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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


TREMENDAS TRIVIALIDADES / G. K. Chesterton
TREMENDAS TRIVIALIDADES / G. K. Chesterton

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

Biblio VT

 

 

 

 

ERA UMA VEZ dois meninos que viviam principalmente no jardim da frente, pois sua vila era de tipo projetado[ 1 ]. O jardim da frente tinha aproximadamente o mesmo tamanho da mesa de jantar; consistia em quatro faixas de cascalho, um quadrado de grama com alguns misteriosos pedaços de cortiça no centro e um canteiro de flores com uma fileira de margaridas vermelhas. Uma manhã em que brincavam nesse romântico local, um transeunte, provavelmente o leiteiro, debruçou-se sobre a cerca e entabulou uma conversa filosófica com eles. Os meninos, que chamaremos Paulo e Pedro, estavam, pelo menos, vivamente interessados no que dizia. Pois o leiteiro (que era, devo dizer, uma fada) cumpriu seus deveres de estado oferecendo-lhes como de praxe qualquer coisa que quisessem pedir. E Paulo aceitou a oferta com uma brusquidão pragmática, explicando que sempre quisera ser um gigante que pudesse caminhar entre os continentes e oceanos e visitar o Niágara ou o Himalaia em um passeio de fim de tarde. O leiteiro, tendo retirado do bolso de seu colete uma varinha, agitou-a de maneira apressada e negligente, e num instante a vila modelo com seu jardim em frente era como uma pequena casa de bonecas diante dos colossais pés de Paulo. Ele saiu caminhando com sua cabeça acima das nuvens para visitar o Niágara e o Himalaia. Mas, quando chegou ao Himalaia, descobriu que era bastante pequeno e sem graça, como o pequeno monte de cortiça no jardim; e, quando chegou ao Niágara, viu que não era maior que a torneira aberta no banheiro. Ele caminhou ao redor do mundo por vários minutos tentando encontrar algo realmente grande e achando tudo pequeno, até que, de puro aborrecimento, deitou-se sobre cinco ou seis pradarias e adormeceu. Infelizmente sua cabeça estava logo ao lado da cabana de um caipira intelectual que saiu naquele momento com um machado em uma mão e um livro de filosofia neocatólica na outra. O homem olhou para o livro e em seguida para o gigante, e a seguir para o livro novamente. E o livro dizia: “Pode-se afirmar que o mal do orgulho consiste em estar fora de proporção com o universo”. Então o caipira pôs de lado o livro, pegou seu machado e, trabalhando oito horas por dia por aproximadamente uma semana, cortou a cabeça do gigante, e esse foi o seu fim.
Essa é a dura, porém salutar história de Paulo. Mas Pedro, curiosamente, fez o pedido exatamente inverso: disse que sempre quisera ser um pigmeu de cerca de meia polegada; e é claro que imediatamente se tornou um. Quando a transformação acabou ele se encontrou no meio de uma imensa planície coberta com uma alta floresta verde e acima da qual a intervalos estranhos se elevavam árvores, cada uma com uma copa semelhante ao sol em pinturas simbólicas, com gigantescos raios prateados e um enorme centro de ouro. No meio dessa pradaria erguia-se uma montanha de forma tão romântica e impossível, e mesmo assim de uma predominância e altura tão sólidas, que parecia algum incidente do fim do mundo. E ao longe no horizonte via-se o limite de outra floresta, mais alta e ainda mais misteriosa, de uma terrível cor carmim, como uma floresta eternamente em chamas. Pedro partiu em suas aventuras através daquela planície colorida e até agora não chegou ao fim.

 

 

Assim é a história de Pedro e Paulo, que contém todas as mais altas qualidades de um conto de fadas moderno, inclusive a de ser totalmente imprópria para crianças; e, de fato, o motivo pelo qual a apresentei não é infantil, mas cheio de sutileza e segundas intenções. É na verdade o motivo quase desesperado de desculpar ou mitigar as páginas que se seguem. Pedro e Paulo são as duas influências principais na literatura européia de hoje, e deve-se permitir que eu apresente minhas próprias preferências no formato mais favorável, mesmo que só o consiga fazer através do que garotinhas chamam contar uma história.

Quase não há necessidade de dizer que eu sou o pigmeu. A única desculpa para os fragmentos de texto a seguir é que mostram o que pode ser alcançado com uma existência comum e os óculos sagrados do exagero. A outra grande teoria literária, que é basicamente representada na Inglaterra por Mr. Rudyard Kipling, é que nós os modernos voltaremos a alcançar a alegria primitiva espalhando-nos por todo o mundo, acostumando-nos com as viagens e a variedade geográfica, estando em casa em todos os lugares, que é o mesmo que não estar em casa em lugar algum. Admita-se que um homem em uma sobrecasaca é uma visão de partir o coração: os dois sistemas alternativos permanecem. A escola de Mr. Kipling nos aconselha a ir para a África Central para encontrar um homem sem casaca. A escola a que pertenço sugere que olhemos persistentemente para ele até enxergarmos o homem dentro da casaca. Se o encararmos por tempo suficiente, pode até sentir-se levado a tirar sua casaca para nós, e esse seria um cumprimento bem maior do que se tirasse seu chapéu. Em outras palavras, podemos, ao fixar nossa atenção quase ferozmente nos fatos que realmente estão à nossa frente, forçá-los a tornarem-se aventuras, forçá-los a desistir de seu significado e cumprir seu misterioso propósito. O propósito da literatura de Kipling é mostrar quantas coisas extraordinárias um homem pode ver se é ativo e passeia de continente em continente como o gigante em minha história. Mas o objetivo da minha escola é mostrar quantas coisas extraordinárias até mesmo um homem preguiçoso e ordinário pode ver se se dispuser à simples atividade de ver. Com esse propósito, tomei a pessoa mais preguiçosa que conheço, isto é, eu mesmo, e fiz um inútil diário de coisas estranhas com as quais trombei por acidente, ao andar em uma área muito limitada, a um passo muito indolente. Se alguém disser que esses são temas muito pequenos comentados em linguagem muito grandiosa, só poderei cumprimentá-lo graciosamente por ter percebido a piada. Se alguém disser que estou transformando tocas de toupeiras em montanhas[ 2 ], confessarei com orgulho que é isso mesmo. Não consigo imaginar uma atividade manual mais bem sucedida e produtiva do que transformar tocas de toupeiras em montanhas.

Mas acrescentaria este fato não desprezível de que tocas de toupeiras são montanhas; só é preciso tornar-se um pigmeu como Pedro para descobri-lo.

Tenho minhas dúvidas sobre o valor real do montanhismo, de chegar ao topo de tudo e contemplar tudo do alto. Satanás foi o maior dos guias montanheses, quando levou Jesus para o alto de uma montanha extremamente alta e lhe mostrou todos os reinos do mundo. Mas a alegria de Satanás em subir a um pico não é a alegria pela grandeza, mas a alegria de contemplar a pequenez, pelo fato de que todos os homens parecem insetos a seus pés. É desde o vale que as coisas parecem grandes; é da planície que as coisas parecem altas. Eu sou um filho da planície e não tenho necessidade daquele grande guia montanhês. Erguerei meu olhar para as montanhas, de onde virá o meu auxílio; mas não erguerei minha carcaça às montanhas, a menos que seja absolutamente necessário. Tudo é uma posição da mente, e neste momento estou em uma posição confortável. Vou sentar-me e deixar que as maravilhas e aventuras pousem em mim como moscas. Há muitas delas, garanto. O mundo nunca sofrerá com a falta de maravilhas, mas apenas com a falta da capacidade de se maravilhar.

1 Espécie de condomínios construídos a partir do final do século XVIII nas regiões industriais da Inglaterra.

2 Tradução literal do original. Em português, equivale à expressão “fazer tempestade em copo d’água”.


Um pedaço de giz

LEMBRO-ME DE UMA esplêndida manhã, toda azul e prateada, nas férias de verão, em que eu relutantemente interrompi a tarefa de não fazer nada em particular, coloquei um chapéu qualquer e peguei uma bengala, e pus seis pedaços de giz de cores vivas em meu bolso. Depois entrei na cozinha (que, juntamente com o restante da casa, pertencia a uma velha senhora muito justa e sensata em um vilarejo de Sussex) e perguntei à proprietária e ocupante da cozinha se teria papel pardo. Ela tinha bastante. Na verdade, tinha demais; e enganava-se quanto ao propósito e à razão da existência do papel pardo. Ela parecia estar imbuída da idéia de que se uma pessoa quisesse papel pardo é porque devia estar querendo fazer um embrulho, o que era a última coisa que eu queria: com efeito, é algo que descobri estar além da minha capacidade mental. Assim, ela discorreu longamente sobre as muitas qualidades de resistência e durabilidade do material. Expliquei-lhe que apenas queria desenhar nele e que não queria que durasse de forma alguma, e que do meu ponto de vista, portanto, era mais uma questão não de consistência resistente, mas de superfície responsiva, algo comparativamente irrelevante num pacote. Quando ela entendeu que eu queria desenhar, ofereceu-se para submergir-me em blocos de notas, aparentemente supondo que eu fazia minhas anotações e correspondência em velhos embrulhos de papel pardo por motivo de economia.

Tentei então explicar-lhe a delicada nuance lógica de que eu não apenas gostava de papel pardo, mas gostava da característica parda do papel, tanto quanto gostava do aspecto pardo dos bosques em Outubro, ou na cerveja, ou nas faixas de turfa do Norte. O papel pardo representa a penumbra primordial do primeiro trabalho da criação, e com um ou dois gizes de cores vivas você pode extrair dele pontos de fogo, lampejos de ouro e vermelho-sangue e verde-mar, como as primeiras e abrasadoras estrelas que surgiram da escuridão divina. Tudo isso eu disse (de maneira improvisada) à velha senhora e enfiei o papel pardo no meu bolso junto com os pedaços de giz, possivelmente com outras coisas. Suponho que todos devem ter refletido sobre como são primitivas e poéticas as coisas que uma pessoa carrega nos bolsos; o canivete, por exemplo, modelo de todas as ferramentas humanas, o filhote da espada. Uma vez planejei escrever um livro de poemas inteiramente sobre as coisas em meus bolsos. Mas descobri que seria muito longo, e a idade dos grandes épicos já passou.

Com minha bengala e meu canivete, meus gizes e meu papel pardo, saí na direção das grandes colinas[ 3 ]. Caminhei lentamente através daqueles contornos colossais que expressam as melhores qualidades da Inglaterra, porque são ao mesmo tempo suaves e fortes. Sua suavidade tem o mesmo significado que a suavidade de grandes cavalos de tração ou a dos troncos de faia; ela proclama diante de nossas tímidas e cruéis teorias que os poderosos são misericordiosos. Enquanto meus olhos contemplavam a paisagem, esta era tão amena quanto qualquer uma de suas cabanas, mas por seu poder era como um terremoto. As vilas no imenso vale estiveram a salvo, podia-se notar, por séculos; mesmo assim, a inclinação de todo o terreno era como a ascensão de uma enorme onda pronta a arrastá-las para longe.

Cruzei com um montículo de turfa após o outro, procurando por algum lugar onde sentar-me e desenhar. Não imaginem, pelo amor de Deus, que pretendia desenhar a partir da Natureza. Eu ia desenhar demônios e serafins e velhos deuses cegos que os homens adoravam antes do surgimento da justiça, e santos em vestes de um furioso carmim, e mares de um verde estranho, e todos os símbolos sagrados ou monstruosos que ficam tão bem em cores vivas sobre papel pardo. Eles são muito mais dignos de serem desenhados do que a Natureza; são também muito mais fáceis de desenhar. Quando uma vaca se aproximou molemente do campo próximo a mim, um mero artista poderia tê-la desenhado, mas eu sempre me confundo com as patas traseiras dos quadrúpedes. Assim, desenhei a alma da vaca, que eu via claramente andando à minha frente à luz do dia, e a alma era toda púrpura e prateada, e tinha sete chifres e o mistério que pertence a todas as bestas. Mas, embora não conseguisse com um giz extrair o melhor da paisagem, isso não significa que a paisagem não estava extraindo o melhor de mim. E este, acredito, é o engano que as pessoas cometem sobre os velhos poetas que viveram antes de Wordsworth, dos quais se supõe que não se interessavam muito pela Natureza porque não a descreviam muito.

Eles preferiam escrever sobre grandes homens a escrever sobre grandes colinas; mas sentavam-se nas grandes colinas para escrever. Deixavam transparecer muito menos sobre a Natureza, mas a absorviam, talvez, muito mais. Pintavam as vestes brancas de suas virgens sagradas com a neve ofuscante que haviam contemplado o dia todo. Ornavam os escudos de seus paladinos com a púrpura e o ouro de muitos poentes heráldicos. O verde de mil folhas verdes juntou-se na figura verde de Robin Hood. O azul de uma série de céus esquecidos tornou-se o manto azul da Virgem. A inspiração entrava como raios de sol e saía como Apolo.

Mas, enquanto estava sentado rabiscando essas tolas figuras em papel pardo, comecei a dar-me conta, para meu grande desgosto, que tinha esquecido um giz de um tipo excepcionalmente belo e essencial. Procurei em todos os meus bolsos, mas não consegui encontrar nenhum giz branco. Agora, todos aqueles que estão habituados a toda a filosofia (não, religião) simbolizada na arte de desenhar em papel pardo sabem que o branco é positivo e essencial. Não consigo evitar um comentário de sentido moral. Uma das sábias e terríveis verdades que essa arte do papel pardo revela é esta, a de que o branco é uma cor. Não é uma mera ausência de cor; é algo brilhante e afirmativo, tão ardente como o vermelho, tão definitivo quanto o preto. Quando, por assim dizer, seu lápis fica incandescente, ele desenha rosas; se ele se aquece até ficar branco, desenha estrelas[ 4 ]. E uma das duas ou três verdades desafiadoras na melhor moralidade religiosa, no verdadeiro Cristianismo, por exemplo, é exatamente a mesma coisa: a principal asserção da moralidade religiosa é que o branco é uma cor. A virtude não é a ausência de vícios ou a abstenção de perigos morais; a virtude é algo vívido e distinto, como a dor ou algum cheiro em particular. Misericórdia não é o mesmo que não ser cruel ou poupar as pessoas de vingança ou punição; é algo claro e positivo como o sol, que se pode ver ou não ver.

A castidade não é o mesmo que a abstenção de pecados sexuais; é algo flamejante, como Joana d’Arc. Numa palavra, Deus pinta em várias cores, mas Ele nunca pinta tão belamente, e eu quase disse tão berrantemente, como quando pinta em branco. De alguma forma a nossa época se apercebeu desse fato e o exprimiu em nosso vestuário sombrio. Pois se fosse verdade que o branco é algo vazio e sem cor, negativo e inexpressivo, então o branco seria usado em lugar do preto e do cinza nas vestes funerárias deste período pessimista. Veríamos cavalheiros da cidade em casacas de linho imaculadamente prateado, com cartolas tão brancas quanto copos-de-leite. O que não é o caso.

Enquanto isso, eu não conseguia encontrar meu giz.

Sentei-me na colina numa espécie de desespero. Não havia nenhuma cidade mais próxima do que Chichester em que fosse mesmo remotamente provável que houvesse algo como uma loja de tintas artísticas. E assim, sem branco, minhas absurdas figurinhas seriam tão sem sentido quanto seria o mundo se não houvesse boas pessoas nele. Olhei estupidamente ao redor, quebrando a cabeça atrás de alguma solução. Então repentinamente levantei-me e ri estrondosamente, uma e outra vez, até que as vacas olharam para mim e se reuniram em um comitê. Imagine um homem no Saara lamentando-se por não ter areia para sua ampulheta. Imagine um cavalheiro no meio do oceano desejando ter trazido um pouco de água salgada para seus experimentos químicos. Eu estava sentado sobre um imenso depósito de giz branco. A paisagem era toda feita de giz branco. Giz branco se amontoava por milhas até atingir o céu. Inclinei-me e quebrei um pedaço da pedra em que estava sentado: não marcava o papel tão bem quanto os gizes de lojas o fazem, mas dava o efeito certo. E lá fiquei extasiado, percebendo que esta região do Sul da Inglaterra não é apenas uma grande península, e uma tradição e uma civilização; é algo ainda mais admirável. É um pedaço de giz.

3 No original, “the downs” refere-se a áreas de colinas próximas ao mar no sul da Inglaterra.

4 Jogo de palavras difícil de traduzir, entre “red-hot” e “white-hot”.


O Segredo de um Trem

TODA ESSA CONVERSA sobre um mistério das ferrovias trouxe de volta à minha mente uma recordação solta. Não direi simplesmente que esta história é verdadeira, porque, como vocês logo verão, é tudo verdade e nada de estória. Ela não tem explicação nem conclusão; é, como a maioria das outras coisas que encontramos na vida, um fragmento de outra coisa que seria intensamente excitante se não fosse grande demais para ser vista. Pois a perplexidade da vida vem de haver nela coisas interessantes demais para que nos interessemos propriamente por qualquer uma delas. O que chamamos de trivialidades são na realidade as pontas soltas de inúmeros contos; a existência ordinária e sem sentido é como dez mil emocionantes novelas policiais misturadas com uma colher. Minha experiência foi um fragmento dessa natureza, e é, de qualquer forma, não ficcional. Não apenas não estou inventando os incidentes (o que houve deles), mas também não estou inventando a atmosfera da cena, que foi todo o horror da coisa. Lembro-me dos fatos vividamente, e eram como descreverei agora.

Lá pelo meio-dia de um outono cinzento, há alguns anos, eu estava parado ao lado da estação de Oxford com a intenção de tomar o trem para Londres. E, por alguma razão, pela ociosidade ou pelo vazio da minha mente, ou pelo vazio do pálido céu acinzentado, ou pelo frio, fui tomado por uma espécie de capricho de não ir de trem, mas sim de sair à rua e caminhar ao menos parte do trajeto até Londres. Não sei se as outras pessoas são como eu nesse aspecto, mas para mim é sempre o mau tempo, o que pode ser chamado tempo inaproveitável, que lança na vida um sentido de ação e romance. Em dias de céu azul claro não quero que nada aconteça; o mundo está completo e belo, um objeto de contemplação. Não peço mais aventuras sob aquela abóbada turquesa do que pediria numa igreja. Mas quando o pano de fundo da vida humana é acinzentado, então, em nome da sagrada supremacia do homem, eu desejaria pintá-lo de fogo e sangue. Quando os céus falham o homem se recusa a falhar; quando no céu parece estar escrito, em letras de chumbo e prata esmaecida, o decreto de que nada deve acontecer, então a alma imortal, o príncipe das criaturas, ergue-se e decreta que algo deve acontecer, mesmo que seja apenas o assassinato de um policial. Mas essa é uma maneira digressiva de dizer o que eu já disse – que o céu desanimador provocou em mim o desejo de uma mudança de planos, que o tempo monótono parecia tornar insuportável o uso do trem monótono, e que saí pelos caminhos do campo para fora da cidade de Oxford. (Foi talvez naquele momento que uma estranha maldição caiu sobre mim, vinda da cidade e do céu, pela qual foi decretado que anos depois eu iria, em um artigo no Daily News, falar sobre sir George Trevelyan[ 5 ] em conexão com Oxford, quando sabia perfeitamente bem que ele estudou em Cambridge). Enquanto atravessava o campo, tudo era fantasmagórico e sem cor. Os campos, que deveriam ser verdes, estavam tão acinzentados quanto o céu; as copas das árvores, que deveriam ser verdes, estavam tão acinzentadas e enevoadas quanto as nuvens. E quando eu havia caminhado por algumas horas a noite começou a cair. Um pálido pôr-do-sol agarrava-se fracamente ao horizonte, como que relutante em deixar o mundo no escuro. E à medida que ele se tornava mais e mais fraco os céus pareciam aproximar-se e ameaçar. As nuvens, que eram apenas sombrias, tornaram-se inchadas, e então abriram-se e derramaram as escuras cortinas da chuva. Esta dificultava a vista e parecia atingir-me como golpes de um inimigo próximo; os céus pareciam estar se curvando e berrando em meus ouvidos. Caminhei ainda por muitas milhas até encontrar um homem, e durante essa distância tomei uma decisão: quando o encontrei, perguntei-lhe se em qualquer lugar das redondezas seria possível tomar o trem para Paddington[ 6 ]. Ele me encaminhou a uma pequena e silenciosa estação (não consigo sequer lembrar-me de seu nome) que ficava bem afastada da estrada e parecia tão solitária quanto uma cabana nos Andes. Acho que nunca vi tal personificação do tempo e da tristeza e do ceticismo e de todas as coisas diabólicas quanto aquela estação: parecia que lá estava chovendo desde a criação do mundo. A água escorria da madeira encharcada como se na realidade não fosse água, mas alguma odiosa corrupção da própria madeira; como se a sólida estação estivesse eternamente caindo aos pedaços e derramando-se em imundície. Levei quase dez minutos para encontrar um homem na estação. O que encontrei era completamente embotado, e quando perguntei se havia um trem para Paddigton sua resposta foi sonolenta e vaga. Até onde o entendi, disse que haveria um trem em meia hora. Sentei-me, acendi um charuto e esperei, observando o último raio do esfarrapado pôr-do-sol e escutando a chuva eterna. Pode ter sido em meia hora ou menos, mas um trem entrou bem devagar na estação. Era um trem estranhamente escuro; eu não conseguia ver uma luz em nenhum lugar de seu longo corpo escuro e não havia nenhum guarda correndo a seu lado. Fui forçado a ir até a locomotiva e chamar o foguista para perguntar-lhe se o trem estava indo para Londres. “Bem – sim, senhor”, disse ele, com uma inexplicável relutância. “Ele vai para Londres; mas...” O trem estava partindo, e pulei para o primeiro vagão; estava escuro como breu. Sentei-me lá fumando e pensando, enquanto atravessávamos a paisagem cada vez mais escura, pontuada por choupos desolados, até que desaceleramos e paramos, irracionalmente, no meio de um campo. Ouvi um som pesado, como se alguém estivesse descendo do trem, e uma cabeça escura e mal vestida subitamente entrou por minha janela. “Com licença, senhor”, disse o foguista, “mas acho que, talvez – bem, talvez o senhor devesse saber – há um homem morto neste trem.”

Fosse eu um verdadeiro artista, uma pessoa de extraordinária suscetibilidade e nada mais, seria obrigado, sem dúvida, a sentir-me sobrepujado por esse toque sensacional, e a insistir em sair e prosseguir a pé. No meu caso, entretanto, lamento dizer, manifestei-me educada, mas firmemente, no sentido de que não me importava especialmente desde que o trem me levasse para Paddington. Mas quando o trem partiu novamente com sua carga desconhecida fiz uma coisa instintivamente, sem parar para pensar, ou ao menos pensar mais do que por um segundo: joguei meu charuto fora. Algo que é tão antigo quanto o homem e tem a ver com todo o luto e cerimonial disse-me para fazê-lo. Havia algo desnecessariamente horrível, parecia-me, na idéia de haver apenas dois homens naquele trem, um deles morto e o outro fumando um charuto. E quando o vermelho e o dourado da ponta acesa se apagavam como uma tocha funerária pisoteada em algum momento simbólico de uma procissão, dei-me conta de quão imortal é o ritual. Percebi (o que é a origem e essência de todos os rituais) que na presença daqueles enigmas sagrados sobre os quais não podemos dizer nada é mais decente simplesmente fazer algo. E dei-me conta de que o ritual sempre significará jogar algo fora; destruir nosso milho ou vinho sobre o altar de nossos deuses.

Quando o trem chegou enfim à estação de Paddington, saí com uma curiosidade subitamente despertada. Havia uma barreira e policiais guardando a parte traseira do trem; ninguém era autorizado a chegar até lá. Eles estavam guardando e escondendo algo; talvez a morte em alguma forma excessivamente chocante, talvez algo como o caso de Merstham[ 7 ], tão misturado com o mistério e a maldade humana que a terra tem de lhe atribuir uma espécie de santidade; talvez algo pior ainda. Saí feliz para a rua e vi as lâmpadas brilhando nos rostos sorridentes. E nunca soube desde aquele dia em que história entrei ou que coisa assustadora era minha companhia no escuro.

5 Sir George Otto Trevelyan (1838-1928), estadista e escritor inglês, foi por duas vezes Secretário de Estado para a Escócia.

6 Estação ferroviária na região central de Londres, de onde partem os trens para Oxford.

7 Referência a um famoso crime ocorrido em 24 de Setembro de 1905 em um túnel da estrada de ferro de Merstham, que nunca foi solucionado.


O Jogo Perfeito

TODOS JÁ ENCONTRAMOS aquele homem que diz que coisas estranhas lhe aconteceram, mas não acredita que tenham sido sobrenaturais. Minha posição pessoal é o oposto desta. Acredito no sobrenatural por uma questão de intelecto e razão, não por uma questão de experiência pessoal. Não vejo fantasmas; vejo apenas sua probabilidade inerente. Mas esta é inteiramente uma questão de mera inteligência; não é nem mesmo de impulsos. Meus nervos e meu corpo são inteiramente deste mundo, muito mundanos. Mas em pessoas com esse temperamento um incidente estranho freqüentemente deixará uma impressão peculiar. E a circunstância mais estranha de todas as que já me ocorreram ocorreu agora há pouco. Consistiu em nada menos do que eu jogar um jogo, e jogá-lo consideravelmente bem durante uns dezessete minutos consecutivos. O fantasma de meu avô me deixaria menos espantado.

Numa dessas tardes azuis e muito quentes, encontrei-me, para meu inexprimível assombro, jogando um jogo chamado croquet. Eu imaginava que ele pertencia à época de Leach[ 8 ] e Anthony Trollope[ 9 ], e me omitira em providenciar uma daquelas longas e exuberantes suíças que são realmente essenciais para uma cena dessas. Joguei com um homem que chamaremos Parkinson, com quem tive uma discussão semi-filosófica que durou a partida inteira. Está profundamente arraigado em minha mente que levei a melhor na discussão; mas é certo e indubitável que levei a pior no jogo.

“Oh, Parkinson, Parkinson!”, eu exclamava, dando-lhe golpes carinhosos na cabeça com um taco, “quão longe você realmente está do puro amor pelo esporte – você que joga bem. Somos apenas nós que jogamos mal, os que amam o Jogo em si mesmo. Você ama a glória; você ama o aplauso; você ama a voz estrondosa da vitória; você não ama o croquet. Você não amará o croquet até amar ser derrotado no croquet. Somos nós, os negligentes, que adoramos a ocupação em abstrato. É para nós que ela é a arte pela arte. Se pudermos ver a própria Croquet em pessoa (se é que me posso expressar assim), ficaremos contentes em ver sua face voltada para nós em ira. Nosso jogo é chamado amadorístico, e ostentamos orgulhosamente o nome de amadores, pois “amateur” é o termo francês para amantes[ 10 ]. Aceitamos todas as aventuras que a nossa Senhora [Croquet] nos envie, as mais desastrosas e as mais lúgubres. Esperamos ao pé de seus portões de ferro (faço alusão aos arcos), tentando em vão entrar. Nossas bolas devotas, impetuosas e cheias de nobreza, não ficarão confinadas aos limites pedantes de um mero campo de croquet. Nossas bolas buscam a honra nos confins da terra: aparecem nos canteiros de flores e nas estufas; serão encontradas no jardim da frente e na próxima rua. Não, Parkinson! O bom pintor tem habilidade. É o mau pintor que ama sua arte. O bom músico ama ser um músico, o mau músico ama a música. É com esta paixão pura e sem esperança que adoro o croquet. Amo o jogo em si. Amo o paralelogramo de relva marcado com giz ou fita, como se os seus limites fossem as fronteiras da minha sagrada terra natal, os quatro mares da Grã-Bretanha. Amo o mero balançar dos tacos, e o clique das bolas é como música. As quatro cores são para mim sacramentais e simbólicas, como o vermelho do martírio ou o branco do dia de Páscoa[ 11 ]. Você perde tudo isso, meu pobre Parkinson. Você precisa buscar conforto pela ausência dessa visão no consolo mesquinho de ser capaz de atravessar arcos e acertar a estaca”.

E balancei meu taco no ar com uma graciosa alegria.

“Não se lamente demais por mim”, disse Parkinson, com seu sarcasmo simples. “Eu vou sobreviver. Mas, parece-me que quanto mais um homem aprecia um jogo melhor ele quererá jogar. Assumindo que o prazer pela coisa em si venha primeiro, o prazer do sucesso não virá natural e inevitavelmente a seguir? Ou, tomando sua própria comparação com o cavalheiro e sua Senhora. Admito que o cavalheiro deseja em primeiro lugar e principalmente estar na presença da dama. Mas nunca soube de um cavalheiro que quisesse parecer um tolo completo justamente quando está diante dela.”

“Talvez não; embora geralmente pareça”, retruquei. “Mas a verdade é que há uma falácia na comparação, embora seja minha. A felicidade a que o amante almeja é uma felicidade infinita, que pode ser estendida sem limites. De um modo geral, quanto mais ele é amado, mais alegre será. É definitivamente verdade que quanto mais forte for o amor entre dois amantes maior será a felicidade. Mas não é verdade que quanto maior for a qualidade de ambos os jogadores de croquet melhor também será o jogo. É logicamente possível (preste muita atenção aqui, Parkinson!) – é logicamente possível jogar croquet tão bem que não se consiga apreciá-lo. Se você pudesse lançar esta bola azul através daquele arco distante tão facilmente quanto pegá-la com a mão, então você não faria nada disso: não valeria a pena fazê-lo. Se pudesse jogar sem errar, você não jogaria de forma alguma. No momento em que o jogo se torna perfeito ele desaparece.”

“Eu não acho, entretanto”, disse Parkinson, “que você esteja em perigo imediato de causar esse tipo de destruição. Não acho que o seu croquet vá desaparecer devido a sua excelência impecável. Você está seguro por enquanto.”

Acariciei-o novamente com o taco, golpeei uma bola, endireitei-me e voltei ao fio do meu discurso. O longo e quente fim de tarde estivera terminando gradualmente, e àquela hora já estava quase escuro. No momento em que eu havia enunciado mais quatro princípios fundamentais, e meu companheiro atravessara mais cinco arcos, o crepúsculo já estava beirando a noite.

“Vamos ter que desistir”, disse Parkinson, ao errar uma bola praticamente pela primeira vez, “não consigo ver nada”.

“Nem eu”, respondi, “e é um consolo pensar que não conseguiria acertar em nada se visse.”

Dizendo isso rebati uma bola habilmente e mandei-a para longe na escuridão, para onde a silhueta de Parkinson se movia num quente nevoeiro. Parkinson imediatamente soltou um grito alto e dramático. A situação, de fato, o exigia. Eu havia atingido a bola certa.

Pasmo de espanto, cruzei o melancólico gramado e rebati minha bola novamente. Ela passou através de um arco. Eu não conseguia vê-lo; mas era o arco certo. Tremi da cabeça aos pés.

Palavras eram totalmente inadequadas; assim, arrastei-me pesadamente atrás daquela bola impossível. Novamente a rebati para dentro da noite, no que supunha ser a vaga direção da estaca, agora completamente invisível. E no silêncio completo ouvi a estaca chacoalhar quando a bola a acertou com força.

Larguei o meu taco. “Não consigo suportar mais isso”, disse. “Minha bola foi boa por três vezes. Essas coisas não são deste mundo.”

“Pegue seu taco de volta”, disse Parkinson, “tente mais uma vez.”

“Digo-lhe que não ouso. Se passar por outro arco como aquele, verei todos os demônios dançando sobre a bendita grama.”

“Porque demônios?”, perguntou Parkinson; “podem ser apenas fadas divertindo-se às suas custas. Elas lhe estão enviando o ‘Jogo Perfeito’, que não é jogo algum.”

Olhei ao meu redor. O jardim estava cheio de uma escuridão ardente, em que os vultos vagos pareciam-se com fogo. Atravessei a grama como se ela me queimasse, peguei o taco e rebati a bola para algum lugar – algum lugar onde outra bola poderia estar. Ouvi o clique surdo das bolas se tocando, e corri para dentro de casa como se estivesse sendo perseguido.

8 Provavelmente Sir John Leach (1760-1834), juiz inglês.

9 Anthony Trollope (1815-1882), novelista inglês da era vitoriana.

10 Análise do galicismo “amateur”, redundante em países de língua latina, nos quais a origem do termo “amador” não requer explicação.

11 Referência às cores usadas nos paramentos religiosos nesses dias.


O Taxista Extraordinário

DE TEMPOS EM TEMPOS apresento nesta coluna de jornal a narração de incidentes que realmente ocorreram. Não quero insinuar que neste aspecto ela seja única entre as colunas de jornal. Só quero dizer que percebi que meu objetivo era melhor expresso por uma parábola prática da vida diária do que por qualquer outro método; portanto, proponho-me a narrar o incidente do taxista extraordinário, que ocorreu comigo há apenas três dias e que, insignificante como parece ser, provocou em mim um momento de genuína emoção, beirando o desespero.

No dia em que encontrei o estranho taxista, estivera almoçando em um pequeno restaurante em Soho[ 12 ] na companhia de três ou quatro de meus melhores amigos. Meus melhores amigos são todos céticos insondáveis ou crentes incontroláveis, de forma que nossa discussão do almoço enveredou pelas mais extremas e terríveis idéias. E toda a discussão chegou afinal a isto: que a questão é se um homem pode ter certeza de alguma coisa. Penso que sim, porque (como disse a meu amigo, brandindo furiosamente uma garrafa vazia) se for intelectualmente impossível ter certeza, o que é essa certeza que é impossível ter? Se nunca tive a experiência de algo como a certeza, não posso nem sequer dizer que uma coisa seja incerta. Da mesma forma, se nunca tive a experiência do verde não posso nem mesmo dizer que meu nariz não é verde. Até onde sei, ele pode ser tão verde quanto for possível se eu realmente não tiver nenhuma experiência do verdor. Assim, gritamos uns com os outros e fizemos a sala estremecer, porque a metafísica é a única coisa totalmente emocional que existe. E a diferença entre nós era muito profunda, porque era uma diferença com relação ao objeto daquilo que se chama abertura de mente. Pois meu amigo dizia que abria seu intelecto como o sol abre as folhas de uma palmeira, abrindo pela abertura em si, abrindo infinitamente e para sempre. Mas eu disse que abria meu intelecto como abria minha boca, para fechá-la novamente em algo sólido. Estava fazendo exatamente isso naquele momento. E como corretamente apontei, pareceria uma tolice notável se continuasse abrindo minha boca infinitamente, para todo o sempre.

Quando a discussão terminou, ou ao menos quando foi interrompida (pois nunca terminará), saí com um de meus companheiros, que na confusão e relativa insanidade de uma Eleição Geral havia de alguma forma tornado-se membro do Parlamento, e fui com ele de táxi da esquina de Leicester Square[ 13 ] até a entrada dos membros da Câmara dos Comuns, onde a polícia recebeu-me com uma tolerância incomum. Se pensaram que ele era meu guarda-costas ou que eu era o dele é uma discussão que ainda persiste entre nós.

Nesta narrativa é necessário preservar os detalhes com a maior exatidão possível. Após deixar meu amigo na Câmara, tomei o táxi por mais algumas centenas de metros para um escritório que precisava visitar na rua Victoria[ 14 ]. Saí do carro e paguei ao taxista mais do que devia. Ele olhou para o dinheiro, mas não com a dúvida carrancuda e disposição geral de impacientar-se não de todo desconhecida entre taxistas normais. Mas este não era um taxista normal, talvez nem mesmo humano. Ele contemplou o dinheiro com um espanto lento e infantil, claramente genuíno. “O senhor percebeu”, disse-me, “que me deu apenas 1 shilling e 8 pence?” Retruquei, com alguma surpresa, que de fato sabia. “Agora, sabe, senhor”, disse ele de uma maneira bondosa, simpática, razoável, “esta não é a tarifa desde Euston[ 15 ]”. “Euston”, repeti vagamente, pois o termo naquele momento soou-me como China ou Arábia. “O que Euston tem a ver com isso?” “O senhor me chamou logo ao lado da estação de Euston”, disse o homem com impressionante precisão, “e então o senhor disse--”. “Do que, em nome do Tártaro, você está falando?”, eu disse com paciência cristã. “Entrei no seu táxi na esquina sudoeste de Leicester Square”. “Leicester Square”, exclamou ele, extravasando uma espécie de torrente de escárnio, “mas se nós nem mesmo passamos perto de Leicester Square hoje. O senhor me chamou fora da estação de Euston, e o senhor disse -- ”. “Você está louco, ou estou eu?”, perguntei com calma científica. Olhei para o homem. Nenhum taxista ordinário e desonesto pensaria em criar uma mentira tão sólida, colossal e criativa. E esse homem não era um taxista desonesto. Se alguma vez existiu uma face humana séria e simples e humilde, e com grandes olhos azuis protraindo como os de um sapo, se alguma vez (em resumo) houve uma face humana que fosse tudo o que uma face humana deveria ser, era a face daquele ressentido e respeitoso taxista. Perscrutei a rua de um lado ao outro; um crepúsculo estranhamente escuro parecia aproximar-se. E por um segundo o velho pesadelo do cético pôs o dedo na minha ferida. O que era a certeza? Alguém podia ter certeza de qualquer coisa? Céus! E pensar na rotina monótona dos céticos que insistem em perguntar se há uma vida futura. A excitante questão do verdadeiro ceticismo é se possuímos uma vida passada. O que é o minuto passado, do ponto de vista racionalista, senão uma tradição e uma foto? A escuridão aumentou na rua. O taxista me deu calmamente os mais elaborados detalhes dos gestos, palavras, da complexa mas consistente seqüência de ações que eu havia tomado desde aquela notável ocasião em que o chamara ao lado da estação de Euston. Como eu sabia (diriam meus amigos céticos) que não o havia chamado em Euston? Eu estava firme na minha asserção; ele estava igualmente firme na sua. Ele era obviamente um homem tão honesto quanto eu, e membro de uma profissão muito mais respeitável. Naquele instante o universo e as estrelas estiveram por apenas um fio de perder o equilíbrio, e os alicerces da terra se moveram. Mas pela mesma razão pela qual acredito na democracia, pela mesma razão pela qual acredito na liberdade, pela mesma razão pela qual acredito no caráter fixo da virtude, razão essa que só pode ser expressa pela afirmação de que eu escolho não ser um lunático, continuei a acreditar que este honesto taxista estava errado, e repeti-lhe que na realidade o havia chamado na esquina de Leicester Square. Ele começou, com a mesma evidente e ponderada sinceridade, “O senhor me chamou na saída da estação de Euston, e o senhor disse...”

E naquele momento sua face sofreu uma espécie de assustada transfiguração de puro assombro, como se tivesse sido iluminada por dentro com uma lâmpada. “Puxa, perdoe-me, senhor”, disse ele. “Perdoe-me. Perdoe-me. O senhor me chamou em Leicester Square. Lembrei-me agora. Perdoe-me”. E com isso aquele homem espantoso brandiu seu chicote em seu cavalo com um estalido cortante e foi embora sacolejando. Toda essa conversa, juro perante a bandeira de São Jorge, é estritamente verdade.

Contemplei o estranho taxista enquanto sumia na distância e no nevoeiro. Não sei se estava certo em imaginar que, embora sua face parecesse tão honesta, havia nele algo sobrenatural e demoníaco quando visto de costas. Talvez tivesse sido enviado para tentar minha adesão àquelas sanidades e certezas que defendera mais cedo naquele dia. De qualquer forma agradou-me lembrar que meu senso de realidade, embora tivesse balançado por um instante, permaneceu de pé.

12 Região boêmia do West End, área do centro-oeste de Londres que concentra espetáculos teatrais e parte da vida noturna da cidade.

13 Praça localizada no West End, um pouco a sudeste de Soho.

14 Importante rua que liga a região do Palácio de Buckingham ao Parlamento.

15 Estação ferroviária e avenida vários quarteirões ao norte de Soho, próximas à Biblioteca Britânica.


Um Acidente

HÁ ALGUM TEMPO escrevi nesta coluna um artigo chamado “O Taxista Extraordinário”. Estou agora em posição de apresentar minha experiência de um táxi ainda mais extraordinário. O fato extraordinário sobre o táxi foi que ele não gostou de mim: lançou-me para fora violentamente no meio da Strand[ 16 ]. Se os meus amigos que lêem o Daily News são tão românticos (e tão ricos) quanto acredito que sejam, presumo que esta experiência não lhes seja incomum. Suponho que estejam todos sendo lançados para fora de táxis, por toda a Londres. Mesmo assim, como há algumas pessoas, virginais e distantes do mundo, que ainda não tiveram esta exuberante experiência, farei um breve relato do meu estado psicológico quando meu cabriolé lançou-se contra a lateral de um ônibus, e esperançosamente a estragou.

Não preciso alongar-me sobre o romantismo essencial do cabriolé – essa única coisa moderna realmente nobre que a nossa era, quando for julgada, colocará gravemente no mesmo nível do Parthenon. Ela é realmente moderna no sentido de que é igualmente secreta e rápida. Meu cabriolé, em particular, era moderno sob esses dois aspectos; era também muito moderno pelo fato de que quebrou. Mas também é inglês, não pode ser encontrado no estrangeiro. Pertence a um país belo e romântico em que quase todos fingem ser mais ricos do que são e agem como se fossem. É confortável e ao mesmo tempo perigoso, e essa combinação é a própria alma da Inglaterra. Mas, embora sempre tivesse percebido todas essas boas qualidades em um cabriolé, não havia chegado a experimentar todas as possibilidades, ou, como dizem os modernos, todos os aspectos daquele veículo. Minha enunciação dos méritos de um cabriolé sempre foi feita quando ele estava com o lado certo para cima. Deixem-me, portanto, explicar como me senti quando caí de um cabriolé pela primeira e, fico feliz em crer, última vez. Polícrates[ 17 ] atirou um anel ao mar para propiciar o Destino. Eu atirei um cabriolé ao mar (se me permitirem uma metáfora um tanto violenta) e o Destino está, tenho certeza, satisfeito. Embora tenha ouvido dizer que ele não gosta que se lhe diga.

Eu estava ontem à tarde em um cabriolé descendo uma das ruas inclinadas que dão na Strand, lendo um dos meus próprios e admiráveis artigos com contínuo prazer, e mais ainda com contínua surpresa, quando o cavalo tropeçou para a frente, arrastou-se um momento nos pedregulhos, equilibrou-se novamente em pé e seguiu em frente. Os cavalos em meus táxis sempre fazem isso, e aprendi a apreciar meus próprios artigos em qualquer ângulo do veículo. Assim, não notei nada de estranho na maneira como o cavalo prosseguiu. Mas repentinamente vi algo nas faces de todas as pessoas na calçada. Estavam todas voltadas para mim, e estavam todas subitamente chocadas de medo, como se atingidas por uma chama branca descida do céu. E um homem correu para a rua movendo o cotovelo como para resguardar-se de um golpe, e tentou parar o cavalo. Então eu soube que as rédeas estavam soltas, e no momento seguinte o cavalo era como um relâmpago vivo. Tento descrever as coisas exatamente como me pareceram; posso ter esquecido ou errado muitos detalhes; muitos detalhes podem, por assim dizer, ter enlouquecido na corrida pela rua. Lembro-me de que uma vez intitulei uma das minhas experiências narradas neste jornal “Um Fragmento de Fato”. Este é, com toda a certeza, um fragmento de fato. Nenhum fato poderia possivelmente ser mais fragmentário do que o tipo de fato que eu esperava ser ao fim daquela rua.

