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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


SUNSET PARK / Paul Auster
SUNSET PARK / Paul Auster

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

Biblio VT

 

 

 

 

Já faz quase um ano que ele tira fotografias de coisas abandonadas. No mínimo, tem duas tarefas a cumprir todos os dias, às vezes elas chegam a seis ou sete, e, toda vez que ele e seu séquito entram numa casa, confrontam-se com as coisas, as inumeráveis coisas rejeitadas, deixadas para trás pelas famílias que se foram. As pessoas ausentes partiram às pressas, todas elas, envergonhadas, confusas, e é certo que, onde quer que estejam morando agora (caso tenham encontrado um lugar para morar e não estejam acampadas no meio da rua), suas novas moradias são menores do que as casas que perderam. Cada casa é uma história de fracasso - de falência ou de inadimplência, de dívida e de execução de hipoteca - e ele assumiu a missão de documentar os últimos vestígios daquelas vidas desfeitas a fim de provar que as famílias desaparecidas estiveram ali algum dia, que os fantasmas de pessoas que ele nunca vai ver e jamais irá conhecer ainda estão presentes nas coisas descartadas, dispersas em suas casas vazias.
O trabalho se chama remover o lixo e ele pertence a uma equipe de quatro homens empregados pela Imobiliária Dunbar, a qual subcontrata seus serviços de “preservação do lar” para os bancos locais que agora detêm a propriedade dos imóveis em questão. As extensas planícies do sul da Flórida estão repletas dessas estruturas órfãs e, como o interesse dos bancos é re­­vendê-las o mais depressa possível, as casas vagas têm de ser limpas, consertadas e preparadas para então serem apresentadas aos possíveis compradores. Num mundo que desmorona, num mundo de ruína econômica e de agruras implacáveis e cada vez maiores, remover o lixo é um dos poucos negócios prósperos no setor. Não há dúvida de que ele teve muita sorte de ter encontrado esse trabalho. Não sabe quanto tempo mais ele poderá suportá-lo, mas o pagamento é decente e, numa terra onde os empregos estão cada vez mais raros, qualquer emprego é melhor do que nada.

 


 


No início, ficou espantado com a bagunça, a imundície e o desleixo. Rara é a casa que tenha sido deixada em sua condição original por seus antigos donos. Na maioria
das vezes, houve uma erupção de raiva e violência, um furor de despedida, um surto de vandalismo arbitrário - desde as torneiras abertas nas pias e nas banheiras,
onde a água transborda, até paredes afundadas a golpes de marreta, ou cobertas com pichações obscenas, ou marcadas por furos de bala, para não falar dos canos de
cobre arrancados, dos tapetes com manchas de cloro, dos montes de excremento depositados no chão da sala. Esses são, talvez, exemplos extremos, atos impulsivos provocados
pela raiva dos expropriados, manifestações de desespero repulsivas, porém compreensíveis, e no entanto, ainda que nem sempre se veja dominado pela repulsa quando
entra numa casa, ele nunca abre a porta sem um sentimento de apreensão. Invariavelmente, a primeira coisa que tem de enfrentar é o cheiro, a arremetida de um ar
azedo que invade suas narinas, os aromas ubíquos, mesclados, de mofo, leite rançoso, palhas bolorentas da caminha de um gato, vasos sanitários com crostas de imundície
e comida podre na bancada da pia da cozinha. Nem mesmo o ar fresco que se derrama pelas janelas abertas é capaz de varrer os cheiros. Nem mesmo a mais meticulosa
e circunspecta faxina consegue apagar o fedor de derrota.

E depois há sempre os objetos, os pertences esquecidos, as coisas abandonadas. Nessa altura, o número de suas fotografias já alcança a casa dos milhares e, no seu
arquivo copioso, é possível encontrar fotos de livros, sapatos e pinturas a óleo, pianos e torradeiras, bonecas, aparelhos de chá e meias sujas, televisores e jogos
de tabuleiro, vestidos de baile e raquetes de tênis, sofás, lingerie de seda, pistolas para calafetar fissuras, percevejos, bonequinhos de plástico de heróis infantis,
batons, fuzis, colchões desbotados, facas e garfos, fichas de pôquer, uma coleção de selos e um canarinho morto no fundo de uma gaiola. Ele não tem a menor ideia
do motivo por que se sente compelido a tirar essas fotos. Compreende que é uma busca vã, sem nenhum possível benefício para ninguém, e mesmo assim toda vez que entra
numa casa sente que as coisas chamam por ele, falam com ele nas vozes das pessoas que não estão mais ali, pedem a ele para serem olhadas pela última vez, antes de
serem descartadas. Os demais membros da equipe acham graça em sua atividade fotográfica obsessiva, mas ele não lhes dá nenhuma atenção. Em sua opinião, não devem
ser levados em grande conta e ele os despreza a todos. Vitor Cérebro-Morto, o chefe da equipe; o gago e tagarela Paco; e o gordo e ofegante Freddy - os três mosqueteiros
do juízo final. A lei diz que todos os objetos aproveitáveis acima de um determinado valor devem ser entregues ao banco, o qual é obrigado a devolvê-los a seus donos,
mas seus colegas de trabalho apanham tudo o que lhes interessa e nunca pensam duas vezes. Acham que ele é um tolo por dar as costas para aqueles despojos - as garrafas
de uísque, os aparelhos de rádio, os tocadores de CD, os equipamentos de arco e flecha, as revistas pornográficas - mas tudo o que ele quer são suas fotografias
- não coisas, mas as fotos das coisas. Já faz algum tempo que ele adotou a regra de falar o mínimo possível quando está trabalhando. Paco e Freddy passaram a chamá-lo
de El Mudo.

Ele tem vinte e oito anos e, até onde sabe, não tem ambições. Pelo menos, nenhuma ambição fervorosa, nenhuma ideia clara do que acarretaria para ele construir um
futuro plausível. Sabe que não vai ficar na Flórida por muito tempo, que está chegando a hora em que vai sentir a necessidade de se mudar outra vez, mas, até que
essa necessidade se transforme em precisão de agir, está contente de permanecer no presente e não pensar no dia seguinte. Se ele alcançou alguma coisa desde que
largou a faculdade e foi à luta para viver por conta própria, foi essa capacidade de viver no presente, de se confinar no aqui e no agora, e embora possa não ser
a realização mais louvável que se possa imaginar, exigiu dele uma disciplina e um autocontrole consideráveis. Não ter planos, o que significa não ter aspirações
nem esperanças, estar satisfeito com seu quinhão, aceitar o que o mundo lhe concede no intervalo entre um nascer do sol e outro - para viver desse jeito, é preciso
querer muito pouco, o mínimo humanamente possível.

Passo a passo, ele foi aparando os desejos até chegar àquilo que agora se aproxima do puro mínimo. Parou de fumar e de beber, não come em restaurantes, não possui
televisor, rádio nem computador. Gostaria de trocar seu carro por uma bicicleta, mas não pode se livrar do carro, pois as distâncias que tem de atravessar para trabalhar
são grandes demais. O mesmo se aplica ao telefone celular que leva no bolso e que gostaria imensamente de jogar no lixo, mas também precisa do celular para o trabalho
e portanto sem chance de ficar sem ele. A câmera digital era uma concessão, talvez, mas, em vista da desolação e da canseira da interminável rotina do trabalho de
remover o lixo, ele tem a sensação de que a máquina fotográfica está salvando sua vida. Seu aluguel é baixo, pois mora num apartamento pequeno, num bairro pobre,
e, além de gastar dinheiro com as necessidades elementares, o único luxo que se permite é comprar livros, livros de capa mole, em geral romances, romances americanos,
romances ingleses, romances estrangeiros traduzidos, mas no fim os livros acabam sendo menos um luxo do que uma necessidade, e ler é um vício do qual não tem a menor
vontade de se curar.

Se não fosse pela garota, na certa iria embora antes do final do mês. Economizou dinheiro bastante para ir aonde quiser e nem se discute que sua dose de sol da Flórida
já está de bom tamanho - aquele sol que, depois de muito estudo, ele agora acredita que faz mais mal do que bem à alma. É um sol maquiavélico, em sua opinião, um
sol hipócrita, e a luz que gera não ilumina as coisas, mas as obscurece - nos cega com seus esplendores constantes, luminosos demais, que nos esmagam com suas rajadas
de umidade vaporosa, nos desestabilizam com seus reflexos semelhantes a miragens e com suas trêmulas ondulações de nada. Todo ele é brilho e deslumbramento, mas
não oferece nenhuma substância, nenhuma tranquilidade, nenhum alívio. No entanto foi debaixo desse sol que viu a garota pela primeira vez e, como não consegue se
convencer a desistir dela, continua a viver com o sol e tenta fazer as pazes com ele.

O nome da garota é Pilar Sanchez e ele a conheceu seis meses atrás, num parque público, um encontro puramente acidental no final de uma tarde de sábado no meio de
maio, o mais improvável dos encontros improváveis. Estava sentada na grama, lendo um livro, e a menos de três metros ele também estava sentado na grama lendo um
livro, que aconteceu de ser o mesmo livro que ela estava lendo, o mesmo livro numa edição idêntica, de capa mole, O grande Gatsby, que ele estava lendo pela terceira
vez desde que o pai lhe dera de presente no seu aniversário de dezesseis anos. Estava sentado ali havia uns vinte ou trinta minutos, dentro do livro e portanto isolado
por paredes de tudo aquilo que o rodeava, quando ouviu alguém dar uma risada. Virou-se e, naquele primeiro e fatal relance que teve da garota, ali sentada sorrindo
para ele e apontando para o título do livro que ela mesma segurava na mão, ele imaginou que a garota tinha menos de dezesseis, apenas uma menina, de fato, uma adolescente
pequena, de short apertado com a bainha cortada, sandálias e um top escasso amarrado nas costas, as mesmas roupas usadas por todas as garotas mais ou menos atraentes
em todas as regiões ao sul da Flórida quente e ensolarada. Nada mais do que uma criança, disse para si mesmo, e no entanto lá estava ela com seus braços e pernas
lisos e descobertos, e o rosto alerta e sorridente, e ele que raramente sorri para alguém ou para alguma coisa olhou dentro dos olhos animados e escuros da garota
e sorriu de volta para ela.

Seis meses depois, ela ainda é menor de idade. Sua carteira de motorista diz que tem dezessete anos, que só vai completar dezoito em maio, e portanto ele deve agir
com cuidado com ela quando estiver em público, evitar a todo custo fazer qualquer coisa que possa despertar suspeitas dos lascivos, pois um simples telefonema para
a polícia dado por algum bisbilhoteiro nervosinho poderia facilmente metê-lo na cadeia. Toda manhã que não for a manhã de um fim de semana ou de um feriado, ele
a leva de carro até o colégio John F. Kennedy, onde ela cursa a última série e tem boas notas, aspira a fazer uma faculdade e no futuro ser uma enfermeira diplomada,
mas ele não deixa a garota na frente do prédio. Seria perigoso demais. Algum professor ou funcionário do colégio poderia vê-los de relance juntos dentro do carro
e dar o alarme, por isso ele encosta o carro uns três ou quatro quarteirões antes de chegarem ao colégio Kennedy e deixa a garota descer do carro. Ele não lhe dá
um beijo de despedida. Não toca na garota. Ela fica triste com a prudência dele, pois na mente da garota ela já é plenamente adulta, mas aceita aquela indiferença
fingida porque ele disse que deve aceitar.

Os pais de Pilar morreram num acidente de carro dois anos antes e, até se mudar para o apartamento dele depois do término do ano letivo, em julho, ela morava com
as três irmãs mais velhas na casa da família. Maria, de vinte anos, Teresa, de vinte e três, e Angela, de vinte e cinco. Maria está matriculada numa faculdade comunitária
e estuda para ser esteticista. Teresa trabalha como caixa num banco local. Angela, a mais bonita de todas, é recepcionista num bar de hotel. Segundo Pilar, às vezes
Angela dorme com os clientes por dinheiro. Pilar se apressa em acrescentar que adora Angela, e que adora todas as suas irmãs, mas está contente por ter deixado aquela
casa que está cheia demais de lembranças da mãe e do pai, e além disso não é capaz de se conter, porém fica zangada com Angela por fazer o que faz, acha que é um
pecado uma mulher vender o corpo e é um alívio não ter mais de ficar discutindo com a irmã por causa disso. Sim, diz Pilar para ele, o lugar onde ele mora é um apartamentozinho
de nada, bastante ordinário, a casa é muito maior e mais confortável, mas o apartamento não tem o Carlos Junior, de dezoito meses, e isso também é um alívio enorme.
O filho de Teresa não é uma criança ruim, comparado a outras crianças, é claro, e além do mais o que Teresa pode fazer com o marido nas tropas estacionadas no Iraque
e com as longas horas que ela tem de passar trabalhando no banco, mas isso também não dá a Teresa o direito de empurrar para os ombros da irmã caçula a tarefa de
bancar a babá de seu filho, dia sim, dia não, de segunda a sexta-feira. Pilar queria ser uma garota legal, mas não pode deixar de se sentir prejudicada. Precisa
de tempo para ficar sozinha e para estudar, quer ser alguma coisa na vida, e como pode fazer isso se fica o tempo todo ocupada trocando fraldas sujas? Os bebês são
legais para os outros, mas ela não quer ter nada a ver com o assunto. Muito obrigada, diz ela, mas não quero.

Ele fica encantado com o espírito e a inteligência de Pilar. Já no primeiro dia, quando os dois estavam sentados no parque conversando sobre O grande Gatsby, ele
ficou impressionado por ela estar lendo o livro por conta própria e não porque um professor tivesse mandado, e depois, à medida que a conversa prosseguia, ficou
duplamente impressionado quando ela começou a argumentar que o personagem mais importante do livro não era Daisy, nem Tom, nem mesmo o próprio Gatsby, mas sim Nick
Carraway. Pediu a ela que explicasse. É porque é ele quem conta a história, disse Pilar. Ele é o único personagem que tem os pés no chão, o único personagem capaz
de olhar para fora de si mesmo. Todos os outros são pessoas perdidas e rasas, e sem a compaixão e a compreensão de Nick, não seríamos capazes de sentir nada por
eles. O livro depende de Nick. Se a história fosse contada por um narrador onisciente, o resultado não seria nem a metade do que é.

Narrador onisciente. Ela sabe o que a expressão significa, assim como compreende o que é falar sobre suspensão da descrença, biogênese, antilogaritmos e Brown contra
o Conselho de Educação.* Como é possível, se pergunta ele, uma garota feito Pilar Sanchez, cujo pai cubano trabalhou como carteiro a vida toda, cujas três irmãs
mais velhas chafurdam satisfeitas num pântano de insípidas rotinas diárias, como pode ela ter se tornado uma pessoa tão diferente do resto da família? Pilar quer
saber coisas, tem planos, dá duro, e ele fica mais do que feliz por incentivá-la, por fazer tudo o que pode para ajudar seus progressos na educação. Desde o dia
em que saiu de casa e foi morar com ele, ele tem treinado com ela as melhores estratégias para conseguir uma boa pontuação nos SATs, ele avalia todas as tarefas
de casa dela, ensinou-lhe os rudimentos do cálculo infinitesimal (que seu colégio não oferece) e leu em voz alta para ela dúzias de ro­­mances, contos e poemas.
Ele, o jovem sem ambições que largou a faculdade e desdenhou os luxos da vida privilegiada que teve no passado, assumiu a tarefa de se tornar ambicioso em benefício
de Pilar, de empurrá-la para a frente, até onde ela estiver disposta a ir. A prioridade é a faculdade, uma boa faculdade com bolsa de estudos integral, e, uma vez
que ela estiver dentro da faculdade, ele acha que o resto vai andar sozinho. No mo­­mento, ela sonha tornar-se enfermeira diplomada, porém mais cedo ou mais tarde
a situação vai mudar, ele tem certeza disso, e está plenamente confiante de que ela está apta a entrar um dia numa faculdade de medicina e tornar-se médica.

Foi ela que sugeriu morar com ele. Nunca teria passado pela cabeça dele propor um plano tão audacioso, mas Pilar estava resolvida, ao mesmo tempo movida pelo desejo
de fugir e fascinada com a perspectiva de dormir com ele todas as noites, e depois que ela suplicou que ele fosse falar com Angela, a principal fonte do sustento
do clã e, portanto, a pessoa que tinha a última palavra a respeito de todas as decisões da família, ele se encontrou com a mais velha das garotas Sanchez e conseguiu
convencê-la. De início ela se mostrou relutante, alegou que Pilar era jovem e inexperiente demais para pensar em dar um passo tão sério. Sim, ela sabia que a irmã
estava apaixonada por ele, mas não aprovava aquele amor por causa da diferença de idade, o que significava que mais cedo ou mais tarde ele acabaria se enchendo do
seu brinquedinho adolescente, iria embora e a deixaria para trás com o coração partido. Ele respondeu que provavelmente tudo iria terminar da maneira contrária,
ele é que seria abandonado e ficaria com o coração partido. Então, deixando de lado todo aquele papo sobre coração e sentimentos, apresentou sua defesa em termos
puramente práticos. Pilar não tinha emprego, disse ele, era um peso nas finanças da família e ele estava em condições de sustentá-la e retirar aquele fardo das mãos
delas. Não era como se estivesse raptando Pilar e indo com ela para a China, afinal. A casa delas ficava só a quinze minutos a pé do apartamento dele e as irmãs
poderiam ver Pilar sempre que quisessem. Para fechar o negócio, ele ofereceu presentes para elas, todas as coisas que morriam de vontade de ter, mas que não podiam
comprar porque viviam duras. Para espanto e prazer sarcástico dos três palhaços no seu trabalho, ele inverteu temporariamente sua postura quanto às regras de etiqueta
no serviço de remover o lixo e, durante a semana seguinte, surrupiou tranquilamente um televisor de tela plana quase novinho em folha, uma cafeteira elétrica top
de linha, um triciclo vermelho, trinta e seis filmes (inclusive uma caixa de colecionador com todos os filmes da série O poderoso chefão), um espelho de maquiagem
profissional e um jogo de taças de vinho de cristal, que prontamente ofereceu a Angela e suas irmãs como expressão de sua gratidão. Noutras palavras, Pilar agora
mora com ele porque ele subornou a família. Ele a comprou.

Sim, Pilar está apaixonada por ele, e sim, apesar de seus escrúpulos e hesitações íntimas, ele também a ama, por mais improvável que isso possa parecer a ele. Deve
ficar registrado que ele não é um sujeito que tem fixação especial por garotas novas. Até agora, todas as mulheres em sua vida foram mais ou menos de sua idade.
Portanto Pilar não representa a encarnação de algum tipo feminino ideal para ele - é meramente ela mesma, um pequeno lance de sorte com que ele esbarrou numa tarde
num parque público, uma exceção a todas as regras. Tampouco ele consegue explicar para si mesmo por que está atraído por ela. Admira a inteligência de Pilar, sim,
mas decididamente isso é de reduzida importância, porque ele já admirou a inteligência de outras mulheres antes dela, sem sentir a menor atração. Acha Pilar bonita,
mas não excepcionalmente bonita, não linda, de nenhuma forma objetiva (embora também fosse possível argumentar que qualquer menina de dezessete anos é linda, pela
simples razão de que toda juventude é linda). Mas não im­­porta. Ele não ficou apaixonado por ela por causa de seu corpo nem por causa de sua mente. O que é, então?
O que o prende aqui, quando tudo o mais lhe diz que devia ir embora? Talvez seja por causa da maneira como Pilar olha para ele, da ferocidade de seu olhar, da força
extasiada em seus olhos quando ela o escuta falar, por causa da sensação de que ela está inteiramente presente quando os dois estão juntos, de que ele é a única
pessoa que existe para ela na face da Terra.

Às vezes, quando ele pega sua câmera fotográfica e mostra para Pilar suas fotos das coisas abandonadas, os olhos dela se enchem de lágrimas. Há nela um lado delicado,
sentimental, que é quase cômico, ele acha, e no entanto se sente comovido com essa brandura, essa vulnerabilidade diante do sofrimento dos outros, e como ela também
pode ser muito firme, eloquente e risonha, ele nunca é capaz de prever qual é a parte dela que vai irromper num determinado momento. Isso pode ser meio irritante
a curto prazo, mas a longo prazo ele sente que é uma coisa ótima. Ele, que negou tantas coisas para si mesmo nos últimos anos, que foi tão implacável em suas abnegações,
que aprendeu a controlar os nervos com rigor e a vagar à deriva pelo mundo com um distanciamento frio e obstinado, voltou lentamente à vida em face dos excessos
emocionais de Pilar, de sua capacidade de se inflamar, de suas lágrimas sentimentaloides quando diante da imagem de um ursinho de pelúcia abandonado, de uma bicicleta
quebrada ou de um vaso de flores murchas.

Na primeira vez em que foram para a cama juntos, ela garan­­tiu que não era mais virgem. Ele tomou as palavras ao pé da le­­tra, mas, quando chegou a hora agá de
entrar nela, Pilar empurrou-o para trás e disse que não devia fazer aquilo. O buraco da mamãe estava interditado, disse ela, absolutamente proibido para membros
de homens. Línguas e dedos eram aceitáveis, mas não os membros, sob nenhuma condição e em nenhum momento: nunca. Ele não tinha a menor ideia do que ela estava falando.
Estava usando camisinha, não estava? Eles estavam protegidos e não havia nenhuma necessidade de se preocupar com nada. Ah, disse ela, mas é aí que ele estava enganado.
Teresa e o marido sempre haviam acreditado em camisinhas também e olhe só o que aconteceu com eles. Nada metia mais medo em Pilar do que a ideia de ficar grávida
e jamais poria seu destino em risco acreditando numa daquelas borrachinhas marotas. Ela preferia cortar os pulsos ou pular do alto de uma ponte a ficar grávida.
Ele estava entendendo? Sim, ele entendia, mas qual era a alternativa? O buraco dos fundos, ela respondeu. Angela havia lhe contado a respeito, e ele tinha de admitir
que, de um ponto de vista estritamente biológico e médico, era a única forma de controle de natalidade absolutamente segura no mundo.

Havia seis meses que ele obedecia aos desejos dela, restringia todas as penetrações do membro ao seu buraco dos fundos e não colocava nada mais do que a língua e
os dedos em seu bu­­raco da mamãe. Tais eram as anomalias e as idiossincrasias da vida amorosa deles, a qual no entanto é uma vida amorosa rica, uma esplêndida parceria
erótica, que não dá nenhum sinal de que vá se enfraquecer num futuro próximo. No fim, é essa cumplicidade sexual que o amarra a ela e o prende à quente terra de
ninguém de casas arruinadas e vazias. Ele está enfeitiçado pela pele de Pilar. É um prisioneiro de sua ardente boca jovem. Está em casa no corpo dela e, se algum
dia reunir coragem para ir embora, sabe que vai se arrepender até o fim da vida.


* Trata-se de um julgamento célebre da Suprema Corte dos Estados Unidos, de 1954, que envolvia a adoção de normas racistas no ensino. (N.T.)

 

2.

Sobre si mesmo, ele não contou quase nada para ela. Mesmo no primeiro dia no parque, quando ela o ouviu falar e compreendeu que ele tinha vindo de outro lugar, ele
não contou para ela que aquele outro lugar era a cidade de Nova York, o West Village em Manhattan, para ser exato, mas respondeu de maneira vaga que sua vida tinha
começado lá no norte. Um pouco mais tarde, quando ele começou a treiná-la para o SAT e a apresentou ao cálculo infinitesimal, Pilar rapidamente compreendeu que ele
era mais do que apenas um trabalhador itinerante no ofício de remover o lixo, que na verdade ele era uma pessoa com alto nível de instrução, com uma mente ágil e
um amor pela literatura tão vasto e tão informado que fazia os professores de inglês que davam aula para ela no colégio John F. Kennedy parecerem impostores. Onde
ele tinha estudado?, ela perguntou um dia. Ele encolheu os ombros, não queria falar de Stuyvesant e dos três anos que havia passado na Universidade Brown. Quando
ela continuou a pressioná-lo, ele olhou para o chão e resmungou alguma coisa a respeito de uma faculdade pequena na Nova Inglaterra. Na semana seguinte, quando ele
lhe deu um romance escrito por Renzo Michaelson, que por acaso era seu padrinho, ela percebeu que tinha sido publicado por uma editora chamada Heller Books e perguntou
para ele se havia alguma relação. Não, disse ele, é só coincidência, acontece que Heller é um nome muito comum. Isso a induziu a fazer a pergunta simples e absolutamente
lógica, na sequência: Qual era a família Heller a que ele pertencia? Quem eram seus pais e onde moravam? Os dois já se foram, respondeu. Já se foram quer dizer que
morreram? Receio que sim. Igualzinho a mim, disse ela, e de repente seus olhos se encheram de lágrimas. Sim, respondeu ele, igualzinho a você. Tem irmãos e irmãs?
Não. Sou filho único.

Mentir para ela dessa maneira poupou-lhe o desconforto de ter de falar sobre coisas de que ele vinha lutando para se esquivar havia anos. Não quer que Pilar saiba
que seis meses depois que ele nasceu sua mãe deu o fora no pai e se divorciou para casar com outro homem. Não quer que ela saiba que ele não vê nem fala com o pai,
Morris Heller, fundador e editor da Heller Books, desde o verão seguinte ao seu terceiro ano na Universidade Brown. Acima de tudo não quer que ela saiba nada sobre
sua madrasta, Willa Parks, que casou com seu pai vinte meses depois do divórcio, e nada, nada, nada a respeito de seu falecido irmão postiço, Bobby. Esses assuntos
não dizem respeito a Pilar. São coisas particulares dele, e até que encontre a porta de saída do limbo que o envolveu nos últimos sete anos, não vai compartilhar
aquilo com ninguém.

Mesmo agora, ele não consegue ter certeza se fez aquilo de propósito ou não. Não há dúvida de que empurrou Bobby, nem de que os dois estavam discutindo e ele o empurrou
num mo­­mento de raiva, mas não sabe se o empurrão veio antes ou depois de ter ouvido o carro que se aproximava, o que vale dizer que não sabe se a morte de Bobby
foi um acidente ou se ele, em segredo, estava tentando matá-lo. Toda a história de sua vida depende do que aconteceu naquele dia nos Berkshires e ele ainda não tem
a mínima ideia da verdade, ainda não consegue saber com certeza se é culpado de um crime ou não.

Foi no verão de 1996, mais ou menos um mês depois que o pai lhe deu O grande Gatsby e mais cinco livros no seu aniversário de dezesseis anos. Bobby tinha dezoito
anos e meio e havia acabado de se formar no ensino médio, depois de passar raspando, em grande parte, bem grande mesmo, graças ao esforço de seu irmão postiço mais
novo, que redigiu três trabalhos de final de curso para ele, ao preço promocional de dois dólares por página, sessenta dólares ao todo. Seus pais tinham alugado
uma casa nos arredores de Great Barrington durante o mês de agosto e os dois rapazes estavam a caminho para passar o fim de semana com eles. Ele era jovem demais
para dirigir, era Bobby que tinha carteira de motorista, e assim era responsabilidade de Bobby verificar a gasolina e encher o tanque antes de partirem - o que,
nem é preciso dizer, ele não fez. A uns vinte e quatro quilômetros da casa, quando percorriam uma estrada tortuosa, montanhosa, numa região pouco habitada, a gasolina
acabou. Ele até podia não ter ficado tão zangado se Bobby tivesse demonstrado algum remorso, se o folgado tivesse se dado ao trabalho de pedir desculpas por seu
erro, mas como sempre acontecia Bobby achou a situação engraçadíssima e sua primeira reação foi dar a maior gargalhada.

Naquela época, existiam telefones celulares, mas eles não tinham nenhum, o que queria dizer que precisavam sair do carro e caminhar. Era um dia quente, opressivamente
úmido, com insetos e mosquitos que rodopiavam em enxames em volta da cabeça deles, e ele estava de mau humor, irritado com o desleixo idiota de Bobby, com o calor
e os insetos, com o fato de ter de caminhar por aquela estradinha estreita e esburacada, e não demorou muito e ele já estava falando as maiores barbaridades para
seu irmão postiço, xingava, dizia palavrões, tentava provocá-lo para brigar. Mas Bobby não dava bola, se recusava a reagir aos insultos. Não fique tão irritado por
uma coisinha à toa, dizia ele, a vida é cheia de reviravoltas inesperadas, quem sabe alguma coisa interessante vai acontecer com eles porque estão caminhando por
aquela estrada, quem sabe eles não vão encontrar duas garotas lindas depois da próxima curva, duas garotas lindas e completamente nuas que vão levá-los para dentro
do mato e fazer amor com eles durante dezesseis horas seguidas. Em circunstâncias normais, ele ria quando Bobby começava a falar daquele jeito, se rendia satisfeito
ao encantamento da tagarelice fútil de seu irmão postiço, mas não havia nada de normal no que estava acontecendo naquela hora e ele não estava com a mínima vontade
de achar graça em coisa nenhuma. Tudo era tão idiota que ele tinha vontade de dar um murro na cara de Bobby.

Agora, toda vez que pensa naquele dia, imagina como as coisas teriam sido diferentes se estivesse caminhando à direita de Bobby e não à esquerda. O empurrão o teria
jogado para fora da estrada e não para o meio da pista, e aquilo seria o final da história, pois não haveria história nenhuma e a questão toda se resumiria a menos
do que nada, uma rápida explosão de raiva que seria esquecida em muito pouco tempo. No entanto lá estavam eles, emparelhados daquela maneira, por nenhuma razão especial,
um do lado esquerdo e o outro do lado direito, ele no lado de dentro, Bobby no lado de fora, caminhando pelo acostamento da estrada no sentido contrário ao tráfego,
sem que viesse nenhum carro, nenhum caminhão nem motocicleta durante dez minutos, e depois que ele ficou azucrinando Bobby sem parar durante aqueles dez minutos,
a indiferença jocosa de seu irmão postiço pela encrenca deles lentamente se transformou em irritação, em seguida, em beligerância, e uns três quilômetros depois
de terem começado a caminhar, os dois estavam berrando um para o outro com toda a força dos pulmões.

Quantas vezes tinham brigado no passado? Vezes incontáveis, mais do que ele era capaz de lembrar, mas não havia nada de extraordinário naquilo, ele entende, pois
irmãos sempre brigam e, se Bobby não era de fato seu irmão de sangue, mesmo assim estivera a seu lado durante todo o tempo de sua vida consciente. Ele tinha dois
anos quando seu pai casou com a mãe de Bobby e os quatro passaram a viver juntos sob o mesmo teto, o que necessariamente faz daquela época um tempo situado para
além do que ele consegue lembrar, um período agora inteiramente expurgado de sua mente, e portanto seria legítimo dizer que Bobby sempre foi seu irmão, mesmo que
não fosse exatamente esse o caso. Houve as costumeiras disputas e conflitos e, como ele era o mais jovem, por uma diferença de dois anos e meio, seu corpo havia
recebido a maior parte das pancadas. Uma vaga lembrança de seu pai entrando de repente para segurar um Bobby que berrava, num dia de chuva em algum lugar na zona
rural, de sua mãe repreendendo Bobby por fazer brincadeiras muito brutas, de dar um pontapé na canela de Bobby quando ele arrancou um brinquedo da sua mão. Mas nem
tudo era guerra e luta, também houve tréguas, calmarias e fases boas, e a partir da época em que ele tinha sete ou oito anos, quer dizer, quando Bobby tinha nove,
dez ou onze anos, ele se lembra de que gostava de fato de seu irmão, talvez até tivesse amor por Bobby, e se lembra de que Bobby também gostava dele e talvez tivesse
amor por ele. Mas os dois nunca foram muito ligados, não do jeito que são alguns irmãos, mesmo irmãos que brigam, que são antagonistas, e sem dúvida isso tinha alguma
coisa a ver com o fato de pertencerem a uma família artificial, uma família construída, e a lealdade mais profunda de cada um dos meninos estar reservada para seu
próprio pai ou mãe. Não que Willa fosse uma mãe ruim para ele ou que seu pai fosse um pai ruim para Bobby. Ao contrário. Os dois adultos eram aliados inabaláveis,
seu casamento era sólido e extraordinariamente isento de complicações, e cada um deles fazia todo esforço possível para supor que o filho do outro tinha razão. Mesmo
assim havia falhas geológicas invisíveis, fissuras microscópicas que os faziam recordar que eram uma entidade feita de remendos, algo não completamente inteiriço.
A questão do nome de Bobby, por exemplo. Willa era Willa Parks, mas seu primeiro marido, que tinha morrido de câncer aos trinta e seis anos, se chamava Nordstrom,
e Bobby também tinha o sobrenome Nordstrom, e como ele tinha sido Nordstrom durante os primeiros quatro anos e meio de vida, Willa relutou em trocar o nome para
Heller. Tinha a impressão de que Bobby podia ficar confuso, mas o principal era que ela não conseguia ter coragem de apagar os últimos vestígios de seu primeiro
marido, que a amara e tinha morrido sem que tivesse nenhuma culpa disso, e privar seu filho do nome do pai daria a ela a sensação de que o primeiro marido estava
morrendo pela segunda vez. Portanto o passado fazia parte do presente e o fantasma de Karl Nordstrom era o quinto membro do lar, um espírito ausente que deixara
sua marca na pessoa de Bobby - o qual era ao mesmo tempo irmão e não irmão, filho e não filho, amigo e inimigo.

Eles viviam debaixo do mesmo teto, mas, a não ser pelo fato de seus pais serem marido e mulher, os dois garotos tinham pouca coisa em comum. Pelo temperamento e
pela aparência, pelas inclinações e pelo comportamento, por todos os critérios empregados para avaliar quem e o que é uma pessoa, eles eram diferentes, profunda
e inalteravelmente diferentes. À medida que os anos passavam, cada um derivava rumo à sua esfera própria e distinta e, na época em que avançavam aos trancos e barrancos
pelo início da adolescência, o caminho dos dois raramente se cruzava, a não ser na mesa de jantar e quando a família saía para passear. Bobby era expansivo, vivaz
e divertido, só que era um péssimo aluno, detestava a escola, e como além disso era um encrenqueiro temerário e rebelde, ganhava o rótulo de problema. Em contraste,
o irmão postiço mais novo tirava sistematicamente as notas mais altas de sua turma. Heller era calado e reservado, Nordstrom era extrovertido e turbulento, e cada
um dos dois achava que o outro estava tomando o rumo errado na vida. Para piorar a situação, a mãe de Bobby era professora de inglês na Universidade de Nova York,
uma mulher com paixão por livros e por ideias, e como deve ter sido difícil para seu filho ouvi-la fazer elogios a Heller por causa de seu bom aproveitamento nos
estudos, exultar por ter sido aceito em Stuyvesant e conversar com ele na hora do jantar a respeito do maldito e aporrinhante existencialismo. Aos quinze anos, Bobby
se tornara um fumante de maconha contumaz, um desses caras chapados, de olhos vidrados, que vomitam até as tripas nas festinhas de final de semana e fazem pequenas
transações de tráfico para pôr no bolso uma receita adicional. O careta Heller, o delinquente Nordstrom, os dois jamais conseguiriam combinar. De tempos em tempos,
ataques verbais eram disparados de parte a parte, mas as lutas corporais tinham cessado - em larga medida, por causa dos mistérios da genética. Quando os dois se
viram naquela estrada nos Berkshires doze anos atrás, o Heller de dezesseis anos tinha um metro e oitenta de altura e pesava setenta e sete quilos. Nordstrom, oriundo
de uma linhagem mais magricela, tinha um metro e setenta e dois de altura e pesava sessenta e seis quilos. O descompasso tinha cancelado qualquer potencial confronto.
Já fazia algum tempo que os dois pertenciam a categorias diferentes.

Qual era o motivo da briga entre os dois naquele dia? Que palavra ou frase, que série de palavras ou de frases o deixara tão enraivecido a ponto de perder o controle
sobre si mesmo e derrubar Bobby no chão? Não consegue lembrar com clareza. Tantas coisas foram ditas durante a briga, tantas acusações foram trocadas, tantas animosidades
soterradas subiram em alvoroço à su­­perfície em tantas rajadas de veemência e de espírito vingativo que ele tinha dificuldade para apontar a expressão específica
que havia servido de estopim. De início, tudo era bastante infantil. Irritação da parte dele por causa do desleixo de Bobby, só mais um furo numa comprida série
de furos que ele deixava pelo caminho, como é que Bobby conseguia ser tão burro e descuidado, olhe só a confusão em que você meteu a gente. Da parte de Bobby, irritação
com a reação exagerada do irmão diante de uma inconveniência sem importância, com a retidão de um sujeito metido a santinho, com a superioridade de sabichão que
vinha enchendo seu saco havia muitos anos. Coisa de garotos, coisa de garotos adolescentes de cabeça quente, nada de terrível, nada para se alarmar. Mas aí, à medida
que continuaram a bater boca e Bobby foi ficando instigado para a batalha, a disputa alcançou um nível de rancor mais profundo e mais clamoroso, o veio subterrâneo
de sangue ruim. Naquela hora, a coisa virou uma questão de família e não só algum problema particular entre os dois. Era a questão de como Bobby se sentia mal por
ser o pária do quarteto sagrado, de como não conseguia suportar o apego de sua mãe a Miles, de como Bobby já estava cheio dos castigos e das broncas atiradas contra
ele por adultos vingativos e sem coração, de como ele não conseguia suportar nem ouvir falar em conferências acadêmicas, transações editoriais e por que o livro
tal era melhor do que um outro - ele estava de saco cheio daquilo tudo, de saco cheio de Miles, de saco cheio de sua mãe e de seu padrasto, de saco cheio de todo
mundo naquela casa fedorenta, e não via a hora de poder ir embora de lá e se mandar para a faculdade no mês seguinte, e mesmo que ele fosse reprovado na faculdade,
Bobby não queria mais saber deles e não ia voltar para casa. Adios, babacas. Que se fodam Morris Heller e seu filho desgraçado. Que se foda o mundo todo.

Ele não consegue lembrar que palavra ou palavras o fizeram perder o controle. Talvez não seja importante saber isso, talvez nunca seja possível lembrar que insulto
no meio daquela rancorosa torrente de impropérios foi o responsável pelo empurrão, mas o importante, o que conta acima de tudo, é saber se ele ouviu o carro se aproximando
na direção deles, o carro que de repente se tornou visível depois de fazer uma curva fechada a oitenta quilômetros por hora, visível apenas quando já era tarde demais
para impedir que seu irmão fosse atropelado. O certo é que Bobby estava berrando com ele e que ele berrava também em resposta, dizia para ele parar, para calar a
boca, e durante todo o tempo daquele insano combate de gritos os dois continuaram a caminhar pela estrada, esquecidos de tudo o mais à sua volta, da mata à esquerda,
do pasto à direita, do céu nebuloso no alto, dos pássaros que cantavam em cada pedacinho do ar, tentilhões, melros, canários, todas essas coisas tinham desaparecido
àquela altura e a única coisa que restara era a fúria de suas vozes. Parece seguro que Bobby não ouviu o carro que se aproximava - ou então não ficou preocupado
com isso, pois estava caminhando no acostamento da estrada e não achou que havia perigo. Mas e quanto a você?, Miles se pergunta. Você sabia ou não sabia?

Foi um empurrão firme, decidido. Desequilibrou Bobby e o impeliu aos tropeções para o meio da estrada, onde caiu com a cabeça de encontro ao asfalto. Sentou-se quase
na mesma hora, esfregando a cabeça e praguejando, e antes que pudesse ficar de pé, o carro o estraçalhou, esmagou sua vida e transformou a vida deles de uma vez
por todas.

Essa é a primeira coisa que ele se recusa a dividir com Pilar. A segunda coisa é a carta que escreveu para os pais cinco anos depois da morte de Bobby. Ele tinha
acabado seu penúltimo ano na Universidade Brown e planejava passar o verão em Providence, ia trabalhar como auxiliar de pesquisa em regime de meio expediente para
um de seus professores de história (noites e finais de semana na biblioteca) e também como entregador em horário integral numa loja de eletrodomésticos da cidade
(instalando aparelhos de ar refrigerado, carregando televisores e geladeiras por escadas estreitas). Pouco antes, uma garota tinha entrado em cena e, como ela morava
no Brooklyn, ele matou seu trabalho de auxiliar de pesquisa num final de semana em junho e foi a Nova York para vê-la. Ainda tinha a chave do apartamento de seus
pais na Downing Street, seu antigo quarto continuava intacto e, desde que saíra de casa para fazer a faculdade, o combinado era que ele podia entrar e sair quando
quisesse, sem nenhuma obrigação de avisar que ia chegar. Saiu na sexta-feira, já tarde, depois de terminar o trabalho na loja de eletrodomésticos e só foi entrar
no apartamento muito depois da meia-noite. Os pais estavam dormindo. Na manhã seguinte, bem cedo, ele foi acordado pelo som de suas vozes que vinham da cozinha.
Saiu da cama, abriu a porta do quarto e então hesitou. Estavam falando mais alto e com mais ansiedade do que era o habitual, havia um refluxo de angústia na voz
de Willa e, se não estavam propriamente discutindo (raramente discutiam), alguma coisa importante estava acontecendo, alguma questão crucial estava sendo tratada
ou analisada ou reexaminada, e ele não queria interromper.

A reação apropriada seria voltar para seu quarto e fechar a porta. Mesmo na hora em que estava parado no corredor escutando os pais, sabia que não tinha nenhum direito
de estar ali, que devia se retirar, mas não conseguia impedir, estava curioso demais, ávido demais para descobrir o que estava acontecendo, e assim não se mexeu
e, pela primeira vez na vida, escutou escondido uma conversa particular dos pais e, como a conversa em grande parte tratava dele, foi a primeira vez que ouviu os
pais ou qualquer outra pessoa falar sobre ele pelas costas.

Ele é diferente, Willa estava dizendo. Há nele uma raiva e uma frieza que me assustam e eu o detesto pelo que fez com você.

Ele não fez nada comigo, respondeu o pai. Pode ser que eu e ele não estejamos conversando mais tanto quanto antes, mas isso é normal. Ele já tem quase vinte e um
anos. Tem sua própria vida.

Antigamente vocês eram muito unidos. Essa é uma das razões por que eu me apaixonei por você - por causa da maneira como você amava aquele menino. Lembra-se do beisebol,
Morris? Lembra-se de todas as horas que você ficava no parque ensinando o garoto a arremessar?

Os dias dourados de outrora.

E ele jogava bem, não era? Puxa, jogava muito bem. Primeiro arremessador no time da universidade no seu segundo ano do curso. Ele parecia tão feliz com aquilo. E
aí ele desistiu e largou o time na primavera seguinte.

A primavera depois da morte de Bobby, lembra? Na ocasião, ele andava um bocado confuso. Todos nós. Você não pode condená-lo por isso. Se ele não queria mais jogar
beisebol, era problema dele. Você fala sobre isso como se pensasse que ele estava tentando me castigar. Eu nunca tive essa sensação, nem por um segundo.

E foi aí que ele começou a beber, não foi? A gente só descobriu bem mais tarde, mas acho que foi aí que começou. A beber, a fumar, e todos aqueles jovens malucos
com quem ele vivia saindo.

Estava tentando imitar o Bobby. Eles podem não ter se dado muito bem, mas acho que Miles o amava. A gente vê o irmão morrer e depois uma parte da gente quer se tornar
o irmão.

Bobby era um desmiolado de cabeça oca. Miles era o anjo da morte.

Admito que havia um certo elemento lúgubre nas inconveniências que ele fazia. Mas sempre se saiu bem na escola. No final, sempre conseguia tirar boas notas.

É um garoto inteligente, não discuto isso. Mas é frio, Morris. Esvaziado, desesperado. Tremo de pensar no futuro...

Quantas vezes conversamos sobre isso? Cem vezes? Mil vezes? Você conhece a história dele tão bem quanto eu. O garoto não teve mãe. Mary-Lee foi embora de casa quando
Miles tinha seis meses de idade. Até você entrar no barco, ele foi criado por Edna Smythe, a luminosa, a legendária Edna Smythe, mas era só uma babá, para ela era
só um trabalho, o que significa que, depois daqueles seis meses, ele nunca mais teve mãe de verdade. Quando você entrou na vida dele, provavelmente já era tarde
demais.

Então você compreende do que estou falando?

Claro que compreendo. Sempre compreendi.

Ele não aguentou escutar mais. Estava sendo fatiado, desmembrado com os golpes calmos e eficientes de patologistas durante uma autópsia, falavam sobre ele como se
achassem que já estava morto. Esgueirou-se de volta para o quarto e fechou a porta sem fazer barulho. Eles não tinham a menor ideia de como ele os amava. Havia cinco
anos que vivia às voltas com a memória do que tinha feito com o irmão naquela estrada em Massachusetts e, como nunca havia contado para os pais sobre o empurrão
e quão profundamente aquilo o atormentava, eles entendiam mal a culpa que o invadira como uma espécie de doença. Talvez estivesse doente, talvez ele parecesse mesmo
uma pessoa fechada, totalmente inacessível ao afeto, mas aquilo não significava que tinha se voltado contra eles. A complexa, nervosa, infinitamente generosa Willa;
seu pai cordial, franco - ele detestava a si mesmo por ter causado tanto sofrimento a eles, tantos desgostos desnecessários. Agora eles o encaravam como um morto
ambulante, alguém sem futuro, e, sentado na cama, refletindo sobre aquele futuro sem futuro que pairava vagamente à sua frente, se deu conta de que não tinha coragem
para encarar de novo os pais. Talvez a melhor coisa para todos fosse ele se retirar da vida deles, desaparecer.

Caros pais, escreveu no dia seguinte. Desculpem o caráter brusco de minha decisão, mas, depois de terminar mais um ano na faculdade, me sinto um pouco esgotado com
os estudos e acho que uma pausa podia me fazer bem. Já falei com o diretor que quero trancar a matrícula durante o semestre do outono e, se isso se revelar insuficiente,
também vou parar no semestre da primavera. Desculpem se isso decepciona vocês. O único lado bom é que não terão de se preocupar em pagar meus estudos por um tempo.
Nem preciso dizer que não conto com nenhum dinheiro de vocês. Tenho trabalho e vou conseguir me sustentar sozinho. Amanhã vou partir para Los Angeles para visitar
minha mãe por algumas semanas. Depois disso, assim que eu me estabelecer onde quer que eu acabe parando, entrarei em contato com vocês. Abraços e beijos para os
dois, Miles.

É verdade que ele deixou Providence na manhã seguinte, mas não foi para a Califórnia para ver a mãe. Foi morar em outro lugar. Ao longo dos últimos sete anos e tanto,
ele já morou em uma porção de endereços, mas ainda não entrou em contato com os pais.

 

3.

É o ano de 2008, o segundo domingo de novembro, e ele está deitado ao lado de Pilar, folheando a Enciclopédia do Beisebol em busca de nomes estranhos e engraçados.
Já fizeram isso uma ou duas vezes antes e para ele é bem importante o fato de ela ser capaz de ver o humor daquela empreitada absurda, de captar o espírito dickensiano
encerrado nas duas mil e setecentas páginas da edição revista, atualizada e ampliada de 1985, que ele comprou por dois dólares num sebo no mês passado. Está percorrendo
os nomes dos arremessadores nesta manhã, pois ele sempre é atraído primeiro para os arremessadores, e não demora muito ele esbarra com sua primeira descoberta promissora
do dia. Botinada Poffenberger. Pili contrai a cara num esforço para não rir, depois fecha os olhos, depois prende o fôlego, mas não consegue resistir por mais do
que alguns segundos. O ar sai de um jato de dentro dela num turbilhão de uivos, guinchos e gargalhadas explosivas. Quando o ataque vai passando, ela arranca o livro
das mãos dele, acusando-o de ter inventado. Ele diz: Eu nunca faria isso. Um esporte feito esse não tem graça a menos que a gente leve o negócio a sério.

E lá está, no meio da página 1977: Cletus Elwood “Botinada” Poffenberger, nascido no dia 1o de julho de 1915, em Williamsport, Maryland, um jogador destro de um
metro e setenta e cinco de altura que jogou durante dois anos no time dos Tigers (1937 e 1938) e mais um ano com os Dodgers (1939), com dezesseis vitórias e doze
derrotas no currículo.

Ele continua e passa para Douglas Olho Grande, Cy Slapnicka, Hahn MioloMole, McAvoy Feioso, McCall Metido e Billy McFrio. Ao ouvir esse último nome, Pili dá um gemido
de prazer. Está impressionada. Durante o resto da manhã, ele não é mais Miles. Ele é Billy McFrio, o seu querido e doce Billy McFrio, o astro do time, o trunfo do
baralho, seu ás de copas.

No dia 11, ele lê no jornal que Herb Score morreu. Ele é jovem demais para ter visto aquele jogador arremessar, mas se lembra da história que o pai contou sobre
a noite de 7 de maio de 1957, quando uma bola rebatida pelo taco de Gil McDougald dos Yankees acertou em cheio na cara de Score e pôs fim a uma das carreiras mais
promissoras da história do beisebol. Segundo o pai, que na ocasião tinha dez anos de idade, Score era o melhor jogador canhoto que já havia existido, talvez até
melhor do que Koufax, que também era arremessador na época, mas só chegaria ao seu auge alguns anos depois. O acidente ocorreu exatamente um mês antes de Score fazer
vinte e quatro anos. Era sua terceira temporada nos Cleveland Indians, após seu desempenho como estreante em 1955 (os números de sua média de corridas foram 16-10,
2.85, 245 strikeouts) e um desempenho ainda mais impressionante no ano seguinte (20-9, 2.53, 263 strikeouts). Então veio o arremesso para McDougald naquela fria
noite de primavera no Estádio Municipal. A bola derrubou Score, como se tivesse levado um tiro de fuzil (palavras de seu pai), e enquanto seu corpo jazia imóvel
e encolhido sobre o campo, o sangue saía pelo nariz, pela boca e pelo olho direito. O nariz estava quebrado, porém o mais devastador foi o ferimento no olho, que
estava com uma hemorragia tão séria que a maioria das pessoas receava que ele fosse acabar perdendo o olho ou, no mínimo, ficar cego para o resto da vida. No vestiário
depois do jogo, completamente abalado, McDougald prometeu largar o beisebol se Herb perdesse a visão daquele olho. Score passou três semanas no hospital e perdeu
o resto da temporada, com a visão turva e com dificuldade na percepção em profundidade, mas o olho acabou ficando bom. Quando tentou retornar ao beisebol na temporada
seguinte, no entanto, ele já não era o mesmo arremessador. Tinha perdido sua pegada, estava sem pontaria, não conseguia mais nenhum strikeout. Lutou durante cinco
anos. Só ganhou dezessete partidas em cinquenta e sete e então fez as malas e foi para casa.

Ao ler o obituário no The New York Times, ele fica espantado ao saber que Score era, desde o início, um homem marcado por uma maldição, que o acidente de 1957 foi
apenas um de muitos percalços que o afligiram ao longo da vida. Nas palavras do autor do obituário, Richard Goldstein: Aos três anos de idade, ele foi atropelado
por um caminhão de padaria, que causou uma séria lesão em suas pernas. Perdeu um ano na escola por causa de uma febre reumática, quebrou o tornozelo ao escorregar
no piso molhado de um vestiário e rompeu os ligamentos do ombro esquerdo ao escorregar na grama molhada da beirada do campo, quando participava das ligas juvenis.
Para não falar do braço esquerdo que machucou quando voltou a jogar em 1958, dos sérios ferimentos sofridos num acidente de carro em 1998 e do ataque de coração
que sofreu em 2002, do qual jamais se recuperou inteiramente. Não parece possível que um homem sofra tantos lances de azar no curso de uma única existência. Dessa
vez, Miles se sente tentado a telefonar para o pai, bater um papo com ele sobre Herbert Judeu Score e os imponderáveis do destino, a estranheza da vida, os quem-sabe
e os podia-ser, todas as coisas sobre as quais costumavam conversar, tanto tempo antes, mas agora não é hora e, se alguma vez houver uma hora, não deve começar com
um telefonema interurbano, e assim ele rechaça o impulso, se aferra à notícia em si, até estar de novo em companhia de Pilar naquela noite.

Quando lê o obituário para ela, fica alarmado com a tristeza que varre o rosto de Pilar, a profundidade da desolação que emana de seus olhos, as extremidades caídas
dos lábios, a curvatura abatida de seus ombros. Ele não pode ter certeza, mas se pergunta se Pilar não está pensando nos pais e em sua morte abrupta e terrível,
a má sorte que lhe tirou os dois quando ela ainda era tão pequena, ainda precisava tanto deles, e se arrepende de ter tocado naquele assunto, sente vergonha por
ter causado aquela dor a Pilar. Para levantar seu ânimo, ele atira o jornal para o lado e começa a contar outra história, mais uma de tantas e tantas histórias que
seu pai lhe contava, mas essa é uma história especial, tornou-se um folclore na casa durante anos, e ele espera que consiga apagar a tristeza dos olhos de Pilar.
Lohrke Sortudo, diz ele. Ela já ouviu falar? Não, claro que não, responde Pilar, sorrindo só um pouquinho ao ouvir o nome. Outro jogador de beisebol? Sim, responde
ele, mas não muito notável. Um curinga nos Giants e nos Phillies, no final da década de 1940 e no início da década de 1950, um rebatedor sem nenhum interesse especial,
a não ser pelo fato de que esse tal sujeito, Jack Lohrke, também chamado de Sortudo, é a personificação mítica de uma teoria da vida que sustenta que nem toda sorte
é má sorte. Veja só isto, diz ele. Enquanto estava servindo no exército durante a Segunda Guerra Mundial, ele não apenas sobreviveu à invasão do Dia D e à Batalha
do Bulge, como também, numa tarde, no calor do combate, ele estava marchando junto com quatro soldados, dois de cada lado, quando uma bomba explodiu. Os quatro soldados
morreram na hora, mas Lohrke escapou sem um arranhão. Ou então isto, continua ele. A guerra termina e Sortudo está prestes a entrar no avião que vai levá-lo de volta
para a Califórnia. No último instante, um major ou um coronel aparece, mostra a patente, ocupa o assento dele e pronto, Sortudo está fora do voo. O avião decola,
o avião cai e todo mundo a bordo morre.

Essa história é verdadeira?, pergunta Pilar.

Cem por cento verdadeira. Se não acredita, pode pesquisar.

Você sabe as coisas mais estranhas, Miles.

Espere só. Ainda tem mais uma coisa. É o ano de 1946 e Sortudo está de volta à Costa Oeste, joga beisebol na ligas menores. O time dele está em excursão, viajando
de ônibus. Param em algum lugar para almoçar e recebem um telefonema do empresário, que diz que Sortudo foi promovido para uma liga superior. Sortudo tem de se apresentar
a seu novo time na mesma hora, de imediato, e assim, em vez de voltar para o ônibus com o time antigo, junta seus pertences e vai para casa de carona. O ônibus continua,
é uma viagem longa, horas e horas na estrada, e no meio da noite começa a chover. Estão em algum lugar bem no alto das montanhas, rodeados pela escuridão, pela umidade,
e o motorista perde o controle do volante, o ônibus desaba rolando num barranco e nove jogadores morrem. Horrível. Mas nosso homenzinho foi poupado mais uma vez.
Já pensou que coincidência, Pili? A morte vem à procura dele três vezes, e por três vezes ele consegue escapar.

Lohrke Sortudo, sussurra Pilar. Ainda está vivo?

Acho que está. Já deve ter oitenta e tantos anos, a esta altura, mas acho que continua por aqui.

Alguns dias depois, Pilar descobre sua pontuação nos SATs. A notícia é boa, tão boa ou melhor do que ele esperava. Com sua série ininterrupta de notas A no ensino
médio e aqueles resultados na prova, ele está convencido de que ela será aceita por qualquer faculdade a que se candidatar, por qualquer faculdade no país. Ignorando
sua promessa de não comer em restaurantes, leva Pilar para um jantar de comemoração na noite seguinte e passa toda a refeição fazendo o maior esforço para não tocar
nela em público. Está muito orgulhoso, diz ele, quer beijar cada centímetro de seu corpo, devorá-la inteira. Discutem as diversas possibilidades abertas diante de
Pilar e ele insiste para ela pensar em deixar a Flórida, cavar uma vaga numa universidade da Ivy League, no norte, mas Pilar reluta em dar aquele passo, não consegue
nem pensar em ficar tão longe das irmãs. A gente nunca sabe, ele diz para ela, as coisas podem mudar de um dia para o outro, e também não vai fazer mal nenhum tentar
- só para ver se você consegue entrar. Sim, responde ela, mas as inscrições são caras, e não faz nenhum sentido jogar dinheiro fora à toa. Não se preocupe com dinheiro,
diz. Ele vai pagar. Ela não deve se preocupar com nada.

No final da semana seguinte, Pilar está soterrada em formulários de inscrição. Não só para as universidades públicas da Flórida, mas também para Barnard, Vassar,
Duke, Princeton e Brown. Ela preenche tudo, redige todas as dissertações exigidas (que ele relê, mas não corrige nem altera, pois não é necessário fazer nenhuma
alteração ou correção) e depois voltam à vida tal como ela era antes de começar aquele frenesi das faculdades. Mais perto do final do mês, ele recebe uma carta de
um velho amigo de Nova York, um dos rapazes da turma dos garotos doidos com quem ele andava muito, no tempo do ensino médio. Bing Nathan é a única pessoa do passado
para quem ele ainda escreve, a única pessoa que soube cada um de seus muitos endereços ao longo dos anos. A princípio, ele mesmo ficou espantado com sua disposição
para abrir aquela exceção para Bing, mas, depois que permaneceu afastado por seis ou oito meses, compreendeu que não conseguiria se desgarrar completamente, que
precisava de pelo menos um vínculo com sua vida anterior. Não que ele e Bing tivessem sido especialmente próximos. A verdade é que ele acha Bing meio irritante,
às vezes até detestável, mas Bing tem grande admiração por ele; aos olhos de Bing, por razões desconhecidas, ele alcançou a condição de uma figura elevada e isso
significa que Bing é uma pessoa em quem ele pode confiar, com quem pode contar para mantê-lo informado sobre as mudanças no front de Nova York. Esse é o xis da questão.
Foi Bing quem o informou da morte da avó, quem o informou da perna quebrada do pai, quem o informou da cirurgia ocular de Willa. Agora seu pai está com sessenta
e dois anos, Willa, com sessenta, e não vão viver para sempre. Bing está sempre de olho. Se alguma coisa acontecer com qualquer um dos dois, vai telefonar logo em
seguida.

Bing comunica que agora está morando numa parte do Brooklyn chamada Sunset Park. Em meados de agosto, ele e um grupo de pessoas ocuparam uma casinha abandonada numa
rua em frente ao cemitério Green-Wood e desde então estão acampados lá, como invasores. Por razões desconhecidas, a eletricidade e o aquecimento continuam funcionando.
Isso podia mudar a qualquer momento, é claro, mas por enquanto parece que há uma pane no sistema e nem a Consolidated Edison nem a National Grid vieram para cortar
o fornecimento. A vida é precária, de fato, e todo dia de manhã eles acordam temendo um despejo imediato e à força, mas, com a cidade apertando o cinto sob a pressão
dos tempos difíceis na economia, tantos empregos públicos foram suprimidos que o pequeno bando no Sunset Park parece estar voando baixo demais para ser captado pelo
radar da prefeitura, e nenhum oficial de justiça ou fiscal deu as caras para enxotá-los de lá. Bing não sabe se Miles está interessado em alguma mudança de ares,
mas um dos membros originais do grupo deixou a cidade há pouco tempo e existe um quarto vago para ele, se quiser. A ocupante anterior chamava-se Millie e substituir
Millie por Miles parece alfabeticamente coerente, diz ele. Alfabeticamente coerente. Mais um exemplo das tiradas espirituosas de Bing, que nunca foram seu ponto
forte, mas a proposta parece sincera e, quando Bing começa a descrever as outras pessoas que moram lá (um homem e duas mulheres, um escritor, uma artista e uma estudante
de pós-graduação, todos com menos de trinta anos, todos pobres e lutando para sobreviver, todos com talento e inteligência), fica claro que ele está tentando fazer
com que uma mudança para Sunset Park soe o mais atraente possível. Bing conclui dizendo que, segundo as últimas notícias, estava tudo bem com o pai de Miles e que
Willa tinha ido para a Inglaterra em setembro, onde vai passar o ano acadêmico como professora visitante na Universidade de Exeter. Num breve pós-escrito, acrescenta:
Pense bem na proposta.

