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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UM GOLPE A MEIA NOITE / Laurell k. Hamilton
UM GOLPE A MEIA NOITE / Laurell k. Hamilton

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

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EU ODEIO AS COLETIVAS DE IMPRENSA. MAS EU ODEIO especialmente quando me mandam esconder uma grande parte da verdade. A ordem provinha da Rainha do Ar e da Escuridão, governante da Corte Escura das fadas. A Corte do Ar e da Escuridão não era um poder que pudesse ser passado por cima, mesmo que como eu, seja a própria princesa das fadas. Eu era a sobrinha da Rainha Andais, mas a conexão familiar nunca tinha me servido de nada. Sorri para a próxima e sólida parede de repórteres, lutando para que meus pensamentos não se refletissem em minha cara.
A rainha nunca tinha permitido tantos meios de comunicação humanos dentro das colinas da Corte do Ar e da Escuridão, nosso sithen. Era nosso refúgio, e ninguém permite que a imprensa entre em seu refúgio. Mas a tentativa de assassinato de ontem tinha feito que permitir a entrada dos meios de comunicação em nossa casa fosse um mal menor. A teoria era que, dentro do sithen, nossa magia me protegeria melhor do que tinha feito no aeroporto no dia anterior, quando quase tinham me acertado com um tiro.
A relações públicas de nossa corte, Madeline Phelps, apontou o primeiro repórter, e as perguntas começaram.
— Princesa Meredith, você tinha sangue em seu rosto ontem, mas hoje o único rastro de ferida é seu braço em um tipóia. Quais eram suas feridas ontem?

 


 


Meu braço estava preso em um tipóia de pano verde, que combinava perfeitamente com minha jaqueta. Estava vestida para o Natal, de vermelho e verde. Alegre, como devia ser nesta época do ano. Meu cabelo era de um vermelho ainda mais profundo que minha blusa. Meu cabelo é meu traço mais característico pertencente a Corte do Ar e da Escuridão, cabelo escarlate sidhe, para alguém que fica bem vestido de negro.

Não era o dourado ou o vermelho alaranjado do cabelo humano. A jaqueta destacava o verde de dois dos três círculos de minha íris. O círculo dourado cintilaria para a luz da câmara como se realmente fosse de metal. Os olhos eram próprios da Corte da Luz, a única parte de mim que demonstrava que minha mãe tinha pertencido a corte luminosa. Enfim, ao menos a metade de sua herança.

Não reconheci o repórter que tinha feito a pergunta. Era uma cara nova para mim, talvez nova desde ontem. Dado que a tentativa de assassinato tinha ocorrido diante dos meios de comunicação, em frente às câmaras, bem, tínhamos tido que dispensar alguns dos repórteres, já que a enorme sala não podia conter a nenhum mais. Enfrentava as coletivas de imprensa desde que era uma menina. Esta era a maior que tinha tido que encarar, incluindo a que tive que dar depois do assassinato de meu pai. Tinham me ensinado a usar os nomes dos repórteres quando sabia, mas para este só pude lhe sorrir e lhe dizer...

— Meu braço só está deslocado. Tive muita sorte ontem.

Na realidade, meu braço não resultou ferido na tentativa de assassinato que tinha sido filmada. Não, meu braço tinha sido ferido no segundo, talvez no terceiro atentado contra minha vida dos ocorridos ontem. Mas esses atentados tinham ocorrido dentro do sithen, onde supostamente eu tinha que estar a salvo. A única razão de que a rainha e meus guardas-costas pensassem que eu estava mais segura aqui que fora, no mundo humano, era que tínhamos detido ou matado aos traidores por trás dos atentados contra mim, e depois do atentado contra a rainha. Tínhamos estado malditamente perto de ter um golpe de estado, ou de palácio se quiser, no dia anterior, e os meios de comunicação não tinham tido a menor ideia disso. Um dos antigos nomes das fadas era ?aqueles que se escondem. Nós merecíamos esse nome.

— Princesa Meredith, era seu sangue que corria sobre sua cara ontem? — Uma mulher desta vez, e não sabia seu nome.

— Não. — eu disse.

Sorri de verdade, enquanto via como sua cara se desencaixava, ao dar-se conta de que tinha obtido uma resposta de uma só palavra.

— Não, Sheila, não era meu.

Ela me sorriu, todo o loira e alta que eu nunca seria.

— Posso acrescentar algo a minha pergunta, Princesa?

— Vamos, vamos — disse Madeline — uma pergunta para cada um.

— Está tudo bem, Madeline. — eu disse.

Nossa relações públicas deu a volta para me olhar, apagando o interruptor de sua cintura, assim o microfone não receberia sinal. Captei seu gesto e tampei o meu com uma mão, movendo-o para um lado.

Madeline se inclinou para a mesa. Sua saia era o bastante longa para que não houvesse perigo de mostrar algo aos repórteres estavam debaixo do palco. Parte de seu trabalho era manter-se a par do que estava e não estava na moda. Ela era nossa representante humana, muito mais que qualquer dos embaixadores que Washington tinha enviado.

— Se Sheila consegue acrescentar algo a sua pergunta, então todos outros o farão. Isto será mais difícil, para ti e para mim. Ela tinha razão, mas...

— Diga que isto é uma exceção. E continuemos.

Ela elevou suas perfeitamente delineadas sobrancelhas para mim, logo disse...

— Tudo bem.

Deu um golpe no interruptor de seu microfone enquanto dava a volta e sorria para eles.

— A princesa permitirá a Sheila realizar outra pergunta, mas depois todos se aterão à regra original. Uma pergunta pra cada um.

Assinalou para Sheila e fez um assentimento.

— Obrigado por me permitir acrescentar algo a minha pergunta, Princesa Meredith.

— De nada.

— Se não era seu sangue ontem, então, de quem era?

— De meu guarda-costas Frost.

As câmaras voltaram para a vida, de uma forma que quase me cegaram, mas a atenção de todos se desviou de mim. Meus guardas estavam alinhados ao longo da parede, e ordenados ao longo da beira do palco, para logo curvar-se para o outro lado da mesa e do piso. Cada um deles estava vestido com desenhos que iam desde armaduras de prata de corpo inteiro até modelos desenhados para ir a um clube gótico. A única coisa que todos tinham em comum era o armamento. No dia de ontem tínhamos tentado ser discretos em relação às armas. Em todo caso se viam vultos que arruinavam a linha das jaquetas, mas nada muito óbvio. Hoje havia armas sob as jaquetas ou capas, mas havia também armas a vista, espadas, facas, machados e escudos. Também tínhamos duplicado o número de guardas a meu redor.

Olhei para trás ao Frost. A rainha tinha me ordenado a não ter favoritos entre os guardas. Tinha chegado a me dizer que não dirigisse nenhum olhar muito longa a nenhum guarda por cima de outro. Acreditei que era uma damanda casual, mas ela era a rainha, e discutir com ela era por sua conta e risco. Mas eu olhei pra trás; afinal de contas, ele tinha salvado minha vida. Não merecia isso ao menos um olhar? Sempre poderia me justificar ante a rainha, minha tia, dizendo que a imprensa consideraria estranho que não o reconhecesse. Era a verdade, mas olhei porque queria fazê-lo.

Seu cabelo era do prateado de uma Árvore de Natal, brilhante e metálico. Caía até seus tornozelos, como uma decoração, mas eu sabia que era suave e estava vivo, e que se sentia OH!, tão quente quando escorregava por meu corpo. Tinha penteado a parte superior de seu cabelo jogando-a para trás, e prendido-a com um prendedor esculpido em osso. O cabelo brilhava e se movia ao redor de seu traje Armani de cor cinza carvão, que tinha sido adaptado a seus amplos ombros e a seu porte atlético. O traje também tinha sido modificado para ocultar uma arma em um coldre pendurado em seu ombro e uma faca ou duas. Mas o traje não estava desenhado para ocultar também uma arma sob cada braço, e uma espada curta no quadril, com uma vagem de couro atada firmemente a sua coxa com uma correia. O punho de uma outra espada se sobressaía sobre um de seus ombros, entre todo esse brilhante cabelo. Tinha as facas à vista, e Frost sempre tinha outras armas que não se podiam ver. Nenhum traje estava desenhado para cobrir tanto armamento, e manter sua linha. Sua jaqueta não podia ser fechada por completo, e as armas, a espada e uma das facas cintilavam para a luz da câmara.

Gritos de Frost, Frost, encheram a sala, enquanto Madeline escolhia uma pergunta. O homem era outro ao que não conhecia. Nada como uma tentativa de assassinato para atrair aos meios de comunicação.

— Frost, você está ferido gravemente?

Frost mede algo mais de 1,85 metros e, dado que eu estava sentada, e o microfone estava ajustado a minha altura, teve que inclinar-se, muito abaixo. Via-se gracioso levando armas de qualquer tipo, mas sua inclinação para o microfone se viu torpe. Tive um momento para me perguntar se tinha estado perto de um microfone antes, mas então, sua voz profunda respondeu à pergunta.

— Não estou ferido. — Deu um passo para trás, e eu pude ver o alívio em seu rosto. Girou-se longe das câmaras, como se pensasse que poderia desfazer-se disto facilmente. Eu conhecia melhor toda esta situação.

— Mas, não era seu sangue que estava sobre a Princesa?

Sua mão aferrava o punho de sua espada curta. Tocar suas armas, desnecessariamente, era um sinal de nervosismo. Inclinou-se para o microfone de novo, e desta vez golpeou meu ombro machucado com seu corpo. Duvidei se a imprensa tinha visto o pequeno movimento. Pôs uma mão na mesa, para estabilizar-se. Voltou seus olhos, cinzas como o vento invernal, para mim. Seu olhar perguntava, silenciosamente: ?Te machuquei?

Murmurei: Não.

Soltou um suspiro e se inclinou de novo para o microfone.

— Sim, era meu sangue.

Imediatamente se levantou, como se essa resposta fosse satisfazê- los. Deveria conhecê-los melhor. Tinha sido um elemento decorativo para a rainha o tempo suficiente para saber que era muito conciso. Ao menos não tentou voltar para seu lugar detrás de mim desta vez. Um repórter que conhecia, Simon McCraken, era o seguinte. Tinha coberto as informação sobre as cortes das fadas durante anos.

— Frost, se não está ferido, então, de onde veio seu sangue e como chegou até a princesa?

Sabia como fazer sua pergunta perfeitamente, de forma que não pudéssemos enrolar na resposta. Os sidhe não mentem. Pintamos a verdade de vermelho, púrpura e verde, e lhe convencemos de que o negro é branco, mas em realidade não mentimos.

Frost se inclinou para o microfone de novo, sua mão pressionando a mesa. Moveu-se minuciosamente mais perto de mim, o suficiente para que suas calças tocassem minha saia. Sua espada estava quase apanhada entre nossos corpos. Seria perigoso se tivesse que tirar sua arma. Olhei sua mão, tão grande e forte sobre a mesa, e me dei conta de que seus dedos estavam crispados. Estava agarrando a mesa da forma em que você agarraria um pódio quando está nervoso.

—Atiraram em mim.

Teve que esclarecer sua garganta bruscamente antes de continuar. Girei a cabeça o suficiente para ver seu perfeito perfil, e compreendi que eram mais que nervos. Frost, o Assassino Frost da rainha estava assustado. Assustado de falar em público. OH!

— Curei-me. Meu sangue cobriu à princesa quando a defendi do perigo.

Começou a levantar-se de novo, mas toquei seu braço. Tampei o microfone com minha mão, e me inclinei para ele, de modo que pudesse sussurrar contra a curva de seu ouvido. Tomei um profundo fôlego da essência de sua pele e lhe disse:

— Te ajoelhe ou sente-se.

Seu fôlego escapou tão profundamente que seus ombros se moveram com ele. Entretanto, ajoelhou-se sobre um joelho a meu lado. Movi o microfone um pouco mais perto dele.

Deslizei minha mão sob as costas de sua jaqueta, de modo que podia pôr minha mão justo contra a curva de suas costas, exatamente debaixo da vagem da enorme espada. Quando as fadas e os duendes estão nervosos, qualquer deles, tranqüilizamo-nos nos tocando uns aos outros. Mesmo os sidhe mais poderosos se sentem melhor com um pequeno contato, embora nem todos nós admitimos isso por temor a turvar a linha entre a realeza e os plebeus. Eu tinha muito sangue das fadas menores para me preocupar com isso. Podia sentir o suor que começava a gotejar por suas costas.

Madeline começou a aproximar-se de nós. Sacudi a cabeça. Lançou- me um olhar interrogante, mas não discutiu. Escolheu outra pergunta da multidão.

— Então, você se interpôs na trajetória da bala para proteger à Princesa Meredith?

Inclinei-me para o microfone, pondo minha cara muito perto da do Frost, tocando-o cuidadosamente, mas não consegui que arrumasse sua expressão. As câmaras explodiram em rajadas de luz branca. Frost saltou, e soube que tinha sido visível para as câmaras. OH, bem. Estávamos cegos, a visão imprecisa, cheia de manchas brancas e azuis. Seus músculos se apertaram, mas não teria me dado conta disso se não o tivesse tocando.

— Olá, Sarah, e sim, ele recebeu o disparo em meu lugar. — eu disse.

Acredito que Sarah disse ?Olá, Princesa em resposta, mas não podia estar segura, dado que não podia ver bem, e o ruído de tantas vozes era muito confuso. Tinha aprendido a usar os nomes quando os conhecia. Fazia que todos se sentissem mais amigáveis. E necessita- se toda a sociabilidade que possa obter quando está em uma coletiva de imprensa.

— Frost, você está assustado?

Ele se relaxou um pouco contra mim, graças ao toque de minha mão e meu rosto.

— Sim. — Disse.

— Com medo de morrer — gritou alguém sem que pudesse ser visto. Frost respondeu a pergunta de todos os modos.

— Não.

Madeline apontou a alguém que perguntou:

— Então, de que tem medo?

— Temo que Meredith possa ser ferida.

Lambeu seus lábios, e se esticou de novo. Compreendi que tinha usado meu nome sem meu título. Uma mancada para um guarda- costas, mas, certamente, ele era algo mais que isso. Cada guarda estava tecnicamente na corrida para ser meu príncipe. Mas somos sidhe, e não nos casamos até que estejamos esperando um filho. A um casal infértil não lhe permitia casar-se, de modo que os guardas faziam mais que ?guardar meu corpo.

— Frost, daria sua vida pela princesa? Ele respondeu sem vacilar.

— É obvio.

Seu tom dizia claramente que tinha sido uma pergunta estúpida.

Um repórter que tinha uma câmera de televisão a seu lado fez a seguinte pergunta:

— Frost, como se curou de uma ferida de bala em menos de vinte e quatro horas?

Frost exalou outro suspiro que lhe estremeceu até os ombros.

— Sou um guerreiro sidhe.

Os repórteres esperaram que acrescentasse algo mais, mas eu sabia que não faria. Para o Frost, o fato de que era sidhe era toda a resposta que necessitava. A bala o tinha transpassado de lado a lado, mas não era de munição especial. Necessitava-se bem mais que isso para deter um guerreiro sidhe.

Escondi meu sorriso e comecei a me inclinar para o microfone, para ajudar a explicar isto à imprensa, quando notei que o suor ao longo de sua coluna já não era quente e úmido. Era como se uma corrente de ar frio se deslizasse por suas costas. Frio suficiente para que eu retirasse minha mão, assustada.

Joguei uma olhada para baixo, para sua enorme mão sobre a mesa e vi o que estava temendo. Uma geada branca de gelo estava se estendendo por sua mão. Agradecia à Deusa que o pano sobre a mesa fosse branco. Só isso nos salvava de que alguém pudesse notá- lo. Poderiam dar-se conta disso quando, mais tarde, revisassem o vídeo gravado pela câmera, mas não podia fazer nada para impedir isso. Já tinha bastante do que me preocupar sem pensar no que ocorreria com isto mais adiante. Em certo sentido isso era minha culpa. Sem querer eu havia trazido para o Frost um nível de poder que nunca antes tinha alcançado. Era uma bênção da Deusa, mas os novos poderes traziam também novas responsabilidades, e novas tentações.

Tirei minha mão de debaixo de sua jaqueta para cobrir sua mão com a minha, enquanto dirigia a palavra para o murmúrio de vozes causado pelos perplexos repórteres. Preparei-me para que sua mão estivesse congelada, enquanto esse poder se deslizava de retorno a seu interior, mas surpreendentemente, sua mão não estava nem perto desse frio.

— Os sidhe se curam de quase qualquer ferida. — eu disse.

O gelo estava estendendo-se. Seu bordo estava alcançando o microfone e começava a cobri-lo. O microfone rangeu com a estática, e eu apertei a mão do Frost. Deu-se conta então do que seu medo estava fazendo. Eu sabia que esta não era sua intenção. Fechou sua mão em um punho, mas com minha mão em cima da sua, e meus dedos entrelaçados com os seus. Não queria que ninguém notasse o gelo antes de que derretesse.

Voltei meu rosto para o seu, e ele me olhou. Havia um rastro de neve caindo no interior de sua íris, como um diminuto jogo de neve cinza. Inclinei-me para ele e lhe beijei. Isto o surpreendeu, porque ele tinha ouvido a advertência da rainha a respeito de não demonstrar favoritismos, mas Andais me perdoaria, se me desse o tempo suficiente para explicar-lhe. Ela teria feito o mesmo, ou mais, para distrair à imprensa da magia não desejada.

Só pressionei um casto beijo sobre seus lábios, porque Frost se sentiria incômodo diante de tantos estranhos. Mais ainda, eu usava um batom que o mancharia como a maquiagem de um palhaço se dessêmos um verdadeiro beijo, com jogo de línguas incluído. Vi a explosão das câmeras, como uma laranja luminosa espremendo-se contra minhas pálpebras fechadas.

Eu cortei o beijo primeiro. Os olhos do Frost estavam fechados, seus lábios relaxados, quase abertos. Piscou e abriu os olhos. Pareceu assustado, possivelmente pelas luzes, ou possivelmente pelo beijo. Embora a Deusa sabia que o tinha beijado antes, e com um maior efeito em seu corpo. Me beijar significava ainda tanto para ele, quando jã tínhamos nos beijado tantas vezes que já nem podia recordar todas as vezes?

O olhar em seus olhos dizia sim mais claramente que qualquer palavra.

Os fotógrafos estavam ajoelhados tão perto do frente da mesa como os outros guardas o permitiam. Estavam tomando fotografias de seu rosto e do meu. O gelo se derreteu enquanto nos beijávamos, deixando só uma ligeira umidade ao redor de suas mãos. Logo que obscurecia o pano branco. Tínhamos escondido a magia, mas tínhamos exposto o rosto do Frost ao mundo. O que se faz quando um homem permite que o mundo inteiro veja quanto o afeta um beijo? Por isso o beije de novo, o qual fiz, e desta vez não me preocupei sobre o maquiagem de palhaço, ou as ordens da rainha. Simplesmente desejava, sempre, ver o olhar em seu rosto quando nos beijassêmos. Sempre, e pra sempre.


CAPÍTULO 2


TÍNHAMOS BATOM VERMELHO ESPALHADO POR TODA A cara, mas somos sidhe, e um de nossos poderes mais básicos era a posse do encanto. Um pouco de concentração e fiz que a maquiagem de meus lábios se visse perfeita, embora eu sentia o batom deslocado ao redor de meus lábios. Derramei uma pequena quantidade de magia sobre o rosto do Frost, de modo que se visse como antes, e não como se eu lhe tivesse jogado na cara um pote de tinta vermelha e lhe tivesse melado com ela.

Era ilegal usar magia com os meios de comunicação. O Tribunal Supremo tinha declarado que isto infringia a primeira emenda, a liberdade de imprensa e tudo isso. Mas nos permitiram usar pequenos feitiços conosco mesmos para propósitos estéticos. Afinal de contas, não havia grande diferença entre a maquiagem normal ou a cirurgia plástica dos famosos. O Tribunal, juiciosamente, não quis entrar nessa particular atividade das estrelas de cinema.

Eu poderia ter usado encanto antes que maquiagem, mas isso requeria concentração, e eu queria que toda minha concentração se dirigisse às perguntas. Além disso, se houvesse outra tentativa de assassinato o encanto se evaporaria, e a rainha era o suficientemente frívola para exigir que estivesse maquiada, no caso disso acontecer. Suponho que, se o pior chegasse a acontecer, seria uma morta arrumada. Ou talvez estava sendo cínica. Talvez ela simplesmente não confiava em minhas habilidades para utilizar o encanto. Talvez. Disse ao Frost que já tinha respondido suficientes pergunta por um dia, mas se ouvia um frenético chamado.

— Frost, Frost. — Havia alguns jornalistas o bastante grosseiros para fazer perguntas do tipo.

— É boa de cama...? Quantas vezes por semana consegue foder com ela?

Adoramos à imprensa marrom, sobretudo a alguns tablóides europeus. Fazem que nossa imprensa marrom americana pareça sinceramente amistosa.

Não fizemos nenhum caso dessas descorteses pergunta. Frost se colocou em seu lugar, detrás de mim, contra a parede. Podia sentir um pouco de magia a seu redor. Se tivesse se afastado muito de mim, o encanto teria se quebrado, mas a esta pequena distância eu podia mantê-lo. Não pra sempre, mas o tempo suficiente para sair deste embrulho.

Madeline escolheu um dos jornais sérios, o Chicago Tribune, mas sua pergunta me fez pensar se não teria sido melhor responder a um dos tablóides de imprensa sensacionalista.

— Tenho uma pergunta de duas partes... Meredith, poderia fazê-la?

O jornalista tinha sido tão cortês que eu deveria ter sabido que incidiria em algo que não seria nada agradável.

Madeline me olhou, e assenti. Ele perguntou.

— Se os sidhe podem curar-se de quase qualquer ferida, então, por que seu braço não está curado?

— Eu não sou uma sidhe de sangue puro, por isso me curo mais lentamente, mais similar aos humanos.

— Sim, você é em parte humana e parte brownie, do mesmo modo que sidhe. Mas, é certo que alguns dos nobres sidhe da Corte do Ar e da Escuridão estão preocupados com a possibilidade de que não seja o bastante sidhe para governá-los? Inclusive de que, se subir ao trono, não a reconheceriam como sua rainha?

Sorri para o brilho de luzes das câmeras enquanto pensava furiosamente. Alguém tinha estado falando com ele. Alguém a quem deveria conhecer bem. Alguns dos sidhe realmente temiam minha mortalidade, meu sangue mesclado, e pensavam que se me sentasse no trono os destruiria. Que meu sangue mortal poderia desfazer sua imortalidade. Esta tinha sido a razão detrás de ao menos um, ou possivelmente os dois ataques ocorridos ontem. Tínhamos uma casa nobre completa, e a cabeça de outra, encarceradas, esperando sua sentença. Ninguém me havia dito o que dizer se esta pergunta surgisse, porque ninguém tinha sonhado que algum sidhe, ou fada menor, tivesse ousado dirigir-se aos meios de comunicação, nem sequer para insinuar isso.

Tentei passar com uma meia verdade.

— Há alguns entre a nobreza sidhe que vêem minha humanidade e meu sangue de fada menor como inferior. Mas sempre há racistas, Sr...

— O‘Connel. — Disse ele.

— Sr. O‘Connel. — eu disse.

— Você acreditar que é racismo então?

Madeline tentou me deter, mas respondi porque queria saber até onde ele sabia.

— Se não for racismo, então o que seria, Sr. O‘Connel? Simplesmente é que eles não querem nenhum mestiço de vira-lata sobre seu trono. Agora, se ele se opunha a isto, veria-se como um racista pior ainda. Os repórteres do Chicago Tribune não gostam de parecer racistas.

— Essa é uma grave acusação.

— Sim. — eu disse. — É. Madeline interveio.

— Temos que continuar. Próxima pergunta.

Apontou a alguém mais, com um pouco de muita impaciência, mas estava bem. Precisávamos mudar de tema. Certamente, havia outros temas quase tão maus como este.

— É certo que foi um feitiço o que fez que o policial lhe disparasse, Princesa Meredith?

Isto veio de um homem da primeira fila, que me parecia vagamente familiar, da forma em que as pessoas que trabalham na televisão parecem.

Os sidhe não mentem. Fazemos uma espécie de esporte nacional das quase mentiras. Podem mentir. Mas se mentimos, então somos acusados de perjúrio. Houve um tempo em que se podia ser banido do mundo das fadas por uma coisa igual. A resposta à pergunta era sim, mas eu não queria responder isso. De modo que tentei não fazê-lo.

— Deixemos isso de ?Princesa, meninos. Estive trabalhando como detetive em Los Angeles durante três anos. Não voltei a usar meu título.

Queria evitar ter alguém perguntando a respeito de quem tinha feito o feitiço. Este tinha sido parte do atentado no palácio. Não estávamos dispostos a compartilhar que um nobre sidhe tinha feito que um dos policiais que colaboravam com a minha proteção tivesse tentado me matar.

Madeline captou o sinal perfeitamente, apontando a um repórter novo, com uma nova pergunta.

— Isto é uma verdadeira demonstração de músculos sidhe, Prince...

Meredith.

A mulher sorriu quando evitou dizer ?princesa. Eu esperava que se acomodassem com isto. E não necessitava o título para saber quem era.

— Todos estes músculos extra são devidos a que teme por sua segurança?

— Sim. — Repliquei, e Madeline seguiu adiante.

Era um repórter diferente, mas repetiu a temida pergunta.

— Foi um feitiço o que fez que o policial te disparasse, Meredith? Inspirei ar, não segura ainda do que ia dizer, quando senti o Doyle avançar até ficar a meu lado. Inclinou-se sobre o microfone como uma negra estátua esculpida de uma só peça, traje negro de desenho, camisa negra de etiqueta, sapatos, até sua gravata, todo do mesmo negro monótono.

— Posso responder esta pergunta, Princesa Meredith? — Os brincos de prata que percorriam a curva de sua orelha fazendo destacar a ponta dela, cintilaram com as luzes das câmeras fotográficas.

Contrariamente a todos os que queriam fazer-se passar por fadas ou duendes com seus implante de cartilagem, as orelhas bicudas indicavam que não se pertencia aos sangue puro da alta corte das fadas, a não ser a castas inferiores, algumas de sangue mesclado, como eu. Seu cabelo negro lhe chegava até os tornozelos, e ele poderia ter escondido sua ?deformidade, mas quase nunca o fazia. Seu cabelo estava preso em sua acostumada trança. O brinco de diamante no lóbulo de sua orelha cintilava ao lado de meu rosto.

A maioria de suas armas eram tão monocromáticas como o resto dele, de modo que era muito difícil distinguir suas facas e pistolas, escuridão sobre escuridão. Ele tinha sido a Escuridão da Rainha, seu assassino, durante mais de mil anos. Agora, ele era meu.

Lutei por manter meu rosto tão inexpressivo como o seu, e não demonstrar meu alívio.

— Fique a vontade. — eu disse.

Inclinou-se para o microfone diante de mim.

— O atentado de ontem contra a vida da princesa está ainda sendo investigado. Minhas desculpas, mas alguns detalhes não estão preparados ainda para ser discutidos publicamente.

Sua voz profunda ressonou sobre o microfone. Vi algumas das repórteres estremecer-se, e não precisamente de medo. Nunca tinha me dado conta de que Doyle tinha uma voz estupenda para o microfone. Acredito que ele, assim como Frost, nunca antes tinha estado perto de um microfone, mas diferente do Frost, o Doyle não se incomodava. Claro. Ele era a Escuridão, e a escuridão não se assusta conosco; nos assustamos com ela.

— O que pode nos dizer a respeito da tentativa de assassinato? — Perguntou outro repórter.

Não estava segura se a pergunta era dirigida ao Doyle ou a mim. Não pude ver seus olhos atrás de seus redondos e negros óculos de sol, mas juraria que lhe senti me olhar. Inclinei-me para o microfone.

— Não muito, temo em dizer. Como Doyle disse, isto é uma investigação em curso.

— Sabem quem está por trás disso?

Doyle se aproximou do microfone de novo.

— Lamento, Senhoras e Senhores, mas se vocês insistirem em realizar perguntas que não estamos liberados para responder por temor a dificultar nossa investigação interna, então daremos a coletiva de imprensa por finalizada.

Por um lado, muito bem feito; por outro, ele havia dito uma palavra muito má. ?Interno.

— Então foi magia sidhe a que enfeitiçou à polícia. — Gritou uma mulher.

Merda, pensei.

Doyle tinha causado isto, ao tentar evitar.

— Por ?interno, quis dar a entender que envolvia à Princesa Meredith, a herdeira potencial ao trono da Rainha Andais. Não é mais interno que isso. Especialmente para aqueles de nós que pertencemos à princesa.

Estava tratando deliberadamente de distrai-los para perguntas sobre minha vida sexual com meus guardas. Um tema muito mais seguro. Madeline cooperou escolhendo um dos repórteres da imprensa marrom para a seguinte pergunta. Se alguém podia preferir o sexo por cima da política interna, essa era a imprensa sensacionalista.

Eles morderam a isca.

— O que quer dizer com isso de que pertencem à princesa?

Doyle se inclinou ainda mais perto do microfone, o suficiente para que seu ombro roçasse o meu. Foi muito sutil e muito deliberado. Provavelmente teria sido mais chamativo se Frost e eu não nos tivéssemos nos beijado antes, mas Doyle sabia como jogar com a imprensa. Teria que começar lentamente e deixar uma via de escapamento. Ele só tinha começado a jogar com os meios de comunicação nas últimas semanas, mas como com tudo, aprendia rápido e o fazia muito bem.

— Nós daríamos nossas vidas por ela.

— O Serviço Secreto jurou dar sua vida pela do presidente, mas eles não pertencem ao presidente.

O repórter enfatizou a palavra ?pertencem.

Doyle se aproximou ainda mais do microfone, de tal modo que teve que forçar-se a pôr um braço no respaldo de minha cadeira, e assim eu fiquei emoldurada por seu corpo. As câmaras explodiram e eu fiquei novamente cega. Permiti-me me inclinar contra Doyle, em parte para a fotografia e em parte porque eu gostava.

— Possivelmente me expressei mau. — Disse Doyle, com todo meu brilho natalino misturando-se com sua escuridão.

— Tem relações sexuais com a princesa? — Perguntou uma repórter.

—Sim. — Disse ele, simplesmente.

Na realidade, eles quase suspiraram como um grupo impaciente. Outra mulher perguntou:

— Frost, dorme com a princesa?

Doyle deu um passo atrás e permitiu que Frost se aproximasse do microfone de novo, embora eu tivesse preferido que ele se mantivesse afastado disto. Frost era valente, e veio e se inclinou sobre o microfone, inclinado para mim. Mas Frost não sabia jogar para as câmeras. Seu rosto era arrogante, perfeito, e não demonstrava nada, embora seus olhos cinzas estivessem nus frente ao brilho das câmeras. Ele sempre dizia que estava por debaixo de nós jogar para os meios de comunicação. Mas eu sabia que não era a arrogância o que o fazia não jogar, era o medo. Uma fobia, se quiser, pelas câmeras, os repórteres e as multidões. Inclinou-se rigidamente e disse:

— Sim.

Isto não deveria ter sido uma novidade para nenhum deles. Publicamente eu tinha voltado para mundo das fadas para procurar um marido. Os sidhe não se reproduzem muito, de modo que a realeza só se une em matrimônio se conceberem um primeiro filho. A rainha e eu tínhamos explicado isto em outra coletiva de imprensa, quando tinha visitado pela primeira vez a casa. Mas ela tinha mantido os guardas afastados do microfone, mas agora havia algo com os guardas admitindo-o, frente ao microfone, que excitava aos meios de comunicação. Quase como se tudo fosse mais sacana se eles o admitiam.

— Vocês dois tiveram relações sexuais com a princesa ao mesmo tempo?

— Não.

Frost lutava para não franzir o cenho. Tínhamos tido sorte de que o repórter não perguntasse se acaso eles tinham dormido juntos comigo. Porque tinhamos feito isso. As fadas dormem em enormes montões, em grupos, como cachorrinhos grandes. Nem sempre se refere ao sexo, às vezes se trata de respeito a segurança e comodidade. Frost deu um passo para trás, para a parede, rígido e infeliz. Os repórteres ainda gritavam perguntas sexuais para ele. Madeline nos deu uma mão.

— Acredito que nosso Assassino Frost é um pouco tímido com o microfone, meninos e garotas. Perguntem a alguém mais. E isso fizeram.

Gritaram nomes e perguntas. Um ou dois dos guardas nunca tinham estado parados frente aos meios de comunicação antes. Eu não tinha certeza de que Adair ou Hawthorne tivessem visto alguma vez a televisão ou um filme. Ambos vestiam cotas de malha totalmente chapeadas, embora Adair parecia como se fosse feito de ouro e cobre, e Hawthorne fosse de um rico carmesim, uma cor que nenhum metal havia possuído antes. Adair era metálico. Hawthorne só se via como se fosse metálico, embora eu não podia dizer do que parecia. Algo mágico. Eles tinham decidido ficar com seus capacetes postos. Adair, acredito, porque a rainha tinha tosquiado seu cabelo como castigo por não querer compartilhar minha cama. O cabelo do Hawthorne ainda caía em grossas ondas verdes e negras, até seus tornozelos. Não tinha idéia de porquê tinha decidido ficar com seu capacete posto. Deviam estar assando debaixo de todas essas luzes elétricas, mas tinham decidido ficar com seus capacetes postos, levariam-nos até que caíssem desmaiados. Bem, Adair o faria. Não conhecia o suficiente do Hawthorne para dizê-lo. Eles conheciam o que era uma câmera, porque a rainha era aficionada a sua Polaroid, mas além disso e das práticas privadas, a tecnologia era algo totalmente estranho para eles. Perguntei-me se sentiam que tinham sido lançados aos leões. Seus rostos não mostravam nada. Eles eram os Corvos da Rainha, sabiam como esconder seus sentimentos.

Por sorte, ninguém gritou seus nomes, provavelmente porque ninguém sabia quem eram. Madeline finalmente escolheu uma pergunta, e uma vítima para eles.

— Brad, você tem uma pergunta para o Rhys.

O repórter ficou de pé, e a maioria dos outros se sentaram, como flores decepcionadas.

— Rhys, como era ser um verdadeiro detetive em Los Angeles?

Rhys estava na esquina mais afastada do palco, perto da borda. Ele era o mais baixo dos sidhe de sangue puro, só 1,70 metros de altura. Seus brancos fios caíam por sua cintura, cobertos por um chapéu cor nata rodeado por uma cinta brandamente mais escura. O casaco que levava sobre o traje combinava perfeitamente com seu chapéu. Via- se como uma mescla entre um antiquado detetive com um estupendo sentido de moda, um menino que faz striptease e um pirata. O de striptease vinha de uma camiseta azul pálido que se aderia a seu peito musculoso e remarcava perfeitamente seus músculos abdominais. O de pirata provinha do fato de que usava um emplastro sobre um de seus olhos. Não se devia a uma afetação de sua parte, a não ser a evitar que a imprensa visse como tinha ficado logo depois que um trasgo tivesse lhe tirado um olho e deixado cheio de cicatrizes seu formoso rosto de menino. O olho restante possuía três anéis de azul. Poderia ter usado encanto para ocultar as cicatrizes, mas quando se deu conta de que as cicatrizes não me incomodavam, tinha deixado de incomodar-se. Rhys acreditava que as cicatrizes lhe davam caráter, e efetivamente o faziam.

Rhys sempre tinha sido um enorme admirador do cinema noir, e o repórter recordava isso claramente. Eu gostava mais por isso. Pôs uma mão sobre a mesa e a outra cruzando sobre meus ombros enquanto se movia para o microfone, de forma similar a como tinha feito Doyle. Mas Rhys sabia como jogar com as câmaras melhor, porque tinha estado fazendo isso durante mais tempo. Tirou o chapéu e sacudiu seu cabelo, de modo que caísse ao redor de seus ombros em grossos cachos brancos.

— Adorava ser um detetive de L.A.

— Era como nos filmes? — Perguntou alguém.

— Às vezes, mas nem sempre. Terminei por fazer mais trabalho de guarda-costas que trabalho em investigações reais.

A seguinte pergunta foi interessante.

— Houve rumores de que as estrelas que você e os outros guardas protegiam queriam mais o corpo que o guarda.

Era uma difícil pergunta, porque um montão de clientes tinha perguntado ou indicado sua boa vontade com relação ao sexo. Os homens não tinham feito caso do convite ou haviam dito não. De modo que a resposta, tecnicamente era sim, mas se ele dissesse sim, todos os semi-famosos ou quase famosos que Rhys tinha protegido estariam nos tablóides amanhã, e seria nossa culpa. Nosso antigo chefe, Jeremy Grei, merecia algo melhor que isto de nós. E mesmo nossos clientes. E o tipo de clientes corretos da Agência de detetives Grei se manteria afastada dela, e os incorretos se sentiriam decepcionados.

Inclinei-me para o microfone e disse sugestivamente:

— Temo que Rhys esteve muito ocupado protegendo a mim para proteger a ninguém mais.

Isto os fez rir e distraiu a todos. Estávamos de volta as perguntas sexuais a respeito de nós, e essas, nós podíamos responder.

— Rhys é bom na cama?

— Sim. — eu disse.

— A princesa é boa na cama?

— Muito.

Como se pode ver, perguntas fáceis.

— Rhys, compartilhaste a cama com a princesa e algum dos outros guardas?

— Sim.

Então os repórteres começaram a trabalhar juntos. O primeiro repórter tentou perguntar com quem, mas Madeline disse que ele já tinha feito sua pergunta. O seguinte repórter que ela apontou perguntou:

— Rhys, com quem compartilhaste à princesa?

Rhys poderia ter dado muitas voltas em torno da pergunta, mas escolheu a verdade, porque, por que não?

— Com Nicca.

As câmeras e a atenção se voltaram para Nicca como leões que tivessem descoberto uma gazela recém ferida. Esta gazela em particular media 1,83 metros de altura, com uma pele de uma rica cor marrom, e um adorável cabelo castanho que caía até seus tornozelos, espesso e liso, sustentado só por um fino diadema de cobre. Estava nu da cintura para cima, só coberto pelos suspensórios de seda de cor dourada, que cobriam com graça seu peito, e sustentavam as delicadas calças cor café com desenhos em amarelo de seu traje. Tinha duas 9 mm na parte dianteira de suas calças, porque ninguém tinha podido imaginar como lhe pendurar um coldre no ombro, ou como atar as correias de sua armadura, ou suas espadas, sem danificar suas asas.

Suas asas se sobressaíam por cima de seus ombros e até um pouco por cima de sua cabeça. Estendiam-se para os lados e para baixo até suas pantorrilhas, de modo que suas pontas quase roçavam o chão. Eram umas enormes asas de borboleta, como se meia dúzia de diferentes tipos de enormes borboletas de seda tivessem tido sexo numa escura noite com uma fada. Até dois dias atrás as asas só tinham sido uma marca de nascença na parte de atrás de seu corpo, mas durante o sexo as asas de repente tinham explodido em sua pele e se tornaram reais. A parte traseira de seu corpo era agora um pedaço liso de pele marrom.

Moveu-se para unir-se a nós, enquanto as câmeras nos deslumbraram de novo. Rhys ficou comigo, enquanto Nicca parava a nosso lado, muito mais alto que nós dois. Ele olhou para a multidão, seu rosto perplexo. Não estava acostumado a estar no frente e ser o centro das atenção da rainha, ou o meu.

— Nicca, realmente dormiste com a princesa e Rhys?

Nicca se inclinou para o microfone, de modo que ficou a meu lado, e Rhys permaneceu no outro. As asas abanavam sobre minha cabeça.

—Sim. —Disse, e logo se elevou novamente.

As câmeras faiscaram e os repórteres gritaram perguntas até que Madeline escolheu a alguém.

— Como obteve suas asas?

Boa pergunta. Infelizmente, não tínhamos uma boa resposta.

— Querem a verdade? — Perguntei. — Não temos certeza.

— Nicca, o que fazia quando apareceram as asas?

Quando Nicca se ajoelhou de novo, as asas se flexionaram, de maneira que, por um momento, fiquei tampada por uma delas. Não podia ver nada além das luzes das câmeras.

— Mantinha relações sexuais com Meredith.

Os repórteres não fizeram nada salvo rir como meninos do segundo grau. Os repórteres americanos, e alguns europeus, nunca tinham se adaptado de tudo ao fato de que as fadas, como uma totalidade, não viam o sexo como algo ruim. De modo que, admitir ter tido relações sexuais com alguém, a menos que isto fizesse sentir incômodo a seu amante, não era ruim, ou escandaloso.

— Estava Rhys contigo?

— Sim. – Tecnicamente, Rhys tinha estado a meu lado na cama, não nela, mas Nicca não tinha visto uma razão para esclarecer essa sutileza.

— Havia alguém mais na cama contigo e a princesa quando isto aconteceu?

— Sim. — Este era Nicca, e era muito sidhe. Poderia tê-los distraído com uma história que não tivesse nada a ver com a pergunta que tinha sido feita ou podia responder exatamente o que tinha sido perguntado, nada mais absolutamente. Nicca não era bom para as histórias, por isso se ateve à verdade.

— Quem? — Gritou alguém.

Nicca me olhou, e não devia ter feito isso. O olhar era suficiente para fazer saber que ele não estava seguro de se eu queria que dissesse o nome. Merda. À maioria das mulheres sidhe não se agrada de admitir que tiveram sexo com um sidhe menor mas eu não estava envergonhada. Os repórteres dariam a esse único olhar muita mais importância do que em realidade tinha. Maldição.

O problema era que Sage não estava no palco. Ele não era sidhe, e sua própria rainha lhe tinha exigido que voltasse para seu lado. Além disso, nossa rainha não o queria nesta representação comigo. Segundo as palavras da própria Andais: ?Sexo oral, tudo bem, mas ele não deve conseguir te foder. Nenhum semiduende, não importa quão alto seja, sentará-se sobre meu trono como o rei de ninguém. Por isso Sage teve que manter-se fora de vista. O qual fazia que este momento fosse mais interessante ainda.

— O terceiro, ou poderia ser o quarto. — Disse com um sorriso. — Ele não está seguro de querer a atenção dos meios de comunicação.

— Vai ser um de seus amantes e potenciais reis?

— Não. — O qual era a verdade.

— Por que não? — Alguém mais gritou. Eu não teria respondido isto, mas Nicca o fez.

— Ele não é sidhe.

OH! infernos. Isto iniciou outro frenesi de perguntas gritadas. Inclinei-me para Nicca e lhe pedi que voltasse para seu lugar na muralha depois do palco. Rhys voltou para seu lugar no bordo de onde podia olhar à multidão. Tentava não rir, suponho que eu também podia ter encontrado graça nisso. Mas Nicca tinha que manter-se longe do microfone de agora em diante. Não me envergonhava do que tinha feito com o Sage, mas não estava segura quanto disso quereria minha tia que explicasse aos meios de comunicação. Ela realmente poderia estar em um apuro devido a isto. Madeline finalmente encontrou uma pergunta que pensou que eu quereria e seria capaz de responder. Estava equivocada.

— Qual deles é o melhor na cama, Meredith?

Lutei para não olhar a Madeline. O que fazia ela aceitando esta pergunta? Ela conhecia melhor as coisas.

— Olha para todos eles. Como poderia alguém escolher só a um?

Risadas, mas não deixariam passar.

— Parecia ter preferência pelo Frost há um momento, Princesa.

Não era uma pergunta, por isso não tinha que respondê-la. Outro repórter perguntou:

— Suficiente cortesia, Princesa, mas se não for só um, quais são seus múltiplos favoritos?

Armadilha.

— Cada um dos homens com os que tive relações sexuais é especial para mim em seu própria e particular forma. — Era verdade.

— Com quantos tiveste sexo?

Inclinei-me para o microfone.

— Cavalheiros se você puderem dar um ou dois passos à frente. Truque.

Rhys, Nicca, Doyle e Frost se moveram para frente. Só três de outros homens deram um passo avançando. A pele do Galen era quase tão branca como a minha, mas sob a luz direta via-se um certo reflexo de verde sobre aquela palidez. Seus fios eram verdes sob qualquer luz, exceto na escuridão, onde se viam loiros. Tinha cortado seu próprio cabelo justo por cima dos ombros, deixando só uma magra trança que uma vez tinha chegado até seus tornozelos. Dos homens do país das fadas, só os sidhe tinham permissão para deixar crescer o cabelo comprido. Galen tinha cortado seu cabelo voluntariamente, a diferença do Adair. Ou Amatheon, que estava de pé junto a ele. O rico cabelo vermelho do Amatheon tinha sido cortado de modo que os repórteres tinham acontecido um momento complicado ao dar-se conta de que agora lhe chegava até os ombros. Ele tinha cedido ante a ordem da rainha antes que Adair. O fato era que o corte de cabelo dos homens tinha sido um castigo, uma humilhação que os persuadiu a fazer o que a rainha queria, o que dava a entender quão estranho era que Galen o tivesse feito por si mesmo. Galen era o mais jovem dos Corvos da Rainha, só setenta e cinco anos mais velho que eu. Entre os sidhe, isto era quase como ter nascido juntos. Eu tinha acreditado que sua honesta e formosa cara era o rosto perfeito desde que tinha quatorze anos, ou talvez mais jovem ainda. Este era Galen, aquele a quem eu tinha querido que meu pai me unisse, mas ele tinha escolhido a outro. A união tinha durado sete anos, mas não tinha tido filhos, e ao final, ele me havia dito que eu era muito humana para ele. Não o suficiente sidhe. Isso tinha me feito me perguntar por que meu pai não tinha escolhido o Galen em primeiro lugar.

Voltou seus adoráveis olhos verdes para mim e sorriu, eu lhe sorri em resposta. Estava tão armado como qualquer dos outros, com facas e pistolas, mas havia uma suavidade nele que a maioria dos outros tinha perdido séculos antes de que ele ou eu tivéssemos nascido. Ele daria sua vida por mim, e poderia fazê-lo quando eu tivesse um filho, a diferença do resto. Mas como político ele era um desastre, e isso poderia ser fatal nas altas cortes de nosso mundo.

Alguém tocou meu ombro. Saltei, e encontrei a Madeline com uma mão sobre meu microfone. Ela se inclinou e sussurrou:

— Está olhando-o fixamente, não repitamos o incidente com o Frost, De acordo?

Deu um passo para trás com um sorriso pronto para a imprensa, apertando o interruptor em sua cintura.

Tive que manter meu rosto voltado longe da multidão porque tinha me ruborizado. Não me ruborizava muito, e para as normas humanas não estava muito escura. A pele sidhe não avermelha da mesma maneira em que a pele humana muda de tons. Certamente, mantendo meu rosto afastado das câmeras, deixava que Galen pudesse me ver. Algumas vezes isso é só uma escolha entre situações vergonhosas, não um escapamento delas.

Madeline estava dizendo:

— A Princesa Meredith está um pouco cansada. Teremos que cortar um pouco isto, meninos. Lamento-o.

Houve uma gritaria generalizada, e um renovado brilho das luzes das câmeras, o qual era mau, porque Galen vinha para mim. Ajoelhou-se junto a mim, ao lado de minha cadeira, e era o bastante alto como para que, dos ombros para cima, ainda fosse visível para eles. Tocou meu queixo, gentilmente, com as pontas de seus dedos. Isto me fez olhá-lo. Fez-me esquecer que ambos estávamos à vista das câmeras. Inclinou seu rosto perto do meu, me fazendo esquecer que estávamos em meio de uma representação quase teatral. Inclinei-me para ele, e sua mão emoldurou o flanco de minha cara. Isso me fez esquecer todo o resto. Não tenho nenhuma explicação para isso. Tínhamos compartilhado a cama durante meses. Ele era um desastre politicamente falando, e a exposição dele a esta demonstração de favoritismo em frente de todos poderia pô-lo em perigo, mas eu não estava pensando neles quando nos beijamos. Não pensava em nada, e tudo o que podia ver era a alegria em seu rosto, o olhar em seus olhos. Galen tinha me amado desde que eu tinha dezessete anos, e isso estava em seus olhos, como se nada tivesse mudado e o tempo não tivesse avançado.

A rainha tinha me ordenado a não mostrar nenhum favoritismo. Ela ficar estar furiosa comigo, com ele, conosco, mas depois do pequeno incidente com o Frost, como Madeline o chamava, O que importava um mais? Era muito mau, mas de todos os modos o beijei. Ainda queria beijá-lo. Ainda, por um único momento, o mundo se reduziu ao rosto do Galen, sua mão contra minha pele, e sua boca sobre a minha.

Era um beijo suave e casto, acredito que porque ele sabia que se me beijasse mais duro, perderia o controle sobre o encanto que impedia que Frost e eu nos víssemos como vítimas do batom. Galen retrocedeu, e seus olhos continham a suave surpresa que às vezes mostravam, como se não pudesse acreditar que se permitiu me beijar, permitido me tocar. Eu tinha captado o mesmo olhar em meu rosto no espelho do dormitório uma ou duas vezes.

— Todos obteremos nosso beijo? — A voz era profunda, e continha a aspereza cambiante do mar. Barinthus se moveu para nós, com uma revoada de seu cabelo, da cor dos oceanos. O turquesa do Mediterrâneo, o profundo meio azul do Oceano Pacífico, o cinza azulado do oceano antes da tormenta, deslizando-se para um azul que era quase negro, onde a água corre profunda e espessa como o sangue dos gigantes adormecidos. As cores se moviam e fluíam um no outro de modo que no momento atual no que estávamos se via sempre mudando, sempre transformando-se, como o oceano mesmo.

Barinthus tinha sido uma vez o deus do mar. Recentemente eu tinha descoberto que ele tinha sido Mannanan MAC Lir, mas era um segredo. Agora ele era Barinthus, o despojado deus do mar. Moveu-se com graça ao cruzar o palco, com toda sua estatura próxima aos 2,10 metros. Seus olhos eram azuis, mas com uma estreita pupila como a de um gato, ou um animal dos profundos mares. Tinha uma segunda membrana quase transparente que podia fechar-se sobre seu olho quando estava sob a água, e que freqüentemente piscava quando estava nervoso. Piscou só uma vez agora.

Perguntava-me se alguém nesta multidão de repórteres sabia quanto custava a este homem que gostava tanto de sua privacidade sugerir um beijo, e converter a si mesmo no centro de todas essas câmeras. Galen tinha compreendido que se comportou erroneamente porque me mostrou com seus olhos que estava arrependido. Infelizmente, seu rosto não era o bastante duro para evitar que qualquer um lesse nele, incluindo os repórteres. A rainha havia dito ?nada de favoritos. Nosso comportamento ia me forçar a tentar provar que não tinha nenhum. Depois do que Galen e eu tínhamos feito, ia ser uma tarefa difícil.

Um montão dos homens que estavam de pé comigo poderia ter jogado com as câmeras, e isto não teria afetado, a eles ou a mim, quase nada. Barinthus não era um deles. Ele tinha sido o amigo de meu pai, e, de acordo às normas da América, nós não podíamos ter sexo. Não de acordo às normas de Bill Clinton. Se eu tivesse mantido relações sexuais com ele, teria estado contra a parede, porque ele cumpria um parâmetro de verdade mais alto que a maioria dos sidhe. Olhei para cima ao Barinthus, estando eu sentada e ele de pé, tomou um momento poder olhar atentamente seu rosto.

— Se o desejar. — Mantive minha voz ligeira e meu rosto plácido.

Barinthus e eu nunca tínhamos nos beijado, e nosso primeiro beijo não deveria estar gravado em um cilindro de filme.

Foi Rhys que salvou o dia.

— Se Barinthus conseguir um beijo, então eu também. Doyle disse:

— Para ser justos, todos deveríamos receber um. Barinthus esboçou um ligeiro sorriso.

— Eu esperarei meu turno, e receberei meu beijo em privado.

— Galen e Frost já obtiveram os seus. — Disse Rhys, e enquanto Galen voltava para seu lugar na fila, Rhys fingiu lhe dar uma bofetada nas orelhas.

Barinthus fez uma graciosa reverência e tentou voltar para seu lugar. Mas isso não aconteceu. Um repórter perguntou:

— Lorde Barinthus, decidiu passar de ser o ?Fazedor de Reis, a ser o rei?

Nenhum sidhe lhe tinha chamado nunca ?Fazedor de Reis em sua cara, ou ?Fazedor de Rainhas tampouco. Mas os meios de comunicação, bom, ele não podia lhes dar uma bofetada nas orelhas. Barinthus se ajoelhou a meu lado, mais que inclinar-se para o microfone. Ajoelhado assim, sua cabeça ficava ainda por cima da minha.

— Duvido que fique como um membro permanente de seu guarda.

— Por que não?

— Sou necessário em outro lugar.

A verdade era que antes de que a Rainha Andais o aceitasse na Corte do Ar e da Escuridão, e logo depois de que a Corte da Luz e da Ilusão o tivesse exilado, Barinthus tinha tido que prometer que nunca aceitaria o trono aqui, nem sequer se este lhe era devotado. Ele tinha sido Mannanan MAC Lir, e a rainha e os nobres temiam seu poder. De modo que ele tinha feito seu mais solene juramento de que ele nunca, pessoalmente, sentaria-se em nosso trono.

Barinthus se inclinou para a sala em geral e simplesmente voltou para seu posto. Deixou-lhes claro que não estava disposto a responder mais pergunta nesse dia. Kitto, o meio trasgo, meio sidhe, já tinha se movido de volta a seu lugar. Só media 1,25 metros de alto, e isto fazia que muitos dos meios de comunicação tentassem retratá-lo como a um menino. Era o bastante velho para recordar o que o mundo era antes de que o cristianismo fosse uma religião. Mas seu aspecto punha à imprensa incômoda. Seus curtos cachos negros, pele pálida, e lentes escuros lhe faziam parecer comum com seus jeans e sua camiseta. A rainha não tinha um traje de desenho que servisse para alguém tão baixo. Não tinha havido tempo para que a costureira da rainha pudesse fazer modificações a algum. Ele se plantou na seção de parede que lhe tocava.

— Princesa Meredith, como escolherá a seu marido entre todos estes magníficos homens? — Perguntou um repórter.

— Aquele que me deixe grávida consegue o prêmio. — Disse sorrindo.

— O que acontece se estiver apaixonada por alguém mais? O que acontece se não ama a aquele que te deixe grávida?

Suspirei, e não lutei contra a risada que me escapou.

— Sou uma princesa, e a herdeira ao trono. O amor nunca foi um requisito prévio para os matrimônios reais.

— Não é tradicional dormir com mais de um de uma vez até ficar ou não grávida.

— Assim é. — eu disse, e amaldiçoei a aquele que conhecia tão bem nossos costumes.

— Então, por que a maratona de homens?

— Se tivesse a oportunidade. Não o faria? — Perguntei, e os fiz rir. Mas isto não os distraiu.

— Casaria-te com um homem que você não gosta unicamente porque é o pai de seu filho?

— Nossas leis são claras. — eu disse. — Desposarei-me com o pai de meu filho.

— Não importa quem seja? — Perguntou outro repórter.

— Essa é nossa lei.

— O que acontece se seu primo, o Príncipe Cel, consegue que uma de suas guardas fique grávida primeiro?

— Então, de acordo com a Rainha Andais, ele será o rei.

— De modo que isto é uma corrida para ficar grávida?

— Sim.

— Onde está o Príncipe Cel? Ninguém o viu durante quase três meses.

— Não sou a guardiã de meu primo.

De fato, ele estava na prisão por ter tentado me assassinar várias vezes, e por outros crimes que a rainha não queria que a corte se inteirasse ainda. Cel poderia ter sido executado por alguns deles, mas a rainha tinha negociado pela vida de seu único filho. Cel devia estar encerrado durante seis meses, torturado com a mesma magia que ele tinha usado contra os seguidores humanos dos sidhe. Lágrimas do Branwyn, uma de nossas poções melhor guardadas. Era um afrodisíaco que funcionava embora a pessoa não quisesse. Mas mais que isso, fazia que seu corpo desejasse ser tocado, que o levassem ao orgasmo. Cel tinha sido encadeado e coberto com Lágrimas do Branwyn. Tinham deslocado apostas na corte de que a pouca prudência com a que tinha nascido não sobreviveria a isto. Só ontem, a rainha tinha permitido que entrasse uma de suas guardas, para permitir que a mulher aliviasse a necessidade do Cel, salvando sua prudência. E de repente, já não tinha uma tentativa de assassinato sobre mim, a não ser dois ou três, e um sobre a rainha. Era algo mais que uma coincidência, mas a rainha amava a seu filho.

Madeline voltou para meu lado, me olhando.

— Está bem, Princesa?

— Lamento-o, encontro-me um pouco esgotada. Omiti alguma pergunta?

Ela sorriu e assentiu.

— Isso temo.

Eles a repetiram, e desejei havê-la omitido de novo.

— Sabe onde está seu primo o príncipe?

— Ele está no sithen, mas não sei o que está fazendo exatamente neste momento. Lamento-o.

Precisava sair deste tema, sair deste lugar. Assinalei a Madeline, e ela deu por terminada a coletiva, com a promessa de uma sessão de fotos em um dia ou dois, quando a princesa estivesse completamente curada.

Uma diminuta fada com asas de borboleta revoou no campo de visão da câmera. Era um semiduende. Sage, com quem eu ?tinha dormido, podia transformar-se em tamanho humano, mas a maioria dos semiduendes permaneciam sempre do tamanho das bonecas Barbie, ou menores. A rainha não estaria feliz a respeito de que o pequeno duende estivesse revoando em frente das câmeras. Quando a imprensa estava no sithen, os que pareciam menos humanos permaneciam afastados deles, e especialmente longe das câmeras, ou enfrentavam à ira da rainha.

A figura vestia de um pálido azul—rosado, com iridescentes asas azuis. Voou através da barreira de fotógrafos, protegendo seus olhos com sua pequena mão. Acreditei que aterrissaria sobre mim, ou possivelmente sobre o Doyle, mas sobrevoou o palco até posar-se no ombro do Rhys. Ocultou-se em seus largos cachos brancos. Sussurrou algo em seu ouvido, usando seu cabelo e seu chapéu como escudo. Rhys se levantou e veio para nós com um sorriso.

Doyle estava parado a meu lado, mas ainda estando assim perto, não pude ouvir o que Rhys lhe sussurrou.

Doyle lhe dirigiu um pequeno assentimento, e Rhys abandonou a sala, com o diminuto duende ainda enredado em seu cabelo. Quis perguntar o que era tão importante para que Rhys partisse na frente da imprensa. Alguém gritou:

— Rhys, por que está indo embora?

Rhys deixou o lugar com uma onda e um sorriso.

Doyle me ajudou a me pôr de pé, logo o resto dos guardas se fechou a meu redor como uma parede multicolorida, mas os repórteres não tinham terminado.

— Doyle, Princesa, o que aconteceu?

— O que disse o pequeno duende?

A coletiva de imprensa tinha acabado. Teríamos que ignorá-los. Teria sido prudente lhes dar alguma desculpa, mas Doyle não acreditou que tivéssemos que nos incomodar ou não sabia o que dizer. Havia tensão em seu braço no lugar onde me tocou, o que indicava que fosse o que fosse o que Rhys lhe havia dito, tinha-o estremecido. O que era o que a Escuridão temia?

Minha musculosa muralha de brilhantes cores me fez avançar para os degraus e logo para fora. Quando estivemos no corredor, livres dos meios de comunicação, eu ainda sussurrava. A tecnologia moderna era uma coisa maravilhosa, e não necessitávamos um microfone muito sensível apanhando nossa conversação.

— O que está acontecendo?

— Há dois cadáveres em um dos corredores próximos à cozinha.

— Duendes? — Perguntei.

— Um, sim. — Disse.

Tropecei com meus altos saltos, porque tentei me deter, mas seu braço sobre o meu nos manteve em movimento.

— E o outro? Doyle assentiu.

— Sim, exatamente.

— É um dos repórteres? Foi algum deles espiar por aí? Frost falou da fila de homens.

— Não pode ser. Tínhamos feitiços que lhes impediriam de deixar a parte segura dentro do sithen.

Doyle lhe jogou uma olhada.

— Então explica um cadáver humano em nosso sithen com uma câmera em sua mão.

Frost abriu a boca, logo a fechou.

— Não posso.

Doyle sacudiu sua cabeça.

— Eu tampouco.

— Bom, isto vai ser um desastre. — Disse Galen.

Tínhamos um repórter morto no sithen da corte do Ar e da Escuridão, e uma massa de repórteres vivos ainda em nossos domínios. O desastre ainda não começava a tirar o chapéu.


CAPÍTULO 3


EU TINHA VISTO MAIS VIOLÊNCIA NAS CORTES QUE EM todos meus anos como detetive particular na cidade de Los Angeles, mas tinha visto mais mortes em Los Angeles, não porque tivesse pego algum caso de assassinato, (os detetives particulares não pegam casos de assassinato, pelo menos não recentes), se não porque muitos dos que vivem na terra das fadas são imortais. Por definição, um imortal não morre muito freqüentemente. Poderia contar com os dedos de uma mão a quantas cenas de crimes recentes nos tinha feito chamar a polícia e ainda me sobrariam dedos. E nestes casos foi porque a Agência de Detetives Grei podia gabar-se de ter alguns dos melhores trabalhadores de magia da Costa Oeste. A magia é como todo o resto; se você pode fazer o bem com ela, algumas pessoas encontram também a maneira de utilizá-la para fazer o mal. Nossa agência se especializou em problemas sobrenaturais. Soluções Mágicas. Estava nos cartões de apresentação e tudo.

Algo que eu tinha aprendido sobre os corpos é que são ?isso, nem um ele ou um ela, só isso. Porque se você pensar nos cadáveres como ele ou ela, então começavam a ser reais para ti. Começariam a ser pessoas, e eles já não são pessoas, nunca mais seriam. Estão mortos, e deixando de lado alguma circunstância muito especial, são só matéria inerte. Pode-se sentir simpatia pela vítima depois, mas na cena do crime, sobretudo no primeiro momento, você é mais útil a vitima se não se simpatizar com ela. A simpatia é um obstáculo a suas habilidades para pensar. A empatia poderia danificar tudo. O desapego e a lógica são a salvação em um assassinato recente. Qualquer outra coisa conduz à histeria, e eu não era só a detetive mais experiente no corredor, mas também a Princesa Meredith NicEssus, possuidora das mãos da carne e de sangue, A Desgraça de Besaba. Besaba era minha mãe, e minha concepção a tinha obrigado a casar-se com meu pai e a viver, por um tempo, na Corte Escura. Eu era uma princesa e um dia poderia ser rainha. As futuras rainhas não ficam histéricas. As futuras rainhas que também foram treinadas como detetive tampouco podem ficar histéricas.

O problema era que eu conhecia um dos corpos. Eu a conhecia de quando estava viva e caminhava. Sabia que gostava da literatura clássica. Quando foi expulsa da Corte Luminosa e teve que vir a Corte Escura, ela mudou de nome, o que muitos faziam e se considerava normal entre os luminosos. Trocavam seus nomes, porque desse modo não tinham que recordar diariamente quem e o que tinham sido um dia, e como tinham chegado tão baixo. Ela se fazia chamar Beatrice, depois de que se apaixonou pela ?Divina Comédia de Dante. O inferno de Dante. Ela dizia: ?Já que estou no inferno, também posso ter um nome que se corresponda com a situação.

Eu tinha literatura clássica como uma de minhas disciplinas obrigadas no colégio. Quando acabei as aulas, dei muitos de meus livros a Beatrice, para que ela pudesse lê-los. Eu sempre poderia comprar outros exemplares do punhado de livros que tinha desfrutado. Beatrice não poderia fazer isso. Ela não poderia se passar por humana, e não gostava que a olhassem fixamente.

Cravei os olhos nela, agora já não ia se importar. Já não lhe importaria nada nunca mais. Beatrice parecia uma versão de tamanho quase humano do delicado semiduende diminuto que ainda se pegava ao cabelo do Rhys. Uma vez Beatrice tinha sido de tamanho pequeno, mas algo tinha ocorrido na Corte da Luz, algo do que ela nunca falou, e que lhe tinha estragado a habilidade de mudar de tamanho. Ela estava apanhada ao redor dos 1,25 m de altura em lugar dos mais ou menos 60 cm habituais, e as delicadas asas de libélula em suas costas se tornaram inúteis. Os semiduendes não levitam, voam, e com este tamanho e peso maior suas asas já não os podiam levantar.

O sangue tinha formado uma larga piscina escura ao redor de seu corpo. Alguém tinha estado detrás dela e tinha cortado em tiras sua garganta. Para lhe fazer isso tinham que estar perto dela, tinha que ter sido alguém em quem ela confiava, ou alguém com bastante magia para aproximar-se às escondidas. É obvio, também tinham necessitado bastante magia que invalidasse sua imortalidade. Ali havia muitos tipos de fadas que podiam fazer ambas as coisas.

— O que aconteceu Beatrice? — eu disse brandamente — quem te fez isto?

Galen se situou a meu lado e disse:

— Merry... — Eu lhe olhei fixamente. — Está bem?

Neguei com a cabeça, e percorri com o olhar o corredor até o segundo corpo. Em voz alta disse:

— Eu vou ficar bem.

— Mentirosa. — Disse ele brandamente, e tratou de agachar-se sobre mim, tratando de me sujeitar. Eu não lhe afastei à força, mas me movi para trás. Agora não era tempo de abraçar a ninguém. Segundo nossa cultura, deveria ter tocado a alguém. Mas o punhado de guardas que tinham vindo para L.A. comigo só tinham trabalhado na Agência de Detetives Grei uns poucos meses. Eu tinha estado ali alguns anos. Você não se abraça em cenas de crimes. Nem recebe consolo. Só cumpre com seu trabalho.

A cara do Galen decaiu um pouco, como se tivesse machucado seus sentimentos. Não queria lhe machucar, mas tínhamos uma crise aqui. Certamente ele poderia ver isso. Então, porque, como tantas vezes ocorria, tinha que desperdiçar energias me preocupando com os sentimentos do Galen quando deveria estar me concentrando no trabalho? Havia momentos, em que apesar do amor que eu sentia por ele, entendia muito bem o porquê meu pai não tinha escolhido ao Galen para ser meu prometido.

Caminhei por volta do segundo corpo. O homem estava justamente na curta intercessão de um corredor com outro, o comprido corredor.

Jazia sobre seu estômago, os braços estendidos. Havia uma mancha de sangue embaixo dele, e essa mancha se estendia quase como uma onda por um lado de seu corpo.

Rhys estava acocorado perto do cadáver, olhando como me aproximava. O semiduende espiava às escondidas através do grosso cabelo branco do Rhys, então escondeu sua diminuta cara, como se ela tivesse medo. Os semiduendes usualmente gostam de andar grandes bandos como as aves ou as borboletas. Alguns deles são tímidos quando estão sozinhos.

— Sabemos já o que lhe matou? — Perguntei.

Rhys assinalou o estreito buraco nas costas do homem.

— Uma faca, acredito. Inclinei a cabeça.

— Mas levaram a arma com eles. Por quê?

— Porque devia haver algo de especial nessa faca que os poderia delatar.

— Ou simplesmente não quiseram perder uma boa faca. — Disse Frost. Ele avançou dois passos que o levaram do corredor maior ao menor. Tinha estado coordenando os guardas que mantinham a todo mundo fora da cena do crime. Eu tinha suficientes guardas comigo para poder fechar os dois lados do corredor, e assim o tinha feito. Quando nós tínhamos chegado, o vestíbulo estava sendo protegido por utensílios de cozinha e panelas flutuantes, por cortesia do Maggie May, que era a chefe de cozinha na Corte Escura. Os brownies podiam fazer levitar objetos, mas não por qualquer razão. Ela tinha ido com o Doyle para ver se conseguia tirar algo com mais sentido da criada que tinha encontrado os corpos. A duende estava histérica, e Maggie não pôde determinar se a mulher tinha visto algo que a assustou, ou simplesmente estava alterada pelas mortes. Doyle ia tentar averiguar. Esperava que a mulher reagisse ante ele por ser ainda a Escuridão da Rainha, seu assassino, e assim lhe dizesse a verdade por medo. Provavelmente a assustaria tanto que não nos ia servir, mas lhe deixei tentar. Eu poderia bancar a boazinha depois de que ele fosse o malvado.

Tinha enviado o Barinthus para comunicar a rainha o que tinha ocorrido. De todos os homens, era o que tinha a maior possibilidade de não ser castigado por ser o portador destas terríveis notícias. Em realidade, a rainha tendia a culpar de tudo ao mensageiro.

— Possivelmente. Geralmente é um hábito. Usa uma faca, retira-a, limpa-a, e depois a introduz em sua vagem. — Disse Rhys, assinalando uma mancha sobre a jaqueta do homem.

— Ele limpou a faca. — eu disse. Rhys me olhou.

— Por que ?ele?

Encolhi-me de ombros.

— Tem razão, poderia ser ela.

Não ouvi o Doyle caminhar pelo corredor, mas soube que estava ali um segundo antes de que falasse.

— Estava correndo quando eles lançaram a faca.

Em realidade estive de acordo, mas queria saber o porquê de seu raciocínio. Sinceramente, não queria ser responsável por esta confusão, mas como era a que tinha mais experiência, pensava nisso como se fosse minha responsabilidade. — O que te faz dizer que estava correndo?

Doyle começou a apalpar o casaco do homem, e eu disse:

— Não toque nele.

Ele só me olhou, mas disse...

— Pode ver seu casaco levantado sobre este lado, a ferida em sua camisa não se corresponde com o casaco da forma em que está. Acredito que ele corria, e que quando eles recuperaram a faca, examinaram seus bolsos, movendo seu casaco ao redor.

— Aposto que não usavam luvas.


— A maioria que não pensaria em impressão digital e o DNA. Só estariam preocupados com os rastros de magia que podiam ficar e não pelo que poderia achar a ciência.

Afirmei com a cabeça.

— Exatamente.

— Ele viu algo que o assustou. – Disse Rhys, levantando-se. — Logo saiu correndo, passando o grande corredor. Mas o que foi o que viu? O que lhe fez correr?

— Há muitas coisas aterrorizantes pululando pelos corredores de nosso sithen. — Esclareceu Frost.

— Sim, — eu disse, — mas ele era um repórter. Ele vinha procurando algo estranho ou espantoso.

— Possivelmente presenciou a morte do semiduende. — Disse Frost.

— Acha que foi testemunha da morte do Beatrice. — eu disse. Frost assentiu.

— Ok, suponhamos que ele foi testemunha. Correu, lançaram-lhe uma faca e lhe mataram. — Sacudi minha cabeça. — Quase todo mundo tem uma faca. A maioria de nós poderia fixar uma mosca na parede com uma. Isto não limita a nosso suspeito depois de tudo.

— Mas a morte de Beatrice sim limita o número. — Rhys me dirigiu um olhar bastante eloqüente. — Deveríamos averiguar onde estavam os guardas, os que não são de nossa absoluta confiança, e escutar suas respostas?

— Não há nenhuma razão para esconder isso, Rhys. Não se pode matar a um imortal com uma faca, mas ela está morta. Isto necessitou magia, uma magia muito poderosa, e só um sidhe, ou alguns poucos entre os sluagh poderiam havê-lo feito.

— A rainha proibiu que os sluagh saiam esta noite. Simplesmente se fossem vistos enquanto os repórteres estão dentro de nosso sithen levantariam suspeita.

Os sluagh eram o que menos se pareciam com os humanos dentre os duendes. Eram os pesadelos até dos membros da Corte do Ar e da Escuridão. Eles eram os únicos que não tinham deixado de ser selvagens. O reino mais aterrorizante do mundo dos duendes, incluídos os sidhe. Às vezes, eles iam por mando da rainha e assassinavam. O medo dos sidhe aos sluagh, e a ameaça que estes representavam eram um dos maiores motivos pelos que a rainha era temida. Eu tinha estado de acordo em ir à cama com o Rei dos Sluagh para assim formar uma aliança com eles contra meus inimigos. Este pacto não era conhecido na corte. Os sidhe, e inclusive os semiduendes, pensariam que era uma perversão. Eu pensava, mas bem, que era uma necessidade política. Além de tudo isto, tentei não indagar muito sobre esta mecânica. Sholto, seu rei, o Senhor daquilo que Transita no Meio era meio-sidhe, mas sua outra metade não era sequer algo próximo ao humano.

Sacudi minha cabeça.

— Não acredito que um membro dos sluagh pudesse ter se oculto o bastante para perambular esta noite pelo sithen. Não com toda a magia que nós tínhamos que conter nesta seção tão pequena do corredor.

— Igual ao repórter não deveria ter sido capaz de deixar a área protegida. – Disse Frost. Ele acertou nesse ponto.

— Me deixe dizer o que todos pensamos, até o que os guardas não querem pensar. Que um sidhe matou Beatrice e o repórter.

— Isto ainda nos deixa com várias centenas de suspeitos. — Disse Rhys.

— A criada da cozinha está muito assustada. — Disse Doyle. — Não posso saber se ela teve medo em geral ou se é algo específico.

— Então a assustou. — eu disse.

Ele encolheu levemente seus ombros.

— Não fiz intencionadamente. Olhei-lhe.


— Não fiz, Meredith, mas Peasblossom ficou muito mal que a Escuridão da Rainha tivesse vindo. Ela pareceu pensar que tinha vindo só para matá-la.

— Por que pensaria que a rainha a queria morta? — Pergunto Rhys. Tive uma idéia, uma idéia horrível, porque a rainha Andais ia odiar. Não disse em voz alta, porque embora os novos guardas acreditassem que um sidhe podia ter feito isto, eles provavelmente não acreditariam o que eu estava pensando neste momento. Andais tinha me imposto a vários homens que não conhecia e a um par em que rotundamente não confiava para nada. Foi um horrível pensamento, o que aconteceu tinha sido coisa da gente do Príncipe Cel? E se a criada, Peasblossom, tinha visto alguém de confiança do Cel abandonar a cena do duplo homicídio? Peasblossom nunca acreditaria que a rainha quereria que ela dissesse quem tinha sido.

O problema era que eu não podia ver o Cel, ou a alguém que lhe servisse, matando a Beatrice. A morte do jornalista parecia ser algo acidental, simplesmente estava no lugar errado na hora errada.

— Pensaste em algo. — Disse Rhys.

— Mais tarde. — eu disse, e fiz um movimento rápido com os olhos a costas dos homens que estavam justo a 30 cm de distância de nós.

— Sim, — disse Doyle, — sim, realmente necessitamos um pouco de privacidade.

