel a seu sonho de ir para uma grande universidade e acreditava que, como monarca, era agora duplamente importante ter uma educação de qualidade. Ela frequentava a Universidade Lehigh, a algumas horas de distância, e vinha mantendo notas altas ao mesmo tempo que regia uma nação turbulenta. Ela e Sydney se dariam muito bem.

Lissa pôs os pés numa mesa de centro e usei o espírito rapidamente para ver sua aura. Estava quente e alegre, como devia estar, com um tom dourado que a marcava como usuária de espírito.

— Então vai entender por que não posso conversar muito. Preciso decorar algumas datas e lugares antes de ir para a cama hoje e amanhã de manhã vamos pra faculdade. Na verdade, vamos passar o resto da semana no campus.

— Não pretendo tomar seu tempo — eu disse. — Só vim perguntar uma coisa.

Lissa pareceu um pouco surpresa e percebi que ela achava que aquele seria só um encontro social.

— Você descobriu mais alguma coisa sobre o que aconteceu com Sydney Sage?

Sua surpresa virou espanto.

— De novo isso? — Lissa perguntou. Ela soou menos atenciosa do que sei que pretendia. Ninguém fora do círculo de Palm Springs sabia o que Sydney significava para mim e Lissa não tinha uma relação de amizade com ela, ao contrário de Rose.

Tanto é que a menção a Sydney fez Rose franzir a testa.

— Ela ainda está desaparecida?

Lissa olhou de mim para ela.

— Não sei nada além do que te contei meses atrás. Dei uma averiguada. Eles disseram que ela tinha sido transferida e que essa informação era confidencial.

— Isso é mentira — eu disse, veemente. — Eles sequestraram Sydney e a mandaram para um dos malditos centros de reeducação!

— Você já disse isso antes e, a menos que as coisas tenham mudado, não tem provas — Lissa falou, calma. — Sem isso, eu dificilmente poderia acusar os alquimistas de estarem mentindo... e, pra falar a verdade, que direito eu tenho de perguntar o que eles fazem com os funcionários deles?

— Você tem esse direito porque o que eles estão fazendo vai contra as regras básicas de moral e respeito pelos outros. Ela está presa, sendo torturada.

Lissa balançou a cabeça.

— Nisso também não posso interferir. Os guardiões vivem capturando dampiros que fogem do treinamento e depois os punem. E se os alquimistas tentassem se intrometer nisso? Nós diríamos o que estou dizendo agora: são jurisdições diferentes. Eles têm o povo deles, nós temos o nosso. Agora, se algum dos nossos estivesse em perigo nas mãos dos alquimistas, aí sim eu teria todo o direito de me envolver.

— Mas você não vai. Porque ela é humana — eu disse, categórico. Todas as esperanças que tivera ao chegar ali começaram a vacilar.

Rose pelo menos pareceu um pouco mais solidária.

— Eles estão mesmo torturando Sydney?

— Sim — eu disse. — Quer dizer, não estou em contato direto com ela nem com ninguém que tenha falado com ela pra dizer o que estão fazendo exatamente, mas conheço uma pessoa que sabe bastante sobre situações como a dela.

Tristeza — por mim — brilhou nos olhos verde-claros de Lissa, muito parecidos com os de Jill.

— Adrian, percebe como essa história é enrolada?

Indignação e raiva se acenderam dentro de mim, tanto pela minha impotência quanto pelo fato de os alquimistas terem enganado Lissa com suas mentiras.

— Mas é verdade! Sydney se dava bem com todos nós. Ela parou de agir como uma alquimista que acha que somos criaturas do mal. Virou nossa amiga. Tratava Jill como uma irmã... O que é irônico, porque depois foi traída pela própria irmã. Pode perguntar pro Eddie. Ele estava lá quando a levaram.

— Mas não depois disso — Lissa concluiu. — Ele não viu se ela foi levada para algum centro de tortura, como você diz. Talvez ela só tenha sido transferida para outro lugar... um lugar bem longe de vocês. Talvez esse seja o único “tratamento” que os alquimistas estejam dando pra ela se acham que vocês interferiram nas ideologias deles.

— Eles fizeram mais do que isso — vociferei. — Posso sentir.

— Liss — Rose começou, apreensiva. — Deve ter alguma coisa que você possa fazer...

Voltei a ter esperança. Se Rose estava me apoiando, talvez pudéssemos convencer outras pessoas a ajudar por baixo dos panos.

— Olha — eu disse. — E se a gente tentasse outra tática? Em vez de perguntar diretamente aos alquimistas, e se a gente mandasse... sei lá... uma equipe de resgate investigar alguns dos possíveis lugares onde ela pode estar presa? — Parecia uma ideia genial. Marcus tinha poucos recursos para investigar sua lista, mas talvez pudéssemos recrutar os Moroi e outros dampiros.

Rose sorriu.

— Eu com certeza ajudaria. Sydney é minha amiga e tenho experiência com...

— Não! — Lissa exclamou, levantando. — Parem, vocês dois! Estão ouvindo o que estão falando? Me pedindo para mandar uma “equipe de resgate” invadir um centro dos alquimistas? Isso é quase um ato de guerra! Conseguem imaginar como soaria se fosse o contrário? Se eles mandassem equipes de humanos pra nos investigar?

— Considerando a falta de ética deles — eu disse —, não ficaria surpreso se já tivessem tentado.

— Não — Lissa repetiu. — Não posso fazer mais nada, pelo menos não enquanto não afeta meu povo diretamente. Queria poder ajudar todas as pessoas do mundo, inclusive Sydney. Mas agora minhas responsabilidades são com o meu povo. Se for para correr riscos, será em nome dele.

Levantei, cheio de raiva e decepção e um monte de outros sentimentos que não conseguia definir.

— Pensei que fosse um tipo diferente de líder. Que defendesse o que é certo.

— E defendo — ela disse, tentando manter a calma com o que parecia muito esforço. — No momento estou lutando por mais liberdade para os dampiros, apoiando os Moroi que querem se defender sozinhos e emendando a lei para que minha própria irmã possa parar de se esconder! Estou fazendo tudo isso ao mesmo tempo que vou pra faculdade e tento ignorar a facção barulhenta que vive pedindo minha destituição. E nem pergunte que tempo sobra para minha vida pessoal. Isso é suficiente para você, Adrian?

— Pelo menos você tem uma vida pessoal — murmurei. Segui em direção à porta. — Desculpe interromper seus estudos. Boa sorte nas provas.

Rose tentou me chamar de volta, mas Lissa gritou o nome dela. Ninguém veio atrás de mim e segui dos aposentos reais até os corredores serpenteantes do palácio. Fúria e frustração ardiam dentro de mim. Eu estivera tão certo de que, se apelasse a Lissa cara a cara — sóbrio, ainda por cima! — e explicasse o caso, ela faria alguma coisa por Sydney. Entendia que os alquimistas estavam bloqueando as tentativas oficiais de Lissa, mas ela poderia ter encontrado um punhado de Rose Hathaways para investigar! Lissa tinha me decepcionado. Apesar de sua pose de rebelde, no fim das contas provara que não passava de uma burocrata como qualquer outro político.

O desespero começou a percorrer meu corpo, sombrio e traiçoeiro, me dizendo que eu tinha sido um idiota de ir até ali. Como pude acreditar que alguma coisa mudaria? Rose queria ajudar, mas será que eu conseguiria convencê-la a agir pelas costas da melhor amiga? Provavelmente não. Rose estava presa pelo sistema. Eu estava preso pela minha incapacidade de encontrar Sydney. Não servia para ela, não servia para nada nem para ninguém...

— Adrian?

Estava prestes a sair do palácio quando ouvi uma voz atrás de mim. Virei e encontrei uma linda Moroi de olhos cinza e cabelo escuro encaracolado vindo na minha direção. Por um momento, a tempestade emocional nublou minha capacidade de reconhecimento. Então lembrei:

— Charlotte?

Ela abriu um sorriso largo e me deu um abraço inesperado.

— É você mesmo — ela disse, contente. — Fiquei preocupada quando desapareceu. Não respondeu às minhas mensagens nem aos telefonemas.

— Não é nada pessoal — garanti, segurando a porta aberta. — Não tenho falado com quase ninguém. — Era verdade. Eu tinha sumido depois que levaram Sydney.

Aqueles olhos extraordinariamente cinza me observaram com preocupação.

— Está tudo bem?

— Sim, sim. Quer dizer, não. É complicado.

— Bom, eu tenho tempo — ela disse, enquanto saíamos para a noite quente de verão. — A gente pode comer alguma coisa e conversar.

Hesitei, sem saber se queria desabafar. Conhecera Charlotte no começo do ano, logo depois de ela ajudar a irmã a se transformar de volta da forma Strigoi. Charlotte era uma usuária de espírito como eu e me ajudou quando tentei capturar parte do poder necessário para restaurar um Strigoi — um poder que, segundo descobrimos, seria possível usar como uma vacina para impedir que outras pessoas fossem transformadas à força. A irmã dela, Olive, era a grande amada de Neil, embora isso talvez fosse um exagero. Os dois tinham se visto algumas vezes e talvez tenha havido um envolvimento rápido, mas, quando ela cortou a comunicação, ele sofreu como se tivessem ficado juntos por anos.

— Sou uma boa ouvinte — Charlotte disse quando não respondi.

Abri um sorriso para ela.

— Aposto que sim. Só não quero te deprimir.

— Me deprimir? — Ela deu uma risada triste. — Boa sorte com isso. Em primeiro lugar, o espírito já faz isso sozinho, então sua concorrência está forte. Desde que restaurei Olive, sinto uma... sei lá... uma espécie de névoa melancólica? Entende?

— Sim — respondi. — Entendo bem.

— Bom, essa névoa tem me visitado todo dia agora, o que deixa a vida uma delícia, como você pode imaginar. Pra melhorar, depois de passar por tudo aquilo com Olive, ela fugiu num tipo de viagem espiritual porque achou que precisava de um “tempo sozinha” pra pensar em tudo o que aconteceu! Não sei como, mas ela consegue interromper nossos sonhos antes que a gente consiga conversar direito. Queria ir atrás dela, mas Sonya insiste que eu fique aqui para ajudar com a pesquisa sobre o espírito. Eles me arranjaram um quarto chique, mas não tenho muita renda, então tive que pegar um trabalho de meio período como secretária no palácio. Pode apostar, fazer “serviço de atendimento” pra um bando de gente metida da realeza é um novo círculo do inferno. — Ela parou ao lembrar com quem estava falando. — Sem ofensa.

Soltei uma risada sincera, talvez pela primeira vez em muito tempo.

— Tudo bem, conheço exatamente o tipo de pessoa de quem você está falando. Aliás, se conseguir falar com sua irmã, avise que ela está partindo o coração do pobre Neil.

— Vou avisar — Charlotte disse. — Acho que ele é uma das coisas sobre as quais ela está refletindo.

— Isso é bom ou ruim? — perguntei.

— Não faço ideia — ela riu.

Também comecei a rir e, de repente, decidi aceitar a oferta dela.

— Certo. Vamos comer alguma coisa... Se bem que, sinceramente, depois das últimas vinte e quatro horas, acho que prefiro uma bebida. Você não toparia beber alguma coisa, toparia? — Provavelmente era uma péssima ideia, mas isso nunca me impedira antes.

Charlotte pegou minha mão e começou a me levar na direção de um prédio do outro lado do gramado.

— Graças a Deus — ela disse. — Achei que nunca fosse sugerir isso.


5

Sydney

 

Por um momento, quando vi a seringa, pensei que Sheridan faria algum retoque fortificado da tatuagem. Assim, em vez de pequenas quantidades de tinta enfeitiçada na minha pele, ela injetaria uma dose monstruosa para me manter na linha.

Não importa, tentei dizer a mim mesma. A magia me protege, por mais forte que seja a dose que eles usem. As palavras pareciam fazer sentido, mas eu não tinha certeza se eram verdade.

Mas Sheridan estava planejando algo muito diferente.

— As coisas pareciam tão promissoras quando nos falamos pela última vez — ela disse, depois de enfiar a agulha no meu braço. — Não acredito que não durou nem uma hora sozinha.

Quase disse “é difícil se livrar de velhos hábitos”, mas lembrei que precisava fingir arrependimento se quisesse sair dali.

— Desculpe — eu disse. — Deixei escapar. Vou pedir desculpas para Harrison se for...

Uma sensação estranha começou a brotar no meu estômago, começando como um leve desconforto, e então crescendo e crescendo até explodir numa náusea absoluta, do tipo que domina todo o corpo. Parecia ter um maremoto dentro do meu estômago e minha cabeça começou a latejar. Também sentia minha temperatura subir e calor por todo o corpo.

— Vou vomitar — eu disse. Tentei abaixar a cabeça, mas a cadeira me mantinha presa no lugar.

— Não — Sheridan disse. — Não vai. Não por enquanto. Aproveite o filme.

Além das algemas, o suporte para a cabeça impedia que eu me virasse, me obrigando a olhar para a tela. Um filme começou e me preparei para imagens horríveis. Mas o que vi foi... Moroi. Moroi felizes. Moroi simpáticos. Crianças Moroi. Moroi fazendo coisas do dia a dia, praticando esportes e comendo em restaurantes.

No entanto, estava aflita demais para entender aquelas imagens enigmáticas. Só conseguia pensar em como queria vomitar. Era um enjoo daqueles que só passa se você bota o veneno para fora. Mas, não sei como, Sheridan estava certa. Eu não conseguia fazer meu corpo vomitar, por maior que fosse a vontade. Em vez disso, fiquei ali, sentada, enquanto aquela náusea terrível e avassaladora retorcia minhas entranhas. Ondas de agonia dominaram meu corpo. Não parecia possível haver tanto tormento dentro de mim. Gemendo, fechei os olhos, tentando fazer a cabeça parar de girar. Mas Sheridan viu outra intenção no gesto.

— Não — ela disse. — Acredite, vai ser muito mais fácil para você se assistir por livre e espontânea vontade. Temos meios de manter seus olhos abertos. Você não vai gostar deles.

Pisquei para conter as lágrimas e voltei a me concentrar na tela. Apesar do sofrimento, tentei entender por que ela estava me mostrando fotos de Moroi felizes. Que importância isso tinha quando meu corpo estava sendo revirado do avesso?

— Você está tentando... — A náusea subiu pela garganta e, por um breve momento, achei que pudesse vomitar. Não tive esse alívio. — ... criar um tipo de reação pavloviana.

Era uma técnica clássica de condicionamento: mostrar a imagem e fazer com que me sentisse terrível enquanto olhava para ela, para que passasse a associar os Moroi — Moroi felizes e inofensivos — ao sofrimento e ao desconforto extremo. Só havia um problema:

— V-você precisa de várias sessões pra isso surtir efeito — comentei. Uma vez não bastaria para me fazer sentir uma repulsa instantânea contra os Moroi.

O olhar que Sheridan me lançou deixou claro o que eu poderia esperar no futuro.

Senti um aperto no peito. Ou talvez fosse no meu estômago. Para ser sincera, do jeito como minhas entranhas doíam, não dava para distinguir uma parte da outra. Não sei por quanto tempo me mantiveram naquele estado. Talvez uma hora. Não dava muito para contar o tempo quando meu objetivo era simplesmente sobreviver a cada onda avassaladora de enjoo. Depois do que pareceu uma eternidade, Sheridan me deu outra injeção e a tela ficou escura. Os homens soltaram as amarras e alguém me entregou um balde.

Por alguns segundos, não entendi. Então, o que quer que estivesse impedindo meu corpo de vomitar parou de funcionar. Meu almoço voltou e, mesmo depois disso, meu estômago continuou tentando expelir mais. O sofrimento foi reduzido a uma náusea seca e tosse, até parar por completo. Foi um processo longo e doloroso e eu não estava nem ligando que tinha acabado de vomitar — e muito — na frente de outras pessoas. No entanto, por mais terrível que tivesse sido, me sentia melhor depois de ter expulsado o que quer que havia causado aquela náusea. Um dos funcionários levou o balde embora discretamente e Sheridan fez o favor de me oferecer um copo d’água, além de me deixar escovar os dentes numa pequena pia na lateral da sala. Ficava perto de um armário de medicamentos e de um espelho, que me permitiu ver meu estado lamentável.

— Bom — Sheridan disse alegremente. — Parece que você está pronta para a aula de artes.

Aula de artes? Eu estava pronta para deitar e dormir. Meu corpo estava trêmulo e fraco, e meu estômago parecia ter sido virado do avesso. Porém, ninguém pareceu notar ou se importar com meu estado debilitado e os seguranças me levaram para fora da sala. Sheridan deu tchau e disse que me veria em breve.

Minha escolta me levou para o andar superior, onde ficavam as salas de aula, até uma que servia de ateliê para os prisioneiros. Addison, a inspetora andrógina do refeitório, estava começando a aula, dando instruções para a tarefa do dia, que, pelo visto, era continuar pintando uma cesta de frutas. Não me surpreendia que uma aula de artes alquimista tivesse o projeto mais sem graça de todos. Embora ela ainda estivesse falando quando entrei, todos os olhos se voltaram na minha direção. Quase todas as expressões eram frias. Algumas até um pouco satisfeitas. Todos sabiam o que havia acontecido comigo.

Uma coisa que eu tinha entendido na aula anterior era que, ao contrário do que acontecia em Amberwood, na reeducação os lugares mais disputados eram perto dos professores. Isso permitiu que eu fosse discretamente para o fundo da sala. Poucos olhares poderiam me seguir até lá a menos que se virassem descaradamente e ignorassem Addison, e ninguém faria isso. Me concentrei em continuar de pé e quase não ouvi o que ela dizia.

— Alguns de vocês fizeram um bom progresso ontem. Emma, o seu está indo particularmente bem. Lacey, Stuart, vocês precisam recomeçar do zero.

Do fundo, conseguia ver todos, e tentei ligar cada pessoa a seu cavalete. Pensei que talvez a purgação tivesse confundido meu cérebro, porque os comentários de Addison não faziam sentido. Mas não, estava certa de que identificara as pessoas corretamente. Aquela era Emma, minha colega de quarto, uma menina que parecia ter ascendência asiática e que prendia o cabelo preto num coque tão apertado que devia esticar a pele dela. Seu quadro não me pareceu nada especial e quase não dava para reconhecer nenhuma fruta. Stuart era um dos que tinham afastado a carteira de mim na aula do Harrison. Ele parecia ter algum talento artístico e achei que seu quadro era um dos melhores. Só descobri quem era Lacey quando ela trocou a tela por uma vazia. Sua pintura não era tão boa quanto a de Stuart, mas era infinitamente melhor que a de Emma.

A questão não é o talento, percebi finalmente. É a precisão. As peras de Stuart eram perfeitas, mas ele havia acrescentado algumas a mais do que na vida real. Também tinha alterado a posição das frutas e pintado uma cesta azul — que era muito mais bonita do que a marrom sendo usada no modelo. Emma, embora tivesse um trabalho muito mais rudimentar, desenhara o número correto de frutas, havia arranjado todas na posição perfeita e escolhido a cor exata para cada uma. Os alquimistas não queriam criatividade ou beleza. Só tínhamos que copiar o que nos mandavam copiar, sem perguntas ou variações.

Ninguém tentou me ajudar ou aconselhar, então fiquei parada por um tempo, tentando ver o que os outros estavam fazendo. Eu já vira Adrian usar tinta acrílica, mas nunca tentara pintar eu mesma. Havia um estoque de pincéis e tubos de tinta perto da fruteira, então fui até lá com alguns outros alunos e tentei pegar algumas cores pra começar. Todos abriram espaço para mim e, quando escolhi e descartei uma cor por não ser parecida o bastante com o modelo, a próxima pessoa que a pegou fez questão de limpar o tubo antes de levar para o lugar. Finalmente, voltei para o cavalete com vários tubos e, embora não pudesse garantir minha capacidade de imitar as frutas, estava razoavelmente confiante de que as cores estavam certas. Pelo menos essa parte do jogo alquimista eu poderia jogar.

O difícil, porém, era pôr a mão na massa. Ainda me sentia péssima e fraca, e estava com dificuldade até para apertar o tubo de tinta. Minha esperança era de que a rapidez não contasse para a nota. Quando finalmente me considerei capaz de passar o pincel na tela, a porta da sala se abriu e Sheridan entrou com um dos seus homens. Cada um estava segurando uma bandeja cheia de copos e ela não precisou dizer uma palavra porque identifiquei apenas pelo cheiro.

Café.

— Desculpe pela interrupção — Sheridan disse, com seu grande sorriso falso. — Todo mundo anda trabalhando tanto ultimamente que resolvemos oferecer um presentinho pra vocês: lattes de baunilha.

Engoli em seco e fiquei olhando, incrédula, enquanto meus companheiros de prisão se atropelavam na direção dela. Lattes de baunilha. Quantas vezes tinha sonhado com isso no cativeiro, quando estava quase morrendo de fome, sobrevivendo à base de mingau morno? Nem importava se eram light ou cheios de açúcar. Fazia tanto tempo que não via nada assim que meu primeiro impulso foi correr junto com os outros para pegar um copo.

Mas não podia. Não depois da purgação por que tinha acabado de passar. Meu estômago e minha garganta estavam em carne viva, e sabia que, se comesse ou bebesse qualquer coisa que não fosse água, vomitaria na hora. O café era um canto da sereia para minha mente, mas meu estômago sensível sabia das coisas. Não conseguiria engolir nem aquele mingau agora, muito menos um latte.

— Sydney? — Sheridan perguntou, fixando aquele sorriso em mim. Ela levantou a bandeja. — Ainda há um copo. — Sem dizer nada, recusei com a cabeça e ela pôs o copo na mesa de Addison. — Vou deixar aqui caso você mude de ideia, tudo bem?

Não conseguia tirar os olhos daquele copo e me perguntei o que Sheridan queria mais: me ver passando vontade ou que eu corresse o risco de vomitar na frente dos meus colegas.

— É o seu favorito? — uma voz baixa perguntou.

Eu tinha tanta certeza de que ninguém estaria falando comigo que demorei para olhar para a pessoa. Com grande esforço, tirei os olhos do latte que tanto desejava e descobri que era meu vizinho quem tinha falado, um rapaz alto e bonito que devia ser uns cinco anos mais velho que eu. Ele era magro e usava óculos de aro fino que lhe davam um ar intelectual — como se não bastasse ser alquimista.

— Por que você acha isso? — perguntei baixinho.

Ele abriu um sorriso sarcástico.

— Porque é sempre assim. Quando alguém passa pela primeira purgação, os outros são “recompensados” com a comida favorita da pessoa. Desculpe por isso, aliás. — Ele parou para beber um pouco do seu latte. — Mas faz séculos que não bebo café.

Fiz uma careta e desviei os olhos.

— Fique à vontade.

— Pelo menos você resistiu — ele acrescentou. — Nem todo mundo resiste. Addison não iria gostar se a gente derrubasse bebida quente aqui, mas gostaria ainda menos se alguém vomitasse no ateliê dela.

Olhei para a nossa professora, que estava dando conselhos para uma detenta de cabelo grisalho.

— Ela parece não gostar de muitas coisas. Exceto chiclete.

O cheiro de café estava mais forte do que nunca, ao mesmo tempo sedutor e nauseante. Tentando desesperadamente bloquear o aroma, ergui o pincel e estava prestes a arriscar umas uvas quando ouvi um “tsc” de desaprovação ao meu lado. Olhei para o rapaz, que balançava a cabeça para mim.

— Você vai começar assim? Poxa, pode até não ter os valores de uma boa alquimista, mas ainda devia ter a lógica de uma. Tome. — Ele me ofereceu um lápis. — Rascunhe. Pelo menos desenhe quadrantes para te guiar.

— Não tem medo de que eu vá corromper seu lápis? — As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse impedir.

Ele riu baixinho.

— Pode ficar com ele.

Me virei para a tela em branco e fiquei olhando para ela por alguns segundos. Com cuidado, a dividi em quatro partes e, em seguida, comecei a desenhar a cesta de frutas, prestando atenção na posição de cada uma em relação às outras. No meio do processo, notei que o cavalete estava muito alto para mim, complicando ainda mais as coisas, mas não consegui descobrir como ajustá-lo. Ao notar minha dificuldade, o rapaz ao meu lado se aproximou e, habilmente, abaixou o cavalete para uma altura mais adequada antes de voltar para o seu trabalho.

— Obrigada — eu disse. A tela esperando à minha frente diminuiu qualquer prazer que eu pudesse ter sentido com o gesto simpático. Voltei para a minha tentativa de rascunho. — Já vi meu namorado fazer isso centenas de vezes. Nunca pensei que faria o mesmo como algum tipo de terapia bizarra.

— Seu namorado é artista?

— Sim — eu disse, desconfiada, sem saber se queria entrar nesse assunto. Graças a Sheridan, não era nenhum segredo que ele era Moroi.

O rapaz achou graça.

— Artista, é? Essa eu nunca tinha ouvido. Normalmente, quando conheço meninas como você, que se apaixonam por eles, elas só falam sobre como os caras são bonitos.

— Ele é muito bonito mesmo — admiti, curiosa sobre quantas meninas como eu ele já tinha conhecido.

Ele abanou a cabeça, rindo, enquanto trabalhava no quadro.

— Claro. Devia ser mesmo, pra você ter corrido o risco, né? Alquimistas nunca se apaixonam por Moroi que não sejam bonitos e atormentados.

— Nunca disse que ele era atormentado.

— Ele é um vampiro “muito bonito” que pinta. Vai me dizer que não é uma alma atormentada?

Senti que estava um pouco vermelha.

— Um pouco, sim. Tudo bem... muito.

Meu vizinho voltou a rir, e pintamos em silêncio por um tempo. Então, do nada, ele disse:

— Meu nome é Duncan.

Fiquei tão espantada que o pincel escapou, fazendo minha banana já ruim ficar ainda pior. Em mais de três meses, aquelas eram as primeiras palavras gentis que alguém me dizia.

— O meu... o meu é Sydney.

— Eu sei — ele disse. — É um prazer conhecer você, Sydney.

Minha mão começou a tremer, me obrigando a abaixar o pincel. Eu tinha passado meses de privação no escuro, suportado os olhares feios e xingamentos dos meus colegas de reeducação e, sabe-se lá como, sobrevivido quando me fizeram passar mal, tudo sem derramar uma lágrima. Mas aquela pequena gentileza, aquele gesto simples entre duas pessoas... partiu meu coração como nada mais tinha partido. Me fez lembrar de como eu estava longe de tudo: de Adrian, dos meus amigos, da segurança, da sanidade... tudo tinha ficado para trás. Eu estava em uma prisão fortemente regulada, onde todos os meus movimentos eram controlados por pessoas que queriam mudar a forma como eu pensava. E não havia sinal de quando sairia dali.

— Ei, ei — Duncan disse, de repente. — Nada disso. Eles adoram quando você chora.

Pisquei para conter as lágrimas e dei um rápido aceno com a cabeça enquanto voltava a pegar o pincel. Comecei a desenhar de novo, mal sabendo o que estava fazendo. Duncan também continuou a pintar, mantendo os olhos fixos na sua obra enquanto falava.

— Você já deve conseguir comer na hora do jantar. Mas não exagere. Seja esperta com o que escolher... e não fique surpresa se encontrar outra comida favorita no menu.

— Eles realmente levam isso a sério, hein? — resmunguei.

— Sim. Sim, levam mesmo. — Mesmo sem olhar, pude notar que ele estava sorrindo, mas logo sua voz voltou a ficar séria. — Você me lembra uma pessoa que conheci aqui. Ela era minha amiga. Quando as autoridades aqui perceberam que éramos amigos, ela foi mandada embora. Amigos são armaduras e eles não gostam disso. Entende o que estou dizendo?

— A-acho que sim — balbuciei.

— Que bom. Porque quero ser seu amigo.

O sinal que anunciava o fim da aula tocou e Duncan começou a juntar suas coisas. Quando ele estava saindo, perguntei:

— Qual era o nome dela? Da sua amiga que foi levada embora?

Ele parou e me arrependi imediatamente de ter perguntado quando vi a dor que perpassou seu rosto.

— Chantal — ele disse por fim, com uma voz que não passava de um murmúrio. — Faz mais de um ano que não a vejo. — Algo no seu tom me fez suspeitar que ela era mais do que uma amiga. Mas não pude pensar muito nisso, porque estava processando o resto do que ele tinha dito.

— Um ano... — murmurei, incrédula. — O que você fez pra ser mandado pra cá?

Ele respondeu com um sorriso triste.

— Não esqueça o que eu te disse, Sydney. Sobre amigos.

Eu não esqueci. Tanto que, quando ele não voltou a falar comigo pelo resto do dia e, em vez disso, passou o tempo com detentos que me encaravam e riam com desprezo, eu entendi. Ele não podia demonstrar nenhum tratamento especial, não com nossos colegas e os olhos invisíveis dos alquimistas sempre observando. Mas suas palavras arderam dentro de mim, me dando força. Amigos são armaduras. Quero ser seu amigo. Eu estava presa naquele lugar terrível, sob tortura e controle mental... mas tinha um amigo, um único amigo, mesmo que ninguém mais soubesse disso. Essa consciência me fortaleceu, me ajudou a aguentar mais uma aula cheia de mentiras sobre os Moroi e suportar quando uma menina me fez tropeçar no corredor, murmurando:

— Vagabunda adoradora de vampiros.

Nossa última aula não era uma aula de verdade. Em vez disso, tínhamos uma “hora da comunhão”, que acontecia numa sala chamada santuário, onde pelo jeito também era ministrada a missa de domingo. Tomei nota disso porque significava que eu teria uma maneira de marcar o tempo. Era um lugar bonito, com pé-direito alto e bancos de madeira. Mas sem janelas. Pelo visto eles levavam a sério essa história de nos isolar de todas as opções de fuga — ou talvez fosse bom demais para o moral dos prisioneiros ver o sol e o céu de vez em quando.

Uma parede do santuário era cheia de coisas escritas e parei na frente dela enquanto os outros detentos iam entrando. Ali, sobre os tijolos pintados de branco, havia registros de todos que vieram antes de mim. Alguns eram curtos e diretos: Perdoai-me, porque pequei. Outros eram parágrafos inteiros, detalhando os crimes de que foram acusados e o desejo de redenção. Alguns estavam assinados, outros eram anônimos.

— Esta é a Parede da Verdade — disse Sheridan, parando ao meu lado com uma prancheta na mão. — Às vezes as pessoas se sentem melhor confessando seus pecados nela. Você gostaria de tentar?

— Talvez depois — respondi.

Eu a segui até um círculo de cadeiras à parte dos bancos. Todo mundo sentou e ela não fez nenhum comentário quando meus vizinhos afastaram suas cadeiras alguns centímetros. A hora da comunhão, pelo jeito, era um tipo de terapia em grupo, e Sheridan perguntou ao círculo o que cada um tinha aprendido naquele dia. Emma foi a primeira a falar.

— Aprendi que, embora tenha avançado na recuperação da minha alma, tenho um longo caminho pela frente até a perfeição. O maior pecado é desistir e vou me manter firme até estar completamente imersa na luz.

Duncan, sentado ao lado dela, disse:

— Progredi na aula de artes. Quando a aula começou hoje, achei que não sairia nada bom. Mas estava errado.

Qualquer vontade que eu pudesse ter de sorrir foi interrompida quando a menina ao lado dele disse:

— Aprendi como estou grata por não ser tão infame quanto Sydney. Questionar as ordens foi errado, mas pelo menos nunca permiti que um deles pusesse as mãos profanas em mim.

Estremeci e fiquei esperando que Sheridan elogiasse a virtude dela, mas, em vez disso, Sheridan fixou os olhos frios na garota.

— Acha que isso é verdade, Hope? Acha que tem o direito de declarar quem entre vocês é melhor ou pior? Todos estão aqui porque cometeram crimes graves, não se enganem em relação a isso. A sua insubordinação pode não ter resultado na mesma depravação que a de Sydney, mas teve origem no mesmo lugar sombrio. Não obedecer, não ouvir aqueles que sabem mais... é esse o pecado, e você é tão culpada dele quanto Sydney.

Hope tinha ficado tão branca que era uma surpresa ninguém acusá-la de ser Strigoi.

— Eu... eu não quis dizer... que... eu...

— Pelo visto não aprendeu tanto quanto achou que tivesse aprendido — Sheridan disse. — Acho que precisa de mais ensinamentos. — Então, obedecendo a outro comando invisível, os homens dela surgiram e arrastaram Hope para fora, enquanto a garota protestava. Me senti enjoada, e não tinha nada a ver com a purgação de antes. Me perguntei se ela enfrentaria o mesmo destino que eu, embora sua falha tivesse sido o orgulho, não a defesa dos Moroi.

Em seguida, Sheridan se voltou para mim.

— E você, Sydney? O que aprendeu hoje?

Todos os olhos se voltaram para mim.

— Aprendi que tenho muito a aprender.

— De fato, você tem — ela respondeu, com gravidade. — Admitir isso é um grande passo no caminho para a redenção. Gostaria de compartilhar sua história com os demais? Pode ser libertador.

Hesitei diante do peso daqueles olhares fixos, sem saber que resposta me colocaria em mais apuros.

— Eu... eu gostaria — comecei devagar. — Mas não sei se estou pronta. Ainda estou em choque.

— É compreensível — ela disse, me fazendo relaxar, aliviada. — Mas, depois de ver como todo mundo aqui melhorou como pessoa, acho que também vai querer compartilhar. Não vai superar seus pecados se os mantiver trancados dentro de você.

Havia um tom de advertência em sua voz que era impossível ignorar, e respondi com um aceno solene. Felizmente, depois disso ela passou para a próxima pessoa, e fui poupada. Passei o resto daquela hora ouvindo-os tagarelar sobre o incrível progresso que tinham feito expulsando a escuridão de suas almas. Me perguntei quantos deles estavam sendo sinceros e quantos só queriam sair dali, como eu. Também me perguntei o seguinte: se eles tinham mesmo feito tanto progresso, por que ainda estavam naquele lugar?

Depois da hora da comunhão, fomos dispensados para o jantar. Enquanto esperava na fila, ouvi os outros falando que o frango à parmegiana tinha sido substituído de última hora por fettuccine ao molho Alfredo. Também ouvi alguém dizer que esse era o prato favorito de Hope. Quando ela entrou no fim da fila, pálida e trêmula — e ignorada pelos demais —, entendi o que havia acontecido. Frango à parmegiana era a minha comida favorita desde criança, o que as autoridades deviam saber graças à minha família, e estava originalmente no menu para punir a mim e ao meu estômago enfraquecido pela purgação. Porém, o ato de insubordinação de Hope tinha superado o meu, resultando numa mudança de cardápio. Os alquimistas realmente levavam aquilo a sério.

A angústia no rosto de Hope se agravou quando ela sentou sozinha numa das mesas vazias e ficou olhando para a comida, sem tocar em nada. Embora o molho fosse forte demais para mim, meu estômago conseguia aceitar o leite e um pouco da massa. Ver Hope daquele jeito, excluída como eu, me tocou profundamente. Algumas horas antes, ela fazia parte da vida social da reeducação. Agora, estava sendo completamente ignorada. Vendo uma oportunidade, comecei a levantar, a fim de sentar com ela. Do outro lado da sala, Duncan, que estava conversando alegremente com um grupo, me olhou e fez um não claro com a cabeça. Hesitei por alguns instantes e depois voltei a sentar, me sentindo envergonhada e covarde por não apoiar outra pária.

— Ela não teria te agradecido — ele murmurou para mim depois do jantar. Estávamos na pequena biblioteca do centro, depois de recebermos permissão para escolher um livro para ler antes de dormir. Todos eram de não ficção, reforçando os princípios alquimistas. — Essas coisas acontecem e amanhã ela vai estar com os outros de novo. Se sentasse com Hope, teria chamado atenção e talvez atrasado o retorno dela. Ou pior: se ela te recebesse bem, os poderes instituídos teriam notado e achado que as rebeldes estavam se unindo.

Ele escolheu um livro aparentemente aleatório e saiu andando antes que eu tivesse chance de responder. Quis perguntar em que momento seria aceita pelos outros — se é que seria. Certamente todos tinham sido excluídos em algum momento. E mesmo assim acharam um jeito de entrar no mundo social dos detentos.

De volta ao quarto, Emma deixou claro que eu não deveria esperar nada de diferente com ela.

— Estou fazendo um bom progresso — ela disse, afetada. — Não preciso de você arruinando isso com suas perversões. A única coisa que faremos aqui é dormir. Não fale comigo. Não interaja comigo. Nem mesmo olhe pra mim se tiver como evitar.

Dito isso, ela pegou seu livro e deitou na cama, virando propositalmente de costas para mim. Mas não liguei. Não era diferente de todos os outros desaforos que eu tinha recebido durante o dia e, agora, estava com uma preocupação muito maior em mente. Até então, mal havia tido tempo para pensar nisso. Tivera outras provações para suportar, mas finalmente chegara o momento. Era o fim do dia. Hora de dormir. Depois de vestir o pijama (igual ao meu uniforme diurno) e escovar os dentes, deitei na cama com uma euforia mal contida.

Logo mais iria dormir. E sonhar com Adrian.

Essa ideia estivera o dia todo no fundo da minha mente, me ajudando a aguentar os momentos difíceis. Era para isso que eu vinha lutando, era esse o motivo por que tinha suportado todas aquelas humilhações. Estava fora da cela e livre do gás. Agora poderia dormir normalmente e sonhar com ele... desde que minha ansiedade não me mantivesse acordada.

Isso acabou não sendo um problema. Depois de uma hora de leitura, o sinal tocou e as luzes se apagaram automaticamente. A porta de correr não encostava completamente na parede, e pude ver uma fresta de luz do corredor, o que me deixou contente depois de meses de escuridão total. Ouvi um estalo, como um tipo de trava, que trancou a porta. Me aconcheguei nas cobertas, tomada por entusiasmo... e, de repente, comecei a me sentir cansada. Muito cansada. Num minuto, estava imaginando o que diria a Adrian; no outro, mal conseguia ficar de olhos abertos. Resisti, obrigando meu cérebro a se concentrar, mas era como se uma neblina densa estivesse caindo sobre mim, me puxando para baixo e enevoando minha mente. Era uma sensação que eu conhecia bem demais.

— Não... — consegui dizer. Eu não estava livre do gás. Eles ainda regulavam nosso sono, provavelmente para garantir que nenhuma conspiração acontecesse na calada da noite. Eu estava exausta demais para pensar mais. Logo um sono pesado me envolveu, me arrastando para uma escuridão sem sonhos.

E sem nenhuma chance de fuga.


6

Adrian

 

Charlotte era uma boa companheira de bar, não só porque bebia bem.

Mesmo quando não estava usando o espírito, ela tinha aquela intuição natural dos usuários desse elemento. Logo entendia quando eu queria falar sobre as coisas e, mais importante, quando não queria. Começamos num bar calmo e não tive problema em deixar que ela falasse mais. Aparentemente, Charlotte não tinha feito nenhum amigo nesses últimos meses na Corte e, com Olive desaparecida, tivera poucas chances de desabafar.

— Simplesmente não entendo — ela disse. — As pessoas parecem ter medo de mim. Quer dizer, falam que não, mas eu percebo. Ficam me evitando.

— O espírito ainda assusta muita gente, é só isso. Uma coisa que posso te dizer, depois de ter convivido com Moroi, dampiros e humanos, é que as pessoas têm medo do que não entendem. — Enfatizei minha fala erguendo o mexedor do drinque. — E a maioria é preguiçosa ou ignorante demais pra tentar aprender.

Charlotte sorriu, mas continuava triste.

— É, mas parece que todo mundo aceita Dimitri e Sonya. E eles foram Strigoi mesmo. Achei que isso seria muito mais difícil de aceitar do que alguém que só ajudou a restaurar uma.

— Ah, mas tinha muita gente assustada quando os dois foram restaurados, acredite. Só que a reputação valente e os atos heroicos de Dimitri ofuscaram isso rápido. Depois Sonya também ficou famosa por seu trabalho com a “vacina Strigoi”.

— É esse o segredo? — Charlotte perguntou. — Eu... e Olive... precisamos realizar alguma grande façanha pra que as pessoas esqueçam nosso passado?

— Vocês não precisam fazer nada que não queira — eu disse, veemente. — Foi por isso que Olive foi embora? Estava difícil pra ela ficar perto dos outros?

Charlotte franziu a testa e olhou para a borda da taça. Ela estava bebendo cosmopolitans, que têm um gosto frutado demais para mim. Parei um momento para pensar no que Sydney beberia, se um dia se permitisse beber. Algum coquetel adocicado como aquele? Não; soube imediatamente que, se Sydney bebesse, seria vinho, e ela seria uma daquelas pessoas capazes de dizer o ano, a região e os componentes do solo em que cultivaram as uvas com um só gole. Já eu teria sorte se conseguisse diferenciar vinho de caixa do de garrafa. Pensar nela me fez começar a sorrir, o que rapidamente escondi para que Charlotte não pensasse que estava rindo dela.

— Não sei por que Olive foi embora — ela disse, finalmente. — O que é quase tão ruim quanto o fato de ela ter ido. Sou irmã dela! Fui eu quem a trouxe de volta! — Charlotte ficou rígida e seus olhos cinza lacrimejaram. — Se ela estava chateada com alguma coisa, devia ter vindo falar comigo primeiro. Depois de tudo que passei por ela... ela achou que eu não iria ouvir? Não sabe como meu amor por ela é enorme? Ela é minha família; esse é um laço que nada nem ninguém pode quebrar. Eu faria qualquer coisa por ela, qualquer coisa, se ela pedisse, se confiasse em mim o bastante para pedir...

Ela estava tremendo e havia um tom levemente descontrolado em sua voz que reconheci. Eu ficava do mesmo jeito quando o espírito começava a me deixar instável.

— Talvez ela ache que você já fez coisas demais por ela — eu disse, pondo a mão de leve sobre a dela. — Já tentou falar com ela durante sonhos?

Charlotte fez que sim, se acalmando um pouco.

— Ela sempre diz que está bem e que só precisa de mais tempo.

— Bom, então é isso. Minha mãe dizia a mesma coisa quando estava presa. Às vezes as pessoas precisam resolver seus problemas sozinhas.

— Talvez — ela disse. — Mas, mesmo assim, odeio a ideia de ela estar sozinha. Queria que pelo menos conversasse com Neil ou com alguma outra pessoa.

— Acho que ele também. Mas vai ficar feliz em saber que Olive está só resolvendo os problemas dela. Acho que ele respeita essa história toda de jornada solitária. — Terminei o drinque e vi que o dela estava acabando.

— Mais uma rodada? — ela perguntou.

— Não. — Levantei e pus dinheiro na mesa. — Vamos procurar outro lugar. Você não disse que queria conhecer mais gente?

— Sim... — Sua voz estava desconfiada enquanto ela me seguia. — Sabe onde encontrar uma festa ou alguma coisa assim?

— Sou Adrian Ivashkov — declarei. — As festas vêm até mim.

Era certo exagero porque, na verdade, tive que ir atrás de uma... mas acertei na primeira tentativa. Uma menina da realeza que tinha estudado comigo em Alder, Vanessa Szelsky, costumava dar festas nos fins de semana na casa dos pais na Corte, e imaginava que as coisas não teriam mudado em menos de um ano, ainda mais depois que soube que os pais dela continuavam viajando muito. Eu e Vanessa tínhamos ficado algumas vezes ao longo dos anos, o suficiente para que ela me visse com bons olhos mas não para que ficasse surpresa ou chateada se eu aparecesse na festa dela com outra garota.

— Adrian? — ela exclamou, abrindo caminho pelo jardim lotado atrás da casa dos pais. — É você mesmo?

— Em carne e osso. — Dei um beijo na bochecha dela. — Vanessa, essa é Charlotte. Charlotte, Vanessa.

Vanessa examinou Charlotte de cima a baixo e arqueou uma sobrancelha, surpresa. Era uma típica menina da alta sociedade e, embora provavelmente considerasse essa festa “casual”, seu vestido sem dúvida era da coleção primavera-verão de algum estilista famoso. Seu penteado e maquiagem deviam ter custado mais do que toda a roupa de Charlotte, que era apropriada para um trabalho de secretária mas, na melhor das hipóteses, devia ter vindo da arara de uma loja de departamentos. Isso não me incomodava nem um pouco, mas dava pra ver que Vanessa a estava julgando. Charlotte também notou e ficou retorcendo as mãos, nervosa. Por fim, Vanessa deu de ombros e abriu um sorriso sincero para Charlotte.

— É um prazer conhecê-la. Todos os amigos de Adrian são bem-vindos aqui... ainda mais se você conseguiu tirar o cara da toca. — Vanessa fez um beicinho que sem dúvida praticara centenas de vezes no espelho para deixar ainda mais adorável. — Por onde andou? Sumiu do mapa.

— Assuntos ultrassecretos do governo — eu disse, tentando deixar a voz sinistra mas alta o bastante para ser ouvida sobre a música alta. — Queria contar mais, meninas, mas quanto menos souberem, melhor. Pensem que estou fazendo isso pelo bem de vocês.

As duas riram, mas a piada garantiu que eu fosse bem recebido, e Vanessa nos guiou para dentro.

— Vão entrando e peguem alguma coisa pra beber. Conheço um monte de gente que vai ficar feliz em te ver.

Charlotte se aproximou de mim enquanto atravessávamos aquele mar de gente.

— Acho que esse lugar não é pra mim.

Passei o braço ao redor dela para desviá-la de um cara que balançava os braços exageradamente enquanto contava alguma história maluca.

— Vai ficar tudo bem. Juro que essas pessoas são exatamente iguais a todo mundo que você conhece.

— As pessoas que conheço não comem camarão em pratos de porcelana caríssimos enquanto bebem champanhe com a outra mão como se isso fosse normal.

— Tecnicamente — eu disse —, aquilo não é camarão, mas pitu, e aposto que essa nem é a porcelana mais cara da mãe dela.

Charlotte revirou os olhos mas não teve chance de dizer mais nada porque já tinham espalhado a notícia de que Adrian Ivashkov tinha voltado. Pegamos nossas bebidas e sentamos em cadeiras perto de um laguinho japonês, para onde as pessoas foram em massa falar com a gente. Alguns eram amigos com quem eu vivia saindo antes de ir para Palm Springs. Outros estavam só atraídos pelo segredo do meu longo desaparecimento. Nunca tivera problemas em atrair amigos, mas um passado misterioso me deixou popular como nada que pudesse ter inventado.

Deixei escapar que Charlotte também era usuária de espírito e não impedi que os outros concluíssem que ela fazia parte das operações clandestinas em que eu estava envolvido. Fiz questão de apresentá-la para algumas das pessoas menos fúteis que eu conhecia na esperança de que saísse da festa com alguns bons conhecidos. Quanto a mim, assumi um papel que não assumia fazia séculos, e me senti praticamente um rei na minha própria corte. Uma coisa que aprendera ao longo dos anos era que a autoconfiança tinha um forte efeito nas pessoas e que, se você agisse como se merecesse a atenção delas, elas acreditavam. Fazia meses que não flertava tanto e fazia tantas piadas, e fiquei surpreso com a facilidade com que voltei a fazer isso. A atenção era inebriante, mas, como em todo o resto, me sentia vazio sem Sydney na minha vida. Logo me peguei moderando o álcool com o passar da noite. Por mais que adorasse a válvula de escape que a bebida me proporcionava, estava decidido a procurar Sydney de novo antes de ir para a cama. Para isso, precisava estar sóbrio.

— Ora, ora, veja só quem voltou — uma voz inoportuna disse de repente. — Achei que não teria coragem de aparecer em público depois da última vez.

Wesley Drozdov, um enorme babaca, parou na minha frente, acompanhado por seus puxa-sacos, Lars Zeklos e Brent Badica. Fiquei sentado e fingi procurar alguma coisa ao redor.

— Você está falando sozinho? Não estou vendo nenhum espelho por aqui. Mas, sério, seu desempenho não foi tão ruim assim. Você não devia ficar chateado por um constrangimento bobo como aquele.

— Bobo? — Wesley perguntou. Ele deu um passo à frente e cerrou os punhos, mas me recusei a sair do lugar. Ele abaixou a voz grave. — Sabe em que tipo de encrenca me meteu? Meu pai precisou contratar um bando de advogados pra livrar a minha cara! Ele ficou furioso.

Fingi uma expressão de compaixão e falei alto, fazendo-o levar um susto:

— Eu também ficaria furioso se uma garota humana acabasse com a raça do meu filho. Ah, não, espere. Fui eu que acabei com a sua raça.

Tínhamos atraído um círculo de curiosos, como sempre acontece nessas situações, e Vanessa logo veio correndo.

— Ei, ei — ela disse. — O que está acontecendo?

— Ah, o de sempre — respondi, abrindo um sorriso sedutor. — Relembrando os velhos tempos, rindo do passado. E se tem uma coisa que aprendi é que Wesley sempre me faz rir.

— Sabe o que me faz rir? — Wesley retrucou. Ele apontou com a cabeça para Charlotte. — Sua namorada pobretona aí. Já vi essa menina antes. Ela é recepcionista no escritório do meu pai. Você prometeu arranjar um trabalho melhor pra ela se ela dormisse com você?

Senti Charlotte ficar tensa ao meu lado, mas não tirei os olhos dos caras à minha frente. Eles tinham começado como um estorvo, mas agora estavam acendendo uma fúria sombria e fora do comum dentro de mim. Encarar Wesley me fez pensar na noite em que ele e os capangas tinham tentado se aproveitar de Sydney. A lembrança do que haviam pretendido fazer a ela se misturou aos medos de todos os perigos desconhecidos que ela poderia estar enfrentando agora. Era tudo a mesma coisa, enchendo meu peito de raiva e temor.

Acabe com eles, tia Tatiana sussurrou na minha cabeça. Faça com que eles paguem.

Me esforcei para ignorar a voz dela e escondi minhas emoções o melhor que pude. Ainda com um sorriso sarcástico, disse:

— Claro que não. Ela está aqui comigo por vontade própria. Sei que deve ser um conceito estranho pra você, considerando seu histórico com as mulheres. Aliás, Vanessa, acho que o Wes estava pra contar uma história quando você chegou... sobre o bando de advogados que o pai dele teve de contratar para acobertar a vez em que ele e os amigos tentaram entreter uma humana convidada da rainha. — Fiz um gesto exagerado. — Por favor, continue. Conte como tudo se resolveu. E se eles deixaram você ficar com as drogas que queria usar nela. Pode ser útil com as garotas daqui, hein?

Quebrei o contato visual com Wesley para dar uma piscada forçada para um grupo de garotas horrorizadas que estava por perto. Tinha certeza de que as ações de Wesley não eram de conhecimento público e que não era intenção dele que as pessoas ficassem sabendo quando me abordou resmungando sobre o passado e os advogados do pai. Os humanos podiam ser inferiores aos olhos de muitos Moroi, mas entreter — o ato de drogar um humano que não era fornecedor e beber o sangue dele contra vontade — era um pecado bem feio entre a nossa raça. Humanos atraentes eram especialmente desejáveis para os canalhas que tentavam fazer isso, e Sydney tinha chamado a atenção de Wesley na última visita dela. Ele e os outros tinham tentado atacá-la pensando que eu iria ajudar. No fim, fui eu quem atacou os três com um galho de árvore até os guardiões entrarem em cena.

Não precisei das exclamações de surpresa ao nosso redor para confirmar que essa história não tinha chegado ao noticiário local. A cara de ódio de Wesley deixou isso claro.

— Seu filho da...

Ele pulou pra cima de mim, mas eu já estava esperando com o espírito pronto. Telecinesia não era uma habilidade que eu usava com frequência, mas não tive problemas.

Acabe com ele! Acabe com ele!, tia Tatiana insistiu.

Escolhi algo um pouco menos brutal. Com um pensamento, fiz um daqueles pratos caros de porcelana sobre os quais Charlotte havia comentado voar na direção de Wesley. O prato o atingiu com força na lateral da cabeça, fazendo um monte de pitus caírem em cima dele e atingindo meu objetivo duplo de dor e humilhação.

— Isso é um truque barato de usuário de ar! — ele rosnou, tentando avançar na minha direção de novo. O ataque perdeu parte do impacto já que ele ainda estava tirando os pitus da cara.

— E esse? — perguntei. Virando a mão de leve, fiz Wesley parar no meio do caminho. Os músculos do seu corpo e do seu rosto ficaram tensos conforme ele mandava os membros se moverem, mas a energia do espírito os bloqueava. Teria sido difícil para um usuário de ar alcançar esse nível de imobilidade completa, e não era fácil para mim também, já que não estava completamente sóbrio e não tinha muita experiência com essa habilidade. Porém, o efeito valeu a pena, a julgar pela cara de espanto de todos. Reuni o que me restava do espírito para parecer ainda mais carismático para as pessoas ao redor. Era impossível compelir uma multidão, mas, usado corretamente, o espírito podia me tornar muito mais cativante.

— Da última vez, vocês perguntaram se eu não era um grande usuário de espírito malvado — comecei. — A resposta é sim. E realmente não gosto quando babacas como você incomodam uma garota, seja ela humana ou Moroi. Então, se quiser se mexer de novo, primeiro vai pedir desculpas pra minha linda amiga aqui. Depois pra Vanessa, por arruinar a festa dela, que estava ótima até vocês darem as caras e desperdiçarem os pitus.

Era um blefe. Usar telecinesia para prender uma pessoa inteira exigia uma quantidade gigantesca de espírito e eu já estava esgotado. Wesley, porém, não sabia disso, e estava com medo da imobilidade.

Por que parar por aqui?, tia Tatiana perguntou. Pense no que ele fez com Sydney!

Ele não conseguiu fazer nada com ela, eu a lembrei.

Não importa! Ele tentou machucar sua garota. Precisa pagar por isso! Não basta congelá-lo com espírito! Use a magia para esmagar o crânio dele! Ele precisa sofrer! Ele tentou ferir Sydney!

Por um momento, as palavras dela e a tempestade emocional que crescia no meu peito ameaçaram tomar conta de mim. Ele realmente tinha tentado ferir Sydney e, embora eu não pudesse impedir as pessoas que a mantinham presa agora, poderia impedir Wesley. Poderia fazer com que pagasse, sofresse por ter cogitado machucar minha namorada, garantir que nunca mais conseguisse...

— Desculpe — Wesley disse de repente para Charlotte. — Você também, Vanessa.

Hesitei por um momento, dividido entre o olhar desesperado em seu rosto e os apelos de tia Tatiana, aos quais meu lado sombrio queria ceder. Logo a decisão foi tomada por mim. Não conseguiria segurar o espírito por mais tempo nem se quisesse. Perdi o controle sobre ele e Wesley caiu com força no chão. Ele se levantou às pressas e recuou rápido, Brent e Lars indo atrás feito os dois bajuladores que eram.

— Isso não vai ficar assim — Wesley ameaçou, se sentindo corajoso depois que ganhou distância. — Você acha que é intocável, mas não é.

Você demonstrou fraqueza, disse tia Tatiana.

— Vai embora — Vanessa mandou. Ela fez um sinal para alguns amigos fortes, que tiveram o maior prazer em acompanhar Wesley até a porta. — E nunca mais apareça numa festa minha!

A julgar pelos murmúrios dos outros, Wesley e seus amigos não seriam mais bem-vindos em nenhuma festa por muito tempo. E quanto a mim? De repente era uma estrela ainda maior do que antes. Não só estava envolvido em mistérios como também tinha usado o poder pouco compreendido do espírito para botar um sedutor barato no lugar. As meninas da festa adoraram. Até os caras aprovaram. Eu tinha mais convites e amigos do que nunca antes na vida — o que não era pouco.

Mas estava exausto. O sol estava prestes a nascer no horizonte e eu ainda estava acostumado ao horário humano. Recebi os elogios o mais humildemente possível e tentei abrir caminho até a porta, prometendo a todos que os veria logo. Nesse momento, Charlotte veio ajudar, me guiando através da multidão, assim como eu a guiara antes, e insinuando que eu precisava tratar de alguns assuntos oficiais.

— O único assunto que tenho a tratar agora é com meu travesseiro — eu disse com um bocejo quando conseguimos sair da casa de Szelsky. — Estou quase dormindo em pé.

— Aquilo foi magia pesada — ela disse. — Nem tinha visto você parar de beber. Está se controlando, hein.

— Se pudesse, viveria bêbado o tempo todo — admiti. — Mas tenho que ficar sóbrio algumas vezes por dia. É... é difícil explicar e nem posso, na verdade, mas tem uma coisa que preciso fazer e, pra isso, tenho que estar com o espírito e a cabeça no lugar. Foi sorte o Wesley aparecer naquela hora. Eu não teria sido tão impressionante se a briga tivesse sido no braço.

Charlotte sorriu.

— Confio em você. Aposto que teria sido incrível.

— Obrigado. Sinto muito pelo que ele falou pra você.

— Tudo bem — ela disse, encolhendo os ombros. — Estou acostumada.

— Isso não significa que seja certo — eu disse.

Certa vulnerabilidade em seus olhos mostrou que eu tinha acertado em cheio, e aqueles comentários a tinham machucado profundamente.

— É... quer dizer, as pessoas não costumam falar as coisas tão descaradamente, mas já vi essa atitude no trabalho. Mas você tinha razão em relação à festa. Algumas pessoas não eram tão ruins quanto pensei. — A voz dela ficou subitamente tímida. — E obrigada... obrigada por me defender.

Suas palavras e a pequena vitória sobre Wesley me deram mais autoconfiança do que eu sentia havia semanas. Meu humor, que andava imerso nas trevas e numa autoestima baixa por tanto tempo, melhorou de repente. Eu não era um inútil completo. Podia não conseguir encontrar Sydney ainda, mas era capaz de fazer coisas pequenas. Não podia desistir da luta. Quem sabe minha sorte não mudaria naquela noite? Mal podia esperar para levar Charlotte até a casa dela, voltar para a minha e procurar Sydney.

Mas, quando tentei, ficou claro que minha sorte continuava igual nesse campo. Nada de Sydney. Aquele humor inebriante desapareceu, mas, pelo menos, estava tão exausto que tive pouco tempo para me odiar pelo fracasso. Caí no sono logo depois e dormi até quase metade do dia vampírico seguinte, enquanto meu corpo tentava entender que horário eu estava seguindo.

Quando acordei, havia uma mensagem da minha mãe no celular, me lembrando do jantar mais tarde. Quando fui checar a secretária eletrônica da suíte, encontrei milhões de mensagens dos meus novos “amigos”. Pouca gente sabia o número do meu celular, mas alguns convidados tinham descoberto em que prédio de hóspedes eu estava e mandado mensagens. Eu teria eventos sociais por meses.

Mas naquele dia só um importava. Meus pais. Não pelo meu pai, mas minha mãe havia se esforçado para me buscar. Tinha se esforçado por mim em várias coisas, na verdade, então era minha obrigação parecer respeitável na frente dos seus amigos. Fiquei sóbrio durante o dia e fiz coisas sem graça como lavar roupa em vez de aceitar os convites que tinha recebido — incluindo um de Charlotte. Por mais que gostasse dela e tivesse me divertido em sua companhia, uma voz interior me avisou que seria mais prudente manter distância.

Cheguei à casa dos meus pais dez minutos antes de o jantar começar, usando um terno recém-passado e as abotoaduras de tia Tatiana, e fui recebido pelo meu pai com seu mau humor de sempre.

— Ora, Adrian, o que quer que a rainha queira tratar com você deve ser importante.

O comentário me pegou de surpresa até minha mãe entrar correndo na sala, glamorosa em um vestido verde-esmeralda.

— Ah, Nathan, querido, não tente arrancar segredos de Estado do nosso filho. — Ela pôs a mão no meu braço e deu uma risada breve e controlada. — Seu pai não me deixa em paz desde que a rainha me permitiu trazer você de volta para sua missão aqui. Falei pra ele que só queria te ver, mas ele tem certeza de que sei mais do que estou dizendo.

Finalmente entendi e lancei um olhar agradecido para ela quando a atenção do meu pai se voltou para outra coisa. Ela não havia contado que me encontrara num estupor alcoólico na Califórnia, me salvando de mim mesmo e de uma descida ao fundo do poço. Tinha deixado ele pensar que viajar comigo era só um gesto maternal impulsivo e até usara isso como uma oportunidade para aumentar minha reputação. Eu não fazia questão de esconder meus comportamentos vergonhosos do meu pai, mas precisava admitir que a vida ficava muito mais fácil quando ele não tinha o que esfregar na minha cara. Dizer que estava orgulhoso de mim seria um exagero, mas definitivamente parecia satisfeito por enquanto, o que tornou a noite suportável.

Os convidados do jantar eram membros da realeza que eu havia encontrado algumas vezes ao longo dos anos. Não sabia muito sobre eles, mas meus pais pareciam preocupados em impressioná-los. Minha mãe, que nunca, em toda a sua vida, havia cozinhado nada com as próprias mãos, supervisionara todos os detalhes do trabalho do cozinheiro, fazendo questão de que cada prato ficasse perfeito, tanto em termos da harmonização com o vinho como na disposição da comida. Depois de um dia de bom comportamento (e de procurar Sydney pouco antes de ir para o jantar), me permiti experimentar um gole do vinho e, embora não pudesse identificar a região ou o tipo de solo, pude perceber que meus pais não haviam economizado.

Logo entendi por quê: essa era a primeira tentativa deles de reingressar na alta sociedade depois que minha mãe voltara da prisão. Ninguém os havia convidado para nada desde o retorno dela, então eles estavam fazendo o gesto inaugural, decididos a mostrar à realeza Moroi que Nathan e Daniella Ivashkov eram companhias dignas. Isso se estendia a mim também, pois meus pais ficaram fazendo menções aos “assuntos importantes” em que eu estava envolvido. Minha relação com Jill e o esconderijo dela eram ultrassecretos — nem eles sabiam desses detalhes —, mas a pesquisa de Sonya para criar a vacina era famosa e todos estavam curiosos para saber mais.

Expliquei o melhor que pude, usando termos leigos e evitando revelar grandes segredos. Todos pareceram impressionados, especialmente meus pais, mas foi um alívio quando a atenção foi desviada de mim. O jantar continuou com uma conversa sobre política, que achei razoavelmente interessante, e assuntos da alta sociedade, que não achei nem um pouco interessantes. Nunca tinha gostado muito dessas coisas, mesmo antes dos acontecimentos em Palm Springs que mudaram minha vida. Não me importava com pontuações de golfe, promoções de trabalho ou futuras festas. Porém, ciente do meu papel, mantive o sorriso educado durante o restante do jantar e me contentei bebendo mais daquele vinho fino. Quando os últimos convidados foram embora, pude ver que tínhamos conquistado todos e que Daniella Ivashkov seria recebida de volta na sociedade como tanto queria.

— Bom — ela disse com um suspiro, afundando num sofá recém--estofado. — Ouso dizer que foi um sucesso.

— Você agiu bem, Adrian — meu pai acrescentou. Vindo dele, era um elogio e tanto. — Temos alguns problemas a menos com que nos preocupar agora.

Terminei o vinho do Porto que tinha sido servido com a sobremesa.

— Não diria que não ser convidado para o chá anual de verão da Charlene Badica seria um “problema”, mas fico feliz em ajudar.

— Vocês dois ajudaram a reparar os danos que causaram a esta família. Espero que continuem assim. — Ele levantou e se espreguiçou. — Vou para o meu quarto. Vejo vocês de manhã.

Já fazia uns trinta segundos que ele tinha saído quando suas palavras entraram na minha cabeça embebida de vinho.

— O quarto dele? O quarto não é seu também?

Minha mãe, ainda arrumada após o longo jantar, cruzou as mãos sobre o colo com elegância.

— Na verdade, querido, estou dormindo no seu antigo quarto agora.

— Meu... — Me esforcei para entender. — Espere. É por isso que me mandou pro prédio de hóspedes? Achei que tinha dito que eu precisava do meu espaço.

— E precisa. Mas... enfim, desde que voltei, seu pai e eu chegamos à conclusão de que as coisas correriam melhor se levássemos vidas separadas... sob o mesmo teto.

A voz dela era tão tranquila que ficava difícil apreender a gravidade da situação.

— O que isso significa? Vocês vão se divorciar? Estão separados?

Ela franziu a testa.

— Ai, Adrian, que palavras horríveis. Além do mais, pessoas como nós não se divorciam.

— E pessoas casadas não dormem em quartos separados — argumentei. — De quem foi a ideia?

— De ambos — ela disse. — Seu pai condena o que fiz... e a vergonha que isso causou a todos nós. Ele chegou à conclusão de que não pode me perdoar por isso e, pra ser sincera, não vejo mal em dormir sozinha.

Eu estava pasmo.

— Então se divorcie e fique sozinha de verdade! Se ele não pode te perdoar por agir por impulso pra salvar seu próprio filho... Enfim, nunca fui casado, mas não acho que é assim que um bom marido age. Não é assim que se trata a pessoa que você ama. E não entendo como você consegue amar alguém que a trata desse jeito.

— Querido — ela disse como uma risadinha —, amor não tem nada a ver com isso.

— Tem tudo a ver — exclamei. Baixei a voz logo em seguida, com medo de atrair meu pai de volta para a sala. Não estava preparado para isso. — Não há motivo para casar ou continuar casado sem amor.

— É complicado — ela disse no tom de voz que usava comigo quando eu era criança. — Tem a questão do status. Não ficaria bem para nenhum de nós se nos separássemos. Além disso... Bom, minhas finanças estão ligadas às do seu pai. Assinamos um acordo quando nos casamos, e, se nos divorciássemos, eu não teria como me sustentar.