Será que ele quer voltar para Nova York? Será que finalmente chegou o momento de o filho rebelde voltar de mansinho para casa e pôr sua vida em ordem outra vez?
Seis meses antes, na certa ele não teria hesitado. Mesmo um mês antes ele se sentiria tentado a pensar naquela possibilidade, mas agora é uma coisa fora de questão.
Pilar tem o domínio sobre seu coração e a simples ideia de partir sem ela é insuportável para Miles. Enquanto dobra a carta de Bing e a guarda dentro do envelope,
ele agradece em silêncio a seu amigo por ter esclarecido a questão em termos tão taxativos. Nada mais importa, senão Pilar, e quando chegar a hora certa, quer dizer,
quando um pouco mais de tempo tiver passado e chegar a data de seu aniversário, ele vai pedir Pilar em casamento. Não está claro, nem de longe, que ela vá aceitar,
mas Miles tem a firme intenção de pedi-la em casamento. Essa é a resposta à carta de Bing. Pilar.

O problema é que Pilar é mais do que apenas Pilar. É um membro da família Sanchez e, embora sua relação com Angela esteja meio estremecida no momento, Maria e Teresa
continuam tão ligadas a ela como sempre. As quatro moças continuam abaladas com a perda dos pais e, por mais forte que seja o vínculo de Pilar com ele, sua família
ainda vem em primeiro lugar. Depois de estar morando com ele desde junho, Pilar esqueceu como estava resolvida a cair fora de seu ninho. Tornou-se nostálgica dos
velhos tempos e não passa uma semana sem que ela apareça pelo menos duas vezes na casa para visitar as irmãs. Ele não se mete naquilo e só raramente a acompanha,
o mínimo possível. Maria e Teresa são tagarelas educadas e inócuas, uma companhia irrepreensível, mas enfadonha depois de uma hora e tanto sem interrupção, e Angela,
que nada tem de enfadonha, o irrita de outro jeito. Ele não gosta da maneira como ela fica olhando para ele, examinando-o com uma estranha mistura de desprezo e
sedução nos olhos, como se não conseguisse acreditar de jeito nenhum que sua irmãzinha tenha agarrado Miles - não que ela mesma tivesse algum interesse nele (como
alguém podia se interessar por um imundo removedor de lixo?), mas é o princípio da coisa, pois a razão determina que ele devia ficar atraído por ela, a mulher linda,
cujo trabalho nesta vida é ser uma mulher linda e levar os homens a ficarem loucos por ela. Isso já é bastante ruim, mas além do mais ele traz na memória as propinas
que pagou para Angela no verão passado, os inúmeros presentes roubados que despejou em cima dela todos os dias durante uma semana, e, embora tenha sido por uma boa
causa, ele não consegue deixar de se sentir revoltado com a avidez de Angela, com sua ânsia por aquelas coisas feias e idiotas.

No dia 27, ele deixa que Pilar o convença a ir à casa dos Sanchez para o jantar do dia de Ação de Graças. Faz isso contra seus próprios critérios, mas quer que Pilar
fique feliz e sabe que, se não for, só vai ficar se entediando em casa, até ela voltar. Durante a primeira hora, tudo corre razoavelmente bem e ele fica espantado
ao descobrir que está até se divertindo. Enquanto as quatro garotas preparam o jantar na cozinha, ele e o namorado de Maria, um mecânico de carros de vinte e três
anos chamado Eddie, vão ao quintal para ficar de olho no pequenino Carlos. Eddie se revela um fã do beisebol, um bem informado estudioso do assunto, e, por causa
da recente morte de Herb Score, os dois se põem a conversar sobre o destino trágico de vários arremessadores das décadas passadas.

Começam com Denny McLain, dos Detroit Tigers, o último homem a vencer trinta partidas, e sem dúvida o último que jamais conseguirá um tal feito, o maior arremessador
dos Estados Unidos entre 1965 e 1969, cuja carreira foi destruída por uma compulsão por bebedeiras e jogatina, além de uma queda para escolher mafiosos como melhores
amigos. Depois de sair de cena aos vinte e oito anos, mais tarde acabou preso por tráfico de drogas, desfalque e chantagem, se entupiu de comida até chegar a cento
e cinquenta quilos e voltou à prisão por seis anos na década de 1990, por roubar dois milhões e meio de dólares do fundo de pensão da empresa onde trabalhava.

Ele colheu o que plantou, diz Eddie, por isso não posso sentir pena dele. Mas pense num cara feito o Blass. Que diabo aconteceu com ele?

Está se referindo a Steve Blass, que jogou no Pittsburg Pirates, entre meados da década de 1960 e meados da década de 1970, um constante vencedor por um placar de
dois dígitos, um astro entre os arremessadores do campeonato nacional de 1971, que não parou por aí e ainda alcançou seu melhor resultado na temporada de 1972 (19-8,
2.49 em média de corridas limpas), e eis que, após o término daquela temporada, no último dia do ano, Roberto Clemente, seu futuro colega de equipe na Galeria da
Fama, morreu num acidente de avião, quando viajava para entregar suprimentos de emergência para sobreviventes de um terremoto na Nicarágua. Na temporada seguinte,
Blass não conseguiu mais fazer strikes. Seu controle, antes excelente, havia desaparecido, ele perdia pontos em todas as jogadas - oitenta e quatro em oitenta e
oito - e sua pontuação caiu para 3-9 com 9.85 na média de corridas limpas. Tentou de novo no ano seguinte, mas, depois de uma única partida (cinco entradas e sete
bolas rebatidas), ele abandonou o esporte em definitivo. Teria sido a morte de Clemente a causa da repentina decadência de Blass? Ninguém pode ter certeza, mas segundo
Eddie a maioria das pessoas nos círculos do beisebol tende a acreditar que Blass sofria de algo chamado de culpa do sobrevivente, que seu amor por Clemente era tão
grande que ele simplesmente não conseguiu continuar a jogar, depois que seu amigo morreu.

Pelo menos Blass teve sete ou oito anos bons, diz Miles. Pense no pobre Mark Fidrych.

Ah, responde Eddie, Mark “o Pássaro” Fidrych, e depois os dois desatam o maior elogio fúnebre da fugaz e fulgurante carreira daquela sensação que caiu do céu de
repente e que assombrou o país durante alguns meses miraculosos, o rapaz de vinte e um anos que foi, talvez, a pessoa mais adorável que jogou beisebol. Nunca se
tinha visto alguém parecido com ele - um arremessador que falava com a bola, que ficava de joelhos e alisava a terra no montinho, um arremessador cuja figura inquieta
parecia toda eletrificada por constantes surtos de uma energia frenética e nervosa - menos um homem do que uma máquina em movimento perpétuo, em forma de homem.
Durante uma temporada, ele imperou sem concorrentes: 19-9, 2.34 na média de corridas limpas, arremessador principal na seleção da Liga Americana, o estreante do
ano. Alguns meses depois, sofreu uma lesão na cartilagem do joelho quando brincava à toa com a bola na beirada do campo durante um treinamento na primavera e em
seguida, pior ainda, rompeu os ligamentos do ombro logo depois do começo da temporada. Seu braço ficou sem mobilidade e assim, de uma hora para outra, o Pássaro
se foi - de arremessador para ex-arremessador, num piscar de olhos.

Sim, diz Eddie, um caso triste, mas nada que se compare ao que aconteceu com Donnie Moore.

Não, nada que se compare, diz Miles, fazendo que sim com a cabeça.

Ele tem idade suficiente para ter acompanhado ele próprio aquela história e ainda recorda a expressão assombrada do pai, quando ele levantou os olhos do jornal na
hora do café da manhã, vinte anos atrás, e anunciou que Moore tinha morrido. Donnie Moore, um segundo arremessador do California Angels, fez a última jogada de uma
demorada e renhida disputa de pontos contra o time Boston Red Sox na quinta partida do Campeonato da Liga Americana de 1986. Os Angels estavam à frente por uma corrida,
estavam à beira de conquistar seu primeiro título, mas, com dois outs e um corredor na primeira base, Moore fez um dos arremessos mais infelizes já registrados nos
anais do esporte - aquele que o outfielder Dave Henderson rebateu para fora do estádio para um home run, aquele que mudou completamente o curso da partida e levou
os Angels à derrota. Moore nunca se recuperou da humilhação. Três anos depois daquele arremesso decisivo, fora do beisebol, assediado por apuros financeiros e conjugais,
talvez já um doente mental interditável, Moore teve uma briga com a esposa, na presença dos três filhos. Puxou uma arma, disparou três tiros não letais no corpo
da esposa e depois virou a arma contra si e estourou os miolos.

Eddie olha para Miles e balança a cabeça, incrédulo. Não entendo, diz. O que ele fez não foi pior do que fez o Branca quando lançou aquele arremesso para o Thomson,
em 51. Mas o Branca não se matou, não foi? Ele e Thomson são amigos hoje em dia, percorrem o país juntos, assinando uma cacetada de bolas de beisebol, e, toda vez
que a gente vê uma fotografia dos dois, estão sorrindo um para o outro, dois velhinhos pacatos, sem a menor preocupação com nada. Por que Donnie Moore também não
está andando por aí, assinando bolas de beisebol com Henderson, em vez de estar estirado no fundo da sua sepultura?

Miles encolhe os ombros. É uma questão de caráter, diz ele. Cada homem é diferente de cada um dos outros e, quando acontecem coisas ruins, cada um reage à sua maneira.
Moore desabou. Branca não.

Ele acha tranquilizador falar sobre essas coisas com Eduardo Martinez, na luz do fim de tarde daquela quinta-feira de Ação de Graças, e mesmo que o tema possa ser
considerado um tanto sinistro - histórias de fracasso, frustração e morte -, o beisebol é um universo tão vasto como a própria vida e assim todas as coisas da vida,
boas ou más, trágicas ou cômicas, acabam abrangidas pelo beisebol. Hoje, os dois estão examinando exemplos de desespero e de esperanças frustradas, mas, na próxima
vez em que se encontrarem (supondo que se encontrem novamente), poderão encher uma tarde inteira com coleções de anedotas engraçadas, que farão suas barrigas doerem
de tanto rir. Eddie lhe parece um rapaz sério e bem-intencionado e Miles se sente comovido com o fato de o namorado de Maria ter vestido paletó e gravata para aquela
visita de feriado à casa dos Sanchez, de Eddie exibir o cabelo recém-cortado e também com o fato de o ar estar cheio do aroma da água de colônia que Eddie usou para
aquela ocasião. O rapaz é uma companhia agradável, mas tão útil quanto agradável é o simples fato de Eddie estar ali, de ele ter ganhado um aliado masculino naquele
território de mulheres. Quando são convidados para a sala de jantar, a presença de Eddie à mesa parece neutralizar a hostilidade de An­­gela para com ele, ou pelo
menos parece desviar a atenção que Angela volta para ele e reduzir o número de olhares provocadores que Miles costuma receber da parte dela. Agora há uma outra pessoa
a quem olhar, um outro estranho para ser avaliado e julgado, para ser classificado como digno ou indigno de mais uma de suas irmãs mais jovens. Eddie parece estar
passando no teste, mas Miles fica intrigado com o fato de Angela não ter se dado ao trabalho de arranjar companhia para aquela noite, de ela estar, aparentemente,
sem namorado. O marido de Teresa está bem longe, é claro, e Miles já contava que Teresa fosse ficar sem nenhuma companhia masculina, mas por que Angela não havia
convidado um homem para unir-se a eles? Talvez a Rainha da Beleza não goste de homens, pensa ele. Talvez o trabalho dela no Blue Devil tenha azedado seu gosto por
tudo aquilo.

O sargento Lopez está fora de casa faz dez meses e o jantar começa com uma prece silenciosa por sua constante segurança. Alguns segundos depois que eles começam,
todos olham para Teresa, que funga o nariz, contendo um repentino acesso de choro. Pilar, que está sentada perto dela, abraça Teresa pelos ombros e lhe dá um beijo
no rosto. Ele baixa os olhos para a toalha de mesa outra vez e reluta em voltar os pensamentos para Deus. Deus não tem nada a ver com o que está acontecendo no Iraque,
diz para si mesmo. Deus não tem nada a ver com nada. Ele imagina George Bush e Dick Cheney de pé contra um muro e fuzilados, e depois, em nome de Pilar, em nome
de todos os que estão ali, espera que o marido de Teresa tenha sorte bastante para voltar inteiro para casa.

Está começando a achar que vai vencer aquela provação sem nenhum aborrecimento da parte de Angela. A esta altura, eles já rasparam vários pratos, todo mundo está
atacando a sobremesa e depois, como um gesto de boa vontade, ele vai se oferecer para lavar a louça, sozinho, sem nenhuma ajuda de ninguém, e depois que tiver lavado
e enxugado os incontáveis pratos, copos e utensílios em geral, depois que tiver esfregado as panelas e frigideiras e guardado tudo dentro do armário da cozinha,
ele irá para a sala e levará Pilar, dizendo que já está muito tarde, que ele tem de trabalhar no dia seguinte, e os dois irão embora, sozinhos, vão se esgueirar
rapidamente para fora da casa e deslizar para dentro do carro, antes que qualquer outra coisa possa ser dita. Um plano excelente, talvez, mas, no momento em que
Angela termina a última garfada de sua torta de abóbora (desta vez, nada de comida cubana, tudo estritamente americano, desde o grande peru recheado ao molho doce
de amoras, ao molho de carne, às batatas-doces e à sobremesa tradicional), ela abaixa o garfo, tira o guardanapo do colo e fica de pé. Preciso conversar com você,
Miles, diz ela. Vamos ali para os fundos, onde podemos ficar a sós, está bem? É muito importante.

Não é importante. Não é minimamente importante. Angela está se sentindo negligenciada, é só isso. Não falta muito para chegar o Natal e ela quer que ele a ajude
outra vez. O que você quer dizer?, pergunta Miles. Coisas, diz ela. Como aquilo que fez para ela no verão anterior. Impossível, responde, é contra a lei roubar,
e ele não quer perder o emprego.

Você já fez isso para mim uma vez, diz ela. Não há motivo para não fazer de novo.

Não posso, repete. Não posso correr o risco de me encrencar.

Você é um babaca mesmo, Miles. Todo mundo faz isso. Estou sempre ouvindo essas histórias, sei o que está acontecendo. Esses empregos de remover o lixo são a mesma
coisa que andar numa loja de departamentos. Pianos de luxo, barcos à vela, motocicletas, joias, uma porção de coisas caras. Os empregados saem pegando tudo aquilo
em que podem pôr as mãos.

Eu não.

Não estou pedindo um barco à vela. E para que vou querer um piano, se nem sei tocar? Mas umas coisas bonitas, sabe do que estou falando, não é? Coisas finas. Coisas
que me deixem contente.

Você está batendo na porta errada, Angela.

Você é mesmo um sujeito burro, não é, Miles?

Entre logo no assunto. Acho que você está querendo me dizer alguma coisa, mas só estou ouvindo estática.

Você esqueceu qual é a idade de Pilar?

Você não está falando sério...

Não?

Não se atreveria a fazer isso. É sua irmã, lembra?

É só eu telefonar para a polícia e você está frito, meu amigo.

Pare com isso. Pilar ia cuspir na sua cara. Nunca mais ia falar com você.

Pense nas coisas, Miles, coisas bonitas. Um monte de coisas bonitas. É muito melhor do que pensar em ir para a cadeia, não é?

No carro, a caminho de casa, Pilar pergunta o que Angela o queria falar com ele, mas Miles evita contar a verdade, não quer que ela saiba quanto desdém sente por
sua irmã, quão profundamente ele a despreza. Resmunga alguma coisa sobre o Natal, um plano secreto que os dois vêm tramando e que envolve a família toda, mas não
pode dizer nenhuma palavra porque Angela o obrigou a prometer que não ia contar nada, até segunda ordem. Isso parece contentar Pilar, que sorri ante a perspectiva
de qualquer coisa boa que esteja sendo preparada para eles e, quando chegam à metade do caminho para seu apartamento, já não estão mais falando sobre Angela, estão
discutindo suas impressões a respeito de Eddie. Pilar acha que ele é um doce e que não tem nada de feio, mas se pergunta se será inteligente o bastante para Maria
- a que Miles nada responde. Em seu pensamento, a pergunta é se Maria é inteligente o bastante para Eddie, mas ele não tem a menor intenção de ofender Pilar, insultando
a inteligência de sua irmã. Em vez disso, estica a mão direita e começa a afagar o cabelo de Pilar, pergunta o que ela acha do livro que lhe deu naquela manhã, Dublinenses.

Ele volta ao trabalho no dia seguinte, convencido de que a ameaça de Angela não passa de um blefe, uma encenaçãozinha sórdida destinada a quebrar sua resistência
e induzi-lo a começar a roubar de novo para ela. Miles não vai ceder por causa de uma manobra tão evidente e tão desmiolada e não vai levar nada para ela, nem morto
- nem sequer um palito de dentes ou um guardanapo de papel usado, nem mesmo um dos peidos do Paco.

Numa tarde de domingo, Pilar vai à casa dos Sanchez passar algumas horas com as irmãs. De novo, Miles não tem a mí­­nima vontade de ir com ela e fica no apartamento
para preparar o jantar enquanto ela está fora de casa (é ele quem faz as compras de casa e cozinha), e, quando Pilar volta às seis horas, diz que Angela lhe pediu
que dissesse a ele para não esquecer o trato entre os dois. Disse que não pode ficar esperando para sempre, acrescenta Pilar, repetindo as palavras da irmã com uma
expressão confusa e interrogativa nos olhos. O que ela quer dizer com isso, afinal?, pergunta. Nada, responde ele, desdenhando a nova ameaça com um breve meneio
da cabeça. Absolutamente nada.

Mais dois dias de trabalho, mais três dias de trabalho, mais quatro dias de trabalho e então, no final de uma sexta-feira, logo depois de encerrar a remoção do lixo
da semana, quando ele sai de mais uma casa vazia e caminha para seu carro do outro lado da rua, avista dois homens encostados na porta da frente e na porta de trás
do Toyota vermelho, dois homens grandes, um de tipo anglo-saxão e o outro latino, dois homens muito grandes que parecem bloqueadores de futebol americano, ou fisiculturistas
profissionais, ou leões de chácara de boate, e se são mesmo leões de chácara, pensa Miles, talvez sejam empregados de uma casa noturna chamada Blue Devil. A medida
mais sensata talvez fosse dar meia-volta e sair correndo dali, mas já é tarde demais, os homens já viram que ele está se aproximando e, se correr agora, só vai piorar
as coisas, pois é absolutamente certo que ele vai acabar sendo pego. Não que ele seja um sujeito pequeno ou se acovarde diante de uma briga. Agora ele tem um e noventa
de altura, pesa oitenta e cinco quilos e, depois de anos em empregos que exigiram mais de seu corpo do que de sua mente, ele se encontra numa condição mais do que
aceitável - musculoso, bem constituído, forte. Mas não tão forte quanto qualquer um dos dois homens que estão à sua espera e, como são dois e ele só um, só pode
torcer para que os homens estejam ali para conversar e não para demonstrar suas habilidades de lutadores.

Miles Heller?, pergunta o anglo-saxão.

Como posso ajudar?, responde Miles.

Temos um recado de Angela.

Por que ela mesma não veio me dizer?

Porque você não leva a sério quando ela fala com você. Ela achou que você ia dar mais atenção se a gente desse o recado por ela.

Muito bem, estou ouvindo.

Angela está pê da vida e está começando a perder a paciência com você. Diz que você só tem mais uma semana e que, se não acertar as contas com ela até lá, vai pegar
o telefone e fazer a ligação. Sacou?

Sim, saquei.

Tem certeza?

Sim, tenho sim.

Tem certeza de que entendeu direitinho?

Tenho.

Está legal. Mas, só para garantir que você não vai esquecer que tem certeza mesmo, vou lhe dar um presentinho. Feito aqueles barbantinhos que a gente amarra no dedo
quando quer lembrar uma coisa. Sabe do que estou falando?

Acho que sei, sim.

Sem nenhum aviso, o homem recua o braço e acerta um murro em cheio na sua barriga. É uma verdadeira bola de canhão, um murro tão colossal em sua força e tão devastador
em seu efeito que derruba Miles no chão e, ao mesmo tempo que ele é derrubado, o ar é expelido de seus pulmões e, junto com o ar que sai de um jato pela sua faringe,
sai também todo o conteúdo de seu estômago, seu almoço e o café da manhã, fragmentos remanescentes do jantar da noite anterior, e assim tudo aquilo que um segundo
antes estava dentro dele está agora do lado de fora e, enquanto ele fica estirado, ofegando e vomitando, tentando recuperar o fôlego e apertando a barriga por causa
da dor, os dois grandalhões se afastam na direção do carro deles, deixam Miles sozinho na rua, um animal ferido, derrubado por aquele único golpe, um homem que gostaria
de estar morto.

Uma hora depois, Pilar sabe de tudo. O blefe não era um blefe e portanto ele não pode mais esconder a história. De repen­­te, eles estão em terreno perigoso e é
essencial que ela conheça a verdade. De início, ela chora, acha impossível acreditar que a irmã possa agir dessa maneira, que ameace mandar Miles para a prisão,
que esteja disposta a arruinar a felicidade dela por causa de uns poucos objetos miseráveis, nada daquilo faz sentido para ela. A questão não são as coisas, diz
ele. As coisas são só uma desculpa. Angela não gosta dele, está contra ele desde o início e a felicidade de Pilar não significa nada para ela, se essa felicidade
estiver associada a ele. Ele não entende por que ela sente tamanha animosidade, mas aquilo existe, é um fato, e eles não têm escolha senão aceitar esse fato. A vontade
de Pilar é pular para dentro do carro, ir até a casa e dar um tapa na cara de Angela. É o que ela merece, ele diz, mas você não pode fazer isso agora. Tem de esperar
até eu ir embora.

É uma solução horrível, uma solução impensável, mas é a única que restou para eles, naquelas circunstâncias. Ele tem de ir embora do estado. Não existe alternativa.
Tem de sair da Flórida antes que Angela pegue o telefone e ligue para a polícia, e ele não pode voltar antes da manhã do dia 23 de maio, quando Pilar completa dezoito
anos. Ele sente a tentação de pedir que ela case com ele agora mesmo, nesse instante, mas já há coisas demais acontecendo ao mesmo tempo, os dois se sentem infelizes
e esgotados e ele não deseja pressionar nem confundir Pilar, complicar um assunto já em si bastante complicado quando o tempo que resta para eles é tão pouco.

Ele diz para ela que um amigo arranjou um quarto para ele em algum lugar no Brooklyn. Dá o endereço para ela e promete telefonar todo dia. Como voltar para a casa
da família agora é uma coisa fora de questão, Pilar vai ficar no apartamento. Ele preenche um cheque para cobrir seis meses de aluguel adiantados, transfere a propriedade
do carro para ela e depois a leva ao banco, onde ensina como usar o caixa eletrônico. Tem doze mil dólares em sua conta. Ele saca três mil para si e deixa os nove
mil restantes para ela. Depois de entregar o cartão do banco para Pilar, passa o braço em volta dela e os dois saem juntos em direção ao brilho forte do sol da tarde.
É a primeira vez que ele a toca em público e faz isso de forma consciente, num gesto de desafio.

Arruma uma bolsa de viagem pequena, com duas mudas de roupas, sua câmera e três ou quatro livros. Deixa tudo o mais do jeito que está - para convencer Pilar de que
ele vai voltar.

No início da manhã seguinte, ele está sentado num ônibus a caminho de Nova York.

 

4.

É uma viagem longa e maçante, mais de trinta horas do início ao fim, com quase uma dúzia de paradas, de dez minutos a duas horas, e de um trecho da viagem ao outro
o banco vizinho ao seu é ocupado sucessivamente por uma mulher gorda, negra e ofegante, um indiano ou paquistanês que funga o nariz, uma mulher branca de uns oitenta
anos que não para de pigarrear, e um turista alemão que tosse e tem um aspecto tão indefinido que ele não consegue saber se a pessoa sentada a seu lado é homem ou
mulher. Ele nada diz a nenhum deles, fica com o nariz enfiado no livro ou finge dormir e, toda vez que há uma parada, escapole rapidamente do ônibus e telefona para
Pilar.

Em Jacksonville, a mais longa parada da viagem, ele dá cabo de dois hambúrgueres de lanchonete e toma uma grande garrafa de água, mastiga e engole com cuidado, pois
os músculos de seu estômago ainda estão muito sensíveis devido ao murro que o derrubou no chão na sexta-feira. Sim, a dor é tão eficiente quanto um barbante amarrado
no dedo e o tal grandalhão com o punho de pedra tinha razão em supor que ele não ia esquecer. Depois de terminar seu lanche, vagueia até o quiosque do terminal rodoviário,
onde vendem de tudo, desde palitinhos de alcaçuz até camisinhas. Compra alguns jornais e revistas, faz um estoque de leituras adicionais, para o caso de querer fazer
uma pausa entre os livros, durante as centenas de quilômetros que ainda faltam. Duas horas e meia depois, quando o ônibus está se aproximando de Savannah, na Georgia,
ele abre o New York Times e, na segunda página da seção de artes, numa coluna de notinhas avulsas sobre os próximos eventos e sobre o que andam fazendo personalidades
famosas, vê uma pequena foto de sua mãe. Não é raro topar com fotos da mãe. É uma coisa que acontece desde que ele se entende por gente e, como ela é uma atriz conhecida,
é perfeitamente natural que seu rosto apareça com frequência na imprensa. No entanto, a breve matéria no Times tem um interesse especial para ele. Depois de passar
a maior parte da vida trabalhando no cinema e na televisão, sua mãe vai voltar aos palcos de Nova York, após uma ausência de dez anos, para participar de uma produção
que vai estrear em janeiro. Noutras palavras, há uma grande probabilidade de que ela já esteja em Nova York ensaiando seu papel, o que significa que, pela primeira
vez em sabe-se lá quantos anos, em sabe-se lá quantos longos séculos excruciantes, sua mãe e seu pai estarão mo­­rando em Nova York ao mesmo tempo, o mesmíssimo
momento em que o filho deles também estará lá. Que estranho. Como é terrivelmente estranho e incompreensível. Sem dúvida, isso não quer dizer nada, absolutamente
nada mesmo, e no entanto por que agora, ele pergunta a si mesmo, por que ele escolheu voltar agora? Porque ele não escolheu. Porque a escolha foi feita para ele
por um punho grande que o derrubou e lhe ordenou que fugisse da Flórida, rumo a um local chamado Sunset Park. Apenas mais um lance de dados, portanto, mais um número
sorteado na loteria, uma bolinha apanhada no fundo da urna preta de metal, mais um feliz acaso num mundo de acasos felizes e de infindável tumulto.

Meia vida atrás, quando tinha catorze anos, ele estava passeando com o pai, só os dois, sem Willa nem Bobby, que naquele dia estavam fora, em algum lugar. Era uma
tarde de domingo no final da primavera e ele e o pai caminhavam lado a lado pelo West Village, sem nenhum propósito especial, ele recorda, andavam por andar e mais
nada, andavam ao ar livre porque o tempo estava especialmente bonito naquele dia e, depois de vagar durante uma hora ou uma hora e meia, sentaram num banco em Abingdon
Square. Por razões que agora lhe escapam, ele começou a fazer perguntas sobre a mãe. Como e quando eles se conheceram, por exemplo, quando casaram, por que não ficaram
casados e assim por diante. Ele só via a mãe duas vezes por ano e, em sua última visita à Califórnia, ele tinha feito a ela perguntas semelhantes a respeito do pai,
mas ela não quis falar do assunto, cortou a conversa na raiz, com uma ou duas frases curtas. O casamento foi um erro desde o início. Seu pai era um homem correto,
mas os dois não serviam um para o outro, e para que se dar ao trabalho de remexer nisso agora? Talvez tenha sido aquilo que o induziu a fazer perguntas ao pai naquela
tarde de domingo em Abingdon Square, catorze anos atrás. Porque as respostas da mãe tinham sido muito insatisfatórias e ele torcia para que o pai fosse mais receptivo,
se mostrasse mais disposto a falar.

Ele a viu pela primeira vez no palco, disse o pai, sem se intimidar com a pergunta, falando sem amargura, num tom neutro, desde a primeira frase até a última, sem
dúvida achando que o filho já estava crescido o bastante para conhecer os fatos, e agora que o garoto tinha feito a pergunta, merecia uma resposta direta e franca.
Curiosamente, o teatro não ficava longe do lugar onde estavam sentados agora, disse o pai, o antigo Circle Rep, na Sétima Avenida. Era o mês de outubro de 1978 e
ela representava o papel de Cordélia numa montagem de Rei Lear, uma atriz de vinte e quatro anos chamada Mary-Lee Swann, um nome magnífico para uma atriz, na sua
opinião, e teve um desempenho emocionante, ele ficou impressionado com a força e a segurança de sua interpretação, que não tinha nenhuma semelhança com as Cordélias
piedosas e tímidas que tinha visto no passado. What shall Cordelia speak? Love, and be silent. Ela pronunciou essas palavras com uma hesitação autoquestionadora
que pareceu expor para a plateia o que havia nela de mais íntimo. Uma coisa extraordinária de se assistir, disse o pai. Era de cortar o coração.

Sim, o pai parecia disposto a falar, mas a história que contou naquela tarde era vaga, extremamente vaga e difícil de acompanhar. Havia detalhes, é claro, o relato
de vários incidentes, a começar pela primeira noite em que o pai saiu depois da peça para tomar uns drinques com o diretor, um velho amigo seu, junto com alguns
membros do elenco, entre eles Mary-Lee. O pai tinha trinta e dois anos na ocasião, era solteiro e descomprometido, já era o publisher da Heller Books, que estava
no mercado havia cinco anos e começava a tomar impulso exatamente naquele momento, em grande parte por causa do sucesso do segundo romance de Renzo Michaelson, Casa
de palavras. Ele contou para o filho que a atração foi imediata e de ambas as partes. Uma congruência inesperada, talvez, já que ela era uma garota do interior,
nascida num fim de mundo na região central do Maine, e ele tinha sido desde sempre um nova-iorquino, nascido em relativa riqueza, ao passo que ela vinha de uma família
que possuía muito pouco ou mesmo nada, filha de um homem que trabalhava como gerente de uma loja de ferragens, e no entanto lá estavam eles, trocando olhares por
sobre a mesa naquele barzinho perto da Sheridan Square, ele com seus dois títulos universitários e ela com o diploma do ensino médio e um período cursado na Academia
Americana de Arte Dramática, garçonete entre um papel e outro, uma pessoa sem interesse por livros, ao passo que editar livros era o trabalho da vida dele, mas quem
pode penetrar nos mistérios do desejo, disse o pai, quem pode explicar os pensamentos espontâneos que correm pela mente de um homem? Perguntou para o filho se estava
compreendendo. O menino fez que sim com a cabeça, mas na verdade não estava entendendo nada.

Ele ficou cego com o talento dela, continuou o pai. Qualquer pessoa capaz de representar como Mary-Lee aquele papel difícil e delicado tinha de possuir uma grande
profundidade de coração e um espectro de sentimentos mais amplo do que qualquer outra mulher que ele havia conhecido até então. Mas fingir ser uma pessoa e ser uma
pessoa de fato são duas coisas bem diferentes, não é? O casamento aconteceu em 12 de março de 1979, menos de cinco meses depois de seu primeiro encontro. Cinco meses
depois disso, o casamento já estava com problemas. O pai não queria aborrecer o filho recitando a ladainha das brigas e incompatibilidades que surgiram entre os
dois, mas a questão se resumia nisto: os dois se amavam, mas não conseguiam se dar bem. Aquilo fazia algum sentido para ele?

Não, aquilo não fazia nenhum sentido para ele. O menino sentia-se completamente confuso, mas estava com muito medo de admitir isso para o pai, que fazia todo esforço
possível para tratá-lo como um adulto, porém naquele dia ele não estava preparado para a missão, o mundo dos adultos era impenetrável para ele, naquela altura da
vida, e ele não conseguia apreender o paradoxo de amor e discórdia coexistirem em medidas iguais. Tinha de ser um ou o outro, amor ou não amor, e não amor e não
amor ao mesmo tempo. Por um momento, fez uma pausa a fim de organizar os pensamentos e então formulou a única pergunta que lhe parecia relevante, a única pergunta
que tinha algum sentido pertinente. Se havia tanta discordância entre os dois, por que tiveram um filho?

Aquilo ia servir para nos salvar, respondeu o pai. Pelo menos, esse era o plano: ter um filho juntos e depois torcer para que o amor que iriam fatalmente sentir
pelo filho, ou filha, banisse o desencantamento que vinha crescendo entre ambos. De início, ela ficou feliz, disse o pai, os dois ficaram felizes, mas depois...
O pai se interrompeu no meio da frase, desviou os olhos por um momento, enquanto mudava a marcha dos pensamentos, e por fim falou: Ela não estava preparada para
ser mãe. Era jovem demais. Eu não devia tê-la metido nisso.

O menino compreendeu que o pai estava tentando proteger seus sentimentos. Não podia chegar e dizer, sem mais nem menos, que a mãe não o tinha desejado, não é? Seria
demais, um golpe que ninguém seria capaz de assimilar, e no entanto o silêncio do pai e a evasiva solidária diante dos detalhes mais brutais redundavam numa admissão
do fato puro e simples: a mãe não o tinha desejado nem um pouco, seu nascimento foi um equívoco, não havia razão defensável para ele estar vivo.

Quando aquilo tinha começado?, ele se perguntou. Em que momento a felicidade inicial da mãe se transformara em dúvida, antipatia, horror? Talvez quando o corpo dela
começou a mudar, pensou ele, quando sua presença dentro dela começou a se manifestar para o mundo e já era tarde demais para ignorar a saliência protuberante que
agora a definia, e isso para não falar do alarme causado pelo inchaço nas canelas e pelo alargamento dos quadris, todo o peso extra que desfigurava sua imagem, antes
esguia e arrebatadora. Seria apenas isso e mais nada - um ataque de vaidade? Ou o temor de perder terreno ao ter de parar de trabalhar por um tempo, justamente quando
estavam oferecendo para ela papéis melhores e mais interessantes, o temor de estar interrompendo o progresso de sua carreira no pior momento possível e de não conseguir,
depois, voltar ao mesmo caminho? Três meses depois de dar à luz (dia 2 de julho de 1980), ela fez um teste para o papel principal num filme que seria dirigido por
Douglas Flaherty, Sonhadora inocente. Conseguiu o papel e, três meses depois, partiu para Vancouver, na Columbia Britânica, deixando o filho bebê em Nova York com
o pai e uma babá que morava com eles, Edna Smythe, uma jamaicana de quarenta e seis anos e noventa quilos que continuou como sua babá (e depois também de Bobby)
durante os sete anos seguintes. Quanto à mãe, aquele papel impulsionou sua carreira no cinema. Também lhe trouxe um novo marido (Flaherty, o diretor) e uma vida
nova em Los Angeles. Não, disse o pai quando o menino fez a pergunta, ela não disputou a guarda do filho na justiça. Mary-Lee estava dilacerada, explicou o pai,
citando as palavras que ela lhe dissera o tempo todo, abrir mão de Miles foi a decisão mais difícil, mais terrível que ela tinha tomado em sua vida, mas, naquelas
circunstâncias, não parecia haver mais nada que ela pudesse fazer. Noutras palavras, lhe disse o pai, naquela tarde em Abingdon Square, ela se livrou de nós. Você
e eu, garoto. Ela nos deu um pé na bunda e acabou-se.

Mas sem mágoas, acrescentou depressa. Sem reconsiderações ou exumações mórbidas do passado. O casamento com Mary-Lee não tinha dado certo, mas isso não significava
que pudesse ser chamado de um fracasso. O tempo comprovara que o verdadeiro propósito dos dois anos que ele passara com ela não era construir um casamento sustentável,
mas sim ter um filho, e como esse filho era a criatura mais importante no mundo para ele, todas as frustrações que ele havia suportado com Mary-Lee tinham valido
a pena - não, mais do que valer a pena, tinham sido absolutamente necessárias. Aquilo estava claro? Sim. Quanto àquele ponto, o menino não questionava o que o pai
estava lhe dizendo. O pai sorriu, depois passou o braço em volta de seus ombros, puxou-o de encontro ao peito e beijou-o no alto da ca­­beça. Você é a luz dos meus
olhos, disse ele. Nunca esqueça isso.

Foi a única vez em que conversaram sobre a mãe daquela forma. Tanto antes como depois daquela conversa ocorrida ca­­torze anos atrás, o assunto se resumia a resolver
questões práticas, programar os telefonemas, comprar passagens de avião para a Califórnia, recordá-lo de que devia mandar um cartão de aniversário, imaginar como
coordenar suas férias escolares com os trabalhos de atriz da mãe. Ela podia ter desaparecido da vida do pai, mas, apesar dos lapsos e da inconstância, ela continuou
a ser uma presença na vida dele. Desde o início, portanto, ele foi um menino com duas mães. Sua mãe de verdade, Willa, que não o havia gerado, e sua mãe de sangue,
Mary-Lee, que representava o papel de uma estranha exótica. Os primeiros anos não existem mais, porém, ao voltar o pensamento para o tempo em que ele tinha cinco
ou seis anos, ele se lembra de viajar de avião através do país a fim de ver a mãe, o menor desacompanhado paparicado pelos pilotos e pelas aeromoças, sentado na
cadeira do piloto antes da decolagem, bebendo os refrigerantes doces dos quais ele raramente podia se servir em casa, e o casarão no alto dos morros acima de Los
Angeles, com os beija-flores no jardim, as flores vermelhas e roxas, as mimosas e os juníperos, as noites frias depois dos dias quentes e cheios de luz. A mãe era
tremendamente bonita na época, a loura elegante e adorável que às vezes era chamada de segunda encarnação de Carroll Baker ou de Tuesday Weld, só que mais talentosa
do que elas, mais inteligente na escolha dos papéis, e agora que ele estava crescendo, agora que para ela tinha ficado evidente que não teria outros filhos, a mãe
o chamava de seu pequeno príncipe, seu anjo precioso, e o mesmo menino que era a luz dos olhos do pai era ungido como a flor do coração da mãe.

Porém ela nunca soube exatamente o que fazer com o filho. Havia consideráveis quantidades de boa vontade, ele supunha, mas não havia muito conhecimento, não o tipo
de conhecimento que Willa tinha, e em consequência raramente ele sentia que estava pisando em terra firme quando estava com ela. De um dia para outro, de uma hora
para outra, ela podia passar do entusiasmo para a distração, da afabilidade brincalhona para o alheamento, para o silêncio irritadiço. Ele aprendeu a ficar em guarda,
quando em presença da mãe, a se preparar para essas oscilações imprevisíveis, a saborear os bons momentos enquanto duravam, mas também a não esperar que durassem
muito tempo. Quando a visitava, a mãe em geral estava num intervalo entre dois trabalhos e isso talvez aumentasse a ansiedade que parecia permear o ambiente doméstico.
O telefone começava a tocar de manhã cedo e então ela conversava com seu empresário, com um produtor, com um diretor, com um colega ator, ou então aceitava ou recusava
ser entrevistada ou fotografada, aparecer na televisão, apresentar esta ou aquela premiação, sem falar do lugar onde jantaria naquela noite, a que festa iria na
semana seguinte, quem falou o quê sobre quem. Era sempre mais calmo quando Flaherty estava por perto. O marido dela ajudava a suavizar o ambiente e manter sob controle
o impulso de beber que a mãe tinha de noite (ela tendia a ficar meio alta quando o marido estava fora de casa, em algum trabalho), e como ele tinha uma filha de
outro casamento, seu padrasto antecipava melhor do que a mãe o que ele estava pensando. O nome da filha dele era Margie, Maggie, ele agora não consegue lembrar,
uma garota com sardas e joelhos rechonchudos, e às vezes os dois brincavam juntos no jardim, esguichavam água um no outro com a mangueira ou encenavam festinhas
onde se bebia chá enquanto representavam diversos trechos da cena do Chapeleiro Maluco em Alice no País das Maravilhas. Que idade ele tinha na época? Seis anos?
Sete? Quando ele tinha oito ou nove anos, Flaherty, um inglês transplantado, sem nenhum interesse por beisebol, resolveu levá-los de carro, certa noite, para a Ravina
Chavez a fim de assistir ao jogo entre os Dodgers e os Mets, o time de sua cidade natal, o clube pelo qual torcia nos anos bons e também nos ruins. Era um tipo simpático,
o velho Flaherty, um homem com muita coisa a seu favor, mas, quando Miles voltou para a Califórnia seis meses depois, Flaherty tinha ido embora e a mãe estava tratando
de seu segundo divórcio. Seu novo homem foi Simon Korngold, um produtor de filmes independentes e de baixo orçamento, e, contra todas as probabilidades, levando
em conta o histórico da mãe com o pai e com Douglas Flaherty, ele continua a ser seu marido, após dezessete anos de casamento.

Quando Miles tinha doze anos, ela entrou no seu quarto e pediu que tirasse a roupa. Queria ver como estava se desenvolvendo, ela disse, e ele atendeu-a com relutância,
despiu-se e ficou nu em pelo, sentindo que não teria forças de negar seu pedido. Era sua mãe, afinal, e por mais assustado ou constrangido que se sentisse por estar
nu na sua frente, a mãe tinha o direito de ver o corpo do filho. Ela o examinou rapidamente, disse para ele dar uma volta inteira e depois, fixando o olhar nos órgãos
genitais, falou: Promissor, Miles, mas ainda tem um lon­go caminho pela frente.

Quando Miles tinha treze anos, após um ano de mudanças tumultuadas, tanto em seu ser interior como no exterior, a mãe fez o mesmo pedido. Ele estava sentado perto
da piscina, dessa vez, só de calção de banho, e embora estivesse ainda mais nervoso e hesitante do que no ano anterior, levantou-se, baixou a parte de cima do calção
e deixou que ela visse rapidamente o que queria ver. A mãe sorriu e falou: O pequeno camarada não é mais tão pequeno assim, não é? Cuidado, senhoras. Miles Heller
está na área.

Quando tinha catorze anos, ele respondeu taxativamente que não. A mãe pareceu um pouco decepcionada, ele teve a impressão, mas não insistiu. É uma decisão sua, garoto,
disse ela, e depois saiu.

Quando tinha quinze anos, ela e Korngold deram uma festa em sua casa, uma festa grande e ruidosa, com mais de cem convidados, e embora muitos rostos familiares estivessem
presentes, atores e atrizes que ele tinha visto em filmes e na televisão, atores famosos, todos bons atores, gente que o havia comovido ou que o fizera rir muitas
vezes ao longo dos anos, ele não conseguia tolerar o barulho, o som de todas aquelas vozes tagarelantes estava lhe causando enjoo, e depois de fazer o máximo esforço
que podia durante mais de uma hora, subiu sorrateiramente para seu quarto e ficou deitado na cama com um livro, seu livro do momento, um livro qualquer que calhou
de ele estar lendo, e recorda que pensou que preferia passar o resto da noite com o escritor do livro a ficar com aquela multidão trovejando lá embaixo. Depois de
quinze ou vinte minutos, a mãe entrou no quarto com espalhafato e com um drinque na mão, com ar de zangada e ao mesmo tempo meio bêbada. O que ele pensava que estava
fazendo ali? Não sabia que tinha uma festa rolando na casa? E como se atrevia a sair assim no meio da festa? Fulano de tal estava ali, e beltrano estava ali, e sicrano
estava ali, e quem dava a ele o direito de ofender aquelas pessoas, vindo para o quarto para ler a porcaria de um livro? Ele tentou explicar que não estava se sentindo
bem, que estava com uma dor de cabeça tremenda, e afinal que diferença fazia se ele não estava com ânimo para ficar andando para lá e para cá e tagarelando com um
bando de adultos? Você é igualzinho a seu pai, disse ela, cada vez mais irritada. Um resmungão de nascença. Antigamente você era um garotinho tão divertido, Miles.
Agora virou um chatão. Por alguma razão, ele achou a palavra chatão profundamente engraçada. Ou talvez tenha achado graça na imagem da mãe parada na sua frente com
um copo de vodca com água tônica na mão, a mãe irada, afogueada, que o insultava com palavras infantis, como chatão e resmungão, e de repente começou a rir. Qual
é a graça?, perguntou ela. Não sei, respondeu, eu não consegui conter o riso. Ontem eu era a flor do seu coração e hoje sou um chatão. Para dizer a verdade, acho
que não sou nem uma coisa nem outra. Naquele momento, que sem dúvida foi o grande momento da mãe, a expressão do rosto dela mudou da raiva para a alegria, passou
de uma para a outra num único instante, e de repente ela também começou a rir. Foda-se eu mes­­ma, ela disse. Estou me comportando feito uma babaca, não é?

Quando ele tinha dezessete anos, ela prometeu ir a Nova York para a sua formatura no ensino médio, mas nunca apareceu. Curiosamente, ele não ficou aborrecido com
ela. Depois da morte de Bobby, coisas que antes tinham importância para ele já não importavam mais nada. Achou que ela havia esquecido. Esquecer não é um pecado
- é um simples erro humano. Na próxima vez em que a viu, a mãe pediu desculpas, tocou no assunto antes que ele tivesse uma chance de falar do caso, o que ele na
verdade jamais faria por iniciativa própria.

Suas visitas à Califórnia tornaram-se menos frequentes. Agora estava na faculdade e, durante os três anos que passou na Universidade Brown, só viajou duas vezes.
Todavia houve outros encontros, almoços e jantares em restaurantes de Nova York, vários telefonemas longos (sempre por iniciativa dela) e um fim de semana juntos
em Providence, com Korngold, cuja década de tenaz lealdade a ela tornara impossível para ele sentir outra coisa que não admiração por aquele homem. De certo modo,
Korngold lembrava o pai. Não na aparência, nas inclinações ou no comportamento, mas no trabalho que fazia, que era lutar com unhas e dentes para fazer filmes pequenos
e dignos, num mundo de superproduções descartáveis, assim como o pai lutava para publicar livros dignos, num mundo de modismos efêmeros e vazios. Sua mãe já tinha
quarenta e tantos anos, naquela altura, e parecia mais à vontade consigo mesma do que quando estava no auge da beleza, menos envolvida nas intrigas de sua própria
vida, mais aberta para os outros. Durante aquele fim de semana em Providence, ela perguntou ao filho se havia pensado no que gostaria de fazer depois de se formar.
Ele não tinha certeza, respondeu. Num dia estava convencido de que seria médico, no outro dia sentia uma inclinação pela fotografia, e no dia seguinte já planejava
ser professor. Não pensava em escrever ou ser editor?, perguntou ela. Não, ele achava que não, respondeu. Ele adorava ler livros, mas não tinha interesse em fazer
livros.

Então ele desapareceu. A mãe nada teve a ver com a decisão impetuosa de dar meia-volta e fugir, mas, uma vez que tinha deixado Willa e o pai, deixou a mãe também.
Para o bem ou para o mal, teve de ser assim, e agora tem de ser assim também. Se for visitar a mãe, ela irá fazer contato com o pai imediatamente e dizer-lhe onde
está o filho, e aí tudo aquilo pelo qual ele lutou ao longo dos sete anos e meio que passaram estará perdido. Ele se transformou numa ovelha negra. Esse é o papel
que escolheu representar e continuará a representá-lo mesmo em Nova York, mesmo quando se esgueirar de volta para a vizinhança do rebanho que abandonou. Será que
ele vai se atrever a ir ao teatro e bater na porta do camarim da mãe? Vai se atrever a tocar a campainha do apartamento na Downing Street? É possível, mas acha que
não - ou, pelo menos, agora não consegue pensar em fazer isso. Depois de todo esse tempo, ele ainda não se sente pronto de verdade.

Ao norte de Washington, quando o ônibus entra no trecho final da viagem, a neve começa a cair. Agora o inverno está começando, ele se dá conta, os dias frios e as
noites compridas de seus invernos da infância, e de repente o passado se transformou no futuro. Ele fecha os olhos, pensa no rosto de Pilar, desliza as mãos pelo
seu corpo ausente e então, na escuridão por trás das pálpebras, vê a si mesmo como um ponto preto num mundo feito de neve.

 

BING NATHAN E COMPANHIA

 

Bing Nathan

Ele é o guerreiro da revolta, o campeão do descontentamento, o militante do desmascaramento da vida contemporânea, que sonha em construir uma realidade nova das
ruínas de um mundo falido. À diferença da maioria dos opositores da sua estirpe, ele não acredita na ação política. Não pertence a nenhum movimento ou partido, jamais
discursou em público e não tem o menor desejo de liderar hordas enfurecidas pelas ruas, para incendiar prédios e derrubar governos. É uma posição puramente pessoal,
mas, se viver sua vida segundo os princípios que estabeleceu para si, tem a certeza de que outros seguirão seu exemplo.

Então, quando fala a respeito do mundo, refere-se a seu mundo, à esfera pequena e delimitada de sua própria vida, e não ao grande mundo, que é grande demais e seccionado
demais para que ele possa ter alguma influência em seu rumo. Portanto Bing se concentra no local, no particular, nos detalhes quase invisíveis das questões cotidianas.
As decisões que toma são necessariamente pequenas, mas pequeno nem sempre significa desimportante e, dia após dia, ele luta para não se desviar da regra fundamental
de seu descontentamento: fazer oposição a tudo-isso-que-está-aí, resistir ao status quo em todas as frentes. Desde a guerra no Vietnã, que começou quase vinte anos
antes de ele nascer, ele diria que o conceito conhecido por América está esgotado, que o país não é mais uma proposta viável, mas se alguma coisa continua a unir
as massas fraturadas dessa nação defunta, se a opinião americana é ainda unânime a respeito de alguma ideia, trata-se da crença na noção de progresso. Ele sustenta
que estão errados, que o desenvolvimento tecnológico das últimas décadas só serviu para reduzir as possibilidades da vida. Numa cultura perdulária gerada pela ganância
de empresas guiadas pelo lucro, a paisagem se tornou cada vez mais degradada, cada vez mais alienante, cada vez mais vazia de significado e de um propósito sólido.
Seus atos de revolta são irrisórios, talvez, gestos irritantes que alcançam pouco ou nada, mesmo a curto prazo, mas ajudam a melhorar sua dignidade como ser humano,
a enobrecê-lo aos seus próprios olhos. Ele está certo de que o futuro é uma causa perdida e, se o presente é agora tudo o que importa, então deve ser um presente
imbuído do espírito do passado. É por isso que Bing foge de telefones celulares, computadores e tudo o que for digital - porque se recusa a participar de novas tecnologias.
É por isso que passa os finais de semana tocando bateria e percussão num conjunto de jazz de seis músicos - porque o jazz está morto e só os happy few ainda se interessam
por ele. É por isso que ele começou seu negócio há três anos - porque queria contra-atacar. O Hospital de Coisas Quebradas fica na Quinta Avenida, em Park Slope.
Flanqueado, de um lado, por uma lavanderia automática e, do outro, por uma loja que vende roupas de segunda mão, é uma birosquinha de beira de rua dedicada ao reparo
de objetos de uma era que praticamente desapareceu da face da Terra: máquinas de escrever manuais, canetas-tinteiro, relógios mecânicos, rádios de válvula, vitrolas,
brinquedos de corda, máquinas de vender bolinhas de goma de mascar, telefones de discar. Pouco importa que noventa por cento do dinheiro que ganha venha de emoldurar
quadros. Sua loja fornece um serviço singular e inestimável e, toda vez que ele pega um artefato estropiado das indústrias arcaicas de meio século atrás, ele enfrenta
o problema com o afinco e a paixão de um general na guerra.

Tangibilidade. Essa é a palavra que ele mais usa quando discute suas ideias com os amigos. O mundo é tangível, diz ele. Seres humanos são tangíveis. São dotados
de corpos e, como tais corpos sentem dor e sofrem doenças e são atingidos pela morte, a vida humana não se alterou, nem por uma fração mínima, desde o início da
humanidade. Sim, a descoberta do fogo tornou o ho­­mem mais aquecido e pôs fim à dieta de carne crua; a construção de pontes permitiu que ele atravessasse rios e
córregos sem molhar os dedos dos pés; a invenção do avião lhe permitiu saltar de um continente para o outro e transpor oceanos, ao mesmo tempo que criou fenômenos
novos como o jet lag e o cinema a bordo - mas ainda que o homem tenha modificado o mundo a seu redor, o próprio homem não mudou. Os fatos básicos da vida continuam
os mesmos. Vivemos e depois morremos. Nascemos do corpo de uma mulher e, se conseguirmos sobreviver ao nascimento, a mãe terá de nos alimentar e terá de cuidar de
nós a fim de assegurar que continuemos a sobreviver, e tudo que acontece conosco desde o momento do nascimento até o momento da morte, todas as emoções que brotam
dentro de nós, todos os rompantes de raiva, todas as ondas de desejo, todos os ataques de lágrimas, todos os estouros de riso, tudo aquilo que sempre vamos sentir
no decorrer da vida também foi sentido por todo mundo que veio antes de nós, sejamos nós um homem das cavernas ou um astronauta, moremos no deserto de Gobi ou no
Círculo Polar Ártico. Tudo isso lhe veio ao pensamento numa erupção epifânica e repentina quando tinha dezesseis anos. Ao folhear um livro ilustrado sobre os manuscritos
do Mar Morto, certa tarde, topou com algumas fotografias de coisas que tinham sido desenterradas junto com os textos em pergaminhos: pratos e utensílios para co­­mer,
cestos de palha, potes, jarras. Todos absolutamente intactos. Examinou-os com todo cuidado durante vários minutos, sem compreender de forma alguma por que achava
tais objetos tão fascinantes, e então, depois de mais alguns momentos, finalmente ele se deu conta. Os desenhos decorativos dos pratos eram idênticos aos desenhos
dos pratos na vitrine da loja do outro lado da rua, em frente ao prédio onde ele morava. Os cestos de palha eram idênticos aos cestos que milhões de europeus usam
hoje em dia para fazer compras. As coisas nas fotografias tinham dois mil anos de idade e, no entanto, pareciam completamente novas, completamente contemporâneas.
Tal foi a revelação que modificou seu pensamento a respeito do tempo humano: se uma pessoa de dois mil anos atrás, morando num remoto posto avançado do Império Romano,
podia conceber um utensílio doméstico que parecia exatamente igual a um utensílio doméstico de hoje em dia, como é que a mente, o coração ou o interior daquela pessoa
podiam ser diferentes dos dele mesmo? Essa é a história que Bing não se cansa de repetir para os amigos, seu contra-argumento à crença dominante de que novas tecnologias
alteram a consciência humana. Microscópios e telescópios nos permitiram ver mais coisas do que jamais se vira antes, diz ele, mas nossos dias ainda são vividos no
reino da visão normal. Os e-mails são mais rápidos do que cartas enviadas pelo correio, diz ele, mas no fim não passam de uma outra forma de escrever cartas. Ele
despeja exemplos e mais exemplos. Sabe que deixa todo mundo maluco com suas conjeturas e opiniões, que chateia todo mundo com suas ladainhas compridas e lamurientas,
mas aquelas são questões importantes para ele e, depois que começa, acha difícil parar.

Ele é uma presença grande, volumosa, um urso desmazelado em forma de homem, com uma barba grande, espessa e castanha e um pino de ouro enfiado no lóbulo da orelha
esquerda, um metro e oitenta de altura, mas largos e bamboleantes cem quilos de peso. Seu uniforme cotidiano consiste em calças jeans pretas muito surradas, botas
amarelas de trabalho e uma camisa xadrez de lenhador. Troca as roupas de baixo com pouca frequência. Mastiga a comida fazendo muito barulho. Não teve sorte no amor.
Entre todas as coisas que faz na vida, tocar bateria é a que lhe dá mais prazer. Foi uma criança turbulenta, um bagunceiro de exuberância indisciplinada, de agressividade
desastrada e afoita, e quando os pais lhe deram de presente uma bateria no dia em que completou doze anos de idade, na esperança de que os impulsos destrutivos do
filho pudessem tomar um rumo novo, eles acertaram na mosca. Dezessete anos depois, sua coleção se expandiu do kit standard (caixa, tom-tons, surdo, bumbo, pratos
suspensos, contratempo) para abarcar mais de duas dúzias de tambores de diversos formatos e tamanhos, provenientes do mundo inteiro, entre eles uma murumba, um batá,
uma darbuka, um okedo, um kalangu, um rommelpot, um bodrán, um dhola, um ingungu, um koboro, um ntemga e um tabor. Dependendo do instrumento, ele toca com baquetas,
com bastões ou com as mãos. Seu armário de percussão é abarrotado de acessórios como sinos, gongos, berra-bois, castanholas, chocalhos, carrilhões, tábuas de lavar
roupa e kalimbas, mas ele também toca com correntes, colheres, calhaus, lixas e matracas. A banda da qual faz parte se chama Mob Rule e eles se apresentam em média
duas ou três vezes por mês, em geral em bares e boates pequenos, no Brooklyn e na baixa Manhattan. Se ganhassem mais dinheiro, Bing de bom grado largaria tudo e
passaria o resto da vida viajando pelo mundo com eles, mas na verdade o que eles ganham mal dá para cobrir os custos da sala de ensaio. Bing adora o som rude, dissonante
e improvisado que eles criam - funk de raiz, como às vezes ele chama - e a banda não deixa de ter seus leais seguidores. Mas não são muitos, nem de longe, na verdade,
e assim ele passa as manhãs e as tardes no Hospital de Coisas Quebradas, pondo molduras em cartazes de filmes e consertando relíquias criadas no tempo em que seus
avós eram crianças.

Quando Ellen Brice lhe falou sobre a casa abandonada em Sunset Park no último verão, enxergou naquilo uma oportunidade para pôr à prova suas ideias, ir além de seus
ataques invisíveis e solitários contra o sistema e participar de uma ação comunal. É o passo mais audacioso que já deu e ele não tem o menor problema em conciliar
a ilegalidade do que estão fazendo com seu direito de fazê-lo. Estes são tempos desesperados para todos e uma casa de madeira, em petição de miséria, que continua
vazia num bairro tão precário como aquele não passa de um convite aberto para vândalos e incendiários, um aleijão implorando para ser arrombado e saqueado, uma ameaça
ao bem-estar da comunidade. Ao ocuparem aquela casa, ele e seus amigos estão protegendo a segurança da rua, tornando a vida mais vivível para todos ao redor. Agora
é o início de dezembro e eles ocupam a casa há quase quatro meses. Como desde o início foi ideia dele mudar-se para lá, e como foi ele que selecionou os soldados
de seu pe­­queno exército, e como ele é o único que tem algum conhecimento de carpintaria, encanamento e fiação elétrica, Bing é o líder extraoficial do grupo. Não
um líder amado, talvez, mas um líder tolerado, pois todos sabem que, sem ele, o projeto iria por água abaixo.

Ellen foi a primeira pessoa que chamou. Sem ela, ele nunca teria posto os pés em Sunset Park e descoberto a casa, e assim parecia simplesmente adequado dar a ela
o direito da primeira recusa. Ele a conhece desde que os dois eram crianças, quando frequentavam juntos a escola primária no Upper West Side, mas depois perderam
contato durante muitos anos, só para descobrir, sete meses atrás, que os dois moravam no Brooklyn e que na verdade eram vizinhos nem tão distantes assim em Park
Slope. Numa tarde, Ellen entrou no Hospital de Coisas Quebradas para emoldurar alguma coisa e, embora ele não a reconhecesse de início (alguém poderia reconhecer
uma mulher de vinte e nove anos de idade a quem não via desde os doze anos?), quando es­­creveu o nome dela na nota do pedido, na mesma hora compreendeu que aquela
era a Ellen Brice que conhecera quando menino. A pequenina e estranha Ellen Brice, agora plenamente crescida e trabalhando como corretora de imóveis de uma empresa
situada na Sétima Avenida, esquina com a rua 9, uma artista nas horas vagas, da mesma forma como Bing era músico nas horas vagas, embora ele tivesse algo minimamente
semelhante a uma carreira, e Ellen não. Naquela primeira tarde na loja, Bing desatou a fazer suas costumeiras perguntas desastradas, simpáticas e sem tato, e logo
ficou sabendo que ela ainda era solteira, que os pais tinham se retirado para uma cidade litorânea na Carolina do Norte e sua irmã estava grávida de gêmeos. O primeiro
encontro dele com Millie Grant ainda estava seis semanas no futuro (a mesma Millie que daqui a pouco vai ceder seu lugar para Miles Heller), e como ele e Ellen estavam
ambos oficialmente disponíveis, ele a convidou para tomar um drinque.