— Deveríamos ocultar o corpo. — Disse um dos homens a nossas costas. O cabelo do Amatheon, penteado em apertadas tranças acobreadas, deixava ver sua cara nua, mas nada o poderia deixar sem adorno, porque seus olhos eram capas de pétalas em vermelho, azul, amarelo, e verde, como uma flor multicolorido. Isto freqüentemente me fazia enjoar se o olhava fixamente, como se meus próprios olhos se rebelassem ao ver que ele olhava fixamente ao mundo com olhos de pétalas em flor. Sua cara era quadrada, mas magra, lhe fazendo parecer ao mesmo tempo fortemente masculino e delicado. Quase como se sua cara, e seus olhos, fizessem-lhe duvidar de como queria ser.

— Sentirão falta do repórter, Amatheon. — eu disse. — Não podemos simplesmente ocultar seu corpo e esperar que isto parta como sempre.

— Por que não podemos fazer isso? Por que simplesmente não podemos dizer que não sabemos onde foi? Ou que um dos semiduendes o viu deixar o sithen.

— Seriam só mentiras. — Disse Rhys. — Um sidhe não mente, Ou acaso esqueceste isso depois de estar tanto tempo com o Cel?

A cara do Amatheon mostrou sinais de cólera, mas se controlou.

— O que fiz, ou o que deixei de fazer com o Príncipe Cel não é de sua incumbência. Mas sei que a rainha desejaria ocultar isto à imprensa. Ter um jornalista humano morto em nossa corte arruinará toda a boa publicidade que ela conseguiu adquirir para todos nós nestas últimas décadas.

Provavelmente tinha razão nisto último. A rainha não quereria admitir o que tinha passado. Inclusive se ela tivesse a mais ligeira suspeita de que o responsável era algum dos seguidores do Cel, quereria ocultá-lo ainda mais. Ela amava o Cel muito, e sempre o faria.

O fato de que Amatheon tivesse aconselhado eliminar o corpo me fez me perguntar que nível de culpabilidade poderia atribuir ao Cel de tudo isto. Amatheon sempre tinha sido um dos partidários do Cel. Cel era o último puro-sangue sidhe de uma casa que tinha governado esta corte durante três mil anos. Amatheon era um dos sidhe que pensava que um mestiço seria uma desgraça para o trono. E pensando assim, por que devia meter-se em minha cama e competir por me converter em rainha? Simplesmente porque a rainha Andais o tinha ordenado. Ele rechaçou tal honra e ela lhe obrigou a mudar de idéia, de forma dolorosa, deixando claro que ela era a governante aqui e não Cel, e Amatheon faria o que lhe ordenasse que fizesse. A rainha, como castigo, tinha cortado seu cabelo que antes lhe chegava até os joelhos até deixar-lhe à altura dos ombros. Embora para normas humanas essa medida estava bem, para ele era um sinal de grande vergonha. Lhe tinha feito outras coisas, coisas mais dolorosas a seu corpo que a seu orgulho, mas ele não tinha compartilhado esses detalhes e eu realmente não queria conhecê-los.

— Se Beatrice fosse o único morto, nesse caso poderia estar de acordo. — eu disse. Mas um humano morreu em nossa terra. Não podemos ocultar este fato.

— Sim. – Disse ele. — Sim, podemos.

— Não trataste com a imprensa tão diretamente como eu, Amatheon. Este repórter estava sozinho quando chegou ao sithen? Ou se separou de um grupo que sentirá falta em seguida? Inclusive se ele tivesse vindo sozinho, outros membros da imprensa o conhecerão. Se um de nós o tivesse matado no mundo humano, nós poderíamos ser capazes de ocultar quem o fez, deixando que fosse somente outro crime sem resolver. Mas ele morreu aqui sobre nossa terra, e isto não podemos ocultar.

— Parece como se fosse lhe à imprensa que morreu. Olhei seus confusos olhos.

Ele tendeu uma mão para tocar meu braço, mas Frost simplesmente se moveu cortando seu avanço, e ele nunca chegou a completar o gesto.

— Anunciará à imprensa? – Ele soou assombrado.

— Não, mas temos que nos pôr em contato com a polícia.

— Meredith... — Começou a dizer Doyle. Cortei-o.

— Não, Doyle, apunhalaram-no com uma faca. Nós nunca saberemos que faca o fez. Mas uma equipe de forenses sim poderia saber.

— Há magia na ferida que nos poderia levar até a arma que o fez. — Disse Doyle.

— Sim, e tentou rastrear a magia quando encontrou o corpo de meu pai no prado. Procurou a magia, mas ainda assim nunca encontrou as armas que o mataram. — Fiz todo o possível para que minhas palavras soassem vazias, tentando apartar essas lembranças de minha cabeça. A morte de meu pai, na capital da Espanha. Foi um fato, nada mais.

Doyle tomou um profundo fôlego.

— Falhei ao Príncipe Essus aquele dia, Princesa Meredith, e a ti.

— Falhou porque foi um sidhe quem o matou. Alguém que tinha uma magia muito poderosa para frustrar sua busca. Não vê, Doyle? Quem quer que o fez é tão bom com a magia como nós. Mas eles não saberão como enganar aos forenses de hoje em dia. Eles não serão capazes de proteger-se contra a ciência.

Onilwyn deu um passo afastando-se dos outros guardas. Ele era tão corpulento como qualquer dos outros sidhe, alto mas achaparrado, e embora sempre se movia com graça, parecia como se tivesse tomado emprestado seus movimentos de alguém mais magro. Seu cabelo caía em um largo rabo-de-cavalo ondulando-se sobre suas costas por cima de seu traje negro e camisa branca. Negro, por ser a cor da rainha, e do príncipe Cel. Uma cor muito popular aqui na Corte Escura. Seu cabelo era de um escuro verde com mechas de luz negra. Seus olhos eram de um verde pálido com uma estrela cintilando ao redor de sua pupila.

— Não pode estar pensando em trazer guerreiros humanos a nossa terra?

— Se pensar assim da polícia humana, sim, é exatamente o que penso fazer.

— Deixará isso acontecer só pela morte de um humano e a de uma cozinheira?

— Acha que a morte de um humano é menos importante que a morte de um sidhe? — Olhei-o diretamente na cara e me senti feliz ao ver que ele compreendeu sua mancada. Olhei-lhe lhe recordando que eu era humano em parte.

— O que é uma morte, ou até duas diante do dano que causará a nossa corte aos olhos do mundo? — Ele tratou de retratar-se mas não conseguiu.

— Pensa que a morte de uma cozinheira é menos importante que a morte de um nobre? — Perguntei-lhe, não fazendo caso de sua tentativa para ficar bem.

Ele sorriu então, arrogantemente, muito ao estilo do Onilwyn.

— É obvio. Acredito que a vida de um nobre sidhe vale mais a pena que um criado, ou um humano. Se você fosse um sidhe puro veria igual a mim.

— Então me alegro de não ser. — eu disse. Agora estava zangada, e lutei para não manifestar nenhum tipo de poder, não queria começar a brilhar, por isso comecei a utilizar meu encanto nesta discussão. — Esta criada, cujo nome resulta ser Beatrice, mostrou-me mais bondade que a maior parte da nobreza de qualquer das cortes das fadas. Beatrice era minha amiga, e se não tiver nada mais que acrescentar que seus prejuízos de classe, então estou segura de que a rainha Andais pode encontrar um melhor uso para ti entre seus guardas.

Sua pele de um verde esbranquiçado se voltou branca. Senti um rápido estalo de satisfação por seu medo. Andais o tinha me dado para que me deitasse com ele, e se não me deitasse, ele sofreria. Se eu fosse ele, começaria a me preocupar nesse momento.

— Como eu ia saber o que ela significava para ti, Princesa Meredith?

— Considera-o como minha única advertência, Onilwyn, — levantei minha voz de modo que esta chegasse por todo o corredor, — e para o resto que não me conhece. Onilwyn assumiu que a morte de um criado não significa nada para mim. — Alguns homens os mais afastados se viraram e me olharam. — Passei muito tempo com os semiduendes enquanto estava na corte. A maior parte de meus amigos deste lugar não estavam entre os sidhe. Deixaram claro que eu não era bastante pura de sangre para a maior parte deles. Só têm a si mesmos para culpar, por isso minha atitude será um pouco mais democrática que de costume para um nobre. Pensem nisto antes de me dizer algo tão parvo como o que disse Onilwyn. — Voltei-me para ele e lhe disse baixando o tom de minha voz. — coloque isto na cabeça, Onilwyn, antes de que abra a boca outra vez, e diga algo tão estúpido como o anterior.

Ele caiu sobre um joelho, baixando sua cabeça, embora acho que só

fez isso para esconder a cólera de sua cara.

— Como minha princesa ordene, assim o farei.

— Te levante, e vá a outro lugar o mais longe de mim.

Doyle lhe ordenou ir ao final do corredor, e ele se foi, sem outra palavra, embora seus olhos de estrelas cintilantes brilhavam de raiva.

— Não estou de acordo com o Onilwyn. — Disse Amatheon. — Não completamente, mas realmente vais fazer que entre a polícia humana?

Assenti com a cabeça.

— A rainha não gostará disto.

— Não, não vai gostar.

— Por que te arrisca a provocar sua cólera, Princesa? — Ele pareceu estar realmente perplexo por isso. — Eu não me arriscaria a provocar sua cólera outra vez por nada, nem por ninguém. Nem sequer por minha honra.

Amatheon tinha sido um dos sidhe que tinham feito minha infância infernal, mas ultimamente tinha visto outra cara dele. Um lado assustado, e vulnerável, e indefeso. Sempre tive problemas para odiar às pessoas que me mostravam que também podiam sentir dor.

— Beatrice foi minha amiga, mas mais que por ela faço por minha gente. Governar é protegê-los. Quero a quem quer que fez isto. Quero-os capturados e os quero castigados. Quero detê-los para evitar que voltem a fazer isso. O jornalista era nosso convidado, e matá-lo foi um insulto à honra da própria corte.

— Não se preocupa pela honra da corte. — Disse, e lhe observei enquanto lutava por me entender.

— Não, na realidade não.

Ele tragou com a suficiente força para que pudesse ouvi-lo.

— Há algo que temo mais que à morte, incluindo a minha, e é deixar passar os policiais humanos a nossa casa.

— Por que teme à polícia?

— Não os temo. Temo a cólera da rainha quando os convidar.

— Ninguém vai matar às pessoas que jurei proteger, Amatheon, ninguém.

— Não pode jurá-lo, ainda. Não emprestaste nenhum juramento a esta corte, e ainda não se sentou em nenhum trono.

— Se não fazer todo o possível por solucionar estas mortes, e por proteger a cada um neste sithen, do mais poderoso ao de menor classe, então não mereço me sentar em nenhum trono.

— Está louca. — Disse, e seus olhos se abriram sobressaltados. — A rainha te matará por isso.

Joguei uma olhada para trás ao corpo do Beatrice, e pensei em outro corpo faz muitos anos. A única razão pela que ela não tinha escondido o corpo de meu pai à imprensa foi por que eles o encontraram primeiro. A milhas de distância da colina das fadas, cortado em pedaços. Eles o encontraram e triraram fotografias dele. Não só seus guarda-costas tinham chegado tarde para salvar sua vida, também chegaram tarde para salvar sua dignidade.

A polícia tinha levado a cabo uma mínima investigação porque o tinham matado fora de nossas terras, mas ninguém lhes tinha ajudado. Não lhes tinham permitido entrar dentro da colina das fadas. Tinham sido proibidos de perguntar a qualquer um. Tinham nos detido muito antes de que começassem porque a rainha estava convencida de que encontraríamos a quem tinha cometido este terrível crime, mas nunca se encontrou.

— Recordarei a minha tia o que ela disse quando meu pai, seu irmão, foi assassinado.

— O que disse ela? — Perguntou.

Foi Doyle quem respondeu:

— Que nós encontraríamos a quem tinha matado ao Príncipe Essus, que os humanos só iriam dificultar nossa busca.

Olhei-o, e ele sustentou meu olhar.

— Desta vez direi à rainha que os humanos podem encontrar mais evidências das que os sidhe podem encontrar. Que a única razão para não deixar passar à polícia seria que ela não quer resolver estes assassinatos.

— Merry... — disse Rhys, — se eu tivesse que dizer a ela, exporia de forma diferente... — Ele parecia um pouco mais pálido que o habitual. Sacudi minha cabeça.

— Mas não é a princesa, Rhys. Eu sou. Ele sorriu, ainda pálido.

— Não sei, acredito que ficaria bastante macaco com uma tiara. Ri e não pude não fazê-lo. Então lhe abracei.

— Você é adorável.

Ele me abraçou de volta.

— Falará deste tema com a rainha antes de dizer algo à imprensa ou de te pôr em contato com a polícia, não é?

— Sim, e só com a polícia. Vamos tratar de conseguir que a imprensa saia daqui primeiro.

Ele me abraçou mais estreitamente.

— Agradeço ao Consorte.

Escapuli-me de seu abraço, e lhe disse:

— Sou ousada, Rhys, mas não suicida.

— Espera que ela tenha amado a seu irmão o suficiente para sentir- se culpada. — Disse Amatheon, e o fato de que tivesse entendido me fez pensar melhor dele.

— Algo assim. – Disse-lhe.

— Ela não sente carinho por ninguém, exceto pelo Príncipe Cel. — Disse.

Pensei nisso.

— Poderia ter razão, ou poderia te equivocar.

— Apostará sua vida por isso? — Perguntou.

— Não apostaria, mas sim vou me arriscar.

— Tão segura está de ter razão?

— Sobre a rainha, não, mas tenho razão sobre o que temos que fazer para encontrar a nosso assassino. Tenho razão nisto e quero dizer à rainha.

Ele se estremeceu.

— Eu preferiria ficar aqui e proteger o corredor, se não te opuser.

— Não quero ninguém comigo que tenha medo à rainha. Parece-me bem.

— OH, Maldita seja, Merry, então nenhum de nós poderá ir contigo. — Disse Rhys. Olhei-o.

Ele se encolheu de ombros.

— Todos nós a tememos.

— Mas eu irei contigo. — Disse Frost.

— E eu. – Disse também Galen.

— Você precisa perguntar? – Disse Doyle, me olhando. Foi Adair quem finalmente falou pela boca de todos.

— Acredito que isto é uma tolice, embora seja uma tolice honorável, mas não importa. É nossa ameraudur, e este é um título que não tinha deixado que saísse por meus lábios há muitos anos.

Ameraudur significava um líder de guerra eleito por amor, não imposto por linha de sangue. Ameraudur definia ao homem que daria sua própria vida antes de falhar aos seus. Esta era a palavra com a que os galeses tinham chamado a Arthur, ao rei Arthur. Também era um termo que alguns dos homens de meu pai tinham usado com ele.

Não soube o que dizer porque não tinha feito o bastante para merecer tal título. Não ainda.

— Não ganhei esse título para ti Adair, ou para ninguém. Não me chame assim.

— Ofereceu-te em nosso lugar ontem à noite, Princesa. Atraiu a força da rainha sobre ti, sobre um corpo mortal. Exercer sua magia contra ela foi uma das coisas mais valentes que alguma vez vi, e meu juramento é tudo o que tenho.

Não sabia se tinha que estar envergonhada, ou só tentar explicar que não fui valente. Que tinha estado aterrorizada em todo momento.

— É nosso ameraudur, e lhe seguiremos em qualquer lugar que nos conduza. A qualquer final. Morreria antes de deixar a outro que te fizesse mal. — Disse Adair.

— Não pode querer dizer isto. — Disse Amatheon.

Estive de acordo com o Amatheon.

— Não faça este juramento para impedir que me faça mal, Adair, por favor. Se tiver que fazê-lo, faz-o para salvar minha vida, mas não para evitar só um dano.

Mas era como se eu não estivesse ali para ele, ou para o Amatheon nesse momento. Eu só era um objeto nesta conversação.

— Ela nos salvou ontem à noite. — Disse Adair. — Salvou a todos nós. Ela arriscou sua vida para salvar a nossa. Como pode estar aí de pé e não lhe oferecer juramento?

— Um homem sem honra não tem um juramento que oferecer. — Expressou Amatheon.

Adair posou uma mão sobre o ombro do outro.

— Então vêem conosco para ver a rainha, recupera sua honra, descobre-o fazendo um novo juramento.

— Ela tomou minha coragem e minha honra com o resto de minha pessoa. Tenho medo de ir ante ela com estas notícias. — Uma solitária lágrima brilhou enquanto descia por sua bochecha.

Olhei o desespero em seus olhos, e disse a única coisa em que podia pensar.

— Tentarei achar ao culpado destes assassinatos. Por sua culpa não se solucionou o assassinato de seu próprio irmão. Mas se a culpa não sortir efeito, então lhe recordarei que me deve a vida de seu consorte e seu humano favorito.

— Nem sempre é sábio recordar à rainha que está em dívida contigo.

— Disse Doyle.

— Não, mas acredito que ela dirá que sim, Doyle. Se ela disser que não, então será um não e eu necessito que seja um sim.

Ele tocou minha cara.

— Vejo em seus olhos tristeza. Vejo em seus olhos a morte de seu pai como um peso de injustiça em seu coração.

Fechei os olhos e deixei que minha bochecha se apoiasse contra o calor de sua mão. Sua mão calosa por séculos de usar a faca e a espada. Pareceu-me que sua mão era mais real, mais sólida, mais apta para me proteger. Alguns sidhe, aqueles que se acreditavam o bastante puros não podiam conseguir estes calos, porque pensavam que era um sinal de impureza. Bastardos racistas.

Com o Doyle me tocando, pude esquecer esse horrível dia. É gracioso como nossa mente nos protege. Vi a folha sangrenta e a maca. Sustentei a mão de meu pai, fria mas não rígida, ainda. Tinha seu sangue em minhas mãos de tê-lo tocado, mas não era ele. Só era carne gelada. Aquele sentimento de um terrível vazio quando entrei no interior de minha casa, e que sempre tinha pensado que estaria cheia de toda a gente que eu amava, só para encontrá-la vazia. Até o mobiliário tinha sido retirado. Andei de habitação em habitação, só escutando o ressonar de meus passos sobre o chão nu. Minha voz ressonava nas paredes vazias, onde antes havia uma fileira de fotografias queridas. Sobre o chão só ficava uma linha grafite ao redor de um corpo em uma cena de crime. Ele tinha ido. Meu alto, formoso e magnifico pai. Supunha-se que ele era um ser imortal, mas há provas que demonstram que até um deus pode perder a vida, inclusive um que chegou a ser um Deus verdadeiro.

Se procurasse em minha memória aquele dia com mais força, tentando recordar tudo o que podia, não é o corpo de meu pai ou a sangue o que lembro. É sua espada. Um de seus guardas a colocou em minhas mãos, de caminho para o enterro militar. O punho era de ouro maciço, com uma árvore esculpida a ambos os lados. Com grous dançando ao redor da árvore. E diminutos corpos esculpidos pendurando dos ramos daquela árvore, sangrando através do ouro. Literalmente os semiduendes eram sacrificados sangrando até chegar ao punho de espada. O punho do espada estava nu esse dia, fria em minhas mãos. Os ramos das árvores estavam vazias sem nenhum sacrifício porque o maior de todos já se levou a cabo.

A vagem era feita de couro com desenhos de ouro, e passei a maior parte daquele dia com minha cara pressionada sobre ela. Aspirei o aroma de couro, e o óleo que ele tinha utilizado para limpar a espada, e sobretudo seu aroma. Ele tinha levado aquela vagem ao flanco de seu corpo durante séculos, e o couro tinha absorvido o aroma de sua pele. Poderia tocar o punho e sentir até onde este mágico metal tinha sido gasto pelo uso constante de sua mão.

Eu tinha dormido com aquela espada durante dias, encolhida ao redor dela como se ainda pudesse sentir a mão de meu pai sobre ela, seu corpo perto dela. Jurei sobre o punho da espada de meu pai, que vingaria sua morte. Isso tinha sido quando mal tinha dezessete anos. Não se pode morrer de pena, embora alguém se sinta como se pudesse. Um coração realmente não se rompe, embora às vezes seu peito dói como se fosse romper. A tristeza se atenua com o tempo. Assim era a vida. Chega um dia no que pode sorrir de novo, e parece que é um traidor por fazer isso. Em um momento pontual, sente-se feliz... Como posso me sentir feliz em um mundo onde meu pai já não estará mais? E logo chora com lágrimas frescas, porque já não lhe sente falta tanto como uma vez o fez, e sente esta tristreza como outro tipo de morte.

Agora tinha trinta e três anos. Dezesseis anos tinham passadp já desde que dormi ao lado da espada de meu pai morto. A espada simplesmente tinha desaparecido aproximadamente um mês depois de sua morte. Tinha sofrido o mesmo destino que tantas de nossas grandes relíquias, como se, ao não estar Essus, a espada não pudesse encontrar nenhuma mão apta para segurá-la. Então a espada decidiu desvanecer-se e desaparecer na névoa. Possivelmente as grandes relíquias não decidem ir-se. Possivelmente a Deusa as chamava de volta a casa quando elas tinham feito seu trabalho. Ou possivelmente ela as chamava a casa até que encontrasse a alguém apto para as dirigir de novo. Senti o pequeno aumento de calor e a serena voz da Deusa. Aquela voz tranqüila que se dava a conhecer quando alguém pensava algo bom, ou tinha feito a pergunta correta.

Tentaria usar a culpa para conseguir que Andais pudesse me permitir chamar à polícia. Não tinha muita fé em sua capacidade para ser emocionalmente chantageada, mas ela ainda não sabia que uma das maiores relíquias dos tribunais das fadas tinha retornado. O cálice, que os desejos da humanidade tinham convertido na taça de ouro da abundância, havia tornado de qualquer parte onde tivesse estado. Este tinha retornado a mim em um sonho, e quando despertei o sonho tinha se feito realidade. O cálice tinha sido um dos maiores tesouros da Corte Luminosa, e a razão de manter em segredo seu reaparecimento consistia em que poderiam tentar reclamá-lo para sua Corte. O cálice ia onde queria, e definitivamente tinha uma mente própria. Era quase certo que não ficaria no Tribunal das Fadas mesmo se lhes permitíamos tomá-lo. E se voltava a desaparecer dali e reaparecer aqui, os luminosos pensariam que nós o roubamos. Ou ao menos nos acusariam disso, porque se o cálice simplesmente os encontrava indignos, era algo que o Rei Taranis nunca admitiria. Não, meu tio nos culparia, nunca culparia a si mesmo ou a seus súditos brilhantes.

Se a culpa e as conexões de família não servissem para influenciar a rainha, então possivelmente o conhecimento da volta do cálice poderia me dar uma mão.

Ainda esperava um dia no que conheceria quem tinha matado a meu pai, por agora o caso estava fechado. Fechado desde fazia dezesseis anos. Para Beatrice e o repórter, o caso era ainda recente. A cena do crime ainda fresca. A lista de suspeitos não era infinita. Rhys disse uns cem como muito. Eu tinha ajudado a polícia em uns casos onde quase a população inteira de Los Angeles tinha sido suspeita. Como podiam comparar cem com milhares?

Poderíamos fazer isto. Se pudéssemos introduzir no sithen uma moderna equipe de polícia, poderíamos conseguir. Eles não esperariam isso, e não saberiam como proteger-se contra isso. Podia funcionar. Bem, acreditava que funcionaria em 99,9%. Só um idiota pensaria em um 100 %, quando se trata de um assassinato. Tanto se se encarcerasse a alguém ou se se solucionasse o crime, ambas as possibilidades poderiam ser igualmente perigosas para a saúde de um.


CAPÍTULO 4


A RAINHA ESTAVA DE PÉ EM MEIO DE SUA HABITAÇÃO, coberta com apenas uma pele de animal e por seu comprido cabelo negro. Só seu magro ombro nu e a curva de seu pescoço que mostravam um branco perfeito contrastavam com a cor cinza da pele. Teria dito que era a pele de um lobo, mas nenhum lobo destas dimensões brincava de correr pela terra em nossos dias. Ela se assegurou de que todos nós tivéssemos uma boa vista dela antes de que girasse sua cabeça e olhasse para nós. Como o carvão da lenha, o cinza de uma tormenta, e o cinza pálido e esbranquiçado de um céu de inverno, assim eram as cores de seus olhos, em três círculos perfeitos de cor ao redor de sua pupila. Aquela mesma gama de cores sobre sua pele, emoldurando sua cara, faziam parecer seus olhos maiores do que eu sabia que eram, de uma cor mais rica. Custou-me um momento, ao olhar fixamente aqueles olhos, me dar conta de que ela se pintou com algum lápis de olhos para acentuar toda aquela elegância cinza sobre branco e negro.

Fez me perguntar pela primeira vez se eu poderia utilizar esse encanto que ela usava com a maquiagem. Nunca tinha visto que a rainha o utilizasse como um imperceptível encanto pessoal. Perguntei-me se ela poderia notá-lo. Ou era que ela tinha perdido esse poder como tantos outros? Pensei tudo isto sem que se mostrasse em minha cara, esvaziando a de toda expressão. Já tinha suficientes problemas sem ter que perguntá-la por suas capacidades mágicas. OH, sim, eu poderia ter tentado se minha tia fosse mais especial e eu estivesse vinculada a ela todo o tempo. Ou se eu gostasse de receber um trato que fosse muito doloroso. Eu gostava da dor, mas não tanto como gostava minha tia Andais.

— Bom, Meredith, vejo que jogaste mais problemas sobre nós.

Abri a boca para começar a discutir, mas já tinha me preparado mentalmente enquanto andávamos para baixo pelo corredor. Agora traguei as palavras porque se dissesse algo me culparia pelas mortes, indiretamente, mas o faria. Não só teria à polícia para me ajudar a solucionar o crime, também sangraria antes de que abandonasse esta habitação. Havia um dito na Corte Escura que dizia... ?Visitar a rainha já é um perigo. Que sentido da justiça me tinha feito esquecer isto? Apoiei-me sobre um joelho, e meus guardas seguiram meu exemplo, caindo cheios de graça, como perigosas flores a meu redor. Doyle e Frost a meu lado. Nós tínhamos deixado ao Rhys como responsável pela cena do crime. Ele teria vindo, mas depois de mim, era o que estava mais em dia das investigações que tínhamos feito em Los Angeles. Adair tinha vindo, e também Hawthorne com sua colorida armadura. Galen, também é obvio. Nunca me teria deixado caminhar sozinha entre o perigo sem ele. Usna tinha me surpreendido, e penso que também ao Doyle, ao insistir em vir conosco. Não era que duvidássemos de seu valor. Simplesmente era que tomava decisões tolas para divertir-se. Acredito que isto tinha algo que ver com o fato de que sua mãe tinha sido transformada em um gato e logo ficou grávida, e seu pai era, pois, um gato. Isto te dava uma perspectiva única de como era Usna. Ele era em cada centímetro um macho sidhe, mas seu cabelo comprido e seu pálido corpo que estava decorado com emplastros grandes em vermelho e negro tinha a coloração de um gato calico. Eu tinha deixado a Nicca detrás, porque suas formosas e novas asas eram muito frágeis. Não podia tolerar que sofressem algum castigo. Nesse momento compreendi o que era o que tinha esquecido, sabia que havia meio esperado que ela estivesse zangada comigo sobre este fato. Ela tinha que estar zangada com alguém, e eu sempre tinha sido seu objetivo favorito quando era mais jovem. Mas só quando meu pai não estava na corte, nunca quando estava o suficiente perto para interferir. Depois de sua morte, as coisas se tornaram pior em todos os sentidos.

— Me responda, Meredith. — Disse a rainha, mas sua voz não me pareceu zangada. Só cansada.

— Não estou segura de como respondê-la, tia Andais. Não sou consciente de se fiz algo para provocar as mortes de Beatrice e do repórter.

— Beatrice. — Disse, e começou a andar para mim, para nós. Seus pálidos pés estavam nus exceto pelas tiras chapeadas de suas sandálias. Suas pernas que se entreviam sob a pele que a cobria eram longas e magras. Não tinha umas coxas espetaculares. As mulheres sidhe eram as modelos perfeitas para esta era; não tinham nenhuma curva, e não era porque fizessem uma dieta. Os sidhe não têm que fazer dieta, eles são simples e sobrenaturalmente magros. Inclusive para uma mulher sidhe, Andais era alta, algo mais de 1,80 metros de estatura, tão alta como a maior parte de seus próprios guardas. Ela exibiu toda sua altura sobre mim, mostrando engenhosamente uma nua perna, e inclinando-se para mostrar a branca linha superior de uma coxa cheia de graça contrastando com o cinza carvão da pele.

— Quem é Beatrice?

Eu gostaria de pensar que ela jogava comigo, mas não era o caso. Realmente não sabia o nome de sua própria confeiteira chefe. Sabia que sua chefe de cozinha era Maggie Mai, mas nada mais, duvidei que ela conhecesse alguém do pessoal da cozinha. Ela era a rainha, e havia muitos criados e semiduendes entre ela e alguém como Beatrice.

Se eu não houvesse dito seu nome, ninguém mais saberia. Isto fez que me zangasse. E lutei para que minha voz não o mostrasse quando respondi.

— É a fada que morreu. Sua confeiteira chefe. Seu nome era Beatrice.

— Minha confeiteira. Não tenho nenhuma confeiteira. — Sua voz foi grossa pelo desprezo.

Suspirei.

— A confeiteira chefe do sithen, então.

Ela se girou e a pele ao seu redor voou atrás dela como se levasse uma capa ligeira. Mas era muito pesada. Se eu a estivesse usando não teria tido a força de movê-la dessa maneira. Eu era mais forte que um humano, mas não tão forte como um sidhe puro-sangue. Perguntei-me se ela tinha feito esse pequeno movimento só para me recordar isto ou somente porque gostava de como se via. Ela falou nos dando as costas.

— Mas tudo o que pertence ao sithen me pertence, Meredith, ou esqueceste isso?

Compreendi que ela tentava começar a discutir comigo. Nunca tinha feito isto antes. Ela só tinha empreendido o caminho direto para a cólera com qualquer outro ou comigo. Atormentava-me porque a agradava. Ela discutia comigo se eu lhe contrariasse, ou a argumentasse primeiro, mas nunca tinha tentado começar a discutir comigo. E não sabia como proceder.

— Não esqueci que é, minha tia, a rainha da Corte Escura.

— Sim, Meredith, me recorde que sou sua tia. Me recorde que necessito seu sangue para manter a minha família sobre o trono.

Eu não gostei como o tinha expresso, mas isto não tinha sido uma pergunta, então tentei não responder. Fiquei ajoelhada e calada.

— Se tivesse sido o bastante forte para te proteger ontem não haveria repórteres hoje em meu sithen.

Havia um broto de incipiente cólera em sua voz.

— Era meu dever manter à princesa segura. — Disse Doyle.

Tendi-lhe uma mão antes de que pudesse me deter, mas ele estava fora de meu alcance. Sacudi minha cabeça. Não traga sua cólera para ti, tentei lhe dizer com meus olhos.

— Nosso dever. — Acrescentou Frost do outro lado junto a mim.

Olhei-o com olhos exasperados. Se ela estava determinada a zangar- se, não queria que a cólera caísse sobre eles. Não era somente que eu gostasse deles, necessitava-os. Se tínhamos alguma esperança de solucionar esta confusão, e permanecer vivos apesar de ter uns inimigos muito decididos. Necessitava a meu capitão de guarda e a seu segundo em comando.

Ela estava de repente diante de mim outra vez, e eu nem sequer a tinha visto mover-se. Tinha nublado minha mente, ou era simplesmente mais rápida, deixando aos lados toda a pele do animal. Ajoelhou-se diante de mim em um fundo de pele, deixando ver sua carne branca.

— Roubaste-me minha Escuridão, Meredith. Degelaste o coração de meu Assassino Frost. Meus dois melhores guerreiros, levaste-lhe isso, como um ladrão na noite.

Lambi meus ressecados lábios e e disse:

— Não pensei tomar algo que valorasse, tia Andais.

Ela tocou minha cara gentilmente. E me fez estremecer, não porque doesse, mas sim porque tinha temido que me doesse.

— Sim, Meredith, me recorde que descuidei da minha Escuridão e do Frost. — Ela acariciou minha cara com seus dedos, e com o reverso de sua mão. — descuidei tantas coisas que eram minhas.

Sua mão tomou meu queixo, e começou a apertá-lo. Poderia esmagar os ossos de meu corpo e convertê-los em lascas.

— Posso sentir o encanto aqui, moça. Me deixe ver o que ocultas. Deixei cair meu encanto e o do Frost, para que o batom se mostrasse em nossas caras.

Ela me levantou sobre meus pés usando só meu queixo para fazer pressão. Isto doeu, e provavelmente logo teria uma contusão. Levantou-me no ar. Só seu forte apertão impediu que caísse.

Os homens ficaram de pé comigo.

— Não mandei que vocês se levantassem. — Gritou aos dois.

Eles continuaram de pé. Não podia ver desde esta distância exatamente o que eles faziam, mas isto se estava pondo muito feio.

A voz profunda do Barinthus chegou do lugar mais longínquo da habitação. Ele devia ter estado ali todo o tempo, e eu não lhe tinha visto. Deviam lhe ter ordenado a não fazer-se ver, manter fora de sua vista mais de 2‘10 metros de presença parecida com um semideus azul. Andais era quem tinha ordenado. Com sua mão pressionando meu queixo, me forçando a encontrar seu olhar cinza a uns centímetros de distância. Quando se zangava, era temível.

— Rainha Andais, Meredith fez nada mais que o que lhe ordenaste.

— Silêncio, Fazedor de Reis! — Ela só jogou uma olhada para trás quando gritou, e compreendi que devia havê-lo feito ajoelhar-se, porque eu não podia vê-lo desde minha posição na habitação.

Ela se voltou me olhando, e seus olhos brilharam como se houvesse luz dentro deles. Parecia que em seu olhar a lua estivesse detrás de umas nuvens cinzas, aumentando a luz pelas cores de seus olhos, mas seus olhos realmente não brilharam. Era só um efeito que nunca antes tinha visto nos olhos de nenhum outro sidhe.

— Então o que é esta mancha de vermelho sobre sua boca, e sobre a cara de meu Assassino Frost? — Ela deixou que a pele com a que se esteve abrigando caísse sobre o piso, logo pôs seu polegar contra minha boca e me roçou com bastante força para que eu tivesse que lutar para não fazer um pequeno som de dor. Ainda ficava suficiente batom para manchar seu branco polegar.

Ela estava ali de pé, nua, pálida e temível. Se ela estava bonita eu não podia ver. Andais freqüentemente se despia antes de começar a torturar às pessoas, para assim não arruinar sua roupa. Sua nudez não era um bom augúrio.

Finalmente compreendi que ela tinha a intenção de fazer a zangada comigo e assim divertir-se com seu jogo favorito diante dos meios de comunicação. Ela ia satisfazer sua irritação, e me castigar por ter beijado ao Frost, em vez de tratar de procurar os assassinos. Era algo peculiar sua forma de pensar, mas ainda assim não era são.

Nenhuma lógica ia me salvar. Todos os argumentos que tinha preparado foram somente pó ante sua incompreensível cólera.

— Pensa que dou ordens simplesmente pelo fato de as dar? Falei com cuidado por seu apertão sobre meu queixo.

— Tive que distrair às câmeras.

Ela me deixou ir tão bruscamente que tropecei. Doyle agarrou meu braço, logo tomou entre seus braços, me situando longe dela e em meio dos homens. Não pude discutir a precaução. Não atuava como normalmente o fazia. Andais era temperamental e sádica, mas nunca tinha deixado a qualquer um interferir em sua corte. Nós tínhamos um repórter humano morto, e um montão de câmeras ainda dentro da Corte. Isto era uma emergência, e tínhamos que atuar rapidamente para reduzir o dano ao mínimo, custasse o que custasse. Era a única opção que tínhamos. Inclusive se a única opção parecia ser a de ocultar os corpos e atuar como se isto não tivesse acontecido, devia ser feito rapidamente. Quantas mais pessoas conhecessem o segredo menos possibilidade tínhamos de guardá-lo. Tinha que conseguir que a polícia pudesse trazer médicos forenses à cena do crime, já que cada minuto que passava poluía a cena do crime. Com cada segundo que passava poderíamos estar perdendo algumas pistas.

— Madeline me disse que nosso Frost perdeu o controle diante das câmeras.

Ela caminhou até o círculo fechado a meu redor, voltando o olhar para o Frost. Como se qualquer um fosse seu objetivo, qualquer problema, a melhor direção para investigar os assassinatos. Pensaria as pessoas do Cel que fizeram tudo isto? Era por isso que ela não queria decidir um curso de ação? Tinha medo de encontrar a verdade, medo de ver para onde conduziria tudo isto?

— Os repórteres saíram então? — Perguntei brandamente.

— Eles estiveram a ponto de arquivá-lo tudo agradável e limpamente, — disse, e sua voz se foi elevando enquanto falava e caminhava, nua e perigosa, — até que um grupo sentiu falta de um fotógrafo. Um fotógrafo! — Ela gritou esta última palavra. — Como abriu caminho através dos controles? Supunha-se que era impossível que ele passasse a outras áreas. — Ela não pareceu perguntar a alguém em particular, por isso ninguém respondeu.

— Encontrou-se alguma câmera? — perguntou, e sua voz foi quase normal.

— Sim, minha rainha. — Disse Doyle.

— Tinha fotografias do delito?

— Possivelmente. — Disse Doyle.

— Temos que enviar o filme para que se revele. — eu disse.

— Não temos ninguém na Corte que possa fazê-lo por nós?

— Não, minha rainha.

— Que mais se encontrou junto ao jornalista?

— Não investigamos o corpo a fundo. — eu disse.

— Por que não investigastes o corpo a fundo? — Perguntou, e suas palavras estavam banhadas com uma cólera histérica .

Traguei, e deixei ir meu fôlego devagar. Era agora ou nunca. A mão do Doyle apertou meu braço, como se dissesse... ?Não faça... mas se eu alguma vez ia ser a rainha, Andais teria que dar este passo para mim. Ela era imortal, e eu não, por isso ela sempre estaria na corte. Tinha que conseguir algum controle sobre ela agora, ou nunca seria a rainha na realidade. Nunca estaria a salvo de sua cólera.

— Há pistas sobre o corpo que uma equipe científica poderia encontrar. Quanto menos o toquemos, muito melhor trabalhará a ciência no corpo.

— Sobre o que está balbuciando, Meredith? Doyle apertou mais meu braço.

— Recorda o que disse quando mataram meu pai?

Ela se deteve e me olhou. Seus olhos eram cautelosos.

— Disse muitas coisas quando Essus morreu.

— Disse que nós não devíamos permitir que a polícia humana entrasse dentro da Corte. Que ninguém se dirigisse a eles ou respondesse suas perguntas, porque nós encontraríamos aos assassinos com a magia.

Ela estava em pé ainda, me olhando com hostilidade, mas respondeu:

— Lembro dessas palavras.

— Falhamos com a magia porque os assassinos eram bons ou melhores que nós ocultando a magia nas feridas e no corpo.

Ela assentiu.

— Sempre pensei, quando olhou a minha nobreza moribunda com esse sorriso fixado em meu rosto que reservo só para a corte, que entre ela se senta o assassino de meu irmão. Sei tudo isso, Meredith, e é para mim uma constante tortura que sua morte ficasse impune.

— Como é para mim. — eu disse. — Quero solucionar estes assassinatos, tia Andais. Quero à pessoa ou pessoas responsáveis capturadas e castigadas. Quero mostrar aos meios de comunicação que há justiça na Corte das Fadas, e que não temos medo dos novos conhecimentos e dos novos avanços tecnológicos.

— Está balbuciando de novo. — Disse, cruzando os braços sob seus firmes e apertados peitos.

— Quero me pôr em contato com a polícia e trazer uma equipe forense.

— O quê?

— São cientistas que estão especializados em ajudar à polícia e solucionam crimes no mundo humano.

Ela sacudia sua cabeça.

— Não quero à polícia humana rondando por aqui.

— Nem eu, mas serão uns poucos policiais, e uns poucos cientistas. Só uns quantos, somente os necessários para recolher as evidências. Todos os que entre no sithen serão controlados e se verificarão suas credenciais. Todos teriam imunidade diplomática, mas tecnicamente podemos ditar o grau de quanta participação policial lhes permitamos.

— E pensa que isto nos fará agarrar a quem quer que fez isto?

— Acredito que sim. – Dava um passo me afastando do Doyle, já não estava apoiada contra ele. – Quem quer que o fez estará preocupado que a magia os detecte, mas nunca lhes ocorrerá que nós usemos a ciência forense dentro da terra das fadas. Eles não se protegeram contra isso, e de fato, não podem proteger-se, não completamente.

— O que quer dizer com isto?

— Nós, sidhes incluídos, desprendemos células pela pele, cabelos, saliva; tudo isto pode ser usado para encontrar à pessoa. A ciência pode usar menor coisa que for necessário para achar evidências. Não só uma parte do cabelo, mas também a raiz de um cabelo. Não faz falta uma libra de carne, basta-nos qualquer mancha quase invisível que se encontre.

— É certo que se obtêm resultados? Se permitir esta intrusão, esta invasão de nosso isolamento, a ciência humana solucionará este crime?

Molhei meus lábios.

— Estou segura de que se houver alguma evidência por encontrar, eles a encontrarão.

— Se, — disse, e ela começou caminhar pela habitação outra vez, mas devagar, muito silenciosamente esta vez. – Se não está segura. Se, minha querida sobrinha, depois de trazer tudo isto sobre nós e o assassino fica livre. Se trouxermos a polícia e eles não solucionam a morte do repórter, isto desfará toda a boa publicidade que adquirimos nestas duas últimas décadas.

— Penso que se eles vierem, ao menos um ou outro dos meios de comunicação ficarão impressionados por nossa boa vontade de permitir à polícia moderna entrar no mundo das fadas. Nunca ninguém tem feito isto, nem sequer a Corte Luminosa.

Ela jogou uma olhada para trás em mim direção, mas ela se movia, devagar, para o Barinthus. Ele estava ajoelhado aos pés da cama, sobre uma manta de pele negra.

— Acha que ganharemos pontos nos meios de comunicação sobre o Taranis e sua brilhante gente.

— Penso que isto mostrará que não queremos fazer mal a ninguém, e que estas coisas não são toleradas na Corte Escura, contrariamente a todos estes últimos séculos no que só se falava de escuridão.

Ela estava de pé diante do Barinthus agora, mas ainda me falava.

— Realmente acha que os meios de comunicação perdoarão que um dos seus tenha sido assassinado, simplesmente porque chamamos a polícia?

— Acredito que alguns deles ofereceriam em sacrifício a seus próprios fotógrafos nos altares, com incenso e rezas incluídas, se isso lhes permitia conseguir a possibilidade de obter uma história.

— Inteligente, Meredith, muito inteligente. — Ela se deu a volta para o Barinthus então. Andais acariciou um lado da cara dele com sua mão, da mesma forma que se acaricia a um amante, embora eu sabia que nunca lhe tinha tomado em sua cama. – Por que nunca tentou fazer de meu filho um rei?

A não ser que Barinthus e a rainha tivessem estado tendo uma conversação muito diferente, a pergunta tinha aparecido como caída do céu.

— Não deseja que eu responda a essa pergunta, Rainha Andais. — Disse isto com sua profunda e maravilhosa voz.

— Sim, – disse ela, ainda acariciando sua cara, — sim, quero.

— Você não gostará.

— Eu não gosto de muitas coisas esta tarde. Responde a pergunta, Fazedor de Reis. Sei que se meu irmão, Essus, tivesse estado disposto, teria ordenado que me matassem e teria colocado a ele sobre o trono. Mas Essus não mataria a sua própria irmã. Ele não carregaria aquele pecado sobre seu coração. Ainda pensa que ele teria sido um melhor rei que eu rainha, não é?

Perguntas perigosas. Barinthus disse outra vez:

— Não quer a verdade, minha rainha.

— Sei a verdade desta pergunta. Eu a soube durante séculos, mas não sei por que nunca tiveste em conta ao Cel. Ele se aproximou de ti depois de que morrera Essus. Ele se ofereceu para te ajudar a me matar, se isso conseguia pô-lo sobre o trono mais rápido.

Acredito que todos os presentes no quarto contivemos nossos fôlegos naquele momento. Eu não sabia disto. Os olhares das caras de todo o mundo ao redor me disseram que a maior parte deles tampouco sabiam. Só Adair e Hawthorne com suas cabeças cobertas por seus capacetes podiam dissimular sua surpresa.

— Te adverti de sua traição. — Disse Barinthus.

— Sim, e eu te torturei por isso.

— Recordo disso, minha rainha.

Seu sorriso não acompanhou a suas palavras, mas nesse momento não acariciava sua cara e ombros.

— Quando Meredith chegou à maioridade, mudou. Se ela tivesse tido naquele momento, a magia que possui agora, depois de retornar das terras do oeste, teria lhe devotado o mesmo que ofereceu ao Essus, não é assim?

— Já sabe a resposta, minha rainha.

— Sim, — disse, — sei. Mas Cel sempre tinha tido o poder para ser rei. Por que não o pôs sobre o trono? Por que preferiu a esta princesa mestiça antes que a meu filho que é um sidhe de sangue puro?

— Não me pergunte isso. — Disse Barinthus.

Ela o golpeou com a mão duas vezes, com bastante força deixando-o cair sobre seus joelhos. Com a força suficiente para que o sangue saísse por sua boca.

— Sou sua rainha, maldito seja, e responderá a minha pergunta. Me responda! — Isto último disse gritando sobre sua cara. Barinthus a respondeu, enquanto o sangue fluía por sua boca.

— Você é uma rainha melhor do que Cel será alguma vez como rei.

— E o que passa com o Meredith? O que acontece a filha de meu irmão?

— Ela será uma boa rainha.

— Melhor rainha que Cel rei?

— Sim. — Disse, e esta palavra caiu no silêncio da habitação como uma pedra lançada de uma grande altura. Sabe que fará ruído, mas só depois, muito, muito tempo depois, ao cair.

O som voltou com suas palavras.

— Meredith, não fará nada com o Barinthus que possa te deixar grávida dele. Nada, ficou claro?

— Sim. — Minha voz soou contrita e rouca como se eu tivesse gritado e perguntando o porquê.

— Entre em contato com a polícia. Faz o que acha que é melhor. Anunciarei a corte e aos meios de comunicação que é a responsável por este pequeno problema. Não me incomode por isso de novo. Não me mande informe a não ser que eu te pergunte. Agora vá, todos vocês, fora.

Fomos. Todos nós, inclusive Barinthus. Fomos, e estivemos agradecidos por poder fazê-lo.


CAPÍTULO 5


CHAMEI O COMANDANTE WALTERS DO DEPARTAMENTO DE Polícia do St. Louis, que tinha sido o responsável por nossa segurança no aeroporto no dia anterior. Chamei-lhe com o único telefone com linha na Corte Escura. O telefone estava no escritório da rainha. Sempre que contemplava esta versão em negro e prata do gótico escritório do décimo quarto piso do St. Louis penso que teria gostado de ir aos clubes de dança da dissoluta gente rica. Era um escritório elegante, escuro, caro, excitante mas lúgubre, fazia você sentir calafrios ao longo da coluna vertebral. Era moderno, mas com um toque de antigüidade; com direito ganho por ser um novo-rico. Era também pequeno e claustrofóbico para mim. Muitas sombras negras e cinzas em um espaço muito pequeno, como se um dependente de antiquário gótico os tivesse persuadido para cobrir cada polegada da habitação com suas mercadorias.

O telefone era de cor bege pau contrastando sinistramente sobre a mesa negra da secretária. Ou talvez era o que eu imaginava. A verdade era que não entendia o humor da rainha esta noite. Tinha perguntado ao Barinthus, quando andamos até o escritório, se lhe tinha dado alguma pista do por que se comportava dessa maneira tão estranha, e ele me havia dito que não. Sem nenhuma pista.

Por que eu chamava à polícia do St. Louis quando as terras das Fadas estavam tecnicamente em Illinois? Porque o Comandante Walters era a mistura normal da polícia para os duendes e a polícia humana. Uma vez, faz uns cem anos, tinha existido uma unidade inteira de polícia atribuída para nós. Por quê? Porque nem todo mundo na América esteve de acordo com a decisão do Presidente Jefferson de trazer o mundo mágico a este país. Os habitantes do lugar que fossem estar perto de nós estiveram sobretudo inquietos. Eles não quiseram que os monstros da Corte Escura chegassem a viver em seu estado. Naquele tempo, St. Louis era a principal cidade mais próxima com um departamento de polícia em funcionamento. Ainda quando nós tecnicamente estávamos localizados no território de Illinois, todos os problemas policiais tinham sido enviados ao Missouri, St. Louis. Eles receberam o alegre dever imposto de nos proteger da gente mal- humorada e também de controlar os perímetros de nossa terra já que até então nós não podíamos nos mover e causar estragos. Se as cortes das fadas não tivessem tido que subornar a vários ramos diferentes do governo, e a certos poderosos indivíduos, nós nunca poderíamos ter permanecido neste país. Ninguém quis sujar-se com uma ou outra corte depois da grande última guerra do mundo dos duendes que se produziu na Europa. Nos tínhamos mostrado muito poder para a comodidade humana.

O que ninguém realmente entendeu sobre nós, e o Jefferson quando sossegou à multidão que gritava, era que um corpo de polícia humana realmente não ia proteger aos Duendes, a qualquer duende, de abandonar essa área. O único que nos manteria dentro de nosso território, controlando nosso comportamento seriam nossos reis ou rainhas que eram os que regiam as Cortes, mesmo que fosse mediante ameaça ou castigos. Mas o que a polícia realmente impediu foi que as pessoas nos acossasse.

Gradualmente, quando nada maléfico aconteceu, a presença da polícia foi reduzindo-se, até que eles partiram totalmente de nossas terras, e só nos visitavam quando era necessário. Por fim a gente compreendeu que por cima de tudo, nós queríamos permanecer sozinhos, tendo cada vez menos necessidade de visitar nossa polícia particular. Logo, essa polícia foi atribuída a outros empregos em outras áreas da força de polícia, até que voltassem a ser necessários para cumprir com outro dever para as fadas. Então retornariam a estar designados a esta área. Chegando até o dia de hoje em que a unidade já se converteu em um só oficial ou detetive. A última vez em que ele tinha estado presente foi na morte de meu pai, mas já que isto tinha sido sobre terras do governo, os terrenos lindantes tinham sido recortados em duas ocasiões. Uma vez pelos agentes do FBI e outra vez por nós. Bom, pela rainha. Eu teria tomado um pelotão de soldados se tivesse pensado que eles poderiam ter pego aos assassinos de meu pai.

Depois de ver que o enlace era tão ineficaz com o assassinato de meu pai, pensei que o posto tinha sido abandonado. Mas tinha me equivocado.

Doyle tinha averiguado que o Comandante Walters era ainda nosso contato. Era o último elemento de uma unidade criada pelo próprio Thomas Jefferson. Alguém com bastante altura como comandante para exercer este trabalho. O comandante Walters se ofereceu voluntário para o trabalho, porque a última pessoa encarregada de fazê-lo, também tinha se encarregado de nossa segurança nas coletivas de imprensa, e isto tinha sido o pretexto do Walters para conseguir um salário maior como o chefe da segurança de uma corporação maior. Os executivos gostam de serem protegidos por alguém que tinha protegido também à realeza. Isto adiciona um certo nível a seu status de empresário. Doyle até tinha averiguado que Walters tinha um trabalho que era muito bem pago. Perguntei-me o que pensaria a grande corporação sobre o Walters depois do dia de ontem. Era bom para seu status proteger à realeza, mas não melhorava nada se alguém resultava prejudicado sob seu cuidado. Não, provavelmente os executivos estariam um pouco inquietos sob a tutela de alguém que tinha deixado que disparassem à Princesa Meredith e ainda por cima por um de seus próprios oficiais. As pessoas acreditavam que tinha sido a magia, mas esta não era nenhuma desculpa para que lhes caísse em cima. Não, o que gostam é de culpar a alguém, não a algo.

Walters teria que se redimir. Ele teria que redimir-se ante a opinião pública. Embora pelos meus guardas sabia que ele não tinha tido nenhuma possibilidade para acautelar o que tinha passado, as pessoas não acreditariam. O comandante tinha sido o responsável.

Ele tomaria isto como sua queda. Era simplesmente assim como eles pensariam.

Christine, a secretária de minha tia, era pequena, bem dotada, e gordinha segundo a moda de agora. Em seu dia ela teria sido perfeita. Seu encaracolado cabelo loiro caía sobre seus ombros, e sua jovem cara era sempre formosa. Um de nossos nobres a tinha atraído fazia séculos, mas mais tarde se cansou dela. Para ficar com as fadas teve que fazer-se útil, por isso aprendeu o manejo do ordenador e a taquigrafia. Era, provavelmente, uma das pessoas mais tecnologicamente inteligente nesta ou na outra corte.

Ela sugeriu que ligássemos para o Escritório de Assuntos Humanos e Duendes. Lógico, suponho, mas eles eram mais úteis em situações tais como dificuldades sociais ou problemas diplomáticos. Se quiser algo bem feito, não chame um político ou um burocrata. Chame a polícia.

Suspirei, ofereci uma pequena reza à Deusa, e marquei o número que a secretária tinha me dado.

Ele respondeu no segundo toque.

— Sua alteza, — Disse ele.

Ele devia ter um localizador de chamadas I. D.

— Não exatamente. — eu disse. — A Princesa Meredith, na realidade. Suas primeiras palavras tinham sido profissionais, nas seguintes existia algo de uma ligeira suspeita.

— Princesa, a que devo esta honra? De fato, ele pareceu mas bem hostil.

— Parece zangado comigo, Comandante Walters.

— Os tablóides dizem que você não confia em meus homens para mantê-la segura. Aquele policial humano não era o bastante bom para ser da guarda.

Eu não tinha esperado que ele fosse tão obtuso. Ele era mais policial que político.

— Só posso lhe dizer isto, nunca insinuei aos meios de comunicação de que duvidasse de seus homens.

— Então por que fomos excluídos da segunda coletiva de imprensa?

Humm, isto era um terreno pantanoso.

— Nós dois sabemos que foi um feitiço o que produziu que seu oficial me disparasse, correto?

— Sim, nosso psíquico da unidade encontrou os restos de um feitiço mágico sobre ele.

— Estou mais a salvo aqui na corte, mas seus oficiais não estarão. Alguém fez um feitiço dentro de um edifício de vigas de metal e aço, com alta tecnologia por toda parte. Posto que o mesmo que criou o feitiço está dentro da corte das fadas, em que não existem aparelhos de metal nem tecnologia de ponta, então seus oficiais estariam ainda em maior perigo de serem enfeitiçados.

— E quanto aos repórteres humanos, não estão eles em perigo de serem enfeitiçados?

— Eles não estavam armados, — disse-lhe. — Eles não podem fazer muito dano.

— Então nós não entramos por suas normas, é assim? — Ele estava zangado, e não estava segura do porquê.

A secretária da rainha deve ter tomado nota da conversa para me dar uma indireta. Ela me mostrou o titular do St. Louis Post: A POLÍCIA NÃO CONSEGUE PROTEGER À PRINCESA. OH.

— Comandante Walters, somente me mostraram um jornal. Minhas desculpas por não entender o efeito que esta situação teria sobre sua vida. Estava muita preocupada com ser eu mesma a que estava em perigo.

— Não necessito suas desculpas, Princesa. Necessito que meus homens se considerem o suficientemente bons para protegê-la nos acontecimentos públicos.

— Quanta merda sobre o que passou estão jogando em cima de você? Eles estão tentando te fazer de bode espiatório?

— Esse não é seu problema. — Disse ele, com um tom que era quase tão bom como um sim.

— Acredito que podemos ajudar o um ao outro, Comandante.

— Como?

— Está você sentado?

— Sim, — e a palavra não lhe saiu muito contente.

Contei-lhe a versão mais breve, sabia bastante sobre o repórter e Beatrice, e que a rainha tinha me dado carta branca para fazer a limpeza.

Houve um comprido silêncio do outro lado do telefone depois de que terminasse de falar, por isso finalmente disse:

— Comandante, está ainda aí?

— Estou aqui, — disse, com voz rouca.

— Sinto que seu dever com as fadas lhe tenha reportado estas horríveis complicações. Sinto que isto mude seus planos.

— O que sabe você sobre meus planos?

— Sei que você quer estar no primeiro nível do negócio da segurança, para quando se aposentar no início do próximo ano. Sei que você tomou este serviço para assim aumentar seu status. Sei que meu atentado provavelmente tenha feito você perdesse pontos para conseguir o trabalho que tinha planejado para seu futuro.

— Você sabe cada maldita coisa por ser uma princesa.

Deixei passar, não estava segura de se tinha sido um elogio ou um insulto.

— Mas assim lhe demonstro, claramente, que tenho uma confiança completa em você, ou não Comandante Walters?

— O que quer de mim? — A suspeita era bastante grande para deixá- la passar.

— Quero uma Unidade CSI aqui. Tenho a cena do crime aqui mesmo, isolada, mas necessito a ciência, não a magia, nesta ocasião.

— Não me comentou antes que meus homens não podiam entrar por ser perigoso já que os feitiços lhes afetariam?

— Sim, é por isso que necessito só de você e do CSI, ou poderia ser só a um. Meus guardas podem lhe proteger individualmente da magia se o grupo for bastante reduzido.

— O departamento inteiro está crucificado pela imprensa, sobretudo pela imprensa do St. Louis.

— Isso sei agora. Vamos mostra-lhes que a Princesa Meredith e seus guardas não acreditam em tudo o que imprime a imprensa sensacionalista. Realmente tenho confiança em você, Comandante Walters. Em você e em sua unidade forense. O que lhe parece, Comandante? Quer entrar neste jogo, ou o abandonar? Posso fingir que não lhe liguei, e que se encarregue o chefe de polícia.

— Por que não ligou primeiro pra ele? – perguntou Walters.

— Porque você é meu contato com a polícia. Respeito o cargo. Você é a quem se supõe que devo chamar. Além disso, você tem quase mais interesse em solucionar este caso.

— Por que diz isso?

— Não seja ingênuo, Comandante Walters. O departamento está impaciente. Eles pendurarão a alguém por isso, e muito provavelmente esse alguém seja você. Me deixe mostrar ao departamento que você ainda possui minha confiança e eles se tornarão atrás. Eles estão desesperados por solucionar esta segunda tentativa de assassinato e assim terão a alguém para castigar. Eles estarão por toda parte a não ser que lhes demos algo em troca.

— Parece conhecer como funciona tudo.

— A política é a política, Comandante, e cresci com ela a meu redor.

— Sentei-me sobre o bordo do escritório e tentei aliviar meu ombro que estava duro. Os músculos danificados se fecharam em algum momento durante a entrevista com a rainha. Era gracioso isto, que agora meu braço doesse, mas não era gracioso, absolutamente. De todas as maneiras falhei ainda sendo em parte humana, não curar-se imediatamente era uma das melhores qualidades que eu tinha. — Necessito a um policial, Comandante Walters, não a um político.

Necessito a alguém que entenda a cena do crime que está envelhecendo enquanto falamos. Toda evidência que seja de valor pode estar poluída neste momento. Necessito a alguém que se preocupe mais de procurar uma solução a esta confusão, que todas as ramificações políticas que repercutiriam. Penso que esse homem é você, e agora que sua carreira política transcende ao lado da minha, tem motivos em dobro.

— O que a faz estar tão segura sobre isto? O que lhe faz pensar que não cortarei com tudo e correrei a algum refúgio?

Analisei suas palavras, e disse:

— O olhar que havia em seus olhos ontem no aeroporto por estar zangado ao ter que compartilhar o comando com o Barinthus. E o fato de que você me mostra cólera agora mesmo ao telefone. Não estava segura em tratar com um alto comandante, mas você é mais um policial que um político, Walters. E se você souber o bem pouco que eu gosto da política, também saberá ver um elogio quando o escuta.

— Pois parece bastante boa no jogo da política para alguém que diz que não gosta.

— Sou boa em muitas coisas mas não desfruto com todas elas, Comandante Walters. Como estou segura que você sim.

Silêncio outra vez.

— Se não solucionarmos isto, ficaremos com cara de idiotas, e nenhum tipo de confiança que mostre para você ou de alguém mais, salvará-o. E se o solucionamos... — eu disse.

Ele riu, com uma gargalhada profunda.

— Então serei a estrela do departamento, e os diretores aumentarão meu salário e terei mais status. Sim.

— Será você meu homem ou tenho que fingir que não tenho fiz esta chamada?

— Sou seu homem. Sorri.

— Bem. Comece a fazer as chamadas, e me consiga algum CSI aqui o antes possível.

— O que digo ao Chefe sobre o fato de que você nos deixou entrar em sua preciosa terra das fadas? — perguntou ele. OH, sim, ele era definitivamente um melhor policial que político.

— Explique que tem respaldo com imunidade diplomática, e que permitimos esta investigação desejando que haja cooperação e justiça mútua.

— Quer ao bastardo que fez isso, não é?

— Sim. — eu disse.

— Você provavelmente não me recorda. Eu era apenas outro uniforme a mais que a protegia da multidão que estava amontoada atrás, mas eu a vi no dia em que seu pai morreu. Eles lhe entregaram sua espada.

Se eu tivesse tido alguma dúvida sobre se tinha chamado à pessoa correta, aquelas frase não deixou dúvidas. Mas em voz alta eu disse:

— Sim, sim, eles me entregaram.

— Pegar esta pessoal não pegará ao assassino de seu pai.

— Essa é uma observação muito profunda para um homem com o que só me encontrei em duas ocasiões.

— Bem, ofereci meus serviços às fadas também quando levava uniforme.

— Perdão por meu engano, mas ainda é desconfortável.

— Lamento. Algum dia depois de que tenhamos pego o culpado, e se a princesa das fadas quiser tomar um drinque com este velho e humilde policial, contarei-lhe porque me tornei policial.

Isto me fez retornar de minha melancolia.

— Você perdeu a alguém, e eles não pegaram o bastardo que o fez.

— Já sabia. — Seu tom foi acusatório.

— Não, juro-lhe que não sabia.

— Então isto só era uma conjetura.

— Acredito que os que padecem desta ferida em particular se reconhecem uns aos outros.

Ele fez um som de incredulidade, logo grunhiu.

— Sim, parece-me que isso é o que ocorre. O que fará enquanto me encarrego das chamadas telefônicas e consigo ao grupo?

— Interrogarei às testemunhas.

— Acredito, que seria pertinente que eu estivesse ali para o interrogatório.

— A maior parte dos duendes, que são quem poderiam testemunhar algo, quase nunca viajam para fora do território das fadas. Eles se coibiriam se estiverem ao redor dos humanos, sobretudo dos humanos com uniformes de polícia. Eles ainda recordam a última guerra entre os humanos e os duendes.

— Isto aconteceu há quase quatrocentos anos. — Disse.

— Sou consciente disso.

— Nunca me acostumarei a isto.

— A quê?

— A como todos vocês parecem tão jovens. Podem recordar este país desde muito antes de que meu tataravô tomasse um navio para estabelecer-se aqui.

— Não eu, Comandante. Sou somente uma pobre moça mortal.

— Perdoe minha ousadia. — Disse.

— Avisarei-lhe se tirarmos algo de útil das testemunhas.

— Eu gostaria de decidir o que é útil e que não é.

— Então apresse-se, Comandante, mas não prometo que os duendes queiram dirigir-se a você diretamente. Até não posso lhe prometer que você estará no mesmo quarto enquanto faço as perguntas oportunas a cada um. Alguns deles simplesmente não se dirigirão à polícia humana.

— Então para que vou?

— Para que quando a imprensa nos persiga nos vejam trabalhar ombro com ombro para solucionar todo este assunto e assim mostrar que você ajudou a solucionar o caso. E traga o oficial que me disparou com você.

— Por que em nome de Deus?

— Porque sua carreira estará arruinada a não ser que ele tenha alguma chance em tudo isto, não lhe parece?

— Ele não será um perigo para você?

— Ajudaremo-o com um encanto para que possa sustentar seus escudos psíquicos. Acredito que ele é muito frágil psicologicamente para ser policial, avisarei-lhe e o escoltaremos quando se encontrarem aqui.

— Por que se preocupa com o que pode acontecer a este jovem policial?

— Porque ele poderia ter tido uma vida normal se tivesse estado longe do mundo das fadas, e não a terá depois do ocorrido. Ao menos podemos tentar reduzir seu dano ao mínimo.

— Farei as chamadas agora, mas você me deixa perplexo, Princesa Meredith. É você quase muito agradável para ser real. — Disse isto e desligou.

Coloquei o telefone em seu suporte. Muito agradável para ser real. Meu pai tinha me ensinado que ser agradável vinha primeiro, porque sempre se pode ser egoísta mais tarde, mas se uma vez é egoísta com alguém, logo nunca acreditarão que será amável com eles. portanto terá que ser amável, cordial, e quando chegar a hora de parar a amabilidade, então os destruímos. Perguntei-me se ele tinha tido em conta sua própria advertência esse dia de verão, ou se tinha vacilado porque esse alguém que lhe enfrentava tinha sido seu amigo. Teria dado tudo para encontrar essa pessoa em questão, e lhe perguntar.


CAPÍTULO 6


HAVIA OUTRA CHAMADA TELEFÔNICA QUE QUERIA FAZER. OLHEI o sorriso de Christine, em sua agradável cara, e disse:

— Poderia esperar fora um momento, Christine?

Ela piscou e posou seus grandes olhos azuis em mim, suspirando, levantou-se, fazendo ranger suas acolchoadas saias, e saiu sem dizer nenhuma palavra. Não poderia dizer se a tinha ofendido, porque era difícil ler seus gestos. Que ela pudesse sorrir e rir com tudo o que a rainha fazia diante dela era sempre um fato que me maravilhava com respeito a ela. Desfrutaria ela dos artifícios da rainha, ou não sabia exatamente o que fazer?

Quando Christine se foi fiquei só com o Doyle, Barinthus e Usna.

Frost, Galen, Hawthorne e Adair estavam na porta para assegurar-se de que não fôssemos interrompidos. Além disso, o escritório não era o bastante grande para todos nós. Nem cômodo em nenhum sentido. Confiava em todos eles, salvo em Usna. Não sabia o suficiente dele para confiar neste momento.

— Usna, poderia esperar lá fora, no corredor? — Disse-lhe.

Ofereceu-me um sorriso, mas não discutiu. Só vacilou brevemente na porta.

— Quer que envie alguém mais para ocupar meu lugar?

Pensei um momento e disse:

— Galen.

Fez-me uma pequena reverência, abrindo a porta e disse ao Galen que entrasse. Galen me olhou fazendo uma pergunta silenciosa enquanto fechava a porta detrás dele.

— Vou ligar para Gillett.

Galen sacudiu sua cabeça, dúbio.

— Não estou seguro de que seja uma boa idéia.

— Quem é Gillett? — Perguntou Barinthus.

— Foi um dos agentes federais que investigaram o assassinato do Príncipe Essus. — Esclareceu Doyle.

— Não sei por que estou surpreendida de que recorde isso, mas estou. — eu disse.

Doyle me olhou, com sua ilegível expressão, escura e fechada.

— Gillett foi o mais persistente de todos os investigadores humanos. Afirmei com a cabeça.

— Sim, assim foi.

— Estiveste em contato com ele? — Perguntou-me Doyle.

— Na verdade ele manteve contato comigo, Doyle. Eu tinha dezessete anos, e ele pareceu ser o único que queria resolver o assassinato de meu pai mais que seguir as ordens da rainha ou seus superiores. Doyle inspirou fortemente, para depois soltar o ar lentamente.

— E Galen estava informado disto?

— Sim. — Afirmou Galen.

— E alguma vez lhe ocorreu dizer a seu capitão que a princesa mantinha contato com um federal?

— Isto fazia que Merry se sentisse melhor, e como justamente foi depois de que Essus morreu, faria tudo o que pudesse para ajudá-la a se sentir melhor.

— E depois? — Inquiriu Doyle.

— Eles só trocaram uns cartões de felicitação duas vezes ao ano, isso foi tudo.

Doyle se girou me olhando fixamente, obscuramente. Encolhi-me de ombros, então desejei não ter feito, porque doeu.

— Enviava-me um cartão cada ano no aniversário da morte de meu pai. Eu lhe enviava um cartão no Yule.

— Como ninguém notou isto? — Perguntou Doyle.

— À rainha não gostava de nada que me desse a atenção, e eu só lhe emprestei atenção até que a rainha disse que não seguisse. E assim o fiz.

Doyle esfregou seus olhos com o polegar e o indicador.

— Dói muito seu braço?

— Sim, dói.

Tomou ar outra vez, soltando-o lentamente.

— Tem que descansar, Princesa.

— Não está aborrecido com o Galen ou comigo, não é? — eu disse. — Está zangado porque não sabia nada disto.

— Sim. — Disse com um deixe de cólera.

— Quando meu pai morreu, em que outro guarda poderia confiar a não ser no Galen?

— Não confiou em mim? — Perguntou Barinthus. Olhei-lhe, e vi o amigo mais próximo de meu pai.

— Estava quase tão doído por sua morte como estava eu, Barinthus. Necessitava a alguém tocado pela tristeza, mas não a alguém que estivesse consumido por ela. Galen foi essa pessoa para mim.

Tendi uma mão para o Galen, e ele tomou, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

— Se pudesse se casar com quem ama de coração... — Disse Doyle.

— Temo o que isto faria na corte.

Olhei-o, atentamente para ver o que havia detrás de seu inexpressivo rosto. Apertei a mão do Galen, colocando-se mais perto de mim. Desta vez, Doyle estava certo. Mas isto aconteceu quando Galen era o único que estava dentro de meu coração, foi antes de que crescesse o suficiente para compreender o que significaria estar a meu lado. O lugar perigoso que poderia chegar a ser, o lugar traidor que poderia chegar a ser.

Abracei-o não porque fosse o único nome escrito em meu coração neste momento, mas sim porque ele era algo mais. Uma parte de mim se entristecia por isso, e outra parte quase se sentia aliviada. Entendi o que meu pai tinha sabido faz décadas: que para o Galen o título de rei seria a pena de morte. Necessitava a alguém forte e perigoso a meu lado, não a alguém aprazível e consolador.

Examinei a cara do Doyle enquanto abraçava ao Galen. Doyle não sabia que a lista de meu coração tinha se feito maior, e que seu nome estava naquela lista? Por sua forma de atuar, parecendo ciumento, ou invejoso, ou zangado, não saberia o que pensar. Ocultava suas emoções tão bem que eu não podia decidir que emoção ocultava sob seu rosto, não deixava discernir algo muito forte que ele não queria compartilhar. Isto me mostrava o controle legendário da Escuridão para tudo o que lhe influíra.

— Vou ligar para o Gillett. — Voltei-me para o telefone, com a única mão sã que tinha. Tive que deixar ir Galen. Mas ele se manteve em contato tocando meu corpo, seu corpo insinuando-se contra o meu. Encaixado contra mim, como ele sempre fazia, como se tivesse nascido para estar sempre ali. Se tudo o que eu quisesse em minha cama fosse um amor aprazível, então com o Galen sempre teria sido maravilhoso, mas nós tínhamos passado meses na cama, e tinha descoberto que sua idéia da paixão e a minha não coincidiam.

Galen não entendia meu desejo de brutalidade, ou dor, ou simplesmente um algo mais perigoso. Galen me olhou, pálido, com olhos perplexos me perguntando coisas.

Digitei o número do Gillett de cor, embora seu número tinha mudado com os anos. Sempre o tinha tido memorizado por medo de que alguém olhasse minha agenda de telefones e o visse. Poderia me haver economizado essa preocupação; a reação que Doyle tinha mostrado tão claramente, tinha me ensinado que não me tinham emprestado muita atenção. Um pouco triste e frustrante. Tanto esforço gasto em fugir de uma gente que ao final não me tinha emprestado atenção.

Esperei a que o telefone do Gillett começasse a tocar. Tinha lhe prometido que se alguma vez alguém morresse em circunstâncias similares às de meu pai, o faria saber. Estas não eram realmente circunstâncias similares, mas uma promessa era uma promessa. Senti-me metade tola e a outra metade excitada, como se de algum modo fosse capaz de fazer mudar as coisas com esta chamada. Tinha mais de trinta anos, mas uma parte de mim ainda tinha dezessete e queria justiça. Deveria ter melhor critério a estas alturas.

Ele respondeu.

— Gillett.

— Olá! — eu dissse.

— Merry?

— Sim.

— Está bem?

Durante todos os anos passados ele se tornou algo protetor comigo. Como se se sentisse em dívida por meu pai morto e queria me manter com vida. Se ele soubesse.... mas não queria compartilhar todos os atentados contra minha vida que tinha sofrido. Os duelos infinitos que me fizeram escapar do mundo das fadas durante anos, deixando que assim pensassem que tinha ido para sempre.

Esta era a primeira vez que falávamos desde que tinha aparecido de novo.

— Um pouco cansada, mas estou bem.

— Eu também acreditei que eles tinham te matado, há três anos. Por que não me ligou?

— Porque se houvesse dito meu verdadeiro nome ao lado de uma janela na escuridão a Rainha de Ar e da Escuridão saberia. O som de nossa conversação teria viajado até ela. Lhe teria posto em perigo. Teria posto em perigo a qualquer pessoa.

Ele suspirou sobre o telefone.

— E agora é "a princesa" de novo, e buscas um marido. Mas não me chamou somente para conversar, não é?

— Ouviu algo?

— O rumor de que os repórteres tiveram que abandonar a colina das fadas, mas agora estão agrupados em uma zona de estacionamento. Se a coletiva de imprensa já acabou, por que há ainda muitos meios de comunicação nacionais e internacionais que perdem seu tempo em meio daquele milharal em Illinois?

Contei-lhe ampliamente o problema.

— Posso estar ali com uma equipe em menos de....

— Não, não quero nenhuma equipe. Já consegui um policial que vem com uma unidade forense. Pode vir, mas não pode trazer dúzias de agentes com você. Isto passou dentro da Corte, não sobre terra federal.

— Nós poderíamos ajudar.

— Talvez, ou talvez só haveria mais gente que sairia prejudicada. Temos um jornalista morto, isto já é bastante mau. Não podemos nos permitir a ter um agente do FBI morto por um dos nossos.

— Falamos sobre isto durante anos, Merry. Não me afaste agora.

— Quando assassinaram a meu pai eu tinha dezessete anos; isto é secundário aqui e agora, Raymond. A prioridade são as novas mortes. Escutando sua voz agora, não estou segura de se este seria um caso para você.

— Não confia em mim. — Pareceu doído.

— Estou na linha sucessória agora, Raymond. O bem da corte é mais importante que a vingança pessoal.

— E o que diria seu pai se escutasse a ti, a sua filha?