Acredito na pregação aos convertidos, pois descobri que em geral os convertidos não entendem sua própria religião. Assim, sempre insisti neste jornal em que a democracia tem um significado mais profundo que o entendido pelos democratas: isto é, que as coisas, provérbios e expressões comuns e populares sempre têm em si algo não percebido pela maioria das pessoas que os repetem. Eis uma. Todos já ouvimos sobre o homem que está em um perigo momentâneo, e que vê toda a sua vida passar diante de seus olhos em um instante. No sentido frio, literal e comum das palavras, isso é obviamente uma mentira estrondosa. Ninguém pode fingir que em um acidente ou uma crise mortal tenha elaboradamente se lembrado de todos os ingressos que já comprou para Wimbledon, ou de todas as vezes que comeu pão com manteiga.

Mas naqueles poucos momentos, enquanto meu táxi disparava em direção ao trânsito da Strand, descobri que há uma verdade por trás dessa frase, como há por trás de todas as expressões populares. Eu realmente tive, naquele curto e estrepitoso período, uma rápida sucessão de vários pontos de vista fundamentais. Tive, por assim dizer, umas cinco religiões no mesmo número de segundos. Minha primeira religião foi o puro Paganismo, que entre homens sinceros é mais sucintamente descrita como medo extremo. Então seguiu-se um estado de alma que é muito real, mas para o qual nenhum nome apropriado jamais foi encontrado. Os antigos o chamavam Estoicismo, e acho que deve ser o que alguns lunáticos alemães querem dizer (se é que querem dizer alguma coisa) quando falam sobre Pessimismo. Era uma aceitação vazia e aberta daquilo que acontece – como se a pessoa estivesse além da sua importância. E então, curiosamente, veio um fortíssimo sentimento contrário – de que as coisas na verdade importavam muito, e que eram ainda algo mais do que trágicas. Era um sentimento, não de que a vida não era importante, mas de que a vida era importante demais para ser qualquer outra coisa além de vida. Espero que este fosse o Cristianismo. De qualquer forma, ocorreu no momento em que nos chocamos com o ônibus.

Pareceu-me que a charrete simplesmente virou de ponta-cabeça sobre mim, como um enorme capuz ou chapéu. Encontrei-me então rastejando para fora em posições tão indignas que devem ter colaborado enormemente com aquela grande causa à qual a Liga Anti-Puritana e eu temos nos dedicado recentemente. Quero dizer a causa do prazer do povo. Quanto à minha conduta quando emergi, tenho duas confissões a fazer, e ambas são feitas meramente em interesse da ciência mental. A primeira é que embora estivesse em uma disposição de ânimo consideravelmente piedosa um momento antes da colisão, quando fiquei em pé e descobri que tinha sofrido um ou dois cortes comecei (como São Pedro) a praguejar e amaldiçoar. Um homem me ofereceu um jornal ou algo que eu havia deixado cair. Lembro-me distintamente de ter reduzido o jornal a um estado de irremediável ruína espiritual. Arrependo-me muito disso agora, e peço desculpas tanto ao homem quanto ao jornal. Não faço a menor idéia de qual o significado dessa raiva anormal; menciono-o como uma confissão psicológica. Esse sentimento foi imediatamente seguido por uma extrema hilaridade, e fiz tantas piadas tolas ao policial que ele caiu em desgraça por rir continuamente perante todos os meninos da rua, que o haviam tomado a sério até aquele momento.

Há uma outra coisa estranha no caso, que menciono também como uma curiosidade do cérebro humano, ou da deficiência deste. A intervalos de cerca de três minutos eu continuava a lembrar o policial de que não havia pago o taxista, e que esperava que ele não ficasse sem o seu dinheiro. O policial disse que estava tudo certo, e que o homem iria aparecer. Mas foi apenas cerca de meia hora depois que me dei conta, com um choque intolerável, que o homem podia concebivelmente ter perdido mais do que meia coroa; que estivera em perigo tanto quanto eu. Considerara instintivamente o taxista como algo elevado acima dos acidentes, um deus. Imediatamente comecei uma investigação, e tenho satisfação em dizer que ela parece ter sido desnecessária.

Mas de agora em diante vou sempre compreender com uma caridade mais sombria e delicada aqueles que pagam o dízimo da hortelã, do anis e do cominho, e negligenciam os aspectos mais importantes da lei; vou lembrar-me de como fui uma vez torturado com a idéia de dever meia coroa a um homem que podia estar morto. Alguns homens admiráveis com aventais brancos no Hospital de Charing Cross enfaixaram meu pequeno ferimento, e saí novamente para a Strand. Sentia em mim como que uma estranha juventude; ansiava por algo nunca experimentado. Então, para começar um novo capítulo em minha vida, entrei em um cabriolé.

16 Importante rua londrina que liga a Trafalgar Square à City, região financeira de Londres.

17 Governador da ilha de Samos de 538 a 522 a.C, do qual se diz que, para evitar os revezes da fortuna, orientado por um de seus aliados, atirou ao mar o tesouro que mais valorizava, um anel incrustado de pedras. Conta-se que o anel foi posteriormente recuperado por um pescador e devolvido ao dono.


As Vantagens de Ter Uma Perna

UM AMIGO MEU, que estava visitando uma pobre mulher enlutada e procurava alguma frase de consolo que não fosse insolente nem fraca, disse, enfim: “Acredito que é possível atravessar essas grandes penas e sair delas melhor do que se entrou. O que desgasta são as pequenas preocupações”. “É bem verdade”, respondeu a velha senhora com ênfase, “e eu sei bem disso, considerando que tive uma dezena delas.” É, talvez, neste sentido que é profundamente verdadeiro que as pequenas preocupações são as mais desgastantes. Em seu significado mais vago, embora a expressão contenha uma verdade, contém também algumas possibilidades de auto-engano e erro. As pessoas que têm tanto grandes quanto pequenos problemas têm o direito de dizer que consideram piores os pequenos, e é indubitavelmente verdade que as costas que estão vergadas sob fardos incríveis conseguem sentir um leve aumento sob eles: um gigante sustentando a terra e toda a sua criação animal poderia achar que o gafanhoto é um fardo a mais. Mas temo que a máxima de que as menores preocupações são as piores seja às vezes usada e abusada pelas pessoas porque elas não têm senão as menores de todas as penas. A dama pode desculpar a si mesma por irritar-se com uma pétala de rosa amassada refletindo sobre a extraordinária dignidade com que ela usaria a coroa de espinhos – se fosse preciso. O cavalheiro pode permitir-se maldizer o jantar e imaginar que se portaria muito melhor se fosse mera questão de passar fome. Não é preciso negar que o gafanhoto no ombro de um homem é um fardo; mas não precisamos respeitar excessivamente o cavalheiro que está sempre dizendo que preferiria carregar um elefante quando sabe que não há elefantes no país. Podemos admitir que uma palha pode quebrar as costas de um camelo, mas gostamos de saber que é realmente a última palha e não a primeira.

Admito que aqueles que sofrem grandes males têm um direito real de queixar-se, desde que se queixem sobre outra coisa. É um fato singular que, se são pessoas sãs, quase sempre queixam-se mesmo sobre outras coisas. Falar de forma racional sobre os próprios problemas reais é a forma mais rápida de perder a cabeça. Mas pessoas com grandes problemas falam sobre os pequenos, e o homem que reclama da pétala de rosa amassada tem com freqüência sua carne cheia de espinhos. Porém, se um homem tem habitualmente uma vida diária muito clara e feliz, então acho que temos o direito de pedir-lhe que não transforme tocas de toupeira em montanhas[ 18 ]. Não nego que as toupeiras possam às vezes ser importantes. Pequenos aborrecimentos têm em si esta maldade, de que podem ser mais abruptos porque são mais invisíveis; não projetam sombras diante de si, não têm atmosfera. Ninguém nunca teve uma premonição mística de que iria tropeçar no genuflexório. William III morreu por tropeçar em uma toca de toupeira[ 19 ]; não creio que com todas as suas diversas habilidades ele conseguisse tropeçar em uma montanha. Mas, levando tudo isso em consideração, repito que podemos pedir a um homem feliz (não William III) que suporte o que é pura inconveniência, e até que faça dela parte de sua felicidade. Não me refiro aqui à dor objetiva ou à pobreza objetiva. Refiro-me àquelas inúmeras limitações acidentais que estão sempre cruzando nosso caminho – mau tempo, confinamento a esta ou aquela casa ou aposento, desencontros, esperas em estações de trem, extravios de correspondência, deparar-se com a falta de pontualidade quando quereríamos pontualidade, ou, o que é pior, encontrar pontualidade onde não a queríamos. É sobre os prazeres poéticos que podem ser tirados de todas estas coisas que eu canto – canto com confiança, pois recentemente experimentei os prazeres poéticos que surgem de ter de sentar-se em uma cadeira por causa de uma torção no pé, sendo a única alternativa ficar em uma só perna como uma cegonha – uma cegonha é uma imagem poética: portanto, adotei-a avidamente.

Para apreciar qualquer coisa, devemos sempre isolá-la, mesmo se a coisa em si simboliza algo diferente do isolamento. Se desejamos ver o que uma casa é, deve tratar-se de uma casa em alguma paisagem desabitada. Se quisermos representar o que um homem realmente é, devemos representar um homem sozinho em um deserto ou em alto-mar. Enquanto é uma figura solitária, significa tudo o que a humanidade é; enquanto for solitário, significa a sociedade humana; enquanto for solitário, significa sociabilidade e camaradagem. Acrescente-se outra personagem e a imagem torna-se menos humana – e não mais. Um é companhia, dois é nenhum. Se você deseja simbolizar a construção humana, desenhe uma torre escura no horizonte; se deseja simbolizar a luz, que não haja estrelas no céu. De fato, durante todo esse período estranhamente iluminado ao qual chamamos dia há apenas uma estrela no céu – uma grande e ardente estrela que chamamos sol. Um sol é esplêndido; seis sóis seria apenas vulgar. Uma Torre de Giotto[ 20 ] é sublime; uma fileira de Torres de Giotto seria apenas como uma fileira de postes brancos. A poesia da arte está em contemplar a torre solitária; a poesia da natureza em contemplar a árvore solitária; a poesia do amor em seguir a mulher solitária; a poesia da religião em adorar a estrela solitária. E assim, na mesma pensativa lucidez, percebo que a poesia de toda a anatomia humana está em ficar sobre uma perna. Para expressar uma completa e perfeita “pernice”[ 21 ], a perna deve ficar em um sublime isolamento, como a torre no deserto. Como Ibsen diz tão bem, a perna mais forte é aquela que é mais solitária[ 22 ].

Esta perna solitária sobre a qual repouso tem toda a simplicidade de uma coluna dórica. Os estudantes de arquitetura contam-nos que o único uso legítimo de uma coluna é suportar peso. Esta minha coluna preenche sua legítima função. Ela suporta peso. Sendo de consistência animal e orgânica, poderá até mesmo aperfeiçoar-se por esse processo, e, durante estes poucos dias em que estou equilibrado de forma desigual, o desamparo ou deslocamento de uma perna poderá ser compensado pela espantosa força e pela beleza clássica da outra. Mrs. Mountstuart Jenkinson, da novela de Mr. George Meredith[ 23 ], poderia passar a qualquer momento e, ao ver-me em minha atitude de cegonha, exclamar, com a mesma admiração e uma exatidão mais literal: “Ele tem uma perna.” Notem como esta famosa frase literária apóia meu argumento sobre esse isolamento de qualquer coisa admirável. Mrs Mountsuart Jenkinson, desejando ilustrar de forma clara e perfeita a graça humana, disse que Sir Willoughby Patterne tinha uma perna. Ela delicadamente passou por alto e omitiu o desajeitado e ofensivo fato de que ele na verdade tinha duas. Duas pernas seriam supérfluas e irrelevantes, um reflexo e uma confusão. Duas pernas teriam confundido Mrs Mountstuart Jenkinson como dois Monumentos[ 24 ] em Londres. Que já tendo uma perna boa ele tivesse outra – isso seria o mesmo que usar vãs repetições como fazem os gentios. Ela ficaria tão desconcertada quanto se ele fosse uma centopéia.

Todo pessimismo tem um otimismo secreto como seu objeto. Toda desistência da vida, toda negação de prazer, toda escuridão, toda austeridade, toda desolação tem como real objetivo esta separação de algo que possa assim ser pungente e perfeitamente aproveitado. Sinto-me grato pela leve torção que introduziu esta misteriosa e fascinante divisão entre um dos meus pés e o outro. O caminho para amar qualquer coisa é dar-se conta de que ela poderia ser perdida. Em um dos meus pés posso sentir quão forte e esplêndido é um pé; no outro posso perceber quão diferente ele poderia ter sido. A moral disto é totalmente entusiasmante. Este mundo e todos os nossos poderes nele são muito mais terríveis e belos do que até mesmo nós sabemos, até que algum acidente no-lo recorde. Se você deseja perceber aquela felicidade sem limites, limite-se mesmo que apenas por um momento. Se deseja perceber quão tímida e maravilhosamente você foi criado à imagem de Deus, fique de pé sobre uma só perna. Se quer dar-se conta da esplêndida visão de todas as coisas visíveis – pisque um olho.

18 Expressão inglesa equivalente a “fazer tempestade em um copo d’água”.

19 William III da Inglaterra (1650-1702) morreu por complicações de uma fratura de clavícula, causada por uma queda de seu cavalo, que tropeçou em uma toca de toupeira.

20 Torre de Giotto ou Campanário de Giotto: trata-se do campanário da Catedral de

Florença.

21 No original, “leggishness”.

22 Referência à peça Um inimigo do povo, de Henrik Ibsen, em que uma personagem afirma: “o homem mais forte do mundo é aquele que é mais solitário”.

23 Referência à novela “The Egoist”, de George Meredith, novelista inglês (1828-1909).

24 Referência ao Monumento ao Grande Incêndio de Londres, construído no séc. XVII, localizado próximo à London Bridge.


O fim do Mundo

POR ALGUM TEMPO, estive passeando por ruas silenciosas na curiosa cidade de Besançon[ 25 ], que fica como uma espécie de península em uma curva de rio semelhante a uma ferradura. Você poderá ler nos guias que é a terra natal de Victor Hugo, e que é uma base militar com muitos fortes, próxima à fronteira francesa. Mas você não lerá nos guias que as próprias telhas nos telhados parecem ser de uma cor mais fantástica e mais delicada do que as telhas de todas as outras cidades do mundo; parecem as nuvens de um estranho pôr-do-sol, ou as escamas lustrosas de um peixe estranho. Eles não lhe contarão que nesta cidade o olhar não pode repousar em coisa alguma sem achá-la de alguma maneira atraente e até mesmo élfica, uma face entalhada em uma esquina, um brilho de campos verdes através de um arco raquítico, ou uma cor inesperada no esmalte de uma espiral ou cúpula.

O fim do dia estava chegando, e sob sua luz todas aquelas cores tão simples e ainda assim tão sutis pareciam cada vez mais encaixar-se para criar um conto de fadas. Eu havia sentado um pouco do lado de fora de um café com uma fileira de pequenas árvores de brinquedo em frente, e então o condutor de um cabriolé (como poderíamos chamá-lo) chegou ao mesmo lugar. Ele era um daqueles franceses muito grandes e sombrios, um tipo incomum mas ainda assim típico da França: o francês Rabelaisiano[ 26 ], enorme, moreno, pletórico, um barril de vinho ambulante. Era uma espécie de Falstaff[ 27 ] do Sul, se é que alguém pode imaginar um Falstaff que não seja inglês. E, de fato, havia uma diferença vital, típica das duas nações. Pois enquanto Falstaff estaria sacudindo-se com hilaridade como uma enorme gelatina, cheio da farsa liberal das ruas de Londres, esse francês era pelo contrário bastante solene e digno – como se o prazer fosse uma espécie de religião pagã. Depois de uma conversa cheia da admirável civilidade e igualdade da civilização francesa, sugeriu sem avidez ou embaraço que devia levar-me em seu cabriolé para um passeio de uma hora nas colinas além da cidade. E, embora estivesse ficando tarde, concordei, pois havia uma longa estrada branca que passava sob um arco e ao redor de uma colina e que me atraía como uma longa corda branca. Passamos através do portão forte e baixo feito pelos romanos e – recordo-me dessa coincidência como uma espécie de presságio –, quando o atravessamos e saímos da cidade, ouvi simultaneamente os três sons que são a trindade da França. Eles formam o que algum poeta chamaria “uma trindade enovelada”, e não sou eu que a vou desembaraçar. Fosse qual fosse o significado dessas três coisas, como ou por que coexistem – se podem ser reconciliadas ou talvez já o estejam –, os três sons – que então ouvi por acaso de uma vez – compõem o mistério francês. Pois a banda nos jardins do Cassino atrás de mim tocava com uma espécie de apaixonada leveza uma vibrante ária de uma ópera cômica parisiense, e, enquanto isso acontecia, ouvi também as trompas de caça nas montanhas acima, que recordavam terríveis lealdades e homens sempre em armas nos portões da França; e ouvi também, mais tênue que esses sons e através deles, o Angelus[ 28 ].

Após essa coincidência de símbolos, tive a curiosa sensação de ter deixado para trás a França, ou talvez até mesmo o mundo civilizado. E, com efeito, havia na paisagem algo selvagem o suficiente para encorajar tal fantasia. Já vira talvez montanhas mais altas, mas nunca pedras mais altas; nunca vira a altura tão de perto, tão abrupta e sensacional, fragmentos de rocha que se erguiam como torres de igrejas, despenhadeiros que caíam tão súbita e verticalmente como Satanás caiu do céu. Havia também um aspecto no passeio que era não apenas espantoso, mas até mesmo desnorteante; um aspecto que muitos já devem ter notado caso tenham dirigido ou cavalgado rapidamente em estradas de montanha. Quero dizer uma sensação de gigantesca rotação, como se a terra inteira estivesse girando sobre a própria cabeça. É bastante inadequado dizer que as montanhas subiam e desciam como enormes ondas. Na verdade elas pareciam girar ao meu redor como as enormes pás de um moinho de vento, uma vasta roda de monstruosas asas de arcanjos. À medida que subíamos em direção ao crescente púrpura do pôr-do-sol essa sensação vertiginosa aumentou, confundindo coisas acima com coisas abaixo. Amplos muros de rocha coberta de mato erguiam-se sobre minha cabeça como um teto. Olhei-os fixamente até imaginar que estava olhando para baixo, para uma planície coberta de mato. Abaixo de mim precipícios verdes desciam até o rio. Olhei para eles até imaginar que subiam até o céu. A luz púrpura escureceu, a noite aproximou-se; ela pareceu apenas tornar mais nítidos os contornos dos precipícios e mais altos os pináculos daquela paisagem de pesadelo. Sobre mim na penumbra estava o imenso vulto negro do condutor, e suas costas largas e sem marcas eram tão misteriosas quanto as costas da Morte no quadro de Watts[ 29 ]. Senti que estava tendendo demais ao fantástico e procurei falar de coisas ordinárias. Perguntei ao condutor em francês, “Aonde você está me levando?”, e é um fato literal e solene que ele me respondeu na mesma língua sem se voltar, “Ao fim do mundo.”

Não respondi. Deixei que levasse o veículo por caminhos escuros e íngremes, até que vi luzes sob um teto baixo, de pequenas árvores, e duas crianças, uma delas estranhamente bela, jogando bola. Vimo-nos então ocupando toda a estreita rua principal de uma minúscula aldeia, em cuja estalagem estava escrito em grandes letras, LE BOUT DU MONDE – o fim do mundo. O condutor e eu nos sentamos do lado de fora daquela estalagem sem uma palavra, como se todas as cerimônias fossem naturais e compreendidas naquele lugar extremo. Pedi pão para os dois e vinho tinto, que era bom mas não tinha nome. No outro lado da rua havia uma igreja pequena e simples com uma cruz no topo e um galo sobre a cruz. Este pareceu-me um fim do mundo muito bom; se a história do mundo terminasse ali, teria terminado bem. Perguntei-me então se eu mesmo estaria contente em terminar ali, onde certamente havia as melhores coisas da Cristandade – uma igreja e brincadeiras de crianças e um solo decente e uma taverna para homens conversarem com homens. Mas, enquanto pensava, uma dúvida e um desejo singulares cresceram lentamente em mim, e por fim levantei-me.

“Você não está satisfeito?”, perguntou meu companheiro. “Não”, eu disse, “não estou satisfeito nem no fim do mundo.” Então, após uma pausa, prossegui. “Porque, entenda, há dois fins do mundo. E este é o fim do mundo errado; ao menos o errado para mim. Este é o fim do mundo francês. Quero o outro fim do mundo. Leve-me para o outro fim do mundo.”

“O outro fim do mundo?”, perguntou ele. “Onde é isso?”

“É em Walham Green[ 30 ],” sussurrei roucamente. “Você o lê nos ônibus de Londres. ‘Fim do mundo e Walham Green[ 31 ]’. Oh, eu sei como isto aqui é bom; amo suas vinhas e sua vida rústica e livre, mas quero o fim do mundo inglês. Amo-o como a um irmão, mas quero um taxista inglês, que será divertido e vai perguntar-me quanto sua tarifa ‘é’[ 32 ]. Suas trompas de caça agitam meu sangue, mas quero ver um policial inglês.” Ele permanecia muito escuro e imóvel contra o final do pôr-do-sol, e eu não saberia dizer se entendera ou não. Entrei novamente em seu carro.

“Você entenderá”, eu disse, “se algum dia na vida for um exilado, mesmo que por prazer. A criança à sua mãe, o homem ao seu país, como um conterrâneo seu disse uma vez[ 33 ]. Mas, como talvez seja uma viagem longa demais até o fim do mundo inglês, podemos simplesmente voltar a Besançon.”

Só que quando as estrelas surgiram entre aquelas colinas imortais eu chorei por Walham Green.

25 Cidade ao leste da França, capital da região de Franche-Comté.

26 François Rabelais (c.1494-1553), monge e escritor da Renascença francesa. Sua obra mais conhecida é Gargântua e Pantagruel.

27 Sir John Falstaff, personagem de três peças de Shakespeare, é um cavaleiro gordo, fanfarrão, e companheiro de juventude do futuro rei Henrique V.

28 Tradicional oração cristã em louvor a Maria, que se reza habitualmente ao meio-dia e às 18 horas e freqüentemente é anunciada nas igrejas através do repicar de sinos.

29 George Frederick Watts (1817-1904), pintor e escultor inglês associado ao movimento do simbolismo.

30 Área na região oeste de Londres.

31 No original, “World’s End and Walham Green”. Provável trocadilho com a área conhecida como “Sand’s End”, vizinha de Walham Green.

32 Jogo de palavras intraduzível que faz referência ao jeito de falar dos taxistas ingleses.

33 Trata-se do livro Les femmes, les eunuques et les guerriers du Soudan [As mulheres, os eunucos e os guerreiros do Sudão], do conde Raoul du Bisson, 1868.


Na Praça da Bastilha

NO DIA PRIMEIRO de Maio eu estava sentado fora de um café na Praça da Bastilha, em Paris, contemplando a exultante coluna coroada com uma figura saltitante[ 34 ] que fica no lugar em que o povo destruiu uma prisão e terminou uma era. Este é um curioso exemplo de quão simbólica é a maior parte da história humana. Considerando-se o mero fato material, a Bastilha quando foi tomada não era uma prisão horrível; praticamente nem era uma prisão. Mas era um símbolo, e o povo sempre ataca os símbolos com um instinto certeiro: o chinês, por exemplo, na última Eleição Geral[ 35 ], ou o chapéu do Presidente Kruger[ 36 ] na eleição anterior. Seu senso poético é perfeito. O chinês com seu rabo-de-cavalo não é uma irreverência despretensiosa. Ele realmente tipifica com uma compacta precisão exatamente as coisas que as pessoas desaprovam na política africana: a natureza alienígena e grotesca do poder da riqueza, o fato de que o dinheiro não tem raízes, de que não é um poder natural e familiar, mas uma espécie de mágica rarefeita e malévola que conjura monstros dos confins da terra. O povo odeia o proprietário de minas que pode trazer um chinês voando através do mar, exatamente como o povo odiava o bruxo que podia trazer um dragão voando pelos ares. O mesmo ocorria com o chapéu de Mr. Kruger. Seu chapéu (aquele chapéu admirável) não era simplesmente uma piada. Realmente simbolizava, e muito bem, exatamente aquilo que nosso povo naquele momento encarava com impaciência e malevolência: a velha e desbotada simplicidade Republicana, a deselegante dignidade do burguês, e os truísmos pesados da moralidade política. Não; o povo às vezes está errado quanto ao lado prático da política; nunca quanto ao seu lado artístico.

Assim foi, certamente, com a Bastilha. A destruição da Bastilha não foi uma reforma: foi algo mais importante que uma reforma. Foi um iconoclasmo; foi a destruição de uma imagem de pedra. As pessoas viam o prédio como um gigante olhando-as com uma fileira de olhos, e atacaram-no como se isso fosse um fato consumado. Pois de todas as formas pelas quais aquela ilusão chamada materialismo pode aterrorizar a alma, talvez a mais opressiva sejam os grandes edifícios. O homem sente-se como uma mosca, um acidente, no objeto que ele mesmo fez. É preciso um violento esforço do espírito para lembrar que o homem fez esta coisa desconcertante e que o homem pode desfazê-la. Portanto, o mero ato de a população sofrida das ruas tomar de assalto e destruir um enorme edifício público tem um significado espiritual, ritual, muito além de seus resultados políticos imediatos. É uma cerimônia religiosa. Se, por exemplo, os socialistas fossem numerosos ou corajosos o bastante para capturar e destruir o Banco da Inglaterra, vocês poderiam discutir para sempre sobre a inutilidade do ato, e como ele realmente não atingiu a raiz do problema econômico da maneira correta. Mas a humanidade nunca o esqueceria. Ele mudaria o mundo.

A arquitetura é um teste muito bom da verdadeira força de uma sociedade, pois as coisas mais valiosas à condição humana são as coisas irrevogáveis – o casamento, por exemplo. E a arquitetura aproxima-se mais do que qualquer outra arte do irrevogável, porque é muito difícil eliminá-la. Você pode virar um quadro de frente para a parede; seria uma tolice virar aquela catedral romana de frente para a parede. Você pode reduzir um poema a fragmentos; é apenas em momentos de emoção muito sincera que você reduz uma prefeitura a escombros. Um edifício é semelhante a um dogma: é insolente, como um dogma. Quer seja permanente ou não, proclama sua permanência como um dogma. As pessoas perguntam por que não temos uma arquitetura típica do mundo moderno, como o impressionismo na pintura. Com certeza é obviamente porque não temos dogmas suficientes; não conseguimos suportar a visão de qualquer coisa no céu que seja sólida e duradoura, qualquer coisa no céu que não mude como as nuvens. Mas juntamente com essa decisão que está envolvida na criação de um edifício há uma decisão bastante similar na tarefa mais agradável de destruir um. As duas necessariamente caminham juntas. Em poucos lugares foram construídos edifícios públicos tão belos como aqui em Paris, e em poucos lugares tantos foram destruídos. Quando as pessoas adquirem finalmente o horrível hábito de preservar edifícios, perdem o hábito de construí-los. E, em Londres, como que se misturam as lágrimas porque tão poucos são demolidos.

Enquanto eu contemplava a coluna da Bastilha, com inscrições de Liberdade e Glória, surgiu de um canto da praça (que, como tantas semelhantes, era ao mesmo tempo cheia de gente e tranqüila) uma repentina e silenciosa fileira de cavaleiros. Seu uniforme era de um azul fosco, bastante simples e prosaico, mas o sol parecia atear fogo no latão e aço de seus capacetes, e estes eram trabalhados como os dos romanos. Eu já os vira em duplas ou trios antes. Já vira vários deles em pinturas, atravessando com dificuldade as neves de Friedland ou bramindo pelas esquinas em Waterloo. Porém, agora vinham fileira após fileira, como uma invasão, e algo em seu número, ou na luz da tarde que iluminava suas faces e as crinas de seus elmos, ou algo no devaneio em que irromperam, deu-me vontade de levantar-me de um salto e gritar, “Os soldados franceses!” Lá estavam os homenzinhos de rostos morenos que com tanta freqüência cavalgaram através das capitais da Europa tão friamente quanto agora cavalgavam através da sua. E quando olhei através da praça, vi que as outras duas extremidades estavam repletas de azul e vermelho, tomadas por pequenos grupos de infantaria. A cidade estava entrincheirada como se fosse haver uma revolução.

Como é lógico, eu ouvira tudo sobre a greve, fundamentalmente de um padeiro. Ele disse que não ia “Chomer[ 37 ]”. Eu disse, «Qu’est-ce que c’est que le chome?» Ele disse, “Ils ne veulent pas travailler[ 38 ].” Retruquei, “Ni moi non plus[ 39 ]”, e ele pensou que eu era um proletário coletivista com consciência de classe. A coisa toda era curiosa, e sua verdadeira moral não era fácil para entendermos como nação, porque nossas faltas são profunda e perigosamente na outra direção. Para mim, como inglês (pessoalmente imerso em otimismo inglês e no desagrado inglês com a severidade), a coisa toda parecia uma bagunça por nada. Parecia que um dos melhores exércitos da Europa estava se voltando contra pessoas ordinárias que caminhavam na rua. A cavalaria investiu contra nós uma ou duas vezes, de forma mais ou menos inofensiva. Mas, é claro, é difícil dizer quanto se está assumindo nestas críticas que a população francesa seja (o que não é) tão dócil quanto a inglesa. Porém, a realidade mais profunda do problema ressoava, por assim dizer, ao longo de toda a noite ruidosa. Esse povo tem uma faculdade natural de sentir-se na véspera de algo – São Bartolomeu ou a Revolução ou as Comunas ou o Dia do Juízo. É esse sentimento de crise que torna a França eternamente jovem. Ela está perpetuamente demolindo e construindo, como demoliu a prisão e erigiu a coluna na Praça da Bastilha. A França sempre esteve a ponto de dissolver-se. Encontrou o único método da imortalidade: ela morre diariamente.

34 Trata-se da Coluna de Julho, inaugurada em 1840 e encimada por uma representação do “Gênio da Liberdade”, de Auguste Dumont.

35 No Reino Unido, há eleições para a Câmara dos Comuns, habitualmente a cada cinco anos.

36 Stephanus Johannes Paulus Kruger (1825 – 1904) foi o quinto presidente da África do Sul. Uma de suas características mais marcantes era aparecer em público usando cartola.

37 Assim no original. Refere-se ao termo “Chômeur”, ficar desempregado.

38 “Eles não querem trabalhar”.

39 “Nem eu”.


Sobre ficar na cama

FICAR NA CAMA seria uma experiência completamente perfeita e suprema desde que se tivesse um lápis de cor longo o suficiente para desenhar no teto. Este, entretanto, geralmente não faz parte do aparato doméstico local. Acredito que o problema poderia ser resolvido com vários baldes de Aspinall[ 40 ] e uma vassoura. Só que se a pessoa trabalhasse de forma realmente impetuosa e magistral, e aplicasse a tinta em grandes pinceladas, esta poderia pingar novamente sobre a sua face em torrentes de ricas e variadas cores, como uma estranha chuva de fantasia; e isso teria suas desvantagens. Penso que seria necessário limitar-se ao branco e preto nesta forma de composição artística. Para isso, de fato, o teto branco seria da maior utilidade possível; com efeito, é a única utilidade que consigo imaginar para um teto branco. Não fosse o belo experimento de ficar na cama e talvez nunca o houvesse descoberto. Há anos venho procurando nas casas modernas algum espaço em branco para desenhar. O papel é pequeno demais para qualquer desenho realmente alegórico; como diz Cyrano de Bergerac, “Il me faut des géants[ 41 ]”. Mas quando tentei encontrar esses excelentes espaços livres nas salas modernas em que todos vivemos desapontei-me continuamente. Encontrei um padrão e uma complicação infindáveis de pequenos objetos pendurados como uma cortina de finos elos entre o meu desejo e eu. Examinei as paredes: descobri para minha surpresa que já estavam cobertas de papel de parede, e descobri que o papel de parede já estava coberto com imagens insípidas, todas apresentando uma ridícula semelhança umas com as outras. Eu não conseguia compreender por que um símbolo arbitrário (um símbolo aparentemente de todo privado de qualquer significado religioso ou filosófico) deveria espalhar-se de tal modo por todas as minhas belas paredes como uma espécie de varíola. A Bíblia deve estar se referindo aos papéis de parede, creio eu, quando diz, “Não usai repetições vãs, como fazem os gentios[ 42 ]”. Descobri que o tapete turco era um aglomerado de cores sem sentido, bastante semelhante ao Império Turco ou ao doce chamado manjar turco. Eu não sei o que sejam realmente as delícias turcas; mas suponho que sejam massacres de macedônios[ 43 ]. Em todos os lugares a que fui, desanimado, com meu lápis ou meu pincel, descobria que outros já tinham irresponsavelmente estado antes de mim, estragando as paredes, as cortinas e os móveis com seus desenhos infantis e bárbaros.

Em nenhum lugar encontrei um espaço realmente livre para desenhar até a ocasião em que prolonguei além do limite apropriado o processo de ficar de costas na cama. Então a luz daquele céu branco invadiu minha visão, aquela extensão de puro branco que é de fato quase a definição do Paraíso, uma vez que significa a pureza e também a liberdade. Porém, que pena! Como todos os céus, agora que ele é visto descobre-se que é inatingível; parece mais austero e mais distante do que o céu azul além da janela. Pois a minha proposta de pintá-lo com o lado das cerdas de uma vassoura foi desencorajada – não importa por quem; por uma pessoa privada de todos os direitos políticos – e mesmo minha proposta mais leve de colocar a outra ponta da vassoura no fogo da cozinha e transformá-la em carvão não foi aceita. Mesmo assim, estou certo de que foi de pessoas na minha posição que veio toda a inspiração original para cobrir os tetos dos palácios e catedrais com uma multidão de anjos caídos ou deuses vitoriosos. Estou certo de que foi apenas porque Michelângelo se dedicou à antiga e honorável ocupação de ficar na cama que chegou a perceber como o teto da Capela Sistina poderia ser transformado em uma terrível imitação de um drama divino que só poderia ser representado nos céus. O tom freqüentemente usado nestes dias quanto à prática de ficar na cama é hipócrita e doentio. De todas as marcas da modernidade que parecem representar uma espécie de decadência não há nenhuma mais ameaçadora e perigosa do que a exaltação de princípios de conduta muito pequenos e secundários em detrimento de outros muito grandes e primordiais, às custas de vínculos eternos e da moralidade humana trágica. Se existe algo pior que o moderno enfraquecimento de princípios morais fundamentais, é o moderno enaltecimento de princípios de menor importância. Assim, é considerado mais desmoralizador acusar um homem de mau gosto do que de falta de ética. A limpeza não chega nem perto da piedade atualmente, pois aquela se tornou essencial e esta é encarada como uma ofensa. Um dramaturgo pode atacar a instituição do casamento desde que não distorça os costumes da sociedade, e conheci pessimistas ibsenistas[ 44 ] que consideravam ser errado tomar cerveja, mas certo tomar ácido prússico[ 45 ]. Isso ocorre especialmente em temas de higiene; notavelmente em temas como ficar na cama. Ao invés de considerar-se, como deveria ser, como um assunto de conveniência e decisão pessoal, muitos passaram a considerar como se fosse parte essencial da moral levantar-se cedo de manhã. De modo geral é uma manifestação de prudência[ 46 ], mas não há nada de bom nisso ou de mau no oposto.

Os avarentos levantam-se cedo pela manhã; e os ladrões, ouvi dizer, levantam-se na noite anterior. O grande perigo de nossa sociedade é que todos os seus mecanismos podem tornar-se cada vez mais fixos, ao passo que seu espírito torna-se cada vez mais volúvel. As ações e planos de pequena importância de um homem deveriam ser livres, flexíveis, criativos; as coisas que deveriam ser imutáveis são seus princípios, seus ideais. Mas conosco ocorre o contrário: nossas visões mudam constantemente, mas o nosso almoço não muda. Ora, eu gostaria que os homens tivessem conceitos firmes e enraizados, mas quanto ao seu almoço, que o comam às vezes no jardim, às vezes na cama, às vezes no telhado, às vezes no topo de uma árvore. Que discutam a partir dos mesmos princípios fundamentais, quer o façam na cama ou em um barco ou em um balão. Este alarmante crescimento de bons hábitos na realidade significa uma ênfase excessiva naquelas virtudes que o mero costume pode adquirir, e muito pouca ênfase naquelas que o costume nunca pode levar a adquirir, repentinas e esplêndidas virtudes de pena ou de candura inspiradas. Se alguma vez formos subitamente solicitados por elas, podemos falhar. Um homem pode habituar-se a levantar às cinco da manhã. Um homem não pode se habituar muito bem a ser queimado por suas opiniões – a primeira experiência é freqüentemente fatal. Prestemos um pouco mais de atenção a estas possibilidades do heróico e do inesperado. Ouso dizer que quando eu sair desta cama terei feito um ato quase tremendo de virtude.

Para os que estudam a grande arte de ficar na cama há uma enfática advertência a acrescentar. Mesmo para aqueles que podem fazer o seu trabalho na cama (como os jornalistas), e ainda mais para aqueles cujo trabalho não pode ser feito na cama (como os arpoadores de baleias, por exemplo), é óbvio que esse prazer deve ser muito esporádico. Mas essa não é a advertência que quero fazer. A advertência é esta: se você ficar na cama, certifique-se de que o faz sem nenhuma razão ou justificativa. Não me refiro, é claro, aos gravemente doentes. Mas se um homem saudável fica na cama, que o faça sem nem um resquício de desculpa; assim levantar-se-á como um homem saudável. Se o fizer por alguma razão higiênica secundária, se tiver alguma explicação científica, poderá levantar-se como um hipocondríaco.

40 Referência à firma “Lightbown Aspinall”, produtora de papel de parede e, por extensão, de tinta.

41 “Preciso de gigantes”.

42 Cf. Mt 6,7.

43 Jogo de palavras intraduzível, usando o nome em inglês do doce, “Turkish Delight”.

44 Henrik Ibsen (1828-1906) foi um importante dramaturgo norueguês e um dos criadores do Modernismo no teatro.

45 Nome histórico do cianeto (ou cianureto) de hidrogênio, composto extremamente venenoso.

46 No original, “practical wisdom”.


Os Doze Homens

OUTRO DIA, enquanto meditava sobre moralidade e sobre Mr. H. Pitt[ 47 ], fui, por assim dizer, seqüestrado e colocado em uma banca de jurados para julgar pessoas. O seqüestro durou algumas semanas, mas pareceu-me algo súbito e arbitrário. Fui colocado nessa banca porque vivia em Battersea e meu nome iniciava-se com C. Olhando a meu redor, vi que também haviam sido convocados e estavam presentes na corte multidões inteiras e procissões de homens, todos moradores de Battersea e com nomes começados por C.

Parece que sempre convocam jurados dessa maneira alfabética e radical. A um apito oficial, por assim dizer, Battersea é desnudada de todos os seus “C”s e obrigada a se arranjar da melhor forma possível com o resto do alfabeto. Um Cumberpatch está ausente de uma rua – um Chizzolpop de outra –, três Chucksterfields de Chucksterfield House; as crianças estão chorando pela ausência de um Cadgerboy; a mulher na esquina chora por seu Coffintop e não pode ser consolada. Sentamo-nos com uma jovial despreocupação em nossos lugares (pois somos uma raça atrevida e temerária, os “C”s de Battersea), e um juramento nos é administrado de forma totalmente inaudível por um indivíduo semelhante a um cirurgião do Exército em sua segunda infância. Compreendemos, no entanto, que devemos correta e verdadeiramente julgar o caso que existe entre nosso soberano senhor o Rei e o prisioneiro no tribunal, nenhum dos quais apareceu até agora.

Quando comecei a imaginar se o Rei e o prisioneiro não estariam, talvez, chegando a um acordo amigável em alguma taverna das redondezas, a cabeça deste aparece sobre a grade do banco dos réus: ele é acusado de furtar bicicletas e é a cara de um grande amigo meu. Analisamos o assunto do furto das bicicletas. Correta e verdadeiramente, julgamos o caso entre o Rei e o prisioneiro no problema das bicicletas. E chegamos à conclusão, após uma discussão breve, mas ponderada, de que o Rei não está implicado de forma alguma. Passamos a seguir a uma mulher que abandonou seus filhos, e que parecia ter sido abandonada por alguém ou alguma coisa. E eu sou daqueles que acredita que foi isso que ocorreu.

Durante todo o tempo em que o olhar abarcava estas breves aparições e o cérebro fazia estas pequenas críticas, havia no coração um sentimento bárbaro de pena e medo que os homens nunca foram capazes de expressar desde o princípio, mas que é a força por trás de metade dos poemas do mundo. A emoção não pode sequer ser adequadamente sugerida, exceto vagamente pela afirmação de que a tragédia é a expressão mais alta do infinito valor da vida humana. Eu nunca estivera tão perto da dor; e nunca tão longe do pessimismo. Ordinariamente, nem falaria sobre essas sombrias emoções, pois falar sobre elas é muito difícil; mas menciono-as agora por uma razão particular e específica a cuja explicação procederei imediatamente. Descrevo esses sentimentos, pois de sua fornalha surgiu uma curiosa compreensão de uma verdade social ou política. Vi com uma estranha e indescritível espécie de clareza o que um júri realmente é, e por que nunca devemos extingui-lo.

A tendência de nossa época até agora foi consistentemente na direção da especialização e do profissionalismo. Tendemos a ter soldados treinados porque lutam melhor, cantores treinados porque cantam melhor, dançarinos treinados porque dançam melhor, platéias especialmente instruídas porque riem melhor, e assim por diante. O mesmo princípio foi aplicado às leis e à política por inúmeros escritores modernos. Muitos fabianos[ 48 ] insistiram que uma porção maior de nossa atividade política deveria ser exercida por especialistas. Muitos legalistas declararam que o júri destreinado deveria ser completamente suplantado pelo Juiz treinado.