Aquele drinque não deu em nada, assim como o jantar para o qual ele a convidou três noites depois, mas nada havia acontecido entre eles quando eram crianças e, os
dois adultos, tudo continuou do mesmo jeito. Porém os dois eram pessoas sem rumo e, ainda que um romance não estivesse em questão, eles continuaram a se encontrar
de vez em quando e começaram a construir uma amizade modesta. Não importava para Bing que Ellen não tivesse gostado da apresentação da Mob Rule que ela foi ver (o
caos metálico do trabalho deles não era mesmo para qualquer um), tampouco ele ficava excessivamente preocupado por achar os desenhos e as pinturas de Ellen maçantes
(naturezas-mortas e paisagens urbanas minuciosas, bem executadas, mas carentes de qualquer talento e originalidade, ele sentia). O que contava mesmo era que Ellen
parecia gostar de ouvi-lo falar e também que ela nunca recusava um convite de Bing para sair. Alguma coisa nele correspondia à sensação de solidão que a envolvia,
ele se comovia com a bondade silenciosa de Ellen e com a vulnerabilidade que enxergava nos olhos dela, e no en­­tanto, quanto mais a amizade entre os dois avançava,
menos ele sabia o que fazer com ela. Ellen não era uma mulher feia. Tinha o corpo elegante, o rosto era agradável de olhar, mas ela projetava uma aura de angústia
e de derrota e, com sua pele pálida demais e seu cabelo sem graça e sem brilho, ele se perguntava se ela não estava atolada em alguma espécie de depressão, passando
os dias num quarto no porão do Hotel da Melancolia. Toda vez que a via, ele fazia tudo o que estava a seu alcance para fazê-la rir - com resultados dúbios.

No início do verão, no mesmo dia causticante em que Pilar Sanchez se mudou para a casa de Miles Heller no sul da Flórida, uma crise irrompeu no norte do país. O
contrato de aluguel da loja que abrigava o Hospital de Coisas Quebradas estava à beira de expirar e seu senhorio estava pedindo um aumento de vinte por cento. Ele
explicou que não podia pagar, que os encargos mensais extras iriam deixá-lo quebrado, mas o filho da mãe se recusava a ceder. A única solução era deixar seu apartamento
e encontrar um local mais barato para morar. Ellen, que trabalhava no setor de aluguéis da empresa imobiliária da Sétima Avenida, lhe falou de Sunset Park. Era uma
zona violenta, disse ela, mas não ficava longe do lugar onde Bing morava agora e o preço do aluguel lá era metade ou até um terço do que cobravam em Park Slope.
Naquele domingo, os dois saíram para explorar o território situado entre as ruas 15 e 65, na zona oeste do Brooklyn, uma vasta babilônia que começa na Upper New
York Bay e acaba na Nona Avenida, onde residem mais de cem mil pessoas, entre as quais mexicanos, dominicanos, poloneses, chineses, jordanianos, vietnamitas, brancos
americanos, negros americanos e uma colônia de cristãos de Gujarat, na Índia. Armazéns, fábricas, construções à beira do rio, uma vista para a Estátua da Liberdade,
o Terminal de Embarque do Exército, fechado, onde antigamente trabalhavam dez mil pessoas, uma basílica chamada Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, bares frequentados
por bandos de motoqueiros, escritórios que compram cheques, restaurantes hispânicos, o terceiro maior bairro chinês de Nova York, além dos quatrocentos e setenta
e oito acres do Cemitério Green-Wood, onde seiscentos mil corpos estão enterrados, inclusive os de Boos Tweed, Lola Montez, Currier e Ives, Henry Ward Beecher, F.
A. O. Schwarz, Lorenzo Da Ponte, Horace Greeley, Louis Comfort Tiffany, Samuel F. B. Morse, Albert Anastasia, Joey Gallo e Frank Morgan - o mágico de O Mágico de
Oz.

Ellen lhe mostrou seis ou sete locais naquele dia e nenhum despertou o interesse dele, mas então, quando caminhavam na beira do cemitério, viraram por acaso na direção
de um quarteirão abandonado, entre a Quarta e a Quinta avenidas, e viram a casa, uma casinha desenxabida de dois andares com uma va­­randa coberta na frente, exibindo
para o mundo inteiro o aspecto de algo roubado de uma fazenda numa pradaria do Minnesota e que por acidente veio cair no meio de Nova York. A casa se erguia entre
um terreno baldio cheio de lixo, com um carro depenado no meio, e o esqueleto de metal de um pequeno prédio de apartamentos construído só até a metade, cujas obras
tinham parado havia mais de um ano. O cemitério ficava bem em frente, do outro lado da rua, o que significava que não havia casas do outro lado, o que também significava
que a casa abandonada ficava praticamente invisível, pois era uma casa num quarteirão onde quase ninguém morava. Ele perguntou para Ellen se ela sabia alguma coisa
a respeito da casa. Os proprietários haviam morrido, disse ela, e como os filhos ficaram muitos anos seguidos sem pagar os impostos da propriedade, a casa agora
pertencia à prefeitura.

Um mês depois, quando ele decidiu fazer o impossível, arriscar tudo para morar numa casa sem pagar aluguel até o dia em que a prefeitura percebesse e lhe desse um
pontapé na bunda, ele ficou espantado ao saber que Ellen aceitava sua proposta. Ele tentou fazê-la desistir daquilo, explicando que seria muito difícil e que eles
podiam estar se metendo numa grande encrenca, mas Ellen fez pé firme, disse que sim era sim, e afinal por que a havia convidado, se queria que ela dissesse não?

Certa noite, entraram na casa e descobriram que tinha quatro quartos, três pequenos, no andar de cima, e um maior, no térreo, que era parte de uma extensão construída
nos fundos da casa. O lugar estava em condições deploráveis, todas as superfícies recobertas de poeira e fuligem, manchas de água produzindo faixas na parede atrás
da pia da cozinha, o linóleo rachado, as tábuas do assoalho lascadas, um bando de camundongos ou esquilos disputando corridas de revezamento embaixo do te­­lhado,
uma mesa desabada, cadeiras sem perna, teias de aranha pendendo dos cantos do teto, porém o mais notável era que não havia nenhuma janela quebrada e, embora a água
das torneiras jorrasse com uma cor marrom, com um aspecto de chá de café da manhã inglês mais do que de água propriamente dita, os encanamentos estavam intactos.
Uma bela faxina, disse Ellen. É tudo do que essa casa precisa. Uma ou duas semanas pintando e esfregando tudo e eles estariam prontos para entrar em ação.

Ele passou os dias seguintes em busca de pessoas dispostas a ocupar os dois quartos restantes, mas nenhum dos membros de seu conjunto estava interessado e, quando
percorreu o catálogo de seus outros amigos e conhecidos, descobriu que a ideia de morar como invasor numa casa abandonada não tinha o amplo apelo que ele supunha.
Então calhou de Ellen conversar com Alice Bergstrom, sua antiga colega de quarto na faculdade, e soube que ela estava à beira de ser despejada de seu apartamento
sublocado, com aluguel tabelado pela prefeitura, em Morningside Heights. Alice era estudante de pós-graduação em Columbia, já bastante adiantada em sua dissertação,
que esperava terminar dentro de um ano, e ir morar na casa do namorado, para ela, estava fora de questão. Mesmo se quisessem morar juntos, não seria possível. O
apartamento do namorado era o menor dos conjugados tipo caixa de sapato que existem e simplesmente não havia espaço suficiente para duas pessoas trabalharem lá dentro
ao mesmo tempo. E o fato era que os dois precisavam trabalhar em casa. Jake Baum era um escritor de ficção, até então exclusivamente autor de contos (alguns publicados,
a maioria não), e mal conseguia sobreviver com o salário que ganhava em seu emprego de professor em regime de meio expediente numa faculdade comunitária no Queens.
Não tinha dinheiro para emprestar para Alice, não podia oferecer nenhuma ajuda na sua busca de um novo apartamento para morar, e como a própria Alice estava quase
falida, ela não sabia para que lado correr. Sua bolsa de estudos vinha acompanhada de um pequeno estipêndio, mas não era o bastante para sobreviver e, mesmo com
seu trabalho em regime de meio expediente no PEN American Center, onde trabalhava para o Programa Liberdade para Escrever, ela subsistia com uma dieta de talharim
na manteiga, arroz e feijão, e de vez em quando um sanduíche de ovo. Depois de ouvir a história dos apuros de sua amiga, Ellen sugeriu a Alice que batesse um papo
com Bing.

Os três se encontraram num bar no Brooklyn, na noite se­­guinte, e depois de dez minutos de conversa, ele ficou convencido de que Alice seria um reforço importante
para o grupo. Era uma garota de tipo escandinavo, alta e robusta, nascida no Wisconsin, de cara redonda e braços carnudos, uma pessoa séria e ponderada, que de quebra
tinha também respostas rápidas e um senso de humor cortante - uma combinação rara, ele achava, o que fazia dela, de saída, a candidata favorita. Tão importante quanto
isso, ele gostou do fato de Alice ser amiga de Ellen. Acontece que Ellen se revelara uma aliada e parceira admirável e, por razões que ele nunca entenderia, havia
assumido plenamente aquela aventura louca e quixotesca, mas Bing ainda se preocupava com ela, continuava encucado com a inexorável e sistemática tristeza que parecia
acompanhar Ellen aonde quer que fosse, e ele ficou estimulado ao ver como ela relaxava na presença de Alice, como parecia muito mais feliz e animada enquanto eles
três estavam lá sentados no bar, conversando, e ele esperava que dividir a casa com a velha amiga fosse um bom remédio para Ellen.

Antes de conhecer Alice Bergstrom, ele já havia encontrado Millie Grant, mas levou algumas semanas, depois daquela noite no bar, para tomar coragem de perguntar
se ela não tinha algum interesse em ocupar o quarto e último cômodo disponível na casa. Naquela altura, ele estava apaixonado por ela, apaixonado como nunca antes
por ninguém, em toda a sua vida, e ele tinha tanto medo de perguntar aquilo para Millie porque a ideia de que ela podia lhe dar um fora era mais do que poderia suportar.
Ele tinha vinte e nove anos e, até conhecer Millie, depois de uma apresentação do Mob Rule no Barbès, no último dia da primavera, sua história com mulheres tinha
sido um fracasso absoluto e interminável. Ele era o garoto gorducho que nunca arranjava namorada na escola, o ingênuo desastrado que até os vinte anos não tinha
perdido a virgindade, o baterista de jazz que nunca saíra com uma desconhecida na boate, era o babaca que pagava para prostitutas fazerem um boquete quando estava
desesperado, o retardado sedento de sexo que se masturbava com pornografia no escuro do quarto. Nada sabia a respeito de mulheres. Tinha menos experiência com mulheres
do que a maioria dos adolescentes. Tinha sonhado com mulheres, tinha andado atrás de mulheres, tinha declarado seu amor para mulheres, mas só ouvira recusas e mais
recusas. Agora, quando estava prestes a dar a maior cartada de sua vida, quando estava à beira de ocupar ilegalmente uma casa em Sunset Park e talvez ir parar na
cadeia, ia entrar naquilo com uma equipe formada integralmente por mulheres. Sua hora de triunfo afinal havia chegado.

Por que Millie se deixou seduzir por ele? Ele não tem a menor ideia, não consegue ter certeza de nada, quando entra no reino obscuro da atração e do desejo, mas
suspeita que deve ter alguma relação com a casa em Sunset Park. Não com a casa em si, mas com o plano de se mudar para lá, que já andava se formando em sua cabeça
quando ele a conheceu, já vinha se metamorfoseando de um vago capricho e especulação numa decisão concreta de agir, e naquela noite ele devia estar pegando fogo
com sua ideia, espirrando uma chuva de fagulhas mentais que o rodeavam como um campo magnético e impregnavam a atmosfera com uma energia vital e nova, uma força
irresistível, por assim dizer, que o tornava, talvez, mais atraente e desejável do que de costume, o que deve ter sido a razão por que Millie se sentiu atraída por
ele. Não era uma garota bonita, nada disso, não segundo os padrões convencionais que definem a beleza (nariz anguloso demais, olho esquerdo ligeiramente torto, lábios
finos demais), no entanto tinha uma tremenda cabeça de cabelos vermelhos e crespos, além de um corpo ágil e cativante. Naquela noite, os dois acabaram juntos na
cama e, quando compreendeu que Millie não estava assustada com seu corpus horrendus, peludo e amplamente redondo, ele chamou-a para jantar na noite seguinte e os
dois acabaram juntos na cama outra vez. Millie Grant, de vinte e sete anos, dançarina em regime de meio expediente e garçonete em regime de meio expediente, nascida
e criada em Wheaton, Illinois, uma garota com quatro pequenas tatuagens e um piercing no umbigo, defensora de diversas teorias conspiratórias (desde o assassinato
de Kennedy e os ataques de Onze de Setembro aos perigos da rede de bebedouros públicos), amante de música barulhenta, faladora incansável, vegetariana, ativista
dos direitos dos animais, uma figura vivaz e desempenada de temperamento esquentado e risada de metralhadora - em suma, alguém para manter por perto até o fim. Só
que ele não conseguiu mantê-la por perto. Ele não entendeu o que foi que deu errado, mas, depois de dois meses e meio de vida comunitária na casa, Millie acordou
um dia de manhã e declarou que ia para São Francisco juntar-se a uma nova companhia de dança. Tinha feito um teste para eles na primavera, ela disse, havia sido
a última candidata a ser cortada e agora que uma das dançarinas estava grávida e fora obrigada a sair do espetáculo, ela tinha sido chamada. Desculpe, Bing. Foi
bonito enquanto durou etc. e tal, mas aquela era a chance que vinha esperando e seria uma tolice não agarrar a oportunidade. Ele não sabia se devia acreditar nela
ou não, se São Francisco era apenas um termo que significava adeus, ou se ela de fato estava indo para lá. Agora que ela foi embora, ele se pergunta se teve um bom
desempenho na cama, se era capaz de satisfazê-la sexualmente. Ou, ao contrário, se ela achava que ele estava interessado demais em sexo, se todos aqueles papos sacanas
sobre as trepadas bizarras que ele tinha visto em filmes pornográficos haviam finalmente levado Millie a se afastar. Ele nunca vai saber. Ela não fez mais nenhum
contato desde a manhã em que foi embora da casa e ele não espera mais receber notícias dela.

Dois dias depois da partida de Millie, ele escreveu para Miles Heller. Ele se empolgou um pouco, talvez, ao afirmar que havia quatro pessoas na casa em vez de três,
mas de certo modo quatro era um número melhor do que três, e ele não queria que Miles pensasse que sua grande insurreição anarquista tinha sido reduzida a sua reles
pessoa e um par de mulheres. Em sua mente, a quarta pessoa era Jake Baum, o escritor, e embora seja verdade que Jake vem visitar Alice uma ou duas vezes por semana,
não é um membro permanente da moradia. Ele duvida que Miles vá se importar com essas coisas, mas, se ele se importar, será bastante fácil inventar alguma lorota
para explicar a discrepância.

Ele adora Miles Heller, mas também acha que Miles é doido, e fica contente ao saber que o papel de caubói solitário de seu amigo está afinal chegando ao fim. Sete
anos atrás, quando recebeu a primeira das cinquenta e duas cartas que Miles lhe escreveu, ele não hesitou em telefonar para Morris Heller e lhe dizer que seu filho
não estava morto, como todos temiam, mas sim trabalhando como cozinheiro num restaurante que servia pratos feitos no balcão na zona sul de Chicago. Miles estava
desaparecido fazia seis meses, àquela altura. Logo depois de seu desaparecimento, Morris e Willa chamaram Bing ao seu apartamento a fim de lhe perguntar a respeito
de Miles e o que ele achava que podia ter acontecido com ele. Bing nunca vai esquecer como Willa desatou a chorar, nunca vai esquecer a expressão de angústia no
rosto de Morris. Ele não tinha nenhuma sugestão para dar naquela tarde, mas prometeu que, se recebesse algum recado de Miles, ou se soubesse alguma coisa a respeito
dele, entraria em contato imediatamente. Agora, já faz sete anos que telefona para eles - cinquenta e duas vezes, uma vez para cada carta. Fica aflito com o fato
de Morris e Willa não terem pulado na mesma hora para dentro de um avião e decolado para algum dos diversos lugares onde Miles foi se enfiar - não para arrastá-lo
de volta, necessariamente, mas só para vê-lo e obrigá-lo a se explicar. Mas Morris diz que não há nada para fazer. Como o rapaz se recusa a vir para casa, eles não
têm outra opção senão esperar e torcer para que, algum dia, ele mude de ideia. Bing está contente por Morris Heller e Willa Parks não serem seus pais. Sem dúvida
são ótimas pessoas, mas são também tão teimosos e ma­­lucos quanto o próprio Miles.

 

Alice Bergstrom

Ninguém está vendo o que eles fazem. Ninguém liga se a casa vazia agora está ocupada. Eles se estabeleceram ali em definitivo.

Quando finalmente criou coragem e decidiu unir forças com Bing e Ellen no verão passado, Alice imaginou que eles seriam obrigados a viver nas sombras, escondidos,
que teriam de se esgueirar sorrateiros pela porta dos fundos para entrar e sair da casa, quando não tivesse ninguém passando ou olhando, que teriam de se esconder
atrás de persianas completamente fechadas para evitar que qualquer luz vazasse através das janelas, sempre com medo, sempre olhando por cima do ombro, sempre na
expectativa de que a qualquer momento uma bomba caísse em cima deles. Ela estava disposta a aceitar aquelas condições porque andava desesperada e sentia que não
tinha alternativa. Havia perdido o apartamento onde morava e como pode alguém alugar um novo apartamento quando não tem dinheiro para pagar o aluguel? As coisas
seriam mais fáceis se seus pais estivessem em condições de ajudá-la, mas eles mal conseguem sobreviver por conta própria, dependem dos cheques do seguro social e
dos cupons que recortam do jornal, numa perpétua caçada a liquidações, promoções, descontos, qualquer oportunidade para cortar alguns poucos centavos de suas despesas
mensais. Ela previa um começo sinistro para aquele projeto, uma vida assustada e mesquinha, num pardieiro estropiado transformado em casa, só que estava enganada,
sobre isso e sobre muitas outras coisas, e ainda que Bing possa ser insuportável algumas vezes, quando bate com o punho na mesa para sujeitá-los a mais uma de suas
medonhas exortações, quando faz barulho com a boca ao tomar a sopa, estala os lábios e deixa cair migalhas de comida no meio dos fios de sua barba enorme, ela avaliou
mal a inteligência dele, não percebeu que ele havia elaborado um plano perfeitamente razoável. Nada de ficar se escondendo, disse ele. Agir como se a casa não fosse
deles só serviria para alertar os vizinhos para o fato de que eram invasores. Tinham de agir em plena luz do dia, ficar de cabeça erguida e fingir que eram os donos
legítimos da casa, que a haviam comprado da prefeitura por uma bagatela, quase de graça, sim, sim, por um preço assombrosamente baixo, porque assim tinham poupado
a prefeitura do trabalho de demolir o imóvel. Bing tinha razão. Era uma história plausível e as pessoas aceitaram. Logo depois que eles se mudaram, no fim de agosto,
houve uma ligeira onda de curiosidade a respeito dos movimentos deles, mas passou rápido e agora o quarteirão pequeno e escassamente povoado estava adaptado à presença
deles. Ninguém prestava atenção, ninguém se importava com eles. A velha casa dos Donohue afinal tinha sido vendida, o sol continua a nascer e a se pôr, a vida prossegue
como se nada tivesse acontecido.

Nas primeiras semanas, eles fizeram o possível para tornar os cômodos habitáveis, atacaram com afinco toda forma de ruína e degradação, encarando toda pequena tarefa
como se fosse um monumental desafio humano, e, pouco a pouco, transformaram seu chiqueiro sordidamente imprestável em algo que podia, com alguma generosidade, ser
classificado como uma cabana. Está longe de ser confortável, inúmeras inconveniências os perturbam todos os dias, e agora que o tempo ficou frio, o ar cortante avança
sobre eles através de milhares de fissuras nas paredes e dos vãos nas janelas e portas, obrigando-os a ficar embrulhados em pesados suéteres e a calçar três pares
de meias de manhã. Mas ela não reclama. Não ter de pagar aluguel nem as taxas dos serviços públicos durante quatro meses permitiu que poupasse quase três mil e quinhentos
dólares e, pela primeira vez em muito tempo, ela consegue respirar sem sentir o peito apertado, sem sentir que os pulmões estão prestes a estourar. Seu trabalho
está avançando, ela consegue enxergar o final despontando no horizonte ao longe e sabe que tem o vigor necessário para terminar. A janela de seu quarto dá para o
cemitério e, enquanto redige sua dissertação na pequena escrivaninha colocada bem abaixo daquela janela, muitas vezes olha fixamente para a quietude do vasto terreno
ondulado do cemitério Green-Wood, onde mais de meio milhão de corpos estão enterrados, o que é mais ou menos o mesmo número da população de Milwaukee, a cidade onde
ela nasceu, a cidade onde a maior parte de seus familiares ainda mora, e ela acha estranho, estranho e até assombroso, que haja tantos mortos debaixo daquele terreno
em frente à sua janela quantos são os vivos que moram no lugar onde sua vida começou.

Ela não lamenta que Millie tenha ido embora. Bing está abalado, é claro, ainda está chocado com a abrupta partida da namorada, mas ela tem a sensação de que o grupo
ficará melhor sem aquela tempestade ruiva e ingovernável de reclamações e de tiradas sarcásticas irrefletidas, a garota dos pratos sujos na pia e do rádio no último
volume, que quase pulverizava a pobre e frágil Ellen com os comentários sobre seus desenhos e suas pinturas. Um homem chamado Miles Heller virá se juntar a eles
amanhã ou depois. Bing diz que é, disparado, a pessoa mais inteligente e interessante que conheceu na vida. Pelo visto, os dois se conheceram quando eram adolescentes,
no início do ensino médio, assim a amizade deles já dura um tempo suficiente para que Bing tenha alguma segurança daquilo que está dizendo - na opinião dela, uma
coisa bastante exagerada, mas Bing muitas vezes é dado a hipérboles e só o tempo dirá se o señor Heller corresponde ao vigoroso aval de Bing.

É sábado, um cinzento sábado do início de dezembro, e ela é a única pessoa na casa. Bing saiu uma hora atrás para ensaiar com seu conjunto, Ellen foi passar o dia
com a irmã e os pequenos gêmeos no Upper West Side, e Jake está em Montclair, Nova Jersey, visitando o irmão e a cunhada, que acabaram de ter um filho também. Os
bebês estão pipocando por todo lado, em cada canto do globo mulheres estão gritando, bufando e expelindo novos batalhões de recém-nascidos, fazendo sua parte para
prolongar a raça humana, e em algum ponto do futuro não muito distante ela espera pôr seu útero à prova e verificar se também pode dar sua contribuição. Só falta
escolher o pai certo. Durante quase dois anos, ela achou que aquela pessoa era Jake Baum, mas agora começa a ter dúvidas sobre Jake, algo parece estar se desmanchando
entre os dois, pequenas erosões diárias lentamente começaram a corroer seu pequeno pedaço de terra e, se as coisas continuarem a se deteriorar, em pouco tempo linhas
litorâneas serão tragadas, povoações inteiras serão submersas. Seis meses antes, ela nunca teria levantado essa questão, mas agora se pergunta se quer mesmo levar
adiante seu caso com Jake. Ele nunca foi uma pessoa expansiva, mas havia nele uma gentileza que Alice admirava, um jeito charmoso e irônico de encarar o mundo que
a confortava e lhe dava a sensação de que os dois combinavam, eram companheiros para valer. Agora ele está se afastando dela. Parece zangado e desanimado, seus antigos
trocadilhos espirituosos criaram um gume cínico e Jake parece não se cansar nunca de denegrir seus alunos e seus colegas professores. A Faculdade Comunitária de
LaGuardia virou o Curso Superior dos Cabeças de Bagre, a Universidade da Babaquice e o Instituto Avançado do Retardamento Mental. Ela não gosta de ouvi-lo falar
assim. Os alunos dele são pobres, em sua maioria, imigrantes da classe trabalhadora, que fazem a faculdade ao mesmo tempo que trabalham, uma situação nada fácil,
como ela sabe muito bem, e quem é ele para zombar deles por quererem receber instrução? Com o que Jake escreve, é mais ou menos a mes­ma história. Uma enxurrada
de comentários cáusticos toda vez que um conto é recusado, um desprezo ácido pelo mundo literário, um rancor permanente contra qualquer editor que não consegue reconhecer
seu talento. Ela está convencida de que ele tem talento, de que seus textos estão melhorando, mas aos olhos dela é um talento pequeno e suas expectativas para o
futuro de Jake são igualmente pequenas. Talvez isso seja uma parte do problema. Talvez Jake sinta que ela não acredita nele o suficiente, e apesar de todos os discursos
motivadores, apesar das longas conversas em que ela menciona as dificuldades iniciais de uma porção de escritores importantes, Jake parece nunca levar suas palavras
a sério. Ela não o critica por se sentir frustrado - mas será que deseja passar o resto da vida com um homem frustrado, um homem que rapidamente está se transformando
num fracasso aos seus próprios olhos?

No entanto ela não deve exagerar. Na maioria das vezes, Jake é gentil com ela e nem uma vez deu a entender que está cansado da relação entre os dois, nem uma vez
sugeriu que deviam romper. Afinal, Jake ainda é jovem, ainda não chegou aos trinta e um, é extremamente jovem para um escritor de ficção, e se seus contos continuarem
melhorando, é provável que algo de bom aconteça, algum tipo de sucesso, e com essa guinada certamente o humor de Jake também irá melhorar. Não, ela consegue aguentar
as frustrações dele, se for necessário, o problema não é esse, ela consegue suportar qualquer coisa, contanto que sinta que ele está firme com ela, porém é exatamente
isso que não sente mais, e ainda que Jake pareça contente em ir tocando o barco ao lado dela movido por um velho costume, pelo simples reflexo de afeições antigas,
ela está cada vez mais segura, não, segura provavelmente é uma palavra forte demais, ela está cada vez mais disposta a levar em conta a ideia de que Jake parou de
sentir amor por ela. Não é nada que ele diga, em nenhuma circunstância. Trata-se da maneira como olha para ela agora, a maneira como vem olhando para ela nos últimos
meses, sem nenhum interesse visível, os olhos vazios, distraídos, como se olhar para ela não tivesse nada de diferente de olhar para uma colher ou para um pano de
prato, um cisco de poeira. Jake agora raramente encosta nela quando os dois estão sozinhos e, mesmo antes de ela se mudar para a casa abandonada em Sunset Park,
a vida sexual de ambos estava em vertiginoso declínio. Esse é o xis da questão, sem sombra de dúvida o problema começa e termina nisso e ela censura a si mesma pelo
que aconteceu, não consegue deixar de acreditar que a culpa recai inteiramente em seus próprios ombros. Ela sempre foi uma pessoa grande, maior do que as outras
garotas na escola - mais alta, mais larga, mais robusta, mais atlética, nunca rechonchuda, nunca acima do peso em relação a seu tamanho, apenas grande. Quando conheceu
Jake, dois anos e meio atrás, ela media um metro e setenta e oito de altura e pesava setenta e dois quilos. Continua com um metro e setenta e oito, mas agora pesa
setenta e oito quilos. Aqueles seis quilos a mais são a diferença entre uma mulher forte e imponente e uma mulher enorme. Tem feito dieta desde que se mudou para
Sunset Park, no entanto, por mais severamente que restrinja a ingestão de calorias, não consegue perder mais do que um quilo e meio, o qual ela parece logo recuperar
no prazo de um ou dois dias. Seu corpo agora lhe causa repulsa e não tem mais coragem de se olhar no espelho. Estou gorda, diz para Jake. Ela diz isso várias vezes,
estou gorda, estou gorda, não consegue deixar de repetir as palavras, e se a visão do próprio corpo lhe causa repulsa, imagina o que Jake deve sentir quando ela
tira a roupa e vai para a cama com ele.

Agora a luz está diminuindo e, quando levanta da cama para acender a lâmpada, ela diz para si mesma que não deve chorar, que só fracotes e imbecis sentem pena de
si mesmos e portanto não deve ter pena de si mesma, pois não é nem fracote nem imbecil e não é nenhuma boba para pensar que o amor é uma questão de corpos, do tamanho,
do formato e do peso de corpos, e se Jake não consegue encarar sua namorada que tem um certo excesso de peso e que se empenha ferozmente em sua dieta, então que
Jake vá para o inferno. Um pouco depois, ela está sentada diante de sua escrivaninha. Abre seu laptop e, durante a meia hora seguinte, mergulha em seu trabalho,
lendo, relendo e corrigindo os trechos mais recentes de sua dissertação, redigidos naquela manhã.

Seu tema são os Estados Unidos nos anos imediatamente posteriores à Segunda Guerra Mundial, um exame das relações e dos conflitos entre homens e mulheres, tal como
são mostrados em livros e filmes, de 1945 até 1947, sobretudo romances policiais populares e filmes comerciais de Hollywood. É um terreno vasto para um estudo acadêmico,
talvez, mas ela não consegue se ver consumindo anos de sua vida comparando esquemas de rima nos poemas de Pope e de Byron (uma de suas amigas está fazendo isso)
ou analisando as metáforas na poesia de Melville sobre a Guerra Civil (outra amiga está fazendo isso). Ela queria tratar de algo mais vasto, algo de importância
humana, capaz de envolvê-la pessoalmente, e sabe que está trabalhando naquele assunto por causa de seus avós e de seus tios e tias-avós, todos eles pessoas que participaram
da guerra, viveram a guerra, foram modificados para sempre pela guerra. Sua tese é que as normas tradicionais de conduta entre homens e mulheres foram destruídas
nos campos de batalha e no mundo dos civis, e quando a guerra terminou, a vida nos Estados Unidos tinha de ser reinventada. Ela se restringiu a alguns filmes e livros,
os que lhe pareceram mais emblemáticos, os que expunham o espírito da época em termos mais nítidos e mais contundentes, e já redigiu capítulos sobre O pesadelo do
ar-condicionado, de Henry Miller, a brutal misoginia de Eu, o júri, de Mickey Spillane, a cisão feminina virgem-prostituta apresentada no filme noir Fuga do passado,
de Jacques Tourneur, e dissecou meticulosamente um panfleto antifeminista que fez grande sucesso, intitulado Mulher mo­­der­­na: o sexo perdido. Agora está prestes
a começar a escrever sobre o filme de William Wyler de 1946, Os melhores anos de nossas vidas, uma obra central para sua tese e que ela considera o épico nacional
daquele momento particular da história americana - a história de três homens quebrados pela guerra e das dificuldades que enfrentam quando voltam para suas famílias,
a mesma história vivida por milhões de pessoas na época.

O país inteiro viu o filme, que ganhou o prêmio da Academia de melhor filme, melhor diretor, melhor ator principal, melhor ator coadjuvante, melhor montagem, melhor
trilha sonora, melhor roteiro adaptado, mas, enquanto a maior parte dos críticos reagia com entusiasmo (algumas das mais belas e inspiradoras demonstrações da fortaleza
humana que já se viram no cinema, escreveu Bosley Crowther do New York Times), outros ficaram menos impressionados. Manny Farber pichou o filme, que chamou de carroça
de sentimentalismo liberal puxada a cavalos, e em sua longa resenha, em duas partes, publicada em Nation, James Agee condenou e ao mesmo tempo elogiou Os melhores
anos de nossas vidas, chamando-o de muito irritante em seu oportunismo, em sua timidez, para depois concluir dizendo: No entanto sinto cem vezes mais simpatia e
admiração pelo filme do que desagrado ou desapontamento. Ela admite que o filme tem seus defeitos, que muitas vezes é excessivamente insípido e sentimental, mas
no final acha que seus méritos ultrapassam suas deficiências. A representação dos atores é vigorosa o tempo todo, o roteiro é repleto de falas memoráveis (Ano passado
era matar japoneses, este ano é ganhar dinheiro; Acho que deviam fabricar você em série; Estou no ramo do refugo, uma ocupação para a qual muita gente acha que sou
bem qualificado, pelo treinamento e pelo temperamento), e a fotografia de Gregg Toland é excepcional. Ela apanha seu exemplar da Enciclopédia do Cinema, de Ephraim
Katz, e lê esta frase no verbete sobre William Wyler: A revolucionária tomada em foco profundo aprimorada por Toland permitiu que Wyler desenvolvesse sua técnica
predileta de filmar longas tomadas em que os personagens aparecem no mesmo quadro ao longo de cenas inteiras, em vez de cortar de um para o outro e assim romper
o relacionamento entre os personagens. Dois parágrafos abaixo, no final de uma breve descrição de Os melhores anos de nossas vidas, o autor observa que o filme contém
algumas das mais complexas composições já vistas no celuloide. Mais importante ainda, pelo menos para os propósitos da dissertação que ela está escrevendo, a história
se concentra precisamente nos conflitos entre homem e mulher que mais lhe interessam. Os homens não sabem mais como agir com as esposas e namoradas. Eles perderam
o apetite pela vida doméstica, o sentimento de lar. Após anos vivendo longe de mulheres, anos de combate e de matança, anos brigando para sobreviver aos horrores
e perigos da guerra, eles se viram cortados de seu passado civil, mutilados, aprisionados nas repetições de suas experiências nos pesadelos, e as mulheres que deixaram
para trás se tornaram estranhas para eles. Assim começa o filme. A paz foi restabelecida, muito bem, mas, em nome de Deus, o que vai acontecer agora?

Ela tem um pequeno televisor e um aparelho de DVD. Co­­mo a casa não tem antena ou cabo, o televisor não recebe as transmissões comuns, mas ela pode ver filmes e
agora que está prestes a começar a escrever o capítulo sobre Os melhores anos de nossas vidas, sente que tem de dar mais uma olhada nele, uma última passada antes
de se jogar no trabalho. Agora a noite caiu, mas, quando ela se acomoda na cama para começar a assistir, apaga a luz para estudar o filme na escuridão completa.

O filme, está claro, é muito familiar para ela. Depois de vê-lo quatro ou cinco vezes, ela praticamente sabe o filme inteiro de cor, mas está decidida a procurar
pequenas coisas que podem ter lhe escapado antes, os detalhes fugidios que, em última análise, conferem ao filme a sua textura. Já na primeira cena, quando Dana
Andrews está no aeroporto, tentando sem sucesso comprar uma passagem de volta para Boone City, lhe chama a atenção o homem de negócios com os tacos de golfe, mr.
Gibbons, que paga tranquilamente a taxa por excesso de bagagem, ignorando o capitão Andrews da força aérea, que acabou de ajudar o país a vencer a guerra para mr.
Gibbons e seus compatriotas, e de agora em diante, ela decide, vai registrar todos os gestos de indiferença dos civis em relação aos soldados de regresso. Fica satisfeita
ao perceber como eles se avolumam rapidamente à medida que o filme avança: o porteiro do prédio de apartamentos onde Fredric March mora, por exemplo, que reluta
em deixar que o sargento de uniforme entre em sua própria casa, ou o gerente da drogaria Midway, mr. Thorpe, que desdenha ironicamente do desempenho de Andrew na
guerra e lhe oferece um emprego de salário muito baixo, ou mesmo a esposa de Andrew, Virginia Mayo, que lhe diz para esquecer aquela história toda, que ele não ia
chegar a lugar nenhum se não parasse logo de pensar na guerra, como se ir para a guerra fosse uma pequena inconveniência, a mesma coisa que ir a uma dolorosa consulta
no dentista.

Mais detalhes, mais coisas miúdas: Virginia Mayo retira as pestanas postiças; o congestionado mr. Thorpe aplica um borrifador nasal na narina esquerda; Myrna Loy
tenta beijar o adormecido Fredric March, que em resposta quase lhe dá um murro; o soluço sufocado da mãe de Harold Russell quando vê pela primeira vez a prótese
em forma de gancho que ele usa em lugar da mão; Dana Andrews enfia a mão no bolso para pegar algumas notas de dinheiro quando Teresa Wright o acorda, sugerindo num
movimento rápido e instintivo quantas noites ele deve ter passado com mulheres de vida fácil no outro continente; Myrna Loy põe flores na bandeja do café da manhã
de seu marido, depois resolve retirá-las; Dana Andrews pega uma foto do jantar no clube campestre, rasga ao meio para preservar a imagem de Teresa Wright sentada
a seu lado, e em seguida, depois de uma breve hesitação, também rasga aquele pedaço; Harold Russell se confunde ao pronunciar o juramento do matrimônio na cena do
casamento no final do filme; o pai de Dana Andrews tenta desajeitadamente esconder sua garrafa de gim no primeiro dia do filho em casa, após voltar da guerra; uma
placa vista através da janela de um táxi em movimento: Está na hora de um cachorro-quente?

Ela se interessa em especial pelo desempenho de Teresa Wright no papel de Peggy, a jovem que se apaixona pelo malcasado Dana Andrews. Ela quer saber por que se sente
atraída por aquele personagem, quando tudo lhe diz que Peggy é perfeita demais para ser crível como ser humano - é equilibrada demais, boa demais, bonita demais,
inteligente demais, uma das mais puras encarnações da garota americana ideal que ela consegue lembrar - e no entanto, toda vez que vê o filme, se sente mais envolvida
por aquele personagem do que por qualquer outro. A partir do momento em que Wright faz sua primeira aparição em cena - no início do filme, quando o pai dela, Fredric
March, volta para Myrna Loy e seus dois filhos -, ela resolve seguir com atenção todas as nuances do comportamento de Wright, examinar a fundo os menores detalhes
de sua representação a fim de compreender por que aquele personagem, que é potencialmente o elo mais fraco do filme, termina dando unidade a toda a história. Ela
não é a única a pensar assim. Mesmo Agee, tão severo em seu julgamento de outros aspectos do filme, se mostra efusivo em sua admiração pela façanha de Wright. Esse
novo desempenho de Wright, de todo isento de grandes cenas, truques ou estardalhaço - dificilmente se pode pensar que se trata de uma representação -, parece uma
das mais sagazes e mais belas realizações artísticas que vi em muitos anos.

Logo depois da longa tomada em que March e Loy se abraçam na ponta do corredor (um dos momentos marcantes do fil­me), a câmera corta para um close de Wright - e
só então, durante os poucos segundos em que Peggy ocupa a tela sozinha, Alice entende o que tem de procurar. A interpretação de Wright se concentra inteiramente
nos olhos e no rosto. Acompanhe os olhos e o rosto, e o enigma de sua maestria será solucionado, pois os olhos são extraordinariamente expressivos, sutil mas vividamente
expressivos, e o rosto registra suas emoções com uma autenticidade tão altamente sensível e contida que é impossível não acreditar nela como um personagem plenamente
corporificado. Por causa dos olhos e do rosto, Wright no papel de Peggy é capaz de trazer o interior para o exterior, e mesmo quando está calada, sabemos o que está
pensando e sentindo. Sim, ela é, sem a menor dúvida, o personagem mais saudável e mais sincero do filme, mas como não reagir à sua furiosa declaração aos pais a
respeito de Andrews e da esposa, Eu vou destruir aquele casamento, ou ao fora irritado que dá no homem rico e bonito que a convidou para jantar, quando ele tenta
beijá-la, dizendo Não enche meu saco, Woody, ou à risada curta e cheia de cumplicidade que compartilha com a mãe quando elas dizem boa-noite uma para a outra, depois
que os dois homens embriagados são postos para dormir? Isso explica por que Andrews acha que ela devia ser fabricada em série. Porque só existe uma e o mundo seria
muito melhor (e os homens seriam muito melhores!) se existissem mais Peggys circulando por aí.

Ela está fazendo o possível para se concentrar, para manter os olhos cravados na tela, mas no meio do filme seus pensamentos começam a divagar. Vendo Harold Russell,
o terceiro protagonista masculino, ao lado de March e Andrews, o ator não profissional que perdeu as mãos durante a guerra, ela começa a pensar em seu tio-avô Stan,
marido de Caroline, irmã de sua avó, o veterano do Dia D de um braço só e de sobrancelhas grossas, Stan Fitz­­patrick, enchendo a cara nas festas de família, contando
piadas de sacanagem para os irmãos dela na varanda dos fundos da casa dos avós, um dos muitos que jamais conseguiram pôr a cabeça no lugar depois da guerra, o homem
que teve trinta e sete empregos diferentes, o velho tio Stan, morto já faz dez anos agora, e as histórias que a avó lhe contou depois, sobre como ele dava umas surrazinhas
em Caroline, a agora falecida Caroline, que levou tantas surras que um dia perdeu dois dentes, e além disso há seus dois avôs, ambos ainda vivos, um meio desmemoriado
e o outro lúcido, que quando jovens combateram no Pacífico e na Europa, tão jovens que eram pouco mais do que meninos, e muito embora ela tente fazer o avô lúcido
conversar com ela, Bill Bergstrom, o marido de sua única avó sobrevivente, nunca fala grande coisa, se limita às generalidades mais nebulosas, é simplesmente impossível
para ele falar a respeito daqueles anos, todos voltaram para casa enlouquecidos, estragados para a vida normal, e mesmo os anos depois da guerra ainda faziam parte
da guerra, os anos dos pesadelos e dos suores noturnos, os anos de querer dar murros nas paredes, e então seu avô a distrai contando como cursou a faculdade com
a bolsa que o governo ofereceu para os ex-combatentes, como conheceu sua avó num ônibus um dia e se apaixonou por ela à primeira vista, papo furado, papo furado,
do início ao fim, mas ele é um daqueles homens que não conseguem falar, um membro de carteirinha da geração dos homens que não conseguem falar e assim ela tem de
contar com a avó para saber das histórias, mas ela não foi um soldado durante a guerra, não sabe o que aconteceu lá do outro lado do oceano, e só pode falar das
três irmãs e seus maridos, a falecida Caroline e Stan Fitzpatrick e Annabelle, cujo marido morreu em Anzio e que depois se casou de novo, com um homem chamado Jim
Farnsworth, outro veterano do Pacífico, mas aquele casamento também não durou muito, ele foi infiel, falsificou cheques ou se meteu num desvio de mercadorias estocadas,
os detalhes não são claros, mas Farnsworth desapareceu muito antes de ela nascer e o único marido que ela conheceu foi Mike Meggert, o caixeiro-viajante, que também
nunca falava sobre a guerra, e por fim existe Gloria, Gloria e Frank Krushniak, o casal com seis filhos, mas a guerra de Frank foi diferente da guerra dos outros,
pois ele fingiu uma deficiência e nunca teve de servir, o que significa que também não tem nada a dizer, e, quando ela pensa naquela geração de homens calados, meninos
que passaram pela Depressão e cresceram para se tornarem soldados ou não soldados na guerra, ela não os censura por se recusarem a falar, por não quererem voltar
para o passado, mas como é curioso, ela pensa, como é altamente incoerente que a geração dela, que não tem muito do que falar por enquanto, tenha produzido homens
que nunca param de falar, homens como Bing, por exemplo, ou homens como Jake, que fala de si próprio à menor deixa, que tem uma opinião a respeito de todos os assuntos,
que cospe palavras da manhã à noite, mas só porque fala não significa que ela queira ouvi-lo, ao passo que com os homens calados, os velhos, aqueles que já estão
quase morrendo, ela daria qualquer coisa para ouvir o que eles têm a dizer.

 

Ellen Brice

Ela está parada na varanda na frente da casa, olhando para a neblina. É manhã de domingo e o ar do lado de fora está quase quente, quente demais para o começo de
dezembro, dando a sensação de um dia de uma outra estação ou de uma outra latitude, um tempo de tipo úmido e ameno que a faz lembrar os trópicos. Quando olha para
o outro lado da rua, a neblina está tão densa que o cemitério fica invisível. Uma manhã estranha, diz ela para si mesma. As nuvens baixaram até o chão e o mundo
se tornou invisível - o que não é bom nem ruim, conclui ela, meramente estranho.

É cedo, pelo menos para um domingo, passam alguns minutos das sete horas e Alice e Bing ainda estão dormindo em suas camas no segundo andar, mas ela acorda à primeira
luz do sol, como de costume, embora haja muito pouca luz nesta manhã feia e de neblina. Não lembra qual foi a última vez que conseguiu dormir seis horas seguidas,
seis horas ininterruptas sem acordar de algum sonho brutal ou descobrir que tinha aberto os olhos de madrugada, e sabe que tais dificuldades de sono são um mau sinal,
um aviso inequívoco de que problemas estão por vir, mas, apesar do que sua mãe não para de lhe dizer, ela não quer voltar para a medicação. Tomar uma daquelas pílulas
é como engolir uma pequena dose de morte. Uma vez que se começa com essas coisas, os dias viram um regime entorpecedor de esquecimento e confusão e não há um só
momento em que a gente não tenha a sensação de que a cabeça está cheia de bolas de algodão e pedaços de papel embolado. Ela não quer fazer cessar sua vida a fim
de sobreviver à sua vida. Quer que seus sentidos estejam despertos, ter pensamentos que não desapareçam no mesmo instante em que ocorrem para ela, sentir-se viva
de todas as maneiras que ela se sentia viva no passado. Agora, os colapsos nervosos estão fora de sua programação. Não pode mais deixar-se render, mas, apesar de
seus esforços para se manter firme e plantada no aqui e no agora, a pressão tem crescido dentro dela outra vez e ela está começando a sentir pontadas do antigo pânico,
o bolo na garganta, o sangue correndo depressa demais pelas veias, o coração apertado e o ritmo frenético do pulso. Medo sem objeto, como o doutor Burnham descreveu
aquilo para ela, certa vez. Não, ela diz para si, agora: medo de morrer sem ter vivido.

Não há dúvida de que vir para cá foi a decisão correta e ela nunca se arrependeu de deixar para trás aquele apartamento pequeno na President Street em Park Slope.
Ela se sente encorajada pelo risco que eles assumiram juntos, e Bing e Alice têm sido muito bons com ela, muito generosos e protetores, muito constantes em sua amizade,
mas, apesar do fato de agora ela estar menos solitária, houve ocasiões, na verdade muitas ocasiões, em que estar com eles só serviu para piorar as coisas. Quando
morava sozinha, ela nunca precisava se comparar a ninguém. Suas lutas eram suas lutas, seus fracassos eram seus fracassos e ela podia sofrer com as lutas e os fracassos
dentro dos limites de seu espaço diminuto e solitário. Agora está rodeada por gente entusiasmada e cheia de energia e, junto dessas pessoas, ela se sente apagada
e moleirona, uma nulidade incorrigível. Em breve Alice vai conseguir seu Ph.D. e um emprego universitário em algum lugar, Jake anda publicando contos e mais contos
em revistas pequenas, Bing tem seu conjunto musical e seus ridículos negócios nanicos, e até Millie, a sarcástica e imperdível Millie, está fazendo progressos como
dançarina. Quanto a ela, está avançando rápido para lugar nenhum, mais rápido do que um cachorro jovem virando um cachorro velho, mais rápido do que uma flor desabrochando
e murchando. O trabalho dela como artista esbarrou num beco sem saída e ela passa a maior parte do tempo mostrando apartamentos vazios para os prováveis inquilinos
- um emprego para o qual ela é absolutamente mal dotada e do qual receia ser demitida a qualquer momento. Tudo isso já é bastante difícil, mas ainda por cima tem
a questão do sexo, as trepadas que ela tem de ficar ouvindo através das paredes finas do primeiro andar, o fato de ser a única pessoa solteira numa casa de dois
casais. Faz bastante tempo que não faz amor com ninguém, dezoito meses, segundo seus últimos cálculos, e ela anda tão sôfrega de contato físico que agora mal consegue
pensar em qualquer outra coisa. Toda noite na cama ela se masturba, mas masturbação não é a solução, só proporciona um alívio temporário, é que nem uma aspirina
que a gente toma para matar a dor de um dente latejante, e ela não sabe quanto tempo ainda consegue aguentar sem ser beijada, sem ser amada. Agora Bing está disponível,
é verdade, e ela pode perceber que ele está interessado nela, mas por algum motivo ela não consegue se imaginar com Bing, não consegue se ver pondo os braços em
volta de suas costas largas e peludas ou tentando encontrar os lábios dele no meio do matagal daquela barba espessa. Por várias vezes desde que Millie se foi, ela
pensou em tentar uma aproximação, mas então vê Bing no café da manhã e reconhece que é impossível.

Seus pensamentos começam a perturbá-la, os pequenos jogos com que brinca em sua mente sem querer, as incontroláveis e repentinas fugas para a escuridão. Às vezes
aquilo lhe ocorre em lampejos fugazes - um impulso para atear fogo na casa, para seduzir Alice, para roubar dinheiro do cofre na empresa imobiliária onde trabalha
- e depois desaparece tão rápido como veio. Outras coisas são mais constantes e mais duradouras em seu impacto. Agora, até sair de casa é algo carregado de perigos,
pois há dias em que ela não é mais capaz de olhar para as pessoas que passam na rua sem despi-las em sua imaginação, sem arrancar suas roupas com um puxão rápido
e violento e depois examinar seus corpos nus, enquanto passam caminhando. Aqueles estranhos não são mais gente para ela, são apenas os corpos que pertencem a eles,
estruturas de carne enroladas em volta de ossos, tecidos e órgãos internos, e, com o pesado tráfego de pedestres que circula pela Sétima Avenida, onde fica seu escritório,
centenas quando não milhares de espécimes são lançados diante de seus olhos todos os dias. Ela vê os imensos e impraticáveis peitos de mulheres gordas, os minúsculos
pênis de meninos, os nascentes pelos púbicos de crianças de treze anos, as vaginas rosadas de mães que empurram seus bebês em carrinhos, as bundas dos velhos, as
partes pudendas sem pelos das meninas, coxas luxuriantes, coxas esquálidas, traseiros vastos e tremulantes, peitos cabeludos, umbigos embutidos, mamilos invertidos,
barrigas marcadas por cicatrizes de operações de apêndice e cesarianas, bosta deslizando de ânus abertos, mijo escorrendo de pênis compridos e parcialmente eretos.
Ela fica revoltada com essas imagens, estarrecida de perceber que sua mente é capaz de manufaturar tamanhas imundícies, mas, assim que elas começam a vir para ela,
não há jeito de mandá-las embora. Às vezes ela chega ao ponto de imaginar a si mesma parando para meter a língua na boca de cada passante, de toda e qualquer pessoa
que caia em seu círculo de visão, seja velho ou jovem, seja lindo ou deformado, parando para lamber toda a extensão de todos os corpos nus, enfiando a língua em
vaginas úmidas, pondo a boca em redor de pênis grossos e endurecidos, entregando-se com igual fervor a qualquer homem, mulher e criança numa orgia de amor indiscriminado
e democrático. Ela não sabe como deter aquelas visões. Elas a deixam arrasada e extenuada, mas os pensamentos desvairados penetram em sua cabeça como se fossem plantados
lá por outra pessoa e, por mais que lute para suprimi-los, é uma batalha que ela nunca vence.

Alheamentos temporários, ataques mentais de raiva, excremento que sobe das profundezas interiores, mas do lado de fora, no mundo exterior das coisas sólidas, ela
permitiu que seus desejos escapassem só uma vez, só uma vez com alguma consequência duradoura. A balada de Benjamin Samuels remonta ao verão de 2000, oito anos atrás,
oito anos e meio atrás, para ser exato, o que significa que aproximadamente um terço de sua vida passou desde então, e a canção permanece, ela nunca parou de ouvi-la
na sua cabeça, e, de pé na varanda nesta nevoenta manhã de domingo, ela se pergunta se algo tão sério jamais irá acontecer com ela outra vez. Tinha vinte anos de
idade e havia acabado de concluir o segundo ano em Smith. Alice ia voltar para o Wisconsin para trabalhar como conselheira-chefe numa colônia de férias de verão
perto do lago Oconomowoc e perguntou se ela queria trabalhar lá também, algo que ela poderia arranjar com facilidade. Não, ela não estava interessada em colônias
de férias, respondeu, tivera uma experiência ruim numa colônia de férias quando tinha onze anos, e assim acabou arranjando um trabalho mais perto de casa, para o
professor Samuels e sua esposa, que haviam alugado uma casa no sul de Vermont por dois meses e meio e precisavam de alguém para tomar conta dos filhos - Bea, Cora
e Ben, as meninas de cinco e sete anos, e o menino de dezesseis. O menino era crescido demais para necessitar de al­­guém que cuidasse dele, mas naquele ano Ben
tinha se dado muito mal na escola, tinha passado raspando em várias matérias, e queriam que ela lhe desse aulas particulares de inglês, história dos Estados Unidos
e álgebra. Ele estava de mau humor quando o verão começou - impedido de ir para a sua adorada colônia de férias futebolística em Northampton e tendo de encarar a
perspectiva de onze semanas de um exílio martirizante, com os pais e as irmãs, no meio do nada. Mas ela estava linda, nunca foi mais linda do que naquele verão,
muito mais arredondada e suave do que a criatura esquelética em que se tornou agora, e por que um menino de dezesseis anos iria reclamar de ter aulas particulares
com uma jovem sedutora, que vestia blusinhas sem manga, com a barriga de fora, e shorts colantes pretos? No início da segunda semana, os dois estavam amigos e no
início da terceira semana passavam a maioria das noites juntos no pavilhão do jardim, uma pequena construção a uns cinquenta metros da casa principal, onde viam
os filmes que ela pegava na locadora de vídeos do Al, nas excursões de compras a Brattleboro. As meninas e os pais estavam sempre dormindo àquela hora. O professor
Samuels e a esposa estavam escrevendo cada um o seu próprio livro naquele verão e obedeciam a um horário rígido, pulando da cama às cinco e meia da manhã e apagando
as luzes às nove e meia ou dez horas. Não ficaram nem de longe preocupados com o fato de ela e seu filho passarem tanto tempo juntos no pavilhão. Afinal, ela era
Ellen Brice, a garota de confiança, de fala mansa, que tivera um ótimo aproveitamento no curso de história da arte do professor Samuels, e eles podiam confiar em
que ela agiria com responsabilidade em todas as situações.

Fazer sexo com Ben não foi ideia dela - pelo menos, não no início. Ela adorava olhar para ele, a força e a elegância de seu corpo de jogador de futebol não raro
despertavam o seu desejo, mas ele era só um menino ainda, menos de seis meses antes, ele tinha quinze anos de idade, e por mais atraente que ela pudesse achar que
ele era, não tinha a menor intenção de fazer nada a respeito. Mas passado um mês daqueles dois meses e meio em que ela ia ficar lá, numa quente noite de julho, repleta
dos sons das rãs e de um milhão de cigarras, o rapaz fez o primeiro movimento. Os dois estavam sentados em suas posições de costume, em extremidades opostas do pequeno
sofá, as mariposas batiam nas janelas de tela como de costume, o ar da noite tinha cheiro de pinheiro e de terra molhada, como de costume, estava passando uma comédia
boba ou um faroeste, como de costume (o acervo da locadora era limitado), e ela começava a se sentir sonolenta, sonolenta o bastante para recostar a cabeça no espaldar
do sofá e fechar os olhos por alguns segundos, talvez dez segundos, talvez vinte segundos, e antes que fosse capaz de abrir os olhos de novo, o jovem mr. Samuels
tinha vindo para seu lado do sofá e beijava sua boca. Ela devia ter empurrado o menino para trás, ou virado a cabeça para o lado, ou ficado de pé e ido embora, mas
não conseguiu pensar com rapidez suficiente para fazer nada disso, e assim continuou onde estava, sentada no sofá de olhos fechados, e deixou que ele continuasse
a beijá-la.

Nunca foram descobertos. Durante um mês e meio, os dois levaram adiante seu pequeno caso de sexo (ela nunca foi capaz de pensar naquilo como um caso de amor), e
depois o verão terminou. Talvez ela não tenha se apaixonado por Ben, mas se apaixonou por seu corpo, e mesmo agora, oito anos e meio depois, ela ainda pensa na lisura
misteriosa da pele dele, na sensação de seus braços compridos em redor dela, na doçura de sua boca, no gosto de Ben. Ela teria continuado a ver Ben em Northampton
depois do verão, mas o horrível desempenho escolar do rapaz no ano anterior tinha deixado os pais tão alarmados que eles o despacharam para um colégio interno em
New Hampshire, e assim ele sumiu da sua vida de uma hora para outra. Ela sentiu a falta dele muito mais do que esperava, mas, antes que se desse conta de quanto
tempo precisava para superar aquilo, quantas semanas ou meses ou anos, ela se viu às voltas com uma encrenca de outro tipo. Sua menstruação estava atrasada. Falou
com Alice sobre o assunto e sua amiga prontamente arrastou-a para a farmácia mais próxima a fim de comprar um teste de gravidez. O resultado foi positivo, quer dizer,
negativo, desastrosa e inequivocamente negativo. Ela pensava que eles tinham sido tão cautelosos, tão precavidos para justamente aquilo não acontecer, mas obviamente
haviam falhado em algum ponto no meio do caminho e agora o que ela iria fazer? Não podia contar para ninguém quem era o pai. Nem mesmo para Alice, que a pressionava
sem parar, e nem mesmo para o pai da criança, que não passava de um menino de dezesseis anos de idade, e além do mais para que puni-lo com aquela notícia, quando
não havia nada que ele pudesse fazer para ajudá-la, quando a culpa de toda aquela história sórdida era dela? Não podia falar com Alice, não podia falar com Ben e
não podia falar com seus pais - não apenas sobre quem era o pai, como também sobre quem era ela mesma. Uma garota grávida, uma estudante universitária idiota com
um bebê crescendo dentro da barriga. A mãe e o pai jamais poderiam saber o que tinha acontecido. A mera ideia de tentar contar para eles o que havia ocorrido era
o suficiente para que ela tivesse vontade de morrer.

Se tivesse sido uma pessoa mais corajosa, ela teria tido a criança. Apesar das revoluções que uma gravidez levada até o fim causaria, ela queria ir adiante e deixar
o bebê nascer, mas estava apavorada demais com as perguntas que lhe fariam, envergonhada demais com a ideia de ter de encarar a própria família, fraca demais para
fazer valer sua vontade e sair da faculdade para se integrar às fileiras das mães solteiras. Alice levou-a para a clínica. Esperava-se um procedimento breve e sem
complicações e, em termos médicos, tudo correu como anunciado, mas ela achou aquilo pavoroso e humilhante e sentiu ódio de si mesma por ter agido contra seus impulsos
mais profundos, suas convicções mais profundas. Quatro dias depois, engoliu meia garrafa de vodca e vinte pílulas para dormir. Alice deveria passar o fim de semana
fora e, se ela não tivesse mudado seus planos no último instante e voltado ao seu quarto do alojamento dos estudantes às quatro horas daquela tarde, sua colega de
quarto adormecida estaria dormindo até agora. Levaram-na para o hospital Cooley Dickinson e lhe fizeram uma lavagem no estômago, e este foi o fim de Smith, o fim
de Ellen Brice como o que se costuma chamar de uma pessoa normal. Foi transferida para uma enfermaria de psiquiatria e ficou lá durante vinte dias, depois voltou
para Nova York, onde passou um período longo e infinitamente deprimente morando com os pais, dormindo em seu antigo quarto de criança, vendo o doutor Burnham três
vezes por semana, fazendo sessões de terapia de grupo e ingerindo sua dose diária das pílulas que supostamente a fariam se sentir melhor, mas não faziam. Por fim,
tomou a resolução de se matricular no curso de desenho da Escola de Artes Visuais, que no ano seguinte se transformou num curso de pintura, e aos poucos começou
a sentir que estava quase vivendo no mundo outra vez, que afinal talvez existisse algo parecido com um futuro para ela. Quando o cunhado do marido da irmã lhe ofereceu
um emprego na sua empresa imobiliária no Brooklyn, ela finalmente saiu da casa dos pais e co­­meçou a viver por conta própria. Sabia que era um emprego ruim para
ela, que ter de conversar com tanta gente todos os dias poderia se tornar um duro teste para seus nervos, mas aceitou o em­prego mesmo assim. Tinha de sair, tinha
de ficar livre dos olhos eternamente preocupados da mãe e do pai, e aquela era sua única chance.