Me levantei de um salto.

— Eu sustento você, então.

Ela me olhou nos olhos.

— Como, querido? Com seu curso de arte? Sei que a rainha não paga pela sua ajuda... embora devesse pagar.

— Arranjo um emprego. Qualquer emprego. Pode não ser fácil no começo, mas pelo menos você não teria que se humilhar! Não precisaria ficar aqui, presa ao dinheiro e às críticas dele, fingindo que isso é amor!

— Ninguém está fingindo nada. Isso é a coisa mais parecida com amor que dá para ter num casamento.

— Não acredito nisso — disse. — Sei o que é amor, mãe. Tive um amor que ardia todas as fibras do meu corpo, que me fazia querer ser uma pessoa melhor e me dava forças pra passar por todos os momentos do dia. Se você já tivesse sentido alguma coisa assim, teria se agarrado a ela com todas as forças.

— Você só diz isso porque é jovem e não sabe das coisas. — Ela estava tão insuportavelmente calma que só me deixava mais nervoso. — Pensa que amor é uma relação irresponsável com uma dampira, só porque é emocionante. Ou está se referindo àquela menina por quem estava se lamentando no avião? Cadê ela? Se seu amor consome tudo e pode triunfar sobre todas as coisas, por que vocês não estão juntos?

Boa pergunta, disse tia Tatiana.

— Porque... não é assim tão fácil — eu disse, entredentes.

— Não é assim tão fácil porque não é real — ela respondeu. — Os jovens confundem essas paixõezinhas com “amor verdadeiro”, mas isso não existe. Amor entre mãe e filho? Isso existe. Mas essa ilusão do amor que vence tudo? Não se engane, meu filho. Esses seus amigos que tiveram romances grandiosos vão acabar descobrindo a verdade. Essa sua garota, onde quer que esteja, não vai voltar. Pare de correr atrás de uma fantasia e procure alguém com quem possa construir uma vida junto. Foi isso que seu pai e eu fizemos... e ouso dizer que sempre funcionou bem pra nós.

— Sempre? — perguntei, com a voz fraca. — Vocês sempre viveram essa farsa?

— Bom... — ela admitiu. — Algumas fases do nosso casamento foram mais... amigáveis do que outras. Mas sempre fomos pragmáticos em relação a tudo.

— Sempre foram frios e vazios em relação a tudo — retruquei. — Você disse que, quando saiu da prisão, entendeu as coisas que realmente importavam. Pelo jeito não, se está disposta a viver essa farsa, com um homem que não te respeita, por status e dinheiro! Nenhuma segurança vale isso. E me recuso a acreditar que é o máximo que posso esperar do amor. Existe mais do que isso. Eu vou ter mais do que isso.

Os olhos da minha mãe pareciam tristes ao encarar os meus.

— Então onde ela está, querido? Onde está sua garota?

Eu não tinha uma boa resposta para ela. Só sabia que não aguentava mais ficar lá. Saí da casa batendo a porta, surpreso com as lágrimas nos meus olhos. Nunca havia pensado nos meus pais como pessoas românticas e poéticas, mas achava que existia algum tipo de afeto entre eles, apesar — ou talvez por causa — de suas personalidades difíceis. Ouvir que era uma farsa, que todo amor era uma farsa, não poderia ter acontecido em um momento pior. Claro, não era nisso que eu acreditava. Sabia que existia amor verdadeiro no mundo. Tinha sentido esse amor na pele... mas as palavras da minha mãe doeram porque eu estava vulnerável; porque, apesar da minha popularidade na Corte ou das minhas boas intenções, não estava nem perto de encontrar Sydney. Meu cérebro não acreditava na minha mãe, mas meu coração, tão cheio de medos e dúvidas, temeu que as palavras dela tivessem algum grau de verdade, e o peso sombrio e melancólico do espírito só piorou as coisas. Me fez duvidar de mim mesmo. Talvez eu nunca encontrasse Sydney. Talvez nunca encontrasse amor nenhum. Talvez desejar muito uma coisa não bastasse para fazer com que ela acontecesse.

O clima tinha esfriado lá fora e um vento fresco prometia chuva. Parei de repente e tentei contatar Sydney, mas o vinho do jantar tinha reduzido meus poderes. Desisti e peguei o celular em vez disso, optando por um meio mais simples de comunicação. Charlotte atendeu no segundo toque.

— E aí? — ela disse. — Como não ouvi notícias suas, pensei que... enfim, deixa pra lá. Como você está?

— Melhor. Quer fazer alguma coisa hoje?

— Claro. O que você está planejando?

— Qualquer coisa — respondi. — Pode escolher. Tenho milhões de convites. A gente pode se divertir a noite toda.

— Você não precisa parar em algum momento? — ela brincou, sem saber como estava perto de tocar num ponto sensível. — Achei que tinha dito que precisava ficar sóbrio de vez em quando.

Pensei na minha mãe, aprisionada num casamento sem amor. Pensei em mim, aprisionado e sem opções. E pensei em Sydney, simplesmente aprisionada. Era demais, e não havia nada que eu pudesse fazer a respeito.

— Hoje não — eu disse para Charlotte. — Hoje não.


7

Sydney

 

Levou quase uma semana para os outros detentos pararem de afastar as carteiras de mim e de fazer cara de nojo se eu tocasse neles sem querer. Eles ainda não estavam sendo exatamente simpáticos, mas Duncan jurou que eu estava progredindo bastante.

— Já vi levar semanas ou até meses pra chegar a esse ponto — ele disse numa das aulas de artes. — Não vai demorar muito pra você sentar com a gente na hora do almoço.

— Bem que você podia me chamar — comentei.

Ele sorriu enquanto retocava o projeto de artes do dia: copiar o pote de samambaia que ficava na mesa de Addison.

— Você conhece as regras, garota. Outra pessoa que não eu precisa falar com você. Aguente firme. Logo mais alguém vai se dar mal e vai chegar sua hora. Jonah vive se metendo em encrenca. Hope também. Você vai ver só.

Desde aquele primeiro dia, Duncan vinha restringindo nossa interação basicamente à aula de artes, fora uma ou outra piada nos corredores quando não havia ninguém por perto. Por isso eu ficava ansiosa para aquela aula. Era a única chance que eu tinha de conversar de verdade com alguém. Os outros detentos me ignoravam durante o resto do dia, e os instrutores, tanto durante as aulas como durante a purgação, nunca perdiam uma chance de me lembrar que eu não passava de uma pecadora. A amizade de Duncan me deixava mais centrada, me dando esperança de sair daquele lugar. No entanto, mesmo nessa aula, ele era muito cuidadoso em relação às nossas conversas. Embora quase nunca mencionasse Chantal, a amiga — que no fundo eu achava que tinha sido mais do que uma amiga — que os alquimistas tinham levado embora, dava pra ver que essa perda o assombrava. Ele conversava e sorria com os outros durante as refeições, mas nunca falava muito com ninguém, nem lá nem durante as aulas. Suspeitei que tinha medo de colocar outra pessoa na mira da fúria alquimista, mesmo que fosse apenas um conhecido.

— Você é bom nisso — eu disse, notando os detalhes nas folhas da sua samambaia. — Aprendeu por ficar tanto tempo aqui?

— Não, eu pintava antes de vir pra cá, como hobby. Mas odeio naturezas-mortas. — Ele parou para admirar sua samambaia. — Daria qualquer coisa pra fazer um quadro abstrato. Adoraria pintar o céu. Não, adoraria ver o céu. Não pintei muitas paisagens quando me mandaram pra Manhattan. Achava que era bom demais pra isso e resolvi me poupar pro pôr do sol do Arizona.

— Manhattan? Que intenso!

— Intenso mesmo — ele concordou. — E agitado e barulhento e turbulento. Eu odiava aquele lugar... e agora faria de tudo pra voltar. É pra lá que você e seu namoradinho atormentado deviam ter ido.

— A gente sempre falava em ir para um lugar como Roma — eu disse.

Duncan bufou.

— Roma? Por que enfrentar a barreira da língua se dá pra conseguir tudo que você quer nos Estados Unidos? Vocês poderiam arranjar um apartamento minúsculo que você manteria com dois empregos, ao mesmo tempo que faria todas as aulas imagináveis, enquanto ele passaria o tempo no Bushwick com os amigos artistas desempregados. À noite voltariam pra casa pra comer comida coreana com os vizinhos esquisitos, depois fariam amor num colchão surrado. No dia seguinte, começariam tudo de novo. — Ele voltou a pintar. — Não é uma vida ruim.

— Não mesmo — eu disse, sorrindo sem perceber. Meu sorriso se desfez quando pensei nas chances de algum futuro com Adrian. O que Duncan havia descrito parecia tão bom quanto os “planos de fuga” que eu e Adrian inventávamos... e, naquele momento, tão impossível quanto qualquer um deles. — Duncan... o que quis dizer com “faria de tudo pra voltar”?

— Não — ele avisou.

— Não o quê?

— Você sabe o quê. Era só uma expressão.

— Sim — comecei —, mas, se houvesse algum jeito de sair daqui...

— Não há — ele afirmou, categórico. — Você não é a primeira a sugerir isso. Nem vai ser a última. E, se eu puder evitar, não vai voltar pra solitária por fazer alguma coisa idiota. Acredite, não tem como sair daqui.

Pensei com muito cuidado em como proceder. Ao longo do último ano, ele devia ter conhecido outras pessoas que tentaram fugir e, pela sua reação, visto todas fracassarem. Eu já perguntara várias vezes sobre as saídas, mas, como eu, ele nunca descobrira onde elas ficavam. Precisava encontrar uma abordagem diferente e reunir outras informações que pudessem nos levar para a liberdade.

— Pode responder duas coisas pra mim? — perguntei finalmente. — Não são sobre saídas.

— Se souber a resposta — ele disse, desconfiado, sem fazer contato visual.

— Você sabe onde a gente está?

— Não — ele respondeu prontamente. — Ninguém sabe. Faz parte do plano deles. A única coisa de que tenho certeza é que todos os andares são embaixo da terra. É por isso que não há nenhuma janela ou saída óbvia.

— E como eles espalham aquele gás aqui dentro? Não finja que não sabe do que estou falando — acrescentei quando ele fez uma careta. — Deve ter notado quando estava na solitária. Eles usam pra apagar a gente à noite e nos manter agitados e paranoicos de dia.

— Não precisam de drogas pra isso — ele respondeu. — O pensamento coletivo já espalha a paranoia muito bem.

— Não fuja da pergunta. Sabe ou não de onde vem o gás...?

— Só porque a samambaia é uma planta vascular não significa que produz dióxido de carbono de um jeito diferente — ele interrompeu. Fui pega de surpresa, tanto pela mudança súbita de assunto como pelo leve aumento em sua voz. — Todas as reações químicas da fotossíntese básica estão lá. É só uma questão de usar esporos em vez de sementes.

Fiquei perdida demais para responder na hora e, então, vi o que ele já tinha visto: Emma estava parada perto de nós, procurando lápis coloridos numa gaveta. E era óbvio que estava ouvindo.

Engoli em seco e tentei improvisar alguma resposta coerente.

— Não estava discordando disso. Só comentei que o registro fóssil indica megafilos e microfilos. Foi você quem começou a falar de fotossíntese.

Emma achou o que queria e se afastou, fazendo meus joelhos quase cederem.

— Ai, meu Deus — eu disse quando ela não podia mais ouvir.

— É por isso — Duncan avisou — que você precisa ser mais cuidadosa.

A aula acabou e passei o resto do dia esperando que Emma me denunciasse para alguma autoridade, que me arrastaria para a purgação ou, pior, de volta à escuridão. Logo ela tinha que ouvir a nossa conversa! Os outros detentos podiam não conversar comigo ainda, mas já conseguira ver quais eram os melhores e os piores candidatos a aliados. Emma, sem dúvida, era a pior de todos. Alguns dos outros davam escorregadas de vez em quando, como Hope no meu primeiro dia, soltando um comentário rebelde que os colocava em maus lençóis. Mas minha colega de quarto era boa demais e nunca desviava do discurso alquimista. Pelo contrário: fazia de tudo para dedurar os que não se mantinham na linha. Eu sinceramente não conseguia entender por que ela continuava naquele lugar.

Mas ninguém veio atrás de mim. Emma nem olhou na minha direção e alimentei a esperança de que ela só tivesse ouvido o assunto inventado de Duncan.

Chegou a hora da comunhão e entramos em fila na capela. Alguns sentaram nas cadeiras dobráveis enquanto outros ficaram andando pela sala, como eu. O dia anterior fora domingo e, em vez da hora da comunhão, tínhamos sentado nos bancos, junto com todos os instrutores, enquanto um hierofante dava uma missa completa para nós e orava pelas nossas almas. Essa havia sido a única mudança na rotina. Fora isso, tivemos as mesmas aulas no fim de semana que durante a semana. Mas aquela única missa me deu forças — não por sua mensagem, mas porque era mais uma forma de marcar o tempo. Todas as informações que conseguisse sobre aquele lugar me ajudariam a fugir... ou pelo menos era o que eu esperava.

Também era por isso que eu lia a Parede da Verdade todo dia antes dos encontros. Ela registrava um histórico dos detentos que ficaram naquele lugar antes de mim e eu queria descobrir alguma coisa. A maior parte do que encontrava era o mesmo tipo de mensagem, e nesse dia não foi diferente. Pequei contra os meus e me arrependo profundamente. Por favor, me aceite de volta no rebanho. A única salvação é a salvação humana. Outra mensagem dizia: Por favor, me tire daqui. Vi Sheridan entrar na capela e estava prestes a me juntar aos outros quando notei algo pelo canto do olho. Era uma região da parede que eu ainda não tinha explorado, numa letra rabiscada:

Carly, me perdoe. — K. D.

Senti o queixo cair. Seria possível... será que era mesmo... Quanto mais olhava, mais tinha certeza do que tinha visto: um pedido de desculpas para minha irmã Carly, escrito por Keith Darnell, o cara que a havia estuprado. Pensei que poderia ser outra Carly e outra pessoa com as mesmas iniciais... mas minha intuição dizia o contrário. Eu sabia que Keith tinha ido parar na reeducação. Seus crimes foram muito diferentes dos meus e ele fora solto recentemente — uns cinco meses antes. Ele parecia um zumbi quando saiu. Era surreal pensar que tinha passado por esses mesmos corredores, assistido às mesmas aulas, sido submetido às mesmas purgações. Era ainda mais perturbador pensar que eu poderia ficar igual a ele quando saísse dali.

— Sydney? — Sheridan chamou suavemente. — Não vai se juntar a nós?

Fiquei vermelha ao perceber que era única que não estava sentada e rapidamente me juntei aos outros.

— Desculpe — murmurei.

— A Parede da Verdade é um lugar muito inspirador — Sheridan disse. — Achou alguma coisa que tocou sua alma?

Pensei com cuidado antes de responder e concluí que a verdade não me faria mal nesse caso. Poderia até ajudar, já que Sheridan estava sempre tentando me fazer falar.

— Só fiquei surpresa — eu disse. — Encontrei o nome de uma pessoa que conhecia... uma pessoa que esteve aqui antes de mim.

— Essa pessoa ajudou a te corromper? — Lacey perguntou com uma curiosidade inocente. Foi uma das primeiras vezes que alguém demonstrava um interesse pessoal em mim.

— Não exatamente — eu disse. — Na verdade, fui eu quem o denunciou e o mandou pra cá. — Todos pareceram interessados, então continuei. — Ele estava trabalhando com um Moroi, um Moroi velho e caduco, e tirando sangue dele. Dizia ao Moroi que o sangue estava sendo usado para realizar curas, mas na verdade o vendia para um tatuador local, que por sua vez usava o sangue pra fazer tatuagens anabolizantes que eram vendidas a alunos humanos do ensino médio. O sangue na tinta fazia com que eles ficassem melhores em tudo, principalmente em esportes, mas tinha efeitos colaterais perigosos.

— Seu amigo sabia disso? — Hope perguntou, curiosa. — Que ele estava fazendo mal a humanos?

— Ele não era meu amigo — eu disse rápido. — Mesmo antes disso tudo. E sim, sabia. Mas não estava nem aí. Só estava interessado em ganhar dinheiro.

Os outros detentos estavam hipnotizados, talvez porque nunca tivessem me ouvido falar tanto, ou talvez porque nunca tivessem ouvido um escândalo como esse.

— Aposto que o Moroi sabia — Stuart disse, em um tom sombrio. — Aposto que sabia pra que as tatuagens estavam sendo usadas e como eram perigosas. Ele devia estar só se fazendo de senil.

A antiga Sydney — a Sydney em seu primeiro dia ali — teria logo defendido Clarence e sua inocência no esquema de Keith. Esta Sydney, que tinha visto detentos serem punidos por muito menos e sofrido duas purgações naquela semana, aprendera a lição.

— Não era minha obrigação julgar o comportamento dos Moroi — eu disse. — Eles fazem o que a natureza deles manda. Mas nenhum humano tinha o direito de arriscar a vida de outros humanos como meu parceiro estava fazendo. Foi por isso que o denunciei.

Para minha surpresa, todos responderam com acenos e até Sheridan me olhou com aprovação. Então, ela disse:

— Foi um pensamento muito sábio, Sydney. No entanto, alguma coisa deve ter dado errado pra você não ter aprendido nenhuma lição com esse incidente e vir parar aqui.

Todos os olhos se voltaram para mim e, por um momento, não consegui respirar. Eu tinha falado sobre Adrian algumas vezes com Duncan, mas a hora da comunhão era outra história. Duncan não julgava meu romance. Como eu poderia falar de algo tão valioso e intenso na frente de pessoas que insultariam nossa história e a fariam parecer algum tipo de obscenidade? O que eu tinha com Adrian era bonito. Não queria pôr na roda para que eles nos condenassem.

Mas como não dizer nada? Se não desse nada a eles, se não entrasse nesses joguinhos... quanto tempo poderia ficar presa? Um ano, ou mais, como Duncan? Tinha prometido a mim mesma, naquela cela escura, que diria qualquer coisa para sair dali. Precisava ser fiel a essa promessa. Mentiras contadas ali não teriam importância se me levassem de volta para Adrian.

— Baixei a guarda — disse simplesmente. — Minha missão me fazia trabalhar perto de muitos Moroi e parei de pensar neles como as criaturas que são. Acho que, depois do que meu parceiro fez, os limites entre o bem e o mal ficaram confusos pra mim.

Estava preparada para que Sheridan começasse a me interrogar em busca de detalhes do que havia acontecido, mas foi outra menina, chamada Amelia, quem ergueu a voz com algo completamente inesperado:

— Faz sentido — ela disse. — Tipo, eu não teria chegado aos, hum, extremos a que você chegou, mas, quando a gente fica perto de um humano corrompido, isso pode nos levar a perder a fé na humanidade e cometer o erro de recorrer aos Moroi.

Outro rapaz com quem eu quase nunca tinha conversado, Devin, concordou com a cabeça.

— Alguns deles até parecem simpáticos.

Sheridan franziu um pouco a testa e pensei que aqueles dois poderiam se meter em encrenca pelos comentários quase favoráveis aos Moroi. Mas, aparentemente, ela decidiu relevar graças ao progresso que eu tinha feito naquele dia.

— É muito fácil se confundir, ainda mais quando se está sozinho numa missão e as coisas tomam rumos inesperados. O importante é lembrar que temos toda uma infraestrutura pra ajudar vocês. Se tiverem alguma dúvida sobre o que é certo ou errado, não recorram aos Moroi. Recorram a nós e vamos dizer o que é certo.

Porque Deus nos livre de pensar por conta própria, refleti, cheia de ódio. Fui poupada de outros questionamentos quando Sheridan voltou a atenção aos demais, para ouvir que tipo de iluminação eles tinham recebido naquele dia. Não só tinha escapado daquela como, pelo jeito, tinha ganhado alguns pontos com Sheridan e, como vi na hora do jantar, com alguns outros detentos.

Quando peguei a bandeja das mãos de Baxter e comecei a andar em direção a uma mesa vazia, Amelia me chamou para a dela com um curto aceno de cabeça. Sentei ao seu lado e, embora não tenham conversado comigo durante o jantar, ninguém me mandou sair nem brigou comigo. Comi sem dizer uma palavra, prestando atenção em tudo que diziam. A maior parte da conversa era igual ao que eu ouvia no refeitório de Amberwood: comentários sobre o dia letivo ou colegas de quarto que roncavam. Mas aquilo revelou um pouco mais sobre as personalidades deles e voltei a refletir sobre quem poderia ser um aliado.

Duncan estava sentado com os outros em outra mesa, mas, ao passar por mim enquanto saíamos do refeitório, murmurou:

— Viu? Falei que você estava fazendo progresso. Agora não vai estragar tudo, hein?

Quase abri um sorriso, mas, naquele dia, tinha aprendido a não ficar confortável demais. Por isso, mantive o que esperava ser uma expressão solene e diligente enquanto íamos até a biblioteca para escolher nossa opção de leitura tediosa da noite. Parei na seção de história, torcendo para encontrar alguma coisa um pouco mais interessante do que o que tinha pegado nas últimas vezes. Livros de história alquimistas também eram cheios de lições de moral e exemplos de bons comportamentos, mas pelo menos não eram voltados diretamente ao leitor, como na maior parte dos livros de autoajuda. Estava em dúvida entre alguns relatos medievais quando uma pessoa se ajoelhou ao meu lado.

— Por que você perguntou sobre o gás? — uma voz baixa murmurou. Levei um susto. Era Emma.

— Não sei do que está falando — eu disse, com calma. — Está se referindo à aula de artes? Duncan e eu estávamos falando sobre samambaias.

— Uhum. — Ela pegou um livro de diários da Renascença e começou a folhear as páginas. — Não vou dizer uma palavra pra você no nosso quarto. Está sob vigilância. Mas, se quiser minha ajuda agora, tem mais ou menos sessenta segundos.

— Por que você me ajudaria? — perguntei. — Supondo que eu queira ajuda? Está tentando armar pra cima de mim pra melhorar sua imagem?

Ela bufou.

— Se quisesse “armar pra cima de você”, teria feito isso há séculos no nosso quarto, que é filmado. Quarenta e cinco segundos. Por que perguntou sobre o gás?

A ansiedade tomou conta de mim enquanto eu pensava sobre o que fazer. Nas minhas avaliações sobre quem poderia ser um aliado, eu nunca nem tinha considerado Emma. No entanto, ali estava ela, oferecendo o mais próximo de um convite à rebelião do que ninguém, incluindo meu amigo Duncan, tinha oferecido. Isso tornava ainda mais provável que ela estivesse tramando alguma coisa, mas eu simplesmente não podia resistir a uma oportunidade dessas.

— O gás nos mantém aqui tanto quanto os guardas e as paredes — eu disse, finalmente. — Só queria entender. — Com sorte, não seria incriminador demais.

Emma devolveu o livro e escolheu outro diário, esse com decorações elegantes.

— Os controles ficam numa sala no andar da purgação. Cada quarto tem um duto pequeno que se alimenta desse sistema. Fica logo atrás do painel de ventilação, no teto.

— Como você sabe? — perguntei.

— Vi alguns homens da manutenção mexendo num quarto vazio uma vez.

— Então seria mais fácil bloquear quarto a quarto do que a sala de controle — murmurei.

Ela balançou a cabeça.

— Não, porque o duto fica no campo de visão das câmeras de segurança. Os guardas te pegariam antes que arrancasse o painel. E pra isso você precisaria de uma chave de fenda.

Ela começou a pôr o livro de volta e eu o tirei da mão dela. Tintas de cores brilhantes decoravam a capa, e o canto de cada abertura de capítulo era envolto por um pedaço liso de metal. Passei os dedos sobre um deles.

— Uma chave de fenda de ponta chata? — perguntei, medindo a grossura do canto de metal. Se conseguisse tirar aquilo, viraria uma ferramenta razoável pra desenroscar um parafuso.

O rosto de Emma se iluminou num sorriso lento.

— Sim! Você ganha pontos pela criatividade, tenho que admitir. — Ela me examinou por mais alguns momentos. — Por que quer bloquear o gás? Parece que temos problemas bem maiores aqui. Como estarmos presas aqui dentro.

— Antes me diga uma coisa — falei, ainda sem saber se Emma fazia parte de alguma operação que me deixaria numa situação ainda pior. — Você é praticamente a garota propaganda do comportamento alquimista ideal. Como veio parar aqui?

Ela hesitou antes de responder.

— Mandei embora alguns guardiões que tinham sido enviados pra ajudar meu grupo alquimista em Kiev. Havia alguns Moroi que achei que precisavam de mais proteção do que eu.

— É, isso deve ter irritado os poderes superiores — admiti. — Mas acho que existem coisas piores, ainda mais considerando como você tem agido bem. Por que ainda está aqui?

O sorriso convencido dela deu lugar a uma expressão melancólica.

— Porque minha irmã não está. Ela passou por tudo isso também, foi liberada e depois ficou ainda mais rebelde do que antes. Ninguém sabe onde ela está e, agora, por melhor que eu me comporte, eles estão tomando cuidado pra não cometer o mesmo erro me libertando cedo demais. Sangue ruim na família, acho.

Era uma boa explicação. E ela parecia sincera, mas também era uma alquimista e nós éramos bons em mentir. Outra dúvida surgiu na minha cabeça quando voltei o olhar para o outro lado da sala, onde Duncan e alguns outros detentos folheavam livros na seção de sociologia.

— Por que Duncan está aqui há tanto tempo? Ele parece ter bom comportamento. Sangue ruim na família também?

Emma seguiu meu olhar.

— Meu palpite? Comportamento bom demais.

— Existe isso? — perguntei, surpresa.

Ela encolheu os ombros.

— Ele é tão bonzinho que acho que eles têm medo de que não consiga resistir à influência dos vampiros, mesmo se quiser. Por isso, não querem libertá-lo tão cedo. Mas também não querem que ele tenha firmeza demais porque isso meio que vai contra o procedimento operacional aqui. Acho que ele quer ser mais corajoso... mas tem alguma coisa o impedindo. Quer dizer, além das coisas que impedem todo mundo.

Chantal, pensei. Era isso que o impedia. Ele tivera coragem para se tornar meu amigo, mas as palavras de Emma explicavam por que tomava tanto cuidado até nesse aspecto. Perder Chantal tinha deixado uma marca nele e o tornado covarde demais para tentar qualquer coisa. Torcendo para não estar cometendo um erro terrível, respirei fundo e virei para Emma.

— Se o gás estiver desligado, posso mandar uma mensagem para uma pessoa de fora. É tudo que posso te contar.

Ela ergueu as sobrancelhas ao ouvir isso.

— Hoje? Tem certeza?

— Absoluta — eu disse. Adrian estaria me procurando nos sonhos. Ele só precisava me encontrar num momento de sono natural.

— Espere um minuto — Emma disse depois de pensar mais um pouco.

Ela levantou e atravessou a sala até onde Amelia estava folheando um livro. Elas conversaram até tocar o sinal que sinalizava a hora de voltar para os quartos. Então Emma voltou correndo até mim.

— Leve este livro — ela disse, apontando para o diário ornamentado. — Não vou mais falar com você depois que a gente sair por aquela porta. Volte pro quarto, conte até sessenta e depois faça o que precisa fazer com a entrada de ar.

— Mas a câmera...

— Você está sozinha agora — ela disse e saiu andando sem dizer mais uma palavra.

Fiquei olhando pasma por alguns momentos e depois saí correndo atrás dos outros que estavam retirando os livros com a bibliotecária. Na fila, tentei parecer natural e não demonstrar que meu coração estava prestes a sair pela boca. Emma estava falando sério? Ou aquilo tudo não passava de uma grande armação? O que ela poderia ter conseguido numa só conversa que, de repente, permitiria que eu mexesse no sistema de ventilação? Porque, quando voltei para o quarto, pude ver que a pequena câmera preta que nos vigiava estava apontada bem na direção do painel. Quem quer que o abrisse seria visto imediatamente.

Tinha de ser uma armação, mas a linguagem corporal de Emma deixou claro que ela não voltaria a interagir comigo enquanto nos preparávamos para dormir. Contei em silêncio e soube que ela devia ter contado também porque, quando cheguei a sessenta, ela me lançou um olhar penetrante e significativo.

Existem maneiras mais fáceis de armar para mim, pensei. Maneiras mais fáceis com consequências piores.

Engolindo em seco, empurrei minha cama para perto da parede e fiquei de pé em cima dela para alcançar o painel de ventilação. Eu já tinha tirado o canto metálico da página do livro e minha avaliação estava correta. Ela funcionava certinho como uma chave de fenda de ponta chata. Claro, não era tão ergonômica quanto uma ferramenta de verdade, mas, depois de tentar algumas vezes, finalmente consegui afrouxar os quatro parafusos o suficiente para arrancar o painel. Minhas mãos trêmulas não estavam acelerando o processo, e eu não fazia ideia de quanto tempo teria para isso... nem se Emma me avisaria quando meu tempo estivesse acabando.

Do lado de dentro, encontrei um poço de ventilação comum. Era pequeno demais para uma pessoa entrar, de modo que não haveria nenhuma fuga cinematográfica por aquele caminho. Como ela dissera, um pequeno duto estava ligado ao poço, com uma abertura logo atrás das grades do painel para disseminar os gases depois que as luzes tivessem sido apagadas. Agora eu precisava bloquear o duto. Levei a mão à cama, onde tinha deixado uma meia velha que pegara do cesto de roupa suja do nosso quarto. Não duvidava que os alquimistas fizessem um inventário das nossas roupas regularmente, mas também sabia que, quando buscavam os cestos, as roupas eram jogadas imediatamente num cesto maior. Assim, se notassem uma meia faltando, não saberiam de que quarto tinha vindo. E sem dúvida até secadoras alquimistas comiam meias de vez em quando.

Enfiei a meia no duto o melhor que pude, torcendo para que fosse o bastante para impedir que a maior parte do gás passasse. Atrás de mim, ouvi Emma murmurar baixinho:

— Rápido.

Com as mãos escorregadias de suor, recoloquei o painel e quase esqueci de pôr a cama de volta no lugar antes de me enfiar nela com meu livro. Todo o trabalho tinha durado menos de cinco minutos, mas será que tinha sido rápido o suficiente?

Emma estava com os olhos fixos em seu livro e em nenhum momento olhou para mim, mas pude ver a sombra de um sorriso em seus lábios. Seria de triunfo por me ajudar a atingir meu objetivo? Ou de satisfação por eu ter cometido uma insubordinação grave enquanto era filmada?

Se me viram, ninguém veio atrás de mim naquela noite. Nossa hora de leitura passou, e não demorou para que as luzes se apagassem e a porta se trancasse automaticamente com um clique. Me aconcheguei na cama desconfortável e fiquei à espera de outra coisa que tinha virado rotina nessa última semana: o sono artificial trazido pelo gás. Não veio.

Não veio.

Eu mal podia acreditar. A gente tinha conseguido! Eu havia impedido que o gás entrasse no quarto. O irônico era que uma ajuda para dormir teria sido bem-vinda, porque eu estava tão ansiosa para falar com Adrian que não conseguia cair no sono. Parecia véspera de Natal. Fiquei deitada no escuro por umas duas horas até a exaustão natural me vencer e me pôr para dormir. Meu corpo andava num estado contínuo de fadiga, tanto pelo estresse mental como pelo fato de que o sono naquele lugar não era adequado. Dormi profundamente até o sinal de despertar, e foi então que me dei conta da terrível verdade.

Eu não havia tido sonho nenhum. Adrian não tinha vindo.


8

Adrian

 

Eu não queria que as coisas saíssem tanto do controle.

Quando chegara à Corte, minhas intenções eram boas, mas, depois de não conseguir nada com Lissa e descobrir a situação dos meus pais, alguma coisa estourou dentro de mim. Me lancei de volta aos velhos hábitos com uma sede de vingança, perdendo toda e qualquer responsabilidade. Tentava convencer a mim mesmo que só estava me divertindo e procurando um jeito de relaxar enquanto estava na Corte. Às vezes, até me convencia de que fazia isso por Charlotte. Essa desculpa podia ter funcionado nos primeiros dias, mas, depois de uma semana de festas e farra ininterrupta, até ela reclamou timidamente quando fui buscá-la numa noite.

— Vamos ficar em casa — ela disse. — A gente pode descansar um pouco e ver um filme. Ou jogar baralho. O que você quiser.

Apesar de falar isso, ela estava vestida para sair, com um lindo vestido lilás que realçava seus olhos cinza. Apontei para ele.

— E desperdiçar isso? Pensei que você quisesse conhecer gente nova.

— Quero — ela disse. — E já conheci. Tanto que a gente está começando a ver as mesmas pessoas nas festas. Todo mundo já me viu neste vestido.

— É esse o problema? — perguntei. — Te empresto dinheiro pra comprar outro.

Ela fez que não.

— Nem tenho como te pagar por este.

Depois de descobrir a farsa em que meus pais viviam, eu havia considerado fazer um protesto recusando a grande mesada que meu pai depositava regularmente na minha conta. Tinha menos gastos ali do que em Palm Springs, e teria gostado de mostrar a Nathan Ivashkov que ele não poderia comprar todos os membros da família. Mas, quando Charlotte comentou inocentemente que se sentia malvestida para as festas da realeza que a gente andava frequentando, decidi que usar o dinheiro do meu pai para ampliar o guarda-roupa de uma secretária o deixaria tão irritado quanto. Embora ele ainda não soubesse o que estava acontecendo, eu tinha uma satisfação pessoal só de fazer isso. Charlotte só havia aceitado o acordo se a gente o tratasse como um empréstimo, não como um presente, mas até ela ficara surpresa quando viu as quantias que eu estava esbanjando. A voz da razão na minha cabeça avisou que eu estava correndo o risco de recair nos maus hábitos de consumo que tivera em meus piores momentos em Palm Springs, mas ignorei essa voz. Afinal, logo ganharia mais do meu pai e quase todo mundo andava me dando bebida de graça nos últimos dias.

— Ficou lindo em você — eu disse. — Seria uma pena esconder tanta beleza em casa. A menos que haja outro problema?

— Não — Charlotte respondeu, corando com o elogio. Ela me olhou de cima a baixo e tive a sensação de que estava lendo minha aura, o que teria revelado (se outros sinais ainda não tivessem) que eu já tinha começado a beber. Ela soltou um suspiro. — Vamos lá.

Ela não aguenta o seu ritmo, tia Tatiana disse enquanto atravessávamos os campos da Corte. O pôr do sol deixava as sombras mais compridas ao nosso redor. Mas, enfim, que menina aguenta?

Sydney aguentava, pensei. Não em festas. Na vida, quero dizer.

As palavras me trouxeram de volta aquela angústia terrível que nenhuma farra era capaz de afugentar. Sydney. Sem ela, eu simplesmente estava me deixando levar, seguindo uma existência vazia agravada pela incapacidade de encontrar a mulher que amava. Tudo que conseguia fazer era uma busca inútil e cada vez mais esporádica em sonhos. Ainda não tinha procurado por ela naquela noite e me perguntei se talvez devesse aceitar a sugestão de Charlotte, pelo menos para passar algum tempo sóbrio.

É cedo demais, tia Tatiana avisou. Depois você procura. Nenhum humano vai estar dormindo a essa hora nos Estados Unidos. Além do mais, você quer aquilo de volta?

Ela tinha razão quanto ao horário. O problema era que eu tinha perdido várias chances de procurar Sydney durante a semana e isso estava começando a me incomodar. Mas ela também tinha razão em relação àquilo: a escuridão terrível e profunda que ameaçava me consumir por inteiro. Em Palm Springs, depois do desaparecimento de Sydney, a depressão tinha sido ruim, mas, depois de não conseguir a ajuda de Lissa, havia piorado. Sabia que meu antigo psiquiatra e até Sydney teriam me aconselhado a retomar a medicação, mas como faria isso se havia uma chance de salvar Sydney com o espírito? Não estava sendo muito eficaz, mas mesmo assim me recusava a largar a magia. Então o maravilhoso efeito tranquilizante do álcool ajudava a abrandar a depressão, assim como a presença do fantasma de tia Tatiana. Era desconcertante como seus conselhos tinham se tornado mais frequentes na última semana. Sabia que ela não era real e que meu psiquiatra também teria muito a dizer sobre esses delírios, mas parecia estar criando uma parede entre mim e a parte mais profunda da depressão. Pelo menos me ajudava a sair da cama de manhã.

A festa daquela noite tinha sido organizada por um menino da família Conta que eu mal conhecia, mas ele pareceu contente quando a gente chegou e nos cumprimentou com um aceno simpático do outro lado do salão. Charlotte tinha se tornado minha sombra nesses eventos e muita gente achava que se aproximar dela era um bom jeito de ficar meu amigo. Isso a deixava desconfortável, mas até que eu gostava de ver membros da realeza que normalmente a tratariam como lixo a enchendo de elogios para causar uma boa impressão.

Quase todas as festas nessa época do ano eram dadas fora de casa, enquanto o clima ainda permitia. Éramos ensinados desde crianças a ficar trancados em casa nos escondendo dos Strigoi, então sempre que havia uma oportunidade de sair a céu aberto num lugar seguro, como a Corte, era difícil recusar. O jovem lorde Conta tinha feito de tudo para tornar a festa particularmente memorável, oferecendo todo tipo de atrações para divertir os convidados. Uma das minhas favoritas foi uma fonte gigante que ficava em cima de uma mesa, lançando champanhe para o alto. Dentro da base de vidro, várias luzinhas coloridas iluminavam o líquido espumante.

Enchi uma taça para Charlotte e outra para mim, admirando as luzes que mudavam de cor.

— Adrian — ela disse baixinho. — Olha lá, do outro lado da piscina.

Segui o olhar dela e avistei Wesley Drozdov bebericando uma taça de martíni e me fuzilando com o olhar. A presença dele foi uma surpresa. Ele desaparecera desde nosso último encontro e imaginei que tivesse comparecido achando que eu não estaria numa festa cujo anfitrião não conhecia bem. Canalha, tia Tatiana murmurou na minha cabeça. Ele não merece um sobrenome nobre.

— Nossa, que aura — Charlotte exclamou. — Ele odeia mesmo você.

Eu já tinha tomado uma dose oferecida por um garçom que passara por nós na entrada e não estava no melhor estado para ler auras. Não tinha motivo para duvidar de Charlotte e ri da preocupação em sua voz.

— Não se preocupe. Ele não vai fazer nada. Viu só?

Dito e feito, Wesley deixou a taça vazia numa mesa e saiu, para o meu alívio. Não queria que tia Tatiana voltasse a resmungar sobre ele. Mesmo assim, Charlotte parecia tensa.

— Nunca deixe esse cara te pegar sozinho.

Dei uma taça para ela.

— Isso nunca aconteceria com você ao meu lado — eu disse, galante. — Sempre tenho você pra me proteger.

Seu rosto se iluminou, muito mais do que eu teria esperado com um comentário tão exagerado. Mas se Charlotte estava feliz, eu estava feliz. Podia não ser capaz de resolver todos os meus problemas, mas Charlotte era uma garota legal que merecia coisas boas depois de tudo que sofrera. Além disso, a companhia dela nessas festas fazia eu me sentir menos patético. Beber sozinho era triste. Beber com uma amiga podia, tecnicamente, ser considerado uma interação social.

Seguimos nossa rotina de sempre de beber e fazer amigos. Eu chegara com a intenção de estabelecer um limite para mim mesmo, mas logo perdi o controle. Deve ter sido isso que me fez atender o celular assim que ele tocou. Normalmente, checava a tela antes de decidir se atenderia ou não, mas, naquela noite, isso nem passou pela minha cabeça.

— Alô?

— Adrian?

Fechei a cara.

— Oi, mãe.

Charlotte se afastou discretamente e fui para um canto mais silencioso. Minha mãe era um dos principais motivos por que eu andava olhando o número antes de atender nos últimos dias. Ela não tinha parado de ligar desde nossa discussão depois do jantar. Agora, não havia como fugir.

— Onde você está, querido? Quase não dá pra te ouvir.

— Estou numa festa — eu disse. — Não posso falar muito. — Não era exatamente verdade, já que pouca gente estava prestando atenção em mim agora e Charlotte encontrara um grupo para conversar perto da piscina.

— Vai ser rápido. — A menos que estivesse enganado, havia um leve nervosismo em sua voz. — Não sei se recebeu minhas mensagens... — Ela parou a frase no meio de propósito, talvez na esperança de que eu desse uma explicação tranquilizadora por ter ignorado as ligações dela a semana toda. Não dei.

— Recebi, sim — respondi.

— Ah — ela disse. — Bom, então, como sabe, fiquei triste com o jeito como deixamos as coisas. Sinto a sua falta, Adrian. Passei muito tempo pensando em você enquanto estava fora e uma das coisas que mais queria era ter você por perto de novo.

Senti uma faísca de raiva ao ouvir isso, lembrando de como ela não queria falar comigo quando eu a visitava em sonhos durante o período em que esteve presa. Guardei esse sentimento pra mim e deixei que ela continuasse.

— Queria que a gente tentasse de novo, só você e eu. Talvez um almoço, para eu poder explicar melhor as coisas. Queria que você entendesse...

— Ainda está morando com ele? — interrompi. — Ainda está aceitando o dinheiro dele?

— Adrian...

— Está ou não? — insisti.

— Sim, mas, como te disse...

— Então entendo perfeitamente. Não precisa explicar nada.

Fiquei esperando um pedido de desculpas ou uma justificativa, como as muitas que ouvira nas mensagens de voz dela e quase podia repetir de cor. Por isso, fiquei um pouco surpreso quando ela retrucou mais áspera que de costume.

— E você está, Adrian? Tenho acesso às nossas contas. Vi que ele continua te mandando dinheiro.

Ela está te chamando de hipócrita, tia Tatiana sussurrou, com veneno na voz. Vai deixar por isso mesmo?

— Não é a mesma coisa — eu disse, sentindo ao mesmo tempo raiva e vergonha. — Estou dando pra outras pessoas.

— Ah, é? — Seu tom demonstrou que ela não tinha acreditado nem por um segundo.

— Sim, eu...

Minha resposta mordaz foi interrompida por gritos e pelo som de alguém caindo na água. Olhei para onde tinha visto Charlotte pela última vez. Alguma brincadeira tinha rolado entre o grupo, e ela e alguns outros estavam na piscina agora, tossindo e esfregando os olhos.

— Preciso ir, mãe — eu disse. — Obrigado por ligar, mas, até você começar a se respeitar, simplesmente não estou interessado. — Sabia que estava sendo cruel e não dei tempo para ela responder antes de desligar e correr até a piscina. Estendi a mão para Charlotte enquanto ela desviava de uma bandeja com copinhos flutuando para sair da água. — Você está bem?

— Sim, sim, estou. — Seus cachos, que antes estavam bonitos e cheios, agora caíam encharcados em volta do rosto. — Queria poder dizer o mesmo do vestido.

Garçons vieram correndo com toalhas e peguei uma para Charlotte.

— Vai secar.

Ela abriu um sorriso triste enquanto se enrolava na toalha.

— Você não lava muita roupa, né? Isso é seda. Não vai voltar ao normal com o cloro e sabe-se lá mais o quê que tinha nessa piscina.

As palavras da minha mãe ainda estavam frescas na minha cabeça.

— Então vou repetir o que disse antes: vamos comprar roupas novas pra você.

— Adrian, não posso ficar aceitando seu dinheiro. É legal da sua parte e agradeço muito, sério. Mas preciso ganhar dinheiro do meu jeito.

Sentimentos contraditórios tomaram conta de mim. O primeiro era orgulho. Ali estava ela, incorporando a atitude que eu vinha exigindo da minha mãe. Por outro lado, não tinha como negar que, embora fosse admirável Charlotte tentar fazer as coisas por conta própria, eu realmente estava sendo hipócrita, como minha mãe insinuara. A humilhação ardeu dentro de mim, agravada pela frustração que já sentia por não conseguir ajudar Sydney.

— Você vai conseguir — eu disse, decidido. — Nós dois vamos. Venha.

Peguei a mão de Charlotte e a levei para fora do pátio lotado, sem pensar nas consequências da decisão impulsiva que havia acabado de tomar. Caminhamos até quase o outro lado da Corte, para longe das residências da nobreza em que passávamos a maior parte do tempo. Ali, em meio a casas modestas, fui andando até um endereço que me orgulhei de ter lembrado e bati na porta com força. Charlotte, ainda enrolada em sua toalha, parecia desconfortável ao meu lado.

— Adrian, onde a gente está? — ela perguntou. — Você sabe...

Suas palavras foram interrompidas quando a porta se abriu, revelando a cara surpresa de Sonya Karp. Ela tinha sido professora de biologia e Strigoi (mas não ao mesmo tempo). Agora, era Moroi de novo e uma usuária de espírito como Charlotte e eu. Seu cabelo ruivo estava desgrenhado como se tivesse acabado de acordar e quando notei seu pijama hesitei um momento. O sol ainda não havia nascido, mas ao leste o céu estava decididamente mais roxo que preto. Ainda estávamos em horário Moroi.

— Adrian, Charlotte — Sonya disse, a título de cumprimento. Ela estava extraordinariamente calma, considerando as circunstâncias pouco usuais. — Está tudo bem?

— Eu... sim. — De repente, me senti meio idiota, mas ignorei a sensação. Já que estávamos ali, eu faria o que tinha planejado. — A gente precisa conversar com você sobre uma coisa. Mas, se for tarde demais... — Franzi a testa, tentando entender que horas eram com meu cérebro zonzo por conta do álcool. Ela não tinha por que estar na cama. — Você está num horário humano?

— Estou no horário do Mikhail — ela respondeu, se referindo a seu marido dampiro. — Ele anda trabalhando numas horas esquisitas, então adaptei meu sono ao dele. — Ela reparou na toalha de Charlotte e abriu espaço para nós. — Não tem por que se estressar com isso agora. Entrem.

Embora a casa tivesse uma cozinha e a minha suíte não, o espaço total era muito menor que o meu no prédio de hóspedes. Sonya e Mikhail tinham decorado bem a casa, que ganhara um ar aconchegante, mas, mesmo assim, parecia errado que um nobre de visita como eu recebesse acomodações mais luxuosas do que um guardião que trabalhava duro e estava sempre arriscando a vida. O pior era que eu sabia que essa era uma das maiores casas de guardiões que existiam, porque Mikhail era casado. Guardiões solteiros moravam em quartinhos minúsculos.

— Querem beber alguma coisa? — Sonya perguntou, nos levando até a mesa da cozinha.

— Água — Charlotte disse rápido.

Sonya trouxe dois copos e então sentou à nossa frente.

— Agora — ela disse. — O que é tão importante?

Apontei para Charlotte.

— Ela. Está te ajudando na pesquisa da vacina, não está? Ela trabalha duro mas não recebe nada em troca. Isso não está certo.

Charlotte ficou vermelha quando entendeu do que aquilo se tratava.

— Adrian, não tem problema...

— Tem sim — insisti. — Eu e Charlotte ajudamos muito na sua pesquisa com o espírito, mas não recebemos nada.

Sonya arqueou a sobrancelha.

— Não sabia que isso era parte das suas exigências. Achei que estivessem contentes em lutar contra os Strigoi pelo bem geral.

— E estamos — disse Charlotte, ainda morta de vergonha.

— Porém — acrescentei —, você não pode esperar que a gente gaste tempo das nossas vidas com isso e ainda se vire pra pagar as contas. Quer ajuda? Então não faça as coisas pela metade. Forme um esquadrão de espírito em tempo integral. Sei lá. Só estou dizendo que, se quiser fazer a coisa do jeito certo, precisa pagar as pessoas como elas merecem pra garantir que vai ter a melhor ajuda possível. Charlotte precisa fazer malabarismos com o trabalho dela no escritório pra continuar te ajudando.

O olhar de Sonya recaiu sobre Charlotte, que pareceu ainda mais constrangida.

— Sei que você trabalha muitas horas e realmente sinto muito por exigir de você. — Sonya se voltou para mim, com um ar muito menos solidário. — Mas me lembre exatamente em que você está ajudando nesses últimos tempos, Adrian?

Que audácia, disse tia Tatiana.

— Bom — respondi, obstinado —, eu poderia te ajudar a produzir a sua vacina em massa se você me contratasse em tempo integral.

Sonya soltou uma risada curta e seca.

— Adoraria fazer isso, mas tem dois probleminhas. O primeiro é que não estou produzindo nada em massa.

— Não? — perguntei. Olhei de soslaio para Charlotte, que estava constrangida demais para notar. — Mas achei que fosse sua prioridade.

— E é — Sonya respondeu. — Mas, infelizmente, replicar o espírito no sangue do Neil está se provando muito difícil. O espírito não parece estar ligado ao sangue de uma maneira estável e tenho medo de que desapareça antes que a gente consiga decifrar seus segredos. Ter usuários de espírito por perto seria muito útil, sem dúvida. Mas solucionar isso também vai exigir conhecimentos de biologia e uma compreensão do sangue em nível celular, e, infelizmente, só conheço uma pessoa que se encaixa nessa categoria. E essa usuária de espírito não conseguiu descobrir nada por enquanto.

Levei um momento para entender que Sonya estava falando de si mesma. Eu sabia que Charlotte estava ajudando, mas era novidade para mim — e para Charlotte também, pela cara dela — que o projeto estava parado. Tínhamos feito um avanço tão grande ao injetar uma vacina Strigoi em Neil que era decepcionante pensar que ainda não estávamos em posição de tirar proveito disso. Eu imaginara que, depois de todo o nosso esforço, Sonya tinha criado seu elixir miraculoso em algum laboratório e estava pronta para distribuí-lo pelo mundo.

— Qual é o segundo problema? — perguntei, lembrando do que ela tinha dito antes.

— O segundo problema — Sonya disse — é que não estou em posição de pagar vocês. Acreditem, adoraria um “esquadrão de espírito” dedicado a essa tarefa, mas nem eu ganho nada com isso. A rainha e o conselho dão bolsas para pesquisas científicas, e uso esse dinheiro para cobrir despesas de equipamentos e viagens. Mas pagamento? Recebo tanto quanto vocês. Embora... talvez seja uma possibilidade a considerar. Se o conselho realmente quiser que o trabalho avance, precisam garantir que as pessoas mais capacitadas possam devotar todo o seu tempo e recursos a ele.

Sonya parecia sincera em relação a isso, mas voltei a me sentir um idiota. Tinha chegado exigindo dinheiro como se ela fosse algum tipo de tesoureira da nação quando na verdade estava dedicando ainda mais esforços do que nós, também em troca de nada. Mesmo sob efeito do álcool, reconheci que havia agido como um imbecil.

— Sonya, desculpe — eu disse.

Os Ivashkov não se desculpam!, tia Tatiana gritou.

— Tudo bem — Sonya disse. — Não é um pedido insensato.

— Mas eu pedi de um jeito insensato — eu disse, rouco.

Pare de fazer isso, tia Tatiana mandou.

Charlotte, embora ainda envergonhada por ter sido exposta daquele jeito, sem saber tomou o lado da minha tia imaginária e pôs a mão no meu braço.

— Você não tinha como saber. E estava fazendo isso por mim.

— Vou fazer o pedido — Sonya acrescentou, olhando de mim para ela. — Quem sabe? Talvez um esquadrão faça as coisas andarem. Na verdade, estou esperando que as aulas acabem em Amberwood para que Neil volte com Jill. Minha esperança é que tê-lo aqui torne as coisas mais claras.

— Talvez, se Neil voltar, Olive também volte — Charlotte disse. O encontro com Sonya tinha deixado Charlotte visivelmente abalada, mas pensar em Olive a animou um pouco.

— Talvez — eu disse, não me sentindo tão confiante, considerando as coisas que Charlotte me contara nos últimos dias. — Mas acho que você seria um motivo maior para Olive voltar do que um garoto que ela mal conhece.

— É, mas ela gosta mesmo dele. — Charlotte ficou mexendo na ponta da toalha por um momento e então me encarou. — Se apaixonar por alguém leva as pessoas a fazer coisas que o amor por um parente não leva.

Franzi a testa enquanto a examinava mais de perto e percebi que ela estava tremendo.

— Meu Deus — eu disse, com vergonha por não ter notado isso antes. — Você deve estar congelando. — A temperatura lá fora estava agradável, mas tinha esfriado desde o começo da semana, e aquela longa caminhada num vestido de festa encharcado não devia ter sido muito divertida. Voltei o olhar para Sonya. — Você tem alguma roupa que ela possa usar?

Charlotte ficou vermelha.

— Estou bem. Não precisa se preocupar...

— Claro — Sonya interrompeu, levantando. Ela chamou Charlotte. — Tenho algumas coisas que você pode experimentar.

Relutante, Charlotte foi atrás dela. Sonya voltou para a cozinha um minuto depois e sentou comigo na mesa.

— Ela está se trocando.

Acenei com a cabeça, ainda pensando na conversa de antes.

— Tomara que ela não fique decepcionada se Olive não voltar pra Corte. Acho que a irmã dela tem muita coisa pra processar depois de... enfim, você entende.

— Sim, entendo — Sonya disse, com gravidade. — Mas, pra ser sincera, não acho que é Olive quem vai decepcionar a garota.

Eu estava um pouco mais sóbrio, o suficiente para sentir uma dor de cabeça, mas, pelo jeito, ainda não estava com a mente afiada.

— Como assim?

Sonya suspirou.

— É disso que estou com medo. Você não faz a menor ideia de que essa menina é louca por você, faz?

— Quem... você está falando de Charlotte? — Balancei a cabeça. — Não, nada a ver. A gente é só amigo.

— Vocês passam muito tempo juntos. E sempre que encontro com ela, só fala de você.

— Não tenho o menor interesse nela — eu disse, firme. — Não nesse sentido, pelo menos.

Sonya me lançou um daqueles olhares penetrantes, uma especialidade dela.

— Não disse que tem. Na verdade, está perfeitamente claro pra mim que você não está interessado nela. Mas pra ela não está. E é cruel da sua parte deixar que ela pense isso.

— Não estou deixando que ela pense nada! — discordei. — A gente só sai pra se divertir junto.

— Ela me contou que você comprou roupas pra ela.

— É um empréstimo — eu disse, com firmeza. — Porque ela não ganha o suficiente pra se sustentar.

— Ela estava se virando perfeitamente bem até você arrastá-la pro turbilhão da vida social da nobreza. — Sonya me encarou. — Olha, quer um conselho? Se gosta dela de verdade, se afaste um pouquinho. Sem perceber, você está mandando sinais contraditórios e vai chegar a hora em que ela finalmente vai perceber que o que você quer com ela não é o mesmo que ela quer com você. Seria difícil pra qualquer pessoa, mas mais do que ninguém você devia saber que nós, usuários de espírito, somos frágeis.

— Na verdade, não. Não quero seu conselho, e não vou me afastar dela coisa nenhuma, porque não estou fazendo nada de errado. Charlotte é esperta. Ela sabe que somos só amigos e gosta da nossa amizade. Largar a garota é meio prematuro.

— Largar? — Sonya riu. — Parece coisa de viciado. Pra que exatamente você está usando Charlotte? Ou melhor, o quê... ou quem... ela está substituindo?

— Nada. Ninguém. Pare de me encher! Qual é o problema de eu ter uma amiga?

Charlotte voltou, usando uma calça de moletom e uma camiseta de Sonya e pondo fim à discussão. Sem notar a tensão em que tinha acabado de entrar, agradeceu Sonya várias vezes e fez mais algumas perguntas sobre a situação atual da vacina. Durante a conversa delas, minha cabeça estava longe, e fiquei me perguntando se, sem querer, não tinha mentido para Sonya.

Não em relação a algo romântico entre mim e Charlotte. Eu não conseguia nem me imaginar com outra pessoa além de Sydney. Mas depois, enquanto eu levava Charlotte até a casa dela, me peguei pensando na outra parte do comentário de Sonya.

O quê... ou quem... ela está substituindo?

Claro, não havia substituta para Sydney. Não havia ninguém no mundo como ela, ninguém que pudesse se comparar a ela no meu coração. Mas, quando Sonya sugeriu que eu me afastasse de Charlotte, tive um momento de pânico ao pensar que ficaria sozinho de novo. Porque, embora tristeza, medo e raiva tivessem dominado minhas emoções depois que Sydney desaparecera, eu não podia negar que também sentira solidão. Meu relacionamento com Sydney tinha curado uma parte perdida de mim, um pedaço da minha alma que parecia à deriva no mundo. Quando ela foi levada, perdi o controle dessa parte e ela voltou a flutuar para longe.

Embora não substituísse Sydney no sentido romântico, Charlotte tinha me ajudado bastante a me firmar na realidade. Não que eu estivesse exibindo um comportamento exemplar nos últimos dias. Mas Charlotte era uma pessoa com quem podia conversar — e que não morava dentro da minha cabeça — e, pelo menos, impunha certa regularidade à minha vida de festas. Buscá-la e levá-la para casa toda noite impedia que eu perdesse o controle por completo. E, além do prazer de punir meu pai em segredo gastando dinheiro com ela, eu também me sentia bem cuidando de outra pessoa. Isso me fazia sentir um pouco menos inútil. Ainda que não encontrasse Sydney, pelo menos era capaz de garantir que Charlotte estivesse vestida para a vida noturna da realeza.

Mas será que Sonya tinha razão e eu estava me aproveitando de Charlotte no processo?

Estava ponderando sobre isso quando chegamos à casa dela, em outra área residencial que era só um pouco melhor que a de Sonya. Charlotte destrancou a porta e se virou para mim. O sol já tinha nascido e iluminava seu rosto com as cores do alvorecer.

— Bom, como sempre, obrigada pela diversão — ela disse, com uma risadinha. — E obrigada pelo que tentou com Sonya. Não precisava. Mas obrigada. — Ela estava retorcendo as mãos, um tique nervoso que eu já tinha notado outras vezes.

Encolhi os ombros.

— Você ouviu o que ela disse. Talvez dê em alguma coisa.

— Talvez. — Houve um momento de silêncio, e então ela perguntou: — Enfim... mesma hora amanhã?

Hesitei, sem saber se estava criando uma situação pouco saudável para mim. Sem saber se estava fazendo isso com ela.

Vai deixar Sonya mandar na sua vida?, tia Tatiana perguntou. Ela não sabe de nada.

Senti uma pontada de raiva. Sonya estava exagerando. Qual era o problema de ter uma amiga? Qual era o problema de ter alguém com quem conversar? Eu tinha que viver isolado agora, só porque Sydney estava desaparecida? Além disso, Charlotte era intuitiva demais para alimentar algum sentimento por mim. Ela tinha seus próprios problemas e não teria ideias malucas a respeito de nós.

— Mesma hora — prometi.


9

Sydney

 

Como Adrian pôde não vir me procurar? Será que o gás tinha bagunçado meu organismo? Sabia que ele nunca desistiria de mim. Continuaria me procurando. Devia ter um bom motivo para não ter visitado meus sonhos naquela noite.

O problema era que também não visitou na noite seguinte. Nem na outra.

As coisas tinham ficado piores quando Emma me encheu de perguntas na manhã depois de eu ter desativado o gás, querendo saber se havia conseguido a ajuda que prometera. Junto com ela, veio Amelia, que, descobri, havia criado uma distração. Aparentemente, nossos quartos eram monitorados a partir de um único centro de controle cheio de telas. Seguindo as instruções de Emma, Amelia havia encenado uma discussão com sua colega de quarto, dizendo coisas incriminadoras que chamaram a atenção da equipe de vigilância. Ela tinha agido de maneira especialmente rebelde, atraindo toda a atenção das pessoas que monitoravam os quartos, de modo que elas não vissem o que eu estava fazendo.

— Preciso de um bom tempo de sono para o plano funcionar — eu disse a elas, depois de explicar que não havia dado certo. — Levei um tempo pra dormir ontem, então talvez tenha sido muito curto. Hoje vai funcionar melhor.

Amelia e Emma pareceram decepcionadas, mas esperançosas. Acreditavam em mim. Mal me conheciam, mas estavam convencidas de que eu tinha um jeito de ajudá-las.

Passaram-se cinco dias depois disso.

Agora, os olhares de esperança tinham sido substituídos por olhares de raiva.

Eu não sabia qual era o problema. Não sabia por que Adrian não viera. O pânico tomou conta de mim, e fiquei com medo de que alguma coisa houvesse acontecido com ele e que ele não pudesse mais visitar sonhos. Talvez ainda estivesse sob o medicamento... mas não, tinha certeza de que pararia de tomar o remédio para me procurar. Será que o remédio havia causado um dano permanente à capacidade dele de usar o espírito? Não tive como refletir muito sobre isso porque minha vida na reeducação definitivamente piorou.

Emma e especialmente Amelia, que tinha sido mandada para a purgação pelo que fizera, se sentiram enganadas. Não contaram a ninguém o que tinha acontecido, para não se incriminarem, mas deixaram claro por meio de sinais para os outros que eu estava excluída. Ignoraram minha insistência de que em breve conseguiria ajuda e não demorou para que eu voltasse a comer sozinha no refeitório. Os outros, que haviam começado a ser mais simpáticos comigo, retomaram os velhos hábitos com força total, e tudo que eu fazia era observado minuciosamente e relatado para os superiores — que me mandaram para a purgação mais duas vezes naquela semana.

Só Duncan continuou meu amigo, do jeito dele, mas até a nossa amizade foi um pouco prejudicada.

— Eu te avisei — ele disse na aula de artes, certo dia. — Avisei pra não fazer besteira. Não sei o que você fez, mas definitivamente acabou com todo o progresso que estava conseguindo.

— Tive que tentar — eu disse. — Precisava correr o risco. Sei que vai valer a pena.

— Sabe? — ele perguntou com uma voz triste que demonstrava que já tinha visto tentativas como essa muitas vezes.

— Sim — eu disse, decidida. — Vai valer a pena.

Ele abriu um sorriso e voltou para sua pintura, mas pude ver que achava que eu estava mentindo. O pior era que eu não sabia se ele tinha razão.

Todo esse tempo, mantive a esperança de entrar em contato com Adrian no mundo dos sonhos. Não entendia por que isso ainda não havia acontecido, mas não duvidei nem por um segundo do amor dele nem de que ele estava procurando por mim. Se alguma coisa realmente estava interferindo nos nossos sonhos, eu tinha certeza de que ele encontraria uma solução.

Uma semana depois de ter desativado o gás, minha situação mudou radicalmente quando uma novata se juntou a nós.

— É uma boa notícia pra você — Duncan me disse no corredor. — Ela vai atrair toda a atenção por um tempo, então não seja simpática demais com ela.

Era um conselho difícil de seguir, ainda mais quando a via sentada sozinha no refeitório no café da manhã. Um olhar de Duncan me mandou para minha mesa, relutante, onde me senti boba e covarde por deixar que tanto eu como a menina nova ficássemos sofrendo em silêncio. O nome dela era Renee e ela tinha mais ou menos a minha idade, talvez um ano a menos. Parecia uma pessoa com quem eu me daria bem, já que, como eu, fora mandada para a purgação no primeiro dia de aula por questionar o professor.

Porém, ao contrário de mim, quando voltou da purgação pálida e passando mal, não se deixou intimidar. De certo modo, admirei sua atitude. Ela ainda estava abatida por causa do tempo na solitária, mas havia uma faísca rebelde em seus olhos, que mostravam uma força e uma coragem promissoras. Ela seria uma boa aliada, pensei. Quando comentei isso com Duncan na aula de artes, ele me cortou rápido:

— Não por enquanto — murmurou. — Ela é muito nova, chama muita atenção. E também não está facilitando as coisas pra si mesma.

Nisso ele estava certo. Embora houvesse aprendido rápido a não contestar os professores, Renee não fingiu arrependimento nem agiu como se tivesse a intenção de acreditar no que os alquimistas estavam dizendo. Ela parecia gostar de ser excluída pelos outros, tanto que me ignorava quando eu criava coragem para lhe dar um sorriso nos corredores. Mantinha a cara fechada durante as aulas, olhando com ódio e rebeldia para alunos e instrutores.

— Estou meio surpreso por ela ter sido tirada do período de reflexão — Duncan acrescentou. — Alguém fez besteira.

— Por isso mesmo ela precisa de uma amiga mais do que nunca — insisti. — Precisa que alguém fale pra ela: “Olhe, você está certa em se sentir assim, mas precisa ficar na sua por um tempo”. Senão, vão mandá-la de volta.

Ele balançou a cabeça em advertência.

— Não faça isso. Não se envolva nessa história, ainda mais porque a chegada dela significa que você vai subir de nível logo. Além disso, eles não vão mandá-la de volta para aquela cela.

Havia um tom sinistro em sua voz que ele se recusou a explicar e, contra a vontade, mantive distância durante o resto do dia. Na manhã seguinte, ainda sem contato com Adrian, resolvi sentar com Renee em vez de ceder à pressão dos outros. Esse plano foi adiado quando um dos meninos que costumavam sentar com Duncan me chamou para ficar com eles. Fiquei parada com a bandeja na mão, sem saber o que fazer, olhando da mesa de Renee para a de Duncan. Ir até ela parecia a coisa certa, mas como poderia recusar a primeira chance de conversar com os outros em tanto tempo? Resistindo aos meus instintos, sentei na mesa de Duncan, prometendo a mim mesma que falaria com Renee depois.

Não houve depois.

