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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UM CEMITÉRIO PARA LUNÁTICOS / Ray Bradbury
UM CEMITÉRIO PARA LUNÁTICOS / Ray Bradbury

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Era uma vez duas cidades dentro de certa cidade. A primeira era a luz e a segunda, a escuridão. Uma agitava-se ininterruptamente duran­te o dia enquanto a outra nunca se movia. Uma era quente e cheia de luzes nômades. A outra era fria e fixada com pedras no lugar. E ao en­tardecer, quando o sol se punha na Companhia Cinematográfica Maximus, a cidade dos vivos, esta começava a se parecer com o Cemitério Green Glades ali ao lado, a cidade dos mortos.

Ao apagar das luzes, cessavam todos os movimentos, tornava-se frio o sopro do vento pelos prédios do estúdio. Uma melancolia inacreditá­vel parecia irradiar-se do portão de entrada dos vivos, propagando-se pela penumbra das avenidas em direção ao muro alto de tijolos que se­parava as duas cidades no interior de uma terceira. Subitamente as ruas se enchiam de algo que só poderia ser definido como reminiscências. Pois, quando as pessoas iam embora, deixavam atrás de si os prédios assombrados por fantasmas de acontecimentos insólitos.

 

 

 

 

Sem dúvida era a cidade mais extravagante do mundo, onde qual­quer coisa poderia acontecer, e geralmente acontecia. Dez mil mortes ocorriam ali, e, depois que as mortes se consumavam, as pessoas levantavam-se rindo e afastavam-se. Edifícios inteiros pegavam fogo e não queimavam. Sirenes uivavam e os carros de polícia cantavam pneus pelas esquinas, para que depois os guardas tirassem os uniformes, pas­sassem creme na maquiagem pesada e fossem para casa — pequenos bangalôs de subúrbio no imenso e quase sempre monótono mundo ex­terior.

Dinossauros arrastavam-se pelo lugar, ora em tamanho miniatura ora com quinze metros, ameaçando virgens em trajes sumários, que grita­vam em tons agudos e afinados. Dali partiam vários cruzados, para colocar as armaduras nos cabides e guardar as lanças no Vestiário Oeste, ao final da rua. Dali, Henrique VIII mandava decapitar diversas cabe­ças. Ali vagava Drácula em carne e osso para em seguida retornar ao pó. Também ocorriam os Passos da Paixão, que deixavam uma trilha inesgotável de sangue, enquanto os roteiristas percorriam seu Calvário carregando sua quota enorme de revisões, perseguidos por diretores com açoites e montadores com estiletes afiados. Era das torres ali existentes que partia o chamado, conclamando os fiéis muçulmanos para as ora­ções ao poente, enquanto as limusines ronronavam, transportando poderes sem rosto por trás de cada janela, e os camponeses baixavam os olhos, temendo cegar.

Tudo isso sendo verdadeiro, era mais uma razão para acreditar que, quando o sol desaparecia, velhas assombrações se erguiam, a cidade quente esfriava e começava a parecer com as alamedas ladeadas de már­more do outro lado do muro. Por volta da meia-noite, naquela estranha paz provocada pela temperatura, pelo vento e pelo dobrar do sino de alguma igreja distante, as duas cidades tornavam-se finalmente uma só. Ao vigia noturno cabia o único movimento, fazendo a ronda desde a índia até a França, das pradarias do Kansas à Nova York de cimento, de Piccadilly Circus à escadaria da Piazza di Spagna em Roma, cobrin­do trinta mil quilômetros de território em escassos vinte minutos.

Ao mesmo tempo, seu companheiro do outro lado do muro batia os relógios de ponto entre os monumentos, iluminava com sua lanterna dezenas de querubins de pedra, lia nomes nas lápides como se fossem créditos, e sentava-se para tomar o chá da meia-noite com os restos mor­tais de algum guarda de cinema mudo. Às quatro da manhã, com os vigias adormecidos, as duas cidades, confundindo-se, aguardavam que o sol nascesse sobre as flores murchas, os túmulos erodidos e a índia dos elefantes pronta para a superpopulação, desde que Deus — o dire­tor — ordenasse, e a Central de Elenco realizasse.

Assim foi na véspera de Todos os Santos, em 1954.

Dia das Bruxas.

Minha noite favorita do ano.

Se não fosse, talvez eu não tivesse corrido para começar esse novo Conto de Duas Cidades.

Como poderia eu resistir, quando um cinzel frio esculpira um convite?

Como poderia eu deixar de ajoelhar, tomar fôlego, e soprar a poeira do mármore?

- 2 -

O primeiro a chegar...

Eu chegara ao estúdio às sete horas naquela manhã do Dia das Bruxas.

O último a sair...

Eram quase dez horas, e eu estava dando o último passeio noturno, saboreando o fato simples, mas estranho, de que finalmente eu traba­lhava num local onde tudo era claramente definido. Aqui existiam iní­cios perfeitamente nítidos, e finais caprichados e irreversíveis. Do lado de fora, além dos estúdios, eu não confiava muito na vida, com suas surpresas terríveis e tramas mal alinhavadas. Aqui, andando entre as alamedas ao amanhecer ou à noitinha, eu podia imaginar que abria ou fechava o estúdio. Pertencia a mim simplesmente porque eu dizia que assim era.

Portanto, eu palmilhava um território que tinha oitocentos metros de largura e mil e seiscentos de comprimento, entre catorze estúdios à prova de som e dez cenários externos, como uma vítima de meu próprio romantismo e da adoração fanática pelos filmes que controlavam a vida quando ela saía fora de controle além dos portões espanhóis de ferro trabalhado.

Era tarde, mas muitos filmes tinham seus términos programados pa­ra o Dia das Bruxas, e as festas de despedida coincidiam em vários pal­cos de filmagem. Através de três das gigantescas portas deslizantes dos estúdios, totalmente abertas, vinha a música de grandes orquestras, o som de gargalhadas, cantoria e rolhas de champanhe espocando. No interior, equipes em roupas de cena saudavam as multidões no exte­rior, em trajes do Dia das Bruxas.

Não entrei em nenhuma dessas festas, contentando-me em sorrir ou gargalhar ao passar. Afinal de contas, desde que eu imaginava que o estúdio era todo meu, podia ficar ou sair a meu bel-prazer.

Mas, ao mergulhar novamente nas sombras, senti que estremecia. Mi­nha paixão por cinema vinha de longa data. Era como ter um caso com King Kong, que caíra sobre mim quando eu tinha treze anos; eu nun­ca conseguira escapar de sob aquela carcaça enorme, cujo coração ain­da batia.

O estúdio caía sobre mim da mesma forma todas as manhãs, quando eu chegava. Demorava algumas horas para libertar-me daquele encan­tamento, respirar normalmente, e começar a trabalhar. Ao crepúsculo o encantamento retornava; minha respiração sofria. Eu sabia que al­gum dia eu teria de sair, libertar-me, ir para não voltar, ou — como King Kong, sempre caindo e sempre pousando — isso um dia iria me esmagar.

Passei pelo último cenário, onde um derradeiro alarido de risos e jazz ritmado fazia as paredes vibrar. Um dos assistentes de câmera passou de bicicleta, a cestinha cheia de rolos de filmes, a caminho da autópsia sob a lâmina de um montador, o qual tinha o poder de salvar o filme ou enterrá-lo para sempre. Depois iria para os cinemas, ou para as pra­teleiras onde ficam os filmes mortos, que em vez de apodrecerem se enchem de poeira.

Um relógio de igreja nas colinas de Hollywood bateu dez horas. Dei meia-volta e retornei ao meu cubículo, no prédio dos redatores.

O convite para fazer papel de bobo esperava por mim no escritório.

Não cinzelado num pedaço de mármore, mas cuidadosamente dati­lografado em papel de boa qualidade.

Lendo-o, afundei em minha poltrona, o rosto frio, a mão tentada a amassar o bilhete e atirá-lo no lixo. Dizia:

 

PARQUE GREEN GLADES. Dias das Bruxas.

Hoje à meia-noite.

Centro do muro dos fundos.

P.S. Uma grande revelação o aguarda. Material para um romance de primeira linha, ou um roteiro magnífico. Não perca!

 

Na verdade, não sou um sujeito corajoso. Nunca aprendi a dirigir. Nunca subi num avião. Tinha medo de mulheres até a idade de vinte e cinco anos. Detesto lugares altos; o Empire State representa terror puro para mim. Elevadores me deixam nervoso. Escadas rolantes parecem querer me morder. Sou exigente em relação à comida. Só comi meu primeiro bife aos vinte e quatro, alimentando-me durante a infância de hambúrgueres, sanduíches de presunto e picles, ovos e sopa de tomate.

— Parque Green Glades! — exclamei em voz alta.

Meu Deus, pensei, meia-noite? Eu, o sujeito amedrontado pelos va­lentões do bairro durante toda a adolescência? O menino que se escondeu sob o braço do irmão na primeira vez em que assistiu a O Fantas­ma da Ópera?

Esse mesmo.

— Idiota! — gritei.

E fui para o cemitério.

À meia-noite.

- 3 –

Ao sair, fui em direção ao banheiro dos homens, que não ficava longe do portão principal, depois desviei meu caminho. Era um lugar que eu aprendera a evitar, um subterrâneo escuro com sons de águas ocultas a correr e um ruído sorrateiro, como de lagostins furtivos escondendo-se quando a gente começava a abrir a porta. Eu aprendera, longo tempo atrás, a hesitar, pigarrear e abrir lentamente a porta. Então várias portas dos re­servados fechavam suavemente ou com estrondos abafados, quando as cria­turas que habitavam o subterrâneo durante o dia retiravam-se em pânico, e a gente entrava naquele silêncio frio de porcelana branca e correntes ocul­tas, fazia logo o que tinha de fazer e saía o mais rápido possível, sem ao menos lavar as mãos. Do lado de fora ouvia-se novamente o dissimulado despertar dos lagostins, as portas abrindo-se num sussurro, e a volta das criaturas, em vários estágios febris e de confusão.

Afastei-me, como disse, gritei para ver se havia alguém no interior, e entrei no banheiro de mulheres ali ao lado, que era um local de cerâ­mica branca e fria, mas não ficava embaixo da terra, nem apresentava ruídos furtivos. Fiquei lá dentro só o minuto necessário, saindo a tem­po de ver um regimento de soldados prussianos passar em direção a uma festinha no Estúdio 10, liderado por seu capitão. Um belo jovem com cabelos tipo nórdico e grandes olhos azuis e inocentes encaminhou-se para o banheiro, sem saber de nada.

Nunca mais será visto, pensei, apressando-me pelas ruas noturnas rumo ao táxi que me esperava.

O táxi era um luxo ao qual eu não podia me dar, mas diabos me carregassem se eu ia me aventurar sozinho até o cemitério. Chegamos aos portões sombrios três minutos antes da hora marcada.

Passei dois longos minutos contando aqueles túmulos e monumentos onde o Parque Green Glades empregava cerca de nove mil pessoas mor­tas, em tempo integral.

Há cinqüenta anos que eles vinham acumulando horas ali. Desde que os construtores do loteamento, Sam Green e Ralph Glades, foram à fa­lência, nivelaram as ruas de cascalho e erigiram suas lápides.

Percebendo que seus nomes resultavam numa boa combinação, os construtores falidos batizaram o local simplesmente de Parque Green Glades, onde todos os esqueletos dos armários do estúdio foram enterrados.

Acredita-se que muita gente de cinema envolvida no empreendimen­to imobiliário pressionou para que os dois cavalheiros se aposentassem. Muitos mexericos, rumores, culpas e crimes periclitantes foram sepul­tados com a primeira cerimônia de enterro.

Enquanto meus joelhos tremiam e meus dentes rilhavam, eu olhava para o outro lado do muro, no qual podia divisar seis belos estúdios, seguros, quentes e bonitos, onde as últimas comemorações do Dia das Bruxas terminavam, os músicos paravam, e as pessoas direitas iam pa­ra casa com as pessoas erradas.

Observando as luzes dos faróis dos carros a passar pelas imensas pa­redes dos estúdios, eu podia imaginar as despedidas, e subitamente de­sejei estar com eles, certos ou errados, indo para lugar nenhum, que era certamente melhor do que onde eu estava.

No interior, um relógio do cemitério começou a bater meia-noite.

— Então? — perguntou alguém.

Senti meus olhos desviarem-se da distante parede do estúdio e fixarem-se na cabeça do motorista.

Ele olhava para os portões de ferro trabalhado, chupando os dentes grandes como se fossem chicletes. Os portões rangiam ao vento, após a última badalada.

— Quem vai abrir o portão? — perguntou o motorista.

— Eu? — arrisquei, consternado.

— Exatamente — concluiu o motorista.

Depois de mais um longo minuto, forcei-me a lidar com os portões, e qual não foi minha surpresa ao encontrá-los sem trancar. Abri as duas folhas.

Andei à frente do táxi, como um velho que acompanhasse um cavalo cansado e assustado. O automóvel balançava e resfolegava, o que não ajudava em nada, assim como o motorista resmungando:

— Droga, se alguma coisa vier correndo na nossa direção, não espere que eu fique por aqui.

— Não espere que eu fique, também — respondi. — Vamos lá!

Havia um bocado de formas esbranquiçadas em ambos os lados do caminho de cascalho. Escutei um fantasma suspirar em algum lugar, mas tratava-se apenas do resfolegar dos meus próprios pulmões, tentando ame­nizar um pouco o fogo em meu peito.

Algumas gotas de chuva caíram sobre minha cabeça.

— Meu Deus — sussurrei. — E eu sem guarda-chuva! Que diabo estou fazendo aqui?, pensei.

Em todas as vezes que eu assistira a velhos filmes de terror, rira do su­jeito que saía à noite, quando deveria ficar quieto. Ou da mocinha que fazia a mesma coisa, piscando os grandes olhos inocentes e usando sapa­tos de salto fino para tropeçar ao correr. Ainda assim eu estava naquele lugar, trazido por um estúpido bilhete.

— Muito bem — declarou decididamente o motorista. — É por aqui que eu fico...

— Covarde!

— Sou mesmo — admitiu ele. — Vou esperar bem aqui!

Estava a meio caminho do muro dos fundos, e a chuva caía em finas lâminas, que encharcavam meu rosto e afogavam os palavrões em minha garganta.

Os faróis do táxi forneciam luz suficiente para que eu pudesse divisar uma escada apoiada no muro, levando ao quintal da Companhia Cinematográfica Maximus.

Ao pé da escada levantei os olhos contra a garoa fria.

No alto, um homem parecia estar subindo para pular o muro.

Mas ele estava imóvel como se fotografado por um raio, gravando-o pa­ra sempre numa emulsão em preto-e-branco. A cabeça projetava-se para a frente lembrando um cometa em plena órbita, e seu corpo curvava-se como se ele pretendesse atirar-se nos estúdios da Maximus.

Mesmo assim, como uma estátua grotesca, ele permanecia imóvel.

Comecei a chamar, com o rosto voltado para cima, quando descobri o porquê do silêncio e da feita de movimentos.

O homem lá no alto ou morria ou já estava morto.

Viera até o local, perseguido pela escuridão, subira à escada e congelara-se ao deparar-se com... com o quê? Alguma coisa do outro lado matara-o de medo? Ou haveria algo pior ainda na escuridão do estúdio?

A chuva escorria pelas lápides brancas.

Balancei de leve a escada.

— Meu Deus! — gritei.

Pois o velho, no alto da escada, despencou.

Saltei para fora da trajetória.

Ele aterrissou como um meteoro de chumbo pesando dez toneladas, entre as sepulturas. Levantei-me e inclinei-me sobre ele, sem conseguir ouvir nada por causa da minha respiração e da chuva que nos encharcava.

Olhei para o rosto do homem morto.

Ele me encarou com olhos de ostra.

Por que está olhando para mim?, perguntou ele silenciosamente.

Porque conheço você!, pensei.

O rosto dele parecia feito de pedra branca.

James Charles Arbuthnot, ex-presidente da Companhia Cinematográfi­ca Maximus, concluí.

Isso mesmo, sibilou ele.

Mas... mas, balbuciei em silêncio. Da última vez que o vi eu tinha tre­ze anos de idade e andava de patins em frente ao estúdio. Bem na semana em que você morreu, há vinte anos. Naquela época, por três dias foram publicadas dúzias de fotos do acidente, aquele desastre terrível, com a calçada ensangüentada e os corpos mutilados. Nos dois dias que se seguiram, vi as fotos dos milhares de pessoas que compareceram ao funeral, levando milhões de flores. Os figurões da companhia, vindos de Nova York, choravam lágrimas de verdade, e os artistas usavam óculos escuros para esconder os olhos úmidos. Você perdeu o espetáculo. Depois das últimas fotos dos carros destruídos no Bulevar Santa Mônica, foram necessárias várias semanas para que os jornais esquecessem o assunto e as estações de rádio parassem de louvar e perdoar o rei por ter morrido. Tudo isso, James Charles Arbuthnot, foi você.

Não pode ser! É impossível, quase gritei. O que ele estava fazendo ho­je, aqui, no alto dessa escada? Quem o colocou aí? Não se pode morrer duas vezes, certo?

Um raio caiu. Seguiu-se um trovão, como o estrondo de uma porta gi­gantesca batendo. A chuva encharcava o rosto do homem morto, forman­do lágrimas em seus olhos. A água se acumulava na boca aberta.

Girei nos calcanhares, gritei e fugi.

Quando cheguei ao táxi, percebi que havia deixado meu coração para trás.

Ele estava correndo atrás de mim. A idéia me atingiu como um tiro, e joguei-me contra o carro.

O motorista olhava para a trilha de cascalho atrás de mim, banhada pela chuva que riscava o cone luminoso dos faróis.

— Tem alguém aí atrás? — gritei para o motorista, entrando no carro.

— Não!

— Graças a Deus! Saia já daqui! O motor morreu.

Nós dois xingamos, desesperados.

O motor pegou de novo, como se também estivesse com medo. Não é fácil andar em marcha a ré a noventa quilômetros por hora. Mas nós conseguimos.

- 4 –

Fiquei andando metade da noite em minha sala de estar comum, com mobília comum, em meu pequeno chalé numa rua normal, numa par­te sossegada da cidade. Tomei três xícaras de chocolate quente, mas con­tinuei frio enquanto minha mente projetava imagens nas paredes.

Pessoas não morrem duas vezes!, pensei. Aquele na escada ao vento noturno não podia ser James Charles Arbuthnot. Corpos apodrecem. Corpos somem.

Lembrei-me de um dia de 1934, em que J.C. Arbuthnot descera de sua limusine em frente ao estúdio quando eu passava de patins, tro­pecei e caí nos braços dele. Rindo, ele me equilibrou, deu seu autógra­fo, beliscou minha bochecha e entrou.

E agora, meu bom Deus, aquele homem, há muito desaparecido no tempo, caíra de uma escada embaixo de chuva na grama do cemi­tério.

Ouvi vozes e enxerguei as manchetes:

J.C. ARBUTHNOT, MORTO, ACABA DE RESSUSCITAR

 

— Não! — gritei para o teto. — Não era ele! É mentira!

- 5 -

A aurora não trouxe nenhum alívio.

O rádio e a televisão não noticiaram cadáver algum.

O jornal estava cheio de desastres de automóveis e comandos contra drogas. Mas ninguém falava em J.C. Arbuthnot.

Saí de casa, fui até a garagem cheia de brinquedos, velhas revistas científicas ou de invenções, e, em vez de carro, peguei minha bicicleta de segunda mão.

Percorri com ela metade do trajeto até o estúdio antes que me desse conta de não ter parado em nenhum cruzamento. Tremendo, caí da bi­cicleta.

Um carro esporte vermelho e conversível cantou pneus e parou a meu lado.

O homem ao volante, usando um boné colocado ao contrário, aper­tou o acelerador. Através do pára-brisas, um dos olhos azuis estava ar­regalado, e o outro coberto por um monóculo que refletia o sol de for­ma ofuscante.

— Oi, seu idiota filho de uma puta — cumprimentou ele, pronun­ciando as vogais com sotaque alemão.

Quase derrubei a bicicleta. Havia visto aquele perfil estampado em velhas moedas quando tinha doze anos. O homem ou era a reencarnação de um César, ou o alto pontífice alemão do Sacro Império Romano Germânico. Meu coração expulsou todo o ar dos pulmões.

— O que foi? — gritou ele. — Fale de uma vez!

— Oi — ouvi minha voz responder —, seu idiota filho de uma puta. É Fritz Wong, certo? Nascido em Xangai de pai chinês e mãe austríaca, criado em Hong Kong, Bombaim, Londres e numa dúzia de cida­des na Alemanha. Office-boy, depois montador, roteirista e iluminador na UFA, a grande produtora alemã, finalmente diretor pelo mundo to­do. Fritz Wong, o realizador do soberbo filme mudo O Encantamento de Cavalcanti. O sujeito que dominou Hollywood de 1925 a 1927, que foi expulso por causa de uma cena na qual dirigiu a si mesmo fazendo um general prussiano que cheirava a roupa de baixo de Gerta Froelich. O cineasta internacional que voltou para Berlim, depois fugiu de lá antes de Hitler chegar, o diretor de Louco Amor, Delírio, Até a Lua e de Volta...

A cada afirmação, sua cabeça se voltava alguns centímetros, ao mes­mo tempo que a boca se abria num sorriso de marionete. O monóculo refletia um brilho em código Morse.

Por trás dele repousava a leve sugestão de um olho oriental. Imaginei que o olho esquerdo fosse de Pequim, e o direito de Berlim, mas não. Era simplesmente o aumento provocado pela lente do monóculo que olhava para o Oriente. Sua sobrancelha e os malares denotavam uma arrogância teutônica, que duraria uns dois mil anos, ou até que seu con­trato terminasse.

— Você me chamou do quê? — perguntou ele com educação.

— Da mesma coisa que chamou a mim — respondi, debilmente. — De idiota filho de uma puta.

Ele concordou com um gesto. Sorriu. Bateu com a mão na lataria do carro.

— Entre!

— Mas você não me...

— Não conheço você? Acha que eu ando por aí oferecendo caronas a todos os ciclistas idiotas que encontro? Pensa que já não vi você se escondendo pelas esquinas no estúdio, ou fingindo ser o Coelho Bran­co no refeitório? Você é aquele... — ele estalou os dedos — aquele filho bastardo de Edgar Rice Burroughs com O Guerreiro de Marte... o re­bento ilegítimo de H. G. Wells, de Júlio Verne. Ponha a bicicleta aqui dentro. Estamos atrasados!

Atirei minha bicicleta na traseira e entrei no carro pouco antes que atingisse oitenta quilômetros por hora.

— Veja você — berrou ele, acima do roncar do escapamento. — Nós dois somos loucos de trabalhar onde trabalhamos. Mas você tem sorte. Ainda gosta.

— Você não? — perguntei.

— Que Deus me ajude — resmungou ele. — Gosto!

Eu não conseguia tirar meus olhos de Fritz Wong, que dirigia incli­nado ao volante, para permitir que o vento lhe fustigasse o rosto.

— Você é o sujeito mais idiota que já encontrei! Quer se matar? Qual o problema, nunca aprendeu a dirigir? Que tipo de bicicleta é essa? É o seu primeiro trabalho no cinema? Como consegue escrever aquela porcaria? Por que não lê Thomas Mann, Goethe?

— Thomas Mann e Goethe — respondi calmamente — não conse­guiriam escrever um roteiro de cinema que prestasse. Morte em Veneza? Tudo bem. Fausto? Certo. Mas num bom roteiro. Ou uma história curta como as minhas, aterrissando na Lua e fazendo parecer verdadeiro? Que diabo, não? Como consegue guiar com esse monóculo?

— Não é da sua conta! É melhor ser cego. Se olhar muito de perto para o motorista da frente, a gente tem vontade de enfiar o carro em cima dele. Deixe ver seu rosto. Você me aprova?

— Acho que você é engraçado.

— Meu Deus! Você deve encarar tudo o que Wong, o Magnífico diz como a Palavra Divina. Por que não dirige?

Estávamos ambos gritando contra o vento que açoitava nossos olhos e bocas.

— Escritores não têm dinheiro para comprar carros! Além disso, vi cinco pessoas morrerem despedaçadas quando tinha quinze anos. O car­ro bateu num poste.

Fritz perscrutou meu rosto, que estava pálido com a lembrança.

— Foi como uma guerra, não foi? Até que você não é tão burro as­sim. Ouvi dizer que foi designado para um projeto com Roy Holdstrom. Efeitos especiais? Brilhante. Detesto admitir.

— Somos amigos desde o colegial. Eu costumava ficar olhando en­quanto ele montava dinossauros na garagem. Prometemos crescer e tra­balhar juntos com monstros.

— Não é bem assim! — gritou Fritz Wong. — Vocês trabalham para os monstros. Manny Leiber? Um lagarto monstruoso sonhando com uma aranha. Cuidado! Aí está o circo!

Ele acenou para os caçadores de autógrafos na calçada em frente aos portões do estúdio.

Olhei para lá. Imediatamente minha memória foi ativada e voltei no tempo. Era 1934, e eu estava espremido pela multidão ululante, que erguia blocos e canetas, acotovelando-se nas noites de pré-estréias sob os holofotes, ou perseguindo Marlene Dietrich em seu cabeleireiro, ou correndo atrás de Cary Grant nas lutas de boxe às sextas-feiras no Legion Stadium, ou em vigília às portas dos restaurantes, esperando que Jean Harlow terminasse seu almoço de três horas, ou que Claudette Colbert saísse rindo, à meia-noite.

Meus olhos focalizaram a multidão insensata, e enxerguei novamente os rostos míopes de buldogues e pequineses, pertencentes a incontáveis amigos que eu fizera no passado, esperando perante a fachada, estilo Museu do Prado dos estúdios Maximus, onde os ferros intrincadamen­te entrelaçados com dez metros de altura abriam-se e fechavam-se so­bre os que eram incrivelmente famosos. Vi a mim mesmo perdido na­quele ninho de pássaros de bocas abertas, aguardando para saciar a fo­me com breves encontros, fotografias, ou autógrafos. Enquanto o sol se punha e a lua subia em minha memória, vi a mim mesmo patinando quinze quilômetros de volta para casa pelas calçadas desertas, sonhan­do que algum dia eu seria o autor mais famoso, ou um escrevinhador na Companhia Cinematográfica Picareta.

— O circo? — repeti. — É assim que chama esse pessoal?

— E aqui é o zoológico deles! — declarou Fritz Wong. Passamos aos solavancos pela entrada do estúdio, repleta de pessoas, figurantes e executivos. Fritz Wong parou o carro sob uma tabuleta que apregoava: PROIBIDO ESTACIONAR. Desci e perguntei:

— Qual a diferença entre os animais do circo e do zoológico?

— Aqui, no zoológico, somos mantidos atrás das grades pelo dinhei­ro. Lá fora, no circo, aqueles palhaços estão presos em seus sonhos idiotas.

— Já fui um deles, e sonhei atravessar as portas do estúdio.

— Burro! Agora é que nunca mais vai escapar.

— Vou, sim. Terminei mais um livro de contos, e uma peça. Meu nome será lembrado.

O monóculo de Fritz rebrilhou.

— Não devia ter me contado isto. Talvez eu perca meu ar superior.

— Se bem conheço Fritz Wong, vai voltar em aproximadamente trinta segundos.

Fritz ficou observando enquanto eu tirava a bicicleta do carro.

— Acho que você é quase alemão.

— Considero-me insultado — respondi, montando na bicicleta.

— Fala com todas as pessoas desse jeito?

— Não, só com Frederico, o Grande, cuja educação é execrável, mas cujos filmes eu adoro.

Fritz retirou o monóculo do olho e deixou-o cair no bolso da camisa. Parecia uma moeda entrando em um caça-níqueis.

— Estou de olho em você há vários dias — declarou ele. — Em mo­mentos de insanidade, leio seus contos. Revelam um certo talento, que eu poderia aperfeiçoar. Estou trabalhando, Deus me ajude, num filme sem esperança sobre Cristo, Herodes Antipas, e todos aqueles santarrões. O filme começou nove milhões de dólares atrás com um diretor alcoólatra incapaz de dirigir o tráfego num jardim-de-infância. Fui es­colhido para enterrar o cadáver. Que tipo de cristão é você?

— Perdido.

— Ótimo! Não fique surpreso se for despedido de seu épico idiota sobre dinossauros. Se pudesse me ajudar a embalsamar esse filme de terror sobre Cristo, seria um progresso profissional. O princípio de Lá­zaro! Se trabalhar numa galinha-morta e conseguir tirar o fume das pra­teleiras, ganha pontos. Deixe-me ficar de olho em você por mais al­guns dias. Apareça no refeitório à uma em ponto hoje. Coma o que eu comer, e fale quando falarem com você, certo? Seu cachorrinho ta­lentoso.

— Sim, senhor capitão. Seu cachorrão.

Quando pedalei, ele me deu um empurrão. Não para machucar, mas um empurrão filosófico, só para ajudar. Não olhei para trás. Tive medo que ele também estivesse olhando.

- 6 -

— Meu bom Deus! — exclamei. — Ele me fez esquecer. A noite passada. A chuva fria. O muro alto. O corpo. Estacionei minha bicicleta do lado de fora do Estúdio 13.

Um segurança da empresa que passava interpelou-me:

— Você tem permissão para estacionar aqui? Essa é a vaga que pertence a Sam Shoenbroder. Ligue para o escritório central.

— Permissão! — protestei, indignado. — Meu Bom Jesus dos Nave­gantes! Para estacionar uma bicicleta?

Passei com a bicicleta pelas enormes portas duplas, mergulhando na escuridão.

— Roy? — gritei, obtendo apenas o silêncio como resposta. Olhei ao redor na penumbra, examinando o depósito de ferro-velho de Roy.

Eu tinha um exatamente como aquele, só que menor, em minha garagem.

Espalhados pelo Estúdio 13 estavam os brinquedos de Roy quando ele tinha três anos, livros dos cinco anos, cenários mágicos que ele fize­ra com oito, experiências eletrônicas e químicas dos nove e dez, cole­ções de quadrinhos dos jornais dominicais dos onze, e réplicas de King Kong feitas aos treze anos, em 1933, quando viu o filme cinqüenta ve­zes em duas semanas. O ferro-velho dos brinquedinhos de Roy.

Admirando tudo aquilo, senti coceira nas mãos. Havia ímãs, giroscópios, trens elétricos e apetrechos de mágica que fariam um garoto rilhar os dentes para não roubar. Meu próprio rosto estava ali, uma máscara que Roy produzira colocando vaselina em minha cara e aplicando gesso a seguir. Por toda parte estava espalhado o perfil aquilino de Roy, além de caveiras e esqueletos completos, jogados nos cantos ou em ca­deiras de balanço. Qualquer coisa que servisse para que Roy se sentisse em casa poderia ser encontrada ali, só que numa escala tão imensa que se poderia enfiar o Titanic pelas portas gigantescas, com espaço sobran­do para o Old Ironsides.

Ao longo de uma parede inteira, Roy colara cartazes e propagandas de O Mundo Perdido, King Kong, O Filho de King Kong, Drácula e Frankenstein. Sobre pedestais alaranjados ao centro desse verdadeiro merca­do persa repousavam esculturas de Boris Karloff e Bela Lugosi. Sobre a escrivaninha estavam três esqueletos articulados dos dinossauros usa­dos em O Mundo Perdido, a borracha original, há muito derretida, expondo os ossos metálicos.

Portanto, o Estúdio 13 era uma loja de brinquedos, a mala de um mágico, o baú de um feiticeiro, uma fábrica de truques e um hangar de sonhos, no centro do qual Roy permanecia todos os dias, movendo seus dedos longos de pianista em torno dos seres mitológicos, para dar-lhes vida, murmurando e despertando-os de seu sono de dez bilhões de anos.

Foi nesse ferro-velho, nessa pilha de lixo mecânico, nesse tesouro de brinquedos, nesse templo de enormes monstros vorazes, cabeças guilhotinadas e corpos mumificados de Tutancâmon, que eu abri ca­minho.

Por toda parte havia grandes lonas cobrindo criações que Roy só re­velaria a seu devido tempo. Eu não ousava olhá-las.

No meio disso tudo um esqueleto segurava um bilhete, balançando no ar. Dizia:

CARL DENHAM!

Esse era o nome do herói em King Kong.

 

AS CIDADES DO MUNDO, CRIADAS HÁ POUCO, JAZEM AQUI EM­BAIXO DAS LONAS, À ESPERA DE SUA DESCOBERTA. NÃO TOQUE NELAS. VENHA ME ENCONTRAR.

THOMAS WOLFE ESTAVA ENGANADO. PODE-SE PERFEITAMENTE VOLTAR PARA CASA OUTRA VEZ. VIRE À ESQUERDA NO GALPÃO DE CARPINTARIA, DEPOIS NO SEGUNDO CENÁRIO À DIREITA. A CA­SA DE SEUS AVÓS ESTÁ ESPERANDO! VENHA VER! ROY.

 

Olhei ao redor das lonas. O desvendar dos segredos! Isso mesmo!

Saí correndo, a pensar: “O que ele quis dizer? Meus avós? Esperan­do? “ Diminuí o ritmo e comecei a respirar o ar puro, que recendia a carvalhos, olmos e bordos.

Não é que Roy tinha razão?

Pode-se voltar para casa outra vez.

Uma placa à frente do cenário número 2 dizia: FOREST PLAINS, mas na verdade era Green Town, onde eu nascera e fora criado com pão que fermentava ao lado do fogão bojudo no inverno, e vinho que fer­mentava no mesmo lugar ao fim do verão. Matéria fundida pingava do mesmo fogão, como dentes incandescentes de ferro, bem antes da pri­mavera.

Não caminhei pelas calçadas, e sim pelos gramados, contente por ter um amigo como Roy, que conhecia meus velhos sonhos e me chamava para vivê-los.

Passei por três casas brancas onde meus amigos haviam morado em 1931, virei uma esquina, e estaquei, paralisado pela surpresa.

O velho Buick 1929 de meu pai estava estacionado na rua poeirenta, esperando para viajar para o Oeste em 1933. Permanecia ali, enferru­jando em silêncio, os faróis danificados, a cobertura do radiador desca­rnada, a colméia de papelão decorada com asas de incautas mariposas e borboletas azuis e amarelas, um mosaico capturado no ar quente de verões perdidos.

Inclinei-me para passar minha mão, tremendo, sobre o estofamento traseiro, onde meu irmão e eu trocávamos cotoveladas e gritávamos um com o outro enquanto atravessávamos os Estados do Missouri, Kansas, Oklahoma...

Não era o carro de meu pai. Mas de alguma forma, era.

Deixei meus olhos se desviarem para a nona maravilha do mundo.

A casa dos meus avós, com a cadeira de balanço na varanda, gerânios em vasos cor-de-rosa ao longo da balaustrada, e samambaias por toda parte como chafarizes. Um vasto gramado lembrava o pêlo de um enorme gato verde, com trevos e dentes-de-leão em tamanha profusão que a gente tinha vontade de tirar os sapatos e correr descalço por aquele tapete natural. E...

Uma grande janela em água-furtada, onde eu dormia, para acordar num mundo de paisagem ainda verde.

Na cadeira de balanço, embalando-se suavemente para a frente e pa­ra trás, com as mãos cruzadas no colo, estava meu melhor amigo...

Roy Holdstrom.

Ele balançava em silêncio, perdido como eu em alguma tarde de ve­rão esquecida no tempo.

Roy avistou-me e abriu os braços longos e magros, abrangendo o gra­mado, as árvores, e nós dois.

— Meu Deus! — exclamou ele. — Nós não somos pessoas de sorte?

- 7 –

Roy Holdstrom construía dinossauros em sua garagem desde doze anos de idade. Os dinossauros perseguiam o pai dele pelo quintal, ter­minando por devorá-lo em filmes caseiros de 8 mm. Mais tarde, quan­do Roy completou vinte anos, levou seus monstros para um pequeno estúdio vagabundo, e começou a realizar filmes baratos sobre mundos perdidos, que o tornaram famoso. Os dinossauros preenchiam tanto sua vida que os amigos ficaram preocupados e tentaram arranjar uma bela garota que o fizesse esquecer os monstros. Ainda estavam procurando.

Subi os degraus da varanda lembrando a noite em que Roy me levara para uma apresentação da ópera Siegfried no Teatro Shrine. “Quem vai cantar?”, perguntara eu naquela oportunidade. “A música que vá para o diabo!”, dissera Roy. “Vamos para ver o dragão!” Pois bem, a músi­ca fora um sucesso. Mas o dragão? Matem o tenor. Diminuam as luzes.

Nossos lugares eram tão distantes que eu só consegui ver a narina esquerda do dragão Fafner! Roy não viu nada, a não ser as chamas en­fumaçadas que se lançaram da cabeça oculta em direção ao corpo de Siegfried.

— Droga! — comentara Roy.

E Fafner morrera, com a espada mágica enterrada no coração. Sieg­fried gritou em triunfo. Roy levantou-se, amaldiçoando o palco e saiu do teatro.

Encontrei-o no saguão, resmungando:

— Que porcaria de dragão! Pelo amor de Deus! Viu só aquilo? Enquanto saíamos, Siegfried ainda cantava coisas sobre a vida, o amor e batalhas sangrentas.

— Pobres coitados na platéia — comentara ele. — Presos aí por mais duas horas, sem Fafner!

E ali estava ele, balançando-se preguiçosamente na cadeira daquela varanda perdida no passado e trazida de volta através dos anos.

— Venha cá! — chamou Roy, alegremente. — Eu não disse? Aqui está a casa dos meus avós!

— Não! Dos meus!

— Dos nossos.

Roy soltou um riso sincero, segurando um exemplar de Você Não Pode Voltar para Casa.

— Ele estava errado.

— Tem razão — concordei. — Afinal, estamos aqui.

Estaquei. Avistei sobre aquele cenário pacífico o muro alto que sepa­rava os estúdios do cemitério. O fantasma na escada ainda não me saíra da cabeça, mas eu ainda não estava pronto para falar sobre isso. Disse simplesmente:

— Ei, onde está o seu Monstro? Isso se repetia havia muitos dias.

Roy e eu fôramos chamados para projetar e construir monstros, fazer meteoros se despencarem do espaço exterior e criaturas humanóides erguerem-se de lagoas escuras, pingando alcatrão dos dentes baratos.

Contrataram Roy em primeiro lugar, porque ele estava tecnicamente adiantado. Seus pterodátilos voavam de verdade por céus primitivos. Seus brontossauros eram montanhas a caminho de Maomé.

Então alguém leu vinte ou trinta dos meus Contos Insólitos, que eu escrevia desde os doze anos e vendia para revistas sensacionalistas des­de os vinte e um, e contratou-me para “escrever um enredo” para os monstros de Roy. Tudo aquilo me animou muito, pois eu assistira cer­ca de nove mil filmes, e metade da minha vida esperei que alguém des­se o primeiro passo para assim me atirar de cabeça ao mundo do cinema.

— Quero uma coisa nunca vista antes! — dissera Manny Leiber na­quele primeiro dia. — Em três dimensões disparamos alguma coisa pa­ra a Terra. Um meteoro cai...

— Perto de Meteor Crater, no Arizona — completara eu. — Está ali há um milhão de anos. Que lugar para um novo meteoro cair e...

— E dali vem nosso novo horror — finalizara Manny.

— Vamos ver essa coisa de verdade? — indaguei.

— O que quer dizer com isso? Temos de ver!

— Claro, mas tome por exemplo um filme como O Homem Leopardo! O clima de medo vem das sombras noturnas, das coisas que não vemos. E que tal A Ilha dos Mortos, quando a mulher morta, aquela catatônica, acorda dentro da própria sepultura?

— Não passam de shows de rádio! — protestara Manny Leiber. — Que diabos, as pessoas querem ver o que as assusta...

— Não quero discutir...

— Pois não discuta! — Escreva dez páginas para me deixar pálido de medo! E você! — Ele apontara para Roy. — Seja o que for que ele inventar, você vai montar com as sobras dos dinossauros! Agora saiam daqui. Vão fazer caretas no espelho às três da manhã.

— Sim, senhor! — concordáramos em uníssono. E saímos.

Lá fora, à luz do sol, Roy e eu piscamos um para o outro.

— Mais uma encrenca em que você nos meteu, Stanley! Ainda rindo, começamos a trabalhar.

Escrevi dez páginas, deixando espaço para monstros. Roy colocou oito quilos de argila sobre uma mesa e dançou ao redor, batendo e dando forma à massa, esperando que o horror se levantasse como uma bolha num lago pré-histórico, estourando num silvo sulfúrico e libertando o horror.

Roy leu meu material.

— Onde está o seu Monstro? — quis saber ele.

Olhei para as mãos dele, vazias, mas sujas de argila rubra como sangue.

— Onde está o seu? — redargüi.

E ali estávamos nós, três semanas depois.

— Ei — disse Roy —, por que está parado aí olhando para mim? Venha até aqui e coma uma rosquinha.

Subi os degraus, peguei a rosquinha e sentei na cadeira de balanço na varanda, movendo-me alternadamente entre futuro e passado. Fu­turo — foguetes e Marte. Passado — dinossauros e lagoas primitivas.

Além de monstros sem rosto por toda parte.

— Para alguém que geralmente fala a cem quilômetros por hora — comentou Roy Holdstrom —, você está surpreendentemente quieto.

— Estou com medo — confessei finalmente.

— Pois então desembuche — pediu Roy, desligando nossa máquina do tempo. — Fale, ó poderoso.

Falei.

Ergui o muro, carreguei a escada e suspendi o cadáver, depois des­crevi o raio no meio da chuva fina antes de fazer o corpo despencar. Quando terminei, depois de enxugar a testa, entreguei a Roy o bilhete com o convite do Dia das Bruxas.

Roy examinou-o, depois atirou-o ao chão e pisou sobre ele.

— Alguém deve estar brincando!

— Claro. Mas... eu tive de chegar em casa e queimar minha cueca.

Roy apanhou o papel e leu-o novamente, depois fixou o olhar no mu­ro do cemitério.

— Por que alguém mandaria uma coisa dessas?

— Pois é. Aliás, a maior parte do pessoal do estúdio nem sabe que eu trabalho aqui.

— Mas que diabos! A noite passada foi o Dia das Bruxas. Mesmo assim, suspender um corpo até o alto de uma escada seria uma brinca­deira elaborada e trabalhosa. Mas espere um pouco... e se eles disse­ram a você para vir à meia-noite, mas a outras pessoas para irem às oito, às nove, às dez e às onze? Assustar a todos um por um! Isso feria sentido!

— Só se você tivesse planejado tudo. Roy voltou-se para mim.

— Você não está pensando que...

— Não... Estou... Não.

— Resolva-se!

— Lembra-se daquele Dia das Bruxas quando tínhamos dez anos e fomos ao Teatro Paramount para ver Bob Hope em O Gato e o Caná­rio, e a menina que estava a nossa frente deu um grito? Quando eu olhei para o lado, você estava com aquelas máscara de fantasma no rosto?

— Claro! — Roy deu risada.

— Lembra-se daquela vez em que você telefonou e disse que nosso melhor amigo, Ralph Courtney, tinha morrido? Você tinha pensado em pintar o rosto dele de branco e pedir para ele deitar na sua cama, fingindo-se de morto, depois levantar quando eu chegasse. Lembra?

— Claro.

— Só que eu o encontrei na rua e estraguei a brincadeira.

— É mesmo... — Roy balançava a cabeça ao lembrar as próprias peripécias.

— Pois então. Não é de estranhar que eu pense que você seja capaz de colocar o maldito corpo no alto da escada, e depois me mandar o bilhete.

— Só tem uma coisa errada com esse raciocínio — disse Roy. — Vo­cê raramente mencionou Arbuthnot para mim. Se fui eu quem fez o corpo, como é que iria saber se você reconheceria o pobre coitado? Te­ria de ser alguém que soubesse com certeza que você encontrou Ar­buthnot há muitos anos, certo?

— Bem...

— Não fez sentido, um corpo na chuva, se você não souber para quem está olhando. Você me contou sobre muitas outras pessoas que encon­trou quando era criança, na porta dos estúdios. Se eu tivesse feito um boneco, seria Rodolfo Valentino, ou Lon Charney, para ter certeza de que você o reconheceria. Certo?

— Certo — admiti, um pouco sem graça, olhando para o rosto dele, depois desviando os olhos. — Desculpe. Mas, que diabo, era mesmo Arbuthnot. Eu o encontrei duas dúzias de vezes durante os anos 30. Nas estréias. Bem defronte ao estúdio, aqui. Ele aparecia com uma dú­zia de carros esporte diferentes, e três limusines. E as mulheres, então? Várias delas, sempre rindo. Quando ele assinava meus autógrafos, en­fiava um quarto de dólar no caderno antes de devolver. Um quarto! Em 1934! Dava para comprar um leite maltado, uma barra de chocolate e uma entrada para o cinema.

— Então ele era esse tipo de sujeito? Não é de estranhar que você se lembre dele! Quanto chegou a receber dele?

— Num mês ele chegou a me dar um dólar e vinte e cinco. Fiquei rico! Agora ele está enterrado perto do muro onde eu estive na noite passada. Por que alguém iria querer me assustar, fazendo com que eu acreditasse que ele levantou da sepultura e subiu numa escada? Por que toda essa preocupação? O corpo caiu como um cofre pesado. Seria pre­ciso pelo menos duas pessoas para levantar aquilo Por quê?

Roy deu outra mordida em sua rosquinha.

— É mesmo... Por quê? A menos que alguém quisesse usar você pa­ra divulgar isso. Você ia contar para mais alguém, não ia?

— Pode ser...

— Não faça isso. Você já parece bem assustado.

— Mas por que eu deveria ficar assustado? À exceção desse pressen­timento de que a coisa é mais do que uma piada, tem de existir um outro significado.

Roy ficou olhando para a parede, mastigando em silêncio.

— Que diabos! — exclamou por fim. — Você já esteve no cemitério hoje de manhã para ver se o corpo ainda está lá no chão?

— Não!

— Por que não vamos até lá dar uma olhada? Está com medo?

— Não, mas...

— Ei! — gritou uma voz indignada. — O que vocês dois estão fazen­do aí?

Roy e eu olhamos para a frente da varanda.

Manny Leiber estava em pé no meio do gramado. Seu Rolls-Royce estava estacionado, o motor ronronando silenciosamente, sem uma úni­ca vibração no capô.

— Então?

— Estamos fazendo uma reunião! — respondeu Roy com facilidade.

— Queremos nos mudar para cá.

— Vocês querem o quê? — Manny deu uma olhada na velha casa vi­toriana, como se a visse pela primeira vez.

— Um ótimo lugar para trabalhar — emendou Roy, rapidamente.

— Escritório na frente, uma varanda, só falta uma mesinha e uma má­quina de escrever.

— Mas vocês já têm um escritório!

— Só que escritórios não dão inspiração. Isto aqui... — fiz um gesto abrangente, continuando o que Roy começara — inspira. Você devia transferir todos os redatores daquele prédio. Coloque o Steve Longstreet naquela mansão de Nova Orleans para escrever o final do filme sobre a Guerra Civil. E aquela padaria francesa ali adiante? Um ótimo lugar para Mareei Dementhon terminar o filme sobre a Revolução Fran­cesa, certo? Em Piccadilly pode colocar os novos redatores ingleses!

Manny veio andando lentamente em direção à varanda, o rosto aver­melhado e confuso. Olhou em volta, para o Rolls-Royce, e depois para nós dois, com cara de quem tinha nos surpreendido nus, fumando atrás do celeiro.

— Meu Deus, não é o suficiente que tudo tenha dado errado na ho­ra do café, e agora vêm dois malucos que querem transformar a casa de Lydia Pinkham num reduto de escritores.

— Exatamente! — disse Roy. — Nessa mesma varanda concebi o ce­nário mais assustador da história.

— Chega de rodeios! — Manny recuou. — Me mostre o trabalho.

— Podemos usar o Rolls-Royce? — perguntou Roy. Usamos.

No caminho para o Estúdio 13, Manny Leiber, olhando para a fren­te, reclamava:

— Estou tentando dirigir esse verdadeiro hospício, e vocês ficam pe­las varandas mastigando vento. Onde diabo está meu Monstro? Já es­perei três semanas...

Calma — disse eu, com sensatez —, leva tempo para alguma coisa realmente nova surgir de dentro da noite. Nos dê um pouco de espaço para respirar, para que os velhos segredos se revelem. Não se preocupe. Roy aqui já está trabalhando na argila, e as coisas vão surgir daí. Por enquanto, mantemos o Monstro nas sombras, veja bem...

— Desculpas... — queixou-se Manny, sem deixar de olhar para a fren­te. — Não vejo nada. Esse é o problema. Vou dar mais três dias a vo­cês! Depois quero enxergar o Monstro.

— E se o Monstro enxergar a gente? — sugeri. — Se fizermos tudo do ponto de vista do Monstro? Meu Deus! A câmera se move, ela ê o Monstro, e as pessoas ficam assustadas com a Câmera, e...

Manny piscou, fechou um dos olhos e virou-se para mim.

— Nada mal... A Câmera, hein?

— Claro! A Câmera sai do meteoro. A Câmera, no papel do Mons­tro anda pelo deserto, assustando os lagartos, cobras, abutres, levan­tando poeira...

— Incrível! — Manny olhava para o deserto imaginário.

— Incrível, mesmo! — concordou Roy, adorando aquilo.

— Podemos colocar uma lente com vaselina na Câmera — emendei. — Adicionar um pouco de vapor, música assustadora, sombras, o he­rói olhando para a Câmera, e...

— E o quê?

— Se eu falar, não vou poder escrever.

Pois então escreva!

Paramos em frente ao Estúdio 13. Desci, falando sem parar.

— É isso, acho que vou fazer duas versões do roteiro. Uma para vo­cê, uma para mim.

— Duas? — gritou Manny. — Por quê?

— No final da semana entrego as duas. Você pode escolher a que preferir.

Manny me olhou desconfiado, meio dentro, meio fora do Rolls-Royce.

— Isso é besteira! Você vai trabalhar melhor na sua idéia!

— Não! Farei o melhor que puder para sua idéia. Mas também o melhor para a minha! Certo?

— Dois monstros pelo preço de um? Pode fazer? Mãos à obra! Do lado de fora da porta, Roy parou dramaticamente.

— Estão prontos para o que vão ver? Preparem as mentes e os cora­ções. — Ele levantara ambos os braços, como um sacerdote.

— Estou preparado, que diabos. Abra logo!

Roy afastou-se e abriu a porta exterior, depois a interior. Penetramos na escuridão total.

— Acenda as luzes — pediu Manny.

— Um momento — sussurrou Roy.

Ouvimos Roy movendo-se no escuro, pisando com cautela sobre ob­jetos escondidos. Manny agitava-se nervosamente.

— Quase pronto — anunciou Roy com voz teatral pelo território noturno. — Agora...

Roy ligou a máquina de vento. Primeiro ouvimos um uivo como o de uma grande tempestade, que nos trouxe o clima dos Andes, as ne­ves sussurrando pelo Himalaia, a chuva sobre a Sumatra, um vento na selva aos pés do Kilimanjaro, ventos marinhos nas escarpas dos Açores, repletos do lamento de numerosos pássaros, do agitar de asas de mor­cegos; tudo isso se misturava de forma a provocar arrepios na pele da gente, e abrir compartimentos escuros da imaginação...

— Luzes! — anunciou Roy.

Agora a luz levantava-se sobre as paisagens alienígenas de Roy Holdstrom, mostrando vistas tão belas e insólitas que faziam o coração parar e despertavam terror. Ficamos abalados à medida que a sombra prosse­guia pelas dunas microscópicas como multidões de pequenos roedores suicidas, avançando pelas colinas e montanhas miniaturas, na direção de um destino já prometido, mas não atingido.

Olhei ao redor, maravilhado. Roy lera outra vez minha mente. As zo­nas brilhantes e negras, que eu projetara na tela escura de meu íntimo, haviam sido roubadas, copiadas e construídas sem que eu chegasse a mencionar o assunto. Agora, com essa reviravolta, eu utilizaria aquelas realidades em miniatura para escrever um roteiro dos mais insólitos. Meu herói mal podia esperar para sair correndo por aquela terra estra­nha e reduzida.

Manny Leiber olhava aquilo tudo, aparvalhado.

A terra dos dinossauros de Roy era um país de fantasmas revelado por uma aurora antiga e artificial.

Limitando esse mundo perdido, havia grandes placas de vidro, nas quais Roy pintara selvas primitivas e pântanos de alcatrão, onde cha­furdavam suas criaturas, iluminadas por poentes escaldantes e hostis como se fossem marcianos, formados por dezenas de tonalidades ver­melhas.

Causou-me o mesmo impacto dos tempos de colégio, quando Roy me levara até sua casa, provocando-me um choque após abrir as portas da garagem, expondo, em vez de automóveis, criaturas com uma necessi­dade primitiva de levantar-se, mover as patas, morder, voar, rugir e mor­rer pelas noites de nossa infância.

Agora, ali no Estúdio 13, o rosto de Roy ardia sobre um continente inteiro em miniatura, onde eu e Manny nos encontrávamos.

Andei na ponta dos pés sobre aquilo tudo, com medo de estragar al­guma coisa. Cheguei perto de uma mesinha de escultor coberta com uma lona e esperei.

Com certeza esse seria seu melhor Monstro, capaz de produzir o mes­mo impacto que o fizera recuar quando, nos anos 20, visitamos pela primeira vez o Museu de História Natural. Certamente em algum lu­gar no planeta esse Monstro se ocultava na poeira, perdido nas profun­dezas das minas de carvão, sob nossos pés! Escutem! Escutem esse som subterrâneo, o bater do coração antediluviano, e os pulmões vulcânicos sibilando para libertar-se! Será que Roy o libertara?

— Macacos me mordam! — Manny Leiber deu um passo em dire­ção ao Monstro escondido. — Podemos vê-lo agora?

— Esse é o Monstro — declarou Roy. Manny estendeu a mão na direção da lona.

— Espere um pouco! — interrompeu Roy. — Preciso de mais um dia.

— Mentiroso! — gritou Manny. — Não acredito que você tenha al­guma coisa embaixo desse trapo!

Manny deu um passo. Roy avançou dois. Nesse instante, o telefone do Estúdio 13 tocou. Antes que eu pudesse me mexer, Manny atendeu.

— Pode falar — rosnou ele.

Seu rosto mudou. Talvez tenha ficado pálido, talvez não, era difícil saber naquela iluminação. Mas o rosto mudou.

— Sei disso — disse ele ao aparelho, inspirando profundamente. — Sei disso, também. — Outra inspiração profunda, e o rosto foi ficando cada vez mais vermelho. — Já sabia disso meia hora atrás! Que diabos, quem está falando?

Um zumbido ergueu-se do outro lado da linha. A outra pessoa des­ligara.

— Filho de uma puta!

Manny largou o telefone e eu o agarrei no ar.

Alguém me coloque numa camisa-de-força, esse lugar é um hos­pício! Onde é que eu estava, mesmo? Vocês!

Ele apontou para nós dois.

— Dois dias, e não três. Acho bom tirarem esse Monstro da caixi­nha de surpresas, ou então...

Nesse ponto a porta externa abriu-se. Um sujeito baixinho de terno preto, um dos motoristas do estúdio, ficou delineado pela luz exterior.

— O que foi desta vez? — perguntou Manny.

— Conseguimos trazer a coisa até aqui, mas o motor morreu. Aca­bamos de consertar.

— Vamos com isso, então! Mexa-se, pelo amor de Deus.

Manny avançou na direção dele, levantando um dos punhos, e o in­divíduo saiu correndo; portanto, Manny voltou sua explosão de fúria em nossa direção.

— Estou com os contratos finais de vocês sobre a minha mesa, pron­tos para sexta-feira à tarde. Aprontem o serviço até lá, ou então vou providenciar para que nunca mais trabalhem no ramo, nenhum dos dois.

— Podemos ficar com ela? — perguntou Roy, baixinho. — Nossa Green Town, Illinois, como escritório? Agora que viu os resultados que nós, os malucos, produzimos?

Manny fez uma pausa longa o suficiente para examinar outra vez o mundo perdido, com cara de menino numa fábrica de fogos de artifício.

— Meu Deus — suspirou ele, por fim, esquecendo os problemas por um instante. — Tenho de admitir que vocês conseguiram mesmo. — Pa­rou, irritado com a própria admiração, e mudou de tom. — Agora che­ga de papo e comecem a trabalhar!

E... bom! A porta bateu quando ele saiu.

Em pé no meio de nossa paisagem pré-histórica, perdidos no tempo, olhamos um para o outro.

— Ele está cada vez mais curioso — comentou Roy. — Você vai mes­mo fazer o que prometeu? Escrever duas versões do roteiro? Uma para ele e uma para nós?

— Claro.

— Como consegue fazer uma coisa dessas?

— Que diabo, estive treinando por quinze anos, escrevi uma cente­na de histórias baratas, uma por semana, durante cem semanas... dois esboços de roteiro em dois dias? Os dois geniais? Confie em mim, cara.

— Eu confio, eu confio. — Roy fez uma boa pausa, depois pergun­tou: — Como é, vamos lá ver?

— Ver o quê?

— Aquele funeral a que você assistiu. Ontem à noite. No muro do cemitério. Espere um pouco...

Roy caminhou até as portas duplas. Fui atrás. Ele abriu a porta, e ambos olhamos para fora.

Um carro funerário antigo, ornado, com grandes janelas de cristal estava sumindo de vista pela rua do estúdio, o motor em péssimas con­dições, fazendo um barulhão.

— Aposto que sei para onde ele está indo — afirmou Roy.

- 8 –

Fomos pela Rua Gower na velha baratinha 1927 de Roy.

Não vimos o carro funerário entrar no cemitério, mas, enquanto estacionávamos em frente, ele vinha saindo pela alameda de cascalho.

Passou por nós, agora levando um caixão, em plena luz do dia.

Viramo-nos para observar a limusine negra saindo pelo portão, sem fazer mais ruído do que um iceberg desprendendo-se da calota polar.

— Essa é a primeira vez que eu vejo um caixão saindo de um cemité­rio. Chegamos atrasados!

Voltei-me a tempo de ver a traseira da limusine virando para oeste, na direção dos estúdios.

— Atrasados para quê?

— Para examinar o cadáver que você viu, seu burro! Vamos! Estávamos quase no muro dos fundos do cemitério, quando Roy parou.

— Olhe, ali está o túmulo dele!

Olhei para onde ele olhava, cerca de três metros acima de nós, as letras cinzeladas no mármore: J.C. ARBUTHNOT, 1884-1934, R.I.P. Era um daqueles jazigos em forma de templo grego no qual enterram gente rica, com um portão de ferro trançado, que se fechava sobre uma pesada porta de bronze e madeira.

— Ele não poderia ter saído daí, certo?

— Não, mas alguma coisa estava naquela escada, e eu reconheci o rosto dele. E mais alguém sabia que eu reconheceria esse rosto, por is­so fui convidado a vir aqui.

— Fique quieto. Vamos até lá. Continuamos pelo caminho de cascalho.