Ora, se este nosso mundo realmente fosse aquilo que se chama razoável, não acho que haveria qualquer problema com isso. Mas o verdadeiro resultado de toda a experiência e o verdadeiro fundamento de toda a religião é este: que as quatro ou cinco coisas as mais essenciais que um homem deveria saber são todas aquilo que as pessoas chamam paradoxos. Isto é, embora na vida real achemos que são verdades simples, mesmo assim não as conseguimos traduzir facilmente em palavras sem nos tornarmos culpados de aparentes contradições verbais. Uma delas, por exemplo, é o inatacável lugar-comum de que o homem que encontra o maior prazer para si é com freqüência aquele que menos o procura. Outra é o paradoxo da coragem; o fato de que o modo de evitar a morte é não ter excessiva aversão a ela. Quem se descuida o suficiente de seus ossos para escalar algum rochedo salvador acima da maré pode salvar seus mesmos ossos por aquele descaso. Quem perder a sua vida a salvará[ 49 ]: uma afirmação inteiramente prática e prosaica.

Agora, um desses quatro ou cinco paradoxos que deveriam ser ensinados a toda criança que balbucia no colo de sua mãe é o seguinte: quanto mais um homem olha para uma coisa menos pode vê-la, e quanto mais um homem aprende sobre uma coisa menos a conhece. O argumento fabiano do especialista, de que o homem treinado deveria ser o homem em que se deve confiar, seria absolutamente inquestionável se realmente fosse verdade que alguém que estudasse uma coisa e a praticasse todos os dias aprendesse mais e mais sobre seu significado. Na mesma linha, infelizmente!, todos nós continuamos todos os dias, a menos que nos incitemos continuamente à gratidão e à humildade, percebendo cada vez menos o significado do céu ou das pedras.

Ora, é um negócio terrível marcar um homem para a vingança dos homens. Mas é algo com que é possível acostumar-se, como é possível com outras coisas terríveis; é possível acostumar-se até mesmo com o sol. E o que há de horrível com os oficiais da lei, mesmo os melhores, com todos os juízes, magistrados, advogados, detetives e policiais, não é que sejam maus (alguns deles são bons), nem que sejam estúpidos (vários são um bocado inteligentes), é simplesmente que se acostumaram.

Estritamente falando, eles não vêem o prisioneiro no banco dos réus; tudo o que vêem é o homem usual no lugar usual. Não vêem a terrível corte de justiça: vêem apenas sua própria oficina. Dessa maneira, o instinto da civilização cristã muito sabiamente decretou que em seus julgamentos devem sempre ser infundidos sangue fresco e idéias frescas vindos das ruas. Deve haver homens que entrem e possam ver a corte e o público, as faces rudes dos policiais e dos criminosos profissionais, as faces gastas dos vagabundos, as faces irreais dos advogados gesticulantes, e ver tudo isso como alguém que assiste a um novo filme ou uma peça até então inédita.

Nossa civilização decidiu, e com muita justiça, que determinar a culpa ou inocência dos homens é algo importante demais para ser confiado a homens treinados. Ela deseja jogar luz sobre aquele terrível assunto, e assim pergunta a homens que não conhecem mais da lei do que eu, mas que podem sentir as coisas que senti no banco dos júris. Quando quer catalogar uma biblioteca, descobrir o sistema solar ou qualquer ninharia desse tipo, usa seus especialistas. Mas, quando deseja realizar qualquer coisa que seja realmente séria, recolhe doze dos homens ordinários que estão por aí. O mesmo foi feito, se me lembro corretamente, pelo Fundador do Cristianismo.

47 Provavelmente trata-se (citado com as iniciais erradas) de William Pitt o Jovem (1759-1806), que foi por duas vezes Primeiro Ministro Britânico (a primeira com apenas 24 anos). Em seu governo ocorreram a Revolução Francesa e as Guerras Napoleônicas.

48 Membros da “Sociedade Fabiana”, movimento socialista inglês do final do século XIX, cujo propósito era promover os princípios do Socialismo Democrático de forma gradual e reformista, ao invés de por revoluções.

49 Referência ao Evangelho de S. Marcos, 8,35: "O que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por amor de Mim e do Evangelho, salvá-la-á."


O Vento e as Árvores

ESTOU SENTADO sob árvores altas, com uma forte ventania varrendo suas copas como se fossem ondas, de tal forma que seu carregamento vivo de folhas balança e ruge com algo que é ao mesmo tempo exultação e agonia. Sinto-me, de fato, como se estivesse realmente sentado no fundo do mar entre meras âncoras e cordas, enquanto sobre a minha cabeça e a penumbra verde da água soassem o eterno fragor das ondas e as dificuldades e colisões e naufrágios de navios tremendos. O vento puxa as árvores como se pudesse arrancá-las da terra com raiz e tudo feito fossem tufos de grama. Ou, para tentar usar ainda outra desesperada figura de linguagem para essa energia indescritível, as árvores estão repuxando e rasgando e açoitando o ar como se fossem uma tribo de dragões amarrados pelas caudas.

Enquanto olho estes gigantes cabeçudos torturados por um violento e invisível feitiço, uma frase volta à minha mente. Lembro-me de um menininho meu conhecido que estava uma vez andando em Battersea Park sob um céu tão tormentoso e árvores tão agitadas quanto hoje. Ele não gostava nem um pouco do vento: soprava demais em sua face, fazia-o fechar os olhos e arrancava seu chapéu, do qual tinha muito orgulho. Tinha, se me lembro bem, quatro anos. Após reclamar repetidamente da instabilidade atmosférica, disse enfim para sua mãe: “Bem, por que você não manda as árvores embora e faz parar de ventar?”

Nada poderia ser mais inteligente ou natural que esse engano. Qualquer um que olhasse as árvores pela primeira vez poderia imaginar que eram na verdade vastos e titânicos leques, que por seu simples balanço agitavam o ar por milhas ao seu redor. Nada, penso eu, poderia ser mais humano e desculpável do que a crença de que são as árvores que causam o vento. Com efeito, é tão humana e desculpável que é, na prática, a crença de aproximadamente noventa e nove de cada cem filósofos, reformadores, sociólogos e políticos da grande época em que vivemos. Meu pequeno amigo era, de fato, muito semelhante aos principais pensadores modernos; só que muito mais simpático.

No pequeno apólogo ou parábola que ele teve assim a honra de inventar, as árvores representam todas as coisas visíveis e o vento as invisíveis. O vento é o espírito que sopra onde quer[ 50 ]; as árvores são as coisas materiais do mundo que são sopradas para onde o espírito quer. O vento é filosofia, religião, revolução; as árvores são as cidades e civilizações. Só sabemos que há vento porque as árvores nalguma montanha distante repentinamente enlouquecem. Só sabemos que há uma revolução real porque todos os topos de chaminé enlouquecem em todo o horizonte da cidade.

Assim como a silhueta irregular de uma árvore torna-se subitamente ainda mais irregular e ergue-se em cristas fantásticas ou caudas esfarrapadas, a cidade humana ergue-se sob o vento do espírito em templos periclitantes ou súbitas espirais. Ninguém jamais viu uma revolução. Multidões invadindo palácios, sangue escorrendo pelas sarjetas, a guilhotina erguida mais alta do que o trono, uma prisão em ruínas, uma população em armas – estas coisas não são a revolução, mas os resultados da revolução.

Você não pode ver o vento; pode apenas ver que há vento. Assim, também não se pode ver uma revolução; pode-se apenas ver que há uma revolução. E nunca houve na história do mundo uma revolução real, brutalmente ativa e decisiva, que não fosse precedida por inquietude e novos dogmas no reino das coisas invisíveis. Todas as revoluções começaram sendo abstratas. A maioria começou de forma pedantemente abstrata.

O vento já está sobre o mundo antes que um pequeno ramo de árvore se mova. Assim, deve haver sempre uma batalha no céu antes que haja uma batalha na terra. Uma vez que é adequado rezar pela vinda do reino, também o é rezar pela vinda da revolução que restaurará o reino. É correto esperar ouvir o vento dos Céus nas árvores. É correto rezar “Seja feita a vossa ira, assim na terra como no Céu”.

O grande dogma humano é, assim, que o vento move as árvores. A grande heresia humana é que as árvores movem o vento. Quando as pessoas começam a dizer que as circunstâncias materiais criaram por si sós as circunstâncias morais, previnem qualquer possibilidade de mudança séria. Pois se minhas circunstâncias me fizeram completamente estúpido, como posso estar certo sequer de que tenho o direito de alterá-las?

O homem que representa todos os pensamentos como um acidente do ambiente está simplesmente esmagando e desacreditando todas as suas próprias idéias – inclusive aquela. Tratar a mente humana como tendo uma autoridade insuperável é necessário a todo o tipo de pensamento, até mesmo o dos livres-pensadores[ 51 ]. E nada nunca será reformado nesta época ou neste país a menos que compreendamos que o fato moral vem primeiro.

Por exemplo, a maioria de nós, suponho, viu na imprensa e ouviu em clubes de debates uma interminável discussão que persiste entre socialistas e abstêmios totais. Estes dizem que a bebida leva à pobreza; aqueles que a pobreza leva à bebida. Só posso admirar-me de que qualquer dos lados se contente com explicações físicas tão simples. Certamente é óbvio que a coisa que leva o proletariado inglês à pobreza é a mesma que leva à bebida: a ausência de uma dignidade cívica forte, a ausência de um instinto que resista à degradação.

Quando você descobrir por que enormes propriedades rurais inglesas não foram há muito tempo recortadas em pequenas fazendas como na França, terá descoberto por que o inglês é mais bêbado que o francês. O inglês, entre seus milhões de adoráveis virtudes, de fato tem essa qualidade, que pode ser estritamente chamada “mão na boca”, porque sob sua influência a mão de um homem automaticamente busca sua própria boca, ao invés de buscar (como às vezes deveria) o nariz de seu opressor. E um homem que diga que a desigualdade inglesa na posse de terra deve-se apenas a causas econômicas, ou que a embriaguez inglesa deva-se apenas a causas econômicas, diz algo tão absurdo que não pode realmente ter pensado no que diz.

Mesmo assim, coisas tão ridículas como essa são ditas e escritas sob a influência daquela grande lente de impotência infantil: a teoria econômica da história. Há pessoas que protestam que todos os grandes motivos históricos foram econômicos, e depois têm que gritar a plenos pulmões para induzir a democracia moderna a atuar por motivos econômicos. Os políticos marxistas radicais da Inglaterra apresentam-se como uma pequena e heróica minoria, que tenta em vão induzir o mundo a fazer o que, de acordo com sua teoria, o mundo sempre faz. A verdade é, evidentemente, que haverá uma revolução social no momento em que a coisa deixar de ser puramente econômica. Nunca se pode ter uma revolução para estabelecer uma democracia. É preciso haver uma democracia para haver uma revolução.

Levantei-me de sob as árvores, pois o vento e a leve chuva haviam cessado. Elas erguem-se como pilares dourados na clara luz do sol. Seu balançar e o vento terminaram simultaneamente. Assim, suponho que ainda haja filósofos modernos que sustentem que são as árvores que causam o vento.

50 Referência ao Evangelho de S. João, 3,8.

51 O livre-pensamento foi um movimento surgido em meados do século XVIII cuja meta era desenvolver o raciocínio liberto e em contraposição a qualquer influência de idéias preconcebidas e quaisquer elementos dogmáticos.


O Dickensiano

ELE ERA UM HOMEM quieto, vestido em roupas escuras, com um grande e amolecido chapéu de palha; com algo quase militar em seus bigodes e suíças, mas uma curvatura de ombros nada militar e olhos muito sonhadores. Olhava com um interesse assaz melancólico para o agrupamento, dir-se-ia quase o novelo, de pequenas embarcações, que se tornava mais intenso à medida que nosso barco de passeio entrava no porto em Yarmouth[ 52 ]. Um barco que entre nesse porto, como todos sabem, não o faz de frente para a cidade como um estrangeiro, mas chega sorrateiramente por trás como um traidor tomando a cidade pela retaguarda. A passagem do rio parece quase pequena demais para o tráfego, e em conseqüência as embarcações maiores parecem colossais. Ao passarmos por trás de um navio de madeira da Noruega, que parecia obstruir os céus como uma catedral, o homem com chapéu de palha apontou para uma estranha figura de proa de madeira esculpida como uma mulher e disse, como se continuasse uma conversa: “Agora, por que será que deixaram de usá-las? Elas não faziam mal a ninguém.”

Retruquei com certa leviandade que a esposa do capitão ficava enciumada; mas sabia no fundo do coração que o homem havia tocado um ponto fundamental. Há algo em nossa mais recente civilização que é misteriosamente hostil a tais símbolos tão saudáveis e humanos.

“Eles odeiam qualquer coisa que seja humana e bela, como aquela”, prosseguiu, ecoando exatamente meus pensamentos. “Acredito que tenham quebrado todas as velhas e alegres figuras de proa com machadinhas e que tenham se divertido com isso.”

“Como o sr. Quilp”, respondi, “quando quebrou o Almirante de madeira com o atiçador.[ 53 ]”

Sua face subitamente se encheu de vida, e pela primeira vez ele se ergueu e me encarou.

“Você está vindo para Yarmouth por isso?”, perguntou-me.

“Por quê?”

“Por Dickens”, respondeu ele, e batucou com os pés no convés.

“Não,” respondi; “Venho por diversão, embora na prática seja a mesma coisa”.

“Eu venho sempre,” disse-me quietamente, “para encontrar o barco de Peggotty[ 54 ]. Não está aqui.”

E quando ele o disse, compreendi-o perfeitamente.

Há duas Yarmouths; ouso afirmar que há duzentas para as pessoas que vivem lá. Eu mesmo nunca cheguei ao fim da lista de Batterseas[ 55 ]. Mas para o estrangeiro e o turista há duas: a parte pobre, que é cheia de dignidade, e a parte próspera, que é selvagemente vulgar. Meu novo amigo costumava aparecer na primeira como um fantasma; à última ele aludia apenas a distância.

“O lugar está bastante estragado agora... turistas, sabe,” dizia-me, sem qualquer escárnio, simplesmente com tristeza. Era o mais perto que chegava de um reconhecimento do monstruoso balneário que ficava em frente, ofuscando o sol e mais ensurdecedor que o mar. Mas por trás – fora do alcance dessa barulheira – há becos tão estreitos que parecem entradas secretas a um recôndito lugar de repouso. Há praças tão repletas de silêncio que adentrá-las é como mergulhar em uma piscina. Nesses lugares, o homem e eu passeamos para cima e para baixo falando sobre Dickens, ou melhor, fazendo o que todos os verdadeiros apreciadores de Dickens fazem: citar literalmente um para o outro longas passagens que ambos já conhecíamos bastante bem. Estávamos realmente na atmosfera da velha Inglaterra. Passavam por nós pescadores que poderiam muito bem ter sido personagens como Peggotty; entramos numa embolorada loja de curiosidades e compramos limpadores de cachimbo esculpidos com imagens de Pickwick[ 56 ]. A tarde estava terminando entre os edifícios com aquele dourado lento que parece embeber todas as coisas quando entramos na igreja.

Na crescente escuridão da igreja, meus olhos caíram sobre os vitrais coloridos, que na clareza daquela tarde dourada estavam inflamados com toda a heráldica apaixonada da mais feroz e extática arte cristã. Por fim disse a meu companheiro:

“Você está vendo aquele anjo ali? Acho que representa o anjo do sepulcro.[ 57 ]”

Ele percebeu que eu estava singularmente impressionado por algum motivo e ergueu as sobrancelhas.

“Suponho que sim,” disse-me. “O que há de estranho nisso?”

Após uma pausa, eu disse: “Você se lembra do que o anjo do sepulcro disse?”

“Não exatamente,” respondeu; “mas aonde vai você com tanta pressa?”

Abandonei-o e atravessei rapidamente a praça silenciosa e fui além dos albergues de pescadores, em direção à costa, enquanto ele continuava a perguntar-me com indignação aonde ia.

“Eu vou”, disse-lhe, “pôr moedas em máquinas automáticas na praia. Vou escutar os negros. Vou tirar minha fotografia. Vou beber jinjibirra[ 58 ] direto da garrafa. Vou comprar cartões postais. Quero um barco. Estou preparado para ouvir uma sanfona, e não fosse pelos defeitos em minha educação deveria estar preparado para tocá-la. Quero montar num burro; isto é, se o burro quiser. Estou disposto a ser um burro, pois tudo isso me foi ordenado pelo anjo no vitral.”

“Eu realmente acho,” disse o dickensiano, “que é melhor colocá-lo sob os cuidados de seus parentes.”

“Senhor,” respondi, “há certos escritores a quem a humanidade deve muito, mas cujo talento é ainda assim de um tipo tão tímido ou delicado ou retrospectivo que fazemos bem em ligá-los a certos lugares fantásticos ou certas associações decadentes. Não seria anormal procurar pelo espírito de Horace Walpole[ 59 ] em Strawberry Hill[ 60 ], ou mesmo pela sombra de Thackeray[ 61 ] em Old Kensington. Mas não sejamos antiquados com relação a Dickens, pois Dickens não é uma antiguidade. Dickens não olha para trás, mas para a frente; ele olharia para nossas multidões modernas com sátira ou com fúria, mas adoraria olhá-las. Poderia açoitar nossa democracia, mas isso porque, por ser um democrata, exigiria muito dela. Não encontraremos todos os seus livros agrupados sob o título “A Loja de Antiguidades”. Antes, estarão agrupados sob o título “Grandes Esperanças”. Onde houvesse humanidade, far-nos-ia encará-la e dar-lhe seu valor, engoli-la com um canibalismo sagrado e assimilá-la com a digestão de um gigante. Devemos encarar esses turistas como ele o faria, e arrancar-lhes sua tragédia e sua farsa. Lembra-se agora do que o anjo disse no sepulcro? ‘Por que buscais entre os mortos aquele que vive? Não está aqui: ressuscitou.[ 62 ]’”

Com isso saímos subitamente para a larga faixa de areia, que estava negra com a aglomeração[ 63 ] de nossa risonha e tão desesperada democracia. E o pôr-do-sol, que agora estava em sua glória final, jogou sobre todos eles um resplendor e brilho rubros como a gigantesca lareira de Dickens. Naquela estranha luz cada figura parecia ao mesmo tempo grotesca e atraente, como se tivesse uma história para contar. Ouvi uma menininha (que estava sendo sufocada por outra) dizer como vingança: “Minha cunhada tem quatro anéis além da aliança!”

Parei e esperei para ouvir mais, mas meu amigo foi embora.

52 Cidade costeira e balneário em Norfolk, antigamente importante porto de pesca de arenques.

53 Referência ao romance A Loja de Curiosidades, de Charles Dickens.

54 Referência ao romance David Copperfield, de Dickens. Nela, Daniel Peggotty é um pescador em Yarmouth.

55 Distrito de Londres em que vivia Chesterton.

56 Não fica claro no original se o vendedor parecia-se com Pickwick ou se as imagens eram de cenas de “Picwick Papers”.

57 No relato dos Evangelhos (Lc 24,5-6), as mulheres que vão ao sepulcro embalsamar o corpo de Cristo encontram em seu lugar dois (e não um) anjos que lhes anunciam a ressurreição.

58 Cerveja de gengibre, com teor levemente alcoólico.

59 Horace Walpole (1717-1797), autor, historiador e político inglês.

60 Localidade no subúrbio de Londres, onde ficava o castelo homônimo pertencente a Horace Walpole.

61 William M. Thackeray (1811-1863), famoso novelista inglês. Após sua súbita morte, seu funeral foi realizado em Kensington Gardens, parque de Londres.

62 Cf. Lc 24,5-6.

63 Pela compreensão, optou-se pela tradução livre do original, “knobs and masses” [saliências e massa].


O País de Pernas para o Ar

SEMANA PASSADA, em uma metáfora despretensiosa, tomei o balanço das árvores e a secreta energia do vento como um típico exemplo do mundo visível movendo-se sob a violência do invisível. Usei essa metáfora simplesmente porque estava escrevendo o artigo num bosque. Porém, agora que retornei a Fleet Street[ 64 ] (que me parece, confesso, muito melhor e mais poética do que todas as florestas selvagens do mundo), sou estranhamente perseguido por essa comparação acidental. Os vultos das pessoas parecem uma floresta, e suas almas o vento. Todas as personalidades humanas que me falam ou fazem sinais parecem ter essa característica fantástica da orla da floresta contra o céu. Aquele homem que fala comigo: que é senão uma árvore articulada? Aquele motorista de caminhão que gesticula selvagemente para que eu saia do caminho: que é senão um feixe de galhos agitados por um vento espiritual, um objeto silvestre que posso continuar a contemplar com calma? Aquele policial que ergue a mão para avisar três ônibus do perigo que correm de encontrar-se com minha pessoa: que é senão um arbusto sacudido por um momento por aquela rajada de lei humana que é algo mais forte do que a anarquia? Gradualmente, essa impressão de floresta se esvai. Mas o absoluto contraste entre o visível e o invisível, essa profunda sensação de que a única crença essencial é a crença no invisível como contrário do visível, súbita e sensacionalmente é trazida de volta a minha mente. Exatamente no momento em que Fleet Street se torna mais familiar (isto é, mais desconcertante e esplendorosa), meus olhos caem sobre um cartaz de vívido violeta, em que posso ver escritas em grandes letras pretas estas palavras extraordinárias: “Balconistas de Lojas Deveriam Casar-se?”

Quando vi aquelas palavras o mundo todo poderia ter virado de cabeça para baixo. Os homens em Fleet Street poderiam estar andando com as mãos. A cruz de St. Paul[ 65 ] poderia estar pendurada no ar de cabeça para baixo. Pois percebo que realmente entrei em um país dos avessos; entrei no país em que os homens definitivamente acreditam que o balanço das árvores é o que provoca o vento. Isto é, acreditam que as circunstâncias materiais, não importa quão negras e distorcidas, são mais importantes que as realidades espirituais, não importa quão poderosas e puras. “Balconistas de Lojas Deveriam Casar-se?” Fico perplexo ao pensar o que alguns períodos e escolas da história da humanidade teriam concluído de tal questão. Os ascetas do Leste ou de alguns períodos da Igreja primitiva pensariam que a frase significa: “Não serão os balconistas de lojas tão santos, tão de outro mundo, que não cheguem sequer a sentir as emoções dos sexos?”. Mas suponho que não é isso que o cartaz roxo significa. Em algumas cidades pagãs poderia significar: “Escravos tão vis como balconistas de lojas deveriam ter permissão de propagar sua raça abjeta?” Mas suponho que não é o que o cartaz roxo significa. Temo que devemos encarar toda a insanidade do que ele realmente significa. Quer realmente dizer que uma porção da raça humana está perguntando se as relações primárias dos dois sexos humanos são particularmente boas para as lojas modernas. A raça humana está perguntando se Adão e Eva são totalmente convenientes para Marshall & Snelgrove[ 66 ]. Se isso não é uma inversão das coisas, não sei o que será. Perguntamo-nos se a instituição universal vai melhorar nossa (queira Deus) instituição temporária. No entanto, já vi muitas questões semelhantes. Por exemplo, soube de um homem que perguntava seriamente: “A Democracia ajuda o Império?”. O que é o mesmo que dizer: “A arte é favorável aos afrescos?”

Disse que há muitas questões assim por aí. Mas, se o mundo chegar a sentir necessidade delas, posso sugerir uma grande quantidade precisamente do mesmo tipo, baseadas precisamente nos mesmos princípios.

“Os pés melhoram as botas?” – “O pão é melhor quando é comido?” – “Chapéus deveriam ter cabeças por dentro?” – “O povo estraga uma cidade?” – “As paredes arruínam o papel de paredes?” – “Deveriam as gravatas envolver pescoços?” – “As mãos machucam as bengalas?” – “A combustão destrói a lenha?” – “Será a limpeza boa para o sabão?” – “Pode o críquete realmente aperfeiçoar os tacos?” – “Devemos levar noivas com nossas alianças?” – e uma centena de outras.

Nenhuma dessas questões difere em nada em teor ou valor intelectual daquela no cartaz roxo a que me referi ou de qualquer uma das questões típicas formuladas por metade dos zelosos economistas de nossos tempos. Todas são dessa categoria; todas são matizadas com esse mesmo absurdo inicial. Não perguntam se os meios são adequados ao fim; todos perguntam (com profundo e penetrante ceticismo) se o fim é adequado aos meios. Não perguntam se a cauda convém ao cão. Perguntam se um cão é (pelos mais altos cânones artísticos) o apêndice mais ornamental que pode ser posto na extremidade de uma cauda. Enfim, ao invés de perguntar se nosso sistema moderno, nossas ruas, comércio, contratos, leis e instituições concretas são adequados à primitiva e permanente idéia de uma vida humana saudável, nunca admitem que essa vida humana saudável entre na discussão, exceto de forma súbita e acidental em momentos estranhos; e então apenas perguntam se ela é conveniente a nossas ruas e comércio. A perfeição pode ser atingível ou inatingível como fim. Pode ser ou não possível falar de imperfeição como caminho de perfeição. Mas certamente ultrapassa o tolerável falar de perfeição como caminho de imperfeição. A Nova Jerusalém pode ser uma realidade. Pode ser um sonho. Mas certamente é ultrajante dizer que a Nova Jerusalém é uma realidade na estrada para Birmingham.

Esta é a maior e ao mesmo tempo mais secreta das modernas tiranias do materialismo. Na teoria a coisa deveria ser bastante simples. Um ser humano realmente humano sempre colocaria as coisas espirituais em primeiro lugar. Uma estátua de Deus que anda e fala encontra-se em um determinado momento empregada como balconista de loja. Tem em si um poder de amor tremendo, uma promessa de paternidade, a sede de uma lealdade que unifique a vida, e no curso ordinário das coisas pergunta-se: “Até onde as condições existentes dos que trabalham em lojas encaixam-se em meu evidente e épico destino nos assuntos de amor e casamento?” Mas aqui, como disse, entra o silencioso e esmagador poder do materialismo moderno. Previne que ele se rebele, como faria noutra situação. Ao falar permanentemente do ambiente e de coisas visíveis, ao falar permanentemente de economia e necessidade física, pintando e repintando uma figura perpétua de mecanismos de ferro e máquinas impiedosas, de trilhos de aço e torres de pedra, o materialismo moderno acaba por produzir essa tremenda impressão em que a verdade é dita de cabeça para baixo. No final o resultado é atingido. O homem não diz, como deveria, “Convém que homens casados suportem ser balconistas de lojas?” O homem diz: “Convém que os balconistas de lojas casem?” A imensa ilusão do materialismo triunfou. O escravo não diz “Serão estas correntes dignas de mim?”. Diz, científica e resignadamente, “Serei eu digno destas correntes?”

64 Rua na região central de Londres, continuação da Strand, onde se concentrou por muito tempo a imprensa britânica.

65 A Catedral de St. Paul, maior templo anglicano do mundo, fica próxima à Fleet Street.

66 Famosa loja londrina de roupas de alto padrão, fundada em 1848 e comprada em 1919 por outra loja chamada Debenhams.


O que encontrei em meu bolso

UMA VEZ, quando era muito jovem, encontrei um daqueles homens que fizeram do Império o que ele é – um homem num casaco de pele de carneiro, com um bigode de pele de carneiro[ 67 ] - um bigode preto, cerrado e encaracolado. Se vestia o bigode junto com o casaco ou se sua vontade napoleônica o capacitava a não apenas fazer crescer um bigode no lugar usual mas também a fazer surgirem pequenos bigodes por toda a sua roupa, não sei. Só me lembro de que me disse as seguintes palavras: “Um homem não pode prosperar hoje em dia se passar o tempo com as mãos nos próprios bolsos”. Respondi com a piadinha bastante óbvia de que talvez um homem prosperasse por ter as mãos nos bolsos de outras pessoas; ao que ele começou a discutir sobre a Evolução da Moral, de forma que suponho que o que eu disse continha algo de verdade. Mas o incidente volta agora à minha memória e conecta-se com outro – se puder ser chamado assim – que aconteceu comigo um dia destes.

Somente uma vez na vida bati uma carteira, e naquela ocasião (talvez por alguma distração) foi a minha própria. Minha ação realmente tem alguma razão de ser descrita assim. Pois, ao retirar objetos do meu próprio bolso, tinha ao menos uma das mais tensas e trêmulas emoções do ladrão: uma completa ignorância e uma profunda curiosidade sobre o que encontraria ali. Talvez seja um elogio exagerado chamar-me de pessoa organizada. Mas posso sempre dar conta satisfatoriamente de todas as minhas posses. Posso sempre dizer onde estão, e o que fiz com elas, desde que consiga mantê-las fora de meus bolsos. Se alguma vez algo desliza para dentro desses abismos desconhecidos, dou-lhe um triste adeus virgiliano[ 68 ]. Suponho que as coisas que deixei cair dentro de meus bolsos ainda estão lá; o mesmo pressuposto se aplica às coisas que deixei cair no mar. Mas encaro as riquezas guardadas em ambos estes abismos sem fundo com a mesma reverente ignorância. Dizem que no último dia o mar devolverá seus mortos[ 69 ], e suponho que na mesma ocasião longas fileiras de objetos extraordinários sairão correndo dos meus bolsos. Mas esqueci completamente o que são, e não há realmente nada (exceto dinheiro) que me surpreenderia encontrar.

Ao menos esse era meu estado de inocência até então. Agora desejo apenas recordar brevemente as circunstâncias especiais, extraordinárias e até então sem precedentes que me fizeram, a sangue frio e na plena posse de minhas faculdades mentais, revirar meus bolsos. Estava trancado em um vagão de terceira classe para uma viagem um tanto longa. A hora era próxima do início da noite, mas poderia ser qualquer uma, pois qualquer coisa que lembrasse terra ou céu ou luz ou sombra estava como que pintada por um grande pincel molhado com uma camada imutável de chuva sem cor. Eu não tinha livros ou jornais. Não tinha sequer um lápis e um pedaço de papel com que escrever um épico religioso. Não havia propagandas nas paredes do vagão, caso contrário poderia mergulhar em seu estudo, pois qualquer coleção de palavras impressas é mais do que suficiente para sugerir infinitas complexidades de ingenuidade mental. Quando me encontro diante das palavras “Sabão Luz do Sol”, posso esgotar todos os aspectos da adoração do Sol, Apolo e a poesia de verão antes de chegar ao assunto menos agradável do sabão. Porém não havia palavra impressa ou imagem em lugar algum; não havia nada além de madeira lisa dentro do vagão e água fora. Ora, nego energicamente que qualquer coisa seja, ou possa ser, desprovida de interesse. Assim, olhei para as junções das paredes e assentos e comecei a pensar com intensidade no fascinante assunto da madeira.

Quando estava começando a entender qual fosse, talvez, a razão pela qual Cristo foi carpinteiro em vez de pedreiro ou padeiro ou qualquer outra coisa, endireitei-me repentinamente com um sobressalto, e lembrei-me de meus bolsos. Carregava comigo um tesouro desconhecido. Tinha um Museu Britânico e uma coleção de curiosidades desconhecidas de South Kensington[ 70 ] penduradas em mim em diferentes lugares. Comecei a tirar os objetos.

A primeira coisa que encontrei foram pilhas e pilhas de bilhetes de bonde de Battersea. Havia o suficiente para equipar uma caça ao tesouro[ 71 ]. Eles se derramaram em cascatas como confete. Em primeiro lugar, é claro, tocaram minhas emoções patrióticas e trouxeram lágrimas a meus olhos; também me deram o material impresso de que precisava, pois encontrei em seu verso alguns breves mas impressionantes ensaios científicos sobre um tipo de pílula. Comparativamente falando, na penúria em que estava, aqueles bilhetes podiam ser considerados uma pequena mas seleta biblioteca científica. Se minha viagem continuasse (o que na ocasião parecia provável) por mais alguns meses, eu podia me imaginar debruçando-me sobre os aspectos controversos da pílula, compondo réplicas e tréplicas a favor e contra com os dados que me tinham sido fornecidos. Mas no final foi o valor simbólico dos bilhetes que mais me comoveu. Pois tão certo como a cruz de São Jorge[ 72 ] representa o patriotismo inglês, aqueles pedaços de papel representavam todo aquele patriotismo municipal que é agora, talvez, a maior esperança da Inglaterra.

O objeto que tirei a seguir foi um canivete. Um canivete, é quase desnecessário dizer, exigiria um grosso livro cheio meditações morais só para si. Uma faca tipifica uma das mais primárias daquelas origens práticas sobre as quais, como sobre espessos e baixos travesseiros, repousa toda a nossa civilização humana. Os metais, o mistério da coisa chamada ferro e da coisa chamada aço, levaram-me meio atordoado a uma espécie de sonho. Penetrei nas entranhas da floresta escura e úmida onde o primeiro homem encontrou a pedra estranha entre todas as pedras comuns. Vi uma vaga e violenta batalha, em que machados de pedra quebravam-se e facas de pedra estilhaçavam-se contra algo brilhante e novo na mão de um homem desesperado. Ouvi todos os martelos sobre todas as bigornas da terra. Vi todas as espadas do Feudalismo e todas as feridas da guerra industrial. Pois a faca é apenas uma espada curta; e o canivete é uma espada escondida. Abri-o e olhei aquela língua brilhante e terrível a que chamamos lâmina; e pensei que talvez fosse o símbolo da mais antiga necessidade do homem. No momento seguinte, soube que estava errado: pois o que saiu a seguir do meu bolso foi uma caixa de fósforos. Então vi o fogo, que é ainda mais forte que o aço, a coisa antiga, feroz e feminina que todos amamos mas não ousamos tocar.

O objeto seguinte foi um pedaço de giz; e nele vi a arte e todos os afrescos do mundo. A seguir veio uma moeda de um valor muito pequeno, e nela vi não apenas a imagem e inscrição de nosso próprio César[ 73 ], mas todo o governo e ordem desde o princípio do mundo. Mas não há espaço para dizer o que eram os itens na longa e esplêndida procissão de símbolos poéticos que foram saindo. Não posso descrever todas as coisas que estavam em meu bolso. Posso dizer uma coisa, entretanto, que não consegui encontrar nele. Refiro-me à minha passagem de trem.

67 No original, “astracan”. O termo correto seria “astrakhan”, em russo, que se refere ao pelego de uma determinada espécie de carneiro conhecida por karakul, originária da Ásia central.

68 Publius Vergilius Maro, geralmente chamado Virgílio (70 aC - 19 dC), foi um importantíssimo poeta romano, autor das Éclogas, Geórgicas e Eneida. Aparece como personagem no Inferno de Dante, como guia deste.

69 Refere-se a Apocalipse 20,13: "O mar devolveu seus mortos (...)".

70 O Museu de South Kensington, atualmente Museu Victoria and Albert, é o maior museu de artes decorativas e design do mundo.

71 No original, “paper chase”; trata-se de jogo infantil, também conhecido como “Hare and Hounds” (Cães e Lebres), em que alguns jogadores (as “lebres”) deixam um rastro de pedacinhos de papel como pista para os outros.

72 A Cruz de São Jorge, uma cruz vermelha sobre fundo branco, é a imagem ostentada na bandeira da Inglaterra.

73 Referência ao célebre diálogo evangélico de Cristo com os fariseus sobre o tributo a César, em que Cristo manda dar "a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Cf. Mt 22,20-22; Mc 12,15-17; e Lc 20,24-26).


A Avó do Dragão

UM DIA DESSES conheci um homem que não acreditava em contos de fadas. Não quero dizer que não acreditasse nos incidentes narrados por eles – que não acreditasse que uma abóbora poderia se transformar em uma carruagem. Ele de fato nutria essa curiosa descrença. E, como todas as outras pessoas que já conheci que o faziam, era totalmente incapaz de me dar uma razão inteligente para isso. Pôs à prova as leis da natureza, mas logo desistiu. Então disse que as abóboras eram inalteráveis pela experiência ordinária, e que todos deveríamos contar com que sua aboborice[ 74 ] se prolongaria infinitamente. Mas, observei-lhe que essa não é uma atitude que adotamos especialmente em face de maravilhas impossíveis, mas simplesmente em face de todas as ocorrências incomuns. Se estivéssemos certos de um milagre não contaríamos com ele. Coisas que acontecem muito raramente são deixadas de fora de nossos cálculos, sejam milagrosas ou não. Não espero que um copo de água se transforme em vinho; mas também não espero que seja envenenado com ácido prússico. Nas relações de negócios habituais não pressuponho que o editor seja uma fada; mas também não pressuponho que seja um espião russo ou o herdeiro perdido do Sacro Império Romano. O que pressupomos ao agir não é que a ordem natural seja inalterável, mas simplesmente que é muito mais seguro apostar em incidentes comuns do que em incomuns[ 75 ]. Isso não põe em perigo a credibilidade de qualquer conto alegado sobre um espião russo ou uma abóbora transformada em carruagem. Se visse com meus próprios olhos uma abóbora transformar-se em um automóvel Panhard[ 76 ], isso não me deixaria mais inclinado a acreditar que a mesma coisa voltaria a acontecer. Eu não investiria muito em abóboras com vistas ao mercado de carros. Cinderela ganhou um vestido de baile da fada; mas não creio que passasse a cuidar menos de suas próprias roupas depois disso.

No entanto, a idéia de que contos de fadas não podem ter realmente acontecido, embora disparatada, é comum. O homem de que falo duvidava dos contos de fadas de uma forma ainda mais incrível e pervertida. Ele realmente pensava que não deveriam ser contados às crianças. Este é (como a defesa da escravidão ou da anexação por um invasor) um daqueles erros intelectuais que está muito perto dos pecados mortais ordinários. Há algumas negações que, embora possam ser feitas de forma dita conscienciosa, carregam em si tanto de seu horror no próprio ato que um homem ao cometê-las deve não apenas endurecer mas também corromper ligeiramente seu coração. Uma delas foi a recusa de leite a mães jovens quando seus maridos combatiam contra nós[ 77 ]. Outra é a recusa de contos de fadas a crianças.

O homem viera ver-me a pretexto de uma tola associação da qual sou um membro entusiástico; ele era um jovem de aspecto sadio e vistas curtas, como um cura desencaminhado que fosse incapaz até mesmo de achar o caminho para a Igreja da Inglaterra[ 78 ]. Possuía uma curiosa gravata verde e um pescoço muito longo; estou sempre encontrando idealistas de pescoços longos. Talvez aconteça que sua eterna aspiração lentamente erga suas cabeças para cada vez mais perto das estrelas. Ou talvez seja algo relacionado com o fato de tantos deles serem vegetarianos: talvez estejam lentamente desenvolvendo um pescoço de girafa até conseguirem comer todos os topos de árvores em Kensington Gardens[ 79 ]. Essas coisas são, em todos os sentidos, maiores do que eu. Assim era, de qualquer forma, o jovem que não acreditava em contos de fadas; e por uma curiosa coincidência ele entrou no recinto no momento em que eu havia acabado de examinar uma pilha de ficção contemporânea e começara a ler os “Contos de Grimm” como conseqüência natural.

As novelas modernas estavam diante de mim, entretanto, numa pilha; e vocês podem imaginar seus títulos por conta própria. Havia “Processo Suburbano: um Conto de Psicologia” e também “Processo Psicológico: um Conto dos Subúrbios”; havia “Trixy: um Temperamento” e “Ódio ao Homem: uma Monocromia”, e todas essas coisas agradáveis. Li-as com interesse real, mas, curiosamente, acabei por cansar-me, e quando vi os “Contos de Grimm” deixados acidentalmente sobre a mesa dei um grito de indecente alegria. Aqui pelo menos, aqui enfim, era possível encontrar um pouco de bom senso. Abri o livro, e meu olhar caiu nestas esplêndidas e satisfatórias palavras: “A Avó do Dragão”[ 80 ]. Aquilo pelo menos era razoável; aquilo pelo menos era verdadeiro. “A Avó do Dragão”! Enquanto saboreava este primeiro toque de realidade humana ordinária, olhei subitamente para cima e vi aquele monstro de gravata verde de pé na porta.

Ouvi o que me disse sobre a Associação com suficiente educação, espero; mas quando incidentalmente mencionou que não acreditava em contos de fadas perdi o controle. “Homem,” disse-lhe, “quem é você para não acreditar em contos de fadas? É muito mais fácil acreditar em Barba Azul do que em você. Uma barba azul é uma infelicidade; mas há gravatas verdes que são pecados. É muito mais fácil acreditar em um milhão de contos de fadas do que em um homem que não gosta deles. Eu preferiria beijar o livro de Grimm em lugar de uma Bíblia e jurar por todas as suas histórias como se fossem trinta e nove artigos[ 81 ] do que dizer seriamente e de coração que pode haver um homem como você, e que você não é uma tentação diabólica ou alguma ilusão do vazio. Veja estas palavras simples, práticas e acolhedoras: “A Avó do Dragão”. Isso está certo; isso é racional num grau que beira o racionalismo. Se havia um dragão, ele tinha uma avó. Mas você – você não teve avó! Se tivesse conhecido uma, ela lhe teria ensinado a amar contos de fadas. Você não teve pai, você não teve mãe; não pode ser explicado por causas naturais. Você não pode existir. Acredito em muitas coisas que nunca vi; mas de coisas como você pode-se dizer “Feliz é aquele que viu e mesmo assim não acreditou[ 82 ]”.

Pareceu-me que ele não me acompanhou com suficiente sutileza, então moderei meu tom. “Você não vê”, disse-lhe, “que os contos de fadas são em sua essência bastante sólidos e diretos, mas que essa eterna ficção sobre a vida moderna é em sua natureza essencialmente incrível? Folclore quer dizer que a alma é sã, mas o universo é selvagem e cheio de maravilhas. Realismo quer dizer que o mundo é enfadonho e cheio de rotina, mas que a alma está doente e gritando. O problema do conto de fadas é – o que um homem saudável faria com um mundo fantástico? O problema do romance moderno é – o que um louco faria com um mundo monótono? Nos contos de fadas o cosmo enlouquece, mas o herói não. Nas novelas modernas o herói está louco antes de o livro começar e sofre com a dura estabilidade e a cruel sanidade do cosmo. No excelente conto “A Avó do Dragão”, e em todos os outros contos de Grimm, assume-se que o jovem que parte em suas viagens terá em si todas as verdades substanciais: que será bravo, cheio de fé, razoável, que respeitará seus pais, manterá sua palavra, resgatará um tipo de pessoas e desafiará outro, ‘parcere subjectis et debellare[ 83 ]’, etc. Então, após definir esse centro de sanidade, o autor se diverte imaginando o que aconteceria se o mundo todo enlouquecesse ao seu redor, se o sol se tornasse verde e a lua azul, se os cavalos tivessem seis pernas e os gigantes duas cabeças. Mas a sua literatura moderna toma a insanidade como o centro. Dessa forma, perde o interesse até mesmo da insanidade. Um lunático não é surpreendente para si mesmo, porque é bastante sério; isso é o que faz dele um lunático. Um homem que pense ser um pedaço de vidro é para si mesmo tão sem graça quanto um pedaço de vidro. Um homem que pense ser uma galinha é para si mesmo tão comum quanto uma galinha. Apenas a sanidade é que consegue ver até mesmo uma poesia selvagem na insanidade. Assim, aqueles sábios contos antigos fizeram o herói ordinário e o conto extraordinário. Mas vocês fizeram o herói extraordinário e o conto ordinário – tão ordinário – oh, tão terrivelmente ordinário.”