Pelo jeito, depois de um dia deixando o ressentimento ferver dentro dela, Renee não conseguiu aguentar e explodiu no terceiro período, dando um discurso ainda mais longo que o do dia anterior sobre as mentiras preconceituosas do instrutor. Os seguranças a levaram embora e fiquei com pena dela por ter que passar pela purgação dois dias seguidos, tão pouco tempo depois da solitária. Duncan me olhou enquanto ela era levada, com uma cara de eu avisei.

Quando chegou a hora do almoço, eu estava esperando uma mudança de última hora no cardápio para incluir uma das comidas preferidas de Renee e aumentar ainda mais o sofrimento do castigo. O cardápio, porém, listava a mesma coisa que de manhã e me perguntei se ela tinha se livrado dessa ou se tiras de frango já eram sua comida favorita. Mas, quando Renee entrou no refeitório, muito tempo depois de começarmos a comer, esqueci todo e qualquer pensamento sobre o cardápio.

A faísca rebelde em seus olhos tinha desaparecido. Não havia absolutamente nenhum brilho neles enquanto ela olhava ao redor, confusa, parecendo nunca ter visto aquele lugar, nem nenhum outro refeitório, na vida. A expressão em seu rosto também era vazia, quase boquiaberta. Ela ficou parada no corredor, sem entrar nem pegar comida, e ninguém se deu ao trabalho de ajudá-la.

Ao meu lado, uma detenta chamada Elsa prendeu a respiração.

— Pensei que isso poderia acontecer.

— O quê? — perguntei, totalmente desnorteada. — Foi uma purgação pesada?

— Pior — ela disse. — Retoque da tatuagem.

Lembrei das minhas próprias experiências, sem entender como um retoque poderia ser pior que uma purgação, já que todos tínhamos passado por um antes de chegar ali.

— Ela não foi retocada quando saiu da solitária?

— Um retoque padrão — disse outro dos meus colegas de mesa, o rapaz chamado Jonah. — Óbvio que não foi suficiente, então eles deram uma dose gigante... talvez um pouco demais. Acontece de vez em quando. A pessoa entende a mensagem, mas fica meio atordoada e esquece como fazer coisas básicas por um tempo.

Uma sensação de pavor tomou conta de mim. Era isso que eu temia, o motivo por que tinha me esforçado para criar uma tinta que combatesse os efeitos da compulsão dos alquimistas. Já vira aquele olhar sem vida antes — em Keith. Quando saíra da reeducação, ele estava agindo feito um zumbi, incapaz de qualquer coisa além de repetir a retórica que os alquimistas haviam enfiado em sua cabeça. Pelo menos, àquela altura, Keith conseguia lidar com as tarefas do cotidiano. Será que ficara confuso daquele jeito no começo? Era terrível de ver. E ainda mais terrível era o fato de que ninguém estava fazendo nada para ajudar.

Levantei do banco de repente, ignorando a surpresa de Duncan atrás de mim.

Fui rápido até Renee e a peguei pelo braço, guiando-a para dentro do refeitório.

— Entre — eu disse, me concentrando nela para ignorar o fato de que todos estavam olhando para mim. — Quer comida?

Renee olhou para o nada por alguns segundos, então se voltou para mim lentamente.

— Não sei. Acha que devia querer?

— Você está com fome? — perguntei.

Ela franziu ligeiramente a testa.

— Acha que estou? Se não acha, então...

Eu a levei até a janelinha de Baxter.

— Acho que você tem que sentir o que quiser — eu disse, com firmeza. Ela não falou nada para o cozinheiro quando chegamos na frente dele e, como sempre, ele não ajudou muito, então sobrou para mim. — Renee precisa do almoço dela.

Baxter não respondeu imediatamente e quase achei que talvez não iria se mexer a menos que ela mesma pedisse a comida. Nesse caso, poderíamos ficar paradas ali por um bom tempo. Mas, depois de alguns segundos de indecisão, ele se virou e começou a montar uma bandeja com tiras de frango para ela. Levei a bandeja para uma mesa vazia e puxei uma cadeira, apontando para que ela sentasse. Ela pareceu reagir bem ao comando, mesmo que tácito, mas não fez nada depois que sentei à sua frente.

— Pode comer se quiser — eu disse. Como ela não teve reação, mudei a frase. — Coma o frango, Renee.

Obedecendo, ela pegou uma tira de frango e começou a comer enquanto eu olhava com uma sensação de pavor. Pavor e ódio. Os alquimistas achavam mesmo que aquilo era melhor do que alguém questionando sua autoridade? Mesmo que os efeitos mais graves passassem com o tempo, era repugnante que eles fossem capazes de fazer aquilo com um ser humano. Quando descobrira que estava protegida do retoque, pensara que pelo menos nesse sentido estava livre. E era verdade: eu estava. Mas todos ao meu redor, amigos ou inimigos, corriam o risco de ficar como Renee se os alquimistas exagerassem no retoque. Não importava se esse efeito extremo era raro. Mesmo que só acontecesse uma vez, já era demais.

— Beba o leite — mandei, quando percebi que ela tinha terminado o frango e estava só encarando o prato vazio. Ela estava na metade da caixinha quando tocou o sinal. — É hora de ir, Renee. Esse som significa que a gente vai para outro lugar.

Ela levantou junto comigo e, quando ergui os olhos, vi dois seguranças de Sheridan se aproximando.

— Você precisa vir com a gente — um deles disse para mim.

Estava prestes a obedecer quando vi a expressão desamparada de Renee. Ignorando os chamados da escolta, virei para ela e disse:

— Siga os outros e faça tudo que eles fizerem. Está vendo como estão guardando as bandejas agora? Faça isso e depois vá com eles para a próxima aula. — Um dos guardas me puxou pelo braço para que eu me mexesse, mas resisti até ver Renee obedecer e se juntar aos demais com sua bandeja. Só então deixei que a dupla me levasse embora, e eles não pareceram nada contentes com esse pequeno ato de rebeldia.

Eles me levaram até o elevador e então descemos um andar, para o piso onde acontecia a purgação. Me perguntei se não ter terminado o almoço tornaria a experiência mais ou menos desagradável. Porém, para minha surpresa, passamos reto pela porta de sempre e continuamos até o fim do corredor, onde eu nunca havia estado. Passamos por armários marcados respectivamente como materiais de cozinha e de escritório, e depois continuamos até portas sem identificação, o que devia ser um mau sinal. Foi uma dessas que eles abriram.

Essa nova sala era igual às de purgação, exceto pelo fato de que a cadeira tinha braços esquisitos. Eram maiores do que aqueles com que eu estava acostumada, mas também tinham amarras, o que era o importante. Talvez fosse um novo modelo do lugar de onde eles compravam equipamentos de tortura. Sheridan estava na sala esperando por nós, segurando um pequeno controle remoto. Os guardas me amarraram na cadeira e, ao sinal dela, nos deixaram a sós.

— Olá, Sydney — ela disse. — Devo dizer que estou decepcionada por vê-la criando problemas.

— Está? Passei pela purgação algumas vezes esta semana — respondi, pensando em como os outros tinham me incriminado nos últimos dias.

Sheridan fez um sinal de desprezo.

— Aquilo? Nós duas sabemos que eram apenas joguinhos feitos pelos outros. Na verdade, você estava indo muito bem... até agora.

Uma centelha da raiva antiga se reacendeu. Sheridan e as outras autoridades sabiam muito bem quando alguém realmente saía da linha e quando só estava sendo vítima dos outros. E não se importavam.

Engoli a raiva e assumi uma expressão respeitosa.

— O que fiz exatamente?

— Você entende o que aconteceu com Renee hoje, Sydney?

— Ouvi dizer que ela foi retocada — respondi, com cuidado.

— Os outros te falaram.

— Sim.

— E também te falaram pra não ajudar Renee quando ela voltou?

Hesitei.

— Não explicitamente. Mas deixaram claro com suas ações que não iriam ajudá-la.

— E você não achou que devia fazer como eles? — ela perguntou.

— Desculpe — eu disse —, mas pensei que devia seguir as suas instruções, não as dos meus colegas. Como nem a senhora nem os outros instrutores me falaram para não ajudar Renee, não achei que estivesse fazendo algo errado. Pelo contrário, achei que ajudar outro ser humano era a coisa certa. Peço desculpas se entendi mal.

Ela me examinou por um longo tempo, me encarando sem piscar.

— Você diz todas as coisas certas, mas não tenho certeza se está sendo sincera. Enfim. Vamos começar.

Ela apertou o botão e a tela ligou, mostrando uma foto típica de algumas Moroi alegres.

— O que você vê, Sydney?

Franzi a testa, percebendo que ela tinha esquecido de injetar a droga que causava náusea. Mas eu é que não iria lembrá-la disso.

— Moroi, senhora.

— Errado. Você vê criaturas do mal.

Não soube o que responder, então não disse nada.

— Você vê criaturas do mal — ela repetiu.

Aquela nova tática me deixou sem ação.

— Não sei. Talvez sejam. Eu precisaria saber mais sobre essas Moroi em particular.

— Você não precisa saber nada além do que eu disse. Elas são criaturas do mal.

— Se a senhora diz — afirmei, com cautela.

O rosto dela continuou tranquilo.

— Preciso que você diga isso. Repita: “Eu vejo criaturas do mal”.

Olhei para as Moroi na foto. Eram duas garotas, mais ou menos da minha idade, que poderiam ser irmãs. Elas estavam sorrindo e segurando casquinhas de sorvete. Nenhuma delas parecia má, a menos que pretendessem enfiar o sorvete na boca de uma criança diabética. Enquanto eu refletia sobre isso, o braço direito da cadeira soltou um clique súbito. A parte de cima deslizou para trás, revelando um compartimento oco que estava cheio de um líquido translúcido.

— O que é isso? — perguntei.

— Você vê criaturas do mal? — Sheridan perguntou em vez de responder.

Devo ter demorado tempo demais para responder, pois Sheridan apertou um botão no controle remoto. As amarras que prendiam meu braço começaram a se mover repentinamente, abaixando meu braço. Elas pararam assim que a parte de baixo do meu braço tocou aquele líquido e então começaram a subir novamente.

Mas não foi preciso mais do que isso. Soltei um grito de dor e surpresa quando uma sensação ardente se espalhou pela pele que havia encostado na superfície do líquido. Não sei que substância química era aquela, mas a sensação era de ter encostado numa panela de água fervente, deixando minha pele em carne viva. Depois que o braço saiu do líquido, a dor começou a passar aos poucos.

— Agora — Sheridan disse, com a voz doce demais considerando o que tinha acabado de fazer. — Diga: “Eu vejo criaturas do mal”.

Ela nem me deu a chance de responder antes de repetir o procedimento, me deixando em contato com o líquido um pouco mais do que antes. No entanto, eu estava mais preparada e consegui morder o lábio para não gritar. A dor foi exatamente igual e suspirei aliviada quando, depois de alguns momentos, ela levantou meu braço e permitiu uma breve recuperação.

Não durou muito e logo ela disse:

— Agora diga...

Não deixei que ela terminasse.

— Eu vejo criaturas do mal — respondi rápido.

Seu rosto se iluminou de triunfo.

— Excelente. Agora vamos tentar uma diferente. — Apareceu uma nova imagem, mostrando um grupo de crianças Moroi. — O que você vê?

Aprendi rápido.

— Eu vejo criaturas do mal — respondi prontamente. Era ridículo, claro. Não havia nada de mau naqueles Moroi nem nas imagens seguintes que ela começou a me mostrar. Na solitária, havia prometido a mim mesma que faria os joguinhos deles para sair daquele lugar e, se ela queria que eu repetisse essa mentira como punição por ter ajudado Renee, faria isso com prazer.

Um casal Moroi, outras crianças, um senhor de idade... e assim por diante. Sheridan foi passando rosto após rosto, e eu respondia corretamente.

— Eu vejo criaturas do mal. Eu vejo criaturas do mal. Eu vejo...

Não consegui terminar a frase quando apareceram outros dois Moroi, dois Moroi que eu conhecia.

Adrian e Jill.

Não fazia ideia de onde ela tinha conseguido aquela foto, e não ligava para isso. Meu coração se apertou enquanto eu olhava para aqueles rostos sorridentes, rostos que amava e dos quais sentia uma falta terrível. Lembrara deles inúmeras vezes, mas isso não se comparava a ver a imagem em si. Observei todos os detalhes: a maneira como a luz se refletia no cabelo de Adrian, como os lábios de Jill se curvavam num sorriso tímido. Precisei conter a onda de sentimentos que brotou dentro de mim. Talvez Sheridan quisesse me punir mostrando aquela foto, mas a verdade é que pareceu mais uma recompensa... até ela falar de novo.

— O que você vê, Sydney?

Abri a boca, pronta para repetir aquela frase vazia, mas simplesmente não pude. Olhando para aqueles rostos queridos, seus olhos brilhando de felicidade... não consegui. Mesmo dizendo a mim mesma que era uma mentira, não era capaz de condenar Adrian e Jill.

Sheridan não perdeu tempo. O dispositivo da cadeira enfiou meu braço no líquido, mais fundo que das outras vezes, deixando metade dele imersa. A sensação me pegou de surpresa e foi agravada por ela ter me deixado lá mais tempo que das outras vezes. O ácido misterioso queimou minha pele, pondo fogo em todos os meus nervos. Soltei um grito de dor e, mesmo depois de o dispositivo da cadeira levantar meu braço, eu ainda estava gemendo.

— O que você vê, Sydney?

Pisquei para conter as lágrimas e me foquei em Adrian e Jill. É só dizer, falei para mim mesma. Você precisa sair daqui. Precisa voltar pra perto deles. Ao mesmo tempo, me perguntei de repente: É assim que começa? Que fico igual ao Keith? Começaria dizendo a mim mesma que não tinha problema, desde que soubesse que era uma mentira dita para fugir da dor? Será que a mentira acabaria se tornando verdade?

Diante do meu silêncio, Sheridan abaixou meu braço mais uma vez, mergulhando-o ainda mais fundo do que antes.

— Diga — ela falou, sua voz desprovida de qualquer emoção humana. — Diga o que vê.

Um gemido lento escapou dos meus lábios, mas era só isso. Tentei me convencer a ser forte: Não vou dizer. Não vou trair Adrian e Jill, mesmo que sejam palavras vazias. Pensei que, se aguentasse a dor um pouco mais, Sheridan me daria um descanso temporário, mas, em vez disso, ela abaixou meu braço ainda mais, deixando-o completamente mergulhado no líquido. Gritei ao sentir o ácido queimando a minha pele. Ao olhar para baixo, esperava ver a carne se desfazendo, mas o braço e a mão estavam apenas rosados. Qualquer que fosse aquele composto, era feito para parecer que estava machucando mais do que realmente estava.

— Diga o que está vendo, Sydney. Diga o que está vendo e tudo isso vai acabar.

Tentei lutar contra a dor, mas era impossível porque eu me sentia sendo queimada viva.

— Diga o que está vendo, Sydney.

Quanto mais tempo meu braço ficava submerso, mais a dor aumentava e, finalmente, me sentindo uma traidora ao olhar nos olhos daqueles que amava, disse de repente:

— Eu vejo criaturas do mal.

— Não ouvi — ela respondeu, mais calma. — Fale mais alto.

— Eu vejo criaturas do mal! — berrei.

Ela apertou o controle remoto, e meu braço foi erguido e libertado da tortura líquida. Comecei a suspirar aliviada, mas então, de repente, sem uma palavra de aviso, ela abaixou o dispositivo mais uma vez. Soltei um grito, que durou mais uns dez segundos até ela erguer meu braço de novo.

— Por que fez isso? — exclamei. — Pensei que você...

— Esse é o problema — ela interrompeu. Depois de um comando silencioso, seus capangas voltaram e começaram a soltar minhas amarras. — Você pensou. Assim como pensou que podia ajudar Renee. A única coisa que precisa fazer aqui é obedecer. Entendeu?

Olhei para o meu braço, que estava num tom rosa escuro inflamado mas não mostrava tudo que havia sofrido. Depois, ergui os olhos novamente para Adrian e Jill, me sentindo culpada pela minha fraqueza.

— Sim, senhora.

— Excelente — Sheridan disse, deixando o controle remoto de lado. — Agora vá para a sua próxima aula.


10

Adrian

 

— Adrian?

Abri os olhos e encontrei o rosto de uma menina que não conhecia. Ela estava totalmente vestida, e eu estava totalmente vestido, o que era um sinal promissor. Ao ver minha cara de confusão, ela abriu um sorriso irônico.

— Sou Ada. Você apagou aqui em casa ontem à noite. Mas precisa ir agora, antes que meus pais voltem pra casa.

Consegui sentar e vi que tinha dormido no piso duro de madeira, o que explicava a dor nas costas e na cabeça. Olhando ao redor, vi alguns dos convidados em situação parecida, levantando rapidamente e indo até a porta. Satisfeita em me ver saindo, Ada, que estava ajoelhada, se ergueu e foi expulsar o próximo hóspede indesejado.

— Obrigado por me deixar ficar — disse para ela. — A festa foi ótima.

Pelo menos imaginava que tivesse sido, já que eu apagara no chão. Havia uma garrafa vazia de vermute perto de onde eu havia dormido, mas não sabia se era minha ou não. Torci para que não fosse. Me embebedar com vermute seria deprimente. As últimas duas semanas tinham sido um borrão de decadência e farra, mas essa era a primeira vez que eu realmente dormia fora. Em geral, Charlotte conseguia fazer com que eu voltasse para casa. Por um momento, fiquei magoado por ela não ter cuidado de mim. Então lembrei vagamente que era segunda--feira e ela não queria ficar fora até tarde porque tinha que trabalhar no dia seguinte.

Eram umas seis da manhã quando saí, e o sol nascente foi impiedoso com a minha ressaca. Havia pouca gente circulando. Em horário vampírico, era bem tarde. Nas próximas horas, as pessoas estariam indo para a cama. Até os guardiões tinham patrulhas leves a essa hora do dia, e passei por poucos enquanto me arrastava até o prédio de hóspedes. Um deles olhou para mim, virou, depois olhou de novo para confirmar se era eu mesmo.

— Adrian?

Pensei que minha reputação havia me precedido, mas então vi que era Dimitri.

— Ah, oi — eu disse. — Bom dia. Ou sei lá que horas são.

— Parece que você já teve dias melhores — ele comentou. — Acabei de terminar meu turno. Quer tomar café da manhã?

Fiquei em dúvida, sem saber quando tivera minha última refeição sólida.

— Meu estômago está bem vazio. Não sei como vai reagir.

— Quanto menos você sabe, de mais comida precisa — ele disse, o que me pareceu a lógica mais estranha que eu já ouvira. — Pelo menos na minha experiência.

Eu não sabia quanta “experiência” ele tinha nesses assuntos. Não fazia a menor ideia do que ele fazia no tempo livre. Talvez seu consumo de vodca russa fosse maior do que eu imaginava. Sempre pensei que, quando não estava trabalhando, ele e Rose ficavam se atacando em tatames, ou o que quer que aqueles dois faziam como preliminares.

— Tem certeza de que não prefere voltar pra casa e dormir de conchinha com a Rose? — perguntei. — Espere... ela já voltou? Elas não estavam em Lehigh?

— Faz uma semana que elas voltaram — Dimitri disse, paciente. — Venha, é por minha conta.

Fui porque, sinceramente, era difícil dizer não para Dimitri Belikov. Além disso, eu ainda estava processando a notícia de que Rose e Lissa tinham voltado havia tanto tempo.

— Posso pagar. Quer dizer — acrescentei, amargurado —, meu pai pode, já que pelo visto esse é o único jeito que eu e a minha mãe temos para sobreviver.

A expressão de Dimitri ainda estava neutra enquanto entrávamos num prédio que tinha vários restaurantes, a maioria ainda fechada.

— É por isso que você está se destruindo desde que voltou?

— Prefiro pensar nisso como um estilo de vida — disse. — E como você sabe o que eu ando fazendo?

— Essas notícias correm — ele disse, misterioso.

O restaurante aonde ele me levou estava cheio de guardiões que haviam acabado de terminar seus turnos. Pela quantidade deles, devia ser o lugar mais seguro na Corte.

— O que faço da vida é problema meu — eu disse, inflamado.

— Claro que é — ele concordou. — Mas você não se comportava assim há muito tempo. Fiquei surpreso por ter voltado aos velhos hábitos.

O restaurante servia um buffet de café da manhã. Minha mãe teria um ataque se fosse obrigada a se servir sozinha, mas peguei um prato e entrei na fila atrás de Dimitri. Depois de pegar as bandejas, sentamos numa mesinha no canto. Ele não tocou na comida. Em vez disso, se inclinou para perto de mim com uma expressão séria.

— Você é melhor do que isso, Adrian — ele disse. — Qualquer que seja o motivo, você é melhor do que isso. Não se engane pensando que é mais fraco do que realmente é.

Era tão parecido com o que Sydney me dissera no passado que, por um momento, levei um susto. Então minha raiva voltou.

— Foi por isso que me chamou aqui? Pra me dar um sermão? Não aja como se me conhecesse! Nem somos amigos.

Esse comentário o pegou de surpresa.

— É uma pena. Queria ser seu amigo. Achei que te conhecesse de verdade.

— Pois não conhece — eu disse, empurrando a bandeja para o lado. — Ninguém me conhece. — Só Sydney, pensei. E ela estaria com vergonha de mim.

— Tem muita gente que se importa com você. — Dimitri ainda era o retrato da tranquilidade. — Não vire as costas para elas.

— Como elas viraram as costas pra mim? — perguntei, pensando em Lissa, que havia se recusado a fazer qualquer coisa por Sydney. — Tentei pedir ajuda e todo mundo recusou! Ninguém pode me ajudar. — Levantei abruptamente. — Perdi a fome. Obrigado pelo discurso.

Deixei a bandeja intocada e saí furioso. Ele não veio atrás de mim, pelo que fiquei grato, uma vez que era provável que pudesse, literalmente, me arrastar de volta sem o mínimo esforço. Fui embora porque estava com raiva, mas também porque me sentia humilhado. Suas palavras me feriram, não só porque ele estava me julgando — como eu próprio me julgava —, mas porque me lembraram de Sydney. Sydney, que sempre dizia que eu era melhor do que aquilo. Bom, eu fizera um excelente trabalho provando que ela tinha se enganado. Falhara com ela. Sem saber, Dimitri havia confirmado minhas suspeitas.

Voltei para o quarto e tomei algumas doses de vodca antes de cair na cama e dormir quase imediatamente. Sonhei com Sydney, não da forma mágica do espírito como queria, mas do jeito normal. Sonhei com sua risada e o jeito exasperado, mas divertido, com que ela falava “Ai, Adrian” quando eu fazia alguma coisa estúpida. Sonhei com a luz do sol que deixava seu cabelo da cor de ouro derretido e realçava o brilho âmbar de seus olhos. O melhor foi quando sonhei com seus braços me envolvendo, seus lábios nos meus, e com a maneira como conseguiam encher meu corpo de desejo e meu coração de mais amor do que eu me achava capaz de suportar.

O mundo dos sonhos e o da realidade se inverteram e, de repente, havia braços carinhosos ao meu redor e lábios macios me beijando de verdade. Respondi na mesma moeda, aumentando a intensidade do beijo. Fazia tempo demais que eu estava sozinho, à deriva não apenas no mundo, mas dentro da minha própria cabeça. Ter Sydney me dava forças e me deixava centrado de um jeito que eu não sabia ser possível. As tormentas no meu mundo, a loucura da minha família... tudo isso podia ser suportado agora que Sydney estava ao meu lado.

Mas ela não estava ali.

Sydney estava desaparecida, sendo mantida longe, muito longe de mim... o que significava que aqueles não eram seus braços me envolvendo nem seus lábios me beijando. Me esforcei para sair do torpor do sono, abri os olhos e tentei distinguir o que estava ao meu redor. As persianas filtravam quase toda a luz da manhã, mas ainda havia claridade suficiente para perceber que o cabelo da menina na cama comigo era preto, não dourado. Seus olhos eram cinza, não castanhos.

— Charlotte?

Eu a empurrei de leve e me afastei o máximo possível dela na cama. Seus olhos brilharam, achando graça, e ela riu com a minha surpresa.

— Estava esperando outra pessoa? Espere, não responda.

— Não... mas o que você está fazendo aqui? — Olhei ao redor, na penumbra do quarto. — Como conseguiu entrar?

— Você me deu uma chave pra emergências, lembra? — Eu não lembrava, mas isso não era uma surpresa. Ela parecia um pouco decepcionada que minha atitude tivesse sido um impulso de embriaguez. — Como não falou comigo hoje, fiquei preocupada e vim ver se estava bem na minha hora de almoço. Meu turno é meio tarde.

— Pular em cima de mim não é o mesmo que ver se eu estava bem — eu disse.

— “Pular em cima” é um exagero — ela discordou. — Ainda mais porque foi você quem me puxou quando sentei ao seu lado na cama.

— Foi? — De novo, não era uma grande surpresa. — Bom... desculpe. Eu estava dormindo e não sabia o que estava fazendo. Estava... sonhando.

— Você parecia saber muito bem o que estava fazendo — Charlotte disse, sedutora. Ela se aproximou. — Estava sonhando com ela?

— Quem?

— Você sabe quem. Ela. A garota que te atormenta. Não negue — ela disse, vendo que eu estava prestes a argumentar. — Acha que não percebo? Ai, Adrian. — Era difícil ouvir aquilo depois de ter sonhado com Sydney dizendo essas mesmas palavras. Charlotte acariciou minha bochecha. — Desde que você voltou pra Corte, percebi que alguém tinha partido seu coração. Odeio te ver sofrendo desse jeito. Isso acaba comigo.

Balancei a cabeça, mas não afastei a mão dela.

— Você não entende. Tem muita coisa que não sabe.

— Sei que ela não está aqui. E que você está triste. Por favor... — Ela se aproximou e se inclinou sobre mim, deixando que seu cabelo formasse uma cortina de cachos escuros ao nosso redor. — Gosto de você desde que a gente se conheceu. Deixe eu fazer você se sentir melhor...

Ela abaixou para me beijar e ergui a mão para impedi-la.

— Não... não posso.

— Por quê? Ela vai voltar?

Charlotte não queria ser cruel, mas sua voz tinha um tom de desafio, e desviei o olhar.

— Eu... eu não sei...

— Então por que resistir? — ela perguntou, suplicante. — Sei que você gosta de mim. Mais importante: sei que me entende. Ninguém mais sabe como é ficar balançando de um lado para o outro nas ondas do espírito, e aguentar o que a gente aguenta. Isso não vale alguma coisa? Ter alguém por perto pra não se sentir sozinho?

Ela tentou me beijar de novo e, dessa vez, não a impedi, em grande parte porque não tinha como rebater o argumento dela. Era óbvio que não a amava como amava Sydney, mas a gente entendia o que era viver com o espírito. Charlotte não julgava o que eu fazia nem me obrigava a lidar com meu desespero de um jeito melhor. E, sim, ela tinha razão: era bom não estar sozinho.

De repente, as palavras da minha mãe me atingiram como um tapa na cara: Pare de correr atrás de uma fantasia e procure alguém com quem possa construir uma vida junto. Foi isso que seu pai e eu fizemos.

Era isso que eu estava fazendo com Charlotte? Construindo uma relação com alguém que compartilhava meus vícios e minha vontade de fugir da realidade, mas que, no fundo, eu não amava? Não seria difícil. Charlotte garantiria isso. A gente podia passar uma vida juntos, reclamando das dificuldades de ser um usuário de espírito, indo a uma festa atrás da outra na esperança de adiar um pouco mais a escuridão. Seria uma vida agradável. Estável, minha mãe diria. Mas eu nunca tentaria ser uma pessoa melhor. Nunca chegaria à grandeza, como Sydney sempre me fazia sentir que era capaz. E nunca sentiria aquele amor eufórico e avassalador que me envolvera em todos os momentos com Sydney, aquela sensação que me fazia pensar: Isso sim é vida.

Seria fácil, murmurou tia Tatiana, instável como sempre. Ela está aqui. Use essa garota. Faça a dor desaparecer. Sua outra garota está muito longe. Aceite. É só dizer sim. Sim, sim, sim...

— Não — eu disse.

Parei de beijar Charlotte e, dessa vez, levantei, fazendo questão de ficar longe dela. Eu estava agindo feito um imbecil. Um imbecil fraco e preguiçoso. Deixara que a depressão por causa dos meus pais e da falta de pistas sobre o paradeiro de Sydney tomasse conta de mim. Não tinha desistido apenas de Sydney. Tinha desistido de mim mesmo, me abandonando a uma vida decadente de festas e prazeres da Corte porque era fácil — muito mais fácil do que procurar Sydney e me manter forte quando parecia não haver nenhuma esperança.

— Charlotte, desculpe, mas não posso fazer isso — eu disse, com o máximo de firmeza possível. — Desculpe se te levei a pensar o contrário, mas não vai acontecer nada entre nós. Gosto de sair com você, mas nunca vou sentir mais do que sinto agora. Essa situação não é aceitável pra nenhum de nós. Desculpe. A gente nunca terá um futuro juntos.

Foi um pouco excessivo, em parte porque o sermão era tanto para ela quanto para mim mesmo. Ela se espantou e percebi, tarde demais, que eu devia ter encontrado um jeito mais gentil de expressar meus sentimentos — ainda mais sabendo como nós, usuários de espírito, somos sensíveis. O sorriso dela se desfez, e ela recuou como se eu tivesse lhe dado um tapa. Piscando para conter as lágrimas, ela levantou da cama com o máximo de dignidade possível.

— Entendo — ela disse. Sua voz estava trêmula e ela retorcia tanto as mãos que enfiava as unhas na própria carne. — Bom, desculpe por desperdiçar seu tempo nessas últimas semanas. Eu devia saber que uma secretária não seria boa o suficiente para o lorde Adrian Ivashkov.

Agora fui eu quem se espantou.

— Charlotte, não é nada disso. Quero muito ter você como amiga. Se me deixar explicar...

— Não precisa. — Ela virou as costas e seguiu rumo à porta. — Não quero desperdiçar mais seu tempo e ainda preciso arranjar alguma coisa pra comer antes que meu horário de almoço acabe. Desculpe por te acordar. Fico feliz que esteja bem.

— Charlotte... — comecei. Mas ela já tinha batido a porta antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa.

Me afundei na cama, me sentindo um lixo física e mentalmente. Não queria que nossa amizade acabasse assim. Não queria que muitas coisas tivessem acontecido. E, quando a situação avassaladora da minha vida ameaçou me engolir, precisei lutar contra o impulso de fazer um drinque.

— Não — eu disse em alto e bom som. — Chega.

Naquele exato momento, decidi parar de beber. Eu vinha me iludindo (mais do que de costume), pensando que não haveria problema em beber ao longo do dia se procurasse Sydney de vez em quando. Por falar nisso... quando a procurara à noite — na noite humana — pela última vez? Depois que a levaram, eu vivia procurando por ela. Mas, nos últimos tempos... bom, fazia uma ou outra tentativa de má--vontade quando acordava de ressaca. Quando escurecia — a hora em que era mais provável que ela estivesse dormindo, se é que estava nos Estados Unidos —, eu geralmente já tinha tomado alguns drinques na primeira festa da noite. Tinha perdido o ânimo, desestimulado pelos fracassos anteriores e pelas distrações da vida real. Mas não voltaria a cometer esse erro. Precisava me manter sóbrio e cheio de espírito para procurá-la regularmente ao longo do dia. Não importava quantas vezes eu fracassasse. Algum dia, alguma hora, eu a encontraria.

Apesar da dor de cabeça latejante, entrei no transe necessário para controlar o espírito e procurar por ela. Nada. Mas tudo bem. Voltei a mim, jurando que tentaria mais tarde. Corri para o banho e tirei aquele cheiro da festa da noite anterior. Quando saí, senti que alguma coisa para comer cairia bem e peguei o resto de um donut que havia trazido no dia anterior. Ou talvez dois dias antes. Estava velho, mas serviu para encher o estômago.

Enquanto mastigava, fiz uma lista mental de coisas a fazer, a qual não incluía nenhuma festa naquela noite. Pedidos de desculpas estavam em primeiro lugar na lista. Além de Charlotte, precisava consertar a situação com Dimitri depois de ter agido feito um babaca deixando-o sozinho. Também precisava conversar com minha mãe. O fato de ela ter desistido de si mesma não era desculpa para eu fazer o mesmo. Começaria com ela, já que era com quem eu não falava havia mais tempo. Porém, antes disso, decidi que era melhor passar num fornecedor, já que nem lembrava a última vez que havia bebido sangue. Isso ajudaria a clarear a cabeça.

Estava perto da porta de entrada quando decidi procurar Sydney de novo. Buscar de hora em hora podia ser excessivo, mas me obrigaria a continuar sóbrio. Era importante tornar esses novos comportamentos rotineiros para mudar de vida. Fechei os olhos e respirei fundo.

Fios de espírito saíram de mim pelo mundo dos sonhos, em busca de Sydney, como tantas outras vezes...

... e, dessa vez, a encontraram.

Fiquei atordoado. Fazia tanto tempo que não conseguia estabelecer contato através dos sonhos que praticamente não sabia o que fazer. Não tinha nenhum ambiente planejado quando entrei porque estava no piloto automático, tentando sem esperança de sucesso. Enquanto o mundo cintilava ao nosso redor e eu a sentia se materializar no sonho, rapidamente invoquei nosso antigo ponto de encontro: a Getty Villa de Malibu. Colunas e jardins surgiram ao nosso redor, cercando o ponto central do museu: uma enorme fonte. Sydney surgiu do outro lado. Por vários segundos, só fiquei olhando para ela do outro lado da água, convencido de que estava imaginando tudo aquilo. Seria possível ter uma alucinação dentro de um sonho que eu mesmo havia criado? Ainda era cedo demais para ter sintomas malucos de abstinência do álcool.

— Adrian?

Sua voz era baixa, quase abafada pela água que jorrava da fonte. Mas a força que transmitia e os efeitos dela sobre mim foram imensos. Já tinha ouvido gente falar que os joelhos tinham “cedido”, mas nunca havia sentido isso na pele até então. Meus músculos não pareciam capazes de me sustentar, e meu coração estava apertado por um turbilhão de sentimentos que não conseguia nem começar a descrever. Amor. Alegria. Alívio. Incredulidade. E, misturados a todos eles, havia também as emoções dos últimos meses: desespero, medo, tristeza. Elas se espalharam para além do meu peito e senti lágrimas se formando nos olhos. Não era possível que uma pessoa pudesse fazer você sentir tanta coisa ao mesmo tempo, que uma pessoa pudesse despertar um universo de sentimentos só pronunciando seu nome.

Naquele momento também soube que eles estavam errados, todos eles. Minha mãe. Meu pai. Charlotte. Todas as pessoas que achavam possível construir um relacionamento baseado apenas em objetivos em comum nunca tinham vivido algo como o que eu tinha com Sydney. Não podia acreditar que quase perdera isso por ignorância. Até olhar em seus olhos agora, não tinha percebido como era vazia a vida que estava levando.

— Sydney...

Levaria tempo demais para dar a volta na fonte. Pulei dentro dela, atravessando a água até Sydney. Teria feito isso mesmo se não estivesse em um sonho. Nenhum desconforto físico importava. Só importava chegar perto dela. Todo o meu universo e toda a minha existência estavam focados nela. O caminho levou questão de segundos, mas pareceu demorar anos. Alcancei o outro lado e saí da fonte, pingando água nas pedras iluminadas pelo sol. Hesitei apenas um instante e então a envolvi nos braços, quase esperando que ela desaparecesse no ar. Mas ela era real. Real e sólida (daquele jeito dos sonhos, pelo menos), e todo o seu corpo estremeceu com um soluço reprimido enquanto ela afundava o rosto no meu peito.

— Ai, Adrian. Onde você esteve?

Não era uma acusação, só um jeito de expressar sua saudade e seus medos. Não tinha como saber dos demônios que eu vinha enfrentando nas últimas semanas ou como quase perdera essa oportunidade. Levei as mãos ao seu rosto e olhei fundo naqueles olhos castanhos que tanto amava, olhos que agora cintilavam, à beira de lágrimas.

— Desculpe — murmurei. — Procurei tanto tempo... mas não conseguia te encontrar. E então... eu relaxei. Sei que não devia ter relaxado. Você não teria. Meu Deus, Sydney, sinto muito. Se eu tivesse tentado mais e antes...

— Não, não — ela disse baixinho, passando a mão no meu cabelo. — Não havia nada que você pudesse fazer até pouco tempo atrás. Eles regulam nosso sono aqui com uma espécie de gás. Eu estava drogada demais para que o espírito me encontrasse. — Ela começou a tremer. — Estava com tanto medo de nunca mais te encontrar... tanto medo de nunca encontrar uma saída.

— Agora me encontrou. Vai ficar tudo bem. Onde você está?

Uma transformação extraordinária aconteceu. Antes, ela parecia não querer nada além de me abraçar e chorar por todos os medos e frustrações que vinha sentindo nos últimos meses. Eu entendia porque me sentia da mesma forma. Mas, apesar de todos os seus sofrimentos, de todo o inferno que havia suportado, ela continuava sendo a mulher mais forte e incrível que eu conhecia. Diante dos meus olhos, pôs todos esses medos e inseguranças de lado, ignorando a parte dela que só queria o consolo dos meus braços. Ela virou a Sydney Sage de antigamente: eficiente, forte, competente. Pronta para tomar decisões difíceis e fazer o que precisava ser feito.

— Certo — ela disse, secando as lágrimas. — Talvez a gente não tenha muito tempo pra conversar. Não sei há quanto tempo estou dormindo. E... não sei onde estou. Não vejo uma janela desde que me pegaram. Nós estamos sendo mantidos no subterrâneo.

— Nós quem? — perguntei.

— Somos em treze... quer dizer, catorze agora, acabou de chegar uma pessoa nova. Todos ex-alquimistas que fizeram alguma coisa errada. Eles foram reprogramados em graus variados. Alguns só estão fingindo, tenho certeza, mas é difícil saber quais. Quem sai da linha entra em apuros.

— Que tipo de apuros? — perguntei. Embora a olhasse encantado desde que tinha aparecido, só agora parei para observá-la de verdade. Estava usando uma roupa cáqui horrível, e seu cabelo dourado parecia mais longo do que antes. Seu rosto e seu corpo estavam mais magros, mas não dava para saber se isso correspondia à realidade. A menos que o usuário de espírito mudasse a aparência da outra pessoa, ela normalmente aparecia no sonho como um meio-termo entre a forma como era no mundo real e como se via. Muitas vezes, essas duas imagens não batiam. Fiz uma nota mental para perguntar sobre sua saúde depois.

— Não importa — ela disse, bruscamente. — Estou bem e tenho certeza de que há outros que se sentem como eu, mas têm medo de agir. Alguns foram completamente reprogramados. Estão exatamente como Keith. Estão... — Seus olhos se arregalaram. — Keith! É isso.

— Keith? — repeti, sem entender. Ainda estava pensando em como ela fora evasiva sobre os tais “apuros” e não entendi onde o cretino do seu antigo colega se encaixava nessa história.

— Ele esteve aqui. Muito tempo antes de mim. Na mesma unidade. — Ela apertou meu braço, empolgada. — Eles têm uma parede onde as pessoas escrevem confissões, e ele escreveu uma... quer dizer, na verdade era um pedido de desculpas, pra minha irmã. A questão é que ele esteve aqui e a gente sabe que saiu. Talvez possa dizer onde fica essa unidade. Deve ter visto o lado de fora ao sair, certo?

— Mas você não disse que ele estava bem pirado? — perguntei. — Ele vai ter cabeça pra falar com a gente?

Sua expressão ficou sombria.

— É... estava mais do que pirado. É o que acontece quando as pessoas saem do retoque. Mas, na maioria dos casos, o efeito passa com o tempo e, embora a pessoa continue obediente, o cérebro volta a funcionar. Ele pode ter algumas respostas se você conseguir descobrir onde ele está.

— Talvez não seja tão fácil — murmurei, pensando nas dificuldades que tive para localizar o pai de Sydney e Zoe. — Os alquimistas não revelam muito sobre as missões dos agentes.

— Marcus pode te ajudar — ela disse, decidida. — E não me olhe com essa cara. Ele pode. Tem recursos. Sei que vocês são capazes de colocar as diferenças de lado e trabalhar juntos.

Eu fizera uma careta ao ouvir o nome dele e ela entendeu errado, sem saber que eu e Marcus tínhamos mantido contato constante desde o seu desaparecimento. A careta tinha sido mais porque Marcus era outra pessoa para quem eu tinha virado as costas, mas Sydney não precisava saber disso.

— A gente vai dar um jeito — prometi. — Além disso, ele tem uma lista de...

Sydney começou a desaparecer diante dos meus olhos conforme o mundo real a chamava de volta.

— Hora de acordar — ela disse, com tristeza.

Tentei segurá-la, mas ela estava perdendo consistência. O pânico tomou conta de mim. Havia tantas outras coisas que queria perguntar a ela, mas só tinha alguns segundos.

— Vou conversar com Marcus e te encontrar de novo. É nessa hora que você costuma dormir?

— Sim. Eu te amo.

— Também te amo.

Não sei se ela me ouviu porque, de repente, eu estava sozinho no jardim, com a fonte jorrando atrás de mim e o sol de Malibu iluminando tudo ao redor. Fiquei olhando para o lugar onde ela estava segundos antes e então deixei que o sonho se dissolvesse, voltando à suíte do prédio de hóspedes. Ainda estava na frente da porta, de onde estivera prestes a sair para ver minha mãe. Mas, agora, tudo havia mudado. Eu tinha entrado em contato com Sydney! Tinha visto seu rosto e ela estava bem... relativamente bem, claro.

Pensar na minha mãe me causou uma pontada no peito, mas não podia ir conversar com ela. Não queria deixar as coisas como estavam — nem com Charlotte, Dimitri, Rose ou Lissa. Mas nenhum deles poderia me ajudar agora. Teriam que esperar. Era hora de voltar para as pessoas que poderiam me ajudar a encontrar Sydney.

Tirei o celular do bolso e comecei a procurar passagens para Palm Springs.


11

Sydney

 

Ser afastada de Adrian foi doloroso, mas mesmo assim acordei com uma sensação renovada de esperança, me sentindo ainda mais otimista do que quando desativara o gás. Emma começou a me encarar enquanto nos aprontávamos, então meus pensamentos deviam estar na cara. Rapidamente, tentei controlar minha expressão. Ela não ousou falar nada enquanto estávamos sob vigilância, mas a curiosidade brilhava em seus olhos. Quando estávamos espremidas no corredor com os outros, a caminho do café da manhã, me aproximei dela.

— Consegui — murmurei. — Mandei a mensagem.

Um sinal das coisas sobrenaturais no nosso mundo foi que ela não pediu detalhes. Aceitou o que eu disse e se concentrou em questões mais urgentes.

— E agora, a ajuda está a caminho? Algum cavaleiro de armadura brilhante está vindo resgatar a gente?

— Não exatamente — admiti. — Ainda mais porque não sei onde a gente está... você sabe?

Ela soltou um suspiro frustrado e revirou os olhos.

— O que acha? A gente divide o quarto. Tenho uma janela particular por acaso? — Com isso, ela caminhou rápido para perto de Amelia e de alguns outros.

Não era uma grande surpresa que Emma não soubesse onde o centro ficava. Duncan também não sabia. Era um segredo que nenhum detento parecia capaz de decifrar, mas algo que eu precisava descobrir caso entrasse em contato com Adrian — ou melhor, quando entrasse em contato com Adrian de novo.

A atitude brusca de Emma não me incomodou muito porque a atenção havia sido desviada de mim nos últimos dias, graças a uma reviravolta com um dos detentos veteranos. Jonah, que tinha mais ou menos a idade de Duncan, vinha cometendo deslizes na aula de história, dando opiniões demais — muito mais do que eu no meu primeiro dia. Ele ganhara uma passagem para a purgação e a censura dos superiores. Alguns outros detentos também tinham começado a se afastar dele, mas Duncan e seu grupo ainda o incluíam. Eu havia sentado com eles outro dia e descoberto mais sobre o ocorrido.

— Me dei mal — Jonah murmurou, para que os supervisores do refeitório não ouvissem. — Estava indo tão bem. Podia ter saído daqui! Mas Harrison me deixou tão bravo quando começou a falar de “fatos históricos” sobre dampiros e...

— Xiu — Duncan disse. Ele estava com um sorriso descontraído no rosto, sem dúvida para enganar quem nos vigiava. — Esquece essa história. As paredes têm ouvidos. Você só vai piorar as coisas. Sorria.

— Como vou sorrir? — Jonah perguntou, irritado. — Sei o que vai acontecer. Vou ficar igual à Renee. Eles vão retocar minha tatuagem com uma compulsão mais forte! Vão me obrigar a pensar diferente!

— Você não tem como saber — Duncan disse. Mas sua expressão o denunciava.

— E nem sempre dá certo — Elsa acrescentou. Ela era uma das pessoas que tinham afastado a carteira de mim no primeiro dia. Depois, descobrira que ela não era tão ruim; só tinha medo, como todos eles. — Nenhum de nós estaria aqui se desse certo. Você pode passar ileso.

Jonah parecia cético.

— Depende da dosagem.

Pensei em Keith e em seu comportamento robótico da última vez que o vira. Pelo que havia entendido, aquilo só podia ser atingido com um condicionamento bem pesado, somado a uma tinta de compulsão forte, como a de Renee. O silêncio recaiu sobre a mesa e tomei uma decisão. Duncan dissera que minha acolhida no grupo precisava ser lenta e que, embora eu sentasse com eles agora, seria melhor se ficasse quieta por um tempo e não agisse como se tivesse opiniões insubordinadas demais. Parecia um bom conselho, mas, de repente, me peguei falando mesmo assim.

— Talvez eu possa ajudar — eu disse. O olhar de Jonah recaiu sobre mim.

— Como? — ele perguntou.

— Ela está brincando — Duncan disse, com um tom de advertência. — Não está, Sydney?

Ele estava tentando ajudar, mas o pavor no rosto de Jonah era grande demais. Se eu pudesse impedir que ele ficasse como Keith, tinha que tentar. Tem certeza?, uma voz interna perguntou. Você fez um progresso real falando com Adrian. Precisa ficar na sua até ele conversar com Marcus. Por que arriscar tudo ajudando outra pessoa?

Era uma pergunta válida, mas soube a resposta imediatamente: porque era a coisa certa a fazer.

— Não, não estou brincando — respondi, com firmeza. Duncan suspirou, mas me deixou continuar. — Sei fazer um composto que combate os efeitos da compulsão.

Jonah me encarou desanimado.

— Quase acredito em você. Só não acredito, nem por um instante, que eles vão te dar acesso ao estoque de substâncias químicas deles.

— Não preciso delas. Só preciso — meu olhar pousou no centro da mesa — desse saleiro. Quer dizer, do sal. Acham que consigo tirar o saleiro daqui sem ninguém perceber?

Os outros me olharam incrédulos, mas Elsa assentiu.

— Sim... mas acho que depois vão perceber que sumiu e começar a fazer perguntas.

Ela devia ter razão. Com sua eficiência típica, os alquimistas provavelmente contavam todos os utensílios depois que a gente saía. Um saleiro faltando poderia levá-los a pensar que a gente estava fazendo armas com o plástico ou alguma coisa assim. Discretamente, empurrei meu guardanapo até o centro da mesa e peguei o saleiro. Enquanto o erguia sobre a bandeja para salgar meus ovos mexidos, consegui abrir a tampa. Quando fui devolvê-lo no lugar, ele escapou da minha mão e caiu na mesa, derrubando sal em cima do guardanapo.

— Opa — eu disse, remontando o saleiro rápido. — A tampa estava solta. — Passei o guardanapo pela mesa, como se estivesse limpando a sujeira, mas na verdade dobrei o guardanapo, fazendo uma bolsinha de sal. Em seguida, o trouxe de volta para o lado da minha bandeja. Seria fácil esconder o guardanapo quando saíssemos. Normalmente, eles eram jogados fora junto com as bandejas. Ninguém os contava.

— Muito bem — disse Duncan, que ainda estava com cara de quem não aprovava. — É só disso que você precisa?

— Praticamente — eu disse. Eu não era próxima o bastante de nenhum deles para revelar que usaria magia como ingrediente secreto. — Seria melhor se tivesse alguns dos compostos que vão na tinta, mas injetar uma solução salina em você, depois que tiver tratado o sal, também deve funcionar. — Assim que as palavras saíram da minha boca, percebi outro problema e soltei um grunhido. — Não tenho como injetar a solução. — Sal era um artigo comum, mas agulhas não costumavam ficar largadas por aí ao nosso alcance.

— Precisa ser uma pistola de tatuagem? — Jonah perguntou.

Refleti com base no que sabia do processo de tatuagem alquimista e em minhas próprias experiências.

— Seria o ideal. Uma tatuagem de verdade, com tinta grossa, seria uma proteção definitiva. Mas posso te dar uma proteção a curto prazo com uma seringa médica, como as que eles usam pra retoques comuns.

Duncan arqueou a sobrancelha.

— Curto prazo?

— Vai anular o que eles fizerem no futuro próximo — eu disse, me sentindo mais confiante, mesmo com uma solução improvisada. — Meses, pelo menos. Mas, para uma proteção vitalícia, você precisaria de uma tatuagem de verdade.

— Meses parece ótimo — Jonah disse.

Foi difícil não demonstrar desânimo.

— Sim, mas não posso injetar sem uma agulha de verdade. Essa é a única coisa que não consigo improvisar. Me... me desculpe. Fui precipitada demais com esse plano.

— Foi nada — ele retorquiu. — Tem um monte dessas agulhas na sala de purgação. Elas ficam no armário perto da pia. É só eu ser mandado pra lá e roubar uma.

Ao seu lado, Lacey soltou um riso sarcástico.

— Se fizer alguma coisa tão cedo, eles não vão te mandar pra purgação. Você vai direto pro retoque, ou coisa pior. — A ameaça pairou pesada no ar por um momento. — Eu vou — ela declarou. — Faço alguma coisa na próxima aula.

— Não — eu disse rápido. — Deixem que eu faço. Assim eu mesma já pego a agulha. Vai economizar tempo, caso mandem Jonah pro retoque mais cedo do que a gente imagina. — Havia um quê de verdade nesse argumento, mas na verdade eu só queria evitar que outra pessoa fosse mandada para a purgação por causa de um dos meus planos. Amelia ainda me olhava feio sempre que a gente fazia contato visual. Não queria correr o risco de criar mais inimigos. A purgação era horrível, mas uma hora acabava e, até agora, não estava tendo os efeitos desejados, considerando que meu primeiro impulso ao ver Adrian na noite anterior tinha sido beijá--lo, não vomitar.

Alguns dos meus colegas de mesa acharam que era um ato heroico, especialmente Jonah. Outros, como Duncan, acharam que eu estava prestes a cometer um grande erro, mas nenhum deles interveio.

— Obrigado — disse Jonah. — Sério. Vou ficar te devendo essa.

— Estamos todos no mesmo barco — eu disse, simplesmente.

Essa declaração pegou alguns de surpresa, mas o sinal que anunciava o fim do café da manhã cortou a conversa. Consegui levar o sal sem que ninguém percebesse e o enfiei dentro do sapato quando chegamos à próxima aula, fingindo que estava arrumando a meia. Enquanto os outros sentavam, decidi que seria melhor agir o mais rápido possível. Não queria que Lacey fizesse o trabalho por mim, mas a usei como cúmplice quando ela sentou ao meu lado.

— Olha, Lacey — eu disse, como se estivéssemos continuando uma conversa do refeitório —, não estou dizendo que você está errada... mas está sendo radical. Até os Strigoi serem erradicados, não há nada de errado em agir de forma civilizada com os Moroi.

Ela entendeu rápido e entrou na jogada.

— Você não estava falando em agir de maneira civilizada. Estava falando em ser amigável. E todo mundo sabe que essa é uma área perigosa, considerando seu histórico.

Assumi uma expressão ofendida.

— Então acha errado almoçar com um deles?

— Se não for um almoço de negócios, acho.

— Você está exagerando! — exclamei.

Kennedy, nossa instrutora, levantou os olhos da mesa ao perceber que estávamos erguendo a voz.

— Meninas, algum problema?

Lacey me apontou um dedo acusatório.

— Sydney está tentando me convencer que não tem problema manter uma relação pessoal com um Moroi fora do trabalho.

— Eu não disse pessoal! Só estava falando que, se a gente está numa missão, qual é o problema de jantar ou ver um filme juntos?

— O problema é que leva a outras coisas — Lacey retrucou. — Você precisa estabelecer um limite e manter tudo preto no branco.

— Só se você for idiota o bastante de achar que eles são tão perigosos quanto os Strigoi — eu disse. — Eu sei me virar nessa área cinzenta.

O argumento de Lacey tinha sido especialmente oportuno porque, no dia anterior, Kennedy usara metáforas com a ideia de preto e branco e áreas cinzentas. Ela tentou intervir, mas não deixei e continuei discutindo com Lacey. Dez minutos depois, estava sendo conduzida para a sala de purgação. Sheridan pareceu um pouco surpresa ao me ver.

— Um pouco cedo, não é? — ela disse. — Você estava indo tão bem essa semana.

— Eles sempre andam pra trás — comentou um dos assistentes dela.

Ela assentiu e apontou para a cadeira.

— Você conhece o procedimento.

Eu conhecia. Foi horrível como sempre, talvez um pouco mais, já que o café da manhã estava fresco na minha barriga. Quando vomitei tudo depois da apresentação de fotos, eles me mandaram para a pia escovar os dentes. As escovas descartáveis ficavam bem do lado do armário onde guardavam as seringas. Abri a torneira e fingi estar cuspindo mais uma vez, enquanto olhava para trás. Eles não estavam me vigiando diretamente, talvez porque não achassem que eu pudesse fazer alguma coisa numa sala tão pequena. Comecei a levar a mão à escova, planejando abrir o armário no mesmo movimento.

Só havia um problema e eu tinha uma fração de segundo para resolvê-lo. Como levaria a seringa embora? Meu uniforme não tinha bolsos. A seringa ficava numa embalagem plástica e havia uma capa de proteção sobre a agulha, de modo que, em tese, podia enfiá-la na meia ou mesmo no sutiã sem me machucar. Mas tanto movimento chamaria a atenção deles.

Um tumulto na porta assustou a mim e aos outros, e todos viramos quando dois outros seguranças chegaram com outra pessoa: Duncan.

Ele me lançou um olhar rápido e então começou a se debater.

— Eu estava brincando! Foi só uma piada, pelo amor de Deus. — Eles tentaram arrastá-lo para a cadeira e ele fincou os pés no chão. — Desculpe, não faço de novo! Por favor, não me obrigue! Faz tanto tempo.

Eu sabia que não era coincidência ele estar ali justo naquele momento. Duncan fizera a tal “piada” para poder ser levado também e causar uma distração — uma distração que eu estava desperdiçando ao ficar parada olhando com cara de idiota. Rapidamente, estendi o braço e peguei a escova de dentes e a seringa, colocando esta embaixo da meia enquanto os outros estavam ocupados com Duncan. Em seguida, comecei a escovar os dentes e não agi como se um amigo estivesse prestes a suportar algo terrível para me ajudar.

Duncan já estava amarrado na cadeira quando me levaram embora. Sheridan balançou a cabeça, exasperada.

— Que manhã, hein?

Quando me juntei aos outros detentos na aula seguinte, vi Jonah e alguns outros da mesa do café da manhã me lançando olhares furtivos e curiosos. Dei um curto aceno de cabeça, indicando sucesso e, mais tarde, quando estávamos saindo da aula, falei com ele.

— Ainda não está pronto, mas tenho o que preciso.

— Não quero te apressar — ele murmurou, mantendo o olhar fixo à frente. — Mas ouvi Addison falando pro Harrison que, com todos os maus comportamentos recentemente, eles devem tomar “ações drásticas” logo.

— Certo — eu disse.

Duncan apareceu na aula seguinte, de “vida moral e cívica”, com os sinais reveladores de uma purgação recente. Ele parecia arrependido, como devia, mas consegui arrancar a história toda dele no caminho para o almoço.

— O que aconteceu com não fazer nada idiota? — perguntei.

— Ei, eu não fiz nada idiota. Impedi você de fazer algo idiota. Nunca conseguiria ter roubado aquela seringa sem ser notada. Eu te salvei. Agora fiquei sabendo que vão servir manicotti no almoço, minha comida favorita. — Ele soltou um suspiro angustiado. — Não precisa agradecer.

— O que você falou pra Lacey que te deixou encrencado? — perguntei.

Ele quase sorriu, mas então lembrou que sempre tinha alguém olhando.

— Bom, vocês tinham acabado de ter a briguinha, então fui lá e disse que ela não devia se opor tanto a relações de humanos com Moroi. Que talvez uma “relação pessoal” fosse exatamente o que ela precisava pra relaxar a tensão.

Precisei me conter para não rir.

— Ela sabe que você estava atuando, né?

— É melhor que saiba. Nós dois impedimos que ela fosse pra purgação hoje. Ei, aonde está indo?

Estávamos perto do refeitório, mas comecei a me afastar.

— O único lugar onde dá pra ter um pouco de privacidade. Depois encontro vocês.

Entrei no corredor onde ficavam os banheiros. Tínhamos o direito de ir ao banheiro na hora do almoço, e não haveria problema desde que eu não ficasse lá tanto tempo a ponto de chamar a atenção. Embora houvesse câmeras na área principal do banheiro (acho que eles tinham medo que alguém pudesse quebrar um espelho e usar o vidro como arma), as cabines individuais eram uma das poucas áreas do centro com privacidade. Fechei a porta de uma e agi rápido, sabendo que meu tempo era limitado.

Fazia meses que não usava magia, e fiquei surpresa quando ela voltou de maneira tão rápida e natural. Tirei meu precioso pacote de sal do sapato e, com cuidado, virei o conteúdo dele dentro da seringa, que era um recipiente muito melhor para realizar o processo de encantamento. Primeiro vinha a terra. Eu havia tocado o vaso da professora de propósito na última aula, sujando os dedos. Com isso, fui capaz de invocar a essência da terra, murmurando as palavras que traziam seu poder e mandando-o para o sal. Uma onda de adrenalina cresceu em mim quando a magia tomou conta, e quase perdi o fôlego. Foi uma surpresa perceber como sentia falta dela e como me sentia mais viva ao usá-la. Era ainda mais notável depois de ficar tanto tempo naquele lugar infernal.

Em seguida, precisei invocar o ar, o que era fácil, já que ele estava em toda parte. Água também não era problema, uma vez que havia um vaso sanitário bem na minha frente. Não precisava me preocupar com questões sanitárias, pois só estava invocando as propriedades mágicas da água e não usando-a no composto — por enquanto. O fogo se provou o mais difícil, visto que os alquimistas não deixavam fósforos ao nosso alcance. Não era nenhuma surpresa, pois, pelo que eu sabia, aquele lugar corria um enorme risco de incêndio. Não havia nenhuma fonte acessível para o fogo, então tive que criar o meu.

A sra. Terwilliger havia me treinado para lançar bolas de fogo, e eu tinha um excelente controle sobre elas. Com algumas palavras murmuradas, realizei o feitiço, criando uma faísca na mão que mal dava para ver. Sua essência, porém, era forte o bastante para que eu levasse o poder do elemento para o composto de sal. Feito isso, apaguei a chama.

Escondendo a seringa com cuidado numa mão, dei descarga e saí da cabine.

Enquanto lavava as mãos, fiquei surpresa ao me sentir um pouco zonza. A magia, depois de tanto tempo, custou caro, ainda mais por ter sido necessário invocar o fogo em vez de tirá-lo do ambiente. O cansaço, porém, foi contrabalançado pela sensação inebriante que o uso da magia havia me proporcionado. Somada a ela, havia a noção de que eu não era impotente, de que era capaz de ajudar alguém e frustrar os planos dos alquimistas. Só isso já me deixava em êxtase.

Quando cheguei ao refeitório e fui até a mesa de Duncan com a bandeja, todos pareciam conversar despreocupadamente. Mas, quando sentei, senti a tensão não declarada entre meus colegas. Eles continuaram falando sobre algum tópico da aula de história, mas era óbvio que nenhum deles estava realmente interessado no assunto. Por fim, sorrindo como se fôssemos apenas alunos normais com preocupações rotineiras, Jonah disse:

— Quando entrei, Addison me mandou faltar na aula de artes. Disse que Sheridan vai me encontrar na frente da sala.

Caiu um silêncio quando percebemos o que estava implícito.

— Eles não perderam tempo — Lacey murmurou. Seu olhar recaiu sobre mim. — As travessuras de manhã deram em alguma coisa?

— Sim — eu disse, abaixando a voz enquanto mexia no manicotti. Meu estômago não estava tão mal quanto o de Duncan, mas achei que seria melhor me limitar aos acompanhamentos mais leves. — O sal está dentro da seringa, pronto pra ser usado. Só não tenho uma fonte de água pura pra misturar a solução. Também seria melhor se a gente fervesse a mistura — acrescentei —, mas uma mexida rápida deve funcionar se conseguirmos a água. Os professores sempre têm uma garrafa de água mineral. Talvez a gente consiga roubar deles.

— Não temos tempo — Jonah disse. — Me dê a seringa. Encho na torneira do banheiro, se alguém me bloquear da câmera.

Levei um susto.

— Você precisa injetar na pele. Não pode usar água da torneira.

— Aquela água é potável — ele argumentou. — E não pode ser pior do que o que estão planejando injetar em mim. Prefiro correr o risco.

Minhas preocupações sanitárias ainda resistiram.

— Queria que a gente tivesse mais tempo.

— Mas não temos — ele respondeu, incisivo. — Você já fez muito, e agradeço. Agora é a minha vez de correr os riscos. Me dê a seringa quando a gente estiver saindo. Preciso fazer alguma coisa especial com ela? Além do óbvio?

Fiz que não, ainda frustrada, mas sabendo que ele tinha razão.

— Injete quantidades pequenas na tatuagem, como eles fazem no retoque. Não é necessário ser muito preciso. Vai ter o suficiente no seu sistema pra anular a tinta de compulsão.

— O que tem na sua solução? — Elsa perguntou.

— Não responda — Duncan avisou. — Quanto menos a gente souber, melhor pra todos nós... especialmente pra Sydney.

Quando o almoço acabou, nossos colegas de mesa se aglomeraram em volta de mim e de Jonah na fila para devolver as bandejas, o que permitiu que eu passasse a seringa para ele. Depois disso, literalmente não estava mais nas minhas mãos. Precisava confiar que Jonah daria um jeito de misturar o sal com a água sozinho e injetar a solução em si mesmo antes que viessem buscá-lo.

O restante do dia demorou para passar, especialmente a aula de artes. Ele não apareceu e fiquei morrendo de preocupação enquanto imaginava que tipo de lavagem cerebral estava sofrendo. Duncan, que havia tratado aquilo como uma piada e me dito várias vezes que eu estava fazendo besteira, também estava tenso.

— Jonah é um cara legal — ele disse. — Tomara que esse seu plano funcione. Já vi o que eles conseguem fazer com as pessoas. Algumas voltam bem mal.

Ao lembrar da longa pena de Duncan, tive uma revelação súbita.

— Você chegou a conhecer um cara chamado Keith? Caolho?

A expressão de Duncan ficou mais sombria.

— Sim, conheci. A gente não era muito próximo quando ele estava aqui. Ele era um desses... desses que voltou muito mal.

A hora da comunhão foi logo depois e Jonah voltou. Ele parecia intimidado e não falou nada no decorrer da sessão. Sheridan o deixou em paz e conversou com o restante de nós, que estávamos quase tão calados quanto ele, entristecidos por saber pelo que tinha passado. Quase torci para que ela o obrigasse a falar, para poder ter uma ideia do seu estado, mas pelo visto ela achava que ele tinha sofrido o bastante naquele dia. Jonah ficou apenas sentado, ouvindo, com o olhar perdido e sem expressão. Senti uma pontada no peito.

No fim da sessão, quando fomos dispensados para o jantar, sua atitude não mudou. Duncan o guiou até a nossa mesa, como eu havia feito quando Renee voltara. Jonah não disse nada enquanto conversávamos sobre amenidades com que não nos importávamos, todos nervosos demais para perguntar o que realmente queríamos. O comportamento dele era exatamente igual ao usual depois de um retoque pesado. A questão era: ele estava fingindo ou não? Se estava, interagir com ele poderia chamar atenção indesejada. Se não, era bem possível que nos denunciasse.

O jantar foi se encaminhando ao fim em silêncio e Duncan terminou a sobremesa, uma torta de cereja que parecia requentada.

— Estava melhor do que eu esperava — ele comentou, mais para si mesmo do que para nós.

— Sabe o que também está melhor do que o esperado?

Todos erguemos a cabeça, surpresos por ouvir a voz de Jonah pela primeira vez desde o retoque. O sinal tocou, anunciando o fim do jantar e fazendo todos no refeitório levantarem. Jonah também se ergueu, segurando a bandeja.

— Eu — ele disse, baixinho. — Estou me sentindo ótimo. Nem um pouco diferente. — Ele me lançou um sorriso que logo se fechou. — Você salvou minha vida, Sydney. Obrigado. — Então saiu andando para entrar na fila das lixeiras, me deixando boquiaberta.

Fui atrás alguns segundos depois, ainda pasma. Ele não falou mais comigo durante o resto da noite, mas eu tinha visto o brilho em seus olhos quando sorrira. Ele ainda estava lá. Sua personalidade e sua mente estavam intactas. Os alquimistas não o haviam atingido — minha fórmula o protegera. Essa ideia continuou comigo pelo resto da noite, me dando forças. Durante meses, meus captores obtiveram uma vitória atrás da outra sobre mim, fazendo com que me sentisse incapaz de lutar. Naquele dia, a vitória tinha sido minha. Era uma vitória pequena, mas real.