— Cuidado. Não queremos ser apanhados jogando esse jogo idiota. Chegamos ao muro. Não havia nada ali, claro.

— Como eu disse, se esse corpo esteve aqui, chegamos tarde demais — suspirou Roy, olhando ao redor.

— Não! Veja ali.

Apontei para o alto do muro.

Havia duas marcas, no musgo da parte superior, de algum objeto que fora apoiado na borda.

— A escada?

— E ali embaixo também.

A grama na base do muro, cerca de um metro e vinte de distância, possuía duas depressões.

— E aqui também, está vendo?

Mostrei a ele uma parte da grama onde as folhas estavam amassadas por algum peso que caíra.

— Bem, bem — murmurou Roy. — Parece que o Dia das Bruxas está só começando.

Roy ajoelhou-se na grama e passou os dedos longos no local para de­linear a impressão do peso que estivera apoiado ali, sob chuva fria, do­ze horas atrás.

Ajoelhei-me ao lado dele, examinando a depressão, e estremeci.

— Eu... — interrompi o que ia dizer, pois uma sombra colocou-se entre nós.

— Bom dia!

O vigia diurno do cemitério estava em pé, a nosso lado. Olhei rapidamente para Roy.

— É essa mesma a sepultura? Fazem tantos anos, eu...

A sepultura seguinte estava coberta de folhas. Limpei a lápide com a mão. Havia um nome que ainda era possível ler: SMYTHE. NASCIDO EM 1875 - MORTO EM 1928.

— Claro! Vovô! — gemeu Roy. — Coitadinho! Morreu de pneumo­nia. — Roy me ajudou a limpar o túmulo. — Como eu gostava dele...

— Onde estão as flores? — indagou o vigia, numa voz hostil. Roy e eu hesitamos.

— Mamãe está trazendo — respondeu Roy. — Viemos na frente, pa­ra localizar a sepultura. — Ele olhou para trás por sobre o ombro. — Ela está vindo ali.

O vigia, um sujeito idoso e desconfiado, cujo rosto lembrava um tú­mulo, olhou na direção do portão.

Uma mulher, levando flores, vinha pela rua, ao longe, perto do Bu­levar Santa Mônica.

Graças a Deus, pensei.

O vigia resmungou algo, mastigou goma de mascar e retirou-se por entre os túmulos. Bem a tempo, pois a mulher virou a seguir uma esquina, sumindo de vista.

Levantamo-nos. Roy apanhou algumas flores de um jazigo próximo.

— Não faça isso!

— Claro que faço! — Roy arrumou as flores sobre o túmulo do vovô Smythe. — Só para o caso de o sujeito voltar e reparar que não coloca­mos nenhuma flor aqui.

Andamos cerca de cinqüenta metros e esperamos, fingindo conver­sar, sem dizer muita coisa. Por fim, Roy me cutucou.

— Cuidado! Olhe para o chão. Ele voltou.

De fato, o vigia retornara ao local onde estavam as marcas na grama. Olhou para nós. Rapidamente, passei o braço pelo ombro de Roy, para consolá-lo.

O velho curvou-se. Com os dedos em garra, alisou a grama. Em pouco tempo não havia mais vestígios de que nada pesado tivesse caído ali na noite anterior.

— Acredita agora? — perguntei.

— Vamos procurar aquele carro fúnebre.

- 9 -

Enquanto entrávamos pelos portões do estúdio, o carro fúnebre saía. Vazio. Como o ruído de um vento outonal, ele passou, retornando ao país da Morte.

— Meu Deus! Exatamente como imaginei. — Roy dirigia olhando para trás. — Estou começando a gostar disso!

Continuamos pela rua interna, na direção oposta à que o carro fúne­bre percorrera.

Fritz Wong vinha pela rua a nossa frente, liderando um esquadrão militar invisível, resmungando e falando consigo mesmo, o perfil agudo cortando o ar em duas metades. Usava uma boina, e provavelmente era o único em Hollywood que usava uma boina e desafiava os outros a reparar!

— Fritz! — chamei. — Pare, Roy!

Fritz alterou o passo para apoiar-se contra o carro e brindou-nos com seu já familiar cumprimento.

— Como vai, seu ciclista marciano idiota? Quem é esse motorista com cara de macaco?

— Oi, Fritz, seu idiota... — hesitei e resolvi ser mais educado. — Roy Holdstrom, o maior construtor do mundo, projetista e piloto de dinossauros!

O monóculo brilhou. Fixou Roy com seu olhar germânico-oriental, depois assentiu.

— Qualquer amigo do Pithecanthropus erectus, é meu amigo também!

— Gostei muito do seu último filme — declarou Roy, corresponden­do ao aperto de mão.

— Gostou? — repetiu Fritz Wong.

— Adorei! — corrigiu-se Roy.

— Ótimo! — Fritz voltou-se para mim: — O que há de novo desde o café da manhã?

— Alguma coisa estranha aconteceu por aqui agora há pouco?

— Passou uma corte romana de quarenta homens agora mesmo. Um gorila, carregando sua cabeça, foi correndo para o Estúdio 10. Um di­retor de arte homossexual foi expulso do banheiro dos homens. Judas está em greve para ganhar mais dinheiro na Galiléia. Enfim, não acon­teceu nada de estranho que eu tivesse visto.

— E quanto a funerais? — sugeriu Roy.

— Funerais? Acha que eu não iria reparar? Espere um pouco! — Ele virou o monóculo em direção ao portão, depois voltou o olhar para nós. — Que diabo! Passou mesmo um enterro. Tive esperança de que fosse o funeral de DeMille, para poder comemorar. Foi naquela direção.

— Estava programada a filmagem de algum funeral para hoje?

— Em todos os estúdios: canastrões, atores catatônicos, diretores com tanta falta de sensibilidade que matariam uma baleia no parto! Ontem foi Dia das Bruxas, não foi? E hoje é o Dia de Finados no México,

1 ° de novembro. Por que seria diferente na Maximus? Onde arranjou um calhambeque como esse, senhor Holdstrom?

— Este — respondeu Roy, falando devagar como se estivesse perdendo a paciência numa comédia de Hal Roach — é o carro no qual Laurel e Hardy venderam peixe naquele curta-metragem de 1930. Me custou cinqüenta dólares, mais setenta pela pintura nova. Afaste-se, senhor!

Fritz Wong, adorando a atitude de Roy, deu um pulo para trás.

— À uma hora, marciano. No refeitório. Esteja lá!

Passamos pela multidão do meio-dia. Roy dobrou uma esquina e pas­sou por Springfield, Illinois, Manhattan e Picadilly.

— Sabe para onde está indo? — perguntei.

— Que diabos, um estúdio é lugar muito grande para esconder um cadáver. Quem iria reparar? Num lugar cheio de abissínios, gregos e mafiosos de Chigago, a gente pode andar com meia dúzia de turmas brigando, acompanhado por quarenta bandas marciais, que ninguém iria reparar. Aquele corpo, parceiro, deve estar bem aqui!

E dobramos a última esquina na direção de Tombstone, Arizona.

— Belo nome para uma cidade — comentou Roy.

- 10 -

Fazia um calor preguiçoso. Era meio-dia. Estávamos cercados por mil pegadas na poeira das ruas do cenário. Algumas delas feitas por Tom Mix, Hoot Gibson e Ken Maynard, há muito tempo. Deixei o vento agitar a memória, levantando poeira quente. Obviamente as pegadas não haviam permanecido, mas isso não conta. Mesmo as passadas enormes de John Wayne desapareceram, assim como as marcas de sandálias de Mateus, Lucas, Marcos e João não estavam mais impressas no mar da Galiléia, no cenário 12, a cem metros de distância. Apesar disso, per­manecia o cheiro de cavalos, e a diligência logo iria chegar com uma nova carga de roteiros e um bando de vaqueiros ociosos. Eu apreciava a sensação de ficar sentado no velho calhambeque do Gordo e o Ma­gro, olhando para a velha locomotiva da Guerra Civil, que duas vezes por ano se tornava o expresso das nove e dez para Galveston, ou o trem da morte de Lincoln, levando-o para casa. Meu Deus!

Finalmente, indaguei:

— Por que você tem tanta certeza de que o caixão está aqui?

— Com mil demônios! — Roy pisou no soalho do carro, da mesma forma que Gary Cooper chutava bosta de vaca. — Dê uma boa olhada nessas construções.

Eu olhei.

Por trás das fechadas falsas da pequena cidade do Oeste, encontravam-se armazéns de peças metálicas, velhos museus de carros, celeiros, e...

— A carpitaria?

Roy assentiu e virou a esquina com o calhambeque, para deixá-lo fo­ra de vista.

— Eles fazem caixões aqui, portanto o corpo deve estar por perto. — Roy saiu do carro, uma perna de cada vez. — O caixão voltou para cá porque foi feito aqui. Vamos logo, antes que os índios cheguem!

Eu o alcancei numa cave escura onde a mobília imperial de Napoleão estava pendurada em suportes e o trono de Júlio César esperava pelo traseiro desaparecido há tanto tempo.

Olhei em volta.

Ninguém morre jamais, pensei. Sempre voltam. Se você quiser, claro.

E onde se espera pela ressurreição? Aqui, pensei. Aqui, claro.

Nas mentes dos homens com marmitas, que chegam parecendo tra­balhadores e vão embora como maridos ou amantes improváveis.

Mas, e entrementes?

Construir o Mississippi Belle, se a gente quiser que o vapor aporte em Nova Orleans, ou apoiar as colunas de Bernini, ou reconstruir o Empire State, e depois um macaco movido a vapor, suficientemente gran­de para escalá-lo.

Nossos sonhos na prancheta deles, que são os filhos de Michelangelo e de Da Vinci, os pais de ontem terminando como filhos do amanhã.

Naquele momento meu amigo Roy penetrava na penumbra da carpintaria, atrás da fachada de um saloon do Velho Oeste, entre os minaretes de Badgá e Sandusky.

Silêncio. Todos haviam ido almoçar.

Roy farejou o ar e sorriu.

— Meu Deus! Sinta só esse cheiro! Serragem! Foi o que me levou à marcenaria do colegial com você. E também os sons das serras circulares. Era o barulho de pessoas fazendo coisas. Minhas mãos cocavam. — Roy parou ao lado de uma grande caixa de vidro e olhou o belo obje­to no interior.

Ali estava uma miniatura do Bounty, com cinqüenta centímetros de comprimento, completamente aparelhado, singrando mares imaginários, dois longos séculos atrás.

— Vá em frente — incentivou ele, baixinho. — Toque de leve. Foi o que fiz, maravilhando-me e esquecendo-me completamente do motivo que me trouxera até ali, com vontade de ficar para sempre. Roy foi obrigado a me arrastar dali.

— Bem na mosca — sussurrou ele. — Escolha um. Estávamos em frente a uma enorme prateleira de ataúdes, que se es­tendia por mais de quinze metros na escuridão morna.

— Como é que eles têm tantos? — perguntei, enquanto avançávamos.

— Servem para enterrar todos os “perus” que o estúdio vai produ­zir até o Dia de Ação de Graças.

Atingimos a linha de montagem dos caixões.

— São todos seus. Escolha.

— Não deve estar no alto. As pessoas são preguiçosas. Sendo assim... este aqui.

Toquei com o sapato o caixão mais próximo.

— Vá em frente — incentivou Roy, rindo com a minha hesitação — Abra!

— Abra você.

Roy curvou-se e tentou abri-lo.

— Droga.

O caixão estava pregado.

Uma sirene soou em algum lugar. Levantamos a cabeça.

Lá fora, na rua de Tombstone, um carro se aproximava.

— Rápido! — Roy correu até uma bancada, procurando freneticamente uma ferramenta, acabando por encontrar um pé-de-cabra e um martelo.

— Pelo amor de Deus! — exclamei.

O Rolls-Royce de Manny Leiber parava ao lado do mourão onde se amarravam os cavalos.

— Vamos embora!

— Só depois de... ah, consegui! O último prego saiu.

Roy agarrou a tampa, tomou fôlego e abriu o ataúde.

Ouvimos o som de vozes na cidade falsa, sob o sol do meio-dia.

— Por Deus, abra os olhos — pediu Roy. — Olhe!

Eu havia cerrado os olhos com força, para não sentir outra vez a chu­va em meu rosto. Olhei.

— Então?

O corpo estava ali, com os olhos arregalados, as narinas dilatadas e a boca aberta. Mas a chuva não caía no interior, nem escorria pelas bo­chechas ou pelo queixo.

— Arbuthnot — balbuciei.

— Isso mesmo — concordou Roy. — Agora me lembro das fotogra­fias. Por Deus, a semelhança é impressionante. Mas por que alguém construiria algo assim, e o colocaria no alto de uma escada?

Ouvi uma porta batendo. A cem metros dali, na poeira quente, Manny Leiber saía do Rolls-Royce e piscava para acostumar os olhos à sombra acima de nós.

Encolhi-me.

— Espere um minuto... — disse Roy, inclinando-se para o caixão.

— Não faça isso!

— Agüente firme — pediu ele, e tocou o cadáver.

— Depressa, pelo amor de Deus!

— Veja isto aqui.

Ele segurou o corpo e levantou-o.

— Ah! — exclamei, paralisado.

Pois o corpo fora levantado com tanta facilidade que parecia um sa­quinho de cereais.

— Não é possível!

— É, sim. — Roy sacudiu o corpo, que chacoalhou como um espantalho. — Macacos me mordam! E veja aqui no fundo do caixão: peças de chumbo, para fazer peso uma vez que o boneco esteja no alto da escada! E quando caísse, como você disse, bateria com força no chão. Cuidado, lá vêm os tubarões!

Roy estreitou os olhos para enxergar na claridade as figuras descendo dos carros e reunindo-se ao redor de Manny.

— Muito bem, vamos embora — disse Roy, fechando a tampa do cai­xão e começando a correr.

Eu o segui na confusão de mobília, pilares e fachadas falsas.

De longe, depois de atravessar dúzias de portas, na metade de uma escadaria renascentista, Roy e eu paramos, olhamos para trás e procu­ramos escutar. A noventa ou cem metros de distância, Manny Leiber chegava ao lugar onde estivéramos um minuto atrás. A voz dele sobressaía-se entre outros sons. Imagino que ele deva ter dito aos ou­tros para calarem a boca. Em seguida houve silêncio. Estavam abrindo o caixão com o boneco.

Roy olhou para mim, as sobrancelhas levantadas. Devolvi o olhar, sem coragem de respirar.

Logo depois chegou até nós uma espécie de agitação, um grito segui­do de algumas imprecações. Manny xingava mais alto do que os ou­tros. Então elevou-se um burburinho, mais discussões, Manny gritou outra vez, e finalmente a tampa do caixão bateu com estrépito.

Foi esse último som que fez com que eu e Roy saíssemos correndo daquele lugar. Atravessamos as escadas tão silenciosamente quanto pos­sível, corremos por dezenas de portas e saímos pela traseira da carpintaria.

— Está ouvindo alguma coisa? — perguntou Roy, sem fôlego, olhando para trás.

— Não. E você?

— Nada. Mas com certeza eles ficaram loucos da vida. E não foi uma vez só, foram três vezes. Manny estava possesso! Que diabos está acontecendo afinal? Por que todo esse escândalo por causa de um boneco que eu podia ter feito em meia hora com dois dólares de látex cera e gesso?

— Calma, Roy! — pedi. — Não queremos que ninguém nos veja correndo.

Roy diminuiu o ritmo, mas continuou com suas passadas enormes.

— Puxa, Roy! E se eles descobrirem que estivemos lá?

— Eles não vão descobrir. Ei, isso até que é divertido.

Por que, pensei, tive a brilhante idéia de apresentar meu melhor amigo a um cadáver?

Um minuto mais tarde chegávamos ao calhambeque de Roy, atrás da loja.

Roy acomodou-se em seu banco, sorrindo de forma desavergonhada e olhando para o céu.

— Suba — pediu ele.

No interior das construções, as vozes se levantavam como em todas as tardes. Uma pessoa praguejava. Alguém criticava o trabalho de ou­tro. Alguém concordava. Muitos discordavam enquanto a pequena mul­tidão saía para o calor da tarde, como um enxame de abelhas zangadas.

Um momento mais tarde, o Rolls-Royce de Manny Leiber passou co­mo um furacão.

No interior do veículo, consegui enxergar três rostos, pálidos como cadáveres.

E o rosto de Manny Leiber, escarlate de raiva.

Ele nos avistou quando o carro passou por nós.

Roy acenou alegremente.

— Roy!

— O que será que me deu? — disse ele, rindo e acelerando. Olhei para Roy, irritado. Sorvendo o vento, ele estalou a língua, com evidente prazer.

— Você é maluco! — explodi. — Será que tem sangue de barata?

— E por que eu deveria ficar assustado com um boneco feito de pa­pel machê? — raciocinou ele. — Que diabos, o mau humor de Manny me faz sentir bem. Levei um bocado de broncas dele. Alguém jogou uma bomba dentro da calça dele? Tanto melhor!

— Foi você? — perguntei, de chofre. Roy ficou surpreso.

— Você ainda está com essas idéias? Por que eu iria montar um espantalho e subir em escadas à meia-noite?

— Pelo motivo que você acabou de mencionar. Quebrar a monoto­nia e enfiar bombas nas calças das pessoas.

— Nada disso. Gostaria de ter o crédito por essas coisas. No mo­mento, mal posso esperar para almoçar. Quando Manny aparecer, o rosto dele vai estar em frangalhos.

— Acha que alguém nos viu lá dentro?

— Por Deus, claro que não! Por isso eu o cumprimentei! Para mos­trar como somos burros e inocentes! Alguma «coisa está acontecendo por aqui. Temos de agir normalmente.

— Quando foi a última vez em que fizemos isso? Roy riu.

Passamos ao redor dos locais de trabalho, depois por Madri, Ro­ma e Calcutá, parando à frente de um prédio em algum lugar do Bronx.

Roy consultou o relógio.

— Você tem um compromisso, com Fritz Wong. Vá. Nós dois deve­mos ser vistos em todos os lugares nas próximas horas, menos lá. — Ele acenou na direção de Tombstone, a duzentos metros.

— E quando você vai começar a ficar assustado? — perguntei.

— Ainda não — respondeu ele com ar ausente, alisando os nós dos dedos.

Roy deixou-me em frente ao refeitório. Desci e fiquei olhando o ros­to que ora ficava sério ora assumia um ar divertido.

— Não vai entrar?

— Daqui a pouco. Tenho algumas coisas para fazer.

— Roy, não pretende fazer nenhuma besteira, pretende?

— E por que eu faria uma coisas dessas?

— Você está outra vez com aquele olhar maluco e distante.

— Estive pensando — admitiu ele.

— Pois não faça isso.

— Quando Arbuthnot morreu?

— Esta semana faz vinte anos. Foi um acidente de carro, bem feio. Três pessoas morreram. Arbuthnot e Sloane, o contador do estúdio, mais a esposa de Sloane. O assunto foi manchete durante vários dias. O funeral foi maior que o de Valentino. Eu fiquei do lado de fora do cemitério com meus amigos. Tinha flores suficientes para a Parada das Rosas no Ano-Novo. Mil pessoas assistiram ao enterro, chorando por trás dos óculos escuros. Foi comovente. Arbuthnot foi venerado a esse ponto.

— Acidente de carro, é?

— O carro bateu num poste. Sem testemunhas. Talvez um pneu te­nha estourado...

— Talvez. — Roy espichou o lábio inferior, estreitando os olhes. — Mas, e se existir mais alguma coisa por trás disso? Talvez, depois de passado muito tempo, alguém tenha descoberto alguma coisa sobre o acidente e esteja ameaçando botar a boca no mundo. Se não fosse as­sim, por que o boneco teria ido parar no alto da escada? Qual a causa do pânico? Por que a pressa se não há nada a esconder? Escutou as vozes lá dentro? Por que um cadáver que não é um cadáver, um corpo que não é um corpo, agitaria tanto os executivos?

— Provavelmente existiu mais de uma carta — sugeri. — A que re­cebi e algumas outras. Mas fui o único estúpido o suficiente para ir até lá verificar. Como não contei para ninguém, quem quer que tenha colocado o boneco na escada precisou escrever ou telefonar hoje para despertar o pânico e fazer com que mandassem o carro fúnebre. E o sujeito que provocou tudo está por aqui, rindo de tudo isso. Mas por quê... por quê...?

— Vá andando — pediu Roy, baixinho, dando a partida no calhambeque. — Depressa. Vamos resolver esse mistério durante o almoço. Coloque sua expressão mais inocente, como num anúncio de creme den­tal. Preciso verificar minha maquete. Tenho de colocar mais uma ruazinha no lugar. — Ele consultou o relógio. — Em duas horas, meu país dos dinossauros estará pronto para filmar. Depois, tudo o que precisa­mos é do nosso glorioso Monstro.

Olhei para o rosto animado de Roy.

— Você não pretende roubar o corpo e colocá-lo de volta no muro, certo?

— Isso nem passou pela minha cabeça — garantiu Roy, afastando-se.

-11-

No centro do canto esquerdo do refeitório havia uma pequena plata­forma, com uma altura de aproximadamente trinta centímetros, onde ficava uma mesa com duas cadeiras. Sempre imaginei o feitor de uma trirreme romana sentado ali, batendo no tambor para dar o ritmo aos escravos, suando e acorrentados aos remos, tentando atingir algum dis­tante corredor de cinema, perseguidos por exibidores enlouquecidos, saudados ao aportar por multidões de espectadores ultrajados.

Mas ali nunca houve um feitor de galés.

Era a mesa de Manny Leiber. Ele a freqüentava sozinho, remexendo sua comida como se fosse as entranhas de pombos sacrificados pelos adivinhos de César, separando as vísceras, ignorando o coração e pre­dizendo o futuro. Em alguns dias ele ficava ali com Doc — ou doutor — Phillips, testando novos filtros e poções diluídas em água de tornei­ra. Em outros dias, ele comia acompanhado de diretores ou roteiristas, que o confrontavam constrangidos, concordando submissos: sim, claro que o filme estava atrasado! Sim, com certeza eles iriam trabalhar mais depressa!

Ninguém queria sentar naquela mesa. Não raro, um bilhete em pa­pel cor-de-rosa era entregue no lugar da nota.

Naquele dia, quando eu me esgueirei para o interior e vaguei por entre as mesas, a plataforma de Manny estava vazia. Parei. Era a pri­meira vez que eu não via ali pratos nem talheres nem ao menos o habi­tual vaso de flores. Manny ainda estava fora, em algum lugar, prague­jando contra o sol por tê-lo ofendido.

A essa altura, a maior mesa do refeitório aguardava; metade dos lu­gares ocupados, ainda enchendo.

Nunca chegara perto daquela mesa nas três semanas em que eu tra­balhava no estúdio. Como a maioria dos neófitos, eu receava o contato com os que eram demasiadamente famosos. Certa vez, quando eu era menino, H. G. Wells pronunciara uma conferência em Los Angeles, e eu não fora pedir seu autógrafo. A onda de êxtase provocada pela sim­ples visão do escritor me paralisara. Era da mesma forma que eu enca­rava aquela mesa do refeitório, onde se reuniam os melhores diretores, montadores e roteiristas, num eterno banquete da Última Ceia, espe­rando por um Cristo atrasado. Vendo-a novamente, perdi a coragem.

Alterei meu caminho, dirigindo-me ao canto escondido, onde eu e Roy freqüentemente devorávamos nossa sopa e sanduíches.

— Não senhor! — disse uma voz.

Minha cabeça encolheu no pescoço, que baixou para o interior do colarinho, como um periscópio lubrificado com suor.

— Seu compromisso é aqui! — informou Fritz Wong. — Ordinário, marche!

Ricocheteei entre as mesas, olhando para baixo, para o lado de Fritz. Senti a mão dele em meu ombro, pronta a arrancar-me as divisas.

— Este é nosso visitante, vindo diretamente de outro planeta para o refeitório — apresentou ele. — Vou mostrar-lhe seu lugar.

Sua mão forçou-me suavemente para baixo. Finalmente levantei os olhos e deparei com doze pessoas à mesa, examinando-me.

— E agora ele vai nos contar sobre à Procura do Monstro — anun­ciou ele.

O Monstro.

Desde que fora anunciado que Roy e eu iríamos escrever, construir e dar origem ao mais horrendo animal que Hollywood já produzira, milhares tentavam auxiliar em nossa busca. Poder-se-ia pensar que es­távamos procurando Scarlett O'Hara, ou Anna Karenina. Mas não... era o Monstro, e um concurso para encontrar o Monstro fora iniciado pelas revistas Variety e Hollywood Reporter. Meu nome e o de Roy eram mencionados em todos os artigos, que eu recortara e guardara cuidado­samente. Começaram a chegar fotografias de outros estúdios, de agen­tes e do público em geral. Nos portões do estúdio apresentaram-se os Quasímodos números Dois e Três, bem como quatro Fantasmas da Ópe­ra. Vários Lobisomens. Primos em primeiro e segundo graus de Bela Lugosi e Boris Karloff foram expulsos por estarem tentando esconder-se no Estúdio 13.

Roy e eu começávamos a nos sentir como se estivéssemos julgando um concurso de beleza em Atlantic City, de alguma forma transferido para a Transilvânia. Seres metade homens, metade animais, aguarda­vam todas as noites do lado de fora dos estúdios; as fotografias eram piores ainda. Por fim ateamos fogo a todas elas e passamos a sair do estúdio por uma saída lateral.

Assim fora nossa busca pelo Monstro durante o mês inteiro.

Fritz Wong dizia novamente:

— Muito bem, pode revelar tudo sobre o Monstro.

-12-

Olhei para todos aqueles rostos e comecei a falar.

— Não. Preferia não fazer isso. Roy e eu vamos aprontá-lo em pouco tempo, mas no momento... — tomei um gole rápido de água de tornei­ra. — Estive observando esta mesa por três semanas. Todos sempre sen­tam nos mesmos lugares. Uma pessoa sempre aqui, outra pessoa sem­pre ali, e assim por diante. Por que não trocar de lugares? Deixem es­paços vazios, para que todos possam repetir a brincadeira da cadeira a cada meia hora, para conhecer outras pessoas, não ficar sempre em frente ao mesmo rosto. Desculpem.

— Como, desculpem? — Fritz agarrou meus ombros e sacudiu-me ao ritmo da própria gargalhada. — Muito bem, rapazes, vamos fazer a brincadeira da cadeira! Allez-cop!

Gritos e aplausos saudaram suas palavras.

E assim aumentou a hilaridade enquanto todos se cumprimentavam, vibravam tapinhas nas costas uns dos outros e encontravam novos luga­res. Isso apenas me deixou ainda mais embaraçado e confuso, o que provocou novos risos. Mais aplausos soaram.

— Acho bom convidarmos esse maestro aqui todos os dias para nos dar noções de vida social — comentou Fritz. — Muito bem, colegas, agora as apresentações: a sua esquerda, jovem maestro, está Maggie Botwin, a melhor montadora de filmes na história do cinema!

— Papo-furado! — contestou Maggie, voltando sua atenção para a omelete, que levara para o novo lugar.

Maggie Botwin.

Uma mulher empertigada e silenciosa, dando a impressão de ser maior do que era na realidade pela maneira ereta como se sentava, como mantinha as mãos no colo, e pelo penteado alto, lembrando a moda na épo­ca da Primeira Guerra Mundial.

Certa vez eu ouvira o rádio referir-se a ela como uma encantadora de serpentes.

Imaginei todos aqueles filmes passando por suas mãos, coleando pe­los dedos, rápidos e ondulantes.

Tanto tempo passando, apenas para voltar e repassar novamente.

Não era muito diferente da vida, dizia ela.

O futuro vem até nós. Temos um instante único, rápido como um relâmpago, que imediatamente se transforma num passado amistoso, familiar e decente. Segundo a segundo, o futuro pisca a nosso alcance. Se não tivermos cuidado, dando forma sem destruir essa continuidade de momentos, nada será deixado para trás. Nosso objetivo deve ser mol­dar e imprimir a nós mesmos nesses pedacinhos minúsculos de futuro, para que com esse toque eles envelheçam em pedacinhos de passado que se dissolvem.

Assim é o cinema.

Com a diferença que se podia viver tudo novamente, quantas vezes quiséssemos. Alcançar o futuro, torná-lo presente, torná-lo passado, de­pois recomeçar tudo no dia seguinte.

Que bela profissão, a de estar encarregado de três correntes de tem­po: a vastidão invisível do amanhã; o foco estreito do presente; o gran­de túmulo dos segundos, minutos, horas, anos e milênios do passado, que germinava para manter os outros dois.

E se você não gostasse de nenhum dos três rios que corriam?

Bastava apanhar a tesoura. Clique. Não ficou melhor?

E agora aqui estava ela, as mãos cruzadas no colo num instante, em seguida empunhando uma pequena câmera de 8 mm para fazer uma tomada panorâmica dos rostos à mesa, um por um, as mãos calmas e eficientes, até que a câmera parou e fixou-se em mim.

Encarei as lentes e lembrei-me de um dia em 1934, quando eu a vira do lado de fora dos estúdios filmando todos os malucos, os coleciona­dores de autógrafos e os fanáticos, eu entre eles.

Tive vontade de perguntar se ela se lembrava disso. Mas como pode­ria lembrar?

Virei a cabeça, e a câmera zuniu.

Nesse exato momento chegou Roy Holdstrom.

Ficou parado à porta do refeitório, procurando. Ao me avistar, não acenou, mas balançou furiosamente a cabeça. Depois voltou-se e saiu. Levantei-me e fui atrás dele, antes que Fritz Wong pudesse me impedir. Vi Roy entrando no banheiro masculino, na parte externa do refeitó­rio, e encontrei-o em pé, urinando no vaso de porcelana. Fiquei a seu lado, sem a menor vontade de imitá-lo.

— Veja o que acabei de achar no Estúdio 13. Roy me passou um bilhete datilografado.

 

O Monstro encontrado afinal! No Brown Derby esta noite? Na Rua Vine. Dez horas Esteja lá, ou perde tudo!

 

— Não acredita nisso, claro! — balbuciei.

— Tanto quanto você acreditou no seu bilhete, e foi até o cemitério. — Roy olhava para a parede a sua frente. — Não é o mesmo papel e tipo da máquina? Quer saber se pretendo ir ao Brown Derby essa noi­te? Que diabo, por que não? Cadáveres no muro, escadas que desapa­recem, marcas alisadas na grama, corpos de papel machê, os gritos de Manny Leiber... Estive pensando, agora há pouco: se Manny e os ou­tros estavam tão preocupados com o boneco, o que fariam se ele desa­parecesse?

— Você não...

— Não?

Roy colocou o bilhete no bolso. Depois apanhou uma pequena caixa no canto da pia e entregou-a a mim.

— Alguém está se aproveitando de nós. Resolvi me aproveitar dos outros também. Pegue a caixa, entre no reservado e feche a porta. De­pois veja o que tem dentro.

Fiz o que ele pediu.

— Não fique parado aí dentro — disse Roy. Abra a caixa!

— Estou abrindo — respondi, levantando a tampa. — Meu Deus! — exclamei, olhando pasmo para o conteúdo.

— O que está vendo? — perguntou Roy.

— Arbuthnot!

— Coube direitinho na caixa, hein? — comentou ele.

- 13 -

— Por que cargas-d'água você fez isso?

— Os gatos são curiosos. Sou como um gato — respondeu Roy, caminhando despreocupadamente.

Voltávamos ao refeitório.

Roy levava a caixa embaixo do braço e exibia um sorriso travesso nos lábios.

— Veja bem. Alguém manda um bilhete para você. Você vai até o cemitério, encontra um corpo e não diz nada, estragando a brincadei­ra, qualquer que fosse. Alguém telefona, o estúdio manda buscar o cor­po, e entram em pânico quando descobrem o que está dentro do cai­xão. Como quer que eu não sinta uma curiosidade enorme? Que tipo de brincadeira é essa?, pergunto. Só posso descobrir se responder ao lance, como num jogo de xadrez, certo? Vimos e ouvimos a forma co­mo Manny e seus amigos reagiram uma hora atrás. Como reagiriam se depois de encontrar o corpo, eles o perdessem, e ficassem a imagi­nar quem o teria roubado? Eu!

Paramos do lado de fora da porta do refeitório.

— Você não pretende entrar aí com isso, claro! — disse eu.

— É o lugar mais seguro do mundo. Ninguém iria desconfiar de uma caixa que estou carregando na frente de todos. Mas tome cuidado, par­ceiro, porque estamos sendo vigiados nesse exato momento.

— Onde? — perguntei, olhando para os lados.

— Se eu soubesse, teríamos resolvido tudo. Vamos lá.

— Não estou mais com fome.

— É estranho — comentou Roy. — Porque eu seria capaz de comer um cavalo!

- 14 -

Quando entramos no refeitório, reparei que a mesa de Manny continuava vazia. Parei, olhando para ela.

— Seu doido! — murmurei baixinho.

Roy balançou a caixa, a meu lado, produzindo um ruído de chocalho.

— Sou mesmo — admitiu ele, alegremente. — Ande! Voltei ao meu lugar.

Roy colocou sua caixa no chão, deu-me uma piscadela, e sentou-se na extremidade da mesa, sorrindo com inocência.

Fritz olhou para mim como se minha ausência tivesse sido um insul­to pessoal.

— Atenção! — Ele estalou os dedos. — As apresentações continuam. O próximo é Stanislau Groc, o maquiador de Lênin, que preparou o próprio corpo de Lênin. Maquiou o rosto e embalsamou o cadáver, pa­ra que permanecesse até hoje exposto no muro do Kremlin em Mos­cou, na União Soviética.

— O maquiador de Lênin? — perguntei.

— Cosmetologista — corrigiu Stanislau Groc, acenando a pequena mão sobre a cabeça.

Ele não era maior do que um dos Anões Cantores que fizeram o pa­pel de Munchkins, em O Mágico de Oz.

— Pode me testar — disse ele. — Você escreve os monstros, e Roy Holdstrom os constrói. Mas eu maquiei, retoquei e embalsamei um gran­de monstro vermelho, morto há muito tempo!

— É melhor ignorar esse bastardo russo — aconselhou Fritz. — Ob­serve a cadeira ao lado dele.

Era uma cadeira vazia.

— De quem é? — indaguei. Alguém tossiu. Cabeças se voltaram. Segurei a respiração.

E a Revelação aconteceu.

- 15 –

O último a chegar era tão pálido que sua pele parecia brilhar com uma luz interior. Era alto, talvez dois metros e dez, de cabelos longos e barba bem aparada. Os olhos possuíam uma clareza tão desconcertante que a gente tinha a impressão de que ele enxergava os ossos sob a pele, e a alma no interior dos ossos. Ao percorrer mesa por mesa, os talheres hesitavam no caminho até as bocas, que permaneciam entreabertas. Ao passar, deixando uma esteira de silêncio, a vida recome­çava normalmente. Andava com um movimento controlado, como se usasse túnica em vez de um paletó surrado e calça velha. Desenhava no ar uma bênção para cada mesa, porém seus olhos estavam fixos à frente, como se enxergasse um mundo além do nosso. Olhou para mim e eu me encolhi, pois não conseguia imaginar nenhuma motivo para que ele me escolhesse entre tantos talentos incontestáveis. Finalmente ficou em pé a minha frente, o magnetismo de sua presença fazendo com que eu me levantasse.

Houve um longo silêncio quando o homem de belo rosto estendeu um braço magro com um pulso fino, em cuja mão estavam os dedos mais longos e finos que eu já vira.

Estendi minha mão, e a dele virou-se, expondo uma cicatriz no meio do pulso. Ele realizou o mesmo gesto com a outra, para que eu pudesse ver a marca idêntica no meio do pulso esquerdo. Sorriu, lendo minha mente, e explicou em voz baixa:

— A maior parte das pessoas pensa que os cravos foram colocados na palma das mãos. Mas, não. As palmas não são capazes de sustentar todo o peso do corpo. Os pulsos, sim. Cravos nos pulsos — esclareceu ele, virando os antebraços para que eu pudesse verificar as cicatrizes na parte superior.

— J.C. — apresentou Fritz Wong. — Esse é um visitante de outros mundos, nosso jovem e brilhante escritor de ficção científica...

— Eu sei — disse o belo recém-chegado, gesticulando em direção a si mesmo. — Sou Jesus Cristo.

Dei lugar para que ele sentasse, depois desabei em minha cadeira. Fritz Wong passou-lhe uma cesta cheia de pão.

— Por favor, transforme isso em peixes. Eu engasguei.

Mas J.C., com o mais leve gesto dos dedos, retirou um peixe pratea­do do meio dos pães, atirando-o para cima. Fritz, maravilhado, apanhou-o provocando risos e aplausos.

A garçonete chegou com várias garrafas de bebida barata, produzin­do nova onda de risadas e palmas.

— Este vinho — informou J.C. — era água dez segundos atrás. Por favor!

— Certamente... — comecei. Todos na mesa olharam para mim.

— O que ele quer saber — adiantou-se Fritz — é se o seu nome é esse mesmo.

Com gestos sóbrios, o homem alto apanhou sua carteira de motoris­ta, exibindo-a para mim. Li:

“Jesus Cristo. Avenida Beachwood, 911. Hollywood”.

Ele colocou o documento de volta no bolso, esperou que fizessem si­lêncio à mesa e começou a contar sua história:

— Cheguei a esse estúdio em 1927, quando rodaram Jesus, o Rei. Antes disso eu trabalhava com madeira na carpintaria. Cortei e lixei as três cruzes no Calvário, que ainda estão lá. Lançaram um concurso em todas as igrejas batistas e católicas: encontrem Cristo! Pois acaba­ram me encontrando bem aqui. O diretor perguntou onde eu trabalha­va. Respondi que trabalhava na carpintaria do estúdio. “Meu Deus”, ele disse: deixe-me ver esse rosto! Vá colocar uma barba!” “Me deixe idêntico a Jesus”, eu pedi ao cara da maquiagem. Voltei, de túnica, coroa de espinhos, e tudo o mais. O diretor ficou radiante e pratica­mente lavou meus pés. Pouco depois os batistas estavam fazendo fila nos festivais de torta em Iowa, e eu chegava com meu calhambeque, cheio de faixas dizendo: O REI ESTÁ CHEGANDO.

J.C. fez uma pequena pausa, depois continuou:

— Tive uma grande temporada como Messias, correndo em carava­na o país inteiro, até que o vinho e o pecado arruinaram meu espetácu­lo. Ninguém quer saber de um Jesus mulherengo. Até que não era tan­to o fato de chutar a bunda dos gatos e bolinar as mulheres alheias... é que eu simplesmente era Ele, entende?

— Acho que entendo — concordei, educadamente.

J.C. estendeu os longos antebraços na mesa, à maneira dos gatos, esperando que o mundo viesse adorá-lo.

— As mulheres achavam que era blasfêmia só o fato de respirarem o mesmo ar que eu. Tocar-me era terrível. Beijar era um pecado mor­tal. O ato em si? Achavam melhor pular num poço com o fogo dos in­fernos. Os católicos, não, os Holy Rollers, eram os piores. Consegui dormir com uma ou duas, antes que chegassem a me conhecer bem, na época em que eu viajava incógnito pelo país. Depois de um mês sem acrobacias femininas, fiquei maluco. Simplesmente raspei a barba e fui para o interior, bolinando mulheres a torto e a direito. Deflorei mais garotas do que garimpeiro tarado. Corri o mais que pude, esperando que os pastores não contassem os hímens de seus rebanhos e me en­chessem de chumbo. Rezei para que as mulheres não percebessem que tinham dormido com o convidado principal da Última Ceia. Quando esfolei meu pênis e bebi até cair, o estúdio veio recolher minha carcaça, pagou a fiança, aplacou os pastores de North Sty, em Nebraska, com uma nova pia batismal para meus bastardos, e me trouxeram para um quartinho aqui nos fundos. Ali fui mantido como João Batista, amea­çado de perder ambas as cabeças, até que terminassem mais uma frita­da de peixes na Galiléia e mais uma viagem misteriosa ao Calvário. Só a idade avançada e um pênis usado demais conseguiram me acalmar. Fui enviado para o segundo time. Quando era mais jovem, sempre quis participar das divisões menores de beisebol. Nunca existiu um peca­dor mais mulherengo do que essa alma perdida que vos dirige a pala­vra. Eu não merecia fazer o papel de Jesus Cristo, mas em milhares de teatros pelo país salvei almas e ainda pedi sobremesa. Por muitos anos satisfiz meus apetites não com corpos, mas com garrafas. Tive a sorte de Fritz me chamar para fazer esse novo filme com tomadas a distância e muita maquiagem. É isso aí. Verso e prosa. Cena final, a imagem vai escurecendo devagar.

Aplausos. A mesa inteira bateu palmas e elogiou. De olhos fechados, J.C. curvou a cabeça em agradecimento, para um lado e para outro.

— É uma história e tanto — comentei.

— Pois não acredite numa só palavra. — aconselhou J.C. O aplauso cessou. Havia chegado mais alguém.

— Deus do céu! — disse J.C. com voz clara e forte. — Aí vem Judas! Se o médico do estúdio ouviu, não se sabe.

Doc Phillips estava em pé no extremo mais distante da mesa.

Permanecia ali, estudando a sala desaprovadoramente, receoso de al­gum encontro. Parecia um daqueles lagartos que se vê à orla de flores­tas virgens, os olhos semicerrados, apreensivos, farejando o ar, sentin­do o vento com a língua, sacudindo nervosamente a cauda, pressentin­do perigo em todas as direções, prontos para voltar-se e fugir correndo, um verdadeiro feixe de reflexos nervosos. O olhar de Doc encontrou Roy, e por algum motivo fixou-se nele. Roy endireitou-se, enrijeceu, e ensaiou um débil sorriso na direção do médico.

Droga!, pensei, alguém vira Roy retirar-se às escondidas com sua cai­xa. Alguém...

— Quer fazer as preces? — perguntou Fritz. — Ó Poderoso Diretor da Associação de Medicina, livrai-nos de todos os médicos.

Doc Phillips olhou para o outro lado, como se uma mosca tivesse tocado em sua pele. Roy recostou-se na cadeira.

Além do refeitório, sob o sol brilhante do meio-dia, Manny e alguns outros parasitas se retorciam de raiva e frustração. E o médico viera até o interior para fugir deles ou procurar suspeitos, não se podia saber qual dos dois.

Mas ali estava ele, Doc Phillips, o fabuloso médico de todos os estú­dios desde a época das câmeras movidas a manivela e do advento dos gritos estereofônicos, até aquela tarde em que a terra estremecia. Se Groc era a marionete de riso eterno, então Doc Phillips era o mal-humorado curandeiro de egos incuráveis, como uma sombra na parede, ou uma carranca na pré-estréia dos cinemas, diagnosticando filmes doentios. Ele não falava em parágrafos ou sentenças, mas telegraficamente, usan­do palavras secas como se retiradas de uma bula. Entre essas lacônicas manifestações pairava o silêncio.

Ele estivera no décimo oitavo buraco do campo de golfe quando o chefe dos Estúdios Skylark embocou sua última bola e caiu morto. Contava-se que ele zarpara da costa da Califórnia quando um monta­dor famoso atirou outro diretor igualmente conhecido pela borda do barco, para que se afogasse “acidentalmente”. Eu vira fotografias dele ao lado do ataúde de Valentino, no quarto de hospital com Jeanne Eagel doente, numa corrida de iates em San Diego, onde fora levado co­mo proteção contra a insolação por uma dúzia de figurões do cinema de Nova York. Comentava-se que ele drogava todas as estrelas de um estúdio, e depois as levava para seu sanatório oculto no Arizona, perto de Needles. A ironia do nome do vilarejo, “agulhas”, provocava mexericos. Doc raramente comia no refeitório, pois seu olhar estragava o sa­bor da comida. Os cachorros latiam quando ele passava, como se ele fosse um carteiro infernal. Os bebês mordiam-lhe o cotovelo e depois tinham dores no estômago.

Todos se encolhiam e recuavam quando ele chegava.

Doc Phillips fixava seu olhar aqui e ali pelo grupo. Em poucos ins­tantes, alguns começaram a desenvolver tiques nervosos.

— O trabalho dele nunca termina — disse Fritz para mim. — Mui­tos bebês nascem fora de hora atrás do Estúdio 5. Ataques cardíacos acontecem freqüentemente entre os marajás de Nova York. Ou aquele ator de Mônaco é apanhado com um cantor lírico, seu namorado. Ele...

O dispéptico médico colocou-se atrás de nossas cadeiras, cochichou algo para Stanislau Groc, depois virou-se e saiu.

Fritz fez uma careta para a porta, depois voltou-se para mim, fixando-me com o monóculo.

— Ó mestre futurista que tudo vê, pode nos dizer que diabo está acontecendo aqui?

O sangue me afluiu ao rosto. Minha língua ficou presa com a sensa­ção de culpa que me dominava. Baixei a cabeça.

— Trocar de lugares — gritou alguém. Groc, os olhos postos em mim, emendou:

— A brincadeira das cadeiras! Trocar de lugares.

Todos riram e agitaram-se para trocar de lugar, o que disfarçou mi­nha confusão.

Quando terminaram com a bagunça das trocas, descobri que Stanis­lau Groc, o homem que embalsamara Lênin e preservara seu cavanha­que para a eternidade, estava exatamente a minha frente, e Roy sentava-se a meu lado.

Groc sorria abertamente, como um amigo íntimo.

— Por que Doc estava com tanta pressa? O que está acontecendo?

— Não ligue — respondeu Groc, relanceando os olhos para a porta. — Senti um arrepio às onze da manhã, como se a popa do estúdio ti­vesse batido num iceberg. Desde então os malucos estão correndo por toda parte, abandonando o navio. Fico feliz em ver tanta gente preocu­pada. Faz com que eu esqueça meu melancólico trabalho de deixar os patos do Bronx com aparência de cisnes do Brooklin. — Ele fez uma pausa para engolir uma garfada de sua salada de frutas. — O que acha? Que iceberg nosso amado Titanic abalroou desta vez?

— Parece que aconteceu alguma calamidade na hélice e na oficina dos carpinteiros — observou Roy.

Fiz uma careta na direção dele. Stanislau Groc enrijeceu-se no lugar.

— Ah, sim — disse ele. — Um probleminha com a figura de proa do Bounty, esculpida em madeira.

Chutei Roy por baixo da mesa, mas ele inclinou-se para a frente, interessado.

— Certamente não era esse o iceberg que você mencionou há pouco?

— Claro que não — concordou Groc, rindo. — Não foi bem como uma colisão no Ártico, foi mais como uma corrida de balões movidos a ar quente. Todos os produtores de gás foram chamados ao escritório de Manny. Alguém vai ser despedido. E depois... — ele fez um gesto em direção ao teto, com suas mãos pequeninas — cair para cima!

— O quê?

— Um sujeito é despedido da Warner e cai para a MGM. Outro, na MGM é despedido e cai para a 20th Century Fox. Caindo para cima! O reverso da lei de Newton! — Groc fez uma pausa para sorrir da pró­pria piada. — Ah, mas você, meu pobre escritor, nunca vai poder cair para cima, quando for despedido.   Só para baixo. Eu... — ele interrompeu-se.

Eu o estava olhando da mesma forma como examinara o rosto do meu avô, já falecido, em seu quarto no andar de cima, há trinta anos. A barba nascendo na pele pálida, as pálpebras que ameaçavam abrir-se libertando o olhar zangado que sempre paralisara minha avó... as re­cordações da imagem que assumiam uma nitidez tão grande como a imagem desse agente funerário/maquiador de Lênin, sentado a minha frente como um boneco, comendo pequenos bocados de sua salada de frutas.

— Você está procurando as marcas dos pontos sobre minhas orelhas? — perguntou ele, educadamente.

— Não, não!

— Claro que está — retrucou ele, divertido com aquilo. — Todos fa­zem isso! Veja! — Ele inclinou a cabeça para a frente, levantando os cabelos da testa e das têmporas, virando a cabeça para que eu pudesse ver melhor.

— Mas que belo trabalho! — comentei.

— Belo, não. Perfeitol — corrigiu Groc.

Pois as linhas que se podia observar eram pouco mais do que sombras, como se fossem cicatrizes antigas de mordidas de pulgas.

— Você... — comecei a perguntar.

— Se eu operei a mim mesmo? Como cortar o próprio apêndice? Tal­vez eu seja como aquela mulher que fugiu de Shangrilá no Horizonte Perdido, e depois virou uma ameixa mongol.

Groc riu, e eu fiquei fascinado com sua risada. Não se passava um minuto sem que ele estivesse alegre. Era como se no momento em que ele parasse de rir, fosse engasgar e morrer. Sempre aquele riso que pa­recia um latido, e o sorriso fixo.

— O que foi? — quis saber ele, percebendo que eu olhava para seus lábios.

— O que existe de tão engraçado — perguntei — o tempo todo?

— Tudo é engraçado! Assistiu a um filme com Conrad Veidt...

— O Homem que Ri?

Aquilo pegou Groc de surpresa.

— Não é possível! Você não conhece...

— Minha mãe era fanática por cinema. Depois da escola, quando eu estava no primeiro, segundo, terceiro ano, ela ia me buscar para as­sistir a Mary Pickford, Chaney, Chaplin e... Conrad Veidt! Os ciganos rasgaram a boca dele para que ele nunca mais parasse de rir, e ele se apaixonou por uma moça cega, incapaz de ver o sorriso horrível dele. Depois ele foi infiel a ela, e, quando é desprezado por uma princesa, volta para a moça cega, a fim de ser consolado por ela... E a gente no escuro do Cine Elite ficava chorando, chorando... Fim.

— Meus Deus! — espantou-se Groc, quase perdendo o sorriso. — Que jovem surpreendente você é! Exatamente. Eu sou aquele personagem de Veidt, só que meu sorriso não foi fabricado pelos ciganos. A causa foi muita convivência com suicídios e assassinatos. Já estive enter­rado numa vala comum com dez mil cadáveres e precisei lutar para che­gar à camada de cima, para poder respirar e me livrar da náusea, ferido e dado como morto. Desde então, nunca mais comi carne, pois o chei­ro me lembrava a podridão dos cadáveres e o fedor do massacre. Por­tanto, me alimento de frutas, saladas, pão, manteiga fresca e bebo vi­nho. Com o tempo, desenvolvi esse sorriso. Luto contra o mundo real com uma boca falsa. Frente a frente com a morte, porque não usar es­ses dentes, a língua lasciva, e a risada? Bem, de qualquer forma, sou o responsável por você!

— Você?

— Fui eu quem disse a Manny Leiber para contratar Roy, seu amigo tiranossauro. E disse que precisávamos de alguém que escrevesse tão bem quanto Roy sonhava. Voilà! Você.

Groc parecia vaidoso à frente de seu prato, contente porque eu olha­va seu queixo, sua boca, sua sobrancelha...

— Você podia ganhar uma fortuna... — comecei.

— Eu já ganho. — Ele cortou uma fatia de abacaxi. — O estúdio me paga muito dinheiro. As estrelas estão sempre estragando a pele do ros­to com bebida, ou arrebentando a cabeça nos pára-brisas dos carros. A Maximus vive com medo que eu me despeça. Que besteira! Vou fi­car e rejuvenescer fazendo uma cirurgia plástica por ano, até minha pe­le ficar tão esticada que na hora de sorrir meus olhos vão pular para fora! Assim — ele fez uma imitação do que aconteceria. — Isso tudo porque não posso voltar. Lênin me expulsou da Rússia.

— Um homem morto perseguiu você?

Fritz Wong inclinou-se para a frente, gostando da conversa.

— Groc — disse ele, suavemente — explique. Lênin com as boche­chas cor-de-rosa. Lênin com dentes novos, um sorriso nos lábios. Com novos olhos, de cristal, embaixo das sobrancelhas. Lênin sem manchas na pele e com o cavanhaque aparado. Lênin. Lênin. Conte a ele.

— Muito simples — disse Groc. — Lênin precisava ser como um santo milagroso, imortal em sua tumba de cristal.

— Mas quem era Groc? — continuou Fritz, incapaz de conter-se.

— Será que foi Groc quem passou ruge no rosto de Lênin, que igualou a pele? Não! Lênin, mesmo na morte, melhorou a si mesmo. Portanto, matem Groc!

— Então Groc fugiu — completou o soviético. — E onde está Groc agora? Bem aqui, caindo para cima, junto com todos vocês...

No extremo da longa mesa surgiu Doc Phillips outra vez. Não se apro­ximou mais do que isso e, com um gesto brusco de cabeça, indicou a Groc que deveria acompanhá-lo.

Groc limpou calmamente o queixo com o guardanapo, tomou mais um gole de leite gelado, cruzou os talheres e levantou-se. Começou a andar e hesitou. Depois voltou-se e disse:

— Titanic, não. Parece mais com Ozymandias... — E saiu.

— Por que será que ele inventou essa história sobre figuras de proa? — conjeturou Roy.

— Ele é bom — comentou Fritz Wong. — Um Conrad Veidt em tamanho econômico. Vou aproveitar esse safado em meu próximo filme. — O que ele quis dizer com Ozymandias? — perguntei.

- 16 -

Durante todo o resto da tarde Roy apareceu várias vezes em meu es­critório, mostrando os dedos sujos de argila.

— Nada! — reclamava ele. — Nenhum Monstro! Eu arrancava papéis da máquina de escrever:

— Nada também!

Finalmente, às dez da noite, Roy passou de carro para irmos ao Brown Derby. No caminho, li a primeira metade do poema Ozymandias, de Shelley:

 

Encontrei um viajante de uma terra antiga Que disse: Duas enormes pernas pétreas sem tronco Erguem-se no deserto. Próximo, na areia contígua Semi-enterrado jaz um rosto esfacelado, cujo cenho aberto Com o lábio encolhido e o sorriso zombeteiro de comando e briga São testemunhas da visão apaixonada do escultor incerto Que ainda sobrevive, impresso naquelas coisas sem vida A mão que zombava, e o coração que as nutria.

 

As sombras moviam-se pelo rosto de Roy.

— Leia o resto — pediu ele. Eu li:

 

No pedestal, viam-se essas palavras: “Meu nome é Ozymandias, rei dos reis, Ouvi minhas palavras, ó poderosos, e desespereis. Nada permanece ao lado. Em volta da podridão Das ruínas colossais, livres e nuas.

As areias planas e solitárias estendem-se na vastidão.

 

Quando terminei, Roy passou por dois ou três quarteirões escuros.

— Faça a volta, vamos para casa — pedi.

— Por quê?

— Esse poema parece com o estúdio e o cemitério. Você já teve uma daquelas esferas de cristal que a gente sacode e provoca lá dentro uma tempestade de neve? É assim que estou me sentindo por dentro agora.

— Besteira — comentou Roy.

Observei o perfil aquilino que cortava o ar da noite, recendendo aquele otimismo que somente os artistas parecem possuir, já que são capazes de construir um mundo da maneira que desejam, sem importar as cir­cunstâncias.

Lembrei-me de quando ambos tínhamos treze anos, e King Kong caiu do Empire States, aterrissando sobre nós. Quando levantamos, nun­ca mais fomos os mesmos. Prometemos um ao outro que um dia iría­mos escrever e fazer um monstro tão grande, bonito e impressionante quanto King Kong, ou morrer tentando.

— Monstro, aqui estamos nós — anunciou Roy.

Paramos o carro próximo ao Brown Derby, um restaurante sem car­tazes escandalosos. A única maneira de saber que era um lugar impor­tante eram as caricaturas de freqüentadores famosos que cobriam as pa­redes internas. No exterior havia uma sobriedade espartana. Entramos.

O maitre do Brown Derby levantou a sobrancelha esquerda quando chegamos. Um ex-amante de cachorros, ele agora adorava gatos, gente importante. Éramos esquisitos para ele.

— Com certeza não têm reservas? — indagou ele, languidamente.

— Reservas sobre esse lugar? — brincou Roy. — Temos algumas. A piadinha arrepiou o indivíduo, mas ele nos deixou entrar assim mesmo.

O restaurante encontrava-se quase vazio. Algumas pessoas ocupavam duas ou três mesas, terminando a sobremesa ou saboreando um conha­que. Os garçons já haviam começado a arrumar as mesas.

Ouvimos uma gargalhada e vimos três mulheres em pé junto a uma das mesas, inclinadas em direção a um homem, que ainda sentado re­cebia a conta. Uma delas ria, dizendo que estariam lá fora olhando as vitrines enquanto ele acertava a conta; em seguida, deixando um rastro perfumado, passaram por mim e por Roy, que olhávamos estupefatos para o sujeito no reservado. Stanislau Groc.

— Você! — exclamou Roy, espantado.

— Eu?! — A fleuma de Groc pareceu extinguir-se. — O que estão fazendo aqui?

— Fomos convidados.

— Estávamos procurando alguém — emendei.

— Encontraram a mim e ficaram abalados — concluiu Groc.

Roy recuava, sofrendo de sua síndrome de Siegfried. Prometeram-lhe um dragão, e ele contemplava um mosquito. Não conseguia tirar os olhos de Groc.

— Por que está me olhando desse jeito? — indagou o homenzinho.

— Roy... — alertei.

Podia adivinhar o que ele estava pensando. Tudo não passara de uma piada. Alguém, sabendo que Groc costumava freqüentar o local algu­mas noites, nos mandara até lá para nos fazer de bobos. Para que ficás­semos embaraçados e Groc também. Roy continuava a olhar para as orelhas, o nariz e o queixo do cosmetologista.

— Não — disse Roy, finalmente. — Você não serve.

— Não serve para quê? Espere um pouco! Já sei. É a Busca, não é? — Um estremecer rápido começou a sacudir-lhe o peito, saindo final­mente pela boca na forma de um riso interrompido. — Mas por que o Brown Derby? As pessoas que vêm aqui não são do tipo que assus­tam os outros. Provocar pesadelos, sim. Mas eu, com minhas costuras escondidas no rosto. A quem eu poderia assustar?

— Não se preocupe — disse Roy. — O susto vem mais tarde, quan­do eu pensar em você depois das três da manhã.

Aquilo libertou completamente o riso de Groc, que deixou escapar uma grande gargalhada e nos chamou para seu reservado.

— Desde que a noite de vocês foi arruinada, pelo menos bebam. Roy e eu relanceamos os olhos pelo restaurante.

Nenhum Monstro.

Quando o champanhe foi servido, Groc levantou um brinde.

— Que possam jamais ter de curvar os cílios de um cadáver, ou lim­par os dentes de um morto, pentear-lhe a barba, ou maquiar lábios sifilíticos. — Bebeu e olhou na direção da porta, por onde as mulheres haviam saído.

— Viram os rostos delas? — sorriu Groc. — São meus? Sabem por que essas garotas estão apaixonadas por mim e nunca vão me deixar? Sou o lama do vale da Lua Azul. Se elas partirem, minha porta vai fechar-se para elas, e os rostos vão cair. Já avisei a elas que enfiei um finíssimo arame nos queixos e nos olhos delas. Se elas se afastarem de­mais, esticam o arame... a carne delas vai se desenrolar. Em vez de pa­recerem ter trinta anos, terão quarenta e dois!