Tinha acontecido cinco anos atrás. Agora, na varanda da frente da casa, embrulhada no seu sobretudo e tomando o seu café, ela se dá conta de que deve começar outra
vez. Por mais penoso que tenha sido ouvir as palavras de Millie dois meses atrás, a brutal e desdenhosa condenação de seus desenhos e de suas telas era plenamente
merecida. Seu trabalho não dizia nada para ninguém. Ela sabe que não lhe falta competência, nem mesmo talento, mas ela se encurralou num canto ao perseguir uma única
ideia e essa ideia não é forte o bastante para suportar o peso daquilo que ela vem tentando realizar. Ela achou que a delicadeza de seu toque poderia levá-la ao
reino sublime e austero que Morandi um dia habitou. Queria pintar quadros que evocassem o assombro mudo da pura coisidade, a respiração do éter sagrado nos espaços
entre as coisas, uma tradução da existência humana numa minuciosa representação de tudo o que está lá fora além de nós, ao redor de nós, da mesma forma como ela
sabe que o cemitério invisível está lá, diante dela, embora não possa vê-lo. Mas ela estava enganada ao depositar sua confiança nas coisas, ao confiar só nas coisas,
ao desperdiçar seu tempo com os inumeráveis prédios que desenhou e pintou, as ruas vazias, sem ninguém, as oficinas, os postos de gasolina, as fábricas, as pontes
e os viadutos, os tijolos vermelhos dos armazéns antigos que reluzem na luz fosca de Nova York. Tudo aquilo dá a impressão de uma evasão tímida, de um vazio exercício
de estilo, ao passo que tudo o que ela deseja e sempre desejou é desenhar e pintar representações dos próprios sentimentos. Não haverá nenhuma esperança para ela,
a menos que comece outra vez do início. Chega de objetos inanimados, diz para si mesma, chega de naturezas-mortas. Vai voltar para a figura humana e obrigar suas
pinceladas a serem mais arrojadas e mais expressivas, mais gestuais, mais frenéticas, se necessário, tão frenéticas quanto o pensamento mais frenético que houver
dentro dela.

Vai pedir a Alice que pose para ela pintar. É domingo, um domingo sossegado em que não tem nada de mais acontecendo, e mesmo se Alice estiver trabalhando hoje em
sua dissertação, talvez possa tirar umas duas horas de folga entre agora e a hora de dormir. Ela entra de novo na casa e sobe a escada para seu quarto. Bing e Alice
ainda estão dormindo e ela anda com cuidado para não acordá-los, tira o sobretudo e a camisola de flanela que usa por baixo e depois entra numa calça jeans velha
e num grosso suéter de algodão, sem se dar ao trabalho de vestir sutiã e calcinha, só com a pele nua por baixo do tecido macio, querendo se sentir o mais solta e
desembaraçada possível nesta manhã, livre para o dia que tem pela frente. Ela pega o bloco de desenho e um lápis Faber-Castell no alto da escrivaninha, depois senta
na cama e abre o bloco até chegar à primeira página vazia. Segurando o lápis na mão direita, levanta a esquerda no ar e em seguida a inclina num ângulo de quarenta
e cinco graus e a mantém suspensa a uns trinta centímetros do rosto, examinando-a até que ela não pareça mais estar presa ao corpo. Agora é uma mão alheia, uma mão
que pertence a outra pessoa, a ninguém, uma mão de mulher com seus dedos esguios e unhas redondas, as meias-luas acima das cutículas, o pulso estreito com a pequena
saliência de osso pronunciada no lado esquerdo, os nós e as articulações com matizes de cor marfim, a pele branca quase transparente que reveste as ramificações
das veias, veias azuis que levam o sangue vermelho que serpenteia através do seu sistema, enquanto o coração bate e o ar se movimenta para dentro e para fora dos
pulmões. Dígitos, carpo, metacarpo, falanges, derme. Ela pressiona a ponta do lápis contra a página em branco e começa a desenhar a mão.

Às nove e meia, ela bate na porta do quarto de Alice. A diligente Bergstrom já está trabalhando, um enxame de dedos sobrevoa o teclado do laptop, olhos cravados
na tela à sua frente, e Ellen pede desculpa por interrompê-la. Não, não, diz Alice, está tudo ótimo, não tem nenhum problema, e aí para de digitar e se vira para
a amiga com um daqueles afetuosos sorrisos de Alice no rosto, não, um sorriso mais do que meramente afetuoso, um sorriso de certo modo maternal, não da maneira como
sorri a mãe de Ellen, talvez, mas o tipo de sorriso que todas as mães deveriam dirigir aos filhos, um sorriso que é menos um cumprimento do que uma oferenda, uma
bênção. Ela pensa: Alice vai ser uma mãe formidável quando chegar a hora... uma mãe superior, diz para si, e então, por causa da justaposição daquelas duas palavras,
ela transforma Alice em uma Madre Superiora, de repente vendo a amiga num traje de freira, e, por causa daquela digressão momentânea, perde o fio da meada de seus
pensamentos e, antes que tenha tempo de perguntar a Alice se poderia posar para ela, Alice já está lhe fazendo uma pergunta:

Você viu Os melhores anos de nossas vidas?

Claro, diz Ellen. Todo mundo conhece esse filme.

Você gosta?

Muito. É um dos meus filmes de Hollywood prediletos.

Por que você gosta?

Não sei. Me comove. Sempre choro quando assisto.

Não acha um pouco forçado demais?

É claro que é forçado. Afinal é um filme de Hollywood, não é? Todos os filmes de Hollywood são um pouco artificiais, não acha?

Bom argumento. Mas esse filme é um pouco menos artificial do que a maioria - é o que você está dizendo?

Pense na cena em que o pai ajuda a preparar o filho para dormir.

Harold Russell, o soldado que perdeu as mãos na guerra.

O rapaz não pode retirar os ganchos sozinho, não pode abotoar o próprio pijama, não pode apagar o cigarro. O pai tem de fazer tudo para ele. Se bem me lembro, não
tem nenhuma música naquela cena, quase não tem palavras de diálogo, mas é um grande momento do filme. Totalmente honesto. Incrivelmente emocionante.

E todo mundo vive feliz para sempre?

Talvez sim, talvez não. Dana Andrews diz para a garota...

Teresa Wright...

Ele diz para Teresa Wright que eles vão ser um bocado maltratados. Talvez sejam mesmo, talvez não. E o personagem de Fredric March é um bêbado em tempo integral,
um alcoólatra delirante, em estado grave, de modo que a vida dele não vai ser nada divertida dali a alguns anos.

E quanto a Harold Russell?

Casa com a namorada no final, mas que tipo de casamento vai ser? É um rapaz simples, de bom coração, mas se exprime tão desgraçadamente mal, é tão travado emocionalmente
que eu não vejo como possa fazer a esposa muito feliz.

Eu nem sabia que você conhecia o filme tão bem assim.

Minha avó era doida pelo filme. Tinha uns dezesseis anos quando a guerra estourou e ela vivia dizendo que Os melhores anos de nossas vidas era o seu filme. Eu e
ela devemos ter visto o filme juntas umas seis vezes.

As duas continuam a conversar sobre o filme durante mais alguns minutos e então ela afinal se lembra de fazer para Alice a pergunta que a levou a bater na porta
de seu quarto. Alice está ocupada agora, mas terá muito prazer em tirar uma hora depois do almoço e posar para ela. O que Alice não compreende é que Ellen não está
interessada em fazer um retrato de seu rosto mas sim em fazer um desenho de seu corpo inteiro, e não daquele corpo escondido pelas roupas, mas um nu completo, talvez
vários esboços, semelhantes aos que fazia nas aulas com modelos-vivos, na Escola de Artes Visuais. Portanto é um momento embaraçoso para ambas quando sobem para
o quarto de Ellen, depois do almoço, e Ellen pede a Alice que tire a roupa. Alice jamais trabalhou como modelo, não está habituada a ver seu corpo ser esquadrinhado
por alguém e, embora ela e Ellen ocasionalmente se vejam de relance entrando ou saindo do banheiro na hora do banho, aquilo não tem nada a ver com a tortura de ter
de ficar parada durante uma hora, enquanto sua melhor amiga olha para ela dos pés à cabeça, sobretudo agora, quando ela anda se sentindo tão infeliz por causa de
seu peso, e embora Ellen diga para Alice que ela está linda, que ela não tem nenhum motivo para se preocupar, que é meramente um exercício artístico, que os artistas
estão habituados a olhar para o corpo dos outros, Alice fica embaraçada demais para atender o pedido da amiga, ela pede desculpas, mil desculpas, mas não tem como
levar aquilo adiante e tem de responder que não. Ellen recebe como uma ferroada a recusa de Alice a fazer para ela uma coisa tão simples, uma coisa que a rigor é
o primeiro passo de sua reinvenção como artista, o que é nada menos do que sua reinvenção como mulher, como ser humano, e embora compreenda que Alice não tem nenhuma
intenção de magoá-la, não pode deixar de sentir-se magoada, e depois que pede para Alice sair do quarto, ela fecha a porta, senta na cama e começa a chorar.

 

Miles Heller

Ele pensa naquilo como uma sentença de seis meses de prisão, sem redução de pena por bom comportamento. Os feriados de Natal e de Páscoa darão a Pilar o direito
de visitas temporárias, mas ele ficará confinado em sua cela durante seis meses inteiros. Não deve nem sonhar em fugir. Nada de escavar túneis no meio da noite,
nada de choques com os guardas, nada de cortar e atravessar os arames farpados, nada de corridas alucinadas para a mata, perseguido por cães. Se conseguir alcançar
o fim de sua sentença sem se meter em encrencas nem se desfazer em pedaços, ele estará num ônibus seguindo de volta para a Flórida no dia 22 de maio e, no dia 23,
estará junto de Pilar para celebrar o aniversário dela. Até lá, vai continuar prendendo o fôlego.

Se desfazer em pedaços. Era a expressão que ele não parava de usar durante o trajeto de sua viagem, durante as sete conversas que teve com Pilar ao longo das trinta
e quatro horas que passou na estrada. Você não deve se desfazer em pedaços. Quando não estava soluçando no telefone ou descarregando sua raiva contra a piranha maluca
da sua irmã, Pilar parecia compreender o que ele tentava lhe dizer. Ele se ouvia pronunciando banalidades que, apenas dois dias antes, não poderia imaginar que alguma
vez iriam passar por seus lábios, e no entanto uma parte dele acreditava no que estava falando. Eles tinham de ser fortes. Aquilo era um teste e o amor deles ficaria
ainda mais profundo. E então vinham os conselhos práticos, as recomendações para continuar indo bem na escola, para não esquecer de comer direito, para dormir cedo
todas as noites, para trocar o óleo do carro em intervalos regulares, para ler os livros que deixou para ela. Aquilo era um homem falando com a futura esposa ou
um pai falando com a filha? Um pouco das duas coisas, talvez. Era Miles falando com Pilar. Miles dando o melhor de si para que a garota aguentasse firme, para que
também ele aguentasse firme.

Ele entra no Hospital de Coisas Quebradas às três horas da tarde de segunda-feira. Era o que tinham combinado. Se chegasse depois das seis horas, iria direto para
a casa em Sunset Park. Se chegasse durante o dia, iria encontrar Bing em sua loja na Quinta Avenida, no Brooklyn. Uma campainha tilinta quando ele abre e fecha a
porta e, quando avança alguns passos no interior da loja, fica chocado ao ver como o lugar é pequeno, sem dúvida se trata do menor hospital do mundo, pensa ele,
um santuário encardido, bagunçado, com velhas máquinas de escrever em exposição, um índio de charutaria no canto da loja à sua esquerda, aeromodelos de duas asas
e Piper Cubs pendentes do teto e as paredes cobertas de tabuletas e cartazes anunciando produtos que abandonaram a cena americana décadas atrás: goma de mascar Black
Jack, gel capilar O’Dell’s, Geritol, pílulas para o fígado Carter’s, cigarros Old Gold. Ao som da campainha, Bing emerge da sala dos fundos, atrás do balcão, parecendo
mais volumoso e mais peludo do que ele recorda, um gigante trapalhão sorridente voando na sua direção de braços abertos. Bing é só sorrisos e risadas, só abraços
de urso e beijos na bochecha, e Miles, apanhado de surpresa por aquelas boas-vindas sentimentais, desata numa risada também, quando se desvencilha do abraço esmagador
do amigo.

Bing fecha o hospital mais cedo e, como desconfia que Miles está morto de fome depois da longa viagem, leva-o alguns quarteirões adiante pela Quinta Avenida para
aquilo que chama de seu lugar para almoçar predileto, um restaurantezinho barato e ordinário que serve peixe e batatas fritas, torta de carne com batata, salsichas
com purê de batata, um cardápio completo da autêntica gororoba inglesa. Não admira que Bing tenha ganhado tanto volume, pensa Miles, almoçando várias vezes por semana
naquele chiqueiro gordurento, mas a verdade é que agora está esfomeado e o que poderia ser melhor do que torta de carne com batata para a gente se empanturrar num
dia frio? Enquanto isso, Bing fica falando sobre a casa, sobre seu conjunto musical, sobre seu fracassado caso de amor com Millie, pontuando de vez em quando seus
comentários com algumas breves palavras sobre o ótimo aspecto de Miles e como ele está feliz de vê-lo outra vez. Em resposta, Miles não fala grande coisa, está ocupado
com a comida, mas fica impressionado com o bom humor e a arrebatadora benevolência de Bing, e quanto mais Bing fala, mais ele sente que seu correspondente dos últimos
sete anos é a mesma pessoa de quando os dois se viram pela última vez, um pouco mais velho, é claro, um pouco mais senhor de si, talvez, mas em essência a mesma
pessoa, ao passo que ele, Miles, está completamente diferente agora, uma ovelha negra que não apresenta nenhuma semelhança com o carneiro que era sete anos atrás.

No final do almoço, uma expressão de desconforto surge no rosto de Bing. Faz uma pausa, mexe com o garfo no ar, volta os olhos para a mesa, aparentemente incapaz
de encontrar as palavras, e quando afinal recomeça a falar, sua voz está muito mais branda do que antes, quase sumida.

Não estou querendo bisbilhotar nada, diz ele, mas fiquei pensando se você não tem alguns planos por aqui.

Planos para fazer o quê?, pergunta Miles.

Para ver seus pais, por exemplo.

E isso por acaso é da sua conta?

É, infelizmente é. Fui sua fonte durante muito tempo até agora, e acho que eu gostaria de me aposentar.

Já está aposentado. Na hora em que desci do ônibus hoje, você ganhou seu relógio de ouro. Pelos anos de profícuos serviços prestados. Você sabe como sou grato, não
é?

Não quero sua gratidão, Miles. Só não quero ver você ferrar com sua vida de novo. Não foi fácil para eles, você sabe.

Eu sei. Não pense que não sei.

E então? Vai ver seus pais ou não?

Eu quero, eu gostaria...

Isso não é uma resposta decente. Sim ou não?

Sim. Claro que vou, diz ele, sem saber se vai ou não, sem saber que Bing conversou com seus pais cinquenta e duas vezes nos sete últimos anos, sem saber que seu
pai, sua mãe e Willa foram informados de que ele chegaria a Nova York hoje. É claro que vou, diz ele outra vez. Me dê só um tempo para me instalar primeiro.

A casa não parece com nenhuma casa que ele tenha visto em Nova York. Ele tem consciência de que a cidade é cheia de estruturas anômalas que não têm nenhuma relação
aparente com a vida urbana - as casas de tijolos e os apartamentos com jardim em certas partes do Queens, por exemplo, com suas aspirações tímidas, suburbanas, ou
as poucas casas de madeira remanescentes no extremo norte de Brooklyn Heights, vestígios históricos de 1840 - mas aquela casa em Sunset Park não é nem suburbana
nem histórica, é meramente um barracão, uma desoladora peça de burrice arquitetônica que não cairia bem em nenhum lugar, nem em Nova York, nem fora dela. Bing não
mandou nenhuma fotografia junto com a carta, não descreveu como era a casa, não deu nenhum detalhe, e assim ele não tinha a menor ideia do que esperar, mas, se esperava
alguma coisa, sem dúvida não era aquilo.

Telhas cinzentas rachadas, um friso vermelho em torno das três esquadrias das janelas da parte de cima, uma balaustrada frágil na varanda, com vãos em forma de diamante
e pintados de branco, as quatro colunas de sustentação do telhado da varanda pintadas de vermelho, o mesmo vermelho-tijolo do friso em torno das janelas, mas nenhuma
tinta na escadinha da entrada nem nos corrimãos, que estão rachados demais para receber qualquer pintura e foram deixados em madeira nua, desgastada pelo sol e pela
chuva. Alice e Ellen ainda estão trabalhando quando ele e Bing sobem os seis degraus da varanda e entram na casa. Bing guia o amigo em um passeio completo, nitidamente
orgulhoso de tudo o que realizaram, e embora a casa lhe pareça apertada (não só por causa do tamanho dos cômodos ou de seu número, mas por causa das muitas coisas
que foram atulhadas dentro deles - a bateria de Bing, as telas de Ellen, os livros de Alice), o interior é notavelmente harmonioso, com uma claridade recém-pintada
e reparada, e portanto talvez até habitável. A cozinha, o banheiro e o quarto dos fundos no térreo; os três quartos no primeiro andar. Mas não há sala de estar nem
sala de visitas, o que significa que a cozinha é o único espaço comum - junto com a varanda, quando o tempo está bom. Ele vai herdar o antigo quarto de Millie, no
térreo, o que é um certo alívio, pois aquele é o quarto que proporciona o máximo de privacidade, se é que morar num quarto vizinho à cozinha pode ser chamado de
privacidade. Miles põe a bolsa sobre a cama e, enquanto olha pelas janelas situadas em lados opostos do quarto, uma com vista para um terreno baldio com o carro
depenado, a outra com vista para uma construção abandonada, Bing lhe explica as diversas rotinas e protocolos que tiveram de ser instituídos desde que se mudaram
para lá. Todos têm um trabalho a cumprir, mas, afora as responsabilidades daquele trabalho, todos estão livres para ir e vir à vontade. Ele, Bing, é o zelador que
quebra todos os galhos, Ellen é a faxineira e Alice faz as compras e cuida da maior parte dos preparativos da comida. Talvez Miles ache bom compartilhar o trabalho
de Alice, revezar com ela nas compras e na cozinha. Miles não tem nenhuma objeção. Gosta de cozinhar, diz ele, pegou jeito para aquilo ao longo dos anos e não seria
nenhum problema para ele. Bing continua e diz que em geral tomam o café da manhã e jantam juntos, porque todos têm pouco dinheiro e tentam gastar o mínimo possível.
Somar os recursos ajudou-os a irem se virando e agora que Miles veio se juntar ao lar, os gastos de todos, em consequência, vão diminuir. Todos eles irão se beneficiar
da presença de Miles e com isso ele está falando não só de dinheiro, trata-se de tudo o que Miles vai acrescentar ao espírito da casa, e Bing quer que ele compreenda
como se sente feliz por saber que Miles está afinal de volta a seu lugar. Miles encolhe os ombros, diz que espera ser capaz de se adaptar, mas em segredo se pergunta
se é mesmo uma pessoa talhada para esse tipo de vida em grupo, se ele não se daria melhor se procurasse um lugar para morar sozinho. O único problema é o dinheiro,
o mesmo problema que todos os outros estão encarando. Ele não tem mais emprego e os três mil dólares que trouxe consigo equivalem a pouco mais de uns trocados. Assim,
goste ou não, por enquanto ele está encurralado e, a menos que aconteça alguma coisa que modifique de forma dramática as circunstâncias, ele terá simplesmente de
se virar como puder. Assim começa a cumprir sua sentença de prisão. A irmã de Pilar transformou-o no mais novo membro do quarteto de Sunset Park.

Naquela noite, servem um jantar em sua homenagem. É um gesto de boas-vindas e, embora ele preferisse não ser o centro das atenções, tenta enfrentar a situação sem
demonstrar como se sente constrangido. Quais são suas primeiras impressões sobre os moradores? Acha Alice a mais agradável, a mais centrada, e fica bastante empolgado
com sua maneira direta e juvenil de ver as coisas, típica do Meio-Oeste. Uma pessoa muito lida e com a cabeça boa, ele descobre, mas sem afetação, que se autodeprecia,
com um talento para lançar tiradas engraçadas em momentos inesperados. Ellen lhe parece mais enigmática. É ao mesmo tempo atraente e sem atrativos, ao mesmo tempo
aberta e fechada, e de um minuto para outro sua personalidade parece mudar. Silêncios prolongados, embaraçosos, e depois, quando afinal ela fala, raramente deixa
de fazer algum comentário arguto. Ele pressente uma turbulência interna, alguma perturbação, e no entanto também uma bondade profunda. Se pelo menos não ficasse
olhando tanto para ele, Miles seria capaz de sentir um pouco de afeição por ela, mas os olhos de Ellen estão grudados nele desde que sentaram à mesa, e ele se sente
desconcertado pelo interesse flagrante e abertamente invasivo dela. Também existe Jake, o visitante eventual de Sunset Park, um homem magro, que está começando a
ficar careca, de nariz pontudo e orelhas grandes, Jake Baum, o escritor, o namorado de Alice. Nos primeiros minutos, parece bastante simpático, mas depois Miles
começa a mudar de opinião, nota que ele mal se dá ao trabalho de ouvir quem quer que seja a não ser ele próprio, sobretudo quando se trata de Alice, a quem interrompe
toda hora, não raro com cortadas no meio de uma frase, para prosseguir com alguma ideia sua, e em pouco tempo Miles conclui que Jake Baum é um chato, embora seja
capaz de citar Pound de memória e fazer a lista dos times que disputaram o World Series desde 1932. Felizmente Bing parece estar no auge de sua forma, representando
de modo exuberante seu papel de mestre de cerimônias, e, a despeito das tensões invisíveis no ar, sustenta de maneira primorosa o tom frívolo da noite. Toda vez
que se abre mais uma garrafa de vinho, ele se põe de pé e proclama um brinde, celebrando a vinda de Miles, celebrando o iminente aniversário de quatro meses de sua
pequenina revolução, celebrando os direitos dos invasores de imóveis abandonados no mundo inteiro. O único ponto negativo em toda aquela jovialidade é o fato de
Miles não beber e ele sabe que, quando as pessoas encontram alguém que se abstém do álcool, automaticamente supõem que se trata de um alcoólatra em recuperação.
Miles nunca foi alcoólatra, mas houve um tempo em que achou que andava bebendo demais e, três anos atrás, quando parou de beber, era tanto uma questão de poupar
dinheiro como de preservar a saúde. Eles podem pensar o que quiserem, ele diz para si mesmo, não tem a menor importância para ele, mas, toda vez que Bing ergue a
taça para mais um brinde, Jake se vira para Miles e insiste para que se junte ao grupo. Um engano honesto na primeira vez, quem sabe, mas depois vieram mais dois
brindes e Jake continuou repetindo a mesma coisa. Se soubesse do que Miles é capaz quando fica irritado, aquelas alfinetadas iriam parar na mesma hora, mas Jake
não sabe e, se fizer aquilo mais uma vez, pode acabar com o nariz ensanguentado ou com o queixo quebrado. Tantos anos de batalha para manter sua raiva sob controle
e agora, em seu primeiro dia de volta a Nova York, Miles está fervendo outra vez, pronto para quebrar a cara de alguém.

E fica pior. Antes do jantar, ele pediu a Bing que não deixasse ninguém saber quem são seus pais, que mantivesse os nomes Morris Heller e Mary-Lee Swann fora das
conversas, e Bing respondeu é claro, nem há o que discutir, mas agora, na hora em que o jantar está chegando perto do final, Jake começa a falar sobre o mais recente
romance de Renzo Michaelson, Os diálogos da montanha, publicado pela editora do pai de Miles em setembro. Talvez não haja nada de extraordinário nisso, o livro está
fazendo um grande sucesso, sem dúvida muita gente anda falando do assunto e o próprio Baum é um escritor, o que significa que seguramente está familiarizado com
a obra de Renzo, mas Miles não quer ouvir Jake tagarelar sobre o assunto, não sobre aquele livro, que ele leu na Flórida quando foi lançado, nas horas em que Pilar
não estava no apartamento porque era demais para ele, ele compreendeu desde a primeira página que os dois sessentões conversando no alto daquela montanha nos Berkshires
eram na verdade inspirados em Renzo e no seu pai, e era impossível para ele ler aquele livro sem chorar, ciente de que ele mesmo estava en­­volvido nos sofrimentos
daquela história, e os dois homens reviravam as coisas que tinham vivido, velhos amigos, os melhores velhos amigos que pode haver, seu pai e seu padrinho, e ali
está o pomposo Jake Baum fazendo suas declarações sobre aquele livro, e com todo o coração Miles deseja que ele pare. Baum diz que adoraria entrevistar Michaelson.
Sabe que ele raramente fala com jornalistas, mas há tantas perguntas que gostaria de lhe fa­­zer, e ele não ia ganhar um belo cartaz se conseguisse persuadir Michaelson
a lhe conceder algumas poucas horas? Baum está pensando só em suas próprias e insignificantes ambições, tentando se engrandecer tirando proveito de alguém que é
dez mil vezes maior do que ele jamais será, e então o burro do Bing solta a bomba de que é ele quem limpa e conserta a máquina de escrever de Renzo, o bom e velho
Michaelson, um dos últimos de uma linhagem em extinção, um romancista que ainda não se bandeou para um computador, e sim, ele o conhece um pouco, e talvez possa
falar alguma coisa em favor de Jake na próxima vez que Renzo for à sua loja. A esta altura, Miles está pronto para pular no pescoço de Bing e esganá-lo, mas felizmente
a conversa é desviada para outro assunto quando Alice dá um espirro sonoro e estrondoso e, de repente, Bing passa a falar sobre gripes e resfriados de inverno e
não se faz mais nenhuma menção à ideia de entrevistar Renzo Michaelson.

Depois daquele jantar, Miles resolve cair fora toda vez que Jake estiver por perto, evitar qualquer outra refeição em companhia dele. Não quer fazer nada de que
depois tenha de se arrepender e Jake é o tipo de homem que inevitavelmente desperta o que ele tem de pior. Na realidade, o problema não é tão grave como ele supõe
que vai ser. Baum só aparece uma vez durante as duas semanas seguintes e, embora Alice passe algumas noites com ele em Manhattan, Miles percebe que existe algum
problema entre os dois, que eles andam numa fase ruim, ou talvez até estejam chegando ao fim. Não devia ter nenhuma importância para ele, mas, agora que passou a
conhecer melhor Alice, ele espera que seja o fim, pois Baum não merece uma mulher como ela, e a própria Alice merece uma pessoa muito melhor.

Três dias depois da sua chegada, ele telefona para o escritório de seu pai. A recepcionista diz a ele que mr. Heller está fora do país e só retornará ao trabalho
no dia 5 de janeiro. Por acaso ele gostaria de deixar uma mensagem? Não, ele diz, ele volta a ligar no mês que vem, obrigado.

No jornal, lê que as pré-estreias da peça de sua mãe vão começar no dia 13 de janeiro.

Ele não sabe o que fazer consigo mesmo. Além de suas conversas diárias com Pilar, que tendem a durar uma ou duas horas, não existe mais nada que estruture sua vida.
Ele vagueia pelas ruas, tenta se familiarizar com a zona, mas logo perde o interesse por Sunset Park. Há no lugar algo de morto, ele descobre, o vazio fúnebre da
pobreza e da luta dos imigrantes, uma região sem bancos e sem livrarias, só escritórios onde se descontam cheques e uma biblioteca pública decrépita, um pequeno
mundo à parte do mundo, onde o tempo se move tão devagar que pouca gente se dá ao trabalho de usar um relógio de pulso.

Ele passa uma tarde tirando fotos de algumas fábricas à beira do mar, os prédios velhos que abrigam as últimas empresas sobreviventes no bairro, manufaturas de janelas
e portas, de piscinas, de roupas de senhoras e de uniformes de enfermeiras, mas as fotos, por algum motivo, ficam indefinidas, carentes de urgência, sem inspiração.
No dia seguinte, ele se aventura por Chinatown, na Oitava Avenida, com seu denso aglomerado de lojas e comércios variados, suas calçadas lotadas de gente, os patos
pendurados nas vitrines dos açougues, cem potenciais imagens para fotografar, cores vivas por todos os lados, mas mesmo assim ele se sente exausto, desmotivado,
e vai embora sem tirar nenhuma fotografia. Vai precisar de tempo para se adaptar, diz para si mesmo. Seu corpo pode estar aqui agora, mas sua mente continua com
Pilar na Flórida, e embora esteja em sua cidade natal outra vez, esta Nova York não é a sua Nova York, não é a Nova York da sua memória. Levando em conta toda a
distância que viajou, ele podia muito bem ter chegado a uma cidade desconhecida, uma cidade em qualquer outro lugar dos Estados Unidos.

Pouco a pouco, ele vem se aclimatando aos olhos de Ellen. Não se sente mais ameaçado por sua curiosidade e, se ela fala menos do que qualquer outra pessoa durante
o café da manhã e o jantar comum, na mesa da cozinha, ela sabe se mostrar muito falante quando está sozinha com ele. Em larga medida, ela se comunica fazendo perguntas,
não perguntas pessoais sobre sua vida ou seu passado, mas perguntas sobre suas opiniões a respeito de assuntos que vão de como está o tempo até a situação geral
do mundo. Ele gosta do inverno? Quem ele acha que é um pintor melhor, Picasso ou Matisse? Está preocupado com o aquecimento global? Ficou feliz quando Obama foi
eleito no mês passado? Por que os homens gostam tanto de esportes? Quem é seu fotógrafo predileto? Sem dúvida há algo de infantil em sua objetividade, mas ao mesmo
tempo suas perguntas muitas vezes provocam trocas de frases animadas e, seguindo o mesmo caminho de Bing e Alice, ele sente uma crescente responsabilidade de protegê-la.
Compreende que Ellen é solitária e gostaria muito de passar todas as noites na cama dele, mas ele já lhe contou a respeito de Pilar o bastante para ela saber que
isso não vai ser possível. Num de seus dias de folga, ela o convida para passear com ela pelo cemitério Green-Wood, uma visita à Cidade dos Mortos, como ela chama,
e pela primeira vez desde sua chegada a Sunset Park, ele sente algo palpitar dentro de si. Havia as coisas abandonadas nas casas da Flórida e agora ele topou com
as pessoas abandonadas no Brooklyn. Ele desconfia que se trata de um terreno digno de ser explorado.

Com Alice, ele tem a chance de conversar com alguém a respeito de livros, uma coisa que só lhe aconteceu raramente durante os anos entre a faculdade e Pilar. Logo
no começo ele descobre que ela é quase inteiramente ignorante no que diz respeito a literatura europeia e sul-americana, o que vem a ser uma pequena decepção, mas
Alice é um desses acadêmicos especialistas afundados em seu estreito mundo anglo-americano, muito mais familiarizados com o Beowulf e Dreiser do que com Dante ou
Borges, mas isso dificilmente merece ser classificado como um problema, ainda há muitas coisas sobre as quais podem conversar, e, assim, depois de poucos dias os
dois já criaram uma estenografia particular para exprimir suas simpatias e antipatias, uma linguagem de resmungos, testas franzidas, sobrancelhas erguidas, meneios
com a cabeça e ligeiros tapinhas no joelho. Ela não fala com ele sobre Jake, de modo que ele não lhe faz nenhuma pergunta. No entanto contou para ela a respeito
de Pilar, mas não muita coisa, quase nada além do nome e do fato de que ela vai vir da Flórida para visitá-lo no recesso do Natal. Usa a palavra recesso em vez de
férias, pois recesso sugere faculdade, ao passo que férias sempre significa colégio, e ele não quer que ninguém saiba quão jovem é Pilar antes que ela tenha chegado
- ocasião, ele assim espera, em que ninguém vai se dar ao trabalho de perguntar sua idade. Porém, mesmo se isso acontecer, ele não está preocupado. A única pessoa
que o preocupa é Angela, e Angela não vai saber que Pilar foi embora. Ele discutiu esse detalhe com Pilar muitas e muitas vezes. Ela não deve deixar que nenhuma
de suas irmãs saiba que ela vai embora, não só Angela, mas também Teresa e Maria, pois, no instante em que uma delas souber, todas vão saber e, por mais que as chances
disso sejam pequenas, Angela pode ficar furiosa a ponto de ir atrás de Pilar em Nova York.

Ele comprou um livrinho ilustrado sobre o cemitério Green-Wood e agora vai até lá todos os dias com sua câmera, circula entre as sepulturas, monumentos e mausoléus,
quase sempre sozinho, no ar gelado de dezembro, examinando atentamente a arquitetura opulenta, não raro bombástica, de certos túmulos, as colunas e os obeliscos
de mármore, os templos gregos e as pirâmides egípcias, as enormes estátuas de mulheres inertes, chorosas. O cemitério tem uma área maior do que a metade do Central
Park, um espaço grande o bastante para que uma pessoa se perca ali dentro, para que ele esqueça que é um prisioneiro cumprindo sua pena numa parte sombria do Brooklyn,
e caminhar entre milhares de árvores e plantas, subir os outeiros e percorrer as extensas alamedas dessa vasta necrópole é deixar para trás a cidade e se enclausurar
no silêncio absoluto dos mortos. Ele tira fotografias dos túmulos de gângsteres e de poetas, de generais e de industriais, de vítimas de assassinos e de editores
de jornais, de crianças mortas prematuramente, de uma mulher que viveu dezessete anos além do centésimo aniversário e da esposa e da mãe de Theodore Roosevelt, enterradas
uma ao lado da outra, no mesmo dia. Lá está Elias Howe, inventor da máquina de costura, os irmãos Kampfe, inventores do aparelho de fazer barba, Henry Steinway,
fundador da Companhia de Pianos Steinway, John Underwood, fundador da Companhia de Máquinas de Escrever Underwood, Henry Chadwick, inventor do sistema de marcação
de pontos do beisebol, Elmer Sperry, inventor do giroscópio. O crematório construído em meados do século XX incinerou os corpos de John Steinbeck, Woody Guthrie,
Edward R. Murrow, Eubie Blake, e quantos mais, conhecidos ou desconhecidos, quantas almas foram transformadas em fumaça nesse lugar lindo e sinistro? Ele deu início
a mais um projeto inútil, empregando sua câmera como instrumento para registrar seus pensamentos inúteis e à deriva, mas pelo menos é alguma coisa para fazer, um
jeito de passar o tempo até sua vida recomeçar, e onde mais senão no cemitério de Green-Wood ele poderia aprender que o nome verdadeiro de Frank Morgan, o ator que
representou o papel do Mágico de Oz, era Wuppermann?

 

MORRIS HELLER

 

1.

É o último dia do ano e ele chegou da Inglaterra uma se­­mana mais cedo por causa do funeral da filha de vinte e três anos de Martin Rothstein, que se suicidou em
Veneza na noite anterior à véspera do Natal. Ele publica as obras de Rothstein desde que fundou a Heller Books. Marty e Renzo eram os únicos americanos entre os
primeiros nomes do catálogo, dois americanos ao lado de Per Carlsen, da Dinamarca, e Annette Louverain, da França, e trinta e cinco anos depois ele continua a publicar
todos eles, que formam o núcleo dos escritores da casa, e ele sabe que não seria nada sem eles. A notícia chegou na noite do dia 24, um e-mail coletivo enviado a
centenas de amigos e conhecidos, que ele leu no computador de Willa em seu quarto no Charlotte Street Hotel em Londres, a macabra e despojada mensagem de Marty e
Nina, que dizia que Suki havia tirado a própria vida, com informações adicionais acerca do dia e da hora do funeral. Willa não queria que ele fosse. Achava que seria
penoso demais para ele, no ano passado tinha havido muitos funerais, amigos demais estavam morrendo agora e ela sabia como ele ficava devastado com aquelas perdas,
foi a palavra que ela usou, devastado, mas ele disse que tinha de estar lá por eles, era impossível deixar de ir, os deveres da amizade exigiam, e quatro dias depois
ele estava a bordo de um avião de volta para Nova York.

Agora é dia 31 de dezembro, fim da manhã no último dia de 2008, e enquanto desembarca do trem número 1 e sobe a escada que dá na esquina da Broadway com a rua 79,
o ar está atulhado de neve, uma neve molhada e pesada cai do céu cinzento e esbranquiçado, flocos densos rolam na obscuridade tempestuosa, velando as cores das luzes
do tráfego, embranquecendo os capôs dos carros que passam, e quando chega ao centro comunitário na Amsterdam Avenue, ele parece estar usando um chapéu de neve. Suki
Rothstein, nome de batismo Susanna, o bebê que ele viu pela primeira vez aninhado no braço direito do pai, vinte e três anos atrás, a jovem que se graduou summa
cum laude na Universidade de Chicago, a artista nascente, a precocemente dotada pensadora, escritora, fotógrafa, que foi para Veneza no último outono para trabalhar
como estagiária na Coleção de Peggy Guggenheim, e foi lá, no banheiro feminino daquele museu, alguns dias depois de apresentar um seminário sobre sua própria obra,
que ela se enforcou. Willa tinha razão, ele sabe disso, mas como não se sentir devastado com a morte de Suki, como não se colocar na pele do pai dela e sofrer a
devastação daquela morte absurda?

Recorda que a encontrou alguns anos antes, na Houston Street, sob a luz forte de um fim de tarde, no final da primavera, início do verão. Ela estava a caminho de
sua festa de formatura no ensino médio, dentro de um exuberante vestido vermelho, tão vermelho quanto o mais vermelho tomate de Jersey, e Suki estava toda iluminada
por sorrisos quando ele esbarrou com ela por acaso naquela tarde, rodeada por seus amigos, feliz, dizendo oi e tchau com beijos afetuosos, e daquele dia em diante
ele guardou em sua mente aquela imagem de Suki, como a corporificação mais perfeita da exuberância juvenil e da promessa, um exemplo especial da juventude em chamas.
Agora ele pensa no frio úmido de Veneza no auge do inverno, os canais transbordando sobre as ruas tomadas pela água, a solidão arrepiante dos quartos sem calefação,
uma cabeça partida por efeito da mera escuridão dentro dela, uma vida rompida pelos excessos e pelas carências deste mundo.

Entra no prédio arrastando os pés, junto com as outras pessoas, uma multidão que se avoluma lentamente e que chega a duas ou três centenas, e ele vê diversos rostos
conhecidos, entre eles Renzo, mas também Sally Fuchs, Don Willingham, Gordon Field, uma porção de velhos amigos, escritores, poetas, artistas, editores, e muitos
jovens também, dúzias e dúzias de rapazes e moças, amigos de infância de Suki, amigos do colégio, da faculdade, e todos falam em voz baixa, como se falar acima de
um sussurro fosse uma ofensa, um insulto contra o silêncio dos mortos, e quando ele olha os rostos ao redor, todos parecem entorpecidos e esgotados, não inteiramente
presentes ali, devastados. Ele abre caminho até um cômodo pequeno no final do corredor onde Marty e Nina recebem os visitantes, os convidados, os enlutados, qualquer
que seja a palavra usada para definir as pessoas que comparecem a um funeral, e, quando ele avança para abraçar seu velho amigo, lágrimas escorrem pelo rosto de
Marty, e então Marty lança seus braços em torno dele, comprime a cabeça contra seu ombro e diz Morris, Morris, Morris, enquanto seu corpo se convulsiona de encontro
a ele num espasmo de soluços estrangulados.

Martin Rothstein não é um homem feito para tragédias dessa magnitude. É uma pessoa espirituosa e de um charme efervescente, um escritor cômico de frases barrocas,
construídas de maneira hilariante, de um instinto satírico certeiro, um agitador intelectual com vasto apetite e incontáveis amigos, além de um senso de humor igual
ao dos melhores sabichões de Borscht Belt.** Agora ele está derramando o coração junto com as lágrimas, dominado pela dor, pela mais cruel e mais dilacerante forma
de dor, e Morris se pergunta como alguém pode esperar que um homem nessa condição consiga ficar de pé e falar diante de todas essas pessoas, quando a cerimônia começar.
E no entanto, um pouco depois, quando os enlutados tomam seus assentos no auditório e Marty sobe no estrado para proferir seu discurso fúnebre, ele está calmo, de
olhos secos, completamente recuperado de seu colapso na sala de recepção. Lê um texto que ele mesmo escreveu, um texto que sem dúvida se tornou possível graças à
extensão de tempo necessária para o corpo de Suki ser transportado de Veneza para Nova York, a qual tornou o intervalo entre a morte e o enterro mais longo do que
o habitual, e, nesses dias vazios, instáveis, de espera pela chegada do cadáver de sua filha, Marty se sentou e redigiu esse texto. Com Bobby, não houve nenhuma
palavra. Willa não foi capaz de escrever nem de falar nada, ele não foi capaz de escrever nem de falar nada, o acidente os reduziu a um estado de muda incompreensão,
uma dor silenciosa, que sangrou meses a fio, mas Marty é um escritor, toda a sua vida foi consumida no trabalho de formar palavras e frases, formar parágrafos, formar
livros, e a única maneira pela qual pôde reagir à morte de Suki foi escrever sobre ela.

O caixão está sobre o estrado, um caixão branco rodeado por flores vermelhas, mas não é uma cerimônia religiosa. Nenhum rabino veio celebrar, não se pronuncia nenhuma
prece, e quem sobe no estrado não tenta extrair nenhum sentido ou consolo da morte de Suki - não há nada além do próprio fato, do seu horror. Alguém toca uma peça
solo para saxofone, outra pessoa toca um coral de Bach no piano, e a certa altura o irmão caçula de Suki, Anton, usando esmalte vermelho nas unhas em homenagem à
irmã, canta uma versão sem acompanhamento, semelhante a um canto fúnebre, de uma canção de Cole Porter (“Ev’ry time we say good-bye/ I die a little”) num andamento
tão drasticamente lento, tão encharcado de melancolia, tão triste de ouvir, que a maioria da plateia está chorando quando ele chega ao final. Escritores vão até
o leitoril e leem poemas de Shakespeare e Yeats. Amigos e colegas de escola contam histórias de Suki, desfiam reminiscências, evocam o vigor ardente de seu espírito.
O diretor da galeria onde ela fez sua primeira e única exposição fala sobre sua obra. Morris acompanha todas as palavras ditas, escuta todas as notas executadas
e cantadas, à beira da desintegração durante a uma hora e meia da cerimônia, mas é o discurso de Marty que mais se aproxima de destruí-lo, um assombroso e destemido
exemplo de eloquência, que o deixa chocado por sua sinceridade, pela precisão brutal de seu pensamento, pela raiva, pela dor, pela culpa e pelo amor que permeiam
todas as suas articulações. Durante todos os vinte minutos da fala de Marty, Morris se imagina tentando falar sobre Bobby, sobre Miles, sobre o Bobby falecido há
tanto tempo e sobre o ausente Miles, mas sabe que jamais teria a coragem de ficar de pé na frente de uma plateia e exprimir seus sentimentos com uma honestidade
tão despojada como aquela.

Mais tarde, há um intervalo. Só os Rothstein e seus parentes mais íntimos irão ao cemitério em Queens. Todos são convidados a comparecer ao apartamento de Marty
e Nina às quatro horas, mas até lá os enlutados devem se dispersar. Ele está feliz por ter sido poupado do martírio de ver o caixão sendo baixado ao solo, a escavadeira
mecânica empurrando a terra de volta para a cova, Marty e Nina se desfazendo em lágrimas outra vez. Renzo o alcança no hall de entrada e os dois voltam juntos para
debaixo da neve a fim de procurar um lugar para almoçar. Renzo é inteligente o bastante para ter trazido um guarda-chuva e, quando Morris se espreme ao lado dele,
Renzo põe o braço sobre seu ombro. Nem um nem outro dizem nenhuma palavra. São amigos há cinquenta anos e cada um sabe muito bem o que o outro está pensando.

Vão parar numa delicatéssen judaica na Broadway, na região entre as ruas 80 e 90, e são lançados de volta à Nova York de sua infância, à quase extinta culinária
das iscas de fígado, sopa de bolinhas de matzo, carne bovina em conserva e sanduíches de carne defumada, carne assada, panquecas de queijo, picles. Renzo andou viajando,
os dois não se veem desde a publicação de Os diálogos da montanha, em setembro, e Morris sente que Renzo parece cansado, mais abatido do que o habitual. Como foi
que aconteceu de eles terem ficado tão velhos?, se pergunta Morris. Ambos estão com sessenta e dois anos agora e, embora nenhum deles esteja mal de saúde, nenhum
deles esteja careca ou pronto para ir para a fábrica de sabão, suas cabeças ficaram grisalhas, suas entradas estão aumentando e os dois alcançaram aquele ponto da
vida em que mulheres com menos de trinta anos, talvez até com menos de quarenta, olham para eles sem vê-los. Morris se lembra de Renzo quando era um escritor jovem,
bem jovem, logo depois de terminar a faculdade, morando num apartamento alugado por cinquenta e nove dólares por mês, em Lower East Side, um daqueles prédios de
apartamentos pequenos perto da linha férrea, com uma banheira na cozinha e seis mil baratas reunidas para convenções políticas dentro de cada guarda-louça, tão pobre
que tinha de se limitar a uma refeição por dia, gastando três anos para escrever seu primeiro romance, que depois destruiu porque achou que não era bom o suficiente,
destruiu o livro contra os protestos de Morris, contra os protestos da namorada, que achavam, ambos, ser um livro na verdade muito bom, e agora olhe só para ele,
pensa Morris, depois de sabe-se lá quantos livros desde aquele manuscrito queimado (dezessete? vinte?), publicados em todos os países do mundo, até no Irã, sim senhor,
com sabe-se lá quantos prêmios literários, quantas medalhas, quantas chaves de cidades, quantos títulos de doutor honorário, quantos livros e dissertações sobre
sua obra, e nada disso importa para ele, está contente de ter algum dinheiro agora, contente de estar livre das sufocantes privações dos primeiros anos, mas sua
fama o deixa frio, ele perdeu todo interesse por si mesmo como o que se chama de figura pública. Eu só queria desaparecer, disse certa vez para Morris, sussurrando
no tom de voz mais baixo possível, olhando para o vazio com uma ex­­pressão dolorosa, como se estivesse falando para si mesmo. Eu só queria desaparecer.

Pedem suas sopas e seus sanduíches e, quando o garçom latino se afasta levando os cardápios (um garçom latino num restaurante judeu, os dois gostam disso), Morris
e Renzo começam a falar sobre o funeral, dividindo suas impressões sobre aquilo que acabaram de presenciar no auditório do centro comunitário. Renzo não conheceu
Suki, só a viu uma vez quando era pequena, mas concorda com Morris em que a fala de Rothstein foi uma poderosa peça de oratória, quase inimaginável, quando se pensa
que foi escrita sob a pressão mais aterradora, numa situação em que pouca gente teria a força necessária para manter o domínio sobre si mesmo e escrever qualquer
palavra que fosse, quanto mais o discurso fúnebre complexo e lúcido que ouviram de manhã. Renzo não tem filhos, duas ex-mulheres, mas nenhum filho, e em vista do
que Marty e Nina estão passando agora, em vista do que ele e Willa já passaram, primeiro com Bobby e depois com Miles, Morris sente alguma coisa próxima da inveja,
pensando que Renzo tomou a decisão correta todos aqueles anos atrás, de se esquivar dessa história de filhos, evitar a confusão inevitável e a potencial devastação
da paternidade. Ele meio que espera que Renzo comece agora a falar sobre Bobby, o paralelo é evidente demais, e sem dúvida ele compreende como aquela cerimônia foi
difícil para Morris, mas, justamente porque Renzo de fato compreende, não fala do assunto. É discreto demais para isso, é consciente demais do que Morris está pensando
para meter o bedelho na sua dor, e segundos depois o próprio Morris compreende a relutância do amigo em se intrometer num assunto particular seu quando Renzo muda
de assunto, costeia Bobby e o reino lúgubre dos filhos mortos, e pergunta como ele tem enfrentado a crise, referindo-se à crise econômica, e em que pé está a Heller
Books no meio dessa tormenta de problemas.

Morris lhe diz que o navio ainda não fez água, mas agora está um tanto inclinado para estibordo e que, nos últimos meses, tiveram de jogar ao mar o excesso de carga.
Sua preocupação fundamental é manter a equipe intacta e até agora não teve de dispensar ninguém, mas o catálogo foi reduzido, cortado em vinte ou vinte e cinco por
cento. No ano passado, publicaram quarenta e sete livros, neste ano, trinta e oito, mas os lucros só diminuíram onze por cento, em larga medida graças a Os diálogos
da montanha, que está na terceira edição, com quarenta e cinco mil exemplares de capa dura vendidos. As vendas de Natal ainda não são conhecidas, mas, mesmo que
sejam mais baixas do que o esperado, ele não prevê uma calamidade completa. Louverain, Wyatt e Tomesetti lançaram livros de peso no outono e a coleção de romances
policiais em brochura parece estar tendo um bom resultado, mas é um momento ruim para romances de estreia, muito ruim, e ele foi obrigado a recusar alguns bons escritores
jovens, livros que ele teria arriscado publicar um ou dois anos atrás, e ele acha isso incômodo, pois a finalidade principal da Heller Books é incentivar novos talentos.
Para 2009, planejam lançar apenas trinta e três livros, mas Carlsen está na programação, Davenport também, e depois, nem é preciso dizer, há a novela de Renzo, o
pequeno livro que escreveu logo depois de Os diálogos da montanha, o não anunciado livro-bônus no qual ele deposita tantas esperanças, e, quem sabe, se todas as
livrarias independentes dos Estados Unidos não forem à falência nos próximos doze meses, talvez a editora consiga ter um ano decente. Ao ouvir a própria voz, Morris
quase começa a se sentir otimista, mas só está contando para Renzo uma parte da história, deixando de fora o fato de que, quando o retorno sobre o investimento nos
Diálogos da montanha começar a entrar, as vendas vão cair em sete ou dez mil exemplares, deixando de fora o fato de que 2008 será o pior ano da editora em três décadas,
deixando de fora o fato de que ele precisa de um novo investidor para pôr capital adicional na empresa, do contrário o navio vai afundar daqui a dois anos. Mas não
há necessidade de Renzo saber nada disso. Renzo escreve livros, e ele os publica, e Renzo vai continuar a escrever e publicar livros, mesmo que ele não esteja mais
trabalhando no ramo.

Depois que trazem a sopa, Renzo pergunta: Qual é a última notícia sobre o rapaz?

Ele está aqui, diz Morris. Faz duas ou três semanas que chegou.

Aqui, em Nova York?

No Brooklyn. Mora numa casa abandonada em Sunset Park, com outras pessoas.

Nosso amigo baterista contou para você?

Nosso amigo baterista é uma das pessoas que moram lá. Foi ele quem convidou Morris para vir da Flórida e o rapaz aceitou. Não me pergunte por quê.

Para mim, parece uma boa notícia.

Pode ser. Só o tempo dirá. Bing diz que ele tem intenção de me procurar, mas até agora não deu nenhum sinal.

E se ele não procurar você?

Então, nada muda.

Pense bem, Morris. Tudo o que você tem a fazer é pegar um táxi, dar um pulo logo ali no Brooklyn e bater na porta. Não se sente tentado a fazer isso?

Claro que me sinto tentado. Mas não posso fazer isso. Foi ele quem foi embora e é ele quem tem de voltar.

Renzo não insiste e Morris é grato ao amigo por deixar o assunto nesse pé. Como padrinho do rapaz e amigo de longa data do pai, Renzo tem participado daquela saga
atroz há sete anos e a esta altura já não resta mais nada para dizer. Morris lhe pergunta acerca de suas recentes viagens, a Praga, Copenhague e Paris, sua leitura
no teatro Max Reinhardt, em Berlim, o prêmio que ganhou na Espanha, e Renzo diz que foi uma distração bem-vinda, ele anda em crise ultimamente e foi uma sensação
boa ficar em outros lugares por algumas semanas, outros lugares que não dentro da própria cabeça. Morris ouve esse tipo de conversa de Renzo desde que os dois se
conheceram. Renzo anda sempre em crise, cada livro que termina é sempre o último livro que vai escrever na vida e depois, de algum modo, a crise misteriosamente
chega ao fim e ele volta a seu quarto e escreve mais um livro. Sim, diz Renzo, ele sabe que já falou a mesma coisa no passado, mas desta vez tem uma sensação diferente,
não sabe por quê, desta vez a paralisia está começando a dar a sensação de ser algo permanente. Caminhada noturna foi concluído no final de junho, diz ele, faz mais
de seis meses, e desde então ele não produziu nada digno de nota. Foi um livro bastante curto, só cento e cinquenta e poucas páginas, mas pareceu levar tudo o que
havia dentro dele, ele o escreveu numa espécie de delírio, menos de três meses para começar e acabar, trabalhou com mais afinco e mais concentração do que em qualquer
outra ocasião em todos os anos desde que começou a escrever, avançando, avançando, como um corredor arrancando a toda a velocidade ao longo de onze quilômetros,
e, por mais estimulante que tenha sido trabalhar nesse ritmo, algo dentro dele se desfez quando atravessou a linha de chegada. Há seis meses ele não tem nenhum plano,
ideia ou projeto para ocupar seus dias. Quando não está viajando, sente-se apático e sem motivação, sem nenhum desejo de voltar para sua escrivaninha e começar a
escrever de novo. Já experimentou calmarias semelhantes no passado, sim, mas nunca algo tão tenaz e prolongado como desta vez, e, embora ainda não tenha chegado
a um estado de alarme, está começando a se perguntar se isso não será o fim, se a velha chama não se extinguiu afinal. Nesse meio-tempo, passa os dias fazendo quase
nada - lê livros, pensa, sai para caminhar, vê filmes, acompanha as notícias do mundo. Noutras palavras, está descansando, mas o fato é que é um tipo estranho de
descanso, diz ele, um repouso ansioso.

O garçom traz os sanduíches e, antes que Morris possa dizer qualquer coisa sobre esse relato de exaustão mental meio sério, meio jocoso, Renzo, numa guinada abrupta,
contradizendo tudo o que acabou de falar, conta para Morris que teve uma pequena ideia enquanto viajava de avião de volta da Europa, poucos dias antes, o ínfimo
germe de uma ideia - para um ensaio, um texto de não ficção, alguma coisa. Morris sorri. Pensei que suas ideias tinham se esgotado, diz ele. Bem, responde Renzo,
encolhendo os ombros num gesto defensivo, mas com uma centelha de humor nos olhos, de vez em quando a gente tem um estalo.

Estava no avião, conta Renzo, uma passagem de primeira classe paga pelas pessoas que lhe deram o prêmio, o pavor de viajar de avião um pouco entorpecido pelos assentos
macios de couro, pelo caviar e pelo champanhe, um luxo imbecil no meio das nuvens, com uma ampla variedade de filmes a seu dispor, não só os filmes novos da Europa
e dos Estados Unidos, mas também os antigos, os clássicos venerados, antigas frivolidades das fábricas de sonhos dos dois lados do Atlântico. Ele acabou assistindo
Os melhores anos de nossas vidas, que tinha visto uma vez muito tempo atrás e portanto havia esquecido quase de todo, um belo filme, ele achou, bem representado
pelos atores, um encantador exemplo de propaganda destinada a persuadir os americanos de que os soldados que voltavam da Segunda Guerra Mundial iriam, mais cedo
ou mais tarde, se adaptar à vida civil, não sem alguns contratempos no trajeto, é claro, mas no final tudo iria dar certo, porque isto são os Estados Unidos e nos
Estados Unidos tudo sempre acaba dando certo. Seja como for, ele gostou do filme, ajudou a passar o tempo, mas o que mais o interessou no filme não foi o filme propriamente
dito, mas um papel secundário representado por um dos atores, Steve Cochran. Ele tem uma importância mínima, uma breve e afetada confrontação com o herói, cuja esposa
andou saindo com Cochran às escondidas, mas também não foi isso que despertou seu interesse, a interpretação de Cochran é, para ele, uma questão completamente indiferente,
o que importa é a história que sua mãe certa vez lhe contou, que havia conhecido Cochran durante a guerra, sim, sua mãe, Anita Michaelson, née Cannobio, que morreu
quatro anos atrás, aos oitenta anos de idade. Sua mãe era uma mulher esquiva, pouco dada a revelações sobre o passado, mas quando Cochran morreu, aos quarenta e
oito anos, em 1965, pouco depois de Renzo ter feito dezenove anos, foi algo que a fez baixar a guarda o bastante para sentir a necessidade de aliviar um pouco o
peso que carregava, e assim contou para ele sobre sua breve paixão pelo teatro no início da década de quarenta, uma garota de quinze, dezesseis, dezessete anos,
e como seu caminho se cruzou com o de Cochran em algum grupo de teatro de Nova York e ela ficou caída por ele. Era um homem tão bonito, disse ela, um desses irlandeses
rudes, morenos e passionais, mas nunca ficou totalmente claro para Renzo o que significava aquele caída. Será que a mãe perdeu a virgindade com Steve Cochran em
1942, quando tinha dezessete anos? Será que foi um caso completo... ou só uma coisa superficial, um flerte de uma adolescente com um ator promissor de vinte e cinco
anos? Impossível dizer, mas o que sua mãe relatou de fato foi que Cochran queria que ela fosse com ele para a Califórnia, e ela estava pronta para ir, mas, quando
seus pais souberam o que estava sendo armado, deram imediatamente um basta naquela história. Não com a filha deles, nada de escândalos nessa família, esqueça, Anita.
E então Cochran partiu, sua mãe ficou e acabou casando com seu pai, e foi assim que Renzo nasceu - porque sua mãe não fugiu com Steve Cochran. É com essa ideia que
ele anda brincando, diz Renzo, escrever um ensaio sobre as coisas que não acontecem, as vidas que não são vividas, as guerras que não são travadas, os mundos de
sombras que correm paralelos ao mundo que tomamos como o mundo real, o não dito e o não feito, o não lembrado. Território arriscado, talvez, mas podia valer a pena
explorá-lo.

Depois que chegou em casa, conta Renzo, sentiu-se curioso o suficiente para dar uma pequena vasculhada na vida e na carreira de Cochran. Papéis de gângster em sua
maioria, algumas peças de teatro na Broadway, com Mae West, logo ela, vejam só, o filme Fúria sanguinária, com James Cagney, o papel principal no filme Il grido,
de Antonioni, e participações em várias séries de televisão dos anos cinquenta: Bonanza, Os intocáveis, Rota 66, Além da imaginação. Criou sua própria produtora
de cinema, que produziu pouco ou nada (as informações são escassas e, embora Renzo esteja curioso, não está curioso o suficiente para explorar a questão a fundo),
no entanto Cochran parece ter adquirido reputação como um dos mais ativos rabos de saia de seu tempo. Isso provavelmente explica por que sua mãe ficou caída por
ele, continua Renzo, pensando tristemente como deve ter sido fácil para um conquistador tarimbado amolecer o coração de uma garota inexperiente de dezessete anos.
Como ela poderia resistir a um homem que, mais tarde, chegou a ter casos com Joan Crawford, Merle Oberon, Kay Kendall, Ida Lupino e Jayne Mansfield? Houve também
Mamie Van Doren, que ao que tudo indica escreveu extensamente a respeito de sua vida sexual com Cochran numa autobiografia publicada vinte anos atrás, mas Renzo
não tem nenhuma intenção de ler o livro. No final, o que mais o fascina é que ele suprimiu de forma completa os fatos acerca da morte de Cochran, que devem ter chegado
a seu conhecimento quando tinha dezenove anos, mas, mesmo depois da conversa com a mãe (que teoricamente devia ter feito daquela história algo impossível de esquecer),
ele esqueceu tudo. Em 1965, esperançoso de revitalizar sua moribunda empresa de produção cinematográfica, Cochran elaborou o projeto de um filme passado na América
Central ou do Sul. Com três moças entre catorze e vinte e cinco anos de idade, supostamente contratadas como assistentes, ele partiu para a Costa Rica em seu iate
de quarenta pés para começar a pesquisar locações. Algumas semanas depois, o barco foi lançado à praia pelas ondas, na costa da Guatemala. Cochran morreu a bordo
com uma grave infecção pulmonar e as três moças dominadas pelo pânico, que nada sabiam de navegação à vela num iate de quarenta pés, ficaram à deriva no oceano durante
dez dias, sozinhas com o cadáver de Cochran que já ia se putrefazendo. Renzo diz que não consegue apagar a imagem de sua mente. As três mulheres apavoradas, perdidas
no mar com o corpo em decomposição do astro do cinema embaixo do convés, convencidas de que nunca mais iriam chegar a terra firme outra vez.