Ele continuava a encarar-me fixamente. Algum nervo estalou em mim sob aquele olhar hipnótico. Levantei-me de um salto e gritei, “Em nome de Deus e da Democracia e da Avó do Dragão – em nome de todas as coisas boas –, ordeno que te retires desta casa e não tornes a entrar nela.” Como resultado ou não desse exorcismo, não há dúvida de que ele definitivamente foi embora.

74 No original, “pumpkinity”.

75 No original usado nesta tradução, os termos "comuns" e "incomuns" aparecem trocados, o que tornaria a frase sem sentido. Por isso, optou-se por corrigi-lo na tradução.

76 Montadora francesa de carros fundada em 1887 e comprada pela Citroën em 1965.

77 Refere-se a situação provavelmente ocorrida durante a Guerra dos Bôeres na África do Sul.

78 Chesterton freqüentou a Igreja da Inglaterra até sua conversão ao Catolicismo em 1922, 11 anos após a publicação deste livro.

79 Parque municipal do centro de Londres, anexo ao Palácio de Kensington e ao Hyde Park.

80 Trata-se do conto “O Dragão e sua Avó” ou “O Demônio e sua Avó”, nº. 125, dos Irmãos Grimm.

81 Refere-se aos Trinta e Nove Artigos da Religião, documento que define a

doutrina anglicana.

82 Paródia das palavras de Cristo a Tomé em Jo 20,29: "Felizes aqueles que crêem

sem ter visto".

83 A frase completa seria “parcere subjectis et debellare superbos” – “preservar os pequenos e derrubar os orgulhosos”, citada da Eneida de Virgílio (VI, 852).


O Anjo Vermelho

OBSERVO QUE REALMENTE há seres humanos que pensam que contos de fadas são maus para crianças. Não me refiro ao homem de gravata verde[ 84 ], pois nunca poderei considerá-lo verdadeiramente humano. Mas uma senhora escreveu-me uma enérgica carta dizendo que contos de fadas não deviam ser contados às crianças mesmo que fossem verdade. Ela diz que é cruel contar contos de fadas a crianças porque elas se assustam. Da mesma forma poder-se-ia dizer que é cruel dar romances sentimentais às moças porque as fazem chorar. Todo esse gênero de conversa é baseado naquele completo esquecimento de como é uma criança e que foi o fundamento firme de tantos esquemas educacionais. Se você mantiver os fantasmas e os duendes longes das crianças, elas os inventarão por si mesmas. Uma criança pequena no escuro pode inventar mais infernos que Swedenborg[ 85 ]. Uma criança pequena pode imaginar monstros maiores e mais negros do que seria possível pôr num quadro e dar-lhes nomes sinistros e cacófonos demais para terem ocorrido nos gritos de um lunático. A criança, para começar, freqüentemente gosta de horrores e continua a ceder a eles mesmo quando não gosta. Há tanta dificuldade em dizer exatamente onde começa o verdadeiro sofrimento nesse caso quanto no nosso, quando entramos por nossa própria vontade na câmara de torturas de uma grande tragédia teatral. O medo não vem dos contos de fadas: vem do universo da alma.

A timidez da criança ou do selvagem é inteiramente razoável: alarmam-se com este mundo, porque o mundo é um lugar muito alarmante. Não gostam de estar sozinhos porque estar sozinho é realmente uma idéia terrível. Os bárbaros temem o desconhecido pela mesma razão por que os agnósticos o adoram – porque é um fato. Dessa forma, os contos de fadas não são responsáveis por produzir nas crianças o medo ou qualquer uma de suas formas; os contos de fadas não dão à criança a idéia do mau ou do feio; estas já estão nela, porque já estão no mundo. Os contos de fadas não dão à criança sua primeira idéia de fantasma. O que lhe dão é a sua primeira idéia clara da possível derrota de um fantasma. O bebê conhece intimamente o dragão desde que começa a imaginar. O que o conto lhe dá é um São Jorge para matá-lo.O que o conto de fadas faz é exatamente isto: acostuma-a, através de uma série de imagens claras, à idéia de que esses terrores ilimitados têm um limite, que esses inimigos sem forma têm como inimigos os cavaleiros de Deus, que há no universo algo mais místico do que a escuridão e mais forte do que o medo intenso. Quando era criança, uma vez olhei fixamente para a escuridão até que todo o seu vulto negro se tornasse um gigante negro mais alto do que o céu. Se houvesse uma estrela, ela apenas o tornaria um Ciclope. Mas os contos de fadas restauraram a minha saúde mental, pois no dia seguinte li um autêntico relato de como um gigante negro com um só olho, de dimensões muito parecidas, havia sido enganado por um menino pequeno como eu (com a mesma inexperiência e status social ainda mais baixo) por meio de uma espada, algumas charadas ruins e um coração valente. Às vezes o mar à noite parecia tão temível quanto um dragão. Mas então travei conhecimento com muitos filhos mais novos e pequenos marinheiros para quem um dragão ou dois eram tão simples quanto o mar.

Tome por exemplo o mais terrível dos contos de Grimm em acontecimentos e imagens, o excelente conto do “Menino que Não Sabia Tremer[ 86 ]”, e você verá o que quero dizer. Há choques vivos nesse conto. Lembro-me especialmente das pernas de um homem que caíam sozinhas pela chaminé e andavam pela sala até se reunirem com a cabeça decepada e o corpo que desciam a chaminé atrás delas. Isso era muito bom. Mas o núcleo da história e dos sentimentos do leitor não é que essas coisas fossem assustadoras, mas o fato muito mais chocante de que o herói não se assustava com elas. A mais amedrontadora de todas essas maravilhas era sua própria ausência de medo. Batia nas costas dos fantasmas e convidava os demônios a beber vinho consigo; muitas vezes na juventude, sufocado por alguma morbidez moderna, rezei por uma dose dupla de sua coragem. Se você não leu o final da história, vá em frente e leia: é a coisa mais sábia do mundo. O herói foi enfim ensinado a tremer quando encontrou uma esposa, que jogou nele um balde de água fria. Nessa simples sentença há mais sobre o significado real do casamento do que em todos os livros sobre sexo que cobrem a Europa e a América.

Nos quatro cantos da cama de uma criança estão Perseu[ 87 ] e Rolando[ 88 ], Sigurd[ 89 ] e São Jorge. Se tirar a guarda dos heróis, você não a estará tornando racional; estará apenas deixando que lute sozinha com os demônios. Pois nos demônios, infelizmente, sempre acreditamos. O elemento de esperança no universo foi continuamente negado e reafirmado nos tempos modernos; mas o elemento de desespero nunca foi negado nem por um momento. Como afirmei a “H. N. B.”[ 90 ] (a quem faço uma pausa para desejar um feliz Natal no seu sentido mais supersticioso), a única coisa em que o mundo moderno realmente acredita é a condenação. O maior dos poetas puramente modernos resumiu a atitude realmente moderna naquele belo verso agnóstico:

“Pode haver Céu; deve haver Inferno.”[ 91 ]

A visão sombria do universo tem sido uma tradição contínua, e as novas formas de investigação e conjetura espiritual começam todas por ser sombrias. Há algum tempo os homens não acreditavam em espíritos. Agora estão começando muito lentamente a acreditar em espíritos muito lentos.

Algumas pessoas se opõem ao espiritualismo, batidas na madeira e coisas assim, porque são indignas, porque os fantasmas pregam peças ou valsam com mesas de jantar. Não concordo com essa objeção de forma alguma. Gostaria que os espíritos fossem mais burlescos do que são. Que façam mais piadas, e melhores, seria minha sugestão. Pois quase todo o espiritualismo de nosso tempo, na mesma medida em que é novo, é também solene e triste. Alguns deuses pagãos eram desregrados, e alguns santos cristãos foram um pouco sérios demais; mas os espíritos do espiritualismo moderno são igualmente desregrados e sérios – uma combinação repugnante. Os espíritos especialmente contemporâneos não são apenas demônios, são demônios azuis[ 92 ]. Este é, fundamentalmente, o verdadeiro valor do Natal: até onde permanece a mitologia, esta é de uma espécie alegre. Pessoalmente, é claro, acredito em Papai Noel; mas é a época do perdão e perdoarei os outros por não acreditarem. Porém, se houver alguém que não compreenda o defeito em nosso mundo que estou civilizando, eu recomendaria, por exemplo, que lesse uma história de Mr. Henry James[ 93 ] chamada A Volta do Parafuso. É uma das coisas mais poderosas já escritas, e é uma das coisas sobre as quais tenho mais dúvidas se deveriam tê-lo sido. Descreve duas crianças inocentes tornando-se gradualmente ao mesmo tempo oniscientes e imbecis sob a influência dos sórdidos fantasmas de um camareiro e uma governanta. Como disse, tenho dúvidas sobre se Mr. Henry James deveria tê-la publicado (não, não é indecente, não a compre; é uma coisa espiritual), mas acho que a questão é tão duvidosa que darei uma chance a esse homem verdadeiramente grande. Aprovarei a obra e admirá-la-ei se ele escrever outro conto tão impressionante sobre duas crianças e Papai Noel. Se não quiser, ou não puder, então a conclusão é clara: podemos lidar facilmente com mistérios melancólicos, mas não com mistérios alegres; não somos racionalistas, mas diabolistas.

Pensei vagamente nisso tudo enquanto olhava para uma grande fogueira vermelha que se ergue na sala como um grande anjo vermelho. Entretanto você talvez nunca tenha ouvido falar de um anjo vermelho. Mas já ouviu falar de um demônio azul. É exatamente o que quero dizer.

84 Ver o conto “A Avó do dragão”, neste mesmo livro.

85 Emanuel Swedenborg (1688-1772), filósofo e teólogo sueco, afirmava ser capaz de visitar livremente o céu e o inferno.

86 Trata-se do conto nº. 4 dos Irmãos Grimm, “História do Jovem que Saiu para Descobrir o que era o Medo”.

87 Herói da mitologia grega que decepou a medusa, monstro com corpo de mulher e cabelo de serpentes.

88 Herói do exército de Carlos Magno citado em diversas gestas de cavalaria, como a Canção de Rolando.

89 Herói da mitologia nórdica.

90 Provavelmente Henry Noel Brailsford (1873-1958), o mais importante jornalista britânico de esquerda no início do século XX.

91 Verso do poema “Time’s Revenges” de Robert Browning (1812-1889), escritor inglês.

92 Jogo de palavras intraduzível entre os dois significados de “blue”: azul e triste.

93 Henry James (1843-1916), escritor americano naturalizado britânico, importante figura do Realismo na literatura.


A Torre

ESTOU EM PÉ onde todo mundo já esteve, em frente à grande Torre do Campanário de Bruges[ 94 ], e pensando, como todos já fizeram (embora talvez não o tenham dito), que sua construção desafia todas as noções de decência da arquitetura. É feita em deliberada desproporção para alcançar o surpreendente efeito da altura. É uma igreja sobre estacas. Mas esta espécie de deformidade sublime é característica de toda a fantasia e energia dessas cidades flamengas. Flandres tem as paisagens mais planas e prosaicas, mas as construções mais violentas e extravagantes. Aqui a Natureza é dócil; é a civilização que é indomável. Aqui os campos são tão planos quanto uma praça pavimentada; mas, por outro lado, as ruas e telhados são tão desordenados quanto uma floresta num vendaval. As águas dos bosques e prados deslizam tão suave e mansamente como se estivessem nos encanamentos de Londres. Mas a bomba de água local é entalhada com todas as criaturas selvagens. Parte disso, é claro, pode-se dizer de toda a arte. Falamos de animais selvagens, mas o mais selvagem é o homem. Há na música sons mais antigos e terríveis do que o grito noturno da besta mais estranha. E da mesma maneira há edifícios informes em sua força, parecendo erguer-se lentamente do lamaçal primitivo como monstros, e há pináculos que parecem decolar repentinamente como um pássaro assustado.

A presença dessa selvageria até mesmo na pedra é a expressão do espírito especial da humanidade. Todos os animais dos campos são respeitáveis; apenas o homem se libertou. Todos os animais são domésticos; só o homem pode não o ser[ 95 ]. Todos os animais são dóceis; só nós somos selvagens. E sem dúvida, também, ao passo que essa estranha energia é comum a toda a arte humana, é geralmente também característica da arte cristã dentre as artes do mundo. Isto é o que as pessoas realmente querem dizer quando dizem que o Cristianismo é bárbaro e surgiu da ignorância. Como fato histórico, não foi assim: surgiu no período mais uniformemente civilizado que já houve no mundo.

Mas é verdade que há algo nele que quebra o contorno da beleza perfeita e convencional, algo que pinta de raiva os olhos cegos de Apolo e chicoteia os cavalos dos mármores de Elgin[ 96 ] para que disparem num ataque de cavalaria. O Cristianismo é selvagem, no sentido de que é primitivo: há nele um toque do hino do negro. Lembro-me de um debate em que elogiei que houvesse música militante no ritual, e alguém perguntou-me se podia imaginar Cristo descendo a rua diante de uma banda de sopros. Eu disse que podia imaginá-lo com a maior facilidade: pois Ele definitivamente aprovava um barulho natural em grandes momentos. Quando as crianças da rua começaram a gritar muito alto, alguns discípulos pretensiosos realmente começaram a repreendê-las em nome do bom gosto. Cristo disse: “Se estes se calassem as próprias pedras clamariam.[ 97 ]” Com aquelas palavras evocou toda a riqueza de criação artística que se originou nessa religião. Com aquelas palavras fundou a arquitetura gótica. Pois numa cidade como esta, em que o gótico é produzido como as folhas em uma floresta, em qualquer lugar e de qualquer maneira, qualquer tijolo ou cornija estranhos podem ser entalhados como uma face gritando. As frentes de vastos edifícios estão abarrotadas de bocas abertas, anjos louvando a Deus ou demônios desafiando-O. A própria pedra é torturada e retorcida até parecer gritar. O milagre completa-se: as próprias pedras gritam.

Mas, embora essa furiosa fantasia seja certamente uma especialidade do homem entre as criaturas e da arte cristã entre as artes, é ainda mais notável na arte de Flandres. Todas as construções góticas são cheias de detalhes extravagantes, mas esta é uma extravagância no projeto. Todos os templos cristãos dignos de comentários têm gárgulas; mas o Campanário de Bruges é em si mesmo uma gárgula. É um animal com o pescoço anormalmente longo, como uma girafa. A mesma impressão de exagero impõe-se à mente em cada esquina de uma cidade flamenga. E se alguém perguntar, “Por que as pessoas desses países planos instintivamente ergueram esses monumentos tão altos e exuberantes?”, a única resposta que se pode dar é “Porque eram o povo desses países planos”. Se alguém pergunta “Por que os homens de Bruges sacrificaram a arquitetura e tudo o mais a essa noção de estonteantes e divinas alturas?”, só podemos responder “Porque a Natureza não lhes deu nenhum encorajamento para o fazer”.

Enquanto contemplo o Campanário, penso com uma espécie de sorriso em alguns de meus amigos em Londres que têm certeza de como as crianças vão crescer se receberem o que chamam de “o ambiente certo”. É uma coisa problemática, o ambiente, pois às vezes funciona positivamente e às vezes negativamente, e de forma mais freqüente num meio termo. Um belo ambiente pode fazer uma criança amar a beleza; pode deixá-lo entediado com a beleza; muito provavelmente os dois efeitos se misturarão e um neutralizará o outro. Isto é, muito provavelmente, o ambiente praticamente não fará nenhuma diferença. No estilo científico da História (que recentemente esteve na moda e ainda é convencional) sempre tivemos uma lista de países que deveram suas características a suas condições físicas.

Os espanhóis (dizia-se) são apaixonados porque seu país é quente; os escandinavos são aventureiros porque seu país é frio; os ingleses navais porque são ilhéus, os suíços livres porque são montanheses. É tudo muito bom à sua maneira. Só que infelizmente tenho certeza de que conseguiria fazer uma lista igualmente longa e exatamente contrária com argumentos à queima-roupa contra a influência dos ambientes geográficos. Assim os espanhóis descobriram mais continentes que os escandinavos porque seu clima quente os desencorajava de se exercitarem. Assim os holandeses lutaram por sua liberdade tão bravamente quanto os suíços porque na Holanda não há montanhas. Assim a Grécia pagã e Roma e muitos povos mediterrâneos odiaram particularmente o mar porque tinham o melhor mar para se lidar, o mais fácil de administrar. Eu poderia alongar a lista para sempre. Mas, por mais longa que fosse, dois exemplos certamente erguer-se-iam como preeminentes e inquestionáveis. O primeiro é que os suíços, que vivem sob vertiginosos precipícios e pináculos de neve eterna, não produziram qualquer arte ou literatura, e são de longe o povo mais mundano, sensível e comercial da Europa. O outro é que o povo da Bélgica, que vive em um país semelhante a um carpete, tenha, por uma energia interior, desejado engrandecer suas torres até que tocassem as estrelas.

Como é portanto muito duvidoso se uma pessoa seguirá especialmente na mesma linha de seu ambiente ou contrária a ele, não posso conformar-me com o pensamento de que as modernas discussões sobre o ambiente tenham grande valor prático. Mas acho que não escreverei mais sobre essas teorias modernas, e continuarei a contemplar o Campanário de Bruges. Eu daria a elas a maior atenção se não estivesse perfeitamente convencido de que terão desaparecido muito tempo antes do que o Campanário.

94 Torre medieval do século XIII, localizada no centro histórico de Bruges, Bélgica.

95 No original, “only man is ever undomestic”, neologismo.

96 Esculturas retiradas por Lord Elgin do Partenon e outros edifícios da Acrópole de Atenas e levados em 1806 para a Inglaterra, onde hoje se encontram expostas no Museu Britânico.

97 Cf. Lc 19, 38-40.


Como Encontrei o Presidente

HÁ MUITOS ANOS, quando havia uma pequena guerra na África do Sul e uma grande confusão na Inglaterra, e não era de forma alguma tão popular e conveniente quanto agora ser pró-Bôeres[ 98 ], lembro-me de ter feito uma brilhante sugestão a meus amigos e aliados pró-Bôeres, a qual não foi, lamento dizer, recebida com a seriedade que merecia. Sugeri que um grupo de jovens devotados e nobres, incluindo nós mesmos, expressássemos nosso sentido de compaixão pelo destino do Presidente e da República[ 99 ] deixando crescer barbas de Kruger[ 100 ] sob nossos queixos. Eu imaginava quão abruptamente essa decoração alteraria a aparência de Mr. John Morley[ 101 ]; quão espantosa seria se emergisse de sob o queixo de Mr. Lloyd-George[ 102 ]. Mas os mais jovens, meus amigos, a quem mais particularmente eu instava, homens cujos nomes são em muitos casos familiares aos leitores deste jornal – Mr. Masterman[ 103 ], por exemplo, e Mr. Conrad Noel[ 104 ] -, sendo jovens e belos, em minha opinião fariam ainda mais justiça à barba de Kruger e ao andar assim pela rua não deixariam de chamar a atenção. A barba seria uma espécie de contra-ataque ao chapéu de Rhodes[ 105 ]. Um contra-ataque apropriado: pois o poder rodesiano na África é apenas uma coisa externa, colocada por cima como um chapéu; o poder e tradição holandeses são algo enraizado e crescente como uma barba: rapamo-la, e volta a crescer. A barba de Kruger representaria o tempo e os processos naturais. Uma barba não cresce em um momento de paixão.

Após fazer a meus amigos esta proposta deixei a cidade apressadamente. Desci até um lugar no Sudoeste[ 106 ] onde pouco depois houve uma eleição, na qual me diverti um bocado fazendo campanha para o candidato liberal. O extraordinário é que ele venceu. Às vezes fico acordado à noite e medito sobre este mistério; mas ele não nos deve deter agora. O incidente bastante singular que me aconteceu então, e que alguns eventos recentes me fizeram recordar, ocorreu enquanto ainda estávamos em campanha. Era um dia azul e escaldante, e a luz do sol, espalhando-se em toda parte sobre as altas sebes e as baixas colinas, suscitava numa espécie de pesado florescer aquela qualidade humana da paisagem que, até onde sei, existe apenas na Inglaterra: aquela impressão de que os arbustos e as estradas são humanos, e bondosos como os homens; como se a árvore fosse um gigante bom com uma perna de pau; como se a própria fileira de estacas fosse uma fila de gnomos bem-humorados. De um lado da estrada longa e branca, uma colina baixa ou duna aparecia apenas um pouco mais alta do que a sebe; do outro lado o terreno despencava em um vale que se abria na direção das montanhas de Mendip[ 107 ]. A estrada era muito errática, pois toda autêntica estrada inglesa existe para levar uma pessoa a dançar; e o que poderia ser mais belo e benéfico do que uma dança? Após uma curva abrupta cheguei a uma construção branca e baixa, com portas e janelas escuras e fechadas, evidentemente desabitada e que dificilmente se poderia chamar habitável no sentido ordinário – um lugar mais parecido com um depósito de ferramentas do que com uma casa de qualquer tipo. Indolente por causa do calor, parei e, tirando um pedaço de giz vermelho do bolso, comecei a desenhar a esmo na porta dos fundos – desenhos de duendes e de Mr. Chamberlain[ 108 ], e finalmente do nacionalista ideal com a barba de Kruger. O material não permitiu uma representação suficientemente delicada da nobreza e da expansão nacional de seu semblante (estóico e ainda assim esperançoso, cheio de lágrimas pelo homem mas também de um elemento de humor); mas o chapéu ficou muito bom. Justamente quando dava os retoques finais à fantasia de Kruger fiquei paralisado de terror. A porta preta, a que não dera mais importância que à tampa de uma caixa vazia, começou a abrir-se lentamente, impelida por dentro por uma mão humana. E o Presidente Kruger em pessoa saiu para a luz!

Ele tinha o olhar um pouco mais suave do que em seus retratos e não usava aquele cachecol cerimonial que geralmente ficava, nas imagens, pendurado sobre sua grave silhueta. Mas lá estava o chapéu que de tal forma alarmou o Império; lá estavam as roupas escuras e desajeitadas; lá estava a face pesada e poderosa; lá estava, acima de tudo, a barba de Kruger, que eu procurara evocar (se puder usar tal verbo) sob o rosto de Mr. Masterman. Se trazia ou não consigo o guarda-chuva era algo que eu estava emocionado demais para reparar; os leões de pedra não estavam lá, e nem Mrs Kruger, e o que estava fazendo naquela cabana escura não posso imaginar, mas suponho que estivesse oprimindo um forasteiro[ 109 ].

Fiquei surpreso, devo confessar, em encontrar o presidente Kruger em Somersetshire durante a guerra. Não fazia idéia de que estivesse nas redondezas. Mas uma surpresa ainda mais impressionante esperava-me. Mr. Kruger examinou-me por alguns momentos com um vago olhar cinzento, e então dirigiu-se a mim com um forte sotaque de Somersetshire. Tive um curioso choque ao ouvir aquela voz inapropriada sair daquela forma familiar. Era como se você encontrasse um chinês, de trança e jaqueta amarela, e ele começasse a falar como um escocês. Mas no momento seguinte, é claro, entendi a situação. Subestimáramos muito os bôeres ao supor que sua educação fosse incompleta. Seguindo seu terrível plano contra nossa ilha natal, o terrível Presidente aprendera não apenas o inglês, mas todos os dialetos de uma vez para conquistar um mercador de Lancashire ou seduzir um fuzileiro de Northumberland. Sem dúvida, se lhe pedisse, aquele velho cavalheiro corpulento poderia imitar Sussex, Essex, Norfolk, Suffolk[ 110 ] e assim por diante, como as melodias de um realejo. Não poderia espantar-me se nossos simples e sinceros milionários alemães fossem enganados por uma artimanha tão permeada de cultura como esta.

E assim chego à terceira e maior das surpresas que este estranho velho me deu. Quando perguntou-me, com bastante secura, mas não sem uma certa cortesia firme própria de camponeses antigos, o que eu queria e o que estava fazendo, contei-lhe a situação, explicando minha missão política e as qualidades quase angelicais do candidato Liberal. Nisso, o velho repentinamente transfigurou-se sob o sol com uma ira demoníaca. Levei algum tempo até entender uma palavra do que me dizia, mas o único termo recorrente era a palavra “Kruger”, acompanhada invariavelmente por uma rajada de termos violentos. Eu era a favor do velho Kruger, era? Vim para pedir que ajudasse o velho Kruger? Eu devia me envergonhar, eu era... e aqui ele tornou-se novamente ininteligível. A única coisa que deixou bem clara era que não faria nada por Kruger.

“Mas você é Kruger”, escapou de meus lábios, em uma explosão natural de razoabilidade. “Você é Kruger, não é?”

Após esse meu inocente desabafo[ 111 ], pensei primeiro que haveria uma briga, e lembrei com preocupação que o Presidente na juventude tivera o hobby de matar leões. Mas então comecei a acreditar que havia me enganado, e que não era o Presidente afinal de contas. Havia uma perturbadora sinceridade na fúria com que declarou que era o fazendeiro Bowles, e que todos sabiam disso. Terminei por apaziguá-lo e deixei-o na porta de sua fazenda, onde me despediu com algumas citações religiosas que tornaram a levantar-me suspeitas sobre sua identidade. No restaurante para onde retornei havia uma revista ilustrada com um retrato do Presidente Kruger, que se parecia com o fazendeiro Bowles como duas ervilhas entre si. Havia também uma figura de um grupo de líderes britânicos, e suas faces, maliciosas e triunfantes, talvez estivessem indevidamente escurecidas pela fotografia, mas pareciam-me as faces de um povo distante e hostil.

Tornei a ver o velho na feroz noite da eleição, quando desceu até nossas fileiras liberais em uma pequena carroça coberta com as faixas azuis da Tory[ 112 ], pois era um homem que levava suas cores a todos os lugares. Era o fim da tarde, e a morna luz ocidental iluminava os cabelos grisalhos e as pesadas feições daquele bom velho. Eu sabia intuitivamente que se negociantes espanhóis ou alemães tivessem invadido sua fazenda ou sua terra ele os teria combatido para sempre, não ferozmente como um irlandês, mas com a coragem e astúcia ponderadas dos bôeres. Sabia-o sem o ver, tão certamente como sabia sem ver que, quando entrou na cabine de votação, fez sua cruz contra o candidato conservador. Depois veio para fora, tendo votado e parecendo-se com Kruger mais do que nunca. E na mesma hora, na mesma noite, milhares e milhares de Krugers ingleses deram o mesmo voto. E assim Kruger foi derrubado e os homens de rostos escuros da fotografia reinaram em seu lugar.

98 Bôeres – descendentes da colonização holandesa na África do Sul, que lutaram duas guerras contra o Império britânico no final do século XIX.

99 República da África do Sul.

100 Stephanus Johannes Paulus Kruger (1825-1904), presidente da África do Sul de 1883-99, tinha uma barba de aspecto característico. (N .do T.)

101 John Morley (1838-1923), estadista e literato inglês, foi Secretário Chefe para a Irlanda e Secretário de Estado para a Índia.

102 David Lloyd George (1863-1945), político inglês, foi Primeiro Ministro do Reino Unido de 1916-22.

103 Charles Frederick Gurney Masterman (1873-1927), político e jornalista britânico.

104 Conrad Le Despenser Roden Noel (1869-1942), pastor anglicano e ativista do Socialismo Cristão na Inglaterra.

105 Cecil John Rhodes (1853-1902), nascido na Inglaterra, foi magnata dos diamantes e político na África do Sul, além de fundador do estado da Rodésia. Era ardoroso defensor do colonialismo e imperialismo inglês.

106 No original, “West Country”, nome informal de uma área no sudoeste da Inglaterra que vai da Cornualha a Bristol.

107 Cadeia de montanhas calcárias ao sul de Bristol.

108 Neville Chamberlain (1869-1940), político conservador e Primeiro Ministro Britânico no início da II Guerra Mundial.

109 No original, “Outlander”, modo como eram denominados os britânicos pelos sul-africanos durante a guerra.

110 Nomes de diferentes condados ingleses.

111 No original, “Cri de coeur”[Grito do coração], expressão francesa.

112 Partido conservador inglês.


O Gigante

ÀS VEZES PENSO que toda grande cidade deve ter sido construída à noite. Pelo menos, é apenas à noite que todas as partes de uma grande cidade são grandes. Toda arquitetura é grande arquitetura após o pôr-do-sol; talvez a arquitetura seja realmente uma arte noturna, como a arte dos fogos de artifício. Ao menos, penso que muitas pessoas daquelas profissões mais nobres que trabalham à noite (jornalistas, policiais, ladrões, donos de cafeterias e outros entusiastas mal entendidos que se recusam a ir para casa até o amanhecer) devem ter freqüentemente admirado o negro vulto de um edifício coroado por ameias ou por uma crista de espirais e depois rompido em lágrimas ao amanhecer e descobrir que era apenas uma alfaiataria com enormes letras douradas na frente.

Tive uma sensação desse tipo outro dia quando caminhava em Temple Gardens[ 113 ] no fim do crepúsculo. Sentei-me em um banco de costas para o rio, por acaso escolhendo um lugar em que um enorme ângulo e fachada de edifício projetava-se da Strand sobre mim como um íncubo[ 114 ]. Ouso dizer que se me sentasse no mesmo lugar no dia seguinte durante o dia descobriria que a impressão era inteiramente falsa. No sol aquilo poderia parecer quase distante; mas naquela semi-escuridão era como se as paredes estivessem quase caindo sobre mim. Nunca antes tivera com tanta força o sentimento que torna as pessoas pessimistas na política, a impressão da desesperadora altura dos lugares altos da terra. Aquela pilha de riqueza e poder, qualquer que fosse seu nome, erguia-se sobre e além de mim como um penhasco que nenhuma criatura viva poderia escalar. Eu tinha um sentimento irracional de que aquela coisa tinha de ser combatida, que eu devia lutar, e que não podia apresentar em batalha nada melhor do que um jornalista indolente com uma bengala.

Quase simultaneamente a esse pensamento, duas janelas acenderam-se naquela face negra e cega. Foi como se dois olhos se abrissem na enorme face de um gigante adormecido; estavam muito perto um do outro, e davam a impressão de um sorriso de escárnio bestial. E fosse acidentalmente por causa dessa luz ou de alguma outra, agora podia ler as grandes letras que se distribuíam pela fachada: era o hotel Babilônia. Era o símbolo perfeito de tudo o que eu gostaria de derrubar com as próprias mãos se pudesse. Administrado por um ladrão conhecido, é concebido como o elegante e luxuoso lar de ladrões desconhecidos. Na casa do homem há muitos palácios[ 115 ]; mas há uma classe de homens que não se sentem em casa em nenhum lugar exceto no hotel Babilônia ou na prisão de Dartmoor[ 116 ]. Aquela grande face negra, que me encarava com seus olhos flamejantes muito próximos um do outro, aquele era realmente o gigante de todos os épicos e contos de fadas. Mas – que pena! – eu não era o matador de gigantes; a hora chegara, mas não o homem. Sentei-me no banco novamente (tivera um impulso selvagem de escalar a fachada do hotel e atirar-me para dentro por uma das janelas), e tentei pensar, como fazem as pessoas decentes, o que se poderia fazer. E todo o tempo aquele muro opressivo erguia-se à minha frente e ocupava os céus como uma casa dos deuses.

É notável como em tantas grandes guerras foram os derrotados que venceram. As pessoas que estavam pior no final da guerra foram geralmente as que se deram melhor no fim da história. Por exemplo, as Cruzadas terminaram com a derrota dos cristãos. Mas não com o declínio dos cristãos: terminaram com o declínio dos sarracenos. Aquela enorme onda profética de poder muçulmano que estivera nos próprios céus sobre as cidades da cristandade foi quebrada e nunca mais voltou. Os Cruzados salvaram Paris ao perder Jerusalém. O mesmo se aplica àquela guerra republicana épica no século XVIII à qual nós liberais devemos nossa visão política. A Revolução Francesa terminou em derrota: os reis voltaram sobre um carpete de mortos em Waterloo. A Revolução perdeu sua última batalha; mas atingiu seu primeiro objetivo. Ela criou um abismo. O mundo nunca mais foi o mesmo. Desde então ninguém mais pôde tratar os pobres simplesmente como pavimento.

Essas jóias de Deus, os pobres, ainda são tratadas como meras pedras da rua; mas como pedras que às vezes voam. Se Deus quiser, vocês e eu veremos algumas delas voando novamente antes de morrermos. Mas aqui simplesmente registro o interessante fato de que os conquistados quase sempre conquistam. Esparta matou Atenas com um golpe final, e esta nasceu de novo. Esparta retirou-se vitoriosa, e morreu lentamente por suas próprias feridas. Os bôeres perderam a Guerra Sul-africana, e ganharam a África do Sul.

E é realmente isso tudo o que podemos fazer quando lutamos contra alguma coisa mais forte do que nós: podemos feri-la mortalmente num momento; ela nos matará no final. Já será algo se conseguirmos chocar e sacudir o ímpeto impensado e a enorme inocência do mal; assim como um pedregulho em uma estrada de ferro pode fazer balançar o trem da Escócia. Para os grandes mártires e criminosos da Revolução Francesa foi suficiente que tenham desvendado para todos os tempos a fraqueza secreta dos fortes. Despertaram e deixaram para sempre sobressaltada e trêmula em sua cripta a covardia nos corações dos reis.

Quando João o Matador de Gigantes[ 117 ] realmente viu o gigante pela primeira vez, sua experiência não foi como geralmente se supôs. Se vocês desejarem, contarei a verdadeira história de João o Matador de Gigantes. Para começar, a coisa mais terrível que João sentiu inicialmente sobre o gigante foi que ele não era um gigante. Vinha caminhando a largas passadas através de uma interminável planície arborizada, e em seu horizonte longínquo o gigante era uma figura bem pequena, como um personagem em uma pintura – parecia simplesmente um homem andando sobre a grama. Então João ficou chocado ao lembrar que a grama que o homem estava pisando era uma das mais altas florestas daquela planície. O homem chegou cada vez mais perto, tornando-se cada vez maior, e no instante em que ultrapassou a estatura possível à humanidade João quase gritou. O resto foi um intolerável apocalipse.

O gigante tinha em si a única característica assustadora de um milagre: quanto mais incrível, tanto mais sólido ficava. Quanto menos alguém pudesse crer nele, mais facilmente o podia ver. Era insuportável que tamanha porção do céu fosse ocupada por uma única face humana. Seus olhos, que se destacavam como janelas salientes[ 118 ], tornaram-se ainda maiores, e não havia metáfora que pudesse conter sua grandeza; mas ainda assim eram olhos humanos. A inteligência de João esvaiu-se completamente sob aquele enorme hipnotismo da face que enchia o céu; sua última esperança submergiu, seus cinco sentidos paralisaram-se de terror.

Mas ainda havia nele uma espécie de bravura fria, uma dignidade de honra morta que não esqueceria a pequena e inútil espada em sua mão. Correu até um dos colossais pés daquela torre humana e, quando chegou bem perto, o tornozelo ergueu-se sobre ele como uma caverna. Então enfiou a ponta de sua espada no pé e jogou todo o seu peso nela, enterrando-a até o cabo, até quebrá-lo e a espada partir-se sob a empunhadura. E claramente o gigante sentiu uma espécie de picada, pois apalpou seu grande pé com sua grande mão por um instante; e então, soltando-o novamente, abaixou-se e perscrutou o chão até encontrar seu inimigo.

Então levantou João com um grande dedo e o polegar e jogou-o longe; e à medida que João caía, sentia-se como se estivesse voando de sistema em sistema através do universo das estrelas. Mas, como o gigante o jogara longe descuidadamente, não atingiu uma pedra, mas sim um lamaçal macio à margem de um rio distante. Lá ficou inconsciente por várias horas; mas quando acordou seu horrível conquistador ainda estava à vista. Caminhava através da planície vazia e arborizada até onde esta terminava no mar; e a essa hora ele era maior apenas que as colinas. Diminuía cada vez mais, de fato; mas apenas como uma montanha muito alta termina por diminuir quando nos afastamos dela em um trem de ferro. Meia hora depois ele era de uma cor azul brilhante, como as montanhas distantes; mas sua silhueta ainda era humana e gigantesca. Então a grande figura azul pareceu chegar à margem do grande mar azul, e ao mesmo tempo mudou de atitude. João, atordoado e sangrando, ergueu-se com dificuldade sobre um cotovelo para olhar. O gigante novamente segurou seu tornozelo, balançou duas vezes como em um vendaval, e então precipitou-se no grande mar que banha o mundo todo, e que, entre todas as coisas que Deus fez, era a única grande o suficiente para afogá-lo.

113 Área no centro de Londres, importante distrito jurídico da capital.

114 Demônio mitológico que abusava dos que dormiam, particularmente mulheres.

115 Possivelmente uma referência à obra Castelo Interior ou Moradas, de Santa Teresa de Ávila, em que se diz que nesse Castelo (a alma do homem) há muitas moradas.

116 Prisão construída no início do século XIX no condado de Devon para prisioneiros das guerras napoleônicas, atualmente abriga prisioneiros de periculosidade intermediária e criminosos do “colarinho branco”.

117 Conto de fadas inglês sobre um jovem que mata uma série de gigantes na época do rei Artur.

118 No original, “bow windows”, espécie de janelas curvas que se sobressaíam no corpo do edifício, muito comuns na Inglaterra.


Um Grande Homem

AS PESSOAS ACUSAM o jornalismo de ser excessivamente pessoal; mas a mim sempre pareceu impessoal demais. É acusado de rasgar os véus da vida privada; mas a mim parece estar sempre estendendo véus diáfanos, mas ofuscantes, entre os homens. A imprensa amarela[ 119 ] é criticada por expor fatos privados; eu gostaria que a imprensa amarela fizesse algo tão valioso. São precisamente os toques individuais decisivos que ela nunca dá; e uma prova disso é que mesmo depois de alguém encontrar um homem um milhão de vezes nos jornais é sempre um completo choque e inversão de idéias encontrá-lo na vida real. O “jornalista amarelo” parece não ter o poder de captar sobre um homem o primeiro fato novo que domina todas as impressões posteriores. Por exemplo, antes de conhecer Bernard Shaw ouvi dizer que ele falava com um desejo temerário pelo paradoxo ou um ódio zombeteiro pelo sentimento; mas nunca soube, até que abriu a boca, que falava com um sotaque irlandês, o que é mais importante do que todas as outras críticas juntas.

O jornalismo não é pessoal o bastante. Muito longe de escavar personalidades privadas, não consegue sequer descrever superficialmente as personalidades óbvias. Há uma impressão desse tipo, viva e quase corpórea, que todos sentimos ao encontrar grandes poetas ou políticos, mas que nunca chega aos jornais. Refiro-me à impressão de que são muito mais velhos do que pensávamos. Associamos os grandes homens a seus grandes triunfos, que geralmente ocorreram há alguns anos, e muitos recrutas entusiasmados com o Napoleão magro de Marengo[ 120 ] devem ter se achado na presença do Napoleão gordo de Leipzig[ 121 ].

Lembro-me de ter lido uma reportagem de jornal sobre como certo político em ascensão confrontou a Câmara dos Lordes com um entusiasmo quase adolescente. Descrevia-se como sua “corajosa voz jovem” ressoara pelo teto de madeira. Lembro-me também de que o encontrei alguns dias depois, e que era consideravelmente mais velho que meu próprio pai. Menciono esta verdade com um único propósito: toda essa generalização leva a um único fato – o fato de que uma vez encontrei um grande homem que era mais novo do que esperava.

Eu passara pelas muralhas arborizadas dos vilarejos ao redor de Epsom e descia um caminho irregular entre árvores na direção do vale em que se situa Dorking[ 122 ]. Um sol quente se infiltrava pela folhagem; um sol que embora fosse de um ouro sem mancha assumira a qualidade do anoitecer. Era um tipo de luz que lembra ao homem que o sol começa a se pôr um instante após o meio-dia. A luz parecia enfraquecer à medida que as árvores se fortaleciam e o caminho afundava.

Experimentava uma sensação peculiar a tais descidas emaranhadas: sentia que as copas das árvores que se fechavam sobre mim eram as coisas fixas e reais, certas como o nível do mar; mas que a terra firme estava a todo instante sumindo sob meus pés. Após pouco tempo aquele sol esplêndido aparecia apenas em salpicos, como estrelas de fogo e sóis em uma abóbada de céu verde. A meu redor naquela penumbra esmeralda havia troncos de árvores de todos os tipos lisos e retorcidos; era como uma capela sustentada em colunas de todos os estilos terrenos e extra-terrenos de arquitetura.

Sem querer minha mente encheu-se de pensamentos sobre a natureza da floresta: sobre toda a filosofia do mistério e da força. Pois o significado dos bosques é a combinação da energia com a complexidade. Uma floresta não é de forma alguma rude ou bárbara; é apenas densa de delicadeza. Formas únicas que um artista copiaria ou um filósofo contemplaria por anos se as encontrasse em um campo aberto estão aqui misturadas e confusas; mas não é uma escuridão de deformidade. É uma escuridão de vida; uma escuridão de perfeição. E comecei a pensar quanto da mais alta obscuridade humana é assim, e quão mal entendida foi pelos homens. As pessoas lhe dirão, por exemplo, que a teologia se tornou complicada porque estava morta. Acredite-me, se estivesse morta nunca se teria tornado complicada: é apenas a árvore viva que cria galhos demais.

As árvores tornaram-se mais finas e distanciaram-se umas das outras, e cheguei a um lugar com grama alta e uma estrada. Lembro-me de ter ficado surpreso pela noite já estar tão avançada: imaginara que aquele vale tinha um pôr do sol só para si. Segui a estrada de acordo com instruções que me haviam sido dadas e passei pelo portão de uma discreta cerca além da qual o bosque mudou-se apenas ligeiramente em um jardim. Era como se a curiosa cortesia e finura do personagem que eu ia encontrar se transmitissem deste para o vale, pois sentia em todas essas coisas o dedo daquela qualidade que os ingleses antigos chamavam “feérico”; é uma qualidade que aqueles que pensam no passado como meramente brutal nunca conseguirão entender; é uma elegância antiga como a que há nas árvores. Atravessei o jardim e vi um velho sentado a uma mesa, parecendo ligeiramente pequeno em sua grande cadeira. Era já um inválido, e seu cabelo e barba eram brancos; não como a neve, pois a neve é pesada e fria, mas como algo coberto de penas, ou até mais incisivo: eram brancos como a lanugem do cardo. Cheguei bem perto dele; olhou-me enquanto esticava sua mão frágil, e vi subitamente que seus olhos eram espantosamente jovens. Era o único grande homem do velho mundo que conheci e que não era uma mera estátua sobre seu próprio túmulo.