— Diria que sou mais sábia. Estaria de acordo comigo. — Agora desejava não tê-lo chamado. Compreendi que o Agente Especial Raymond Gillett era só a lembrança de uma moça. Já não podia me permitir esse tipo de desejos, não por mais tempo.

De repente me senti muito cansada, e meu braço doeu do ombro até o pulso. Girei-me e me apoiei contra a mesa do escritório, meio sentada sobre ele, o que obrigou ao Galen a afastar-se um pouco de mim, e isto foi bom. Ele deixou vagar sua mão ligeiramente sobre minha coxa, movendo minha saia para frente e para trás como se me mimasse. Era consolador, e eu necessitava estes mimos.

Doyle me olhava, e algo em seus olhos suavizou a expressão de sua cara. Tive que apartar o olhar pela bondade que vi ali. Não estava segura de porque seu olhar me fez um nó na garganta.

— Não venha, Gillett. Sinto muito ter ligado pra você.

— Merry, não me faça isto, não depois de quase vinte anos.

— Quando tivermos solucionado este caso, se ainda estiver viva e ainda tenho carta branca nesta área, chamarei-lhe, e podemos falar sobre você. Mas só se for sobre a morte de meu pai.

— Não acha que o FBI poderia ser de ajuda em um duplo homicídio?

— Não sei o que temos aqui, Gillett. Se nos encontrarmos com algo mais do que o laboratório local possa dirigir, avisarei-lhe.

— Bom, talvez responda ao telefone mas pode ser que não queira ir.

— Como quiser. — eu disse, e lutei para não deixar entrever em minha voz como me sentia, como me ardiam os olhos.

— Mas pense nisto, Gillett. Começou esta relação porque se compadeceu de uma moça de dezessete anos, ou porque estava zangado com a rainha por fechar a investigação? Foi a compaixão o que lhe moveu, o desejo de justiça, ou simplesmente o aborrecimento? Pode me dizer isso. Resolveria o caso sem a ajuda da rainha. Usaria à filha do Essus para te ajudar.

— Não foi assim.

— Então por que está zangado comigo agora? Não deveria ter te ligado, mas te prometi. A promessa de uma moça, que lhe ligaria se alguma vez se produzira um assassinato similar. Não é absolutamente igual, mas quem quer que o fez tem uma magia muito similar. Se solucionarmos este caso, acredito que poderemos conseguir nos aproximar do assassino de meu pai. Só pensei que gostaria de saber.

— Merry, sinto muito, é...

— Que aquele assassinato há pervivido em sua memória todos estes anos?

— Sim. – Respondeu.

— Chamarei-lhe se algum outro dado sai à luz.

— Me chame se precisa ampliar os dados que lhe dê a equipe forense local. Posso lhe conseguir uns resultados com DNA que só sonharia. Tive que sorrir.

— Estou segura com o Comandante Walters. O FBI pode ter plena confiança nesse sentido.

Ele soltou uma seca risada.

— Sinto muito se tenho feito tudo mais difícil para você. Tendo a ser um pouco obsessivo.

— Adeus!, Gillett.

— Adeus!, Merry.

Desliguei e me inclinei mais pesadamente sobre a mesa. Galen me sustentou contra ele, cuidando de não me machucar no braço.

— Por que não deixou que Gillett viesse?

Levantei minha cara e lhe olhei. Procurei em sua franca expressão algum indício de que tivesse entendido o que acabava de ocorrer. Mas seus olhos eram verdes, grandes e inocentes.

Quis chorar, precisava chorar. Tinha chamado ao Gillett porque os assassinatos tinham feito ressurgir fantasmas do passado em minha memória. Não eram reais, mas a dor emocional que tinha pensado já extinto, ressurgiu para voltar a me atormentar outra vez, sem importar o profundamente que o tinha enterrado.

Doyle veio para mim.

— Cada vez que olho pra você é mais digna de ser rainha, Meredith, mais a cada dia, a cada minuto.

Tocou ligeiramente meu braço são, como se não estivesse seguro de que quisesse que me tocassem nesse momento.

Meu fôlego saiu com um agudo lamento, e me lancei contra seu corpo. Doyle me segurou, em seus fortes braços, quase dolorosamente. Abraçou-me enquanto chorava, porque ele entendia um pouco o que tinha custado pra mim deixar pra trás minha juventude.

Barinthus se aproximou e pôs seus braços a nosso redor, nos abraçando contra ele. Joguei-lhe uma ligeira olhada, e por sua cara se deslizavam lágrimas.

— É mais a filha de seu pai neste momento do que alguma vez foste.

Galen nos abraçou do outro lado, para nos manter quentes e próximos.

Mas compreendi nesse momento que tanto Galen, como Gillett, eram só o desejo da juventude. Me seguram fortemente, e chorei. Mas chorar não mudou este fato. Chorei por minha infância perdida. Tinha trinta e três anos; parecia um pouco tarde para deixar pra trás a juventude, mas algumas feridas são tão profundas que nunca se fecham. Só param crescer, como um véu que nos impede de ver a verdade.

Deixei que todos me abraçassem enquanto chorava, enquanto chorava Barinthus. Deixei-lhes me envolver, mas parte de mim sabia que Galen, e só Galen, não entendia o que acontecia comigo. Ele tinha sido meu confidente mais próximo entre todos os guardas. Meu amigo, meu apoio, mas só ele tinha me perguntado por que não deixei que Gillett viesse?

Chorei e os deixei me abraçar, mas não era somente a perda de meu pai o que me afligia neste momento.


CAPÍTULO 7


LIMPEI OS RESTOS DE MAQUIAGEM QUE NÃO SE APAGARAM. Agarrei a mancha de batom que ainda se via como a maquiagem de um palhaço, e dei ao Frost uma toalinha de limpar maquiagem; assim poderia limpar o rosto. Quando estivemos limpos, pulcros e apresentáveis retornamos à cena do crime. Sentia-me oca por dentro, como se tivesse perdido uma parte de mim. Mas isto já não importava. Walters estaria logo aqui com a equipe CSI. Precisávamos terminar de interrogar às testemunhas antes que eles, por acaso dissessem algo que não quiséssemos que soubesse a polícia humana. Eu queria justiça, mas tampouco queria criar uma má publicidade compartilhando algum segredo escuro com o mundo humano.

Doyle se deteve tão abruptamente que me choquei diretamente com ele. Empurrou-me para trás, de repente, para os ansiosos braços do Galen e Usna, como se ele lhes tivesse dado um sinal que eu não tivesse visto. Com o Doyle e Adair à frente, e Galen e Usna, de repente, pegos a meus lados, não podia ver o que tinha assustado a todo mundo.

Barinthus, Hawthorne, e Frost fechavam a marcha. Eles voltaram seu rosto para trás, ao corredor como se estivessem preocupados, de que houvesse alguém escondido detrás de nós. O que estava acontecendo? E agora que mais poderia ocorrer? Não sempre posso dirigir uma gota de temor. Não estava segura de se esta valentia se devia a que estava esgotada até a extenuação. Estava simplesmente muito cansada emocional e fisicamente para gastar adrenalina no temor. Nesse momento, se fôssemos atacados, não estava segura de que tivesse me importado.

Tratei de sacudir esses sentimentos de desolação.

— Doyle, o que é?

— Os Corvos da rainha estão no corredor, bloqueando nosso caminho.

Suponho que ter mais de 2 metros te dá uma boa visão.

Me dei conta agora que meu guarda temia a quase qualquer sidhe neste momento. Tinham razão. Alguns sidhe tinham cometido assassinato, e eu estava a cargo de deter o assassino. Maravilhoso. Estava dando uma razão a alguém para me querer morta. Mas, o que era uma a mais?

Adair se moveu até o centro do corredor para me ocultar detrás de suas costas blindada, enquanto Doyle se moveu para baixo no corredor. Barinthus respondeu a minha pergunta antes de que eu a pensasse.

— Doyle está conferenciando com o Mistral.

Mistral era o Senhor do Vento, o Criador de Tormentas, e o novo capitão dos Corvos da rainha. Ele tinha tomado o lugar do Doyle quando ficou claro que Doyle não ia retornar a seu antigo trabalho.

— O que está acontecendo? – Perguntou Galen, e sua voz soava o suficientemente ansiosa por nós dois.

Usna se encurvou sobre mim, cheirando meu cabelo.

— Cheira bem.

— Mantém sua mente em protegê-la. — Disse Galen, olhando para o fundo do corredor por onde Doyle se foi.

Ele tinha tirado sua pistola, sustentando-a ao longo de sua perna. Se eu tivesse tido que escolher entre uma arma e uma espada, faria a mesma escolha. Quando vim pela primeira vez ao país das fadas, as armas estavam fora da lei dentro da colina das fadas, mas depois dos pequenos atentados, minha tia decidiu que meus guardas necessitavam toda a ajuda que pudessem conseguir. Assim que nossos homens podiam utilizar armas, se sabiam como as usar. Doyle e Mistral julgavam quem eram competente para as usar e quem não. Alguns guardas tratavam as armas do modo que outros tratam a idéia de jogar com uma serpente venenosa. Podia ser útil, mas também podia te picar.

Usna tinha uma espada curta em cada mão, apontando para ambas as direções do corredor. Seus olhos cinzas, que eram o traço mais ordinário nele fisicamente, mantinham-se observando, mas seu rosto estava pressionado contra meu cocuruto. Ele pôs primeiro uma bochecha, logo a outra contra meu cabelo. Olhava para o final do corredor enquanto o fazia, mas também estava me marcando com sua fragrância. Como um gato, e inapropriado nesta situação, se ele pensasse como um humano. Mas este era Usna, e eu sabia que ele era consciente de tudo o que acontecia no corredor, inclusive enquanto tratava de pôr a essência de sua pele em meu cabelo.

Achei isto muito reconfortante. Galen não.

— Usna, para.

Um som em alguma parte entre um ronrono e um grunhido surgiu do outro homem.

— Se preocupa muito, meu pequeno Pixie.

— E você não se preocupa o suficiente, meu pequeno gatinho. — Mas Galen sorriu quando o disse. Todos nos sentimos melhor com a brincadeira de Usna.

— Quietos, os dois. — Disse Frost detrás de nós.

Eles se calaram, parecendo um pouco envergonhados mas felizes. Usna deteve o intento de esfregar seu rosto contra meu cabelo. O que significava que o fazia tanto para tirar sarro do Galen, como de mim. Doyle estava levando muito tempo. Se algo tinha ido horrivelmente mal, Barinthus ou Adair nos teriam avisado. Mas isto estava tomando muito tempo. A antinatural calma estava começando a desparecer pelas pequenas patas da ansiedade.

Eu tinha licença para usar armas na Califórnia. Também tinha um salvo-conduto diplomático que me convinha bastante em qualquer lugar ou momento, partindo da base de que minha vida estava em perigo o suficientemente freqüentemente como para que o ir armada sim fosse necessário. Eu tinha armas. Mas Andais não me permitia ir a uma coletiva de imprensa armada. Era uma princesa; as princesas não se protegiam sozinhas. Tinham a outros que faziam isso por elas. Pensava que a idéia era arcaica, um pouco curta de miras, e bastante irônica vindo de uma rainha que era conhecida por sua fama de ter sido uma deusa da batalha. Estando aí com o Galen e Usna pressionando-se contra mim, com os outros como uma parede de carne em meu torno, prometi-me que a próxima vez que deixasse minha habitação, estaria armada.

Doyle voltou, e Adair lhe deixou espaço para que passasse, logo se moveu ao centro do corredor como uma parede dourada. Dava-me conta de que Adair estava sendo justamente isso, uma parede de carne e metal para afastar a morte de mim. Ele disse que eu era seu ameraudur, outro eco do fantasma de meu pai, porque ele foi o último ameraudur da realeza de ambas as cortes. Ser chamado ameraudur era uma honra maior que ser rei, porque os homens escolhem a ti, e lhe seguem por amor, a classe de amor que os homens compartilham entre eles nos campos de batalha de um tempo imemorial. Um juramento que liga um guarda a arriscar sua vida por seu mando, rainha ou princesa, mas ameraudur quer dizer que o faz gostosamente. Isto implica que retornar de uma batalha vivo com seu líder morto é muito pior que a morte. Uma lástima que ele não teria esquecido. Dois dos guardas de meu pai perderam suas vidas pela vergonha de deixar que seu príncipe morresse. Acabar com sua vida por seu ameraudur é a maior honra.

Vendo o Adair aí parado, tão forte, tão orgulhoso, tão disposto a morrer, fez-me pensar em meu novo título. Fez-me temer. Não queria que ninguém morresse por mim. Não tinha ganho isso. Não era meu pai e nunca seria. Nunca poderia me desembrulhar dentro de uma batalha com eles e esperar sobreviver. Como poderia ser seu ameraudur se não podia fazer isso?

O rosto do Doyle estava vazio de toda expressão. O que ele pensava sobre o novo apelido que Adair me deu, guardou para si mesmo. Seu rosto estava tão vazio agora, que a única coisa da que estava segura era de que não estava em iminente perigo. Além disso, Doyle podia usar a mesma expressão para tudo. Eu queria lhe gritar para que me mostrasse o que estava sentindo, mas ele falou antes de que eu chegasse a esse grau de perda de controle.

— A rainha os enviou para te trazer de volta quando acabar com seu assunto do assassino, como ela disse. É o suficientemente evasivo para que eles não possam te levar imediatamente. — Doyle sorriu um pouco ironicamente, e sacudiu sua cabeça. — A verdade é que, Mistral está agora a cargo da cena do crime.

— O quê? — Galen e eu perguntamos ao mesmo tempo.

— A rainha retirou a oferta a Meredith? — Perguntou Barinthus. — Estão Mistral e a rainha agora estão a cargo deste assassinato?

— Não. — Disse Doyle. — Rhys pensou uma maneira diferente para procurar a nosso assassino. Ele quer seguir esta nova pista mágica, mas necessita que alguém mantenha a cena do crime a salvo. Quando Mistral e os outros apareceram, ele os colocou para guardar o corredor do vestíbulo.

— Isso se fez precipitadamente.

— Conhecendo o Rhys, obteve o juramento do Mistral, — disse Usna, — e uma vez tem o juramento do Mistral, tem sua honra. Ele não o romperá, nem por todas as jóias das terras imortais.

Doyle assentiu uma vez.

— Confio na honra do Mistral como no minha própriao. — Ele me olhou, e algo passou sobre seu impassível rosto, mas não pude decifrá-lo. Meses em minha cama, semanas em meu corpo e não podia ler o olhar refletido em seus olhos. — Ele requereu uma audiência contigo, princesa. Diz que tem uma mensagem da rainha.

— Não temos tempo para isto. — Disse Frost.

Estava de acordo, mas também sabia que ignorar uma mensagem ou um mensageiro da rainha não era sábio.

— Deixamo-la faz menos de uma hora, o que poderia querer?

— A ti. — Disse uma voz profunda detrás deles.

Doyle me olhou me perguntando, e eu assenti. A um gesto do Doyle, Adair e ele se abriram como uma cortina para revelar o Mistral.

Seu cabelo era do cinza do céu com a promessa de chuva, e estava retirado de seu rosto recolhido em uma rabo-de-cavalo. Só tive uma olhada de seus olhos cinzas como nuvens de tormenta antes que caísse com um joelho em terra e me mostrasse só a parte de atrás de sua cabeça. Esta era a primeira vez que outro sidhe, qualquer sidhe, tinha me mostrado tanto... respeito. Olhei para baixo a seus largos ombros e sua apertada armadura de couro, e me perguntei por que tinha feito isso.

— Te levante Mistral.

Ele sacudiu a cabeça, enviando seu cabelo cinza como uma cascata para baixo por suas costas, sustentado apenas por uma correia de couro no alto de seu pescoço.

— Devo-lhe ao menos isto, princesa Meredith. Não tinha idéia do que queria dizer com isso.

Olhei ao Doyle. Ele arqueou um pouco sua sobrancelha, com uma ligeira inclinação de cabeça, essa era sua versão de encolher-se de ombros.

— Por que me deve tal reverência? — Perguntei-lhe.

Ele elevou sua cabeça o suficiente para posar seus olhos sobre mim.

— Se tivesse sonhado que tomaria tão a sério meu olhar, teria sido mais cuidadoso, princesa. Juro-lhes isso.

Soube então o que queria dizer; foi pelo olhar de desprezo no rosto do Mistral na noite anterior, olhar que me tinha ajudado a ser o suficientemente valente para confrontar Andais enquanto ela estava sob a influência de um malvado feitiço. Um feitiço que a fez levar a cabo uma matança entre seus próprios homens, e um perigo para qualquer um que estivesse perto. Tinha sido claramente uma estratégia para obter seu assassinato. Mistral havia me dito só com seu olhar que eu era somente outro inútil membro da realeza, e que ele odiava a todos. Não foi o ódio, mas foi a inutilidade o que me pôs em ação. Porque eu estava de acordo com ele. Nesse momento eu tinha decidido que preferia morrer, a ver todos eles massacrados.

— Tão seguro está de que foi seu olhar o que me fez me mover para diante? Quero dizer deve ser uma brincadeira, mas sempre esqueço quanto tempo passou para alguns dos Corvos da rainha desde que uma mulher brincou com eles.

Ele elevou seu rosto rapidamente, sua voz incerta e incômoda.

— Sinto muito, princesa. Tinha assumido muito.

Minha brincadeira não só tinha falhado se não que o tinha envergonhado. Não tinha idéia de que minhas palavras tivessem tal poder sobre o Mistral. Toquei sua cabeça, com o anel da rainha em minha mão direita. Marca de sua soberania, seu primeiro presente para mim, e um artefato de poder.

Meus dedos roçaram seu rosto um segundo antes de que o metal do anel o fizesse. Ele girou esses olhos de tormenta, cinzas para mim. Seus lábios se separaram como se quisesse falar, mas o metal roçou sua pele, e não houve já tempo para as palavras.

Eu sabia que nossos corpos ainda estavam um de pé e o outro de joelhos, no corredor do vestíbulo dentro da corte da escuridão. Eu sabia isto, porque isto tinha passado antes quando a magia do cálice e o anel se combinavam. Mas para o Mistral e para mim, estávamos no topo da colina que estava coroada com uma árvore comprida e morta. Eu tinha visto esta colina, esta árvore em uma forma ou outra em sonhos e visões. Mistral se ajoelhou antes que eu com minha mão apoiada em seu peito. Pôs sua mão sobre a minha, sustentando meu toque sobre seu rosto, enquanto ele olhava ao redor na planície que se estendia até onde os olhos alcançavam ver. Esta era verde e preciosa, mas estranhamente vazia.

— O que você fez, princesa?

— Não fui eu. — Disse-lhe.

Ele levantou seu olhar para mim, e havia desconcerto em seus olhos.

— Não entendo.

— Olhe a árvore.

Girou-se com suas mãos agora sustentando as minhas, pressionando- se contra seu rosto. A árvore era enorme, uma coisa enegrecida, sua casca desmoronando-se no crescente vento. A primeira vez que vi a árvore estava tão morta que tinha um oco no centro. Esta árvore não. Tomou um tempo entender que a árvore ou a colina não eram reais. Tampouco era nenhum lugar no mapa ao que pudesse chegar. A árvore representava a divindade, e o poder das fadas; a colina era A Colina. Estávamos no centro do mundo, mas o centro do mundo trocado à idéia dos deuses. Neste momento, este era o centro, e Mistral e eu estávamos no centro. Encontrávamo-nos mão com mão, enquanto o vento soprava através do céu.

O vento cheirava a macieira e rosas, doce, limpo e bom. Eu escutei uma voz na essência das flores e do vento. Ou possivelmente era meramente um pensamento. Mistral não parecia havê-lo escutado, assim possivelmente a voz era só para mim.

— Me beije, — dizia o vento, — me beije. Deixa que ele prove o cálice.

Mas o cálice não está aqui, pensei. O vento disse:

— Você é o cálice.

OH, é obvio. Isto tinha um perfeito sentido nesse momento, embora eu sabia que mais tarde possivelmente não teria nenhum.

— Mistral, — eu disse, e o vento cresceu mais forte, docemente, ao som de seu nome.

Ele me olhou, e havia um pouco de temor em seus olhos. Tinha passado realmente tanto tempo desde que tinha sido tocado pela divindade? Sim, disse a voz em minha cabeça, passou.

— Me beije, Mistral. — eu disse.

Ele me olhou procurando em meu rosto.

— Quem é?

— Sou eu, Merry.

Ele sacudiu sua cabeça, ainda quando me deixou atrair seu corpo contra o meu. Percebi que meu braço não estava ferido neste lugar de sonho e visão. Pus meus braços ao redor da tersa força de suas costas, sobre o couro de sua armadura. Suas mãos rodearam minha cintura, mas ele ainda estava sacudindo sua cabeça.

— Não, você não é a princesa.

— Sou, mas sou mais, isso é verdade. — Minha voz estava tomando um suave eco que tinha escutado antes, como escutar a voz de outro em seus próprios ouvidos.

— O que é você? — Sussurrou.

— Bebe do cálice, Mistral.

A essência das flores no vento nos envolveu como braços invisíveis, nos rodeando até que nossos corpos estiveram pressionados tão perto como se podia com as roupas postas. Ele me sustentou, mas tinha medo, e o temor não é o melhor afrodisíaco para a maioria das pessoas. A rainha nunca tinha entendido isso. Seu rosto foi para mim mas seu corpo estava tenso, e tratando de não estar tão perto. O vento o empurrou forçando-o a baixar a cabeça. Entendi nesse momento que Mistral foi uma vez o Senhor do Vento, Criador de Tormentas. Uma vez ele as tinha controlado elas como um homem controla a seu cavalo, mas agora Mistral era o cavalo, que era montado, e não gostava disto.

Mistral lutou contra o impulso do doce vento. Lutou por mover seu corpo longe do meu, mas o vento era como cadeias, e o máximo que ele podia fazer com toda essa força era manter sua boca justo sobre a minha. Manter a si mesmo justo fora de meu alcance.

— Por que lutas quando isto é o que quer? — Disse a voz, usando meus lábios.

— Você não pode ser o cálice. Você não pode ser a Deusa, ela nos abandonou faz muito tempo.

— Se não é real, então você não poderá me beijar.

— Não pode ser real.

— Mistral, sempre foste como São Tomé, sempre duvidando. Me beije, me beije, e descobre a verdade. Se suas dúvidas forem reais, ou se eu for real. — O vento soprava tão fortemente que foi difícil respirar. – me beije!

A voz veio de minha boca, e ecoou no vento, e trouxe a essência da macieira. Sua boca tocou a minha, e no momento que o fez, ele deixou de lutar. Entregou-se por completo no beijo com seus lábios, sua boca, seus braços, seu corpo. O vento era só vento outra vez, mas Mistral não notou. Levantou-me em seus fortes braços, suas mãos me pressionando contra seu corpo. Uma mão descendeu para meu traseiro, quase esmagando-o com seu agarre que trouxe um pequeno som a minha boca. Esse som pareceu urgi-lo. O beijo tinha sido exaustivo antes, mas tinha certa gentileza; agora me beijava como se pudesse acessar a meu corpo através de meus lábios. Beijava e comia com seus dentes em minha boca, mordendo e sustentando meu lábio inferior até que solucei por ele.

O aroma de flores se foi, e o vento cheirava como o ozônio. Todo o pêlo de meu corpo ficou em pé. Mistral nos baixou à terra, ficando ele em cima de mim. Não estava segura se era para me proteger, ou para pressionar sua frente inchada contra meu corpo. Mas estávamos no chão um segundo antes que uma dentada explosão branca de luz caísse do céu espaçoso e golpeasse a árvore morta.

Raio atrás de raio caíram do céu golpeando a árvore, e com cada golpe a casca negra caía, revelando a casca pálida de debaixo.

Mistral cobriu meu corpo com o seu, me resguardando, enquanto as luzes golpeavam a terra a ambos os lados da árvore, como se levassem a morte longe. Até que o último pedaço da árvore esteve nua, novo e vivo. Os ramos novos começaram a brilhar, completamente, e se formaram brotos ao final desses ramos. As flores saíram brancas e rosas, e a essência de maçãs era espessa e doce. Sua voz veio a nós ao final da visão.

— Vá agora, meu duvidoso Tomé, e sacode a morte rapidamente.

Retornamos ao corredor do vestíbulo com o Mistral ainda de joelhos frente a mim, minha mão em seu rosto, meu braço ferido em uma tipóia.

Havia mais dos homens do Mistral ao outro lado de nós, mas Doyle e Barinthus os mantinham afastados. Não sabia quanto tempo tinha passado, mas escutei o Barinthus dizer:

— A princesa trouxe de volta alguns de meus poderes com apenas um toque. Querem tirar esta oportunidade a seu capitão, simplesmente porque não entendem o que está acontecendo?

Mistral me sorriu, uma fera mostra de dentes. Seus olhos ferviam negros com nuvens de tormenta assim que ele parecia estar cego. Ele estava se estendendo de pé, minha mão ainda cativa na sua. Atraiu- me para seu corpo tão fortemente que isto feriu meu braço me fazendo sentir um pequeno golpe de dor.

Um som veio de sua garganta, e profundo desde seu peito; um som que começou como um ronrono mas acabou como o som distante e desço de um trovão longínquo.

Passou seus dedos através de meu cabelo, tomando um pouco entre seu punho apertado. Isto era um pouco doloroso mas estava começando a ser rude, muito rude. Começou a baixar sua cabeça para mim, seu rosto caindo com uma crua, nua luxúria, um pouco separado e primitivo como a escuridão e a luz. Essa faísca divina que atravessa a primeira escuridão e traz a vida. Esse poder estava nas mãos do Mistral, na pressão de seu duro e excitado corpo ainda através da prisão de sua armadura de couro.

Sentia-se tão grande, tão grosso, contra a frente de meu corpo. Sua pressão, a força de suas mãos me fez tremer contra ele. Ele esticou seu agarre em meu cabelo, me forçando a lutar com as reações de meu corpo, ou causar a mim mesma uma dor real. Meu corpo queria atirar e lutar contra seu agarre, mas ele me deu uma alternativa. Controlar a mim mesma ou me ferir. Ele conhecia o jogo.

Sentia-me como se estivesse presa, parada me sentia indefesa contra sua força, sua luxúria, e o que meu corpo precisava era quase entristecedor. Meus olhos se fecharam em um esforço por não lutar contra seu duro agarre.

Ele sussurrou contra meu rosto, e não pude enfocar o suficiente para lhe ver.

— Quer cavalgar a tormenta? — Seu fôlego era quente contra minha pele.

Sua voz não prometia gentileza, nem compromisso. Sabia o tipo de sexo que estava oferecendo, e o pensamento disto fez estragos na parte baixa de meu corpo, deixando sair outro pequeno som de minha garganta.

— Sim, — sussurrei, — sim.

O retumbar de um trovão ecoou abaixo no corredor do vestíbulo, sacudindo as pedras das paredes. O som pareceu vibrar fora de seu corpo e dentro do meu como se meu corpo estivesse sintonizado contra o ritmo de uma grande caneca de metal. Sua voz cresceu através de minha pele, com o sabor do trovão nela.

— Bom... — Disse e me forçou a me pôr de joelhos.


CAPÍTULO 8


MISTRAL ME SUSTENTOU DE JOELHOS, MINHA CABEÇA imobilizada por seu apertão, enquanto sua outra mão desabotoava suas calças. Só lhe observar fazer isso fazia que meu corpo reagisse tão violentamente que acredito que teria caído se ele não me houvesse segurado. A maioria de meus amantes não me deixava lhes agradar com a boca porque assim não podiam me deixar grávida. O sexo oral não podia converter a um deles em rei e a mim em rainha, e eles não desperdiçariam sua semente em nenhuma outra parte de meu corpo. Eu lhes ofereci isto como parte da preliminar, mas a maioria recusou inclusive isso por temor a que eu os fizesse gozar, o que para eles seria um desperdício. Eu não devia tentar tocá-los com minha boca. Mistral não estava preocupado em ser rei ou me deixar grávida. Neste momento, simplesmente me queria sem nenhum plano, nem agenda, só com sua a tanto tempo negada necessidade. Por isso podia pensar primeiro no prazer de me fazer amor, e depois, só um pouco, na política.

Minha pele começou a brilhar brandamente. O baile impreciso da magia estava profundamente em minha pele viajando através de suas mãos e dentro de seu corpo. Um impreciso resplendor branco começou profundamente em sua pele, como as luzes que refletem as esquinas. Não o brilho completo de minha pele, mas sim algo impreciso, menos seguro de si mesmo. Perguntava-me se seu brilho tinha sido sempre tão inseguro. Seu corpo saltou de suas calças. Lançando sua cabeça para trás, inclinando seu corpo, e a luz ardeu em seu corpo. Fogo branco frio, ardendo dentro dele, por um momento deslumbrou meus olhos.

Se não o tivesse em minha boca, e sentisse suas mãos como uma confortável dor em meu cabelo, poderia ter acreditado que ele se converteu em luz, magia, poder, e que não havia realmente substância. Mas empurrou essa larga e muito sólida parte dele tão profundamente em minha garganta, que o respirar se converteu em algo de grande importância. Eu gostava de meus homens longos, mas eu gostava mais de respirar. Comecei a lutar contra seu agarre, meu corpo começou a lutar pelo fôlego.

Empurrei seu corpo, e a mão se relaxou, desenhando minha boca com sua espessura até que pude tomar fôlego, ao redor da ponta dele. Esperava que tirasse do todo o resto dele de minha boca, mas não o fez. Manteve a ponta de si mesmo dentro de mim. Quando consegui suficiente ar, passei minha língua delicadamente debaixo da pele de sua cabeça onde se estreitava com o resto de sua dureza. Isto fez estremecer sua mão contra meu cabelo, sua carne em minha boca, seus quadris sob a pressão de minhas mãos.

De seu corpo emergiu o resplendor bombardeando com uma linha sólida que fazia mais nítido o brilho que emitia. Seu cabelo se soltou da cinta, e caía a seu redor como uma cascata de luz branca. Era como se o resto de seu corpo tremesse com luz e poder, exceto a parte que tinha em minha boca. Possivelmente não o poderia ter dentro de mim se isto brilhasse como algo esculpido em poder.

Ele afundou mais profundo em minha boca, mas eu temia que entrasse tão profundamente como o tinha feito antes. Distraí-o com apenas o bordo de meus dentes. Isto lhe fez vacilar, e me deixou me pôr eu mesma até o final dele outra vez. Eu rodei com minha língua gentil, mas firmemente debaixo da pele que tinha tido antes, assim pude lamber dentro desta tensa pele e a ponta de seu pênis ao mesmo tempo. Isto o fez estremecer-se e retorcer-se contra mim. Ele olhou para baixo e seus olhos estavam enormes e selvagens refletindo suas sensações.

O vento começou a jogar sobre o corredor do vestíbulo, e seu branco, e brilhante cabelo ondeou no vento, seu corpo convertido em chama. O vento cresceu até que arremeteu em ambas as direções do corredor, e me dava conta do que provocava Mistral.

Minhas mãos se deslizaram por suas calças, e as coloquei cuidadosamente através do fechamento, até que pude tocar a suave pele dos testículo. Estavam o suficientemente soltos para que pudesse sentir a pele entre eles, e rodeá-los com minhas mãos como delicadas bolas de carne.

Esqueci meu temor anterior, e baixei mais sobre seu pênis, me esforçando por sustentar seu peso em minha boca. Ele estava ficando mais duro, o que fazia mais difícil tragá-lo, mas valia a pena o esforço. Valia a pena ter o resto em minha boca, degustando sua dolorida pele e carne, até que pude riscar um círculo com meus lábios ao redor da sólida calidez de seu vibrante corpo. Tocando inclusive tanto a mim mesma como o sólido centro brilhante dele que deixou meus lábios formigando, e quando voltei para trás sobre sua extensão, foi como se o estremecimento de poder me seguisse. Como se o toque de meus lábios tivesse permitido de algum modo baixar este através de seu corpo.

Dei uma última lambida com minha língua, e quando o deixei fora de minha boca, não lutou contra mim. Seu olhar desceu para mim com esses olhos selvagens, e as luzes relampejando através deles. Levei um segundo para me dar conta de que estava vendo relâmpagos. Luzes de relâmpagos através dos olhos do Mistral. Então chegou o primeiro fôlego distante de ozônio, como uma tormenta, que ainda não nos alcançou, mas sua essência roda sobre o vento, prometendo grandes e terríveis coisas.

Ele fez um som descendo em sua garganta, e o trovão soou sobre o corredor em resposta.

Minha pele brilhou como se a lua estivesse dentro de mim e tratasse de sair através de minha pele. Criando sombras através do corredor. Mistral me pôs sobre meus pés atirando de meu cabelo que brilhava com uma luz vermelha como o sangue, e sabia que meus olhos resplandeciam de verde e dourado como as luzes de natal apanhados detrás da neve.

Ele me girou repentinamente contra a parede de modo que só minhas mãos contra as pedras evitaram que me golpeasse meu rosto.

Manteve uma mão sobre meu cabelo, mas a outra se deslizou sobre minha pele até que seus dedos encontraram o bordo de minhas calcinhas. Introduziu seus dedos dentro do cetim, e tive um segundo para me preparar antes que se introduzisse em meu corpo. Sua violência me fez cambalear e só sua mão em meu cabelo me manteve contra a parede. Percebi, ao utilizar meu braço ferido, de que este tinha sanado. Minhas mãos pressionaram contra a fria parede de pedra, enquanto Mistral empurrava meus quadris contra seu corpo.

Ele se moveu entre minhas pernas mas não dentro de mim. Senti-lo duro e sólido deslizando-se entre minhas nádegas me fez gemer, mas ele me ultrapassava em mais de 30 cm de altura. Não havia modo de que tivéssemos relações estando eu de cara à parede, não a menos que alguém me trouxesse uma caixa para subir nela.

Mistral se empurrou contra mim, deslizando toda sua longitude através de minhas mais íntimas partes. Sentindo sua cabeça deslizando-se para trás e adiante através da doce umidade que estava começando a criar como um pesado calor entre minhas pernas. Não era só a suavidade de sua pele e a dureza de sua ereção, era o poder. O poder atuava como uma vibração surda contra meu corpo. Percebi que se ele não se detinha logo me faria gozar. Eu desejava e não desejava que ambos o fizéssemos. Poderia meu orgasmo trazer o seu, antes que ele se introduzira dentro de meu corpo? Queria eu que ele explodisse dentro de meu corpo ou fora dele? Estava ainda indecisa quando Mistral tomou a decisão por mim. Ele me empurrou longe da parede me agarrando pelo cabelo, tão fortemente que tropecei. Estabilizou-me com a outra mão em meu braço, como se ele não tivesse desejado ser assim tão rude. Me pôs sobre meus joelhos, e liberou meu cabelo de seu agarre. Isto me fez cair engatinhando.


— Sobre suas costas, — disse, sua voz rouca, e seguida pelo eco de um trovão entre as pedras das paredes, — quero-te sobre suas costas.

Comecei a me girar, mas não fui o suficientemente rápida para ele. Suas mãos encontraram meus quadris e me pôs em cima do chão de pedra. Pôs suas mãos debaixo de minhas nádegas e me empurrou para diante, meus joelhos encurvados, com apenas minha jaqueta que cobria minhas costas tocando o chão.

Relâmpagos cintilavam em seus olhos tão brilhantemente que piscavam ao redor de nós como brilhos de luz. Meus olhos se deslumbraram, e quando pude ver claramente outra vez, Mistral estava empurrando contra a entrada de meu corpo. Sua pele, seu cabelo, tudo era branco com luz e poder. A única cor que ficou nele era a cor do céu de tormenta de seus olhos entre as chamas dos relâmpagos.

Ele se empurrou dentro de mim, usando suas mãos para sustentar meu corpo aí onde ele queria. Senti-lo entrando em meu corpo fez que meus olhos se fechassem, meus lábios se separassem, e me fez elevar meus quadris para me encontrar com seu corpo.

Mistral se estremeceu dentro de mim, e quando abri os olhos, ainda tinha a metade de sua longitude fora de mim. Seus dedos se apertavam dolorosamente em meu corpo. Me mantendo imóvel com apenas suas mãos em meu traseiro.

— Não me ajude, — disse com uma voz que quase se perdia no rugido do trovão, — se me ajudar, não vou durar, e quero durar. Quero isto, — e ele afundou seus dedos o suficientemente forte para me fazer gritar, — quero durar.

Assenti porque não confiava em minha voz.

Ele tratou de introduzir-se dentro de mim em um último movimento, mas não tinha suficiente espaço. Teria que lutar por isso, empurrando dura e profundamente com seus quadris para conseguir que entrasse toda sua longitude. Parecia que enchia cada parte minha, como se não pudesse albergar nenhum outro pedaço dele. Ele quase se saiu de tudo, então voltou a empurrar devagar, duramente, dentro de mim. Senti-lo me enchendo era muito. Fez-me gritar, me arquear, antes que me fizesse me abrir o suficiente para ele, para fazer o que realmente queria.

Pensei que isto o teria feito gozar, mas quando meu prazer passou, ele ainda estava duro e firme entre minhas pernas. Mas o orgasmo tinha feito uma coisa, estava mais aberta. Ele finalmente tinha suficiente espaço para realmente arremeter, e sabia o que fazer com esse espaço.

Me deixou deslizar no chão, mas manteve minhas pernas levantadas, os joelhos dobrados, e se sustentou acima com seus braços, as mãos estavam a cada um de meus lados. Observei-o entrar e sair de meu corpo, enquanto os brilhos de nossos poderes brilhavam mais e mais. Eu sempre havia descrito meu brilho como a luz de lua, mas esta vez era mais como o brilho do sol. Meu cabelo e meus olhos refletiam ao redor de nós como ardente sangue, esmeraldas e ouro com uma luz tão brilhante que pareciam desvanecer-se dentro da própria luz. Mistral encontrou seu ritmo e este era duro, rápido e profundo. Ele o fez como se pudesse fazê-lo durante toda a noite. Cheirei ozônio. O pêlo de meu corpo se levantou, e o ar vibrou apertadamente a nosso redor. Senti o calor aumentando gradualmente entre minhas pernas, e só assim rodou sobre mim, através de meu corpo, e se introduziu uma última vez em mim. Soube nesse instante que ele tinha sido gentil antes, porque esta vez sua penetração foi tão profunda que me elevou do estou acostumado a gritando. Afundei minhas unhas em seus braços, metade de prazer, e metade de dor.

Os relâmpagos rangeram sobre o corredor em ambas as direções. Não vinham exatamente do corpo do Mistral, mas vinham de seu brilho. Seu corpo se estremeceu dentro do meu, e o trovão golpeou contra as pedras como se a força de tudo isto pudesse atirar as paredes ao redor de nós. E não me importava. Estava apanhada sob a força e o poder de seu corpo, cegada, ensurdecida, pela explosão de sua magia. Meu corpo se converteu em luz, converteu-se em magia, converteu-se em prazer. Esqueci-me de que havia uma pele me sustentando, ossos para me mover. Eu simplesmente era prazer. Quando estive dentro de meu corpo outra vez, o peso do Mistral se paralisou sobre o meu. Ainda estava em meu interior, mas não tão duro ou sólido. Tinha posto seus grandes ombros para um lado, para que não me sufocasse sob seu volumoso corpo. Podia sentir seus batimentos do coração ressonando através de seu corpo enquanto ele lutava para retomar o fôlego. Seu cabelo era de seu usual tom cinza e sua pele voltou para sua ligeira e normal palidez, não uma palidez absolutamente branca como a minha. Pude ver que a armadura sobre um de seus braços estava rota, e se via sangue através dela. Tratei de levantar minha mão para tocar o dano, mas não podia obter que meu corpo se movesse ainda.

Um movimento no corredor detrás de nós me fez girar meu olhar para onde estavam Doyle e os outros. Doyle estava inclinado a um lado da parede aturdido.

A maioria dos outros estavam caídos no chão, alguns imóveis. Frost estava engatinhando, quando o olhei, sacudindo sua cabeça para esclarecer seus sentidos.

Rhys chegou pela esquina com o Kitto atrás. Ele trazia sua pistola, pensando obviamente que tinha havido um ataque. Não pude culpá- lo.

— Sexo, — disse Doyle com voz rouca, — sexo e magia, — ele esclareceu sua garganta e tentou de novo, — a Deusa e o Consorte benzeram a todos.

— Merda... — disse Rhys —...e nós perdemos isso.

A voz do Galen chegou pesada e espessa. Pôs-se de costas, e a frente de suas calças tinha uma mancha escura.

— Foi uma tipo de dor. Eu não gosto do sexo assim rude.

Ouvi gemidos ao outro lado do corredor, e pude girar minha cabeça agora. Os homens do Mistral estavam todos caídos sobre suas costas. Alguns lutavam por sentar-se. Adair tratou de ficar em pé apoiando- se contra a parede, e caiu novamente com um som metálico.

Havia marcas negras de queimaduras na frente de sua armadura.

— A Deusa nos salve. — Disse a voz de alguém rouca pelo prazer.

— Ela o fez. — Mistral se moveu lentamente para poder levantar suficiente e olhar para baixo, para mim. Sorriu-me, e seus olhos eram do azul da primavera como pequenas e esponjosas nuvens.

Hawthorne se sentou sobre sua verde túnica, apoiando suas costas contra a parede. Ele também tinha uma marca negra de queimaduras em seu peito.

— A próxima vez que planeje chamar os relâmpagos, adverte a aqueles que usamos metal. Mãe de deus, isso dói.

— E se sente bem. — Disse outra voz.

Hawthorne tirou seu capacete, mostrando seu pálido rosto, e seu escuro cabelo verde que estava escondido sob ele. Ele assentiu.

— E se sente bem. — Ele me olhou, e só por um momento na tripla cor de seus olhos, rosas, verdes e vermelhos, vi uma árvore. Uma árvore em uma colina, e essa árvore era branca com flores. Ele pestanejou e era novamente só a cor de sua íris.

Recordei a visão e como os relâmpagos tinham limpo a morte da árvore. Tínhamos limpo a velha madeira aqui? Tínhamos lhes dado algo mais que prazer e dor? O tempo o diria. Por agora, tínhamos um duplo homicídio que resolver. A polícia devia estar a caminho, e ainda não tínhamos começado com a questão das testemunhas.

Elevei uma pequena oração à Deusa, seria possível tentar suprimir um pouco as revelações mágicas até depois de resolver os assassinatos, ou ao menos até conseguir estar apresentáveis para a polícia? Não obtive resposta, nem sequer o pulso que me deixava saber que ela estava me escutando, o que tomei por um não. Não era que eu não entendesse que trazer a magia de volta às fadas não fosse importante, possivelmente mais importante que resolver os assassinatos. Mas não queria que a polícia humana nos encontrasse pulverizados pelo corredor como em uma orgia que tinha ido terrivelmente mal.

Alguém se moveu ao longe pelo final do corredor. A pessoa que estava de pé era uma mulher, decididamente uma mulher ainda sob a armadura. Ela tirou o capacete e aspirou uma baforada de ar. Seu cabelo encaracolado e negro estava muito curto, a diferença da última vez que a vi, mas o rosto era ainda de Biddy. Era uma das guardas do Cel, metade humana e metade sidhe escura, embora acreditava que nunca tinha sido fã do Cel.

Ela pertenceu uma vez a guarda de meu pai, e quando Cel coagiu a muitos dos guardas de meu pai, ela ficou apanhada na mudança. O que estava fazendo aqui?

Uma sombra se formou sobre seu rosto e flutuou sob a prata de sua armadura. A sombra tinha uma figura, uma pequena figura. Um bebê como um escuro fantasma posto frente a ela.

O anel em meu dedo esteve repentinamente quente contra minha mão, como se alguém tivesse respirado sobre o metal.

Olhei para o final do corredor, ainda apanhada sob o corpo do Mistral. Biddy se sentou na esquina do vestíbulo que dava ao corredor para a cozinha. Não deveria ser capaz de vê-la com tanta claridade desde esse ângulo. Mas embora ela estava fora de minha vista parecia como se estivesse delineada de uma forma mais real que o resto das figuras no corredor.

Mistral sussurrou sobre mim.

— Viu isso?

— Eu ia te perguntar o mesmo. — Sussurrei eu também.

— Uma menina. — Disse.

— Um bebê. — Disse-lhe.

— Vai até ela rápido, antes de que a visão desapareça. Em algum lugar neste corredor está seu pai. O pai dessa sombra de menino.

— O que é isso em frente de Biddy? — Perguntou Galen. Ele elevou suas sobrancelhas.

Mistral elevou as suas para mim.

— Vai com ela, Meredith, antes de que a magia do anel desapareça.— Se colocou de pé com suas calças ainda baixadas. — te apresse.

O tom de sua voz me fez caminhar pelo corredor, cambaleando sobre meus pés, sobre meus altos saltos. O sexo tinha sido muito bom para poder me estabilizar sobre minhas pernas. Estremeci-me e tive que me apoiar contra a parede. Umas mãos me sustentaram e olhei para baixo para me encontrar com as mãos do Hawthorne em meus quadris.

— Está bem, princesa? Assenti.

— Sim.

Olhei abaixo pelo corredor à sólida sombra frente a Biddy. Senti como se esse fantasma de menino me estivesse sussurrando. Me sussurrando ?estou aqui. Outras mãos me tocaram quando cambaleei e quase caí. As mãos de outros que podiam ver a sombra do menino. As mãos pareciam me empurrar e me apressar por muito que me agarrassem. O anel era como um peso quente em minha mão, uma pesada pressão. A pressão da construção de um feitiço, a construção de uma grande conclusão. Tinha que tocar a Biddy antes de que o feitiço se desvanecesse. Não estava segura de como sabia isto, mas estava absolutamente convencida de que o anel precisava estar contra sua pele antes de que o feitiço terminasse.

Algo se perderia se eu falhava.

Biddy se cambaleou sobre seus pés, acredito que seus triplo—verdes olhos estavam desfocados, e ela se recostava pesadamente contra a parede. Descobri que minhas pernas podiam se mover com a pressão que crescia no anel, como se fosse uma coisa viva e quente contra minha pele. Eu estava correndo e os olhos de Biddy eram enormes e temerosos. Ela não podia ver o feitiço, mas sabia que algo estava errado.

Alcancei sua mão, e ela automaticamente levantou sua mão para mim. Sua mão envolveu a minha justo quando o feitiço se desvanecia. Foi como se o mundo contivesse o fôlego, como se o tempo e a magia se detivessem, e existiu um momento no que Biddy e eu estivemos fora de tudo isto. Não havia som, nem sequer o pulsar de meu próprio pulso. Ela se girou para mim, seus olhos enormes de temor, ou algo que não pude sentir. O feitiço não era para mim. Eu era meramente o veículo dele. Não tinha idéia do que estava acontecendo a Biddy. Sabia que não a tinha ferido, e que isto era bom, mas o que ela escutou nesse momento devia ser só para seus ouvidos. A Deusa falou com ela, e eu sustentei sua mão, deixando que a magia tomasse enquanto permanecia em silêncio, porque eu simplesmente não precisava saber.

O som retornou com um audível POP. A mudança de pressão foi o suficientemente real como para que nos cambaleássemos quando a magia nos soltou. Nossas mãos se convulsionaram ao redor das da outra como se o toque da carne fosse o único que nos salvasse da queda. Seus olhos estavam enormes, sua pele pálida pelo choque. Biddy era alta, com largos ombros, e levava o resto de sua armadura. Suas luvas e seu casco, e outras peças estavam pulverizados ao redor dela, como se tivesse começado a despojar-se dela muito tempo antes que eu a alcançasse. Estava vestida com pedaços de sua armadura e o cheio que quase todos os sidhe usam baixo essas coisas. Seu curto cabelo estava desordenado pelo capacete e a magia que a tinha empurrado contra a parede. Ainda assim se via adorável, nada podia lhe tirar isso, mas me parecia que se via melhor. Ainda assim, depois de ver a forma em que os homens no corredor a olhavam, a gente pensaria que nenhuma mulher tinha sido nunca tão desejável como era Biddy nesse momento.

Seus rostos tinham uma suave expressão maravilhada, como se vissem algo que eu não via. Alguma visão de uma amante feminina ideal que os deixou emudecidos e imóveis, literalmente aturdidos pelo que eles viam ou sentiam. A magia não era para mim porque se eu estivesse embriagada pela Biddy como eles aparentemente estavam, não teria podido olhar com o passar do corredor até escolher ao homem correto.

Por um momento pensei que era Doyle, e o pensamento estrangulou meu coração apertadamente, mas isto foi simplesmente porque seu rosto não tinha o olhar extasiado do resto. De fato, tal como observei, seu rosto se via suspicaz, como se tratasse de decidir o que era o que estava vendo, ou cheirando na essência do vento. Frost estava imóvel contra a parede, mas seu rosto tampouco continha o assombro. Via-se furioso, áspero; sua expressão usual. O rosto do Galen estava perdido como o do resto dos homens. Me dei conta de que também Mistral estava vendo o mesmo que eu estava vendo, porque começou a descer pelo corredor diante de meu olhar, como se visse coisas também. Eu usava o anel, mas ele tinha sido parte da magia já que ele o devolveu à vida.

Ele se deteve frente a Doyle e Frost, e olhou para trás, para mim, como se quisesse estar seguro de que eu os via. Não estava segura de por que isto era importante para ele, mas assentiu como se estivesse satisfeito quando me viu observando-os.

Rhys estava ao final do corredor. Seu rosto estava triste, mas não encantado. Eu observei a cada um dos outros homens com esse hiper olhar enfocado que tinha visto mais cedo em Biddy. A magia estava procurando algo.

Kitto se desabou aos pés do Rhys como se tivesse sido derrubado pela magia, mas seu olhar tinha o mesmo assombro que tinham os outros homens. Pensei que estava procurando a alguém que não estivesse afetado, mas aí foi quando Mistral me mostrou que estava procurando o homem que estivesse mais afetado, não ao que menos.

Mistral se deteve ante as asas coloridas e brilhantes de Nicca. Tendeu sua mão frente ao homem ajoelhado. Nicca tomou sua mão, mas seu rosto, agora que eu podia vê-lo, parecia cegado frente a Mistral, quão único Nicca via era a Biddy.

Seu rosto nunca se viu mais formoso do que se via nesse momento, uma delicada, quase feminina beleza que usualmente se perdia entre seus largos ombros e seu metro oitenta de puro guerreiro. Dormindo ele podia parecer tão suave e gentil como realmente era, mas acordado sempre parecia ser mais rude.

Mistral o ajudou a ficar de pé, e Nicca foi repentinamente ele mesmo, acordado e em movimento, com a tranqüila força de seu largo peito, e as enormes asas como uma capa de brilhante cor em toda sua gentil beleza.

Admito que, por um momento ou dois, senti-me triste. Triste porque ia perdê-lo, porque ele não estaria nunca mais em minha cama. Mas esse impulso egoísta foi varrido por um sentimento de tal calor, tal paz, que não pude me entristecer, não realmente. O que vi em seu rosto quando Mistral o deixou perto de nós era o que eu sentia na cama com ele. Ele era muito gentil para meu gosto, e muitíssimo mais para o da rainha. Quão único ele tivesse feito bem como rei seria morrer.

Olhei o rosto de Biddy, e vi em seus olhos o que tinha visto nos de Nicca. Cada um deles via todo seu mundo nos olhos do outro, e era um mundo bom, seguro e formoso.

Nós quatro estávamos no final do corredor, as mulheres em um lado, os homens no outro. Esperava que Biddy ou Nicca se alcançassem um ao outro, mas estavam imóveis. Mistral e eu pusemos suas mãos juntas. A sombra do menino que tinha visto antes estava de volta, mas não era um fantasma agora. Vi um pequeno rosto sorridente com os quentes olhos cafés da Nicca e os cachos negros do Biddy. Vi seu filho rir e ser real, como se pudesse tocar a redonda curva do rosto do bebê. Pressionei minha mão, e a calidez do anel entrou em suas peles, e a mão maior do Mistral cobriu a minha. Unimos suas mãos com magia, e as lágrimas que eu derramei. Vi seu filho, e sabia que ele era real, e que tudo o que teríamos que fazer para que a visão se fizesse realidade era deixá-los estar juntos.

Era como se Mistral tivesse lido minha mente.

— Se a rainha permitir.

Eu elevei meu olhar para ele quando afastamos nossas mãos para deixar que Nicca e Biddy se abraçassem pela primeira vez. Eles se beijaram, um encontro de corpos e mãos, e se separaram do primeiro beijo com risadas.

Olhei para Mistral com as lágrimas ainda molhadas em minhas bochechas.

— O anel está vivo outra vez. Era o que ela desejava. A vida está retornando a Corte.

Ele sacudiu sua cabeça, e se via triste.

— Ela deseja que sua linha de sangue governe a Corte mais do que deseja que a Corte prospere. Se isto não fosse verdade ela teria feito uma escolha diferente faz séculos.

A voz profunda do Doyle chegou até mim enquanto caminhava para nós.

— Mistral tem razão. Eu olhei a ambos.

— Ela exigirá que Nicca permaneça em minha cama até que eu esteja grávida?

Eles cruzaram seus olhares, e ambos assentiram. Sua expressão solene era muito boa para minha tranqüilidade.

— Até o último momento. — Disse Mistral.

Olhei a Nicca e a Biddy, que obviamente não se inteiravam de nada. Tocavam-se um ao outro como se nunca tivessem visto outro homem ou mulher antes, com um ligeiro assombro, como se não pudessem acreditar que podia tocar-se a outra pessoa desse modo.

Suspirei, e foi como se o vento viajasse sobre o corredor, foi também muito frágil. Percebi que tanto o anel, como o cálice, podiam ter escolhido reviver, ou escolhido desvanecer-se. Podiam ter decidido que não merecíamos esta magia nunca mais. Se a rainha Andais não permitia que Biddy e Nicca estivessem juntos, a magia era capaz de desvanecer-se outra vez, desta vez para sempre. Ou deixar morrer como povo, porque os deuses nos tinham dado tantas segundas oportunidades anteriormente que procurariam outro povo para benzer. Tínhamos uma última oportunidade e eu não queria que Andais afastasse o cálice.

Falei em voz alta sem me dar conta.

— Se tivesse sabido que estaríamos envoltos tão profundamente em maravilhas metafísicas, não teria chamado à polícia. — Sacudi minha cabeça, e tratei de pensar uma forma de rodear a obsessão da rainha com sua linha de sangue e a minha. Não me ocorreu nada.

— Tenho uma idéia, — disse Rhys, — mas não estou seguro de que você goste.

— Bom, Rhys, com um começo como esse, como me posso resistir? Nos diga sua idéia.

— Se disser à rainha que você quer a ambos, a Nicca e a Biddy em sua cama ao mesmo tempo, ela provavelmente o permita.

— Sim, — disse Doyle, — poderia. Ela mesma tem feito isto freqüentemente. — Ele girou seus solenes olhos para mim. — Isto a faria pensar melhor de ti.

Franzi o cenho.

— Melhor de mim, em que sentido?

— Mais como ela, — disse, — ela procura em ti sinais de si mesma. Sinais de que você é realmente sangue de seu sangue.

Frost estava assentindo.

— Eu não gosto, mas isto poderia diverti-la. Pode funcionar.

— Se Biddy consentir. — eu disse, olhando ao feliz casal.

— Para estarem juntos depois de que o anel a tenha escolhido, — disse Mistral, — faria qualquer coisa. Qualquer coisa para estar com seu verdadeiro amor.

A tristeza em seus olhos era algo visível, tangível. Não tinha que lhe perguntar para saber que uma vez o anel tinha encontrado seu verdadeiro amor, e de alguma forma ele o tinha perdido.

— De acordo então, — eu disse, — está decidido.

Frost tocou meu ombro, logo retirou suas mãos como se não estivesse seguro ao fazê-lo. Eu tomei suas mãos nas minhas, as atraindo para mim. Ele me obsequiou com um pequeno sorriso.

— Sei que você não gosta das mulheres. Está bem que tome a Biddy em sua cama noite após noite até que eles tenham a seu filho. Eu apertei suas mãos.

— Uma vez que eles estejam juntos, terão seu filho. Tenho essa certeza. Inclusive a rainha não pode separá-los se eles estão esperando um filho.

— Andais sabe que não é amante de mulheres. — Disse Doyle. — Ela pode insistir em observar.

Eu suspirei e me encolhi de ombros.

— Que assim seja.

Doyle e Frost me lançaram um olhar.

— Meredith, — disse Frost, — realmente vais fazer parte de sua diversão.

— Quero-os juntos, Frost, e se tiver que incluir a mim mesma em primeiro lugar, e deixar que a rainha observe, que assim seja.

— Quando fará seu pedido à rainha? — Perguntou Doyle.

— Depois de que tenhamos interrogado às testemunhas, e consigamos que a polícia esteja a salvo dentro do sithen. E só se ela puser objeções para que eles sejam casal. — Alisei minha ] saia para baixo. Ia necessitar roupa interior. A polícia tende a faltar a sua autoridade se os deixa vislumbrar esse tipo de coisas.

— Acredito que a maioria de nós precisa trocar-se de roupa. — Disse Doyle.

Não pude evitar e olhei para sua virilha. Era difícil dizer com a tênue luz do vestíbulo se ele precisava trocar de roupa.

Ele riu, masculinamente, entre dentes.

— O negro é uma maravilhosa de cor.

Frost sacudiu sua jaqueta cinza abrindo-a o suficiente só para mostrar uma mancha.

— O cinza não é.

Eu os olhei.

— Estão dizendo que a magia fez vocês gozarem todos no corredor?

— Todos os que estavam aqui, — disse Rhys, — outros perderam a diversão por um momento.

Houve outras vozes que se levantaram e desceram pelo corredor, agradecendo ou criticando a gama de cores que eles tinham escolhido vestir.

— Não podemos ir trocar de roupa todos ao mesmo tempo. — Disse Doyle. — Algum de nós deve ficar aqui e trabalhar. A polícia humana está a caminho, e isto levaria muito de nosso tempo.

Eu não usava relógio; ninguém o fazia, porque os relógios, as horas e o tempo eram conceitos diferentes para as fadas. De forma que medir o passar do tempo para nós era inútil. Como ia ou seja qualquer onde estaria e quando? Eles se aproximavam, e nós perdíamos um montão de tempo para estar elegantemente vestidos.

— Bem, dividam-se todos entre os que precisam trocar de roupa e os que não, e alguém poderia me conseguir roupa interior limpa?

Mistral levantou minhas calcinhas.

— Não acredito que estas sejam muito úteis. Sinto as ter rasgado. — Ofereceu-me isso.

— Eu não o sinto. — eu disse e pressionei suas mãos outra vez sobre a seda.

Um olhar encantado passou sobre seus olhos, substituindo a tristeza. Suas mãos se apertaram sobre o pedaço de seda. Dava-me conta de que encontrou tempo em meio de toda a animação para ficar de novo as calças.

— Posso ficar com elas como um sinal do favor de minha dama? Eu assenti.

— Pode.

Ele elevou suas mãos até seu rosto em uma antiga saudação, mas o olhar em seus olhos me deu calafrios. Girou-se com um sorriso para pôr a seus homens de pé e lhes atribuir tarefas.

Frost se girou afastando-se. Agarrei seu braço.

— O que está errado?

— Nada, vou me trocar.

Mas ele não me olhava. Frost tinha tendência a zangar-se. Se tivesse tido mais tempo lhe teria feito mais pergunta. Mas os humanos vinham, e andávamos escassos de tempo. Prometi a mim mesma que se ele seguia de mau humor averiguaria o que estava errado. Esperava que fosse um momentâneo mau humor e nada mais.

Doyle disse:

— Deixa-o ir, necessitará um pouco de tempo para acostumar-se. Eu o olhei.

— Acostumar-se a quê?

Doyle me dedicou um sorriso que era mais triste que feliz.

— Mais tarde, se ainda precisar perguntar, lhe explicarei isso, mas agora temos muito pouco tempo para a questão das testemunhas. Você chamou à polícia dentro do sithen, princesa, e devemos nos preparar.

Ele tinha razão, mas eu queria saber o que tinha perdido. Isto não poderia ser só sobre o sexo com o Mistral, todos eles me tinham visto ter sexo com outros. Mas se não era isso, então o quê? Sacudi a cabeça, alisando minha curta saia, e o afastei de minha mente. Tínhamos um crime que resolver se a Deusa nos dava suficiente tempo livre para fazê-lo. Parecia que não podia controlar a selvagem magia que estava retornando a nós, mas ao menos podia pretender controlar a investigação de um assassinato. Pensei que o apertado nó de meu estômago me dizia que não tinha tampouco muito controle sobre isso.


CAPÍTULO 9


ALGUNS DOS HOMENS FORAM SE TROCAR. OS OUTROS foram esperar à polícia à porta do sithen, porque nunca encontrariam sozinhos o caminho. A porta se abria sozinha, e não estava acostumada a fazer isso para os forasteiros. Só a magia poderia sustentar a porta aberta para que passasse um mortal e nunca antes a gente tinha transpassado sua soleira. Quando nos dividimos em grupos, percebemos que faltava alguém. Onilwyn não se encontrava no vestíbulo. Não tinha ido com o Rhys, portanto não havia tornado com ele. Simplesmente tinha partido. Tinha sido um guarda do Cel durante séculos. Eu não gostava que lhe tivesse sentido falta justo depois de que tivesse tido lugar um incidente mágico tão importante. Me fazia pensar que tinha ido contar a seu verdadeiro amo, ou a qualquer que pudesse levar o conto ao Cel em sua cela da prisão. Enfiamos o caminho entre os dois corpos que ainda esperavam à polícia. Quando estávamos perto da grande porta da cozinha, ouvimos gritos e latidos. O sotaque de Maggie Mai era grave, porque estava bastante zangada.

— É um homem árvore, isso é o que é Sai de minha cozinha! — Seus pequenos terriers ladravam fazendo sua própria versão dos gritos que proferia sua proprietária.

— Isso é o que pretendo. — escutou-se gritar a um homem. Chegamos à porta a tempo de ver como uma frigideira de ferro fundido, do tamanho de um pequeno escudo, estrelava-se contra Onilwyn. Isto me assombrou, e outros potes e panelas levavam o mesmo caminho. As panelas de cobre e aço inoxidável refulgiam com um resplendor gentil quando golpeavam seu corpo, mas eram as grandes e negras frigideiras de ferro fundido, em vários tamanhos, as que mais lhe açoitavam. O ferro frio foi usado contra os duendes durante muito tempo. Um sidhe pode governar aos duendes, mas o ferro ainda nos dói.

Maggie Mai estava de pé em sua cozinha, rodeada por uma tormenta de potes, panelas, conchas de sopa, colheres, garfos e facas, como uma má tormenta de neve metálica, com sua pequena figura marrom como centro de mesa. As conchas de sopa se uniram ao ataque, junto com os potes e as panelas. Onilwyn estava agora atirado no chão, utilizando seus braços como amparo. Três terriers duendes se lançaram a lhe morder. O mais rechonchudo tinha afundado os dentes por cima de sua bota e estava tentando sacudi-lo até a morte.

Sua espada estava no chão, ao lado da grande e negra estufa. Se for atacar a um brownie, nunca o faça sobre o chão de sua casa.

— Ela se converteu em um bogart. — Disse Galen entre o estrépito dos metais.

Olhei mais fixamente sua cara. Todos os brownies têm as feições parecidas com um crânio, porque não têm nariz, somente as janelas do nariz. Mas se suas caras se parecem vagamente a um crânio sorridente, é que se converteram em um mau—bogart. Os brownies podem debulhar um campo de trigo em um só dia ou construir um celeiro da noite para o dia. Pensei no grande poder movendo-se destrutivamente, insanamente destrutivo. A gente ainda conta historia sobre uma zona do país, na fronteira com a Escócia, onde um Laird violou e assassinou a uma moça da localidade. Ele não tinha compreendido que sua família tinha sido adotada e protegida por um brownie. O Laird e toda sua casa foram cortados em pedacinhos. Maggie Mai não era exatamente um bogart, mas trabalhava duramente para conseguir ser.

— Não, — disse Doyle, — não é um bogart, ao menos não ainda, mas devemos encontrar um modo de distrai-la antes de que as facas se unam à batalha.

— É uma vergonha. — Disse Rhys.

Estive de acordo, mas o bogart verdadeiro era uma parte dos sluagh, um mau anfitrião, não da verdadeira Corte das Fadas. Maggie merecia algo melhor, não importavam meus sentimentos por Onilwyn. Rhys gritou:

— Maggie Mai, sou Rhys! Recorda, enviou por mim!

As colheres correram a unir-se as conchas de sopa, ficando só os pesados garfos de ferro, o bastante grandes para dar a volta a uma vitela, e as facas. Ficávamos sem tempo.

Eu disse a única coisa que pude pensar que poderia escutar e que a surpreenderia.

– Tia Maggie, o que aconteceu para que te transtornasse assim?

Os potes começaram a reduzir sua velocidade, como um redemoinho de pesados flocos de neve que caíam ao chão brandamente, como conseqüência de um aprazível vento. Aquele vento os pôs em ordenadas filas sobre a pesada mesa de madeira.

— O que disse? — Perguntou com voz enrouquecida pela suspicácia.

— Disse, tia Maggie, o que aconteceu para que te transtornasse assim?

Ela me olhou com o cenho franzido.

— Não sou sua tia Maggie, moça.

— É a irmã de minha bisavó, por parte de minha mãe. Isto te faz ser minha tia avó Maggie.

Ela ainda me olhava tristemente, mas afirmou com a cabeça, e disse:

— Sim, é certo. Mas você é uma princesa sidhe, independentemente de que seu sangue provenha de um lugar ou de outro. Senhora sidhe, tenho que reconhecer isso.

— Por que não? — Perguntei.

Ela esfregou seus dedos peludos através de sua cara sem nariz e franziu o cenho mais profundamente — Princesa Meredith, tem que ser mais cuidadosa e fixar-se diante de quem fala. — Olhou ao Onilwyn, que se estava pondo de pé, com muita dor. Tinha sangue sobre sua pálida pele.

— Sim, é uma criatura do Cel, mas ele já conhece minha linhagem.

— Os sidhe conhecem tudo o que desejam sobre o sangue que circula por suas veias.

Quando se acalmou, seu sotaque começou a desaparecer. Sua voz era culta e do meio Oeste, sem assemelhar-se a nada que lhe pudesse comparar. Tinha cultivado seu sotaque falando por telefone com outros criadores de terrier duendes do país e do mundo. Não podia conseguir que o Clube Canino Americano aprovasse uma nova classe de terrier se ninguém entendia o que lhes dizia.

— Negar minha herança não mudará o que sou. — eu disse. — Não me fará um centímetro mais alta ou que me pareça mais a um sidhe.

— Pode ser, — disse Maggie, alisando com as mãos seu uniforme, — mas não é o sangue de um duende bondoso que a porá sobre o trono.

Alcancei a grande frigideira de ferro fundido que estava sobre a mesa. Pus minha mão ao redor de sua fria manga metálica. Estava inerte sob minha mão, só era metal para mim. Levantei a pesada frigideira, trocando minha sujeição até que a tive bem equilibrada.

— Mas é o sangue de um bondoso duende que me ajuda a fazer isto.

Seus olhos se contraíram ao me olhar.

— Sim, ou a humana.

— Ou a humana. — Estive de acordo.

Onilwyn se balançou e se derrubou sobre seus joelhos. Se houvesse sido humano, provavelmente estaria morto.

— Por que lhe atacastes seus cães e você? — Perguntei.

Dois de seus terriers tinham voltado para seus pés, mas o cão mais rechonchudo ainda grunhia ao Onilwyn. Compreendi que o cão não era gordo, sim que era fêmea e estava grávida. A fêmea estava tão cheia de cachorrinhos, que caminhava como um pato, quando finalmente atendeu à chamada do Maggie.

— Dulcie se aproximou para cheirar seu pé. — Disse Maggie. — Só

lhe grunhiu um pouco. Não ia morder lhe.

Suas fortes mas magras mãos, fecharam-se em dois punhos. Pareceu controlar-se com esforço.

— Ele começou a lhe dar chutes em sua barriga cheia de cachorrinhos. Deu chutes no meu cão.

Minha primeira lembrança era o de estar em um pequeno e escuro armário com cachorrinhos que se retorciam. Sendo somente um cachorrinho quão único meu colo podia sustentar. Um grande cão se recortava através da magra linha de luz que passava através das cortinas que cobriam nosso esconderijo. A sedosa pele dos cachorrinhos terrier duendes e daquele vigilante cão, permaneciam em minha memória como uma lembrança vívida. Meu pai me disse uma vez, que devia ter por volta de dezoito meses, não o recordava bem. Meu pai e Barinthus tinham sido enviados longe e meu pai me tinha deixado com o Maggie Mai. O mordomo da rainha tinha vindo reiteradamente a inspecionar a comida para o jantar daquela noite. Se a rainha tivesse descoberto que meu pai me ocultou nas cozinhas, este teria deixado de ser meu refúgio.

Tinha me escondido com os cachorrinhos e sua mãe, dentro do armário, como fazia freqüentemente. Maggie me disse uma vez, que ainda então, eu era muito boa com eles. Quando o mordomo veio, simplesmente fechou as cortinas, nos ocultando tanto a mim como aos cachorrinhos. O mordomo não acreditou que só tivesse oculto aos cachorrinhos e tentou jogar uma olhada e a mãe dos cachorrinhos lhe mordeu. Ela me protegia tanto como a seus cachorrinhos.

Desde esse dia o aroma e a presença dos terriers me eram consoladores. Não sei o que teria feito ou dito ao Onilwyn sobre seu comportamento, porque ele mesmo o decidiu por mim.

De repente, Rhys e Galen gritaram de uma vez:

— Não faça isso!


Senti o Doyle e os outros movendo-se, mas eu estava ao lado do Onilwyn, que estava de joelhos, quando levantou sua mão para chamar a sua magia, assinalando a Maggie Mai.

Não pensei, somente reagi. Minha mão ainda sustentava a manga da frigideira de ferro. Golpeei-o totalmente na cara com toda a força que tinha no braço. Não sou tão forte como um sidhe puro-sangue, ou como um duende, mas posso perfurar com minha força a porta de um carro e não me fazer mal. Fiz-o uma vez para desalentar a um suposto assaltante.

O sangue voou ao redor da frigideira, um rocio escarlate surpreendentemente luminoso. Onilwyn se derrubou de lado, gemendo brandamente. Seu nariz parecia um tomate esmagado e havia tanto sangue que era difícil ver se lhe tinha feito alguma outra ferida em sua cara.

Havia um grande silêncio na habitação. Acredito que surpreendi a todos, incluindo a mim mesma.

Rhys sacudiu a cabeça, agachando-se para o homem que jazia no chão.

— Realmente você não gosta dele, não é?

— Não. — eu disse e compreendi que o simples fato de pensar que Onilwyn me tocasse me parecia repulsivo. Ele tinha sido um de meus principais perseguidores quando era pequena. Ainda odiava ao Cel e a alguns de seus camaradas o suficiente como para não sentir nada mais que satisfação ante a completa ruína da cara do Onilwyn. Era uma pena que não fosse ficar marca.

O pequeno terrier ao que tinha dado chutes, lhe subiu em cima grunhindo. Cheirou seu sangue, logo espirrou bruscamente como se tivesse cheirado algo amargo. Deu-se a volta e pondo as patas no chão, lançou o sangue ao ar, em um gesto dominante, desafiante.

O cão retornou com sua proprietária e com os outros dois cães, assim, encontraram-se os três sentados sorrindo e com seus rabos balançando, aos pés do Maggie. Esta me sorria abertamente, expondo seus fortes dentes amarelos.

— Ah, ah, você é de minha família.

Afirmei com a cabeça e lhe dava a sangrenta frigideira.

— Sim, sim sou. — Sorri e ela riu, um grande rugido de risada. Abriu seus braços e me rodeou, me abraçando fortemente. Surpreendi-me durante um batimento de coração, mas então a abracei pelas costas igualmente firme. Aqui havia alguém que não estava me tocando para ganhar algo. Ela me abraçava porque queria, simplesmente porque queria. Um abraço sem nenhuma razão, somente porque era agradável, e ultimamente não conseguia muitos deles.


CAPÍTULO 10


ESCUTOU-SE ALGO RUIDOSO E RESSONANTE. OLHAMOS ao redor do quarto, mas não havia nada que tivesse podido provocar o som. Escutou-se outra vez. Era como se uma taça do mais fino cristal, golpeasse contra um metal, para conseguir soar tão alto, como um toque de campainha; um som que só o melhor cristal poderia conseguir.

Rhys desembainhou sua curta espada.

— Deixei Crystall como encarregado lá fora com a polícia. — Sujeitou a nua folha diante de sua cara. — Você chamou?

A cara do Crystall se refletiu débil e pálida sobre a folha.

— Estava inseguro sobre como proceder.

— O que está errado? — Perguntou Rhys.

— Acredito que necessitamos de alguém que esteja mais versado na polícia e a política modernas.

Rhys sacudiu sua cabeça negativamente.

— Não perguntei o que necessitamos. Perguntei o que está errado.

— Pelo que pude averiguar, estão discutindo sobre quem é o responsável.

— Responsável pelo quê?

— Por tudo. — Disse Crystall. — Não parecem ter uma hierarquia clara. Parece um jogo com muitos príncipes.

Rhys suspirou.

— Estarei aí assim que possa, Crystall.

— Sinto muito, Rhys, mas nenhum dos aqui pressente esteve muito tempo fora do reino das fadas.

— Está bem. Irei para lá. — Rhys embainhou a poda folha de sua espada, com um movimento de sua mão. Olhou ao Doyle. — Não pensei que necessitássemos a alguém mais perito em política, deveria ter contado com isso.

— Não peça perdão. — Disse Doyle. — Simplesmente arruma-o.

Rhys girou e se dirigiu para a porta. Andou diante de mim, mas algo que havia do outro lado da habitação atraiu minha atenção.

Vi algo sobre o ombro de Maggie Mai. Um movimento. A cortina de debaixo da pia, onde tinha me escondido quando era menina, tinha revoado. Havia algo detrás daquele trapo, algo maior que um pequeno cão.

A adrenalina se precipitou por minhas veias, tão brusca e rapidamente, que as gemas de meus dedos me formigaram por isso. Tinha acreditado é obvio que alguém tinha registrado a área procurando o assassino. Tinha suposto mal?

Rompi o abraço de Maggie Mai com um apertão, lutando para controlar minha cara e meu corpo. Quis advertir ao Doyle e a outros sem alertar a quem quer que se ocultasse.

Doyle estava simplesmente a meu lado, como se tivesse me delatado por alguma vacilação ou movimento. Abriu a boca, mas toquei seus lábios com meus dedos. Captou a indireta. Ficou calado ante mim e não perguntou qual era meu temor, não em voz alta. Com seus escuros olhos, perguntou: =O que está acontecendo?‘ Mas não em voz alta.