Mas já chega, diz ele, de falar dos melhores anos de nossas vidas.


** Região montanhosa do estado de Nova York onde, em meados do século XX, muitas famílias de judeus passavam as férias de verão. (N.T.)

 

2.

Ele foi convidado para quatro festas de Ano-Novo em quatro pontos diferentes de Manhattan, East Side e West Side, na cidade alta e na cidade baixa, mas depois do
funeral, depois do almoço com Renzo, depois das duas horas que passou no apartamento de Marty e Nina, ele não tem vontade de ver ninguém. Vai para casa, para o apartamento
na Downing Street, incapaz de parar de pensar em Suki, incapaz de se libertar da história que Renzo lhe contou sobre o ator morto no barco à deriva. Quantos cadáveres
ele já viu na vida?, se pergunta. Não está falando dos mortos embalsamados deitados em seus caixões abertos, figuras de museu de cera, drenadas de todo sangue e
que não parecem ter sido humanas um dia, mas sim corpos mortos de verdade, os mortos vívidos, por assim dizer, antes de terem sido tocados pelos bisturis dos agentes
funerários. Seu pai, trinta anos atrás. Bobby, doze anos atrás. Sua mãe, cinco anos atrás. Três. Só três, em mais de sessenta anos de vida.

Entra na cozinha e se serve de uma dose de uísque. Já traçou duas daquelas no apartamento de Marty e Nina, mas não se sente nem um pouco cambaleante ou incapacitado,
sua cabeça está clara, e depois do enorme almoço que consumiu na delicatéssen, e que continua parado no fundo de seu estômago como uma pedra, ele não tem o menor
apetite para jantar. Diz a si mesmo que vai terminar o ano se pondo em dia com os manuscritos que devia ter lido na Inglaterra, mas compreende que isso é apenas
uma artimanha, um truque para levá-lo à confortável poltrona na sala e, uma vez sentado naquela poltrona, ele não voltará para o romance de Samantha Jewett, que
já resolveu que não vai publicar.

São sete e meia, faltam quatro horas e meia para começar outro ano, o desgastado ritual de fogos de artifício e buzinas, a explosão de vozes embriagadas que vai
ecoar por toda a região à meia-noite, sempre a mesma erupção nessa meia-noite em particular, mas ele agora está bem longe de tudo aquilo, sozinho com seu uísque
e seus pensamentos, e se puder penetrar bem fundo naqueles pensamentos, não vai nem ouvir as vozes e o clamor quando chegar a hora. Cinco anos atrás, completados
em maio, o telefonema da faxineira de sua mãe, que tinha acabado de entrar no apartamento usando sua cópia da chave. Ele estava no escritório, recorda, era manhã
de uma terça-feira por volta das dez horas, conversava com Jill Hertzberg sobre o mais recente manuscrito de Renzo, discutiam se deviam usar uma ilustração na capa
ou empregar apenas recursos gráficos. Por que lembrar um detalhe como esse agora? Não há razão, nenhuma razão em que ele possa pensar, a não ser o fato de que razão
e memória estão quase sempre em conflito, e depois ele estava dentro de um táxi subindo pela Broadway rumo à rua 84 oeste, tentando habituar a mente ao fato de que
sua mãe, que ainda no sábado tinha trocado pilhérias com ele no telefone, agora estava morta.

O corpo. É nisso que ele está pensando agora, o cadáver da mãe sobre a cama, cinco anos atrás, e o terror que ele sentiu quando olhou para seu rosto, a pele azul-acinzentada,
os olhos meio abertos, meio fechados, a aterradora imobilidade do que antes tinha sido uma pessoa viva. Ela tinha ficado ali por aproximadamente quarenta e oito
horas, antes de ser encontrada pela faxineira. Ainda de camisola, sua mãe estava lendo a edição dominical do New York Times quando morreu - sem dúvida por causa
de um ataque do coração repentino e devastador. Uma perna nua pendia na beirada da cama e ele se perguntou se ela havia tentado se levantar quando o ataque começou
(para buscar um comprimido? para pedir socorro?), e se foi isso, dado que ela só tinha conseguido se mover alguns centímetros, ele concluiu que sua mãe havia morrido
em poucos segundos.

Olhou para ela durante um breve momento, por alguns momentos, e depois virou de costas e foi para a sala. Era demais para ele; ver a mãe naquele estado de vulnerabilidade
congelada era mais do que ele era capaz de suportar. Não consegue lembrar se olhou para ela de novo quando a polícia chegou, se teve de fazer uma identificação formal
do corpo ou não, mas o certo é que, quando os paramédicos entraram para embalar o cadáver num saco preto de plástico, ele não conseguiu olhar. Ficou na sala de estar,
olhando para o tapete, examinando as nuvens através da janela, escutando a própria respiração. Era simplesmente demais para ele, e não conseguiu se obrigar a olhar
de novo.

A revelação daquela manhã, a bruta e incontestável gotícula de conhecimento que ele finalmente assimilou quando os paramédicos a levaram numa maca com rodinhas para
fora do apartamento, a ideia que continua a persegui-lo desde então: não podem existir memórias do útero, nem para ele nem para ninguém, mas ele aceita como um artigo
de fé, ou então se dispõe a compreender, mediante um salto da imaginação, que sua própria vida como um ser sensível começou como parte do corpo agora morto que estavam
empurrando numa maca através da porta aberta, que sua vida tinha começado dentro dela.

Sua mãe foi uma filha da guerra, assim como foi também a mãe de Renzo, assim como foram todos os pais deles, tenham lutado na guerra ou não, tenham sido moças de
quinze ou dezessete anos ou mulheres de vinte e dois, quando a guerra começou. Uma geração estranhamente otimista, pensa ele agora, resistente, digna de confiança,
trabalhadora e também um pouco burra, talvez, mas todos eles compraram o mito da grandeza americana e viveram com menos dúvidas do que seus filhos, os rapazes e
as moças do Vietnã, os revoltados filhos do pós-guerra que viram seu país se tornar um monstro doentio e destrutivo. Garra. Essa é a palavra que lhe ocorre toda
vez que pensa na mãe. Mulher de garra e sem papas na língua, com força de vontade e carinhosa, uma mulher difícil. Recasou duas vezes depois da morte de seu pai,
em 78, perdeu os dois novos maridos para o câncer, um em 92 e o outro em 2003, e mesmo então, no último ano de sua vida, aos setenta e nove ou oitenta anos de idade,
ela continuava com a esperança de fisgar mais um homem. Eu já nasci casada, disse para ele um dia. Sua mãe tinha se transformado na Esposa de Bath e, por mais que
tal papel fosse apropriado para ela, fazer o papel de filho da Esposa de Bath não tinha sido agradável, no geral. Suas irmãs haviam dividido o fardo com ele, é claro,
mas Cathy mora em Millburn, Nova Jersey, e Ann está em Scarsdale, fora do raio de alcance, na periferia da zona de combate, e como ele era o filho mais velho, e
como sua mãe confiava mais em homens do que em mulheres, era a ele que ela procurava quando tinha problemas, os quais nunca eram classificados como problemas (todas
as palavras negativas tinham sido banidas do vocabulário da mãe), mas sim como coisinhas, como em “Eu tenho umas coisinhas para conversar com você”. Cegueira voluntária,
era assim que ele chamava aquilo, uma insistência obstinada em procurar o lado bom das coisas, as vitórias morais, uma atitude do tipo “a hora mais escura é a que
precede a alvorada” em face dos acontecimentos mais devastadores - os funerais de três maridos, o desaparecimento de seu neto, a morte acidental de seu neto de criação
-, mas aquele era o mundo de onde sua mãe tinha vindo, um universo ético feito das platitudes virtuosas dos filmes de Hollywood - valentia, garra, e render-se jamais.
Admirável à sua maneira, sim, mas também enlouquecedor, e à medida que os anos transcorreram, ele compreendeu que boa parte daquilo era uma impostura, que dentro
do espírito supostamente indomável da mãe havia também medo, pânico e uma tristeza avassaladora. Quem poderia condená-la? Depois de enfrentar as diversas enfermidades
de seus três maridos, como poderia ela não se tornar uma hipocondríaca de primeira classe? Se a experiência nos ensinou que todos os corpos devem e vão trair a pessoa
a quem pertencem, por que não vamos pensar que uma ligeira dor no estômago é o prelúdio de um câncer no estômago, que uma dor de cabeça significa um tumor cerebral,
que uma palavra ou um nome esquecido é o augúrio da demência? Os últimos anos da mãe foram passados entre consultas a médicos, dúzias de especialistas para essa
doença e para aquela síndrome, e é verdade que ela andava tendo problemas com o coração (duas angioplastias), mas ninguém achava que corresse algum perigo real.
Ele imaginava que a mãe continuaria a se queixar de suas doenças imaginárias até chegar aos noventa, que ela iria sobreviver a ele, que iria sobreviver a todos,
e então, sem aviso, menos de vinte e quatro horas depois de pilheriar com ele no telefone, ela estava morta. E depois que ele conseguiu aceitar o fato, o que havia
de assustador na morte da mãe era que ele se sentia aliviado, e ele tem ódio de si mesmo por ser insensível o bastante para admiti-lo, mas sabe que tem sorte de
ter sido poupado das agruras de ver a mãe alcançar uma idade muito avançada. Ela deixou o mundo na hora certa. Nenhum sofrimento prolongado, nenhum declínio na senilidade
ou na decrepitude, nada de fratura de bacia ou de fraldas geriátricas, nada de olhares inexpressivos para o espaço vazio. Uma luz se acende, uma luz se apaga. Ele
sente saudade dela, mas pode conviver com o fato de que ela se foi.

Sente mais saudades do pai. É insensível o bastante para admitir isso, também, mas seu pai morreu já faz trinta anos, agora, e ele passou metade da vida caminhando
ao lado daquele fantasma. Sessenta e três anos, só um ano mais velho do que ele mesmo, hoje, em boas condições de saúde, ainda jogando tênis quatro vezes por semana,
ainda forte o bastante para derrotar o filho de trinta e dois anos numa disputa individual de três sets, provavelmente ainda forte o bastante para vencê-lo na queda
de braço, um rigoroso não fumante, consumo de álcool quase zero, nunca doente de nada, nem mesmo resfriados ou gripes, ombros muito largos, sem flacidez, barriga
nem costas curvadas, um homem que parecia ter dez anos a menos, e então um problema insignificante, um ataque de bursite no cotovelo esquerdo, o proverbial cotovelo
de tenista, extremamente doloroso, sim, mas nada que pudesse ameaçar sua vida, e assim ele foi a um médico pela primeira vez em muitos anos, um charlatão que prescreveu
pílulas de cortisona em vez de algum analgésico suave, e seu pai, sem hábito de tomar comprimidos, levava a cortisona no bolso como se fosse um frasco de aspirinas,
enfiando mais um comprimido goela abaixo toda vez que o cotovelo doía, atrapalhando o funcionamento do coração, sobrecarregando indevidamente seu sistema cardiovascular,
sem sequer saber disso, e certa noite, enquanto fazia amor com a esposa (um pensamento consolador: saber que seus pais ainda continuavam ativos no departamento sexual
naquela altura de seu casamento), na noite de 26 de novembro de 1978, quando Alvin Heller estava chegando perto de um orgasmo nos braços da esposa, Constance, mais
conhecida como Connie, seu coração o abandonou, rompeu-se dentro do peito, explodiu dentro do peito, e aquilo foi o final.

Nunca houve nenhum dos conflitos que ele testemunhou tantas vezes entre seus amigos e os pais deles, os meninos com os pais que davam tapas, que berravam, os pais
agressivos que empurravam seus assustados filhos de seis anos dentro da piscina, os pais desdenhosos que zombavam dos filhos adolescentes por gostarem da música
errada, por vestirem as roupas erradas, que olhavam para eles de cara raivosa, os pais veteranos de guerra que esmurravam os filhos porque eles resistiam a prestar
serviço militar, os pais fracos que tinham medo dos filhos crescidos, os pais omissos que não conseguiam se lembrar dos nomes dos filhos de seus filhos. Do início
ao fim, não houve nenhum desses antagonismos ou dramas entre eles, nada além de algumas incisivas diferenças de opinião, pequenos castigos aplicados de maneira mecânica
e em porções mínimas, por causa de minúsculas infrações das regras, uma ou duas palavras mais duras quando ele se comportava mal com as irmãs ou esquecia o dia do
aniversário da mãe, mas nada de muito relevante, nada de tapas ou gritos ou xingamentos furiosos, e à diferença da maioria de seus amigos, ele nunca se sentiu embaraçado
por causa do pai nem se voltou contra ele. Ao mesmo tempo, seria errado supor que os dois eram especialmente ligados. Seu pai não era um desses camaradas calorosos
que achavam que o filho devia ser seu melhor colega de farra, era simplesmente um homem que se sentia responsável pela esposa e pelos filhos, um homem calado, equilibrado,
com um grande talento para ganhar dinheiro, uma capacidade que o filho só veio a apreciar nos últimos anos da vida do pai, quando o pai se tornou o principal financiador
e sócio fundador da Heller Books, mas ainda que não fossem ligados da maneira como são alguns pais e filhos, ainda que a única coisa sobre a qual os dois conversassem
com algum entusiasmo fosse esporte, ele sabia que seu pai o respeitava, e ter aquele respeito inabalável do início ao fim foi mais importante do que qualquer explícita
declaração de amor.

Quando era muito pequeno, cinco ou seis anos de idade, sentia-se frustrado porque o pai não tinha lutado na guerra, ao contrário dos pais da maioria de seus amigos,
e porque, enquanto os outros estavam em partes remotas do mundo matando japoneses e nazistas e se transformando em heróis, seu pai estava em Nova York, mergulhado
em detalhes triviais de sua empresa imobiliária, comprando prédios, administrando prédios, consertando prédios o tempo todo, e ele ficava intrigado com o fato de
seu pai, que parecia tão forte e apto, ter sido rejeitado pelo exército quando tentou se alistar. Mas naquela altura ele ainda era jovem demais para compreender
como tinha sido grave o ferimento no olho do pai, jovem demais para ser informado de que, do ponto de vista legal, o pai estava cego do olho esquerdo desde os dezessete
anos de idade, e como seu pai tinha dominado com perfeição a arte de viver com sua deficiência e compensá-la, ele não conseguia entender que aquele vulcão de energia
que era seu pai tivesse um ponto fraco. Mais tarde, quando tinha oito ou nove anos e sua mãe afinal lhe contou a história do ferimento (seu pai nunca falou sobre
aquilo), ele se deu conta de que o ferimento do pai nada tinha de diferente de um ferimento de guerra, que uma parte de sua vida tinha sido arrancada naquele campo
de beisebol no Bronx, em 1932, da mesma forma como o braço de um soldado pode ser arrancado num campo de batalha na Europa. Seu pai era o primeiro arremessador do
time de beisebol do colégio, um canhoto com um arremesso muito forte, que já começava a chamar a atenção de olheiros dos times da liga principal, e quando ele assumiu
o montinho do arremessador para o Monroe naquele dia no início de junho, estava invicto e tinha o que parecia um braço imbatível. No primeiro arremesso da partida,
na hora em que os infielders estavam tomando suas posições atrás dele, ele lançou uma bola rápida e baixa entre a segunda e terceira bases do Clinton, Tommy DeLucca,
e a bola que voou de volta em sua direção foi batida com tal força, com uma potência e uma velocidade tão furiosas, que ele não teve tempo de erguer a luva e proteger
o rosto. Foi o mesmo ferimento que destruiu a carreira de Herb Score em 1957, o mesmo projétil quebra-ossos que muda o curso de uma vida. E se aquela bola não tivesse
acertado em cheio o olho de seu pai, quem podia dizer que ele não acabaria sendo morto na guerra - antes de seu casamento, antes do nascimento de seus filhos? Agora
Herb Score já morreu também, pensa Morris, morreu há seis ou sete semanas, Herb Score, com o profético apelido de Judeu, e ele recorda como seu pai ficou abalado
quando leu no jornal matutino sobre o ferimento de Score, e como, durante anos depois disso, até o final de sua vida, ele periodicamente se referia a Score dizendo
que aquele ferimento tinha sido uma das coisas mais tristes que já haviam acontecido na história do beisebol. Nunca nenhuma palavra sobre si mesmo, nem a mais ligeira
alusão a qualquer conexão pessoal. Só Score, o pobre Herb Score.

Sem a ajuda de seu pai, a editora nunca teria nascido. Ele sabia que não tinha o estofo para ser um escritor, não quando tinha o exemplo do jovem Renzo como comparação,
Renzo, seu colega de alojamento estudantil durante quatro anos em Arm­herst, a imensa e torturante luta que aquilo envolvia, as longas horas solitárias, a perene
incerteza e a necessidade compulsiva, e assim ele optou pela segunda melhor coisa, ensinar literatura em vez de fazer literatura, mas, depois de um ano do curso
de pós-graduação em Columbia, abandonou o programa de doutorado, compreendendo que também não era talhado para uma vida acadêmica. Em vez disso, enveredou pelo ramo
da edição, passou quatro anos galgando postos na hierarquia de duas editoras e por fim encontrou um lugar para si, uma missão, uma vocação, qualquer que seja a palavra
que melhor se aplica ao sentimento de compromisso e propósito, mas havia frustrações demais e transigências demais nos escalões mais altos das editoras comerciais
e quando, no intervalo de dois curtos meses, seu editor-chefe anulou sua recomendação de publicar o primeiro romance de Renzo (o que veio depois do manuscrito queimado)
e da mesma forma rejeitou sua proposta de publicar o primeiro romance de Marty, ele foi falar com o pai e lhe contou que queria abandonar a augusta empresa onde
trabalhava e fundar uma editora pe­­quena. O pai nada sabia sobre livros ou editoras, mas deve ter visto nos olhos do filho algo que o persuadiu a lançar uma fração
perdível de seu dinheiro numa aventura que tinha tudo para dar errado. Ou talvez tenha achado que aquele fracasso certo iria ensinar uma lição ao rapaz, ajudá-lo
a tirar aquela fantasia da cabeça, e em pouco tempo ele voltaria à segurança de um em­­prego normal. Mas não deu errado, pelo menos os prejuízos não foram clamorosos
o suficiente para levá-los a querer parar, e depois daquele catálogo inaugural de apenas quatro livros, seu pai abriu o bolso de novo, apostando num novo investimento
num valor dez vezes maior do que a soma de seu desembolso inicial, e de repente a Heller Books decolou, uma entidade pe­­quena, porém viável, uma editora de verdade,
com um escritório na baixa West Broadway (aluguéis baratíssimos naquele tempo em um Tribeca que ainda não era Tribeca), uma equipe de quatro funcionários, um distribuidor,
catálogos graficamente bem apresentados e um elenco de autores crescente. O pai nunca interferia. Ele se referia a si próprio como o sócio silencioso e, durante
os últimos quatro anos de vida, usava essas palavras para se anunciar toda vez que eles falavam ao telefone. Não mais Aqui fala seu pai, ou É o seu velho que está
falando, mas sim, sem falhar em nenhuma ocasião, cem por cento das vezes, Alô, Morris, aqui fala seu sócio silencioso. Como podia não sentir saudade dele? Como não
sentir que cada livro que publicou nos últimos trinta e cinco anos é um produto da mão invisível do pai?

São nove e meia. Queria telefonar para Willa para desejar feliz Ano-Novo, mas agora são duas e meia na Inglaterra e sem dúvida ela está dormindo há várias horas.
Ele retorna para a cozinha para se servir de mais uma dose de uísque, a terceira desde que voltou ao apartamento, e é só agora, pela primeira vez na noite, que se
lembra de verificar a secretária eletrônica, pensando de repente que Willa pode ter ligado enquanto ele estava no apartamento de Marty e Nina ou vindo de Upper West
Side para casa. Há doze recados novos. Um por um, escuta todos eles - mas nenhuma palavra de Willa.

Está sendo castigado. Foi por isso que ela aceitou o emprego de um ano em Exeter, é por isso que nunca telefona - porque Willa o está castigando por causa da absurda
imprudência que ele cometeu dezoito meses atrás, um gesto idiota de fraqueza sexual, do qual ele se arrependeu na mesma hora em que estava indo para a cama com sua
parceira no crime. Em circunstâncias normais (mas quando alguma coisa, qualquer coisa, é normal?), Willa jamais teria descoberto, mas, pouco depois de ele ter feito
o que fez, ela foi ao ginecologista para o check-up semestral e soube que estava com uma coisa chamada clamídia, uma doença benigna, mas desagradável, que só pode
ser contraída por meio de relação sexual. O médico perguntou se ultimamente ela havia dormido com alguém que não seu marido e, como a resposta foi não, o culpado
não podia ser outro senão o referido marido, e quando Willa foi cobrar explicações dele naquela noite, ele não teve alternativa senão confessar. Não forneceu nomes
nem detalhes, mas admitiu que, quando ela esteve em Chicago apresentando seu trabalho sobre George Eliot, ele tinha ido para a cama com outra pessoa. Não, ele não
estava tendo um caso, só havia acontecido uma vez e ele não tinha a menor intenção de fazer de novo. Ele sentia muito, disse, sentia profundamente e de verdade,
tinha bebido demais, foi um erro terrível, mas, ainda que ela acreditasse, como ele poderia condená-la por ficar com raiva, não só por ele ter sido infiel pela primeira
vez no casamento, não, e isso já seria bastante ruim, mas por tê-la, além do mais, contaminado com uma doença. Uma doença venérea!, gritou Willa. É nojento! Você
enfiou seu pênis idiota na vagina de outra mulher e acabou me infectando! Não sente vergonha do que fez, Morris? Sim, ele respondeu, ele sentia uma vergonha horrível,
a maior vergonha que já tinha sentido na vida.

Agora Morris se atormenta pensando naquela noite, na idiotice de tudo, a trepadinha inconsequente que acarretou uma devastação tão duradoura. Um convite para jantar
de Nancy Greenwald, uma agente literária de quarenta e poucos anos, uma pessoa com quem ele tinha negócios havia seis ou sete anos, divorciada, não sem atrativos,
mas até aquela noite nunca havia prestado atenção nela. Um jantar para seis pessoas no apartamento de Nancy, em Chelsea, e o único motivo pelo qual aceitou o convite
era o fato de Willa estar fora da cidade, um jantar de todo enfadonho, como se viu depois, e quando os outros quatro convidados pegaram suas coisas e foram embora,
ele aceitou ficar para tomar mais um drinque antes de ir a pé para casa, no Village. Foi então que aconteceu, uns vinte minutos depois que os outros sumiram, uma
foda rápida, doida, sem a mínima importância para ninguém. Depois que Willa fez o comunicado a respeito da clamídia, ele se perguntou quantos outros pênis idiotas
tinham encontrado conforto na vagina de Nancy, e no entanto a verdade era que não tinha havido grande conforto para ele, e embora os dois tenham se jogado naquilo
juntos, ele tinha se sentido infeliz demais por trair Willa para se absorver no suposto prazer do momento.

Depois de sua confissão, depois da série de antibióticos que expurgou os micróbios venéreos do organismo de Willa, ele pensou que seria o fim. Sabia que Willa acreditava
nele quando falou que só tinha acontecido uma vez, mas aquele pequeno lapso de atenção, aquela brecha na solidariedade depois de quase vinte e quatro anos de casamento,
abalou a confiança que Willa tinha nele. Não acredita mais no marido. Imagina que ele está caçando, de olho em mulheres mais jovens e mais lindas, e mesmo que Morris
não esteja tramando nada neste momento em particular, ela está convencida de que mais cedo ou mais tarde aquilo está fadado a acontecer outra vez. Ele tem feito
tudo o que pode para tranquilizá-la, mas seus argumentos parecem não produzir nenhum efeito. Está velho demais para aventuras agora, diz ele, quer viver o resto
de seus dias com ela e morrer em seus braços. E ela diz: Um homem de sessenta e dois anos ainda é jovem, uma mulher de sessenta anos é velha. Ele diz: Depois de
tudo o que eles passaram juntos, todos os pesadelos e desgostos, todos os golpes que sofreram, todos os infortúnios a que sobreviveram, como uma coisinha à toa como
essa pode fazer alguma diferença? E ela responde: Talvez tenha sido demais para você, Morris. Talvez você queira começar uma nova vida com outra pessoa.

A viagem para a Inglaterra não ajudou. Estavam longe um do outro fazia três meses e meio quando ele por fim viajou para lá a fim de passar o Natal com ela, e compreendeu
que Willa estava usando aquela separação forçada como um teste, para ver se seria possível para ela viver sem ele em definitivo. Por en­­quanto, a experiência parece
estar correndo muito bem. Sua raiva do marido tinha se transformado numa espécie de distanciamento voluntário, uma indiferença que o deixou embaraçado na companhia
dela durante a maior parte de sua visita, nunca muito seguro do que devia dizer e de como devia agir. Na primeira noite, ela se mostrou relutante em fazer sexo com
ele, mas depois, na hora em que Morris já estava quase dormindo, ela estendeu o braço sobre ele na cama e começou a beijá-lo à maneira antiga, entregando-se às antigas
intimidades, como se não existisse nenhum problema entre os dois. Era aquilo que o deixava tão confuso - o companheirismo silencioso na cama à noite seguido por
dias taciturnos e desarticulados, a ternura e a irritação se alternando em padrões completamente imprevisíveis, a sensação de que Willa ao mesmo tempo o empurrava
para longe dela e tentava se agarrar a ele. Só ocorreu uma explosão violenta, uma briga em grande escala. Aconteceu no terceiro ou quarto dia, quando ainda estavam
no apartamento em Exeter, retirando as bagagens e se preparando para a viagem para Londres, e a discussão começou como tantas outras nos últimos anos, com Willa
o criticando por não ter querido filhos, por ter se contentado com o filho dela e com o filho dele para formar uma família, mas não ter admitido nenhuma família
que fosse de fato deles mesmos, só os dois e um menino ou uma menina, sem os espectros de Mary-Lee e de Karl pairando ao fundo, e agora que Bobby tinha morrido e
Miles havia desaparecido, olhe só para eles, ela disse, não eram nada, não tinham nada, e ele era o culpado de tê-la convencido tantos anos atrás a não ter outro
filho e ela tinha sido uma tola completa por ter dado ouvidos a ele. Em princípio, Morris não discordava de Willa, nunca havia discordado dela, mas como poderiam
saber o que iria acontecer, e na ocasião em que Miles sumiu de casa, estavam velhos demais para pensar em ter bebês. Ele não ficou ressentido por ela ter levantado
a questão mais uma vez, era completamente natural que Willa sentisse aquele desgosto, aquela perda, a história dos últimos doze anos não poderia produzir nenhum
outro resultado, mas então ela falou uma coisa que o deixou chocado, que o magoou tão profundamente que até agora ele não se recuperou. Mas Miles está de volta a
Nova York, disse ele. Vai entrar em contato com a gente a qualquer dia agora, qualquer semana, e não demora muito e todo esse capítulo infeliz vai chegar ao fim.
Em vez de responder, Willa pegou sua mala e jogou-a com força no chão - um gesto enfurecido, mais violento do que qualquer reação que Morris já a vira ter. É tarde
demais, gritou ela. Miles é nocivo. Miles não presta. Miles os destruiu, e desse dia em diante ela o expulsa de seu coração. Não quer vê-lo. Ainda que os procure,
ela não quer vê-lo. Nunca mais. Está acabado, ela disse, está acabado, e toda noite ela vai se pôr de joelhos e rezar para que ele não apareça.

Em Londres, foi um pouco melhor. O hotel era um território neutro, uma terra de ninguém, isenta de associações com o passado, e houve alguns dias bons em que eles
caminharam por museus e se sentaram em pubs, se encontraram com velhos amigos para jantar, fuçaram nas livrarias, para não falar da sublime concessão de não fazer
nada, o que pareceu ter um efeito restaurador em Willa. Numa tarde, ela leu em voz alta para ele o mais recente capítulo do livro que estava escrevendo sobre os
romances tardios de Dickens. Na manhã seguinte, durante o café, ela lhe perguntou sobre sua busca de um novo investidor e ele contou a respeito do encontro que teve
com um alemão na Feira do Livro de Frankfurt, em outubro, sua conversa com o israelense em Nova York no mês passado, as medidas que tinha tomado para conseguir o
dinheiro necessário. Vários dias bons, ou pelo menos dias que não eram ruins, e então chegou o e-mail de Marty e a notícia da morte de Suki. Willa não queria que
ele voltasse a Nova York, mostrou persuasiva e asperamente por que achava que o funeral seria excessivo para ele, mas, quando ele pediu para ela viajar junto com
ele, o rosto dela ficou tenso, ela pareceu ficar desconcertada com a sugestão, que era uma sugestão perfeitamente razoável, na opinião dele, e então ela disse que
não, não podia. Ele perguntou por que não. Porque não podia, ela disse, repetindo a resposta, enquanto procurava as palavras corretas, nitidamente em conflito consigo
mesma, despreparada para tomar quaisquer decisões cruciais naquele momento, porque não estava pronta para voltar, disse ela, porque ainda precisava de mais tempo.
De novo, pediu para ele ficar, permanecer em Londres até o dia 3 de janeiro, conforme o planejado, e ele compreendeu que Willa o estava testando, obrigando-o a fazer
uma escolha entre ela e seus amigos, e se não a escolhesse, ela iria sentir-se traída. Mas tinha de voltar, ele disse, estava fora de questão não voltar.

Uma semana depois, sentado em seu apartamento em Nova York, na véspera do Ano-Novo, bebericando uísque na penumbra da sala e pensando na sua mulher, ele diz para
si mesmo que um casamento não pode ficar de pé ou desmoronar por causa de uma questão à toa como partir de Londres alguns dias antes do planejado para comparecer
a um funeral. E se o casamento de fato for se manter de pé ou desmoronar por causa daquela questão, talvez ele estivesse destinado a desmoronar desde o começo.

Está sob o risco de perder sua mulher. Está sob o risco de perder seu negócio. Enquanto houver algum fôlego dentro dele, diz para si mesmo, recordando aquela expressão
caseira e surrada, da qual sempre gostou muito, enquanto houver algum fôlego dentro dele, não permitirá que nem uma coisa nem outra aconteçam.

Onde está agora? Com um pé de cada lado da fronteira entre a extinção inevitável e a possibilidade de continuação da vida. No conjunto, a situação é desoladora,
mas existem alguns sinais animadores que lhe dão motivo para esperança - ou, se não esperança propriamente, pelo menos uma sensação de que ainda é cedo demais para
sucumbir à resignação e ao desespero. Quando começa a pensar desse jeito, se lembra com muita força da mãe e nota como ela continua obstinadamente a viver dentro
dele. Que a casa caia, que o casamento pegue fogo; o filho de Connie Heller vai encontrar um meio de reconstruir a casa e apagar o incêndio. Lohrke Sortudo caminhando
tranquilamente debaixo de uma chuva de balas. Ou então a dança do fantasma dos índios sioux de Oglala - e a convicção de que as balas dos homens brancos vão evaporar
em pleno ar antes de tocá-los.

Bebe mais uma dose de uísque e depois cambaleia até a cama. Exausto, tão exausto que já está adormecido antes que comecem os gritos e os fogos de artifício.

 

3.

Ele sabe por que Miles foi embora. Antes mesmo de a carta chegar, ele tinha toda certeza de que o rapaz passara a noite no apartamento, a noite que precedeu a manhã
em que ele e Willa haviam conversado, na cozinha, de maneira tão brutal sobre ele. Depois do café da manhã, ele havia espiado pela fresta da porta do quarto de Miles
para saber se o rapaz tinha vindo passar o fim de semana em casa e, quando viu que a cama estava vazia, entrou e descobriu um cinzeiro cheio de guimbas de cigarro,
uma antologia de teatro jacobiano, em brochura, esquecida no chão, e um travesseiro amassado, afundado, sobre a cama feita às pressas - sinais seguros de que o rapaz
passara a noite ali e, se ele tinha escapulido de casa bem cedo naquela manhã sem se dar ao trabalho de cumprimentá-los, sem um alô ou um até logo, só podia significar
que tinha entreouvido as coisas cruéis que foram ditas sobre ele e estava abalado demais para encarar os pais. Morris não comentou sua descoberta com Willa, mas
naquela altura não havia razão para desconfiar que a conversa levaria a uma reação tão drástica da parte de Miles. Ele se sentiu péssimo por ter falado aquelas coisas,
revoltado consigo mesmo por não ter defendido o rapaz de maneira mais enérgica contra os ataques implacáveis de Willa, mas imaginou que teria uma oportunidade de
pedir desculpas na próxima vez que se encontrassem, a fim de clarear as coisas de algum modo e deixar aquilo para trás. Então veio a carta, a carta louca, falsamente
cordial, com a perturbadora notícia de que Miles tinha abandonado a faculdade. Esgotado com os estudos. O rapaz não estava esgotado. Adorava a faculdade, tirava
o curso de letra, sempre com os melhores resultados, e, apenas duas semanas antes, quando os dois tinham se encontrado para o café da manhã de domingo no Joe Junior’s,
Miles tinha falado dos cursos que planejava fazer em seu último ano. Não, largar a faculdade tinha sido um gesto hostil de vingança e de autossabotagem, um suicídio
simbólico, e não havia nenhuma dúvida na mente de Morris de que aquilo era um resultado direto da conversa entreouvida no apartamento alguns dias antes.

No entanto, não havia nenhum motivo para pânico. Miles estava indo para Los Angeles passar algumas semanas com a mãe e tudo o que Morris tinha de fazer era pegar
o telefone e ligar para ele. Faria todo o possível para meter algum juízo na cabeça do rapaz e, se não desse certo, pegaria um avião para a Califórnia e poria tudo
em pratos limpos numa conversa cara a cara com ele. Mas não só Miles não estava na casa de Mary-Lee, como Mary-Lee tampouco estava em casa. Estava em São Francisco
filmando o piloto de um novo seriado de televisão e a pessoa com quem ele falou foi Korngold, que lhe disse que não tinham notícias de Miles havia mais de um mês
e que, até onde sabia, não existia nenhum plano de o rapaz visitar a Califórnia naquele verão.

A partir daquele momento, eles estavam juntos naquela história, todos os quatro, os dois pais e os dois pais postiços, e quando contrataram um detetive particular
para procurar o rapaz desaparecido, cada casal pagou metade das despesas, suportando oito desoladores meses de relatórios sobre os avanços da investigação que não
relatavam nenhum avanço, nenhum indício, nenhum sinal de esperança, nenhum único microponto de informação. Morris se agarrou à teoria de que Miles tinha desaparecido
de propósito, mas, depois de três ou quatro meses, tanto Willa como Korngold começaram a vacilar, aos poucos chegando à conclusão de que Miles estava morto. Algum
tipo de acidente, pensavam, talvez tivesse sido assassinado, talvez tivesse se matado, era impossível saber. Mary-Lee adotou uma posição agnóstica a respeito do
assunto - simplesmente não sabia. Podia estar morto, sim, mas por outro lado o garoto tinha problemas, a história com Bobby havia sido uma devastação total, depois
daquilo Miles se fechara em si mesmo, e estava claro que ele tinha um bocado de questões para resolver. Fugir foi uma coisa idiota, é claro, mas talvez daquilo ainda
saísse algo de bom no final, talvez viver sozinho por um tempo lhe desse a oportunidade de pôr a vida em ordem. Morris não discordava dessa análise. Pelo contrário,
achava a atitude de Mary-Lee muito impressionante - calma, compassiva e ponderada, tentando compreender Miles em vez de julgá-lo - e agora que eles estavam encerrados
juntos naquela crise, ele se deu conta de que a mãe indiferente, irresponsável, era muito mais ligada ao filho do que ele havia imaginado. Se algo de positivo emergiu
do sumiço de Miles, foi aquela mudança na sua maneira de ver Mary-Lee. Não eram mais inimigos. Agora tinham virado aliados, talvez até amigos.

Então Bing Nathan telefonou e tudo virou de pernas para o ar outra vez. Miles estava trabalhando como cozinheiro num restaurante em Chicago que servia pratos feitos
e o primeiro impulso de Morris foi ir até lá e falar com ele - não para cobrar nada, só para saber o que estava acontecendo - mas Willa foi contra e, depois que
telefonou para a Califórnia a fim de dividir a boa notícia com Mary-Lee e Korngold, eles tomaram o partido de Willa. Seu argumento era o seguinte: o rapaz tinha
agora vinte e um anos e estava apto a tomar as próprias decisões: contanto que sua saúde estivesse boa, contanto que ele não estivesse com problemas com a justiça,
contanto que não estivesse num hospital para doentes mentais, contanto que não estivesse pedindo dinheiro para eles, não tinham nenhum direito de obrigá-lo a fazer
nada contra sua vontade - nem mesmo de obrigá-lo a falar com eles, algo que o rapaz obviamente não tinha a menor vontade de fazer. Vamos lhe dar tempo, disseram.
Ele vai entender sozinho.

Mas Morris não lhes deu ouvidos. Pegou um avião para Chicago na manhã seguinte e às três horas estacionou um carro alugado do outro lado da rua em frente ao Duke’s,
uma lanchonete ordinária, muito frequentada, numa região degradada na zona sul da cidade. Duas horas depois, Miles saiu do restaurante com seu casaco de couro (que
Morris tinha comprado para ele em seu aniversário de dezenove anos) e com bom aspecto, na verdade com um ótimo aspecto, um pouco mais alto e mais encorpado do que
naquele café da manhã de domingo oito meses e meio antes, e a seu lado havia uma mulher negra, alta e bonita, que parecia ter vinte e cinco anos mais ou menos e,
quando os dois saíram pela porta, Miles pôs o braço em torno do ombro da mulher, puxou-a para perto de si e castigou um beijo em sua boca. Foi um beijo de felicidade,
de certo modo, o beijo de um homem que cumpriu oito horas de trabalho e está de volta à mulher que ama, e a mulher riu diante daquele súbito impulso de afeição,
lançou os braços em torno dele e retribuiu com outro beijo. Um instante depois, os dois começaram a caminhar juntos ao longo da rua, de mãos dadas e conversando
da­­quele jeito intenso, íntimo, só possível nas amizades mais próximas, nos amores mais próximos, e Morris se limitou a ficar onde estava, sentado, congelado no
banco do carro alugado, sem se atrever a baixar o vidro da janela e chamar Miles, sem se atrever a saltar do carro e correr na direção dele, e dez segundos depois
Miles e a mulher dobraram à esquerda na primeira esquina e sumiram de vista.

Fez aquilo mais três vezes desde então, uma vez no Arizo­­na, uma vez em New Hampshire e uma vez na Flórida, sempre observando de um local onde não podia ser visto,
o estacionamento do armazém onde Miles punha caixotes na traseira de um caminhão, o saguão do hotel onde o rapaz passou correndo por ele num uniforme de mensageiro,
o pequeno parque onde ficou sentado um dia enquanto o filho lia O grande Gatsby e depois batia um papo com uma linda estudante do ensino médio que por acaso estava
ali lendo o mesmo livro, sempre tentado a avançar e dizer alguma coisa, sempre tentado a arrumar uma briga com ele, lhe dar um soco, tomá-lo nos braços, tomar o
rapaz nos braços e beijá-lo, mas nunca fazia nada, nunca falava nada, mantinha-se escondido, vendo Miles ficar mais velho, vendo o filho se tornar um homem enquanto
sua própria vida se encolhia e virava algo pequeno, pequeno demais para ter qualquer importância, escutando a imprecação de Willa em Exeter, todo o mal que tinha
sido feito a ela, sua corajosa e sacrificada Willa, Bobby na estrada, Miles desaparecido, e no entanto ele persiste arduamente, incapaz de jogar a toalha, ainda
achando que a história não chegou ao fim, e, quando pensar na história se torna insuportável, ele às vezes se distrai com devaneios infantis sobre se fantasiar,
disfarçar-se de maneira tão completa que nem o próprio filho seria capaz de reconhecê-lo, um demônio do disfarce no espírito de Sherlock Holmes, não só as roupas
e os sapatos, mas um rosto completamente diferente, um cabelo completamente diferente, uma voz completamente diferente, uma transformação radical de um ser em outro,
e quantos velhos dife­­rentes ele já inventou desde que a ideia lhe veio à cabeça, aposentados encarquilhados claudicando com suas bengalinhas e seus andadores de
alumínio, velhos com cabelos brancos esvoaçantes, barbas brancas esvoaçantes, Walt Whitman caduco, um velhinho simpático que se perdeu e detém o rapaz para pedir
informações e depois os dois começariam a conversar, o velho convidaria o rapaz para tomar um drinque e, pouco a pouco, os dois ficariam amigos e agora que Miles
está morando no Brooklyn, lá em Sunset Park, perto do cemitério Green-Wood, ele inventou um outro personagem, um personagem de Nova York a quem ele chama de Homem
Lata, um desses velhos alquebrados que vasculham latas de lixo e caixas de material reciclável à cata de garrafas e latas, cinco centavos cada garrafa, cinco centavos
cada lata, um jeito duro de ganhar a vida, mas os tempos são duros e ninguém deve se queixar, e em sua mente o Homem Lata é um índio mohawk, um descendente dos Mo­­hawks
que se estabeleceram no Brooklyn no início do século passado, a comunidade dos Mohawks que vieram para cá a fim de serem operários na construção civil e trabalharem
nos prédios altos que subiam em Manhattan, Mohawks porque, por algum motivo, os Mohawks não tinham medo de altura, sentiam-se à vontade no ar e eram capazes de dançar
sobre as vigas e as traves sem o menor temor e sem a menor oscilação de vertigem, e o Homem Lata é um descendente daquele povo destemido que construiu as torres
de Manhattan, um sujeito maluco, infelizmente, nada certo da cabeça, um velho de miolo mole que passa os dias empurrando seu carrinho de supermercado pelo bairro,
catando garrafas e latas que vão lhe render cinco centavos a unidade, e quando o Homem Lata fala, na maioria das vezes pontua seus comentários com slogans de publicidade
absurdos, que nada têm a ver com o momento, como Eu andaria uma milha para fumar um Camel, ou Não saia de casa sem ele, ou Estenda a mão toque alguém, e talvez Miles
achasse graça num homem que andaria uma milha para fumar um Camel, e quando o Ho­­mem Lata esgotar seu repertório de slogans de publicidade, vai começar a citar
a Bíblia, dizendo coisas como O vento vai para o sul e volta para o norte, não para de girar, ou E o que está feito é o que deve ser feito, e na hora em que Miles
está prestes a lhe dar as costas e seguir andando, o Homem Lata enfia a cara na frente da dele e grita: Lembre-se, rapaz! A bancarrota não é o fim! É só um novo
começo!

São dez horas da manhã, a primeira manhã do ano novo, e ele está sentado numa baia da lanchonete Joe Junior’s, na es­­quina da Sexta Avenida com a rua 12, onde conversou
com Miles pela última vez há mais de dois mil e setecentos dias, por acaso sentado no mesmo lugar onde os dois ficaram sentados naquela manhã, comendo seus ovos
mexidos com torradas na manteiga, enquanto se distrai com a ideia de se transformar no Homem Lata. Joe Junior’s é um estabelecimento pequeno, uma lanchonetezinha
simples, ordinária, com um balcão de fórmica com friso cromado na borda, oito banquetas giratórias, três mesas junto à janela na frente e quatro baias ao longo da
parede no lado norte. A comida é vagabunda, na melhor hipótese, o cardápio padrão de pratos gordurosos e baratos, com duas dúzias de combinações para o café da manhã,
sanduíches de presunto e queijo na grelha, saladas de atum, hambúrgueres, sanduíches abertos de peru e rodelas fritas de cebola. Ele nunca experimentou as rodelas
de cebola, mas diz a lenda que um dos clientes antigos, Carlton Rabb, já falecido, gostava tanto delas que adicionou uma cláusula em seu testamento determinando
que uma porção das rodelas fritas de cebola do Joe Junior’s fosse enfiada em seu caixão antes de seu corpo ser sepultado. Morris tem plena consciência das deficiências
do Joe Junior’s como um lugar para comer, mas entre suas vantagens estão a total ausência de música, a chance de entreouvir conversas estimulantes e, não raro, hilariantes,
o largo espectro de sua clientela (desde mendigos sem-teto a abonados proprietários de imóveis) e, o mais importante, o papel que representa em sua memória. Joe
Junior’s foi o lugar do ritual do café da manhã de sábado, aonde levava os meninos toda semana, ao longo da infância deles, as tranquilas manhãs de sábado em que
os três saíam do apartamento na ponta dos pés, enquanto Willa tirava uma ou duas horas extras de sono, e se sentar agora aquele lugar, aquele restaurantezinho pé-sujo
na esquina da rua 12 com a Sexta Avenida, é voltar àqueles incontáveis sábados de muito tempo atrás e recordar o Éden em que viveu um dia.

Bobby perdeu o interesse em vir para cá quando tinha treze anos (o garoto gostava de dormir), mas Miles levou adiante a tradição até o final do ensino médio. Não
todo sábado de manhã, é claro, pelo menos não depois que fez sete anos e começou a jogar na liga de beisebol infantil local, mas vezes suficientes para sentir que
o salão continua impregnado da presença dele. Um jovem tão exuberante, um jovem tão aplicado, com tão pouco riso naquele rosto sombrio, mas, logo abaixo da superfície,
uma espécie de escrachada leveza interior, e o prazer que tinha quando eles formavam diversos times imaginários com os nomes de jogadores de verdade, o time de partes
do corpo, por exemplo, com uma linha formada por Bill Mãos, Barry Pezão, Rollie Dedos, Elroy Cara, Ed Cabeça e Walt Sem-Pescoço Williams, além de reservas como Tony
Braço e Jerry Cabeleira, ou então o time das finanças, com Dave Grana, Don Dinheiro, Bobby Juros, Barry Juros, Ernie Bancos, Elmer Tostão, Bill Libras e Wes da Bolsa.
Sim, Miles adorava aquelas brincadeiras malucas quando era menino e, quando a risada saía de dentro dele, era impetuosa e incontrolável, de deixar a cara vermelha
e tirar o fôlego, como se um fantasma invisível estivesse fazendo cócegas em todo o corpo dele. Mas na maior parte das vezes os cafés da manhã eram encontros em
voz baixa, conversas silenciosas sobre seus colegas de escola, sobre sua aversão às aulas de piano (acabou largando), seus desentendimentos com Bobby, seus deveres
de casa, os livros que estava lendo, a sorte dos Mets e do time de futebol americano dos Giants, as sutilezas do arremesso. Entre todas as mágoas que Morris acumulou
ao longo da vida, existe a duradoura tristeza por seu pai não ter vivido o bastante para conhecer o neto, mas se tivesse conhecido, e se por algum milagre tivesse
durado até o menino alcançar a adolescência, teria tido a felicidade de ver Miles arremessar, a versão destra dele mesmo quando jovem, a prova viva de que todas
as horas que havia passado ensinando o filho a lançar direito não tinham sido um desperdício, que, ainda que Morris nunca tenha tido um braço muito bom, havia transmitido
as lições do pai a seu filho, e até Miles abandonar o esporte no penúltimo ano da universidade, os resultados tinham sido promissores - não, mais do que promissores:
excelentes. A posição ideal para ele era de arremessador. Solidão e força, concentração e vontade, o lobo solitário parado no meio do jardim interno, carregando
o time inteiro nas costas. Naquele tempo eram só bolas rápidas e bolas lentas, dois arremessos e o exercício incessante do lançamento, o movimento fluido, o braço
que chicoteava para a frente no ar, sempre no mesmo ângulo, a perna direita dobrada pressionando com força a borracha da sola do tênis até o momento de lançar a
bola, mas nada de bolas em curva ou de efeito, aos dezesseis anos de idade ele continuava em crescimento e braços jovens podem ser gravemente prejudicados pela torção
forçada exigida para arremessar uma boa bola de efeito. Ele ficou decepcionado, é verdade, mas nunca condenou Miles por ter parado de jogar. A dor autoflagelante
de ter sobrevivido a Bobby tinha exigido um sacrifício de algum tipo e assim ele abandonou a coisa que mais gostava de fazer naquela altura da vida. Mas se determinar
a deixar uma coisa não é o mesmo que renunciar àquilo no fundo do coração. Quatro anos atrás, quando Bing telefonou para comunicar a chegada de mais uma carta -
de Albany, Califórnia, bem perto de Berkeley -, ele comentou que Miles estava arremessando num time da liga amadora na região da baía de São Francisco, competindo
com ex-jogadores universitários que não tinham sido bons o bastante ou interessados o bastante para se profissionalizar, porém mesmo assim era competição a sério
e ele não estava fazendo feio, Miles dizia, vencia duas vezes mais do que perdia e tinha afinal aprendido a arremessar uma bola em curva. Contou ainda que os Giants
de São Francisco iam promover um teste aberto no final do mês e seus colegas de time o pressionavam para ir lá fazer o teste, recomendando que mentisse sobre sua
idade e dissesse que tinha dezenove anos, e não vinte e quatro, mas ele não ia fazer isso. Imagine só, eu assinar um contrato para jogar na liga dos aspirantes,
disse ele. Absurdo.

O Homem Lata está pensando, lembrando, repassando as incontáveis manhãs de sábado em que tomou o café da manhã ali com o menino, e agora, quando ergue o braço e
pede a conta, um ou dois minutos antes de sair de novo para o ar frio, esbarra com uma coisa que há anos não lhe passa pela cabeça, um caco desenterrado, um pedaço
brilhante de vidro para pôr no bolso e levar para casa. Miles tinha dez ou onze anos. Era uma das primeiras vezes em que iam ali sem Bobby, os dois sozinhos, sentados
um de frente para o outro numa das baias, talvez essa mesma baia, talvez uma outra, ele agora não consegue lembrar qual foi, e o menino tinha trazido o fichamento
de um livro que havia escrito para sua aula no quinto ou sexto ano, não, não era exatamente um fichamento, era um texto curto de seiscentas ou setecentas palavras,
uma análise do livro que a professora tinha escolhido para os alunos, o livro que eles andavam lendo e debatendo nas últimas semanas, e agora cada criança tinha
de escrever um texto, uma interpretação do romance que todos tinham terminado de ler, O sol é para todos, um livro doce, foi a impressão de Morris, um livro bom
para crianças daquela idade, e o menino queria que o pai lesse até o fim o que ele havia escrito. O Homem Lata recorda como o menino estava nervoso quando pegou
as três folhas de papel, as quatro folhas de papel de sua mochila, à espera do julgamento do pai sobre o que ele havia escrito, sua primeira tentativa na crítica
literária, sua primeira tarefa de adulto, e pela expressão nos olhos do menino, o pai compreen­deu quanto trabalho e pensamento tinham sido postos naquela breve
dissertação. O texto falava de feridas. O pai das duas crianças, o advogado, é cego de um olho, escreveu o menino, e o homem negro que ele defende contra uma acusação
falsa de estupro tem um braço sem vida, e no final do livro, quando o filho do advogado cai de uma árvore, ele quebra o braço, o mesmo braço que pende inútil no
ombro do homem negro inocente, direito ou esquerdo, o Homem Lata não se lembra mais, e o importante naquilo tudo, escreveu o jovem Miles, é que as feridas são uma
parte essencial da vida e, até que nós sejamos feridos de algum jeito, não podemos nos tornar homens. Seu pai se perguntou como era possível que um menino de dez
ou onze anos lesse um livro com tamanha atenção, que conseguisse juntar os elementos díspares, destituídos de ênfase, de uma história, e ver um padrão se desenvolver
no curso de centenas de páginas, ouvir as notas que se repetiam, notas que se perdiam com tanta facilidade no torvelinho de fugas e cadências que constituem a totalidade
de um livro, e não só estava ele impressionado com a mente que tinha prestado tamanha atenção nos mínimos detalhes do romance, ele estava impressionado com o coração
que era capaz de propor uma conclusão tão profunda. Até que você seja ferido, você não tem como se tornar um homem. Falou para o menino que ele tinha realizado um
trabalho de primeira categoria, que a maioria dos leitores com duas ou três vezes a idade dele jamais seria capaz de escrever metade do que ele havia escrito, e
que só uma pessoa com uma alma grande poderia pensar no livro da­­quela forma. Estava muito comovido, disse para o filho naquela manhã, dezessete ou dezoito anos
atrás, e o fato é que continua comovido com os pensamentos expressos naquele breve texto e, enquanto pega seu troco no caixa e sai para o ar frio da rua, continua
a pensar sobre aqueles pensamentos e, pouco antes de chegar à sua casa, o Homem Lata para e diz para si mesmo: Quando?

 

4.

Ela chegou a Nova York para fazer Dias felizes, de Samuel Beckett. Será Winnie, a mulher enterrada até a cintura no primeiro ato e depois enterrada até o pescoço
no segundo ato, e o desafio à sua frente, o formidável desafio será ficar falando naquela posição tão tolhida durante uma hora e meia, proferindo um monólogo que
chega a sessenta páginas escritas, com ocasionais interrupções de um desafortunado e quase invisível Willie, e ela não consegue pensar em nenhum outro papel teatral
que tenha representado no passado, nem Nora, nem Senhorita Júlia, nem Blanche, nem Desdêmona, que seja mais exigente do que esse. Mas ela adora Winnie, tem uma profunda
afinidade com a combinação de páthos, comédia e terror que há na peça e, por mais que Beckett seja extraordinariamente difícil, cerebral, às vezes obscuro, a linguagem
é tão limpa e precisa, tão deslumbrante em sua simplicidade, que dá a ela um prazer físico sentir as palavras saindo de sua boca. Língua, palato, lábios e garganta
estão todos em harmonia quando pronuncia as longas e entrecortadas digressões de Winnie, e agora que conseguiu afinal dominar e memorizar o texto, os ensaios estão
em franco progresso, e quando as sessões de pré-estreia começarem, daqui a dez dias, espera estar pronta para ter o desempenho que pretende. Tony Gilbert está sendo
duro com ela e toda vez que o jovem diretor a interrompe por ter feito um gesto errado ou não ter respeitado uma pausa entre duas frases, ela se consola com o pensamento
de que ele implorou que ela viesse a Nova York para fazer Winnie, que ele lhe disse muitas e muitas vezes que nenhuma outra atriz viva poderia ter um desempenho
melhor naquele papel. Ele está sendo duro com ela, é verdade, mas a peça é dura e por isso ela tem dado um duro tremendo, até deixou seu corpo ir para o inferno
a fim de ganhar os nove quilos de que, a seu ver, precisava para se tornar Winnie, para habitar Winnie (uns cinquenta anos, bem conservada, loura de preferência,
rechonchuda, braços e pernas nus, decote fundo, peito grande...), e ela trabalhou bastante em casa para se preparar, leu sobre Beckett, estudou sua correspondência
com Alan Schneider, o diretor original da peça, e sabe que bumper é um copo de bebida cheio até a borda, que ráfia é uma linha fibrosa usada por jardineiros, que
as palavras ditas por Winnie no início do segundo ato, Salve, luz sagrada, são uma citação do Livro III de Paraíso perdido, que verde faia provém da Ode a um rouxinol
e que ave da alvorada provém de Hamlet. Em que mundo se situa a peça é uma coisa que nunca ficou clara para ela, um mundo sem escuridão, um mundo de luz quente e
interminável, uma espécie de purgatório, talvez, um deserto pós-humano de possibilidades que vão se reduzindo, de movimento que vai se reduzindo, mas ela também
desconfia que esse mundo pode não ser nada mais do que o palco em que vai representar, e ainda que Winnie esteja essencialmente sozinha, falando para si e para Willie,
também tem consciência de que está em presença de outras pessoas, de que a plateia está lá na escuridão diante dela. Alguém ainda está olhando para mim. Alguém ainda
se importa comigo. É isso que eu acho maravilhoso. Olhos nos meus olhos. Isso ela pode entender. Toda a sua vida foi assim, só isso.

É o terceiro dia do ano, noite de sábado, 3 de janeiro, e Morris está jantando com Mary-Lee e Korngold no Odeon, que não fica longe do apartamento de Tribeca que
eles alugaram para sua temporada de quatro meses em Nova York. Chegaram à cidade na hora em que Morris se preparava para viajar para a Inglaterra e, embora tenham
falado por telefone algumas vezes nos últimos meses, faz muito tempo que não se veem, desde 2007, pensa ele, talvez até desde 2006. Mary-Lee acabou de fazer cinquenta
e quatro anos e o breve e conflituoso casamento deles agora não passa de uma vaga lembrança. Ele não sente nenhum rancor nem má vontade em relação a ela, de fato
sente grande afeição, mas ela continua a ser um enigma para ele, uma desconcertante mistura de ternura e distância, uma inteligência arguta escondida atrás de maneiras
bruscas e truculentas, alternadamente generosa e egoísta, divertida e maçante (às vezes tende a falar demais), vaidosa e totalmente indiferente a si mesma. A prova
é o ganho de peso para representar seu novo papel. Sempre teve orgulho de sua silhueta esguia e bem conservada, se aflige com o teor de gordura de cada bocadinho
de comida que entra em sua boca, encara com um rigor religioso a questão de ter uma alimentação adequada, mas agora, por causa de seu trabalho, ela tranquilamente
mandou a dieta para o inferno. Morris fica intrigado com aquela versão mais cheia, mais vasta, de sua ex-mulher e lhe diz que ela está linda, a que ela reage rindo
e depois estufa as bochechas: Um grande e lindo hipopótamo. Mas ela é linda, ele pensa, linda mesmo agora, e ao contrário da maioria das atrizes de sua geração,
ela não desfigurou o rosto com cirurgias cosméticas ou injeções removedoras de rugas, pelo simples motivo de que ela pretende continuar trabalhando en­­quanto puder,
bem entrada na velhice se possível, e, como disse para ele um dia em tom jocoso, se toda a mulherada de sessenta anos ficar com essas caras de moças grotescas de
trinta anos, quem vai sobrar para fazer o papel das mães e das avós?