Ele era surdo e falava como uma torrente. Não falava sobre os livros que havia escrito: era vivo demais para isso. Falava sobre os livros que não havia escrito. Desenrolou um pacote roxo de romances que nunca tivera tempo de vender. Pediu-me para escrever uma das histórias, como teria pedido ao leiteiro se estivesse falando com ele. Era uma história esplêndida e frenética, uma espécie de farsa astronômica. Era sobre um homem que corria na direção da Real Sociedade[ 123 ] com a única maneira possível de evitar um cometa que destruiria a Terra; e mostrava como, mesmo nessa enorme missão, o homem era detido a cada dois minutos por suas próprias fraquezas e vaidades: como perdeu um trem por desperdiçar o tempo ou foi posto na prisão por brigar. Essa é apenas uma delas; havia mais dez ou vinte. Outra, lembro-me vagamente, era uma versão da queda de Parnell[ 124 ]: a idéia de que um homem extremamente honesto podia ser secreto pelo puro amor ao segredo, a um solitário autodomínio. Saí daquele jardim com uma confusa sensação do milhão de possibilidades da literatura criativa. A impressão aumentou quando meu caminho levou-me de volta ao bosque; pois um bosque é um palácio com um milhão de corredores que se cruzam em todos os lugares. Tive realmente a impressão de ter visto a qualidade criativa, que é sobrenatural. Vira o que Virgílio chama o Velho da Floresta: vira um elfo. As árvores aglomeravam-se atrás de mim; nunca o vi de novo; e agora não o verei mais, porque morreu na última terça-feira.

119 Jornalismo sensacionalista, feito sem preocupação com a veracidade das notícias veiculadas.

120 Batalha ocorrida em 14 de Junho de 1800 entre a França de Napoleão e a Áustria, próximo à cidade de Alessandria, no Piemonte italiano.

121 Batalha ocorrida entre 16 e 19 de Outubro de 1813 na cidade de Leipzig, na Saxônia, entre a França de Napoleão e uma coalizão entre Rússia, Prússia, Áustria e Suécia. Foi a maior batalha da Europa antes da I Guerra Mundial, e culminou com a derrota de Napoleão e sua posterior abdicação e exílio em Elba.

122 Epsom e Dorking – cidades próximas, a sudoeste de Londres.

123 A Sociedade Real de Londres para o Progresso do Conhecimento da Natureza é uma instituição destinada à promoção do conhecimento científico, fundada em 28 de novembro de 1660.

124 Charles Stewart Parnell (1846-1891), importante político britânico, fundador do Partido Parlamentarista Irlandês.


O Barbeiro Ortodoxo

AQUELES PENSADORES que não acreditam em nenhum deus freqüentemente afirmam que o amor pela humanidade ser-lhes-ia suficiente em si mesmo; e talvez fosse assim, se o tivessem. Há uma coisa muito real que pode chamar-se o amor pela humanidade: em nosso tempo, existe quase inteiramente entre os que são chamados de pessoas ignorantes, e não existe de forma alguma entre as pessoas que falam sobre ele.

Um prazer positivo em estar na presença de outros seres humanos é particularmente notável, por exemplo, nas massas em um feriado nacional; é por isso que estão tão mais perto do Céu (apesar das aparências) do que qualquer outra parcela da nossa população.

Lembro-me de ver um grupo de funcionárias de fábrica entrar em um trem vazio em uma estação de beira de estrada no interior. Havia cerca de vinte delas: entraram todas em um único vagão, e deixaram o restante do trem completamente vazio. Eis o verdadeiro amor pela humanidade. Eis o definitivo prazer pela proximidade imediata de um semelhante. Só que este rude, malcheiroso, verdadeiro amor pelos homens parece estar inteiramente ausente naqueles que propõem o amor pela humanidade como substituto para todos os outros amores: racionalistas e honrados idealistas.

Lembro-me bem da explosão de alegria humana que marcou a súbita partida daquele trem; todas as moças que não conseguiram sentar-se (e deviam ser a maioria) aliviavam seus sentimentos pulando para cima e para baixo. Ora, nunca vi nenhum idealista racionalista fazer isso. Nunca vi vinte filósofos modernos amontoarem-se em um vagão de terceira classe simplesmente pelo prazer de estarem juntos. Nunca vi vinte Mr. McCabes[ 125 ] juntos em um vagão e pulando para cima e para baixo.

Algumas pessoas expressam o medo de que turistas vulgares irão devastar todos os lugares bonitos, como Hampstead[ 126 ] ou Burnham Beeches[ 127 ]. Mas seu medo é infundado, pois os turistas sempre preferem viajar juntos; aglomeram-se tanto quanto podem: têm uma sufocante paixão pela filantropia.

Mas dentre os aspectos menores e mais suaves do mesmo princípio não hesitarei em apresentar o problema do barbeiro coloquial. Antes de que qualquer homem moderno fale com autoridade sobre o amor pelos homens, insisto (insisto com violência) que deve sempre apreciar quando seu barbeiro tenta conversar. Seu barbeiro é a humanidade: que a ame. Se não o apreciar, não aceitarei qualquer substituto como um interesse pelo Congo ou pelo futuro do Japão. Se um homem não ama seu barbeiro a quem vê, como amará o japonês a quem não vê[ 128 ]?

Alega-se contra o barbeiro que ele começa falando sobre o tempo; da mesma forma fazem todos os duques e diplomatas, com a diferença que falam sobre o tempo com ostensiva fadiga e indiferença, ao passo que o barbeiro o faz com um impressionante, ou melhor, incrível interesse. Argumenta-se que ele diz às pessoas que estão ficando calvas. Isto é, suas próprias virtudes são lançadas contra ele: é acusado porque, como especialista, é um especialista sincero, e porque, sendo um comerciante, não é um completo escravo. Mas a única prova de tais coisas é pelo exemplo; assim, provarei a excelência da conversação dos barbeiros com um caso específico. Antes que alguém me acuse de tentar prová-lo por meios fictícios, afirmo com toda a seriedade que, embora tenha me esquecido da linguagem exata empregada, a seguinte conversa que tive com um verdadeiro barbeiro da raça humana (creio eu) realmente ocorreu há alguns dias.

Eu fora convidado a uma recepção para conhecer os Ministros das Colônias e, para evitar que fosse confundido com um bandoleiro[ 129 ] parcialmente reabilitado do interior da Austrália, entrei em uma barbearia na Strand para fazer a barba. Enquanto me submetia à tortura, o homem me disse:

“Parece haver um bocado nos jornais sobre essa nova maneira de fazer a barba. Parece que é possível barbear-se com qualquer coisa – com um graveto ou uma pedra ou uma estaca ou um atiçador” (aqui comecei pela primeira vez a detectar uma entonação sarcástica), “ou uma pá ou um...”

Aqui ele hesitou em busca de uma palavra, e eu, embora nada soubesse do assunto, ajudei-o com sugestões na mesma linha retórica.

“Ou um gancho para abotoar[ 130 ],” falei, “ou um bacamarte ou um aríete ou uma biela...”

Ele continuou, reanimado com essa ajuda: “Ou um varão ou um candelabro, ou um...”

“Limpa-trilhos”, sugeri avidamente, e continuamos nesse dueto extasiado por algum tempo. Então perguntei-lhe o que significava aquilo, e ele me contou. Explicou tudo longa e eloquentemente.

“O engraçado”, disse, “é que não é uma coisa nem um pouco nova. Já se falava disso desde que eu era menino, e bem antes. Sempre houve uma noção de que a navalha poderia ser substituída de alguma forma. Mas nenhuma dessas propostas nunca deu em nada; e eu por mim não acredito que essa agora dê.”

“Bom, quanto a isso”, eu disse, levantando-me lentamente da cadeira e tentando vestir meu casaco do avesso, “não sei como será no seu caso e no dessa nova forma de barbear. Fazer a barba, com todo o respeito, é algo materialista e trivial, e nessas coisas criam-se às vezes invenções impressionantes. Mas o que me diz lembra-me escura e vagamente de outra coisa. Lembrei-me especialmente quando me disse, com experiência e sinceridade tão evidentes, que a nova forma de barbear na realidade não é nova. Meu amigo, a raça humana está sempre tentando essas evasivas de tornar tudo inteiramente fácil; mas a dificuldade que tira de uma coisa é colocada em outra. Se um homem não tem o trabalho de preparar o queixo de alguém, suponho que outro homem terá o trabalho de preparar algo muito curioso para aplicar no queixo de alguém. Seria bom se pudéssemos barbear-nos sem incomodar ninguém. Seria ainda melhor se pudéssemos não fazer a barba sem incomodar ninguém...

‘Mas, Ó sábio amigo, Barbeiro da rua Strand,

Irmão, nem tu nem eu fizemos o mundo.’[ 131 ]

“Seja quem for que o tenha feito, e que é mais sábio e, esperamos, melhor do que nós, o fez com estranhas limitações, e com dolorosas condições ao prazer.

“No primeiro e mais escuro de seus livros está escrito ferozmente que um homem não pode comer seu bolo e tê-lo ao mesmo tempo; e, ainda, que se todos os homens discutissem até que as estrelas envelhecessem ainda assim seria verdade que um homem que perdeu sua navalha não pode barbear-se com ela. Mas a todo momento aparecem homens com o novo isso ou aquilo e dizem que é possível ter tudo sem sacrifício, que o mal é bom desde que você seja esclarecido, e que não há diferença real entre estar ou não barbeado. A diferença, dizem, é apenas de grau; tudo é evolutivo e relativo. A cara rapada é imanente ao homem. Qualquer prego de dez centavos é uma Navalha Potencial. As pessoas supersticiosas do passado (dizem eles) acreditavam que um monte de pêlos negros saindo em ângulos retos da face de alguém fosse uma coisa positiva. Mas a crítica mais elevada nos ensina mais. Pêlos são simplesmente negativos. São uma Sombra onde devia haver um Barbear.

“Bem, isso continua, e suponho que signifique algo. Mas um bebê é o Reino de Deus, e se você tentar beijar um bebê ele saberá se você está barbeado ou não. Talvez eu esteja confundindo barbear-se com salvar-se[ 132 ]: minhas simpatias democráticas sempre me levaram a abandonar os “h’s”. Mais um momento e eu chegarei a sugerir que os bodes representam os condenados porque têm barbas longas. Isso está se tornando alegórico demais.

“De qualquer forma”, acrescentei ao pagar a conta, “fiquei de fato profundamente interessado no que você me contou sobre o Novo Barbear. Já ouviu falar alguma vez de uma coisa chamada a Nova Teologia?”

Ele sorriu e disse que não.

125 Joseph Martin McCabe (1867-1955), ex-sacerdote e escritor racionalista inglês.

126 Bairro luxuoso de Londres.

127 Bosque centenário a cerca de 40km a oeste de Londres.

128 Paródia da 1º Epístola de S. João, 4,20: “Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê”.

129 No original, “bush-ranger”, presos foragidos na colônia britânica da Austrália que se escondiam na savana australiana.

130 Ferramenta usada para ajudar a abotoar botões de sapatos e luvas, consistia geralmente em uma haste com um gancho.

131 “But, O wise friend, chief Barber of the Strand,/Brother, nor you nor I have made the world”. Refere-se ao poema “The Last Tournament”, de Tennyson, que diz: “but O chief knight/ Right arm of Arthur in the battlefield,/ Great brother, thou nor I have made the world”.

132 Trocadilho intraduzível entre “shave” e “save”.


O Teatro de Marionetes

HÁ APENAS UMA RAZÃO pela qual os adultos não brincam com brinquedos; e é uma razão justa. É que brincar exige muito mais tempo e dedicação do que tudo mais. A brincadeira, da forma como as crianças a encaram, é a coisa mais séria do mundo; e assim que passamos a ter pequenos deveres ou pequenas penas temos de abandonar em parte esse plano de vida tão enorme e ambicioso. Temos força suficiente para a política e o comércio, a arte e a filosofia; não temos força suficiente para brincar. Esta é uma verdade que será reconhecida por qualquer um que, quando criança, já brincou com qualquer coisa: qualquer um que tenha brincado com blocos, com bonecas ou com soldados de chumbo. Meu trabalho como jornalista, que me dá dinheiro, não é executado com tão terrível persistência quanto aquele outro trabalho que não rendia nada.

Tome o exemplo dos blocos. Se você publicar amanhã um livro em doze volumes (seria típico de você) sobre a “Teoria e Prática da Arquitetura Européia”, seu trabalho poderá ser laborioso, mas é fundamentalmente frívolo. Não é sério como o de uma criança empilhando um bloco sobre o outro, pela simples razão de que se o seu livro é ruim ninguém conseguirá em última análise e completamente provar-lhe isso. Ao passo que, se o equilíbrio dos blocos for ruim, a pilha simplesmente cairá. E, se conheço algo sobre crianças, o menino voltará solene e tristemente ao trabalho de reconstruí-la. Ao passo que, se conheço algo sobre autores, nada o induzirá a reescrever seu livro, ou até a pensar nele novamente se puder evitar.

Tome o exemplo das bonecas. É muito mais fácil cuidar de uma causa educacional do que cuidar de uma boneca. É tão fácil escrever um artigo sobre educação quanto um artigo sobre caramelos ou bondes ou qualquer outra coisa. Mas é quase tão difícil cuidar de uma boneca quanto de uma criança. As menininhas que conheci nas ruelas de Battersea adoram suas bonecas de uma maneira que lembra não tanto brincadeira quanto idolatria. Em alguns casos, o amor e cuidado do símbolo artístico realmente tornaram-se mais importantes do que a realidade humana para que este fora, suponho, originalmente concebido para simbolizar.

Lembro-me de uma menina em Battersea que levava a passear sua irmã menor apertada em um carrinho de boneca. Quando questionada sobre isso, ela respondia: “Eu não tenho uma boneca, e a Bebê está fazendo de conta que é a minha.” A Natureza estava de fato imitando a arte. Primeiro uma boneca substituía uma criança; depois a criança se tornava um mero substituto de uma boneca. Mas isso abre outros assuntos; o ponto aqui é que tanta devoção exige a maior parte do cérebro e a maior parte da vida, quase como se fosse realmente a coisa que é simbolizada. O ponto é que o homem que escreve sobre a maternidade é meramente um educador; a criança que brinca com uma boneca é uma mãe.

Tome o exemplo dos soldados. Um homem que escreve um artigo sobre estratégia militar é simplesmente um homem escrevendo um artigo: uma visão repugnante. Mas um menino fazendo uma campanha com soldados de chumbo é como um general fazendo uma campanha com soldados reais. Ele precisa, até os limites da sua capacidade juvenil, pensar no assunto; ao passo que o correspondente de guerra não precisa pensar em nada. Lembro-me de um correspondente de guerra que declarou após a captura de Methuen[ 133 ]: “Essa atividade renovada da parte de Delarey[ 134 ] deve-se provavelmente à sua escassez de provisões.” O mesmo crítico militar mencionara alguns parágrafos antes que Delarey estava sendo duramente pressionado por uma coluna que o perseguia sob o comando de Methuen. Methuen perseguia Delarey; e o movimento de Delarey era por falta de provisões. De outra forma ele teria permanecido quieto enquanto era perseguido. Eu corro atrás de Jones com uma machadinha, e se ele se vira e tenta se livrar de mim a única explicação possível é que ele tem uma quantidade muito pequena de dinheiro em sua conta bancária. Não creio que nenhum menino brincando com soldados de chumbo seria tão idiota assim. Mas também é verdade que qualquer um que brinque com qualquer coisa tem que ser sério. Ao passo que, como tenho ótimas razões para saber, se você está escrevendo um artigo pode dizer qualquer coisa que passe por sua cabeça.

Em geral, portanto, o que impede os adultos de participarem nas brincadeiras de crianças não é que não tenham prazer nisso: é simplesmente que não têm o tempo livre para elas. É que não têm como gastar o esforço e o tempo e a consideração necessários para uma atividade tão grandiosa e grave. Eu mesmo venho há algum tempo tentando completar uma peça em um pequeno teatro de marionetes, do tipo que era chamado “simples por um penny, colorido por dois pence”[ 135 ]; só que eu mesmo desenhei e colori as figuras e cenários. Tive de pagar apenas um shilling por cada folha de cartolina de boa qualidade e por uma caixa de aquarelas de má qualidade. O tipo de palco em miniatura que fiz é provavelmente familiar a todos: é nada mais do que um desenvolvimento do palco que Skelt[ 136 ] montou e Stevenson[ 137 ] celebrou.

Mas embora tenha trabalhado muito mais no teatro de marionetes do que já o fiz em qualquer conto ou artigo, não consigo terminá-lo; o trabalho parece pesado demais para mim. Preciso interrompê-lo e dedicar-me a tarefas mais leves, como as biografias de grandes homens. A peça de “São Jorge e o Dragão”, na qual consumi o óleo da meia-noite (você precisa colori-la à luz de lampiões porque é assim que será vista), ainda não tem, muito evidentemente – que pena! –, duas laterais do Palácio do Sultão e nem uma forma compreensível e viável de erguer a cortina.

Tudo isso inspira-me um sentimento a respeito do verdadeiro significado da imortalidade. Neste mundo não podemos ter um puro prazer. Isso em parte porque o puro prazer seria perigoso para nós e nossos vizinhos. Mas também em parte porque dá muito trabalho. Se eu algum dia estiver em um mundo diferente e melhor, espero ter o tempo suficiente para brincar com nada mais do que teatros de marionetes; e espero ter a energia divina e sobre-humana suficiente para representar ao menos uma peça neles sem atrapalhar-me.

Entretanto, a filosofia dos teatros de marionetes é digna da consideração de qualquer um. Toda a moral essencial que os homens modernos devem aprender poderia ser deduzida desse brinquedo. Artisticamente considerado, lembra-nos o princípio essencial da arte que está em maior perigo de ser esquecido em nosso tempo. Refiro-me ao fato de que a arte consiste na limitação; o fato de que a arte é limitação. A arte não consiste em expandir as coisas. Consiste em cortar as coisas, como corto com uma tesoura minhas horríveis figuras de São Jorge e o Dragão. Platão, que gostava de idéias definidas, teria gostado de meu dragão de cartolina, pois embora a criatura tenha poucos méritos artísticos adicionais realmente parece um dragão. O filósofo moderno, que gosta do infinito, faria muito bem em considerar uma simples folha de cartolina. O aspecto mais artístico da arte teatral é o fato de que o espectador observa tudo através de uma janela. Isto é verdade mesmo em teatros inferiores ao meu: mesmo no Teatro da Corte ou no de Sua Majestade você olha através de uma janela; uma janela excepcionalmente grande. Mas a vantagem do teatro pequeno é exatamente que você olha por uma janela pequena. Todos já não notaram quão doce e surpreendente é qualquer paisagem quando vista através de um arco? Esta forma forte e quadrada, esta exclusão de tudo o mais não é apenas um auxílio para a beleza: é o essencial dela. A parte mais bela de todo quadro é a moldura.

Isto é especialmente verdadeiro no teatro de marionetes; que, ao reduzir a escala dos eventos, permite apresentar eventos muito maiores. Porque é pequeno poderia facilmente representar o terremoto na Jamaica[ 138 ]. Porque é pequeno poderia facilmente representar o Dia do Juízo Final. Na medida exata em que é limitado pode lidar facilmente com quedas de cidades ou estrelas cadentes. Entretanto, os grandes teatros são obrigados a ser econômicos porque são grandes. Quando compreendermos este fato teremos compreendido em parte por que o mundo sempre foi inicialmente inspirado por nações pequenas. A vasta filosofia grega encaixava-se com mais facilidade na pequena cidade de Atenas do que no imenso império da Pérsia. Nas estreitas ruas de Florença Dante sentiu que havia espaço para o Purgatório, o Céu e o Inferno. Ele teria sido sufocado pelo Império Britânico. Grandes impérios são necessariamente prosaicos; pois está além do poder do homem encenar um grande poema em tão grande escala. Só é possível representar idéias muito grandes em espaços muito pequenos. Meu teatro de marionetes é tão filosófico quanto o drama de Atenas.

133 Mal. Paul Sanford Methuen, Barão de Methuen (1845-1932), comandante militar britânico durante a 2ª Guerra dos Bôeres.

134 Gal. Jacobus Herculaas de La Rey (1847-1914), um dos mais importantes líderes militares dos Bôeres durante a 2ª Guerra dos Bôeres.

135 No original, “Penny Plain and Twopence Coloured”, modo como eram vendidos tais teatros de marionetes no fim do século XIX e início do século XX. Robert Louis Stevenson chegou a escrever um ensaio sobre o assunto exatamente com esse título.

136 G. Skelt, editor de peças para teatro de marionetes no século XIX.

137 Robert Louis Stevenson, famoso escritor inglês. Vide nota 3.

138 Referência ao forte e destrutivo terremoto ocorrido em Kingston em 1907.


Uma Tragédia de Dois Centavos

MINHA RELAÇÃO com os leitores desta página tem sido longa e prazerosa, porém – talvez por essa mesma razão – sinto que chegou o momento em que devo confessar o único grande crime da minha vida. Ocorreu há muito tempo; mas não é incomum que um acesso tardio de remorso revele esses negros episódios muito depois de terem acontecido. Não tem nada a ver com as orgias da Liga Antipuritana[ 139 ]. Essa organização é tão ofensivamente respeitável que um jornal, ao descrevê-la um dia desses, referiu-se a meu amigo Mr. Edgar Jepson como Cônego Edgar Jepson[ 140 ]; e acredita-se que títulos semelhantes estão preparados para todos nós. Não – não é pela conduta do Arcebispo Crane[ 141 ], do Decano Chesterton, do Reverendo James Douglas[ 142 ], de Monsenhor Bland[ 143 ] ou mesmo daquele excelente e viril veterano eclesiástico, Cardeal Nesbit[ 144 ], que desejo (ou melhor, sou levado pela minha consciência) fazer essa declaração. O crime foi cometido na solidão e sem cúmplices. Sozinho o cometi. Deixem-me, com a sede característica dos penitentes de superar logo o pior da confissão, descrevê-lo de uma vez em sua forma mais terrível e indefensável. Há neste momento em uma cidade da Alemanha (a menos que tenha morrido de raiva ao descobrir o engano que sofreu) um dono de restaurante a quem ainda devo dois centavos. Da última vez que deixei seu restaurante ao ar livre, sabia que lhe devia dois centavos. Levei-os embora debaixo de seu nariz, embora fosse um nariz decididamente judeu. Nunca o paguei, e é altamente improvável que o pague um dia. Como essa infâmia pode ocorrer em uma vida que foi, falando de modo geral, deficiente na destreza necessária à fraude? A história é assim – e tem uma moral, embora possa não haver espaço para ela.

É uma regra geral para aqueles que viajam no Continente que a maneira mais fácil de falar em uma língua estrangeira é falar de filosofia. A conversa mais difícil é aquela sobre necessidades comuns. A razão é óbvia. Os nomes das necessidades comuns variam completamente em cada nação e são geralmente algo único e estranho. Como, por exemplo, um francês poderia supor que um depósito de carvão seria chamado de “alçapão”[ 145 ]? Se alguma vez viu a palavra alçapão foi na Imprensa Jingoísta[ 146 ], onde o termo “política do alçapão” é usado sempre que abrimos mão de algo em favor de um pequeno Poder, como os Liberais, ao invés de abrir mão de tudo em favor de um grande Poder, como os Imperialistas. Qual inglês na Alemanha seria poético o suficiente para adivinhar que os alemães chamam uma luva de “sapato-de-mão[ 147 ]”? As nações dão nome a suas necessidades por apelidos, por assim dizer. Chamam suas banheiras e banquetas por nomes únicos, élficos e quase afetuosos, como se fossem seus próprios filhos! Mas qualquer um que tenha chegado ao exercício quatro em uma cartilha consegue discutir sobre coisas abstratas em uma língua estrangeira. Pois assim que consegue montar uma sentença, descobre que as palavras em discussões filosóficas ou abstratas são quase as mesmas em todos os países. São as mesmas, pela simples razão de que vêm todas das coisas que foram as raízes comuns da nossa civilização. Do Cristianismo, do Império Romano, da Igreja medieval ou da Revolução Francesa. “Nação”, “cidadão”, “religião”, “filosofia”, “autoridade”, “a República” são palavras que são quase as mesmas em todos os países em que viajamos. Contenham, portanto, sua exuberante admiração pelo jovem que consegue discutir com seis ateus franceses assim que desembarca pela primeira vez em Dieppe[ 148 ]. Até eu consigo fazer isso. Mas é muito provável que o mesmo jovem não saiba o termo francês para calçadeira. Mas há três grandes exceções a esta generalização. 1) No caso de países que não são europeus, e nunca tiveram nossos conceitos cívicos, ou a velha cultura latina. Não espero que a expressão patagônica para “cidadania” venha à mente de imediato, ou que a palavra Dayak[ 149 ] para “República” seja familiar para mim desde o berçário. 2) No caso da Alemanha, onde, embora o princípio se aplique a muitas palavras como “nação” e “filosofia”, não se aplica de forma tão generalizada, pois lá houve uma política especial e deliberada de estimular a porção puramente alemã da língua. 3) No caso em que a pessoa não sabe nada do idioma, como é geralmente o meu caso.

Ao menos era essa a minha situação no negro dia em que cometi meu crime. Duas das condições excepcionais que mencionei estavam combinadas. Eu andava por uma cidade alemã e não sabia nada da língua. Sabia, entretanto, duas ou três daquelas grandes e solenes palavras que mantém nossa civilização européia unida – uma das quais é “charuto”. Como fosse um dia quente e sonolento, sentei-me a uma mesa em uma espécie de restaurante ao ar livre e pedi um charuto e uma caneca de cerveja. Tomei a cerveja e paguei-a. Fumei o charuto, esqueci-me de pagá-lo e fui embora, contemplando embevecido o régio perfil das montanhas Taunus[ 150 ]. Após cerca de dez minutos, lembrei-me repentinamente de que não pagara pelo charuto. Voltei ao restaurante e pus o dinheiro sobre a mesa. Porém, o proprietário também esquecera o charuto, e limitou-se a pronunciar sons guturais em tom de interrogação, perguntando-me, suponho, o que eu queria. Disse “charuto”, e ele me deu um charuto. Tentei afastá-lo com gestos de recusa ao mesmo tempo em que colocava o dinheiro na mesa. Ele pensou que a razão de minha rejeição era uma condenação àquele charuto em particular, e trouxe-me outro. Girei meus braços como um moinho de vento, procurando transmitir com a vasta universalidade de meu gesto que minha rejeição era de charutos em geral, e não daquele em particular. Ele o confundiu com a impaciência ordinária dos homens comuns, e avançou, com as mãos cheias de charutos variados, empurrando-os em minha direção. Em desespero, tentei outras formas de pantomima, mas quanto mais charutos recusava mais e mais raros e valiosos charutos eram trazidos das profundezas e recessos da loja. Tentei em vão pensar em uma maneira de transmitir-lhe o fato de que eu já fumara o charuto. Imitei a atitude de um cidadão fumando, apagando e jogando fora um charuto. O atento proprietário apenas pensou que eu estivesse ensaiando (como num êxtase de expectativa) as alegrias do charuto que ele me daria. Enfim retirei-me desconcertado: ele não receberia o dinheiro sem me dar os charutos. Assim este dono de restaurante (em cuja face o amor pelo dinheiro brilhava como o sol do meio-dia) simples e firmemente recusou-se a receber dois centavos que eu certamente lhe devia; e levei aqueles dois centavos embora comigo e esbanjei-os por meses. Espero que no último dia os anjos mostrem a verdade de forma bem suave para aquele pobre homem.

Esta é a verdadeira história da Grande Fraude do Charuto, e sua moral é esta – que a civilização está fundada sobre abstrações. A idéia de dívida não pode ser transmitida por movimentos físicos, porque é abstrata. E a civilização obviamente não seria nada sem dívidas. Assim, quando indivíduos de cabeça dura que estudam sociologia científica (que não existe) vêm e lhes dizem que a civilização é material ou indiferente ao abstrato, perguntem-se a si mesmos quantas das coisas que formam nossa Sociedade, a Lei ou as Ações da Bolsa ou a Dívida Pública, vocês conseguiriam transmitir com suas faces e dez dedos, fazendo caretas e gesticulando para um dono de restaurante alemão.

139 Grupo fundado por Stewart Headlam em 1906, do qual faziam parte, entre outros, Edgar Jepson e os irmãos Gilbert e Cecil Chesterton.

140 Edgar Alfred Jepson (1863-1938), escritor inglês, principalmente de histórias de aventura e ficção policial. Era membro do clube dos “Novos Boêmios”.

141 Possivelmente Walter Crane (1845-1915), artista inglês e ilustrador de livros infantis.

142 James Douglas (1867-1940), crítico, autor e jornalista inglês, editor do “The Star” e “Sunday Express”.

143 Hubert Bland (1855-1914), socialista inglês e um dos fundadores da Sociedade Fabiana.

144 E. Nesbit (1858-1924), na realidade uma mulher, Edith Nesbit, poetisa e autora de ficção infantil, foi uma das fundadoras da Sociedade Fabiana.

145 No original, “scuttle”.

146 Jingoísmo – nacionalismo exagerado e belicoso.

147 Em alemão, “Handschuh”.

148 Comuna francesa do departamento de Seine-Maritime e porto do Canal da Mancha.

149 População indígena de Bornéu.

150 Cadeia de montanhas no sudoeste da Alemanha.


Uma viagem de táxi pelo interior

SEMEADO EM ALGUM LUGAR distante nos suaves vales de Hertfordshire[ 151 ] há um vilarejo de grande beleza, e não duvido que de admiráveis virtudes, mas de gosto literário excêntrico e desequilibrado, que pediu a este escritor que fosse até lá em uma tarde de domingo e desse uma palestra.

Só que era muito difícil chegar até lá no domingo à tarde, devido ao indescritível estado em que caíram nossas leis e costumes nacionais com relação ao sétimo dia. Não é Puritanismo; é simplesmente anarquia. Eu teria alguma simpatia pelo Sábado judeu, se fosse um Sábado judeu, e isso por três razões: primeira, que a religião é uma coisa intrinsecamente simpática; segunda, que não consigo conceber nenhuma religião digna desse nome sem alguma observância fixa e material; e terceira, que a obrigação de ficar sentado e não trabalhar está particularmente de acordo com o meu temperamento.

Porém o absurdo da convenção inglesa moderna é que não permite que um homem fique sentado; apenas faz perpetuamente com que tropece após tê-lo forçado a caminhar. Nosso “Sabatismo” não nos proíbe de pedir a um homem de Battersea que venha falar em Hertfordshire; apenas impede que chegue lá. Posso compreender que uma deidade seja adorada com louvores, com flores e com fogos de artifício no velho estilo europeu. Posso compreender que uma deidade seja adorada com lamentações. Mas não consigo imaginar uma deidade sendo adorada com inconveniências. Que o bom muçulmano vá a Meca, ou que permaneça em sua tenda, conforme seus sentimentos com relação a símbolos religiosos. Mas certamente Alá não deve ver nada particularmente digno no fato de seu servo ser enganado pelos horários de trens, descobrir que o velho expresso para Meca não está funcionando, perder sua conexão em Bagdá ou ter de esperar três horas em uma pequena estação secundária nas proximidades de Damasco.

Foi o que me aconteceu nessa ocasião. Descobri que não havia serviço de telégrafo para aquele lugar; descobri que havia apenas um fraco serviço de trem. Agora, se isso fosse a autoridade da verdadeira religião inglesa, eu me submeteria imediatamente. Se acreditasse que o funcionário do telégrafo não podia enviar o telegrama por estar naquele momento rígido em um êxtase místico, consideraria todos os meus telegramas insignificantes em comparação. Se pudesse acreditar que os funcionários da estrada de ferro, ao serem liberados de seus deveres, acorressem com paixão ao local de culto mais próximo, diria que todas as palestras e tudo o mais deveriam ceder lugar a essa consideração. Não reclamaria se a fé nacional me proibisse de assumir compromissos de trabalho ou autoexpressão no Sábado. Mas, da forma como é, apenas me diz que vou muito provavelmente respeitar o Sábado não respeitando o compromisso.

Mas devo voltar aos detalhes reais de minha história. Descobri que havia apenas um trem em todo o domingo com o qual poderia chegar a muitas horas e muitas milhas do tempo e lugar desejados. Assim fui ao telefone, que é um de meus brinquedos favoritos, e no qual já gritei muitos monólogos valiosos, mas prematuramente interrompidos, sobre arte e moral. Lembro-me de um leve choque de surpresa quando descobri que era possível usar o telefone no domingo; não esperava que estivesse desligado, mas sim que zumbisse mais que em dias normais para o progresso de nossa religião nacional. Através desse instrumento, em menos palavras que o habitual e com uma relativa economia de epigramas, pedi um táxi para levar-me à estação de trens.

De maneira geral, não tenho nada a dizer seja contra os telefones ou os táxis; parecem-me duas das mais puras e poéticas criações da moderna civilização científica. Infelizmente, quando o táxi partiu, fez exatamente o mesmo que fez a moderna civilização científica – quebrou. O resultado foi que quando cheguei a King’s Cross meu único trem havia partido. Havia uma calma sabática na estação, uma calma nos olhares dos funcionários, e em meu peito, se havia calma, era um calmo desespero.

Não houve, porém, muita calma de qualquer espécie em meu peito ao fazer a descoberta; e transformou-se em completo horror quando soube que não poderia sequer mandar um telegrama aos organizadores do evento. Desamparar minha audiência era suficientemente exasperador; fazê-lo sem qualquer espécie de aviso era simplesmente uma baixeza. Procurei argumentar com o funcionário. Disse-lhe: “Quer realmente dizer que se meu irmão estivesse morrendo e minha mãe estivesse nesse lugar não poderia comunicar-me com ela?” Era um homem de mente literal e laboriosa; perguntou-me se meu irmão estava morrendo. Respondi que tinha excelente e até ofensiva saúde, mas que a pergunta era sobre uma questão de princípio. O que aconteceria se a Inglaterra fosse invadida, ou se apenas eu soubesse como desviar um cometa ou impedir um terremoto. Ele descartou com um gesto essas hipóteses da forma mais irresponsável, mas tinha absoluta certeza de que telegramas não chegariam a este vilarejo em particular. Então algo explodiu em mim: aquele elemento de ultraje que é a mãe de todas as aventuras brotou de forma ingovernável e resolvi que não seria um malcriado apenas porque alguns de meus ancestrais remotos foram calvinistas. Cumpriria meu compromisso mesmo que gastasse todo o meu dinheiro e imaginação. Saí para a quieta rua londrina, onde meu quieto táxi ainda aguardava seu pagamento na manhã fria e enevoada. Sentei-me confortavelmente no táxi londrino e disse ao condutor que me levasse ao outro lado de Hertfordshire. E assim ele o fez.

Não esquecerei aquela viagem. Era duvidoso se[ 152 ], mesmo em um táxi motorizado, a coisa seria possível com qualquer consideração pelo motorista, sem falar de uma ligeira consideração pelas pessoas na rua. Insisti com o motorista para que comesse e bebesse alguma coisa antes de partir, mas ele me disse (com não sei que orgulho profissional ou delicado senso de aventura) que o faria quando chegássemos – se chegássemos. Não tive nem de longe a mesma delicadeza: comprei uma seleção variada de tortas de carne de porco[ 153 ] em uma lojinha que estava aberta (por que a loja estava aberta? – tudo é mistério) e comi-as no caminho. O começo foi sombrio e irritante. Eu estava aborrecido, não com as pessoas, mas com as coisas, como um bebê; com o motor por ter quebrado e com o domingo por ser domingo. E a visão dos bairros pobres do norte expandiu e enobreceu, mas não reduziu minha melancolia: Whitechapel[ 154 ] tem uma ostentação oriental em sua miséria; Battersea[ 155 ] e Camberwell[ 156 ] têm um indescritível alvoroço de democracia; mas as regiões pobres do norte de Londres... bem, talvez as tenha visto da maneira errada naquela manhã cinzenta e naquela missão estúpida.

Era um desses dias que mais de uma vez este ano quebraram o fim do inverno; um dia de inverno que começou tarde demais para ser primavera. Já não éramos mais retidos pela multidão e apressamos o passo através de uma fronteira de hortas e tavernas isoladas, quando o cinza revelou faixas douradas e uma boa luz começou a brilhar em tudo. O táxi ia cada vez mais rápido. O campo rodopiava de forma cada vez mais ampla; mas não perdi a sensação de combate e oposição que sentira nas vielas abarrotadas. Ao contrário, a sensação aumentou, devido à grande dificuldade de espaço e tempo. Quanto mais rápido ia o carro, tanto mais feroz e acirrada eu sentia a luta.

Toda a paisagem parecia atirar-se contra mim – e errar por um triz. A grama alta e brilhante passava como uma chuva de flechas; as próprias árvores assemelhavam-se a lanças arremessadas contra meu coração, e errando-o por um fio de cabelo. Através de um vale vasto e suave, vi uma faia erguendo-se pequena e desafiadora ao lado da estrada branca. Tornou-se cada vez maior com ofuscante rapidez. Atirou-se contra mim como um cavaleiro em um torneio, pareceu golpear minha cabeça e passou. Às vezes, quando fazíamos uma curva, o efeito era ainda mais terrível. Era como se uma árvore ou moinho de vento se voltasse para golpear como um bumerangue. O sol a essa altura era um fato ofuscante; e vi que toda a Natureza é cavalheiresca e militante. Fazemos mal em buscar a paz na Natureza: deveríamos, ao contrário, buscar a espécie mais nobre de guerra e ver todas as árvores como estandartes verdes.

Dei minha palestra, após chegar bem no momento em que todos decidiam ir embora. Quando meu táxi chegou balançando ao mercado, resolveram, com evidente desapontamento, ficar. Sobre a conferência estenderei um véu. Quando voltei para casa fui chamado ao telefone, e uma voz suave expressou pena pelo defeito do táxi e disse mesmo algo sobre um pagamento razoável. “A quem posso pagar por minha magnífica experiência? Qual é a taxa habitual para ver as nuvens quebradas pelo sol? Qual é o preço de mercado de uma árvore azulada contra o horizonte e depois branca sob o sol? Diga seu preço por aquele moinho que estava atrás das malvas no jardim. Deixe-me pagá-lo por...” Acredito que foi nesse ponto em que fomos interrompidos.

151 Condado ao norte de Londres.

152 No original, “It was doubtful weather [clima]”, provável gralha tipográfica do termo

“wether” [se].

153 Lanche salgado comum na Inglaterra.

154 Distrito no leste de Londres, com grande população de Bangladesh, foi o local de exposição do “Homem Elefante” e também dos crimes de Jack o Estripador.

155 Área no centro-sul de Londres onde vivia Chesterton.

156 Distrito no sul de Londres.


Os dois ruídos

POR TRÊS DIAS e três noites o mar investiu contra a Inglaterra como Napoleão em Waterloo. A frase é instintiva, pois até onde se divisava a última linha acinzentada de mar havia apenas a aparência de esquadras galopantes, impetuosas, porém com um objetivo em comum. O mar vinha como uma cavalaria, e quando tocava a costa abria os olhos chamejantes e línguas ensurdecedoras da artilharia. O pior ataque que vi foi à noite em uma esplanada à beira-mar, em que o mar golpeava as portas da Inglaterra com os martelos de um terremoto, e uma névoa branca subia pelos céus enegrecidos. Lá era possível entender completamente que coisa terrível é realmente uma onda. Falo como as outras pessoas sobre a rápida transitoriedade de uma onda. Mas o que existe de horrível nela é sua horrorosa lentidão. Ergue laboriosamente sua carga de água: daquela maneira ao mesmo tempo lenta e escorregadia com que um Titã levantaria uma grande rocha para em seguida deixá-la escorregar e partir-se em um amontoado de poeira. À minha frente naquela noite as ondas não eram como água: eram como muralhas de uma cidade que ruíam. A crista erguia-se primeiro como se não quisesse atacar a terra, mas apenas as estrelas. Por algum tempo equilibrava-se no ar tão naturalmente como uma torre; então aparecia algo errado em seu contorno, como uma torre que pudesse cair um dia. Quando quebrava, era como se houvesse explodido um paiol de pólvora.

Nunca vi um mar desses antes. O tempo todo havia através do campo um desses ventos fortes e sufocantes em que é possível apoiar-se como se fosse uma parede. Parecia que qualquer coisa poderia ser deformada pela ventania a qualquer momento: o poste poderia partir-se como um galho verde, a árvore poderia ser levada para longe como uma palha. Eu mesmo certamente teria sido deformado se possuísse qualquer forma que o pudesse ser; pois passeava pela borda de pedra do cais acima do mar negro e golpeante, e não podia me livrar da idéia de que era uma invasão da Inglaterra. Mas enquanto caminhava pela margem fui algo surpreendido ao descobrir que, à medida que me aproximava de um determinado ponto, outro som misturava-se ao bombardeio incessante do mar.

Em algum lugar lá no fundo, nalgum parque ou cassino ou local de entretenimento, uma intrépida banda de sopros estava tocando contra o tumulto cósmico. Não sei que banda era. A julgar pelo violento imperialismo britânico na maioria de suas melodias, pensaria que era uma banda alemã. Mas não havia dúvidas sobre sua energia, e quando me aproximei bastante ela realmente afogou a tempestade. Tocava músicas como “Tommy Atkins[ 157 ]” e “Você Pode Confiar na Austrália Jovem”, e muitas outras de cujos nomes não me lembro, mas que acredito que seriam “John, Pat e Mac com a Union Jack[ 158 ]”, ou aquele belo poema que nunca foi escrito, “Espere o Buldogue Te Morder”. Ora, sou uma pessoa que detesta o imperialismo, mas tenho grande simpatia pelo jingoísmo[ 159 ]. E havia algo tão tocante nessa contínua e inocente fanfarra sob a ameaça brutal da Natureza que surgiram, se posso dizer assim, duas melodias em minha mente. É tão óbvio e tão divertido ser otimista a respeito da Inglaterra, especialmente quando se é um otimista – e um inglês. Mas através de todo aquele glorioso som de metais vinha a voz da invasão, o sussurro daquele mar horrível. Fiz uma coisa tola. Como não conseguia expressar minha idéia em um artigo, tentei expressá-la em um poema – de má qualidade. Podem chamá-lo como quiserem. Poderia chamar-se “Dúvida”, ou “Brighton”. Poderia ser “O Patriota” ou até mesmo “A Banda Alemã”. Eu gostaria de chamá-lo “As Duas Vozes”, mas esse título já foi usado em um poema grosseiramente inferior[ 160 ]. Começava assim:

“O sol em teus joelhos é uma lâmpada
Que afasta o mal da terra que habitas,
E a teu redor os Sete Mares são
Ribeirões a banhar tua fazenda.
Ouço o mar e a canção recém-composta
Todo o dia a chamar-te imperatriz.