Joguei uma olhada, usando só meus olhos, detrás de mim. Tentei lhe indicar o lugar, mas não estive segura de que me entendesse. Doyle se ajoelhou ante a figura gemente do Onilwyn e disse:

— Por que saiu, Onilwyn? Por que veio sozinho procurar as testemunhas?

A única resposta foi um suave e borbulhante gemido.

Doyle se posicionou de tal maneira que podia ver toda a área da pia, enquanto perguntava ao homem cansado.

Lutei para não olhar detrás de mim. Doyle se apoiou perto do Onilwyn.

— Está me dizendo que uma brownie e uma princesa metade sidhe e metade humana lhe golpearam assim porque você estava gemendo? Ele não fez nenhum sinal que eu pudesse ver, mas Galen chamou:

— Peasblossom, Mug, venham e falem conosco.

Rodeou a mesa e por um momento pensei que os dois pequenos duendezinhos eram o únicos que se ocultaram sob a pia e que eu era, simplesmente, muito suspicaz.

Dei a volta para olhar os armários abertos por cima da zona da pia. Mug, um duende de um azul pálido que havia trazido para o Rhys, e outra diminuta figura alada espionavam entre as taças de chá. Foi a voz do Mug, alta e gorgojeante, como se o canto dos pássaros falasse com voz humana, a que respondeu:

— Tememos que Maggie se esquecesse de nós com sua irritação, Galen, Cavalheiro Verde.

Estava agora perto delas, as olhando fixamente de acima.

— Então se esconderam entre as taças de chá.

— A não ser que ela tivesse sido uma autêntica bogart, não lhe tivesse atirado a boa porcelana. Não ela não!

Mug revoou para o ombro do Galen. Então recordei ao Mug, tinha sido o animal doméstico de um sidhe ou de alguém mais. Mas quando seu amo se cansou dela, enviaram-na à cozinha com Maggie, assim poderia ter uma vida honesta e não tinha que satisfazer os caprichos de um grande. Grande era um término insultante usado pelos pequenos duendes, para referir-se aos sidhe. Mug tinha chegado à cozinha aproximadamente na mesma época que abandonei o reino das fadas. A Peasblossom, entretanto já a conhecia.

Chamei-a.

— Peasblossom, não há necessidade de ocultar-se.

Frost se colocou ao lado contrário da pia de onde se encontrava Galen, que conversava longe dele, com a pequena fada azul sobre seu ombro. Ela tinha se abraçado a seu pescoço, com mãos tão delicadas como pálidas pétalas azuis, que acariciavam ao longo da nudez, até seu ouvido. Mug tinha ?algo especial para os homens sidhe. Nunca tinha perguntado, nem tinha querido especular, que prazer podia proporcionar ela e seus amos. Era menor que uma boneca Barbie e parecia muito delicada. Não necessitei efeitos visuais. Fui capaz de olhá-los e vigiar a cortina, sem olhá-la fixamente. Galen nos dava toda uma razão para olhar naquela direção.

Frost disse:

— Vêem, pequena, assim poderemos te fazer umas perguntas.

A diminuta cara se deslizou para trás entre a boa porcelana, como um camundongo que se esconde em seu buraco. Sua voz era como o suspirar do vento, como uma delicada brisa da primavera que esquentava a pele e nos fazia acreditar que as flores simplesmente se encontravam dormindo sob a neve. E não estavam mortas. Sua voz trouxe um sorriso a minha cara antes que me ocorresse pensar em seu encanto.

— Não recordo que sua voz fosse tão doce, Peasblossom. — Disse-lhe Galen.

— Estou assustada. — Respondeu-lhe, como se aquilo pudesse explicar.

Maggie Mai o explicou:

— Quando um semiduende está assustado, usam como defesa o que possuem.

— Seu encanto. — eu disse.

— Sim. — Disse. Olhava-nos com olhos entrecerrados. Sabia que ocorria algo.

— Vamos, pequena vêem. — Chamou-a Frost, e inclusive estendeu uma mão como se lhe oferecesse um cabo a um pássaro.

— Temo-te, Assassino Frost, como temo à Escuridão. — Disse a voz entre as taças.

— Teme a mim, Peasblossom? — Perguntei.

Ficou quieta um segundo ou dois, então respondeu:

— Não, não, não te temo.

— Então vêem comigo. — Disse-lhe, e estendi minha mão para lhe mostrar que preferia uma sujeição menos íntima para ela.

— Me protegerá da Escuridão e do Assassino Frost? — Perguntou. Lutei ante o impulso de rir. Para isso necessitei a suficiente concentração para rechaçar aquele agradável som. Seu contato o faria mais difícil ainda, mas a queria longe da zona da pia. Era uma civil, e se quem estivesse debaixo da pia lutava, não queria a nenhum civil na linha de fogo.

— Venha, Peasblossom, não lhes deixarei te fazer mal.

— Promete-me isso? Doyle a interrompeu:

— Ela não pode prometer nada, já que não sabemos se são inocentes.

— Inocente? — Disse, sua voz se elevou a causa do medo, o vento pareceu soar como uns sinos. — Inocente do que, Escuridão?

Ele ficou ajoelhado ao lado do Onilwyn, que não se levantou nem para incomodar, nem para responder às perguntas. Estava ferido ou fingia.

— Isto é só o primeiro passo para encontrar a um assassino, ou dois, que estejam fingindo não ter colocado dois corpos intencionadamente aqui.

Olhei-lhe com o cenho franzido. Não me impressionei que a tivesse assustado.

Lançou-me um rápido olhar para me tranqüilizar, como se não tivesse visto nada mau no que havia dito.

Peasblossom gemia aterrorizada e histérica. O imaginário vento já não era quente, voltou-se frio ante aquela geada e tormentosa ameaça.

As taças de chá se agitaram ante sua frenética tentativa de retirar-se ainda mais atrás no armário.

Tive que levantar minha voz para me assegurar de que ela pudesse me ouvir.

— Prometo-te que nem Frost nem Doyle lhe farão mal.

Doyle disse: — Merry! — como se eu lhe tivesse surpreendido.

As taças de chá se silenciaram, depois se escutou uma voz muito neutra...

— Promete-me isso?

— Sim. — eu disse. Não acreditei que ela fosse culpada de algo, mas no caso de, só tinha prometido que Frost e Doyle não a fariam mal. Mas se tinha feito algo que a implicasse, a promessa em nenhum modo evitava que meus outros guardas não a pudessem danificar e isso não me podia reprovar isso. Eu era o bastante sidhe e a bastante fada para advertir a diferença nela e não me sentir culpada. Cada fada das pequenas até as maiores conheciam o tipo de jogo ao que jogávamos. Perder significava que tinha sido descuidada. Sua própria e maldita falha. Moveu-se ao redor da taça de porcelana e se aproximou do bordo da estante. Era uma estranha semi-fada, que tinha a pele como os humanos. Seu cabelo era marrom escuro, caindo em ondas ao redor de sua cara. Só as delicadas linhas das antenas arruinavam a aparência de uma boneca perfeita. Isso e as asas que movia de um lado a outro em suas costas.

Seu vestido se parecia com ela, estava formado por folhas marrons e púrpuras, embora quando desceu da estante ?as folhas se moveram como o tecido. Ela voou para mim, e uma olhada para o Doyle me fez me mover mais longe da mesa, mais longe da cortina.

Um dos outros guardas disse:

— Maggie Mai, poderia vir aqui um momento? — Acredito que se ela não tivesse suspeitado, teria discutido, mas se deixou afastar da zona de perigo.

Peasblossom trocou sua direção para me seguir e pôr seus delicados pés na palma de minha mão. Seus pés não eram suaves como os de um bebê, como tinham sido os do Sage, mas seu peso era como o seu, carregá-la era como devia ser, como se não houvesse mais nela, que um corpo tamanho boneca, com asas de borboleta.


Ivi e Hawthorne se colocaram diante de mim, então minha vista ficou bloqueada, pois eles ofereciam seus próprios corpos como escudos para me manter segura. Não podia protestar.

Ivi sussurrou:

— Espero consiga te foder antes de que consiga que me matem. Hawthorne lhe golpeou no peito com um murro.

Ele fez um som de uffff, então escutei como se rompia a cortina e começavam os gritos.

Peasblossom se lançou a meu ombro, ocultando-se em meu cabelo, gritando sem palavras e com terror.

A pequena criatura fazia tanto ruído, que os gritos dos homens se perdiam entre os agudos gritos de Peasblossom. Os grandes corpos de meus guardas me mantiveram protegida, mas também me ocultaram a ação. Eu tinha sido abandonada sem saber, sem ver, a única coisa que podia fazer era confiar em que não passava nada muito mau. Tomei como um bom sinal que os guardas ainda permaneciam de pé diante de mim e não tinham a necessidade de me ocultar entre o chão e seus corpos. As coisas não eram tão terríveis, ao menos ainda.

Peasblossom se aderia a meu cabelo e minha jaqueta, chiando diretamente em meu ouvido. Lutei ante o impulso de agarrá-la e silenciar os gritos. Mas tive medo de esmagar suas asas, e com Beatrice morta, não tinha muita segurança de poder curar à pequena fada.

Pus a mão entre ela e meu ouvido, mas a retirei em seguida, porque algo me cravou, como um espinho ou um alfinete.

Ela deixou de gritar e começou a pedir perdão. Ao que parece eu tinha posto meus dedos sobre seu bracelete de espinhos de rosas. Na gema de meu dedo apareceu um diminuto ponto de sangue.

A profunda voz do Doyle cortou o murmúrio de desculpa de Peasblossom.

— Por que te ocultava de nós?

Uma áspera voz masculina respondeu:

— Não me ocultava de ti, ocultava-me dele.

Tentei ver algo girando ao redor do Adair e Hawthorne, mas quando tentei me mover ao redor deles, moveram-se comigo bloqueando minha vista e me mantendo protegida.

Então chamei:

— Doyle, já estamos seguros?

— Hawthorne, Adair, deixem que a princesa veja quem é nosso prisioneiro.

— Prisioneiro? — Disse a áspera voz. – Princesa, não há necessidade disto. — Havia algo vagamente familiar nessa voz.

Os dois guardas se moveram e finalmente fui capaz de ver a peluda figura, mas bem pequena, que Frost e Galen sustentavam entre eles. Era um hob, um parente dos brownie.

Harry Hob, tinha trabalhado de vez em quando nas cozinhas durante anos. Até que Maggie Mai lhe pilhou bêbado no trabalho, e lhe jogou até que pudesse controlar-se. Media aproximadamente 90 cm de altura e estava coberto por um arbusto tão espesso de escuro cabelo, que demorei um minuto em me dar conta de que estava nu.

— Por que tem medo do Onilwyn? — Perguntou Doyle.

— Pensei que tinha vindo me matar, como matou a minha Bea. Acredito que inspiramos e nos esqueceu soltar o ar.

— O viu faze isso? — Perguntou Doyle. Sua profunda voz caiu no silêncio, como uma pedra que tivesse sido lançada. Esperamos que a pedra golpeasse o fundo.

Mas foi a voz do Onilwyn a que se escutou primeiro.

— Não fiz nada.

Sua voz soou nasal, mas não pela emoção, se não pelo sangue e pela contusão de seu nariz rota.

— Não a conhecia o suficientemente bem para matá-la.

Tentou ficar em pé, e sem a ordem de ninguém, Adair e Amatheon agarraram seus braços, como se já fosse um detento. Naquele momento me dava conta de que não era a única que tinha aversão ao Onilwyn.

Seguiu proclamando sua inocência, com aquela mesma voz nasal, que soava como se tivesse um forte resfriado, mas eu sabia que era seu próprio sangue que lhe estava afogando.

— Silêncio! — Disse Doyle, sem gritar, mas impondo-se de igual maneira.

Onilwyn ficou calado um momento, até que Harry Hob disse:

— Eu vi...

Onilwyn lhe cortou.

— Está mentindo.

Depois de escutar isto, Harry gritou tanto como para sacudir as taças em seus estantes.

— É um sidhe mentiroso no mundo das fadas.

Doyle deu um passo para colocar-se entre eles, lhes fazendo gestos para que se calassem.

— Hob, viu o Onilwyn matar a Beatrice? — deu-se a volta quando Onilwyn fez um som. — Se interromper outra vez, terei que te arrastar fora desta habitação.

Onilwyn fez outro som e logo cuspiu sangue sobre o chão da cozinha. Maggie Mai lhe aproximou com uma pequena panela de ferro na mão.

— Não, Maggie, — disse Doyle, — não haverá mais demonstrações de caráter de um bogart.

— Caráter de um Bogart? Bom, Escuridão, se você acreditar que isso foi caráter de um verdadeiro bogart, é porque não deve ter visto nunca a um. — Havia algo ameaçador em seus dourados olhos.

— Não me obrigue a que te jogue de sua própria cozinha, Maggie Mai.

— Você não ousaria!

Doyle somente a olhou, e com esse olhar foi suficiente. Ela se tornou para trás, resmungando pelo baixo, mas deixou a panela e se foi ao rincão mais longínquo. Seus cães formaram redemoinhos a seus pés como uma peluda maré.

Doyle olhou para trás, para o Harry Hob.

— Agora, uma vez mais, viu o Onilwyn matar a Beatrice ou ao repórter?

— Se ele não terminou o trabalho, por que se adiantou a todos vocês para vir à cozinha? Por que não lhe pergunta isso?

A voz do Doyle era de um tom baixo e quase mal-humorado, bordeando o grunhido.

— Pergunto-te pela última vez, Harry. Se não me responder simples e diretamente, deixarei que Frost te sacuda até obter alguma resposta.

— Ah, mas, Escuridão, não há nenhuma necessidade de ameaçar ao velho Harry.

— É velho Harry? — Doyle riu. — Não pode falar de idades, não entre nós. Recordo-te quando não era nada mais que um bebê, Harry. Lembro quando tinha uma família humana e uma granja que atender. Harry franziu o cenho, com um olhar tão hostil como a que lhe tinha dirigido ao Onilwyn.

— Não há necessidade de trazer para o presente más lembranças, Escuridão. — Parecia mal-humorado.

— Então me responda com sinceridade e ninguém saberá como perdeu sua casa.

— Você não contaria. — Disse-lhe Harry.

— Me diga a verdade, Harry Hob, ou lhes contarei o que não deseja compartilhar.

Harry franziu o cenho olhando ao chão. Via-se de algum modo menor e delicado do que era, sustentado entre os dois altos guardas. Talvez jogava a inspirar compaixão, mas se era assim, jogava com a audiência errada.

Doyle se ajoelhou diante dele, ficando a seus pés.

— Uma última vez Harry, viu o Onilwyn matar a Beatrice e/ou ao repórter humano?

Lhe dar a escolher entre e/ou tinha sido um bom detalhe, porque sem essa escolha Harry teria tido mais espaço para mover-se. Ele podia ter visto um assassinato, mas não os dois.

Ele respondeu, olhando ainda fixamente o chão.

— Não.

— Não, o quê? — Perguntou Doyle.

Nesse momento Harry elevou a vista, seus escuros olhos brilhavam pela cólera. — Não, não vi o Senhor Árvore matar a minha Beatrice ou ao humano.

— Então, por que te ocultava dele?

— Eu não sabia que estava aí escondido.— Disse Maggie Mai. — Possivelmente, Escuridão, ele não se ocultou do Senhor Árvore em primeiro lugar.

— Muito bem. — Disse Doyle, admitiu inclinando sua cabeça. Ficou de pé e fez a pergunta de Maggie:

— Por que te escondeu, Harry?

— Vi-o, — e usou a cabeça, já que seus braços ainda estavam sujeitos, para assinalar ao Onilwyn, ao que ainda sustentavam. Esperamos a que dissesse algo mais, mas pareceu pensar que havia dito o suficiente. Mas Doyle o incitou...

— E por que deveria a mera vista do Onilwyn te fazer esconder?

— Pensei que era o amante sidhe dela, e não eu.

Não lhe pude me conter. Ri. Harry me dirigiu um sujo olhar.

— Sinto muito, Hob, mas Onilwyn não acredita que eu seja o bastante pura de sangue. Não posso imaginar o tendo a um não- sidhe como amante.

— Obrigado, princesa. — Disse Onilwyn, com a voz ainda nasal.

Dirigi-lhe o olhar que se merecia e lhe disse:

— Não era um elogio.

— Dá no mesmo para mim, — disse, — estou agradecido pela verdade.

— Por que seu amante sidhe viria aqui sozinho? — Perguntou Harry.

— Uma boa pergunta. — eu disse e olhei ao Doyle.

Ele fez um pequeno gesto com a cabeça e disse...

— Por que nos abandonou, Onilwyn?

— Não tinha nenhum interesse em ver a princesa atuando com alguém mais. A rainha me curou do voyeurismo faz muito.

Não havia nada que discutir sobre isto, mas Doyle perguntou:

— Então te adiantou para começar a perguntar às testemunhas você sozinho, sem permissão de seu capitão ou de seus oficiais?

— Todos vocês pareciam... ocupados. — E até com o nariz rota o sarcasmo soou alto e claro.

— Não o golpeou suficientemente forte, Merry. — Disse-me Galen, e meu aprazível cavalheiro decididamente tinha um olhar nada aprazível sobre sua cara nesse momento.

— Adiantou-te para procurar respostas, ou as ocultar?

— Eu não era amante de ninguém. E é mais seguro não arriscar a piedade da rainha por alguém que é menos que um sidhe. — O desdém de sua voz era muito notório como para que passasse desapercebido.

— Algum de vós sabia que Beatrice era amante de um sidhe? — Perguntou Doyle. Maggie Mai disse:

— Não, sempre disse que gente como vocês, os grandes, nunca devem relacionar-se com os pequenos. O único resultado de tal relação é o sofrimento.

— Se Beatrice tivesse tomado a um sidhe lhe teria oculto isso? – eu disse.

— Ah, provavelmente.

Procurei a pequena figura azul que quase estava oculta atrás do pescoço do Galen.

— Mug?

Galen teve que dizer:

— A princesa te está fazendo uma pergunta, Mug.

Ela tinha estado muito ocupada jogando com os cachos de detrás de seu pescoço para emprestar atenção a algo mais. Não era tola, mas já a tinha visto assim antes, como se o toque de um sidhe fosse embriagador para ela.

Ela olhou atentamente a seu redor, estalando suas asas nervosamente.

— O quê? — Perguntou.

— Sabe se Beatrice tinha algum amante? Indicou ao Harry.

— Ele.

— Tinha um amante sidhe? — Perguntei.

Os olhos do Mug se abriram surpreendidos.

— Um amante sidhe? Beatrice... — Negou com a cabeça. – Se tivesse sabido, lhe teria pedido que me deixasse tocá-lo.

— Beatrice não teria contado nunca a Mug. — Disse Peasblossom. Busquei-a e a encontrei escondida sobre as panelas penduradas nos ganchos da parede.

— Disse-lhe isso?

— Sim.

— Quem era seu amante sidhe? — Perguntou Harry com impaciência na voz.

Nenhum de nós disse nada, porque esta era uma das coisas que queríamos saber.

— Não pôde me dizer isso, porque tinha prometido a ele não dizer a ninguém ou ele romperia a relação.

— Por que isso terminaria a relação? — Perguntou Doyle. – A não ser que...

Frost disse:

– A não ser que fosse um guarda real.

— Quem se arriscaria a morrer torturado por algo de menos valor que a carne de sidhe? – Disse Amatheon.

Dirigi-lhe um olhar pouco amistoso.

— Não mereço esse olhar, Princesa; isso é simplesmente a verdade. Comecei a discutir, mas vacilei. Tinha tido duendes menores como amantes em Los Angeles, e isso tinha sido maravilhoso, mas... mas tinha ansiado outro contato. Uma vez que tiveste toda a atenção de um sidhe, todo o resto ficava em relações menores. Quis discutir com o Amatheon, mas não pude, não era a verdade.

— Não discutirei contigo Amatheon. — eu disse.

— Porque não pode. — Respondeu. Manteve seu agarre sobre o Onilwyn, mas com toda sua atenção posta em mim. Reconheci a verdade disso inclinando minha cabeça.

— Mas se não era um guarda, — perguntou Galen — então por que se preocuparia de que outros conhecessem sua relação com Beatrice? Olhei-lhe, procurando em sua cara qualquer indício, de que se deu conta do parvo de sua pergunta, mas não encontrei nada em sua cara que me indicasse isso.

Mug se abraçou a seu pescoço e falou para a maioria de nós.

– Isto é tão meigo.

— O quê? — Perguntou Galen.

— Um duende poucas vezes tem como companheiro a um menor, — disse Maggie Mai, — e poucos desejam reconhecê-lo publicamente. Galen franziu o cenho.

— Por que não? Amatheon perguntou:

— Estiveste vivendo no mesmo país que o resto de nós?

Galen se encolheu de ombros, quase derrubando ao Mug. Ajudou-a a recuperar o equilíbrio colocando seus dedos onde ela pudesse agarrar-se.

– O amor é muito precioso para envergonhar-se.

Se eu já não o amasse, teria o amado nesse instante.

— Tem razão, meu amigo, — disse Doyle, — mas essa não está acostumada ser a opinião de nossos irmãos.

— Orgulho, tanto orgulho, para logo envergonhar-se de algo que o resto de nós daria tanto por ter. — Disse Adair.

— Quem admitiria ter metido em sua cama a algo com asas? — Disse Onilwyn.

— Muito bom para foder, mas não para amar? — Perguntou Maggie Mai.

Alguns dos homens não puderam enfrentar-se a seu fixo olhar. Doyle não teve problemas em enfrentar-se a aqueles difíceis olhos dourados.

— Harry era seu amante?

Fez um gesto afirmativo.

— Sim.

Mug e Peasblossom responderam ao uníssono:

— Sim.

Doyle se voltou para o Harry.

— Não é nada fácil compartilhar uma amante com um sidhe.

— O amante, bem, amava à moça.

— Como se sentiu ao ter que compartilhar a moça que você gostava com outro?

— Beatrice tinha terminado com o Harry. — Disse Peasblossom.

— Mas nos víamos às escondidas. — Disse Harry. Peasblossom reconheceu que era verdade.

— Ela tinha terminado com o sidhe. — Disse ele.

— Deixou a um sidhe para estar contigo? — Disse Mug rindo, ruidosamente como um gorjeio.

— Não ria dele, Mug. — Disse Maggie Mai. — Às vezes o amor é mais importante que a magia ou ter muito poder.

— Sabia que Beatrice tinha deixado ao Harry? — Perguntei-lhe.

— Sim, e que ela havia tornado com ele, também.

— Se ela tinha terminado com ele, — disse Doyle, — por que foi esperar na cozinha?

— Beatrice me disse que ele queria que fizesse coisas horríveis por ele. Tinha estado de acordo ao princípio, mas logo tinha trocado de opinião.

— Que tipo de coisas horríveis? — Perguntou Doyle.

— Não quis me dizer. Disse que eram tão horríveis, que ninguém acreditaria.

Nós somos Escuros, não Luminosos, o que significava que estávamos dispostos a admitir a maior parte das coisas que víamos. O que poderia ser tão terrível que não teríamos acreditado? Que perversão fez que Beatrice fugisse disso com medo?

— Sim, o sidhe tinha exigido reunir uma última vez com ela, e tentar persuadi-la para que Beatrice o reconsiderasse. Pedi-lhe que não se encontrasse com ele.

— Por quê? Temia por sua segurança? — Perguntou Doyle.

— Não, não é isso. Se tivesse chegado a sonhar, não lhe teria permitido que se encontrasse com ele. — Respondeu Harry.

— Então por que não queria que se encontrassem?

— A verdade, é que estava ciumento. Temi que a reconquistasse. Que a Deusa me ajude, mas tudo o que podia ver eram meu ciúmes.

Doyle deve ter feito algum sinal, porque Frost e Galen soltaram os braços do Harry, que ficou ali, esfregando o braço que Frost lhe tinha sujeito.

— Ocultou-te quando viu o Onilwyn, porque pensou que era seu amante.

— Pensamos que havia tornado para matar ao Harry. — Disse Peasblossom. – Se tivesse contado a alguém seu segredo, teria sido ao Harry.

— Se só temia ao Onilwyn, por que não saiu quando soube que estávamos aqui? — Perguntou Doyle.

— Gostaria que qualquer um soubesse que se escondeu, em lugar de lutar contra o homem que acredita que matou a sua amada? Quereria que a Escuridão ou Assassino Frost soubessem quão covarde sou? –

As lágrimas brilharam em seus olhos. – Não sabia que pudesse ser tão covarde.

— Onilwyn, — disse Doyle, — qual é a verdadeira razão pela que te adiantou ao resto de nós?

Abriu a boca, mas teve que esclarecer garganta antes de dizer:

— A verdade então; sei que a princesa não gosta de mim. Que com tantos homens a seu serviço e disposição, não precisava me permitir estar em sua cama alguma vez. Queria voltar a tocar a uma mulher. Pensei que se encontrava alguma pista que ajudasse a solucionar esta confusão, poderia ajudar a minha causa.

Olhei fixamente sua cara ensangüentada, aqueles zangados olhos. Manteve meu olhar.

— Por que não acredito em ti? — Perguntei.

Seus olhos estavam zangados e mal-humorados na máscara sangrenta de sua cara.

— Admitiria eu essa debilidade, se não fosse verdade?

Pensei também nisso durante um segundo ou dois.

— Você também me odeia. — eu disse.

— Faria qualquer coisa por terminar com esta necessidade, Princesa. A oportunidade de apagar esta sede pesa mais que qualquer lealdade ou qualquer sentimento que tenha tido alguma vez.

Olhamo-nos fixamente um ao outro, e não sei o que teria respondido, porque de repente Doyle disse:

— Você sente esse cheiro?


CAPÍTULO 11


DOYLE INALOU AR PELO NARIZ, E UM MOMENTO MAIS tarde eu farejei, também. Sangue fresco. Movi-me para ele.

— O que está cheirando, Escuridão? — Perguntou Maggie Mai.

Ele pôs sua mão em sua espada, e os outros homens desembainharam suas armas quase imediatamente. Não acredito que algum outro o tivesse cheirado também, se não que simplesmente confiaram nos instintos do Doyle.

— Está tudo bem. — Disse, mas desembainhou sua espada, e isso não aliviou a ninguém na habitação. Quando liberou a espada completamente de sua capa, o sangue fluiu sobre a folha nua, como se a espada estivesse sangrando.

Harry tropeçou para trás longe dele e dessa espada gotejante. Não pude lhe culpar. Peasblossom gritou, e Mug escondeu sua cara contra o pescoço do Galen.

— A Deusa nos salve. — Disse Frost. — O que é isso?

— Cromm Cruach. — Disse Doyle.

Levou-me um segundo me precaver de que tinha usado o nome original do Rhys, quando ele tinha sido uma divindade. Cromm Cruach, garra vermelha. Enquanto observava o sangue gotejar, caindo no chão da cozinha, comecei a entender de onde pôde ter vindo o nome.

Maggie Mai disse...

— Cromm Cruach, é. Bem, o que diz ele?

O sangue formou letras no piso...

— NÃO LEVA ALGUMA ARMA NÃO MÁGICA?

— OH, — disse Doyle, e juro que ele pareceu quase envergonhado. — Posso pedir emprestado uma faca da cozinha, Maggie Mai? Ela entrecerrou seus olhos, mas assentiu com a cabeça.

— Sim.

Ele agarrou uma faca, que se via ameaçadora com a folha afiada e colocou um dedo sob a folha da espada. A prata da folha se obscureceu instantaneamente.

A cara do Rhys brilhou na reluzente superfície.

— Sabe quanta sangue tive que perder por tratar de obtê-la?

— De quem é o sangue que originou a que está usando? — Perguntou Galen.

— Meu. Agora estou cicatrizando, mas ainda dói fazer isso, e isso deslumbrou por completo aos policiais.

— Quantos homens adicionais necessita? — Perguntou Doyle.

— Não estou seguro. Isso depende completamente de quantos policiais permita Merry no sithen.

Fui me situar ao lado do Doyle, assim Rhys poderia me ver melhor. — Quantos policiais há aí?

— Contando aos policiais locais ou os feds? — Perguntou Rhys.

— Federais? — eu disse. — Quer dizer o FBI?

— Sim.

— Não os chamei.

— Dizem que telefonou ao agente Gillett.

— Chamei-o, mas não para convidar ao FBI.

— Bem, o agente Gillett telefonou ao contingente local de feds e os convidou à festa. Ele lhes disse, ou insinuou, que queria ajuda federal.

— Está pretendendo perguntar se os feds conseguirão entrar?

— Não exatamente, assinalo-o porque a área ao redor das terras das fadas é propriedade federal, e os feds tratam de dizer que os locais não têm direito para estar aqui.

— Por favor, me diga que está exagerando. — eu disse.

Sua imagem se fez imprecisa por um momento antes de me precaver de que tinha movido sua cabeça.

— Não estou exagerando. Aqui temos uma grande competição do tipo minha-mina-é-maior-que-a-tua a ponto de começar.

— Pode pôr ao telefone o agente principal?

— Não. Tem alguma idéia de quantas vezes tive que me ferir para pôr suficiente sangue na folha para escrever essa mensagem? Nenhum deles vai se aproximar desta espada. Se quer falar com os humanos, então vais ter que escolher um método mais comum de comunicação. Embora não penso que uma chamada telefônica solucione isso.

— O que sugere? — Perguntou Doyle.

— Traz a princesa aqui fora porque ela foi a que fez as chamadas. A pouca credibilidade que eu tinha com eles desapareceu na neve empapada em sangue. Têm medo de mim agora. — Rhys suspirou o suficientemente forte para empanar a folha por um momento. — Tinha esquecido essa aparência nos olhos humanos. Era uma parte de ser Cromm Cruach que me perdi.

— Me perdoe por considerar tais medidas necessárias. — Disse Doyle.

— A princesa e eu estaremos logo ali.

— Até então. — E a folha se voltou de um simples metal brilhantemente gentil.

— Seu agente Gillett te interpretou mal, acredito. Neguei com a cabeça.

— Ele não entendeu mau. Não me viu em pessoa desde que tinha dezoito ou dezenove anos. Reage como se ainda fosse essa pessoa.

— Ele espera te obrigar a que abra caminho nesta investigação. — Disse Doyle. Assenti.

— Você não quer fazer que os feds se zanguem conosco. — Disse Galen. — Há uma probabilidade de que o laboratório da polícia local pudesse necessitar uma pequena ajuda com algo do que encontrem esta noite. — Ele começou a caminhar para mim, obrigando a Mug a levantar sua cara e equilibrar-se.

Era um bom ponto, um bom ponto claramente exposto. Sorri e fui até ele, e toquei sua cara. Toquei a bochecha frente a onde estava sentada Mug.

— Sempre tentando fazer as pazes.

Ele colocou sua mão sobre a minha, pressionando-a contra sua bochecha.

— Justamente para conservar tanto disso como posso.

Elevei-me nas pontas dos pés, e ele se inclinou; assim poderia colocar um tenro beijo sobre sua boca. Mug fez um som, não um som mau, quase um huumm de deleite, ela gostava de estar perto de nós.

— Nos dê espaço, Mug — Disse.

Ela fez uma careta, mas empreendeu o vôo. Permiti a mim mesma me apoiar nele por um momento, deixei que seus firmes braços se envolvessem ao meu redor. Se vivêssemos em tempos diferentes, tempos mais pacíficos Galen teria sido perfeito. Se a paz fosse verdadeiramente o que ganhássemos depois, então ele não seria, não exatamente.

— O que fará sobre o FBI? — Doyle entendeu que não ia fazer exatamente o que tinha sugerido Galen.

— Irei apresentar me ao agente local, e lhe dar uma mensagem que anule a do Gillett.

— E o que quer que diga a mensagem? — Perguntou ele.

— Que já não sou uma menina, e ele não pode me manipular como se o fosse.

Frost franziu o cenho.

— Você convidou aos cientistas humanos dentro de nosso sithen para ajudar a solucionar estes assassinatos. Isso está bem e é nobre, mas sei suficiente de seu sistema para estar de acordo com o Galen. Não podemos nos permitir o indispô-los contra nós completamente.

— Porque podemos os necessitar mais tarde — Disse. Frost inclinou a cabeça. — Sim.

Era estranho que Galen e Frost estivessem tão completamente de acordo, o qual queria dizer que deviam estar certo.

— Farei o que possa para não ofender ao FBI, mas se sairmos dali e nos mostramos débeis, então não irão embora, e atrasarão tudo. Não temos tempo para que todo mundo jogue à guerra no prado. E além disso, este é nosso prado.

— Portanto vamos expor esse ponto às autoridades, — disse Doyle, — A ambas, locais e federais. — Ele realmente me ofereceu seu braço, e tomei, sentindo a solidez do músculo debaixo do couro de sua jaqueta. Precavi-me, então, que meu casaco de inverno ficou no aeroporto, a menos que a alguém lhe tivesse ocorrido trazê-lo. Ia necessitar algo para ter posto sob o frio de dezembro. Perguntei a quem poderia lhe pedir emprestado o casaco.

Enviamos o Onilwyn a encontrar a um curador. Ainda não sabia se acreditar no que havia dito. Ele se adiantou para interceder em meu favor, ou tinha alguma outra coisa em mente? Um pouco mais sinistro, ou talvez andava justamente procurando uma desculpa para que tivesse sexo com ele. Talvez, ou talvez Onilwyn ganhou minha desconfiança.


CAPÍTULO 12


DOYLE E FROST ME ESCOLTARAM DE RETORNO A MEU QUARTO EM busca de uma roupa mais cálida. Não sei de quem era a capa que ele tinha pedido emprestada, mas me caía bem, a borda do tecido logo que passava roçando o chão de meu quarto. A pele era de cor nata, âmbar e de um ouro que era quase um castanho avermelhado. Era verdadeiramente bela, mas senti o mesmo normalmente sentia pelos casacos de peles; Pensei que a pelagem se haveria visto melhor no animal ao que pertenceu. Realmente tinha tratado de lhes dizer que o que queria era um casaco de couro, ou de lã, porque desde fazia muitos séculos os sidhe tinham animais domésticos, sendo a lã e o couro as únicas escassas estoque.

Além disso, Frost me assegurou que uma vez morto, o tinham comido.

— O que era? — Perguntei. Nunca tinha visto algo com a pelagem realmente dessa cor.

— Um Troll. — Respondeu.

Deixei de acariciar a pelagem. Nunca tinha visto um troll, mas sabia que eram um tipo de duende, e embora não os mais brilhantes, tinham uma cultura, eram pessoas tranqüilas.

— Esse não é exatamente um animal; Isso é mais como canibalismo.

— Ele nunca disse que era um animal. — Disse Doyle. — Você o fez. Vamos? A polícia espera.

— Se tenho problemas por levar posta uma pele de animal, não lhes ocorreu a ele ou a ti que levar em cima algo confeccionado com a pele de um dos nossos me incomodaria ainda mais?

Frost suspirou e se recostou em uma enorme cadeira negra, a qual infelizmente combinava com a nova decoração que a rainha tinha posto em meu quarto. Parecia-se com um set para um filme pornô gótico, ou a um enterro onde o cadáver ia receber mais que um pouco de atenção.

— Matei ao troll. A pele é um troféu. Não entendo seu problema levando-o posto. — Frost parecia um pálido fantasma contra a cadeira negra de couro, e se via estranhamente decadente em seu casaco de peles. Seu casaco de raposa prateada e comprido até os tornozelos o haviam devolvido no aeroporto. Fez-me pensar que os casacos de couro se perderam porque ninguém estava seguro de a quem pertenciam, e a pele não ficou porque quem se não um de meus homens teria um casaco de peles de corpo inteiro que se adequaria sobre uns ombros tão largos.

Voltei-me para o Doyle.

— Seria como ter posto a pele de uma pessoa em conceito de casaco. Doyle agarrou meu braço. Sua força machucava, e sua cara deixava ver a cólera com que sua mão pressionava contra minha carne.

— É uma princesa da Corte Escura. Nos regerá algum dia. Não pode exteriorizar tanta debilidade, se planeja sobreviver!

Seus olhos negros continham pedacinhos de brilhantes cores como vaga-lumes psicodélicos. Houve um instante de vertigem, e logo estive sobre terra firme outra vez, dentro de minhas botas para a neve, e poderia olhar em seus olhos e não ser tentada. Se ele tinha feito de propósito, então não poderia ter sido tão facilmente atirada a um lado, mas foi sua cólera a que trouxe seu poder, não sua vontade. A cólera é mais fácil de evitar que a força de vontade.

Frost tentou empurrar seus pés.

— Doyle, não é um problema tão grande. — Ele soou incerto, e soube porquê. Este era Doyle, seu capitão, imóvel, insensível, ?A Escuridão. Ele não tinha tido arranques de fúria em toda a vida.

Doyle me sacudiu com força perto de seu corpo, e toquei a progressiva linha de energia enquanto seu poder começava a desdobrar-se. Ele grunhiu em minha cara.

— Diz que não levará postas as peles de nossos honoráveis inimigos. A polícia nos espera, nosso homem está parado no frio, e você não gosta de seu casaco! Essa delicada sensibilidade provém de alguém que recentemente fodeu com um desconhecido no chão diante de todos nós.

Cravei os olhos nele boquiaberta, muito assombrada para fazer ou dizer algo.

— Doyle! — Frost se aproximou de nós, sua mão movendo-se para mim, como se ele fosse me levar pra longe Da Escuridão. Mas deixou cair sua mão atrás, porque tanto Frost, como eu, não estávamos seguros do que faria Doyle se Frost tratava de me apartar dele. Doyle se comportava tão diferente de si mesmo que tive medo, e, acredito que também o teve Frost.

Doyle jogou para trás sua cabeça e gritou. Foi um som de tal angústia, tal absoluta solidão. O som finalizou em um uivo que levantou o pêlo de meu corpo. Ele me soltou abruptamente, e meio me atirou contra Frost. Frost me agarrou e me protegeu de tal forma que seus largos ombros estavam entre seu capitão e eu.

Doyle se derrubou até o chão em um atoleiro de couro negro, sua trança enrolando-se como uma serpente ao redor de suas pernas. Levou-me um momento para me dar conta de que ele soluçava. Frost e eu nos olhamos. Nenhum de nós tinha alguma uma pista a respeito do que ocorria a nossa estóica Escuridão.

Movi-me para ele, mas Frost me deteve, e negou com a cabeça. Ele tinha razão. Mas fez que meu peito se angustiasse ao ouvir esses sons quebrados procedentes do Doyle.

Frost se ajoelhou a seu lado e colocou uma mão branca sobre o ombro escuro do Doyle.

— Meu capitão, Doyle, o que te ocorre?

Doyle tampou a cara com suas mãos e se encolheu em posição fetal até que suas mãos estiveram quase plainas sobre o chão, e sua voz nos chegou grossa pelas lágrimas, e mais espessa pela cólera.

— Não posso aguentarr isso. — Doyle se levantou em quatro patas, sua cabeça pendurando para baixo. — Não posso suportar. — Olhou para cima, e agarrou o braço do Frost, como ele tinha agarrado o meu, quase suplicando. — Não posso voltar a ser o que fui aqui. Não posso ficar a seu lado e ver outro tomando-a. Não sou tão forte, ou tão bom.

Frost assentiu com a cabeça, e atraiu ao outro homem em seus braços. Sujeitou-lhe estreita e ferozmente, e a cara que ele me mostrou foi de amarga pena.

Tinha perdido algo. Algo importante. Algo tinha ocorrido não só ao Doyle, mas também ao Frost. Isto não era seu típico mau humor; Era aflição. Mas o que fez que eles se afligissem?

— O que aconteceu? — Perguntei.

Doyle negou com a cabeça, pressionado contra o ombro do Frost.

— Ela não entende. Não sabe o que significa.

— O quê? — O medo começava a fazer cócegas em meu estômago, indo para cima por minha coluna vertebral. Minha pele estava fria com os princípios do temor.

Frost me olhou, e me dava conta de que havia lágrimas não derramadas brilhando intensamente em seus olhos.

— O anel escolheu seu rei, Meredith.

— Do que está falando? — Perguntei.

— Mistral. — Disse Doyle, levantando o pescoço, por isso pude ver, sua cara. — O anel escolheu ao Mistral. E não posso deixar de te ter. Cravei os olhos nele.

— O que está balbuciando? Há só uma forma para que meu rei seja escolhido, e não estou grávida.

— Está segura disso? — Perguntou Frost. Sua cara era tão tranqüila, vazia da confusão emocional que eu teria esperado dele. Era quase como se com o Doyle desfeito em partes, ele tivesse que manter-se forte, mais forte do que acostumava normalmente.

— Sim, acredito... — Pensei no que ele havia dito. — É muito cedo para estar segura.

Doyle sacudiu sua cabeça o suficientemente forte para que sua pesada trança rangesse contra o couro. — O anel nunca cobrou vida para nenhum de nós. Você nunca teve semelhante sexo com nenhum de nós. O que pode significar exceto que ele é o escolhido do anel?

— Não sei... — Ante sua dor, não soube o que dizer. Olhei a um e ao outro. Sua opinião estava claramente refletida em suas caras. Olhei aos dois juntos, luz e escuridão entrelaçadas, e meu peito se contraiu. Repentinamente foi difícil respirar. O quarto se sentiu quente e estreito. Se estivesse grávida do Mistral, então perderia, aos dois. Estaria ligada ao Mistral, e seria monógama com ele e só com ele. O sexo tinha sido bom, talvez ótimo, mas foi somente sexo, e...

— Não amo ele. — No momento em que o disse, soube que foi a súplica de uma menina. O desejo de uma menina.

— Uma rainha não se casa por amor. — A voz profunda do Doyle se manteve ao bordo de lágrimas.

— Mas espera, pensei que o anel encontrasse seu amor verdadeiro, seu par perfeito.

— Faz isso. — Disse Frost.

— Nicca e Biddy estão completamente apaixonados um pelo outro. — eu disse. — olham-se como se não houvesse ninguém mais no mundo.

Ambos assentiram com a cabeça. Frost disse:

— Foi sempre assim como o anel escolhia.

— Mas Mistral e eu não nos olhamos desse modo.

— Você não viu a cara dele depois. — Disse Doyle. — Eu sim.

— Como eu. — Disse Frost. Agitei as mãos para fora.

— Foi a primeira relação sexual que ele teve em séculos. E foi sexo mágico, poderoso e estimulante. Essas são coisas embriagadoras. Qualquer homem me olharia desse modo, mas foi luxúria, não amor. Frost me olhou com o cenho franzido. Doyle simplesmente ficou olhando como se suas emoções o tivessem esvaziado.

— Certamente não me sinto assim a respeito do Mistral. Frost se viu absolutamente receoso.

— Não sente, não é? Neguei com a cabeça.

— Se o anel o tivesse escolhido, então estaria apaixonada por ele, correto?

Frost assentiu com a cabeça.

— Não me sinto assim a respeito do Mistral.

— Como pode não o querer depois do que vimos no vestíbulo? — Perguntou Doyle, com uma voz que se tornou quase vazia de emoção, como se tudo isso tivesse sido muito para ele.

— Foi ótimo, mas ocorreu a algum de vocês dois que o sexo foi tão mágico porque é a primeira vez que tive relações sexuais dentro do país das fadas com o anel posto?

Doyle piscou e tratou de concentrar-se. Observei-lhe lutar com o desespero que tratava de lhe intumescer. Frost falou em nome dos dois.

— Você teve relações sexuais dentro do mundo das fadas com um de nós, com certeza. Neguei com a cabeça.

— Não, acredito que não, e se tivesse feito, então não tinha posto o anel. Inclusive em Los Angeles, freqüentemente não tinha posto o anel durante o sexo.

— Porque o poder era muito imprevisível. — Disse Doyle. Ele me contemplou. — Fomos tolos por guardá-lo longe?

O anel em meu dedo pulsou uma vez, como se oprimisse minha mão. Traguei saliva e assenti com a cabeça.

— O anel acredita que sim.

Doyle esfregou os rastros das lágrimas em sua pele.

— Realmente não ama ao Mistral?

— Não.

— Ainda poderia estar grávida. — Disse ele.


— O anel acha fertilidade, mas faz mais que isso. — Disse Frost. — Se Meredith não amar ao Mistral, então possivelmente ele não é o companheiro para ela.

— Ele pensa que ele é?

Observei ao Doyle recuperar-se, reunindo toda essa escura reserva.

— É muito provável.

— Sei que Rhys pensa, pois disse assim. — Disse Frost.

— Galen?

— Ele estava muito atordoando com o poder do anel. Os homens que estavam atordoados muito provavelmente não pensarão tão claramente.

— Só você, Rhys, Doyle, e o próprioo Mistral não pareciam bêbados com o poder.

— Mistral formou parte da magia. Rhys não apareceu a tempo.

— Mas por que vocês dois?

Eles se olharam, e foi Frost quem falou, e Doyle quem não me olhou.

— O anel não tem poder sobre ti se você já está apaixonado.

— Se for amor verdadeiro. — Disse Doyle, e logo me olhou, e quase desejei que ele não o tivesse feito. Seus olhos sustentavam a dor que ele tinha me deixado vislumbrar. A dor que devia ter começado a crescer quando nenhum deles tinha me engravidado em Los Angeles. Olhei aos dois, e pela primeira vez me dava conta de que se fosse uma escolha entre o trono ou perder a estes dois homens, então não estava segura do que escolheria. Não estava segura de se era o suficientemente rainha para sacrificar tanto. Mas enquanto Cel vivesse, ele fixaria suas meta em minha morte. E não poderia ceder o mundo das fadas a ele, ainda se declarasse sob juramento deixar a mim e aos que amo vivos. Não deixaria a minha gente sob seu poder. Ele fazia que Andais parecesse corda e bondosa a seu lado. Não deixaria que suportassem o sadismo do Cel. Era muito a filha de meu pai para fazer isso. Mas me levantei ali e senti o mundo afundar-se até um nada ao pensar em perder ao Doyle e ao Frost.

Pensei em algo, e disse:

— Assim é que o fato de que Galen estivesse atordoado quer dizer que ele não está apaixonado, não com verdadeiro amor?

Eles pareceram alarmados, olharam-se, logo ambos assentiram com a cabeça. Frost disse:

— Acredito que ele discutiria, mas sim, isso é o que significa.

Tentei o pensamento de que meu doce, tenro Galen estaria nos braços de outra pessoa, e o pensamento não me encheu de pena. De fato, encheu-me com uma certa paz por saber que em algum lugar ali fora o anel encontraria a alguém com o fim de que ele não levasse luto por mim.

Sorri.

— Por que sorri? — Perguntou Doyle.

— Porque o pensamento não dói. — Fui a eles, e toquei com as pontas dos dedos a ambos nas caras. — O pensamento de perder a vocês dois... Isso é como uma ferida através de meu coração. — Acariciei suas bochechas, mas tomei cuidado de não tocar a cara do Frost com o anel. Quis tocá-los sem a magia interferindo. A pele do Doyle estava de fato mais quente do que o normal para os humanos. Tinha estado assim da noite em que ele tinha descoberto que podia voltar a trocar-se em forma animal. A pele do Frost estava um pouco mais fria que o normal para os humanos. Não foi sempre assim, mas freqüentemente ele se sentia afresco ao contato. Tinha-o advertido antes em Los Angeles depois que ele, igualmente, tivesse encontrado uma parte de sua divindade através do poder do cálice.

Sustentei-os, calor e frio, luz e escuridão, e me perguntei se verdadeiramente haveria um homem no mundo das fadas que me fizesse esquecê-los, e cegar meus olhos para o amor com alguém mais. Apreciei este amor que tínhamos construído lentamente durante as semanas e os meses. Tinha levado esforço e confiança, e soube que ainda se toda a magia no mundo morresse, então ainda os amaria. E depois do que me tinham mostrado esta noite, pensei que eles ainda me amariam igualmente.

Movi suas caras até que se tocaram, de forma que poderia colocar um beijo, meio em um e meio no outro. Inclinei-me sobre eles com minha cara entre as suas. Murmurei a verdade contra o sedoso cabelo do Frost, e a cálida pele do Doyle.

— Para lhes ter em minha cama pelo resto de minha vida, deixaria o mundo das fadas, o trono, tudo o que sou, ou tudo o que poderia ser. O braço do Doyle me encontrou primeiro, mas Frost entendeu, e eles me atiraram até meus joelhos, envolveram-me contra seus corpos, pressionaram-me duro e seguro contra eles. Doyle falou com sua cara pressionando a parte superior de minha cabeça.

— Se houvesse qualquer outro digno do trono, então te deixaria. — Ele colocou sua bochecha contra meu cabelo. Seu agarre foi quase doloroso em sua ferocidade. — Pelo perfume de seu cabelo em meu travesseiro daria minha vida, mas servi a esta corte muito tempo para deixá-la nas mãos do Cel.

As mãos do Frost vagaram para baixo por meu corpo, ociosamente riscando o bordo de meu quadril sob as calças que tinha vestido.

— As histórias que as guardas do príncipe, narram... — Ele tremeu, suas mãos convulsionando-se contra meu corpo.

Afastei-me o suficiente para ver suas caras.

— Pensei que as guardas estavam muito aterrorizadas com o Cel para falar dele.

Doyle atirou de mim para dentro, contra eles outra vez, mas me girou e fiquei meio sentada meio tombada contra seus colos.

— Uma parte da guarda do príncipe tem acesso às revistas e jornais humanos. — Disse Doyle. — advertiram que seus guardas parecem sobreviver mais facilmente que qualquer dos Corvos da Rainha ou as Grous do Príncipe.

— Ainda não posso me acostumar ao ouvir chamá-las de Grous. Esse era o pássaro de meu pai, sua guarda.

— Muitas delas formaram parte da guarda do Essus. — Disse Frost. Ele manteve minha mão na sua. — Foram simplesmente dadas ao Cel depois da morte do Essus.

— Deram-lhes alternativa? — Perguntei. No momento, a menor de minhas preocupações tinha sido a guarda de meu pai, pois não lhe tinham falhado? Não tinham permitido que ele fosse assassinado? Agora me perguntei quantos deles teriam renunciado a seus votos como guarda real se tivessem tido uma oportunidade.

Doyle acariciou um lado de minha cara, atraindo minha atenção para ele.

— Foi o fato de que você admitisse aos outros homens ontem de noite o que enviou a algumas das guardas do Cel a nos falar a respeito de sua vida sob o mando do Cel.

— Por que soltaram suas línguas?

— Você demonstrou que cuida de toda sua guarda, não simplesmente dos que você gosta. Tal afeto não é algo que as Grous viram em um bom número de anos.

Pude sentir o calafrio do corpo do Frost contra o meu.

— Pensei que o que agüentamos na mão da rainha era o suficientemente mau... — Ele negou com a cabeça. — Semelhantes historias...

— Não podemos entregar a Corte a ele, Meredith. — Disse Doyle. — Acredito que ele está verdadeiramente louco.

— Estar detido e ser torturado não vai melhorar isso. — eu disse.

— Não. — Disse ele.

— Conte a ela o resto. — Disse Frost. Doyle suspirou.

— Recorda que a rainha permitiu que a necessidade do Cel fosse aliviada por uma de suas guardas.

Assenti com a cabeça.

— Sim, e essa noite houve uma tentativa de assassinato tanto sobre minha vida como sobre a rainha.

— Sim, mas não estamos ainda absolutamente seguros de que Cel o tivesse ordenado. Simplesmente podem ter sido aqueles leais a ele movendo-se desesperados para lhe resgatar antes de que ele se volte tão louco que todo mundo o veja como é.

— Você pensa que os nobres recusariam a lhe seguir?

— Se ele tratou de fazer a corte o que ele tem feito a sua guarda, sim. — Disse Doyle.

Joguei-me para atrás nas curvas de seus corpos, cobertos com peles e couro.

— O que tem feito?

— Não, Meredith, — disse Doyle, — possivelmente mais tarde, quando tivermos o luxo do tempo e horas para gastar antes de nos deitar. Nada disso é uma reconfortante historia para a hora de deitar- se.

— Temos uma investigação de assassinato; confia em mim, não iremos à cama durante horas. — eu disse.

— O que tem que saber, — disse Doyle, — é que ele se obcecou contigo.

— Obcecado como? — Perguntei.

Eles trocaram outro olhar. Doyle negou com a cabeça. Mas Frost disse:

— Ela tem que saber, Doyle.

— Então diga-lhe por que devo ser sempre o portador de tais notícias?

Frost piscou para ele, e lutou para não mostrar em sua cara o que ele e eu pensávamos. Não tínhamos sabido que trazer más notícias incomodasse ao Doyle. Ele tinha sido a Escuridão da Rainha, e a Escuridão poderia dizer horrendas verdades e permanecer impenetrável, ou assim tinha parecido. Era como se esse único arrebatamento tivesse despojado o Doyle de certa parte de si mesmo.

Frost disse:

— Como queira. — Ele baixou o olhar até mim. — Ele chamou uma de suas guardas por seu nome e jurou que se sua mãe estiver tão determinada a que fique grávida, então será com sua semente em seu corpo.

Olhei dentro dessa formosa cara, e quis perguntar se ele estava brincando, mas soube que não estava. Foi meu vez de tremer.

— Prefiro morrer.

— Não estou seguro de que se importasse. — Disse Doyle brandamente.

— Como é isso?

— Uma das semiduendes morreu durante uma das violações do Cel.

— Doyle suspirou outra vez, e um olhar se originou em seus olhos, um olhar que não tinha visto freqüentemente: medo. — O Cel gostou que ela morresse durante o sexo. Continuou violando seu cadáver até que seu corpo esteve chateado.

Senti que o sangue se retirava de minha cara.

— Ou isso diz sua guarda. — Disse Frost.

— Viu seus olhos, acha realmente que mentiram?

Frost deixou escapar sua respiração em um comprido suspiro, e negou com a cabeça. — Não. — Ele se dobrou sobre mim, me abraçando, me sepultando sob um monte de cabelo prateado. — Sinto muito, Meredith, mas acreditávamos que tinha que saber isso.

— Tinha medo do Cel antes. — eu disse.

— Sente-se mais assustada agora. — Disse Doyle. — Alguém que tem afeição a isso não pode receber as chaves da Corte Escura, especialmente agora que o poder parece retornar a nós. Poderosos, somos mais perigosos. Muito perigosos para sermos entregues a um louco.

— O poder retorna pela Meredith. — Disse Frost.

— Sim, mas uma vez que o poder é renascido em um sidhe, será como uma arma. Não lhe importará de que forma é usado.

— A Deusa nos pode abandonar para sempre se o poder for mal empregado. — eu disse.

— Já imaginava, mas pensa no dano que poderíamos fazer antes de que ela revogasse seus recentes presentes.

Estávamos sentados sobre o piso e pensávamos novas possibilidades para inclusive os desastres maiores. Doyle me abraçou estreitamente, então se levantou, e se sacudiu como um cão. Ele se envolveu em seu casaco de couro, e disse:

— Pensei guardar as notícias do Cel e sua nova loucura até depois de que houvéssemos trazido a polícia pra dentro, mas... — Deslizou os óculos de sol sobre seus olhos, a fim de que ele fosse a alta, escura, insondável Escuridão. Só o brilho de prata de seus brincos lhe dava cor. — Lhe daremos escolta até a polícia e o FBI. Lamento ter perdido o controle como fiz, Princesa, e por nos atrasar mais ainda.

Deixei que o Frost me ajudasse a levantar.

— Um ataque em mais de mil anos, penso que está atrasado. Doyle negou com a cabeça.

— É minha culpa que Rhys e a polícia esperem no frio. Indesculpável. Toquei seu braço, mas isso era duro músculo encaixotado em couro, como se ele não pudesse dar o gosto de alguma suavidade.

— Não acredito que seja indesculpável.

— Se ela nos consolar outra vez, então estaremos em paz logo. — Disse Frost.

Doyle sorriu, um brilho rápido de dentes.

— É bonito ser consolado em lugar de castigado. — Ele sustentou no alto a capa de pele.

— Por favor, somente por agora. Encontraremos alguma outra coisa mais de seu agrado, mas simplesmente, leva-a agora.

Eu ainda não gostava da idéia de levar posta a capa, mas depois do que tinha sabido do Cel e sua guarda, simplesmente parecia um mal menor. Lhe dei permissão para pôr a capa a meu redor.

— Como estou? — Perguntei.

A parede tremeu como a pele de um cavalo quando uma mosca se posa. Doyle me separou de um empurrão detrás dele. Frost já tinha sua espada desembainhada em sua mão. Doyle apontou a pistola ao muro de rochas.

Um espelho de corpo inteiro rodeado por um marco dourado flutuou para cima através da pedra, brilhante na escuridão do quarto.

Olhei fixamente ao redor do corpo do Doyle, meu pulso golpeando em minha garganta.

— De onde veio isto?

Doyle ainda apontava a pistola muito firmemente a brilhante superfície.

— Não sei.

Quase todos os duendes podem usar os espelhos para realizar chamadas. Doyle e alguns outros sidhe podem viajar através dos espelhos. Estávamos de pé esperando que uma figura aparecesse, se por acaso algo terrível ocorria. Mas o espelho somente pendurava sobre a parede, como se alguém o tivesse posto ali para ser um espelho e nada mais.

A ponta da espada do Frost baixou.

Doyle nos jogou um olhar.

— Por que apareceu? Quem o enviou?

Frost deu um passo mais perto para o espelho.

— Meredith, te olhe no espelho.

Doyle se via cético mas ele se moveu para que eu pudesse me ver. O vermelho e o ouro da capa combinavam com meu cabelo e minha pele, e fazia ressaltar o ouro em meus olhos. Com o capuz levantado, vi-me delicada e um pouco etérea, comparável a algo entre um cartão vitoriano de Natal e uma princesa Bárbara. Bom, uma princesa Bárbara pequena.

— Agora, agradece ao sithen pelo uso do espelho, e diga que já não o necessita.

Olhei-lhe com o cenho franzido, mas fiz como ele sugeria.

— Obrigado pelo espelho, sithen. Não o necessito mais.

O espelho ficou na parede, como se sempre tivesse estado ali.

— Por favor, sithen, um espelho poderia ser usado para danificá-la, por favor tira-o. — Disse Frost.

Senti como se o mesmo ar se encolhesse, logo a parede tremeu outra vez, e o espelho começou a afundar-se de volta à parede. Quando a parede foi pedra vazia outra vez deixei sair a respiração que não me tinha dado conta que continha.

— Está dizendo que o espelho apareceu porque perguntei como estava?

— Shhh. — Disse Frost, logo ele assentiu com a cabeça.

— Agora isso, — disse Doyle, — é interessante.

— O sithen não respondeu aos caprichos desde... — o Frost se deteve como se tratasse de pensar desde quando.

— Há tanto tempo, amigo, que nem eu estou realmente seguro de quando foi a última vez.

— Então isto é bom, — eu disse, — ou não?

— Bom. — Disse Doyle.

— Mas perigoso. — Adicionou Frost. Doyle assentiu com a cabeça.

— Eu tomaria cuidado com o que dissesse em voz alta de agora em diante, Meredith. Um comentário ocioso poderia ter conseqüências graves, se o sithen verdadeiramente retornou à vida.

— Como quê?

— O sithen é uma coisa viva, mas não pensa como algo vivo que alguma vez conheci. Interpretará o que você diz a sua maneira. Você pergunta como está, e ele te dá um espelho. Quem sabe o que poderia te oferecer, segundo o que dissesse.

— O que ocorre se eu pedisse ajuda aos gritos, faria algo útil? — Perguntei.

— Não sei. — Disse Doyle. — ouvi isso que pode te dar objetos que pediu, mas nunca tocar as pessoas. Mas há artigos encantados encerrados dentro de suas paredes, coisas que simplesmente deixaram de existir. Alguns teorizam que não voltaram para os deuses, se não que ficaram dentro das mesmas paredes. Há coisas que eu não quereria que aparecessem diante de ti sem mais ajuda que isto.

— Mais ajuda que você e Frost?

Ele assentiu com a cabeça.

Comecei a perguntar que objeto possivelmente poderia ser tão perigoso que o Assassino Frost e a Escuridão da Rainha não me pudessem proteger, mas não o fiz. Um desastre de uma vez. É quase como se algo quisesse nos entreter aqui esta noite, nos distraindo com um semi-acontecimento importante depois de outro. Neguei com a cabeça.

— Basta, saiamos agora. Rhys e a polícia esperam.

Quando saímos pela porta nos encontramos no corredor principal justo dentro das portas exteriores. Meu quarto deveria ter estado três níveis para baixo, e em modo algum nesta área. Os guardas que esperavam para nos acompanhar ficaram olhando enquanto saíamos andando.

Galen disse:

— Essa porta não estava aí antes.

— Não. — Disse Doyle, e ele manteve a todo mundo na formação, comigo no centro, oculta outra vez detrás de um grupo de guardas. Haveria dito homens, mas ao menos três deles eram mulheres, incluindo Biddy. Ela e Nicca provavelmente seriam inúteis em uma briga. Estavam ainda muitos aturdidos mentalmente pela magia, mas tivemos medo de deixá-los pra trás. Estava quase segura de que sem alguém para detê-los, teriam relações sexuais, e até que esclarecesse isso com a rainha significava automaticamente a morte ou a tortura para os dois. Doyle os obrigou a deixar de andar de mãos dadas. Ele pensou que a polícia poderia fazer uma idéia equivocada.

Cathbodua e Dogmaela se uniram a nosso pequeno bando. Repentinamente tinha a três mulheres em meu séquito pessoal que poderiam ter dever mais lealdade ao Cel que a mim. Doyle murmurou algo a respeito de minhas damas de honra necessárias, e não faria isso se não fossem úteis já que elas também eram guerreiras treinadas. Mas eu sabia a razão real. As levávamos conosco porque a rainha de um momento a outro podia mudar sua intenção e as podia requerer de volta ao serviço do Cel. As levávamos para a neve para encontrar à polícia porque estavam mais seguras conosco que sem nós.


CAPÍTULO 13


NÃO VI A POLÍCIA, MAS OS ESCUTEI, UM ESTRONDO DE vozes profundas e masculinas. O som chegava através do penetrante frio da noite.

Minhas bochechas ardiam e minha respiração se paralisava e congelava dentro da pele do capuz. Barinthus tinha me resguardado do frio no caminho para o sithen depois da tentativa de assassinato, mas agora caminhava sob meu próprio poder. A neve me chegava até os joelhos, e minhas botas não impediram que empapassem minhas meias. Tratei de conjurar uma percepção do sol de verão para pôr dentro de meu escudo e ajudar a ocultar o frio, mas era como se não pudesse recordar como era o verão.

A noite sem lua era clara com mil estrelas jogadas através da escuridão como pedaços de gelo brilhante, brilhos de diamante através do veludo negro. Enfoquei a atenção em minha luta para levantar um pé, logo o seguinte, uma luta através de sentidos que os sidhes mais alto que me precediam levavam a cabo sem esforço algum.

Era muito pouco digno para uma princesa cair de cara no chão, por isso emprestei todo meu esforço a impedir que isto acontecesse. Suponho que minha luta através da neve não foi exatamente digna, mas é que não podia impedir isso.

Mas foi Biddy quem tropeçou. Nicca a agarrou antes que ela se golpeasse na neve. Ouvi-a desculpar-se.

— Não sei o que está errado... Tenho tão frio.

— Parem, todos vocês, parem. — eu disse. Cada um deles obedeceu, alguns controlando a paisagem, com os dedos perto das armas.

Foi Galen quem perguntou:

— O que foi, Merry?

— Somos Biddy e eu as únicas aqui com sangue humano?

— Acredito que sim.

— Tratei de convocar por meios mágicos a percepção de um sol do verão, e não podia recordar o que era.

Doyle tinha aberto caminho e estava detrás de mim.

— O que acontece?

— Comprova se Biddy e eu estamos sob um feitiço, um feitiço que ataque só sangue humano.

Ele tirou umas de suas luvas negras e pôs sua mão justamente por cima de minha cara, não com carinho, a não ser registrando minha aura, minha blindagem, minha magia. Deixou escapar um grunhido baixo e suave, mas o som levantou o pêlo de minha nuca.

— Tomo isso como que encontrou algo. — eu disse.

Ele inclinou a cabeça. Logo comprovou a Biddy, quem estava meio desfalecida nos braços de Nicca.

— Sinto muito, Doyle. Verdadeiramente sou melhor que isto.

— É um feitiço. — Disse-lhe ele, e levantou seu capacete para passar sua mão por cima de sua cara. Deu o capacete a Nicca e se voltou para mim, incapaz de esconder a faísca de aborrecimento que acendia seus olhos. Doyle estava reprimindo seu poder, aceso pela cólera. Zangado consigo mesmo por deixar acontecer outro deslize sob seu nariz. Tínhamos algo verdadeiramente sutil trabalhando feitiços sobre nós. Qualquer um de nós teria advertido o uso de um feitiço poderoso, mas estes pequenos feitiços, esta pequena magia era muito mais difícil de detectar para poder nos proteger dela.

— Este feitiço se ata a sangue mortal. Simplesmente chupa sua energia, e a enche de frio.

— Por que Biddy está mais afetada que Merry? — Perguntou Nicca. Ele estava completamente envolto em uma grossa capa, exceto suas asas. Estas estavam firmemente unidas como se assim pudesse conservar melhor o calor. Embora ele já era de sangue quente e as asas de borboletas não mudariam isso.

— Ela é meio—humana, eu tenho menos de uma quarta parte de sangue mortal. Se a magia procurar o sangue humano, ela tem mais que eu. —Respondi-lhe.

— A polícia humana foi afetada? — Perguntou Hawthorne.

Doyle voltou a pôr sua mão em cima de mim, e esta vez senti um pulso quente de tremor mágico sobre meus escudos.

— É como um contágio. Foi inoculado em Biddy ou na princesa, então saltou de uma à outra. Se não a tirarmos, se estenderá à polícia. Contemplei-lhe, falando com o calor de sua magia contra minha pele.

— Como afetaria a um humano de puro-sangue?

— Fez tropeçar a uma guerreira sidhe na neve. Ela está desorientada, e seria inútil em uma briga.

Frost olhava fixamente na escuridão. Junto a ele outro grupo de meus guardas olhavam através da gelada noite. Sua voz chegou até mim.

— Estamos ante o início de um ataque aberto?

— Quem seria tão atrevido e tão ignóbil para atacar aos policiais humanos? — perguntou-se Amatheon em voz alta. Ele tinha estado impaciente por sair ao frio, algo para estar longe da rainha, acredito. Mas eu recordei de novo que ele tinha sido guarda do Cel durante séculos. Podiam apagar uns poucos atos de honra e bondade séculos de lealdade ao Cel? E já que tão perto do Cel tinha estado, não teria presenciado alguns dos horrores que nos tinham explicado as guardas femininas do Cel? Fiz uma nota mental para lhe perguntar mais tarde, com o Doyle e Frost a minhas costas. Onilwyn tinha ficado dentro da Colina das Fadas porque ele não se recuperou da surra que Maggie e eu lhe tínhamos dado. Os danos produzidos pelo ferro frio fazem que um sidhe se recupere quase tão devagar como um humano. E referente ao Amatheon, Estava equivocada em confiar nele? É obvio, a pergunta em si mesmo já queria dizer que não confiava nele, não de tudo realmente.

— Quem certamente? — eu disse, e me controlei para não lhe olhar, para não lhe deixar saber nem através de minha linguagem corporal que estava me perguntando se tinha podido ser ele.

Ou eu me traí, ou ele se sentia inseguro, porque me disse:

— Farei qualquer juramento que necessite para te assegurar de que eu não sei nada sobre isto.

— Disse que era um homem sem honra e um homem sem honra não tem palavra para fazer um juramento válido. — Disse Adair.

— Basta! — Disse Doyle. — Não discutiremos entre nós e menos quando estão perto os humanos.

— Doyle tem razão. Discutiremos isto mais tarde. — Levantei minha cara para ele. — Pode eliminá-lo para que Biddy e eu não infectemos à polícia?

— Posso.

— Então faz isso e continuemos caminhando.

— Parece zangada. — Disse Galen.

— Estou cansada desta situação, de quem quer que esteja fazendo tudo isto. Cansada destes jogos...

— Em certo modo, é um bom sinal. — Disse Doyle. Olhei-o.

— O que quer dizer?

— Significa que nosso assassino teme à polícia humana, teme que eles possam encontrá-lo onde nossa magia falhou. — Doyle tirou as luvas e as colocou no bolso de sua jaqueta e deslizou meu capuz completamente para trás, com o que o ar gélido formou redemoinhos ao redor de minha cara. Tremi.

— Tenho medo, Merry. Vou fazer que passe mais frio antes de conseguir te sanar. — Disse Doyle.

Inclinei a cabeça.

— Tire isto de cima de mim e me esquentarei.

Ele empurrou para trás minha capa. O frio se precipitou a meu redor, me roubando o pouco de calor que a capa conservava. Lutei para não começar a tremer quando Doyle passou suas mãos por cima de mim, não chegando a tocar minha roupa, a não ser acariciando simplesmente por cima de meu corpo. Seu poder se derramou sobre minha aura, e se sentia como que se ele empurrasse algo fora de mim, quase como sacudir um inseto que posou em minha pele.

Doyle levantou suas mãos juntas como se verdadeiramente tratasse de sustentar algo e atraiu um fogo verde fantasmagórico mediante o poder que só ele podia convocar. Eu já tinha visto antes essa chama dolorosa correr ao longo de um corpo. Podia causar a morte em um mortal ou uma insuportável loucura em um imortal. Agora ele o usou para queimar o feitiço que tinha se obstinado a mim.

A voz do Rhys veio de detrás de nós.

— O que está acontecendo? — Ele levava uma pistola desencapada em sua mão, mas mantinha a mão pega a seu corpo para que a polícia não visse a arma de uma distância curta. Tinha visto a luz verde e disse com uma nova urgência em sua voz:

— O que foi isso? Perdi algo?

— Alguém fez um encantamento contra Merry. — Respondeu-lhe Galen.

— Afetou às duas pessoas com sangue mortal. — Adicionou Frost.

— Teria sido contagioso para os policiais humanos. — Disse Doyle. A chama verde desapareceu de suas mãos, fazendo que a noite parecesse mais escura. Ele se aproximou de Biddy, onde ela estava meia tombada nos braços da Nicca.

— Solta-a, Nicca.

— Cairá.

— Deixa-a apoiada de joelhos na neve. Isto não lhe fará mal. — A voz do Doyle era surpreendentemente suave.

Nicca ainda a sustentava contra ele. Suas asas bateram, sacudindo- se. Pareceram brilhar como uma chama antes de que as sujeitasse firmes de novo.

— Está tudo bem, Nicca. — Disse Biddy com voz suave. — Doyle me ajudará.

Hawthorne se aproximou de Nicca e gentilmente tentou separá-lo de Biddy.

— Deixa que o capitão a ajude.

Nicca permitiu que o afastassem, mas quando Biddy se derrubou na neve, ele se moveu para agarrá-la, e só Hawthorne e Adair situados a seu lado impediram que a agarrasse antes de que seus joelhos golpeassem a neve.

Rhys assobiou brandamente.

— Este feitiço teria afetado gravemente a nossos amáveis policiais.

— Sim. — Disse Doyle. Ajoelhou-se a seu lado, sobre a neve, seu corpo derramando-se como uma piscina de escuridão destacando sobre a branca neve. Passou suas mãos por cima de Biddy, como o tinha feito comigo, mas vacilou quando chegou a seu ventre...

— Quem poderia colocar tal feitiço nela enquanto está protegida pela armadura de metal? — Doyle negou com a cabeça. — Isto fala de um grande poder.

— Ou sangue misto. — eu disse. — Aqueles de nós com um pouco de sangue humano podemos combinar o metal e a magia melhor que um sidhe puro-sangue.

— Tem razão. Obrigado por me recordar isso – Sua boca apertada, em uma careta de concentração.

— Pode enviar o feitiço de volta, ricocheteando-o contra seu dono? — Perguntei.

Doyle inclinou sua cabeça, olhando da mesma forma em que faz um cão quando está perplexo por algo.

— Sim. — Suas mãos se esticaram sobre o corpo do Biddy. — Posso-o tirar, mas também posso acrescentar algo de minha magia, e obrigar o feitiço a que volte voando até seu dono.

— Pode rastreá-lo também, além de devolvê-lo a seu dono? — Perguntou Rhys.

— Sim.

— Passou muito tempo desde que podia fazer isso. — Disse Frost.

— Mas posso fazê-lo agora. — Respondeu Doyle. — Posso sentir em minhas mãos, meu estômago. Tudo o que tenho que fazer é tirá-lo, e acrescentar meu poder no momento de sua liberação. Será uma perseguição difícil, mas sortirá efeito.

— Quem irá contigo? — Perguntou Frost. — Eu devo ficar com a princesa.

— De acordo.

— Irei eu. Nenhum cão pode adiantar a um gato. — Disse Usna, fazendo referência aos antecedentes de ambos.

Doyle lhe dedicou um desses sorrisos agudos.

— Feito.

— Eu também irei. — Foi Cathbodua, uma vez uma deusa da batalha, e agora uma exilada da guarda do Cel. Sua capa era feita de plumas negras. Se a olhava de esguelha, seu cabelo, fino e negro, confundia- se com a capa e parecia formar parte dela como se também fosse feito de plumas. Ela era Cathbodua, O Corvo que Sobrevoa na Batalha, e embora tinha diminuído seu poder, era uma das poucas nas cortes que tinha conservado seu nome original. Dizia-se que ela não tinha sido violada pelo Cel, pois ele a temia. Dogmaela que estava de pé a seu lado com a armadura posta, tinha sido apelidada o cão do Cel porque tinha tido que claudicar com cada tarefa horrível que Cel lhe tinha atribuído. Publicamente lhe tinha negado o sexo, e ele nunca a tinha perdoado. Cathbodua fazia o mesmo, e não tinha sofrido excessivamente por isso. Havia algo a seu redor, ali de pé na neve, toda envolta em negro e plumas, que a fazia parecer cheia de poder, a classe de poder necessário para mantê-la valente frente a Cel.

— Pensa que poderá manter nosso passo, passarinho? — Perguntou Usna.

Lhe lançou um sorriso tão gélido para congelá-lo em um bloco de gelo.

— Não se preocupe por mim, gatinho, não serei a última nesta carreira.

— Recorda quem é o predador aqui, passarinho. — Disse Usna com um tom que parecia estar a meio caminho entre um ronrono e um grunhido quase felino.

— Eu. — Disse ela com um sorriso largo e os olhos cheios de uma alegria feroz.

— Todos nós, diria eu. — Disse Doyle. — Frost, cuida de Merry.