Estava tão orgulhosa da minha astúcia que não prestei muita atenção ao que acontecia ao meu redor enquanto me preparava para a cama. Entrei no banheiro feminino com algumas outras garotas, ainda pensando sobre o que tinha feito. Estava distraída demais para ver Emma se aproximando por trás ou me defender quando ela me jogou contra a parede. Por um momento, não consegui acreditar na audácia dela de fazer isso sob vigilância. Então, notei que tinha nos posicionado bem embaixo da câmera, fora do seu alcance. Amelia e algumas amigas delas começaram a falar alto, abafando a voz baixa e ameaçadora de Emma enquanto ela me prendia no canto e se inclinava para a frente.

— Jonah passou por um retoque hoje — ela disse. — Dos grandes, do tipo que faz a pessoa esquecer o próprio nome. Mas estão falando que ele não foi afetado. E estão dizendo que foi por causa de algo que você fez.

— Não sei do que você está falando — retruquei. — Ele parecia completamente desligado.

Ela me empurrou com mais força do que imaginei ser capaz, considerando seu tamanho.

— Fez ou não fez alguma coisa com ele?

Olhei nos olhos dela.

— Por quê? Pra você me denunciar e sair mais cedo por bom comportamento?

— Não — ela respondeu. — Porque quero que faça comigo também.


12

Adrian

 

Tinham passado só algumas semanas, mas parecia fazer meses que eu estava longe de Palm Springs. Não fazia ideia do que esperar quando entrasse no apartamento e me perguntei se daria de cara com Angeline morando com Trey. Mas não devia ter cogitado isso. Apesar da pose, Trey se comportava quando o assunto era importante, e o encontrei sentado na sala cercado de livros. A cena me lembrou tanto de Sydney que, por um momento, as emoções ameaçaram me dominar. Então minha nova resolução reassumiu o controle e deixei esses sentimentos de lado.

Trey levantou a cabeça, olhando pra mim e pra mala.

— Voltou, é? Como foram as férias?

— Esclarecedoras — eu disse. — Tenho uma pista sobre Sydney. Está todo mundo a caminho.

Ele arregalou os olhos.

— Como assim?

Não tive tempo de responder porque já estava no corredor, rumo a meu antigo quarto. Ao entrar, vi que Trey havia se acomodado lá, o que era seu direito, considerando minha partida abrupta. Dei de ombros, levei a mala de volta para a sala e a joguei num canto. Um lugar no sofá seria o bastante por enquanto — se é que fosse ficar naquela casa. Não sabia aonde a busca por Sydney me levaria nem quanto tempo passaria em Palm Springs.

Dez minutos depois, uma batida na porta anunciou a chegada de Jill, Eddie, Angeline e Neil. Todos me abraçaram, incluindo o estoico Neil, mas foi Jill quem me apertou por mais tempo.

— Estava tão preocupada com você — ela disse, erguendo os olhos reluzentes. — As coisas na Corte estavam tão malucas... e só consegui acompanhar metade delas...

— E agora chegaram ao fim — eu disse, com firmeza. — E a gente tem uma pista sobre o paradeiro de Sydney.

— Foi o que você disse — Trey comentou. — Mas não elaborou.

— Isso é porque eu... — Antes que pudesse terminar, houve outra batida na porta. Abri e convidei Marcus para entrar. Estava tão feliz por vê-lo que o surpreendi com um abraço também. — Bem na hora — eu disse.

Marcus tinha sido o mais difícil de encontrar. Eu havia ligado para ele assim que comprara a passagem e fora um alívio descobrir que ainda estava na Califórnia, em seu antigo quartel-general em Santa Barbara. Quando contei o que havia descoberto, ele prometeu voltar e me encontrar assim que eu chegasse. Era fim de tarde e o dia tinha sido consumido pela viagem, mas me sentia estranhamente energizado. Era isso. Ali estávamos, as pessoas que amavam Sydney, reunidos e prontos para encontrá-la.

— Agora pode contar o que está rolando? — Trey perguntou, depois que todos sentaram num círculo na sala. — Cadê a Sydney? Ela está bem?

— Não sei e não sei — admiti. — Quer dizer, estava bem o suficiente pra conversar comigo num sonho, mas não quis falar muito sobre o que acontece naquele lugar. Mas parecia a mesma.

Marcus concordou com a cabeça.

— Ela tem força de vontade. Vai conseguir superar muita coisa. O problema é que, se essa força de vontade ficar muito óbvia, eles vão tentar fazer algo a respeito. Ela precisa tomar cuidado.

— Ela sempre tomou — eu disse, pensando no tempo de Sydney em Palm Springs, quando enfrentara dificuldades para conciliar sua amizade com o nosso grupo com a doutrina que haviam enfiado na cabeça dela. Finalmente escolhera um lado e, agora, estava pagando por isso. — Ela também não sabe onde está, mas sabe que Keith esteve no mesmo lugar, então ele virou nossa maior pista.

— Uma pista muito difícil de encontrar — disse Marcus. Ele se recostou no sofá e suspirou. — Só consegui fazer algumas ligações por enquanto, mas ele está mais escondido do que o normal. Os alquimistas vigiam seus agentes “reformados” muito bem e não querem que eles fiquem muito expostos. Ele deve estar isolado em algum escritório.

Uma nuvem escura de desolação surgiu dentro de mim, mas a ignorei.

— Mas você pode continuar procurando.

— Sim, claro — disse Marcus. — Também perguntei para alguns dos meus contatos que estiveram na reeducação se eles se lembram de algum detalhe sobre quando saíram, mas até agora nada. A maioria esteve lá faz muito tempo. Keith é o mais recente, então, com sorte, a memória dele está mais fresca. Pedi para as minhas fontes procurarem por ele. Pode aparecer alguma coisa nos próximos dias. Mas... enquanto isso, tenho uma pista que pode dar resultados mais cedo. Sei onde Carly Sage está.

Eddie franziu a testa.

— Acha que ela sabe o paradeiro de Sydney? Quer dizer, não sei muito sobre ela, mas pensei que ficasse afastada dos assuntos alquimistas.

— E fica — eu disse, adivinhando aonde Marcus queria chegar. — Mas Keith tem uma, erm, relação com ela. — Eu tinha contado a Marcus sobre a mensagem que Sydney vira, em que Keith pedia desculpas a Carly. Não tinha revelado os detalhes sórdidos do passado deles, apenas que ele tinha sido bem terrível com ela. — Acha que ele pode ter entrado em contato com ela?

— Pra ser sincero, não sei — Marcus respondeu. — Não conheço nenhum dos dois. Mas sei que aquele lugar mexe com a culpa e a autoestima das pessoas. Se Keith acha que fez mal pra ela, pode ter entrado em contato depois que saiu.

— Teria sido a primeira coisa decente que ele fez na vida — Jill murmurou, sombria. Através do laço, ela sabia o que ele tinha feito com Carly.

— Imaginei que não faria mal verificar — Marcus disse. — Ainda mais porque a gente vai ter que esperar pra descobrir alguma coisa em relação a Keith. Ela está bem perto. Frequenta a Universidade Estatal do Arizona. — Ele me abriu um meio sorriso. — Topa uma viagem de carro?

— Claro. A gente pode sair agora. — Estava quase levantando, mas ele fez sinal para eu ficar sentado.

— Prefiro ir amanhã de manhã. Vai estar mais claro e você pode falar com Sydney hoje à noite. Vê se consegue tirar alguma coisa dela que possamos usar pra convencer Carly a confiar na gente. Imagino que, se dois estranhos aparecem pra perguntar sobre a sua irmã e a organização secreta que sua família jurou proteger, ninguém seria muito receptivo.

Relaxei um pouco.

— Bem pensado. E, contanto que ela não esteja mais drogada por nenhum gás, a gente deve estar em sincronia agora. Considerando a hora em que ela acordou, está neste fuso-horário. Mas posso estar errado. Vai saber em que horário aqueles malucos a estão mantendo?

— Provavelmente um horário humano normal, mesmo se estiverem no subterrâneo. — Marcus revirou os olhos. — Deus os livre de fazer qualquer coisa remotamente vampírica.

Neil se debruçou.

— Espere um pouco. Você disse gás?

Agora que tínhamos um plano para encontrar Carly Sage, consegui me acalmar um pouco e contar aos outros o que sabia. Meu sonho com Sydney fora curto, mas dei todos os detalhes que tinha obtido, incluindo o fato de ela ter sido drogada e as vagas referências dela às punições.

Angeline pousou a cabeça no ombro de Trey.

— É melhor que não estejam machucando Sydney. Senão vou machucar todos eles quando a gente tirar ela de lá.

— “A gente”? — Marcus disse, com um sorriso.

Eddie estava com uma expressão feroz que me fez lembrar de Dimitri.

— Não acham que vamos deixar vocês dois fazerem tudo sozinhos, acham?

Contive um sorriso.

— Acho que o ano letivo ainda não acabou e que a prioridade de vocês é a Chave de Cadeia.

— Só por mais uma semana — Jill disse. — E já estamos terminando as provas finais. Vocês deviam levar um dos dampiros. Dois, na verdade. Angeline pode ficar aqui comigo.

— Ei — Angeline exclamou. — Por que eu não posso acabar com os alquimistas?

— Porque é a única que ainda não terminou o ensino médio de verdade — Eddie disse.

— Mas todos vocês foram nomeados pra proteger Jill — lembrei. — E vão ficar com ela, pelo menos por enquanto. Marcus e eu não precisamos de guarda-costas pra visitar uns universitários baladeiros.

Eddie parecia em conflito.

— Mas e depois? Quando descobrirem o paradeiro de Sydney? — Eu sabia o que o estava atormentando. Ele estava dividido. Sua missão e seu coração estavam com Jill. Mas Sydney também era sua amiga e ele ainda se sentia culpado por ter deixado que a levassem.

— Ainda não sabemos quando isso vai acontecer. Até lá as aulas podem ter acabado e todo mundo talvez esteja de volta na Corte. — Dei um tapinha no ombro dele. — Deixa que a gente cuida de Carly, e de Keith também. Quando passarmos pra próxima fase... bom, daí a gente vê o que faz.

Eddie não pareceu muito satisfeito, mas a verdade era que não ficaria satisfeito com nenhuma decisão. Se viajasse com a gente no dia seguinte, ficaria se corroendo de culpa por abandonar Jill. Nenhuma opção seria fácil para ele.

Marcus foi embora logo, assim que fizemos os planos para a viagem até Tempe. Os outros ficaram em casa, querendo saber o que havia de novo e contar o que acontecera nas últimas semanas. Escondi os detalhes sobre minha vida desregulada na Corte, com vergonha de deixar que soubessem que eu quase perdera Sydney. Só Jill sabia a verdade, e ela nunca me entregaria. No entanto, me entregou outra coisa.

— Ah, Trey — ela disse, com o olhar travesso. — Acho que devia entregar aquela carta importante pro Adrian.

Um sorriso igualmente travesso surgiu no rosto de Trey, que levantou de um salto e foi correndo até a cozinha. Ao voltar, me entregou um envelope aberto. Era da Faculdade Carlton, endereçado a mim.

— Você abriu minha correspondência? — exclamei.

— Eu disse que podia — Jill falou, como se tivesse algum tipo de autorização para isso. — Dê uma olhada.

Sem entender, tirei uma folha do envelope e me peguei olhando para o meu primeiro boletim universitário. Ainda mais incrível foi ver que tinha passado em todas as matérias. C, C- e B-. Essa última me fez erguer a sobrancelha.

— Como fui tirar B- em pintura a óleo? O que vocês entregaram como trabalho final? — perguntei, incrédulo.

— Fui eu que escolhi — Trey disse, orgulhoso. — Era uma tela alta que você tinha deixado num canto, uma nuvem estranha, roxa e amarela.

Senti um nó na garganta.

— A aura de Sydney — murmurei. Guardei o boletim e dei um abraço em Jill e Trey. — Vocês me salvaram. Não teria passado sem vocês dois.

— Você se salvou — Jill murmurou ao meu ouvido. — E agora vai salvar Sydney.

Ela e os outros foram embora pouco tempo depois, pois o toque de recolher de Amberwood estava se aproximando. Neil esperou todos saírem e ficou para falar comigo.

— Adrian — disse, sem conseguir me olhar nos olhos —, por acaso Olive estava na Corte?

Eu me solidarizava com todos os apaixonados e entendia a dor dele.

— Não, mas Charlotte estava. Olive também não está falando com ela, mas Charlotte a visita em sonhos, e Olive está bem. Ela só quer um tempo sozinha pra pensar em tudo o que aconteceu. Não deve ser fácil voltar depois de ter sido Strigoi.

Os traços angulares de Neil se encheram de alívio.

— Jura? Isso é ótimo. Quer dizer... não é ótimo que ela ande perturbada, mas achei que tinha alguma coisa a ver comigo. A gente tinha se dado tão bem, ficado em contato... e de repente ela desapareceu.

— Não — eu o tranquilizei. — Charlotte contou que Olive se distanciou de todo mundo. Dê um tempo para ela. Vai passar. Pelo pouco que vi, ela parecia louquinha por você.

Neil ficou vermelho e, rindo, o mandei embora junto com os demais. Trey voltou à lição de casa e comecei as buscas regulares por Sydney. Em certo momento, Trey ofereceu devolver meu quarto, mas respondi que, como ficaria viajando, era melhor que ele estivesse descansado para as provas e suas perspectivas de conseguir uma bolsa universitária.

Algum tempo depois, ele me deixou sozinho na sala e, por volta da meia-noite, finalmente estabeleci contato com Sydney. Nos encontramos na Getty Villa e a envolvi nos braços, sem perceber até então como estivera com medo de que o encontro da noite anterior tivesse sido um acaso feliz.

— Antes que comece a te beijar e perca toda a razão, me diga há quanto tempo está dormindo.

Ela encostou a cabeça no meu peito.

— Não sei. Menos de uma hora.

— Hum. — Coloquei seu cabelo lindo atrás da orelha enquanto fazia os cálculos. — Achei que estivesse no fuso-horário do Pacífico, com base na hora em que acordou. Eram mais ou menos umas cinco aqui. Mas isso não dá muitas horas de sono. Seis. Sete no máximo.

— Na verdade, é perfeito pra eles — ela disse. — É uma das coisas que fazem para nos deixar com os nervos à flor da pele. A gente dorme o bastante pra conseguir fazer as coisas, mas nunca se sente muito descansado. Isso nos deixa agitados, mais suscetíveis ao que eles fazem e falam.

Quase deixei o comentário passar, mas sua escolha de palavras me preocupou.

— O que quer dizer com “uma das coisas”? — perguntei. — O que mais eles fazem?

— Não importa — ela disse. — Temos outras...

— Importa sim — insisti, me aproximando dela. Havia tentado abordar esse assunto antes e ela ficava fugindo. — Você mesma disse que esse lugar enlouqueceu Keith e vejo como Marcus fica sempre que fala da reeducação.

— Um pouco de privação de sono não é nada — ela disse, ainda sem responder o que eu queria.

— O que mais eles estão fazendo? — perguntei.

Uma chama se acendeu em seus olhos.

— O que faria se eu contasse? Isso te faria se esforçar mais pra me encontrar?

— Já estou...

— Pois é — ela me interrompeu. — Não aumente suas preocupações, ainda mais porque nosso tempo já é curto.

Ficamos nesse impasse por alguns segundos tensos. Quase nunca brigávamos antes de ela ser levada, e era ainda mais estranho fazer isso agora, considerando tudo o que havia acontecido. Não achava que o que ela estava sofrendo na reeducação “não importava”, mas odiava vê-la tão nervosa. Ela também tinha razão sobre a questão do tempo, então, relutante, acabei aceitando e mudei de assunto, contando para ela sobre meu plano de visitar Carly com Marcus.

— Não é má ideia. Mesmo se Keith não tiver falado com ela, Carly faz parte de uma família alquimista e pode descobrir coisas pra vocês. — Sydney ainda estava me segurando e, embora eu não visse mal nenhum nisso, não pude deixar de notar a angústia que irradiava dela, como se estivesse literalmente com medo de me soltar. Seu rosto demonstrava coragem, mas aqueles cretinos deviam ter feito alguma coisa com ela e eu os odiava por isso. Eu a abracei mais forte.

— Tem alguma coisa que possamos falar que a faça acreditar que conversamos com você? — perguntei.

Sydney pensou por alguns segundos e então sorriu.

— Pergunte se a faculdade não mudou sua decisão de seguir a filosofia de vida de Cícero.

— Certo — eu disse. Aquilo não fez o menor sentido para mim, mas não importava.

— E pergunte... — O sorriso de Sydney se fechou. — Pergunte se ela sabe como Zoe está. Se ela está bem.

— Pergunto — prometi, admirado por Sydney se importar tanto com a irmã que a traíra. — Mas e você? Não tem nada que possa me contar sobre a vida nesse lugar? Me preocupo com você.

O nervosismo dela cresceu e fiquei com medo de que voltasse a ficar irritada, mas, aparentemente, ela achou melhor me contar alguma coisa.

— Estou bem... mesmo. E posso ter ajudado uma pessoa. Dei um jeito de fazer aquela tinta de sal mágica e proteger uma pessoa do controle mental dos alquimistas.

Me afastei um pouco para olhar em seus olhos.

— Você usou magia na reeducação? Não estava falando que se mete em problemas quando sai da linha?

— Não fui pega — ela disse, incisiva. — E realmente ajudei essa pessoa.

Eu a abracei de novo.

— Se preocupe em ajudar você mesma.

— Parece o Duncan falando.

— Duncan? — perguntei, com ciúmes.

Ela sorriu.

— Não precisa se preocupar. É só um amigo que vive dizendo pra eu me manter longe de encrenca. Mas não consigo evitar. Se puder ajudar essas pessoas, sei que vou.

Eu estava prestes a lembrá-la das muitas conversas que tivemos sobre meu uso do espírito, pois eu sempre insistia que o risco valia a pena para poder ajudar outras pessoas. Sydney sempre argumentava que eu precisava cuidar de mim mesmo em primeiro lugar, porque, senão, não conseguiria ajudar ninguém.

Mas não tive chance de dar um sermão porque, subitamente, ela me puxou para perto, me abraçando mais forte e me beijando intensamente. Um calor inundou meu corpo, junto com um desejo que era tão forte e real quanto o que eu sentiria acordado. Ela passou os lábios pela minha bochecha e desceu até meu pescoço, me dando um rápido instante para murmurar:

— Não é justo, você está me distraindo.

— Quer que eu pare? — ela perguntou.

Não precisei pensar para responder.

— Claro que não.

Nossos lábios voltaram a se encontrar em um beijo ávido e quase não tive concentração suficiente para mudar o ambiente do pátio ensolarado para um quarto numa pousada nas montanhas. Sydney parou novamente e riu baixinho ao reconhecer o cenário.

— Ah, quantas lembranças... — ela murmurou. — Nossa primeira vez. Você até recriou a neve lá fora.

Eu a guiei para a cama suntuosa.

— Ei, Adrian Ivashkov faz o serviço completo.

— Ou meu dinheiro de volta?

— Isso já não sei — eu disse. — Ninguém nunca se decepcionou.

A risada dela se dissolveu em mais um beijo e, com um último retoque no sonho, transformei seu uniforme cáqui num lindo vestido vermelho em que a vira certa vez. Sua beleza me deixou tão impressionado quanto naquela ocasião, e passei os dedos pela sua cintura, pousando a mão na curva do seu quadril. As mãos dela, que estavam atrás do meu pescoço, desceram e arrancaram minha camiseta com uma ousadia de que eu nunca a teria imaginado capaz quando nos conhecemos. O toque de seus dedos no meu peito era delicado mas, ao mesmo tempo, revelava uma força e uma urgência que me causavam arrepios. Algo me dizia que a paixão que ardia dentro dela agora era movida por algo além da atração que sempre existira entre nós; havia uma ânsia ali, uma ânsia causada pelos meses de desespero e isolamento. Inclinei sua cabeça para trás para beijar melhor seu pescoço, entrelaçando a mão no seu cabelo. Ela soltou um gemido de prazer e espanto quando passei os dentes pela sua pele, tomando cuidado para não fazer nada além de atiçar seu desejo.

Devagar, para provocá-la, fui subindo a mão que estava em seu quadril, adorando a forma como ela reagia ao meu toque. Finalmente, encontrei o zíper do vestido e tentei descê-lo, mas isso se provou mais difícil do que eu imaginava com uma mão só.

Ela abriu os olhos cheios de desejo e deu um sorriso.

— Você podia simplesmente fazer o vestido desaparecer.

— Qual seria a graça? — retruquei, me sentindo confiante quando consegui puxar o zíper. Comecei a tirar o vestido.

— Ai, Adrian — ela murmurou. — Você não faz ideia de como...

Não precisei perguntar o que a interrompeu. Soube pela maneira como ela ia perdendo substância sob as minhas mãos: ela estava sendo acordada.

— Não vá — pedi, inutilmente. Era menos pela satisfação física do que por um medo profundo que não conseguia expressar: tenho medo de que, se você for embora, nunca te veja de novo. Seu rosto, porém, mostrava que ela entendia o que eu estava sentindo.

— Logo a gente vai estar junto. No mundo real. O centro vai aguentar. — Ela estava ficando translúcida diante dos meus olhos. — Durma um pouco. Procure Carly e Keith.

— Sim. E depois vou te encontrar, prometo.

Ela já estava sumindo, mas conseguir ver lágrimas brilhando em seus olhos.

— Sei que vai. Acredito em você. Sempre acreditei.

— Eu te amo.

— Também te amo.

Ela desapareceu.

Acordei no sofá, sentindo um vazio e uma insatisfação causados por mais do que desejo físico. Eu precisava do coração e da mente de Sydney tanto quanto de seu corpo. Precisava dela. A saudade era uma dor profunda no meu peito enquanto eu caía no sono. Apertei os braços em volta do corpo, fingindo que era Sydney que eu abraçava.

Marcus apareceu cedo na manhã seguinte, e começamos bem nossa viagem... exceto por um detalhe. Tivemos um pequeno desentendimento sobre em qual carro ir.

— O seu deve ser roubado — eu disse.

Ele revirou os olhos.

— Não é roubado. E é um Prius.

— Mais um motivo pra não ir nele.

— A gente consegue chegar a Tempe sem parar pra abastecer, ao contrário do seu.

— Vale a pena parar mais vezes pra ir com estilo — retruquei.

— Vale a pena demorar mais pra conseguir respostas que podem ajudar Sydney? — Eu não tinha como discutir com isso, e ele sabia.

— Tá bom — resmunguei. — Vamos com seu carro feio que economiza combustível.

Apesar do nosso passado complicado — eu tentara bater nele logo que a gente se conheceu —, Marcus e eu tivemos uma viagem tranquila até a Universidade Estatal do Arizona. Ele não tentou puxar conversa ao longo do trajeto, o que funcionava para mim. Todos meus pensamentos estavam voltados para Sydney. Vez ou outra, ele atendia ligações de seus contatos, que lhe davam pistas sobre seus negócios clandestinos. Algumas eram sobre Sydney e Keith; outras sobre pessoas e missões que pareciam muito importantes ouvindo apenas um lado da conversa.

— Tem um monte de coisa rolando na sua vida — comentei, enquanto a gente atravessava a fronteira do Arizona. — Agradeço por ter arranjado tempo pra ajudar Sydney. Parece que ela não é a única contando com você.

Ele sorriu.

— Sydney é especial. Acho que ela nem sabe quanta gente ajudou com a tinta. É muito importante para essas pessoas saber que os alquimistas não podem corromper a mente delas, pelo menos não com tatuagens. É meu dever ajudar Sydney por causa disso. Além disso...

— Além disso o quê? — perguntei, vendo sua expressão ficar mais séria.

— Sempre que alguém faz alguma coisa incrível, como ela fez, e é pega, como ela foi, acho que poderia ter sido eu. Quando as pessoas me ajudam, parece que estão cumprindo a pena que eu deveria estar cumprindo.

— Não é assim que Sydney vê as coisas — eu disse, lembrando dos planos malucos dela para ajudar os colegas de prisão. — Ela tem prazer em ajudar; acha que vale a pena correr o risco.

— Eu sei — ele disse. — E isso me dá mais prazer ainda em ajudá-la também.

Chegamos à universidade no meio da tarde. Era o auge do dia acadêmico, mas os cursos de verão estavam no fim, então os grupos no campus eram mais esparsos do que em outras épocas do ano. Os espiões de Marcus tinham dito que Carly frequentava as aulas o ano todo e estava no alojamento misto. Ninguém questionou nossa presença ali durante o dia, e conseguimos ir direto para a porta dela, que estava coberta por pôsteres de bandas e passeatas. Depois de conhecer Zoe, eu não conseguia nem imaginar como era a terceira irmã Sage, embora tivesse uma vaga ideia de uma pessoa calma e pacata, com base no que sabia sobre como Carly tinha se recusado a denunciar Keith ou deixar que Sydney o denunciasse.

A menina que atendeu a porta, porém, não era como eu esperava. Era alta e atlética, com um corte de cabelo curto e um pequeno piercing vermelho-escuro no nariz. Mas seu cabelo e seus olhos eram da mesma cor dos de Sydney, e havia uma familiaridade que deixou claro que tínhamos encontrado a pessoa certa. Ela abriu a porta com um sorriso simpático que se desfez assim que olhou direito para mim. Podia não ser a alquimista da família, mas reconhecia um Moroi quando via um.

— Seja o que for, não quero me envolver — ela disse.

— É sobre Sydney — Marcus disse.

— Ela mandou perguntar se a faculdade fez você querer seguir a filosofia de vida de Cícero — acrescentei.

Ao ouvir isso, Carly arqueou a sobrancelha e, depois de um instante, soltou um suspiro e abriu a porta para nos receber. Duas outras garotas, que pareciam ser calouras, estavam sentadas no chão, e Carly se voltou para elas.

— Ei, desculpem mas tenho que resolver uma coisa. A gente pode terminar hoje à noite?

Enquanto as meninas levantavam e se despediam, Marcus chegou perto de mim e murmurou:

— Tem certeza de que falou certo a senha de Sydney? Cícero era mais um estadista do que um filósofo. Não que não tivesse bons momentos, mas...

Encolhi os ombros.

— Foi o que ela mandou dizer. E Carly deixou a gente entrar, não deixou?

Depois que as garotas saíram, Carly sentou na beira da cama e fez um sinal para sentarmos no chão.

— Certo. Então, a que devo o prazer da visita de um Moroi e de um rapaz que não é alquimista mas que tem uma tatuagem num lugar muito suspeito?

— Precisamos da sua ajuda pra encontrar Sydney — eu disse, sem perder tempo.

Carly inclinou a cabeça, surpresa.

— Ela está desaparecida?

Marcus e eu trocamos um olhar.

— Você ouviu notícias dela recentemente? — ele perguntou.

— Não... faz um tempo que não, pra ser sincera. Mas isso não é novidade. Meu pai ficava sumido também. Faz parte do trabalho. Ele falou que ela anda envolvida em alguma coisa ultrassecreta. — Como nem eu nem Marcus respondemos, ela olhou de mim para ele. — Isso não é verdade? Ela está bem?

— Ela está bem — Marcus respondeu lentamente. Pude ver que ele estava escolhendo as palavras com cuidado. — Mas não está numa missão. Ela se meteu em encrenca e a gente está tentando encontrá-la antes que os problemas dela piorem.

Carly lançou um olhar incisivo para ele.

— Não me venha com eufemismos. Sei o que significa se meter em encrenca com os alquimistas. Eles prenderam Sydney em algum lugar, certo? Como fizeram com Keith?

— Você conversou com ele? — perguntei. — Pessoalmente?

O rosto dela se encheu de repugnância.

— Pessoalmente e por e-mail. Ele apareceu do nada, como vocês, em março, cheio de histórias tristes sobre como estava arrependido e precisava do meu perdão pra seguir em frente, e como eu devia denunciá-lo para as autoridades.

— Espere — eu disse. — Keith falou pra você fazer a denúncia? E você fez?

— Não. — Ela cruzou os braços e assumiu uma expressão triunfante que não combinava com o assunto. — Ele estava quase implorando. Estava morrendo de medo de ser mandado de volta para a custódia dos alquimistas e parecia acreditar que estaria mais seguro numa prisão normal. Então eu disse que não. Agora ele pode viver com medo constante, como eu vivia.

Era uma lógica estranha e distorcida, e não soube bem como responder. Marcus pareceu perplexo e lembrei que ele não sabia da história toda.

— Ela e Keith tiveram um, erm, desentendimento — eu disse, tentando não entrar em detalhes.

Carly olhou Marcus diretamente nos olhos.

— Keith me estuprou num encontro e me fez acreditar que a culpa era minha e que, se eu contasse a alguém, eles também me culpariam. Fiquei convencida disso e deixei essa ideia me consumir por dentro. A única pessoa pra quem contei foi Sydney e só sob a condição de que ela não contasse pra ninguém. Demorei anos pra perceber como tinha sido idiota. Agora, ajudo outras garotas a não passar por isso. — Ela apontou para outros pôsteres na parede e só então me dei conta de que eram todos de campanha contra estupro. — Se puder impedir que uma única pessoa passe por esse tipo de vergonha e humilhação... bom, vou ter cumprido meu objetivo na vida.

Marcus, que não se surpreendia fácil, parecia completamente admirado ao olhar para ela. Eu já tinha visto dezenas de garotas caírem de amor por ele, mas essa era a primeira vez que o via babando por uma.

— É incrível o que você está fazendo — ele falou. — E muito corajoso.

Por mais divertido que fosse vê-lo encantado por ela, não podíamos perder o fio da meada. Estalei os dedos na frente do rosto dele.

— Foco. — Me voltei para Carly. — Mesmo assim não vai denunciar Keith agora?

Ela balançou a cabeça.

— Parece loucura, eu sei, mas ele sofre mais do jeito que as coisas estão. Ele queria que eu fizesse a denúncia. Quase chorou quando me recusei. Mas não me importo com ele. Quero saber de Sydney. Me diga o que posso fazer pra ajudar a tirá-la das mãos daqueles cretinos.

— Você pode nos ajudar a encontrar Keith? — perguntei.

— Posso fazer mais do que isso — ela respondeu, tirando o celular do bolso. Ela passou o dedo pela tela algumas vezes e o mostrou para mim. — Isso ajuda?

Peguei o celular e vi o nome de Keith, junto com um número de telefone e um endereço em Boise, Idaho.

— Boise? — perguntei. — Ele já não sofreu o suficiente?

Marcus leu por cima do meu ombro e abriu um sorriso largo.

— Tem um centro de pesquisas alquimistas lá. É exatamente o tipo de lugar onde esperava encontrá-lo: uma função burocrática, sem trabalho de campo ou situações perigosas. Tem certeza de que ele ainda está lá?

Carly revirou os olhos.

— Absoluta. Ele me manda e-mails quase todo mês, pedindo perdão e me falando pra entrar em contato caso mude de ideia. Tenho certeza de que, se tivesse se mudado, teria me avisado mais de cem vezes.

Marcus copiou as informações no celular dele e devolveu o dela.

— Acho que a gente não devia avisá-lo antes de aparecer lá. Topa outra viagem de carro?

Geografia não era meu forte, mas até eu sabia que seria um trajeto muito maior do que o que tínhamos acabado de percorrer.

— Desde que a gente faça um estoque de lanchinhos antes.

— Encontrar Keith pode ajudar mesmo Sydney? — Carly perguntou, com o rosto grave.

A expressão de Marcus se suavizou, mas não dava para saber se era porque gostava dela ou porque tinha más notícias.

— Não temos certeza, mas esperamos que sim. Acreditamos que Keith ficou no mesmo lugar onde Sydney está agora. Se conseguirmos descobrir onde é, podemos ir atrás dela.

Carly empalideceu.

— O mesmo lugar... você quer dizer o mesmo lugar que é tão horrível que Keith prefere ir pra cadeia a correr o risco de voltar pra lá?

— A gente vai trazer Sydney de volta — Marcus disse, galante. — Eu juro.

— Quero ajudar — ela insistiu.

— Você já ajudou. — Ele mostrou o celular. — Esse endereço pode ser a chave de tudo. Não precisa se arriscar mais.

Carly levantou com um salto, os punhos cerrados em resistência. A semelhança entre ela e Sydney de repente ficou óbvia.

— Ela é minha irmã! Claro que preciso me arriscar. Vocês acham que ela faria menos por mim?

Senti um nó na garganta.

— Tem razão. Ela faria o mesmo por você. Mas, por enquanto, só estamos coletando informações. Se tivermos uma pista clara e você puder ajudar, a gente avisa.

— Acho bom mesmo — ela resmungou. — Espere, vou te passar meu telefone.

— Deixe que eu anoto — Marcus disse rápido.

Enquanto ele pegava o contato dela, acrescentei:

— Enquanto isso, o mais importante é não contar pra ninguém, especialmente pra sua família, que estivemos aqui.

Ela bufou.

— Você quer dizer meu pai e Zoe? Sem problemas. Eles quase nunca falam comigo, ainda mais depois do divórcio.

— Então é definitivo? — perguntei. Estava curioso para saber, mas Sydney e eu não tínhamos muito tempo para conversa-fiada nos sonhos.

— É definitivo. — O rosto de Carly se fechou. — Fiz o possível pra ajudar minha mãe a ficar com a guarda, mas, no fim, as “evidências” do meu pai foram mais substanciais. Não entendi por que Sydney não testemunhou pra nenhum dos lados, mas agora tudo faz sentido. Se ela se meteu em problemas com os alquimistas, acho que nem meu pai conseguiria salvá-la.

Obviamente, Carly não sabia o papel que seu pai desempenhara para criar esses problemas para Sydney, mas eu não botaria lenha na fogueira da família lhe contando a verdade.

— Sydney teria ido se pudesse — garanti. — Sei que ela queria muito apoiar a sua mãe.

Carly concordou com a cabeça.

— Queria que ela tivesse ido. Quer dizer, entendo por que os alquimistas fazem o que fazem, mas às vezes... sei lá. Parece que exageram e não veem o quadro geral. Agora que Zoe está com meu pai o tempo todo, fico com medo de que vá piorar. Já Sydney, pelo menos nas últimas vezes que a gente conversou, parecia estar ganhando uma perspectiva mais ampla da vida. Não sei o que estava acontecendo, mas ela parecia mais equilibrada. Mais feliz. Queria que pudesse fazer o mesmo com Zoe, mas acho que isso não vai ser possível tão cedo.

Não sei o que estava acontecendo, mas ela parecia mais equilibrada. Mais feliz. As palavras de Carly despertaram sentimentos contraditórios e não consegui formular uma resposta. A mudança que ela havia observado tinha sido obra minha. Carly achava que era para melhor, e eu também gostava de pensar assim, mas não havia como negar que também era o motivo dos problemas de Sydney.

Quando estávamos a caminho da porta, prontos para a segunda parte da viagem, Marcus parou e olhou para ela. Pensei que iria chamá--la para sair, mas, em vez disso, perguntou:

— Qual é a daquela frase sobre Cícero? Estudei muito história romana e nunca li nada sobre a filosofia de vida dele.

Carly sorriu.

— Cícero é o gato da família. Sydney e eu costumávamos brincar que ele tinha descoberto o sentido da vida: comer, dormir e tomar banho. Ela ficou tão triste por não vir pra faculdade que tentei diminuir a importância dos estudos, dizendo que provavelmente não aprenderia mais do que Cícero havia me ensinado. Quando vocês mencionaram isso, soube que eram de confiança.

Não sei se foi o sorriso familiar de Carly ou a simples menção do desejo de Sydney de ir para a faculdade, mas senti uma dor que não sentia havia algum tempo. Pare com isso, disse a mim mesmo. Depois você lamenta por Sydney. Agora se concentre em trazê-la de volta.

Marcus apertou a mão de Carly, segurando-a um pouco mais do que o necessário.

— Obrigado de novo pela ajuda — ele disse. — Não vamos decepcioná-la.

— Não se preocupem comigo — ela respondeu. — É Sydney que vocês não podem decepcionar.


13

Sydney

 

Encantar o sal na reeducação era definitivamente mais complicado do que quando eu estava livre, mas não impossível. Era apenas um processo lento e pouco prático: tinha que roubar pequenas quantidades de sal e levá-lo comigo para os poucos momentos de privacidade no banheiro para infundir os elementos. O mais difícil era conseguir as seringas.

— Quase todo dia alguém vai pra purgação, seja por rotina ou porque fizeram alguma coisa — Emma respondeu, quando falei que essa seria a parte mais complicada. — É só a gente anunciar que quem for pra lá precisa trazer uma seringa.

— Mesmo se conseguirem, os supervisores vão acabar notando que estão faltando seringas — apontei. — E não sei se quero “anunciar” nada a ninguém.

Ela balançou a cabeça.

— Não sou idiota. Só vou falar com pessoas de confiança, que valorizam mais as mentes delas do que alguma vantagem que ganhariam em te denunciar. Todo mundo sabe que alguma coisa aconteceu com Jonah. Eles vão guardar segredo pela chance de ganhar a mesma proteção.

— Ainda parece arriscado — resmunguei. Meu último encontro com Adrian havia me deixado mais otimista em relação ao futuro, mas o presente ainda era cheio de complicações. — E não resolve o problema das seringas. — Estávamos quase na sala, o que significava que a conversa estava prestes a terminar.

— Pena que a gente não pode reutilizar as seringas — ela pensou alto.

Fiz uma careta.

— Argh. Já é insalubre demais não ter acesso à água purificada.

— O que a gente precisa é acesso aos armários de suprimentos no andar de purgação. Você sabe onde eles ficam.

— Sim — concordei. — Só tem o pequeno problema de que nunca vou chegar perto deles de novo, com todos os seguranças nos vigiando.

Ela encolheu os ombros e sorriu.

— Não disse que era um plano perfeito.

— Mal dá pra dizer que é um plano.

Mas a sugestão ficou na minha cabeça ao longo das aulas daquele dia. A conversa com Adrian tinha levantado meu ânimo, assim como saber que ele falaria com Carly em breve. Desejei desesperadamente que Keith desse alguma pista a eles sobre minha localização. A partir daí, não sabia exatamente como dariam um jeito de me tirar daquele lugar, mas já estava planejando libertar os outros comigo. Se pudesse mandar todos para o mundo exterior livres do controle mental alquimista, seria um trabalho bem-feito.

Fiquei com as palavras de Emma na cabeça, tentando resolver o turbilhão de problemas diante de mim. O que eu realmente precisava era ter acesso livre ao andar com os armários de suprimentos. Para chegar lá, teria que andar sem ser vista, o que seria difícil, mas mais fácil do que sair do meu quarto. Aquelas travas noturnas eram um problema enorme.

Embora Emma e alguns outros ficassem me encarando com expectativa ao longo do dia, à espera de resultados, foi com Duncan que puxei esse assunto durante a aula de artes. Ele nunca falava muito sobre seu passado, mas eu havia notado algumas coisas que eram importantes para ele. A misteriosa Chantal era uma, claro, e, vez por outra, ele mencionava suas aspirações artísticas. Uma coisa sobre a qual não falava muito mas que eu havia notado era seu jeito com equipamentos mecânicos. Quase todo dia alguém tinha dificuldades com o cavalete, e Duncan sempre se oferecia para ajustá-los. Eu já o vira ajudando até os instrutores, como na vez em que o projetor de Harrison tinha parado de funcionar.

— Você sabe como as travas dos quartos funcionam? — perguntei. As naturezas-mortas tinham acabado por enquanto, embora Duncan tivesse me garantido que era uma matéria recorrente e voltaria em algum momento. Agora, tínhamos a entediante tarefa de moldar vasos de argila com as mãos.

— Elas travam — ele respondeu, curto e grosso. — Impedem que as portas sejam abertas.

Me esforcei para não revirar os olhos.

— Disso eu sei. Quero dizer, você sabe como...

— Sim, sim, sei o que quer dizer — ele interrompeu. — E não é com isso que você deve se preocupar. Já está correndo riscos demais participando desse jogo.

Dei uma olhada ao redor, mas ninguém estava nos ouvindo enquanto trabalhávamos na nossa mesa.

— Não é um jogo! — sussurrei. — Isso é sério. Posso impedir que outras pessoas sofram lavagem cerebral, como fiz com Jonah.

— E ser mandada de volta pro período de reflexão. — Suas sobrancelhas se franziram um pouco, o que foi o único sinal de seu desconforto. — Não vou suportar o desaparecimento de mais uma amiga, Sydney.

Precisei conter as lágrimas enquanto lembrava que ele havia sido meu primeiro aliado naquele lugar, me oferecendo sua amizade por gostar de mim e não pelo que eu era capaz de fazer por ele.

— Não vou desaparecer — eu disse, com a voz mais suave. — Mas preciso sair do meu quarto alguma noite. Hoje, de preferência. É importante. Posso ajudar muita gente.

Seu vaso, assim como suas pinturas, estava quase perfeito. Novamente me perguntei se era um talento inato ou apenas o resultado de estar naquele lugar havia tanto tempo.

— As travas são ligadas por um sistema central toda noite — ele disse, finalmente. — Na verdade, é só um pino que encaixa na parede. É delicado. Se houver um obstáculo, não vai funcionar.

— Ele alerta o sistema central de que houve um problema? — perguntei.

— Não, a menos que tenham mudado desde o ano passado. Uns oito meses atrás, a porta de uma pessoa não trancou, e as autoridades nem ficaram sabendo. Só descobriram quando um dos caras do quarto saiu e tentou fugir.

Isso era útil, mas também perigoso.

— Eles consertaram?

— Essa porta específica? Sim. Mas pelo que sei o pino ainda é frágil. Não que importe muito, já que mesmo se a vigilância não pegar alguém tentando bloquear o pino, as câmeras no corredor vão detectar se... — De repente, Duncan me lançou um olhar angustiado. — Por favor, diga que não vai tentar fugir.

— Vou ficar aqui... por enquanto. — Abaixei os olhos e toquei de leve o crachá preso à minha camisa. Era um pouco mais fino do que um cartão de crédito. — Alguma coisa assim podia funcionar bem pra bloquear o pino.

— Perfeitamente — ele concordou. — Mas lembre-se de que há um espaço entre a porta e a parede, mesmo quando ela está fechada. Não dá pra prender isso lá.

— Preciso de algum tipo de adesivo. — Quebrei a cabeça tentando lembrar onde tinha visto cola naquele lugar. Não tinha. Mas meus olhos pousaram na mesa de Addison e encontrei algo ainda melhor. — Chiclete funcionaria. Eu nem precisaria usar o crachá... poderia só colar um pedaço onde o pino fica preso, não?

Duncan não conseguiu conter o riso.

— É infantil, mas sim, poderia.

— Vai pedir ajuda com alguma coisa — eu disse, inspirada. — Roubo o chiclete enquanto você fala com ela.

— Sydney. — Ele apontou para o seu vaso e depois para o meu. — Quem de nós dois você realmente acha que precisa de ajuda?

Olhei para os dois vasos, notando que o dele poderia ir direto para o forno, ao passo que metade do meu estava caindo aos pedaços.

— Você não aprova meu plano. Não posso te pedir pra roubar o chiclete.

— Não aprovo planos que não fazem sentido — ele disse. — E faz muito mais sentido você pedir ajuda. Além disso, preciso de outra agulha de olaria. Esta daqui está cega.

— Todas estão cegas — lembrei. Mesmo para arte terapêutica, os alquimistas não disponibilizavam nada que pudesse ser usado como arma. — Mas vou lá pedir ajuda.

Addison sempre parecia irritada quando lhe faziam perguntas, mas, ao mesmo tempo, tomava nota sobre quem vinha pedir ajuda. Eu era uma das pessoas que sofria muito antes de pedir a assistência dos instrutores, e sabia que alguns deles achavam que confiar na ajuda deles era um sinal de que nossa resistência estava diminuindo. Então, embora ela estivesse com a cara de poucos amigos de sempre enquanto mascava seu chiclete, não hesitou em me explicar por que meu vaso não parava de cair, e tive a impressão de que haveria novas anotações na minha ficha mais tarde. Enquanto conversava com ela, vi, pelo canto do olho, Duncan se aproximar da mesa dela. Quase perdi o ar, morrendo de medo de que ela se virasse e o visse.

Mas ela não se virou e, cinco minutos depois, quando nos reencontramos na mesa, Duncan me passou dois chicletes discretamente.

— Use com cuidado — ele advertiu. — Ou, pelo menos, não faça nada completamente idiota. E, por favor, diga que tem um plano para não ser pega depois de sair do quarto. Você sabe que tem câmeras nos corredores.

— Tenho um plano — eu disse, hesitante. — Mas não posso te contar.

— Já é o suficiente.

Apesar do nervosismo pela tarefa monumental à frente, me sentia triunfante com essa pequena vitória. Estava nas alturas e completamente despreparada para ser trazida de volta à Terra quando Sheridan se virou para mim na hora da comunhão e disse:

— Sydney, não tem nada que gostaria de nos contar?

Congelei e poderia jurar que meu coração parou por alguns segundos. Meus olhos correram pelo círculo de rostos que me observavam e me perguntei quem havia me traído.

— Como assim?

— Você já está com a gente há um tempo — ela explicou. — Mas falou muito pouco sobre seu passado. Todo dia, os outros se abrem um pouquinho, mas você continua calada. Não é justo, não acha?

Minha vontade era dizer que meu passado não era da conta deles, mas sabia que devia estar grata por não ter sido pega pelos meus crimes mais recentes.

— O que a senhora gostaria de saber?

— Por que você não conta o motivo por que está aqui?

— Eu... — Minha confiança caiu por terra. Criar um plano para sabotar a trava e sair do quarto a fim de criar uma proteção mágica para meus colegas de prisão não me intimidava tanto quanto todos aqueles olhos voltados para mim. Por mais que tivesse passado a gostar de alguns deles, não queria dividir a minha história.

Mas você precisa entrar no jogo, Sydney, lembrei a mim mesma. Não importa o que faça, desde que a vitória final seja sua.

Voltei a me concentrar em Sheridan.

— Quebrei algumas das regras primordiais dos alquimistas. Agi contra nossas crenças mais básicas.

— Como? — ela perguntou.

Respirei fundo.

— Tendo um envolvimento romântico com um Moroi.

Meu olhar continuou pousado em Sheridan. Estava com medo de olhar para os outros pois, por mais que fôssemos todos rebeldes de alguma forma, havia graus variados de pecado naquele lugar, e o meu era um dos mais graves.

— Por quê? — Sheridan perguntou.

Franzi a testa.

— Como assim?

— Por que teve um envolvimento romântico com uma criatura abominável? Isso não vai apenas contra as crenças alquimistas. Vai contra as leis da natureza. Por que fez uma coisa dessas?

Meu coração tinha uma resposta pronta, mas não deixei que ela passasse pelos meus lábios. Porque ele é maravilhoso e sensível e engraçado. Porque inspiramos o melhor um no outro e crescemos por causa do nosso amor. Porque, quando estamos juntos, sinto como se tivesse encontrado meu lugar no mundo.

— Não sei exatamente — respondi, tentando encontrar uma resposta crível que ela pudesse querer ouvir. — Achei que estivesse apaixonada.

— Por um deles? — ela perguntou. Seu tom quando disse a última palavra me fez querer dar um tapa na cara dela.

— Ele não parecia um deles — eu disse. — Era gentil e charmoso. Era... é muito bom em compulsão. Não sei se usou isso comigo. Talvez eu só tenha sido fraca.

— Não se envergonha? — ela provocou. — Não se sente suja e usada? Mesmo se sair daqui, não acha que nenhum alquimista vai querer tocar em você depois que se permitiu ser usada dessa forma?

Isso me pegou de surpresa porque era muito parecido com o que Carly tinha dito ao justificar por que não podia contar a ninguém sobre o que Keith fizera com ela. Eu deveria ter dado uma reposta que demonstrasse arrependimento, mas, em vez disso, respondi a Sheridan com uma variação do que dissera a Carly na época.

— Só espero que a próxima pessoa me veja e me valorize por quem sou por dentro. Fora isso, nada mais importa.

Sheridan fez cara de pena.

— Acho que nunca vai encontrar uma pessoa assim.

Já encontrei, pensei. E ele está vindo me levar daqui, pra longe de você.

Em voz alta, disse apenas:

— Não sei. — Admitir a própria ignorância era sempre uma aposta segura naquele lugar.

— Bom — ela disse —, vamos torcer para que esteja menos iludida em relação aos vampiros do que está sobre as suas máculas. Como se sente em relação a ele agora?

Obviamente nem pensei em dizer a verdade.

— Ele me traiu — respondi simplesmente. — Devia me encontrar na noite em que fui trazida pra cá mas não apareceu. Ele me enganou.

Era uma mentira que nenhum deles poderia refutar. Na verdade, nenhum alquimista sabia direito o que eu estava fazendo na noite em que tinha sido pega. Era bom que pensassem que haviam interrompido um encontro com Adrian, ajudando, assim, a me pôr contra ele.

— É isso que eles fazem de melhor, Sydney — Sheridan disse, parecendo muito satisfeita. — Enganam.

Quando fomos liberados, notei que alguns dos meus colegas com quem eu achava que tinha começado a me dar bem estavam me evitando fisicamente, como nos primeiros dias.

— O que está acontecendo? — murmurei para Emma, que estava perto de mim.

— Sheridan os lembrou do quanto você está maculada — ela explicou.

Senti um aperto no peito enquanto olhava para eles, dando as costas para mim.

— Realmente acreditam nisso? Pensei que alguns deles...

Não consegui terminar, mas Emma sabia o que eu estava pensando.

— Estivessem só entrando no jogo pra não serem punidos? Alguns estão, mas mesmo quem não foi reprogramado aprendeu o suficiente pra sobreviver aqui. E essa sobrevivência inclui ficar longe de pessoas que vão se meter em encrenca. Você passou dos limites. Não, pisoteou os limites, e mesmo que eles achem que não fez nada de errado, não podem deixar que Sheridan e os outros saibam disso.

— O que você acha? — perguntei.

Ela abriu um sorriso tenso.

— Acho que você e sua tinta são uma boa precaução caso eles tentem mexer com a minha cabeça. Mas também vou manter distância. Te encontro mais tarde.

Ela apertou o passo, e passei o resto do dia formulando meu plano, desejando que fosse mais sólido. Quando estava no banheiro no fim do dia, enfiei uma das gomas de mascar de Addison na boca, mastigando até achar que havia ficado suficientemente grudenta. Guardei o chiclete na mão enquanto saía e, depois, passei a mão na porta ao entrar no quarto, bem no ponto onde entrava o pino. Torci para que o sistema fosse tão delicado quanto Duncan dissera e que um chiclete fosse o bastante. Quase usei os dois, mas achei que outro poderia ser útil no futuro. Guardei o segundo dentro da meia.

Mais tarde, quando as luzes se apagaram, ouvi um estalo na porta mas não soube se tinha dado certo. Saí da cama devagar e, hesitante, me aproximei da fresta de luz, ouvindo para ter certeza de que não havia ninguém lá fora. Não havia. Com cuidado, tentei abrir um pouco a porta... e consegui. O pino não tinha entrado! Respirei fundo e me preparei para a próxima parte do plano: sair sem ser notada.

Eu já tinha usado feitiços de invisibilidade antes, uma vez inclusive para invadir uma unidade alquimista, o que parecia irônico na atual situação. Não era uma das magias mais fáceis, senão, como a sra. Terwilliger havia me dito, todo mundo faria. O mais seguro era um feitiço com vários componentes e, se possível, um amuleto. Mesmo assim, a pessoa podia ser descoberta se alguém soubesse o que procurar. Eu não tinha nada para me ajudar aqui, apenas um pequeno feitiço e meu próprio poder para realizá-lo. Duraria trinta minutos, no máximo, e estaria suscetível a qualquer pessoa que estivesse me procurando ou que me olhasse diretamente nos olhos. No entanto, me protegeria das câmeras e minha grande aposta era que os corredores estariam desertos a essa hora da noite, quando todos achavam que estávamos trancados e drogados.

Não sabia que tipo de turnos os alquimistas faziam, mas imaginava que, quanto mais tarde, menos seguranças estariam nos corredores. Então, voltei a deitar por meia hora, torcendo para que, até lá, todos estivessem prontos para uma noite tranquila. Antes de voltar à porta, coloquei um travesseiro embaixo das cobertas. Somando isso à escuridão quase total, eu imaginava que quem estivesse olhando pelas telas de vigilância não fosse desconfiar. Na porta, murmurei o encantamento o mais baixo possível, sem querer que Emma descobrisse minha verdadeira natureza. Mais do que o volume da voz, o que importava era a força de vontade e o foco, e senti outra onda exultante de poder atravessar meu corpo enquanto terminava de proferir o encantamento. O feitiço funcionou. Agora, eu teria que correr contra o tempo. Depois de confirmar de novo que não tinha ninguém no corredor, abri a porta devagar, apenas o bastante para passar, e voltei a fechá-la logo em seguida. Esse era outro problema dos feitiços de invisibilidade: eu estava invisível, mas minhas ações não. Uma pessoa vendo uma porta se abrindo sozinha me entregaria tanto quanto se eu trombasse com alguém, por isso precisava tomar cuidado para que todos os meus movimentos fossem pequenos e calculados, atraindo o mínimo de atenção possível.

O corredor dos dormitórios estava vazio, tendo apenas as câmeras como vigilância, e fui andando rápido rumo a uma interseção. Lá, encontrei o primeiro guarda alquimista, um homem de rosto severo que nunca tinha visto antes e que estava trocando mensagens no celular, posicionado em um ponto que lhe permitia supervisionar todos os corredores. Ele não ergueu os olhos em momento nenhum enquanto eu passava devagar, virando no corredor que levava aos elevadores. Ainda me surpreendia que a única saída do andar não levaria para o lado de fora numa emergência, mas imaginei que os alquimistas preferiam colocar as nossas vidas em risco a nos dar alguma rota de fuga.

Quando cheguei aos elevadores, percebi que os alquimistas haviam tomado precauções ali também — precauções que nem passaram pela minha cabeça. Não era possível apertar o botão para chamar o elevador sem passar o crachá antes. Eu tinha visto os carcereiros alquimistas fazerem isso dezenas de vezes, mas não havia considerado esse fator nos meus planos. O elevador era inacessível para mim, assim como as escadas, que tinham o mesmo controle de acesso. Senão, os detentos certamente tentariam usá-los. Enquanto eu encarava o elevador, tentando pensar num jeito de resolver o problema, um ding indicou que ele havia chegado e que suas portas estavam prestes a abrir. Rapidamente dei um passo para o lado, para fora do campo de visão. Um momento depois, o elevador se abriu e Sheridan saiu pela porta.

Sem hesitar, entrei enquanto as portas ainda estavam abertas, torcendo para que o elevador ainda funcionasse com a última passada de cartão dela. Senão, ficaria presa ali por muito tempo. A sorte estava comigo, e o botão para o andar de operações e purgação se acendeu quando o apertei. Desci um andar e as portas se abriram para um corredor vazio. Saí correndo e tentei não pensar em como usaria o elevador na volta.

Lembrava onde ficavam os armários de suprimentos, mas, quando me aproximei deles, descobri algo que não havia notado antes: eles também exigiam um crachá para abrir. Agora eu estava sem sorte. O tempo do feitiço estava acabando, e não havia nada que eu pudesse fazer. Com tristeza, admiti que teria de voltar para o quarto e tentar de novo no dia seguinte, com um plano melhor. Pelo menos ainda tinha o segundo chiclete.

Uma risada tirou minha atenção do armário de materiais médicos, e vi dois alquimistas entrando no corredor — vindo na minha direção. Em pânico, encostei na parede. Não havia nenhum canto onde pudesse me esconder. Se a sorte estivesse do meu lado, os dois nem passariam por mim. Se passassem, esperava que olhar para baixo evitasse contato visual e me salvasse de ser descoberta. Mas até isso poderia não ser o suficiente.

Os dois pararam na frente da sala de operações e comecei a soltar um suspiro aliviado quando tive uma ideia, percebendo que estava perdendo uma oportunidade de ouro. Corri em direção à sala em que eles haviam entrado e consegui passar antes que a porta — uma porta automática de correr — se fechasse. Fiquei paralisada e prendi a respiração, com medo de que alguém me notasse, mas os dois alquimistas nem olharam para trás. A única outra pessoa ali dentro era um rapaz com ar entediado e fones de ouvido, que estava tomando um iogurte perto de uma parede cheia de monitores. A maioria estava apagada, e percebi que as telas mostravam os nossos quartos. Os outros monitores vigiavam salas de aula e corredores, quase todos vazios.

Mesas e computadores enchiam a sala, e fui andando em silêncio, de novo tendo um déjà-vu da vez que fizera algo parecido em um prédio alquimista. A única diferença era que, da outra vez, eu tinha usado um feitiço de invisibilidade muito mais confiável. Ainda determinada, fiquei procurando até encontrar o que queria. O rapaz tomando o iogurte tinha tirado e dobrado o paletó em cima de uma cadeira. Preso ao bolso do paletó estava seu crachá. Eu não fazia ideia se alguns crachás tinham mais acesso do que outros, mas pelo menos eu poderia voltar até o elevador antes que o feitiço acabasse. Tirei o crachá do paletó enquanto o rapaz estava de costas para mim, e o enfiei dentro da calça. Quando o vira com os fones de ouvido, tinha pensado que as câmeras captavam o som também, mas, ao me aproximar, percebi que ele estava ouvindo uma banda de metal. Me perguntei o que os seus superiores pensariam disso.

De todo modo, era uma boa notícia para mim, assim como o fato de que os dois alquimistas que eu tinha seguido estavam sentados diante de computadores conversando alto. Tinha quase certeza de que poderia sair sem que ninguém percebesse a porta se abrindo. Antes que pudesse voltar, porém, vi uma coisa que me fez hesitar e andar na direção oposta. Era um painel na parede sensível ao toque com o nome CONTROLE DE SEDAÇÃO. As leituras atuais indicavam que o sistema estava na configuração noturna e havia uma lista de todas as áreas dos detentos: quartos, corredores, refeitório e salas de aula. Todos os quartos estavam marcados com vinte e sete por cento, ao passo que os outros cômodos estavam em zero por cento.

Os níveis de gás, me dei conta. No isolamento, tivera a impressão de que eles controlavam a cela manualmente, o que fazia sentido, considerando que me apagavam na mesma hora que a conversa não estava indo como eles queriam. Essa tela, porém, deixou claro que os detentos normais eram controlados por um sistema central automático que mantinha o nível ideal de gás para causar um sono pesado toda noite. Três opções na base do painel sugeriam que, às vezes, havia a necessidade de intervenção manual: CANCELAMENTO — INTERROMPER TODOS OS SISTEMAS, REINICIAR, e PROTOCOLO DE EMERGÊNCIA — TODAS AS ÁREAS EM 42%.

Por um momento, o simples número me pegou de surpresa. Se a concentração normal de vinte e sete por cento nos fazia entrar em sono profundo, o que quarenta e dois por cento fariam? Soube a resposta imediatamente. Tanto sedativo nos apagaria em um piscar de olhos. Não cairíamos no sono devagar. Tombaríamos onde estivéssemos e ficaríamos praticamente em coma — o que seria útil caso houvesse alguma tentativa de fuga em massa.

Eu não sabia exatamente o que Adrian e Marcus fariam quando me localizassem, mas sabia que isso poderia ser um problema sério no plano. Desativar o gás no meu quarto não seria o suficiente. Eu precisaria desativar o andar inteiro, o que não seria nada fácil. Desligar agora seria inútil pois o toque de um dedo seria capaz de reiniciar o gás. Em algum lugar, devia haver um sistema mecânico que eu pudesse sabotar.

Mas esse não era um problema em que podia me concentrar agora. Depois de uma última olhada no painel, saí às pressas, sem ser notada, como esperava. A partir de lá, foi um trajeto rápido até o armário de suprimentos. Assim como todas as outras portas que encontrara, a abri o mínimo possível. Consegui entrar e pegar o que precisava sem ser detectada. Em pouco tempo, tinha duas garrafas de água mineral enfiadas na cintura e uma dúzia de seringas tampadas escondidas nas meias e no sutiã. Não era exatamente confortável, mas eu precisava que tudo ficasse embaixo da roupa para ser protegido pelo feitiço. Minha descoberta surpreendente da noite foi que condimentos também eram mantidos no armário de suprimentos de cozinha: ketchup, mostarda e... sal. Eu tinha pensado em ir furtando pequenas quantidades ao longo da semana, mas um saleiro roubado resolveu o problema.

Abastecida com meus itens roubados, voltei para o elevador. Tendo visto na sala de controle como a vigilância noturna era relaxada, não estava mais tão preocupada que notassem as portas se abrindo sozinhas. Quando cheguei ao andar dos detentos, porém, o guarda que ficava trocando mensagens se aproximou quando ouviu o elevador e não viu ninguém sair. Ele parou a poucos metros de mim e ficou olhando para o elevador com a testa franzida enquanto eu prendia o fôlego. Mesmo que não fizesse contato visual comigo, o feitiço devia estar acabando.

Depois de alguns segundos angustiantes, ele finalmente deu de ombros e voltou para seu posto. Passei por ele sem ser notada e, por fim, entrei no quarto, onde quase desmaiei de alívio. Ao chegar, escondi cuidadosamente o contrabando no espaço entre o colchão e o lençol. Eles nos mandavam trocar a roupa de cama uma vez por semana, e a última vez tinha sido dois dias antes. Isso significava que eu tinha cinco dias para usar todos os materiais antes de correr o risco de que alguém notasse as seringas caindo do lençol no dia da troca.

Fraca de tanto alívio, finalmente entrei debaixo das cobertas. Meu corpo estava exausto, mas minha mente estava agitada por todas as atividades clandestinas da noite. Levei um tempo para cair no sono, e sabia que Adrian devia estar preocupado.

Dito e feito: quando me materializei no pátio da Getty Villa, o encontrei andando de um lado para o outro. Ele se virou bruscamente na minha direção quando o chamei.

— Graças a Deus, Sydney. — Ele veio correndo e me envolveu nos braços. — Você não faz ideia de como fiquei preocupado quando você não apareceu na hora de sempre.

— Desculpe — eu disse, apertando-o com força. — Tinha umas coisinhas que precisava fazer.

Ele me empurrou de leve e me lançou um daqueles olhares.

— Que tipo de coisas?

— Ah, você sabe, o tipo que envolve invadir salas e usar magia.

— Sydney — ele resmungou. — A gente está perto de te encontrar. Você precisa ficar na sua. Não sabe o perigo de sair por aí fazendo essas “coisinhas”?

— Sei, sim — respondi, pensando no painel de controle do gás. — E você vai ficar bravo quando souber que vou ter que repetir a dose em breve.


14

Adrian

 

Eu queria acreditar em Sydney quando ela dizia que tinha tudo sob controle, mas era difícil, ainda mais porque ela continuava sendo vaga sobre os detalhes do que estava acontecendo na reeducação. Em vez de me preocupar, tentei me focar nos pontos positivos, como o fato de que conseguia falar com ela agora e que, embora me escondesse informações, pelo menos parecia bem e saudável.

Tia Tatiana, que às vezes ajudava e às vezes agia como a advogada do diabo, não facilitava muito a situação.

Vai saber o que estão fazendo com ela, ela disse, na minha cabeça. Pode estar sofrendo agora mesmo, gritando por ajuda, e aqui está você.

Sydney está bem, respondi com firmeza. Claro que não em condições ideais, mas ela é forte.

Tia Tatiana não deu trégua. É o que ela quer que você pense, mas, no fundo, queria que você fosse atrás dela.

Raiva e culpa se acenderam dentro de mim. Estou tentando! Já estaria lá se tivesse como. Não faça eu me sentir pior do que já me sinto.

— Adrian?

Foi a voz de Marcus que me chamou. Ele me examinou do outro lado da mesa do restaurante, me tirando da minha conversa imaginária.

— Onde você estava? — ele perguntou. — Chamei seu nome três vezes.

— Desculpa, só estou cansado — menti.

Ele assentiu, acreditando em mim.

— Está pronto pra ir?

Depois da conversa com Carly, havíamos jantado e, agora, estávamos prontos para retomar a viagem até Boise. Era um trajeto mais longo do que daria para fazer em um só dia, então acabamos passando a noite nos arredores de Las Vegas, num hotel de estrada simples longe de todo o alvoroço dos cassinos que eu costumava frequentar quando estava na região. Mas não importava. O que eu mais queria era uma viagem rápida e um bom lugar para dormir onde pudesse entrar em contato com Sydney. Na manhã seguinte, atingidos esses objetivos, Marcus e eu estávamos de volta na estrada, rumo a Idaho, o estado das batatas.

— Estado das pedras preciosas — Marcus corrigiu quando me ouviu dizer isso.

— Quê?

— Idaho é o estado das pedras preciosas, não das batatas.

— Tem certeza? — perguntei, sem tentar esconder meu ceticismo. — Sempre ouço falar das batatas de Idaho. Nunca ouvi nada como “uau, meu anel de noivado tem um diamante raro de Idaho”.

Um sorriso se abriu em seus lábios enquanto ele mantinha os olhos na estrada.

— Absoluta — ele respondeu.