“(Ó caídos e infectos que jazeis
No pântano a morrer – não morrereis!
Vossos ricos têm segredos e luxúria,
Vossos pobres perseguidos como pó,
Privados de qualquer raiva ou surpresa –
E Deus ausentado de seus olhos,
Desfeitas vossas coortes – lá jazeis,
Torno a vos dizer, não morrereis.)”

[“They say the sun is on your knees
A lamp to light your lands from harm,
They say you turn the seven seas
To little brooks about your farm.
I hear the sea and the new song
that calls you empress all day long.

“(O fallen and fouled! O you that lie
Dying in swamps—you shall not die,
Your rich have secrets, and stronge lust,
Your poor are chased about like dust,
Emptied of anger and surprise—
And God has gone out of their eyes,
Your cohorts break—your captains lie,
I say to you, you shall not die.)”]

Então voltei a mim por alguns momentos, ao lembrar-me de que afinal há um país inglês que os imperialistas nunca descobriram. O Império Britânico pode anexar o que quiser, mas nunca anexará a Inglaterra. Ele nunca sequer descobriu a ilha, muito menos a conquistou. Voltei às duas melodias com uma simpatia maior pela primeira:

“Conheço as claras chuvas batismais,
Em teu céu suavemente perturbado,
E sei que tuas veredas sinuosas
São janelas a espreitar o Paraíso.
Das fogueiras ao frescor dos teus pomares
Quanta beleza e quanta liberalidade.

“(Ó vós, sufocados sem um grito,
Estrangulados, ainda assim não morrereis.
A palavra terrível em vossos muros,
O mar do leste ao mar do oeste clama,
As estrelas morrem no alto céu,
Não morrereis; jamais vós morrereis.)”

[“I know the bright baptismal rains,
I love your tender troubled skies,
I know your little climbing lanes,
Are peering into Paradise,
From open hearth to orchard cool,
How bountiful and beautiful.

“(O throttled and without a cry,
O strangled and stabbed, you shall not die,
The frightful word is on your walls,
The east sea to the west sea calls,
The stars are dying in the sky,
You shall not die; you shall not die.)”]

Então os dois grandes sons aumentaram juntos ensurdecedoramente, o som do perigo da Inglaterra e o som mais alto da serenidade da Inglaterra. É culpa deles que o último verso tenha sido escrito um pouco bruscamente e ao acaso:

“Vejo-te sorrir cerimoniosa
De Peak[ 161 ] até Plymouth[ 162 ] junto ao mar.
Não tens de me contar tua grandeza,
Pois sei o quanto acima dela estás.
O quanto significa William Shakespeare,
E os prados ao redor de Gainsborough[ 163 ].

“(Sempre pronta a crer em uma mentira,
Ó mi’a louca mãe, não morras nunca,
Tu que à volta vês, mas não a ti,
Cujo pecado é a própria inocência;
Não vês a trave em teu olho ao meio-dia,
Mas enxergas a poeira sobre a lua[ 164 ],
Conquistarás um dia enfim o teu amor.
No hospício derradeiro que te abrigue,
Terás meu apoio, até o meu.
Tu, que morta estás, não morrerás.)”

[“I see you how you smile in state
Straight from the Peak to Plymouth Bar,
You need not tell me you are great,
I know how more than great you are.
I know what William Shakespeare was,
I have seen Gainsborough and the grass.

“(O given to believe a lie,
O my mad mother, do do not die,
Whose eyes turn all ways but within,
Whose sin is innocence of sin,
Whose eyes, blinded with beams at noon,
Can see the motes upon the moon,
You shall your lover still pursue.
To what last madhouse shelters you
I will uphold you, even I.
You that are dead. You shall not die.)”]

Porém o mar não parou para mim mais do que para Canuto[ 165 ]; e, quanto à banda alemã, não pararia para ninguém.

157 Nome genérico usado popularmente para se referir aos soldados britânicos, especialmente na I Guerra Mundial.

158 "Union Jack": nome popular da bandeira do Reino Unido.

159 Nacionalismo exacerbado, que leva a julgar tudo o que é nacional superior ao estrangeiro.

160 Trata-se do poema “The Two Voices” (1842), de Alfred Tennyson.

161 Distrito na região norte da Inglaterra.

162 Cidade costeira no sudoeste da Inglaterra.

163 Thomas Gainsborough (1727-1788), pintor de inglês, conhecido principalmente por seus retratos e paisagens.

164 Paródia com Mt 7,3 e Lc 6,41: “Por que vês a palha no olho do teu irmão, e não enxergas a trave em teu olho?”

165 Canuto, o Grande (c. 995 – 1035) foi rei da Dinamarca, Noruega e Inglaterra.


Alguns Policiais e uma Moral

OUTRO DIA QUASE fui preso por dois animados policiais em um bosque em Yorkshire[ 166 ]. Eu estava de férias, e ocupava-me naquela rica e intrincada massa de prazeres, deveres e descobertas que, para evitar profanações, disfarçamos com o nome esotérico de “Nada”. No momento em questão estava atirando uma grande faca de Mora[ 167 ] em uma árvore, praticando (infelizmente sem sucesso) aquele útil truque de arremesso de facas com que os homens matam-se uns aos outros nos romances de Stevenson.

De repente a floresta encheu-se com dois policiais; havia algo sobre sua aparição entre as árvores que me lembrou, não sei como, alguma alegre comédia elizabetana. Perguntaram-me o que era a faca, quem eu era, por que a estava arremessando, qual era meu endereço, profissão, religião, opinião sobre a guerra japonesa[ 168 ], nome do gato favorito e assim por diante. Disseram também que eu estava estragando a árvore; o que era, lamento dizer, falso, porque não conseguira acertá-la. A importância filosófica peculiar do incidente, porém, era esta. Após cerca de meia hora de conversação animada, da exibição de um envelope, de um poema inacabado – que foi lido com grande cuidado e acredito que com algum proveito –, e de mais um ou dois sutis truques de detetive, o mais velho dos dois paladinos convenceu-se de que eu realmente era o que afirmava ser, que era um jornalista, que escrevia no Daily News (esse foi o verdadeiro golpe; eles foram sacudidos por um terror comum a todos os tiranos), que morava em um determinado lugar como afirmara, e que estava hospedado com determinadas pessoas em Yorkshire, que por acaso eram ricas e bem conhecidas na vizinhança.

De fato, o policial líder tornou-se enfim tão amável e cortês que acabou revelando-se um leitor do meu trabalho. E quando isso foi dito, tudo se arranjou. Eles me inocentaram e deixaram-me ir.

“Mas”, eu disse, “e essa árvore mutilada? Foi em resgate dessa dríade[ 169 ], acorrentada à terra, que vocês acorreram como cavaleiros andantes. Vocês, os humanitários superiores, não são enganados pela aparente imobilidade das coisas verdes, uma imobilidade como a de uma catarata, um impetuoso e esmagador silêncio. Vocês sabem que uma árvore é apenas uma criatura atada ao solo por uma perna, e não deixarão que assassinos com suas facas suecas derramem o sangue verde de um desses seres. Mas se é assim, por que não estou preso? Onde estão minhas algemas? Tirem, de alguma parte de suas roupas, minha cama de palha e minha janela com grades. Os fatos de que acabo de convencê-los, que meu nome é Chesterton, que sou jornalista, que estou hospedado na casa do renomado e filantrópico Mr. Blank de Ilkley[ 170 ], não têm nada a ver com a questão de se sou culpado de crueldade contra os vegetais. A árvore foi danificada, mesmo que possa refletir com sombrio orgulho que o foi por um cavalheiro ligado à imprensa liberal. Feridas na casca não se fecham mais rapidamente por serem infligidas por pessoas hospedadas com Mr. Blank de Ilkley. Aquela árvore, ruína do que já foi, escombros do que outrora fora um gigante da floresta, agora despedaçada e derrubada pela superioridade bruta de uma faca de mora, tal tragédia, senhor policial, não pode ser apagada mesmo se eu ficasse hospedado por mais vários meses com um ricaço. É incrível que vocês não tenham o direito de prender até mesmo as pessoas mais augustas e famosas por causa disso. Pois se é assim, por que me abordaram afinal?”

Fiz a última e maior parte desse discurso para a floresta silenciosa, pois os dois policiais haviam desaparecido quase tão rapidamente quanto apareceram. É bem possível, é claro, que fossem fadas. Nesse caso o caráter algo ilógico de sua visão de crime, lei e responsabilidade pessoal teria uma explicação brilhante e élfica; talvez se eu tivesse permanecido na clareira até o alvorecer veria grupos de minúsculos policiais dançando na relva, ou correndo ao redor com cintos de vaga-lumes, prendendo gafanhotos por estragarem folhas de grama. Mas considerando a hipótese mais ousada, de que realmente fossem policiais, encontro-me em certa dificuldade. Fui certamente acusado de algo que ou era um delito ou não. Fui deixado livre porque provei que era um hóspede de uma casa importante. A inferência parece dolorosamente clara: ou não é uma prova de infâmia atirar facas em uma floresta solitária, ou então conhecer um homem rico é uma prova de inocência. Suponha que uma pessoa muito pobre, ainda mais pobre do que um jornalista, um pedreiro ou trabalhador sem instrução, perambulando em busca de trabalho, mudando com freqüência de casa, talvez com freqüência atrasando o aluguel. Suponha que ele tenha se embriagado com a verde formosura da floresta antiga. Suponha que tenha arremessado facas em árvores e não pudesse dar outra descrição de um endereço exceto que fora despejado do último. Enquanto voltava para casa através de um nevoento e avermelhado crepúsculo, eu imaginava como ele iria se virar.

Moral. Nós ingleses sempre nos gabamos de que somos muito ilógicos; não há grande mal nisso. Não há nenhum sutil mal espiritual no fato de que as pessoas sempre se vangloriam de seus vícios; é quando começam a vangloriar-se de suas virtudes que se tornam insuportáveis. Mas deve ser dito que a falta de lógica na constituição ou nos sistemas legais pode tornar-se muito perigosa se por acaso houver um grande vício ou tentação nacional que possa tirar partido do caos. De modo similar, um bêbado deveria ter regras e horários estritos; um homem temperante pode seguir seus instintos.

Tome uma anomalia absurda na lei britânica – o fato, por exemplo, de que um homem que deixa de ser um membro do Parlamento tem de se tornar Administrador das Centenas de Chiltern[ 171 ], um cargo que acredito ter sido criado originalmente para reprimir ladrões perto de Chiltern, seja lá onde isso for. Obviamente esse tipo de falta de lógica não importa muito, pela simples razão de que não há uma grande tentação para tirar vantagem dela. Homens que se afastam do Parlamento não têm nenhum impulso furioso de caçar ladrões pelas montanhas. Mas caso houvesse um perigo real de que sábios, encanecidos e veneráveis políticos afastando-se da vida pública desejassem fazê-lo (se houvesse algum dinheiro nisso, por exemplo), então claramente, se continuássemos a dizer que a falta de lógica não importava quando Sir Michael Hicks-Beach[ 172 ] prosaicamente enforcasse comerciantes de Chiltern a cada dia para tomar suas propriedades, seríamos muito tolos. A falta de lógica passaria a importar, pois teria se tornado uma desculpa para a indulgência. Apenas os muito bons podem viver a vida desenfreadamente.

Ora, é exatamente isso que acontece em casos de investigação policial como o narrado acima. Introduz-se nessas coisas um grande pecado nacional, um vício bem maior que a bebida – o hábito de respeitar um cavalheiro. O esnobismo tem, como a bebida, algo de grande poesia. E o esnobismo tem essa peculiar e diabólica qualidade do mal, que é ser exuberante entre pessoas extremamente amáveis, com corações e casas abertas. Mas é o nosso grande vício inglês: ser vigiado mais atentamente do que a varíola. Se um homem quiser ouvir o que há de pior e mais infame na Inglaterra resumido em palavras inglesas casuais, não o encontraria em pragas sórdidas ou discussões blasfemas. Encontrá-lo-ia no fato de que o melhor tipo de trabalhador, quando quer elogiar um homem, chama-o “cavalheiro”. Nunca lhe ocorre que poderia chamá-lo “marquês” ou “conselheiro”, isto é, que está simplesmente dizendo um cargo ou classe, e não um termo para um bom homem. E essa perene tentação de admiração envergonhada deve constantemente invadir, e acredito que realmente o faz, para distorcer e envenenar nossos métodos policiais.

Neste caso devemos ser lógicos e exatos, pois temos que vigiar-nos a nós mesmos. O poder da riqueza, e esse poder em sua pior forma, está crescendo no mundo moderno. Um povo muito bom e justo, sem essa tentação, talvez não precisasse criar regras e sistemas claros para defender-se do poder de nossos grandes financistas. Mas isso é porque um povo muito justo os teria fuzilado há muito tempo, por simples e bons sentimentos naturais.

166 Maior condado do Reino Unido, no Nordeste da Inglaterra, que concentra algumas de suas maiores áreas verdes.

167 No original, “Swedish knife”. A pequena cidade sueca de Mora é tradicionalmente conhecida pela fabricação de facas.

168 Provavelmente a primeira guerra sino-japonesa (1894-5).

169 Na mitologia grega, dríades eram as ninfas das árvores.

170 Cidade balneária em West Yorkshire.

171 Os Ministros britânicos não podem deixar o cargo. Se querem fazê-lo, usam o expediente de tornarem-se regentes das Centenas de Chiltern. "Centena" é uma divisão de terra tradicional na Inglaterra. A região de Chiltern, até o século XVI, era usada como esconderijo por ladrões, e o regente era responsável por manter a ordem na região.

172 Michael Edward Hicks Beach (1837-1916), importante político conservador inglês.


O Leão

NA CIDADE DE BELFORT[ 173 ], pego uma cadeira e sento-me de frente para a rua. É um lugar-comum falar do “Homem da Rua”, mas o francês é o verdadeiro homem da rua. Coisas muito centrais para ele estão ligadas a esses postes e calçadas: tudo desde suas refeições até seus martírios. Quando um inglês olha pela primeira vez para uma cidade ou vilarejo francês, sua primeira impressão é simplesmente de que são mais feios que os ingleses; quando olha novamente, vê que essa relativa ausência do pitoresco está expressa principalmente nas fachadas lisas e íngremes das casas, que se erguem da rua duras e planas como as casas de papelão de uma pantomima – numa rígida angulação talvez aliada da aspereza da lógica francesa. Quando olha pela terceira vez, percebe muito simplesmente que tudo isso é porque as casas não têm jardins na frente. O vago espírito inglês adora ter a entrada de sua casa suavizada por arbustos e quebrada por degraus. Ele gosta de ter uma pequena antessala de cercas vivas, parte dentro da casa e parte fora; uma sala verde em um sentido duplo. O francês não deseja esses pequenos parapeitos patéticos ou lugares de parada, pois a própria rua é algo natural e familiar para ele.

Os franceses não têm jardins da frente; mas a rua é o jardim da frente de todos. Há árvores na rua, e às vezes fontes. A rua é a taverna do francês, pois ele bebe na rua. É sua sala de jantar, pois janta nela. É seu Museu Britânico, pois as estátuas e monumentos nas ruas francesas não são, como em nosso caso, a pior, mas sim a melhor arte do país, e de fato são freqüentemente tão históricas quanto as Pirâmides. A rua é ainda o Parlamento do francês, pois a França nunca levou sua Câmara de Deputados tão a sério quanto nós levamos a Câmara dos Comuns, e os jogos de palavras de seres insignificantes meramente eleitos em uma sala oficial parecem débeis para um povo cujos pais ouviram a voz de Desmoulins[ 174 ] soar como uma trombeta sob os céus, ou Victor Hugo[ 175 ] gritar de sua carruagem no meio da ruína da Segunda República. E da mesma forma que o francês bebe e janta na rua ele luta e morre na rua, de forma que esta nunca lhe será banal.

Veja-se, por exemplo, um objeto tão simples como um poste. Em Londres, um poste é algo cômico. Pensamos no cavalheiro embriagado abraçando-o e lembrando-se de antigas amizades. Mas em Paris um poste é algo trágico. Pois pensamos em tiranos enforcados e no fim do mundo. Há, ou houve, um amargo jornal republicano em Paris chamado La Lanterne[ 176 ]. Como seria engraçado se na Inglaterra houvesse um jornal progressista chamado O Poste! Dissemos, então, que o francês é o homem da rua; que pode jantar na rua, e morrer na rua. E se eu alguma vez passar por Paris e o vir indo para a cama na rua, direi que ele continua fiel ao espírito de sua civilização. Tudo o que é bom e tudo o que é mau na França está igualmente conectado a esse elemento de ar livre. A democracia e a indecência francesas são ambas parte do desejo de ter tudo para fora de casa. Comparada a um café, um pub é uma casa particular.

Havia duas razões para que todas essas idéias flutuassem pela mente nas ruas dessa especial cidade de Belfort. Em primeiro lugar, ela está perto da fronteira entre a França e a Alemanha, e fronteiras são as coisas mais belas do mundo. Amar qualquer coisa é amar suas fronteiras; por isso as crianças sempre brincam na beira de tudo. Constroem castelos na beira do mar, e só decretos públicos e violência privada conseguem impedi-las de andar na beira da grama. É que quando chegamos ao fim de uma coisa chegamos também ao seu início.

Assim esta cidade pareceu ainda mais francesa por estar na própria margem da Alemanha, e embora houvesse muitos toques alemães no lugar – nomes alemães, canecas de cerveja maiores e enormes garçonetes teatrais vestidas em revoltante imitação de camponesas da Alsácia –, as cores francesas pareciam ainda mais fortes apesar desses grãos de algo mais. Durante todo o dia e toda a noite, tropas de empoeirados, morenos e desdenhosos soldados vinham pesadamente pelas ruas com ar de obstinado descontentamento, pois os soldados alemães parecem desprezar você, mas os soldados franceses parecem desprezar a você e a eles mesmos ainda mais do que a você. Isso é parte, suponho, do realismo da nação que tornou tal sentimento bom na guerra e na ciência e em outras coisas em que o necessário se combina com o desagradável. E tanto os soldados quanto os civis tinham em sua maioria cabelos curtos, e aquele curioso formato da cabeça que parece quase brutal para um inglês, do tipo que chamamos “cabeça redonda ou de bala[ 177 ]”. Com efeito, falamos muito apropriadamente ao chamá-las cabeças de bala, pois na história intelectual as cabeças dos franceses foram balas – e do tipo explosivo.

Mas havia uma segunda razão por que nesse lugar eu pensasse particularmente na política ao ar livre e na arte ao ar livre dos franceses. Pois esta cidade de Belfort é famosa por um dos mais típicos e poderosos monumentos públicos da França. Da mesa do café em que me sento posso ver além da cidade a colina em que está a alta e lisa fortaleza, furada por muitas janelas e quente na luz da tarde. Na íngreme colina abaixo dela está um enorme leão de pedra, ele mesmo tão grande quanto uma colina. Está entalhado na rocha como uma espécie de marca gigantesca. Não houve tentativas triviais de fazê-lo parecido com uma estátua comum: não se tentou entalhar a juba com ondulações, ou separar o monstro detalhadamente da terra da qual se ergue, sacudindo o mundo. A face do leão tem algo da ousada formalidade da arte assíria. A juba foi deixada como uma informe nuvem de tempestade, como se fosse possível dizer dele literalmente que Deus envolveu seu pescoço com o trovão. Mesmo a essa distância parece imenso, e de alguma forma pré-histórico. No entanto foi entalhado apenas recentemente. Comemora o fato de que esta cidade nunca foi tomada pelos alemães em todo o ano terrível[ 178 ], mas que apenas depôs armas quando finalmente recebeu esta ordem de seu próprio Governo. Mas seu espírito está nesta terra desde os começos – o espírito de algo desafiador e quase derrotado.

Quando saio deste lugar e pego o trem para a Alemanha chegam às ruas notícias cada vez mais intensas de que o Sul da França está inflamado, e que talvez lá se inicie finalmente a terrível batalha moderna entre os ricos e os pobres. E ao passar a regiões mais calmas para ver os últimos sinais da França no horizonte, vejo o Leão de Belfort em guarda, última visão daquele grande povo que nunca esteve em paz.

173 Cidade no nordeste da França, próxima à fronteira da Alemanha e Suíça.

174 Lucie Simplice Camille Benoît Desmoulins (1760-1794), jornalista e político de destaque na Revolução Francesa.

175 Victor-Marie Hugo (1802-1885), importante escritor do Romantismo francês, autor de Os Miseráveis e O Corcunda de Notre Dame.

176 “La Lanterne” é o nome de um poste de uma esquina de Paris usado pela multidão para linchamentos durante a Revolução Francesa.

177 No original, “bullet-head”. Para manter o entendimento do trocadilho que se segue, optou-se por registrar simultaneamente a tradução literal e seu significado”.

178 Período entre Agosto de 1870 e Julho de 1871, em que ocorreu a Guerra Franco-Prussiana.


Humanidade: um interlúdio

EXCETO POR ALGUMAS belas obras de arte, que parecem estar lá por acidente, a cidade de Bruxelas é como uma Paris ruim, uma Paris com todas as coisas nobres cortadas e todas as coisas desagradáveis deixadas. Ninguém pode entender Paris e sua história se não entender que sua ferocidade é o equilíbrio e justificativa da sua frivolidade. É chamada uma cidade de prazer; mas pode também chamar-se muito especialmente uma cidade de dor. A coroa de rosas é também uma coroa de espinhos. Seu povo é muito propenso a magoar os outros, mas também a magoar a si mesmo. São mártires da religião, e são mártires da irreligião; são mártires até da imoralidade. Pois a indecência de muitos de seus livros e jornais não é do tipo que encanta e seduz, mas do tipo que horroriza e fere; eles se torturam. Espicaçam e avivam seu patriotismo com os mesmos açoites que a maioria dos homens usa para silenciar os estrangeiros. Os inimigos da França nunca poderão fazer a respeito de sua infâmia ou decadência uma crítica que não pareça insípida e até mesmo polida em comparação com as coisas que dizem sobre sua própria nação os nacionalistas da França. Eles se insultam e se atormentam; às vezes até se oprimem deliberadamente. Assim, quando a plebe de Paris pôde criar um Governo ao seu gosto, fez uma espécie de sublime tirania para lhe dar ordens. O espírito é o mesmo desde as Cruzadas ou São Bartolomeu[ 179 ] até a apoteose de Zola[ 180 ]. Os velhos religiosos torturavam os homens fisicamente em nome de uma verdade moral. Os novos realistas torturam os homens moralmente em nome de uma verdade física.

Ora, Bruxelas é Paris sem sua constante purificação pela dor. Suas indecências não são incidentes lamentáveis em uma eterna revolução. Não tem nenhuma das coisas que fazem os bons franceses amarem Paris; tem apenas as coisas que fazem com que ingleses inabordáveis a amem. Tem a parte que é cosmopolita – e estreita; não a parte que é parisiense – e universal. Podem-se encontrar lá (como é comum em centros modernos) as piores coisas de todas as nações – o Daily Mail da Inglaterra, as filosofias baratas da Alemanha, as novelas indefinidas da França e as bebidas da América. Mas não há o compreensivo humor inglês, nem a bondosa cerimônia alemã, nem a alegria americana nem, acima de tudo, a luta francesa por uma idéia. Embora todas as avenidas pareçam avenidas parisienses, embora todas as lojas pareçam lojas parisienses, não é possível contemplá-las fixamente por dois minutos sem sentir a grande diferença entre, digamos, o Rei Leopold e lutadores como Clemenceau[ 181 ] e Deroulède[ 182 ].

Por todas essas razões, e muitas mais, quando cheguei a Bruxelas comecei a fazer todos os preparativos necessários para sair novamente de lá; e tinha impulsivamente entrado em um bonde que parecia estar saindo da cidade. Nele havia dois homens conversando: um era um homem pequeno com uma negra barba francesa; o outro era um homem meio calvo com suíças cerradas, como o conde financista estrangeiro de uma farsa em três atos. E por volta do momento em que chegamos à periferia da cidade, e o tráfego tornou-se menor e os barulhos mais baixos, comecei a ouvir o que estavam dizendo. Embora falassem francês rapidamente, suas palavras eram bastante fáceis de entender, porque eram todas palavras compridas. Qualquer um pode entender palavras compridas porque todas elas têm a lucidez do latim.

O homem da barba preta disse: “É preciso que tenhamos progresso.”

O homem das suíças esquivou-se inteligentemente dizendo: “É preciso também que tenhamos consolidação internacional”.

Esse é um tipo de discussão do qual eu pessoalmente gosto, daí escutei com mais atenção e acho que peguei o fio da meada. Um dos belgas era um “Pequeno Belga”, no mesmo sentido em que falamos de um “Pequeno Inglês”[ 183 ]. O outro era um imperialista belga, pois embora a Bélgica não seja forte o suficiente para ser uma nação, o é para ser um império. Ser uma nação significa estar em pé de igualdade com seus iguais, enquanto ser um império significa apenas chutar seus inferiores. O homem das suíças era o imperialista, e dizia: “A ciência, eis nela a nova guia da humanidade”.

E o homem da barba respondeu: “Não basta haver progresso na ciência; deve havê-lo também no sentimento da justiça humana.”

Aplaudi esse comentário, como se estivesse em um comício, mas eles estavam por demais absorvidos na discussão para ouvir-me. Já ouvi essas idéias com freqüência na Inglaterra, mas nunca enunciadas tão lucidamente, e com certeza nunca de forma tão rápida. Embora de nacionalidade belga, ambos deviam ser essencialmente franceses. O das suíças era ótimo em educação, a qual, parece, está avançando. O mundo todo caminha para se tornar instruído. É preciso que os mais instruídos iluminem os menos. Bem, então, o europeu deveria impor ao selvagem a ciência e a luz. Além disso (aparentemente), deveria impor-se a si mesmo ao selvagem enquanto isso. Hoje viaja-se rápido. A ciência mudou tudo. Quanto a nossos pais, eram religiosos e (o que é pior) estão mortos. A humanidade de hoje tem a eletricidade nas mãos; as máquinas venceram: todas as linhas e limites do globo se desfizeram. Logo não haverá senão os grandes impérios e confederações, guiados pela ciência, sempre a ciência.

Nesse ponto o das suíças parou um instante para respirar; e o homem com o sentimento da justiça humana tomou-lhe a palavra num piscar de olhos. Sem dúvida a Humanidade estava progredindo, mas rumo aos sentimentos, ao ideal, aos métodos morais e pacíficos. A Humanidade se dirigia para a Humanidade. Pois suas guerras e impérios em nome da civilização que foram afinal? A guerra não foi em si mesma um ato de barbárie? Os impérios não foram coisas selvagens? A Humanidade ultrapassou tudo isso; agora ela é intelectual. Tolstoi[ 184 ] refinou as almas humanas com os sentimentos mais delicados e justos. O homem tornou-se um espírito; levado por suas asas...

Nesse importante ponto da evolução o trem fez uma parada brusca; e olhando ao redor reparei, para minha consternação, que estava quase escuro, que eu estava longe de Bruxelas, que não podia nem pensar em voltar para o jantar; em resumo, que por causa do absorvente fascínio dessa grande controvérsia sobre a Humanidade e sua completa alteração recente pela ciência ou por Tolstoi eu havia ido parar sabe Deus onde. Desci apressadamente do bonde suburbano e deixei-o continuar sem mim.

Eu estava sozinho nas planícies, fora de vista da cidade. De um lado da estrada havia um daqueles bosques pequenos e ralos que são comuns em todos os países, mas que, por coincidência, os pintores místicos de Flandres apreciavam muito. A noite caía em tons esfumados violáceos e cinzas; havia uma faixa de prata, o último resto do pôr do sol. Através do bosque seguia um pequeno caminho, e de alguma forma ele me sugeriu que poderia levar a algum sinal de vida – não havia outro sinal de vida no horizonte. Enveredei por ele, e logo mergulhei em uma espécie de penumbra dançante de todas aquelas pequenas árvores. Há algo sutil e desconcertante sobre esse tipo de bosque frágil e fantástico. Uma floresta de grandes árvores parece uma barreira física; mas de alguma forma aquela névoa de finas linhas parece uma barreira espiritual. É como se a pessoa fosse pega por uma nuvem mágica ou não conseguisse atravessar um fantasma. Quando já havia perdido de vista o último sinal da estrada principal, um sentimento curioso e bem definido me surpreendeu. Passei a sentir subitamente algo muito mais prático e extraordinário – a ausência da humanidade: a solidão desumana. É claro, não havia nada realmente perdido no estado em que me encontrava; mas o sentimento pode atacar em qualquer lugar. Eu queria seres humanos – qualquer um; e sentia nossa terrível aliança por todo o globo. E por fim, quando havia andado pelo que pareceu um longo tempo, vi uma luz muito próxima da terra para significar qualquer outra coisa que não a imagem de Deus.

Saí para uma clareira, e surgiu uma cabana baixa e comprida, cuja porta estava aberta, mas bloqueada por um grande cavalo cinzento, que parecia preferir comer com sua cabeça dentro da sala de visitas. Passei por ele e descobri que era alimentado por um jovem que estava sentado e bebendo cerveja do lado de dentro, e que me saudou com uma pesada cortesia rústica, mas em uma língua estranha. O aposento estava repleto de faces de olhares arregalados como corujas, que verifiquei pertencerem a cerca de seis crianças pequenas. Seu pai ainda estava trabalhando no campo, mas a mãe levantou-se quando entrei. Sorriu, mas tanto ela quanto o resto falavam alguma linguagem rude, suponho que flamengo; assim, tínhamos de ser corteses uns com os outros por sinais. Ela me trouxe cerveja, e apontou meu caminho com o dedo; e eu fiz um desenho para agradar às crianças; e como era uma figura de dois homens golpeando-se com espadas, agradou-lhes muito. Então dei uma moeda belga para cada criança, pois como arrisquei dizer em francês, “é preciso que tenhamos igualdade econômica”. Mas eles nunca haviam ouvido falar da igualdade econômica, ao passo que todos os operários de Battersea já ouviram falar de igualdade econômica, embora seja verdade que não a têm.

Encontrei o caminho de volta para a cidade, e depois de algum tempo cheguei mesmo a ver na rua meus dois homens conversando, sem dúvida um ainda dizendo que a Ciência mudara tudo na Humanidade e outro que a Humanidade estava dando asas aos puramente intelectuais. Mas para mim a Humanidade estava presa a uma imagem acidental. Pensei em uma casa baixa e solitária na planície, por trás de um véu ou película de árvores delgada; um homem quebrando o chão como os homens fazem desde a manhã do primeiro dia, e um enorme cavalo cinzento ruminando sua comida a um pé da cabeça de uma criança, como no estábulo em que Cristo nasceu.

179 O Massacre de São Bartolomeu foi uma série de assassinatos iniciados em 23 de Agosto de 1572 durante as Guerras de Religião na França.

180 Émile François Zola (1840-1902), principal escritor da escola naturalista francesa.

181 Georges Benjamin Clemenceau (1841-1929), enérgico e importante líder político francês, foi Primeiro Ministro durante a I Guerra Mundial.

182 Paul Déroulède (1846-1914), escritor e político francês, lutou na Guerra Franco-Prussiana.

183 No original, “Little Englander”, termo usado para referir-se aos anti-imperialistas, favoráveis a que a Inglaterra se limitasse às Ilhas Britânicas. Atualmente usa-se pejorativamente contra os excessivamente nacionalistas e xenófobos.

184 Lev Nikolayevitch Tolstoy (1828-1910), consagrado escritor russo, autor de Anna Karênina e Guerra e Paz.


Os Passarinhos Que Não Cantam

EM MINHA ÚLTIMA manhã na costa flamenga, quando sabia que em algumas horas estaria na Inglaterra, meu olhar caiu sobre um dos detalhes de escultura gótica de que Flandres está cheia. Não sei se o objeto era antigo, embora estivesse certamente desgastado e indecifrável, mas ao menos tinha certamente o estilo e a tradição da Alta Idade Média. Parecia representar homens dobrando-se (para não dizer retorcendo-se) em alguns trabalhos primários. Alguns pareciam ser marinheiros puxando cordas; outros, acho, estavam ceifando; outros estavam energicamente derramando alguma coisa em outra. Isto é inteiramente característico das figuras e gravuras do início do século XIII, talvez o período mais puramente vigoroso da história. Os grandes gregos preferiam esculpir seus deuses e heróis fazendo nada. Por mais esplêndida e filosófica que seja sua compostura, sempre há nela algo que indica o senhor de muitos escravos. Mas se havia uma coisa de que os alto-medievos gostavam era representar as pessoas fazendo algo – caçando ou falcoando, ou remando ou pisando em uvas ou fazendo sapatos ou cozinhando alguma coisa num pote. “Quicquid agunt homines, votum, timor, ira voluptas.[ 185 ]” (Cito de cabeça). A Idade Média está cheia desse espírito em todos os seus monumentos e manuscritos. Chaucer[ 186 ] o retém em sua alegre insistência no tipo de negócios e trabalhos de todos. Foi a mais antiga e mais juvenil ressurreição da Europa, a época em que a ordem social estava se fortalecendo, mas ainda não se tornara opressiva; época em que os sentimentos religiosos eram fortes, mas ainda não se haviam tornado exasperantes. Por essa razão, o efeito final das gravuras gregas e góticas é diferente. As figuras nos mármores de Elgin, embora estejam com freqüência dominando seus corcéis por um instante no ar, parecem estar congeladas para sempre naquele instante perfeito. Mas um bloco de gravuras medievais parece mais uma espécie de alvoroço ou confusão de pedra. Às vezes não é possível evitar a sensação de que os grupos realmente se movem e se misturam, e a fachada toda de uma grande catedral tem o zumbido de uma enorme colméia.

Mas sobre estas figuras em particular havia uma peculiaridade da qual eu não conseguia estar certo. Aquelas que tinham cabeças tinham-nas muito curiosas, e pareceu-me que suas bocas estavam abertas. Se isso tinha realmente algum significado ou era apenas um acidente da nascente arte não sei; mas enquanto pensava lembrei-me de que cantar era algo ligado a muitas das tarefas ali sugeridas, que havia canções para ceifadores e canções para marinheiros puxarem cordas. Ainda pensava nesse pequeno problema enquanto andava pelo embarcadouro em Ostend[ 187 ], e ouvi alguns marinheiros soltando gritos ritmados enquanto faziam força, e lembrei-me de que os marinheiros ainda cantam em coro enquanto trabalham, inclusive canções diferentes conforme a parte do trabalho que estão realizando. E pouco depois, quando minha viagem marítima acabou, a visão de homens trabalhando nos campos ingleses recordou-me novamente que ainda há canções para a colheita e para vários procedimentos agrícolas. E repentinamente perguntei-me: se era assim, por que é estranho às profissões modernas terem alguma poesia ritual? Como as pessoas passaram a cantar rudes poemas enquanto puxavam certas cordas ou colhiam certas frutas, e por que ninguém faz nada assim ao produzir as coisas modernas? Por que um jornal moderno nunca é impresso por pessoas cantando em coro? Por que os lojistas raramente cantam (se alguma vez o fazem)?

Se os ceifadores cantam ao ceifar, por que os auditores não deveriam fazê-lo ao auditar e banqueiros ao acumular? Se há canções para todas as coisas diferentes que têm de ser feitas em um barco, por que não as há para todas as coisas diferentes que têm de ser feitas em um banco? Enquanto o trem de Dover[ 188 ] atravessava rapidamente os jardins de Kent, tentei escrever algumas canções que servissem aos funcionários do comércio. Assim, o trabalho dos caixas de banco ao fazer lançamentos poderia começar com um trovejante coro em louvor da Adição.

“Já, rapazes, ergam os livros, fora o sono e a paz. Ouçam as estrelas da manhã gritando: ‘Dois e dois são quatro’. Embora os credos e reinos mudem, embora os sofistas urrem, embora choremos e empenhemos os relógios, dois e dois são quatro”.

“Há uma corrida ao banco – Para longe! Pois o Gerente é um excêntrico e o Secretário um bebedor, e o

Banco de Upper Tooting
Está em cheque!
Fique perto:
Há uma corrida ao banco.
De nosso barco real, que a lenda cante,
Que disparou todos os canhões
Antes de afundar.”

[Upper Tooting Bank
Turns to bay!
Stand close: there is a run
On the Bank.
Of our ship, our royal one,
Let the ringing legend run,
That she fired with every gun
Ere she sank.]

Ao entrar no nevoeiro de Londres encontrei um amigo meu que trabalha de fato em um banco, e mostrei-lhe estas sugestões de rimas para que usasse entre seus colegas. Porém ele não mostrou grande esperança no assunto. Não era (garantiu-me) que menosprezasse os versos, ou de qualquer forma lamentasse sua falta de acabamento. Não: sentia que era principalmente algo na própria atmosfera da sociedade em que vivemos que faz com que seja espiritualmente difícil cantar em bancos. E acho que ele deve estar certo, embora o tema seja muito misterioso. Posso observar aqui que acredito haver algum engano nos cálculos dos socialistas. Eles atribuem toda a nossa infelicidade, não a uma situação moral, mas ao caos da iniciativa privada. Ora, bancos são privados; mas agências dos correios são socialistas: portanto, eu naturalmente esperava que o correio entraria na idéia coletivista de um coro. Julguem minha surpresa quando a atendente em minha agência local dos correios (a quem pedi insistentemente que cantasse) descartou a idéia com frieza bem maior que a do funcionário do banco. Ela parecia de fato estar em um estado de depressão consideravelmente maior do que ele. Se alguém achar que isso era por causa dos próprios versos, é mais que justo dizer que a amostra de versos do Hino dos Correios era assim:

“Por Londres como neve se espalham nossas cartas,
Os telegramas pelo mundo qual relâmpagos vão.
Notícias que podem casar uma donzela em Sark[ 189 ],
Ou matar uma senhora em Finsbury Park.[ 190 ]”
Coro (com alegria e energia renovadas):
“Ou matar uma senhora em Finsbury Park.”

[“O’er London our letters are shaken like snow,
Our wires o’er the world like the thunderbolts go.
The news that may marry a maiden in Sark,
Or kill an old lady in Finsbury Park.”
Chorus (with a swing of joy and energy):
“Or kill an old lady in Finsbury Park.”]

E quanto mais pensava sobre o assunto, mais certeza parecia ter de que as coisas modernas mais importantes e típicas não podiam ser feitas com um coro. Não seria possível, por exemplo, ser um grande financista e cantar: porque a essência de ser um grande financista é você se manter quieto. Em muitos círculos modernos não seria possível sequer ser um homem público e cantar; porque nesses círculos a essência de ser um homem público é que quase tudo é feito privadamente. Ninguém imaginaria um coro de agiotas. Todos conhecem a história do batalhão de voluntários procuradores que, quando o coronel no campo de batalha gritou “Atacar!”, disseram todos simultaneamente: “Seis libras e oito pence”[ 191 ]. Os homens podem cantar enquanto atacam num sentido militar, mas dificilmente num sentido legal [i.e, enquanto cobram]. E no final de minhas reflexões não consegui de fato chegar mais longe do que o sentimento subconsciente de meu amigo do banco – que há algo espiritualmente sufocante sobre nossa vida; não apenas sobre nossas leis, mas sobre nossa vida. Os bancários não têm canções, não porque são pobres, mas porque são tristes. Marinheiros são muito mais pobres. Enquanto ia para casa passei por uma pequena construção metálica de algum tipo de religião, que era sacudida com gritos como uma trombeta que se rompe com seu próprio som. Eles estavam cantando, de qualquer forma; e tive por um instante uma impressão que já tivera freqüentemente antes: que entre nós o sobre-humano é o único lugar em que se pode encontrar o humano. A Natureza Humana está sendo caçada e escondeu-se num santuário.[ 192 ]

185 A frase original é uma citação das Sátiras de Juvenal: “Quidquid agunt homines, votum, timor, ira, voluptas, gaudia, discursus nostri farrago libelli est” [O que quer que façam os homens – desejo, medo, ira, prazer, alegria, andanças – é alimento do meu livro].

186 Geoffrey Chaucer (c. 1343-1400), considerado o maior poeta inglês da Idade Média.

187 Cidade portuária da Bélgica.

188 Cidade portuária no condado de Kent, sudeste da Inglaterra.

189 Pequena ilha no Canal da Mancha, dependente da Coroa Britânica. Tem pouco mais de 600 habitantes e é considerado o último território europeu com sistema feudalista.

190 Área no norte de Londres, importante interseção do metrô, trem e ônibus londrino.

191 Jogo de palavras intraduzível entre dois significados da palavra “charge”: atacar e cobrar. (N do T).

192 No original, “fled into sanctuary”. Jogo de palavras difícil de traduzir entre dois significados do termo: santuário religioso e refúgio, abrigo.


O Enigma da Hera

HÁ MAIS DE UM MÊS, quando eu saía de Londres em férias, um amigo entrou em meu apartamento em Battersea e encontrou-me rodeado de bagagem semi-empacotada.

“Você parece estar saindo de viagem”, disse-me. “Para onde vai?”

Com uma cinta entre os dentes respondi: “A Battersea.”

“Foge-me completamente a brincadeira em sua resposta”, disse-me.

“Estou indo para Battersea”, repeti. “Para Battersea via Paris, Belfort, Heidelberg e Frankfurt. Minha resposta não tinha nenhuma brincadeira. Continha apenas a verdade. Vou perambular pelo mundo inteiro até achar Battersea outra vez. Em algum lugar nos mares do poente ou do nascente, algures no último arquipélago da terra, há uma pequena ilha que desejo encontrar: uma ilha com colinas verdes baixas e grandes falésias brancas. Os viajantes dizem-me que se chama Inglaterra (viajantes escoceses dizem que se chama Bretanha), e há rumores de que em algum lugar no coração dela há um belo lugar chamado Battersea.”

“Suponho que é desnecessário dizer-lhe”, disse meu amigo, com um ar de comparação intelectual, “que Battersea é aqui?”

“É bastante desnecessário”, disse-lhe, “e espiritualmente falso. Não consigo enxergar nenhuma Battersea aqui; não consigo enxergar nenhuma Londres ou nenhuma Inglaterra. Não consigo ver aquela porta. Não consigo ver aquela cadeira: pois uma nuvem de sono e costume está à frente de meus olhos. A única forma de voltar é ir a algum outro lugar; e este é o verdadeiro objetivo das viagens e o prazer das férias. Você acha que vou à França para ver a França? Acha que vou à Alemanha para ver a Alemanha? Posso apreciar as duas, mas não é a elas que procuro. Procuro Battersea. Todo o objetivo de uma viagem não é pôr os pés em uma terra estrangeira: é pôr os pés enfim no seu próprio país como se fosse uma terra estrangeira. Agora eu lhe aviso que esta valise[ 193 ] é compacta e pesada, e que se você pronunciar a palavra “paradoxo” vou atirá-la na sua cabeça. Eu não fiz o mundo, e não o fiz paradoxal. Não é minha culpa, é a verdade, que o único jeito de ir para a Inglaterra é sair dela.”