Ela é atriz há muito tempo, trabalha continuamente desde os vinte e poucos anos de idade, e não há ninguém no restaurante lotado que não saiba quem é ela, toda hora
olhares de relance são dirigidos para a mesa deles, olhos estão nos olhos dela, mas Mary-Lee finge não prestar atenção, está acostumada a esse tipo de coisa, mas
Morris sente que ela, em segredo, aprecia aquilo, que esse tipo de adulação silenciosa é uma recompensa que nunca perde o encanto. Poucos atores conseguem se manter
em destaque durante trinta anos, sobretudo mulheres, sobretudo mulheres que representam no cinema, mas Mary-Lee foi esperta e flexível, disposta a se reinventar
a cada passo ao longo da vida. Mesmo durante a primeira leva de filmes de sucesso que a lançaram, ela conseguia tirar um tempo para trabalhar em peças de teatro,
sempre peças boas, as melhores, o Bardo e seus herdeiros modernos, Ibsen, Tchékhov, Williams, Albee, e depois, quando chegou aos trinta e poucos anos e os grandes
estúdios de cinema pararam de fazer filmes para adultos, ela não hesitou em aceitar papéis em pequenos filmes independentes, de baixo orçamento (muitos deles produzidos
por Korngold), e depois, mais alguns anos adiante, quando ela chegou ao ponto em que estava começando a representar o papel de mães, saltou para a televisão, estrelou
um seriado semanal intitulado Martha Kane, Advogada, programa que Morris e Willa até viam de vez em quando, e ao longo dos cinco anos em que o seriado ficou no ar,
ela conseguiu um público na casa dos milhões e se tornou ainda mais popular, o que significa muito popular mesmo. Drama e comédia, moças boas e moças más, secretárias
exuberantes e prostitutas viciadas em drogas, esposas, namoradas e amantes, uma cantora e uma pintora, uma policial disfarçada e a prefeita de uma grande cidade,
ela representou todo tipo de papel em todo tipo de filme, muitos deles perfeitamente dignos, uma ou outra coisa mais sofrível, mas nenhuma atuação medíocre, até
onde Morris consegue lembrar, com um número considerável de desempenhos memoráveis que o comoveram da mesma maneira que ele se sentiu comovido quando a viu pela
primeira vez no papel de Cordélia, em 1978. Ele está contente por ela estar fazendo Beckett, acha que ela foi sensata ao aceitar aquele papel intimidador e, quando
olha agora para Mary-Lee na sua frente, no outro lado da mesa, se pergunta como essa mulher bonita, mas completamente comum, essa mulher com suas oscilações de humor
e sua paixão vulgar por piadas indecentes, é capaz de se transformar em tantos personagens distintos e tão completamente discrepantes e de dar a sensação de que
carrega toda a humanidade dentro de si. Será que é preciso um ato de coragem para se pôr diante de uma plateia de pessoas desconhecidas e exibir as entranhas, ou
se trata de uma compulsão, uma necessidade de ser olhada, uma temerária falta de inibição, isso que leva uma pessoa a fazer o que ela faz? Ele nunca foi capaz de
pôr o dedo na linha que separa a vida da arte. Renzo é igual a Mary-Lee, os dois são prisioneiros daquilo que fazem, há anos os dois não param de pular de um projeto
para o projeto seguinte, os dois criaram obras de arte duradouras e no entanto a vida de ambos foi uma mixórdia, os dois divorciados duas vezes, os dois com um tremendo
talento para a autopiedade, os dois, em última análise, inacessíveis para os outros - não exatamente seres humanos fracassados, mas tampouco bem-sucedidos. Almas
avariadas. O ferido ambulante, que abre as veias e sangra em público.

Ele acha estranho estar com ela agora, sentado diante da ex-mulher e do marido dela, sentado em uma outra baia em um outro restaurante de Nova York, acha estranho
porque o amor que no passado sentia por ela desapareceu completamente e ele sabe que Korngold é para Mary-Lee um marido mil vezes melhor do que ele jamais poderia
ter sido, e ela tem sorte de ter um homem assim para cuidar dela, para lhe dar apoio toda vez que começa a claudicar, para lhe dar os conselhos que ela vem ouvindo
e seguindo faz muitos anos, para amá-la de um jeito capaz de conter suas ansiedades e seus destemperos frenéticos, ao passo que ele, Morris, nunca esteve à altura
da tarefa de amá-la da maneira que ela precisava ser amada, nunca pôde lhe dar conselhos sobre sua carreira, nunca pôde lhe dar apoio nem compreender o que andava
rodando em turbilhão dentro daquela linda cabeça. Ela está muito melhor do que trinta anos atrás e ele dá a Korngold todo o crédito por isso, admira Korngold por
ter resgatado Mary-Lee depois de dois casamentos ruins, por jogar fora as garrafas de vodca e os frascos de comprimidos que ela começou a colecionar depois do segundo
divórcio, por se manter fiel a ela durante o que devem ter sido momentos muito aflitivos, e além do que Korngold fez por Mary-Lee, Morris o admira pura e simplesmente,
pelo que ele é e mais nada, não só porque foi bom com seu filho durante os anos em que o rapaz esteve visível, não só porque ele se angustiou com o desaparecimento
de Miles como se fosse um autêntico membro da família, mas porque ele descobriu, muitos anos atrás, que Simon Korngold é uma pessoa absolutamente amável e o que
Morris mais aprecia nele é o fato de nunca se queixar. Todo mundo está sofrendo por causa da crise, do colapso, qualquer que seja a palavra que andem usando para
falar da nova Depressão, e também os editores de livros, é claro, mas Simon está numa condição muito pior do que a dele, o negócio dos filmes independentes foi devastado,
as produtoras e as distribuidoras cinematográficas estão fechando como cadeiras dobráveis todos os dias da semana, e agora faz dois anos que ele não consegue pôr
um filme de pé, o que significa que, informalmente, ele se aposentou naquele outono ao aceitar dar aulas de cinema na Universidade da Califórnia em vez de fazer
cinema, porém não está amargo por causa disso, pelo menos não demonstra nenhuma amargura e a única coisa que diz para explicar o que aconteceu com ele é que tem
cinquenta e oito anos de ida­de e que a produção de filmes independentes é um ramo para jovens. A estafante busca de dinheiro pode fazer picadinho do espírito de
qualquer um, a menos que a pessoa seja feita de aço, diz ele, e a verdade nua e crua é que ele não é mais feito de aço.

Mas isso vem depois. A conversa sobre Winnie e Salve, luz sagrada e homens de aço só começa depois que conversaram sobre o motivo pelo qual Mary-Lee telefonou para
Morris três horas atrás e convidou-o para jantar assim tão em cima da hora. Há novidades. Esse é o primeiro assunto em pauta e, momentos depois de entrarem no restaurante
e sentarem à mesa, Mary-Lee lhe conta sobre o recado que encontrou em sua secretária eletrônica às quatro horas da tarde.

Era Miles, diz ela. Reconheci a voz.

A voz dele, disse Morris. Quer dizer que não disse quem era?

Não. Só o recado - um recado curto e confuso. O seguinte, na íntegra: Hmm. Pausa demorada. Desculpe. Pausa demorada. Vou ligar de novo.

Tem certeza que era o Miles?

Tenho.

Korngold diz: Ainda estou tentando entender o que significa desculpe. Desculpe por ter ligado? Desculpe por estar confuso demais para deixar um recado direito? Desculpe
por tudo o que fez?

É impossível dizer, responde Morris. Mas eu apostaria na opção confuso.

Alguma coisa vai acontecer, diz Mary-Lee. Muito em breve. É uma questão de dias, agora.

Falei com Bing hoje de manhã, diz Morris, só para conferir e ver se está tudo bem. Ele contou que Miles tem uma namorada, uma garota cubana muito jovem, da Flórida,
e que ela chegou a Nova York mais ou menos na semana passada para visitá-lo. Acho que ela voltou hoje. Segundo Bing, Miles tinha intenção de entrar em contato conosco
assim que ela partisse. Isso explicaria o recado no telefone.

Mas por que ligar para mim e não para você?, pergunta Mary-Lee.

Porque Miles acha que ainda estou na Inglaterra e que só poderia falar comigo depois do domingo.

E como ele sabe disso?, pergunta Korngold.

Aparentemente, telefonou para meu escritório duas ou três semanas atrás e disseram para ele que eu voltaria a trabalhar no dia 5. Foi o que Bing me contou, pelo
menos, e não vejo motivo para o rapaz ter mentido para ele.

Devemos muito ao Bing Nathan, diz Korngold.

Devemos tudo a ele, diz Morris. Tente imaginar os últimos sete anos sem ele.

Temos de fazer alguma coisa por ele, diz Mary-Lee. Mandar um cheque, pagar uma viagem ao redor do mundo, sei lá, alguma coisa.

Eu tentei, diz Morris, mas ele não admite receber dinheiro de mim. Ficou muito ofendido na primeira vez que lhe ofereci, e mais ofendido ainda na segunda vez. Ele
diz: Não se aceita dinheiro por agir como um ser humano. Um jovem com princípios. Uma coisa que posso respeitar.

E o que mais? Alguma informação sobre como Miles está?

Não disse grande coisa, responde Morris. Bing diz que na maior parte do tempo Miles fica quieto no seu canto, mas as outras pessoas que moram na casa gostam dele,
e ele também se dá bem com todos. Calado, como de costume. Um pouco para baixo, como de costume, mas quando a garota chegou ele ficou mais animado.

E agora ela foi embora, diz Mary-Lee, e ele deixou um recado na minha secretária eletrônica dizendo que vai me ligar depois. Não sei o que vou fazer quando olhar
para ele. Dar um tabefe na cara dele ou jogar meus braços em volta dele e lhe dar um beijo?

As duas coisas, diz Morris. Primeiro o tabefe e depois o beijo.

Depois disso, param de falar sobre Miles e passam a tratar de Dias felizes, o futuro dos filmes independentes, a estranha morte de Steve Cochran, as vantagens e
desvantagens de morar em Nova York, a nova rotundidade de Mary-Lee (assunto que inspira as bochechas estufadas e as palavras sobre o lindo hipopótamo), os romances
que vão sair pela Heller Books e Willa, nem é preciso dizer, Willa, essa é a pergunta educada que tem de ser feita, mas Morris não tem nenhuma vontade de lhes contar
a verdade, não tem a menor vontade de desabafar e falar sobre seu receio de estar perdendo Willa, de já ter perdido, e assim se li­­mita a dizer que Willa está em
seu esplendor, no auge da forma, que a viagem à Inglaterra foi como uma segunda lua de mel e que tem até dificuldade de lembrar qualquer outra fase da vida em que
tenha se sentido mais feliz. Sua resposta vem e vai em poucos segundos e depois eles mudam para outras coisas, outras digressões, outros papos sobre diversos assuntos,
relevantes ou irrelevantes, mas Willa está em seu pensamento agora, não consegue se livrar dela, e olhando para sua ex-mulher e Korngold do outro lado da mesa, o
conforto e a amabilidade de suas palavras, a cumplicidade tácita e furtiva que existe entre os dois, ele compreende como está solitário, como ficou solitário, e
agora que o jantar se aproxima de sua conclusão, sente medo de voltar para o apartamento vazio na Downing Street. Mary-Lee bebeu vinho bastante para estar num de
seus estados de ânimo expansivos e generosos e, quando os três saem à rua para se despedir, ela abre os braços e diz para ele, Me dê um abraço, Morris. Um grande
abraço apertado na coroa gorda. Ele abraça o volumoso sobretudo de inverno com força suficiente para sentir a carne dentro dele, o corpo da mãe de seu filho, e quando
faz isso, ela se segura a ele com a mesma força e depois, com a mão esquerda, começa a dar palmadinhas na parte de trás de sua cabeça, como se quisesse lhe dizer
para não se preocupar mais, os tempos sombrios em breve vão chegar ao fim e tudo será perdoado.

Ele volta a pé para a Downing Street, no frio, sua echarpe vermelha enrolada no pescoço, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco, e o vento que bate do rio Hudson
é especialmente forte nesta noite, enquanto ele sobe pela Varick rumo a West Village, mas não se detém para acenar para um táxi, nesta noite ele quer andar a pé,
o ritmo de seus passos o acalma da maneira como a música às vezes o acalma, da maneira como as crianças podem ser acalmadas quando os pais as embalam para dormir.
São dez horas, não é tarde, faltam algumas horas para ele próprio estar pronto para dormir e, quando abre a porta do apartamento, imagina que vai se instalar em
sua poltrona confortável na sala e passar as últimas horas do dia lendo um livro, mas que livro, pergunta para si mesmo, que livro entre os milhares atulhados nas
prateleiras dos dois andares do apartamento duplex, talvez a peça de Beckett, se conseguir achar o livro, pensa ele, a peça que Mary-Lee está fazendo agora, aquela
sobre a qual conversaram nesta noite, ou se não essa peça talvez uma outra, de Shakespeare, o pequeno projeto que assumiu na ausência de Willa, reler todo o Shakespeare,
as palavras que têm preenchido as horas entre o trabalho e o sono nos últimos meses, e ele vai ler A tempestade, acredita, ou talvez Conto de inverno, e se ler for
demais para ele nesta noite, se seus pensamentos estão embaralhados demais com Miles, Mary-Lee e Willa para que ele consiga se concentrar nas palavras, vai escolher
um filme na televisão, o único sedativo que está sempre à mão, o tranquilizante bruxulear de imagens, vozes e música, a atração das histórias, sempre as histórias,
milhares de histórias, milhões de histórias, e mesmo assim nunca nos cansamos delas, sempre há espaço no cérebro para mais uma história, mais um livro, mais um filme,
e depois de se servir de mais uma dose de uísque na cozinha, vai até a sala pensando em ver um filme, vai optar por um filme, se nesta noite estiver passando alguma
coisa assistível.

No entanto, antes que possa se acomodar na confortável poltrona e ligar o televisor, o telefone começa a tocar na cozinha e então ele dá meia-volta e retorna para
a cozinha para atender, intrigado pelo horário tardio daquele telefonema, se perguntando quem poderia querer falar com ele às dez e meia da noite de um sábado. Seu
primeiro pensamento é Miles, Miles dando sequência ao telefonema para a mãe com um telefonema para o pai, mas não, não era possível. Miles não ia telefonar para
ele antes de segunda-feira, no mínimo, a não ser que supusesse, quem sabe, que o pai já tinha voltado da Inglaterra e estava passando o fim de semana em casa, ou,
se não, talvez ele simplesmente quisesse deixar um recado na secretária eletrônica, da mesma forma que deixou um recado na secretária eletrônica da mãe naquela tarde.

É Willa, telefonando de Exeter às três e meia da manhã, Willa em soluços e angustiada, dizendo que está arrasada, que seu mundo está em ruínas, que ela não quer
mais viver. Suas lágrimas são implacáveis e a voz que fala através das lágrimas mal consegue se fazer audível, tem um timbre agudo, a voz de uma criança, e se trata
de um autêntico colapso nervoso, ele diz para si mesmo, uma pessoa além da raiva, além da esperança, uma pessoa inteiramente consumida, infeliz, infeliz, pulverizada
pelo peso do mundo, uma tristeza tão pesada quanto o mundo. Ele não sabe o que fazer, a não ser falar com ela da maneira mais consoladora de que é capaz, dizer que
a ama, que vai pegar o primeiro avião para Londres de manhã bem cedo, que ela tem de aguentar até ele chegar, menos de vinte e quatro horas, só mais um dia, e ele
a lembra do colapso nervoso mais ou menos um ano depois da morte de Bobby, as mesmas lágrimas, a mesma voz debilitada, as mesmas palavras, e ela conseguiu vencer
aquela crise e também vai vencer esta crise agora, confie nele, ele sabe do que está falando, vai cuidar dela, vai cuidar dela sempre, e ela não deve se condenar
por coisas de que não é culpada. Falam durante uma hora, duas horas e por fim as lágrimas são contidas, por fim ela começa a se acalmar, mas, bem na hora em que
Morris começa a sentir que já pode desligar o telefone em segurança, as lágrimas recomeçam. Ela precisa tanto dele, ela diz, não consegue sobreviver sem ele, tem
sido muito má com ele, muito mesquinha, cruel e vingativa, se transformou numa pessoa horrorosa, num monstro, e odeia a si mesma agora, nunca vai conseguir se perdoar,
e ele tenta mais uma vez acalmá-la, lhe diz que agora deve ir dormir, que está exausta e precisa dormir, que ele estará com ela no dia seguinte e por fim, por fim,
ela promete que irá para a cama e, ainda que não consiga dormir, promete que não vai fazer nada de estúpido, que vai se comportar, ela promete. Finalmente eles desligam
o telefone e, antes que anoiteça mais uma vez na cidade de Nova York, Morris Heller está de volta à Inglaterra, viajando de Londres para Exeter para ver sua mulher.

 

TODOS

 

Miles Heller

Foi a melhor coisa que podia ter acontecido com ele, foi a pior coisa que podia ter acontecido com ele. Onze dias com Pilar em Nova York e depois a agonia de embarcá-la
no ônibus e mandá-la de volta para a Flórida.

No entanto uma coisa é certa. Ele a ama mais do que qualquer outra pessoa no mundo e vai continuar a amá-la até o dia em que parar de respirar.

A alegria de olhar para seu rosto outra vez, a alegria de abraçá-la outra vez, a alegria de ouvir seu riso outra vez, a alegria de ouvir sua voz outra vez, a alegria
de vê-la comer outra vez, a alegria de olhar para suas mãos outra vez, a alegria de olhar para seu corpo nu outra vez, a alegria de tocar seu corpo nu outra vez,
a alegria de beijar seu corpo nu outra vez, a alegria de vê-la franzir as sobrancelhas outra vez, a alegria de vê-la escovar o cabelo outra vez, a alegria de vê-la
pintar as unhas outra vez, a alegria de ficar debaixo do chuveiro com ela outra vez, a alegria de conversar com ela sobre livros outra vez, a alegria de ver seus
olhos se encherem de lágrimas outra vez, a alegria de vê-la andar outra vez, a alegria de ouvi-la xingar Angela outra vez, a alegria de ler em voz alta para ela
outra vez, a alegria de ouvir seu arroto outra vez, a alegria de vê-la escovar os dentes outra vez, a alegria de tirar sua roupa outra vez, a alegria de colocar
a boca sobre a sua boca outra vez, a alegria de olhar seu pescoço outra vez, a alegria de caminhar pela rua com ela outra vez, a alegria de pôr os braços em volta
dos ombros dela outra vez, a alegria de lamber seus peitos outra vez, a alegria de penetrar em seu corpo outra vez, a alegria de acordar ao lado dela outra vez,
a alegria de discutir sobre matemática com ela outra vez, a alegria de comprar roupas para ela outra vez, a alegria de massagear e ser massageado outra vez, a alegria
de falar sobre o futuro outra vez, a alegria de viver no presente com ela outra vez, a alegria de ouvi-la dizer que o ama outra vez, a alegria de dizer para ela
que a ama outra vez, a alegria de viver debaixo de seus olhos escuros e ardentes outra vez, e depois a agonia de vê-la embarcar no ônibus na rodoviária de Port Authority
na tarde do dia 3 de janeiro, com a certeza de que só em abril, daqui a mais de três meses, ele terá a chance de estar com ela outra vez.

Foi a primeira viagem de Pilar para Nova York, a única vez em que pôs os pés fora do estado da Flórida, sua viagem inaugural à terra do inverno. Miami é a única
cidade grande que ela conhece bem, mas Miami nem é grande quando comparada com Nova York, e ele torcia para que Pilar não se sentisse intimidada com a vastidão e
a balbúrdia do lugar, que não ficasse chateada com o barulho e com a poeira, com os vagões lotados do metrô, com o tempo feio. Ele imaginou que teria de conduzi-la
com cautela, como uma pessoa que entra num lago frio com um nadador iniciante, dando a ela tempo para se adaptar à água gelada, esperando que ela lhe diga quando
está pronta para ficar com a água até a cintura, até o pescoço, e se e quando ela quer mergulhar a cabeça. Agora que Pilar foi embora, ele não consegue entender
por que se sentiu tão cheio de receios por causa dela, por que ou como pôde ter subestimado a sua determinação. Ela se atirou no lago sacudindo os braços, gritou
com entusiasmo quando a água fria bateu em sua pele nua e segundos depois já estava mergulhando, embebendo a cabeça debaixo da superfície e deslizando tranquilamente,
como uma veterana experiente. A menina tinha feito o trabalho de casa. Durante o longo trajeto pelo litoral do Atlântico, ela digeriu o conteúdo de três guias de
viagem e de uma história de Nova York e, na hora em que o ônibus estacionou na rodoviária, já havia feito uma lista dos lugares que desejava visitar, das coisas
que queria fazer. Ela também não negligenciou o conselho de se preparar para a temperatura baixa e as possíveis tempestades. Tinha comprado botas de neve, um par
de suéteres quentes, um cachecol, luvas de lã e um elegante anoraque verde, com um capuz arrematado com pelos. Ela era Nanuque, o esquimó, disse Miles, a sua intrépida
esquimó preparada para enfrentar os rigores dos climas mais severos, e, sim, ela parecia adorável naquelas roupas, e ele disse e repetiu muitas vezes que o visual
cubano-americano-esquimó estava destinado a ficar na moda durante muitos anos.

Foram ao topo do Empire State Building, percorreram os salões de mármore da Biblioteca Pública na esquina da Quinta Avenida com a rua 42, visitaram o Marco Zero,
passaram um dia indo do Museu Metropolitan para a Frick Collection e para o MoMA, ele comprou para ela um vestido e um par de sapatos na Macy’s, atravessaram a pé
a ponte do Brooklyn, comeram ostras no Oyster Bar, na Grand Central Station, viram os patinadores no gelo no Rockefeller Center, e depois, no sétimo dia da visita
de Pilar, foram de metrô até a parte alta da cidade, na esquina da rua 116 com a Broadway, e visitaram o campus do Barnard College, o campus da Universidade Columbia
do outro lado da rua, as diversas escolas e academias de música espalhadas por Morningside Heights, e ele disse para ela, Olhe, tudo isso agora é possível para você,
você é tão boa quanto qualquer uma das pessoas que estudam aqui, e quando mandarem para você sua carta de aceitação nesta primavera, o que tenho certeza que vai
acontecer, é mais de oitenta por cento de chance de que vão querer você, pense bem, pense com todo cuidado, antes de decidir se quer mesmo ficar na Flórida, está
certo? Ele não estava dizendo para ela o que devia fazer, apenas pedia para examinar com cuidado aquele assunto, pesar as consequências de aceitar ou recusar aquilo
que, com toda a probabilidade, ia ser oferecido para ela, e dessa vez Pilar ficou em silêncio, sem se dispor a dividir seus pensamentos com ele, e ele não insistiu,
pois pela expressão nos olhos dela estava claro que ela já vinha ponderando exatamente aquela questão, tentava se projetar no futuro, tentava imaginar o que significaria
para ela, ou não, fazer uma faculdade em Nova York, e enquanto caminhavam pelas ruas vazias e observavam com atenção as fachadas dos prédios, ele teve a sensação
de que ela estava se transformando diante de seus olhos, ficando mais velha diante de seus olhos, e de repente ele se deu conta de como ela seria dali a dez anos,
dali a vinte anos, Pilar no pleno vigor de sua feminilidade em expansão, Pilar plenamente transformada em si mesma, e no entanto ainda caminhando com a sombra da
garota pensativa que agora caminha a seu lado, a jovem mulher que agora caminha a seu lado.

Ele gostaria de ter ficado sozinho com ela durante os onze dias inteiros, morando e dormindo num quarto ou num apartamento que não tivessem de dividir com ninguém,
mas a única opção disponível para eles era a casa em Sunset Park. Um hotel seria o lugar perfeito, mas ele não tinha dinheiro para pagar um hotel e além do mais
havia o problema da idade de Pilar, e ainda que tivesse condições de pagar acomodações de luxo para eles, havia em Nova York o mesmo risco que havia na Flórida e
ele não estava disposto a correr esse risco. Mais ou menos uma se­­mana antes do Natal, ele e Ellen conversaram sobre a possibilidade de pegar emprestada a chave
de um dos apartamentos vazios da empresa imobiliária, mas pouco a pouco abandonaram aquela ideia absurda. Não só porque Ellen podia se ver em sérios apuros, sendo
a demissão automática apenas uma das muitas coisas horríveis que podiam acontecer com ela, mas, quando pararam para pensar como seria se enfiar numa toca sem mobília
nenhuma, sem persianas nem cortinas, sem luz elétrica, sem uma cama para dormir, os dois entenderam que seria muito melhor ficar na casinha desengonçada em frente
ao cemitério Green-Wood.

Pilar sabe que eles estão ocupando a casa ilegalmente, e não aprova isso. Não só é uma coisa errada violar a lei, ela diz, mas também ela fica assustada com a possibilidade
de acontecer alguma coisa com ele, alguma coisa ruim, alguma coisa irreversível, e como seria irônico, diz ela (tiveram essa conversa ao telefone mais de uma vez),
se ele tivesse ido embora da Flórida para evitar a prisão só para ir parar numa outra prisão, lá no norte. Mas ele não irá para a prisão por ocupar uma casa ilegalmente,
ele diz para ela, o pior que pode acontecer é um despejo fora de hora, e ela não deve esquecer que morar ali é só um arranjo provisório para ele, e depois que voltar
para a Flórida no dia 22 de maio, sua pequena aventura como invasor de propriedade terá chegado ao fim. Nessa altura da conversa, Pilar invariavelmente começa a
falar sobre Angela, amaldiçoando sua irmã gananciosa e malvada por ter feito aquilo com eles, a injustiça daquilo tudo, o nojo daquilo tudo, e agora ela vive sob
o constante temor de que algo aconteça com ele e a culpa é toda de Angela.

Como a casa assustava Pilar, ela queria passar o menor tempo possível ali. Por razões muito diferentes, ele pensava da mesma forma, e assim os dois ficaram na rua
durante a maior parte do tempo da visita dela, sobretudo em Manhattan, sobretudo comendo em restaurantes, restaurantes baratos para não gastarem seu dinheiro, botecos
e pizzarias e casas de bolinhos chineses, e noventa por cento do tempo que passaram na casa ficaram dentro do quarto, ou fazendo amor ou dormindo. No entanto havia
os inevitáveis encontros com os outros, os cafés da manhã, os encontros acidentais na frente da porta do banheiro, a noite em que eles voltaram para casa mais ou
menos às dez horas e Alice os chamou para ir ao seu quarto e ver o filme que ela definiu como sua obsessão do momento, um filme chamado Os melhores anos de nossas
vidas, pois queria saber o que eles achavam do filme (ele deu nota B-mais no geral e um A para a fotografia, Pilar deu nota A para tudo), mas o objetivo dele era
que ela tivesse o mínimo contato possível com os outros moradores. Não que eles fossem pouco amistosos com ela, mas ele tinha observado seus rostos quando apresentou
Pilar na primeira noite e percebeu em todos, um por um, um breve momento de choque, quando se deram conta de quão jovem ela era, e ele se sentiu relutante em expor
Pilar a situações em que ela pudesse ser tratada por eles com condescendência, de um modo que a fizesse se sentir diminuída ou magoada. Talvez fosse diferente se
ela tivesse mais de um metro e sessenta e dois de altura, se seus peitos fossem maiores, se seus quadris fossem mais largos, mas Pilar deve ter parecido a eles uma
coisinha miúda, quase uma criança, exatamente como ela lhe pareceu na primeira vez em que a viu, e não havia nenhuma razão para tentar desmanchar as impressões iniciais
que eles tiveram de Pilar. A visita ia ser breve demais e além disso ele a queria só para si. Porém, para ser justo com eles, não aconteceu nada desagradável. Alice
concordou em preparar o jantar sozinha enquanto Pilar ficasse na cidade e assim coube a Miles fazer as compras no mercado, questão que ele tratava de resolver logo
de manhã cedo, antes de tudo, e enquanto ele estava fazendo compras, Alice e Pilar tinham uma série de conversas particulares à mesa da cozinha. Alice não demorou
para perceber como Pilar era inteligente e mais tarde, depois que eles saíam de casa, Pilar contava para ele como estava impressionada com Alice, como admirava o
trabalho que ela fazia, como gostava dela. Mas Alice foi a única pessoa que se aproximou de Pilar. Bing parecia meio fora de órbita, um pouco sem graça, atrapalhado
com a presença dela, e a partir do segundo dia assumiu um personagem jocoso a fim de se comunicar com ela (Bing tentando ser engraçado), falava com uma voz que imitava
os filmes de caubói, se dirigia a ela como senhorita Pilar e chegava com tiradas do tipo Ora viva, a senhorita Pilar está aqui, e como está a dama melindrosa nesta
manhã? Ellen se mostrava educada, mas distante, e na única vez em que esteve na casa, Jake ignorou a presença de Pilar.

Ela está se virando bem nas novas circunstâncias na Flórida, mas é a primeira vez que mora sozinha e houve alguns dias difíceis, dias sombrios em que ela teve de
lutar contra a vontade de entregar os pontos e chorar durante horas e horas. Ainda tem boas relações com Teresa e Maria, mas o fosso entre ela e Angela é absoluto
e permanente e ela evita ir para casa quando a irmã mais velha está lá. Maria continua a namorar Eddie Martinez e o marido de Teresa, Carlos, está chegando ao fim
de seu tempo de serviço militar e está escalado para voltar do Iraque e ser substituído em março. Pilar está enjoada do colégio, detesta ter de ir para lá todo dia
de manhã e tem de fazer um esforço enorme para não matar aula, não faltar dias inteiros, mas ela insiste porque não quer desapontar Miles. Ela acha os outros alunos
uns imbecis, sobretudo os rapazes, e tem só duas ou três amigas, duas ou três garotas da sua aula de inglês avançado que parecem pessoas com quem vale a pena conversar.
Ela tem tido muito cuidado com o dinheiro, gasta o mínimo possível e a única despesa imprevista ocorreu pouco antes da viagem para Nova York, quando teve de substituir
o carburador e as velas de ignição da Toyota. Continua a ser uma cozinheira de dar pena, mas um pouco menos do que antes, e não perdeu nem ganhou peso, o que deve
significar que a situação está sob controle, apesar de suas limitações. Um monte de frutas e legumes, arroz e feijão, filés de frango de vez em quando ou hambúrguer
(as duas coisas são fáceis de fazer) e um café da manhã de verdade todo dia - melão, iogurte natural e morangos, cereais tostados. Tem sido uma fase estranha, ela
disse para ele em sua última manhã em Nova York, a fase mais estranha de sua vida, e gostaria que os dias lá passassem mais depressa, que não fossem tão intermináveis,
mas os ponteiros do relógio se arrastam que nem um homem gordo e cansado subindo cem lances de escada, e agora que ela tem de voltar, com certeza vai ser pior ainda,
porque depois que ele foi embora pelo menos havia a expectativa de ela viajar para Nova York, foi aquilo que a manteve de pé durante três semanas, mas agora eles
têm três meses pela frente, aquela ideia parece até que não entra na sua cabeça, três meses até ela poder vê-lo outra vez, e vai ser como viver num limbo, como ir
passar férias no inferno, e tudo por causa de uma data idiota em sua certidão de nascimento, um número arbitrário, um número irracional que não significa nada para
ninguém.

Durante todo o tempo da visita, ele sentiu a tentação de contar a ela a verdade sobre si mesmo, se abrir para ela e revelar a história completa sobre tudo - seus
pais e Bobby, sua infância em Nova York, os três anos na Universidade Brown, os sete anos e meio de exílio insano e autoimposto, tudo. Na manhã em que caminharam
pelo Village, passaram pelo hospital Saint Vincent, onde ele nasceu, passaram pela P. S. 41, a escola que frequentou quando era garoto, passaram pelo prédio de apartamentos
na Downing Street, onde seu pai e sua madrasta ainda moram, e depois foram almoçar no Joe Junior’s, a cantina familiar dos primeiros vinte anos de sua vida, uma
manhã inteira e a parte de uma tarde bem no coração do seu velho território, e aquele foi o dia em que ele chegou mais perto de contar tudo, no entanto, por mais
desesperado que estivesse para contar aquelas coisas sobre si mesmo, ele se conteve e não falou nada. Não era uma questão de medo. Podia ter contado para ela então,
mas não quis estragar os bons momentos que estavam tendo juntos. Pilar estava batalhando lá na Flórida, a viagem para Nova York tinha dado um ânimo novo a ela e
lhe havia devolvido sua atitude esperançosa e vivaz, e simplesmente aquele não era o momento para confessar suas mentiras para ela, arrastá-la para a desolação da
crônica familiar dos Heller. Ele fará isso quando chegar a hora certa, e essa hora só vai chegar depois que ele falar com o pai e a mãe, só depois que tiver visto
o pai e a mãe, só depois que tiver pedido a eles que o aceitem de volta em suas vidas. Agora está pronto para encará-los, pronto para se confrontar com a coisa terrível
que fez a eles, e Pilar é a única responsável por lhe dar a coragem para fazer isso - porque, para ser digno de Pilar, ele deve ter essa coragem.

Ela partiu para a Flórida no dia 3, dois dias atrás. Despedidas inconformadas, a agonia de ver o rosto dela através da janela e depois o ônibus deu partida, desceu
a rampa e sumiu. Ele pegou o metrô de volta para Sunset Park e, no momento em que entrou em seu quarto, sentou-se na cama, pegou o telefone celular e ligou para
a mãe. Só poderia falar com o pai na segunda-feira, mas tinha de fazer alguma coisa agora, ver o ônibus descer pela rampa tornou impossível não fazer alguma coisa,
e, se o pai não estava acessível, então ia começar pela mãe. Primeiro pensou em telefonar para o teatro, achando que seria a melhor maneira de conseguir falar com
ela, mas depois lhe ocorreu que talvez o número do celular dela fosse o mesmo de sete anos atrás. Ligou para descobrir e lá estava o recado dizendo que estaria em
Nova York durante os próximos quatro meses e, se a pessoa quisesse entrar em contato com ela, deveria ligar para o seguinte número. Era uma tarde de sábado, uma
fria tarde de sábado no início de janeiro, e ele supôs que ela devia estar em casa num dia feioso como aquele, mantendo os pés bem aquecidos e fazendo palavras cruzadas
no sofá, e quando ele telefonou para o número de Nova York, estava plenamente confiante em que ela ia atender no segundo ou terceiro toque. Mas não atendeu. O telefone
tocou quatro vezes e então veio uma mensagem, mais uma mensagem com a voz dela, dizendo que estava fora de casa e pedindo que quem quisesse deixar recado por favor
esperasse o sinal. Ele ficou tão desorientado com aquela situação inesperada que teve um branco e a única coisa que conseguiu pensar em dizer foi: Hmm. Pausa demorada.
Desculpe. Pausa demorada. Vou ligar de novo.

Resolveu voltar atrás, retomar seu plano original e falar primeiro com o pai.

Agora é manhã de segunda-feira, dia 5 de janeiro, e ele acabou de ligar para o escritório do pai, só para ser informado de que o pai viajou de volta para a Inglaterra
ontem a fim de tratar de assuntos urgentes. Ele pergunta quando o senhor Heller estará de volta a Nova York. Não está claro, a voz lhe responde. Ligue no final da
semana. Até lá já devemos ter alguma notícia.

Nove horas depois, liga de novo para o telefone da mãe em Nova York. Dessa vez ela está em casa. Dessa vez ela atende o telefone e fala.

 

Ellen Brice

Dois vale mais que um. Um é melhor que quatro. Três pode ser demais, ou a conta exata. Cinco é ir longe demais. Seis é delírio.

Agora ela está avançando, penetrando cada vez mais fundo no mundo subterrâneo do seu nada, o lugar dentro dela que coincide com tudo o que ela não é. O céu acima
dela é cinzento, azul ou branco, às vezes amarelo ou vermelho, às vezes roxo. A terra abaixo dela é verde ou marrom. Seu corpo se encontra na articulação entre o
céu e a terra e pertence a ela e a mais ninguém. Seus pensamentos pertencem a ela. Seus desejos pertencem a ela. Atolada no reino do um, ela conjura o dois e o três
e o quatro e o cinco. Às vezes o seis. Às vezes até o sessenta.

Depois da cena infeliz com Alice no mês passado, ela compreendeu que ia ter de tocar o barco sozinha. Por causa de seu emprego, anda ocupada demais para se matricular
num curso, para perder horas preciosas andando de metrô para lá e para cá, para Pratt ou Cooper Union ou SVA. O trabalho é o que conta e, se ela tem intenção de
fazer algum progresso, precisa trabalhar de maneira contínua, com ou sem um professor, com ou sem modelos-vivos, pois a essência do trabalho reside em sua mão e,
toda vez que ela consegue se erguer acima de si mesma e pôr a mente em suspenso, faz com que aquela mão veja. A experiência lhe ensinou que o vinho ajuda. Algumas
taças de vinho para fazê-la esquecer quem ela é, e aí consegue trabalhar durante horas, muitas vezes até tarde da noite.

O corpo humano é estranho, falho e imprevisível. O corpo humano tem muitos segredos e não os divulga para qualquer um, exceto para aqueles que aprenderam a esperar.
O corpo humano tem ouvidos. O corpo humano tem mãos. O corpo humano é criado dentro de um outro corpo humano e o ser humano que emerge desse outro corpo humano é
necessariamente pequeno, fraco e indefeso. O corpo humano é criado à imagem de Deus. O corpo humano tem pés. O corpo humano tem olhos. O corpo humano é múltiplo
em suas formas, suas manifestações, seus graus de tamanho, formato e cor, e olhar para um corpo humano é apenas apreender aquele corpo humano e nenhum outro. O corpo
humano pode ser apreendido, mas não pode ser compreendido. O corpo humano tem ombros. O corpo humano tem joelhos. O corpo humano é um objeto e um sujeito, o lado
de fora de um lado de dentro que não pode ser visto. O corpo humano cresce do pequeno da infância para o grande da idade adulta, e depois começa a morrer. O corpo
humano tem quadris. O corpo humano tem cotovelos. O corpo humano vive na mente de quem possui um corpo humano e morar dentro do corpo humano dotado da mente que
percebe um outro corpo humano é viver num mundo de outros. O corpo humano tem cabelo. O corpo humano tem boca. O corpo humano tem órgãos genitais. O corpo humano
é criado do pó e, quando esse corpo humano não existe mais, volta ao pó de onde veio.

Ela trabalha agora com várias fontes: reproduções de pinturas e desenhos de outros artistas, fotos em preto e branco de nus masculinos e femininos, fotografias médicas
de bebês, crianças e velhos, o espelho de corpo inteiro que ela pendurou na parede diante da cama para ter uma visão completa de si mesma, revistas pornográficas
voltadas para diversos apetites e inclinações (desde fotos de moças em trajes sumários até cópulas de dois sexos, cópulas de homem com homem, cópulas de mulher com
mulher, cópulas de três, quatro e cinco pessoas, em todas as permutações matemáticas possíveis), e o pequeno espelho de mão que ela usa para observar a própria vagina.
Uma porta se abriu dentro dela e ela atravessou o limiar para um novo modo de pensar. O corpo humano é um instrumento de conhecimento.

Agora não há tempo para pintura. O desenho é mais rápido e mais tátil, mais adequado à premência de seu projeto, e ela encheu cadernos e mais cadernos de esboços
no último mês com suas tentativas de se libertar de seus métodos antigos. Durante a primeira hora de trabalho, ela faz um aquecimento se concentrando nos detalhes,
áreas isoladas de um corpo escolhido em sua coleção de imagens ou descoberto num dos dois espelhos. Uma página de mãos. Uma página de olhos. Uma página de bundas.
Uma página de braços. Depois ela passa para corpos inteiros, retrata figuras individuais em diversas poses: uma mulher nua de pé, de costas para o observador, um
homem nu sentado no chão, um homem nu estirado na cama, uma garota nua de cócoras no chão e urinando, uma mulher nua sentada numa cadeira com a cabeça tombada para
trás, enquanto envolve o seio direito na palma da mão direita e aperta o mamilo do seio esquerdo com a mão esquerda. São retratos íntimos, diz ela, não são desenhos
eróticos, corpos humanos fazendo o que corpos humanos fazem quando não há ninguém olhando, e se muitos dos homens nesses retratos individuais têm ereções, é porque
o homem médio tem cinquenta ereções e semiereções a cada dia - ou pelo menos foi o que ela ouviu dizer. Depois, na última etapa do exercício, reúne as figuras. Uma
mulher nua segurando nos braços um bebê nu. Um homem nu beijando o pescoço de uma mulher nua. Um velho nu e uma velha nua sentados na cama com os braços em volta
um do outro. Uma mulher nua beijando o pênis de um homem nu. Dois vale mais que um, seguido pelo mistério do três: três mulheres nuas; duas mulheres nuas e um homem
nu; uma mulher nua e dois homens nus; três homens nus. As revistas pornográficas são bastante explícitas sobre o que acontece nessas situações e a franqueza das
revistas a inspira a trabalhar sem medo nem inibição. Dedos entraram em vaginas. Bocas rodearam pênis eretos. Pênis entraram em vaginas. Ânus foram abertos. Porém,
é importante notar a diferença entre fotografia e desenho. Se a primeira não deixa espaço para a imaginação, o segundo habita exclusivamente o reino da imaginação
e portanto todo o ser de Ellen se inflama quando ela trabalha naqueles desenhos, já que ela nunca se limita a simplesmente copiar a foto que está olhando, mas usa
a foto para imaginar uma nova cena, inventada por ela mesma. Às vezes fica excitada com o que seu lápis faz com a página à sua frente, excitada por causa das imagens
que borbulham em sua cabeça enquanto desenha, as quais são semelhantes às imagens que borbulham em sua cabeça quando se masturba de noite, mas a excitação não passa
de um subproduto do esforço e o que ela sente na maior parte do tempo são as exigências do próprio trabalho, o desejo constante e premente de acertar. Os desenhos
são toscos e em geral ficam inacabados. Ela quer que seus corpos humanos transmitam a milagrosa estranheza de estar vivo - não mais que isso, tanto quanto tudo isso.
Não está preocupada com a ideia da beleza. A beleza pode cuidar de si mesma.

Duas semanas atrás, houve um avanço animador, algo inesperado que ainda está em processo de se definir. Alguns dias antes de a garota da Flórida chegar ao Brooklyn
e destruir suas esperanças de um dia conquistar Miles, Bing pediu para ver seus novos trabalhos. Ela o levou até seu quarto lá em cima, depois do jantar, a trepidação
crescendo dentro dela a cada degrau que subiam, segura de que ele ia rir dela enquanto folheava ao acaso os cadernos de esboços e depois a dispensaria com um sorriso
educado e uma palmadinha no ombro, mas ela sentiu que devia correr o risco dessa potencial humilhação, ela estava queimando por dentro, os desenhos agora a consumiam
e alguém além dela mesma tinha de olhar para eles. Em circunstâncias normais, teria pedido para Alice, porém Alice a havia desiludido naquele dia em dezembro, quando
a neblina tinha apagado o cemitério, e embora as duas já tivessem se perdoado fazia tempo por aquele ridículo mal-entendido, ela temia pedir a Alice porque achava
que Alice ia ficar constrangida com as imagens, chocada, ia até sentir repulsa, porque, apesar de Alice ser uma amiga boa e leal, sempre teve um toque de caretice.
Bing tem a cabeça mais aberta, é mais direto (até grosseiro, muitas vezes) quando fala de assuntos sexuais e, enquanto subia a escada a seu lado e abria a porta,
ela se deu conta de que havia bastante coisa erótica nos desenhos, bastante coisa sacana, se a pessoa quisesse encarar desse ângulo, e talvez aquela obsessão com
corpos humanos estivesse saindo um pouco de seu controle, talvez mostrasse que ela estava começando a pirar outra vez - o primeiro sinal de outro colapso nervoso.
Mas Bing adorou os desenhos, achou-os estupendos, uma ruptura arrojada, extraordinária, e, como ele espontaneamente saltou da cama e lhe deu um beijo depois de olhar
o último desenho, ela sabia que ele não estava mentindo.

Mas a opinião de Bing não significa nada, é claro. Ele não tem nenhum conhecimento de artes visuais, nada sabe da história da arte, não tem nenhuma capacidade de
julgar o que está vendo. Quando ela mostrou para ele uma reprodução de A origem do mundo, de Courbet, seus olhos ficaram arregalados, mas, quando ela lhe mostrou
uma imagem semelhante das partes íntimas de uma mulher numa de suas revistas de mulher pelada, os olhos de Bing também se arregalaram, e ela ficou triste por estar
com uma pessoa tão limitada esteticamente, um homem incapaz de dizer a diferença entre uma obra de arte revolucionária e ousada e sacanagem chapada, ordinária. Contudo
ela ficou estimulada pelo entusiasmo dele, espantada ao ver como se sentia feliz ouvindo Bing lhe fazer elogios. Ignorante ou não, a reação de Bing aos desenhos
foi visceral e autêntica, estava comovido com o que ela havia feito, não conseguia parar de falar sobre como aquele trabalho era honesto e forte e, durante todos
os anos que ela tinha passado pintando e desenhando, ninguém jamais tinha falado com ela assim, nem uma vez.

A benevolência que emanou de Bing naquela noite a levou a se sentir confiante o suficiente para lhe fazer uma pergunta, a pergunta, a única pergunta que ela não
se atrevia a fazer a ninguém, desde que Alice a tinha rejeitado no mês passado. Ele estaria disposto a posar para ela? Trabalhar com espelhos e imagens bidimensionais
poderia levá-la só até ali, ela disse, mas, se pretendia de fato realizar alguma coisa de peso com aquela investigação da figura humana, em algum ponto teria de
começar a trabalhar com modelos-vivos, pessoas tridimensionais, pessoas vivas, que respiravam. Bing pareceu ficar lisonjeado com sua proposta, mas também um pouco
aflito. Não estamos falando aqui de um corpo belo, disse ele. Bobagem, respondeu Ellen. Você corporifica você e, como você não quer ser ninguém senão você, não deve
ter medo.

Os dois beberam duas taças de vinho, o que vale dizer que esvaziaram uma garrafa, os dois, e depois Bing tirou a roupa e sentou-se na cadeira junto à escrivaninha,
enquanto ela se instalou na cama, sentada à maneira indiana, com o caderno de esboços no colo. O interessante foi que ele não pareceu ter medo. Corpo volumoso e
tudo o mais, com barriga proeminente, coxas grossas, peito cabeludo e bunda larga e flácida, ele ficou ali sentado calmamente, enquanto ela desenhava, sem dar nenhum
sinal de desconforto ou timidez, e, dez minutos depois de começado o primeiro desenho, quando ela lhe perguntou como estava se sen­­tindo, ele respondeu que estava
tudo bem, confiava nela, que nunca havia imaginado como iria gostar de ser olhado daquele jeito. O quarto era pequeno, estavam a menos de um metro e meio de distância
um do outro, e, quando ela começou a desenhar o pênis de Bing pela primeira vez, lhe ocorreu que não estava mais olhando para um pênis, mas para uma pica, que pênis
era a palavra para a coisa no desenho, mas pica era a palavra para a coisa a apenas um metro e meio dela, na sua frente, e falando objetivamente ela tinha de admitir
que Bing tinha uma pica bonita, nem mais comprida nem mais curta do que a maioria das que tinha visto na vida, porém mais grossa do que a maioria, bem formada e
sem peculiaridades ou máculas, um exemplar de primeira do aparato masculino, não o que chamam de pinto fino como um lápis (onde ela havia escutado essa expressão?),
mas uma corpulenta caneta-tinteiro, uma rolha considerável para qualquer orifício. No terceiro desenho, ela perguntou se ele se importava de brincar consigo mesmo
um pouco, assim ela poderia ver o que acontecia quando ele ficava duro, e Bing respondeu que não tinha nenhum problema, posar para ela na verdade o estava deixando
muito excitado e aquilo não o incomodava nem um pouco. No quarto desenho, pediu a ele que se masturbasse para ela e, mais uma vez, Bing concordou com toda a boa
vontade, mas, só para se garantir, perguntou se ela não preferia tirar a roupa e deixar que ele se juntasse a ela na cama, mas ela disse que não, preferia ficar
vestida e continuar desenhando, mas se, no último instante, ele quisesse sair da cadeira, andar até a cama e terminar o que estava fazendo na sua boca, ela não faria
nenhuma objeção.

Houve mais cinco sessões desde então. A mesma coisa aconteceu nas cinco vezes, mas isso não passa de uma breve interrupção, um pequeno presente que dão um ao outro
no intervalo de alguns minutos, e depois o trabalho segue em frente como antes. É um acordo perfeitamente justo, ela acha. Seus desenhos já progrediram por causa
de Bing e ela tem certeza de que a perspectiva de gozar em sua boca vai mantê-lo interessado em posar para ela, pelo menos por enquanto, pelo menos no futuro próximo,
e mesmo que ela não tenha nenhum desejo de tirar a roupa para ele, o contato é reconfortante e ela também tem prazer com isso. Preferia estar desenhando Miles, é
claro, e se fosse Miles e não Bing que posasse para ela, não hesitaria em tirar a roupa para ele e deixá-lo fazer o que quisesse com ela, mas isso nunca vai acontecer,
ela agora sabe disso, e não deve deixar que sua frustração a desvie do seu caminho. Miles a assusta. O poder que tem sobre ela a deixa mais assustada do que qualquer
outra coisa que já a assustou em muitos anos, e mesmo assim ela não consegue deixar de querê-lo. Mas Miles quer a garota da Flórida, ele adora a garota da Flórida,
e, quando a garota chegou ao Brooklyn e ela viu como Miles olhava para ela, ela entendeu que era o fim de tudo. Pobre Ellen, murmura, falando para ninguém no quarto
vazio, pobre Ellen Brice que sempre perde para outra pessoa, não sinta pena de si mesma, continue com seus desenhos, continue deixando Bing gozar em sua boca e,
mais cedo ou mais tarde, todos vocês terão ido embora de Sunset Park, essa casinha ordinária será demolida e esquecida e a vida que vocês vivem agora vai desaparecer
no esquecimento, ninguém vai lembrar que vocês estiveram aqui um dia, nem mesmo você, Ellen Brice, e Miles Heller vai evaporar de seu coração, da mesma forma que
você já evaporou do coração dele, nunca esteve no coração dele, nunca esteve no coração de ninguém, nem mesmo em seu próprio coração.

Dois é o único número que conta. Um define o real, talvez, mas todos os outros números são pura fantasia, linhas a lápis numa página em branco.

No domingo, 4 de janeiro, ela vai visitar a irmã no Upper West Side e, um de cada vez, segura os corpos nus de seus sobrinhos gêmeos, Nicholas e Bruno. Nomes tão
masculinos para sujeitinhos tão miúdos, pensa ela, só dois meses de idade e com tudo ainda pela frente, num mundo que se desfaz em pedaços, e, enquanto segura primeiro
um e depois outro em seus braços, fica espantada com a maciez da pele, a suavidade dos corpos enquanto os aperta contra seu pescoço e suas bochechas, sente a carne
jovem na palma das mãos e ao longo dos antebraços nus, e mais uma vez lembra a expressão que tem se repetido para ela desde que lhe veio à cabeça pela primeira vez
no mês passado: a estranheza de estar vivo. Pense só, diz ela para a irmã, Larry mete sua pica dentro de você numa noite e, nove meses depois, saem esses dois homenzinhos.
Não faz nenhum sentido, não é? A irmã ri. É assim que são as coisas, meu anjo, diz ela. Uns poucos minutos de prazer, seguidos de uma vida inteira de trabalho duro.
Depois de uma breve pausa, ela olha para Ellen e diz: Mas não, não faz nenhum sentido - absolutamente nenhum sentido.

No metrô a caminho de casa naquela noite, ela pensa em seu próprio filho, o filho que nunca nasceu, e se pergunta se aquela foi sua única chance ou se chegará o
dia em que uma criança vai começar a se formar dentro dela de novo. Pega seu caderninho e escreve:

O corpo humano não pode existir sem outros corpos hu­­manos.

O corpo humano precisa ser tocado - não só corpos humanos pequenos, mas corpos humanos grandes também.

O corpo humano tem pele.

 

Alice Bergstrom

Toda segunda, quarta e quinta-feira, ela pega o metrô para Manhattan e vai para seu trabalho de meio expediente no PEN American Center na Broadway, número 588, ao
sul da Houston Street. Começou a trabalhar lá no verão passado, depois de largar seu cargo de professora assistente no Queens College, porque aquele emprego comia
horas demais e não deixava tempo nenhum para ela escrever sua dissertação. Reforço de inglês e inglês para calouros, só duas aulas, mas cinquenta alunos que escreviam
um texto por semana, e depois as três entrevistas particulares obrigatórias com cada um dos alunos, cada semestre, cento e cinquenta entrevistas ao todo, setecentos
textos para ler, corrigir e dar nota, preparar as aulas, elaborar listas de leituras, inventar bons temas, o desafio de prender a atenção dos alunos, a necessidade
de vestir-se bem, a longa viagem diária, ida e volta, até Flushing, e tudo em troca de uma remuneração ofensivamente baixa, sem nenhum benefício, uma remuneração
que se resumia a menos de um salário mínimo (ela fez as contas um dia e calculou quanto ganhava por hora), o que significava que o pagamento que recebia para fazer
um trabalho que a impedia de fazer seu próprio trabalho era menos do que ganharia como auxiliar de uma lavadora de automóveis ou como chapeira numa lanchonete. O
PEN também não paga grande coisa, mas ela só lhes dá quinze horas por semana, sua dissertação está avançando outra vez e ela acredita nos propósitos da organização,
o único grupo de direitos humanos no mundo dedicado exclusivamente a proteger escritores - escritores presos por governos injustos, escritores que vivem sob ameaça
de morte, escritores banidos por publicarem sua obra, escritores no exílio. P-E-N. Poetas e publishers, escritores e editores, nefelibatas. Só podem lhe pagar doze
mil e setecentos dólares por seu emprego de meio expediente, mas toda vez que ela entra no prédio número 588 da Broadway e pega o elevador até o terceiro andar,
pelo menos sabe que não está desperdiçando seu tempo.

Tinha dez anos de idade quando a fatwa foi declarada contra Salman Rushdie. Na época, ela já era uma leitora dedicada, uma garota que vivia na terra dos livros,
naquele momento imersa nos oito romances da série Anne de Green Gables, sonhando em se tornar escritora um dia, e então veio a notícia do homem que morava na Inglaterra
e que tinha publicado um livro que deixou furiosa tanta gente de regiões distantes do mundo que o líder barbudo de um país de fato tomou a frente e declarou que
o homem na Inglaterra devia ser morto pelo que havia escrito. Aquilo era incompreensível para ela. Livros não eram perigosos, disse para si mesma, só traziam prazer
e felicidade às pessoas que os liam, faziam as pessoas se sentirem mais vivas e mais ligadas umas às outras, e, se o líder barbudo daquele país no outro lado do
mundo era contra o livro do inglês, bastava parar de ler o livro, jogá-lo em algum canto e esquecer. Ameaçar matar alguém por ter escrito um romance, uma história
de faz de conta passada num mundo de faz de conta, era a coisa mais burra de que tinha ouvido falar. Palavras são inofensivas, sem nenhum poder para ferir alguém,
e ainda que algumas palavras sejam ofensivas para certas pessoas, palavras não eram facas nem balas, eram apenas sinais pretos em folhas de papel e não podiam matar
nem ferir nem causar nenhum dano real. Foi essa sua reação à fatwa aos dez anos de idade, sua reação ingênua, mas séria, à absurda injustiça que fora cometida, e
sua revolta foi ainda mais forte porque se misturou ao medo, pois era a primeira vez que ela era exposta à feiura do ódio brutal, irracional, a primeira vez que
seus jovens olhos olharam para as trevas do mundo. O caso continuou, é claro, durou muitos anos depois daquela acusação no dia de São Valentim de 1989 e ela cresceu
ouvindo a história de Salman Rushdie - os atentados a bomba contra livrarias, a faca no coração de seu tradutor para o japonês, as balas nas costas de seu editor
norueguês - a história foi se entranhando nela enquanto passava da infância para a adolescência e, quanto mais velha ficava, mais compreendia a respeito do perigo
das palavras, a ameaça para o poder que as palavras podem representar e, em Estados governados por tiranos e policiais, todo escritor que se atreve a se expressar
livremente está em risco.

O Programa Liberdade para Escrever do PEN é dirigido por um homem chamado Paul Fowler, poeta nas horas vagas, ativista dos direitos humanos por profissão, e, quando
ofereceu aquele emprego para Alice no verão passado, disse para ela que a filosofia subjacente do trabalho deles era extremamente simples: fazer bastante barulho,
o máximo de barulho possível. Paul tem uma adjunta em horário integral: Linda Nicholson, mulher nascida no mesmo dia que Alice, e os três compõem a equipe do reduzido
departamento dedicado à produção de barulho. Mais ou menos metade do que eles fazem se concentra em questões internacionais, a campanha para reformular o Artigo
301 do código penal turco, por exemplo, a lei do atentado à honra que ameaça a vida e a segurança de um grande número de escritores e jornalistas por fazerem críticas
sobre seu país, bem como as tentativas de conquistar a soltura de escritores aprisionados em diversos locais ao redor do mundo, os escritores birmaneses, os escritores
chineses, os escritores cubanos, muitos dos quais sofrem problemas médicos graves por causa dos maus-tratos e/ou da negligência, e fazendo pressão sobre os diversos
governos responsáveis por essas violações da lei internacional, expondo essas histórias para a imprensa mundial, fazendo circular petições assinadas por centenas
de escritores célebres, o PEN muitas vezes conseguiu constranger esses governos a soltar os presos, não tantas vezes como gostariam, mas o suficiente para saber
que tais métodos podem funcionar, vezes suficientes para continuar tentando, e em muitos casos para continuar tentando durante anos. A outra metade daquilo que eles
fazem tem relação com questões domésticas: a proibição de certos livros em escolas e bibliotecas, por exemplo, ou a campanha em curso pelas Liberdades Fundamentais,
iniciada pelo PEN em 2004 em reação à Lei Patriótica aprovada pelo governo Bush, que conferiu ao governo dos Estados Unidos um poder sem precedentes para monitorar
as atividades dos cidadãos americanos e reunir informações sobre suas relações pessoais, hábitos de leitura e opiniões. No relatório que Alice ajudou Paul a redigir,
não muito depois de começar a trabalhar com ele, o PEN agora está exigindo as seguintes ações: expansão das salvaguardas dos arquivos de livrarias e bibliotecas,
enfraquecidas pela Lei Patriótica; controle do emprego das Cartas de Segurança Nacional; redução do âmbito dos programas de vigilância secreta; fechamento de Guantánamo
e de todas as prisões secretas remanescentes; fim da tortura, das detenções arbitrárias e da prisão extraordinária; expansão dos programas de reassentamento de refugiados
para escritores iraquianos ameaçados. No dia em que foi contratada, Paul e Linda disseram para ela não ficar assustada com os estalos que ia ouvir quando usasse
o telefone. As linhas no PEN estavam grampeadas e além disso o governo dos Estados Unidos e o da China tinham hackeado os computadores.

É a primeira segunda-feira do ano novo, dia 5 de janeiro, e ela acaba de viajar para Manhattan a fim de começar mais um turno de cinco horas no quartel-general do
PEN. Ela vai ficar trabalhando das nove da manhã até as duas horas hoje, horário em que vai retornar para Sunset Park e dedicar mais algumas horas à sua dissertação,
obrigando-se a ficar sentada diante de sua escrivaninha até as seis e meia, tentando cavar a duras penas mais um ou dois parágrafos sobre Os melhores anos de nossas
vidas. Seis e meia é quando ela e Miles combinaram de se encontrar na cozinha para começar a preparar o jantar. Vão cozinhar juntos pela primeira vez desde que Pilar
voltou para a Flórida, e ela espera com ansiedade esse momento, espera com ansiedade ficar sozinha por alguns instantes com o señor Heller de novo, pois o señor
Heller se revelou uma pessoa exatamente tão interessante quanto Bing havia anunciado, e ela tem prazer em ficar perto dele, falar com ele, observá-lo se mexer. Alice
não se apaixonou por ele da maneira como a pobre Ellen se apaixonou, não perdeu a cabeça nem rogou pragas contra a inocente Pilar Sanchez por ter roubado o coração
de Miles, porém o meditativo e impenetrável Miles Heller, de fala mansa, a tocou num ponto sensível e ela acha difícil recordar como eram as coisas na casa antes
de ele chegar. Pela quarta noite consecutiva, Jake não virá e ela sofre por perceber que isso a deixa contente.

Ainda está pensando em Jake quando sai do elevador no terceiro andar, se perguntando se afinal chegou o momento de pôr as cartas na mesa diante dele, ou se ela deve
adiar aquilo por mais um tempo, esperar até que os dois quilos que perdeu em dezembro se tornem três quilos e meio, cinco quilos, quantos quilos forem necessários
para ela parar de contá-los. Paul já está sentado diante de sua escrivaninha, falando com alguém no telefone, e acena para ela do outro lado do vidro que separa
seu escritório da sala externa, onde fica a escrivaninha de Alice, sua pequena e atulhada escrivaninha, diante da qual agora ela se senta e liga o computador. Linda
chega poucos minutos depois, as bochechas coradas por causa do ar frio da manhã, e, antes de tirar o casaco e começar a trabalhar, ela se aproxima de Alice, dá um
grande beijo em sua bochecha esquerda e lhe deseja um feliz ano novo.

Paul emite o som de um resmungo de dentro de seu escritório, um som que podia significar surpresa ou frustração ou desalento, nada está claro, muitas vezes Paul
emite sons ambíguos depois que desliga o telefone, e, quando Alice e Linda se viram para olhar através do vidro, Paul já está de pé, caminhando na direção delas.
Houve um novo desdobramento. No dia 31 de dezembro, as autoridades chinesas permitiram que Liu Xiaobo recebesse a visita da esposa.