Eu não era masoquista o suficiente para discutir conhecimentos gerais com um ex-alquimista, mas quando atravessamos a fronteira de Idaho e comecei a ver placas de carro em que estava escrito BATATAS FAMOSAS, me senti confiante sobre quem tinha razão nesse assunto.

Falar sobre pedras preciosas me lembrou de que ainda estava com as abotoaduras da tia Tatiana no bolso da calça. A princípio, as guardara ali para que não se perdessem no avião, mas, agora, enfrentava um perigo de outra espécie, levando comigo uma fortuna que poderia facilmente cair se eu não tomasse cuidado. Peguei uma delas, admirando a maneira como o sol se refletia nos diamantes e rubis. Bobagem ou não, eram como um amuleto para mim, como se eu tivesse a ajuda da tia Tatiana em pessoa — minha tia de verdade, quero dizer. Não o fantasma que me perturbava.

Chegamos a Boise mais ou menos na hora do jantar e seguimos para o endereço que Carly tinha nos dado. Era um complexo de apartamentos modestos, e o de Keith ficava no primeiro andar, com uma varanda particular onde nos sentamos quando ninguém atendeu à porta. A escuridão e a ausência de movimento do lado de dentro sugeriam que ele realmente não estava em casa — e não simplesmente se escondendo de nós. Era uma daquelas noites gostosas de verão, agradável para humanos e Moroi, mas fiquei com medo de permanecermos ali por muito tempo.

— Como sabe que ele não está trabalhando no turno da noite? — perguntei a Marcus.

Marcus apoiou o pé no parapeito da varanda.

— Porque é um alquimista que foi pego quebrando as regras. Se fosse um alquimista que ficou tão fascinado com vampiros que corria o risco de colaborar com Strigoi, eles dariam um turno da noite pra ficar de olho nele. Mas, como foi só uma insubordinação geral, ele deve estar num horário das oito às cinco, só pra lembrar como é a vida humana normal, deixando os turnos da noite para os que correm riscos de verdade.

Marcus provou ter razão dez minutos depois, quando um Kia Sorrento entrou no estacionamento e Keith veio andando em direção à porta. Quando nos viu, especialmente quando me viu, ficou paralisado e visivelmente pálido.

— Não. Não — ele disse. — Você não pode estar aqui. Ai, meu Deus. E se for tarde demais? E se alguém já te viu? — Ele olhou ao redor freneticamente, como se esperasse que uma tropa alquimista fosse pular em cima dele a qualquer momento.

— Relaxa, Keith — eu disse, levantando. — A gente só quer conversar.

Ele balançou a cabeça, veemente.

— Não posso. Não posso falar com a sua espécie, a menos que seja um assunto de trabalho. E não tenho permissão de trabalhar com a sua espécie até eu...

— É sobre Carly Sage — interrompi.

Isso o calou. Ele nos encarou por longos momentos, tentando decidir.

— Está bem — ele disse, por fim. — Podem entrar.

Nervoso, ele deu um passo à frente e destrancou a porta, continuando a lançar olhares ansiosos para nós e para o estacionamento. Depois que entramos, fechou todas as cortinas e ficou o mais afastado possível de nós, com os braços cruzados em uma postura defensiva.

— O que está acontecendo? — ele perguntou. — Quem é esse cara? Carly está bem?

— Esse é meu amigo, hum, John — eu disse, me dando conta de que não deveria citar o nome de um dos desertores mais procurados pelos alquimistas. Marcus até havia passado algum tipo de maquiagem para cobrir a tatuagem azul. — E Carly está bem. A gente conversou com ela ontem.

Keith se acalmou um pouco.

— Vocês... vocês falaram com ela? Como ela está?

— Ótima — Marcus disse. — Foi ela quem nos deu seu endereço. Queria que a gente conversasse com você.

— Queria? — Os olhos de Keith se arregalaram de surpresa, o que era um pouco assustador, considerando que um deles era de vidro.

— Sydney está desaparecida — eu disse. — Carly quer sua ajuda pra encontrar a irmã.

Keith pareceu genuinamente surpreso por um instante, mas então assumiu uma expressão desconfiada.

— Desaparecida?

— Ela está na reeducação — respondi, sem rodeios.

— Não — ele resmungou. — Não. Sabia que não devia ter deixado vocês entrarem. Não posso ter nada a ver com isso. Não posso ter nada a ver com ela, não se ela está lá. — Ele fechou os olhos e sentou no chão. — Ai, meu Deus. Eles vão descobrir que vocês estiveram aqui e vão me mandar de volta.

— Ninguém vai saber — eu disse, torcendo para que fosse verdade. Até aquele momento, nunca pensei que sentiria pena de Keith. — A gente só precisa encontrar Sydney. Ela está no mesmo lugar onde você ficou. Só nos diga onde é.

Ele abriu os olhos e soltou uma risada embargada.

— Acha que eles falavam isso pra gente? Não nos deixavam nem ver o sol! Tínhamos sorte de ter alguma luz.

Franzi a testa.

— O que você quer dizer com isso?

Um olhar perturbado perpassou o rosto de Keith.

— É o que acontece quando você está no isolamento.

— Sydney não está no isolamento — eu disse, confuso. — Ela está com outras pessoas.

— É outra tortura — ele disse, amargurado. — Você aprende rápido o que fazer e o que não fazer pra facilitar a vida.

Eu estava ansioso para tirar mais detalhes dele, mas Marcus nos fez retomar o fio da meada.

— Certo, então eles não te falavam onde era, mas você saiu de lá em algum momento. Deve ter passado na frente do lugar.

— Sim. Vendado — Keith disse. — Só me deixaram ver alguma coisa quando estava bem longe. E não me peça pra calcular a distância porque não faço ideia. Troquei de carro e avião... perdi a noção depois de um tempo. E, pra ser sincero, voltar para aquele lugar era a última coisa na minha cabeça, então eu não estava prestando muita atenção.

— Mas você estava consciente — Marcus insistiu. — Não conseguia ver, mas tinha os outros sentidos. Lembra de alguma coisa? Sons? Cheiros?

Keith começou a balançar a cabeça, mas então vi uma faísca se acender em seu olho. Mesmo assim, continuou de boca fechada, com a mesma desconfiança de antes.

— Não sei se Carly vai te perdoar algum dia, mesmo se nos ajudar — eu disse, em voz baixa. — Mas tenho certeza de que nunca vai te perdoar se estiver escondendo informações que possam ajudar a irmã dela.

Keith reagiu como se eu tivesse dado um soco na cara dele.

— Tentei de tudo — ele murmurou. — Implorei. Supliquei. Fiquei até de joelhos.

Me dei conta de que ele estava falando sobre Carly agora, não sobre a reeducação.

— Por quê? — perguntei, sem conseguir me conter. — Por que se importa com o perdão dela? Onde estava a sua consciência anos atrás? Ou todos os anos desde então?

— Foi a reeducação — ele disse, olhando fixamente para os próprios pés. — Nunca me senti tão desamparado, sem nenhuma esperança, em toda a minha vida, como me senti lá. Ficar completamente não mãos de outra pessoa, sem ninguém pra pedir ajuda, me sentindo culpado pelo mal que eles estavam me causando... Percebi que era exatamente o que tinha feito com Carly. Isso pesa na minha consciência todos os dias.

Voltei a sentir um pouco de pena dele, mas ainda não perdoava o que ele fizera com Carly. Até eu era rejeitado por garotas e, quando isso acontecia, sacodia a poeira do ego e seguia em frente. Nunca tinha considerado fazer o que ele fez. Ele tinha obrigação de saber que aquilo era errado antes que os alquimistas o mandassem para aquele acampamento de controle mental. A questão era entre ele e Carly, e, embora ele parecesse sinceramente arrependido, era direito dela fazer com que ele sofresse pelo resto da vida.

Explicar isso para ele provavelmente não me ajudaria na minha tarefa, então falei com a voz mais branda:

— A decisão agora é dela. Mas tenho certeza de que ficará grata se você puder nos dizer qualquer coisa que ajude Sydney. Qualquer detalhe que lembre de quando saiu da reeducação.

Recaiu um longo silêncio, que pareceu afligir Keith quase tanto quanto a nossa insistência. Por fim, ele respirou fundo e disse:

— Estava quente lá fora — ele respondeu. — Mais quente do que eu esperava. Mesmo no meio do dia. Saí no fim de novembro e pensei que estaria frio. Mas não estava. Parecia que eu ainda estava em Palm Springs.

Abri a boca de espanto e Marcus me lançou um olhar cortante antes que eu tirasse alguma conclusão precipitada.

— Ela não está lá. Palm Springs não está na lista. — Ele se voltou para Keith. — Quando você diz que parecia Palm Springs, quer dizer um calor seco, desértico? E não úmido e tropical?

Keith franziu a testa.

— Seco. Certeza.

— Muito quente ou pouco quente? — Marcus continuou. — Qual era a temperatura?

— Eu não tinha um termômetro pra olhar! — Keith exclamou, ficando irritado.

Marcus estava igualmente sem paciência.

— Então chute. Quarenta graus?

— Não... não tanto. Mas quente pra novembro, pelo menos pra mim. Eu cresci em Boston. Era mais como... sei lá. Entre vinte e cinco e trinta graus, acho.

Minha atenção estava concentrada em Marcus agora. Secretamente torcia para que ele dissesse de repente: “A-ha!”, e tivesse todas as respostas. Ele não disse, mas, pelo menos, pareceu achar a informação útil.

— Lembra de mais alguma coisa? — ele perguntou.

— Só isso — Keith disse, desconsolado. — Podem ir, por favor? Estou tentando esquecer aquele lugar. Não quero voltar por ter ajudado alguém a descobrir onde fica.

Olhei para Marcus e ele fez que sim.

— Espero que seja o suficiente — ele disse.

Agradecemos Keith e começamos a sair. Considerando sua insistência em nos expulsar, fiquei meio surpreso quando ele disse de repente:

— Esperem. Mais uma coisa.

— O quê? — perguntei, torcendo para que ele tivesse mais alguma informação útil sobre a reeducação.

— Se virem Carly de novo... digam que realmente sinto muito.

— Ainda quer que ela entregue você pra polícia? — perguntei.

Keith voltou a ficar com aquele olhar distante.

— Pode ser melhor. Sem dúvida melhor do que voltar pra lá. Talvez melhor até que isto. — Ele indicou o apartamento à nossa volta. — Tecnicamente, estou livre, mas eles vivem de olho, sempre esperando que eu cometa algum erro. Não era a vida que queria pra mim.

Quando entramos no carro, não pude deixar de comentar:

— Dois meses. Ele ficou na reeducação por dois meses. E olhe só pra ele.

— É o que aquele lugar faz com você — Marcus disse, com um tom sombrio.

— Sim, mas Sydney está lá faz mais que o dobro desse tempo.

Essas palavras pesaram entre nós por alguns segundos e tive a sensação de que Marcus estava tentando proteger meus sentimentos.

— Ela parecia derrotada? — ele perguntou.

— Não.

— Ela é mais forte do que Keith.

Senti uma pontada no peito.

— E deve ser por isso que ainda está lá. — Como ele não respondeu, tentei encontrar um assunto mais otimista. — Serviu pra alguma coisa o que ele disse? O lance do calor seco.

— Acho que sim. Venha. Vamos trocar. — Ele abriu a porta do motorista. — Dirija você pra gente economizar tempo. Preciso fazer algumas ligações.

Troquei de lugar com ele, mas não me contive e perguntei:

— Tem certeza de que é uma boa ideia? Talvez a gente devesse ficar aqui até conseguir descobrir onde ela está. Podemos estar indo na direção errada.

— Não se Keith falou a verdade. Ela pode não estar em Palm Springs, mas definitivamente está mais para o sul. — Ele tirou o celular do bolso enquanto eu dirigia rumo à I-84. — Estudei tanto essa lista de possíveis locações que quase a decorei. Não tem muitos lugares nos Estados Unidos onde faz essa temperatura em novembro.

— Tem, sim — retruquei, sentindo que estávamos voltando à discussão do estado da batata. — Havaí, Califórnia, Flórida, Texas. A gente estava em Las Vegas agora há pouco e estava um forno!

Ele balançou a cabeça.

— Não faz calor seco na maioria desses lugares. Eles têm temperaturas mornas e chuva no inverno. E muitos lugares de altitude elevada com climas desérticos, como Las Vegas, não são tão quentes em novembro. Pelo que sei da lista, das informações de Keith e da sua certeza de que ela está neste fuso-horário... bom, acho que só tem duas possibilidades. Uma é o Vale da Morte. A outra é perto de Tucson.

Quase saí da estrada de tanta surpresa.

— Califórnia e Arizona? Os dois estados em que a gente passou nas últimas vinte e quatro horas?

— São estados grandes — ele disse, com um sorriso irônico. — Mas sim, esses mesmos.

Minha cabeça estava a mil. Ambos os lugares ficavam a menos de um dia de viagem de Palm Springs. Não era possível que ela estivesse tão perto esse tempo todo, que eu tivesse sofrido tanto, quando havia apenas algumas horas de distância entre nós! Marcus começou a discar um número no celular mas então pareceu notar meu espanto.

— Ei, está tudo bem — ele me tranquilizou. — Você não tinha como saber.

Será?, perguntou tia Tatiana na minha cabeça. Ela estava tão perto! Esse tempo todo. Você poderia praticamente ter estendido o braço e tocado nela.

Eu não precisava das censuras dela. Estava me recriminando muito bem sozinho. Uma sensação pesada de culpa e desespero surgiu dentro de mim. Tão perto! Sydney estava tão perto, e eu falhara com ela... assim como falhara com tudo...

— Eu devia ter sentido — murmurei. — Não sei como, mas devia ter sentido aqui dentro. — Bati no peito. — Devia ter adivinhado que ela estava perto.

Marcus suspirou.

— Primeiro, ponha as duas mãos no volante. Segundo, você pode até ser um vampiro atormentado com poderes mágicos, mas nem você tem esse tipo de sexto sentido.

Suas palavras não dissiparam a nuvem de desespero ao meu redor.

— A questão não é a magia. É minha relação com Sydney. Se os alquimistas nos mantiveram próximos como algum tipo de tortura adicional, eu devia ter sentido isso. Você não entende. — Marcus, assim como Jackie Terwilliger, era uma das pessoas para quem Sydney e eu nunca havíamos contado sobre nossa relação, mas que haviam adivinhado por conta própria.

— Não foi uma tortura extra — ele insistiu. — Foi uma coincidência infeliz e irônica. Os alquimistas só têm um centro de reeducação em todo o país, que por acaso fica a algumas horas de onde ela foi capturada. Mas, pelo que Keith e os outros me contaram, poderia ter sido a anos-luz do lugar onde ela foi pega. Temos muito trabalho pela frente, mesmo se descobrirmos a localização exata. Agora, vai se concentrar na estrada ou preciso voltar pro volante?

— Faça o que precisa fazer — eu disse, frio.

Continuei em silêncio enquanto ele ligava para seus agentes disfarçados, pedindo que parassem o que quer que estivessem fazendo e tentassem descobrir se o centro ficava em Tucson ou no Vale da Morte. Também mandou alguns investigarem o máximo possível sobre o centro em si, para nos ajudar no resgate, e até fez pedidos frustrantes de pistolas tranquilizantes e “outros materiais similares”. Enquanto isso, aquela depressão sombria e debilitante crescia dentro de mim, junto com a censura da tia Tatiana. Quando Marcus finalmente terminou a última ligação, me explicou que só teria mais informações sobre a logística do lugar depois que conseguíssemos a localização exata.

— Quando tivermos um lugar concreto, vamos poder desenterrar documentos antigos. Nem os alquimistas poderiam construir um lugar sem deixar rastros. Eles vão ter disfarçado, claro, mas deve haver documentos públicos em algum lugar. Basta saber o que procurar. Conheço algumas pessoas internas que também vão poder ajudar quando tivermos parâmetros melhores de pesquisa.

Assenti e finalmente consegui esquecer meu desespero, substituindo-o por outro sentimento: raiva. Não apenas raiva. Fúria. Ódio das pessoas que fizeram aquilo com Sydney. O trabalho de reconhecimento era a especialidade de Marcus. O meu trabalho seria arrombar as portas daquele inferno e tirar Sydney de lá. Seria assim que consertaria as coisas.

Isso, sussurrou tia Tatiana. Vamos fazer os alquimistas pagarem pelo que fizeram.

— Quanto tempo até descobrirem o lugar? — perguntei. — Você tinha falado que poderia levar uma ou duas semanas.

— Isso era quando a gente estava tateando às cegas. Saber que é definitivamente em um desses dois lugares ajuda muito. Se for no Vale da Morte, podemos descobrir bem rápido. Não tem muitos terrenos por lá. Tucson pode demorar um pouco mais, porque há uma grande área metropolitana em que eles podem ter escondido a instalação, sem falar do deserto em volta. Tenho gente trabalhando nos dois lugares. A gente pode dar sorte.

Paramos para dormir em um hotel ao norte de Nevada, perto de um dos muitos cassinos naquele estado. Não era um lugar muito luxuoso, mas até que era decente, considerando que ficava em uma cidade sem nome. Tinha TV a cabo e internet, além de um minibar que tive vontade de atacar. Minha abstinência repentina depois de deixar a Corte tinha sido brutal, mas, por Sydney, eu estava determinado a continuar no controle da minha mente e dos meus poderes.

Depois que nos acomodamos, mandei uma mensagem para Jill e marcamos uma chamada de vídeo com a turma de Palm Springs no laptop de Marcus.

— Vocês encontraram Sydney? — Eddie perguntou imediatamente. Jill sabia de todos os detalhes do dia por causa do laço, mas não tivera a oportunidade de contar para os outros.

— Estamos perto de descobrir a localização dela — disse Marcus. — E não vai ser muito longe de vocês. Vale da Morte ou Tucson. Estamos só esperando a confirmação.

Nossos amigos também ficaram surpresos ao descobrir que Sydney estivera tão perto esse tempo todo.

— Avise quando descobrir que a gente vai pra lá na mesma hora — Angeline exclamou.

Por um momento, não quis nada além do apoio de todos eles. Mas então me dei conta de que Sydney nunca me perdoaria se sua missão original fracassasse. Na tela do laptop, Jill fez uma careta ao sentir meus pensamentos.

— Não — eu disse. — Vocês ainda estão na semana de provas. E Jill não vai sair em nenhuma escapada maluca. A vida dela continua em risco.

— Só temos mais dois dias de provas — ela retrucou. — E praticamente não estou correndo mais nenhum risco. Você não ouviu quando estava na Corte? Lissa espera que a votação para emendar a lei que exige que o monarca tenha um membro da família vivo aconteça em menos de um mês. Depois que isso mudar e eu não for mais importante, ela vai mandar me buscarem. Só vou ficar no programa de verão de Amberwood até estar tudo resolvido.

Eu não tinha ficado sabendo, talvez porque passara minha temporada na Corte em um estado de embriaguez constante.

— Você sempre vai ser importante, Chave de Cadeia. E, como você mesma explicou, a lei ainda não foi aprovada. Você ainda é a chave pro trono e não vai sair da segurança desse abrigo que todo mundo lutou tanto pra criar. E não me peça pra levar os dampiros — acrescentei, lembrando da sugestão que ela havia feito no nosso último encontro. — Você precisa da proteção deles.

— Eu não sou um dampiro — disse Trey. — E não estou sob nenhuma ordem. É só me dizer pra onde ir que estarei lá.

Hesitei, mas então assenti. Trey estava certo. Ele não tinha as mesmas obrigações que os outros, e era bom de briga. Angeline deu um soco no braço dele que pareceu doer, mas provavelmente só fez com que gostasse ainda mais dela.

— Não é justo — ela disse. — Quero ajudar.

— Todos queremos — disse Neil.

— Você pode levar um dampiro — Jill disse, calmamente. — Vou ficar bem com dois, ainda mais se ficar no campus o tempo todo. Leve Eddie.

Ele se voltou para ela, surpreso.

— Você não... quer a minha proteção?

O sorriso que ela abriu era digno de uma rainha, quase um reflexo dos que eu já vira no rosto de Lissa.

— Claro que quero. Não há ninguém em quem confie mais. Mas você precisa fazer isso. E você sabe que ele é um dos melhores, Adrian.

Duvidava que qualquer um deles, incluindo o próprio Eddie, entendesse a magnitude do que Jill estava oferecendo. Eu não era capaz de ler a mente dela, mas a conhecia o bastante para entender que daria tudo para participar da missão de resgate de Sydney. Obviamente, sabia que ninguém permitiria que isso acontecesse. Em vez de resistir, estava investindo suas energias em me fazer aceitar Eddie... não só porque ele seria um membro valioso para o grupo, mas também porque suas palavras eram completamente verdadeiras: ele precisava daquilo. Eu o vinha observando desde a captura de Sydney e tinha visto como aquilo o consumira, ainda que de uma maneira diferente do que acontecera comigo. Meus sentimentos em relação ao desaparecimento dela estavam relacionados à minha solidão e incapacidade de encontrá-la. Os dele tinham a ver com culpa: ele ainda se sentia responsável pela captura dela. Sydney o enganara, se sacrificando para salvá-lo, e Eddie não conseguia superar isso. Jill, sempre mais sábia do que todos imaginavam, entendia a situação — e entendia que salvar Sydney era a única coisa que faria Eddie se sentir redimido. Jill entendia isso porque era sábia e observadora.

E também porque era apaixonada por ele.

Mas Eddie não sabia disso e se sentiu dividido.

— Eu estaria desobedecendo às minhas ordens... à minha promessa de te proteger.

— Estou te liberando dessas ordens — ela disse. — Tenho esse direito, tanto porque essas promessas foram feitas a mim como porque faço parte da família real. Na qualidade de princesa, estou pedindo que vá resgatar Sydney. E então volte para mim.

Nunca tinha visto Jill invocar sua condição real, muito menos seu título de princesa. Era em torno disso que girava a lei familiar. Se acontecesse alguma coisa com o monarca no poder e houvesse uma emergência que o Conselho Moroi não fosse capaz de resolver, um dos membros da família do antigo monarca poderia assumir como governante provisório até a eleição de um novo. Essa lei não havia sido invocada depois da morte de tia Tatiana. O Conselho tinha cuidado de tudo, mas, para que o governo funcionasse com tranquilidade, as antigas leis ainda exigiam um membro da família vivo, por precaução.

Eddie ficou olhando para ela com devoção, sem entender que Jill se dirigia a ele como alguém que o amava e não como uma princesa lhe dando ordens. Mas funcionou.

— Eu vou — ele disse a ela. — Vou resgatar Sydney. E depois volto pra te proteger, prometo.

Marcus, sem entender todo o drama dentro do drama, aprovou com a cabeça.

— Por mim, tudo bem. Nunca recusaria um ou dois dampiros lutando ao meu lado.

A parte do “ou dois” deixou Angeline e Neil esperançosos, mas fui rápido em destruir qualquer ideia maluca.

— Vocês dois ficam com Jill. Não abaixem a guarda e não me venham com ideias malucas de trazê-la junto pra todo mundo poder ajudar. O fato de que a lei pode acabar logo também significa que os inimigos dela podem estar redobrando os esforços para descobrir seu paradeiro enquanto isso ainda importa.

Os ânimos deles se acalmaram depois disso, e Neil e Angeline assentiram, relutantes. O celular de Marcus tocou e ele saiu para atender. Enquanto conversava com um de seus contatos, Trey disse:

— Ah, aliás, esqueci de falar. Uma menina passou aqui ontem procurando você e Sydney.

— Nós dois? — perguntei, surpreso. Não havia muita gente que nos tratava como um casal.

— Ela parecia mais interessada em Sydney, mas aceitaria você também. Era humana — ele acrescentou, adivinhando minha próxima pergunta. — Loira. Usava óculos. Nunca tinha visto antes.

Também não fazia ideia de quem poderia ser. A única humana que procuraria por mim e por Sydney era Rowena, e o cabelo dela era verde-água (da última vez que a vira), sem mencionar que tinha meu celular caso realmente precisasse entrar em contato.

— Ela não falou mais nada? — perguntei. — Por que queria falar com a gente? Quem era?

— Não sei. Só disse que era uma velha amiga que queria bater papo. Quando contei que não sabia onde você estava, ela pareceu tão decepcionada que ofereci passar algum recado se tivesse notícias suas. Ela disse que não, usou o banheiro e saiu sem dizer mais nada.

— Nenhuma tatuagem de lírio? — perguntei, incisivo.

Trey bufou.

— Acha que não reparei? Óbvio que teria notado. Se ela tinha uma, estava coberta.

Eu não tinha respostas sobre a visitante misteriosa, e o retorno de Marcus logo me fez pensar em outras coisas. Ele estava praticamente irradiando euforia.

— Lembra que eu disse que a gente poderia dar sorte? — ele perguntou. — Pois demos. Vale da Morte. Acabei de receber a confirmação. Claro, ainda precisam verificar a localização exata naquela região, mas parece que sabemos para onde vamos amanhã.

— Eu e Trey encontramos vocês lá — Eddie disse rápido.

— Podem terminar as provas — Marcus disse. — Vamos levar alguns dias pra planejar e conseguir mais informações. Como disse, ainda precisamos encontrar o lugar, além de descobrir um jeito de entrar.

Vale da Morte. Menos de cinco horas de Palm Springs. Eu sabia que Marcus tinha razão, que eu realmente não tinha como saber que Sydney estava lá, mas era difícil aceitar. Tão perto, pensei. Tão perto esse tempo todo. Igualmente enlouquecedor era o fato de que, embora esse fosse um grande avanço em termos de informação, ainda não estávamos prontos para agir. Tudo que pudemos fazer foi combinar o encontro com Eddie e Trey antes que o toque de recolher separasse os meninos das meninas. Depois que finalmente desligamos, Marcus fez mais algumas ligações e conteve um bocejo.

— Preciso descansar um pouco — ele disse, seguindo para uma das camas de casal do quarto. — Pode deixar a TV ligada se quiser. Consigo dormir com qualquer coisa. Aprendi a aproveitar boas condições de sono quando tenho a chance.

Depois de anos em fuga, não era de surpreender, mas, mesmo assim, deixei a TV no mudo e fiquei vendo as imagens enquanto me esparramava na cama e tentava entrar em contato com Sydney. Já havia passado da hora em que ela costumava dormir, mas não consegui encontrá-la, talvez porque ela estivesse acordada, ocupada com sabe-se lá que missão secreta que empreendera esta noite. A TV sem som dava muito sono e quase dormi duas vezes até encontrar um canal com legendas que pudesse acompanhar. Fiquei assistindo por boa parte da noite, lutando contra o sono enquanto continuava a fazer checagens periódicas atrás de Sydney. A última coisa que lembrava era um programa de entrevistas por volta das quatro...

... e então acordei com um feixe de luz entrando no quarto enquanto Marcus saía do banheiro.

— Bom dia — ele disse. — Pronto pra ir?

— Eu... — Olhei ao redor, tentando entender o que havia acontecido. — Caí no sono.

Ele arqueou a sobrancelha.

— Antes de falar com Sydney?

— Sim, mas não por falta de tentativa... tentei entrar em contato umas dez vezes. Não estava dando certo.

— Talvez ela tenha ido pra cama tarde — ele disse.

— Depois das quatro? — Mesmo com a missão secreta da noite anterior, eu tinha estabelecido contato antes da uma. — Estou com medo de que ela não tenha ido dormir.

— Isso é um problema?

— Na verdade, não — respondi. — Contanto que tenha sido porque estava em alguma missão. O problema é se ela estava dormindo... bloqueada de mim outra vez.


15

Sydney

 

Não tive tempo para enfeitiçar todas as seringas de uma só vez. Afinal, só podia fazer isso em meus raros momentos de privacidade. Consegui encantar cinco na primeira vez e as distribuí para Emma e os poucos detentos em que ela achava que podíamos confiar.

Fiquei animada depois que Adrian contou que Carly lhe dera o endereço de Keith, e estava louca para perguntar sobre o progresso deles desde então. Saber que ele e Marcus estavam avançando me fez perceber a importância de lidar com a questão do “protocolo de emergência” o mais rápido possível. Outro problema urgente era o fato de que eu só conseguiria me mover pelo prédio se o crachá roubado ainda estivesse funcionando. Imaginava que, depois que o rapaz comunicasse que o havia perdido, os alquimistas iriam desativá-lo, e sabotar o sistema ficaria ainda mais difícil se eu não tivesse como usar o elevador. Eu precisava agir rápido.

Emma ficou impressionada ao ouvir que eu tinha estado na sala de operações, mas não ofereceu muita ajuda em relação ao problema maior.

— Os controles de gás não estavam lá?

— Os controles sim — eu disse. — Eles têm a capacidade de deixar todo mundo inconsciente de uma vez, em qualquer hora e em qualquer lugar. Mas preciso de acesso às partes mais básicas do sistema. Preciso saber de onde vem o gás, pra começar. Como ele entra no sistema de ventilação.

Ela balançou a cabeça, parecendo sinceramente triste por não ter como ajudar.

— Não faço ideia. Nem sei quem pode saber.

Eu sabia, e mencionei o assunto com Duncan mais tarde, na aula de artes. Enquanto Emma tinha ficado perplexa com as minhas perguntas, Duncan ficou chocado.

— Não, Sydney, chega. Isso é loucura. Já é ruim você ter desativado o gás no seu quarto! No andar inteiro é maluquice.

Ainda estávamos trabalhando nos vasos de argila. A lição agora era fazer um conjunto de vasos idênticos, o que ia ao encontro da ideologia de conformidade dos alquimistas.

— Loucura é que, apertando um único botão, eles podem apagar todo mundo em questão de segundos.

— E daí? — ele perguntou. — Eles só fariam isso se acontecesse uma revolta ou coisa do tipo. Ninguém é tão idiota assim. — Como não respondi, seus olhos se arregalaram. — Sydney!

— Está dizendo que quer ficar aqui pra sempre? — perguntei.

Ele balançou a cabeça.

— É só entrar no jogo que você vai sair. É muito mais fácil e dá muito menos problemas do que um plano mirabolante fadado ao fracasso.

— Sair como você saiu? — Minha resposta o fez hesitar, mas só me senti um pouco mal por isso.

— Eu sairia se pudesse — ele murmurou.

— Não acredito nisso — eu disse. — Você está aqui há tanto tempo que devia conhecer o jogo melhor do que ninguém. Poderia dizer e fazer exatamente o que precisa pra conseguir sua liberação; em vez disso, faz exatamente o que precisa pra continuar preso! Você tem medo de agir.

A primeira chama de raiva que eu já vira nele se acendeu em seus olhos.

— Agir pra quê? O que exatamente você espera que eu faça, Sydney? O que tem lá fora pra mim? Eu não estaria seguro. Eles rastreiam alquimistas reeducados pra sempre. Pra não ser mandado de volta pra cá, eu teria que abandonar todos os meus princípios morais sobre os Moroi ou ficar de olho pra esconder meus sentimentos o tempo todo. Não temos como ganhar. Nascemos num sistema com que não concordamos e fomos pegos. Aqui, lá fora, não importa. Não resta nada pra nós.

— E Chantal? — perguntei, em voz baixa. — Ela não está lá fora?

Suas mãos, que estavam trabalhando com a argila habilmente, vacilaram e caíram ao lado do corpo.

— Não sei onde ela está. Talvez tenha sido mandada pra reeducação em outro país. Talvez tenha se matado pra não viver uma mentira. Talvez tenha sofrido uma punição pior. Você acha que confinamento na solitária e projetos de arte sem graça são as únicas armas deles? Existem coisas piores que podem fazer com a gente. Coisas piores que purgação e a exposição ao ridículo. Ter coragem parece ótimo em tese, mas ela tem um preço.

— Chantal tinha coragem, não tinha? É por isso que você tem medo. — A tristeza em seu rosto era tão intensa que a minha vontade era dar um abraço nele... mas, ao mesmo tempo, queria sacudi-lo pela covardia. — Você tem medo de agir! De terminar como ela.

Engolindo em seco, ele voltou a trabalhar no vaso.

— Você não entende.

— Então me ajude a entender.

Ele continuou em silêncio.

— Certo — eu disse. — Vou descobrir sozinha como funciona o sistema de controle de gás e não vou mais te incomodar. Acho que você pode jogar isso fora também.

Me ajoelhei como se tivesse derrubado alguma coisa e rapidamente passei uma seringa tampada da minha meia para a dele, cobrindo-a bem com a barra da calça para que ninguém visse.

— O que é isso? — ele murmurou.

— A última seringa do meu estoque atual com a solução que anula a tinta. Eu tinha guardado pra você, mas acho que vai ficar mais feliz se não usar. Na verdade, talvez devesse simplesmente pedir um retoque extraforte pra nunca mais ter que pensar por conta própria.

O sinal anunciou o fim da aula e virei para ir embora, deixando-o boquiaberto. No fim daquele dia, enquanto me arrumava no banheiro, consegui encantar mais algumas seringas que tinha trazido para o quarto. Também repeti o truque do chiclete, prendendo-o na porta para desativar a trava depois que as luzes se apagassem. Eu podia não saber exatamente onde ficavam os controles de gás, mas, com base nas minhas explorações, tinha alguma ideia. Emma notou quando prendi o chiclete na lateral da porta e disse, com a voz quase inaudível:

— Vai mesmo?

Fiz rapidamente que sim e me deitei com um livro para o nosso tempo de leitura predeterminado. Quando as luzes se apagaram, esperei de novo um tempo suficiente para que os alquimistas trocassem de turno antes de entrar em ação. Arrumei a cama e o travesseiro, murmurei o feitiço de invisibilidade e enfiei o crachá roubado na camisa antes de passar discretamente pela porta destrancada. No lado de fora, encontrei um cenário parecido com o da noite anterior: pouco movimento e o mesmo guarda posicionado na interseção dos corredores.

Caminhei devagar até o elevador e as escadas, passando o crachá no painel de segurança destas. Uma luz verde se acendeu, e suspirei de alívio por ainda ter acesso. Embora a porta da escada não fosse completamente silenciosa, consegui abri-la com cuidado e passar por ela mais discretamente do que quando usara o elevador, com seu ding alto. Só precisava tomar cuidado para abrir a porta o mínimo necessário para passar. Ao entrar na escada, notei algo que também havia observado no elevador. Não havia como subir. O único caminho era para baixo.

Como a gente sai daqui? me perguntei pela centésima vez. Era a questão que vinha me fazendo desde que chegara àquele lugar. Os detentos entravam de algum modo e, obviamente, os alquimistas que trabalhavam lá entravam e saíam. Duncan me explicara que eles tinham seus próprios aposentos em outro andar e moravam lá por turnos que duravam meses, até serem substituídos por outros funcionários. Como isso acontecia? Esse, porém, era um mistério para outra ocasião e, agora, me concentrei em alcançar o andar de operações e purgação. Investiguei todas as portas possíveis e não encontrei nada parecido com uma sala de máquinas. Ciente do tempo, voltei para as escadas e reforcei o feitiço de invisibilidade, ganhando mais meia hora. Não poderia fazer isso a noite toda, não com a energia que o feitiço exigia, mas, pelo menos, teria tempo para dar uma olhada no andar de baixo.

Fazia quase três semanas desde a última vez em que eu estivera naquele andar e, por um momento, fiquei paralisada ao entrar no corredor. Aquele era o andar onde ficava minha cela, onde eles tinham me mantido na escuridão por três meses. Não tinha pensado muito nisso desde que me juntara aos outros, mas, olhando para aquelas portas idênticas, me lembrei de tudo. Tive um arrepio quando pensei no frio que havia sentido, nas cãibras nos músculos por dormir no chão duro. Aquela escuridão era terrível, e fiquei impressionada com a diferença que fazia a fresta de luz entre a porta e a parede do meu quarto atual. Precisei de toda a minha força de vontade para tirar essas memórias antigas da cabeça e atravessar o corredor, me concentrando em meu objetivo.

Eu não havia notado quando fora liberada, mas cada porta estava marcada com a letra R e um número. R de reflexão, talvez? Havia vinte ao todo, mas eu não tinha como saber se todas estavam ocupadas. Não tive coragem de passar o crachá e tentar abrir alguma delas. O instinto me dizia que somente alguém do alto escalão teria o poder de abrir aquelas portas e, além disso, se estivessem sendo monitoradas, qualquer fresta de luz apareceria imediatamente na tela de vigilância. Por isso, passei reto por todas, apesar de me sentir mal sabendo que outras pessoas poderiam estar a poucos metros de mim, sofrendo o que eu sofrera.

Depois de passar pelas celas, dei de cara com uma porta dupla chamada CONTROLE DE REFLEXÃO. Muitas das portas administrativas e operacionais tinham janelinhas de vidro, mas essa não oferecia nenhuma indicação do que havia do outro lado. Eu estava cogitando se tentava ou não passar o crachá e entrar discretamente quando as portas se abriram de repente e dois alquimistas passaram por elas. Saí rapidamente do seu campo de visão e, felizmente, eles seguiram na direção oposta a passos largos. As portas pesadas se fecharam rápido demais para que eu entrasse, mas consegui dar uma olhada lá dentro antes que travassem com um bam.

Vários alquimistas estavam sentados em cabines pequenas com as costas voltadas para mim, olhando para monitores escuros e usando fones de ouvido. Havia grandes microfones em suas mesas, junto com um painel de controle que não consegui ler. Me dei conta de que era ali que os prisioneiros solitários eram monitorados. Cada prisioneiro devia ter sempre um vigia, com aquele microfone mascarando sua voz e o painel permitindo o controle do gás e das luzes. Tinha suspeitado que eles revezavam os funcionários e essa era a prova. Não tive tempo de contar todos, ainda mais com parte da sala fora do meu campo de visão, mas havia pelo menos cinco vigias.

O que também vi, com absoluta clareza, foi uma placa de saída. Ficava do lado oposto da sala, atrás dos vigias e dos monitores, mas não era possível ter me enganado em relação àquelas letras vermelhas reluzentes. Meu coração bateu mais rápido. Era isso, a porta de entrada e saída! Por alguns segundos, me perguntei se poderia simplesmente sair andando daquele lugar. Pouco provável, admiti logo em seguida. Em primeiro lugar, não era uma sala fácil de infiltrar. Aquelas portas não permitiriam que alguém entrasse ou saísse correndo, e faziam barulho demais para que ninguém as notasse se abrindo sozinhas. Mesmo que nenhum alquimista as monitorasse diretamente, havia funcionários sentados perto demais delas.

Também havia a possibilidade de que ninguém pudesse simplesmente “sair andando” por aquela porta. Não ficaria surpresa se houvesse guardas de verdade, outros leitores de cartão, e talvez até códigos numéricos para entrada e saída. Os alquimistas já corriam um risco de incêndio considerável ao construir tão poucas saídas. Se a reclusão dos prisioneiros era tão importante para eles a ponto de assumir esse risco, sem dúvida não deixariam as saídas expostas.

Mesmo assim, foi difícil me afastar daquela porta, sabendo o que havia atrás dela. Em breve, disse a mim mesma. Em breve. Outra olhada no corredor não revelou nada digno de nota, e voltei para as escadas. Quando cheguei lá, a porta se abriu e Sheridan saiu por ela. Encostei na parede na mesma hora, abaixando os olhos. Pelo canto do olho, vi que ela parou como se estivesse procurando alguma coisa e, então, continuou tranquilamente. Quando chegou ao final do corredor, ficou parada por alguns segundos e então voltou alguns passos até as portas da sala de controle, pelas quais logo desapareceu. Fui correndo para a escada antes que ela voltasse, seguindo para a última opção que me restava: o último andar.

Os elevadores não desciam além desse andar e a escada também terminava ali. Era o único andar em que nunca estivera, e nem imaginava o que acontecia ali embaixo. O que mais eles poderiam fazer? As portas que encontrei não me deram nenhuma resposta. Pareciam idênticas às do andar de reflexão, e me perguntei se não era apenas mais uma série de celas. No entanto, estavam marcadas com a letra P e números, e não encontrei nenhuma sala de controle correspondente que esclarecesse o que aquela letra significava. O que encontrei foram três portas marcadas como MAQUINÁRIO 1, MAQUINÁRIO 2 e MAQUINÁRIO 3. Atrás delas, pude ouvir o zumbido de geradores e outros equipamentos. Elas não tinham leitores de cartão, exigindo chaves tradicionais.

Depois de quebrar a cabeça, lembrei de um feitiço de chave que havia copiado uma vez para a sra. Terwilliger, um feitiço capaz de abrir uma fechadura comum. Murmurei as palavras em latim, trazendo a magia de dentro de mim e torcendo para que não houvesse nada de especial naquela fechadura. O poder irrompeu de mim e, um instante depois, ouvi um clique. Senti uma leve tontura, mas a ignorei enquanto começava minha exploração, destrancando as outras portas à medida que precisava.

A primeira porta revelou uma sala com uma fornalha e outros equipamentos de aquecimento, ventilação e ar-condicionado, mas nada parecido com os controles de gás que eu imaginava. Foi na segunda sala que tirei a sorte grande. Junto com um gerador e alguns sistemas de encanamento, encontrei um enorme tanque marcado com uma fórmula química que parecia muito com um sedativo. Quatro canos partiam dele, cada um marcado com o número de um andar. Cada um também tinha uma válvula manual que podia ser ajustada. Todas estavam abertas.

Não vira sinal de nenhum sensor que alertasse sabotagens nesse andar. Assumindo um risco, fechei a válvula do andar dos detentos. Nenhum alarme e nenhuma sirene disparou. Ganhando coragem, considerei desativar todos os andares mas então percebi que estaria expondo o que havia feito. Poderia não haver sensores ali, mas os alquimistas notariam imediatamente se o gás fosse desligado no andar com as solitárias. Lá eles controlavam o gás manualmente e viam resultados instantâneos. Desativar o gás no andar dos detentos afetaria o sono deles, mas isso não ficaria óbvio para os alquimistas tão cedo. Era possível que nem os detentos notassem. Como eles não deixavam que tivéssemos oito horas de sono, era improvável que alguém tivesse muitas dificuldades para dormir à noite.

Abandonar os prisioneiros no período de reflexão não foi uma decisão fácil, mas não havia nada que eu pudesse fazer agora. Por enquanto, teriam que permanecer do mesmo jeito. Eu precisava daquele gás desativado no meu andar pelo maior tempo possível. A julgar pelo tamanho do tanque, devia demorar para ser reabastecido, mas em algum momento alguém faria uma manutenção e descobriria a válvula. Era com esse prazo que eu precisava me preocupar.

Na mesma sala, descobri outro tanque com uma fórmula química que não conhecia, mas apostava que era da outra substância, aquela que sentira às vezes na cela e que me deixava agitada e paranoica. Eles não a usavam tão regularmente quanto o sedativo, mas desliguei essa válvula para o meu andar também, por via das dúvidas. Não precisávamos de mais incentivo para desconfiar uns dos outros.

Feito isso, saí correndo e ignorei minha curiosidade sobre a terceira sala de maquinário e as portas marcadas com P. Havia atingido meu objetivo daquela noite e precisava voltar para o quarto antes que o feitiço passasse. Além disso, sabia que Adrian ficaria preocupado se eu demorasse demais. Peguei as escadas e subi de volta para o andar dos detentos, dando uma olhada pela janela da porta antes de abri-la. Não dava para ver ninguém. Abri uma fresta para não chamar a atenção das câmeras, me espremi para sair...

... e dei de cara com Sheridan.

Ela se escondera de propósito contra a parede, ao lado das portas do elevador, fora do meu campo de visão quando olhei pela janela. Eu tinha me preocupado com as pessoas que cumpriam as tarefas de seus turnos, mas não com alguém que estivesse procurando por mim. E ela estava claramente procurando por mim, ou pelo menos por alguém como eu. Fizemos contato visual e não houve dúvidas de que ela me reconheceu. O feitiço se desfez.

— Sydney — ela exclamou. Foi a última coisa que ouvi antes de ver o que parecia ser um taser em sua mão. Em seguida, senti um choque doloroso e tudo ficou preto.

Quando acordei, tudo ainda estava preto. Por uma fração de segundo pensei que estava de volta na solitária. Mas não, aquilo era diferente. O chão não era de pedra dura e eu ainda estava com meu uniforme. Em vez disso, estava deitada numa mesa de metal fria, com braços, pernas e cabeça amarrados.

— Ora, Sydney — disse uma voz conhecida. — Sinto muito por ver você aqui.

— Sei que é você, Sheridan — eu disse, entredentes. Dei um puxão para testar as amarras. Estavam apertadas. — Não precisa se esconder no escuro.

Uma pequena lâmpada se acendeu no teto, reluzindo apenas o bastante para iluminar seu rosto bonito e perverso.

— Não é esse o objetivo. Você está na escuridão porque sua alma também está envolta em trevas. Você não é digna da luz.

— Então por que estou aqui e não de volta na minha cela?

— A cela é pra refletir sobre seus pecados e perceber os erros em seu comportamento — ela disse. — Você é uma boa atriz, mas está claro que não aprendeu nada. Sua chance de reflexão e redenção já passou. Além disso, precisamos de algumas respostas sobre suas atividades recentes. — Ela ergueu o crachá furtado. — Quando e como conseguiu isto?

— Achei no chão — respondi prontamente. — Vocês deviam ser mais cuidadosos.

Sheridan soltou um suspiro dramático.

— Não minta pra mim, Sydney. Não gosto disso. Vamos tentar de novo. Onde conseguiu o crachá?

— Já disse.

De repente, uma dor aguda foi disparada por todo meu corpo. Era uma estranha mistura de sensações, rastejando pela minha pele e incendiando minhas terminações nervosas. Se desse para combinar o desconforto de choques elétricos, picadas de abelha e cortes de papel, seria mais ou menos o que senti. Durou apenas alguns segundos, mas gritei mesmo assim.

A luz sobre Sheridan se apagou, me lançando à escuridão novamente, mas, quando ela voltou a falar, ficou claro que não tinha mudado de lugar.

— Essa é a intensidade mais leve, só pra te dar um gostinho. Por favor, não me obrigue a fazer isso de novo. Quero saber como conseguiu o crachá e o que estava procurando.

Dessa vez, não menti para ela. Apenas fiquei em silêncio.

A dor voltou na mesma intensidade, mas durou muito mais dessa vez. Não consegui formular nenhum pensamento coerente enquanto a sentia. Cada partícula do meu ser estava fixada demais naquela agonia terrível e excruciante. Uma das coisas que eu adorava nos momentos íntimos com Adrian, além do fato óbvio de ele ser incrivelmente atraente e bom no que fazia, era que meu cérebro parava de pensar, me permitindo focar apenas na sensação física — algo que raramente acontecia. Era mais ou menos o que estava acontecendo agora, exceto que a experiência física em questão era a mais distante possível do que a que tinha com Adrian. Meu cérebro não conseguia pensar em nada. Tudo que havia naquele momento era meu corpo e a dor.

Estava com lágrimas nos olhos quando a dor parou e quase não ouvi Sheridan repetindo as perguntas. Ela acrescentou mais algumas dessa vez.

— Como evitou ser pega? Como conseguiu sair do quarto? — Mesmo se quisesse, não teria tido tempo de responder, pois a dor logo voltou. Quando acabou, uma eternidade depois, ela me lançou as mesmas perguntas. E então o ciclo se repetiu.

Durante um dos breves intervalos, consegui reunir coerência suficiente para entender o método dela. Ela estava fazendo perguntas diferentes com a esperança de que a dor me levasse a soltar uma resposta, qualquer resposta. Para eles, não importava qual. O objetivo era que eu começasse a falar, e tinha a impressão de que prisioneiros na minha situação não paravam depois que começavam. Haveria um impulso de contar tudo para que a dor passasse. Definitivamente estava sentindo esse impulso e precisei morder o lábio para não obedecer. Tentei me concentrar no rosto das pessoas que amava, Adrian e meus amigos. Isso funcionou um pouco durante os intervalos, mas, quando a tortura recomeçava, nenhum pensamento ou imagem conseguia ficar na minha mente.

— Vou vomitar — disse a certa altura. Não sei quanto tempo havia passado. Segundos, horas, dias. Sheridan não pareceu acreditar até eu realmente começar a tossir e me contorcer. Era um tipo de ânsia diferente da que sentia na purgação. Aquela era induzida por medicamentos; essa era a reação do meu corpo a mais do que era capaz de suportar fisicamente. Do lado oposto dela, uma pessoa se aproximou, afrouxou um pouco as amarras e me virou, então vomitei o pouco que tinha no estômago. Eu não sabia se eles haviam tido tempo de arranjar um recipiente para o vômito e realmente não me importava. Isso era problema deles.

Quando a ânsia passou, consegui ouvir com dificuldade o que Sheridan murmurou para uma pessoa do outro lado da sala.

— Chame um “assistente” pra nos ajudar — ela disse.

Uma voz masculina parecia cética:

— Não existe amizade entre nenhum deles.

— Já vi pessoas como ela. O que não vai entregar por si mesma, pode entregar por outra pessoa.

O som de uma porta indicou a saída de seu colega e, enquanto me limpavam e amarravam outra vez, suas palavras me fizeram perceber algo terrível. Alguém me traiu! O feitiço só fora desfeito porque Sheridan estava procurando especificamente por mim. Eu tinha sido tola de pensar que fazer a tinta de sal forjaria algum tipo de vínculo entre mim e os outros. O único ponto positivo era que havia desativado o gás, como planejado, mas a que preço?

Foi tudo que consegui especular quando a tortura recomeçou — e, por incrível que pareça, estava pior. Não vomitei, talvez porque meu corpo não conseguisse juntar forças para tanto, mas não consegui impedir que meus gritos enchessem a sala. Me odiava por demonstrar fraqueza diante deles, por admitir que estavam me atingindo... mas mal conseguia me segurar e não contar todos os meus segredos para eles durante aquelas pausas. Não vou falar, prometi. Mesmo que nunca saia daqui, vou mostrar a eles que não são tão poderosos quanto pensam.

— Por que nos obriga a continuar com isso, Sydney? — Sheridan perguntou, com aquela tristeza fingida. — Isso dói mais em mim do que em você.

— Sinceramente duvido disso — falei, quase sem ar.

— E pensei que você estivesse fazendo tanto progresso! Estava quase pronta pra te recompensar pelo bom comportamento. Talvez com uma visita da família. Talvez com isto.

O minúsculo ponto de luz surgiu sobre ela novamente e algo em sua mão reluziu. Era a minha cruz, o pequeno pingente de madeira que Adrian fizera para mim, pintado com glórias-da-manhã. Eles haviam tentando me subornar com ele quando chegara, como se um objeto material fosse suficiente para me destruir. Vê-lo causou uma dor no peito, embora talvez fosse efeito da tortura, e meus olhos se encheram de lágrimas, agora de tristeza, não de dor.

— Você poderia ficar com ela agora — ela disse, suavemente. — Poderia ficar com ela e a dor acabaria. Tudo o que precisa fazer é contar o que queremos saber. Ela é realmente linda. — Sheridan ergueu a cruz para admirá-la e, para meu horror, a colocou em volta do pescoço. — Se não quiser, posso pegá-la pra mim.

Quase contei que a cruz havia sido feita por um vampiro, mas tive medo de que ela pudesse destruí-la. Assim, fiquei em silêncio, deixando que a raiva ardesse dentro de mim — pelo menos até a tortura recomeçar, e então senti apenas aquela agonia de novo.

Perdi a noção do tempo novamente até o colega dela voltar. Tive um alívio da dor e mais alguns pontos de luz se acenderam, inclusive um brilhando desconfortavelmente na minha cara. A luz também revelou que o homem não voltara sozinho.

— Olhe, Sydney — Sheridan disse. — Trouxemos uma amiga sua.

O homem puxou uma pessoa até a minha mesa. Emma. Quase a acusei de ter me traído naquele exato momento. Afinal, era a candidata perfeita. Precisava compensar pelos crimes da irmã além dos dela própria. Conseguira a tinta de sal e não tinha nada a perder me entregando, ainda mais se pudesse convencê-los da sua inocência. Também era a única pessoa que sabia com certeza que eu estivera andando pelo prédio na noite anterior.

No entanto... havia um pavor em seus olhos que me impediu de fazer qualquer acusação. Ela era a traidora mais provável, mas, como talvez não fosse, eu não podia deixar que soubessem que ela estava a par dos meus planos.

— Quem disse que ela é minha amiga? — perguntei.

— Bom, ela está prestes a ter a mesma experiência que você — Sheridan disse. — Se essa não é a base de uma grande amizade, não sei o que é. — Ela deu um aceno curto e Emma foi levada para fora do meu campo de visão. Outro assistente se aproximou, me ajudando a sentar para que eu pudesse ver o que estava acontecendo. Eles estavam amarrando Emma a uma mesa igual à minha.

— P-por favor — ela balbuciou, se debatendo de maneira tão impotente quanto eu. — Não sei de nada. Não sei por que estou aqui.

— Ela está certa — eu disse. — Não sabe de nada. Vocês estão perdendo tempo.

— Não nos importamos com o que ela sabe — Sheridan disse alegremente. — Queremos saber o que você sabe. E, se nossos métodos de persuasão não funcionaram com você, talvez confesse ao vê-los serem usados em outras pessoas.

— Persuasão — eu disse, com repulsa. — É isso que o P das portas significa. Estamos no último andar.

— Exatamente — disse Sheridan. — Você fez um passeio e tanto essa noite, a julgar por todas as portas em que usou aquele cartão. Diga por que fez isso e como não apareceu em nenhuma câmera, senão...

Ela deu um aceno curto com a cabeça e, na fração de segundo antes de Emma gritar, entendi o que havia acontecido. Emma não tinha me traído. Ninguém tinha. Eu havia estragado tudo sozinha. Estava preocupada que o rapaz cujo crachá eu havia roubado pudesse comunicar o desaparecimento e fazer com que o cartão fosse desativado. Ele obviamente havia feito isso, mas, em vez de desativarem o cartão, os alquimistas tinham esperado para ver se alguém o usaria. O sistema devia ter registrado todas as vezes que o usei. Eu tinha sido uma idiota, deixando um rastro perfeito para que me seguissem, e apenas o feitiço de invisibilidade me salvara da captura imediata. Felizmente, estivera em lugares suficientes para ocultar minhas intenções, ainda mais porque as salas de maquinário não pediam o cartão de acesso. Havia boas chances de que ninguém soubesse o que eu tinha conseguido fazer.

Mas isso não salvou Emma de ser submetida à mesma tortura que eu. Minha pele formigou ao vê-la se contorcendo de dor e senti uma náusea inteiramente nova.

— Ela é inocente! — exclamei quando fizeram um intervalo. — Como podem fazer isso? Vocês são doentes!

Sheridan riu baixo.

— Ninguém é inocente. Mas, se você acredita nisso, é ainda mais triste que a deixe sofrer desse jeito.

Fiquei olhando para Emma e me senti dividida. Não queria desistir dos meus planos. No entanto, como poderia permitir que aquilo continuasse? Ao me ver ponderando, eles acharam que eu estava resistindo e retomaram o procedimento. Era insuportável assistir e, no intervalo seguinte, exclamei:

— O que você acha que eu estava fazendo? Estava procurando uma saída!

Sheridan ergueu a mão para deter o torturador invisível que comandava os controles.

— Conseguiu encontrar?

— Acha que estaria aqui se tivesse conseguido? — retruquei. — A única coisa que vi foi sua sala de controle de reflexão, e ela está muito bem guardada.

— Como conseguiu andar de um lado para o outro sem ser vista? — ela perguntou.

— Evitei as câmeras — respondi.

Com um aceno de Sheridan, Emma foi submetida a mais dor e seu corpo se debateu como uma boneca de pano enquanto tentava lidar com as ondas de agonia que a atravessavam.

— Eu respondi! — exclamei.

— Você mentiu — Sheridan retrucou com frieza. — Não seria possível ter evitado todas. Ninguém notou nada na hora, mas depois de uma longa revisão dos vídeos encontramos um trecho que mostra a porta de uma das escadas se abrindo sozinha. Quase deixamos passar; só notamos nos últimos replays. Explique-se.

Continuei em silêncio, me perguntando se suportaria ver Emma sendo torturada novamente. Mas não consegui. Não quando sabia que era por minha causa. Os gritos dela pareciam preencher todos os cantos da sala e ela lutava contra as amarras numa tentativa desesperada de aliviar a dor. Ouvindo seus gritos, tentei argumentar comigo mesma dizendo que era apenas um desconforto temporário, que Emma sabia em que estava se metendo quando começara a me ajudar. O bem maior valia o sofrimento de uma pessoa, não?

Essa lógica fria tinha quase me convencido quando finalmente vi lágrimas escorrendo de seus olhos. Não aguentei mais.

— Magia! — berrei, tentando ser ouvida apesar dos gritos. — Foi magia. — Sheridan fez sinal para a tortura parar e me olhou com expectativa. — Andei por aí sem ser vista com magia. Magia humana. E se acha que vai me fazer falar mais torturando essa garota, está errada. Pode torturar todos os outros neste lugar que não vou dizer mais nenhuma palavra. Isso envolve gente de fora e, perto delas, as pessoas daqui não significam nada pra mim.

Era um blefe. Eu não sabia se realmente aguentaria ver os outros detentos sendo torturados, mas ou Sheridan acreditou em mim ou tinha preocupações maiores.

— Não achava que isso iria acontecer de novo — ela murmurou.

— Sempre acontece. Uma hora ou outra — disse seu colega. Ele fez sinal para um dos guardas levar Emma embora. — Leve a garota de volta para o andar dela. Não dá pra saber que tipo de propaganda negativa se espalhou. Vamos ter que fazer um retoque em massa.

Senti uma pontada no peito. Eu só tinha protegido metade dos detentos! O resto da tinta ainda estava escondido na minha cama.

— Não converti ninguém, se é com isso que você está preocupado — eu disse.

— Eu falei pra você, ninguém é inocente aqui — Sheridan disse. — Mande Emma de volta para o andar dela e coloque Sydney na maca.

— Já falei tudo que tinha pra falar — protestei enquanto os guardas se aproximavam e Emma era arrastada para fora da sala. — Sua tortura não funcionou em mim da outra vez.

Sheridan deu uma risada baixa e rouca, e todas as luzes se apagaram outra vez.

— Ah, Sydney. Agora que sei o que você é, não me sinto mal por aumentar bastante a intensidade. Não sabemos muito sobre usuários de magia humana, mas tem uma coisa que aprendemos ao longo dos anos: eles são excepcionalmente resistentes. Então vamos começar.


16

Adrian

 

Na segunda noite sem contato com Sydney, tive certeza de que algo havia dado errado. Pude ver que Marcus também estava preocupado, mas ele se esforçou para me tranquilizar.

— Ela disse que tinha um gás no quarto dela que fazia todo mundo dormir, certo? Talvez os alquimistas tenham descoberto que estava desligado e só consertaram. Ela viveu assim por três meses e não teve problemas... quer dizer, nada além dos problemas normais da reeducação.

— Pode ser — concordei. — Mas, mesmo se for o caso, não acha que eles vão querer saber como quebrou? Ela pode ser punida por isso.

O celular de Marcus tocou antes que ele pudesse me responder e fiz sinal para que atendesse. Desde que havíamos recebido a confirmação sobre o Vale da Morte, ele vivia no celular, sempre falando com um ou outro agente. Tínhamos chegado à região no dia anterior e descoberto que não havia onde ficar no Vale da Morte em si, o que fazia sentido. Por isso, nossa base de operações tinha se tornado um hotel de estrada em uma cidadezinha decadente a vinte e quatro quilômetros do parque estadual. Não havia restaurantes, por isso comprávamos comida numa loja de conveniência do outro lado da rua, cuja dona, Mavis, era uma mulher amável que vivia preocupada comigo por causa da minha pele.

— Você precisa tomar sol, querido — ela sempre dizia.

Você precisa de sangue, isso sim, tia Tatiana havia comentado em resposta. Não dela, claro. Não vamos baixar o nível. Ela estava certa no primeiro ponto. Fazia alguns dias desde que eu tomara sangue na Corte e, embora pudesse aguentar mais um pouco antes de sofrer grande desconforto físico, era um problema que precisaria remediar em algum momento.

Enquanto Marcus falava ao telefone, fui até a janela do quarto, que dava para a rua principal e para a loja de conveniência, bem como para um posto de gasolina. Considerando o nível do hotel, essa era a melhor vista do lugar. Para a minha surpresa, um carro conhecido entrou de repente no estacionamento do hotel, sua cor alegre contrastando com o resto da cidade sombria. Sem dizer uma palavra para Marcus, saí do quarto e desci a escada.

Eddie e Trey saíram do Mustang quando me aproximei. Mesmo tão cedo, o calor estava forte, criando miragens bruxuleantes no asfalto.

— Sobreviveram às provas? — perguntei.

— Pela segunda vez na vida, sim — Eddie respondeu.

— Na verdade, elas ainda estão rolando — Trey disse. — Mas a sra. T mexeu uns pauzinhos com os outros professores pra gente poder terminar ontem. Ela mandou isso, pra quando a gente resgatar Sydney.

Peguei a sacola que ele me ofereceu. Estava cheia de todo tipo de apetrechos de feitiçaria — ervas, amuletos e um livro que não me dizia nada mas que provavelmente encheria Sydney de alegria. Quando a gente resgatar Sydney. Trey havia falado com total confiança e rezei para que ela se justificasse. Essas duas últimas noites de silêncio estavam sendo difíceis para mim.

— E trouxe isso — Eddie disse, com um sorriso irônico. Ele me entregou Pulinho, que eu havia deixado no apartamento, ainda imortalizado em ouro. Toquei as escamas delicadamente esculpidas e então enfiei o dragãozinho na sacola, junto com os demais itens mágicos. — Alguma novidade sobre Sydney?

Eu os chamei para o quarto.

— Venham pro QG. Não está tão quente lá.

Marcus tinha desligado o telefone quando entramos no quarto, e recebeu os recém-chegados com acenos simpáticos.

— Acabei de receber a confirmação de que três caras... quer dizer, dois e uma menina... vêm ajudar a gente amanhã. Dois deles estiveram na reeducação. Não faziam ideia de que era aqui, claro, mas, como podem imaginar, guardam certo ódio do lugar. Eles têm algumas informações sobre como é a planta do prédio, embora não tantas quanto eu gostaria. Enquanto isso, finalmente temos alguns dados concretos sobre o exterior. Acreditem se quiser, eles se disfarçam como um centro de pesquisa no deserto. Fica perto do parque propriamente dito, acho que a uns vinte quilômetros de onde a gente está agora. Na verdade, essa é a cidade mais próxima. Não ficaria surpreso se os alquimistas parassem aqui pra abastecer no caminho pro trabalho.

Eram boas informações, mas todas pareceram inúteis quando Eddie perguntou:

— Sydney te contou mais alguma coisa?

O rosto de Marcus, que pareceu animado por um momento, voltou a se fechar.

— Não. Estamos sem contato há duas noites.

— Mas não precisamos de contato pra invadir o lugar, certo? — Trey perguntou. — Podemos só aparecer e tirar Sydney de lá.

— Claro — concordou Marcus —, mas seria bom falar com alguém de dentro antes de entrar.

Me deixei cair em uma das camas estreitas do quarto, que rangeu sob meu peso.

— E seria bom saber se ela está bem.

— Pena que não tem mais ninguém que possamos contatar — Eddie disse. — Você não tem nenhuma pista sobre os outros prisioneiros?

Marcus balançou a cabeça enquanto explicava o que sabia, e o velho e conhecido desespero começou a tomar conta de mim. Ficar sóbrio de repente e usar o espírito todos os dias era uma combinação mortal para as minhas variações de humor, e eu vinha lutando contra elas sem descanso. O último desaparecimento de Sydney havia despedaçado o controle frágil que eu andava mantendo até então. Seria uma surpresa se minha sanidade durasse até trazermos Sydney de volta.

Sanidade é superestimada, meu querido, tia Tatiana disse.

Fechei os olhos. Vá embora, respondi em silêncio. Preciso ouvir o que eles estão falando.

De que adianta?, ela perguntou.

Preciso me concentrar. Preciso entrar em contato com Sydney pra saber se ela está bem e conseguir informações sobre o que está rolando lá dentro.

Sua garota já te deu informações, tia Tatiana disse. Você só não prestou atenção.

Abri os olhos de repente.

— Duncan — eu disse em voz alta. Meus três amigos olharam para mim espantados.

— Você está bem? — perguntou Eddie, que já tinha visto alguns dos meus piores momentos.

— Duncan — repeti. — Numa das vezes que conversei com Sydney, ela mencionou que tinha feito um amigo chamado Duncan, que está lá faz um tempo. Se conseguirmos descobrir o sobrenome dele, arranjar uma foto... deve ser suficiente para eu formar um vínculo onírico. Isso supondo que o gás esteja desativado pra ele também. — Eu não tinha entendido exatamente o que Sydney havia feito. — Seja como for, não é um nome comum. Acha que consegue alguma coisa?

Marcus franziu a testa.

— Talvez... dependendo de há quanto tempo ele está lá, um dos ex-prisioneiros que vêm amanhã pode até conhecer esse cara.

— Então ligue pra eles — mandei. — Agora.

— Se Sydney não está em contato porque reativaram o gás, você não vai conseguir falar com ele também — Marcus avisou.

Ergui as mãos, exasperado.

— Que escolha a gente tem?

Estava claro que ele não via a mínima chance, mas quando fez os telefonemas, um dos caras — na verdade, a garota — nos deu informações.

— Ela disse que, quando esteve lá no ano passado, conheceu um cara chamado Duncan Mortimer — Marcus contou depois. Ele já estava no laptop, digitando enquanto falava. — Não dá pra ter certeza de que é o mesmo, mas as chances parecem boas. Mortimer é um sobrenome famoso. Será que...