Mas quando, após viajar por apenas um mês, finalmente voltei à Inglaterra, fiquei espantado ao descobrir que havia contado a pura verdade. A Inglaterra impôs-se a mim ao mesmo tempo formosamente nova e formosamente velha. Aportar em Dover é a forma certa de chegar à Inglaterra (a maioria das coisas que são lugares-comuns são certas), pois então se vêem primeiro os jardins cheios e suaves de Kent, que são, talvez, um exagero, mas ainda assim um exagero típico, da rica rusticidade da Inglaterra. Aconteceu, também, que uma companheira de viagem com quem entabulara uma conversa sentiu o mesmo frescor, embora por outra causa. Ela era uma senhora americana que vira a Europa, e ainda não tinha visto a Inglaterra, e expressava seu entusiasmo daquela forma simples e esplêndida natural aos americanos, que são o povo mais idealista em todo o mundo. Seu único perigo é que o idealista pode facilmente tornar-se o idólatra. E o americano tornou-se tão idealista que idealiza até mesmo o dinheiro. Mas (para citar um autor muito hábil de contos americanos) essa é outra história.

“Nunca estive na Inglaterra antes”, disse a senhora americana, “e mesmo assim ela é tão bonita que me sinto como se tivesse estado longe por muito tempo”.

“Esteve mesmo”, disse eu; “esteve longe por trezentos anos”.

“Quanta hera vocês têm”, disse ela. “Cobre as igrejas e sepulta as casas. Nós temos hera; mas nunca a vi crescer desse jeito”.

“Fiquei interessado em ouvi-la”, retruquei, “pois estou fazendo uma pequena lista de todas as coisas que são muito melhores na Inglaterra. Mesmo um mês no continente, combinado com a inteligência, ensina que há muitas coisas que são melhores no estrangeiro. Mas há coisas inteiramente inglesas e inteiramente boas. Peixe defumado, por exemplo, e Livre Comércio, e jardins da frente, e liberdade individual, e o teatro elizabetano, e cabriolés, e críquete, e Mr. Will Crooks[ 194 ]. Acima de tudo, há o alegre e sagrado costume de tomar um café da manhã substancioso. Não consigo imaginar que Shakespeare começasse o dia com pãezinhos e café como um francês ou um alemão. Ele certamente começava com bacon ou arenque defumado. De fato, uma luz se acende sobre mim: pela primeira vez entendo o verdadeiro significado de Mrs. Gallup[ 195 ] e o Grande Código[ 196 ]. É simplesmente um engano em uma letra maiúscula. Retiro minhas objeções; aceito tudo: bacon realmente escreveu Shakespeare.”

“Não consigo olhar para nada além da hera”, disse ela, “parece tão confortável”.

Enquanto ela olhava para a hera, abri pela primeira vez em muitas semanas um jornal inglês e li um discurso de Mr. Balfour[ 197 ] em que ele dizia que a Câmara dos Lordes deveria ser preservada porque representava algo da natureza da opinião pública permanente da Inglaterra, acima do fluxo e refluxo dos partidos. Ora, Mr. Balfour é um patriota perfeitamente sincero, um homem que, de seu ponto de vista, pensa longa e seriamente sobre as necessidades do povo, e é, além disso, um homem de capacidade intelectual inteiramente excepcional. Mas infelizmente, apesar de tudo isso, quando terminei de ler aquele discurso pensei com o coração pesado que havia mais uma coisa que devia acrescentar à lista de coisas especialmente inglesas, como peixe defumado e críquete; tinha de acrescentar a forma especialmente inglesa de mistificação. Na França as coisas são atacadas e defendidas pelo que são. A Igreja Católica é atacada porque é católica, e defendida porque é católica. A República é defendida porque é republicana, e atacada porque é republicana. Mas aqui está o mais hábil dos políticos ingleses confortando a todos ao afirmar que a Câmara dos Lordes não é na realidade a Câmara dos Lordes, mas algo bem diferente; que os tolos pares acidentais que ele encontra todas as noites são de alguma forma misteriosa especialistas na psicologia da democracia; que se você deseja saber o que o muito pobre quer deve perguntar ao muito rico; e que se quer saber a verdade sobre Hoxton[ 198 ] deve perguntar em Hatfield[ 199 ]. Se o Conservador defensor da Câmara dos Lordes fosse um político francês lógico, seria simplesmente um mentiroso. Mas se é um político inglês é simplesmente um poeta. O amor inglês por acreditar que tudo é como devia ser, o otimismo inglês combinado com a poderosa imaginação inglesa, são demais até mesmo para os fatos óbvios. Em um sentido frio e científico, é claro, Mr. Balfour sabe que quase todos os Lordes que não o são por acidente; são-no por suborno. Ele sabe, e (como Mr. Belloc[ 200 ] disse de forma excelente) todos no Parlamento sabem os próprios nomes dos membros que compraram seus lugares. Mas a fascinação do conforto, o prazer de tranqüilizar a si mesmo e aos outros é forte demais para esse conhecimento original; por fim este se extingue, e o homem sincera e zelosamente conclama os ingleses a juntarem-se a ele para admirar um Senado augusto e preocupado com o bem público, esquecendo-se completamente de que o Senado na verdade consiste de idiotas que ele mesmo já desprezou e de aventureiros que ele mesmo já enobreceu.

“Sua hera é tão maravilhosamente macia e espessa”, disse a americana, “parece que cobre quase tudo. Deve ser a coisa mais poética da Inglaterra.”

“É muito bonita”, respondi, “e, como diz, é muito inglesa. Charles Dickens, que era quase mais inglês do que a Inglaterra, escreveu um de seus raros poemas sobre a beleza da hera. Sim, sem dúvida admiremos a hera, tão profunda, tão quente, tão cheia de uma amável melancolia e de uma grotesca delicadeza. Admiremos a hera; e rezemos a Deus em Sua misericórdia para que ela não mate a árvore.”

193 No original, “Gladstone bag”, tipo de valise ou mala de couro com uma base rígida que se fecha por cima. O nome deriva de William E. Gladstone, Primeiro-Ministro Britânico do século XIX.

194 William Crooks (1852-1921), sindicalista e político inglês.

195 Elizabeth Wells Gallup (1848-1934), educadora americana e estudiosa da teoria baconiana, pela qual afirmava-se que Francis Bacon seria o verdadeiro autor das obras de Shakespeare e que isso seria perceptível através de informações em código no próprio texto das peças.

196 Sistema de códigos para mensagens secretas usado pela França até o século XIX e reputado como inquebrável.

197 Arthur James Balfour (1848-1930), Primeiro Ministro britânico de 1902 a 1905.

198 Região no centro de Londres, imediatamente a norte da City.

199 Há vários lugares possíveis com esse nome, todos distantes de Londres.

200 Joseph Hilaire Pierre René Belloc (1870-1953), escritor britânico e um dos melhores amigos de Chesterton.


Os Viajantes Cerimoniosos

OUTRO DIA, para meu grande espanto, peguei um trem; era um trem que ia para os Condados do Leste e consegui pegá-lo no último momento. E, enquanto corria ao seu lado (entre a admiração geral), notei que havia um número bastante peculiar e incomum de vagões marcados como “Reservado”. Em cinco, seis, sete, oito, nove vagões estava afixado o pequeno aviso: em cinco, seis, sete, oito, nove janelas havia homens grandes e plácidos vigiando no consciente orgulho da posse. Seus corpos pareciam mais impenetráveis do que habitualmente, suas faces mais plácidas que o habitual. Não podia ser o Derby[ 201 ], entre outras razões porque era a direção oposta e o dia errado. Dificilmente seria o Rei. Dificilmente seria o presidente da França. Pois, embora essas distintas personagens naturalmente apreciem a vida privada por três horas, são ao menos públicos por três minutos. Uma multidão pode juntar-se para vê-los subir ao trem; e não havia multidão aqui, e nenhuma polícia cerimonial.

Quem eram essas horríveis pessoas, que ocupavam no trem um espaço maior que uma festa[ 202 ] de pedreiros, mas eram mais melindrosos e delicados que a própria comitiva do Rei? Quem eram aqueles, maiores que uma multidão, mas mais misteriosos que um monarca? Seria possível que ao invés de nossa Família Real visitar o Czar fosse ele que nos estivesse visitando? Ou seria a Câmara dos Lordes tomando o café da manhã? Esperei e pensei a respeito até o trem desacelerar em alguma estação na direção de Cambridge. Então os grandes e impenetráveis homens saíram, e atrás deles saíram os distintos ocupantes dos assentos reservados. Vestiam-se todos decorosamente com uma só cor; tinham os cabelos elegantemente curtos; e estavam acorrentados uns aos outros.

Olhei ao longo do vagão para seu outro único ocupante, e nossos olhos se encontraram. Era um homem pequeno e de aspecto cansado e, como descobri depois, natural de Cambridge; pelo seu aspecto, um trabalhador manual como um alfaiate ou relojoeiro. Para começar uma conversa, eu disse que me perguntava aonde os prisioneiros estariam indo. Sua boca torceu-se com a ironia instintiva de nossos pobres, e ele disse: “Não creio que estejam indo passar as férias na praia com pazinhas e baldinhos”. Naturalmente, fiquei encantado e, seguindo a mesma linha de invenção literária, sugeri que talvez os professores fossem levados a Cambridge acorrentados daquela maneira. E como ele vivia em Cambridge, e já vira muitos professores, gostou da imagem. Quando paramos de rir, ficamos repentinamente muito quietos; e os olhos acinzentados e mortiços do homenzinho tornaram-se mais tristes e vazios que o mar aberto. Eu sabia o que ele estava pensando, porque eu estava pensando o mesmo, porque todos os sofistas modernos são apenas sofistas e a humanidade é algo que realmente existe. Enfim ele disse (e isso encaixou-se tão exatamente como a última nota de uma melodia de que alguém tenta se lembrar): “Bem, acho que nós temos de fazê-lo”. E naquelas três coisas, sua primeira fala, seu silêncio e sua segunda fala, havia todos os três grandes fatos fundamentais da democracia inglesa: seu profundo senso de humor, seu profundo senso de sofrimento e seu profundo senso de desamparo.

Nunca é demais repetir que toda verdadeira democracia é uma tentativa (como a de uma alegre anfitriã) de expor as pessoas tímidas. Para todos os propósitos práticos de um estado político, para todos os propósitos práticos de um chá da tarde, quem se humilha deve ser exaltado[ 203 ]. Em um chá da tarde é igualmente óbvio que quem se exalta deve ser humilhado, se possível sem violência física. Ora, as pessoas falam da democracia como sendo grosseira e turbulenta: é um erro histórico evidente. A aristocracia é que é sempre grosseira e turbulenta: pois significa apelar às pessoas autoconfiantes. Democracia significa apelar às pessoas diferentes. Democracia quer dizer conseguir que votem aquelas pessoas que nunca teriam coragem de governar: e (de acordo com a ética cristã) as pessoas que deveriam governar são precisamente aquelas que não têm a coragem de o fazer. Há um forte exemplo desta verdade em meu amigo do trem. Os únicos dois tipos que são ouvidos nessa discussão sobre crime e castigo são tipos muito raros e anormais.

Ouvimos o sentimental convicto, que fala como se não houvesse problema algum: como se a benevolência física curasse tudo: como se fosse necessário simplesmente dar tapinhas na cabeça de Nero ou afagar Ivan o Terrível. Essa crença simples no humanitarismo físico não é sentimental: é simplesmente arrogante. Pois se o conforto leva os homens à virtude, as classes confortáveis deveriam ser virtuosas – o que é absurdo. Em seguida, ouvimos o sentimental do tipo ainda mais fraco e aguado: refiro-me ao sentimental que diz, com a voz ligeiramente embargada, “Castiguem os maus!” ou que conta com inocente obscenidade “o que ele faria” com certo homem – sempre supondo que as mãos do homem estejam amarradas.

Este é o tipo mais efeminado dos dois; mas ambos são fracos e desequilibrados. E apenas esses dois tipos, o sentimental humanitário e o sentimental “brutalitário”, são ouvidos na babel moderna. Ainda assim é muito raro encontrar qualquer um deles em um trem. Em uma controvérsia só se encontra um tipo de pessoa. O homem que você encontra em um trem é como o que eu encontrei: ele é emocionalmente decente, só que intelectualmente limitado. Ao invés de regalar-se com as terríveis coisas que poderiam “ser feitas” com os criminosos, sente intensamente como seria melhor se nada precisasse ser feito. Mas algo deve ser feito. “Acho que temos de fazê-lo”. Em resumo, é simplesmente um homem sensato, e há apenas uma definição segura de um homem sensato: é um homem que consegue ter a tragédia em seu coração e a comédia em sua cabeça.

Ora, a verdadeira dificuldade de discutir decentemente esse problema do tratamento adequado dos criminosos é que ambas as partes discutem o assunto sem nenhum sentimento humano direto. Os denunciantes do crime são tão frios quanto seus planejadores. O humanitarismo é tão duro quanto a falta de humanidade.

Deixem-me tomar um exemplo prático. Acredito que os castigos aplicados em nossas prisões modernas são uma tortura imunda: toda a parafernália científica, as fotos, o atendimento médico provam que se chega ao mesmo limite abominável de pendurar as pessoas de cabeça para baixo. A categoria[ 204 ] é simplesmente a roda [de tortura] sem nenhuma de suas razões intelectuais. Defendendo firmemente este ponto de vista, abro os livros e jornais humanitários habituais e encontro uma frase assim: “O chicote é uma relíquia do barbarismo”. O arado também é. A rede de pesca também. O berrante e o cajado e o fogo que se acende no inverno também. Que frase inexprimivelmente fraca para qualquer coisa que alguém queira atacar – uma relíquia do barbarismo! É como se um homem andasse nu pela rua amanhã e nós disséssemos que suas roupas não estão de acordo com a última moda. Não há nada particularmente errado em ser uma relíquia do barbarismo. O homem é uma relíquia do barbarismo. A Civilização é uma relíquia do barbarismo.

Porém a tortura não é de forma alguma uma relíquia do barbarismo. Na realidade é apenas uma relíquia do pecado; mas em história comparada poderia muito bem chamar-se uma relíquia da civilização. Sempre foi muito artística e elaborada quando tudo o mais era muito artístico e elaborado. Assim, tinha detalhes de requinte no final do Império Romano, no deslumbrante e complexo século dezesseis, na monarquia francesa absolutista cem anos antes da Revolução e na grandiosa civilização chinesa até hoje. Este é, do começo ao fim, o aspecto assustador que devemos recordar. À medida que nos tornamos mais instruídos e refinados, não nos afastamos (em qualquer sentido) naturalmente da tortura. Podemos estar nos dirigindo em sua direção. Temos de saber o que estamos fazendo, se queremos evitar a enorme crueldade secreta que coroou todas as civilizações históricas.

O trem se move mais velozmente através do ensolarado campo inglês. Levaram os prisioneiros embora, e não sei o que fizeram com eles.

201 “Derby Stakes” ou “O Derby” é a corrida de cavalos de maior prestígio da Inglaterra. Apesar do nome, é realizada no início de Junho, em Epson, a sudoeste de Londres. Seu nome é uma homenagem ao 12º Conde de Derby.

202 No original, “bean-feast”: originalmente, trata-se de um jantar anual oferecido por um patrão a seus empregados. O termo é também usado coloquialmente para referir-se a comemorações em geral.

203 Referência aos Evangelhos de Mt 23,12 e Lc 14,11: “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”.

204 No original, “cat”. Na Inglaterra, atribui-se aos prisioneiros uma de quatro categorias ou “cats” (A, B, C ou D), conforme seu grau de periculosidade.


A Estação Ferroviária Pré-histórica

UMA ESTAÇÃO FERROVIÁRIA é um lugar admirável, embora Ruskin[ 205 ] não pensasse assim; não pensava assim porque ele mesmo era ainda mais moderno do que a estação ferroviária. Não pensava assim porque ele mesmo era febril, irritável e resfolegante como uma máquina. Não conseguia perceber o remoto silêncio da estação.

“Em uma estação ferroviária”, dizia, “você está com pressa e, portanto, está infeliz”; mas você não precisa estar nenhuma das duas coisas a não ser que seja tão moderno quanto Ruskin. O verdadeiro filósofo não pensa em chegar em cima da hora para seu trem, exceto como uma aposta ou uma brincadeira.

A única maneira que já descobri de pegar um trem é chegar atrasado para o trem anterior. Faça isso, e você encontrará em uma estação ferroviária muito da quietude e consolo de uma catedral. Ela tem muitas características de uma grande construção eclesiástica: há vastos arcos, espaços vazios, luzes coloridas e, acima de tudo, há repetição ou ritual. É dedicada à celebração da água e do fogo, os dois elementos primordiais de todo o cerimonial humano. Por fim, uma estação lembra mais as religiões antigas do que as novas nisto – em que as pessoas vão até lá. Em conexão com isto deve-se também lembrar que todos os lugares populares, todos os sítios realmente usados por pessoas tendem a reter a melhor rotina de antiguidade muito mais do que quaisquer locais ou máquinas usados por qualquer classe privilegiada. As coisas não são alteradas tão rápida ou completamente por pessoas comuns quanto por pessoas influentes. Ruskin poderia encontrar mais memórias da Idade Média na rede ferroviária subterrânea do que nos grandes hotéis fora das estações. Os grandes palácios de lazer que os ricos constroem em Londres têm todos nomes descarados e vulgares. Seus nomes são esnobes, como o Hotel Cecil, ou (pior ainda) cosmopolitas como o Hotel Metrópole. Mas, quando tomo um vagão de terceira classe da estação mais próxima de Battersea até a estação mais próxima do Daily News, os nomes das estações são uma longa ladainha de memórias solenes e santas. Saindo de Victoria chego a um parque que pertence especialmente a São Tiago Apóstolo[ 206 ]; de lá vou à ponte de Westminster, cujo próprio nome alude à impressionante Abadia; Charing Cross sustenta o símbolo do Cristianismo; a próxima estação chama-se Temple; e Blackfriars[ 207 ] lembra o sonho medieval de uma Irmandade.

Se você quer ver o passado preservado, siga os milhões de pés da multidão. No pior dos casos, os ignorantes apenas desgastam as coisas velhas de tanto andar. Mas os educados as derrubam em nome da cultura.

Sinto profundamente tudo isso enquanto perambulo pela estação vazia, onde não tenho nenhum tipo de compromisso. Extraí uma vasta quantidade de chocolates de máquinas automáticas; obtive cigarros, caramelos, perfume e outras coisas de que não gosto nas mesmas máquinas; pesei-me, com resultados sublimes; e essa sensação, não apenas da salubridade das coisas populares, mas também de sua essencial antiguidade e permanência, ainda domina minha mente. Caminho para a banca de livros, e minha fé sobrevive até mesmo ao espetáculo selvagem da literatura e jornalismo modernos. Mesmo nos aspectos mais crus e clamorosos do mundo da imprensa ainda prefiro o popular ao orgulhoso e enfadonho. Se tivesse de escolher entre comprar o Daily Mail ou o Times (o dilema lembra um pesadelo), certamente clamaria com todo o meu ser pelo Daily Mail. Mesmo a simples grandeza proclamada de forma frívola não é tão irritante quanto a simples mediocridade proclamada de forma grandiosa e solene. As pessoas compram o Daily Mail mas não acreditam nele. Acreditam no Times, e (aparentemente) não o compram. Mas quanto mais a produção de jornal no mundo moderno é estudada, mais se descobrirá como ela é em toda a sua essência antiga e humana, como o nome de Charing Cross. Demore-se por duas ou três horas em uma banca de livros de uma estação (como estou fazendo) e você descobrirá que ela gradualmente assume a grandeza e alusão histórica da Biblioteca Vaticana ou Bodleiana[ 208 ]. A novidade é toda superficial; a tradição é toda interior e profunda. O Daily Mail tem edições novas, mas nunca uma idéia nova. Todas as coisas em um jornal que não vêm do antigo amor humano pelo altar ou pela pátria vêm do antigo amor humano pela fofoca. Os autores modernos freqüentemente ridicularizam as crônicas antigas porque registram principalmente acidentes e prodígios: uma igreja atingida por um raio ou um novilho com seis pernas. Parecem não perceber que essa velha história bárbara é igual ao novo jornalismo democrático. Não é que a crônica selvagem tenha desaparecido. É só que a crônica selvagem agora aparece toda manhã.

Assim, enquanto movia-me suave e vagamente em frente à banca, meus olhos perceberam um título súbito e escarlate que por um momento me fez cambalear. Na capa de um livro vi escritas em grandes letras: “Prospere ou Vá Embora[ 209 ]”. O título do livro recordou-me com súbita reação e revolta tudo o que de fato parece inquestionavelmente novo e torpe; lembrou-me de que havia no mundo de hoje essa coisa completamente idiota, uma adoração do sucesso; algo que significa apenas suplantar qualquer um em qualquer coisa; algo que pode significar ser a pessoa mais bem sucedida em desertar de uma batalha; algo que pode significar ser o sonolento mais bem sucedido de todo o rol de homens sonolentos. Quando vi aquelas palavras o silêncio e santidade da estação ferroviária se obscureceram por um momento. Eis aqui, pensei, algo sem dúvida anárquico e violento e vil. Este título, de qualquer forma, representa o mais repugnante individualismo deste mundo individualista. Na fúria da minha amargura e paixão acabei comprando o livro, fazendo com que meu inimigo ganhasse algo do meu dinheiro. Abri-o preparado para achar alguma brutalidade, alguma blasfêmia que fosse realmente uma exceção ao silêncio geral e santidade da estação. Estava preparado para encontrar no livro algo que fosse tão infame quanto seu título.

Desapontei-me. Não havia nada que correspondesse à furiosa decisão da frase da capa. Após lê-lo com cuidado não consegui descobrir se devia progredir ou ir embora; mas tive uma vaga sensação de que preferiria ir embora. Uma parte considerável do livro, particularmente perto do fim, era ocupada por uma detalhada descrição da vida de Napoleão Bonaparte. Sem dúvida Napoleão progrediu. Ele também foi embora. Mas não consegui descobrir de maneira alguma como os detalhes de sua vida fornecidos aqui poderiam ajudar uma pessoa que buscasse o sucesso. Uma anedota descrevia como Napoleão sempre limpava sua pena na região posterior de seus joelhos. Suponho que a moral seja: sempre limpe a pena na parte de trás de seus joelhos, e você vencerá a batalha de Wagram[ 210 ]. Outra história contava como ele havia soltado uma gazela entre as senhoras da sua Corte. Claramente, a inferência prática brutal é: solte uma gazela entre as senhoras de suas relações, e você será Imperador da França. Progrida com uma gazela ou vá embora. O livro me reconciliou inteiramente com a suave penumbra da estação. Súbito percebi que há uma divisão simbólica que poderia ter um paralelo com a biologia. Homens corajosos são vertebrados: têm a maciez na superfície e sua firmeza está no meio. Mas esses covardes modernos são crustáceos: sua dureza está toda na casca e sua moleza está dentro. Mas a suavidade está lá; tudo neste templo de penumbra é suave.

205 John Ruskin (1819-1900), importante crítico de arte e autor britânico, foi um ferrenho opositor das ferrovias na era vitoriana.

206 St. James.

207 “Black Friars” (Frades Negros) é um nome usado na Inglaterra para referir-se à Ordem dos Pregadores ou Dominicanos por causa da capa negra que estes religiosos usam sobre o hábito.

208 Principal biblioteca da Universidade de Oxford.

209 No original, "Get On or Get Out".

210 Batalha ocorrida nas Guerras Napoleônicas em 1809 entre o exército de Napoleão e a Áustria.


O Diabolista

DE VEZ EM QUANDO introduzo em meus ensaios um elemento de verdade. Mencionei coisas que realmente aconteceram, como o encontro com o presidente Kruger[ 211 ] ou ser atirado para fora de um táxi[ 212 ]. O que vou relatar agora realmente ocorreu; porém não houve qualquer elemento de prática política ou perigo pessoal. Foi simplesmente uma quieta conversa que tive com outro homem. Mas essa quieta conversa foi de longe a coisa mais terrível que já me aconteceu na vida. Ocorreu há tanto tempo que não posso estar certo das palavras exatas do diálogo, só de suas perguntas e respostas principais; mas há uma sentença que posso garantir palavra por palavra. Foi uma frase tão terrível que não conseguiria esquecê-la mesmo que tentasse. Foi a última frase pronunciada; e não foi dirigida a mim.

O episódio ocorreu nos dias em que eu estava na escola de artes. Uma escola de artes é diferente de quase todas as outras escolas e faculdades nesse respeito: que, por ser de criação recente e ainda crua e de disciplina laxa, apresenta um contraste especialmente intenso entre o laborioso e o indolente. As pessoas em uma escola de artes ou fazem uma quantidade brutal de trabalho ou não fazem trabalho algum. Eu pertencia, juntamente com outras pessoas encantadoras, à última categoria; e isto me atirou com freqüência para a companhia de homens muito diferentes de mim e que eram ociosos por razões muito diferentes das minhas. Eu era ocioso porque estava muito ocupado: estava envolvido naquela época em descobrir, para minha extrema e duradoura surpresa, que não era ateu. Mas havia outros desocupados que estavam envolvidos em descobrir o que Carlyle chamava (acho que com desnecessária delicadeza) o fato de que o gengibre é picante ao paladar[ 213 ].

Valorizo aquela época, em resumo, porque me fez conhecer um bom e representativo número de salafrários. Sobre isso há duas coisas muito curiosas que o crítico da vida humana pode observar. A primeira é o fato de que existe uma diferença real entre homens e mulheres: mulheres preferem falar em pares, enquanto os homens preferem falar em trios. A segunda é que, quando você encontra (como é freqüente) três jovens devassos e idiotas saindo juntos e embebedando-se juntos todo dia, em geral descobre que um dos três devassos e idiotas não é (por alguma razão extraordinária) nem devasso nem idiota. Nesses pequenos grupos devotados a uma dissipação frívola há quase sempre um homem que parece ter transigido em acompanhá-los; um homem que, ao mesmo tempo em que consegue conversar sobre alguma torpe trivialidade com seus companheiros, pode também falar sobre política com um socialista ou filosofia com um católico.

Foi justamente um desses homens que acabei conhecendo bem. Era estranho, talvez, que ele apreciasse suas companhias sujas e bêbadas; era talvez ainda mais estranho que apreciasse a minha companhia. Durante o dia conversava comigo horas a fio sobre Milton[ 214 ] ou sobre arquitetura gótica; durante a noite, por horas ele ia a lugares em que não tenho o menor desejo de segui-lo, mesmo em imaginação. Era um homem de face comprida e irônica, e cabelo ruivo bem curto; tinha boa posição social e seria capaz de andar como um cavalheiro, mas preferia, por alguma razão, andar como um cavalariço carregando dois baldes. Parecia uma espécie de super-jóquei; como se algum arcanjo tivesse entrado no turfe. E nunca esquecerei a meia hora em que ele e eu discutimos sobre coisas reais pela primeira e última vez.

Ao longo da fachada do grande prédio de que nossa escola era parte havia um enorme lance de degraus de pedra, mais alto, acredito, do que aqueles que sobem à Catedral de St. Paul. Em uma escura noite de inverno caminhávamos nessas alturas frias, tão lúgubres quanto uma pirâmide sob as estrelas. A única coisa visível abaixo de nós na escuridão era uma fogueira brilhando; pois algum jardineiro (creio eu) estava queimando algo no pátio, e de tempos em tempos faíscas vermelhas passavam voando por nós como uma nuvem de insetos vermelhos no escuro. Acima de nós também havia trevas; mas se alguém olhasse tempo suficiente para aquela escuridão superior veria faixas verticais de cinza no preto, até tomar consciência da colossal fachada da construção dórica, fantasmagórica, mas que preenchia o céu, como se os Céus ainda estivessem cheios com o gigantesco fantasma do paganismo.

O homem perguntou-me abruptamente por que eu estava me tornando ortodoxo. Até que ele o dissesse, eu realmente não sabia que estava; mas no momento em que o disse soube que era a pura verdade. E o processo fora tão longo e completo que respondi imediatamente com argumentos tirados de um verdadeiro estoque de explicações.

“Estou me tornando ortodoxo”, disse-lhe, “porque cheguei, de uma forma ou de outra, após forçar meu cérebro até rebentar, à velha crença de que a heresia é ainda pior do que o pecado. Um erro é ainda mais ameaçador que um crime, porque um erro gera o crime. Um imperialista é pior do que um pirata. Pois um imperialista mantém uma escola para piratas; ele ensina a pirataria desinteressadamente e sem um salário adequado. Um amante livre[ 215 ] é pior que um libertino. Pois um libertino é sério e ousado mesmo em seu amor mais curto, enquanto um amante livre é cauteloso e irresponsável mesmo em sua mais longa devoção. Detesto a dúvida moderna porque é perigosa.”

“Você quer dizer perigosa para a moral”, ele disse em uma voz maravilhosamente gentil. “Imagino que esteja certo. Mas por que se importa com a moral?”

Olhei rapidamente para seu rosto. Ele esticara o pescoço como era seu hábito; e assim sua face foi abruptamente iluminada pela fogueira abaixo, como por uma ribalta. Seu queixo longo e malares salientes estavam infernalmente iluminados desde baixo, de forma que parecia um demônio olhando para um poço de chamas. Tive uma impressão inexplicável de estar sendo tentado no deserto[ 216 ], e no momento em que fiz uma pausa uma explosão de faíscas passou.

“Essas faíscas não são esplêndidas?”, perguntei.

“Sim”, respondeu-me.

“É tudo o que lhe peço para admitir”, disse-lhe. “Dê-me esses poucos grãos vermelhos e deduzirei a moral cristã. Já pensei como você, que o prazer de alguém em ver uma faísca voando era algo que poderia ir e vir com a faísca. Já pensei que o encanto era tão livre quanto o fogo. Já pensei que aquela estrela vermelha que vemos estava só no espaço. Mas agora sei que a estrela vermelha está apenas no alto de uma pirâmide invisível de virtudes. Aquele fogo rubro é apenas uma flor em um caule de hábitos arraigados que não se vêem. Só porque sua mãe o fez dizer “obrigado” por um pão doce é que você é capaz agora de agradecer à Natureza ou ao caos por aquelas estrelas vermelhas de um instante ou pelas estrelas brancas de todos os tempos. Só porque você se humilhou perante os fogos do 5 de Novembro[ 217 ] é que consegue apreciar os fogos que vê por acaso. Você só gosta de que eles sejam vermelhos porque lhe contaram sobre o sangue dos mártires; só gosta de que brilhem porque o brilho é uma glória. Aquela chama floresceu de virtudes, e fenecerá com virtudes. Seduza uma mulher, e aquela fagulha brilhará menos. Derrame sangue, e aquela fagulha será menos rubra. Seja muito mau, e elas lhe parecerão manchas em um papel de parede.”

Ele possuía uma horrível clareza intelectual que me fez desesperar da sua alma. Um ateu comum e inofensivo negaria que a religião produzisse humildade ou que a humildade produzisse qualquer alegria: mas ele admitia ambas. Apenas disse: “Mas não é possível que eu encontre no mal uma vida própria? Suponha que para cada mulher que eu arruíne se apague uma destas faíscas: não acontecerá que o prazer crescente da ruína...”

“Vê aquele fogo?”, perguntei. “Se tivéssemos uma verdadeira democracia militante, alguém queimaria você nele, como o adorador do diabo que é.”

“Talvez”, disse-me, em seu tom cansado e ponderado. “Só que o que você chama mal eu chamo bem.”

Ele desceu os grandes degraus sozinho, e senti-me como se quisesse que fossem varridos e limpos. Segui-o depois, e enquanto procurava meu chapéu na passagem baixa e escura em que estava pendurado subitamente ouvi sua voz de novo, mas as palavras eram inaudíveis. Parei, espantado: então ouvi a voz de um dos seus companheiros mais vis dizendo: “Ninguém pode saber”. E então ouvi aquelas duas ou três palavras que recordo sílaba por sílaba e não consigo esquecer. Ouvi o diabolista dizer, “estou lhe dizendo que já fiz tudo o mais. Se fizer isto já não saberei a diferença entre o certo e o errado”. Corri para fora sem atrever-me a parar, e ao passar pela fogueira não sabia se era o inferno ou o furioso amor de Deus.

Desde então, ouvi dizer que ele morreu: pode-se dizer, imagino, que cometeu suicídio; embora o tenha feito com ferramentas de prazer e não de dor. Deus o ajude, conheço o caminho que trilhou; mas nunca soube, ou mesmo ousei pensar, qual foi o ponto em que ele parou e hesitou.

211 V. o texto 19 – "Como encontrei o Presidente" – neste livro.

212 V. o texto 6- "Um acidente" – neste livro.

213 Referência ao ensaio "The Diamond Necklace" [O Colar de Diamantes] (1837) de Thomas Carlyle (1795-1881), escritor, historiador e polemista escocês.

214 John Milton (1608-1674), poeta, literato e servidor público inglês da época da Commonwealth (período republicano entre 1649-1660).

215 No original, “Free Lover”, propagandeador do “amor livre”, linha de pensamento que combate o casamento como instituição.

216 Referência às tentações de Cristo no deserto (V. Mt 4 1-11, Mc 1,12-13 e Lc 4,1-13).

217 Feriado conhecido na Inglaterra como “Noite de Guy Fawkes”, que comemora a prisão do soldado Guy Fawkes durante a “revolução da pólvora”, em 1605, desarticulando um plano para matar o rei James I.


Um Vislumbre do Meu País

O QUE É QUE ESTAMOS todos procurando? Imagino que na realidade esteja bem perto. Quando era menino, imaginava que o Céu ou o País das Fadas ou qualquer que fosse o nome ficava imediatamente atrás das minhas costas, e que era por isso que nunca conseguia vê-lo, não importava o quanto me contorcesse e girasse para pegá-lo de surpresa. Tinha uma idéia de um homem girando perpetuamente em um pé só como um pião no esforço de descobrir aquele mundo atrás de suas costas que continuamente lhe fugia. Talvez seja por isso que o mundo gira. Talvez o mundo esteja sempre tentando olhar por cima do ombro e pegar o mundo que sempre lhe escapa, mas sem o qual não pode ser ele mesmo.

Em todo caso, como disse, acredito que devemos sempre imaginar aquilo que é o objetivo de todos os nossos esforços como algo estranhamente próximo. A ciência se gaba da distância de suas estrelas; da terrível distância das coisas de que tem de falar. Mas a poesia e a religião sempre insistem na proximidade, a quase ameaçadora proximidade das coisas de que se ocupam. O Reino do Céu está sempre “à mão”, e o País dos Espelhos é logo além do espelho. Assim eu, pelo menos, nunca me espantaria se a próxima volta de uma rua me levasse ao coração daquele labirinto em que todos os místicos se perdem. Não me surpreenderia em absoluto se dobrasse a esquina em Fleet Street e visse um poste ainda mais estranho; não me surpreenderia se dobrasse uma terceira esquina e me visse na Terra dos Elfos.

Não me surpreenderia com isso; mas deparei-me outro dia com algo ainda mais surpreendente. Fiz uma curva em Fleet Street e cheguei à Inglaterra.

O singular choque que experimentei talvez requeira explicação. Nos momentos mais negros ou mais inadequados da Inglaterra há uma coisa que sempre deveria ser lembrada sobre a própria natureza do país. Pode ser resumida de forma sucinta ao dizer-se que a Inglaterra não é tão tola quanto parece. Os tipos ingleses, as aparências inglesas sempre desvirtuam o país. A Inglaterra é um país oligárquico, e prefere que sua oligarquia seja inferior a si.

Os discursos na Câmara dos Comuns, por exemplo, são não apenas piores do que eram, mas também do que são os discursos em todos ou quase todos os pequenos clubes de debates ou jantares informais. Nossos conterrâneos provavelmente preferem esta solene futilidade nos lugares mais altos da vida nacional. Cegos guiando cegos podem ser uma visão estranha[ 218 ]; mas a Inglaterra apresenta uma visão ainda mais estranha. A Inglaterra mostra-nos os cegos guiando as pessoas que podem ver. E mesmo isso é um eufemismo. Pois os aristocratas políticos ingleses não só falam pior do que muitas pessoas; falam pior do que si mesmos. A ignorância dos homens de estado é como a ignorância dos juízes, uma coisa artificial e fingida. Se você tiver a sorte de conversar de fato com um homem de estado, ficará constantemente impressionado porque ele diz coisas muito inteligentes. Em um primeiro momento, isso deixa as pessoas nervosas. E nunca tive intimidade suficiente com um desses homem para perguntar-lhe por que é uma regra do Parlamento que pareça mais tolo do que é.

Ocorre o mesmo com os eleitores. O homem médio vota abaixo de si; vota com metade da alma ou com um centésimo dela. Um homem deveria votar com todo o seu ser, tal como adora ou como se casa. Um homem deveria votar com sua cabeça e seu coração, sua alma e seu estômago, seu olho para faces e seu ouvido para música; e também (quando suficientemente provocado) com suas mãos e seus pés. Se ele já houver visto um belo pôr do sol, sua vermelhidão deveria influir em seu voto. Se já houver escutado canções esplêndidas, elas deveriam estar em seus ouvidos quando faz a cruz mística[ 219 ]. Mas da forma como é feita a dificuldade da democracia inglesa em todas as eleições é que ela é menor do que si mesma. A questão não é tanto se apenas uma minoria do eleitorado vota. O ponto é que apenas uma pequena parte do eleitor é que vota.

Esta é a tragédia da Inglaterra: não se pode julgá-la por seus homens de destaque. Seus tipos não tipificam. E na ocasião a que me refiro descobri que é assim especialmente com aquela velha e inteligente classe média que eu imaginava ter quase desaparecido do mundo. Parecia-me que todos os representantes principais da classe média haviam sumido em uma ou outra direção; ou saíram em busca da Alta Sociedade ou em busca da Vida Simples. Não sei dizer de qual eu mesmo gosto menos; as pessoas em questão podem perfeitamente conseguir qualquer uma delas, ou, como é mais provável, ambas, em medonhas alternâncias de doença e cura. Mas todos os homens proeminentes que claramente representam a classe média adotaram ou a única lente de Mr. Chamberlain[ 220 ] ou o único olho de Mr. Bernard Shaw[ 221 ].

A velha classe a que me refiro não tem representantes. Sua comida é abundante, mas não tem aparência; seu alimento é simples, mas sem caprichos. Tinha seriedade na política e quando falava em público cometia a grosseria de tentar falar bem. Eu pensava que essa velha Inglaterra diligentemente política praticamente desaparecera. E, como dizia, virei a esquina em Fleet Street e encontrei uma sala cheia dela.

Na extremidade da sala havia uma cadeira em que Johnson[ 222 ] se sentara. O clube era um clube em que Wilkes[ 223 ] discursara, em um tempo em que mesmo ser inútil[ 224 ] era viril. Mas todas essas coisas por si sós poderiam ser meramente arcaísmos. O extraordinário era que esse salão tinha todo o burburinho, a sinceridade, a raiva, a oratória do século dezoito. Os membros desse clube eram de todos os tipos de opinião, e mesmo assim não houve um discurso que me desse aquele sobressalto de irrealidade que freqüentemente tenho ao ouvir os homens mais hábeis formulando minha própria opinião. O Torismo[ 225 ] deste clube era como o Torismo de Johnson, um Torismo capaz de usar humor e apelar à humanidade. A democracia deste clube era como a democracia de Wilkes, uma democracia capaz de usar epigramas e lutar duelos; uma democracia que enfrenta as coisas abertamente e suporta a calúnia; a democracia de Wilkes, ou melhor, a democracia de Fox[ 226 ].

Uma coisa particularmente encheu minha alma com a alma de meus pais. Cada homem discursando, quer o fizesse bem ou mal, fazia-o o melhor que podia de pura fúria contra o outro. Esta é a maior das decadências modernas: que hoje em dia um homem não se torna mais retórico ao mesmo tempo em que se torna mais sincero. Um orador do século dezoito, quando ficava real e honestamente furioso, procurava grandes palavras com as quais esmagar seu adversário. O novo orador procura palavras pequenas para esmagá-lo. Procura pequenos fatos e pequenas zombarias. Em um discurso moderno a retórica é relevada a uma parte meramente formal, à abertura que ninguém ouve. Mas, quando Mr. Chamberlain ou um Moderado ou um dos mais duros Socialistas torna-se realmente sincero, torna-se um Cockney[ 227 ]. “O destino do Império” ou “O destino da humanidade” vão bem o suficiente como simples preliminares ornamentais, mas quando o homem se torna irritado e honesto então é um rosnado: “Onde nós entramos nisso?” ou “É o seu dinheiro que eles querem”.

Os homens neste clube do século dezoito eram completamente diferentes: eram bem século dezoito. Cada um levantava-se trêmulo de paixão e tentava destruir seu oponente, não com risos silenciosos, mas de fato com eloqüência. Discuti com eles sobre o Governo Autônomo[ 228 ]; no final disse-lhes por que a aristocracia inglesa realmente não apreciaria um Parlamento Irlandês: porque seria como o seu clube.

Saí novamente para Fleet Street à noite, e à luz de uma lâmpada fraca vi colada na parede algumas bobagens de mau gosto sobre os vagabundos e sobre como Londres levantava-se contra algo de que quase nunca ouvira falar. Então vi subitamente, como em uma figura óbvia, que o mundo moderno é um imenso e tumultuoso oceano, cheio de coisas vivas e monstruosas. E vi que em sua superfície está espalhada uma camada fina, muito fina, de gelo, de riqueza perversa e jornalismo mentiroso.

E enquanto estava lá no escuro pude quase imaginar que o ouvia quebrando-se.

218 Cf. Lc 6,39: "Pode porventura um cego guiar outro cego? Não cairão ambos nalguma cova?".

219 Isto é, o voto. Trata-se de um trocadilho com dois significados de "cross". No Brasil, diz-se "o xis".

220 Arthur N. Chamberlain (1869-1940), político conservador britânico e Primeiro Ministro de 1937-1940.

221 George Bernard Shaw (1856-1950), dramaturgo irlandês, grande adversário e ao mesmo tempo grande amigo pessoal de Chesterton.

222 Samuel Johnson (1709-1784), importante literato inglês.

223 John Wilkes (1725-1797), jornalista e político radical inglês.

224 No original, “ne’er do well”.

225 Tory era o partido conservador que deu origem ao atual Partido Conservador inglês.

226 Charles James Fox (1749-1806), parlamentar de oposição (partido “Whig”, oposto à “Tory”) na Câmara dos Comuns Britânica no final do século XVIII.

227 “Cockneys” são os habitantes da região leste de Londres, especialmente das áreas mais pobres, que têm um dialeto peculiar.

228 No original, “Home Rule”; trata-se de propostas políticas de um governo autônomo (particularmente da Irlanda) dentro do Reino Unido.