— Farei-o.

— OH, muito bem. — Disse Rhys. — Por isso parece nem sou o suficiente rápido pára lhes seguir nem pode me confiar a segurança da princesa.

— Ajuda a Merry com os humanos, Rhys. — Doyle percorreu com o olhar a Cathbodua e Usna.

— Estão preparados?

— Estou preparada. — Disse Cathbodua.

— Sempre. — Disse Usna.

Doyle se girou para Biddy. — Isto pode doer.

— Faz-o. — Ela se preparou, as mãos na neve.

Doyle flexionou suas mãos, parecendo como garras negras contra o prateado da armadura do Biddy. Ela deixou escapar uma respiração afiada. A magia do Doyle criou uma labareda que quase transpassou os escudos aos que eu me aferrava para me manter protegida dos efeitos do feitiço. A aura de Biddy, sua armadura metafísica se iluminou com a luz, como se essa labareda cobrisse todo seu corpo. Doyle mergulhou suas mãos nessa labareda de luz e saiu com uma bola redonda de luz, mas a luz não era de uma cor entre branco e amarelo pálido e limpo como o aura de Biddy. Era um amarelo doentio, escuro, com reflexos alaranjados. Doyle apertou suas mãos mais estreitamente ao redor dessa esfera de luz até que a piscada dessas chamas laranjadas se esparramou de entre seus dedos.

Ele estava de pé cuidadosamente, como se sustentasse uma terrina cheia até quase transbordar, de sopa muito quente. Apartou-se um passo de Biddy e dos outros guardas que estavam ali, com o fim de que não houvesse ninguém entre ele e a colina gelada pela neve.

Usna e Cathbodua lhe seguiram. Usna deixou cair sua capa larga e ficou de pé vestido de couro, sua respiração empanando o ar gelado, sua expressão impaciente, e seus olhos brilhando com antecipação. A cara de Cathbodua parecia ser feita de um mármore pálido, perfeito, belo, e frio. Longe de arrojar sua capa, ela a envolveu mais apertadamente a seu redor. Dava-me conta de que sua respiração não era visível nesse ar gélido. Tive um momento para me perguntar por que, e logo Doyle levantou suas mãos para o céu, e a chama que sustentava se converteu em um pássaro, um falcão feito de chamas vermelhas e laranjadas, que batia suas asas brilhantes para ganhar altitude. Doyle abriu sua capa negra e larga e a deixou cair na neve. Desfez-se de suas armas e as lançou sobre o chão nevado. O falcão bateu suas asas de fogo duas vezes e olhou fixamente abaixo, para nós, com seus olhos chamejantes nos olhando a todos e uma aparência arrogante que parecia querer dizer:

— Não me apanharão nunca... — Logo se foi, movendo-se a grande velocidade como um cometa de fogo flamejando na noite.

Doyle se foi simplesmente. Sei que ele correu, mas foi como tratar de olhar a escuridão quando cai. Nunca o vi passar realmente. Ele era uma forma escura alta, andando a passo sustentado sobre a neve. Cathbodua estava com ele. Não parecia estar correndo. Era quase como se sua larga e emplumada capa flutuasse sobre a neve, e ela com ele. Usna seguia a curta distância. Seu cabelo multicolorido brilhava sob a luz das estrelas, e cintilou refletindo cores sobre a neve, quando se deslizou brandamente detrás deles.

— Ele o tem difícil se pensar que pode adiantar ao Doyle. — Disse Rhys.

— Sim. — Disse Frost. — Não se pode ganhar da Escuridão.

— E a cólera viaja no mesmo vento. — Disse Dogmaela.

— A cólera? — Perguntei eu.

— Ela é um corvo de mau agouro. É o descontentamento que conduz aos homens à batalha.

— Cathbodua inicia a briga, e logo se alimenta dela. — Disse Biddy enquanto Nicca a ajudava a ficar em pé.

— Ela pôde havê-lo feito anteriormente, — disse Frost, — mas esses tempos deixaram de existir.

— Isso é o que você acha. — Disse Dogmaela. — Cathbodua ainda desfruta de uma boa briga. Não te equivoque sobre isso, Frost. lhe aborrece a paz.

— Isto não é paz. — Disse Frost.

— Possivelmente, — disse ela — mas não é uma batalha tampouco.

— Não fiquemos aqui esperando. — Disse Rhys. Acrescentando ironicamente — E agora, meninos, vamos falar com os bons policiais antes de que lhes congelem as ?insígnias.

— As "insígnias? — Perguntou Dogmaela, — É um novo jargão para dizer sua bolas?

Rhys sorriu abertamente para ela.

— Quando caminharmos para eles todos tirarão suas insígnias e as dirigirão à princesa.

Frost e eu exclamamos ao mesmo tempo: — Rhys!...

— Que coisa tão estranha. — Disse Dogmaela.

Ela tomava tudo de forma literal. Não tinha nem o menor senso de humor. Rhys podia sair maltratado por isso. Expliquei-lhe o duplo sentido enquanto caminhávamos para o estacionamento. Lhe lançou um olhar sujo, enquanto Rhys sorria como um anjo lascivo.

— Se comporte. — Disse-lhe por baixo so fôlego.

— Estou-me comportando. — Disse ele inocentemente. — Quando vir como falo com o superior da polícia, pensará que sou um santo.

— Por quê?

— Porque não estará sangrando.

Olhei-lhe, tratando de decidir se estava ou não falando de brincadeira. Sua cara me dizia que não. Que tão mau podia ser um Agente do FBI? Como dizia aquele velho ditado, estávamos a ponto de descobrir.


CAPÍTULO 14


A POLÍCIA, TODA UNIFORMIZADA, AGÜENTAVA ESTÓICA SOB o frio de dezembro. Possivelmente alguns deles tivessem permanecido em seus veículos tentando se manterem quentes e só saíram pra fora quando nos viram chegar, mas de algum modo davam a sensação de que tinham estado debaixo desse frio gélido durante um bom tempo. Se não era por nós, então por que não ficaram dentro de seus automóveis e caminhonetes com a calefação ligada? Certamente porque seus chefes estavam de pé aí fora, sob o frio. Ninguém fica sentado em seu carro quentinho enquanto seu superior agüenta fundo na neve até os tornozelos. Tínhamos limpo a área do estacionamento completamente, mas aparentemente a neve tinha caído de novo voltando a cobrir a superfície.

Reconheci o Comandante Walters por seus largos ombros e sua altura. O homem que aguardava junto a ele era pelo menos 15 cm mais baixo e não era ninguém a quem eu conhecesse. Mas teria apostado bastante dinheiro a que era do FBI. E pela forma em que estava gritando ao Walters, apostaria também que, provavelmente, o estava deixando com dor de cabeça.

Quando tinha dito ao Agente Especial Raymond Gillett que não viesse, não tinha especificado também que não enviasse a nenhum outro agente do FBI. Recordaria ser mais específica se alguma vez falasse com ele de novo.

Rhys tratou de chamar sua atenção, mas foi a voz do Frost a que cortou a disputa.

— A princesa Meredith NicEssus. — Anunciou Frost, as palavras ecoando sobre o ar gelado.

Detiveram a discussão, voltando-se para nós com surpresa, quase como se tivessem esquecido que eu estava aí. Logo ambos trataram de falar ao mesmo tempo comigo.

Levantei minhas mãos, as deixando escorregar fora da capa.

— Cavalheiros, cavalheiros, por favor, um de cada vez.

Ambos trataram de ser o primeiro de uma vez. Assim decidi por eles.

— Comandante Walters, por que está ainda aqui no estacionamento?

por que não bateu na porta?

Sorri quando disse isto, mas o sorriso não chegou a meus olhos.

Walters sacudiu com força um polegar assinalando ao homem menor.

— Ele não nos deixou dar um passo fora do estacionamento. Diz que é território federal, e isto se converte em um caso sob sua jurisdição. Voltei-me ainda sorrindo para o outro homem e com expressão duvidosa lhe perguntei:

— E você é?

— Agente John Marquez. — E ele se inclinou de modo respeitoso. — É uma honra conhecê-la, Princesa Meredith.

Fiz um intento para não rir. A reverência tinha sido exagerada.

— Desejo poder dizer o mesmo, Agente Especial Marquez.

Ele elevou a vista, com uma expressão perplexa em sua cara.

— Fizemos algo para ofendê-la, Sua Majestade? Sacudi minha cabeça.

— Majestade só se utiliza para a rainha, e eu não o sou, ainda. Liguei para o Comandante Walters e pedi a ele que viesse com seu pessoal, mas não chamei o FBI, assim é que estou um pouco desconcertada ao ver você aqui.

— O País das Fadas é terra federal, Princesa. Isso faz que estes crimes estejam sob nossa jurisdição, como já assinalei ao comandante Walters.

— Ah, mas tecnicamente estamos dentro do País das Fadas, e nenhum de vocês tem jurisdição aqui.

Marquez sorriu condescendentemente.

— Mas você requereu a ajuda da polícia, e a Colina das Fadas está em terra federal, e por isso estamos aqui. Neguei com a cabeça.

— Só se nós pedirmos sua ajuda; até esse momento é nossa terra.

Ele negou com a cabeça.

— Você nos chamou, Princesa. O agente especial Gillett recebeu uma ligação dela, e ele a enviou a nosso escritório local.

Eu tinha imaginado isso, mas ainda assim era decepcionante saber com toda certeza.

— Fiz a ligação ao Gillett por cortesia e em honra aos velhos tempos. Logo me dei conta de que tinha me equivocado ao lhe chamar.

— Mas agora estamos aqui, e temos instalações forenses com as que a polícia local de St. Louis não pode competir.

Uma mulher se destacou do grupo de gente. Tinha o cabelo loiro de um tom amarelo perfeitamente acreditável em um humano. Os óculos escuros tampavam uma cara bonita pelo que tomou um momento notar seus olhos que eram grandes e bastante acerados.

— Sou a Dr. Caroline Polaski, capitão no comando do Centro Médico de Investigação da cidade St. Louis, e me ofende isso.

— Você não pode comparar seu laboratório com o nosso. — Disse Marquez.

— Fiz meu período de práticas com vocês, em realidade sim posso.

— O período de práticas, logo não foi o suficientemente bom para ter êxito.

Lhe lançou um olhar hostil.

— Comprove seus registros. Saí dali porque meu marido conseguiu um trabalho melhor aqui, e eu me ofereci pra mudar de trabalho para o acompanhar. Em sua agência não teriam me dado valor.

— Porque você não era o suficientemente boa para ser oficial de nossa agência. — Disse Marquez.

Isto não nos levava a nenhuma parte.

— Chega. — eu disse. Olharam-me.

— Querem ou não saber quem está a cargo aqui? Esse é o motivo desta discussão, correto?

Polaski e Marquez inclinaram a cabeça. Walters somente me olhou. Sorri.

— Essa é uma resposta fácil, damas e cavalheiros. Sou eu.

Marquez me dirigiu um olhar que, até debaixo daquela luz débil, dizia-me claramente que eu era uma pequena moça e não deveria tentar jogar com os moços grandes.

— Bem, Princesa, sua chamada de petição de ajuda indica que você não pensa que sua gente seja capaz de dirigir um duplo homicídio.

— Sou responsável por esta investigação, Agente Marquez. Estou contente que ofereça sua ajuda, e com muito gosto a aceitarei, mas não quero que haja nenhuma confusão. – Fixei meu olhar no Walters e na Dra. Polaski. — Eu sou a responsável aqui, e se alguém tem um problema com isto não porá um pé em nossa terra.

Marquez discutiu, como eu já tinha esperado.

— Não é você uma oficial de nenhuma classe, Princesa. Sem ofender, mas esta investigação necessita algo mais que um detetive particular a cargo dela.

— Minha licença de detetive particular não é válida fora da Califórnia, Agente Marquez.

— Você não tem posição legal para assumir o comando.

Dava um passo para ele tão rápida e inesperadamente, que ele realmente deu um passo para trás antes de conseguir parar-se. Elevei a vista até ele, uns centímetros mais alto que eu, e lhe permiti investigar o ovalóide delicado de minha cara emoldurado por toda essa pele suave.

— Nenhuma posição legal, Marquez? Sou a Princesa Meredith NicEssus. A única pessoa que me excede em classe daqui em diante, nesta terra, é a Rainha do Ar e da Escuridão. Vocês e seu pessoal estão aqui como convidados e só isso de agora em diante. Acredito que já suportei o bastante.

— Não nos vai dizer que vai despedir a todos nós porque machucamos seus delicados sentimentos.

Deusa, que atitude!

— Não. Vou levar o comandante Walters e a seu pessoal conosco, e você vai deixá-lo fazer seu trabalho.

— Quando eles não puderem dirigir a situação, e necessite nossa ajuda, você não poderá consegui-la, Princesa.

Poderíamos necessitar sua ajuda. Esperava que não, mas poderíamos chegar a necessitá-la. Tive uma idéia. Recorri ao Walters.

— Você tem um celular?

Walters me olhou um pouco surpreso, mas me emprestou o seu.

— Posso fazer uma chamada de longa distância?

— Pra onde vai ligar?

— Washington, D.C.

Walters fez uma respiração profunda.

— Fique a vontade.

Marquei um número que a secretária da rainha tinha me entregue antes que saíssemos. Tinha esperado não ter que usá-lo, mas havia visto suficientes disputas territoriais em Los Angeles para saber que os agentes locais e os do FBI poderiam fazer mais mal que bem à investigação se começavam a competir entre eles. Marquez o faria a sério.

Depois de ouvir minha saudação inicial e a petição, Marquez disse:

— Não chamará o presidente dos Estados Unidos?

— Não. — Estava na espera. — Não estou ligando pra ele. Marquez franziu ainda mais o cenho.

A voz de uma mulher chegou através do telefone, e disse:

— Primeira Dama, que agradável falar com você outra vez. As sobrancelhas do Marquez se elevaram.

Eu tinha conhecido Joanne Billings quando seu marido era ainda senador. Tinham vindo ao funeral de meu pai, e seu pesar tinha parecido sincero entre todos os políticos que havia ali esse dia. Depois disso o Senador Billings e sua esposa tinham feito várias visitas ao País das Fadas, e me dava conta de que Joanne Billings tinha sangue sidhe em seus ascendentes. Meu pai não tinha me criado para ignorar uma vantagem política, e além disso, eu gostava de Joanne. Ela era de mente aberta, apesar da imprensa desfavorável a Corte Escura, e se encarregava, quando podia, de nos fazer uma publicidade positiva. Trocamos saudações de cortesias, e me assegurei de convidá-la a minha festa oficial de compromisso, a que se faria para o consumo público. Ela realmente tinha me visitado na universidade uma vez, sem seu marido, sozinha, para ver como estava indo. Por então ela e seu marido tratavam de obter votos dos jovens. Suas fotos com a princesa das Fadas da América não me doeram quando foram publicadas. Entendi, e não pensei mal dela por isso. Tinha-a convidado a minha formatura, e ambos tinham vindo. Tínhamos tirado uma foto todos juntos. Tinha sido um dos últimos eventos aos que tinham assistido antes que eu deixasse de viver no País das Fadas, e para a opinião pública pareceu muito espetacular que eu aparecesse em público com eles em um par de reuniões. Trocamos um pouco de bate-papo e logo ela disse:

— Assumo que uma chamada a estas horas não é por uma razão social.

— Não. — Fiz-lhe um bosquejo breve da situação. Ela guardou silêncio por um segundo ou dois.

— O que necessita de mim?

Expliquei um pouco por cima o que Marquez havia dito, e adicionei...

—... e ele ameaçou com que se não lhe deixasse entrar agora, então se asseguraria que o FBI não nos ajudasse se mais tarde necessitássemos sua experiência para solucionar o delito. Pode lhe dirigir umas palavras por mim?

Ela riu.

— Poderia ter ligado para o serviço diplomático, poderia ter se dirigido ao embaixador. Podia ter chamado a uma dúzia de pessoas, mas me ligou primeiro.

— Sim. — eu disse.

Ela riu outra vez, e soube que tinha gostado que a tivesse chamado primeiro. Também soube que gostou que não tivesse perguntado por seu marido.


— Passe o telefone. – Disse ela, e sua voz já tinha tomado o tom educado, e quase ronronante que tinha quando falava no rádio ou televisão.

Dei o telefone ao Marquez. Ele me olhou de esguelha, um pouco pálido. Sua conversa foi em sua maior parte: ?Sim, senhora... não, senhora... claro senhora... Ele me devolveu o telefone, parecendo de uma vez zangado e doente.

— Acredito que ele se comportará melhor agora. — Disse-me ela.

— Obrigado, muitíssimas obrigado, Joanne.

— Quando finalmente escolher um marido, melhor me convida à festa de compromisso. — Guardou silêncio por um segundo, logo disse, — lamento o que aconteceu com o Griffin. Vi as fotos que ele mandou aos jornais sensacionalistas. Não tenho palavras para descrever que lamentável me pareceu e que bastardo resultou ser ele.

— Superei-o.

— Estupendo.

— E lhe farei chegar um convite à festa de compromisso, ou à bodas. Ela riu outra vez com um deleite sincero.

— Todos no mundo das fadas engalanadas para umas bodas, mal posso esperar.

— Obrigado, Joanne. — Desligamos o telefone, e me voltei para o Marquez. — Há alguma outra coisa que você queira saber, Agente Especial Marquez?

— Não, tive tudo o que posso suportar por uma noite, muito obrigado, Princesa Meredith.

E me lançou um olhar que me disse que eu tinha feito um novo inimigo. Enfim, um inimigo que não trataria de me matar. Era quase refrescante.

— Você e seu laboratório estarão disponíveis se necessitarmos sua experiência? — Perguntei, mantendo minha voz neutra.

— Prometi à Primeira Dama que assim seria.

— Obrigado. – eu disse, logo me voltei para o Comandante Walters que estava tentando não parecer contente e falhava estrepitosamente. Virtualmente estava a ponto de me beijar. A polícia local passava muito tempo cedendo terreno aos agentes do FBI; Por uma vez a situação era contrária e Walters desfrutava. Ele esperou até que saímos andando na neve rodeados por um círculo de meus guardas que virtualmente nos escondiam da vista dos do FBI para estalar em um ataque de risada. Realmente, era um homem com um autocontrole de ferro.


CAPÍTULO 15


FOI FROST QUEM PÔS SUA MÃO CONTRA A NEVE QUE cobria a colina e bateu na porta. Apareceu com um tinido musical que fez que todos os policiais sorrissem, inclusive o comandante Walters. Esta era a porta de acesso a Corte, todos os humanos entravam sorrindo, mas nem sempre saíam da mesma maneira. Dentro destes muros havia um humano que sairia em um saco de cadáveres.

A extensão da porta era grande e brilhante, mas eu sabia que a luz era realmente tênue. Via-se brilhante porque estávamos caminhando na noite nevada.

Os policiais se toparam com essa tênue luz no corredor do vestíbulo e lançaram exclamações de surpresa. Os policiais não mostram surpresa, ao menos não os que estiveram neste trabalho por um tempo. Os policiais são os mais enfastiados, cansados, aborrecidos. Já que ainda estando aqui, para fazer isto, não haviam nem tirado sua camisa de uniforme.

Um dos policiais disse:

— OH, Meu deus, as cores são tão bonitas.

As paredes eram cinzas e vazias. Não havia cor.

O comandante Walters olhou para cima, para essas paredes nuas, como se visse algo indescritivelmente formoso. Todos seus rostos mostravam deleite, surpresa. Alguns exclamavam como se estivessem vendo foguetes. Os guardas e eu só víamos as paredes vazias.

— Rhys, esqueceu de usar o óleo nos amáveis policiais?

— Os repórteres não necessitaram, — disse, — como ia saber que os duros policiais e cientistas forenses seriam mais suscetíveis à magia da corte?

— Não deveriam. — Disse Frost.

— O que quer dizer? — Perguntei.

— A rainha deu recipientes de óleo aos guardas como precaução em caso de que os repórteres caíssem sob o feitiço da magia. Isto é intrínseco do sistema, mas era somente uma precaução. O vestíbulo principal não afetou aos humanos desta forma nos últimos cinqüenta anos.

— Bom, — eu disse, olhando como os humanos estavam olhando a seu redor como se o vestíbulo estivesse em meio de um carnaval — O que seja que esteja causando isto, necessitaremos que se detenha ou eles nos serão inúteis. Não podem fazer o trabalho policial desta maneira.

— Um feitiço causou isto? — perguntou Arzhel enquanto empurrava a pele escura de seu negro manto fora do ovalóide de seu rosto emoldurado pelos grossos cachos de cor café que baixavam até seus joelhos. Essa juba grossa estava sujeita detrás de seu rosto só por um círculo de prata. Estava vestido com um duro traje de armadura, adornado aqui e lá com prata. Seu corpo sob a armadura estava tatuado com pelagem, tanto como Nicca o estava com suas asas. A tatuagem era tão real que queria acariciar sua pele, ver se estava aí. Seu rosto e a maior parte frontal de seu corpo era limpo e pálido como a luz da lua, como minha própria pele. Isto fazia que o marrom e o dourado de sua pele se visse escura em contraste. Com sua armadura e seu casaco, quase podia passar por um humano, exceto por seus olhos. Eram de um marrom avermelhado, uma cor que poderia ser humano, mas não era. Tampouco eram olhos sidhe, pareciam os olhos de um animal de algum tipo. Uma vez, eu encontrei uma foto em um livro, uma ampliação de duas páginas dos olhos de um urso. Me apoiando na foto sabia que tinha visto esses olhos no rosto do Arzhel.

— Não é um feitiço, — disse Frost, — teríamos notado. Azhel assentiu.

— Estiveste procurando?

— Sim.

— Como eu. — disse Crystall. Sua voz soava como badaladas no vento. Ainda se ocultava detrás de seu casaco branco.

— Usem o óleo neles, — eu disse, — orelhas, olhos, boca e mãos.

— Nas mãos? — Perguntou Azhel.

— A princesa quer nos assegurar que eles possam funcionar completamente sem ser afetados pelo sithen. — Disse Rhys, apartando seu comprido abrigo e tomando um pequeno recipiente do bolso interno de sua jaqueta. Ele tirou o plugue da garrafa escura, então ficou frente à Dra. Polaski. Perguntou-lhe se podia tirar seus óculos, mas foi como se ela não pudesse ouvi-lo, e possivelmente não pudesse. Rhys tirou gentilmente os óculos de seu rosto. Ela pestanejou quando lhe roçou um olho.

— Isto a fará ver realmente. — Disse. Ela saltou pra trás, então começou a olhar as paredes. Cobriu os olhos com suas mãos.

— OH, Deus, OH, Deus, o que está acontecendo comigo?

— Me deixe fazer no outro olho, e se sentirá melhor, — disse Rhys, — só mantenha-os fechados enquanto o faço.

Teve que lhe separar as mãos de seu rosto, mas ela manteve seus olhos fechados. Ele tocou sua outra pálpebra e disse:

— Para que possa ver realmente. — Apartou-lhe o cabelo detrás das orelhas, e riscou com o azeite a curva de uma orelha, e logo a outra, dizendo:

— Isto a fará ouvir verdadeiramente.

— A música se deteve. — Disse ela, e as lágrimas começaram a derramar-se de suas pálpebras fechadas.

Ele tocou seus lábios.

— Para que possa falar verdadeiramente do que encontre. — Rhys pôs suas mãos com as palmas para cima. — Para que possa tocar e ser tocada verdadeiramente. — Ele se ajoelhou e riscou a ponta de suas botas de neve. — Para que possa caminhar verdadeiramente e saiba distinguir a mentira ante você. — parou-se frente a ela, e fez o último toque em sua testa. — Para que saiba e pense verdadeiramente. — Rhys fez algo mais que tocá-la; pôs aí um símbolo de amparo. Por um momento vi as chamas mágicas riscando uma gélida espiral ao redor de sua testa, para mais tarde introduzir- se sob sua pele.

Ela piscou, e olhou mais à frente como se não soubesse exatamente onde estava.

— Que diabos foi isso?

— Bem-vinda à Colina das Fadas, Dra. Polaski. — Disse Rhys e lhe ofereceu seus óculos.

Frost me passou uma garrafa.

— Doyle me deu a sua, porque onde foi não a necessitará.

Tomei a garrafa oferecida, e me perguntei onde tinha ido Doyle, e o que tinha encontrado.

— Me sentiria melhor se Doyle ou os outros pudessem contatar conosco.

— Eu também. — Disse Frost enquanto começava a verter o óleo no Walters.

Girei-me para a outra mulher do grupo. Ela não era muito mais alta que eu, o que foi uma das razões pela que a escolhi. Quando lhe tirei a capa revelou um cabelo liso marrom recolhido em um rabo de cavalo, um pouco mais claro que a capa que ela usava. Seus olhos eram de um sólido tom amarronzado. O rosto era um delicado triângulo, suficientemente bonito, mas eu tive durante muito tempo aos sidhe ao redor. Ela me parecia como inacabada, como se seus olhos ou cabelos necessitassem uma cor diferente para fazê-la parecer de tudo real.

— Feche os olhos. — Disse-lhe.

Ela não me escutou, mas não eram as paredes o que ela estava olhando. Olhava ao Frost enquanto ele tocava o rosto do comandante Walters. Finalmente toquei seus olhos justo sobre as pálpebras abertas, e ela saltou longe de mim.

— Dra. Polaski, pode me ajudar a mantê-la quieta? — perguntei-lhe.

Ela era uma dos CSI, não da polícia. Polaski veio para nós, e disse:

— Carmichael, isto te ajudará. Fecha os olhos e deixa que a princesa te toque.

Carmichael se via extremamente relutante, mas fez o que sua chefa lhe disse. Ela tremeu sob meus dedos como um cavalo nervoso, com a pele estremecida. Acalmou-se por um momento em que cheguei a suas mãos, e se via acalmada enquanto tocava a ponta de suas botas de excursão, debaixo de seus jeans molhados. Quando me levantei para riscar sua testa, sua voz parecia normal.

— Preferiria o símbolo da cruz. — Disse.

— Uma cruz não funciona. — eu disse, riscando algo muito mais antigo sobre sua frente.

Esses olhos marrons se abriram para me olhar, enquanto o fazia.

— O que quer dizer com que uma cruz não funciona?

— Não somos demônios, Carmichael, só outra coisa. Contrariamente ao mito popular, os símbolos sagrados não detêm nossa magia, tanto como uma cruz sustentada em alto evitaria que um mago pudesse te fazer mal.

— OH. — Disse, e se via um pouco envergonhada. — Não quis ofendê-la.

— Está bem, a Igreja tratou de nos repudiar durante séculos, mas se você necessitar alguma vez o amparo das fadas te recomendaria girar sua jaqueta do reverso em vez de uma prece. — Terminei a última curva do desenho e dava um passo atrás.

— Por que ajudaria girar minha jaqueta ao reverso?

— Muitos aqui vêem só a superfície; troca sua superfície e a magia terá problemas para te encontrar.

— Por quê? — Perguntou.

— Bom, isto não funciona com uma pessoa que realmente conheça e que nunca tenha tratado de te enganar.

— =Alguma vez tenha tratado de me enganar‘, o que quer dizer isso?

— Que nunca tenha tratado de parecer alguém que não é.

— OH, — disse outra vez.

Observei desvanecer o feitiço do rosto do outro humano, enquanto o óleo era aplicado. Um policial disse:

— Acredito que eu gostava mais antes. Agora é só pedra cinza.

— De onde vêm as luzes? — Perguntou Polaski.

— Ninguém sabe realmente. — Disse-lhe.

— Pensava que este óleo fizesse que tudo se visse normal. — Disse Carmichael.

— Assim é. — Disse-lhe.

— Então por que ele ainda é tão malditamente formoso? — Ela assinalou ao Frost.

Sorri enquanto o rosto do Frost se voltava fritou e arrogante. Isto não o fazia um pouco menos atrativo. Os deuses fizeram impossível que ele fosse outra coisa.

— Possivelmente normal seja uma palavra equivocada, — eu disse, — o óleo te ajuda a ver a realidade. Carmichael sacudiu sua cabeça.

— Ele não pode ser real. Seu cabelo é de prata metálica, não cinza, nem branco, é prateado. O cabelo não pode ser prateado.

— É a cor natural de seu cabelo. — eu disse.

— Deveríamos o resto de nós estar ofendidos? — Perguntou Rhys.

— Possivelmente você deveria, — disse Ivi, — mas ela não viu à maioria de nós sem a armadura e os casacos. — Ele empurrou a frente de seu casaco para trás, e afastou o pedaço que ocultava a maior parte de seu rosto. O rosto do Ivi era um pouco magro para meu gosto, e sabia que seus ombros não eram o suficientemente largos para mim, seu cabelo de um pálido verde estava colocado como videiras ou trepadeiras, que alguém tivesse pintado sobre seu cabelo. Quando seu cabelo estava solto, via-se como se flutuasse no vento enquanto ele caminhava. Seus olhos eram de um assombroso verde esmeralda. Acredito que se você não crescesse entre gente de olhos multicoloridos, o vibrante verde de seus olhos valeria um olhar ou dois. Carmichael parecia que pensava assim porque seu olhar foi para ele como se não pudesse evitar.

Crystall abriu seu próprio casaco para trás para revelar seu cabelo que capturava a tênue luz do vestíbulo e a convertia em um arco íris, como se seu cabelo fosse um limpo prisma que brilhasse com luzes de cores. Sua pele era mais branca que a minha, de um branco tão puro que se via artificial. Deixou o casaco branco sobre um braço, e esse braço estava nu. Tive um momento para me perguntar o que estava levando debaixo de seu comprido abrigo e ainda por cima das botas que podia ver. Seu braço brilhou com luz própria, como metal branco, um brilho de carne não verdadeira que nunca tive.

O olhar da mulher foi para ele outra vez, como se não pudesse ajudar a si mesma.

— Parem todos vocês, — eu disse, — deixem ela em paz.

— Não estou fazendo nada. —– Disse Frost.

Olhei seu arrogante rosto e soube que acreditava de verdade. Sabia que uma parte dele nunca entenderia quão bonito era, não realmente. O rechaço de séculos da rainha tinha deixado cicatrizes inclusive no Assassino Frost.

Acariciei seu braço e me girei para o Rhys.

— Como ela parece menos impressionada contigo e Azhel, um de vocês a acompanhará através da Corte.

— Eu também. — Disse Galen. Olhei-o.

Lançou-me um sorriso irônico.

— Ela não está babando sobre mim tampouco.

— A quem de nós quer lhe atribuir a ela? — Perguntou Rhys sacudindo sua cabeça e observando como Carmichael olhava de um a outro homem. O olhar em seu rosto era algo entre a de um menino afligido em uma loja de doces, ou um pequeno animal rodeado de predadores; metade raiva ainda metade medo.

— Você escolhe, Rhys. Você está a cargo de cuidar da polícia enquanto estejam aqui dentro.

— Não Frost?

— Ele está a cargo de cuidar de mim até que Doyle retorne. — As palavras me fizeram me perguntar outra vez onde estava minha Escuridão, aonde o tinha levado o feitiço.

Foi como se Frost lesse minha mente, porque disse:

— Enviarei alguém para ver onde está. Assenti.

— Galen, — disse Frost, — encontra onde está Doyle, e o que tem descoberto.

Quase protestei. Se Doyle, Usna, e Cathbodua estavam todos em perigo, Galen sozinho não seria o suficientemente poderoso para inclinar a balança a nosso favor, ou isso eu temia.

Realmente tomei fôlego para dizer algo, mas Galen se girou para mim com um sorriso que não era de tudo feliz.

— Está tudo bem Merry, farei o que se necessite para trazê-lo de volta a salvo.

Abri minha boca, e ele tocou com seus dedos meus lábios.

— Shhh. — Disse, e se inclinou para deixar um beijo onde seus dedos tinham estado deixando seu calor. — Mostrou ao mundo como se sente em relação a mim. Isso é suficiente. Não tenho que ter todo seu coração. — Foi trotando, uma mão no punho de sua espada, a magra trança de seu cabelo roçando suas costas.

Galen. — eu disse. Mas ele não olhou atrás, e então desapareceu ao girar pelo corredor. Senti o medo abatendo-se sobre mim. A profecia nunca tinha sido meu dom, mas agora estava repentinamente tão assustada que não podia respirar bem.

Agarrei o braço do Frost.

— Ele não deve ir sozinho. Algo mau. Algo mau se aproxima. Frost não discutiu.

— Adair, Crystall, vão com ele.

No momento que os outros dois homens desapareceram na esquina o pânico cedeu. Pude respirar de novo. E algo pesado caiu sobre minha outra mão, algo que ainda estava escondido sob o forro da pele. Agarrei o pé do pesado metal do cálice. Deixei ir ao Frost, e pus ambas as mãos sob o casaco para me ajudar a sustentar a pesada taça. Nunca tinha me dado conta de que era tão pesada até esse momento. O poder é uma carga.

— Está tudo bem? — Perguntou Rhys. Assenti.

— Sim, sim. — Não queria que todos no vestíbulo vissem o que sustentava, mas também sabia que se meu pânico era certo, era porque o cálice tinha me avisado. Tinha que dizer à rainha que o cálice tinha vindo a mim, mas o momento nunca parecia o correto para dizer-lhe. De fato, ela nunca parecia o suficientemente estável para manter uma discussão metafísica e política. Agora o cálice se materializou em minha mão, e isso queria dizer usualmente que tinha uma tarefa pendente. Algo queria, neste momento. Algo que necessitava que eu fizesse. Se só tivesse querido ajudar ao Galen, não teria sido tão pesado em minha mão. O cálice era capaz de nos ajudar magicamente sem necessidade de materializar-se. Então por que estava aqui agora? O que estava a ponto de acontecer? A pontada na minha coluna me dizia que era algo ruim.

Tomei um profundo fôlego, e usei meu casaco e o do Frost para dar a ele e ao Rhys uma rápida olhada do metal dourado sob meu casaco. O olho do Rhys se abriu enorme, e o rosto do Frost se voltou mais arrogante, mais furioso. Rhys converteu a surpresa nesse meio sorriso de brincadeira que usava quando queria esconder o que estava pensando. Tinha levado meses para perceber o que significava esse sorriso.

A voz do Ivi, cheia de risada e com um matiz de brincadeira que dizia muito soou no vestíbulo.

— OH, deuses. – Disse Ivi, e soube que ele o tinha visto também. Meio esperava que dissesse ao resto no vestíbulo o que tinha visto, mas não o fez. Só me olhou com um sorriso de surpresa em seu rosto, como se estivesse desfrutando de uma assombrosa brincadeira privada.

Hawthorne e Amatheon estavam a cada um de seus lados, e não disseram nada. Do rosto pálido do Amatheon tinha desaparecido o sangue, dentro do capuz que ele tinha mantido em seu lugar para esconder a beleza de seu rosto das mulheres. Seus olhos de pétalas de flores pareciam enormes, mas duvidava que alguém mais além de mim e do Frost o tivesse visto, atrás de seu capuz.

A reação do Hawthorne, no caso de que a tivesse tido, estava oculta pelo capacete.

— O que está errado? — Perguntou Azhel. Amatheon disse:

— Nada, eu simplesmente não estava informado que a princesa estivesse dotada com o dom da profecia, isso é tudo. — Sua voz soou um pouco sem fôlego, mas de uma forma normal, possivelmente um pouco aborrecida. Você não sobrevivia nas altas cortes das fadas deixando ver seus pensamentos. Nos chamam de "a gente escondida", e a maioria de nós honra esse nome.

Azhel inclinou sua cabeça, como se não estivesse completamente seguro de acreditar no Amatheon, mas não disse nada. Não conhecia o Azhel muito bem, mas estava segura que ele nunca adivinharia que eu sustentava o cálice sob meu casaco.

Carmichael se aproximou de Ivi do modo que alguém se aproxima de uma estátua em um museu de arte, temerosa de tocá-lo, compelido a passar as mãos para baixo pelas lisas e duras curvas, e temeroso de que alguém te detenha.

— Carmichael, — disse a Dra. Polaski, — Carmichael, — ela tocou o braço da outra mulher, mas igual podia haver tocado a parede dado o nulo efeito que fez nela.

— Rhys, escolhe a outro que não seja Ivi para vigiá-la. — eu disse. Rhys sorriu, e se moveu para ficar entre a vacilante mão da mulher e o corpo do Ivi.

— Andais me requeria. Eu gosto de uma rainha que delegue.

— Ela não é a rainha ainda. — Disse Ivi. O verde brilho de seus olhos mostrou um brilho de humor ligeiramente encoberto pela surpresa.

— O que está errado com ela? — Perguntou Walters. E foi ajudar Polaski, tomando o outro braço de Carmichael. Ela não lutava contra eles, mas não deixava de seguir olhando aos guardas.

— Ela é uma viciada nas fadas. — Disse Rhys.

— Viciada nas fadas, — disse Walters, — mas isso significa manter relações sexuais com um de vocês, certo?

— Normalmente, — eu disse, — mas nossa história está cheia de gente que nos vislumbrou em um bosque e passaram o resto de suas vidas fascinados com as fadas. — Eu suspirei a todos os rostos que de repente se giraram para mim. — Por minha honra, que nunca me ocorreu que nenhum de vocês fosse tão suscetível às fadas.

— A princesa tem razão, — disse Amatheon, — faz séculos desde que vi um humano tão encantado só tendo entrado em nossa terra. — Ele falou para eles, mas seu rosto estava voltado para mim e Frost, que estava detrás de mim.

O rosto do Amatheon tratava de fazer uma dúzia de perguntas que suas palavras só insinuavam. Se não tinha visto esta reação em séculos, o que tinha mudado? Eu sabia que o poder estava retornando aos sidhe, mas não tinha entendido o que queria dizer isto para os humanos que tão brilhantemente havia convidado dentro. O que tinha feito? E, como o arrumava?

— Ela tem que ir embora... — disse. — Agora. Polaski me olhou.

— O que fez sua gente a Jeanine?

— Nada, absolutamente nada, juro-lhe isso.

— Alguns humanos são mais fáceis de afetar pelas fadas que outros.

— Disse Rhys. — Mas isto não é usual em um policial, ou qualquer que tenha visto tanto do lado escuro das coisas. Se estiver enfastiado, simplesmente não acredita mais nas fadas. — Disse isto com um sorriso, mas estava tendo problemas para não mostrar quão preocupado estava.

— Carmichael é nova. — Disse Polaski. — É boa, mas é quase um rato de laboratório. — Um olhar de angústia e culpa cobriu seu rosto.

— Não sabia que não devia trazê-la.

— Nós tampouco sabíamos. — eu disse. — Não é culpa dela. Nunca ocorreu a nenhum de nós que qualquer um pudesse resultar assim de afetado por só atravessar as portas.

— É permanente? — Perguntou Walters. Eu olhei ao homem.

— Só ouvi histórias desta classe de coisas. Assim, verdadeiramente, não sei. — Olhei a todos os guardas — Alguém pode responder à pergunta do comandante Walters honestamente?

— De forma absolutamente honesta? — Perguntou Ivi. Assenti.

Ele respondeu com um sorriso fingido, mas eu sabia que o fingimento era mais para si mesmo que para outros.

— Então não estou seguro.

— O que é malditamente engraçado?

— Nada, — disse Ivi, — absolutamente nada. Admito desfrutar da fascinação da dama porque nunca pensei que veria tão foto instantânea obsessão no rosto de uma mulher de novo. — O humor havia desaparecido mostrando algo da tristeza que escondia a maioria do humor do Ivi, uma tristeza como algo profundo que cortava através do que fosse que tinha sido ele uma vez, assim que a única coisa que ficava do Ivi era essa pequena amostra de humor e essa tristeza.

— Isso é doentio. — Disse Polaski.

Seu rosto mostrava que além disso havia outra emoção nela, a arrogância.

— E como se sentiria doutora, se faz tempo fosse tão formosa que os homens chorassem quando caminhasse na terra do verão, e então, um dia, eles parecessem não vê-la alguma vez mais? Uma flor pode ser formosa por si mesmo, mas uma pessoa nunca é verdadeiramente formosa a menos que os olhos de alguém lhe mostrem que é formosa.

Walters chamou um de seus oficiais uniformizados.

— Leva-a de volta ao laboratório, leve-a para longe da gente formosa.

— Miller, vá com eles. Leva a Jeanine pra casa, — disse Polaski, — mas não a deixe sozinha. Fica com ela toda a noite. Quando o sol sair, ela estará melhor.

Eu elevei minhas sobrancelhas ao Polaski.

— Li que há algumas coisas que podem ir mal tratando com sua gente. Mas nada do que li acautelava sobre trazer gente inocente, ou a teria deixado no laboratório.

— A inocência é sempre mais suscetível a nós. — Disse Hawthorne.

— Ela nunca esteve apaixonada, — eu disse, e estive surpreendida de me escutar dizendo isto, — mas quer estar.

Polaski me dirigiu um olhar curioso.

— Como sabe isso?

Eu me encolhi de ombros, usando meus dedos para manter o casaco fechado sobre o cálice Ivi se aproximou de Carmichael, dizendo — Tome cuidado com o que deseja, pequena, porque pode consegui- lo, e não saberá o que fazer quando desembrulhar o laço. — De novo as palavras estavam tintas de tristeza.

Jeanine Carmichael começou a chorar.

— Deixe-a em paz. — Disse Polaski.

— A estou deixando com tristeza, doutora, não com luxúria, nem felicidade, nem beleza. Estou fazendo todo o possível, para que quando ela desperte pela manhã, só recorde a tristeza, como um sonho ruim. Desejo que ela não recorde nada que a mande para nos buscar de novo.

— Você é louco, sabia? — Perguntou-lhe Polaski.

Lhe brindou esse sorriso fingido.

— Não é a primeira que me dizem isto, mas acredito que a última mulher possivelmente o expressou de forma diferente. Disse que eu estava transtornado.

Polaski o olhou como se ela não pudesse decidir se Ivi estava brincando ou lhe dizendo outro pouco de verdade.


CAPÍTULO 16


ESPERAMOS QUE OS POLICIAIS RETORNASSEM DEPOIS de acompanhar a seus colegas enquanto se foram. O passo através do vestíbulo deveria ser um trajeto curto, mas essa larga extensão de pedra cinza se alargou, e agora havia uma curva que escondia uma porta da vista. A entrada do sithen sempre mudava.

— Acredito que o sithen deseja nos dar um pouco de privacidade. — Disse Frost.

O cálice sob meu casaco se voltou quente contra minha pele. Deixei que meu fôlego saísse em um suspiro, e simplesmente assenti. Eu não gostava que o cálice tivesse aparecido assim. A taça amplificava a magia, e os guardas e eu já tínhamos sofrido estranhos e poderosos percalços estando o cálice presente. Era quase como se o cálice não me queria deixar tranqüila para resolver os assassinatos. A taça pulsou tão forte que me fez ofegar.

Hawthorne se aproximou para me sustentar, mas Frost deteve sua mão e sacudiu ligeiramente a cabeça. Muito perigoso em campo aberto e com os humanos a ponto de retornar. Nós não queríamos explicar algumas coisas aos policiais. Havia coisas que não podíamos explicar a ninguém.

Se todos no corredor tivessem vislumbrado o cálice, poderíamos ter mantido uma rápida conversação, mas tínhamos guardas situados onde não o tinham podido ver, assim evitamos falar do tema.

Começou Ivi:

— Sou um dos que quer resolver os assassinatos. Mas também acredito que deveríamos estar tratando de converter à princesa em rainha em vez de que brinquemos de policiais.

Um pulso curto de poder veio do cálice através de minha pele. O poder arrepiou o pêlo de meu corpo, e me fez paralisar e cair de joelhos. Frost e Hawthorne mantiveram ao resto afastados para que não me tocassem.

— O que acontece com a princesa? — Disse Dogmaela.

— E, por que não querem que a toquemos? — Disse Aisling, que ainda se escondia detrás do capuz, assim só se via o espiral de seus olhos. Ele tinha sido um dos homens da rainha, e inclusive agora tampouco era meu. Seus olhos não eram da tripla cor comum entre os sidhe, pareciam ter uma espiral grafite com linhas de cores, com suas pupilas da mesma cor que o centro do desenho. Quando era menina uma vez lhe perguntei como podia ver com esses olhos, e ele sorriu e replicou que não sabia.

Frost, Hawthorne e eu trocamos olhadas. Outros guardas olharam para onde estava ajoelhada e se detiveram, esperando que eu lhes explicasse.

A doce essência das flores de macieira encheu o ar, junto à mesma sensação de paz que pode chegar quando seus fiéis lhe adoram. Não estava segura de se era uma boa idéia mas me levantei e joguei meu casaco para trás, revelando o cálice em minha mão.

— Isso não é... — Começou Dogmaela.

— Não pode ser. — Disse Aisling.

— Mas é. — Ivi me olhou com o semblante sério, sem nenhum rastro de risada. Sacudiu sua cabeça. — Você o tem desde que retornou a corte, não é certo?

Assenti.

— Como? — Perguntou Dogmaela. — Como?

— Veio para mim em um sonho, e quando despertei estava ali e era real.

Vários deles sacudiram suas cabeças. Ivi sorriu de repente.

— Caiu de joelhos quando disse que deveríamos tratar de te fazer rainha, em vez de brincar de polícia.

O cálice pulsou entre minhas mãos, e meu corpo reagiu a isto. Por um instante minha pele branca brilhou, meu cabelo era um halo carmesim ao meu redor, e meus olhos brilharam verdes e dourados, assim por um batimento do coração vi as cores cintilar ao bordo de minha visão. O poder se desvaneceu instantaneamente como tinha vindo, deixando o pulso golpeando em minha garganta.

— Hmm, isso foi divertido. — Disse Ivi.

— Você só quer foder com ela. — Disse Dogmaela, e seu tom fez que soasse como uma coisa suja. Uma atitude incomum entre as fadas.

— Sim. — Disse Ivi. — Mas isso não me faz pior.

— A polícia voltará logo. — eu disse, minha voz ainda um pouco sem fôlego pela rajada de poder.

— E uma vez eles voltem, a investigação obterá toda sua atenção. — Disse Frost. — O que quer que devamos discutir devemos fazê-lo agora.

Olhei para seu rosto, tão cuidadosamente arrogante.

— Está dizendo que deveria subtrair tempo dedicado a resolver o assassinato para ter sexo?

A voz do Hawthorne me chegou acalmada.

— Sinto que Beatrice e o repórter estejam mortos, mas Ivi tem razão de todas formas. Minha vida e a vida de meus companheiros não mudarão se estes crimes se resolverem. Mas se o príncipe Cel se converte em rei vai mudar uma grande quantidade de coisas. — tirou seu casco, expondo seu ondulado cabelo, sustentado atrás com uma trança, e o verde, rosa e vermelho de seus olhos. Era adorável, mas todos os sidhe eram adoráveis. Eu nunca pensei realmente em compará-lo com outro homem. Era como se nunca o tivesse visto antes, nunca tivesse me dado conta de seu rosto franco, e largos ombros, inclusive para os padrões sidhe.

Frost fez um movimento que atraiu meu olhar.


— Meredith, está tudo bem? — Suas mãos estavam justo sobre meus ombros, como se ele quisesse me tocar mas temesse fazê-lo. Eu posei o olhar sobre o Hawthorne, e repentinamente tonta.

— É o cálice?

— Hawthorne. — Disse Frost, e com uma só palavra foi suficiente.

— Eu não tratei de enfeitiçá-la, simplesmente pensava no muito que desejava ter o que teve Mistral no corredor do vestíbulo. Não só a mostra que tive.

— Não posso te culpar, — disse Frost com um suspiro, — mas o fato de que seus desejos atraiam tão facilmente a magia quer dizer que te ganhaste algo mais que só uma amostra de prazer.

— Por muito que eu deseje terminar com meu celibato, — disse Aisling, — o cálice está entre nós. Como podem falar de algo mais?

— Suas necessidades devem ceder ante as minhas. — Disse Hawthorne.

Amatheon finalmente falou como para si mesmo.

— O cálice retornou às mãos de Meredith, como pode ser isto? Olhei para ele, observando a luta em seus olhos de pétala de flor.

— Quer dizer que o cálice não devia nunca ter retornado às mãos de alguém com o sangue mesclado como eu.

Ele tragou tão forte que parecia como se estivesse lutando com anos de prejuízos.

— Sim. — Disse com uma voz que era um áspero sussurro. Caiu sobre seus joelhos como se uma grande força o tivesse golpeado, e suas pernas já não lhe sustentaram. Olhou-me, e as diferentes cores de seus olhos brilhavam com a luz, não da magia, mas sim das lágrimas.

— Me perdoe, — disse com o mesmo áspero sussurro, como se as palavras rasgassem sua garganta, — me perdoe. — Não acredito que fosse a mim a quem estava pedindo perdão.

O cálice se moveu para ele. Minhas mãos o sustentavam, mas não era minha vontade a que o movia.

Amatheon cobriu o rosto com as mãos.

— Não posso. — Seus largos ombros começaram a tremer, e soube que estava chorando. Agarrei o cálice com uma mão, assim podia tocar seus ombros. Ele soluçou, e abraçou minha cintura, me estreitando tão forte e apertadamente que meio caí contra ele. O cálice tocou a parte de atrás de seu cabelo, e isso foi tudo o que necessitou.

Eu me encontrei em meio de uma enorme planície estéril. Amatheon estava ainda pressionando minha cintura, seu rosto enterrado contra meu corpo. Não estava segura de se ele sabia que algo tinha mudado.

Cheirei de novo flores de macieira, e me girei seguindo sua essência. A colina que tinha visto uma e outra vez em minha visão estava a pouca distância. Pude ver a árvore em seu topo. A árvore que Mistral e eu tínhamos tido ao lado enquanto os relâmpagos golpeavam a terra. Tinha visto a planície, mas nunca tinha estado nela.

Amatheon separou a cabeça de meu corpo com o que pôde elevar a cabeça para me olhar. Ao mover a cabeça, seu ondulado cabelo roçou o pé da taça. Quando sentiu o duro metal, pressionou-se contra ele. Do modo que te recosta na carícia de uma mão. Só então o vi contemplar a planície.

Pôs muito cuidado em não mover-se para não perder o contato de meu corpo e o cálice, mas se agachou para tocar a terra com uma mão. Sua mão subiu cheia de uma terra cinza, tão seca que se deslizava de entre seus dedos como se fosse areia.

Ele me olhou outra vez, seus olhos brilhando com lágrimas que recusava ou não podia derramar.

— Isto não é como foi uma vez, — pressionou sua cabeça para trás contra o metal do cálice, como se procurasse consolo em seu toque, — nada crescerá nesta terra, — abriu sua mão de tudo e deixou que o vento tomasse a terra. — Não há vida aqui.

Levantou a mão que sustentava a terra seca e morta para mim como um menino que se machucou, como se eu pudesse arrumá-lo.

Abri meus lábios para dizer algo que lhe acalmasse, mas o que saiu não foi minha voz e não foi nada tranqüilizador.

— Amatheon, mantém seu nome, pensei que tinha esquecido quem foi, o que foi. – Disse a voz, mais profunda que minha voz normal.

— A terra está morrendo. — Disse, e suas lágrimas finalmente fluíram.

— Eu pareço morta?

Ele franziu o cenho, logo sacudiu sua cabeça. Outra vez o cálice roçou seu cabelo, mas nesse momento senti a carícia de seda de seu cabelo contra minha pele, roçando meu corpo. Isto me fez tremer.

— Deusa?

Toquei sua bochecha.

— Passou tanto tempo, Amatheon, que já não me conhece?

Ele assentiu, e a primeira lágrima caiu do bordo de seu queixo. Uma só gota de umidade caiu sobre a terra, deixando um muito pequeno rastro negro. Mas foi como se a terra debaixo de nós suspirasse.

— Necessitamos de você Amatheon. — Eu estive de acordo com a Deusa. A terra lhe necessitava, eu lhe necessitava, nós lhe necessitávamos.

— Sou teu. — Sussurrou. Tirou sua espada de seu cinturão, e a sustentou em alto em suas mãos como uma oferenda. Então jogou para trás sua cabeça, deixando sua garganta exposta. Seus olhos estavam fechados, como esperando um beijo, mas não era um beijo o que ele esperava. Entendi então que se uma lágrima tinha feito tão bem à terra, então outros fluídos do corpo a fariam sentir inclusive melhor.

Entendi então o que estava oferecendo, e aonde a deusa me estava dirigindo, eu sabia que seu sangue poderia devolver a vida à terra. Ele era Amatheon, um deus da agricultura, mas era muito mais que isso. Era a faísca, o acelerador que faz que as sementes cresçam na terra. Ele era a mágica ponte entre as inativas sementes, a escura terra, e a vida. Sua ?morte traria de volta a vida à terra.

Sacudi minha cabeça.

— Eu acabo de salvar sua vida, não vou tirá-la agora. Sua voz veio através de meus lábios outra vez.

— Ele não morrerá como um homem morre, morrerá como morre o milho. Para crescer outra vez, e alimentar às pessoas.

— Não duvido, — eu disse, — e se essa é sua vontade, que assim seja, mas não por minha mão. Trabalhei muito duro mantendo a minha gente viva para começar a assassiná-los.

— Mas esta não é uma morte real. É uma visão, um sonho. Não é a carne e sangue real do Amatheon o que se oferece ante ti.

Amatheon abriu seus olhos e baixou sua cabeça e sua espada.

— A deusa tem razão, princesa. Este não é um lugar real, não está realmente aqui. Minha morte aqui não será uma verdadeira morte.

— Você não viu as visões como as vi eu, Amatheon. Eu sonhei com o cálice e despertei com ele, sólido e muito real em minha cama. Não te assassinarei aqui, para encontrar seu corpo sangrando no corredor do vestíbulo.

— Deixará que a terra permaneça estéril? — Disse a voz, por minha boca. Ter ambos os lados da conversação saindo de minha boca era um pouco muito caótico para minha tranqüilidade. E esta energia, desta Deusa, sentia-se pesada, não como uma presença confortável.

— Por que não está contente comigo?

— Estou muito contente contigo, Meredith, mais feliz do que estive nunca com ninguém há um longo tempo.

— Escuto suas palavras, mas sinto sua... impaciência. Está impaciente comigo, e não é por isso.

Ela pensou a resposta, mas eu era mortal, e mulher, e eu tinha que dizer isto em voz alta...

— Acha que eu desperdiço meus dons tratando de resolver os assassinatos.

— Você tem a seus policiais humanos. E inclusive agora, Cromm Cruach está com eles usando sua ciência para ti.

Levou-me um segundo para me dar conta de que se referia ao Rhys, com seu nome original.

— Não seu nome real. — Disse ela através de minha boca, — mas sim o último nome verdadeiro que lhe pertenceu.

— Rhys tem um nome mais antigo inclusive que Cromm Cruach?

— Uma vez o teve, acredito que muito poucos o recordam.

Comecei a perguntar o nome, mas pude sentir seu sorriso, e ela disse:

— Está se distraindo com trivialidades, Meredith.

— Me perdoe. — Disse-lhe.

— Não me refiro no nome verdadeiro de Cromm Cruach, refiro a essas mortes. Eles renascerão, moça. Por que se lamenta por eles então? Inclusive a morte verdadeira não é um final. Outros podem achar a seus assassinos e suas pistas, mas há deveres que só você pode realizar, Meredith, só você.

— E quais são exatamente esses deveres? Ela fez um gesto para o Amatheon.

— Faz que minha terra renasça.

Amatheon ofereceu sua espada para mim outra vez, e fechou seus olhos. Expôs seu pescoço em um ângulo de onde eu podia obter um golpe limpo.

— Fez isto antes. — Disse-lhe.

Ele abriu os olhos o justo para me olhar.

— Em visões, e na realidade.

— Não dói?

— Sim. — Então fechou seus olhos, e levantou um pouco mais a espada, como se com isto conseguisse que eu tomasse mais rápido.

— Amatheon é um bom sacrifício, Meredith. Isto não é mau aqui. Sacudi minha cabeça, e disse:

— Como é que tendo toda a eternidade a sua disposição, seja tão impaciente, e eu, que só tenho umas poucas décadas para viver, prefira tomar o caminho mais longo?

Nesse momento senti seu suspiro, e sua felicidade ao mesmo tempo. Isto tinha sido uma espécie de prova, não do bem contra o mal, mas sim da direção que ia tomar o reviver de seus poderes. Eu sabia, com um conhecimento tão sólido como a criação do mundo, que Amatheon teria morrido. Seria uma morte verdadeira. O fato de que ele pudesse levantar da grama, e renascer ?à vida, não mudava o fato de que tivesse sido minha mão a que lhe teria talhado a garganta. Minha mão a que vertesse seu sangue quente sobre a terra, sobre minha pele. Olhei para baixo, ele estava ajoelhado, com os olhos fechados, o rosto em paz.

Tomei a espada pelo punho, e a tirei das mãos. Suas mãos caíram aos lados, frouxas, só uma ligeira tensão nos dedos me permitia saber que estava lutando com o impulso de proteger-se contra o golpe.

Ele tinha passado de me odiar por meu sangue mestiço a me oferecer sua pura carne sidhe, e me deixar pulverizar seu peóprio puro sangue como se fosse chuva quente para empapar a terra.

Inclinei-me sobre ele e pressionei minha boca com a sua. Seus olhos se abriram, enormes e assustados. Acredito que o beijo lhe surpreendeu mais que qualquer golpe que pudesse ter recebido. Eu sorri ditosa pra ele.

— Há outras formas de fazer que a erva cresça, Amatheon.

Ele olhou para cima, para mim, sem entender por um momento. Então a sombra de um sorriso acariciou seus lábios.

— Nega o mandato da Deusa? Sacudi minha cabeça.

— Nunca, mas a Deusa vem de muitas maneiras. Por que escolher a dor e a morte quando pode escolher o prazer e a vida?

Seu sorriso cresceu só um pouco. Inclinava seu pescoço quase de uma maneira dolorosa desde sua posição de sacrifício, então olhou sua espada em uma de minhas mãos e o cálice na outra.

— O que poderia ter de mim, princesa, a Deusa?

— OH, não. — Disse ela, e esta vez a voz não veio de meus lábios. Havia uma figura imprecisa não muito longe de nós, seus pés não tocavam o chão nu. Levava um capuz posto, e por muito que o tentei não a pude ver claramente. A mão que sustentava o capuz fechado não era nem velha nem jovem, nem nada entre isso. Ela era todas as mulheres e nenhuma. Ela era a Deusa.— OH, não, Amatheon, ela fez sua escolha. Eu a deixarei com sua decisão. Ela não necessita de mim para terminar esta tarefa. — Ela soltou uma pequena risada entre dentes que tinha algo da secura da voz de uma mulher mais velha, o som rico e melodioso de uma mulher na flor da vida, e a alegria da juventude. — Não estou muito freqüentemente de acordo com o Andais, mas nisto sim. Sangrenta deusa da fertilidade. — Mas ela riu outra vez.

— Não sabia que Andais ainda falasse contigo, Deusa.

— Eu não deixo de falar com minha gente, eles que deixam de me escutar, e depois de um tempo, eles já não podem escutar minha voz. Mas eu nunca deixo de lhes falar. Em sonhos, ou nesse momento entre o estar acordado e dormindo, essa é minha voz. Em uma canção, o toque de outra mão na deles, eu estou aí. Eu sou a Deusa, eu estou em todas as partes, e em tudo. Eu não posso ir embora, e vocês não podem me perder. Mas podem me abandonar, e podem me dar as costas.

— Não quisemos te deixar sozinha, Mãe. — Disse Amatheon.

— Não estou sozinha, moço. Não posso estar realmente sozinha, mas posso estar solitária.

— O que podemos fazer, Mãe, para nos arrepender?

— O arrependimento é um conceito alheio a nós, Amatheon. Mas se você deseja fazer funcionar isto para mim.

— Sim, Deusa, com todo meu coração.

— Faz que a terra viva outra vez, Amatheon. Pulveriza sua semente sobre o que está estéril, e faz que viva outra vez. — Ela começou a desvanecer-se como a neblina sob o sol.

— Deusa... — Disse ele.

Sua voz flutuou até nós...

— Sim, filho?

— Te verei outra vez?

Sua voz soou jovem e velha ao mesmo tempo.

— No rosto de cada mulher que conheça. — Ela tinha ido embora.

Ele olhou o espaço onde ela tinha estado, e só quando deixei que a espada caísse à terra ele se girou para mim.

— Que desejas de mim, princesa? Sou teu em qualquer forma que me queira. Seja com minha vida, meu sangue, ou a força de meu braço direito, eu te servirei.

— Soa como se estivesse me fazendo um juramento por sua sagrada honra como um antigo cavalheiro.

— Sou um antigo cavalheiro, Meredith, e se for minha honra o que quer, pode o ter.

— Você disse ao Adair que não tinha honra, que a rainha a tomou junto com seu cabelo.

— Eu toquei o cálice e vi o rosto da Deusa. Tal bênção não dá a alguém indigno.

— Está dizendo que sua honra está intacta porque a deusa te tratou como a alguém que é honorável?

Um rápido olhar de desconcerto passou por seus olhos multicoloridos, e disse:

— Sim, suponho que sim.

— Fala o que está pensando.

Amatheon sorriu, um rápido vislumbre de humor verdadeiro, que fez que seu rosto fosse menos arrumado, mas mais real, mais perfeito desde meu ponto de vista.

— Minha honra nunca se foi, porque ninguém pode te tirar a honra, não sem que você a deixe ir. Ia dizer que você tinha me devolvido minha honra, mas agora entendo.

Eu lhe sorri.

— Ninguém pode tirar sua honra, mas você pode deixá-la de lado. O sorriso tremeu em seu rosto.

— Sim. Deixei que o medo levasse minha honra.

Sacudi minha cabeça. Ele sorriu de novo, quase envergonhado.

— Quero dizer que meu temor se voltou mais importante que minha honra.

Detive suas palavras com um beijo. Passei minhas mãos sobre suas costas, o cálice ainda sustentado em minha mão direita. Seus braços me enlaçaram tentativamente, como se ele não estivesse seguro de como começar. Eu pensava que o sexo tinha que começar devagar e gentilmente, mas eu sustentava o símbolo da deusa. Uma deusa impaciente. O cálice nos empurrou para o chão como se houvesse um grande ímã debaixo da terra. Quando o cálice se encontrou com a terra, foi absorvido por esta e me encontrei com as mãos vazias. As costas do Amatheon golpearam a marca que o cálice tinha deixado ao desvanecer-se. Sua coluna se arqueou, suas pálpebras se fecharam, seus dedos se convulsionaram contra minhas costas, seu corpo apertando-se contra o meu. A força de suas mãos, a solidez de seu corpo, e a expressão de necessidade em seu rosto, empurraram-me até ele, empurraram minha boca contra a sua, minhas mãos vagaram por seu corpo. Quando minha mão se deslizou entre nossos corpos para poder sustentar sua dura, e grossa longitude, ele se estremeceu e gemeu. Seus olhos eram enormes quando olharam para mim.

— Por favor, princesa. — Sua voz rouca não parecia a sua.

— Por favor, o quê? — Sussurrei contra sua boca.

— Não posso te prometer quanto poderei durar.

— O que quer, Amatheon?

— Te servir.

Sacudi minha cabeça, tão perto sobre ele que meu cabelo roçou seu rosto quando o fiz.

— Me diga o que é o que quer, Amatheon.

Ele fechou seus olhos, e tragou tão forte que soou quase doloroso, mas quando abriu os olhos de novo, estava acalmado, mas havia algo aí, nesses olhos de pétalas de flor que ainda era cauteloso. Sua voz foi um sussurro, como se não quisesse falar de seus desejos em voz muito alta, como se alguém o pudesse ouvir por acaso.

— Quero que monte em mim, para pressionar meu corpo nu contra a terra. Quero ver seus peitos dançar sobre mim. Quero sentir seu corpo deslizando-se sobre o meu como uma vagem sobre uma espada. Quero observar sua pele brilhar, seus olhos e seu cabelo dançar podendo enquanto me introduzo em ti tão profundo e tão duro como posso. Quero te escutar gritar meu nome com essa voz que as mulheres usam só quando alcançam o mais alto de sua paixão. Quero pôr minha semente em seu corpo até que escorregue por suas coxas, e chegue a meus próprios quadris. Isso é o que quero.

— Soa maravilhoso. — Disse-lhe.

Ele me olhou, franzindo um pouco o cenho.

Sorri, e toquei um ponto entre seus olhos onde se deveria enrugar ao franzir o cenho como neste momento, se é que ele pudesse franzir o cenho.

— O que quis dizer, Amatheon, é sim. Façamos todo isso.

— Quer dizer que obterei meu desejo. — Disse.

— Isto não é o que nós estamos acostumados a fazer, conceder às pessoas seus desejos? — Sussurrei-lhe, sorrindo.

— Não, — disse, — nós, nenhum de nós, concedemos desejos.

— Era uma brincadeira. — eu disse.

— OH, eu...

Pus meu dedo em seus lábios para detê-lo.

— Façamos que a erva cresça. Ele franziu o cenho.

— Me foda. — Eu disse, e tirei o dedo de seus lábios.

Amatheon sorriu com um brilhante sorriso que o fazia parecer mais jovem e mais humano.

— Se isso for o que desejas...

— Agora, quem está se oferecendo a conceder desejos?

— Te concederia qualquer coisa que esteja em meu poder te dar. Sentei-me e pressionei meu sexo contra o seu, e ainda através de nossas roupas, a sensação foi incrível. Ele estava tão duro, tão verdadeiramente duro, que devia sentir um prazer que estava perto da dor.

— Me dê isto. — Disse-lhe, e era minha voz a que estava rouca agora.

— De boa vontade. Deixa que nos tiremos a roupa...

Retirei meu olhar de sua cara quando senti a impaciente dureza apertar-se através de meu jeans. Parecia-me um bom plano.


CAPÍTULO 17


NOSSAS ROUPAS CAÍRAM SOBRE A TERRA COMO A CHUVA que tinha esquecido de cair sobre este lugar. Ele jazia contra a terra seca, árida, como uma jóia posta sobre um áspero pano cinza. Tinha começado a brilhar antes que toda sua roupa caísse. Quando deslizei minha mão através de seu braço nu, sua pele brilhou detrás de meus dedos como se um relâmpago ondulasse debaixo de sua pele, como se o suave toque das gemas de meus dedos sobre a parte mais neutra de seu corpo fosse muito. Perguntei-me o que faria ele se eu tocava zonas mais erógenas.

Posei as gemas de dois de meus dedos sobre a elevação da parte superior de seu corpo. A luz floresceu sob meu toque. Seu corpo inteiro cintilou com um branco brilho, mas ao redor de meus dedos a luz se tornou vermelha e laranja, como uma verdadeira chama. No lugar onde o toquei seu corpo ficou mais quente, e o vermelho calor, ardente, seguiu meus dedos quando os desloquei para baixo por seu corpo. Risquei a linha de seu estômago, e unicamente o roce de meus dedos apressou sua respiração, obrigando-o a retorcer-se contra a seca terra. Seus olhos piscaram e se fecharam e suas mãos se enterraram na terra nua, e tudo o que eu tinha feito era roçar com meus dedos através de seu ventre. Perdi a paciência, queria ver o que faria quando pusesse minhas mãos ao redor de sua parte mais íntima.

Acredito que ele esperava que eu percorresse com meus dedos seu comprido vergão inchadp, para lhe dar algum tipo de indício, mas não o fiz.

Rodeei-o com minha mão e apertei. Ele gritou. A parte superior de seu corpo se separou do chão, e a sensação dele entre minhas mãos me fez fechar os olhos, e arquear minhas costas, porque estava muito mais duro do que tinha imaginado. Tão duro, tão terrivelmente duro, que se sentia como mármore liso e duro, salvo pelo fato que estava muito quente.

— OH!, não faça isso, Merry, ou não chegarei ao final.

— Tão duro, — minha voz soou rouca e sem fôlego.

— Eu sei. — Sussurrou, — muito duro. Não durarei.

— Então não dure. — eu disse. Olhou-me com o cenho franzido, seus olhos ainda selvagens.

— O quê?

— Que não dure, por esta primeira vez, toma o que necessite. Pode provar sua resistência a próxima vez.

— A próxima vez, — e ele riu. — Não acredito em próximas vezes. Tudo o que é verdadeiro para mim é você, aqui, agora.

Ele se sentou e se inclinou para mim. Não estávamos nos tocando agora, só estávamos muito perto.

— Se não for o bastante bom, você não me desejará outra vez. Inclinei-me para ele, deixando nossas caras muito juntas.

— Ela julgava a todos na primeira noite? Seus olhos se alargaram.

— Sim. — Suspirou.

— Eu não. Ele sorriu.

— Está dizendo que Frost e Doyle foram menos espetaculares na primeira vez?

Tive que sorrir.

— Não.

— Então quem? Sacudi minha cabeça.

— Cada um foi maravilhoso, embora só alguns se voltaram espetaculares com a prática.

Ele se tornou para trás, para poder ver meu rosto claramente.

— Quis realmente dizer isso?

— Sim.

— Eles não podem ter sido todos assombrosos.

— Se não tivessem sido, nunca diria isso.

— Você não diria. — Sussurrou.

Comecei a tocar seu rosto, mas ele se retirou até ficar fora de meu alcance.

— Dizer o quê? — Perguntei.

Ele me lançou um olhar, um olhar eloqüente em seu significado.

— OH! — eu disse, e sorri de novo, mas era um sorriso amável. — Não, Amatheon, não contaria nada.

Envolveu seus braços ao meu redor, me empurrando contra ele. Suas costas estavam coberta de sujeira seca e poeirenta. Esperei que estivesse áspero, mas não estava. Era ligeiro e fino como o talco mais suave. Isto não distraía da suavidade quente de sua pele, mas parecia acrescentar textura, como uma capa nevada sobre uma deliciosa torta.

Joguei-me para trás o suficiente para lhe mostrar minhas mãos cobertas com o suave e seco pó.

— Tão suave. — Elevei a vista para ele.

— Sente-se tão suave contra outros lugares tal como se sente sobre minhas mãos?

Amatheon me aproximou para ele, e justo antes que seus lábios me tocassem sussurrou:

— Vamos descobrir.


CAPÍTULO 18


RODAMOS ATÉ QUE SÓ PARECÍAMOS FANTASMAS brumosos. O brilho de nossa magia fazia eclipsar as luzes Natalinas que refulgiam através da neve.

Amatheon pressionou sua dureza contra minhas costas. Quase dolorosamente forte, pressionando entre nossos corpos. Empurrou contra meu estômago, meu traseiro, mas não se introduziu em meu interior. Esfregou seu corpo contra o meu como se sua virilidade acariciasse minha pele. Inclusive seus testículos estavam mais altos e apertados, e as poucas vezes que me deixou tocá-lo ali, tremeu, tremendo pela necessidade. Minha mão encontrou um segundo pulso em sua virilha, pulsando contra a palma de minha mão. Mas ele afastou minha mão. Pressionou e se apertou contra mim, fazendo uma imitação do que estava por chegar, mas ele não chegou a entrar em mim. E ele não gozaria com minha mão ou em minha boca. Quando estava quase me cobrindo, uns centímetros por diante de mim, sobre o suave pó, me mostrando a promessa de seu corpo, sua força, empurrou contra meu corpo, e lhe pedi que entrasse em mim.

— Por favor, Amatheon, por favor, não espere mais. Entra em mim, me tome.

— Pensei que íamos até o topo da colina. — Sua voz soou risonha, cheia de prazer.

— Te deite para mim e eu estarei sobre um topo. — Tentei empurrá-lo para o chão, mas ele ficou sobre seus joelhos, sem poder forçá-lo para que tocasse o chão.

Seu cabelo eram ricas ondas acobreadas ao redor de sua cara, acariciando seus amplos ombros. Inclusive o pó, cinzento e branco, não podia mitigar a rica cor daquele cabelo. As muitas capas de cores de seus olhos brilharam como jóias individuais, safira, esmeralda, rubi, âmbar, e ametista. Inclusive a negra pupila pareceu polida e brilhante com o poder.

Ao princípio seu cabelo se liberou da trança francesa, e Amatheon tinha tentado deter-se, tinha tentado apartar-se, como se ter seu cabelo curto sobre seus ombros fosse algo vergonhoso. Eu só lhe tinha cuidadoso fixamente, com minhas mãos lhe disse que ele era formoso, tudo o era nele.

Quando ele se ajoelhou brilhando pelo poder coberto por uma ligeira capa de pó, já não ficava nada desse desconforto. Mas de todos os modos ele me negou.

— Por favor, Amatheon, por favor, te deite para mim, ou me tome. — Se ele tivesse levado uma camisa, lhe teria agarrado por ela, mas tentei lhe agarrar para tentar persuadi-lo. Ele não ia me deixar lhe tocar. Apanhou minhas mãos entre as suas e disse:

— Faz uma eternidade desde que uma mulher, qualquer mulher, pedisse meu toque.

Ele pressionou nossas mãos unidas contra seu peito e fechou os olhos. Seu fôlego saiu em um comprido suspiro.

— A terra foi muito tempo desatendida, Meredith, muito tempo sem ser amada. Temo que seja muito tarde e não haja nenhuma vida por despertar.

— Você é a terra, Amatheon. — eu disse. — E vive. Se renda pra mim e te amarei. Por favor, por favor, Amatheon, por favor me deixe te amar.

— Você fala de amor tão facilmente, você quer dizer sexo?

Fechei meus olhos e pus minha testa contra suas mãos onde estas ainda capturavam as minhas.

— Não estou segura do que penso. Penso que diria qualquer coisa, que faria qualquer coisa, neste momento, se isto te fizesse dizer que sim.

— Sim a quê? — Mas sua voz continha uma leve nota de humor desta vez.

— Me foder. — eu disse, ainda com meus olhos fechados, minha cabeça apoiada entre suas mãos.

Ele utilizou o agarre sobre meus pulsos para me balançar a seu redor.

Me jogando sobre o chão. Só pude me sustentar com minhas mãos na sujeira, mal mantendo minha cara por cima do chão. Tomei fôlego para protestar contra esse trato, mas seu peso estava de repente sobre mim, me aprisionando contra o chão. Me puxou sobre meus joelhos, para que eu estivesse engatinhando. Empurrando contra meu corpo, acredito que ele pensava empurrar dentro de mim, mas o ângulo não foi o correto, e teve que usar suas mãos para mover meus quadris ligeiramente. Outra vez comecei a dizer algo, mas ele conseguiu o ângulo correto, empurrando dentro de mim, com toda a força e rapidez de que era capaz. Empurrou até que seus testículos golpearam contra meu traseiro. Gritei, porque ele era muito duro, e o ângulo era forçado, e soube tanto como tinha implorado, que se ele mantinha esta posição, acabaria rogando para que aumentasse os impulsos. Tinha tido homens duros e impaciente antes, mas nunca tão duros. Com tanta força, perguntei-me se isto me faria mal, também?