Ele não terminou o pensamento e logo encontrou uma ficha sobre Duncan, incluindo foto e informações básicas. A maioria dos usuários de espírito não conseguiria formar um vínculo com alguém que nunca tinha encontrado, e senti uma faísca de orgulho por ser capaz de fazer algo útil. Quando estava certo de que tinha todos os dados de que precisava, mudamos de assunto e passamos o resto do dia examinando as informações de Marcus sobre o prédio propriamente dito. Eu não possuía uma mentalidade tática como os outros, mas tinha o poder considerável do espírito ao meu lado e sugeri onde achava que ele seria útil.

Quando chegou a noite e a “hora de dormir da reeducação”, como eu havia apelidado, primeiro tentei contatar Sydney e, de novo, não tive sorte. Isso nos levou ao plano B, e trouxe Marcus para o sonho. Ele tinha ido dormir mais cedo por esse motivo. Como responsável pelo plano de invasão, era essencial que conversasse com Duncan. Marcus se materializou perto da fonte da Getty Villa, olhando para os braços e mãos como se nunca os tivesse visto antes.

— Nunca vou me acostumar com isso — ele comentou. — Tem certeza de que consegue trazer o cara?

— Só tem um jeito de descobrir.

Eu tinha passado o dia memorizando a foto de Duncan e, agora, invoquei essa imagem na mente, junto com o pouco que sabia sobre ele, enquanto usava o espírito para alcançá-lo no mundo dos sonhos. Duncan Mortimer, 26 anos, nasceu em Akron, está dormindo a uns vinte quilômetros daqui. Várias e várias vezes repeti o mantra improvisado, me concentrando em seu rosto. Não aconteceu nada. No começo, duvidei das minhas habilidades, antes de aceitar que ele podia estar simplesmente bloqueado para mim como Sydney. Então, alguns segundos depois, uma terceira pessoa se juntou a nós.

Alto e magricela, seu rosto era exatamente igual ao da foto. Além disso, estava usando o mesmo uniforme cáqui horrendo em que Sydney sempre aparecia. Ele olhou ao redor com o tipo de expressão confusa que a maioria das pessoas assumia quando eu as invocava pela primeira vez, sem entender direito que aquilo não era um sonho comum.

— Hum — ele disse. — Faz tempo que não sonho.

— Isso não é um sonho — eu disse, me aproximando dele. — Pelo menos não do tipo que você está pensando. Criei esse sonho com espírito. Adrian Ivashkov. — Estendi a mão para ele. — Estou aqui pra conversar sobre Sydney Sage.

Duncan ainda parecia estar vendo graça em tudo, como se aquilo fosse apenas uma brincadeira estranha do seu subconsciente, até finalmente entender o que eu havia dito.

— Ah. É você. O namoradinho bonito e atormentado dela.

— Ela disse que sou bonito e atormentado? — perguntei. — Deixa pra lá. Por que não consigo falar com ela? Onde ela está?

— Num lugar de onde nunca vi ninguém voltar — ele disse, num tom sinistro. — Um lugar que eu nem sabia que existia até Emma ver com os próprios olhos.

— Quem é Emma? — Marcus perguntou, chegando perto de nós.

Duncan ficou um pouco surpreso ao ver outra pessoa, mas então pareceu relaxar e considerar aquilo mais uma parte daquela experiência estranha.

— Colega de quarto da Sydney. Ex-colega de quarto, agora que Sydney foi transferida.

Eu estava prestes a fazer mais um milhão de perguntas, mas então decidi ir direto à fonte.

— Consegue formar uma imagem mental dessa menina? Essa tal de Emma? Tipo, visualize o seu rosto e pense em tudo o que sabe sobre ela.

— Certo... — ele disse, franzindo um pouco a testa.

Se alguém que eu havia trazido pensasse em uma pessoa que eu não conhecia, eu poderia estender o espírito e usar essa visualização como âncora para trazer a pessoa para o sonho. Não era mais difícil do que chamar alguém que eu não conhecia, desde que o foco mental de quem estivesse comigo fosse suficientemente bom. O de Duncan devia ser porque, alguns segundos depois, uma menina magra, com o mesmo uniforme cáqui, surgiu ao seu lado. Rapidamente explicamos a situação e em que tipo de sonho ela estava, e ela pareceu mais incomodada que Duncan com isso. Mesmo alquimistas liberais tinham problemas com magia vampírica. Mas a curiosidade dela logo levou a melhor.

— Então era isso que Sydney estava fazendo — Emma disse. — Entrando em contato com você através do espírito. Por isso precisava do gás desligado.

— Deve estar desligado pra todo mundo, já que estamos aqui — Duncan disse. — Não achei que conseguiria.

Emma concordou, melancólica.

— Era isso que ela estava fazendo na noite em que foi pega. Quer dizer, não acho que estava fazendo isso, exatamente. Quando a vi, parecia que eles não sabiam o que ela tinha feito.

— Crianças — eu disse —, vocês precisam voltar um pouco e me dar mais detalhes.

Juntos, eles foram contando a história completa de como Sydney vinha fazendo tinta antialquimista às escondidas e então tinha desligado um sistema de emergência capaz de deixar o lugar inteiro inconsciente. Marcus claramente aprovava a estratégia, mas até ele ficou horrorizado quando Emma contou o preço que Sydney pagou por isso.

— Foi horrível — Emma disse, empalidecendo. — Não sei como eles fazem aquilo. Deve ser alguma coisa embutida na maca. Também não sei como Sydney não confessou quando a torturaram. Eu teria contado tudo, mas ela continuou de boca fechada... pelo menos até me ver sofrendo. Então contou que estava usando magia. Ela me salvou... e se meteu numa encrenca ainda pior.

Senti uma pontada no peito.

— É o jeito dela. Você não sabe onde ela está agora?

— Ainda no quarto andar, acho — disse Emma. — A menos que a tenham transferido pra solitária.

Marcus suspirou.

— Bom, pelo menos sabemos pra que esses andares são usados. — Ele olhou os dois prisioneiros de cima a baixo, medindo-os antes de dar a notícia bombástica. —Vamos tirar Sydney de lá em breve. Tirar todos vocês, na verdade.

A diferença na reação deles foi enorme. Emma abriu um sorriso. Duncan ergueu as mãos com repulsa e saiu andando.

— Duncan — ela exclamou. — Volte aqui.

Ele parou e se virou.

— Por quê? Não quero ouvir isso. É inútil.

— Você nem ouviu o nosso plano — Marcus disse, parecendo quase magoado.

— Não importa — Duncan disse. — Vocês não vão conseguir entrar aqui. Não vão conseguir tirar a gente. Mesmo se conseguirem, e depois? Pra onde vamos? Acham que eles não vão atrás de nós?

— Sei que vão — Marcus respondeu calmamente. — Vou tomar as providências pra esconder vocês.

Duncan ainda parecia cético, mas Emma estava claramente a bordo.

— O que precisam de nós?

— O máximo de detalhes possível sobre o lado de dentro — Marcus disse. — O ideal é saber onde fica a porta principal. Ninguém que esteve lá viu a saída.

— Sydney viu — disse Emma. — Fica no andar das solitárias, na sala de controle deles. Mas pelo que ela disse, tem um monte de gente lá.

— Imaginei — Marcus disse. — Faz sentido se for a única saída. Esse lugar parece correr um risco enorme de incêndio.

— E corre — Duncan concordou, um pouco relutante. — É por isso que tem tantos sprinklers no teto e alarmes de incêndio em todo lugar.

— Já aconteceu algum incêndio? — perguntei. Queria participar do plano, mas estava sendo difícil me concentrar em algo além do fato de que Sydney estava trancada sendo torturada em algum lugar. — Algum motivo pra evacuar vocês?

Emma olhou para Duncan atrás de uma resposta.

— Não — ele respondeu. — Acho que teve um incêndio na cozinha uma vez, uns anos atrás, mas eles agiram rápido pra apagar. Teria que ser muito sério pra tirarem todo mundo daqui.

Quase podia ver as engrenagens girando na cabeça de Marcus.

— Tem algum jeito de vocês criarem um incêndio? Têm acesso a alguma coisa inflamável? — ele perguntou.

— Sydney poderia botar fogo no lugar inteiro se estivesse livre — murmurei.

— Eles fazem de tudo pra minimizar nossa exposição a objetos inflamáveis — Emma disse. Houve uma leve mudança na expressão de Duncan, e ela também notou. — O quê, você sabe de alguma coisa que eu não sei?

Ele encolheu os ombros.

— Não importa.

— Importa sim! — Ela caminhou a passos largos até Duncan e bateu no peito dele. — Se sabe alguma coisa que pode ajudar, então fala! Deixa de ser tão covarde! Tenha esperança de que talvez haja uma saída desse lugar! Se não estivesse com tanto medo de ajudar Sydney a achar aqueles controles de gás, talvez ela não tivesse sido pega!

Duncan estremeceu como se tivesse levado um tapa na cara.

— Não tinha nada que eu pudesse fazer! Eles já estavam desconfiando dela.

— Então faça alguma coisa que valha a pena — Emma gritou. — Realmente quer passar o resto da vida desse jeito? Porque eu não. Quero sair. Não ligo se vai ser como foragida. É melhor do que viver presa desse jeito. Era assim que você devia pensar.

— Acha que não penso? — ele rebateu, furioso.

Ela ergueu as mãos.

— Quer saber? Não. Tudo o que vejo é que você é fraco. Até os alquimistas pensam isso.

Ele soltou uma risada áspera.

— Acha que é por isso que estou aqui?

— Você nunca sai da linha. Por que outro motivo te manteriam aqui por tanto tempo? — ela perguntou.

Ele não respondeu, mas Marcus sim.

— Porque ele é filho de Gordon e Sheila Mortimer.

Os olhos de Emma se arregalaram um pouco.

— Jura?

— Quem? — perguntei, confuso.

— Percebi quando encontrei seu nome completo — Marcus continuou. — Eles são líderes alquimistas muito poderosos, Adrian.

— Que não podem correr o risco de deixar o resto do mundo saber que o filho deles quebrou as regras pra ajudar um Moroi durante uma missão — Duncan acrescentou, amargurado. — Ele se virou para Emma. — É por isso que estou preso há tanto tempo e por isso que vou continuar preso. Mesmo se for o detento mais bem-comportado do mundo, meus pais não vão deixar meu passado vergonhoso voltar para assombrá-los.

— Então não deixe que eles vençam! — Emma exclamou. — Lute. Não deixe que te descartem desse jeito. Ajude a gente nessa. Por você. Por Chantal, quando a encontrar.

O nome não significou nada para mim, mas atingiu Duncan com força.

— Não tenho como descobrir onde ela está — ele disse, sombrio.

— Eu tenho — Marcus interrompeu. — Onde quer que ela esteja, tenho contatos em todo o mundo, muitos ligados a alquimistas. Pode demorar um pouco, mas a gente vai encontrar essa garota. Encontramos Sydney, não encontramos?

Duncan ainda parecia cético e Emma apertou sua mão.

— Por favor, Duncan. Faça isso. Dê uma chance. Comece a viver. Não deixe que eles tirem tudo de você.

Duncan fechou os olhos e respirou algumas vezes para se acalmar. Por mais ansioso que estivesse para salvar Sydney, não pude deixar de sentir um pouco de pena dele. Os alquimistas, mesmo os mais cretinos como Keith, costumavam ser pessoas brilhantes e competentes. Duncan sem dúvida já tivera a mesma capacidade — e provavelmente ainda tinha. Era terrível que pessoas como ele pudessem perder tanto as forças, e torci para que pudéssemos resgatar Sydney antes que fosse tarde demais.

— Sim — ele disse finalmente, abrindo os olhos. — Sim, sei como começar um incêndio.

Passamos o resto da noite fazendo planos. Marcus e os prisioneiros estiveram dormindo durante todo esse tempo, mas, quando o sonho acabou, logo antes do amanhecer, eu estava exausto. Havia ficado acordado a noite inteira e meus olhos, quando me vi no espelho, estavam tão vermelhos quanto os de um Strigoi. Eddie e Trey tinham dormido e estavam ansiosos para saber o que se passara durante a noite.

— Durma um pouco — Marcus disse. — Vou atualizar os dois durante o café e tomar as providências com os outros. Vai ser hoje.

Depois que os três saíram, deitei no colchão vagabundo, certo de que nunca dormiria estando tão perto de libertar Sydney. Era tudo em que minha mente conseguia pensar. Meu corpo, porém, estava exausto, e senti que tinham se passado apenas alguns minutos quando Marcus me acordou mais tarde.

— Bom dia, raio de sol — ele disse. — A cavalaria chegou.

Estreitei os olhos diante da luz da tarde e cumprimentei os reforços de Marcus — Sheila, Grif e Wayne. Eles tinham feito grandes planos enquanto eu dormia, me deixando descansar o máximo possível. Marcus me acordou para que explicasse meu papel aos recém-chegados, além de me informar dos pequenos ajustes que haviam sido feitos ao longo do dia. Não eram muitos, embora mais detalhes tivessem sido decididos, e a equipe de Marcus tivesse feito um bom trabalho de reconhecimento no lugar propriamente dito. Depois que tudo foi revisado, seguimos para a estrada e tive que aceitar a realidade impossível de que finalmente estava indo atrás de Sydney.

Somando meus amigos e os recrutas de Marcus, tínhamos uma verdadeira caravana. Ele tinha mandado um dos rapazes trazer uma van, em que pretendia levar a maior parte dos detentos. Depois de ver a relutância de Duncan, eu tinha questionado se conseguiríamos fazer com que eles viessem conosco, mas Emma me garantira que sim. Quando Sydney fora levada, Emma havia encontrado o restante da tinta de sal no quarto delas e usado para comprar a lealdade de mais alguns detentos.

— Eles vão fazer o que a gente disser — ela dissera com um sorriso irônico. — E vão garantir que todo mundo faça também.

A um quilômetro e meio do local, nossa caravana se dividiu em duas. Marcus, no meu carro, e seus parceiros, na van, foram para um local nos arredores, de onde fariam o restante do caminho a pé. Eddie, Trey e eu fomos direto para a porta da frente dos alquimistas, tendo na bochecha lírios dourados que Sheila pintara delicadamente e que ficaram idênticos aos verdadeiros. Essa parte do plano havia causado um pouco de polêmica, pois Marcus teria sido a escolha ideal para entrar e fingir ser alquimista. Seu rosto, porém, era tão conhecido que não podíamos correr esse risco, e eu não tinha a capacidade de alterar a minha aparência e a dele ao mesmo tempo com magia. Talvez se eu precisasse apenas me passar por outro Moroi que não Adrian Ivashkov, poderia disfarçar nós dois, mas precisei mudar a minha raça. Em condições normais, nenhum Moroi chegaria perto do prédio da reeducação.

Estávamos no Prius de Marcus (“É um carro que qualquer alquimista dirigiria”, ele tinha garantido) e seguimos direto para a entrada de carros, onde havia um cancela vigiada por um homem numa cabine. Ele deu uma olhada nos crachás alquimistas falsos que Marcus havia mandado fazer para nós e liberou a nossa entrada. Estava tudo indo de acordo com o plano. Marcus explicara que o guarda do portão não checaria os crachás em nenhuma base de dados eletrônica. Isso só aconteceria quando entrássemos no prédio em si.

— Você realmente não imagina o déjà-vu que estou sentindo agora — Eddie comentou, depois que paramos o carro. Havia outros carros parecidos e igualmente eficientes no estacionamento. — Isso me lembra de quando Rose, Lissa e eu tiramos Victor Dashkov da cadeia. É meio perturbador.

— A diferença é que ele era um criminoso calejado que merecia ficar na prisão — eu disse. — Agora estamos do lado da justiça, resgatando pessoas inocentes.

— Ah, eu sei — ele disse. — Só estava pensando que aquela fuga teve seus problemas, e só tiramos uma pessoa, não uma dúzia.

— Assim é mais fácil — Trey disse, com um sorriso. — Quer dizer, é tudo ou nada. Você não precisa ter a mesma sutileza de quando está tirando uma pessoa só. Nós vamos arrombar o lugar.

— Essa é a minha preocupação.

O saguão de entrada do suposto centro de pesquisa era científico e imponente. Toda a arquitetura era de metal e vidro, com fotos de paisagens desérticas emolduradas que, teoricamente, estavam relacionadas à função do lugar. Uma porta de vidro levava para a ala esquerda, onde, segundo os espiões de Marcus, viviam os alquimistas que trabalhavam no centro. Uma jovem estava sentada na recepção, de costas para uma porta mais sinistra e sem placa que haviam nos dito ser a entrada da reeducação.

— Minha nossa! — ela exclamou. — Nem vi vocês entrando pelas câmeras de segurança.

— Desculpe — eu disse, exalando carisma induzido por espírito. — Espero que a gente não tenha assustado você. — Um dos Vingadores de Marcus tinha passado no terreno mais cedo e encontrado um jeito de sabotar as câmeras exteriores, fazendo que repetissem as gravações, escondendo a aproximação de todos. Isso era bom para mim, pois meu disfarce de espírito não se sustentaria diante das câmeras, e bom para Marcus, cujo grupo nem estava tentando ser discreto.

— Não, de jeito nenhum. — A menina sorriu para mim, me mostrando que a ilusão estava funcionando. — O que posso fazer por vocês?

— Estamos aqui pra ver Grace Sheridan — eu disse, mostrando meu crachá. Eddie e Trey fizeram o mesmo. Conseguir o primeiro nome de Sheridan tinha sido outro milagre de Duncan.

A recepcionista arqueou as sobrancelhas enquanto pegava nossos crachás para passar no computador.

— Não me avisaram de nenhuma reunião. Vou ligar pra ela.

A conversa murmurada ao telefone foi mais ou menos o que esperávamos, assim como a surpresa dela quando checou nossos crachás e o computador disse que não existíamos.

— Nosso departamento é um pouco... como posso dizer... clandestino — Trey explicou. — Não existe registro nosso porque não gostamos de anunciar o que investigamos. No entanto, ficamos sabendo que houve um ressurgimento do nosso objeto de estudo aqui e que a senhorita Sheridan está envolvida no caso.

A recepcionista repassou a mensagem enigmática pelo telefone e desligou alguns segundos depois.

— Ela vai ver vocês. Por essa porta, por favor.

Entrei, sem saber direito o que esperar. Pelas histórias, arame farpado e correntes na parede não teriam me surpreendido. No entanto, os alquimistas ainda estavam mantendo o ar “científico casual” no térreo, pois a sala em que entramos seguia o mesmo estilo do saguão de entrada, com uma exceção.

Seis homens estavam de guarda, distribuídos estrategicamente em torno de duas portas: a do elevador e a da escada. Usavam ternos e tinham lírios dourados nas bochechas; eram alguns dos alquimistas mais fortes que eu já tinha visto na vida. O departamento de RH devia ter procurado muito para encontrar os espécimes mais musculosos à sua disposição. Mais intimidante, porém, era que cada um deles tinha uma arma visível — uma arma de verdade, daquelas capazes de matar, não uma daquelas tranquilizantes minúsculas que Marcus havia escondido nos bolsos de Trey e Eddie. Marcus dissera que a repercussão já seria grande o bastante se não deixássemos fatalidades e também não queria que inocentes se ferissem no meio do motim. (Nem preciso dizer que ninguém tinha sugerido me dar uma arma.)

Mantive um sorriso tranquilo no rosto, como se estivesse acostumado a ver um bando de guardas armados impedindo que um grupo de prisioneiros maltrapilhos fugisse ou pensasse por conta própria. O elevador soou e uma jovem elegante saiu dele. Ela tinha o tipo de beleza que sugeria que era capaz de enfiar uma adaga no seu coração sem parar de sorrir por um momento. Ela nos abriu um sorriso desses enquanto nos apresentávamos.

— Receio que os senhores me pegaram de surpresa — ela disse. Ela se debruçou um pouco para ler meu crachá. — Não estava esperando por vocês. Nem sabia que existia um Departamento de Transgressões Ocultas e Arcanas.

— Não fazemos muitas aparições, muito menos aparições públicas — eu disse, muito sério. — Mas, quando um desastre dessa magnitude chega à minha mesa, não temos escolha senão intervir.

— Desastre? — Sheridan perguntou. — Não precisa exagerar. Temos tudo sob controle.

— Está me dizendo que uma de suas detentas não usou recursos mágicos ilícitos para escapar do seu controle e conduzir ações que você ainda não consegue explicar? — perguntei. — Dificilmente chamaria isso de controle.

Ela ficou vermelha. Sério, eu merecia um Oscar por essas coisas.

— Como sabe disso?

— Temos olhos e ouvidos onde você nem imagina — eu disse. — Agora, vai cooperar com a nossa investigação ou preciso ligar para meus superiores?

Sheridan hesitou e então lançou um olhar constrangido para os guardas imperturbáveis.

— Vamos conversar aqui dentro — ela disse, apontando para o que parecia ser um pequeno escritório. Nós a seguimos e ela fechou a porta assim que entramos. — Escute, não sei quem está contando essas histórias a vocês, mas realmente temos tudo sob...

O disparo de um alarme de incêndio a interrompeu. Ele foi seguido por um som crepitante e uma voz surgiu de repente do pequeno rádio na cintura dela.

— Sheridan? Aqui é Kendall. Temos um problema.

Sheridan ergueu o rádio.

— Sim, ouvi os alarmes. Onde é?

— Múltiplos focos no segundo andar.

Sheridan levou um susto com a palavra “múltiplos”.

— Qual o tamanho deles? — ela perguntou. — Os sprinklers devem ser capazes de contê-los. — Ela olhou para o teto e pareceu surpresa. — O de vocês está ligado? Eles deviam ter disparado em todo o prédio em caso de incêndios múltiplos. Todo o lugar devia estar embaixo d’água.

— Não, não aconteceu nada ainda — a voz respondeu. — Vamos esperar? Ou quer evacuar o prédio?

Sheridan ficou olhando incrédula para o rádio e depois para o sprinkler inativo no teto. Duncan dissera que poucas situações fariam com que os alquimistas evacuassem o prédio, então fizemos de tudo para criar uma. Aparentemente, a professora de artes deles estava tentando parar de fumar e, junto com uma quantidade enorme de chicletes, guardava cigarros e fósforos em sua mesa. Combinando isso com um estoque de removedor de tinta, ele e outros detentos haviam começado incêndios simultâneos no andar dos quartos. Isso já seria perigoso em condições normais, mas um dos colegas de Marcus havia encontrado o controle exterior do sistema de água do centro e o sabotado para atrasar o ligamento dos sprinklers.

O rádio crepitou mais uma vez.

— Sheridan, ouviu o que eu disse? Devemos evacuar?

Ficou claro pelo rosto de Sheridan que ela jamais tinha esperado tomar uma decisão como essa. Depois de alguns segundos, finalmente respondeu:

— Sim, têm a minha autorização. Evacuem. — Ela nos lançou um olhar rápido enquanto avançava para a porta. — Com licença, temos uma emergência.

Na outra sala, os guardas estavam em alerta por causa das sirenes de incêndio.

— Temos um Código Laranja — ela gritou para eles. — Fiquem preparados. Vocês dois, tragam os detentos e os mantenham ali. Os outros, fiquem com as armas prontas e cuidado com...

O rádio ligou mais uma vez, desta vez com uma voz masculina.

— Sheridan, está aí?

Ela franziu a testa.

— Kendall?

— Não, aqui é Baxter. Tem alguma coisa errada. Os detentos... eles estão tomando controle... resistindo às nossas ordens...

Sheridan empalideceu.

— Mande o centro de controle iniciar o protocolo de emergência de gás. Apague todo mundo. Vamos pegar máscaras e mandar pessoal aí pra retirar vocês e...

— Já tentamos! O sistema está desativado.

— Desativado? — Sheridan exclamou. — Isso é...

A porta que dava para o saguão se abriu de repente, e Marcus e seus parceiros entraram às pressas, empunhando as armas de dardos. Elas podiam não ser tão letais quanto armas de verdade, mas foram eficazes, ainda mais por termos a surpresa do nosso lado. Eddie e Trey também sacaram as suas rapidamente e, em questão de segundos, os guardas estavam no chão. Só dois deles conseguiram disparar tiros — tiros que erraram de longe — antes de cair com os tranquilizantes. Marcus empurrou a recepcionista aterrorizada para dentro da sala e avaliou a situação. Mandou Grif e Wayne empilharem os corpos inconscientes no escritório enquanto Sheila vigiava Sheridan e a recepcionista. Desfiz o disfarce de espírito e as duas alquimistas levaram um susto ao perceber que estiveram conversando com um Moroi. O choque aumentou quando Sheridan olhou para Marcus e o reconheceu.

— Você! — ela vociferou.

Ela não teve chance de dizer mais nada. Momentos depois, a porta da escada se abriu e foi então que começou o verdadeiro caos. Um grupo confuso de detentos em uniformes cáqui foi saindo junto com funcionários alquimistas em roupas formais. Alguns detentos pareciam assustados e estavam sendo literalmente arrastados pelos colegas contra sua vontade, me lembrando da afirmação de Emma de que eles dariam um jeito de tirar todo mundo. Marcus rapidamente iniciou um sistema que era o oposto do que Sheridan pretendia para a evacuação, dividindo os detentos e alquimistas conforme iam saindo, e mantendo o segundo grupo, de alquimistas chocados, sob vigilância pesada. Fiquei olhando ansioso, com o maxilar tão cerrado que estava começando a doer. Ninguém que eu conhecia estava no primeiro grupo que subiu, mas isso era compreensível. Foi quando a quantidade de detentos começou a diminuir que meu nervosismo aumentou de verdade.

É agora, pensei. A qualquer momento, Sydney vai sair com Emma e Duncan.

E, então, Emma e Duncan saíram... sem Sydney.

— Como assim? — exclamei. — Cadê ela? Vocês disseram que a trariam!

— Tentamos — Emma exclamou. Ela jogou quatro crachás no chão. — Nenhum deles abre as portas no quarto andar. Não deviam ter acesso... por mais que eu já tenha visto essas pessoas indo para lá.

Me voltei para Sheridan, furioso.

— Por que as portas do quarto andar não estão abrindo? — berrei. — Quem tem acesso?

Sheridan recuou um passo.

— É lá que ficam os prisioneiros mais perigosos — ela disse, com o máximo de dignidade possível. — O sistema tranca automaticamente em ocasiões como essa. O acesso normal por cartões fica desativado. Eles são perigosos demais pra escapar.

Só então entendi o que ela queria dizer.

— Então vocês simplesmente deixam que morram lá? Vocês são doentes?

Os olhos dela se arregalaram de medo, mas não dava para saber se era da minha fúria ou da própria consciência.

— É um risco que assumimos; um risco que nossos próprios funcionários assumem. Dois deles estão trancados lá embaixo também, um com cada prisioneira.

— Vocês são ainda mais loucos do que eu imaginava — Marcus resmungou. — Algum crachá deve funcionar. O seu funciona? — Quando ela assentiu, relutante, ele o arrancou do seu terninho. — Os sprinklers devem ligar a qualquer momento. Quando ligarem, a gente desce e traz as pessoas. É improvável que o incêndio tenha se espalhado para aquele andar, mas as escadas vão estar...

— Hum, Marcus — Grif disse, com a voz tensa. — Os sprinklers já deviam ter ligado. Não defini o atraso para tanto tempo.

Marcus ficou boquiaberto.

— Como é? Você sabotou os sprinklers permanentemente?

— Foi sem querer! Era para ser só por tempo suficiente pra levá-los a investigar.

— Então volte lá e dê outra olhada — Marcus gritou. — E traga o guarda da cancela com você. — Grif saiu correndo.

Eu tinha ouvido o suficiente. Mais do que o suficiente. Sydney estava lá embaixo, trancada numa sala enquanto o incêndio devastava os três andares acima dela e poderia se alastrar para baixo. Cheguei perto de Marcus e peguei o crachá de Sheridan da sua mão antes de me voltar para ela.

— Quantas pessoas estão lá embaixo? Você falou duas prisioneiras e dois funcionários. Mais alguém?

Ela fez uma contagem rápida dos alquimistas amontoados.

— Todos os meus funcionários estão aqui — balbuciou.

— Também estamos todos aqui — Emma disse. — Inclusive os seis que tiramos das solitárias. Olhamos todas as celas.

— Certo — eu disse. Fui até a porta da escada e a abri com força. Embora não estivesse exatamente cheia de fumaça, havia uma leve névoa no ar que não era um bom sinal sobre o avanço do incêndio. — Vou buscar os outros quatro. Alguém vem comigo?

Na mesma hora, senti a presença de Eddie ao meu lado.

— Nem precisava perguntar.


17

Sydney

 

Demorei um tempo para entender que aquele barulho era o alarme de incêndio, não uma nova técnica de tortura.

Ao contrário do período de reflexão, quando os alquimistas abusavam de seu poder de nos fazer dormir quando bem entendessem, no andar da persuasão eles preferiam nos manter acordados. A estudiosa dentro de mim, que se lembrava vagamente de ter lido artigos sobre técnicas de tortura e interrogatório, entendia o porquê. Quanto menos descanso a pessoa tivesse, maiores eram as chances de falar algo que não pretendia. Na reflexão e mesmo no dia a dia com os outros detentos, eu nunca me sentia completamente descansada, mas aquilo por que vinha passando agora era muito pior.

Quando não estava sendo torturada e ouvindo as mesmas perguntas sem parar, era sujeitada a uma luz cegante e barulhos irritantes para garantir que não tivesse nenhum tipo de repouso real. Não havia necessidade do gás para me impedir de sonhar; eu nunca chegava perto o bastante do sono profundo para que isso fosse necessário. Logo perdi a noção do tempo novamente, e mesmo as refeições irregulares (de novo aquele mingau morno) e as pausas para o banheiro não ajudavam muito com isso.

Por mais excruciante que fosse a experiência, estava aguentando firme. Mantive a história de que estivera procurando uma saída na noite em que fui pega e me recusei a contar desde quando vinha praticando magia ou quem havia me ensinado. Era improvável que eles fizessem alguma coisa contra a sra. Terwilliger, mas não a colocaria em risco. Preferia deixar que me partissem ao meio a pronunciar o nome dela.

Quando o alarme soou e a pequena luz estroboscópica acendeu no canto do quarto, fui arrancada do frágil estado entorpecido em que estava. Essas horas eram raras e fiquei triste por terem acabado, ainda mais porque sabia o que estava por vir. Exceto a luz do alarme, a sala estava na escuridão absoluta, então não fazia ideia de quantas pessoas estavam lá até ouvir um homem falando num telefone ou rádio. Seu nome era Grayson e ele era minha companhia constante nas sessões de tortura e interrogatório, isso quando Sheridan não as executava pessoalmente.

— Alô? — ele disse. — Aqui é Grayson no P2. Tem alguém aí? Isso é uma simulação?

Não ouvi se ele obteve resposta. Depois de mais algumas tentativas, ele começou a mexer na porta, como se estivesse tentando abri-la.

— Alguma coisa não está indo de acordo com os planos alquimistas? — perguntei. Não sabia se ele tinha me ouvido por conta do barulho, ainda mais porque não tinha forças para falar muito alto. Mas então o ouvi bem ao meu lado.

— Cale a boca — ele mandou. — E reze pra conseguirmos sair daqui. Não que eu ache que suas orações vão funcionar.

A tensão em sua voz revelou mais do que suas palavras e me esforcei para fazer meu cérebro aturdido se concentrar e avaliar a situação. O que quer que estivesse acontecendo definitivamente não fazia parte de nenhum plano e os alquimistas odiavam quando alguma coisa dava errado. A pergunta era: aquilo era ou não uma vantagem para mim? Tudo era tão controlado na reeducação que seria preciso algo extraordinário para pegá-los de surpresa... e Adrian era a pessoa mais extraordinária que eu conhecia.

Depois que Grayson tentou se comunicar com o lado de fora mais algumas vezes, tomei coragem para perguntar:

— Realmente tem um incêndio?

Outros pontos de luz irritantes se acenderam, um iluminando Grayson e o outro bem em cima dos meus olhos.

— É bem provável. E, se tiver, é bem provável que a gente morra aqui — ele disse. Dava para ver o suor na testa dele e havia uma leve apreensão na sua voz, apesar do discurso frio. Ao notar meu olhar fixo e perceber que eu tinha visto sua fraqueza, ele fechou a cara. — Vai saber? Talvez nas chamas sua alma seja finalmente expurgada das...

Um estalo na porta precedeu sua abertura, e Grayson se virou, surpreso, interrompendo o discurso. Não conseguia ver o rosto dele, mas bem que queria ter visto quando ouvi uma voz conhecida.

— Sydney?

Meu coração pulou e uma esperança que eu não sentia havia muito tempo encheu meu coração.

— Adrian?

Essa esperança se dissipou imediatamente e, no lugar dela, senti a desconfiança nascida durante todas aquelas semanas de paranoia. Era um truque! Só podia ser um truque. Eu havia perdido contato com Adrian. Não havia como ter me encontrado tão cedo. Não havia como ter entrado ali. Devia ser mais um dos muitos truques alquimistas para tentar mexer com a minha cabeça... no entanto, quando ouvi sua voz novamente, tive certeza de que era ele.

— Que diabos vocês fizeram com ela?

Queria ver seu rosto, mas as amarras não permitiam. O que vi foi Grayson sacar o que parecia uma arma e apontá-la para a porta. Isso foi tudo que ele fez antes de a arma literalmente sair voando da sua mão e cair do outro lado da sala. Ele abriu a boca, incrédulo.

— Que obra do demônio é...

Alguém que parecia muito com Eddie entrou com tudo na sala escura, nocauteando Grayson. Os dois saíram do meu campo de visão, que, de repente, foi ocupado com a imagem mais linda que eu poderia imaginar: Adrian.

Por alguns segundos, a dúvida se aquilo era apenas mais uma ilusão produzida pelos alquimistas voltou a me atormentar. Mas não, ali estava ele, na minha frente. Adrian. Meu Adrian, olhando para mim com seus olhos verdes penetrantes. Senti uma dor no peito enquanto as emoções tomavam conta de mim. Adrian estava ali, e procurei algo para dizer, algum jeito de transmitir todo o amor e esperança e medo que vinham se acumulando dentro de mim nesses últimos meses.

— Você está de terno? — perguntei finalmente, com a voz embargada. — Não precisava se arrumar tanto pra mim.

— Quieta, Sage — ele disse. — Quem faz as piadas nas missões de resgate sou eu. — Seus olhos calorosos e cheios de amor encararam os meus por um momento, e achei que iria derreter. Então, eles se estreitaram ao ver as várias amarras me prendendo. — Céus, o que é isso? Alguma coisa da Idade Média? Precisa de chave? — Enquanto isso, ao fundo, Eddie e Grayson continuavam se atracando.

— Nunca vi os alquimistas usarem uma — respondi.

Ele precisou de algumas tentativas, mas finalmente descobriu como desfazer uma das amarras. Quando pegou o jeito, desfez as outras rapidamente e eu estava livre. Com cuidado, Adrian me ajudou a sentar, bem a tempo de ver Eddie prendendo Grayson no chão sob um dos pontos de luz. Eddie apontou a arma para a nuca dele, o que me surpreendeu a princípio, mas, mesmo sob a luz fraca, pude ver que havia algo de diferente naquela arma.

— Levante — Eddie disse, saindo de cima do alquimista. — Devagar. E ponha as mãos na cabeça.

— Prefiro morrer nas chamas a ser prisioneiro de uma criatura do inferno! — Grayson retorquiu, embora estivesse obedecendo.

— Relaxa, a gente não vai te levar como prisioneiro — Adrian disse. — Vamos salvar sua pele pra você ficar junto com seus coleguinhas.

Eddie olhou ao redor.

— Acha que tem algum tipo de corda pra amarrar os braços dele aqui?

— Tenho certeza — respondi. Comecei a sair da mesa, mas senti uma tontura repentina. Me voltei para Adrian. — Dê uma olhada naquele lado da sala. É lá que ficam os materiais.

Adrian foi correndo e primeiro encontrou algo igualmente útil: um interruptor que acendeu todas as lâmpadas da sala. A luz me fez estreitar os olhos depois de tanto tempo na escuridão, mas a maior visibilidade permitiu que ele encontrasse logo as prateleiras de equipamentos, incluindo amarras, que usou em Grayson. Vários controles e substâncias químicas também estavam nas prateleiras, além de cadeiras e óculos de visão noturna para os outros alquimistas poderem assistir ao show de tortura quando as luzes estavam apagadas. Ver aquilo me deu nojo e precisei desviar os olhos.

— Consegue andar? — Adrian perguntou.

— Vou conseguir — respondi.

Ele pôs um braço ao meu redor e minhas pernas ameaçaram ceder. Ele parecia estar compartilhando suas forças, físicas e mentais, comigo e, com a sua ajuda, fui avançando devagar para fora da sala. Eddie foi à nossa frente, empurrando Grayson num ritmo mais rápido. Quando chegamos ao corredor, os alarmes estavam disparados mas não havia sinal de incêndio. Eddie se voltou para o prisioneiro.

— Qual é o outro quarto ocupado? — Como Grayson não respondeu, Eddie se aproximou dele, furioso. — Fala logo, cara! A gente está tentando salvar seu colega.

— Prefiro morrer a renunciar à minha obrigação ou pedir sua ajuda — Grayson rosnou.

Eddie suspirou e entregou a arma para Adrian.

— Aponte pra ele enquanto eu olho os outros quartos.

Tinha quase certeza de que Adrian nunca havia usado nenhum tipo de arma na vida, mas ele conseguiu parecer convincente enquanto apontava aquela para Grayson. Me recostei na parede e fiquei olhando enquanto Eddie passava o crachá em cada porta, abria e olhava do lado de dentro. Na terceira, o vi pular para dentro do quarto. Não dava para ver o que estava acontecendo, mas ouvi os sons de uma briga.

Adrian me encarou, franzindo a testa enquanto me examinava mais de perto. Todas as melhoras que eu tivera depois de sair da solitária deviam ter se revertido com o novo cativeiro.

— Você não estava me falando a verdade. Todas as vezes que perguntei o que estavam fazendo com você...

— Eu não menti — eu disse, desviando o olhar.

— Simplesmente não contou — ele disse. — Quando foi a última vez que comeu?

Fui poupada de responder quando Eddie saiu apontando uma arma para outro alquimista. Dessa vez, era uma arma de verdade, então imaginei que ele a havia tirado do guarda.

— Amarre esse cara — Eddie falou para Adrian — e solte a menina lá dentro já que você é bom nisso. Não consegui entender como funciona.

Dei um aceno encorajador para Adrian, que parecia não querer me deixar sozinha. Depois de amarrar o segundo alquimista, Adrian desapareceu dentro do quarto. Olhei de soslaio para Eddie.

— Tem certeza de que não tem nenhum incêndio? Os alarmes ainda estão disparados.

— Ah, tem um incêndio sim — Eddie disse. — A gente só estava torcendo pra não chegar aqui porque está alguns andares acima. Pelo menos, estava.

Revirei suas palavras na cabeça para ter certeza de que havia entendido e não estava só alucinando no meu estado miserável. Tinha quase certeza de que sentia cheiro de fumaça, mas podia ser só a minha imaginação. Um minuto depois, Adrian saiu do quarto apoiando uma garota um pouco mais velha do que eu, que estava usando o mesmo uniforme cáqui. Meu primeiro pensamento foi: Estou tão mal assim? Não, concluí, de jeito nenhum. Estava mal, eu sabia, mas algo me dizia que ela estava lá havia muito, muito mais tempo do que eu. Seu rosto estava descarnado e pálido apesar da pele morena. Seu uniforme devia ser um número maior, o que sugeria que ela tinha perdido um peso considerável desde que o vestira, e seu cabelo preto estava precisando de uma boa lavagem e de um bom corte. Sua aparência lembrava a minha quando saí da solitária, só que dez vezes pior. Eu não tinha ficado nesse andar por tanto tempo e tinha a vantagem de ter dormido e me alimentado nas últimas semanas.

O rosto de Eddie se encheu de compaixão, mas seu caráter prático logo tomou conta.

— Vamos. Consegue ajudar as duas?

Me desencostei da parede e fiz sinal de que não precisava.

— Ajude a garota. Consigo andar devagar.

Adrian pareceu em dúvida, mas era óbvio que a garota precisava mais dele do que eu. Andei ao lado dela enquanto nosso grupo estranho atravessava o corredor e me peguei tentando tranquilizá-la sobre uma situação da qual não sabia nada.

— Está tudo bem — eu disse. — Vai ficar tudo bem. Vamos tirar você daqui. Como você se chama?

Seus olhos escuros e vazios continuavam encarando o nada. Talvez ela tivesse sobrevivido à tortura por tanto tempo desligando o som de vozes humanas.

— Ch-Chantal — ela disse. Sua voz era um murmúrio e eu não teria conseguido ouvir sobre o alarme se não estivesse tão perto dela.

— Chantal... — eu disse, sem fôlego. — Acho que conheço você. Quer dizer, sei quem você é. Conheço Duncan. Ele é meu amigo.

Uma chama minúscula, quase imperceptível, de vida surgiu em seus olhos.

— Duncan? Duncan está aqui?

— Sim, ele está esperando por nós. — Olhei para Adrian enquanto falava e ele confirmou com a cabeça, me dando ânimo. — Você vai se encontrar com ele em breve. Ele vai ficar muito feliz em te ver. Sentiu muito a sua falta. Não fazia ideia de que você estava aqui esse tempo todo.

Senti um arrepio ao ouvir minhas próprias palavras. Esse tempo todo. Duncan dissera que os alquimistas a tinham levado um ano antes. Será que ela ficara na área de “persuasão” por todo esse tempo? Era horrível. Não era à toa que estava daquele jeito. No entanto, o fato de que tinha sobrevivido à tortura e, pelo jeito, ainda representava ameaça suficiente para continuar trancada revelava muito sobre seu caráter. Talvez nós duas devêssemos nos sentir lisonjeadas de estar naquele clubinho exclusivo.

Eddie nos levou para a escada. O ar parecia limpo até abrirmos a porta e entrarmos no andar das solitárias. Fomos atingidos por uma parede de fumaça, densa e nociva, bloqueando o caminho até o centro de controle onde ficava a saída. Ele franziu a testa.

— Não esperava que fosse descer tão rápido, ainda mais se não está na escada.

Nenhum de nós falou nada, sem saber o que fazer. Foi uma surpresa quando Chantal foi a primeira a comentar.

— Veio pelo sistema de ventilação — ela murmurou. — Onde é o incêndio?

— No andar dos prisioneiros — Adrian respondeu.

Ela franziu a testa, pensativa, e parecia estar ganhando vida a cada segundo que passava.

— Então deve ser só fumaça. Claro... eu não devia dizer “só”. As pessoas costumam pensar que só o fogo é perigoso, mas estão erradas: a fumaça é tão letal quanto.

— Você é mesmo uma alquimista — Adrian disse, abrindo um sorriso que se desfez quando a fumaça foi soprada para perto dele. Ele começou a tossir.

Dei um passo à frente, ainda sem firmeza, mas relutante a fazer menos do que meus amigos tinham feito por mim. Não muito tempo antes, realizara feitiços de invisibilidade e encantamentos elementais... mas aquilo tinha sido depois de semanas de repouso moderado e uma dieta aceitável. Será que conseguiria fazer o que queria agora, tão fragilizada fisicamente? Mais uma vez, não tinha nenhum componente de feitiço para me ajudar com a magia. Tudo dependia da intenção e das palavras. Lembrando da invocação do ar que tinha feito para a tinta de sal, usei esse elemento agora e ergui o braço. Uma brisa muito leve saiu da minha mão e, aos poucos, começou a afastar a fumaça de nós. Era um processo delicado, visto que não me atrevi a invocar nada mais forte para não alimentar nenhuma brasa invisível. Foi também muito mais cansativo do que imaginava. Antes de chegar ao meio do caminho, minhas pernas começaram a tremer e precisei usar a outra mão para me apoiar na parede. Os dois alquimistas me olhavam com repulsa e provavelmente teriam feito o sinal contra o mal se não estivessem com as mãos atadas.

Finalmente a fumaça foi afastada, abrindo caminho até a sala de controle. Adrian ignorou quando eu disse que estava bem e me segurou com um braço, enquanto continuava apoiando Chantal com o outro. Eddie parecia querer ajudar mas não se atreveu a baixar a guarda diante dos dois alquimistas amarrados. Ele mandou que os dois entrassem na sala e, depois, atravessassem a misteriosa porta que eu tinha visto na minha investigação noturna. Outra escada nos levou para cima...

... e vi a luz do sol pela primeira vez em quatro meses.

Fiquei tão extasiada que parei de andar, fazendo Adrian tropeçar. Do outro lado dele, os olhos de Chantal estavam igualmente arregalados enquanto ela também contemplava a luz que entrava pela pequena janela da sala. Tons de dourado e laranja sugeriam que era quase pôr do sol.

— É linda — murmurei.

— Concordo — Adrian disse, e vi que seus olhos estavam pousados em mim.

Abri um sorriso, querendo dizer mais, mas a sala também estava repleta de outras preocupações — como todos os alquimistas da reeducação em um canto, sendo vigiados por Marcus, Trey e outro cara.

— Cadê todo mundo? — Eddie perguntou.

— Cadê Duncan? — Chantal perguntou.

— Mandei Sheila levar todos pro abrigo — Marcus disse. — Achei que seria melhor tirar todo mundo daqui. — Ele abriu um de seus sorrisos de estrela de cinema. — É bom ver você ao vivo, Sydney. — Apesar do sorriso luminoso, notei uma faísca de raiva em seus olhos. Assim como Adrian, ele também havia notado minha aparência destruída.

— Abrigo? — Sheridan murmurou, furiosa. Eu não a tinha notado antes. — Realmente acham que existe algum lugar seguro onde não vamos...

Suas ameaças foram interrompidas quando Chantal se soltou de Adrian aos berros e tentou atacar Sheridan.

— Você! — Chantal gritou. — Você fez isso comigo! Sempre foi você, não importava quem estivesse fazendo. Era você quem dava as ordens! — Havia um desespero animal nela e senti uma pontada no peito, me perguntando se aquela seria eu se tivesse ficado trancada por tanto tempo.

Seu ataque não durou muito, pois os outros alquimistas cercaram Sheridan para protegê-la. Corri para a frente, ainda fraca, e tentei puxar Chantal de volta o mais suavemente possível.

— Acabou — eu disse. — Deixe para lá.

— Você sabe o que ela fez! — O ódio e a dor no rosto de Chantal refletiam algumas das emoções mais sombrias dentro de mim, as quais ainda não havia exprimido. — Você sabe como ela é um monstro!

— Nós não somos os monstros neste mundo — Sheridan murmurou. — Estamos lutando contra eles e você traiu sua própria espécie.

Chantal avançou novamente e, dessa vez, Adrian me ajudou a segurá-la.

— Acabou — insisti. — Ela não pode te machucar mais.

— É isso que você pensa, Sydney? — Um olhar de desprezo desfigurou o rosto delicado de Sheridan. — Realmente acha que vai sair impune disso tudo? Você não tem pra onde ir. Nenhum de vocês tem pra onde ir, muito menos você, Sydney. Isso é tudo culpa sua e nenhum alquimista vai descansar até...

Novamente, seu momento dramático foi interrompido, dessa vez quando os alarmes de incêndio se calaram e o sistema de sprinklers foi ligado.

— Ora, ora — disse Marcus, enquanto éramos todos banhados pela água. — Acho que Grif conseguiu consertar.

— A gente devia dar o fora daqui — disse um ex-alquimista que eu não conhecia. — Mesmo se os reforços deles estiverem a quilômetros de distância, é possível que alguém tenha feito uma ligação.

Marcus concordou com a cabeça.

— Vamos só cuidar para que todos fiquem presos.

— Aqui — Adrian disse. Ele esvaziou o bolso do paletó, onde havia dezenas de amarras. — Pensei que algumas a mais poderiam ser úteis.

Trey e o colega de Marcus amarraram os alquimistas, enquanto o próprio Marcus coletava todas as armas que conseguia encontrar.

— Eu é que não vou deixar tudo isso aqui. Vamos levar e destruir todas. — Ele examinou o trabalho de sua equipe e assentiu. — Vamos embora.

Me virei para seguir, mas a voz de Sheridan me fez parar.

— Você não tem pra onde ir! — ela gritou. — Você não vai sair impune!

Olhei para trás, mas, antes de responder, um objeto pequeno chamou minha atenção. Na briga com Chantal, dois botões da camisa de Sheridan tinham se aberto. Avancei a passos largos e ergui a mão, fazendo-a se encolher. Ela obviamente pensou que eu iria lançar algum feitiço contra ela. Em vez disso, arranquei o colar de Adrian de seu pescoço.

— Isso — eu disse — é meu.

— Você não merece isso — ela murmurou, furiosa. — Não pense que está segura. Você acaba de substituir Marcus Finch e se tornar a alquimista mais procurada.

Não respondi e simplesmente pus a cruz no pescoço. Em seguida, dei as costas para ela e segui meus amigos sem olhar para trás.

Mesmo se pondo, o sol estava escaldante lá fora e nossas roupas molhadas se tornaram uma bênção inesperada.

— Onde estamos? — perguntei.

— No Vale da Morte — Marcus respondeu. — Não podemos negar que os alquimistas têm jeito pro drama.

— Ou o terreno era barato — eu disse.

Trey me surpreendeu me envolvendo de repente num abraço apertado.

— Não faz ideia de como senti sua falta, Melbourne.

Senti meus olhos se encherem de lágrimas.

— Também senti a sua. Obrigada... obrigada por isso. Não sei como agradecer.

— Não precisa agradecer. — Ele franziu a testa enquanto me olhava da cabeça aos pés. — Exceto talvez descansando bastante e arranjando alguma coisa pra comer.

Outro abraço me envolveu e Marcus tomou o lugar dele.

— Quem você pensa que é? — ele disse, com um sorriso largo. — Me substituindo na lista de procurados?

Retribuí o sorriso, escondendo como as palavras de Sheridan haviam me aterrorizado.

— Obrigada, Marcus. Desculpe por ter dito que você só fala e não age. — Apontei para a nossa volta. — Essa... essa é uma ação e tanto.

— Bom, você foi uma grande inspiração para mim e para os outros — ele disse. — E provavelmente pro grupo que a gente tirou daquele lugar também.

Eddie foi o último a sair e, enquanto olhávamos um para o outro, as lágrimas finalmente jorraram dos meus olhos.

— Eddie, desculpe por ter mentido pra você naquela noite.

Ele balançou a cabeça e me puxou para perto. Sua voz estava embargada.

— Desculpe por não ter impedido que te levassem. Desculpe por não ter sido proteção suficiente.

— Ai, Eddie — eu disse, fungando. — Você é a melhor proteção. Ninguém poderia ter um guardião melhor que você. Nem um amigo melhor.

Até Marcus pareceu comovido.

— Odeio interromper, mas a gente precisa dar o fora daqui. Podemos rir e chorar no ponto de encontro.

Limpei os olhos e dei um último abraço rápido em Eddie.

— Me faça um favor — eu disse para ele. — Volte pra Jill.

— Claro — ele disse. — Vou voltar assim que todo mundo estiver em segurança. É meu dever.

— Não estou falando pra voltar porque é seu dever. Volte porque ela é o seu verdadeiro amor.

Seu queixo quase caiu. Acho que ninguém nunca tinha falado com ele sobre isso diretamente, mas, depois de tudo por que eu tinha passado, ficar fazendo rodeios parecia uma perda de tempo. Dei um passo para trás para ficar perto de Adrian e o rapaz chamado Grif ergueu um chaveiro.

— Aproveitei pra trazer o Mustang pra cá. Quem vai nele?

— A gente — eu disse, surpreendendo a todos. Peguei as chaves da sua mão. — Quer dizer... vocês têm outro carro?

— Um Prius — Adrian disse, com uma careta.

Fiz uma contagem mental, verificando que todos caberiam e, em seguida, abri o que esperava ser um sorriso apaixonado.

— Tudo bem se Adrian e eu formos no Mustang e encontrarmos vocês lá? Eu... queria ficar sozinha com ele um pouco.

— Minha perna não cabe naquele carro — Trey reclamou. Então viu minha expressão e seu rosto se suavizou. — Mas longe de mim ficar no caminho do amor verdadeiro. Vou sofrer pelo bem da sua felicidade, Melbourne. Como sempre.

Adrian pegou uma mochila do Prius e deu as chaves para Marcus. Em troca, Marcus me presenteou com algo inesperado.

— Mandei fazer isso um tempo atrás — ele explicou. — Já fique com elas, por via das dúvidas. Vou fazer para os outros detentos também.

Ele me entregou duas carteiras de motorista. Uma era a minha original de Utah, que eu quase nunca usava em Palm Springs vivendo como Sydney Melrose. Fiquei surpresa por ele ter conseguido pegar uma cópia com o departamento de trânsito. Mas isso não me espantou tanto quanto a segunda carteira, uma falsa de Maryland com um codinome inesperado.

— Sério? — perguntei. — Misty Steele?

Marcus encolheu os ombros.

— Foi sugestão de Adrian.

— É o nome de uma garota durona — Adrian insistiu.

Dei um abraço rápido de agradecimento em Marcus. Uma coisa que havia aprendido entre os alquimistas era que, para se esconder no mundo moderno, documentos de identidade eram fundamentais. Era difícil encontrar bons documentos falsos, mas o trabalho feito no de Misty Steele era impecável. Marcus e os outros entraram no outro carro, e Eddie me lançou um último sorriso de despedida que quase me fez chorar de novo.

— Nunca pensei que veria Castile chorar — Adrian disse, dando partida no Mustang. — Ele ficou bem comovido com essa história toda. Quer dizer, todo mundo ficou, mas ele se sentiu muito culpado. Nunca se perdoou por deixar você ser levada.

— Tomara que consiga agora — eu disse, colocando o cinto de segurança. — Porque vai acontecer de novo. Nós não vamos com eles pro abrigo.


18

Adrian

 

Por um momento, fiquei ainda mais apaixonado por ela. Era impossível não admirar uma mulher que havia acabado de sair de condições terríveis e assustadoras e usado magia sem pestanejar, isso sem falar de como se mantivera forte diante de seus torturadores. Outra pessoa poderia ter chorado e falado sobre todos os seus sofrimentos. Mas não Sydney. Ela não só estava pronta para agir como estava pronta para contestar planos seguros, bem pensados e executados com cuidado.

Era admirável. E também fora de cogitação.

— Sydney, não. Marcus tem tudo sob controle. O que acabamos de fazer, o planejamento que aquilo envolveu... Eddie e eu ajudamos, mas a maioria do trabalho ficou por conta de Marcus. Foi tudo ideia dele. Ele pesquisou sobre esse lugar onde a gente vai se encontrar. É um abrigo seguro até ele arranjar um jeito de esconder todos pelo mundo. — Como ela ainda parecia obstinada, acrescentei: — É isso que ele faz. Ele esconde pessoas. Ele se esconde! Sabe o que está fazendo.

— Ele esconde algumas pessoas de cada vez, Adrian — ela disse, com calma. — Nunca mais de dez ao mesmo tempo. Não vai ser fácil e ele vai precisar de um tempo até dividir todo mundo. As pessoas que acabaram de sair da solitária não podem ficar sozinhas! Elas precisam de orientação, não só de um lugar pra se esconder. Ele é perfeito pra elas, mas eu sou um risco.

Do outro lado do estacionamento, vi o Prius sair. Eu sabia onde era o ponto de encontro, mas precisávamos ir atrás logo.

— Sydney, você é o principal motivo de ele ter preparado toda essa operação e resgatado todo mundo.

— E agora vou colocar todo mundo em risco. — Ela olhou para mim, com os olhos castanhos muito sérios sob a luz do poente. — Adrian, você ouviu o que Sheridan disse. Sou o alvo deles agora. Se os alquimistas tiverem a menor suspeita do meu paradeiro, vão lançar tudo que têm contra mim... e contra os outros, se eu estiver com eles. É mais seguro pra eles se nós dois formos embora sozinhos. E também vai ser mais fácil pra nós desaparecer sozinhos.

Esse era um argumento convincente, muito mais do que a segurança dos outros. Não que eu fosse um cretino sem coração que não se importava com eles — é claro que me importava. Odiava que tivessem passado por aquilo. Mas minha maior prioridade sempre fora Sydney, e realmente seria mais fácil para duas pessoas desaparecerem do que vinte. A questão era: ter um bom plano compensava os números? Porque, naquele momento, um plano era a única coisa que nos faltava.

— Aonde sugere que a gente vá? — perguntei finalmente.

— Não sei — ela admitiu. — Primeiro precisamos nos distanciar desse lugar dos infernos. Não sei ainda se é mais seguro ficar nos Estados Unidos ou não. Não estou dizendo que nunca mais vamos pedir a ajuda de Marcus. É bem possível que a gente precise dele. Mas se nos separarmos, os alquimistas podem nos perseguir em vez de perseguir os outros.

— É isso que você quer? — perguntei, surpreso.

— Não, claro que não. Não quero que eles sigam nenhum de nós. Mas se seguirem, acho que seria mais fácil pra gente despistar os alquimistas do que pra eles. — Ela franziu a testa, pensativa. — Certo, pegue a estrada e me deixe ver seu celular. — Entreguei o celular pra ela e entrei na pista, mais do que contente de ir embora daquele lugar. — Pra onde ele está levando os outros? — ela perguntou.

— Pro sul. Em direção ao México, mas planejamos nos encontrar de novo a uma hora do Vale da Morte. Ele não sabe se vai atravessar a fronteira ou não, mas tem um lugar lá perto que vai usar como esconderijo temporário.

Ela assentiu e viu algumas coisas no celular antes de abaixar o aparelho.

— Certo, então vamos para o norte. Nordeste, na verdade. — Eu não conseguia olhar para ela sem tirar os olhos da estrada, mas podia ouvir o sorriso em sua voz. — Você ainda é bom em pôquer?

— Por quê? Finalmente vai jogar strip pôquer comigo? Cansei de te pedir.

— Não. Ainda não. Mas vamos precisar de dinheiro e Nevada está perto. Aposto que vai ter cassinos assim que a gente cruzar a fronteira.

— Tem sim — eu disse. — Passei por lá duas vezes essa semana. Mas não tenho muito pra oferecer como aposta. Se quiser uma fortuna da noite pro dia, não tenho como ajudar.

— Um quarto de hotel, comida e roupas novas já são suficientes.

— Isso eu consigo. Mas... — Olhei de soslaio para ela. — Achei que você não aprovasse que eu usasse espírito pra jogar baralho. — Claro, eu não conseguia ler a mente das pessoas, mas ver as auras era quase a mesma coisa. Sempre sabia quem estava blefando e quem estava falando a verdade.

Ela suspirou e se recostou no banco.

— E não aprovo. Não aprovo você usando espírito pra nada. Mas estamos em circunstâncias fora do comum. Talvez, quando tudo isso acabar, e estivermos seguros, você possa voltar com a medicação.

— Você não estaria comigo se eu ainda estivesse tomando os remédios — eu disse, baixinho.

— Eu sei... e você sabe como estou grata. Mas a gente pode lidar com a questão do espírito depois...

— Agora temos problemas maiores? — completei.

— Pra mim nada é maior do que você — ela disse com firmeza. — Como está se sentindo? No sonho disse que parou com os remédios assim que me levaram. Foi difícil? Você parece bem, parece que está controlando as mudanças de humor.

Havia um tom de esperança em sua voz e não consegui dizer que o motivo de minhas mudanças de humor estarem sob controle era que haviam sido substituídas pela ilusão da minha tia morta.

— Estou inteiro, não estou? — eu disse, não muito sincero. — Não tente mudar de assunto. Você passou por um inferno muito pior do que o meu.

— A gente não precisa falar disso agora — ela disse.

Ficamos em silêncio, ambos guardando segredo do que havíamos sofrido na ausência um do outro. Me perguntei se estávamos tentando proteger um ao outro ou se simplesmente não queríamos admitir nossos medos e fraquezas. Não que eu achasse que Sydney tinha alguma fraqueza. Mas vira sua aura no centro de reeducação, quando ela estava perto dos outros alquimistas, e definitivamente havia um ar de medo em volta dela e dos outros detentos. Sabia que ela devia ver esse medo como uma fraqueza.

— Bom — eu disse, tentando reanimá-la. — Pelo menos abra seus presentes.

— Você me comprou um presente de “parabéns por sair da reeducação”? — ela perguntou.

— Não exatamente. Dá uma olhada naquela sacola ali.

Ela pegou a sacola e soltou uma exclamação de surpresa ao abri-la.

— Meu Deus! Se tivesse esses amuletos na reeducação teria sido muito mais fácil... Pulinho!

Pelo canto do olho, a vi erguer o dragãozinho dourado. Quando ela voltou a falar, achei que pudesse começar a chorar.

— Ai, Pulinho. Pensei muito nele, sabe. Fiquei me perguntando o que tinha acontecido e o que ele devia estar passando... — Ela começou a recitar as palavras de um feitiço mas então parou. — Ele vai estar com fome. Vamos esperar até pegarmos um pouco de comida de verdade. Seria bom pra mim também.

— Isso consigo pagar antes do pôquer — eu disse. — Do que você está a fim? Filé? Sushi? É só dizer que será seu.

Ela riu.

— Nada tão chique pra mim. Nem acho que meu estômago aguentaria depois... — Seu sorriso se desfez.

— Depois do quê? — perguntei baixinho.

— Outra hora — ela disse. — Outra hora a gente conversa sobre isso.

Suspirei.

— É o que você sempre diz. Quando vai chegar essa outra hora?

— Quando estivermos a mais do que alguns minutos dos alquimistas — ela retrucou. — Precisamos nos concentrar na fuga.

Ela tinha razão, mas eu não gostava disso. Pelo contrário, ao longo do trajeto, fui ficando cada vez mais perturbado, sem saber exatamente o que ela havia sofrido. Ela tinha dito que me amava e que sentira a minha falta e que nada a fazia mais feliz do que estar comigo de novo. Eu acreditava nisso, mas não conseguia esquecer o passado tão rapidamente.

Tia Tatiana sussurrou: Tem certeza? Talvez você não queira saber o que aconteceu com ela. Viu como eram as coisas lá dentro. Quer a confirmação das torturas que ela sofreu?

Se Sydney foi capaz de viver aquilo na pele, então consigo pelo menos ouvir como foi, respondi em silêncio. No entanto... me perguntei se minha tia fantasma tinha razão.

Entramos em Nevada cerca de uma hora e meia depois, sem sinal de perseguição. No entanto, assim que paramos em um pequeno hotel ao lado de um cassino, recebemos uma ligação de Marcus.

— Vocês se perderam? — Marcus perguntou. Ele não parecia bravo, mas algo em sua voz deixava claro que sabia perfeitamente que não tínhamos nos perdido.

— A gente fez um desvio — eu disse alegremente.

Ele resmungou.

— Adrian, a gente conversou sobre isso! Tudo correu perfeitamente até agora. Por que vocês desviaram do plano?

— Hum, porque é o que a gente sempre faz?

Sydney tirou o celular da minha mão antes que eu desse alguma explicação mais razoável. Ela usou os mesmos argumentos que tinha usado comigo, mas Marcus não foi afetado por seus lindos olhos como eu. Estava claro que não tinha se convencido ao fim da ligação, e Sydney desligou com um vago:

— Depois a gente conversa com ele.

Me ofereci para pagar o jantar, mas ela não queria nem ir à recepção do hotel com aquelas roupas cáqui, muito menos comer em público. Fiz o registro de entrada no hotel e descobri que só tinha dinheiro suficiente para uma suíte pequena. Não era nada glamorosa — obviamente nada tão chique quanto a pousada em que tínhamos ficado quando nevou na Pensilvânia —, mas o banheiro era maior do que os quartos normais do hotel. Eu podia não saber todos os detalhes do que ela havia sofrido, mas sabia o bastante para achar que merecia algo melhor.

A cara que ela fez ao sentar na cama confirmou isso. Era uma cama normal, mas ela deu um suspiro de prazer como se fosse feita de penas de asas de anjos. Ela se deitou no colchão e fechou os olhos.

— Isso... é... maravilhoso — ela disse. Deitei ao seu lado e senti meu peito inchar de alegria. Houve um tempo em que achava que só havia uma atividade que poderia querer na cama com ela. Mas, agora, não havia prazer maior do que simplesmente olhar para ela e ver que estava contente e segura ao alcance dos meus braços. Depois de tanto tempo separados, sua simples presença era um milagre.

— Tem um shopping do outro lado da rua — eu disse. — Vou lá comprar umas coisas pra gente... a menos que queira ir comigo? Fico preocupado de deixar você sozinha...

Ela balançou a cabeça.

— Vou ficar bem. Além disso, tem um amuleto na sacola da sra. Terwilliger capaz de abrir um buraco naquela parede. Só volte logo.

Era a minha intenção. Atravessei a rua correndo, só percebendo no meio do caminho que estava violando regras básicas de segurança Moroi saindo sozinho à noite numa área desconhecida. Éramos ensinados desde criança que ficar sozinho à noite em áreas conhecidas já era perigoso. Nunca teria imaginado que chegaria a um ponto da vida em que os Strigoi não fossem minha maior preocupação quando o assunto era segurança pessoal.