— Fafner — resmungou Roy. Seus dedos apertavam a borda da me­sa como se ele fosse saltar a qualquer instante.

— O quê?

— Um amigo — expliquei. — Pensamos que iríamos encontrá-lo aqui esta noite.

— A noite acabou — disse Groc. — Mas fiquem. Terminem meu champanhe. Peçam mais, a minha custa. Querem uma salada antes que a cozinha feche?

— Não estou com fome — recusou Roy, demonstrando a mesma de­cepção de quando assistiu à opera Siegfried.

— Eu aceito! — respondi depressa.

— Duas saladas — pediu Groc ao garçom. — Com molho de queijo?

— Ótimo — aceitei, olhando para Roy, que estava com os olhos fe­chados.

Groc voltou-se para o garçom e colocou-lhe na mão uma gorjeta des­necessariamente vultosa.

— Trate bem meus amigos — ordenou ele, sorrindo. Depois, olhan­do outra vez para a porta por onde as mulheres haviam saído, balançou a cabeça. — Preciso ir, agora. Está chovendo. Toda essa água caindo no rosto das minhas meninas. Elas podem derreter! Afinal, qual é o nome da pessoa que devia estar aqui, mas não está?

— Fafner — disse Roy.

— Ah... — Groc assentiu vigorosamente com gestos de cabeça. — O cãozinho de Wagner, claro! Até logo. Arrivederci!

E as portas se fecharam sobre ele.

— Vamos sair. Estou me sentindo um verdadeiro idiota! — queixou-se Roy.

Ele começou a mover-se e derramou sua taça de champanhe. Pra­guejou e limpou a toalha. Enchi novamente a taça e observei enquanto ele sorvia o conteúdo para acalmar-se.

Cinco minutos depois, nos fundos do restaurante, a coisa aconteceu...

O chefe dos garçons colocava um biombo em volta da mesa mais dis­tante. Com um estalido, o biombo fechou-se parcialmente. O garçom resmungou algo para si mesmo. A seguir houve um movimento na por­ta da cozinha, de onde surgiram um homem e uma mulher. Enquanto o garçom ajeitava o biombo, ambos passaram apressadamente pela luz, olhando apenas para a frente, em direção à mesa com o biombo.

— Meu Deus! — exclamei, com a voz alterada. — Roy? Roy olhou para a direção que eu fitava.

— Fafner — balbuciei.

— Não... — Roy ficou paralisado, depois recostou-se, observando o casal que se movia rapidamente. — Não é possível!

Mas não era Fafner, ou pelo menos não se tratava do dragão mitoló­gico que caminhava da cozinha para a mesa, segurando a mão da com­panheira e conduzindo-a atrás de si.

Era o que buscáramos por longas semanas e vários dias árduos. Era o que eu deveria ter datilografado no papel, com um arrepio gelado subindo do braço até a nuca.

Era o que Roy estivera procurando a cada vez que mergulhava os de­dos na argila. Era como uma bolha avermelhada que se levantasse do fundo de um lago primitivo e assumisse a forma de um rosto.

E esse rosto se apresentava como uma mistura de todos os rostos mu­tilados, feridos, mortos e enterrados em dez mil guerras desde que começaram as guerras.

Era como a decrepitude de Quasímodo, agravada por câncer e um toque de lepra.

Por trás daquele rosto havia uma alma que parecia condenada a viver para sempre.

Para sempre!, pensei. Ele nunca vai conseguir libertar-se.

Era nosso Monstro.

A cena acabou num segundo.

Porém, tive uma visão terrivelmente nítida e duradoura da criatura, fechei os olhos, e o rosto terrível permaneceu em minha retina; quei­mava tanto que as lágrimas me assomaram aos olhos, e um som invo­luntário escapou de minha garganta.

Era um rosto no qual afundavam dois olhos de aparência líquida. Um rosto no qual tais olhos, flutuando no delírio, não conseguiam encon­trar ancoradouro, nem abrigo, nem salvação. Percebendo que não ha­via um lugar para descansar, os olhos, brilhantes de desespero, sustentavam-se sem apoio na superfície turbulenta de carne, recusando-se a afundar e desaparecer. Havia ali uma centelha de esperança, como se, voltando-se para um lado e para outro, pudessem divisar alguma salvação periférica, alguma pincelada de beleza interna, alguma revela­ção que não fosse tão ruim quanto parecia. E assim os olhos flutua­vam, ancorados na lava da carne destruída, numa fusão genética na qual nenhuma alma, por mais corajosa que fosse, poderia sobreviver. En­quanto isso, as narinas inalavam a si mesmas, e o corte da boca gritava silenciosamente e aspirava o ar.

Naquele instante reparei em Roy, que oscilou para a frente, depois para trás, como se tivesse sido atingido por um tiro, a mão movendo-se involuntariamente para o bolso.

Em seguida o homem deformado passou, o biombo recolocado no lugar, e a mão de Roy saiu do bolso trazendo um pequeno bloco de rascunho e o lápis, ainda olhando para o biombo como se tivesse visão de raios X. Sem olhar uma só vez para a mão que desenhava, ele esbo­çou o terror, o pesadelo, e a expressão do desespero na carne viva.

Como Doré, muito antes dele, Roy possuía o dom da exatidão. Sua mão em movimento, ao esboçar contornos e delinear sombras, precisa­va apenas de um vislumbre das multidões de Londres para fazer fluir a câmera escura da memória, que ativava os longos dedos e brotava da ponta do lápis na forma de cada olho, narina e boca; cada rosto surgia impresso como se tivesse sido fotografado. Em quatro segundos a mão de Roy, movendo-se como uma aranha em água quente, dançou e perdeu-se na epilepsia do esboço. Num momento, a folha do bloco es­tava vazia. No momento seguinte, o Monstro, ainda não completo, mas a maior parte dele, aparecia no papel.

— Que diabos! — resmungou Roy, largando o lápis. Olhei para o biombo oriental, depois para o esboço.

O que ali se encontrava era um retrato, metade em positivo, metade em negativo do horror que havíamos vislumbrado brevemente.

Não consegui tirar os olhos do desenho de Roy agora que o Monstro estava escondido, e o maitre anotava o pedido que partia do interior do reservado.

— É quase isso — sussurrou Roy. — Mas não está completo. Nossa busca terminou, companheiro.

— Não.

— Sim.

Por algum motivo, coloquei-me em pé.

— Boa-noite

— Onde vai? — Roy parecia surpreso.

— Para casa.

— E como pretende chegar lá? Vai ficar uma hora no ponto de ônibus? — A mão de Roy movia-se sobre o papel. — Sente aí.

— Pare com isso — pedi.

Uma arma disparada no rosto dele provocaria o mesmo efeito.

— Depois de esperar semanas? De jeito nenhum. O que deu em você?

— Acho que vou vomitar.

— Eu também. Está achando que eu gosto disso? — Ele pensou um pouco sobre o que dissera. — Pode ser. Também estou enjoado, mas primeiro tenho de fazer isso. — Ele acrescentou mais Unhas que subli­nharam o terror da imagem. — O que acha?

— Agora estou assustado de verdade.

— Acha que ele vai sair de trás do biombo e pegar você?

— Acho!

— Sente e coma sua salada. Lembra o que Hitchcock disse: que quan­do ele termina a arte final dos cenários, o filme está pronto? Nosso fil­me está pronto. Isto termina tudo. É como se estivesse revelado e pron­to para exibir.

— E por que estou com vergonha? — Sentei pesadamente, evitando olhar para o bloco de Roy.

— Porque você não é ele, e ele não é você. Graças à piedade divina. E se eu rasgar esse esboço e formos embora? Quantos meses mais tere­mos de procurar para encontrar algo tão triste e tão terrível?

— Nunca encontraríamos — respondi, engolindo em seco.

— Exatamente. Esta noite não vai se repetir mais. Agora simples­mente acalme-se, fique quietinho, coma sua salada, e vamos esperar.

— Posso esperar, mas não vou conseguir me acalmar. E vou conti­nuar sentindo essa tristeza enorme.

Roy encarou-me de frente.

— Está vendo meus olhos?

— Estou.

— O que está enxergando?

— Lágrimas.

— O que prova que eu sinto a mesma coisa que você, só que não consigo me controlar. Esfrie a cabeça. Beba alguma coisa.

Ele serviu mais champanhe.

— Está com um gosto horrível — comentei, depois de ingerir meia taça. Roy desenhara, e o rosto estava ali. Eram feições no último estágio de decadência; como se a mente por trás da aparição tivesse nadado mil milhas, e agora estivesse a ponto de afundar. Havia ossos por trás da carne, que se partiram e solidificaram numa forma que lembrava um inseto, numa máscara alienígena. Se havia mesmo uma mente atrás dos ossos, escondida nas cavernas da retina e do tímpano, acenava lou­camente através dos olhos.

Mesmo assim, depois que a comida deles chegou e o champanhe foi servido, Roy e eu ficamos estarrecidos com as gargalhadas incríveis que vinham de trás do biombo. A princípio a mulher não participava, mas à medida que o tempo ia passando, o divertimento até então comedido que ela demonstrava passou a parecer-se com o dele. Com a diferença que o riso dele lembrava o dobrar de um sino, e o dela beirava a histeria.

Bebi o suficiente para poder permanecer ali. Quando a garrafa de champanhe esvaziou-se, o maitre trouxe uma outra, dispensando com um aceno quando fiz menção de colocar a mão no bolso.

— Groc pagou — explicou ele.

Roy não ouvira. Estava enchendo página após página de seu bloco; à medida que o tempo passava e as gargalhadas aumentavam, os dese­nhos tornavam-se cada vez mais grotescos, como se a diversão deles ati­vasse a memória de Roy e enchesse cada página. Até que finalmente as risadas cessaram. Ouvimos uma série de ruídos abafados por trás do biombo, indicando que os ocupantes preparavam-se para sair, e o maitre veio até nossa mesa.

— Por favor, precisamos fechar. Importam-se? — perguntou ele, acenando em direção à porta e afastando a mesa.

Roy levantou-se e olhou em direção ao biombo oriental.

— Não — disse o maitre. — A ordem correta é que vocês saiam primeiro.

Eu já estava a meio caminho da porta, e tive de voltar-me.

— Roy?

Ele veio atrás de mim, olhando para trás como se estivesse deixando uma peça ainda não terminada.

Quando chegamos à calçada, um táxi dobrava a esquina. A rua encontrava-se vazia, a não ser por um homem relativamente alto, tra­jando um sobretudo de pêlo de camelo, de costas para nós, próximo à esquina. O álbum que levava embaixo do braço fez com que eu o reconhecesse. Eu vira aquele álbum todos os dias durante minha infân­cia e adolescência em frente aos estúdios da Columbia, da Paramount, da MGM, e de todos os outros. Estava repleto de fotografias de Greta Garbo, Ronald Colman, Clark Gable, Jean Harlow e centenas de ou­tros, todos assinados com tinta violeta. Tudo colecionado por um fã de­votado, que agora envelhecera. Hesitei, depois parei.

— Clarence? — chamei.

O homem encolheu-se, como se não quisesse ser reconhecido.

— É você mesmo, não é? — insisti, baixinho, tocando-lhe o cotove­lo. — É o Clarence, certo?

Por fim ele virou a cabeça. O rosto era o mesmo, só que enrugado além de uma palidez extrema a envelhecê-lo.

— O que foi? — quis saber ele.

— Lembra de mim? — perguntei. — Claro que lembra. Eu costu­mava andar por Hollywood com aquelas três irmãs malucas. Uma de­las fazia aquelas camisas havaianas que Bing Crosby usou nos primei­ros filmes. Fiquei na frente da Paramount exatamente ao meio-dia, to­dos os dias durante o verão de 1934. Você também estava sempre lá. Como é que eu ia esquecer? Você tinha o único retrato autografado de Greta Garbo que eu já vi...

Essa abordagem só serviu para piorar as coisas. A cada palavra, Cla­rence encolhia mais para dentro do grande sobretudo.

Ele concordava nervosamente, como se quisesse acabar logo com aqui­lo. Olhava preocupado para a saída do restaurante.

— O que está fazendo por aqui a uma hora dessas? — indaguei. — Todos foram para casa.

— Nunca se sabe. Não tenho mais nada para fazer... — balbuciou Clarence.

Nunca se sabe. Douglas Fairbanks, vivo novamente, podia passar ou­tra vez pela calçada, o que seria muito melhor do que ver Marlon Bran­do. Fred Allen, Jack Benny e George Burns podiam dobrar a esquina, vindos do Legion Stadium, onde as lutas de boxe terminavam, reme­morando os velhos tempos, as multidões alegres, mais agradáveis do que aquela noite e as que viriam a seguir.

Não tenho mais nada para fazer. Era isso.

— Claro — respondi. — Nunca se sabe. Estou vendo que não está lembrado de mim... O maluco? O marciano maluco?

Os olhos de Clarence passavam por minhas feições, evitando os meus.

— N-não... — disse ele, hesitante.

— Boa noite — cumprimentei.

— Boa noite — respondeu Clarence.

Fomos até o calhambeque e entramos no carro, Roy suspirando impacientemente. Logo apanhou seu bloco, o lápis, e aguardou.

Clarence ainda estava na esquina, ao lado do táxi, quando as portas do Brown Derby se abriram e a Fera saiu com sua Bela.

Era uma daquelas raras noites quentes, ou então não teria acontecido o que aconteceu a seguir.

O Monstro parou, sorvendo grandes golfadas de ar, obviamente re­pleto de champanhe e esquecimento. Se ele estava consciente da apa­rência de seu rosto, não dava sinais disso. Segurou as mãos de sua da­ma e conduziu-a até o táxi, conversando e rindo. Foi então que eu en­tendi, pela maneira como ela andava e não fixava o olhar em nenhum ponto...

— Ela é cega! — exclamei.

— O quê? — espantou-se Roy.

— Ele é cega. Não pode vê-lo. Não é de admirar que sejam amigos! Ele a leva para jantar, e ela nem fica sabendo como ele é!

Roy inclinou-se e estudou a mulher.

— Meu Deus! Você tem razão. Ela é cega.

O homem ria e ela acompanhava sua gargalhada, como um papagaio zonzo.

Nesse momento, Clarence, de costas para eles, tendo ouvido as risa­das e a conversa, voltou-se lentamente para os dois. Com os olhos semicerrados, passou a escutar com atenção, e uma expressão de surpre­sa estampou-lhe no rosto. Uma palavra surgiu em seus lábios!

Instantaneamente o Monstro parou de rir.

Clarence deu um passo para a frente e disse alguma coisa para o ho­mem. A mulher também parou de rir. Clarence perguntou algo. Então o Monstro cerrou os punhos, gritou, e ergueu os braços, como se fosse atingir Clarence e derrubá-lo na calçada.

Clarence caiu de joelhos, balbuciando.

O monstro ficou sobre ele, os punhos tremendo. Seu corpo balança­va para a frente e para trás, como se alternadamente perdesse e recupe­rasse o controle.

Clarence choramingava, e a mulher cega, estendendo a mão, disse alguma coisa. O Monstro fechou os olhos e deixou os braços caírem. Instantaneamente, Clarence deu um salto e saiu correndo para a prote­ção da escuridão. Tive o impulso inexplicável de ir atrás dele, embora não soubesse o motivo da fuga. No momento seguinte, o Monstro aju­dou sua amiga cega a entrar no táxi, que partiu imediatamente.

Roy girou a chave na ignição, e saímos em perseguição a eles.

O táxi virou à direita no Bulevar Hollywood, e nós tivemos de parar num sinal vermelho onde alguns pedestres atravessavam. Roy acelerava o motor, xingando, como se fosse passar por sobre os escassos tran­seuntes, até que as pessoas atravessaram e pudemos prosseguir, atra­vessando o sinal vermelho.

— Roy!

— Pare de dizer meu nome. Ninguém nos viu. Simplesmente não podemos perdê-los de vista. Meu Deus, preciso dele! Tenho de ver onde ele vai. Saber quem é. Lá estão eles!

À frente, o táxi virava na Rua Gower. Também à frente, Clarence ainda corria, e não nos viu quando passamos. Suas mãos estavam vazias. Ele deixara cair sua pasta do lado de fora do restaurante. Perguntei-me quan­to tempo se passaria antes que ele percebesse.

— Pobre Clarence...

— Por que, pobre? — quis saber Roy.

— Ele está metido nisso também. Por que você acha que ele estava em frente ao Derby? Coincidência? Duvido muito. Alguém deve tê-lo chamado. E agora ele perdeu aqueles belos retratos autografados. Roy, precisamos voltar e apanhá-lo!

— Nós vamos continuar — afirmou Roy, decidido.

— Fico pensando... que tipo de bilhete será que Clarence recebeu? O que será que dizia?

Roy passou por outro sinal vermelho na Rua Sunset para acompa­nhar o táxi, que estava a meio caminho do Bulevar Santa Mônica.

— Eles estão indo ao estúdio! — afirmou Roy, corrigindo-se a se­guir: — Não, não estão.

Pois o táxi, ao entrar no Bulevar Santa Mônica, virará à esquerda lo­go após o cemitério.

Chegávamos à Igreja de San Sebastian, um dos menos expressivos templos católicos de Los Angeles. Subitamente o táxi entrou na traves­sa ao lado da igreja.

Estacionou cem metros rua acima, e Roy parou o calhambeque. Vimos o Monstro acompanhar a mulher até uma pequena construção bran­ca. Demorou-se ali apenas um instante. Ouvimos uma porta abrir e fe­char em algum lugar, e o Monstro voltou ao táxi, que avançou até a esquina seguinte, fez meia-volta e veio em nossa direção. Felizmente, nossos faróis estavam apagados. O táxi passou, e Roy xingou, ao mes­mo tempo que realizava sua própria versão de conversão em “U”, sob meus protestos. Logo estávamos de volta ao Bulevar Santa Mônica, a tempo de avistar o táxi parando em frente à Igreja de San Sebastian, para que o passageiro descesse. O monstro foi até a entrada iluminada da igreja sem olhar para trás. O táxi partiu.

Roy encontrou um lugar escuro nas cercanias, sob uma árvore, onde estacionou com as luzes apagadas.

— Roy, o que está...

— Silêncio — sibilou ele. — Um palpite. Tudo o que estou fazendo é seguir um palpite. Se aquele sujeito freqüenta alguma igreja, princi­palmente a uma hora dessas, quero ser uma corista de teatro rebolado...

Os minutos se passaram. As luzes da igreja não se apagaram.

— Vamos ver o que está havendo — sugeriu Roy.

— Vamos o quê?

— Tudo bem, eu vou.

Num instante ele desceu do carro e tirou os sapatos.

— Volte aqui! — gritei.

Mas ele já tinha ido, só de meias. Desci do carro, também tirei os sapatos e corri atrás dele. Roy chegou à porta da igreja em dez segun­dos, comigo nos calcanhares. Esprememo-nos contra a parede lateral e ficamos ouvindo. Escutamos uma voz elevando-se e abaixando várias vezes.

A voz do Monstro! Descrevendo calamidades em tom de urgência, desfiando erros terríveis, pecados mais negros que o céu marmóreo da­quela noite.

A voz do sacerdote intervinha brevemente, respondendo e perdoan­do, fazendo votos de uma vida melhor, onde o Monstro, se não renas­cesse belo, poderia encontrar pequenas alegrias nas penitências.

Sussurros e mais sussurros na calada da noite.

Fechei meus olhos e concentrei-me o máximo que pude para escutar.

Sussurros infindáveis. Então... eu não queria acreditar em meus ouvidos.

Soluços. Um choro que parecia não ter mais fim.

O homem solitário no interior da igreja, com uma alma perdida no interior de um rosto horrível, derramava sua tristeza sobre o confessio­nário, sobre a igreja e sobre mim. Soluçando e suspirando, vertendo lágrimas que eu podia adivinhar.

Minhas sobrancelhas arderam sob o efeito daquele som. Depois si­lêncio... uma agitação. Passos.

Começamos a correr.

Chegamos ao carro e entramos.

— Pelo amor de Deus — sibilou Roy.

Empurrando minha cabeça para baixo, ele agachou-se. O Monstro ha­via saído e corria pela rua deserta.

Quando chegou ao portão do cemitério, ele parou e voltou-se. Um carro que passava iluminou-o como um holofote no palco. Ele ficou imóvel, aguardou e, a seguir, desapareceu no interior do cemitério.

A uma certa distância dali, no interior da igreja, uma sombra moveu-se, as luzes se apagaram, e as portas foram fechadas.

Roy e eu olhamos um para o outro.

— Meu Deus! — exclamei. — Que pecados podem ser tão enormes que alguém precisa confessá-los a essa hora da noite? E aqueles soluços! Ouviu só aquilo? Acho que... ele vem aqui para perdoar Deus por ter lhe dado aquele rosto.

— O rosto... Aquele rosto. É isso mesmo — concordou Roy. — Eu simplesmente preciso saber o que ele pretende. Não posso perdê-lo de vista!

E saiu novamente do carro.

— Roy!

— Não entende, seu burro? Ele é nosso filme, o nosso Monstro. Se ele fugir... nem quero pensar.

E Roy atravessou a rua correndo.

Idiota!, pensei. O que ele acha que está fazendo?

Mas eu tinha medo de gritar a uma hora dessas. Roy passou pelo por­tão do cemitério e mergulhou nas sombras como alguém que se esti­vesse afogando. Levantei tão rápido que bati a cabeça no painel e caí no banco, xingando: maldito Roy. Que droga!

E se um carro da polícia aparecesse agora?, pensei, imaginando o que iria dizer. Que estava esperando por Roy? “Ele está lá no cemitério, vai sair daqui a pouco. Não acreditam? Vamos esperar mais um pouco, e vocês vão ver”.

Esperei. Cinco minutos. Dez.

Então, surpreendentemente, lá veio Roy, do outro lado da rua. Nem ao menos olhou para a própria mão acionando a maçaneta ao abrir a porta. Sentou-se ao volante como um zumbi, ainda olhando para o ce­mitério.

— Roy?

Ele não ouviu.

— O que você viu lá dentro? Ele não respondeu.

— Ele vai, quer dizer, aquilo vai sair? Silêncio.

— Roy! — Eu o cutuquei com uma cotovelada. — Diga alguma coi­sa. O que foi?

— Ele...

— O que aconteceu?

— É difícil de acreditar — disse Roy, finalmente.

— Pode falar, eu acredito.

— Não. Agora ele é meu. Meu Deus, que Monstro nós consegui­mos, parceiro! — Roy voltou-se para mim, os olhos como lanternas, a alma queimando em suas bochechas e colorindo-lhe a boca. — Va­mos fazer um grande filme...

— Vamos?

— Claro que vamos! — Seu rosto parecia iluminado. — Que coisa!

— É só isso que tem para dizer? Não vai contar nada sobre o que aconteceu lá dentro do cemitério? Só, que coisa?

Que coisa... — repetiu Roy, olhando na direção do cemitério. As luzes externas no pátio de azulejos se apagaram. A igreja ficou às escuras. A rua estava escura. As luzes no rosto de meu amigo ha­viam desaparecido. O cemitério continuava imerso na noite, esperando o raiar do dia.

— Que coisa... — insistiu Roy, dando a partida e começando a ru­mar na direção de casa.

— Mal posso esperar para colocar as mãos na argila — declarou ele, depois de alguns quarteirões.

— Não!

Chocado, Roy voltou-se para mim. Rios de luz escorriam por seu rosto. Parecia estar embaixo d'água, onde não podia ser alcançado, ou salvo.

— Está tentando me dizer que não podemos usar esse rosto para o nosso filme?

— Não é só o rosto. Tenho essa sensação... que, se você fizer isso, estamos mortos. Meu Deus, Roy, estou assustado de verdade. Não es­queça que alguém escreveu a você para que viéssemos aqui hoje. Al­guém quis que nós o descobríssemos. Provavelmente a mesma pessoa também chamou Clarence! As coisas estão andando depressa demais para o meu gosto. Vamos fingir que nunca estivemos no Brown Derby.

— E como acha que eu conseguiria fazer uma coisa dessas? — inda­gou ele.

Aumentou a velocidade.

O ar frio entrava pela janela, enregelando meus cabelos, minhas pálpebras e meus lábios.

As sombras corriam pelo rosto de Roy e ressaltavam seu nariz adunco e a boca triunfante. Lembrava a boca de Groc, ou Aquele Que Ri Por Último.

Roy percebeu que eu o estava encarando.

— Está com raiva de mim?

— Não. Estava só pensando que, apesar de conviver com você du­rante tantos anos, eu o conheço tão pouco.

Roy levantou sua mão esquerda com os desenhos que fizera no res­taurante. Eles estalaram e agitaram-se quando expostos ao vento do la­do de fora da janela.

— Posso largar?

— Você e eu sabemos muito bem que existe uma câmera fotográfica na sua cabeça. Se jogar fora esses desenhos, aí dentro tem muito mais esperando para sair, à hora que você quiser.

— Tem razão. Os próximos serão muito melhores — disse Roy, sol­tando os papéis ao vento. Os desenhos esvoaçaram pela noite atrás de nós.

— Não me sinto nem um pouco melhor — comentei.

— Pois eu sim. O Monstro agora é nosso. Nós o possuímos.

Ah, é? E quem o deu para nós? Quem nos chamou para vê-lo? Quem está nos seguindo enquanto seguimos o Monstro?

Roy estendeu o dedo para desenhar um rosto horrível no vidro em­baçado.

— No momento, só minha Musa.

Nada mais foi dito. Corremos pela noite em silêncio durante todo o resto do caminho.

- 17 -

O telefone tocou às duas da manhã.

Era Peg, ligando de Connecticut, pouco antes do amanhecer.

— Sabia que tem uma mulher chamada Peg — perguntou ela — que saiu de casa dez dias atrás para uma conferência em Hartford? Por que não telefonou?

— Eu telefonei. Mas você não estava no quarto. Deixei recado. Pu­xa, como eu queria que você estivesse em casa...

— Ah, meu querido — disse ela devagar. — É só eu sair da cidade, e você fica deprimido. Quer que a mamãe volte para casa, quer?

— Quero. Quer dizer, não precisa — hesitei. — São só os mesmos problemas no estúdio...

— Por que está contando até dez? — quis saber ela.

— Meu Deus...

— Tem se alimentado bem? Coloque uma moedinha naquelas má­quinas que imprimem um papelzinho com o peso, e mande para mim. Ei! — ela fez uma pausa —, estou falando sério. Quer que eu volte para casa? Amanhã?

— Amo você, Peg. Pode voltar quando tinha planejado mesmo.

— Mas e se você não estiver em casa quando eu chegar? Ainda é o Dia das Bruxas aí?

As mulheres e sua maldita intuição!

— Eles resolveram continuar por mais uma semana.

— Eu percebi pelo seu tom de voz. Fique longe dos cemitérios.

— Por que disse isso? Meu coração deu um salto.

— Colocou flores no túmulo de seus pais?

— Esqueci.

— Como pôde esquecer?

— De qualquer forma, o cemitério onde eles estão é um cemitério melhor.

— Como melhor?

— Melhor do que qualquer outro, porque eles estão lá!

— Ponha uma flor por mim — pediu ela. — Amo você. Até logo!

Ela desligou, provocando um ruído forte na linha.

Às cinco da manhã, sem sol, e com o céu cheio de nuvens vindas do Pacífico, acordei. Olhei para o teto e, ainda sem óculos, fui até mi­nha máquina de escrever.

Sentei-me na luz difusa que antecede a aurora e escrevi: “A VOLTA DO MONSTRO”.

Será que ele chegara a ir embora?

Ele não se antecipara a mim em todos os momentos da vida, chamando-me com sussurros?

Datilografei: “CAPÍTULO UM”.

 

O que existe de tão belo sobre um Monstro perfeito? Por que meni­nos e homens respondem ao chamado?

O que existe de tão atraente e excitante em Criaturas, Monstros, Fe­ras e Anormais?

O charme eterno do Monstro!

E, agora, os loucos querem perseguir e apanhar o rosto mais horrível do mundo!

Parei de datilografar, inspirei profundamente e disquei o número de Roy. Sua voz parecia distante, como se imersa num mundo longínquo.

— Tudo bem — respondi. — Qualquer coisa que queira, Roy. Está certo.

Desliguei e caí na cama.

 

Na manhã seguinte eu estava em frente ao Estúdio 13, lendo a tabuleta que ele pintara e pendurara à entrada:

 

CUIDADO.

ROBÔS RADIOATIVOS.

CACHORROS LOUCOS.

DOENÇAS INFECCIOSAS.

 

Infantilidade? Mas nunca tínhamos vivido de outra forma. Fingía­mos ser superficiais para que as pessoas não soubessem o quanto gostá­vamos de caveiras com formas estranhas, assustadoras, e da distorcida genética submarina, de lugares acima das nuvens e do espaço exterior.

Coloquei o ouvido contra a porta e imaginei meu amigo trabalhando no silêncio daquela catedral escura, moldando a argila como uma aranha presa na teia do próprio amor, produzindo a forma resultante desse amor.

— Força, Roy — sussurrei. — Força, Monstro!

E, enquanto esperava, andei através dos países e das cidades desse mundo.

- 18 -

Caminhando, eu pensava: “Meu Deus, Roy está trazendo à luz um Monstro que me apavora. Como posso parar de tremer e aceitar um delírio desses? E uma vez que tenha aceitado, como posso elaborar o roteiro para uma história com a qual todos fiquem com medo? Feito tudo isso, onde coloco a ação? Em que cidade, vilarejo, ou que lugar do mundo?”

Fiz uma caricatura do rosto terrível em minha mente, tentando jun­tar elementos para ambientar a história; porém, o local, a cidade em si, recusou-se a aparecer.

Meu Deus, pensei ainda caminhando, agora sei por que tão poucos contos de mistério se passam em ambientes americanos. A Inglaterra, com seus nevoeiros, chuvas, charnecas e mansões antigas, tinha os fan­tasmas ingleses, ou Jack, o Estripador. Isso sim!

Mas os Estados Unidos? Não havia uma história convincente de as­sombrações ou mastins ferozes. Talvez Nova Orleans tivesse nevoeiros e chuvas suficientes, além de casarões nos pântanos, lugares onde se poderia provocar arrepios e cavar algumas sepulturas, ao compasso da eterna marcha dos Santos. E também San Francisco, onde os lamentos dos apitos de neblina ecoam e morrem todas as noites.

Talvez também em Los Angeles, a terra de Chandler e Cain. Só que ali a atmosfera era mais ligada à vida noturna da alma, um passeio pe­los gramados aparados dos cemitérios de Pasadena, e alguns becos escuros.

Só consegui pensar num lugar em todo o país no qual pudesse am­bientar um assassino, ou ceifar vidas.

Claro! A Companhia Cinematográfica Maximus.

Rindo, entrei num beco, fiz a volta e realizei uma busca final, à cata de um local para escrever meu pesadelo. Caminhei através de uma dú­zia de estúdios menores, tomando notas.

A Inglaterra escondia-se aqui, além do longínquo País de Gales, a Escócia e a chuvosa Irlanda, abrigando os fantasmas nos antigos caste­los. Aqui multiplicavam-se as sepulturas nas quais jaziam velhos fil­mes, e os fantasmas passeavam pelas rachaduras das salas de projeção, tagarelando enquanto os vigias passavam a cantarolar canções fúnebres, e assombrações andavam em velhas bigas de Cecil B. DeMille, usando capacetes emplumados.

À noite, os espectros dos extras bateriam seu cartão de ponto, e o nevoeiro brotaria dos regadores automáticos nos gramados, avançando e depositando gotículas geladas sobre sepulturas ainda quentes. Em qual­quer noite ali poder-se-ia atravessar Londres para encontrar um manobreiro fantasma, cujas luzes dirigiam a locomotiva apitando seu lamen­to e fazendo com que o Estúdio 12 se dissolvesse nas páginas da edição de outubro da revista cinematográfica Silver Screen.

Portanto, eu passeava pelos becos, esperando que o sol se escondesse e Roy saísse, as mãos cheias de argila vermelha, anunciando um nas­cimento.

Às quatro horas, escutei o disparo distante de um fuzil.

Tratava-se de Roy dando tacadas numa bola de críquete para a frente e para trás num gramado atrás do Estúdio 7. Bateu na bola várias ve­zes, e só parou quando percebeu minha presença. Levantou a cabeça e olhou para mim, não com a expressão de um parteiro, e sim de um carnívoro que acabara de matar e estivesse saciado. Acertou ruidosa­mente a bola uma última vez.

— Finalmente consegui! — exclamou ele. — Consegui capturar o Monstro. Ele nunca mais vai conseguir escapar. Nosso Monstro, seu Monstro, meu! Hoje, em argila, amanhã em filme! As pessoas vão perguntar: “Quem fez isso?” Fomos nós, parceiro, nós! E essas duas mãos que não o deixaram escapar. — Roy estendeu os dedos longos para o ar.

Avancei devagar, impressionado.

— Conseguiu capturá-lo? Roy, você ainda não me contou nada. O que viu quando foi atrás dele na noite passada?

— Tudo a seu tempo, parceiro. Acabei meia hora atrás! Você vai ado­rar. Aliás, é melhor adorar! Uma olhada só e vai começar a martelar aquela máquina de escrever igual a um doido. Meu Deus, estou pare­cendo um maníaco. Telefonei para Manny. Ele deve chegar em vinte minutos. Quase fiquei maluco, esperando sozinho. Precisei sair e mar­telar um pouco essas bolas. Assim! — Ele vibrou mais uma forte taca­da, mandando longe a bola. — É melhor eu parar antes de matar alguém!

Roy soltou uma gargalhada, levantando a cabeça para o céu, os olhos fechados na direção do sol.

— Calma, Roy, calma.

— Acho que nunca mais vou me acalmar. Lembra-se de todos aque­les papos na escola? Agora tudo aquilo é nosso, para sempre. Vamos fazer o melhor filme de horror da história do cinema. Manny vai mor­der a língua e ficar cego! Acho que...

— Ei, o que vocês dois estão fazendo aí? — gritou uma voz.

O Rolls-Royce de Manny, um verdadeiro monstro branco, passava devagar, ronronando suavemente. O rosto de nosso patrão estava para fora de uma das janelas.

— Afinal, temos um encontro marcado ou não temos?

— Vamos andando ou de carro? — perguntou Roy, calmamente.

— Andem! — O Rolls-Royce acelerou.

- 19 -

Andamos bem devagar até o Estúdio 13.

Fiquei observando Roy para ver se podia captar algum indício sobre o que acontecera desde a noite em que estivéramos no Brown Derby. Ele olhava apenas para a frente, com ar de gênio satisfeito. Mesmo quan­do éramos garotos, ele raramente demonstrava os sentimentos. Abria de repente a porta da garagem para me mostrar seu último modelo de dinossauro, terminado numa noite insone. Somente quando meus olhos se arregalavam e minha boca se abria é que ele se permitia um grito parecido com um latido. Se eu adorasse o que ele tinha feito, não im­portava a opinião dos outros, mesmo de seus pais.

— Roy, você está bem? — perguntei enquanto caminhávamos. Encontramos Manny Leiber possesso à porta do Estúdio 13.

— Onde diabos vocês se meteram?

Roy passou por Manny, abriu a porta, entrou e deixou que a pesada porta se fechasse.

Manny olhou para mim. Adiantei-me e abri a porta para ele.

Entramos na escuridão.

A única luz acesa era uma lâmpada pendurada sobre a mesinha de escultor de Roy, vinte metros além, depois de um deserto, uma paisa­gem semi-marciana, e próxima à Meteor Crater.

Roy tirou os sapatos e passou rapidamente pela paisagem, com habi­lidade suficiente para evitar danificar uma minúscula árvore, ou carri­nhos em miniatura.

— Tirem os sapatos — gritou ele, de longe.

— Coisa nenhuma! — Manny avançou.

Roy levantou a mão, a palma voltada para cima como um sacerdote. Manny praguejou, tirou os sapatos e andou na ponta dos pés sobre aque­les mundos reduzidos. Muita coisa fora acrescentada desde a última vez; novas montanhas, novas árvores, além, claro, da obra que jazia oculta embaixo do pano molhado sob a lâmpada.

Ambos, só de meias, chegamos próximos ao pedestal.

— Estão prontos? — Roy perscrutou nossos rostos. — Claro que estão! Manny estendeu a mão para o pano, mas Roy afastou-a.

— Não, senhor. Eu faço isso!

Manny deu um passo para trás, vermelho de raiva.

Roy levantou a toalha úmida, como se fosse uma cortina teatral que se abrisse para o maior espetáculo da Terra. Eu podia até imaginar uma orquestra executando acordes fortíssimos.

— Nem a Bela, nem a Fera — anunciou Roy. — E sim o Monstro que é Belo.

E lá estava o Monstro.

Eu e Manny Leiber perdemos o fôlego.

Roy não mentira. Era o melhor trabalho que ele já realizara, uma obra digna de viajar numa nave à velocidade da luz, um caçador da noite entre as estrelas, um sonhador solitário por trás de sua máscara terrível, hedionda, de aparência assustadora.

O Monstro.

Aquele homem solitário por trás do biombo oriental no restaurante, rindo, numa noite que parecia ter passado há muito tempo.

A criatura que correra pelas ruas à meia-noite, para entrar num ce­mitério e perder-se entre túmulos esbranquiçados.

— Meu Deus, Roy! — Meus olhos estavam cheios de lágrimas pelo impacto recebido, tão vivido como quando o Monstro saíra do restau­rante. — Meu Deus...

Roy admirava sua criação, com ar de adoração. Virou-se lentamente para Manny Leiber, e eu me lembrei de fazer o mesmo. Ambos fica­mos totalmente desconcertados com o que vimos.

O rosto de Manny estava branco como uma folha de papel. Os olhos reviravam-se nas órbitas. Sua garganta emitia sons desconexos, como se ele tivesse engasgado com um pedaço de arame. As mãos agarravam o peito, dando a impressão de que o coração parará.

— O que você fez! — berrou ele. — Pelo amor de Deus! O que é isso? É alguma piada? Uma brincadeira de mau gosto? Cubra isso, já! Está despedido!

Manny arrancou a toalha das mãos de Roy e jogou-a sobre o Monstro de argila.

— Eu não pretendia... — balbuciou Roy, ajeitando o pano com mo­vimentos mecânicos.

— Claro que pretendia! Queria isso na tela? Pervertido! Pode arru­mar suas coisas. Saia daqui. — Manny fechou os olhos, tremendo. — Imediatamente!

— Mas você pediu isso — argumentou Roy.

— Pois agora estou mandando destruir essa coisa!

— Mas é meu melhor trabalho. O melhor que já fiz! Dê uma boa olhada. É lindo. E fui eu que fiz. É meu!

Não, senhor. É do estúdio. Pode arrebentar essa coisa. O filme acaba por aqui! Os dois estão despedidos. Quero esse lugar vazio em uma hora.

— Posso saber por que está exagerando desse jeito? — indagou Roy, com voz calma.

— Estou, é?

E Manny caminhou pelo estúdio, com os sapatos embaixo do braço, esmagando casas minúsculas e chutando caminhões de brinquedo. Che­gando à porta ele parou, inspirou profundamente e olhou para mim.

— Você não está despedido. Vai ser indicado para outro trabalho. Mas aquele filho da puta ali? Fora!

A porta abriu-se, deixando entrar uma lâmina de luz como numa ca­tedral gótica, e fechou-se em seguida, deixando-me atônito e sozinho com o espanto e a derrota de Roy.

— O que aconteceu? O que fizemos de errado? — gritei para Roy, para mim mesmo e para o Monstro de argila, agora coberto novamen­te. — O quê?

Roy estava tremendo.

— Trabalhei metade da minha vida para fazer algo que realmente pres­tasse. Eu me preparei, esperei, só para enxergar de verdade, e finalmente enxerguei! Quando a coisa finalmente tomou forma através dos meus dedos, tudo fluiu de uma vez. E como veio fácil! O que é essa forma expressa na argila? Por que quando finalmente ele nasce, eu tenho de morrer? Que diabos afinal é isso? Por que essa coisa está me matando?

Roy descontrolou-se. Levantou os punhos, só que não havia ninguém para atingir. Olhou seus animais pré-históricos e fez um gesto abran­gente, como se quisesse abraçar e proteger a todos.

— Vou voltar! — prometeu solenemente a eles. E partiu em direção à porta.

— Roy!

Eu o segui até a claridade do dia. Lá fora, o sol da tarde estava quen­te, e parecíamos ter entrado num rio de fogo.

— Onde vai?

— Só Deus sabe! Fique aqui. Não adianta se meter nisso! Esse é o primeiro trabalho que faz aqui. Você bem que me avisou na noite passada. Agora sei que tinha razão, mas por quê? Vou me esconder em algum lugar por aí, e de noite volto para levar meus amigos. — Roy olhou para a porta fechada, atrás da qual viviam seus queridos seres.

— Eu ajudo — ofereci.

— Não. É melhor que nem seja visto comigo. Eles são capazes de pensar que você me levou a fazer isso.

— Roy, Manny parecia ser capaz de matar você! Vou telefonar para o investigador Crumley. Talvez ele seja capaz de ajudar. Aqui está o te­lefone dele. — Escrevi o número apressadamente num pedaço de papel amassado, que tirei do bolso. — Esconda-se, e ligue para mim essa noite.

Roy Holdstrom saltou para o calhambeque, que pertencera a Laurel e Hardy, e partiu a vinte quilômetros por hora.

— Meus parabéns — disse uma voz. — Seu idiota filho de uma puta! Voltei-me. Deparei com Fritz Wong saindo da rua ao lado.

— Bati o pé e finalmente você foi escalado para reescrever o final do meu filme Cristo na Galiléia. Manny acabou de passar por mim naque­le Rolls-Royce e gritou as novas ordens. Portanto...

— Existe algum monstro no roteiro? — Minha voz ainda estava trêmula.

— Só Herodes Antipas. Leiber quer ver você.

Ele tentou me conduzir na direção do escritório de Manny.

— Espere um pouco — disse eu.

Estava olhando por sobre o ombro, na direção dos portões, à frente dos quais a multidão, o circo, estava reunido como sempre. Virei-me.

— Idiota! Onde pensa que vai?

— Acabei de presenciar Roy sendo despedido — respondi, caminhan­do. — Agora preciso fazer com que o contratem de volta.

— Dummkopf. — Fritz veio atrás de mim. — Manny quer ver você agora!

— Daqui a cinco minutos.

Depois de passar pelos portões, olhei para o outro lado da rua. Será que você está aí, Clarence?, perguntei a mim mesmo.

- 20 -

E lá estavam eles.

Os malucos. Os fanáticos. Os idiotas.

A multidão de fãs que cultuava os portais dos estúdios.

Pareciam muito com aquela multidão que me arrastara para assom­brar as portas do Legion Stadium de Hollywood, onde Cary Grant as­sistia às lutas de boxe, ou Mae West ondulava pela multidão como uma cobra sem ossos, ou Groucho acompanhava Johnny Weissmuller, que sempre levava Lupe Velez a tiracolo, como um casaco de leopardo.

Os malucos, entre os quais eu me incluía, levavam grandes álbuns de fotografias, tinham mãos sujas de tinta de caneta e pequenos cartões nos bolsos. Os fanáticos que alegremente ficavam ensopados na estréia de Damas e Música enquanto a Depressão continuava, apesar de Roosevelt ter declarado que essa fase não poderia durar para sempre, e dias melhores viriam logo.

As górgonas, os chacais, os demônios, os viciad6s, os tristes, os perdidos.

Certa vez eu fora um deles.

E eles continuavam ali. Minha família.

Reconheci ainda alguns rostos da época em que eu me escondia nas sombras.

Vinte anos depois, lá estavam Charlotte e sua mãe. Elas haviam en­terrado o pai de Charlotte em 1930 e fixaram residência à frente de meia dúzia de estúdios e dez restaurantes. Agora, uma vida inteira se passa­ra, e lá estava Ma, na casa dos oitenta anos, prática, firme e forte como um guarda-chuva, e Charlotte, com cinqüenta, tão frágil quanto sem­pre aparentara. Ambas eram uma fraude. Ambas escondiam uma cal­deira sob os sorrisos de marfim.

Procurei por Clarence naquele estranho magote de pessoas. Ele fora o mais fanático, carregando grandes álbuns que pesavam cinco quilos, de estúdio a estúdio. Couro vermelho para a Paramount, preto para a RKO, verde para a Warner Brothers.

Clarence, envolto em seu enorme sobretudo de pêlo de camelo, fosse verão ou inverno, encontrava-se sempre repleto de canetas, blocos e mi­niaturas de câmeras. Só nos dias mais escaldantes é que tirava o sobre­tudo. Nessas ocasiões, ele parecia uma tartaruga arrancada da casca, em pânico com a vida no mundo exterior.

Atravessei a rua e parei em frente à multidão.

— Oi, Charlotte — cumprimentei. — Oi, Ma!

As duas mulheres me observavam com ar estupefato.

— Sou eu, lembram? — insisti. — Faz vinte anos. Eu ficava aqui, com vocês. Espaço. Foguetes. Tempo...

Charlotte me reconheceu e levou a mão à boca. Inclinou-se para a frente, como se fosse cair.

— Ma — disse ela — é... puxa, é o Maluco.

— O Maluco — concordei, rindo. Um brilho assomou aos olhos da mãe.

— Cáspite! — exclamou ela, tocando meu cotovelo. — Pobrezinho.

O que está fazendo aqui? Ainda coleciona...

— Não — expliquei, com relutância. — Eu trabalho aqui.

— Onde?

Fiz um gesto sobre o ombro.

— Lá? — Charlotte apontava incrédula o portão do estúdio.

— No escritório? — indagou Ma.

— Não. — Senti que corava. — No Departamento de Redação.

— Você mimeografa roteiros?

— Pelo amor de Deus, Ma — o rosto de Charlotte iluminou-se. — Ele escreve roteiros, não é isso? Roteiros de filmes?

A frase foi uma verdadeira revelação. Todos os rostos ao redor das duas se voltaram.

— Meu Bom Jesus! — exclamou a mãe de Charlotte. — Não pode ser!

— Pois é — respondi, num fio de voz. — Estou fazendo um filme com Fritz Wong. César e Cristo.

Houve um longo silêncio de surpresa. Um arrastar de pés. Come­çou o falatório.

— Será que podemos... — disse alguém. — Pode nos dar... Mas foi Charlotte quem terminou a frase.

— O seu autógrafo, por favor?

Eu...

Todas as mãos se estendiam agora, com canetas e cartões. Sem ne­nhuma vergonha, apanhei o de Charlotte e escrevi meu nome. Ma apertou os olhos para ler o que eu havia escrito.

— Coloque o nome do filme em que está trabalhando — pediu ela. — César e Cristo.

— Ponha também Maluco depois do seu nome — sugeriu Charlotte. Escrevi: “o Maluco”.

Sentindo-me um idiota completo, fiquei ali na calçada, com todas as cabeças voltadas para mim, gente estranha de olhar triste tentando adivinhar minha identidade.

Para encobrir meu embaraço, perguntei:

— Onde está Clarence?

— Você se lembra dele? — espantou-se Charlotte.

— E como é que eu podia esquecer o Clarence, com os álbuns e o casaco? — comentei, sem parar de escrever.

— Ele ainda não telefonou — disse Ma.

— Telefonou? — estranhei, levantando os olhos.

— Ele liga para aquele telefone público do outro lado da rua mais ou menos a essa hora, para saber se alguém famoso chegou, ou saiu — informou Charlotte. — Isso economiza tempo. Geralmente ele dor­me tarde, porque fica até altas horas na porta dos restaurantes.

— Eu sei — assenti, terminando a última assinatura, com uma ale­gria descabida.

Eu ainda não conseguia olhar diretamente para meus novos admi­radores, que sorriam para mim como se eu tivesse acabado de atra­vessar a Galiléia numa passada só.

Do outro lado da rua, o telefone tocou na cabine envidraçada.

— Deve ser o Clarence! — disse Ma.

— Com licença. — Charlotte começou a atravessar a rua.

— Por favor — pedi, segurando-lhe o cotovelo. — Faz muitos anos. Queria fazer uma surpresa... — Olhei para Charlotte e depois para sua mãe. — Posso?

— Tudo bem — resmungou Ma.

— Pode ir — concordou Charlotte.

O fone tocou novamente. Corri para atender.

— Clarence?

— Quem está falando? — indagou ele, desconfiado.

Pensei em entrar em detalhes, mas resolvi usar o velho apelido:

— O Maluco.

Aquilo não funcionou muito bem com Clarence.

— Quer chamar Charlotte, ou a Ma? Estou doente. Doente, pensei, ou subitamente apavorado, como Roy.

— Clarence, onde você mora?

— Por que quer saber?

— Me dê pelo menos seu número de telefone...

— Ninguém tem o número do meu telefone. Minha casa seria as­saltada. Iriam roubar minhas fotos! Meus tesouros.

— Clarence, eu estava no Brown Derby ontem à noite... Silêncio...

— Clarence? Preciso da sua ajuda para identificar uma pessoa.

Juro que eu conseguia escutar um coração assustado batendo do ou­tro lado da linha. Podia até enxergar os olhos de coelho dele reviran­do nas órbitas.

— Clarence! Por favor! Anote meu nome e o número do meu telefone. — Ditei ambos, sem muita esperança que ele estivesse mesmo anotando. — Telefone ou escreva para o estúdio. Vi aquele homem que quase bateu em você ontem à noite. Por quê? Quem...

Clique. Clarence, onde quer que estivesse, desligara.

Caminhei como um sonâmbulo até o outro lado da rua.

— Clarence não vem hoje — anunciei.

— Como assim? — quis saber Charlotte. — Ele sempre vem.

— O que você disse a ele? — indagou a mãe de Charlotte abrindo seu olho esquerdo, o mau.

— Ele está doente.

Doente como Roy, pensei. Doente como eu.

— Alguém aqui sabe como posso encontrá-lo? Todos sacudiram a cabeça, em vários gestos negativos.

— Acho que você poderia segui-lo e descobrir! — sugeriu Charlot­te, rindo. — Quero dizer...

— Eu avistei Clarence uma vez perto de Bronson — declarou al­guém. — Um daqueles chalés...

— Qual o sobrenome dele?

Ninguém sabia. Era como todos que estavam ali. Ninguém possuía sobrenome.

— Droga! — resmunguei.

— Se eu souber de alguma coisa... — A mãe de Charlotte olhava para o cartão que eu assinara. — Qual seu nome completo?

Soletrei para ela.

— Está trabalhando com filmes — comentou ela. — Devia ter um pseudônimo.

— Pode me chamar de Maluco. — Comecei a afastar-me. — Char­lotte, Ma, até logo.

— Até logo, Maluco — disseram elas.

- 21 -

Fritz esperava por mim no segundo andar, do lado de fora do escri­tório de Manny Leiber.

— Estão num verdadeiro frenesi lá dentro — comentou ele. — O que há de errado com você?

— Estava falando com as gárgulas.

— O quê, elas desceram do alto de Notre-Dame outra vez? Entre aqui.

— Por quê? — Há uma hora, Roy e eu estávamos no monte Everest. Agora ele desceu para o inferno, e eu estou encalacrado com você aqui na Galiléia. Explique isso.

— Você e o seu código do vencedor. Quem sabe? A mãe de Manny morreu. Ou a amante dele tomou alguns comprimidos a mais. Gripe. Resfriado. É só escolher. Roy foi despedido. E talvez eu e você faça­mos comédias pelos próximos dez anos. Que diferença faz? Vamos entrar.

Entramos no escritório de Manny Leiber.

Manny Leiber estava de costas, olhando para nós.

Encontrava-se em pé no meio da sala inteiramente branca, com pa­redes brancas, tapetes brancos, mobília branca e uma grande escriva­ninha branca sem nada em cima, a não ser um telefone da mesma cor. Um surto súbito de inspiração vindo de algum decorador do Departa­mento de Cenários, obcecado por neve.

Atrás da escrivaninha ficava um grande espelho de maneira que, se Manny olhasse por sobre o ombro, poderia ver a si mesmo trabalhan­do. Havia uma única janela no aposento. Dali se descortinava o muro traseiro do estúdio, a menos de dez metros, e tinha-se uma vista pano­râmica do cemitério. Não consegui tirar os olhos daquela cena.

Mas Manny Leiber pigarreou. Perguntou, ainda de costas:

— Ele já foi?

Assenti silenciosamente, observando-o pelo espelho.

— O nome dele não será mais mencionado aqui. Ele nunca existiu. Aguardei, e Manny voltou-se e andou em volta de mim, curtindo um sentimento que não podia externar. Seu rosto era um conjunto de tiques nervosos. Os olhos não se moviam de acordo com as sobrancelhas, nem estas de acordo com a boca, nem a cabeça em harmonia com o pescoço. Parecia perigosamente desequilibrado à medida que caminha­va, como se a qualquer momento fosse perder o controle. Subitamente, pareceu dar-se conta da presença de Fritz Wong, que nos observava, e foi para o lado dele, como se quisesse despertar-lhe um acesso de raiva.

Fritz fez sabiamente o que sempre fazia quando o mundo ficava real demais: retirou o monóculo e deixou-o cair no bolso do paletó. Era co­mo uma rejeição sutil, uma mudança do foco de atenção. Enfiara Manny no bolso com o monóculo.

Manny Leiber falava andando. Interrompi com um sussurro.

— Certo, e o que fazemos com a Meteor Crater?

Fritz me alertou com um movimento de cabeça: Fique quieto.

— Então — disse Manny, ignorando minha pergunta. — Nosso pro­blema seguinte, aliás, nosso único problema... é que não temos um final para Cristo na Galiléia.

Como? — indagou Fritz, com polidez quase ofensiva.

— Não temos final! — exclamei. — Já experimentou consultar a Bíblia?

— Temos bíblias! Mas nosso roteirista não conseguia ler nem as le­tras pequenas nos copinhos descartáveis. Li aquela sua história publica­da no Esquire. Parecia o Eclesiastes.

— Jó — corrigi em voz baixa.

— Cale a boca. O que precisamos é de...

— Mateus, Marcos, Lucas, e eu!

Desde quando redatores novatos rejeitam o melhor trabalho do sé­culo? Precisamos do texto para segunda-feira, quando Fritz começa a filmar outra vez. Escreva direitinho, e algum dia vai herdar tudo isso!

Ele fez um gesto abrangente.

Olhei para o cemitério, do lado de fora. Era um dia claro, mas uma chuva invisível caía sobre os túmulos.

— Meu Deus! — resmunguei. — Espero que não.

Aquilo o irritou. Manny Leiber ficou mais pálido. Era como se tives­se voltado ao Estúdio 13, no escuro, comigo, Roy e o Monstro de argila.

Silenciosamente, ele foi até sua salinha de repouso. A porta fechou-se.

Fritz e eu nos entreolhamos. Manny devia estar enjoado por trás da­quela porta.

— Gott! — suspirou Fritz. — Eu devia ter escutado Goering!

Alguns instantes se passaram e Manny Leiber voltou, olhou ao redor, como se estivesse surpreso com o fato de que o lugar ainda existisse, caminhou até o telefone e discou.

— Venha até aqui! — ordenou ele, ao aparelho. Depois dirigiu-se pa­ra a porta.

Eu o interpelei.

— Sobre o Estúdio 13...

Manny estava com a mão na boca, como se estivesse novamente en­joado. Seus olhos se arregalaram.

— Sei que vai mandar tirar tudo de lá — emendei, mais que depres­sa, — Mas eu tenho um bocado de coisas ali. Como pretendo passar o resto do dia conversando com Fritz sobre a Galiléia e Herodes, não vou ter tempo para ir até lá hoje. Poderia deixar as coisas lá até amanhã de manhã, quando pretendo pegar minhas coisas? Mandar retirar as coisas só depois disso?

Os olhos de Manny giraram, indicando que estava a pensar. Então, ainda com a mão na boca, balançou a cabeça por uma única vez, em assentimento. Um sujeito pálido entrou nesse momento. Manny mur­murou algo para ele e saiu sem se despedir. O homem pálido era W.W. Hope, um dos produtores executivos.

O indivíduo olhou para mim e demonstrou algum embaraço antes de dizer:

— Parece... bem, nosso problema é que não temos um final para o filme.

— Já experimentou consultar a Bíblia? — perguntamos Fritz e eu, em uníssono.

- 22 -

O circo se fora, e a calçada estava vazia em frente ao estúdio. Charlotte, Ma e todos os demais haviam partido para outros estúdios, ou­tros restaurantes. Devia haver mais de trinta espalhados por Hollywood.

Nunca saberia com certeza qual o sobrenome de Clarence. Mas no momento... Fritz me levou para casa.

— Dê um olhada no porta-luvas — disse ele, durante o percurso. — Essa caixa de vidro. Abra.

Abri a pequena caixa negra. Havia no interior seis monóculos brilhantes de cristal, encaixados perfeitamente em seis orifícios no veludo vermelho.

— Essa é minha bagagem — explicou ele. — Tudo o que trouxe para os Estados Unidos quando fugi da Europa, com minha virilha hiperativa e meu talento.

— Que era enorme.

— Pare com isso. — Fritz passou a mão em minha cabeça. Prefiro que só faça insultos, seu bastardo. Eu quis que visse isso... — ele acenou na direção dos monóculos — para lhe mostrar que nem tudo está perdi­do. Todos os gatos, inclusive Roy, caem de cabeça para cima. O que mais tem aí no porta-luvas?

Encontrei um maço de páginas mimeografadas.

— Leia esse material sem vomitar e... será um homem, meu filho. Falou Rudyard Kipling. Agora vá. Volte depois de amanhã, às duas e meia. Vamos mostrar a você o copião montado de Jesus Dando Esmolas, ou Pai, Por Que Me Esqueceste?

Desci do carro, em frente a minha casa.

— Sieg Heil! — exclamei, fazendo a saudação nazista.

— Agora, sim! — aplaudiu Fritz, acelerando.

Minha casa parecia tão solitária que logo pensei: “Crumley”. Assim que o sol se pôs, peguei minha bicicleta e fui até a casa de Crumley.

- 23 -

Detesto andar de bicicleta à noite, mas queria certificar-me de que ninguém me seguiria. Tanto quanto eu soubesse, eu não passava de um redator cujo melhor amigo fora despedido, e não pretendia voltar, a menos que eu conseguisse descobrir como salvá-lo, colocá-lo de volta no emprego e resolver o enigma do Monstro.

Além do mais, eu precisava de um pouco de tempo para decidir o que diria a meu amigo investigador.

A certa altura, parei, e quase voltei para casa.

Podia imaginar Crumley falando, suspirando profundamente enquanto eu contava minha história inverossímil, gesticulando com as mãos e dan­do grandes goles em sua cerveja para esconder minha completa falta de fatos reais e precisos.

Estacionei a bicicleta à frente do chalé estilo safári, oculto por uma fileira de espinheiros, a pouco mais de um quilômetro do mar, e cami­nhei por uma alameda de terra, ladeada por lilases africanos, que dei­xava a impressão de ter sido percorrida por antílopes no dia anterior.

Quando levantei a mão para bater, a porta se abriu.

Um punho saiu da escuridão segurando uma lata espumante de cer­veja. Não pude ver o rosto de quem estava fazendo isso, mas apanhei a lata. A mão desapareceu. Escutei passos afastando-se para o interior da casa.