Uma História Um Tanto Improvável

NÃO CONSIGO lembrar-me se esse conto é verdadeiro ou não. Se o ler todo com muito cuidado suspeito que concluirei que não é. Mas, infelizmente, não posso lê-lo todo com muito cuidado porque, sabem, ainda não está escrito. Sua imagem e sua idéia prenderam-se a mim por grande parte da minha infância; posso tê-lo sonhado antes de aprender a falar ou contado a mim mesmo antes de aprender a ler ou lido antes que pudesse lembrar. Contudo, estou certo de que não o li, pois as crianças têm memórias muito claras sobre essas coisas, e dos livros de que realmente gostava ainda posso me lembrar, não apenas da forma e volume e da encadernação, mas até das posições das palavras impressas em muitas das páginas. Considerando tudo isso, inclino-me para a opinião de que o fato aconteceu comigo antes que eu nascesse.

De qualquer forma, contemos a história agora com todas as vantagens da atmosfera que se prendeu a ela. Vocês podem imaginar-me, para começar, sentado para o almoço em um desses restaurantes de refeição rápida na City[ 229 ], onde os homens ingerem sua comida tão rapidamente que ela não tem nenhuma das qualidades da comida e usam seu intervalo de meia hora tão rapidamente que ele não tem nenhuma das qualidades do lazer; afobar-se no período de folga é a ação mais improdutiva que existe. Todos usavam cartolas brilhantes, como se não pudessem perder um instante nem mesmo para pendurá-las em um cabide, e todos tinham um olho um pouco distante, hipnotizado pelo imenso olho do relógio. Em resumo, eram escravos do cativeiro moderno, era possível ouvir seus grilhões batendo. Cada um, de fato, estava preso por uma corrente; a corrente mais pesada já atada a um homem – chama-se corrente de relógio.

Então, do meio deles entrou e sentou-se à minha frente um homem que quase imediatamente iniciou um monólogo ininterrupto. Era semelhante a todos os outros por sua roupa, mas era espantosamente oposto a eles em seu comportamento. Usava uma cartola brilhante e uma longa casaca, mas da forma como essas coisas solenes foram feitas para serem vestidas: usava a cartola de seda como se fosse uma mitra, e a casaca como se fosse a éfode[ 230 ] de um sumo sacerdote. Não apenas pendurou seu chapéu no cabide, mas pareceu (tal era sua imponência) quase pedir permissão ao chapéu para o fazer e desculpar-se com o cabide por usá-lo. Quando sentou-se em uma cadeira de madeira com o ar de quem considerasse seus sentimentos, e fez uma espécie de leve inclinação ou reverência à própria mesa de madeira, como se fosse um altar, não pude evitar que um comentário subisse aos meus lábios. Pois era um homem avantajado, de face sanguínea e aspecto próspero, e mesmo assim tratava todas as coisas com um cuidado que chegava quase ao nervosismo.

Para dizer alguma coisa que expressasse meu interesse, comentei: “A mobília é bem sólida; mas, é claro, as pessoas a tratam muito descuidadamente.”

Quando olhei para cima hesitantemente, meus olhos encontraram os seus e fiquei preso por seu olhar, fixo numa expressão apocalíptica. Eu pensara que ele era uma pessoa comum quando entrou, exceto por suas maneiras estranhamente cautelosas; mas se as outras pessoas o tivessem visto naquele momento, teriam gritado e esvaziado o recinto. Não o viram, e continuaram a fazer barulho com seus garfos, e um murmúrio com sua conversa. Mas o rosto do homem era o rosto de um maníaco.

“Você quis dizer alguma coisa em particular com esse comentário?”, perguntou por fim, e o sangue voltou lentamente a seu rosto.

“Absolutamente nada”, respondi. “Não é possível querer dizer nada aqui; estragaria a digestão das pessoas”.

Ele inclinou-se para trás e enxugou sua ampla testa com um grande lenço; e mesmo assim parecia haver uma espécie de remorso em seu alívio.

“Pensei que, talvez”, disse em voz baixa, “outra delas tivesse se desencaminhado.”

“Se você quer dizer outra digestão”, eu disse, “nunca ouvi falar de nenhuma aqui que tenha ido bem. Este é o coração do Império, e os outros órgãos estão em estado igualmente ruim.”

“Não, quero dizer outra rua desencaminhada”, e acrescentou pesada e quietamente, “mas como suponho que isso não lhe explica muito, acho que terei de lhe contar a história. Faço-o sem qualquer responsabilidade, pois sei que não acreditará. Por quarenta anos da minha vida invariavelmente saí de meu escritório, que é em Leadenhall Street[ 231 ], às cinco e meia da tarde, levando comigo um guarda-chuva na mão direita e uma maleta na mão esquerda. Por quarenta anos, dois meses e quatro dias saí pela porta lateral do escritório, andei pela rua na calçada da esquerda, tomei a primeira entrada à esquerda e a terceira à direita, onde comprava um jornal vespertino; seguia a rua pela calçada da direita ao redor de dois ângulos obtusos, e saía logo ao lado de uma estação de metrô, de onde tomava um trem para casa. Por quarenta anos, dois meses e quatro dias fiz este percurso por hábito adquirido: não era uma rua longa que atravessava, e levava cerca de quatro minutos e meio para fazê-lo. Depois de quarenta anos, dois meses e quatro dias, no quinto dia saí da mesma maneira, com meu guarda-chuva na mão direita e a maleta na esquerda, e comecei a notar que andar pela rua conhecida cansava-me um pouco mais do que o habitual; e quando fiz a curva convenci-me de que errara a entrada. Pois agora a rua subia em uma ladeira bastante íngreme, como só se vê nas partes montanhosas de Londres, e nesta parte não há quaisquer colinas. Mesmo assim não era a rua errada; o nome escrito nela era o mesmo; as lojas com venezianas fechadas eram as mesmas; os postes e todo o aspecto da perspectiva era o mesmo; só que estava inclinada para cima como uma tampa de caixa. Esquecendo qualquer preocupação sobre falta de ar ou fadiga, corri furiosamente para a frente, e cheguei à segunda de minhas entradas habituais, que deveria me levar quase à vista da estação. E quando dobrei aquela esquina quase caí na calçada. Pois agora a rua subia bem à minha frente como uma escada íngreme ou a parede de uma pirâmide. Antes não havia por milhas ao redor daquele lugar uma inclinação sequer como a de Ludgate Hill[ 232 ]. E esta era uma ladeira como a do Matterhorn[ 233 ]. A rua toda erguera-se como uma única onda, e mesmo assim cada ponto e cada detalhe dela era o mesmo, e vi na distância, como se fosse no topo de uma trilha nos Alpes, destacado em letras rosadas, o nome sobre a banca de jornais.

“Comecei a correr cegamente em frente, passando por todas as lojas e chegando a uma parte da rua onde havia uma longa fileira acinzentada de casas particulares. Eu tinha, não sei por que, um sentimento irracional de ser uma longa ponte de ferro no espaço vazio. Um impulso me tomou, e puxei a porta de ferro de um depósito de carvão. Olhando para dentro vi espaço vazio e uma escada.

“Quando olhei para cima novamente, um homem estava de pé em seu jardim, tendo aparentemente saído de sua casa; debruçava-se sobre a cerca e olhava para mim. Estávamos completamente sós naquela rua de pesadelo; sua face estava nas sombras; sua roupa era escura e comum; mas quando o vi de pé tão perfeitamente parado soube de alguma maneira que não era deste mundo. E as estrelas por trás de sua cabeça eram maiores e mais brilhantes do que o suportável para os olhos dos homens.

“Se você é um anjo bom”, eu disse, “ou um demônio sábio, ou tem qualquer coisa em comum com a humanidade, diga-me qual é esta rua endemoninhada.”

“Após um longo silêncio ele disse, “Qual você acha que ela é?”

“É Bumpton Street, é claro”, retruquei. “Ela vai até a estação de Aldgate[ 234 ]”.

“Sim”, ele admitiu gravemente; “vai até lá às vezes. Neste momento, porém, ela vai para o céu.”

“Para o céu?” disse eu. “Por quê?”

“Está indo para o céu em busca de justiça”, ele replicou. “Você deve tê-la tratado mal. Lembre-se sempre de que há uma coisa que não pode ser suportada por nada nem ninguém. Esta coisa insuportável é ser explorado e também desprezado. Por exemplo, é possível explorar as mulheres – todos o fazem. Mas não se pode desprezar as mulheres – desafio-o a tentar. Ao mesmo tempo, você pode ignorar vagabundos e ciganos e todo o aparente refugo do Estado, desde que não os explore. Mas nenhum animal do campo, cavalo ou cão suporta por muito tempo que lhe peçam para fazer mais que o seu trabalho e além disso receber menos do que a sua honra. Com as ruas é o mesmo. Você fez esta rua trabalhar até a morte, mas nunca se lembrou de sua existência. Se vocês tivessem uma democracia saudável, mesmo de pagãos, teriam coberto esta rua de guirlandas e dado-lhe o nome de um deus. Então ela teria ido calmamente. Mas por fim a rua se cansou de sua incansável insolência; e ela está pinoteando e erguendo sua cabeça para o céu. Você nunca montou em um cavalo bravo?”

“Olhei para a longa rua cinzenta, que por um momento pareceu-me exatamente igual ao longo pescoço cinzento de um cavalo levantando-se até o céu. Mas em um momento minha sanidade retornou, e eu disse: “Mas isto é uma completa tolice. As ruas vão ao lugar a que têm que ir. Uma rua deve sempre chegar ao seu fim”.

“Por que você pensa isso de uma rua?”, ele perguntou, permanecendo muito imóvel.

“Porque sempre a vi fazer a mesma coisa”, repliquei, com uma razoável irritação. “Dia após dia, ano após ano, ela sempre foi até a estação de Aldgate; dia após...”

“Parei, pois ele erguera a cabeça com a fúria da rua em revolta.

“E você?”, gritou de forma terrível. “O que acha que a rua pensa sobre você? Será que a rua pensa que você está vivo? Você está vivo? Dia após dia, ano após ano, você foi à estação de Aldgate...” Desde então passei a respeitar as coisas ditas inanimadas”.

E inclinando-se ligeiramente para o pote de mostarda, o homem do restaurante retirou-se.

229 Centro histórico e financeiro de Londres.

230 Sobrepeliz que usavam os sacerdotes hebreus por cima das vestes.

231 Rua na City de Londres.

232 Local na City de Londres em que se situa a Catedral de St. Paul.

233 Um dos picos mais íngremes dos Alpes, entre a Suíça e a Itália.

234 No original usado nesta tradução, "Oldgate", provavelmente erro de impressão.


A Loja dos Fantasmas

QUASE TODAS as melhores e mais preciosas coisas do universo podem ser obtidas por meio penny[ 235 ]. Abro uma exceção, é claro, para o sol, a lua, a terra, as pessoas, as estrelas, as tempestades e outras ninharias assim. Estas podem ser obtidas de graça. Abro também uma exceção para outra coisa, que não me é permitido mencionar neste jornal, e cujo menor preço é um e meio penny. Mas o princípio geral ficará evidente em um instante. Na rua atrás de mim, por exemplo, é possível agora comprar uma passagem em um bonde elétrico por meio penny. Estar em um bonde elétrico é estar em um castelo voador em um conto de fadas. Pode-se comprar uma quantidade considerável de doces de cores vivas por meio penny. E vocês têm também a oportunidade de ler este artigo por meio penny; junto, é claro, de outros assuntos irrelevantes.

Mas se vocês querem ver a vasta e desconcertante lista de coisas valiosas que podem ser obtidas por meio penny cada, deveriam fazer o que fiz na última noite. Estava com o nariz grudado na vitrine de uma minúscula e mal iluminada loja de brinquedos em uma das mais cinzentas e pobres ruas de Battersea. Mas, embora fosse um quadrado de luz mortiça, estava cheio (como uma criança me disse uma vez) com todas as cores que Deus já fez. Aqueles brinquedos de pobres eram como as crianças que os compravam: eram todos sujos; mas eram todos reluzentes. De minha parte, considero o brilho mais importante que a limpeza; pois o primeiro é da alma, a segunda é do corpo. Vocês devem desculpar-me: sou um democrata; sei que estou fora de moda no mundo moderno.

Enquanto olhava para aquele palácio de maravilhas anãs, pequenos ônibus verdes, pequenos elefantes azuis, pequenas bonecas negras e pequenas arcas de Noé vermelhas, devo ter entrado em alguma espécie de transe não natural. Aquela vitrine iluminada tornou-se semelhante ao palco brilhantemente iluminado em que se assiste a alguma comédia intensamente colorida. Esqueci as casas cinzentas e as pessoas encardidas atrás de mim da mesma forma como alguém esquece as tribunas escuras e o povo indistinto em um teatro. Parecia que os objetos atrás do vidro eram pequenos, não porque fossem brinquedos, mas porque estavam distantes. O ônibus verde era realmente um ônibus verde, um ônibus verde de Bayswater[ 236 ], passando através de um enorme deserto em seu caminho normal até Bayswater. O elefante azul não estava mais azul pela tinta; estava azul por causa da distância. A boneca negra era realmente um negro em relevo contra a ardente folhagem tropical na terra em que qualquer erva é uma chama e apenas o homem é negro. A arca de Noé vermelha era realmente o enorme navio da salvação terrena navegando no mar aumentado pela chuva, vermelho na primeira manhã de esperança.

Todos, suponho, conhecem tais instantes deslumbrantes de abstração, tais lacunas brilhantes da mente. Nesses momentos alguém pode ver o rosto de seu melhor amigo como um padrão ininteligível de óculos ou bigodes. São momentos marcados em geral pelos dois sinais da lentidão de seu surgimento e brusquidão do seu fim. O retorno ao pensamento real é com freqüência tão abrupto quanto trombar em um homem. Com grande freqüência, de fato (no meu caso), é mesmo trombar em alguém. Mas em qualquer caso o despertar é sempre enfático e, de forma geral, sempre completo. Ora, neste caso, voltei com um choque de sanidade à consciência de que estava, afinal, apenas olhando para uma suja e pequena loja de brinquedos; mas de alguma estranha maneira a cura mental não parecia ser completa. Havia ainda em minha mente algo de indisciplinado que me dizia que me perdera em alguma estranha atmosfera ou que já fizera algo estranho. Sentia-me como se houvesse operado um milagre ou cometido um pecado. Era como se eu tivesse, de qualquer forma, ultrapassado alguma fronteira na alma.

Para afastar esta sensação perigosa e sonhadora, entrei na loja e tentei comprar soldados de madeira. O homem da loja era muito velho e alquebrado, com cabelos brancos emaranhados cobrindo sua cabeça e metade do seu rosto, cabelos tão surpreendentemente brancos que pareciam quase artificiais. No entanto, embora fosse senil e até doente, não havia nada de sofrimento em seus olhos; parecia antes estar gradualmente adormecendo em uma decadência nada desagradável. Deu-me os soldados de madeira, mas quando pus o dinheiro no balcão pareceu primeiro não o ver; depois piscou febrilmente para ele, e em seguida empurrou-o para longe.

“Não, não”, disse vagamente. “Nunca recebo. Nunca recebo. Somos bastante antiquados aqui”.

“Não receber dinheiro”, repliquei, “parece-me uma moda mais incomumente nova do que antiga”.

“Nunca recebo”, disse o velho, piscando e assoando o nariz; “Sempre dei presentes. Estou velho demais para parar”.

“Céus!”, exclamei. “O que você quer dizer? Ora, você poderia ser Papai Noel.”

“Eu sou Papai Noel”, disse ele desculpando-se, e assoou novamente o nariz.

Ainda não havia lâmpadas acesas na rua lá fora. Mesmo assim, eu não podia ver nada na escuridão exceto o brilho da vitrine. Não havia som de passos ou vozes na rua; eu podia estar perdido em algum mundo novo e sem sol. Mas algo cortara as amarras do bom senso, e eu não conseguia sentir-me sequer surpreso, exceto de forma sonolenta. Algo fez-me dizer, “Você parece doente, Papai Noel.”

“Estou morrendo”, disse ele.

Não respondi, e foi ele quem falou novamente.

“Todas as pessoas novas deixaram minha loja. Não posso compreendê-lo. Parecem opor-se a mim em terrenos tão curiosos e inconsistentes, esses homens científicos e esses inovadores. Dizem que dou superstições às pessoas e as torno excessivamente visionárias; dizem que lhes dou salsichas e as torno excessivamente vulgares. Dizem que minhas partes celestiais são excessivamente celestiais; dizem que minhas partes terrenas são excessivamente terrenas; com certeza, não sei o que eles querem. Como podem as coisas do céu ser celestiais demais ou as da terra excessivamente terrenas? Como alguém pode ser bom demais ou alegre demais? Não entendo. Mas entendo bem uma coisa. Essas pessoas modernas estão vivas e eu estou morto.”

“Você pode estar morto”, respondi. “Você deve saber. Mas quanto ao que eles fazem, não o chame de vida”.

Caiu entre nós um silêncio que de alguma forma eu esperava que não se quebrasse. Mas não haviam passado mais que alguns segundos quando, na quietude completa, ouvi distintamente passos muito rápidos aproximando-se cada vez mais pela rua. No momento seguinte uma figura lançou-se para dentro da loja e parou emoldurada pela porta. Usava um grande chapéu branco inclinado para trás como que impacientemente; vestia pantalonas pretas antiquadas e justas, uma espalhafatosa e antiquada gravata e colete, e um velho paletó fantástico. Tinha olhos grandes, bem abertos e luminosos como os de um ator cativante; possuía uma face nervosa e pálida, e uma barba estreita. Examinou a loja e o velho em um olhar que pareceu literalmente um relâmpago e soltou uma exclamação como um homem completamente aturdido.

“Meu Deus!”, exclamou. “Não pode ser você! Não é você! Vim perguntar onde era seu túmulo.”

“Ainda não estou morto, Mr. Dickens”, disse o velho senhor, com um leve sorriso; “Mas estou morrendo”, apressou-se a acrescentar de maneira tranqüilizadora.

“Mas, co’a breca!, você estava morrendo na minha época”, disse Mr. Charles Dickens animadamente; “E você não parece nem um dia mais velho.”

“Sinto-me assim há bastante tempo”, disse Papai Noel.

Mr. Dickens virou-se e pôs a cabeça para fora da porta na escuridão.

“Dick”, urrou ele a plenos pulmões; “ele ainda está vivo”.

Outra sombra escureceu a entrada, e um cavalheiro muito maior e pletórico com uma enorme peruca entrou, abanando sua face avermelhada com um chapéu militar no corte da rainha Anne. Andava com sua cabeça bem para trás como um soldado, e seu rosto afogueado tinha até um tom de arrogância subitamente contrariado por seus olhos, que eram literalmente tão humildes como os de um cão. Sua espada fez um grande barulho, como se a loja fosse pequena demais para ela.

“De fato”, disse Sir Richard Steele[ 237 ], “é algo prodigioso, pois o homem estava morrendo quando escrevi sobre Sir Roger de Coverley[ 238 ] e seu Natal.”

Meus sentidos estavam tornando-se turvos e o aposento mais escuro. Parecia estar cheio de recém-chegados.

“Sempre se considerou”, disse um homem corpulento que mantinha a cabeça graciosa e obstinadamente um pouco inclinada para o lado – creio que era Ben Jonson[ 239 ] –, “Sempre se considerou, consule Jacobo, sob nosso rei James e sua finada Majestade a Rainha, que esses costumes bons e cordiais haviam adoecido, e estavam a ponto de sumir do mundo. Esta barba grisalha certamente não estava mais viçosa quando o conheci do que agora.”

E também acho que ouvi um homem vestido de verde, como Robin Hood, dizer em um confuso franco-normando, “Mas eu vi o homem morrer.”

“Sinto-me assim há muito tempo”, disse novamente Papai Noel em sua voz fraca.

Mr. Charles Dickens subitamente debruçou-se até ele.

“Desde quando?”, perguntou. “Desde que nasceu?”

“Sim”, disse o velho, e sentou-se tremendo em uma cadeira. “Sempre estive a ponto de morrer.”

Mr. Dickens tirou seu chapéu com um floreio como um homem que conclamasse uma multidão a pôr-se em pé.

“Agora entendo”, exclamou ele, “você jamais morrerá.”

235 Moeda inglesa de pequeno valor.

236 Área na região oeste de Londres, logo ao norte do Hyde Park. Curiosamente, é onde se localiza a maior colônia brasileira em Londres.

237 Sir Richard Steele (1672-1729), escritor e político irlandês.

238 Personagem no periódico “The Spectator”, publicado por Richard Steele e Joseph Addison em 1711.

239 Benjamin (Ben) Jonson (1572-1637), dramaturgo inglês contemporâneo de Shakespeare e um dos maiores expoentes da literatura Jacobeana (i.e. de James I).


A Balada de Uma Estranha Cidade

MEU AMIGO E EU, enquanto vadiávamos por Flandres, fomos tomados por uma forte afeição pela cidade de Mechelen ou Malines. Nosso descanso lá foi tão restaurador que a sentimos quase como um lar e praticamente não saímos dela.

Sentávamo-nos dia após dia no mercado, sob pequenas árvores crescendo em potes de madeira, e olhávamos para as nobres linhas convergentes da torre da Catedral[ 240 ], de onde os três cavaleiros de Ghent, no poema, ouviram o sino que lhes dizia que não era tarde demais[ 241 ]. Mas sentíamos o mesmo prazer em contemplar as pessoas, os meninos pequenos com rostos flamengos abertos e achatados e golas de pele em volta do pescoço, que os faziam parecer burgomestres; ou as mulheres, cujas faces empertigadas e ovais, cabelo repuxado firmemente para trás das têmporas, e bocas ao mesmo tempo duras, meigas e cheias de humor reproduziam exatamente as faces medievais de Memling e Van Eyck[ 242 ].

Mas aconteceu que uma tarde meu amigo levantou-se de sob sua arvorezinha e, apontando para uma espécie de trem de brinquedo que soltava fumaça em um canto da praça vazia, sugeriu que embarcássemos nele. Entramos no trenzinho, que na verdade servia para levar os camponeses e seus vegetais de um lado para o outro desde seus campos fora da cidade, e o funcionário veio nos dar bilhetes. Perguntamos aonde poderíamos chegar se pagássemos cinco pence. Os belgas não são um povo romântico, e ele nos perguntou (com uma lamentável mistura de rudeza flamenga e racionalismo francês) para onde queríamos ir.

Explicamos que queríamos ir para a terra da fantasia, e a única dúvida era se poderíamos chegar lá por cinco pence. Enfim, após um bocado de mal entendidos internacionais (pois ele falava francês ao modo flamengo e nós ao modo inglês), disse-nos que cinco pence nos levariam a um lugar cujo nome nunca vi escrito, mas que ao ser dito soava como a palavra “Waterloo” pronunciada por um patriota embriagado; acho que era Waerlowe.

Apertamos as mãos e dissemos que esse era o lugar que procurávamos desde a infância, e ao chegar lá desembarcamos com prontidão.

Por um momento tive um terrível medo de que fosse realmente o campo de Waterloo; mas tranqüilizei-me ao lembrar que ele ficava em uma parte bem diferente da Bélgica. Estávamos em um cruzamento, com uma cabana no canto, uma perspectiva de árvores altas como a “Estrada” de Hobbema[ 243 ], e além dela apenas o infinito tabuleiro de xadrez dos pequenos campos. Era o cenário da paz e prosperidade; mas devo confessar que a primeira atitude de meu amigo foi perguntar ao homem quando haveria outro trem de volta para Mechelen. O homem afirmou que haveria um trem retornando em exatamente uma hora. Caminhamos pela estrada, e quando estávamos a quase meia hora de distância a pé começou a chover.

Chegamos de volta ao cruzamento encharcados e pingando e, ao encontrarmos o trem esperando, embarcamos com algum alívio. O funcionário nesse trem não sabia falar nada senão flamengo, mas compreendeu o nome Mechelen, e fez sinal de que, quando chegássemos à estação de Mechelen, nos faria descer, o que fez mesmo, após um intervalo de tempo suficiente.

Desembarcamos, sob um aguaceiro constante, evidentemente nos arredores de Mechelen, embora os contornos não pudessem ser reconhecidos facilmente através da cinzenta cortina de chuva. Não costumo concordar com aqueles que acham a chuva deprimente. Um banho de chuveiro não é deprimente; é bastante estimulante. E se é empolgante que um homem jogue em você um balde d’água, por que não seria quando os deuses jogam vários baldes? Mas nessa tarde encharcada, fosse pelo horizonte monótono dos Países Baixos ou pelo fato de estarmos voltando para casa sem nenhuma aventura, realmente achei as coisas um pouco melancólicas. Assim que pudemos chegar ao abrigo de uma rua, entramos em um pequeno café, mantido por uma mulher. Ela era incrivelmente velha e não falava nada de francês. Lá tomamos café preto e o que se chamava “cognac fine”. “Cognac fine” eram as únicas duas palavras francesas usadas no estabelecimento, e não eram verdadeiras. Ao menos, a finura (talvez por sua própria delicadeza etérea) escapou-me. Após algum tempo meu amigo, que era mais inquieto do que eu, levantou-se e saiu para ver se a chuva havia parado e se poderíamos voltar logo ao nosso hotel perto da estação. Continuei sentado terminando meu café num estado de humor apático e ouvindo a chuva incessante.

Subitamente a porta abriu-se de supetão, e meu amigo apareceu, transfigurado e frenético.

“Levante-se!”, gritou ele, movendo suas mãos selvagemente. “Levante-se! Estamos na cidade errada! Não estamos em Mechelen. Mechelen é a dez, vinte milhas daqui – só Deus sabe! Estamos nalgum lugar perto de Antuérpia.”

“O quê!”, gritei, pulando de minha cadeira, e fazendo voar os móveis. “Então está tudo bem, apesar de tudo! A poesia apenas escondeu a face por um instante atrás de uma nuvem. Sem dúvida por um momento estava me sentindo deprimido por estarmos na cidade certa. Mas se estamos na cidade errada – ora, temos nossa aventura, afinal! Se estamos na cidade errada estamos no lugar certo.”

Corri para fora na chuva, e meu amigo seguiu-me algo mais austeramente. Descobrimos que estávamos em uma cidade chamada Lierre[ 244 ], que parecia consistir basicamente de confeiteiros falidos que vendiam limonada.

“Este é o ápice de todo o nosso progresso poético!”, exclamei entusiasticamente. “Temos que fazer algo, algo sacramental e comemorativo! Não podemos sacrificar um boi, e seria muito chato construir um templo. Vamos escrever um poema.”

Com apenas este pequeno incentivo, tirei um velho envelope e um desses lápis que ficam roxos na água. Havia um bocado de água ao redor, e a tinta roxa escorreu pelo papel, simbolizando o rico púrpura daquela hora romântica. Comecei, escolhendo a forma de uma velha balada francesa; é a forma mais fácil porque é a mais restrita:

“Pode o Homem ao Olimpo subir
E achar que está em Primrose Hill?
Pode o homem andar no Paraíso
E pensar que está em Turnham Green?
E poderia eu tomar-te por Malines,
Sem saber quão mais nobre és?
Ó pérola da planície, e rainha,
A adorável cidade de Lierre.

“Através do nevoeiro da memória em

[vestes cintilantes

Brilhem tuas ruas de reflexos aguados.
E úmidos ficarão meus olhos sonhadores
Ao pensar quão molhadas ficariam minhas botas
Se ora eu morresse ou atirasse num Deão[ 245 ] –

[“Can Man to Mount Olympus rise,
And fancy Primrose Hill the scene?
Can a man walk in Paradise
And think he is in Turnham Green?
And could I take you for Malines,

Not knowing the nobler thing you were?
O Pearl of all the plain, and queen,
The lovely city of Lierre.

“Through memory’s mist in glimmering guise
Shall shine your streets of sloppy sheen.
And wet shall grow my dreaming eyes,
To think how wet my boots have been
Now if I die or shoot a Dean—”]

Neste ponto interrompi-me para perguntar a meu amigo se achava que atirar em um Deão exprimia uma calamidade maior do que ser um Deão. Porém ele apenas levantou seu colarinho, e senti que para ele a musa fechara as asas. Reescrevi:

“Se eu morrer um Deão rural
Ou roubar um banco não me importo,
Nem se me tornar um Tory, pois vi
A adorável cidade de Lierre.”

[“Now if I die a Rural Dean,
Or rob a bank I do not care,
Or turn a Tory. I have seen
The lovely city of Lierre.”]

“A próxima linha”, prossegui, começando a entusiasmar-me; mas meu amigo interrompeu-me.

“A próxima linha”, disse algo bruscamente, “será uma linha de trem. Podemos voltar a Mechelen daqui, acho, embora tenhamos que baldear duas vezes. Ouso dizer que acharia isto alegremente romântico exceto pelo tempo. A aventura é o champanhe da vida, mas prefiro meu champanhe e minhas aventuras secas. Aqui está a estação.”

Não falamos novamente até termos deixado Lierre, em sua sagrada nuvem de chuva, e aproximarmo-nos de Mechelen, sob um céu mais claro, que até fazia pensar em estrelas. Então inclinei-me para a frente e disse a meu amigo em voz baixa: “Descobri tudo. Viemos para a estrela errada.”

Ele interrogou-me com o olhar, e continuei avidamente: “Isso é o que torna a vida ao mesmo tempo tão esplêndida e tão estranha. Estamos no mundo errado. Quando pensei que era a cidade certa, isso me aborreceu; quando soube que era a errada, fiquei feliz. Assim o falso otimismo, a felicidade moderna cansa-nos pois diz-nos que pertencemos a este mundo. A verdadeira felicidade é que não pertencemos. Viemos de outro lugar. Perdemo-nos no caminho.”

Ele acenou a cabeça silenciosamente, olhando para fora da janela, mas se eu o tinha impressionado ou apenas fatigado não saberia dizer. “Isto”, acrescentei, “é sugerido no último verso de um belo poema que você grosseiramente rejeitou:

“Feliz e mais que sábio é aquele
Que vê com olhos sonhadores e limpos
O mundo além do disfarce cinzento
Do sono e do hábito que o impregnam.
Sim; pelo manto celeste passaremos,
Mas saberemos ao chegarmos lá?
Quem não sabe o que estas pedras

[mortas significam,

A adorável cidade de Lierre.”

[“Happy is he and more than wise
Who sees with wondering eyes and clean
The world through all the grey disguise
Of sleep and custom in between.
Yes; we may pass the heavenly screen,
But shall we know when we are there?
Who know not what these dead stones mean,
The lovely city of Lierre.”]

Neste ponto o trem parou abruptamente. E do campanário da igreja de Mechelen ouvimos badalar a meia hora: e Joris[ 246 ] quebrou o silêncio com “Nada desses malditos ‘hors d’oeuvres[ 247 ]’ para mim: vou partir imediatamente para algo sólido”.

O Enviado

Príncipe, largo se estende seu Império, suponho,
Mas ainda mais feliz é aquele úmido prefeito
Que bebe seu conhaque bem aquém de fino
Na adorável cidade de Lierre.

[L’Envoy

Prince, wide your Empire spreads, I ween,
Yet happier is that moistened Mayor,
Who drinks her cognac far from fine,
he lovely city of Lierre.]

240 A torre da Catedral de St. Rumbold em Mechelen foi projetada para ter 167m; por motivos econômicos, porém, não foi completada conforme a planta original.

241 Referência ao poema “How they Brougt the Good News From Ghent to Aix” (1838), de Robert Browning.

242 Memling e Van Eyck: importantes pintores flamengos medievais.

243 Referência ao quadro “A estrada para Middelharnis”, de Meindert Hobberma (1638-1709), pintor holandês, atualmente exposto na National Gallery, Londres.

244 Lier.

245 Título usado para pastores ou padres veteranos em uma paróquia, com alguma ascendência sobre a diocese, mas sem autoridade jurisdicional. Equivale aproximadamente ao termo "decano". Usa-se também o título "deão rural".

246 Pseudônimo de Charle-Marie-Georges Huysmans (1848-1907), escritor francês de grande erudição e forte veia satírica. Seria o amigo de Chesterton nesta crônica?

247 Aperitivos.


O Mistério de um Desfile

UMA VEZ, parece que séculos atrás, fui persuadido a ter um pequeno papel numa daquelas procissões históricas ou desfiles que por acaso estavam na moda por volta do ano de 1909[ 248 ]. E já que tenho a tendência, como todos os que envelhecem, a voltar ao passado remoto como a um paraíso ou parque de diversões, vou desenterrar uma lembrança que pode servir para ficar entre aquelas memórias de pequenos mas estranhos incidentes com os quais às vezes enchi esta coluna. O episódio tem mesmo algumas das qualidades sombrias de uma novela policial; embora suponho que o próprio Sherlock Holmes teria dificuldade em solucioná-la agora, quando o rastro está tão velho e frio e a maioria dos atores, sem dúvida, mortos faz tempo.

Esse antigo desfile incluía uma série de personagens do século dezoito, e disseram-me que eu era exatamente como Dr. Johnson[ 249 ]. Considerando que Dr. Johnson era cheio de marcas de varíola, tinha um colete todo sujo de molho, bufava e balançava ao andar, e era provavelmente o homem mais feio de Londres, menciono esta semelhança como um fato e não para vangloriar-me. Não tive nenhuma parte nos preparativos; e as breves sugestões que fiz não foram tomadas tão a sério quanto poderiam ter sido. Pedi que uma fileira de postes fosse erigida ao longo do gramado, de forma que eu pudesse tocar todos menos um e depois voltar e tocá-lo[ 250 ]. Não sendo possível, pensava que o mínimo que podiam fazer era deixar vinte e cinco xícaras de chá[ 251 ] esperando a intervalos regulares ao longo do percurso, cada uma levada por uma Mrs. Thrale[ 252 ] completamente caracterizada. Minha melhor sugestão construtiva foi a mais asperamente rejeitada de todas. À minha frente na procissão caminhava o grande Bispo Berkeley[ 253 ], o homem que virou a mesa dos primeiros materialistas ao defender que a própria matéria possivelmente não existia. Dr. Johnson, vocês se lembram, não apreciava idéias tão insondáveis como as de Berkeley e chutou uma pedra dizendo: “É assim que refuto a ele!” Ora (como observei), chutar uma pedra não tornaria a discussão metafísica clara o suficiente; além disso, machucaria. Mas quão pitoresco e perfeito seria se eu atravessasse o gramado na posição simbólica de chutar o Bispo Berkeley! Que grupo alegórico completo: o grande transcendentalista caminhando com a cabeça entre as estrelas, mas atrás dele o realista coxo[ 254 ] vingador com o pé levantado. Mas não devo ocupar espaço com essas frivolidades esquecidas; nós velhos nos tornamos muito tagarelas ao falar do passado distante.

Esta história dificilmente diz respeito a mim, seja na minha pessoa real ou na de minha personagem. Basta dizer que a procissão ocorreu à noite em um grande jardim e à luz de tochas (tão remota era a data), que o jardim estava cheio de puritanos, monges, homens de armas e especialmente antigos santos celtas fumando charutos, e elegantes cavalheiros renascentistas falando cockney[ 255 ]. Basta dizer, ou melhor, é até desnecessário dizer, que eu me perdi. Perambulei até algum canto escuro daquele matagal escuro, onde não havia nada para fazer exceto tropeçar em cabos de tendas, e quase comecei a sentir-me como meu protótipo e a compartilhar seu horror à solidão e ódio à vida no campo.

Nesse isolamento e dilema, vi outro homem de peruca branca avançar por aquele trecho esquecido de grama; um homem alto e magro, que se curvava em suas longas vestes negras como uma águia. Quando pensei que passaria ao largo de mim, parou à minha frente e disse: “Dr. Johnson, eu suponho. Eu sou Paley[ 256 ].”

“Senhor”, eu disse, “o senhor costumava guiar os homens aos princípios do Cristianismo. Se puder agora guiar-me a seja onde for que esta coisa infernal começa, terá feito um trabalho ainda mais elevado e mais árduo.”

Sua fantasia e estilo eram tão perfeitos que por um instante realmente pensei que era um fantasma. Não tomou conhecimento de minha irreverência, mas, fazendo meia volta com seu manto negro, levou-me através de sombras verdejantes e caminhos sinuosos cheios de musgo, até que saímos para o brilho de lâmpadas de gás e risonhos homens mascarados e pude rir de mim mesmo à vontade.

E este, vocês dirão, foi o fim da história. Eu sou (vocês dirão) naturalmente obtuso, covarde e mentalmente deficiente. Eu não era, além disso, habituado a desfiles; senti-me assustado no escuro e tomei por um espectro um homem que, na luz, pude reconhecer como um cavalheiro moderno em uma fantasia mascarada. Não: longe disso. Aquele personagem espectral foi minha primeira introdução a um incidente especial que nunca foi explicado e que ainda me dá nos nervos.

Misturei-me aos homens do século dezoito, e brincamos como se faz em um baile à fantasia. Lá estava Burke[ 257 ] em carne e osso e de aspecto bem mais atraente. Lá estava Cowper[ 258 ] muito maior do que na vida real; deveria ser um homenzinho com uma touca de dormir, com um gato debaixo de um braço e um spaniel debaixo do outro. Do jeito que estava, era uma pessoa magnífica, e parecia-se mais com o Senhor de Ballantrae[ 259 ] do que Cowper. Por fim consegui persuadi-lo a usar a touca de dormir, mas não o cão e o gato, infelizmente. Quando voltei na noite seguinte Burke ainda era o mesmo belo melhoramento de si mesmo; Cowper ainda chorava por seu cão e gato e não podia ser consolado[ 260 ]; o Bispo Berkeley ainda esperava para ser chutado em prol da filosofia. Em resumo, encontrei todos os meus antigos amigos menos um. Onde estava Paley? Eu fora misticamente tocado por sua presença; sua ausência tocava-me ainda mais. Por fim vi avançando até nós através do jardim mal iluminado um homenzinho com um grande livro e uma face alegre e atraente. Quando aproximou-se o suficiente disse, em uma voz pequena e clara: “Eu sou Paley”. A coisa era muito natural, é claro: o homem adoecera e mandara um substituto. Mesmo assim, de alguma forma o contraste foi um choque.

Na noite seguinte eu já me tornara bastante amigo de meus quatro ou cinco colegas; descobrira o que se chama um amigo em comum com Berkeley e vários pontos de divergência com Burke. Acho que foi Cowper que me apresentou a um amigo seu, um rosto jovem, quadrado e robusto, contornado por uma peruca branca. “Este”, ele explicou, “é meu amigo Fulano de Tal. Ele é Paley.” Olhei ao redor para todos os rostos a esta altura fixos e familiares; estudei-os; contei-os; a seguir inclinei-me para o terceiro Paley como algo inevitável. Até então a situação estava bem dentro dos limites da coincidência. Parecia certamente estranho que este clérigo em particular fosse tão variável e esquivo. Era singular que apenas Paley, entre todos os homens, devesse crescer e encolher-se e mudar como um fantasma, enquanto todo o resto permanecia sólido. Mas a coisa era explicável; dois homens ficaram doentes e isso era tudo; só que voltei na noite seguinte, e um jovem elegante de pele clara, com o cabelo empoado, juntou-se a mim e disse-me com entusiasmo juvenil que ele era Paley.

Pelas vinte e quatro horas seguintes permaneci na condição mental do mundo moderno. Quero dizer a condição em que todas as explicações naturais foram destruídas e nenhuma explicação sobrenatural foi estabelecida. Minha estupefação chegara ao tédio quando cheguei novamente à cor e ao barulho da festa, e fiquei ainda mais satisfeito porque encontrei um velho colega de escola e nos reconhecemos mutuamente sob nossas roupas pesadas e perucas grisalhas. Conversamos sobre todas aquelas coisas grandiosas para as quais a literatura é muito pequena e apenas a vida é grande o bastante: lembranças ardentes e aqueles gigantescos detalhes que forjam o caráter dos homens. Ouvi tudo sobre os amigos com quem ele perdera o contato e aqueles com quem o mantivera; ouvi sobre sua profissão, e por fim perguntei como viera parar no desfile.

“O fato é”, disse-me, “um amigo meu pediu-me, apenas hoje, que representasse um indivíduo chamado Paley; não sei quem ele era...”

“Não, com os trovões!” exclamei, “e ninguém sabe.”

Esse foi o último golpe, e a noite seguinte passou como num sonho. Mal notei a figura esguia, jovial e completamente nova que entrou nas fileiras no lugar de Paley, tantas vezes falecido. O que isso queria dizer? Por que o inconstante Paley era infiel entre os fiéis? Essas contínuas mudanças provavam a popularidade ou a impopularidade de ser Paley? Será que nenhum ser humano podia suportar ser Paley por uma noite e sobreviver até a manhã? Ou será que os portões estavam abarrotados de multidões ansiosas do público britânico desejosas de ser Paley e que só podiam ser admitidas uma pessoa por vez? Ou há alguma antiga vendetta contra Paley? Alguma sociedade secreta de deístas ainda assassina qualquer um que adote o nome?

Não posso fazer mais conjeturas sobre este verdadeiro conto de mistério; e isso por duas razões. A primeira é que a história é tão verdadeira que tive de incluir nela uma mentira. Todas as palavras desta narrativa são verdadeiras, exceto a palavra Paley. E a segunda, porque tenho de ir ao quarto ao lado e fantasiar-me de Dr. Johnson.

248 Toda a referência de Chesterton sobre a antiguidade dos fatos é irônica, uma vez que este livro foi publicado em 1911.

249 Samuel Johnson (1709-1784), importante literato e membro da Tory, partido conservador inglês.

250 Samuel Johnson tinha comportamentos compatíveis com o transtorno obssessivo-compulsivo. Entre outros, tinha o hábito de tocar todos os postes das ruas por onde andava.

251 Samuel Johnson tinha fama de ser também grande consumidor de chá.

252 Hester Lynch Thrale (1741-1821), amiga e correspondente de Samuel Johnson.

253 George Berkeley (1685-1753), filósofo irlandês e ministro anglicano, defendeu a teoria filosófica conhecida como “imaterialismo”.

254 No original, “pede claudo”.

255 Dialeto inglês das áreas mais pobres de Londres.

256 William Paley (1743-1805), filósofo e teólogo cristão britânico, publicou obras sobre teologia natural.

257 Edmund Burke (1729-1797), filósofo e político irlandês que atuou na Câmara dos Comuns pelo partido Whig (liberal).

258 William Cowper (1731-1800), poeta inglês.

259 Referência ao conto “O Senhor de Ballantrae” (1889), de Robert Louis Stevenson.

260 Alusão à profecia de Jeremias, 31,15, citada depois no Evangelho de S. Mateus (2,18) quando da matança das crianças inocentes por Herodes: "Ouviu-se uma voz em Ramá, pranto e grande lamentação; é Raquel que chora seus filhos, e não pode ser consolada porque já não existem."

 

 

                                                                  G.K. Chesterton

 

 

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