Já tinha tirado a roupa de Sydney tantas vezes que sabia seu tamanho de cor, e comprei algumas roupas básicas e cosméticos. Num mercadinho ao lado, escolhi uns sanduíches de peru e vários lanchinhos, torcendo para que fossem leves o bastante depois do que o estômago dela havia sofrido. Parei por aí, já que ainda precisava de dinheiro para as fichas de pôquer. Todo o trajeto durou uns vinte minutos, mas, quando voltei para o hotel, Sydney não estava na sala nem no quarto da suíte. Meu coração parou. Me senti como um personagem de conto de fadas que acabava de acordar e descobrir que tudo que pensava ter conquistado não passava de um sonho que se desfazia diante dos seus olhos.

Então notei que a porta do banheiro não estava bem fechada e que a luz estava acesa. Hesitei do lado de fora.

— Sydney?

— Pode entrar — ela disse.

Abri a porta e quase fui nocauteado pelo cheiro nauseante de jasmim. Sydney estava na banheira, com bolhas quase até o pescoço, e o banheiro parecia uma sauna.

— Tem certeza de que a água está quente? — perguntei, vendo o vapor pairando no ar.

Ela riu.

— Mais quente impossível. Você não imagina quanto tempo faz desde que me sinto quente de verdade. — Seu braço fino saiu da água e pegou uma pequena garrafa plástica com o logo do hotel. — Ou que sinto um cheiro... bom. Era tudo tão estéril na reeducação, quase como um hospital. Perdi um pouco a noção e joguei o frasco todo.

— A gente manda trazer mais um se você gostou tanto. — Peguei o frasco e li o rótulo. Era só um gel de banho comum. — Ou compramos um perfume de jasmim de verdade depois que eu ganhar no pôquer.

— Você não entende — ela disse, voltando a se afundar nas bolhas de sabão. — Depois do que sofri... isso já é luxo. Não preciso de nada mais caro.

— Talvez a gente possa conversar sobre o que você sofreu — sugeri. — Você pode me ajudar a entender.

— Outra hora — ela disse, evasiva. — Prefiro comer alguma coisa, se você tiver trazido.

— E deixar seu caldeirão fervente?

— Vou ter outros banhos — ela disse, simplesmente. — E já consegui depilar as pernas, o que era parte do meu objetivo. Quatro meses. Eca.

Então ela levantou de repente, me deliciando com uma visão de seu corpo nu, exceto por algumas bolhas de sabão e um pouco de espuma. Aqueceu meu coração — e meu sangue — saber que as coisas não haviam mudado a ponto de ela ficar com vergonha perto de mim. Mas precisei me esforçar para não demonstrar surpresa. Tinha notado que ela perdera peso quando a tiramos do centro, mas não quanto. Quase podia contar suas costelas, e mesmo ela, com seu histórico de controle de peso obsessivo, devia saber que havia ultrapassado os limites do que era saudável.

— Não era o que você esperava, né? — ela perguntou, com a voz triste.

Coloquei uma toalha ao seu redor e a puxei para perto de mim.

— Eu esperava ver a mulher mais linda do mundo, sentir meu coração bater mais forte diante dela e querer levá-la pra cama para uma noite inesquecível. Então, pra responder a sua pergunta, sim, é exatamente o que eu esperava.

Um sorriso se abriu em seus lábios e ela me abraçou.

— Ai, Adrian.

Na sala, mostrei minhas compras e ela riu enquanto as examinava, parando ao pegar uma camiseta magenta.

— Já me viu usando essa cor alguma vez na vida?

— Não — respondi. — E já passou da hora, ainda mais depois daquilo ali. — Apontei para o uniforme cáqui no chão. — Que a gente vai queimar, aliás.

Sydney riu de novo, e era o som mais maravilhoso que eu já tinha ouvido. Ela pegou a camiseta magenta e um short branco.

— Você é incrível — ela disse.

No entanto, quando nos sentamos para jantar, descobri que eu não era o único no seu coração. Ela invocou Pulinho de seu estado inerte e lágrimas caíram de seus olhos quando ele se transformou de uma estátua dura e cintilante em um bichinho fraco de escamas apagadas que estava quase tão esquelético quanto ela. Ela o embalou perto do peito, dizendo o tipo de coisa que as pessoas dizem para consolar animais de estimação e crianças pequenas. Disse várias e várias vezes que tudo ficaria bem agora, e me perguntei se estava falando aquilo para ele ou para si mesma. Ela ficava dando pedacinhos do seu sanduíche de peru para ele e já estava na metade quando finalmente percebi o que estava acontecendo.

— Ei, ei — eu disse. — Guarde um pouco para você.

— Ele está morrendo de fome — ela disse. — Não consegue nem pedir comida com aquele gritinho que costumava dar.

— E essa camiseta PP está grande em você. Termine seu sanduíche e ele pode ficar com os meus farelos.

Relutante, ela o entregou para mim e Pulinho me olhou feio por privá-lo da atenção dela. Eu também adorava aquele bicho, mas a saúde de Sydney era mais importante. Ela comeu o resto do sanduíche sob meu olhar atento mas não tocou em nenhum dos doces que eu havia trazido, por mais que eu insistisse. Gostaria que tivesse comido todos, mas achei melhor não comentar o quanto ela precisava de açúcar e gordura.

Pulinho dormiu logo em seguida e achei que Sydney dormiria também. Em vez disso, ela me chamou para o quarto e me levou para a cama.

— Tem certeza de que não quer descansar? — perguntei.

Ela pôs os braços em volta do meu pescoço.

— Preciso de você.

Nossos lábios se encontraram no primeiro beijo de verdade desde que ela fora levada embora. Meu sangue ardia, me lembrando de como a saudade havia sido agonizante. O que eu tinha dito era verdade: a magreza dela não importava. Ela ainda era a mulher mais linda do mundo para mim e não havia ninguém que eu desejasse mais. Além disso, não havia ninguém em cuja presença eu parecia mais certo. Mesmo no meio da nossa fuga do Vale da Morte e naquelas condições incertas, eu tinha certeza de que, simplesmente por estar com ela, nada era impossível.

Desci a boca para beijar seu pescoço e retirei mentalmente o que havia dito sobre aquele gel de banho ser barato. O aroma de jasmim misturado ao seu cheiro natural era inebriante, muito melhor do que qualquer perfume que eu pudesse ter comprado. Suas pernas eram como seda sob meu toque, e fiquei espantado com a rapidez com que meu desejo cresceu, e ainda mais espantado quando o mesmo aconteceu com ela. Fiquei com medo de que fosse cedo demais, mas, quando tentei dissuadi-la de novo, ela me puxou mais pra perto.

— Você não entende — ela murmurou, passando a mão no meu cabelo. — Não entende o quanto preciso disso, o quanto preciso de você, de lembrar que estou viva e apaixonada. Eles tentam tirar tudo da gente naquele lugar, mas eu nunca esqueci. Nunca esqueci de você, Adrian, e agora que estamos aqui, eu...

Ela não conseguiu terminar a frase, mas não precisava. Eu sabia exatamente o que ela queria dizer. Voltamos a nos beijar, o tipo de beijo que nos ligava um ao outro de uma maneira que era muito mais do que física. Eu estava tentando tirar sua camiseta quando ela parou de repente e perguntou, sem fôlego:

— Você comprou aquilo na loja, certo?

Meu cérebro estava aturdido demais de desejo para entender o que ela estava perguntando.

— Hum? Comprei um monte de coisa.

— Camisinha — ela disse, enfática. — Não tinha uma farmácia do outro lado da rua? Devia ter mais opções do que na outra loja.

— Ah... Isso. Hum, não, não comprei. Esqueci.

Antes de ser levada, Sydney estava tomando pílula e eu nunca precisava pensar em anticoncepcionais. Acho que ela preferia assim, uma vez que não confiava em mais ninguém para cuidar de algo tão importante. Suspirei.

— Não ganho pontos por ficar mais preocupado em te alimentar e te vestir com roupas coloridas do que em te levar pra cama?

Ela me deu um selinho e sorriu.

— Ganha muitos pontos. Mas, infelizmente, não ganha isso.

Me aproximei dela e afastei os fios dourados de cabelo dos seus olhos.

— Faz alguma ideia de como estou dividido agora? Quero dizer, é óbvio que estou decepcionado... mas, ao mesmo tempo, estou ainda mais apaixonado por você por continuar sendo tão meticulosa e cuidadosa, apesar de tudo que aconteceu.

— Jura? — Ela se virou para que eu pudesse pousar a cabeça no seu peito. — Você me ama pela minha natureza meticulosa e cuidadosa?

— Tem coisas demais pra amar em você, Sage. É difícil enumerar.

Por mais frustrante que fosse ter a consumação física negada inesperadamente, eu ainda estava mergulhado naquela sensação de felicidade por estar perto dela. Queria sexo? Claro, mas era ela o que eu mais queria — sua presença, seu riso, seu espírito. Meus hormônios logo se acalmaram e encontrei êxtase mais do que suficiente só de estar deitado em seus braços. E, quando ela pegou no sono pouco depois, pensei que talvez fosse melhor ter esquecido de passar na farmácia, apesar do que ela tinha dito. Recuperar a saúde dela era o mais importante agora, e eu tinha quase certeza de que repouso e doces eram a melhor maneira de fazer isso.

Já eu estava inquieto. Em parte por causa da agitação do dia e de estar com ela. Em parte porque ainda era muito cedo em relação à hora em que costumava ir dormir. Estava adorando ficar abraçado com ela, mas, depois de um tempo, saí da cama com cuidado e puxei as cobertas sobre ela. Fiquei contemplando seu rosto por alguns segundos antes de apagar a luz e ir para a sala sem fazer barulho, tomando cuidado ao fechar a porta do quarto para não perturbar seu sono.

Me sentei no sofá com um chocolate, e fiquei assistindo à TV no volume mais baixo, precisando acalmar minha mente agitada. Sabia que Sydney teria vários planos e deduções melhores do que os meus, mas era difícil não pensar no futuro. Para onde poderíamos ir? Será que existia algum lugar seguro? E, fosse com Marcus ou só nós dois, o que exatamente faríamos da nossa vida? Tínhamos gastado tanta energia só para ficar juntos, o que por si só já tinha sido uma tarefa monumental, que mal tivemos tempo para parar e discutir o que faríamos depois. Um dos nossos planos de fuga mirabolantes? Uma faculdade para ela? Uma vida obscura no meio do nada? Lutar pela liberdade dos Moroi e dos ex-alquimistas?

Vocês não vão ter paz, tia Tatiana murmurou, em um dos seus humores mais sombrios. Você e sua humana não vão ter paz. Isso foi um erro.

Não, eu respondi. A gente vai dar um jeito. A gente precisa dar um jeito.

Que jeito?, ela perguntou.

Depois de ficar olhando para a TV por mais uma hora, não cheguei a nenhuma conclusão e estava considerando ir para a cama quando ouvi gritos no quarto. Como um raio, pulei do sofá e corri para lá. Escancarei a porta e acendi a luz, reunindo o poder do espírito para atacar o grupo de alquimistas que esperava ver entrando pela janela. Mas não havia ninguém — apenas Sydney, sentada na cama, dando gritos que cortavam a noite. Soltei o espírito e corri até ela, puxando-a para perto de mim. Para o meu espanto, ela me atacou.

— Não! Não! Não toque em mim!

— Sydney, sou eu — eu disse, tentando segurar suas mãos antes que ela me machucasse de verdade. Mesmo semiadormecida, ela parecia lembrar das aulas do nosso antigo instrutor de defesa pessoal, Malachi Wolfe. — Está tudo bem. Você está bem. Está tudo certo.

Ela se debateu mais um pouco e, sob a luz fraca, pude ver seu olhar febril e aterrorizado. Por fim, ela parou de me bater e seu rosto se iluminou ao reconhecer o meu. Ela afundou a cabeça em meu peito e começou a chorar — não as lágrimas doces que caíram no reencontro com Eddie ou as de compaixão pelo triste estado do Pulinho. Era um choro soluçado que fazia seu corpo todo tremer e a impedia de falar por mais que eu tentasse consolá-la ou perguntar qual era o problema. Não havia nada que pudesse fazer além de segurá-la e acariciar seu cabelo, esperando que ela se acalmasse. Mesmo quando ficou mais calma, soluços irregulares ainda interrompiam sua fala.

— Eu... eu achei que estava lá de novo, Adrian. Na reeducação. Quando acordei. Era tão escuro lá... quero dizer, até ir pra junto dos outros. Mas, quando estava na cela, não tinha luz. Eles me mantinham literalmente no escuro. Doeu quando eu saí... olhar para a luz. Três meses, Adrian. Fiquei três meses numa cela menor do que o banheiro daqui, no escuro. Achei que aguentaria... achei que era mais forte do que isso... mas, quando acordei e você não estava aqui, e eu não conseguia ver nada...

Ela irrompeu em lágrimas novamente e me esforcei para dominar meus sentimentos. Estava triste por ela, óbvio. Triste por ela ter sofrido tanto. Mas, ao mesmo tempo, sentia raiva, tanta raiva que, se soubesse tudo pelo que ela havia passado no centro de reeducação, teria ajudado Chantal a atacar Sheridan em vez de impedi-la. Eu não costumava recorrer à violência nem sentir tanto ódio, mas uma fúria ardeu dentro de mim ao saber que os alquimistas tinham sido capazes de fazer aquilo com uma pessoa tão brilhante e inteligente, que trabalhara lealmente para eles e teria continuado o serviço se eles lhe tivessem permitido seguir seu coração. Eles tinham tentado destruir a minha garota, não apenas seus pensamentos mas a sua personalidade. Igualmente terrível era saber que aquilo poderia não ter chegado ao fim, que tirá-la daquele lugar poderia não ter sido o suficiente. Que tipo de sequelas eles podiam ter deixado nela? Será que aquilo nos assombraria pelo resto da vida, mesmo se ela continuasse livre? As implicações eram monstruosas e, naquele momento, odiei os alquimistas mais do que havia odiado qualquer pessoa.

Eles precisam ser destruídos!, tia Tatiana disse. Vamos atrás deles. Vamos arrancar seus braços e suas pernas.

— Você não está mais lá — eu disse para Sydney, e a abracei com força. — Está comigo e não vou deixar nada acontecer com você, nunca mais.

Ela se segurou a mim e balbuciou:

— Não quero dormir com a luz apagada.

— Você nunca mais precisa dormir no escuro — prometi.

Continuei na cama com ela dessa vez, com as luzes acesas, como prometido. Ela demorou um pouco mais para se acalmar e pegar no sono, mas quando dormiu, teve um sono pesado e merecido. O meu não foi tão profundo, tanto por causa das luzes como porque ficava acordando toda hora para ver se ela estava bem. No entanto, o desconforto valia a pena para ter certeza de que ela estava segura.

Ela acordou alerta e revigorada, como se a crise da noite anterior nem tivesse acontecido. O melhor foi que estava com apetite.

— Não sei o que pedir — ela disse, passando os olhos pelo cardápio do serviço de quarto com Pulinho no colo. — Obviamente vou querer café... você não faz ideia de como quero café... mas estou dividida entre essa omelete com bacon e as panquecas de mirtilo.

Me aproximei para dar um beijo em sua testa.

— Peça os dois.

— Como a gente está de dinheiro? — ela perguntou, desconfiada.

— Prestes a ficar ricos. Vou descer pro cassino. Quer vir comigo e ser meu amuleto da sorte?

Ela balançou a cabeça.

— Prefiro ficar aqui e comer. Quer alguma coisa?

— Vão me dar café lá embaixo. É tudo de que preciso por enquanto.

Um pouco de sangue também seria bom, o que era outro problema que não tínhamos levado em consideração quando fugimos sozinhos. Como muitas outras questões, porém, isso ficou para depois. Eu ainda não estava desesperado, mas precisaria cuidar disso em algum momento.

Depois da noite anterior, pensei que Sydney teria medo de ficar sozinha, mas ela estava destemida com a luz do sol e a sacola de Jackie. Tomamos banho juntos — o que foi uma delícia mas também um suplício — e ela me mandou descer quando seu café da manhã gigante chegou.

— Não dê tudo pro Pulinho — avisei. Ela sorriu e me deu tchau.

No cassino, as coisas estavam mais calmas do que estariam à noite, mas mesmo assim o lugar estava agitado. Essa era a beleza de Nevada. Qualquer que fosse a hora do dia, as pessoas sempre queriam arriscar a sorte. Encontrei uma mesa com quatro jogadores de auras fáceis de ler e pus a mão na massa. Embora tivesse uma vantagem considerável, não podia abusar dela para não chamar a atenção dos gerentes do cassino. Por isso, tomei cuidado para perder de vez em quando, a fim de não levantar suspeitas. Também me ofereci para comprar uma rodada matinal de Bloody Mary, que ajudou a melhorar minha reputação e piorar as jogadas dos outros.

Eu não estava nem perto de ter uma fortuna nas mãos, mas, depois de algumas horas, havia acumulado uma quantia razoável para levar para Sydney. Planejei jogar mais algumas rodadas e, antes de apostar, dei uma olhada rápida nas auras dos jogadores. Então uma coisa chamou a minha atenção. Na verdade, já tinha chamado minha atenção, mas eu não havia pensado muito a respeito. Ao usar o espírito para ver a aura dos meus rivais, sem querer eu via as auras de todas as pessoas ao meu redor. Para o meu espanto, havia muitas pessoas com amarelo em suas auras. Amarelo e laranja, que eu também estava vendo muito, eram as cores das auras de pensadores, de estudiosos. A aura de Sydney tinha muito de amarelo. Não era algo que se costumava ver em jogadores inveterados, muito menos àquela hora do dia. As pessoas que só apostavam para se divertir vinham à noite, não de manhãzinha. Esse era o grupo da pesada, o grupo dos desesperados... mas suas auras não refletiam isso.

Fiquei pensando a respeito enquanto fazia a aposta e mostrava as minhas cartas. Acabei dividindo a bolada com o rapaz ao meu lado, para alegria dele. Na rodada seguinte, examinei as auras ao redor novamente e fiquei mais uma vez surpreso pela quantidade de amarelo. Também notei outra coisa. Ninguém com a aura amarela estava olhando diretamente para mim, mas todos estavam posicionados ao meu redor de maneira mais ou menos simétrica no salão. Só ao meu redor. Ao olhar para além deles, as cores dos outros jogadores voltavam a ser o que eu esperaria de pessoas num cassino.

Amarelo. A cor dos pensadores.

A cor dos alquimistas.

Na rodada seguinte, tirei o celular do bolso, desejando ter comprado um pré-pago para Sydney. Essa seria nossa próxima prioridade. Tentando não parecer em pânico, digitei uma mensagem para Marcus.

Ligue para o hotel Primaveras de Prata no oeste de Nevada e peça o quarto 301. Fala pra Sydney arrumar as malas agora e me encontrar no carro.

Estava prestes a apertar “enviar” quando uma explosão do lado de fora sacudiu o cassino. As pessoas gritaram e copos tilintaram.

— Deixa pra lá — murmurei, deletando a mensagem e seguindo para a porta.


19

Sydney

 

Comi e comi e comi, e foi maravilhoso. Achei que não conseguiria comer tanto tão cedo, mas, depois de uma boa noite de sono, meu corpo parecia disposto a aceitar o alimento de que precisava. Pulinho dividiu aquele café da manhã gigante comigo, claro, e fiquei contente de ver que ele também parecia bem melhor.

Vesti outra camiseta colorida escolhida por Adrian (verde-água dessa vez) e fiquei em dúvida se descia para o cassino para torcer por ele. Eu sabia que ele ficaria feliz em me ver fora do quarto, mas toda vez que pensava em enfrentar a multidão lá embaixo, ficava tensa. Queria voltar para o mundo normal, mas simplesmente não estava pronta para certas coisas. Já era impressionante ligar o noticiário e ouvir referências a grandes acontecimentos que ocorreram enquanto eu estava na reeducação. Os jornalistas falavam sobre eles como se fossem de conhecimento geral, o que devia ser para todos que não haviam tido quatro meses da vida roubados.

Ficar a par das notícias mais importantes passou a ser meu objetivo principal e, depois de guardar tudo nas malas, sentei no sofá com Pulinho no colo enquanto ponderava nosso próximo passo. Depois daquele hotel, teríamos que pegar a estrada outra vez e, por mais que eu odiasse admitir, seríamos obrigados a trocar o Mustang por um carro menos chamativo. Em seguida, precisaríamos tomar a decisão que todos os Moroi enfrentavam ao escolher a melhor estratégia para ficar longe dos Strigoi: ir para um lugar muito povoado ou completamente deserto? As duas opções tinham seus prós e contras.

Uma batida na porta me deu um susto. Imediatamente, olhei para a maçaneta, para confirmar que a plaquinha de “Não perturbe” não estava lá. Nós a tínhamos pendurado do lado de fora na noite anterior. Continuei paralisada e esperei para ver se a pessoa reconheceria seu erro e iria embora. Alguns momentos depois, veio outra batida, dessa vez com:

— Arrumadeira. — Isso confirmou minhas suspeitas. O serviço de quarto bateria, se o hóspede tivesse feito um pedido, mas as arrumadeiras não. Nervosa, fui silenciosamente até a porta trancada e tomei coragem para dar uma olhada pelo olho-mágico. Uma jovem estava do lado de fora, com um sorriso simpático, usando o uniforme do hotel. Ela parecia inofensiva e pensei que talvez a placa tivesse caído.

Naquele momento, vi algo pelo canto do olho que chamou minha atenção. Uma sombra que não pertencia à jovem. A sombra se mexeu um pouco e percebi que havia outra pessoa ao lado dela, fora do campo de visão do olho-mágico. Talvez mais de uma. Sem fazer barulho, fui andando para trás e murmurei o feitiço que transformava Pulinho em uma estátua antes de colocá-lo dentro da sacola onde estavam nossas roupas. Peguei também a sacola da sra. Terwilliger, e comecei a pensar num plano de fuga. A janela do quarto não era grande. A sala tinha uma janela pequena de correr que dava para uma sacada... mas era o terceiro andar.

Entrei na sacada e avaliei minhas opções. Não tinha muitas. Nosso quarto dava para o estacionamento e não havia nada que pudesse suavizar minha queda. Embaixo da sacada havia outra e me perguntei se teria a capacidade física para descer escalando. Seis meses antes, teria dito que sim. Agora, não tinha tanta certeza. Antes que pudesse decidir, uma grande SUV estacionou e dois homens de óculos escuros desceram, se posicionando de maneira que pudessem me observar. Um deles tinha um fone no ouvido, e parecia estar falando baixinho.

Devia ser para o grupo que estava na porta do quarto, porque as batidas logo ficaram mais fortes. Eles também desistiram do disfarce de serviço de limpeza.

— Sydney, sabemos que está aí dentro. Não torne isso mais difícil do que já é. — Então ela passou o cartão do hotel na fechadura, mas, quando tentou abrir a porta, o trinco de segurança a impediu. Dei um passo para dentro e vi um olho surgir na fresta formada pela corrente. — Você não tem pra onde ir, Sydney.

— Fale para os seus homens que eles vão ter que se afastar do carro deles bem rápido! — gritei.

Voltei para a sacada e peguei um dos amuletos que a sra. Terwilliger me dera. Como a maior parte do trabalho tinha sido feita durante a criação do amuleto, ele exigia apenas um feitiço pequeno para ser ativado. Disse as palavras e o lancei contra a SUV; em seguida, fiz um feitiço de ar secundário que o impeliu para mais longe do que eu conseguiria lançar sozinha. Não sei se eles perceberam o perigo iminente ou se tinham sido avisados pelos colegas, mas os homens de óculos escuros saíram correndo e se jogaram no chão quando a SUV explodiu. Também me agachei, estremecendo com a onda de calor e feliz porque não havia ninguém lá que pudesse ter se machucado.

Depois que a explosão passou, não perdi tempo para levantar e escalar a beira da sacada. A grade e os arabescos serviram como apoio para os pés e as mãos, e não tive dificuldade para me segurar do lado de fora. Foi quando tentei descer e pular para a sacada vizinha que os resultados de quatro meses de atividade física mínima se revelaram. A força dos meus braços não era nada perto do que tinha sido e, de repente, mal conseguia me segurar ali, muito menos pular para a sacada de baixo. Fui descendo o máximo possível, até minhas mãos segurarem a parte inferior da sacada e meus pés ficarem pendurados a poucos centímetros da grade da outra. Seria fácil tocar nela se eu me soltasse. O difícil seria cair dentro da sacada, e não fora. Os músculos dos meus braços estavam queimando, e minhas mãos começaram a escorregar.

— Sydney!

Reconheci a voz de Adrian, mas não consegui ver onde ele estava. Só dava para saber que estava em algum lugar atrás de mim, talvez perto da SUV.

— Solte! — ele gritou.

— Vou cair — respondi.

— Não vai, não!

Soltei as mãos e, por uma fração de segundo, não havia nada que me impedisse de cair no chão. Então, uma força invisível me empurrou para a frente, e tombei sobre a beira da sacada, caindo sem jeito, mas com segurança, dentro dela. Fiquei confusa, sem saber o que havia me salvado, até me voltar para Adrian, que estava parado no estacionamento, a uma distância segura da SUV em chamas. Os alquimistas de óculos escuros estavam indo na direção dele, e ele os derrubou com um campo de força invisível, a mesma força que tinha usado em mim. Estremeci diante daquele tipo de magia, sabendo que exigia uma quantidade inacreditável de espírito e que ele não teria como usá-lo o dia todo.

— A porta está aberta? — ele gritou.

Tentei abrir e respondi que sim.

— Me encontre no lugar aonde esqueci de ir ontem. Vai!

Os alquimistas estavam começando a levantar e ele saiu em disparada do estacionamento, correndo para trás do carro em chamas. Sirenes soaram ao longe, e seguranças começavam a sair do prédio. Entrei às pressas no quarto de hotel em cuja sacada havia caído, aliviada ao ver que estava desocupado. Atravessei o quarto correndo e saí no corredor do segundo andar, pensando no que fazer em seguida. Me encontre no lugar aonde esqueci de ir ontem.

Fazia sentido não irmos para o carro. Era óbvio que os alquimistas estavam de olho nele. Mas o que ele queria dizer? Entendi um segundo depois. De um lado, o corredor levava a uma saída de emergência. Do outro, as escadas e o elevador levavam para o saguão e o cassino lá embaixo. Tentei pensar como uma alquimista e segui para a escada que dava para o saguão. A saída dos fundos com certeza estaria sendo monitorada.

No andar de baixo, encontrei o caos, que era exatamente do que eu precisava. Todo mundo tinha ouvido a explosão, mas ninguém sabia exatamente o que havia acontecido. Algumas pessoas estavam tentando sair, enquanto outras, ouvindo que o incêndio estava do lado de fora, queriam continuar lá dentro. Os seguranças do hotel pareciam indecisos, sem saber como proceder, até que um dos guardas decidiu finalmente que seria mais seguro levar as pessoas para uma saída que dava para o lado oposto do carro em chamas. Entrei rapidamente no meio da aglomeração de pessoas e tentei determinar se havia algum alquimista entre elas. Não fazia ideia se eles estavam com uniformes de hotel ou à paisana. O maior sinal de que uma pessoa era inofensiva era tentar me atropelar, muito mais preocupada consigo mesma do que comigo.

Estava quase chegando à porta quando fiz contato visual com um homem vestindo uma camisa de estampa tropical que estava definitivamente mais interessado em mim. Ele começou a empurrar as pessoas para abrir caminho, mas tive a sorte de estar perto do segurança que supervisionava a evacuação.

— Meu quarto dá de frente para a SUV que pegou fogo — eu disse a ele. — E vi aquele homem perto do carro pouco antes da explosão.

Uma denúncia como essa poderia ter sido facilmente descartada em outras circunstâncias, mas, como os detalhes do que havia acontecido não eram de conhecimento geral, o fato de eu mencionar que o carro era uma SUV aumentou minha credibilidade. Além disso, o guarda era jovem e tinha um ar de quem quer mostrar serviço. Ele deu um passo à frente, bloqueando o homem de camisa havaiana, que estava a poucos passos de mim agora.

— Com licença — o guarda disse —, posso falar com o senhor?

O homem, impaciente e focado em mim, cometeu o erro de tentar passar pelo guarda, que o empurrou para trás e começou a pedir reforço.

— Me solte! — o alquimista gritou. — Preciso passar!

— Senhor, preciso pedir que deite no chão!

Não fiquei para ver o que aconteceu. Deixei os dois brigando e finalmente saí do cassino. Lá, outro guarda bem-intencionado estava tentando manter todas as pessoas evacuadas em um grupo organizado. Eu o ignorei e me separei imediatamente dos outros, tentando me localizar. Tínhamos saído perto da entrada do hotel e, do outro lado de uma avenida movimentada, ficava o pequeno shopping aonde Adrian tinha ido na noite anterior. Comecei a correr na direção dele, desejando estar em uma cidade muito mais movimentada, como Las Vegas, onde haveria uma multidão na qual eu pudesse me misturar. No entanto, estava bem visível, e logo ouvi gritos. Olhei para trás e vi outras duas pessoas de óculos escuros vindo na minha direção. Estava mais exausta pela descida do que esperava, e o cansaço físico dificultava o uso de magia.

Estava chegando na faixa de pedestres que me levaria para o shopping do outro lado da rua e comecei a andar mais devagar. Transtornada, fiquei me perguntando qual seria o plano deles. Estávamos em público, em plena luz do dia. Eles achavam que poderiam simplesmente me capturar no meio da rua? Sim, percebi, era exatamente isso que fariam e, depois, arranjariam alguma desculpa para dar às testemunhas. Eles viviam fazendo isso com fenômenos sobrenaturais. Não devia ser difícil fazer o mesmo para explicar o sequestro de uma humana.

O farol abriu e atravessei a rua às pressas, o mais rápido que meus músculos fora de forma permitiam. Mas não era o suficiente. Os alquimistas estavam me alcançando. Atravessei o estacionamento do shopping e entrei direto na loja de departamentos de onde tinham vindo as minhas roupas. Sem olhar para trás para ver se meus perseguidores estavam perto, segui rapidamente até um corredor de material de escritório e murmurei aquele feitiço de invisibilidade mais fraco. Senti a magia me envolver e virei em outro corredor, caso eles tivessem visto onde eu entrara inicialmente. Ninguém veio atrás de mim, e fui desviando por entre os corredores até finalmente ver a entrada da loja. Um dos alquimistas estava parado na porta e imaginei que o outro estivesse procurando ali dentro. Como os dois estavam esperando me encontrar, o feitiço não se sustentaria se nossos caminhos se cruzassem. Eu tinha um amuleto de invisibilidade muito mais poderoso na sacola, mas odiaria desperdiçá-lo estando tão perto de encontrar Adrian. Tinha de achar outra saída, sem dar de cara com o alquimista que estava na loja, ou então distrair o que estava na porta.

Olhando em volta sem parar, fui ziguezagueando em direção a uma arara com roupas de banho que pareciam feitas de um material altamente inflamável. Criar fogo não era difícil para mim. Era capaz fazer uma bola de fogo com as mãos nas costas. O problema era que não queria atrair atenção imediatamente. Assim que o incêndio fosse notado, todas as atenções, inclusive a dos alquimistas, se voltariam para aquela direção, o que era o meu objetivo. Mas eu precisava estar bem longe quando isso acontecesse.

Fechei os olhos e invoquei uma faísca mínima na mão. Era difícil impedir que ela crescesse porque meu treinamento com a sra. Terwilliger tinha se focado em criar bolas de fogo grandes e poderosas. Essa, porém, precisava ser uma chama minúscula, como as que eu fazia na reeducação. Depois de criar a chama, a lancei contra um calção de banho cáqui — de propósito — e então me afastei o mais rápido possível, me agachando perto de uns carrinhos de compras. Embora surgisse um pouco de fumaça, o calção não pegou fogo tão rápido quanto eu imaginava e passei longos segundos agonizantes esperando as pessoas notarem. O alquimista na porta manteve sua posição e, para o meu espanto, vi o segundo se aproximando, obviamente sem saber que estava vindo na minha direção. Tentei pensar em uma maneira de sair do seu campo de visão quando alguém deu um grito perto da arara de roupas de banho e, finalmente, chamas de verdade irromperam do tecido barato.

O alquimista que estava vindo na minha direção parou e encarou as chamas enquanto o outro na porta também voltou o olhar, pasmo. Com a atenção dos dois desviada, consegui passar por eles e correr até a farmácia, três lojas à frente. Na porta, uma fila de idosos entrava em um ônibus rumo a LAS VEGAS e, na pressa, trombei com um deles. Ele piscou surpreso ao fazer contato visual comigo. Eu devia ter aparecido do nada, mas, como tantas vezes acontecia quando humanos se deparavam com o inexplicável, ele simplesmente balançou a cabeça e se virou para o ônibus.

Corri direto para o fundo da loja, em direção à farmácia, e encontrei Adrian no corredor de preservativos, onde sabia que ele estaria.

— Tomara que tenha escolhido um bom — eu disse.

— Graças a Deus — ele exclamou, me abraçando com força. — Foi horrível te deixar mas achei que teríamos mais chances se nos separássemos. Sabia que você era esperta o bastante pra vir pra cá.

— Para o lugar aonde você esqueceu de ir ontem à noite? — perguntei, com um sorriso. — Sim, entendi essa, mas alguns alquimistas me seguiram. Eles estão na loja de departamentos... que também está prestes a ser visitada pelos bombeiros. Queria ter pensado em alguma coisa menos chamativa.

— Pior do que eu não vai ser — ele disse. — Quando ouvi a explosão no cassino, empurrei um monte de alquimistas com o espírito pra conseguir escapar. Acho que não ficou óbvio que fui eu, mas esses lugares estão cheios de câmeras que vão ter algumas imagens bem questionáveis.

— Na verdade — eu disse —, é bem provável que os alquimistas tenham desativado as câmeras, ou sabotado o sistema pra que repita as mesmas imagens. Eles também não iriam querer ter suas atividades gravadas.

Adrian ficou aliviado.

— Isso é bom, pelo menos. Mas qual é o plano agora? Não é melhor ligar pro Marcus e pedir ajuda?

— Não — respondi. — Não quero que ele venha para cá e se arrisque com a cidade cheia de alquimistas.

— Como você acha que eles encontraram a gente? O carro?

Suspirei, me sentindo idiota por uma coisa que havia passado pela minha cabeça durante a fuga.

— Pra ser sincera, acho que eles tinham olhos e ouvidos em todas as cidades próximas do centro de reeducação, pra eventualidades como essa. Eles devem ter passado as nossas descrições e alguém nos denunciou. Talvez um empregado do hotel. Eu devia ter pensado nisso e nos levado pra mais longe antes de pararmos para passar a noite. É tudo culpa minha.

— Os únicos culpados são aqueles malucos que trancam pessoas em celas escuras no Vale da Morte — Adrian disse. — Pare de se culpar, Sage, e use esse lindo cérebro que eu conheço e amo.

Engoli em seco e fiz que sim, recuperando as forças.

— Certo. A gente precisa sair dessa cidade rápido e acho que sei como.

— Envolve fazer uma ligação direta pra roubar um carro? — ele perguntou, esperançoso. — Não aprovo por motivos morais, claro, mas Rose e Dimitri viviam fazendo isso e acho da hora.

Peguei sua mão e o levei para fora da farmácia.

— Meu plano é muito menos da hora.

Saímos e, como esperado, havia um caminhão de bombeiros e uma multidão cada vez maior em frente à loja de departamentos. Sem esperar para ver se havia alquimistas na multidão, entrei às pressas no ônibus de turismo, cujos passageiros tinham terminado de embarcar. O motorista olhou para nós, desconfiado.

— Vocês não estavam nesse grupo — ele disse.

Adrian olhou para os bancos do ônibus, notando todos os cabelos brancos e grisalhos.

— Muito observador — ele murmurou.

Dei um cutucão nele.

— Você teve sorte no cassino mais cedo?

Adrian entendeu a indireta e tirou a carteira do bolso.

— A gente gostaria de entrar no grupo — ele declarou.

O motorista balançou a cabeça.

— Não funciona assim. A viagem é organizada por uma companhia de turismo que depois faz um contrato com meu chefe pra... — Seus olhos se arregalaram quando Adrian ofereceu um monte de notas de cem dólares. Depois de um segundo de hesitação, o motorista pegou as notas e as enfiou no casaco. — Entrem aí. Acho que ainda tem alguns lugares vazios lá no fundo.

Os passageiros oficiais nos encararam espantados quando passamos por eles e nos acomodamos no último banco. Momentos depois, a porta se fechou e o motorista saiu do estacionamento. Adrian colocou um braço ao meu redor e deu um suspiro alegre.

— Mal posso esperar para contar isso para os nossos filhos. “Ah, querida, lembra aquela vez que a gente subornou o motorista pra embarcar num ônibus de turismo da terceira idade pra Las Vegas?”

Não consegui conter o riso.

— Muito romântico. Aposto que eles vão ficar impressionados.

Ele ainda estava sorrindo, mas era um sorriso triste.

— Na verdade, depois dos casamentos que vi nos últimos tempos, é bem romântico mesmo.

— Do que você está falando?

Seu sorriso desapareceu de vez.

— Nada de mais. É só que descobri que o casamento dos meus pais é uma farsa e minha mãe não vê problema nenhum em morar com um homem que a despreza desde que ele continue pagando as contas dela.

— Adrian — exclamei, colocando a mão sobre a dele. — Por que não me contou nada disso?

Seu sorriso voltou, mas ainda mais triste.

— Bom, meio que tinha outras coisas na cabeça.

Ele se debruçou para me dar um beijo na testa, mas suas palavras me fizeram lembrar de outra coisa que eu vinha ignorando: os meus pais.

— Você viu Carly — comecei. — Sabe o que aconteceu com minha família?

O trajeto para Las Vegas durou uma hora e meia, e Adrian resumiu o que havia descoberto sobre minha família e o divórcio. Meu coração se apertou. Não foi uma grande surpresa saber que meu pai tinha ganhado a custódia de Zoe, por mais esperança que eu tivesse de que minha mãe vencesse.

— Isso não significa que ela seja uma causa perdida — eu disse, tentando convencer mais a mim mesma do que Adrian. — Zoe ainda pode escapar de tudo isso.

— Talvez — ele concordou, mas era óbvio que não acreditava muito nisso.

Quando chegamos a Las Vegas, descobrimos que o ônibus estava levando os passageiros para o Tropicana. Descemos em frente ao hotel, onde a guia da companhia de turismo estava esperando para acompanhar os passageiros durante a próxima parte da jornada. Ela pareceu surpresa quando saímos e Adrian deu um aceno simpático ao passarmos por ela, como se nossa presença fosse completamente natural. Ela estava pasma demais para dizer ou fazer qualquer coisa.

Infelizmente, logo descobrimos que também havia gente esperando por nós.

— Adrian — avisei.

Ele seguiu meu olhar até um homem e uma mulher parados na porta do hotel, olhando diretamente para nós.

— Droga — Adrian disse.

Quase esperei uma segunda rodada do que tínhamos deixado para trás, com um ataque direto dos alquimistas. Em vez disso, a mulher tocou o braço de outro homem que estava de costas para nós. Ele se virou, revelando se tratar de um segurança. Ela falou alguma coisa e apontou na nossa direção. Ele veio imediatamente até nós, com os dois alquimistas atrás. Olhei ao redor, tentando ver se podíamos correr para algum lugar ou pelo menos pegar um táxi.

— São eles — a mulher estava dizendo. — Como eu disse.

— Com licença — disse o segurança. — Preciso que venham comigo e respondam algumas perguntas. Tenho informações de que vocês podem estar envolvidos em um assunto de interesse das autoridades.

— Adrian — eu disse, entredentes. — Não podemos ir com eles. — Eu sabia como essas coisas funcionavam. Se ficássemos em custódia da polícia ou mesmo do hotel, os alquimistas simplesmente fariam algumas mágicas burocráticas para que fôssemos entregues para eles.

Adrian encarou o guarda.

— Deve ter havido algum engano — ele disse, simpático. Havia um tom caloroso e doce em sua voz que envolveu até a mim. — Só estamos aqui pra nos divertir e gastar muito no cassino. São esses dois que estão causando problemas. Eles estão tentando desviar sua atenção do que realmente estão tramando.

O guarda franziu a sobrancelha enquanto era tomado pela compulsão. Estremeci, ao mesmo tempo impressionada e um pouco incomodada com o poder de Adrian. Os alquimistas também perceberam o que estava acontecendo.

— Ele está mentindo — o homem retrucou. — Você precisa prender e trazer os dois pra dentro. Vamos ajudar você a amarrá-los.

— Ajudar a nos amarrar? Sério? — Adrian perguntou. — Sabia que vocês curtiam a Idade Média. Só não sabia que estavam tentando viver nela. — Ele voltou a focar a energia no guarda. — Deixe a gente ir. Aquele táxi que acabou de estacionar é nosso. Não deixe que eles nos impeçam.

— Claro — disse o guarda.

Adrian me puxou na direção de um táxi que, de fato, havia acabado de estacionar. Os alquimistas tentaram vir atrás da gente, mas o segurança, ainda sob influência de Adrian, bloqueou o caminho deles. O homem chegou a dar um soco no guarda, permitindo que sua colega viesse correndo até o táxi. Adrian e eu já havíamos entrado, e ele fechou e trancou a porta enquanto ela socava a janela.

— Vai — ele disse ao motorista. — Rápido.

O motorista ficou bastante alarmado com a mulher batendo em seu carro, ainda mais quando o outro alquimista se juntou a ela.

— Vamos! — insisti.

Ele pisou no acelerador.

— Pra onde?

Por um momento, nenhum de nós respondeu. Então, eu disse:

— Hora das Bruxas.

Adrian me lançou um olhar incisivo.

— Tem certeza de que é uma boa ideia? — ele perguntou em voz baixa, enquanto o motorista entrava no meio do trânsito. — Os Moroi cooperam com os alquimistas.

— Estou arriscando. — Ao ver sua cara de surpresa, eu disse: — Estamos em Las Vegas, não estamos?

O táxi no levou até o meio da Strip e, quando estacionamos, avisei Adrian:

— Deve ter alguns alquimistas aqui esperando por nós. Não fique à procura deles e, se achar algum, finja que não viu. Entre direto e vá pro banheiro. Vou fazer o mesmo. Quando sair, não espere por mim. Vá jogar baralho ou alguma coisa do tipo. Deixe que eu te encontro.

Ele franziu a testa, mas não discutiu enquanto pagávamos e saíamos do táxi. Eu nunca tinha ido ao Hora das Bruxas, mas os alquimistas conheciam o lugar. Era um hotel-cassino dos Moroi e, embora muitos humanos o frequentassem, os proprietários faziam questão de que fosse cheio de coisas que atendessem às necessidades dos Moroi. Fomos direto para dentro e um recepcionista Moroi abriu a porta para nós com um sorriso simpático. O interior era igual ao de qualquer outro cassino de Las Vegas: uma série de luzes e sons e emoções fortes. Adrian seguiu as ordens perfeitamente, indo direto para os banheiros ao lado do saguão. Entrei no banheiro feminino e em uma das cabines.

Lá dentro, tirei da sacola o amuleto de invisibilidade da sra. Terwilliger e o coloquei em volta do pescoço, lançando o feitiço que o ativava. Mesmo com o amuleto para ajudar, ele exigia muita força, mas os resultados eram igualmente fortes. Duraria muito mais do que os feitiços que eu tinha lançado na reeducação e, agora, eu podia olhar as pessoas nos olhos. Só alguém que soubesse que Sydney Sage estava invisível bem à sua frente poderia ver através da magia do feitiço. Camuflada, saí do banheiro, esperando que outra mulher abrisse a porta primeiro.

Do lado de fora, Adrian estava saindo do banheiro masculino. Eu o segui enquanto ele pedia um drinque no bar e procurava uma mesa de pôquer. O drinque não era alcoólico, mas continha sangue, o que era um bônus daquele lugar visto que fazia tempo que ele não tinha um fornecimento. Depois que sentou e recebeu as cartas, cheguei por trás dele e sussurrei em seu ouvido:

— Não se vire. Estou aqui com você, invisível. Se olhar para mim, pode quebrar o feitiço. Responda com a cabeça se entendeu.

Ele fez que sim.

Olhei ao redor e voltei a sussurrar:

— Acho que vi um alquimista até agora no salão, de olho em você. Jogue mais algumas rodadas. Ninguém vai tentar te pegar por enquanto. Eu não ficaria surpresa se mais um ou dois aparecessem logo.

Dei uma volta rápida pelo salão, notando que as principais salas de segurança e administração ficavam naquele andar, e depois voltei para perto de Adrian. Continuei monitorando o salão, conseguindo parar de vez em quando para avaliar seu modo de jogar. Ele era muito bom naquilo, e fiquei feliz por nunca ter aceitado seus convites para jogar strip pôquer. Também era boa, mas meu jogo se baseava em análise estatística. Eu não teria a mínima chance contra sua capacidade de ver a verdade nos outros jogadores.

Um segundo alquimista logo apareceu no salão.

— Certo — murmurei para Adrian. — Termine essa rodada e depois peça um quarto. Faça o registro com seu nome mesmo, não tem problema, e repita o número do quarto bem alto. Depois vá pra lá. Eles vão te seguir. Quando fizerem isso, não hesite em entrar numa briga que chame bastante atenção, mas tome cuidado pra deixar que ataquem primeiro. Deixe que eu cuido do resto. E, quando as autoridades vierem te questionar, lembre de falar quem você é e como ficou ofendido.

Ele obedeceu sem hesitar e o segui cuidadosamente até a recepção, me mantendo fora do seu campo de visão. Os alquimistas também o seguiram, ficando por perto. Quando ele pegou a chave, disse:

— Quarto 707, hein? Parece um número da sorte. — Os dois alquimistas trocaram olhares e seguiram para o elevador. Adrian pegou o elevador seguinte. Enquanto isso, entrei em um corredor vazio no primeiro andar e peguei um interfone, tomando cuidado para que não houvesse ninguém por perto para ver o aparelho flutuando no ar. Liguei para a segurança.

— Socorro! — exclamei. — Tem um homem sendo atacado no corredor do sétimo andar.

Depois disso, só podia torcer para que a aposta desse certo. Voltei para onde tinha visto que ficava a sala principal de segurança e esperei perto da entrada. Dez minutos depois, quatro seguranças do hotel desceram com Adrian e os dois alquimistas. O grupo entrou no escritório e entrei discretamente atrás deles, com cuidado para me manter fora do campo de visão de Adrian. Logo o gerente se juntou a nós.

— O que está acontecendo? — ele perguntou.

Um guarda começou a falar, mas Adrian o interrompeu.

— Vou te contar o que aconteceu! Eu estava lá, cuidando da minha vida, quando esses dois — ele apontou para os alquimistas — pularam em cima de mim sem motivo nenhum! Você faz ideia de quem eu sou? Sou Adrian Ivashkov. Você pode ter ouvido falar da minha falecida tia, sua majestade real, a rainha Tatiana Ivashkov, não? E talvez conheça uma das minhas melhores amigas, a atual rainha?

Isso chamou a atenção do gerente, e ele examinou os dois alquimistas. Estava claro que sabia quem e o quê eles eram.

— Não vemos muitos de vocês por aqui.

— Esse homem é um criminoso — um dos alquimistas protestou. — Ele e uma humana destruíram um dos nossos centros! É nosso direito levar os dois.

— Dois? — o gerente perguntou. — Só estou vendo um.

— Ela está aqui em algum lugar — insistiu o alquimista.

Um dos seguranças apontou para um grande monitor.

— Senhor, temos as imagens do cassino. O lorde Ivashkov estava sozinho. — Ele passou um vídeo de Adrian na mesa de pôquer e torci para que ninguém pensasse em checar as imagens de quando entramos no prédio. — E aqui está o ataque.

Outro vídeo mostrou os dois alquimistas de tocaia no sétimo andar quando Adrian saiu do elevador. Ficou claro que foram eles que atacaram primeiro, tentando agarrar e dominar Adrian com suas próprias armas tranquilizantes. Adrian lutou bem, não usando o espírito, como eu imaginava, mas dando um belo soco num deles. Wolfe teria ficado orgulhoso. Outros clientes saíram de seus quartos e logo chegaram os seguranças, separando todos.

— Isso é inaceitável — disse o gerente, furioso. — Vocês não podem entrar no meu hotel e atacar um Moroi! Não ligo para quem são. Vocês não têm o direito de fazer esse tipo de coisa.

— Ele é culpado de muitos crimes — disse o primeiro alquimista. — Você não tem o direito de impedir que o levemos para interrogatório.

— Cadê suas provas? — perguntou o gerente. — E cadê essa sua garota misteriosa? Está claro que vocês cometeram um engano. — Ele se voltou para outro guarda. — Mostre a saída pra eles.

— Eles me seguiram o dia todo — Adrian disse. — Como vou saber que não vão voltar?

— Ninguém vai intimidar nossos cidadãos — rosnou o gerente. — Alertem todos os funcionários. Vasculhem o lugar em busca de alquimistas, assim como os arredores e os túneis. Retirem todos da propriedade e liguem pra Corte. Você está seguro enquanto estiver conosco, lorde Ivashkov.

— Obrigado — Adrian disse, com gravidade. Ele levantou. — Se esse assunto estiver terminado, vou voltar para o meu quarto e fazer as minhas ligações para a Corte.

Protestando sem parar, os alquimistas foram levados para fora, e o gerente guiou Adrian até o elevador, oferecendo todo tipo de desculpas e compensações pelo que havia acontecido. Quando Adrian finalmente ficou sozinho no elevador, entrei atrás dele e disse:

— Não se vire ainda. Não posso ser filmada.

— Tudo correu de acordo com o plano? — ele perguntou.

— Tudo e mais um pouco.

Ele segurou a porta do quarto do hotel um pouco mais para que eu pudesse entrar atrás dele. Depois que fechou, entrei na sua frente e disse:

— Tcha-ran! — O feitiço se desfez e ele me deu um abraço forte que me tirou do chão.

— Isso — ele disse — foi genial. Como sabia o que iria acontecer?

— Não sabia — respondi. — Não com certeza. — Ele me pôs no chão e sentei no sofá. — Mas estava bem confiante de que a gerência Moroi não deixaria que levassem você sem provas, o que os alquimistas não têm. Imagino que Marcus tenha desativado as câmeras no Vale da Morte. Eles só poderiam acusar você com base em testemunhas oculares e eu sabia que isso não valeria aqui. As autoridades alquimistas teriam que fazer queixas formais à rainha. Já eu... bom, essa é outra história. Eles poderiam ter me entregado. Os Moroi não têm motivo pra me proteger, por isso a invisibilidade.

Adrian sentou ao meu lado e me deu um beijo na bochecha.

— Já falei isso antes, mas vou repetir: você é genial, Sage. Não paro de encontrar novas razões para te amar, e achava que isso era impossível.

— Genial coisa nenhuma — eu disse, me recostando no sofá. Lágrimas se formaram nos meus olhos. Odiei aquilo. Odiei que os alquimistas tivessem me deixado daquele jeito. Eu nunca fora tão emotiva antes! Sempre recorria à lógica quando os problemas surgiam, não às lágrimas, mas, agora, tudo que queria era ficar em posição fetal e chorar. O estresse da reeducação e todos aqueles ataques estavam me exaurindo. — Devia ter deixado você seguir Marcus. Não sei se a gente vai conseguir despistar os alquimistas. Você me considera esperta, mas com quem acha que aprendi tudo isso? Você viu o que eles conseguem fazer? Tinham agentes esperando em todas as cidades vizinhas do Vale da Morte. Depois devem ter visto a gente entrar naquele ônibus de turismo, descoberto aonde ele estava indo e nos encontrado no Tropicana. Então ou rastrearam a placa do táxi até aqui ou já tinham agentes esperando, já que possivelmente viríamos pra cá. — Olhei nos olhos de Adrian. — Como vamos escapar disso? Como vamos fugir de um grupo que tem olhos e ouvidos em toda parte? Quem pode nos proteger? Não podemos ficar usando invisibilidade e compulsão pro resto da vida! Não podemos nos esconder nesse hotel pra sempre!

Eu sabia que estava histérica, mas a calma de Adrian só deixou isso mais claro.

— Acho que tenho uma ideia — ele disse. — Uma ideia que vai nos proteger... mas não sei o que você vai achar dela.

— Sou toda ouvidos — garanti.

Ele hesitou por um momento e então assentiu, decidido. Em seguida, para o meu espanto total e absoluto, se ajoelhou à minha frente e segurou minhas mãos.

— Sydney Katherine Sage — ele disse, com os olhos verdes cheios de amor e convicção. — Sei que não passo de um Moroi atormentado e caloteiro, mas você me daria a honra de casar comigo?


20

Adrian

 

Eu estava esperando várias reações ao meu pedido de casamento. Lágrimas não eram uma delas.

— Certo — eu disse, hesitante. — Acho que teria sido melhor com um anel, né?

Ela balançou a cabeça, limpando as lágrimas dos olhos furiosamente.

— Não, não... foi ótimo. Quer dizer, não sei. Não sei por que estou chorando. Não sei o que há de errado comigo.

Eu sabia o que estava errado. Ela tinha ficado presa por quatro meses, a maior parte dos quais passara no escuro, sujeita a tortura psicológica e física, ouvindo que tudo em que acreditava era errado e pervertido, que ela própria era errada e pervertida. Somado ao estresse da fuga, das várias fugas, por que tínhamos acabado de passar, não era de surpreender que estivesse perdendo o controle emocional. Seria difícil para qualquer pessoa se recuperar, mesmo a mais forte. Ela precisava de descanso, de tempo para curar suas feridas físicas e mentais, algo que aqueles malditos alquimistas não permitiriam que tivesse.

— Certo, continue — ela disse, alguns segundos depois. Ela estava se esforçando para se manter durona, para deixar todas essas emoções de lado porque achava que era isso que significava ser forte. Quis dizer que força não tinha nada a ver com esconder seus sentimentos, que não havia mal nenhum em se sentir assim depois de tudo por que ela havia passado. — Me explique como me casar aos dezenove anos vai resolver todos os nossos problemas.

Continuei de joelhos.

— Sei que casar não faz parte dos seus planos — eu disse. — Não por enquanto, pelo menos. Sei que o ideal seria você ir pra faculdade e deixar o casamento mais para a frente.

Ela assentiu.

— Tem razão. E não é porque eu não te amo, acredite. Nem consigo me imaginar casando com outra pessoa. Mas a gente é muito novo ainda...

— Eu sei. — Apertei as mãos dela com mais força. — Mas escute a minha ideia. Pensei nisso quando você falou que sabia que os Moroi protegeriam outro Moroi. Se a gente se casasse, você seria minha esposa, daí os Moroi teriam que proteger você também.

As palavras de Sydney tinham me lembrado de algo que Lissa dissera quando eu havia pedido sua ajuda: Se algum dos nossos estivesse em perigo nas mãos dos alquimistas, aí sim eu teria todo o direito de me envolver. Eu não tinha dúvida de que estaria seguro se voltasse para a Corte. Lissa me protegeria, mesmo que eu não fosse um bom amigo. Mas Sydney estava certa — não podia esperar as mesmas garantias. Até o gerente do hotel insinuara isso. Mas, se ela fosse a sra. Ivashkov...

Sydney franziu a testa.

— Você diz isso como se eu fosse ganhar cidadania por casar com alguém de outro país. Mas não acho que funciona assim entre Moroi e humanos. Não vou virar Moroi automaticamente por casar com você. Seu povo não vai me aceitar como uma igual. Eles vão surtar.

— Verdade — admiti. — Mas isso não significa que vão deixar minha esposa ser punida. A gente vai pra Corte e pode ficar em paz. — Ela não respondeu de imediato e seu silêncio me deixou nervoso. Comecei a ficar preocupado e encontrar problemas que não tinham a ver com a lógica questionável do meu plano. — Mas, se não tem certeza em relação à gente...

Ela voltou a se concentrar em mim.

— Ai, Adrian, não. Não é nada disso. É como falei. Nunca pensei em me casar tão nova, mas também não consigo me imaginar passando o resto da vida com outra pessoa. Sempre pensei que isso aconteceria algum dia. É só meio que um choque. E imagine também como vai ser a nossa vida. Se a gente buscar refúgio com os Moroi, vamos ter que ficar na Corte pra sempre? Vou poder ver a minha família de novo?

Nisso eu não tinha pensado. As maiores complicações que tinha previsto haviam sido as reações da minha família... e de outras pessoas, como Charlotte. Haveria problemas, sim, mas o que Sydney e eu estávamos enfrentando agora era muito mais importante. Eu estava preparado para lidar com as repercussões entre os Moroi, mas, para ser sincero, não tinha considerado o lado de Sydney. Não tinha respostas fáceis para as objeções dela, mas respondi com confiança, como se tivesse:

— Isso vai ser a curto prazo. Quer dizer, não sei o que significa “curto prazo”, mas, depois de um tempo, vai passar e vamos ficar livres para ir aonde quisermos e ver quem quisermos.

Sua expressão era cética.

— Como pode saber disso?

— Sabendo. E acredito que, o que quer que aconteça, vamos estar bem desde que estejamos juntos.

— Certo — ela disse, depois de pensar mais um pouco. — Só mais uma coisa. Tirando toda a questão de buscar refúgio com os Moroi, você acha que a nossa relação é forte o bastante pra isso? Casamento não é só um pedaço de papel.

Levantei e sentei ao lado dela.

— Sei que não — eu disse. — E sei que seria difícil, por vários motivos. Mas acho que a gente pode lidar com tudo que vier, desde que continue se amando desse jeito. — Pensei nos meus pais e no casamento de mentira deles. Sua relação parecia uma piada comparada a qualquer decisão precipitada que Sydney e eu pudéssemos tomar.

— Como sugere que a gente faça isso, então? — ela perguntou. — Tenho certeza de que este hotel tem uma capela, mas de jeito nenhum vamos conseguir casar aqui.

— Não — concordei. Nenhum ministro Moroi abençoaria a nossa união. — Mas, por enquanto, nenhum alquimista pode chegar perto deste lugar. Temos algum tempo pra sair. A gente pode simplesmente achar um cartório e... que foi? — Ela começou a chorar de novo.

— Nada, nada — ela disse. — É só que... não. Deixe pra lá.

— Fale — insisti.

— É só que... — Ela suspirou. — Todos os planos que eu tinha foram por água abaixo. A faculdade, minha família... e agora adiantar o casamento em vários anos. E até isso vai ser diferente. Sempre achei que, quando acontecesse, nossos amigos estariam lá, eu teria um vestido, o serviço completo. Sei que nada disso importa, e juro: não vejo nenhum problema em casar com você usando uma camiseta verde-água. É só que é tudo tão diferente. Preciso de um minuto pra me acostumar com todas essas mudanças.

Acariciei seu rosto.

— Não, não precisa. Não em relação a isso, pelo menos. Me dê um segundo.

Levantei e tirei o celular do bolso, procurando algumas coisas enquanto ela me olhava com curiosidade. Em poucos minutos, eu tinha um plano. Só torci para que ele não nos trouxesse mais problemas que soluções.

— Certo, vamos sair agora, enquanto os alquimistas ainda estão fora do hotel. Eles vão acabar encontrando um jeito de voltar, nem que seja cobrindo as tatuagens com maquiagem. Você tem mais algum amuleto de invisibilidade?

Ela fez que não.

— Posso lançar um feitiço de invisibilidade pequeno... mas não vai funcionar num lugar lotado como esse. As chances de trombar com alguém são altas demais.

— Deixe que eu escondo a gente então. Venha. — Peguei a mão dela. — A gente precisa sair daqui agora.

Descemos para o térreo e lancei uma onda de espírito que nos tornou imemoráveis, disfarçando nossos traços para quem nos visse de perto. Soube que estava funcionando quando passamos por um dos guardas que haviam me trazido mais cedo e ele não me notou. No entanto, aquilo não funcionaria para quem nos visse à distância. Eu não conseguia afetar a mente de pessoas que estivessem muito longe, por isso era essencial agir agora, antes que os alquimistas enviassem seus espiões. Guiei Sydney através dos túneis subterrâneos que ficavam sob o Hora das Bruxas e levavam até pontos importantes da Strip. Havia várias saídas e eu não tinha dúvidas de que, em breve, todas estariam sendo monitoradas pelos alquimistas. A minha esperança era que estivéssemos adiantados em relação a eles e que a saída que escolhi ainda não estivesse sendo vigiada.

Saímos dentro de um grande hotel na Strip. Não vimos nenhum sinal de estarmos sendo seguidos, então relaxei a magia do espírito enquanto atravessávamos o lugar. Não me demorei ali e simplesmente levei Sydney direto para o táxi parado do lado de fora. Entramos no carro e logo estávamos a caminho do cartório mais próximo, para tirar uma licença de casamento. Pela primeira vez em muito tempo, a sorte estava do nosso lado e, quando chegamos, a fila era mínima, provavelmente por ser uma tarde no meio da semana. Chegada a nossa vez, mostramos nossas identidades e abri um sorriso para Sydney enquanto o oficial de justiça processava a papelada.

— Vai casar como você mesma, hein? Não como Misty Steele?

— Seria mais seguro, sem dúvida — ela disse, com um sorriso irônico. — Mas, se formos pedir asilo com os Moroi, precisamos fazer isso do jeito mais legal possível. Você vai casar com Sydney Sage, querendo ou não.

Dei um beijo na testa dela.

— É tudo que eu quero.

Nenhum alquimista nos atacou durante a missão, o que considerei um bom sinal. Com a licença de casamento em mãos, pegamos um táxi de volta à Strip, para outro hotel, este ao lado de um enorme shopping subterrâneo. Confirmei o endereço no celular e então guiei Sydney até o lugar que tinha pesquisado antes: uma empresa que arrumava as pessoas para casamentos rápidos em Las Vegas. Entramos numa parte cheia de vestidos de noiva e, mais para a frente, havia um salão de beleza. Uma atendente se aproximou assim que entramos.

— Vocês parecem um casal feliz — ela disse. Me perguntei se era verdade, considerando que ambos estávamos com medo de sermos seguidos. — Como posso ajudar?

— A gente vai se casar — eu disse. — E você tem duas horas pra dar tudo que ela quiser e precisar pra ficar pronta.

Até Sydney pareceu espantada.

— Adrian... — ela começou, nervosa.

— Vocês fazem cabelo e maquiagem? — perguntei, apontando para o salão. — Cuidem dela e a ajudem a encontrar um vestido. Um vestido bom, não um daqueles. — Apontei para uma arara perto de nós, com o anúncio VESTIDOS EM PROMOÇÃO.

— Adrian... — Sydney repetiu.

— Vou precisar de um smoking também — eu disse. Tirei um papel do bolso e peguei a caneta que a atendente estava segurando. — Essas são as minhas medidas. Escolha um que combine com o vestido dela. Confio no seu bom gosto. E façam tudo o que ela quiser também.

— Você vai sair? — Sydney perguntou, quando comecei a me afastar.

— Preciso fazer umas coisas. Mas volto em duas horas. — Ela e a atendente ainda estavam boquiabertas. — Ah — eu disse. — Acho que a gente precisa falar sobre dinheiro. Quase esqueci. — Peguei a caneta de novo e escrevi uma quantia significativa ao lado das minhas medidas. — Imagino que isso cubra todas as despesas? — Sydney levou um susto ao ver o número. A atendente apenas ergueu uma sobrancelha.

— Sim, senhor. Sem dúvida. Imagino que o senhor não tenha parte desse dinheiro adiantado.

— Não — respondi. — Mas não preciso. Tenho cara de gente honesta e você confia que vou voltar pra pagar a conta. — Liguei a compulsão no máximo e, depois de um momento de hesitação, a atendente concordou com a cabeça. O irônico era que eu poderia tê-la compelido para nos dar tudo de graça. No entanto, sabia que Sydney nunca me perdoaria por começar nosso casamento com esse tipo de truque, sem falar que a pobre mulher poderia ser demitida por causa disso. Dei um beijo no rosto de Sydney. — Divirta-se. Volto daqui a pouco.

Sydney correu atrás de mim e me pegou pelo braço.

— Adrian, o que vai fazer? Nem você consegue tanto dinheiro em duas horas.

Dei outro beijo nela.

— Vou realizar seu sonho, Sage. Confie em mim. E, se os alquimistas aparecerem... — Parecia improvável, mas precisávamos estar preparados. — Faça o que for preciso pra escapar. A gente se encontra em um sonho ou através de Marcus.

— Tome cuidado — ela disse, ainda preocupada.

— Sempre — menti.

Voltei para o shopping, tentando esconder minha tensão. A coisa mais segura e inteligente a fazer teria sido fugir de Vegas e casar em outra cidade. Mas, além do fato de que casamentos rápidos eram a especialidade ali, eu realmente queria fazer um dos sonhos dela virar realidade. Minha esperança era que não tivéssemos de pagar um preço muito alto por isso. Meu celular vibrou com uma mensagem de texto, e olhei para a tela, com medo de ser algum aviso funesto de Marcus. Em vez disso, encontrei uma mensagem de Jill.

Isso é tão romântico! É como se estivesse vendo um filme.

Valeu, respondi. Alguma sugestão?

Não, você está se virando bem sozinho. Eddie está furioso que vocês foram embora. Talvez se sinta melhor depois dessa.

Era um alívio saber que ele estava com ela de novo e que nada de mal tinha acontecido quando peguei seu segurança emprestado para o resgate. Escrevi: Guarde segredo por enquanto. Depois se prepare para as repercussões. Isso se eu conseguir tirar a gente daqui.