Tomei três goles antes de entrar.

A casa estava vazia.

O jardim, não.

Elmo Crumley estava sentado sob um espinheiro, usando seu chapéu de plantador de bananas, olhando por baixo da aba para a lata de cer­veja que tinha na mão queimada de sol, e bebendo em silêncio.

Havia um aparelho telefônico sobre a mesa de cana-da-índia. Encarando-me, Crumley discou um número.

— Mais uma enxaqueca — disse ele ao telefone. — Estou pedindo uma licença médica. Vejo você em três dias? Obrigado. — Desligou.

— Suponho que a enxaqueca seja eu — disse.

— Sempre que você aparece... setenta e duas horas de licença.

Ele fez um gesto, e eu sentei na cadeira indicada. Estávamos no li­miar da selva particular dele, onde elefantes haviam bramido, e vôos invisíveis de besouros gigantes, beija-flores e flamingos haviam cessado muito antes de os ecologistas declararem os animais extintos.

— Onde diabos você andou? — quis saber Crumley.

— Casando — disse eu.

Crumley pensou um pouco, resmungou, colocou o braço sobre meu ombro e estalou um beijo no alto de minha cabeça.

— Explicação aceita.

Rindo, ele foi buscar mais uma caixa de latas de cerveja. Sentamo-nos, comendo cachorros-quentes no pequeno quiosque nos fundos do jardim.

— Muito bem, filho — declarou ele, finalmente. — Seu velho pai tem sentido falta de você. Mas um jovem entre cobertores não tem ore­lhas, diz um velho provérbio japonês. Eu sabia que algum dia você voltaria.

— Estou perdoado? — indaguei, curvando-me.

— Amigos não perdoam, simplesmente esquecem. Pode usar essa fra­se como se fosse sua. Peg é uma boa mulher?

— Estou casado há um ano, e ainda estamos para ter nossa primeira briga por causa de dinheiro. — Corei. — Ela ganha mais do que eu. Mas meu salário no estúdio agora vai para... cento e cinqüenta por semana.

— Não diga! Está ganhando dez dólares a mais do que eu.

— Mas só durante seis semanas. Logo vou voltar a escrever histórias para a Dime Mystery.

— E muito bem, diga-se de passagem. Eu me mantive atualizado apesar da sua ausência...

— Recebeu o cartão do Dia dos Pais que eu mandei? — indaguei.

— Recebi! Gostei muito — respondeu ele, endireitando-se. — Mas você não veio aqui movido apenas por sentimentos filiais, certo?

Pessoas estão morrendo, Crumley.

— De novol

— Bem, quase morrendo... — corrigi. — Ou então voltando da se­pultura sem estarem vivas de verdade na forma de bonecos de papel machê...

— Calma aí, vamos mais devagar.

Crumley foi até a cozinha e trouxe uma garrafa de gim, que despejou dentro da cerveja enquanto eu contava o caso desde o princípio. O sis­tema de irrigação do jardim começou a funcionar, dando a impressão de que a qualquer momento poderíamos escutar animais da savana e pássaros das matas tropicais. Finalmente terminei de narrar os aconte­cimentos, desde o Dia das Bruxas até aquele momento. Depois, fiquei em silêncio.

Crumley suspirou profundamente.

— E então Roy Holdstrom foi despedido por criar um busto de argila, é isso? O tal Monstro era tão horrível assim?

— Era.

Estética. Este velho não pode fazer nada quanto a isso.

— Mas precisa. Nesse momento Roy ainda está no estúdio, esperan­do uma chance de voltar e retirar de lá todos os seus modelos de dinos­sauros. Valem milhares de dólares. O problema é que Roy agora está lá ilegalmente. Não pode me ajudar a deduzir o que significa tudo is­so? Ajudar Roy a conseguir seu emprego de volta?

— Meu Deus... — suspirou Crumley.

— Não quero nem pensar no que pode acontecer se apanharem Roy tentando tirar suas coisas de lá.

— Mas que droga! Sabe quem é esse sujeito do Brown Derby? — indagou ele, acrescentando mais gim a sua cerveja.

— Não.

— Tem alguma noção sobre quem pode saber?

— O padre da Igreja de San Sebastian.

Contei a Crumley a confissão que ouvíramos na igreja, as vozes, de­pois o choro e as palavras breves do padre.

— Mas isso não vai adiantar. — Crumley balançou a cabeça numa negativa. — Padres nunca dão informações, nem fornecem nomes. Se eu insistir ele me põe para fora em menos de um minuto. Alguém mais?

— O maitre do Brown Derby talvez saiba. E o Monstro também foi reconhecido por alguém do lado de fora do restaurante naquela noite. Alguém que eu conheci quando ainda andava de patins. Clarence. An­dei tentando descobrir o sobrenome dele.

— Pois continue investigando. Se ele souber quem é o Monstro, te­remos por onde começar. Meu Deus, nada disso faz sentido: Roy des­pedido, você transferido para outro filme, tudo por causa de um bone­co de argila. Reações exageradas e agitação. E por que alguém coloca­ria um boneco na escada?

— Mas foi o que aconteceu.

— E quando vi você na porta pensei que iria ser agradável tê-lo de volta em minha vida... — comentou ele.

— E não é agradável?

— Não. — Ele suavizou a voz. — Droga, claro que é. Mas bem que eu gostaria que tivesse deixado o estéreo do lado de fora. — Crumley estreitou os olhos, fitando a Lua. — Puxa vida... você me deixou curio­so. Essa história está cheirando a chantagem.

— Chantagem?

— Por que alguém iria ter o trabalho de escrever bilhetes, provocan­do inocentes como você e Roy, além de suspender bonecos, obrigar vo­cês a reproduzirem uma criatura, se isso não conduzisse a algum lu­gar? Qual a vantagem de produzir pânico se a pessoa não lucrar algum dinheiro com isso?

Eu não tinha a menor idéia.

— Você provavelmente era o agente que iria abrir a boca e começar a agitar as coisas, mas fechou-se em copas. Outra pessoa teve de fazer isso. Aposto que vai aparecer um bilhete em algum lugar, hoje à noite, dizendo: “Duzentos mil em notas de cinqüenta vão garantir que mais nenhum corpo apareça no muro''. Me fale sobre esse estúdio... — pe­diu Crumley.

— O Maximus? Foi o estúdio mais bem-sucedido da história. Ainda é. A revista Variety publicou o lucro deles no ano passado. Nenhum outro estúdio faturou tanto.

— Eram números honestos?

— Mesmo que se deduza cinco milhões, o total de lucro ainda é as­tronômico.

— Tiveram recentemente algum problema, tumultos, revoltas? Sabe como é, outros que tenham sido despedidos, ou algum filme cance­lado?

— Tudo anda sossegado há vários meses.

— Então deve ser isso! Quero dizer, os lucros. Tudo está indo muito bem, e de repente acontece alguma coisa, que não parece grave, mas assusta muito a todos. Deve haver algo escondido embaixo de algum tapete, algo enterrado — Crumley riu. — Enterrado talvez seja o termo certo. Arbuthnot? Acha que alguém descobriu um escândalo bem sujo e antigo, e resolveu espalhar a sujeira sem muita sutileza?

— Que tipo de escândalo, com vinte anos de idade, poderia assustar o pessoal do estúdio a ponto de acharem que seriam destruídos se vies­se a público?

— Se mergulharmos suficientemente fundo no esgoto, podemos des­cobrir. O problema é que enfiar as mãos na sujeira nunca foi meu for­te. Arbuthnot, quando vivo, tinha uma ficha limpa?

— Comparado aos outros chefes de estúdio, ele era um anjo. Era sol­teiro e tinha várias namoradas, mas isso é esperado de todos os soltei­ros ricos na idade dele. Todas eram do tipo que freqüenta os clubes hípicos, lêem Town and Country, bonitas e inteligentes, que tomavam dois banhos por dia. Tudo muito limpo.

Crumley suspirou outra vez, como se alguém lhe tivesse dado as car­tas erradas, e ele estivesse a ponto de abandonar o jogo.

— E o desastre de carro que matou Arbuthnot? Foi mesmo um acidente?

— Vi as fotografias nos jornais.

— Isso não quer dizer nada. — Crumley olhava para sua selva parti­cular, examinando as sombras. — E se o acidente não fosse um verda­deiro acidente? E se fosse assassinato? E se todos estivessem bêbados demais antes de morrer?

— Eles estavam voltando de uma festança onde serviram um bocado de bebida, lá no estúdio. Isso vazou para os jornais.

— Vamos imaginar isto: “Figurão do estúdio, multimilionário, que controla a Maximus, alterado pela bebida, provoca o carro de Sloane, e acaba beijando o poste em alta velocidade.” Esse não é o tipo de pu­blicidade que se deseja para as primeiras páginas. As ações iriam cair. Os investidores hesitariam. Alguns filmes seriam prejudicados. Figu­rões despencariam dos pedestais, etc., etc. ... Portanto, o que se faz é encobrir a história. Agora, depois de tanto tempo, alguém que esteve lá, ou descobriu a verdade depois, resolve abalar o estúdio, ameaçando apresentar fotografias ou provas. Ou então...

— Ou então... — repeti.

— Se não foi acidente, e se eles não estivessem bêbados, pode ser que alguém tenha preparado tudo. De propósito!

— Assassinato?

— Por que não? Gente tão rica e poderosa geralmente faz muitos inimigos. Todos os bajuladores em volta deles mais cedo ou mais tarde acabam pensando em boas maneiras de prejudicá-los. Quem era o se­guinte na sucessão do estúdio naquela época?

— Manny Leiber? Esse sujeito não mataria uma mosca. Ele é só papo.

— Pois dê a ele o benefício da dúvida por um instante. Ele é o chefão do estúdio agora, não é? Pois bem, um ou dois pneus furados, mais algumas porcas soltas, e pronto! Ele teria conquistado o estúdio para sempre.

— Parece consistente...

— Mas, se pudéssemos encontrar o sujeito que fez a brincadeira, ele poderia fornecer provas para nós. Muito bem, qual é o próximo passo?

— Acho que deveríamos procurar nos jornais de vinte anos atrás pa­ra descobrir o que está faltando. E talvez você pudesse dar uma olhada no estúdio. Discretamente, claro.

— Com meus pés chatos? Acho que conheço o guarda dos portões do estúdio. Ele trabalhava na Metro há alguns anos. Poderia me deixar entrar e ficaria de boca fechada. O que mais?

Dei uma lista a ele. A carpintaria. O muro do cemitério. A casa em Green Town onde eu e Roy planejávamos trabalhar, e onde Roy talvez estivesse agora.

— Roy ainda está lá, esperando para pegar de volta seus dinossau­ros. E Crum, se o que supôs for verdade, com relação a chantagem e assassinato, devíamos tirá-lo de lá agora. Se o pessoal entrar no Estúdio 13 esta noite e encontrar a caixa onde Roy escondeu o boneco de papel machê, o que não fariam com ele?

— Está me pedindo não só para conseguir que Roy seja contratado novamente, mas também para ajudá-lo a ficar vivo, certo?

— Não diga isso!

— Por que não? Vocês estão no meio do campo tentando apanhar uma bola cega. Onde diabos posso encontrar Roy? Será que preciso andar ao redor do estúdio com uma rede de caçar borboletas e uma lata de comida para gatos? Seus amigos do estúdio conhecem Roy, e eu não. Eles podem encontrá-lo muito antes do que eu. Só me dê um fato para começar.

— O Monstro. Se descobrir quem é ele, vamos saber por que Roy foi despedido por fazer aquele busto. O maitre do Brown Derby não vai me dizer nada. Você não podia tentar?

— Claro, claro. O que mais? Sobre o Monstro...

— Nós o vimos no cemitério. Roy foi atrás dele, mas não chegou a me contar o que viu. Talvez tenha sido o Monstro quem colocou o boneco de Arbuthnot no muro do cemitério... e mandou os bilhetes para as pessoas.

— Agora é você quem está exagerando! — Crumley passou as mãos pela careca. — Identificar o Monstro, perguntar onde ele arrumou a escada emprestada, e como fez o modelo de Arbuthnot! Certo...

Ele levantou-se e foi até a cozinha buscar mais cervejas. Bebemos e Crumley olhou-me com afeição paternal.

— Estava pensando... é bom ter você por aqui outra vez.

— Que diabos, nem perguntei sobre o seu livro...

A Sotavento da Morte?

— Ei, não foi esse o título que eu dei a você!

— O seu título era bom demais. Eu o devolvo. A Sotavento da Morte será publicado na semana que vem.

Adiantei-me para cumprimentá-lo.

— Crumb! Puxa vida! Você conseguiu. Tem champanhe aí? Fomos os dois investigar a geladeira.

— Acha que cerveja e gim bem misturados na coqueteleira podem passar por champanhe?

— Podemos tentar. Tentamos.

- 24 -

O telefone tocou.

— É para você — anunciou Crumley.

— Graças a Deus! — Apanhei o telefone. — Roy, é você?

— Não quero mais viver — disse a voz de Roy ao aparelho. — É terrível o que fizeram. Venha até aqui antes que eu fique louco! No Estúdio 13.

E desligou.

— Crumley! — gritei. Crumley me levou de carro.

Atravessamos a cidade, e eu não conseguia fazer meus dentes para­rem de tremer para falar. Segurava os joelhos com tanta força que a circulação ficou difícil.

— Não espere — disse eu quando chegamos aos portões. — Daqui a uma hora eu telefono e conto o que houve...

Entrei, e pouco depois estava numa cabine telefônica perto do Estú­dio 13, para chamar um táxi, a quem pedi que esperasse perto do Es­túdio 9, a uns cem metros de distância. Depois caminhei até as portas e entrei.

Penetrei na escuridão e no caos.

- 25 -

Deparei com um cenário que me devastou a alma.

À minha volta, as máscaras, caveiras, ossos, monstros e dinossauros haviam sido arrebentados e espalhados pelo estúdio num frenesi de des­truição.

À minha frente, uma aniquilação total abatera-se sobre as maquetes.

As diminutas cidades de Roy estavam por terra. Seus animais foram estripados, decapitados, demolidos e enterrados na própria carne de plástico.

Avancei sobre as ruínas, onde parecia que um bombardeio tinha atin­gido os telhados em miniatura, os torreões e figuras liliputianas. Roma fora esmagada por um Átila monstruoso. A grande biblioteca de Ale­xandria não fora queimada, mas os pequenos rolos de pergaminho, de­licados como asas de borboletas, estavam espalhados pelas dunas do deserto. Paris estava em brasas. Londres destruída. Um Napoleão enor­me pisoteara Moscou. Em resumo, cinco anos de trabalho, catorze ho­ras por dia, sete dias por semana, foram demolidos em... quanto tem­po? Talvez cinco minutos.

Roy!, pensei, você nunca deveria ver uma coisa dessas.

Mas ele tinha visto.

À medida que eu avançava pelos campos de batalha e vilarejos arra­sados, divisei uma sombra na parede mais distante.

Era um sombra idêntica a uma cena do filme O Fantasma da Ópera, a que assisti quando tinha cinco anos. As bailarinas, atrás do palco, ficaram paralisadas de medo, gritaram e fugiram. Pendurado ali, como um contrapeso de saco de areia, elas avistaram o corpo do guarda no­turno, balançando lentamente no alto, próximo às bambolinas. A lem­brança daquele filme, da cena com as bailarinas e do cadáver pendura­do nas sombras, nunca me abandonara. E agora, do lado norte do es­túdio, um objeto balançava num fio longo como uma teia de aranha. Projetava uma sombra imensa, mais de seis metros de negrume sobre a parede vazia, como a cena daquele filme antigo e assustador.

— Não — sussurrei. — Não pode ser!

Mas era.

Imaginei a chegada de Roy, o choque sofrido, o grito de desespero, em seguida, a raiva surda, com novas decepções a cada olhar depois que telefonou para mim. Então ele teria procurado freneticamente uma corda, um pedaço de arame, um gancho, e finalmente atingira a paz, pendurado no ar. Ele não poderia viver sem seus bonecos maravilho­sos, seus mitos e amigos. Era muito velho para reconstruir tudo aquilo.

— Roy — murmurei baixinho —, não pode ser você! Você sempre gostou da vida.

Porém, o corpo de Roy balançava lentamente, projetando aquela som­bra enorme. Meus Monstros foram destruídos, parecia dizer. Mas eles nunca estiveram vivos! Nesse caso, dizia ele, eu também nunca estive.

— Roy — disse eu em voz alta. — Você nunca me deixaria sozinho no mundo, certo?

Talvez.

— Mas não ia deixar alguém enforcar você?

Pode ser.

E se fosse assim, como é que ainda está por aqui? Por que iriam dei­xar você pendurado aí?

O que significava...

Que você morreu há pouco tempo. Ainda não foi encontrado. Fui o primeiro a encontrar você!

Eu tinha ímpetos de tocar o pé, a perna que oscilava, para ter certeza de que era Roy! A lembrança do cadáver de papel machê no ataúde atravessou minha mente.

Estendi minha mão para tocar... mas nesse momento...

Em cima da escrivaninha estava a plataforma da escultura sobre a qual repousava o último e melhor trabalho de Roy, o Monstro que encontráramos no Brown Derby, a Criatura que entrava à meia-noite na igre­ja e no cemitério do outro lado do muro.

Alguém usara um martelo e vibrara uma dúzia de golpes violentos. O rosto, a cabeça, o crânio haviam sido esmagados até formar uma massa informe.

— Meu Deus...

Teria sido essa a gota d'água que levara Roy à autodestruição? Ou teria o vândalo, aguardando nas sombras, atingido Roy entre os escombros, e depois pendurado o corpo no ar? Estremeci. Parei. Pois escutei a porta do estúdio se abrindo.

Tirei os sapatos e corri silenciosamente para me esconder.

- 26 -

Era o médico-cirurgião, o fazedor de abortos em plena luz do dia, o mestre das agulhas, o renegado sumo-sacerdote.

Doc Phillips deslizou para a parte iluminada do estúdio, olhando ao redor, estudando as ruínas, e, deparando com o corpo pendurado no alto, fez um leve aceno de cabeça, como se aquilo fosse uma calamida­de cotidiana. Adiantou-se, chutando as cidades destroçadas como se fos­sem lixo ou dejetos irrelevantes.

Vendo isso, murmurei uma praga. Levei a mão à boca e encolhi-me na escuridão.

Espiei por uma rachadura do cenário.

O médico parará. Como um cervo numa clareira da floresta, ele olhava ao redor através dos óculos de aro de aço, usando tanto o nariz quanto os olhos. As orelhas pareciam virar-se para os lados na cabeça raspada. Prosseguiu, pisando em Paris, amassando Londres, e aproximando-se do enforcado suspenso no ar...

Um bisturi brilhou em sua mão. Puxou um baú grande, arrastando-o para baixo do corpo, apanhou uma cadeira, subiu nela e cortou a cor­da sobre o pescoço de Roy.

Um som abafado elevou-se quando o corpo de Roy atingiu o fundo do baú.

Resmunguei, baixinho. Gelei, pensando que dessa vez ele me ouvira e viria em minha direção, com o bisturi frio e brilhante na mão. Prendi a respiração.

Saltando da cadeira, Doc curvou-se para examinar o cadáver.

Mas não chegou a fazê-lo.

A porta exterior abriu-se completamente. Houve rebuliço de vozes e arrastar de pés.

A turma da limpeza havia chegado, porém eu não saberia dizer se este era seu horário habitual de trabalho, ou se haviam sido chamados.

Doc fechou com força a tampa do baú.

Mordi os nós dos dedos e coloquei a mão na boca para abafar os mur­múrios de desespero.

A fechadura do baú produziu um estalido. O médico fez um gesto.

Encolhi-me quando o grupo de trabalhadores entrou pelo estúdio com suas vassouras e esfregões para apagar os vestígios de Atenas, das mu­ralhas de Alhambra, da biblioteca de Alexandria e dos santuários de Krishna em Bombaim.

Levou vinte minutos para limpar o trabalho da vida inteira de Roy Holdstrom. Retiraram também o baú num carrinho, com o corpo invi­sível e encolhido de meu melhor amigo.

Assim que a porta se fechou pela última vez, dei um grito agoniado de pesar contra a noite, a morte, o maldito médico e os homens que haviam saído. Soquei o ar com os punhos fechados, os olhos marejados de lágrimas. Só quando parei de tremer e soluçar é que pude reparar num fato inusitado.

Havia uma fachada falsa apoiada contra a parede norte do estúdio, parecida com aquelas entre as quais Roy e eu fugíramos no dia ante­rior, na carpintaria.

No centro da primeira porta estava uma caixa de aparência familiar. Parecia ter sido deixada ali por acidente. Mas eu sabia que era um presente.

Roy!

Avancei sofregamente até a prateleira e toquei a caixa. Ouvi um cha­coalhar no interior.

O que quer que houvesse no interior, fazia barulho.

Está aí dentro, o corpo que estava em cima do muro?

Frrr-tap-shhh.

Droga!, pensei. Será que nunca vou me livrar dessa coisa?

Agarrei a caixa e saí correndo dali.

Cheguei até a porta exterior e vomitei.

Com os olhos fechados, limpei a boca e abri vagarosamente a porta. A distância, a turma da limpeza dobrava uma esquina, na direção da carpintaria, próxima à qual ficava o grande incinerador do estúdio.

Doc Phillips, atrás deles, dava ordens que eu não conseguia escutar.

Estremeci. Se eu tivesse vindo cinco minutos mais tarde, poderia ter chegado no momento exato em que o médico encontrava o corpo de Roy e as cidades destruídas. Meu cadáver estaria no baú, junto com o de Roy!

Meu táxi aguardava próximo ao Estúdio 9.

Ao lado havia uma cabine telefônica. Entrei, coloquei uma moeda com mãos trêmulas e liguei para a polícia. Uma voz respondeu:

— Alô! Aqui é a Central de Polícia. Posso ajudá-lo? Alô? Oscilei como um bêbado no interior da cabine, olhando para o bocal como se fosse uma cobra morta.

O que eu poderia dizer? Que um estúdio fora esvaziado e limpo? Que um incinerador estava funcionando no momento, muito antes dos car­ros de polícia chegarem?

E daí? Eu estava ali sozinho, sem nenhuma arma e nenhuma prova!

Seria despedido e talvez fosse morto se ficasse ali no cemitério ao lado.

Não!

Dei um grito. Alguém me batia com um martelo até que meu cére­bro se tornasse uma massa de argila vermelha, como a carne do Mons­tro. Lutando para sair, fui reduzido pelo medo à condição de prisionei­ro num caixão de vidro, apesar de tentar sair de todas as maneiras.

A porta da cabine telefônica abriu-se.

— Você estava empurrando pelo lado errado! — disse o motorista do táxi.

Dei uma gargalhada que deve ter soado um pouco histérica e deixei que ele me conduzisse para fora.

— Esqueceu algo.

Ele trouxe a caixa, que caíra no chão da cabine. Frrr-tap-tap.

— Ah, é... — disse eu. — Ele.

Deitei no banco traseiro, até que passássemos os portões do estúdio. Quando chegamos à primeira esquina, já fora dos portões, o motorista perguntou:

— Para que lado?

— Para a esquerda — disse eu, mordendo a parte de cima do punho. O motorista me observava pelo espelhinho retrovisor.

— O senhor está com uma cara horrível. Está enjoado? Balancei negativamente a cabeça.

— Alguém morreu? — adivinhou ele.

— Isso mesmo.

— Estamos na Avenida Western. Vou para o norte agora?

— Para o sul.

O apartamento de Roy ficava na Rua 54. Mas o que eu faria lá? Uma vez no interior, será que eu não iria sentir o cheiro forte da loção do bom doutor no saguão, como uma cortina invisível? E se os capangas dele, carregando coisas, estivessem esperando para me levar como se fosse um móvel de segunda mão?

Estremeci, imaginando quando é que eu iria crescer. Prestei atenção a meu íntimo e escutei:

O som de vidro quebrando.

Meus pais haviam morrido há muito tempo, e as mortes pareceram fáceis de suportar.

Mas Roy? Eu nunca poderia ter imaginado tamanho sentimento de medo, uma onda de pesar que quase me afogava.

Agora eu estava receoso de voltar ao estúdio. A arquitetura maluca de todos aqueles países juntos dava a impressão de querer esmagar-me. Imaginei cada plantação sulista, cada porão de Illinois cheio de paren­tes enlouquecidos e espelhos quebrados, cada armário repleto de ami­gos ansiosos.

O presente noturno, a caixa de brinquedo com a carne de papel machê modelada num rosto enlouquecido pela morte, estava no soalho do táxi.

Frrr-tap-tap.

Meu peito estremeceu.

— Não, motorista — pedi. — Vire aqui. Nessa esquina. Para o mar. Na direção do mar.

Quando Crumley abriu a porta da frente, deu uma olhada em meu rosto e dirigiu-se para o telefone.

— Aumente para cinco dias aquela licença de saúde — disse ele ao aparelho.

Foi para o interior da casa e voltou com um copo cheio de vodca, encontrando-me no jardim respirando profundamente a brisa marinha e tentando enxergar as estrelas, por entre o nevoeiro espesso. Crumley olhou para a caixa em meu colo, pegou minha mão, colocou nela o co­po e guiou-o até minha boca.

— Beba isso — aconselhou ele, baixinho. — Depois vamos para a cama. Conversamos de manhã. O que é isso?

— Esconda essa coisa — pedi. — Se alguém souber que isso está aqui, podemos sumir os dois.

— Mas o que é?

— A morte, eu acho.

Crumley apanhou a caixa de papelão. Parecia sussurrar, produzindo ruídos desagradáveis.

Ele levantou a tampa e olhou para o interior. Um objeto estranho de papel machê encarou-o de volta.

— Então esse é o ex-chefe dos estúdios Maximus? — quis saber ele.

— É.

Crumley olhou por mais um instante para o interior e concordou comigo:

— Tem razão, deve ser a morte aqui dentro.

Fechou a tampa. O peso no interior deslocou-se e sussurrou algo pa­recido com “sssono”, no interior. Não!, pensei. Não me obrigue!

- 27 -

Conversamos pela manhã.

- 28 -

Ao meio dia, Crumley deixou-me em frente ao prédio onde morava Roy, na esquina da Western com a Rua 54. Examinou meu rosto cuida­dosamente.

— Qual é seu nome?

— Recuso-me a fornecer essa informação.

— Quer que eu espere?

— Pode ir. Quanto antes você der uma espiada no estúdio para veri­ficar as coisas, melhor. De qualquer modo, é bom que ninguém nos veja juntos. Tem minha lista dos pontos a verificar, e o mapa?

— Bem aqui. — Crumley indicou sua testa.

— Esteja lá dentro de uma hora. Na casa de minha avó. No andar de cima.

— A boa e velha vovó.

— Crumley?

— O que é?

— Gosto de você.

— Isso não vai levar você para o céu.

— É verdade — admiti. — Mas fez com que eu sobrevivesse a esta noite.

— Boa sorte — desejou ele, afastando-se. Entrei.

Meu palpite da noite anterior estava certo. Se as miniaturas de Roy haviam sido destruídas e seu Monstro amas­sado numa pasta vermelha de argila... Senti o cheiro doce da colônia do médico no corredor... A porta do apartamento de Roy estava aberta. O apartamento fora completamente despojado.

— Meu Deus — sussurrei, em pé no meio da sala vazia, olhando ao redor. — Como na Rússia... A história reescrita.

Pois Roy tornara-se uma não-pessoa. Nas bibliotecas, esta noite, li­vros seriam rasgados e recompostos, para que o nome de Roy Holdstrom desaparecesse para sempre, como um rumor triste, um pedaço de imaginação. Nada mais que isso.

Não havia ficado nenhum livro, nenhum quadro, nem escrivaninha, nem papéis na cesta de lixo. Até mesmo o rolo de papel higiênico fora retirado. O armarinho do banheiro estava vazio como um pastel de vento. Não havia nenhum sapato sob a cama. Nem cama. Nem máquina de escrever. Os armários estavam igualmente vazios. Nenhum dinossauro à vista. Nem desenhos de dinossauros.

Algumas horas antes, o apartamento fora varrido, aspirado, esfrega­do, e depois encerado com cera de boa qualidade.

Uma onda de fúria despertada no estúdio arrasara sua Babilônia, sua Assíria e sua Abu Simbel.

Um frenesi de limpeza apagara ali os últimos vestígios da memória dele, o menor sopro de vida.

— É horrível, não é? — comentou uma voz atrás de mim.

Um jovem estava à soleira da porta. Trajava um guarda-pó de pintor, bem surrado, e seus dedos estavam manchados com várias cores, assim como o lado esquerdo de seu rosto. Os cabelos pareciam despenteados, e os olhos possuíam certo ar de animal selvagem, como se fosse uma criatura que trabalha no escuro e só saísse ocasionalmente, ao amanhecer.

— É melhor não ficar aqui. Eles podem voltar.

— Espere um pouco... — disse eu. — Acho que conheço você, não conheço? É amigo de Roy. Tom...

— Shipway. É melhor sairmos. Eles pareciam doidos. Venha. Segui Tom Shipway para fora do apartamento de Roy.

Ele abriu a porta do próprio apartamento com duas chaves diferentes.

— Está pronto? Preparar! Vamos! Saltei para o interior.

Ele bateu a porta e apoiou-se contra ela.

— A senhorita! Não posso deixar que ela veja.

— Que ela veja? — Olhei ao redor.

Estávamos nos aposentos submarinos do capitão Nemo, sua cabine e sua sala de comando.

— Meu Deus!

Tom Shipway abriu um sorriso.

— Bonito, hein?

— Bonito? Isso é incrível!

— Eu tinha certeza de que você ia adorar. Roy me deu algumas his­tórias suas para ler. Marte. A Atlântida. E aquele conto sobre Júlio Verne. Muito bom, não acha?

Ele me incentivou com um aceno, e eu me adiantei, olhando e tocan­do os objetos. As grandes poltronas vitorianas de veludo vermelho, com aplicações em bronze, estavam presas ao assoalho. Um periscópio de bronze descia do teto. O grande órgão ficava ao centro. Um pouco além, uma janela fora convertida numa escotilha oval de submarino, além da qual nadavam peixes tropicais de várias cores e tamanhos.

— Dê uma espiada! — disse Tom Shipway. — Pode olhar! Curvei-me para olhar ao periscópio.

— Funciona! — exclamei, espantado. — Estamos embaixo d'água! Pe­lo menos é o que parece. Foi você quem fez tudo isso? Você é um gênio.

— É...

— Será que... sua senhoria sabe o que fez no apartamento dela?

— Se ela soubesse, era capaz de me matar. Nunca permiti que ela entrasse aqui.

Shipway acionou um interruptor na parede.

Apareceu a projeção de uma forma cheia de pernas, pairando sobre nós.

— A Lula gigante! O inimigo de Nemo. Estou impressionado!

— Fico contente. Sente. O que está acontecendo? Onde está Roy? Por que aqueles caras vieram como chacais e saíram como hienas?

— Roy? É mesmo... — O peso dos acontecimentos me abateu outra vez. Sentei pesadamente numa das poltronas. — Meu Deus, Roy! O que aconteceu aqui na noite passada?

Shipway andou devagar pelo aposento, imitando o que vira.

— Viu Rick Orsatti andando como bandido por Los Angeles, há al­guns anos? No papel de chantagista?

— Ele andava com um bando...

— Isso mesmo. Uma vez, há alguns anos, no centro da cidade, ao pôr-do-sol, vi seis caras vestidos de preto saindo de um beco, guiados por um outro que parecia chefe; todos se moviam como ratos num fu­neral, vestidos de seda ou couro, todos com brilhantina nos cabelos, a pele totalmente branca. Pareciam lontras, ou melhor, doninhas ne­gras. Vinham em silêncio, coleando como as cobras, um ar hostil e pe­rigoso, a gente tinha a impressão de ver fumaça preta saindo de uma chaminé. Pois é, ontem à noite foi assim. Primeiro senti um perfume tão forte que passou por baixo da porta.

Doc Phillips!

— Abri uma fresta da porta para poder espiar o corredor, e essas ra­tazanas pretas de esgoto estavam passando com pastas, dinossauros, qua­dros, bustos, estátuas e fotografias. Olharam para mim com o canto dos olhos de roedor. Fechei a porta e fiquei espiando pelo olho mágico en­quanto eles passavam com aqueles sapatos pretos de sola de borracha. Escutei barulhos estranhos durante meia hora. Depois os murmúrios pararam. Abri a porta, vi o corredor vazio e fui atingido por um bafo forte do maldito perfume. Esses caras por acaso mataram Roy?

Eu me remexi no lugar.

— Por que está perguntando isso?

— Porque eles pareciam coveiros, só por isso. E se deram um jeito no apartamento de Roy... bem, por que não no próprio Roy?

— Morto? É. Quer dizer, não. Talvez. Alguém tão vivo quanto Roy simplesmente não pode morrer!

Contei a ele sobre o Estúdio 13, as cidades destruídas e o corpo pen­durado.

— Roy não faria isso.

— Talvez alguém tivesse feito isso por ele.

— Roy não ficaria quieto para filho da puta nenhum. Que droga! — Uma lágrima escorreu de um dos olhos de Tom Shipway. — Conheço Roy! Ele ajudou a fazer meu primeiro submarino. Ali!

Na parede havia um Nautilus em miniatura, com aproximadamente oitenta centímetros de comprimento, o verdadeiro sonho de um estu­dante na época do colegial.

— Roy não pode estar morto, certo?

Um telefone tocou em algum lugar da cabine do capitão Nemo. Shipway apanhou uma grande concha de molusco. A princípio ri, mas logo parei.

— Alô? — disse Tom ao telefone, e depois de um intervalo: — Quem está falando?

Praticamente arranquei o telefone das mãos dele. Gritei; um grito para a vida. Escutei a distância uma respiração acelerada.

— Roy!

Clique. Silêncio. Estática.

Balancei violentamente o receptor, atônito.

— Era Roy? — quis saber Tom.

— Era a respiração dele!

— Droga! Não se pode distinguir uma respiração da outra! De onde era a chamada?

Bati o telefone e fechei os olhos. Depois apanhei-o novamente e ten­tei discar na extremidade errada do molusco.

— Como é que essa coisa funciona? — gritei, exasperado.

— Para onde quer ligar?

— Quero chamar um táxi.

— Aonde vai? Eu posso levar você!

— Para Illinois, que diabos. Green Town.

— Mas isso fica a três mil quilômetros daqui!

— Nesse caso é melhor irmos andando — disse eu, colocando a con­cha no lugar.

- 29 -

Tom Shipway me deixou no estúdio.

Eu estava correndo por Green Town pouco depois das duas. A cida­de inteira fora recém-pintada de branco, como que esperando que eu batesse às portas ou espiasse pelas cortinas de lacinhos. O pólen das flores flutuava ao vento quando entrei na calçada da casa de meus avós, há muito desaparecida. Pássaros voaram do telhado quando subi rui­dosamente os degraus da varanda.

As lágrimas inundavam-me os olhos quando bati na porta de vidro fosco.

Apenas o silêncio me respondeu. Compreendi que estava fazendo a coisa errada. Os meninos, quando chamam os amigos para brincar, não batem nas portas. Recuei para o quintal, encontrei uma pedra pequena e atirei-a com força contra a janela do andar de cima.

Silêncio. A casa permanecia impávida sob o sol de novembro.

— Não pode ser! — gritei na direção da janela. — Morto mesmo? Então a porta da frente se abriu. Uma sombra assomou à soleira, olhando para fora.

— Está morto de verdade! — gritei. Cambaleei pela varanda, enquanto a porta interna de tela se abria. Gritei novamente, caindo nos braços de Elmo Crumley. — Está?

— Estou aqui — disse ele, amparando-me. — Se é por mim que está procurando.

Balbuciei alguns sons inarticulados enquanto ele me puxava para o interior e fechava a porta.

— Ei, acalme-se — pediu ele, sacudindo-me pelos ombros. Eu mal conseguia enxergar através dos óculos embaçados.

— O que está fazendo aqui?

— Você combinou comigo. Disse para eu dar uma olhada por aí, de­pois encontrar com você nesse lugar, certo? Não, você não lembra, não é? Existe algo decente para se comer, por aqui?

Crumley inspecionou a geladeira e me trouxe um biscoito de mantei­ga de amendoim e um copo de leite. Fiquei sentado ali, mastigando, engolindo e repetindo:

— Obrigado por ter vindo.

— Cale a boca — disse Crumley, suavemente. — Você está péssimo. O que vamos fazer a seguir? Tem de fingir que está tudo bem. Nin­guém sabe que você viu o corpo de Roy, ou o que imaginou ser o corpo dele, certo? Qual é seu programa de trabalho?

— Eu devia estar me apresentando para um novo projeto nesse mo­mento. Fui transferido. Não vai mais haver o filme do Monstro. Estou trabalhando com Fritz e Jesus.

Crumley riu.

— Esse devia ser o título do filme. Quer que eu dê mais um passeio por aí, como se fosse um turista?

— Encontre-o, Crumley. Se eu acreditar de verdade que Roy se foi, vou ficar maluco! Qualquer que seja o caso, você tem de me ajudar.

— Qualquer que seja o caso?

— Se Roy não está morto, ele está escondido, e com medo. Você pre­cisa assustá-lo ainda mais, para que ele saia do esconderijo antes que seja assassinado. Ou, ou... — hesitei. — Ou então ele está mesmo mor­to, o que significa que alguém o matou, certo? Ele jamais se enforcaria. Isso significa que o assassino também está aqui. Encontre o assassino. O sujeito que destruiu a marteladas a cabeça do Monstro, e depois de esmagar a argila deparou com Roy e resolveu enforcá-lo. O que quer que tenha acontecido, Crumley, encontre Roy antes que ele seja morto. Ou, se ele estiver morto, encontre o maldito assassino.

— É uma escolha miserável.

— Pode dar uma espiada nas agências de autógrafos. Existem três em Hollywood. Talvez uma delas conheça Clarence, saiba o sobreno­me dele, ou o endereço. Clarence. Depois tente o Brown Derby. O maitre não diz nada a caras como eu. Ele deve saber quem é o Monstro. Com ele e Clarence podemos resolver o mistério, ou o assassinato que pode acontecer a qualquer minuto!

— Pelo menos existem essas pistas — Crumley abaixou a voz, para que eu também falasse mais baixo.

— Dê uma olhada em volta — apontei. — Alguém esteve neste lugar desde ontem. Existe lixo que nem eu nem Roy jogamos aqui quando trabalhamos. — Abri a porta da geladeira. — Chocolate. Quem mais colocaria barras de chocolate na geladeira?

— Você! — resmungou Crumley.

Fui obrigado a rir. Fechei a porta do refrigerador.

— Certo, que diabos, bem que podia ter sido eu. Mas ele disse que se esconderia. Talvez tenha feito exatamente isso. Que diz?

— Tudo bem. — Crumley foi até a porta. — O que devo procurar?

— Uma bengala grande, de mais de dois metros, com braços com­pridos e um nariz de gavião, ficando careca antes da hora, usando gra­vatas que não combinam com as camisas, camisas que não combinam com as calças, e...

— Desculpe ter perguntado — disse Crumley, passando-me um len­ço. — Assoe o nariz.

- 30 -

Um minuto mais tarde, saí da casa dos meus avós, para o campo de Illinois.

No caminho, passei pelo Estúdio 13. Estava completamente tranca­do e lacrado. Em pé ali, imaginei como deve ter sido para Roy desco­brir que um maníaco qualquer destruíra cada motivo que tinha para viver.

Pobres criaturas, pensei, olhando para a grande porta fechada. Roy, pensei, algum dia você precisa construir monstros melhores, mais bo­nitos, e viver para sempre.

Nesse instante, uma coorte de legionários romanos apareceu, mar­chando em ritmo acelerado, marcando a cadência e rindo. Passaram rapidamente, como um rio brilhante, vermelho e dourado, de capace­tes emplumados. A guarda de César nunca teve uma aparência melhor, nunca se movera tão rápido. Enquanto eles corriam, meu olhar fixou-se no último legionário. Suas pernas compridas eram desajeitadas. Os cotovelos realizavam movimentos laterais. E um nariz que mais parecia um bico projetava-se para fora do capacete. Dei um grito abafado.

Os legionários dobraram uma esquina.

Corri até lá.

Roy?, pensei.

Mas não podia gritar e deixar que todos soubessem que um sujeito teimoso marchava entre eles.

— Que estúpido — murmurei, debilmente, em vez de gritar. — Burro! — resmunguei, entrando no refeitório.

— Idiota — disse eu a Fritz, que estava sentado, tomando xícaras e xícaras de café, à mesa onde ele realizava reuniões.

— Chega de lisonjas! Sente aqui. Nosso primeiro problema é que Judas Iscariotes vai ser cortado do filme — informou ele.

— Judas? Ele foi despedido?

— A última vez que soube dele, estava em La Jolla completamente bêbado, surfando e planando, arrastado por uma lancha.

— Deus do céu!

Então realmente perdi o controle. Uma gargalhada monumental bro­tou de meus pulmões.

Vi Judas flutuando nos ventos salgados, Roy correndo com os legionários, eu mesmo encharcado pela chuva enquanto o corpo caía da es­cada, depois Judas outra vez, voando alto em La Jolla, bêbado como uma cabra.

Minha gargalhada assustou Fritz. Pensando que eu havia engasgado, ele bateu em minhas costas.

— O que aconteceu?

— Nada — engasguei novamente. — Tudo!

— Qual dos dois, afinal? — indagou uma voz suave. O último riso morreu em minha garganta.

Cristo em pessoa havia chegado, a túnica farfalhando.

— Ó, Herodes Antipas — disse ele solenemente para Fritz. — Enviaste-me para ser julgado?

O ator, tal como uma pintura de El Greco, parecia envolto num raio sulfuroso e nuvens de tempestade que conferiam uma certa palidez ao rosto dele. Sentou vagarosamente numa cadeira, sem olhar para saber se ela estava lá. Até mesmo seu sentar era um ato de fé. Quando seu corpo invisível tocou a matéria, ele sorriu, orgulhoso da precisão.

Uma garçonete imediatamente colocou a sua frente um pequeno pra­to de salmão e um copo de vinho tinto.

— J.C., de olhos fechados, saboreou um bocado de salmão.

— Diretor velho, roteirista novo — disse ele, finalmente. — Me cha­mou para conferir a Bíblia? Pode perguntar. Sei tudo de cor.

— Graças a Deus, alguém sabe — comentou Fritz. — A maior parte do filme foi rodado no exterior por um diretor cheio de gases, que não conseguia uma ereção nem com aparelhinhos especiais. Maggie Botwin está na Sala de Projeção 4. Esteja lá dentro de uma hora para ver que quantidade de porcaria já fizemos. — Ele sinalizou com o monóculo em minha direção. — Cristo andou sobre água. Que tal se tivesse andado na merda grossa? J.C., pode aspergir um pouco de óleo doce nesses ouvidos pagãos? — Fritz tocou em meu ombro. — E você, mi­nha criança, resolva o problema do Judas desaparecido e escreva um final para o filme que impeça os espectadores de exigirem o dinheiro da entrada de volta.

Uma porta bateu.

Fiquei sozinho, enfrentando o escrutínio daqueles olhos azuis que pareciam enxergar além de Jerusalém.

Ele mastigava calmamente o peixe.

— Não há nada como ter uma educação cristã. Quanto a mim, sou como um sapato velho: fico à vontade com Moisés, Maomé e todos os profetas. Não penso sobre isso. Sou isso.

— Então sempre foi Cristo?

— J.C. sentiu que eu estava sendo sincero e mastigou mais um pouco.

— Se sou Cristo? Bem, é como vestir uma túnica confortável para o resto da vida, sem ter de trocar de roupa, ficando sempre à vontade. Quando olho para os meus estigmas, penso que sim. Quando deixo de fazer a barba pela manhã, minha barba é uma auto-afirmação. Não posso conceber outro modo de viver. Claro, há muitos anos, fiquei curioso. Tentei de tudo. Fui até o reverendo Violet Greener no Bulevar Crenshaw. Conhece o Templo Agabeg?

— Claro, já estive lá.

— Belo show, hein? Sessões com espíritos, tambores. Nunca levei a sério. Fui ao Norvell. Ele ainda anda por aí?

— Claro! Com aqueles olhos bovinos sempre piscando, e os namoradinhos tocando tamborins.

— Você fala parecido comigo! Astrologia? Numerologia? Holly Rollers? É tudo muito divertido.

— Também estive com os Holly Rollers — declarei sem demora.

— Gostou de vê-los rolando na lama e falando em outras lín­guas?

— Gostei! Mas, e quanto à Igreja Batista Negra, na Avenida Central? Os pulos de Hall Johnson e os cânticos de domingo. Verdadeiros terremotos!

— Puxa, rapaz, parece que você seguiu meus passos! Como chegou a freqüentar todos esses lugares?

— Queria algumas respostas.

— Leu o Talmud? O Corão? — indagou J.C.

— Chegaram meio tarde a minha vida.

— Pois deixe que eu lhe conte o que realmente chegou tarde...

— O livro dos Mórmons? — arrisquei.

— Com mil demônios, isso mesmo.

— Participei de um grupo teatral mórmon quando tinha vinte anos. O anjo Moroni me deixou com sono.

— J.C. resmungou e deu um tapa em seus estigmas.

— Ele era mesmo maçante! E quanto a Aimeé Sample McPherson?

— Alguns amigos no Colegial me desafiaram a subir no palco e “ser salvo”. Eu fui até lá e me ajoelhei. Ela colocou a mão em minha cabe­ça. “Senhor, salve esse pecador”, ela disse. Glória, Aleluia! Desci e caí nos braços dos meus amigos!

— Que coisa... — comentou J.C. — Aimeé me salvou duas vezes! Depois ela morreu. Verão de 44? Eles a enterraram num enorme cai­xão de bronze, lembra? Foram precisos dezesseis cavalos e um trator para baixar aquele peso todo até a sepultura. Rapaz, Aimeé usava asinhas falsas, que pareciam de verdade. Ainda visito o templo dela só para matar a saudade. Sinto falta dela. Ela me tocou como Jesus, em Pentecostes. Que pândega!

— E agora você está aqui — disse eu. — Cristo em tempo integral nos estúdios Maximus. Desde os dias dourados com Arbuthnot.

— Arbuthnot? — O rosto de J.C. tornou-se sombrio com a lem­brança. Afastou o prato. — Vamos, teste meus conhecimentos. Pergun­te alguma coisa do Velho Testamento. Ou do Novo.

— O Livro de Ruth.

Ele recitou durante dois minutos o Livro de Ruth.

— Eclesiastes?

— Vou dizer inteiro. Foi o que ele fez.

— João.

— Ótimo material! A Última Ceia depois da Última Ceia.

— O quê? — estranhei, sem entender aquilo.

— Seu cristão relapso! A Última Ceia não foi na verdade a Última Ceia. Foi a Penúltima Ceia! Alguns dias depois da Crucificação, Simão Pedro, no mar da Galiléia, passou pela experiência da multiplicação dos peixes. Na praia eles testemunharam uma luz não muito brilhante. Aproximando-se, viram um homem em pé ao lado de um braseiro com alguns peixes. Falaram ao homem e souberam que era Cristo, que ges­ticulou e disse: “Tomem esses peixes e aumentem meus irmãos. Le­vem minha mensagem e percorram as cidades do mundo e preguem a absolvição dos pecados”.

— Puxa vida... — murmurei, abismado.

— História deliciosa, não? — disse J.C. — A Penúltima Ceia pri­meiro, depois a Ceia de Da Vinci, e depois a Última Ceia, de peixes na brasa, nas areias perto do lago de Tiberíades, depois do qual Cristo partiu para permanecer por todo o sempre no sangue, nos corações, nas mentes e nas almas dos homens. Finis.

J.C. baixou a cabeça, depois acrescentou:

— Vá reescrever o Evangelho de João. Não é meu para dar a você, basta pegar! Agora vá, antes que eu retire minha bênção.

— Você me abençoou?

— O tempo todo em que conversamos, filho. O tempo todo. Agora vá.

- 31 -

Enfiei minha cabeça na fresta da porta da Sala de Projeção 4 e per­guntei:

— Onde está Judas?

— Essa é a senha! — berrou Fritz Wong. — Aqui estão três martínis. Beba!

— Detesto martíni. E, de qualquer maneira, primeiro preciso resol­ver esse assunto. Maggie Botwin — cumprimentei.

— Maggie — disse ela, divertida, com a câmera no colo.

— Ouvi falar de você por muitos anos, e sempre a admirei. Só queria dizer que estou contente com essa chance para trabalhar com...

— Claro, claro — interrompeu ela, com simpatia. — Só que você es­tá errado. Não sou nenhum gênio. Sou... como se chamam aqueles in­setos que andam na superfície dos lagos?

— Alfaiates?

— Isso, alfaiates! A gente pensa que os miseráveis bichinhos vão afun­dar, mas eles se movem sobre uma película na superfície da água. Ten­são superficial. Eles distribuem o peso, esticam as perninhas de forma a não romper nunca esse filme. Bem, se isso não é uma boa descrição minha, não sei qual seria. Eu simplesmente distribuo meu peso, me estico toda, de forma a não quebrar o filme no qual deslizo. Ainda não afundei. Mas não sou a melhor, e nada do que faço é milagre, é pura sorte de principiante. Mas obrigada pelo elogio, meu jovem. Agora er­ga o queixo e obedeça às ordens de Fritz. Os martínis. Como você vai descobrir daqui a pouco, não fiz nenhum milagre no filme a que vai assistir. — Ela virou o perfil esguio para a cabine de projeção. — Jimmy? Pode soltar.

As luzes diminuíram e as cortinas se abriram. A versão provisória do filme iluminou a tela, ao som da trilha sonora parcialmente termi­nada, composta por Miklos Rozsa. Dessa parte eu gostei.

À medida que o filme avançava, eu dirigia olhares para Fritz e Maggie. Eles pareciam montar um cavalo selvagem. Fiz o mesmo, recostando-me na poltrona para apreciar a profusão de imagens.

Minha mão surrupiou um dos martínis.

— Bom menino — aplaudiu Fritz.

Quando o filme terminou, ficamos sentados em silêncio até que as luzes se acendessem.

— Por que roda a maior parte das cenas novas ao crepúsculo ou à noite? — perguntei por fim.

— Não suporto a realidade. — O monóculo de Fritz emitia reflexos quando ele olhava para a tela branca. — A metade das cenas marcadas daqui para a frente é ao pôr-do-sol. A essa hora a espinha dorsal do dia se quebra. Ao anoitecer, dou grandes suspiros de alívio: consegui sobreviver mais um dia! Geralmente trabalho até as duas da manhã, sem ter de encontrar gente de verdade, nem luz natural. Há dois anos, man­dei fazer lentes de contato. Acabei atirando os malditos vidrinhos pela janela! Por quê? Consegui enxergar os poros no rosto das pessoas, e no meu rosto. Verdadeiras crateras lunares. Marcas e furos. Que diabo!

É só dar uma olhada para os últimos filmes que fiz. Não aparecem pes­soas iluminadas por luz solar. Dama da Meia-Noite, Escuridão Eterna, Assassinato às Três da Madrugada, Morte ao Amanhecer... Agora, jovem, o que acha sobre esse maldito abacaxi da Galiléia: Cristo no Jardim, Cé­sar em cima da Árvore?

Maggie Botwin espreguiçou-se cheia de desânimo e tirou a capa da sua câmera portátil.

Pigarreei.

— Minha narrativa vai ter de cobrir todos os buracos do roteiro?

— Salvar a pele de César? Claro! — Fritz riu e serviu mais bebidas. Maggie opinou pela primeira vez:

— Estamos mandando você para discutir Judas com Manny Leiber.

— Por quê?!

— O Leão Judeu — disse Fritz Wong — talvez aprecie o sabor de um batista de Illinois. Talvez ele até escute o que você tem a dizer en­quanto arranca suas pernas.

Engoli meu segundo martíni.

— Não é tão ruim assim — opinei. Escutei um zumbido.

A câmera de Maggie Botwin estava apontada para mim, captando um princípio de enlevo.

— Leva a câmera a todos os lugares?

— Levo. Não se passou um dia em quarenta anos sem que eu tivesse capturado algum momento comprometedor entre os poderosos. Eles não ousariam me despedir. Eu montaria um filme com nove horas de imbecis em desfile e o exibiria numa grande première no Cine Chinese, de Grauman. Está curioso? Venha dar uma olhada algum dia.

Fritz encheu meu copo.

— Estou pronto para um close — declarei. E bebi. A câmera zumbiu.

- 32 -

Manny Leiber estava sentado sobre a beira do tampo de sua escriva­ninha, guilhotinando um charuto com um daqueles cortadores Dunhill folheados a ouro, que custam cem dólares. Franziu a sobrancelha quando eu entrei em seu escritório e caminhei ao redor dos vários sofás baixos, examinando-os.

— O que houve?

— Esses sofás — disse eu. — São tão baixinhos que não se consegue levantar depois.

Sentei-me. Fiquei a uns trinta centímetros do chão, olhando para Manny Leiber acima, que ficou parecendo um César, a cavalo sobre o mundo.

Levantei-me e me pus a recolher almofadas. Empilhei três delas so­bre o meu lugar e sentei-me.

— Que diabos está fazendo? — Manny desceu da escrivaninha.

— Gosto de ver os olhos da pessoa quando falo com ela. Detesto fi­car entortando o pescoço aqui em baixo.

Manny Leiber irritou-se, mordeu seu charuto e acomodou-se nova­mente na borda da escrivaninha.

— Então?

— Fritz acabou de me mostrar uma montagem provisória do filme. Está faltando Judas Iscariotes. Quem o matou?

O quê?

— Não se pode ter Cristo sem Judas. Por que Judas de repente se tornou o apóstolo invisível?

Pela primeira vez vi o traseiro de Manny remexer-se sobre o tampo de vidro. Ele sugou seu charuto ainda apagado, olhou para mim e de­clarou:

— Eu dei ordens para cortar Judas do filme? Não quero fazer um filme anti-semita!

— O que?! — explodi, colocando-me em pé. — Esse filme vai ser lançado na próxima Páscoa, certo? Na semana de lançamento, um mi­lhão de batistas vão assisti-lo. Dois milhões de protestantes?

— Com certeza.

— Dez milhões de católicos?

— Isso!

— Dois unitários?

— Dois...?

— E quando todos saírem no domingo de Páscoa e perguntarem: “Quem cortou Judas Iscariotes do filme?” a resposta vai ser: Manny Leiber!

Houve um longo e incômodo silêncio. Manny colocou de lado o cha­ruto que ainda não acendera. Sem deixar de olhar para mim, esticou a mão para o telefone branco.

Discou três números, esperou um pouco e disse:

— Bill? — suspirou profundamente antes de emitir a ordem. — Con­trate outra vez Judas Iscariotes.

Com cara de poucos amigos, ficou me observando enquanto eu reco­locava as almofadas nas cadeiras.

— Foi só por isso que veio até aqui?

— Por enquanto, sim — respondi, já com a mão na maçaneta.

— O que sabe sobre seu amigo Roy Holdstrom? — indagou ele, de chofre.

Cuidado agora, pensei.

Manny aguardava, franzindo a sobrancelha.

— Aquele bobão simplesmente foi embora — disse eu, mais que de­pressa. — Pegou todas as coisas no apartamento dele e saiu da cidade. Que idiota. Agora não é mais meu amigo. Ele e aquele maldito Mons­tro de argila.

Manny Leiber me observava cuidadosamente.

— Boa opção. Você vai gostar mais de trabalhar com Wong.

— Claro. Fritz e Jesus.

— O quê?

— Jesus e Fritz. E saí.

- 33 -

— Tem certeza de que viu Roy correndo há uma hora atrás? — inda­gou Crumley.

— Que diabo, não sei. Sim, não, talvez. Não me sinto coerente. São os martínis, não estou acostumado a tomar martíni em pleno dia. E... — folheei o roteiro — preciso tirar meio quilo disto e acrescentar uns duzentos gramas. Socorro! — Dei uma olhada no bloco que Crumley segurava. — O que conseguiu?

— Telefonei para aquelas agências de autógrafos. Todas conheciam Clarence...

— Ótimo!

— Nem tanto. Todas disseram a mesma coisa. Ele é paranóico. Nin­guém tem o sobrenome dele, nem o número do telefone, nem o ende­reço. Ele disse a todas que tem medo. Não de ser assaltado, mas de ser assassinado. E depois roubado. Cinco mil fotografias, seis mil autó­grafos, é o que ele guarda como um tesouro. Imaginei que talvez ele não tivesse reconhecido o Monstro naquela noite, e sim ficado com medo de que o Monstro o reconhecesse, ou soubesse onde ele morava, e re­solvesse ir atrás dele.

— Não, isso não encaixa com o resto.

— Clarence, qualquer que seja o sobrenome dele, disse a agência, sempre recebia em dinheiro vivo e pagava em dinheiro. Não existem cheques que possamos verificar, por aí não vamos conseguir nada. Ele nunca fez nada por correspondência. Aparecia sempre para fazer negó­cio, depois desaparecia de cena por meses. Ficamos num beco sem saí­da seguindo essa pista. E no Brown Derby também. Entrei lá com toda a classe, mas o maitre não foi com a minha cara. Sinto muito, filho, mas... Ei!

Nesse momento a coorte de legionários apareceu, a distância, em ritmo acelerado. Com gritos joviais e imprecações, eles se aproximavam de onde estávamos.

Inclinei-me para a frente, prendendo o fôlego.

— Esse é o grupo que mencionou, dizendo que Roy estava com eles?

— Isso mesmo.

— Está com eles agora?

— Não estou conseguindo ver... Crumley perdeu a paciência.

— Que Pôrra, o que esse idiota pode estar querendo correndo pelo estúdio desse jeito? Por que ele não sai, não vai embora, que diabo? Por que fica por aqui? Só para se matar? Ele teve chance de fugir, mas ficou, e está passando a você e a mim pelo espremedor. Por quê?

— Vingança — respondi. — Por todos os assassinatos.

— Que assassinatos?

— De todas as criaturas dele, seus amigos mais chegados.

— Besteira!

— Escute aqui, Crum. Há quanto tempo está na sua casa em Venice? Vinte, vinte e cinco anos. Plantou cada sebe, cada arbusto, semeou o gramado, construiu o quiosque, instalou o equipamento de som, o equipamento para regar o jardim, plantou os bambus e as orquídeas, os pessegueiros, os limoeiros, o pé de abricó. Imagine que eu fosse lá numa noite e derrubasse tudo, cortasse as árvores, pisasse nas roseiras, queimasse o quiosque e jogasse o aparelho de som na rua. O que você faria?

Crumley começou a imaginar a cena e foi ficando vermelho.

— Exatamente — disse eu. — Não sei se Roy vai casar algum dia. No momento, seus filhos e a vida inteira dele foram destruídos. Tudo o que ele sempre amou foi assassinado. Talvez ele esteja lá agora, ten­tando resolver esses crimes e, assim como nós, saber quem é o Mons­tro, para matá-lo. Talvez tenha partido para sempre. Mas, se eu fosse Roy e estivesse vivo, iria ficar por aí, escondido, e continuar até enter­rar o assassino com os mortos.