— Sente isto?

— Sim. – Ofeguei.

— É isto o que realmente quer?

— Uma posição diferente, isso, sim.

— Que posição?

— Eu por cima.

— Por quê?

— Assim posso controlar a profundidade que você vai. Nunca tive alguém que fizesse com tanta força.

Ele saiu de mim tão bruscamente como tinha entrado. Deu-me a volta, posando só sua mão sobre o chão. Me colocando por cima dele, por isso pude me deslizar sobre ele, colocando sua dureza tremente dentro de mim.

Sentir como ele se deslizava dentro de mim fez que minha cabeça se arqueasse para trás, fechando meus olhos. Lutei com meu corpo até que consegui ficar com os joelhos elevados, para só deslizá-lo pra dentro de mim quando estivesse preparada.

Suas mãos tomaram meus quadris, apartando minha atenção da parte dele que tinha em meu interior.

— Quero ver sua cara enquanto me monta.

Olhei para baixo a sua cara e vi por fim aquele olhar. Aquele olhar de escura impaciência e luxúria, mas também havia algo mais. Posse. Naquele momento, nos olhos deste homem havia o seguro conhecimento de que não lhe diria que não. Que eu, durante aquele momento, era dele.

Olhei fixamente o calor de seus olhos, não o calor de sua magia, não o das fadas, a não ser a eterna magia que criam um homem e uma mulher, naquele eterno baile que realmente fez que a erva crescesse, as flores florescessem, e as colheitas maturassem. Tudo isso estava em sua cara, aquela faísca que continha tudo.

— Amatheon... — Disse, com a voz ofegante pelos suspiros. Ele franziu o cenho para mim. — O foi?

Sorri. — Nada, absolutamente nada. — E fiz girar meus quadris, explorando-o e comecei a montá-lo.

Montei-lhe até que seus quadris começassem a elevar-se e golpear- se contra os meus. Montei-lhe até que suas mãos se convulsionaram ao redor de meus peitos e gemi fortemente. Montei-lhe até que seu corpo começou a perder o ritmo, e a terra debaixo de meus joelhos começou a desvanecer-se. Estava usando a dura superfície para me alavancar, e de repente não tive a solidez para manter o ritmo que desejava. Essa foi a primeira sensação de que toda a terra era uma superfície suave, e Amatheon começava a afundar-se dentro dela. Vacilei um pouco por cima dele, e suas mãos agarraram minha cintura.

— Não pare, pela Deusa, não pare.

Deixei de lutar para usar meus joelhos e usei meus quadris em troca. Usei os quadris e os músculos do estômago para me mover e a terra ao redor dele começou a afundar-se sob nosso peso. Só podia sentir a ponta de seu pênis profundamente dentro de mim, mas já não doía. Agora estava molhada, aberta e lista.

Montei-lhe com meu corpo sobre o seu, com toda a rapidez e a força que era capaz, para frente e para trás, me golpeando contra ele, sobre ele, ao redor dele, uma e outra vez, até que suas mãos se convulsionaram em minha cintura e ele gritou:

— Merry, Me olhe!

Olhei para baixo, a seus selvagens olhos um segundo antes que seu corpo começasse a esticar-se debaixo do meu, seu corpo se contraiu antes que o orgasmo me apanhasse. Lutei com meu corpo, me obrigando a não olhar ao longe, a não girar minha cabeça, ou fechar os olhos, quando o prazer tomou, me fazendo girar e girar, subindo por minha pele em quebras de onda de calor, convulsionando meu corpo ao redor do dele, até que nós dois gritamos pelo desejo enquanto lutava por manter o contato visual com ele. Me controlando para não deixar de olhá-lo, com olhos frenéticos, já próxima ao olhar de dor de uma simples mulher. Dei-lhe tudo o que pude enquanto podia, mas finalmente o orgasmo chegou em todo seu esplendor e gritei, com toda minha garganta exposta, com a cabeça arremessada para trás e os olhos fechados. Gritei ainda mais quando ele pressionou duramente dentro de mim, e a terra se afundou debaixo d nós como uma água lamacenta.

Senti seu corpo me abandonar antes que abrisse meus olhos e me encontrasse ajoelhada sobre uma rica terra negra. Toquei a terra onde ele tinha estado, e se deslizou, negra e úmida em minhas mãos. Olhei fixamente através do plano, todo negro e rico. Ajoelhei-me na suave terra úmida e perguntei:

— Amatheon, onde está? — Tinha me abandonado.

No momento seguinte estava ajoelhava sobre a áspera pedra, no crepúsculo do corredor do sithen. Nesse instante entendi que tinha sido uma visão do coração no mundo das fadas. Se não tivesse estado sobre meus joelhos já, teria caído. Mas Frost evitou que me desse de cara contra o chão ao me sujeitar do braço.

— O Consorte nos salve, — resmungou ele, e isto me quis dar a entender algo no que antes tinha fracassado. Antes que pudesse olhar a meu redor, de repente Frost se precipitou em cima de mim, me protegendo. Isto se parecia muito a quando tentaram me matar na coletiva de imprensa. Meu pulso estava de repente em minha garganta, e lutei ante dois impulsos opostos: olhar a meu redor e me fazer tão pequena como fosse possível. Mas Frost não me deu nenhuma opção. Porque seu corpo estava em cima do meu, seu peito pressionava minha cara contra a pedra, sendo incapaz de me mover. Ele se levantou só o suficiente para tirar a arma que estava sob seu braço direito com sua mão esquerda. Vi como seu braço apontava a um lugar longínquo do corredor. Podia ver o suficiente para saber que isto não era o corredor da entrada. Como tinha chegado ali, com seu corpo me pressionando dolorosamente sobre os ladrilhos? Senti seu corpo reagir à pressão, pelo retumbar de pisadas sobre as pedras. Ele se girou outra vez, colocando seu corpo em cima do meu. Um homem gritou, mas eu não sabia de quem era a voz.

— Te tirarei daqui. — Disse como se eu fosse discutir, coisa que eu não ia fazer. Sair dali seria algo bom. Mas onde estavam todos os outros? Por que a única pessoa que estava comigo era Frost?

Ele jogou rapidamente outra olhada, sua mão livre agarrando meu braço. Ficou em pé, me levando com ele, nos movendo para baixo pelo grande corredor, para a porta que havia na parede entre nós e os inimigos. Podia ver como se fazia menor o corredor por momentos. Tropecei, e poderia ter lutado contra a mão do Frost se ele tivesse me deixado alguma possibilidade. Mas acredito que Frost já sabia isto, e se moveu com toda a velocidade e a força que lhe dava a vida um sidhe puro. Me colocando contra a parede, entre uma esquina, sem estar à vista e o objetivo dos atacantes que ainda não tinha visto. Tinha visto o Crystall com suas mãos cobertas por uma luz branca, e ao Adair esquivar a outros homens, com a espada já ensangüentada. Mas isto não foi o que me fez empurrar ao Frost para me liberar de sua sujeição, enquanto ele me sustentava contra a parede. Galen estava atirado no chão, em um atoleiro de sangue que saía a jorro por debaixo dele. Não se movia.

— Me solta. — Gritei ao Frost.

Ele sacudiu sua cabeça, com olhos angustiados.

— Não. Sua segurança tem prioridade acima de tudo o resto.

Gritei-lhe, enquanto lutava contra ele, mas era combater contra um muro de músculos de puro aço que me aprisionavam. Não podia movê-lo a não ser que ele me deixasse ir. Ele tinha pressionado seu corpo com ao longo do meu, notando completamente contra a parede; Não tinha suficiente espaço para tentar lhe fazer mal, para que me deixasse ir. Ele sabia que lutaria.

Gritei a única palavra que me importava naquele momento.

— Galen!

Gritei seu nome até que minha garganta ficou vazia, mas não houve nenhuma resposta.


CAPÍTULO 19


OUVIA-SE O SOM DE PÉS CORRENDO. FROST ME MANTEVE recostada contra a parede só com seu peito, tirando uma arma de suas costas, e apontando ambas as armas em direção ao corredor. Para tirar a outra arma se viu forçado a separar-se um pouco de mim o qual me permitiu alcançar a pequena arma que tinha em minhas costas. Ele tinha razão ao me reter, porque meu primeiro instinto foi correr para o Galen. Sem pensar, sem lógica, só o instinto. Frost me tinha dado esses poucos momentos para pensar. Apontei longe da esquina onde Galen estava caído, para o som dos passos. Eles estariam em cima de nós em uns segundos.

Já não estava assustada. Estava tranqüila, com essa ofegante e gelada calma que é em parte raiva, em parte terror, parte de outras coisas para as que não há palavras. Galen estava ferido, e eu podia feri-los em resposta. Em alguma parte dentro de minha cabeça havia um pensamento que não dizia ?ferido a não ser outra palavra. Deixei esses pensamentos a um lado e apontei.

Meu dedo tinha começado realmente a apertar quando me dava conta que eram Nicca e Biddy, e o resto dos guardas que tinham estado com o Frost no corredor antes de que Amatheon e eu iniciássemos nossa pequena viagem. Deixei escapar meu fôlego e elevei cuidadosamente a arma para o céu. Comecei a tremer quase imediatamente, me dando conta do perto que tinha estado de pôr uma bala dentro do peito da Nicca. Se a arma tivesse tido um gatilho mas curto... uma bala no braço ou no ombro poderia ser curada, mas no coração, bom, algumas vezes sim e outras vezes não.

Nicca e Biddy chegaram até nós, pistola nas mãos dele, e espada nas dela. Aí estavam dois dos mais gentis entre os sidhe, mas agora se viam lúgubres, altos, e musculosos, perigosos, como um tigre e uma leoa. Perigosos simplesmente porque o são. Nunca tinha visto tal resolução no rosto da Nicca.

Frost estava ao meu lado, seu corpo ainda me sustentando. O pensamento de outro homem ao que amava ferido por minha culpa parecia mais do que podia dirigir. Se eu não tivesse estado sustentando a arma com minhas duas mãos para me assegurar de que estava apontando somente à pedra, teria podido empurrar longe ao Frost. Estúpido, mas até que soubesse a gravidade da ferida do Galen, não queria arriscar a ninguém mais. Especialmente estúpido já que o resto dos guardas acabavam de chegar correndo pela esquina. A magia enchia o ar, arrastando-se sobre minha pele. O som de metal contra metal. Um homem gritou, e então se ouviu um grito de mulher, não de dor, mas sim de raiva. Eu não queria que ninguém mais se arriscasse por mim hoje. Não podia fazer nada mais que pôr a todos em perigo.

Meus olhos estavam quentes e secos, cheios de sentimentos que eu não queria chorar. Alguém estava soluçando brandamente. Ouviam-se pequenos sons; o roce do metal contra a pedra, pisadas, movimentos, mas não luta. A luta tinha terminado. A questão era, quem tinha ganho? Se Doyle e Frost tivessem estado com eles, eu não teria duvidado de como tivesse acabado a coisa, mas Frost ainda estava aqui tenso e preparado em frente a mim. Seus olhos cinzas ainda procuravam em ambas as direções do corredor, como se ele não confiasse em ninguém mais para vigiar. Sem o Doyle aqui, eu tampouco.

Os dois homens não confiavam em ninguém mais tanto como eles confiavam um no outro. Quando tinha começado eu a acreditar que tão somente eles dois poderiam me manter a salvo? Quando tinha começado a pôr minha fé nestes dois homens e perdido nos outros? Hawthorne veio pela esquina, sua armadura carmesim brilhando com sangue, como se alguém tivesse tomado um tinteiro vermelho e o tivesse sacudido sobre ele. Estava limpando sua espada com partes de roupa que se viam como se tivessem sido arrancadas do corpo de alguém.

— Terminou.

Adair estava a suas costas, com o capacete em seu braço. Sem seu cabelo para amortecer o capacete, havia marcas em sua testa e em seu pescoço, onde o capacete tinha roçado.

— Estão contidos ou mortos tanto quanto podemos os matar, Frost, Princesa...

Comecei a me afastar, a pistola ainda sustentada cuidadosamente em minha mão. Frost me deteve.

— Solta a pistola, Princesa.

Olhei seu rosto arrogante, mas vi a dor em seus olhos.

— Por quê? — Perguntei-lhe.

— Porque não confio no que fará com ela, se ele estiver tão gravemente ferido como parece estar.

Meu coração de repente estava golpeando dolorosamente contra meu peito, como se não pudesse respirar. Abri a boca para dizer algo, mas finalmente a fechei. Traguei e doeu, como se estivesse tratando de não me engasgar. Só assenti, e pus a arma atrás onde devia estar. Cobri-a com meu casaco, mais por hábito, que por outra coisa. Não queria arruinar a linha da roupa se podia evitar. Os hábitos são o que temos quando dentro de nossa cabeça estamos gritando, e quando estamos tão assustados que sentimos como se tivéssemos metal líquido em nossas línguas.

Frost deu um passo longe de mim e começou a guardar suas armas, mas não fiquei para observar como terminava a tarefa, o movimento de ambas as mãos. Eu estava já alcançando a esquina. Uma palavra se mantinha repetindo em minha cabeça uma e outra vez, Galen, Galen, Galen. Muito assustada para terminar o pensamento. Muito assustada para fazer outra coisa que não fosse correr para ele. Deveria estar rezando à Deusa mais fervorosamente do que tinha rezado antes. Eu simplesmente tinha estado em sua presença, assim que ela podia ter escutado. Mas não rezei a ela ou a nenhuma outra divindade que conhecesse. Se ia haver uma prece, ia ser uma prece para o Galen. Cheguei a esquina, e o vi. Convexo sobre suas costas, seus olhos fechados, seus braços estendidos, uma perna estava sob seu corpo, e sangue por toda parte. Muito sangue, sobre a pedra do chão, derramando-se fora e ao redor dele. Muitíssimo sangue, muito sangue. O pensamento terminou em minha cabeça, a única prece que podia oferecer...

— Galen, não esteja morto, não esteja morto, Galen, por favor, não esteja morto...


CAPÍTULO 20


ME AJOELHEI A SEU LADO. O VERMELHO VIVO DO SANGUE O emoldurava, e fazia que a cor verde de seu cabelo fosse ainda mais verde do que eu sabia que era. Um momento antes tinha querido sustentá-lo mais que nenhuma outra coisa. Agora duvidei, minha mão voando sobre sua cara. Quis tocá-lo, lhe fazer abrir os olhos e até que sorrisse. Mas tinha medo de tocá-lo, assustada de que estivesse frio ao tato, assustada de saber...

Obriguei-me a tocar sua bochecha. Sua pele estava fresca mas não fria. O nó que bloqueava meu peito se viu por um momento aliviado. Toquei o lado de seu pescoço, empurrei meus dedos contra sua pele, procurando. Nada, nada... então uma vibração leve. O alívio me fez cair, minha mão escorregando para baixo, para o lado de seu pescoço, junto aos cachos de sua nuca que estavam empapados com sangue. Levantei minha mão, e meus dedos estavam brilhantes com seu sangue.

— De onde está saindo todo este sangue?

Não compreendi que havia dito em voz alta até que Adair me respondeu.

— Não tivemos tempo de comprovar suas feridas, Princesa. Assenti para lhe permitir saber que o tinha ouvido.

— Temos que conseguir parar a hemorragia. Adair se ajoelhou junto aos ombros do Galen.

— Mandei trazer um curador.

— Sua pele está fria. Precisamos deter a perda de sangue agora, não esperar a que chegue o curador. — eu disse, negando com a cabeça.

— Um sidhe que pode morrer pela perda de seu sangue não é absolutamente um sidhe.

Girei-me para encontrar ao Kieran, Senhor das Facas, ajoelhando-se com suas mãos atadas detrás de suas costas. Mas Ivi ainda manteve ao lorde na ponta da espada. Kieran tinha só uma mão de poder, e era a única magia que permanecia nele, o que fez que muitos dentre os sidhe o considerassem débil. Mas essa única mão era mortal. Ele podia usar sua magia como uma folha para apunhalar profundamente no corpo, inclusive de longe. Eu soube agora como tinha derrubado o Galen ainda sem a marca de uma foca ou uma pistola. Mas por que atacar ao Galen?

Meu olhar viajou para os outros três ajoelhados ali. O resto eram todas mulheres da guarda do Cel. Isso não me surpreendeu. Havia outro Senhor ricamente vestido, permanecendo a seu lado, gemendo. Suas mãos estavam atadas detrás de suas costas, mas havia um pequeno atoleiro de sangue começando a pulverizar-se debaixo dele. Girou seu rosto, afastando o olhar. Não me importava quem era. Depois poderia me interessar, mas agora, a menos que ele pudesse sanar ao Galen, não me preocupava nenhum um pouco quem fosse. Adair me ajudou a girar ao Galen para um lado. Estava inerte como um morto. Eu estava tendo problemas para respirar de novo, uma vez superado o sabor do pânico. Havia duas feridas em suas costas, profundas e podas. De algum modo, milagrosamente, tinham falhado em danificar o coração. Entretanto eram espantosamente profundas, mas a rápida hemorragia não era de uma ferida em suas costas, sobretudo se tinha evitado o coração.

Tentamos incorporá-lo sobre suas costas, e quando seu corpo ficou junto à capa de sangue do chão, um jorro de sangue fresca brotou desde sua perna. Engatinhei até suas pernas, e encontrei a terceira ferida, na parte alta da coxa. Eles haviam seccionado a artéria femoral. Um humano poderia sangrar-se em menos de vinte minutos. O sangue devia ter estado jorrando. O fato de que já só gotejava significava que ele tinha perdido a maior parte do sangue de seu corpo. O que queria dizer que embora alguém pudesse fechar as feridas imediatamente, não poderia recuperar-se. Os sidhe podem ter muitas feridas, e suportar muita perda de sangue, mas tem que ficar suficiente sangue para manter o corpo funcionando e o coração bombeando.

Frost seguia estando de pé diante de mim, me guardando. Não ia discutir com ele na partilha de tarefas, não com o Galen permanecendo débil e pálido no chão. Além disso, eu era um grande objetivo e muito mais fácil de matar que Galen.

Mas Frost estava olhando quando nós localizamos as feridas.

— Onde está o curador que mandou chamar? Adair agitou sua cabeça.

— Não sei.

— Estamos ficando sem tempo, — eu disse. — Temos que fechar as feridas e manter o pouco sangue que ficou dentro dele.

— Eu posso fechar suas feridas, — disse uma voz de mulher.

Olhamos até encontrar a uma das prisioneiras ajoelhadas sorrindo. Seu cabelo era da cor amarela da barba de milho, seus olhos de uma tripla cor azul, prateado, e com um círculo interno de luz, se a luz tivesse uma só cor. Eu nunca tinha sabido como chamar a última cor dos olhos do Hafwyn.

As outras mulheres são, entre outras coisas, ainda menos aduladoras...

— Não... não pode ajudá-lo. Trai a nosso amo...

Hafwyn se encolheu de ombros com suas mãos ainda atadas detrás dela.

— Fomos capturadas, e Cel ainda está encarcerado. Acredito que não seria uma má idéia obter algum favor do outro bando.

Ela levantou uma de suas escuras sobrancelhas... com seu cabelo tão loiro, em um humano eu teria pensado em tintura, mas em uma raça onde seus olhos podiam ser de três cores diferentes, e daí que as sobrancelhas eram negras e o cabelo loiro?

— É uma traidora a seu juramento se fizer isto. — Disse Melangell. Havia uma poça de sangue caindo por sua cara de uma ferida que tinha afundado o lado de seu capaceteo. Se ela houvesse sido humana, seus miolos teriam se derramado, mas mal estava sangrando.

— Eu nunca fiz um juramento ao Príncipe Cel. — Disse Hafwyn. — Era ao Príncipe Essus a quem eu jurei servir. Quando ele morreu, ninguém nos perguntou se nós queríamos servir ao Cel, simplesmente fomos transferidas. Ninguém vivo tem meu juramento de lealdade.

Ela me olhou quando o disse, e havia algo em sua cara, um pouco de necessidade, alguma mensagem.

— Realmente pode curá-lo? — Perguntei.

— Pode fechar suas feridas, — disse Adair, — mas isso é tudo.

— É mais do que qualquer um do resto de nós pode fazer por ele, — disse Hawthorne. — Embora, na verdade, nunca me teria ocorrido perguntar aos assassinos do Galen se poderiam ajudá-lo a se curar. Escrutinei sua cara tentando ver a ironia que devia está implícita nessas palavras, mas ele simplesmente parecia como se estivesse declarando um fato.

— Confiamos nela? – Perguntou Nicca. Pus uma mão contra a fria pele do Galen.

— Não, — eu disse, — mas desata-a, entretanto.

Antes desse dia tinha estado preparada para perder o Galen nas mãos de uma amante desconhecida. Mas perdê-lo definitivamente na morte era diferente. Poderia viver sabendo que seu sorriso era para alguém mais se eu soubesse que ele era feliz. Mas saber que nunca veria de novo esse sorriso, nunca sentiria sua mão quente tocar minha pele... Eu não poderia resistir a isso.

Frost tocou meu ombro, fez-me olhá-lo.

— Deve te mover antes que permita Hafwyn tocá-lo.

Comecei a protestar, mas ele tocou minha cara e agitou sua cabeça.

— Esta poderia ser uma artimanha para conseguir chegar até ti. Não me arriscarei para salvá-lo. — Sua mão agarrou meu braço, e não ficou outra opção que ir com ele, embora ainda estava relutante a deixar de tocar ao Galen. Se nós não pudéssemos salvá-lo, estes seriam meus últimos momentos para tocá-lo enquanto ele se sentia... vivo.

Hafwyn se ajoelhou com sua armadura de couro sobre o atoleiro de sangue seco. Tirou as luvas de couro e os pendurou do cinturão de sua espada. Situou sua espada curta mais fortemente a seu quadril, e lutei com o impulso de gritar para apressá-la. Ela estava completamente tranqüila, mas até então tinha ajudado a matá-lo. Por que quereria salvá-lo realmente agora? Era só um favor por sua parte? Faria um favor, mas se não funcionava, assim poderia procurar nosso apoio sem perder pontos diante do Cel e sua gente. Deusa me ajude, havia momentos nos que desejava não ter que me preocupar das verdadeiras intenções da gente que me rodeava. Não era uma maneira confortável de olhar o mundo.

Abracei ao Frost, meus braços pendurando ao redor de sua cintura, minha bochecha apertada tão firmemente contra ele que ouvia o batimento de seu coração. Ele envolveu seus braços ao meu redor, embora significasse que ele teria que me mover para tirar quase qualquer de suas armas. Como guarda pessoal ele devia ter me movido a um lado, deixando espaço para se manobrar, mas como meu amante, meu amigo, e amigo do Galen, eu soube que não estava aferrando-se a mim só para meu consolo. Era impossível que você não gostasse do Galen. Era seu dom as pessoas gostarem dele. A tensão no corpo do Frost quando me sustentou me disse mais claramente que qualquer palavra que não era a única que sentiria saudades do Galen. Disse-me que nosso Galen tinha fundido algo no interior do Frost o Assassino.

Hafwyn apertou suas mãos sobre a ferida em sua coxa. Pelo menos, começava pela ferida mais grave. Sua pele tinha parecido branca, mas era dourada da maneira em que Galen era verde, tão pálida que algo tinha que te fazer ver essa outra cor. Sua magia voltou sua pele de um sólido ouro pálido, quando ela brilhou. Os fios de seu cabelo se esforçaram para escapar do nó em que ela o tinha preso, seu cabelo movendo-se no vento de sua própria magia.

— É uma curadora, — disse Hawthorne. — Por que suas habilidades estão esbanjando-se detrás de uma espada?

Tínhamos esperado que Hafwyn tivesse alguma pequena habilidade curativa, mas o que estava brilhando e dançando ao longo de nossa pele não era pequeno. Os curadores com tanta magia não tinham permissão para serem guerreiros, e sobre tudo não nas linhas de vanguarda. Seus talentos eram agora muito valiosos, e muito estranhos entre nós, para nos arriscar a perdê-los.

Ao olhar suas mãos brilhando subir desde seu corpo, comecei a sentir uma leve esperança. Sua voz ecoou com a magia quando perguntou:

— Pode alguém girá-lo para cima para não esbanjar a cura nas feridas menores? Passou tanto tempo desde que me permitiram usar meus dons em todo seu poder que estou um pouco fora de prática. Hawthorne e Adair giraram o Galen para cima para ela, Hawthorne sustentando sua cabeça e ombros para que a cara do Galen não tocasse o sangue. Eu ia recordar esse pequeno detalhe que ele teve com o Galen.

Hafwyn pôs suas mãos sobre as costas do Galen, e minha pele pulsava com o poder e o esforço que ela pôs nele. Parecia que ela simplesmente tentava fechar suas feridas, mas as sensações de sua cura que estavam correndo por minha pele, faziam-me pensar que estava fazendo algo mais.

— NÃO. — Gritou uma das outras guardas, ainda ajoelhada, ainda atada. — Está salvando-o.

Aisling pôs a ponta de sua espada contra sua garganta. Tinha que deixar de falar ou arriscava sua própria pele contra a ponta da espada do Aisling.

— Siobhan a quererá morta por isso. — Disse Melangell.

Siobhan tinha sido a capitão da guarda do Cel. Ela e outras quantas das guardas também tinham me atacado publicamente. Eu tinha matado a duas das assaltantes, mais por acidente que de propósito, e ela se rendeu. Tinha assumido que estava morta. Ela tinha tentado matar a um herdeiro real. Deveria ter estado morta. Quando não estivéssemos diante de tantos ouvidos hostis, perguntaria a alguém. Hafwyn se apoiou detrás do Galen, com um sorriso em sua cara.

— Siobhan ainda está imobilizada em uma cela do Vestíbulo da Morte.

Não estará matando ainda a ninguém durante algum tempo.

Galen se estremeceu nos braços do Hawthorne. A primeira respiração que ele tomou foi áspera e gritou sufocado e se empurrou sobre o chão tentando levantar-se, com olhos selvagens. Derrubou-se quase imediatamente, e só os braços do Hawthorne lhe impediram de cair derrubado ao chão.

— Está salvo. — Disse Hawthorne. — Está salvo.

Frost me permitiu ir para ele. Não sei se ele confiava em Hafwyn agora, ou se sabia que não poderia me deter sem lutar comigo. Eu tinha bastante sentido comum para me situar ao lado mais longínquo do corpo do Galen, mais perto da parede que de Hafwyn.

Hawthorne pôs o torso e cabeça do Galen em meu colo. Embalei-o contra mim, olhando dentro desses olhos verdes, essa cara, esse sorriso. Embora estivesse rindo, as lágrimas fluíam para baixo por minha cara. Notava tantas emoções que me sentia como bêbada.

— Não me permitiram sanar a ninguém em décadas. Senti-me tão bem.

Procurei à mulher que ainda estava ajoelhada em todo esse sangue. Ela estava chorando, também, e não soube o porquê.

— Por que alguém te proibiria de usar seus poderes? — Perguntei.

— É um segredo, e não retornaria ao cuidado afetuoso do Ezekiel por nada ou por ninguém, mas posso dizer isto: uma vez tentei sanar a alguém a quem o Príncipe Cel não queria curar. Fui contra suas ordens expressas. Ele me disse que eu seria uma guerreira, uma portadora de morte até que ele me dissesse que poderia sanar de novo.

— Isso é um desperdício de poder. — Disse Hawthorne. Lhe jogou um olhar, mas sua atenção era toda para mim.

— Mas hoje, por ti, fui contra essa ordem.

— Será violada e esfolada por ele. — Disse uma de suas companheiras guardas, referindo-se ao Cel.

Nem Hafwyn nem eu nos incomodamos em olhar à outra mulher.

— Por que te arrisca por mim? — Perguntei —. Acaba de tentar matar ao Galen, por que saná-lo agora?

— Porque sou uma curadora, é o que sou, e não quero seguir sendo isto. — Ela tocou sua espada. — O fato de salvá-lo outorga alguma vantagem de ti?

Assenti.

— Não juraria até escutar o que quer, nem inclusive pelo Galen, mas sim, pode obter algo.

Ela concedeu um pequeno sorriso.

— Bem. — Tomou um profundo fôlego e o deixou sair como se estivesse preparando-se para algum grande esforço. — A rainha Andais anunciou hoje a corte que necessitava mais guardas. Ela disse que qualquer um que o desejasse podia te oferecer seus serviços, mas só os que se deitassem contigo poderiam ficar contigo.

— Estava inteirada da primeira parte, mas não da segunda. — eu disse.

— Ela disse ?todos os guardas.

— O que está me perguntando, Hafwyn?

Inclinou-se para mim, as mãos a seus flancos. Combati o impulso de me afastar dela. Vi o Hawthorne olhar ao Frost, como se perguntasse o que fazer. Não pude ver o que lhe disse Frost, porque a cara do Hafwyn era a única coisa que podia ver. Ela me beijou brandamente, com os olhos abertos. Não havia paixão no beijo, nenhuma promessa de algo, só um toque de lábios.

— Me tome, — sussurrou —, me tome em sua cama, me tome aqui, me tome em qualquer parte, mas por favor, Deusa, por favor, não me deixe aqui para o Cel. Eu não lhe devo nenhum juramento, por isso não rompo nenhum voto te perguntando isto. Servi ao Príncipe Essus como sua curadora durante séculos. Quando foi embora aos seis anos, se tivesse sabido que a rainha Andais me daria ao Cel, teria ido embora contigo. Mas pensei que sair do mundo das fadas era o pior dos destinos. Rogo-te, como filha dele, não me deixe aqui. Agora que a rainha abriu o caminho para perguntar, eu pergunto, eu rogo. — Seus olhos reluziram com as lágrimas e quando ela não pôde as impedir de cair, inclinou sua cabeça para baixo para que eu não as visse.

Foi Galen quem a alcançou primeiro, mas eu estava ali só momentos depois. Ela se derrubou sobre ambos. Seus ombros agitados pelo tremor de seus soluços, mas estava completamente calada. Quantos anos tinha levado aprender a chorar silenciosamente? Para esconder tanta dor.

Acariciei seu amarelado cabelo, e disse a única coisa que podia dizer.

— Sim.


CAPÍTULO 21


ADAIR TROPEÇOU QUANDO TENTOU LEVANTAR-SE, APOIANDO-SE contra a parede. O sangue gotejava para fora por debaixo de seu escudo.

— Está ferido. – eu disse.

— Os guerreiros de Innis são tão peritos como sempre. – Disse-me, com voz forçada pela dor que sentia.

Estava surpreendida. Innis sempre tinha sido o mais neutro dentre todos os nobres. A ele não tinha parecido se importar se um ou outro regia a Corte, enquanto ele e seu clã se bastassem sozinhos. Especializaram-se na necromancia de qualquer tipo. Em alguma ocasião tinham levantado um exército dentre os mortos. A habilidade de Innis sempre tinha sido a de levantar exércitos fantasma que podiam te sangrar e te matar. Você os podia ferir, mas nunca os podia matar. Entendi agora porque Innis estava estendido no chão. Tinham tido que fazer bastante dano, para lhe deter fazendo magia.

Hafwyn levantou sua cabeça do peito do Galen. As lágrimas corriam pela palidez dourada de sua pele.

— Ainda tenho alguma cura por esta noite. Não posso fazê-lo sem tirar o tecido, devo olhar sua ferida. — Ela me olhou. — Posso ser de utilidade para ti, Princesa Meredith, juro-te que posso.

— Acredito em ti, Hafwyn. Atende as feridas do Adair, a menos que alguém esteja mais grave.

Olhei ao Crystall, que estava ainda de pé com uma arma apontada a Kieran. Depois do show de bravura do Adair, pensei que era melhor simplesmente perguntar:

— Há algum outro ferido?

Kanna, a única das prisioneiras sem uma espada apontando a sua garganta, falou sem temor.

— Lorde Innis, o Exorcista de Fantasmas, está muito ferido. — Sua voz foi neutra quando disse. Seu cabelo cor café estava soltando-se de seu rabo-de-cavalo, começando a cair pesadamente ao redor de sua pálida cara. Seus olhos mostravam surpresa, como se ainda sentisse o sobressalto, embora sua voz não mostrava nada disto.

— Por que deveria me importar se está ferido? — Perguntei.

— Ele é um Senhor livre da corte que quer governar. — Disse ela.

— Somente é um mais dentre muitos, Kanna. Não vejo nenhum valor adicional nele, além de que ele tem muito poder e muito pouco sentido comum em política para meter-se com meus guardas.

— Os nobres são mais valiosos que os guardas neste momento.

— Isto é porque esqueceram que uma vez se considerou uma honra ser requerida para unir-se a guarda real. Antes não era um castigo, a não ser uma recompensa.

— Está falando de tempos antigos, que são gratos de recordar. — Disse Kanna. — Mas você não estava lá. Não pode saber.

— Escutei nossas histórias, Kanna. Recordo nossa história. Muitos de nossos melhores e mais competentes guerreiros não foram selecionados à força na guarda, foram convidados a sê-lo. Mas isto se converteu em uma carga e um castigo... mais adiante.

— Então, deixaria que um Senhor livre sangrasse até morrer?

— Se tiver que escolher entre um homem que arriscou a vida seguindo minhas ordens para salvar a outro que amo, e um homem que tratou de arrebatar a vida do que amo, certamente que sim, lhe deixarei morrer. Não foi você, Lorde Kieran, quem disse que se um sidhe pode morrer pela perda de sangue não é um sidhe verdadeiro? Crystall moveu um pouco sua espada para trás para lhe dar fôlego e espaço para falar.

— Innis é da mais pura linhagem, não algum híbrido duende menor.

— Engraçado, mas todo sangue se vê igual quando se verte sobre a terra. — eu disse. — Por que devo sentir algo por aqueles que não sejam meus, como Adair? — Olhei ao Kieran quando disse isto, observando sua cara. Fui recompensada porque ele me olhou perplexo.

— Verdadeiramente deixaria ao Innis morrer.

— Me dê uma razão para não deixá-lo morrer. — Pedi.

— Ele é suficientemente importante para negociar por si mesmo. — Disse Kieran.

— Mais tarde ele seguiria mentindo, por isso sangrará até que me diga a que seja de outra maneira.

— A Casa do Innis é poderosa, Princesa. É melhor que não os tenha como inimigos.

Ri ante isso.

— Ele já provou por si mesmo que é meu inimigo.

— Não lhe atacamos. — Esclareceu Kieran.

Adair ainda estava apoiado contra a parede, sangrando.

— Olhe sua ferida, olhe o estado que se encontra, e pergunto pela última vez há alguém que esteja também ferido.

Quando Aisling falou ainda se encontrava envolto com sua capa, para permanecer oculto em sua maior parte.

— Essa me passou. — Ele acentuou suas palavras enquanto roçava com a ponta de sua espada na garganta de Melangell, fazendo que uma fina linha carmesim começasse a fluir.

— Você quase afundou o capacete dela no crânio? — Perguntei.

— Sim, mas só depois de que ela me ferisse. — Aisling soou aborrecido consigo mesmo.

— Frost, escolhe a alguém para que tome o lugar do Aisling, assim poderemos nos ocupar de suas feridas.

— Hawthorne. — Disse Frost, e essa palavra foi suficiente. Ele colocou seu capacete, e foi tomar o lugar do Aisling.

Dogmaela estava de pé entre os dois grupos, como se não soubesse o que fazer. Melangell era sua capitão da guarda. A não ser que ela estivesse disposta a fazer a mesma oferta que Hafwyn fazia, teria que voltar e submeter-se às regras de Melangell. Estar em meio de uma luta pelo poder era um lugar difícil. Dogmaela era como Galen, podia ver sua luta interna refletida na cara, na postura de seu corpo. Ela tinha lutado com outros, mas agora não sabia onde pôr sua lealdade. De fato ao vê-la tão confusa me fez desconfiar profundamente dela. Hafwyn e o outro ferido se moveram a um lado, deixando ao Galen sobre meu colo. Deslizei minhas mãos por seu peito debaixo de sua camisa.

— Tem que começar a usar armadura.

— A não ser que tivesse sido uma armadura encantada, não teria servido de nada. — Disse Adair. Hafwyn e Aisling o ajudavam a tirar a sua armadura peça por peça. O forro que havia debaixo estava empapado pelo carmesim do sangue. O profundo e limpo corte estava sob o acolchoado, sobre seu flanco. — Ele foi capaz de me fazer isto com a armadura posta.

— Essa armadura é ainda digna de seu fabricante. — Disse Kieran. — Eu não pude perfurá-la. Tive que encontrar uma fissura.

— Nenhuma espada real poderia ter encontrado a abertura que usou.

— Disse Adair. O acolchoado tinha várias capas. A camisa de linho que estava sobre sua pele era uma vermelha massa arremesso a perder.

— É por isso que a magia sempre ganhará contra as armaduras ou as armas. — Disse Kieran.

— Não foi a magia o que parou o Innis. — Assinalou Crystall.

— Foi a magia humana. — Disse Kieran.

— As armas não são magia. — Discutiu Crystall. — Só são armas. Kieran negou com a cabeça.

— O que é a ciência humana, a não ser outra forma de chamar à magia? Inclusive agora, quando a princesa trouxe os humanos para o nosso sithen. Ela permitiu que a raça humana entre dentro do único refúgio que tivemos.

— Esta foi uma das razões para me atacar. — eu disse. — Mas não é uma razão para atacar ao Galen. Por que a ele?

— Possivelmente atacamos a todos seus guardas, se os encontrarmos sozinhos. — Esclareceu Kieran.

— Não. — Disse Galen ainda com sua cabeça em meu colo. — Quando girei pela esquina Melangell disse... ?estivemos te esperando, homem verde, logo me golpearam pelas costas. Onde estava se ocultando? Devia ter acontecido justo a seu lado.

— Innis pode ocultar-se sem ser visto. — Disse Frost. — E ele pode ocultar também a um ou dois com ele, se nenhum deles se move. — Frost estava ainda alerta, me protegendo. Frost nem sequer tinha cuidado as feridas do Galen, nem tinha participado da conversação. Ele estava trabalhando e isto saltava à vista.

— Assim, Kieran, por que Galen? — Perguntei-lhe.

— Lorde Kieran. — Corrigiu-me.

Neguei com minha cabeça, enquanto minha mão se deslizava um pouco mais abaixo pelo peito do Galen, assim poderia sentir o batimento de seu coração contra a palma de minha mão.

— Bem, Lorde Kieran, Senhor das Facas, responde a minha pergunta.

Kieran me olhou, me mostrando sua arrogante e formosa cara de sidhe puro que era. Mas era uma beleza fria, gelada, ou talvez somente me parecia isso.

— Capturaste-me, mas não pode me obrigar a responder suas perguntas. Me leve ante a Rainha Andais e assim poderei seguir por esta noite como se não tivesse acontecido nada.

Olhei-lhe fixamente, sentindo o batimento do coração do Galen em minha mão. Kieran era de verdade tão valente, ou só acreditava que a rainha não lhe faria nada?

— Atacaste a um guarda real. Não terá uma noite tranqüila, Lorde Kieran.

— Siobhan quase matou a um herdeiro real, a ti, e ela ainda vive. Encarcerada, mas vive. O verdugo da rainha teme o toque da pele de Siobhan, por isso ela ainda não foi torturada. Ela se sentará em sua cela até que o Príncipe Cel seja liberado, logo seguirá sendo sua mão direita de novo. Se isto for tudo o que faz a rainha a um assassino da realeza, então que mais nos pode fazer? A Casa de Nerys ainda segue viva, embora todos eles se declararam traidores. Eles tentaram matar tanto a ti como à própria rainha, e não perderam nada. — Ele se mofou de mim, fazendo que toda aquela beleza se voltasse horrenda.

— É por isso que Innis e você lhes puseram de acordo nisto. — eu disse. — Como a gente de Nerys ficou livre, pensou que também vocês ficariam livres.

— A rainha necessita de todos seus aliados, Princesa.

— Como pode ser seu aliado se for causar a morte do Cel?

— Eu levarei a morte a quem quer, mas admito que tenho preferência por ele. Também há muitos que sentem o mesmo.

— Disso não tenho dúvida. — Olhei-o, tão seguro de si mesmo, e eu necessitava que não o estivesse. Precisava qualquer informação que ele possuísse, e necessitava que a Corte me temesse. Que me temesse para que eles não machucassem a minha gente. Se a rainha não colocava medo a todos eles, então tinha que achar a maneira de ser eu quem o fizesse.

Chegou-nos o som de um gongo ao ser golpeado.

— O que foi isso? — Perguntei.

Soou outra vez como os primeiros acordes para anunciar aos mortos. Frost tomou a uma faca de seu cinturão.

— Tenho uma chamada.

Era Rhys.

— O que está fazendo, Merry? Fiz o que pude para manter aqui ao Walters e à polícia, evitando que corressem para comprovar todos esses gritos. Está Galen bem? Gritava seu nome.

Galen falou desde meu colo.

— Parece que está preocupado. Rhys riu em silêncio.

— Ele está bem, embora tenha sido atacado. — Respondi.

— Por quem?

— Nobres, e suponho que algumas guardas?

— Me deixe pensar... Cel?

— Quem mais?

— Mas por que seguem metendo-se com o Galen?

— Estava a ponto de averiguá-lo. Como está sendo a coleta de provas?

— Bem. Pus um guarda a cada um dos humanos, como me ordenou. Descobrimos como o jornalista passou pelas barreiras de magia que nós criamos.

— Como? — Perguntei.

— Ele levava pequenas rodelas de ferro nas reveste de seus sapatos.

— Ferro frio. — eu disse. — ele fez sua pesquisa direito. A esta reflexão Rhys assentiu cabeceando.

— E ele chegou aqui com o plano de tentar ver algo que nós não queríamos que visse.

— Parece-me que estamos descrevendo parte do trabalho de um repórter.

— Acredito que sim. — Ele suspirou, pesadamente.

— O que acontece, Rhys?

— O comandante Walters insiste em te ver em pessoa. Ele diz que tudo poderia ser uma armadilha.

— Estou um pouco ocupada por aqui. — Jogando uma olhada a nossos prisioneiros.

— Pensei isso, mas se não aparecer logo, ele vair querer ir te buscar. Por cima da minha cabeça.

— Estarei aí assim que possa.

— Tentarei apaziguá-lo. — A folha da faca de repente esteve vazia, só

se refletia minha própria imagem deformada.

Devolvi a faca ao Frost que se encontrava detrás, olhando aos prisioneiros. Se eu tivesse segura de como tomaria a rainha, faria algo drástico ao menos com uma parte da nobreza. Mas Kieran tinha razão, a rainha realmente necessitava de seus aliados. Não pensei no Kieran, mas sim no que Andais poderia fazer e não a queria zangada comigo se podia evitar. Ao menos, o raciocínio do Kieran me fez pensar o que Andais faria se perdia o apoio da nobreza na Corte. Isto seria algo muito ruim, já que eu não tinha bastante poder político para competir sozinha pelo trono, ainda fosse a seguinte governante por linha de sangue. Se Andais fracassava como rainha, todos eles me veriam como uma ameaça, não importasse quem subisse ao trono depois dela.

A voz de Hafwyn soava com um pouco de cólera quando disse:

— Me deixe ver a ferida, Aisling.

— Não me atrevo a te deixar ver alguma parte mais de meu corpo.

— Sou uma curadora. Somos imunes à maioria dos feitiços através do contato. Se isto não fosse assim nós não poderíamos curar a nenhum sidhe.

Aisling sustentava sua branca capa ao redor de seu tórax, de sua sangrenta túnica.

— Tire a túnica ao menos para poder ver a ferida.

Ele sacudiu sua cabeça, jogando seu capuz para trás, e revelando um véu como em alguns países árabes têm que levar postos as mulheres. Um magro, brumoso e delicado pano dourado, que só perfilava sua cabeça e cara de uma forma difusa. Só seus extraordinários olhos se viam através do véu, expondo uma pele pálida, e uma linha de pestanas ainda mais pálidas.

— Tinha esquecido que tinha coberta a cara. — eu disse, e na verdade não tinha pensado dizê-lo em voz alta.

— Muitos são os que o esquecem. – Disse-me, suas mãos ainda sustentavam sua capa ao redor de sua ferida sanguinolenta.

— Disse que esqueci que cobria a cara, não o porquê.

— Sim, sim. — Disse Hafwyn. — É o homem mais formoso do mundo. Tão formoso que se uma mulher, ou até alguns homens, olhassem- lhe à cara, ficariam imediatamente atordoados de amor por ele e incapazes de lhe negar nada. — Ela agarrou sua capa e tentou retirá- la de suas mãos, enquanto apertava fortemente seus dentes. — Mas não te peço que te tire o véu, somente a túnica.

— Temo o efeito que isto teria sobre um mortal.

Hafwyn deixou de lutar com ele, apoiando-se sobre seus calcanhares, muito surpreendida para saber o que fazer. Compreendi nesse momento que Aisling estava pensando em mim.

Como poderia alguma vez governar neste lugar se eles ainda pensavam em mim como em um humano?

Kieran expressou meus pensamentos em voz alta.

— Inclusive seu prórpio guarda pensa em ti como em um ser mortal, e não como se fosse sidhe.

Eu poderia ter discutido isto com ele, se pudesse.

— Está me dizendo, Aisling, que seu peito nu tem muito encanto para mim?

— Vi o que ocorria aos humanos.

Olhei fixamente por cima dele, com o Galen ainda em meu colo.

— Aisling, pensa em mim como humana?

Ele baixou seus olhos, apartando o olhar e essa foi a resposta que necessitava.

— Isso é um sim.

— Não acredito que seja uma falta de respeito, Princesa Meredith. É o suficiente sidhe para mim, mas o que ocorreria se meu encanto sortisse efeito sobre ti? Só há um remédio para esta magia.

— E este qual seria?

— O Amor Verdadeiro. Deveria estar apaixonada por alguém mais antes que possamos prová-lo comigo.

— Não é completamente verdade. — Hawthorne disse desde seu lugar que se encontrava ao lado de Melangell. — A magia do Aisling pode vencer até o amor verdadeiro se assim ele o desejar ou o tenta com a suficiente força. Poderia fazer que alguém se apaixonasse por ele desesperadamente sem remédio.

— Luxúria, não amor. — Disse Adair. — Há uma diferença, sabe, não é, Hawthorne?

— Isto ocorreu faz tanto tempo que não estou seguro realmente de poder diferenciar. — Disse Hawthorne.

Adair se apoiou contra a parede sobre o acolchoado de sua túnica. Riu, cansada e dolorosamente.

— Sim, isso ouvi.

Tive o louco impulso de beijar ao Adair, para aliviar aquela dor que havia em sua risada e ver se eu poderia conseguir que isso mudasse.

— Pode te sentar? – Perguntei ao Galen.

— Sim, mas estou desfrutando desta atenção. — Ele sorriu abertamente para mim.

Inclinei-me, lhe abraçando com meu corpo enquanto ele se reclinava em meu colo. Sussurrei contra sua pele.

— Sou tão feliz de que esteja vivo.

Ele esfregou sua cara contra meus peitos, aproveitando sua conveniente situação.

— Eu, também.

Galen se sentou mais erguido e esperei até que esteve mais estável. Somente a vista do sangue em seu torso me fez lhe apertar uma vez mais contra mim. Tive que tragar com força, para dissolver o nó de minha garganta.

Dei a volta para o Adair, que ainda sangrava, dolorido, por isso lhe tinha ordenado. Dava-me conta de repente, de que esta deterioração era conseqüência da situação em que eu lhe tinha posto. Ajoelhei-me diante dele, tendi a mão tocando sua cara. Ele se estremeceu, como se não estivesse seguro de querer que lhe tocassem, ou não estando seguro de se ia doer. Conhecendo minha tia, podia entender isso.

— Parece triste. — Disse-lhe. — Não quero que esteja triste.

— Só estou ferido, Princesa. — Seus olhos mostravam sua surpresa, indecisos.

Sacudi minha cabeça.

— Ela realmente te oferecia sexo quando estava ferido gravemente? Ele entendeu a quem me referia com ?ela. — Ela o fez antes, não a mim, mas... sim aos outros.

Oferecia-lhes sexo depois de anos de celibato, quando estavam muito doloridos para desfrutar, ou que lhes doesse ao realizá-lo. A tia Andais era verdadeiramente uma sádica.

— Um beijo, Adair, nada mais que isso. Somente um beijo, só porque parece necessitá-lo.

Ele me olhou perplexo com seus olhos de três gamas de amarelo.

— Somente porque o necessito. Não te entendo.

— Será menos duende, só por dar um beijo a alguém que o necessita. — Disse Kieran. — Este não é um costume sidhe.

— Não, não é, porque esquecemos o que realmente somos. — eu disse. — O que somos.

— E o que somos nós? — Perguntou Kieran, com mofa em sua voz. Inclinei-me para o Adair. Seus olhos ainda pareciam muito surpreendidos.

— A quantidade de poder que produziríamos me faria mal agora, Princesa. — Sua voz lhe saiu velada, mas ele seguia apoiado contra a parede, e não havia nenhum lugar onde ele pudesse ir.

— Nenhum poder, somente nos tocar. — Brandamente, docemente, pressionei os lábios contra a boca do Adair. Ele deixou de respirar por um momento, provando mais seu medo que seu desejo. Retirei-me para poder lhe olhar à cara e vi que seu medo tinha trocado lhe deixando perplexo e admirado.

— Não te entendo, Princesa.

— Porque ela não é sidhe.

— Perguntou-me o que somos, Kieran. — Girei-me e olhei ao homem que estava ajoelhado. — Somos divindades da natureza. Somos, em certo modo, a natureza personificada. Não somos humanos, não importa se nosso físico parece. Somos algo mais, e muitos de nós esqueceram isso.

— Como te atreve a nos exortar sobre o que é um sidhe, quando representa a parte humana de todos nós, é a que tem menos poder de todos nós?

Levantei-me, estirando minhas pernas, que estavam um pouco duras de sustentar o torso do Galen.

— Quando eu era jovem teria dado tudo para ser uma sidhe alta e magra, mas agora que sou adulta valoro cada vez mais minha herança mista. Valoro meu sangue brownie e meu sangue humano, não somente o sangue sidhe que corre por minhas veias. Aisling, tire a camisa. Se for muito mortal para ver seu peito, então também sou muito mortal para ser sua rainha. Deixa que Hafwyn veja a ferida que tem, assim poderá te curar.

Ele começou a discutir.

— Sou Meredith NicEssus, Princesa da Carne e do Sangue, e serei rainha. Fará o que te ordeno. Adair está sangrando enquanto você atua como uma tímida donzela.

Inclusive através do véu pude observar que o tinha cravado em seu orgulho, e é que todos os machos são muito parecidos embora sejam de distinta espécie. Lançou sua capa sobre o chão, tirando a túnica por cima de sua cabeça com um movimento rápido. Não esperou a que lhe dissesse que tirasse algo mais. Simplesmente despiu sua cabeça, vacilando um segundo breve em sua cara, só para estar seguro de que mantinha o véu em seu lugar. Não disse nada sobre o véu; sua cara tinha a beleza das deusas e sidhe por igual.

Não foi seu assumo o que me fez lhe olhar fixamente, embora tivesse um torso muito atraente, com amplos ombros e um magnífico estômago excetuando o sangrento corte que atravessava desde suas costelas até sua cintura. O que me fez olhar fixamente sua pele, foi que parecia ter sido orvalhada por ouro em pó, brilhante e que refulgia com a luz. Era como a luz do sol deslumbrando os olhos. Eu lhe havia visto nu entre outros guardas quando a rainha se tornou louca por um encantamento mágico. Ela tinha ordenado a todos que se despissem e eles tinham tido medo dela.

— É como tinha temido. — Disse-me.

Sacudi minha cabeça.

— Te vi nu antes, Aisling, não vou ver nada novo a não ser que haja alguém mais que tenha ouro em pó sobre sua pele.

— Quando ela nos salvou, – disse Adair, – você estava no chão.

Aisling tremeu, quando sentiu as mãos de Hafwyn sobre sua ferida ou seria ao recordar o que a raihna quase tinha feito, a verdade não estava segura.

— Tinha esquecido.

— Não tão mortal, depois de tudo. – Disse Galen de onde ele se moveu até apoiar-se sentado contra a parede.

— Ou possivelmente o grande Aisling perdeu seu poder, — disse Melangell, — e ele se oculta detrás de seu véu não porque possa encantar a todos nós, se não porque não pode fazê-lo.

Ele ficou rígido, e desta vez estive segura de que não era pelo que Hafwyn fazia.

— Adair necessita a cura mais urgentemente. Sua ferida é mais profunda.

— Então faz. A polícia precisa de mim.

Aisling se abraçou, como se algo lhe fizesse mal. Melangell riu. Hawthorne colocou sua faca um pouco mais perto de sua pele, e a risada se acalmou, mas ainda havia uma risada silenciosa em seus lábios.

— Por que atacou ao Galen? Por que a ele? Hafwyn respondeu.

— Ele foi escolhido porque é o único de seus guardas que é um homem verde.

Melangell assobiou.

— Não sabe o bastante para ser de ajuda.

— Ela tem razão. — Disse Hafwyn enquanto levantava do Adair o pano que estava ao redor de sua ferida. — Sei por que eles o escolheram, mas não sei por que ser um homem verde o marcava.

— Melangell sabe?

Hafwyn inclinou sua cabeça.

— Ela conhece quase tudo o que a guarda tem planejado. Possivelmente não tudo o que o príncipe fez antes que fosse encarcerado, mas é a que mais sabe de nós.

Afirmei.

— Bem. — Aproximei-me para ela, permaneci fora de seu alcance porque nem com suas mãos atadas queria me arriscar a que me tocasse. Ela uma vez amou a um homem até a morte. Não foi pelo sexo, se não com o toque de sua pele. Ela tinha perdido todo seu poder, ou isso haviam me dito, mas era melhor estar precavidos.

— Dou-te uma última possibilidade, Melangell. Nos diga por que seu objetivo foi Galen, e não uma vez, a não ser em duas ocasiões, já que sabemos que Cel pagou aos semiduendes para que o deixassem impotente. Por que é tão importante para o Cel que eu não vá pra cama com o Galen? — Fiz- gestos ao Hawthorne para que a deixasse falar quando quisesse.

— Não trairei a meu amo, já que emprestei juramento para o Cel. Nunca servi a seu débil pai.

Ri dela docemente.

— Meu pai era o bastante grande para suportar estes pequenos insultos. Rechaças responder minhas perguntas.

— Nenhuma magia ou tortura que possa inventar me fará esquecer minha lealdade. — Ela dirigiu um olhar rancoroso para a Hafwyn, que agora estava ocupada na cura do Adair.

— Aisling, está o suficiente bem para vir aqui um momento? – eu disse.

— É só um arranhão, nada mais. — Se ele tivesse sido só um humano teria necessitado ao menos dez pontos de sutura, talvez mais. Eu não teria chamado de arranhão, mas não era meu corpo. Ele se aproximou, com a espada nua em sua mão.

— Baixa a espada, Aisling.

Ele assim o fez, vacilando só um momento.

— O que quer de mim, Princesa, a não ser minha espada?

— Se mostrar sua cara a uma mulher sidhe, ela responderá ao que lhe pergunte?

— Pensa voltá-la louca, e assim lhe fazer as perguntas?

— Sim.

Os olhos de Melangell tinham aumentado de tamanho pela surpresa.

— Nunca usei meus poderes deste modo.

— Sortirá efeito? Ele pensou nisso.

— Sim.

— Então nos deixe ver se ela nos dirá por luxúria o que não nos disse por lealdade.

Fiz um sinal pedindo a Kanna, a outras das guardas do Cel, que se girasse para olhar para a parede mais longínqua. Dogmaela já estava do outro lado ao final do coredor. Sua lealdade estava dividida, mas não o suficiente para unir-se a suas companheiras que estavam ajoelhadas. Ou não o bastante para protegê-las. Resultou-me interessante que Melangell e Kanna só tivessem falado com a Hafwyn, como se Dogmaela não tivesse estado ali.

As mãos do Aisling se elevaram para seu véu dourado.

— Também deveria olhar para outro lado, Princesa.

Inclinando minha cabeça me movi para trás. Embora tenha de admitir que sentia um impulso quase insuportável de olhar sua cara. Considerar alguém tão formoso que com apenas o lhe vislumbrar faria que caísse imediatamente na luxúria por ele. Uma beleza tão grandiosa que com apenas entrevê-la, trairia tudo o que te era mais querido. Realmente me perguntei se me afetaria.

Frost me conhecia muito bem, tomou meu braço somente para me mover um pouco mais por detrás do Aisling. Ele me olhou, e me encolhi de ombros. O que poderia dizer eu a isso?

Aisling tirou o véu, e tudo o que pude ver desde atrás era seu cabelo dourado, com mechas de cor mel, e como o ouro de sua pele, brilhando tudo junto. O cabelo estava trançado em nós complicados para que ao lhe olhar parecesse mais curto do que em realidade era. Se ninguém podia ver sua cara, quem lhe penteava?

— Ela fechou seus olhos. — Disse.

— Hawthorne, lhe corte as pálpebras. As coloque para trás.

Ela fez o que eu tinha esperado que fizesse; com o primeiro toque da ponta da faca abriu os olhos. Seus olhos piscaram, e Hawthorne retirou a faca. Seu fixo olhar subiu pelo corpo do Aisling, como se fosse contra sua vontade. Eu soube quando alcançou sua cara porque vi em seus olhos. Vi o sobressalto que se refletiu em sua cara. Era um olhar assustado, como se ela não visse só uma grande beleza, se não algo muito maior.

Hawthorne girou sua cara. Lorde Kieran também o fez. Só Crystall conseguiu olhar a cara nua do Aisling sem nenhum estremecimento. Ele sorriu, como se visse algo maravilhoso. Sua claridade, sua pele branca cheia de resplendor, como se ao lhe ver se enchesse com sua magia. Só seu cabelo cintilou como um prisma de cores sob a luz quando Aisling deu a volta, como se ele mesmo não pudesse manter mais o olhar.

Melangell gritou, e seu grito foi o som de uma perda irrecuperável. O eco da morte sobre as pedras, e seus olhos se encheram... de amor. Isto não era luxúria, não era o que Adair havia dito. Seus olhos estavam cheios da estúpida devoção dos adolescentes em seu primeiro amor, ou como nos recém casados em sua perfeita lua de mel, ela olhava ao Aisling como se ele fosse seu mundo inteiro. Melangell não tinha gostado de Aisling, não encontrava nenhuma função para ele. E agora ela o olhava do mesmo modo que uma flor olhava encantada ao sol, e isto me fez precisar olhá-lo. Eu não gostava de Melangell, mas isto me parecia... mal. Se não existisse nenhuma cura para isto, então seria a pior tortura que se poderia ter inventado. Viver sem esperanças, completamente apaixonado por alguém que te odiava. Nem no inferno de Dante existia algum castigo semelhante...

Frost pareceu entender porque disse:

— Aisling, faz a pergunta.

— Por que atacou ao Galen?

— Para matá-lo. — Talvez ela não estava tão louca como parecia.

— Por que queria matá-lo?

— Porque o Príncipe Cel o quer fora da cama do Meredith.

— E por que Cel quer isto?

Melangell sacudiu sua cabeça com força, como se tentasse limpar seus pensamentos.

Aisling se ajoelhou diante dela, colocando sua cara e seu corpo mais perto dela.

— Por que Cel quer o Galen fora da cama da Princesa Meredith? — Repetiu.

Ela tinha fechado seus olhos outra vez.

— Não, — disse ela, — não.

– Não pode fechar sua mente, Melangell. Viu-me. Não pode me evitar agora. — Sua voz era um sussurro que pareceu introduzir-se sob minha pele. Fez-me tremer e isso que este poder não estava dirigido a mim.

Frost sussurrou contra meu ouvido.

— Seu poder é igual ao de antes, e ela pensa que pode evitá-lo.

— Ela poderia matar só com seu toque.

— Mas como consegue a um homem para poder tocá-lo, Meredith? Para fazer que se queiram.

Isto tinha sentido, embora francamente Melangell era bastante formosa sem seu atrativo adicional.

Aisling se inclinou para ela e pensei que ia beijá-la, mas ela se tornou para trás pelo que Hawthorne a deixou ir.

— Não me toque. — Disse.

— Disse que meu poder tinha desaparecido, Melangell. Por que tem medo do meu toque se só for um fantasma do que era? Por que Cel quer o Galen fora da cama do Meredith? — Ele sustentou sua cara entre suas mãos, e ela gritou, embora não foi de dor. — Estou disposto a provar minha magia contra a tua, Melangell. — Ele a beijou, durante muito tempo, longamente.

Frost se esticou a meu lado. Pensando que até o beijo de Melangell poderia ser perigoso. Mas era o que não se sabia, o que a fazia perigosa de verdade.

Aisling retrocedeu, e sua cara refletia uma crua necessidade.

— Doçura, me diga, por que o Príncipe Cel quer o Galen fora da cama de Meredith?

Ela tragou com tanta força que se escutou em toda a habitação, mas respondeu...

— A profecia dizia que o homem verde devolveria a vida a Corte das Fadas.

— Que profecia? — Perguntou Aisling.

— Cel pagou a um profeta para que lhe dissesse se Meredith era uma ameaça real. O profeta disse que devolveria a vida a Corte com a ajuda do homem verde e com o cálice. Galen era o único homem verde que ela tinha tomado. Quando nós vimos o que ela fez na coletiva de imprensa, entendemos que ele era seu cavalheiro verde.

— Não ocorreu a algum de vocês pensar que ?o homem verde poderia ser uma metáfora para designar a todas as divindades da natureza, ou até que fosse outro forma de nomear ao Consorte? — Perguntei.

Melangell me ignorou, mas quando Aisling fez a mesma pergunta, ela respondeu:

— O príncipe Cel disse que a profecia era só para o Galen.

— E acredita em tudo o que Cel diz? — Perguntei. Quando Aisling repetiu a pergunta, ela respondeu:

— Sim.

— Idiota. — Disse Hafwyn para nós.

— Que mais dizia a profecia? — Indagou Aisling.

— Que quando alguém de carne e sangue estivesse sentado no trono, Cel morreria.

— O que pensou Cel que queria dizer com o de ?carne e sangue?

— Mortal.

— Então todos devem ter estado frenéticos quando a princesa demonstrou que tinha as mãos de poder da Carne e do Sangue.

— Sim, — Disse Melangell.

— Há algo mais que Cel faça que nós deveríamos saber? — Perguntou Aisling, e tomei nota mental de que este homem era muito meticuloso.

Ela se dobrou para frente como se sofresse alguma dor. Hawthorne tinha se movido para trás, como se não estivesse cômodo com o roce dela. Seu poder não era similar ao de qualquer deles, talvez ele também estava em perigo de ser encantado como Melangell. Independentemente da razão, quando suas mãos se moveram, o laço que os atava se desfez, e quando Hawthorne se girou para manter alguma distância, ele não a estava sujeitando. Aisling foi até sua espada, ajoelhando-se, mas chegou tarde. As mãos do Melangell se elevaram, machucando seus próprios olhos enquanto olhávamos. Só quando o sangue e o líquido caíram, desentupiu sua cara.

— Não pode me obrigar a dizer mais segredos agora. — Disse ela, e sua voz estava outra vez cheia de sua raiva habitual.

Aisling deixou cair sua espada manchada em sua vagem.

— Melangell, não pode evitar me olhar. Já lhe disse isso antes, estou em sua mente.

Não podia dizer se ela chorava ou se somente eram seus olhos os que caíam aos pedaços. Ver sua brilhante cara com esses olhos arruinados seria uma das últimas coisas que eu alguma vez esquecesse. Odiei-a por isso, mas tampouco podia lamentá-lo.

— OH, Melangell. — Disse, e ele tocou sua cara.

Ela colocou sua bochecha sangrenta contra sua mão como um amante. Apoiou sua cara durante um instante, logo ela se afastou dele, dizendo...

— Me levem com a rainha, me levem a uma cela, não me importa. Mas me levem o mais longe possível dele.

Hawthorne chegou até onde ela estava, atando suas mãos, comprovando os nós depois.

— O que quer que faça com ela, Princesa?

— Está em seu direito de ser levada antes ante a rainha. — Disse Kieran.

— Sim, assim é, mas não é seu direito. Se Cel ficasse livre, então nós a levaríamos ante ele, mas... — Neguei com minha cabeça, olhando sua cara devastada.

— Frost. — eu disse enterrando minha cara contra seu peito. — Frost, não sei o que fazer com ela.

— Coloca-a em uma cela. Diga ao Ezekiel que ela não deve ser tocada, até ele deve obedecer a uma princesa.

— E o que faço com a Kanna?

— Faz isso, também.

— Os Senhores?

— Leva-os ante a rainha, ela verá o que faz com eles.

Frost atribuiu distintos guardas para cada mandato. Enviou a Dogmaela com os Senhores. Ela me falou quando empurrou a Kieran por diante de mim.

— Não sou uma amante de mulheres.

Foi somente um comentário casual ao que respondi:

— Nem eu.

— Mas Hafwyn...

Compreendi então que enquanto nós tínhamos estado tentando averiguar o mistério da tentaiva de assassinato do Galen, e a traição do Cel, ela só tinha estado preocupada com sua virtude. Ela queria estar livre do Cel, mas não estava o suficiente convencida para deitar-se com uma mulher. Para me liberar do Cel, eu teria dormido com qualquer coisa embora não houvesse sido humano e nunca o chegará a ser. Sabia qual era um mal menor quando o tinha diante. Mas ao examinar a cara da Dogmaela, não sabia se ria ou chorava. Ainda podia recordar os olhos de Melangell dentro de minha cabeça. Provavelmente até teria pesadelos sobre isso.

— Deitarei-me com a Hafwyn e com qualquer um que deseje vir comigo, não porque seja uma amante de mulheres, se não porque não abandonaria a ninguém em poder do Cel, se só me deitando com ela posso evitar. Agora toma o Kieran, leva-o ante a rainha, e informa-a sincera e totalmente sobre os crimes que cometeu.

Ela se foi, e outros se foram com ela, dois dos guardas levando a um Lorde Innis ainda inconsciente. Ele deixava um rastro de sangue frescp quando desapareceram ao dobrar a esquina.

Aisling havia tornado a colocar seu véu dourado ao redor de sua cara e seu cabelo outra vez. Seu sangrento corte no flanco estava quase curado.

— Que desejas por ter usado seu poder? — eu disse, minha cara ainda estava meio oculta contra o peito do Frost.

— Ganhei em superá-la em seu próprio jogo. Por uma vez ela foi quase uma chama em minhas mãos.

— Ela perdeu a maior parte do que era. — Disse Frost.

— Uma vez ela foi o Doce Veneno.

Quis lhe perguntar se ainda estava alterado pelo que Melangell fazia. Não lhe incomodava que uma mulher tivesse rasgado seus próprios olhos antes que ver sua cara? Mas não o disse em voz alta, em qualquer caso. Ao havê-lo ordenado, isto era minha responsabilidade. Dizer que não o tinha entendido tampouco era uma defesa. Não usar uma magia que não entendia nada era outra coisa. Enterrei minha cara contra o peito do Frost, assim não podia ver o Aisling, nem a seu véu.

Ele riu, profundamente, com um rico som masculino.

— Chamavam-me a Terrível Beleza. — Sua voz me disse que estava contente consigo mesmo.

Quis dizer que não lhe entendia, mas não o fiz. Não era uma desculpa o bastante boa de todos os modos.


CAPÍTULO 22


O COMANDANTE WALTERS, A POLÍCIA, OS TÉCNICOS CSI, E a doutora Polaski, a inspetora médica, não faziam mais que queixar-se. Seus laptops estavam bloqueados. Seus telefones não funcionavam. Nada do que levavam com eles que usasse eletricidade, ou inclusive baterias, funcionava. Havia gritado antes, e por que tinha estado gritando o nome do Galen? O encanto esconde uma multidão de pecados, e Galen e eu fomos bastante bons para esconder o sangue. Contanto que ninguém nos tocasse, e encontrasse que o tecido se notava pegajoso do sangue que o empapava, estaríamos bem.

— Não estávamos seguros do que aconteceria a sua tecnologia moderna aqui embaixo. Sinto que não esteja funcionando. — eu disse. Quis evitar o problema dizendo a verdade, mas tampouco os queria zangados comigo. A polícia não gostava que os fodessem, sobre tudo se tinham aos do FBI farejando tudo o que eles faziam. Não importava quanto tinha desfrutado do Walters complicando a vida do Marquez, este ainda podia lhe fazer a vida ainda mais difícil.

— Há coisas dentro do sithen que são aterradoras. Uma delas quase atacou ao Galen. Assustei-me, isso é tudo.

Voltei-me, esperando conseguir escapar do Walters e suas perguntas. Não estava para jogos de palavras nesse momento. A cara de Melangell seguia aparecendo. A convicção do Frost de que seus olhos se regenerariam se a permitissem permanecer no sithen e não fora enviada ao Vestíbulo da Morte era um pequeno consolo se ela não chegasse a curar-se de sua desesperada obsessão pelo Aisling. Nós tínhamos tirado algo insubstituível a Melangell se ela não podia recuperar-se desta obsessão.

Walters agarrou meu braço. Não tinha esperado que ele me tocasse.

— Princesa Meredith, como se... — Sua voz cessou porque o braço que ele agarrou estava pegajoso com o sangue que o cobria. Ele me tinha sacudido, me movendo, e minha concentração simplesmente não foi o bastante boa. Frost se moveu para me proteger, mas o encanto escorregou. E Walters conseguiu uma olhada momentânea do que eu estava escondendo.

Seu olhar passou de mim para os outros, que estava tentando projetar uma aparência coletiva de estar trabalhando, quando era evidente que nenhum trabalhava. Não deixou soltou meu braço.

— Precisamos falar. — Disse, sua voz surpreendentemente calma.

— Em particular. — Adicionei. Ele assentiu.

Frost disse:

— Solte à princesa.

— Está tudo bem, Frost.

Guiei-o em direção a um pequeno trecho vestíbulo abaixo, dando a volta na esquina. Um mármore branco brilhante chapeado em ouro e prata tinha substituído a pedra cinza onde Mistral e eu tínhamos feito amor. Era como se algo que tivéssemos feito estivesse trocando a própria natureza do sithen. A rainha não nos ia agradecer isso, mas de momento eu só podia me ocupar de um problema de cada vez. Quando estivemos sozinhos excetuando meu corpo de guardas, disse:

— Me mostre o que está acontecendo, Princesa, porque não é a mesma coisa que estou vendo.

Deveria ter tentado enganá-lo? Possivelmente, mas estava cansada de jogos. Ainda não sabíamos onde estava Amatheon. O cálice tinha desaparecido, e só a Deusa sabia quando e onde reapareceria. A única razão pela que eu tinha tido ao Frost comigo quando me materializei de repente no outro vestíbulo era porque ele tinha me agarrado quando comecei a desaparecer. Se não fosse por isso, eu teria estado sozinha e indefesa, em meio da luta.

Deixei cair o encanto, e tive a pequena satisfação de ver os olhos do Comandante Walters alargar-se antes de que fixasse em seu rosto a expressão neutra e fechada de um agente de polícia. Mas por um momento ele tinha visto algo, e soube que devia estar ainda mais desarrumada do que pensava.

— Mas que demônios lhe passou?

Me soltou agora tinha um pouco de sangue secando em sua mão.

— Houve outra tentativa de assassinato. — eu disse, omitindo que não se apontou para mim. — Galen foi ferido na luta. — Disse-lhe a verdade, até onde podia dizê-la.

Walters olhou ao Galen. Assenti, e Galen deixou cair o encanto. Inclusive se deu a volta para que Walters pudesse ver o pior do sangue.

— Como se agüenta de pé?

— Os sidhe sanam mais rapidamente que os mortais, simplesmente.

— eu disse.

— Ele perdeu tanto sangue e já está curado?

— Estou um pouco enjoado, — disse Galen, — mas me dê uma hora ou duas, e estarei como novo.

— Jesus, desejaria que nós pudéssemos nos curar assim.

— Eu também. — eu disse. Olhou para mim.

— Esqueci que é mortal, como nós. Encolhi-me de ombros.

— Esse é o rumor.

— Não se cura tão rápido como o resto deles.

— Não.

— Já não leva o braço na tipóia. – Disse assinalando-o.

— Não, curou-se em um ritual. — O sexo com o Mistral o tinha curado, mas eu não precisava dizê-lo tudo.

Moveu sua cabeça.

— Algum desse sangue é seu? Agitei minha cabeça.

— Não.

— A última vez feriram o Frost. — Assinalou ao Frost. — Agora a ele.

— Assinalou ao Galen. — vai conseguir que algum deles seja assassinado.

— Espero que não. — Permiti que minha voz mostrasse todo o cansaço acumulado, e como de infeliz me sentia nesse momento.

— Retorne a Los Angeles, Princesa. Tome a seus homens e vá.

— Por quê?

— Porque houve duas tentativas de assassinato em dois dias, mais um duplo homicídio. Alguém a quer morta, e não importa a quem fere. Se eles a quiserem morta com suficiente intensidade terão êxito. Possivelmente não esta noite, ou amanhã, mas se ficar acabarão matando-a.

— Está tentando me assustar, comandante Walters?

— Estou tentando que não morra em meu turno. Em parte estava de acordo em entrar em sua cena de crime para promover a minha carreira, admito isso. Mas se você morrer dentro do sithen, em sua terra, estando a investigação a meu cargo, me arruinará. Sempre seria famoso como o que permitiu que fosse assassinada.

— Se eles me assassinarem, comandante Walters, a única coisa que poderia fazer para detê-los seria morrer ante mim. Não acredito que isso seja muito útil.

— Está fazendo uma piada?

Suspirei, e esfreguei minha testa, lutando contra o impulso de gritar.

— Não, Comandante, não estou brincando. O que me caça aqui não é nada que você possa deter ou algo do que possa me proteger. Necessito sua ajuda para resolver estes assassinatos, mas realmente, se tivesse sabido que ia resultar tão perigoso não o teria trazido para o sithen.

— Somos policiais, Princesa Meredith. Pagam-nos para nos arriscar.

Agitei minha cabeça.

— Tem muitos dados? Tem o que necessita?

— A doutora Polaski quer saber o que aconteceria se nós lhe déssemos provas que apontassem a alguém.

— Encontrou algo?

— Ela quer saber o que... — Fez uma pausa sobre suas palavras. — ...faria com qualquer evidência que recolhêssemos.

— Usaríamo-la para caçar e castigar ao assassino. — eu disse.

Ele agitou sua cabeça, enquanto sacudia com sua mão o lado de sua jaqueta.

— Haveria um julgamento?

Sorri, e sabia que esse sorriso não era agradável.