Talvez eu consiga ajudar com essa parte, ela respondeu. Não conseguia imaginar como ela faria isso, mas ela não mandou mais mensagens e logo me distraí com outras tarefas.

Não demorei para chegar ao meu destino: uma joalheria que comprava e vendia joias. Não era tão decadente quanto uma casa de penhores, mas o princípio era o mesmo. Afinal, era Las Vegas. Ao entrar, fui cumprimentado por um senhor de cabelos brancos, que perguntou como poderia me ajudar. Respirando fundo, fiz o impensável e tirei do bolso uma das abotoaduras de tia Tatiana.

— O que me daria em troca disto?

Ele prendeu o fôlego enquanto pegava a abotoadura e a examinava com uma lupa.

Como pode fazer isso comigo?, gritou tia Tatiana. Como pode jogar fora as minhas joias?

Não estou jogando fora, respondi. Isso é importante. É para o meu futuro.

Um futuro com uma humana!

Um futuro com a mulher que eu amo, respondi. Eu te amo, tia Tatiana, mas você morreu. Sydney está aqui e meu lugar é com ela. Essas abotoaduras não ajudam ninguém guardadas na gaveta.

O fantasma de tia Tatiana continuava revoltado. Você está me traindo!

Eu estava me sentindo um pouco mal, mas continuava decidido. Certa vez, havia levado um único rubi das abotoaduras até uma casa de penhores, com a intenção de comprá-lo de volta depois. Eu o havia recuperado, por pouco, e a experiência fora traumática. Agora, não teria como voltar atrás. Não só estava entregando uma abotoadura inteira como estava desistindo dela para sempre. Com nossas limitações de tempo, não teria como ganhar o suficiente e voltar ali para comprá-la de volta. Era o meu sacrifício pelo sonho de Sydney.

A quantia que ele ofereceu foi baixa, claro, e fomos negociando. Quase fechamos um preço (embora ainda fosse menor do que o valor da abotoadura) quando coloquei minha próxima jogada em ação e tirei do bolso a segunda abotoadura.

— Me dê essa quantia — eu disse. — E te ofereço este acordo: quero essas pedras em um anel de noivado de ouro branco. Depois, preciso de duas alianças de casamento lisas. Pode ficar com a platina como pagamento. Vale muito mais do que você vai me dar em troca. Ah, e preciso disso pronto pra daqui a uma hora.

Pechinchamos mais alguns detalhes, mas ele sabia que estava conseguindo um bom negócio. Finalmente chegamos a um acordo e ele me mostrou uma seleção de alianças. Não tinha muito tempo e escolhi um anel de noivado simples em que ficaria o diamante retangular com os rubis menores de cada lado. Tinha planejado comprar duas alianças simples, mas ele me mostrou um par de ouro branco com pequenos rubis em volta que achei bonito. Pareciam um tributo às abotoaduras que haviam sido sacrificadas por aquele plano maluco. Assinei tudo, peguei meu dinheiro e o lembrei que tinha apenas uma hora.

Dali, fui ao cassino mais próximo que possuía uma mesa de pôquer de apostas altas, fazendo uma ligação muito importante no caminho. Jogar aquela quantidade de dinheiro era um tanto assustador, ainda mais sabendo que eu tinha tão pouco tempo e que havia tanta coisa em risco. Se perdesse, não teria tempo de recuperar o dinheiro, e muitos planos iriam pelo ralo. Mantive a calma e me recusei a entrar em pânico, tratando aquilo como um jogo qualquer e confiando na minha velha habilidade de ler auras. Fiquei repetindo a mim mesmo que os jogadores ali não eram diferentes dos outros contra os quais já havia jogado. Só estavam apostando quantias muito maiores.

Uma hora depois, deixei a mesa com o suficiente para cobrir todas as despesas do casamento, além de uma passagem para fora de Las Vegas. Voltei para o joalheiro, que tinha cumprido a promessa. Enfiei os anéis no bolso e fiz mais uma ligação e duas paradas: uma em uma farmácia e outra num armazém de vinhos. Com um suspiro aliviado, percebi que tinha completado minhas últimas tarefas. Só faltava o casamento propriamente dito. Voltei para a loja de núpcias, surpreso ao descobrir que estava dentro do tempo planejado.

As duas últimas horas tinham sido tão frenéticas, tão cheias de ansiedade, que eu sentia como se o tempo estivesse acelerado, precisando fazer tudo agora agora agora. Por isso, foi surreal quando entrei na loja e vi Sydney...

... e o tempo como eu conhecia parou.

Tinha falado sério quando dissera para ela escolher o que quisesse. Não me importava. Ela realmente poderia ter aparecido no altar com uma camiseta verde-água que eu teria casado com ela com o coração transbordando de amor. Apesar disso, tinha algumas suspeitas de que tipo de vestido ela escolheria. Meu palpite principal era algo mais recatado, talvez até com mangas longas. Ou talvez um vestido mais simples, com mangas curtas, nada muito enfeitado. Afinal, era Sydney. Eu esperava pragmatismo dela.

O que não esperava era aquele glamour de filmes antigos. O vestido caía perfeitamente, mostrando um corpo que não parecia magro demais, com dobras de organza e adornos de cristal. Logo abaixo dos quadris, se abria em uma cauda de sereia, com tules que também eram decorados com brilhantes. Apenas uma fita delicada de renda e cristal pousava em seu ombro; o outro estava nu. Seu cabelo, mais longo do que de costume, tinha sido amarrado num coque simples na altura da nuca e preso por um pente de cristais, e um longo véu transparente descia dele. Brincos grandes e cintilantes eram suas únicas joias, e um mestre habilidoso da maquiagem havia coberto todos os sinais da sua fadiga recente — bem como o lírio dourado — sem ficar excessivo. Estava perfeito.

Ela estava perfeita. Radiante. Gloriosa. Uma miragem.

— Acho que eu devia ficar de joelhos de novo — eu disse, quase sem voz.

Ela abriu um sorriso nervoso e passou a mão no vestido cintilante.

— Só me diga que pode pagar por tudo isso, porque acho que vou retirar o que disse sobre casar de camiseta.

— Posso pagar — eu disse, ainda fascinado pela sua beleza.

Ela me cutucou.

— Então é melhor ir se vestindo.

A atendente teve o maior prazer em me mostrar o vestiário, e mais prazer ainda ao ver o dinheiro. O smoking que elas haviam escolhido era clássico e elegante. A atendente confirmou se eu queria comprar em vez de alugar, e disse que sim. Para alugar, precisaria de um cartão de crédito, e queria usar o meu o mínimo possível, para não deixar rastros. Quanto mais pudesse gastar em dinheiro vivo, melhor.

Os olhos de Sydney estavam brilhando quando saí do vestiário. Me sentia ridículo perto de todo o seu brilho, mas ela me jurou que eu estava incrível. A atendente me ajudou a prender uma peônia branca no paletó e notei que Sydney estava segurando um pequeno buquê de peônias rosa em uma mão. Na outra, estava com as duas sacolas que vínhamos carregando desde que viemos para Nevada e, agora, tínhamos mais duas para acrescentar à coleção. Conseguimos juntar tudo numa só antes de sair da loja e ela lançou um olhar intrigado para a sacola do armazém de vinhos.

— Pra que é essa?

— Pra nossa lua de mel — respondi.

— Pensei que a sacola da farmácia fosse pra isso — ela disse.

— Ela também — prometi.

Terminamos de pagar tudo e saímos de mãos dadas, completando a última parte da jornada a pé. Nosso destino era o Firenze, um hotel novo de tema italiano que estava ligado ao shopping. Sydney estava um pouco tímida por andar no meio da multidão com toda a sua elegância nupcial, mas essa não era uma visão rara em Las Vegas. As pessoas sorriam ao passarmos e muitos nos davam os parabéns. Atraímos mais atenção do que gostaríamos, mas gostei de fingir que todas as pessoas por que passávamos eram convidados do nosso casamento. Além disso, estava mais do que orgulhoso por exibir minha noiva incrível.

Quando chegamos à entrada do Firenze, recebi uma mensagem de Jill. Li e um grande sorriso se abriu no meu rosto.

— Que foi? — Sydney perguntou.

— Espere só pra ver — eu disse. — Acabamos de receber um grande presente de casamento.

O Firenze, como a maioria dos grandes resorts de Las Vegas, tinha uma área de capelas de casamento, e levei Sydney até lá através do cassino. Um homem com o uniforme do hotel estava andando nervoso de um lado para o outro em frente às capelas e parou ao nos ver.

— Você é Adrian? — ele perguntou.

— Em carne e osso.

Ele pareceu aliviado.

— Certo, vocês têm dez minutos pra entrar e sair antes que eu me meta em encrenca. Uma festa grande reservou essa área e eles vão começar a aparecer daqui a pouco.

— É todo o tempo de que precisamos — eu disse, entregando um maço de notas ao homem.

— Por aqui — ele disse, nos guiando até uma porta marcada como CAPELA TOSCANA. Ele a abriu para nós.

Sydney me lançou um olhar surpreso.

— Você subornou o moço pra gente casar?

— Os melhores lugares agendam com antecedência, até em Las Vegas. — Fiz sinal para ela entrar. — Esse era o único jeito de te levar pra Itália.

Ela entrou e riu, olhando ao redor com encanto. A capela era pequena, projetada para caber cerca de cinquenta pessoas, e estava pintada com a ideia americana de esplendor da Itália. Murais nas paredes representavam campos de uvas, enquanto o teto abobadado estava coberto de anjos. Um exagero de ornamentos dourados em todo o salão era de um gosto questionável, mas, pela maneira como os olhos dela estavam brilhando, nada disso importava.

Na frente da capela havia um altar coberto de flores. Um oficial de justiça estava parado atrás dele, com um dos fotógrafos do hotel por perto. Eu também devia dinheiro para eles. O rapaz que nos deixara entrar trabalhava no serviço de reservas e tive que jogar uma lábia no telefone mais cedo, prometendo fazer aquela negociação ilícita valer a pena para ele caso conseguisse nos arrumar um quarto e o pessoal necessário. Deixamos a sacola em um banco vazio e começamos a nos aproximar do oficial quando me lembrei de uma coisa.

— Ah, espere. Você precisa disso antes.

Peguei a mão de Sydney e coloquei o anel de noivado em seu dedo. Ela perdeu o fôlego diante das pedras cintilantes e me olhou alarmada, entendendo de onde tinha vindo o financiamento daquela aventura.

— Adrian, eram da sua tia.

Eu a guiei adiante.

— E agora são suas.

O oficial sabia das nossas limitações de tempo e realizou a cerimônia mais básica, se atendo apenas ao que era legalmente necessário dizer no estado de Nevada. Mas acrescentou uma parte de sua autoria, palavras que queimaram dentro de mim e que repeti mentalmente enquanto inseria o pequeno círculo cintilante de rubis no dedo de Sydney:

— Até agora, vocês levaram suas vidas sozinhos. Todas as decisões que tomaram foram tomadas individualmente. Agora, e pelo resto dos seus dias, suas vidas estarão ligadas uma à outra. Todas as decisões que tomarem serão para os dois. O que um fizer afetará o outro. Vocês são uma família, uma equipe... inseparável e indestrutível.

Eram palavras fortes para alguém como eu, que havia levado uma vida bastante egoísta. Mas, ao olhar nos olhos brilhantes de Sydney e ver a esperança e a alegria que irradiavam dela, me senti digno daquele discurso. Estava pronto para dar esse passo conjunto, e tinha consciência de que tudo que fizéssemos dali em diante afetaria nós dois e, futuramente, nossa família. Essa era a maior decisão que eu havia tomado na vida... e a que tomei com mais alegria.

Quando os votos foram feitos e os anéis trocados, o oficial nos pronunciou marido e mulher. Puxei Sydney e dei um beijo nela, cheio de amor e vida e felicidade pelo que aguardava por nós. Quando finalmente nos separamos, o oficial acrescentou:

— É com muito prazer que apresento ao mundo Adrian e Sydney Ivashkov.

O sorriso de Sydney murchou um pouco e não pude conter um resmungo.

— Ah, não. Que foi?

Ela riu.

— Nada, nada. É só que sempre pensei que eu manteria meu sobrenome. Ou pelo menos colocaria um hífen.

— Sério? — eu disse. — E você só me fala isso agora? Me deve outro beijo por isso.

Eu a puxei para perto e acabei ganhando dois beijos. Assinamos a papelada com o oficial de justiça e, depois, paguei ele e o fotógrafo. Também comprei o cartão de memória da câmera ali mesmo, apesar dos protestos do fotógrafo de que ele normalmente retocava as fotos e as colocava na internet.

— Não temos tempo — eu disse, brandindo a varinha mágica do dinheiro. Funcionava tão bem quanto a compulsão.

Feito isso, juntamos nossas coisas e nos despedimos do nosso pedacinho da Itália.

— E agora? — Sydney perguntou, enquanto seguíamos para a porta de mãos dadas.

— Agora saímos daqui e, acredite, vamos com estilo.

O moço das reservas segurou a porta para nós, aliviado ao ver que sua travessura tinha acabado. Eu o agradeci mais uma vez e saí para o saguão de entrada...

... onde um grupo de alquimistas estava à nossa espera.


21

Sydney

 

Uma força invisível jogou os alquimistas contra as paredes, e não precisei perguntar para saber que aquilo era obra de Adrian. Senti sua mão nas minhas costas, me empurrando para a frente.

— Venha.

Saímos em disparada pelo saguão, sem olhar para trás, sabendo que os alquimistas não ficariam no chão por muito tempo.

— A gente só precisa chegar ao Lagoa Azul — ele disse.

— É uma piscina ou coisa assim? — perguntei. Era difícil acompanhar seu ritmo com aqueles sapatos e o vestido, e ele me puxou pela mão.

— É um hotel novo. No extremo sul da Strip.

— Extremo sul... — Puxei meu mapa mental da Las Vegas Boulevard. — Fica a quase dois quilômetros daqui!

— Desculpe — ele disse. — Não deu pra evitar. A gente tinha parâmetros bem específicos e eles eram um dos poucos lugares que se encaixavam.

Não pedi uma explicação enquanto chegávamos ao andar de jogos. Normalmente, teria ficado feliz com uma área lotada onde pudéssemos nos misturar, mas Adrian e eu não tínhamos muito como nos camuflar com aquelas roupas. O fato de que estávamos atravessando a multidão e trombando com as pessoas também não ajudava.

— Desculpe — gritei para trás, quando Adrian trombou com uma garçonete que estava levando uma bandeja de bebidas. Elas caíram em algumas pessoas espantadas numa mesa de vinte e um, mas não havia tempo para dizer mais nada. Olhei rápido para trás e não encontrei os alquimistas, mas vi sinais de um tumulto no meio do aglomerado de gente e concluí que nossos perseguidores estavam no nosso encalço.

O andar do cassino era um labirinto para mim, mas Adrian parecia saber aonde estava indo. Logo saímos pela porta da frente do Firenze, na entrada de carros que estava tomada por um tipo diferente de caos. A noite tinha caído e a quantidade de gente ao nosso redor havia aumentado muito. Era o horário em que as pessoas saíam em busca de prazer nos jogos, shows e outras diversões da cidade. Os alquimistas não tinham nos alcançado ainda, e olhamos ao redor tentando descobrir o que fazer.

— Cadê os táxis? — Adrian exclamou.

Um grupo de mulheres, vestidas para impressionar, estava perto de nós. Uma delas estava vestindo uma faixa de despedida de solteira e uma tiara de brilhantes, e o comportamento delas sugeria que já tinham começado a beber em homenagem à noiva. Elas soltaram vários ohs e ahs quando nos viram.

— A gente também está esperando um táxi — disse a mulher mais próxima. — Alguns, na verdade.

— Vocês estão com problemas? — outra perguntou.

— Sim — eu disse, pensando rápido. — Fugimos pra casar e meu pai não aprova. Ele e meus parentes estão atrás de nós, tentando fazer a gente anular.

Não era uma mentira tão grande assim e elas exclamaram de emoção. Adrian olhou as integrantes do grupo e disse com a voz melosa:

— Seria ótimo se vocês deixassem a gente pegar esse próximo táxi. — Ergui os olhos e vi um táxi amarelo se aproximando.

Compulsão em massa era difícil, mas a bebida tinha diminuído a força de vontade delas. Na verdade, suspeitei que elas teriam ajudado de qualquer maneira em nome do romance. Começaram a cochichar sobre amor verdadeiro e a futura noiva apontou para o táxi.

— Vão, vão!

Enquanto entrávamos, os alquimistas abriam as portas de vidro.

— Ei — gritei para as meninas, sacudindo o buquê. — Vão praticando! — Joguei o buquê na direção delas, mirando de propósito por cima e para trás delas, na direção dos alquimistas que estavam saindo. As meninas gritaram de alegria, se virando como uma matilha raivosa para se jogar atrás do buquê e dando de cara com nossos perseguidores espantados. Não vi como essa história se resolveu porque, a essa altura, já estava dentro do carro e Adrian dava ordens para o motorista.

— Vamos torcer pra que essa parte seja simples — Adrian disse, preocupado. — Como eles encontraram a gente?

— Difícil dizer. Talvez os olhos e ouvidos deles tenham nos visto em algum lugar. — Suspirei, desanimada. — Isso é culpa minha. Se eu não tivesse falado aquela bobagem sobre ter um casamento “de verdade”, já estaríamos fora dessa cidade há muito tempo.

Ele passou um braço ao meu redor.

— De jeito nenhum — ele disse. — Estou feliz que a gente tenha feito isso. Eles tiraram muita coisa de nós, mas não podem tirar este dia.

— Pelo menos — eu disse, contrariada —, eu deveria ter previsto que algo assim aconteceria e escolhido um vestido com mais mobilidade. Essa cauda de sereia prende as pernas, mas a moça da loja jurou que, se amarrasse do jeito certo nas costas, iria melhorar minha silhueta.

— Sua silhueta está ótima pra mim — ele disse, passando os dedos pelas pedras na tira do meu ombro.

Sorri para ele, então olhei ao redor, notando uma coisa.

— Por que estamos parados?

O motorista apontou irritado para o para-brisa.

— É típico a essa hora da noite. Todo mundo está indo para algum lugar. Vocês não têm hora marcada na capela, têm?

— Já casamos — Adrian disse.

— Que bom — o motorista disse, avançando alguns centímetros. Encontrei seus olhos no retrovisor. — Porque vocês podem ficar aqui por um bom tempo. O único jeito de escapar é de moto, como aqueles malucos lá atrás.

Adrian e eu nos viramos. Tudo que consegui ver no começo foi um mar de faróis na rua congestionada, mas então, bem para trás, avistei quatro faróis solitários avançando e costurando por entre os carros parados. Adrian, cuja visão era melhor que a minha, fez uma careta.

— Sydney, estou com um mau pressentimento.

— Precisamos sair — eu disse, decidida. — Agora.

Ele não me questionou e simplesmente entregou o valor no taxímetro, para espanto do motorista.

— Estão loucos? A gente está no meio de um milhão de carros!

Isso ficou óbvio quando saímos e tentamos chegar à calçada mais próxima. Buzinas soaram enquanto atravessávamos a Las Vegas Boulevard, mas pelo menos a maioria dos carros estava parada, então não corríamos tanto risco. Na verdade, os únicos veículos que pareciam estar indo a algum lugar eram as quatro motocicletas. Elas continuaram sua trajetória, tentando simplesmente avançar na pista, e pensei que as tínhamos enganado. Mas então, assim que chegamos à calçada, vi uma das motos fazer uma curva abrupta na nossa direção. As outras fizeram o mesmo logo em seguida.

A calçada estava cheia de gente e, assim como na rua, parecia que ninguém estava andando.

— Eles não vão atropelar um monte de pedestres, vão? — Adrian perguntou enquanto cortávamos caminho pela multidão o mais rápido possível.

— Acho que não — respondi —, mas é provável que alcancem a gente bem rápido a pé. E não vão hesitar em abandonar as motos. — Paramos quando um grupo de turistas com câmeras se recusou a abrir espaço, nos forçando a contorná-los. — Por que está todo mundo parado?

— Porque a gente está na frente do Bellagio — disse Adrian, erguendo os olhos para o hotel gigantesco. — Eles devem estar prestes a ligar as fontes. Tenho quase certeza que tem um bonde ou um monotrilho aqui que vai até a Strip. Só precisamos chegar até ele.

— Melhor do que ir a pé — eu disse. Sabia que não apenas meu vestido, mas também meus sapatos, estavam nos atrasando. Pelo menos, tivera o bom senso de recusar os saltos de doze centímetros que a atendente havia sugerido, mas mesmo aqueles mais baixos estavam começando a machucar meus pés.

Decidimos que nosso objetivo era a porta principal do Bellagio, uma meta dificultada pelas multidões eufóricas e cada vez maiores perto das fontes. Precisamos dar uma volta enorme para conseguir avançar, o que também nos distanciou do caminho direto até a porta. Tínhamos acabado de atravessar as fontes quando olhei para trás e vi os quatro alquimistas correndo na nossa direção, se importando muito menos em empurrar as pessoas do que nós.

— Não sabia que os alquimistas tinham recrutas tão musculosos — Adrian comentou.

— Às vezes eles terceirizam seguranças pra...

Minha frase foi cortada pelas exclamações de euforia quando as fontes ganharam vida de repente. As correntes de água subiram centenas de metros no ar e soaram as notas de abertura de “Viva Las Vegas”. Adrian começou a correr novamente, mas eu o contive.

— Espere — eu disse.

Os alquimistas tinham aberto caminho até bem perto das fontes, para a indignação daqueles que estavam esperando fazia mais tempo. O quarteto olhou ao redor, aproveitando o ponto de observação mais elevado para nos procurar. Fiz contato visual com um deles e ele apontou na minha direção. Graças às longas horas de prática direcionando a energia dos elementos, invoquei a magia para controlar a essência da água perto de nós. Os alquimistas tinham dado apenas alguns passos na nossa direção quando fiz um dos jatos da fonte se dobrar, quase como um braço, até eles. Tinha mais facilidade em usar um elemento puro do que antigamente, mas não era nenhuma Moroi usuária de água. Meu controle do jato era desajeitado, e um pouco da água caiu nas pessoas que estavam ao redor dos alquimistas. Cerrei os dentes e concentrei toda a minha magia e energia para dar o máximo de solidez possível ao jato. Ele envolveu os alquimistas e os ergueu no ar, gerando gritos de espanto e flashes de câmeras. A essa altura, a magia já exigia demais de mim, mas atingiu meu objetivo. Eu tinha levado os alquimistas para cima da fonte, e soltei a magia, fazendo com que eles caíssem. Eles tombaram lá dentro, jogando água para todos os lados.

— Uau — disse uma pessoa ao meu lado. — Não tinha isso no show na última vez que vim.

Enquanto eu e Adrian voltávamos correndo para o hotel, a ex-alquimista dentro de mim não pôde deixar de se sentir alarmada com aquela demonstração pública do sobrenatural, ainda mais registrada por tantas câmeras. Aquilo ia contra tudo que haviam me ensinado sobre esconder o mundo paranormal das pessoas comuns, mas tentei me consolar com a ideia de que, pelo menos, ninguém seria capaz de identificar exatamente o que a fonte tinha acabado de fazer. E, se os alquimistas estivessem mesmo preocupados com a reação do público, eu não tinha dúvidas de que conseguiriam inventar uma história para os noticiários.

Entramos no Bellagio sem dificuldades, e tive um segundo para admirar as lindas flores de vidro no saguão enquanto Adrian perguntava a um funcionário como chegar à estação de bonde. O caminho era reto, mas tivemos que sair do hotel de novo. Não tivemos coragem de diminuir a velocidade e fizemos o caminho quase correndo, o que já chamava bastante atenção. Tudo que os alquimistas precisariam fazer quando conseguissem sair da água seria perguntar se alguém tinha visto um noivo e uma noiva correndo por ali. Minha única esperança era que os seguranças os detivessem e que houvesse um bonde na estação quando chegássemos.

Não havia, mas demorou só cinco minutos e ninguém apareceu nesse meio-tempo. Entramos e nos afundamos no banco, exaustos.

— Recupere o fôlego — Adrian disse. — Vamos até o fim da linha.

Assenti, exausta pela corrida e pelo uso intenso de magia. Cruzei as pernas e tirei um dos sapatos para massagear os pés. Uma mulher sentada do outro lado usando tênis de corrida azuis ficou admirando meus sapatos.

— São lindos — ela disse.

— Que número você calça? — perguntei.

— Trinta e seis.

— Eu também. Quer trocar?

Seus olhos se arregalaram.

— Está falando sério?

— Preciso de alguma coisa azul pra completar o visual. — Ergui um sapato branco com adornos de cristal cintilantes. — São da Kate Spade.

Sua amiga a cutucou.

— Troca! — ela murmurou.

Pouco depois, eu estava calçando sapatos novos. Eles podiam não me salvar das bolhas que eu já havia adquirido, mas, quando chegamos ao ponto seguinte, meus pés estavam me agradecendo pela troca. O tule na parte de baixo do vestido caía sobre eles e ninguém conseguia ver o que havia por baixo. Nenhum alquimista estava esperando por nós na saída do bonde e caminhamos quase tranquilamente até o Lagoa Azul. Por cinco minutos, fantasiei que estávamos ali em nossa lua de mel, olhando as paisagens como um casal comum. Essa doce ilusão se desfez quando entramos no saguão do hotel e vimos uma mulher de terno encostada na parede. Ao nos ver, ela se empertigou imediatamente e falou alguma coisa no fone.

— Ela está pedindo reforços — eu disse, notando que a mulher estava nos observando mas não se mexia. — Eles tiveram a tarde inteira pra infiltrar espiões em todos os hotéis enquanto eu me arrumava.

Adrian não se abalou.

— Ignore. A gente está livre pra ir agora. Eles não podem mais nos impedir. — Ele seguiu direto para a recepção e perguntou: — Com licença, pode nos dizer onde fica o heliponto?

Fiquei quase tão surpresa ao ouvir essas palavras quanto o recepcionista.

— Vocês têm autorização pra acessar o heliponto? É uma área de segurança máxima, não fica aberta à maioria dos hóspedes do hotel. — Ele nos examinou, em dúvida. — Vocês são hóspedes?

— Não — Adrian respondeu. — Mas estamos esperando uma, hum, carona lá em cima. A qualquer minuto vai chegar um helicóptero da Academia Olga Dobrova pra nos pegar. — Essa foi outra surpresa. Olga Dobrova era uma escola Moroi pequena e relativamente nova perto da fronteira entre a Califórnia e o norte de Nevada.

O recepcionista digitou alguma coisa no computador.

— Quais são seus nomes? — Dissemos e ele balançou a cabeça. — Desculpe. Vocês não estão na lista de pessoas autorizadas a subir lá.

— Pode dizer pelo menos se ele chegou? — Adrian exclamou. — Ele está aqui por nossa causa!

O homem balançou a cabeça de novo.

— Desculpe, mas não posso ajudar o senhor a menos que consiga autorização. Próximo, por favor.

Adrian fixou os olhos nele.

— Não, você vai...

— Ele disse que não pode te ajudar.

Um homem impaciente numa camiseta do Elvis empurrou Adrian com o ombro para passar, seguido por uma mulher e um grupo de crianças usando a mesma camiseta. Todos começaram a falar ao mesmo tempo, contando uma história sobre o ar-condicionado quebrado em seu quarto. Desanimados, saímos do caminho e notei que a alquimista tinha ido embora.

— O que está acontecendo? — perguntei.

— Planos perfeitos indo por água abaixo — Adrian murmurou. — Esse era o presente de casamento de Jill: nosso plano de fuga de Las Vegas. Ela convenceu Lissa de que eu estava correndo um risco sério e pediu que ela mandasse um helicóptero pra cá, pra levar nós dois para a Dobrova. Depois pegaríamos um dos jatinhos particulares deles de volta pra Corte. Seria uma viagem longa, com todos os reabastecimentos, mas evitaria lugares públicos e outros encontros com os alquimistas. Jill falou que o helicóptero estava programado pra pousar aqui, mas acho que ninguém pensou que, pra chegarmos até ele, precisaríamos de algum tipo de autorização.

Embora ele estivesse falando em “nós”, me perguntei se Lissa sabia que eu estava com ele ou se Jill a convencera a usar os recursos da realeza com base em uma história parcialmente verdadeira sobre a segurança de Adrian.

Adrian logo se reanimou.

— Certo. Não tem problema. Temos dinheiro e compulsão. Assim que a família Elvis sair, a gente fala com o cara de novo e... — Seus olhos varreram o saguão, observando vários empregados em suas tarefas. — Não, deixa pra lá. A gente não precisa dele. Alguém aqui vai abrir a boca e explicar o caminho pro heliponto. Não importa se o hotel acha que a gente não deveria estar lá. O importante é embarcarmos.

Dois empregados pareciam não fazer a menor ideia de onde ficava o heliponto, mas um dos porteiros hesitou e Adrian aproveitou a oportunidade.

— Você não precisa fazer nada — Adrian garantiu. — Só me diga onde fica que te dou cem dólares.

O homem ainda hesitava, balançando a cabeça.

— Vocês nunca vão conseguir chegar lá. O elevador não chega naquele andar na torre Starlight sem o cartão de acesso correto, e acho que ninguém aqui tem esse cartão. Mas...

— Mas? — Adrian repetiu. Ele não estava exatamente usando compulsão, mas sem dúvida parecia muito atraente. Pelo menos para mim.

— Um cartão de hóspede comum leva você pro topo da torre Aurora. De lá, você pode pegar o corredor oeste, onde tem uma porta que dá pro terraço. Desse terraço, teoricamente, dá pra andar pela ponte de manutenção e subir a escada pro heliponto. — Ele olhou para o meu vestido, cético. — Teoricamente.

— Teoricamente funciona pra nós — Adrian disse. — Mas não somos hóspedes. Te dou mais cem se conseguir uma chave de acesso genérica pra gente.

— Fácil — o rapaz disse. — Mas não tenho como te dar uma que destranque a porta pro terraço.

— A gente dá um jeito — eu disse, torcendo para que fosse verdade.

O porteiro cumpriu sua palavra e, alguns minutos depois, nos entregou uma chave eletrônica de hóspedes. Adrian deu o dinheiro para ele e seguimos para o elevador que levava à torre Aurora.

— Quanto a gente ainda tem? — perguntei.

— Não muito — Adrian admitiu. — Uns duzentos dólares. Mas, quando estivermos no voo de volta à Corte, isso não vai importar.

As indicações e a chave deram certo e, em pouco tempo, estávamos na porta que dava para o terraço. Era uma porta de vidro reforçado, dividida em dois painéis, e um aviso alertava que um alarme dispararia se ela fosse aberta.

— Se for aberta — murmurei. — O que será que acontece se a gente tirar um dos painéis de vidro? Acho que conseguimos passar.

— Está pensando em quebrar? — Adrian perguntou. — O Pulinho está na forma de estátua, certo? Talvez a gente consiga quebrar o vidro com ele.

— Estava pensando numa solução mais elegante.

Entre os presentes da sra. Terwilliger, encontrei uma bolsinha de ervas de cheiro forte. Eu as espalhei sobre o painel de vidro inferior, que era maior, e confirmei o feitiço no livro que ela havia mandado. Depois de fazer tanta magia improvisada, um feitiço tradicional, com todos os ingredientes, era praticamente um luxo. Fiz o movimento com as mãos sobre o vidro e entoei as palavras em grego. Momentos depois, o painel começou a derreter feito gelo, pingando até formar uma poça no chão. A poça logo se solidificou, mas a metade inferior da porta estava aberta e exposta ao ar de fora. O melhor de tudo foi que nenhum alarme disparou.

— Não tenho dúvida — Adrian disse. — Casar com você foi um ótimo negócio.

Nos abaixamos para atravessar a abertura e cruzamos o terraço, que era cheio de canos com saídas de ar e placas de manutenção. Felizmente, a passarela que ligava aquela torre à Starlight, que era mais alta, era sólida e firme, mas a escada na lateral do prédio dava medo. Era preciso subir três andares, o que não era uma distância enorme quando já tínhamos subido vinte, mas estar de vestido sem dúvida complicava as coisas, mesmo com sapatos mais adequados.

Todos os medos que eu podia ter foram varridos quando ouvimos os sons de um helicóptero por perto. Trocamos olhares animados.

— Vá na frente — Adrian disse ao pé da escada, pegando a sacola da minha mão. — Se acontecer alguma coisa, uso o espírito pra te segurar.

Discordei com a cabeça.

— Não, vá você. Vai ter guardiões no helicóptero. É melhor se eles virem um Moroi antes. Acho que consigo invocar magia de ar suficiente se escorregar.

— Acha? — ele perguntou, enfático.

— Não pretendo escorregar.

Ele me beijou e começou a subir. O vento batia ao meu redor enquanto eu observava com expectativa, o corpo tenso enquanto ele fazia o trajeto cuidadoso um degrau por vez. Mas ele não escorregou nem vacilou. Em pouco tempo, chegou ao topo e pisou no terraço mais alto. Acenou para mim e então deu alguns passos para trás que o tiraram do meu campo de visão. O helicóptero estava fazendo mais barulho e torci para que Adrian estivesse esclarecendo a situação com os guardiões de Dobrova.

Então chegou a minha vez. Meus sapatos novos eram firmes e as restrições do vestido não importavam tanto pois os degraus da escada eram bem próximos um do outro. Aquela escada não tinha sido feita para atrapalhar. Estava lá para os operários da manutenção e fora projetada para ser o mais fácil possível para eles. Minhas dificuldades vinham de outras coisas, como o fato de o vestido e o véu serem soprados pelo vento, e a vertigem que sofri quando cometi o erro de olhar para baixo. Las Vegas se estendia sob mim, com seu espetáculo noturno de luzes cintilantes que era maravilhoso, mas também aterrorizante quando me dei conta da altura em que estava.

Mas também não escorreguei e, depois do que pareceram três horas, cheguei ao terraço e avistei o helicóptero e o heliponto.

E então as coisas ficaram realmente feias.

O helicóptero estava lá, mas não conseguia pousar porque dois alquimistas — ou guardas contratados por eles — estavam parados bloqueando a pista de pouso. Dois outros alquimistas estavam mais perto da escada, com as armas apontadas para mim. Não foi isso, porém, o que me deixou paralisada. O que fez meu coração querer saltar pela boca foi a visão de Adrian, no lado oposto do terraço, de joelhos. Uma arma também estava apontada para ele, tão perto que tocava sua cabeça...

... e era Sheridan que a segurava.

— Estou decepcionada — ela disse, precisando gritar para ser ouvida sobre o barulho do helicóptero. As hélices batiam violentamente e o vento batia contra todos nós. — Se fosse você, estaria a dez estados de distância agora. Em vez disso, a encontro apenas algumas horas depois da última vez que a vi.

Não consegui formular uma resposta nem algum pensamento coerente. Só conseguia olhar para Adrian, com aquela arma apontada para sua cabeça. Nenhuma tortura que havia enfrentado nesses últimos meses havia me causado o mesmo terror que senti ao pensar em perdê-lo. Tudo por que lutei, todas as dificuldades, todas as vitórias... nada disso importaria se alguma coisa acontecesse a ele. Sem ele, não teria tido coragem de me transformar na pessoa que era. Sem ele, não teria descoberto o verdadeiro sentido de viver e de amar a vida. Centrum permanebit. Ele era meu centro e não havia nada que eu não fosse capaz de fazer, nada que não fosse capaz de entregar, para mantê-lo em segurança.

Ao olhar em seus olhos, soube que ele sentia exatamente o mesmo.

Diante do meu silêncio, Sheridan retomou as provocações.

— Admito que todo esse plano de casamento em Vegas dá uma bela história de amor. Infelizmente também dá uma bela história de idiotice, ainda mais por pedirem a certidão com seus nomes de verdade. Monitoramos agências locais do governo por precaução, mas não achava que vocês iriam se entregar tão facilmente. Claro, reservar uma capela extraoficial foi inteligente. Precisamos ligar pra quase todas na cidade, dizendo que tínhamos um “presente de casamento surpresa” pra vocês. Eles fingiram ignorância no Firenze até que um dos coordenadores lembrou de um colega falando com o seu “marido” ali.

— Deixe Adrian ir — gritei. — Sou eu que vocês querem, não ele.

— Claro — ela respondeu. Seu rosto estava mais macabro do que bonito no estranho jogo de sombras ali em cima, causado pela mistura das luzes do helicóptero e de lâmpadas menores no terraço. — Venha devagar e se entregue para um dos meus agentes que libero seu vampiro.

— A aura dela está cheia de mentiras, Sydney — Adrian berrou. Sheridan pressionou a arma com mais força na sua cabeça e mandou que ele ficasse quieto.

Sabia que mentir era da natureza dela, mas era difícil saber se estava mentindo sobre ferir Adrian. Haveria consequências por matar um Moroi daquele jeito, ainda mais um nobre, e diante de testemunhas. Na porta do helicóptero que nos sobrevoava, avistei uma figura sombria e musculosa, sem dúvida um dos guardiões da Academia Olga Dobrova. Ele não devia saber o que estava acontecendo ali embaixo, mas não tinha dúvidas de que, se soubesse, estaria ao meu lado lutando para salvar Adrian. Eu adoraria o apoio de um guardião, mas se fizesse alguma coisa, Adrian poderia sair ferido caso Sheridan fosse rápida no gatilho. Havia muitas incógnitas e eu precisava tomar controle da situação logo.

Mais magia elemental se acendeu dentro de mim, e juntei o feitiço da bola de fogo com uma improvisação. Uma parede de chamas saiu do chão, se espalhando até formar uma enorme muralha em torno dos dois alquimistas mais perto de mim e dos dois que bloqueavam a pista de pouso. A quantidade de magia necessária para invocar o fogo e para alimentá-lo era assombrosa, e me esforcei para manter o rosto frio, escondendo toda a tensão.

— O que está fazendo? — Sheridan exclamou.

— Oferecendo um acordo — respondi. — Você me entrega Adrian e pode ter seus quatro agentes de volta. Vivos.

Sheridan não se moveu, e sua arma também não, mas sem dúvida havia medo em seu rosto quando seus olhos se voltaram para os alquimistas presos entre as chamas. Eles pareciam ainda mais aterrorizados e não estavam mais apontando as armas. Em vez disso, andavam para trás em direção uns aos outros, tentando se manter longe do fogo. Os que estavam na pista de pouso chegaram a sair dela de tanto medo, andando de costas até estarem quase encostando em seus colegas. Isso me permitiu estreitar o cerco e liberar a pista, mas o helicóptero ainda não tentou descer com as chamas relativamente próximas.

— Eles sabem o risco — Sheridan gritou. — Preferem morrer a deixar que as trevas prevaleçam neste mundo. Estão preparados.

— E você? — perguntei. — Está preparada pra assistir?

Com um movimento da mão, reduzi o círculo de chamas, obrigando os alquimistas a se aglomerar. O círculo mais estreito me ajudava, mas a dificuldade para manter o fogo continuava sendo excruciante. Precisava manter o círculo cerrado o bastante para que os alquimistas sentissem o calor mas não fossem realmente feridos. Ouvir seus gritos de pavor fez meu estômago revirar. Aquilo me trouxe lembranças de tudo que eu havia sofrido na reeducação. Durante quatro meses, minha vida tinha sido cheia de medo e intimidação. Estava cansada de tudo aquilo. Queria paz. Não queria machucar aquelas pessoas. Não queria nem assustá-las. Sheridan tinha me levado àquele ponto e eu a odiava por isso, a odiava por me fazer agir como uma pessoa violenta.

E talvez por me tornar uma pessoa violenta.

— Se matar meus agentes, mato seu marido — ela me disse.

— E então nada vai me impedir de voltar o fogo contra você — retorqui. — Em todos os cenários, eu saio livre. Está disposta a escolher o que resulta em você e seus colegas sendo queimados vivos?

— Você não vai fazer isso — ela disse, mas, mesmo com todo o barulho e caos ao nosso redor, pude sentir sua insegurança.

— Ah, não? — Eu não conseguiria aproximar as chamas ainda mais dos alquimistas sem causar ferimentos, mas consegui fazer as paredes incandescentes crescerem. Os olhos de Sheridan se arregalaram e precisei de muita determinação para agir como se não estivesse ouvindo nem me importando com os gritos de pavor dos alquimistas. — Experimenta, Sheridan! Experimenta pra ver do que sou capaz! Pra ver o que eu não faria por ele!

Com outro gesto, as paredes de fogo ficaram mais altas novamente, causando novos gritos. A magia estava me deixando tonta, mas mantive o olhar frio enquanto encarava Sheridan. Ela achava que eu era uma criminosa sem coração que havia virado as costas para a humanidade. Acreditava também que eu estava profunda e loucamente apaixonada por um vampiro por quem faria qualquer coisa. Só uma dessas crenças era verdadeira, mas eu precisava convencê-la de ambas.

— Experimenta! — gritei mais uma vez.

— Certo, Sydney, calma. — Sheridan olhou para mim e para os outros alquimistas, que não estavam visíveis atrás do círculo de fogo. — O que quer que eu faça? — ela gritou finalmente.

— Entregue a arma para Adrian — eu disse.

A tensão era avassaladora enquanto ela considerava. Eu estava prestes a perder o controle sobre a magia e tinha medo de que sua indecisão revelasse meu blefe. Mas ela finalmente tirou a arma da cabeça de Adrian e a entregou para ele. Ele a pegou e, sem perder tempo, correu até mim, com o rosto pálido e preocupado.

— Continue apontando a arma pra ela — eu disse. Para Sheridan, ordenei: — Quando eu abaixar o fogo, mande seus homens colocarem as armas no chão e as mãos na cabeça.

Com um alívio que quase me fez cair de joelhos, soltei a magia. As paredes de fogo desapareceram e Sheridan imediatamente gritou os comandos que eu tinha dado. Os alquimistas obedeceram e, depois de desarmados, mandei que fossem até o lado oposto do terraço, onde ela estava. Acima de nós, o helicóptero estava finalmente tentando pousar, agora que o fogo estava apagado.

— Todos vocês, deitem no chão — eu disse para Sheridan e para os outros alquimistas. — E nem pensem em se mexer até o helicóptero estar bem longe. Vamos, Adrian.

Atravessamos o terraço devagar na direção do helicóptero, nos posicionando de maneira a vigiar os alquimistas. Adrian manteve a arma apontada na direção deles, embora eu suspeitasse que não conseguiria atingir nenhum com precisão, mesmo se quisesse. Um guardião que eu não conhecia estava na porta do helicóptero, parecendo confuso, o que era compreensível.

— Como estou feliz em te ver — Adrian disse para ele.

— Fico feliz em ajudar — respondeu o guardião, constrangido. Ele olhou para os alquimistas no chão. — Embora ache que deveria ter feito mais. O que está acontecendo?

— Não se preocupe, você já está fazendo muita coisa — Adrian disse. — A gente pode ir agora?

O guardião apontou para o helicóptero.

— Depois do senhor, lorde Ivashkov. — Ele hesitou. — O senhor é mesmo Adrian Ivashkov, certo?

— Sou eu mesmo — Adrian disse. Ele me puxou para a frente. — E essa é a minha esposa.


22

Adrian

 

Só relaxamos de verdade quando estávamos no jatinho particular de Olga Dobrova a caminho da Corte, que ficava do outro lado do país. Tinham nos avisado que, como aquele era uma avião pequeno, teríamos que parar para reabastecer, mas isso não me preocupou. Eles parariam em lugares discretos; além disso, os alquimistas não teriam coragem de atacar um avião Moroi sob ordens da rainha.

Dois guardiões estavam nos escoltando, mas, exceto por eles, tínhamos o jatinho só para nós. Os guardiões sentaram na frente, enquanto ocupei um banco confortável no fundo, apoiando os pés numa mesa grande. Sydney tinha entrado no banheiro pouco depois da decolagem, querendo pentear o cabelo depois que o helicóptero e o vento o bagunçaram.

— É o dia do meu casamento — ela havia explicado. — Mereço um pouco de dignidade.

Quando saiu, vi que tinha conseguido arrumá-lo quase como os cabeleireiros haviam feito antes. Não que eu me importasse. Para mim, ela estava linda com o cabelo rebelde e bagunçado pelo vento. Os guardiões acenaram educadamente quando ela passou por eles, ambos obviamente tensos e inseguros em sua presença. Ninguém os informara que eu estava levando uma esposa humana comigo, e ficou claro que, embora seu treinamento os tivesse preparado para muitas situações de risco, eles não tinham ideia do que fazer naquele cenário.

Dei um tapinha no colo enquanto ela se aproximava.

— Sente aqui, sra. Ivashkov.

Ela revirou os olhos.

— Sabe como me sinto em relação a isso — ela advertiu. Mas, para a minha surpresa, ela sentou no meu colo, embora talvez fosse porque Pulinho, que tinha acabado de ser despertado, havia se enrolado e adormecido na cadeira do outro lado da mesa.

Passei um braço em torno da sua cintura fina e, com a outra mão, ergui minha aquisição do armazém de vinhos.

— Olhe o que abri pra gente comemorar — eu disse. — Champanhe.

Sydney leu o rótulo.

— Aqui fala que é um Riesling espumante da Califórnia.

— É quase a mesma coisa — eu disse. — Estourou quando tirei a rolha e o moço da loja me deu essas taças de plástico de graça. Ele falou alguma coisa sobre buquê cítrico e vindima tardia. Não entendi direito, mas pareceu digno de uma celebração.

— Álcool reduz magia humana e Moroi — ela avisou.

— E este é o dia do nosso casamento — retruquei. — Sem falar que provavelmente será a única comemoração que vamos ter. Vai ser melhor ficarmos sóbrios na Corte... não que eu ache que vamos ter problemas piores lá. Comparado a tudo isso, a vida na Corte vai ser suave.

Estava esperando uma discussão, mas, para minha surpresa, ela assentiu e me deixou servir as duas taças, o que consegui fazer habilmente enquanto continuava com um braço ao seu redor. Ofereci um pouco para os guardiões, mas isso só os deixou ainda mais constrangidos.

— Sabe — Sydney disse, depois de um gole. — Até consigo sentir um gosto cítrico. Só um pouquinho. Como uma pitada de laranja. E é mais doce do que eu pensava, mas faz sentido se o moço falou que era uma variedade de vindima tardia. Quanto mais as uvas ficam na videira, mais retêm açúcar.

— Eu sabia — disse, triunfante. — Sabia que iria acontecer exatamente isso se conseguisse fazer você beber.

Ela inclinou a cabeça, confusa.

— Isso o quê?

— Deixa para lá. — Beijei seus lábios e fiquei olhando para seu rosto, finalmente acreditando que aquela mulher linda e corajosa era mesmo a minha esposa. Seu rosto estava encantador sob a luz do interior do jato, e torci para lembrar pelo resto da vida como ela estava agora. — Hum. Olhe só.

— O quê? — ela perguntou.

Toquei sua bochecha. A maior parte da maquiagem ainda estava impecável, mas parte da que cobria a tatuagem tinha saído em alguns lugares, revelando pedacinhos do lírio.

— Está ficando prateado — eu disse.

— Está? — Ela pareceu surpresa. — A do Marcus ficou, mas demorou anos depois que ele selou a tatuagem.

— Ainda não mudou completamente — eu disse. — A maior parte ainda é dourada. Mas definitivamente tem um pouco de prata aqui e ali. Sombras pequenas ao redor do dourado. — Fui descendo os dedos do seu pescoço até seu ombro nu e delicado. — É bonito. Não se preocupe.

— Não estou preocupada, só surpresa.

— Talvez tudo que você fez nos últimos meses tenha acelerado o processo.

— Talvez — ela concordou. Ela deu outro gole e se recostou em mim com um suspiro satisfeito. — Imagino que, quando chegarmos à Corte, eles não vão nos deixar passar a lua de mel em paz numa suíte luxuosa, né?

Encolhi os ombros, sem querer que ela ficasse preocupada.

— Provavelmente vamos ter que responder a algumas perguntas chatas, nada de mais. O que é mais um motivo pra aproveitar a vida agora.

— Não vejo nada de mal em perguntas chatas — ela disse, com os olhos castanhos voltados para o nada. — Queria um pouco de paz. Sem drama. Sem situações perigosas. Estou tão cansada disso tudo, Adrian. Os alquimistas podem não ter me destruído, mas definitivamente me cansaram na reeducação. Estou farta de dor e violência. Quero ajudar a pôr um fim nisso... mas, primeiro, preciso de um descanso.

— A gente vai conseguir. — Senti uma pontada no coração ao lembrar dos momentos terríveis no terraço, quando ela enfrentara Sheridan em seu vestido cintilante, comandando o fogo como uma deusa vingativa. Fora uma visão linda e assustadora, exatamente como precisava ser para fazer Sheridan se render. Só eu entendia o preço que Sydney havia pagado por ser colocada naquela posição e, se eu pudesse evitar, ela nunca teria que passar por aquilo novamente.

— Estou orgulhosa de você — ela acrescentou, de repente. — Teve que usar tanto espírito durante tudo isso e conseguiu se manter no controle. Não que eu queira que isso vire um hábito, mas você mostrou que consegue domar o espírito sem nenhum efeito colateral grave.

Sim, tia Tatiana concordou. Mostrou mesmo.

A indecisão ardeu dentro de mim. Queria muito contar tudo para Sydney — afinal, ela era minha mulher —, mas admitir que eu era atormentado por um fruto da minha imaginação era demais. Além disso, depois que tudo estivesse resolvido, eu daria um jeito de me livrar de tia Tatiana e nada disso importaria mais.

Até parece, ela murmurou na minha cabeça.

Para Sydney, eu disse:

— É parte da nossa vida nova. Como falei, a partir de agora, só vamos navegar em águas tranquilas.

Servi mais vinho, mas, em vez de nos deixar em clima de festa, a segunda taça só aumentou a nossa exaustão. Aquele dia havia nos esgotado, mental, física e magicamente, e acabamos pegando no sono, com ela ainda no meu colo, sua cabeça no meu ombro. Suas últimas palavras antes de dormir foram:

— Queria ter guardado o buquê.

— Você fez o dia de alguma menina — eu disse, contendo um bocejo. — E vou te comprar peônias todo aniversário de casamento, pelo resto das nossas vidas.

De repente, fomos acordados por um dos guardiões constrangidos, com o jato já pousado. Olhei pela janela e vi que tínhamos aterrissado na Corte propriamente dita, um privilégio concedido a poucos. A maioria dos visitantes pousava num aeroporto regional ou alugava um carro em algum aeroporto maior, como o da Filadélfia. Ser amigo da rainha tinha suas vantagens. Notei também que parecia ser meio-dia lá fora, uma hora em que a maioria dos Moroi em horários vampíricos estava no sétimo sono. Torci para que isso significasse que seríamos colocados em um quarto por um bom tempo até todo mundo ter acordado.

Não tivemos essa sorte.

Do avião, fomos escoltados imediatamente até o palácio, onde disseram que Lissa “e outras pessoas” queriam falar com a gente o mais rápido possível. Não tivemos nem tempo para nos trocar e, embora eu nunca me cansasse de ver Sydney naquele vestido magnífico, sabia que, assim como eu, ela adoraria vestir uma calça jeans e uma camiseta. Mas, como não era uma opção, decidi jogar com o que tinha em mãos. Dei o nó na gravata-borboleta e vesti o paletó do smoking.

— Vamos lá — eu disse para os guardiões.

Fomos levados até uma sala do palácio aonde eu não ia com frequência, visto que a maioria dos meus encontros com Lissa — e, antigamente, com minha tia — eram casuais. A sala em que entramos era usada para ocasiões muito mais formais, quando Lissa precisava ter reuniões de Estado e conduzir assuntos da realeza. Havia até um trono, embora fosse simples e elegante, feito de carvalho, sem nenhum adorno especial. Ela estava usando roupas bonitas, mas nada exagerado, e a única referência a seu título era a pequena tiara no topo do cabelo solto. Guardiões em silêncio formavam um círculo perto das paredes da sala, mas não prestei muita atenção neles. Estava mais interessado nas pessoas com quem Lissa conversava. Era um grupo heterogêneo, alguns sentados e outros em pé, mas todos ansiosos, como se estivessem esperando alguma coisa. Nós, me dei conta.

Rose, Dimitri e Christian estavam lá, o que não era nenhuma surpresa. Lissa não estaria sem seus confidentes, muito menos quando o assunto era eu. Marie Conta, uma Moroi mais velha que era uma conselheira formal, também estava ali. Ela apoiara e ajudara Lissa durante seu reinado polêmico, então fazia sentido que viesse para algo dessa natureza. Não foi nem tão inesperado ver meus pais presentes.

O que me pegou de surpresa — e a Sydney também, a julgar por como apertou minha mão — era que já havia alquimistas ali. E não eram quaisquer alquimistas: o pai de Sydney, sua irmã Zoe e um rapaz que demorei um tempo para identificar. Então me lembrei: Ian. Um cara que já fora apaixonado por Sydney.

Foi nessa confusão que entramos, no auge da nossa elegância nupcial.

Já tinha sido responsável por muitas situações de constrangimento ao longo da vida, mas essa era a primeira vez que deixava uma sala inteira completamente sem palavras. Olhos se arregalaram. Queixos caíram. Até os rostos impassíveis de alguns guardiões demonstraram espanto.

— Não falem todos ao mesmo tempo — ironizei.

O pai de Sydney levantou, com o rosto vermelho de fúria.

— Que abominação é essa?

Lissa, um pouco mais diplomática, perguntou:

— Adrian, isso é algum tipo de piada?

— Piada é acordar todo mundo pra isso — eu disse, brincando. — Quer dizer, sei que está todo mundo animado em ver a gente, mas não precisava...

— Exijo que a entreguem para nossa custódia imediatamente — exclamou o pai de Sydney. — Pra podermos pôr um fim nessa farsa antes que isso fique pior. Vamos assumir daqui.

— O sr. Sage diz que Sydney cometeu crimes terríveis entre os alquimistas — Lissa explicou. — Ele alega que você esteve envolvido, Adrian, mas que estão dispostos a ignorar os seus crimes se entregarmos Sydney, já que você é um dos meus súditos.

Me mantive firme.

— O único crime que cometemos foi tirar Sydney e um monte de infelizes daquele show de horrores que eles chamam de centro de reabilitação, onde eles iam deixar que ela fosse queimada viva. E sabe que crimes ela e os outros prisioneiros cometeram? Tratar dampiros e Moroi como gente. Imagine só.

— Segundo eles — Lissa continuou, com calma —, Sydney tentou botar fogo em alguns agentes deles ontem à noite.

— Foi um blefe — afirmei. — Eles ainda estão vivos, não estão?

— Isso é irrelevante — Ian cortou. Ele continuou sentado e, pela sua proximidade com Zoe, parecia que tinha transferido sua paixão de uma irmã Sage para a outra. — Não cabe a vocês julgarem os nossos agentes. Nós cuidamos disso.

Era agora, o momento da verdade.

— Bom, esse é o problema, vossa majestade. Sydney é uma de suas súditas agora que é minha esposa. Você disse que não me entregaria a eles porque estou sob sua proteção, certo? Está dizendo que entregaria minha esposa?

Isso fez toda a sala ficar em silêncio novamente até Lissa encontrar palavras.

— Adrian... foi esse o motivo de você fazer isso? — Ela apontou para Sydney e para mim ao dizer isso mas não conseguiu articular nada mais preciso. — Por que fez isso? Acha que ela vai ganhar cidadania Moroi ou coisa do tipo? Não é assim que funciona. De maneira nenhuma. Sei que se importa com ela...

— Me importo com ela? — exclamei. Foi então que me dei conta de que ninguém entendia de verdade. Todas as vezes que eu atormentara Lissa para ajudar Sydney nos últimos meses, ela presumira que tinha sido motivado por sentimentos de amizade. E, agora, ela e as outras pessoas da Corte achavam que aquilo não passava de um golpe maluco que eu havia inventado para conseguir o que queria. Só os alquimistas faziam ideia da sinceridade dos meus sentimentos, mas, aos seus olhos, esses sentimentos eram errados e pervertidos. — Lissa, eu amo Sydney. Não casei com ela por brincadeira! Casei porque sou apaixonado por ela e quero passar o resto da minha vida com ela. E esperava que, como minha soberana, você fosse me apoiar e proteger a mim e a meus entes queridos, ainda mais porque duvido que essas pessoas tenham alguma prova concreta dos crimes de que estamos sendo acusados. Você falou no mês passado que não pode assumir nenhum risco por alguém que não seja seu súdito. Bom, sei que tecnicamente ela não é sua súdita nem Moroi, mas eu sou e, se as promessas que você fez pra mim, como membro do seu povo, realmente significam alguma coisa, elas se estendem a Sydney também. Nós somos casados. Ela é minha família agora. Estamos ligados um ao outro pelo resto das nossas vidas e, se você vai deixar que eles a levem à força, pode me pôr pra fora também.

Lissa foi pega de surpresa, mas Jared Sage — que, me dei conta, era meu sogro agora — não demonstrou nada além de desprezo.

— Isso é ridículo. Humanos e Moroi não podem se casar. Esse é o nosso costume e o de vocês também. Esse casamento não vale nada.

— Segundo o estado de Nevada, vale sim — eu disse, com um sorriso. — Temos os documentos para provar. Me arranjem um laptop que posso mostrar as fotos do casamento pra vocês.

A expressão de Rose era difícil de decifrar. Eu tinha certeza de que ela estava tão chocada quanto todos com aquela revelação, mas algo me dizia que teria uma atitude parecida com a de nossos amigos em Palm Springs: aceitação e apoio.

— Lissa — ela disse —, deixe os dois ficarem. Não entregue Sydney.

Marie Conta, ao lado do trono de Lissa, se debruçou e murmurou algo no ouvido da rainha. Pela expressão de Marie, imaginei que fosse exatamente o oposto do que Rose tinha dito.

Dessa vez, Ian se levantou.

— Não cabe a você tomar essa decisão! — ele exclamou, incrédulo. — O destino de Sydney Sage não está nas suas mãos. Você não tem o direito de...

— Ivashkov — Sydney interrompeu. Era a primeira vez que ela falava desde que entramos na sala.

Ian voltou sua expressão furiosa de Lissa para ela.

— O quê?

— Ivashkov — ela repetiu, com um rosto que era o retrato da serenidade. Só eu conseguia notar como ela estava nervosa pelo suor de sua mão. Os alquimistas tinham dado um golpe baixo mandando aqueles três. — Meu nome é Sydney Ivashkov agora, Ian.

— Nada disso! — o pai dela exclamou, furioso. — Estou cansado dessa palhaçada. Eu mesmo vou levar você à força, se é isso que preciso fazer pra salvar sua alma dessa depravação.

Ele avançou na nossa direção e, num piscar de olhos, Dimitri se colocou entre nós e ele.

— Sr. Sage — ele disse, mantendo a calma. — Ninguém vai levar ninguém à força daqui a menos que sua majestade, a rainha, solicite.

Todos os olhos se voltaram para Lissa. Seu rosto era altivo e tranquilo, mas sua aura a denunciava. Nós a tínhamos colocado numa posição que nenhuma monarca Moroi jamais tivera de enfrentar. Me sentia um pouco mal por isso, considerando que éramos amigos, mas me mantive firme. Todas as palavras do meu voto de casamento tinham sido sinceras e eu faria o que fosse preciso para manter Sydney em segurança.

— Adrian Ivashkov é meu súdito — Lissa declarou finalmente. — E, como tal, tem todos os direitos e privilégios dessa posição. Sua esposa veio aqui em busca de asilo, e vou conceder esse refúgio a ela. Ambos estão sob minha proteção agora e, durante a permanência deles na Corte, vocês não terão jurisdição sobre eles. Não liberarei nenhum dos dois à sua custódia, ainda mais porque de fato não vi nenhuma evidência de seus supostos crimes.

— O crime deles está bem na sua frente, sem a menor vergonha na cara! — Ian exclamou.

O pai de Sydney obviamente concordava.

— Isso é um ultraje! Se fizer isso, vai ter que lidar com a fúria de toda a organização alquimista! Agora acha que pode sair impune das coisas que faz? Somos nós que acobertamos vocês! Sem nós, vocês não seriam nada. Como acham que vão existir em sociedade sem a nossa ajuda? Sem nós...

— O mundo inteiro saberia da existência dos vampiros — disse Sydney, com frieza. — Vão permitir que isso aconteça, pai? Não está preocupado que outros humanos fracos possam cair nas garras deles se os alquimistas não os ajudarem a se esconder?

A expressão do seu pai ficou cada vez mais sombria e ele parecia prestes a dizer um monte de coisas. Em vez disso, respirou fundo e se voltou para Lissa.

— Os alquimistas são aliados poderosos. Vocês não querem ver que tipo de inimigos nós seríamos.

— Obrigada pelo conselho. — Lissa parecia inabalável, mas vi sua aura tremular. — Glen? — ela chamou, se dirigindo a um dos guardiões perto da porta. — Você e os outros guardiões podem fazer a gentileza de escoltar o sr. Sage e os demais com segurança para fora da Corte?

O guardião fez uma reverência e deu um passo à frente, chamando outros cinco guardiões.

— Sim, sua majestade.

Os guardiões levaram os alquimistas para fora da sala, embora eles continuassem protestando e fazendo ameaças até estarem bem longe. Pelo menos, dois deles. Zoe não havia dito uma única palavra durante a discussão — simplesmente observara a irmã com os olhos arregalados e angustiados. Não sabia se ela se sentia culpada por ter mandado Sydney para a reeducação ou se estava apenas em choque com as novidades. Ao meu lado, Sydney tremia. Não devia ter sido fácil para ela ver sua família sendo levada à força daquele jeito. Ainda segurando sua mão, dei um passo à frente quando o silêncio constrangedor voltou a cair.

— Obrigado, Lissa. Você não faz ideia...

Lissa ergueu a mão para me deter, uma mão que usou em seguida para esfregar a testa, como se tivesse dor de cabeça.

— Não, Adrian. Você é que não faz ideia dos problemas que isso me causou. Estou feliz por você, mesmo. Mas por hoje cansei de falar. Preciso dormir pra pensar direito nessa história e na crise que isso pode causar. Vamos arrumar um lugar para vocês e...

— Espere um minuto. — Para o meu espanto, foi meu pai quem deu um passo à frente naquele momento e, pela sua expressão, fiquei surpreso por não ter apoiado Jared Sage na discussão anterior. — Você está dizendo que vai deixar essa... essa história de... casamento passar? Que vai tratar isso como se fosse... de verdade?

Lissa, que realmente parecia exausta, suspirou.

— Pra eles parece bem de verdade, lorde Ivashkov, e isso basta pra mim.

— Pensei que você só estivesse fingindo para tirar aqueles alquimistas daqui! Você não pode agir como se esse casamento fosse legítimo. Nenhum Moroi civilizado desceu ao ponto de... — Meu pai mordeu a língua, olhando Sydney de cima a baixo. Ele veio na nossa direção com uma velocidade que até os guardiões teriam admirado e teve a audácia de pegar a mão de Sydney. — Reconheço essas pedras! São da sua tia! Como ousa? Teve a coragem, a audácia, de colocar uma fortuna em joias da rainha nas mãos dessa... dessa... fornecedora!

Tirei a mão de Sydney da dele.

— Pai — eu disse baixo —, um dos meus princípios na vida é não me meter em briga com crianças, animais ou velhos ignorantes. Mas vou abrir uma exceção se você tocar ou ofender minha mulher de novo.

— Nathan — minha mãe advertiu, chegando ao lado dele. — Ela é sua nora agora. Mostre um pouco de respeito.

Meu pai voltou sua ira contra ela.

— Não vou fazer nada do tipo! Isso é um absurdo, um ultraje. É...

— É o que nosso filho quer — minha mãe declarou. — E vou ficar ao lado dele.

Olhei nos olhos dela e senti meu coração ficar mais leve. Eu não tinha pedido desculpas a ela depois da nossa briga. Nem tinha tentado responder às suas ligações e mensagens. Não tinha sido por falta de amor, mas por preocupação com Sydney. Naquele momento, olhando para a minha mãe, fiquei surpreso ao ver algo nela que não havia antes: independência.

— Pelo amor de Deus, Daniella — meu pai gritou. — Não aumente ainda mais a lista de erros estúpidos que você já cometeu na vida. Se quiser voltar pra casa comigo hoje, fique quieta e...

— Não — ela disse, interrompendo-o mais uma vez. — Na verdade, não quero voltar pra casa com você, nem hoje nem nunca.

— Você não sabe o que está falando — ele murmurou, raivoso. — Nem as consequências que isso vai ter.

— Na verdade, Nathan, sei perfeitamente.

Ergui os olhos para Lissa, que parecia bastante surpresa com essa nova reviravolta no drama.

— Sua majestade — eu disse. — Você disse que arranjaria um lugar pra mim e pra minha esposa ficarmos. Tem como conseguir um pra minha mãe também?

Lissa podia se preocupar com a reação dos alquimistas, mas não tinha nenhum medo em relação ao meu pai.

— Sim — ela disse. — Tenho certeza de que isso pode ser arranjado.

Quando finalmente saímos, uma pequena multidão tinha se reunido do lado de fora do palácio. Os boatos haviam se espalhado enquanto estávamos lá e os curiosos tinham aparecido, mesmo tão tarde. As roupas de casamento diziam tudo, e pude ver o choque e a descrença no rosto de muitos, incluindo o de Charlotte. Não esperava que ela estivesse ali. Assim como a minha mãe, não tinha falado com ela desde que saíra da Corte e era