— Meus limoeiros, é? — disse Crumley, olhando na direção do ocea­no. — Minhas orquídeas, as florestas tropicais? Derrubados por alguém?

A coorte de legionários corria sob a luminosidade do sol matinal, penetrando a seguir nas sombras azuladas.

Não havia nenhum soldado grande, magro e desajeitado entre eles. As passadas e os gritos perderam-se a distância.

— Vamos para casa — disse Crumley.

 

À meia-noite, um vento súbito passou pelo jardim africano de Crum­ley. Todas as árvores dobraram-se a sua força. Crumley estava me observando.

— Posso sentir que alguma coisa está para acontecer... Aconteceu.

— O Brown Derby — disse eu, surpreso. — Meu Deus, por que não pensei nisso antes? Na noite em que Clarence entrou em pânico e saiu correndo, deixou cair o álbum na calçada em frente ao restaurante! Al­guém deve ter apanhado esse álbum. É capaz de ainda estar lá, espe­rando que Clarence se acalme e se aventure a sair para procurar por ele. O endereço dele tem de estar no álbum. Crumley...?

— Boa pista — comentou Crumley —, vou atrás dela.

O vento noturno soprou forte novamente, uma rajada que parecia um suspiro melancólico passando pelos limoeiros e laranjeiras.

— E...

— E?

— Estava pensando outra vez no Brown Derby. O maitre talvez não diga nada para nós, mas eu conheço alguém que comia lá todos as se­manas durante muitos anos, quando eu era garoto...

— Oh, meu Deus... — suspirou Crumley. — Rattigan.

— Rattigan.

— Ela vai comer você vivo.

— Mas ainda não fez isso!

— Isso porque não você ainda era novo.

— Meu amor vai me proteger!

— Que diabos, podemos então colocar todo o seu amor em um saco e fertilizarmos todo o vale de San Fernando.

— A amizade protege. Você não iria me fazer mal, iria? . — Não conte com isso.

— Mas precisamos fazer alguma coisa. Roy está escondido. Se eles, quem quer que sejam, o encontrarem, vão matá-lo.

— E a você também — lembrou Crumley — se continuar bancando o detetive amador. Já é tarde. Meia-noite.

— A hora em que Constance acorda.

— No horário da Transilvânia? Droga! — Crumley inspirou profun­damente. — Quer que eu leve você até lá?

Um pêssego caiu do pessegueiro imerso nas sombras. Produziu um barulho abafado ao atingir o solo.

— Quero! — respondi.

- 34 -

Ao amanhecer — disse Crumley — se estiver cantando como sopra­no, não me telefone.

E foi embora.

A casa de Constance era, como nos velhos dias, uma perfeição, um santuário branco e imaculado à beira da praia. Todas as portas e janelas estavam abertas. A música soava no interior da enorme sala branca de estar; parecia ser alguma canção antiga de Benny Goodman.

Caminhei pela praia, exatamente como tinha feito há mil noites atrás, olhando o mar. Ela estava lá em algum lugar, perseguindo golfinhos e imitando focas.

Procurei na sala de visitas, atulhada com quatro dúzias de almofadões brilhantes, em cujas paredes brancas e nuas eram projetados, tar­de da noite, seus filmes antigos.

Voltei-me por causa do estrondo de um onda, maior do que as ou­tras, atingindo a praia. Para depositar, assim como o tapete desenrola­do aos pés de César... Constance Rattigan.

Ela saiu da onda como um foca saltando, com os cabelos castanho-escuros penteados pela água, o corpo pequeno polvilhado de noz-moscada e envolto em óleo de canela. Cada tonalidade do outono era refletida pelos membros, pelos punhos e mãos. Seus olhos apresenta­vam um tom malicioso, inteligente e alegre de castanho. A boca, sem­pre pronta a rir, parecia pintada com extrato de nogueira. Ela inteira lembrava uma criatura das ondas de outubro, lavada pelas águas do mar, mas quente ao toque.

— Seu maluco — gritou ela. — É você!

— Filha do Nilo! É você.

Ela atirou-se a mim como um cachorrinho que se enxugasse em al­guém; agarrou minhas orelhas, beijou minhas sobrancelhas, o nariz e a boca, depois de uma voltinha para exibir todos os ângulos.

— Estou nua, como sempre.

— Eu reparei, Constance.

— Você não mudou nada; está olhando para meus olhos em vez de olhar para meus peitos.

— E você não mudou nada. Os peitos estão firmes e bonitos.

— Nada mal para uma nadadora noturna de cinqüenta e seis anos, ex-rainha do cinema mudo, hein? Vamos para dentro.

Ela correu pela areia. Quando cheguei à piscina próxima à casa, Constance já trouxera queijo, bolachinhas e champanhe.

— Que coisa! — exclamou ela, abrindo a garrafa — Parece que faz um século que a gente não se vê. Mas eu sabia que algum dia você iria voltar. Conseguiu tirar o casamento da cabeça? Está pronto para ter uma amante?

— Não, obrigado. Bebemos.

— Viu Crumley nas últimas oito horas?

— Crumley?

— Está escrito em seu rosto. Quem morreu?

— Uma pessoa, vinte anos atrás, na Maximus.

— Arbuthnot! — gritou Constance, num lampejo de intuição. Uma sombra atravessou seu rosto. Estendeu a mão para um roupão de banho e envolveu-se nele, sentindo-se subitamente muito pequena, uma criança que observa o mar, como se não fossem simplesmente a maré e a areia, mas os próprios anos.

— Arbuthnot — murmurou ela, novamente. — Como ele era boni­to! Que criador... — Fez uma pausa e acrescentou: — Estou contente que esteja morto.

— Não exatamente morto.

Constance voltou-se de repente, como se tivesse recebido um tiro.

— Não é possível!

— Não ele, mas uma coisa que parece ele. Uma coisa no alto de um muro, colocada lá para me assustar, e agora a você também.

Lágrimas de alívio escorreram dos olhos dela. Exalou o ar como se tivesse recebido um soco no estômago.

— Maldito seja! Vá até lá dentro — disse ela. — Apanhe a garrafa de vodca. Não diga nada. Vá.

Eu trouxe a garrafa e um copo. Observei enquanto ela bebia duas talagadas. Repentinamente eu parecia sóbrio para sempre, cansado de tanto ver as pessoas beberem, e cansado de ficar com medo cada vez que anoitecia.

Não consegui pensar em nada para dizer, portanto fui até a borda da piscina, tirei os sapatos, as meias, enrolei as barras da calça e mergulhei os pés na água. Fiquei de cabeça baixa, esperando. Finalmente Constance veio sentar a meu lado. —— Você voltou — disse eu.

— Desculpe — declarou ela. — Algumas lembranças são difíceis de morrer.

— Isso é bem verdade — concordei, olhando eu mesmo para a praia.

— O pânico atacou o estúdio essa semana. Por que diabo todo mundo parece desmoronar quando digo que encontrei um boneco parecido com Arbuthnot na chuva?

— Foi isso o que aconteceu?

Contei o resto a ela, como relatara a Crumley. Quando acabei, Constance, mais pálida ainda, terminava outro copo de vodca.

— Gostaria de saber exatamente do que devo ter medo — reclamei.

— Quem escreveu o bilhete que me levou ao cemitério fez isso para que eu apresentasse um Arbuthnot falso para o mundo. Mas eu não disse nada a ninguém do estúdio, eles acabaram descobrindo e tenta­ram esconder tudo, apavorados. Será que a lembrança de Arbuthnot é tão terrível assim, mesmo passados tantos anos depois da morte dele?

— É. — Constance colocou sua mão, que tremia, em meu braço. — É, sim.

— E agora, o que vai acontecer? Chantagem? Será que alguém agora vai escrever a Manny Leiber e exigir dinheiro, ou então ameaçar man­dar mais bilhetes sobre o passado do estúdio, sobre a vida de Arbuth­not? Para revelar o quê? Um rolo de filme perdido há talvez vinte anos, da noite em que ele morreu? Talvez um filme realizado no local do aci­dente, que, se viesse à luz, incendiaria Constantinopla, Tóquio, Berlim e todo o resto?

— Pode ser. — A voz de Constance soava como se ela estivesse vi­vendo em outra época. — Pode ser isso. Saia agora. Corra!

— O quê?

— Escute bem. Desculpe ter gritado. Mas você já sonhou que um buldogue negro de duas toneladas ataca você à noite e o devora? Um amigo meu teve esse sonho. O buldogue negro o comeu. Nós o chama­mos de Segunda Guerra Mundial. Ele se foi para sempre. Não quero que você se vá.

— Constance, não posso desistir — expliquei. — Se Roy estiver vivo...

— Mas você não tem certeza disso.

— Preciso tirá-lo de lá e ajudá-lo a conseguir o emprego de volta, porque é a única coisa certa a fazer. Tenho de conseguir. Foi tudo tão injusto...

— Pois então entre no mar e tente discutir com os tubarões, que vai ser muito mais fácil. Quer mesmo voltar aos estúdios da Maximus de­pois de tudo o que me contou?

— Mas primeiro vamos até o Brown Derby.

— E depois a Maximus.

— Isso.

— Está bem. Sabe quando foi a última vez que estive lá? Na tarde do enterro de Arbuthnot.

Ela deixou que eu digerisse o fato. Depois jogou a âncora.

— Foi parecido com o fim do mundo. Nunca vi tanta gente junta passando mal. Foi como ver a Estátua da Liberdade rachar e cair. Ele era como o monte Rushmore depois da um terremoto. Quarenta vezes maior do que se Cohn, Zanuck, Warner e Thalberg morressem de uma só vez. Quando fecharam a tampa daquele caixão na tumba do outro lado do muro, a colina onde está o letreiro de Hollywood começou a rachar e caiu. Era como se Roosevelt morresse bem depois da sua morte.

Constance parou porque podia escutar minha respiração alterada.

— Acha que existe um cérebro em minha cabeça? — continuou ela. — Veja! Sabia que Shakespeare e Cervantes morreram no mesmo dia? Pense! É como se todas as sequóias do mundo fossem derrubadas de um jeito que o estrondo não parasse nunca mais. A Antártida derreteu-se em lágrimas. Cristo abriu seus estigmas. Deus reteve a respiração. As legiões de César, dez milhões de fantasmas, levantam-se com ama­zonas sangrando no lugar de olhos. Sim, escrevi isso quando tinha de­zesseis anos e era inocente. Mas, quando descobri que Julieta e Dom Quixote foram feitos no mesmo dia, chorei a noite inteira. Você é o úni­co que já ouviu esse texto bobo. Bem, foi assim quando Arbuthnot mor­reu. Eu fiquei com dezesseis anos outra vez e não conseguia parar de chorar nem de escrever essas porcarias. O que existia era a Lua, os pla­netas, Sancho Pança, Rocinante e Ofélia. Metade das mulheres no en­terro eram antigas amantes. Um clube de fãs formado por companhei­ras de cama, além de sobrinhas, primas e tias loucas. Quando abrimos os olhos naquele dia, foi como a segunda inundação de Johnstown. Meu Deus, ainda continuou assim. Ouvi dizer que eles ainda conservam a cadeira de Arbuthnot no velho escritório dele, é verdade? Qualquer um que sente ali precisa ter um grande traseiro e miolos suficientes para isso.

Pensei no traseiro de Manny Leiber.

— Deus sabe como o estúdio conseguiu sobreviver. Talvez tenha si­do uma mesa ouija, com os mortos como conselheiros. Não ria. Esse é Hollywood, nas previsões de Leo-Virgo-Taurus, sem vacilar entre as cenas filmadas.

— Muito bem, pare de falar, Constance. O que vem a seguir?

— O estúdio? Pode me encaixar no passeio tradicional. Deixe a vovó sentir o perfume dos quatro ventos nas cinqüenta e cinco cidades, to­mar a temperatura dos maníacos funcionários e depois falar com o maitre do Brown Derby. Dormi com ele uma vez, noventa anos atrás. Será que ele vai se lembrar da velha bruxa da praia de Venice e nos deixar tomar um chá com o Monstro?

— O que vai dizer?

Uma grande onda estourou, e uma menor espraiou-se na areia.

— Vou dizer: — ela fechou os olhos — Pare de assustar meu filho bastardo honorário, futuro-escritor-amante-de-dinossauros”.

— Isso — concordei. — Por favor.

- 35 -

No começo era o nevoeiro.

Como a grande Muralha da China, avançou pelo litoral, pela terra, e pelas encostas das montanhas, às seis horas da manhã.

Minhas vozes matutinas começaram a falar.

Arrastei-me pelo quarto de Constance, tateando para achar meus ócu­los em algum lugar entre a manada de enormes almofadões coloridos, mas acabei desistindo e comecei a procurar uma máquina de escrever portátil. Sentei-me sem enxergar muita coisa, pronto a escrever o final de Antipas e o Messias.

E realmente aconteceu o milagre dos peixes.

E Simão, chamado Pedro, chegou à praia, encontrando o Fantasma ao lado do braseiro e os peixes assados, que seriam entregues como presentes, com a palavra final para disseminar o bem. Os discípulos ali reunidos formavam uma pequena multidão comportada, e só havia a última hora entre eles e a Ascensão, cujas despedidas perdurariam dois mil anos e seriam lembradas em Marte e enviadas para Alfa Centauro.

Quando as palavras saíram da máquina, não pude vê-las, e aproximei-as dos meus olhos úmidos e embaçados enquanto Constance saía de uma onda como um golfinho, como mais um milagre abrigado na carne deli­cada, para ler por sobre meu ombro e dar um grito ao mesmo tempo ale­gre e triste, depois sacudir-me como um cachorrinho, feliz com meu triunfo.

Telefonei para Fritz.

— Onde diabos você se meteu? — quis saber ele. — Preciso das cenas!

— Cale a boca — disse eu, com delicadeza. E li em voz alta.

E os peixes foram colocados a assar sobre o braseiro, que era soprado pelo vento como vaga-lumes de fogo formando um riacho sobre as areias, e Cristo falou, e os discípulos ouviram, e ao amanhecer as pegadas de Cristo, como as fagulhas brilhantes, foram apagadas pelos movimentos das areias. Ele partiu, e os apóstolos caminharam para todos as dire­ções; as pegadas deles desapareceram, e um Novo Dia realmente come­ça ao mesmo tempo que o filme acaba.

À distância, Fritz permanecia quieto.

Finalmente, sussurrou:

— Seu... filho... de... uma... puta... — A seguir: — Quando escre­veu isso?

— Há três horas.

— Pois chegue aqui em duas — gritou Fritz —, e vou dar um beijo em suas quatro bochechas. Agora vou falar com Manny e Herodes!

Desliguei, e o telefone tocou. Era Crumley.

— Seu “Balzac” ainda é Honoré? — disse ele. — Ou você, como o grande peixe de Hemingway, está morto no cais, os ossos sem nenhum pedacinho de carne?

— Crum — suspirei.

— Muito bem, muito bem. Tenho boas e más notícias.

— Só as boas, por favor.

— Desculpe, jovem, mas vou dar as duas. Comecei a pensar sobre aquele álbum que seu amigo Clarence deixou cair em frente ao Brown Derby. Liguei para lá, disse que tinha perdido o álbum. É claro, senhor Sopwith, disse a mulher, está aqui. Sopwith! Então era esse o sobrenome de Clarence. Sopwith!

— Estava com medo, disse eu, de que meu endereço não estivesse no álbum.

— Está aqui, informou a mulher que atendeu, North Bronson, 1788, não é? É isso mesmo, eu falei. Vou até aí para apanhá-lo.

— Crumley! Você é um gênio!

— Não exatamente. Estou falando agora da cabine telefônica em frente ao Brown Derby.

— E... — Meu coração bateu mais forte.

— O álbum não está mais aqui. Alguém teve a mesma idéia brilhan­te e foi mais rápido do que eu. A mulher me deu uma descrição da pessoa. Não foi Clarence, pelo que você me contou.

— E...

— Quando a mulher pediu um documento, o sujeito simplesmente pegou o álbum e foi embora. Ela ficou preocupada, mas sem maiores conseqüências.

— Meu Deus! — exclamei. — Isso significa que eles têm o endereço de Clarence.

— Quer que eu vá até a casa dele e conte tudo para ele?

— Não! Ele é capaz de ter um ataque cardíaco. Clarence já fica bas­tante assustado comigo, mas mesmo assim eu tenho de ir. Preciso avi­sar a ele para que se esconda. Fazer alguma coisa pelo menos. Sabe­mos com certeza que ele corre perigo agora. Que diabo, qualquer coisa pode acontecer com ele. North Bronson, 1788?

— Isso mesmo.

— Crum, Deus o abençoe. Você é meu anjo da guarda!

— Sempre fui — disse ele —, sempre fui. O estranho é que os caras na delegacia esperavam que eu voltasse ao trabalho uma hora atrás. O coronel telefonou para dizer que é urgente. Enquanto estou trabalhan­do, você pode fazer o que é preciso. Quem mais no estúdio é capaz de ter a informação que precisamos? Quero dizer, alguém em quem você possa confiar. Alguém que tenha vivido a história do estúdio, e a história que não está nos arquivos do Times.

Botwin — respondi, sem hesitar. Pisquei, abismado com minha resposta.

Maggie e sua câmera portátil, capturando o mundo dia após dia, ano após ano, à medida que passava. Maggie.

— Botwin? — repetiu Crumley. — Por que não? Vá perguntar. Nes­se meio-tempo, jovem...

— O quê?

— Proteja seu traseiro.

— Está protegido.

Desliguei e disse, ainda olhando para a parede:

— Rattigan?

— Já dei a partida no carro — anunciou ela. — Está esperando na calçada.

- 36 -

Fomos até o estúdio à tardinha. Com três garrafas de champanhe guar­dadas no conversível, Constance praguejava alegremente a cada cruza­mento, inclinada sobre a direção, como aqueles cachorros que adora­vam sentir o vento.

— Para o passadiço! — gritou ela.

Corríamos pelo centro do Bulevar Larchmont, beirando o meio da pista.

— O que está fazendo? — gritei.

— Antigamente, existiam trilhos de bonde dos dois lados da pista. No meio havia uma fila de postes elétricos. Harold Lloyd dirigia ao redor deles, fazendo zigue-zague nos postes, assim!

Constance fez uma curva para a esquerda.

— E assim, e assim e assim!

Passávamos ao redor de meia dúzia de postes invisíveis, há muito der­rubados, como se fôssemos perseguidos por um bonde fantasma.

— Rattigan...

Ela viu a preocupação em meu rosto e acalmou-se.

— Avenida Bronson? — indagou ela.

— Bronson — confirmei.

Eram quatro horas da tarde. A segunda entrega de correspondência do dia estava sendo levada em direção norte. Fiz um sinal para Cons­tance. Ela estacionou bem à frente do carteiro, que andava sob o sol ainda quente. Ele me cumprimentou como se eu fosse um turista de Iowa, e demonstrou uma ótima disposição, considerando-se o tamanho da sacola de correspondência que carregava.

Tudo o que eu queria era verificar o nome e o endereço de Clarence antes de bater a sua porta. Mas o carteiro não conseguia parar de con­versar. Contou como Clarence andava e corria, como a área ao redor de sua boca estava sempre tremendo, como suas orelhas pareciam sem­pre mover-se para cima e para baixo, e como a maior parte dos olhos era branca.

O sujeito cutucou meu cotovelo com a correspondência, sempre rindo:

— Aquele cara? É seu amigo? Um biruta completo! Vem atender a porta enrolado naquele sobretudo de pêlo de camelo, sabe qual é? Do tipo que Adolphe Menjou usava em 1927, quando éramos rapazes e íamos ao banheiro nas cenas mais “melosas” dos filmes, certo? Claro. O velho Clarence... Uma vez eu disse, “Buud!”, e ele se assustou tanto que bateu a porta na minha cara. Coitado. Aposto que toma banho com aquele casacão, com medo que alguém o veja nu, ou então medo de ver o próprio corpo. Clarence, o Cagão? 1788. Não bata muito forte na porta...

Mas eu já saíra. Entrei rapidamente no Conjunto Residencial Villa Vista e fui até o número 1788.

Não bati à porta. Passei a unha nos pequenos vidros foscos. Havia nove deles. As cortinas estavam fechadas, de forma que eu não podia ver o interior. Não ouvi nenhum tipo de resposta, portanto bati com o dedo indicador, um pouco mais alto. Depois passei a usar os nós dos dedos.

Imaginei escutar o coração de Clarence batendo como o de um coe­lho, do outro lado da porta.

Toquei a campainha uma vez. Depois mais três vezes.

— Clarence! — chamei. Esperei um pouco. — Sei que está em casa! Foi um erro. Falei alto demais.

— Clarence, abra a porta — pedi, com voz mais baixa.

Seria a última chance. Se eu tivesse de voltar mais tarde, talvez não o encontrasse mais ali.

— Clarence!

Novamente, tive a impressão de ouvir o coração dele batendo mais forte.

— Atenda, que diabos! Antes que seja tarde! Você me conhece... lá do estúdio!

Recuei um pouco e gritei. Não devia ter feito isso, mas fiz.

— Clarence! Saia daí! Se eu pude achar você, eles também podem! Eles? O que eu queria dizer com “eles”?

Bati à porta com ambas as mãos. Um dos vidros rachou. Então, pas­sei a bater na madeira.

— Clarence! Seu álbum! Você deixou no Brown Derby!

Aquilo produziu resultado. Parei de bater pois escutei um ruído que poderia ser um gemido abafado ou um balbuciar. A fechadura girou, com um estalido. Mais uma fechadura foi acionada, depois uma terceira.

Finalmente uma fresta se abriu na porta, segura por uma corrente de bronze.

O rosto amedrontado de Clarence olhou para mim através de um longo túnel de tempo, próximo, mas ao mesmo tempo tão distante que sua voz produzia uma espécie de eco.

— Onde está? — suplicou ele. — Onde está?

— No Brown Derby — disse eu, envergonhado. — Mas alguém o roubou.

— Roubou? — Lágrimas assomaram aos seus olhos. — Meu álbum? Provavelmente ele pensava também no endereço que constava no álbum.

— Deus do céu! — lamentou-se ele. — Você fez isso comigo.

— Não, espere um pouco, escute aqui...

— Se eles tentarem entrar aqui, eu me mato. Eles não podem ficar com tudo, e você também não...

Clarence olhava apavorado por sobre o ombro, na direção dos arqui­vos que eu consegui vislumbrar mais além, e uma série de estantes, além das paredes cheias de fotografias. Eles não podem ficar com tudo.

Meus monstros, dissera Roy no próprio funeral, meus companheiros queridos.

Minhas coisas adoradas, dizia Clarence, minha alma, minha vida!

— Não quero morrer — queixou-se Clarence, fechando a porta a seguir.

— Clarence! — insisti, uma última vez. — Conte para mim! Quem são eles? Se eu souber, posso ajudar você. Clarence!

Uma sombra passou pelo pátio.

Uma porta abriu-se parcialmente num chalé vizinho.

Tudo o que pude dizer, exausto, saiu num murmúrio:

— Até logo...

Voltei ao carro. Constance estava sentada ao volante, olhando para as colinas de Hollywood, tentando aproveitar o agradável final de tarde.

— O que houve? — quis saber ela.

— Um maluco, o Clarence. Com relação a outro maluco, Roy. — Pulei no banco ao lado dela. — Muito bem, pode me levar para a fábrica de loucos.

Constance dirigiu em disparada até o portão do estúdio.

— Meu Deus, detesto hospitais — reclamou ela, ao chegar.

— Hospitais?

— Claro, isto aqui está repleto de casos não diagnosticados. Mil be­bês foram concebidos, ou nasceram nessa espelunca. É um sanatório para dementes, loucos de cobiça. Aquele brasão sobre a entrada? Um leão com uma pata acima da outra e as costas quebradas. A seguir: um bode cego sem testículos. Depois: Salomão dividindo um bebê em dois pedaços. Bem-vindo ao necrotério de Green Glades!

— Isso fica do outro lado do muro.

— Então você reparou! Aquilo gelou minha espinha.

Meu passe garantiu nossa passagem pelo portão principal. Ninguém jogou confete. Nenhuma banda nos recebeu.

— Você devia ter dito quem era àquele segurança!

— Reparou nele? Nasceu no dia em que eu saí do estúdio para meu convento. Diga “Rattigan”, e a trilha sonora se apaga. Veja! — Ela apon­tou para onde ficavam os depósitos de filmes. — Minha tumba. Vinte latas num túmulo só. Filmes que morreram em Pasadena, enviados de volta com etiquetas nos dedões. É isso!

Paramos no meio de Green Town, Illinois.

Desci em frente aos degraus da varanda e estendi a mão.

— A casa de meus avós. Bem-vinda!

Constance aceitou minha mão, como uma menininha tímida, e dei­xou que eu a conduzisse pelos degraus para sentar-se na cadeira de ba­lanço da varanda, que nos embalou.

— Meu Deus! — suspirou ela. — Não subo numa destas há muitos anos! Seu filho da mãe! O que está tentando fazer com esta velhinha?

— Desculpe. Não sabia que crocodilos choravam. Ela me encarou.

— Você é mesmo um caso sério! Acredita mesmo nessas coisas que escreve! Marte em 2001? Illinois em 1928?

— Sim, senhora.

— Puxa! Como você tem sorte por ainda estar dentro da sua pele, ingênuo desse jeito. Não mude nunca. — Constance segurou minha mão. — Nós, os estúpidos profetas do Apocalipse, os cínicos de riso solto, precisamos de você. Merlin morre, ou um carpinteiro que está conser­tando a Távola Redonda consegue serrá-la torta, ou o sujeito que lubrifica as armaduras coloca mijo de gato. Mas você precisa viver para sem­pre. Promete?

No interior, o telefone tocou.

Constance e eu demos um pulo. Corri para atender.

— Alô — esperei um pouco. — Alô!

Mas só escutei um som que lembrava o do vento soprando, de uma aparente colina. A pele da minha nuca arrepiou-se para cima e para baixo, como se por ali estivesse passando uma lagarta, com suas perninhas frias.

— Roy?

No interior do telefone o vento ainda parecia soprar e, em algum lu­gar, madeiras rangeram.

Meu olhar elevou-se, como que por instinto, para um lugar alto.

A cem metros de distância, Notre-Dame. Com suas torres gêmeas, seus santos de pedra e suas gárgulas.

Havia vento no alto das torres da catedral. A poeira chegava até lá em cima, e havia também a bandeira vermelha de um operário.

— Essa linha é interna? — indaguei. — Você está onde eu acho que está?

Lá no alto, tive a impressão de ver uma das gárgulas... mover-se.

Oh, Roy, pensei, se é você mesmo, esqueça sua vingança. Fuja. Saia daí.

Mas o vento parou, a respiração parou e o telefone ficou mudo.

Larguei o aparelho e olhei para o alto das torres. Constance viu a direção do meu olhar e examinou as mesmas torres, onde uma nova rajada de vento arrastou os demônios da poeira para baixo e para longe.

— Muito bem, chega de besteiras!

Constance afastou-se da varanda e levantou os olhos para Notre-Dame.

— Que diabos está acontecendo aqui? — gritou ela.

— Psiu! — fiz eu.

- 37 -

Fritz estava no meio de uma tremenda confusão de figurantes gritan­do, apontando e levantando poeira. Aliás, ele carregava um chicotinho de equitação embaixo do braço, porém nunca o vi utilizar-se dele. As câmeras, três delas, estavam prontas, e os assistentes de direção davam ordens para a distribuição dos figurantes ao longo da estreita rua pela qual Cristo apareceria em algum horário antes do amanhecer. No meio da confusão, Fritz avistou-me ao lado de Constance e fez um sinal a seu secretário, que veio correndo. Eu lhe entreguei as cinco páginas do roteiro, e o sujeito voltou, através da multidão.

Fiquei observando enquanto Fritz folheava o que eu havia escrito, de costas para mim. Vi sua cabeça inclinar-se, e depois de um longo momento, ainda sem olhar para mim, apanhou um megafone. Ele gri­tou e instantaneamente obteve silêncio.

— Acomodem-se todos. Aqueles que puderem sentar, sentem-se. Os outros fiquem em pé. A essa hora, amanhã, Cristo já terá ido. E essa é a maneira como o verão depois que acabarmos e vocês forem para suas casas. Escutem.

E leu o roteiro da última cena, palavra por palavra, página por pági­na, numa voz baixa e clara. Nenhuma voz se fez ouvir, e nenhum mús­culo se moveu. Eu não podia acreditar que aquilo estivesse acontecen­do. Todas as minhas palavras sobre o amanhecer no mar, o milagre dos peixes, o fantasma de Cristo ao lado do braseiro na praia, os peixes as­sando em meio às fagulhas agitadas pelo vento, os apóstolos ali em si­lêncio, ouvindo atentamente com os olhos fechados o murmurar da des­pedida do Salvador, o sangue pingando dos ferimentos nos pulsos so­bre os carvões em brasa que preparavam a Ceia depois da Última Ceia.

E finalmente Fritz Wong leu minhas derradeiras palavras.

Houve um levíssimo murmúrio na multidão, e no meio deste silên­cio Fritz finalmente caminhou entre eles até chegar a meu lado; eu es­tava meio cego de emoção.

Fritz olhou surpreso para Constance e cumprimentou-a com um gesto de cabeça. Ficou parado por um instante e retirou o monóculo do olho com movimentos lentos, segurou minha mão direita e depositou a lente na palma de minha mão, como se fosse um prêmio ou uma medalha. Depois fechou meus dedos sobre ela.

— Desta noite em diante — anunciou ele, em voz baixa — você vai enxergar por mim.

Era como uma ordem, ou uma bênção.

Depois ele se afastou. Fiquei ali a observá-lo, com o monóculo aper­tado entre meus dedos trêmulos. Quando Fritz atingiu o centro da mul­tidão silenciosa, apanhou o megafone e gritou:

— Muito bem, façam alguma coisa! Não olhou mais em minha direção. Constance tomou meu braço e levou-me dali.

- 38 -

No caminho para o Brown Derby, Constance, que agora dirigia de­vagar, olhou para as ruas escuras à frente e comentou:

— Meu Deus, você acredita em tudo, não é? Como consegue? Por quê?

— É fácil — respondi. — É só não fazer nada em que eu não acredi­te. Se me oferecesse um trabalho para escrever, por exemplo, um filme sobre prostituição ou alcoolismo, eu não aceitaria. Eu não seria capaz de pagar uma prostituta, e não entendo os alcoólatras. Faço o que gos­to. No momento, graças a Deus, é sobre Cristo na Galiléia, num ama­nhecer de despedida, com suas pegadas na areia. Sou um péssimo ca­tólico, mas, quando ouvi essa cena no Evangelho de João, que aliás, J.C. descobriu para mim, fiquei como que perdido. Como poderia dei­xar de escrevê-la?

— É... — concordou Constance, olhando para mim de tal maneira que tive de apontar para a frente a fim de lembrá-la de que estava ao volante.

— Que diabos, Constance, não é de dinheiro que estou atrás. Se vo­cê me oferecesse Guerra e Paz, por exemplo, eu recusaria. Tolstoi é ruim?

Não. Eu é que não entendo a forma como ele escreve. O defeito está em mim. Mas pelo menos sei que não posso fazer um roteiro quando não gosto. Perderia seu dinheiro se me contratasse. Fim do discurso. E acabamos de passar o Brown Derby — lembrei, ao chegar à esquina.

Tivemos de fazer a volta.

O restaurante estava quase vazio. Não havia nenhum biombo orien­tal na parede traseira.

— Droga! — murmurei.

Pois meus olhos haviam passado por um nicho à esquerda. Nesse nicho havia um telefone, através do qual as reservas eram feitas. Havia também uma lâmpada de leitura sobre uma pequena escrivaninha, na qual algumas horas atrás provavelmente estivera o álbum de Clarence Sopwith.

Bem ali, esperando que alguém o roubasse, para descobrir o endere­ço de Clarence, e...

Meu Deus, pensei, não!

Não? — repetiu Constance, lembrando-me de que falara em voz alta e conduzindo-me ao salão principal.

— Meu jovem — disse ela. — Vamos arranjar uma bebida para você. O maitre estava apresentando a conta a seus últimos clientes. O olho que ele parecia ter na nuca nos avistou, e ele virou-se. Seu rosto irra­diou felicidade ao deparar-se com Constance. Quase imediatamente po­rém, ele percebeu minha presença, e a expressão se desfez. Afinal de contas, eu representava más notícias. E mesmo que eu não fosse o men­sageiro do Apocalipse, eu estivera lá fora na noite em que o Monstro fora abordado por Clarence.

O maitre sorriu novamente e atravessou a sala para nos encontrar pe­lo outro lado, e beijou cada um dos dedos de Constance, com avidez. Constance atirou a cabeça para trás e riu.

— Não adianta, Ricardo, vendi meus anéis há muitos anos.

— Lembra-se de mim? — perguntou ele, surpreso.

— Ricardo Lopez, também conhecido como Sam Kahn? Claro.

— Por outro lado, será que seu nome é mesmo Constance Rattigan?

— Queimei minha certidão de nascimento com minhas calcinhas — respondeu Constance, apontando em seguida para mim. — Esse é...

— Já conheço... — cortou Lopez, ignorando-me. Constance riu novamente, pois ele ainda segurava sua mão.

— Ricardo era o salva-vidas na piscina da MGM. Dúzias de garotas fingiam se afogar todo dia para que ele as reanimasse. Ricardo, mostre o caminho.

— A cozinha está fechada. Mas o vinho está à disposição da grande Constance Rattigan! Eternamente.

— Até a meia-noite já está ótimo.

Sentamo-nos. Eu não conseguia tirar os olhos da parede dos fundos. Lopez percebeu isso e girou com mais força o saca-rolhas no bocal da garrafa.

— Fui só um espectador — disse eu, baixinho.

— Claro, claro — resmungou ele, servindo o vinho para que Cons­tance experimentasse. — Foi aquele outro imbecil.

— O vinho está ótimo — sentenciou Constance, depois de saborear um gole — como você.

Ricardo Lopez quase desmaiou. Deu risada.

— E quem era o outro imbecil? — perguntou Constance, aprovei­tando a vantagem.

— Não era ninguém — respondeu Lopez, parecendo voltar ao cos­tumeiro mau humor. — Tivemos gritos aqui na porta, e quase chega­vam às vias de fato. Meu melhor cliente e um mendigo de rua.

Meu Deus, pensei. Pobre Clarence, esmolando luzes e fama a vida inteira.

— Seu melhor cliente, meu querido Ricardo? — indagou Constance, piscando.

Ricardo deu uma olhada para o biombo oriental dobrado.

— Estou acabado. Não sou muito de chorar. Mas isso? Fui muito cui­dadoso... Durante vários anos. Ele sempre chegava tarde. Esperava na cozinha até que eu verificasse se havia aqui alguém que o conhecia. Difícil, hein? Afinal, eu não conhecia todos os que ele conhecia, certo? E agora, por causa de um vagabundo estúpido, um simples mendigo que passava, meu Grande Senhor provavelmente nunca mais vai voltar. Vai encontrar outro restaurante, mais vazio, para ir mais tarde.

— Este Grande Senhor... — Constance empurrou uma taça para Ri­cardo e fez um sinal para que ele se servisse de vinho — tem nome?

— Não. — Ricardo serviu a bebida, deixando meu copo ainda vazio. — E eu nunca perguntei. Durante muitos anos ele veio pelo menos uma vez por mês, pagando em dinheiro pelos melhores pratos e pelos me­lhores vinhos. Mas, em todos esses anos, não chegamos a trocar mais de três dúzias de palavras por noite. — Lopez fez uma pausa para sor­ver um pequeno gole de vinho. — Ele lia o cardápio em silêncio, apon­tava o que queria, e nós recolocávamos o biombo no lugar. Então ele e sua acompanhante conversavam, bebiam e riam. Quer dizer, quando havia uma dama com ele. Mulheres estranhas. Solitárias...

— Ou cegas — sugeri, inocentemente. Lopes lançou um olhar em minha direção.

— Talvez. Ou pior ainda.

— O que poderia ser pior?

Lopez olhou para sua taça de vinho, depois para a cadeira vazia.

— Sente-se — convidou Constance.

Ele puxou a cadeira, olhando para os lados, e continuou:

— Atormentadas seria um termo mais apropriado. Não sei dizer ao certo. Estranhas, tristes. Uma forma ou outra de invisibilidade, pes­soas feridas, incapazes de rir. Ele as moldava. Era como se para curar sua vida terrivelmente silenciosa ele precisasse deixar os outros num estado de euforia muito peculiar. Ele provava que a vida era uma piada! Imagine só! Provar uma coisa dessas. Depois ele e seu riso sumiam na noite com sua mulher sem olhos, ou sem boca, ou sem mente... gosto de imaginar que eles se divertiam... partiam em táxis algumas noites, ou limusines, sempre de uma companhia diferente. Ele pagava tudo em dinheiro, sem cheques, sem nenhuma possibilidade de identificação, e depois voltavam para o silêncio. Em nenhuma noite cheguei a ouvir a conversa. Se ele olhasse e me visse a cinco metros do biombo, era um desastre. Minha gorjeta? Uma única moeda de dez centavos! Que professor sutil! Na vez seguinte em que ele apareceu, fiquei a dez metros de dis­tância. A gorjeta? Duzentos dólares. Bem, à saúde daquele triste senhor.

Uma súbita rajada de vento sacudiu as janelas. Gelamos. As folhas da porta se abriram, voltaram e por fim pararam.

As costas de Ricardo se empertigaram, enquanto a boca se curvava. Olhava alternadamente para a porta e para mim, como se eu fosse res­ponsável pelo vento noturno.

— Mas que droga, maldito seja — disse ele entre os dentes. — Ele simplesmente sumiu.

— O Monstro? — escutei minha própria voz dizendo. Ricardo olhou diretamente para mim.

— É assim que você o chama? Mas afinal... por que você está de vol­ta? — Lopez serviu mais vinho para Constance, que acenou em direção à minha taça. Ele deu de ombros e serviu um dedo. — Por que ele é tão importante para você, que se dá ao trabalho de vir até aqui destruir minha vida? Eu não podia dizer.

— Até essa semana eu era um homem rico — queixou-se Lopez. Constance imediatamente colocou a bolsa no colo. Sua mão, como um ratinho, deslizou até a cadeira à direita e deixou alguma coisa ali. Ricardo percebeu e sacudiu a cabeça.

— De você não, minha querida Constance. É bem verdade que ele me fez rico, mas certa vez, anos atrás, você me fez o homem mais feliz do mundo.

A mão de Constance acariciou a dele, e os olhos dela brilharam. Lo­pez levantou-se e dirigiu-se para a cozinha, permanecendo cerca de dois minutos antes de retornar. Esperamos, bebericando o vinho e obser­vando a porta da frente mover-se ao sabor do vento noturno. Quando Lopez voltou, olhou ao redor, pelas mesas e cadeiras vazias, como se pudessem criticá-lo por sua falta de profissionalismo ao sentar conosco. Cuidadosamente depositou uma pequena fotografia sobre a mesa. En­quanto a examinávamos, ele terminou sua taça de vinho.

— Foi tirada com uma Polaroid, no ano passado. Um dos estúpidos ajudantes de cozinha queria divertir os amigos dele, sabem como é? Ti­rou duas fotografias em três segundos. Elas caíram no chão. O Mons­tro, como vocês o chamam, destruiu a câmera, rasgou uma das fotogra­fias, pensando que era a única, e bateu no sujeito, que eu tive o prazer de despedir na mesma hora. Não apresentamos a conta naquele dia, e ofereci a ele a última garrafa de nosso melhor vinho. Tudo voltou aos eixos. Mais tarde, encontrei a segunda fotografia embaixo de uma me­sa, onde foi parar enquanto o homem esbravejava e batia no ajudante. Não é uma coisa triste de se ver?

Constance chorava.

— É essa a aparência dele?

— É... — concordei, abatido.

— Como é que ele consegue viver dentro dele mesmo? — admirou-se Constance. Colocou a mão sobre a foto.

— Sempre quis perguntar — confessou Ricardo — por que ele conti­nua a viver. Entende o que quero dizer? Os espelhos que ele tem de enfrentar... Será que ele tem sonhos em que é bonito? Quem é a mu­lher dele? O que faz para viver, e será que é viva? Mas nunca perguntei nada. Simplesmente olhava para as mãos dele, servia o pão, o vinho... Em algumas ocasiões ele me forçava a olhar para o rosto dele. Quando ele dava a gorjeta, esperava que eu levantasse os olhos. Então ele dava aquele sorriso que parecia uma navalha. Já viram brigas em que um homem corta o outro, e o corte fica parecido com uma boca vermelha? A boca do pobre homem era assim, quando me agradecia pelo vinho e aumentava tanto minha gorjeta que eu precisava ver os olhos dele, pre­sos naquele rosto em ruínas, afogando em desespero e querendo libertar-se.

Ricardo piscou e enfiou a fotografia no bolso.

Constance ficou olhando para a toalha, no lugar onde estivera a foto­grafia.

— Vim para ver se conhecia o homem. Graças a Deus não conheço. E a voz dele? Talvez de alguma outra época...

— Não, não — disse Ricardo. — Não adianta mais. Está tudo termi­nado. Aquele fã idiota no outro dia. Foi a única vez, em tantos anos, que aconteceu um encontro assim. Geralmente, àquela hora, a rua fica vazia. Por enquanto, tenho certeza de que ele não vai voltar. E eu vou ter de voltar a morar num apartamento menor. Desculpem esse egoís­mo mesquinho, mas é difícil desistir de gorjetas de duzentos dólares.

Constance assoou o nariz, levantou-se, apanhou a mão de Lopez e depositou algo ali.

— Não discuta — declarou ela. — Foi um ótimo ano, o de 28. É hora de pagar meu adorável gigolô. Fique com isso. — Ele tentou de­volver o dinheiro. — Coragem!

Ricardo balançou a cabeça, levantou-se e levou a mão de Constance até o rosto.

— Foi La Jolla, o mar e o tempo bom?

— Pegando jacaré nas ondas o dia inteiro!

— Claro, e aqueles corpos bonitos, nas ondas quentes. Ricardo beijou cada um dos dedos dela.

— O sabor começa no cotovelo — disse Constance.

Ricardo deu risada. Constance fez-lhe um carinho no rosto e saiu. Deixei que ela fosse até a porta.

Depois voltei-me e olhei para o pequeno nicho, com o telefone, a pe­quena lâmpada e o pequeno arquivo.

Lopez seguiu a direção do meu olhar, e fez o mesmo.

Acho que os dois reagimos no mesmo instante.

Ergui minha mão, num movimento que não chegou a se completar, como se por meio de um passe de mágica pudesse trazer o objeto de volta. Lopez levantou a sua, num movimento defensivo.

Mas o álbum de fotografias de Clarence fora-se para sempre, naquela noite, com as pessoas erradas.

Quem vai proteger Clarence agora?, imaginei. Quem iria salvá-lo da escuridão e tirá-lo vivo da noite em que vivia?

Eu? O garoto que corria cem metros em vinte e sete segundos? O pobrezinho que era vencido pela prima na queda-de-braço?

Crumley? Será que eu ousaria pedir a ele que ficasse a noite inteira do lado de fora da casinha de Clarence? E para quê? E se ninguém apa­recesse, e tudo não passasse de um exagero da minha parte? Cheguei a enxergar a boca de Crumley a curvar-se e os olhos revirando nas órbi­tas. Adiantaria voltar e ficar batendo na porta de Clarence? Você está em perigo, corra!

Não telefonei para Crumley. Nem fui gritar à porta de Clarence Sopwith. Cumprimentei Ricardo Lopez e saí para a noite. Constance, do lado de fora, estava chorando.

— Vamos sair daqui — disse ela.

Esfregou os olhos com um lenço de seda, não muito eficaz.

— Esse maldito Ricardo — soluçou ela. — Me fez me sentir velha. E ainda mostrou a fotografia daquele pobre homem, sem nenhuma es­perança. Aquele rosto...

— Pois é, aquele rosto... — repeti, pensativo. — E Sopwith... Pois Constance estava em pé exatamente no lugar onde Clarence estivera há quatro noites incrivelmente distantes.

— Sopwith? — estranhou ela.

- 39 -

Dirigindo, Constance falou com voz aguda contra o vento: — A vida é como as roupas de baixo, a gente deve trocar umas duas vezes por dia, senão...

— Const...

— Esta noite terminou, e eu prefiro esquecê-la.

Ela limpou as lágrimas dos olhos, virando o rosto para facilitar.

— Eu simplesmente esqueço, é só isso. Lá vão as lágrimas. Lá vão minhas memórias. Vê como é fácil?

— Não.

— Lembra-se das mamacitas naquele apartamento em que você mo­rava dois anos atrás? Lembra-se de como nas noites de domingo elas jogavam os vestidos novos pela janelas para mostrar como eram ricas, que não se importavam e podiam comprar outros? Era uma grande men­tira; atiravam pela janela os vestidos e ficavam olhando do telhado às três horas da manhã, olhando aquele verdadeiro jardim de vestidos, co­mo pétalas de seda levadas pelo vento lá embaixo nos becos. Não era assim?

— Era!

— Eu sou assim. Esta noite no Brown Derby e aquele pobre-diabo vão embora junto com minhas lágrimas. Jogo tudo isso fora.

— Mas esta noite ainda não acabou. Você não pode esquecer aquele rosto. Pelo menos, eu não consigo. Reconheceu o Monstro?

— Meu Deus! Estamos quase tendo nossa primeira briga de verda­de. Eu detestaria perder você. Esqueça esse assunto.

— Você reconheceu o cara?

— Ele estava irreconhecível.

— Mas tinha olhos. Olhos não se disfarçam.

— Esqueça esse assunto! — gritou ela.

— Tudo bem — disse eu. — Deixa para lá.

— Muito bem. — Ela sacudiu a cabeça. Mais lágrimas voaram como pequenos cometas no vento noturno. — Amo você de novo.

O sorriso era varrido pelo vento, os cabelos esvoaçavam na corrente de ar frio que nos fustigava por sobre o pára-brisa.

Todos os ossos de meu corpo pareceram derreter-se naquele sorriso. Meu Deus, pensei, será que ela sempre vencia, todos os dias, a vida inteira, com aquela boca, os dentes bonitos e os grandes olhos inocentes?

— Sempre! — riu Constance, lendo meus pensamentos. — E veja uma coisa.

Ela parou em frente aos grandes portões do estúdio. Olhou para ci­ma por alguns instantes.

— Meu Deus! — exclamou ela, finalmente. — Isso não é um hospital. É onde as idéias dos grandes elefantes vão morrer. Um cemitério de lunáticos.

— Mas isso é do lado de lá do muro, Constance.

— Não, não é. Você morre primeiro aqui, e depois morre lá. Enquanto isso... — Ela levou ambas as mãos à cabeça, como se esta fosse explo­dir. — É loucura. Não entre lá, criança!

— Por quê?

Constance levantou-se lentamente por sobre o volante e gritou em de­sespero para o portão que ainda não estava aberto, as janelas cerradas e as paredes vazias que não se importavam.

— Em primeiro lugar, eles deixam você maluco. Depois, quando você já está louco, perseguem você por falar demais ao meio-dia, ser histérico ao pôr-do-sol e ser um lobisomem sem dentes ao nascer da Lua. — Cons­tance fez uma pausa. — Quando você chega ao grau certo de loucura, eles despedem você, espalhando que você não é razoável, nem coope­rativo, e que não tem imaginação. Papel higiênico, com seu nome im­presso é despachado para todos os estúdios, a fim de que os grandes possam entoar suas iniciais quando forem ao trono papal.

“Quando você já está morto, eles sacodem você para matá-lo outra vez. Então penduram sua carcaça em Bad Rock, OK Corral, ou Versailles, no cenário 10, prendem você num vidro, como se fosse um em­brião num filme de terror de baixa categoria, compram uma tumba ba­rata do outro lado do muro, mandam imprimir seu nome, soletrado errado na lápide, e choram como crocodilos. O que acontece? O final inglório: ninguém se lembra do seu nome nos filmes que você fez em sua época boa. Quem conhece os roteiristas de Rebecca? Quem lembra o autor de E o Vento Levou? Quem ajudou Orson Welles a tornar-se o Cidadão Kane? Pergunte a qualquer um na rua. Que diabos, eles não sabem nem quem era o presidente durante a administração Hoover!

É o que acontece. Esquecido no dia seguinte ao da estréia. Com me­do de ir para casa entre dois filmes. Quem já ouviu falar de um roteirista que conheça Paris, Roma, ou Londres? Todos morrem de medo de viajar, porque os tubarões podem esquecer o nome deles. Como esquecê-los, se não chegaram nem a conhecê-los? Contrate fulano. Cha­me como-é-mesmo-o-nome-dele. O nome que fica embaixo do título? O pro­dutor? Com certeza. O diretor? Talvez. Lembramos que Os Dez Manda­mentos é o filme de DeMille, não de Moisés. Mas O Grande Gatsby de Scott Fitzgerald? Foi pela descarga. Cheirado por um nariz ulcerado.

Quer seu nome em letras grandes? Mate o amante de sua mulher e caia com o cadáver pela escada. Como eu disse, a tela representa um sim­ples bruxulear. Lembre-se de que você é como os espaços brancos en­tre as perfurações do filme no projetor. Já reparou naqueles postes no muro traseiro do estúdio? São para ajudar os saltadores oportunistas que querem entrar na arena de pedra. Dementes imbecis contratam-nos por dez centavos a dúzia. Eles podem ser obtidos com facilidade porque adoram cinema, e nós não. Isso nos dá o poder. Levá-los a beber, de­pois tirar a garrafa, contratar um carro fúnebre, e pedir emprestada uma pá. A Maximus. Um cemitério, como eu. Ah, sim, e para lunáticos.” Mesmo tendo terminado o discurso, Constance permaneceu em pé, como se as paredes altas fossem uma onda enorme, pronta a nos tragar.

— Não entre aí — terminou ela, quase para si mesma. Ouviu-se um aplauso baixinho.

O vigia noturno, por trás dos portões trabalhados, sorria e batia palmas.

— Só vou ficar lá por algum tempo, Constance — disse eu. — Mais ou menos um mês, depois vou para o sul terminar meu livro.

— Posso ir com você? Podemos fazer uma viagem para Mexicali, Calexico, sul de San Diego, até quase Hermosillo, tomando banhos de mar ao luar pelo caminho, nus... Ah, nus não, você de calção.

— Eu gostaria. Mas agora somos eu e Peg, Constance, Peg e eu.

— Bem, eu tentei, que diabos... Me dê um beijo.

Hesitei, mas ela me deu um beijo capaz de aspirar o conteúdo de uma caixa-d'água e depois fornecer água quente. Os portões estavam se abrindo. Dois lunáticos à meia-noite, lá fomos nós.

 

Quando estacionamos na grande praça cheia de soldados e mercado­res, Fritz Wong veio ao nosso encontro em grandes passadas.

— Que droga! Estamos prontos para rodar sua cena, mas aque­le batista bêbado desapareceu. Sabe onde está aquele filho de uma puta?

— Já ligou para Aimeé Semple MacPherson?

— Ela já morreu!

— Ou então para os Holy Rollers. Ou para os universalistas de Manly P. Hall. Ou...

— Mas que diabo! — protestou Fritz. — Já é meia-noite! Esses lugares todos estão fechados. Vamos perder cinqüenta mil dólares se não fil­marmos hoje à noite!

— Já olhou no Calvário? — sugeri. — Às vezes ele vai lá.

— O Calvário? — berrou Fritz, afastando-se. — Dêem uma olhada no Calvário.

— E o jardim de Getsêmani...

— Getsêmani! — Fritz já conversava com um grupo. — Meu Deus, por que isso envenenou Manischewitz? Alguém corra para alugar dois milhões de gafanhotos para a filmagem da praga, amanhã!

Os assistentes dispararam em todas as direções. Também comecei a afastar-me, mas Constance segurou-me o cotovelo. Meus olhos passaram pela fachada de Notre-Dame. Constance percebeu para onde eu estava olhando.

— Não suba lá — sussurrou ela.

— É um lugar perfeito para J.C.

— Mas é tudo fachada, não tem interior. Se tropeçar em alguma coi­sa, cai como uma daquelas pedras que o corcunda atirava na multidão.

— Isso foi no filme, Constance!

— E você acha que isto aqui é real?

Ela estremeceu; eu ansiava por aquela Rattigan que vivia rindo. Fechou os olhos e continuou a falar:

— É que eu vi um movimento agora há pouco; na torre do sino. Tem alguma coisa ali.

— Talvez seja J.C. — sugeri. — Enquanto os outros estão dando uma busca no Calvário, por que eu não vou até lá dar uma olhada?

— Ué, eu pensei que você tivesse medo de altura?

Fiquei observando as sombras que deslizavam pela fachada de Notre-Dame à medida que os jipes passavam por perto.

— Idiota! Vá em frente. Traga Jesus para baixo — resmungou Constance. — Antes que ele fique como uma gárgula. Salve Jesus. — Ela interrompeu-se e riu. — Será que ele pode salvar você?

— Já salvou!

Depois de caminhar cem metros, olhei para trás. Constance aquecia as mãos numa fogueira de legionários romanos.

- 40 -

Fiquei um pouco nas cercanias de Notre-Dame, com medo de duas coisas: entrar e subir. Depois virei-me, surpreso, para sentir o cheiro que parecia haver no ar. Inspirei profundamente e exalei.

— Meu Deus! Incenso! E cheiro de vela! Alguém por aqui andou... J.C.? Claro!

Passei pela porta e estaquei, porque...

Em algum lugar, lá no alto das estruturas, um grande vulto moveu-se.

Apertei os olhos para olhar por entre as armações de lona, as tábuas de compensado e as sombras das gárgulas, tentando divisar qualquer coisa que se movesse na escuridão da catedral.

Quem acendeu o incenso?, pensei. Há quanto tempo o vento teria apagado as velas?

Havia poeira fina suspensa no ar lá em cima.

J.C., se você cair, quem vai salvar o Salvador?, pensei.

Só o silêncio respondeu a meu silêncio.

Portanto...

O covarde número um entre os filhos de Deus teve de subir degrau por degrau na escuridão, com medo de que a qualquer momento os sinos começassem a repicar e provocar minha queda. Fechei os olhos com força e subi.

No alto de Notre-Dame fiquei imóvel por um momento, apertan­do minhas mãos ao ritmo acelerado do coração, arrependido de ter subido, desejando estar ao lado dos legionários romanos, bem ilumi­nados e cheios de cerveja, que sorriam para Rattigan, a rainha visi­tante.

Se eu morrer agora, pensei, ninguém vai escutar.

— J.C.? — chamei baixinho na escuridão. — J.C.? Silêncio.

Contornei uma folha comprida de compensado. Havia mais alguém ali sob a luz das estrelas, uma forma sentada com as pernas pendendo para o lado de fora da fachada da catedral, exatamente onde o sineiro deformado sentara-se, há uma vida inteira.

O Monstro.

Ele olhava para a cidade, para os milhões de luzes que se espalhavam por mil quilômetros quadrados.

Como teria ele chegado até ali?, imaginei. Como teria passado pelo guarda no portão, ou... por onde? Claro, por sobre o muro. A escada apoiada no muro do cemitério!

Escutei um martelo de carpinteiro golpeando. Um corpo sendo ar­rastado. A tampa de uma arca sendo fechada. Um fósforo se inflaman­do. Um incinerador sendo aceso.

Inspirei profundamente. O Monstro escutou. Voltou-se para me encarar.

Tropecei e quase caí pela borda da catedral. Agarrei uma das gárgulas.

Instantaneamente, o Monstro levantou-se.

A mão dele agarrou a minha.

Não caí.

Por um instante hesitamos no rebordo da catedral. Vi os olhos dele, com medo de mim. Ele viu os meus, com medo dele.

Então ele retirou a mão, como se a tivesse queimado com a surpresa. Recuou rapidamente e permanecemos meio agachados.

Encarei aquele rosto temível, os olhos eternamente aprisionados, em pânico, sobre a boca que parecia uma ferida, e pensei:

“Por quê? Por que me segurou? Por quê não me empurrou? Foi você quem usou o martelo, não foi? Quem veio destruir a hedionda cabeça de argila que Roy esculpiu? Ninguém mais poderia ter sido tão violen­to! Por que, então, me salvou? Por que estou vivo?”

Não havia nenhuma resposta. Um ruído se fez ouvir lá embaixo. Al­guém estava subindo a escada.

O Monstro deixou escapar um som sibilante:

— Não!

E fugiu pelo rebordo elevado. Seus pés pisaram sobre tábuas soltas. Uma nuvem de poeira caiu através da escuridão da catedral.

Mais ruídos provocados por quem subia. Segui em direção ao cami­nho de fuga do Monstro, na direção da outra escada. Ele voltou-se para trás ainda uma vez. Os olhos! O que havia de peculiar sobre eles?

Eram ao mesmo tempo diferentes e iguais, aterradores e resignados, num momento pareciam focalizados, e, no instante seguinte, confusos. A mão elevou-se no ar escuro. Por um instante achei que ele iria cha­mar, gritar, ou dar um berro. Mas seus lábios deixaram escapar um som rouco e engasgado. Em seguida escutei os pés dele descendo os degraus e afastando-se do mundo irreal lá de cima, em direção a um mundo mais irreal ainda abaixo de nós.

Continuei a perseguição. Meus pés deslocaram gesso e poeira, que escorreram como areia numa enorme ampulheta, depositando-se lá embaixo, próximo à pia batismal. As tábuas rangiam e oscilavam sob meu peso. Uma rajada de vento balançou a estrutura de lona ao meu redor, produzindo um rumor como o ruflar de asas imensas. Quando dei por mim, já estava descendo pela escada que balançava, cada oscilação provocando um grito de alarme ou uma imprecação entre os dentes. Meu Deus, eu e ele, aquela coisa na escada, pensei. Fugindo do quê?

Olhei para o alto, distinguindo as gárgulas ao longe, e percebi que estava descendo sozinho pela escada, a pensar: “E se ele estiver espe­rando por mim lá embaixo?”

Gelei. Olhei para baixo. Minha outra metade, a covarde, bombeou mais sangue para meus pulsos e joelhos.

Se eu cair, pensei, vai demorar um ano até chegar ao chão. Para essas ocasiões, eu só conhecia um santo. O nome brotou de meus lábios:

— Crumley!

Segure-se bem, aconselhou Crumley, do fundo da minha cabeça. Res­pire fundo seis vezes.

Inspirei, e o ar recusou-se a sair de minha cabeça. Mais calmo, relanceei o olhar pelas luzes de Los Angeles, distribuídas pelas ruas ilu­minadas e pelo trânsito, repletos de pessoas bonitas e cheias de vida, e eu aqui sem ninguém para me ajudar a descer. E as luzes? Não iriam apagar-se uma a uma?

A distância, nos limites do mundo, pensei divisar uma grande maré negra movendo-se em direção a um litoral inatingível.

Pegar jacaré, dissera Constance.