Esse é o novo caso do PEN, o caso mais premente na agenda atual, e desde que Liu Xiaobo foi preso no início de dezembro, eles quase que não se dedicaram a outra
coisa. Paul e Linda estão ambos pessimistas quanto ao futuro imediato, os dois estão seguros de que o Departamento de Segurança Pública de Pequim vai manter Liu
preso até se reunirem provas suficientes contra ele para que seja apresentado um pedido formal de prisão, sob a acusação de incitar a subversão do poder do Estado,
o que pode levá-lo a ficar preso por quinze anos. Seu crime: ser coautor de um documento intitulado Carta 08, uma declaração reivindicando a reforma política, direitos
humanos mais amplos e fim da lei do partido único na China.

Liu Xiaobo começou como crítico literário e professor na Universidade Normal de Pequim, um personagem importante o suficiente para ter trabalhado como pesquisador
visitante em várias instituições estrangeiras, em especial na Universidade de Oslo e na Universidade Columbia, em Nova York, a Universidade Columbia de Alice, o
lugar onde ela vem batalhando para concluir seu doutorado, e o ativismo de Liu remonta a 1989, o ano dos anos, o ano da queda do Muro de Berlim, o ano da fatwa,
o ano da praça Tiananmen, e foi exatamente então, na primavera de 1989, que Liu largou seu cargo em Columbia e voltou para Pequim, onde começou uma greve de fome
na praça Tiananmen em apoio aos estudantes e preconizou métodos não violentos de protesto a fim de evitar mais derramamento de sangue. Por causa disso passou dois
anos na prisão e depois, em 1996, foi sentenciado a três anos de reeducação por meio de trabalho por ter sugerido que o governo chinês devia abrir negociações com
o dalai-lama do Tibete. Seguiram-se mais pressões e desde então ele vive sob vigilância policial. Sua última prisão ocorreu no dia 8 de dezembro de 2008, por coincidência
ou não, um dia antes do sexagésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ele está preso num local secreto, sem acesso a advogados, sem material
para escrever, sem meios de se comunicar com ninguém. Será que a visita de sua esposa na véspera do Ano-Novo significa uma mudança importante, ou foi apenas um pequeno
gesto de misericórdia que não terá nenhum peso para o desfecho do caso?

Alice passa a manhã e o início da tarde escrevendo e-mails para outras sucursais do PEN em todo o mundo, montando uma lista de apoio para o protesto massivo que
Paul pretende organizar em defesa de Liu. Ela trabalha com uma espécie de fervor de justiça, ciente de que homens como Liu Xiaobo são o alicerce da humanidade, que
poucos homens ou mulheres são corajosos o bastante para resistir e pôr a própria vida em risco pelos outros, e ao lado deles todos nós não somos nada, vagando acorrentados
a nossa fraqueza, nossa indiferença e nosso conformismo embotado, e quando um homem como esse está prestes a ser sacrificado por causa de sua fé nos outros, os outros
devem fazer tudo o que puderem para salvá-lo, e no entanto, embora Alice esteja cheia de fúria enquanto trabalha, ela trabalha também numa espécie de desespero,
percebendo a inutilidade do esforço que eles estão à beira de desencadear, pressentindo que indignação alguma será capaz de alterar os planos das autoridades chinesas
e, ainda que o PEN consiga arrastar um milhão de pessoas para bater tambores em todo o mundo, há pouca chance de que esses tambores sejam ouvidos.

Alice pula o almoço e trabalha direto até a hora de ir embora e, quando sai do prédio e toma a direção do metrô, continua sob o feitiço do caso de Liu Xiaobo, ainda
tentando encontrar um modo de interpretar a visita de sua esposa na véspera do Ano-Novo, a mesma véspera de Ano-Novo que ela passou com Jake e um grupo de amigos
no Upper West Side, e todo mundo beijou todo mundo à meia-noite, um costume meio bobo, mas mesmo assim ela gostava daquilo, gostava de ser beijada por todo mundo,
e agora, quando desce a escada para o metrô, ela se pergunta se a polícia chinesa deixou que a esposa de Liu ficasse com ele até a meia-noite e, caso sim, se os
dois se beijaram quando o relógio bateu as doze badaladas, supondo que as autoridades tenham permitido que os dois se beijassem, e se foi assim, como seria beijar
seu marido naquelas circunstâncias, com policiais vigiando e sem nenhuma garantia de que você voltaria a ver seu marido outra vez.

Normalmente, Alice leva um livro para ler no metrô, mas ela dormiu meia hora a mais de manhã e, na correria para sair de casa a tempo de não chegar atrasada ao trabalho,
esqueceu de pegar um livro, e como o vagão está quase vazio às duas e quinze da tarde, não há pessoas suficientes a bordo para ela usar os quarenta minutos de viagem
para estudar os outros passageiros, um amado passatempo nova-iorquino, sobretudo para uma nova-iorquina transplantada, criada no Meio-Oeste, e sem nada para ler
e sem caras suficientes para olhar, ela remexe o fundo de sua bolsa, pega um caderninho e faz algumas anotações rápidas sobre o trecho que planeja escrever quando
chegar em casa. Os soldados que retornam da guerra não só são estranhos para a esposa, ela vai argumentar, como também não sabem mais como falar com os filhos. Há
uma cena no início do filme que define o tom dessa fenda entre gerações e é isso que ela vai atacar hoje, essa cena específica, aquela em que Fredric March chama
seu filho, que tem a idade de um aluno do ensino médio, e o presenteia com seus troféus de guerra, uma espada de samurai e uma bandeira do Japão, e ela acha que
é inesperado, mas totalmente apropriado, que o rapaz não demonstre nenhum interesse por aqueles objetos, que ele prefira falar sobre Hiroxima e sobre a perspectiva
do aniquilamento nuclear a comentar os presentes que o pai lhe deu. Sua mente já está voltada para o futuro, para a guerra seguinte, como se a guerra que acabou
de ser travada já estivesse num passado remoto, e, por consequência, ele não faz nenhuma pergunta para o pai, não tem curiosidade bastante para querer saber como
foram obtidos aqueles suvenires, e uma cena na qual a gente espera que o rapaz vai querer ouvir o pai contar suas aventuras no campo de batalha termina com o rapaz
esquecendo de levar a espada e a bandeira quando sai do quarto. O pai não é um herói aos olhos do filho - é uma figura obsoleta, de uma era passada. Um pouco depois,
quando March e Myrna Loy estão sozinhos no quarto, ele se vira para ela e diz: É apavorante. Loy: O quê? March: A juventude! Loy: Você não topou com jovens no exército?
March: Não. Eram todos velhos... feito eu.

Miles Heller é velho. A ideia lhe ocorre do nada, mas, assim que se instala em seu pensamento, ela entende que descobriu uma verdade essencial, aquilo que o distingue
de Jake Baum e de Bing Nathan e de todos os jovens que ela conhece, a geração de garotos faladores, a turma da verborragia de 2009, ao passo que o señor Heller não
fala quase nada, é incapaz de ficar de conversa fiada e se recusa a dividir seus segredos com quem quer que seja. Miles esteve numa guerra e todos os soldados são
ho­­mens velhos quando voltam para casa, homens fechados que nunca falam sobre as batalhas em que lutaram. De que guerra Miles Heller voltou, ela se pergunta, que
combates ele presenciou, por quanto tempo ficou longe de casa? É impossível saber, mas não há a menor dúvida de que foi ferido, de que anda por aí com uma ferida
interna que nunca vai cicatrizar, e talvez seja por isso que ela o respeita tanto - porque ele sofre e nunca fala nada sobre isso. Bing faz alarde e Jake se lamuria,
mas Miles refreia a língua. Nem mesmo está claro para ela o que Miles está fazendo em Sunset Park. Um dia, no início do mês passado, pouco depois de ele se mudar
para lá, ela lhe perguntou por que havia deixado a Flórida, mas a resposta dele foi tão vaga - Tenho alguns assuntos pendentes para resolver aqui - que pode significar
qualquer coisa. Que assuntos pendentes? E por que se mudar para longe de Pilar? Ele está tão obviamente apaixonado pela garota, então por que diabos resolveu se
mudar para o Brooklyn?

Se não fosse Pilar, ela se preocuparia ativamente com Miles. Sim, foi um pouco desconcertante ser apresentada a alguém tão jovem, uma aluna do ensino médio em sua
divertida parca verde e luvas vermelhas de lã, mas aquela sensação rapidamente se desfez quando Alice compreendeu como ela é sagaz e estruturada, e a melhor coisa
a respeito daquela garota é o mero fato de Miles ser dedicado a ela, e com base nas observações de Alice durante a visita de Pilar, ela acredita que o que teve diante
dos olhos é provavelmente um amor excepcional, e se Miles é capaz de amar alguém da maneira como ama aquela garota, isso deve significar que os danos dentro dele
não são sistêmicos, que suas feridas são específicas, em áreas específicas da alma, e que não estão sangrando em outras partes dele, e portanto a escuridão que há
em Miles não aflige a mente de Alice da maneira como acontecia antes de Pilar ter vivido com eles durante aqueles dez ou onze dias. Era difícil não sentir alguma
inveja, é claro, ao observar Miles nos momentos em que ele olhava para sua amada, falava com sua amada, tocava sua amada, não porque ela queira que ele olhe para
ela daquele jeito, mas porque Jake não faz mais isso e, por mais tolo que seja comparar Jake ao señor Heller, há momentos em que ela não consegue se controlar. Jake
tem inteligência, talento e ambição, ao passo que Miles, a despeito de todas as suas virtudes mentais e físicas, é completamente isento de ambição, parece satisfeito
em ir gastando os dias sem paixão nem objetivo, e no entanto Miles é um homem e Jake ainda é um menino, porque Miles esteve na guerra e envelheceu. Talvez isso explique
por que os dois parecem ter tanta antipatia um pelo outro. Mesmo no primeiro jantar, quando Jake começou a falar sobre a ideia de entrevistar Renzo Michaelson, ela
teve a impressão de que Miles estava à beira de dar um murro em Jake ou despejar a bebida em cima de sua cabeça. Sabe-se lá por que Michaelson provocou tal reação,
mas a animosidade prosseguiu - e chegou a um ponto tal que Miles raramente está em casa quando Jake vem jantar. Jake continua a importunar Bing, pedindo que o ajude
a combinar uma entrevista com Michaelson, mas Bing só faz desconversar, diz que Michaelson é uma pessoa mal-humorada, reclusa, e que o melhor meio de tratar a situação
é esperar até que ele apareça de novo na loja para limpar sua máquina de escrever. Alice poderia, provavelmente, dar um jeito ela própria, se quisesse. Michaelson
é um membro antigo do PEN, um ex-vice-presidente com uma ligação especial com o Programa Liberdade para Escrever, e ela falou com ele ao telefone ainda na semana
passada, a respeito do caso de Liu Xiao­­bo. Alice poderia facilmente ligar para ele amanhã e perguntar se teria tempo para conversar com seu namorado, mas ela não
quer fazer isso. Jake cravou uma faca nela e ela não está com a menor vontade de lhe fazer favores.

Ela volta para a casa vazia pouco depois das três horas da tarde. Às três e meia, está sentada diante de sua escrivaninha digitando suas anotações sobre a conversa
entre pai e filho em Os melhores anos de nossas vidas. Às três e cinquenta, alguém bate na porta da frente. Alice se levanta e desce a escada para ver quem é. Quando
abre a porta, um homem alto, balofo, num uniforme cáqui esquisito, sorri para ela e toca o dedo no chapéu. Tem o nariz esparramado e multifacetado, bochechas com
marcas de varíola e a boca grande e de lábios fartos, uma curiosa combinação de traços faciais que, de certa maneira, faz Alice pensar numa travessa cheia de purê
de batatas. Ela repara também, com certa tristeza, que ele está com uma arma. Quando lhe pergunta quem ele é, responde que é Nestor Gonzalez, oficial de justiça
da cidade de Nova York, e em seguida lhe entrega um pedaço de papel dobrado, uma espécie de documento. O que é isso?, pergunta Alice. Uma ordem judicial, diz Gonzalez.
Por quê?, pergunta Alice, fingindo que não sabe. A senhora está violando a lei, madame, responde o oficial de justiça. A senhora e seus amigos têm de sair daí.

 

Bing Nathan

Miles anda preocupado com dinheiro. Para começo de conversa, ele já não tinha o bastante, e agora que gastou a maior parte de duas semanas passeando pela cidade
com Pilar, co­­mendo em restaurantes duas vezes por dia, comprando roupas e perfumes para ela, se apertando daqui e dali para comprar ingressos caros para o teatro,
suas reservas de dinheiro estão derretendo mais rapidamente do que ele havia imaginado. Eles conversam sobre o assunto no dia 3 de janeiro, algumas horas depois
que Pilar entra no ônibus de volta para a Flórida, alguns minutos depois que Miles deixa o recado confuso na secretária eletrônica da mãe, e Bing diz que existe
uma solução simples para o problema, se Miles estiver disposto a aceitar sua proposta. Ele precisa de ajuda no Hospital de Coisas Quebradas. A Mob Rule finalmente
conseguiu arranjar um empresário e eles vão sair da cidade em turnê durante duas semanas no final de janeiro e também por mais duas semanas em fevereiro, vão tocar
em faculdades no estado de Nova York e na Pensilvânia, e ele não pode fechar as portas de seu negócio enquanto estiver fora. Pode ensinar Miles como emoldurar quadros,
limpar e fazer reparos em máquinas de escrever, consertar qualquer coisa que os clientes quiserem consertar e, se Miles concordar em trabalhar em expediente integral
por tantos dólares por hora, eles vão conseguir dar conta dos serviços pendentes que têm se acumulado nas últimas semanas, Bing vai poder sair do trabalho mais cedo
para ensaiar com sua banda toda vez que tiver vontade e, quando a banda estiver em turnê, Miles pode cuidar do negócio. Bing pode pagar um salário extra agora por
causa do dinheiro que economizou morando sem pagar aluguel em Sunset Park durante cinco meses - e então, além disso, parece que a Mob Rule vai ganhar mais dinheiro
do que em qualquer outro momento de sua história. O que Miles acha? Miles olha para a ponta dos pés, examina a proposta durante alguns instantes e depois levanta
a cabeça e diz que topa. Acha que vai ser melhor trabalhar no Hospital do que passar os dias andando à toa pelo cemitério, tirando fotografias, e antes de ir às
compras para o jantar, agradece a Bing por tê-lo salvado mais uma vez.

O que Miles não compreende é que Charles Bingham Nathan faria qualquer coisa por ele, e mesmo se Miles tivesse rejeitado a proposta de trabalhar por tantos dólares
por hora no Hospital de Coisas Quebradas, seu amigo teria ficado feliz de poder lhe emprestar quanto dinheiro precisasse, sem nenhum compromisso de Miles pagar o
empréstimo antes do fim do século XXII. Bing sabe que Miles é só meia pessoa, que sua vida se quebrou e nunca será completamente refeita, mas a metade de Miles que
continua a viver é mais interessante para ele do que as duas metades de qualquer outra pessoa. Começou quando se conheceram, doze anos atrás, no outono que se seguiu
imediatamente à morte do irmão de Miles. Miles tinha acabado de fazer dezesseis anos e Bing era só um ano mais velho, um trilhava a estrada dos meninos sabidos em
Stuyvesant e o outro estava matriculado no programa de música em LaGuardia, dois meninos rebeldes que encontraram uma causa comum no seu desprezo pelas hipocrisias
da vida americana, e foi o mais jovem que ensinou ao mais velho o valor da resistência, como era possível se recusar a participar dos jogos absurdos que a sociedade
pedia que eles jogassem, e Bing sabe que boa parte daquilo que ele se tornou desde então é um resultado direto da influência de Miles sobre ele. No entanto era mais
do que as coisas que Miles dizia, mais do que qualquer uma das centenas de observações cortantes que ele fazia sobre política e economia, mais do que a clareza com
que ele demolia o sistema, era aquilo que Miles falava combinado com aquilo que Miles era, e a forma como ele parecia personificar as ideias em que acreditava, a
seriedade de sua conduta, o rapaz agoniado e sem ilusões, sem falsas esperanças, e ainda que os dois nunca tenham se tornado amigos íntimos, Bing duvida que exista
outra pessoa de sua geração que ele admire mais.

Bing não era o único que tinha tal impressão. Até onde conseguia se lembrar, Miles parecia diferente de todo mundo, parecia possuir uma espécie de força magnética,
animal, capaz de modificar a atmosfera toda vez que entrava em algum lugar. Seria o poder de seus silêncios que o fazia atrair tamanha atenção, a natureza misteriosa,
contida, de sua personalidade que o transformava numa espécie de espelho em que os outros se projetavam, a sensação inquietante de que ele estava presente e ausente
ao mesmo tempo? Ele era inteligente e bonito, é verdade, mas nem todas as pessoas inteligentes e bonitas emanam essa magia e, quando se somava a isso o fato de que
todo mundo sabia que ele era o filho de Mary-Lee Swann, o filho único de Mary-Lee Swann, talvez a aura da fama dela ajudasse a realçar a sensação de que Miles era
um dos ungidos. Algumas pessoas tinham raiva dele, é claro, sobretudo rapazes, rapazes mas nunca garotas, mas também por que os rapazes não iriam ter raiva dele
por sua sorte com as garotas, por ele ser o cara que as garotas queriam? Mesmo agora, tantos anos depois, o efeito Heller parece ter sobrevivido à longa odisseia
de ida e volta a lugar nenhum. Olhe só para Alice e para Ellen. Alice acha Miles completamente admirável (citação direta) e Ellen, a querida e pequena Ellen, está
inebriada com ele.

Já faz um mês que Miles mora em Sunset Park e Bing está contente por ele estar aqui, contente porque os Três Miseráveis voltaram a ser os Quatro Imbatíveis, embora
ainda se sinta desconcertado com a repentina mudança de ideia de Miles quanto a vir para o Brooklyn. Primeiro era não, e a carta comprida explicando por que desejava
continuar na Flórida, e depois o telefonema urgente para o Hospital de Coisas Quebradas no finalzinho de uma sexta-feira, na hora em que Bing ia fechar a loja e
voltar para a casa em Sunset Park, e Miles dizendo que tinha acontecido uma coisa e que, se a vaga continuasse aberta para ele, pegaria o ônibus para Nova York naquele
fim de semana mesmo. Miles nunca vai querer se explicar, é claro, e seria inútil perguntar, mas, agora que ele está aqui, Bing fica animado com a ideia de que o
velho sr. Emburrado talvez esteja afinal preparado para fazer as pazes com os pais e pôr um ponto final na besteira que já durou tanto tempo, tempo demais, e que
seu próprio papel como agente duplo e mentiroso em breve chegará ao fim. Não sente nenhuma culpa por ter enganado Miles. Na verdade, sente orgulho do que fez e,
quando Morris Heller telefonou para o Hospital nesta manhã para pedir as últimas notícias, Bing teve uma sensação de vitória quando pôde dar a informação de que
Miles tinha telefonado para o escritório do pai enquanto ele estava na Inglaterra e que ia telefonar de novo na segunda-feira, e agora que Miles contou para ele
que telefonou para a mãe também, a vitória já é quase completa. Miles voltou a si afinal e provavelmente é muito bom que esteja apaixonado por Pilar, ainda que esse
amor pareça um pouquinho esquisito, mais do que só um pouco perturbador na verdade, uma garota tão novinha, a última pessoa que se podia esperar que Miles fosse
escolher para se envolver, mas não há dúvida de que ela é encantadora e bonita, madura para a idade, talvez, e portanto vamos deixar que Miles tenha sua Pilar e
esquecer o assunto. Boas notícias de todos os lados, coisas positivas acontecendo em tantas frentes, e no entanto tem sido um mês difícil para Bing, um dos meses
mais aflitivos de sua vida, e quando ele não está chafurdando na lama da confusão e da desordem, está perto do desespero. Começou quando Miles voltou para Nova York,
no momento em que ele viu Miles parado na loja e o abraçou e beijou, e desde aquele dia ele acha quase impossível não tocar em Miles, não querer tocar em Miles.
Sabe que Miles não gosta disso, que fica contrariado com seus abraços espontâneos, suas palmadinhas nas costas, seus apertos no pescoço e no ombro, mas Bing não
consegue se conter, sabe que devia parar com aquilo, mas não consegue, e como tem medo de ter se apaixonado por Miles, como tem medo de que tenha estado sempre apaixonado
por Miles, vive num estado de desespero.

Recorda uma excursão de verão onze anos atrás, o verão depois que ele se formou no ensino médio, três rapazes e duas garotas socados dentro de um carrinho, seguindo
rumo ao norte, para as montanhas Catskills. Os pais de alguém tinham um chalé na montanha, um local isolado na mata, com um lago e uma quadra de tênis, e Miles estava
no carro com seu amor do momento, uma garota chamada Annie, e lá estava Geoff Taylor com sua conquista mais recente, alguém cujo nome foi esquecido, e, por último,
mas não menos importante, ele mesmo, o cara sem namorada, sobrando como sempre. Chegaram tarde, entre meia-noite e uma hora da madrugada, e como estavam todos com
o corpo endurecido e acalorados depois da longa viagem, alguém sugeriu que se refrescassem no lago, e de repente eles correram para a água, tirando as roupas e começando
a nadar. Ele lembra como foi gostoso ficar espirrando água naquele lugar remoto, com a lua e as estrelas no alto, os grilos cantando na mata, a brisa quente soprando
em suas costas, junto com o prazer de ver o corpo das garotas, Annie e suas pernas compridas, sua barriga lisa e a curvinha deliciosa do traseiro, e a namorada de
Geoff, baixinha e redonda, com peitos grandes e fios cacheados de cabelo preto que se enroscavam por cima dos ombros. Mas não era um prazer sexual, nada havia de
erótico no que estavam fazendo, era simplesmente um bem-estar corporal, o prazer de sentir a água e o ar tocando na pele, de se deixar ficar ao ar livre numa noite
quente de verão, de estar junto dos amigos. Ele foi o primeiro a sair e, na beira do lago, viu que os outros tinham se separado em pares, que os dois casais estavam
de pé, com a água batendo no peito, e cada casal se abraçava, e, quando ele olhou para Miles e Annie, que tinham os braços em volta um do outro e as bocas coladas
num beijo prolongado, uma ideia estranhíssima passou pela sua cabeça, uma coisa que o apanhou totalmente de surpresa. Annie era incontestavelmente uma garota linda,
uma das garotas mais encantadoras que ele tinha visto na vida, e a lógica da situação exigia que ele tivesse inveja de Miles por ter uma garota como aquela em seus
braços, por ser atraente o bastante para ganhar a afeição de uma criatura tão desejável, mas, enquanto olhava para os dois se beijando dentro da água, compreendeu
que a inveja que sentia era dirigida a Annie, não a Miles, que ele queria estar no lugar de Annie e estar ele mesmo beijando Miles. Um instante depois, eles começaram
a caminhar para a beira do lago, em linha reta na direção de Bing, e, quando o corpo de Miles emergiu da água, Bing viu que ele tinha uma ereção, uma ereção grande
e plenamente formada, e a visão daquele pênis enrijecido deixou-o excitado de um jeito que nunca tinha imaginado ser possível, e antes que Miles pisasse em terra
seca, Bing também estava com uma ereção, uma sucessão de eventos que o deixou tão espantado que ele correu de volta para o lago e afundou na água para esconder seu
constrangimento.

Ele apagou a lembrança daquela noite durante anos, nunca retornou para ela nem nos domínios mais sombrios e particulares de sua imaginação, mas então Miles voltou
e, com Miles, voltou também a lembrança e, durante o mês que passou, Bing tem repetido aquela cena na sua cabeça cinco vezes por dia, dez vezes por dia, e agora
não sabe mais quem ou o que ele é. Será que sua reação àquele falo ereto visto de relance à luz do luar onze anos atrás significa que ele prefere homens a mulheres,
que ele se sente mais atraído por corpos masculinos do que por corpos femininos, e se for esse o caso será que isso podia explicar sua peculiar carreira de fracassos
com as mulheres que paquerou ao longo dos anos? Ele não sabe. A única coisa que pode dizer com alguma certeza é que se sente atraído por Miles, que pensa no corpo
de Miles e naquele falo ereto toda vez que está com ele, o que acontece muitas vezes, e que pensa em tocar o corpo de Miles e aquele falo ereto toda vez que não
está com ele, o que acontece mais vezes ainda, e no entanto dar vazão a tais desejos seria um grave erro, um erro que traria consequências horríveis, pois Miles
não tem nenhum interesse em transar com homens e se Bing algum dia sugerisse tal possibilidade, ou sequer sussurrasse uma só palavra sobre o que vai pela sua cabeça,
perderia a amizade de Miles para sempre, o que é uma coisa que ele solenemente não deseja.

Miles está fora de cogitação, permanentemente hipotecado ao mundo das mulheres. Mas a força atormentadora daquele falo ereto levou Bing a considerar outras opções,
a pensar em olhar para outro lado a fim de satisfazer sua curiosidade, pois, apesar do fato de Miles ser o único homem que ele deseja, ele se pergunta se não terá
chegado a hora de fazer uma experiência com um outro homem, o que é o único jeito de descobrir quem e o que ele é - um homem feito para homens, um homem feito para
mulheres, um homem feito para mulheres e para homens, ou um homem feito para ninguém senão para si mesmo. O problema é para onde olhar. Todos os componentes de sua
banda são casados ou moram com as namoradas, ele não tem nenhum amigo gay, que ele saiba, e a ideia de ir a um bar de gays para arranjar um parceiro não lhe interessa.
Pensou em Jake Baum algumas vezes, arquitetou diversas estratégias de como e quando poderia abordá-lo sem dar bandeira e sem se humilhar no caso de levar um fora,
mas desconfia que existe alguma coisa ambígua no namorado de Alice e, ainda que esteja com uma mulher agora, é possível que tenha andado com homens no passado e
que não seja imune aos encantos do amor fálico. Bing lamenta não sentir mais atração por Jake, mas, pelo bem da autodescoberta científica, ele estaria disposto a
ir para a cama com Jake para ver se ele mesmo tem alguma queda pelo amor fálico. Porém ele ainda está para fazer alguma coisa a respeito do assunto, pois, na hora
em que estava tomando embalo para convencer Baum a fazer sexo com ele, prometendo em troca conseguir um encontro com Renzo Michaelson (não era a melhor ideia do
mundo, talvez, mas anda meio difícil ter ideias), Ellen pediu que ele posasse para ela e sua busca de conhecimento foi temporariamente adiada.

Ele não tem a menor ideia do que os dois estão fazendo. Alguma coisa pervertida, ele acha, mas ao mesmo tempo completamente inocente e sem perigo nenhum. Uma espécie
de pacto tácito, um entendimento mútuo que permite a ambos partilhar sua solidão e suas frustrações, mas, ainda que se aproximem um do outro naquele silêncio, ele
ainda está solitário e frustrado e tem a sensação de que Ellen não está melhor do que ele. Ellen desenha e ele toca bateria. Para ele, tocar bateria sempre foi um
jeito de gritar, e os novos desenhos de Ellen se revelaram gritos também. Ele tira a roupa para ela e faz tudo o que ela pede. Não sabe por que se sente tão confortável
com Ellen, tão pouco ameaçado pelos olhos dela, mas doar seu corpo à causa da arte é uma coisa pequena, afinal, e ele tem intenção de continuar fazendo aquilo até
Ellen pedir para parar.

No domingo, 4 de janeiro, Bing passa oito horas com Miles no Hospital de Coisas Quebradas, dando a ele as primeiras lições sobre o detalhista e delicado trabalho
de emoldurar quadros, apresentando-o aos resistentes mecanismos das máquinas de escrever manuais, familiarizando-o com as ferramentas e o material guardado na sala
dos fundos da pequena lojinha. Na manhã seguinte, segunda-feira, dia 5 de janeiro, eles voltam para mais do mesmo, mas dessa vez Miles parece preocupado e, quando
Bing pergunta qual é o problema, Miles explica que ele acabou de telefonar para o escritório do pai e disseram que o pai voltou para a Inglaterra ontem, para tratar
de um assunto urgente, e ele receia que isso possa ter alguma coisa a ver com sua madrasta. Bing também está preocupado e ao mesmo tempo perplexo com essa notícia,
mas não pode revelar para o filho de Morris Heller todo o alcance de sua aflição, e também não pode lhe contar que falou com Morris Heller há apenas quarenta e oito
horas e que não parecia haver nada de errado na ocasião. Os dois trabalham com afinco até as cinco e meia, quando Miles avisa que deseja fazer mais uma tentativa
de telefonar para a mãe, e Bing respeitosamente se dirige a um bar logo adiante, entendendo que tal telefonema requer uma privacidade completa. Quinze minutos depois,
Miles entra no bar e diz para Bing que ele e a mãe combinaram jantar juntos na noite seguinte. Há cem perguntas que Bing gostaria de fazer, mas ele se limita a uma:
E como ela reagiu? Muito bem, responde Miles. Chamou-o de imprestável ca­­beça-oca, imbecil, covarde fedorento, mas depois chorou, depois os dois choraram, e mais
adiante a voz dela ficou afetuosa e doce, falou com Miles com muito mais bondade do que ele merecia, e ouvir a mãe de novo depois de tantos anos foi quase insuportável
para ele. Ele está arrependido de tudo, diz. Acha que é a pessoa mais burra que jamais existiu. Se existisse alguma justiça no mundo, ele deveria ser levado para
a rua e fuzilado.

Bing nunca viu Miles com um aspecto mais desolado. Por alguns momentos ele acha que Miles vai realmente desatar a chorar. Esquecendo sua promessa de nunca mais tocar
nele, põe os braços em torno do amigo e o aperta com força. Anime-se, seu babaca, diz ele. Pelo menos você sabe que é a pessoa mais burra que já existiu no mundo.
Quanta gente tem a cabeça boa o bastante para admitir isso?

Pegam um ônibus para Sunset Park e entram na casa alguns minutos antes das seis e meia, alguns minutos antes do encontro marcado de Miles com Alice na cozinha. Conforme
o esperado, Alice já está lá, assim como Ellen, e as duas estão sentadas diante da mesa, não estão preparando comida, não estão fazendo nada, estão apenas sentadas
diante da mesa, olhando para os olhos uma da outra. Alice está afagando as costas da mão direita de Ellen, a mão esquerda de Ellen está afagando o rosto de Alice
e as duas parecem infelizes. O que foi?, pergunta Bing. Isto aqui, responde Alice, pegando uma folha de papel e entregando para ele.

Bing estava à espera daquela folha de papel desde o dia em que se mudaram para a casa no último mês de agosto. Sabia que ela ia chegar e sabia o que ia fazer quando
chegasse, que é exatamente o que faz agora. Sem nem se dar ao trabalho de ler até o fim o texto da ordem judicial para desocupar o imóvel, ele rasga a folha de papel
uma vez, duas vezes e depois uma terceira vez, e depois joga os oito pedaços de papel no chão.

Não se preocupem, diz ele. Isto não tem a menor importância. Eles descobriram que estamos aqui, mas para nos obrigar a sair vai ser preciso mais do que a porcaria
de um pedaço de papel. Eu sei como é que funciona esse negócio. Eles nos mandaram uma notificação e agora vão nos esquecer por um tempo. Daqui a um mês mais ou menos
vão voltar com outro pedaço de papel, que nós vamos rasgar e jogar no chão outra vez. E de novo, e de novo, e quem sabe uma outra vez ainda. Os oficiais de justiça
não vão fazer nada contra a gente. Eles não querem saber de confusão. O trabalho deles é entregar pedaços de papel, e pronto. Não temos de nos preocupar, até que
eles venham acompanhados da polícia. Aí a coisa fica séria, mas vai passar muito tempo até a gente ver a polícia por aqui - se é que isso vai acontecer. Nós somos
peixes pequenos e a polícia tem coisa melhor para pensar do que quatro pessoas sossegadas que moram numa casa sossegada num bairrozinho sossegado de que ninguém
ouviu falar. Não entrem em pânico. Um dia talvez a gente tenha mesmo de ir embora daqui. Mas esse dia não é hoje e, até que a polícia apareça, não vou ceder um centímetro.
E mesmo quando vierem, vão ter de bater na minha cabeça e me arrastar para a rua algemado. Esta é nossa casa. Agora pertence a nós e prefiro ir para a cadeia a abrir
mão do meu direito de morar aqui.

Esse é o espírito, diz Miles.

Então, você está do meu lado?, pergunta Bing.

Claro que estou, diz Miles, erguendo a mão direita no ar, como se fizesse um juramento. Cacique Miles não sai da tenda.

E quanto a você, Ellen? Quer ir embora ou ficar?

Ficar, responde Ellen.

E você, Alice?

Ficar.

 

Mary-Lee Swann

Simon partiu na noite passada, de volta para Los Angeles para dar sua aula de história do cinema, e assim começa a maratona de idas e vindas, o pobre homem vai atravessar
o país inteiro toda semana, ida e volta, durante os próximos três meses, o diabólico voo de madrugada, jet lag, roupas colando e pés inchados, o ar horrível no avião,
o ar artificial bombeado, três dias em Los Angeles, quatro dias em Nova York, e tudo isso em troca da ninharia que lhe pagam, mas ele diz que gosta de dar aula e
sem dúvida é melhor que se mantenha ocupado, fazer alguma coisa é melhor do que não fazer nada, mas o momento não poderia ser pior, como ela precisa que ele esteja
a seu lado agora, como ela detesta dormir sozinha, e esse papel, Winnie, tão difícil e exaustivo, ela tem medo de não dar conta do recado, se apavora pensando que
pode quebrar a cara e se tornar alvo de chacotas, o nervosismo, o nervosismo, o velho frio na barriga antes de subir a cortina, e como é que ela ia saber que emmet
é uma formiga, uma palavra arcaica para designar a formiga, ela teve de procurar no dicionário, e por que Winnie tinha de dizer emmet em vez de formiga, por acaso
é mais engraçado dizer emmet em vez de formiga, sim, é claro, é mais engraçado, ou pelo menos é inesperado e portanto estranho, Emmet!, o que leva à fala de uma
só palavra de Willie, Formication, essa é muito gozada, a gente acha que é uma pronúncia errada da palavra fornicação, mas ela também teve de procurar essa palavra
no dicionário antes de sacar qual era a piada, sensação no corpo que se parece com aquela causada por formigas que fervilham sobre a pele, e Fred pronuncia a palavra
esplendidamente bem, ele é um bom Willie, uma boa alma para trabalhar em conjunto, e como ele lê bem o jornal no início do primeiro ato, Vaga para jovem esperto,
Precisa-se de rapaz inteligente, ela desatou numa risada quando ele falou aquilo na primeira leitura da peça, Fred Derry, o mesmo nome de um personagem naquele filme
que ela viu com Simon numa noite dessas, o filme que ele vai apresentar para os alunos na aula de hoje, Os melhores anos de nossas vidas, um excelente filme antigo,
ela sentiu um aperto na garganta no final e chorou, e quando foi para o ensaio no dia seguinte e perguntou a Fred se os pais dele tinham escolhido seu nome por causa
do personagem daquele filme, seu marido na peça sorriu de leve para ela e respondeu, Infelizmente não, querida mulher, sou um velho chato que entrou de gatinhas
neste mundo cinco anos antes de esse filme ser feito.

Infelizmente, querida mulher. Ela duvida que alguma vez tenha sido querida. Muitas outras coisas na longa jornada desde o primeiro dia até este dia, mas não querida,
não, isso nunca. Gentil de modo intermitente, amável de modo intermitente, amorosa de modo intermitente, generosa de modo intermitente, mas não com a frequência
suficiente para ser classificada como querida.

Sente falta de Simon, a casa parece terrivelmente vazia sem ele, mas talvez seja até bom que ele não esteja em casa nesta noite, especificamente nesta noite, uma
noite de terça-feira no início de janeiro, a sexta noite do ano, porque daqui a uma hora Miles vai tocar a campainha no térreo, daqui a uma hora vai subir e entrar
neste apartamento do terceiro andar na Franklin Street, e depois de sete anos e meio sem contato com o filho (sete anos e meio), provavelmente é mesmo melhor que
ela veja o filho sozinha, converse com ele sozinha. Não tem a menor ideia do que vai acontecer, está completamente no escuro sobre o que esperar da noite e, como
está receosa demais para se deter nessas questões imponderáveis, concentrou sua atenção no jantar em si, na refeição propriamente dita, o que servir e o que não
servir, e, como o ensaio ia se estender muito e não ia dar para ela mesma cozinhar, ligou para dois restaurantes a fim de encomendar a comida e pedir que entregassem
no apartamento às oito e meia em ponto, dois restaurantes porque, depois de pedir um prato com filé no primeiro, achando que filé seria uma boa aposta, afinal todo
mundo gosta de filé, sobretudo homens com apetite saudável, ela começou a se inquietar achando que tinha feito uma opção errada, que talvez o filho tivesse virado
vegetariano ou tivesse aversão a carne, e ela não queria que as coisas começassem logo de mau jeito, pondo Miles numa posição que o obrigaria a comer alguma coisa
de que não gosta, ou, pior ainda, servindo para ele uma refeição que não podia ou não ia comer, e portanto, só por garantia, telefonou para um segundo restaurante
e pediu um segundo par de jantares - lasanha sem carne, saladas e legumes de inverno grelhados. O mesmo que fez com a comida, fez também com a bebida. Lembra que
ele gostava de uísque e de vinho tinto, mas suas preferências podiam ter mudado desde a última vez em que esteve com o filho, e portanto comprou uma caixa de vinho
tinto e uma de vinho branco e encheu o armário de bebidas com um amplo espectro de possibilidades: uísque, bourbon, vodca, gim, tequila, uísque de centeio e três
tipos diferentes de conhaque.

Ela supõe que Miles já tenha visto o pai, supõe que tenha telefonado para o escritório ontem bem cedo, como Bing Nathan disse que ele ia fazer, e que os dois tenham
jantado juntos na noite passada. Ela estava esperando que Morris ligasse para ela hoje e fizesse um relatório completo do que aconteceu, mas nem uma palavra ainda,
nenhuma mensagem na secretária eletrônica nem no telefone celular, no entanto Miles deve ter falado para o pai que viria aqui nesta noite, pois ela e Miles se falaram
antes da hora do jantar de ontem, noutras palavras, antes de Miles encontrar o pai, e é difícil imaginar que o assunto não tenha sido tratado em algum momento da
conversa entre os dois. Quem pode saber por que ela não recebeu nenhum telefonema de Morris? Talvez as coisas tenham corrido mal na noite passada e ele ainda esteja
aborrecido demais para poder conversar sobre o assunto. Ou então simplesmente ficou ocupado demais hoje, o segundo dia de volta ao trabalho depois da viagem à Inglaterra,
e talvez tenha ficado envolvido com seus problemas no escritório, a editora agora anda passando por uma fase difícil e é até possível que ele esteja no escritório
até agora, sete horas da noite, jantando uma quentinha de restaurante chinês e se preparando para uma longa noite de trabalho. E também pode ser que Miles tenha
perdido a coragem e não tenha dado o telefonema. Não é provável, pois ele não teve tanto medo assim de ligar para ela, e se esta é a semana para fumar o cachimbo
da paz, seu pai é a pessoa indicada para começar, é a pessoa que ele iria procurar primeiro, já que Morris teve barbaramente mais a ver com a criação de Miles do
que ela, mas mesmo assim podia ser verdade e, embora ela não devesse deixar Miles saber o que Bing Nathan andou fazendo durante todos esses anos, ela pode lançar
a pergunta esta noite e descobrir se Miles fez ou não contato com o pai.

Foi por isso que ela gritou com Miles no telefone ontem - por solidariedade a Morris. Ele e Willa seguraram o rojão daquele caso demorado e infeliz e, quando ela
viu Morris no jantar no sábado à noite, ele lhe pareceu muito mais velho, o cabelo tão grisalho agora, as faces tão encovadas, os olhos tão turvos de tristeza, e
ela entendeu que aquela história havia cobrado dele um tributo muito pesado, e agora que ela está mais velha e supostamente mais sábia (embora esta seja uma questão
polêmica, ela acha), ela foi movida pela onda de afeição que sentiu por ele no restaurante naquela noite, a sombra envelhecida do homem com quem ela se casou tanto
tempo atrás, o pai de seu único filho, e foi por solidariedade a Morris que ela gritou com Miles, fingindo compartilhar a raiva que Morris sentia do filho pelo que
ele tinha feito, tentando agir como uma mãe de verdade, a mãe magoada, que repreende, mas boa parte daquilo foi encenação, quase todas as palavras foram palavras
fingidas, os insultos, os xingamentos, pois o fato é que ela guarda muito menos rancor de Miles do que Morris e ela não ficou todos aqueles anos se sentindo amargurada
com o que aconteceu - frustrada sim, confusa sim, mas não amargurada.

Ela não tem o menor direito de condenar Miles por nada que ele tenha feito, ela o deixou na mão ao se revelar uma mãe tão incompetente e tão inconstante, e sabe
que fracassou nisso mais horrivelmente do que em qualquer outra coisa na vida, os dois casamentos fracassados incluídos, todos os seus deslizes e suas más ações
incluídas, mas quando Miles nasceu ela não estava preparada para ser mãe, vinte e seis anos de idade, mas ainda não estava pronta, distraída demais para se concentrar,
preocupada com o salto do teatro para o cinema, revoltada com Morris por tê-la convencido a fazer aquilo, e tendo lutado como lutou para cumprir suas obrigações
durante aqueles primeiros seis meses, ela se viu entediada com o bebê, dava tão pouco prazer cuidar dele, e nem mesmo o prazer de amamentar era o bastante, nem mesmo
o prazer de olhar nos olhos dele e ver como ele sorria para ela em resposta conseguia compensar o tédio sufocante de tudo aquilo, os choros incessantes, o cocô úmido
e amarelo nas fraldas, o leite vomitado, os uivos no meio da noite, a falta de sono, a repetição enfadonha de tudo, e então veio Sonhadora inocente e ela caiu fora.
Agora, ao recordar suas ações, ela julga que são imperdoáveis, e embora mais tarde tenha caído de amores pelo filho, depois do divórcio, depois que ele começou a
crescer, ela não era nada boa naquilo, continuou deixando o filho na mão, nem se lembrou de ir à maldita formatura do ensino médio, francamente, mas aquele foi o
momento-chave, o pecado imperdoável de não estar presente na hora em que devia estar presente, e daí em diante ela se tornou mais consciente, tentou reparar todos
os pecados que havia cometido ao longo dos anos (o maravilhoso fim de semana em Providence, com Simon, os três juntos como se fossem uma família, ela estava tão
feliz, tão orgulhosa do filho), e depois, seis meses mais tarde, ele caiu fora. Mãe cai fora, filho cai fora. Por isso suas lágrimas no telefone ontem. Ela gritou
com ele por causa de Morris, mas as lágrimas eram por ela mesma e as lágrimas falaram a verdade. Miles agora tem vinte e oito anos, é mais velho do que ela quando
deu à luz a ele, mas ele continua a ser seu filho e ela o quer de volta, quer que a história comece outra vez.

Coitado do pobre hipopótamo, pensa ela. Gorda demais, querida mulher, muitos quilos extras em cima dos velhos ossos. Por que tinha de ser Winnie agora, e não outra
pessoa mais graciosa, um pouco mais esbelta? A esbelta Salomé, por exemplo. Porque ela é velha demais para fazer Salomé, e Tony Gilbert a convidou para fazer Winnie.
É isso que acho tão maravilhoso. (Pausa.) Olhos nos meus olhos. Ela mudou de roupa três vezes desde a hora em que voltou ao apartamento, mas ainda não está satisfeita
com o resultado. A hora está se aproximando rapidamente, no entanto, e é tarde demais para pensar numa quarta opção. Calça azul-clara de seda, blusa branca de seda
e uma túnica vaporosa, folgada e fluida, semitransparente, que vai até o joelho, a fim de mascarar a flacidez. Braceletes nos dois pulsos, mas sem brincos. Sapatilhas
chinesas. Quanto ao cabelo curto de Winnie, não se pode fazer nada. Maquiagem de mais ou de menos? O batom vermelho um pouco gritante, talvez, retirar um pouco do
batom agora. Com perfume ou sem perfume? Sem perfume. E as mãos, as mãos denunciadoras, com seus dedos rechonchudos demais, nada a fazer a respeito disso tampouco.
Um colar provavelmente seria excessivo, e além disso ninguém poderia ver o colar embaixo da túnica vaporosa. O que mais? O esmalte. O esmalte de Winnie, nada a fazer
a respeito disso tampouco. Nervosismo, nervosismo, o velho bolo no estômago antes que a formiga se ponha a caminho e formique. Seus olhos nos meus olhos. Ela vai
ao banheiro para dar uma última olhada no espelho. A Velha Mãe Hubbard ou Alice no País das Mãeravilhas? Alguma coisa entre uma e outra, talvez. Precisa-se de rapaz
inteligente. Ela entra na cozinha e serve uma taça de vinho para si. Dá tempo para um golinho, dá tempo para um segundo golinho, e aí toca a campainha.

Tanta coisa para assimilar de uma só vez, tantos detalhes a bombardeiam na hora em que abre a porta, o homem alto e jovem com os cabelos e as sobrancelhas escuros
do pai, os olhos azul-acinzentados e a boca da mãe, agora tão completa, a obra do crescimento finalmente acabada, um rosto mais austero do que antes, ela pensa,
mas olhos mais suaves, mais generosos, olhos que miram dentro dos olhos dela, e o abraço ardoroso que ele dá antes que ambos possam dizer qualquer coisa, sentindo
a grande força dos braços e dos ombros dele através do casaco de couro, e de novo, sem querer, ela age feito uma tola, se descontrola e começa a chorar enquanto
se agarra a ele como se fosse para salvar sua vida, se desmancha em lágrimas e soluços e diz que lamenta muito todos os mal-entendidos e as mágoas que o fizeram
ir embora, mas ele diz que nada daquilo tem a ver com ela, que ela não tem culpa de nada, tudo é culpa dele mesmo, e é ele quem está arrependido.

Ele não bebe mais. É o primeiro fato novo que ela aprende a respeito do filho, depois que enxuga os olhos e o leva para a sala de visitas. Ele não bebe, mas não
tem restrições quanto à comida, gostará muito de comer o filé ou a lasanha sem carne, o que ela preferir. Por que ela se sente tão nervosa com ele, tão receosa?
Ela já pediu desculpas, ele já pediu desculpas, está na hora de passar para assuntos mais importantes, hora de começar a conversar, mas então ela faz a única coisa
que prometeu a si mesma que não faria, menciona a peça, diz que é por isso que está tão gorda agora, ele está olhando para Winnie, não para Mary-Lee, uma ilusão,
um personagem imaginário, e o menino que não é mais um menino sorri para ela e diz que acha que ela está grande, grande, diz ela para si, que palavra curiosa, um
modo tão antiquado de exprimir a ideia, ninguém diz grande com esse sentido, a menos que ele esteja se referindo ao seu tamanho, é claro, sua rotundidade recentemente
adquirida, mas não, parece que está lhe fazendo um elogio, e sim, acrescenta Miles, ele leu alguma coisa sobre a peça e está ansioso para assistir. Ela nota que
não para de mexer no bracelete, seu peito está oprimido, ela não consegue ficar quieta. Vou pegar o vinho, diz ela, mas o que você vai beber, Miles? Água, suco,
refrigerante? Enquanto ela atravessa o amplo espaço do apartamento, Miles se levanta e vai atrás da mãe, diz que mudou de ideia, vai tomar um pouco de vinho mesmo,
quer comemorar, e quem sabe se ele está mesmo falando sério ou simplesmente está louco para tomar uma bebida porque está tão nervoso quanto ela?

Brindam com as taças e, ao fazer isso, ela diz para si mesma que é melhor tomar cuidado, lembrar que Bing Nathan deve ficar fora da conversa, que Miles não pode
descobrir que eles seguiram seus passos bem de perto, os vários empregos em tantos lugares diferentes durante todos aqueles anos, Chicago, New Hampshire, Arizona,
Califórnia, Flórida, os restaurantes, os hotéis, os armazéns, o lugar de arremessador no time de beisebol, as mulheres que vieram e foram embora, a garota cubana
que esteve com ele em Nova York agora há pouco, todas as coisas que eles sabem a respeito dele têm de ser suprimidas, e ela deve simular ignorância toda vez que
ele revelar alguma coisa, mas ela é capaz de fazer isso, é sua profissão fazer isso, é capaz de fazer isso mesmo depois de ter bebido muito, e pela maneira como
Miles sorveu o primeiro gole de seu Pouilly-Fumé, parece que muito vinho será consumido nesta noite.

E quanto ao seu pai?, ela pergunta. Entrou em contato com ele?

Telefonei duas vezes, ele responde. Na primeira vez, ele estava na Inglaterra. Disseram para eu ligar de novo no dia 5, mas, quando tentei falar com ele ontem, disseram
que tinha viajado para a Inglaterra de novo. Alguma coisa urgente.

Estranho, diz ela. Jantei com Morris no sábado de noite e ele não me falou nada sobre voltar. Deve ter viajado no domingo. Muito estranho.

Espero que esteja tudo bem com Willa.

Willa. O que faz você pensar que ela está na Inglaterra?

Sei que ela está na Inglaterra. Tem gente que me conta coisas. Tenho minhas fontes.

Pensei que você tinha dado as costas para nós. Nem um pio durante todo esse tempo e agora vem me dizer que sabe o que andamos fazendo?

Mais ou menos.

Se você ainda se importava com a gente, por que então fugiu?

Essa é a grande questão, não é? (Pausa. Mais um gole de vinho.) Porque achei que vocês ficariam melhor sem mim - todos vocês.

Ou você ficaria melhor sem a gente.

Talvez.

Então por que voltar agora?

Porque circunstâncias me trouxeram para Nova York e chegando aqui eu entendi que o jogo tinha chegado ao fim. Já era o bastante.

Mas por que tanto tempo? Quando você sumiu, achei que ia ser por algumas semanas, alguns meses. Sabe como é: jovem confuso se retira para regiões remotas, trava
luta contra seus demônios no deserto, e volta uma pessoa mais forte, melhor. Mas sete anos, Miles, um quarto da sua vida. Você percebe que isso é uma loucura, não
é?

De fato, eu queria me tornar uma pessoa melhor. Esse era o X da questão. Me tornar melhor, me tornar mais forte - tudo muito digno, eu suponho, mas também um pouco
vago. Como é que a gente sabe que se tornou uma pessoa melhor? Não é a mesma coisa que ficar na faculdade durante quatro anos e receber um diploma para provar que
a gente passou em todos os cursos. Não há um jeito de medir os nossos progressos. Então eu continuei, sem saber se estava melhor ou não, sem saber se estava mais
forte ou não, e depois de um tempo parei de pensar no objetivo e me concentrei no esforço. (Pausa. Mais um gole de vinho.) Será que isso faz algum sentido para você?
Fiquei viciado na luta. Eu me perdi de mim mesmo. Continuei fazendo, mas não sabia mais por que estava fazendo.

Seu pai acha que você foi embora por causa de uma conversa que você ouviu escondido.

Ele adivinhou isso? Estou impressionado. Mas aquela conversa foi só o início, o primeiro empurrão. Não vou negar que me senti péssimo ao ouvir os dois conversando
sobre mim da­­quele jeito, mas, depois que fui embora, entendi que eles estavam certos, certos em se preocupar tanto comigo, certos na sua análise da minha psique
atrapalhada, e é por isso que fiquei longe - porque eu não queria mais ser aquela pessoa, e eu sabia que ia levar um bom tempo para ficar bem.

E agora você está bem?

(Risos.) Duvido. (Pausa.) Mas não estou tão mal como estava naquela época. Muita coisa mudou, sobretudo nos últimos seis meses.

Mais uma taça, Miles?

Sim, por favor. (Pausa.) Eu não devia estar fazendo isso. Estou sem prática, entende? Mas esse vinho é tremendamente bom e eu estou tremendamente, tremendamente
nervoso.

(Enchendo as duas taças.) Eu também, menino.

Essa história nunca teve nada a ver com você, espero que entenda isso. Mas quando rompi com meu pai e com Willa, tinha de romper também com você e Simon.

Tem tudo a ver com o Bobby, não é?

(Faz que sim com a cabeça.)

Você tem de tirar isso da cabeça.

Não consigo.

Mas precisa.

(Balança a cabeça.) Muitas memórias ruins.

Você não causou o atropelamento. Foi um acidente.

A gente estava discutindo. Eu empurrei ele para a estrada, e aí o carro veio... depressa demais, apareceu do nada.

Tire isso da cabeça, Miles. Foi um acidente.

(Olhos se inundam de lágrimas. Silêncio, quatro segundos. Então toca a campainha do térreo.)

Deve ser a comida. (Levanta, se aproxima de Miles, beija sua testa e depois sai para abrir a porta para o entregador do restaurante. Por cima do ombro, dirigindo-se
a Miles.) Qual você acha que é? O vegetariano ou o carnívoro?

(Longa pausa. Um sorriso forçado.) Os dois!

 

Morris Heller

O Homem Lata foi à Inglaterra e voltou e suas experiências por lá mudaram a cor do mundo. Desde o regresso a Nova York no dia 25 de janeiro, ele abandonou as latas
e as garrafas a fim de se dedicar a uma vida de pura contemplação. O Homem Lata quase morreu na Inglaterra. O Homem Lata contraiu pneumonia e passou duas semanas
internado num hospital, e a mulher que ele foi salvar de um colapso nervoso e de um potencial suicídio acabou salvando a ele da morte quase certa e, ao fazer isso,
salvou a si mesma do colapso nervoso e, possivelmente, salvou também um casamento. O Homem Lata está feliz por estar vivo. O Homem Lata sabe que seus dias estão
contados e portanto pôs de lado sua busca de latas e garrafas a fim de estudar os dias enquanto passam ligeiro por ele, um depois do outro, cada um mais veloz que
o dia anterior. Entre as numerosas observações que anotou em seu caderno de observações, estão as seguintes:

25 de janeiro. Não ficamos mais fortes à medida que os anos passam. O acúmulo de sofrimentos e dores debilita nossa capacidade de suportar mais sofrimentos e dores,
e como sofrimentos e dores são inevitáveis, tardiamente na vida até um pequeno contratempo pode ressoar com a mesma força que uma tragédia completa quando somos
jovens. A palha que quebrou a coluna do camelo. Seu pênis idiota na vagina de outra mulher, por exemplo. Willa estava à beira do colapso nervoso antes até de ocorrer
aquela aventura infame. Ela já suportou coisas demais ao longo da vida, aguentou bem mais do que a cota normal de dores e, durona como ela precisou ser, ela não
é assim tão durona quanto imagina. Um marido morto, um filho morto, um enteado que foge de casa e um segundo marido infiel - um segundo marido quase morto. O que
teria acontecido se você tivesse tomado a iniciativa anos atrás, quando a viu pela primeira vez naquele seminário no Salão de Filosofia em Columbia, a brilhante
garota Barnard admitida num curso para estudantes de pós-graduação, aquela de rosto bonito e delicado e mãos esguias? Houve uma forte atração naquele momento, tantos
e tantos anos atrás, muito antes de Karl e Mary-Lee, e, jovens como os dois eram na ocasião, vinte e dois e vinte anos, o que teria acontecido se você tivesse dado
em cima dela com um pouco mais de empenho e se o namorico tivesse dado em casamento? Resultado: nenhum marido morto, nenhum filho morto, nenhum enteado fugido. Outros
sofrimentos e outras dores, está claro, mas não essas. Agora ela trouxe você de volta do reino dos mortos, evitou o eclipse definitivo de toda esperança, e seu corpo
que segue respirando deve ser considerado o maior triunfo dela. A esperança resiste então, mas não a certeza. Houve uma trégua, uma declaração de desejo de paz,
mas não está claro se foi uma genuína convergência de mentes. O garoto continua a ser um obstáculo. Ela não consegue perdoar e esquecer. Nem mesmo depois que ele
e a mãe telefonaram de Nova York para saber como você estava, nem mesmo depois que o garoto continuou telefonando todos os dias durante duas semanas para saber das
últimas notícias sobre seu estado de saúde. Ela vai continuar na Inglaterra durante o feriado de Páscoa e você não vai voltar lá. Já se perdeu tempo demais e sua
presença é necessária no escritório, o capitão de um navio que naufraga não deve abandonar sua tripulação. Talvez ela mude de ideia à medida que os meses forem passando.
Talvez ela ceda. Mas você não pode renunciar ao garoto por causa dela. Também não pode renunciar a ela por causa do garoto. Você quer os dois, tem de ter os dois,
e, de um jeito ou de outro, terá, ainda que eles dois não tenham um ao outro.

26 de janeiro. Agora que você e o garoto passaram um fim de tarde juntos, você se descobre curiosamente desapontado. Anos demais de expectativas, talvez, anos demais
imaginando como seria o reencontro, e por isso o sentimento de anticlímax quando afinal aconteceu, pois a imaginação é uma arma poderosa e os reencontros imaginados
que se repetiram à exaustão em sua mente tantas vezes ao longo dos anos tinham necessariamente de ser mais ricos, mais plenos e mais satisfatórios, do ponto de vista
emocional, do que foi a realidade. Você também está perturbado com o fato de que não consegue deixar de sentir rancor em relação a ele. Se existe alguma esperança
para o fu­­turo, então você também deve aprender a perdoar e a esquecer. Mas o garoto já se colocou entre você e sua mulher e, a menos que sua mulher passe por uma
mudança de sentimentos e o aceite de novo em seu mundo, o rapaz vai continuar a representar a distância que cresceu entre vocês dois. Apesar de tudo, foi uma ocasião
milagrosa e o garoto está tão seriamente arrependido que uma pessoa teria de ser feita de pedra para não desejar o começo de um novo capítulo. Porém vai levar algum
tempo até que vocês dois se sintam à vontade juntos, até que vocês consigam confiar um no outro de novo. Fisicamente ele parece bem. Forte e bem-disposto, com um
brilho animador nos olhos. Os olhos de Mary-Lee, a marca indelével da mãe. Ele disse que assistiu a duas representações de Dias felizes e acha que a mãe está esplêndida
no papel de Winnie, e quando você sugeriu que os dois podiam ir vê-la juntos - se ele aguentasse ver a peça pela terceira vez - ele aceitou com entusiasmo. Falou
demoradamente sobre a jovem mulher pela qual está apaixonado, Pilar, Pilar Hernandez, Sanchez, Gomez, seu sobrenome escapa a você agora, e ele está ansioso para
apresentá-la a você, quando ela voltar para Nova York em abril. Ele não tem nenhum plano definido para o futuro. Por enquanto, continua trabalhando na loja de Bing
Nathan, mas, se conseguir juntar dinheiro bastante, tem acalentado a ideia de voltar para a faculdade no ano que vem e se formar. Talvez, quem sabe, tudo depende.
Você não teve coragem de fazê-lo encarar questões difíceis do passado. Por que ele fugiu, por exemplo, ou por que ficou escondido por tanto tempo. Sem falar no motivo
por que deixou a namorada na Flórida e veio sozinho para Nova York. Haverá tempo para fazer perguntas mais tarde. A noite passada foi simplesmente o primeiro assalto,
dois boxeadores fazendo o reconhecimento um do outro, antes de entrar no que interessa. Você o ama, é claro, você o ama com todo o seu coração, mas não sabe mais
o que pensar a respeito dele. Deixe que ele dê provas de que é um filho digno.