— Não há julgamentos dentro do sithen, Comandante Walters.

— Assim que você usará nossas provas para matar a alguém?

— O castigo para o assassinato entre nós normalmente é a morte, assim que os executarei, sim.

— Então teremos que retornar ao laboratório e avisá-la depois.

— encontrou algo. — eu disse. Assentiu.

— Se estas evidências chegassem a ser apresentadas em um julgamento quereríamos as comprovar antes através do computador. Se o que encontramos vai ser usado para executar a alguém sem um julgamento, queremos ser ainda mais precavidos.

— O que encontrou? — Perguntei. Ele moveu sua cabeça.

— Ainda não.

— Compreende que o assassino poderia ser um dos que estão detrás dos atentados contra minha vida? Não me dizendo o que suspeita, ou de quem suspeita, poderia estar assinando minha sentença de morte. Quando tiver analisado seus dados, poderia ser muito tarde para mim.

Suas mãos se apertaram em punhos, e fechou os olhos.

— Disse-lhe isso mesmo à doutora dando um rodeio, mas ela não cederá.

— Assim não sabe nada. — eu disse.

— Sei que temos um rastro de alguém a quem já tínhamos tomado amostras, e os únicos aos que tínhamos acesso eram aos que estavam no corredor.

— Os guardas. — eu disse.

— E o pessoal da cozinha. — Disse. Olhei-o.

— Um dos guardas reais, isso é o que pensa, não é isso?

— É de quem eu teria medo, se fosse você.

— Poderia lhe obrigar a me dizer o que sabe, ou fazer que um de meus guardas o fizesse.

— Usar magia com a polícia é crime, Princesa.

— Estou isenta de qualquer acusação judicial.

— Nunca voltaria a obter ajuda de meu escritório se o fizesse, ou de ninguém mais em nosso lado do rio. Nunca poderia receber ajuda de qualquer de nossos departamentos. Nenhuma outra agência da força legal humana confiaria em você, se uma vez aqui nos forçarem mentalmente. — Agitou sua cabeça. — Não posso estar de acordo com Polaski, mas lutarei para proteger sua vontade e capacidade de livre escolha.

Olhei fixamente aquele olhar claro, e soube o que queria dizer... Eu poderia possivelmente tirar algo útil de Polaski mas nunca poderia voltar a confiar ou ser de confiança de novo para a polícia, ou eu poderia permitir ir e esperar que a doutora soubesse o que estava fazendo. Se não tivesse querido sua perícia, então por que havia os trazido dentro do sithen em primeiro lugar?

— Confio no julgamento da doutora Polaski, e em sua obstinação.

Cumprirei as regras.

Frost se moveu a meu lado, como se ele discrepasse.

— Todos nós cumpriremos as regras de meu acordo, está claro? – eu disse.

Alguns assentiram. Ivi estava sorrindo como se não pudesse me acreditar realmente. Ou possivelmente simplesmente se divertia com alguma piada privada. Nunca se sabia com o Ivi.

— Entendo. — Disse Frost. — Não estou de acordo, mas o cumprirei.

Walters assentiu.

— Tentarei apressar à doutora e seus ajudantes e encontrar evidências logo que possa, mas um rastro desconjurado não é uma prova de assassinato. Não é uma prova suficiente para executar a alguém.

— Não em uma corte humana. — eu disse.

— Ah, diga isso a Polaski e a fará sentar-se sobre sua evidência. Nunca conseguirá.

— Mas não estou dizendo a ela, ou sim?

— Pensa que eu o daria, se o tivesse.

— Acredito que você entende a situação melhor do que ela o faz, como estão voltando as coisas perigosas agora mesmo para mim e meus guardas.

Olhou-me por um longo momento.

— Possivelmente, mas estou de acordo com Polaski em uma coisa: Não quereria ser a pessoa que encontrou uma evidência suficiente para conseguir matar à pessoa errada. Uma vez que alguém está morto, Princesa Meredith, não há nenhum acerto. Nenhuma volta atrás. E eu quero estar seguro de ter à pessoa correta antes que alguém agarre uma tocha.

— Eu também, Comandante, e pressionaremos para ver se conseguirmos mais provas.

— Disse que eles usariam a evidência para simplesmente passar à execução.

— Disse que eles podem fazê-lo e provavelmente quererão fazê-lo, mas eu, como você, quero estar segura. Também quero jogar limpo, mas mais que tudo isso, Comandante Walters, tenho clara uma coisa, uma vez que alguém é executado por um crime se suspende a investigação. E se executarmos à pessoa equivocada, então o assassino ainda estará livre para matar de novo. E eu não quero isso.

— Assim que o problema para você não é executar à pessoa equivocada, se não permitir ao verdadeiro culpado continuar matando.

— Um assassino culpado que escapa uma vez pode tentar de novo.

Assentiu.

— Sim, os que conseguem escapar uma vez, parecem querer tentar de novo. — Olhou-me. — Se se supõe que todos menos você são imortais aqui, então, como é que Beatrice está morta?

— Isso é outro problema, não?

— Possivelmente... — Começou Aisling.

Eu não quis olhá-lo. Compreendi que estava zangada com ele. Zangada pelo que tinha feito a Melangell. Zangada porque não parecia sentir-se mal por isso. Seu tom de voz quase tinha deixado ver que o tinha desfrutado.

De repente Mistral se uniu a nosso grupo.

— Me desculpe, Princesa. A rainha Andais está esperando para falar contigo. — Sua cara estava absolutamente neutra quando disse. Muito neutro. Algo estava errado.

— Princesa Meredith, por que não chama a essa doutora diretamente? — disse Aisling.

Eu agarrei muito ar e o soltei lentamente, então me voltei muito deliberadamente e olhei ao Aisling.

— Não é uma má idéia. — eu disse, minha voz soando mais prosaica do que mostrava minha expressão.

Aisling sorriu. Eu podia ver o suficiente de sua expressão através da gaze que lhe cobria a cara para me dar conta disso.

Tentei não lhe olhar fixamente. Minha intenção era que parecesse casual, mas não acredito que ele, ou nenhum dos outros homens, acreditasse. Possivelmente Mistral não entenderia por que não queria ver esse sorriso encantador, mas ele ainda não sabia o que o sorriso do Aisling tinha provocado em alguém mais.

— Não. — Disse Walters.

Todos o olhamos.

— Por que não? — Perguntei.

— Não devia ter lhe dito.

— Está você a cargo de tudo isto? Do pessoal humano, ao menos?

— Tecnicamente, mas ela é a chefe dos inspetores médicos, e está a cargo de seu pessoal. Se eu fosse o chefe de polícia, sim, estaria a cargo de tudo, mas não sou.

— Assim não pode fazê-la cooperar. — Disse Frost. Walters agitou sua cabeça.

— Ela se assustará se descobrir quanto lhe disse. E se ela se assusta, estará ainda menos disposta a cooperar.

— Então por que nos disse isso? — Perguntou Aisling. Mantive meu olhar sobre o Walters enquanto ele dizia.

— Porque tem que ser uma das pessoas que estavam aqui no corredor conosco. Porque eles são os únicos dos que tomamos amostras. Não lhe darei um nome só porque seu rastro estava onde não devia estar, não se você for matá-los simplesmente. Mas tampouco quero que alguém a assassine.

— Ah, Comandante Walters, estou emocionada. — Não sorri enquanto o dizia.

— Me dê sua palavra de que o suspeito não será prejudicado de forma alguma, e lhe ajudarei a falar com Polaski.

— Dou-lhe minha palavra de que farei tudo o que esteja em minha mão, para manter a quem quer que seja fora de perigo.

— Fazer tudo o que esteja em seu poder não é o mesmo que prometer que não sofrerão dano. — Disse Walters.

— Não, não é, mas sou a Princesa Meredith, não a rainha. Não sou a soberana absoluta aqui. Você pode me prometer o que queira, mas se o chefe de polícia o anula, então onde me deixa isso?

Agitou sua cabeça.

— Bem, fale com o Polaski, mas não vai estar contente com nenhum de nós.

— Por que ela ia ser diferente?

— O quê? – Perguntou ele. Movi minha cabeça.

— Simplesmente me ignore, Walters, não estou em meu melhor momento.

— Se eu tivesse tido que fazer frente a duas tentativas de assassinato em dois dias, tampouco estaria em meu melhor momento.

Pensei nisso. Não era que tentassem me matar o que me incomodava; era que tentavam matar a todos os outros. Existe uma razão pela que o presidente e sua família se supõe que não saem com os agentes do serviço secreto que os guardam. Não criam relações pessoais.

Havia ainda sangue na mão do Galen, seu sangue, seco, um pouco pegajoso ainda. Muito sangue. Muito estava passando em tão pequeno espaço de tempo. Sustentar a mão do Galen me fez começar a tremer. Compreendi nesse momento que ia sofrer um colapso.

— Pode nos dar uns minutos, Comandante, por favor? — Minha voz só soou um pouco insegura.

Começou a discutir, mas algo em minha cara lhe fez simplesmente assentir e caminhar para o corredor. Lutei para manter a mesma expressão até que quase esteve fora da vista, então me saiu o primeiro soluço. Me aferrei ao Galen, senti o encanto partir, e perdê- lo. Chorei e solucei até que comecei a hiperventilar. Não podia respirar, e meus joelhos começaram a falhar. Galen me ajudou a me deslizar até o chão, sentou-se apoiado de costas contra a parede, e me deixou envolver minhas pernas ao redor de sua cintura, deixou- me sustentá-lo tão estreitamente como podia sem chegar a manter relações sexuais com ele.

Galen acariciou meu cabelo, e disse...

— Está tudo bem, está tudo bem.

— Respirações longas e profundas, Meredith, — disse Frost, enquanto se ajoelhava a nosso lado. — Respira lentamente ou vai desmaiar. Lutei com meus gemidos, enquanto gritava presa no pânico. Lutava por respirar, e não podia fazê-lo.

Galen acariciou meu cabelo e me mentiu.

— Está tudo bem, nós estamos seguros, eu estou seguro. — Mentiras, tudo mentiras. Meu corpo estava gritando.

— Não posso respirar, não posso respirar, não posso respirar.

Frost aferrou minha cara entre suas mãos, sustentou-me tão firme que me fez mal. Obrigou-me a olhá-lo.

— Meredith, Meredith! — Beijou-me. Possivelmente simplesmente para deter os ruídos, ou porque não podia pensar em fazer nada mais. Os Corvos da Rainha estão especializados nas armas, no combate mão à mão, em estratégias de batalha, e inclusive em política. As mulheres histéricas não estão na lista.

Sua boca se fechou sobre a minha, e eu lutei contra ele. Não havia ar. Lutei para me liberar dos braços do Galen e arranhei ao Frost. Ele expirou um vento frio em minha boca. No momento em que o frio me tocou, acalmei-me, como se meu corpo se parasse. Acredito que inclusive o sangue em minhas veias se deteve. Um momento apenas, silencioso, imóvel, frio. Era como atirar-se em água gelada; o choque deteve a histeria, deteve tudo por um momento.

Frost acabou o beijo, e minha respiração se refez com um enorme ofego que feriu meu peito. Tomei várias profundas, dolorosas respirações seguidas, enquanto ele sustentava minha cara, e me olhava fixamente aos olhos, como se me buscasse. Seus olhos cinzas tinham essa pequena capa nevada de novo neles, e eu me sentia como se estivesse caindo pra frente, entrando nos olhos do Frost. Ele pestanejou, e a sensação desapareceu, mas alguma noite ia ter que ver o que aconteceria seguia olhando dentro desses olhos nevados. Mas não esta noite. Esta noite, não.

— Princesa Meredith, — Disse uma voz de mulher, — sinto me intrometer.

Limpei as manchas de lágrimas em minha cara, o qual não ajudou, já que tudo o que consegui fazer foi estender mais o sangue do Galen em minha cara. Devia parecer um asco quando me voltei para enfrentar à doutora Polaski.

Sua respiração, que saiu como em um ofego, foi o que me permitiu simplesmente ter uma idéia de quão mau parecia. Não se consegue com freqüência que as pessoas que trabalham como forenses ofeguem dessa maneira.

— O Comandante Walters me explicou algo do que esteve acontecendo aqui hoje. — Agitou sua cabeça e tirou os óculos, limpando sua testa com o dorso da mão.

— Não queremos que a opinião pública saiba o que está acontecendo dentro do sithen. — Disse Frost.

— Posso manter a fechada a boca. — Olhou-me, e vi algo em sua cara que era quase piedade. — Posso falar com você, Princesa Meredith?

Respirei fundo, e tremi um pouco. Minha voz soava rouca, e tive que esclarecê-la, mas consegui finalmente.

— Escuto-a, doutora Polaski.

Os guardas se separaram para que ela pudesse aproximar-se de nós. Ainda estava sentada no colo do Galen, minhas pernas envolvendo sua cintura. Se a posição íntima a incomodava, não demonstrou. Fiquei onde estava porque ainda queria sustentar ao Galen tão perto de mim como fosse possível. Era uma maneira de me aferrar a ele sem parecer que estava fazendo. As mãos do Galen descansaram em minhas costas.

Polaski se ajoelhou a nosso lado para que estivéssemos ao mesmo nível.

— Preciso saber umas coisas, e é você a única a quem posso perguntar, mas perguntando, revelarei o suspeito no que estou mais interessada.

— Entendido. — eu disse.

Voltou a colocar os óculos e moveu sua cabeça.

— Não acredito que o faça. Walters me disse que você não julgará a quem quer que assinale. Torturará-os ou simplesmente os matará. É certo?

— Sim. — eu disse.

Ela esperou, como se esperasse que eu dissesse algo mais. Então sorriu, e disse:

— Nenhum humano que conheça haveria dito simplesmente sim a isso. Qualquer de nós haveria sentido que tinha que justificar o fato de tirar uma vida. Haveria sentido tantas coisas... — Me olhou com esses olhos de largas pestanas. — Mas você não sente o que nós sentiríamos.

— Não é uma questão de fadas contra humanos, doutora, é cultural. Criei-me em um mundo onde a tortura é a norma para os crimes, e a execução se usa quando é necessário, embora seja estranho. Nós não prendemos alguém, condenamo-lo a morte, e o mantemos esperando a execução da sentença durante vinte anos, esperando pra ver se alguém encontra alguma fresta legal.

— Vi algumas coisas horríveis em meu trabalho, Princesa Meredith, e há umas quantas pessoas a quem eliminaria para sempre, sabendo que seria mais fácil que estivessem mortas. – Suspirou. — Necessito sua palavra de que não executará à pessoa que estou a ponto de revelar.

— Não posso prometer isso, não sem mentir.

— Então, quero sua palavra de que eles não o executarão até que tenha processado as evidências que reunimos.

Olhei ao Frost, e ao Mistral que estava a seu lado.

— Pensa que posso prometer isso e não cometer perjúrio?

— Penso que a rainha manteria sua palavra de honra, e não ofenderia à polícia humana. — Disse Frost.

— Isso não é um sim. — eu disse.

— Um simples sim poderia não ser verdade. — Disse; a expressão de seu rosto se via arrogante, mas ao mesmo tempo vazia e cautelosa. Pensei que era mais para o benefício da doutora que o meu.

— Mistral? — Perguntei.

— Ela está ultimamente muito interessada em manter boas relações com a opinião pública. A morte do jornalista já é bastante má. Não quererá rumores sobre que executamos a alguém sem provas.

— Assim é um sim. — eu disse.

Olhei ao Frost, os dois evitaram meu olhar. Mistral disse...

— Ela é Andais, Rainha do Ar e da Escuridão. — encolheu-se de ombros.

— Quero sua palavra de que você não lhes permitirá executar a ninguém até que eu tenha verificado as provas. — Disse Polaski. Pensei sobre o que poderia prometer a Polaski, e finalmente disse, — Tem minha palavra de que farei tudo o que esteja em meu poder para tentar que ninguém resulte prejudicado de uma forma irrecuperável antes de que nos tenha avisado de novo.

— Prejudicado irrecuperavelmente. — Quase sorriu —. Nunca ouvi ninguém dizê-lo assim antes.

Apenas a olhei, tentando parecer inexpressiva.

— Bem, tomarei sua palavra. Não me desaponte.

— Tentarei. — eu disse.

— Os duendes pequenos podem trocar de forma?

— Muitas fadas têm mais de uma forma.

— Os pequenos podem ser grandes, como do tamanho humano?

— Quando diz ?pequeno, você quer dizer menor, o duende alado, o semiduende? Assentiu.

— Alguns deles podem trocar a forma para chegar a um tamanho quase humano. Mas é raro entre eles.

Galen começou a massagear minhas costas. Não estava segura de quem estava tentando confortar, ele ou eu.

— Como de raro?

— O bastante raro para pensar, até muito recentemente, que eles tinham perdido definitivamente esta habilidade.

— Conhecemos só um semiduende que possa fazê-lo agora. — Disse Frost.

Polaski lhe jogou uma olhada.

— Aqui está a outra pergunta. Algum tipo de magia do sithen ou alguém poderia mascarar ou trocar algo do que estou vendo mediante o encanto ou algum feitiço?

Frost, Galen, e eu intercambiamos olhadas. Frost disse...

— Confio em que Rhys fez todo o possível para proteger a evidências dos feitiços abertos.

— Mas alguém poderia copiar um impressão magicamente em cima de outra? — Perguntou.

— Esse alguém teria que entender como se coletam as impressões, — eu disse, — por isso pode eliminar a qualquer um que não tenha visto em televisão que é a maioria dos guardas. Mas se entendessem como se recolhem as impressões, eles poderiam ser capazes de fazer que uma impressão se pareça com outra.

— Poderiam mudar as impressões?

— Não acredito, mas não posso estar seguro. — Disse Frost.

Mistral disse...

— Não sei como coletam as impressões, exatamente, mas parecem ser como as marcas de um animal.

— Não é uma má analogia. — Disse Polaski.

— Então estou de acordo com o Frost, seria difícil as trocar em realidade.

— Assim provavelmente acredita que estou confundindo o que penso que estou vendo, com o que realmente estou vendo?

Todos estávamos de acordo nisso.

— Então preciso sair daqui e verificar meus resultados com um computador que funcione fora do sithen.

— Suas primeiras perguntas apontavam a um semiduende do pessoal da cozinha. — eu disse.

Assentiu.

— Mas só se puderem trocar a forma para que sejam tão grandes como você. A impressão é de um tamanho similar ao de minha própria mão, mas é idêntica a outra que corresponde a um semiduende.

— Qual? — Perguntei. Negou com sua cabeça.

— Não lhe direi isso.

— Se não nos disser isso, simplesmente prenderemos a todos.

— A todos eles? — Perguntou. Assenti.

— Para você, acautelar é não encarcerar a alguém falsamente. Para nós acautelar é encerrar a todos o que sejam necessários se com isso nos asseguramos de que o único culpado fica também entre grades. Suspirou, então assentiu novamente.

— Bem, é Peasblossom.

A surpresa se mostrou em minha cara antes que pudesse detê-la.

— Por que se surpreendeu?

— Porque ela e Beatrice eram muito íntimas. Soube dessa relação durante muito tempo. Não posso imaginar que Peasblossom ferisse Beatrice.

— Então alguém está me confundindo porque consegui uma impressão nas costas do Beatrice. — Olhou aos homens. — Posso usar a alguém como exemplo?

Aisling começou a mover-se mas eu disse...

— Ivi. — Ele avançou com um olhar zombador em seus olhos que eu não gostei.

Aisling retrocedeu com um sorriso.

— Se pudesse dar a volta, por favor? — Disse Polaski ao Ivi. — O homem se voltou sem uma palavra, lhe dando as costas. — Poderia tirar capa, por favor?

— Com prazer. — Ronronou sugestivamente. Desabotoou o pescoço de sua capa, e permitiu que caísse ao chão para ficar aos pés da doutora Polaski. Ela estava olhando agora o profundo outono de seu cabelo, verde pálido e verde escuro como se estivesse composto por um conjunto de videiras e folhas.

Tentou lhe ajudar movendo seu cabelo para trás, mas no momento que o tocou, ela se imobilizou.

— Pare, Ivi. — eu disse.

— Não fiz nada. — Disse, mas seu sorriso era agora satisfeito, como se estivesse contente com o efeito que estava causando.

— Caminha longe dela. — Disse Frost.

— Obedeço à princesa, não a ti.

— Caminha longe dela. — eu disse.

Ele pôs seu sorriso zombador, mas seus olhos verdes mostraram um sentimento feroz que não entendi. Mas obedeceu. Ao momento, Polaski deixou de estar comovida com seu cabelo, pestanejou e pareceu despertar.

— Perdão, o que estávamos dizendo?

— O que está acontecendo? — Perguntei ao Frost.

— Recuperou alguns de seus velhos poderes.

— E quais seriam?

— Disse-se que quem tocasse o cabelo do Ivi era como tocar a hera que lhe faria irresistível tanto se quisesse como se não. Tocar a hera significava estar apanhado. E que esta hera te apanharia como um amante que terminaria te destruindo de algum jeito. — Disse Frost.

— Não recordo nenhum destes refrões. — eu disse.

— Não tem nenhuma razão para conhecê-los. — Disse Hawthorne. — passaram séculos desde que falávamos do Ivi desta maneira.

— Não me maravilha que pareça tão satisfeito. — eu disse.

— Ganhei muito simplesmente estando no vestíbulo contigo enquanto você...

— Chega, — disse Frost, — não estamos sozinhos. Ivi se ajoelhou ante mim.

— Faria o que fosse para estar em sua cama durante uma noite, durante uma hora. — Seus olhos não se viam agora zombadores. Sua cara parecia tão séria como ele podia chegar a conseguir.

— Te levante. — eu disse.

— À rainha gosta de ajoelhados.

— Bem, eu não. Olhei ao Frost.

— A quem pode tocar sem criar um problema, em todo caso?

— Hawthorne fará o que lhe digam, embora sua magia seja mais ativa. — Disse Frost.

Assenti.

— Hawthorne, vem ajudar com a demonstração da doutora.

Foi até ela, tendo que rodear a piscina de cabelo que se estendeu ao redor do corpo ajoelhado do Ivi.

— Deve escolher a dois dos homens verdes, me permita ser um deles. — Disse Ivi.

— Não faça à princesa lhe pedir isso duas vezes. Te levante. — Disse Mistral.

Hawthorne mostrou à doutora a parte traseira de sua armadura.

— Suponho que a armadura não representa uma diferença para isto.

— Tocou a armadura carmesim tentativamente, depois com mais convicção, como se tivesse esperado que algo acontecesse. — Beatrice foi apunhalada aqui. — Apontou a um lugar em suas costas onde estaria quase seguro de encontrar o coração. — A faca entrou profundamente. — Deixou dois dedos marcados em onde a faca entrou, então pôs a palma de sua outra mão junto a ela. — Tenho uma impressão quase perfeita justo aqui, onde alguém se apoiou para tirar uma faca profundamente cravada. Tenho quase o mesmo modelo de impressão na segunda vítima. Mas também tenho impressões digitais parciais onde a faca foi limpa para tirar o sangue. Podem ou não podem ser as do Peasblossom.

— Se estivermos seguros de que é sua impressão, então ela seria nossa assassina. —eu disse.

— Sim, mas se for ela, então onde está a faca? Rhys a rastreou até sua toca. A outra ajudante de cozinha disse que uma vez que Peasblossom encontrou os corpos, não deixou a zona. Não teve tempo para ir todo o caminho até sua fossa para dispor da faca.

— Alguém mais o fez por ela. — Disse Mistral.

— Encontramos uma impressão nítida na parede perto do corpo do repórter. Não corresponde a nenhum dos guardas do vestíbulo, mas a mão é de um tamanho similar.

— Sidhe. — Disse Adair.

— Provavelmente. — Disse ela.

— Assim ou Peasblossom é uma assassina cruel e tinha um cúmplice, ou o assassino está calcando seu rastro em cima da sua para mascarar sua culpa.

Assentiu.

— Não podemos verificá-la mediante algum feitiço? — Disse Galen. Frost negou.

— Não temos ninguém o bastante bom para rastrear os pequenos rastros de magia. Estes rastros mágicos podem permanecer no ar durante uma hora ou mais. Para poder segui-los, sem mesclá-los com outros rastros necessitaríamos ao Doyle, Crystall, ou Barinthus.

— Eu poderia fazê-lo. — Disse Aisling.

— Não. — eu disse.

— Não confia em mim? — Perguntou, com esse sorriso fantasmal.

— Não, ao redor da doutora Polaski e sua gente, não.

— Pôde olhar fixamente meu corpo nu e não foi enfeitiçada. Possivelmente perdi alguns de meus poderes para os mortais.

— Ou possivelmente Meredith é uma princesa dos sidhe, — disse Mistral, — e não mortal.

— Recuperar seus poderes te tornou atrevido, Aisling. — Disse Hawthorne.

Ninguém parecia gostar muito dele. Todos tinham estado tão agitados como tinha estado eu por sua pequena demonstração?

Aisling olhou ao Hawthorne.

— Olhou-me fixamente sem nada entre minha cara e seus olhos. Essa é a tarefa de um herói, ou era mais fácil resistir a minha beleza que seguir adiante? — Suspirou, e o chateio se sentia em sua voz, substituído pela dor. — Depois de tão longo tempo sem satisfazer nossas necessidades, não há vergonha em tentar atrair o que uma vez tinha tido. Todos pedimos o toque de outro sidhe. Às vezes penso que me voltarei louco sem o toque de outro ser.

Hawthorne fez uma coisa valente então, tocando o ombro do Aisling de uma maneira fraternal. Perguntei-me se teria se arriscado se Aisling continuasse com o torso nu.

— Temos uma oportunidade para acabar com nossa espera rapidamente.

— Com a princesa. — Disse Aisling. Hawthorne assentiu.

Aisling retrocedeu longe do toque da mão do Hawthorne e se moveu para mim. Custou-me um grande esforço não retroceder para me afastar dele. Ajoelhou-se a meu lado e ao do Galen.

— Não haverá nada de princesa para mim. — Disse Aisling. — Ela não se arriscará agora. — Olhou abaixo para mim. — Não é certo, Princesa?

Não soube o que dizer porque tinha razão. Não o queria me tocando. Disse a única coisa em que pude pensar:

— Não te mandarei embora, mas te temo, Aisling, quando antes não o fazia.

— Estou perdendo algo. — Disse Polaski.

— Pode estar contente de perder – eu disse. Caminhou para mim.

— Não, está me escondendo muitas coisas, Princesa. Preciso saber o que está acontecendo aqui, ou não receberá nada de mim e minha gente.

Quando chegou até nós, roçou-se contra Aisling e começou a cair. Galen e eu reagimos, sabendo que Aisling não devia tocá-la com sua pele nua. Eu estava de pé entre eles, empurrando ao Aisling para trás. Galen se agachou e agarrou à doutora Polaski antes que pudesse golpear-se contra o chão.

A doutora estava segura com o Galen, mas eu estava nos braços do Aisling, e não estava segura absolutamente.


CAPÍTULO 23


AISLING ME MANTEVE EM EQUILÍBRIO, COM SEUS BRAÇOS E SEU corpo.

Possivelmente tropeçou mais do que o necessário, mas assim estava disponível para me sustentar mais forte, mas não foram os tropeções o que fez que minha mão se deslizasse debaixo de sua túnica até sua pele nua. O temor me golpeou, correu através de minha pele sentindo-se como se fossem pequenas descargas elétricas, relampejando sobre a ponta de meus dedos. Recordei o rosto de Melangell, seus sangrentos e feridos olhos, e esperei que sua magia tomasse. Olhei para cima, para seus extraordinários olhos, a suas pupilas, rodeadas por quatro circunferências incolores. O azul de seus olhos tinha desaparecido. Algo muito estranho estava ocorrendo. Passei minhas mãos pela curva de sua coluna, tão cálida, tão firme, tão real. Ele se inclinou sobre mim, como se fosse me beijar através da gaze de seu véu. Eu me inclinei para trás, suas mãos apertando- se ao redor de meu corpo, me sustentando contra ele. Se não o tivesse visto com Melangell poderia ter deixado simplesmente que me beijasse, mas algumas coisas uma vez que as conhece nunca pode as esquecer.

Cheirei uma fragrância a rosas. Estive de repente perdida no aroma, em uma quase enjoativa essência de rosas. Aisling vacilou:

— Cheira isso?

— Sim. — Sussurrei.

Uma voz sussurrou dentro de minha cabeça.

— Com o Amatheon eu tente te apurar, e você evitou as pressas e escolheu o caminho mais longo. Arrisca-se a perder a quem lhe tem muito carinho.

Eu sussurrei:

— Galen.

Os braços do Aisling se relaxaram ao meu redor, mas eu agarrei a ele porque de repente estava enjoada.

— Agora devo te dizer que isto deve esperar, ou você vai perder de novo.

— Doyle.

— A Escuridão não pode perder-se, está sempre conosco, mas há outros poderes mais frágeis. Te apresse.

— Onde? — Perguntei.

Não eram palavras. Parecia-se mais ao pressentimento que tinha vindo sobre mim quando disse ao Frost que Galen não podia ir procurar sozinho ao Doyle. Mas este não era um sentimento de pânico, era só um conhecimento. Simplesmente sabia aonde precisava ir. Sem dúvidas, sem lógica, só o conhecimento.

— Com quem está falando? – disse de novo Aisling, sua voz tremia, quase assustada.

— Não tenho medo de te tocar, — eu disse, — mas não é o momento. Devemos chegar ao salão do trono, agora.

— Por que? — Galen se levantou com um braço ainda casualmente ao redor da Dra. Polaski, tocando-a do modo em que ele podia tocar a outro sidhe. Ela estava me olhando como se nunca me tivesse visto antes.

— Por que tudo cheira como a rosas? — Perguntou ela.

Sacudi minha cabeça, e gritei chamando o Rhys quando comecei a caminhar pelo vestíbulo. Rhys chegou pelo corredor do vestíbulo, deixando atrás aos cientistas, a polícia, e os corpos.

— Os rastros do Peasblossom estão onde não deveriam estar, mas pode ser que um sidhe usou a magia para implicá-la. A ponha cuidadosamente em uma caixa até que possamos decifrar tudo isto.

— Mas...

— Sem discussão. Só faz, Rhys.

Seu rosto que raramente mostrava arrogância, voltou-se frio.

— Como a princesa ordene.

— Não tenho tempo para ataques de ego ferido, Rhys. — Comecei a correr. Não podia explicar por que, mas corri pelo vestíbulo com suas lajes de mármore brilhando como alguma jóia brilhante escondida entre a matriz cinza de pedra.

Frost e Galen corriam a ambos os lados. Mistral vinha detrás, e os outros lhe seguiam. Eramos ao menos dez guardas, mas esta não era uma questão de números. Algo errado estava acontecendo, e nós poderíamos acautelá-lo com apenas chegar a tempo. Pensei sobre o espelho, o que tinha passado em minha habitação, quando tinha aparecido simplesmente porque eu tinha desejado me ver com o grosso casaco posto. Estava correndo e quase sem fôlego pelo que quase só pude sussurrar...

— Precisamos chegar ao trono agora!

Durante uns quantos pulsados, nada passou... então as pedras trocaram sob meus pés. Não duvidei. Não fiz uma pausa. Não tropecei. Confiei em que o sithen tinha me levado aonde queria ir. Corri, como se o mundo se derrubasse a meu redor. A pedra cinza flutuava dentro do mármore branco, como se as paredes se tornassem líquidas. Então, de repente, nós estávamos correndo sobre uma terra seca e morta. Tive um segundo para reconhecer a piscina e a fonte que estavam aí antes que as grandiosas portas duplas nos deixassem entrar na câmara do Salão do Trono, mas a fonte estava agora no centro do enorme e formal jardim que se estendia para os lados. A fonte sempre tinha estado no centro do nu corredor.

Crystall e os guardas que tinha enviado com os Senhores a ver a rainha estavam em meio desse jardim. Eles giraram seus assustados olhos para mim. Eu não tinha nem idéia do que havia perto do jardim que fazia que Crystall parecesse tão assustado, e eu não queria perguntar. O pânico gritou através de mim e fez subir minha adrenalina como as borbulhas sobem através de um caro champagne. As portas duplas se abriram sem que uma mão as tocasse. Meu pulso desbocado estava me bloqueando a respiração. Lutei contra a dor em meu flanco para seguir direta e correndo.

As rosas trepadeiras da entrada da câmara, enchiam a escuridão com flores carmesim, retorcendo-se e deslizando-se como uma grande serpente coberta de espinhos. Corri, e as vinhas não trataram de esconder-se de nós. O último par de portas dupla estava justo em frente.

A Corte estava justo atrás delas. Sussurrei:

— Abram. — E as comporta se abriram movendo-se para a parede. Acelerei na escuridão das rosas a brilhantismo da Corte, e pisquei, quase cegada pela diferença de luz. Não podia ver nada exceto sombras e figuras difusas. O esgotamento debilitou minha vista me mostrando só cinzas e brancos. Através do trovejar de meus ouvidos pode escutar à rainha Andais gritar.

Eu gritei:

— Parem... isto. — Tomei um último fôlego, e Galen me sustentou pelos ombros ou eu teria caído. Minha visão voltou em rajadas. A Corte estava vestida para uma festa, ou um alegre funeral. Todo negro, prateado, com muitas jóias.

Andais estava uns passos diante do trono, erguida frente a mim, frente a nós. Barinthus estava aos pés do trono. De onde ele estava nos podia ver a rainha e a nós. Soube nesse segundo o que estava passando, mas não o por que.

O por que não era importante para mim.

— Mas que direito tem de me deter para usar o desafio contra qualquer um, sobrinha? — Sua voz continha uma raiva que fez que o ar por si mesmo se fizesse pesado sobre minha língua. Ela era a Rainha do Ar e da Escuridão. Ela podia fazer que o ar se obstruísse em minha garganta ou fazê-lo tão denso que meus pulmões mortais não o pudessem respirar. Ela esteve perto de me matar dessa forma. Isso aconteceu somente na noite passada, ou foi a noite anterior?

— Rogo uma audiência particular contigo, tia Andais. — Minha voz estava sem fôlego, e se Galen não me mantivesse firmemente agarrada não estava segura de se minhas pernas poderiam e sustentar. A força sobrenatural e a magia estavam bem, mas não as tinha usado para correr como tinha feito.

Ela sorriu.

— Rogar não te manterá de pé, Meredith. — Ela caminhou de volta a seu trono, a larga seda negra deslizando-se detrás dela como um manto de escuridão. Sentou-se com um gesto prático, arrumando a seda a seu redor. A cor emoldurava toda sua pele pálida, o cabelo negro, e os olhos de uma tripla cor cinza adornadas com uma dramática maquiagem. Diamantes e safiras de um azul tão escuro como a cor da meia-noite adornavam sua garganta e seus pulsos enluvados.

Afundei-me em uma reverência. Galen me ajudou a fazê-la graciosamente, e se ajoelhou comigo.

Todos os que estavam comigo se ajoelharam quando eu o fiz.

— Rogo por uma audiência privada contigo, tia Andais, Reina do Ar e da Escuridão.

— Por que Galen e você estão cobertos de sangue?

— Tenho muito que te contar, minha rainha, mas algumas destas coisas devem ser só para seus ouvidos.

— Houve outro atentado contra sua vida?

— Não, contra a minha não.

Ela sacudiu sua cabeça, como se tivesse uma abelha voando ao redor dela, e tentasse livrar-se dela.

— Fala com enigmas.

— Posso falar claramente contigo em particular.

— Discutamos nossos assuntos públicos primeiro. — Disse, e apontou ao Barinthus, que ainda estava entre o trono e nosso grupo. — O anel o reconheceu, e você o ajudou a romper seu juramento para mim?

— O anel reconheceu a Lorde Barinthus. Você disse que tinha que foder com tantos dos guardas como fosse possível. Não foi isso o que me ordenou?

Seu rosto se contraiu em uma máscara de raiva.

— Possivelmente minhas palavras foram apressadas, ou possivelmente você não sabia que Barinthus me fez um juramento antes de permitir unir-se a nossa corte. Um juramento que fez só ele e que agora tem quebrado.

— Ele não tem feito nada que convertesse a ele em meu rei e a mim em rainha.

— Tome cuidado, Meredith, sei que ele teve sexo contigo.

— Sexo que foi mais mágico que real, nada que pudesse gerar uma criança.

— Ele se aliviou em seu corpo.

— Não, ele gozou, mas nossas roupas estavam em seu lugar, e ele nunca penetrou em meu corpo com mais que a gema de seu dedo.

— Pode jurar? — Perguntou Andais.

— Sim.

— Disseram-me que Barinthus tinha passado de ser um fazedor de reis a converter-se em rei.

— Disse-te que ele não tem quebrado o juramento que fez a esta Corte. O anel reconheceu quem era, e nos concedeu presentes quando o fez, mas ele não tem quebrado nenhum juramento.

— Por que não disse isto, Barinthus? — Perguntou ela.

— Não teria acreditado em mim, rainha Andais.

Ela pareceu pensar sobre isto por um segundo ou dois, então deu uma pequena sacudida de cabeça.

— Possivelmente não. — Ela me olhou. Era a classe de olhar que um falcão dá à erva quando está quase seguro de que esconde um saboroso bocado. — escutei muitas histórias a respeito de suas atividades. Agora me pergunto quanto é verdade, e quanto um exagero preparado para me indispor contra meus aliados e contra ti.

- Até que saiba o que lhe contaram, não posso dizer, tia Andais.

- Estamos na Sala do Trono, Meredith, usa meu titulo.

-Minha rainha. - Abaixei a cabeça, assim ela não podia ver meu rosto. Isto não era bom. Não era nada bom.


CAPÍTULO 24


— ESCOLHEU O ANEL UM CASAL ENTRE OS GUARDAS? — sua voz tinha um tom totalmente neutro quando ela perguntou.

Eu estava contente de estar no chão porque eram tantas as coisas que tinham acontecido que quase tinha esquecido de Nicca e Biddy. Assassinatos, visões metafísicas, a Deusa, o cálice, o desaparecimento do Amatheon, o ataque ao Galen, a profecia do Cel sobre o homem verde, os Senhores que esperavam simplesmente fora, tantas coisas tinham acontecido e isto era pelo que ela perguntava, por quê?

— Sim, rainha Andais, o anel escolheu um casal.

Ouviram-se murmúrios entre os nobres sentados a cada lado do trono.

— Descreve o que aconteceu.

Fiz o que ela me ordenou. Falei-lhe sobre o fantasma do menino, e o que tinha visto e sentido.

Alguém disse:

— O anel vive outra vez.

Andais olhou ao homem que tinha falado.

— Tem algo que adicionar a esta discussão, Lorde Leri?

— Só que certamente estas são boas notícias, minha rainha.

— Eu decidirei o que são boas notícias, Leri. Ele se inclinou.

— Como minha rainha deseje. Andais girou sua atenção para mim.

— O anel vive depois de séculos outra vez. Está escolhendo possíveis casais férteis, e você não acha que isto seja o suficientemente importante para me dizer.

— Aconteceram muitas coisas desde que o anel os escolheu, rainha Andais. Pensei que encontrar os assassinos tinha prioridade.

— Eu dito o que tem prioridade aqui, não você — Ela se levantou. — Eu ainda sou a rainha.

Eu voltei a me ajoelhar e Galen se moveu comigo.

— Eu nunca questionei isso.

— Mentirosa. — Vaiou Andais, e o eco dessa palavra ressonou pelo salão.

OH, de acordo, isto estava ruim, realmente ruim.

— O que tenho feito para te zangar, rainha Andais? Diga-me isso e farei o possível para remediá-lo.

Mantive meu rosto baixo, assim estava olhando a dura pedra do chão. Não confiava em minha expressão. O temor podia excitá-la, o desconcerto podia zangá-la... e eu não tinha uma expressão que pudesse lhe dar.

— Mistral vem a mim, capitão de minha guarda.

Ele se levantou de sua posição ajoelhada e respondeu a sua ordem.

Eu o observei caminhar para ela. Mistral deixou escapar um som de susto mais que de dor, quando ela agarrou um punhado de seu rico, e profundo cabelo cinza e atirou dele para tombá-lo sobre seus joelhos, ante ela.

— Você fodeu com ele.

Tratei de ver onde estava a armadilha na pergunta mas falhei. E respondi com a verdade.

— Sim, minha rainha.

Ela o deixou ir tão abruptamente que Mistral esteve a ponto de cair pelos degraus. Sustentando-se com uma mão ele conseguiu ajoelhar- se torpemente, a maior parte de seu rosto oculto por seu glorioso cabelo. Baixou seus olhos, mas não antes que o retumbar de um trovão ressonasse e ecoasse através do salão do trono.

Os nobres se moveram inquietos, olhando a seu redor. A voz de Andais ronronou quando ela se ajoelhou ao lado de Mistral, apartando seu cabelo. Ele tremeu como um cavalo nervoso quando ela o tocou.

— Esse foi você, Mistral?

— Me perdoe, minha rainha, não tive tanto poder em anos. Meu controle não é o que era, minhas desculpas, minha rainha.

— Dois "minha rainha" em uma mesma frase. Deve te sentir realmente culpado.

— Não tenho feito nada para me sentir culpado, minha rainha. Ela continuou atirando de seu cabelo, mas me olhava.

— Não o tem feito?

Ele manteve seu rosto oculto cuidadosamente. Mistral nunca tinha sido bom escondendo suas emoções.

— O que tenho feito para te zangar, minha rainha? — Embora sua voz fosse quase neutra, o distante retumbar de trovões não era. Seus poderes logo que estavam renascendo, e ele estava lutando por controlá-los.

— Foi a princesa quem trouxe seus poderes de volta?

Ela o manteve perto acariciando-o como a um cão. Eu a tinha visto antes fazendo isto com os guardas. Ela os golpeava e acariciava durante toda a noite em frente de outros; depois os deixava sozinhos sem mais. Eu a tinha visto reduzir a alguns de nossos grandes guerreiros a silenciosas lágrimas. Ela acariciou ao Mistral, mas a raiva que refletia seu rosto estava toda dirigida para mim. Por que estava furiosa comigo? Era porque tinha mantido relações sexuais com o Mistral? O que tínhamos feito errado?

Andais desceu pelos degraus, seu vestido negro sussurrando detrás dela.

— Pode trazer para qualquer de nós, a todos nós, de volta em nossos poderes? É uma boa fodida tua tudo o que se necessita? — A raiva fazia que sua pele se visse pálida, brilhando como o primeiro raio de lua. Seus olhos triplos cinzas estavam começando a brilhar também, como se a escuridão tivesse luz dentro.

Eu apoiei minhas mãos no chão e baixei a cabeça até elas, me abraçando, sem ter nem idéia de por que estava assim de enfurecida comigo, pelo que lhe podiam ter sussurrado ao ouvido em meu contrário.

Andais se deteve tão perto que o bordo de sua saia me roçou quando passou por meu lado, me ultrapassando.

— Me responda, Meredith.

Pensei em várias respostas, descartei-as todas elas, e finalmente disse:

— Eu me movo como a Deusa deseja.

Ela voltou rápido, seus saltos golpeando as pedras. Ajoelhou-se e pôs suas brilhantes mãos em meu queixo, me levantando a cara para que encontrasse seu olhar.

— Essa não é uma resposta.

Minha voz soava sem fôlego, meu pulso descontrolado.

— Não tenho outra.

Se eu não tivesse insinuado isto, estaria disponível para devolver poderes a outros usando o sexo. Ela poderia me ordenar uma de suas exibições de sexo, e eu não estava segura de poder sobreviver a isso. Aí havia nobres com quem mal tinha tido uma conversa casual, para deixá-los compartilhar meu corpo. Havia outros que eram meus inimigos, e eu certamente não acreditava que lhes devolver seus poderes fosse uma boa idéia.

Ela passou sua outra mão por meu cabelo, agarrando um punhado dele, e me levantando sobre meus pés. Eu lutei para que a raiva não se mostrasse em meus olhos, e soube que tinha falhado.

— Não são só meus poderes os que foram devolvidos. — Disse Mistral da escada.

Ela se girou para olhá-lo e eu sabia que ele deliberadamente a tinha distraído de mim, oferecendo-se ele mesmo a sua raiva.

Andais manteve seu doloroso agarre em meu cabelo, sua outra mão acariciando um lado de meu rosto, igual havia tocado o cabelo do Mistral antes.

— O que está balbuciando, Mistral?

— A maioria dos guardas que experimentaram a magia do anel recuperaram ao menos uma parte pequena da magia que tinham perdido.

Ela atirou de meu cabelo até que lutei por não gritar. Andais gostava disso, e eu não queria animá-la.

— Está dizendo que ela devolveu o poder a outros de meus guardas?

— Sim, minha rainha.

Ela se voltou para mim, e eu não gostei de nada o que vi em seus olhos. Afrouxou sua presa em meu cabelo só um pouco quando a pele de sua brilhante mão acariciou minha bochecha e continuou abaixo ao longo de meu pescoço. Em outras circunstâncias poderia ter sido excitante. Agora só me assustei mais.

— Com quantos de meus guardas tem fodido, Meredith? — Ela moveu seu rosto muito perto do meu, como se quisesse me beijar. — A quantos de meus guardas deste alívio? — Disse a última palavra sobre meus lábios, e eu sabia que ela ia me beijar antes que seus lábios tocassem os meus.

Notei um movimento ao meu redor, e soube que os guardas estavam de pé. Todos os que tinham estado comigo no corredor quando Mistral e eu tivemos sexo, todos eles se levantaram para responder sua pergunta. E também para atrair a atenção para eles, desviando-a de mim. Meus guarda-costas, meus homens e mulheres. Alguns deles tinham passados séculos como bons ratos armados, silenciosos, escondidos, tratando de ser invisíveis. Agora se levantaram com o propósito de fazer um espetáculo deles mesmos.

Andais se moveu para trás quando eles se levantaram, deixando o gosto de seu batom em minha boca.

— Ela fodeu com todos vocês? — Soava como se não acreditasse.

— Você perguntou só quem tinha tido alívio. — Disse Frost — Quando o poder encheu o corredor do vestíbulo tocou a todos os que estavam ali.

— Quer dizer que o poder que Mistral e Meredith criaram juntos fez que todos os guardas no corredor chegassem ao orgasmo?

— Sim. — Disse Frost.

Andais riu e me deixou ir.

— Quantas divindades da fertilidade há em seus antepassados?

— Cinco. – eu disse.

— Cinco. — Repetiu Andais enquanto passava entre nós – Quer dizer, não necessitaste tocá-los para lhes devolver seus poderes, é isso o que está me dizendo?

— Eu pensei que estaria agradada de que a magia retornasse aos sidhe. — eu disse cuidadosamente.

Afagdu, um dos nobres, falou desde sua cadeira, seus olhos a única cor em seu rosto branco e o negro de seu cabelo e sua barba.

— Nossa magia retorna, não é isso o que todos desejamos, rainha Andais? — Sua voz era suave, cuidadosa. Afagdu e sua Casa não pertenciam a nenhum bando. Era uma das quatro ou cinco Casas realmente neutras.

Dylis se levantou com seu traje amarelo que complementava seu cabelo e ressaltava o triplo azul de seus olhos. Ela era a cabeça de uma das dezesseis Casas, e nunca tinha sido minha amiga.

— Sabe que nunca gostei da filha do Essus. Estive de acordo contigo, minha rainha, quando tratou de afogá-la em sua infância. Mas se o anel vive em sua mão, e pode trazer a fertilidade de volta aos sidhe, então eu a seguirei.

Era um apoio duvidoso mas tomei.

— Você me seguirá, Dylis, até que eu diga outra coisa. A mulher fez uma reverência.

— Você é nossa rainha, expliquei-me mau. Quis dizer que se Meredith pode trazer de volta nossos filhos, então eu poderia retirar minhas objeções para ela.

— Cortês e politicamente correto, Dylis. Mas Nicca e Biddy são guardas ligados a mim por um juramento. E são meus e de ninguém mais. Os guardas me servem e a meu sangue. — Ela golpeou sua mão contra sua bochecha para enfatizar suas palavras.

— Proibiria um casal que o anel escolheu para a cama? — Perguntou Afagdu.

— Os guardas reais servem à realeza, esta é sua função. — Disse Andais.

— Eles ainda estariam te servindo. — Disse ele, e sua voz foi cuidadosa outra vez.

Ela sacudiu a cabeça.

— Não, se tiverem um filho.

— Mas um filho seria uma grande bênção. — Isto veio de alguém situado na zona da Casa de Nerys.

— A líder de sua Casa tratou de matar a Meredith justo a passada noite, ou o esqueceste, Elen?

Ela fez uma reverência tão baixa, que quase desapareceu detrás da mesa.

— Se o anel realmente viver em seu dedo, então Nerys estava equivocada, muito equivocada. Se a Deusa benze Meredith com seus presentes, então todos nós estávamos equivocados.

— Poderia privar a todos nós de ter aos filhos que manteriam sua linha de sangue no trono? — Perguntou Maelgwn, Lorde Wolf. Ele estava nu da cintura para acima exceto por um capuz e um casaco de pele de lobo, rodeado por sua gente também vestida com peles de animais e sentados em sua própria mesa. Toda sua gente tinha podido trocar de forma transformando-se em animais até que suas habilidades foram se perdendo.

— Eu sou a rainha e meu sangue é inerente ao trono.

— Tem o sangue de seu irmão parado em frente de ti. — Disse Maelgwn, seu zombador sorriso e seus felizes, pacíficos olhos me olharam. — Ela está aí de pé, e é de seu sangue. Se sua sobrinha pode trazer vida de novo a todos nós, então sua linha de sangue é realmente poderosa na magia.

— Eu mantive aos guardas celibatários durante mais de mil anos. Eles esperam para meu prazer e o prazer de meu filho.

— E o prazer de sua sobrinha. — Disse Afagdu. Parecia que estava me ajudando, mas eu não confiava nisto. Ele não ajudava a ninguém que não fosse ele mesmo ou sua Casa.

Andais descartou isto como se não fosse importante.

— Sim, sim, para o prazer de Meredith. — Andais me olhou então.— Acredito que não tentava que o prazer fosse tão... prazeroso. — Baixou os degraus outra vez, e voou ao meu redor com seus saltos e suas sedas. — Os guardas são para seu prazer Meredith, não você para o deles. Não estou segura de que você entenda isso, sobrinha.

— Passou-me de comprimento e eu sabia aonde estava se dirigindo. Deteve-se onde Nicca e Biddy estavam de joelhos. Eu olhei para trás e vi que eles estavam sustentando as mãos. Olhavam fixamente o chão, como se ela não pudesse feri-los se eles não olhavam para cima. Se fosse assim de fácil...

Ela percorreu com seus dedos o pesado cabelo castanho de Nicca. Ele se manteve muito quieto sob seu toque.

— Eu gostava dele em minha cama, mas não para o sexo. Assustava- se muito facilmente. Não gosta da dor, não é assim Nicca?

Se eu não tivesse estado ajoelhada a menos de um metro dele provavelmente não teria escutado sua resposta.

— Não, rainha Andais.

— Eu lhe ensinei isso uma noite, sabia isso Meredith?

— O que lhe ensinou, minha rainha?

— A responder qualquer pergunta que lhe fizesse com um sim ou um não, e nunca, nunca deixar fora o ?rainha Andais. — Ela percorreu com uma mão a um lado de seu rosto até que chegou a seu queixo e o elevou para que ele a olhasse. — Você gostaria de outra lição, Nicca? Passou muito tempo desde que fiz amor com um homem com asas. Poderia ser interessante.

— Rainha Andais... — Disse.

Ela não me olhou.

— Minha rainha, você disse que os guardas que viessem a minha cama seriam meus para ficar com eles – Fiz que minha voz soasse tão neutra como pude, mas sabia que era uma má idéia dizer isto.

— Não poderia compartilhá-lo comigo? Eu pensei a respeito disto.

— Possivelmente, mas depois de que Biddy e ele tenham tido sua noite.

Ela tocou a Biddy, girando seu rosto para cima, com o que ela podia olhar a ambos na cara.

— Mas se ela ficar grávida então segundo a lei estariam casados e seriam monógamos e nem mesmo a Rainha do Ar e da Escuridão poderia forçá-los a que rompessem seus votos de matrimônio.

— Minha rainha, tia Andais, se Nicca e Biddy podem conceber um bebê, então isto poderia dizer que outros sidhe também podem. É uma boa coisa.

Andais soltou suas caras e caminhou entre eles, forçando-os a soltar- se das mãos. Riscou o bordo superior das asas da Nicca.

— Mas ele é meu, Meredith, meu precioso brinquedo, e eu não compartilho meus brinquedos.

— Você disse que qualquer guarda que fosse à cama da princesa seria dela. — Disse Afagdu. — Nicca é seu precioso brinquedo agora. Andais se girou abruptamente e começou a caminhar ao redor do Afagdu e sua mesa de nobres.

— O que a rainha dá, a rainha pode tirar.

— Inclusive a rainha deve ter honra em sua palavra, — disse Afagdu, — E você deu sua palavra ante a Corte de que os guardas que fossem à cama de Meredith seriam dela. — O fato de que ele pudesse dizer tal verdade nua a uma furiosa Andais mostrava a confiança que tinha de poder sobreviver a um ataque dela. Havia muito poucos de nós com a suficiente magia para pensar que podiam se equiparar em poder com Andais. Afagdu era um deles.

— Muito poucos se atreveriam a me fazer comer minhas próprias palavras em uma corte aberta, Afagdu. Não deixe que sua magia te faça audaz por cima de suas habilidades.

— É audaz falar a verdade, minha rainha?

Bem, é obvio, dois podiam jogar a esse jogo tão particular.

— Muito bem, Nicca é de Meredith agora, mas Biddy não. Merhedith pode fazer o que desejar com Nicca, mas Biddy não é dela para dar- lhe a outro homem. Biddy pertence a meu filho, o príncipe Cel. — Ela me olhou. — Poderia roubar inclusive a uma mulher de sua cama?

— Não se pode roubar o que é dado. — eu disse.

— E o que quer dizer isso, Meredith?

Eu traguei com dificuldade, e prometi a mim mesma pensar cuidadosamente antes de falar da próxima vez.

— Biddy foi dada a Nicca pelo anel.

— Isso é o que diz você, mas eu digo que os guardas servem só a minha linha de sangue. Assim, como te propõe satisfazer a ambos, ao anel em seu dedo e a sua rainha?

— Disse que qualquer guarda que viesse a minha cama é meu para ficar, correto?

— Sim, tal como Afagdu me recordou isso.

— Então, tomarei a Biddy e Nicca em minha cama. Nicca ainda será meu amante, mas ele terá também a Biddy. Isso te satisfaria, tia Andais?

— Eu nunca achei o Nicca capaz de servir a mais de uma mulher por noite.

— Eu posso o ter preparado com apenas um toque. – eu disse.

— Pode realmente? — Sua voz soava áspera pelo desdém. Seus olhos estavam voltando a encher-se de fúria.

Eu não gostei de como se sentia esse tom, mas lhe respondi, porque não lhe responder seria provavelmente muito pior.

— Sim, minha rainha, posso.

— É esta uma nova habilidade que ganhaste?

— Não, tia Andais, este sempre foi um dom.

— Sempre esqueço que é uma deusa da fertilidade.

— Não, só descendo delas.

— Não acredito que você goste das mulheres, Meredith.

Meu pescoço estava começando a esticar-se por olhar para cima, desde minha posição ajoelhada até seu mais de um metro oitenta de altura.

— Eu não gosto, como norma, mas se esta é a única forma de satisfazer de uma vez, ao anel e a minha rainha, então o farei.

Ela se aproximou, me obrigando a mover meu pescoço ainda mais para trás, como se ela soubesse quão difícil isto era.

— Faria qualquer coisa para vê-los converter esse potencial menino em uma realidade?

Vi a armadilha em suas palavras e tratei de esquivá-la.

— Não, qualquer coisa, não.

— Mas quase. – Disse Andais, inclinando-se sobre mim. — Faria quase qualquer coisa para que eles fodessem?

Eu lutei por me sentar sobre minhas coxas, algo para relaxar a posição de meu pescoço. Eu não queria responder sua pergunta, nada bom sairia disso.

— Me responda, Meredith.

— Sim, tia Andais, eu faria quase qualquer coisa para que eles pudessem ter o menino que o anel prometeu.

— Por que te importa tanto que eles possam ter um filho?

— A vida se apressa dentro deles. Eu vi, senti. Isto é um presente da Deusa. Como posso deixar de honrar esse presente? Você usou o anel uma vez quando este estava em seu pleno poder. Deve recordar como se sente.

Ela me agarrou pelo cabelo, forçando minha cabeça ainda mais atrás, como se quisesse romper meu pescoço. Grunhiu pelo baixo e se aproximou de meu rosto.

— Eu não sou uma deusa da fertilidade. Eu tomei o anel do dedo de meus inimigos. Era um bota de cano longo de guerra, e o anel funcionou comigo, mas sua magia e a minha não eram complementares. Eu nunca vi o fantasma de um menino. Vi sexo, obsessão, amor, mas crianças... — Ela me levantou sobre meus joelhos me estirando do cabelo. Pus uma mão atrás para tratar de me manter sem me machucar muito — ... eu nunca vi nenhum menino. Nossos rostos estavam quase tocando-se e eu sentia como se ela fosse arrancar meu cabelo da raiz.

— Volto a repetir... por que é tão importante para ti que Nicca e Biddy fodam?

Falei através de meus dentes apertados, tratando de não gritar.

— Porque eu sou a princesa desta Corte e tenho a possibilidade de dar aos sidhe seu primeiro filho em séculos. É meu dever, minha honra, trazer este menino à vida.

Ela me deixou ir tão abruptamente que caí, e só o braço do Galen me salvou de golpear a cara contra o chão. Andais tocou o rosto do Galen, fazendo que ele a olhasse.

— OH, ele está furioso. Não gostou que te tenha machucado. Eu nunca tive nada que ver com ele. Sempre pensei que seria como Nicca, muito gentil na cama, mas Galen não se assusta tão facilmente como Nicca. Um desastre em política, mas valente em seu destino de herói para morrer pela causa de algum jeito. — Ela agarrou seu queixo em sua mão — É igual de bom como amante?

Se eu dizia sim, ela poderia pedi-lo emprestado. Se dizia que não, seria uma mentira. Ele era muito gentil para mim, muito, mas quando eu estava de humor para fazer amor gentilmente, Galen era simplesmente perfeito.

— Acredito que ele é muito gentil para seu gosto, tia Andais.

— Mas não para o teu? — Ela se ajoelhou, formando uma piscina de seda negra frente a meus olhos.

— Meus gostos na cama são mais amplos, querida tia.

— Por que será que cada intento teu de ser simpática sempre soa como se estivesse me dizendo que me foda?

— Não quis ser desrespeitosa.

— Ouvi dizer que você gosta da rudeza, Meredith, — ela baixou a voz, me sussurrando, — não tão rude como a mim, ou ao Cel, mas o suficientemente rude.

— Não todas as noites, tia Andais.

Eu não levantei meu rosto de seu colo de seda. Estava sofrendo e estava cansada de seus jogos insanos. Nunca me ocorreu pensar que ela poderia perceber toda a nova magia como uma ameaça para ela. Tinham passado muitas coisas e não tinha tido tempo para mantê-la informada, mas ela era nossa rainha, e eu tinha feito que ela parecesse débil, porque tinha tido que obter seus informes de outros. A Corte inteira sabia que eu não a respeitava o suficiente para mantê- la informada ou lhe perguntar sua opinião. Sim ela se encolerizou assim por coisas tão pequenas, o que poderia fazer quando descobrisse que o cálice tinha retornado e eu não havia dito tampouco? Mas isto era algo que eu não podia revelar ante a Corte inteira. Era muito perigoso.

— Se não tiver um filho, nunca será rainha. — Disse ela com a cara oculta em meu cabelo.

— Impedir que Nicca e Biddy tenham a seu filho não vai trazer um a mim. — eu disse.

— Dar filhos a cada casal em nossa Corte não ganhará o trono.

— Se posso dar centenas de filhos a Corte Escura, não precisarei governá-los.

— Cel te mataria.

— Eu sei.

— Quer chegar a governar? — Andais disse isto como se nunca lhe tivesse ocorrido perguntar.

— Não tenho opção entre governar ou morrer.

Ela me agarrou pelos ombros, e Galen tratou de me afastar dela, um engano que me custou machucados quando ela atirou de mim para me afastar dele.

— Quer governar?

— Se for uma questão de escolher entre dar a Corte ao Cel ou a mim, escolho a mim mesma.

— E se houver uma terceira opção? — Perguntou ela.

— Não sei de nenhuma outra opção. – eu disse.

— Não sabe, Meredith? Não sabe exatamente quem poderia governar aqui se ele pudesse?

Eu devia parecer tão desorientada como realmente me sentia porque ela gritou:

— Barinthus poderia governar se eu o permitisse. Ele sempre estava detrás do Essus para me matar e tomar o trono, porque isso era o mais perto do trono que seu juramento lhe permitia estar. — Ela assinalou ao Barinthus, que estava perto, ao lado das escadas.

— É isto uma mentira, Meredith, realmente?

— Não sei o que lhe estiveram dizendo, mas que Barinthus tenha sido escolhido como meu rei é mentira.

— Então me diga o que mais é uma mentira, Meredith. O anel escolheu um casal, mas tive que escutar de outros, não de sua boca. Você tem como prisioneiros as guardas de meu filho sem me consultar. Tem um suspeito dos assassinatos, mas não me disse quem. Tem fodido com o novo capitão de minha guarda e dividido sua lealdade a mim. A Escuridão e outros correm na noite, e eu não sei porquê nem onde estão... — Ela me empurrou para trás, agarrando meu braço, e me gritou no rosto... — EU SOU A RAINHA AQUI, NÃO VOCÊ.

Eu falei brandamente, muito assustada para estar zangada, muito assustada para me preocupar sobre o agarre que mantinha sobre meu braço.

— Vim te dizer tudo isto e mais, minha rainha, mas não me deste oportunidade. Não quis te encontrar comigo em privado.

— E o que é isto que te tem tão envergonhada, que precisa sussurrá- lo em privado?

— Não estou envergonhada de nada, mas há traidores entre nós que não precisam conhecer todos nossos segredos.

Ela me empurrou para cima.

— Nós castigamos aos traidores.

— Posso te mostrar mais traidores, minha rainha? Os que atacaram a meus homens e a mim.

— Disse que não tinha havido outra tentativa de assassinato – Disse me empurrando contra seu corpo.

— Eu disse que não tinham me atacado. Eles trataram de matar ao Galen. — Estava o suficientemente perto para observar seus olhos, e vi a piscada. Ela sabia sobre a profecia. Por isso tinha insistido em que fosse à cama com divindades da natureza quando voltei para o País das Fadas. Estava tudo aí, em seus olhos, e eu vi outra coisa em seus olhos, antes que ela pudesse detê-lo. Vi temor. Vi, e pensei que ela sabia que o tinha visto.

Andais atirou de mim tão forte que se meus guardas não tivessem estado aí para me apanhar teria caído. Frost me sustentou por um momento, então alcançou o Galen e pôs a ambos fora do alcance da rainha. Andais teria que passar por cima de alguns de meus guardas, seus guardas, para chegar até mim agora. Eu não acreditava que ser tão óbvios fosse uma boa idéia, mas tampouco queria que ela seguisse me machucando.

— Podemos trazer os traidores ante a rainha? — Perguntou Frost.

Ela assentiu, e se voltou para o trono, sem olhar atrás. Acredito que ela aproveitou o trajeto para fixar sua expressão em sua cara e em seus olhos, assim não importava a quem trouxéssemos, ela não ia deixar mostrar sua surpresa.

Isto fez que perguntasse a quem esperava a rainha que trouxéssemos ante ela. É que sabia ela algo que nós não sabíamos, e precisávamos saber? O que significava esse pequeno relâmpago de temor em seus olhos?

Crystall veio a minha ordem. Os guardas ajudaram a Lorde Kieran a caminhar, mas tiveram que trazer arrastando o Lorde Innis. Atiraram- no aos pés da rainha.

Seu rosto parecia vazio, frio, e arrogante. Não mostrava nenhum sinal enquanto estava de pé nas escadas. Mistral estava ainda ajoelhado detrás dela onde o tinha deixado, igual a Barinthus que estava ainda de pé no mesmo lugar. Acredito que temia atrair de novo sua atenção para ele.

— Kieran, Senhor das Facas, sua esposa esteve dizendo coisas malvadas, me dizendo que Barinthus queria usurpar meu trono e que devia matá-lo antes que ele obtivesse de novo todo seu poder. Admito que o pensamento me ocorreu quando me dava conta de que tinha estado com Meredith. Barinthus pode ser muitas coisas, mas ser ignóbil não é uma delas. Ele deu sua palavra, e acredito que a manterá. De fato, permiti-lhe unir-se a esta Corte por esta crença. — Andais baixou os degraus até que esteve justo frente a ele. — Assim, por que dava tanto valor às malvadas palavras de sua esposa?

Ao cabo de um momento disse:

— Mistral...

— Minha rainha...

— Te levante, e vem a mim.

Ele fez o que lhe pediu, mas manteve seu cabelo sobre o rosto, como se não confiasse em sua expressão. Não podia culpá-lo.

— Traz a esposa do Kieran ante mim.

A casa do Kieran estava liderada pela Blodewedd, que foi criada das flores da primavera de carvalho, e do prado pelo Gwydion e Math para ser a noiva do Lleu Llaw Gyffes. Por que a Corte Escura acolhe a uma mulher que tinha traído a seu marido e seus votos matrimoniais, e só falhou em ser uma assassina porque seu marido tinha sido capaz de matar antes a seus amantes? Mas o matrimônio à força não é reconhecido entre nós. Ela foi criada, e oferecida como uma espécie de presente, como se podia comprar um cavalo ou um cão. Inclusive em tempos remotos quando as mulheres não tinham sempre o direito a escolher a seus companheiros, isto era um pouco arbitrário.

A única coisa que sempre deve recordar com a Blodewedd é que se você for justa com ela, ela será justa contigo, mas não a traições. Nunca faça algo que ela possa levar mal. Ela aprendeu logo de seus enganos e tem a seus próprios assassinos agora.

Blodewedd se levantou quando Mistral foi para sua mesa, e por volta de uma de sua gente. Sua pele era suave, uma cor pálida que estava entre o branco e o dourado. Tinha quase a classe de beleza de uma boneca, o tipo de mulher que os homens criariam se pudessem, com altos e orgulhosos peitos um pouco maiores do usual nos sidhe. Seus olhos eram enormes e de uma cor escura e líquida, profundos e lustrosos, uns olhos de mocho em um rosto delicado. Supostamente, ela tinha sido amaldiçoada com isto, amaldiçoada para permanecer na forma de um mocho. Se isso era verdade, então ela as tinha arrumado para curar a si mesmo de tudo, excetuando seus olhos.

— Madenn está sob meu amparo, rainha Andais. Posso falar com ela antes que você a leve?

— Traiu-me sua Casa como a de Nerys, Blodewedd?

— Eu nunca trairia a uma irmã membro da Corte Escura, — Blodewedd podia estar anos sem dizer nenhuma palavra na Corte, e então saía com frases como essa, — nem tolerarei tal traição entre os de minha Casa.

— Pode falar com ela, — disse Andais, — mas deve fazê-lo em público. Não haverá mais segredos esta noite.

Blodewedd fez um pequeno assentimento, e se girou para a mulher em questão. Madenn era uma mulher pequena para os padrões dos sidhe, apenas um metro e setenta e cinco cm. Mas sentada ali com seu vestido negro, com seus olhos e cabelo negro, ela se via menor. Como se estivesse se encolhendo em si mesma. Sua pele normalmente pálida estava muito mais que pálida. Suas mãos estavam muito quietas apoiadas nos braços da cadeira. Sentava-se aí, imóvel, seu rosto congelado.

— Madenn. — Disse Blodewedd, com uma voz que atravessou todo o Salão — Seu marido foi renomado traidor. O que diz você a isso? Madenn lambeu seus pálidos lábios.

— Não sei o que dizer. — Sua voz soava sem fôlego mas com mais controle que seu rosto ou seu corpo.

— Deve dizer algo, ou os Corvos da rainha virão por ti. Deve me dar alguma razão para te proteger. Se me jurar que é inocente, eu brigarei por ti inclusive contra a própria rainha. Mas devo saber agora, Madenn. Devo saber quanto vou arriscar por ti, e se vale esse risco.

Não pude ver o rosto do Kieran, mas ainda com suas mãos atadas a suas costas, ele permanecia de pé mais facilmente e com mais naturalidade que sua esposa sentada em sua cadeira esculpida. Observei como a pouca cor que ficava desaparecia do rosto de Madenn.

— Desmaiar não vai ajudar, — disse Blodewedd, e sua voz tinha um fio de pura escuridão que só Andais podia superar, — pode me dar uma razão para te defender ante nossa rainha por isso? Me dê um motivo para te defender, Madenn, e eu o usarei.

Madenn olhou a sua Senhora, e as lágrimas brilharam em seus olhos, mas nenhuma palavra saiu de sua boca. Como uma admissão de culpa, isto era o suficientemente bom.

Blodewedd inclinou sua cabeça, e se girou para o Mistral.

— Não posso salvá-la de suas próprias ações.

— Agarra-a, Mistral. — Disse a rainha.

Madenn não se moveu nem falou até que Mistral a agarrou do braço. Então ela se aferrou ao braço da cadeira como uma menina.

Possivelmente era delicada para os padrões sidhe, mas era o suficientemente forte para fazer que levar-lhe sem machucá-la não fosse realmente possível. Ela estava dizendo uma palavra, uma e outra vez.

— Não, não, não, não... — em voz muito alta.

— Hawthorne... — Disse.

— Sim, princesa.

— Ajuda ao Mistral a trazê-la.

Hawthorne se inclinou ante mim, e se moveu ao redor deles com sua armadura carmesim, colocando outra vez seu capacete para ter as mãos livres. Foi situar-se do outro lado da cadeira da mulher. Mistral colocou seu cabelo solto detrás de seus ombros, então assentiu para o Hawthorne, como se eles tivessem discutido. Ambos elevaram a cadeira com Madenn ainda sentada na mesma. Carregaram-nas juntas, a ela e a pesada cadeira, caminhando através da gente de Blodewedd, para o assoalho principal. Levaram-na fácil e graciosamente. Se Madenn não se visse tão aterrorizada, teria parecido como se eles a estivessem honrando, carregando-a possivelmente como a uma rainha, para ser adorada por seus súditos. O olhar em seu rosto mostrava que ela esperava ser escolhida para o sacrifício, não para ser a bela do baile.

Os guardas puseram a cadeira abaixo ao lado de Kieran, seu marido. Seus ombros se estremeciam, e pensei que provavelmente estava chorando.

— Meredith, — disse a rainha, — vem e te una a mim. Ela não tinha que me dizer isso duas vezes.

Andais tinha tomado assento em seu trono, deixando o que uma vez foi o do príncipe Cel vazio para mim. Esta tinha sido minha cadeira só durante 24 horas. Andais indicou a seu consorte Eamon que tomasse assento em seu trono, situado atrás do dela e a um nível ligeiramente inferior. Havia outro trono situado por debaixo do meu também, que seria para o futuro consorte do herdeiro ou herdeira ao Trono.

A última vez que me sentei aqui, a cadeira do consorte tinha sido ocupada pelo Sholto, Senhor daquilo que Transita no Meio, Senhor das Sombras, Rei dos sluagh. Foi só quando ocupei meu trono que me dei conta que Sholto e seus sluagh não tinham sua mesa perto da porta. Nem às costas da rainha como seus guardas. Os sluagh não estavam aqui. Sholto era rei de sua própria corte. Os trasgos tampouco estavam aqui, mas eles se abstinham freqüentemente da Corte a menos que se planejasse um evento ou uma festa maior. Isto tampouco era isso, mas Sholto nunca perdia uma ocasião na Corte. Ele queria desesperadamente ser aceito como sidhe e não perdia nenhum.

Tyler, o mascote humano da rainha, se agachava ao seus pés. Ela perguntou:

— Onde está seu pequeno trasgo? Ela queria dizer Kitto.

— Está ajudando o Rhys a vigiar à polícia enquanto estejam dentro do sithen.

— Houve algum problema? — Andais estava deixando que Kieran suasse, ou vendo se ele podia chegar a suar. Madenn estava chorando abertamente, e se ela não tivesse sido parte do complô para assassinar ao Galen, eu teria sentido lástima por ela.

Contei-lhe brevemente o efeito que tinha produzido no Walters e sua gente ao entrar no sithen. Ela pereceu muito interessada.

— Não teria pensado que seu pequeno trasgo fosse uma boa opção para proteger à polícia.

— Ele pode quase garantir que não enfeitiçará a ninguém por acidente.

— Não é o suficientemente sidhe para isso. — Disse ela. Controlei a labareda de raiva que seguiu a este comentário.

— Kitto se converteu plenamente em sidhe durante um terremoto na Califórnia.

— A terra se moveu para ti, que encantador. — Minha tia tinha conseguido ser terrivelmente cortês e me insultar gravemente de uma vez. Não estava segura de que meus nervos fossem o suficientemente bons para manter este pequeno bate-papo por mais tempo.

— Tem fodido com alguém mais, além do Mistral, hoje? — Perguntou- me.

— Relações sexuais completas, não.

— Então, Mistral, toma seu lugar em seu estrado, só a Deusa sabe que será provavelmente sua última oportunidade de te sentar aí. — Eu não gostei da implícita ameaça que continham suas palavras, mas não podia discutir que Mistral merecia essa cadeira.

Frost tinha ordenado aos outros homens que não estavam guardando aos prisioneiros que me rodeassem.

Barinthus continuava de pé no mesmo lugar. Ela o olhou, e não era um olhar amistoso.

— Toma seu lugar entre os guardas dela, Barinthus. Porque aí é onde escolheste estar.

Ele duvidou um momento, então assentiu e a rodeou, para estar ao lado de meus guardas. Acredito que Barinthus ia tratar de ser tão invisível como pudesse até que nós pudéssemos averiguar o que a tinha zangado tanto. Ele tinha muitos inimigos para fazer-se alguma ilusão. Se ele se voltava contra a rainha, então a maioria dos outros nobres se uniriam para assassiná-lo. É obvio, é possível que Andais não necessitasse ajuda.

Somente um guarda, Whisper, protegia as costas da rainha.

Possivelmente quando ela ofereceu aos guardas para me ajudar, não esperava que fosse ficar tão sozinha.

Ela lhes tinha dado a opção de trabalhar com alguém mais, e eles tinham saltado sobre essa opção. Ofereça a um homem romper mil anos de celibato, e fará quase qualquer coisa por ti.