Aquilo pareceu injetar-me novas forças. Comecei novamente a des­cer, de olhos fechados, sem olhar outra vez para o abismo, até chegar ao solo e permanecer ali, esperando a qualquer momento ser apanhado e destruído pelo Monstro, que teria as mãos estendidas para apanhar-me, e não para salvar-me.

Porém não havia nenhum Monstro. Apenas a pia batismal vazia, abri­gando uma boa quantidade de poeira da catedral, as velas apagadas e o incenso queimado.

Olhei para cima ainda uma vez, admirando o lado traseiro da fechada de Notre-Dame. Quem quer que estivesse subindo, já teria alcançado o topo.

A meio continente de distância, uma multidão descia a colina do Cal­vário, lembrando o final de uma reunião esportiva num sábado à tarde. J.C., pensei, se não está aí, onde está?

- 41 -

Quem quer que tivesse ido ao Calvário não procurara direito. As pes­soas já haviam partido, e no momento a colina parecia vazia sob a luz das estrelas. O vento levantava uma nuvem de poeira por ali, em volta das bases da três cruzes, que davam a impressão de estar naquele local muito antes que o estúdio fosse construído ao redor delas.

Corri até o pé da cruz maior. Não conseguia enxergar nada lá em cima, porque a noite estava escura de verdade. Distinguia-se apenas um brilho ocasional do local onde Herodes Antipas reinava, Fritz Wong esbravejava, e os romanos marchavam numa grande nuvem de cerveja desde o prédio da Maquiagem até a praça do Tribunal.

Toquei a cruz, oscilei sobre os pés e chamei, olhando para o alto:

— J.C.! Silêncio.

Tentei novamente, com voz trêmula.

Um tufo de capim passou rolando, conduzido pelo vento, enveredando por uma rua mais adiante.

— J.C.! — berrei.

Finalmente uma voz se fez ouvir da escuridão acima.

— Não tem ninguém com esse nome nessa rua, nessa colina, e mui­to menos no alto dessa cruz — murmurou tristemente a voz.

— Quem quer que esteja aí, pode descer!

Estiquei a mão, tateando para procurar degraus, com medo da escu­ridão ao meu redor.

— Como conseguiu subir aí em cima?

— Existe uma escada, e além do mais eu não estou pregado. Só es­tou segurando na madeira e apoiado no descanso para os pés. É muito sossegado e pacífico aqui em cima. Algumas vezes fico até nove horas, para expiar meus pecados.

— J.C.! — exclamei com o rosto voltado para cima. — Não posso ficar aqui. Tenho medo!

— Estou tão cheio da sujeira dos pecados da carne que jamais serei capaz de me livrar de tudo. Não está vendo os pecados caindo como penas daqui de cima? Além disso, eu me confesso todos os dias. Tenho dez mil mulheres para descarregar. Forneço as medidas exatas dos tra­seiros, do seios, das virilhas, e digo como gemiam, até que o padre fica suando frio no confessionário. Se não posso mais escalar meias de se­da, pelo menos aumento tanto a pulsação dos sacerdotes que o colari­nho deles dá a impressão de que vai arrebentar. De qualquer forma, estou aqui no alto, fora do caminho do mal. Observando a noite que me observa.

— Também está me vendo, J.C.? Tenho medo do escuro nas ruas que conduzem para cá, e de Notre-Dame também. Acabei de sair de lá.

— Fique longe daquele lugar — recomendou ele, com súbita vee­mência.

— Por quê? Andou observando as torres esta noite? Viu alguma coisa?

— Simplesmente não vá até lá, só isso. Não é seguro. Sei disso, pensei. Olhei ao redor e perguntei:

— O que mais você enxerga daí, de noite ou de dia, J.C.? Ele voltou a cabeça para as sombras e respondeu em voz baixa:

— O que você acha que haveria para ser visto num estúdio vazio, tarde da noite?

— Muito!

— É verdade — concordou ele, abrangendo toda a área com um mo­vimento de cabeça. — Muito espaço vazio!

— Na noite do Dia das Bruxas, será que você não andou avistando uma escada no alto daquele muro? — insisti, apontando uns cinqüenta metros para o norte. — E um homem tentando passar para o lado de cá?

J.C. olhou para o muro.

— Estava chovendo naquela noite — afirmou ele, levantando o rosto para o céu como se fosse sentir uma chuva imaginária. — Quem seria louco suficiente para subir ali no meio de uma tempestade?

— Você.

— Não, senhor. Não estou aqui nem mesmo agora! — declarou J.C.

Ele estendeu os braços, agarrou as traves da cruz, inclinou a cabeça para a frente e cerrou os olhos.

— J.C.! Estão esperando por você no Estúdio 7! — insisti, meio desesperado. — Tenho medo de que o Fritz enlouqueça!

— Deixe que esperem.

— Cristo não se atrasou, que droga! O mundo chamou. E Ele veio.

— Você não acredita mesmo nessa baboseira, acredita?

— Claro que acredito! — Fui surpreendido pela minha própria vee­mência, ao gritar a resposta para o alto, das pernas até a cabeça coroada de espinhos.

— Bobo.

— Não sou, não! — Tentei imaginar o que Fritz diria se estivesse presente, mas como estava sozinho, acabei dizendo: — Nós chegamos, J.C. Nós, os pobres e estúpidos seres humanos. Se fomos nós ou Cris­to, isso não tem a mínima importância, é a mesma coisa. O mundo, ou Deus, precisava que víssemos o mundo e o conhecêssemos. Por isso viemos! Mas logo nos confundimos e nos esquecemos de como éramos maravilhosos, e não conseguimos nos perdoar por produzir tanta con­fusão. Portanto, Cristo veio, depois de nós, para dizer o que deveríamos saber: perdão. Continuem com seu trabalho. Isso significa que a vinda de Cristo se confunde com nossa chegada. E continuamos chegando por dois mil anos, um número cada vez maior de nós, a maioria com ne­cessidade de perdoar a si mesmos. Eu ficaria imóvel para sempre se não fosse capaz e perdoar as besteiras que já fiz na vida. No momento você está aí no alto, odiando a si mesmo, e permanece na cruz porque é uma mula de teimoso, dramático e sem força de vontade. Agora desça daí antes que eu suba para morder seus tornozelos sujos!

Houve um som como se um grupo de focas estivesse latindo dentro da noite. J.C., atirando a cabeça para trás, sorvia o ar para recuperar o fôlego.

— Que belo discurso para um covarde!

— Não tenha medo de mim, moço! Cuidado com você, Jesus Cristo!

Senti uma gota de chuva atingindo minha bochecha.

Mas não era. Toquei a bochecha e provei a ponta do dedo. Sal.

J.C. inclinava-se para baixo.

— Que coisa! Você se importa mesmo. — Ele parecia realmente sur­preso com o fato.

— Pode apostar que sim. E, se eu sair daqui, Fritz Wong vai vir, de chicotinho em punho.

— Não tenho medo da chegada dele. Só de sua partida.

— Ótimo, então pode descer. Por mim!

— Por você — repetiu ele baixinho.

— Você está aí no alto. O que está enxergando no Estúdio 7?

— Parece uma fogueira. É, sim.

— Aquilo é o braseiro, J.C. — Estendi a mão para tocar a base da cruz, continuando a falar com suavidade para o vulto lá no alto. — Quan­do a noite estiver acabando, e o barco chegando à margem depois do milagre dos peixes, Simão Pedro vai caminhar pela areia com Tomás, Marcos, Lucas e todos os outros para o braseiro de peixes assando. É a...

— Ceia depois da Última Ceia — completou J.C. do alto da cruz, recortado contra as constelações de outono. Eu conseguia distinguir Órion por sobre o ombro dele. — Você escreveu?

Ele agitou-se. Aproveitei para continuar baixinho.

— E digo mais! Tenho agora um final, para você, que nunca foi feito antes. A Ascensão.

— Não pode ser feito — resmungou J.C.

— Escute só: Quando chega a hora da partida, Cristo toca cada um de seus apóstolos e caminha ao longo da praia, afastando-se da câmera. A câmera estará bem baixa, perto da areia, e vai dar a impressão de que Cristo está subindo uma longa colina de encostas suaves. Ao nas­cer do sol, enquanto Cristo se move em direção ao horizonte, a areia dá a ilusão de queimar. Como as estradas nos desertos, quando o ar fica tremulando com as miragens, e as cidades imaginárias se levantam e somem. Pois quando Cristo tiver quase atingido o alto da duna de areia, o ar começa a vibrar de calor. A silhueta dele se dissolve em áto­mos. E Cristo se vai. As pegadas que ele deixou na areia são desman­chadas pelo vento. É a segunda Ascensão, logo depois da Ceia depois da Última Ceia. Os discípulos choram e se movem para todas as cida­des do mundo, para orar e perdoar os pecados. E, enquanto começa o novo dia, as pegadas deles são varridas pelo vento. FIM.

Aguardei, escutando as batidas de meu próprio coração. J.C. também ficou imóvel durante algum tempo, depois declarou com suavidade:

— Estou descendo.

- 42 -

Havia um vasto halo de luminosidade vindo do cenário externo, on­de os figurantes, o braseiro com os peixes e Fritz, o Louco, esperavam.

Uma mulher estava no início da rua à medida que eu e J.C. nos aproximávamos. O corpo era uma silhueta escura delineada pelos holofotes mais adiante.

Avistando-nos, ela correu em nossa direção e estacou ao deparar-se com J.C.

— Que coisa! — exclamou ele. — É Rattigan!

Os olhos de Constance iam da figura dele para a minha, depois re­tornavam, desconcertados.

— O que faço agora? — perguntou ela.

— O que...

— Foi uma noite maluca. Chorei uma hora atrás por causa daquela foto patética, e agora... — Os olhos dela fixaram-se em J.C. — Sem­pre quis encontrar você, a vida inteira. E agora você está aqui. — O peso de tais palavras fez com que ela caísse de joelhos. — Me abençoe, Jesus.

J.C. recuou como se estivesse diante de uma legião de mortos.

Levante-se, mulher!

— Me abençoe, Jesus — murmurou ela novamente, quase para si mesma. — Oh, Senhor, é como se eu tivesse sete anos outra vez, com meu vestido branco de primeira comunhão. É domingo de Páscoa, e o mundo ainda é bom, antes de tornar-se mau.

— Levante-se, mulher! — pediu ele, com voz mais suave. Porém, ela não se moveu. Em vez disso cerrou os olhos, esperando. Os lábios formulavam o pedido sem emitir som: me abençoe. Finalmente J.C. estendeu lentamente a mão, forçado a aceitar, fazendo-o com delicadeza, e colocando a palma no alto da cabeça dela. A suave pressão fez com que mais lágrimas escorressem pelo rosto de­la, e a boca tremesse. As mãos de Constance pousaram sobre a dele, prolongando o toque por um instante mais.

— Criança, eu a abençôo — disse J.C., com suavidade.

E, vendo Constance Rattigan ajoelhada ali, pensei nas ironias deste mundo perdido. Senso católico de culpa mais a dramaticidade do ator.

Constance levantou-se e, ainda com os olhos semicerrados, voltou-se e caminhou na direção da esteira de brasas brilhantes que a aguardava.

Não podíamos fazer nada além de segui-la.

Uma multidão estava reunida. Todos os figurantes que haviam apa­recido em cenas filmadas mais cedo naquela noite, mais os executivos do estúdio, além de simples curiosos. Ao nos aproximarmos, Constan­ce moveu-se para o lado com a graça de quem acabara de perder qua­renta quilos. Imaginei quanto tempo ela poderia permanecer como uma garotinha.

Ao atingirmos as luzes, divisei do outro lado do braseiro, Manny Leiber, Doc Phillips, e Groc. Os olhares deles me fixavam tão intensamente que fiquei para trás, temeroso de assumir o crédito por encontrar o Mes­sias, salvando o Salvador, e diminuir os custos daquela noite.

Os olhos de Manny estavam cheios de desconfiança, os de Doc desti­lavam veneno, e os de Groc recendiam bons fluidos alcoólicos. Talvez eles tivessem vindo para ver Cristo e eu assando no braseiro. De qual­quer forma, enquanto J.C. movia-se decidido para a luz, Fritz recobrava-se de seu mais recente ataque, piscando com ar de míope na direção do ator.

— Já era tempo! Estávamos quase desmontando o churrasco. Monóculo!

Ninguém se moveu. Alguns olharam ao redor.

— Monóculo! — repetiu Fritz.

Só então me dei conta de que ele desejava a lente que tão cerimoniosamente me entregara, horas atrás.

Avancei, coloquei o monóculo na palma da mão estendida e recuei enquanto ele enfiava a lente no olho como se enfiasse uma bala no carregador. Encarou J.C. e expeliu todo o ar dos pulmões.

— Chama a isso de Cristo! Parece mais Matusalém. Vá passar na pe­le um pó tom número trinta e três e acertar a linha do maxilar. Que droga! Já é hora do intervalo da meia-noite. Mais demoras, sempre mais demoras... Com ousa chegar aqui atrasado desse jeito? Quem está pen­sando que é?

— Cristo — respondeu J.C., com o tom adequado de modéstia. — E não se esqueça disso.

— Levem esse sujeito daqui! Maquiagem! Intervalo para jantar! To­dos de volta aqui em uma hora! — berrou Fritz, colocando seu monóculo, em minha medalha, em minhas mãos. Permaneceu a observar o braseiro, como se pretendesse pular lá dentro.

Enquanto essa cena se desenrolava, a alcatéia permanecia do outro lado do braseiro, Manny contando os dólares perdidos, como se as no­tas caíssem aos maços no braseiro, o bom Doc cocava seu bisturi com a mão enfiada no bolso, e Groc sorria seu sorriso permanente de Conrad Veidt, que parecia esculpido sobre o queixo, em sua pele de melão. No momento, todos esses olhares se deslocavam para J.C., de forma terrível e condenadora.

Era como um pelotão de fuzilamento disparando sem cessar.

J.C. cambaleou como se tivesse sido atingido.

Os auxiliares de Groc estavam a ponto de levar J.C. dali, quando...

A coisa aconteceu.

Ouviu-se um silvo agudo, como se uma única gota de chuva tivesse caído sobre os carvões.

Todos olhamos para baixo e depois para cima...

Para J.C., cujas mãos estavam estendidas sobre as brasas. Ele obser­vava com grande curiosidade os próprios pulsos.

Estavam sangrando.

— Meu Deus! Façam alguma coisa! — gritou Constance.

— O quê? — perguntou Fritz.

— Filmem a cena — sugeriu J.C., calmamente.

— Não, que diabo! — disse Fritz. — João Batista, sem a cabeça, ti­nha uma aparência melhor do que a sua.

— Nesse caso... — J.C. olhou para onde estavam Stanislau Groc e Doc Phillips, parecendo o alegre elfo Punch e o tenebroso Apocalipse. — Nesse caso, deixem que eles me costurem até a hora de filmar a pró­xima cena.

— Como você é capaz de fazer uma coisa dessas? — indagou Cons­tance, olhando para os pulsos dele.

— Vem junto com o texto — respondeu ele, voltando-se a seguir pa­ra mim: — Vá fazer algo de útil.

— E leve essa mulher com você — pediu Fritz. — Não a co­nheço!

— Conhece, sim — protestou Constance. — Laguna Beach, 4 de ju­lho de 1926.

— Isso foi em outro país, numa outra época. — Fritz deu a impres­são de fechar uma porta invisível.

— É verdade — admitiu ela, como um bolo que murchasse. — Foi mesmo.

Doc Phillips chegou ao lado do pulso esquerdo de J.C. Groc alcan­çou o direito.

J.C. nem se deu ao trabalho de olhar para eles; seus olhos estavam fixos no céu.

A seguir estendeu os braços de forma a mostrar para todos seus es­tigmas recentes.

— Cuidado — recomendou ele.

Saí de perto da luz. Uma garotinha me seguiu, tornando-se mulher no caminho.

- 43 -

— Para onde estamos indo agora? — quis saber Constance.

— Eu? Pretendo voltar no tempo. E sei que quem lida com a Moviola pode fazer isso acontecer. Quanto a você? Vai ficar aqui, tomando café e comendo sonhos. Fique sentadinha. Volto daqui a pouco.

— Se eu não estiver aqui — disse Constance, sentando numa das me­sas externas dos figurantes, já com uma rosquinha na mão —, pode me procurar no ginásio masculino.

Continuei sozinho, no escuro. Eu estava ficando sem lugares para ir, para procurar. No momento, eu me dirigia para o único lugar na pro­priedade onde nunca estivera. Lá, podia encontrar dias passados, ou o fantasma escondido de Arbuthnot, ou eu mesmo, ainda menino, va­gando em frente ao estúdio ao meio-dia.

Caminhei.

Subitamente, desejei não ter deixado para trás o que restara da risada de Constance Rattigan.

Tarde da noite, um estúdio cinematográfico fala consigo mesmo. Nas salas de montagem dos andares superiores, ouvem-se zunidos, catracas, sons ásperos e conversa nos intervalos até as duas ou três da manhã, e, quando se caminha pelas ruas escuras, pode-se escutar as bigas correndo pelo ar, ou o murmurar das areias no deserto assombrado de Beau Geste, ou o tráfego confuso de Champs Elysées com suas buzinas e imprecações em francês, ou as cataratas do Niágara derramando-se das caixas do estúdio diretamente nos reservatórios, ou a última corri­da de Barney Oldfield, disparando sua metralhadora ao som dos gritos das multidões sem rosto em Indianápolis. Um pouco adiante, caminhan­do na escuridão, alguém solta os cães de guerra e podem-se escutar os ferimentos de César a surgir como botões de rosa em sua toga, ou Churchill atiçando as esquadrilhas, enquanto o Sabujo uiva pelas charnecas; o pessoal da noite trabalha nessas horas de pouca luz porque pre­fere a companhia das Moviolas, das telas bruxuleantes de vidro despolido e dos close-ups às pessoas desamparadas sob o sol do meio-dia, apar­valhadas pela realidade do lado de fora dos muros. É como uma colisão de vozes enterradas e músicas perdidas, muito depois da meia-noite, aprisionada numa nuvem do tempo entre os prédios, transitando pelas portas e janelas abertas lá no alto, enquanto as sombras dos montado­res se inclinam sobre esses encantamentos nos sótãos imersos na pe­numbra. Só ao amanhecer as vozes e a música cessam, enquanto os sor­ridentes cortadores voltam para casa tentando evitar o trânsito dos que vivem no mundo real, e chegam para trabalhar às seis horas da manhã. Somente às cinco da tarde as vozes e músicas novamente se elevam, sua­ves ou tumultuadas, ao refletir do brilho suave da Moviola nos olhos dos que a observam, sempre com lâminas prontas entre os dedos le­vantados.

Era numa rua entre esses prédios, perseguido pelos sons e músicas que vinham do alto, que eu agora corria, com Hitler esbravejando num prédio à direita, e soldados russos lançando a voz ao vento leste, alto e suave.

Parei e olhei para cima, em direção...

À sala de Maggie Botwin. A porta estava aberta.

— Maggie! — gritei.

Silêncio.

Subi as escadas em direção ao cintilar de luz e ao matraquear da Mo­viola que acompanhavam o piscar das sombras no teto alto.

Fiquei por um longo momento ali na noite, admirando o único lugar do mundo em que a vida era cortada, organizada, depois separada no­vamente. Onde se continuava a refazer a vida até que se conseguisse a proporção correta. Encarava-se a pequena tela da Moviola, como se fosse um motor de popa que acelerasse com um clique para cada per­furação do filme, parando e prosseguindo a nosso bel-prazer. Depois de observar a Moviola durante meio dia naquela penumbra subterrâ­nea, quase se chegava a acreditar que quando saíssemos a vida real po­deria ser montada da mesma forma, retirando as inconsistências debilóides, com a promessa de que todos se comportassem melhor dali pa­ra a frente. Operar a Moviola por algumas horas encoraja o otimismo, pois se podem rever as besteiras cometidas, e podá-las. Contudo, de­pois de algum tempo, aparece a tentação de não voltar mais à luz do dia.

Naquele momento, à porta de Maggie Botwin, com a noite às mi­nhas costas e a grota acolhedora à frente, eu observava aquela mulher extraordinária curvada sobre o aparelho como uma costureira que re­mendasse padrões de luzes e sombras, enquanto o filme passava por seus dedos finos.

Arranhei a porta de tela com os dedos.

Maggie levantou os olhos de seu brilhante poço dos desejos, franzin­do o cenho para poder enxergar através da tela, depois deu um grito alegre.

— Puxa vida! Essa é a primeira vez em quarenta anos que um roteirista põe os pés aqui. Seria de imaginar que os bobalhões se sentiriam curiosos sobre como eu aparo seus cabelos, ou encurto as costuras in­ternas. Espere um pouco!

Ela abriu a porta e me fez entrar. Como um sonâmbulo, caminhei até a Moviola e a examinei, piscando. Maggie me testou:

— Lembra-se dele?

— Erich Von Stroheim — respondi, surpreso. — Esse filme foi feito aqui, em 1921. Foi perdido.

— Pois eu o encontrei!

O estúdio sabe disso?

— Aqueles filhos da mãe? Não! Nunca deram valor ao que tinham!

— Tem o filme inteiro?

— Tenho! O Museu de Arte Moderna vai ficar com tudo, assim que eu morrer. Dê uma olhada!

Maggie tocou um conjunto de lentes fixo à Moviola, que projetava as imagens na parede. Von Stroheim caminhava com andar ereto e garboso ao longo de Wainscot.

Maggie retirou Von Stroheim e preparou-se para colocar outro carretel.

Enquanto ela se movia, inclinei-me subitamente para a frente. Ob­servei uma pequena embalagem verde de filme, diferente das outras, no canto da bancada, ao lado de duas dúzias de outras latas.

Não havia rótulo, simplesmente um desenho a tinta na tampa, representando um dinossauro bem pequeno.

Maggie percebeu meu olhar.

— O que foi?

— Há quanto tempo você tem esse filme?

— Você o quer? Esse foi o teste que seu amigo Roy deixou aqui três dias atrás para revelar.

— Chegou a dar uma olhada nele?

— Você não? O estúdio fez uma besteira ao despedi-lo. Qual era mes­mo o pretexto? Ninguém disse. Só tem trinta segundos de filme nesse rolo, mas foram os melhores trinta segundos que já vi. Melhor que Drácula ou Frankenstein. Puxa, o que eu entendo dessas coisas?

Minha pulsação se acelerou ao apanhar o filme e colocá-lo no bolso.

— Muito simpático, o Roy — comentou Maggie, colocando outro car­retel em sua Moviola. — Se me dessem uma escova, eu era capaz de polir os sapatos dele. Agora mesmo.

— Quer ver a única cópia existente de Lírio Partido? As cenas que faltam em O Circo? O rolo censurado de Perigo Bem-vindo, de Harold Lloyd? Puxa, tem um bocado de coisas aqui. Eu podia...

Maggie parou, como se estivesse embriagada com seus filmes do pas­sado e com a atenção que eu lhe dedicava.

— É, acho que posso confiar em você. — Ela fez uma pausa. — Lá vou eu de novo, falando sem parar. Você certamente não veio aqui para ver uma velha galinha botar ovos de quarenta anos de idade. O que hou­ve? O que tornou você o único roteirista a subir essa escada?

Arbuthnot, Clarence e o Monstro, pensei. Só que não podia dizer isso.

— O gato comeu sua língua? Não faz mal, eu espero. Onde é que eu estava? Ah, sim!

Maggie Botwin abriu uma grande porta de correr. Havia no interior do arquivo pelo menos quarenta embalagens de filmes acondicionadas em cinco prateleiras, ostentando os títulos nas laterais.

Ela depositou uma delas em minhas mãos. Examinei as letras gran­des na borda: Juventude Louca.

— Não. Dê uma olhada nas letras pequenas impressas na parte de trás — instruiu ela.

— Intolerância!

— Na minha própria versão sem cortes — esclareceu Maggie, rindo. — Eu ajudei Griffith. Um bocado de material ótimo foi cortado. Sozi­nha, eu incluí o que estava faltando. Essa é a única versão completa de intolerância que existe! E veja só isso aqui!

Rindo como uma menininha numa festa de aniversário, ela apanhou Órfãos da Tempestade e Londres Depois da Meia-Noite.

— Trabalhei nesses filmes, ou fui chamada para remontá-los. De madrugada, fiz cópias para mim! Está pronto? Aqui estão.

Ela colocou uma lata com a etiqueta Ouro e Maldição em minhas mãos.

— Nem mesmo Von Stroheim tem essa versão de vinte e quatro horas!

— Por que os outros montadores não pensam em fazer a mesma coisa?

— Porque eles são galinhas, e eu sou um cuco — explicou Maggie Botwin. — No ano que vem, vou embarcar estes para o museu, com uma carta de doação. Os estúdios vão entrar com uma ação, mas os filmes estarão a salvo daqui a quarenta anos.

Sentei na penumbra e assombrei-me com cada carretel que examinava.

— Meu Deus! — exclamava eu, sem cessar. — Como é que conseguiu enganar todos esses filhos da mãe?

— Foi fácil — declarou Maggie, com a franqueza de um general exa­minando seus soldados. — Eles foderam os diretores, redatores, todo o mundo. Mas precisavam de uma pessoa para fazer a limpeza depois de rejeitar material de primeira. Assim, nunca colocaram um dedo em mim enquanto pisavam nos sonhos de todo o mundo. Achavam que o amor era suficiente. E, por Deus, como fizeram amor. Mayer, os War­ner, Goldfish Goldwyn comiam e dormiam cinema. Mas não foi o bas­tante. Eu discuti com eles, briguei, arrazoei, bati portas. Eles corriam atrás, sabendo que eu amava mais do que eles podiam. Perdi tantas batalhas quantas ganhei, então resolvi ganhar todas. Uma por uma, sal­vei as cenas cortadas. Não tudo. A maioria dos filmes ganharia prêmios entregues por marcas de sabão em pó. Mas, cinco ou seis vezes por ano, um roteirista escrevia de verdade, ou um Lubitsch adicionava seu toque de gênio, e esses eu escondia. Portanto, ao longo dos anos, eu...

— Salvou obras-primas! Maggie riu.

— Sem exagero! São só filmes decentes, alguns engraçados, alguns sentimentais. E todos estão aqui hoje. Você está cercado por eles.

Deixei que aquelas presenças me invadissem, senti aqueles “fantas­mas” e respirei fundo.

— Ligue a Moviola — disse eu. — Nunca mais vou querer voltar para casa.

— Certo — concordou Maggie, abrindo mais portas. — Está com fome? Pois pode comer!

Olhei e li:

A Marcha do Tempo, 21 de junho, 1933. A Marcha do Tempo, 20 de junho, 1930. A Marcha do Tempo, 4 de julho, 1930.

Não — disse eu.

Maggie interrompeu seu gesto.

— Não existia A Marcha do Tempo em 1930 — afirmei.

— Muito bem! O rapaz é um perito!

— Não são carretéis de A Marcha do Tempo. É um disfarce. Para quê?

— Meus próprios filmes caseiros, que fiz com minha câmera de oito milímetros e escondi sob esses títulos.

Tentei não reagir depressa demais.

— Isso quer dizer que você filmou toda a história do estúdio?

— Em 1927, 1928, 1930, é só escolher o ano! Tenho Scott Fitzgerald bêbado na cantina, George Bernard Shaw no dia em que requisi­tou toda a área, Lon Chaney na maquiagem, reconstruindo o dia que mostrou aos irmãos Westmore como ele mudava de rosto! Morreu um mês depois disso. Um homem incrivelmente caloroso. William Faulkner, um escritor bêbado, mas muito educado, coitado... Velhos filmes, velhas histórias. É só escolher!

Meus olhos procuraram entre as datas e pararam. Escutei o ar sendo expulso de minhas narinas.

Quinze de outubro de 1934. Duas semanas antes da morte de Arbuthnot, o presidente do estúdio.

— Aquele.

Maggie hesitou, retirou o carretel, colocou o filme na Moviola e acio­nou o aparelho.

Estávamos olhando para a entrada principal da Companhia Cinematográfica Maximus, numa tarde de outubro de 1934. As portas estavam fechadas, mas era possível distinguir-se vultos através do vidro. Então as portas se abriram e duas ou três pessoas saíram. No meio estava um homem alto e corpulento, rindo com os olhos fechados, a cabeça volta­da para o céu e os ombros sacudindo-se com a gargalhada. Os olhos eram apenas frestas, tão feliz parecia o homem. Sorveu uma golfada de ar, uma das últimas de sua vida.

— Conhece esse homem? — indagou Maggie. Olhei para aquela tela meio brilhante, meio escura.

— Arbuthnot.

Toquei o vidro despolido como quem tocasse uma bola de cristal que não captasse o futuro, mas somente os traços desbotados do passado.

— Arbuthnot. Morto no mesmo mês em que você fez esse filme.

Maggie voltou um pouco o filme, e a ação recomeçou. Os três ho­mens saíram novamente, rindo, e Arbuthnot sorriu para a câmera na­quela tarde distante e surpreendentemente feliz.

Maggie percebeu algo em minha expressão.

— Bem... Desembuche.

— Eu o vi esta semana — declarei.

— Balela! Andou fumando aqueles cigarros esquisitos?

Maggie avançou três fotogramas. Arbuthnot levantou mais alto a ca­beça contra um céu encoberto. Agora ele acenava para alguém fora da imagem. Arrisquei:

— No cemitério, na noite do Dia das Bruxas, havia um espantalho feito de armação de arame, com uma máscara de papel machê com o rosto dele.

Agora o Duesenberg de Arbuthnot estacionava no meio-fio. Ele aper­tou as mãos de Manny e Groc, prometendo-lhes anos melhores. Mag­gie não olhava para mim, mas apenas para as imagens claro-escuras abaixo.

— Não acredite em nada na noite do Dia das Bruxas.

— Outras pessoas também viram. Alguns correram assustados. Manny e alguns outros têm andado como se estivessem num campo minado desde esse dia.

— Balelas outra vez! — resmungou Maggie. — Que outras novida­des você tem? Deve ter reparado que eu fico na Sala de Projeção ou aqui, onde o ar é tão rarefeito que eles têm medo de sangrar pelo nariz se subirem. É por isso que eu gosto do maluco do Fritz. Ele filma até a meia-noite, eu monto até o dia raiar. Depois nós dois hibernamos. Quando o longo inverno termina, às cinco horas, levantamos, regulalados com o pôr-do-sol. Uma vez por semana, como você também deve ter reparado, fazemos nossa peregrinação até o refeitório para provar a Manny Leiber que ainda estamos vivos.

— Ele dirige mesmo o estúdio?

— Quem mais faria isso?

— Não sei. É que eu tenho uma sensação estranha cada vez que en­tro no escritório dele. A escrivaninha está sempre limpa. Só fica ali um enorme telefone branco, bem no meio da mesa, e uma cadeira que tem duas vezes o tamanho do traseiro de Manny Leiber. Ele parece Charlie McCarthy sentado nela.

— Ele parece mesmo um sujeito contratado, não é? Acho que é o te­lefone. Todos imaginam que os filmes são feitos em Hollywood. Mas, não. As teias atravessam o país para apanhar moscas aqui. As aranhas nunca vêm para a Costa Oeste. Tem medo de que a gente descubra que são pigmeus, do tamanho de Adolph Zukor.

— O problema é que eu estava no pé de uma escada, embaixo de chuva, no cemitério, com aquele espantalho, manequim, ou seja lá o que for — insisti.

A mão de Maggie Botwin hesitou na manivela. Arbuthnot acenou rapidamente para o outro lado da rua. A câmera fez uma panorâmica para captar criaturas de um outro mundo, a multidão desigual de caça­dores de autógrafos. As lentes aproximaram os rostos.

— Espere um pouco! Ali, ali!

Maggie avançou mais dois fotogramas para aproximar a imagem de um menino de patins, de aproximadamente treze anos.

— Não é possível!

— É, sim — disse eu baixinho, tocando a imagem com uma afeição estranhamente delicada.

— Não pode ser você!

— O bom, caseiro e inocente eu.

Maggie Botwin deixou que seus olhos repousassem em mim por um instante, retornando em seguida a vinte anos atrás, até uma tarde de outubro em que ameaçava chover.

Lá estava o palhaço dos palhaços, o louco dos loucos, o lunático dos lunáticos, sempre desequilibrado em seus patins, condenado a cair em qualquer tipo de obstáculo, inclusive mulheres que caminhavam pelas calçadas.

Ela voltou a película. Novamente Arbuthnot acenava para mim, ainda fora da tela, naquele outono perdido.

— Arbuthnot e você... — disse ela, baixinho. — Quase juntos?

— O homem na escada embaixo de chuva? Sim, senhora. Maggie suspirou e acionou a Moviola. Arbuthnot entrou em seu car­ro e partiu em direção a um desastre, ainda alguns dias à frente.

Observei o carro saindo, da mesma forma que eu mesmo, mais jo­vem na tela, devia ter observado.

— Repita — pediu Maggie Botwin, com voz controlada. — Não ha­via nenhuma escada, nem chuva, e você nunca esteve lá.

— Nunca estive lá... — murmurei.

— Repita!

— Nunca estive lá.

Os olhos de Maggie estreitaram-se.

— Quem é aquela figura engraçada perto de você, com o sobretudo grande demais, o álbum enorme e os cabelos desgrenhados?

— É Clarence — disse eu, acrescentando: — Imagino se neste mo­mento... ele estará vivo... Clarence.

Nesse instante tocou o telefone.

Era Fritz, nos estágios terminais da histeria.

— Venha já para cá. Os estigmas de J.C. ainda estão abertos. Preci­samos terminar a filmagem antes que ele sangre até morrer!

Fomos até o local da filmagem.

J.C. estava esperando à beira do grande braseiro. Quando me viu, fechou os belos olhos, sorriu e mostrou-me os pulsos.

— Esse sangue parece quase real! — exclamou Maggie.

— Acho que quase podemos colocar assim — comentei.

Groc levara a sério seu trabalho de maquiar o rosto do Messias. J.C. parecia trinta anos mais jovem quando Groc aplicou uma quantidade de pó facial nas sobrancelhas cerradas e recuou para observar triunfalmente sua obra-prima.

Olhei para o rosto de J.C., de aparência serena ao lado da ilumina­ção difusa e quente das brasas, enquanto um líquido espesso escorria dos pulsos para as palmas de suas mãos. Loucura!, pensei. Ele vai mor­rer durante a cena!

Mas para manter o filme dentro do orçamento? Por que não? A multi­dão reunia-se novamente, e Doc Phillips adiantou-se para verificar a he­morragia divina, acenando a seguir sua aprovação para Manny. Havia vida ainda nesses membros sagrados, permanecia alguma seiva: Avante!

— Estão prontos? — gritou Fritz.

Groc recuou no vento quente do braseiro, assumindo seu lugar entre duas vestais figurantes. Doc permaneceu como um lobo apoiado em suas patas traseiras, a língua entre os dentes, os olhos movendo-se de um lado para outro.

Doc?, pensei. Ou Groc? Serão eles os verdadeiros comandantes do estúdio? Será que são eles a sentar na cadeira de Manny?

Manny olhava como que mesmerizado para o fogo, talvez pensando em andar sobre as brasas, e assim provar que era o Rei.

J.C.?

Ele era um solitário em nosso meio, distante dos outros e voltado pa­ra si mesmo, com o rosto tão adoravelmente pálido que me apertava o coração. Seus lábios finos moviam-se, decorando as belas palavras que João me emprestara para oferecer-lhe a orar naquela noite.

Pouco antes de falar, J.C. levantou o olhar por sobre as cidades no mundo do estúdio, na direção do cimo das torres de Notre-Dame. Se­gui o olhar dele, depois relanceei rapidamente os olhos:

Groc parecia petrificado, os olhos postos na catedral. Doc Phillips, a mesma coisa. E Manny entre eles, variando a atenção de um para outro, depois para J.C., e finalmente para onde alguns de nós olháva­mos, entre as gárgulas...

Onde nada se movia.

Ou teria J.C. visto algum sinal secreto?

J.C. avistara alguma coisa. Os outros haviam reparado. Vi apenas luzes e sombras na fachada imitando mármore.

Estaria o Monstro ainda por lá? Conseguiria enxergar o braseiro? Es­cutaria as palavras de Cristo e seria comovido a ponto de avançar, falar sobre os acontecimentos da última semana, acalmando nossos corações?

— Silêncio! — berrou Fritz. Silêncio se fez.

— Ação — murmurou Fritz.

E finalmente, às cinco e meia da manhã, nos minutos que antece­diam o amanhecer, filmamos a Ceia depois da Última Ceia.

- 44 -

As brasas foram abanadas, os peixes colocados a assar, e enquanto as primeiras luzes levantavam-se do Oriente sobre Los Angeles, J.C. abriu lentamente os olhos, que brilharam com expressão de tanta com­paixão que paralisaria seus adoradores e traidores, e começou a cami­nhar ao longo de um litoral que seria filmado, alguns dias depois, em outro local da Califórnia; o sol levantou-se, a cena foi filmada sem fa­lhas, e não ficou um só olho enxuto no cenário da filmagem; o silêncio dominou o longo instante no qual J.C. finalmente voltou-se, e com lá­grimas nos olhos, gritou:

— Será que ninguém vai gritar “corta!”?

— Corta — disse Fritz Wong, baixinho.

— Você acabou de fazer um inimigo — comentou Maggie Botwin, a meu lado.

Olhei através do cenário. Manny Leiber me encarava. Depois voltou-se e afastou-se.

— Tenha cuidado — avisou Maggie. — Cometeu três erros em qua­renta e oito horas. Contratou novamente Judas. Resolveu o final do fil­me. Encontrou J.C. e trouxe-o de volta para o estúdio. Imperdoável!

— Meu Deus — suspirei.

J.C. caminhou pela multidão de figurantes, sem esperar elogios. Alcancei-o.

Onde vai?, perguntei em silêncio.

Descansar um pouco, respondeu ele, tão silenciosamente quanto eu.

Olhei para os pulsos dele. A hemorragia estancara.

Quando alcançamos o cruzamento de duas ruas internas, J.C. to­mou minhas mãos e olhou para algum lugar do estúdio.

— Criança...? — O quê?

— Aquele assunto sobre o qual falamos? A chuva? E o homem na escada?

— O que tem?

— Eu o vi — declarou J.C.

— Você o viu! Meu Deus, J.C.! Como ele é? O que...

— Psiu... — pediu ele, levando o indicador aos lábios serenos. E voltou ao Calvário.

Constance me levou para casa pouco depois do nascer do sol. Não havia nenhum carro estranho com espiões de tocaia em minha rua. Constance fez uma cena teatral na despedida, à frente da minha casa.

— Constance! Os vizinhos!

— Vizinhos uma ova! — Ela me deu um beijo tão escandaloso que meu relógio parou. — Aposto que a sua mulher não é capaz de beijar desse jeito!

— Eu estaria morto há seis meses!

Segure-se onde der, enquanto eu fecho a porta!

Foi o que fiz. Ela bateu a porta e partiu. Quase instantaneamente a solidão se abateu sobre mim. Era como se o Natal tivesse sumido pa­ra sempre.

Na minha cama, pensei: Maldito seja, J.C.! Por que não contou mais?

Depois: Clarence! Espere por mim! Vou até aí!

Tentar uma última vez!

- 45 -

Ao meio-dia eu fui para a Avenida Bronson.

Clarence não tinha esperado.

Percebi isso quando abri uma fresta da porta da casinha dele. Montes de papel rasgado, livros esmagados e fotografias amassadas estavam con­tra a porta; o cenário geral com a mesma aparência do massacre no Es­túdio 13, quando os dinossauros de Roy foram destroçados.

— Clarence?

Abri mais a porta.

Era o pesadelo de um geólogo.

Havia uma camada de uns trinta centímetros de cartas, bilhetes assinados por Robert Taylor, Bessie Love e Ann Harding, remontando a 1935 ou mesmo anteriores. Essa era apenas a camada mais externa

Abaixo, como um cobertor brilhante, encontravam-se milhares de fo­tografias que Clarence tirara de Al Jolson, John Garfield, Lowell Sherman e Madame Schumann-Heink. Dez mil rostos olhavam para mim. A maioria deles, mortos. Agora haviam sido enterrados.

Clarence.

Embaixo das primeiras camadas havia livretos de autógrafos, histó­rias de filmes e pôsteres de mais de uma centena de estrelas, começan­do com Bronco Billy Anderson e Charlie Chaplin, e continuando até a época em que o buquê de flores conhecido como as irmãs Gish pas­sou pelas telas, levando às lágrimas os corações dos imigrantes. Final­mente, embaixo de King Kong, O Mundo Perdido, Ri, Palhaço, Ri e, sob todos os reis das aranhas, bailarinos acrobáticos e cidades perdi­das, avistei:

Um sapato.

O sapato continha um pé. O pé, torcido, pertencia a um tornozelo. O tornozelo a uma perna. E assim por diante, até chegar a um rosto com expressão de histeria total. Clarence, dobrado e soterrado entre uma centena de caligrafias diferentes, afogado sob ondas de antigas propagandas e ilustrações apaixonadas que o teriam sufocado e esmagado, se ele já não estivesse morto.

Pela aparência, ele poderia ter morrido de ataque cardíaco, pelo sim­ples reconhecimento da morte. Seus olhos estavam saltados como se atin­gidos pelo espocar de um flash, e a boca congelada num esgar: O que estão fazendo com minha garganta, com meu coração? Quem são vocês?

Eu lera em algum lugar que, ao morrer, a retina da vítima fotografa­va a imagem de seu assassino. Se a retina pudesse ser retirada e revela­da como um filme, o rosto do matador apareceria da escuridão.

Os olhos arregalados de Clarence pediam para que isso acontecesse. O rosto de seu algoz estampava-se neles.

Fiquei ali, em meio à profusão de lixo, observando. Aquilo era de­mais! Cada arquivo fora derrubado, centenas de fotografias amassadas, os pôsteres todos arrancados das paredes, e as estantes pareciam ter ex­plodido. Os bolsos de Clarence estavam todos puxados para fora. Ne­nhum assaltante seria tão vândalo àquele ponto.

Clarence tinha medo de morrer no trânsito e aguardava nos semáfo­ros até que todos os carros passassem, para só então atravessar em segurança com seus amigos, os álbuns repletos de rostos bonitos.

Clarence.

Realizei uma volta completa, olhando em todas as direções, esperan­do ardentemente encontrar qualquer coisa que servisse de pista para Crumley.

As gavetas da escrivaninha de Clarence haviam sido arrancadas, e o conteúdo espalhado.

Poucas fotografias permaneciam nas paredes. Meu olhar fixou-se nu­ma delas.

Jesus Cristo no cenário do Calvário.

Estava assinada: “Para Clarence, PAZ, do primeiro e único J.C.”

Retirei a foto da moldura e enfiei-a no bolso.

Voltei-me para correr, quando avistei mais uma coisa. Apanhei-a.

Uma caixa de fósforos do Brown Derby.

Mais alguma coisa?

Eu, disse Clarence, gelado. Socorro.

Oh, Clarence, pensei, se eu pudesse...

Meu coração dava saltos. Com medo que alguém pudesse ouvir, em­purrei a porta.

Saí correndo dali.

Não faça isso! Pare!

Se alguém reparar em você correndo, quer dizer que foi você! Ande devagar, com calma. Pense! Tentei, mas apenas serviu para suar frio e trazer velhas lembranças.

Uma explosão. Mil novecentos e vinte e nove.

Próximo a minha casa, um homem saiu de seu carro destruído, gritando:

— Não quero morrer!

Eu estava na varanda, com minha tia, enfiando a cabeça no colo dela para não ver nem ouvir.

Ou quando eu tinha quinze anos. Um carro espatifou-se contra um poste telefônico, e as pessoas foram atiradas contra muros e hidrantes, num verdadeiro quebra-cabeça de corpos mutilados e pedaços de car­ne não identificáveis.

Ou... ou...

Subitamente fui invadido por livros, fotografias e cartões assinados.

Ou...

Os restos de um carro queimado, com uma figura carbonizada sentada grotescamente ereta à direção, imobilizada numa máscara calcinada, as mãos em garra derretidas, e confundindo-se com o volante

Ou...

Meus olhos lacrimejavam com tanta intensidade que as lentes dos ócu­los ficaram cobertas de gotículas salgadas.

Dei de encontro a uma parede e cambaleei por uma rua deserta, agradecendo a Deus por estar vazia, até que encontrei o que me pareceu ser uma cabine telefônica, e levei cerca de dois minutos procurando nos bolsos por uma moeda que estava lá o tempo todo. Enfiei-a no orifício e disquei.

Foi quando estava fazendo direito as coisas e discando para Crumley que apareceram os homens com as vassouras. Eram duas caminhone­tes do estúdio e um velho Lincoln que apontaram ao longe na Avenida Beachwood. Dobraram a esquina, dirigindo-se à casa de Clarence. Só a visão dos veículos fez com que eu me encolhesse como um acordeão para o fundo da cabine. O homem no Lincoln podia ser Doc Phillips, mas eu estava tão preocupado em me esconder, que não saberia dizer.

— Deixe-me adivinhar — disse a voz de Crumley ao aparelho. — Al­guém morreu de verdade?

— Como sabe disso?

— Existe respiração pesada, e respiração pesada.

— Pare com isso! — gritei, alarmado com a perspicácia dele.

— Acalme-se. Quando eu chegar aí provavelmente vai ser tarde de­mais, e todas as provas vão estar destruídas, certo? Onde está? — Eu disse a ele. — Existe um bar irlandês aí perto. Vá até lá e sente um pouco. Não quero que fique exposto se as coisas estão tão mal quanto você acha. Está bem?

— Estou quase morrendo.

— Não faça isso! Sem você, como vou preencher meu tempo vago? Meia hora depois Crumley me encontrou na porta do bar, metade dentro e metade fora. Ele me encarou com um olhar desesperado, cheio de preocupação paternal, que lhe passou pelo rosto como uma nuvem escura numa paisagem de verão.

— Muito bem — começou ele —, onde está o corpo?

Na rua com as casinhas encontramos a porta de Clarence encostada, como se alguém a tivesse deixado aberta de propósito. Empurramos. E entramos na casa de Clarence.

Não estava vazia, pelo menos não do jeito como haviam deixado o apartamento de Roy.

Todos os livros encontravam-se nas estantes, o assoalho estava limpo, sem cartas rasgadas. Mesmo as fotografias emolduradas, pelo menos a maioria delas, estavam de volta às paredes.

— Certo — suspirou Crumley. — Onde está toda a baderna que você viu?

— Espere um pouco.

Abri uma gaveta do arquivo. Havia fotografias amassadas e rasgadas, enfiadas de qualquer jeito ali.

Abri seis arquivos para mostrar a Crumley que não estivera so­nhando.

Em todos, as fotografias haviam sido amontoadas!

Só faltava uma coisa.

Clarence.

Crumley olhou para mim.

— Não! Ele estava bem aí onde você está.

Crumley pisou por sobre o corpo invisível. Olhou os outros arqui­vos, como eu fizera, para verificar as cartas danificadas, as fotos rasga­das, fora de vista. Deixou escapar um grande suspiro, como um fole e sacudiu a cabeça.

— Algum dia, você vai topar com algum coisa que faça sentido — disse ele. — Não há nenhum corpo, portanto, o que posso fazer? Como podemos saber se ele simplesmente não saiu de férias?

— Ele não vai voltar mais.

— Quem pode afirmar isso? Você quer ir até a delegacia mais próxi­ma e registrar uma queixa? Eles vão aparecer por aqui, dar uma olhada nos arquivos, encolher os ombros, dizer que mais um maluco de Holly­wood se foi, notificar o senhorio e...

— O senhorio? — perguntou uma voz atrás de nós. — O que tem o senhorio?

Um velho estava de pé à porta de entrada.

— Onde está Clarence? — perguntou ele.

Comecei a falar rapidamente. Matraqueei, contando tudo o que me lembrava de 1934 e 1935, quando eu me desequilibrava nos patins, per­seguido por um W. C. Fields maníaco, beijado por Jean Harlow à frente do restaurante Vendome. Com o beijo, os rolimãs saltaram de meus pa­tins. Tive de mancar até minha casa, sem ver o trânsito, surdo aos gritos de meus colegas.

— Certo, certo. Já entendi! — O velho deu uma olhada pelo aposen­to. — Vocês não parecem bisbilhoteiros. Mas Clarence vive aqui como se uma multidão de ladrões de fotografias pudesse assaltá-lo. Ele nun­ca dava seu endereço para ninguém. Portanto...

Crumley entregou-lhe seu cartão. O velho pestanejou ao lê-lo e aper­tou as dentaduras com as gengivas.

— Não quero encrenca por aqui! — disse ele.

— Não se preocupe. Clarence estava com medo e nos chamou. Por isso viemos.

Crumley deu uma olhada ao redor.

O velho fez o mesmo. Felizmente não resolveu abrir nenhum arqui­vo, onde poderia descobrir o vandalismo realizado.

— Vamos fazer o seguinte — concluiu Crumley. — Peça para Sopwith telefonar para mim. Certo?

O velho consultou novamente o cartão e piscou.

— Polícia de Venice? Quando vão limpar isso tudo?

— Isso o quê? — perguntei, preocupado.

— Os canais! Lixo apodrecendo. Os canais! Crumley interveio.

— Vou dar uma olhada.

— Onde? — O velho já perdera o fio da meada.

— Nos canais — esclareceu Crumley. — No lixo.

— Ah, é bom mesmo — concordou o velho. — Aquilo é uma pouca vergonha.

E saímos.

- 46 -

Ficamos na calçada observando a fileira de casinhas como se elas fos­sem zarpar de um momento para outro, como um navio deslizando para o mar.

Crumley não olhava para mim.

— A mesma reação, só que invertida. Você está péssimo porque viu um cadáver. Eu estou porque não vi. Diabo! Acho que podíamos espe­rar Clarence voltar.

— Como ele pode fazer isso se está morto?

— Quer dar parte do desaparecimento dele? Você não é parente. Que diabo, nem ao menos é amigo dele! O que temos para continuar?

— Duas coisas. Alguém destruiu os animais em miniatura de Roy e destruiu o monstro de argila. Alguém mais limpou a bagunça. Al­guém assustou ou estrangulou Clarence até morrer. Mais alguém lim­pou tudo. Isso determina a existência de dois grupos, ou dois indiví­duos: o que destrói, e os que trazem baús, vassouras e aspiradores. No momento acredito que o Monstro veio até o muro, destruiu as coisas de Roy por sua própria conta e fugiu, deixando os objetos que pode­riam servir de pista para serem limpos ou escondidos. O mesmo acon­teceu aqui. O Monstro desceu de Notre-Dame, e...

— Como é que sabe que ele estava lá em cima?

— Eu o vi frente a frente.

Pela primeira vez Crumley ficou pálido.

— Pôrra, você vai acabar se matando! Fique longe de lugares altos. Aliás, por que estamos aqui tagarelando na calçada em plena luz do dia? Alguém do pessoal da limpeza pode perceber que você conhece Clarence mais do que devia e resolver remover você.

— Tem razão. — Comecei a andar.

— Quer uma carona?

— É só um quarteirão até o estúdio.

— Pois eu vou até o arquivo morto do jornal. Deve existir alguma coisa sobre Arbuthnot em 1934, que não sabemos. Quer que eu pro­cure por Clarence, no caminho?

— Crum, nós dois sabemos que a essa altura ele já virou cinzas e que até elas já devem ter desaparecido.

— Isso é contra a lei.

— Claro que é. Mas quem vai passar o pente fino no incinerador do estúdio?

— Você, não, com certeza! Aonde vai agora?

— Para o jardim de Getsêmani.

— É seguro?

— Mais seguro do que o Calvário.

— Me telefone.

— Você vai me escutar, do outro lado da cidade — disse eu. — Sem precisar de telefone.

- 47 -

Mas primeiro...

Eu não sabia aonde ia até chegar lá.

O Calvário e as três cruzes, que estavam vazias.

— J.C. — sussurrei, tocando a fotografia dele, dobrada em meu bol­so, compreendendo de repente que uma presença marcante vinha me seguindo por algum tempo.

Olhei ao redor enquanto perambulava, e lá estava Manny, cuja som­bra incorpórea, o Rolls-Royce de funeral chinês, deslizava atrás de mim. Escutei a porta traseira abrindo-se com um silvo das borrachas de ve­dação, deixando escapar uma rajada de ar frio vindo do interior refri­gerado. Não muito maior do que uma Torta Esquimó, Manny Leiber espiou para fora do interior de sua geladeira ambulante.

— Ei! — chamou ele.

Era um dia quente. Debrucei-me para o interior do Rolls-Royce, refrescando meu rosto enquanto acalmava minha mente.

— Tenho novidades para você. — Eu conseguia enxergar o hálito con­densado de Manny no ar de inverno artificial. — Estamos fechando o estúdio por dois dias. Limpeza geral. Pintura relâmpago.

— Como pode fazer isso? As despesas...

— Todos vão receber pagamento integral. Devíamos ter feito isso anos atrás. Portanto, vamos fechar...

Para quê, pensei. Para tirar todos da propriedade. Por que eles sa­bem ou suspeitam que Roy ainda está vivo, e alguém mandou que o encontrassem e o matassem?

— Essa foi a coisa mais estúpida que já ouvi — disse eu.

Achei que o insulto seria a melhor resposta. Ninguém suspeitaria de quem parecesse ser suficientemente estúpido para insultar os outros.

— De quem foi essa “brilhante” idéia? — perguntei.

— Como assim? — reclamou Manny, recostando-se mais para o in­terior de sua geladeira, as palavras envoltas em nuvens de vapor. — Foi minha!

— Você não é tão burro assim — insisti. — Não faria uma coisa des­sas. Liga muito para dinheiro. Alguém deve ter mandado você fazer isso. Alguém acima de você?

— Não há ninguém acima de mim! — protestou ele, porém os olhos se desviram dos meus.

— Vai assumir a responsabilidade total por uma ação que vai custar talvez meio milhão de dólares numa semana?

— Bem...

— Deve ser o pessoal de Nova York — arrisquei, deixando uma saí­da honrosa para ele. — Aqueles anões que telefonam de Manhattan. Malucos. Só faltam dois dias para que você termine César e Cristo. O que acontece se J.C. tiver uma recaída enquanto você pinta os ce­nários?...

— Aquela cena no braseiro era a última dele. Estamos retirando-o da nossa Bíblia. Aliás, você está fazendo isso. E mais uma coisa, assim que o estúdio reabrir, você está de volta em A Morte Vem a Galope.

Essas palavras provocaram um frio em meu rosto. Um arrepio percorreu-me as costas.

— Não pode ser feito sem Roy Holdstrom — declarei, decidindo em seguida bancar um tipo ainda mais ingênuo e tapado: — E Roy está morto.

— O quê? — Manny inclinou-se para a frente, tentando controlar-se, depois estreitou os olhos. — Por que está dizendo isso?

— Ele cometeu suicídio — expliquei.

Manny ficou ainda mais desconfiado. Podia imaginá-lo a escutar o relatório de Doc Philips: Roy pendurado no Estúdio 13, derrubado, escamoteado e queimado.

Continuei com uma voz tão ingênua quanto possível:

— Os animais ainda estão trancados no Estúdio 13?

— Ahnn... estão — mentiu ele.

— Roy não consegue viver sem os monstrinhos dele. E fui ao aparta­mento dele outro dia. Estava vazio. Alguém tinha roubado todas as suas câmeras e miniaturas. Roy não conseguiria viver sem elas também. E ele não iria simplesmente fugir. Pelo menos não sem me avisar, depois de vinte anos de amizade. Portanto, concluí que Roy está morto.

Manny examinava meu rosto para decidir se acreditava ou não. Fiz minha expressão mais contrita.

— Encontre-o — pediu Manny finalmente, sem piscar.

— Mas eu acabei de dizer que...

— Encontre-o ou você vai ser despedido, e nunca mais vai trabalhar em outro estúdio pelo resto da vida. O imbecil não está morto. Ele foi visto no estúdio outro dia, talvez tentando arrombar o Estúdio 13, para pegar aqueles malditos monstros. Diga a ele que está perdoado. Pode voltar a trabalhar, com o salário aumentado. É hora de admitirmos que estávamos errados e que precisamos dele. Encontre aquele sujeito, e o seu salário também será aumentado. Certo?

— Isso significa que Roy pode usar aquele rosto, o busto que ele es­culpiu na argila?

A cor de Manny alterou-se.

— É claro que não! Haverá uma nova busca. Um concurso. Vamos fazer uma grande publicidade.

— Não acho que Roy volte se não puder usar o Monstro dele.

Ele volta, se souber o que é bom para ele.

Para ser morto uma hora depois que bater o relógio de ponto?, pensei.

— Não. Ele está realmente morto. Para sempre — consegui dizer.

Bati os últimos pregos no caixão de Roy, esperando que Manny acre­ditasse e não fechasse o estúdio para fazer sua busca. Uma idéia tola. Mas os loucos são sempre tolos.

— Encontre-o — finalizou Manny, gelando o ar com seu silêncio. Fechei a porta da geladeira. O Rolls-Royce partiu com um murmú­rio, como um sorriso frio que se desfizesse.

Tremendo, fiz minha Peregrinação. Passei através de Green Town, Nova York, pela Esfinge egípcia e pelo Fórum romano. Somente as mos­cas zumbiam à frente da cama de meus avós. Somente a poeira se agi­tava entre as patas da Esfinge.

Fiquei em pé em frente à grande pedra que cobria a entrada da tum­ba de Cristo.

Fui até a rocha esconder meu rosto.

— Roy — sussurrei.

A pedra estremeceu ao meu toque.

E a rocha respondeu: Aqui não há esconderijo.

Meu Deus, Roy, pensei. Finalmente eles precisam de você, pelo menos por uns dez minutos antes que alguém pise em você.

A pedra permanecia silenciosa. Um diabo passou num turbilhão de poeira por uma fachada falsa em Nevada, adormecendo ao lado de um velho cocho de cavalos.

Uma voz gritou:

— Aí é o lugar errado! Aqui!

Olhei para outra colina, a cem metros dali, que se recortava contra o céu, uma encosta suave de grama artificial verde durante todas as es­tações.

Lá, com o vento agitando a túnica, havia um homem de barba.

— J.C.! — Subi a colina, ofegando.

— O que acha disso? — J.C. me puxou pelos últimos metros, os­tentando um sorriso sério e triste. — A montanha do Sermão. Quer ouvir?

Não tenho tempo, J.C.

— E como é que as pessoas há dois mil anos escutaram e ficaram quietinhas?

— Eles não tinham relógio, J.C.

— Não — concordou ele, estudando o céu. — Só o sol movendo-se no céu, e todos os dias que quisessem para dizer as coisas necessárias.

Assenti. O nome de Clarence estava atravessado em minha garganta.

— Sente, filho. — Havia um grande rochedo ali perto, onde J.C. se acomodou, e eu me coloquei a seus pés, como um pastor. Olhando para baixo, com suavidade, ele declarou: — Não bebi nada hoje.

— Ótimo!

— Existem dias assim. Por Deus, estive aqui a maior parte do tem­po, apreciando as nuvens, com vontade de viver para sempre. Tudo por causa das palavras de ontem à noite, e você...