27 de janeiro. Se a empresa afundar, você vai escrever um livro intitulado Quarenta anos no deserto: publicar literatura num país onde as pessoas odeiam livros.
As vendas de Natal foram ainda piores do que você temia, o pior resultado de todos os tempos. No escritório, todo mundo anda preocupado - os antigos funcionários,
os novatos, todo mundo, desde os editores experientes até os estagiários com cara de bebê. A imagem do seu corpo enfraquecido e emaciado também não consegue inspirar
muita confiança no futuro. Todavia você está contente por estar de volta, contente por estar no lugar que você sente que é o seu, e ainda que o alemão e o israelense
tenham ambos deixado você na mão, você se sente menos desesperado com a situação do que antes de ficar doente. Nada como um breve bate-papo com a Morte para ver
as coisas em perspectiva, e você avalia que, se conseguiu evitar uma prematura saída de cena naquele hospital britânico, também vai encontrar um jeito de governar
a empresa até todos estarem a salvo deste tufão detestável. Nenhuma tormenta dura para sempre e agora que você está de volta ao leme, se dá conta de como aprecia
sua posição no comando, como essa pequena empresa foi acalentadora para você durante todos esses anos. E você deve ser um bom chefe, ou pelo menos um chefe estimado,
pois, quando você voltou para trabalhar ontem, Jill Hertzberg o abraçou e disse, Pelo amor de Deus, Morris, nunca mais faça uma coisa dessas, por favor, eu imploro,
e depois, um por um, todos os membros da equipe, todos os nove, homens e mulheres, entraram no seu gabinete e lhe deram um abraço, lhe deram as boas-vindas depois
de sua ausência longa e tumultuada. Sua própria família pode estar em ruínas, mas esta é sua família também e seu dever é protegê-los e fazê-los compreender que,
apesar da cultura idiota que os cerca, os livros ainda têm importância e o trabalho que eles fazem é um trabalho relevante, um trabalho essencial. Não há dúvida
de que você é um velho tolo e sentimental, um homem em descompasso com seu tempo, mas você gosta de nadar contra a corrente, esse foi o princípio fundador da empresa
trinta e cinco anos atrás e você não tem a menor intenção de mudar de atitude agora. Todos eles estão preocupados com a perspectiva de perder o emprego. É isso o
que você vê no rosto deles quando os observa falando uns com os outros e por isso convocou uma reunião geral esta tarde e lhes disse para esquecer 2008, 2008 agora
é história e, ainda que 2009 não seja nada melhor, não haverá dispensas de funcionários na Heller Books. Imaginem uma liga de softball de editores, você disse. Qualquer
redução do plantel e será impossível escalar um time completo na primavera, e o orgulhoso desempenho da Heller Books com suas derrotas em vinte e sete temporadas
consecutivas vai chegar ao fim. Então acham que não vamos ter um time de softball este ano? Impossível.

6 de fevereiro. Escritores nunca deveriam falar com jornalistas. A entrevista é uma forma literária degradada que não serve a nenhum propósito senão simplificar
aquilo que nunca deveria ser simplificado. Renzo sabe disso e, como é um homem que se comporta segundo aquilo que ele sabe, ficou de boca fechada durante anos, mas
nesta noite, no jantar que se encerrou há apenas uma hora, ele informou a você que passou parte da tarde falando para um gravador, respondendo perguntas feitas a
ele por um jovem escritor de contos que pretende publicar o resultado depois que o texto for editado e depois que Renzo tiver dado sua aprovação. Circunstâncias
especiais, disse ele, quando você perguntou por que tinha feito aquilo. O pedido veio de Bing Nathan, que por acaso é amigo do jovem escritor de contos, e, como
Renzo tem consciência de que você tem uma grande dívida com Bing Nathan, achou que seria grosseiro negar, seria imperdoável. Noutras palavras, Renzo quebrou seu
silêncio por causa da amizade por você e você lhe disse que aquilo o deixava muito comovido, grato e contente por ele ter compreendido como era importante para você
que ele pudesse fazer alguma coisa por Bing. Uma entrevista por causa de Bing, então, por causa de você, mas com certas restrições que o jovem escritor teve de aceitar
antes de Renzo admitir falar para ele. Nada de perguntas sobre sua vida ou sua obra, nada de perguntas sobre política, nada de perguntas sobre nenhum assunto senão
a obra de outros escritores, escritores mortos, escritores recentemente mortos que Renzo tinha conhecido, alguns a fundo, outros por alto, e que ele queria elogiar.
Nada de ataques, disse ele, só elogios. Renzo forneceu de antemão ao entrevistador uma lista de nomes e o orientou a selecionar alguns, só uns cinco ou seis, porque
a lista era comprida demais para ele poder falar sobre todos. William Gaddis, Joseph Heller, George Plimpton, Leonard Michaels, John Gregory Dunne, Alain Robbe-Grillet,
Susan Sontag, Arthur Miller, Robert Creeley, Kenneth Koch, William Styron, Ryszard Kapuscinski, Kurt Vonnegut, Grace Paley, Norman Mailer, Harold Pinter e John Updike,
que morreu na semana passada, toda uma geração que foi para o espaço em poucos anos. Você também conheceu muitos desses escritores, conversava com eles, circulava
no meio deles, você os admirava, e quando Renzo enumerou seus nomes, você ficou espantado ao ver que eles eram muitos, e uma tristeza terrível desceu sobre ambos
quando ergueram um brinde em memória dos escritores. A fim de animar o ambiente, Renzo começou a contar uma história sobre William Styron, uma anedotazinha divertida
de muitos anos atrás, sobre uma revista francesa, Le Nouvel Observateur, que planejava uma edição inteira sobre os Estados Unidos, e entre as matérias que pretendiam
incluir estava uma longa conversa entre um romancista americano mais velho e um romancista americano mais jovem. A revista já tinha feito contato com Styron e ele
propôs o nome de Renzo como o romancista mais jovem com quem ele gostaria de conversar. Uma editora ligou para Renzo, que na época estava mergulhado num romance
(como de costume), e, quando Renzo explicou para ela que estava ocupado demais para poder aceitar - tremendamente lisonjeado com o convite de Styron, mas ocupado
demais -, a mulher ficou tão chocada com sua recusa que ameaçou se matar, Je me suicide!, mas Renzo simplesmente riu, dizendo a ela que ninguém comete suicídio por
causa de um assunto tão trivial e que de manhã ela iria se sentir melhor. Renzo não conhecia Styron muito bem, só o tinha visto uma ou duas vezes, mas tinha seu
telefone e, depois da conversa com a editora suicida, telefonou para Styron para lhe agradecer pela sugestão do seu nome, mas queria que ele soubesse que estava
trabalhando com afinco num romance e por isso tinha recusado o convite. Esperava que Styron entendesse. Totalmente, disse Styron. Na verdade, foi por isso que ele
tinha sugerido o nome de Renzo. Ele também não queria participar da conversa e tinha uma razoável certeza, estava mais ou menos convencido, de que Renzo diria não
para a revista e assim o tiraria daquele aperto. Obrigado, Renzo, disse ele, você me fez um grande favor. Risos. Você e Renzo vieram abaixo com a resposta de Styron
e então Renzo disse: “Um homem tão educado, com tão boas maneiras. Ele simplesmente não teve coragem de decepcionar a editora e então me usou para fazer isso por
ele. Por outro lado, o que teria acontecido se eu tivesse respondido que sim? Desconfio que ele iria fingir que estava empolgadíssimo, encantado com o fato de nós
dois podermos nos sentar juntos e gastar nossa saliva falando sobre a situação do mundo. Era assim que ele era. Uma boa pessoa. A última coisa que queria era ferir
os sentimentos de alguém”. Da bondade de Styron, vocês dois passaram a falar sobre a campanha do PEN em apoio a Liu Xiaobo. Um grande abaixo-assinado subscrito por
escritores do mundo inteiro foi divulgado no dia 20 de janeiro e o PEN planeja prestar a ele uma homenagem in absentia no seu jantar anual para levantar fundos,
em abril. Você estará lá, é claro, pois nunca falta a esse jantar, mas a situação parece desoladora e você tem pouca esperança de que dar um prêmio para Liu Xiaobo
em Nova York terá algum efeito sobre sua situação em Pequim - um homem detido, sem dúvida em breve um homem preso. Segundo Renzo, uma jovem que trabalha no PEN mora
na mesma casa onde o garoto está acampado, no Brooklyn. Como o mundo é pequeno, não é? Sim, Renzo, o mundo é mesmo pequeno.

7 de fevereiro. Você esteve com o garoto mais duas vezes depois do encontro no dia 26 de janeiro. Na primeira vez, foram ver Dias felizes juntos (cortesia de Mary-Lee,
que deixou dois ingressos para vocês na bilheteria), assistiram à peça numa espécie de arrebatamento atordoado (Mary-Lee estava brilhante) e depois do espetáculo
foram ao camarim, onde ela assaltou os dois com beijos desvairados e fervorosos. O êxtase de representar diante da plateia, ao vivo, uma superabundância de adrenalina
correndo pelo seu corpo, seus olhos em chamas. O garoto se mostrou extraordinariamente satisfeito, em especial na hora em que você e a mãe dele se abraçaram. Mais
tarde, você se deu conta de que essa foi provavelmente a primeira vez na vida que o garoto viu aquilo acontecer. Ele compreende que a guerra agora chegou ao fim,
que os combatentes há muito tempo baixaram as armas e transformaram suas espadas em lâminas de arado. Mais tarde, jantar com Korngold e lady Swann num pequeno restaurante
perto da Union Square. O garoto pouco falou, mas foi extremamente atencioso. Alguns comentários sagazes a respeito da peça, analisando a fala de abertura do segundo
ato, Salve, luz sagrada, e por que razão Beckett escolheu fazer uma referência a Milton naquele ponto, a ironia de tais palavras no contexto de um mundo onde o dia
é eterno, uma vez que a luz não pode ser sagrada a não ser como um antídoto à escuridão. Os olhos da mãe postos nele enquanto ele falava, cintilantes de adoração.
Mary-Lee, a rainha do excesso, a Madonna dos sentimentos nus, e no entanto você fica ali quieto olhando para ela com uma pontada de inveja - achando um pouco de
graça, é verdade, mas também se perguntando por que você continua a se conter. Você se sentiu mais à vontade na presença do garoto naquela segunda vez. Está se acostumando
a ele de novo, quem sabe, mas ainda não está pronto para baixar a guarda. O encontro seguinte foi mais íntimo. Jantar no Joe Junior’s nesta noite em homenagem aos
velhos tempos, só os dois, mastigando hambúrgueres gordurosos e batatas fritas encharcadas, e falaram sobretudo de beisebol, o que trouxe à sua memória as numerosas
conversas que você teve com seu pai, aquele tema apaixonante, mas completamente neutro, um terreno seguro, por assim dizer, mas então ele mencionou a morte de Herb
Score e contou que naquele dia teve muita vontade de telefonar para você para conversar sobre o assunto, o arremessador cuja carreira foi arruinada pelo mesmo tipo
de lesão que tirou de cena o seu pai, o avô que ele nunca viu, mas depois decidiu que um telefonema interurbano era inadequado, e como é estranho que o primeiro
contato dele com você acabou sendo mesmo por telefone, afinal, os telefonemas do Brooklyn para Exeter quando você estava no hospital, e como sentiu medo de nunca
mais ver você. Você o levou de volta para Downing Street depois do jantar e foi lá, na sala do velho apartamento, que ele de repente se descontrolou e começou a
chorar. Ele e Bobby estavam brigando naquele dia, disse ele, na beira da estrada, tantos anos atrás, e, pouco antes de o carro aparecer, ele empurrou Bobby, empurrou
o Bobby, que era menor do que ele, com força suficiente para que ele caísse, e foi por isso que ele foi atropelado e morreu. Você escutou em silêncio. Não havia
mais palavras disponíveis para você. Tantos anos sem saber e agora isso, a absoluta banalidade disso, uma briga à toa entre irmãos postiços e todo o estrago decorrente
daquele empurrão. Tantas coisas se tornaram mais claras para você depois da confissão do garoto. Sua feroz retirada para dentro de si mesmo, a fuga de sua própria
vida, os penosos trabalhos braçais como forma de penitência, mais de uma década no inferno por causa de um instante de raiva. Ele pode ser perdoado? Você não conseguiu
pôr as palavras para fora da boca nesta noite, mas pelo menos teve a sensatez de abraçá-lo e apertá-lo com força contra o peito. Mais especificamente: existe alguma
coisa para ser perdoada? Provavelmente não. Mesmo assim, ele deve ser perdoado.

8 de fevereiro. A conversa dominical ao telefone com Willa. Está preocupada com você, com sua saúde, quer saber como tem passado, pergunta se não seria melhor se
ela largasse o trabalho e voltasse para casa a fim de cuidar de você. Você ri ao imaginar sua mulher trabalhadora e dedicada falando para os diretores da universidade:
“Até logo, pessoal, meu marido está com dor de barriga, tenho de me mandar, e fodam-se os alunos que estão assistindo minhas aulas, aliás eles podem muito bem fazer
as aulas sozinhos”. Willa dá uma risada quando você faz essa cena para ela e é a primeira boa risada que você ouve dela em muito tempo, a me­­lhor risada em muitos
meses. Você conta para ela que foi jantar com o garoto noite passada, mas ela se mostra impassível, não faz nenhuma pergunta, só um pequeno grunhido para que você
saiba que ela está escutando, mas nada além disso, e no entanto você vai em frente assim mesmo, comenta que o rapaz parece finalmente estar acertando as contas consigo
mesmo. Mais um grunhido. Nem é preciso dizer que você não contou nada a respeito da confissão. Uma pequena pausa e depois Willa conta para você que afinal está se
sentindo forte para retomar o livro, o que é mais um bom sinal na sua opinião, e então você lhe diz que Renzo mandou um grande abraço para ela, que você manda seu
amor para ela e que está cobrindo o corpo dela com mil beijos. A conversa chega ao fim. Não foi uma conversa ruim, levando em conta a situação, mas, depois que você
desliga o telefone, fica andando pelo apartamento sentindo que está encalhado, no meio de lugar nenhum. O garoto fez muitas perguntas sobre Willa, mas você ainda
não conseguiu tomar coragem de contar para ele que Willa o baniu de seu coração. O Homem Lata agora veste terno e gravata. O Homem Lata vai para o trabalho, paga
suas contas e se tornou um cidadão-modelo. Mas o Homem Lata continua com um parafuso a menos na cabeça e, de noite, quando o mundo se fecha sobre ele, ainda fica
de quatro no chão e uiva para a lua.

15 de março. Você esteve com o garoto mais seis vezes desde a última entrada sobre ele no dia 7 de fevereiro. Uma visita ao Hospital de Coisas Quebradas numa tarde
de sábado, onde você o viu emoldurando quadros e se perguntou se aquilo é tudo o que ele almeja fazer, se ele vai ficar contente em saltar de um trabalho esquisito
para outro, até ficar velho. Porém, você não o pressiona a tomar decisões. Deixa o garoto por sua própria conta e espera para ver o que vai acontecer, embora no
íntimo você deseje que ele volte para a faculdade no próximo outono e termine os cursos necessários para se formar, o que é algo que ele ainda menciona de vez em
quando. Mais um jantar a quatro com Korngold e La Swann numa noite de segunda-feira, quando o teatro estava fechado. Uma noite no cinema juntos para ver a obra-prima
de Bresson Um condenado à morte escapou. Um almoço no meio da semana, precedido de uma visita ao escritório, onde você deu uma volta com ele e apresentou-o a seu
pequeno bando de valentões, e a ideia louca que passou pela sua cabeça naquela tarde, se perguntando se um garoto com aquela inteligência e interesse por livros
não poderia achar um lugar para si no ramo da edição, como um empregado da Heller Books, por exemplo, onde ele poderia ser preparado para um dia ser o sucessor do
pai, mas não se deve sonhar muito alto, pensamentos desse tipo podem plantar sementes venenosas na cabeça da gente, e é melhor refrear a vontade de escrever o futuro
de outra pessoa, ainda mais se essa pessoa for seu filho. Um jantar com Renzo perto da casa dele em Park Slope, o padrinho de bom humor nessa noite, mergulhado em
mais um romance, e sem mais conversas sobre crises de desânimo e chamas extintas. E depois a visita à casa onde o garoto está morando, uma chance de ver o Quarteto
de Sunset Park em ação. Um lugarzinho triste e arrasado, mas você gostou de ver os amigos dele, Bing sobretudo, é claro, que parece estar ótimo, assim como as duas
garotas, Alice, a tal que trabalha no PEN, que falou com grande entusiasmo a respeito do caso de Liu Xiaobo e depois fez para você uma série de perguntas minuciosas
a respeito da geração de seus pais, os jovens homens e mulheres da Segunda Guerra Mundial, e Ellen, tão bonita e meiga, que mais tarde lhe mostrou um caderno de
esboços cheio de alguns dos mais obscenos desenhos eróticos que você já viu, o que fez você parar e se perguntar - só por um instante - se não seria possível resgatar
sua empresa das dificuldades atuais introduzindo uma nova linha de livros de arte pornográficos. Eles já receberam duas notificações de despejo e você exprimiu sua
preocupação de que eles poderiam estar abusando da sorte e acabar ficando numa situação complicada e perigosa, mas Bing bateu o punho na mesa com força e disse que
iam resistir até o fim, e você não quis mais argumentar, pois não cabe a você dizer a eles o que devem fazer, são todos pessoas adultas (mais ou menos) e perfeitamente
capazes de tomar as próprias decisões, mesmo que sejam erradas. Mais seis vezes e, pouco a pouco, você e o garoto ficaram mais próximos. Agora ele está se abrindo
para você e, numa dessas noites em que esteve sozinho com ele, muito provavelmente depois do filme de Bresson, o garoto contou toda a história da garota, Pilar Sanchez,
e o motivo por que teve de fugir da Flórida. Para ser absolutamente sincero, você ficou estarrecido quando ele lhe contou quão jovem ela é, mas, depois que você
pensou naquilo mais um pouco, se deu conta de que fazia sentido para ele se apaixonar por alguém daquela idade, pois a vida do garoto foi atrofiada, interrompida
em seu desenvolvimento natural e normal, e, embora pareça um homem inteiramente adulto, seu ser interior está imobilizado em algum ponto por volta dos dezoito ou
dezenove anos. Houve um momento em janeiro em que ele teve medo de perder a garota, ele disse, houve uma briga terrível, o primeiro desentendimento sério entre ambos,
e ele disse que foi culpa dele, em grande parte, inteiramente culpa dele, pois, quando os dois se conheceram e ele não tinha a menor ideia de como ela se tornaria
importante para ele, ele mentiu para ela a respeito de sua família, contou que seus pais tinham morrido, que não tinha nenhum irmão, que nunca tinha tido irmão nenhum,
e, agora que ele voltou para os pais, queria que ela soubesse a verdade e, quando de fato contou para ela a verdade, a garota ficou tão furiosa por ele ter mentido
para ela que desligou o telefone na cara dele. Seguiu-se uma semana de batalhas e ela tinha razão para ficar revoltada, ele disse, ele a havia desapontado, ela tinha
perdido a confiança nele e foi só quando pediu que ela se casasse com ele que a garota começou a amansar, a compreender que ele nunca mais iria desapontá-la. Casamento!
Comprometido com uma garota que nem terminou o ensino médio! Espere até você conhecê-la no mês que vem, disse o garoto. E você respondeu, da maneira mais calma que
pôde, que esperava ansiosamente aquele momento.

29 de março. A conversa dominical com Willa ao telefone. Finalmente você lhe conta a respeito da confissão do garoto, sem saber se isso vai melhorar ou piorar a
situação. É demais para ela assimilar tudo de uma só vez e assim sua reação se desdobra em diversas fases distintas ao longo dos minutos que seguem. Primeira fase:
silêncio total, um silêncio que dura o bastante para que você se sinta compelido a repetir o que acabou de lhe dizer. Segunda fase: uma voz suave que diz: “Isso
é horrível, é demais para suportar, como é que isso pode ser verdade?”. Terceira fase: soluços, enquanto sua mente retorna para aquela estrada e ela completa as
partes que faltam no quadro, imagina a briga entre os dois, vê Bobby sendo esmagado mais uma vez. Quarta fase: raiva crescente. “Ele mentiu para nós”, ela diz. “Ele
nos traiu com suas mentiras.” E você responde dizendo que ele não mentiu, simplesmente não contou, estava traumatizado demais com a própria culpa para poder falar,
e viver com essa culpa por pouco não o destruiu completamente. “Ele matou meu filho”, diz ela, e você responde dizendo que ele empurrou o filho dela na estrada e
que a morte do filho dela foi um acidente. Os dois continuam conversando durante mais de uma hora e, vezes seguidas, você lhe diz que a ama, que, não importa o que
ela decidir ou como resolver tratar o garoto, você sempre vai amá-la. Ela rompe em lágrimas mais uma vez, por fim se põe no lugar do garoto, por fim diz para você
que compreende como ele sofreu, mas ela não sabe se compreender é o bastante, não está claro para ela o que quer fazer, não tem certeza de que vai ter força para
encarar o garoto outra vez. Precisa de tempo, diz ela, mais tempo para pensar de novo em tudo, e você lhe diz que não há nenhuma pressa, você jamais irá pressioná-la
a fazer nada que não queira fazer. A conversa termina e, mais uma vez, você tem a sensação de estar encalhado no meio de lugar nenhum. No final da tarde, você começa
a se resignar ao fato de que, agora, lugar nenhum é o seu lar e que é aí que você vai passar os últimos anos de sua vida.

12 de abril. Ela faz você se lembrar de alguém que conheceu, mas você não consegue determinar quem é essa pessoa e então, cinco ou seis minutos depois de ser apresentado
a ela, a garota ri pela primeira vez e você reconhece, sem sombra de dúvida, que aquela pessoa é Suki Rothstein. Suki Rothstein na luz incandescente do sol daquele
final de tarde na Houston Street, quase sete anos atrás, rindo com seus amigos, dentro do seu luminoso vestido vermelho, a promessa da juventude em sua encarnação
mais completa e magnífica. Pilar Sanchez é a gêmea de Suki Rothstein, um pequeno ser luminescente que traz a chama da vida dentro de si, e que os deuses sejam mais
bondosos com ela do que foram com a filha desafortunada de seus amigos. Ela chegou da Flórida no início da noite de sábado e, no dia seguinte, domingo de Páscoa,
ela e o garoto vieram ao apartamento na Downing Street. O garoto tinha dificuldade em manter as mãos longe da garota e, mesmo quando estavam sentados lado a lado
no sofá conversando com você, que estava em sua poltrona confortável, ele não parava de beijá-la no pescoço, de afagar seu joelho nu, de pôr o braço sobre seus ombros.
Você já tinha visto a garota, é claro, quase um ano atrás naquele pequeno parque no sul da Flórida, você foi uma testemunha clandestina do primeiro encontro dos
dois, a primeira conversa dos dois, mas estava longe demais da garota para poder fitá-la nos olhos e enxergar o poder que havia neles, os olhos castanhos e firmes
que absorvem tudo a seu redor, que emitem a luz que fez o garoto se apaixonar por ela. Eles trazem boas notícias, disse o garoto, as melhores notícias do mundo,
e logo depois você fica sabendo que Pilar foi aceita em Barnard com uma bolsa de estudos integral e vai vir morar em Nova York imediatamente depois que se formar
no ensino médio em junho. Você disse para ela que sua mulher também tinha estudado em Barnard, que você a conheceu quando ela era aluna em Barnard e que agora a
tocha tinha passado da madrasta do garoto para ela. E então (você quase caiu da poltrona quando ouviu isso) o garoto declarou que ele tinha se matriculado na Escola
de Estudos Gerais da Universidade Columbia e que no outono vai começar a parte do curso que falta para tirar o seu bacharelado. Você lhe perguntou como ele ia fazer
para pagar o curso e ele respondeu que tinha algum dinheiro no banco e cobriria o restante da despesa pedindo um empréstimo para estudantes universitários. Você
ficou impressionado por ele não lhe pedir ajuda, muito embora você estivesse perfeitamente disposto a dá-la, mas você sabe que é melhor para o moral do garoto assumir
esse fardo sozinho. Enquanto a conversa prosseguia, você ia se dando conta de que estava ficando cada vez mais feliz, de que hoje esteve mais feliz do que em qualquer
outro momento nos últimos treze anos, e quis beber para brindar essa felicidade, ficar bêbado por causa dessa felicidade, e passou pela sua cabeça que, o que quer
Willa resolva quanto ao garoto, você vai ser capaz de suportar uma vida dividida entre as duas pessoas que você mais ama no mundo, que você desfrutará seus prazeres
em todo lugar e em toda ocasião em que puder encontrá-los. Você reservou uma mesa para jantar no Waverly Inn, esse restaurante venerável da velha Nova York, a Nova
York que já não existe mais, achando que Pilar gostaria de conhecer um lugar assim, e ela gostou mesmo, na verdade chegou a dizer que se sentia no paraíso, e, enquanto
vocês devoravam o jantar de Páscoa, a garota estava cheia de perguntas, queria saber tudo sobre administrar uma editora, como você tinha conhecido Renzo Michaelson,
como você decidia aceitar um livro ou não, e, enquanto você respondia as perguntas de Pilar, compreendia que ela estava escutando você com uma concentração enorme,
que não ia esquecer nenhuma palavra que você disse. A certa altura, a conversa derivou para matemática e ciência e você se viu escutando uma discussão sobre física
quântica, um tema que você admitiu francamente que lhe escapa por completo, e então Pilar se virou para você e disse: “Pense no assunto deste jeito, senhor Heller.
Na física antiga, três vezes dois é igual a seis e duas vezes três é igual a seis são proposições permutáveis. Na física quântica não. Três vezes dois e duas vezes
três são dois assuntos diferentes, proposições distintas e separadas”. Há muitas coisas neste mundo para você se preocupar, mas o amor do garoto por essa garota
não é uma delas.

13 de abril. Nesta manhã, você acorda com a notícia de que Mark Fidrych morreu. Só cinquenta e quatro anos de idade, morto em sua fazenda em Northborough, Massachusetts,
quando o caminhão de lixo que ele estava consertando desabou em cima dele. Primeiro, Herb Score, e agora Mark Fidrych, os dois gênios malditos que deslumbraram o
país durante alguns dias, alguns meses, e depois sumiram de cena. Você recorda o velho refrão de seu pai: Pobre Herb Score. Agora você acrescenta mais uma baixa
na escalação dos que tombaram: Mark Fidrych. Que o Pássaro descanse em paz.

 

Alice Bergstrom e Ellen Brice

É quinta-feira, 30 de abril, e Alice acabou de concluir mais um expediente de cinco horas no PEN American Center. Rompendo a rotina estabelecida nos últimos meses,
ela não vai correndo para casa, em Sunset Park, para trabalhar em sua dissertação. Em vez disso está a caminho de um encontro com Ellen, que tem as quintas-feiras
de folga, e as duas vão se regalar com um almoço tardio no Balthazar, a brasserie francesa na Spring Street, no SoHo, a menos de dois minutos a pé do escritório
do PEN, no número 588 da Broadway. Ontem, mais uma ordem judicial foi entregue na casa por outro oficial de justiça da cidade de Nova York, elevando para quatro
o número total das ordens de despejo que receberam, e no início daquele mês, quando chegou a terceira ordem de despejo, ela e Ellen concordaram em que a próxima
advertência seria a última, que naquele ponto elas iriam recolher suas bandeiras de invasoras e se mudar para outro lugar, se mudar a contragosto. É por isso que
combinaram um encontro em Manhattan nessa tarde - para conversar e planejar o que iam fazer, com calma e bom senso, num ambiente distante de Bing e de suas declarações
agressivas e estouradas, e que lugar melhor para uma discussão calma e refletida do que aquele restaurante caro e elegante, no tranquilo interlúdio entre o almoço
e o jantar?

Jake agora está fora de cena. O momento das cartas na mesa para o qual ela vinha se preparando quando o viu pela última vez, no dia 5 de janeiro, por fim aconteceu
em meados de fevereiro e o mais doloroso naquela última conversa foi a rapidez com que Jake concordou com a interpretação feita por ela das presentes circunstâncias
entre os dois, a pequena resistência que ele demonstrou à ideia de cada um seguir seu caminho, de pôr um ponto final na relação. Tinha alguma coisa errada com ele,
ele disse, mas a verdade era que não se sentia mais excitado quando estava com ela, que não esperava mais com ansiedade a hora de encontrá-la, e ele punha em si
mesmo a culpa por essa mudança de sentimentos e, francamente, não conseguia entender o que tinha acontecido com ele. Ele disse que ela era uma pessoa extraordinária,
com numerosas qualidades importantes - inteligência, compaixão, sabedoria - e que ele era uma alma defeituosa, incapaz de amá-la da maneira como ela merecia ser
amada. Ele não explorou a questão mais profundamente do que isso, por exemplo, não se deteve nos motivos por que havia perdido o interesse sexual por ela, mas isso
já seria esperar demais, ela se deu conta, pois ele admitia abertamente que tais mudanças o deixavam tão confuso quanto ela. Ela perguntou se ele já havia pensado
em psicoterapia e ele disse que sim, estava pensando no assunto, sua vida estava um pandemônio e não havia dúvida de que ele precisava de ajuda. Alice sentiu que
ele estava dizendo a verdade, mas ela não está inteiramente certa disso, e, toda vez que repassa mentalmente aquela conversa, se pergunta se a posição passiva e
autocondenatória dele não foi simplesmente a maneira mais fácil de cair fora, uma mentira para mascarar o fato de que ele havia se apaixonado por outra pessoa. Mas
que outra pessoa? Ela não sabe, e, nos dois meses e meio desde a última vez que o viu, nenhum dos seus amigos comuns lhe falou a respeito de uma nova pessoa ligada
a Jake. Podia ser que não houvesse mesmo ninguém - ou então sua vida amorosa tinha virado um segredo muito bem guardado. De um jeito ou de outro, ela tem saudade
dele. Agora que Jake foi embora, ela tende a lembrar os bons momentos que tiveram juntos e ignorar os momentos difíceis e, muito estranhamente, aquilo que desperta
saudade são, acima de tudo, as ocasionais tiradas de humor que escapavam de Jake em momentos imprevistos, momentos em que o Jake Baum nitidamente sem humor baixava
a guarda e começava a personificar diversas figuras cômicas, sobretudo aquelas que falavam com pesados sotaques estrangeiros, russos, indianos, coreanos, e nisso
ele era surpreendentemente bom, sempre fazia as vozes direitinho, mas esse era o velho Jake, é claro, o Jake de um ano atrás, e a verdade é que já fazia um bom tempo
desde a última vez que ele a fizera rir, se transformando num daqueles personagens engraçados. Senhorrrita Alis. Beichi mi, Senhorrrita Alis. Ela duvida que outro
homem apareça em sua vida em breve e isso a deixa preocupada, pois agora ela está com trinta anos de idade e a perspectiva de um futuro sem filhos a enche de apreensão.

Todavia ela perdeu peso, mais por falta de apetite do que por efeito de alguma dieta escrupulosa, mas setenta quilos é um número razoável para ela, e ela parou de
pensar em si mesma como uma vaca repulsiva - ou seja, toda vez que pensa em seu corpo, o que parece ocorrer com menos frequência agora que Jake se foi e não tem
mais ninguém para tocá-la. Sua dissertação empacou por duas semanas mais ou menos, depois que Jake foi embora, mas ela se recuperou e desde então tem trabalhado
com afinco, na verdade com tanto afinco que agora ela está bem avançada no capítulo final e acha que pode terminar a primeira versão completa em aproximadamente
dez dias. Nos últimos três anos, a dissertação foi um fim em si mesmo, a montanha que ela decidiu escalar, mas ela raramente pensava no que iria acontecer depois
que chegasse ao topo. Se e quando pensava no assunto, ela, com otimismo, achava que o passo seguinte seria candidatar-se ao cargo de professora em alguma faculdade.
Foi para isso que você passou todos esses anos lutando para conseguir seu título de Ph.D., não foi? Eles lhe concedem seu doutorado e você então vai dar aulas por
aí. Mas, agora que o fim está ao alcance da vista, ela tem reexaminado a questão, e não está mais segura de maneira nenhuma de que dar aulas seja a resposta. Ela
ainda está inclinada a fazer uma tentativa, mas, depois da experiência pouco feliz como professora assistente no ano passado, ela se pergunta se carregar pedras
em algum departamento universitário de inglês durante as próximas quatro décadas será satisfatório o bastante para sustê-la. Outras possibilidades lhe ocorreram
no último mês e pouco. Um cargo maior, mais exigente, no PEN, por exemplo. Aquele trabalho a tem envolvido muito mais do que ela imaginava que ia acontecer e ela
não quer abrir mão dele, o que pode acabar sendo obrigada a fazer, caso consiga um lugar num departamento de inglês numa faculdade - que aliás, muito provavelmente,
seria numa faculdade situada a mil e trezentos quilômetros ao sul ou a oeste de Nova York. Esse é o problema, ela diz para si mesma, quando empurra a porta do restaurante
e entra, não o emprego propriamente, mas o lugar. Ela não quer deixar Nova York. Quer continuar morando nesta cidade imensa e inabitável durante o maior tempo que
puder e, depois de todos esses anos, a ideia de morar em outro lugar lhe parece uma loucura.

Ellen já está lá, sentada numa das mesas junto à parede esquerda do restaurante, bebendo devagar uma taça de vinho branco, enquanto espera que a amiga apareça. Ellen
sabe mais do que Alice a respeito do que o ex-namorado desta andou fa­­zendo nos últimos meses, mas Ellen não contou nada para a amiga sobre esses acontecimentos,
porque prometeu a Bing guardar segredo e Ellen não é uma pessoa que falta com a palavra. Bing continuou a posar para ela uma ou duas vezes por semana durante os
primeiros quatro meses do ano e muitos muros entre ambos tombaram nesse tempo, na verdade todos os muros, e os dois compartilharam confidências que nenhum deles
estaria disposto a compartilhar com mais ninguém. Ellen sabe da paixão de Bing por Miles, por exemplo, e ela sabe de suas apreensões relativas ao problema homem-mulher,
ao problema homem-homem, e das dúvidas de Bing acerca de quem e do que ele é. Sabe que a certa altura, no final de janeiro, Bing se aventurou a ir ao pequeno apartamento
de Jake em Manhattan e, com a ajuda de farta quantidade de álcool e uma garantia de entrar em contato com Renzo Michaelson para tratar da entrevista que Jake desejava
com tanta sofreguidão, conseguiu seduzir o ex-namorado de Alice para um encontro sexual. Foi a primeira e última experiência de Bing no terreno da autodescoberta,
já que ele teve pouco ou nenhum prazer nos braços de Jake Baum, em sua boca ou em suas partes íntimas, e teve de confessar a contragosto que, mesmo continuando a
se sentir profundamente atraído por Miles, não tinha o menor interesse em fazer amor com homens, nem mesmo com Miles. Jake, por outro lado, como Bing desconfiava,
havia passado por uma série de experiências homem-homem quando adolescente e, a partir de seu encontro com Bing, que lhe trouxe muito prazer, se deu conta de que
seu interesse por homens não havia declinado com os anos, como ele supunha. Duas semanas depois, quando Alice o obrigou a pôr as cartas na mesa, ele tranquilamente
se retirou daquele caso a fim de dar livre curso a esse outro interesse. Ellen sabe disso porque Jake e Bing continuam em contato. Jake contou para Bing o que andava
fazendo, Bing transmitiu a informação para Ellen e Ellen tratou de ficar calada. Alice não sabe de nada, mas está muito melhor sem o Jake e, a menos que Ellen esteja
muito enganada a respeito das coisas do mundo, não vai passar muito tempo antes que Alice encontre outro homem para si.

Essa é a nova Ellen, a Ellen Brice que no mês passado promoveu uma revisão geral dos acessórios exteriores de sua pessoa a fim de exprimir a nova relação que ela
havia desenvolvido com o próprio corpo, a qual é um produto da nova relação que ela desenvolveu com o próprio coração, a qual por sua vez é um produto da nova relação
que ela desenvolveu com seu ser mais profundo. Numa semana decisiva e audaciosa, em meados de março, ela cortou o cabelo comprido e fino e deixou uma mecha curta
à maneira dos anos 20, jogou fora todas as peças de roupa que estavam em sua cômoda e em seu armário e passou a enfeitar o rosto com batom, ruge, delineador, sombra
e rímel toda vez que saía de casa, e assim a mulher descrita no diário de Morris Heller como meiga, a mulher que durante anos havia inspirado sentimentos de compaixão
e proteção naqueles que a conheciam, não projeta mais uma aura de vitimação e de incerteza arredia, e, sentada na banqueta junto à parede esquerda do Balthazar,
vestida numa minissaia preta de couro e num suéter apertado de casimira, bebendo aos pouquinhos seu vinho branco e olhando para Alice que entra, cabeças se voltam
quando as pessoas passam por ela e ela exulta com a atenção que recebe, exulta por saber que é a mulher mais desejável naquele lugar. Essa revolução em sua aparência
foi inspirada por um acontecimento improvável ocorrido em fevereiro, uma semana depois de Alice e Jake porem um fim em seu romance cambaleante, quando ninguém menos
do que Benjamin Samuels, o mesmo garoto do ensino médio que havia engravidado Ellen, quase nove anos atrás, no pavilhão da casa de veraneio dos pais dele, no sul
de Vermont, entrou de repente na administradora de imóveis onde Ellen trabalha, em busca de um apartamento para alugar em Park Slope ou num local próximo, um Benjamin
Samuels de vinte e cinco anos, plenamente adulto agora e empregado como vendedor de telefones celulares numa loja da T-Mobile na Sétima Avenida, um jovem que tinha
largado a faculdade, carente das habilitações intelectuais necessárias para alguma das profissões, direito ou medicina, digamos, que seus pais esperavam que um dia
fosse o seu destino, mas tão bonito como sempre, mais bonito do que nunca, o garoto lindo com seu lindo corpo de jogador de futebol, agora transformado num lindo
homem robusto. De início, não reconheceu Ellen, e embora ela desconfiasse que o sujeito de ombros largos sentado na sua frente fosse a encarnação madura do menino
a quem ela havia se entregado tantos anos antes, ela esperou até ele preencher as linhas em branco de sua ficha para declarar quem era ela. Ela falou em voz baixa
e hesitante, sem saber se ele ficaria contente ou descontente, sem saber sequer se ele iria se lembrar dela, mas Ben Samuels de fato se lembrava dela e Ben Samuels
ficou contente de encontrá-la de novo, tão contente que se levantou da cadeira onde estava, deu a volta para o outro lado da mesa de Ellen e lhe deu um grande abraço
de boas-vindas. Passaram a tarde entrando e saindo de apartamentos vazios juntos, se beijando no primeiro apartamento, fazendo amor no segundo apartamento, e, agora
que Ben Samuels se mudou para o bairro, ele e Ellen continuam fazendo amor quase todos os dias. É por isso que Ellen cortou o cabelo - porque Ben fica excitado com
sua nuca - e, quando cortou o cabelo, ela entendeu que ele ia ficar ainda mais excitado se ela começasse a usar roupas diferentes, mais sedutoras. Até agora, Ellen
ocultou Ben de Alice, Bing e Miles, mas, com tantas mudanças abruptas a caminho, a quarta ordem judicial, a iminente dispersão da pequena gangue, ela resolveu que
este é o dia em que vai revelar para Alice a coisa extraordinária que lhe aconteceu.

Alice agora beija a bochecha de Ellen e sorri seu sorriso de Alice e, enquanto Ellen observa a amiga se sentar na cadeira de frente para a banqueta, se pergunta
se algum dia será capaz de fazer um desenho que apreenda plenamente aquele sorriso, que é o sorriso mais afetuoso e mais luminoso do mundo, um sorriso que destaca
Alice de todas as outras pessoas que ela conhece, conheceu ou vai conhecer até o fim de sua vida.

Bem, menina, diz Alice, acho que a grande experiência acabou.

Para nós, talvez, diz Ellen, mas não para Bing e Miles.

Miles vai voltar para a Flórida daqui a três semanas.

Esqueci. Então, só o Bing. Que pena.

Estou calculando mais dez dias. Se eu conseguir trabalhar bem, vou conseguir terminar o último capítulo até lá. Para você está bem, ou prefere cair fora agora mesmo?

Eu não quero cair fora nunca. A questão é só que eu estou ficando com medo. Se os tiras aparecerem, vão jogar nossas tralhas no meio da rua e as coisas podem quebrar,
Bing pode enlouquecer, uma porção de possibilidades ruins passa pela minha cabeça. Dez dias é tempo demais, Alice. Acho que você devia começar a procurar outro lugar
amanhã.

Quantos apartamentos para alugar você tem?

Em Park Slope, uma porção. Em Sunset Park, bem menos.

Mas Sunset Park é mais barato, o que significa que Sunset Park é melhor.

Quanto você pode pagar?

O mínimo que o mercado aceitar.

Vou dar uma olhada nas ofertas depois do almoço e aviso a você o que a gente tem.

Mas talvez você já esteja cheia de Sunset Park. Se quiser ir para um outro lugar, para mim não tem nenhum problema. Contanto que eu possa pagar a minha metade do
aluguel, qualquer lugar está bom.

Querida Alice...

O que foi?

Eu não tinha entendido que você queria dividir comigo.

E você não quer?

Em princípio, sim, mas aconteceu uma coisa e eu agora estou pensando em outras opções.

Opções?

Uma opção.

Ah?

Ele se chama Benjamin Samuels e me chamou para ir morar com ele.

Sua diabinha. Há quanto tempo isso está rolando?

Há alguns meses.

Alguns meses? O que foi que deu em você? Alguns meses e não me contou nada?

Eu não estava segura o suficiente para contar para alguém. Achei que podia ser só uma coisa sexual que ia murchar antes que valesse a pena contar. Mas parece que
está ficando maior. Ficando maior o bastante para eu ter vontade de fazer uma tentativa, eu acho.

Está apaixonada por ele?

Não sei. Mas sou louca por ele, isso eu sei muito bem. E o sexo é sensacional.

Quem é ele?

O próprio.

O próprio quem?

O tal do verão do ano 2000.

O homem que engravidou você?

O menino que me engravidou.

Então a história finalmente é revelada...

Ele tinha dezesseis anos e eu, vinte. Agora ele tem vinte e cinco e eu tenho vinte e nove. Aqueles quatro anos são muito menos importantes hoje do que eram antes.

Meu Deus. Achei que podia ter sido o pai, mas nunca o filho.

É por isso que eu não podia contar. Ele era jovem demais e eu não queria arranjar confusão para ele.

Algum dia ele soube o que aconteceu?

Não na época, e agora também não. Não faz nenhum sentido contar para ele, não é?

Vinte e cinco anos de idade. E o que ele faz na vida?

Nada de mais. Ele tem um empreguinho sem graça e está longe de ser tremendamente inteligente. Mas ele me adora, Alice, e nunca fui mais bem tratada. A gente trepa
durante o horário do almoço todas as tardes, no apartamento dele na rua 5. Ele me vira do avesso. Eu desmaio quando ele toca em mim. Não consigo me cansar do corpo
dele. Tenho a impressão de que posso estar ficando louca e então acordo de manhã e me dou conta de que estou feliz, mais feliz do que estive em muito e muito tempo.

Que bom para você, El.

Pois é, que bom para mim. Quem é que podia imaginar?

 

Miles Heller

No sábado, dia 2 de maio, ele lê no jornal matutino que Jack Lohrke morreu aos oitenta e cinco anos de idade. O breve obituário recapitula as três vezes que ele
escapou milagrosamente da morte certa - os companheiros que tombaram na batalha de Bulge, o desastre de avião depois da guerra, o ônibus que despencou no barranco
-, mas é um artigo esquálido, um artigo perfunctório, que passa por alto pela carreira medíocre de Sortudo na liga principal, com os times dos Giants e dos Phillies,
e menciona só um detalhe que Miles ignorava: na mais célebre partida do século XX, a última rodada da melhor de três da decisão do campeonato da Liga Nacional entre
os Giants e os Dodgers em 1951, Don Mueller, o infielder direito dos Giants, quebrou o tornozelo ao deslizar até a terceira base no último inning, e se os Giants
tivessem empatado em vez de ganhar o jogo com um home run decisivo, Lohrke teria tomado o lugar de Mueller no inning seguinte, mas Branca lançou o arremesso, Thomson
rebateu o arremesso e o jogo terminou antes que o Sortudo pudesse inscrever seu nome na tabela. O jovem Willie Mays à mão, Lohrke Sortudo se aquecendo para substituir
Mueller no lado direito, e então Thomson detonou o último arremesso da temporada no muro do lado esquerdo do campo, e os Giants conquistaram o campeonato, os Giants
conquistaram o campeonato. O obituário nada diz sobre a vida privada de Jack “Sortudo” Lohrke, nenhuma palavra sobre casamento ou filhos ou netos, nenhuma informação
sobre as pessoas que ele pode ter amado ou pelas quais ele pode ter sido amado, simplesmente o fato insosso e insignificante de que, depois que se aposentou do beisebol,
o santo padroeiro da boa sorte trabalhou na área de segurança em Lockheed.

No instante em que termina de ler o obituário, telefona para o apartamento na Downing Street para se lamentar com o pai por causa da morte do homem sobre o qual
conversaram tantas vezes ao longo dos anos de sua própria boa sorte, os anos em que ninguém tinha ouvido falar de estradas nos Berkshires, os anos em que ninguém
ainda tinha sido enterrado ou fugido, e seu pai, é claro, leu o jornal durante o café da manhã e já sabe que o Sortudo deixou este mundo. Uma fase ruim, diz seu
pai. Primeiro, Herb Score em novembro, depois Mark Fidrych em abril, e agora isto. Miles diz que lamenta muito eles nunca terem escrito uma carta para Jack Lohrke
para dizer que figura importante ele foi na família deles, e seu pai diz, sim, foi um descuido idiota, por que não haviam pensado naquilo anos atrás? Miles responde
que talvez tenha sido porque eles supunham que o homem fosse viver para sempre, e seu pai ri, diz que Jack Lohrke não era imortal, apenas sortudo, e ainda que eles
o considerassem seu santo padroeiro, ele não deve esquecer que os santos também morrem.

Agora, o pior de tudo já ficou para trás. Ele está a apenas vinte dias de ser solto da prisão, e daí de volta para a Flórida até que Pilar termine o colégio, e depois
disso Nova York outra vez, onde os dois vão passar o início do verão procurando um lugar para morar na parte alta da cidade. Num espantoso gesto de generosidade,
seu pai se ofereceu para deixá-los ficar com ele em Downing Street até encontrarem um apartamento, o que significa que Pilar nunca mais terá de passar outra noite
na casa em Sunset Park, que a deixou muito assustada antes mesmo de começarem a chegar as ordens de despejo, e que agora a deixa em completo pânico. Quanto tempo
falta para a polícia chegar e expulsar todos eles da casa? Alice e Ellen já decidiram levantar acampamento, e muito embora Bing tenha ficado furioso quando elas
anunciaram sua decisão na hora do jantar, duas noites atrás, as duas fincaram o pé e Miles acredita que a atitude delas é a única atitude sensata que resta para
tomar. Elas duas vão se mudar assim que Ellen encontrar um lugar que Alice esteja em condições de pagar, o que deve acontecer no meio da semana que vem, e, se as
circunstâncias dele fossem semelhantes às delas, ele também estaria de saída. Só vinte dias, no entanto, e nesse meio-tempo ele não deve abandonar Bing, não quando
a aventura está desmoronando, não quando Bing precisa tão desesperadamente que ele esteja aqui, e assim ele pretende não arredar pé até o dia 22 e reza para que
os tiras não apareçam antes disso.

Ele quer esses vinte dias, mas não os terá. Tem o dia e a noite do segundo, o dia e a noite do terceiro e no início da manhã do quarto dia, soa uma forte batida
na porta da frente. Miles está dormindo profundamente em seu quarto no térreo, atrás da cozinha, e na hora em que acorda e veste a roupa, a casa já foi invadida.
Ouve o som de passos pesados subindo a escada, ouve Bing gritando enfurecido com toda a força dos pulmões (Tirem a porra de suas mãos de cima de mim!), ouve Alice
gritando para alguém recuar e deixar seu computador em paz e ouve os guardas berrando (Para fora! Para fora!), quantos guardas são, ele ignora, acha que são dois,
mas podiam ser três, e na hora em que abre a porta de seu quarto, atravessa a cozinha e alcança a saleta da entrada, a comoção no primeiro andar se transformou numa
clamorosa gritaria. Ele olha para a direita, vê que a porta da frente está aberta, e lá está Ellen, parada na varandinha com as mãos sobre a boca, os olhos arregalados
de medo, de horror, e depois ele olha para a esquerda, fixa o olhar na escada, no alto da qual vê Alice, a grande Alice tentando se desvencilhar dos braços de um
tira enorme, e só então, enquanto continua a olhar para cima, vê Bing também no alto da escada, seus punhos presos em algemas, enquanto um outro tira enorme o segura
pelo cabelo com uma mão e golpeia suas costas com um cassetete com a outra mão, e bem na hora em que ele está prestes a dar meia-volta e correr para fora da casa,
vê o primeiro tira enorme empurrar Alice escada abaixo e, quando Alice desaba na sua direção, batendo a lateral da cabeça de encontro a um degrau de madeira, o tira
enorme que a empurrou corre escada abaixo e, antes que Miles possa parar para pensar no que está fazendo, ele está esmurrando aquele tira enorme no queixo com o
punho cerrado e, quando o tira tomba por causa do murro, Miles dá meia-volta, corre para fora da casa, encontra Ellen parada na varandinha, segura a mão direita
dela com sua mão esquerda, a arrasta pela escadinha da entrada junto com ele e os dois começam a correr pela rua.

Há uma entrada para o cemitério Green-Wood logo depois da esquina e é para lá que eles vão, sem saber com certeza se estão sendo perseguidos ou não, mas Miles acha
que, se havia dois tiras na casa e não três, o tira que não se feriu iria estar prestando socorro ao tira que foi esmurrado no queixo, o que significaria que ninguém
está vindo atrás deles. No entanto Miles e Ellen correm o mais que podem e, quando Ellen fica sem fôlego e não consegue mais correr, os dois se deixam cair na grama
para um descanso, apoiando as costas na lápide de um homem chamado Charles Everett Brown, 1858-1927. A mão de Miles dói horrivelmente e ele tem medo de que esteja
fraturada. Ellen quer levá-lo para um pronto-socorro para tirar um raio X, mas Miles diz que não, seria perigoso demais, ele deve se manter escondido. Agrediu um
policial e isso é um crime, um delito grave, e ainda que ele torça para que o queixo do sacana esteja quebrado, ainda que ele não sinta nenhum arrependimento por
ter quebrado a cara de alguém que jogou uma mulher escada abaixo, ainda mais quando se trata de Alice Bergstrom, a melhor mulher do mundo, não há dúvida de que ele
está em uma grande encrenca, a maior encrenca em que já esteve metido.

Ele não está com seu telefone celular, ela não está com seu telefone celular. Os dois estão sentados na grama dentro do cemitério sem condições de entrar em contato
com quem quer que seja, sem condições de saber se Bing foi preso ou não, sem condições de saber se Alice se feriu ou não, e por enquanto Miles está atordoado demais
para poder formular um plano do que fazer em seguida. Ellen lhe conta que acordou cedo como sempre, seis e quinze, seis e meia, e que estava na varandinha com seu
café quando os tiras chegaram. Foi ela que abriu a porta e deixou que entrassem. Que opção tinha ela senão abrir a porta e deixar que entrassem? Eles subiram, eram
dois, e ela continuou na varanda quando os tiras subiram, e aí o inferno começou a correr solto, ela não viu nada, ainda estava parada na varandinha, mas Bing e
Alice estavam gritando, os dois tiras estavam gritando, todo mundo estava gritando, Bing deve ter resistido, deve ter começado a brigar, e sem dúvida Alice teve
medo de que eles fossem empurrá-la para fora antes que pudesse juntar seus papéis, livros e filmes e também seu computador, o computador em que toda a sua dissertação
está armazenada, três anos de trabalho numa única pequena máquina, e sem dúvida foi por isso que ela levantou a voz e começou a lutar com o tira, a dissertação de
Alice, a bateria de Bing, e todos os seus desenhos dos últimos cinco meses, centenas e centenas de desenhos, e tudo isso ainda na casa, na casa que agora certamente
está lacrada, interditada, e tudo perdido para sempre agora. Ela quer chorar, ela diz, mas não consegue chorar, está revoltada demais para chorar, não havia necessidade
de todos aqueles empurrões e daquela truculência, por que os tiras não podiam se comportar como homens em vez de animais, e não, ela não consegue chorar apesar de
querer, mas por favor, Miles, ela diz, ponha os braços em volta de mim, me abrace, Miles, preciso que alguém me abrace, e Miles abraça Ellen e afaga sua cabeça.

Precisam fazer alguma coisa quanto à mão dele. Agora está inchando, a região em torno dos nós dos dedos parece intumescida e azulada e, ainda que nenhum osso tenha
quebrado (ele descobriu que consegue mover os dedos um pouco, sem aumentar a dor), é preciso pôr gelo na mão para diminuir o inchaço. Hematoma. Ele acha que é essa
a palavra que estava procurando - um inchaço localizado, cheio de sangue, um pequeno lago de sangue se agitando logo embaixo da pele. É preciso pôr gelo na mão,
além disso eles precisam comer alguma coisa. Já estão sentados na grama do cemitério há quase duas horas e os dois estão com fome, embora não exista a menor certeza
de que ele ou ela conseguiriam comer se alguém pusesse comida na frente deles. Levantam-se e começam a caminhar, movendo-se ligeiro através das sepulturas e mausoléus
na direção de Windsor Terrace e Park Slope, o portão do cemitério na rua 25, a saída do cemitério, e assim que eles chegam à Sétima Avenida, continuam caminhando
até a rua 6. Ellen pede que Miles espere por ela ali, do lado de fora, e então entra numa loja de telefones celulares T-Mobile para falar com seu novo namorado,
com seu velho namorado, é uma história complicada, e alguns instantes depois, ela está abrindo a porta do apartamento de Ben Samuels na rua 5, entre a Sexta e a
Sétima Avenidas.

Eles não podem ficar ali muito tempo, ela diz, só algumas horas, ela não quer envolver Ben naquela história, mas pelo menos já é alguma coisa, uma chance para respirar
até que eles possam pensar no que vão fazer. Eles se lavam, Ellen prepara sanduíches de queijo e depois enche um saco plástico com cubos de gelo e entrega para Miles.
Ele quer telefonar para Pilar, mas é cedo demais, ela está no colégio a essa hora e só liga seu telefone quando volta para o seu apartamento às quatro horas. Para
onde vamos agora?, pergunta Ellen. Miles reflete um momento e depois recorda que seu padrinho mora perto, só alguns quarteirões de onde estão agora, mas, quando
telefona para o número de Renzo, ninguém atende, é a secretária eletrônica que fala e ele sabe que Renzo ou está trabalhando ou está fora da cidade e portanto não
se dá ao trabalho de deixar um recado. Não há mais ninguém, a não ser seu pai, mas, assim como Ellen está relutante em envolver o amigo dela, ele também rechaça
a ideia de arrastar seu pai para aquela encrenca toda, seu pai é a última pessoa no mundo a quem ele quer pedir ajuda agora.

Como se pudesse ler seus pensamentos, Ellen diz: Você tem de ligar para seu pai, Miles.

Ele balança a cabeça. Impossível, responde. Já fiz esse ho­­mem sofrer demais.

Se você não fizer isso, diz Ellen, então eu vou fazer.

Por favor, Ellen. Deixe ele em paz.

Mas Ellen insiste e logo depois está discando o número da Heller Books em Manhattan. Miles está tão contrariado com o que Ellen está fazendo que sai da cozinha e
se tranca no banheiro. Não suporta ouvir, se recusa a ouvir. Preferia cravar um punhal no próprio coração a ouvir Ellen falar com seu pai.

O tempo passa, quanto tempo ele não sabe, três minutos, oito minutos, duas horas, e então Ellen bate na porta, diz para ele sair, diz que seu pai sabe de tudo o
que aconteceu em Sunset Park nesta manhã, que seu pai está esperando por ele do outro lado da linha. Ele destranca a porta, vê que os olhos de Ellen estão cheios
de lágrimas, toca delicadamente seu rosto com a mão esquerda e vai para a cozinha.

A voz de seu pai diz: Dois detetives vieram ao escritório uma hora atrás. Dizem que você quebrou o queixo de um policial. É verdade?

Ele empurrou Alice escada abaixo, diz Miles. Na hora, perdi a cabeça.

Bing está na cadeia por resistir à prisão. Alice está no hospital com uma concussão.

É grave?

Está acordada, a cabeça dói, mas não há danos permanentes. É provável que saia do hospital amanhã de manhã.

E vai para onde? Ela não tem mais onde morar. Está desabrigada. Agora estamos todos desabrigados.

Quero que você se entregue, Miles.

Não há a menor chance. Vão me deixar preso durante anos.

Há circunstâncias atenuantes. Brutalidade policial. Réu primário. Duvido que fique preso um dia sequer.

É a palavra deles contra a nossa. O tira vai dizer que Alice tropeçou e caiu e o júri vai acreditar nele. Somos só um bando de invasores fora da lei, sem-teto, vagabundos
parasitas.

Voce não quer passar o resto da vida fugindo da polícia, não é? Já andou fugindo demais. Chega. Está na hora de levantar a cabeça e encarar as consequências, Miles.
E eu vou ficar ao seu lado.

Você não pode. Você tem um bom coração, pai, mas eu estou nisso sozinho.

Não, não está. Você terá um advogado. E olha que eu co­­nheço uns advogados tremendos. Tudo vai dar certo, acredite em mim.

Desculpe. Lamento muito, muito mesmo.

Escute aqui, Miles. Falar pelo telefone não é nada bom. A gente tem que se situar nisso pessoalmente, cara a cara. Quando eu desligar o telefone, vou direto para
casa. Trate de pegar um táxi e me encontre lá assim que puder. Está combinado?

Combinado.

Promete?

Sim, prometo.

Meia hora depois, ele está sentado no banco de trás de um táxi Dodge a caminho da Downing Street em Manhattan. Ellen foi ao banco para ele com seu cartão ATM e voltou
de lá com mil dólares em cédulas, se beijaram e se despediram, e enquanto o carro avança em meio ao tráfego pesado da ponte do Brooklyn, ele se pergunta quanto tempo
vai passar antes que veja Ellen Brice outra vez. Gostaria de poder ir ao hospital visitar Alice, mas sabe que não pode. Gostaria de ir à cadeia onde Bing está trancafiado,
mas sabe que não pode. Aperta o gelo contra a mão inchada e, olhando para a mão, pensa no soldado com as mãos amputadas no filme que viu com Alice e Pilar no inverno
passado, o jovem soldado de volta da guerra, incapaz de tirar a roupa e ir para a cama sem a ajuda do pai, e sente que agora ele se tornou aquele garoto, alguém
que não pode fazer nada sem a ajuda do pai, um garoto sem mãos, um garoto que devia estar sem mãos, um garoto cujas mãos não lhe haviam trazido nada a não ser problemas
na vida, suas mãos enraivecidas que dão socos, suas mãos enraivecidas que empurram, e então o nome do soldado do filme lhe vem à cabeça, Homer, Homer Não Sei de
Quê, Homer como o poeta Homero, que escreveu a cena sobre Odisseu e Telêmaco, pai e filho reunidos depois de tantos anos, da mesma forma que ele e o pai foram reunidos,
e o nome Homero o faz pensar em home, e também em homeless, todos eles agora estão desabrigados, ele falou isso para o pai no telefone, Alice e Bing estão desabrigados,
ele está desabrigado, as pessoas na Flórida que moravam nas casas que ele esvaziava estão desabrigadas, só Pilar não está desabrigada, agora ele é o lar dela, e
com um murro ele destruiu tudo, eles nunca terão sua vida juntos em Nova York, não existe mais futuro para eles, não existe mais esperança para eles, e mesmo que
ele fuja para a Flórida para ficar com ela agora, não haverá esperança para eles, e mesmo que fique em Nova York para se defender no tribunal, não haverá esperança
para eles, ele desapontou seu pai, desapontou Pilar, desapontou todo mundo, e enquanto o carro percorre a ponte do Brooklyn e ele olha para os enormes edifícios
do outro lado do East River, pensa nos prédios que desapareceram, os prédios destruídos e incendiados que não existem mais, os prédios amputados e as mãos amputadas,
e ele se pergunta se vale a pena esperar por um futuro quando não há futuro nenhum, e de agora em diante, ele diz para si mesmo, vai parar de esperar por qualquer
coisa e viver só para o agora, este momento, este momento que passa, o agora que está aqui e depois não está mais, o agora que se foi para sempre.

 

 

                                                                  Paul Auster

 

 

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