É obvio, ser meus guardas queria dizer que poderiam deixar o sithen em uns dias. Exilados do País das Fadas, se eles me seguiam. Entenderiam eles isso? Importava-lhes? E, se não lhes importava, então quão misteriosa devia ser Andais para não descobrir que sua grande ameaça, o exílio da Corte, não era uma ameaça tão grande depois de tudo.

Mistral tomou assento no trono do consorte do herdeiro. Colocou seu comprido cabelo cinza a um lado, assim que este acariciava o bordo da cadeira como um manto. Teria dado algo por ver seu rosto nesse momento. Para vê-lo contemplar a Corte do estrado real pela primeira vez. Se as palavras da rainha eram verdade e não só eu sabia que eram, ela planejava que ele não tivesse uma segunda oportunidade para ocupar esta cadeira, o que significava nenhuma outra oportunidade comigo. Tinha algo pessoal com o Mistral? Ou, deu-se conta finalmente de que poderia perder a todos seus guardas pelo anel ou meu corpo?

Frost estava de pé ao meu lado e Galen ao outro. Sentia saudades do Doyle. Onde estava? Onde estavam Usna e Cathbodua? Agarrei a mão do Galen, porque necessitava seu contato. Havia sustentado seu corpo quase morto em minhas mãos, agora queria me encher de sua vida, mas não confiava nele para lutar aqui entre os Senhores dos sidhe e sobreviver.

Acredito que Andais pensava que nós estávamos dando ao Kieran e Madenn o tratamento do silêncio para conseguir que se derrubassem. Eu estava esperando que minha rainha tomasse a iniciativa. Já tinha suportado suficientemente sua raiva por uma noite; Faria todo o possível para evitar que se zangasse outra vez.

— Kieran, tentasse assassinar a um de nossos guardas reais. Não em um duelo, se não em uma emboscada.

— Se está tratando de provocar um duelo com o jovem sidhe, não vai funcionar. Se eu lhe desafiar, então ele escolhe as armas e pode proibir usar a magia. E eu não sou melhor que ele sem magia e usando só arma convencionais.

— Admite que um dos menos capazes de meus guardas é melhor guerreiro que você, Kieran?

— É obvio. Os Corvos da rainha são os melhores guerreiros sidhe que sempre existiram. Não sou tão néscio para pensar que sou melhor que ele com o metal. — Kieran me olhou. Sua pálida barba emoldurava o sorriso que não tinha abandonado seu rosto. — É óbvio, se o jovem senhor pensar que o insultei e deseja me desafiar a um duelo... — Ele deixou a frase aberta...

Eu apertei a mão do Galen, e ele riu. O sorriso do Kieran vacilou.

— Fui alguma vez assim tão estúpido? — Disse Galen. — Deusa, espero que não. — Levantou minha mão e deixou um beijo contra meus dedos. Então vi uma dureza em seu rosto que não tinha estado ali antes. — Estou ao lado de Merry e em sua cama, e não vou renunciar a isso porque tenha ferido meu ego. — Seu usual sorriso relampejou brilhante e poda, como se as sombras que tinha visto em seu rosto não tivessem estado aí de tudo. — Além disso, estou adulado. Emboscou-me com dois ou três guerreiros mágicos. Não sabia que me temia tanto.

— Não temo a um assaltante pixie. — O rosto do Kieran tinha começado a colorir-se de raiva.

Galen riu, e pressionou seus lábios contra minha mão outra vez.

— Se não tinha medo de mim, então por que necessita tanta ajuda para me assassinar?

— OH, estou de acordo. — Disse Andais. — Só o medo pode fazer que Kieran utilize tanta ajuda para assassinar a um guarda. Se fosse Frost ou minha Escuridão, poderia entendê-lo. Inclusive Mistral, nosso Senhor das Tormentas, mas não sabia que temesse ao Galen.

— Não temo a ele. — Disse Kieran outra vez. Mas havia algo em sua voz que me fez desejar que seguisse falando. Estava protestando muito. O que acontecia a Galen, ainda se ele fosse o homem verde que traria a vida de volta a Corte que fazia que Kieran reunisse tanto poder, como tinha feito, para assassiná-lo? Esta era uma pergunta muito boa, tinha estado muito perto de perder ao Galen para realmente pensar nisto.

— Se não teme ao Galen, então, a que teme, Kieran? — Perguntei.

— Lorde Kieran. — Disse-me.

— Não, Kieran. — Disse Andais. — Ela é herdeira de meu trono, e um dia será sua rainha se viver o suficiente. Eu acredito que ela pode te chamar como o faço eu, Kieran. — Existia um bordo afiado em sua voz que tanto poderia significar sexo, como que poderia resultar ferido, muito gravemente ferido. E algumas vezes significava ambas as coisas.

— O que é o que temo? — Disse Kieran. — Temo a morte dos sidhe como raça.

— Teme que o sangue misto de minha sobrinha condene a todos à mortalidade?

— Sim, como muitos de nós. Eles temem falar disto, mas se tivessem a coragem atuariam como eu.

Andais olhou a seu lado.

— Não sei, Kieran. Acredito que a coragem de sua esposa está falhando.

Kieran olhou para ela, e houve algo em seu rosto, alguma pergunta, ou um rogo.

— Se ela pode falar com coragem, isto pode terminar bem.

Madenn soluçou. Ela tinha sido uma vez uma deusa da juventude, o que lhe tinha dado permanentemente a aparência de uma jovem de quinze ou dezesseis anos. O rosto que ela girou por volta de nós agora se via ainda mais jovem, como se seu temor lhe tirasse anos.

— Há dito muitas vezes que limparia esta Corte dos sangues impuros.

— Sua voz estava sem fôlego, e áspera pelas lágrimas vertidas. — Nós só quisemos te ajudar no que sempre foi seu desejo antes que ela retornasse das terras do oeste e te voltasse contra nós.

Andais estava inclinada para frente, e a raiva estava desaparecendo dela. O rosto do Kieran se estava voltando satisfeito de si mesmo outra vez.

— Crystall, procura nela um feitiço, um com o objetivo de enfeitiçar à rainha.

Andais se girou para mim.

— Do que está falando, Meredith?

— Por favor, Sua Majestade, por favor... — disse Madenn, —... nos ajude.

Eu observei o rosto de Andais de perto.

— Hawthorne, — eu disse, — se ela falar outra vez antes que eu o permita, lhe corte a garganta. Recuperará-se.

Ele não discutiu comigo, simplesmente desembainhou sua faca, e a pôs contra sua garganta, inclusive enquanto ela tratava de protestar. Andais apartou o olhar longe dela, entrecerrando seus olhos.

— O que foi isto?

Crystall alcançou a Madenn, e ele estava o suficientemente perto como para que Kieran protestasse.

— Ele está pondo suas mãos sobre minha esposa.

— Se ela se converter em viúva então não haverá votos de matrimônio que romper. — Disse Andais.

A boca do Kieran se abriu enorme por um momento, então a fechou, e vi a primeira fresta de temor em seus olhos.

Madenn deixou escapar um pequeno som, e Hawthorne empurrou a ponta de sua espada o suficiente para verter uma gota de sangue carmesim. Ela choramingou, mas não tratou de falar outra vez. Crystall teve que se aproximar o suficiente de Madenn para tirar uma pequena bolsa de tecido de debaixo de seus peitos. Havia duas peças de tecido costuradas juntas, quase um muito pequeno travesseiro, do tamanho de uma moeda de cinqüenta centavos.

Baixei o suficiente meus escudos para ver o pequeno travesseiro brilhar, e podia ver uma fina linha vermelha desde esta até a rainha.

Crystall cortou os fios que o sustentavam, e tirou umas ervas secas e sete fios de cabelo negro. Sustentou em alto os cabelos entre seus dedos, e o resto em sua mão oposta.

— Um feitiço para ti, só para ti, minha rainha... — disse, — um feitiço de eloqüência, assim suas palavras seriam doces a seus ouvidos. Andais olhou ao Barinthus no lado oposto do soalho.

— Devo te dar o que raramente dou a alguém, Lorde Barinthus. – Ele assentiu.

— E o que seria isso, rainha Andais?

— Uma desculpa. — Ela olhou a Madenn e Kieran, logo disse:

— Por que se arriscam a morrer para assassinar ao Galen?

— Ele não acredita que esteja se arriscando a morrer. – eu disse. Andais me olhou.

— Ele usou magia contra mim e funcionou por um tempo. Isto é motivo mais que suficiente para mim para desafiar a um duelo a um ou a ambos deles pessoalmente.

— Ele me disse que Siobhan tratou de matar a uma princesa real e ainda vive, e que não foi torturada porque Ezekiel a teme muito. Disse que se não castigava a alguém por isso, então tampouco haveria castigo por tratar de assassinar a um guarda metade pixie.

Ela olhou para o Kieran, e havia algo nesse olhar que fez que ele desse um passo para trás, só para defender-se detrás dos guardas.

— Disse isso, Kieran?

— Não, com essas palavras, não.

— Disse isso, essencialmente?

Kieran tragou saliva o bastante forte como para que lhe ouvisse e assentiu.

— A Casa inteira de Nerys te traiu, tratou de te assassinar, minha rainha, e eles vivem. Por que a vida de um guarda de sangue mesclado vale mais que a vida da própria rainha?

— Vê, Meredith? Mostra clemência e eles a usarão contra ti.

— Nerys deu sua vida para que sua Casa pudesse sobreviver. — eu disse — Ela pagou o preço de sua clemência.

— Possivelmente. — Andais olhou através de todos eles para a casa de outros nobres. — Dormath... — Chamou.

O homem que se levantou era alto e quase impossivelmente grosso. Sua pele era a mais branca que nossa Corte podia oferecer. O capuz negro de seu casaco estava arremessado para trás revelando seu cabelo que era tão branco como sua pele, assim que ele parecia quase albino, exceto por seus olhos que eram profundos, luxuriosos e negros. Ele se via muito perto da idéia moderna da "morte". Me haviam dito que uma vez ele foi tão arrumado e musculoso como qualquer dos sidhe, mas tinham passado séculos desde que as pessoas acreditavam isso, e ele tinha trocado muito após.

Havia quem opinava que representar à morte o fez fraco magicamente. Tão fraco que não podia proteger a si mesmo dos pensamentos mortais, ou provar que ele era ainda um dos mais capitalistas entre nós, e a sua maneira, ainda adorado pelos humanos. Sua voz soou mais profunda do que esperava.

— Sim, minha rainha. — Disse.

— Innis é teu, como o é Siobhan. É um traidor como foi a Casa do Nerys?

— Não, minha rainha. Juro-te que não conhecia o plano de Siobhan, nem o de Innis. Isto lhe juro.

— Você intercedeu pela Siobhan. Rogou clemência. Dei-lhe isso porque meu filho também a valorava, e pediu por sua vida. Escutei a meu filho e a alguém que pensei que era meu aliado.

— Sou seu aliado, minha rainha. Minha Casa ainda é sua Casa.

— Dois traidores, Dormath, dois traidores em sua Casa. Como posso confiar em que não haverá mais? — Ela estava fazendo círculos com um dedo sobre o braço do trono.

— Não é a mesma verdade para a Casa do Blodewedd? — Perguntou ele.

— Não me meta nisto, Dormath. — Disse Blodewedd. — É você quem leva o mesmo nome que seu próprio cão, porque se envergonha do seu próprio.

— Não tenho vergonha de nada.

— Meninos... — disse Andais, sua voz ligeira, quase brincalhona. O som fez que o pêlo de minha nuca se arrepiasse. — Vê o que a piedade te dá como governante, Meredith? Entende agora? A piedade é para os fracos, e eles morrem.

— Sei como interpretou Kieran suas ações.

Ela me olhou, e eu realmente não queria tanta atenção de sua parte quando estava nesse humor, mas a tinha toda.

— E como é isso?

— Que se não matas a alguém por tratar de me assassinar, então menos o fará por alguém que trate de assassinar ao Galen.

— Acha que ele tem razão nisso? Acha que ele não obterá seu castigo?

— Acredito que Siobhan devia ser executada e Kieran ser um exemplo também.

— Um exemplo, como, se não for executado? — Perguntou ela.

Lambi meus lábios que de repente estavam secos.

— Não cheguei tão longe, tia Andais.

— Ah, mas eu sim, e essa é a diferença entre ser rainha e ser princesa. — Ela separou esses vermelhos lábios para dizer algo horrível, mas nesse mesmo momento as enormes portas duplas se abriram, e Doyle apareceu.


CAPÍTULO 25


USNA E CATHBODUA VINHAM DETRÁS DO DOYLE, ARRASTANDO alguém entre os dois. Alguém que tinha uma capa branca de cabelo adornada com brilhantes bolinhas carmesim.

— Escuridão, — disse Andais — que bondoso por sua parte te unir a nós. A quem está trazendo tão informalmente ante nós? — Sua voz ainda ronronava com um tom satisfeito, prometendo dor para alguém. Doyle simplesmente lhe tinha dado outra possível vítima.

— Gwennin, o Senhor Branco, com a roupa ligeiramente danificada. Por isso eu sabia, Gwennin não era amigo do Cel. De fato não era amigo de qualquer que se considerasse sidhe Escuro puro. Ele tinha sido expulso da Corte da Luz no passado, e ainda atuava como se algum dia pudesse retornar ali. Os luminosos poderiam dar as boas- vindas a um exilado entre os humanos, mas uma vez te convertia em um Sidhe Escuro, estava exilado pra vida toda, sem remissão. Observei ao Doyle andar majestosamente para mim. Ele era o alto, escuro caçador, a figura sombria que me tinha assustado quando era uma menina, mas agora tive que brigar com o desejo de lhe dizer que viesse para mim. Quis seus braços ao meu redor. Quis estar sujeita, me sentir segura. Estar sentada aqui ante a Corte em pleno não me fazia sentir nada segura. O que me tinha impulsionado a ir do mundo das fadas três anos atrás passava uma vez mais. Havia outra vez muitas mortes, muitos atentados. Com o tempo, se muitas pessoas lhe quiserem morta, estas ao final terão êxito. É simples matemática. Nós tínhamos que sobreviver a cada tentativa de assassinato. Eles tinham que ter êxito uma só vez.

Gwennin não era um aliado para qualquer dos senhores que tínhamos detido. Não poderia imaginar um complô que pudessem apoiar todos aqueles ante mim. Havia ali algo mais que um complô contra mim? E o que fez que qualquer deles se mesclasse com os assassinatos?

— Gwennin, — disse Andais, soando desconcertada, — você não é amigo destes que estão aqui. — Ela disse em voz alta o que eu tinha estado pensando. Perguntei-me se essa era uma boa indicação ou uma má. Estava eu melhorando em política, ou Andais estava piorando?

— Ele diz que atuou sozinho. Que estava ressentido porque a princesa convidou à polícia humana a que viesse a nossa Corte e solicitou sua ajuda. Assim que ele colocou um feitiço que os teria inutilizado, ou inclusive matado, se o tivéssemos irradiado.

— Irradiado?

— Ele o pôs em Biddy, pois ela é meia humana, e todo mundo com sangue humano que ela tocou foi poluído.

Gwennin encontrou sua voz, ainda atirado no chão entre Usna e Cathbodua. — Que o feitiço pudesse sortir efeito na princesa prova que ela é humana.

Cathbodua lhe deu um tapa com a mão do reverso. — Fala quando lhe perguntarem, traidor.

— Sim. — Disse Andais. — São todos traidores. Tantos traidores. Mas nenhum deles tratou de tirar a vida de Meredith. Trataram de tirar a do Galen, trataram de impedir aos humanos entrar em nosso sithen, mas não trataram que matar a Meredith. É interessante.

Pensei nisso, e me precavi de que ela tinha razão. Olhei ao Doyle, e ele encontrou meu olhar com a seu. Era interessante, e intrigante.

— Por que a guarda do Cel estava mais interessada em matar a seu cavalheiro verde que em te assassinar? — Disse Andais de forma quase coloquial.

Tratei de que minha voz seguisse soando casual, e quase tive êxito.

— Se qualquer de sua gente trata de me matar, então a vida do Cel não vale nada, mas matar a meus aliados não significa uma sentença de morte automática para seu príncipe.

— Mas por que Galen, Meredith? Se fosse te despojar de seus aliados, então seria a Escuridão ou Assassino Frost.

— Ou Barinthus. — eu disse.

Ela assentiu com a cabeça. — Sim, isso esteve bem dito. — Ela olhou ao Kieran e sua esposa, que ainda tinha a faca do Hawthorne em sua garganta. — Se Barinthus morrer, então um de meus guardas mais poderosos estará morto. Se ele me matar, você te libera de mim, e pode ser o primeiro em sugerir que ele merece morrer por suas ações. — Ela se moveu em sua cadeira como se colocasse suas saias mais comodamente. — OH sim, Kieran, bom plano. Cometeu unicamente um engano.

Ele a contemplou. — E qual foi?

— Menosprezou à princesa, e a seus homens.

— Não cometerei esse engano outra vez. — Disse ele, me olhando com cara de cão.

— Kieran, isso soou como uma ameaça para a princesa. — Andais me olhou. — Soou isso como uma ameaça para ti, Meredith?

— Sim, tia Andais, soou.

— Frost, ameaçou Kieran à princesa?

— Sim. — Disse Frost.

— Escuridão. — Disse ela.

— Sim, ele ameaçou à princesa, e ameaçou planejando melhor a próxima vez que ele conspirasse para matar a Sua Majestade.

— Sim, isso é o que ouvi, também. — Ela estava atenta aos nobres.

— Blodewedd, ouviu-lhe ameaçar a mim e ou aos meus?

Blodewedd inspirou profundamente e soltou um suspiro, logo deu uma pequena cabeçada, assentindo.

— Preciso ouvi-lo em voz alta diante de toda a Corte. — Disse Andais.

— Kieran foi estúpido hoje. Mais estúpido do que eu ou minha Casa podem suportar ou salvar.

Kieran a olhou, assustado pela primeira vez. — Minha senhora, é minha senhora feudal, não pode querer dizer...

— Não me implique em sua estupidez, Kieran. Madenn é sua esposa e sempre foi sua sombra. Mas acredito que não pôde persuadir a ninguém mais de sua Casa a tomar parte; de não ter sido assim não tivesse tido que recrutar a Innis.

— Um ponto interessante. — Andais olhou para baixo à forma inconsciente de Innis. — Dormath, ofereço-te uma escolha. Alguém de sua gente deve morrer. Innis ou Siobhan, escolhe.

— Minha rainha, — disse Doyle, — perguntaria por que Innis foi parco, e Siobhan...

— Sei a quem mataria você, Escuridão. — Ela me olhou. — Também sei a quem faria que eu matasse, Meredith, mas você não é seu soberano. Quero que Dormath escolha, a fim de que o resto de sua Casa entenda que ele não os vai proteger.

— Minha rainha, não me faça escolher entre meus senhores e minhas senhoras.

— Você tomaria seu lugar, Dormath? Se ofereceria para salvar a Innis e Siobhan? Estou disposta a aceitar tão bom negócio, se estiver disposto a oferecê-lo.

A cara do Dormath se voltou ainda mais branca, algo que não pensei que fosse possível. Ele piscou com seus grandes, escuros olhos, lentamente. Estávamos a ponto de ver o Dormath, A Porta da Morte, desmaiar?

— Ah, Dormath, é uma pergunta simples. — Disse Andais. — Está disposto a pagar pelos delitos de sua Casa, ou não está? Nerys estava disposta a sacrificar a vida por sua Casa.

A voz do Dormath chegou escassa e aflautada, como se ele lutasse por manter-se tranqüilo. — Toda sua Casa se uniu a ela em sua traição. Minha Casa é inocente do crime, exceto por estes dois.

— Portanto, escolhe, Dormath. Não posso negar à princesa sua demanda de morte. Ela está em seu direito.


— Uma morte, sim — disse Dormath, — mas não uma execução. Ela está em seu direito de desafiá-los para o combate, e tomar sua vida se puder.

— Isso poderia ser certo, Lorde Dormath, — eu disse, — se Siobhan tivesse me atacado sozinha, mas não o fez. Ela atacou com a ajuda de outros dois. Fui emboscada. Este não foi um combate de um contra um. Foi uma tentativa de assassinato, pura e simples.

— Innis não te atacou, — replicou Dormath, — ele atacou ao cavalheiro verde. Certamente deveria ser ele quem cobraria a dívida de sua vida.

— Pensa que ele mostrará mais misericórdia que a princesa? — Perguntou Andais.

— Penso que Galen sempre foi um homem justo. — Disse Dormath. Galen pressionou minha mão estreitamente na sua e suspirou. Não foi um som feliz. E disse...

— Tratei de ser justo, imparcial, e bom, seja o que seja que isso signifique. Siobhan me disse uma vez que pertenço a Corte da Luz, onde tratam de fingir que são algo que não são. Perguntei-lhe o que tratam de fingir ser. Humanos, disse-me, e o fez soar como uma maldição. — Observei sua cara ficar solene, e muito diferente a meu Galen. — Esperas realmente que te ajude a salvar a vida das pessoas que trataram de me matar?

Os dois sidhes se olharam um ao outro, e foi Dormath quem apartou primeiro olhar. Ele falou mantendo o olhar baixo a fim de não encontrar-se com o olhar de ninguém.

— As pessoas tratam de conhecer suas antipatias e usar suas forças e suas debilidades contra eles.

— Por que sou eu seu inimigo? — Perguntou Galen.

Dormath falou com a rainha como se ele não tivesse ouvido o Galen.

— Minha rainha, pediria que não me obrigue a escolher entre minha gente. Pode que alguém tenha cometido um delito menor, mas ao outro lhe deixo mais afeiçoado.

— Responde à pergunta do Galen. — Disse Andais.

Dormath piscou com esses profundos, brilhantes olhos e a olhou. Sua cara magra não mostrou nada.

— E que pergunta é essa, minha rainha?

— Canso-me dos jogos de palavras rapidamente, Dormath– — Disse ela. — Sugiro que recorde isso. Direi-lhe isso outra vez. Responde à pergunta do Galen.

Dormath tremeu, e sua capa negra e larga deu a ilusão de plumas reacomodando-se ao redor de seu corpo.

— Não acredito que seu filho quisesse que essa pergunta fosse respondida ante a Corte.

Olhei a Andais então. Minha tia, minha rainha. Não soube a que se referia Dormath, mas ela talvez sim. Ela tinha ajudado a esconder os segredos de seu filho durante séculos. Sua cara era beleza fria, arrogante e perfeita, cada linha comparável a uma estátua esculpida para ser a beleza que conduz os homens não a amar se não a apaixonar-se.

— Responde tanto ou tão pouco à pergunta como quer, Dormath. Sabe que se responder totalmente como o pode fazer poderia perder a todos os aliados do Príncipe Cel. Já que considerarão que os traiu. Sabe também que há aqueles entre nós agora que lhe condenará como o mais negro dos traidores por estar de acordo com seu plano. Dormath tirou a luz uma mão bastante pálida para sustentar-se contra a mesa.

— Minha rainha...

— Dormath, se você não responder à pergunta, então considerarei isso um desafio direto para mim, pessoalmente.

— Assassinaria-me por tentar evitar revelar o que ele tem feito? — Disse Dormath.

— Isso é o que disse? Não acredito que isso foi o que eu disse. — Ela me olhou então. — É isso o que eu disse, Meredith?

Não estava totalmente segura de como responder a essa pergunta.

— Não acredito que ameaçasse ao Dormath com a morte se ele revelava o que o Príncipe Cel, meu primo, fez. Nem acredito que lhe tenha animado a descobrir tudo o que ele conhece.

— Continua. — Disse ela, e pareceu contente comigo, embora não estava segura por que.

— Mas precisaste que se ele não responder à pergunta do Galen, desafiará a um combate único, e lhe matará.

Ela assentiu com a cabeça e sorriu, como se houvesse dito algo agudo.

— Exatamente.

Olhei dela ao Dormath, e tive um momento de piedade para ele. Lhe tinha colocado ante uma adivinhação que não podia ter uma só resposta, não uma que lhe mantivera vivo ao menos.

Ele ainda se apoiava em cima da mesa. Sua cara mostrava claramente que não via uma saída do labirinto de palavras que ela tinha arrojado ao redor dele. — Não acredito que haja uma forma de responder à pergunta do cavalheiro verde sem revelar muito disso que não acredito que você não quer que seja conhecido.

— Não acredito que saiba o que quero, Dormath. Mas se permanecer mudo, então te matarei, e não haverá nenhum argumento de que seja injusto, pois será um contra um, você contra mim.

Ele tragou, e sua garganta se via quase muito magra para sustentar o balanço de seu pomo de Adão.

— Por que está fazendo isto, minha rainha?

— Fazendo o que? — Perguntou ela.

— Quer que a Corte saiba? É isso o que quer?

— Quero a um filho que aprecie a sua gente e seu bem-estar por cima do dele.

O silêncio na câmara foi profundo. Foi como se todos nós tomássemos uma respiração e a mantivéramos. Foi como se o mesmo sangue em nossas veias deixasse de fluir justamente nesse instante. Andais tinha admitido que Cel não apreciava nada exceto a si mesmo, algo que se soube por anos. Lhe tinha criado para acreditar que o mundo das fadas, os sidhe e os menos mágicos tinham uma dívida com ele. Ele tinha sido seu braço direito, a canção de seu coração, a coisa mais preciosa em seu mundo durante quase tanto tempo como este país tinha existido, e agora ela queria a um filho que apreciasse aos outros por cima dele mesmo. O que tinha feito Cel para desiludir assim a sua mãe?

Dormath falou e sua voz ressonou nesse silêncio. — Minha rainha, eu não sei como te dar o que desejas.

— Eu posso dar o que quer. — A voz do Maelgwn tinha perdido sua diversão usual. Ele soou sério e cortês ao mesmo tempo, um tom que nunca antes lhe tinha ouvido.

Andais lhe olhou, e com apenas ver seu perfil pude dizer que não era um olhar amistoso.

— Pode, Lorde Wolf, pode realmente? — Sua voz manteve esse fio de advertência, como a pressão que nota no ar antes inclusive de saber que chega a tormenta.

— Sim. — Disse ele brandamente, mas a palavra se transmitiu através de todo o vestíbulo.

Ela se apoiou contra o respaldo de seu trono, suas mãos estavam cruzadas sobre seus braços. — me ilumine, lobo.

— Há dois descendentes de sua linha de sangue que chegaram à idade, minha rainha. Um deles tornou a despertar o anel pessoal da rainha, e agora se permite oferecer quase qualquer coisa para desfrutar da magia do anel. Um descendente que diz que trazer filhos a todos os sidhes é ainda mais importante para ela que ganhar o trono, ou proteger sua vida, ou encher seu ventre de vida. Estas são todas as coisas que a maioria dos nobres nesta câmara, possivelmente todos neste quarto, dariam algo por ter. Um descendente que põe o bem-estar de sua gente por cima do seu próprio?

Sentei-me muito calada. Não quis chamar sua atenção para mim. Talvez o que Maelgwn havia dito fosse certo, mas à rainha nem sempre gostava de escutar a verdade, nem a premiava sempre. Algumas vezes com uma mentira obtinha algo mais. A mentira mais querida de Andais era que Cel era o mais adequado para governar aqui. Ela mesma tinha aberto a porta para que os nobres finalmente dissessem a verdade. E era que Cel não teria sido eleito por quase ninguém, se tivessem tido qualquer outra possibilidade de eleição que não incluíra um híbrido mortal. Só meu pai, alguma vez, tinha tido a coragem de dizer a Andais que havia algo profundamente errado no Cel. Algo que ia mais à frente somente de ter sido mimado ou privilegiado.

Andais falou como se ela tivesse ouvido meu último pensamento. — Quando meu irmão trouxe sua nova noiva grávida tão rapidamente, houve alguns que me apressaram a que renunciasse. Recusei. — Ela se girou e me olhou. — Quer saber por que te convoquei de volta a casa, Meredith?

Foi tão inesperado que a olhei boquiaberta por um momento, logo disse:

— Sim.

— Sou estéril, Meredith. Todos esses doutores humanos têm feito tudo o que puderam por mim. Por isso é que você deve pôr a prova sua própria fertilidade. Quem quer que governe depois de que eu o faça deve poder trazer de volta a vida às cortes. Maelgwn me acusou de condenar a todos vós a não ter descendência porque minha linha de sangue é estéril. Só te posso prometer que não lhe acreditei até recentemente. Se pudesse voltar atrás... — Ela suspirou e tomou ar, bruscamente, até onde seu apertado sutiã permitia. — Pergunto-me o que seríamos agora, nós os Escuros, se tivesse dado ao Essus a permissão para ocupar este trono faz trinta e tantos anos. — Seus olhos refletiram uma dor que ela nunca me tinha deixado ver antes. Estava deixando que um olhar respondesse a uma pergunta que havia estando me fazendo a respeito disso durante anos. Sabia que meu pai amou a sua irmã, mas até esse momento eu não tinha estado segura de que amasse a ele. Estava ali em seus olhos, nas linhas de sua cara, ainda por debaixo da maquiagem. Ela pareceu cansada.

— Tia Andais... — Comecei mas ela me fez calar.

— Ouvi sussurros na escuridão, minha sobrinha, cochichos que não acreditei. Mas se o anel verdadeiramente vive para ti, se tiver começado a escolher casais férteis para ti, então possivelmente os rumores são certos. Está Maeve Reed, uma vez chamada Conchenn entre os luminosos, grávida?

Abri minha boca, logo a fechei. Neste Salão, entre nós, devia haver alguém que espiasse para a Corte da Luz. Poria em perigo a Maeve se dizia que sim, pois Taranis já tinha tratado antes de matá-la. Ela estava em outro país agora, e tão segura como tínhamos podido conseguir. Era mais perigoso não responder, porque não havíamos dito a ninguém que Maeve Reed tinha sido exilada da Corte da Luz, devido a que ela tinha recusado compartilhar a cama do rei porque ele era estéril. Isso significava que, a diferença de Andais, Taranis tinha sabido desde fazia uns cem anos que era estéril. Ele tinha conservado seu trono e tinha condenado a seu povo a extinguir-se e morrer antes que renunciar. Os luminosos teriam todo o direito de exigir sua morte como um verdadeiro sacrifício à terra por essa omissão.

Tinha pensado muito tempo, e Andais disse:

— Meredith, é errôneo?

Frost apertou meu ombro, Galen estava ao meu lado também silencioso. Olhei ao Doyle, e ele assentiu com uma pequena inclinação de cabeça. A verdade era o menor dos males. Murmurei-o.

— Sim, ela está grávida.

Andais olhava ao Doyle e a mim, alternativamente, como se ela desejasse perguntar por que tinha vacilado tanto tempo, mas ela era muito política para perguntar. Você não pergunta algo publicamente se não souber com segurança qual vai ser a resposta.

— Responde a fim de que todo mundo possa te ouvir, sobrinha.

Tive que esclarecer a garganta para fazer que minha voz se transmitisse através do vestíbulo.

— Sim, ela está grávida.

Um coro de murmúrios percorreu todo o salão procedente de todos os nobres ali reunidos.

Andais sorriu, como se estivesse satisfeita da reação.

— Realizou um feitiço para ela, um feitiço de fertilidade?

— Sim. — eu disse.

O murmúrio de vozes aumentou, inchando-se como uma onda quando chega rapidamente para a borda.

— Ouvi que seu marido estava morrendo nesse momento, é isso certo?

Assenti com a cabeça.

— Sim.

— Os tratamentos para o câncer podem deixar a um homem estéril ou impotente.

— Algumas vezes. — eu disse.

— Mas você realizou um feitiço que conseguiu que um homem moribundo voltasse a ter uma ereção uma última vez para ela?

— Sim.

— Quem fez o papel do Consorte para sua Deusa? Quem foi o Deus para sua Deusa neste feitiço?

— Galen. — Pressionei sua mão contra meu peito, enquanto o dizia.

O mar de murmúrios explodiu sobre nós em um balbuceio desconcertado. Gritos, quase clamores. Alguns não acreditaram. Ouvi ao menos uma voz masculina que realmente não pude situar dizer:

— Com razão...

Perguntaria ao Doyle ou ao Frost se reconheceram a voz mais tarde.

Andais olhou a silenciosa postura do Kieran movendo os pés alternativamente.

— Assassinei ao pai do Galen antes de que eu, ou a senhora nobre que trouxe a queixa de sedução mágica, soubéssemos que ela estava grávida. Você quase assassinou a um guerreiro que tinha ajudado a realizar um ritual mágico para criar vida no ventre de uma mulher sidhe e um humano moribundo.

Kieran pareceu confundido, como se ele pensasse o mesmo com força.

— Diria que não acredito nisso, mas falaste muito e com muita verdade hoje, minha rainha, para que eu duvide disto. E você não gosta o suficiente do Galen para lhe salvar com uma mentira.

— Nunca mentimos, Kieran.

Ele se inclinou de modo respeitoso.

— Quis dizer...

— Sei o que quis dizer. — Ela se apoiou contra sua cadeira, quase comodamente, como um gato reacomodando-se. — O que disse a gente do Cel para conseguir que estivesse de acordo em fazer esta coisa traiçoeira?

Esperei que Kieran replicasse, ou lhe opor, mas ele simplesmente respondeu:

— Que o homem verde trazia a vida para ela. — Ele inclinou a cabeça para mim, já que ele não podia aproximar-se.

Andais olhou ao Dormath.

— E o que te disse Siobhan?

— Que o homem verde devolveria a vida à terra das fadas.

A cara do Kieran exteriorizou seu pânico. Ele tratou de cair de joelhos, penso que para inclinar-se de modo respeitoso e mais humilde, mas as mãos que lhe tinham pego, mantiveram-lhe de pé.

— Isso não é o que me disseram, minha rainha, juro-o. Nunca destruiria uma oportunidade para que nossa corte voltasse a ser o que foi, nunca.

— Dormath, — disse ela, — explica ao Kieran o conteúdo da profecia que o Príncipe Cel pagou ao médium humano.

Dormath se inclinou ante ela, logo disse:

— O homem verde trará de volta a vida à terra das fadas. O governante é a terra, e a terra é o governante. Sua saúde, sua fecundidade, sua felicidade é a saúde, a fertilidade, e a alegria da mesma terra.

— Bem explicado, Dormath, e muito certo. Se tivesse matado ao cavalheiro verde de Meredith, e se ele estava destinado a ser o rei que trouxesse de volta aos meninos para os sidhe, então o que nos faria, Kieran, Madenn? — Ela não esperava que eles respondessem.

— Com seu assassinato teria destruído todas nossas esperanças e nossos sonhos.

— Mas foram Mistral e Meredith quem começaram a despertar os jardins mortos, e a magia dos guardas. Mistral estava com ela quando o anel escolheu a Nicca e Biddy. — Disse Kieran. — É Mistral o que se senta no trono do consorte, não o cavalheiro verde.

— Bastante acertado, e possivelmente o anel escolheu ao Senhor das Tormentas para ser seu rei. Eu mesma interpretei que o termo ?homem verde queria dizer qualquer de nossos deuses verdes, mas possivelmente fui muito literal. O homem verde pode ser outro nome para o Deus, ou o Consorte. — Ela negou com a cabeça. — Não sei a ciência certa. Não sei se é irritante ou reconfortante que os profetas ainda falem com adivinhações mesmo nesta América moderna. — Ela se voltou para mim. — Vá ajudar a Nicca e Biddy a conceber ao menino que viu. Mas acata minhas regras; se descobrir que entregaste antes a Biddy, zangarei-me. Mas leva ao Galen e a outro homem verde a sua cama esta noite, igualmente.

— O que acontece aos traidores, tia Andais? — Perguntei.

— Vá provar e façam bebês; eu me ocuparei deles. Darei-te uma corte unida, Meredith. Será meu primeiro e último presente para ti. — Ela pôs uma mão frente a sua cara e disse:

— Me deixe, leve contigo aos guardas que são homens verdes para que participem, mas me deixe os que não o são.

A mão do Frost se esticou em meu ombro, e devemos ter feito algum pequeno som de protesto, porque ela me contemplou. Percorreu com o olhar ao Frost e Doyle, e a cólera encheu seus olhos.

— Toma a sua Escuridão e ao Assassino Frost. São teus, mas necessitarei a alguns dos guardas para me ajudar a castigar aos traidores.

— E Biddy e Nicca. — Disse quedamente.

Ela agitou sua mão impacientemente.

— Sim, sim, agora vá.

A mão do Frost se afrouxou um pouco em meu ombro. Ele deu uma pequena cabeçada. Levantei-me, inclinei-me ante a rainha, e nos movemos para as portas, deixando-a para castigar aos traidores. Ela provavelmente não os mataria, mas se asseguraria que lamentassem suas ações. Disso, não tive nenhuma dúvida. Não deveria ter olhado para trás, mas o fiz. Vi o Crystall, Hafwyn, Dogmaela, e outros tentando controlar a expressão de suas caras. Mistral e Barinthus estavam entre os ilegíveis.

Detive-me. Frost agarrou meu ombro, e Galen ainda tinha minha mão. Trataram de me fazer me mover outra vez, mas me plantei. Não poderia salvar a todo mundo, sabia isso, mas...

Doyle não tratou de me deter, simplesmente me olhou com sua impassível cara. Ele me deixava lugar para mandar. Falei com o Frost e as mãos do Galen se apertaram contra mim. A tensão na mão do Frost foi quase dolorosamente rígida.

— Posso levar um curador comigo, minha rainha, no caso de qualquer outra emergência? Chamamos um curador quando Galen foi ferido mas o curador nunca chegou.

Andais assentiu com a cabeça, mas sua atenção estava já fixa em suas vítimas. Ela se levantava por cima do Kieran, uma mão ociosamente acariciando o cabelo loiro que ele tão cuidadosamente tinha trancado para trás de sua cabeça.

— Sim, leve a qualquer exceto meu curador.

— Hafwyn. — eu disse.

Ela não pôde manter o alívio longe de sua cara enquanto começava a caminhar através do salão.

A rainha chamou:

— Meredith, se seu desejo for um curador deve levar a um que ainda tenha seus poderes. — Ela realmente ficou em jarras como se estivesse exasperada comigo.

— Hafwyn curou ao Galen e Adair.

Ela me olhava agora, me emprestando toda sua atenção.

— Curou-os, como? Ela perdeu sua habilidade para sanar faz anos. — Ela conseguiu ver-se irritada e aliviada. — OH, bem, ela é um dos que trouxe de volta a seus poderes esta noite.

— Não, minha rainha, Hafwyn sempre pôde sanar com a imposição de mãos.

— Fui informada que ela tinha perdido sua habilidade para sanar. — Disse a rainha.

— Hafwyn, — eu disse, — perdeu alguma vez sua habilidade para sanar?

Ela negou com a cabeça sem dar a volta para enfrentar à rainha, como se tivesse medo de apartar a vista de mim, ou estivesse muito assustada para olhar para trás.

— Então por que é uma guarda? — Perguntou a rainha. Ela baixou as escadas, e senti a todo mundo a meu ao redor esticar-se. Pudemos ter saído, pude me haver partido, e havia tornado a pôr a todos nós em perigo. Mas pela primeira vez em toda uma vida Andais parecia disposta a ouvir as horríveis verdades a respeito do Cel. Não estava segura quanto tempo duraria este novo aspecto, e havia coisas que ocorreriam sozinho quando ela estivesse disposta a acreditar que Cel era um monstro.

— Ela sanou a alguém que o príncipe Cel lhe tinha proibido curar. Lhe disse que desde esse dia em adiante ela traria só morte, e já não teria permissão para curar.

Andais se deslizou através do piso para nós, seu vestido fazendo um som. Hafwyn empalideceu.

— É isso certo, Hafwyn?

A guarda tragou saliva e deu a volta para confrontar à rainha. ajoelhou-se antes de que pedisse.

— Sim, Rainha Andais, é certo.

— Você tinha a habilidade para curar feridas difíceis com o tato e ele te proibiu que usasse seu dom?

Hafwyn seguiu com sua cara para baixo, mas respondeu:

— Sim.

Andais me olhou.

— Ela é tua, mas não posso te permitir despojar ao Cel de todas suas guardas. Inclusive uma rainha não pode ajudar a outro sidhe a romper seus votos de lealdade e serviço.

— Hafwyn não rompe seus votos vindo para mim, pois ela não fez voto ao príncipe Cel. Estou informada que muitas guardas do príncipe Essus não fizeram novos votos ao Cel.

Algo atravessou os olhos do Doyle que me deixou saber que ele ao menos entendia que por isso valia a pena correr o risco.

Andais me olhou com o cenho franzido.

— Isso não pode ser certo. Cel ofereceu as guardas de meu irmão uma oportunidade para unir-se a seu serviço depois da morte de Essus. Fizeram os votos de servir ao Cel.

Hafwyn se prostrou até mais abaixo no piso, mas disse:

— Minha rainha, Cel nos disse que você nos deu a ele. Ele não pediu nossa permissão ou nos perguntou se tínhamos o desejo de lhe servir. Ele nos disse que nossos votos tinham sido feitos a um príncipe, e ele era um príncipe.

— Ele me disse que todas vocês escolheram lhe servir. — Disse Andais com uma voz que se voltou oca pela surpresa.

Hafwyn deixou sua cara entre suas mãos tocando quase o chão, mas ela respondeu:

— Não, minha rainha. Andais olhou a Biddy.

— Deu você sua promessa ao Cel? Biddy negou com a cabeça.

— Não, e ele nunca a pediu. Andais retornou para o trono.

— Dogmaela, deu seu juramento ao príncipe Cel?

— Não, minha rainha. — Disse ela, com os olhos dilatados, e a cara um pouco assustada.

Andais gritou, um forte, afiado, desconexo grito que pareceu conter toda sua frustração.

— Nunca teria cedido a guarda de meu irmão a ninguém, nem sequer a meu filho. Todos aqueles que não fizeram o juramento ao Cel estão em liberdade para escolher deixar seu serviço.

— Somos livres para oferecer nosso serviço a quem desejemos? — perguntou Hafwyn, sua cabeça subiu o suficiente para contemplar à rainha.

— Sim, mas se desejas ir ao serviço da princesa minha ordem se mantém. Para servi-la, deve servi-la fielmente da forma que a guarda sempre serviu a meu sangue e a minha casa.

Foi Biddy quem disse:

— O príncipe Essus não nos obrigou a servir a ele e só a ele. Andais a olhou e negou com a cabeça, logo me olhou.

— O que faria você com seus guardas se eu o permitisse?

— Liberaria às mulheres do celibato já que, como você apontou, não podem me deixar grávida. Depois que fique grávida e conheça quem é o pai de meu filho, liberaria os homens de seu celibato, também.

— E se você alguma vez obtém um menino?

— Então conservaria a aqueles que prefira em minha cama, e deixaria que os outros encontrem amantes. Uma meia dúzia de homens, pouco mais ou menos, é suficiente para mim, acredito.

— E o que ocorre se eu dissesse que aqueles que não conservasse devem retornar comigo?

— Você me disse uma vez que tinha imposto a regra do celibato porque quis sua semente para ti mesma, mas se não poder ficar grávida, então por que não lhes pode deixar ver se houver outras mulheres na Corte às que eles poderiam deixar grávidas?

— Tão justa, tão imparcial, tão como Essus. — Ela nos deu as costas e começou a caminhar para seu trono. — Toma aos guardas que tem a seu redor e vai. E saiba isto, sobrinha, suas meias verdades farão que os castigos a nossos traidores sejam mais originais. Pois minha cólera necessitará carne e osso para ser acalmada.

A isto só havia uma coisa que dizer.

— Irei e farei como você ordenaste, tia Andais.

Inclinei-me ante suas costas, levantamos a Hafwyn e saímos. Não necessitei o apresso de ninguém para saber que a tinha empurrado quase tão longe como podia ser empurrada esta noite. Deixamo-la acariciando ao Kieran. O último som que ouvimos antes que as comportas se fechassem detrás de nós foi o grito de Madenn. Comecei a olhar para trás mas Frost e Galen mantinham um agarre muito firme sobre meus braços. Não voltaria a olhar para trás esta noite.


CAPÍTULO 26


HAVIA UMA TORMENTA DE BORBOLETAS EM FRENTE DA PORTA DE meu quarto, como se alguém tivesse quebrado um caleidoscópio e tivesse arrojado as cores no ar, e essas cores ficaram detidas, flutuando, redemoinhando. Por um momento não vi os pés e as mãos diminutas, as diáfanas tanga e vestidos. Vi só o que seu encanto tratava de me mostrar. Uma nuvem de insetos, movendo-se com a mesma beleza do ar. Tive que piscar com força e me concentrar para vê-los como eram realmente. Galen retrocedeu ainda pego na minha mão, detendo a todos abruptamente, justo diante desse arco íris nebuloso.

A reação do Galen me fez recordar outra ocasião em que tinha visto tal nuvem do semiduendes. Galen tinha estado preso com cadeias à rocha fora da sala do trono. Seu corpo se perdia quase de vista sob as asas que lentamente abanavam dos semiduendes. Pareciam-se com borboletas no bordo de um atoleiro, sorvendo líquido, as asas avançando lentamente ao compasso de sua alimentação. Mas não sorviam água, bebiam seu sangue. Galen tinha gritado muito tempo e muito forte, seu corpo arqueando-se contra as cadeias que o mantinham preso. O movimento deslocou a alguns semiduendes, e vislumbrei por que ele gritava. Sua virilha era uma ferida sangrenta. Tomavam carne também além de beber seu sangue.

A mão do Galen se apertou dolorosamente ao redor da minha. Contemplei-lhe agora, e encontrei seus olhos muito dilatados, seus lábios meio abertos. Soube então por que Cel tinha negociado com os semiduendes para tratar de danificar a virilidade do Galen. Nesse momento simplesmente tinha parecido como outra de suas crueldades.

O caleidoscópio de borboletas e traças se separou como uma cortina, e a Rainha Niceven revoou por esse ponto no ar sobre umas grandes asas pálidas como alguma fantasmal traça noturna de lua. Seu vestido prateado cintilou; os diamantes em sua coroa eram tão brilhantes à luz que seu resplendor obscureceu seus estreitos rasgos. Sabia que gostava de dar essa aparência porque eu a havia visto magra, próxima a uma beleza esquelética anteriormente. Embora era só do tamanho de uma boneca Barbie, ela era bastante mais magra, inclusive para os padrões marcados por Hollywood. Vendo seus olhos brilhar e tendo essa cor branca pálida, entendi por que as pessoas tinham pensado que os fantasiosos eram espíritos dos mortos ou anjos... Ela se parecia com ambos e com nenhum. Muito sólida para ser um fantasma, muito parecida com um inseto para ser um anjo.

Se Galen não tivesse estado aferrando-se a minha mão, então teria avançado para falar com ela, um membro da família real para outro, mas não pude pedir que fosse para mais perto dessa bonita nuvem, sedenta de sangue. Doyle viu meu dilema, e avançou, para fazer uma reverência ante ela.

— Rainha Niceven, a que devemos esta honra?

— Bonitas palavras, Escuridão, — disse ela, e sua voz soou malévola, com um tinido de sino, — mas um pouco tarde, não acha?

— Um pouco tarde para que, Rainha Niceven? — Ele perguntou usando um tom de voz educado, oco e cortesão. A voz que usava quando não sabia que tormenta política tinha caído sobre ele.

— Para a cortesia, Escuridão, para a cortesia. — Ela voou um pouco mais alto para ver-me melhor sobre a alta forma do Doyle. — Agora não sou sequer o suficientemente boa para que a princesa me dirija a palavra diretamente.

Disse-lhe, enquanto a mão do Galen se estremecia ao redor da minha.

— Sabe muito bem que Galen não quer aproximar-se de ti e de seus congêneres.

— E você está pega a seu cavalheiro verde? Está tão unida a ele como se fossem da mesma carne, que não pode te aproximar de mim sem que ele o faça, também? — Ela tinha movido sua cabeça para um lado, e pude ver seus pálidos olhos agora. Inclusive não tratava de esconder quão zangada estava. Tinha visto sua coroa mil vezes, e nunca tinha visto as jóias apanhar a luz tão brilhantemente. Só então me dava conta de que a luz no vestíbulo era mais brilhante do que o normal, mais próxima ao brilho de luzes elétricas.

— Vê, ela não nos empresta atenção. O teto do vestíbulo tem mais interesse para ela que minha corte.

Pisquei e olhei para trás até a rainha alada.

— Minhas desculpas, Rainha Niceven, a brilhantismo de sua coroa realmente me deslumbrou. Vi sua beleza muitas vezes, mas nunca foi tão chamativa como esta noite. Dou-me conta de que a luz neste vestíbulo é finalmente o suficientemente brilhante para dar a ti e a sua formosura a justiça que merece.

— Bonitas palavras, Princesa Meredith, mas vazias. A adulação não apagará o insulto que arrojaste contra mim e minha corte.

Não tinha idéia a respeito do que ela estava falando. Estava tão cansada que tinha esquecido algo importante? É certo que estava cansada, com esse cansaço dolorido que vem depois de estar levantado muito tempo, ou depois de que muitas coisas ocorram em um espaço muito pequeno de tempo. Não tinha idéia de que hora era. Não havia relógios no sithen. Uma vez houve um relógio aqui, mas dado que o tempo se movia de forma diferente aqui que no exterior, agora não estavam permitidos. Simplesmente outro aviso de que o mundo das fadas não era o que estava acostumado a ser.

— Que insulto lhe tem feito a sua corte? — Perguntou Doyle.

— Não, Escuridão, ela foi a que insultou, deixa-a que faça a pergunta.

— Suas asas se pareciam com as de alguma grande traça, mas não se moviam como asas de traça, não quando ela estava zangada. Desfocavam-se e zumbiam enquanto ela voou além do Doyle para revoar diante de mim.

Galen retrocedeu tão bruscamente, que tropecei contra ele. Ele me agarrou automaticamente, mas isso lhe moveu mais perto dos diminutos duendes que revoavam. Ele pareceu congelar-se contra mim, seus braços imobilizando os meus.

Niceven vaiou, resplandecendo seus diminutos dentes como agulhas, e se lançou para frente. Acredito que ela só tinha a intenção de aterrissar em meu ombro, mas Frost interpôs seu braço em seu caminho. Ele não tratou de golpeá-la, mas sua guarda reagiu, voando para sua rainha. Caíram sobre nós como um redemoinho de folhas de arco íris, com diminutas mãos que beliscavam, e afiados dentes mordedores.

Galen gritou e lançou para cima uma mão, girando a fim de usar seu corpo como um escudo contra eles. Pôs-se a correr, mas tropeçou e caiu, aterrissando comigo debaixo. Ele se sustentou com um braço a fim de que eu não suportasse por completo seu peso. Minha cara acabou para cima enterrada no rico aroma verde de folhas esmagadas. Abri meus olhos e me encontrei quase sepultada no verdor. Pensei por um momento que Galen e eu tínhamos sido transportados, mas meus dedos encontraram a nudez do pétreo vestíbulo debaixo. Olhei a parede longínqua, e vi que os outros guardas ainda estavam de pé ao nosso redor. Os novelos tinham brotado da rocha nua.

Galen tinha enrolado a si mesmo sobre mim, me defendendo com seu corpo. Ele estava ainda tenso e em espera do primeiro golpe. Um golpe que não chegou. Voltei-me o suficiente para ver sua cara, seus olhos fechados fortemente. Expondo-se a um de seus maiores medos para me proteger. Ele não tinha visto as flores ainda, mas outros sim o tinham feito.

A voz do Niceven vaiou:

— Malvado sidhe, malvado, malvado sidhe. Você está enfeitiçando-os.

— Interessante, — disse Doyle, — muito interessante.

— Extremamente impressionante, — disse Hawthorne, — mas quem realizou isto?

— Galen. — Disse Nicca.

O corpo de Galen tinha começado a relaxar-se em cima de mim. Ele abriu seus olhos, e vi seu olhar perplexo enquanto ele olhava os novelos que enchiam o vestíbulo.

— Eu não fiz isto.

— Fez sim — disse Nicca outra vez, com uma voz que estava muito segura, — fez.

Galen elevou um braço, a fim de conseguir ficar meio sentado em cima de mim. Ele se deu a volta e olhou detrás de nós, e o que fora que ele viu cobriu sua cara com o assombro. Pus-me direita e olhei, também.

As flores enchiam um pequeno espaço do vestíbulo. Os alados semiduendes estavam agachados nessas flores, enrolando-se nas pétalas, cobrindo-se de pólen. Reagiam como os gatos extasiados com a erva gatera.

A rainha Niceven revoava por cima deles imperturbável ao chamado das flores. Menos de um punhado de seus guerreiros alados estavam a seu lado. Todos os outros tinham caído sobre as flores do Galen. Era um sortilégio, maiúsculo entendi, mas além disso estava tão perdida como o olhar na cara do Galen.

— Ele é o único que não teve uma nova manifestação de poder. — Frost escavou uma das flores com a ponta de sua espada.

— Bem, — disse Doyle, contemplando as flores e aos drogados semiduendes, — sem dúvida acaba de se manifestar. — Ele sorriu abertamente, um rápido brilho de dentes brancos em sua escura cara. — Se seu poder continua crescendo, então ele poderia fazer isto aos humanos, ou até a outro sidhe, ou exércitos. Quase tinha esquecido de que alguma vez tivemos tais maneiras agradáveis de ganhar as batalhas.

— Vá, — uma voz disse desde nossas costas, — saio por uns quantos minutos e você plantou um horta. — Foi Rhys, de retorno de escoltar à polícia fora do sithen. Nicca lhe disse o que tinha acontecido. Rhys sorriu abertamente ao Galen. — O que é isto, a mão das flores?

— Não é uma mão de poder. — Disse Nicca. — É uma habilidade, uma habilidade mágica.

— Quer dizer como assar bolos ou fazer ponto de cruz? — Perguntou Rhys.

— Não, — disse Nicca, não entendendo a piada, — quero dizer que é como Mistral manifestando uma tormenta. É uma manifestação, uma volta ao ser.

Rhys deu um assobio baixo.

— Criar algo partindo de um nada. Os Escuros não puderam fazer isso em um tempo longuíssimo.

Um Galen emocionado tocou acariciando uma das flores maiores, e um diminuto semiduende se deslizou sobre sua mão. Ele avançou dando tombos como se tivesse sido mordido, mas não deixou cair a delicada figura. Uma fêmea vestida com um curto traje marrom, com seu marrom e vermelho e as asas cor nata se desdobraram a cada lado dela quando jazeu de barriga para cima em sua mão. Ela era diminuta inclusive para as normas dos semiduendes. Seu corpo inteiro não enchia a palma do Galen. Ela jazeu quase completamente lânguida, com um sorriso em sua cara, seus olhos totalmente em branco. Seu corpo estava coberto pelo pólen negro da flor no que ela se inundou. Ela não estava simplesmente bêbada, estava desfalecida, alegremente bebida.

Galen se via cada vez mais desconcertado. Ele contemplou ao Doyle, meio sustentando ao pequeno fantasioso sobre sua mão.

— Em nome de Danu, pode explicar, para aqueles de nós que temos menos de um século, o que está passando? Não fiz isto a propósito, porque não sabia que fosse possível fazê-lo. Se não sabia que era possível fazê-lo, como ia poder tentá-lo? A magia se nutre da vontade de fazer algo.

— Nem sempre. — Disse Doyle.

— Não, se for simplesmente parte do que é. — Disse Frost. Galen negou com a cabeça.

— O que significa isso?

— Talvez deveríamos guardar as lições mágicas para mais tarde, — disse Rhys, — quando estivermos outra vez sozinhos.

Ele tinha à vista à diminuta rainha que ainda estava revoando por cima de nós, contemplando a seu exército cansado.

— Sim, cavalheiro branco, protege seus segredos de mim, — disse ela, — pois a princesa tem quebrado o pacto que fez comigo. Meu povo já não será mais seus olhos e seus ouvidos. Servimos ao Príncipe Cel de novo.

Levantei-me, cuidadosamente para não pisar nos semiduendes que passavam por aí e entre as flores. Isso seria mau em todos os níveis.

— Não quebrei nosso pacto, Rainha Niceven; levou-te ao Sage. Ele não podia tomar meu sangue se não lhe permitia estar perto de mim. Ela zumbiu revoando diante de minha cara, suas asas brancas movendo-se em um borrão de velocidade que teria feito migalhas as autênticas asas de uma traça. Sage tinha me explicado que essa velocidade queria dizer que ela estava zangada.

— Negociei um pouco de sangue, um pouco de energia sexual para somar-se a meu poder. Não negociei para que ele fosse feito sidhe. Não negociei para que ele perdesse o uso de suas asas. Não negociei para que ele...

— Fosse muito grande para sua cama. — eu disse, acabando a frase.

— Estou casada. — Disse ela, e essa última palavra soou como uma maldição. — Não tenho mais amantes salvo meu rei.

— Não, e porque não pode ter a seu amante favorito, o proibiu de ter o prazer com alguém mais.

O vento de suas asas jogou ao longo de meu cabelo, golpeando minha cara. O ar foi fresco, embora sua cólera não era.

— O que faço com minha corte é meu assunto, Princesa.

— É, mas me acusou de romper nosso pacto, e não o fiz. Estou ainda disposta a oferecer um pingo de sangue real para ti. — Mantive minha mão levantada, lentamente, amavelmente, lhe oferecendo a ela meu pulso encarado para cima. Não quis outro mal-entendido.

— Desejas tomar o sangue pessoalmente? Enviou ao Sage como seu delegado porque as Terras do oeste estão muito distantes do mundo das fadas, mas agora estou aqui.

Ela vaiou para mim como um gato sobressaltado e zumbiu a grande altura no ar por cima de mim.

— Não saborearei sua carne sidhe nem por todo o poder deste mundo. Não me roubará minhas asas.

— Mas Sage sempre pôde trocar a um tamanho humano. Você não pode, assim não pode ficar em um tamanho maior.

Ela vaiou outra vez, negando com a cabeça, enviando resplandecentes arcos íris a dançar ao redor das paredes, diante de nós, e sobre as flores.

— Nunca!

— Então escolhe a outro delegado. — eu disse.

— Quem correrá tal risco? — Disse ela. Uma voz pequena nos chegou.

— Alguém que não tenha asas para perder.

Olhei para baixo até que vi um grupo de semiduendes contra a parede longínqua. Nenhum deles tinha asas, mas tinham outros meios de transporte. Tinham carretas atiradas por singelos ratos, cor nata, e uma limusine delicada que tinha mais de uma dúzia de ratos brancos atados a ela. Havia também dois furões com múltiplos cavaleiros diminutos, um com uma máscara negra regular, o outro um albino com pelagem branca e olhos avermelhados. Um bonito lagarto do Nilo (de quase 1,20 metro de comprimento tinha a dois cavaleiros maiores sobre ele. No lagarto do Nilo não só lhe tinham posto o arnês mas também o amordaçavam como a um cão já que temiam que pudesse morder. Os lagartos do Nilo poderiam ser cruéis e comer algo o bastante pequeno quando o agarravam e matavam. Se eu tivesse sido do tamanho de uma boneca Barbie, tampouco teria querido alguma parte sua perto de mim.

O movimento na parede trouxe minha atenção ao feito de que havia muitos semiduendes de pernas diminutas pegando-se ali. Alguns se pareciam com diminutas arranha-centauros, oito pernas combinadas com um arredondado corpo fantasioso escondido sob um balanço de diáfano tecido. Outros se pareciam com um escaravelho negro e tão somente se lhe olhava fixamente mostrava uma pálida cara sob a camuflagem de inseto.

— Fui eu quem falei. — Disse um homem em uma carreta puxada por um rato. Havia uma mulher na carreta junto a ele. Ela estava lhe pondo em cima seu braço, tratando de lhe impedir de fazer gestos com as mãos.

— Não, Royal, não. — Disse ela. — Não o faça. Há piores coisas que não ter asas.

Ele soltou as rédeas que retinham o rato encantado, e agarrou os braços da mulher.

— Vou fazer, Penny. Farei. Penny negou com a cabeça.

— Não quero te perder.

— Você não me perderá.

— Sim se ela te converte em sidhe.

— Não posso trocar de tamanho, Penny. Ela não pode me apanhar no tamanho humano da forma em que o fez com o Sage, porque não é uma de minhas habilidades.

Ele a abraçou, lhe acariciando o curto cabelo negro, e me contemplou. Seu cabelo era também curto e negro, e justamente sob sua franja havia duas largas antenas graciosas, tão negras como seu cabelo. Seus olhos eram grandes e amendoados, e de um negrume perfeito como os do Doyle, ou Sage. Sua pele era muito branca em contraste a toda essa escuridão. A mulher voltou sua cabeça pra acima para me contemplar, e ela, também, tinha largas antenas graciosas. Era estranho para qualquer dos semiduendes ter antenas, mas para os que não tinham asas era duplamente surpreendente.

As duas pálidas caras ovuladas ficaram me olhando. Havia um pouco mais de simetria na mandíbula dele, uma curva um pouco mais delicada na dela. Ele era um pouco mais alto que ela, um pouco mais largo de ombros, estreito de quadris, mas além dessas diferenças básicas entre varão e fêmea, viam-se idênticos.

— Vocês são gêmeos. — eu disse. — Pennyroyal, Penny e Royal. — Era um coisa entre os semiduendes dividir um nome entre gêmeos.

Ele assentiu com a cabeça. Ela simplesmente ficou olhando. Estavam inclusive vestidos de uma forma parecida com diáfanas túnicas de um púrpura profundo. Estavam ambos adornados com mais roupa que a maior parte dos semiduendes. Seu vestido a cobria do pescoço até os joelhos. A túnica dele o embainhava do pescoço até os joelhos, também. Precavi-me quando olhei que todos os sem asas estavam adornadas de uma forma similar. Os fantasiosos homens alados estavam acostumados a vestir saias escocesas ou tanga de gaze. As mulheres usavam minivestidos ou inclusive menos. Só a Rainha Niceven tinha posto um traje de noite que chegava até seus tornozelos. Ela era sua rainha, ela levava mais roupas, mas nunca tinha advertido a marcada diferença no vestir entre os que tinham asas e os que não.

— Não estive de acordo com isto. — Disse Niceven, e chegou revoando até meu ombro.

— Por favor, Sua Majestade, me deixem fazer um intento. Não sabem o que é não ter asas, condenados a caminhar ou ir de carro para sempre.

— Ela cruzou seus braços sobre seu magro peito.

— Sinto sua difícil condição, Royal, e a de todos outros que estão tão malditos, mas poderia obter muito mais que simplesmente asas por provar isto. — Ela me assinalou. — Olhe o que ocorreu com o cavalheiro verde.

— Ter a algum de sua gente capaz de invocar tais sortilégios é uma má coisa, Sua Majestade? — Perguntou ele.

Ela chegou revoando perto de minha cara.

— Como posso confiar em ti, Princesa, quando me insultaste e a minha corte tão gravemente?

Doyle disse:

— Falou de um insulto quando chegamos antes. Disse que a princesa o tinha feito. O que tem feito ela?

Niceven girou no ar para assim poder lhe olhar, logo se moveu para trás para poder ver ambos enquanto falava.

— Deteve um de meu povo sem pedir minha permissão. Beatrice não era sidhe, ela era minha. Embora apanhada em sua forma de tamanho humano, ela era uma semiduende. Beatrice foi amaldiçoada mas ela não era de Andais ou tua. O assassino é um dos meus, a vítima é um dos meus, e você não me brindou nem a cortesia de uma mensagem. Nenhuma outra corte teria sido tão ignorada. — Ela se moveu o suficientemente perto como para que o ar que faziam suas asas ao mover-se, apartasse-me o cabelo da cara. — Você como mínimo teria se comunicado com o Kurag, Rei dos Trasgos. Ele não teria tido que inteirar-se de tal coisas a partir do rumor e as intrigas como o fiz eu. Sholto, o Rei dos Sluagh, esteve sentado no trono do consorte junto a ti ontem à noite. Você não teria detido a sua gente sem lhe perguntar primeiro. — Ela voou até o céu raso, e ficou ali revoando como uma mariposa zangada de um lado para outro por cima de nós.

Olhei-a, toda branca e brilhante, todo orgulho ferido, toda arrogância ferida, e todo medo. Tinha medo de que sua corte se tornou tão pequena entre nós que ela verdadeiramente fosse rainha tão somente de nome. Tinha razão.

— Deveria ter te enviado um mensageiro quando prendemos Peasblossom. Deveria ter te enviado uma mensagem quando descobrimos que um dos assassinados era uma semiduende. Tem razão, o teria notificado ao Kurag, Rei dos Trasgos. Me teria posto em contato com o Sholto. Não lhes teria feito o que tenho feito a ti.

— É uma princesa sidhe. — Disse Frost. — Não deve nenhuma explicação a ninguém.

Neguei com a cabeça e aplaudi seu braço.

— Frost, passei uma grande quantidade de tempo me explicando acima de todo o mundo.

— Não aos semiduendes. — Disse ele, e sua cara foi arrogante, fria, e angustiosamente formosa.

— Frost, os semiduendes são uma corte própria, dignos de respeito. A rainha Niceven está em seu direito de estar zangada por isso.

Sua mão agarrou o punho de sua espada, mas ele não disse nada. Insultá-los além de certo ponto era negá-los como uma corte, como um povo. Ele não estava disposto a fazer isso.

— Merry tem razão. — Galen se levantou lentamente, sendo tão cuidadoso onde ele punha seus pés como eu o tinha sido. Ele ainda tinha à diminuta semiduende marrom alada dormindo em sua mão.

— Não posso ter afeição à Rainha Niceven e aos semiduendes, mas ela é uma rainha e eles são uma corte. Deveríamos ter enviado alguém a lhe dizer o que ocorria. — Ele contemplou para cima à diminuta rainha. — Não sei se te importa o que eu pense, mas o lamento.

Ela baixou lentamente do céu raso. Suas asas tinham desacelerado, desdobrando-se brandamente, a fim de que voltasse a ilusão de uma traça graciosa.

— Depois do que lhe fizemos, é você o que nos oferece uma desculpa. — Lhe olhou, como se nunca verdadeiramente lhe tivesse visto antes. — Você nos teme, odeia-nos. Por que nos mostraria cortesia?

Ele franziu o cenho, e lhe observei tratando de expressar com palavras o que ele simplesmente era. Fazia o que se devia fazer, e por uma vez inclusive tinha sido politicamente brilhante, mas isso não tinha sido pelo que ele o tinha feito.

— Devíamos-lhe uma desculpa. — Disse finalmente. — Merry explicou. Não estava seguro de que qualquer outro estivesse de acordo com ela, assim é que o fiz eu.

Niceven flutuou sobre minha cara.

— Ele nos pediu desculpas porque era o que se devia fazer.

— Sim. — eu disse.

Ela olhou para trás a ele, logo a mim.

— OH, Princesa, deve mantê-lo perto, pois ele é muito perigoso para ficar só entre os sidhe.

— Muito perigoso, — disse Galen, — perigoso para quem?

— Para ti mesmo, em primeiro lugar. — Disse Niceven, revoando sobre ele. Ela apoiou suas magras, pálidas mãos sobre os quadris de seu vestido branco. — Vejo bondade em sua cara, bondade e gentileza. Você está na corte equivocada, cavalheiro verde.

— Meu pai era um pixie, e minha mãe uma sidhe luminosa. — Ele sacudiu sua cabeça, tão vigorosamente que Niceven se moveu um pouco de retorno a ele. — Não, a multidão brilhante da Corte da Luz não me passava.

Niceven olhou para baixo às flores e a sua gente atordoada.

— Eles agora poderiam.

— Não. — Disse Hawthorne. — Taranis não perdoa a um sidhe que se associa a corte escura. Se você te exilar junto aos humanos e vagas perdido durante uns poucos séculos, talvez ele te perdoará, mas, — ele levantou seu casco — uma vez que foste aceito aqui, não há volta atrás.

— Talvez, — disse Niceven, — ou talvez não.

— Rainha Niceven... — Disse.

Ela se voltou para mim, sua cara cuidadosamente passiva, suas magras mãos dobradas em frente dela.

— O que significa ?talvez não?

Ela se encolheu de ombros.

— OH, alguém que pode ser uma mosca na parede ouve coisas.

— Que tipo de coisas? — Perguntei.

— Coisas que poderia compartilhar com alguém que fosse minha aliada, e honrasse seus pactos.

— Se você não for tomar o sangue diretamente de mim, então necessitarei a um novo delegado mágico. — eu disse.

Ela girou no ar, e olhou ao Royal e a sua irmã em sua carreta atirada por um rato.

— Royal. — Disse ela.

Ele se levantou mais erguido, lhe emprestando toda sua atenção, entretanto sem asas ele não podia ser da guarda de Niceven.

— Sim, minha rainha.

— Saborearia você o sangue da princesa e compartilharia sua essência comigo?

— Gostosamente, minha rainha. Penny se pegou a ele.

— Não o faça, Royal, não o faça.

Ele a empurrou longe dele, e a olhou à cara.

— Quanto tempo sonhamos com asas?

Ela deixou cair seus braços, frouxos a seus lados.

— Sempre. — Disse ela.

— Não dei asas ao Sage. — Intervim.

— Não, — disse Royal, — você deu asas a ele. — Disse, assinalando a Nicca.

— Mas Nicca não saboreava meu sangue quando ocorreu.

Royal assentiu com a cabeça, e deu um passo da carreta. Ele me olhou de abaixo.

— Foi durante o sexo.

Olhei-lhe. Ele media aproximadamente 25 centímetros e meio de altura, apenas um pouco menor que uma boneca Barbie. Tratei de pensar em uma forma educada para dizê-lo, e finalmente resolvi fazê-lo.

— Acredito que a diferença de tamanho é um pouco exagerada.

Ele me lançou um amplo sorriso.

— Sage deu um relatório muito completo a corte. Estou disposto a tomar sangue enquanto tenha relações sexuais com outros, na esperança de que isso trará minhas asas.

Neguei com a cabeça.

— Nicca pôde ter sido um caso especial.

Royal agarrou o bordo de sua túnica e a levantou com um movimento suave, deixando-a cair ao piso. Ele ficou nu ante mim, muito pequeno e muito perfeito. Deu-se a volta, exibindo uma tatuagem perfeita de asas lhe cobrindo as costas para baixo até a parte superior de suas coxas. As asas eram quase negras, com linhas de carvão atravessando as de lado a lado. Os bordos superiores pareciam estar enrolados sobre seus ombros como o bordo oculto de um xale. Brilhante escarlate e negro adornavam suas nádegas e costas inferior em suaves franjas arqueadas, como o bordo enredado de uma anágua.

Ele se girou a fim de que pudesse ver que o negro e escarlate estavam debruados por uma franja magra de escuras manchas, cortadas com branco, e uma dourada e magra linha. Essa tira bordejava a curva lateral de seus quadris, que pareciam também cobertas de raias de cor.

As asas da Nicca pertenceram a alguma traça desaparecida faz muito tempo. Algo que tinha pairado pelos céus da Europa uns mil anos antes. Mas soube que Royal se pintou ele mesmo a pele.

— Você é uma traça da asa posterior, uma Ilia Underwing. Ele me olhou por cima do ombro, sorrindo.

— Esse é um dos nomes que a humanidade usou. — Pareceu contente de que eu tivesse sabido a que pertenciam suas asas. Sua pequena cara repentinamente se voltou muito séria. — Sabe qual é o outro nome para a Ilia?

Meu pulso se acelerou um pouco, o qual era tolo. Ele era do tamanho do brinquedo de um menino. O calor em seus olhos não deveria ter tido um efeito tão forte em mim, mas minha boca estava seca e minha voz simplesmente saiu em um pequeno sussurro.

— A asa posterior do amor.

— Sim. — Disse ele. Pôs-se a andar para mim, e se não tivesse sido tolo, teria retrocedido. Um homem que é menor que meu antebraço possivelmente não pode parecer intimidador, mas ele o conseguiu. Galen disse brandamente em meu ombro.

— Ele sabe que não obterá sexo, verdade?

— Isso não é justo, só quer participar.

— Não. — Disse Galen.

— Você é muito bom. — Disse Doyle, olhando ao Royal.

Olhei ao Doyle, mas toda sua atenção estava posta no homenzinho.

— O que quer dizer? — Perguntei.

— Encanto. — Disse Doyle.

— São todos os semiduendes tão bons usando o encanto como Sage e este? — Perguntou Rhys.

— Não todos eles, mas uma grande quantidade, sim. — Disse Doyle.

Rhys tremeu.

— Eu não compartilho a cama com este. Sage me ensinou a lição, não necessito outra.

— Você não está no menu para esta noite, Rhys.

— Por uma vez, me alegro — Disse ele.

— Então com quem vou compartilhá-la? — Perguntou Royal. Enquanto o percorria com o olhar, o sentimento de sexo e intimidação se voltou mais intenso.

— É mais forte quando o olho.

Royal assentiu com a cabeça.

— Porque olhar é tudo o que está fazendo. Agora, com quem vou compartilhá-la esta noite?

Galen respondeu:

— Comigo, mas, verdadeiramente, não estou seguro de que o possa fazer. Posso me desculpar com vocês, mas ainda não lhes quero me tocando.

— Você está tocando a um de nós agora mesmo. — Disse Niceven. Galen percorreu com o olhar a ainda adormecida fantasiosa em sua mão.

— Mas é diferente. — Disse ele.

— Em que forma é isso diferente? — Perguntou ela.

— Esta não dá medo. — Ele levantou sua mão para Niceven. Royal riu, e foi como um jogo de sinos em um vento feliz.

— E eu dou medo, cavalheiro verde?

Estava o bastante perto para ver o pulso do Galen palpitando contra o lateral de sua garganta.

— Sim. — Disse ele, e sua voz soou tão seca como se sentia a minha. A risada do Royal deslizando-se foi algo mais escuro.

— Tal afirmação atrai toda minha atenção, cavalheiro verde. — O olhar em sua cara mostrava justamente quão contente estava de que Galen lhe tivesse medo.

— Um pouco de encanto se fortalece com o toque físico. — Disse Adair. Ele tinha tirado seu capacete.

— Está perguntando se o meu cresce mais forte, Senhor Carvalho? — Perguntou Royal.

— Especulando, não perguntando. — Disse Adair, como se fazer uma pergunta a um semiduende estivesse por debaixo dele.

Bem, Adair poderia ser arrogante se ele o desejava, mas não se despiria para os semiduendes.

— Fortalece-se seu encanto com o toque físico? — Perguntei. Ele sorriu abertamente para a mim.

— Sim.

Galen murmurou contra meu cabelo:

— Podem ter a este e Nicca e você? Eu tomarei o seguinte turno.

— Se você o desejar, então sim.

Ele suspirou, e apoiou sua frente contra a parte superior de minha cabeça.

— Maldita seja, Merry.

— O quê? — Perguntei.

— Não posso pensar em suportar