Ele deve ter percebido que eu engoli em seco, pois olhou para baixo e tocou minha cabeça.

— Oh, oh — disse ele. — Vai me contar alguma coisa que vai me fazer beber?

— Espero que não, J.C. É sobre seu amigo Clarence. Ele retirou a mão como se ela estivesse queimando.

Uma nuvem cobriu o sol e desaguou uma cortina de chuva surpreendentemente reduzida, um verdadeiro choque em meio ao dia ensolara­do. Deixei que os pingos tocassem minha pele sem mover um múscu­lo, como J.C., que levantou o rosto para refrescá-lo.

— Clarence... — murmurou ele. — Sempre o conheci. Ele andava por aí na época em que tínhamos índios de verdade. Clarence estava sempre aí na frente, um garoto de nove ou dez anos, com os óculos grossos, os cabelos loiros, o rosto grande e brilhante, e aquele enorme livro de desenhos ou fotografias para serem autografados. Ele estava aqui no amanhecer do dia em que cheguei pela primeira vez, e à meia-noite, quando eu saí. Eu era um dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse!

— A Morte?

— Espertinho... — riu J.C. — A Morte. Montado em cima da mi­nha bunda magra, no meu cavalo-esqueleto.

J.C. e eu olhamos para o céu, como se a Morte ainda estivesse galo­pando por lá. A chuva cessou. J.C. enxugou o rosto e continuou.

— Clarence. Pobre idiota. Um sujeito dependente, solitário, sem vi­da e sem esposa. Nunca teve mulher, amante, amigos homens ou garo­tos, nem fotografia de garotas, nem revistas de musculação. Zero! Ele nem mesmo chegou a usar camisa de manga curta! Passava o verão in­teiro de ceroulas! Que coisa!

Finalmente senti minha boca mover-se.

— Ouviu falar de Clarence... ultimamente?

— Ele telefonou ontem.

— A que horas?

— Quatro e meia. Por quê?

Logo depois que eu bati à porta dele, pensei.

— Ele estava descontrolado, quando telefonou. “Acabou tudo!”, disse ele. “Eles estão vindo para me pegar. Não me venha com sermões!”, gritou ele, alterado. Aquilo gelou meu sangue. Teve o mesmo efeito que uns dez mil figurantes despedidos, quarenta produtores se suicidando e noventa e nove Starlets estupradas. As últimas palavras dele foram: “Me ajude! Me salve!” E lá fiquei eu , Jesus em fim de carreira, Cristo no fim da linha. Como é que eu podia ajudar quando eu era a causa e não a cura? Disse a Clarence para tomar duas aspirinas e me telefonar de manhã. Devia ter ido até lá. Você teria ido, se fosse eu?

Lembrei-me de Clarence deitado naquele enorme bolo de camadas, embaixo de livros, cartões, fotografias e suor histérico, tudo amontoado. J.C. reparou que minha cabeça balançara.

— Ele se foi, não é? — Era mais uma afirmação do que uma pergun­ta. — E você esteve lá, certo?

Assenti.

— Clarence!

Foi um grito tão alto que teria sobressaltado as bestas do campo e acor­dado os pastores adormecidos. Era o começo do sermão da escuridão.

J.C. deu um salto, com a cabeça para trás. Lágrimas jorraram de seus olhos.

— Clarence...

Ele começou a andar, de olhos fechados, pela encosta da colina, para longe dos sermões perdidos, em direção à colina do Calvário, onde sua cruz aguardava. Fui atrás dele.

— Tem alguma bebida com você? — perguntou ele, dando passadas largas. — Álcool, qualquer coisa... Droga! Era para ser um dia tão agradável! Clarence, seu idiota!

Chegamos à cruz, e J.C. procurou atrás da madeira, dando uma gar­galhada amarga de alívio ao retirar de lá um saquinho pardo de papel que produzia som de líquidos.

— O sangue de Cristo dentro de uma garrafa sem rótulo num saqui­nho pardo. No que transformei a cerimônia... — Ele tomou um gole, e mais outro. — O que faço agora? Subo aí, prego a mim mesmo e es­pero por eles?

— Eles?

— Ouça, criança, é só uma questão de tempo! Então sou pregado pelos pulsos e fico pendurado pela lei da gravidade! Clarence está mor­to! Como foi que aconteceu?

— Ele morreu afogado embaixo das fotografias. J.C. enrijeceu.

— Quem disse isso?

— Eu vi, J.C., mas não disse a ninguém. Ele sabia de alguma coisa e foi assassinado. O que você sabe?

— Nada! — J.C. sacudiu violentamente a cabeça. — Nada!

— Clarence, há duas noites, em frente ao Brown Derby, reconheceu um homem. O homem levantou a mão para ele! Clarence correu! Por quê?

— Não tente descobrir! — disse J.C. — Deixe esse assunto em paz. Não quero arrastar você comigo. Não há nada que eu possa fazer a não ser esperar... — A voz interrompeu-se. — Com Clarence assassinado, não vai demorar muito até que eles cheguem à conclusão que fui eu quem o mandou até o Brown Derby...

— Foi você?

E a mim também?, pensei. Você escreveu para Roy, pedindo que tam­bém fosse até lá?

— Quem foi, J.C.? Quem são eles? As pessoas estão morrendo por aí. Talvez até meu amigo Roy!

— Roy? — J.C. fez uma pausa, pensativo. — Morto? Ele tem sorte. Escondido? Não adianta. Eles vão apanhá-lo. Como eu. Eu sei coisas demais há anos.

— Há quanto tempo?

— Por que quer saber?

— Eu podia estar morto, também. Topei com alguma coisa, mas que­ro ser mico de circo se sei o que é. Roy descobriu alguma coisa, e está morto, ou escondido agora. Meu Deus, alguém matou Clarence por­que ele descobriu alguma coisa. É uma questão de tempo até que eles saibam. Que diabo, talvez eu conheça Clarence bem demais e eles ve­nham me matar, só para ter certeza. Droga, Manny vai fechar o estúdio por dois dias. Para limpeza e pintura. É por causa de Roy! Pense um pouco! Dezenas de milhares de dólares vão pela janela para achar um maluco cujo único crime foi viver há dez milhões de anos, que ficou pirado com um monstro de argila e que a partir daí teve sua cabeça colocada a prêmio. Por que Roy tornou-se tão importante? Por que, co­mo Clarence, ele tem de morrer? Você, por exemplo, naquela noite, disse que estava no Calvário. Viu o muro, a escada, o corpo na escada. Conseguiu ver o rosto daquele corpo?

— Estava longe demais — desculpou-se J.C.

— Viu pelo menos o rosto do sujeito que colocou o corpo na escada?

— Estava escuro...

— Era o Monstro?

— O quê?

O homem com o rosto em carne viva, o olho direito coberto de carne e aquela boca horrível? Será que foi ele quem colocou o corpo de mentira no alto da escada para assustar o pessoal do estúdio, e de algum jeito chantagear todo o mundo por algum motivo? Se eu vou morrer, J.C., tenho o direito de saber por quê. Diga o nome do Mons­tro, J.C.

— E fazer com que você seja morto de verdade? Não, senhor! Um caminhão dobrou a esquina das ruas do estúdio. Passou em se­guida pelo Calvário, levantando poeira e buzinando.

— Cuidado, seu imbecil! — berrei.

O caminhão se foi, em meio a uma nuvem de poeira.

E J.C. foi com ele.

Um homem trinta anos mais velho do que eu, correndo. Era grotes­co! J.C. em disparada, a túnica drapeando ao vento empoeirado, co­mo se estivesse a ponto de decolar, gritando impropérios para o céu.

Não alcance o Clarence!, quase gritei.

Que idiotice, pensei. Clarence está muito adiantado. Você nunca iria alcançá-lo.

- 48 -

Fritz estava esperando com Maggie na Sala de Projeção 10.

— Onde esteve? — perguntou ele. — Adivinhe o que aconteceu! Agora ficamos sem o meio do filme!

Era bom ouvir essa conversa maluca e ridícula, uma loucura para curar meu desequilíbrio, que progredia. Meu Deus, pensei, o cinema é co­mo fazer amor com uma gárgula. Você descobre que está agarrado a uma espinha de mármore e pensa:

“O que estou fazendo aqui? Mentindo, fingindo. Para fazer... um fil­me a que vinte milhões de pessoas correriam para assistir, ou fugiriam dele”.

Tudo isso feito por malucos na Sala de Projeção, discutindo sobre personagens que nem ao menos viveram.

Por tudo isso, era bom para mim esconder-me ali, entre Fritz e Mag­gie, gritando coisas sem nexo e bancando os bobos.

Mas nesse caso, as tolices não ajudaram.

Às quatro e meia, pedi licença e tive de correr para o banheiro. Ali, no vomitório, perdi totalmente a cor do rosto. O vomitório, como os banheiros são chamados por todos os roteiristas depois de ouvirem as idéias geniais dos produtores.

Tentei recuperar o tom das faces, esfregando-as com água e sabão.

Curvei-me durante cinco minutos sobre a pia, deixando que a tristeza e o medo escorressem pelo ralo. Depois de um último acesso de ânsia, lavei-me novamente e retornei para enfrentar Maggie e Fritz, grato pe­la penumbra que reinava na Sala de Projeção.

— Você! — gritou Fritz. — Muda uma cena e estraga o resto do fil­me. Mostrei nossa Última Ceia para Manny ao meio-dia. Agora, por causa da maldita qualidade do seu final, ele admite, o que é completa­mente contra a natureza dele, que vamos precisar refilmar algumas ce­nas do meio, senão o filme vai parecer uma cobra morta com o rabo vivo! Ele não teria coragem de dizer isso pessoalmente, parecia que ele estava comendo as próprias entranhas no almoço, ou um ensopado fei­to com as suas. Ele o chamou de nomes que prefiro não repetir, mas mandou finalmente que o bastardo reescrevesse as cenas nove, catorze, dezenove, vinte e cinco e trinta. É como uma amarelinha de cenas a serem reescritas e refilmadas. Se melhorarmos algumas cenas, precisa­mos fazer com que o público acredite que temos um filme metade bom.

Senti o velho rubor me subindo ao rosto.

— Isso sim, é um desafio para um novo escritor! — exclamei. — O elemento temporal.

— E tudo nos próximos três dias! — Seguramos todo o elenco. Vou mandar telefonar para os Alcoólicos Anônimos e pedir alguém para vi­giar nosso J.C. por setenta e duas horas, agora que sabemos onde ele se esconde...

Fiquei olhando para a frente, em silêncio. Não podia dizer-lhes que assustara tanto J.C. que ele saíra da propriedade.

— Parece que fui responsável por um bocado de coisas ruins esta semana — comentei, por fim.

— Fique, Sísifo! — pediu Fritz, estalando as palmas das mãos em meus ombros. — Pelo menos até eu arranjar uma pedra maior para vo­cê empurrar colina acima. Você não é judeu, não fique remoendo cul­pas. — Ele atirou o roteiro para cima de mim. — Escreva, reescreva, e reescreva!

— Tem certeza de que Manny quer que eu trabalhe nisso?

— Na verdade, ele preferia mandar amarrar você em dois cavalos selvagens e ficar atirando com um revólver, mas a vida é assim. Odeie um pouquinho aqui... Depois odeie bastante acolá...

— E quanto ao outro filme? Ele quer que eu volte para A Morte Vem a Galope!

— Desde quando? — Fritz levantou-se.

— Desde meia hora atrás.

— Mas ele não pode fazer isso sem...

— Sem Roy — completei. — Isso mesmo. Roy está desaparecido, e eu preciso encontrá-lo. E o estúdio está fechado por quarenta e oito horas para pintura e reforma que não são necessárias.

— Imbecis! Idiotas! — esbravejou Fritz. — Ninguém me participa nada! Pois bem, não precisamos desse estúdio idiota. Podemos reescrever Jesus na minha casa.

O telefone tocou. Fritz quase estrangulou o fone na mão antes de passá-lo para mim. Era um chamado do Templo Angelus, de Aimeé Semple Mcpherson.

— Desculpe, senhor — começou uma voz feminina, controlada com dificuldade —, mas por acaso conhece um homem que chama a si mes­mo de J.C.?

— J.C.?

Fritz agarrou o telefone. Eu peguei de volta. Finalmente, resolvemos ouvir os dois, de pertinho.

— Ele diz que é o Fantasma de Cristo, renascido e recentemente ar­rependido...

— Me dê aqui esse telefone! — disse uma voz masculina, do outro lado. — Aqui fala o reverendo Kempo! Conhece esse desprezível anticristo? Teríamos chamado a polícia, mas, se os jornais descobrissem que nosso templo expulsou Jesus, bem... Eu lhe dou trinta minutos para salvar esse infiel da ira de Deus. E da minha!

Deixei cair o aparelho.

— Meu Deus! — queixei-me a Fritz. — Ele ressuscitou.

- 49 -

Meu táxi chegou ao Templo Angelus na hora em que os últimos alu­nos de catecismo estavam saindo por várias portas. O reverendo Kempo estava na calçada, andando de um lado para o outro e esfregando as mãos como se houvesse dinamite em seu traseiro.

— Graças ao bom Deus! — desabafou ele, avançando em nossa dire­ção. Repentinamente, parou. — Você é o jovem amigo daquela criatura lá dentro, certo?

— J.C.?

— J.C., mas que heresia abominável! Ele mesmo, J.C.

— Sou o amigo dele.

— Azar seu. Vamos rápido para dentro!

Ele enganchou-me pelo cotovelo e arrastou-me para dentro, depois pela nave principal. Estava deserto. Do alto vinha o som suave de pe­nas, como num vôo angelical. Alguém parecia estar testando o sistema de som com vários tipos de murmúrios celestiais.

— Aonde ele...? — parei.

Pois no centro do palco, no trono brilhante feito de ouro de vinte e quatro quilates, sentava-se J.C.

Permanecia rígido e imóvel, os olhos fitando algum ponto além da parede da igreja, as mãos pousadas nos braços dourados, com as pal­mas para cima.

— J.C.? — Prossegui pela nave e parei novamente.

Pois havia sangue fresco, pingando de cada cicatriz nos pulsos ex­postos.

— Não é nojento, isso? Esse homem horrível... Fora! — berrou o reverendo, atrás de mim.

— Essa é uma igreja cristã? — indaguei.

— Como ousa perguntar uma coisa dessas!

— Não acha que, num momento como este, o próprio Cristo teria demonstrado um pouco mais de piedade? — sugeri, sem olhar para trás.

— Piedade? — gritou o reverendo. — Pois fique sabendo que ele in­vadiu nosso serviço religioso berrando: “Eu sou o verdadeiro Cristo! Temo por minha vida!” Correu para o palco, onde ficou exibindo aque­les ferimentos. Só faltou mesmo tirar a roupa. Perdão? Ele chocou todo o mundo e quase provocou um tumulto em nossa pacífica congrega­ção. Alguns talvez não voltem mais. Se falarem e os jornais ficarem sa­bendo... está entendendo? Ele nos transformou em motivo de chacota. Seu amigo!

Meu amigo — repeti, com voz fraca, escalando o pedestal para chegar ao trono, ao lado do velho ator shakespeariano.

— J.C.? — chamei novamente, como por sobre um abismo.

Os olhos de J.C., fixos na eternidade, piscaram e voltaram a focalizar-se.

— Como vai, criança? — cumprimentou ele. — O que está acon­tecendo?

— Acontecendo? — gritei. — Você acabou de se meter numa bela encrenca.

J.C. finalmente percebeu o local em que se encontrava e levantou as mãos.

— Não! Não! — Tinha-se a impressão de que alguém atirara duas tarântulas sobre ele. Me flagelaram outra vez? Me seguiram? Estou mor­to! Proteja-me!

— Eu estou aqui. Vamos para casa, J.C.

— Trouxe bebida?

Bati em meus bolsos como quem sempre carregasse garrafas consigo e balancei a cabeça. Lancei um olhar para o reverendo, que num ímpe­to de iniciativa retirou de trás do trono uma garrafa de vinho tinto, que entregou a mim.

J.C. esticou-se, porém eu fui mais rápido e segurei a garrafa como isca, à frente dele.

— Venha por aqui. Só vou tirar a rolha lá fora.

— Como ousa falar com Cristo nesse tom?

— Como ousa passar por Cristo? — interpelou o reverendo.

— Não ouso, caro senhor — disse J.C., recuando. — Eu simples­mente sou.

Fez uma tentativa para levantar e caiu pelos degraus.

O reverendo grunhiu, como se a idéia de assassinato movesse invo­luntariamente seus punhos.

Levantei J.C., acenando a garrafa, pude conduzi-lo pela passagem entre os bancos, e depois para fora.

O táxi ainda estava lá. Antes de entrar, J.C. voltou-se para olhar na direção do reverendo, que aguardava no portal, o rosto contorcido pelo ódio.

J.C. ergueu as mãos ensangüentadas.

— Abrigo. Certo? Refúgio.

O inferno não aceitaria o senhor — berrou o reverendo. Blam!

Imaginei no interior do templo um milhar de asas de anjos, libertas, revoando pelo ar agora impuro.

J.C. entrou no táxi, agarrando a garrafa de vinho e inclinando-se para falar ao motorista.

— Getsêmani!

Partimos. O motorista deu uma olhada de relance para seu mapa da cidade.

— Getsêmani — resmungou ele. — Isso é o nome de uma rua? Ave­nida? Ou um lugar?

- 50 -

— Nem mesmo a cruz é um lugar seguro agora — resmungou J.C., atravessando a cidade, os olhos fixos nos pulsos feridos, como se não pudesse acreditar que estivessem grudados em seus braços. — Onde esse mundo vai parar? — Ele olhou para fora pela janela. — Será que Cristo era maníaco-depressivo? Como eu?

Não, ele não era louco — respondi, sem muita convicção. — Mas você está completamente pirado. Por que foi até o templo?

— Eu estava sendo perseguido. Eles estão atrás de mim. Eu sou a Luz do Mundo. — Isso foi dito com bastante ironia. — Meu Deus, co­mo eu gostaria de não saber tanta coisa.

— Então me conte. Como uma confissão.

— Nesse caso eles iriam atrás de você também! — murmurou ele.

— Clarence não correu rápido o suficiente, correu?

— Eu também conhecia Clarence — declarei. — Há muitos anos... Isso assustou ainda mais J.C.

— Não conte isso a ninguém! Eles não vão saber de nada por mim.

— Ele tomou metade da garrafa de uma só vez, depois piscou e disse:

— Fico com a boca fechada.

— Não senhor, J.C.! Você precisa falar, só para o caso de...

— De que eu não viva além desta noite? Acho que não vou mesmo viver. Mas não quero que nós dois corramos perigo de vida. Você é um desajeitado adorável. Vinde a mim as criancinhas, e me aparece você.

Ele bebeu e apagou o sorriso do rosto.

O táxi entrou no estúdio e aproximou-se da casa de meus pais.

— Por que será que esse lugar parece com a Igreja Batista Negra da Avenida Central? Não posso entrar aí! Não sou negro, nem batista. Sou Cristo, e judeu! Diga a ele para onde ir.

O táxi parou no Calvário ao pôr-do-sol. J.C. olhou para o lugar que lhe era familiar.

— Essa é a cruz verdadeira? — Em seguida ele deu de ombros. — Bem, deve ser tão verdadeira quanto eu...

Tomou o resto do vinho, depois começou a subir o monte.

— Graças a Deus, já terminei minhas cenas maiores. Tudo acabou, jovem — declarou J.C., tomando minhas mãos entre as dele. Ele pare­cia bastante calmo no momento, tendo passado das alturas para as pro­fundezas. — Eu não devia ter fugido. E você não deveria ser visto aqui falando comigo. Eles vão trazer mais um martelo e pregos sobressalentes, e você vai acabar fazendo o papel de ladrão a minha esquerda. Ou de Judas. Eles podem trazer uma corda e de repente você vira Judas Iscariotes.

Ele voltou-se e colocou as mãos na cruz e um pé no degrau escavado ao lado na madeira.

— Mais uma coisa — lembrei. — Você conhece o Monstro?

— Meu Deus, eu estava lá na noite em que ele nasceu!

— Nasceu?

— Nasceu.

— Explique, J.C. Eu preciso saber!

— E morrer por causa disso, espertinho? Por que tem vontade de morrer? Não tente me salvar mais uma vez. Jesus é quem salva, certo? Mas se sou Jesus e estou perdido, todos vocês estão perdidos. Veja o Clarence, pobre coitado. Os sujeitos que o apanharam estão ficando as­sustados. E, quando ficam assustados, entram em pânico. Quando en­tram em pânico começam a odiar. Sabe alguma coisa sobre ódio de ver­dade, rapaz? Quer dizer, não há lugar para amadores, nem para bom comportamento. Alguém manda matar, e ninguém pensa antes de co­meter assassinato. E você fica por aí experimentando suas idéias tolas e ingênuas sobre as pessoas. Meu Deus, acho que não reconheceria uma puta de verdade nem se ela mordesse você, ou um assassino de verdade se ele esfaqueasse você. Você iria morrer, dizendo: “Ah, então é as­sim...”, só que aí seria tarde demais. Escute ao velho Jesus, seu tolo.

— Um tolo conveniente, um imbecil útil. É o que Lênin dizia.

— Lênin! Está vendo? Numa hora como esta, enquanto estou gri­tando: Lá estão as cataratas de Niágara! Onde está seu barril? Você me pula sem pára-quedas. Lênin!? Bah... Qual é o caminho para o hospício?

J.C. tremia ao terminar o vinho.

— Imbecil útil — declarou ele, engolindo o que restava do vinho. — Agora escute: não vou avisar outra vez. Se ficar comigo, está perdi­do. Se soubesse o que sei, eles o enterrariam em dez sepulturas dife­rentes do outro lado do muro. Cortariam seu corpo em pequenos peda­ços e enterrariam cada um num lugar diferente. Se sua mãe e seu pai estivessem vivos, eles os enterrariam. E sua esposa...

Agarrei meus cotovelos. J.C. recuou.

— Desculpe. Mas só quis mostrar a você como é vulnerável. Meu Deus, ainda estou sóbrio: não disse “invulnerável”... Quando sua es­posa volta?

— Logo.

Foi como um gongo fúnebre soando ao meio-dia. Logo.

— Então preste atenção ao último Livro de Jó. Eles não vão parar até matarem todos. As coisas saíram fora de controle esta semana. Aquele corpo que viu em cima do muro. Foi colocado lá para...

— Chantagear o estúdio? — interrompi, citando Crumley. — Estão com medo de Arbuthnot, a uma altura dessas?

— Estão apavorados! Às vezes, os caras que já estão na sepultura pos­suem mais poder do que os vivos. Veja Napoleão, por exemplo, morto há cento e cinqüenta anos e ainda vivo em mais de duzentos livros! Ruas e crianças são batizadas com o nome dele! Perdeu tudo, mas ganhou com a perda! Hitler? Será lembrado por dez mil anos. Mussolini? Vai continuar pendurado naquele posto de gasolina pelo resto de nossas vi­das! Mesmo Jesus... — Ele observou fixamente seus estigmas. — Até que eu não fiz um mau trabalho. Só que agora preciso morrer outra vez. Mas seria amaldiçoado muitas vezes se arrastasse comigo um sujei­to decente como você. Agora cale a boca. Alguém pode escutar! Tem mais alguma bebida?

Mostrei a última garrafa de gim. Ele a apanhou.

— Agora me ajude a subir na cruz e suma daqui!

— Não posso deixar você aqui, J.C.

— Não existe mais nenhum lugar onde você possa me deixar. Ele bebeu toda a garrafinha de gim.

— Isso vai matar você! — reclamei.

— É um anestésico, garoto. Quando vierem me pagar, eu nem estarei mais aqui.

J.C. começou a subir na cruz.

Agarrei a madeira tosca com ambas as mãos e voltei o rosto para cima.

— Que diabo, J.C. Se esta é sua última noite na Terra... está puri­ficado?

Aquilo o abalou. Ele diminuiu o ritmo de subida.

— O quê?

— Quando se confessou pela última vez? - Não consegui controlar minhas palavras. — Quando, quando?

Funcionou. A cabeça dele voltou-se do sul para o norte, de forma que o rosto ficasse virado na direção da parede do cemitério.

— Onde foi? Onde foi que você se confessou pela última vez? — Eu mesmo estava surpreso com minha reação.

O rosto dele ficou rígido, voltado hipnoticamente para o norte, fato que me incentivou a subir um pouco mais, utilizando os orifícios esca­vados para isso com meus pés.

— O que está fazendo? — perguntou J.C.

— Subindo.

— Esse lugar é só meu — berrou ele.

— Pois não é mais. Aqui, aqui... e pronto! — completei a escalada, colocando-me atrás dele.

Ele teve de virar para gritar comigo:

— Desça daqui!

— Onde você se confessou, J.C.?

Dessa vez a cabeça não se moveu. Estava virado para mim, mas o olhar voltou-se para o norte. Procurei o ponto visado, seguindo um dos braços de madeira.

Mas, claro!

Pois alinhado com o braço da cruz, como uma alça de mira, além do ponto do muro onde o boneco e a escada tinham sido colocados, o olhar dele recaía sobre um campo de pedra onde se podia divisar a fachada e as portas da Igreja de San Sebastian!

— Claro! — repeti. — Obrigado, J.C.

— Escute aqui...

— Tudo o que eu disse foi obrigado.

— Desça!

— Estou descendo.

Desviei os olhos do cemitério, mas não sem antes lançar mais um olhar à torre da igreja além do campo santo. Desci.

— Aonde você vai? — indagou J.C.

— Aonde eu deveria ter ido dias atrás...

— Seu imbecil! Fique longe daquela igreja. Não é segura!

— Uma igreja que não é segura? — Parei de descer e olhei para cima.

— Aquela igreja, não é. É do outro lado do cemitério, e tarde da noi­te ela abre para qualquer um que vá até lá.

— Ele vai lá, não vai?

— Ele?

— Antes de ir para o cemitério à noite — estremeci. — Ele vai até lá para se confessar, certo?

— Maldito seja! Agora sim, está perdido. — berrou J.C., fechando os olhos. Gemeu e ajeitou-se na cruz à luz do crepúsculo. — Pois vá em frente. Quer encontrar o terror? Quer conhecer o medo? Vá escutar uma confissão de verdade. Esconda-se, e quando ele entrar, tarde da noite, muito tarde, você pode escutar, e sua alma vai tremer, queimar e morrer!

Essas palavras fizeram com que eu segurasse a madeira com tanta força que algumas farpas machucaram minhas mãos.

— J.C.? Você sabe de tudo, não é? Conte, em seu nome, no nome de Jesus Cristo, antes que seja tarde demais. Sabe por que o corpo foi colocado na escada, e talvez tenha sido o Monstro, só para me assustar. Sabe também quem é o Monstro, não é? Pois diga!

— Pobre garoto, que não passa de um filho da puta inocente. Meu Deus, criança. — J.C. olhou para mim. — Você vai morrer, e nem ao menos sabe por quê...

Ele estendeu as mãos, uma para o norte, outra para o sul, agarrando os braços da cruz como se fosse voar. Em vez disso, a garrafa vazia caiu e quebrou-se a meus pés.

— Pobre rapaz inocente — murmurou ele, o rosto voltado para o céu. Larguei e saltei os últimos cinqüenta centímetros. Quando atingi o chão, olhei uma última vez para cima, exausto.

— J.C.?

— Vá para o inferno — disse ele, triste. — Porque não tenho a me­nor idéia de onde fica o céu.

Escutei carros e pessoas ali por perto.

— Corra — sugeriu a voz que vinha do alto.

Mas não pude correr. Simplesmente afastei-me dali, andando.

- 51 -

Encontrei Doc Phillips saindo de Notre-Dame. Ele carregava um sa­co plástico, lembrando um daqueles homens que vagueiam pelas pra­ças públicas com uma varinha pontiaguda, espetando lixo para ser in­cinerado. Pareceu surpreender-se, pois eu tinha um dos pés no degrau, como se fosse assistir à missa.

— Ora vejam, aqui está o menino prodígio que ensina Cristo a an­dar sobre a água e coloca Judas de volta à fila dos criminosos — co­mentou ele, assim que me viu.

— Eu, não — protestei. — Os quatro apóstolos. Só segui a trilha que as sandálias deles deixaram.

— O que está fazendo aqui? — perguntou ele, sem rodeios, os olhos examinando-me de alto a baixo, e os dedos mexendo no saco plástico, que recendia a incenso e ao forte perfume que ele usava.

Decidi desfiar todo o rosário.

— O pôr-do-sol. A melhor hora para andar por aí. Meu Deus, como eu adoro este lugar. Tenho intenção de possuir tudo isto algum dia. Mas não se preocupe, vou manter você aqui. Quando eu for o dono, preten­do botar abaixo todos os escritórios e fazer com que todos vivam, de verdade, a História. Vou deixar Manny trabalhando na Décima Aveni­da, em Nova York, ali adiante. Colocar Fritz em Berlim, ali. Eu vou para Green Town. Roy? Se aquele maluco chegar a voltar, vou cons­truir para ele uma bela fazenda de dinossauros. Eu ficaria pirado com isso tudo. Em vez de fazer quarenta filmes por ano, faria doze, todos obras-primas! Tornaria Maggie Botwin vice-presidente do estúdio, porque ela é simplesmente brilhante, e chamaria Louis B. Mayer de volta da aposentadoria. E... — a inspiração acabou-se.

Doc Phillips ficou com a boca aberta como se eu tivesse colocado uma grande granada armada nas mãos dele.

— Acha que sou louco? — indaguei.

— Não. Demente.

— Será que alguém se importaria se eu fosse a Notre-Dame? Gosta­ria de subir e fingir que sou Quasímodo. É seguro?

— Não. — Doc começou a andar em volta de mim como um cachorro ao redor de um hidrante. — Não é seguro. Estamos consertando tudo. Na verdade, estamos pensando em demolir Notre-Dame.

Ele voltou-se para a entrada outra vez.

— Você é completamente doido — disse ele, desaparecendo no inte­rior da catedral.

Fiquei em pé na porta por aproximadamente dez segundos, depois gelei.

Do interior escuro chegou até meus ouvidos uma espécie de grunhido, e depois um som como o de um cabo raspando nas paredes.

— Doc?

Dei um passo para o interior, mas não consegui enxergar nada.

— Doc?

Uma sombra delineou-se no alto da catedral. Parecia um grande saco de areia sendo içado para o cimo. Lembrei-me do corpo de Roy balançando no Estúdio 13.

— Doc? Ele se fora.

Olhei para o alto na escuridão, para um forma que parecia as solas dos sapatos dele, subindo cada vez mais.

— Doc!

Então, aconteceu.

Algo atingiu o chão da catedral.

Era um mocassim negro.

— Meu Deus!

Recuei, e pude observar uma sombra alongada recortada contra o céu no alto da catedral.

— Doc?

- 52 -

— Pegue!

Crumley jogara uma nota de dez dólares para o motorista do táxi, que depois de apanhar o dinheiro foi embora.

— Exatamente como no cinema! — comentou Crumley. — O sujeito joga dinheiro para o motorista e nunca pede o troco. Diga obrigado.

— Obrigado!

— Puxa vida! — Crumley examinou meu rosto, impressionado. — Vamos entrar. Pegue isso.

Ele atirou-me uma lata de cerveja. Bebi e contei a ele o que acontece­ra na catedral. Doc Phillips, o grito abafado, a sombra subindo e o pé de sapato caindo no chão empoeirado.

— Eu vi tudo isso. Mas quem sabe? — concluí. — O estúdio está fechado para reforma. Pensei que Doc Phillips fosse um vilão. Um dos outros vilões deve tê-lo apanhado. Por enquanto não há nenhum cor­po. Pobre Doc. Mas o que estou dizendo? Eu nem ao menos gostava dele!

— Meu Deus, você me traz as palavras cruzadas do New York Ti­mes, quando sabe que eu só consigo resolver as do Daily News — desa­bafou Crumley. — Arrasta cadáveres para dentro da minha casa como se fosse um gato orgulhoso do que acabou de matar, sem nenhum mo­tivo especial e sem lógica. Qualquer advogado atiraria você pela janela. Qualquer juiz iria acertar você com o martelinho. Um psiquiatra recu­saria a você o privilégio do eletrochoque. Poderia passar cheio de arenques pelo Bulevar Hollywood e não ser preso por poluição.

— Claro — concordei, mergulhando num estado depressivo. O telefone tocou.

Crumley passou-o para mim.

— Eles o procuram aqui, eles o procuram acolá, eles procuram aquele mandrião em todo lugar. Ele está no inferno, ele está no céu...

— Aquele miserável Pimpernel! — gritei, completando a quadrinha. Deixei cair o telefone como se uma bomba tivesse estourado. Depois apanhei-o novamente.

— Onde você está? — berrei. Brrr. Bzzz.

Crumley levou o aparelho à orelha e balançou negativamente a cabeça.

— Roy? — indagou ele. Fiz um aceno afirmativo.

Mordi os nós dos dedos, tentando me controlar para o que viria a seguir.

Crumley olhou para meu rosto. As lágrimas chegaram.

— Era Roy, mesmo — disse Crumley.

— Ele está vivo! Ele está vivo de verdade.

— Calma. — Crumley colocou outra cerveja em minha mão. — Abai­xe a cabeça.

Curvei a cabeça para baixo a fim de que ele pudesse massagear mi­nha nuca. As lágrimas escorreram pelo nariz.

— Eu sabia! Graças a Deus ele está vivo.

— Por que ele não ligou antes?

— Talvez estivesse com medo — sugeri, olhando para o chão. — É como eu disse: estão fechando o estúdio. Talvez quisesse que eu acredi­tasse que ele estava morto, para que ninguém me ameaçasse. Talvez ele saiba mais sobre o Monstro do que nós.

Balancei a cabeça.

— Olhos fechados — recomendou Crumley, massageando minha nu­ca. — Boca fechada.

— Meu Deus, ele está numa armadilha, não pode sair. Ou não quer. Está escondido. Precisamos salvá-lo!

— Salvar uma ova! — disse Crumley. — Em que cidade ele está? Bos­ton? Uganda? O Teatro Ford? Nós podemos levar um tiro. Existem no­venta e nove lugares onde ele poderia estar escondido, mas não adianta ficarmos lá como dois bobos, gritando para que ele saia e seja morto em seguida. Faça sozinho esse passeio no estúdio!

— Crum, seu covarde...

— Não sou corajoso, nem burro.

— Está quebrando meu pescoço!

— Agora achei o lugar!

De cabeça baixada, deixei que ele transformasse meus tendões enri­jecidos numa geléia quente. Do interior da escuridão de minha mente, perguntei:

— Então?

— Deixe-me pensar, que diabo! — disse ele, massageando com força meu pescoço. — Nada de pânico. Se Roy está lá, precisamos descas­car a cebola inteira, camada por camada, até encontrá-lo na hora e lu­gar certos. Sem gritos nem avalanches prestes a cair sobre nós.

As mãos de Crumley agora estavam atrás de minhas orelhas, como as de um pai.

— O problema todo deve estar relacionado com o pavor que senti­ram de Arbuthnot.

— Arbuthnot... — repetiu Crumley. — Você disse que ele está en­terrado do outro lado do muro, perto do estúdio? Tem certeza de que ele está enterrado lá?

— Vi o nome dele escrito numa das tumbas.

— Você está falando de letras, e eu estou falando de cadáveres. Sentei e encarei Crumley.

— Está querendo dizer: Quem está na tumba do general Grant?

— Isso, como a velha piada. Como sabemos se o general Grant ain­da está lá?

— Não sabemos! Ladrões profanaram o túmulo dele duas vezes. Se­tenta anos atrás eles chegaram a carregá-lo para o cemitério quando fo­ram apanhados.

— É mesmo?

— Talvez...

— Talvez? — gritou Crumley. — Meu Deus, acho que vou deixar crescer mais cabelo para poder arrancar! Vamos verificar o túmulo de Arbuthnot?

— Bem...

— Não diga “bem”, que diabo! — Crumley esfregava furiosamente sua careca. — Você vem afirmando que o homem na escada era Ar­buthnot. Pode ser! Alguém pode muito bem ter roubado o corpo verda­deiro para verificar se encontrava veneno. Por que não? Talvez o desas­tre de carro não tenha acontecido porque ele estivesse bêbado, e sim envenenado, morrendo ao volante. Quem quer que tenha interesse em fazer uma autópsia vinte anos depois pode coletar provas de assassinato para fazer chantagem, depois fabricar o boneco para assustar o pessoal do estúdio, e pronto: dinheiro em caixa.

— Crum, isso é terrível.

— Não passa de adivinhação, teoria, papo. Só existe um jeito de ter certeza. — Crumley consultou seu relógio. — Esta noite. Vamos bater à porta de Arbuthnot. Ver se ele está em casa, ou se alguém veio apanhar as entranhas dele para profetizar alguma coisa, e assustar as le­giões de César a ponto de urinarem sangue. Pensei no cemitério. Finalmente, disse:

— Não adianta ir até lá, a menos que levemos um detetive de verdade!

— Como, de verdade? — Crumley recuou.

— Um sabujo!

— Sabujo? — Crumley olhou para meu rosto. — Esse sabujo por acaso mora na esquina da Rua Temple com Figueroa? No terceiro andar?

— Num cemitério à meia-noite, não interessa o que a gente veja, é preciso um nariz. E isso ele tem.

— Henry? O maior cego do mundo?

— Sempre foi — respondi.

- 53 -

Eu ficara em frente à porta de Crumley e ela se abrira.

Eu fora à praia de Constance Rattigan, e ela saíra das ondas do mar.

Agora eu estava no soalho sem tapete do velho prédio de apartamen­tos onde eu morara com sonhos futuros no teto, nada nos bolsos, e pa­pel vazio aguardando em minha máquina portátil Smith-Corona.

Parei à frente da porta de Henry e senti meu coração batendo rapida­mente, pois imediatamente abaixo ficava o aposento onde minha queri­da Fannie morrera, e essa era a primeira vez que eu retornava desde aqueles dias tristes em que bons amigos partiram para sempre.

Bati à porta.

Escutei o bater de uma bengala e o pigarrear de uma garganta. O assoalho gemeu.

Escutei a testa escura de Henry tocar a parte interna da porta.

— Conheço essa batida — murmurou ele. Bati novamente.

— Não acredito. — A porta se abriu. Os olhos cegos de Henry fitaram o nada.

— Deixe-me cheirar fundo.

Ele inalou, eu exalei. Uma combinação perfeita.

— Jesus! — A voz de Henry estremeceu como a chama de uma vela ao vento marinho. — Chiclete de hortelã! Você!

Eu mesmo, Henry — confirmei, suavemente. As mãos dele se estenderam. Agarrei ambas.

— Por Deus, rapaz, seja bem-vindo.

Que bom.

Ele me agarrou e me deu um abraço, depois percebeu o que havia feito e recuou.

— Desculpe...

— Não Henry. Mais uma vez.

E ele me deu um segundo e longo abraço.

— Por onde tem andado, garoto, já faz tanto tempo... Henry conti­nua aqui neste maldito lugar enorme que eles vão botar abaixo.

Ele virou-se, caminhou de volta para a cadeira, e suas mãos encon­traram e inspecionaram dois copos.

— Estão limpos como eu acho que estão?

Dei uma olhada e assenti com a cabeça. Em seguida lembrei-me e disse:

— Sim, senhor.

— Não quero passar nenhum micróbio para você, filho. Vamos ver... aqui está. — Ele apanhou na gaveta uma garrafa grande de uísque de ótima marca. — Você bebe isto?

— Com você, sim.

— Isso é que é amizade! — Ele serviu duas doses generosas, e esten­deu o copo. De alguma forma, minha mão estava lá.

Acenamos com as bebidas e lágrimas escorreram pelas bochechas ne­gras dele.

— Acho que não sabia que negros cegos também choram, sabia?

— Agora sei, Henry.

— Deixe-me ver — disse ele, estendendo a mão na direção do meu rosto. Depois levou o dedo à própria boca. — Salgado. Que coisa! Você é tão banana quanto eu.

— Sempre fui.

— Nunca mude, garoto. Onde tem andado? A vida tem machucado você? Por que veio até aqui... — ele se interrompeu. — Oh, oh! Pro­blemas?

— Sim e não.

— Mais sim do que não, certo? Tudo bem. Não pensei, quando você saiu por conta própria, que voltaria logo. Quero dizer, essa não é a par­te da frente do elefante, é?

— Também não é a parte traseira.

— Mas é mais perto de lá — Henry riu. — Como é bom ouvir sua voz, garoto. Sempre achei que você cheirava bem. Quero dizer, se é que existe um cheiro de inocência, é o seu, mascando dois chicletes de hortelã de cada vez. Mas você não está sentado. Sente. Deixe que eu conte meus problemas, depois você me conta os seus. Eles demoli­ram o ancoradouro de Venice, e também a estação de trens... botaram tudo abaixo. Na semana que vem, vão demolir este prédio. Para onde vão os ratos? Como poderemos abandonar o navio sem salva-vidas? Diga.

Tem certeza?

Eles têm cupins trabalhando em tempo integral, lá embaixo. Esquadrões de dinamitadores no telhado, marmotas e castores mastigan­do as paredes, e um bando de trombeteiros aprendendo Jerico, Jerico, ensaiando aí no beco para derrubar este lugar. Depois disso, para onde eu vou? Não sobraram muitos de nós. Com Fannie morta, Sam bêba­do até morrer, e Jimmy afogado na banheira, era só uma questão de tempo antes que todos st sentissem bafejados, cutucados, por assim di­zer, pela velha Morte. Melancolia tétrica e depressiva é o suficiente pa­ra limpar uma casa de cômodos em época de desespero. Deixe um só rato contaminado entrar e pode ter certeza de que a praga toma conta de tudo.

— A coisa está tão ruim assim, Henry?

— De mal a pior, mas tudo bem. Era hora de mudar, de qualquer maneira. A cada cinco anos, é bom apanhar a escova de dentes, com­prar meias novas e partir, é o que eu sempre digo. Você tem um lugar para me acomodar, garoto? Eu sei, eu sei, que são todos brancos por lá. Mas, que diabo, eu não enxergo, portanto que diferença faz?

— Tenho um quartinho na minha garagem, onde eu trabalho. É seu!

— A Providência Divina chega rápido... — Henry recostou-se em sua cadeira, passando a mão na boca. — Será que isso é mesmo um sorriso? Não se preocupe, é só por dois dias! — acrescentou, rapida­mente. — O vagabundo do marido da minha irmã vem de carro de New Orleans para me levar para casa. Então eu deixo você em paz... - Ele parou de sorrir, e inclinou-se em minha direção. — Cheiro de sovaco lá fora de novo? No mundo exterior?

— Não é bem cheiro de sovaco, Henry. Algo parecido.

— Não muito parecido, eu espero.

— É mais do que isso — completei, depois de um momento. — Po­de vir comigo, agora? Detesto apressar você, Henry. E sinto muito que tenha de sair à noite.

— Não precisa se desculpar, garoto — Henry riu, suavemente. — Dia e noite são apenas boatos que eu escutei uma vez, quando era criança.

Ele levantou-se, tateando em volta.

— Espere um pouquinho, até eu achar minha bengala — disse ele. — Para que eu possa enxergar.

- 54 -

Crumley, o cego Henry e eu chegamos às imediações do cemitério à meia-noite. Hesitei, olhando para o portão.

— Ele está lá — declarei, fazendo um gesto em direção aos portões. — O Monstro correu por aí algumas noites atrás. O que fazemos se o encontrarmos saindo?

— Não tenho a menor idéia — disse Crumley, passando pelo portão.

— Ora, por que não? — comentou Henry. E me deixou sozinho, na calçada vazia. Alcancei os dois.

— Esperem um pouco. Deixe-me respirar fundo — pediu Henry, inspirando e soltando o ar em seguida. — É isso aí. Um cemitério mesmo!

— Isso o incomoda, Henry?

— Não, as pessoas mortas não significam nada — disse Henry. — São os vivos que me tiram o sono. Querem saber como sei que aqui não é simplesmente mais um jardim? Os jardins são sempre repletos de cheiros de flores, vários tipos misturados. Mas os cemitérios? A maior parte são angélicas. Dos funerais. Sempre detestei enterros por causa desse cheiro. Como estou me saindo, detetive?

— Muito bem, mas... — Crumley nos conduziu para fora das luzes. — Se ficarmos aqui muito tempo, alguém vai concluir que precisamos ser enterrados, e é capaz de resolver fazer isso por nós. Vamos lá.

Passou a andar rapidamente entre as tumbas de um branco leitoso. Monstro, pensei, onde está você?

Olhei de volta para o carro de Crumley e senti como se fosse um amigo que ficava mil quilômetros para trás.

— Você ainda não me explicou por que quis trazer um cego a um cemitério — lembrou Henry. — É do meu olfato que está precisando?

— Do seu e do sabujo dos Baskerville — disse Crumley. — Por aqui.

— Não me toque — pediu Henry. — Tenho o nariz de um cão de caça, mas meu orgulho é de gato. Lá vamos nós, dona Morte.

E ele nos conduziu por entre os túmulos, tateando com a bengala para a esquerda e a direita, como se fosse para desalojar grandes peda­ços da noite, ou produzir faíscas onde elas nunca existiram.

— Como estou me saindo?

Não acerte no Monstro, pensei, sem dizer nada.

— No país que não existe... — murmurou Elmo Crumley.

Ele contava as lápides, obeliscos e jazigos, e não conseguiu evitar com­pletar o poema, em sussurros:

 

No país que não existe Nada existe, que existisse Vinganças se tornam poeira O que odeia perde a ira

 

Fez uma pausa, depois recitou o final:

 

Amantes, dois a dois deitados. Não perguntam quem dorme ao lado E o noivo passa a noite inteira Sem se entregar à brincadeira.

 

— Balela — resmungou ao final.

Fiquei de pé ao lado de Henry, entre as pedras de mármore com no­mes e datas, a grama crescendo silenciosamente entre os espaços vazios.

Henry farejou o ar.

— Estou sentindo o cheiro de um grande pedaço de pedra. Vamos ver. Que tipo de braile é esse?

Ele passou a bengala para a mão esquerda enquanto a direita tateava sobre a lápide o nome cinzelado em cima da porta da tumba grega.

Os dedos tremeram sobre o “A” e imobilizaram-se no “T” final.

— Conheço esse nome. — Henry consultou um arquivo no escuro de sua mente, por trás dos olhos brancos como bolas de bilhar. — Não seria ele o famoso proprietário do estúdio do outro lado do muro, que morreu muito tempo atrás?

— Exatamente.

— O homem que tinha lugar em todas as diretorias e não tinha sala? Que preparava as próprias mamadeiras, trocava as próprias fraldas e comprou seu quadrado com dois anos e meio? Aos três ele despediu a professora do jardim-de-infância, mandou dez meninos para a enfer­maria aos sete, perseguia as meninas aos oito e conseguia apanhá-las aos nove. Com dez anos possuía um estacionamento, e aos doze ganhou o estúdio, quando o pai morreu e deixou para ele Londres, Roma e Bombaim. É esse?

Henry — suspirei. — Você é maravilhoso.

— Isso dificulta as coisas para as pessoas que convivem comigo — admitiu Henry, baixinho.

Estendeu a mão para tocar novamente o nome gravado no mármore e a data abaixo dele.

— Trinta e um de outubro, 1934. Dia das Bruxas! Vinte anos atrás. Imagino como deve ser, estar morto há tanto tempo. Vamos lá perguntar. Alguém lembrou de trazer ferramentas?

— Trouxe um pé-de-cabra, do carro — informou Crumley.

— Ótimo. — Henry estendeu a mão. Seus dedos tocaram a porta do jazigo. — Com mil demônios!

A porta deslizou nas dobradiças lubrificadas. Sem o mínimo ruído! Nenhum guincho! Perfeitamente lubrificada!

— Pelo amor de Deus! Está aberto! — Henry deu um passo para trás. — Desde que vocês têm mais sentidos do que eu... vão na frente.

Encostei na porta. Ela deslizou suavemente para as sombras.

— Aqui.

Crumley passou por mim, acendeu sua lanterna e penetrou na es­curidão.

Fui atrás dele.

— Não me deixem aqui sozinho — disse Henry.

— Fechem a porta — lembrou Crumley. — Não queremos que nin­guém veja a luz da lanterna...

Hesitei. Já assistira a muitos filmes onde as portas pesadas se fecha­vam e as pessoas ficavam presas, gritando, para sempre. E se o Mons­tro estivesse rondando por ali?

— Vamos logo! — Crumley adiantou-se e fechou a porta, deixando apenas uma fresta para que o ar penetrasse. — Pronto!

O aposento estava vazio, à exceção de um grande sarcófago de pedra ao centro. Mas não havia tampa. No interior do sarcófago deveria ha­ver um caixão.

— Pôrra! — exclamou Crumley.

Olhamos para baixo. Não havia nenhum caixão.

— Não digam nada! — pediu Henry. — Deixe-me colocar os óculos escuros para me ajudar a sentir melhor os cheiros! Pronto!

Enquanto olhávamos para baixo, Henry curvou-se, respirou fundo, assumiu um ar pensativo por trás dos óculos escuros, exalou, balançou a cabeça e repetiu tudo outra vez. Depois seu rosto iluminou-se.

— Não há nada aí! Estou certo?

— Certo.

— J.C. Arbuthnot, onde está você? — perguntou Crumley.

— Aqui não está — respondi.

— E nunca esteve — acrescentou Henry.

Olhamos rapidamente para ele. Ele assentiu, parecendo contente con­sigo mesmo.

— Ninguém com esse nome, ou com outro nome qualquer esteve aqui. Nunca. Se tivesse havido alguém, eu sentiria algum cheiro, en­tende? Bastaria um floco de caspa, uma unha, um pelinho do nariz. Não sinto nem mesmo cheiro de flores ou incenso. Este lugar, meus amigos, nunca foi usado, nem mesmo por uma hora. Se estou errado, corto fora meu nariz!

Foi como se água gelada escorresse pela minha espinha e para fora dos sapatos.

— Meu Deus! — exclamou Crumley. — Por que eles construiriam um jazigo para não colocar ninguém dentro, e fingir que sim?

— Talvez nunca tenha existido um corpo — sugeriu Henry.

— Mas existiu — argumentei. — Eu estava lá, há vinte anos. Vi o carro fúnebre.

— Só porque você viu um carro fúnebre não quer dizer que existiu um enterro.

— Foi um enterro de caixão aberto? — perguntou subitamente Crumley.

Dirigi minhas lembranças para as fotografias dos jornais naquela época.

— O funeral foi com o caixão fechado — disse eu.

— Certo! Cinco mil pessoas, sem nenhum cadáver, e ninguém sabia disso. Pelo amor de Deus!

— Eu...

A porta do jazigo fechou-se de repente.

Henry, Crumley e eu gritamos assustados. Agarrei Henry, e Crum­ley agarrou a nós dois. A lanterna caiu. Xingando, abaixamo-nos e ba­temos nossas cabeças; com as respirações alteradas, esperamos e escu­tamos a porta trancar-se sobre nós. Agitamo-nos desajeitadamente, con­seguindo achar a lanterna e agitando o cone de luz em direção à porta, desejando a vida, a luz e o ar noturno que havia do lado de fora.

Chegamos juntos até a porta.

Por Deus, estava mesmo trancada!

— Como vamos sair deste lugar?

— Não é possível — eu repetia sem parar.

— Calem a boca — pediu Crumley. — Deixem-me pensar.

— Então pense rápido — disse Henry. — Quem quer que tenha tran­cado a gente deve ter ido buscar ajuda.

— Talvez tenha sido só o zelador — sugeri, sem muita convicção. Não, pensei a seguir, foi o Monstro.

— Me dê a lanterna. Isso. — Crumley dirigiu o facho de luz para cima e ao redor de nós. — As dobradiças ficam do lado de fora, não podemos chegar até elas.

— Bem, suponho que não haja nenhuma outra porta neste lugar — disse Henry.

Crumley dirigiu a luz para o rosto de Henry.

— O que foi que eu disse? — indagou o cego.

Crumley desviou a lanterna, passando além de Henry e iluminando o sarcófago. Examinou o teto e o chão, pelos cantos e até a pequena janela na parte de trás, tão pequena que nem mesmo um gato passaria por ali.

— Acham que podemos gritar por ali?

— Quem quer que viesse atender, seria indesejável — lembrou Henry. Crumley continuou movimentando o facho em círculos.

— Outra porta — repetia ele. — Tem de haver outra porta!

— Tem de haver! — ecoei.

Senti os olhos lacrimejando abundantemente e uma forte secura na garganta. Imaginei escutar fortes pisadas entre os túmulos, amassando as sombras, chamando-me de Clarence e desejando que eu estivesse mor­to. Imaginei a porta se abrindo e uma tonelada de livros, fotos assina­das e autógrafos entravam para nos sufocar.

— Crumley? — Agarrei a lanterna. — Me dê isso aqui!

Só havia mais um lugar para procurar. Dei uma olhada no interior do sarcófago. Aproximei o rosto e respirei fundo pela descoberta feita.

— Vejam! Essas coisas aí dentro — disse eu, apontando. — Não sei o que são... parecem marcas, frestas, ou algo parecido. Nunca vi estas coisas numa tumba antes. E vejam aqui, na junta, parece que a luz passa lá para baixo. Ei, esperem um pouco!

Saltei para a borda do sarcófago, equilibrei-me e olhei para as formas regulares no fundo.

— Cuidado! — avisou Crumley. Pulei no interior do sarcófago.

Ouviu-se um ruído de mecanismos bem lubrificados. O jazigo intei­ro pareceu vibrar quando algum contrapeso de deslocou.

Afundei juntamente com o piso do sarcófago. Meus pés dissolveram-se na escuridão. Em seguida foram minhas pernas. Fiquei apoiado num plano inclinado quando o fundo parou de mover-se.

— São degraus! — gritei. — É uma escada!

— O quê? — Henry inclinou-se sobre mim. — É isso aí!

O fundo do sarcófago, inclinado, parecia com uma série de meias pi­râmides. O desenho formava perfeitos degraus para um jazigo mais profundo.

Dei um passo para baixo.

— Venham!

— Como, venham? — disse Crumley. — O que diabos é isso aí embaixo?

— E o que temos aqui? — retruquei, apontando a porta fechada.

— Droga! — Crumley saltou para alcançar Henry, que se movera co­mo um gato.

Dei um passo para baixo, tremendo e balançando a lanterna. Henry e Crumley vieram atrás, xingando e bufando.

Mais um lance de degraus mesclava-se com os do fundo do sarcófago, descendo os três metros adicionais até o fundo da catacumba. Quan­do Crumley, finalmente, terminou de descer, o fundo fechou-se com estrépito. Dei uma olhada para cima e vi um contrapeso suspenso na penumbra. Um grande anel de ferro pendia do fundo falso. Do lado de baixo podia-se usá-lo para puxar a escada para baixo.

Tudo aconteceu num átimo.

— Odeio este lugar — disse Henry.

— O que você sabe sobre isso? — quis saber Crumley.

— Não gosto daqui! Escute!

Lá em cima, o vento, ou alguma coisa, sacudia a porta externa. Crumley moveu o facho da lanterna para cima.

— Agora sou eu que não gosto deste lugar.

Havia uma porta na parede, a três metros de distância. Crumley apoiou seu peso nela. Acabou abrindo. Com Henry entre os dois, pas­samos por ela. A porta bateu atrás de nós. Desatamos a correr.

Fugindo, ou indo ao encontro do Monstro?

— Não olhe! — gritou Crumley.

— Como assim, não olhe? — Henry agitava sua bengala no ar, batia no chão de pedra com os sapatos, no meio de nós dois.

— É só não olhar, que diabo! — gritou Crumley, à frente.

Mas eu vira por onde corríamos, batendo nas paredes, dando de en­contro a pilhas de ossos, pirâmides de crânios, caixões quebrados e des­troços funerários em geral; era como um campo de batalha dos defun­tos; urnas mortuárias em pedaços, fragmentos de estátuas, ícones des­truídos, como se uma longa procissão fúnebre tivesse interrompido seu trajeto e largado tudo no meio da cerimônia para fugir, como nós mes­mos fazíamos usando um único cone de luz, que passava pelo teto cheio de musgo, iluminando pequenos nichos quadrados, de onde nos sor­riam dentes sobre ossos descarnados.

Como não olhe!, pensei. Não pare, isso sim! Quase derrubei Henry, bêbado de medo. Ele vibrou sua bengala como se fosse me acertar, e moveu as pernas como um demônio míope.

Passamos de um território para outro, de uma fileira de ossos para uma fileira de latas de filmes, de sepulcros de mármore para sepulcros de concreto, e subitamente nos vimos no velho território em preto-e-branco. Os nomes desfilaram nos rótulos das embalagens de filmes.

— Onde diabo nós estamos? — indagou Crumley.

— Rattigan! — ouvi minha própria voz exclamar. — Botwin! Meu Deus! Estamos no depósito da Maximus! Além, embaixo do outro lado do muro!

De fato, estávamos no depósito subterrâneo de filmes que Botwin e Rattigan haviam mencionado, em paisagens de penumbra que haviam regurgitado de vida nos anos 20, 22 e 25. Não eram túmulos de ossos, e sim de velhas tiras de celulóide, que Constance mencionara quando passáramos de carro. Olhei em volta na escuridão para ver assombra­ções reais dando lugar aos fantasmas dos filmes. Os títulos passavam por mim: O Traiçoeiro Dr. Eu Manchu. O Pirata Negro. Não apenas títulos da Companhia Cinematográfica Maximus, mas também de ou­tros estúdios, emprestados ou roubados.

Fiquei dividido. Metade de mim evitando olhar a caverna suja, outra metade querendo ver, tocar esses antigos fantasmas do passado que ha­viam assombrado a parte da infância que eu passara escondido nas matinês.

Gritei sem emitir nenhum som. Não podia sair dali! Chaney! Fair-banks! O homem na maldita máscara de ferro! Nemo sob o mar! D'Artagnan! Esperem por mim! Eu voltarei! Se conseguir sobreviver, claro! Logo.

Tudo tornou-se uma algaravia de medo e frustração, uma onda de súbita adoração e medo instantâneo fomentando meus pensamentos.

Não olhe muito para esses tesouros, pensei. Lembre-se do escuro. Corra!

E por Deus, não pare!

Nossos ecos nos alcançaram, transformando-se em uma onda acústi­ca de pânico. Todos gritamos e corremos os últimos trinta metros, Crum­ley balançando a lanterna como um macaco enlouquecido; eu e o cego Henry colidimos com ele, quando parou ao atingir uma porta.

— Meu Deus, se estiver trancada...

Gelei, lembrando-me de velhos filmes. A porta se abre: um dilúvio inunda Nova York e suga a gente para os poços escuros de água salga­da. A porta se abre e os fogos do inferno explodem a gente em peque­nos pedaços mumificados. A porta se abre e monstros do tempo agar­ram a gente com garras nucleares e nos arrastam para uma sepultura sem fim. A gente cai para sempre, gritando.

Minha mão suava ao tocar a maçaneta. Guanajuato parecia estar atrás da madeira. Pensei no longo túnel no México onde eu tivera certa feita uma experiência horrível, vendo cento e dez homens, mulheres e crian­ças, mumificados, com a pele cor de tabaco, arrancados de suas sepul­turas para ficar enfileirados à espera dos turistas e do dia do julga­mento.

Guanajuato aqui?, pensei. Não!

Empurrei a porta, que deslizou silenciosamente sobre dobradiças per­feitamente lubrificadas.

Houve um momento de choque.

Entramos, assustados, e fechamos a porta.

Voltamo-nos.

Havia uma grande cadeira bem próxima.

E uma escrivaninha vazia.

Com um telefone branco no centro do tampo.

— Onde estamos? — perguntou Crumley.

— Pela maneira como está respirando, o garoto sabe — disse Henry. A lanterna de Crumley passeou pela sala.

— Santa Mãe de Deus... — suspirei. Eu estava olhando para...

A poltrona de Manny Leiber.

A escrivaninha de Manny Leiber.

O telefone de Manny Leiber.

O escritório de Manny Leiber.

Voltei-me para ver o espelho que ocultava a porta agora invisível.

Meio tonto de exaustão, olhei para minha própria imagem naquele espelho frio.

E subitamente...

Mil novecentos e vinte e seis. A cantora de ópera em seu camarim, e uma voz atrás do espelho guiando-a, ensinando-a, desejando que ela desse um passo para atravessar o espelho, uma Alice de terror... diluí­da em imagens, dissolvendo-se nas sombras do subterrâneo, conduzi­da pelo homem de capa escura e máscara branca para uma gôndola que flutuava nas águas sujas do canal para um palácio oculto sob a terra e uma cama em formato de ataúde.

O espelho do fantasma!

A passagem secreta do fantasma para a terra dos mortos.

E agora...

A cadeira, a escrivaninha, o escritório.

Mas não do fantasma. Do Monstro.

Afastei a cadeira.

O Monstro... vindo visitar Manny Leiber?

Tropecei e recuei.

Manny, pensei. Aquele que nunca dava ordens de verdade, mas simplesmente as recebia. Uma sombra, sem substância. Um coadjuvante, não o ator principal. Dirigir um estúdio? Não. Ser uma linha telefôni­ca para transmitir outras vozes? Sim. Um mensageiro. Um office-boy servindo cigarros e champanhe, claro! Mas sentar-se naquela cadeira? Ele nunca sentara ali. Porque...?

Era a cadeira do Monstro.

Crumley apressava Henry.

— Vamos indo!

— O quê? — indaguei, ainda tonto.

— Alguém vai passar por aquele espelho a qualquer minuto!

— Espelho? — perguntei. Estendi a mão.

— Não! — gritou Crumley.

— O que ele quer fazer? — quis saber Henry.

— Estou olhando para trás — expliquei. Abri a porta escondida pelo espelho.

Olhei pelo longo túnel, impressionado com a extensão que corrêra­mos, de país a país, de mistério em mistério, ao longo de vinte anos, de um Dia das Bruxas para outro. O túnel passava dos arquivos de fil­mes mortos para os relicários inomináveis. Será que eu teria corrido aquilo tudo sem Crumley e Henry para afastar as sombras enquanto meu coração batia contra as paredes?

Ouvi atentamente.

A distância, será que as portas batiam? Seria um exército a nos per­seguir, ou simplesmente o Monstro? Será que em pouco tempo uma arma mortal lançaria crânios, explodiria o túnel e me lançaria para trás? Será...

— Que diabo! — exclamou Crumley. — Seu idiota! Saia daí! Ele puxou minha mão. O espelho fechou.

Agarrei o fone e disquei.

— Constance! — gritei. — Green Town. Constance respondeu.

— O que ela disse? — Crumley perscrutava meu rosto. — Deixe pa­ra lá... Pois o espelho tremia. Fugimos correndo.

- 55 -

O estúdio estava tão vazio e desolado quanto o cemitério do outro lado do muro.

As duas cidades encaravam uma à outra através do ar noturno e si­mulavam mortes parecidas. Éramos os únicos seres quentes a mover-se pelas ruas. Talvez em algum lugar Fritz estivesse filmando cenas no­turnas da Galiléia, com braseiros, Cristos e pegadas desmanchadas pe­lo vento da aurora. Em algum lugar, Maggie Botwin curvava-se sobre seu telescópio, examinando as vísceras da China. Em algum lugar, o Monstro enraivecido pretendia nos seguir, ou permanecer oculto.

— Calminha! — pediu Crumley.

— Não estamos sendo seguidos — garantiu Henry. — Podem con­fiar no que o cego diz. Para onde vamos?

— Para a casa de meus avós.

— Isso sim é que é uma boa sugestão — aplaudiu Henry. Conversamos enquanto caminhávamos.

— Meu Deus, será que alguém no estúdio sabe da existência daque­la passagem?

— Se alguém sabe, nunca ouvi nada sobre isso.

— Pense só. Se ninguém soubesse, e o Monstro de fato fosse lá toda noite ou todo dia e ficasse escutando, depois de algum tempo ele ia sa­ber de tudo. Todos os negócios, entradas e saídas, tudo o que envolve ações, os escândalos das mulheres... Bastava juntar informações sufi­cientes para entrar em ação. Jogar o Guy sobre eles, apanhar o dinheiro e fugir.

— Guy?

— O boneco de Guy Fawkes, um espantalho com fogos de artifício dentro, que os ingleses jogam na fogueira no dia de Guy Fawkes, 5 de novembro, na Inglaterra. É como a malhação do Judas e o Dia das Bru­xas, só que possui um cunho político-religioso. Esse sujeito, Fawkes quase acabou com o Parlamento. Quando conseguiram apanhá-lo, ele foi enforcado. Temos algo parecido aqui no estúdio. O Monstro quer minar a Maximus. Não literalmente, mas dividindo as pessoas com sus­peitas. Assustando a todos. Agitando um boneco na direção deles. Tal­vez os esteja aterrorizando há anos. Ninguém é mais esperto do que ele. É como alguém de dentro usando todas as informações secretas.

— Calma aí! — disse Crumley. — Está certinha demais essa história. Está querendo insinuar que ninguém sabe que o Monstro fica atrás do espelho da parede.

— Exato.

— Então por que o estúdio, ou seu patrão, que faz parte dele, tem um ataque de apoplexia quando vê o busto de argila do Monstro?

— Bem...

— Será que Manny sabe que o Monstro está lá e tem medo dele? Será que o Monstro entrou no estúdio à noite, viu o trabalho de Roy e destruiu-o num acesso de raiva? E agora Manny tem medo que Roy faça chantagem com ele porque sabe que o Monstro existe e ninguém mais sabe? O quê, o quê, o quê? Responda rápido!

— Por Deus, Crumley! Silêncio!

— Como, silêncio? Que tipo de conversa é essa?

— Fique quieto, estou pensando.

— Claro, estou ouvindo as engrenagens funcionarem. Pode escolher. Qual das teorias? Ou todos ignoram quem se esconde para escutar por trás do espelho e temem o desconhecido, ou eles sabem e têm duas ve­zes mais medo porque o Monstro deve ter reunido tanta sujeira nesses anos todos, que pode ir aonde bem entenda, apanhar seu dinheiro e voltar correndo por baixo do muro. Eles não ousam enfrentá-lo. Ele provavelmente tem algumas cartas com algum advogado, com ordens de enviá-las no dia em que algo aconteça a ele. Já imaginou o pânico de Manny, mandando lavar as cuecas dez vezes por dia? Pois bem, qual delas vai ser? Ou você tem uma terceira versão?

— Não me deixe nervoso. Se você forçar demais, vou entrar em pa­rafuso.

— Que diabos, garoto, é a última coisa que eu quero que aconteça — disse Crumley, curvando a boca como se estivesse chupando limão.

— Desculpe ter deixado você com medo, mas tenho de ficar acompa­nhando suas hipóteses pela metade. Acabei de correr por um túnel perseguido por uma colméia de criminosos que você despertou. Será que topamos com um bando da Máfia ou um só franco-atirador maníaco? Promessas, promessas... Onde está Roy? Onde está Clarence, onde es­tá o Monstro? Me dê um cadáver, um só. Pois bem?

— Espere um pouco. — Parei, fiz meia-volta e afastei-me.

— Aonde vai? — perguntou Crumley.

Ele me seguiu pela encosta do pequeno monte.

— Onde estamos?

Ele olhava para todos os lados pela noite escura.

— No Calvário.

— E o que tem ali diante?

— Uma cruz. Três cruzes, na verdade.

— E...?

— Você não estava se queixando da falta de cadáveres?

— E daí?

— Estou com um pressentimento terrível.

Estendi minha mão e toquei a base da cruz. Ela ficou pegajosa e exa­lou um odor acre como a vida.

Crumley fez o mesmo. Cheirou as pontas dos dedos e balançou a ca­beça, identificando a substância.

Olhamos para cima, ao longo da cruz contra o céu negro.

Depois de alguns instantes nossos olhos se acostumaram à escuridão.

— Não há nenhum corpo aí — observou Crumley.

— Eu sei, mas...

— É o que eu imaginava — disse Crumley, saindo na direção de Green Town.

— J.C.? — sussurrei. — J.C.?

— Não fique simplesmente parado aí — gritou Crumley, do sopé da colina.

— Não estou só parado aqui!

Contei até dez, devagar, limpei meus olhos com as mangas, assoei o nariz e desci.

Conduzi Henry e Crumley pelo caminho para a casa de meus avós.

— Estou sentindo cheiro de gerânios e lilases — afirmou Henry, levantando o rosto.

— Isso mesmo.

— Grama cortada, mobília polida e muitos gatos.

— O estúdio precisa acabar com os ratos. Temos de subir oito de­graus agora, Henry.

Paramos na varanda, ofegantes.

— Meu Deus! — exclamei, olhando para as colinas de Jerusalém além de Green Town, do mar da Galiléia e do Brooklin. — Eu devia ter per­cebido antes. O Monstro não foi para o cemitério, ele estava entrando no estúdio! Que sistema... Usando um túnel do qual ninguém suspeita, para espionar as vítimas de sua chantagem. Veja como ele conseguiu assustá-los com aquele corpo no muro, pegar o dinheiro, assustá-los no­vamente e voltar para pegar mais!

— Se é que era isso mesmo o que ele fazia — lembrou Crumley. Respirei entrecortadamente, prendi o fôlego e finalmente exalei.

— Existe mais um corpo que eu deixei de entregar a você.

— Prefiro não ouvir — disse Crumley.

— O de Arbuthnot.

— Tem razão!

Alguém o roubou.

— Não senhor! — protestou Henry. — Ele nunca esteve lá. O lugar estava limpo, aquele mausoléu gelado.

— Então onde está o corpo? — perguntou Crumley.

— O detetive aqui é você.

— Que tal isto: uma festa do Dia das Bruxas com bebidas. Alguém envenena um copo e serve a Arbuthnot pouco antes que ele saia. Ar­buthnot, dirigindo, morre ao volante e tira o outro carro da estrada. Ocorre uma operação de cobertura. A autópsia mostra que existe vene­no bastante no corpo para matar um elefante. Antes do funeral, em vez de enterrar a prova, eles cremam o cadáver. Arbuthnot desaparece pela chaminé. O ataúde vazio é colocado no jazigo, onde o nosso Henry des­cobre tudo.

— Descobri mesmo, não foi? — disse Henry.

— O Monstro, sabendo que a tumba está vazia, e talvez o motivo para isso, avista 9 boneco de Arbuthnot na escada e fica observando as formigas em polvorosa no piquenique do outro lado do muro.

— Isso ainda não explica nada sobre Roy, Clarence, ou o Monstro — lembrei.

— Deus me livre desse sujeito!

O pedido de Crumley foi atendido.

Ouvimos um ruído pavoroso nas ruas do estúdio, alguns disparos do cano de escapamento, buzinadas e um grito.

— É Constance Rattigan — observou Henry.

Constance estacionou em frente à velha casa e desligou o motor.

— Mesmo quando ela desliga a ignição, ainda escuto o motor dela funcionando — disse Henry.

Fomos encontrá-la na porta da frente.

— Constance! Como conseguiu passar pelo guarda? — indaguei.

— Foi fácil. Ele era um veterano. Lembrei a ele que uma vez eu o tinha atacado no ginásio masculino. Enquanto ele ficava vermelho de vergonha, eu entrei! Ora, vejam só... Se não é o cego mais famoso do mundo!

— Ainda está trabalhando naquele farol, orientando os navios? — perguntou Henry.

— Me dê um abraço.

— Como você está macia...

— E também Elmo Crumley, seu velho filho da mãe!

— Ela nunca está errada — observou Crumley, enquanto suas coste­las eram amassadas por Constance.

— Pois vamos sair já daqui! — disse Constance. — Henry? Vá na frente.

Já fui — respondeu Henry. Na saída, murmurei:

— O Calvário.

Constance diminuiu a velocidade ao passarmos pela colina.

A escuridão era completa. Não havia luar. Não havia estrelas. Era uma daquelas noites em que o nevoeiro chega cedo pelos lados do mar e cobre Los Angeles inteira, numa altura de aproximadamente duzen­tos metros. Os aeroportos fecham.

Olhei firmemente para aquela colina esperando encontrar Cristo bê­bado, numa espécie de Ascensão.

— J.C.! — chamei.

Mas as nuvens se afastaram um pouco. Pude ver que as cruzes esta­vam vazias.

Três desapareceram, pensei. Clarence afogado em papel, Doc Phil­lips suspenso ao meio-dia na escuridão de Notre-Dame, deixando só um sapato. E agora...

— Vê alguma coisa? — perguntou Crumley.

— Não. Talvez amanhã...

Quando o rock parar de rolar. Isto é, se eu tiver coragem.

Havia um silêncio de expectativa no carro que passava devagarinho.

— Vamos embora — sugeriu Crumley.

— Vamos embora — concordei num murmúrio.

No portão da frente Constance gritou uma obscenidade para o guar­da, que recuou para o interior da cabine. E partimos em direção ao mar e à casa de Crumley.

- 56 -

Paramos em minha casa, e enquanto eu corria para apanhar meu projetor de 8 mm, o telefone começou a tocar. Depois do décimo segundo toque, atendi.

— Então? — disse Peg. — Quer dizer que você fica com a mão no telefone por doze toques seguidos?

— Meu Deus! Intuição feminina.

— O que aconteceu? Quem desapareceu? Quem está dormindo na cama de Mamãe Ursa? Você não telefonou. Se eu estivesse aí, expulsa­ria você de casa. É difícil fazer isso de longa distância, mas saia já daí!

— Está bem. Aquilo a impressionou.

— Espere — pediu ela, assustada.

— Mas você pediu para eu sair, não foi?

— É, mas...

— Crumley está esperando lá fora.

— Crumley! — gritou ela. — Pelo amor de Deus! Crumley!

— Ele está me protegendo, Peg.

— Contra uma crise de pânico? Será que ele precisa fazer respiração boca a boca? Ele pode fazer com que você coma direito seu desjejum, almoço ou jantar? Impedir você de chegar perto da geladeira? Ele por acaso muda sua roupa de baixo?

— Peg!

Ambos rimos um pouquinho.

— Você ia mesmo sair? Mamãe estará em casa na sexta-feira, pelo vôo sessenta e sete da Panam. Esteja lá, com todos os assassinatos resolvi­dos, corpos enterrados e mulheres de rapina expulsas de casa! Se não conseguir chegar ao aeroporto a tempo, esteja na cama quando mamãe chegar. Você não disse: eu te amo.

— Peg, eu te amo.

— E mais uma coisa: quem morreu?

No carro estacionado no meio-fio, Henry, Crumley e Constance aguardavam.

— Minha mulher não quer que eu seja visto com você — disse eu.

— Entre — suspirou Crumley.

- 57 -

No caminho para oeste por uma rua onde não havia nem mesmo fan­tasmas, deixamos que Henry contasse o que havia acontecido no mu­ro, abaixo dele, e do outro lado. Era de certa forma interessante ouvir nossa história contada por um cego que enfatizava a narrativa com mo­vimentos de cabeça, enquanto o grande nariz negro cheirava o vento e os dedos ágeis se agitavam, delineando Crumley aqui, ele mesmo ali, eu abaixo e o Monstro perseguido. Ou algo que estivera do lado de fora da porta do jazigo, parecido com um deslizamento de neve que impe­disse nossa fuga. Enquanto Henry relatava a história, ficamos com frio e subimos as janelas do carro. Não adiantou nada. O carro não tinha capota.

— E foi por isso — finalizou Henry, tirando seus óculos escuros pa­ra enfatizar o final — que a chamamos, ó dama maluca de Venice. Para que viesse em nosso socorro.

Constance olhou nervosamente pelo espelho retrovisor.

— Que diabo! Estamos indo muito devagar.

Ela parou o carro com um solavanco. Nossa cabeças acompanharam. Crumley destravou a porta da frente.

— Muito bem! Espalhem-se! — gritou Crumley. — Que horas são?

— É tarde — declarou Henry. — Os jasmins noturnos já estão se abrindo.

— Isso é verdade? — quis saber Crumley.

— Não, mas é uma frase muito bonita — disse Henry, curvando-se em agradecimento perante uma platéia invisível. — Pode servir a cerveja.

Crumley passou a todos as latas de cerveja.

— É melhor que tenha gim aqui dentro — avisou Constance, dando um gole em seguida. — Puxa, tem mesmo!

Liguei meu projetor, carreguei-o com o filme de Roy Holdstrom, e apagamos as luzes.

— Tudo pronto? — Liguei o projetor. — Lá vai. O filme começou.

As imagens surgiram na parede da casa de Crumley. Havia aproxi­madamente trinta segundos de filme bom, e bastante irregular, como se Roy tivesse animado seu monstro de argila em apenas algumas ho­ras, em vez de gastar vários dias, o tempo geralmente necessário para posicionar uma criatura, fotografar e recomeçar novamente alterando levemente a posição, uma imagem de cada vez.

— Meu Deus! — sibilou Crumley.

Todos ficamos chocados com o ser que se movia pela parede. Era o amigo da Bela, a coisa que tínhamos visto no Brown Derby.

— Não quero ver! — exclamou Constance. Apesar disso não tirou os olhos da imagem.

Dei uma olhadela para Crumley e senti algo parecido com o que sen­tia quando meu irmão, sentado a meu lado no escuro do cinema, assis­tia ao Fantasma, ou ao Corcunda, ou ao Morcego mover-se na tela. A expressão de Crumley era como a de meu irmão, trinta anos atrás, fas­cinado e apavorado ao mesmo tempo, curioso e enojado, o tipo de olhar que as pessoas apresentam sem querer quando observam um acidente de trânsito.

Pois a imagem, próxima e real, era o Homem Monstro. Cada contorção do rosto, cada movimento das sobrancelhas, cada dilatar de nari­nas, cada movimento labial estava reproduzido ali, tão perfeitos como os esboços que Doré fazia quando voltava para casa depois de vagar pe­las vielas escuras no meio do nevoeiro de Londres, com todos os aspec­tos grotescos gravados nas pálpebras, e os dedos ansiando para tocar a pena e o papel, e começar! Da mesma forma que Doré captava, com me­mória total, os traços principais de todos os rostos, a mente de Roy foto­grafara as feições contorcidas do Monstro, sendo capaz de recordar-se do mais ínfimo movimento do pêlo nas narinas, dos cílios numa pisca­da, da flexão das orelhas e da boca infernal salivando continuamente. E, quando o Monstro olhou para nós da tela, Crumley e eu nos encolhe­mos. Ele nos vira! Nos desafiava a gritar! Vinha para nos matar.

A parede escureceu.

Ouvi um sibilar que parecia ser emitido por meus lábios.

— Os olhos... — murmurei.

Tateei no escuro, rebobinei o carretel e recomecei a projeção.

— Vejam só isso!

A câmera captara uma imagem de aproximação do rosto. Os olhos de aparência selvagem estavam fixos numa loucura inima­ginável.

— Isso não é um modelo de argila!

— Não? — espantou-se Crumley.

— É Roy!

— Roy?

— Maquiado, fingindo ser o Monstro!

— Não pode ser!

O rosto inclinou-se, os olhos vivos rolaram nas órbitas.

— Roy...

E a parede escureceu novamente.

Lembrei que o Monstro tinha os mesmos olhos, quando o encontrei na parte alta de Notre-Dame. Ele retirou-se e fugiu...

— Meu Deus! — Crumley continuava olhando para a parede. — En­tão isto é que andou solto por aí no cemitério essas noites todas!

— Ou Roy, solto por aí — sugeri.

— Mas isso é loucura. Por que ele faria uma coisa dessas?

— O Monstro o deixou em má situação, fez com que ele fosse despe­dido, quase o matou; quer coisa melhor para fazer do que imitá-lo, ser o próprio Monstro, no caso de alguém avistá-lo? Roy Holdstrom sim­plesmente passa a não existir se colocar essa maquiagem e se esconder.

— Mesmo assim é loucura!

— Ele sempre foi louco, isso é verdade — admiti. — Mas agora? A coisa é de verdade!

— Mas o que ele ganha com isso?

— Vingança.

— Vingança?

— Um Monstro para matar o Monstro — disse eu.

— Não, não! — Crumley balançava a cabeça. — Não pode ser. Passe de novo o filme.

Foi o que fiz. As imagens refletiam-se em nossos rostos.

— Esse não é Roy — disse Crumley. — É um modelo de argila, animado.

— Não é, não. — Desliguei o projetor. Ficamos sentados na escuridão. Constance produzia sons estranhos.

— Constance? — Voltamo-nos para ela.

— Não sabem o que é isso? — perguntou Henry. — Ela está chorando.

- 58 -

— Estou com medo de ir para casa — declarou Constance.

— Quem disse que você precisa ir? — ofereceu Crumley. — Pegue um colchão, e escolha qualquer quarto, ou o quiosque no jardim.

— Não. Aquele lugar é dele — murmurou ela.

Todos olhamos para a parede vazia onde a imagem do Monstro ainda permanecia na retina.

— Ele não nos seguiu — disse Crumley.

— Pode ter seguido. — Constance assoou o nariz. — Eu não ficaria sozinha esta noite numa casa grande e vazia, ao lado de um oceano cheio de monstros. Estou ficando velha. Só falta agora pedir a algum idiota que case comigo, que Deus o ajude. — Ela olhou para a selva de Crum­ley, onde o vento noturno agitava as folhas mais elevadas das palmeiras e a grama alta. — Ele está lá.

— Pare com isso — ralhou Crumley. — Não sabemos nem se fomos seguidos naquele túnel do cemitério até o escritório. Ou quem bateu a porta do jazigo. Pode ter sido o vento.

— Sempre é o vento... — Constance tremia como alguém que tives­se acabado de curar-se de uma longa doença de inverno. — E agora?

Ela afundou na cadeira, tremendo e agarrando os cotovelos.

— Vejam aqui. — Crumley dispôs uma série de fotocópias de artigos de jornais sobre a mesa da cozinha. Três dúzias de recortes, entre gran­des e pequenos, dos últimos dias de outubro e da primeira semana de novembro de 1934.

A primeira manchete dizia:

 

ARBUTHNOT, O MAGNATA DO ESTÚDIO, MORTO EM DESASTRE DE CARRO.

“C. Peck Sloane, produtor associado da Companhia Cinematográfi­ca Maximus, e sua esposa Emily, mortos no mesmo acidente.”

 

Crumley indicou o terceiro artigo:

“Os Sloane foram enterrados no mesmo dia ein que Arbuthnot. Os funerais tiveram lugar na mesma igreja, ao lado do cemitério. Todos sepultados no mesmo jazigo, no cemitério contíguo ao estúdio”.

— Onde aconteceu o acidente?

— Na esquina de Gower com Santa Mônica, às três da manhã.

— Mas isso fica na esquina do cemitério! Do outro lado do quartei­rão em que fica o estúdio!

— Conveniente demais, não acha?

— Economizou tempo. Morrer do lado de fora de um necrotério fa­cilita tudo.

Crumley franziu as sobrancelhas ao examinar outro artigo.

— Parece que tiveram uma festa de arromba naquele Dia das Bruxas.

— Sloane e Arbuthnot estiveram lá?

— Aqui diz que Doc Phillips se ofereceu para levar os dois para casa, porque tinham bebido demais, porém eles recusaram. O médico foi com seu carro à frente dos outros dois, para abrir caminho, e passou por um sinal amarelo. Arbuthnot e Sloane passaram no vermelho. Um carro des­conhecido quase bateu neles. O único carro na rua às três da manhã! Os carros de Arbuthnot e Sloane derraparam, perderam o controle e ba­teram de encontro a um poste telefônico. Doc Phillips estava lá com seu equipamento de primeiros socorros. Não adiantou. Todos morreram. Le­varam os corpos para o necrotério a cem metros de distância.

— Meu Deus! Foi tudo certinho e conveniente demais... — comentei.

— É verdade — concordou Crumley. — Uma responsabilidade enor­me para o bom médico fornecedor de pílulas e drogas. Que coincidên­cia, ele ali bem à mão! Justo ele, que estava encarregado da parte médi­ca do estúdio, e também da política! Foi ele que levou os cadáveres para o necrotério. Também foi ele que preparou os corpos para o enterro! Deve até ser acionista daquele cemitério. Ajudou a cavar as primeiras sepulturas no começo dos anos 20. Acompanhava a todos indo, e vindo e durante!

Senti que os pêlos dos meus braços se arrepiavam.

— Doc Phillips também assinou os atestados de óbito?

— Pensei que não fosse perguntar — comentou Crumley, confirmando com um movimento de cabeça.

Constance, que até então permanecera imóvel, olhando os recortes, falou finalmente, mantendo os lábios quase imóveis:

— Onde está a cama?

Eu a levei até o quarto e sentei-a na cama. Ela segurou minhas mãos como se fossem uma Bíblia e inspirou profundamente.

— Jovem, já disseram que seu corpo cheira a flocos de milho e seu hábito tem cheiro de mel?

— Esse foi H. G. Wells. Deixava as mulheres loucas.

— É muito tarde para essas loucuras. Puxa, como sua mulher tem sorte. Vai para a cama todas as noites com comida sadia.

Ela esticou-se com um suspiro. Sentei-me no chão, esperando que ela fechasse os olhos.

— Como é que você não envelheceu nem um pouco nesses últimos três anos e eu envelheci uns mil anos? — perguntou ela, rindo baixi­nho. Uma lágrima grande correu de seu olho direito e foi absorvida pela fronha do travesseiro.

— Merda — queixou-se ela.

— O que foi?

— Eu estava lá. Há vinte anos. No estúdio, na noite do Dia das Bruxas.

Prendi a respiração.

O olhar de Constance passou por mim para fitar uma outra noite, em outro ano.

— Foi a festa mais promíscua que já vi. Todos usavam máscaras, nin­guém sabendo quem andava com quem, ou bebendo o quê. Havia be­bida a rodo em todos os estúdios de som, e uivos e gemidos nas ruas. Se Tara e Atlanta tivessem existido, naquela noite teriam sido queima­das. Devia haver uns duzentos figurantes vestidos e uns trezentos nus, com muita bebida passando pelo túnel do cemitério, como se a Lei Se­ca estivesse em pleno vigor. Mesmo com a bebida legal, acho que era difícil desistir do prazer de fazer as coisas escondidas. Passagens secre­tas entre os jazigos e os convidados, com os filmes fracassados apodre­cendo nas prateleiras? O que ninguém suspeitava é que o túnel seria fechado com tijolos uma semana mais tarde, depois do acidente daque­la noite.

O acidente do ano, pensei. Arbuthnot morto, e os figurões do estú­dio caindo como uma manada de elefantes.

— Não foi acidente — sussurrou Constance, dando a impressão de ter erguido uma barreira pessoal de escuridão por trás da palidez no rosto. — Foi assassinato. Suicídio.

A pulsação dela aumentou sob minha mão. Ela continuou a segurá-la, tensa.

— Isso mesmo — confirmou Constance. — Suicídio e assassinato. Nunca descobrimos exatamente por que ou como. Você acabou de ver os jornais. Dois carros batidos em Santa Mônica e ninguém estava lá para ver. Todas as pessoas mascaradas fugiram, ainda de máscara. As ruas do estúdio ficaram como aqueles canais de Veneza, ao amanhecer, com as gôndolas vazias, e os ancoradouros atulhados de brincos e rou­pas íntimas. Também corri. Mais tarde, os rumores afirmaram que Sloane encontrou Arbuthnot com sua esposa perto, ou do outro lado do muro. Ou talvez Arbuthnot tenha encontrado Sloane com a própria es­posa. Se você ama a esposa de outro e ela faz amor com o próprio mari­do numa festinha de embalo, isso iria enfurecê-lo, não? Aconteceu que um dos carros saiu em perseguição ao outro em alta velocidade. Ar­buthnot perseguiu os Sloane a mais de cento e vinte quilômetros por hora. Acertou a traseira deles na Rua Gower e os espatifou contra um poste. As notícias chegaram até a festa. Doc Phillips, Manny e Groc saíram correndo. Carregaram as vítimas para uma igreja católica ali perto. A igreja de Arbuthnot. Onde ele aplicava dinheiro como tábua de sal­vação, para escapar do inferno, como ele dizia. Mas já era tarde. Ha­viam morrido e foram levados para o necrotério do outro lado da rua.

Eu já tinha saído há muito tempo. No dia seguinte, no estúdio, Doc e Groc pareciam coveiros no próprio funeral. Eu terminei a última ce­na do último filme que fiz na vida por volta do meio-dia. O estúdio fechou por uma semana. Penduraram sinais de luto em todos os cená­rios e espalharam nevoeiro artificial por toda a propriedade, ou será que não foi bem isso? De qualquer forma, as manchetes dos jornais diziam que os três estavam bêbados e felizes, indo para casa. Não era verdade. Foi a vingança que agiu para matar o amor. Os pobres machos e aquela putinha ninfomaníaca foram enterrados ao lado do muro por onde a bebida tinha passado, dois dias antes. O túnel do cemitério foi fecha­do, e... — Constance suspirou. — Bem, pensei que tudo tivesse termi­nado ali. Mas esta noite, com o túnel aberto, o boneco de Arbuthnot sobre o muro e aquele homem horrível com os olhos tristes e enlou­quecidos no seu filme, parece que tudo começou de novo. O que quer dizer tudo isso?

A energia dela se esgotou, a voz foi baixando, e o sono vinha chegan­do. A boca retorceu-se. Alguns fantasmas de palavras saíam aos peda­ços, como se não dependessem da vontade dela.

— Pobre coitado homem de Deus...

— Que homem de Deus pobre coitado é esse? — indaguei. Senti uma sombra aproximando-se. Crumley estava em pé à soleira da porta, escutando. Constance, tonta de sono, respondeu:

— O padre. Coitado. O estúdio inteiro caiu em cima dele. Sangue na pia de batismo. Corpos... meu Deus, corpos por toda parte. Coitado...

— O padre de San Sebastian? O pobre coitado é ele?

— Claro. Coitadinho. Coitados de todos... — sussurrou Constance. — Coitado de Arbuthnot, um gênio triste que não conseguia enxergar as coisas. O Sloane, a mulher dele. Coitada de Emily Sloane. O que foi que ela disse naquela mesma noite? Que iria viver para sempre. Que surpresa deve ter tido acordando no meio do nada. Coitada de Emily, coitada da Hollylock House. Coitada de mim...

— Coitada de quem, por último?

— Holl... — a voz tornou-se um fio — lly... lock... House... Com isso, ela adormeceu.

Hollylock House? O que queria dizer? Será que... Eu patinara por cada rua de Hollywood em meus agradáveis anos de infância...

Isso!

Estendi a mão para o criado-mudo e apanhei a lista telefônica, come­çando a procurar nas páginas. Coloquei o dedo sobre a informação en­contrada e li em voz alta:

— Sanatório Hollylock House. Constance, isso fica meio quarteirão acima e um quarteirão ao norte da Igreja de San Sebastian, não é isso?

Inclinei-me para chegar bem próximo à orelha dela.

— Constance! Diga quem está lá? Quem está no Sanatório Holly­lock House?

Ela gemeu, cobriu os olhos e virou para o outro lado. Voltada para a parede ela pronunciou as palavras finais sobre aquela noite, afundada tantos anos no passado:

— Viver para sempre... ela não sabia de nada...

Fiquei sentado ali, repetindo várias vezes o que ela dissera.

— Coitado de Arbuthnot... um gênio triste que não conseguia en­xergar as coisas... coitado do padre...

Atrás de mim, à porta, Crumley disse:

— Hollylock House? Existe aqui em Hollywood há quarenta anos. Bem pertinho de San Sebastian.

— Por que será que tenho um pressentimento de que você vai me levar até lá? — perguntei.

- 59 -

— Você está parecendo um cadáver — afirmou Crumley, olhando para mim, à mesa do café da manhã. Depois apontou para Constance. — E você parece a Justiça sem a Clemência.

— E eu pareço o quê? — quis saber Henry.

— Não consigo ver você — disse Crumley.

— Foi o que pensei — comentou o cego.

— Vamos tirar as roupas — declarou Constance, com o olhar para­do. — É hora de nadar. Vamos para a minha casa!

Fomos de carro até lá. Fritz telefonou.

— Já escreveu o meio do meu filme? — berrou ele ao aparelho. — Ou será que era o começo? Agora precisamos fazer de novo a cena do Sermão da Montanha!

— Precisa ser refilmada? — perguntei, quase gritando.

— Você assistiu a essa cena? — Fritz fazia sua imitação de Crumley ao telefone, como se estivesse puxando os últimos fios de cabelo. — Es­creva! Depois escreva uma narrativa para o maldito filme inteiro, para cobrir as centenas de defeitos, buracos e falhas de nosso querido épico. Por acaso tem lido a Bíblia inteirinha ultimamente?

— Não — confessei.

Fritz deve ter arrancado mais alguns fios de cabelo do outro lado.

— Vá pular!

— Pular?

— Pular páginas, para poder ler tudo. Esteja no estúdio às cinco ho­ras com um sermão que me faça dar pulos de alegria, e uma narrativa para fazer Orson Welles sapatear de gosto! Seu capitão está mandando! Mergulhe!

Ele submergiu e desligou.

— Todo mundo tire a roupa — disse Constance, ainda não totalmen­te acordada. — Para a água!

Fomos nadar. Segui Constance na rebentação até um determinado ponto, depois vieram as focas e nadaram com ela para longe.

— Meu Deus, o primeiro banho que tomo em muitos anos! — gri­tou Henry, sentado no mar com água até a cintura.

Bebemos cinco garrafas de champanhe antes das duas da tarde e quase ficamos todos felizes.

Depois eu me sentei e de alguma forma comecei a escrever o meu Sermão da Montanha, que li em voz alta ao som das ondas quebrando na praia, assim que terminei.

Quando acabei de ler, Constance disse baixinho:

— Onde faço inscrição para as aulas de catecismo?

— Jesus ficaria orgulhoso — comentou Henry.

— Eu te batizo... gênio — disse Crumley, derramando champanhe em minha orelha.

— Que nada... — respondi, modestamente.

Voltei para dentro e por medida de precaução conduzi José e Maria até Belém, coloquei em fila os Três Reis Magos, dei à luz o Bebê num monte de feno enquanto os animais assistiam incrédulos. Entre carava­nas à meia-noite, estrelas esquisitas e nascimentos miraculosos, ouvi Crumley dizer atrás de mim:

— Pobre coitado homem de Deus.

— Ele discou para informações.

— Hollywood? — perguntou ele ao aparelho. — Qual o numero da Igreja de San Sebastian?

- 60 -

Às três e trinta Crumley me deixou em frente à Igreja de San Se­bastian.

Examinou meu rosto e enxergou também o que se revolvia no inte­rior da minha cabeça.

— Pare com isso! — ele mandou. — Você está com aquele olhar presunçoso de trapezista de circo. Isso significa que você consegue se equi­librar, e eu caio!

— Crumley!

— Pelo amor de Deus, lembre-se daquela corrida maluca no túnel do cemitério ontem à noite, Roy escondido sem poder sair, o cego Henry agitando a bengala no ar e Constance que pode ficar outra vez com me­do esta noite e aparecer para arrancar meus curativos. Foi minha idéia trazer você aqui, e agora você fica aí com esse olhar de malabarista in­teligente prestes a saltar de um rochedo.

— Pobre coitado homem de Deus — respondi.

— Não, senhor! Não quero ouvir nada! E Crumley partiu.

- 61 -

Caminhei pela igreja, que era pequena em tamanho, mas pródiga em decoração brilhante e cara. Fiquei admirando um altar que devia abrigar mais de cinco milhões de dólares em ouro e prata. A imagem principal de Cristo, se fosse derretida, poderia comprar metade do suprimento ame­ricano de chicletes. Enquanto estava entretido ali, hipnotizado pela luz que se desprendia daquela cruz, escutei o padre Kelly atrás de mim.

— Você é o roteirista que telefonou e disse que estava com proble­mas? — retomou ele baixinho, do outro lado dos bancos.

— Deve ter alguns fiéis muito ricos, padre — comentei, ainda olhando para o altar incrivelmente elevado.

Arbuthnot, pensei.

— Não, na verdade somos uma igreja vazia em tempos vazios — respondeu o padre Kelly, fazendo uma genuflexão em frente ao altar e es­tendendo sua manopla. Era alto, pouco mais de dois metros de altura, e possuía a compleição física de um atleta. — Temos sorte em contar com muitos paroquianos atormentados regularmente pela consciência. Eles insistem em fazer sua doação em dinheiro para a igreja.

— Você parece dizer a verdade, padre.

— É bom mesmo que eu faça isso, senão Deus me castiga — riu ele. — É doloroso tomar dinheiro de pecadores consumados, mas é melhor do que deixar que eles o desperdicem em corridas de cavalos. Eles têm uma chance maior de ganhar aqui, porque eu os assusto com as pala­vras de Jesus. Enquanto os psiquiatras usam sua fala mansa, eu grito de verdade com eles, o que assusta metade de meus paroquianos e faz com que o resto ponha as barbas de molho. Venha sentar um pouco. Gosta de uísque escocês? Eu sempre me pergunto, se Cristo vivesse em nossa época, será que ele serviria uísque, e será que nós nos importaría­mos? Isso é um pouco de lógica irlandesa. Venha.

Em seu escritório, ele serviu dois pequenos cálices.

— Posso ver em seus olhos que você detesta essa coisa — observou o sacerdote. — Deixe aí. Veio falar comigo sobre aquele filme idiota que estão acabando no estúdio ao lado? Fritz Wong é tão maluco quan­to dizem?

— E tão bom também.

— É bom escutar alguém elogiando seu patrão. Eu raramente fazia isso.

— Você?

O padre Kelly deu risada.

— Quando era jovem eu escrevi nove roteiros, nenhum jamais filma­do ao amanhecer, como o seu. Até a idade de trinta e cinco anos fiz o que pude para vender, liquidar, entregar, continuar. Depois acabei desistindo e entrando para o seminário, bem tarde. Foi difícil. A igreja não aceita facilmente pessoas mundanas. Mas consegui cumprir o se­minário com brilhantismo, pois trabalhara numa série de documentá­rios sobre Cristo. E quanto a você?

Comecei a rir.

— O que é tão engraçado? — quis saber o padre Kelly.

— Acho que metade dos roteiristas do estúdio, se soubessem sobre essa fase da sua vida, viria aqui não para confessar, mas para obter idéias! Como se escreve o final dessa cena, como acabo aquela, como montar, como...

— E você balançou e afundou a tripulação! — O sacerdote tomou todo seu uísque e encheu novamente o copo, deu uma risadinha.

Ficamos por algum tempo, dois veteranos falando sobre o mundo dos roteiros de cinema. Eu lhe falei sobre o meu Messias, ele me contou sobre o Cristo dele.

— Parece que você se saiu muito bem, remendando o roteiro — co­mentou ele. — Mas na verdade os rapazes, há dois mil anos, também andaram remendando um bocado os roteiros, se você reparar bem na diferença entre João e Mateus.

Agitei-me na cadeira com uma enorme vontade de falar, mas não ou­sei derramar óleo fervendo sobre o padre, enquanto ele aspergia água benta e refrescante sobre mim.

Levantei-me.

— Bem, acho que já vou andando, padre. Obrigado. Ele olhou para a mão que eu estendia.

— Você veio armado — afirmou ele, calmamente —, mas não dispa­rou nenhum tiro. Pode sentar novamente.

— Todos os padres falam desse jeito?

— Na Irlanda, sim. Como costumamos dizer, você dançou ao redor da macieira, mas não sacudiu a árvore para derrubar as maçãs. Pode sacudir.

— Neste caso, acho que vou aceitar um pouco disto — declarei, apanhando o cálice e bebendo. — Pois bem... vamos supor que eu seja católico...

— Estou supondo...

— Precisando confessar...

— Sempre estão precisando.

— E viesse aqui depois da meia-noite...

— Uma hora estranha... — Um brilho faiscou nos olhos do sacerdote.

— E batesse na porta...

— Você faria mesmo isso? — Ele se inclinou levemente em minha direção. — Continue.

— Você me deixaria entrar? — perguntei.

Aquilo teve o mesmo efeito que se eu o atirasse de volta ao encosto da cadeira.

— Não houve uma época em que as igrejas permaneciam abertas dia e noite? — insisti.

— Há muito tempo — respondeu ele, rápido demais.

— Isso quer dizer, padre, que se eu chegasse muito necessitado nu­ma noite, você não atenderia?

— Por que não? — O brilho aumentou nos olhos dele, como se eu tivesse atiçado uma chama.

— E para o pior pecador na história do mundo, então, padre?

— Não existe tal criatura. — A língua tentou controlar-se tarde de­mais ao pronunciar a última palavra. Os olhos evitaram os meus por alguns segundos, depois ele resolveu corrigir a frase: — Não existe tal pessoa.

— Mas e se o próprio Judas, condenado, viesse suplicar? — insisti, e fiz uma pausa antes de acrescentar: — Bem tarde.

— Judas? Claro que eu acordaria para atendê-lo.

— E se esse homem perdido e necessitado não viesse uma só noite por semana, mas a maior parte das noites? Acordaria, ou nem se im­portaria em atender?

Aquilo obteve resultado. O padre Kelly deu um salto como se eu ti­vesse libertado os demônios do inferno. A cor fugiu-lhe do rosto e da pele na base dos cabelos.

— Você tem outro compromisso. Não quero tomar mais o seu tempo.

— Não, padre, você é que está querendo que eu vá embora. — Tomei coragem e continuei: — Há vinte anos atrás, bem tarde da noite... Você já estava dormindo, e escutou alguém esmurrando a porta...

— Chega de falar nisso! Saia!

Aquilo parecia, como sonhei mais tarde, com o terrível grito de Starbuck, censurando a blasfêmia de Ahab e sua arrancada final para apa­nhar a grande baleia branca.

— Rua!

— Rua? Você foi mesmo para a rua, naquela noite, padre. — Meu co­ração saltava e me mantinha preso à cadeira. — E deixou entrar os aci­dentados, a gritaria e o pânico. Talvez tenha ouvido os carros baterem, depois os passos, a confusão e os gritos. Talvez o acidente tenha saído fora de controle, se é que foi acidente. Talvez eles precisassem de uma testemunha noturna, alguém para ver, e não contar nada. Deixou en­trar a verdade e silenciou desde então.

Levantei-me e tive uma vertigem. Ao mesmo tempo, o padre sentou novamente, como se o tivesse empurrado com contrapesos de volta a sua cadeira.

— Foi testemunha, ou não, padre? Estava a apenas alguns metros do local. Na noite do Dia das Bruxas, trouxeram ou não as vítimas para cá?

— Deus me ajude — lamentou-se o padre. — Trouxeram.

Num momento feroz e decidido, o padre Kelly desistia agora de seu fantasma agressivo e afundava na própria carne, em si mesmo.

— Estavam todos mortos quando a multidão os trouxe aqui para dentro?

— Todos, não — admitiu ele, imerso em lembranças dolorosas.

— Obrigado, padre.

— Por quê? — Ele cerrara os olhos com a triste recordação, que ago­ra voltava com dor redobrada. — Sabe com o que está se metendo?

— Tenho medo de perguntar.

— Nesse caso, volte para casa, lave o rosto e, se me permite um con­selho pecador, embebede-se!

— É muito tarde para isso. Padre Kelly, ministrou os últimos sacra­mentos para alguns, ou todos?

— O padre Kelly balançou a cabeça, como se assim pudesse espan­tar os fantasmas.

— Vamos dizer que sim?

— Para o homem chamado Sloane?

— Ele estava morto. Apesar disso, eu lhe dei a bênção.

— O outro?

— O grande, o famoso, o todo-poderoso...

— Arbuthnot — completei.

— Ele mesmo. Eu dei a extrema-unção, com água benta. Depois ele morreu.

— Frio e duro, esticado, morto para sempre? De verdade?

— Pela Virgem Maria, essa maneira que você tem de dizer as coisas! — O sacerdote inspirou profundamente e exalou. — A tudo isso, a res­posta é: sim!

— E a mulher? — indaguei.

— Foi o pior! — gemeu ele, a palidez do rosto aumentando. — Em estado de choque. Enlouquecida, e pior do que enlouquecida. Fora da mente e do corpo, além de toda possibilidade de recuperação. Ficou presa entre os dois. Meu Deus, isso me lembra as peças a que assisti quando era moço. A neve caindo. Ofélia repentinamente muda e páli­da ao entrar na água, sem exatamente se afogar, mas afundando numa loucura final, um silêncio tão frio que se poderia cortá-lo com uma fa­ca sem fazer barulho. Nem mesmo a morte poderia abalar o inverno onde aquela mulher acabava de penetrar. Escutou bem? Um psiquiatra disse isso uma vez! O inverno eterno. O país da Neve, de onde raros viajantes conseguem voltar. A esposa de Sloane, apanhada entre os ca­dáveres, aqui mesmo, não sabia como escapar. Portanto, ela afundou em si mesma. Os corpos foram levados pelo mesmo pessoal do estúdio que os trouxe.

Ele falara voltado para a parede. Agora virava-se para mim, alarma­do e amedrontado.

— Tudo aquilo durou... quanto tempo? Meia hora, talvez. Mesmo assim me perseguiu durante esses anos todos.

— Emily Sloane, louca?

Uma mulher a levou daqui. Uma atriz. Esqueci o nome. Emily Sloane não tinha nem consciência de estar sendo levada. Morreu na se­mana seguinte, ou na outra, ouvi dizer.

— Não — disse eu. — Houve um enterro triplo três dias depois. Ar­buthnot sozinho. Os Sloanes juntos, ou pelo menos assim afirmam os jornais.

— Isso não importa. O que interessa é que ela morreu — afirmou ele, finalizando sua história.

— Importa, sim, e muito. — Inclinei-me para a frente. — Onde ela morreu?

— Tudo o que sei é que ela não foi levada para o necrotério do outro lado da rua.

— Para um hospital, então?

— Você já sabe tudo o que sei.

— Tudo, não, padre. Uma parte...

Fui até a janela da clausura para olhar o pátio de cascalho e a entrada.

— Se eu voltar outra vez, vai contar a mesma história?

— Eu não devia ter dito nada! Quebrei meus votos de sigilo de con­fissão!

— Não. Nada do que me contou lhe foi dito em confissão. Simples­mente aconteceu. Você presenciou. Viu acontecer. E agora está lhe fazen­do bem contar pelo menos para mim.

— Vá embora — pediu o sacerdote, suspirando. Serviu mais uma dose e tomou-a de uma só vez. O uísque não melhorou nem um pouco a cor de seu rosto. Pareceu simplesmente afundar na própria dor. — Es­tou muito cansado.

Abri a porta e caminhei pelo saguão em direção ao altar repleto de ouro, prata e jóias.

— Como uma igreja tão pequena tem um interior tão rico? — pergun­tei. — Só a pia batismal poderia financiar um cardeal e eleger um papa.

— Há algum tempo atrás — disse o padre, atrás de mim, fitando seu cálice vazio — eu seria capaz de lançar sobre você todos os fogos do inferno.

O cálice caiu dos dedos sem força. Ele não fez menção alguma de apanhar os cacos.

— Adeus — eu me despedi. Saí para a luz do sol.

Depois de atravessar três terrenos baldios, andando em direção ao norte dos fundos da igreja, havia capim alto e trevo silvestre, além de girassóis fora da estação, agitando-se ao vento morno. Pouco além, pu­de divisar um sobrado branco ostentando o nome em luzes de néon, agora apagadas: SANATÓRIO HOLLYLOCK HOUSE.

Enxerguei dois fantasmas no pátio além do mato crescido. Uma mu­lher conduzindo outra.

“Uma atriz”, dissera o padre Kelly. “Esqueci o nome.”

Um sussurro seco era produzido nas folhas altas e secas.

Uma mulher fantasma vinha chorando pelo caminho.

— Constance? — chamei, baixinho.

- 62 -

Caminhei pela rua Gower até chegar aos portões do estúdio.

Hitler, em sua casamata nos últimos dias do Terceiro Reich, pensei.

Roma queimando, e Nero procurando mais tochas.

Marco Aurélio na banheira, os pulsos sangrando, deixando que a vi­da se esvaísse.

Só porque alguém, em algum lugar, berrava ordens, contratando pin­tores com tinta demais, e homens com imensos aspiradores de pó para sugar a poeira suspeita.

Apenas um dos portões do estúdio estava aberto, com três guardas de prontidão para verificar as saídas e entradas, conferindo cuidadosa­mente os rostos.

Nesse ponto, Stanislau Groc aproximou-se do portão, dirigindo seu Morgan inglês vermelho brilhante, e gritou:

— Vou sair!

— Não, senhor — disse o guarda, em voz baixa. — Ordens superio­res. Ninguém sai do estúdio nas próximas duas horas.

— Mas sou um cidadão da cidade de Los Angeles! — protestou Groc.

— Isso quer dizer que se eu entrar, também não posso sair? — per­guntei, através das grades.

O guarda tocou a aba de seu quepe e pronunciou meu nome.

— O senhor pode sair e entrar. São as ordens.

— Estranho — comentei. — Por que eu?

— Merda! — praguejou Groc, saindo do carro.

Passei pela pequena entrada e abri a porta de passageiros do Morgan de Groc.

— Pode me deixar na sala de montagem de Maggie Botwin? Quan­do você voltar, provavelmente vão deixar você sair.

— Não. Estamos numa armadilha — afirmou Groc. — Este navio vem afundando pouco a pouco a semana inteira, e não temos salva-vidas. Fuja, antes que você também se afogue!

— Calma — disse o guarda. — Nada de paranóia.

— Escutem só! O grande guarda-psiquiatra do estúdio! — ironizou Groc. — Você, entre aí. É seu último percurso.

Hesitei e olhei para um rosto que era uma verdadeira cornucópia de emoções. Toda aquela fachada arrogante de Groc estava se desmante­lando. Era como a imagem-teste de um televisor, borrada, depois níti­da, depois dissolvendo-se. Assim que entrei e bati a porta, ele colocou o carro em movimento numa velocidade suicida.

— Ei, qual é a pressa?

Passávamos a toda pelos estúdios à prova de som. Todos estavam es­cancarados, para arejar. Os exteriores de pelo menos seis deles estavam recebendo uma nova camada de pintura. Cenários antigos estavam sen­do desmontados e transportados sob a luz do sol.

— Em qualquer outro dia, seria uma cena adorável — comentou Groc. — Eu teria adorado tudo isso. Adoro o caos. Quedas na Bolsa? São na­vios que afundam. Maravilha! Voltei para Dresden em 1946 só para ver os prédios destruídos e as pessoas apavoradas com as bombas.

— Não acredito!

— Você não gostaria de ter visto? Ou os incêndios em Londres de 1940? Cada vez que o homem se comporta abominavelmente, eu fico feliz!

— E as coisas boas não deixam você feliz? Artistas, pessoas criativas?

— Não, não. — Groc acelerava. — Essas coisas me deprimem. Não passam de um interlúdio entre os vários tipos de estupidez. Só porque existem algumas pessoas ingênuas o bastante emporcalhando a paisa­gem com roseiras aparadas e naturezas mortas, é que se percebe os tro­gloditas, vermes subdesenvolvidos e víboras rastejantes que lubrificam as máquinas subterrâneas e levam o mundo à ruína. Decidi, muitos anos atrás, desde que os continentes formaram vastos lamaçais, que com­praria botas altas e chafurdaria ali como um tolo. Mas isto já é ridículo, nós aqui trancados numa fábrica de idiotas. Eu queria rir dela, e não ser destruído por ela. Espere um pouco!

Passávamos pelo Calvário. Quase dei um grito. Pois o Calvário se fora.

Um pouco mais adiante, o incinerador soltava grandes rolos de fu­maça negra.

— Devem ser as três cruzes — comentei, apontando.

— Meu Deus! — exclamou Groc. — Será que... J.C. vai ter de dor­mir no albergue esta noite?

Voltei a cabeça para encará-lo.

— Conhece bem J.C.?

— Aquele Messias alcoólico? Eu o fiz! Como fazia sobrancelhas e traseiros dos outros, por que não as mãos de Cristo? Retirei carne sufi­ciente para fazer com que os dedos dele parecessem delicados: as mãos do Salvador. Por que não? A religião não é uma piada? As pessoas ima­ginam que estão salvas. Mas o toque da coroa de espinhos, os estigmas!

— Groc fechou os olhos de tal forma que quase abalroou um poste telefônico, deu uma guinada e parou.

— Achei que tinha sido você o autor — comentei, ao recuperar a fala.

— Se você age como Cristo, é preciso ser Ele! Disse a J.C. que ia fazer nele marcas para mostrar numa exibição da Renascença! Disse que ia produzir nele os estigmas de Masaccio, Da Vinci, Michelangelo! Como na carne de mármore da Pietá! E como você viu, em algumas noites especiais... os estigmas sangram.

Abri a porta do carro, fazendo menção de sair.

— Acho que vou caminhar o resto do caminho.

— Não, não é necessário... — desculpou-se Groc, rindo sem graça.

— Eu preciso de você. Que ironia! Para me ajudar a passar pelo portão da frente, mais tarde. Vá falar com Botwin, depois vamos embora correndo!

Mantive a porta meio aberta, indeciso. Groc parecia sentir um tipo de pânico tão alegre, hilário e próximo à histeria. Fiz o que podia: fe­char a porta. Groc arrancou novamente.

— Pergunte, pode perguntar — incentivou ele.

— Muito bem... E quanto àqueles rostos que você deixou tão bonitos? Groc acelerou.

— Eu disse que iam durar para sempre, e os bobos acreditaram. De qualquer forma, estou me aposentando, quer dizer, se conseguir passar pelo portão. Comprei uma passagem para uma viagem de volta ao mun­do, que parte amanhã. Depois de trinta anos, minhas risadas tornaram-se como cuspidas de cobra. Manny Leiber? Vai morrer qualquer dia des­ses... Doc? Não sabia? Ele sumiu.

— Onde?

— Quem sabe onde? — Mas os olhos de Groc moveram-se em dire­ção ao norte, para o muro do cemitério. — Excomungado, talvez?

Continuamos o percurso. Groc fez um gesto para a frente.

— Já de Maggie Botwin, eu gosto. Ela é uma cirurgia perfeccionista, como eu.

— Ela não fala como você.

— Se fizer isso, ela morre. E você? Bem, é verdade que a desilusão leva um certo tempo. Você vai ter uns setenta anos antes de descobrir que atravessou um campo minado gritando para algum soldado imbe­cil: Por aqui! Seus filmes serão esquecidos.

— Não — declarei.

Groc olhou para meu queixo cerrado e para meu lábio superior teimoso.

— Tem razão — admitiu ele. — Você tem a aparência de um tolo verdadeiramente santo. Seus filmes, não.

Dobramos outra esquina e eu acenei em direção aos carpinteiros, fa­xineiros e pintores.

— Quem deu ordens para fazer todo esse trabalho?

— Manny, claro.

— Mas quem deu ordens para Manny? Quem dá ordens por aqui, de verdade?

Groc parou o carro e olhou para a frente. Pude perceber nitidamente as marcas das suturas ao redor das orelhas, regulares e quase invisíveis.

— Isso não pode ser respondido.

— Não? Eu olho em volta, e o que vejo? Um estúdio no meio da pro­dução de oito filmes. Um deles é caro, nosso épico sobre Jesus, faltando só dois dias para terminar a filmagem. De repente, sem nenhum motivo aparente, alguém diz: “Fechem as portas”. E começa um verdadeiro fre­nesi de pintura e limpeza. É loucura fechar o estúdio com um orçamen­to que atinge noventa a cem mil dólares por dia. O que isso sugere?

— O quê? — perguntou Groc, baixinho.

— Bem, eu vejo Doc e enxergo uma água-viva, venenosa, mas sem espinha. Olho para Manny e vejo o traseiro dele apoiado na mesa. Vo­cê? Existe uma máscara por trás da sua máscara, e mais uma embaixo das outras. Nenhum de vocês tem o equipamento nem a coragem ne­cessários para mandar o estúdio pelos ares. Mesmo assim é o que está acontecendo. Vejo o estúdio como uma enorme baleia branca. Os arpões estão voando. Portanto, é preciso existir um capitão verdadeiramente maníaco em tudo isso!

— Então me diga: Quem é Ahab?

— Um homem morto numa escada no cemitério, vigiando e dando as ordens. E todos vocês correm para obedecer — declarei.

Groc piscou três vezes como um lagarto, com seus grandes olhos escuros.

— Não sou eu — afirmou ele, sorrindo.

— Não? Por que não?

— Pense um pouco... — Groc olhou para o céu. — Só existem duas pessoas com o gênio e a habilidade suficientes para fazer aquele seu espantalho embaixo de chuva sobre a escada no muro do cemitério, só para assustar os outros! — Ele foi dominado por uma onda de riso incontrolável, que quase o engasgou. — Quem seria capaz de moldar um rosto como aquele?

— Roy Holdstrom!

— Certo! E quem mais?

— O homem... — hesitei — que maquiou Lênin. Groc voltou para mim seu sorriso mais radiante.

— Stanislau Groc... Você!

Ele inclinou modestamente a cabeça.

Você, pensei. Não o Monstro que se esconde nos túmulos subindo nas escadas para usar o fantasma de Arbuthnot e paralisar o estúdio, mas Groc, o homem que ria, o pequeno Conrad Veidt com o sorriso eterno pregado no rosto!

— Por quê! — indaguei.

— Por quê? — repetiu Groc. — Meu Deus, para agitar um pouco as coisas por aqui! Há muitos anos que tudo ficou monótono nesse es­túdio. Doc doente com suas agulhas. Manny se dividindo em dois. Eu não conseguia dar boas risadas nesse navio de insensatos. Portanto, re­solvi ressuscitar os mortos! Mas você estragou tudo, porque encontrou o corpo e não contou para ninguém. Pensei que fosse sair correndo e gritando pelas ruas. Em vez disso, no dia seguinte, virou ostra. Precisei fazer alguns telefonemas anônimos para que o pessoal do estúdio fosse até o cemitério. Depois, finalmente a agitação! O pandemônio.